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Caderno de resumos

XXIII Encontro Estadual de História


História: por quê e para quem?
UNESP/Assis – 5 a 8 de setembro de 2016
XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 2

Diretoria - Gestão 2014-2016


Circe Maria Fernandes Bittencourt (PUC-SP) – Presidente
Wilton Carlos Lima da Silva (UNESP-Assis) – Vice-Presidente
Sylvia Bassetto (USP- FFLCH) – Secretária Geral
Antonio Simplicio de Almeida Neto (UNIFESP) – Primeiro Secretário
Denise Aparecida Soares de Moura (UNESP-Franca) – Segunda Secretária
Ana Maria Camargo (USP-FFLCH) – Primeira Tesoureira
Josianne Francia Cerasoli (UNICAMP) – Segunda Tesoureira

Conselho Consultivo – Gestão 2014-2016


Adriana Carvalho Koyama (CMU/Unicamp)
Ana Paula Tavares Magalhães (USP/FFLCH)
Cesar Agenor Fernandes (UNISANTOS)
Cristina Meneguello (UNICAMP)
Daniel Vieira Helene (Mundel Consultoria em Educação)
Edgar da Silva Gomes (NEHSC/PUCSP)
Eduardo Silveira Netto Nunes (UNICASTELO/UNISANT'ANNA)
Everaldo de Oliveira Andrade (USP/FFLCH)
Helenice Ciampi (PUC/SP)
Ival de Assis Cripa (UNIFIEO)
Jaelson Bitran Trindade (IPHAN)
Janes Jorge (UNIFESP)
Jéssica Camila Favero Pereira Pinto (SEE-SP)
José Alves de Freitas Neto (UNICAMP)
Lucia Helena Oliveira Silva (UNESP/Assis)
Paulo Fernando Campbell Franco (UNISANTOS)
Renato Alencar Dotta (Fapesp)
Roberto de Assis Tavares de Almeida (FAMS)
Rodrigo Cristofoletti (UNISANTOS)
Saverio Lavorato Junior (UNINOVE)
Silene Ferreira Claro (FACULDADE SUMARÉ)

Comissão Organizadora
Ana Maria de Almeida Camargo (FFLCH-DH/USP)
André Figueiredo Rodrigues (UNESP/Assis)
Andréa Lúcia Dorini De Oliveira Carvalho Rossi (UNESP/Assis)
Antonio Simplicio De Almeida Neto
Áureo Busetto (UNESP/Assis)
Carlos Alberto Sampaio Barbosa (UNESP/Assis)
Circe Fernandes Bittencourt (PUC-SP)
Denise Soares De Moura (UNESP/Franca)
Ivan Esperanca Rocha (UNESP/Assis)

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 3

Josianne Cerasoli (IFCH-DH/UNICAMP)


Lucia Helena Oliveira Silva (UNESP/Assis)
Paulo Cesar Gonçalves (UNESP-Assis)
S Paulo Henrique Martinez (UNESP/Assis)
Sylvia Bassetto (FFLCH-DH - USP)
Wilton Carlos Lima Da Silva (UNESP/Assis)

Apoio Administrativo
Felipe Landim Ribeiro Mendes (estagiário da ANPUH-SP)
Letícia Oliver Fernandes (estagiária da ANPUH-SP)

Comissão Científica
Adalberto De Paula Paranhos (Doutor/UFU)
Alexandre Pianelli Godoy (Doutor/UNIFESP)
Ana Carolina De Moura Delfim Maciel (Doutora/UFF)
Ana Paula Tavares Magalhães (Doutora/USP)
Andrea Borelli (Doutora/UNICSUL e PUC-SP)
Antonio Manoel Elibio Jr (Pós-Doutor/UFRN)
Aureo Busetto (Doutor/UNESP-Assis)
Carlos Gustavo Nobrega De Jesus (Doutor/PUC-SP)
Carlota Boto (Doutora/FE-USP)
Cecilia Helena De Salles Oliveira (Livre Docência/MP-USP)
Celio Losnak (Doutor/UNESP-Bauru)
Cristina Meneguello (Doutora/UNICAMP)
Dainis Karepovs (Pós-Doutor/UNICAMP)
Denilson Botelho De Deus (Doutor/UNIFESP)
Euardo Augusto Costa (Doutor/UNICAMP)
Eduardo Giavara (Doutor/FACIP-UFU)
Eduardo S. Netto Nunes (Doutor/UNICASTELO E UNISANT’ ANNA)
Eliane Morelli Abrahao (Doutora/UNICAMP)
Erika Zerwes (Doutora/MAC-USP)
Fabiana Schleumer (Doutora/UNIFESP)
Gislene Edwiges De Lacerda (Doutora/UNINOVE)
Helenice Ciampi (Doutora - PUC-SP)
Jose Luis Bendichio Beired (Doutor/UNESP-ASSIS)
José Roberto Zan (Doutor/UNICAMP)
Karina Anhezini De Araujo (Doutora/UNESP- ASSIS)
Kátia Rodrigues Paranhos (Doutora/UFU)
Lidia Maria Vianna Possas (Pós-Doutora/UNESP - Marília)
Luana Saturnino Tvardovskas (Doutora/UNICAMP)
Lucilene Reginaldo (Doutora/UNICAMP)
Luzia Margareth Rago (Livre Docência/UNICAMP)
Marcos Antonio Da Silva (Pós-Doutor/USP)

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Maria Teresa Miceli Kerbauy (Doutora/UNESP-Araraquara)


Milena Da Silveira Pereira (Doutora/UNESP-Franca)
Olga Brites (Doutora/PUC-SP)
Pablo Emanuel Romero Almada (Doutor/UEL)
Paula Ferreira Vermeersch (Doutora/UNESP)
Paulo Eduardo Teixeira (Doutor/UNESP)
Raquel De Fatima Parmegiani (Doutora/UFAL)
Regina Maria De Oliveira Ribeiro (Doutora/UFRRJ)
Rodolfo Fiorucci (Doutor/IFPR-Jacarezinho)
Ronaldo Cardoso Alves (Doutor/UNESP- Assis)
Rosane Siqueira Teixeira (UNESP-Fclar/Fapesp)
Stella Maris Scatena F. Vilardaga (Doutora/USP)
Vera Regina Martins Colaço (Doutora/UFSC)
Wanessa Asfora Nadler (Doutora/UNICAMP)
Washington Dener Dos Santos Cunha (Doutor/UERJ)
Wilton Carlos Lima Da Silva (Livre Docência/UNESP-Assis)
Yone De Carvalho (Doutora/PUC-SP).

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ÍNDICE
Apresentação ......................................................................................................................... 6
Programação .......................................................................................................................... 7
Conferências e Mesas Redondas .......................................................................................... 8
Seminários Temáticos ........................................................................................................... 10
Resumos das Conferências .................................................................................................... 13
Resumos das Mesas Redondas .............................................................................................. 14
Resumos dos Apresentadores de Trabalho ......................................................................... 17
Resumos de Pôsteres ........................................................................................................... 192

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 6

APRESENTAÇÃO

A ANPUH-SP tem a satisfação de convidar a comunidade de pesquisadores para o XXIII


Encontro Estadual, que ocorrerá de 5 a 8 de setembro de 2016, na UNESP-Assis-SP.

O XXIII Encontro da ANPUH-SP dará prosseguimento às suas reuniões científicas


bienais, reunindo historiadores, pesquisadores e estudantes de São Paulo e de diversos
estados brasileiros, bem como professores, de escolas de ensino fundamental e médio.

A temática do XXIII Encontro, História: por quê e para quem?,permite vislumbrar a


necessária avaliação das possibilidades do conhecimento histórico em apresentar à
sociedade respostas a problemas sociais, complexos e plurais, cada vez mais explicitados.
A reunião de uma gama diversificada de tendências, proporcionada pela programação do
Evento, apresenta-se como oportunidade extremamente fértil para o auto-
reconhecimento intelectual e para o enfrentamento de diferenças. Enseja a troca de
múltiplas experiências originárias do trabalho acadêmico, que vem progressivamente se
abrindo para questões presentes, com projetos voltados para uma intervenção mais
direta na vida social, marcada hoje pela velocidade da informação que, sem a reflexão
capaz de lhe atribuir sentidos e significados, acaba por gerar formas descartáveis de
consciência histórica na coletividade.

O Encontro constitui espaço privilegiado de discussão sobre os rumos que a política


educacional do Estado brasileiro vem assumindo para o ensino médio e fundamental, e
de suas repercussões educacionais e sociais. Daí a importância da participação dos
professores da escola básica, para qualificar o debate com outros níveis de ensino no que
se refere à produção e à transmissão do conhecimento histórico, principalmente numa
fase de mudanças de parâmetros de grande abrangência, como a que atualmente existe
no país. Afinal a História, mesmo enfrentando o problema de seu status como linguagem
social e os dilemas de seus sistemas de representação e interpretação da realidade, é o
campo do saber onde mais claramente se pode dimensionar a natureza das ações dos
sujeitos sociais no tempo, razão de sua identidade reafirmada nesta época de diluição das
fronteiras do conhecimento. Responder às questões do “por que e para quem” é nosso
desafio.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 7

PROGRAMAÇÃO

HORÁRIO 05/09/2016 06/09/2016 07/09/2016 08/09/2016


(2.a feira) (3a. feira) (4a. feira – feriado) (5a. feira)
8h – 10h Fórum de Mini Cursos Mini Cursos Mini Cursos
Graduação
10h – 12h Mesa Redonda: História Mesa Redonda: Áfricas Mesa Redonda: História
Indisciplinada e História ambiental no Brasil: uma
visão de conjunto

Mesa Redonda: Conhecimento Exibição de filme: Mesa redonda: Percursos


histórico escolar em tempos de Menino 23 curriculares de História
(des)politização nas universidades no
século XXI

12h – 14h Intervalo Intervalo Intervalo Intervalo

14h – 16h Seminários Seminários Temáticos Seminários Temáticos Seminários Temáticos


Temáticos
16 h – 18h Assembleia Geral
ANPUH-SP

18h - 19h Pôsteres Pôsteres Intervalo

19h30 Conferência de Conferência: História e crise Lançamento de Livros Conferência de


abertura: contemporânea e Confraternização Encerramento: História
História - por na escola –
quê e para democratização da
quem? experiência e do
conhecimento humano

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 8

CONFERÊNCIAS
19H30
Local: Salão de Atos (Prédio 1)

05 de setembro
Conferência de abertura
Maria Helena Capelato História, por quê e para quem? (USP, ANPUH-BR)

06 de setembro
Jorge Grespan História e crise contemporânea (USP)

08 de setembro
Conferência de encerramento
Circe Bittencourt História na escola: democratização da experiência e dos conhecimentos
humanos (PUC-SP, ANPUH-SP)

MESAS REDONDAS
10H-12H

06 de setembro
História indisciplinada
Wilton C. L. Silva (UNESP/Assis)– coordenador
Wilton C. L. Silva. (UNESP – Assis) Como e porque ser e não ser historiador
Silvana Rubino (UNICAMP). Fronteiras (in)disciplinares na cidade
Roberto de Andrade Martins (FESB, UNICAMP). Pode um cientista atuar como
historiador

Conhecimento histórico escolar em tempos de (des)politização


Antonio S. Almeida Neto (UNIFESP) – coordenador
Paulo Mello (UEPG). Conhecimento histórico escolar em tempos de (des)politização: o
movimento escola sem partido.
Ronaldo Cardoso Alves (UNESP – Assis). A contribuições da Didática da História para
reflexão a respeito da função pública da História
Josianne Cerasoli (UNICAMP). Por que e para que aprender história? O lugar do debate
sobre história na agenda das políticas públicas em educação.

07 de setembro
Áfricas e História
Maria Cristina Cortez Wissenbach (USP) – coordenadora
Cristina Wissenbach (USP). Histórias e mitos em torno das sociedades africanas
subsaarianas.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 9

Patrícia Teixeira Santos (UNIFESP). Estados e Sociedades Africanas no século XX:


desafios pós coloniais?
Maria Antonieta Antonacci (PUC/SP). Desconstruindo sistemas de representação de
Áfricas e suas culturas em diáspora

08 de setembro
História ambiental no Brasil: uma visão de conjunto
Janes Jorge (UNIFESP) – coordenador
Kênia Souza Rios (Universidade Federal do Ceará) O Ceará dentro do panorama da
história ambiental no Brasil.
Elenita Malta Pereira (UNICENTRO/PR). História ambiental no Sul do Brasil.
Roger Domenech Colacios (LABHIMA/UNESP-Assis). História Ambiental paulista:
perspectivas teóricas e temáticas.

Percursos curriculares de História nas universidades no século XXI


Circe Bittencourt (PUC-SP, ANPUH-SP) – coordenadora
Maria Rita de Almeida Toledo (UNIFESP). O Professor Historiador e seu percurso
formativo na Unifesp.
Sylvia Bassetto (USP). O impacto de currículos prescritivos, federais e estaduais, na
formação do profissional de História.
Paolo Bianchini. (Università De Torino - Itália). Currículo de História nas Universidades
europeias pós Tratado de Bologna.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 10

SEMINÁRIOS TEMÁTICOS
05 a 08 de setembro
14H-18H

01. A Infância e a Juventude: Histórias e Experiências


Coordenadores: Eduardo Silveira Netto Nunes (Doutor/
UNICASTELO/UNISANT’ANNA) e Olga Brites (Doutora/PUC-SP)

02. Áfricas em múltiplas dimensões: experiências de pesquisa, ensino e extensão


Coordenadoras: Fabiana Schleumer (Doutora/UNIFESP), Lucilene Reginaldo (Doutora/
UNICAMP)

05. As finalidades do ensino de história em questão: história das culturas,


disciplinas e currículos escolares
Coordenadores: Alexandre Pianelli Godoy (Doutor/UNIFESP), Helenice Ciampi
(Doutora/ PUC-SP)

06. Autoritarismos, nacionalismos e memória


Coordenadores: Carlos Gustavo Nobrega De Jesus (Doutor/PUC-SP), Rodolfo Fiorucci
(Doutor /IFPR-Jacarezinho)

10. Cultura Visual, Imagem e História


Coordenadores: Eduardo Augusto Costa (Doutor – IFCH/UNICAMP), Erika Zerwes
(Doutora – MAC/USP)

16. Ensino de História e Poéticas: Baseado em fatos irreais ma non tropo


Coordenador: Marcos Antonio Da Silva (Pós-doutor/USP)

18. Escrita da História – suportes, fundamentos, perspectivas.


Coordenadoras: Ana Carolina De Moura Delfim Maciel (Pós-Doutora/UNICAMP),
Cecilia Helena De Salles Oliveira (Livre Docência - Museu Paulista da USP)

19. Escrita da história: como contar o passado em língua portuguesa?


Coordenadoras: Karina Anhezini de Araujo (Doutora/UNESP-Franca), Milena da Silveira
Pereira (Doutora/UNESP-Franca)

22. Fazer história da alimentação no Brasil: atores, objetos, problemas e


abordagens
Coordenadoras: Eliane Morelli Abrahão (Doutora/UNICAMP), Wanessa Asfora Nadler
(Doutora/UNICAMP)

23. Fontes históricas na Didática da História: possibilidades de discussão a


respeito da função pública da História

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 11

Coordenadores: Regina Maria De Oliveira Ribeiro (Doutora/UFRRJ), Ronaldo Cardoso


Alves (Doutor/UNESP-Assis)

25. Gênero: desafios e possibilidades em um contexto de crise e mudanças


Coordenadores: Lidia Maria Vianna Possas (Livre Docência/UNESP-Marília), Paulo
Eduardo Teixeira (Doutor/UNESP)

26. História & Música Popular


Coordenadores: Adalberto Paranhos (Doutor/UFU), José Roberto Zan (Doutor/
UNICAMP)

27. História & Teatro


Coordenadores: Kátia Rodrigues Paranhos (Doutora/UFU), Vera Regina Martins Collaço
(Doutora - Universidade do Estado de Santa Catarina)

29. História da Educação: pensamentos, práticas e políticas


Coordenadores: Carlota Boto (Livre Docência/USP), Washington Dener Dos Santos
Cunha (Doutor/UERJ)

32. História e historiografia das Américas


Coordenadores: Jose Luis Bendicho Beired (Livre Docência/UNESP), Stella Maris Scatena
Franco Vilardaga (Doutora/USP)

34. História e Mídia: Fontes, Objetos E Aspectos Teórico-Metodológicos


Coordenadores: Aureo Busetto (Doutora/UNESP-Assis), Celio Jose Losnak (Doutor/
UNESP-Bauru)

36. História Social da Literatura


Coordenadores: Denilson Botelho de Deus (Pós-doutor /UNIFESP)

37. História, Sociedade e Natureza


Coordenadores: Eduardo Giavara (Doutor /UFU)

38. Produção escrita e representação da História na Idade Média: Igreja,


Sociedade e Poder
Coordenadores: Ana Paula Tavares Magalhães (Doutora/USP), Raquel De Fatima
Parmegiani (Doutora/UFAL), Yone De Carvalho (Doutora/PUC-SP)

39. Migração internacional: o debate sobre imigração no Brasil em períodos


históricos
Coordenadores: Maria Teresa Miceli Kerbauy (Pós-doutora/UNESP-Araraquara), Rosane
Siqueira Teixeira (Doutora /UNESP)

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40. Mundos Do Trabalho: Trabalhadores, Lutas, Experiências e Culturas de Classe


Coordenadores: Dainis Karepovs (Pós-doutor - Divisão de Acervo Histórico - ALESP),
Paula Ferreira Vermeersch (Pós-doutora/UNESP)

42. O movimento estudantil e a ditadura militar brasileira: resistência, repressão


e os olhares sobre a memória
Coordenadores: Gislene Edwiges de Lacerda (Doutora/UNINOVE), Pablo Emanuel
Romero Almada (Doutor/UEL)

44. Patrimônio Cultural, Memória E Sensibilidades Urbanas


Coordenador: Antonio Manoel Elibio Jr (Pós-doutor/UFRN)

45. Práticas de resistência, insubordinações e contracondutas nos feminismos


contemporâneos
Coordenadores: Luana Saturnino Tvardovskas (Doutora/Unicamp), Luzia Margareth
Rago (Livre Docência/UNICAMP)

47. Trajetórias e biografias: modelos, limites, desafios e possibilidades


Coordenadores: Cristina Meneguello (Pós-doutora/UNICAMP), Wilton Carlos Lima Da
Silva (Livre Docência/UNESP-Assis)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 13

RESUMOS: CONFERÊNCIAS

Circe Fernandes Bittencourt (Doutora/PUC-SP)


História na escola: democratização da experiência e do conhecimentos humanos
Esta apresentação aborda os compromissos da História na vida escolar contemporânea,
situando os desafios atuais para professores das futuras gerações em suas vivências
escolares. Situa os compromissos do ensino de História primeiramente quanto à
importância em situar os alunos no tempo vivido para o estabelecimento de diálogos
com outros tempos e experiências assim como possibilitar uma aprendizagem capaz de
dialogar com o local e com o internacional, de forma a garantir reflexões sobre os
conhecimentos humanísticos em diferentes escalas temporais e espaciais. Apresenta em
seguida os aspectos referentes ao conhecimento histórico no processo de formação dos
profissionais de História em função das novas tendências e desafios nos espaços
acadêmicos.

Maria Helena Rolim Capelato.


História, por que e para quem? ANPUH, por que e para quem?
Nesta conferência pretendo, por um lado, enfatizar a importância da história e do
historiador, não só no que se refere ao estimulo à produção e transmissão do
conhecimento histórico, mas também na formação de estudantes para o exercício pleno
da cidadania. Por outro lado, refletirei sobre a relação da Associação com seus associados
e seu papel no enfrentamento das questões colocadas neste encontro, destacando a
importância de sua necessária intervenção no debate público sobre temas de extrema
relevância para nossa área, nesse momento em que o país passa por grave crise.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 14

RESUMOS: MESAS REDONDAS

Janes Jorge (Doutor/UNIFESP)


História Ambiental no Brasil: uma visão de conjunto
O objetivo da mesa é apresentar um panorama da historiografia ambiental desenvolvida
no Brasil, cuja produção aumentou consideravelmente ao longo do século XXI. Acredita-
se que essa visão de conjunto é importante para que se possa identificar, ainda que
inicialmente, quais temas e abordagens tem predominado na historiografia ambiental e
quais dimensões ainda não foram exploradas pelos historiadores (as), o que pode ser útil
para o fomento à pesquisa.

Josianne Francia Cerasoli (Doutora/UNICAMP)


Por que e para que aprender história? O lugar do debate sobre história na agenda das
políticas públicas em educação.
O aprimoramento da formação de professores, sobretudo para atuar na educação básica,
tem estado presente em uma série de políticas públicas (muitas vezes divergentes e
simultâneas), notadamente no ensino de história, com desdobramentos na composição e
desenvolvimento curricular. Propomos debater a relação entre a docência da disciplina,
em seus diferentes níveis, e as políticas públicas, tais como: discussões curriculares
(diretrizes, bases comuns, resoluções normativas etc.); programas de formação
continuada (Parfor, Redefor, Evesp etc.); produção de material didático (PNLD,
programa São Paulo Faz Escola etc.); reformulações ligadas aos sistemas de ensino
(planos nacionais e estaduais de educação, sistemas de avaliação etc.); políticas para
formação de professores (Prodocência, ProfHistória, PIBID etc.). Propomos discutir
possíveis impactos na formação de professores de história, norteando-se a análise por
duas questões principais: como a discussão sobre "por que e para que" se aprende e
ensina história se faz presente em tais políticas? Entendidas como políticas públicas, de
que modo participariam, historiograficamente, dos debates da chamada história política?

Maria Antonieta Martnes Antonacci (Doutora/PUC-SP)


Desconstruindo sistemas de representação de Áfricas e suas culturas em diáspora.
Partindo de ideias, escritas, representações de Áfricas, de povos africanos e suas
inculturas e infra-humanidade, em circulação na Europa nos séculos XVIII e XIX, ao
recorrer a narrativas de africanos escravizados em literatura oral no Nordeste do Brasil,
xilogravura, performances e seus meios de comunicação, pretende-se pontuar suas
formas de auto-representação em lutas culturais por sua humanidade e liberdade. Desde
expressões de seus universos cósmicos, modos de ser, pensar e viver, questionar
construções históricas do eurocentrismo então em expansão ao Ocidente.

Maria Cristina C. Wissenbach (Doutora/USP).


Histórias e mitos em torno das sociedades africanas subsaarianas.
A palestra visa explicitar a necessidade de restabelecer a ordem de historicidade às
interpretações sobre as sociedades africanas, no sentido de romper com uma serie de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 15

estereótipos que cercam o olhar sobre os africanos, bem como paradigmas que dominam
o senso comum e parte dos estudos sobre as mesmas. São imagens impregnadas pelas
teorias evolucionistas, pela ideia de sociedades sem história, marcadas pela prevalência
do eurocentrismo e do exotismo e estranhamento.

Maria Rita de Almeida Toledo (Doutora/UNIFESP)


O Professor Historiador e seu percurso formativo na Unifesp
Com essa comunicação objetivo apresentar a configuração do curso de graduação em
História da Unifesp. Esse desenho resulta de um intenso processo de discussão do seu
corpo docente, entre 2006 e 2010. O curso de História da Unifesp já nasce sob a égide da
nova LDBEN (1996) e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação do Professor
de Ensino Básico, em nível superior (CNE/CP 009/2001). A organização do curso partiu
dos desafios colocados pela política educacional de articular em outros termos a relação
da formação do docente em História e a do historiador; de reconectar os ofícios da
pesquisa e da docência de modo que essas práticas passassem a ser referentes para o
docente que atuará na escola básica; e o de rearticulação prática e teoria no processo
formativo do ofício. Contudo, com as novas políticas educacionais, o desenho do curso
foi colocado em xeque, resultando no renascimento do desenho antigo antagonismo
entre licenciatura e bacharelado.

Patrícia Teixeira Santos (Doutora/UNIFESP)


Estados e Sociedades Africanas no século XX: desafios pós-coloniais?'
A palestra visa oferecer uma contribuição a discussão sobre os estados africanos no
século XX, abordando e problematizando as visões de tribalismo e conflitos étnicos que
perpassam as analises políticas e históricas dessas entidades, sobretudo em contexto de
estudos sobre violência e genocídio.

Roberto de Andrade Martins (Doutor/FESB, UNICAMP)


Pode um cientista atuar como historiador?
Em alguns campos do saber, em todo o mundo, a escrita e o ensino da história
disciplinar têm sido exercidos por profissionais sem formação em história: filósofos,
artistas, psicólogos, educadores, médicos, etc. Esta palestra apresentará uma discussão
sobre alguns dos aspectos positivos e negativos das abordagens desenvolvidas pelos
cientistas que atuam na pesquisa e no ensino da história das ciências – área na qual
tenho trabalhado durante décadas. Abordará também os conflitos que surgem entre
profissionais com formação acadêmica em história e os outros profissionais que se
dedicam à história de suas disciplinas – tanto as tensões puramente intelectuais quanto o
jogo de interesses profissionais, velado sob a forma de um discurso acadêmico. Será
defendida a validade de uma pluralidade de abordagens de excelente qualidade
acadêmica, que se complementam em vez de se excluir ou conflitar, a exemplo da
postura apresentada por Paolo Rossi em seu ensaio: “Sette Galilei? Meglio di uno”.

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 16

Silvana Barbosa Rubino (Doutora/UNICAMP)


Fronteiras (in)disciplinares na cidade.
Cientista social por indisciplinada formação (com freqüentação de cursos da filosofia e
na teoria literária), passei anos ouvindo que não era bem uma antropóloga dado meu
apreço, a cada dia renovado, pelos arquivos. Se muito já se parafraseou Lévi-Strauss, pois
tudo pode ser bom pra pensar, o mesmo pode-se dizer para a história. Questões de
impõem: diferentes temporalidades, abordagens, o lugar da dimensão simbólica. Sem
qualquer pretensão de esgotar a questão e suas possibilidades, quero abordá-la a partir
de minhas pesquisas em história e antropologia urbana.

Sylvia Bassetto (Doutora/USP)


O impacto de currículos prescritivos, federais e estaduais, na formação do profissional de
História
Trata-se avaliar o real significado do impacto das alterações curriculares propostas, nos
âmbitos federal e estadual, nos cursos de graduação em História das universidades
públicas paulistas, com ênfase na Universidade de São Paulo. Especial atenção será
conferida ao embate entre a formação plena do profissional da área e a insistente
presença, nos textos oficiais, do propósito de estabelecer escalas de diferenciação entre o
ensino e a pesquisa, entre o professor da escola básica e o historiador. Embate esse que, a
depender do rumo das prescrições, ocasionará danos irreparáveis à qualidade do ensino
Fundamental e Médio do Estado de São Paulo furtando do ensino superior seu principal
compromisso com a sociedade.

Wilton (Doutor/UNESP-Assis)
Como e porque ser e não ser historiador
Em 1968, trinta e cinco anos após o surgimento de Casa Grande e Senzala, Gilberto
Freyre lançou um livro intitulado Como e porque eu sou e não sou sociólogo, no qual
discutia a aproximação e o afastamento de sua forma de explicação da sociedade
nacional em relação a outras perspectivas analíticas sobre o mesmo tema/objeto. O
título provocativo do livro, de um autor já clássico no pensamento social brasileiro,
afirmava uma diversidade no campo teórico metodológico das ciências sociais brasileiras
ao longo do século XX e a possibilidade de se afirmar e se negar como parte desse campo.
A palestra ambiciona discutir de que forma na escrita (auto)biográfica, campo dentro do
qual minhas pesquisas se inserem, as abordagens historiográficas expressam ao mesmo
tempo alguns referenciais identitários e algumas tensões de fronteiras entre distintas
determinantes do ethos profissional e as desejadas ou necessárias relações de troca com
as ciências sociais e a teoria literária, e como isso se apresenta enquanto mapeamento do
campo profissional, desafio intelectual e convite ao reconhecimento de si.

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 17

RESUMOS: APRESENTADORES DE TRABALHO

Aaron Sena Cerqueira Reis (Doutorando)


O conhecimento histórico em sala de aula: primeiras etapas de um estudo sobre progressão
da consciência histórica de estudantes do ensino básico
No âmbito da Didática da História, uma significativa parte dos pesquisadores se
interessam pelas formas como os estudantes se apropriam dos conhecimentos históricos.
Por um lado, isto nos possibilita refletir sobre a consciência histórica expressa por estes
sujeitos e, por outro, habilita pesquisadores e professores a elaborar estratégias capazes
de fornecer instrumentos necessários para que os jovens se relacionem com o passado de
maneira crítica, conseguindo, inclusive, orientar-se no tempo. Baseando-me nessas
ideias, apresento resultados parciais da tese em desenvolvimento na Faculdade de
Educação da Universidade de São Paulo cujo objetivo é entender a progressão da
consciência histórica de estudantes do Ensino Básico. Nesse sentido, discuto as primeiras
impressões acerca do campo de pesquisa, uma escola pública estadual, localizada no
bairro Butantã, em São Paulo, onde acompanho, como observador participante, a
maneira como estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental e dos 2º e 3º anos do Ensino
Médio se relacionam com o conhecimento histórico produzido em aula. Tal investigação
contribuiu para a elaboração de um instrumento de campo, por meio do qual as
narrativas dos estudantes serão obtidas e analisadas posteriormente. (ST23)

Adalberto Coutinho de Araujo Neto (Doutor/Instituto Federal de São Paulo)


República, democracia, abolição e moralidade do trabalho: o discurso socialista brasileiro
em fins do Segundo Reinado
Esta comunicação apresenta algumas das principais características dos socialistas
brasileiros em fins do Segundo Reinado. Discute-se a historiografia a respeito e
questiona-se sobre seu republicanismo: seriam republicanos de esquerda que se
tornaram socialistas após a Proclamação da República, ou aderiram ao movimento como
condição de democratização da sociedade e da política, pré-condição para se chegar ao
socialismo? Outras questões básicas: Abolição como condição primeva para a
instauração da democracia e valorização do Trabalho e de sua moral e ética. O Trabalho
como elemento central para o progresso do país e da classe dos artífices e demais
trabalhadores. Tudo isso seria colocado em primeiro plano em uma República
democrática e livre da escravidão. (ST40)

Adalberto Paranhos (Doutor/UFU)


Para além das "amélias": mulheres "liberadas" na música popular brasileira dos anos 1970
Na esteira de modificações comportamentais que encontraram um ponto de inflexão nos
frementes anos 1960, a década de 1970 assistiu, em distintas partes do mundo, à
consolidação de transformações que se manifestaram em diferentes campos. Por mais
que ainda expressassem forças sociais minoritárias, ganharam terreno, então,
movimentos de contestação a múltiplas formas de autoritarismo, aos quais se
associaram, por vias diretas ou oblíquas, o feminismo em sua “segunda onda” e a
contracultura. Fervilhavam ideias e ações que ousavam questionar, seja na teoria ou na
prática, o engessamento de comportamentos pautados pelo conservadorismo.
Tendências de há muito recalcadas passavam a ocupar a boca da cena política. Partia-se

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 18

do princípio de que – se enxergada para além das viseiras que a reduzem aos marcos
institucionais –, a política não se esgota no plano macropolítico, por exprimir-se também
nas dimensões micropolíticas do cotidiano. Mais do que nunca fazia pleno sentido a
palavra de ordem feminista “o pessoal é político”, com base na qual se exigia maior
atenção para com as mil e uma faces do poder, que não pode ser resumido
exclusivamente ao domínio de assuntos ligados ao Estado.
Inserida nesse momento histórico, a música popular brasileira foi, igualmente,
protagonista de um tempo de mudanças, apesar da implacável ditadura vigente no Brasil.
Ela ajudou a puxar os fios de uma meada que não se desembaraça facilmente ao
avivar a visibilidade de outros sujeitos sociais, como os gays e as mulheres “liberadas”,
que se punham a quebrar resistências seculares. Compositores(as) e intérpretes se
converteram, assim, em um dos vetores de propagação da diversidade
comportamental/sexual, contribuindo para evidenciar a porosidade das fronteiras entre a
política concebida sob a ótica lato sensu e stricto sensu.
Afinada com essas novas realidades em ebulição, esta comunicação elege como foco
prioritário representações femininas de comportamentos tidos e havidos como
“desviantes”. Para tanto, apoia-se em canções gravadas nessa época e em capas de LPs
tomadas como textos visuais. Como se verá, em muitos casos, quer se trate de obras
assinadas por homens ou por mulheres, a régua pela qual se mediam as relações de
gênero foi desconsiderada. Em certas situações, despontaram mulheres que
transbordaram as normas de decoro e pudor que a política sexual hegemônica lhes
impunha: a celebração do corpo como território do prazer tornou-se explícita. Em
outras, foi cantado e decantado o amor homossexual, em meio a corpos embriagados de
suor, num período em que a homossexualidade – historicamente estigmatizada como
pecado, enfermidade, distúrbio, perversão –, ainda era catalogada pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) como “doença mental”. (ST26)

Adriana Aparecida Alves da Silva (Doutora/UNISO)


A imigração japonesa em pilar do sul: novos agentes no campo social
Este trabalho faz parte da pesquisa desenvolvida durante o doutorado, que teve como
enfoque analisar a constituição do campo escolar de Pilar do Sul – SP (1934 -1976). A
constituição do campo escolar desta cidade foi impulsionada após a chegada dos
imigrantes japoneses em 1945. Considerando os imigrantes japoneses e descendentes
como novos agentes no campo social e escolar, introduzindo novos hábitos e
estabelecendo novas relações de poder, este trabalho apresenta a analise do processo de
imigração japonesa para Pilar do Sul, as experiências vivências pelos imigrantes
japoneses no Brasil, as dificuldades e as repressões no período da Segunda Guerra
Mundial, os conflitos entre os japoneses no Brasil depois da guerra e a chegada e
presença desses imigrantes em Pilar do Sul, buscando compreender a bagagem de vida e
o habitus dos japoneses e descendentes que chegaram e permaneceram em Pilar do Sul.
Foram utilizados documentos escritos, orais e iconográficos dos arquivos escolares, da
Associação Desportiva Japonesa, dos órgãos públicos, jornais (A Tribuna; O Correio
Paulistano), Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil e os guardados pessoais da
população. Os depoimentos foram recolhidos em forma de narrativa de vida e história
social. A análise evidenciou os imigrantes japoneses sofreram com os costumes, hábitos
diferentes, preconceitos, perseguições e restrições, consequências da política nacionalista
e da Segunda Guerra Mundial. Mesmo após a guerra, havia o preconceito e a falta de
informações que gerou conflitos e perseguições entre os próprios japoneses. A esperança
de enriquecer no Brasil e retornar para o Japão foi frustrada com as dificuldades diárias e
com a derrota do Japão na guerra. Dessa forma, fugindo das regiões de conflitos entre
japoneses vitoristas e derrotistas muitos imigrantes japoneses se estabeleceram em Pilar
do Sul. A chegada e permanência dos japoneses e descendentes a Pilar do Sul gerou

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 19

mudanças no campo social, introduziu nele novos agentes, diferentes, habitus, que
geraram conflitos e um processo de interação entre os antigos moradores e os recém-
chegados. Essa interação foi fruto do processo de adaptação nesse espaço de conflitos
que é o campo, adaptação gradual no cotidiano, por meio das relações do trabalho e no
espaço escolar. Os japoneses e descendentes contribuíram com as mudanças
econômicas, introduzindo o cultivo de novos produtos e uma nova lógica de
comercialização por meio das cooperativas agrícolas, o que estimulou os antigos
moradores a se organizarem em instituições. Esse crescimento econômico auxiliou no
processo de urbanização da cidade, melhorando sua infraestrutura, gerando mudanças
no campo social e escolar com a fundação de novas instituições escolares e
transformações nas práticas. (ST39)

Adriana Salay Leme (Mestre/SENAC)


Fome e comida - por uma história conceitual da alimentação
Quando Luís da Câmara Cascudo nos apresenta sua grande obra – História da
Alimentação no Brasil – ele nos conta sobre sua aproximação e conversa com Josué de
Castro, notável pensador que teve ampla atuação na saúde pública e no combate a fome.
A intenção era escrever um livro juntos, que abordasse a alimentação no Brasil e fosse
bilíngue – este a partir da ótica da nutrição e Cascudo escrevendo com o aparato da
etnografia. Porém, após algumas conversas e cartas, perceberam que pretendiam tratar
do mesmo assunto, o alimento, mas a partir de dois espectros distintos, um da comida e
outro da fome. Da mesma forma, Castro escreve no prefácio de Geografia da fome – a
proposta de escrever a história da cozinha brasileira com Cascudo não foi possível
concluir. Todavia, a concepção de fome e comida proposta pelos autores não fica clara e
nós não temos, atualmente, ferramentas necessárias para problematiza-las. A partir desta
constatação, percebe-se que, se por um lado, já possamos assumir que a história da
alimentação constitui hoje um campo consolidado dentro do meio acadêmico,
principalmente internacional, por outro também temos que atentar que ainda há um
longo caminho a percorrer. Este artigo pretende abordar, portanto, a possibilidade de
trazer para a história da alimentação uma metodologia já amplamente utilizada na
história política – a história dos conceitos. A análise pretende investigar se a abordagem
proposta por Reinhart Koselleck e a escola alemã teria ferramentas metodológicas úteis
para aprofundarmos as pesquisas históricas referentes à alimentação no Brasil. (ST22)

Agata Bloch (Doutoranda)


Análise de Redes Sociais do Império Português
O presente trabalho estuda as redes do império português e, portanto, requer os estudos
aprofundados dos documentos preservados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa
bem como da própria natureza deste Arquivo. Por possuir vasta documentação do
Conselho Ultramarino, é uma excelente fonte de informação para reconstruir as relações
e a dinâmica do Império Português da época moderna. Além disso, procure-se entender
melhor a história do Brasil colonial no contexto do Império Português setecentista e
estudar a trajetória do Arquivo em causa.
As pesquisas visam definir a identidade portuguesa no ultramar no período de 1600-1755,
através do método matemático-informático chamado Análise de Redes Sociais que está
sendo estudada em "R", uma linguagem de computação estatística para a análise de
dados e imagens gráficas. A análise das redes sociais é apenas uma ferramenta que
permitirá interpretar a estrutura sócio-política das relações entre os nexos socialmente
estruturados nas colónias portuguesas.
A análise histórica está sendo levada a cabo em dois níveis: quantitativo e qualitativo. A
primeira está sendo realizada com base nos inventários publicados pelo Arquivo

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 20

Histórico Ultramarino e os códices lá preservados, enquanto que a análise qualitativa


requer trabalhos aprofundados com documentos disponíveis neste Arquivo.
Para este fim foi estabelecida uma base de dados eletrônica apoiada nos inventários da
época 1600-1755, publicados pelo AHU. Foi determinado o tipo de documentos em forma
de correspondência missiva internacional, assim como definido o padrão básico de
remetentes e destinatários. A colocação dos dados na aplicação google.maps permitiu
criar o esboço das primeiras redes sociais lusófonas que refletissem as ligações
geográficas do antigo império colonial. Foram igualmente criadas as primeiras redes
sociais entre as instituições coloniais. O meu objetivo é conjugar o domínio da recém-
criada ciência das redes com as ciências históricas. Acredite-se que a história tem que
responder às determinadas perguntas e preocupações de cada geração. Portanto, se
assumirmos que no mundo contemporâneo, caraterizado pela globalização e
interligação, cuja marca principal são as redes sociais, estudar o passado através da
perspectiva de rede pode trazer os resultados interessantes. A base de dados e os gráficos
sociais serão disponibilizados na Internet, permitindo continuar pesquisas em várias
áreas para levar a cabo uma análise comparativa de redes sociais modernos de outros
impérios europeus. A percepção inovadora de estudos relativos à globalização no
território dos PALOPs e o entendimento das redes sociais do império português
permitirão entender melhor as relações contemporâneas entre Portugal e as suas antigas
colónias. (ST10)

Airton Jose Cavenaghi (Doutor/Anhembi Morumbi)


Viagem e sertão: possibilidades para a interpretação da hospitalidade no interior paulista
durante o século XIX.
Este artigo analisa a narrativa do Visconde de Taunay quando esteve no então arraial de
São José do Rio Preto-SP, em 1867. Descreve a narrativa de suas memórias e a compara
com a produção cartográfica do momento da mesma, além de analisar a propagação
dessa ação na construção da futura memória coletiva da região. A narrativa é observada,
além desses aspectos, pela Hospitalidade, a luz das diretrizes teóricas do “Ensaio sobre a
Dádiva” de Marcel Mauss. Ao conciliar duas análises teóricas, a historiográfica e a
antropológica, procura-se observar elementos não perceptíveis pela simples exposição do
documental historiográfico. Procuram-se, assim, outras possibilidades para a
compreensão da memória narrada e sua análise documental. (ST16)

Aldimar Jacinto Duarte (Doutor/PUC-Goiás)


História e jovens pobres no Brasil
O presente artigo analisa algumas representações sociais produzidas no Brasil, entre os
primeiros anos do século XX até a década de 1970 acerca dos jovens, principalmente na
sua relação com espaço urbano. Pretende-se destacar alguns aspectos considerados
importantes para a compreensão da relação dos jovens com um espaço social definido: o
meio urbano brasileiro, relação essa que é marcada por ambivalências e contradições
acerca do que a sociedade espera e projeta para esse tempo de vida. (ST01)

Alessandra Pedro (Doutora/UNiFEOB)


Às margens: a biografia intelectual de Rocha Pombo e o conhecimento histórico
Esta comunicação é um desdobramento da minha tese de doutorado sobre o jornalista,
professor, historiador, político e escritor paranaense José Francisco da Rocha Pombo
intitulada “Educação como missão: a obra didática e histórica de Rocha Pombo, 1900-
1933”. A proposta que aqui se apresenta é a de discutir a importância e os limites para a
construção de uma biografia intelectual no campo da historiografia. O estudo da
trajetória e das obras dessa personagem objetivou a compreensão a construção de seu
pensamento, de sua escrita histórica e didática, tendo como foco principal a constituição

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 21

dos conceitos de nação e raça. Tal estudo mostrou-se como algo muito necessário para a
apreensão da difusão das ideias constituídas nos meios intelectuais e propagadas, mesmo
que ressignificadas, entre a população por meio do livro. Para isso, foi realizada a
biografia intelectual dessa personagem que, nas primeiras décadas do século XX, por um
lado firma-se como historiador, mas não consta no rol dos autores reconhecidos como
grandes historiadores brasileiros; por outro lado, estabelece-se como um dos maiores
autores de manuais e compêndios didáticos de história da primeira república. Assim,
nesta comunicação a proposta é, além de apresentar os resultados já obtidos na pesquisa
realizada, pensar e repensar o papel da biografia intelectual, especialmente aquela que
não lida com indivíduos reconhecidos como ícones e ou grandes nomes, e suas
contribuições para a construção do conhecimento histórico. (ST47)

Alessandro Henrique Cavichia Dias (Doutorando)


“O Sucesso Galopante do “Boiadeiro” Sérgio Reis”: A Indústria Fonográfica e os
(Des)acertos na construção da imagem do intérprete.
Ao abordarmos as transformações sofridas pela música rural no Brasil, ao longo do
último século, torna-se de fundamental importância destacar a trajetória artística de
alguns intérpretes deste gênero, e ponderarmos que quando existe uma releitura da obra
artística, o intérprete acaba por inserir sua roupagem à música que, muitas vezes,
termina por ganhar um sentido diverso do qual foi criado. Dentre esses vários intérpretes
nos salta aos olhos a carreira artística de Sergio Reis, por se caracterizar por um dos
poucos cantores que consegue transitar com maestria entre diferentes gêneros musicais,
uma vez que Reis inicia sua carreira como intérprete da Jovem Guarda alcançando nesse
seguimento musical reconhecimento nacional como cantor de música jovem, e
posteriormente com o a saturação deste gênero musical, muda seu enfoque para a
música rural brasileira.
Com isso, cabe questionarmos como Sergio Reis realiza essa transição e quais são os
elementos que vão contribuir para a cristalização de sua nova imagem, e quais foram os
acertos e desacertos entre o intérprete e a Indústria Fonográfica, e os procedimentos
adotados tanto pelo cantor quanto pelo seu produtor para o inserir nesse novo nicho de
mercado e legitimá-lo dentro dele, uma vez que tal mudança foi realizada de tal modo
que permitiu a ampliação de seu capital simbólico, possibilitando que atualmente ele
seja reconhecido nacionalmente pela mídia “especializada” como “autêntico”
representante da pura música rural, ou seja, um incansável defensor da tradição, frente à
constante modernização sofrida pelo gênero.
A trajetória artística de Sérgio Reis irá nos possibilitar compreender o alcance do poder
da Indústria Fonográfica nos anos de 1970, no Brasil, principalmente no que se refere a
moldar a imagem de um intérprete para que atendesse a demanda de um determinado
público. Pois, com um mercado consumidor crescente, torna-se fundamental lançar
produtos que atendessem a essa demanda.
Dessa forma, devemos salientar que por vezes a Indústria Fonográfica possui capacidade
de moldar o artista de acordo com os anseios de mercado, anseios estes que muitas vezes
são impostos por ela mesma, Sérgio Reis passou de um jovem roqueiro intérprete e
compositor de iê-iê-iê para um autêntico representante da música rural, graças ao poder
de transformação que a Indústria Fonográfica possui, permitindo que determinado
intérprete transite entre segmentos musicais tão distintos. (ST26)

Alexandre Andrade da Costa (Doutor)


As caricaturas da política internacional na revista Inteligência: mensário da opinião
mundial (1935-1941)
A revista Inteligência: mensário da opinião mundial nasceu do encontro entre Mário
Graciotti, jornalista de descendência italiana e Samuel Ribeiro, homem de negócios da

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 22

capital paulista. Inspirada no periódico francês Le Mois: synthèse de l'activité mondiale,


passou a circular a partir de janeiro de 1935, composta por textos e imagens selecionados
de periódicos da imprensa internacional. Do material coligido destacam-se as caricaturas
da política internacional, extraídas de revistas que compunham os campos da
democracia e do totalitarismo naquele conturbado momento da história contemporânea.
Pretende-se, a partir desta comunicação, caracterizar este material iconográfico e
desvelar seus significados cotejando-os ao material textual publicado pelo mensário.
(ST06)

Alexandre Augusto de Oliveira (Mestre)


O trajeto da ação educativa "Jundiaí: múltiplas temporalidades"
A ação educativa "Jundiaí: múltiplas temporalidades" visa problematizar aspectos da
historicidade do espaço urbano de Jundiaí no âmbito das discussões acerca do
patrimônio cultural e educação patrimonial, buscando novas leituras e sensibilidades do
espaço da cidade.
A referida ação consiste em mediações, com diferentes grupos, em alguns locais do
centro da cidade que têm significativa importância para a história e memória dos
moradores de Jundiaí. Alguns desses lugares têm o estatuto de “patrimônio cultural”, no
entanto, outros de suma importância caíram no esquecimento.
Pretende-se, a partir da dinâmica proposta aos participantes, um exercício de descortinar
o olhar referente ao espaço urbano, pois a cidade não é simplesmente um cenário, sendo
a materialização da vida social com todas as suas contradições e disputas de poder e traz
a sua historicidade impressa nas suas marcas e esquecimentos. Assim, “ler a cidade”
implica também em aguçarmos nossa sensibilidade em relação ao que já estamos
acostumados e começarmos a desvelar as camadas de história que formam a cidade.
Os participantes são orientados, no momento do percurso, a comparar as suas
apreensões da paisagem atual com o material usado (um conjunto de pranchas que os
participantes levam consigo com reproduções de fotografias e de documentos textuais
relacionados aos locais em questão), concomitante às suas vivências e memórias afetivas.
Assim, ao perceberem mudanças e permanências, registros e esquecimentos, os
participantes tendem a uma maior acuidade na apreensão da cidade, compreendendo a
sua historicidade não com uma apreensão linear da história, mas sim com uma ideia da
superposição de temporalidades que constituem as camadas do espaço urbano. (ST44)

Alexandre Ricardi (Doutorando)


“Qual o crime que cometi?” Trabalhadores versus capital privado e autoridade na Primeira
República
Nessa comunicação abordaremos as relações entre os trabalhadores urbanos do setor de
serviços, as autoridades públicas e as companhias de serviços ligadas ao capital forâneo,
nos utilizando de artigos de jornais do começo do século XX e de documentação oficial
de algumas dessas empresas. Este setor floresceu fortemente em algumas cidades como
São Paulo e Sorocaba graças à atuação da The São Paulo Light and Power ao inaugurar os
serviços de bondes à tração elétrica em 1900, construindo para fornecimento de energia
às suas redes as usinas hidrelétricas de maior porte no Brasil de então, a de Parnaíba com
16 MW em 1901 e a de Itupararanga com seus 37,5 MW iniciais em 1914.
Em período de grande expansão industrial em São Paulo, em que os trabalhadores
ocupavam cada vez mais a cena política, lutando por seus direitos, mas não tendo ainda
conquistas significativas, as empresas de serviços públicos eram formadas por capitais
estrangeiros em sua maioria e possuíam administrações subordinadas a acionistas
sediados no Canadá, nos Estados Unidos e Inglaterra. As public utilities rapidamente
estabeleceram uma relação de quase subordinação das autoridades públicas, acusadas
por alguns veículos de comunicação de serem a “caixeira de interesses particulares”,

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 23

primando mais por preservar os interesses dessas companhias do que dos trabalhadores.
Estes sofriam constrangimentos diversos desde a dificuldade de exercer a greve, de forma
alguma reconhecida como um direito naquele momento, como até a violência física e o
descaso quando acidentados.
Existe ampla bibliografia que procura rediscutir o imaginário criado em torno da ideia
quase idílica de ser empregado da Light, porém podemos verificar pelas matérias
abordadas que nem tudo eram flores na relação da Light and Power com seus
funcionários, assim como algumas ações que demonstram que a companhia seguia em
direção do reconhecimento de alguns direitos a funcionários e parentes. A relação entre
trabalhadores e companhias tem aparecido em documentação coletada ao longo de
nossas pesquisas sobre a implantação e o desenvolvimento do setor elétrico no Brasil,
cujo foco no doutorado é a consolidação da Brazilian Traction, representante de capital
financeiro internacional, e a construção da usina do Itupararanga. Desta feita, nos
propusemos a analisar a ação dos veículos de comunicação que denunciavam o
tratamento injusto e as intimidações sofridas pelos trabalhadores, assim como a atuação
das companhias a partir de memorandos internos que registram as providências em
casos diversos relacionados a acidentes, desligamentos, recomendações ou a defesa
jurídica de funcionários em incidentes ocorridos durante seu horário de trabalho. (ST40)

Alfredo Moreno Leitão (Doutorando)


As Lutas contra o salazarismo no Brasil: estudos a serem aprofundados
Esta pesquisa que desenvolvo em meu doutorado tem como objetivo aprofundar os
estudos, ainda recentes no Brasil, a respeito da luta antissalazarista organizada por
refugiados portugueses. Nesta pesquisa procurarei analisar a luta que se organizou em
São Paulo, entre os anos de 1945 e 1974, prioritariamente, estudando dos jornais de
resistência antissalazarista, Portugal Democrático e Portugal Livre; os jornais nacionais
“simpatizantes”, O Estado de São Paulo, Ultima Hora e Novos Rumos (comunista); livros
de memórias; e a documentação do Departamento Estadual de Ordem Política e Social
de São Paulo (DEOPS-SP). (ST06)

Alice Mitika Koshiyama (Livre Docente/ ECA-USP)


Maternidade: obrigação, recusa e escolha
O trabalho problematiza a maternidade como parte da vida das mulheres.
O tema será abordado em obras de autoras que refletiram sobre a condição da mulher na
sociedade e na perspectiva de mulheres que levantaram o tema em sites e blogs
polemizando sobre a questão. Mudanças na perspectiva de que ser mãe é o melhor
destino para as mulheres estimula discussões e permite repensar o tema sob um novo
olhar sobre a história atual. (ST45)

Aline Benvegnú dos Santos (Doutoranda)


Conjuntos imagéticos e tipologia no Românico Catalão: uma proposta de análise
A partir do século XII, observa-se, na região da Catalunha, a renovação monumental de
diversos edifícios monacais segundo novos padrões arquitetônicos e decorativos. A
maioria dos monastérios reformados já existia desde o século X; porém, as novas
construções seguem uma topografia monacal onde o claustro assume um papel central
no edifício, além de incorporarem uma profusão de elementos ornamentais esculpidos.
Segundo a bibliografia especializada no românico catalão, esses edifícios podem ser
classificados em uma “tipologia de claustros ornamentais”, onde a diversidade de
elementos fitomórficos, animais e geométricos é grande, porém não há significativos
ciclos narrativos. Assim, a partir da renovação material dos monastérios, eles teriam
passado a compartilhar um mesmo estilo escultórico e arquitetônico.

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Tomando como objeto de estudo os capitéis esculpidos presentes em alguns desses


monastérios, a reflexão que aqui apresentamos procura estudar as relações entre os
elementos esculpidos e as dinâmicas sociais em curso naquele momento na Catalunha
românica. Para isso, acreditamos ser necessário nos afastarmos das tradicionais noções
de estilo, baseadas na dicotomia entre forma e conteúdo, para analisar como as imagens
medievais estão intrinsecamente ligadas à sociedade da qual participavam. (ST38)

Aline Michelini Menoncello (Mestranda)


Pedro Lessa: Um juiz a serviço da história
O presente trabalho analisará os pareceres que Pedro Augusto Carneiro Lessa (1859-1921)
realizou como membro da Comissão de História do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (IHGB). Sob a luz da História da Historiografia é possível interrogar: quais
eram os critérios e os valores atribuídos por Pedro Lessa ao analisar a obra de um
candidato à sócio do Instituto?
No dia 23 de agosto de 1901, Pedro Lessa (1859-1921) foi agraciado pelo IHGB com uma
vaga de sócio correspondente, no entanto, só tomou posse quase seis anos mais tarde,
em 10 de junho de 1907, quando realizou o seu discurso. Pedro Lessa era, até aquela
ocasião, professor da Faculdade de Direito de São Paulo, e alguns dias mais tarde, foi
convidado pelo Presidente Afonso Pena a substituir Lúcio de Mendonça no Supremo
Tribunal Federal (STF). Residir no Rio de Janeiro possibilitou a Pedro Lessa, não só
exercer a sua função de juiz, mas também uma maior participação das atividades no
Instituto, deste modo, ele passou de sócio correspondente para sócio efetivo e a trabalhar
para a construção da história nacional.
Mesmo não frequentando com tanta assiduidade, Lessa participava de comissões e
apresentava estudos; foi eleito primeiro vice-presidente em 1909; concorreu à função de
orador do Instituto em 1910 e 1911, mas perdeu as duas vezes para o Conde de Afonso
Celso; em 1912, Lessa subiu de categoria, passou para sócio honorário; em 1915 voltou a
concorrer ao cargo de primeiro vice-presidente, entretanto perdeu para Manoel Cicero
Peregrino da Silva; mas em 1918 e 1919 ele foi eleito segundo vice-presidente. Uma das
comissões mais importantes no Instituto era a Comissão de História, seus membros, e
toda a diretoria, eram eleitos em Assembleia Geral. A Comissão era composta por cinco
membros, dos quais pelo menos três, sendo um o relator, emitiam parecer avaliando a
obra de cada candidato à sócio do Instituto. Caso o parecer fosse de aprovação, a
Comissão de História recomendava o encaminhamento para a Comissão de Admissão de
Sócios. Pedro Lessa foi membro da Comissão de História entre 1908 e 1921 (exceto no ano
de 1912) e avaliou os trabalhos emitindo pareceres dos processos de que foi relator.
Analisar tais pareceres nos possibilitará compreender os critérios e valores atribuídos às
obras consideradas históricas por um juiz na Primeira República. (ST19)

Amanda Mantoan Sabino (Mestranda)


Os frades franciscanos e o relato sobre os cultos no oriente (séc. XIII e XIV)
Em meados do século XIII, os seguidores de Francisco de Assis, ao construírem as bases
da Ordem dos Frades Menores, idealizaram uma comunidade de religiosos
comprometidos não apenas com o ideal de pobreza, mas também com a conversão de
almas para Cristo. Esse empenho missionário, tão característico da ordem, fez com que
os seus membros buscassem converter novos cristãos para integrá-los ao corpo de fiéis
da Igreja tanto nas terras latinas quanto no oriente, sobretudo em regiões, como o
império tártaro-mongol, onde inimigos da cristandade poderiam criar resistência para a
manutenção da fé cristã. Nesse momento, são enviados ao oriente os primeiros
franciscanos para colher, inicialmente, informações sobre o inimigo, mas,
posteriormente, para iniciar as missões evangelizadoras. Levando em conta que alguns
frades franciscanos deixaram por escrito relatos como itinerários, relatórios e diários de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 25

viagem, nos quais descreviam desde as dificuldades encontradas pelo caminho, até
informações detalhadas dos costumes dos povos que estavam submetidos ao poder dos
tártaros-mongóis, esta comunicação busca analisar como os missionários franciscanos –
imbuídos da tarefa de converter em terras distantes - descreveram os hábitos religiosos
dos tártaros e dos demais povos que conheciam em suas missões. Em outras palavras,
como os franciscanos descreviam, em seu encontro com o outro, o que diziam ver com
os próprios olhos, cabe sondar, igualmente, suas impressões sobre as práticas religiosas
dessa gente que eles taxaram ora como boas ora como maléficas. Mais precisamente, o
objetivo desta comunicação é examinar como o conhecimento acerca dos costumes
religiosos dos tártaros-mongóis contribuiu para a ação missionária franciscana. (ST38)

Amanda Peruchi (Mestranda)


A paisagem urbana do Rio de Janeiro nos jornais franceses
A cidade do Rio de Janeiro, no século XIX, passou por uma significativa modernização,
fomentado, entre outros motivos, pela reestruturação do cenário urbano e pela melhoria
dos meios de comunicação. Nesse palco, os jornais franceses publicados no Rio de
Janeiro foram conquistando um espaço na imprensa carioca e destinaram à cidade
imperial a maioria de seus escritos, na tentativa de fazê-la conhecida por seus leitores.
Como protagonista das publicações, a capital do Império foi abordada sob diferentes
ângulos como, por exemplo, os escritos sobre as transformações ocorridas em sua
paisagem urbana. Desse modo, o principal objetivo desta presente comunicação é
analisar os registros desses impressos franceses a respeito de alguns melhoramentos na
paisagem que tiveram como propósito deixar o Rio de Janeiro mais urbano e mais
moderno. (ST19)

Amélia Oliveira (Doutora/FAJOPA)


A abordagem biográfica em história da ciência
A produção de biografias heroicas está entre as mais antigas formas de escrita histórica
sobre o passado do desenvolvimento científico e tem sido objeto de controvérsias na
literatura historiográfica sobre a ciência. Neste trabalho, discutimos algumas
considerações de Maurice Daumas, Hèléne Metzger e Herbert Butterfield acerca dos
escritos biográficos na história da ciência, buscando mostrar como a inserção de novos
tipos de abordagens trouxe consigo uma crescente crítica ao potencial histórico das
biografias. A análise dessa crítica permite identificar uma mudança gradual na
historiografia da ciência do século XX que, ao mesmo tempo em que evidencia as
principais características da visão tradicional do desenvolvimento científico, suscita uma
reavaliação do papel da escrita biográfica na história da ciência. (ST47)

Amir Aparecido dos Santos Piedade (Doutorando)


Os programas de livros de apoio para os professores de Educação Básica do Ministério da
Educação no início do século XXI: política, história, ideologia
Nos últimos anos, o Ministério da Educação (MEC) vem desenvolvendo uma extensa e
silenciosa mudança nos livros de apoio pedagógico utilizados na formação contínua dos
professores nas escolas públicas de Educação Básica de todo o país.
A partir de sua edição em 2010, a criação do Programa Nacional Biblioteca da Escola
(PNBE) nas escolas públicas tornou-se um divisor de águas na produção de livros para
docentes. O MEC tornou-se um indutor, como já havia feito com os livros didáticos na
primeira década deste século, do modelo de material almejado nas escolas públicas, e
isto também significa qual perfil dos professores é desejado.
É sempre bom lembrar que, em quase todas as escolas públicas, os professores e os
alunos têm disponível apenas os livros adquiridos e distribuídos pelo MEC. Dados a
extensão geográfica do Brasil, a quantidade de escolas públicas, o número de alunos e de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 26

professores, o governo brasileiro tornou-se um dos maiores compradores de livros do


mundo. Por isso, em uma ação política conectada com a dimensão ideológica que
permeia esse processo, tomou também para si a responsabilidade de induzir autores e
editores dos assuntos, teoria e metodologia que deseja ver contempladas nos livros, tanto
didáticos quanto de apoio aos professores.
Tal mudança mexeu significativamente com o mercado editorial e com os autores que
antes norteavam as aquisições governamentais. Isto significava que aqueles que
possuíam um trânsito político maior eram os mais contemplados.
A pesquisa em andamento procura analisar os editais do MEC para o PNBE do professor
neste início de século, a análise, seleção e impacto desses livros enviados às escolas
públicas. (ST18)

Ana Alice Silveira Corrêa (Pós-graduada)


Suely Sani Pereira Quinzani (Pós-graduada)
Daniela Vilela Peixoto (Pós-graduada)
Revivendo a tradição: a doçaria típica da cidade de Itu no período do século XVI ao XIX
Este artigo pretende resgatar a doçaria da cidade de Itu desde a época do bandeirantismo
até meados do século XIX. Importante polo canavieiro no período colonial e importante
conexão das entradas e bandeiras paulistas, a cidade possui relevantes tradições
culinárias rurais, principalmente em doces, pelo fato de ter sido responsável por 20% da
produção açucareira total paulista. Neste contexto, pretende-se reviver as doces
lembranças dessa doçaria, famosa à sua época e que se perdeu no tempo deixando para
trás um doce emblemático, a espingarda, que ficou no esquecimento. Utilizando-se de
referencial bibliográfico, análise de receituário e história oral, pretende-se resgatar essa
doçaria tão representativa da cidade de Itu e presente na mesa ituana no ciclo da cana de
açúcar. Desta forma, perante o que a época representou para brasileiros e paulistas desta
região, temos não só a formação da doçaria brasileira, notadamente de ascendência
lusitana, mas a formação de uma aristocracia com base no latifúndio agrário, no engenho
de açúcar e na escravidão africana. (ST22)

Ana Carolina Arruda de Toledo Murgel (Pós-doutoranda)


"Remando contra a maré": a contraconduta na obra de Rita Lee
O trabalho analisa como a contraconduta esteve presente na vida e na obra musical de
Rita Lee. A compositora jamais se subordinou aos rótulos sociais e culturais impostos
pelo patriarcado. Em sua obra, se insurgiu contra a censura, o controle dos corpos, das
ideias e do desejo, mostrando que mesmo em tempos sombrios, as linhas de fuga podiam
ser constantemente recriadas e reinventadas.
A pesquisa se referencia pelo conceito de poética feminista estruturado a partir dos
trabalhos de Lucia Helena Viana, Elaine Showalter, Linda Hutcheon, Rosi Braidotti,
Margareth Rago e Heloísa Buarque de Hollanda, e pelas concepções teóricas de Michel
Foucault, Suely Rolnik, Gilles Deleuze e Félix Guattari. (ST45)

Ana Carolina De Moura Delfim Maciel (Pós-doutora/Centro de Memória UNICAMP)


Societá Italiana del Lavoro e Progresso. Vittorio Palumbo e a memória italiana em Sousas
– SP
Assim como várias localidades brasileiras, o distrito de Sousas - situado na região de
Campinas - recebeu imigrantes italianos durante as últimas décadas do século XIX. Nos
primeiros anos do século XX o contingente populacional de 2 mil moradores radicados
no vilarejo era predominantemente italiano, sendo que a este se somavam 28 mil
habitantes da zona rural. Nessa época seu traçado urbanístico concentrava-se às margens
do rio Atibaia, vindo posteriormente a se expandir para os arredores da Matriz de
Sant’Anna, circundada por entrepostos comerciais animados pelos colonos das fazendas

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 27

cafeeiras da região que ali circulavam em busca de serviços, compras e medicamentos.


Nesse cenário havia espaço para um teatro onde funcionava a sede da “Societá Italiana
del Lavoro e Progresso” fundada em 1894 para auxílio à comunidade imigrante. Tal
edificação, bem como suas atividades de fomento à memória e à cultura italianas, resistiu
ao tempo e, ainda nos dias atuais, prossegue difundindo a cultura italiana. Na presente
comunicação apresentarei o depoimento audiovisual captado com o atual diretor da
Societá, o italiano Vittorio Palumbo. Sua trajetória de vida, marcada pela imigração do
pós II Guerra Mundial, bem sua atuação em prol da manutenção da memória italiana
“sousense”, dão a tônica da referida entrevista. (ST18)

Ana Gabriela Da Silva Santos (Pós-graduanda)


A obra "Direito de Família" de Lafayette Rodrigues Pereira e a questão do casamento civil
brasileiro
Durante a primeira metade do século XIX no Brasil, a Igreja católica deteve exclusividade
sobre os direitos matrimoniais, pois era a única instituição em que os registros dos atos
da vida civil da população - nascimento (batismo), óbitos e casamentos - tinham
reconhecimento jurídico. Com o aumento da população imigrante no país, sobretudo de
protestantes, surgiram problemas do ponto de vista jurídico, pois por ser recusarem a
celebrar o casamento em uma instituição católica, a união entre cônjuges acatólicos foi
considerada neste momento como ilegítima perante a Igreja e o governo. Desta situação
decorriam diversos problemas, dentre os quais podem-se destacar o divórcio e a sucessão
dos bens pertencentes a estes. Diante essa situação, o governo promulgou a lei n. 1.144,
de 11 de setembro de 1861, que reconhecia juridicamente o casamento de acatólicos. Este
deveria ser celebrado conforme a religião dos cônjuges, por pastores autorizados e
registrado no livro fornecido pelas Câmaras Municipais. Contudo, essa medida acabou
por legitimar ainda mais a importância da religião no casamento, sendo a sua definição -
um ato religioso ou um contrato estatal - um dos pontos principais do debate para a sua
regulamentação. Diante à necessidade de uma organização das normas e o
funcionamento dos diferentes tipos de casamentos, entre católicos e acatólicos, Lafayette
Rodrigues Pereira (1834 - 1917) publicou, em 1869, a obra "Direitos de Família”. Advogado
e jurista, sua obra foi considerada como importante fonte de doutrina para juristas e
legisladores durante as décadas finais do século XIX e início do XX para tratar dos
dispositivos legais que pretendia regular as condições, a forma e a validade do
casamento, contribuindo, de sobremaneira, para à discussão e formação do casamento
civil no período republicano. Com isso, pretende-se refletir a influência da obra de
Lafayette no processo de regulamentação do casamento civil, no contexto da publicação
de sua obra, em 1869, até a promulgação do primeiro Código Civil brasileiro, em 1916,
que tornou o casamento civil como princípio base para a família. (ST36)

Ana Heloisa Molina (Pós-doutora/UEL)


Imagens sobre História do Paraná em livros didáticos de História e as construções visuais
da paisagem: memória e identidade
Essa comunicação propõe-se a refletir acerca das imagens sobre História do Paraná, em
especial o tema paisagem, que circulam em livros didáticos de História voltados à
Educação Básica em seus variados suportes e as construções ou as reafirmações de
determinadas memórias de cunho regionalistas inscritas nesses documentos. Para tanto
irá pensar acerca das questões relativas ao livro didático enquanto artefato cultural, as
especificidades dos livros didáticos de história regional, as mudanças no livro didático
em sua materialidade e em seu design e analisar alguns exemplos retirados de livros
didáticos de História do Paraná como motes para pensar as memórias e identidades
inscritas em tais páginas. Entendemos que os fragmentos de memória coletiva
consubstanciados em imagens referentes à História do Paraná são portadoras de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 28

referências de construção social e significativa do passado que articulam os processos de


formação da identidade e de memória coletivas com a trama vital de cada individuo.
Concordamos com Carretero quanto ao conceito de memória coletiva como explicitada
Memória coletiva para nos referirmos a processos de lembrança e esquecimento
produzidos em coletividades, que se apoiam em instrumentos da lembrança, sejam
objetos materiais (monumentos comemorativos, a toponímia urbana ou geográfica,
nomes de prédios ou navios, imagens impressas em papel moeda), mediadores literários
(relatos, mitos, etc), sejam rituais (comemorações, efemérides). Eles atuam como
material, como argumento e como roteiro para a representação (sempre dramatúrgica)
de algo já desaparecido, mas, que tem utilidade, pelo menos para alguns que participam,
executam e dirigem os atos de lembrança que se sustentam sobre esses artefatos
culturais. (CARRETERO e outros, 2007, p. 19)
Nesse sentido, os autores alertam ainda “(...) Os atos de lembrança sempre estão a
serviço das ações presentes, são recordados para que se possa sentir, evocar, imaginar,
desejar ou sentir-se impelido a fazer algo, aqui e agora, ou em um futuro mais ou menos
próximo”. (CARRETERO e outros, 2007, p. 19)A evocação ou imaginação que as imagens
sobre a História do Paraná provocam em textos didáticos da Educação Básica significa
pensar como essas em diferentes suportes sejam fotografias, pinturas, litogravuras,
ilustrações entre outros constroem referências sobre história local e memórias em
crianças em processo inicial de organização de conceitos e conhecimento escolar e
jovens com trajetória escolar mais delineada. (ST10)

Ana Paula Giavara (Mestre)


A ANPUH-SP e as políticas educacionais paulistas para o ensino de História: diálogos
Em um tempo de incessante desenvolvimento tecnológico, de imediatismo e de mídias
massificantes, ganham força as tarefas de memória. Proliferam-se relações intrínsecas e
contraditórias entre a aceleração do tempo e a vocação memorialista. Trata-se de uma
cultura da velocidade e da nostalgia que propõe tarefas de “patrimonialização” e
“musealização” do passado, inscritas como políticas de Estado, produção acadêmica e
meios de comunicação. Nesse contexto, a história disciplinar passa por reformas, como a
protagonizada desde 2008 pelo programa educacional São Paulo faz escola,
implementado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo – SEE-SP, cujas ações
incluíram a padronização dos currículos e a distribuição de materiais didáticos para
todas as disciplinas do ensino fundamental – ciclo II e ensino médio estaduais. Esta
atuação foi amplamente criticada pelos acadêmicos especializados, sobretudo pelo
empobrecimento que relegou aos saberes específicos da disciplina histórica. Assim, surge
a problemática: qual o posicionamento acadêmico frente à reforma empreendida pela
SEE-SP? A resposta será buscada a partir do exame das comunicações dos Seminários
Temáticos de Ensino de História da Associação Nacional de História – ANPUH/São
Paulo, entre os anos de 2008 a 2014. A escolha de tais fontes justifica-se pelo histórico de
participação da ANPUH nas questões relativas à defesa do ensino de História, sobretudo
nos debates dos anos de 1980. De tal forma, objetiva-se investigar o posicionamento
acadêmico ante as políticas educacionais paulista para o ensino de História. Para
efetuação desse trabalho, dois recursos metodológicos serão adotados conjuntamente:
“análise do discurso” e “estado da arte”. (ST05)

Ana Paula Tavares Magalhães (Doutora/USP)


Escrita da História e auto-representação na Ordem Franciscana (séculos XIII e XIV)
Podemos dizer que, ao longo dos primeiros séculos de existência da Ordem, a elaboração
de uma narrativa histórica teve implicações fundamentais para a formação de uma
identidade franciscana. Ao buscar uma associação dos frades a suas origens e ao idealizar
um papel histórico fundamental a Francisco e à sua Ordem, alguns franciscanos

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 29

acabaram por definir as linhas de um pensamento histórico da Ordem de Assis. Há uma


miríade de personalidades, posicionamentos e posturas entre esses intelectuais – desde a
consagrada ortodoxia de São Boaventura (1221-1274) até o radicalismo dos Espirituais
(com sua própria diversidade interna), de que são testemunhos os escritos de Pedro de
João Olivi (1248-1298), Ubertino de Casale (1259-1328) e Ângelo Clareno (1247-1337).
Procuraremos, aqui, traçar as linhas gerais de um discurso franciscano sobre sua a
História – da Ordem, da Igreja e da humanidade. (ST38)

Anderson Montagner Martins (Pós-graduando)


Cinema e História: uma reflexão sobre o filme Redes e o contexto político e cultural do
México Revolucionário da década de 1930
O presente trabalho tem como objetivo refletir como o filme Redes (1936) se insere no
contexto político e cultural do México Revolucionário da década de 1930. O filme fez
parte de um projeto financiado pelo governo mexicano através da SEP (Secretaría de
Educación Pública) que pretendeu realizar uma série de filmes educativos com claro
objetivo ideológico. Porém, devido a uma reorganização política, apenas Redes foi
finalizado. Dirigido por Fred Zinnemann, co-dirigido por Emilio Gómez Muriel e
fotografado por Paul Strand, além da participação de outros profissionais, como Silvestre
Revueltas (trilha sonora), Gunther von Fritsch (montagem) e Ned Scott (fotografia de
produção), o filme narra a luta de um grupo de pescadores de Alvarado, pequena cidade
litorânea do estado de Veracruz, contra as injustiças impostas por um empresário e um
político local. Acreditamos que o filme, além de fazer parte de uma tradição de
produções culturais vinculadas ao governo mexicano, serviu como meio de divulgação
dos ideais presentes na proposta de implantação da "educação socialista" no país
elaborada pelo PNR (Partido Nacional Revolucionario), que tinha como objetivo a
transmissão de um conhecimento científico da realidade social, livre de qualquer
doutrinação religiosa. (ST10)

André Camargo Lopes (Doutorando)


Santa na foto: o trânsito entre a tradição oral e a Igreja na construção da devoção a
imagem de Nossa Senhora Aparecida
O presente trabalho objetiva expor a construção da devoção a Nossa Senhora Aparecida
no trânsito das apropriações entre a tradição oral e o discurso oficial da Igreja. Deste
modo a análise se desdobrará a partir da abordagem de duas fotografias realizadas entre
as décadas de 1930 e 1980, por fotógrafos da Praça Nossa Senhora Aparecida no qual a
presença de painéis narrativos promovem adequações da devoção aos discursos de
origem e do símbolo nacional. Na primeira imagem, produzida em 1980, o primeiro
elemento a ser estudado é a construção da narrativa de origem. Na segunda imagem,
produzida após a consagração da Santa como Padroeira do Brasil, são os milagres da
origem devocional, somados ao símbolo nacional que serão analisados. Em ambas as
abordagens desdobrar-se-á a inclusão dos adereços narrativos, sua origem legitimadora e
seus contextos geradores, especificamente os esforços da Igreja Católica em intervir
sobre a devoção popular a partir de sua imprensa em idos de 1900 – especificamente em
1904 (quando da coroação) e em 1930 (consagrada Padroeira do Brasil). A análise se fecha
com a definição de uma visualidade da Santa no imaginário devocional a partir das
fotografias de Robin & Favreau (1869) e André Bonotti (1924). Consolidação esta,
amplamente popularizada Imagem por impressos originários do trabalho destes
fotógrafos, estabelecendo no imaginário popular as bases visuais de um conjunto de
narrativas orais, compiladas pelos missionários católicos entre os séculos XVIII e XIX,
que constituíram o universo devocional de Aparecida. (ST10)

André Figueiredo Rodrigues (Doutor/UNESP Assis)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 30

Joaquim Silvério dos Reis e o sistema de contratos nas Minas Gerais colonial: leituras
historiográficas e fontes de pesquisas
A comunicação pretende discutir as leituras realizadas pela historiografia sobre o sistema
de contratos das cobranças de direitos (dízimos) e de tributos (registros de passagens) na
capitania de Minas Gerais, durante o período colonial, atentando-se para o caso do
contratador Joaquim Silvério dos Reis, que arrematou o contrato das entradas para o
triênio de 1º de janeiro de 1782 a 31 de dezembro de 1784. Para tanto, analisaremos as
leituras historiográficas realizadas sobre os sistemas de contratos e as fontes de pesquisa
existentes sobre as cobranças arrematadas por Silvério dos Reis, o primeiro denunciante
da Inconfidência Mineira. (ST47)

André Luiz Marcondes Pelegrinelli (Pós-graduando)


Memória e Sensibilidade Imagética no Primeiro Século Franciscano: a multiplicação de
sentidos nas imagens do episódio da pregação aos pássaros
Memória e sensibilidade, entendido como forma de percepção, se fundem na imagética
produzida durante o primeiro século da Ordem dos Frades Menores após a morte de
Francisco de Assis (1182-1226). Amiúde, após a morte de um fundador, o grupo dele
surgido precisa repensar sua própria identidade e escolher a herança difundida dos ideais
primitivos. Nesse sentido, o conflito entre os grupos espirituais e conventuais no seio da
Ordem Franciscana se liga a construção da memória do fundador buscando dar maior
ênfase sob sua interpretação do ideal de vida do irmão franciscano, distanciando ou
aproximando a imagem do fundador à imagem do frade desejado em seu tempo. A
prática de ver imagens, ligada essencialmente aos sentidos, se revela valorosa ao pensar a
construção do legado de Francisco nas imagens: não importa apenas o que é figurado,
mas como é. Os afrescos “predica agli uccelli” do Maestro di San Francesco e de Giotto,
ambos na Basilica di San Francesco, em Assisi, foram pintados, respectivamente, entre
1260-1265 e 1290-1295, e apesar dos elementos figurados serem bastante parecidos, a
forma como são apresentados poderia alterar ou multiplicar os sentidos sob as imagens.
Percorrendo a imagética do primeiro século franciscano referente ao episódio da
pregação aos pássaros, refletiremos sobre essa potência de múltiplos sentidos oferecida
pelas imagens das diferentes histórias da vida de Francisco de Assis. (ST38)

André Rocha Leite Haudenschild (Doutor/UFU)


Trovadores diaspóricos: tensões civilizatórias entre o sertão e a cidade na Música Popular
Brasileira (1964-1985)
A proposta do trabalho é identificar e problematizar algumas das tensões civilizatórias
que se estabelecem entre os meios rurais e urbanos da vida social brasileira através da
análise da música popular brasileira produzida entre as décadas de 1960 e 1970. Trata-se
de investigar a constituição de uma tópica que se propaga como uma longeva tradição
poética em nossa canção popular: a experiência diaspórica vivenciada por seus atores
sociais, no trânsito migratório aos centros protagonistas do processo de modernização
nacional, no decorrer do século XX, e que vai se manifestar como uma tensão
civilizatória crescente entre os universos culturais do “sertão” e da “metrópole”. Ao
tomarmos como objeto de análise um determinado escopo de canções e os depoimentos
de seus próprios autores, almejaremos entender a constituição de uma experiência
diaspórica, retrospectivamente - como uma temática germinal na cultura popular
brasileira atrelada à invenção do “sertão” como um “espaço de memória”, físico e
imaterial; e perspectivamente - como a manifestação de um sintomático “mal-estar
civilizatório”, que vai se disseminar na canção popular brasileira a partir de meados da
década de 1960. Para tanto, faz-se necessário compreender-se os processos identitários
dessas representações culturais a partir do discurso musical de seus mediadores
culturais, em sua maioria, compositores nordestinos, que, enquanto sujeitos sociais

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 31

portadores de uma alteridade (Said, 2007), ousaram reinventar as imagens míticas e


estereotípicas do universo sertanejo, através de suas próprias experiências diaspóricas
(Hall, 2008). (ST26)

Andre Rosemberg (Doutor/PUC-SP)


A (in)disciplina na Força Pública (1870-1930)
Este trabalho visa apresentar os resultados preliminares de pesquisa sobre a
disciplina/indisciplina na Força Pública entre o final do Império e a Primeira República.
É um trabalho que pretende escrutinar os meandros da construção da instituição
policial, num momento chave da inserção do país na “modernidade”, se justifica
plenamente. Ainda mais, se considerarmos a importância do arcabouço policial judicial
na construção das bases politicas do Brasil emancipado, e, no regime republicano
(principalmente em São Paulo), da mesma forma, a importância com se revestiu a
legislação criminal e as burocracias policiais no controle de uma população submetida a
um novo contrato, em que a cidadania (formal) foi investida para todo o corpo social e as
expectativas de distribuição de capital politico e de benefícios sociais se reforçaram.

Andrey Minin Martin (Doutorando)


“Energia para o progresso”: o papel do periodismo no desenvolvimento energético nacional
Durante as décadas de 1950 e 1960 consolida-se no Brasil um novo momento econômico,
por meio da aprovação e desenvolvimento de projetos governamentais calcados em
setores industriais, como energético e de bens de consumo. Buscou-se integrar o país em
um projeto modernizador, que agregasse todas as regiões em um novo ritmo de
desenvolvimento, ligado a uma transformação territorial dos investimentos juntamente
com maciça migração interna. Neste contexto, o interior do Brasil ganha destaque na
imprensa nacional a partir da instalação do denominado Complexo Hidrelétrico
Urubupungá. O objetivo deste trabalho é analisar como este projeto foi articulado por
uma gama de jornais e revistas como elemento central para modernização e
desenvolvimento do país, a partir do planejamento e instalação de duas mega
hidrelétricas, a Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias e a Usina Hidrelétrica de Ilha
Solteira, no rio Paraná. Para tal análise, a partir de um debate teórico-metodológico entre
memória e imprensa, ligadas a um corpo documental amplo, como atas de reuniões,
documentos da CESP (Companhia Energética de São Paulo) elencamos periódicos dos
estados fisicamente conectados a obra (Mato Grosso do Sul e São Paulo), quais sejam: O
Estado de São Paulo e a Revista Visão, paulista, e o jornal Correio do Estado e a revista
Brasil-Oeste, de sul-matogrossenses. Tais periódicos mostraram-se pertinentes na
construção e divulgação de cada etapa do empreendimento, projetando não somente
regional, mas nacionalmente os benefícios do empreendimento. Logo, a partir destas
fontes, buscaremos analisar como o periodismo articulou uma série de transformações
para o interior do país, modos de vida, a paisagem e as relações político-sociais, que se
ligam diretamente a construção das memórias sobre este tempo histórico. Analisando as
fontes, percebemos que o fluxo migratório e o crescimento econômico nacional
ocorreram em meio a uma série de discursos legitimadores sobre a necessidade do
empreendimento, seu ideário de progresso e uma nova imagem para o Brasil, isto mesmo
antes do início das obras. Desta forma, interesses privados, disputas pela legitimidade,
pelo poder e assim, memórias foram gestadas ao longo das décadas de 1950 e 1960 e
marcaram a construção do complexo hidrelétrico até seu término na década de 1970,
estabelecendo ligações com marcos de memória do passado e deixando desdobramentos
para o futuro. (ST34)

Angela Ribeiro Ferreira (Doutora/UEPG)

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Acervo digital, museu e formação de professores de História: uma experiência no colégio


Regente Feijó em Ponta Grossa-PR
Este trabalho visa discutir as possibilidades de trabalho com a memória escolar a partir
da organização de arquivos escolares e museu. Trata-se de um projeto de pesquisa,
ensino e extensão desenvolvido por professores do Curso de História da Universidade
Estadual de Ponta Grossa - UEPG e do Colégio Estadual Regente Feijó. O escopo do
projeto é organizar em acervo digital a documentação do colégio, cuja fundação data de
1927. Além disso, o projeto se propõe a organizar um Museu da Escola, com objetos e
documentos da cultura escolar. Destaca-se no conjunto de atividades a interconexão
entre a formação inicial de docentes e historiadores que através do Estágio
Supervisionado integram o projeto; a relação com a formação continuada de professores;
e o desenvolvimento de ferramentas e metodologias de digitalização e organização de
acervos documentais digitais. (ST05)

Angela Teixeira De Almeida (Mestranda)


O Samba-Canção na década de 1950
A década de 1950 é conhecida como “Era Dourada do Rádio”, veículo de comunicação
que propagava vários estilos musicais, como o carnavalesco, o baião, o tango, o bolero e o
samba-canção, e por isso foi criticado pelo escritor e jornalista Ruy Castro, que afirmou
que o cenário musical da época parecia uma grande “quermesse”. O artigo tem como
objetivo analisar nesse cenário musical, o samba canção, um gênero pouco estudado na
historiografia da música popular brasileira.
A partir da identificação de seus principais compositores, interpretes e os ambientes
desse estilo musical, busca-se caracterizar algumas de suas particularidades, de acordo
com as transformações teórico-metodológicas e a problematização das letras de
compositoras como material documental. O estilo samba-canção exalta o amor-
romântico ou o sofrimento de um amor não realizado, conhecido também por dor-de-
cotovelo ou fossa, sendo que Maysa e Dolores Duran ocuparam uma posição de destaque
como compositoras e intérpretes desse estilo. Pretendemos, a partir da análise de letras
compostas por essas mulheres identificar um ethos feminino dentro de tal gênero
musical. (ST26)

Angelica Müller (Doutora/UNIVERSO)


O trabalho da CNV e das Comissões universitárias: novos arquivos e a construção de uma
memória histórica sobre o período da ditadura nas universidades
A instalação da Comissão Nacional da Verdade (CNV) – Lei n° 12.528, de 18 de novembro
de 2011, motivou o surgimento de diversas comissões da verdade específicas nas
universidades. Espalhadas por todas as regiões do país e, em grande parte, articuladas
com a CNV, as diversas comissões universitárias enfrentaram situações diferentes em
torno da efetivação de seus objetivos. Em comum, uma questão: romper com a cultura
do silêncio e construir a cultura do acesso à informação, no sentido de reconstruir os
episódios que marcaram os campi brasileiros durante os chamados “anos de chumbo”. O
presente trabalho visa apresentar um panorama dos trabalhos da Comissão Nacional da
Verdade juntamente com as Comissões da Verdade Universitárias realizados ao longo do
ano de 2014, seus obstáculos e avanços bem como indicar caminhos de pesquisa através
da nova documentação que vem sendo descoberta e trabalhada. Os esforços das
comissões da verdade universitárias representam uma oportunidade única para a
comunidade universitária reencontrar, contar, enfim, conhecer episódios que ocorreram
na universidade durante os “anos de chumbo”. O contato da comunidade universitária
com esses conjuntos documentais e com os testemunhos coletados poderá contribuir
para a superação da cultura do silêncio e do sigilo que ainda assombra nossa sociedade.
Assim, além da recuperação e da produção de novas fontes de pesquisa, tais iniciativas

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 33

devem apontar para a superação de todas as manifestações da cultura política autoritária:


na sociedade e nas universidades. Possibilitando, através do direito à informação e do
direito à memória, a efetiva consolidação da democracia brasileira. (ST42)

Annateresa Fabris (Livre Docente/USP)


Presença da ausência
A comunicação propõe-se a discutir a problemática da representação fotográfica da
presença da ausência dos presos-desaparecidos na Argentina, Chile e Uruguai durante os
regimes militares das décadas de 1970 e 1980. Para tanto foram selecionados três ensaios
fotográficos que permitem analisar o significado da ausência no âmbito familiar e
público: "Os filhos. Tucumán vinte anos depois "(1996-2001), de Julio Pantoja
(Argentina); "Despedida - O amor diante do esquecimento" (2007), de Claudio Pérez
(Chile); "Olhares ausentes" (2000), de Juan Ángel Urruzola (Uruguai). (ST10)

Antonio Marco Ventura Martins (Doutorando)


Escravidão e Estado na província de São Paulo no século XIX
A necessidade em atender a crescente demanda por braços escravos na economia
paulista do século XIX, constituiu-se em uma dinâmica que exigiu estratégias para a
manutenção e redefinição do tráfico negreiro e da escravidão na província que
conformou seu jogo político no momento de constituição do Estado nacional. No
entanto, há carência de estudos que privilegiem abordagens que permitam conhecer com
maior precisão as especificidades da construção histórica dessa relação entre Escravidão
e Estado a partir da ótica provincial. Assim, a presente comunicação analisa a complexa
relação desse binômio em São Paulo, no período compreendido entre os anos de 1831 e
1871. As balizas temporais foram definidas, respectivamente, a partir das consequências
geradas pela lei que aboliu o tráfico atlântico negreiro para o Brasil e pela legislação do
ventre livre. Tomou-se por hipótese que a escravidão se tornaria cada vez mais central
como elemento definidor das esferas econômica e social na província, o que geraria uma
articulação política que se refletiria na organização da própria dinâmica do poder
provincial. Para o estudo foi selecionado um corpus documental composto pelos Anais
da Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo com o objetivo de contribuir para o
avanço da compreensão das particularidades que a demanda por braços escravos
africanos gestou ante a expansão econômica paulista oitocentista e seus alcances na
conformação social e política da província. (ST19)

Antonio Ricardo Calori De Lion (Mestrando)


“É Fogo na Jaca”: performance drag queen no teatro de revista dos anos 1950
Este trabalho tem por tema discutir a atuação da drag queen Ivaná na peça de revista da
Companhia Teatral Walter Pinto e na sociedade da primeira metade dos anos 1950. A
pesquisa sobre esta “vedete transformista” está ainda em seu início e o que se tem no
momento são resultados de reflexões sobre a apresentação dela na mídia impressa da
época e sua estreia nos palcos brasileiros na revista teatral “É Fogo na Jaca”, em 1953.
Objetiva-se pensar a projeção dessa sujeita queer no meio teatral nos anos dourados
problematizando a repercussão de sua imagem enquanto “travesti” vedete (como era
chamada naquele momento) propondo uma reflexão sobre o problema de gênero
presente na performance do ator/atriz dentro dos pressupostos da Teoria Queer. Tanto
os referenciais teórico-metodológicos sobre o uso das mídias impressas para a pesquisa
histórica, quanto os pressupostos metodológicos de Robert Paris sobre o uso do texto
teatral são as bases para se pensar as análises e reflexões acerca da atuação dessa drag
queen no cenário artístico dentro do recorte temporal supracitado. O diálogo
interdisciplinar entre História, Teatro e Teoria Queer é extremamente necessário para
colocar a sujeita em questão como protagonista da construção de um olhar crítico acerca

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 34

das possibilidades do período, que alavancou a carreira artística de um artista que dava
vida a uma personagem feminina, se deslocando do palco para a sociedade com certo
carisma que é percebido nas publicações em que Ivaná aparece na primeira metade dos
anos 1950, elegendo sua estética feminina “superior” a aparência masculina do ator que
lhe dava vida: Ivan Monteiro Damião. Neste contexto queer, entre a estranheza de
conotar beleza a Ivaná e tratar seu corpo masculino enquanto abjeto frente a sua
personagem pode ser destacado, talvez, uma inversão de valores sociais em que a drag
queen é colocada em nível mais elevado do que a condição masculina cisgênera do ator
que a vive. Se montar para Ivan Damião se torna mais do que uma questão artística, é
uma profissão que o mantém no estrelato por algum tempo, aclamada sua atuação
enquanto vedete do teatro de revista de Walter Pinto e – após o sucesso inicial – com a
companhia teatral de Zilco Ribeiro. A peça “É Fogo na Jaca” coloca Ivaná em destaque, e
pela crítica especializada da época torna-se um grande espetáculo de variedades em seus
quadros que possibilita o seu encantamento pelo público. É percebido que o sucesso de
Ivaná se deve por ela não ter a pretensão de se passar por uma “amapô”, e sim por já ser
tratada enquanto “travesti” pela mídia justamente por atrair as atenções ao espetáculo, se
tornando parte de uma grande campanha publicitária realizada pela Companhia Walter
Pinto. (ST27)

Antonio Simplicio de Almeida Neto (Doutor/UNIFESP)


Paulo Eduardo Dias De Mello (Doutor/UEPG)
Memórias e escritos do ensino de história: apontamentos iniciais
Nas últimas cinco décadas o ensino de história vem se constituindo como campo
profícuo de pesquisas no Brasil, notadamente a partir dos anos 1980, o que se traduz na
profusão de práticas e propostas curriculares e que se projetam em diversos encontros da
área; em programas de Pós-Graduação específicos; na constituição de diversos grupos de
pesquisa; na ampla literatura especializada e no processo de internacionalização dessas
pesquisas. A história do ensino história revela que desde a constituição dessa disciplina
escolar no Brasil no século XIX, diversos intelectuais e docentes atuaram na elaboração,
debates e difusão de propostas para reformulação, renovação ou reestruturação do
ensino de História praticado nas escolas sem, contudo, pelo menos até meados dos anos
70, situarem-se num campo específico vinculado ao espaço acadêmico das universidades.
As tentativas de balanços acerca do campo de pesquisas sobre o Ensino de História que
buscam entender os caminhos de sua constituição e as transformações pelas quais
passou ao longo das décadas de 70 e 90 do século XX e na primeira década do atual
século são fortemente marcados por divergências e disputas em torno da memória sobre
o campo, além de sofrerem uma decisiva influência de processos relacionados à
globalização ou hibridização cultural que afetam as pesquisas em âmbito internacional,
resultando em interpretações diferenciadas sobre o processo de formação e consolidação
do campo, denotando formas de aproximação e apropriação diferenciadas da pesquisa de
âmbito internacional e disputas internas.
O trabalho aqui apresentado refere-se a projeto de pesquisa interinstitucional em
andamento (CNPq processo nº 471240/2014-1, envolvendo a UNIFESP, a UEPG e a
UFRN), cujo propósito é investigar os processos de constituição do campo do ensino de
história nas últimas cinco décadas no Brasil e mapear como se configuraram as
dinâmicas de sua delimitação “territorial” de pesquisa a partir de registros diversos,
enfatizando aspectos históricos e socioculturais com destaque para suas origens e
transformações, a constituição de sua comunidade, os programas de pesquisa, os
eventos, as publicações e os projetos, suas relações com a formação dos professores e as
formas de intervenção nas políticas educacionais. Assim, intentamos: a) identificar e b)
mapear alguns dos principais pesquisadores/autores dessa área no Brasil, promover um
c) levantamento de sua obra e d) coletar suas narrativas orais, sempre que possível, de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 35

modo a construirmos um e) amplo painel das contribuições desses pesquisadores em


suas f) várias tendências e g) transformações, produzindo um h) banco de dados
organizado em i) polos de pesquisa localizados na UNIFESP, UEPG e UFRN e a
constituição de j) acervos de livros e outras publicações. (ST05)

Antonio Thomaz Júnior (Livre Docente/UNESP Presidente Prudente)


Trabalho e Saúde do Trabalhador no Ambiente Degradado do Agrohidronegócio no Brasil
Temos utilizado o conceito de agrohidronegócio nos nossos estudos, por entendermos
que o capital quando busca terras planas, férteis, com logística favorável etc., fecha o
ciclo das decisões para formatar seu projeto de controle do território se apoderando
também da disponibilidade hídrica. Assim, seja superficial, seja de aquíferos, a água está
no centro das disputas e conflitos territoriais. Vale destacar os Perímetros Irrigados, no
Nordeste; os povos cerradeiros, no Centro-Oeste, ou em Goiás, que foram expulsos para
as bordas das Chapadas com o avanço dos monocultivos para exportação (soja, milho), e
no Mato Grosso, também o algodão; da cana-de-açúcar, na Zona da Mata, Cerrados e na
Mata Atlântica, do Centro-Sul, com as atenções para Aquífero Guarani, segundo maior
do planeta. É necessário acrescentar nessa rota de exclusão, nos últimos anos, mais
intensamente, que milhares de famílias camponesas estão sendo desterreadas da
"periferia" do "progresso" pelo capital e pelo Estado, com a construção de PCH's e UHE's,
claro, que, em nome do desenvolvimento. Sem nos esquecer que os aquíferos são objeto
de cobiça do capital há séculos e nós não enxergamos essa invisibilidade que tem
garantido poder e vantagens diferenciadas para o projeto
monocultor/latifundista/agroexportador, que tanto tem penalizado e condenado milhões
de trabalhadores à exclusão, à desterreação, e a população em geral às doenças, aos riscos
crônicos das contaminações, das doenças de toda monta e, como se constata por meio
das pesquisas que muitos de nós estamos envolvidos, numa nova fase da exclusão social
no ambiente do agrohidrongécio, essa, pois, referenciada na "revolução química", que no
limite, nos condena a todos. (ST40)

Arleandra de Lima Ricardo (Doutoranda)


Adalgisa Cavalcanti: Bela, comunista e 1ª Deputada Estadual de Pernambuco
Essa discussão do tipo ideal de mulher: “bela, prendada e do lar”, permeou para não
retroagirmos muito na periodicidade, toda a década de trinta (após a liberação do voto
feminino de 1932), quarenta e adentrou à década de 1950. Como observamos esta em alta
em pleno século XXI, nos idos anos de 2016 em que pela segunda vez uma Presidenta,
Dilma Rousseff ocupa na história o maior cargo político de um país patriarcal, moralista,
machista e sexista.
Romper essa mentalidade de mulher “ideal”, nos anos de 1930 a 1950 – para não se dizer
em todo período contemporâneo que estamos inseridos, era o mesmo que desestruturar
a função da mulher. Os “poderosos conservadores da boa família com Deus” acreditaram
que poderiam conservar o velho paradigma “bela, prendada e do lar”. (ST45)

Arrovani Luiz Fonseca (Doutorando)


Cronistas da cidade na Belle Époque cafeeira: entre o passado e o tempo presente
No interior paulista da marcha cafeeira a cidade de São Carlos despontou com um dos
municípios mais dinâmicos dessa economia. Como forma de registrar as transformações
pelas quais perpassaram tanto o espaço urbano simbolizado pelo epíteto do progresso e
de projetos urbanísticos que procuravam forjar uma identidade alinhada com a
modernidade capitalista (a Belle Époque) como o rural foram produzidos seis
almanaques no período que recobre a Primeira República. Em seus conteúdos havia
como marca característica a ideia de atualização dos dados da localidade, crônicas sobre
a história local, fotografias, anedotas, textos de ciência e filosofia, publicidade, tabelas de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 36

horários de trens, etc. Focalizando como parte de pesquisa que vimos realizando sobre
tais almanaques, apresentamos uma análise sobre as crônicas da cidade de São Carlos
produzidas por Cincinato Braga(1894), Philipe Ladeia de Faria(1915) e Theodorico Leite
de Camargo (1915) pessoas ligadas a atividades políticas locais que demarcaram em suas
escritas uma memória sobre a cidade bem como o tempo de sua mudança. Procuramos
analisar tais textos na medida que eles enunciam uma dada imagem da cidade de São
Carlos em cada cronista. (ST18)

Arthur Daltin Carrega (Mestrando)


A questão da terra e da pequena propriedade no boletim da “Sociedade Central de
Immigração” no final do século XIX.
Este texto pretende desenvolver uma reflexão sobre a questão da terra e da pequena
propriedade nas páginas do boletim “A Immigração” da “Sociedade Central de
Immigração”, publicado entre os anos de 1883 a 1891. O incentivo a pequena propriedade
era considerado pela Sociedade um dos principais atrativos para a imigração espontânea
de famílias europeias. Influenciados pelo modelo imigrantista dos Estados Unidos e por
ideias do liberalismo inglês, a SCI acreditava que os imigrantes europeus seriam agentes
do desenvolvimento material, social, econômico e cultural do Brasil, considerado como
uma “nação atrasada”. (ST39)

Artur Sinaque Bez (Doutorando)


História e documentário no Brasil: Nelson Cavaquinho, de Leon Hirszman (1969).
Trata-se de indagar-se acerca das representações sobre o popular e o nacional produzidas
no documentário "Nelson Cavaquinho" (1969), do brasileiro Leon Hirszman. O filme é
rodado um dia após a promulgação do AI-5, e mostra o sambista carioca Nelson
Cavaquinho em companhia de amigos e familiares. Em meio a canções e depoimentos, o
documentário traz a tona um homem triste pela perda recente de um sobrinho, mas
também um cineasta preocupado com a situação política de seu país. Por meio da análise
fílmica, incitaremos o debate a respeito da montagem no documentário brasileiro, num
momento de readaptação do documentário direto no país. (ST34)

Aureo Busetto (Doutor/UNESP Assis)


Entre política e ficção televisiva – as minisséries “O Marajá” e “O Brado Retumbante” .
Produzida e anunciada, em 1993, pela extinta TV Manchete, a minissérie “O Marajá”, cuja
trama se baseou na culminância e queda política de Fernando Collor, ficou longe dos
olhos dos telespectadores. Fruto de determinação da Justiça a pedido do ex-presidente,
mesmo fatos da vida pessoal e política dele terem sido ampla e cotidianamente enfocadas
até então por telenoticiosos. Levada ao ar pela TV Globo, em janeiro de 2012, a minissérie
“O Brado Retumbante”, cujo protagonista é um político que, no cargo de presidente da
Câmara dos Deputados, acaba por assumir a Presidência da República, não colheria
grande audiência, quer por desfavoráveis elementos referentes ao período e horário de
exibição quer pela trama política ficcional não se prender a fundo histórico, expediente
muito apreciado pelo telespectador típico de minisséries, ou não conseguir evidenciar
para o público em geral uma proximidade com o quadro político então vigente. As
tramas de ambos os conteúdos televisivos se desenrolam num quadrante em que a
democracia é ameaçada pela corrupção política, resultando, cada qual à sua maneira, em
processos de impeachment. No primeiro caso, obviamente, a realidade se entranharia no
enredo e forneceria o seu final, ou seja, o impeachment do presidente. No segundo, o
enredo engloba processo de impeachment, porém, sua motivação e o seu resultado
diferem dos que a vida política nacional vivenciaria em 1992. Mas a trama política da
minissérie da Rede Globo fica em aberto, a se resolver num possível futuro
(teledramatúrgico e/ou político). Elementos relativos à produção e veiculação, assim

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 37

como os de forma e conteúdo, das duas minisséries quando compreendidos à luz das
principais relações históricas entre TV e política fornecem subsídios à reflexão sobre o
campo de possibilidades para a teledramaturgia enfocar temas, agentes e processos
políticos da recente história democrática do Brasil. (ST34)

Beatriz Da Costa Pan Chacon (Mestre/USP)


These three e The children's hour: dois retratos, duas histórias
Este trabalho visa analisar as duas versões do filme Infâmia, que tem como cerne uma
mentira e seus desdobramentos, o preconceito e a intolerância. Em 1936, a mentira diz
respeito a uma jovem que manteria envolvimento com o noivo de sua amiga e, em 1961,
aponta para um relacionamento entre duas mulheres. Como a mentira surge, se infiltra
na vida de três pessoas e as consequências que gera na vida deles e toda a comunidade à
volta. Quais os preconceitos envolvidos e sua origem. A intolerância é ou não é um
fenômeno temporal?
O filme, em sua 2ª. versão, ainda no faz tomar contato e promover uma reflexão sobre
um período vital da história norte-americana, isto é, o período macarthista que, por sua
vez, insere-se no auge da Guerra Fria. (ST16)

Benedito Inácio Ribeiro Júnior (Mestre)


As mulheres entre duas histórias: narrativas historiográficas, gênero e mulheres no Brasil
(1997 e 2012)
As obras "História das Mulheres no Brasil" (PRIORE, 1997) e "Nova História das Mulheres
no Brasil" (PINSKY; PEDRO, 2012) marcam a produção historiográfica contemporânea
como obras de referência para os estudos feministas, das relações de gênero e sobre as
mulheres. Publicadas num intervalo de 15 anos, as histórias e as mulheres presentes nelas
refletem expectativas e experiências políticas, institucionais, acadêmicas, editoriais,
historiográficas e de gênero características de cada momento. Também expõem como e
se os estudos acadêmicos acompanharam as movimentações sociais, culturais e políticas
operadas pelos feminismos das últimas décadas. Além disso, os dois trabalhos
apresentam diferentes objetivos, métodos, fontes, recortes temporais e narrativas acerca
da história das mulheres quando analisados em perspectiva comparada, bem como
quando cada um deles é estudado internamente. Nesse sentido, essa comunicação busca
refletir sobre a publicação das duas obras em questão com a intenção de evidenciar os
esforços historiográficos para compreender experiências passadas das mulheres
brasileiras e, da mesma maneira, olhá-las a partir de seus contextos acadêmico e político
de produção. (ST45)

Bianca Melzi de Domenicis (Mestre)


Nos fundos da sociabilidade: usos e funções dos quintais nos cortiços de São Paulo (final do
século XIX e início do XX).
Apesar de existirem até hoje na capital paulista, os cortiços foram fadados ao
desaparecimento através de legislações sanitárias e medidas de transformação urbana
por estarem fora dos padrões higiênicos e estéticos moldados para São Paulo a partir do
final do século XIX. Entre as causas para a permanência dos cortiços em São Paulo, está a
resistência espontânea: a coletividade dos cortiços gerou uma versão de sociabilidade
necessária e enraizada nas famílias populares da cidade que, de acordo com Richard
Morse, demandaria uma reeducação da população no sentido de transformar sua forma
de vida. Morse ainda acentua que essa transformação não precisaria ser total, pois a
organização dos cortiços proporcionou aos seus habitantes a criação de uma vida em
comunidade que poderia ser preservada para o convívio na metrópole industrial que se
desenhava.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 38

Essa sociabilidade se constrói na própria coletividade do cortiço. A vida neste tipo de


habitação é administrada de modo a transitar entre o particular e o compartilhado. Nesse
sentido, há um lugar onde a coletividade atinge seu ápice dentro do compartilhamento
de espaços do cortiço: o quintal. Entre outras coisas, o quintal serve como espaço de
aprendizagem, lugar onde se divide experiências, trabalhos e se compartilham
brincadeiras e hábitos alimentares. A própria configuração de família transmuta-se no
quintal. Podendo multifacetar-se em espaço de lazer, educação, trabalho, alimentação ou
banheiro, o quintal pode ter uma ou diversas funções dentro do cortiço dependendo dos
moradores que o habitam e da configuração física da casa, mas em todos os casos,
mantém sua característica coletiva. (ST37)

Breno Girotto Campos (Graduado/UNESP Assis)


O filme como documento histórico: o caso de O Álamo (1960), de John Wayne
A utilização de filmes como documento histórico, campo ainda limitado mas crescente
no Brasil, permite a compreensão da história no âmbito das mentalidades. A partir dela,
podemos questionar qual a visão que determinado grupo faz sobre o seu "outro", como
na questão das produções que envolvem conflitos entre EUA e México. No caso das
encenações da Batalha do Álamo, um importante episódio para ambas as nações que até
hoje é relembrado a partir de filmes, suas constantes refilmagens permite entender qual
é a memória que os EUA mantém deste episódio e qual é a relação que se estabelece com
seu vizinho latino. Tendo em vista o papel pedagógico dos filmes, o questionamento
sobre qual a representação do México difundida nos EUA se faz de extrema importância
para se entender a perspectiva posta pelos americanos perante a América Latina.
Tomando o filme como um difusor de ideias e admitindo seu caráter pedagógico, há de
se questionar quais são as intenções do diretor ao produzir um filme. Dessa forma, a
presente comunicação tem como objetivo apresentar o filme O Álamo, dirigido por John
Wayne, como um rico documento histórico sobre os anos de 1960, assim como sobre a
representação do México e mexicanos no cinema norte-americano. (ST10)

Bruna Dos Santos Beserra Pereira (Mestranda)


Mulheres internadas no Sanatório Pinel de Pirituba (1929-1944)
Análise de casos de pacientes do sexo feminino em instituição psiquiátrica particular nas
primeiras décadas do século XX na cidade de São Paulo, visando compreender os
discursos normativos impostos às mulheres, produzidos e legitimados pela medicina.
(ST25)

Bruna Grasiela Da Silva Rondinelli (Doutoranda)


João Caetano, Intérprete do Drama Romântico e Melodrama nos Palcos Brasileiros do
Século XIX: dramaturgia e arte da cena
A partir de uma tendência metodológica proveniente da História da Literatura, que
privilegia o estudo do texto dramático nacional em detrimento das manifestações nos
palcos, a historiografia teatral brasileira do século XX compartimentou, frequentemente,
a história do teatro de acordo com a ideia de evolução das escolas literárias (do
neoclassicismo ao romantismo, depois ao realismo, e assim por diante). Além disso,
diferenciou uma dramaturgia que seria de elevado valor literário, realizada pelas penas
de autores canonizados pela História da Literatura, de uma dramaturgia menor,
constituída por gêneros de pouco prestígio literário, como o melodrama e a opereta.
Como consequências, temos: 1) o que fazia referência aos palcos foi tratado como uma
narrativa anedótica ou um acontecimento chave para se estabelecer datas que marcariam
o início, o auge ou o fim de um movimento dramático; 2) autores e obras foram
relegados ao esquecimento. Este trabalho, um desdobramento da pesquisa de Doutorado
que desenvolvemos acerca do repertório de dramas românticos e melodramas

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 39

representados nos palcos brasileiros durante a primeira metade do século XIX, aborda
três pontos: em um primeiro momento, discutimos como as recentes contribuições da
História Cultural e o advento de tecnologias da informação (principalmente as bases de
dados que facilitaram o acesso aos periódicos e manuscritos do século XIX, como a
Hemeroteca Digital e a BNDigital, ambas mantidas pela Biblioteca Nacional)
imprimiram novo fôlego aos estudos de história do teatro brasileiro oitocentista; em
seguida, ponderamos sobre a consideração dos intérpretes e das companhias dramáticas
atuantes nas salas de espetáculos do Brasil, tanto da Corte do Império quanto das
províncias, na primeira metade do século XIX, como elementos primordiais para um
estudo mais concreto do texto dramático; por fim, analisamos o papel do ator e
empresário teatral João Caetano dos Santos (1808-1863) como um dos principais
intérpretes do repertório romântico. Assim, concluímos que a história do teatro
brasileiro da primeira metade do século XIX pode ser enriquecida se considerarmos a
ação dos intérpretes, agentes essenciais na criação de uma peça nos palcos e sua difusão
para o público. (ST27)

Bruna Queiroz Prado (Doutoranda)


Nas entrelinhas da performance: o papel das cantoras de MPB na produção de reflexão
crítica sobre a ditadura militar.
O campo da música popular é caracterizado, desde seu surgimento no Brasil, pela
atuação, majoritária, dos homens como compositores e letristas e das mulheres como
cantoras-intérpretes. Sendo assim, em busca de apreender a contribuição feminina para a
produção de conhecimento histórico por via da música proponho, no presente trabalho,
a análise da performance - entendo-a como a inscrição de narrativas em uma ação vocal
e corporal - de Elis Regina no espetáculo Falso Brilhante (1976), cuja importância foi
atestada pela quantidade de público e de crítica que mobilizou, tendo sido um dos discos
mais vendidos da história da MPB.
Adotando a forma de espetáculo de música teatralizado, o trabalho apelou para os
sentimentos e sensações do público através da força expressiva da intérprete, somada ao
figurino, iluminação, arranjos musicais e direção cênica. Utilizando-se das canções de
maneira metafórica obteve, ainda, o êxito de realizar a crítica à ditadura militar pelas
entrelinhas. Recentemente tivemos acesso a documentos da época da censura que
demonstram que o roteiro passou ileso pelos seus analistas, embora tenha sido descrito
posteriormente, por diversos historiadores, como Marcos Napolitano, como uma obra de
crítica ao regime.
Dominando o campo da performance vocal e corporal as mulheres tiveram, pois, um
papel preponderante na produção de conhecimento histórico e político no Brasil nesta
época, ao se valerem de formas expressivas cujas narrativas passaram despercebidas pela
censura, centrada no discurso direto e objetivo das palavras, levando ao exílio
compositores considerados como porta-vozes da esquerda política no período, como
Chico Buarque e Caetano Veloso. Assim, mais do que veículo das obras, considero estas
cantoras como tendo igual importância, em relação aos autores, na produção de uma
visão crítica da ditadura militar, ao mobilizarem o público por meio de algo mais
profundo e subjetivo que o texto, sensibilizando-o e contribuindo para a geração de uma
História oficial que descreveu o período como sendo de sombra e violência.
Entendendo a performance, seguindo Paul Zumthor, como um diálogo entre artista e
público, selecionaremos um trecho do espetáculo mencionado onde seja possível captar,
de maneira mais acentuada, esta interação, ou seja, momentos em que a cantora arranca
reações da plateia, em forma de palmas, gritos, risadas, entre outras demonstrações de
emoção. Analisaremos, então, os conteúdos simbólicos que estão além da palavra: a voz
em sua materialidade (timbre, dinâmica e cor), os gestos corporais, entre outros

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 40

elementos capazes de mobilizar o ouvinte mesmo que este não compreenda o que a letra
da canção quer dizer. (ST26)

Bruno José Zeni (Mestrando)


Ditaduras Militares brasileira e argentina: Um olhar sobre a Propaganda Política Oficial
no Cinema.
O presente trabalho tem por objetivo repensar a maneira como as Ditaduras Militares
brasileira e argentina atuaram no ramo cultural, mais especificamente no Cinema para
veicular a propaganda política dos regimes. Para atingir esse objetivo, utilizaremos uma
produção cinematográfica de cada país. No caso brasileiro, à película utilizada para a
pesquisa é “Batalha dos Guararapes” (1978), e, no caso argentino, “De Cara ao Cielo”
(1979). Estas películas serão pensadas de duas formas. Em primeiro lugar, buscaremos
evidenciar seus elementos em comum, elos de ligação, como o fato de ambas recorrem à
eventos históricos caros a cada um dos países em questão, de se utilizarem dos militares
como personagens centrais dos filmes, bem como também o fato de ambos os filmes
terem sido financiados por empresas estatais e órgãos de regulamentação durante o seu
contexto de produção. E, em um segundo momento, pensar como estas produções
fílmicas podem ser analisadas em suas especificidades, sobretudo no tocante aos eventos
ocorridos em seus respectivos países nos contextos ditatoriais. A partir de 1966 e mais
especificamente a partir de 1973 o regime militar brasileiro voltou seus olhos para o
cinema nacional criando nesse período órgãos governamentais para fomento, produção e
divulgação de seus feitos. Um destes foi a Empresa Brasileira de Filmes S. A.
(EMBRAFILME) que garantia aos cineastas o financiamento, a produção e a divulgação
dos filmes que contivessem o selo da empresa estatal. Todavia, antes da criação desta
empresa já existia o Instituto Nacional de Cinema (INC), desde o ano de 1966. No caso
argentino, desde 1957 já existia órgão semelhante, que nos anos ditatoriais da década de
1970 ganhou novo formato, atuando no sentido de controle da produção cinematográfica
daquele país. Outro órgão reutilizado pelos argentinos foi o “Ente de Calificacion
Cinematográfica”, criado em janeiro de 1969 e reaproveitado durante a última ditadura
argentina. Assim, as produções fílmicas do período, aqui utilizadas como fonte
documental, mas também como objeto central da pesquisa se configuram em
importantes caminhos para que se possa compreender como os regimes ditatoriais em
questão atuaram no ramo cinematográfico para difundir e propagar seu conteúdo
ideológico, e através disto, reforçar e solidificar sua manutenção no poder. (ST10)

Bruno Moreschi (Doutorando)


Novos modos de visitação - Experiências em museus históricos e nacionais
O presente trabalho está relacionado ao projeto de doutorado realizado pelo pesquisador
Bruno Moreschi no Instituto de Artes da Unicamp e na University of the Arts of Helsinki
(Finlândia). Moreschi realiza uma pesquisa que propõe uma série de visitas não
tradicionais em museus históricos em diversos locais do mundo, sempre com a intenção
de problematizar e revelar os mecanismos ideológicos da narrativa oficial dessas
instituições. No Brasil, o pesquisador realiza experiências no Museu Paulista, em São
Paulo (SP). De 2013 a 2022 (data prevista), a instituição encontra-se fechada ao público
para a realização de uma complexa reforma. Todo o acervo da instituição será deslocada,
com exceção de sua mais conhecida obra: a pintura Independência ou Morte, realizada
em 1888, por Pedro Américo. O projeto pretende discutir uma série de questões
teóricas/conceituais desse momento em que um museu histórico e uma das mais
icônicas pinturas históricas do Brasil permanecem indisponíveis. Como tratar agora as
reproduções fotográficas da tela; suas diversas releituras e o imaginário produzido por
ela aos milhões de visitantes que ali já estiveram?

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 41

No primeiro semestre de 2016, Moreschi foi selecionado pela CIMO Fellowship para
ampliar sua pesquisa e propor novas maneiras de se visitar museus na Europa. De janeiro
à junho, o pesquisador realizou aproximações diversas em instituições históricas e
nacionais - cada qual de acordo com o contexto. Os museus escolhidos foram: Ateneum,
Helsinki, Finlândia; Arktikum Museum e Korundi Museum, Rovaniemi/Lapônia,
Finlândia; Hermitage, St. Petersburgo, Rússia; Museu Nacional de Artes da Romenia,
Bucareste; Kadriorg Palace, Tallin, Estônia; National Gallery of Art, Vilna, Lituânia;
National Museum of Latvia, Letônia; Nordic Museum e National Museum, Stockholm,
Suécia. National Museum e The Viking Ship Museum, Oslo, Noruega; National Museum,
Warsaw, Polônia; Museu Nacional da Catalunha, Barcelona; e Museu do Prado, Madri,
Espanha. Para cada uma dessas instituição, uma nova maneira de se visitar. Dois
exemplos: no Hermitage, St. Petersburgo, Moreschi decidiu visitar o museu três vezes,
mas sempre sem abrir os olhos, guiado por diferentes pessoas. Desse modo, reconstruiu
parte do museu a partir de fotografias que tirava sem enxergar e a partir das descrições
das pessoas que o conduziram - decidir jamais ver as obras de um museu histórico pode
ser um ato político? No Ateneum, Helsinki, o pesquisador frequentou quase que
diariamente o café do museu e listou os principais acontecimentos ali para entender
como um museu histórico pode também ser visto como um ponto de encontro em uma
cidade. Experiências como essas serão relatadas em sua apresentação a partir das práticas
realizadas até o momento e de bibliografia relacionada ao tema. (ST44)

Bruno Omar De Souza (Doutorando)


Poéticas da história no Antigo Regime português: os poetas, a história e o lugar-comum da
pacificação dos afetos sediciosos nas letras luso-brasileiras.
A comunicação investiga o regime de historicidade do gênero histórico-poético das
epopeias luso-brasileiras produzidas no século XVIII, em Portugal e na América
portuguesa. Teorizada por Voltaire, em 1726, no Ensaio sobre o poema épico, a noção de
histórias poéticas, à maneira das epopeias, aparece em ocasiões distintas e segundo
interesses diversos dos letrados do Império português, e se refere a práticas letradas
típicas do período, que devotam respeito à ordem social hierárquica da monarquia e aos
pactos de sujeição entre as diferentes partes do Império. Fazendo uso das técnicas de
linguagem disponíveis àquele período, tais como o lugar-comum, a imitação, a prescrição
de comportamentos sociais e a definição do caráter dos personagens heroicos para a
efetiva mímesis do público, os textos representam o dever-ser da sociedade, segundo o
direito. O texto analisa duas dessas obras: o poema épico Joanneida ou A Liberdade de
Portugal defendida por D. João I, de Jozé Correa de Mello e Britto d´Alvim Pinto,
publicada em 1782, em Lisboa; e o poema Vila Rica, do árcade Cláudio Manuel da Costa,
escrito em 1773, em Minas Gerais. O primeiro trata da narrativa dos conflitos gerados
pelas guerras de sucessão monárquica no século XIV, em Portugal, conhecidas como
Revolução de Avis, e tem como herói o aclamado rei, d. João I; o segundo, narra a
história da pacificação das Minas, no início do século XVIII, na América, por obra de
Antônio de Albuquerque, que governou a capitania das Minas durante o conflito que
opôs paulistas e emboadas, entre 1709 e 1710. Vila Rica tem como herói a figura deste
governador. Ambas as obras aplicam e desenvolvem técnicas retóricas que definem
aspectos do comportamento virtuoso do herói pacificador dos afetos sediciosos das
multidões. Os autores definem versões da história luso-brasileira, que no contexto em
que são produzidas, mostram a eficácia simbólica com que o Estado cumpre seu dever,
pacificando os afetos e promovendo a ordem num mundo de hierarquias e conflitos de
legitimidade. (ST19)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 42

Bruno Sanches Mariante Da Silva (Doutorando)


A puericultura entre ciência e educação: uma análise dos Boletins da Legião Brasileira de
Assistência
Fundada em 1942, sob o comando da primeira-dama Darcy Vargas, na conjuntura do
esforço de retaguarda brasileiro na Segunda Guerra Mundial, a Legião Brasileira de
Assistência logo se ocupou do amparo às famílias dos soldados brasileiros enviados ao
combate mundial na Europa. Nesse contexto, a partir de 1945, a LBA passou a publicar o
Boletim da Legião Brasileira de Assistência, com o propósito primeiro de manter
informados os soldados na Europa sobre suas famílias, e também estas sobre os
pracinhas brasileiros em guerra, com grande ênfase na troca de correspondências e
amparos a ambos grupos (família e combatentes). Contudo, com o fim do conflito
mundial, as ações da LBA e de seu Boletim voltaram-se à proteção à infância e à
maternidade no Brasil. A puericultura, os cuidados com o bebê, as medidas higiênicas e o
combate à mortalidade infantil passam a preencher as páginas dos Boletins. Em verdade,
há a divulgação de preceitos de uma maternidade moderna. A mulher, entendida como
essencialmente mãe, é a grande interlocutora dos Boletins e alvo das ações da LBA em
todo o Brasil, é para elas que são escritas as matérias tanto sobre puericultura quanto
sobre a maternidade moderna, do ponto de vista médico-higienista e comportamental; e
também para elas que são realizados cursos de puericultura por todo o território
nacional (não só para as mães, mas também para as parteiras e as chamadas “curiosas”,
vistas como possíveis disseminadoras do conhecimento). Corroborado (e fomentando) a
elaboração de uma maternidade “moderna” são publicados nos Boletins da LBA preceitos
de uma alimentação moderna, de uma higiene moderna e, sobretudo, de sociabilidades e
educação modernas. A proteção à infância (e nisso inclui-se a proteção às gestantes) é
entendida como um grande ato civilizatório e, sobretudo, patriótico, uma vez que
salvaguarda as gerações futuras de cidadãos da pátria. Desse modo, na presente
comunicação, espera-se poder refletir sobre a construção de sentidos sobre a
maternidade moderna, largamente apoiada na puericultura, e os debates deles
decorrentes nas edições do Boletim no ano de 1951. (ST01)

Camila Bueno Grejo (Doutora/UEL)


A Revista de Derecho, Historia y Letras: política interna e problemas argentinos no início
do século XX
Desde meados do século XIX as revistas expressavam a vida intelectual dos países latino-
americanos. Utilizadas como um instrumento menos efêmero que o jornal, as revistas de
caráter político e intelectual transformaram-se no local onde os intelectuais construíam
sua notoriedade. Este trabalho visa demonstrar a importância da Revista de Derecho,
Historia y Letras na produção editorial argentina do início do século XX, uma vez que
esta se constituiu num importante espaço aberto por Estanislao Zeballos para discutir as
inquietudes e propósitos daqueles que queriam construir a nação movidos pelo impulso
intelectual, bem como o espaço aberto pela revista para discutir o movimento operário e
as experiências políticas da esquerda argentina no início do século XX a partir da
perspectiva da elite dirigente. (ST32)

Camila Rodrigues Da Silva (Mestre)


Entre Maria e as dores: cotidiano e subjetividades de mulheres em situação de violência
doméstica, Marília – SP (2006-2014).
A pesquisa tem como objetivo identificar os impactos da implementação da Lei Maria da
Penha/2006, após a confirmação de sua constitucionalidade (2012), priorizando relatos
orais de mulheres em situação de violência doméstica residentes na cidade de Marília e
região. O método utilizado baseado na História Oral foi entendido como instrumento
analítico-metodológico para apreender as experiências vividas e as trajetórias de vida

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 43

femininas evidenciando que elas são sujeitos da história e portadoras de direitos. O


acesso ao método das oralidades nos possibilitou trazer indagações a respeito das
dificuldades a elas apresentadas em relatar a sua história diante do processo traumático e
de violência a que foram submetidas. Foi possível evidenciar as resistências do judiciário
local quanto à aplicabilidade da Lei Maria da Penha e a interiorização da dor, sofrimento
e silêncio rodeados pela desproteção e descaso que as rodeiam, quando, ao procurarem
atendimentos especializados, não são respaldadas pela lei. Essas mulheres foram
consideradas por nós sobreviventes da violência doméstica e de cada ato violento
cometido contra elas, tornando-se prisioneiras dos seus próprios lares ao longo dos anos.
Deste modo, na prática, a lei se encontra falha quanto a sua real efetivação e
aplicabilidade na cidade de Marília e em outras cidades do país e as dificuldades e
barreiras para sua implementação são de ordem material e de recurso humano, como
também os fatores culturais e as representações de gênero arraigados na mentalidade
daqueles que são ou foram responsáveis por sua execução. Diante desse cenário pudemos
problematizar as múltiplas identidades femininas que no processo de identificação
assumem e produzem uma variedade de possibilidades e novas posições, tornando as
identidades mais posicionadas, políticas, plurais, menos fixas e unificadas
compreendendo como são (re)significados os papeis identitários de ser mulher, mãe,
companheira, dona-de-casa e profissional dessas mulheres que constantemente
assumem novos posicionamentos cotidianos além-sobrevivência. Por fim, a pesquisa
procurou romper com estereótipos de passividade entendida como condição feminina,
evidenciando termos como agência e empoderamento para designar a existência do
elemento ativo da ação individual; no caso, as ações individuais dessas mulheres e suas
mobilizações em grupo. (ST25)

Carla Drielly Dos Santos Teixeira (Mestre)


A radiodifusão como prática comercial e cultural, 1931-1937
O setor radiofônico, nos anos de 1930, esteve marcado por contradições que se refletiam
na estrutura organizacional das estações e em sua grade de programação. Em meio a
projetos culturais e comerciais, no Brasil, o rádio instalou-se na fronteira entre o modelo
europeu, cuja programação deveria produzir os frutos de cultura e educação tão carentes
à população, e o modelo norte-americano, que possuía na propaganda publicitária a
fonte de sua sobrevivência financeira. Por contar com certo desenvolvimento técnico e
com as primeiras experiências de conglomerados midiáticos compostos por rádio e
jornal, a radiodifusão adquiriu contornos de atividade comercial voltada à difusão
cultural. Este trabalho busca expor os limites e possibilidades da atuação comercial do
rádio brasileiro com base na consulta das edições diárias dos jornais Diário de S. Paulo,
O Estado de S. Paulo, Folha da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil e Correio da Manhã.
(ST34)

Carlos Alberto Menarin (Doutor/UNESP Assis)


Meio ambiente, Museus e História(s) das cidades no vale do Médio Mogi-Guaçu (1969-
2012)
Promover um estudo crítico da história apresentada pelos museus dos municípios de
Descalvado, Pirassununga, Porto Ferreira e Santa Rita do Passa Quatro, localizados no
vale do rio Mogi-Guaçu. Vestígios da ocupação indígena, cafeicultura, ferrovia,
imigração, organização da vida urbana, são temas recorrentes nesses museus e
articulados a um espaço comum, definido pela presença marcante do rio Mogi-Guaçu.
Ao revisitá-los criticamente, buscamos maximizar as conexões entre essas instituições,
seus acervos e a história local com o entorno, em suas dimensões socais e ambientais.
(ST37)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 44

Carlos Alberto Sampaio Barbosa (Doutor/UNESP Assis)


Fotógrafos brasileiros na América Latina durante a Ditadura Militar: primeira
aproximação Juca Martins e Pedro Martinelli
Na década de 1950 e os primeiros anos de 1960 as fotografias cujo tema era a América
Latina estampadas na imprensa comercial brasileira em geral reforçavam os estereótipos
negativos: espaço dos golpes, das rebeliões, da instabilidade política e dos ditadores. Essa
representação recebeu uma nova camada de interpretação com a Revolução Cubana, que
se num primeiro momento a vitória dos "barbudos de Sierra Maestra" foi saudada como
heróica, com a definição do novo regime como socialista, passou a ser retratada como
um Estado violento e tirânico, símbolo do perigo vermelho sobre o continente. (Baitz,
2003) No Brasil após o Golpe de Estado de 1964 e a instauração do regime militar o país e
o fotojornalismo se transformam, surgem novos periódicos e ocorre uma reorganização
na profissão do fotógrafo de imprensa.
O objetivo dessa comunicação é apresentar os primeiros avanços de uma investigação
referente aos fotógrafos brasileiros que registraram eventos políticos na América Latina
durante o regime militar brasileiro. Busco verificar como as imagens produzidas
encontraram um circuito de distribuição tendo em vista o Estado de exceção e verificar
se a representação de nosso sub-continente foi diversa do período anterior. Nessa
apresentação vamos nos deter nos fotógrafos Juca Martins e Pedro Martinelli e suas
atuações no conflito da Nicarágua e El Salvador. (ST10)

Carlos Gustavo Nobrega De Jesus (Doutor/PUC-SP)


O Nacionalismo antilusitano nas páginas de Gil Blas
A revista Gil Blas surgiu em fevereiro de 1919, em meio à sucessão presidencial e num
contexto histórico marcado pelo crescimento do ideal nacionalista. Eixo aglutinador de
tais propostas, o estudo da revista nos auxiliou a compreender parte das iniciativas que
viriam compor as diretrizes da direita e extrema direita surgida nos anos 1930, entre elas
o Integralismo e a militância católica. No entanto, diferentemente do que fizera a
historiografia até o momento, o periódico não pode ser estigmatizado segundo esse
único viés. Ao longo de sua trajetória (1919-1923), a publicação atravessou várias fases,
manifestas na alteração de seu subtítulo, materialidade, objetivos e colaboradores, ao
sabor de interesses diversos. Desta forma, pretende-se salientar a fase inicial da revista,
quando optou-se por divulgar um nacionalismo xenófobo de cunho antilusitano,
proposta que estava na ordem do dia, principalmente no Rio de Janeiro, então Capital
Federal. Além disso, a análise aprofundada de uma série específica de artigos nos
permite levantar a hipótese que tal postura, também, pode ser entendida como resposta
a um nacionalismo português extremado divulgado por intelectuais portugueses em
publicações nacionalistas lusitanas da época, entre elas destaca-se o periódico O Povo de
Aveiro, publicado pelo jornalista Francisco Manuel Homem Christo, entre a décadas de
1890 a 1940. (ST06)

Carolina Melania Ramkrapes (Pós-graduanda)


Amizade e subjetividade nos movimentos feminino e feminista do Ceará: Rosa da Fonseca,
Maria Luiza Fontenele e Célia Zanetti
Entre as décadas de 1960 e 1980, os movimentos feminino e feminista do Ceará se
organizaram politicamente e criaram espaços de luta contra a Ditadura Militar no Brasil
(1964-1985), assim como apontaram problematizações referentes à cultura machista que
marcava a sociedade cearense. Juntos, constituíram vínculos de afeto, resistindo ao
imaginário excludente das mulheres para a amizade. As disputas amorosas, intrigas,
ciúmes e rivalidades, ligadas exclusivamente ao universo privado, estabeleciam um lugar
comum para as relações femininas, há décadas em processo de desconstrução por parte
dos feminismos. Portanto, o objetivo é apresentar reflexões acerca dos deslocamentos

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 45

subjetivos e as relações de amizade tecidas no espaço de militância política, no Ceará,


entre Rosa da Fonseca, Maria Luiza Fontenele e Célia Zanetti. Vivenciando a experiência
da tortura, clandestinidade e perseguição política, os elos estabelecidos entre essas
mulheres trazem amizade, política e feminismos, que se entrecruzam continuamente, na
desconstrução de discursos e práticas que reafirmam lugares, identidades e
impossibilidades de afeto. O dissenso, a tensão, o embate poderiam compor quadros
para uma relação que se denomina como “amizade”? Parto da ideia que as relações entre
as mulheres, em suas lutas femininas e feministas, desestabilizaram os “regimes de
verdade” das amizades masculinas, intimistas e fraternais, conforme descreve Jacques
Derrida. Seguindo o desafio lançado por Michel Foucault em 1984, se fizermos da
amizade um modo de vida diferente, uma elaboração contínua de si na relação com
outro, a constituição de subjetividades éticas e livres torna-se um questionamento
relevante para a historiografia do período. Na atuação no MFPA e UMC, Rosa, Célia e
Maria criticaram estereótipos, subverteram papeis sociais, tecendo laços com outras
mulheres que politizavam suas ações cotidianas. Pergunto, assim, pelos deslocamentos
subjetivos e afetivos no espaço da militância, através de vínculos menos ilusórios e mais
reais, menos masculinos e mais femininos, menos misóginos e mais filóginos. (ST45)

Caroline Sauer Gonçalves (Mestranda)


A produção de alimentos em Minas Gerais colonial: a fazenda Borda do Campo
A alimentação vem ocupando cada vez mais seu lugar na História, mostrando-se como
uma vertente extremamente rica em possibilidades de investigação. O ato de comer não
é simples e vai além da necessidade biológica e da abordagem estritamente cultural, pois
implica uma série de ações e atividades e requer inúmeras funções comerciais, dentre
elas as atividades agrícolas.
Dessa forma, partindo do conhecimento da historiografia colonial e da historiografia da
Conjuração Mineira, e conhecendo suas personagens, o presente artigo pretende analisar
a alimentação, a prática agrícola e o comércio de alimentos em Minas Gerais colonial,
usando como exemplo a produção e o comércio de alimentos praticados por José Aires
Gomes na Fazenda Borda do Campo, de sua propriedade. (ST22)

Cássia Abadia Da Silva (Doutoranda)


Entre imagens, folhas amareladas e recordos: a beleza e magia de "O percevejo" na cena
brasileira
Aventurando num encontro entre História e Teatro é que desenvolvemos nossa pesquisa,
tendo como objeto a encenação brasileira de "O Percevejo". O texto escrito em 1928, pelo
poeta russo Vladímir Maiakóvski é traduzido e levado a cena brasileira pelo diretor Luís
Antonio Martinez Corrêa, uma adaptação livre que agitou a temporada do Rio de Janeiro
em 1981 e a de São Paulo em 1983. O trabalho realizado por Luís Antonio e grupo de
adaptação foi acompanhado pela crítica, que em sua maioria ressaltava esse
empreendimento audacioso, o qual recebeu vários prêmios. Todos nós sabemos que arte
teatral é impossível de tomá-la em sua completitude, portanto nos cabe apanhar os
vestígios, os restos e as sobras e tentar compreender o que outrora fora uma encenação,
como a de "O percevejo". Dentre um significativo número de materiais de pesquisa, que
nos possibilitam analisar o processo de produção da referida montagem é que
escolhemos para presente ocasião tomar os materiais sobre a peça em cena, tais como
áudio do espetáculo, entreatos cinematográficos e principalmente fotografias das duas
temporadas. Nossa proposta é pensar quais olhares e leituras esses materiais permitem
fazer acerca da encenação pesquisada, que outros vestígios nos desvelam. (ST27)

Cássia Natanie Peguim (Mestre)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 46

Energia e desenvolvimento sustentável: o Brasil no contexto pós Rio 92


Observamos, no período pós 1992, uma mercantilização crescente dos recursos naturais,
aliada a maior demanda por bens derivados de petróleo e dependentes da oferta
energética. Nesse contexto, a posição emergente do Brasil na economia mundial faz com
que o país ocupe uma posição privilegiada no debate sobre as políticas ambientais. No
entanto, esta posição muitas vezes não se transformou em ações internas. Colocando
para o historiador a necessidade de avaliar a adequação da posição brasileira em relação
ao horizonte de interesse dos países latino-americanos na área das políticas energéticas e
do desenvolvimento sustentável. Esta comunicação de pesquisa objetiva apresentar um
histórico das políticas energéticas brasileiras no decorrer dos anos 1992 a 2015. Período
balizado pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento
e pelo término da campanha para obtenção dos Objetivos do Desenvolvimento do
Milênio – ODM. Trata-se de levantamento necessário ao desenvolvimento da pesquisa
para a obtenção doutorado em História, intitulada “Políticas energéticas e
desenvolvimento sustentável: o Brasil na inserção internacional da América Latina
segundo a CEPAL (1992-2015)”. A pesquisa tem como objetivo problematizar o papel das
políticas energéticas brasileiras na inserção internacional da América Latina,
particularmente a partir da análise promovida pela Comissão Econômica para a América
Latina e o Caribe – CEPAL, partindo da hipótese de que o Brasil apresenta uma
contradição nas políticas energéticas empregadas quando comparadas às políticas
promotoras do desenvolvimento sustentável acordadas internacionalmente, bem como
possui o potencial de direcionar e influenciar as políticas energéticas latino-americanas
devido à disponibilidade de recursos naturais hipervalorizados economicamente. (ST37)

Cecilia Helena De Salles Oliveira (Livre Docente/Museu Paulista USP)


Escrita da História e Espaço Museológico
O objetivo primordial desta comunicação é problematizar os nexos que se constituíram,
desde o século XIX, entre os museus de História nacional e a escrita da História. A
despeito das inúmeras críticas produzidas, na atualidade, sobre o papel desempenhado
pelos museus no âmbito da divulgação de histórias nacionais, que não encontrariam
mais fundamentação na historiografia contemporânea e nos conteúdos ensinados nas
escolas, é importante considerar que até passado recente esses espaços autenticavam
interpretações correntes acerca do percurso histórico da sociedade brasileira e se
ajustavam às demandas de professores e escolares na direção de “presentificar”, como
nomeou Stephan Bann, aquilo que manuais escolares e obras de divulgação veiculavam.
Partindo em especial do lugar importantíssimo ocupado pelo Museu Paulista da USP na
configuração do imaginário nacional, pretendo abordar de que maneira a decoração do
edifício-monumento do Ipiranga, formulada por ocasião das comemorações dos 100 anos
de Independência, articulou-se ao movimento de cristalização de um núcleo de
protagonistas dos episódios de 1822 cujas ações foram interpretadas como
imprescindíveis e heroicas, pois teriam “provocado” acontecimentos e representado
perfis políticos sem o que a separação de Portugal não teria sido possível.
Particularmente, um desses personagens, Joaquim Gonçalves Ledo, chama a atenção
porque, ao contrário dos demais retratados no Salão de Honra do Museu e nos espaços
da escadaria monumental, sua fisionomia é reconhecidamente ficcional, o que não
obstou a produção de sua efígie, tomada desde então como seu retrato definitivo.
Mais do que este detalhe, porém, sua presença nesse panteão esta a merecer investigação
acurada. O retrato de Ledo inserido entre os próceres da Independência consolidou uma
memória recortada do protagonista e dos episódios que até hoje resiste a modificações.
Simultaneamente, parcela relevante do percurso político que Ledo construiu na primeira
metade do século XIX permanece obscurecida, lembrando-se que foi Taunay um dos
mais importantes responsáveis pela recuperação da imagem positiva com a qual se

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 47

tornou conhecido, a partir da década de 1920. Por que na literatura da segunda metade
do século XIX a atuação de Ledo se tornou secundária aos eventos que teriam marcado a
fundação do Império? Quais seriam as significações historiográficas e políticas de sua
recuperação no centenário de 1922? Que peso teve a decoração do Museu Paulista nesse
processo de construção de uma escrita da História sobre a Independência e o Império
ainda hoje tão enraizada? (ST18)

Célia Regina Da Silveira (Pós-doutora/UEL)


A trajetória de Gaspar da Silva na imprensa luso-brasileira em fins do século XIX: mediador
cultural entre os dois lados do Atlântico
Esta pesquisa apresenta como objeto de investigação a trajetória do português Gaspar da
Silva na imprensa luso-brasileira de fins do século XIX, considerando-o como mediador
cultural entre os dois lados do Atlântico. Ele atuou em diversos jornais da capital
paulista, tanto na condição de colaborador como na de proprietário e redator. Em 1876,
iniciou-se nas lides da imprensa brasileira, no periódico A Província de São Paulo, no
qual divulgava a produção de autores portugueses – especialmente os da chamada
“geração nova” – e fornecia atualizações sobre os assuntos referentes à conjuntura
política de Portugal. Juntamente com o conterrâneo Leo da Fonseca, fundou, na cidade
de São Paulo, o jornal Diário Mercantil (1884-1890), no qual propiciou oportunidades
para jovens poetas brasileiros, além de ter tornado mais abrangente a publicação e os
comentários sobre a literatura portuguesa. De regresso a Portugal, em 1890, passou a ser
um dos diretores da Edição Quinzenal Illustrada (1897-1898). Ao propor, nesta
comunicação, tratar do itinerário desse homem de letras na imprensa luso-brasileira
objetiva-se averiguar como se davam as conexões e interações político-culturais entre os
dois lados do Atlântico. Para isso, tomam-se como referenciais os conceitos de
“transferências culturais” e de “mediador cultural” de Michel Espagne. (ST36)

Celio Jose Losnak (Doutor/UNESP Bauru)


Trajetória de Octávio Frias de Oliveira: história e memória em construção
A década dos anos 2000 foi fértil em torno da produção de material sobre a História da
Folha de S. Paulo, particularmente centrada na trajetória pessoal e empresarial de
Octávio Frias de Oliveira. Em 2002, foi instituída a cátedra de Jornalismo “Octavio Frias
de Oliveira” pela Faculdade de Comunicação Social do Centro Universitário Alcântara
Machado (UniFiam-Faam). Naquele ano, ocorreram vários eventos, tais como cerimônia
de homenagem ao patrono, palestras de convidados a falar sobre ele, sobre a História da
Folha de S. Paulo nas últimas décadas, seminários sobre questões do jornalismo
contemporâneo e concurso para estudantes de graduação. O desdobramento foi a
produção de dois livros (Octavio Frias de Oliveira. 40 anos de Liderança no Grupo Folha,
de 2002; Um País Aberto: Reflexões sobre a Folha de S. Paulo e o jornalismo
contemporâneo, de 2003) contendo os trabalhos apresentados e objetivando divulgar e
registrar o momento de produção sobre a história da empresa e de seu publisher.
Posteriormente, em 2006, foi lançada a obra A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira
redigida pelo jornalista Engel Paschoal e, um ano depois, republicada pela Publifolha. Os
depoimentos/palestras, presentes nos dois primeiros livros, convergem para algumas
imagens idealizadoras do empresário. Produzidos em eventos e cerimônia de
homenagem, os textos centram-se nas características ímpares e exemplares para a gestão
da produção jornalística do Brasil. A perspectiva dos autores, todos com algum vínculo
social/profissional/afetivo com Frias, apontam para a trajetória do ator social como
defensor da liberdade de impressa, criador de uma empresa jornalística moderna, plural,
imparcial, independente e apartidária, desbravador de novas possibilidades para o
jornalismo brasileiro, empreendedor exemplar que transformou um jornal secundário no
principal do país, líder que optou por abrigar grupos opositores à ditadura criando

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 48

espaço de expressão de pensamentos diversos e independentes. O livro biográfico segue


a mesma linha de delinear o empresário empreendedor modelar e destacam-se alguns
elementos importantes, além daqueles já citados no evento/obra sobre a cátedra. Um
deles é a meta do empresário em superar o Estado de S. Paulo tornando-se o principal
diário do país, tanto em tiragem como em credibilidade de um jornalismo imparcial e
informativo. Este trabalho visa apresentar reflexões, em perspectiva da memória e da
escrita da história, sobre essas produções e estratégias de intelectuais, jornalistas e da
empresa Folha da Manhã. (ST34)

Chrislaine Janaina Damasceno (Mestranda)


A análise da temática indígena no livro didático do 7° ano em conformidade com o PCN-
Pluralidade Cultural e a Lei 11.645/08.
O presente artigo analisa o conteúdo de história indígena brasileira presente no livro
didático do 7° ano do ensino fundamental Projeto Araribá, obra coletiva concebida,
desenvolvida e produzida pela Editora Moderna PNLD 2014/2015/2016 -FNDE Ministério
da educação. Verificando se o conteúdo veiculado na narrativa e nas imagens deste
material estão em conformidade com as propostas governamentais do PCN-Pluralidade
Cultural e a Lei 11.645/08 ou, se ainda transmitem argumentos excessivamente
etnocêntricos e eurocêntricos, marcados pela sobreposição da ação dos brancos de
origem européia e seu aspecto “civilizador”, valorizando uma “brancura”, relegando a um
caráter excludente as contribuições indígenas e reproduzindo um imaginário onde os
indígenas permanecem como povos ausentes, imutáveis, a-históricos e algumas vezes
tidos como vítimas de uma terrível “injustiça histórica” que lhes tiraram o direito da
terra. (ST05)

Cicero João Da Costa Filho (Doutor/USP)


Gustavo Barroso: um pensador católico, autoritário e racista brasileiro
Nas décadas de 1920 e 1930, o Brasil experimentou um momento particularmente
conturbado de sua história. A tensa conjuntura política do país, que vivia uma disputa de
hegemonia entre setores agrários e grupos industriais urbanos, do fortalecimento do
proletário e da suposta ameaça do comunismo, somado aos efeitos da crise de 1929,
proporcionou o surgimento de várias tendências políticas, suscitando inúmeros “projetos
de brasis”. Políticos, intelectuais, profissionais liberais, participaram ativamente do
projeto político do país, dentre estes Gustavo Barroso. Figura importante como escritor e
político brasileiro, presidente da ABL e inspirador do Museu Nacional, Barroso, em sua
vasta produção bibliográfica, propôs um projeto de Brasil extremamente autoritário e
corporativo, combatendo os movimentos de esquerda. Segunda figura na hierarquia
integralista, Barroso denunciou uma suposta ameaça judia, caracterizando o judeu como
o eterno conspirador, ganancioso, que dificultaria a construção da identidade nacional
brasileira. O antissemitismo aberto de Barroso, diferente do de Plínio Salgado e Miguel
Reale, é parte integrante de seu projeto nacional. O escritor buscou entender o Brasil e
argumentou que o judeu era o responsável pelo atraso econômico desde os tempos
coloniais, um povo que não se misturava em um momento em que o Brasil precisava de
identidade. Com os regimes de extrema direita surgidos na Europa e as influências destes
no movimento integralista brasileiro, Barroso foi simpático ao governo do Hitler e a
particularidades pontuais do governo de Mussolini. Tais simpatias tornam Gustavo
Barroso um pensador que merece cuidadosa discussão, chamando atenção para a
compreensão de seu antissemitismo, compreendendo-o pelo viés propriamente racial ou
não, em um momento intelectual e político em que o argumento de raça perdia ímpeto
no Brasil. Profícuo escritor que se dedicou aos mais variados assuntos, considerado
importante pesquisador de folclore, a hostilidade aos judeus foi tema central no projeto

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 49

político brasileiro de Barroso. Estudando a figura de Gustavo Barroso, entenderemos


aspectos significativos do cenário turbulento do Brasil da época. (ST06)

Cinthia Midori Shimada (Mestranda)


Considerações sobre os políticos eugenistas em guarda contra o imigrante indesejado
Em diversos momentos da história podemos observar vários tipos de migrações pelo
mundo. Ao longo do tempo, como um ato natural do ser humano, muitos grupos
transitaram de um canto a outro do hemisfério à procura de melhores condições de vida.
Atualmente, os motivos pelos quais levam milhares de pessoas a se locomoverem pelo
mundo não são muito diferentes. No geral, diversos grupos fogem de seu país de origem
devido a conflitos bélicos, fome ou péssimas condições de sobrevivência. Todavia, nem
sempre eles são bem recebidos no destino almejado. Pois, muitos acabam se tornando
vítimas de ataques xenofóbicos. O Brasil, por exemplo, ao longo de sua história, foi
destino certo de uma série de imigrantes de diversas nacionalidades. Atualmente, a
entrada de haitianos no país ganhou grande destaque na imprensa devido,
principalmente, às condições encontradas em sua chegada e o trato que lhes fora
dispensado após a sua permanência. Neste caso, o que se sucede é que muitos deles são
constantemente discriminados e ofendidos tanto fisicamente, quanto moralmente. Neste
sentido, esta questão migratória, se apresenta como um desafio tanto para aqueles que
emigram, quanto para os Estados que recebem grandes levas de imigrantes. Assim sendo,
é de extrema importância regressar ao passado na tentativa de entender o tempo atual,
buscando assimilar suas continuidades e rupturas no trato com o imigrante. Devemos,
assim, lançar luz a esta temática, questionando os motivos que transformaram, em
determinados momentos da história, alguns imigrantes em inimigo do país que os
recebiam. Além disso, faz-se necessário também identificar a origem dos discursos de
ódio e intolerância que foram proferidos contra o imigrante indesejado. Neste sentido,
este trabalho visa discutir os debates em torno da questão imigratória presentes
sobretudo na Assembleia Constituinte de 1933, identificando seus principais
interlocutores. Assim, além de compreender como se deu o processo de construção de
um discurso negativo acerca de certos tipos de imigrantes, com especial atenção para o
caso japonês, verificar-se-á quais as ideologias políticas e bases teóricas que formaram as
principais elites políticas contrárias a este tipo de imigração. Por fim, busca-se entender
como a política de Estado deste momento fez uso de conceitos científicos para manter
um controle maior sobre os corpos destes imigrantes considerados seus “supostos
inimigos”. (ST39)

Cinthia Sayuri Tsukimoto (Pós-graduanda)


Com que rapidez o mau se pode tornar bom? Considerações sobre a desnazificação (1945-
1947)
Esse trabalho discutirá o processo de desnazificação, a partir de algumas percepções
contidas na revista satírica alemã der Simpl acerca das principais medidas adotadas na
zona de ocupação americana entre anos de 1945 e 1947.
A rendição alemã, assinada em maio de 1945, pôs o fim do conflito bélico deflagrado por
Hitler em 1939. Conforme o fim do conflito aproximava-se, não tardaram a aparecer as
primeiras imagens e relatos dos campos de concentração, povoadas por figuras
esqueléticas de formas humanas. Muitas já haviam sucumbido e os poucos sobreviventes
eram testemunhas e vítimas do projeto alemão, que batalhava para garantir aos alemães,
isto é, ao povo ariano, uma sociedade saudável e forte, erradicada de males como, por
exemplo, diversidade étnica e distúrbios psicológicos. Outros milhares de figuras
também compunham o quadro europeu de destroços humanos no pós-45, os de
refugiados e deslocados de guerra. Diferentes cenários compostos por esses e outros

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 50

grupos eram uma evidência clara de que o nacional-socialismo e sua ideologia não se
findariam apenas com o fim da guerra.
Entende-se, portanto, que considerar a rendição alemã como um símbolo da derrota do
nazismo ou do triunfo da democracia na Europa é subestimar a ideologia do nacional-
socialismo e seu significado. Por desnazificação denomina-se o processo de expurgo de
elementos ligados ao nacional-socialismo da Alemanha, implicando na remoção de sua
simbologia dos espaços públicos, bem como de sua ideologia, a partir da reformulação de
currículos escolares e da imprensa, tendo como objetivo “arrancar-lhe as raízes e plantar
as sementes da democracia e da liberdade na vida pública alemã” (JUDT, 2008: 70). Na
zona de ocupação americana, essa incumbência coube ao Gabinete do Governo Militar
dos EUA (OMGUS, na sigla em inglês), cuja principal incumbência era garantir que a
implementação de medidas que contemplassem os 4-Ds do pós-guerra fosse bem-
sucedida: democratização, desnazificação, desmilitarização e descentralização.
Assim, debater o processo de desnazificação é um trabalho que não apenas permite ao
pesquisador compreender os atores e interesses que a circundavam durante os anos de
sua formação e implementação, mas lhe oferece ferramentas que o auxiliam a pensar
sobre os problemas “atuais” europeus, como o surgimento de grupos neonazista e a
resistência em relação aos imigrantes. (ST06)

Cintia Goncalves Gomes Oliveira (Doutoranda)


Rocha Pita e a História da América Portuguesa no contexto de Portugal na primeira
metade do século XVIII – Primeiras ideias
A proposta deste trabalho é apresentar algumas ideias iniciais relacionadas ao projeto de
pesquisa de doutorado em andamento, no qual analisamos a obra de Sebastião da Rocha
Pita História da América Portuguesa dentro do contexto das lutas por uma recuperação
econômica no início do século XVIII em Portugal. Isso, pois, as obras de Pita são
constantemente analisadas do ponto de vista literário, como poeta e historiador e,
quando seu texto literário ganha destaque, tem sido visto como documento de cunho
nativista, que buscou exaltar as qualidades do Brasil dentro do projeto da agremiação da
Academia Brasília dos Esquecidos.
Rocha Pita durante sua vida ocupara cargos importantes na sociedade baiana, como
coronel do regimento privilegiado de ordenanças, fidalgo da casa real além de membro
supranumerário da Academia Real de História Portuguesa. Ao se referir aos problemas
enfrentados pela Bahia em finais dos seiscentos, o autor fez seus apontamentos de modo
descritivo, sempre se referindo às fontes que utilizou para recolher tais informações e
aparentemente, sem emitir julgamentos. Esse fato favoreceu a publicação de seu livro
História da América Portuguesa “com todas as licenças necessárias”, como aparece na
contra capa da obra.
Este comportamento do autor se torna de extrema importância se levarmos em
consideração a conjuntura em que vivia e favorece a compreensão de permanências e
rupturas, bem como as iniciativas e atitudes tomadas por pessoas e instituições para
tentarem sanar ou ao menos melhorar os problemas enfrentados.
Assim, diante da conjuntura complexa de Portugal no início dos anos setecentos,
buscaremos apresentar as primeiras ideias de nosso projeto de como Pita vivenciou tal
momento, qual a possível posição ele adotou diante de tal situação e como toda essa
conjuntura influenciou na escrita de sua História da América Portuguesa, pois, até o
momento nenhum estudo tomou como base tal perspectiva. (ST36)

Claudia Regina Alves Prado Fortuna (Doutora/UEL)


Por uma educação política da memória: arte contemporânea e ensino da história
No contexto de fortalecimento de uma cultura histórica marcada pela amnésia e de
exclusão dos elementos subversivos da memória, pretendemos nos aproximar das

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 51

estratégias pelas quais o passado é reinterpretado a partir do tempo presente sob a forma
de experiências estéticas. Selecionamos para este projeto alguns trabalhos de duas
artistas plásticas brasileiras - Rosângela Rennó e Leila Danzinger, especialmente os que
apresentam narrativas sobre a condição humana e tematizam a memória e o
esquecimento social. É neste campo de análise e considerando o ensino da história não
apenas como disciplina, mas como percepção racional e sensível sobre o mundo, que
acreditamos ser possível fortalecer uma educação política da memória capaz de
movimentar, a partir do presente, outras formas de ver, sentir, pensar e agir. De acordo
com Rancière (2012), as estratégias dos artistas para realizar o trabalho da ficção, não
como um mundo imaginário oposto ao real, mas como trabalho que realiza dissensos,
que muda as coordenadas das representações, os modos de apresentação sensível e as
formas de anunciação, criam uma "paisagem inédita do visível, formas novas de
individualidades e conexões, ritmos diferentes de apreensão do que é dado, escalas
novas" (p.85). Neste campo de referências, entendemos as produções estéticas na obra
dessas artistas como formações históricas e sociais que originam discursos capazes de
revelar a movimentação de sentidos, as batalhas de percepções, as ambivalências e outras
sensibilidades na sua relação com a história, a memória e a temporalidade.
Consideramos que os procedimentos estéticos de abordagem dos acontecimentos, das
fotografias, das imagens, do simbólico, entre outros, oferecidos pela dimensão estética
podem nos ajudar a pensar o ensino da história não apenas como disciplina, mas como
percepção racional e sensível sobre o mundo. Poderemos, assim, examinar o que
entendemos por educação histórica nos seus modos de explicação, compreensão,
expressão e inserção nas questões culturais e de identidade, não apenas com as
referências exclusivas da operação histórica, mas com as de outros espaços de circulação
do sensível e do visível. (ST16)

Cleonice Elias Da Silva (Doutoranda)


A participação das cineastas no Cinema da Retomada
Ao compararmos a participação das mulheres diretoras na realização de filmes no
cenário cinematográfico brasileiro com a dos homens, deparamo-nos com uma
disparidade: o número de mulheres ainda é relativamente pequeno, sendo que o cinema
nacional conta com uma presença majoritariamente masculina. Todavia, esta realidade
vem passando por um processo de transformação. Filmes realizados por mulheres,
mesmo ainda sendo minoria, estão ganhando notoriedade entre o público e a crítica, um
bom exemplo a ser citado é o filme Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015).
Em linhas gerais, esta comunicação pretende apresentar um breve panorama sobre a
participação das mulheres na realização de filmes na cinematografia brasileira, dando
maior enfoque para o período iniciado em meados da década de 1990, o Cinema da
Retomada, no qual se percebe um aumento significativo no lançamento de filmes
dirigidos por mulheres.
De acordo com Lúcia Nagib (2002:15), o crescimento da participação feminina na
realização de filmes, junto com outros fatores, tais como, as diversificações geográficas e
etárias dos diretores possibilitam que o cinema brasileiro traga à tona “uma imagem mais
acurada do país”.
O período referido pode ser resumido como o momento que cinema nacional recupera-
se de uma crise, esta intensificada pelo fim das atividades da Embrafilme, no governo de
Fernando Collor. Nota-se na conjuntura da segunda metade dos anos de 1990 um
reconhecimento internacional dos filmes realizados no Brasil; o surgimento de novos
cineastas; e a presença feminina na realização (ALVES, 2010: 2).
A análise de filmes dirigidos por mulheres, os quais têm como centralidade suas
subjetividades, pode contribuir, de acordo com Maria Célia Orlato Selem (2013: 2), “para

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 52

a crítica cultural às sociedades patriarcais, propiciando outros sentidos para o imaginário


social”. (ST45)

Cleyton Rodrigues Dos Santos (Doutor/Faculdade La Salle de Lucas do Rio Verde-MT)


Diálogos político-escravistas em Machado de Assis.
Este trabalho propõe um estudo, sob a perspectiva da história social, sobre uma questão
crucial na literatura machadiana: o escravismo. Trata-se de promover o diálogo entre a
História e a Literatura, refletindo sobre as relações escravistas presentes na obra literária
de Machado de Assis. Assim, o presente trabalho consiste em analisar as especificidades
e relações entre história e literatura nos escritos de Machado de Assis, focalizando-se o
modo como os temas relacionados à escravidão emergiram na literatura machadiana,
bem como submeter essa literatura ao interrogatório sistemático que habitualmente se
aplica a qualquer testemunho histórico. (ST36)

Clifford Andrew Welch (Pós-doutor/UNIFESP)


A escrita da história da alimentação e abastecimento na terra do Fome Zero
Pesquisar e escrever a história da alimentação tem que começar no fator mais elementar
do processo: o solo. No Brasil, todos os alimentos ainda vem do solo (KNABBEN, 2015).
Assim, as relações sociais que tomem conta da terra e organizem a produção
agropecuária formem-se a primeira instancia da história da alimentação. A questão do
abastecimento do país foi historiada pela primeira vez de maneira sistemática por uma
equipe liderada pela Maria Yedda Linhares a partir dos anos 1970, sob patrocínio do
Ministério da Agricultura da ditadura (LINHARES; LOBO, 1979; LINHARES; SILVA,
1979). Apesar de suas origens no âmbito de um governo autoritário capitalista, fica claro
a orientação marxista no método de materialismo histórico aplicado. Incialmente, o
Programa Fome Zero implementado a partir de 2003 pelo governo democrático do
Presidente Luís Inácio Lula da Silva também enfatizou a vida material em seu esforço de
mobilização da sociedade civil para ensinar populações pobres e malnutridas como
captar agua e produzir alimentos essências para começar a superar suas condições
perpetuas de subalternidade (ARAÚJO, 2004). Em outros programas, como o Programa
Nacional de Reforma Agrária de 2004, também foram desafiadas as relações de poder
sobre o solo responsáveis pela subordinação e assim a mal-nutrição do povo brasileiro.
Mas a implantação destas políticas públicas logo driblaram estratégias de confronto com
estruturais socioeconômicas em preferência pela estabilidade e gradualismo (SILVA et al,
2010). Os programas novos no âmbito do Fome Zero – Bolsa Família do Lula e Brasil sem
Miséria da Presidenta Dilma Rousseff – foram elaborados como formas de assistência
social que desmobilizaram a sociedade civil, trocando os ensinamentos e suportes de
auto-sustentação pelos pagamentos mensais que reforçaram a dependência e submissão
do povo.
Antes de que a História de Alimentação do Brasil seguisse uma trilha desenhada
exclusivamente pela história cultural (SANTOS, 2005; CARNEIRO, 2005), estaria bem
lembrar as contribuições da história social sobre a questão do abastecimento do país e
suas aplicações para entender uma formação social do capitalismo bastante distinta dos
da França e dos Estado Unidos, inovadores importantes no campo da culinária. O
presente trabalho tem a pretensão de oferecer uma análise da historiografia da história
da alimentação a partir da história das políticas públicas de abastecimento da
perspectiva da interpretação materialista no pressuposta de que, antes da gustação, teria
que ter “criar condições para que todas as pessoas [no Brasil] possam comer
decentemente três vezes ao dia, todos os dias, sem precisar de coações de ninguém”
(LULA apud SILVA et al, 2010, p. 7). (ST22)

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Crhistophe Barros Dos Santos Damazio (Doutorando)


Da crônica ácida ao romance velado: Carlos Heitor Cony e as relações entre história,
memória e literatura na ditadura militar brasileira
Este trabalho pretende analisar como o escritor Carlos Heitor Cony, um dos primeiros
jornalistas a se opor à ditadura militar, fez a transição das críticas ao governo, após
prisões e perseguições políticas, do espaço das crônicas para o romance. Partindo dos
pressupostos da nova história política que valoriza, entre outras fontes, a literatura como
espaço de análise das representações e da manifestação das relações poder na sociedade,
acreditamos que o estudo da obra de Cony pode abrir uma janela para a compreensão do
conturbado contexto social e político brasileiro pós-64. Neste trabalho, vamos nos ater às
crônicas publicadas pelo jornalista no jornal "Correio da Manhã" entre abril e dezembro
de 1964 e ao romance "Pessach: A Travessia", publicado em 1967. Por meio dessas obras,
acreditamos que é possível traçar um panorama da trajetória da escrita do autor que, de
um cronista dos mais populares em 1964, teve que se restringir à escrita de romances a
partir de seu afastamento do meio jornalístico em 1965. Além disso, a análise das
crônicas e do romance podem ajudar na compreensão de como o escritor e jornalista
carioca, que observava a situação política de seu país com olhar crítico, utilizou a escrita
como forma de exteriorizar episódios marcantes de sua memória individual e como, por
meio das críticas feitas ao seu trabalho, esses fatos narrados e/ou romancizados por ele,
encontravam ressonância como a memória coletiva de seus contemporâneos. (ST36)

Crislayne Fátima Dos Anjos (Pós-graduanda)


Somos todos pecadores: As minúcias por trás das câmeras do filme A Bruxa (2016).
Lançado no Brasil em março deste ano, depois de aclamado pelos críticos estrangeiros, o
filme de terror A Bruxa (2016), surpreende não apenas pelas características intrínsecas de
seu gênero, mas também pela mensagem que sua história transparece a seu espectador.
Ambientado no século XVII, mais especificamente no ano de 1630, a história gira em
torno de uma família, cujo patriarca Willian, sua esposa e os cinco filhos, são expulsos de
uma comunidade puritana ultraconservadora por serem considerados hereges. A partir
desse momento, a família se estabelece em um vale fora das fronteiras da comunidade,
entretanto, passam a ser ameaçados por fenômenos inexplicáveis, que logo julgam serem
práticas de bruxaria. O objetivo dessa discussão concerne, portanto, em analisar o
imaginário por trás das propostas do diretor Robert Eggers, que promove um brilhante
espetáculo ao associar religiosidade e misticismo, cristianismo e natureza. A bruxa do
título pode ser tanto a figura concreta da feiticeira quanto a metáfora do elemento
dissonante, perseguido pela comunidade. Neste sentido, busca-se ampliar o debate
acerca do imaginário sócio religioso durante a intitulada “caça as bruxas”, uma discussão
que nos parece tão distante, porém atual. (ST38)

Cristina De Lima Cardoso Person (Mestre/Secretaria de Educação do Estado de São


Paulo)
O nó da cultura
A partir dos estudos propiciados pela pesquisa de mestrado e das participações sociais,
percebo que o termo "CULTURA" tem sido entendido e empregado de maneiras
peculiares e aquém do que a historiografia espera. Se deixarmos de lado as discussões
acadêmicas e perguntarmos: “o que é cultura?”, o termo será associado por muita gente,
ao conhecimento institucionalizado, por exemplo, uma pessoa estudada é tida como
alguém culto.
Nessa mesma linha de raciocínio, não podemos definir ou classificar cultura popular ou
cultura erudita, tudo é Cultura, pois, tudo é produção dos povos no seu tempo. São os
sujeitos, que vivem histórias em diferentes épocas e cotidianos, os produtores culturais,
manifestam lutas e glórias em suas produções, concretizadas nas atitudes, nos gestos,

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 54

nos movimentos e pensamentos que transformam-se em produções culturais ou


simplesmente caracterizam uma gente de um determinado lugar. (ST44)

Cristina Meneguello (Pós-doutora/UNICAMP)


Arte e revolução industrial a partir do trabalho de Francis Klingender
A representação do trabalho e do trabalhador como um novo objeto pictórico, que se
confundia à função social de retratar as diferenças entre a vida na cidade e no campo foi
pioneiramente estudado por Francis D. Klingender (1907-1955), na obra ainda paradoxal
Art and the Industrial Revolution (1947). A obra teve um nascimento peculiar. No ano de
1945, o Sindicato dos operários técnicos (Amalgamated Engineering) do Reino Unido
pediu à Associação Internacional dos Artistas (Artists International Association) que
organizasse, para comemorar o seujubileu de prata, uma exposição com o tema amplo de
“A engenharia e a vida britânicas”. O processo da preparação desta exposição forçou o
sociólogo inglês Francis D. Klingender a pensar (ao longo dos anos da Segunda Guerra)
sobre o impacto que a Revolução Industrial tivera sobre as artes de maneira geral a partir
do século XVIII. A partir desta experiência, Klingender sua obra. No ano de 1968, mais de
uma década após a precoce morte de Klingender, o historiador Arthur Elton reeditou sua
obra, trazendo alterações ao argumento tradicional, fortemente marxista, buscando
“suavizar” a obra para os leitores, tornando-a simultaneamente menos densa, com menos
citações e mais palatável ao leitor, ocultando o enorme esforço de pesquisa e
documentação realizados na edição original.
Klingender não se limitou a identificar apenas a ocorrência do tema da indústria e do
trabalho nas artes, mas também a própria transformação da linguagem das artes pela
entrada da produção mecânica das imagens, pela expansão técnica da gravura e de sua
reprodutibilidade, permitindo a circulação visual destes novos objetos industriais (minas,
forjas, moinhos de fiação), retratados como aparições sublimes em meio a paisagens e
cenários antes aprazíveis. As gravuras técnicas que ilustravam enciclopédias ou manuais
vieram a ganhar, posteriormente, a categoria de arte. Em termos de historiografia,
Klingender faz parte de uma linhagem da história social da arte de cunho marxista, ao
lado de Antal e Hauser. Klingender também produziu Marxism and Modern Art: an
approach to social realism em 1943 e recentemente se soube, por arquivos liberados pelo
MI5, que Klingender foi vigiado sistematicamente pelo serviço secreto inglês. Importante
ativista cultural, ele promoveu a disseminação de filmes soviéticos em exibições na Grã-
Bretanha, sendo que nos anos 1930 e 1940 foi um membro ativo do Partido Comunista
Britânico. De certo modo, sua defesa do realismo – que vê em uma longa tradição até
chegar ao século XX – é a defesa da forma de representação mais próxima ao trabalhador
e à sua tradição. (ST47)

Daive Cristiano Lopes De Freitas (Mestre)


Pedagogia das imagens: a arte e os multimeios como potencializadores do saber histórico
O trabalho tem como objetivo abordar as possibilidades para se trabalhar de forma
articulada com recursos imagéticos e áudios-visuais através de softwares para a
apresentação de aulas expositivas e suas influências nas práticas pedagógicas nas escolas
de ensino fundamental, identificando permanências, rupturas e mudanças no cotidiano
do aprendizado dos alunos e explorar o uso da linguagem visual ao lado da linguagem
textual para enriquecer o saber histórico escolar. Busca igualmente explorar as práticas
de ensino de História no ensino fundamental com o uso articulado de meios imagéticos e
audiovisuais. A partir da proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais, (PCN),
diretrizes elaboradas pelo Governo Federal que orientam a educação no Brasil, que,
dentre outros objetivos previstos no ensino fundamental, propõe que os alunos sejam
capazes de “saber utilizar diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos para
adquirir e construir conhecimentos” é que este projeto se dirige. Em meio ao processo de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 55

democratização das informações no contexto da globalização urge pensar, em termos de


educação, sobre as possibilidades de o professor fazer uso destas empregando-as na
forma de conhecimento na sala de aula. Pensadores da educação vêm discutindo nos
últimos anos nesse processo de inserção dos multimeios no processo de ensino-
aprendizagem. A partir desta reflexão que este mini-curso parte das experiências e
práticas em sala de aula sobre o uso articulado de fontes iconográficas fotográficas,
artísticas e jornalísticas, obras plásticas, charges, mapas e outros; músicas e videoclipes e;
produções cinematográficas com o objetivo de facilitar o aprendizado dos alunos com
relação ao conteúdo, abrindo a possibilidade de compreender melhor através de seus
discursos o conteúdo estudado não apenas de forma textual, mas imagética. (ST10)

Daniel Martins Valentini (Doutorando)


Censura e memória no Teatro Oficina dos anos 1960
Entre o fim dos anos 1950 e início dos 1970, o Teatro Oficina esteve entre os grupos
teatrais brasileiros mais criativos. Desejando sempre renovar sua linguagem, queimava
suas etapas, inicialmente, porém, com um caminho mais voltado para as discussões da
cultura brasileira e de sua relação com as forças políticas e econômicas, numa crescente
que levou ao contraditório movimento tropicalista e que se transformou, num segundo
momento, em mera contestação moral, em delírios e sonhos individualistas narcisistas,
já com um elenco muito modificado e sem o notório brilho do grupo fascinante que
construiu o nome deste teatro para o Brasil e para o mundo. Neste texto discutiremos
rapidamente aspectos dos dois assuntos que mais nos interessam: a censura ao Teatro
Oficina e o uso das memórias de seus integrantes na recomposição de sua trajetória.
(ST27)

Daniel Rincon Caires (Mestrando)


Arte Degenerada – A crítica de arte científica de Max Nordau
Este trabalho tem a finalidade de apresentar os resultados de uma análise das ideias
sobre arte e cultura presentes na obra “Degeneração”, de Max Nordau, publicada pela
primeira vez em 1892. Frequentemente apontado como cultor do conceito de Arte
Degenerada, Nordau aparece na bibliografia especializada como um precursor das ideias
nazistas que culminaram no confisco de milhares de obras de arte, na destruição de
muitas delas e na perseguição aos artistas que incorriam numa concepção estética
distinta daquela pregada pelo Terceiro Reich. Procurou-se nesse trabalho apresentar as
ideias de Nordau em seu contexto, articuladas com as questões e tensões de seu tempo.
Para tanto, procurou-se uma visão mais ampla sobre o conceito de degeneração e sua
penetração na mentalidade ocidental na segunda metade do século XIX. (ST06)

Daniela Fagundes Portela (Mestranda)


As primeiras Escolas Maternais de São Paulo. A experiência educativa de Anália Franco
(1853-1919).
A presente comunicação é parte integrante da pesquisa de Doutorado em andamento
intitulada Revelando a trajetória da Educadora Anália Emília Franco em São Paulo (1853-
1919).
O estudo investiga a trajetória profissional da educadora Anália Franco em São Paulo,
destacando o pioneirismo das suas ações destinada a educação da infância, ressaltando a
sua atuação com formação de professores, a intensa produção de revistas e jornais
pedagógicos, elaboração de manuais pedagógicos exclusivos para docentes da educação
infantil, fundando liceus, cursos profissionalizantes, associações educativas e as
primeiras escolas maternais de São Paulo que será o objeto de discussão nessa
comunicação.

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Uma das grandes preocupações de Anália Franco era a inexistência de instituições


destinadas ao atendimento dos filhos de escravizados que nasceram, após a promulgação
da lei do Ventre Livre, em São Paulo, essa condição social, dessa nova modalidade de
infância que emergia é a mola propulsora da criação das primeiras escolas maternais da
Capital, as quais atendia prioritariamente os filhos e filhas de escravizados.
A pesquisa está inserida no campo da história e historiografia da educação brasileira. O
corpus documental do estudo é constituído fontes documentais de natureza primária,
artigos de jornais, registros fotográficos das instituições fundadas pela educadora,
manuais e as revistas pedagógicas: “ A voz Maternal” e “Álbum de Meninas”, ambas
produzidas pela própria educadora Anália Franco, o corpus da investigação também é
composto por fontes documentais “oficiais” circunscritas, aos temas da historiografia da
educação, feminização do magistério, história da infância, imigração e escravidão, as
quais serão analisadas de forma conjugada, a opção por esse procedimento metodológico
tem como propósito descrever e demonstrar de que modo, o contexto cultural , político
e social, no qual Anália Franco estava inserida perpassaram a sua trajetória pessoal e
profissional e, também influenciaram na formulação do seu projeto socioeducativo para
crianças.
O marco temporal da investigação é compreendido entre o período de 1853-1919
referente, aos anos de nascimento e morte da educadora Anália Franco, embora
saibamos que a sua obra perdura até os dias de hoje.
Os resultados parciais da pesquisa apontam que ao longo de aproximadamente 17 anos,
Anália Franco construiu 110 instituições infantis, incluindo instituições
profissionalizantes para mulheres pobres, liceus, todas distribuídas nas regiões da Capital
e Interior do Estado de São Paulo. (ST01)

Daniela Fernanda De Almeida (Pós-graduanda)


Italianas: trajetórias, lutas e resistências sob a vigilância da polícia política (1930-1945)
O presente projeto de pesquisa pretende apresentar, discutir e encaminhar um possível
entendimento sobre a atuação das italianas no espaço público e privado principalmente
da cidade de São Paulo e seus arredores, no período de 1930 a 1945. A opção por um
recorte cronológico mais restrito busca apreender a relação da imigrante com a formação
de um Estado autoritário, para com isso, captar o momento de maior repressão social em
São Paulo, e assim entender a repressão exercida pela polícia política sobre esse conjunto
de mulheres. O estudo se baseia em bibliografia especializada, mas, sobretudo na
pesquisa elaborada a partir de uma documentação privilegiada, qual seja o conjunto dos
prontuários organizados pela polícia política do Estado de São Paulo, instituição criada
em 1924 e extinta nos finais da ditadura militar, o DEOPS. Estudar a imigração sob o
ponto de vista destas mulheres permitirá também conjecturar sobre sua inserção em São
Paulo, na qual tiveram uma contribuição fundamental para sua construção e
desenvolvimento. Portanto, pretendemos identificar as razões pelas quais as italianas
foram implicadas com a polícia política e suas ações, avaliar o conjunto dessa relação
tantas vezes conflituosa entre mulheres estrangeiras e repressores nacionais, e enfim
investigar como estavam estruturadas as relações sociais da mulher italiana na sociedade
paulista. (ST39)

Daniele Cristina Mistretta Vieira César (Mestre)


Teorias dialógicas e a discussão sobre gênero e violência no ensino fundamental: uma
proposta de direitos humanos na escola.
As teorias dialógicas têm como eixo o diálogo, a comunicação e a interação entre as
pessoas, inclusive em sala de aula. Estas teorias argumentam em favor da
intersubjetividade e da reflexão, trazendo esperança e a utopia de dias melhores, pautado
em ações que possibilitam, além do diálogo, o entendimento de si e do mundo e a

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capacidade que cada indivíduo tem para realizar a mudança social. As teorias dialógicas
contribuem para transformarmos a escola em um espaço mais democrático e reflexivo.
Para isto é necessário que professores trabalhem de forma diferenciada aliando
competência nos conteúdos de ensino e compromisso político com a emancipação dos
alunos através do diálogo e da reflexão. Uma proposta que a Educação em Direitos
Humanos pode cumprir.
No Brasil, a resolução n°1 de 30 de maio de 2012, publicada pelo Conselho Nacional de
Educação, alterou as diretrizes educacionais. A resolução tornou obrigatória a inserção
de conteúdos de Educação em Direitos Humanos da Educação Básica ao Ensino Superior,
ordenando, inclusive que sejam revistos os Projetos Pedagógicos Institucionais e
Políticos das escolas. Tal resolução apresenta-se como resultado dos programas e planos
mundiais e nacionais que reconhecem a educação voltada para a convivência humana
sob a ótica de uma cultura de paz e reconhecimento de direitos, como base da formação
do ser humano
E o que significa uma educação em direitos humanos? Significa uma educação que
defenda a liberdade dos homens, o respeito às diferenças, sejam elas de raça, gênero,
etnia, religião, sexualidade e qualquer outra forma de diferença que possa propiciar a
exclusão social e a exclusão escolar. Significa respeito às particularidades, as
especificidades e a equidade.
Discutir gênero no ensino fundamental através de teorias que privilegiem o diálogo
possibilita o reconhecimento das diferenças que são responsáveis por situações de
violência contra as mulheres e as meninas e que estão arraigadas na sociedade brasileira.
Através da discussão sobre gênero, violências contra a mulher, Lei Maria da Penha,
masculinidades, homofobia, entre outros, os alunos do ensino fundamental pode revelar
suas angústias e também transmitir conhecimento sobre suas experiências dentro e fora
da comunidade escolar, o que possibilita uma ampla rede de discussão unindo escola,
família e comunidade de entorno.
Sendo assim, este trabalho tem como objetivo refletir sobre a importância das teorias
dialógicas no ensino fundamental para os estudos de gênero na escola, como
possibilidade para enfrentarmos os retrocessos que estamos vivendo e divulgar a
importância da reflexão dos estudos em Direitos Humanos em sala de aula. (ST25)

Danilo Wenseslau Ferrari (Doutorando)


A circulação internacional de personagens caricaturais: Zé Povinho no jornal O Besouro
Nesta comunicação, apresenta-se análise do personagem Zé Povinho no jornal O
Besouro, periódico elaborado pelo desenhista português Rafael Bordalo Pinheiro, no Rio
de Janeiro, entre 1878 e 1879. Bordalo foi artista de destaque na cultura portuguesa.
Como desenhista, foi apontado como pioneiro da caricatura moderna em Portugal, além
de ceramista, dono da Casa de Faianças Caldas da Rainha e homem de imprensa, sendo
proprietário de diversas publicações ilustradas e satíricas, nas quais interveio nas
questões políticas, sociais e culturais de seu tempo. O ilustrador viveu no Brasil entre
1875 e 1879, onde sua atuação inspirou outros artistas e foi decisiva para sua carreira.
O caricaturista criou o Zé Povinho, em 1875, no jornal Lanterna Mágica, quando ainda
vivia em Portugal. O personagem representava o homem do campo, analfabeto e um
tanto parvo. Com ele, Bordalo criticava a excessiva cobrança de impostos do governo
português. O boneco teve grande aceitação e tornou-se símbolo da identidade
portuguesa. Bordalo utilizou a figura do Zé Povinho em diversos comentos, como
comentador de sua obra, nas publicações periódicas que idealizou. No Brasil, o
personagem foi retomado em O Besouro. A publicação destacou-se na história da
imprensa brasileira pelo seu projeto gráfico e, mais precisamente, pelo uso inovador de
reproduções de imagens fotográficas. N’O Besouro, Bordalo posicionou-se a respeito dos
problemas do país, tais quais a escravidão, a política monarquista, a seca no Nordeste,

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entre outros. A polêmica atuação do ilustrador rendeu-lhe problemas que culminaram


com a sua volta para Portugal, em 1879.
Nesse sentido, procurou-se analisar as aparições do Zé Povinho n’O Besouro, com o
objetivo de identificar as funções do personagem no âmbito do projeto gráfico de Rafael
Bordalo Pinheiro para o Brasil. Além de quantificar tais figurações, pretendeu-se
averiguar como se deu a adaptação de uma criação ligada ao contexto português, no
Brasil. Zé Povinho também se difundiu entre os ilustradores brasileiros, sendo recriado
em diversas publicações periódicas. Para compreender este processo de transfiguração é
fundamental analisar as recriações do personagem que o próprio Bordalo executou em O
Besouro, nos seus jornais cariocas, comentando e encenando as questões do Brasil
imperial. (ST10)

Darlan Damasceno (Mestrando)


Religiosidade e fronteiras simbólicas: A construção da identidade ucraniana na colônia de
Rio Claro - Paraná 1895-1950
Os fenômenos migratórios colocam em evidência para os historiadores questões
referentes à identidade, práticas e representações de determinadas etnias. Ao pensarmos
as grandes levas migratórias ocorridas no Brasil durante o final do século XIX e início do
XX, delimitamos para este estudo a análise da imigração dos povos denominados
“ucranianos” para o estado do Paraná, mais especificamente localizado na colônia de Rio
Claro, atual distrito do município de Mallet. Nesse contexto, temos por objetivo
compreender como a identidade ucraniana foi construída historicamente nessa
localidade durante os anos das maiores levas migratórias para a região (1895-1950). Nossa
hipótese baseia-se na delimitação da religiosidade deste grupo como principal fator de
diferenciação frente ao “outro”, através da constituição de fronteiras simbólicas. A
presença da igreja católica de rito ucraniano na região oferece um conjunto de práticas e
representações próprias que compõem as relações e a vivência desta população, assim
como, elemento demarcador da constituição de um campo onde a identidade ucraniana-
brasileira é constantemente negociada frente a diversos outros grupos étnicos que
integram a região centro-sul do estado do Paraná, tais como poloneses, caboclos e
indígenas. Em termos teóricos e conceituais, optamos por utilizar os conceitos de
práticas e representações propostos por Roger Chartier e os conceitos de campo e poder
simbólico apontados por Pierre Bourdieu, para possibilitar uma melhor compreensão de
como as disputas em torno da identidade desta população foram historicamente
construídas. Como fontes, utilizaremos depoimentos dos primeiros imigrantes a se
estabelecerem na colônia de Rio Claro e de seus descendentes. (ST39)

David William Aparecido Ribeiro (Doutorando)


Jaime Cortesão, museólogo: história, imagem e modernidade na "Exposição de história de
São Paulo no quadro da história do Brasil" (1954-1955)
O intelectual português Jaime Cortesão (1884-1960), banido pelo salazarismo de seu país,
viveu no Brasil entre 1940 e 1957. Na Biblioteca Nacional e no Ministério das Relações
Exteriores, instituições em que trabalhou, Cortesão esteve em contato com documentos
que lhe permitiram compor uma história da “formação territorial do Brasil” com o
extenso recurso à cartografia histórica. A serviço do Itamaraty, Cortesão viajou a
Portugal, quando também reuniu documentos para a comissão organizadora das
comemorações do quarto centenário paulistano, trabalho este que lhe rendeu o convite
para a montagem de uma exposição. Realizada entre 1954 e 1955 no pavilhão hoje
conhecido como Oca, no Parque Ibirapuera, a "Exposição de história de São Paulo no
quadro da história do Brasil" apresentou documentos como a Carta de Caminha e obras
de artistas do modernismo brasileiro e também do português, contando com a
assistência de pessoas que deixaram suas marcas nos museus paulistanos. Ao discutir os

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 59

usos da imagem para narrar a história de São Paulo na exposição comemorativa, esta
comunicação busca também abordar o trabalho de museólogo exercido por Cortesão,
que após o seu retorno a Portugal continuou a dedicar-se a esse campo, uma das
expressões da escrita histórica "tridimensional". (ST18)

Deivid Aparecido Costruba (Doutorando)


Por um feminismo estratégico: Júlia Lopes de Almeida e o relato de viagens em Cenas e
Paisagens do Espírito Santo (1912).
Este texto tem como objetivo averiguar como a escritora Júlia Lopes de Almeida
incentivou seus leitores a conhecer o Brasil. Segundo a escritora, precisava-se não só
fazer propaganda na Europa, como também no próprio país. Tendo este fito em comum,
Júlia Lopes, em uma de suas viagens ao Espírito Santo, realizada no ano de 1912, relatou
sua rotina diária, criticou a devastação das florestas com a construção da estrada de ferro
da Leopoldina, além de tecer comentários elogiosos ao governador do estado do Espírito
Santo à época, Jerônimo Monteiro. De acordo com as suposições da pesquisa em curso,
cabe destacar, que o “feminismo estratégico” mencionado acima, faz alusão à forma
como Júlia Lopes consegue se inserir na seara intelectual masculina, ao produzir textos
que compartilhavam dos mesmos valores patriarcais. (ST45)

Deividi De Santana Silva (Pós-graduando)


Publicidade e Consumo Infantil: Estratégias publicitárias e resultados econômicos (São
Paulo, 1969 a 1978)
Uma das marcas das crianças no Brasil contemporâneo é a Cultura do Consumo, como
elemento distintivo, das mais variadas formas de sociabilidade infantil. Entre os fatores
fundamentais para consolidação de uma infância marcada pelo Consumo de bens e
produtos e novas vidências foram às transformações no espaço Público que, entre nós,
tem sido marcada por transformações fortemente influências por viés mercadológico,
sobretudo, a partir da segunda metade do século XX nos centros urbanos. Deste modo, a
presente apresentação irá mostrar os resultados da pesquisa de mestrado que apontam a
proeminência do nicho de mercado publicitário que percebe as crianças como
consumidores “autônomos” como elemento fundamental para consolidar, entre os
pequenos, a famigerada Sociedade do Consumo. Cabe dizer, que era apenas do ponto de
vista publicitário que as crianças eram percebidas como consumidores “independentes”,
pois do ponto jurídico e social elas eram tuteladas pelos adultos que na pratica eram os
que detinham a o poder aquisitivo e a decisão se a criança deveria ou não consumir
determinado bem ou mercadoria. Irei apresentar a analise dos resultados dos debates
publicitários, realizados nos mais variados veículos, na cidade de São Paulo entre 1969 e
1978, período de intenso debate publicitário, que culminou a criação do Conselho
Nacional de Autoregulamentação, o Conar, em 1978 - órgão responsável por regular a
publicidade infantil-, bem como a Cultura Visual da Publicidade Infantil impressa que se
consolidou na cidade de São Paulo no período em questão. (ST01)

Denilson Botelho De Deus (Pós-doutor/UNIFESP)


Sobre objetividade e isenção no jornalismo da Primeira República
Considerando a participação de Lima Barreto (1881-1922) em diferentes periódicos
cariocas da Primeira República (como o Rio-Jornal, Braz Cubas, Correio da Manhã,
Revista Souza Cruz, Gazeta da Tarde, Argos e A Voz do Trabalhador), esta comunicação
aborda o processo de modernização da imprensa, notadamente o fenômeno que se pode
denominar como “despersonalização” - ou seja, a publicação de textos sem assinatura,
com o propósito de conferir mais força, objetividade e homogeneidade aos jornais. Como
se trata de um processo histórico conflituoso, essa perspectiva é confrontada por críticas,
que permitem formular uma compreensão do papel da imprensa e do jornalismo na

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 60

sociedade brasileira contemporânea. Adota-se aqui a perspectiva teórica da história


social como instrumento de análise tanto do texto jornalístico quanto da literatura - que
é utilizada como fonte, nos moldes preconizados por Raymond Williams. No que tange à
imprensa, parte-se do princípio de que é necessário operar um deslocamento no sentido
de deixar de considerar jornais e revistas apenas como fonte, para tomá-los também
como objeto de investigação. Já quanto à literatura, entende-se que ela não é apenas
reflexo da realidade, nem expressão artística que guarda distanciamento do seu contexto
de origem, visto que inevitavelmente atua sobre os indivíduos e participa do movimento
da história. Desta forma, ao analisar alguns textos ficcionais, percebe-se a formulação de
um contraponto ao discurso hegemônico da isenção e imparcialidade que se constrói na
imprensa nas décadas iniciais do século XX no Brasil. (ST36)

Denise Aparecida Soares De Moura (Doutora/UNESP)


O acervo da Mapoteca e do Arquivo Histórico do Itamaraty: materiais para uma
abordagem ibérica e atlântica da História do Brasil-colônia.
Dentro da proposta deste Simpósio Temático de discussão de arquivos e documentos
para a história do Brasil colônia esta comunicação pretende apresentar o potencial do
acervo da Mapoteca e do Arquivo Histórico do Itamaraty para a realização de pesquisa
em perspectiva ibérica e atlântica do Brasil-colônia no século XVIII.
Com a dissolução da união entre as duas Coroas ibéricas, em 1640, as conexões entre
Portugal e Espanha e seus domínios na América não foram interrompidas.
Contrariamente, elas prosseguiram fortalecidas em virtude dos desdobramentos de suas
disputas territoriais no âmbito da diplomacia, do comércio à rigor tido como ilegal, mas
amparado em várias brechas institucionais, da troca de conhecimentos geográficos do
território da América, da mobilidade espontânea ou forçada de suas populações e da
comunicação entre seus funcionários ultramarinos.
A historiografia brasileira, contudo, tende a focalizar estas conexões em dois recortes
cronológicos específicos: durante a união entre as duas Coroas (1580-1640) e o das
vésperas da independência (1808-1822). Por outro lado, o século XVIII tendeu a ser
entendido predominantemente do ponto de vista dos impactos político-administrativos,
econômicos e sociais advindos da exploração mineral.
O acesso à documentação mais diretamente relacionada à política internacional da
Coroa Portuguesa no século XVIII contribui, contudo, para que a abordagem da história
do Brasil neste período seja mais ampla e conectada à história dos outros domínios
hispânicos situados na América, como os do vice-reinado do Peru e do Rio da Prata.
Pesquisas que venho realizando com coleções de documentos mantidos no Arquivo e
Mapoteca do Itamaraty para o projeto FAPESP intitulado “Conhecimento da bacia
hídrica dos sertões do Tibagi e diplomacia na formação dos limites meridionais do Brasil
(1768-1773)” têm me mostrado que estas instituições conservam um vasto acervo de
mapas, plantas, desenhos, cartas e correspondência diplomática que possibilitam
abordar a história do Brasil-colônia ao longo de todo o século XVIII nesta perspectiva.
Na historiografia brasileira alguns autores fizeram uso de documentos deste acervo. para
investigar temas do século XVIII. Contudo, a rica e variada coleção de documentos do
Itamaraty ainda é pouco explorado pela pesquisa histórica sobre o Brasil-colônia, pois
pode-se considerar que ainda paira sobre ela a herança de uma “cultura do sigilo”,
conforme indicada por José Honório Rodrigues. O uso de sua documentação, munido de
referências teóricas da história atlântica promete avanços na história do século XVIII do
Brasil do ponto de vista temático e da abordagem, como será indicado nesta
comunicação. (ST32)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 61

Desire Luciane Dominschek Lima (Doutoranda)


O jornal “o escudo” - o uso do impresso para a prática de formação técnica e formação
ideológica
O objetivo primeiro do jornal “O ESCUDO” foi a aplicação prática dos alunos/aprendizes
no curso de artes gráficas da escola SENAI de Curitiba, desenvolver o jornal desde sua
editoração até a impressão eram exercícios práticos da oficina, mas o jornal além de
exercício da prática apresentava forte conteúdo ideológico sobre a formação profissional
dos aprendizes. O Jornal circulou por 44 anos, a publicação do periódico indica uma boa
organização da Associação de Alunos do SENAI, a fragilidade da organização da A.A.S.
parece ter também influência a organização dos redatores do jornal, que até a década de
1970 é massivamente composta por alunos. “ O ESCUDO”, cumpriu por muito tempo
com seu papel de reproduzir as ideologias hegemônicas da escola SENAI, mas não
conseguiu se alinhar a revolução tecnológica, e com o acesso a internet a produção do
jornal e a participação dos alunos foi secundarizado.“O ESCUDO” um jornal da
Associação dos Alunos da escola SENAI-PR que foi publicado entre as décadas de 1940 e
1990, e constituiu-se como veículo de comunicação e expressão dos alunos e da
associação, representativo de ideias em um período longo de 44 anos, através dos temas
abordados no jornal conhecemos um pouco da cultura institucional do SENAI da cultura
Curitibana e Paranaense. (ST29)

Diego Batista Penholato (Mestrando)


O FUNTEC e a Modernização das Universidades Brasileiras
Em julho de 1964, poucos meses após o golpe civil-militar de março daquele ano, tomou
posse na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico – (BNDE), o
economista José Garrido Torres. Um dos apoiadores do movimento golpista, através de
sua atuação no IPES, Garrido Torres implementou uma série de transformações no
banco. Entre essas mudanças, a criação do Fundo de Desenvolvimento Técnico-
Científico – (FUNTEC), feito ainda em 1964, explicitou a importância que os
investimentos na área de educação, sobretudo no ensino superior, passaria a ter daquele
momento em diante. O presente trabalho buscará explicitar a importância do referido
projeto para ampliação dos cursos de pós-graduação no Brasil, bem como a relação que a
implementação do projeto possuía com os pressupostos políticos e intelectuais que José
Garrido Torres defendeu antes e depois do do golpe de 1964. Avaliaremos de que
maneira a criação do FUNTEC foi fruto de mudanças na concepção dos investimentos
daquele Banco, as dificuldades de implementação do projeto, sua importância para
capacitação profissional dos profissionais na área de engenharia e os debates em torno de
sua expansão para além dos cursos das áreas tecnológicas que passou a ser cogitado após
os primeiros anos. (ST29)

Diego Becker Da Silva (Mestrando/USP)


Comunistas e campesinato: a experiência de Nestor Vera no movimento camponês
Segundo a nova narrativa hegemônica do Brasil atualmente o campo e a agricultura são
partes de um setor moderno e competitivo na escala mundial que contribui para a ordem
e progresso do país. Esta narrativa faz parte de uma longa luta de formação da grande
lavoura, algo que foi especialmente intensivo a partir do final da II Guerra Mundial. Foi
neste período que se formou no Brasil um movimento camponês que permanece vivo até
hoje, apresentando visões alternativas de um campo menos monopolizado pelo capital.
Um dos protagonistas mais presentes durante as três décadas iniciais deste movimento
foi o camponês Nestor Vera, militante destacado do Partido Comunista do Brasil (PCB)
para atuar no meio rural. Até seu assassinato em 1975 pela ditadura civil-militar, em seus
anos de luta política Vera foi presidente de uma Liga camponesa, membro do Comitê
Estadual do PCB, dirigente do jornal Terra Livre, secretário da ULTAB, organizador do

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 62

Congresso de Belo Horizonte (1961), fundador e tesoureiro da CONTAG. Com o presente


trabalho pretendemos problematizar a narrativa atual da hegemonia do agronegócio
com um estudo da trajetória política de Vera, até agora pouca reconhecida na
historiografia brasileira.
A periodização proposta é de 1946 a 1975, se concentrando em três períodos que
condicionaram a dinâmica do desenvolvimento da ação política e pensamento de Nestor
Vera e assim o movimento camponês, começando por 1946 a 1954 marcado pela luta em
torno das Ligas Camponesas e Associações rurais, a qual Vera teve participação na Liga
Camponesa de Santo Anastácio, momento que teve forte apelo ao enfrentamento direto
ao latifúndio, há também a mudança da política do PCB de luta armada para a busca dos
direitos trabalhistas, momento da formação da ULTAB; depois 1954 a 1964 marcado pela
atuação da ULTAB, o qual tem por proposta a sindicalização rural, e que marca uma
radicalidade no discurso e uma prática voltada mais as questões trabalhistas e de
reformas, além da formação e dominação da CONTAG no meio camponês; 1964 a 1975, já
emergido na ditadura civil-militar brasileira Nestor Vera viu o movimento camponês se
desfalecer, ser colocado na clandestinidade, dos enfrentamentos e rachas dentro do
partido, surgimento de outras formas políticas de organização e luta armada, passou para
uma luta democrática reforçada pelos sucessos eleitorais em 1974, até seu assassinato em
abril de 1975. (ST40)

Dirceu Casagrande Junior (Doutorando)


Gérman A. De la Reza: estudos historiográficos sobre o Ciclo Confederativo e a História da
Integração Latino Americana no século XIX
As intenções de promover a integração das nações latino americanas imediatamente
após os processos de independência das colônias da América Espanhola, datam do início
do século XIX. Os movimentos de integração foram identificados pela historiografia
latino americana e ficaram conhecidos como Ciclo Confederativo. De acordo com o
historiador mexicano Gérman A. de la Reza, autor de vários estudos e ensaios sobre o
tema, o Ciclo Confederativo latino americano se articulou em torno de três processos ou
etapas: a dos tratados confederativos da Gran Colômbia até o Congresso do Panamá, em
1826; do pacto de família até o Congresso de Lima de 1846-1847; e do Tratado Continental
de 1856 até o Segundo Congresso de Lima de 1864-1865. Sua importância reside no
esforço de responder a ameaças externas aos processos de independência na região a
partir da formação de um exército comum, bem como, de um congresso de nações com
faculdades arbitrais, a fim de evitar que os participantes da aliança confederativa na
América Latina entrassem em guerras uns contra os outros. O Ciclo Confederativo latino
americano porém, malogrou coincidentemente com a ocorrência das primeiras guerras
de conquista entre os hispano-americanos e o florescimento hegemônico do Estados
Unidos da América na segunda metade do século XIX, entre outros fatores. Os objetivos
desse trabalho são conhecer e apresentar os principais aspectos e elementos que
configuram o Ciclo Confederativo e a História da Integração latino americana. (ST32)

Dora Shellard Correa (Doutora/UNIFIEO)


O Estado, as agências internacionais e os camponeses na luta pela água no Cabo Verde.
O arquipélago do Cabo Verde uma extensão do Sahel continental, como o próprio Sahel,
é um país de clima árido e semi-arido com escassos recursos hídricos. Está exposto a
períodos de seca que resultaram em crises alimentares seríssimas no passado. Estima-se
que nos anos de 1940, 45276 pessoas morreram de fome, o que representava por volta de
25% da população residente naquela década. Vários estudos têm ressaltado
positivamente as medidas legais e práticas empreendidas após a independência de
Portugal em 1975, que promoveram a construção de unidades de dessalinização a água
do mar, o reflorestamento, a valorização dos recursos hídricos e a gestão racional da

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 63

água. Buscou-se reconstituir a flora das ilhas e minorar os efeitos das secas e da fome.
Nesta comunicação iremos relatar essas ações e discutir o papel do Estado, das agências
internacionais e dos camponeses nos resultados obtidos. (ST37)

Douglas Henrique De Souza (Mestrando)


“Pela Polícia”: um estudo dos casos de homicídio veiculados no jornal A Notícia (1935-1939)
A partir do levantamento dos casos de homicídios reportados em A Notícia (1935-1949),
jornal sediado no município de Assis, a comunicação pretende analisar as colunas
policiais de circulação na primeira fase do semanário. Comparativamente aos Processos
Crimes da Comarca, o trabalho delineará o perfil dos envolvidos presentes nas notas e
investigará os critérios de seleção do impresso, ao informar determinadas ocorrências da
localidade em omissão às outras demais, complementando a avaliação dos níveis de
impunidade daqueles casos que não desfecharam em inquérito. Para tanto, salientam-se
alguns elementos pertinentes a serem indagados nas notícias: a classe social dos
acusados e das vítimas; o local do crime; os precedentes e as ações situacionais do delito,
além da distinção dos fatores inusitados agravantes da tragédia, aspecto decisivo para o
uso estratégico da linguagem sensacionalista. De antemão, sabe-se que nem todos os
acontecimentos tiveram os mesmos espaços e atenções dedicadas nas páginas do
periódico, preenchidas aliás em sua maioria por assuntos da esfera política, um dos
motes editoriais da publicação. A imprensa assisense, nesse sentido, fundou-se sobre as
bases partidárias dos grupos dirigentes da cidade, característica marcante de A Notícia,
representante do Partido Constitucionalista (PC) que rivalizou com o Jornal de Assis
(1920-1963), defensor da ideologia do Partido Republicano Paulista (PRP). O público
(e)leitor depositava a confiança em um dos hebdomadários na leitura de notícias
persuasivas e revestidas da quimérica imparcialidade e neutralidade propalada pelas
folhas, princípios justificativos do discurso de salvaguarda dos interesses populares
colocados em pauta. A criminalidade do município, problema enfrentado pelos
moradores que não teve igual proporção aos outros elencados em A Notícia, sinalizava o
processo da venda de uma imagem pacificada de Assis, desejosa no projeto de
valorização do progresso disseminado no imaginário da população pelo jornal.
Entretanto, as contradições da sociedade dificilmente seriam relegadas ao absoluto
silêncio. Em A Notícia, totalizaram-se 7 casos de homicídio, dos quais apenas 2 tiveram
envolvimento de mulheres. A coluna variavelmente denominou-se “Pela Polícia”, tal
como indicado no título, e teve aparições irregulares até ser substituída pela nova seção
“Justiça Local” que destinou formato diferente ao conteúdo ali registrado. Momentos
antes da decretação do Código Penal de 1940, os idos anos de 1930 matizaram no Brasil
um quadro de instabilidades políticas, resultado dos antagonismos travados entre as
forças getulistas propugnadoras de iniciativas modernizadoras e os resquícios
persistentes dos mandonismos regionais herdados da Primeira República. (ST34)

Douglas Maris Antunes Coelho (Pós-graduando)


Feitiçaria e cultura popular na Obra de Carlo Ginzburg
O presente trabalho tem por objetivo abordar e analisar as reflexões sobre feitiçaria e
cultura popular desenvolvida pelo historiador italiano Carlo Ginzburg durante os
primeiros anos de sua produção intelectual (1961-1972), abarcando suas principais obras
desse período, I benandanti (Os andarilhos do bem, 1966), Il nicodemismo. Simulazione
e dissimulazione religiosa nell'Europa del Cinquecento (Nicodemismo. Simulações e
dissimulações religiosa na Europa do Quinhentos, 1970) e Folklore, magia, reglione
(Folclore, magia e religião, 1972), atentando-se aos seus interlocutores, a recepção crítica
e a emergência de uma prática de pesquisa que marcou a historiografia do século XX.
(ST18)

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 64

Eder Adriano Pereira (Mestrando)


Um estudo sobre o contexto das leis de amparo ao menor (1940-1990): o crime de sedução
de menores na região de Assis e a relação de poderes entre a justiça, o réu e as vítimas.
Esta pesquisa pretende pela análise de fontes processuais do CEDAP - Centro de
Documentação e Apoio a Pesquisa situado na UNESP/ Assis, distribuídos pela natureza
catalográfica do 3º Ofício (Inquéritos e Processos Criminais), apresentar o tratamento
judicial dado aos réus e as vítimas inseridos no crime de sedução de menor no período
anterior a estruturação do Estatuto da Criança e do Adolescente na Região de Assis. Para
esse fim, utilizaremos um corpus de 17 processos e inquéritos datados entre: 1940 a 1990.
Estes, previamente escolhidos no acervo da Comarca Judicial do CEDAP, nos
evidenciarão em suas linhas gerais de documentação, quem eram esses réus (familiares
ou não) e como a justiça encaminhava os casos dentro da conjuntura das leis. Para isso,
os dezessete processos já catalogados ou em fase de transcrição deverão passar por uma
ampla análise de leituras, reflexões e questionamentos inserindo os discursos processuais
ao âmbito jurídico e social da época em abordagem. (ST01)

Eder Aparecido Ferreira Sedano (Mestrando)


Bezerra da Silva: Problemáticas do cotidiano nos morros cariocas, nas décadas de 1980 e
1990.
O presente trabalho, que se concretizará em dissertação de mestrado, tem o intuito de
pesquisar algumas questões do cotidiano nos morros cariocas, nas décadas de 1980 e
1990, problematizando a produção artística do sambista Bezerra da Silva. Entre outras
questões, sua obra expõe o cotidiano dos denominados “excluídos da história”,
personagens antes ignorados pela historiografia tradicional de cunho positivista, que na
obra de Bezerra da Silva se fazem representar pelos moradores dos morros da cidade do
Rio de Janeiro, no período entre as décadas de 1980 e 1990.
Partindo da história local (micro-história) pretende-se expandir a problematização da
pesquisa para o contexto histórico e social brasileiro no período citado, seguindo a
metodologia da História Cultural, surgida com as renovações que marcaram
decisivamente a historiografia, ao final da década de 1960, promovendo a consolidação
de uma nova tendência historiográfica e a expansão dos tipos de fontes, documentos,
sujeitos e dos objetos na pesquisa histórica. A história Cultural é categorizada como
pertencente à Nova História, descendente direta do grupo de historiadores franceses dos
Annales. É também vinculada a alguns trabalhos do renovador grupo de historiadores
sociais ingleses, que possuem papel importante na expansão dos horizontes
historiográficos.
No período entre as décadas de 1980 e 1990, o intérprete Bezerra da Silva selecionou e
reuniu letras musicais e melodias de inúmeros compositores – em sua grande parte,
moradores dos morros cariocas e das áreas periféricas da Baixada Fluminense –
desconhecidos do grande público, para juntar às músicas de sua autoria na formação do
seu repertório e na gravação dos seus discos. Essas músicas se inserem no contexto
citado como formas de protesto e de denúncia contra a precariedade vivida pela
população carente dos morros cariocas. Mais do que isso, expressam a visão de mundo,
os anseios, os descontentamentos, o cotidiano e as táticas de sobrevivência e resistência
desses moradores e da população pobre de todo o país, gerando uma grande
identificação desse nicho populacional com o artista e com a sua obra. Essa própria
população divulgará o seu repertório pelos quatro cantos do território brasileiro.
A obra de Bezerra da Silva nas décadas de 1980 e 1990 será priorizada como fonte
histórica, abrangendo as letras de suas músicas, melodias e as imagens contidas nas
capas de LP’s e CD’s. Além disso, serão utilizados documentários, entrevistas em jornais
e revistas, com destaque para o documentário “Onde a coruja dorme”, dos diretores
Márcia Derraik e Simplício Neto. Esse documentário possui depoimentos gravados no

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 65

fim da década de 1990 do artista Bezerra da Silva e dos compositores que lhe
acompanhava. (ST26)

Eduardo Amando De Barros Filho (Doutorando)


As bases para a criação da Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa
A inauguração oficial da televisão no Brasil ocorreu no dia 18 de setembro de 1950,
quando foram ao ar as primeiras imagens da TV Tupi, canal 3, de São Paulo, segunda
emissora da América Latina, cujo concessionário era Assis Chateaubriand. Com base no
padrão televisivo norte-americano, televisão brasileira nasceria e se desenvolveria em
grande medida a partir da iniciativa privada e sob o modelo comercial. Apesar do
estabelecimento de um modelo ancorado em uma programação que priorizava o
entretenimento, visando à audiência e, principalmente, aos rendimentos das emissoras,
desde o início dos anos de 1950, existiram iniciativas voltadas à transmissão de
programas educativos, ainda que com espaço espaços reduzidos na composição das
grades de programação televisivas. No final da década de 1950 e início da de 1960, além
do aumento de programas educativos, principalmente por meio de parcerias entre as
emissoras privadas e universidades e/ou poder público, embora ainda em número
ínfimo, quando comparado aos demais gêneros, surgiram as primeiras emissoras
educativas. Alguns anos adiante, as definições e iniciativas em direção a uma televisão
educativa foram encampadas pelo Estado, então, sob o mando do regime militar. Estes
governos elaboram projetos para incentivar a implementação de emissoras educativas e
intentar constituir uma rede de tais emissoras sob o comando do poder federal. Nessa
direção, em 1967, foi criada a Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa (FCBTVE),
com vistas a atuar como centro produtor e distribuidor de programas educativos.
Portanto, está comunicação tem como objetivo analisar historicamente os debates e
iniciativas advindos da imprensa, empresários televisivos, particulares, universidades e
poder público, as quais possibilitaram à constituição de alternativas ao modelo televisivo
comercial, dando bases para a criação da FCBTVE e para o projeto de uma rede oficial de
emissoras educativas. (ST34)

Eduardo Augusto Costa (Doutor/UNICAMP)


Três publicações do IPHAN: Diálogos entre fotografias e patrimônios.
O artigo ‘A Fotografia no Brasil’, publicado em 1953; o número 27 da Revista do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, publicado em 1998 e dedicado exclusivamente
ao tema da fotografia; e o número 4 dos Cadernos de Pesquisa e Documentação do
IPHAN, publicado em 2008 e dedicado à “fotografia na preservação do patrimônio
cultural” formam um pequeno conjunto de excepcional relevância para o entendimento
da fotografia no interior do IPHAN. Apesar de alguns destes textos terem sido objeto de
reflexões e avaliações, a associação entre eles ainda não foi tema de investigação. Essa
questão se revela importante na medida em que se identifica que estas são as únicas
publicações editadas pelo IPHAN com dedicação exclusiva ao tema da fotografia,
caracterizando-as, portanto, como documentos contundentes das abordagens, valores e
entendimentos associados à fotografia na sua relação com o patrimônio. É, portanto,
oportuno identificar certas características e particularidades individuais de cada uma
destas publicações, assinalando aspectos chaves para a compreensão da fotografia em
diálogo com as noções de patrimônio. Noções que funcionaram e funcionam como
balizas para os debates patrimoniais realizados por especialistas, historiadores e
arquitetos. (ST10)

Eduardo Giavara (Doutor/UFU)


Movimento ambiental em Portugal: novos programas e novas agendas

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 66

A luta ambiental nunca encontrou espaço fácil em meio a política do Estado Novo
português, a Liga para a Proteção da Natureza – LPN – criada em 1948, tinha como
objetivo denunciar o processo de destruição da Serra da Arrábida, situada na península
de Sétubal. A entidade desempenhou papel importante nesse processo de
conscientização da degradação do território, mas sempre circunscrita em sua atuação. Ao
longo de sua existência desempenhou papel conservacionista e a militância ambiental e
ações de critica mais contundente não encontrava respaldo do governo. Em abril de 1974,
com o final do regime e a iminente crise energética colocaram o novo governo diante de
novas demandas para que o país pudesse se modernizar e integrar o bloco europeu,
dentre essas novas exigências estava à necessidade de uma nova orientação para
agricultura e a produção de recursos energéticos. Essas exigências pensaram a
comunidade portuguesa e grupos ambientalistas, cientes do perigo, engrossavam as
reclamações em torno das questões ambientais. As entidades se multiplicaram, tendiam
a discursos mais radicalizados, alguns libertários, outros associados ao marxismo, no
entanto o mais expressivo foi o Movimento Ecológico Português – MEP –, sob a liderança
de Afonso Cautela, tinha como pauta as denúncias do uso da energia nuclear e os
resíduos radioativos como maior perigo. Essa investigação está centrada na produção
bibliográfica das duas entidades, o período de catalogação se estende de 1948, criação da
LPN, até o ano de 1977, momento que se encerra o periódico Frente Ecológica do MEP.
(ST37)

Eduardo Jose Afonso (Doutor/UNESP-Assis)


Como se cria um estereótipo : Walt Disney no Brasil
O artigo que ora apresentamos busca retratar, na década de 40 do século XX, como os
EUA articularam a política de boa vizinhança na construção de um discurso de amizade
e “reconhecimento”. Tomamos, aqui, a visita de Walt Disney ao Brasil, em agosto de 1941,
e a criação de uma figura, que “representasse” o brasileiro comum, o Zé Carioca, para
discutir os meios usados pelo governo norte-americano de então, para angariar as
simpatias da sociedade brasileira para uma causa que interessava , naquele momento,
muito mais os interesses estadunidenses no Brasil do que `a própria sociedade daquela
época. (ST16)

Eduardo Norcia Scarfoni (Doutorando)


Democracia e perspectivas educacionais brasileiras pela ótica dos dirigentes do ensino
privado no XX Congresso Nacional dos Estabelecimentos Particulares de Ensino - CONEPE
(1985)
Esse trabalho corresponde a um recorte temático de uma pesquisa de doutorado em
desenvolvimento que examina o processo de privatização do ensino no período da
ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Os Congressos Nacionais dos
Estabelecimentos Particulares de Ensino (CONEPEs) têm início em 1944 e objetivavam
debater questões educacionais e o papel da escola particular, para articular uma atuação
conjunta dos dirigentes de estabelecimentos particulares de ensino. Diversas questões
sobre a educação nacional eram selecionadas e debatidas nesses encontros, a partir dos
interesses desses sujeitos, que as entendiam como cruciais para intervir no
desenvolvimento educacional do país. A Federação Nacional dos Estabelecimentos de
Ensino (FENEN) era a principal organizadora desses congressos, centralizando suas
ações, sempre buscando fortalecer os interesses das escolas privadas. Diferentes
posicionamentos sobre a educação nacional foram debatidos nos CONEPEs, sendo
possível observar as diferenças entre as posições e opiniões ali debatidas, desde membros
da Associação de Educação Católica (AEC), até empresários sem qualquer vínculo
confessional. Esses sujeitos se constituíam como uma força social ativa, que em
momentos decisivos, se mantinham coesos para defender seus interesses.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 67

Os dirigentes de estabelecimentos particulares de ensino são entendidos aqui como


intelectuais que atuam diretamente para homogeneizar sua classe. Não no sentido que
todos se tornarão iguais, mas que em determinados momentos defenderam como em
uma frente única interesses comuns. Tomamos como base as noções de Gramsci quando
este coloca que não existe o não intelectual, todos veem de uma atividade profissional
específica, o que se altera são os diversos graus e funções da atividade intelectual. As
relações sociais que compõem a vida de cada pessoa e as condições de trabalho em
determinadas relações interfere diretamente no conceito de intelectual de Gramsci (2011)
onde esse “[...] conjunto do sistema de relações na qual estas atividades se encontram no
conjunto geral das relações sociais”.
Com isso, o objeto central do presente artigo é a conferência Democracia e Perspectivas
Educacionais Brasileiras, pronunciada por Claudio de Moura Castro, à época membro da
Secretaria de Educação Superior do Ministério de Educação e Cultura, apresentada no
XX CONEPE, realizado na cidade de Florianópolis, no estado de Santa Catarina, entre os
dias 14 e 18 de julho de 1985. A temática central desse congresso foi “Democracia e
Liberdade de Ensino” em um momento em que o país vivia em intensa disputa entre
sujeitos ligados a educação pública e privada devido a sua abertura para o regime
democrático e a elaboração da nova Constituição Federal. (ST29)

Eduardo Silveira Netto Nunes (Doutor/Unicastelo)


Representações da infância e da política em Cuba contemporâneas a partir da reflexão
sobre o filme Numa Escola de Havana
As vivências infantis e as representações sobre elas servem para inúmeros propósitos nos
discursos dos adultos. Apresentar ou melhor, construir retratos de experiência de
crianças tem sido utilizado como um recurso narrativo para, em diferentes
circunstâncias, se oferecer olhares críticos à sociedade na qual se vive. O filme Numa
Escola de Havana, ao retratar a experiência de uma criança estudante (o personagem
Chala), procura construir uma representação da infância popular de Havana, Cuba, em
interação com o sistema cubano, no caso focado a partir de uma Escola que representaria
as contradições/dilemas do regime de Cuba e que estaria expresso nas experiências da
professora Carmela. Com esse trabalho analismos as representações construídas sobre a
infância cubana e a relação dessa infância representada com os olhares dos diretores a
respeito da sociedade e do regime político cubano contemporâneo (2014). (ST01)

Elaine Caramella (Doutora/PUC-SP)


História, História da Arte e historicidade na concepção de imagem
Este texto objetiva estabelecer relação entre História e História da Arte, diferenças
epistemológicas e contaminações, a partir da cultura da imagem. Elege para estudo obras
de diferentes tempo e espaço, mediado por uma rede de conceitos de Didi-huberman,
Walter Benjamin, Derrida. A arte imagética como documento História, mas também
como processo de deformação e produção da diferença peça ação trabalho escritural do
artista, construindo concepções de historicidade. (ST10)

Elaine Lourenco (Doutora/UNIFESP)


De aluno a professor: relatos de jovens docentes de História
Os estudos de currículo chamam a atenção para a diferenciação entre o currículo
prescrito e o currículo em ação. De maneira análoga, podemos considerar as diferenças
entre a prescrição e prática do currículo de formação inicial dos professores nos cursos
de licenciatura e sua expressão nas práticas cotidianas dos jovens docentes egressos
destes cursos. O que o presente trabalho examina, por meio de entrevistas de História
Oral, é como egressos do curso de História da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp) avaliam sua formação acadêmica em relação a suas práticas profissionais, elas

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 68

próprias ainda bem recentes. Tal balanço se reveste de particular importância, uma vez
que o curso iniciou suas atividades em 2007 com um projeto pedagógico que integrava a
formação do bacharel e do licenciado; além disso, o Estágio Supervisionado é assumido
como uma modalidade de pesquisa, que parte da análise da cultura escolar da unidade
de campo e, a partir daí, propõe um projeto de regência adequado à situação. Desta
forma, espera-se perceber como se constituiu o saber desses jovens docentes, como este
se expressa no cotidiano escolar, qual relação estabelecem com os currículos prescritos,
com os materiais escolares, com os outros docentes e, inclusive, o impacto da experiência
de estágio em sua atuação docente. Busca-se contribuir, desta forma, para o
entendimento dessa experiência em particular, bem como refletir de maneira mais geral
sobre o papel das licenciaturas na formação de professores. (ST05)

Elena Schembri (Mestre)


Luce Fabbri e a revista “Studi Sociali”, uma história de contracondutas.
A história de Luce Fabbri e de sua família, constrangida a fugir da Itália pelas
perseguições políticas após a instauração do regime fascista, possui muitos pontos em
comum com a história de tantos fuoriusciti que fugiram da ditadura e se refugiaram em
países mais ou menos distantes da península italiana. A revista “Studi Sociali, Rivista di
Libero Esame” publicada em Montevidéu de 1930 a 1946, foi fundada por anarquistas
italianos exilados em Uruguai. Nos primeiros cincos anos de sua vida, a publicação em
língua italiana foi redigida por Luigi Fabbri, figura relevante do anarquismo
internacional e profundo amigo de Errico Malatesta, enquanto após o 1935 e a morte do
mesmo fundador, passou a ser dirigida pela filha, Luce. Este segundo periódo, sobre o
qual pretendemos focar nossa atenção é também o tema da minha pesquisa de
doutorado, um trabalho através do qual o objetivo é reconstruir os aspectos biográficos
da vida da diretora e seu papel de militante anarquista, exilada política e intelectual, em
suma, uma história de contracondutas, conforme o termo foucaultiano, e de resistências
aos poderes repressivos como aquele fascista. Luce Fabbri (1908-2000), prolifica escritora
e defensora de um anarquismo pedagógico de cunho liberal, foi e ainda é relativamente
pouco conhecida no pensamento libertário internacional e acadêmico. Apesar disso, seu
trabalho como escritora e diretora foi muito importante no mundo do fuoriuscitismo de
marco anarquista e, de fato, seu periódico era destinado principalmente à publicação e à
difusão das ideias libertárias entre os italianos migrantes e perseguidos pelo regime de
Mussolini. Eram anos difíceis ao longo dos quais a Europa sofria a imposição do fascismo
na Itália, o nazismo ganhava o poder na Alemanha e a Guerra Civil Espanhola culminava
com a instauração da ditadura de Franco. O título escolhido, “Studi Sociali”, tornava
claro as intenções da publicação, ou seja, aquelas de analisar os problemas sociais e fazer
um balanço, em uma situação distante das problemáticas europeias, das atividades
desenvolvidas naquele momento histórico tão confuso e perturbado. A revista enfrentava
assim temas ligados à atualidade política e social, com artigos que discutiam casos
particulares, graças à fértil correspondência com os combatentes e resistentes europeus,
e refugiados em diferentes cantos do mundo, mas também funcionava como meio de
informação pedagógico, dedicando muitos parágrafos à teoria anarquista e
revolucionária e à formação dos militantes. Novas e velhas questões dentro do
pensamento anarquista que precisavam ser investigadas e entendidas e que Luce soube
enfrentar com lucidez e firmeza. (ST45)

Elisielly Falasqui Da Silva (Mestranda)


O ordinário como precioso: drogas e comidas nas descrições de Gabriel Soares de Sousa
(1587) e de Guilherme Piso (1658)
Através de uma análise comparativa entre os escritos do cronista português Gabriel
Soares de Sousa (década de 1540-1591) e do médico neerlandês Guilherme Piso (1611-

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 69

1678), pretendemos observar como cada um construiu a descrição de aspectos


alimentares e relacionados à restauração ou manutenção da saúde a partir de seus
interesses – individuais ou coletivos –, bem como de sua formação e do contexto político
e intelectual no qual estavam inseridos. Longe de elaborar uma comparação que busque
classificar as obras como mais ou como menos completas, por exemplo, nossa intenção é
explorar as possibilidades oferecidas pela análise das duas obras para a abordagem da
história da alimentação e dietética, ajuizando as especificidades, inclusive cronológicas,
das experiências de cada autor.
Considerando a extensão das obras de Sousa e de Piso, Tratado descritivo do Brasil em
1587 e História Natural e Médica das Índias Ocidentais, respectivamente, optamos por
selecionar para uma análise mais detalhada a descrição de três produtos bastante
significativos para nossa abordagem: a mandioca, descrita à larga pela maioria dos
cronistas, que viam nela o pão da terra, substituto do trigo; o tabaco, cujas virtudes logo
se sobrepuseram ao seu polêmico, na visão dos europeus, uso pelos indígenas; e as
palmeiras, louvadas pela diversidade de espécies e de víveres que ofereciam. Os três
produtos selecionados são elencados por Guilherme Piso como as três preciosidades
americanas, para as quais ele não encontra correlatos no Velho Mundo, em grau de
nobreza e excelência. Buscaremos observar se Piso, sendo médico, enfatizou
exclusivamente ou primordialmente os aspectos medicinais desses produtos, e em que
sentido as descrições dele e de Sousa diferem ou convergem, perquirindo, como já
dissemos, os interesses e os conhecimentos mobilizados na elaboração de tais descrições.
Consideramos que, apesar das especificidades, há um aspecto que torna as duas obras
passíveis de comparação: tanto Sousa quanto Piso estão inseridos, cada um a seu modo,
em momentos de contato inicial entre Velho e Novo Mundo e precisam lidar com a
incorporação das novidades que se seguem à descoberta da América ao mesmo tempo
em que sua própria sobrevivência é colocada em jogo, uma vez que ambos residiram no
Brasil e se depararam com situações, cotidianas inclusive, que até então eram absoluta
ou parcialmente desconhecidas pelos europeus. Nesse sentido, observar como os autores
abordaram questões tão essenciais à sobrevivência como a alimentação e a conservação
da saúde apresenta-se como uma rica possibilidade de pensar não apenas a alimentação e
a medicina, mas o próprio contato entre Velho e Novo Mundo. (ST22)

Elson Luiz Mattos Tavares Da Silva (Mestrando)


Lugares de memória das Ditaduras: As experiências no desenvolvimento das políticas de
memória no Brasil e na Argentina a partir de lugares edificados
Entre os anos de 1960 e 1970 a América Latina vivenciou sucessivos golpes militares para
a instalação de ditaduras de segurança nacional. Já a década de 1980, por outro lado, foi
marcada pela reabertura política em alguns desses países. Entendendo que esses
processos políticos, traumáticos pela tamanha violência em diversos sentidos, geraram
memórias difíceis e, com isso, criaram um desafio às respectivas sociedades: preservar ou
esquecer? Dessa forma, a preservação de lugares em que funcionaram órgãos do
terrorismo de Estado tem sido um instrumento importante para, ao menos, permitir o
reconhecimento público desse passado violento. Assim, têm sido observados lugares no
Brasil e na Argentina, a partir de edificações em São Paulo e Córdoba, em perspectiva
comparada. No caso brasileiro, o Portal do Presídio Tiradentes, o Memorial da
Resistência, e as instalações do antigo DOI-CODI; e, no caso argentino, o Archivo
Provincial de la Memoria, La Perla e La Ribera. Verificando então as próprias
construções, suas transformações e historicidade, principalmente os processos de
transição de instituições da repressão para lugares de preservação da memória, busca-se
compreender o papel dos lugares de memória no conjunto de políticas de reparação e de
justiça de transição. (ST32)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 70

Elton Bruno Ferreira (Doutorando)


O lugar da literatura de Cornélio Pires nos primórdios do século XX
Após migrar de Tietê, interior de São Paulo, em 1902, para a pensão da Tia Belisário,
Cornélio Pires passara a transitar entre os mundos de uma cidade em expansão e o seu
local de nascimento, com características caipiras. A capital se tornou o espaço no qual o
escritor e agente cultural passou a apresentar o seu tipo de caipira através de
apresentações teatrais, usando o recurso do humor, ou apresentando violeiros trazidos
da região tieteense. Foi na urbe que em 1910 lançou seu primeiro livro com inspiração do
gênero, Musa Caipira. A partir disso, seguiram-se vários outros que, em sua maioria,
visavam dar conta de um tipo de organização cultural representado pelas ideias do
escritor. Em seus escritos é frequente o diálogo entre o urbano e o rural, sendo que na
maioria dos casos a cidade é vista sob a ótica do caipira, ou na relação entre este e os
imigrantes que muitas vezes compunham a cena dos seus escritos. Cornélio usava a
oralidade como forma de aproximar seus personagens daqueles que ele buscava
representar, sendo marcante os sotaques nas falas ou mesmo nos “poemas caipiras”. A
literatura era uma ferramenta que possibilitava ao escritor tieteense dar vasão às suas
ideias frente à figura do caipira nos primórdios do século XX. Para além disso, a
literatura se mostrava, naquele momento, um artifício na possibilidade de criar tradições
em um país que tinha uma jovem república e buscava uma identificação enquanto nação.
Dessa forma, se salienta a necessidade de, a partir de Cornélio, adentrar um período que
refletia e discutia variadas representatividades para o caipira, buscando entender como
se propunha ou pensava a sua organização cultural em contato com a cidade em
transformação. (ST36)

Erika Zerwes (Pós-doutoranda)


A nova mulher como fotógrafa de guerra
Esta apresentação pretende explorar algumas formas com as quais a vida e obra de Kati
Horna e Margaret Michaelis – em especial seu trabalho como fotógrafas durante a Guerra
Civil Espanhola – podem ter sido impactadas, bem como podem ter ajudado a
consolidar, a noção de mulher moderna.
Na Europa durante as primeiras décadas do século XX estava sendo construída,
juntamente com uma certa noção de modernidade incorporada pelas vanguardas
artísticas, também a noção de mulher moderna, por sua vez incorporada por muitas
mulheres artistas. Eminentemente internacional, esta mulher moderna foi chamada de
neue Frau na Alemanha, garçonne na França, ou flapper nos EUA. Uma parte importante
da recente bibliografia sobre o assunto localiza este mulher moderna das artes
justamente em Paris e na Alemanha de Weimar durante o período entre-guerras. Neste
período, ao mesmo tempo em que uma geração viu algumas de suas musas se
transformares elas mesmas em artistas por seu próprio mérito, também uma geração de
moças das classes médias teve a possibilidade de fazer da fotografia seu métier, um dos
poucos socialmente aceitos para mulheres.
Tanto a húngara Horna, quando a austríaca Michaelis estudaram e atuaram com
fotografia na Alemanha nos de 1930. Da mesma forma, as duas estavam na Espanha na
segunda metade desta década, onde fotografaram o conflito civil associadas a grupos
anarquistas. Esta experiência foi fundamental na vida de ambas de muitas formas mas,
especialmente, levou à fuga da Europa, e à vida como refugiadas em outros continentes:
Horna no México e Michaelis na Austrália.
Este trabalho engajado fotografando o conflito espanhol foi uma ruptura na biografia e
no trabalho que as duas vinham produzindo até então. Da mesma forma, ele não seria
retomado depois da imigração. A possibilidade de escolher um papel essencialmente
masculino, como é o de fotógrafo de guerra, foi criada em um contexto específico, o de
maior liberação das mulheres no pós-Primeira Guerra Mundial, e o de suspensão

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 71

temporária das regras durante a guerra na Espanha. As vidas destas mulheres marcam,
assim, um momento de transição, porque versão delas da mulher moderna ultrapassou a
de mulher profissional e independente, e encontrou uma voz e atuação política. (ST10)

Érito Vânio Bastos De Oliveira (Doutorando)


Gente do rádio: arquivo de lembranças na Amazônia paraense
Em fevereiro de 1978, portanto, dois meses antes das comemorações dos cinquenta anos
do rádio no Pará, o presidente da FUNTELPA (órgão público do governo estadual
responsável pela organização e implementação de políticas públicas para o que era
considerado e valorizado como “cultura” e “comunicações” no Estado), o ex-radialista
Orlando Carneiro informou, pela imprensa e pelo rádio, qual seria um dos escopos
principais da política pública do governo: montar um “arquivo de lembranças” com
“gente do rádio” do passado e daqueles que ainda atuavam na mídia no presente.
Segundo reportagem do jornal O Liberal de 05 de fevereiro de 1978, a ideia formadora do
projeto assentava-se em “gravar entrevistas com os mais antigos homens de rádio no
Pará”, pressupondo, dessa maneira, que a construção e organização de uma memória
gravada e arquivada seria, na verdade, uma forma de “deixar registrada a história, desde
há vinte anos passados, do rádio paraense”. Ora, espreitando as falas de Orlando em
reportagens como essa, pode se desvelar alguns aspectos do pensamento que guiava esse
projeto de “arquivo de memórias” do rádio no Pará. Inicialmente o que estava em jogo
era a própria definição conceitual do que se estava fazendo com e a partir desse “arquivo”
e, nesse sentido, essa política pública estadual do final dos anos 70 misturou,
indistintamente, o que seria memória e história. Logo, estava em questão a própria ideia
de um passado passível de ser captado por intermédio da memória, porém, ao mesmo
tempo, devedor da instrumentalização da história. Era a Clio dizendo para Mnemosyne
de que maneira deveria evocar o passado.
Noutra direção, porém, a “história” não escrita que se desejava construir e contar não
seria a própria memória registrada enquanto arquivo? Aliás, a própria noção de arquivo
mobilizada, correntemente associada a documentos escritos, impressos e ilustrações que
se atribuem ao ofício e interesse dos historiadores, estava sendo relacionada e colocada
em uso para o que se considerava a memória do mundo do rádio e sua cultura. Porém,
como em tantas experiências dos homens, o arquivo está longe de ser ponto pacífico ou
admitir unicidade de sentido. Isso vale, no meu entender, para o pensamento que o
procura definir, organizar e enunciar. A ideia dos agentes da política pública cultural era,
razoavelmente, clara: o resultado da ação de instituições públicas no sentido de registrar
e conservar os depoimentos gravados da “gente do rádio” de que se interessa ter
lembrança e “manter a livre disposição”. Contudo, considero que há algo mais para ser
pensado sobre esse arquivo. As fotografias antigas, as entrevistas, os depoimentos
publicados na imprensa de Belém, os discursos e as celebrações com sua teatralização da
memória passaram a funcionar socialmente. (ST34)

Eva Aparecida Dos Santos (Mestranda)


Os indígenas na história do Brasil: algumas possibilidades
Não há como negar a participação dos indígenas na construção da sociedade brasileira e
em toda sua história. Porém, nas escolas nada aprendemos sobre a agência desses povos.
Nas aulas de história, os indígenas estão presentes no momento da invasão do território
e em episódios pontuais até a independência. Mas sua participação nos acontecimentos
serve apenas para ilustrar o protagonismo de outros atores sociais: o invasor, o
negociante do pau-brasil, o colono, o bandeirante... Tupinambá, Guarani, Botocudo,
Xavante, Bororo, Terena, genericamente chamados de índios, aparecem apenas como
figurantes. Em 2008, foi promulgada a lei 11.645 , que determinou a obrigatoriedade do
estudo da história e cultura das populações indígenas, nos estabelecimentos de ensino

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 72

fundamental e médio, para todas as áreas do conhecimento, sobretudo, educação


artística, literatura e história. Com a obrigatoriedade, a expectativa era que o quadro
visto até então se alterasse. Mas, passados mais de oito anos da publicação do decreto,
pouco mudou em relação à presença do indígena na história do Brasil. Noções básicas,
como a diversidade dos povos e as numerosas línguas indígenas, não têm sido ensinadas
ainda para a maioria da população. O desconhecimento está presente, inclusive, entre os
educadores, considerando que muitos não receberam formação para trabalhar com o
tema. O objetivo desse trabalho é discutir os motivos que dificultam o ensino que trate
da presença do índio na história do Brasil e apontar algumas possibilidades e
metodologias para iniciar o tema com estudantes do ensino básico. (ST05)

Fábio Da Silva Sousa (Doutor/UFMS)


O homem por trás do mito: os últimos dias de Ricardo Flores Magón em suas cartas
pessoais (1922)
Ricardo Flores Magón nasceu em Oaxaca, México, no dia 16 de setembro de 1874 e
faleceu aprisionado no Fort Leavenworth, localizado no estado de Kansas, Estados
Unidos, em 21 de novembro de 1922. Em seus 48 anos de vida, Flores Magón notabilizou-
se pela oposição à ditadura de Porfirio Díaz (1876 – 1911), por meio da liderança do
Partido Liberal Mexicano (PLM), e também por ter realizado uma leitura libertária da
Revolução Mexicana (1910 – 1920), nas páginas do periódico Regeneración. Até a
atualidade, o oaxaqueño é considerado, pela historiografia mexicana, o principal
articulador da ideologia anarquista em solo asteca. Diante dessa trajetória, as pesquisas
sobre Flores Magón concentraram-se, principalmente, em seu período de atuação no
PLM e nos artigos publicados no Regeneración (1901 – 1918). Há uma lacuna de pesquisa
da vida do intelectual mexicano após a sua prisão pela polícia estadunidense, ocorrida
em 1918. Em seu cárcere, que durou de 1918 até 1922, Flores Magón escreveu diversas
cartas, onde expôs os seus pensamentos políticos e as suas inquietações pessoais.
Apresentado esse preâmbulo, nessa comunicação, será discutida as cartas que o
anarquista mexicano escreveu em seu último ano de vida, 1922. Nesse período, Flores
Magón redigiu 51 cartas para alguns interlocutores, como Ellen White e Nicólas T.
Bernal. Essa documentação, ainda não investigada em sua totalidade, nos apresenta as
agruras da prisão, a debilidade física, os sonhos, as desilusões, entre outros pensamentos
de Flores Magón, que foram além dos seus textos militantes e ideológicos, que já se
tornaram escritos clássicos da historiografia política mexicana. Isto posto, por meio de
uma seleção dessa documentação epistolar, procuraremos apresentar um Ricardo Flores
Magón além do herói romântico e revolucionário, ou seja, o homem por trás do mito.
(ST32)

Fábio Dantas Rocha (Mestrando)


Saindo das sombras: negros e pobres em São Paulo (1890-1940)
A presente pesquisa tem como objetivo analisar aspectos da vida cotidiana da população
negra e pobre em São Paulo entre os anos de 1890 e 1940. Busca-se o entendimento do
imediato pós-Abolição e das primeiras décadas do regime republicano como uma forma
de compreender o processo de socialização de negros e pobres na cidade. Pretendo
construir uma cartografia dos espaços que essa população ocupou, para compreender
suas experiências e seus modos de vida diante de uma cidade que, em meio ao grande
crescimento populacional e econômico, modernizou-se de forma contraditória aos
costumes e expectativas dos ex-escravos. Assim, espera-se acompanhar outros processo,
quais sejam, os de formações das consciências raciais, sempre relacionadas às
experiências no mundo do trabalho. Para tanto, será utilizada uma documentação que
evidencia o processo de especialização do espaço urbano e o choque entre a
modernização urbana e as práticas sociais cotidianas, tais como processos-crime,

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 73

imprensa de grande circulação, boletins de ocorrência médicas policiais e legislação.


(ST40)

Felipe Bueno Crispim (Mestre)


A paisagem como patrimônio cultural em São Paulo: estudo das ações de preservação das
paisagens paulistas pelo Condephaat (1969-1989)
A comunicação trata dos resultados da dissertação de mestrado “Entre a Geografia e o
Patrimônio: estudo das ações de preservação das paisagens paulistas pelo Condephaat
1969-1989” desenvolvida no Programa de Pós Graduação em História da Universidade
Federal de São Paulo em 2014. A pesquisa analisou as ações de preservação de áreas
naturais desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1980 pelo Conselho de Defesa do
Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat). A presença dos
geógrafos no patrimônio paulista é o fio condutor da análise empreendida nesse estudo
considerando o texto do geógrafo Aziz Nacib Ab Saber “Diretrizes para uma política de
preservação das reservas naturais do estado de São Paulo (1977)” norteador na instrução
de processos de tombamento de grande envergadura política no período como são os
casos do tombamento do Maciço da Juréia (1979) e da Serra do Mar (1985), indícios da
incorporação da paisagem como bem cultural e patrimônio ambiental paulista. O
trabalho visou mapear a natureza das ações que deram forma a essa experiência na
construção de um debate sobre a relação entre paisagem e patrimônio em São Paulo,
revelando suas singularidades. (ST37)

Felipe Eugênio De Leão Esteves (Mestrando)


Contradições em Jorge Amado e a noção de literatura negra
Este artigo reflete sobre as fronteiras da noção de literatura negra tomando como fonte
de análise Jorge Amado e sua obra literária escrita em 1969, tenda dos milagres. Entende-
se que o escritor carrega algumas ambiguidades na relação entre a cultura negra baiana,
com a qual conviveu e a afirmou, e a idealização de mestiçagem a qual alterou a ordem
de seu discurso. Propomos ponderar sobre as aproximações e afastamentos entre as
fronteiras amadianas e as fronteiras de um possível conceito de literatura negra, o que
nos possibilita farejar em alguns discursos complexos quadros de construção identitária.
Discute-se, portanto, uma conceituação literária de cunho histórico social tomando
como fonte de representação o próprio escritor e sua obra, o qual induz contrapontos aos
pressupostos desta noção, entendendo que amado se remete ao negro da Bahia, mas o
faz reagindo essencialmente ao seu tempo histórico. É desse modo que compreende-se
aqui a literatura como documento possível a ser aferido na contribuição historiográfica,
se abordado por uma metodologia que considere as subjetividades de um documento
artístico. Procura-se entender, então, as funções históricas a qual tenda dos milagres
cumpriu em seu realizar-se – como compreende Antonio Cândido (2011), que identifica
essa função na estrutura literária, a qual tem relação direta com as significações do lugar
de onde essa obra foi gestada. Nesse entendimento, identificamos que a obra nos
apresentou imagens refratadas de uma vivência que se deu por entre uma negritude
diaspórica-baiana em seus territórios e em suas práticas; e esse interior textual não
coaduna com uma formulação historiográfica predita sobre Jorge Amado como um autor
que exaltou a mestiçagem – em suas descrições específicas e em um lugar específico -
como vias de entendimentos raciais. O trabalho se dá, portanto, a repensar amado por
dentro de sua própria criação, não procurando respostas cimentadas da história na
literatura ou o contrário, mas encontrar rastros de retroalimentação entre esses campos,
o que nos leva a sujeitos, panoramas, rupturas e continuidades históricas. (ST36)

Felipe Roberto Petenussi (Mestrando)


Consumo: para além do utilitarismo

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 74

Este artigo irá abarcar o conceito de consumo por meio de duas perspectivas: a
antropológica e a sociológica. Esta análise parte de autores clássicos como Thorstein
Veblen (1988) que escreveu sua obra A teoria da classe ociosa em 1965 e Marcel Mauss
(2003) que publicou Ensaio sobre a dádiva em 1974 - que não estavam dedicados
especificamente ao estudo do consumo - até autores mais atuais como Mary Douglas
(2006) que apesar de ter escrito sua obra clássica O mundo dos bens na segunda metade
dos 1970, é uma autora clássica sobre o tema do consumo e muitas das suas teorias são
ainda atuais; além de Marshall Sahlins (2004), Pierre Bourdieu (2008), Lipovetsky (2007),
Featherstone (1995), Bauman (2001, 2008), Appadurai (2008), Baudrillard (1991), Daniel
Miller (2004) entre outros autores, para mencionar somente alguns dos mais
importantes e citados estudiosos. Essa perspectiva analítica vem se constituindo a partir
da crítica às análises economicistas, utilitaristas e reducionistas do conceito e do papel
do consumo.
Essa nova abordagem advindas de estudos antropológicos e sociológicos surgiram a
partir de críticas às interpretações realizadas pelas teorias economicistas que reduziam o
fenômeno do consumo à esfera individual (consumidor racional que buscaria na compra
sempre a escolha que maximiza-se sua utilidade), ou seja, buscando obter sempre o
maior retorno possível para seus investimentos. Está lógica economicista não dá margem
para a dimensão simbólica e social do consumo, postulada inicialmente por Veblen
(1988) e Mauss (2003).
Conforme enfatiza Mary Douglas e Baron Isherwood (2006: 8) o consumo está posto na
contemporaneidade como algo ativo e presente no cotidiano, nele ocupa um papel
central como estruturador de valores simbólicos que constrói e manipula identidades e
regula relações sociais e de poder. (ST01)

Fernanda Borsatto Cardoso (Doutoranda)


O ensino de História e Cultura Indígena nas escolas municipais de São Paulo – 2008 a 2015
Esta pesquisa de doutorado está em andamento e tem como objetivo investigar como o
Ensino de História e Cultura Indígena, proposto pela Lei Federal nº 11.645/08, que alterou
o artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, tem sido
implementado nas escolas de Educação Básica da Rede Municipal de Ensino de São
Paulo a partir de sua promulgação. Nesta perspectiva a pesquisa se insere nas
investigações sobre a história das disciplinas, currículos e sobre educação e diversidade.
Neste sentido, esta pesquisa parte de dois pontos centrais de análise. O primeiro se
refere a investigação das políticas desencadeadas pela Secretaria Municipal de Educação
de São Paulo a partir da promulgação da Lei 11.645/08, identificando as ações de
implantação, os cursos de formação os materiais de apoio e a orientações didáticas
produzidas. Parte-se então da hipótese que as formas de implementação da Lei, no que
se refere ao Ensino de História e Cultura Indígena, pela SME-SP têm sido feitas de forma
descontínua e esta descontinuidade, que pode ser observada através cursos de formação
continuada oferecidos, tem eficiência restrita para auxiliar os professores de história a
contemplar a complexidade de ações que envolvem o ensino de história e cultura
indígena.
Um segundo ponto de análise refere-se à implementação que acontece independente das
ações realizadas pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, que se relaciona
com a iniciativa dos professores. Neste sentido, a hipótese apresentada é que a iniciativa
de implementação da Lei parte de um engajamento pessoal dos professores, algo que
está ligado a um projeto de vida dentro do seu contexto social, que Goodson (2007)
chama de aprendizagem narrativa: Um tipo de aprendizagem que se desenvolve na
elaboração e na manutenção continuada de uma narrativa de vida ou identidade. Entre
os motivos que emergem na aprendizagem narrativa estão o trajeto, a busca e o sonho.
(...). Esse tipo de aprendizagem passou a ser visto como central para o entendimento

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 75

como as pessoas aprendem ao longo da vida, e ele requer uma maneira diferente de
pesquisa e elaboração para se compreenda esse tipo de aprendizagem formal ou
informal. (GOODSON, 2007, pp. 248)
Investigar o currículo a partir da promulgação da Lei 11.645 de 2008, nestas perspectivas,
permite, a meu ver, o entendimento dos processos de pensamento, de conflitos, de
organização e de ação de que tem se constituído através das práticas curriculares. (ST29)

Fernanda Capri Raposo (Mestre)


Apresentação e metodologia de análise referente à pesquisa documental do Fundo
Institucional Centro Israelita De Nilópolis custodiado pelo Arquivo Histórico Judaico
O presente artigo tem por objetivo apresentar alguns apontamentos teóricos e
metodológicos sobre a pesquisa documental na documentação que compõe o Fundo
Institucional Centro Israelita de Nilópolis (FI0018), custodiado pelo Arquivo Histórico
Judaico Brasileiro – AHJB. (ST18)

Fernanda Cristina Pereira Drumond (Mestranda)


Estratégias para ampliação do consumo de bens culturais na cidade do México
A cidade é entendida como um espaço de conflitos e circulação de ideias; criadora e
criatura de um sistema de memórias coletivas e individuais, sempre seletivas e parciais.
Priorizando o contexto contemporâneo do centro histórico da cidade do México,
intenciona-se refletir acerca das memórias conflitantes que permeiam os bens culturais,
bem como sobre a maneira como cada grupo se apropria desses espaços e das narrativas
memoriais.
Pretende-se, ainda, analisar os constantes processos políticos, históricos e sociais que
perpassam a dinâmica do espaço urbano, bem como sua relação com os diversos grupos
que circulam por esse espaço, permitindo que tal interação gere um valor simbólico
específico para esse espaço; valor este que é essencial para que um local planejado
arquitetonicamente se torne um espaço de vivência e, portanto, significante na
concepção dos sujeitos que circulam por esse ambiente.
O Centro Histórico da cidade do México personifica a sobrevida de elementos de
sociedades temporalmente distintas em um mesmo espaço físico, bem como propicia
questionamentos sobre as escolhas políticas que culminaram em sua eleição como
patrimônio cultural da nação mexicana. Em 1980, o governo mexicano criou estratégias
visando “revitalizar” o centro histórico tido, então, como em declínio. Neste projeto, os
bens culturais localizados nessa área tiveram variados usos, a maioria dos quais
permaneceu distante das práticas culturais populares. Pergunta-se, então, quais
memórias foram priorizadas na construção desse projeto político.
Intenta-se, portanto, apresentar novas formas de ocupar o espaço urbano e de consumo
dos bens culturais, baseando-se em uma linguagem que se distancia daquela geralmente
utilizada para o público-ideal das instituições culturais, que já possuem um capital
cultural prévio. Portanto, através dos estudos sobre o público, faz-se necessário um olhar
externo dessas instituições que vise incrementar o número do público visitante dos bens
culturais na cidade do México, bem como combater a desigualdade no acesso à cultura.
(ST44)

Fernanda Lédo Flôres (Mestranda)


Ana Montenegro (1915-2006)
Nascida em Quixeramobim em 13 de abril de 1915, Ana Lima Carmo (ou Ana
Montenegro) foi uma das figuras mais expressivas dentre os militantes do Partido
Comunista ao longo do século XX. Em 2005, um ano antes da sua morte, foi indicada ao
Nobel da Paz. Por 61 anos membro do Partido Comunista, a suposta primeira mulher a
ter sido exilada após o golpe civil-militar de 1964 (permaneceu no exílio na Alemanha

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 76

oriental trabalhando na Federação Democrática Internacional de Mulheres por quinze


anos) é objeto central da pesquisa para a dissertação de mestrado que se encontra em
andamento na Universidade Federal da Bahia. Dividida em três capítulos: o primeiro que
versa sobre Ana Montenegro por ela mesmo, ou seja, a análise de todos os documentos
que ela produziu em vida e que foram encontrados nas 14 caixas do acervo na casa da
filha da militante (o qual fui a responsável pela organização e digitalização) e nas 57
pastas no arquivo do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher- NEIM/UFBA,
bem como nas sete obras que escreveu; o segundo sobre Ana na mira da repressão em
que trabalho com as fontes colhidas do acervo da SNI no Arquivo Nacional e no da PIDE
na Torre do Tombo em Portugal; e um terceiro capítulo que versa sobre a memória de
Ana pelos outros, em que me dedico à História Oral debatendo as questões de
silenciamento e disputa de memória em entrevistas com a família, a antiga e nova
geração do partido, bem como entre os amigos mais próximos. Para este evento, me
proponho a apresentar a discussão inicial do trabalho de dissertação e que está na
introdução e se fará presente na conclusão, sobre a defesa da escrita biográfica. Nesse
cenário, levantarei questões importantes sobre memória, a função social da memória nos
estudos de Ditadura, gênero, história das mulheres, erudição e biografia histórica. (ST47)

Fernanda Mendonça Pitta (Pós-doutora)


A história da arte através das imagens: a seção ‘Exposição Retrospectiva’ da Exposição de
Arte Francesa no Liceu de Artes e Ofícios, em 1913.
Em 1913, realiza-se no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo a Exposição de Arte
Francesa. Organizada pelo Comitê France-Amérique, a exposição trouxe para a cidade
pinturas, esculturas, objetos decorativos, contendo também uma seção intitulada
“Exposição Retrospectiva”. Esta seção era composta de 1.025 itens, entre cópias
fotográficas, gravuras, modelagens e medalhas. Esse conjunto formava um Museu de
Arte Francesa em São Paulo, cumprindo a função de servir de modelo didático para
artistas e estudantes na cidade, tornando-se exemplo para outras cidades americanas.
Entre os itens da seção retrospectiva destaca-se o conjunto de cópias fotográficas e
gravuras. Elas compunham claramente uma narrativa visual da arte francesa, procurando
identificar os exemplos principais da história de sua arquitetura, pintura e escultura, que
progressivamente se definia enquanto uma “escola”. Esse “museu de reproduções” era
algo que o comissário da exposição Louis Hourticq vinha desenvolvendo para divulgar a
arte francesa. Hourticq, que se tornaria um importante historiador da arte francês e na
ocasião era inspetor de Belas Artes da cidade de Paris, foi responsável por obras de
sistematização e divulgação da história da arte da França, às quais se dedicou com muito
empenho. Elas se amparavam em uma metodologia visual de estudos, propiciada pelos
meios da imagem fotográfica, mas também por croquis e desenhos de detalhes feitos
diante das obras. Nela, as imagens ocupam um estatuto privilegiado em relação à
narrativa escrita, funcionando como um relato visual de primeira ordem em que se
apoiava o discurso escrito, e não o contrário.
Hourticq se dedicou a desenvolver essa metodologia em direto confronto com o que
chamava de “método documental”, baseado em fontes escritas. O método pretendia-se
intuitivo, baseado na observação das qualidades visuais das obras de arte, e visava ser
uma alternativa superior à pesquisa iconográfica, buscando retirar das obras
conhecimentos intrínsecos a elas, e não derivados de fontes externas aos objetos
artísticos. Hourticq assim desenvolvia um método que pretendia conferir à história da
arte uma posição estratégica no campo do conhecimento dado que, para ele, submeter às
obras de arte ao documento escrito ou aos textos literários seria fazer da disciplina um
recurso acessório à história, e não um campo independente.
Através da discussão do conjunto de pranchas conservadas na Pinacoteca, o presente
trabalho visa refletir a respeito do dispositivo imagético, em especial da fotografia, como

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 77

modo de exposição e de narração dessa história da arte. Busca-se assim compreender a


proposta de uma mostra e de um ‘museu’ didáticos que cumpriam o desafio de investigar
e narrar a história através das imagens. (ST10)

Fernando Braga Franco Talarico (Doutor)


Dimensões histórico-críticas do diálogo entre o longa-metragem "O padre e a moça"
(Joaquim Pedro de Andrade, 1965) e "O padre, a moça" (Carlos Drummond de Andrade,
1962).
Joaquim Pedro de Andrade confeccionou seu primeiro longa-metragem ficcional ("O
padre e a moça") entre 1964 e 1965. Para tanto, tomou por base poema ("O padre, a
moça") que Carlos Drummond de Andrade publicara na coletânea "Lição de coisas", em
1962. Anterior ao golpe de 1964, o poema irá sugerir ao longa-metragem uma
compreensão alegórica sobre o processo de modernização conservadora: processo
entretanto incapaz de superar traços arcaizantes de sociabilidade. Daí, a figuração da
aporia, que atravessa os diversos níveis do poema: dimensão erótica (amor entre padre e
moça); dimensão dramática (confronto entre amantes e perseguidores); dimensão
trágica (tensão máxima entre normativas societárias e impulsos de individuação, tendo a
morte como desfecho); dimensão épica (narrativa que parte do domínio público para
acompanhar desdobramentos de fundo factual, mas figurados de acordo com aspectos
do imaginário, de modo a ficcionalizar percursos inerentes a todo um modo de vida de
determinado território). Sob todos esses aspectos, entretanto, ressalta a perspectiva lírica
de poema e longa-metragem: perspectiva que organiza todas as demais dimensões
ficcionais, nos termos a um tempo intelectivos e afetivos. O engajamento
drummondiano, de que a poética fílmica soube apropriar-se, serve à reflexão sobre
aspectos do impasse no desenvolvimento da sociabilidade brasileira, excentricamente
inserida nos percursos mais amplos do Ocidente; e tal reflexão toma a individualidade
como fulcro. A densidade da figuração, quando se considera a dimensão dialogal entre
poema e longa-metragem, termina por revelar a denúncia da aporia figurada, mas, sob a
figura da aporia, a ficcionalização aponta caminhos de superação. A potência do
empenho participante, em suma, resulta dum empenho estético de natureza dialogal, em
que a perspectiva lírica permanece como decisiva. Curioso é notar que, assim como
poema e longa-metragem, outros percursos intelectuais contemporâneos recorreram à
imagem da aporia para refletir sobre os impasses da modernização contemporânea (com
destaque à sociologia crítica de Florestan Fernandes). Não menos importante é notar
que, por sob a escassa fortuna crítica de Joaquim Pedro de Andrade, as considerações
relativas à dimensão lírica (ou "intimista") do diretor têm sido feitas em detrimento da
dimensão participante e intelectiva: aspecto que termina por sublinhar a importância
duma abordagem integrativa. Sendo assim, as relações entre eu e mundo (tão caras ao
empenho drummondiano) repercutem na poética fílmica de Joaquim Pedro de Andrade.
A consideração dialogal sobre o empenho estético e político do longa-metragem
procurou (nos termos duma tese de doutoramento) refletir, também, sobre a adequação
dos aspectos de teoria e método. (ST16)

Fernando Lucas Garcia De Souza (Mestrando)


A ressignificação cultural da tatuagem no Brasil
A prática da tatuagem moderna, desde sua chegada ao Brasil na segunda metade do
século XIX, foi relegada às camadas marginais da sociedade, caracterizando-se como um
estigma. Porém, após os anos de 1980, e mais intensamente na virada do século,
estaríamos vivenciando um processo de ressignificação cultural da prática, abarcando
novos sujeitos, novas técnicas e consequentemente um novo significado, de adorno
corporal ou objeto da moda.

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 78

Este trabalho pretende discutir o processo de transformação ou ressignificação da prática


da tatuagem e sua representação na sociedade brasileira contemporânea, discutindo os
fatores que historicamente contribuíram para tal, como o surgimento dos estúdios de
tatuagem como ambientes clinicamente seguros; a profissionalização do ofício do
tatuador e sua elevação ao status de artista; o papel da mídia, por meio da exposição, e
dos órgãos públicos, mediante regulamentação, na suposta "validação social da prática".
(ST10)

Fernando Muratori Costa (Doutorando/UFPI)


Veja: a invenção jornalística do rock nacional nos anos 1980
O cenário político no Brasil estava mudando e a abertura estava chegando ao seu ponto
máximo na primeira metade dos anos 1980. Além disso, o país se encontrava em uma das
piores crises econômicas de sua história, o que também afetava de forma cruel o
mercado fonográfico, que precisou descobrir novas atrações. Esse foi o cenário para que a
revista Veja desse enorme projeção jornalística aos artistas da geração anos 1980 do rock
nacional, que já faziam muito sucesso nas vendas de LPs, nas listas das mais tocadas das
rádios e no público presente aos seus shows. Neste trabalho, analisei matérias da revista
Veja sobre os artistas do rock nacional dos anos 1980, procurando identificar os
elementos que a revista utiliza para construir uma imagem desses músicos e um perfil
para a “nova música brasileira”. (ST26)

Fernando Omar Silveira Almeida (Pós-graduando)


A Formação da Identidade Mestiça da Música Brasileira entre o Império e a República
Este trabalho tem por objetivo discutir a formação da identidade mestiça da música
brasileira no contexto de transição entre o Império e a República, no Brasil, abordando a
temática da mestiçagem por meio das matrizes culturais aqui existentes e do
nacionalismo, uma vez que a construção da identidade passa pelo ideal de nação. Para
isso, buscamos no debate historiográfico e na análise das obras de alguns compositores, e
suas biografias elementos para entender esse processo de mestiçagem da identidade
musical nesse período que compreende a segunda metade do século XIX e início do XX.
O trabalho não pretende ser conclusivo mas, longe disso, o objetivo é apontar algumas
discussões possíveis dentro do debate em torno do conceito identidade mestiça
presentes nas composições dos músicos brasileiros deste período. (ST39)

Flávio Benedito (Doutorando)


Governos progressistas latino-americanos: perspectivas em meio à crise do capitalismo
Os governos ditos progressistas – que passaram a desempenhar um papel preponderante
no cenário político latino-americano desde os últimos anos do século passado (vale
lembrar: em 1998, Hugo Chávez vence a eleição presidencial na Venezuela e inaugura o
período progressista no continente) – construíram parte de sua justificativa político-
ideológica calcada no imperativo histórico de combate às políticas neoliberais, então em
vigor, e na defesa de políticas sociais inclusivas, preteridas pelo neoliberalismo e suas leis
de mercado. A consolidação do progressismo latino-americano, embora tenha
enfrentado violentas reações dos setores sociais conservadores nos diversos países da
região – reações que, em vários casos, materializaram-se em movimentos golpistas, bem-
sucedidos ou não – coincidiu, no entanto, com uma conjuntura econômica regional
favorável entre, aproximadamente, os anos de 2005 e 2012 (a despeito da crise irrompida
já em 2007-8 nos países centrais do capitalismo). Partindo de casos concretos, como o
Brasil e a Venezuela, é lícito afirmar que esses anos de desempenho econômico positivo
serviram de base material à adoção de políticas públicas caracteristicamente
assistencialistas, cujo resultado foi o de ampliar – em sentido contrário aos ditames
neoliberais – a função social provedora e protetora do Estado Nacional. Em ambos esses

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 79

países, as políticas de conteúdo popular implementadas representaram avanços sociais


significativos, incidentes sobre o problema crucial da desigualdade social –
principalmente se considerados os indicativos sociais dos anos imediatamente
anteriores. Quanto aos fundamentos ideológicos dessas políticas, no caso do governo do
Partido dos Trabalhadores, o discurso socialista (presente nas raízes do partido, quer sob
a forma social-democrática quer sob a revolucionária) foi inteiramente abandonado, e
seu lugar foi ocupado pelo ideal de desenvolvimento autônomo e democracia para todos.
No caso do Movimento V República, o socialismo (que na origem do movimento não
existia como formulação ideológica) emergiu, a partir de 2005, como um projeto
histórico (o "socialismo do século XXI") de transformação radical da sociedade
venezuelana e de nova inserção da economia nacional no sistema produtivo
internacional. Tendo isso em vista – e levando-se em conta a aguda crise econômica que
se instalou na região nos últimos quatro anos, bem como a instabilidade político-
institucional que se lhe seguiu – esta proposta pretende discutir o alcance histórico do
progressismo latino-americano, cristalizado, em princípio, em indicadores de
desempenho econômico e social – de par com uma questão também crucial, e que tem
ocupado os meios acadêmicos e políticos: experimentamos hoje o fim do ciclo
progressista? (ST32)

Franciele Ruiz Pasquim (Doutoranda)


Lenyra Fraccaroli e bibliotecas infantis na história da educação brasileira
Com o objetivo de contribuir para a compreensão da história da educação no Brasil,
destacam-se aspectos da atuação profissional da bibliotecária Lenyra Camargo Fraccaroli
(1906-1991) na condição de Chefe da Divisão de Bibliotecas Infanto-Juvenis de São Paulo-
capital, entre os anos de 1936 e 1961. Mediante abordagem histórica, centrada em
pesquisa documental e bibliográfica, desenvolvida por meio da utilização dos
procedimentos de localização, recuperação, reunião, seleção e ordenação de fontes
documentais, analisaram-se aspectos da configuração textual do livro Bibliografia de
literatura infantil em língua portuguesa (1953), organizado por Lenyra Fraccaroli. Os
resultados obtidos até o momento permitem compreender que Bibliografia de literatura
infantil em língua portuguesa tornou-se uma obra de referência, para professores e
catalogadores das bibliotecas infantis e escolares, na seleção de livros de literatura
infantil, tendo contribuído para a formação de acervos de bibliotecas infantis e escolares
no Brasil, em especial no estado de São Paulo. (ST29)

Francisco Carlos Ribeiro (Pós-graduando)


A missão na literatura: a redução jesuítica em A Fonte de O Tempo e o Vento
O trabalho tem como problemática central a análise do episódio A fonte, do romance O
continente, da trilogia O tempo e o vento de Erico Verissimo, dentro do debate
intelectual desenvolvido durante os anos de 1930-1940 entre a matriz lusitana (Moysés
Vellinho) e a matriz platina (Manoelito de Ornellas) da historiografia gaúcha sobre a
importância de Sete Povos das Missões no processo de formação do Rio Grande do Sul.
A relevância desse estudo se justifica pelo fato de não existirem muitos estudos
acadêmicos tomando como base específica o episódio A fonte dentro do contexto do já
mencionado debate historiográfico dos anos 30.
O tema do trabalho foi construído a partir do contexto histórico em que Erico Verissimo
viveu e produziu a sua trilogia. Procurou-se explorar também o episódio A fonte visando
estabelecer um diálogo entre as possíveis relações do texto narrativo ficcional com o
texto narrativo historiográfico no processo de desenvolvimento de construção do
conhecimento histórico. (ST36)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 80

Francisco Luiz Corsi (Doutor/UNESP)


A crise de sobreacumulação aberta em 2007 em perspectiva histórica
A crise de sobreacumulação de capital aberta em 2007 e que se arrasta até os dias de hoje
se manifesta pela existência de capacidade ociosa em escala mundial em setores
importantes; pelo alto nível de desemprego, particularmente em alguns países
desenvolvidos; pelo acirramento da concorrência, pelo aprofundamento do processo de
centralização de capitais e sobretudo pela existência de uma enorme soma de capital
fictício. Capital que não consegue valorizar-se na produção e, desta maneira, busca fazê-
lo por meio da especulação. O objetivo da discussão proposta é mostrar que as raízes da
crise atual remontam a crise de sobreacumulação da década de 1970, que não teria
destruído o excesso de capital, apesar de ter criado as condições para recompor a sua
rentabilidade. Daí a exacerbada instabilidade da economia mundial, o ritmo lento da
acumulação de capital no centro do sistema, o inchaço da esfera financeira e a crescente
importância das bolhas especulativas para o capitalismo nas últimas décadas. Isto
ocorreu não obstante a reestruturação do modo do produção, levada pelo capital sob a
égide das políticas neoliberais. A reestruturação foi baseada no desmonte do Estado de
Bem-Estar Social, na abertura das economias nacionais, na desregulamentação dos
mercados financeiros, na reestruturação produtiva, na precarização das condições de
trabalho, na nova onda de inovações tecnológicas e na reconfiguração espacial da
acumulação de capital, que implicou na abertura de novos espaços dinâmicos de
acumulação na Ásia, em especial na China, e nas ex-repúblicas soviéticas. Abriu-se um
espaço não capitalista, que, em pouco tempo, seria incorporado pelo capital. Um dos
mecanismos de valorização do capital que ganhou relevo, não só nessas áreas, mas em
todo o sistema, foi o que D. Harvey denominou de acumulação por espoliação. Esses
processos deram fôlego para o capital e reorganizaram a divisão internacional do
trabalho, com enorme repercussão para a periferia do sistema. Mas a formação de
inúmeras bolhas especulativas indica a fragilidade do processo de valorização do capital.
Fôlego que parece ter esmorecido com a crise de 2007 e seus desdobramentos, entre eles
a atual desaceleração da economia chinesa, que enfrenta queda de exportações, que
tinham sido um dos principais motores de seu crescimento, excesso de capacidade ociosa
em inúmeros setores produtivos, superprodução no setor imobiliário e elevado
endividamento de instituições financeiras e empresas. Estes problemas sugerem que a
acumulação de capital continuará desacelerando. (ST40)

Frederico Papali (Mestrando)


Cultura e espaço: o graffiti do Campo dos Alemães em São José dos Campos/SP como
modo de apropriação do espaço
Sendo o espaço urbano um campo de significação que comporta um conjunto de
relações históricas, políticas, econômicas, sociais, estéticas e culturais, procura-se
entender o grafitti como forma de expressão de identidades que se revelam no ambiente
urbano. Este artigo descreve o projeto de pesquisa em Mestrado em andamento, - que
tem o mesmo título deste artigo - em Planejamento Urbano e Regional do Instituto de
Pesquisa e Desenvolvimento da Universidade do Vale do Paraíba – Univap, e que procura
indagar em que medida o graffiti, como expressão de democratização da exposição da
arte nos espaços da rua, apresenta-se como expressão de linguagem, delimitação de
território, forma de dizer e construção/afirmação de identidades. Na pesquisa pretende-
se analisar os graffiti que cobrem os muros do bairro Campo dos Alemães, bairro da zona
sul da cidade de São José dos Campos/SP, que concentra essa produção artística na
cidade. A pesquisa procurara interpretar como as pessoas percebem o graffiti, que
significado e sentido têm essa expressão e que relação se pode estabelecer entre a
comunidade do graffiti e a cidade. Percebe-se que o graffiti, ao criar espaços de ação
demarcados, configura-se como base de relações que situa os espaços desenhados social

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 81

e culturalmente. Na pesquisa, como método, se utilizará do registro fotográfico e


cartográfico dos graffiti no bairro citado e do recolhimento de depoimentos de grafiteiros
e moradores do bairro para a percepção do espaço. Nesta etapa da pesquisa, apresenta-se
levantamento bibliográfico sobre o tema, a caracterização do bairro objeto de análise e
do evento que produziu uma série de graffiti no ano de 2013, bem como um primeiro
levantamento desta produção, a partir de imagens obtidas no Google Street View. (ST10)

Gabriel Amato Bruno De Lima (Mestre)


Os comportamentos sociais dos estudantes diante do Projeto Rondon durante a ditadura
militar (1967-1985)
Esta pesquisa tem como tema o programa de extensão universitária Projeto Rondon
entre a sua criação pela ditadura militar, em 1967-68, e o fim do regime autoritário em
1985. Iniciativa que imbricava os imaginários nacionalista e anticomunista, o Rondon foi
utilizado por parte da base social do regime como um argumento de que os militares
“dialogavam” com os “verdadeiros” estudantes, especialmente nas crises estudantis de
1968 e 1977. Parte significativa dos universitários brasileiros participou de suas operações,
mas isso não significava uma passividade dos jovens estudantes diante desta iniciativa da
ditadura que tinha como objetivo aproximar os militares dos meios universitários. Entre
os anos 1960 a 80, houve boicotes do movimento estudantil ao Rondon, bem como
participações a longo prazo e comportamentos sociais ambíguos com relação à iniciativa.
Houve também estudantes que, seguindo uma orientação da UNE na década de 1980,
utilizavam da estrutura oferecida pelo programa com o objetivo de resistir à ditadura
“por dentro”. Nesse sentido, este trabalho analisa as relações entre a ditadura militar e os
estudantes universitários no Projeto Rondon a partir de um duplo questionamento: da
memória social construída desde 1979, defensora da tese do estudante como um
oposicionista “nato” da ditadura; e de parte da historiografia mais recente sobre o tema,
que vê no apoio de certos grupos sociais ao autoritarismo um “consenso” em torno do
regime militar. Defende-se, ao contrário, a existência de uma multiforme dinâmica social
do regime político instaurado em 1964 capaz de comportar uma diversidade de
comportamentos adotados pelos universitários ao longo do tempo, tais como a adesão, a
apatia, a resistência e a acomodação. (ST42)

Gabriel Carlos De Souza Santos (Mestrando)


A cicatriz da Serra: indústria, natureza e habitação na composição do patrimônio
industrial cubatense
A Usina de Cubatão foi inaugurada em 1926 e era, à época, a maior hidroelétrica do país.
Representou um enorme empreendimento industrial, o qual requeria o intenso uso de
mão-de-obra. A partir de 1930, essa mão-de-obra passou a habitar a Vila Light, vila
operária criada no entorno da usina para abrigar funcionários e suas famílias. Esta
comunicação pretende discutir um elemento em particular dessa usina, a saber, seu
conjunto de adutoras. O objetivo central é debater o estabelecimento deste elemento
industrial na paisagem cubatense e seu papel na alteração da visualidade e na criação de
uma identidade comunitária na Vila Light. Assim, como se pretende demonstrar, as
adutoras se inserem como marco simbólico, visual e material do enfrentamento do
homem à Serra do Mar – elemento natural de grande importância para a constituição de
Cubatão – e representam a complexa relação entre indústria, natureza e habitação no
município. Objetiva-se, apresentando-se as articulações entre alterações urbanas, vias de
deslocamento, setores produtivos, elementos naturais e identidades operárias, debater a
possibilidade de sua compreensão a partir do campo do Patrimônio Industrial, em uma
perspectiva relacional. (ST44)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 82

Gabriel Ferreira Gurian (Mestrando)


Leituras e fontes sobre o álcool no Brasil Holandês
Esta apresentação propõe uma breve reflexão acerca das escassas leituras historiográficas
sobre o álcool durante a presença holandesa no Brasil setentrional, no século XVII, em
contraste com a vasta documentação disponível, e traduzida para o português, sobre o
período. Por si só, os estudos sobre o álcool na história do Brasil colonial não são
numerosos, e a presença de relatos do período de dominação neerlandesa, nestes poucos
trabalhos, é superficial, auxiliando majoritariamente reflexões etnohistoriográficas acerca
do consumo etílico entre os habitantes nativos. Por ser um período singular da Colônia,
em que variados costumes etílicos entraram em contato (as cauinagens indígenas, a
assiduidade alcoólica dos holandeses e a privação motivada por temperança e escassez de
recursos dos luso-brasileiros), além de serem descritos em diversos âmbitos (nas naus em
alto mar, em banquetes, rituais religiosos, saques), por diversas mãos (clérigos, cronistas,
marinheiros, naturalistas, proprietários de engenho, Conselheiros empregados pela
Companhia das Índias Ocidentais), merece maior atenção. De forma a complementar a
reflexão proposta, caberá também uma breve descrição do que é possível encontrar
nestes documentos acerca dos hábitos etílicos no chamado Brasil Holandês. (ST22)

Gabriel Ignácio Garcia (Mestrando)


Em defesa da pátria: a dissertação de Antonio Correa do Couto em meio à guerra da
Tríplice Aliança (1864-1870)
Esta pesquisa tem por finalidade análisar uma publicação editada e lançada em meio à
guerra da Tríplice Aliança (1864-1870), representação das preocupações de um brasileiro
frente aos acontecimentos de seu tempo. Como respaldo metodológico, destacamos as
indicações de Luiz Gonzaga Motta (2013). Segundo ele, uma narrativa deve ser
compreendida como um ato de construção de sentido da vida, permeada dos valores
políticos e morais do seu criador. O livro aqui pesquisado trata-se da Dissertação sobre o
actual governo da republica do Paraguay, escrito por Antonio Correa do Couto, datado
de 1865. A narrativa que se desenvolveu, pode ser resumida em torno de duas questões. A
primeira delas, a preocupação com a necessidade de fortalecimento de pontos
estratégicos para a defesa brasileira, detalhando a condição em que se encontravam os
soldados paraguaios e as características geográficas do Paraguai para uma eventual
incursão das tropas imperiais. A segunda questão abarca as duras críticas ao Paraguai e
seu presidente Francisco Solano Lopez, principalmente, em razão da captura do vapor
brasileiro Marquês de Olinda e a invasão de Mato Grosso em 1864, culminando na
deflagração da guerra. Existem ainda lacunas que futuras investigações podem ajudar a
esclarecer, como, por exemplo, a identidade do autor e a sua posição naquele contexto
histórico, mas não há dúvidas que o conteúdo dessa dissertação, se apresenta como uma
rica fonte histórica para problematizarmos a relação de alteridade entre brasileiros e
paraguaios durante a guerra, assim como, as representações e visões que foram cunhadas
de ambos os lados. (ST32)

Gabriela Rodrigues Lima (Mestranda)


A feitiçaria andina na medicina colonial do Peru - séculos XVI e XVII
As práticas de curas dos povos andinos foram interpretadas como práticas mágicas e
tidas como feitiçaria pelos espanhóis ao chegarem ao Novo Continente. Tal fator se
concretizou nas Extirpações de Idolatrias, onde os visitadores foram os que se
encarregaram da ação, tentando desarticular os nativos em suas práticas e rituais,
julgando-as como diabólicos com o intuito de evangelizar. Ao realizarem tais extirpações
se apropriaram da farmacopéia dos nativos, pois estas novas plantas poderiam ser
eficazes na melhoria de sua medicina. Assim, ao mesmo tempo em que essas práticas
aconteciam, houve a preocupação da coroa espanhola em mandar expedições para a

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 83

América, com o motivo de pesquisar sobre as ervas e até mesmo sobre os animais que
poderiam ser usados na medicina, ou seja, a cultura dos nativos não foi excluída. A
apresentação tem como objetivo a reflexão por estabelecer como se deu a transmissão do
curandeirismo andino, no caso específico do Peru, nas práticas médicas dos espanhóis
que viviam na colônia e qual a importância que o país que acabara de ter contato com o
“Novo Mundo” deu para as plantas medicinais, partindo da análise de documentos de
processos de Extirpação de Idolatrias colhidos no Arquivo Arzobispal de Lima, Crônicas
e Tratados Médicos do final do Século XVI e Século XVII.
A preocupação é como se deu a utilização das plantas pelos espanhóis no período da
colonização e se o contato com a farmacopéia ultrapassou as barreiras do preconceito e
da religião chegando a ser utilizado pelos colonos espanhóis, modificando sua forma de
curar. Tratados e Processos de Extirpação de Idolatrias levam em direção de que essa
preocupação existiu e que os remédios naturais andinos impulsionaram a medicina
colonial e posteriormente a europeia.
As lacunas sobre os fármacos andinos são muitas, colocar em prática este trabalho
significa ampliar um tema que tem muita relação com a atualidade. Diante desse
contexto os tratamentos naturais sempre estiveram presentes nas sociedades, no Peru
ainda é fortemente utilizado. Estudar como no final do século XVI e durante o século
XVII as plantas andinas fizeram sucesso e inovaram o olhar da medicina dos colonos e
posteriormente na Europa é importante para verificar as raízes da atual maneira que as
pessoas se utilizam para curar suas enfermidades, pois apesar de consumirem remédios
industrializados, os unguentos e receitas naturais que muitos passam de forma
tradicional nunca perderam a força. (ST32)

Gerson Alves De Oliveira (Doutorando/IFTO)


Terra, território e identidade: memórias quilombolas no Tocantins
Este texto tem como proposta elaborar uma discussão acerca de um sentimento étnico
enquanto expressão de uma identidade quilombola fundamentada no território
enquanto organização social. A pesquisa terá como ponto de partida, entrevistas
realizadas na comunidade de remanescente quilombo de Cocalinho, localizada no
extremo norte do Estado do Tocantins. Partimos da perspectiva de que há uma
memória/história que funciona como referencial simbólico, uma espécie de “mito
fundador”, no qual destacar-se tanto com um sentimento de pertencimento a uma
coletividade quanto um processo de luta resistência em torno de um território, visto
como materialização de uma organização que se contrapõe ao modelo agrário dominante
na região. Neste caso, a memória e a história servem como reforços na formação de um
sentimento étnico, de uma organização social e de uma habilidade política. (ST40)

Getúlio Nascentes Da Cunha (Doutor/UFG)


A infância e o crescimento em "O Ateneu" e "Infância"
A presente comunicação se baseia na convergência entre história, literatura e gênero e
pretende discutir as representações da infância e do processo de amadurecimento em
dois obras clássicas da literatura brasileira: O Ateneu, de Raul Pompéia e Infância, de
Graciliano Ramos. Publicadas em épocas distintas e focalizadas em regiões geográficas
muito distantes e, portanto, com realidades sociais bastante distintas, os dois livros têm
em comum o fato de poderem serem como "romances de formação", nos moldes
goethianos. A partir da relação entre história e literatura, trabalhada principalmente a
partir do conceito de representação presentes nas obras de Roger Chartier e
fundamentados numa perspectiva de gênero, preocupada com as formas como as
sociedades definem os diferentes papéis sociais ligados aos gêneros, a abordagem
buscará compreender como o processo de amadurecimento vivido pelos personagens
centrais, levam à construção de uma dada masculinidade que era hegemônica no Brasil

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 84

do final do século XIX e se mantinha forte ainda no início do século XX. Trabalhando a
partir de uma teoria feminista de gênero que valoriza a construção social das
identidades, a ideia central é discutir como apesar das diferenças sociais e culturais,
provocadas pelo pertencimento a classes sociais diferentes e a mundos culturais também
outros, os processos de amadurecimento e de afirmação da masculinidade dos
personagens passam por processos semelhantes de auto afirmação. Ainda assim, esse
processos são bastante diferentes entre si, onde cada um deles toma um caminho
pautado nas demandas que são colocados pelos ambientes culturais e familiares em que
as crianças estavam inseridas. Em "O Ateneu", o papel da definição da sexualidade na
construção da masculinidade tem um papel muito parecido com aquele que a
autoafirmação cultural vai ter em "Infância". É na solução dos conflitos em torno desses
aspectos que os personagens constroem abandonam sua infância e começam seu
caminho para a vida adulta e como homens que definiram suas masculinidades. (ST01)

Gilberto Da Silva Guizelin (Doutorando)


Um Posto do Primeiro Escalão: O Papel Almejado pela Diplomacia do Segundo Reinado
para o Consulado do Brasil na Província Portuguesa de Angola
Em 1854, após anos de negociação com o Governo de Portugal, o Governo Imperial enfim
obteve autorização para reabrir o seu Consulado em Luanda, capital da província
africana lusa de Angola, fechado desde 1828. Da conquista do aval português à abertura
efetiva do Consulado, em 1858, a Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros tomou
todos os cuidados para a organização daquela que deveria ser – e de fato foi – a principal
representação do Império na África Oitocentista. A começar pela (re)definição do status
da nova representação no quadro do Sistema Consular do Segundo Reinado; passando
pela escolha dos nomes aptos à ocupar a sua chefia, e a redação pelo próprio ministro
dos Negócios Estrangeiros de instruções precisas quanto às principais matérias de
competência da nova representação consular do Império. Quais sejam: fomentar as
relações comerciais entre o Império e Angola na era pós-tráfico; resgatar e zelar pelas
propriedades dos brasileiros falecidos e residentes naquela província ultramarina
portuguesa; e cooperar com as autoridades portuguesas e inglesas na costa da África
Centro-Ocidental para a supressão definitiva do tráfico transatlântico de escravos. Como
procuraremos demonstrar nesta comunicação os preparativos que cercaram a reabertura
do Consulado do Brasil em Angola, em consonância à agenda de atuação do Consulado
definida diretamente pelos subsequentes ministros dos Negócios Estrangeiros da década
de 1850, fizeram da representação em Angola um caso ímpar entre outras representações
consulares mantidas pelo Império no mesmo período. Neste sentido, buscaremos
enfatizar também a necessidade de maiores estudos que aprofundem o conhecimento
sobre as relações diplomáticas mantidas entre o Império e as organizações políticas –
coloniais ou não – do continente africano no século XIX, assunto ainda hoje pouco
visitado pela comunidade acadêmica brasileira. (ST02)

Gilvana De Fátima Figueiredo Gomes (Graduada)


Cultura histórica e narrativas sobre o passado em A Divulgação (1947-1955)
A proposta deste trabalho é investigar a produção historiográfica publicada pelo
periódico paranaense A Divulgação, a partir da identificação dos responsáveis pelos
textos e, dos recortes temáticos e temporais priorizados nas análises. A revista circulou
entre 1947 e 1965, ininterruptamente, sob a batuta do militar Arnauld Ferreira Velloso.
Para os fins desta análise, será abordado somente o período de novembro de 1947 até os
meses finais de 1954, momento em que há produção constante de artigos devotados a
narrar o passado, tanto do Paraná como do Brasil. Destaca-se de início, que os textos de
História publicados em A Divulgação estavam afinados com um projeto intelectual e
político que visava o reforço de uma dada identidade para o estado, nos moldes do

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 85

movimento paranista; este último é um elemento importante para a compreensão da


cultura política local. Os responsáveis pelos artigos de História publicados na revista
tinham itinerários diversos e se ocupavam da historiografia como atividade paralela
àquela desenvolvida no campo profissional, embora guardassem como característica
comum a atuação na vida pública e a vinculação a instituições como Instituto Histórico,
Geográfico e Etnográfico Paranaense e o Centro de Estudos Bandeirantes, agremiações
relevantes na vida intelectual paranaense, na primeira metade do século XX, e que foram
fundamentais para a constituição de uma dada cultura histórica. É possível divisar duas
linhas de análise histórica priorizadas em A Divulgação, que demandavam os mesmos
esforços dos articulistas: de um lado, narrativas marcadas pela descrição de grandes
fatos, personagens e seus feitos com predominância de recortes temporais que
valorizavam o passado próximo (século XIX e início do XX). De outro, narrativas que
visavam os séculos anteriores à emancipação política paranaense e enfatizam as
similaridades entre a identidade paranaense e paulista focada, principalmente, na ação
dos bandeirantes. O passado, em ambos os casos, era apresentado como o vaticínio do
destino grandioso reservado aos paranaenses, desde que se mantivessem a fibra moral
daqueles que, na primeira hora, desbravaram e fundaram o território e o Estado,
respectivamente. Por fim, é importante enfatizar que tais produções não representavam
a totalidade de interpretações sobre passado elaboradas por intelectuais paranaenses,
mas são dados históricos significativos de um projeto desenvolvido desde o início do
século XX e que encontrou guarida e reforço nas mais variadas instituições públicas do
Estado. (ST19)

Giovane Pazuch (Doutorando)


Imigração Italiana na Colônia de Silveira Martins - RS: poderes, lutas e resistências (1877-
1930)
A pesquisa objetiva estudar a fundação e o desenvolvimento econômico, social e político
da colônia italiana de Silveira Martins entre os anos de 1877 e 1930. A colônia italiana de
Silveira Martins foi criada no centro do estado do Rio Grande do Sul e recebeu este nome
em homenagem a Gaspar Silveira Martins , Ministro da Fazenda do Brasil em 1877. A
sede provisória foi nomeada de “Colônia de Santa Maria da Boca do Monte” por
pertencer ao município de Santa Maria da Boca do Monte e foi dividida em 716 lotes
coloniais com 22 hectares cada um. Posteriormente foi rebatizada de “Città Nuova” e, por
fim, a 25 de abril de 1884, é denominada “Colônia Silveira Martins”, qual passou a ser
denominada de Quarta Colônia Imperial, porque foi a quarta colônia italiana criada no
Rio Grande do Sul depois de Conde D’Eu (Garibaldi), Dona Isabel (Bento Gonçalves) e
Campo dos Bugres (Caxias do Sul). A Colônia foi organizada pelo Império do Brasil para
receber agricultores italianos oriundos do Vêneto, situado no Norte da Itália. Em
novembro de 1877 e início de 1878 chegaram aproximadamente cem famílias na
localidade de Val de Buia na Serra de São Martinho entre os municípios de Santa Maria e
Cachoeira do Sul, onde no início da colonização da região se instalaram 1600 pessoas. Os
loteamentos para os imigrantes italianos não eram contíguos, porque nas partes mais
planas já haviam propriedades de nacionais portugueses e alemães, o que impediu a
unificação ou emancipação da Colônia já no século XIX. Silveira Martins seguiu um
desenvolvimento diverso do de Conde D’Eu, Dona Isabel e Campo dos Bugres, pois a
Colônia de Silveira Martins foi extinta em 1882 e as vilas que surgiram em seu território
foram divididas pelo Decreto Provincial de 1886 entre os municípios de Santa Maria,
Cachoeira do Sul e São Martinho, adiando para o século XX a emancipação de Silveira
Martins e dos nove municípios surgidos de seu território. Desse modo, a divisão do
território de Silveira Martins, a falta de representatividade política dos imigrantes no
Governo Provincial e Municipal do Rio Grande do Sul e a vida dos imigrantes restrita a
seus lotes de terra e aos problemas locais ligados à sobrevivência, procrastinou o

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 86

processo de emancipação política das vilas da Colônia. O tema proposto para o


desenvolvimento da tese é: “Imigração italiana na Colônia de Silveira Martins: poderes,
lutas e resistências (1877-1930)”. O projeto da tese pretende discutir a identificação do
imigrante italiano a sua família, a seu lote de terra através do trabalho e a sua Sociedade
da Capela através da religião, que levou à fragmentação da Colônia de Silveira Martins e
seu distanciamento institucional da política local e regional. (ST39)

Giselda Brito Silva (Pós-doutora/UFRPE)


Memórias da Resistência ao Colonialismo Português em África
Este trabalho versa sobre a memória da resistência ao colonialismo português nas
colônias africanas sob a dominação do chamado império português. A meta é contribuir
para os estudos do regime do Estado Novo salazarista, enfocando a desconstrução dos
discursos civilizatórios do regime a partir de seus doutrinadores e intelectuais católicos
em contraposição às memórias da resistência de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau,
que fazem várias denuncias acerca do "modo português de estar no mundo",
contradizendo a teoria luso-tropicalista de Gilberto Freyre, em relação à política colonial
de dominação e exploração do trabalho forçado e de uma educação excludente, imposta
aos nativos das suas colônias. (ST06)

Gislene Edwiges De Lacerda (Doutora/UNINOVE)


Memórias de uma geração esquecida: o movimento estudantil dos anos 1970 e 1980
Neste artigo analisamos as memórias da geração estudantil que atuou politicamente
durante o período da transição democrática brasileira (1974 - 1985). O período da
transição democrática foi marcado atuação de diferentes movimentos sociais, entre eles
o movimento estudantil. Diferentemente da geração anterior, a geração de militantes do
Movimento Estudantil que atuou entre meados dos anos 1970 e meados dos anos 1980,
pautou-se na luta democrática como forma de resistência à Ditadura Militar brasileira e
obteve significativas vitórias, sendo responsável pelo alargamento dos limites do projeto
de transição "lenta, gradual e segura" apresentado pelo general Geisel. Contudo, a
transição democrática ainda se constitui como um campo em disputa na memória sobre
a Ditadura. As narrativas estudantis da geração da transição demandam pelo seu
reconhecimento no tempo presente, demonstrando um ofuscamento da importância
política dos estudantes neste contexto. Abordamos o processo de construção da memória
do movimento estudantil na ditadura militar no Brasil e buscamos analisar o lugar da
transição democrática nas memórias estudantis sobre a ditadura militar e as relações
entre memória e esquecimento no caso da geração da transição. (ST42)

Guilherme De Paula Costa Santos (Doutor/FMU)


Imbricações entre política, memória e escrita da história do reconhecimento da
Independência e do Império do Brasil
A comunicação discutirá as projeções da obra de Augustus Granville Stapletton, The
Political Life of George Canning (Londres, 1831) sobre a historiografia do Primeiro
Reinado, especialmente, sobre os estudos que se dedicaram ao reconhecimento da
Independência e da formação do Império. O eixo central da apresentação é
problematizar o momento de produção da obra, escrita pelo secretário particular de
Canning e publicada após sua morte. Pauta-se na análise no décimo primeiro capítulo
que narra a ação de Canning – secretário do Foreign Office entre 1822 e 1827 – nas
negociações diplomáticas ocorridas ao longo da década de 1820 entre enviados da Corte
fluminense e da Corte portuguesa. Por seu tom encomiástico e memorialístico, a análise
do texto possibilita tecer considerações acerca das imbricações entre política, memória e
escrita da história, já que marcos cronológicos das negociações diplomáticas; eleição de
episódios; seleção de protagonistas; conjunturas econômicas e políticas da década de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 87

1820; e o papel da Grã-Bretanha como árbitra-mediadora das tratativas internacionais


foram elementos inaugurados por Stapletton e consagrados pela historiografia
especializada que se apropriou, reproduziu e desenvolveu a perspectiva e os argumentos
do autor britânico. A proposta permite, assim, encaminhar discussão acerca dos fatos,
ações, personagens, bem como problematizar interpretações consideradas
inquestionáveis sobre a formação do Império, ensejando a possibilidade de rediscutir
temas tidos por consolidados. Do mesmo modo, ela também oferece interrogações sobre
fundos documentais e sua veiculação, particularmente os arquivos diplomáticos, uma vez
que foram organizados a partir dessa memória consagrada. Tais circunstâncias sugerem,
portanto, a necessidade de reflexão do historiador sobre sua prática profissional e sua
escrita, justamente por se encontrar preso à teia da política, da memória e da história.
(ST18)

Gustavo Dos Santos Prado (Doutorando)


“Não engavetem os zines” - as contradições da cena punk underground presente nos
fanzines (anos 80)
Pretende-se, nesse texto, problematizar as dificuldades enfrentadas pela cena punk
underground brasileira através da análise de fanzines. Para tanto, o artigo analisa
fragmentos de "punzkines" que foram produzidos em várias cidades e regiões brasileiras
ao longo dos anos de 1980. Ao analisar as contradições da cena punk underground
através dos fanzines, o artigo acredita que possibilitará um diálogo profícuo com relação
aos desafios do historiador em trabalhar com novas fontes provenientes de mídias
alternativas. (ST34)

Gustavo Henrique Gomes De Almeida (Doutorando)


O nacionalismo moral dos imigrantes japoneses - Shindo Renmei e ouros conflitos internos
da colônia durante a Segunda Guerra
Durante e após a Segunda Guerra uma série de atentados perpetrados por japoneses
contra outros patrícios varreu a colônia nipônica radicada no Brasil. O ponto mais
dramático se caracterizou por ataques pessoais e violentos ocorridos logo após o fim do
conflito mundial. Japoneses acusados de assumirem a derrota de seu país, faltarem com
respeito ao imperador e outras atitudes ditas antipatrióticas passaram a sofrer tentativas
de assassinatos. Em tal episódio, o grupo Shindo Renmei ganhou notoriedade e acabou
se consagrando como uma referência dentro da história da imigração nipônica.
Entretanto mesmo sendo emblemático, tal grupo não é representante exclusivo do que a
historiografia convencionou chamar de ações ultranacionalistas. Embora coerente à
primeira vista, tal termo torna-se problemático na medida que, ao se analisar as ações
ditas ultranacionalista, surge uma contradição acentuada. Apesar da retórica nacionalista
usada por parte dos japoneses, ao contrário do esperado, os ataques e conflitos
evidenciavam uma divisão entre os nacionais. Além disso, assim como o uso de
nacionalismo ou nação, uso do termo ultranacionalismo tende a ocultar a diversidade de
pensamento e relações.
Vários autores que trataram sobre o tema do nacionalismo, Marcel Detienne, Benedict
Anderson e mesmo Eric Hobsbawm, ressaltam o caráter subjetivo do nacionalismo. Creio
que em boa medida tal subjetividade poderia ser traduzida como uma dívida do sujeito
para com a nação. Afinal, a própria identidade nacional é expressa como um dívida
ancestral; torna-se um nacional nascendo em determinada nação já existente ou
herdando a nacionalidade de seus progenitores. A nação também costuma ser
apresentada como uma construção histórica na qual sua origem é tributária de emblemas
como mártires, pais fundadores ou, para usar o exemplo de Anderson, o estranho caso do
cenotáfio do soldado desconhecido. Neste sentido, não parece exagero colocar o
nacionalismo subjetivo como uma dívida e, portanto, uma questão moral.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 88

Ao ler depoimentos de japoneses suspeitos de executarem ataques, fica claro que o


patriotismo particular é posto como uma condição moral elevada. Entretanto mesmo a
formação da moral não é descolada de uma materialidade ou isenta de uma
historicidade. Como demonstrou o historiador inglês E. P. Thompson no artigo "A
Economia Moral da Multidão Inglesa", a moral pode assumir significados de acordo com
o lugar social do sujeito. Neste sentido, o presente trabalho pretende investigar o
significado social do nacionalismo dos imigrantes japoneses ditos ultranacionalistas, que
assume instâncias de superioridade moral, legitimando, inclusive, o conflito intra-étnico
e entre nacionais. (ST39)

Gustavo Silva De Moura (Mestrando)


Rock, Imprensa e contestação: Jornal Inovação e a “Cena Rock” em Parnaíba-PI na década
de 1980.
Este trabalho apresenta uma análise dos conteúdos presentes no jornal Inovação que têm
relação direta com o estilo musical/comportamental do Rock. Em face da expansão da
“Cena Rock” em Parnaíba, no Piauí, na década de 1980, este periódico apresenta várias
referências ao tema em questão. Ao examinar as percepções da imprensa sobre o Rock, é
possível compreender como se difundiu essa expressão cultural no Nordeste brasileiro. O
jornal Inovação integrava o movimento da imprensa alternativa nas décadas de 1970 e
1980 no litoral piauiense. Para esta exposição, definimos a década de 1980 como recorte
temporal por ser o período em que o Rock é citado com mais frequência no referido
jornal. Esta análise estabelece as conexões necessárias com o contexto do país naquele
período em que o Brasil era cenário de intensa agitação política, social e cultural, tendo
em vista que estava em pleno processo de redemocratização, após duas décadas de
ditadura comandada por militares. O foco da abordagem desenvolvida contempla
basicamente dois elementos que estiveram ativamente envolvidos nessa agitação: a
imprensa alternativa e a música – mais especificamente o Inovação e o Rock parnaibano.
Ambos evidenciam as estratégias de contestação empregadas, objetivando problematizar
a realidade social brasileira, seja nas grandes cidades, assim como no interior do país –
como foi o caso de Parnaíba, segunda maior cidade do estado do Piauí. Vale considerar
que se observa na década de 1970 o crescimento do mercado fonográfico nacional,
alcançando números ainda mais expressivos na década de 1980. E nessa expansão, o Rock
começa a ganhar força, alcançando novos públicos e, consequentemente, novos
contextos culturais e sociais. Cabe notar que uma das principais características do Rock é
uma íntima relação entre local e global, característica essa que pode ser percebida nas
páginas do jornal Inovação. Outro aspecto relevante na cena do Rock de Parnaíba diz
respeito à juventude do litoral piauiense e seu papel contestador naquele contexto. As
notícias sobre shows e bandas são bastante expressivas desse viés de engajamento dos
jovens através do Rock. Em síntese, pretende-se analisar especificamente os modos como
o Rock era abordado nesse periódico. Esta análise inscreve-se no campo da história social
e tem na obra de Raymond Williams um importante referencial teórico, particularmente
no que tange aos trabalhos deste autor sobre cultura numa perspectiva materialista. Este
trabalho é resultado parcial de pesquisa de mestrado em desenvolvimento no Programa
de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP. (ST34)

Helenice Ciampi (Doutora/PUC-SP)


Alexandre Pianelli Godoy (Doutor/UNIFESP)
O tema central deste artigo é análise de uma entrevista a partir da metodologia da
história oral temática (ALBERTI, 2005) com uma professora da área de Letras que
lecionou no sistema municipal de ensino da cidade de São Paulo durante a ditadura
militar entre 1971 a 1974 e que, posteriormente, foi a responsável por organizar e
responder pelo arquivo da Memória Técnica Documental (MTD) do Departamento de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 89

Orientação Técnica (DOT) da Prefeitura Municipal de São Paulo a partir dos anos 1990.
Além de atuar como arquivista, sem ter formação de origem na área, foi revisora da
revista Escola Municipal no início dos anos 1970, publicação oficial do ensino municipal
naqueles tempos, e também fez parte dos quadros do Departamento Municipal de
Ensino (DME) na equipe de Letras, responsável pela formulação de propostas
pedagógicas para a rede nos anos 1970 e 1980. Desta forma, sua trajetória profissional é
uma confluência entre “memórias institucionalizadas” e “memórias da instituição”. A
primeira refere-se aquilo que Paul RICOUER (2007) denominou de “memória-
recordação”, pois acaba por reiterar a “memória-monumento” da instituição como um
“lugar do próprio” (CERTEAU, 1996) como, por exemplo, ao se tornar revisora do
periódico oficial da rede e formuladora de propostas pedagógicas, a segunda trata-se da
“memória-lembrança” por resguardar a “memória-documento” (LE GOFF, 2003) na
instituição pela apropriação de sua linguagem, isto é, como professora de Letras e
arquivista amadora que recria e reorganiza códigos de acesso ao presente e ao passado
em sua prática diária, conferindo voz aos outros por meio de sua voz. (ST05)

Hélio Moreira Da Costa Júnior (Doutor/UFAC)


Caminhando pela transamargura: análise fílmica de Iracema – uma transa amazônica
O objetivo desse artigo é fazer uma leitura fílmica de Iracema, uma transa amazônica,
filme de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, produzido em 1974, na cidade de Belém,
capital do Pará. O enredo transcorre nos áureos anos de chumbo, e no que pese a tensão
política brasileira, o cinema nacional vivia naquele momento, um momento de expansão
no período conhecido como segunda fase da Embrafilme. Dentre alguns aspectos que
podemos destacar nessa obra fílmica, uma em especial será alvo de nossa análise: a
fronteira entre ficção e realidade. Trata-se de uma obra de complexa classificação quanto
ao gênero e não é à toa que os próprios diretores sentiram essa dificuldade: falam em
semidocumentário, docudrama, cinema-denúncia ou cinema-realidade. Por fim, ele não
se presta a rótulos fáceis. É um filme que transita com fluidez entre as fronteiras da
ficção e da realidade, nua e crua. (ST16)

Heloisa Pires Fazion (Graduada)


Abordagens sobre o Ensino de História da América no Brasil e análise do livro paradidático
"A Descoberta da América" de Carlos Guilherme Mota
Atualmente os conteúdos de História da América estão presentes de forma mais regular
nos currículos e programas de História; entretanto, estes conteúdos enfrentaram um
longo percurso para se estabelecerem assiduamente. Tendo em vista isto um dos
objetivos deste trabalho é realizar uma apresentação sobre a trajetória do Ensino de
História da América no Brasil, procurando elucidar os diferentes estudiosos que
contribuíram para que estes conteúdos - que durante muito tempo sofreram exclusão –
se estabelecessem nos currículos e no cotidiano da sala de aula.
Além disso, objetiva-se também apresentar a análise do livro paradidático “A Descoberta
da América” de Carlos Guilherme Mota produzido no ano de 1992. Os livros didáticos e
paradidáticos apresentam inúmeras possibilidades de análise; entretanto, é importante
destacar que aqui será realizada uma investigação considerando seu conteúdo, não
discutindo, por exemplo, a apropriação deste recurso por parte de seus leitores e as
influências exercidas pelo mercado editorial. Mais especificamente será realizado um
estudo com o objetivo de demonstrar se ocorrem relações entre texto escrito e visual, de
modo que “respeitando as diferenças e as especificidades entre palavra e imagem,
devemos considerar as interfaces e o diálogo no intervalo destes dois espaços culturais”
(MOLINA, 2007, p.16). Esta análise levará em conta as três denominações de imagens
propostas por Schröder (2003): “imagem decorativa”, “imagem ilustrativa” e “imagem
documental”. (ST23)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 90

Hermano Carvalho Medeiros (Doutorando/UESPI)


A Música Popular Brasileira em Teresina: Práticas, espaços, produção e sociabilidades na
construção do universo da canção nos anos 1970-1980
Esta comunicação se propõe a trazer para a reflexão os passos iniciais de minha pesquisa
sobre a música popular brasileira produzida na cidade de Teresina, capital do Piauí nas
décadas de 1970-1980. Estas duas décadas são marcadas por intensas movimentações
artísticas praticadas pelos sujeitos pertencentes ao universo musical teresinense:
compositores, intérpretes e músicos que através de shows, espetáculos musicais e
debates estéticos ideológicos sobre os fazeres da música popular no país movimentaram
a capital piauiense. Estas atuações permitem perceber uma articulação entre essas duas
décadas, onde uma específica produção musical urbana teresinense dos anos 1970
buscava se vincular estética-ideologicamente à MPB de fins dos anos 1960 a partir de
práticas de artistas que começavam a se inserir e a produzir os espaços e as dinâmicas
musicais da cidade de Teresina ao longo dos anos 1970. Esses artistas se consagraram
como as principais referências musicais na década seguinte por meio de um determinado
discurso da música popular em Teresina veiculado principalmente em jornais impressos.
(ST26)

Iara Lis Franco Schiavinatto (Doutora/UNICAMP)


Entre o objeto e o arquivo: sobre uma imagem de Hercule Florence
Esta proposta busca, numa primeira aproximação, discutir a biografia de um objeto hoje
considerado fotográfico criado por Hercule Florence na década de 1830 em Campinas que
é considerado um objeto da primeira geração dos objetos fotográficos. Gostaria de
apontar as balizas de sentido deste objeto e certas noções de arquivos com as quais estão
atreladas. Foucault já apontou que o arquivo em seu processo de enunciação define os
significados dos objetos ali inseridos, catalogados, classificados e, hoje notamos, que os
arquivos em si possuem, no mais das vezes, uma história intelectual que os ordena tanto
quanto o arquivo, bem advertiu Derrida, designa um futuro para uma ordem de
enunciados e objetos. Assim esta proposta gostaria de colaborar para o debate da noção
de cultura visual como um campo que também reflete sobre os objetos em suas
biografias, os arquivos e as coleções, como modos de produção social de significado de
uma peça existente. (ST10)

Igor Pasquini Pomini (Mestre)


Sindicalismo e Autogestão
O presente trabalho tem como objeto de estudo as relações entre os sindicatos da
Confederação Nacional do Trabalho – CNT –, de tendência anarquista, e os diversos
comitês surgidos durante a Revolução Espanhola, de 1936 a 1939.
Com o início da Revolução, muitas empresas foram arrebatadas de seus respectivos
donos. Surgiram os comitês de empresa, que passaram a gerir as empresas diretamente,
num processo denominado “coletivização” – hoje se diz “autogestão”.
Apareceram também os comitês de bairro, de povoado ou de cidades, formados após a
derrocada das instituições republicanas. Também surgiram as milícias operárias,
formadas por partidos e sindicatos, que inicialmente conseguiram frustrar os planos dos
militares insurretos. Assim, a ordem política, econômica e social existente até então foi
desmoronada, embora não completamente.
Mas logo apareceram os primeiros conflitos. Os comitês se chocaram com os partidos
republicanos, que queriam reinstaurar a velha ordem burguesa; com o Partido
Comunista – PCE –, que, segundo as diretrizes da III Internacional, deveria chegar a um
acordo com os partidos de esquerda republicanos para que se consolidasse na Espanha a
“revolução burguesa”; e com o Partido Socialista Operário Espanhol – PSOE –, que

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 91

praticava uma política intermediária entre as outras forças. Para todos esses, de uma
forma ou de outra, os comitês eram considerados inoportunos e deveriam desaparecer
ou serem subjugados. Mas tais comitês também encontraram aliados. Em um primeiro
momento, tiveram como aliados um partido marxista dissidente, o Partido Operário de
Unificação Marxista – POUM –, e principalmente os sindicatos anarquistas. Estes últimos
formavam a maior parte da base destes movimentos autogestionários. Mas ambas
organizações acabaram envolvidas dentro de uma lógica de políticas de alianças com as
outras organizações de esquerda, o antifascismo, e que, na prática, acabou se sobrepondo
aos objetivos revolucionários.
Os comitês acabaram ficando isolados de seus principais impulsionadores. No caso dos
anarquistas, o abandono de suas posições iniciais se tornou ainda mais grave na medida
em que os comitês foram privados de sua maior base impulsionadora. Entretanto,
principalmente no campo industrial e agrícola, estes comitês tinham muita importância
para o próprio processo de Guerra Civil, já que eles eram decisivos no esforço de guerra,
não apenas pela produção, mas também porque muitas vezes forneciam os produtos com
um custo menor ou mesmo gratuitamente. Daí a importância de se compreender as
relações destes comitês com os sindicatos cenetistas, que eram seus maiores
impulsionadores.
Neste trabalho são usados como fontes alguns órgãos da CNT, como o Solidaridad
Obrera, o Tierra y Libertad, e algumas atas dos comitês de empresa. (ST40)

Isabel Camilo De Camargo (Doutora)


O papel social da escrava na Lista do Fundo de Emancipação de 1874 de Sant´Ana de
Paranaíba (província de Mato Grosso)
O objetivo desta apresentação é discutir sobre o papel social da escrava na sociedade de
Sant’Ana de Paranaíba no século XIX. Sant’Ana de Paranaíba pertencia à província de
Mato Grosso e era um ponto de parada e passagem para pessoas que iam e vinham das
províncias de Minas Gerais e São Paulo rumo a Cuiabá e Goiás. Hoje, esse entroncamento
equivaleria a uma parte da região leste do atual estado do Mato Grosso do Sul. Essa
localidade começou a ter destaque após a ocupação por entrantes vindos de Minas Gerais
e São Paulo. Esses entrantes traziam consigo suas famílias, esposas e filhas, além de bens
como carros de bois, carregamentos de víveres, ferramentas e homens e mulheres
escravizados para o trabalho. A principal fonte histórica a ser trabalhada aqui é a Lista do
Fundo de Emancipação de 1874. Pela lei 2.040, de 28 de setembro de 1871, conhecida
como lei do Ventre Livre e que tinha como objetivo libertar as crianças nascidas após
aquela data, foi criado o Fundo de Emancipação que visava libertar anualmente em cada
província a quantidade de escravos correspondentes ao valor arrecadado pelo Fundo. O
Fundo arrecadaria dinheiro para as futuras emancipações de várias formas, por meio de:
taxas de escravos; dos impostos sobre a transmissão de propriedades; do tesouro de seis
loterias anuais e da décima parte das que ocorressem na capital do Império; das multas
impostas por essa lei; de quotas advindas dos orçamentos geral, provinciais e municipais
e de doações. Os dados mostram que dos 142 escravos listados em Sant’Ana de Paranaíba,
setenta e sete eram mulheres (54,2%) e sessenta e cinco eram homens (45,8%). É
importante ressaltar que todos os requisitos de cor, idade, estado civil e profissão foram
relatados pelos senhores e estes serão debatidos detalhadamente na apresentação.
(ST40)

Ismael De Oliveira Gerolamo (Mestre)


Opinião de Nara: canção popular e crítica na trajetória de Nara Leão nos anos 60
Nos anos de 1960, a canção popular adquiriu estatuto privilegiado no âmbito artístico
brasileiro. Algumas modalidades de canção produzidas nessa década, cujas origens se
remetem à bossa nova, desenvolveram inegável componente crítico. Ao modo da arte

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 92

moderna, a canção operou criticamente em relação a si mesma, a seus aspectos formais,


de maneira metalinguística; e desdobrando tal atitude crítica ao contexto, ao plano
externo, dirigindo-se a questões culturais e políticas, a canção passou a articular arte e
vida. Com efeito, é nessa época que a música popular brasileira se tornou 'lócus' por
excelência dos debates estéticos e culturais do país, suplantando mesmo outras áreas
artísticas tradicionalmente de maior envergadura intelectual. Figura de destaque no
âmbito cultural efervescente da década de 1960, a cantora Nara Leão delineou uma
trajetória artística singular e esteve na linha de frente em momentos e fenômenos
artísticos distintos –desde a Bossa Nova até a Tropicália. Atuando como intérprete e,
eventualmente, como atriz (a exemplo de 'Pobre menina rica', 'Opinião' e 'Liberdade,
liberdade'), Nara assumiu posicionamentos pouco convencionais para a época, em que
pese sua condição de mulher e cancionista, desempenhando, em certa medida, papel
central em discussões culturais e no estabelecimento de um novo cenário musical no
país. A contundência e intensidade da atuação da cantora é traço definidor daquilo que
podemos nomear como sendo sua "personalidade artística" (noção aqui pensada em
termos amplos, de modo a englobar toda sua produção musical, sua performance, o
repertório e sonoridade de seus discos, até suas tomadas de posição em relação à política
e à cultura). Nesse sentido, parece possível descrever três linhas de atuação que
conformam a trajetória artística da cantora. Uma primeira, diz respeito ao seu trabalho
como intérprete, à sua performance propriamente dita (a ideia de performance aqui
posta, para além da interpretação vocal, será também pensada em termos amplos, como
uma noção que engloba, no universo das poéticas transmitidas pela voz, todo um
conjunto de elementos que tendem a cristalizar-se em (e para) a percepção de modo
decisivo). Uma segunda via de sua atuação consiste na maneira pela qual a artista opera
como “intelectual da cultura” e projeta-se de maneira ampla no cenário público do
período. Uma terceira linha se refere à relativa autonomia com que atuou no sistema
artístico: sua intervenção em variadas frentes permite aferir para a constituição de um
espaço relativamente autônomo no qual se desenvolveu sua produção. Pretende-se,
portanto, examinar a atuação de Nara Leão a partir da imagem de "cancionista crítica"
constituída por sua produção e trajetória.(ST26)

Ivan Esperanca Rocha (Livre Docência/UNESP)


Arqueologia experimental: o vinho de Roma Antiga na Sicília moderna
A arqueologia experimental, recentemente criada, se apresenta como uma ciência
auxiliar da história e da arqueologia e busca realizar experimentos para recriar aspectos
materiais e estruturais do passado. Formulam-se hipóteses, muitas delas baseadas em
fontes históricas, e passa-se à experimentação de sua viabilidade.
Mas se a experiência é o esteio da ciência moderna, qual seria a diferença entre
arqueologia experimental e ciência arqueológica? Aponta-se como objetivo da
arqueologia experimental a reprodução de circunstâncias anteriores e a réplica de
fenômenos passados. Os pesquisadores que se envolvem com esta atividade buscam
recriar artefatos, estruturas e processos que aconteceram no passado. E assim se
estabelece uma clara distinção entre a arqueologia experimental e outras formas de
ciência arqueológica.
Os resultados dos experimentos são veiculados de diferentes formas, mas
particularmente em EuroREA, uma revista europeia dedicada à arqueologia
experimental. A revista possui 15 números publicados, entre 2012 e 2016, e estão
disponibilizados online. Seus artigos se referem a diferentes experimentos, como a
construção de habitações da Idade da Pedra, fundição de metais com técnicas da Idade
do Bronze, produção de vidro e sal a partir de restos arqueológicos romanos, dentre
outros.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 93

Nesta comunicação nos deteremos no projeto Arqueologia do vinho na Itália: uma


experiência siciliana que está sendo desenvolvido junto ao Istituto per i beni archeologici
e monumentali del Consiglio nazionale delle ricerche (Ibam-Cnr) e em parceria com a
cátedra de Metodologias, cultura material e produções artesanais no mundo clássico da
Universidade de Catânia. O experimento se propõe reproduzir na Sicília moderna uma
vinha seguindo as instruções que se encontram em textos romanos dos séculos I a.C. a II
d.C., com destaque para as informações contidas nas Geórgicas de Virgílio e no De Re
Rustica de Columella. (ST22)

Ivania Valim Susin (Doutoranda)


Fotografia de morte: fotojornalismo e a circulação da violência.
A entrada das fotografias de violência em periódicos, alterou o âmbito da circulação da
morte, que deixou de ser privada e familiar para tornar-se pública, anônima e
referenciada por eventos de ordem nacional, como é o caso de conflitos civis. A
fotografia atingiu, assim, a partir de sua circulação na imprensa, o ponto máximo de seu
status de documento e, com ele, a noção de ser uma prova verídica dos fatos. Em uma
perspectiva preliminar, a análise de uma dimensão visual do Bogotazo (Bogotá,
Colômbia, 1948) compreende alguns problemas imediatos. O primeiro seria verificar de
que forma a fotografia do assassinato de Gaitán acionou novos sentidos nas disputas
políticas e sociais da sociedade colombiana daquele período. Ao mesmo tempo, é
premissa compreender o alcance da violência, enquanto tema, no desenvolvimento da
técnica fotográfica naquele país, bem como na forma dos artefatos e da sua circulação e
consumo, verificados a partir dos jornais e revistas ilustradas. Aqui, admite-se que tanto
o surgimento da imprensa e dos fotojornalistas, enquanto profissionais de comunicação,
foi responsável por uma circulação ampliada de imagens que, conseqüentemente,
ampliou também o seu consumo. Para tanto, é relevante o circuito da fotografia latino-
americana e os novos usos conferidos à morte, à violência e à sua representação, a partir
das redes de relações sociais possíveis de serem recriadas, entre os estúdios, os
fotógrafos, seus equipamentos, técnicas, formatos e a população que consumia fotografia
nesta época. Em um segundo momento, analisar a relação dos fotógrafos com causas
políticas e líderes revolucionários, já no século XX; a forma dos conflitos à época e a
influência deles nas pequenas cidades e na conformação de uma nova visualidade para a
violência, com a guerrilha e a morte tornando-se temas rentáveis aos fotógrafos.
Interessa, neste momento, verificar as alterações no circuito visual da imagem que
interferem na forma de sua circulação, altera os modos de representação/apresentação
da fotografia, e amplia e diversifica a sua recepção. Esta pesquisa levará em consideração,
sobretudo, o caráter material da imagem e as características que a definem enquanto
objeto. (ST10)

Janaina De Paula Do Espírito Santo (Doutoranda)


Quadrinhos como narrativas de cultura histórica: o zero eterno
Neste texto, tomamos parte das reflexões de uma pesquisa em andamento, sobre mangás
de conteúdo histórico publicados no Brasil com a temática de segunda guerra mundial.
Seu objetivo é, a partir da análise do passado feito enredo, apontarmos alguns
tensionamentos presentes no processo de apreensão do passado e da construção,
portanto, de espaços coletivos de cultura histórica. Busca-se, portanto, pensar em cultura
histórica como algo, que para além estabelecer sentido, significado e valor ao passado do
indivíduo, também, influencia na constituição de um passado geral, uma imagem base,
que ao ser tomada pela cultura de massas, pode, em certa medida, ser globalizado. O
mangá (quadrinho em estilo japonês) pode ser encarado com um objeto, como tantos
outros, em que a cultura histórica se manifesta e o modo como nos relacionamos com o
conhecimento histórico pode ser apreendido, em seu sentido de uso público: aqui

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 94

definido, como a história a que temos acesso sem o adendo da intencionalidade. No


Brasil foram publicados entre os anos de 1999 - 2015, sete títulos de mangás que tem
como fundo histórico e/ ou argumento principal a Segunda Guerra Mundial. Neste texto,
o foco é o mangá O Zero Eterno, publicado durante o primeiro semestre de 2015. O
mangá de Souichi Sumoto é adaptado de um romance histórico com o mesmo título, de
autoria de Naoki Hyakuta . Grande fenômeno editorial no Japão, razão pela qual foi
adaptado para os quadrinhos, cinema e televisão, o enredo se concentra em um relato
histórico romanceado que se vale de situações reais vividas durante a segunda guerra
mundial pela Tokkotai, a esquadra de pilotos suicidas japoneses, os conhecidos
kamikazes. A preocupação com o passado é a tônica de toda a narrativa que intercala a
atualidade e as lembranças evocadas por diferentes personagens. A junção do uso que se
faz dia memoração e do saber histórico com o fator de entretenimento, pode fazer
perceber o quadrinho histórico como elemento de análise sobre os diferentes
posicionamentos e apropriações históricas deste objeto de cultura mundializada e de
massas e portanto, de ampliação do entendimento dos diferentes espaços de construção
do sentido e do raciocínio histórico. (ST16)

Janaina Salvador Cardoso (Mestranda)


O Auxiliador da Indústria Nacional e a veiculação das ciências naturais no Rio de Janeiro.
Fundada em 1825, a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) foi uma
associação de letrados que, partilhando de ideias práticas e utilitárias, criou projetos de
modernização e diversificação da agricultura, além de um maior aproveitamento dos
recursos naturais existentes a fim de introduzir as bases para a industrialização
brasileira. Como as demais agremiações científicas e literárias fundadas no Oitocentos, a
SAIN partia da ideia de que o conhecimento para ter utilidade deveria ser compartilhado
e, com isso, recorreu à imprensa periódica como forma de expandir as ideias e propostas
debatidos por seus membros, criando, em 1833, a revista mensal O Auxiliador da
Indústria Nacional. Assim, partindo da análise das memórias sobre agricultura,
maquinários e os diversos assuntos acerca do cotidiano rural presente no Auxiliador,
pretendemos apresentar como essa imprensa periódica, com o seu discurso
assumidamente pedagógico, desempenhou um importante papel no processo de
divulgação das ciências naturais no Brasil e inserção desta recente nação independente
nos parâmetros considerados modernos no século XIX. (ST19)

Janes Jorge (Doutor/UNIFESP)


Os mananciais e a metrópole: a preservação e a degradação das águas na região de São
Paulo entre fins do século 19 e os dias atuais.
Quem acompanha a história dos mananciais de água que abastecem a cidade de São
Paulo se depara com uma situação perturbadora: desde fins do século 19 eles vêm sendo
destruídos apesar das necessidades crescentes de água na cidade. O ritmo com que essa
destruição avança varia ao longo do tempo, mas não parece que tal processo será
interrompido nos próximos anos. Nesse período a capacidade de tratamento da água
destinado ao abastecimento público foi aprimorada e houve a incorporação de novos
mananciais ao sistema. Esses dois fatores garantiram que São Paulo fosse abastecida
mesmo com o intenso crescimento de sua população e de suas atividades produtivas. A
utilização da água de poços, rios e nascentes, passando ou não pelo sistema oficial, foi
significativa em certas épocas ou regiões da cidade.
Mas será que o aprimoramento técnico do tratamento das águas e a utilização de
mananciais cada vez mais distantes, inclusive, de outras bacias hidrográficas para além
da Bacia do Alto Tietê na qual se localiza a cidade, impediu que a destruição dos
mananciais fosse percebida pela sociedade e poder público como um grande desastre
para São Paulo e região? Ou esse desastre foi constatado e nada pode ser feito? Hoje,

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diante da grave crise no abastecimento de água que atinge a Região Metropolitana de


São Paulo, mais uma vez, a incorporação de novos mananciais ao sistema oficial é a
solução que aparece com mais destaque nos debates sobre o tema. Mas recuperação e
preservação dos mananciais existentes não devia ser também prioridade? (ST37)

Jaqueline Moraes De Almeida (Doutoranda)


Contracondutas da sexualidade feminina nas entrelinhas: as produções de Helena Ferraz e
Heloneida Studart na grande mídia impressa brasileira
Essa comunicação tem por objetivo enfocar os posicionamentos de Helena Ferraz (1906-
1979) e de Heloneida Studart (1932-2007) expressos na grande imprensa e que podem ser
interpretados, seguindo o conceito de contraconduta formulado por Michel Foucault,
como lutas contra os procedimentos postos em prática para conduzir os outros. Por
“outros”, no caso, enquadro mulheres pertencentes às camadas médias, principais
leitoras de revistas femininas e de variedades. Helena, mais conhecida pelo pseudônimo
masculino Álvaro Armando, foi colunista de diversos jornais. Também trabalhou em
segmentos de rádio e televisão, e em revistas de ampla circulação, como A Cigarra e
Manchete. Apesar de nunca ter assumido publicamente uma postura feminista, algumas
de suas produções dão margem a uma leitura capaz de relacionar suas ideias a uma
crítica de gênero. Heloneida foi Deputada Estadual do Rio de Janeiro; e, expressamente
feminista, defendeu a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Na Manchete, foi
responsável por cobrir o Congresso Internacional da Mulher, realizado no México, em
1975; e aproveitou a oportunidade para expressar suas ideias acerca da condição das
mulheres, denunciando a opressão presente na sociedade. Helena foi diretora e cronista
de “A Cigarra Feminina” (suplemento de A Cigarra) entre 1948 e 1954; Heloneida foi
redatora de Manchete nos anos 1970. Ao trabalhar sob esse recorte cronológico e a partir
da análise de alguns números das revistas mencionadas há pouco, evidenciarei os
trabalhos dessas mulheres que podem ser interpretados como formas de contraconduta,
especialmente aqueles relacionados à temática da sexualidade. Ao integrar veículos
impressos de grande tiragem e circulação - instrumentos de poder cuja intenção é
justamente a de conduzir pessoas - como essas jornalistas resistiram aos discursos
dominantes, propondo, muitas vezes nas entrelinhas, formas de subjetivação? (ST45)

Jean Marcel Caum Camoleze (Mestrando)


Preservação da documentação de Movimentos Sociais. Fundo do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra
Este trabalho tem por finalidade realizar um debate sobre a importância, as
problemáticas e possibilidades de organização e identificação documental dos
movimentos sociais, através do Fundo do Movimento dos trabalhadores Rurais Sem
Terras – MST – depositado ao acervo no Centro de Documentação e Memória (CEDEM)
da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP).
A história dos movimentos sociais sempre foi importante nos estudos da historiografia
do país e na composição de nossa identidade coletivas. Então os movimentos sociais se
fazem de forma ativa e consciente, como algo que acontece nas relações humanas,
criando experiências que forma a cultura, por meio das tradições, dos valores, ideias e
instituições (THOMPSON, 1999, p. 10/11). Para Thompson, este fato se analisa que “os
fins são escolhidos pela nossa cultura, que nos proporciona, ao mesmo tempo, nosso
próprio meio de escolher e de influenciar nessas escolhas”. Com isso, as formações dos
movimentos sociais não ocorrem pelas estruturas determinadas, mas são formadas por
um processo histórico composto de saberes, informações e organização cultural que se
transmite pelas vivências e experiências coletivas.
A trajetória com mais de 30 anos do Movimento dos trabalhadores Rurais Sem Terras –
MST permitiu um acúmulo documental fundamental para a compreensão da história

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 96

atual do país. Porém a organização dos acervos documentais de movimentos sociais são
pouco estudas e precisam debater e discutir os campos teóricos/metodológicos desta
área do saber.
A organicidade do Movimento e sua produção documental cria uma dinâmica em vários
aspectos, principalmente informacional e educacional. Desta forma existe uma produção
documental ativa, que não é sistematizada em seu arquivamento e dificulta sua
disposição. Este conjunto documental do MST, auxilia na formação da memória do
movimento e não tem uma metodologia consolidada de organização.
Assim abranger o Fundo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é contribuir
para a pesquisa de elementos para a identificação documental de movimentos sociais.
(ST40)

Jefferson de Lara Sanches Junior (Doutorando)


Ciência, tecnologia e militarismo na América Latina: uma análise comparada entre Brasil e
Argentina (1956-1985)
A América Latina se caracteriza por sua grande heterogeneidade e complexidade. Tal
fato evidencia-se ao notarmos desde os diferentes sotaques no idioma espanhol que
predomina em boa parte do continente e o isolamento linguístico vivido pelo Brasil até
questões concernentes a desenvolvimento econômico e social. Essa complexidade
apresentada também se refere em relação a ciência e a tecnologia. Considerada como
região de desenvolvimento tardio na área, a América Latina vê no século XX um período
de constantes mudanças que condicionaram socialmente e economicamente a região.
Mesmo havendo a existência de institutos de pesquisa desde o século XIX,
principalmente voltados aos estudos de questões relativas a região tropical, como
agricultura e patologias, a América Latina sofre um impulso considerável em seu
desenvolvimento científico e tecnológico com a intensificação de seu processo de
industrialização a partir de 1930, marcadamente pautado por demandas externas, o que
não provocou, segundo Amilcar Herrera condições necessárias para o desenvolvimento
de uma indústria baseada em sua própria capacidade de inovação (HERRERA, p. 78, p.
1995). Fator preponderante na região desde o período colonial, a agricultura não foi
esquecida nesse processo, seja para gerar divisas ou fornecer matéria prima para as
indústrias em expansão. Para atender a tamanha demanda, alguns países latino-
americanos passam a desenvolver sistemas nacionais de pesquisa agropecuária, visando
justamente conceder a esta área o respaldo científico para tamanha empreitada. Após a
Segunda Guerra Mundial, há uma intensificação desse processo, visto o papel
desempenhado pela ciência no conflito e a crença em seu poder para a superação dos
obstáculos do desenvolvimento latino-americano. Neste contexto, destacam-se também
os institutos de pesquisa agropecuária, que a partir de então passam cada vez a mais a
abranger os territórios nacionais, em um contexto onde a agricultura e pecuária eram
vistas como fator-chave para a expansão econômica da região, tendo na ciência e
tecnologia o fator principal para o seu desenvolvimento. Nesta comunicação, toma-se
como objeto de estudo o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuaria (INTA), na
Argentina, e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), buscando
compreender a relação existente com os respectivos governos militares e a sua inserção
no contexto da Guerra Fria, avaliando-os à luz da história comparada, de Marc Bloch, e
dos conceitos de campo e capital científico, de Pierre Bourdieu. (ST32)

Jefferson de Lima Picanço (Doutor/UNICAMP)


"As Agoas E As Altas Serras": um registro dos eventos hidrologicos extremos no litoral do
Paraná (1796 - 1892)
O evento meteorológico de março/2011 pegou os habitantes do litoral do estado do
Paraná de surpresa. Embora acostumados as grandes tempestades, vendavais e ressacas

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 97

(Lima e Lima, 2002), a forte chuva deixou a população das cidades de Paranaguá,
Antonina e Morretes perplexa pela intensidade dos danos. A chuva intensa e contínua,
que chegou a 250 mm acumulados em 24 horas provocou grandes escorregamentos de
terras e inundações, destruiu trechos inteiros de bairros urbanos e rurais, matou três
pessoas, desalojou cerca de três mil pessoas, causando grandes prejuízos econômicos.
Conforme relatado aos jornais, nunca as pessoas haviam presenciado um espetáculo
natural de tamanha magnitude na região.
No entanto, em 1850, na “Memorias Histórica de Morretes”, o historiador parnanguara
Antônio Vieira dos Santos registra que a inundação registrada em 1846 em Morretes só
havia tido igual o “Dilúvio” ocorrido em 1796. Segundo Vieira dos Santos, “ambas durarão
dois a três dias a despejarem nas bahias paranaguenses suas agoas, transformando as
salitrosas em agoas doces no espaço de alguas legoas”.
Este trabalho tratar somente dos eventos hidrológicos registrados entre 1796 e 1892.
Trata-se de informações sobre eventos hidrológicos obtidos a partir das monografias de
Antônio Ferreira dos Santos e de noticias dos jornais curitibanos da época. As noticias
dos jornais, cuja circulação abrange o período 1854 – 1900, faz parte de um levantamento
efetuado no site da hemeroteca digital da Biblioteca Nacional
(http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital/). Os jornais levantados foram: ”Dezenove de
Dezembro”, “Commercial”, “A Republica” e “Gazeta Paranaense”. Foi elaborado um
banco de dados com os relatos dos eventos meteorológicos na área dos municípios de
Paranaguá, Antonina e Morretes no período analisado. Por estes dados se percebe que os
maiores eventos no período ocorreram 1796, 1846, 1873 e 1883. Os eventos de 1796 e 1846
foram narrados por Vieira dos Santos, sendo os restantes recuperados pelas noticias de
jornais.
O uso destes dados permite considerações importantes sobre os eventos climáticos e a
maneira como a sociedade os entendia e enfrentava. E nos traça um paralelo com as
inquietações provocadas pelos eventos climáticos extremos de nosso tempo. (ST37)

Jéfferson Luiz Balbino Lourenço da Silva (Mestrando)


Telenovela e Sociedade: A questão do merchandising social na teledramaturgia brasileira
A telenovela é uma importante expressão da cultura brasileira ocupando um grande
espaço na vida da sociedade. Com isso, é necessário analisar qual o papel que essa forma
de entretenimento ocupa no meio social, verificando as relações que se estabelecem
entre os dois meios. Para isso vamos avaliar, sobretudo, a obra de dois novelistas
brasileiros: Gloria Perez e Manoel Carlos, observando qual a contribuição que eles e a
teledramaturgia brasileira como um todo oferecem nas discussões de problemas
sociais no Brasil. (ST10)

Jesiane Debastiani (Mestranda)


Júlio De Revorêdo e seu debate imigratório
A política imigratória ao longo dos anos 30 sofreu um intenso debate, políticos,
intelectuais, médicos se mostraram preocupados com o futuro da imigração no Brasil,
entre estes, Júlio de Revorêdo, um autor que através de seu livro Imigração vai expressar
suas considerações acerca da politica imigratória adotada pelo país. O presente artigo
pretende analisar as principais ideias do autor, ao mesmo tempo realizando uma
comparação entre as suas sugestões para a politica imigratória e o que foi adotado nos
anos de 1940-1945. (ST39)

João André Brito Garboggini (Doutor/PUC-Campinas)


Do Ator ao Não Ator: proposta de um percurso
A metodologia de Boal (Teatro do Oprimido), iniciada por volta de 1971 foi o primeiro
método teatral inventado no Hemisfério Sul e adotado no Hemisfério Norte.. Há mais de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 98

centena de grupos de Teatro do Oprimido registrados na África, América Latina, nos


EUA, Canadá, Ásia, chegando a ensaiar atores da Royal Shakespeare Company. Essa
comunicação apresenta o início de uma pesquisa que leva em conta a premissa do “ator e
do não ator” proposta por Augusto Boal em dialogo com o cinema neorrealista italiano,
sobretudo nos filmes de Visconti, Rossellini, De Sica entre outros procurando observar o
trabalho cinematográfico dos atores e dos não-atores em filmes brasileiros e italianos,
compreendidos entre o final da década de 1950 e o final da década de 1970. (ST27)

João Augusto Neves Pires (Mestre)


“Nossa vida é bandida e o nosso jogo é bruto”: Música funk, corpos sujeitos e subjetividades
consumistas no Brasil contemporâneo.
A intelectualidade brasileira conseguiu organizar uma vasta obra crítica sobre os anos
que sucederam a ditadura civil-militar (1964 – 1985) no pais. Foram muitos os trabalhos
que se debruçaram sob os aspectos políticos, econômicos e culturais que conformaram
esse período histórico. Dessas analises foram forjados conceitos e perspectivas teóricas
para pensar a formação cultural brasileira na virada do milênio. No entanto, mais uma
vez, a historiografia e demais ciências humanas deixaram para segundo plano questões e
problemáticas circunscritas as praticas culturais produzidas no seio das camadas
populares. Assim, expressões como a da musica Funk, a qual pretendo aprofundar nesta
comunicação, foram marginalizadas e descredenciadas para se pensar o Brasil
contemporâneo. Na contramão dessa “tradição” pretendo trazer algumas reflexões sobre
sentimentos, subjetividades e cultura popular nas décadas de 1990 e 2000. Para isso terei
como principal eixo e fonte analítica as produções circunscritas a cultura funk. E, a partir
desses rastros, discutirei, por via da teoria foucaultiana, a sujeição dos corpos e a
produção de sujeitos na sociedade de consumo e das maquinas de guerras fomentados
no seio das politicas implantadas no país. (ST26)

Joao Do Prado Ferraz De Carvalho (Doutor/UNIFESP)


Trilhando os caminhos pelos quais uma criança descobre a história: o conhecimento
histórico escolar nos anos inicias do ensino fundamental e os direitos das infâncias.
A naturalização dos processos de escolarização resultante da criação de sistemas
educacionais tendentes à universalização é um marco da modernidade. A escola como
instituição produzida e produtora da modernidade e espaço de cultura própria (JULIA:
2001) guarda forte relação com os processos de disciplinarização geracional. A impressão
que temos é que “a infância e boa parte da juventude tem um papel vinculado: a de
serem escolares” (SACRISTÁN: 2005). A naturalização da escola enquanto instituição
educacional impôs o aluno como categoria geracional. O objetivo aqui é discutir o
ensino de história nos anos iniciais do Ensino Fundamental tendo como foco principal
atentar para o sujeito escolarizado, a criança e o viver diferentes infâncias, suas
expectativas e leituras de mundo, tendo como referencial a compreensão de que o aluno
é uma invenção cujos valores, representações e atitudes dizem respeito às
representações dos adultos sobre uma determinada fase da vida das gerações que estão
sob sua guarda. Nesse sentido, pretende-se discutir o ensino de história na escola da
infância na perspectiva dos direitos das crianças. Isso implica pensar diferentes formas
de viver um tempo de ser criança na sua relação com as condições históricas desse
tempo da vida, portanto, pensar em infâncias no plural. As reflexões sobre as questões
resumidas acima são nutridas e instigadas pelo desenvolvimento e acompanhamento de
alguns projetos e ações em escolas de educação básica participantes do PIBID Unifesp -
Subprojeto de Pedagogia, desenvolvido desde 2012 na região dos Pimentas na cidade de
Guarulhos- SP. Na busca da compreensão de caminhos metodológicos possíveis para
pensar como as crianças descobrem a história enquanto conhecimento na sua relação
com memória social (ARIÈS: 2013), o estudo de meio e a pedagogia de projetos foram os

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 99

caminhos pelos quais procurou-se produzir práticas pedagógicas tendo como premissa
pensar o sujeito criança vivendo uma determinada infância, territorialmente demarcada
e temporalmente contextualizada. A possibilidade do desenvolvimento educacional no
sentido da produção de uma sensibilidade histórica (BLOCH: 2001) foi pensada a partir
da ideia de letramento (SOARES) e da defesa da tese de que não existe alfabetização sem
ensino de história nos anos iniciais do ensino fundamental (FONSECA: 2009). A inclusão
da temática geracional no debate sobre o ensino de história na escola da infância visa
colaborar no sentido de superar dilemas (OLIVEIRA: 2011) sobre o que seria o ensino de
história nessa etapa de escolarização. (ST05)

João Leopoldo e Silva (Mestrando)


Terrorismo e mídia: a abordagem de um discurso sobre o terror
A presente pesquisa tem como objetivo compreender de que maneira o Ocidente
constrói uma visão sobre os conflitos árabes e sobre a ‘Primavera Árabe’, assim como
exporta discursos sobre o que denomina como terror. Para tal serão analisados três
documentários jornalísticos produzidos pela VICE News, uma das seções jornalísticas da
empresa de jornalismo global VICE. As produções são frutos de séries de filmagens e
entrevistas realizadas ao longo de poucas semanas que seus correspondentes passaram
no local da gravação. Os documentários são: The Islamic State (trad. ‘O Estado
Islâmico’), A City Left in Ruins: The Battle for Aleppo (trad. ‘Uma cidade deixada em
ruínas: A batalha por Aleppo’) e Ghosts of Aleppo (trad. ‘Fantasmas de Aleppo’); todos
foram filmados e produzidos em 2014 e são contemporâneos ao conflito que ocorre na
Síria e no Iraque: o combate entre forças do chamado Estado Islâmico e forças do
governo ditatorial de Bashar al-Assad. (ST10)
João Muniz Junior (Doutorando)
A escrita autobiográfica de Nelson Werneck Sodré
Esta comunicação de pesquisa tem o objetivo de refletir sobre aspectos da obra
memorialística de Nelson Werneck Sodré. Para tanto, propusemos fazer esse estudo a
partir da seguinte obra: Memórias de um soldado (1967), a fim de ler, mapear e
interpretar a memorialística do autor; bem como discutir determinantes sociais, políticas
e culturais da construção da memória por meio de um relato específico de natureza
autobiográfica; identificar os referenciais narrativos que se fazem presentes na escrita de
si de Nelson Werneck Sodré e delimitar diferentes dimensões da narrativa proposta pelo
autor, como um passado e um espaço social projetado na sua descrição de situações e
comportamentos. O estudo do memorialismo desse autor é uma oportunidade de
discutir sobre o gênero autobiográfico e suas relações com a narrativa literária e a escrita
da história. Além disso, podemos questionar a temporalidade e a noção de história
compartilhada pelo texto, bem como sobre o seu método de narrativa autobiográfica.
Vale ressaltar que a nossa pesquisa de doutorado em História se encontra em fase
embrionária, portanto, os resultados ainda são um tanto incipientes. (ST47)

João Paulo Berto (Doutorando)


Um museu de história, um acervo em disputa: a reabertura do Museu Histórico e
Pedagógico “Major José Levy Sobrinho” (Limeira-SP)
A presente comunicação pretende abordar os procedimentos curatoriais que envolveram
a reabertura do Museu Histórico e Pedagógico “Major José Levy Sobrinho”, na cidade de
Limeira, São Paulo, bem como as distintas relações que marcaram sua trajetória
institucional. Fundado em 26 de janeiro de 1964, o referido museu foi constituído no
amplo movimento do governo de São Paulo que almejava fomentar a importância
paulista no imaginário republicano. Desenvolvido entre as décadas de 1950 e 1970, esta
proposta levou à constituição de 79 instituições museais espalhadas pelo território do
estado. Tais espaços de memória e história procuraram resguardar a cultura material das

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 100

cidades em que se localizavam, bem como de suas regiões, além de um amplo conjunto
de acervos de caráter diverso. Esta referida diversidade foi fruto, muitas vezes, das
diferentes gestões e da falta de políticas de aquisição de acervos ou planos museológicos
bem definidos. O mesmo ocorreu para o museu limeirense, cujas coleções são formadas
por cerca de 6500 itens, entre documentos textuais, iconográficos, audiovisuais, sonoros
e tridimensionais. Contudo, os conjuntos são extremamente fragmentados e os itens não
possuem dados que, de fato, confirmem elementos como autoria, datação ou mesmo
procedência.
Desde o ano de 1984, o museu histórico passou a ocupar o prédio do Grupo Escolar
Coronel Flamínio Ferreira de Camargo, e, em 2009, foi desativado com o objetivo de
restauro de sua sede, pendência que se arrastou até maio de 2016, quando foi reaberto.
Neste ínterim, o acervo foi alvo de infestação de insetos xilófagos e agentes biológicos,
além de diversas pendências que envolveram desde acusações do envio de obras para a
decoração de espaços do executivo municipal, roubos e mobilizações por parte da
população e das imprensas local e regional. Com o intuito da reabertura do espaço
museológico, foi definida uma agenda de atividades e estudos do acervo, bem como de
reflexões acerca do ato e do fazer museológico.
Desta forma, procura-se entender qual o papel desempenhado pelo museu histórico no
contexto da cidade de Limeira, tendo sempre no horizonte sua dimensão como local de
disputas pela manutenção de uma determinada forma de interpretar e ressignificar o
passado da cidade – creditada como “berço da imigração europeia de cunho particular”,
“capital da citricultura nacional” e “capital da joia folheada”–, na maior parte das vezes,
carregando os ânimos, sempre políticos, de determinadas personagens. Intenta-se, ainda,
apresentar os elementos que nortearam a composição da linha curatorial e da seleção
dos itens que compuseram a exposição de média duração, entendida como um
experimento onde se regimentam processos de seleção, apagamentos e abordagens.
(ST18)

João Paulo Charrone (Doutorando)


As relações diplomáticas de Gregório I (590-604) com a corte imperial bizantina através do
Registrum Epistolarum
Este trabalho pretende abordar as epístolas remetidas por Gregório I (590-604) ao
mundo oriental, mais precisamente a classe dirigente do Império Bizantino. A proposta
consiste em identificar nas missivas papais não apenas sua concepção política-religiosa,
fundamentalmente, alicerçada na ideia de que a Igreja e o Império são as únicas
instituições universais, ou mesmo, que era tarefa do Imperador, como escolhido por
Deus, zelar pela paz da Igreja e agir no sentido de garantir a salvação de seus súditos.
Mas também, perceber a atuação diplomática deste pontífice, agindo como intelectual
orgânico da Igreja, articulando um projeto de hegemonia papal junto a tal instância de
poder. (ST38)

João Rodolfo Munhoz Ohara (Doutorando)


De Mortuis Nihil Nisi Bonum: virtudes epistêmicas e condutas exemplares em obituários e
artigos de homenagem de historiadores brasileiros (1980-1990)
Obituários são fontes preciosas a quem deseja entender melhor o funcionamento de
determinados modelos de conduta profissional no ambiente acadêmico. Se, por um lado,
o gênero costuma seguir um tom apologético e benevolente em relação à obra do
homenageado, por outro, uma leitura atenta permite identificar ao menos parte dos
repertórios intelectuais mobilizados no trabalho do historiador. De maneira semelhante,
os artigos de homenagem a colegas e professores já falecidos costumam delinear
trajetórias pessoais ou dar ênfase a determinadas linhas temáticas consideradas
inovadoras na produção profissional do homenageado. A partir da leitura desses dois

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 101

tipos particulares de texto em periódicos acadêmicos de história entre 1980 e 1990, este
trabalho busca investigar o uso de linguagem axiológica por parte dos historiadores para
fazer menção a (1) disposições consideradas epistemicamente virtuosas e (2) condutas
consideradas exemplares no exercício da atividade historiadora. A hipótese que norteia
este trabalho é a de que o historiador está sujeito a um processo de subjetivação ao longo
do qual aprende a ser historiador. Neste sentido, os cursos de formação e a vivência do
campo historiográfico não ensinariam apenas técnicas de trabalho e ferramentas de
análise, mas também uma série de disposições subjetivas de posse das quais um
indivíduo seria capaz de realizar adequadamente seu trabalho aos olhos de seus pares.
Busca-se, assim, delimitar as virtudes epistêmicas e os modelos de persona acadêmica
disponíveis no período delimitado a fim de melhor compreender a produção de
subjetividade do indivíduo historiador. (ST19)

José Jonas Almeida (Doutor)


Os Primórdios da Exploração da Castanha-do-Pará na Amazônia
Um produto que, no seu próprio nome, nos remete ao país do qual é originário. Desde o
final do século XVIII, a designação Brazil nut era utilizada pelos ingleses quando se
referiam à noz trazida da região amazônica. Aqui, a denominação mais comum é
castanha-do-pará, a qual apesar das várias medidas visando alterar o nome para castanha
do Brasil, ainda persiste. O seu consumo no exterior, principalmente na Inglaterra e nos
Estados Unidos conheceu uma tendência crescente durante todo o século XIX. A partir
da década de 1920, com o declínio da borracha, a castanha-do-pará passou a ocupar, em
poucos anos, a posição de principal produto de exportação de alguns Estados da
Amazônia, como foi o caso do Pará, tendo também papel de destaque na arrecadação de
tributos para essas unidades da federação. (ST37)

José Luiz Dos Santos Pereira Filho (Mestre)


A voz publica do mestre. Relações entre poder e conhecimento no século XII.
Minhas pesquisas giram em torno da busca por indícios das marcas de individuação da
pessoa através das relações entre os diversos sistemas de categorizações sociais, e a
construção do lugar social ocupado pelos mestres (magistri) do século XII.
Os sistemas de ordenação presentes no século XII, herdados de séculos anteriores ou
produzidos nesta época, demonstram um dinamismo variado. Alguns desses sistemas
permitem o trafego entre as categorias e possuem estruturas hierárquicas próprias. A
rigidez e a complexidade destes sistemas também são variáveis.
O sistema de Pedro Abelardo (1079-1142) pode ser dito dinâmico, pois a ideia de ofícios
originários de um dom divino garante uma relativização destas categorias dentro da
perfeição evangélica, não especificamente a mobilidade entre categorias. O abade não
deixa de ser um continente por que tem deveres administrativos como os dos reitores, o
bispo não deixa de ser um reitor quando estuda para melhor julgar as questões para
administrar a justiça, os casados não deixam de ser categorizados como são por serem
justos ou se dedicarem a continência.
As categorias de fiéis, como vistos, são definidas pelas virtudes ou dons que recebem.
Cada dom da graça não exclui outro, ao contrário, por serem compostos, o que daria o
nome a categoria a que cada um pertence seria a abundancia ou a dominância de dos
dons.
No sistema de ordenação de Abelardo os dons de Deus permitem uma relativização do
ofício que a pessoa deve prestar. No sistema político medieval o dom é pessoal, ou seja,
inaugura uma relação pessoal entre o doador e o beneficiado. O mesmo ocorre com o
dom de Deus neste sistema de ordenação. Dependendo do dom que Deus concede, este
não pode ser percebido por outras pessoas, a não ser por seu efeito, ou confirmação. É o

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 102

caso do dom para as letras, que diferente de um cargo de poder, só pode ser percebido
pelo seu efeito individualmente.
Neste sistema de ordenação o magister que apesar de possuir dons como o dos monges,
está categorizado pela preponderância de beatitudes, como um reitor. Este lugar neste
sistema de ordenação garante ao magister uma função política e uma voz pública. Porem
vários outros sistemas endossam a ideia do magister ser visto como pertencente a
categoria daqueles que devem dirigir a sociedade. A ascensão desta nova classe, deste
novo ator na sociedade do século XII, o mestre, e sua relação com as tradicionais classes
dominantes é o começarei a explorar neste artigo. (ST38)

José Roberto Soares Junior (Graduado)


A falta que uma praça faz: Peter Burke e a necessidade de um oásis social para cidade de
São Paulo.
Este artigo foi escrito como parte complementar de meu objeto de estudo no mestrado
que curso atualmente em História Social na Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUCSP).
Discutirei aqui a importância que o historiador inglês Peter Burke dá ao fato da cidade
de São Paulo necessitar de um “oásis”, um lugar especial onde os cidadãos desta imensa
cidade possam desfrutar de momentos agradáveis, onde a experiência partilhada pelos
seus habitantes não seja totalmente caótica e restritiva, como efetivamente a cidade vem
mostrando ser pelo menos há um século.
É necessário ter em mente que a cidade de São Paulo é a maior cidade ao sul do Globo
Terrestre, uma cidade que faz parte de uma área metropolitana exercendo força
centrípeta em relação às demais cidades que se encontram a sua volta. Desta maneira,
São Paulo possui cerca de 11 milhões de habitantes, mas, toda área metropolita alcança
facilmente uma população gigantesca de 20 milhões ou mais de pessoas, que muito
provavelmente tem uma relação muito mais intensa com a cidade de São Paulo, do que
com a cidade onde residem.
Por todos os fatos citados acima, este artigo pretende trazer ao embate de ideias não só
de historiadores como portadores de inferências acerca da cidade, mas também, incluir
neste, principalmente, alguns geógrafos, que sem dúvida alguma são os responsáveis
primordiais, embora não únicos, como leitores especializados do espaço geográfico.
Afinal como dizia o grande historiador Fernand Braudel: “um bom historiador também
dever ser um bom geógrafo e, um bom geógrafo também deve ser um bom historiador”.
Os autores que corroboram para esse projeto são: Walter Benjamin; Peter Burke; Rogério
Haesbaert; Sandra Jatahy Pesavento; Carlos José Ferreira dos Santos; Milton Santos;
Edward Palmer Thompson.
Ao fim do artigo procuro dar resposta sobre a proposição de Peter Burke sobre a
necessidade de uma praça para São Paulo, o que tornaria uma cidade muito mais sociável
e, talvez ajudasse a acabar um pouco com o aspecto caótico da urbe paulista,
amenizando também problemas para população em geral, valorizando não só a “classe
dominante”, mas, valorizando o espaço a todos e, principalmente as “classes
subalternizadas”. (ST44)

José Roberto Zan (Doutor/UNICAMP)


O Povo Canta: canção e luta hegemônica no Brasil dos anos de 1960
Em 1962 o Centro Popular de Cultura (CPC), vinculado à União dos Estudantes (UNE),
lançou o LP compacto de 33 1/3 rotações 7", intitulado O Povo Canta, com as músicas:
“Canção do subdesenvolvido”, de Carlos Lyra e Francisco de Assis; “Canção do
trilhãozinho”, dos mesmos autores; “João da Silva”, de Billy Blanco; “ Zé da Silva é um
homem livre”, de Geny Marcondes e Augusto Boal, e “Grileiro vem, pedra vai”, de Rafael
de Carvalho. As canções foram interpretadas por Nora Ney, Carlos Lyra, Rafael de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 103

Carvalho, Nara Leão, Vera Certel e o coro do CPC. A gravação foi feita em condições
bastante amadoras na sede da UNE no Rio de Janeiro e as 11 mil cópias produzidas foram
distribuídos por quase todo o País. O objetivo deste trabalho é verificar de que modo as
canções contidas nesse disco traduzem aspectos da ideologia nacional
desenvolvimentista formulada especialmente pela ala esquerda do Instituto Superior de
Estudos Brasileiros (ISEB) e que fora incorporada ao Anteprojeto do CPC, texto que
estabeleceu as diretrizes de atuação desse órgão. Tanto nos aspectos textuais como nas
escolhas de gêneros e estilos musicais, nos arranjos e nas performances dos intérpretes,
ideias como as de imperialismo, nação, subdesenvolvimento, alienação e de povo
brasileiro aparecem de modo explícito ou implícito nos discursos cancionísticos desse
repertório elaborados de maneira didática e persuasiva. Embora com repercussão restrita
principalmente ao público universitário, uma vez que pelo caráter de produção
independente não entrou no circuito midiático da época, o LP cumpriu importante
papel como instrumento de trabalho no plano da política cultural do CPC. Além disso,
estabeleceu alguns marcos simbólicos a respeito do engajamento da música popular ao
processo político brasileiro naquele período que orientaram os processos de luta e
disputas no interior do meio artístico naqueles anos. Uma das hipóteses deste estudo é
que essa produção, dentre outras ações realizadas pelo CPC, contribuiu para a
construção da hegemonia do ideário nacionalista de esquerda no plano cultural e
artístico do Brasil dos anos de 1960. (ST26)

Josefa Neves Rodrigues (Pós-graduada)


As políticas de Ação Afirmativa na USP e a Meritocracia em Questão
Este trabalho parte da experiência da autora, no decorrer da pesquisa de mestrado
intitulado: “Caminhos e Descaminhos da Meritocracia Contra as Políticas de Ação
Afirmativa na Universidade de São Paulo”. Cujo objetivo é analisar a resistência dos
dirigentes daquela universidade em adotar as políticas de ação afirmativa, pois em pleno
século XXI ainda se fundamentam em pressupostos da “meritocracia”, conceito
descartado pelas políticas de inclusão racial e social aprovadas pelo Supremo Tribunal
federal e pela legislação vigente leis: 10.639 e 12.711. Esse debate vem suscitando
polêmicas e levantando questões sobre a importância da implementação de cotas raciais
nesta instituição, reivindicadas pelos movimentos negros e sociais, especificamente pelo
Núcleo de Consciência Negra (NCN) e Ocupação Preta. Essas políticas de ação afirmativa
na educação superior brasileira tornaram-se uma realidade e tem como objetivo
combater a discriminação histórica perpetrada contra os negros, assim como se
constituírem como um instrumento de justiça social. No âmbito dos Direitos Humanos,
a desigualdade racial é vista como uma violação da igualdade e da diferença. As ações
afirmativas, destinadas à população negra, justificam-se não apenas pelas perdas
históricas incomensuráveis, mas, sobretudo, pelas perdas educacionais e políticas. (ST02)

Joyce Aparecida Pires (Mestranda)


Cotidiano, cultura e vida religiosa: possibilidades etnográficas
Esta comunicação envolve uma pesquisa de cunho etnográfico sobre a vida cotidiana no
convento Pobres Filhas de São Caetano, localizado na cidade de Cândido Mota, estado de
São Paulo, Brasil. O trabalho foi iniciado a partir da análise das trajetórias de vida destas
Irmãs Conventuais, tendo a princípio os trabalhos de Pierre Bourdieu como inspiração. O
objetivo é contribuir para uma melhor compreensão de como as feminilidades são
construídas e ressignificadas na vida cotidiana dessas freiras. Foram observadas as
condições e os lugares que elas ocupam na sociedade brasileira, especificamente as
freiras de diferentes faixas etárias e procurou-se compreendê-las através da análise da
rede de complexas relações sociais em que essas religiosas estão situadas e onde vieram
suas motivações pessoais e espirituais. As jovens que estão passando pelo período de

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formação religiosa e aquelas que já estão inseridas na instituição, auxiliaram a pensar


sobre o que elas trazem de seus contextos sociais e geográficos específicos, quando
contribuem de forma criativa para a VR e, ainda sobre seus dramas e tensões
experimentados vivendo em comunidade. (ST25)

Júlia Amabile Aparecida De Souza Pinto (Mestranda)


A história do antigo Horto Florestal de Rio Claro e características do seu tombamento
(1909-1977).
O objetivo deste ensaio é apresentar os resultados parciais da pesquisa de mestrado
desenvolvida no espaço conhecido como horto florestal de Rio Claro (atual Floresta
Estadual Edmundo Navarro de Andrade –FEENA) entre os anos de 1909 à 1974, ou seja,
período de formação e construção do horto e que também engloba seu tombamento pelo
Condephaat (1974-1977). Compreender esse período, assim como os agentes envolvidos
nesse processo, é chave fundamental para as reflexões que a pesquisa propõe: estudar,
através da investigação histórica e olhar da história ambiental, o que esse espaço
patrimonializado nos diz sobre a relação sociedade e natureza. A pesquisa, no recorte
apresentado para esse trabalho, se pautou na literatura que aborda o horto e discussões
sobre patrimônio cultural e ambiental, além de analisar o documento administrativo que
resultou em sua patrimonialização, o “processo de tombamento”, e, também as atas de
conselho do Condephaat referentes a esse processo. (ST37)

Juliano Custódio Sobrinho (Doutor/Universidade Nove de Julho)


A representação social do negro nos livros didáticos regionais para a História do Estado de
São Paulo: ensino, narrativas e currículos.
O presente artigo propõe analisar os livros didáticos regionais para o Ensino
Fundamental I, aprovados no PNLD 2016 e utilizados nas escolas públicas da rede
municipal de São Paulo. Especificamente, esta análise versará sobre as narrativas
referentes às temáticas do eixo “história e cultura africana e afro-brasileira”, de acordo
com as prerrogativas da Lei 10.639/03 e das Orientações Curriculares e Proposição de
Expectativas de Aprendizagem para o E.F. – ciclo I, da cidade de São Paulo. Além das
demandas voltadas para a produção de um material didático sobre história regional, a
comunicação pretende problematizar as narrativas construídas acerca da participação
negra na história, levando em consideração o contexto regional, o diálogo com a
historiografia, os currículos e o PNLD 2016. Não trata-se de prescrever o que as recentes
pesquisas historiográficas apontam para o tema, mas analisar a relação saber
acadêmico/saber histórico escolar, trazendo à tona as problemáticas envolvidas na
produção e usos dos materiais didáticos em sala de aula. (ST05)

Julio César De Oliveira Vellozo (Doutorando)


Nicolau Pereira Vergueiro e a luta pelo poder de dizer o direito no primeiro reinado.
Nicolau Pereira Vergueiro (1778-1859) foi um dos líderes políticos mais importantes do
primeiro reinado. Fazendeiro de grande fortuna em São Paulo, formou ao lado de
Francisco de Paula Souza (1791-1851) e Diego Antonio Feijó (1784-18430 o que a
historiografia chamou de grupo liberal paulista.
Esse grupo sustentou na primeira metade do século um verdadeiro programa político,
que tinha relação com o modelo de estado a ser erigido no pós-independência. Temas
como a fim do Conselho de Estado, a eleição por círculos, o fortalecimento do poder
provincial, a defesa adoção de uma série de medidas que enfraqueceriam o poder
moderador, marcaram praticamente a vida política inteira desses homens.
Dentre os elementos centrais desse programa, esteve a defesa do estabelecimento do
primado da lei e da subordinação do judiciário a esta. Os líderes do grupo liberal
paulista, no debate de uma série de projetos de lei que visavam regulamentar a

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 105

constituição, buscaram esvaziar o poder da magistratura togada e de construir


mecanismos de autogoverno.
Dentre os projetos sustentados com ênfase pelo grupo estiveram os que fortaleciam a
figura do juiz de paz - eletivo e leigo - e o estabelecimento do juri, tanto nas causas
crimes quanto nas causas cíveis.
Esses debates dividiram a Câmara dos Deputados em dois grupos bastante demarcados,
um que sustentava as reformas "antijurisprudenciais" outro que resistia a elas,
defendendo as velhas prerrogativas interpretativas que os juízes detinham desde o antigo
regime.
Tratava-se, portanto, do que Antonio Manuel Hespanha chamou de uma luta pelo poder
de dizer o direito, entre o parlamento, responsável pela feitura das leis, e os magistrados,
que queriam manter as suas prerrogativas de realizar interpretações.
A defesa do grupo liberal paulista da construção de uma justiça cidadã, baseada nos
juízes de paz com amplas prerrogativas e no estabelecimento do júri, foi uma parte
muito importante dos trabalhos da primeira legislatura, iniciada em 1826, concluída em
1829. A luta entre essas concepções teria ainda episódios importantes na aprovação do
Código de Processo Criminal, no Ato Adicional e nas políticas do regresso.
Nosso trabalho, que se foca na primeira legislatura, pode dar uma pequena contribuição
para que olhemos a Câmara dos Deputados para além da oposição entre Pedro I e os
Deputados, enxergando outras divisões importantes entre diferentes projetos para o que
viria a ser o Estado brasileiro.
Também pode ajudar a mostrar que a primeira legislatura, para além de ter minado as
bases do poder do Imperador, também teve uma obra importante na chamada
construção da ordem, através da discussão/aprovação de uma série importante de leis
regulamentares e códigos. (ST47)

Júlio Cezar Bastoni Da Silva (Doutor)


A atuação de João Antônio na imprensa alternativa
João Antônio, escritor e contista paulistano, foi um dos mais prolíficos colaboradores e
incentivadores da imprensa alternativa brasileira na década de 1970. Egresso da revista
Realidade, na fase dirigida pelo jornalista Paulo Patarra, a qual, além de seu valor ímpar
entre as publicações brasileiras, significou verdadeiro laboratório para a imprensa
alternativa da década seguinte, João Antônio colabora em praticamente todos os
periódicos de importância do momento, como O Pasquim, Opinião, Movimento, Ex-,
Crítica, Versus, dentre outros. A atuação de João Antônio marcou uma confluência típica
na produção alternativa na década de 1970, qual seja a união entre a produção literária e
a jornalística, ambas confluindo para o mesmo desvendamento do assim chamado Brasil
real durante o período da ditadura militar brasileira. Assim, tanto em sua produção
ficcional pura quanto em reportagens na qual recende o caráter estético de sua
construção – em especial a forma do chamado “conto-reportagem”, já presente na revista
Realidade – a produção do autor participa do que programa político das publicações, na
qual avultava a oposição ao regime autoritário e o desvendamento da situação social
nacional pós-“milagre” econômico. O objetivo deste trabalho, assim, é apresentar a
participação de João Antônio na imprensa alternativa – por ele alcunhada de “nanica” –
considerando os pontos principais presentes em seus textos e a forma na qual eles se
integravam no panorama geral das publicações do período. (ST36)

Julio Cezar Oliveira De Souza (Doutorando)


Crise econômica e Plano Collor II, um debate sobre as posições da esquerda e da direita
Ao fim do mês de janeiro de 1991, fora implementado o Plano Collor II. Este plano
representou uma nova tentativa de estabilização econômica, principalmente no que
tange ao controle da inflação, que girava em torno de 1.140,267 % ao ano no mês de seu

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lançamento. O governo, diante da pressão da sociedade civil (principalmente


empresários e sindicatos), temerosa de um novo choque econômico, procurou apresentar
o Plano Collor II como continuidade do primeiro. Dentre seus objetivos estavam um
ajuste fiscal mais duradouro, que possibilitasse a retomada de investimentos e o resgate
da dívida social, segundo o governo. A desindexação e a reforma financeira foram as
principais medidas adotadas pelo novo plano econômico. A extinção de vários índices de
preços tinha o claro objetivo de combater a inércia inflacionária, trabalhando no sentido
de desconstruir a memória relativa à inflação precedente. Para o governo, essa prática era
fundamental na medida em que impedia a reprodução da inflação pretérita no presente,
dessa forma, segundo a acepção da equipe econômica, seria criado um ambiente
econômico estável, propício a investimentos com um maior nível de confiança. Quanto à
reforma financeira, o plano criou fundos de investimento, cujo mais proeminente foi
Fundo de Aplicações Financeiras, que ficou mais conhecido como “Fundão”. É sobre esse
cenário econômico que pretendemos realizar uma sucinta discussão. Lançando mão do
debate entre políticos e economistas de esquerda e de direita, nossa proposta é lançar luz
sobre os efeitos e interesses em jogo naquele momento de crise econômica. (ST40)

Kamila Rosa Czepula (Mestranda)


Os indesejáveis chins: a imigração chinesa nas páginas do Jornal Gazeta de Notícias (1879)
Em 1879, os debates e projetos com relação à substituição da mão-de-obra escrava pela
chinesa como uma solução temporária, tornaram-se nacionais, mediante a publicação de
artigos em periódicos, panfletos e obras de cunho propagandístico. Neste sentido, esta
comunicação tem como objetivo demonstrar que, além dos discursos sobre o imigrante
de origem chinesa no Brasil, produzidos nos gabinetes e tribunas desde meados do
século XIX, existe outro campo discursivo a ser explorado, o dos discursos divulgados
pela imprensa, principalmente da cidade do Rio de Janeiro. Dessa forma, pretendemos
identificar e analisar como o debate referente à imigração chinesa figura em um dos
jornais de maior importância e circulação no período, Gazeta de Notícias, e quem foram
as pessoas que entraram nesse debate por meio do periódico, assim como as formas
utilizadas por elas, suas interpretações e a difusão dessas ideias no restante da sociedade.
(ST39)

Karla Adriana Martins Bessa (Doutora)


Escrita da história: relações de gênero e audiovisual na década de 1970
A década de 1970 foi intensa em produção de formas alternativas de resistir aos
mecanismos censores da política repressora militarista do momento. O uso da câmera de
Super 8 (e os clubes alternativos de exibição) propiciou experiências estéticas que
desafiaram os cânones da arte e da política do momento. Nesta apresentação pretendo
refletir sobre os usos que dela fizeram cineastas cariocas e paulistas, na produção de
curtas-metragens voltados para questões do corpo e da sexualidade, afinados com as
demandas globais de uma "revolução sexual". Na análise destas películas duas questões
se cruzam: 1) como este suporte (filme super 8) possibilitou expressar inquietações de
uma geração; 2) como a historiografia lidou com estes objetos culturais na produção de
uma leitura das questões culturais da época em tela. Nesta análise, atenção especial será
dada às poucas mulheres cineastas que participaram da Marginália 70,
experimentalismo no cinema brasileiro. (ST18)

Kátia Rodrigues Paranhos (Doutora/UFU)


Dias Gomes e “Dr. Getúlio”: música, dramaturgia engajada e encenação no Brasil sob a
ditadura militar
A prática do teatro musical no Brasil remonta à segunda metade do século XIX,
sobretudo às três últimas décadas. Gênero de vigência instável, que tem conhecido

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 107

momentos produtivos, seguidos por períodos menos ricos, o musical conheceu uma de
suas fases mais férteis, no país, durante as décadas de 1960 e 1970. Nesses anos, o teatro
brasileiro frequentemente se organizou sob o formato de espetáculo cantado para
responder, de modo crítico, ao regime militar instaurado em 1964. As soluções estéticas
mobilizadas nessas peças reeditaram as práticas nacionais da farsa e do teatro de revista,
assimilaram influências estrangeiras (como dos alemães Erwin Piscator e Bertolt Brecht e
do musical americano) e, acima de tudo, afirmaram caminhos artísticos originais,
capazes de envolver o público. Por sinal, vale realçar que os textos musicais registraram
instantes históricos, ao mesmo tempo em que fixaram tendências que transcenderam
aquela conjuntura específica e deixaram lições estéticas às quais se pode voltar hoje. As
estratégias épicas, isto é, as narrativas (por exemplo, a maneira de a música se inserir no
enredo) e os diálogos em verso estão entre essas lições.
Em sintonia com tais práticas, este trabalho aborda a importância política do teatro
musical na obra de Dias Gomes. Tomo por base Dr. Getúlio, sua vida e sua glória
(1968)/Vargas (1983) e enfatizo como características fundamentais a mistura entre
música, dramaturgia engajada e encenação.
Examinar esse musical equivale a revisitar, de certa forma, o momento vivido no Brasil,
que essa peça denuncia e subverte, enquanto nos possibilita uma aproximação com
estilos narrativos diferenciados de representação do poder institucionalizado. Nessa
esteira, entendo que o discurso musical afeta o espectador não só por meio dos
parâmetros sonoros, mas igualmente pela sua capacidade de sugerir imagens e de
inventar espaços e lugares ao criar figurações cênico-dramáticas. A propósito, convém
lembrar que a música sempre foi uma referência importante no trabalho de Dias Gomes,
no que se refere à sua escritura teatral. Daí a pertinência da discussão que envolve o
contraponto entre as linguagens musicais e plásticas na composição da polifonia
intrínseca do seu teatro. Disso decorre ainda, mais especificamente, o interesse em
analisar a junção da música e da obra teatral como expressões de engajamento e de
intervenção sonora que fluíam nos palcos e para fora deles nos tempos difíceis da
ditadura militar brasileira, que ainda mostraria fôlego para perdurar, com maior ou
menor força, por longos 21 anos. (ST27)

Kauan Willian dos Santos (Mestrando)


O internacionalismo anarquista e as articulações políticas e sindicais nos grupos e
periódicos anarquistas Guerra Sociale e A Plebe na segunda década do século XX em São
Paulo.
Os periódicos confeccionados e lidos pelas classes subalternas, trabalhadores e militantes
no contexto da Primeira República em São Paulo foram um dos principais vetores de
divulgação e mobilização política. Nesse sentido, é evidenciado o papel que tiveram os
grupos anarquistas, igualmente importantes na configuração dos movimentos
reivindicatórios nesse processo. Visando aprofundar o tema em questão, o objetivo
central na pesquisa que está sendo apresentada foi adentrar o estudo dos periódicos A
Plebe e Guerra Sociale e os seus grupos militantes em conjunto, buscando compreender,
de maneira mais ampla, a construção e a condução de estratégias políticas e sindicais
frente às mobilizações que ascenderam no contexto proposto, ressaltando também suas
conexões transnacionais e seus projetos internacionalistas. Diante disso, foi possível
evidenciar o fortalecimento de diversas propostas que tais grupos estavam
desempenhando, tal como as que levavam em consideração os contextos internacionais,
que estavam influenciando o movimento operário na cidade - como a Primeira Guerra
Mundial - as articulações e militância de orientação sindical que visavam a união de
diversas tendências políticas, regionais e de oficio e a união dos grupos especificamente
anarquistas, a chamada Alliança Anarquista. Para tal, buscams primeiramente as
condições que possibilitaram o surgimento das estratégias e políticas anarquistas que

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 108

serão reavaliados pelos grupos estudados e, depois, percorremos a construção e atuação


dos periódicos mencionados a partir de seus discursos e propostas bem como de práticas
e as formações de seus militantes dentro de condições materiais precisas e de eventos
históricos condicionantes, entre elas a conjuntura das greves e manifestações de 1917-
1920 que tinham o sindicalismo revolucionário seu principal vetor social, análise que se
dá também comparando tais práticas com suas influências teóricas e os debates e
articulações internacionais anarquistas. (ST40)

Kettuly Fernanda Da Silva Nascimento dos Santos (Mestranda)


Os 'Hipócritas' do Evangelho de Mateus: uma análise sobre a retórica antijudaica cristã no
I século d.C.
Este trabalho tem por objetivo desenvolver uma análise sobre o Evangelho de Mateus, o
qual está inserido num quadro de estudos relacionados à formação da identidade cristã a
partir de uma retórica antijudaica e que tem voltado seu olhar para o processo de
separação do ‘judaísmo antigo’. O trabalho procura identificar as circunstâncias da
constante denuncia da ‘Hipocrisia’ dos escribas e fariseus, assim como também busca
investigar se estas denúncias se referem realmente aos escribas e fariseus ou se são
ataques à própria comunidade cristã, como acontece no Evangelho de Lucas, tendo em
mente que o Evangelho de Mateus tem sua comunidade formada por uma maioria de
judeus cristãos (cristãos de origem judaica) e onde acreditam que Jesus não suprime a
Lei mosaica, mas deseja levá-la a perfeição, tornar a sua observância correta. Portanto, a
pesquisa se desenvolverá conduzindo a análise sobre a formação da identidade cristã a
partir da comunidade mateana. Pensando que a identidade do indivíduo é construída a
partir da sua relação com o outro (em que características são adquiridas ou repelidas
durante a formação de sua identidade). Desse contato similaridades e particularidades
começam a se destacar nos permitindo enxergar que as relações identitárias são fluidas e,
mesmo que não aceite, ocorre uma relação de troca cultural. Com isso a etnicidade está
diretamente ligada à construção subjetiva da identidade na relação cultural
compartilhada, é uma relação onde o indivíduo se reconhece e se molda a partir do
contato com o outro, podendo ocorrer na relação dentro de um mesmo grupo ou até
mesmo em uma relação social mais ampla. (ST38)

Kleber Antonio De Oliveira Amancio (Pós-doutorando)


Biografia e(na) História da Arte: uma discussão teórica
Essa comunicação visa a discussão teórica mais aprofundada de um assunto
subaproveitado, embora latente, em minha tese de doutorado. Naquela oportunidade
estava envolvido na tarefa de edificar a biografia (ou a trajetória) de Arthur Timotheo da
Costa, o pintor, negro, carioca da virada do século XIX para o século XX, e, ao mesmo
tempo, dar conta de analisar sua obra artística. Minha proposta foi, a partir dessa sui
generis combinação, alcançar aspectos concernentes a maneira como esse sujeito
subalterno expressou-se por meio de tintas, pincéis e engenho. Minha proposta acontece,
destarte, ao refletir em que medida acompanhar a vida dessa personagem auxiliou-me no
esclarecimento de sua obra; questões que por vezes ambíguas na sua maneira de
proceder, encontraram novos rumos e permitiram-me avançar numa linha de
interpretação mais segura, sem, porém, cair em determinismos simplificadores. (ST47)

Lara Jogaib Nunes (Doutoranda)


Pelas crônicas de jornais, o nascimento do Rio de Janeiro turístico
Nos dias atuais, dizer que o Rio de Janeiro é uma cidade turística é uma verdade quase
inquestionável. Elementos como suas belezas naturais e seu povo acolhedor atraem
visitantes do Brasil e do mundo durante todo o ano. A proposta desse trabalho é,
justamente, observar o início do processo que levou à construção da vocação turística da

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 109

cidade nas primeiras décadas do século XX, quando ainda nem se falava, formalmente,
de turismo no Brasil. Tal investigação será baseada nas crônicas escritas por João do Rio,
na coluna “A Cidade”, do jornal Gazeta de Notícias, e por Lima Barreto, na revista Careta.
A modernização do Rio de Janeiro ganhou impulso a partir do governo do presidente
Rodrigues Alves, dando uma nova feição para a capital federal brasileira, que então se
preparava para entrar na modernidade. Um espaço moderno estava sendo montado e,
com ele, ressaltavam-se elementos importantes para o nascimento do turismo na cidade
– atividade própria da era moderna. João do Rio era um entusiasta da modernização e
utilizavas as páginas da Gazeta para elogiar o processo ou criticar sua lentidão. Na
Careta, Lima Barreto, na esteira oposta, escrevia para ressaltar a exclusão das camadas
populares das benesses da modernização que elas viam acontecer diante de seus olhos. A
divulgação desses dois lados nos jornais foram, portanto, elementos importantes para a
configuração da realidade moderna em construção no Rio de Janeiro, dentro da qual a
atividade turística faz sentido. (ST34)

Laura Candian Fraccaro (Doutoranda)


Pequenos cultivos em meio ao açúcar: produção, lei e arranjos sociais. Campinas, século
XVIII-XIX.
A expulsão de pequenos agricultores na fronteira mercantil por grandes senhores
escravistas, orientados para a exportação, é um tema clássico na historiografia brasileira.
Mesmo assim, há poucos estudos de história social que procurem abordar a questão, e
pouquíssimos que tentem enfocar a análise nas perspectivas e estratégias dos pequenos
produtores. O presente trabalho tem como objetivo fazer isso, num estudo de caso
centrado em Campinas, SP, na virada do século XVIII para o XIX. Utilizam-se na
pesquisa os métodos da micro-história e a ligação nominativa de fontes, que permitem
reconstruir as biografias de indivíduos e grupos de parentesco, para intuir suas
estratégias econômicas e sociais.
A região de Campinas, chamada de Vila de São Carlos entre 1797 e 1842, passou por um
crescimento muito rápido e intenso a partir das últimas décadas do século XVIII. A
população livre, entre o período de 1789 e 1801, passou por um intenso crescimento. Esse
constante crescimento demográfico de Campinas sofreu uma alteração brusca no
período entre 1814-1829. A população nesse período se manteve praticamente estagnada,
revelando um cenário muito diferente do crescimento apresentado anos antes. A rápida
expansão da produção de açúcar, concentrada em propriedades escravistas dedicadas a
esse cultivo, indica que tais empresas agrícolas invadiram as terras de muitas famílias,
ocasionando um amplo êxodo.
O presente trabalho tem como objetivo analisar como se deram as relações entre os
pequenos produtores livres, especialmente aqueles de cor, e a produção de açúcar que se
expandia, buscando as estratégias traçadas por esses agricultores frente ao avanço dos
engenhos e à perspectiva de terem suas terras “expropriadas” pelos senhores desses
empreendimentos. São questionados os sentidos da pequena produção e de suas
possibilidades de sobreviver e crescer em uma sociedade estruturada cada vez mais por
uma economia de plantation. É utilizado o método de ligação nominativa de fontes, cuja
proposta é seguir, ao longo dos anos e em todo tipo de documentação, os produtores de
alimentos descritos como pardos nos recenseamentos para que se possam analisar as
estratégias traçadas em momentos diferentes da expansão da produção de açúcar e as
possibilidades de ascensão. Essa comunicação tem como objetivo também escrutinar as
leis e as ferramentas legais que permitiam ou restrigiam o acesso à terra. (ST40)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 110

Léa Mattosinho Aymoré (Mestranda)


O Pasquim no contexto de formação da indústria cultural no Brasil
O Pasquim, periódico semanal de enorme sucesso desde seu lançamento em junho de
1969, apenas seis meses após o estabelecimento do AI-5, foi de extrema importância para
toda uma geração. Pois com seu humor inteligente promovia uma reflexão crítica sobre a
realidade brasileira, além de ser porta voz de uma série de mudanças comportamentais
pelas quais passava a nossa sociedade entre os anos de 1960 e 1970. Sobreviveu à censura
prévia com o apoio da maior parte da intelectualidade carioca, a chamada “esquerda
festiva”, responsável também por sua criação e se manteve independente por mais de
uma década até perecer economicamente na primeira metade dos anos 1980. Um dado
importante é que O Pasquim surge num momento em que ocorre o processo de
consolidação da indústria cultural no Brasil. Pois, se por um lado o semanário
constantemente sofria com a censura previa instituída pelo regime militar, por outro
lado, ele teve uma vida longa, se comparado a outros jornais alternativos, por ser um
sucesso de vendas, e contar ao longo de sua historia com anunciantes de peso. A
longevidade do Pasquim pode ser analisada partindo dessa dicotomia, o semanário era
um importante instrumento contra-cultural nos anos de 1970, mas ao mesmo tempo um
produto altamente lucrativo, e neste aspecto, estava plenamente inserido nos ditames de
uma indústria, que como qualquer outra o que mandava eram os dividendos,
independentemente das posições político-ideológicas do veiculo. (ST34)

Leandro Antonio Guirro (Doutorando)


Dois mundos em um só: portugueses e africanos em Moçambique colonial (1929)
A colonização da África por europeus é assunto que demanda pesquisas e discussões
aprofundadas, tamanha a complexidade intrínseca ao tema. Partindo desta premissa, o
presente trabalho aborda um estudo de caso sobre a sociedade moçambicana com
intuito de inferir a dinâmica das relações socioculturais estabelecidas entre portugueses e
nascidos em solo africano. Para tal, vale-se dos Álbuns Fotográficos e Descritivos da
Colônia de Moçambique, produzidos em 1929 por colonos lusitanos. Observa-se que as
linhas que tentaram separar o que foi considerado civilizado e primitivo ou tradicional e
moderno confabularam polarizações interessantes para a para a ritualização da
submissão e manutenção do poder no contexto colonial. (ST02)

Leandro Maia Marques (Mestrando)


Os trabalhadores das empresas mecânicas de Ribeirão Preto, de 1870 a 1930: breve análise
econômica, política e social
Nesse trabalho, reconstituiremos parte da experiência dos operários das pequenas
indústrias, em uma realidade econômica específica, do município de Ribeirão Preto/SP,
de 1870 a 1930 , a partir de suas ações e reflexões conforme suas condições de existência
diária e cotidiana. Usaremos a metodologia de análise bibliográfica de obras que
abordam especificamente os operários ribeirão-pretanos - as obras de Geraldo, Rosa,
Borges, Tuon, Bemporad & Figlio e Silva. E análise dos documentos, Estatística Industrial
do Estado de São Paulo de 1928 a 1930, dos quais levantamos dados de apenas 47
empresas num total de 551, sobre os operários, devido ao acesso limitado aos
documentos, à destruição de boa parte deles, e à sua não existência, devido à
predominante informalização e não documentação das relações de trabalho em Ribeirão
Preto até 1930. Elegemos três âmbitos inter-dependentes e principais de análise:
primeiro: na produção econômica, com duas distintas categorias de operários - operários
regulares e de operários ocasionais, as condições degradantes e insalubres de seu
cotidiano de trabalho - o trabalho infantil de criança abaixo de 12 anos, horas extras não
pagas, salários atrasados, acidentes de trabalho, jornada acima de 12 horas diárias,
esforço muscular exagerado pois haviam ferramentas rústicas e poucas máquinas, como

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 111

fatores para a eclosão de lutas e resistências dos operários visando garantir melhores
condições de trabalho e de vida, patente no segundo âmbito: sua organização política
nas Ligas Operárias, na União Geral dos Trabalhadores (UGT) e a organização de um
núcleo local do PCB em Ribeirão Preto, desde 1922, e suas lutas, resistências, greves,
protestos, criação de jornais operários e os consensos e acomodações dos operários para
garantir melhores condições de trabalho e de vida, através da postura individualista e/ou
coletivas na relação do operário individual com a classe operária, as relações ora
conflitiva ora submissa dos operários com os patrões; e, terceiro: fatores sociais
formadores desse movimento operário: suas principais origens étnicas: negros, italianos,
espanhóis , portugueses e brasileiros , sua moradia em casas em bairros pobres e em
algumas vilas operárias, suas práticas ociosas e de lazer , gozadas em seu tempo livre do
trabalho como praticar e assistir jogos de futebol e assistir filmes nas salas de cinema de
bairro, de ingressos mais baratos. (ST40)

Leandro Ribeiro Gomes (Doutorando)


O imaginário político no mundo operário: as esquerdas do Brasil e a imprensa militante
(1922-1935).
Este trabalho visa apresentar os resultados preliminares de uma pesquisa que objetiva
trabalhar com a imprensa operária no Brasil em suas várias vertentes ideológicas, para
um maior entendimento de suas disputas políticas internas. Para tanto, conceitos como
o de imaginário e cultura política, e de práticas e representações, são fundamentais na
compreensão das identidades políticas dos grupos que estavam envolvidos nesta
produção jornalística. O foco no período compreendido (1922-1935) visa destacar um
momento em que o movimento operário brasileiro estava sofrendo profundos embates
políticos e ideológicos, pois, no plano mundial, a revolução na Rússia em 1917 e, no plano
nacional, a fundação do PCB em 1922 obrigaram os anarquistas e sindicalistas
revolucionários – correntes antes majoritárias e mais antigas nas lutas sociais e
trabalhistas no Brasil – a repensarem muitas de suas formulações teóricas diante das
tentativas de se colocarem em prática as teorias marxistas. Portanto, defendemos a tese
de que tal fato criou uma diversidade de perspectivas e de novas ideias no pensamento
político que era produzido e que até desafiavam as moldagens das tradições das
correntes políticas que estavam envolvidas. (ST40)

Leopoldo Fernandes Da Silva (Doutorando)


O comércio de alimentos na cidade de São Paulo, na virada do século XIX para o XX
Este artigo possui o objetivo de analisar as mudanças no abastecimento de gêneros
alimentícios na cidade de São Paulo, na virada do século XIX e nas duas primeiras
décadas do XX, no bojo das transformações econômicas, urbanas e sociais verificadas na
cidade.
No período, a inversão de capitais oriundos da produção de café – para as atividades
urbanas de transporte, comércio e indústria, bem como na própria formação do mercado
de trabalho assalariado – encontrou na cidade o local ideal para sua reprodução.
A passagem da cidade colonial para a cidade industrial, em meio aos investimentos do
capital cafeeiro, provocou, junto à expansão urbana, a formação dos bairros populares
onde as famílias operárias compartilhavam pequenos cômodos nos cortiços e pensões,
em ruas sem calçamento ou pavimentação, esburacadas, sem rede de esgoto.
A centralidade de São Paulo na execução do complexo cafeeiro se revelava também por
ser o local de comércio de produtos manufaturados importados da Europa e EUA, de
máquinas agrícolas, ferragens, louças, tecidos, alimentos enlatados e bebidas refinadas.
Neste contexto, o aumento na demanda por gêneros alimentícios, concomitante a
diversificação nos hábitos alimentares da população, com mudanças significativas na sua

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 112

composição social e demográfica, implicaram na reorganização da estrutura de


abastecimento urbano, assim como em sua distribuição espacial pela cidade.
Conforme desenvolveremos ao longo do artigo proposto, na cidade colonial, o comércio
de alimentos era realizado nos mercados das ruas das Casinhas e da Quitanda, no
interior do triângulo, e pelas ruas da cidade, de forma itinerante, pelas famosas negras de
tabuleiro, com suas quitandas, doces e petiscos.
Na cidade industrial, surgem outros equipamentos urbanos, como os Mercados Públicos,
situados nos arredores do triângulo, constituindo uma nova centralidade no
abastecimento de gêneros alimentícios. Os atacadistas de secos e molhados que, ao
negociarem mercadorias com práticas de crédito, como a venda em comissão e a compra
em consignação, ampliavam o estoque de produtos que incluía manufaturados
importados ou nacionais, e também produtos agrícolas como os cereais. Esses novos
estoques de produtos compunham o sortimento dos armazéns de secos e molhados, os
quais, por sua vez, constituíam a principal fonte de abastecimento de alimentos nos
bairros populares. Paralelamente, o comércio de alimentos nesses bairros era
complementado pela presença ostensiva de vendedores ambulantes.
A pesquisa a ser apresentada baseou-se em pesquisa bibliográfica, nos relatos dos
memorialistas, nos inventários de famílias de comerciantes de secos e molhados, em
notas fiscais e propagandas dos atacadistas, nos jornais da época. (ST22)

Letícia Gonçalves Alfeu de Almeida (Doutorando)


Jean Gerson e a teologia mística no século XV
No início do século XV, Jean Gerson, então reitor da Universidade de Paris, começou a
explorar o tema da contemplação e da teologia mística em alguns de seus textos dirigidos
aos laicos em língua vernácula e também em suas aulas proferidas na própria
universidade, reunidas posteriormente no tratado De mystica theologia, uma exegese do
texto homônimo de Dionísio Areopagita, fonte fundamental para os teólogos medievais a
respeito do conhecimento místico de Deus. Deste modo, este trabalho interroga como
Jean Gerson, naquele início do século XV, releu as autoridades sobre a teologia mística,
não apenas Dionísio, mas especialmente seus exegetas do século XIII, tais como
Boaventura e Hugo de São Victor, com uma postura de reforma, que tinha como alvos
específicos, ao mesmo tempo, a condução pedagógica da devoção da laica, de um lado, e
a crítica aos teólogos da universidade de Paris, de outro. Pretende-se examinar, portanto,
como essa releitura de um conhecimento teórico sobre a união mística entre o cristão e
Deus foi importante para Gerson naquele momento, tanto em seu diagnóstico sobre os
problemas da Cristandade, como em sua concepção de soluções para os impasses que,
segundo o teólogo, estavam relacionados ao Cisma e à perda do sentimento religioso por
parte, sobretudo, dos clérigos. (ST38)

Lidia Maria Vianna Possas (Livre docência/UNESP-Marília)


Oralidades e emotividade: “genderizar” a fuga de mulheres do presídio de Buen Pastor
Pretendo nesse texto evidenciar que há uma distinção entre a escrita e o oral quanto a
captação do imaginário, do relato de um acontecimento de curta duração. Como
escrevente a narrativa transforma-se na busca de um tom racional, consequente, quase
linear com preocupações próximas das clássicas autobiografias. E o aspecto do fantástico,
carregado em seu apelo emotivo, subjetivo e surpreendente é diluído pelo senso de
compromisso de uma construção com legitimidade e autoria. A experiência com a
oralidade em uma pesquisa sobre situações de viuvez durante a ditadura militar no Cone
Sul, colocou-me diante de memórias orais de mulheres, presas políticas. Nesse caso
reporto-me, com um corte temporal, a uma fuga bombástica de mulheres do presídio de
Buen Pastor, na cidade de Cordoba, Argentina em 24 de maio de 1975. A
autoapresentação e a(s) identidade (s)feminina(s), distinta da masculina são modos de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 113

lembrar e de comunicar as lembranças. As narrativas diferenciam-se conforme o gênero,


sem querer exaltar uma visão essencialista. A oralidade das mulheres reservam espaço
para a memória coletiva de caráter discursivo ao mesmo tempo, que recorrem ao
privado e ao íntimo, ao particular. (ST25)

Lilian Henrique De Azevedo (Pós-doutoranda)


É Brincadeira, É Tradição: Gênero e Violência nas Universidades.
Com o ingresso em uma universidade pública brasileira inicia-se o processo de superação
de desafios que transcendem os currículos organizados oficialmente e conteúdos
cobrados ao longo da vida acadêmica. Boa parte do corpo discente da UNESP provém de
cidades diferentes dos campi onde iniciam sua trajetória acadêmica e igualmente
diversas são suas origens culturais, sociais e ideológicas. Porém, o que para muitas/os
pode parecer um convite ao cosmopolitismo não raro perde a aura libertadora colocando
em segundo plano o horizonte de superação de dificuldades com matérias e ritmo de
leituras e estudos. O que dizer das violências e dos preconceitos de gênero, dos trotes
que apelam às provas e aos desafios com conotação sexual, machista e sexista justificados
como tradições simulando “rituais de passagem” a servirem de passaporte a um status
superior? Diversas matérias jornalísticas, postagens em redes sociais virtuais e pesquisas
utilizadas nesta investigação parecem demonstrar que os altos níveis de preconceitos e
violências de gênero nas escolas e universidades não têm encontrado resistências capazes
de minimizá-los. Junto a isso se tem os recentes debates sobre os planos estaduais e
municipais de educação, muitos deles questionando e até negando a legitimidade de se
discutir sobre questões de gênero nas escolas. Nas Universidades, a pertinência das ações
dos grupos de discentes que empreendem, ano após ano, trotes, humilhações, coerções e
as mais diversas intimidações que geram violências físicas e psicológicas são justificadas
por tradições que não são questionadas de modo a refutá-las e extingui-las. A partir de
algumas matérias jornalísticas e de estudos sobre práticas trotistas e demais tipos de
violências de gênero em universidades no Brasil nesta oportunidade estão sendo
discutidas como se apresentam e se justificam tais práticas como tradições. Essa via
permite a compreensão do que está sendo tomado como “tradicional” nas rotinas
abusivas que humilham, provocam dor e sofrimento psicológico, legitimam práticas
machistas, homofóbicas, sexistas apesar das campanhas e do apelo de variados
segmentos a demonstrarem repúdio àquelas práticas. Espera-se com essas reflexões
contribuir para a ampliação do debate sobre o sentido que um conjunto de tradições
inventadas pode ter entre grupos que disputam por poder e representatividade nas
Universidades. (ST25)

Lilian Marta Grisolio (Doutora/UFG)


A função social da Educação, o papel do Estado e da sociedade civil: o caso do ensino de
História no Brasil
Esta comunicação se insere na proposta de uma reconstrução do diálogo entre duas
importantes áreas do saber, a História da Educação e o Ensino de História. Busca-se
assim, entre outros aspectos, a elaboração e reelaboração de novas teorias e questões
sobre a Educação e a História, problematizando a função social da educação, o papel do
Estado e da sociedade civil. Considerando tal como Dermeval Saviani, a educação como o
ato de produzir direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular a humanidade
que é produzida histórica e coletivamente, aquilo que a humanidade produziu é
referência para desenvolver uma educação que de fato leve a humanização e
desenvolvimento pleno da sociedade. Dessa forma, este trabalho se insere na perspectiva
de que se os professores de História querem de fato compreender o significado de sua
atuação e função social que cumpre a disciplina é preciso reconhecê-la dentro do
contexto histórico em que foi produzida e suas consequências.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 114

É preciso considerar que não basta o professor de história dominar os conteúdos, mas ter
clareza do papel do ensino daqueles conceitos e conteúdos na formação do educando.
Assim, a articulação entre os campos da educação e o ensino de história são essenciais
para compreender como os saberes são recriados e reelaborados no cotidiano escolar.
Considera-se assim, essencial entender a educação em perspectiva histórica, o que
favorece um ensino de história mais próximo da realidade de professores e alunos.
Acredita-se assim, que este debate permita um enriquecimento e um refinamento do
ofício do professor/pesquisador, com resultados longos, profundos e duradouros, não
sem grandes desafios e dificuldades, mas que constituem o cotidiano da prática
educativa. (ST05)

Liliane Pereira Braga (Doutoranda)


Cinemas afrodiaspóricos contemporâneos: modos de ser e viver em crítica a ethos coloniais
norte-hemisféricos
Utilizando cinemas contemporâneos afrodiaspóricos como fonte de pesquisa, propõe-se
neste artigo analisar modos de ser e viver de afrodiásporas em práticas representacionais
críticas a racismos culturais, xenofobias, intolerâncias em voga desde a supremacia do
mundo eurocêntrico em aproximações teóricas com estudos pós e des-coloniais. Nesta
análise, interações performáticas, memórias do corpo, gestos e cantorias são entendidos
como transgressão ao individualismo e a competições personalistas próprios do Ocidente
e a estratégias de racialização e colonialidade presentes em eurocentrismos
logocentristas.
Cinemas afro-brasileiros, haitianos e cubanos conformam uma contranarrativa a padrão
presente em narrativas cinematográficas realizadas em perspectivas euro-ocidentais ao
apresentarem a unidade cósmica própria de modos de ser e viver de povos de África e da
diáspora africana detentores de saberes outros, que constituem insurgências a ethos
norte-hemisféricos pautados em perspectiva racional-iluminista da qual é proveniente
epistemologia excludente, racista, colonial e concepção de história universal, racional,
linear, progressiva, como expõe Maria Antonieta Antonacci no artigo “Descolonizando
histórias de África, culturas africanas e da diáspora” (MULLER, T.; COELHO, W. &
FERREIRA, P. (orgs.). Relações étnico-raciais, formação de professores e currículo. São
Paulo: Editora Livraria da Física, 2015). Cosmogonias da África subsaariana
ressignificadas em práticas culturais afrodiaspóricas – do campo da espiritualidade
(candomblés, vodus, santerías...) e do campo das artes cênico-musicais (samba, konpa,
rumba) – contrapõem-se a episteme e visão histórica coloniais a partir de temporalidades
espirais e concepção de sujeitos coletivos (“ubuntu” ou “sou porque somos” em universo
cultural-linguístico zulu-bantu).
Reunindo tradições orais africanas veiculadas em provérbios, aforismos, mitos e cantos;
rituais, ritmos, danças e festas; imagens, metáforas e arquitetura gestual de corpos
negros em diáspora, tais cinemas constituem-se em ricos arquivos para o fazer
historiográfico e o fazer pedagógico, tão importantes quanto produções bibliográficas à
pesquisa e ao ensino de História e Cultura Africana, Afro-Brasileira e Afro-Diaspórica.
(ST02)

Linive De Albuquerque Correa (Mestranda)


“Diário vespertino de maior circulação em Mato Grosso”: Correio do Estado – de Jornal a
Conglomerado Midiático (1954-1980)
A presente comunicação constitui-se a partir dos primeiros resultados de minha pesquisa
para a escrita da dissertação, onde, com o objetivo de promover uma análise histórica do
Grupo Correio do Estado, propõe-se o estudo crítico de sua formação e primeiros
desenvolvimentos, bem como das principais relações dele com os campos político e
econômico. Intenciona-se com esta proposta de pesquisa dotar de historicidade a

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 115

trajetória inicial do Grupo, gestado em torno de um jornal, e posteriormente consolidado


como a maior empresa de comunicação do Estado do Mato Grosso do Sul. O
conglomerado teve seu início em 1954, na cidade de Campo Grande, quando José Barbosa
Rodrigues comprou o jornal Correio do Estado, nas décadas seguintes passou a integrar
diferentes veículos midiáticos, além de empresas de publicidade e produtora de vídeos.
Seus primeiros desdobramentos e a conquista por concessão televisiva, obtida em
meados da década de 1970, representam para os negócios do Grupo um marco rumo à
sua consolidação no mercado midiático sul-mato-grossense através do domínio de
grande parte da mídia e dos canais de comunicação do estado. Elencamos ainda como
objetivos a compreensão histórica da montagem da estrutura do Grupo e das principais
dinâmicas empreendidas por este no campo midiático regional, sobretudo em termos de
concorrência com demais empresas de jornalismo e comunicação social e de suas
relações com agentes, individuais ou coletivos, atuantes no campo político e econômico,
de influência regional e nacional. (ST34)

Luana Saturnino Tvardovskas (Doutora/UNICAMP)


Insubordinações feministas nas práticas artísticas de Adriana Varejão
Essa comunicação tem por objetivo abordar a poética visual da artista contemporânea
brasileira Adriana Varejão, que nasceu no Rio de Janeiro em 1964, analisando como suas
obras de arte desconstroem imagens e representações tradicionais acerca da história
brasileira, sobretudo por meio de críticas culturais às práticas misóginas, à violência da
escravidão e ao colonialismo. Observo as relações entre os estudos feministas, a arte e a
história, discutindo como esses desdobramentos são repletos de significados políticos e
éticos. Tendo em vista que as mulheres foram criadoras silenciadas pelas correntes
históricas dominantes, essa discussão também responde à emergência de um campo
feminista da história da arte que confronta a posição de subalternidade do feminino
dentro da cultura ocidental. Por fim, trata-se de pensar, norteados pelos estudos
feministas e pelo “pensamento da diferença”, sobretudo pelas reflexões de Michel
Foucault, Gilles Deleuze e pelos estudos pós-coloniais, em novos olhares sobre o passado
do Brasil que desfaçam e desmontem o imaginário patriarcal sobre os corpos femininos –
esfera na qual as práticas artísticas atuam de modo surpreendente e revelador. (ST45)

Lucas Alves De Camargo (Mestrando)


A luta pelos direitos humanos na cidade de Osasco (1977 a 1983) – A Atuação das
comunidades na construção do Centro de Defesa de Direitos Humanos de Osasco
(CDDHO).
Nossa pesquisa, em andamento, tem o objetivo de reconstruir o processo de formação e a
atuação do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Osasco (CDDHO) a partir da
experiência das comunidades de base organizadas em paróquias da cidade. Buscamos
compreender a luta pelos direitos humanos através da elucidação das formas de
organização construídas por sujeitos coletivos que se formaram em Osasco durante os
anos de 1977-1983. Entendemos que sujeitos vinculados às comunidades eclesiais de base
e aos movimentos de trabalhadores organizados nos bairros, compuseram uma rede de
atuação pelos direitos humanos que possibilitou a formação do Centro de Defesa dos
Direitos Humanos e a sua estruturação em diversas comunidades da cidade. Assim,
buscamos compreender este processo de atuação que acreditamos ter existido a partir de
uma intensa rede de colaboração que partia das comunidades de base e alcançava
movimentos coletivos organizados no interior da igreja católica. Estes sujeitos coletivos
construíram práticas, atuações e reivindicações contrárias às instituições do Estado
ditatorial. Consolidaram reivindicações sobre o poder público que partiam de suas
necessidades relacionadas em sua experiência partilhada. Percebemos que no período
analisado a cidade de Osasco se constituía enquanto palco de luta popular pelo acesso

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 116

aos direitos, quando diversos coletivos se formavam para reivindicar o direito a moradia,
saúde e educação. Estavam organizados a partir de comissões de moradores, de
comunidades eclesiais de base e coletivos de trabalhadores motivados por aspectos de
sua experiencia em comum. Lutavam pela instalação de estruturas públicas, pela
moradia e contra a violência cotidiana e policial. Questionavam o papel do Estado,
promoviam aulas públicas, faziam abaixo-assinados, pequenas passeatas, se dirigiam até
a prefeitura, entravam com procedimentos jurídicos nas secretarias de gestão da cidade,
recorriam a advogados para apoio jurídico, buscavam divulgar e compartilhar as suas
práticas ações. Construíam sobre a cidade suas estratégias coletivas de luta pelos direitos.
A documentação que analisamos evidencia intensa relação desses diversos grupos, que se
comunicavam através de uma atuação interligada dos sujeitos. A partir de 1977 as
comunidades atuantes ajudam a construir um movimento popular pelos direitos
humanos que se consolida a partir da atuação do Centro de Defesa dos Direitos
Humanos de Osasco, entidade que unia projetos pastorais, movimentos trabalhistas e a
atuação comunitária. A partir desta entidade os coletivos de bairro se projetaram na luta
por seus direitos. Objetivamos compreender este processo e seus desdobramentos na
luta popular pelos direitos humanos construída nos anos finais da ditadura civil-militar
na cidade de Osasco. (ST40)

Lucas Jurado Taoni (Mestrando)


História e música: possibilidades de tratamento.
Já é sabido e bem aceito, pelo menos desde a contribuição dos Annales (1929), que os
interessados em reconstruir e às vezes analisar o passado se empenham numa espécie
fazer híbrido. Regularmente, historiadores tomam de empréstimo conceitos de outrem,
no limite usufruem do seu repertório conceitual e de objetos, articulação tão habitual
que não leva à descaracterização do olhar historiográfico. Esta especificidade de fazer
totalmente plural não poderá ser encontrada em outras disciplinas, justamente porque
decorreu de uma trajetória historiográfica particular, na verdade, da conjunção dos
fatores históricos entre o papel que ocupou no desenvolvimento das sociedades e o seu
desdobramento científico posterior.
Ao passo que a sensibilidade dos historiadores foi alterada, devido à imprescindibilidade
de reorientação do olhar e de expansão teórico-metodológica, sobreveio a necessidade de
equipá-la com contornos epistemológicos mais específicos. Desta feita, convencionou-se
escalar toda sorte de objetos até então obscurecidos numa taxonomia maior de ¨História
Cultural¨, que não é monolítica, porque multifacetada e refratária, ou tampouco imune
às crises da ciência e recessões da sociedade, mas que conservou durante seu itinerário
um núcleo de interesse vinculado à construção dos significados, às representações, às
formas tanto materiais como imateriais do desenvolvimento humano e ao papel social
das artes. Neste sentido, é sintomática a incorporação da cultura popular nas suas mais
variadas expressões pelos historiadores, pois, dela perscrutaram um elemento primoroso:
uma fonte da consciência popular – pouquíssimo vasculhada senão após a década de
1960.
Neste caso, a música é a expressão sui generis, afinal, não existe uma única sociedade que
não produza música e durante muito tempo acadêmicos hesitaram em inseri-la como
objeto ou fonte de estudo, ou por desconhecer ferramentas metodológicas que pudessem
dar conta do código musical, ou porque seu poder de significação e comunicação
socialmente conferido foi subestimado. Como o historiador pode abordá-la? De todos os
ângulos possíveis, quais escolher? Sob quais dados sonoros estão os significados
primordiais da música? Qual o papel da música na coletivização do ser humano? Como
se dá o processo de comunicação musical? Eis algumas questões que buscaremos se não
responder, mas sugerir algumas possibilidades, no desenvolvimento do artigo. (ST34)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 117

Lucas Mateus Vieira De Godoy Stringuetti (Mestrando)


O Brigadeiro Eduardo Gomes: Uma análise de suas obras biográficas
Este texto tem por objetivo realizar uma análise comparativa das obras biográficas que
foram escritas ao longo do tempo sobre o Brigadeiro Eduardo Gomes. Assim, serão
analisadas as seguintes biografias: "Brigadeiro Eduardo Gomes" (1945), de Gastão Pereira
da Silva, "O Brigadeiro da Libertação" (1946), segunda edição do livro, de Paulo Pinheiro
Chagas e "O Brigadeiro. Eduardo Gomes, trajetória de um herói" (2011), escrito por
Cosme Degenar Drumond. Deste modo, a ideia é discutir como o perfil político do
Brigadeiro Eduardo Gomes foi retratado pelos autores em suas obras, na eleição em que
o Brigadeiro foi candidato a Presidência da República pela UDN em 1945, e ao mesmo
tempo, averiguar além de proximidades e diferenças , como essas obras apresentam suas
abordagens do ponto de vista documental e histórico. (ST47)

Lucas Patschiki (Doutorando)


Organizar-se contra o povo: A criação do Instituto Millenium (2005-2007).
Neste artigo iremos analisar a fundação do Instituto Millenium (daqui para diante IMIL)
por Patrícia Carlos de Andrade e Denis Rosenfield em 2005, quando ainda era chamado
de Instituto da Realidade Nacional (troca de nome no ano seguinte). Assim, primeiro
avaliaremos os atores envolvidos, seus vínculos políticos e sociais, suas experiências e
interesses que convergiram para a participação ativa no IMIL. Segundo, iremos verificar a
organização inicial, como estes atores constituírem uma hierarquia organizativa para o
IMIL e como estes relacionam-se na sociedade civil e política. Por fim, iremos avaliar a
identidade ideológica conformada pelo IMIL neste primeiro momento, ou seja, os pontos
mais básicos na conformação de um discurso e de uma agenda política. O IMIL hoje é
avaliado como o 33º maior “think tank” da América Latina (Global To Go Think Tanks
Index Report 2014 – University of Pennsylvania), constando como número 10.890 entre
todos os sites brasileiros, e número 354.306 em comparação global (ALEXA, 13.09.12).
Atua como um aparelho privado de hegemonia por excelência (GRAMSCI, 1999, p. 321),
dado que não está diretamente ligado às relações de produção, distribuição e venda (não
cumpre as responsabilidades de sindicato patronal, federação de industriais, associação
comercial, etc.), agindo como um partido não formal, uma “nomenclatura de classe” para
a expansão do grupo social do qual se origina (GRAMSCI, 2002, p. 313). Seu “Histórico”
afirma que foi lançado “com a finalidade de promover valores e princípios de uma
sociedade livre”, entendendo como prerrogativas para esta a “liberdade individual,
propriedade privada, meritocracia, estado de direito, economia de mercado, democracia
representativa, responsabilidade individual, eficiência e transparência” (IMIL, 2005). É
responsável por organizar uma série de conferências e palestras, debates e colóquios
públicos; um “canal” de televisão online (transmitindo programas por podcast); boletim
eletrônico; um projeto para “sala de aula” e outro para “redações”; além de manter
diversas campanhas (geralmente através de anúncios em revistas e jornais de grande
circulação). Conta atualmente com uma equipe fixa de dez pessoas e mais de duzentos
colaboradores. (ST06)

Lucia Helena Oliveira Silva (Pós-doutora/UNESP)


Biografias e prosopografia: onde começa e aonde acabam as histórias de militância
Benedito de Evangelista 1909-2000
Esta comunicação de pesquisa objetiva realizar uma pequena reflexão sobre a dinâmica
da vida social, política e cultural de um grupo de afrodescendentes e a disposição de uma
pessoa quase anônima chamada Benedito Evangelista. Eles foram minha porta para
recuperar parte das dinâmicas de sobrevivência e enfrentamento do racismo
institucionalizado no interior do estado de São Paulo. Queria entender tais dinâmicas
fora dos grandes de tradição afro-brasileira como Rio de Janeiro, Salvador, Maranhão. Sei

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 118

que nestes lugares a presença majoritária apontou a força da tradição em atividades


culturais como o samba, a religiosidade, a culinária, as festividades profanas e religiosas,
bem como no mercado de trabalho como apontou Cruz (2000) na área portuária do Rio
de Janeiro. Busquei ao me voltar para São Paulo, saber como foi a vida de
afrodescendentes em lugares menores e/ou mais distantes dos grandes centros de
tradição afro. Não que acreditasse que as tradições africanas e afro-brasileiras deixassem
de existir em outros lugares, mas principalmente como seria estar, resistir e manter e
recriar novas dinâmicas em lugares espacialmente mais delimitado diferentes das
capitais. Benedito Evangelista e os irmãos/associados da irmandade e Liga Humanitária
dos Homens e Cor situava-se em Campinas. Benedito nascido em Campinas e filho de
ex-escravos, cresceu , estudou, trabalhou e militou pela cidadania de seu grupo.
Participante ativo na luta contra o racismo Benedito Evangelista foi um lutador árduo em
defesa da instrução e construção da cidadania de negros paulistas através de sua luta
pelo Colégio São Benedito entidade particular criada para atender a educação dos filhos
dos associados da irmandade de São Benedito. Entre os anos de sucesso e o término das
atividades pode-se conhecer um pouco da luta do grupo de militantes para a
sobrevivência de sua instituição que tinha importância impar para a comunidade negra
da cidade. Entendo que estudar este processo histórico é em parte contribuir para a
recuperação da memória dos grupos afrodescendentes mantida à revelia das narrativas
da história oficial, portanto construções dinâmicas e permeadas de embates. Podemos
afirmar que a história do grupo de militantes de Evangelista faz parte de uma perspectiva
maior que envolve o século XX. Ou seja, sua vida se passou contemporaneamente a
criação de entidades supranacionais em prol dos direitos políticos e civis no mundo todo,
a criação de uma imprensa negra aqui e fora e a conjugação de esforços para a libertação
dos povos africanos do processo de colonialismo e contra o “apartheid”. (ST47)

Lúcia Iaciara Da Silva (Mestranda)


Estudo de caso das condições de trabalho ao longo do tempo na agroindústria da cana-de-
açúcar no pontal do Paranapanema: município de Caiabu-SP
No Pontal do Paranapanema além dos intensos conflitos em torno da questão do uso e
da posse da terra, também surge a questão do capital e do trabalho ligados ao setor
sucroalcooleiro. Intensificam-se as relações de Latifundiários com a agroindústria
canavieira. O setor sucroalcooleiro ganho forças advindas principalmente de políticas
públicas setoriais, em especial da metade do século XX até os dias atuais. Nutrido com o
discurso de fazer prosperar as regiões onde se instala, o setor acaba atraindo
contingentes de trabalhadores com baixa escolaridade e pouca qualificação para o corte
da cana ou para suas unidades fabris. O que se indaga neste trabalho são as condições de
trabalho a que estes trabalhadores (migrantes ou não) se sujeitam, principalmente no
Município de Caiabu-SP, que aqui será tratado. (ST40)

Luciana Cavalcanti Mendes (Mestre)


Diários fotográficos de bicicleta em Pernambuco: os irmãos Ulysses e Gilberto Freyre na
documentação de cidades na década de 1920.
Esta pesquisa de mestrado interdisciplinar centrada no segmento da fotografia de acervo
de intelectual apresenta o estudo de caso de 84 imagens feitas pelo fotógrafo amador
Ulysses Freyre de alguns prédios e ruas das cidades de Olinda e do Recife entre 1923 e
1925. Ulysses fotografou durante passeios de bicicleta aos domingos ao lado do irmão, o
sociólogo Gilberto Freyre. Objetivou-se evidenciar este fotógrafo até então desconhecido
em sua obra que transita entre o amador e o profissional, além de traçar os dois usos
dados por Gilberto às fotos de Ulysses: de base aos desenhos do artista gráfico Manoel
Bandeira para o “Livro do Nordeste”, organizado pelo sociólogo em 1925 para o
centenário do jornal Diário de Pernambuco; e como parte da concepção de inventário de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 119

edificações da arquitetura civil que serviu à Inspetoria de Monumentos Estaduais em


1928 em Pernambuco. Vale-se do campo acerca do circuito fotográfico nestas cidades -
que estavam sob reformas urbanas no início do século XX -, com o fim de situar e revelar
a fotografia de Ulysses como artefato de memória propulsor do embrionário projeto
político-intelectual de Gilberto neste período. Deu-se importância à geografia afetiva
inerente à dinâmica de trabalho de Gilberto e Ulysses, fundamental na construção da
obra embrionária de Gilberto. O amor à província, as relações familiares, o afeto a cada
canto das cidades e principalmente a enorme influência de Ulysses na vida intelectual de
Gilberto foram fundamentais para o início do que posteriormente viria a ser o sociólogo
na categoria de pensador social do Brasil. As fotos de Ulysses foram divididas em: 37 de
fachadas e ruas das cidades irmãs e 47 de detalhes de luneta de 'bandeiras', componente
da arquitetura presentes em portas e janelas de casas à época. As fotografias estão no
acervo da Fundação Gilberto Freyre, em Recife, Pernambuco e as imagens aqui
apresentadas trazem ineditismo à pesquisa, pois este acervo específico de Ulysses até o
momento não foi investigado em outros estudos. É a primeira vez que é revelado a
público. (ST10)

Luciana Silva Leal (Mestranda)


Civilidade e instrução de meninas negras nos primeiros anos do Brasil Republicano (1889 -
1910)
Este trabalho refere-se à pesquisa ainda em andamento, com vistas à obtenção do título
de Mestre no Programa EHPS - Educação: História, Política, Sociedade da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP e tem como objetivo analisar o processo de
civilidade e instrução das meninas negras na Escola Doméstica Nossa Senhora do
Amparo, que funciona ininterruptamente até os dias atuais, atendendo exclusivamente
meninas carentes. O recorte temporal da pesquisa tem início nos primeiros anos do
Brasil Republicano, período em que se discutia a necessidade de civilizar e instruir a
população negra para que esta ocupasse um "lugar" na sociedade republicana. (ST05)

Luis De Castro Campos Junior (Doutor/UNESP)


Relações entre História e Cinema: possibilidades e limitações
Com o desenvolvimento da globalização no final do século XX novas formas de
comunicação encontraram o campo aberto para sua proliferação. O cinema como fruto
da segunda Revolução Industrial no século XIX apresentou um desenvolvimento notável
em função das novas tecnologias implementadas no tratamento da imagem. Neste
trabalho a preocupação seria discutir a relação entre história e cinema apontando
possibilidades e interações quanto ao tipo de mensagem veiculada e os valores que estão
implícitos além da visão de sociedade que muitos diretores querem empreender quando
tornam públicos seus trabalhos. (ST34)

Luiz Carlos Checchia (Mestrando)


Chão De Fábrica, Chão De Cena A experiência do Grupo Osasquense de Teatro Amador
O artigo "CHÃO DE FÁBRICA, CHÃO DE CENA, A experiência do Grupo Osasquense de
Teatro Amador", aborda a experiência do Grupo Amador de Teatro de Osasco (GOTA),
formado por operários e operárias da COBRASMA, compreendendo-a como parte da
formação da consciência operária naquele momento e naquela cidade. Destaca-se,
ainda, a forma como a organização política do operariado se estende das comissões de
fábrica para a atividade teatral, formando um único construto social. Para isso, o artigo
ampara-se em aporte teórico que tem no pensamento de Edward Thompson e Raymond
Williams suas principais referências. (ST40)

Luiz Fernando Dos Reis Sossio (Mestrando)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 120

A imprensa na contramão, Mayoria: uma publicação de exilados uruguaios na Suécia


durante o regime cívico-militar no Uruguai, 1982 – 1984.
O presente trabalho tem como objetivo principal analisar como fonte e objeto de
pesquisa o periódico publicado na Suécia entre 1982 e 1984, Mayoria, produzido por
exilados uruguaios durante o período da ditadura cívico-militar (1973-1985), imposta no
Uruguai. A publicação foi editada por membros do Partido Comunista Uruguaio durante
seu tempo de atuação no exílio. Busca-se entender no processo de pesquisa as
motivações da produção deste periódico de oposição durante o período que o editor
Rodolfo Porley e os principais colaboradores estiveram no exílio. Trabalharemos com as
práticas culturais de produção e as representações que os exilados passam para seus
leitores, analisando os editoriais e as notícias internas com destaque para as seções de
política nacional, internacional e cultural. Busca-se entender o período das ditaduras
militares na América Latina, em especial no Cone Sul e nossa hipótese é que o periódico
Mayoria nos revelará uma face das atividades políticas dos exilados uruguaios em
especial dos comunistas nesse momento final da ditadura. (ST32)

Luiz Guilherme Sanita (Mestrado)


A batida diferente do baterista Wilson das Neves
Wilson das Neves é baterista, compositor e cantor brasileiro, nascido em 14 de junho de
1936, no bairro da Glória, na cidade do Rio de Janeiro. Sua trajetória musical remonta os
tempos de criança em que já participava dos cultos e rituais do candomblé. Seus
familiares, alguns migrantes da Bahia, traziam consigo seus costumes culturais e
religiosos como parte integrante das festas que promoviam em suas casas. Nesses
encontros, as rodas de samba para o canto dos orixás, os cantos do partido-alto,
conjuntos de choro e até as jazz bands compunham o repertório musical eclético dessas
festas. Todo esse ambiente musical ao qual estava inserido foi decisivo na formação do
baterista. Mais tarde, decidido a estudar o instrumento, tomou aulas com Edgar Nunes
Roca. Despontou no cenário profissional da música a partir da década de 1950,
trabalhando com orquestras e conjuntos em shows e gravações. No ano de 1958, passou a
integrar o Conjunto Ubirajara Silva e, no ano seguinte, fez a sua estreia em estúdio
gravando pela Copacabana Discos. Já integrado ao mercado musical, o baterista passou a
dividir seu tempo entre rádio, gravações e shows. Nos anos 60, trabalhou na TV
Excelsior, TV Tupi, TV Rio, TV Continental. Foi contratado da Rádio Nacional e integrou
a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal (após ser aprovado em concurso), onde tocou
em óperas, balés e concertos sinfônicos. Participou de vários conjuntos, entre eles o do
Steve Bernard em 1963 e da Orquestra de Astor Silva em 1964. Neste mesmo ano fundou,
junto com o trombonista Astor Silva, o grupo “Os Ipanemas”, registrando o único álbum
Os Ipanemas (1964). Wilson das Neves gravou e acompanhou nomes como Elizeth
Cardoso, Elis Regina, Elza Soares, Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Eumir
Deodato, Moacir Santos, Sara Vaughan, entre outros. Em meados da década de 60 e ao
longo dos anos de 1970, além de gravar importantes discos de intérprete para
cantores(as), compositores e ou arranjadores. Dentre eles, podemos citar: Impulso
(1964), de Eumir Deodato e os Catedráticos;Coisas (1965), de Moacir Santos; Elza Soares
baterista: Wilson das Neves (1968); sua participação junto aos tropicalistas nos últimos
discos registrados antes de deixarem o país: Caetano Veloso 1969 e Gilberto Gil 1969; e
Canto das três raças e Claridade ambos de 1975, da cantora Clara Nunes. Além disso, o
baterista registrou quatro importantes trabalhos como líder no período em questão:
Juventude 2000 (1968); Som quente é o das Neves (1969); Samba-tropi (até morreu
neves) (1970) e O som quente é o das Neves (1976). Sua história percorre importantes
movimentos estéticos de nossa música e observar sua trajetória musical significa
compreender sentidos e escolhas, dentro desse campo, que depuraram um estilo peculiar
do músico. (ST26)

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 121

Luzia Margareth Rago (Livre-docente/UNICAMP)


Foucault, Neoliberalismo e Contracondutas Feministas
Essa comunicação pretende discutir os desafios que se colocam aos feminismos em
tempos de fortalecimento do neoliberalismo e de difusão da teoria do capital humano,
que postula o indivíduo autônomo entendido como “empresário de si mesmo”. Tem por
referência as instigantes reflexões e problematizações de Michel Foucault sobre a
governamentalidade neoliberal, o direito e a ética, assim como os aportes da filosofia
feminista que debatem esses temas. Entendendo que os feminismos defendem a
autonomia das mulheres, como enfrentar a questão relativa à necessidade de políticas
feministas da subjetividade no contexto das profundas transformações sociais, políticas e
culturais, vividas no país? (ST45)

Magda Fernandes Garcia Ventura (Mestre)


Associação Cívica Feminina, em Santos: alfabetização e campanhas contra a carestia, pela
integração da mulher na vida social e cultural da cidade (1933-1945)
O objetivo desta comunicação é analisar as condições que propiciaram a fundação da
Associação Cívica Feminina (ACF), na cidade de Santos, e sua colaboração para a
elevação cultural de grande número de mulheres a partir da sua congênere da Capital -
desde os anos iniciais da década de 1930 até seu desligamento, em 1945. A partir daí,
iniciou vida própria, adotando o nome de Sociedade Cívica Feminina de Santos. A
inauguração da ACF (1933), em Santos, contou com o apoio do Rotary Clube de Santos e,
inicialmente, foi idealizada para atender as vítimas da Revolução Constitucionalista de
1932, colaborando, inclusive, com a Cruz Vermelha da cidade. Pretende-se mostrar como
essa associação, organizada por um grupo de mulheres da elite santista, contribuiu para
a alfabetização de estratos carentes da população feminina, visando uma maior
integração social. Nesse contexto, foi fundamental a figura de Fileta Presgrave do
Amaral, sobrinha de Vital Brazil, que batalhou para a manutenção da instituição e para o
seu engrandecimento cultural. Evidencia-se, na trajetória de Fileta Presgrave, uma rede
de parentesco e de relações pessoais, sociais e profissionais no desenvolvimento de ações
filantrópicas da referida associação e, também, da Federação Internacional Feminina. A
ACF surgiu num contexto de necessidade da educação, segundo os moldes da época, e de
ampliação dos direitos femininos. A leitura do acervo documental e a utilização dos
procedimentos historiográficos revelam a participação efetiva de mulheres da sociedade
na obra educativa. Este estudo utilizou a metodologia histórico-documental e as fontes
são provenientes do livro de Ofícios Expedidos encontrado no arquivo da Associação
Feminina Santista, associação que mantinha diversas escolas na cidade; de impressos
como os periódicos de A Tribuna além dos jornais digitalizados disponíveis na
Hemeroteca Digital Brasileira (A Noite; Correio Paulistano; Gazeta de Notícias; O Estado
de São Paulo; O Paiz; e outros), onde foram pesquisados, também, materiais
iconográficos, discursos e comunicados. Entre os resultados, já alcançados, estão as
escolas para crianças e adultos, os cursos profissionalizantes, as campanhas
alfabetizadoras e as campanhas contra a carestia nos anos 1940, além do seu corpo
administrativo e docente. Em Santos, na década de 1930, as realizações educacionais se
intensificam principalmente através de iniciativas de instituições filantrópicas. Foram
fundamentais para a compreensão geral deste estudo: June Hahner (1981); Susan K. Besse
(1999); Maria Izilda S. de Matos (1997); Joan Scott (1992) e Jane Soares de Almeida (2011).
(ST47)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 122

Mara Cristina Gonçalves Da Silva (Mestranda)


O Ensino de História na Escola Técnica Getúlio Vargas: 1911 – 1954
A intenção da pesquisa é analisar o ensino de história na Escola Técnica Paulista Getúlio
Vargas do Centro Paulo Souza. Terá como fonte o Centro de Memória da mesma
instituição que está em processo de organização. Paralelamente a organização do acervo
analisara sua documentação procurando identificar quais foram as interfaces do ensino
de história com o ensino técnico profissionalizante, para a formação de trabalhadores
técnicos durante o avanço da industrialização de São Paulo. Nossa hipótese é que o
caráter fortemente ideológico da disciplina de história, em especial no ensino da Etec
Getúlio Vargas, no período em estudo, têm atribuído significados variados, mas
prevalecendo o de cunho nacionalista em conformação com as diretrizes e reformas
curriculares realizadas pelo governo federal /estadual no período em estudo. (ST05)

Marcela Boni Evangelista (Doutoranda)


Aborto e responsabilização: mulheres, homens e decisão
Quando se fala sobre aborto, importa reconhecer suas variações. Nesta explanação,
falamos do aborto induzido, ou seja, aquele que perpassa a noção de decisão a respeito
da continuidade ou não de gestações não planejadas ou desejadas.
Além disso, consideramos que tal experiência envolve em sua quase totalidade como
personagens centrais mulheres e homens que, em função de seu envolvimento, tiveram
como resultado a gestação.
Atualmente, vivemos momento em que tal temática perpassa espaços público e privados
e movimenta opiniões que versam, sobretudo, acerca da questão dos direitos. Direitos
estes que dizem respeito à vida, à morte, à interrupção de gestações, à autonomia das
mulheres e, em menor medida, ao papel dos homens nestas situações.
Nesta apresentação pretendo abordar o tema do aborto induzido a partir da noção de
direitos e as possíveis significações que assume quando falamos de mulheres e homens
como protagonistas desta experiência.
Se em grande medida o debate se ampara no direito das mulheres à autonomia de seus
corpos e, portanto, à decisão sobre o aborto, tenho a intenção de agregar à discussão
aspecto não prosaico acerca da questão de gênero que a envolve.
Qual seria o papel dos homens neste contexto?
A luta pela autonomia das mulheres traria desdobramentos negativos como a
desresponsabilização dos homens no processo?
Afinal, ao direcionar a decisão sobre o aborto para as mulheres não estaríamos
promovendo a manutenção de uma sociedade marcada por desigualdades de gênero?
Isto posto, falamos da experiência masculina e sua minimizarão no processo, tendo em
vista melhor compreender as consequências dos casos de aborto para os envolvidos.
A reflexão parte de resultados parciais da pesquisa de doutorado "O aborto em questão:
moral, subjetividades e direitos", realizada no âmbito do Programa de Pós-graduação em
História Social da USP, que tem como suporte teórico e metodológico a história oral.
(ST25)

Marcelo Da Silva Murilo (Doutor/UFAC)


Encontrando a História em espaços inusitados, de Dorothy Eady a Omm Sety:
possibilidades inspiradoras.
Neste trabalho discute-se a função do ensino de história no contexto de experiências, em
que a noção de invenção, faz parte dos processos de aprendizagem. Tais processos são
considerados preponderantes na redefinição do tipo de apropriação que se faz da história
no âmbito da vida prática. As análises estão pautadas no exame das vivências de Dorothy
Eady (também conhecida como Omm Sety), relatadas na obra A noviça e o faraó, de
autoria de Hermínio C. Miranda. O encontro de Dorothy com o antigo Egito abre-nos

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 123

um leque de indagações, acerca do lugar ocupado pela história na vida de cada um.
(ST16)

Marcelo De Souza Silva (Doutor/UFTM)


A polícia no Triângulo Mineiro: análise da obra "Memórias do 4BPM de Uberaba"
Este trabalho faz parte das atividades desenvolvidas pelo Núcleo de Estudos do Sertão da
Farinha Podre, que conta com a participação de docentes e discentes da Universidade
Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba. Esta sendo desenvolvido, dentre outras
atividades, o levantamento de fontes e debate historiográfico acerca da instalação das
ações de policiamento na província, e depois estado, de Minas Gerais entre a segunda
metade do século XIX e início do XX. Para tanto, fizemos, nesta primeira fase, a análise
da obra intitulada "Memórias do 4o BPM de Uberaba", escrito pelo Coronel Hely Araújo
da Silveira e editado em 1991 pelo Arquivo Público de Uberaba. Nesta obra, escrita no
ímpeto da comemoração dos duzentos anos da morte de Tiradentes, patrono da polícia
mineira, o autor dá ênfase ao fato de como a criação do Quarto Batalhão da Polícia
Militar foi instrumento de manutenção da segurança da comunidade, que vinha sofrendo
com a criminalidade crescente desde 1903, com a retirada do Segundo Corpo Militar de
Polícia da cidade de Uberaba. O livro foi desenvolvido com o auxílio dos pesquisadores
do Arquivo Público de Uberaba, que ajudaram especialmente no levantamento de
histórias em notícias do Jornal "Lavoura e Comércio", que circulava na cidade desde 1899.
Na apresentação é informado ao leitor que não se trata de uma obra de homenagem à
polícia militar, entretanto, a estrutura é construída no sentido de dar ênfase às ações dos
diversos comandantes que passaram pelo batalhão, as dificuldades que enfrentaram e as
batalhas que ocorreram na luta contra a desordem e a criminalidade. O período abarcado
vai desde a colônia até a década de 1980, podendo ser classificado mais como uma
coleção de pequenas histórias que cercavam o trabalho da polícia naquela região durante
este tempo. Sendo assim, esta obra nos fornece a possibilidade de reconhecer os marcos
criados para a compreensão da história da polícia e qual o sentido que sua ação deveria
ter naquela região, considerada terra de jagunços e de criminosos violentos que deveriam
encontrar na ação policial o seu fim. A análise da obra foi acompanhada pelo
levantamento das principais pesquisas realizadas sobre a polícia no estado mineiro, no
sentido de complementar nossas possibilidades de interpretação do objeto. (ST18)

Marcelo Elias Bernardes (Mestrando)


Memória coletiva e contos de assombração: uma abordagem sobre a identidade e a
tradição da cultura popular em Caldas, Minas Gerais.
Esta pesquisa se ocupa de uma prática secular no município mineiro de Caldas,
fundamentada em uma oralidade e que se debruça na contemporaneidade mesmo diante
do intenso processo de racionalização, os contos de assombração. Nesse sentido,
entendemos que eles não se configuram unicamente como um estrato da cultura popular
brasileira, mas trazem consigo elementos que nos permite alocá-los dentro de uma
religiosidade popular tradicional com traços de um catolicismo que historicamente se
convergiu com cosmovisões nativas e africanas e ainda se encontra em constante
recriação.
O catolicismo popular possibilitou a confecção de um imaginário híbrido que se
desdobra no cotidiano caldense através da crença na existência destes seres fantásticos,
famosos por suas aparições e que se tornam contos mediante o processo de transmissão
oral e circulação das ideias. Estas narrativas carregam discursos cosmológicos que são
capazes de orientar e servir de referência para a população local no cotidiano como
manifestações dos saberes coletivos. Ao partir da tradição oral e considerando que não
existem relatos escritos, optamos por utilizar a metodologia da história oral, que

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 124

permite-nos usar outras fontes e assim valorizar o discurso destes agentes privilegiando a
memória do vivido por quem a viveu.
Ao considerarmos os contos de assombração enquanto patrimônio cultural imaterial,
ancorado no medo e na religiosidade, entendemos que a memória coletiva ocupa um
papel central na manutenção deste universo mental e na cristalização destas narrativas, o
que nos possibilita vislumbrá-la como um monumento de sustentação desta tradição.
Não obstante, podemos articulá-la também a construção da identidade local, a partir de
uma herança cultural e religiosa que perpassa por inúmeras gerações e circula
horizontalmente entre a população local.
O dinamismo das ideias, conceituado por Ginzburg como circularidade cultural, se
materializa de forma significativa também na produção das representações coletivas
acerca de igrejas, ruas, casas e fazendas. Estas últimas, ao adquirirem o sentido de
assombradas acabam perpassando por um processo de desuso e abandono, o que
promove dificuldades de locação.
Ao colocarmos em perspectiva estes locais da memória, percebemos que o imaginário
acerca destas assombrações permite que haja uma ligação entre o mundo dos vivos e o
dos mortos, uma vez que vários contos trazem como protagonistas a aparição de antigos
moradores, já falecidos, que são lembrados por seus pecados e servem como exemplos de
uma conduta moralmente inaceitável. A memória ainda elucida-nos a pensar a
associação entre passado e presente dentro da construção da tradição e do
pertencimento, o desenvolvimento da história local e a perpetuação destes contos e
personagens no cotidiano. (ST44)

Marcelo Garson Braule Pinto (Pós-doutorando)


Jovem Guarda, consumo e hedonismo
Em agosto de 1965, o musical Jovem Guarda estreava na TV Record de São Paulo. Sob o
comando de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, uma nova geração de
intérpretes fazia sucesso junto à juventude, com canções que falavam de namoros e
diversão. Influenciados pelo rock and roll norte-americano, pelo pop italiano, pelo
bolero, samba-canção e ainda pelos Beatles, rapidamente se tornaram ídolos nacionais.
Através de letras de canções, programas de TV, filmes, ensaios fotográficos, reportagens
e sessões de entrevistas, exibiam um estilo de vida suntuoso, atravessado por bens
materiais – carrões, apartamentos, indumentária, joias – festas e conquistas amorosas.
Através delas, buscavam retrabalhar os valores tradicionalmente associados à sua origem
social, negociando um status social desejável. Convertendo suas aquisições em emblemas
de sucesso, construíam suas narrativas de vida como narrativas de consumo. Vindos das
classes populares, os intérpretes da Jovem Guarda representavam o triunfo do self made
man, o herói da sociedade liberal que sai “de baixo” e “vence na vida” a partir do esforço
individual. A lógica meritocrática, portanto, fazia crer que a ascensão social estava ao
alcance de todos, bastava “dar duro”, afinal, como dizia um sucesso de Erasmo Carlos,
“pra ter fom fom, trabalhei, trabalhei”. Assim, os artistas não vendiam somente música,
mas antes um estilo de vida que tem no consumo o campo de articulação privilegiado e
no hedonismo seu valor capital. Esse processo estava intimamente ligado à
modernização dos espaços públicos e privados da sociedade brasileira, atravessada por
bens e capitais norte-americanos, que se tornavam a expressão ideológica da
prosperidade capitalista do pós-guerra.
Isso se torna bastante revelador em um momento em que a música popular se
reconfigurava estrutural e simbolicamente: a televisão e, não mais o rádio, passava a ser o
seu epicentro, subordinando uma nova geração de interpretes a novos modos de
produzir e vender cultura. Assim, é difícil compreender a popularidade da Jovem Guarda
se não atentarmos à maneira como dialogava com uma nova gama de valores
dominantes, não no sentido de refleti-los mecanicamente, mas antes problematizá-los.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 125

Através de letras de canções, capas de disco, material de imprensa e registros


audiovisuais, o objetivo deste trabalho, portanto, é analisar como a Jovem Guarda
construiu uma determinada noção de “vida bem sucedida”, diretamente ancorada na
esfera do consumo e fortemente infundida por uma dimensão fantástica e ficcional -
herdada de filmes, desenhos animados e históricas em quadrinhos - quem nem por isso é
menos reveladora de uma nova realidade social. (ST26)

Marcelo Henrique Leite (Graduado)


“Quantas histórias conta o Museu Republicano “Convenção de Itu”? Um estudo sobre
Ensino de História e Museu na cidade de Itu (2006-2014)."
O presente estudo tem o intuito de compreender como se dá a relação entre a instituição
“Museu Republicano Convenção de Itu” e os ambientes escolares. Nesse sentido, se faz
necessária a discussão da apropriação dos museus pelos estudantes para a produção do
conhecimento histórico, essencialmente, no que se refere à história regional, desde a
criação do programa Ação Educativa, em 2006. Como aporte teórico, são mobilizadas as
contribuições de Edward Thompson (1998), importantes para apreender se o
conhecimento histórico, produzido entre escola/museu, ressalta as experiências de
outros agentes históricos silenciados na construção da narrativa museológica e nas salas
de aula. Os livros de visitantes preenchidos de 2006 a 2014 serviram como fontes da
investigação proposta, isso porque é a partir desses registros que mensuraremos a
periodicidade das visitas das escolas de Itu ou de outras regiões e se foram ou não
desenvolvidos projetos em parceria com a instituição em questão com escolas públicas
ou privadas. Isso também a partir dos relatórios anuais da Ação Educativa e das
entrevistas com professores dos Anos Finais do Ensino Fundamental citados em tais
documentos. Em linhas gerais, a proposta é analisar o Museu Republicano Convenção de
Itu como Laboratório da História (Cf.: MENESES, 1994), observando como esses espaços
interagem nas abordagens do ensino de história, como determinam saberes, não como
Teatro da Memória que evoca, celebra e encultura; mas sim, e principalmente, como o
lugar de trabalho sobre a memória que é, mais do que um objetivo, um objeto de
conhecimento. (ST05)

Marcelo Luiz Da Costa (Doutorando)


Educação e crítica social no Brasil do início do século XX: trabalhadores e libertários.
Embora hoje desligada em grande parte da crítica social, no início do século XX não foi
bem assim. A elaboração das pedagogias, desvendadas em sua história, denunciam suas
defesas, omissões e negligências. Na história brasileira, caracterizada, do ponto de vista
político-social, muito mais por continuidades que por rupturas, adotando processos de
mudanças como transição e não como revolução, as pedagogias alternativas,
revolucionárias ou radicais sempre estiveram à margem das discussões e padeceram de
um imenso e não casual silêncio. Talvez por isso, na tradição pedagógica brasileira a
discussão sobre a crítica social inerente à educação tenha sido gradativamente
abandonada em prol do enfoque no “problema do método”. Nos antecedentes da
instalação parcial, precária e instável de um sistema escolar primário, a educação do
povo foi uma questão aberta ao debate. Trabalhadores e movimento operário
formularam princípios pedagógicos libertários, de início, sob inspiração da educação
libertária anarquista e, depois, enraizados nas questões e nos problemas brasileiros.
Naquela época o dualismo da educação, como forma de expressão da dominação social
era evidente e os projetos e iniciativas não descuraram de dar voz à cultura e à memória
popular operária. Desde 1902 escolas, centros culturais e bibliotecas eram criados pelos
anarquistas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas tais fatos não foram resultado de
“teóricos” da pedagogia ou tecnocratas senão realizações do próprio movimento
operário, conforme atestam os congressos operários de 1906 e 1912. É assim que o termo

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 126

“libertário” se associa intimamente à crítica social, já que para os anarquistas só poderia


haver emancipação com a emancipação do povo, sob vários aspectos, econômico e social.
Por isso não entendiam a educação como panaceia, distanciando-se do que mais tarde se
poderia identificar no entusiasmo pedagógico em torno dos métodos ativos. Essas
reflexões colocam em questão as qualificações de movimentos e pedagogias na história
brasileira como “libertárias” ou “libertadoras” ou mesmo sobre os “libertarismos” em
educação. (ST29)

Márcia Elisa Teté Ramos (Doutora/UEL)


Noções de alunos do ensino médio sobre a narrativa histórica presente na cidade de
Londrina – PR
Apresenta os resultados de pesquisa de pós-doutorado (USP) sobre as apropriações que
alunos do Ensino Médio de escolas públicas realizam sobre a(s) história(s) que
circula(m) na cidade de Londrina – PR. Para isso, utilizou-se da Teoria Fundamentada
(Grounded Theory) cruzando resultados de três estudos: estudo exploratório, com a
técnica de Grupos Focais e de “chuva de ideias” no espaço do Museu Histórico de
Londrina; estudo piloto com a metodologia da História Hipotética e finalmente com o
estudo principal, através da netnografia, com 19 questões aplicadas. Prioriza-se nesta
comunicação de pesquisa, a parte final do trabalho, quando se trabalhou com questões
que mesclavam História Hipotética e análise de evidências históricas, no caso, uma
reportagem da revista Veja sobre a cidade (2010) e duas reportagens divergentes do
Jornal de Londrina (2014) sobre a colonização da região. As questões foram respondidas
por 116 estudantes neste estudo principal, do qual dispomos a seguir em forma de
discurso-síntese: os alunos apresentam desconhecimento referente às informações
históricas em relação à cidade, ao entendê-la como resultante de colonização ou
imigração inglesa, desta forma corroborando o “mito fundador” circulante na cidade;
constroem a explicação histórica sobre a cidade de Londrina por meio das narrativas
familiares, mas muito mais pela mídia ou monumentos, do que pelo Museu Histórico de
Londrina ou livros na área; o que implica que as representações construídas sobre a
história de Londrina são sustentadas pelas experiências que estes sujeitos travam no
cotidiano para além da educação formal. Predomina a noção de progresso: como uma
temporalidade que se movimenta sempre para frente, como avanço, sem tensões, em
constante melhoramento e orientado pela ação de determinados personagens. Mais
precisamente, a colonização ou ocupação da região é vista como resultado da ação de
personagens importantes – os chamados “pioneiros” –, com suas supostas qualidades
heroicas. Nesta narrativa, outros agentes sociais, como negros, indígenas e mulheres, não
são reconhecidos como sujeitos históricos. A região é considerada na época de
colonização como “vazio demográfico”, corroborando uma permanência da História
Oficial da cidade, o que não pode ser vista de forma individualizada, mas que encontra
referências comuns recorrentes, valores compartilhados e tensionais. Contudo, a
pesquisa demonstra que tais sujeitos apresentam um grande potencial de explicação
histórica (comparação, argumentação, contraposição) quando utilizam a imaginação
histórica (com a História Hipotética) e quando interpretam documentos que se replicam
(como as duas reportagens do Jornal de Londrina). (ST23)

Márcia Regina Da Silva Ramos Carneiro (Doutora/UFF)


Contornando os anos 1930. Narrativas / depoimentos de intérpretes da primeira década de
Vargas presidente.
Este trabalho busca enumerar e analisar obras sobre os anos 1930 que se tornam
documentos históricos por conterem análises sobre o tempo em que foram produzidas,
ou, no âmbito da História do tempo presente, cabem em sua contemporaneidade. Entre

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 127

os autores analisados, Hélio Silva, Edgar Carone, Alvaro de Carvalho, plínio Salgado,
Miguel Reale, Gustavo Barroso, entre outros. (ST06)

Marco Alexandre De Aguiar (Doutor)


Refletindo sobre uma experiência: a Mostra de curta-metragem da Diretoria de Ensino de
Botucatu.
A Mostra de curta-metragem da Diretoria de Ensino de Botucatu iniciou-se em 2014, e o
tema cultura afro-brasileira, alinhou-se a lei 10.639/03. Em 2015 houve um enfoque sobre
as redes sociais e neste ano o tema escolhido pelos alunos foi Curtas-metragens
inspirados nos filmes de Charles Chaplin. A iniciativa busca estimular uma perspectiva
crítica, tanto por professores e alunos, em relação à produção audiovisual. Vários
pesquisadores apontam o potencial da utilização deste recurso como forma de inovação
no ensino fundamental e médio. (ST16)

Marcos Antonio Da Silva (Pós-doutor/USP)


Tropicalismo em música popular – tensões e continuidades (Brasil, 1965/1972)
As apresentações de "Alegria, alegria" (Caetano Veloso) e "Domingo no parque" (Gilberto
Gil) no III Fertival da Canção da TV Record (São Paulo, 1967) foram imediatamente
saudadas por Augusto de Campos, em artigos jornalísticos depois reunidos em livro,
como mudança na tradição musical do país. Tal perspectiva foi reforçada desde então
por estudos acadêmicos e escritos memorialísticos. A presente comunicação mescla esse
viés com experiências musicais e artísticas anteriores, associando-o ao debate sobre a
ditadura e ao cenário político e cultural internacional daquele momento. (ST16)

Marcus Baccega (Doutor/UFMA)


Ecos da Idade Média: Direito e Formas da História na Idade Média Central (séculos XI-
XIII)
Esta comunicação pretende analisar a evolução dos direitos e liberdades do "ius
commune" medieval, sobretudo no Sacro Império Romano e na Inglaterra, enquanto
lugar da memória (Pierre Nora) que permite reconstituir as transformações da civilização
feudal em sua época clássica (Idade Média Central, séculos XI-XIII). Visa-se aqui, por
conseguinte, a uma História Política que possa evidenciar as contribuições de longa
duração (Fernand Braudel) para os direitos e garantias constitucionais hoje tão
discutidos no Brasil, em virtude da crise política instaurada em torno do processo de
impedimento da Presidente Dilma Rousseff. Desta forma, procura-se uma interface
analítica presente-passado-presente, em que as tensões verificadas nas relações
feudovassálicas possam atuar como fatores de macro-inteligibilidade dos desvãos e
caminhos percorridos pelo Ocidente contemporâneo. (ST38)

Marcus Vinícius De Moura Telles (Doutorando)


Da relação entre passado e presente em Hayden White
Em diferentes momentos de sua obra, Hayden White pode ser lido ora como um
pensador dualista (é por isso que comentadores como Hans Kellner e Frank Ankersmit o
consideram um kantiano), ora como pensador dialético atento à negociação de sentidos
entre o “sujeito” historiador e os “objetos” também humanos de sua narrativa (dimensão
que aparece especialmente à centralidade da “lógica poética” de Vico em seu
pensamento). No primeiro caso, ele aborda o passado de maneira “construtivista”, o que
também implica dizer, compatível com uma noção “moderna” de temporalidade. No
segundo, ele pode ser forçado a reconhecer que, ao seguir os passos hegelianos
encontrados em dois de seus mais relevantes “ancestrais intelectuais”, Erich Auerbach e
R. G. Collingwood, o “passado” mais compatível com suas teses é aquele espectralmente
presente, prestes a ser ativado, ou ressignificado, por meio de preenchimento. Esta

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 128

possibilidade de leitura: (a) aparece com clareza já em seus textos de juventude; (b)
permanece em Metahistory, que não apenas trata de constantes preenchimentos figurais
de uma figura de linguagem por outra (a metáfora é preenchida pela metonímia, esta
pela sinédoque, esta pela ironia), como também concede que o sistema representativo
pode ser rompido por acontecimentos externos, que exigem rearticulação pela
linguagem. Sua própria escolha temática não poderia deixar isto mais claro: o motor
principal da “imaginação histórica” do século XIX foi a experiência traumática da
Revolução Francesa; (c) é retomada a partir de sua participação em Probing the Limits of
Representation (1990, publicada em 1992), por meio da tese de que os “eventos
modernistas” demandam novas formas de representação, o que equivale a dizer, uma vez
mais, que, devido às necessidades de expressão emocional, posicionamento ético e ações
práticas, as experiências do passado impõem demandas sobre a linguagem que as
expressa no presente; e (d) reaparece uma vez mais na tese de que mesmo os eventos
traumáticos têm estrutura figural, de modo que, até que o preenchimento de uma figura
ocorra, aquele evento sobrevive enquanto latência. Este evento “passado” obviamente
não pode ser pensado em termos unicamente cronológicos, construtivistas, como
aparece em uma das formas possíveis de ler White. Todas estas elaborações se
harmonizam com a tese que ele expôs em alguns textos entre 1967 e 1973: sistemas
históricos não morrem da mesma forma que sistemas biológicos morrem; eles podem ser
reativadas por qualquer outra sociedade futura que os adote retroativamente como
ancestrais. (ST18)

Maria Alda Barbosa Cabreira (Doutoranda)


Memória e História na Representação de Tiradentes na Numismática Brasileira
A comunicação pretende analisar a representação criada em torno da figura do alferes
Joaquim José da Silva Xavier, conhecido pelo apelido de Tiradentes, ao patamar de herói
da pátria. Para tanto, discutiremos como a historiografia analisou a percepção de herói
ao longo dos anos e como Tiradentes foi alçado à condição de maior herói nacional,
materializado, por exemplo, na iconografia veiculada na numismática brasileira,
principalmente na moeda. (ST47)

Maria Angélica Da Costa Silva (Pós-graduanda)


Saneamento em Ituiutaba - MG no final do século XX: os reflexos da instalação da
autarquia municipal SAE
Este trabalho visa apresentar os resultados parciais da pesquisa sobre a consolidação da
autarquia municipal SAE - Superintendência de Água e Esgotos de Ituiutaba - MG,
cidade localizada na região do Triângulo Mineiro. Observando a redução dos índices de
morbidade infantil por diarreia, entre os anos 1970 e 1990, é possível constatar a melhora
na condição de vida da população atendida pelo abastecimento de água. Os principais
documentos que comprovam esses índices no período em questão são os livros de
registro dos cemitérios da cidade, os quais apresentam a causa do óbito, a idade e o local
de domicílio do indivíduo. O período de instalação e consolidação da autarquia abarca a
existência de dois projetos nacionais votados ao saneamento, sendo eles a FSESP
(Fundação Serviço Especial de Saúde Pública) e o PLANASA (Plano Nacional de
Saneamento). Dessa forma, será feito um breve histórico acerca das políticas públicas de
saneamento no Brasil, a contextualização da instalação da autarquia SAE como resultado
dessas políticas, além da discussão dos possíveis efeitos desse processo através da
observação da redução da morbidade infantil, tomada como um dos efeitos da oferta de
água tratada e coleta de esgotos na área urbana do município. (ST37)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 129

Maria Aparecida Chaves Ribeiro Papali (Doutora/UNIVAP)


A Infância Desvalida e a Exploração do Trabalho Infantil no Pós-Abolição: Vale do Paraíba
Paulista (1888-1895)
Este artigo tem o objetivo de discutir uma problemática que vem se tornando constante
à medida que nossas pesquisas avançam no sentido de descortinar as tensões
estabelecidas no âmbito das relações de trabalho, ocorridas no pós-abolição em cidades
do Vale do Paraíba paulista. No caso específico desta pesquisa tais cidades são Jacareí,
São José dos Campos e Paraibuna. As referidas cidades são geograficamente próximas e,
no período estudado, pouco significativas no âmbito da agroindústria cafeeira, tão cara à
região. No período escravocrata, tais cidades continham, em sua maioria, pequenos e
médios proprietários, com um grande contingente de homens pobres livres. Ao
levantarmos a documentação forense dessas cidades no período estipulado, ao lado de
Processos Crimes e Processos Cíveis, os documentos encontrados em maior número
foram as Tutelas e Soldadas aplicadas a órfãos pobres, menores desvalidos, filhos de ex-
escravas, libertas e mulheres solteiras pobres em geral. (ST01)

Maria Aparecida De Aquino (Pós-doutora/USP)


Golpe e Golpismo. Todos os golpes se parecem? 1964-2016 no Brasil
Com base na análise do material da chamada "Operação Lava Jato" e com a
documentação analisada acerca do golpe de Estado de 1964, no Brasil, pretende-se fazer
uma comparação com o espectro golpista que ronda o país e que sempre vitima a
população quando são ameaçados os interesses das chamadas camadas dominantes. A
possibilidade de compreensão desses momentos resulta no aumento das possibilidades
de análise sobre as características das camadas médias brasileiras. (ST06)

Maria Clara Gonçalves (Doutoranda)


Revisitando Qorpo-Santo: a presença das práticas teatrais oitocentistas na dramaturgia
qorpo-santense
A presente comunicação visa apresentar o contexto cultural no qual se desenvolveu o
escritor José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo (1829-1883). O interesse em mapear
quais atividades artísticas circularam na cidade de Porto Alegre através dos periódicos
gaúchos, a saber Jornal do Commercio, O Mercantil, O Novo Rio-Grandense e Rio-
Grandense, entre os anos de 1852 a 1877, tem por objetivo tentar reconstruir o universo
artístico em que o escritor possivelmente teve acesso e, desse modo, entender as
influências teatrais do período em sua concepção dramática. Qorpo-Santo escreveu suas
comédias no ano de 1866 e as editou em sua obra intitulada Ensiqlopédia ou Seis Mezes
de huma Enfermidade, em 1877; porém, apenas em 1966 aconteceu a primeira encenação
de suas peças. Desde sua redescoberta a crítica teatral brasileira, em sua maioria, filiou a
dramaturgia qorpo-santense a procedimentos teatrais do século XX, posicionando-o
como um escritor alheio a produção dramática do século XIX. O lugar difuso em que a
crítica situou o seu teatro é um ponto sensível e questionável da historiografia teatral
brasileira. Por isso, ao compreender quais práticas teatrais circularam no contexto
próximo a Qorpo-Santo, pode-se estabelecer uma nova leitura sobre a dramaturgia do
escritor e, assim, analisar seu teatro mais alinhado ao seu ambiente histórico. (ST27)

Maria Cristina Correia Leandro Pereira (Doutora/USP)


O papel das imagens na construção de uma genealogia cluniacense: o caso da Miscellanea
de Saint Martin des Champs (Ms BNF Lat 17716)
A forte importância da genealogia para a cultura medieval é bastante conhecida pelos
estudiosos, e dela são testemunhas, por exemplo, as Tábuas genealógicas presentes nos
manuscritos do Comentário ao Apocalipse do Beatus ou as arbores iuris, diagramas com
relações de parentesco, famosas nos séculos XI a XIII. O objetivo desta comunicação é

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 130

contribuir para esse dossiê através do estudo de uma fonte de tipo distinto: nela não há
uma preocupação explícita com a linhagem – embora haja, claramente, um projeto de se
estabelecer uma genealogia “ideal”.
Trata-se de um manuscrito que contém uma compilação de textos cluniacenses
produzido provavelmente (segundo os conservadores da Biblioteca Nacional da França)
no mosteiro de Cluny para o priorado cluniacense de Saint Matin des Champs, em Paris,
que recebeu o título de Miscellanea secundum usum ordinis Cluniacensis (Ms BNF Lat
17716) e que teria sido encomendado por Guillaume II, abade de Cluny de 1207 até 1215. A
escolha dos textos e, sobretudo, das imagens (tanto as miniaturas quanto as iniciais
historiadas) demonstra o objetivo daquele abade de se colocar como herdeiro de dois
outros abades cluniacenses poderosos, Pedro e Hugo, além de incluir Saint Martin des
Champs na linhagem mais prestigiosa de Cluny. (ST38)

Maria Cristina Cortez Wissenbach (Pós-doutora/USP)


Imbricamentos políticos e soberanias no comércio de escravos no Índico: a administração
lusa, os xecados e os negreiros da costa sudeste africana (1840 - 1860)
A produção mais recente sobre a história de Moçambique tem permitido problematizar
questões relativas ao comércio de escravos e sua continuidade no Índico, apesar das
interdições intentadas pelos europeus ao longo da primeira metade do XIX. O que se
pretende nessa comunicação é mostrar como o tema deve estar referido à confluência de
interesses diversos: os da Coroa portuguesa, os dos xecados da costa e suas hierarquias, e
os dos negreiros que atuavam na região. O jogo politico entre diferentes soberanias
encontra-se registrado em correspondência que segue diferentes caminhos e que denota
a impossibilidade de uma restrição mais direta do comércio de escravos, nesta região
especificamente e no Índico de forma mais geral. (ST02)

Maria Cristina Floriano Bigeli (Doutoranda)


Desconstrução de estereotipias pelo Ensino de História: trabalhar a temática indígena nas
escolas através de propagandas
Diversas representações acerca dos povos indígenas fazem parte do imaginário da
população brasileira não indígena. Concepções romantizadas, como as criadas e
difundidas na literatura do século XIX, do indígena belo, defensor da floresta, inocente,
e/ou imagens estigmatizadas, por exemplo, a do indígena preguiçoso, aculturado,
perigoso ou atrasado, ainda são adjetivos e características associadas aos povos indígenas
brasileiros, demonstrando que pouco se conhece a respeito das histórias e culturas
desses povos e, consequentemente, sobre a própria história e cultura da sociedade
brasileira. Embora o contato entre europeus e indígenas seja um dos pontos iniciais da
história oficial do Brasil, até a última década do século XX se desconsiderou e/ou pouca
ênfase foi dada na relevância dos indígenas na constituição da nação brasileira, portanto,
tais povos – exceto à época do “descobrimento” – pouco se faziam presentes em
currículos escolares, em livros didáticos e em aulas de História (contudo, quando eram
abordados, não havia contextualização sobre suas culturas e histórias, eram enfocados
apenas no passado, vistos como coadjuvantes e jamais como sujeitos históricos).
Entretanto, ao pensarmos sobre a constituição do imaginário, devemos levar em
consideração que as Representações Sociais não são elaboradas somente nas relações
entre os indivíduos e o campo da Educação e tampouco apenas nas aulas de História,
mas também nos espaços em que os sujeitos transitam diariamente, assim como nas
relações sociais, nas convivências dos grupos dos quais pertencem, nos veículos de
comunicação, nos espaços acadêmicos, ou seja, em tudo o que circunda as suas vivências.
Este artigo tem como objetivo problematizar a elaboração de Representações Sociais
acerca dos indígenas pela sociedade não indígena buscando desconstruir estereotipias.
Utilizamos, como fonte, as produções publicitárias veiculadas pelos sistemas de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 131

comunicação, pois, ao se representar indígenas, grande parte das propagandas os


caracteriza de forma clichê, folclorizada e descontextualizada, o que pode favorecer a
desinformação e a manutenção de preconceitos. Considerando que essas produções
podem influenciar na elaboração das Representações Sociais, além de serem
compreendidas como expressões do período em que ocorrem, sugerimos que os docentes
trabalhem com narrativas dos alunos a respeito das propagandas, visando desconstruir
imagens clichês cristalizadas, colaborando com o desenvolvimento da criticidade e com a
construção da consciência histórica. (ST23)

María Laura Osta Vázquez (Doutora/FLACSO-Uruguay)


Crianças órfãs e expósitas, uma História uruguaia do século XIX
A maioria dos historiadores tem esquecido as crianças como objeto de estudo, e ainda
mais as crianças órfãs, os mais pobres dos pobres. A pesquisa parte dum olhar
foucaultiano, no intuito de dar voz a quem ainda não a tem. A partir da história dos
conceitos contextualizamos algumas praticas e ideias, palavras utilizadas nos
documentos da Inclusa, que depois se chamará Asilo de Expósitos y Huérfanos de
Montevideo.
Através da análise de registros, estatísticas, plano de estudos, regulamentos internos e
correspondência, espera-se uma aproximação as formas de viver, pensar e regularizar a
infância do torno, aquelas crianças pertencentes ao rubro de “população infame” em
termos foucaultianos.
Transitando en el discurso histórico, Colin Heywood, la infancia sólo puede ser
entendida como una construcción social, o sea, los términos “niño” e “infancia” son
comprendidos de formas diferentes, en diversas épocas y lugares, estando condicionados
a cuestiones culturales, filosóficas, económicas y muchas veces religiosas. El autor
concluye que no existe solamente una infancia, sino varias. (HEYWOOD, 2004). José
Pedro Barrán, durante o período «civilizado» o do disciplinamento, os supostos culturais
sofreram modificações: a criança começou a ser vista como um ser diferenciado dos
adultos, com direitos e deveres próprios de sua idade. Crianças e adultos foram
separados rigorosamente em suas atividades, de seus dormitórios, almoço, educação,
diversões e espetáculos (BARRÄN, 1990. P.111). (ST01)

Maria Leandra Bizello (Doutora/UNESP)


Da intimidade e do trabalho científico: acervos de mulheres cientistas
Este trabalho tem como objetivo discutir a constituição de acervos de mulheres cientistas
que trabalharam e trabalham na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho –
campus de Botucatu. Essa unidade universitária foi criada no início dos anos 1960 como
Faculdade de Medicina, Medicina Veterinária e Ciências Agrárias. No ano de 1976
constituiu junto com outros institutos isolados do interior paulista a UNESP. Em face do
trabalho de organização dos arquivos da UNESP vimos a necessidade de refletir sobre a
documentação que os (as) cientistas produzem no exercício de suas atividades
acadêmicas, isto é, o ensino, a pesquisa e a extensão. A escolha de uma unidade
totalmente voltada para as ciências da saúde e ciências agrárias se deve à importância
que a Faculdade de Medicina atribui atualmente aos seus arquivos criando um Centro
de Documentação e Memória que guarda a documentação administrativa produzida pela
faculdade e abrindo espaço para custodiar conjuntos documentais de seus professores e
cientistas. Mais um recorte para nosso trabalho é que trataremos de conjuntos
documentais produzidos por mulheres cientistas: professoras e pesquisadoras que
atuaram e atuam nessa faculdade desde os anos 1960. Metodologicamente trataremos de
maneira exploratória o objeto ao fazermos um levantamento das mulheres docentes
desde o início da faculdade e de seus possíveis conjuntos documentais. Recorreremos
também ao método da história oral, para a coleta de entrevistas no intuito de

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 132

compreendermos tanto a atuação docente quanto de pesquisa dessas mulheres cientistas


e sua inserção na vida acadêmica e na constituição da ciência no Brasil. Articularemos a
constituição de acervos pessoais e institucional no fazer ciência de mulheres em
diferentes períodos da história de si e da instituição em que atuaram e atuam. Por fim
procuraremos refletir como as reflexões sobre gênero contribuem para discutirmos
arquivos pessoais no âmbito da ciência. (ST25)

Maria Ribeiro Do Valle (Pós-doutora/UNESP)


O Estado de S. Paulo e 1968, Dez Anos Depois
O artigo aborda a análise do jornal O Estado de S. Paulo em 1978 sobre os movimentos
contestatórios, particularmente os estudantis, que eclodiram em 1968. Ao chamar a
atenção para o fato de que a violência se espalhou por todo o mundo, o matutino dividirá
a análise dos protestos em dois blocos, de um lado, os EUA e a Inglaterra que
conseguirão sobreviver à essa onda e de outro os países da Europa Ocidental, Alemanha,
Itália, Espanha e, inclusive o Brasil, que serão supostamente orquestrados pela França. O
exame do jornal aproxima-se ao posicionamento intelectual e político de Hannah Arendt
inscritos na tradição liberal-conservadora, enaltecendo a excepcionalidade americana em
detrimento da revolução francesa e rechaçando a tradição hegeliano marxista que tem
como norte a revolução e que é revigorada pela Nova Esquerda na conjuntura dos anos
60. (ST42)

Mariana De Paula Cintra (Mestranda)


Modas e modistas: o comércio de roupas francesas no Rio de Janeiro na primeira metade
do Oitocentos
Com a chegada da família real e sua Corte aos trópicos, em 1808, o Rio de Janeiro tornou-
se a cidade mais importante do Brasil oitocentista. Quando da abertura dos portos às
nações amigas, o fluxo de mercadorias e pessoas estrangeiras aumentou
consideravelmente e o cotidiano dos que aqui residiam passou a incorporar alguns traços
de urbanidade e modernização. Partindo da ideia de que a vinda dos profissionais
europeus, especialmente os ingleses e franceses, foi responsável por introduzir alguns
hábitos até então desconhecidos pelos brasileiros, esta pesquisa objetiva analisar, por
meio da literatura de viajantes europeus e dos anúncios de jornais cariocas oitocentistas,
o espaço dedicado ao comércio de modas e artigos desta mesma natureza na capital
carioca. Partiremos, pois, da chegada das modistas e costureiras francesas no início do
século XIX que, em geral, se instalavam nas lojas da Rua do Ouvidor e lá ofereciam tudo
quanto poderia interessar às senhoras abastadas: chapéus, luvas, vestidos, leques, tecidos
finos e ornamentos variados. Procurar-nos-emos investigar em que medida a
indumentária francesa ofertadas pelas modistas através de seus anúncios, passaram a ser,
em meados do século, objetos de desejo das cariocas abastadas. Em suma, o propósito
desta apresentação é entender a contribuição do comércio de roupas vindas da França
para o despertar de um cuidado mais atento com a moda no Rio de Janeiro. (ST19)

Mariana Pincinato Quadros De Souza (Pós-graduanda)


Sobre cópia e circulação de modelos figurativos no medievo: o mosaico de Torcello
A fim de contribuirmos para o debate proposto pelo Simpósio Temático sobre as
narrativas e imagens, em seu contexto de produção e reprodução ao longo da Idade
Média, debruçar-nos-emos, no presente trabalho, sobre a circulação de modelos
figurativos através de cópia e de readequação de um mesmo conjunto iconográfico em
diferentes contextos. Na busca pela reflexão sobre os mecanismos de recepção,
reprodução e recriação, bem como sobre os perfis de público a que a produção se
destina, utilizaremos como objeto de análise o mosaico do Juízo Final da Basílica de
Santa Maria Assunta em Torcello, uma das ilhas da Laguna de Veneza. Neste painel de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 133

mosaico, datado do século XI e classificado como de estilo bizantino, encontramos


componentes iconográficos muito semelhantes a exemplares provindos do Oriente
cristão, da mesma época.
Segundo a historiografia da arte tradicional, o mosaico de Torcello pertence a uma
tradição iconográfica de figurações do Juízo Final provinda do Oriente, chamada de
“modelo bizantino clássico”. Tendo essa afirmação como ponto de partida, refletiremos
sobre as noções de modelo e cópia, muito utilizadas na história da arte para pensar as
produções imagéticas medievais.
Tomaremos como base as ideias de Daniel Russo e Eliana Magnani sobre as
possibilidades de usos de modelos e estilos, os quais possuíam a capacidade de gerar
outras imagens, porém com variantes e derivações. Na lógica da produção das imagens
medievais, apenas era tomado como modelo algo que fosse considerado conveniente e
digno de ser reproduzido e, sobretudo, adequado ao lugar onde se encontrava. (ST38)

Mariarosaria Fabris (Pós-doutora/USP)


Os saraus da fisicoloucura
Já no início de 1910, poderia falar-se em teatro futurista, embora os principais textos
teóricos nesse campo tenham sido lançados a partir do ano seguinte: “Manifesto dos
dramaturgos futuristas” (11 de janeiro de 1911), “O teatro de variedades” (1º de outubro de
1913) e “O teatro futurista sintético” (11 de janeiro-18 de fevereiro de 1915). Isso porque as
chamadas serate (noitadas, saraus) podem ser consideradas a primeira atividade cênica
do grupo capitaneado por Filippo Tommaso Marinetti. Caracterizando-se como
verdadeiros happenings, as noitadas futuristas representaram uma intervenção
impetuosa na monotonia do dia a dia, subvertendo o tipo de relação entre palco e
platéia, ao provocarem o público a participar do espetáculo. (ST27)

Marilda Ionta
(Pós-doutora/UFV)
Amizades femininas como práticas de resistências
Nesta comunicação busco cotejar o filme “A fonte das mulheres” (2005), do diretor
francês Radu Mihaileanu com o clássico texto de “Lisístrata” de Aristófanes (411 a.C), com
o objetivo de cartografar experiências femininas de amizade a luz das seguintes questões:
quais implicações éticas e políticas das relações tecidas pelas mulheres? Que tipos de
afetos as amizades femininas estimularam e estimulam a se sublevar? Leio as amizades
femininas a partir das reflexões tecidas por Michel Foucault em interseção com os
estudos feministas. Para Foucault, na modernidade, a amizade livre das codificações
sociais, coações hierárquicas e obrigações presentes na Antiguidade clássica à torna
extremamente atraente para ser retraçada, pois cria espaços intersticiais capazes de
fomentar tanto necessidades individuais quanto coletivas levando em consideração as
diferenças e autonomias. Por isso, a amizade pode ser uma prática de autotransformação
e aperfeiçoamento que possibilita modificar a própria vida e retraçar o político, criar
novos estilos de vida e comunidade que escapam as formas de subjetivação ligadas ao
medo, ao ódio, a obediência, a lei e ordem. (ST45)

Marilea De Almeida (Doutoranda)


As artes de governar: as experiências de lideranças quilombolas do estado do Rio de Janeiro
Tomando como ponto de partida a recente visibilidade das mulheres e das práticas
quilombolas nos discursos acadêmicos, midiáticos e jurídicos, este trabalho interroga as
condições de possibilidades que permitiram essa emergência e os jogos de forças que
atravessam o processo de tornar-se uma mulher quilombola. Para tanto, focalizo as
práticas das lideranças quilombolas femininas no estado do Rio de Janeiro por meio dos
seus múltiplos agenciamentos em torno da ampliação dos direitos para suas

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 134

comunidades. Interessa tornar visível a forma como as lideranças ao negociarem, ao


traduzirem e ao problematizarem discursos normatizadores e formas de governo sobre
seus corpos, práticas e saberes criam um modo singular de fazer política que articula, a
um só tempo, as demandas em torno dos direitos básicos como o acesso a terra e
educação e, também, aos circuitos dos afetos, dos corpos e das subjetividades. Para tanto,
a discussão desdobra-se em três eixos analíticos: o primeiro, ligado ao eixo do saber,
refere-se à análise das condições históricas que favoreceram a emergência da categoria
remanescente de quilombo no ornamento jurídico brasileiro e as configurações de raça e
gênero permitidoras da visibilidade das experiências femininas quilombolas em
diferentes práticas discursivas. O segundo, destinado ao eixo da analítica do poder,
relaciona-se à análise dos processos de normatização quilombola que, por meio da noção
do passado como um dado, transforma a ancestralidade em um dos dispositivos da
governabilidade neoliberal. Aqui, interessa narrar estratégias e práticas de resistência
que são criadas nesse processo. O terceiro, destinado ao domínio das práticas, retoma o
tema do governo para descrever os agenciamentos das lideranças femininas quilombolas
que reivindicam simultaneamente direitos como a posse da terra, saúde e educação, e
que introduzem políticas educativas em torno do afeto, do corpo, da memória. Propostas
essas análises, o trabalho inspira-se teoricamente nas abordagens feministas
interseccionais, em especial àquelas problematizadoras dos essencialismos de raça, classe
e gênero, e nos enfoques da filosofia da diferença, sobretudo nas abordagens do filósofo
Michel Foucault sobre o governo, a governamentalidade neoliberal e o direito. (ST45)

Marilia Pugliese Branco (Doutoranda)


A produção do ofício Liturgico Francorum Rex, no século XIV, para comemorar a figura do
rei Luís IX.
No intuito de contribuir a discussão sobre a produção escrita e representação na Idade
Média, este trabalho objetiva analisar os ofícios litúrgicos escritos para o rei Luís IX (1214-
1270), produzido no século XIV em Paris.
São Luís nasceu em Poissy, no dia 25 de abril, provavelmente, no ano de 1214. Filho mais
velho de Luís VIII e Branca de Castela, neto de Filipe II Augusto e avô de Filipe, o Belo.
Em 1226, tornou-se o rei Luís IX e governou de 1226 a 1270.
Os ofícios litúrgicos foram produzidos por franciscanos, no momento posterior à
canonização de São Luís para evidenciar a construção do culto ao santo rei; esses
documentos pertencem a Ordem Franciscana, cujo autor é desconhecido, e foram
ilustrados em Paris na primeira metade do século XIV.
O entendimento do ofício enquanto gênero discursivo é importante para a compreensão
dos modelos e das especificidades contidas na fonte, centrada na figura desse rei, sob a
ótica da questão do serviço atribuída ao seu governo. A noção isidoriana, largamente
tributária da concepção de Gregório Magno (590-604), de que todo poder é serviço, a
Idade Média pode ser considerada como um período essencialmente marcado, do ponto
de vista do pensamento político, pela noção de “poder ministerial”.
Tais características são importantes para entendermos como este rei foi emblemático
para este período e para pensarmos em uma produção de uma obra que apresenta como
figura central o rei Luís. (ST38)

Marina Rodrigues Tonon (Doutoranda)


Projetos para o Brasil: comentários de Álvaro Bomílcar ao livro A América Latina de
Manoel Bomfim
No ano de 1905 chegava às livrarias da capital brasileira um livro que suscitaria certa
polêmica, A América Latina: males de origem de Manoel Bomfim (1868-1932). Apesar de
ter obtido boa receptividade por parte dos pensadores do período, esta obra gerou
incômodo em um de seus principais críticos, o temido polemista Silvio Romero (1851-

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 135

1914) que dedicou um total de vinte e cinco artigos, publicados no semanário Os Anais, à
contestação do pensamento contido na obra de Bomfim. Uma das principais críticas de
Romero, que posteriormente reuniria estes artigos em um livro intitulado A América
Latina: análise do livro de igual título do Dr. M. Bomfim (1906), se refere à acusação de
que existiriam contradições estruturais na obra, o que levaria à desqualificação da
mesma como um trabalho científico, além da clara recusa de Bomfim às teorias raciais
defendidas por Romero. Mais tarde no ano de 1915, a propósito do décimo aniversário do
lançamento de A América Latina, Álvaro Bomílcar (1874-1957) escreveu um longo texto
sobre o livro. Bomílcar, nascido no Ceára e diplomado em direito foi um importante
jornalista, literato e sociólogo, fundou no Rio de Janeiro com Jackson Figueiredo e
Damasceno Vieira a mensário Braziléa, além de organizar o movimento propaganda
Nativista (PN) e participar da criação da Ação Social Nacionalista (ASN), entre suas
principais obras estão O Preconceito de Raça no Brasil (1916) e Políticas no Brasil ou o
Nacionalismo Radical (1920). Ao refletir a respeito do livro de Bomfim, Bomílcar,
diferentemente de Romero, produziu um texto em que o analisa de forma bastante
positiva, arquitetando uma “outra” perspectiva a respeito da obra. Neste gesto de análise,
Bomílcar constrói sua visão a respeito das ideias postas por Bomfim e, desta forma,
destaca objetos, temas e enfoques, forjando, assim, seus valores, construindo seus mitos,
desenvolvendo sua moral, enfim, produzindo um passado. A comunicação a ser
apresentada tem como principal objetivo realizar uma análise a respeito da crítica
produzida por Álvaro Bomílcar a cerca do livro A América Latina: males de origem.
Pretende-se dar atenção às construções realizadas por este autor referentes ao tema do
Brasil como nação, buscando identificar como o mesmo compreendia o projeto para o
Brasil apresentado por Bomfim. Para tanto, nos debruçaremos sobre o texto intitulado “A
América Latina” publicado na revista Gil Blas por Bomílcar no ano de 1919 com a
intenção de investigar as questões aqui postas. Espera-se que ao fim da análise possamos
ter iluminado parte da relação existente entre o pensamento destes dois autores e seus
projetos para o Brasil. (ST19)

Marina Simões Galvanese (Doutoranda)


“Ei-los que partem”: masculinidade e políticas de emigração em Portugal (1961-1974)
O artigo masculino “los” da música de Manuel Freire (citada no título) ao transmitir a
ideia de universalidade, mascara o gênero dos sujeitos migrantes como se as migrações
fossem realizadas por pessoas destituídas de gênero. Tal percepção foi consequência do
crescimento da literatura sobre mulheres migrantes, que trouxe, à superfície dos estudos
migratórios, sujeitos “engendrados”. Ao compreender que as mulheres vivenciam o
processo migratório de forma particular, reconhecemos tratar a experiência masculina
como norma. Isso significa não apenas que negligenciamos questões colocadas
exclusivamente a homens migrantes (cujas experiências devem-se também às
características atribuídas ao masculino), mas que muito do conhecimento produzido
sobre as migrações apoia-se em discursos que, sem o dizer, estão carregados de noções
de masculinidade. O foco nas mulheres evidenciou o quanto a categoria “migrantes” é
geralmente composta por homens sem que se considere a masculinidade como o
construto social que é.
Este trabalho busca contribuir com os estudos das políticas de emigração portuguesa,
propondo que essas sejam interrogadas a partir de uma perspectiva que reconheça a
masculinidade da categoria “emigrante”. Uma breve análise da legislação de emigração
permite perceber que as regras estipuladas para controlar o fenômeno emigratório se
dirigiam, em norma, a emigrantes-homens. As mulheres eram alvo de regulamentação
própria, de caráter mais restritivo. Tais restrições têm sido interpretadas sob o viés dos
“interesses econômicos”. Ao deixarem o país para se juntar aos maridos, elas poriam em
risco as remessas dos emigrantes, razão pela qual a emigração feminina deveria ser

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 136

evitada. A interpretação oblitera a ordem de gênero que informa os regulamentos e não


atenta para o fato de toda a regulamentação restante dirigir-se a homens.
Visando indagar a pertinência de se trazer para dentro dos estudos da emigração
portuguesa as noções de masculinidades hegemônicas e subalternas, de ordem de gênero
e as reflexões sobre gênero, nação e migração, analisaremos as políticas de emigração e
os debates sobre o tema realizados na Assembleia Nacional entre 1961 e 1974. No
momento em que o regime salazarista vivenciava tensões internas, tentava combater os
movimentos de independência nas colônias e visava provar ao Ocidente que a África era
parte da “nação portuguesa”, o emigrante-homem poderia representar um soldado, um
colono e um trabalhador a menos, logo, uma perda ao projeto de nação imperial que se
buscava manter. No mais, aqueles que deixavam a pátria evidenciavam o fracasso do
homem novo que Salazar ambicionara criar. Quais foram as propostas para lidar com a
redução do capital masculino pelo crescente fluxo emigratório rumo à França? Em que
medida foram acatadas? (ST39)

Marisa Saenz Leme (Doutora/UNESP)


Uma interpretação de Brasil em tempos da Constituinte de 1823
Em 1823, ano em que se reuniu a Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império
do Brasil, Jozé Bernardino Baptista Pereira D´Almeida, futuro ministro, sucessivamente,
da Fazenda e da Justiça, do governo de D. Pedro I no crítico ano de 1828 – em que se
produziu um ensaio de governo passível de se classificar como parlamentarismo –
publicou um pequeno livro sintomaticamente intitulado “Reflexões historico-politicas”.
Nesse trabalho, após uma breve reflexão sobre a colonização e a chegada da corte
portuguesa ao Rio de Janeiro, o autor se dedicou à análise dos acontecimentos
sequenciais à Revolução do Porto, de agosto de 1820, com especial ênfase à Constituinte
e às propostas de organização socioeconômica e política do novo país. Objetiva-se, na
presente comunicação, avaliar a visão histórica desse personagem político, num
momento crucial para a institucionalização do estado naquele país em formação. (ST18)

Marly Spacachieri (Mestre/UNISO)


Majestade, mucama, dona, sinhá! As mulheres dos tempos coloniais portugueses
Este texto pretende ser um item dentro de um capítulo que abordará a presença das
mulheres na vida cotidiana das colônias cuja posse coube a Portugal desde os séculos XV
aos finais do XIX. Notadamente nosso olhar recairá sobre a África oriental portuguesa no
período do emprazamento de suas terras como forma de reforçar e garantir a posse da
colônia frente ao mundo imperialista que se avizinhava nos anos dos oitocentos. E essa
maneira de dotação do território do então conhecido Moçambique dará o toque original
com suas donas e seus mozungos protegidos pelas armas diversas de seus exércitos
particulares: os achicunda. (ST02)

Marly Terezinha Castro Porto (Graduada)


Fotoclubismo paulista: contexto, intercâmbio e rede (1940 a 1960).
A pesquisa tem por objetivo o estudo sobre fotoclubismo no estado de São Paulo. Parte-
se da hipótese de que na década de 1950 houve o florescimento de uma ativa rede de
fotoclubes, tendo o Foto Cine Clube Bandeirante como modelo. Nesse processo será
destacada a atuação de Eduardo Salvatore, presidente do Foto Cine Clube Bandeirante
durante 47 anos, que além de fotógrafo, teria sido um importante articulador desse
fenômeno. Para mapear a constituição dessa rede de fotoclubes paulistas um estudo
detalhado das diversas edições do Salão Paulista de Arte Fotográfica organizadas pelo
Bandeirante, no período de 1942 a 1960, está sendo realizado tendo como fonte principal
os catálogos, os boletins e as notícias publicadas na imprensa. Embora venham sendo
realizados diversos estudos sobre fotoclubismo no Brasil nos últimos anos não há, até o

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 137

momento, pesquisas que tratem do papel dos salões fotoclubistas para a constituição de
uma cultura visual específica e sua contribuição para a fotografia brasileira. (ST10)

Marta Gouveia De Oliveira Rovai (Doutora/UNIFAL-MG)


Ser mineira, ser homossexual, ser universitária: narrativas de jovens do interior mineiro
sobre a experiência de gênero na Universidade de Alfenas
A pesquisa tem como objetivo conhecer as experiências de jovens do interior de Minas
Gerais, a partir da entrada na Universidade e da descoberta ou afirmação de sua
sexualidade fora dos padrões heteronormativos. Em que medida a vivência no ensino
superior, novas referências intelectuais e a militância em grupos estudantis podem
ressignificar as suas vidas? Que implicações a vida acadêmica traz para a formação das
subjetividades de jovens advindos do interior, em especial da zona rural? Que
experiências sexuais e de gênero o espaço universitário permite, estimula ou restringe?
Que mudanças nas relações com a família tradicional, com as perspectivas de futuro,
com o corpo e com a noção de juventude/sexualidade a nova experiência ajuda a
construir ou desconstruir. A pesquisa utiliza da história oral de vida com estudantes que
militam ou que simpatizam pela militância em grupos de LGBTTT, na Universidade da
cidade de Alfenas, Minas Gerais. (ST01)

Martiniliano Souza Silva (Mestrando)


O potencial educativo do Relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) enquanto
recurso didático: algumas reflexões sobre o ensino de história indígena.
O ensino de história indígena, ainda insipiente na educação básica, tem produzido
fortuitos trabalhos com vista à superação de uma história eurocêntrica e vitimista. Nessa
perspectiva, o presente trabalho busca resgatar a agência desses povos no tocante ao
período em que os militares estiveram no poder (1964-1985). Buscar o protagonismo
indígena, no que se refere à resistência a ditadura militar, não significa, contudo, ignorar
o aspecto genocida impetrado pelo Estado ditador. Com intuito de cumprir com esse
objetivo essa analise procura refletir sobre o potencial educativo, para o ensino de
história, do Relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) enquanto recurso
didático, no que concerne sua abordagem sobre os povos indígenas. Haja vista que o tão
famigerado “milagre econômico” se estrutura também pela espoliação da terra e sob a
égide do genocídio indígena no cerne das relações estabelecidas no campo, abordagem
omissa do ponto de vista educativo. Os dados estatísticos aludem à truculência do
regime militar com os grupos nativos, denúncia de uma história esquecida e silenciada
nos livros didáticos, mas presente no relatório da CNV. Tal perspectiva reflete a agência,
o combate e a recusa de uma não aceitação passiva frente ao governo militar, que lançou
mão de muitos arbítrios – legais e ilegais – para tirar o direito a terra dessas populações.
No rastro dessas histórias, pois muitos foram os grupos combatentes, algumas perguntas
que se impõem são de cabal consideração: é possível usar tal documento como material
didático? Quais imagens ele pode consolidar? Como usar esse relatório em uma situação
didática? Quais estratégias? Longe de buscar uma análise exaustiva e respostas exatas,
esse trabalho pretende tecer algumas considerações sobre o relatório da CNV no tocante
as questões educacionais, pertinentes ao ensino de história que tem como preocupação a
agência das populações indígenas, e propor algumas formas de trabalhar com ele. (ST16)

Matheus De Oliveira Lopes (Pós-graduando)


Relações de Poder na Irlanda Cristã (Séculos V-VII)
Situada no horizonte das preocupações de historiadores da Religião e da Política, o
estabelecimento do cristianismo na Irlanda tem sido objeto de pesquisa sobretudo em
função de seu caráter potencialmente comparativo. Trata-se de estabelecer uma
contraparte em relação ao cristianismo “ideal”, ou seja, tal como se concretizou a partir

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 138

do século II nas terras do Império – a saber, a partir da fórmula do episcopado. Essa


história, essencialmente comparativa, tende a não observar pesquisas que visem a um
estudo orientado para a particularidade do caso irlandês, independentemente de seu
eventual (e muitas vezes artificial) contraste com a Igreja no continente. Acreditamos
que uma tal pesquisa deve compreender que o estabelecimento e a consolidação do
cristianismo na Irlanda foram marcados por peculiaridades - tais como a ausência de
uma centralização criada pela existência de uma abadia, diocese ou ainda um mosteiro
importante. Tais aspectos tornam o caso singular sem implicar, contudo, no
estabelecimento de prerrogativas externas para sua análise – a importância do caso
irlandês radica no próprio caso irlandês, sendo necessário compreender suas dinâmicas
sociais – que independem de um tipo ideal.
A penetração do cristianismo na região irlandesa foi diferente da efetuada no restante da
Europa, tendo sido marcada pela ação de monges e peregrinos, os quais, segundo Collins,
eram os agentes mais adaptados para substituir de uma só vez tanto a figura do druida
quanto a do fillid (poeta), ambas fundamentais para o funcionamento da religião pagã
irlandesa. Tais monges agiam na Irlanda e dela partiam para outras regiões, ajudando a
definir as características que especificaram o Cristianismo irlandês e suas ações serão
importantes para compreender como a religião, um dos fatores de maior importância ao
analisarmos a Idade Média, é capaz de adaptar-se às mais diversas realidades e contextos,
e como ela se relaciona com o poder secular.
Esta pesquisa se fundamenta principalmente na análise de fontes que tratam, direta ou
indiretamente, da vida e obra das mais importantes figuras envolvidas na expansão do
Cristianismo em direção à Irlanda – e o modo como este se relacionava com os poderes
locais, fossem esses líderes políticos, religiosos ou militares –, notadamente São Patrício,
São Columba e São Columbano. Patrício teria sido o precursor da evangelização
irlandesa; Columba e Columbano foram, reconhecidamente, os principais monges
irlandeses a expandirem o cristianismo de Patrício para outros territórios, por meio de
escritos e peregrinações. Entre as principais obras analisadas, estão a Confissão e as
Cartas de Patrício, a Regra de São Columba e o Penitencial de São Columbano, bem
como as Vidas de cada um dos três monges, além de outros textos. (ST38)

Matheus Henrique Da Silveira (Pós-graduando)


A Escolarização da Infância Problema: primeiros apontamentos sobre as fichas do Serviço
de Ortofrenia e Higiene Mental do Distrito Federal (1934-1939) e suas relações com a
sociedade carioca
Este artigo intenta apresentar os primeiros apontamentos na tentativa de compreender
as relações entre educação e sociedade na cidade do Rio de Janeiro na década de 1930.
Esta proposta surge com a análise, de forma inicial, das fichas de observação
comportamental de alunos das escolas experimentais do Rio de Janeiro, organizadas pelo
Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental, criado em 1934 por Arthur Ramos na reforma
educacional de Anísio Teixeira (1931-1935). Tais fichas foram catalogadas em pesquisa que
vem sendo desenvolvida no mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da
FE/UNICAMP e foram organizadas a partir do livro A Creança Problema (1939) escrito
por Arthur Ramos e também a partir do acervo pessoal mesmo autor, presente na
Biblioteca Nacional. É por meio destes documentos que se busca produzir um estudo
sobre as relações entre os saberes especializados sobre a infância e as formas de governo
das crianças na família e na escola. Utilizando-se do conceito de Cultura Escolar, busca-
se através das fichas de comportamento analisar os discursos propostos pelas teorias
médico-higienistas presentes no período e a forma como estes se relacionam com
aspectos da formação sociopolítica do então Distrito Federal do Brasil, além, sobretudo,
dos modos como a escola lida com esses discursos no processo de escolarização. Para tais
fins, foi importante levar em conta também os conceitos de tática e estratégia propostos

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 139

por Michel de Certeau, ampliando as possibilidades dos documentos no que se refere ao


protagonismo das crianças e suas maneiras de convivência com as políticas de
conformação propostas sobre seus corpos e sobre os meios de governo voltados aos
adultos responsáveis por seu cuidado e educação. Faz-se necessário assim também, a
utilização das ideias de Michel Foucault quanto a análise dos discursos e quanto aos
meios de controle social, além de referenciais da antropologia (no que se refere a
conceito de apropriação) e da sociologia (no que tange a relação entre o espaço privado,
urbano e o espaço escolar). (ST29)

Mauricio Aparecido Pelegrini (Doutorando)


Michel Foucault, Gary Becker e a teoria do capital humano
Em seu curso O Nascimento da Biopolítica, ministrado no Collège de France em 1979,
Michel Foucault apresenta uma leitura original e inovadora dos neoliberalismos alemão e
americano. Um dos eixos norteadores desse neoliberalismo pós segunda guerra é a teoria
do capital humano, elaborada pelo economista Gary Becker. Segundo essa teoria, o
indivíduo deve se colocar no mercado como empresário de si mesmo, desenvolvendo e
aprimorando seu corpo e suas capacidades como capitais em livre concorrência.
Pretendo apresentar a leitura crítica de Foucault aos movimentos neoliberais
contemporâneos. (ST45)

Mauricio Gomes Da Silva (Pós-graduando)


Diálogos com Jorge Amado: O Amor do Soldado como um documento histórico
Uma obra literária é, antes de tudo, um documento histórico que, quando questionado,
nos revela as tramas sociais do tempo de sua criação. Nela, também podemos encontrar
faces da identidade de seu autor: sua concepção de mundo, estética, influências
artísticas, posições políticas, etc. O livro O Amor ao soldado, de Jorge Amado, não foge a
essas regras. Constitui-se em uma peça de teatro que aborda episódios biográficos do
poeta Castro Alves. Escrita no ano de 1944, faz referências a liberdade e a democracia,
questões candentes naquele momento. Problemáticas que estavam na ordem do dia
naquele ano que antecedia o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo- e a peça
quer contribuir para esses fins. A opção por abordar tais temas está relacionada
diretamente às posições políticas do autor: Jorge Amado era militante do Partido
Comunista do Brasil, que foi, durante o Estado Novo, ferrenhamente reprimido pelas
forças de segurança do regime ditatorial.Tal agremiação política combatera o fascismo
tanto em terras nacionais quanto internacionais.Consta o envio de combatentes
comunistas brasileiros para a Espanha e França e até mesmo a presença de praças
integrando a Força Expedicionário Brasileira na Itália. Nesse sentido, a peça de Jorge
Amado é uma intervenção dramatúrgica na cena política brasileira e mundial e pode ser
compreendida como documento histórico sobre a luta contra tais ditaduras. (ST16)

Mauricio Mario Monteiro (Doutor/Universidade Anhembi Morumbi)


As Engenhosas Moralidades: Música e colonização da América Latina
A proposta pretende estudar e compreender como a atividade musical foi essencial para
o processo de colonização da América Latina desde o século XVII até o século XVIII. Esse
processo de colonização, como uma marcha para o oeste ou ainda, como disse
Montaigne, uma cruzada geograficamente oposta, teve mais interesses que a simples
expansão territorial; tratou-se, principalmente, de uma proposta de propagação dos
conceitos de civilização e cultura europeus. Conquista espiritual ou colonização do
imaginário seriam, talvez, expressões mais apropriadas para definir o caráter do processo
de descobrimento e colonização das Américas Hispânica e Portuguesa e, nisso, a
atividade musical foi predominantemente imprescindível. O processo de formação da
estilística da música nas Américas foi desencadeado dentro de uma mesma

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 140

funcionalidade, isto é, o da conquista e o da catequese. Nos inícios do século XVI, o Papa


criou dois sistemas que proveriam os reis ibéricos de poder sobre os corpos e sobre as
almas. Foram então criados os sistemas de Padroado Régio e Patronato Régio, esse
último para os reis espanhóis. O primeiro problema encontrado foi o tempo: Kronos x
Kairós. Com base nas tradições cristãs, Deus seria a medida de todas as coisas, o tempo
seria e deveria somente ser dado por ele, daí surgiu a expressão: Deos Modulator, que é
na verdade o Deus como medida, um Deus que faça as modulações, um Deus cantor.
Esse Deus deveria então criar o tempo onde não havia o tempo, cantar e solfejar, ou seja,
organizar os sons do mundo frente à barbárie indígena era uma questão moral. Baseada
durante todo processo de colonização no sistema tonal, a atividade musical latino-
americana pode ser compreendida em quatro momentos estilísticos importantes: musica
renascentista, musica barroca, musica pré-clássica e musica clássica, segundo a
cronologia sugerida na Historia da Musica Ocidental. Cada um deles com
predominâncias distintas sejam na melodia, harmonia e ritmo, através do exagero e do
equilíbrio. Contudo, a questão é, em todos os casos, relacionada ao tonalismo e a uma
gramática musical sedutora e persuasiva, capaz de convencer e de direcionar o indivíduo,
seja autóctone ou europeu, a determinadas atitudes e pensamentos. Isso é muito
significativo se pensarmos em termos da busca, definição e estrutura do sistema tonal.
(ST26)

Max Alexandre De Paula Gonçalves (Doutorando)


História e Videogame: a construção do conhecimento histórico em games – o caso
Assassin’s Creed
Em consonância com a proposta desse Simpósio Temático, a saber, “História e
Linguagens: aproximações”, marcado pela pluralidade de linguagens contemporâneas –
por exemplo, a televisão, o rádio, a mídia impressa e a virtual – o presente trabalho vai ao
encontro da mesma ao escolher o videogame como objeto de reflexão para a proposta.
Ao entendermos esse objeto como uma amálgama de diversas linguagens, ainda mais
quando pensamos os modelos criados a partir da primeira década do século XXI,
podemos observar que o lúdico é um elemento presente nos diversos games criados. No
entanto, e nesse caso não estamos mais falando apenas dos consoles, mas também de
uma parte material essencial para esse componente, é interessante notar também que
muitos jogos eletrônicos utilizam eventos e períodos históricos a fim de envolver o
público nas diversas narrativas criadas. Dessa forma, surgem já de início algumas
indagações: qual é o conhecimento histórico veiculado nesses jogos? Como se constrói a
história neles? E qual é o limite de atuação do jogador na construção desse
conhecimento? Assim, para compormos a nossa análise, escolhemos o jogo “Assassin’s
Creed: Brotherhood” e a sequência “Assassin’s Creed: Revelations”. Pretendemos com
isso dispor de uma reflexão a partir de um arcabouço teórico constituído por diversas
áreas do saber, para que assim possamos elevar o debate para a História. (ST10)

Maysa Silva Oliveira (Mestranda)


Contra os filhos do Império Celeste: Breve análise do imaginário brasileiro com relação ao
imigrante chinês, sob a visão de Angelo Agostini
O propósito deste trabalho é analisar a reação da mentalidade brasileira ao considerar a
hipótese da imigração chinesa. Para isso, usaremos os trabalhos de Angelo Agostini, fiel
chargista da sociedade no século XIX. A partir de então, teremos uma base concisa para
analisarmos as charges do artista sob o prisma da imigração asiática. Neste trabalho,
estudaremos uma parte do século XIX e algumas de suas transformações. Há que se levar
em consideração que o fim do tráfico negreiro impôs modificações nas relações
econômicas e sociais numa sociedade que já estava acostumada com a figura do escravo,
dentro do sistema colonial. Esta é uma afirmação válida para o Brasil. A entrada de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 141

imigrantes na América desperta interesse, pois uma cultura totalmente alheia aos
americanos estabeleceu-se e criou a possibilidade de analisar como essas relações sociais,
políticas, econômicas e até mesmo religiosas adaptaram-se ao longo do período
abordado. Em suma, a figura do chinês será alvo de discussões calorosas sobre sua
entrada no país e uma analise de como suas charges o apresentavam mostram-se válidas
para uma melhor compreensão do contexto em que ocorreram. (ST39)

Milena Da Silveira Pereira (Pós-doutoranda/UNESP-Franca)


A escrita da história nas primeiras memórias da Academia Real das Sciencias de Lisboa
Fundada em 1779, na capital portuguesa, a Academia Real das Sciencias de Lisboa veio a
lume com o projeto de gerar conhecimentos científicos úteis aos portugueses e às suas
colônias, por meio da produção de memórias e de grandes obras no âmbito da
matemática, da mineralogia, da astronomia, da geologia, das artes, da história e das
letras. O objetivo desta exposição, partindo do mapeamento e da análise das primeiras
produções desta Academia..., é examinar a proposta dessa associação para escrever a
história da América Portuguesa, ou seja, o que os acadêmicos julgaram importante
registrar a respeito de sua principal colônia num tempo em que o saber em Portugal
buscava afirmação sobre novos parâmetros. (ST19)

Mirian Cristina De Moura Garrido (Doutoranda)


Como se constrói (auto)biografias de militantes negros nos Estados Unidos e no Brasil.
Biografias e autobiografias são corpos documentais singulares para pesquisadores que
elegem os movimentos sociais negros como objeto de estudo. Em geral, esses indivíduos
estão excluídos dos círculos detentores de poder político e econômico e agem para a
reversão da situação de preterimento ao qual seu grupo étnico está submetido. Destas
informações denotam o caráter excepcional da (auto)biografia de militantes negros, pois,
não inseridos entre a elite (intelectual, política ou econômica) de um país não escrevem
de lugares consagrados, mas ao contrário, buscam consagrar a importância de suas lutas
por meio da descrição de suas trajetórias. A apresentação buscará traçar as linhas gerais
das (auto)biografias de militantes negros estadunidenses e brasileiros, optando por
indicar proximidades e distanciamentos. Para análise elegeu-se quatro obras, uma para
cada militante selecionado, sendo estes: Malcolm X, Martin Luther King Jr., Abdias do
Nascimento e Lélia Gonzalez. O critério de escolha foi a representatividade que esses
indivíduos possuem dentro do universo militante. Metodologicamente farei uso da
literatura atenta aos procedimentos da Escrita de Si, em especial dos textos de Pierre
Bourdieu e Philippe Artières. Preliminarmente pode-se afirmar que não configuram esses
documentos um único discurso, mas estão dotados de características gerais comuns, em
especial a construção da narrativa que segue: o percurso antes da militância, o
compreender-se negro, a denúncia do preterimento racial, as formas de atuação e as
proposições para o futuro. (ST47)

Moisés Stahl (Mestre)


Dois Destinos para o Império: Van Delden Laerne e a Sociedade Central de Imigração no
final do século XIX
O Objetivo desse trabalho é examinar as ações da Sociedade Central de Imigração contra
a imagem de futuro do Império que o holandês Van Delden Laerne construiu. Em 1885
Delden Laerne publicou o livro "Le Brésil et Java rapport sur la culture du café en
Amérique, Asie et Afrique", onde relatou os modos de produção da cultura do café nas
regiões produtoras dos três continentes destacados no título do livro. A maior parte de
mais de seiscentas páginas do livro foi dedicada à produção cafeeira do Vale do Paraíba e
Oeste Paulista. No livro Laerne asseverou que a produção cafeeira brasileira seria extinta
ao mesmo tempo em que fosse abolida a escravidão. O holandês fechava o horizonte da

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 142

produção cafeeira com esse diagnóstico pessimista. Para tanto, para contestar o que
asseverou o holandês, a Sociedade Central recorreu aos trabalhos do cientista francês
Louis Couty a fim de contrapor os argumentos que maculavam a imagem do Império no
exterior. A partir da publicação do livro de Delden Laerne, a Sociedade Central
mobilizou uma série de ações de defesa do Império e de seu futuro, posto que seu projeto
de modernização via imigração pode ser entendido como parte do projeto de um terceiro
reinado que não existiu. Assim, veremos nas ações da Sociedade Central a apropriação
das ideias do cientista francês Louis Couty na luta contra o que argumentou Delden
Laerne. O livro de Laerne, segundo Rafael Bivar Marquese, pode ser entendido como
uma obra crucial para compreender as transformações culturais e formação da economia
global no longo século XIX. (ST39)

Mônica Do Nascimento Pessoa (Doutoranda)


Entre Áfricas e Brasil: Trajetórias de um Projeto de Pesquisa
O presente trabalho busca expor algumas trajetórias de um Projeto Pesquisa Intitulado
“Vozes Griots: (Re) significações das práticas griôs em África-Brasil”. É um projeto inicial,
que objetiva discutir possíveis caminhos para a inscrição de uma epistemologia africana,
que como Aimé Cézaire afirma “chegou a hora de nós mesmos”. Através de narrativas
compreenderemos como os Griôs - contadores de histórias da região do Mali, em África -
construíram mecanismos de educação nas Áfricas antes da colonização, e depois, com a
diáspora africana, ressignificaram seus papéis em diversos lugares, com práticas nas
danças, nas músicas, na forma de educar através das artes, que objetivavam falar de uma
ancestralidade africana. Como essas histórias foram ressignificadas e promoveram
espaços de luta anti-racista no Brasil e em seus lugares e experiências diversas? Como
essas populações estabelecem formas de auto-inscrição? Pelos caminhos dos griôs em
África será possível observar o debate em torno da questão da violência colonial e as
diversas identificações que construíram para resistir ao colonialismo, com suas
memórias. (ST02)

Muhana Mustapha Bon Nassif (Graduada)


O ensino de História e o uso de diferentes linguagens: um estudo da temática do negro e da
abolição da escravidão no Brasil sob novas abordagens
A abordagem tradicional empregada no ensino de História, baseada na memorização de
fatos e datas, deteriorou-se com o passar do tempo e perdeu o sentido nos dias de hoje,
encontrando-se extremamente ultrapassada. Isto porque a História, muito além de ser
decorada, deve ser compreendida, promovendo reflexões no estudante, quer enquanto
indivíduo,quer enquanto cidadão.
Nessa perspectiva, o uso de novas linguagens, torna-se uma das possibilidades para
auxiliar na questão por ser um instrumento eficaz, na medida em que propicia aulas mais
atrativas e permite maior aproximação com a realidade do jovem, estimulando-o a
refletir e a desenvolver o seu senso crítico. Nesse sentido, considerar-se-á a temática do
negro somada à abolição da escravidão no Brasil, não só pela afinidade com o tema, mas
por serem questões interligadas e ainda em pauta na história brasileira, contendo, por
sua vez, algumas lacunas.
O presente trabalho, portanto, visa analisar e problematizar a abordagem contida nos
livros didáticos sobre a abolição da escravidão e a questão do negro no Brasil,
incorporando linguagens alternativas na prática docente a ser desenvolvida em sala de
aula com alunos do Ensino Fundamental II. Objetivando, desse modo, desconstruir a
ideia preconcebida acerca do tema proposto e apresentar novas possibilidades
pedagógicas para o ensino de História. (ST23)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 143

Munir Abboud Pompeo De Camargo (Mestrando)


O edifício escolar e o ideário republicano durante a segunda metade do século XIX em
Campinas: grupos, projetos e ideias
A pesquisa insere-se no campo da História da Educação com enfoque nas edificações das
instituições de ensino no final do século XIX no Brasil. Procura-se compreender as
discussões a respeito da educação no período, na cidade de Campinas, um dos palcos do
movimento republicano, tendo como foco os ideais dos intelectuais republicanos que
propuseram a construção dos edifícios escolares, levando em conta os projetos
pedagógicos e arquitetônicos compatíveis ao pensamento político educacional da época.
Dessa forma serão pensadas as questões relacionadas às concepções de educação que os
grupos republicanos possuíam, essas vinculadas à ideais liberais vindos principalmente
dos EUA, em especial dos presbiterianos da Pensilvânia. Além de concepções belgas
vindas por parte do engenheiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Nessas discussões
do período um dos pontos pensados era o de um projeto concebido nas bases da
racionalidade científica, isso incluía a própria ideia de espaço, sendo criadas novas
concepções arquitetônicas, e o desenvolvimento do edifício-escola, surgia uma
especialização dos espaços vinculada as próprias ideias educacionais, moldando assim
uma identidade para a escola. Ocorreram diversas apropriações por parte dos
republicanos em relação às ideias pedagógicas em voga no período, estes reinterpretando
e utilizando-se dessas concepções. É então realizado um movimento para a compreensão
das tensões relacionadas às concepções dos edifícios educacionais, sua implantação e
posteriormente a propagação do prédio quanto discurso. Uma vez que o edifício-escola é
pensado como possuidor de função no meio inserido, sendo utilizado de diversas formas,
apresentando assim uma comunicação e sua utilização gerada como um produto
cultural. Assim, as discussões dirigem-se desde as concepções de escolas e educação no
núcleo republicano campineiro, desenvolvendo-se para os escritórios de arquitetura e
engenharia e a materialização no espaço unida com as repercussões finais. (ST29)

Nadia Gaiofatto Gonçalves (Pós-doutora/UFPR)


História do ensino de história: produção acadêmica em periódicos brasileiros (1970-2014)
O objetivo deste trabalho é discutir como a produção acadêmica publicada em
periódicos nacionais, no período de 1970 a 2014, abordou a História do Ensino de
História. Para isto, foi realizada pesquisa do tipo estado da arte em 95 periódicos
nacionais classificados no Qualis CAPES entre A1 e B3, das áreas de Educação, História e
Ensino, com objeto que voltado especificamente ao Ensino de História. Como
referenciais, foram utilizadas as contribuições de Pierre Bourdieu, principalmente os
conceitos de habitus e de campo, no caso, intelectual; e de Roger Chartier, de lutas de
representações. Foram identificados 133 artigos sobre o tema, mais concentrados no
século XXI. Dentre os temas mais abordados nestes trabalhos, destacam-se recursos
didáticos, história da disciplina e conteúdos específicos da disciplina escolar história.
(ST05)

Nashla Dahás (Doutora/UFSC)


Violência e Política na estrutura discursiva das esquerdas brasileiras entre as décadas de
1960 e 70
O trabalho pretende analisar as estruturas discursivas que marcaram a relação entre
violência e política no seio das esquerdas brasileiras nas décadas de 1960 e 70.
Consideramos que, naquele período, o impasse entre reforma e revolução envolveu
diferentes perspectivas acerca da violência como instrumento político, gerando uma
memória errática e fragmentada, construída em grande parte pelos próprios agentes
históricos, com destaque para os movimentos estudantis. Para compreender a
construção dessas memórias e, ainda, suas formas de atuação política no tempo presente,

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 144

nos serviremos de um encaminhamento teórico que inclui as reflexões de Hannah


Arendt sobre desobediência civil e violência, o conceito Foucaultiano de discurso e sua
crítica ao pensamento político tradicional. (ST42)

Natália Cristina Batista (Doutoranda)


História e memória: a invasão da UNE sob o olhar artístico-político de João das Neves
O artigo tem como objetivo articular história e memória na peça O quintal, escrita pelo
diretor e dramaturgo João das Neves, em 1977. O autor problematizou em seu texto o
golpe militar de 1964 e a atuação de três importantes pólos da esquerda nesse período: o
CPC, o PCB e a UNE. O enredo trata do momento em que o Teatro CPC-UNE foi
invadido, no dia seguinte ao golpe militar. O autor se encontrava na sede da instituição e
procurou registrar, através da obra citada, suas impressões sobre o evento. De 1961 a
1964, o CPC do Rio de Janeiro realizava seus trabalhos na sede da UNE, na Praia do
Flamengo, 132. No mês de abril de 1964, o Centro Popular de Cultura realizaria um sonho
antigo: a inauguração do Teatro CPC-UNE, com sede na mesma instituição. A
inauguração do teatro seria feita com a estréia da peça Os Azeredos Mais Os Benevides,
de Oduvaldo Viana Filho. No entanto, no dia primeiro de abril de 1964, o Teatro CPC,
assim como toda a sede da UNE, foi invadido por grupos de direita, principalmente
lacerdistas, que saquearam e incendiaram o espaço. Um dos interesses deste artigo é
perceber as reflexões autobiográficas e históricas contidas no texto “O quintal”, assim
como articular história, memória e ficção a partir das referências construídas em torno
da UNE e da resistência estudantil. Visando apreender a multiplicidade de
entrecruzamentos e fontes, optou-se por investigar três temporalidades: 1964, 1977 e
2013. Estes eixos temporais permitem compreender o próprio texto, o contexto de
produção e ressignificação da obra no fluir do tempo. A primeira temporalidade proposta
refere-se ao espaço-tempo contextual em que a peça se passa. Em um primeiro
momento, interessou-nos perceber as relações entre a política, o movimento estudantil e
o campo artístico no período anterior ao golpe, assim como as aproximações entre o
PCB, UNE e CPC, a posição dessas instituições diante do golpe civil-militar de 1964 e a
desilusão da esquerda diante de uma grande modificação de seu horizonte de
expectativa. A segunda temporalidade trata do contexto de produção da peça, no
momento que o autor escreveu a cena curta, em 1977. Objetiva-se discutir a necessidade
de encontrar os “responsáveis” pelo golpe civil-militar de 1964, a memória construída em
torno da juventude, assim como a visão pessoal do autor sobre esses acontecimentos,
que, em alguma medida, ser percebidos em seu texto. O terceiro marco diz respeito ao
contexto de produção das entrevistas a partir da metodologia da História Oral, realizadas
com João das Neves durante o ano de 2013. Buscar-se-á compreender como João das
Neves, enquanto sujeito histórico, refaz sua narrativa do passado, assim como sua
percepção sobre a produção artística, o movimento estudantil, assim como o próprio
contexto ditatorial brasileiro. (ST42)

Natália Cristina Sganzella De Araujo (Doutoranda)


Currículo de Sociologia e Gênero: uma análise do material didático de Sociologia para
Ensino Médio da Rede Pública de Educação de São Paulo
O presente artigo tem como objetivo analisar a forma como os conceitos de gênero e
sexualidade são apresentados no Currículo Oficial de Sociologia para Ensino Médio,
oferecido pela Rede Estadual de Educação de São Paulo. A partir da contribuição de Joan
Scott (1995) compreende-se a leitura de gênero, como categoria relacional na qual as
concepções de masculino e feminino se tratam de posições construídas socialmente ao
redor do sistema de sexo-gênero, criando uma teia complexa de significados e interesses
econômicos, políticos, linguísticos e culturais. Ao propor esse método de análise
conceitual do material didático busca-se pensar que o gênero é uma forma primeira de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 145

relação de poder e que não deve ser estudada apenas como história das mulheres ou de
temas relacionados à sexualidade, família, crianças, mas como uma categoria analítica
útil para compreender as relações de poder ao longo da História. A análise da proposta
contida no material didático de Sociologia apresenta o tema de gênero e sexualidade
inserido em três eixos principais de discussão - a diferenciação de gênero, como um
elemento da estratificação social e a organização social (Volume Dois, 1º ano do Ensino
Médio); violência contra mulher (Volume Dois 2º ano do Ensino Médio) e enquanto
situação política ao tratar do movimento feminista e LGBTT (Volume Um, 3º ano do
Ensino Médio). A pesquisa em desenvolvimento terá como natureza metodológica a
análise dos documentos oficiais produzidos pela Secretaria de Educação do Estado de
São Paulo para a formação do Currículo de Sociologia e sobre relações sociais de gênero.
Em um segundo momento, será realizado a pesquisa de campo, onde será feito entrevista
abertas e observação com as equipes organizadoras do material de Sociologia e também
com os técnicos educacionais responsáveis pela formação dos agentes multiplicadores,
como professores coordenadores dos núcleos pedagógicos (PCNPs) de Sociologia. A
análise do material didático revelou, de modo preliminar, os temas gênero e sexualidade
são tratados, seja na forma de apresentação dos conteúdos ou em sua problematização
conceitual, negligenciam experiências subjetivas seja no campo das identidades de
gênero como na esfera da sexualidade. Há um ocultamento dos temas de sexualidade,
uma marginalidade no que se refere a questões dos direitos e dilemas LGBTT que serão
abordados ao longo desse texto. (ST25)

Natália Dorini De Oliveira (Mestranda)


História e memória da práxis associativista na Unesp - concepções políticas, ideológicas e
sociais (1976-1984)
A pesquisa tem por objetivo resgatar a história da Associação dos Docentes da UNESP
(ADUNESP) enquanto movimento político de resistência ao regime militar e espaço de
construção democrática dentro da universidade.
A história da Associação dos Docentes da UNESP (ADUNESP) mistura-se com a própria
história da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), criada
pelo governador do estado de São Paulo, Paulo Egydio Martins, pelo decreto 952 em 30
de janeiro de 1976.
Tanto a universidade quanto a associação dos docentes, surgem sob o signo da repressão
e do medo, sem democracia interna, sendo reproduzido em seu meio aquilo que a
sociedade brasileira vivia, a ditadura militar (1964-1985).
Em 05 de junho de 1976, contando com trinta e cinco professores, foi fundada a
Associação de Docentes da UNESP, primeira associação deste tipo criada após o golpe de
1964.
A associação buscou promover espaços de debates e de denúncias das ações
antidemocráticas dentro da universidade, estabelecendo-se como um espaço de
resistência e luta pela democracia. Os embates foram muitos, pois o primeiro reitor, Luiz
Ferreira Martins, não reconheceria a associação, alegando que haveria disparidades entre
o estatuto da associação e o da universidade, o Conselho Nacional de Educação também
negou-se a protocolar a documentação que comprovaria a existência legal da associação.
Os processos dentro da universidade foram levados de forma autoritária e
antidemocrática e em entrevista para a revista comemorativa pelos vinte anos da
associação, Martins reafirma suas posições e diz que faria tudo de novo.
Assim, buscaremos resgatar a história desta associação, que resistiu aos desmandos do
Estado, buscando construir um espaço democrático e acessível. (ST42)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 146

Nathalia Fernandes Vieira (Mestranda)


Programa “São Paulo Faz Escola”: uma discussão sobre os fundamentos teórico-
metodológicos da bibliografia acerca do Currículo do Estado de São Paulo
O texto apresenta um levantamento dos trabalhos acadêmicos desenvolvidos nos últimos
anos sobre o Programa “São Paulo Faz Escola”. O levantamento bibliográfico foi
realizado a partir da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações e do Google
Acadêmico utilizando-se das palavras “são paulo faz escola” e “currículo são paulo” para a
busca. Diversos trabalhos foram encontrados e selecionados pelo critério de serem da
área de História ou Educação. Foram selecionados, então, onze trabalhos para análise,
em sua maioria teses e dissertações, além de três artigos científicos. Os elementos
analisados foram: Objeto/Recorte Temporal, Problema, Metodologia/Referências e
Resultados/Conclusões. A hipótese da pesquisa foi de que as análises existentes adotam
uma pluralidade de perspectivas teóricas, no entanto, em que pese à diversidade de
perspectivas, os trabalhos apresentam críticas severas ao documento da SEE. A maioria
dos autores utiliza-se de alguma forma do viés marxista, colocando o currículo como
instrumento de poder e de hegemonização cultural, o que explica a relação entre as
reformas educacionais e as reformas neoliberais do Estado. Uma constante em todo o
levantamento foi a rígida crítica ao programa em questão, tanto seu caráter de projeto
político, como seu processo de elaboração, seu documento curricular, seus materiais
didáticos e sua implantação. (ST05 )

Nathalia Theophilo Lobato (Mestranda)


Osvaldo Bruno Meca Santos Da Silva (Mestrando)
Mappin Stores - Os Ecos do Consumo na Sociedade Paulistana
Discutiremos o papel da loja de departamento Mappin no fomento da sociedade de
consumo paulistana. Sua importância parece óbvia já que se trata da primeira loja de
departamento aberta na cidade de São Paulo, há quase um século, 1913. No entanto,
pouco se escreveu sobre o assunto e nestas oportunidades frisou-se que a loja aqui
estabelecida diferenciava-se de suas congêneres pelo fato de ter-se mantido,
paradoxalmente, uma loja para as elites, em pleno século XX, o que parecia subverter a
própria lógica das lojas de departamento. Tratar-se-ia de um fenômeno típico paulistano,
cujo comércio não teria conseguido até então expandir-se a ponto de promover o hábito
do consumo em outros segmentos sociais. Tal hipótese baseou-se em depoimentos
eventuais de antigos frequentadores, que relataram só frequentar a loja em tempos de
liquidação, e também na constatação de que os preços praticados eram altos.
Sustentamos, no entanto, que a loja Mappin teve um impacto muito mais amplo do que
inicialmente se supôs. Pretendemos demonstrar, ainda que em breves linhas, como a
estrutura social paulistana já apresentava desde finais do século XIX uma notável
diversidade no que identificamos como segmentos médios, ávidos por ostentar as marcas
de sua ascensão social e que encontraram na propriedade de uma casa um de seus
maiores signos de distinção. Consideramos ainda a estrutura familiar típica paulistana
que, ao contrário do que se imaginava, afastou-se dos modelos de família extensa. Para
famílias nucleares que pouco cultivaram a transmissão cotidiana da cultura de seus
ancestrais, a publicidade teria preenchido, mais cedo do que supúnhamos, funções
pedagógicas importantes. Uma dessas lições foi ensinar à mulher como esta poderia, por
meio de sua exibição corporal e de sua atuação no espaço doméstico, constituir formas
materiais de produção de uma nova identidade, moderna e urbana.
Discutiremos ainda como o Mappin praticou seus preços, desenvolveu narrativas
publicitárias e incentivou práticas complexas de convívio. A loja sedimentou e expandiu
vivências com artefatos domésticos e de uso pessoal (roupas e acessórios) que se
iniciaram no século XIX em São Paulo. (ST10)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 147

Nelson Tomelin Junior (Doutor/UFAM)


Trabalho e contradição em fatos (su)rreais, ma non troppo: a narrativa da justiça em
processos trabalhistas e a luta dos trabalhadores por seus direitos e memória (Itacoatiara,
1973/1980).
A presente pesquisa reflete sobre a realidade social do trabalho a partir da
problematização de processos trabalhistas produzidos nos anos de 1973 a 1980 na Junta
de Conciliação e Julgamento de Itacoatiara, no interior do estado do Amazonas. Lemos a
contrapelo nessas narrativas, a resistência, mesmo em ocultamentos da fala dos
trabalhadores, que por suas demandas iniciais evidenciam a aposta no futuro como
trama processual que tecem em nome próprio, a partir de reais utopias e saberes, opondo
obstáculos à divisão da sociedade em classes. Evidenciamos no período a luta pelo direito
ao trabalho, em reclamações referentes ao pagamento de horas extras noturnas, de
diferença salarial, de gratificação natalina, do FGTS, do registro em carteira, do gozo das
férias, pela saúde, num conjunto de reivindicações que, por anotações sumárias nesses
processos, exigem reflexão e crítica, quando eventualmente arquivados pelo não
comparecimento dos interessados nas audiências, ou conciliações por valores irrisórios.
Por essas fontes sabemos ainda de capatazes em unidades produtivas, violências contra
gestantes, kafkanianas sustentações pela “justa causa”, suspensões punitivas,
expropriação do tempo do trabalhador, inclusive do direito ao descanso semanal, em que
a mais das vezes denúncias dos trabalhadores restam sem desdobramentos legais.
Compõem esses processos fotografias de locais de trabalho, registros de deslocamentos
evidenciando o difícil cotidiano das formas de trabalho na região, laudos médicos, o
trabalho infantil, crianças eventualmente nascidas no isolamento de empreitadas
seringalistas, o funcionamento da prática do “barracão”, com o endividamento dos
trabalhadores, na formação de uma cidade-latifúndio dividida em bairros de produção.
São dimensões da ditadura civil-militar brasileira que surgem nessa documentação, bem
como perspectivas das lutas de homens, mulheres e crianças que resistiram na Amazônia
ao golpe de 1964, permanecendo daqueles esforços “conciliatórios” a memória
preponderante de inconciliáveis contradições, dando historicidade para o que naquele
momento se pretendeu como justiça do trabalho. (ST16)

Odair Da Cruz Paiva (Pós-doutor/UNIFESP)


Imigração musealizada: museus da imigração japonesa no Estado de São Paulo
Os primeiros museus de imigração no Estado de São Paulo surgem no final dos anos 1970
e início dos anos 1980, período de mudança no perfil dos grupos estabelecidos no país. A
criação de lugares para a preservação da memória das correntes imigratórias tradicionais
– estabelecidas a partir do final do século XIX –materializou-se, dentre outras formas, na
produção de museus. Estas instituições servem como espaços que fixam a memória e a
presença destes sujeitos na paisagem, especialmente em realidades marcadas por
transformações econômicas e culturais intensas. No momento em que a presença
imigrante deixa de ser inconteste, criam-se condições para o surgimento dos museus.
Para além da profusão de museus voltados a nacionalidades ou etnias específicas como
os japoneses, italianos, holandeses, estadunidenses, letos, etc., alguns destes grupos
construíram vários destes espaços, produzindo, em decorrência, formas variadas para a
representação de sua memória. Apresento neste Encontro reflexão que faz comparação
entre três museus de imigração da comunidade japonesa. Situados nos municípios de
São Paulo, Registro e Pereira Barreto, estes possuem discursos expositivos que revelam
formas variáveis na produção da memória do grupo. Do museu que busca a
materialização de todos os aspectos que cercam a imigração e presença dos japoneses no
Brasil, como é o caso do museu da capital paulista, passando pelo registro de dinâmicas e
memórias locais, os museus da imigração japonesa são territórios importantes para
compreendermos a produção de patrimônios culturais na atualidade. Esta reflexão faz

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 148

parte de um projeto mais amplo que, ao analisar onze museus de imigração em São
Paulo, dialoga com questões como o patrimônio cultural e a problemática das
identidades coletivas. (ST18)

Olga Brites (Doutora/PUC-SP)


A menoridade penal na década de 1970 e a luta pela redemocratização a partir da atuação
do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Osasco
Os debates sobre a redução da maioridade penal tem uma longa história no Brasil do
século XX. Em diversos momentos o tema foi tratado pelo Parlamento, representado em
projetos de lei. No final da década de 1970, em especial, foram apresentados projetos
defendendo o tema, a justificativa: combater o aumento da percepção da violência
urbana, supostamente resultante da atuação de crianças e adolescentes dos setores
populares nas grandes cidades, o que era chamado de “problema do menor”. Reagindo à
ditadura militar, lutando pela redemocratização e pelo fim do autoritarismo, o Centro de
Defesa dos Direitos Humanos de Osasco (CDDHO), encabeçou mobilizações de setores
organizados e populares para confrontar as propostas de redução da maioridade penal.
Nessa pesquisa nos propomos analisar a atuação do CDDHO na mobilização de setores
populares e defensores dos direitos das crianças e adolescentes contra projetos de lei que
visavam criminalizar a infância brasileira, nos anos finais dos anos 1970. Para isso
revisamos fontes primárias do CDDHO (inéditas), da Câmara dos Deputados, recortes
jornalísticos e textos legais. (ST01)

Ozeas De Oliveira (Mestre)


“Mostre-me os vossos dentes e eu direi o grau de civilização que tens”: corpos saudáveis e
comportamentos civilizados (Mato Grosso, 1930-1945)
Este artigo procura tratar de algumas questões que entrelaçam saúde e educação,
levantadas durante a realização da pesquisa de mestrado (OLIVEIRA, 2013), que analisou
as representações da infância na mídia impressa em Mato Grosso, nos anos de 1930 a
1945, sob o tripé família, educação e saúde. Na pesquisa realizada, é possível perceber
indícios da ação do discurso médico-odontológico agindo sobre o saber pedagógico para
a constituição de cidadãos modernos e civilizados. Desse modo, esse texto tem a
intenção de dialogar, em nível nacional, com estudos que estão sendo produzidos e que
procuram problematizar a relação entre discurso médico-odontológico e saber
pedagógico. Por outro lado, procura dar continuidade à pesquisa sobre a história e a
educação da infância em Mato Grosso, principalmente por meio da mídia impressa.
Visamos, assim, contribuir com o debate que compreende a relação entre saber médico e
saber pedagógico, haja vista que a preocupação com a higiene infantil ocupou espaço na
sociedade brasileira desde o final dos séculos XIX e XX. Isto posto, busca-se investigar as
especificidades desses discursos no espaço geográfico mato-grossense entre os anos de
1930 a 1945, que aproximaram saber médico e educacional.
É a partir das observações de OLIVEIRA (2012;2014), que assinalam a necessidade da
história da saúde bucal e da odontologia no Brasil ser escrita, contada, lida e
cartografada, que esse artigo tem por objetivo estabelecer a articulação entre o discurso
médico-odontológico e o educacional, problematizando os discursos proferidos pelos
cirurgiões-dentistas Theodorico Corrêa, Durval Gomes Monteiro e Agrícola Paes de
Barros. Tais discursos, difundidos pela mídia impressa, sensibilizaram a sociedade mato-
grossense sobre as necessidades de hábitos de higiene e comportamentos considerados
saudáveis e imprescindíveis à modelagem do novo homem. Entendemos que tais
discursos estavam em consonância com os ideais e aspirações do Governo Vargas ao
instituir, a partir de 1930, uma política nacional de construção do novo homem
brasileiro, desenvolvimento da nação e fortalecimento do Estado. (ST01)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 149

Pablo Emanuel Romero Almada (Doutor/UEL)


Resistência e Repressão: Movimento Estudantil e Ações Coletivas no Contexto Ditatorial
de Brasil e Portugal
Os movimentos estudantis foram atores protagonistas na contestação de regimes
autoritários nas décadas de 1960 e 1970 de vários países, com ações que resultaram em
confrontos com os governos. Destaca-se que tais mobilizações incorreram por conta de
diferentes concepções, das organizações estudantis e das autoridades governamentais em
torno das reformas universitárias, contrastando distintas concepções de transformação
ou de manutenção das estruturas sociais vigentes. O artigo procura compreender estas
diferenças, apresentando, no sentido de uma sociologia histórica comparada, os
desenvolvimentos das ações coletivas ocorridas durante a Ditadura Militar do Brasil
(1964-1985) e ao final do Estado Novo de Portugal (1962-1974), para compreender as
características dos principais momentos, em contextos bastante diferentes, em que a
violência e a repressão policial foram utilizadas como método de mediação política.
Ressalta-se que, nas duas ditaduras, a resistência estudantil se articulou perante questões
referentes às reformas universitárias, gerando, a partir desse elemento aglutinador, maior
amplitude à oposição política, o que permite contextualizar a contribuição desses
conflitos para as transições democráticas em nível macro-sociológico. (ST42)

Pamela Cristina Da Penha (Mestranda)


Revista Grande Hotel: diálogos com o feminismo (1970 – 1982)
O objeto de estudo desta pesquisa é as mudanças pelas quais passou a revista Grande
Hotel, a partir da efervescência das pautas do movimento feminista no Brasil nos anos
1970. O ponto central desta pesquisa está na análise e discussão acerca de como revistas
femininas, constantemente criticadas pelos movimentos feministas constituíram de
suma importância na quebra dos paradigmas ao se apropriarem das pautas feministas,
trazendo-as a tona, para fora de debates acadêmicos e políticos. Transformando em
mercadorias as ideias revolucionárias do feminismo, estas revistas permitiram que
mulheres fora da academia e alheias a debates políticos tivessem contato com discussões
acerca da sexualidade feminina, da igualdade entre homens e mulheres, dos direitos das
mulheres. Embora de forma sutil pois ainda estavam permeadas pelo conservadorismo e
ligadas à lógica do mercado, muitas revistas femininas adaptaram sua forma de escrever
e produzir ao seu público leitor, acompanhando as transformações que estavam
ocorrendo provocadas pelos movimentos sociais, como expresso no pensamento de
Williams, a imprensa estava inserida na experiência ativa desse processo dinâmico de
transformação social. Como ressaltado por Cruz e Peixoto, a imprensa como fonte não
pode ter descaracterizada suas especificidades e sim buscar compreende-las,
principalmente sua relação conteúdo/sociedade. A imprensa voltada ao público feminino
além de retratar o período na qual foi produzida ainda permite analisar qual o papel
designado à mulherdiante da sociedade na qual estava inserida. Ainda como referência,
estas autoras pontuam que é necessário ao trabalhar com a imprensa como fonte
compreender suas particularidades, suas relações imprensa/sociedade, pois, a imprensa
assume projetos e também busca atender as necessidades mercadológicas. Não há
expectativas ou pretensões em elencar a revista Grande Hotel como porta voz do
movimento feminista no Brasil, mas sim demonstrar como este conteúdo esteve presente
em suas páginas, diluído em entrevistas com astros da televisão brasileira, nas cartas dos
leitores ou ainda representados nas personagens das histórias das fotonovelas. Para
embasar o alcance de público da revista, esta pesquisa compõe-se da análise de seu
editorial, a partir da quantidade de exemplares circulantes e principalmente toma-se
como referência duas pesquisas que trabalham diretamente com a receptividade do
público, a obra de Éclea Bosi e a tese de doutorado de Isabel Sampaio as quais a partir de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 150

relatos de leitoras e leitores de revistas de fotonovelas, elucidam como entre outras, a


Grande Hotel era recebida pelo seu público. (ST25)

Pâmela Torres Michelette (Doutoranda)


IV Concílio de Toledo (633) e a construção de um conceito de monarquia visigoda
Nesta apresentação analisaremos IV Concílio de Toledo (633) que ocorreu no reino
visigodo no reinado de Sisenando (631-636) e que foi organizado pelo bispo Isidoro de
Sevilha. Com o propósito de percebermos: a participação da Monarquia nesta assembleia
conciliar; a importância que ela teve tanto para a elaboração de um conceito de
Monarquia católica como suas estruturas e, também, o fortalecimento que deu para a
mesma, para a Igreja e seus prelados e, por fim, a efetiva participação de Isidoro de
Sevilha e suas contribuições para com o poder régio. (ST38)

Paola Lili Lucena (Mestre)


Representações de Gênero e Família nas páginas do jornal Lar Católico
Os órgãos de imprensa participam dos processos de construção e reprodução de
discursos sobre as relações de gênero. Assim, contribuem para a consolidação de
representações acerca do papel feminino no âmbito da família e da sociedade. A Igreja
católica, ciente desse poder exercido pela imprensa, durante todo o século XX, buscou
criar jornais e rádios e canais de televisão de modo a dinamizar o exercício da
evangelização e promover a disseminação de suas ideologias no tocante à família e ao
comportamento feminino. Dentro dessa lógica se encontra o periódico mineiro Lar
Católico. Criado em 1919 pela Congregação do Verbo Divino, esse periódico circulou até
1986, em Juiz de Fora. Ao longo desse período, as transformações nas relações familiares
e no comportamento sexual, produziram impacto no discurso do jornal sobre a família e
as mulheres. Nota-se que a estratégia do jornal ora esteve vinculada à defesa da
manutenção de uma percepção tradicional das relações familiares e de gênero, ora à
problematização do papel da mulher na sociedade e no contexto familiar. Para evidenciar
essas estratégias do jornal, foi estabelecido um recorte temporal que privilegia os últimos
anos de sua circulação. Portanto, esse artigo enfocará as estratégias discursivas adotadas
pelo Lar Católico, no que concerne à normatização das relações familiares e de gênero,
entre 1956 e 1986. (ST34)

Patrícia Antunes Serieiro Silva (Doutoranda)


A polêmica anti-herética em Moneta de Cremona: estratégias heresiológicas de refutação
na Summa Adversus Catharos et Valdenses
Os dominicanos foram os principais atores da polêmica anti-herética medieval. O
comprometimento com as funções inquisitoriais, em 1233, a pedido do papa Gregório IX
(1144-1241), exigiu dos membros da Ordem dos Pregadores a necessidade de suportes
textuais de identificação e refutação das crenças heréticas, de aprofundamento de pontos
teológicos controversos, bem como de subsídios que justificassem e autorizassem as
ações nem sempre bem vistas dos inquisidores. Dentre os escritos da polêmica anti-
herética dominicana destaca-se a Summa Adversus Catharos et Valdenses, composta
entre os anos de 1235-1244, pelo frade pregador e, supostamente, inquisidor, Moneta de
Cremona. Trata-se, na verdade, de um tratado heresiológico, um tipo de gênero literário,
inaugurado por Justino (100-165), cuja finalidade é mostrar a falsidade e a perversão das
crenças heréticas, por meio da exposição e da objeção de suas crenças e práticas. Como a
maior parte dos documentos anti-heréticos do século XIII, a Summa de Moneta visa
combater os dois principais grupos heréticos daquele tempo: os Cátaros e, numa escala
bem menor, os Valdenses. Esta comunicação, parte da pesquisa de doutorado em
andamento, tem como objetivo analisar algumas estratégias heresiológicas de refutação

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 151

recorridas pelo frade no Livro V do tratado. Percebeu-se grande influência dos modelos
refutatórios da heresiologia antiga na Summa do dominicano. (ST38)

Patricia Cerqueira Dos Santos (Mestre)


História e Cultura Indígena na escola regular: por que e para quem ensinamos?
Em 10 de Março de 2008 foi sancionada a Lei 11.645, que tornou obrigatório o estudo da
história e cultura afro-brasileira e indígena na educação básica. A tomada de
conhecimento sobre a redefinição da Base Curricular Comum para a disciplina escolar de
história, o debate a favor e contra a inclusão de estudos sobre esses grupos sociais, as
possibilidades de releituras da atuação e protagonismo de sujeitos históricos oriundos
desses etnias e a elaboração de uma nova orientação ou proposta curricular para a rede
de ensino da cidade de São Paulo, parece clamar pela participação da/o professora/o na
discussão sobre currículo e diversidade. A apresentação de um projeto didático que teve
como público alvo estudantes do 6o ano do ensino fundamental, ciclo interdisciplinar,
de uma escola municipal no extremo sul da zona sul da cidade de São Paulo sobre a
história e a cultura dos Guarani Mbya – Aldeia Krukutu - na Cidade de São Paulo,
pretende contribuir no processo de questionar e responder sobre como tem sido o
desenvolvimento efetivo de atividades cotidianas em sala de aula com esta temática na
disciplina escolar de história, bem como, sobre o lugar que o ensino da história e cultura
indígena na escola regular ocupa, “por que e para quem” deve servir. O trabalho da
professora na mobilização dos recursos necessários, a experiência vivida e compartilhada
pelos estudantes na preparação para a ida à aldeia, no encontro com os Guaranis, a
participação das famílias dos estudantes e de outros profissionais na escola para
realização do projeto constituem-se como elementos importantíssimos na análise das
demandas sobre currículo, formação e prática docente e cultura escolar (ST05)

Patrícia Lessa (Pós-doutora/UEM)


Práticas de resistência e poéticas lesbianas nas obras de Karin Schwarz e Alma López
Essa proposta visa estudar as poéticas visuais de artistas latino-americanas abordando as
relações estabelecidas entre a produção artística contemporânea e a teoria feminista
libertária. O objetivo central é analisar algumas obras caracterizadas como arte visual e
arte gráfica para pensar as relações entre política, religião, ativismo e arte. O feminismo
libertário ajuda a pensar as figurações plurais do humano e os modos de subjetivação que
resistem as normatizações através do ativismo social e das experimentações artísticas.
Serão foco de nossas analises as artistas: Alma lópes e Karin Schwarz. (ST45)

Paula Carolina De Andrade Carvalho (Mestranda)


“Going Native”: Islã e alteridade em Personal Narrative of a Pilgrimage to Al-Madinah &
Meccah, de Richard Francis Burton
A proposta inicial desta pesquisa propõe examinar as representações de muçulmanos que
aparecem no livro "Personal Narrative of a Pilgrimage to Al-Madinah & Meccah", de
Richard Francis Burton (1855-57), principalmente a partir da dicotomia entre o que é
considerado “civilizado” – ideia aqui associada ao imperialismo inglês – e “bárbaro” – que
neste estudo assume a forma do Islã. Nesse relato de viagem, Burton escreve como
realizou a peregrinação, o "hajj", às cidades sagradas do Islã de Meca e Medina sob o
disfarce do personagem muçulmano Shaykh Abdullah, uma vez que a visita às cidades
sagradas do Islã é proibida a não seguidores da religião islâmica. Assim, o explorador
procurou viver como um muçulmano por seis meses, passando por cidades do Egito e da
Península Arábica para chegar a Meca e Medina. Na narrativa, o Islã e outros aspectos
culturais tidos como “orientais” servem para Burton refletir sobre o suposto
universalismo da civilização britânica; ao mesmo tempo, contudo, ele procura reafirmar
o protagonismo da Inglaterra na empresa colonialista. Este projeto trata, portanto, sobre

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 152

a representação do “outro” islâmico no século XIX, além de refletir sobre a própria


representação que Burton faz de si mesmo como o outro no papel de Shaykh Abdullah.
Além de existirem poucos estudos no Brasil sobre a obra de Burton, consideramos que
esta pesquisa traz uma contribuição importante para os estudos de história
contemporânea, ainda mais em um momento em que persiste o estranhamento entre os
chamados Oriente e Ocidente, principalmente quando esse Oriente é representando
pelo mundo islâmico, retratado como “bárbaro” diante dos “civilizados” ocidentais. A
forma como Burton lidou com o contato com o “outro” também pode auxiliar a pensar
sobre a relação da sociedade ocidental com grupos considerados “diferentes”, e até que
ponto chegam essas diferenças. (ST47)

Paula Da Silva Ramos (Doutoranda)


Nueva Revista de Buenos Aires: integração regional e transnacional (1881-1885)
Ao definir sua linha de atuação no cenário político e cultural argentino nos anos 1880, a
Nueva Revista de Buenos Aires se posicionou frente a temas prementes. Trataremos
nesta comunicação da integração do país em um sentido mais amplo e das relações com
as demais nações latino-americanas. O primeiro debate traz consigo a reflexão acerca dos
conflitos de interesses entre Buenos Aires e as províncias do interior, que permearam a
cena política argentina ao longo do século XIX e que continuavam reverberando na
argumentação do periódico sobre as políticas culturais do país. O segundo discute a
atuação bem sucedida do mensário no tocante aos intercâmbios culturais no continente,
sobretudo com o Brasil, que teve como principal elo o romancista Franklin Távora.
(ST32)

Paulo Eduardo Teixeira (Doutor/UNESP)


Adultério e machismo no discurso popular do século XIX.
Utilizando dois Autos de Querela envolvendo casos de adultério registrados em
Campinas, no ano de 1830, queremos destacar as redes de amizade e solidariedade que se
apresentaram nos referidos processos entre os autores e os réus. As relações de poder
entre homens e mulheres foram expostas de maneira clara durante os processos,
principalmente porque o adultério “era considerado como falta grave para ambos os
sexos”, conforme atestou Samara em seu estudo sobre As mulheres, o poder e a família.
Enfim, os depoimentos das testemunhas serviram para entender as representações do
poder estabelecidos no dia-a-dia da população, e que “nem sempre estão inseridas em
sistemas ideológicos e de moral que servem de controle da ordem social estabelecida.”
(ST25)

Paulo Gustavo Da Encarnação (Doutor)


Cabeludos e guedelhudos: o rock e o roqueiro na imprensa brasileira e portuguesa
Esta comunicação é resultado de reflexões realizadas durante nossa pesquisa de
doutorado intitulada “Rock cá, rock lá: a produção roqueira no Brasil e em Portugal na
imprensa – 1970/1985”. Objetivamos apresentar, pontualmente, a partir de um caso
noticiado na imprensa que envolveu os Beatles e os governos do general-presidente
Castelo Branco e do ditador António Salazar, em meados dos anos 1960, algumas
considerações acerca da imagem e do estereótipo do roqueiro, sobretudo, a respeito da
figura do guedelhudo e do roqueiro na imprensa brasileira e portuguesa. A imagem do
roqueiro durante os anos 1960 e 1970 foi muito marcada, moldada e, mesmo,
estereotipada a partir das referências dos Beatles, das bandas do hard rock, do rock
psicodélico ou do rock progressivo, além de associações com comportamentos da
contracultura/movimento hippie. A partir do final da década de 1970 e durante os anos
80, outros atributos foram somados à imagem e ao estereótipo em decorrência da
popularização, em diversas partes do mundo, do heavy metal e do punk rock, inclusive

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 153

muitos deles se mantendo até os dias atuais no senso comum sobre o rock e o roqueiro.
Assim, esta comunicação objetiva refletir histórica e pontualmente a associação e
incorporação da imagem do roqueiro e do guedelhudo como uma construção que
envolveu visões e apreciações de roqueiros, agentes culturais e midiáticos, sobretudo,
noticiadas na imprensa. (ST26)

Paulo Henrique Martinez (Livre-docente/UNESP)


História ambiental do petróleo: diretrizes para uma exposição museológica
A comunicação apresenta as diretrizes estabelecidas para a montagem de uma exposição
museológica sobre a história ambiental do petróleo no Brasil. São examinados os
procedimentos da pesquisa e da seleção de objetos, imagens e registros sonoros
integrantes de três módulos temáticos: geodiversidade e geopolítica do petróleo;
indústria petrolífera e meio ambiente no Brasil; biodiversidade marinha e unidades de
conservação na zona costeira de São Paulo. Os elementos que compõem os referidos
módulos foram definidos em vista das possibilidades de ação educativa junto a escolas do
Ensino Fundamental e Médio e do curso de Graduação em História. (ST37)

Paulo Rodrigues De Andrade (Pós-graduando)


“Possão tranquillas ocupar-se nos seus serviços”: os trabalhadores brasileiros, a ferrovia e a
guerra
O texto aborda a fuga de trabalhadores brasileiros do recrutamento para o Exército e da
designação para a Guarda Nacional durante a Guerra do Paraguai, para as obras de
construção da São Paulo Railway (SPR), que ocorreu durante os anos de 1860-1867. Por
outro lado, trata também da "caçada humana" no leito ferroviária, ou seja, a captura de
operários nacionais empregados nos canteiros de obras e na operação da ferrovia,
promovida pelos agentes da rede do recrutamento da província de São Paulo. A despeito
de esses trabalhadores possuírem isenção para o Exército e a Guarda Nacional, conforme
previsto nos artigos oitavo e nono do decreto 1.759 de 26 de abril de 1856, que autorizou a
construção da primeira estrada de ferro em terras paulistas, muitos deles acabaram
caindo nas garras dos temíveis agentes do recrutamento e muitos outros foram
designados para o serviço ativo na Guarda Nacional. O que poderia significar, no período
do maior conflito Sul-americano, uma chance real de serem mandados para o teatro da
guerra. A historiografia que se debruça sobre a Guerra do Paraguai e o recrutamento
militar nesse momento de convulsão observou como a lei e as garantias terminaram
sendo atropeladas e inúmeras ilegalidades promovidas, sem que o Estado, na necessidade
de braços para o conflito bélico, fosse capaz de barrar esse processo. Assim, como vários
homens que praticavam determinados ofícios, os casados, os menores de 18 anos,
arrimos de família entre outros casos, que possuíam isenção legal do imposto de sangue,
mas que não por isso, deixaram de ser recrutados, trabalhadores brasileiros engajados na
via férrea inglesa também se viram vitimados pelas "ordens apertadas" e quiçá, muitos
não acabaram se transformando em "bucha de canhão". (ST40)

Paulo Sergio Micali Junior (Mestrando)


Escrever também é um esporte de contato: acerca da imprensa londrinense e o pugilismo
Neste artigo, propomo-nos a discutir a utilização de fontes periódicas na historia. Para
ser mais específico, empregamos uma temática local/regional ao problematizarmos a
cobertura jornalística esportiva referente ao boxe realizada pelo Folha de Londrina, um
jornal pertencente ao Grupo Folha de Comunicação. Fundado em Londrina ainda na
década de 1940, este jornal atende não só ao município que o denomina, mas, também, já
há décadas, a centenas de outras cidades paranaenses, principalmente aquelas
localizadas no norte do estado. Para cumprirmos com nossa proposta, então, tomamos
como documentos de estudo algumas matérias daquele jornal que, microfilmadas,

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 154

concernem ao boxe, datam entre 1970 e 2000 e localizam-se no Centro de Documentação


e Pesquisa Histórica (CDPH) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Quanto ao
nosso recorte temporal, é importante ressaltar que este se circunscreve a um período no
qual o Brasil contava com boxeadores campeões mundiais, fator que talvez explique a
existência de uma maior cobertura jornalística referente ao pugilismo durante esse
período. Ademais, a fim de analisarmos nossos documentos, tomamos como referencial
teórico-metodológico as propostas de Tânia Regina de Luca contidas em seu Fontes
impressas: história dos, nos e por meio dos periódicos (2005). Por fim, buscamos
contribuir tanto para com a “história por meio dos periódicos” quanto para com a
historia do esporte, campos estes que, dentro de nossa proposta, confundiram-se de uma
forma conveniente, complementar e agradável. (ST34)

Pedro Aurélio Dos Santos Luiz (Mestrando)


Ideias de adolescentes sobre as mudanças no futebol.
O seguinte estudo procura analisar as ideias dos alunos da instituição da Casa do Bom
Menino de Arapongas/PR sobre as transformações ocorridas no futebol de meados do
século XX, mais especificamente dos anos de 1940 e 1950, até 2013. A realização do
mesmo, amparou-se na concepção de Hilário Franco Jr. a respeito do futebol, que o
designa como um fenômeno cultural total, devido a capacidade desta temática em se
relacionar com diversos outros campos do saber. Foram aplicados questionários para
analisar os conhecimentos prévios dos alunos, houve a implementação de uma atividade,
sendo posteriormente aplicado outro instrumento de pesquisa na forma de questionário
para ver a mudança ou não de concepções dos estudantes. Ainda, utilizou-se de jornais
de diferentes épocas como fontes para a periodização dos contextos históricos. Estudos
em torno da aprendizagem significativa foram utilizados para a elaboração das 3 aulas
que compuseram a atividade. Concluiu-se que o conhecimento dos adolescentes em
torno da prática futebolística já era válido. Os alunos conheciam muitas características
do esporte e, em sua maioria, concebiam que motivações que o caracterizam se
alteraram no decorrer do tempo. Sendo primeiramente produzidas pela aceitação à
prática e posteriormente à fama e as quantias monetárias envolvidas neste fenômeno
cultural, fazendo com que o futebol fosse reconhecido como símbolo de identidade
nacional. Posteriormente a aplicação do estudo percebeu-se que o tema favorece o
estudo e reflexão da experiência humana no tempo, pois facilita a percepção de
mudanças e permanências. (ST23)

Pedro Panhoca Da Silva (Pós-graduado)


O livro-jogo no ensino de História
O presente trabalho se dispõe a analisar uma possibilidade de atividade lúdica voltada a
crianças e jovens por intermédio de uma leitura não-linear promovida pelos livros-jogos
em língua portuguesa, versões simplificadas dos jogos de RPG, tão adorados pelo
público-alvo o qual os conhece, unidas à história e/ou (boas) adaptações da mesma,
apresentadas em livros e endereços eletrônicos, para que se facilite a assimilação de
conteúdos e interesses em temas diversos. Pretende-se mostrar também ao iniciante -
jovem - leitor o quão prazeroso pode ser o seu aprendizado e suas consequências
positivas para a sua formação como ser pensante. Tornado o ambiente do Ensino-
Aprendizagem em algo descontraído, agradável e prazeroso promove-se o despertar a
curiosidade, a pesquisa e a produção original no leitor, o qual, simultaneamente, pensará
estar se divertindo enquanto estará, além disso, aprendendo de forma original, nova e
muito mais atrativa tudo o que seria dificultoso ou desinteressante. Trata-se de uma
proposta para repensarmos se os antigos métodos de ensino de História ainda podem ser
válidos e eficazes devido à situação socioeconômica e cultural das diferentes partes da
sociedade atual. Conhecendo a contribuição de seus livros e jogos infanto-juvenis,

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 155

conhecemos sua real proposta, que muitas vezes é maldosamente prejulgada por quem a
prejulga. Baseado em propostas e pesquisas de outros estudiosos do tema e pesquisas
próprias, veremos o que os leitores ganham com tal experiência e seus futuros benefícios,
além de manter a prática da leitura como tradição fundamental para o desenvolvimento
do espírito crítico, cognitivo e produtivo. (ST29)

Pedro Ragusa (Doutorando)


Arqueologia e Estruturalismo: Encontros e Desencontros
A proposta para realização desse texto versa sobre um tema muito caro para a
metodologia e para a teoria da disciplina da História: A possível relação entre a pesquisa
arqueológica e a filosofia estruturalista. Mas qual o ponto de encontro que torne possível
essa relação? Na trajetória metodológica da arqueologia durante os anos de 1960
podemos encontrar uma forma bem específica de aproximação dos trabalhos de Foucault
com o método estruturalista, que foi seguida posteriormente por um declarado
afastamento. Essa trajetória do método arqueológico foi acompanhada por uma variação
de componentes metodológicos, sendo que esses componentes lhe serviam como um
eixo metodológico podendo ser destacado a fenomenologia a hermenêutica e o próprio
estruturalismo. Para tanto, ao dissertar sobre o tema proposto teremos como objetivo
evidenciar uma possível aproximação na relação entre duas formas de metodologia no
campo da História e das ciências humanas, sendo uma delas um projeto individual, e a
outra, uma corrente metodológica muito genérica na filosofia e demais ciências
humanas. Teríamos assim o estruturalismo temporal de Foucault contra o estruturalismo
atemporal. Não queremos com isso fazer de Foucault um filósofo estruturalista afastado
do tempo, da mudança e do histórico, mas ao contrário. A arqueologia sem se desligar da
história procura nesse momento de filiação ao estruturalismo descobrir as “regras
estruturais” que apenas tornam possível o aparecimento e as transformações e rupturas
do discurso em sua dimensão temporal. (ST18)

Pedro Vagner Silva Oliveira (Mestrando)


Entre as pedras e o mar: natureza e periodismo no litoral do Piauí (1973-1985)
Esta comunicação tem por objetivo analisar as concepções que a imprensa da cidade de
Parnaíba-PI tinha entre 1973 e 1985 sobre paisagem da praia de Pedra do Sal. O texto aqui
apresentado é parte de uma pesquisa desenvolvida no âmbito do mestrado em História
da Unifesp, sobre as experiências e o cotidiano de pescadores marítimos da região de
Pedra do Sal, no litoral do Piauí. Os periódicos que circulavam entre o período de 1973 a
1985, pouco mencionavam os pescadores que lá moravam e trabalhavam. Contudo, a
natureza protagonizava várias matérias, editoriais e manchetes dos periódicos
parnaibanos. Ponto em comum nos jornais que circulavam em Parnaíba nos idos de 1973
a 1985, as belezas de Pedra do Sal eram destacadas de forma recorrente na imprensa. Os
discursos sobre a natureza foram veiculados nos jornais da cidade no início da década de
1970 e ecoados até a primeira metade da seguinte. Tendo em vista que o jornal é um
espaço de debate, escolhas e mesmo militância política, faz-se necessário refletir sobre os
usos e concepções que a imprensa fazia acerca da natureza, mais precisamente a praiana,
bem como a seleção desse tema nas páginas dos jornais. Discutiremos não apenas a
valorização da praia na imprensa de Parnaíba dos anos 1973 a 1985, mas também os
silêncios desta fonte sobre o cotidiano do pescador. Com o intuito de analisar as
concepções sobre a praia nos periódicos, fazem parte do nosso corpus documental,
exemplares dos jornais que circulavam em Parnaíba e que se encontram acessíveis e
preservados, sendo eles: Folha do Litoral, Norte do Piauí, Inovação de Parnaíba e A
Libertação. Para entender o homem e suas relações históricas com a natureza
lançaremos mão dos estudos de Corbin (1989), Drummond (1991), Pádua (2010) e Woster
(1991). (ST37)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 156

Philippe Arthur Dos Reis (Mestrando)


Novos olhares sobre a urbanização e expansão da cidade de São Paulo: o bairro do Brás
entre a passagem do século XIX para o XX
A historiografia sobre as cidades vem caminhando a passos largos, dado este que pode
ser empiricamente verificável pela diversificação das suas fontes, e aos novos olhares que
podem ser lançados àqueles comumente utilizados por pesquisadores.
Mediante a atuação do poder público, bem como de agentes privados, a porção leste da
cidade de São Paulo, conhecida e oficializada como Brás sofreu intensas transformações
entre as três últimas décadas do século XIX e os primeiros anos do século XX. Chácaras
foram loteadas, ruas abertas e casas construídas, definindo-se uma “paisagem” que se
firmou na memória coletiva e mesmo na historiografia como a “típica paisagem de um
bairro operário, imigrante e fabril” com indústrias e linhas férreas, visão esta construída a
partir da segunda metade do século XX e ainda hoje consagrada, embora a nosso ver
careça de problematização. Acreditamos ser fundamental historicizar o seu processo de
urbanização e por luz à pluralidade de atores sociais envolvidos e nas múltiplas
atividades ali existentes por meio do estudo de novas fontes documentais e da releitura
da historiografia consagrada sobre a urbanização paulistana. As permissões de
construção que integram o acervo do Arquivo Histórico de São Paulo, permite introduzir
novos atores no cenário referente ao processo de formação do bairro, sem excluir os
personagens eleitos pela historiografia consagrada. Ausentes da historiografia que
privilegiou as oligarquias e o operariado, os “setores médios” vem ganhando luz em
estudos recentes como os de Maria Luiza Ferreira de Oliveira (2005), Luciana Além
Gennari(2005) e Sheila Schneck (2010), autoras que vem demonstrando seu papel em
nada coadjuvante na produção e apropriação da cidade.
Juntamente com este dado, a bibliografia sobre a história cidade de São Paulo caminhou
a passos largos no tocante às formas de compreensão do seu passado econômico, social,
cultural, político, e notadamente de sua produção arquitetônica, enfocando diferentes
fontes documentais e relendo outras de outro ponto de vista. Obras seminais sobre a
História de São Paulo e o desenvolvimento da cidade foram produzidas na primeira
metade do século XX e tiveram ampla repercussão, formando um discurso
continuamente reiterado sem críticas. Estudos recentes vem desvelando essa trama
narrativa e, entre eles, destaca-se o de Rodrigo Silva que analisa o processo de construção
de um certo discurso hegemônico sobre a História da cidade de São Paulo, um projeto
que remonta ao último quartel do século XVIII, que fora trabalhado por intelectuais do
começo do século XX, e que auxiliou na formação de uma história da urbanização e
expansão da cidade sem um aprofundamento detido, como o clássico "História e
tradições da cidade de São Paulo" de Ernani Silva Bruno. (ST18)

Prisciéle Maicá Silveira (Mestranda)


Narrativas de alunos do 1º e 4º ano do curso de Licenciatura em História da Universidade
Estadual de Londrina: um olhar sobre o curso (2014)
O objetivo deste trabalho é investigar o que os alunos do 1º e 4º ano do curso de
Licenciatura em História da Universidade Estadual de Londrina – UEL, pensam sobre o
mesmo. Em especial, a expectativa dos alunos do 1º ano com relação ao curso, e possíveis
questionamentos feitos pelo 4º ano ao curso, bem como a concepção de história das duas
séries, ingressantes em 2011 e 2014. Este desenvolvimento realizou-se basicamente em
três etapas: a aplicação de questionários, a análise e por fim a categorização das
respostas. Os questionários são diferenciados considerando que os alunos do primeiro
ano do curso se inserem em um contexto diferente daqueles que já estão no último ano,
por exemplo, no que diz respeito à experiência de estágio obrigatório e/ou de pesquisa e
extensão. Assim, procuramos, através da análise e categorização das respostas dos

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 157

alunos, narrativas que apontem como eles pensam questões como: sua escolha pelo
curso de História, sua visão sobre o curso antes de entrar na universidade e após o seu
ingresso, o que é História, se gostariam de dar aulas de História, para qual “nível” de
ensino e porque, e o que achou mais difícil no curso até o momento. A presente pesquisa
foi apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para o curso de
Licenciatura em História da Universidade Estadual de Londrina (UEL) no ano de 2014,
sob orientação da Prof.ª e Dr.ª Maria de Fática da Cunha. Submetemos ao XXIII Encontro
da ANPUH - SP, que ocorrerá na UNESP da cidade de Assis, a fim de contribuirmos para
as discussões no campo da História no que diz respeito ao ensino de História. (ST05)

Priscila Da Silva Nascimento (Doutoranda)


O movimento de mulheres indígenas frente as políticas indigenistas do Estado mexicano
no contexto neoliberal da década de 1990.
Desde o início do movimento indígena mexicano, década de 1970, podemos localizar as
primeiras expressões de uma organização que começava a exigir novas formas de
participação política, principalmente as estabelecidas com o Estado, denunciando as
medidas integracionista por parte do Estado mexicano. Com isto, a década seguinte é
marcada pelo o que o antropólogo mexicano Díaz-Polanco chamou de uma
“nacionalização das lutas indígenas”, na qual os indígenas rompem um isolamento
histórico e saem de uma conformação comunitária para manifestarem-se publicamente
nas ruas. Nos anos 80 também podemos observar um significativo crescimento de
implantação de políticas públicas, bem como, de ações de agencias não-governamentais
nacionais e internacionais neste país. Se por um lado é notável a conquista de alguns
direitos no plano formal, bem como uma maior visibilidade do movimento indígena
mexicano mais amplo, por um outro é preciso problematizar o modo como estas ações
foram realizadas, muitas vezes, reproduzindo os erros das décadas anteriores, qual seja,
colocar em pratica projetos na perspectiva do para os indígenas e não com os indígenas.
Na década de 1990 as mulheres indígenas do campo e da cidade irão denunciar uma
outra consequência desta perspectiva impositiva, como o total desconhecimento destas
instituiçoes para com as particularidades étnicas e relações de gênero no interior dos
grupos. Indígenas de varias etnias como as tzotzil, tzetal, tojolabal entre outras,
começam a denunciar a necessidade de ações para a alfabetização das meninas, saúde
ginecológica, demanda por creches entre muitas outras reivindicações que revelaram que
o elemento étnico por si só não representava a integralidade dos direitos que eram
considerados importantes por elas. Assim, embora o percurso do movimento indígena
tenha sido importante para a visibilidade de uma causa indígena, nota-se que um espaço
reservado para o tratamento de demandas específicas das mulheres indígenas não
aparece desde o início da consolidação de um movimento deste grupo no México, nesse
sentido, discutimos nesta pesquisa as estrategias e os percursos adotados pelo
movimento de mulheres indígenas no México na década de 1990 para a afirmação de
seus direitos e em especial os avanços e limites enfrentados por elas para a inclusão de
seus alguns deles na Constituição em 2001. (ST25)

Priscila Piazentini Vieira (Doutora/UFPR)


As Sufragistas e as transformações da subjetividade pela militância política
Esta comunicação discute o filme As Sufragistas, lançado em 2015, a partir dos seguintes
temas: o jogo que as sufragistas praticam com os direitos, tendo como principal objetivo
aprovar o voto das mulheres na Inglaterra no início do século XX; as transformações
subjetivas pelas quais as mulheres passam ao entrarem para a militância sufragista,
prestando atenção nas suas relações com os maridos, os patrões e os filhos; e a
importância do corpo para a vida militante das personagens. O texto também levanta
outras discussões, que se inspiram, mas também ultrapassam o enredo do filme: Qual é o

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 158

espaço que o corpo possui dentro da militância política? Trata-se de seu sacrifício? Ou de
uma ética que deve ser explicitada não somente por palavras, mas por ações e pelo
emprego do corpo como a expressão da verdade? Essas indagações serão desdobradas a
partir das reflexões de Michel Foucault sobre o governo das condutas, a ética, o
militantismo, a coragem da verdade, o cinismo e o novo direito. (ST45)

Priscilla Prado De Faria (Mestranda)


Racionais Mc's: Técnica, comunicação e educação na São Paulo dos anos 90
Em 1992 o grupo Racionais Mc's lança o álbum Escolha Seu Caminho, no qual os
integrantes do grupo aparecem com armas e drogas na capa e folheando livros na contra
capa. Em reportagem da Folha de São Paulo de 5 de Novembro de 1992 sobre o álbum
KLJ, um dos membros do grupo, é perguntado: “Armas de um lado e livros de outro?” e
responde: “Sim para mostrar que os pretos só tem dois caminhos: o estudo ou a
malandragem, que leva a morte.”
A pesquisa de mestrado a ser apresentada, procura a partir da analise das músicas de
Rap, compostas pelo grupo Racionais Mc’s na década de 1990, compreender a relação
entre Rap e educação na cidade de São Paulo, bem como entender de que maneira o Rap
pode ser considerado uma tradição viva das culturas orais africanas que tem na
performance eixo fundamental de comunicação que atinge de forma certeira parte da
juventude das comunidades periféricas de São Paulo.
Reconhecendo essa potencialidade de comunicação a Secretária Municipal de Educação
de São Paulo elaborou o projeto pedagógico Rap...ensando a Educação que levou o Rap
para dentro de algumas escolas do município no mesmo ano de 1992.
Walter Beijamim em seu trabalho o Narrador traz um questionamento acerca da
dificuldade contemporânea de narrar um fato, uma história. Para ele está “cada vez mais
rara a possibilidade de encontrarmos alguém verdadeiramente capaz de historiar algum
evento”. (BENJAMIN, 1975. P.63)
A distância entre o narrador e realidade vivida dificulta a comunicação entre aquele e seu
ouvinte.
Nesse sentido, esta pesquisa tem como eixo central analisar criticamente como o tema
educação está problematizado nas poesias compostas por esses meninos, qual a visão
desses jovens sobre escola/educação e de que maneira o próprio poder público
reconheceu na performance desse grupo, uma tentativa de intervenção pedagógica.
Paul Zumthor relata a importância da Performance como fator determinante do alcance
da poesia oral. Segundo Zumthor as regras da performance (tempo, lugar, finalidade da
transmissão, a ação do locutor e a resposta do público) são importantes para
comunicação “tanto ou ainda mais do que as regras textuais postas na obra na sequência
das frases: destas, elas engendram o contexto real e determinam finalmente o alcance”.
(Zumthor, 2007. P. 31)
Por fim, como a própria titulação do estilo musical que quer dizer Ritmo e Poesia,
buscamos analisar letra e música em conjunto para que possamos entender de que
maneira a sobreposição de ritmos, sons, batidas e músicas está relacionado com a
mensagem que o autor quer passar e a partir das fontes entender como esses garotos
transformaram seus próprios sentimentos e emoções em olhar político. (ST26)

Rafael Freitas Ocanha (Mestre)


Travestis paulistanas na mira da Polícia Civil: a prática da Contravenção Penal de
Vadiagem (1976-1977)
Em 1976, a Polícia Civil de São Paulo designou o delegado Guido Fonseca para iniciar um
estudo de criminologia com travestis , que visava enquadrá-las no art. 59 da Lei das
Contravenções Penais, a chamada vadiagem. Ao todo, 460 transgêneros da região central
de São Paulo foram sindicadas para o estudo. Encaminhadas à delegacia, deveriam

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 159

comprovar vínculo empregatício, e eram fichadas em documento chamado de Termo de


Declarações, no qual constavam desde dados pessoais até os valores pagos pelas roupas e
perucas. Uma grande parte das sindicadas trabalhava registrada durante o dia e se
prostituía à noite, criando um empecilho para a formulação de inquérito por vadiagem.
O estudo foi publicado com o título A Prostituição Masculina em São Paulo, na revista
Arquivos, no final de 1977, e recomendava que todas as travestis da cidade fossem
sindicadas com fotografias, para que os juízes pudessem avaliar sua periculosidade. Esta
pesquisa tem como objetivo analisar a perseguição e a violência contra os considerados
vadios pela ditadura civil-militar, explicitando as relações de poder da Polícia Civil
perante a classe trabalhadora, por meio da Lei de Contravenções Penais. Ao traçar a
história social do crime e da criminalidade, o artigo realça práticas de esquadrinhamento
da sexualidade julgada criminalizável e associada à pobreza, em São Paulo. (ST25)

Rafael Paiva Alves (Mestrando)


A "Revolução" da Realidade Virtual e a "evolução" da TV Digital
A possibilidade de imersão em ambientes virtuais, através da escrita, do rádio, cinema,
televisão e games sempre instigou os seres humanos. Contudo, com o advento da
internet, e principalmente, através da denominada Realidade Virtual (RV) é possível
navegar no ambiente e descrever a aparência de objetos em múltiplos pontos de vista,
suas relações com os elementos que compõem o cenário, seus impactos, riqueza de
detalhes, orientação espacial, tornando o ambiente mais atrativo que as interfaces
tradicionais. A realidade virtual surge então como uma nova geração de interface, na
medida em que, usando representações tridimensionais mais próximas da realidade do
usuário, permite romper a barreira da tela, além de possibilitar interações mais naturais.
No ambiente virtual, os sentidos e as capacidades das pessoas podem ser ampliados em
intensidade, no tempo e no espaço. É possível ver, ouvir, sentir, acionar e viajar muito
além das capacidades humanas. Pode-se, assim, ser tão grande (a nível das galáxias) ou
tão pequeno (a nível das estruturas atômicas) quanto se queira, viajando a velocidades
muito superiores à velocidade da luz e aplicando forças descomunais. Ao mesmo tempo,
pode-se ampliar a medida do tempo, para que as pessoas possam observar ocorrências
que duram frações de segundos, implementando o conceito de câmera lenta, ou reduzir
a medida do tempo, acelerando-o, para observar ocorrências e fenômenos que poderiam
se estender por séculos.
Ao pensar qual influência exercerá no meio televisivo, pode-se dizer que, a TV Digital
ainda é uma construção e a médio prazo, espera-se uma verdadeira transformação do
atual conceito conhecido de TV a partir da convergência intensa com a Internet
avançada (fixa e móvel) e o desenvolvimento de meios eletrônicos interativos
minimamente invasivos (dispositivos portáteis, interfaces naturais, microsensores e
atuadores). Fato que poderá permitir inovações na capacidade bidirecional de
intercâmbio de dados multimídia; o relacionamento mais sensitivo, personalizado e
intuitivo entre o usuário e a TV/Internet; a individualidade no acesso à informação; e a
integração de vários serviços à TV/Internet como a automação doméstica, segurança,
telejogos, teleducação, telemedicina, telecomércio, dentre outros.
Enfim, esta comunicação buscará pontuar elementos tanto da Realidade Virtual como da
Televisão Digital, a fim de pensar, a convergência digital das mídias. (ST34)

Rafaela Basso (Doutoranda)


A alimentação e espaço público: O comércio de alimentos e bebidas na cidade de São Paulo
(1765-1828)
A proposta da presente pesquisa é estudar o desenvolvimento da alimentação de rua na
cidade de São Paulo entre os anos de 1765 a 1828, acompanhando a dinâmica envolvida
desde a produção, circulação até o consumo dos gêneros alimentícios nas ruas e nos

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 160

espaços públicos da capital paulista. O objetivo é investigar não só os alimentos


produzidos e consumidos no locus própria rua, ou seja, nos tabuleiros e no comércio
ambulante, mas também as variadas formas de comer fora de casa, nos espaços que
surgiram em função do incipiente processo de urbanização, tais como tavernas, vendas,
botequins, entre outros.
Deve-se ressaltar que no período em questão, São Paulo vivia um período de
transformações, motivadas pelos negócios desenvolvidos em torno da produção e
comercialização de gêneros agrícolas e/ou da pecuária. Essa dinamização
socioeconômica foi responsável por um crescimento demográfico contínuo. O constante
vai e vem de pessoas nas ruas da capital da província, em finais do século XVIII traz
consigo a necessidade do desenvolvimento de uma estrutura para atender às
necessidades desse contingente populacional. Neste contexto, o pequeno comércio de
alimentos se desenvolveu na cidade, trazendo possibilidade de sobrevivência para um
grupo composto por negras de tabuleiros, donos de vendas, quitandeiras, que se
aproveitavam do intenso fluxo diário de pessoas nas ruas para angariar sua subsistência.
Através de um estudo focado nos diferentes ramos do comércio de alimentos,
pretendemos tecer algumas considerações sobre a circulação de alimentos e pessoas na
trama urbana de São Paulo colonial, tendo em vista levantarmos algumas questões
teórico-metodológicas que possam contribuir para o estudos das práticas alimentares
como instrumento de interações sociais, culturais e políticas ocorridas na urbe paulistana
entre os séculos XVIII e XIX. (ST22)

Rafaela Carvalho Pinheiro (Mestranda)


Entre a ficção e a realidade: notas sobre a questão do trabalho em “Memórias póstumas de
Brás Cubas”
O século XIX foi um período de grandes transformações para o Brasil. Entre sediar a
capital do império português, proclamar-se livre e consolidar-se como nação, o debate
sobre a abolição da escravatura esteve presente e atuante, contribuindo efetivamente
para a construção da História nacional. Com efeito, a elite agrária se sustentava através
da mão de obra escrava e, em consequência disso, toda a estrutura social gravitava em
torno dessa estrutura produtiva, essencialmente servil. Nesse sentido, é passível de
observação o fato de uma obra literária realista, escrita à época, apresentar-se como
instrumento de análise da realidade social.
Publicada em 1881, a obra magna de Joaquim Maria Machado de Assis, Memórias
póstumas de Brás Cubas, uma vez que se configura sob os moldes realistas, se apresenta
como explicação da realidade brasileira. Nessa sociedade, o autor apresenta a condição
de classe do escravo, descrito na figura de Prudêncio, como mera mercadoria de
composição dos modos produtivos. Comparados a máquinas, animais e objetos – ou seja,
propriedade privada –, tal relação de dominação é sintomática, porque se por um lado os
escravos são tratados como sub-humanos, como coisas, por outro são eles quem produz
toda a riqueza de seus senhores e, no limite, fazem a sociedade funcionar.
Não obstante, a própria condição da classe pobre, dita livre, encontra-se indiretamente
dependente da escravidão, já que a manutenção do escravismo do Brasil dificultou o
desenvolvimento do capitalismo. Por isso, a classe dos agregados e dependentes,
desprovidos dos meios de produção e sem poder vender sua força produtiva, também
fica a mercê da elite dominante, como é o caso de Dona Plácida.
Mostrando as incoerências da sociedade escravista, explicitadas nos contrastes entre a
situação de escravos e dependentes e a justificação e defesa de seus dominadores,
Machado de Assis, usando de uma ironia gritante, e uma complexa volubilidade da
personagem central, Brás Cubas faz ferrenhas críticas à realidade, ao mesmo tempo em
que convida os leitores a refletirem sobre tal situação. Com efeito, e não sem mérito,
Machado é considerado o mestre do realismo no Brasil. (ST36)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 161

Rafaela Cristina Martins (Doutoranda)


O espaço do trabalho doméstico e o papel da mulher através da revista Casa & Jardim
(1960)
A imagem da mulher em propagandas de revistas e jornais parece estar desde há muito
tempo vinculada aos produtos domésticos, como eletrodomésticos e produtos de
limpeza, especialmente nas propagandas. A partir dessa questão parece haver uma
mensagem quase explícita do papel da mulher para o consumo e utilização de produtos
vinculados ao trabalho doméstico, sendo este pouco ou nada valorizado.
Este trabalho propõe fazer indagações sobre determinadas propagandas, de apelo visual,
destinadas ao público feminino. A proposta aqui é analisar como esses anúncios definem
o papel da mulher em seu espaço privado através da análise de propagandas de
eletrodomésticos e artigos veiculados na revista Casa & Jardim na década de 1960. (ST10)

Raissa Monteiro Dos Santos (Mestranda)


Mulheres e homens nos anúncios publicitários do Mappin: um relato metodológico
Esta comunicação é parte de uma pesquisa de mestrado, ainda em andamento, cujo
objetivo é compreender como as relações de gênero eram representadas em imagens e
descrições nos anúncios publicitários da loja Mappin entre os anos 1931 e 1945, para com
isso discutir os modos de interação dos corpos masculinos e femininos com objetos e
com os espaços ali representados. Tomando como referencial teórico os estudos da área
de cultura material, partimos do pressuposto de que a representação das figuras
femininas e masculinas – bem como seus acessórios pessoais, indumentária, objetos
cenográficos e espaciais – possuem papel ativo na configuração de identidades sociais.
Para que os padrões visuais disseminados por essas imagens pudessem ser analisados,
todos os 3154 anúncios foram organizados num software por meio do qual foi possível
inserir um vocabulário controlado previamente criado a fim de caracterizar cada imagem
individualmente. Esse procedimento permitiu a constatação de padrões visuais, suas
mudanças e permanências, bem como o levantamento quantitativo de artefatos e
posturas recorrentes nas imagens. Este trabalho tem como objetivo apresentar o
processo metodológico utilizado e a primeira análise dos padrões visuais notados. (ST10)

Raphael Cesar Lino (Mestrando)


Autores-personagens: Os enredos teóricos da micro-história italiana
A micro-história italiana surgiu nas décadas de 1970 e 80 e teve como uma de suas
marcas a heterogeneidade e o desenvolvimento não linear, resultado da combinação de
diferentes preocupações de um grupo de historiadores que se articulavam em torno da
revista Quaderni Storici della Marche, fundada em 1966. Embora não houvesse
consonância entre suas posturas teóricas, ou seus temas de pesquisas, tinham
preocupações em comum, especialmente pelo estudo local e pelo interesse em casos
circunscritos e reduzidos, prática metodológica que ficou conhecida como microanálise.
Nesse sentido, nossa apresentação versa por apresentar algumas das características desta
prática historiográfica a partir da trajetória intelectual de três importantes autores,
protagonistas dessa história, Edoardo Grendi, Giovanni Levi e Carlo Ginzburg. Pontuar
cada uma dessas posturas ajuda a compreender melhor este capítulo da história da
historiografia, dado o contexto em que se insere e a celeuma em que estão envolvidas
diretamente (como a crise dos paradigmas, especialmente do estruturalismo e do
marxismo). Além disso, ter em conta as diferenças internas que existem ao redor do
nome micro-história é fundamental para compreender seus desdobramentos em outros
contextos historiográficos e outras apropriações que ocorreram, dado o amplo alcance
que vem tomando desde então. (ST18)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 162

Raquel De Fatima Parmegiani (Doutora/UFAL)


Jerônimo de Strídon contra os Setenta Tradutores
O processo de constituição do cânone bíblico cristão na Europa de língua latina, durante
a antiguidade tardia, nos dá vestígios importantes sobre a relação entre escrita e poder
neste período. O ocidente europeu conheceu inúmeras versões de tradução destas
escrituras, estas foram quase tão diversas, quanto foram os códices de lhe deram suporte.
Os autores cristãos não se cansavam de alertar em seus trabalhos, do risco de corrupção
dos textos, a partir da forma como o mundo editorial se configurava naquele momento.
A bíblia, como a conhecemos hoje foi, sem dúvida alguma, palco de uma complexa
disputa em que se entrecruzaram poderes, saberes e polemicas dogmáticas que foram
características da sociedade cristã tardo antiga. E dentre desse processo, os comentários
bíblicos se colocaram como o locus principal da defesa de uma sequência de leitura (ou
mesmo de edição) desse texto (a bíblia), a partir do posicionamento de autores como
Jeronimo e Agostinho.
Nossa proposta neste trabalho é pensar como se construiu as redes de citação que
tornaram possível a constituição dessa biblioteca (a bíblica), a partir das discussões feitas
por são Jerônimo em relação as traduções dos livros bíblicos e comentários a eles, aos
quais teve acesso. Nos utilizaremos dos prefácios e posfácios que este autor escreveu para
seus próprios trabalhos de comentador, na qual ele destaca questões como: comparações
entre o texto da Septuaginta e as passagens do Antigo Testamento que aparecem nos
livros dos Evangelhos; a necessidade do conhecimento da língua original do livro no
trabalho de tradutor e comentador, uso da cultura clássica à serviço da exegese cristã etc.
(ST38)

Raquel Gryszczenko Alves Gomes (Pós-doutoranda)


Fragmentos narrativos: protagonismos femininos nas literaturas contemporâneas da
África Austral
Os estudos pós-coloniais questionaram, ao longo dos anos, a possibilidade de apreensão
e registro da chamada “voz do subalterno”. Dialogando com e também questionando
alguns dos pressupostos engendrados por esse argumento, é minha intenção discutir
aqui como a literatura – em especial aquela produzida por mulheres – consolida-se como
um espaço de reflexão sobre as principais tensões legadas pela experiência pós-colonial
nos territórios da África Austral: o chamado choque entre o tradicional e o moderno, a
fragmentação territorial e cultural após as guerras de independência e as guerras civis e
os desafios de constituição dos Estados nacionais. Para tanto, concentro-me
expecialmente na produção de Nadine Gordimer (África do Sul, 1923-2013), Yvonne Vera
(Zimbábue, 1964-2005) e Paulina Chiziane (Moçambique, 1955), atentando para como a
voz feminina expõe, no campo do literário, os desafios lançados ao protagonismo
feminino na África Austral contemporânea. (ST02)

Reinaldo Sudatti Neto (Mestrando)


A redescoberta das raízes das famílias de descendentes de imigrantes italianos, por meio
do Círculo Italiano de Jundiaí
No final dos anos 80, a crise de aceleração temporal leva a um definhamento da
memória, levando a um retorno na busca de memórias étnicas e sua preservação,
gerando a fundação do Círculo Italiano de Jundiaí, que como instituição memorialista,
tem tido como objetivo,levar a cabo medidas que propiciassem o não desaparecimento
das memórias das famílias de imigrantes.
Dentre as medidas executadas pelo Círculo Italiano de Jundiaí, para o não
desaparecimento das memórias das famílias de descendentes de imigrantes italianos,
estão as homenagens feitas, baseadas nas histórias orais que são contadas pelas famílias

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 163

homenageadas, levando à preservação da memória e do estreitamento dos laços entre


estas famílias e seus ancestrais.
O objetivo da pesquisa será o estudo sobre o papel do Círculo Italiano de Jundiaí, na
preservação da memória das famílias descendentes de imigrantes italianos.
Para se conseguir de forma efetiva o objetivo da pesquisa e não deixar o foco muito
difuso, devido a extensa documentação que existe sobre o assunto, optou-se por
centralizar o trabalho em fontes orais produzidas pelo Círculo Italiano de Jundiaí e obras
que versem sobre história oral, deixando as outras fontes como complementares ao
trabalho.
A metodologia focará o papel do Círculo Italiano de Jundiaí na preservação da memória
das famílias descendentes de imigrantes italianos, analisando os tipos de memórias
escolhidas por esta instituição de memória e estratégias utilizadas na construção e
preservação de uma memória imigrantista, italiana em Jundiaí. (ST44)

Rejane Aparecida Rodrigues Candado (Mestra/UFMS)


A História e Conhecimentos Tradicionais na Escola Indígena Tekoha Guarani: os anos
iniciais do Ensino Fundamental
As escolas indígenas e suas respectivas comunidades tem promovido nos últimos anos,
um movimento permanente para repensar a educação escolar, e os seus embates com
projetos étnicos e ou planos de vida. Diversas dessas experiências têm sido relatadas por
meio de pesquisas e projetos de autorias, desenvolvidas por professores e pesquisadores
indígenas e não indígenas, no sentido de ressignificar a escola, as práticas e as relações
que implicam na vida escolar. Esses estudos promovem a tentativa de provocar
transformações na escola, que desde os tempos coloniais, serviu para catequizar,
assimilar e civilizar os povos indígenas, ao atender as diversas orientações políticas e
ideológicas dos colonizadores. Após 1988, com a promulgação da Constituição Federal,
outras legislações específicas foram criadas, com o objetivo de assegurar a autonomia e a
participação dos indígenas em todos os projetos e programa a serem implementados em
seus territórios. Dito isto, esta comunicação tem como objetivo apresentar as
considerações preliminares da pesquisa que integra o projeto de tese em Educação na
Universidade Católica Dom Bosco-UCDB. A partir da etnografia pós-moderna, das
observações e dos resultados dos grupos de discussões, a pesquisa em desenvolvimento,
volta-se para as práticas pedagógicas nos primeiros anos do ensino fundamental, do
ensino de história e do conhecimento tradicional, desenvolvidas por professores Guarani
da Escola Indígena Municipal “Tekoha Guarani”, da aldeia Porto Lindo, Japorã,
localizado no extremo sul de Mato Grosso do Sul. A escola aqui será entendida como o
entre lugar preconizado por Homi Bhabha (2003), como o lugar privilegiado de encontro
de conhecimentos, sejam os de tradição da ciência moderna, e os saberes tradicionais
indígenas. Portanto, a Escola é o lugar onde as traduções são possíveis, produzindo
experiências e políticas subversivas, provisórias e até mesmo incompreendidas. A partir
da orientação do projeto político pedagógico e dos estudos e formações continuada, os
professores Guarani decidiram, em 2015, conduzir o planejamento das aulas de forma
coletiva e inspirada metodologia de Paulo Freire. As observações têm apontado para a
ampliação do espaço ocupado pelo conhecimento indígena no currículo escolar, quanto
na pedagogia indígena, ou seja, na relação ensino aprendizagem Guarani. Assim, as
práticas produzidas a partir do olhar indígena têm indicado para o desenvolvimento de
pesquisas junto às lideranças tradicionais e idosos da Comunidade indígena de Porto
Lindo, atribuindo a memória, a história, e o arandu (conhecimento) na centralidade
dessas experiências, à medida que desestabiliza a disciplinarização tradicional escolar.
(ST29)

Renan Branco Ruiz (Mestrando)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 164

O Grupo Um,a Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista


Na bibliografia que analisa e debate os elementos em torno da comumente chamada
Vanguarda Paulista é possível visualizar a estruturação de uma espécie de representantes
oficias dessa movimentação, característica que geralmente acompanha a construção
memorial sobre uma determinada geração de músicos interligados socialmente.
Buscando contribuir para a ampliação dos estudos sobre Lira Paulistana e a Vanguarda
Paulista, este trabalho intentou reconstruir a trajetória artística do conjunto de jazz-
fusion instrumental brasileiro Grupo Um (que gravou três álbuns de 1979-1982, dois
independentes e outro lançado pelo selo Lira Paulistana Instrumental, já em pareceria
com a Continental), tentando encontrar os motivos das aproximações e distanciamentos
entre seus integrantes e as diversas ações desenvolvidas pelo Lira Pauslitana - seja
enquanto local para temporada de apresentações, ou nas negociações enquanto selo
fonográfico, entre outras atividades. Vale ressaltar que este trabalho não intenta colocar
o nome do Grupo Um junto aos representantes geralmente considerados “oficias” desse
momento da música paulistana, mas sim, contribuir para construção de um campo de
estudos mais abrangente sobre as diversas realizações partilhadas pelo Lira Paulistana e
pela Vanguarda Paulista junto aos variados artistas e gestores envolvidos nesse momento
recente e heterogêneo da música paulistana independente. (ST26)

Renata Cordeiro Dos Santos (Mestranda)


A fotografia como poética crítica no período pós-ditadura militar
Na presente pesquisa trataremos da fotografia como arte contemporânea. O foco é
estudar o realismo que se inscreve nos trabalhos fotográficos dos artistas que se
comprometem com uma poética crítica principalmente no período atual, pós-ditadura
militar. Nosso recorte compreende o espaço do centro da cidade de São Paulo, nos
arredores da Estação Pinacoteca, o antigo prédio do DEOPS (Departamento de Ordem
Política e Social) dos anos de ditadura militar brasileira, onde os trabalhos dos artistas
Fernando Piola e Tuca Vieira parecem fundar, em períodos distintos, uma espécie de
cartografia política atrelada às suas poéticas particulares, por meio do ato de fotografar.
Portanto, a pesquisa compreende a poética da passagem/deambulação pelos ambientes
da cidade, abordando fotografias dos arruinamentos da paisagem urbana, bem como as
relações dessas imagens com o cotidiano, com a vida social, cultural da cidade de São
Paulo. (ST16)

Renata Duarte Simões (Doutora)


Educação física e juventude: o jornal como dispositivo doutrinário
O Governo Vargas caracterizou-se por mudanças relevantes em inúmeras áreas,
principalmente na política e na educação. Os jovens, os imigrantes e os trabalhadores
foram os alvos principais das campanhas educadoras do novo regime, destacadamente
durante o Estado Novo. A educação era uma das grandes preocupações do governo, cujo
objetivo era modernizar e fortalecer a Nação. A Ação Integralista Brasileira (AIB),
compartilhando das ideias do período, difundia um discurso de preservação da saúde
física, de propagação da educação moral e de formação intelectual desde a mais tenra
idade, investindo esforços para que os plinianos fossem educados de acordo com os
preceitos do Sigma, pois seriam eles os continuadores da luta pela formação de uma
Nação integralista. A AIB dedicou amplo espaço, em seus jornais e em suas campanhas, à
Educação Física voltada à mocidade, com intuito de adaptar o corpo para a vida prática e
preparando a alma para servir conscientemente ao Brasil, ideias defendidas pelo
movimento. Considerando os aspectos apontados, objetivou-se investigar como o
integralismo lançava mão de seus dispositivos textuais, destacadamente o jornal A
Offensiva, como meio de propagar a Educação Física e a prática de esportes entre os
jovens. Para concretização da pesquisa, delimitou-se o período a ser estudado entre 1932

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 165

e 1938, tendo como justificativa para data inicial ser ela o ano de fundação da AIB e, para
data final, quando do início do governo ditatorial de Getúlio Vargas o integralismo
despojou-se, aparentemente, de sua ação política, funcionando até 1938 como Associação
Brasileira de Cultura, quando foi extinto e seus líderes foram enviados para o exílio.
Como fonte documental, foram analisados os números do jornal A Offensiva que se
encontram no Fundo Plínio Salgado do Arquivo Público e Histórico do Município de Rio
Claro-SP e os arquivados na Biblioteca Nacional-RJ. O corpus documental da pesquisa foi
constituído por 748 exemplares. (ST06)

Renata Peixinho Dias Vellozo (Mestranda)


Pedidos de anistia dos servidores públicos civis e militares (1986 - 1987) e os usos do
passado constitucional brasileiro
A partir da análise de um conjunto de mensagens individuais que foram enviadas à
Comissão de Constituição e Justiça – CCJ, do Senado Federal, ao longo de 1986 e que se
encontram inseridas em uma base de dados chamada Sistema de Apoio Informático à
Constituinte – Saic, organizada pelo Centro de Informática e Processamento de Dados do
Senado Federal – Prodasen, com o título: Sugestões da população para a Assembleia
Nacional Constituinte de 1988.
Buscamos analisar os usos do passado constitucional brasileiro em prol da anistia dos
servidores públicos civis e militares, para além do período relativo aos governos militares
vivenciados no Brasil entre 1964 e 1985.
Para tanto, identificamos as referências desses missivistas a incisos, alíneas ou parágrafos
de Constituições brasileiras anteriores ao processo constituinte (1985 - 1988) que foram
utilizadas como recurso discursivo e argumentativo, com a finalidade de encaminhar
propostas e fazer críticas concretas. (ST40)

Renato Alencar Dotta (Doutorando)


"Sois a Tradição e a Renovação": O I Congresso de Estudantes do Partido de Representação
Popular (PRP) - Campinas, 1949
Com o objetivo de perpetuar seu movimento, os integralistas sempre elegeram os jovens
como um dos principais receptores de sua propaganda política, escolha que teve relativo
sucesso, pois o movimento integralista, desde suas origens, sempre teve grande número
de estudantes, sobretudo universitários. Assim foi nos anos 1930 com a Ação Integralista
Brasileira (AIB). Assim foi também a partir da segunda metade dos anos 1940, quando os
integralistas - após terem sido banidos da vida política brasileira pelo Estado Novo -
retornam à cena através do Partido de Representação Popular (PRP). Num momento
desfavorável, devido à associação que vários setores da sociedade fizeram dos seguidores
de Plínio Salgado com o nazifascismo, então recém-derrotado na II Guerra Mundial, os
integralistas fazem vários esforços para renovar a imagem do seu movimento político. Ao
mesmo tempo, e como parte dessa retomada, voltam a direcionar suas atenções ao
movimento estudantil, organizando um congresso nacional em Campinas, em 1949, que
será um marco relativamente bem sucedido em sua retomada desse setor da sociedade.
O congresso, contudo, também chamou a atenção de adversários, como a União
Nacional dos Estudantes (UNE), e militantes vinculados ao Partido Comunista do Brasil
(PCB) - já na ilegalidade - que lançaram panfletos e atuaram contra a organização do
evento. Essa pesquisa é baseada em documentação apreendida pelo DOPS, que
demonstrou grande interesse pelo Congresso. (ST06)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 166

Renato Cancian (Doutor/UNINOVE)


Militância estudantil e militância política
O objetivo deste trabalho é problematizar o movimento estudantil da década de 1970
tendo como foco de análise a adesão dos jovens ao movimento como uma forma de
estruturação da identidade política dos militantes estudantis. (ST42)

Renato Cesar Santejo Saiani (Doutorando)


O rearmamento naval brasileiro e a crise com a Argentina: o debate na imprensa entre o
Barão do Rio Branco e Estanisláo Zeballos (1904-1910).
As relações entre Brasil e Argentina sofreram inúmeras mudanças ao longo do século XIX
e início do XX. Durante a gestão do Barão do Rio Branco à frente do Ministério das
Relações Exteriores, 1902-1912, tais vínculos foram marcados por etapas de concórdia,
entremeadas por períodos de rivalidade acentuada. O projeto de rearmamento naval
brasileiro, aprovado pelo Congresso em 1904, foi o catalisador de um dos momentos mais
delicados das relações políticas entre os dois países. A nomeação de Estanisláo Zeballos
para o Ministério das Relações Exteriores, em 1906, exacerbou a situação. Foram intensas
as discussões entre os diplomatas e os representantes em Buenos Aires e no Rio de
Janeiro, observando-se uma grande exaltação da opinião pública de ambos os lados. Essa
ebulição foi incitada, em grande medida, pela utilização que Rio Branco e Zeballos
faziam da imprensa para movimentar o cenário político da época. Assim, este trabalho
tem por objetivo analisar os artigos, publicados tanto na imprensa brasileira como na
argentina, no intuito de compreender como se desenrolou esse debate e qual sua
influência na crise armamentista que abalou as relações políticas entre as duas nações.
(ST32)

Renato de Mattos (Doutor/FMU)


Política, Memória e escrita da História: problematizando as interpretações e os
significados da Abertura dos Portos (1808)
O objetivo primordial da comunicação é o de discutir como tradicionalmente o episódio
da Abertura dos Portos às Nações Amigas (1808) tem sido compreendido pela
historiografia enquanto fato definido e irredutível, perfeitamente encadeado aos demais
eventos que compõem a cronologia consagrada do processo de formação da
nacionalidade e do Estado brasileiros. A presente análise fundamenta-se nas reflexões
formuladas por Lucien Febvre, Carlos Alberto Vesentini e Cecilia Helena Salles Oliveira
acerca da necessidade de problematizarmos os fatos históricos enquanto “agentes ativos
da memória”. Sob esta perspectiva, examinaremos de que maneira a narrativa da história
da Independência erigida por José da Silva Lisboa no início do século XIX, bem como as
apropriações da Carta Régia de Abertura dos Portos empreendida pelos organizadores da
Exposição Nacional do Rio de Janeiro de 1908, contribuíram decisivamente para a
monumentalização do referido episódio, alçado ao status de efetivo marco de
transformações e rupturas nas relações mercantis estabelecidas entre o Brasil e as demais
partes do Império luso. Ademais, discutiremos de que modo o tratamento de outros
tipos documentais produzidos no período joanino – notadamente os passaportes
expedidos às embarcações mercantes – oferecem novos horizontes de análise das
circunstâncias que presidiram a deliberação da Abertura dos Portos e, especificamente,
suas implicações no Centro-Sul da colônia. (ST18)

Renatto Sérgio Costa da Silva (Mestre)


Reunindo Memórias. A História Oral e as relações intergeracionais
As considerações apresentadas aqui são fruto de um projeto aplicado aos alunos de
Ensino Médio da rede pública paulista. Essa experiência ocorreu devido a proposta de
aproximar duas instituições: a E. E. Ibrahim Nobre e o Grupo de Assistência ao Idoso, à

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 167

Infância e à Adolescência – GAIA. Com a necessidade de reabrir a Unidade Escolar para a


comunidade local tornou-se imprescindível fazer com que os alunos obtivessem um
sentimento de pertença ao bairro e de garantir à comunidade local a ideia de que a
escola é um espaço de todos. O convívio intergeracional que o projeto criou possibilitou
que noções de ética e cidadania fossem desenvolvidas. Baseado na proposta curricular, o
trabalho permitiu aos alunos perceber como é feita a construção do conhecimento
histórico, a importância da memória coletiva, da história oral e principalmente a
valorização do convívio entre as gerações. Aos idosos permitiu a possibilidade de ser o
agente histórico, ser aquele que é, ao mesmo tempo, narrador e personagem da história.
(ST23)

Ricardo Sequeira Bechelli (Pós-doutorando)


Cinema é história: a obra de Alfred Hitchcock e a segunda guerra mundial
O objetivo do trabalho é analisar e expor as obras que o cineasta Alfred Hitchcock
trabalho sobre a segunda guerra mundial, realizadas no contexto da guerra:
Correspondente estrangeiro, o Sabotator, 1 barco e nove destinos e como epílogo do pós-
guerra, Interludio e Festim Diabólico. Assim sendo, será possível estabelecer tanto a
visão da guerra pela visão da sua época e também o pós-guerra, mostrando o cinema
como História. (ST16)

Rilton Ferreira Borges (Doutorando)


Entre a escrita e a produção: naturalismo e história da França em Germinal
O presente texto tem como objetivo analisar as condições de escrita (trabalho
intelectual) e produção (trabalho industrial/comercial) da obra Germinal, de Émile Zola.
Através desta dupla chave de análise (escrita/produção). Propomos uma análise de como
o autor usa sua proposta naturalista, cuja literatura usa um método que confira
cientificidade ao romance, para contar uma história “natural e social” da França a partir a
descrição das personagens e sua condição de vida e trabalho. Sem perder de vista as
relações entre seus interlocutores e o contexto histórico em que vivia, propomos uma
leitura da obra de Zola enquanto testemunho de sua época e síntese de diversas ideias
que circulavam durante o contexto de sua escrita e produção. Para isso, trabalharemos
não só com o texto editado e publicado, mas também com os manuscritos, rascunhos e
dossiês preparatórios escritos por Zola e que serviram como plano, não apenas para
Germinal mas para toda a série em que esta obra estava inserida, Os Rougon-Macquart.
(ST36)

Roberto Manoel Andreoni Adolfo (Doutorando)


Novas fontes, novos escravos: uma análise das mudanças documentais na historiografia
brasileira da escravidão
A partir dos anos 1980, com a consolidação dos cursos de pós graduação pelo país, a
historiografia brasileira passou por diversas reformulações teórico-metodológicas. O
mesmo se deu com a historiografia da escravidão. Se nos anos 1960 e 1970 os estudos
ligados a esta temática foram marcados por abordagens preocupadas em entender as
diretrizes econômicas do sistema escravista, nos anos 1980 houve uma tendência a
enfatizar a dimensão cultural das relações sociais escravistas. Enquanto autores, como
Jacob Gorender (1923-2013) e Fernando Henrique Cardoso, buscaram valorizar um
modelo teórico de viés marxista, preocupado com um entendimento sistêmico da
sociedade colonial, os historiadores dos anos 1980 abriram diálogo com as renovações
marxistas, principalmente vindas de E. P. Thompson, e passaram a focar suas análises
nas dimensões micro históricas, valorizando a abordagem sobre o cotidiano dos escravos.
Estes redirecionamentos possibilitaram a emergência de um novo enunciado sobre o
escravo; se no modelo historiográfico precedente os escravos eram compreendidos como

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 168

peças (escravo-coisa) dentro de um sistema econômico maior, os redirecionamentos


teórico-metodológicos dos autores dos anos 1980 permitiram que os escravos pudessem
ser concebidos como agente-históricos. Um dos elementos que contribuiu para a
emergência de tal enunciado foi a renovação que aconteceu tanto nos tipos de fontes
como nos modos de abordá-las. Diante disso, nossa proposta é, através da análise de
alguns autores-chaves neste processo, especificar as mudanças nas fontes, assim como os
modos de interpretá-las, que atuaram no redirecionamento da historiografia da
escravidão entre os anos 1960/70 e 1980. Para a realização de tal tarefa, por parte da
historiografia setentista, escolhemos abordar O escravismo colonial (1978) de Jacob
Gorender, historiador que além de estar situado no ponto máximo do debate acerca da
natureza dos “modos de produção” brasileiro, também foi o principal crítico dos
posteriores trabalhos sobre a escravidão. Já por parte da historiografia oitentista,
trataremos de três estudos fundamentais: Ser escravo no Brasil (1982) de Kátia Mattoso,
historiadora pioneira a enunciar o escravo como agente histórico; Rebelião escrava no
Brasil (1986) de João José Reis e Campos da violência (1988) de Silvia Hunold Lara,
historiadores que ajudaram a consolidar as análises preocupadas com a dimensão
cultural da escravidão, assim como aprofundaram as reflexões sobre as relações
cotidianas entre senhores e escravos. (ST18)
Rodolfo Fiorucci (Doutor)
A "Quarta Humanidade": raça e gênero em tons integralistas.
O trabalho propõe discutir as concepções integralistas no tocante às questões de raça e
gênero no contexto dos anos 1930 no Brasil, especificamente as expostas em sua principal
revista, Anauê!. A AIB apresentou um projeto eugênico que visava criar uma nova raça
brasileira, forte o suficiente para enfrentar as nações colonizadoras, e, para isso, seria
necessário higienizar não apenas as características físicas do sujeito nacional, mas
principalmente as comportamentais e morais. Nesse sentido, orientava seus militantes e
leitores a seguirem determinadas diretrizes para a formação do homem, mulher e criança
do futuro. (ST06)

Rodrigo Aparecido De Araujo Pedroso (Doutorando)


A Primeira Guerra em cartaz
O presente artigo tem como objetivo expor um projeto de atividade interdisciplinar entre
as disciplinas de História e Inglês. Que foi realizada no primeiro bimestre de 2014 e 2015
com alunos dos 9º anos da escola municipal Dr. Rabindranath Tagore dos Santos Pires,
localizada na cidade de São Roque em São Paulo. O projeto consistiu em atividades de
tradução e interpretação de cartazes Norte-americanos e Britânicos produzidos durante
a Primeira Guerra Mundial. A atividade desenvolvida teve como objetivo principal
viabilizar o contato dos estudantes com fontes históricas e, com o auxílio das professoras
de Inglês, fornecer aos estudantes meios para decifrar, analisar e interpretar estas fontes
históricas. (ST16)

Rodrigo Da Silva (Doutor)


Cidade documento: as cidades como documentos para o estudo da história
O presente trabalho procura fomentar a discussão a respeito do emprego das cidades e
suas representações como documentos para o estudo da história. Recorrentemente as
cidades e suas representações (iconografia, cartografia, documentação escrita e impressa)
são enclausurados nos universo da história urbana ou de uma suposta história das
cidades. Tal enclausuramento desconsidera ou negligencia a importância e a riqueza que
as próprias cidades - nossas contemporâneas - representam para o estudo da história, em
suas mais diversas vertentes, temáticas, recortes ou balizamentos. Também não se pode
circunscrever o emprego das cidades como documento às discussões - volumosas - da
cultura material (as quais compõem, mas não esgotam o problema). Certamente a

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 169

materialidade é de fundamental importância ainda que recorrentemente escanteada nas


pesquisas históricas; entretanto as dimensões do emprego das cidades como documento
trazem justamente características de serem objetos de gigantesca complexidade e
oferecerem um cenário de interconexão entre suportes, temporalidades, grupos sociais,
culturas. É justamente nessa amplitude - e nos desafios metodológicos implicados - que
reside a riqueza do emprego da cidade-documento. (ST18)

Rodrigo José Da Costa (Doutorando)


A memória comunista sobre o golpe de 1964 em Alagoas
O objetivo desta comunicação é discutir aspectos relativos à memória dos militantes
comunistas alagoanos sobre o Golpe Civil e Militar de 1964. Tomando por base alguns
livros de memórias editados por um ex-membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB)
no estado e algumas entrevistas realizadas com ex-militantes, procuro entender a leitura
- a posteriori - que os comunistas fizeram a respeito da conjuntura imediatamente
anterior ao golpe, dos desdobramentos do Comício das Reformas realizado em Maceió
em 29 de março de 1964 e o posterior impacto que a instauração da Ditadura trouxe para
o Partido. (ST06)

Rodrigo Marzano Munari (Mestrando)


O governo representativo e os presidentes de província: a constituição de uma
jurisprudência sobre as leis eleitorais no Império (São Paulo, 1840-50)
Este trabalho visa, preliminarmente, caracterizar as funções e o lugar do presidente de
província no governo representativo brasileiro, que foi instaurado pela Constituição de
1824 e tinha por base, principalmente, a prática eleitoral de cada circunscrição em que se
dividia o Império. Se a Constituição imperial estabelecia eleições indiretas e censitárias
para deputados e senadores, sucessivas leis regulamentares definiram o modo prático
pelo qual tais eleições deveriam se realizar. Em geral, essas leis entregaram a condução
do processo eleitoral nas mãos de autoridades eletivas estreitamente relacionadas às
localidades (Câmaras municipais, juízes de paz, eleitores etc.). Consoante boa parte da
historiografia, entretanto, eram os presidentes provinciais, diretamente nomeados pelo
governo central, que determinavam a sorte de qualquer eleição. Agentes dos ministérios
em cada província, os presidentes seriam responsáveis por fazerem a vitória dos
candidatos governistas nos pleitos, cometendo, para tanto, vasta gama de fraudes e
irregularidades. Embora as evidências dessas práticas sejam muitas e não possam ser
minimizadas, esta pesquisa pretende demonstrar, tomando como exemplo a província de
São Paulo na década de 1840 – década da primeira e mais duradoura reforma eleitoral
aprovada pelo Parlamento (lei de 1846) –, que os presidentes não se ocupavam apenas
com o manejo dos resultados eleitorais; mas estavam atentos, sobremaneira, à execução
das leis que os regulavam. Analisando a correspondência oficial da presidência de São
Paulo nesse período, algumas questões relevantes podem ser levantadas. Emitindo
interpretações sobre particularidades dessas leis, respondendo a inúmeras dúvidas de
autoridades locais, por vezes consultando o governo imperial a esse respeito, os
presidentes teciam um extenso conjunto de decisões, frequentemente reiteradas; que,
tanto quanto as copiosas resoluções sobre pareceres do Conselho de Estado, constituíam
uma jurisprudência sobre os regulamentos eleitorais, no sentido de adequar as normas às
situações de fato, resolvendo diversos problemas que apareciam nas eleições. Essa
jurisprudência, conquanto se considere seu teor político substancial, revela os embates
que se produziam, em torno da lei, entre os atores políticos locais, disputando a
legitimidade de sua "correta interpretação"; como é observável, sobretudo, da
participação constante de diversas autoridades que oficiavam ao governo em busca de
solução para suas dúvidas e queixas, pelas quais a lei se tornava, bem ao contrário de
"letra morta", motivo e cerne de tantas disputas. Desvelam-se, assim, as feições de um

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 170

regime representativo que se encontrava em real processo de construção, consideradas as


dificuldades e entraves com que deparava para se efetivar plenamente. (ST19)

Rodrigo Medina Zagni (Doutor/UNIFESP)


“Decifra-me ou devoro-te”: o enigma do nazi-fascismo na obra de Erich Fromm
O artigo tem como objetivo identificar os referenciais teórico-conceituais a partir dos
quais Erich Fromm, autor inscrito na tradição de uma Esquerda Freudiana, propôs
sistemas explicativos para o fenômeno do nazi-fascismo. Fromm o fez do olho do
furacão, no ano de 1941, com a Segunda Guerra ainda em curso e o governo nazista no
poder. Mais amplamente, procura-se verificar que contributos estes referenciais puderam
legar às Ciências Humanas e Sociais na forma de elementos explicativos, provenientes
das teorias da psicanálise, para a tamanha complexidade deste objeto histórico. (ST06)

Rodrigo Pezzonia (Doutorando)


Augusto Boal, José Celso Martinez Corrêa e a Revolução dos Cravos: dois olhares em dois
momentos.
Em 25 de Abril de 1974, Portugal abandonava quase meio século de domínio fascista do
regime salazarista. O país se encontrava em grau de desenvolvimento muito distante dos
seus vizinhos de continente. Faltava-lhes trabalho, terra, teto, educação, saúde e, claro,
cultura. Assim, a Revolução dos Cravos se fundamentava enquanto fenômeno que traria
esperança de novos tempos para o povo português.
Cruzando o Atlântico, a notícia de uma revolução à esquerda realizada por militares
trazia desconfiança, mas ao mesmo tempo esperança. Em 1974, o golpe contra Salvador
Allende já se consolidara como uma triste realidade, a Argentina parecia querer seguir os
mesmos passos e outros países latino americanos já flertavam, ou estavam sob jugo da
influência de ditaduras financiadas pelo “irmão do norte”.
Assim, o número de exilados da ditadura brasileira só aumentara com a proliferação dos
golpes, tendo ficado impossível permanecer em território sul americano sem o medo do
pior. Portugal, assim como outros países europeus, tornou-se um dos caminhos viáveis
para o movimento do exílio daquele momento até a edição da lei de Anistia brasileira em
1979.
Bem, é neste ambiente retratado que a afluência de brasileiros a Portugal se insere e é
também assim que dois dos mais importantes personagens do teatro nacional terão
contato com a revolução portuguesa.
Zé Celso e Augusto Boal participarão deste processo em dois momentos distintos e, por
isso mesmo, terão duas visões quase que opostas sobre este movimento da segunda
metade da década de 1970. Enquanto o primeiro lembrará dos eventos com euforia e
encanto, o segundo só externa o sentimento de frustração.
Por fim, o objetivo desta comunicação é tentar compreender as trajetórias destes
dramaturgos através de seu exílio em Portugal e, acima de tudo, identificar quais os
motivos que levaram a impressões tão díspares no que se refere à sua estada lusitana.
(ST27)

Rodrigo Seidl (Mestre)


O teatro como fonte histórica no ensino e na pesquisa
Este trabalho tem como objetivo discutir o uso do teatro como fonte histórica no ensino
e na pesquisa acadêmica. A primeira parte será dedicada à discussão essencial sobre a
natureza do fenômeno teatral para poder ampliar nosso entendimento dos vários
processos e contextos que geram a performance teatral. Muitas vezes, o texto dramático
se torna o foco de pesquisas do teatro, mas ele é apenas um elemento entre muitos
outros que constituem a performance. Temos que considerar todo o processo da
encenação teatral como, por exemplo, os usos do espaço, a formação dos atores e do

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 171

público, as relações entre os artistas e as instituições de poder, etc. Acreditamos que uma
análise completa do teatro como prática social pode enriquecer a pesquisa do historiador
e também oferecer uma oportunidade para abordagens interdisciplinares de história no
ensino médio. A segunda parte do trabalho será dedicada aos exemplos práticos do uso
do teatro como fonte no ensino de história. Iremos aplicar as ideias discutidas na
primeira parte do trabalho e sugerir formas pelas quais esta abordagem pode ser
implementada numa aula para enriquecer a aprendizagem no ensino de história. (ST16)

Roger Domenech Colacios (Pós-Doutorando)


A Environmental Protection Agency/EUA: por que e para quem? (1970-1979)
Resultante da articulação entre movimentos sociais, setores da sociedade política e
imprensa, a Environmental Protection Agency dos EUA inaugurou na década de 1970
uma nova forma de regulação econômica. As políticas ambientais que compuseram o
escopo de ferramentas da agência serviram aos propósitos de limitar e readequar os
meios produtivos e o consumo no país. O Clean Air Act e o Clean Water Act, as duas
principais leis, foram seguidas por outras, criadas para atender questões ambientais
consideradas fulcrais pela sociedade civil estadunidense. Ao reportar-se diretamente à
presidência, a EPA consequentemente respondia aos interesses da agenda política em
vigor. A agência é retratada pela bibliografia especializada como um paradoxo no meio
político dos EUA dos anos 1970, ao promover a regulação em meio a um clima de
conservadorismo econômico, social e político e em plena consolidação do projeto
neoliberal. O objetivo desta comunicação é questionar essa interpretação tradicional ao
mapear a composição que formou os quadros sociais e políticos daqueles que tinham
interesse na criação da agência e promulgação das leis ambientais. Apesar do ineditismo
da EPA a intenção é mostrá-la como um aparelho de hegemonia do Estado nos EUA,
servido aos propósitos de reforma política passiva e atendimento aos interesses da classe
dominante no país. (ST37)

Ronaldo Aurélio Gimenes Garcia (Doutor/UFFS)


A constituição da escola e suas práticas no sudoeste do Paraná (1950-1980)
A carência de estudos sobre a constituição das escolas da região do Sudoeste do Paraná
impulsionou a realização da presente pesquisa. O objetivo aqui é investigar a história das
escolas (do campo e urbanas) a partir de obras de memorialista e historiadores locais que
deixaram produções escritas. Trata-se de um estudo que pretende investigar a
constituição das escolas e suas práticas educativas nos municípios que compõem esta
parte do estado do Paraná. Se comparadas a outras áreas brasileiras o sudoeste
paranaense foi de ocupação muito recente, ou seja, por volta da segunda metade do
século XX. O local foi durante muito tempo ocupado por indígenas e caboclos que
viviam da agricultura de subsistência. Periodicamente o lugar era visitado por
exploradores de madeira e erva mate, muitos deles vindos da Argentina. Como forma de
marcar a presença brasileira na fronteira e evitar o contrabando de produtos nativos, o
governo incentivou a ocupação da área. A partir da década de 1950, famílias vindas do
Rio Grande do Sul e Santa Catarina chegam à região em busca de novas terras para
expansão da agricultura. Esses por sua vez eram descendentes de famílias de imigrantes
europeus (italianos, alemães, polacos e outros) que chegaram ao sul do Brasil desde o
final do século XIX. A disputa por terras envolvendo colonos, posseiros e companhias de
colonização levou a uma grande revolta de colonos em 1957 que representa um marco
importante para história regional. Em virtude desse contexto constituíram-se
propriedades agrícolas de pequeno e médio porte e a predominância da agricultura
familiar. Em meio a disputas e conflitos agrários se instalaram cidades e povoados com
pouca estrutura. No entanto é constante nos relatos a presença da escola como um
elemento muito valorizado pelas comunidades e autoridades, mesmo que para funcionar

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 172

tivesse que contar com poucos recursos e professores leigos. Analisar a constituição e
funcionamento destas escolas e o papel que desempenhavam nas comunidades em que
se inseriam faz parte dessa investigação. O registro da memória desde período de
ocupação e seus desafios está presente em diferentes publicações. Percebe-se o esforço
de perpetuar uma memória que sirva como referência para as futuras gerações e ao
mesmo tempo uma identidade histórica comum aos moradores da região. (ST29)

Ronaldo Cardoso Alves (Doutor/UNESP-Assis)


Discussões em torno da função pública da História: o Laboratório de Estudos e Pesquisas
em Didática da História – LEPEDIH-UNESP/Assis
A comunicação tem como objetivo apresentar alguns elementos que deram origem ao
Laboratório de Estudos e Pesquisas em Didática da História da UNESP/Assis - LEPEDIH,
a fim de mostrar diferentes possibilidades de pesquisa em Ensino de História, por meio
do repertório epistemológico da teoria da consciência histórica (RÜSEN, 2001),
proveniente da Didática da História, tendo em vista a discussão a respeito da função
pública da História. Era necessário construir um espaço de experiências novo na UNESP-
Assis, com a finalidade de abrir um horizonte de expectativas (KOSELLECK, 2006) para a
pesquisa em ensino de História e a qualificação da formação de professores-
historiadores. Uma série de frentes de trabalho relacionando as três áreas que compõem
o sustentáculo da universidade - o ensino, a pesquisa e a extensão (ALVES, 2014) – se
constituiu para, paulatinamente, promover a compreensão de que o Ensino de História
apresenta uma plêiade de possibilidades de pesquisa dada sua característica de ser região
de fronteira entre a História e a Educação (MONTEIRO; PENNA, 2011). (ST23)

Rosane Siqueira Teixeira (Pós-doutoranda)


Imigração de trabalhadores estrangeiros no Nordeste, final do século XIX e início do XX.
No Nordeste, o tema da imigração de trabalhadores estrangeiros, do final do século XIX e
início do XX, ainda não recebeu a devida atenção da historiografia. Talvez porque seja
ponto pacífico, entre os estudiosos da questão da mão de obra, afirmar que havia mais
disponibilidade de braços do que uma falta absoluta deles e, desse modo, a lavoura
nordestina podia prescindir do trabalho do imigrante. Esta comunicação tem por
interesse identificar os debates sobre imigração travados no âmbito das classes
dominantes dos estados nordestinos, para descobrir se houve interesse em introduzir
trabalhadores estrangeiros e se esse intento foi concretizado. Averiguou-se que a
disponibilidade de braços era relativa e, mesmo passando por experiências malsucedidas
com imigrantes, a classe dominante tinha expectativas na introdução de trabalhadores
estrangeiros por meio da imigração espontânea. (ST39)

Rosangela Ferreira Leite (Pós-doutora/UNIFESP – Guarulhos)


Escalas, Bens e Créditos, Rio de Janeiro 1808- 1821
Esta comunicação tem por objetivo analisar os conceitos e as práticas de escalas, bens e
créditos, na praça comercial do Rio de Janeiro, no período entre 1808 e 1821. Três ordens
de acontecimentos interligados favorecem este exame: as relações diplomáticas entre
Portugal e Grã-Bretanha, a partir da transferência da Corte Portuguesa para o Brasil; a
entrada de novos produtos, em consequência da abertura dos portos às nações amigas; e
a alavancagem do mercado de créditos neste contexto de transmigração. Todos estes
fatores são analisados pelo viés que assinala a fecundação de novas práticas de consumo
em meio aos rearranjos político-econômicos que testemunharam a formação do Brasil
Contemporâneo. (ST39)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 173

Rosiléia Santana Da Silva (Mestranda)


Teresa Cristina Silva De Souza Souto (Pós-graduada)
Luiz Marcio Santos Farias (Doutor/UFBA)
Por que não posso ensinar a origem do mundo e do homem a partir do mito yorubá? Em
busca de ecologia para a origem do mundo e do homem na cosmogonia yorubá, no ensino
de história do 6º ano
Afinal, qual a importância do mito para os povos da diáspora e comunidades tradicionais
africanas? Qual a relevância epistemológica, para o ensino de História, ao abordarmos
sobre a Origem do Mundo e do Homem na perspectiva cosmogônica yorubá? As
questões manifestadas partem de uma pesquisa em andamento, “Os Mitos da Origem do
Mundo e do Homem: a Cosmogonia Yorubá como uma proposta didática para a
explicação dos mitos da origem do mundo e do homem no ensino de História do 6º Ano,
onde buscamos espaços, ensino e funcionalidade de saberes oriundos das populações
supracitadas. O presente artigo tem a proposta de apresentar resultados parciais da
referida investigação, sem, contudo, respondê-los, mas, contextualizá-los histórica e
epistemologicamente como o conceito Mito, para explicar a origem do mundo e do
homem, foi/é dinamizado do contexto acadêmico para o escolar, desde o início da sua
institucionalização. Compreender e explicar como se deu a origem do mundo e do
homem é uma das sagas humanas desde que o homem passa a ter consciência de si no
mundo, e ao propormos construir propostas didática para a educação básica com essa
temática, percorremos o desafio de ruptura epistemológica alicerçada na perspectiva
eurocêntrica, no caso contextual, de base científica. A mola que alavanca a discussão
surge por considerar a existência de efetivas lacunas no processo didático do ensino de
História, no que se refere à implementação de saberes oriundo das populações africanas
e afro-brasileiras, culminando na não garantia do ensino referente e, consequentemente,
na não efetivação da lei 10.639/03. A pesquisa é alicerçada na base teórica da Teoria
Antropológica do Didático – TAD - de Yves Chevallard (1999), na qual trazemos à
reflexão as implicações didático-epistemológica de referência, ao longo dos seus quinze
anos, no ensino, considerando um Modelo Epistemológico Dominante, mesmo diante de
relevantes trabalhos acadêmicos, que repercute nas práticas de professores presentes nas
instituições escolares. Utilizamos a Engenharia Didática como metodologia, e diante das
suas finalidades propomos mecanismos didáticos referendados na TAD, onde a mesma
nos propõe uma ruptura epistemológica restritiva que contribua na prática efetiva e na
presença constante dos saberes referentes em sala de aula. (ST02)

Rui Campos Dias (Mestrando)


As relações entre conteúdos digitais de história dos PNLDs 2014, 2015 e 2016 e a história
pública: reflexões iniciais.
Nosso objetivo com o presente trabalho é apresentar algumas reflexões iniciais de
pesquisa sobre as relações entre conteúdos educacionais digitais de história (vinculados
aos livros didáticos de história adquiridos no Programa Nacional do Livro Didático de
2014, 2015 e 2016) e a história pública. A pesquisa encontra-se na fase inicial e
corresponde ao mestrado em História Social da Universidade Estadual de Londrina, com
o título “As apropriações dos professores de história dos conteúdos digitais dos PNLD
2014, 2015 e 2016”. As reflexões referem-se ao livro didático e aos conteúdos educacionais
digitais como ferramentas para difundir o conhecimento histórico para amplas
audiências, para além dos historiadores profissionais. O objeto de estudo, ou seja, os
OED e os livros didáticos digitais são importantes em uma sociedade mediada pela
cultura midiática/tecnológica, e nos interessa saber na pesquisa concluída, as
apropriações que os professores fazem deste material, além de relacionar o alcance
desses conteúdos de história para outros públicos, já que eles ultrapassam as fronteiras
do ensino superior. Por ora, vamos analisar os editais e guias dos PNLDs como

Associação Nacional de História – Seção São Paulo


XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 174

documentos representantes dessa política pública e, assim, procurar entender qual seria
a proposta desses documentos envolvidos nas prescrições, para posteriormente
investigar se o que se prescreve é aceito, assimilado, praticado, entendido ou mesmo
transgredido pelo professor no âmbito do processo de construção do conhecimento
histórico em sala de aula. (ST23)

Sandra Maret Scovenna (Mestre)


Nas Entrelinhas do Riso: as crônicas humorísticas de Belmonte na primeira metade da
década de 30.
O objetivo da apresentação desse trabalho de mestrado é propor uma análise do
contexto histórico dos anos 30 e das crônicas humorística de Benedito Bastos Barreto, o
Belmonte. Procuramos, também, estabelecer diálogos entre as possibilidades abertas pela
análise do trabalho literário de Belmonte e o ensino de história na educação básica.
Minha dissertação de mestrado almejou analisar a produção literária de Belmonte,
escrita entre 1932 e 1935, e teve como eixo as temáticas mais constantes na escrita de
Belmonte: a rejeição do governo de Getúlio Vargas e do Nazi-fascismo e as severas
críticas à modernidade técnica.
Em suas críticas ao Nazi-fascismo, elaboradas na primeira metade da década de trinta do
século passado, o cronista demonstrou precocidade e ineditismo frente aos jornalistas e
jornais paulistas da época, sendo que estes tendiam a se calar ou a demonstrar simpatia
perante a ascensão dos governos Fascistas de Hitler e Mussolini. Essa apresentação para
a ANPUH de 2016 pretende apresentar um panorama geral da época, da história dos
jornais paulistanos, e as concepções do escritor com relação ao Nazi-fascismo.
E, ao elaborar críticas à modernidade técnica, sugerimos que Belmonte não apenas
repudiava o incrível potencial bélico demonstrado com ineditismo na Primeira Guerra
Mundial, como também apontava para a complexa e problemática modernização da
cidade de São Paulo, assim como a aspectos atribulados da sua história recente. (ST16)

Sandro Heleno Morais Zarpelão (Doutorando)


Os jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo no processo de construção da
legitimidade da Guerra Videogame, no Brasil (1990-1991)
Em 17 de janeiro de 1991, os céus de Bagdá, no Iraque, viram os primeiros mísseis da
coalizão de 34 países, liderada pelos Estados Unidos, caírem sobre a cidade. As baterias
antiaéreas iraquianas passaram a rechaçar o ataque estadunidense cujas imagens foram
captadas ao longo dos dias subsequentes pelas lentes televisivas da CNN como se fosse
uma Guerra Videogame. Ressalta-se que era uma época de profunda agitação marcada
pela Queda do Muro de Berlim, em 1989, seguida por revoluções no Leste Europeu, a
unificação alemã e a implosão da URSS, em 1991, fatos que prenunciavam o final do
Mundo Bipolar. A euforia da economia de mercado, do neoliberalismo e da democracia
representativa marcaram as relações internacionais da década de 1990. Os jornais dos
Estados Unidos, da Europa Ocidental e da América Latina alardeavam o fim iminente da
Guerra Fria e o “fim da História”, defendido por Fukuyama. O ataque à Bagdá marcou o
início da Guerra do Golfo, quando os Estados Unidos colocaram em movimento a sua
máquina militar, por meio da Operação "Tempestade no Deserto" contra o Iraque. Era a
Doutrina Powell sendo aplicada no campo militar e estratégico. Para vários meios de
comunicação, televisivos, radiofônicos e impressos, a guerra era justa e legítima e pouco
se discutiu se ela era realmente necessária e inevitável. Mesmo estando longe do teatro
de operações, no caso o Oriente Médio, no Brasil havia grande apreensão, curiosidade e
medo com relação ao embate no Golfo Pérsico. Nesse sentido, dois dos maiores jornais
brasileiros, em 1990 e 1991, no caso “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, cada
um a sua maneira ajudaram no processo de construção da legitimidade do citado conflito
no Brasil. O objetivo do trabalho, então, é analisar, por meio de metodologia

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 175

comparativa, como os mencionados meios de comunicação escritos auxiliaram no


processo de construção de legitimidade sobre a Guerra do Golfo em território brasileiro.
Para tanto, será feita uma análise de como a imprensa brasileira escrita, no caso os
jornais "O Estado de São Paulo" e "Folha de São Paulo" fizeram a cobertura do conflito no
Kuwait e no Iraque. A metodologia empregada foi a análise comparativa, por meio de
História Comparada, de referências que se debruçam sobre a política externa dos EUA e
sobre a histórias dos jornais O Estados de São Paulo e Folha de São Paulo. (ST34)

Sávio Luis Stoco (Doutorando)


Identidade, política e rios do Alto-Amazonas: o pano de boca de Chrispim do Amaral no
Teatro Amazonas
Nesta apresentação pretendo abordar a constituição do discurso sobre um marco natural
que se relaciona à Manaus e foi representado por meio de uma série de obras, sobretudo
visuais, a partir de meados do século XIX. Para isso analisarei uma das poucas pinturas
monumentais encomendadas pelo governo do Amazonas, o pano de boca do Teatro
Amazonas (c. 1897), que tematiza e exalta o encontro das águas dos rios Negro e
Solimões. Uma imagem produzida na época de crescimento econômico por conta da
exportação internacional da borracha e que se relaciona ao projeto da elite amazonense
de forjar uma identidade local, atualizando a tradição colonial de enaltecimento da
natureza. Empreendida por Chrispim do Amaral (1858-1911), artista pernambucano
radicado em Belém, esta grande pintura demarca a geografia, descrevendo o local e
articulando significados por meio de figuras alegóricas. O problema da “leitura” desta
obra parece se esclarecer ao considerarmos a provável referência do pintor a um verbete
do Diccionario topographico, histórico, descriptivo da comarca do Alto-Amazonas
(1852), escrito pelo militar baiano e sócio do IHGB, Araújo Amazonas (1803-1864). Ele
também distingue, descreve e alegoriza a confluência dos rios, criando uma imagem
textual de notável proximidade com a tela. Além disso, é significativo este cotejo por ser
um livro realizado durante o período de emancipação do Estado, e, com o passar dos
anos, este volume ter se notabilizando não apenas como fonte de informações para a
intelectualidade manauense, mas por contribuir na formação identitária daquela região
demarcando as particularidades da região do Alto-Amazonas em diferenciação ao Pará.
Tal intertextualidade nos falaria da intensão desta elite de se remeter à independência
política estadual por meio de monumentos urbanos; noção reforçada ao observarmos o
diálogo entre o TA, o Monumento de Abertura dos Portos (do rio Amazonas) e o que
homenageia o primeiro governador amazonense Tenreiro Aranha (atuante em 1852). A
partir dessa análise, histórica e estética, buscaremos aprofundar as compreensões sobre
os desejos de representação da sociedade financiadora do TA por meio da tradição que
ela engendrou, contornando a carência de documentação sobre o contrato e o projeto de
Amaral. Esta investigação integra o esforço geral de traçar a genealogia dos discursos
visuais amazônicos que vão em direção aos longas-metragens realizados, nos anos 1920,
pelo cineasta português radicado em Manaus Silvino Santos (1886-1970) e que
narrativizam grandes viagens pelos rios da região. Estas obras exaltaram a natureza
abordando o comércio regional, financiadas por capitais de instituições envolvidas na
política do final do XIX, como a principal delas, a empresa J. G. Araújo & Cia. (1877).
(ST10)

Selma De Araujo Torres Omuro (Doutora)


A questão racial nas letras das canções populares brasileiras
O artigo analisa a percepção da questão do preconceito racial no Brasil no conteúdo das
letras de canções populares que fizeram sucesso no país ao longo do século XX. Faz-se
um paralelo entre a produção da música popular brasileira e as análises sociológicas que
explicam a relações raciais no Brasil, ora contribuindo para a construção do “mito da

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 176

democracia racial”, ora desmistificando-o. A questão racial foi um tema crucial na


construção da identidade nacional brasileira e esteve sempre presente na obra dos
intelectuais brasileiros e na produção artística e cultural da população. É possível
identificar elementos do chamado “mito da democracia racial”, construção ideológica
que afirma que não há racismo no Brasil, nos versos de canções como “Aquarela do
Brasil” (Ary Barroso, 1939) e “Brasil Pandeiro” (Assis Valente, 1941). Da mesma forma,
localiza-se elementos de desconstrução desse mito nas músicas “A mão da limpeza”
(Gilberto Gil) e “Haiti” (Caetano Veloso, 1992). Na análise destas produções musicais
pode-se perceber o diálogo com a produção acadêmica de sociólogos como Gilberto
Freyre (Casa Grande & Senzala, 1933) e como Florestan Fernandes (A integração do negro
na sociedade de classes, 1964), refletindo os dilemas da questão racial no Brasil. (ST26)

Senia Regina Bastos (Doutora/Anhembi Morumbi)


Refugiados e deslocados de guerra em São Paulo nos anos 1950
Após a finalização da Segunda Guerra Mundial a imigração foi retomada no Brasil com o
objetivo de dinamizar o progresso do país sem, no entanto, comprometer os interesses
do trabalhador nacional, preservando a composição étnica e a ascendência europeia. O
artigo versa sobre os refugiados e deslocados de guerra que entraram durante o período
1947 a 1951, valendo-se de levantamento bibliográfico, do banco de dados que reúne
registros de estrangeiros que se encaminharam à Hospedaria do Imigrante de São Paulo
nesse período e prontuários do Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS).
Elabora um perfil desse grupo oriundo dos campos de refugiados da Alemanha e da
Áustria, cujas trajetórias são perseguidas nos prontuários do DEOPS. (ST39)

Silene Ferreira Claro (Doutora/Faculdade Sumaré e Faculdades Integradas Campos


Salles)
Representações da Colônia Portuguesa na América no filme Caramuru - a invenção do
Brasil
Durante as comemorações dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil ocorreram
várias manifestações comemorativas. Dentre elas destaca-se a minissérie, depois
transformada em longa-metragem, Caramuru - a invenção do Brasil. Trata-se de uma
adaptação da epopeia escrita no século XVIII pelo religioso Santa Rita Durão e que
pretendia ser para a América Portuguesa o que Os Lusíadas era para Portugal. Desta
forma esta análise procura identificar e discutir como a obra de Guel Arraes interpretou
os escritos oitocentistas, num contexto comemorativo. (ST34)

Silvia Helena Zanirato (Pós-doutora/EACH – USP)


Os sentidos de tempo, espaço e interdisciplinaridade e a História Ambiental
O objetivo da comunicação é o de discutir como os historiadores têm abordado a
temática ambiental, considerando os desafios epistemológicos que se apresentam para o
desenvolvimento desse tipo de história. Os problemas mais relevantes, ao nosso ver, se
expressam na forma como a disciplina história é pensada, como o tempo e o espaço são
tratados nessa escrita e como a interdisciplinaridade se apresenta em produções
históricas que tratam com temas socioambientais. (ST37)

Simone Andriani Dos Santos (Mestre)


Senhoras e criadas: representações femininas, São Paulo (1870-1920)
Este trabalho tem o objetivo de analisar as representações de patroas e empregadas
domésticas presentes em manuais femininos de prescrição de comportamento,
publicados entre as décadas 1870 e 1920. Tais obras circularam pela cidade de São Paulo,
em um momento em que as mudanças advindas com os novos hábitos de consumo,
intensificados pela modernização da infraestrutura e diversificação das atividades e

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 177

agentes urbanos, foram aprofundadas e disseminadas. A capital paulista se tornou um


grande atrativo para aqueles em busca de emprego. O serviço doméstico absorveu
grande parte dos desempregados, sobretudo mulheres e crianças, que passaram a
trabalhar como cozinheiras, criadas, lavadeiras, passadeiras, arrumadeiras, copeiras,
amas-de-leite e amas secas, pajens e ajudantes.
Destinados sobretudo ao público leitor feminino, os manuais prescritivos de conduta
ensinavam o que era ser uma mulher elegante, educada e civilizada, prescreviam ações
em eventos sociais e festas, davam dicas de higiene (pessoal e da habitação), ajudavam a
organizar a rotina de trabalhos domésticos, forneciam informações sobre como tratar os
empregados e, sobretudo, informavam o que era ser uma boa mãe, esposa e
administradora do lar. Ao se pensar os preceitos veiculados por meio de tais obras e a
forma como buscavam transmitir um ideal de comportamento à mulher, pode-se dizer
que eles contribuíram para a construção de representações e papeis sociais destinados ao
gênero feminino.
Analisando como patroas e empregadas eram representadas em tais obras, observa-se
que elas eram retratadas de forma distinta, quase de forma oposta. Dessa forma, a
intenção é refletir sobre as distinções feitas dessas mulheres. Considera-se que o uso
desse recurso tinha a função de engajar as leitoras dos manuais no papel de mãe, esposa
e dona de casa. Fazendo a intersecção entre diferentes categorias de análise das
diferenças, além da de gênero, pretende-se contribuir para o debate frente ao
ressurgimento de ideologias conservadoras. (ST25)

Sônia De Oliveira Camara Rangel (Pós-doutora/UERJ)


Debates em torno da criação dos tribunais para crianças no jornal A Gazeta de Notícias
nas décadas de 1910 a 1920
Antenados com os debates produzidos na Europa e nos Estados Unidos da América do
Norte, a intelectualidade brasileira leitora das ideias e matrizes em circulação
internacional, a partir de finais do século XIX, refletia quanto à pertinência dos modelos
para se pensar a realidade da infância. Pensaram acerca dos problemas envolvendo a
miséria moral e material do ambiente, as influências maléficas da imprensa, do cinema,
das profissões perigosas, da rua, do industrialismo, como também dos elementos
constitutivos de nossa formação racial. Nessa perspectiva, debates foram mobilizados
pela imprensa quanto a criação de instituições destinadas a julgar, a preservar e a
regenerar à infância considerada degenerada, nas primeiras décadas do século XX. O
destaque atribuído ao tema deveu-se, em parte, às precárias condições de funcionamento
das instituições prisionais e de correção existentes no país e, de outro, à repercussão e o
entusiasmo que as ideias apresentadas no Primeiro Congresso Internacional dos
Tribunais da Infância, realizado em Paris, em 1911, produziram sobre a intelectualidade
brasileira. Nessa direção, o jurista Athaulpho de Paiva publicou no Jornal do Comércio, o
artigo A Nova Justiça. Os Tribunais para Menores, em que além de enaltecer as
proposições apresentadas, conclamava os poderes instituídos a colocarem o Brasil no
“trilho da modernidade e do progresso”. Para efeito desta comunicação, interessa-nos
compreender os efeitos advindos com esses debates e, em particular, do inquérito,
intitulado: Tribunais para a Criança, publicado pelo jornal carioca, A Gazeta de Notícias,
durante o mês de maio de 1911. Numa campanha de mobilização dos poderes públicos e
dos setores organizados da sociedade, o jornal iniciou o inquérito, convidando
personalidades, a exemplo de: Maurício de Medeiros, Astolpho Rezende e Alfredo Pinto.
Com a publicação do inquérito esperava-se agenciar uma campanha de mobilização a fim
de propor soluções para os problemas que envolviam, por um lado, o abandono e a
delinquência infantil e, por outro a criação de instituições especificas para o atendimento
à infância. O movimento assentava-se no intuito de se instituir mudanças na justiça,
organizando instâncias referendadas nos pressupostos advindos com o Novo Direito. A

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 178

proposta que agitou o meio jurídico, ao qual o inquérito do jornal foi expressão,
mobilizou a circulação de notícias pela imprensa carioca, durante as décadas de 1910 e
1920. Esse movimento objetivava, com isso, afastar a criança da área penal em prol de
uma reforma que perspectivasse a sua tutela, proteção e regeneração em instituições
educativas especificas. Esta intenção se materializou, em 1927, com a aprovação do
Código de Menores, primeira legislação brasileira neste campo.
(ST01)

Sueli Soares Dos Santos Batista (Pós-doutora)


“Fazendo de pequenos indígenas, agricultores esclarecidos”: análise dos relatórios de
atividades das escolas do Serviço de Proteção aos Índios nas décadas de 1950 e 1960.
O recorte temporal da pesquisa apresentada neste artigo é o período concernente às
décadas de 1950 e 1960, período em que se teve a elaboração de um primeiro plano
educacional para as comunidades indígenas no Brasil e as primeiras iniciativas em
termos de formação de professores para suas escolas. O corpus documental analisado se
refere a relatórios de atividades escolares produzidos pelos postos indígenas e
encaminhados às inspetorias regionais do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) neste
período. Estes relatórios se constituem de listas de presença dos alunos, provas
realizadas pelas crianças indígenas e observações gerais sobre o rendimento escolar
escritas pelos auxiliares de ensino. O objetivo deste estudo é aprofundar sobre a
educação escolar indígena no período do SPI tematizando e problematizando o que
seriam as propostas e contradições destas propostas no que diz respeito às relações entre
educação e trabalho. Se pensarmos apenas nas rupturas entre educação indígena
promovida desde a colonização até as experiências recentes da Funai antes dos anos 80
em contraposição às atuais propostas de interculturalidade, vamos deixar de avaliar quão
problemático é introduzir em comunidades tradicionais conceitos de valorização do
trabalho e aproveitamento do tempo livre, valorações de caráter capitalista que só têm
sido incrementadas ao longo do processo de escolarização das crianças indígenas e não
indígenas. (ST01)

Sylvia Xavier (Pós-graduanda)


Currículo de Educação de Jovens e Adultos
O artigo é uma parte da pesquisa realizada durante o mestrado sobre a história do
currículo de Suplência, tendo como fonte o boletim — Xerete! — produzido pelo Curso
Supletivo do Colégio Santa Cruz (CSC), em São Paulo, SP, entre os anos de 1983 e 1991.
Esse boletim faz parte do acervo colecionado nesse curso, desde 1974. O Xerete! constitui
parte da reflexão sobre a dinâmica do projeto político-pedagógico que elabora propostas
que visam criatividade, consciência política e atuação social. Escrito por professores,
direção e coordenação, relata, determina, analisa e avalia práticas focadas em
habilidades, valores e atitudes que propiciem a ampliação de horizontes de reflexão e da
participação no mundo letrado. A consistência desse supletivo é legitimada no diálogo
com movimentos sociais e políticos brasileiros e internacionais, reflexões acadêmicas e
no envolvimento dos alunos. A análise identifica os temas pedagógicos que constam nos
Xeretes! e o que se quer modificar em relação ao currículo. O que propõem os autores,
quais imposições surgem e que táticas e estratégias ocorrem. Desde o estabelecimento
das funções da suplência, na década de 1970, a prática pedagógica fez desse curso, o lugar
da contestação da suplência e do currículo escolar prescritivo. Ao concebê-lo como lugar
social de recuperação de tradições culturais e de estímulo à continuação dos estudos,
para aqueles que são excluídos econômica e culturalmente, a bricolagem é constante.
(ST05)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 179

Taiane Vanessa Da Silva (Mestranda)


A investigação histórica no museu: considerações sobre o acervo de fontes orais do Museu
Histórico de Londrina
O presente texto é resultado de um projeto de mestrado – aprovado pelo Programa de
Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina – que tem
como objetivo geral estabelecer relações entre as temáticas de depoimentos presentes no
acervo de fontes orais do Museu Histórico de Londrina (MHL), localizado no norte do
Paraná, com a historiografia produzida sobre aquela região a fim de perceber possíveis
aproximações e/ou distanciamentos das entrevistas com as reformulações
historiográficas ocorridas ao longo do século XX. A pesquisa também visa compreender
como o MHL lida com a história de Londrina e do norte do Paraná e quais versões ele
dissemina. É válido ressaltar que a pesquisa da dissertação está em andamento e ainda
não apresenta resultados referentes da análise de fontes. Desta forma, serão
apresentados o caminho teórico e metodológico utilizado para a elaboração do projeto
assim como discussões pertinentes à investigação histórica em museus. Ao utilizar
depoimentos orais enquanto fontes de estudo, a pesquisa se embasa, principalmente, nos
conceitos de memória de acordo com Michael Pollak (1992), Pierre Nora (1993) e Maurice
Halbwachs (1990), e documento/monumento segundo Jacques Le Goff (1984), além de
estudos referentes a História Oral e ao tratamento de fontes orais. Também serão usadas
pesquisas voltadas para a preservação, investigação e comunicação de acervos
considerando os museus como espaços destinados à construção e disseminação de
conhecimento na sociedade. No que diz respeito ao método de seleção dos depoimentos,
será analisada a tipologia dos entrevistados – gênero, idade, profissão, entre outras
características – em busca de grupos hegemônicos delimitados pelo critério de saturação
proposto por Roque Moraes (2003). Em linhas gerais, a pesquisa visa problematizar o
acervo de depoimentos do MHL, suas relações com as reformulações historiográficas e,
consequentemente, memórias selecionadas que dizem acerca da representação da
história da cidade de Londrina e região construída pelo Museu. Além disso, almeja-se
ampliar a comunicação daquele acervo ao acesso futuro, justificando assim a sua
preservação. (ST18)

Thais Klarge Minoda (Graduado)


O jardim da Luz como cenário e paisagem nos cartões postais
Esta apresentação faz parte do primeiro capítulo da dissertação de mestrado e pretende
analisar a construção da paisagem do Jardim da Luz a partir dos projetos, remodelações
levadas a cabo pelo poder público, cartões postais e relatos de viajantes, com o intuito
de entender como o jardim foi concebido e projetado, vale dizer, quais as referências
estéticas e urbanas para o traçado, o mobiliário urbano e os elementos paisagísticos e em
que medida esses elementos materiais foram mobilizados por representações
iconográficas para a construção de modelos visuais capazes de enunciar formas de
sociabilidade. (ST10)

Thaís Schmidt Salgado Vaz De Castro (Mestranda)


A distinção pelo alimento a partir do habitus: considerações históricas
Este artigo discute os fatores que contribuem para a formação do gosto alimentar, como
este gosto funciona como um elemento de distinção entre as classes sociais e aponta
alguns momentos históricos onde isso acontece. Utiliza como principal norteador o
conceito de hábitus, de Pierre Bourdieu, além das contribuições de Jean Louis Flandrin e
Mariana Corção. O artigo inicia apontando como a alimentação se tornou foco dos
estudos históricos, a partir da década de 1970, com a História dos Annales. o primeiro
apontamento é em relação à pré-história, quando antes da sedentarização os indivíduos
estavam a mercê da geografia e da disposição dos alimentos próximos às aldeias. Com a

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 180

fixação do homem na terra e a descoberta da agricultura a disposição dos alimentos


também se modificou, de modo que o homem passou a ter o controle do que era
produzido e do que fazia parte de sua alimentação. Durante a Idade Antiga até o século
XVII, foi a medicina hipocrática influenciou as escolhas alimentares dos indivíduos, pois
relacionava a alimentação com a cura de doenças e o equilíbrio dos fluidos corporais e
até dos temperamentos. Depois disso, na Idade Média a forma de distinção pelo alimento
se dava com o serviço exagerado nas quantidades e a preocupação com a apresentação
dos alimentos. Quanto mais variedade e quantidade, mais riqueza se demonstrava. O
consumo de pão também era diferente entre os mais ricos e os camponeses. Os mais
abastados comiam pão branco feito com farinha branca enquanto os mais pobres
comiam pão preto feito com outros cereais pouco panificáveis. Situação que se inverteu
nos dias atuais, os mais ricos consomem pães não feitos com trigo e os pobres o pão
branco. Isso demonstra que as elites não mantêm um padrão de distinção, que os fatores
que apresentam a distinção das classes se moldam ao longo do tempo. As especiarias e o
açúcar, ambas do século XVII, mas em lugares deferentes, são exemplos de utilização do
alimento como fator de distinção social pela elite. Nos dias atuais as influências externas
continuam determinando o que se leva à boca, como as dietas de moda e da constante
gourmetização dos alimentos. A aquisição destas dietas ou de alimentos gourmetizados
se tornou um modo de distinção entre os indivíduos e entre as classes sociais. Além do
habitus, o conceito de memória de Jaques Le Goff contribui no que diz respeito à
formação do gosto individual, quando os sabores dos alimentos ofertados na infância
contribuem para determinar ou não o que é agradável de comer na vida adulta. Tanto o
habitus quanto a memória partilhada contribuem para a formação do gosto de
determinada classe, de determinado grupo. Dessa forma, estudar os hábitos alimentares
na história é compreender o processo de construção histórico por outro olhar, o
cotidiano. (ST22)

Thiago De Faria E Silva (Doutorando)


O caso do filme "Cabra Marcado Para Morrer": leituras fílmicas e ensino de História
O trabalho realiza uma análise das diversas leituras sobre o filme "Cabra Marcado para
morrer" (1984) em diferentes áreas do conhecimento e momentos históricos. Com isso,
pretende contribuir para ampliar as discussões sobre a Ditadura Civil-Militar nas aulas
de História. (ST16)

Thiago Fernando Dias (Mestrando)


A edificação do poder eclesiástico na Primeira Idade Média: o exemplo da Vita Caesari
Episcopi Arelatensis.
A partir do final do século V, a desordem provocada pelos recorrentes movimentos
migratórios dos germânicos – que remontam o terceiro século – e um prolongado tempo
de problemas militares, ocasionaram a desestruturação da unidade Imperial no
Ocidente. Com a transferência das insígnias imperiais para Constantinopla, o
estabelecimento de diversos reis germânicos por diversas regiões e o consequente
desmantelamento da unificada organização administrativa, exacerba uma crise de
autoridade estatal. Nesse momento, uma nova realidade foi posta diante da estrutura da
hierarquia eclesiástica, o que obrigou-a tomar medidas para garantir e propagar os
prestígios adquiridos anteriormente. Nesse novo contexto, como elemento para suprir a
falta da autoridade anteriormente estabelecida, a autoridade episcopal começa a ser
ainda mais notório. O bispo, muitas vezes considerado homem santo –
consequentemente uma autoridade na hierarquia eclesiástica – desempenhou um papel
de destaque como liderança política, econômica e administrativa de diversas regiões.
Este processo foi visível no sul da Gália, sobretudo na Provença, que no fim do século V e
início do VI, passou por conflitos e mudanças que proporcionaram um prestígio ainda

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 181

maior para os prelados da região, especialmente para o bispo de Arles, Cesário, prelado
que atuou por mais de trinta anos na cidade e teve constante ligação com os governantes
germânicos. Deste modo, a comunicação pretende apresentar algumas características da
edificação do bispo como um líder citadino que conseguiu assimilar e desempenhar
vários papéis dentro de suas funções eclesiásticas. (ST38)

Thiago Henrique Sampaio (Mestrando)


Novos tempos, novas formas de dominação: a construção do caminho de ferro de Beira em
Moçambique (1891-1897)
Os caminhos de ferro tornaram-se um dos símbolos da modernidade e do avanço
industrial no século XIX. Em finais de Oitocentos, as ferrovias passaram a ser utilizadas
não com propósitos meramente econômicos, mas também coloniais. Sendo uma forma
de ocupação e integração de territórios até então incontroláveis pelas metrópoles em
outros continentes. Normalmente, eram construídos para ligar o hinterland de uma
localidade ao porto mais próximo para vazão da produção. No caso do caminho de ferro
de Beira, sua construção buscou uma integração regional de Moçambique com outros
territórios da África Central, pois serviria para escoar a produção destas localidades. O
presente trabalho tem por objetivo analisar a construção do caminho de ferro de Beira
em Moçambique, na última década do século XIX, como instrumento de dominação de
um território que até então despertava pouco interesse para a política colonial
metropolitana. (ST02)

Tiaraju Pablo D'andrea (Doutor)


Samba raíz e redemocratização
A comunicação que este resumo propõe pretende problematizar o denominado samba
de raíz entre os anos 1984 e 1990, período marcado pelo processo de redemocratização
no Brasil e pelo denominado “ascenso do movimento de massa”.
Esta apresentação se enquadra em uma pesquisa em andamento que visa entender o
estabelecimento de três gêneros musicais populares e sua relação com determinado
período sócio-histórico, a saber: o samba no segundo quinquênio da década de 1980; o
rap na década de 1990 e o funk no correr dos anos 2000. Para tanto, leva-se em
consideração as camadas populares urbanas de São Paulo e Rio de Janeiro.
Com relação ao samba de raíz, a hipótese que embasa a pesquisa é a de que esse gênero
foi popular nesse período devido ao seu discurso potente e adequado àquele momento
histórico. Unindo a percussividade de suas matrizes africanas com melodías típicas da
forma canção, parece que este sub-gênero do samba possuiu a forma mais bem acabada
musicalmente para expressar o otimismo e as esperanças do país naquele momento
(TROTTA, 2011; BRAZ, 2013).
Já na década de 1970, marcada pelo estabelecimento de gêneros musicais estrangeiros
cuja tônica eram os bailes blacks, alguns sambistas repensaram o posicionamento do
samba enquanto gênero popular e nacional. Neste âmbito, cabe destacar a pauta pública
colocada pelo sambista Candeia, quando da fundação por este da escola de samba
G.R.A.N. Quilombo, e João Nogueira, fundador do Clube do Samba.
Ao que parece, estes movimentos pioneiros acabam por ganhar potencialidade na década
de 1980 e por obra de outros sambistas, que conseguiram recolocar o samba em um lugar
de destaque no cenário musical brasileiro, numa espécie de “volta por cima do samba”.
Trata-se aqui do samba de partido alto, defendido e interpretado por sambistas como
Beth Carvalho, Leci Brandão, Zeca Pagodinho e Fundo de Quintal, estes últimos
liderando o movimento cultural originado nas rodas de samba do Clube Cacique de
Ramos, no começo da década de 1980 (LOPES, 2008).
Em síntese, o objetivo desta comunicação é apresentar a relação entre a importância do
samba no período de redemocratização do país, vinculando-o ao imaginário popular

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 182

daquele momento histórico, bem como problematizar algumas letras desse gênero
musical que retratavam a organização popular e as esperanças que se abriam naquele
período. (NAPOLITANO, 2007). (ST26)

Tony Hara (Doutor)


Sobre o cinismo de massa: escolher a vida ou participar da festa dos suicidas?
Existe hoje em dia um tipo de cinismo difuso que pouco tem a ver com os antigos
filósofos cínicos, discípulos de Antístenes e de Diógenes. A partir de abordagens
diferentes, Peter Sloterdijk (Crítica da Razão Cínica) e Michel Onfray (Escultura de Si e
Cinismos) investigam esse conformismo astuto, imprescindível para o funcionamento
das sociedades de massa. Onfray sem meias palavras: Os novos cínicos “ilustram a mais
radical das imoralidades. Sem ética que os sustente, sem valores que os estilizem, não
hesitam em praticar o desvio do termo, a fabricação de uma reputação de cobertura, a
promoção de um ideal teórico indexado segundo a encomenda do maior número.”
Sloterdijk: “o cinismo é a falsa consciência esclarecida”. O cínico moderno sabe, mas não
age de acordo com o que sabe, por imposições da sobrevivência, desejo de conforto, de
autoafirmação, etc. Essa comunicação gira em torno de duas perguntas: O “empresário
de si mesmo”, figura visada por Michel Foucault, é um novo cínico? A rememoração dos
gestos filosóficos de Diógenes, Antístenes, dos cínicos antigos, é útil para resistir aos
cinismos de agora? (ST45)

Uassyr De Siqueira (Doutor)


Música caipira e política em João Chiarini (Piracicaba, 1940-1950)
João Chiarini nasceu em 1919, na cidade de Piracicaba. Entre 1942 e 1943, cursou
sociologia na Escola Superior de Sociologia e Política de São Paulo. Nas décadas de 1940 e
1950, escreveu vários artigos sobre folclore na imprensa piracicabana, abordando gêneros
como o cururu e a moda-de-viola. Em 1945 se filiou ao Partido Comunista Brasileiro
(PCB) e, no mesmo ano, foi fundador do Centro de Folclore de Piracicaba, organização
criada como o intuito de preservação e difusão do folclore, mas também com contornos
políticos. Em 1948 Chiarini foi nomeado membro da Subcomissão de Folclore do Estado
de São Paulo.
O que pretendemos abordar na comunicação são as análises de João Chiarini sobre a
música caipira durante as décadas de 1940 e 1950, período de intensificação do
denominado Movimento Folclórico Brasileiro. Escrevendo sobre o folclore regional,
abordou sobretudo o cururu e a moda-de-viola, gêneros pertencentes ao universo
musical caipira. Participando da organização e da direção de uma associação folclórica,
Chiarini também dialogou com outros intelectuais, como Mario de Andrade, deixando
também a marca de suas concepções políticas em suas análises sobre o folclore,
concepções essas certamente relacionadas à sua militância no PCB. Se posicionou ainda
enquanto um ávido defensor das manifestações da cultura regional, defendendo certas
tradições da música caipira num momento em que ela passava por um processo de
consideráveis transformações. No exercício de suas atividades, deixou valiosas
informações sobre o cururu e a moda-de-viola, sobretudo as relacionadas ao perfil social
dos violeiros e cantadores. (ST26)

Valdir Donizete Dos Santos Junior (Doutorando)


Viajar, colonizar, comparar: a dimensão comparativa da colonização europeia e da
escravidão nas Américas nos relatos de viagem de Michel Chevalier (1833-1836)
Os temas da colonização e da escravidão podem ser considerados tópicos centrais na
constituição da história e da historiografia das Américas pelo menos desde os processos
emancipatórios ocorridos no subcontinente a partir dos anos iniciais do século XIX. Tais
questões foram debatidas em grande medida não somente por intelectuais, políticos e

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 183

representantes de outros setores sociais das diversas nações americanas, mas também
pelos estrangeiros que estiveram no Novo Mundo, particularmente durante o
Oitocentos. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é discutir a construção de uma
abordagem sobre essas temáticas nos relatos de viagem escritos pelo engenheiro e
economista saint-simoniano francês Michel Chevalier, que visitou os Estados Unidos,
Cuba e o México entre os anos de 1833 e 1835, publicando seu célebre relato "Lettres sur
l'Amérique du Nord" no ano de 1836. A discussão aqui proposta visa compreender a
utilização do recurso comparativo pelo autor como forma de defender projetos políticos
específicos a respeito dos temas da colonização e da escravidão. Além de verificar a
presença da comparação em sua abordagem, pretende-se demonstrar sucintamente
como muito do que se argumentou no início do século XIX sobre esses temas contribuiu
para formular chaves interpretativas acerca dessas questões que adentraram o século XX,
forjando perspectivas que posteriormente se tornaram muito difundidas em relação às
temáticas da colonização das Américas pelos europeus e da escravidão africana no
continente. (ST32)

Valéria Regina Zanetti (Doutora/UNIVAP)


Memória das estâncias climáticas de São José dos Campos e Campos do Jordão (1920 a
1950)
Como seriam as relações de convívio num município que se torna estância de tratamento
da tuberculose? Como a população do local convive com a população de doentes em
busca de tratamento? Que relações se estabelecem entre os espaços de tratamento e os
espaços públicos da cidade? Como se estabelecem relações de convívio entre doentes e
sãos? Essas e outras questões são objetos de estudo de uma pesquisa financiada pela
Fapesp com a finalidade de entender as práticas cotidianas estabelecidas nos espaços das
estâncias climáticas de São José dos Campos e Campos do Jordão no inicio do século XX,
quando os dois municípios foram importantes centros de tratamento da tuberculose e
sofreram rígida disciplina sanitária. Para a realização da pesquisa utilizou-se do recurso
da história oral a partir da coleta de depoimento de doentes, de moradores ou de pessoas
que viveram a realidade das estâncias ou que, “por tabela” ouviram falar dela, ou seja,
viveram pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer. Por meio dos
depoimentos e da memória, compreendida como um fenômeno social e coletivo foi
possível entender o cotidiano das estâncias de tratamento, campos de permanente
tensão e disputas. (ST44)

Vandré Aparecido Teotônio da Silva (Doutorando)


Manhãs Literárias: o jornal A Manhã e as leituras poéticas do Estado Novo
O presente trabalho procura estabelecer as possíveis leituras da realidade política e social
durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945) valendo-se de publicações do jornal A
Manhã, Rio de Janeiro. O periódico, ressuscitado pelo regime autoritário do Estado
Novo, relacionava a produção artística de diversos campos da cultura (artes plásticas,
teatro, cinema, literatura etc.) com a cultura política oficial. Recriado em 1941, o
matutino foi dirigido pelo poeta Cassiano Ricardo, um dos grandes ideólogos da ditadura
getulista, o qual serviu a um projeto político de comunicação social oficial que buscava a
legitimação política do governo federal. Responsável por divulgar a cultura política
estadonovista, A Manhã serviu como porta-voz da produção artística carioca ao divulgar
em suas páginas publicações que eram carregadas de sentidos e mensagens direcionadas
aos leitores que tinham como um de seus objetivos a produção de um provável consenso
social sobre a ação política do regime nos mais variados campos da sociabilidade,
notadamente o da cultura. Nesse sentido, constatou-se a existência de um projeto de
comunicação social onde elementos da realidade política eram trabalhados para a

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 184

utilização de elementos poéticos que dialogassem com a realidade política e o projeto de


Brasil imposto pelo Estado Novo. (ST16)

Vanessa De Faria Berto (Doutora/UNESP)


À sombra de Francisco: representações e vocações religiosas medievais e contemporâneas.
As análises que abarcam a relação Gênero/ Religião ainda configuram um campo
pequeno e pouco explorado pela Academia brasileira. Nesse sentido, a proposta deste
trabalho, que configura parte de minha Tese de Doutoramento defendida e aprovada em
2015, é uma tentativa de contribuição para incentivar o preenchimento destas lacunas na
área das investigações científicas. A construção da imagem de monges e freiras –
enquanto pessoas calmas, silenciosas, obedientes e servis, recolhidas da multidão –
remete à Igreja Católica Medieval e seu Clero Regular, submisso às regras de suas Ordens
e isolado em seus Mosteiros. Tal representação ainda está presente, nos dias de hoje, nas
falas e nas práticas dos que se responsabilizam a estabelecer, oficialmente, o que é ser
um homem e/ou uma mulher a serviço de Deus. Contudo, o cotidiano nem sempre
comprova a teoria. Neste sentido, a partir da revisão bibliográfica acerca da literatura
centrada na representação das vocações masculina e feminina no Catolicismo,
especificamente, dentro da Ordem Franciscana, e tomando por base justamente o
mundo de significados que emerge do cotidiano da Ordem dos Frades Menores
Franciscanos e da Ordem das Irmãs de Santa Clara, ambas situadas na cidade de Marília-
SP, procurarei refletir sobre as dinâmicas das relações de gênero circunscritas a estes
espaços, onde decisões políticas são tomadas, e captar os “processos invisíveis” dos quais
homens e mulheres, membros do clero católico, se utilizam para subverter os diversos
obstáculos que inevitavelmente se interpõem em seus caminhos (significativamente, o
uso da violência simbólica), antes de alcançar os níveis nos quais a influência e a
autoridade são exercidas. (ST38)

Vera Regina Martins Collaço (Doutora/UDESC)


Aproximações e envolvimentos no ensino de História do Teatro
Eu ministro, no Curso de Licenciatura em Teatro, no Centro de Artes (CEART), da
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), uma disciplina denominada de
História do Teatro I. Nesta disciplina perpasso das origens, ao magnifico teatro grego, ao
desencanto com o teatro romano e a “ressureição” do teatro na Idade Média. Com um
total de 4 créditos, o conteúdo é ministrado na primeira fase do curso. Trabalho,
portanto, com os acadêmicos que estão iniciando suas atividades cênicas, e em sua
maioria muito jovens. Creio que já ministrei esse conteúdo umas 15 vezes ao longo de
minha carreira docente. E toda vez que vou começar um semestre me vem na mente a
juventude de meus alunos. E questões me envolvem, tais como: Como motivar e levar os
acadêmicos a se interessar pelo conteúdo histórico tão distante de sua realidade
contemporânea? Como faze-los adentrar nas tragédias gregas, nas comédias romanas e
na sacralidade do teatro medieval? Assim, a temática desse XXIII Encontro, História: por
que e para quem?, veio ao encontro da possibilidade de refletir sobre o meu trabalho.
Nesta comunicação pretendo expor alguns encaminhamentos que consegui trilhar no
sentido de alcançar a motivação e o envolvimento necessário para aproximar períodos
históricos distantes da problemática contemporânea. (ST27)

Verônica Karina Ipólito (Doutoranda)


O PCB sob o olhar da DOPS no paraná (1945-1953)
A pesquisa em tela analisa os mitos políticos modernos que se formaram na relação entre
a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS/PR) com o comunismo e atividades
desenvolvidas pelo Partido Comunista do Brasil (PCB) no Paraná durante os anos de 1945
a 1953. Ao realizar um trabalho meticuloso de vigilância e repressão, a polícia política não

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 185

somente coletou, registrou e ofereceu dados sobre suspeitos a outros setores ou


Delegacias Regionais, mas associou o comunismo a características negativas, atribuiu a
seus adeptos um alto grau de periculosidade e identificou na doutrina comunista
elementos que supostamente visavam destruir o mundo ocidental e seus valores. Tais
características contribuíram para a formação do mito da conspiração comunista, o qual
se alimentava da disseminação do medo de que o “inimigo vermelho” poderia estar em
todos os lugares, com grande força e blindado por suas características maléficas. O
aumento significativo da participação popular em discussões sobre temas variados
preocupava as autoridades, as quais não tardaram em confeccionar mecanismos jurídicos
destinados a minar a atuação de inimigos internos e externos. A Lei de Segurança
Nacional (LSN) de 1953 foi um desses dispositivos de intimidação. Promulgada pelo
Congresso e elaborada essencialmente pelo governo, a LSN de 1953 simbolizou o poder
de atuação do Executivo e seus esforços em ajustar a política pública de segurança. Para a
escrita do trabalho foram utilizadas fontes de natureza imagética, jornalística,
entrevistas, depoimentos, relatórios e demais evidências arquivadas no Fundo DOPS do
Arquivo Público do Estado do Paraná. O foco principal se concentrou no esforço de
identificar na documentação indícios de mitos políticos modernos, em especial o mito da
conspiração comunista. Pessoas comuns, militantes, agentes policiais, todos esses
personagens foram analisados de forma a demonstrar que os mitos políticos adquirem
roupagens diferenciadas em consonância com o pensamento que se deseja legitimar por
um indivíduo, instituição ou grupo. O imaginário articulado e disseminado pela polícia
política formulava imagens utilizadas para legitimar e justificar determinados sistemas
políticos e construir novas doutrinas. Tais imagens implicaram na concretização de
mitos, a exemplo do complô comunista, em razão dos bolcheviques serem considerados
um corpo estranho e prejudicial aos princípios de brasilidade e unidade nacional. (ST06)

Victor Callari (Mestre/FMU)


Imprensa, liberdade e segurança nacional na série Guerra Civil da editora Marvel Comics
As Histórias em Quadrinhos configuram-se como fontes cada vez mais profícuas nas
pesquisas em História ao permitirem uma leitura do contexto histórico em que foram
produzidas e como fontes capazes de veicular valores e projetos políticos de uma
determinada época, configurando, então, novas possibilidades de compreensão e
reflexão, seja sobre o passado distante ou até mesmo sobre o tempo presente, também
domínio da História. A série Guerra Civil publicada pela editora Marvel Comics, entre
2006 e 2007, caracteriza-se por ir além de um reflexo da sociedade que a produziu.
Constitui-se como uma tentativa de intervenção política da editora, uma vez que cobrava
seus leitores que escolhessem um dos lados na Guerra Civil dos super-heróis, uma
metáfora para o início do processo de polarização política da sociedade estudinidense,
consequência dos atentados ao World Trade Center, em 2001, e a adoção de políticas de
segurança nacional que limitavam as liberdades civis. No conjunto de revistas publicadas
pela editora, o embate entre as liberdades civis e a necessidade de segurança nacional são
o elemento fundamental da trama, e não foram apenas os super-heróis que foram
obrigados a se posicionar, mas a imprensa e, em última instância, os próprios artistas e a
editora. (ST16)

Victor Henrique Silva Menezes (Mestrando)


De Cinaedus Romulus à Bithynicam Reginam: os discursos acerca da virilidade de Júlio
César
A ser aceita a tradição historiográfica e literária antiga, Júlio César foi tido por alguns de
seus contemporâneos como o grande sedutor de matronas romanas e o amante de reis e
de rainhas. Ao ser visto dessa maneira ele foi alvo de chistes e olhares de censura por
parte de alguns de seus contemporâneos que seja por intuitos políticos, seja pelo mero

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 186

prazer de fazer mexericos, lhes ofereceram algumas alcunhas pejorativas. As mais


emblemáticas, por certo, foram a de “Rômulo efeminado” (cinaede Romule) dada pelo
poeta Catulo e a de “Rainha da Bitínia” (bithynicam reginam) oferecida por seu colega de
consulado, Bíbulo. Esses apelidos, junto às historias a respeito de seus relacionamentos
amorosos que circularam ao longo de sua vida (em escritos como os de Cícero e Catulo) e
também após a sua morte (em Suetônio, Plutarco e Díon Cássio), demonstram que na
Antiguidade a virilidade de César foi posta em questão por diversas vezes. Isto posto,
nessa comunicação terei como objetivo tratar dos possíveis significados que podemos
oferecer às críticas que César recebeu em relação às suas práticas sexuais e gostos. Não
tenho por intuito cotejar provas para afirmar se César teve ou não relações com o rei da
Bitínia ou se de fato era um efeminado, mas, sim, trabalhar com a ideia de que outros
discursos, para além daqueles que o afirmaram como um grande líder militar e político
(em autores como Júlio César, Lucano e Plutarco), foram produzidos na Antiguidade
(como em Suetônio e Catulo). Os significados dessas críticas à luz dos estudos modernos
sobre a uirilita romana serão considerados. Assim, em um primeiro momento discutirei
brevemente os ideais e protocolos de virilidade presentes na sociedade contemporânea a
César, para num segundo momento analisar os escritos dos autores antigos que trataram
ou mencionaram os seus amores e práticas sexuais. (ST25)

Victor Sá Ramalho Antonio (Mestrando)


Thiago Kater Pinto (Graduado)
A imigração britânica e a introdução do rugby no Brasil (1891-1933)
Regulado pela primeira vez em 1845, na Escola de Rugby (Rugby School), na Inglaterra, o
esporte-irmão do futebol (do Football Association) tem longo histórico de prática no
Brasil, tendo chegado ao país no fim do século XIX, já na Primeira República, devido à
íntima ligação com a imigração britânica e sua influência. Entretanto, sua restrita difusão
pelo país o coloca ainda como uma prática estranha e de pouca intimidade com a grossa
camada da população brasileira, refletido em sua ínfima presença na literatura
acadêmica nacional.
Na última década, o crescimento do rugby no Brasil, dissociado, dessa vez, da
preponderância de imigrantes, vem sendo acompanhando pelo florescimento da
modalidade como tema de trabalhos acadêmicos em todo o país, de artigos científicos a
dissertações de doutorado, com pesquisas, por exemplo, nas áreas de educação física e
ciências da atividade física, comunicação, gestão esportiva e relações públicas. Não
obstante tal difusão de trabalhos, a realização de investigações no campo da História
Social ainda se encontra em estágio embrionário, com a notável ausência de estudos que
se aprofundem no período de introdução do rugby no Brasil, entre o final do século XIX
e o fim da Primeira República – período que, no rugby, ainda pode ser estendido para a
Segunda Guerra Mundial e o retorno de muitos ingleses e anglo-descendentes à Europa,
levando a um aparente hiato na prática do esporte no Brasil.
Esta apresentação tem por objetivo expor algumas discussões que vem sendo realizadas
no LUDENS - Laboratório de Estudos sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas da USP -
acerca da introdução do rugby no Brasil e de sua íntima ligação com os imigrantes
ingleses. O período de 1891 - data mais recuada para a criação de um clube voltado à
prática do rugby no Brasil a - a 1933, ano de criação da Federação Brasileira de Futebol e
do avanço do profissionalismo no futebol brasileiro -, foi selecionado a fim de restringir
as investigações ao período da República Velha, e seu contexto de difusão dos esportes
ditos modernos, e o período de amadorismo - ao menos formal - do futebol no país,
caracterizado pela defesa do amadorismo, tão cara ao rugby. (ST39)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 187

Vilma Cristina Soutelo Assunção Noseda (Pós-graduanda)


Era uma casa... muito engraçada... A Memória entorno de uma "Casan Bandeirista"
Este trabalho visa refletir como o Sítio do Mandú, bem patrimonial tombado pelo IPHAN
localizados no município de Cotia, é compreendido, internalizados e reelaborados no
cotidiano dos diferentes grupos sociais que compõem sua população e de que maneira a
questão do patrimônio, da preservação e a história são articuladas. Pretende-se investigar
também de que modo o discurso e a prática dos órgãos públicos de preservação tanto na
esfera federal (IPHAN) como na municipal (Secretária da Cultura e do Turismo) influem
nesse processo e qual a concepção de patrimônio e história que está presente em suas
intervenções.
Durante o ano de 1954 a Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo empreendeu
a restauração de uma “casa rural paulista” no bairro do Butantã. Luís Saia, que coordenou
as obras como representante do IPHAN. Ao final dos trabalhos foi convidado a escrever
um pequeno ensaio de apresentação da obra restaurada intitulado: A“Casa Bandeirista”:
uma interpretação.
A patrimonialização e a monumentalização do Sítio do Mandú foi conduzida pelo Estado
como memória nacional para a sociedade sem, no entanto, contar com a participação
desta. O que por sua vez acarretou em um processo de ressignificação do Sítio do Mandú
por parte de sua comunidade. Consideraremos o Sítio do Mandú como ‘lugares de
memória’, não pela definição realizada por Pierre Nora (1993: 04), de que “... os lugares
de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é
preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações,
pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não naturais”. Mas
seguindo as críticas de HARTOG sobre o conceito, para ele: a noção ‘lugar de memória’
não poderia ser lida apenas de forma literal. “O lugar não é simplesmente dado”. Como
ele cita “é construído e reconstruído sem cessar, podendo ser interpretado como
encruzilhada onde se encontram ou deságuam diferentes caminhos de memória”
(HARTOG, 2006:.261-273) .Estes edifícios-monumentos10 podem adquirir um valor
orientador dentro da sociedade porque funciona como negociador entre o passado e o
presente, “é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação” (LE GOFF
1996:472) Mas o monumento tem como característica ligar-se ao poder de perpetuação,
voluntária ou não das sociedades. Nesse sentido, o que define sua característica de
monumento não é o algo em si da coisa, mas sua utilização pelo poder.
Portanto, este trabalho visa refletir como o Sítio do Mandú, bem patrimonial tombado
pelo IPHAN localizados no município de Cotia, é compreendido, internalizados e
reelaborados no cotidiano dos diferentes grupos sociais que compõem sua população e
de que maneira a questão do patrimônio, da preservação e a história são articuladas.
(ST44)

Viviane Becker Narvaes (Doutoranda/UNIRIO)


O teatro do sentenciado de Abdias Nascimento
O foco deste trabalho é refletir sobre o Teatro do Sentenciado, a partir da compreensão
de que este teatro se refere às expressões de setores subalternizados da sociedade
brasileira e, para este fim, tratamos de apontar os estudos sobre o teatro e o universo
prisional com vistas a situar os referencias teóricos deste campo.
O Teatro do Sentenciado é termo cunhado por Abdias do Nascimento para descrever e
nomear as experiências de encenação desenvolvidas no interior da unidade prisional em
que esteve encarcerado no Estado de São Paulo, na década de 1940, a saber, a
Penitenciária do Carandiru.
Durante sua prisão foram realizadas 6 (seis) encenações, quase todas em 1943, algumas
cenas curtas, ou “cenas brasileiras” conforme as identifica Abdias, e números musicais.
Os espetáculos que constituem o repertório do teatro do sentenciado foram: “O dia de

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 188

Colombo” “Revista Penitenciária” “Patrocínio e a República” “Defensor Perpétuo do


Brasil” “Zé Bacoco” e “O preguiçoso”. As cenas brasileiras foram “Apertura de Simplício e
Zé Porqueiro”, “Pimpinelli e suas extravagâncias” e números de ilusionismo e
prestidigitação. Os números musicais eram apresentados pelos grupos “ Jaz Cristal” e
pelo Regional “Anjos do Ritmo”.
Neste trabalho é explorada a trajetória de Abdias Nascimento buscando estabelecer os
pontos de contato entre sua atuação militante no movimento negro e sua inserção no
sistema prisional. Ao examinarmos a conformação do campo da história do teatro no
Brasil, percebe-se que a fração dedicada ao estudo do teatro vinculado aos setores
populares é infinitamente menor do que aquela dedicada às expressões da cultura
dominante, portanto uma visada sobre este teatro permite examinar um capítulo do
teatro brasileiro que tem sido esquecido. (ST27)

Vivianny Bessão e Assis (Doutoranda)


Leonardo Arroyo e a coleção "Biblioteca de Educação", da Editora Melhoramentos (SP)
Com os objetivos de contribuir para compreender a história da literatura infantil no
Brasil, sua relação com a educação brasileira e compreender o lugar ocupado pelo
escritor, jornalista e historiador paulista, Leonardo Arroyo (1918-1985), nessa história,
focalizam-se aspectos do livro Literatura infantil brasileira: ensaio de preliminares para
sua história e suas fontes (1968), publicado na coleção “Biblioteca de Educação”, pela
editora Melhoramentos (SP). Mediante abordagem histórica, centrada em pesquisa
documental e bibliográfica, desenvolvida por meio de procedimentos de localização,
recuperação, reunião, seleção e ordenação de fontes documentais, elaborou-se um
instrumento de pesquisa contendo referências de textos de e sobre Arroyo. Dentre os
textos localizados, destaca-se o livro mencionado, com o objetivo de verificar sua
permanência e circulação na produção acadêmica da área de educação no Brasil. A partir
dos resultados obtidos até o momento, é possível compreender que, o livro de Arroyo
tornou-se bibliografia básica para os estudos e pesquisas sobre literatura infantil,
vinculados, principalmente, às áreas de Educação e Letras. Ainda, foi possível
compreender sua contribuição para a formação de um campo de conhecimento
específico sobre literatura infantil e a relação desse tema com a história da educação
brasileira. (ST29)

Walquiria De Rezende Tofanelli Alves (Mestranda)


Expectativas para o Império luso-brasileiro: a Memória histórica e filosófica sobre o Brasil
de Joaquim José da Silva Maia (1820-1824)
Durante a década de 1820 inúmeros projetos políticos ganharam espaço na cena pública
luso-brasileira devido aos diversos grupos de proprietários que disputavam o mercado e
os cargos públicos e divulgavam seus interesses políticos na imprensa periódica. Foi na
década de 1820 que “portugueses da Europa”, através da Revolução do Porto,
reivindicaram ao rei D. João VI que retornasse ao Reino e jurasse a Constituição a ser
elaborada em Lisboa. Por outro lado, desde 1815 o Brasil havia sido elevado à condição de
Reino Unido a Portugal e a Algarves e projetos políticos, como os de d. Rodrigo de Sousa
Coutinho, já haviam apontado as potencialidades de um poderoso e vasto Império a ser
fundado na América. A transferência da Corte para o Rio de Janeiro em 1808, também
marcou, se não inteiramente, uma novidade na experiência da monarquia portuguesa,
um novo horizonte de expectativas como trânsito físico e simbólico do poder régio para
um território colonial. As experiências portuguesas no Brasil passaram a se dar de forma
mais célere, seja num âmbito de transformação espacial com reformas nas principais
cidades e no fluxo de atividades comerciais, seja na concepção do tempo histórico, com
referências à Independência dos Estados Unidos, às luzes do século, à Constituição de
Cádiz, à Revolução de Pernambuco, entre outras, presentes cotidianamente nas gazetas e

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 189

memórias. Nelas se modificaram não só a forma de ver o passado - na medida em que


este passou a ser visto de maneira mais crítica - mas também o modo de escrita da
história contemplando disputas inscritas nos diversos projetos então na ordem do dia. A
imprensa alcançou destaque nesta ocasião com temas políticos que circulavam entre
vários países comportando papeis incendiários muitos dos quais anônimos. As memórias
históricas, por sua vez, se tornaram um subgênero importante, especialmente por seu
propósito histórico-político em relatar um acontecimento rapidamente composto por
começo, meio e fim cuja coerência e seleção dos fatos dependiam do enlevo político dado
pelo autor. Visto isto, a proposta deste trabalho é analisar a "Memória histórica e
filosófica sobre o Brasil" escrita por Joaquim José da Silva Maia, comerciante da Bahia de
origem portuguesa, que propondo projeto divergente daquele articulado no Centro-Sul e
favorável à Independência, recebeu pouco destaque na historiografia contemporânea.
Nesse sentido, propomos dois pontos a serem investigados: o primeiro é compreender o
projeto para o Império luso-brasileiro de Silva Maia, bem como suas estratégias textuais
e seus usos políticos na escrita de uma memória. O segundo é o de traçar hipóteses sobre
o porquê Silva Maia foi pouco destacado na historiografia sobre a Independência visto
que é autor de significativa produção no Brasil e em Portugal. (ST18)

Wellington Amarante Oliveira (Doutorando)


Um “canal do conhecimento”: as representações do surgimento do Canal Futura nas
páginas da imprensa brasileira
Este trabalho tem por objetivo central apresentar os resultados parciais da pesquisa
intitulada “Muito além do conhecimento: a TV educativa no Brasil e na França, o canal
Futura e a Cinquième (1994-2002)”, no que concerne às fontes ligadas a imprensa
brasileira sobre a inauguração do canal educativo da Fundação Roberto Marinho. A
análise foi realizada a partir do clipping produzido pela emissora: são 260 notícias,
distribuídas por mais de 60 veículos de comunicação de todas as regiões do Brasil,
cobrindo os meses de agosto, setembro, outubro e novembro de 1997. Nota-se, a partir
da análise das notícias veiculadas no período, que o processo de divulgação de
informações sobre o projeto estava atrelado a construção da imagem do novo canal: um
"canal do conhecimento", produzido pela "iniciativa privada", em prol da "educação
brasileira". (ST34)

Willians Alexandre Buesso Da Silva (Pós-graduando)


As cores de gênero: memórias sobre o trabalho doméstico no Oeste Paulista (SP)
Diante das tensões políticas evidentes no país, algumas conquistas como a inclusão das
discussões de gênero sobre políticas públicas tem perdido espaço por conta de
enfrentamentos conservadores sobre valores sociais. Um dos ganhos das pesquisas sobre
gênero na área das Ciências Sociais e Historia sobre a condição de mulheres são os
estudos sobre Trabalho Feminino. Enquanto categoria analítica, o conceito de gênero
tem desvendado não só questões sobre a dualidade masculino/feminino, como outras,
sobre o mercado de trabalho e ocupação de mulheres em seus diferentes setores. Este
texto trata sobre a contribuição desta categoria de analise dentro da História ao
comparar diferentes contextos de mulheres sobre os estratos de classe, gênero e cor e a
divisão do Trabalho Doméstico. Para isso, utilizamos uma entrevista de uma antiga
moradora do município de Marília (SP), a qual trabalho como empregada doméstica em
boa parte de sua vida e comparamos com a bibliografia sobre a categoria profissional em
diferentes momentos da história da formação do Oeste Paulista, assim como famílias em
ascensão durante o período prospero do café. (ST25)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 190

Wilton Carlos Lima Da Silva (Livre Docência/UNESP – Assis)


As Virtudes no Ofício: a dimensão autobiográfica em memoriais acadêmicos
A presente comunicação busca pontuar e discutir alguns marcadores discursivos que se
fazem presentes e/ou ausentes de forma recorrente entre alguns memoriais acadêmicos
de concursos de livre-docência e titularidade no Departamento de História da
UNICAMP, entre 2000 e 2013.
Tais documentos, situados entre o ego-documento e a narrativa autobiográfica, são
produzidos para satisfazer exigências institucionais nos concursos públicos de
progressão na carreira docente, com o autor descrevendo sua trajetória, com ênfase em
suas atividades de pesquisa, publicações em periódicos indexados, atividades em cursos
de pós-graduação, palestras e material didático qualificado produzido, cursos de
extensão e demais atividades pertinentes à sua área de atuação.
A fala do intelectual sobre si mesmo, abordando opções, práticas, vivências e memórias,
adquire tanto a dimensão de "experiência" quanto a de “trajetória”, de modo que a escrita
autobiográfica - condicionada por uma tradição intelectual e institucional – se
desenvolve com distintos níveis de subjetivação, com a proeminência de modelos
narrativos que enfatizam a formalidade (cartesianos), adotam maior subjetividade
(hermenêuticos), ou mesclam tais ênfases (híbridos). (ST47)

Yves Samara Santana De Jesus (Mestre)


Btaismo de Africanos na Freguesia de São José das Itapororocas,Feira de Santana
O presente trabalho se propõe a analisar a conjuntura política, econômica e social de
Feira de Santana, Freguesia de São José das Itapororocas, nos séculos XVIII e XIX (1785-
1826), uma vez que, os estudos da escravidão têm privilegiado a capital e o Recôncavo
Baiano, afirmo a possibilidade de superação dos limites geográficos e conceituais sobre a
historiografia do Agreste Baiano. No tocante da sociabilidade, busca-se contextualizar a
inserção dos africanos recém – chegados, analisando os interesses e as especificidades da
propagação da religiosidade cristã instituídos pelos europeus e disseminada na diáspora
africana. Ressalta-se a abordagem dos padrões de apadrinhamentos de cativos
encontrados nos livros de batismos de escravos juntamente com as redes de
solidariedade criadas entre o batizado e o mundo secular. Portanto, o trabalho sugere
uma abordagem dos registros de batismos de africanos, na perspectiva, dos estudos sobre
a composição étnica da região feirense, tal como, a solidariedade africana na escravidão
baiana no período trabalhado. (ST40)

Zuleika De Andrade Câmara Pinheiro (Doutorando)


Identidades Infames de Moradores(as) de Rua: Performatizações de Gênero como Meio de
Sobrevivência
O espaço urbano tem se revelado como lugar onde circulam inúmeros sujeitos, cujo
deslocamento contínuo ou nômade define suas maneiras de morarem nas ruas. Este
morar produz sucessivos embates que determinam formas de resistências e lutas com
regras e códigos próprios das sociabilidades das ruas. Este processo de sobrevivência se
situa nas fronteiras do humano com o não humano; normas e transgressões, cujas
tensões não ocorrem sem conflitos e subversões. Gênero não é precisamente o que o
sujeito “é”, nem é exatamente o que o sujeito “tem”. Gênero é o aporte pelo qual a
fabricação de normalização do masculino e feminino se revela, junto às formas
intersticiais, físicas e performativas que gênero assume. O objetivo deste estudo é
analisar a partir de narrativas de homens e mulheres de rua como se dá o processo de
agência para adaptarem suas identidades infames às experiências no espaço da rua os
quais utilizam de performatizações de gênero para sobreviverem. Na linguagem das ruas
há várias expressões de gênero e as pirangueiras são mulheres consideradas perigosas; as
giriquitas são mulheres que fazem qualquer coisa para obter drogas ou comida; os

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 191

michês são homens que, apesar de praticarem sexo com outros homens não se percebem
nem como gays nem como travestis; os travecos, também chamados de bichas, os nóias,
homens que passam o dia sob efeito de drogas. É possível observar nos espaços das ruas
os jogos de gênero onde papéis sexistas e tradicionais são práticas de sobrevivência ao
mesmo tempo, de resistência. Os jogos de gênero sugerem que gênero toma forma de
máscara, fazendo parte da misen-scene. Como num jogo de xadrez os atores políticos
têm o poder de intervir no tabuleiro das ruas. Os jogos do gênero são mecanismos cuja
dinâmica é iniciada por crises, redefinindo as relações entre homens e mulheres levando
os sujeitos a se ajustarem, ou seja, se instrumentalizarem com gênero a seu favor. As
políticas de regulação de gênero estão diretamente estruturadas através da dinâmica de
regras e normas que regem o comportamento e a aceitação dos sujeitos. A constituição
da pelo sujeito é um desafio que deve satisfazer aos limites da aprovação e superação das
diferenças, distinguindo no Outro, pelo princípio da negação, aquilo que ele pode e tem
de ser. Este estudo faz parte de uma pesquisa mais ampla no contexto do cotidiano dos
moradores de rua no qual são realizadas etnografias em três locai no centro de
Fortaleza/Ce: Praça do Ferreira, Centro POP e Parque da Liberdade. Tendo uma
abordagem antropológica urbana em conexão com estudos históricos a partir de teóricos
pós-estruturalistas este estudo busca contribuir para a compreensão de aspectos
macrossociais que ajudem a situar estratégias de políticas públicas para pessoas em
situação de rua. (ST25)

Silvia Cristina Martins de Souza (Pós-doutora/UEL)


“Quantos poetas perdidos para sempre, quanta rima destinada ao olvido da humanidade!”:
produção e circulação de poesias no Rio de Janeiro de fins do século XIX e início do século
XX.
Este artigo elege como locus de observação a cidade do Rio de Janeiro de fins do século
XIX e início do XX, e nele busca-se analisar a produção e circulação de poesias
compostas por pessoas comuns, com pouca ou nenhuma formação letrada, e os possíveis
usos e funções que seus autores e receptores conferiram a estes poemas.
Palavras chave: História; poesia; Rio de Janeiro; séculos XIX e XX. (ST36)

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 192

RESUMOS: PÔSTERES

Alberto Morgado Junior


O Código Penal Republicano e o espiritismo popular no pós-abolição em São José dos
Campos/SP (1917-1939)
Este artigo busca analisar o momento do pós-abolição e da primeira República sob a
ótica do movimento religioso espírita, constatando a resistência ao espiritismo popular
neste período por meio da negação do misticismo e sincretismo religioso, principalmente
o aderido pelo negro, evidenciado pelo código penal republicano de 1890. O estudo será
realizado a partir da análise da ata de reunião do Centro Espírita Divino Mestre e do
recorte de dois jornais do início do século XX na cidade de São José dos Campos/SP, o
periódico A Caridade e O Correio Joseense. O primeiro jornal, de edição católica,
representando o movimento de romanização que chegou ao Brasil em fins do século XIX,
e o segundo jornal, de circulação popular não religioso, apontando a influência
positivista muito presente na primeira República, renegando a cultura negra e ampliando
para o cenário nacional a questão da intolerância institucionalizada.

Alex Junio Candido


Lei dos Sexagenários: o município de São José dos Campos/SP e as ações de liberdade dos
sexagenários de 1887
O referido artigo tem como objetivo dissertar sobre a atuação da Lei dos Sexagenários
número 3270 de 1885, no município de São José dos Campos/SP, contextualizando com o
período histórico em que se passava no Brasil Império. Foram encontrados no Arquivo
Público do Município dois documentos de ações forenses do 2º Cível de São José dos
Campos de 1887 e transcritos, totalizando 145 páginas. Mesmo a cidade de São José dos
Campos não tendo grande influência na escravidão do Vale do Paraíba Paulista, foi
encontrado um número expressivo de escravos libertos pela Lei dos Sexagenários. Nos
documentos é possível visualizar características como: sexo, idade, cor, estado civil, que
serão abordados no trabalho qualitativamente e quantitativamente por meio de gráficos.

Ana Carolina Alves da Silva


Mateus Henrique Obristi Castilho
Wanderson Emanoel dos Santos
A fuga como construção da liberdade em processos de tutela e contratos de soldada no
pós-abolição no Vale do Paraíba paulista (1888-1899).
Esta pesquisa tem como objetivo analisar a Fuga presente em Ações de Contrato de
Soldada e Tutela nas cidades do Vale do Paraíba Paulista , nos anos de 1888 a 1899
ocorridas no Pós-Abolição. As Ações de Contrato de Soldada eram documentos que
regulavam a contratação do trabalho de menores e órfãos. As Ações de Tutela eram
utilizadas para nomeação de tutores aos órfãos considerados desvalidos. Tais fontes têm
contribuído com o avanço dos estudos sobre a utilização do trabalho infantil no pós-
abolição. Busca-se também evidenciar as relações, conflitos e tensões que se deram nos
processos de tutoria dos menores assoldadados/tutelados e seus respectivos tutores. Para
isso, utilizou- se como fonte documentos de Contratos de Soldada e Tutela, encontrados
nos Arquivos Públicos de Paraibuna/SP, São José dos Campos/SP e Jacareí/SP.

Ana Carolina Lamosa Paes


Gabriela Leite e a prostituição na historiografia feminista brasileira
Esta pesquisa de iniciação científica tem como foco estudar a construção social da
prostituta, utilizando-se da obra biográfica de Gabriela Leite. Nossos objetivos são:

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 193

verificar como acontece a construção social da prostituição na obra de Gabriela Leite,


intitulada: “Filha, mãe, avó e puta”; estudar a questão da prostituição na perspectiva do
feminismo libertário; e, analisar o filme “Corpos que escapam”, dirigido por Ângela
Donini, no qual temos a participação de Gabriela Leite. Nossa metodologia se insere na
perspectiva dos estudos biográficos, pois entendemos que o trabalho de Gabriela é uma
“escrita de si”, para isso, selecionamos como fontes de pesquisa: a obra biográfica e o
filme acima citado. Como base teórica, os estudos feministas na perspectiva de
Margareth Rago, que busca a relação entre os feminismos e os estudos de Foucault
referentes a produção de subjetivação e o conceito de estética da existência. Em seu livro,
Gabriela nos conta sobre a sua vida e como ela caminhou para a prostituição, assim
como, a discussão que ela levanta sobre os conceitos de prostituta e de puta e suas
implicações sócio-bio-politicas, enfrentando toda uma sociedade marcada pelo
machismo-patriarcalismo. A partir de algumas de suas experiências de vida, Gabriela
escreve e afirma que é preciso buscar respaldo legal para garantir direitos às mulheres
marginalizadas. Ela iniciou seu ativismo em 1987 quando participa da organização do
Primeiro Encontro Nacional de Prostitutas, depois disso fundou a Organização Não
Governamental (Ong) “Da vida” e, posteriormente, a grife “Daspu”, que colaborou para
financiar a Ong. Faleceu em 2013 e deixou um legado de lutas, mantido vivo pelo projeto
de lei que leva seu nome. O projeto de lei, do deputado Jean Willys, trata da
regulamentação da profissão de prostituta, afim de legitimar e garantir direitos básicos.
O curta-metragem de Angela Donini tem duas camadas: uma de entrevistas com João
Nery e Gabriela Leite e outra com a atriz Juliana Dorneles performando em uma
proposta entendida no cinema feminista como pós-pornô, as filmagens foram realizadas
em uma antiga habitação utilizada como casa de prostituição. O ambiente é abandonado
e entulhado, com poeira e teia de aranhas, dando a sensação de abandono que pode se
assemelhar a situação a qual as prostitutas estão submetidas na sociedade que
constantemente tenta higienizar seus corpos.

Ana Paula Santana Bertho


Nós vamos festejar o que?: O Primeiro de Maio e a reorganização do operariado (1968-
1984)
Este trabalho analisa a celebração do Primeiro de Maio no Regime Militar brasileiro na
Grande São Paulo, focando-se em datas que abrangem suas diversas conjunturas
políticas (a saber, 1968, 1971, 1974, 1977, 1979, 1980, 1983 e 1984). A partir da identificação
de que diversos tipos de agentes – como o Estado, os sindicatos, os partidos, as
organizações de esquerda e a Igreja Católica- disputavam narrativas e ações durante este
dia, procurou-se mapeá-las e refletir sobre os atores envolvidos e suas práticas culturais.
Inserida em debates relativos à reorganização do operariado nos anos 1970 e aos lugares
de memória da classe operária, a abordagem aqui proposta possibilita destacar novos
elementos sobre a reconstrução, no plano simbólico e identitário, da imagem do
trabalhador/operário brasileiro em um período de desmobilização e forte repressão
política.

Anne Mayara Almeida Capelo


A tectônica da dor: patrimônio como justiça de transição - DOI-CODI/SP
Este projeto de Trabalho Final de Graduação procura compreender as dimensões
presentes em um antimonumento proveniente da Ditadura Militar brasileira tombado
pelo CONDEPHAAT, ou seja, o conjunto de edifícios que serviram ao uso do DOI-CODI
na cidade de São Paulo. Procura-se, através deste estudo, entender as práticas
patrimoniais usadas para legitimar o tombamento desse espaço, uma vez que o conjunto
não possue uma característica material definidora de um pedido “comum” de
tombamento. Procura-se entender se esta característica peculiar – este processo que

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 194

explicita o combate entre o imaterial e o material - é erigida sobre a perspectiva de uma


política de prática transicional, ou seja, como parte da chamada Justiça de Transição.
Por fim, aqui, é também questionada a possibilidade compositiva entre tombamento,
justiça de transição, testemunho e luto.
Partindo da referente analise, compreender-se-á o espaço de forma que possibilite o
entendimento do espaço através de vestígios e da oralidade dos que lá foram presos no
período de repressão. Utilizando para tanto a metodologia proposta pelo IPHAN em seu
programa MONUMENTA, que consiste em estudos físicos e históricos em relação ao
edifício, porém aqui propomos o acréscimo das características supracitadas.

Aryane Cristina da Silva


Papel dos livros didáticos na formação da identidade brasileira - Governo Vargas
A elaboração do livro didático buscou em cada fase da História do Brasil, atender
necessidades específicas de cada governo. A exemplo, o governo de Getúlio Vargas que
utilizou-se dos livros didáticos de História como instrumento pedagógico que tinham
como objetivo transmitir a ideologia e sentimento nacionalista começando pelos mais
jovens, em fase de formação intelectual. A educação no Brasil no governo Vargas foi
utilizada como um dos mecanismos de controle do Estado, e buscava construir uma
sociedade forte e unida, voltada para o desenvolvimento do país.

Brenda Letícia de Souza Pinto


Para ver se era melhor tratada viu-se forçada e ceder seus desejos: um caso de abuso sexual
no pós-abolição em São José dos Campos/SP (1890).
Esta pesquisa tem como objetivo discutir a questão do mundo do trabalho infantil no Pós
Abolição, na cidade de São José dos Campos/SP. Propõe-se analisar também como essa
mão de obra era recrutada e todas as suas complexidades. Tem-se como foco principal o
caso da órfã Júlia, a qual acusa seu responsável, o assoldadante João Gonçalves de Freitas
de sujeitá-la a cometer atos sexuais sob a expectativa de receber melhor tratamento.
Procura-se compreender como as representações de ofensor e vitima eram construídas
nesse período, por meio da análise de um documento de 396 páginas, sobre uma Colônia
Orfanológica em São José dos Campos/SP, datado do início do ano de 1888 e concluído
em 1907.

Calebe Laridondu Viana


O Significado da Palavra Parrhesia no Evangelho de Marcos e Atos dos Apóstolos sob a
Óptica de Michel Foucault
Esta pesquisa foi realizada a partir do pensamento do filósofo Michel Foucault e se
concentrou no conceito de parrhesia, que é uma das técnicas do “cuidado de si”, que
seria uma “força” que um sujeito exerce sobre si mesmo com a intenção de transformar-
se. A questão da parrhesia está associada ao mundo antigo, assim como ao cânon do
Novo Testamento e aqui caberá estudar sua aparição no evangelho de Marcos e Atos.
Parrhesia é o ato de falar com coragem”, falar tudo, pois é a coragem de dizer a verdade
diante de um risco e, no caso mais extremo, o risco de morte. A verdade na antiguidade
era um problema de ordem moral, diferentemente da modernidade, na qual é uma
questão epistemológica.

Carlos Henrique Neres dos Santos


A Lanterna em imagens: entre o anticlericalismo e a antirreligiosidade (São Paulo, 1919-
1916)
O jornal A Lanterna – folha anticlerical e de combate foi fundado em 1901 pelo
anarquista Benjamin Mota, e retomado em 1909 por Edgar Leuenroth, após ter deixado
de circular em 1904. Assumidamente anticlerical, o periódico utilizava as ilustrações para

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 195

enfatizar seu posicionamento, inserindo nelas críticas e ataques ao clero. Nesta


comunicação buscaremos indagar sobre até que ponto é possível distinguir as fronteiras
entre o anticlericalismo e a antirreligiosidade nas imagens do semanário, ou ainda se de
fato essa delimitação era uma preocupação do corpo editorial. Lançaremos a hipótese de
que num primeiro momento o que predominava nas figuras do jornal era o
anticlericalismo, todavia, com o passar do tempo as críticas tiveram seu teor acentuado
de uma tal maneira que não foi mais possível distinguir qual bandeira A Lanterna
levantava, se era o anticlericalismo, a antirreligiosidade ou ambas. Analisaremos algumas
imagens para verificar nossa hipótese fazendo uso do método de descrição iconográfica e
iconológica, de Erwin Panofsky (1972), e da ideia de representação de Roger Chartier
(1988). Demonstraremos como a investigação das imagens dos jornais libertários pode
nos lançar luz a inúmeros aspectos da cultura operária do Brasil no início do século XX.

Cássio Raimundo Terloni


História Indígena Brasileira nos Anais do Museu Paulista: Novos Caminhos se Abrem para
a História dos Índios no Brasil
O projeto História Indígena Brasileira nos Anais do Museu Paulista surge por iniciativa
das professoras Antonia Terra de Calazans Fernandes e Circe Maria Fernandes
Bittencourt, responsáveis pelo LEMAD e pela ANPUH São Paulo respectivamente, ao
receberem como doação do Museu Paulista mais de trinta caixas contendo números
variados de cera de cento e dez publicações do museu, de datas também variadas,
representando uma grande amostra de seus periódicos. Os participantes higienizaram
três de cada, quando possível, e organizaram esses volumes em um acervo que foi criado
na sede da ANPUH.
Uma pesquisa com o caráter de iniciação científica foi desenvolvida para que os
estudantes estabelecessem uma maior relação com o Museu Paulista e sua produção,
aprofundassem seus conhecimentos sobre a história das sociedades indígenas brasileiras
e para que a montagem da coleção tomasse um sentido prático no ensino de graduação
desde já. Foi feita uma pesquisa preliminar sobre a história do museu e das publicações,
após a qual, escolhemos um extenso recorte de tempo, entre 1895 e 1973, compreendendo
o período dos quatro primeiros diretores, cuja atuação no museu buscamos perceber por
meio de textos de apoio e do material publicado durante suas direções. Os trabalhos
foram divididos pelos bolsistas de modo que cada um se dedicou a um ou dois diretores
e, através da análise de alguns dos seus escritos publicados quando diretores e das suas
ações desenvolvidas na instituição, foi feita a investigação de como a temática indígena
foi abordada por cada um e o que trouxeram para o campo da História Indígena no
Brasil. A posição desses diretores é extremamente relevante, pois sendo todos
intelectuais influentes no debate sobre os índios no país, contribuíram para moldar os
rumos da pesquisa no estado de São Paulo.

Felipe Carmello Rodrigues


A visão de Flávio Josefo sobre a resistência em Massada
O primeiro século de nossa era, ou séc. I d. C. foi marcado por acontecimentos muitos
importantes na Judéia e que possuem grande influência até a atualidade. Como exemplo
pode-se citar a vida e morte de Jesus de Nazaré, mas o foco aqui se restringe a um pouco
depois, na grande revolta judaica de 66-70, a qual os rebeldes lutavam contra o domínio
romano em seu território. Nesse momento, o Império Romano do Ocidente estava em
seus momentos de expansão e controlava grande parte do mundo, incluindo a Judéia, o
que muito mais do que um mero domínio geográfico, representava, para a maior parte
dos judeus um ataque contra sua Lei, conta a Torá, a qual pregava que apenas Deus
poderia ser o senhor desse povo, o único, Yahweh, mais nenhuma divindade e nenhum
povo. Deve-se destacar também que apesar disso tudo, o foco de tal trabalho aqui é

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 196

social, sendo que nesse período mais de noventa por cento da população judaica era
constituída por camponeses, os quais sofriam uma dupla tributação, pelos romanos e
pela elite judaica que estava aliada aos mesmos, alegando que tal tributo era destinado
ao templo. Pode-se dizer que uma maioria trabalhadora sustentava uma minoria que
gozava de privilégios e tinha a posse das terras, e para piorar a situação na Judéia não era
fácil, já que nesse mesmo século ocorreu um período de escassez de alimentos.
A principal fonte que se tem sobre tais acontecimentos na região e período aqui
analisados são os escritos do polêmico historiador Flávio Josefo. O problema é que tal
fonte é muito problemática, uma vez que apresenta muitas contradições em seus
escritos, muitas invenções, exageros além de muito marcada pelo emocional do autor,
por isso deve ser analisada com muita cautela. O foco de tal pesquisa é analisar essa
fonte, Flávio Josefo, em específico sua visão sobre a resistência judaica que o correu na
fortaleza de Massada.
Não se pode esquecer que está sendo analisado os relatos de Flávio Josefo, um
aristocrata, ou seja, membro da elite, sobre a revolta em Massada, a qual lutava conta o
domínio dos romanos e seus aliados, nos quais inclui a elite judaica. Flávio Josefo utiliza-
se de seus interesses e privilégios para escrever de forma hostil aos revoltosos, mostrando
assim que a grande disputa social do momento pode ser analisada através da obra de um
"historiador antigo", deixando claro que a maior parte da população com uma opressão,
problema até a atualidade.

Gabriela Marta Marques de Oliveira


Profissionalismo do futebol paulista e suas consequências imediatas e de longo prazo
O trabalho trata da profissionalização do futebol paulista na primeira metade da década
de 1930, e se concentra em olhar para este esporte como um campo que evidencia os
conflitos da cidade de São Paulo no período. A escolha do problema foi feita com base
em nossa percepção sobre como o futebol era apropriado pelos diferentes agentes sociais
da cidade. Para isso, nos utilizamos do conceito de “campo” de Pierre Bourdieu, da
discussão sobre identidade nacional proposta por Jeffrey Lesser, e de algumas questões
levantadas por E. P. Thomposon, como a agência dos grupos explorados, suas formas de
negociação e resistência e suas experiências.

Gabriela Simonetti Trevisan


Transgressões femininas em Júlia Lopes de Almeida: A viúva Simões (1897) e Cruel Amor
(1911)
O século XIX, no Brasil, foi marcado pela emergência de discursos biologizantes sobre as
mulheres. Associadas à reprodução pelos seus corpos, elas foram colocadas como ligadas
naturalmente à maternidade e ao cuidado do lar e da família. Era no espaço privado e no
casamento que elas deveriam encontrar sua realização pessoal, de acordo com os
discursos médicos e masculinos da época.
No mesmo momento histórico, porém, emerge uma série de escritoras, como Júlia Lopes
de Almeida, com quase trinta obras publicadas entre romances, contos, crônicas, peças
de teatro, manuais e até livros escolares, além da contribuição em periódicos. Essa autora
levanta uma série de temáticas consideradas propriedade apenas dos “especialistas”,
como o desejo sexual feminino e a natureza da maternidade, além de problematizar o
casamento, a amizade entre mulheres e a violência de gênero.
Em A viúva Simões, publicado em 1897, por exemplo, Júlia debate a competição entre
mãe e filha pelo mesmo homem, desmistificando o amor materno. Além disso, sugere
que os lugares sociais destinados às mulheres não corresponderiam às suas
subjetividades, como é o caso da viúva, mãe e esposa, mas também dotada de desejos
sexuais, o que iria contra a ideia de mulher honesta” dos discursos masculinos científicos.

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XXIII Encontro Estadual de História – História: por quê e para quem? 197

Já em Cruel Amor, de 1911, a autora apresenta duas personagens femininas que buscam
fugir de relacionamentos abusivos com seus noivos. No desfecho, uma delas é
assassinada por ciúme e a outra foge, na tentativa de realizar seu sonho de escolher sobre
seu próprio futuro.
Portanto, viso mostrar como Júlia critica as violências sofridas pelas mulheres com o
cerceamento de suas possibilidades de vida pelos discursos masculinos. Suas
personagens feminina