Вы находитесь на странице: 1из 658

Milton Tomoyuki Tsutiya

3- Edição

Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da


Escola Politécnica da Universidade de São Paulo

São Paulo
2006
Copyright © 2006 Milton Tomoyuki Tsutiya

Reservado todos os direitos de tradução e adaptação

É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação,


sem o prévio consentimento do autor.

Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da


Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Av. Prof. Almeida Prado, 83 - Cidade Universitária
05508-900 - São Paulo, SP
Telefone: (11) 3091.5396
Fax: (11) 3091.5423

Capa e Foto: Odair Marcos Faria

Tsutiya, Milton Tomoyuki


Abastecimento de água / Milton Tomoyuki Tsutiya
- 3 a edição - São Paulo - Departamento de
Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo, 2006.
XIII - 643 p.

Inclui referências bibliográficas.


ISBN 85-900823-6-9
1. Água. 2. Adutoras. 3. Elevatórias. 4. R e ­
servatórios. 5. Rede. 6. Perdas. 7.Automação.

CDU 628.1

Impresso no Brasil/Printed in Brazil


Depósito Legal na Biblioteca Nacional conforme
Decreto n° 1825, de 20 de dezembro de 1907
PREFÁCIO

Este livro intitulado “Abastecimento de Água” apresenta conceitos fundamentais que servirão para
orientar os estudiosos do assunto. Abrange desde a captação até a distribuição. Entretanto, não consta o
capítulo sobre o tratamento de água potável, uma vez que há inúmeras publicações de altíssimo nível
sobre o assunto.
Tenho certeza de que este livro servirá, também, como manual para projeto, acompanhamento e
manutenção de obras de abastecimento de água, pois o autor, o Professor Doutor Milton Tomoyuki Tsutiya,
atua há muitos anos nessa área na SABESP. Este livro apresenta sua experiência na área de projeto,
planejamento e principalmente na área de pesquisa, onde tem atuado nos últimos anos, buscando a melhoria
dos sistemas de água e esgoto. Também, para enriquecer ainda mais o livro, teve a participação de vários
profissionais com grande experiência em assuntos específicos.
O lançamento deste livro, é muito significativo, uma vez que o ano de 2003 foi considerado o “Ano
da Água” pela UNESCO.
Prefaciar este livro é para mim uma honra e satisfação muito grande, pois o autor foi meu excelente
aluno na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e, hoje, meu companheiro do Departamento de
Engenharia Hidráulica e Sanitária na mesma Escola.
Acredito, fielmente, que este livro, juntamente com outros já publicados pelo mesmo autor, servirá
de base para desenvolver a engenharia sanitária do país.

São Paulo, setembro de 2003.

Kokei Uehara
Professor Emérito da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Professor Emérito da Faculdade de Tecnologia de São Paulo
Doutor Honoris Causa pela Osaka City University
APRESENTAÇÃO

A engenharia sanitária brasileira apresentou um notável progresso nas últimas décadas, principalmente
no que se refere aos sistemas de abastecimento de água, onde o nível de atendimento às populações
urbanas atinge valores acima de 90 %. Talvez, por essa razão, a maioria dos livros sobre abastecimento
de água são antigos, datam da década de 70 e não foram atualizados.
Este livro que trata de planejamento e projeto de sistemas de abastecimento de água, envolvendo,
concepções, consumos, captações, adutoras, elevatórias, redes, perdas, ligações e automações, tem como
objetivo principal atender aos alunos de graduação do nosso curso de engenharia civil “PHD 2412 -
Saneamento II” da Escola Politécnica da USP e também aos engenheiros envolvidos com projetos de
obras de abastecimento de água.
Para a elaboração deste livro, utilizamos os estudos e projetos já executados pela SABESP em que
participamos, em sua maioria, com numerosas ilustrações e fotos para uma boa compreensão dos assuntos.
Também, contamos com a participação de vários colegas com grande experiência em alguns assuntos
específicos escrevendo itens e capítulos do livro, de modo a tomá-lo mais completo e atender melhor os
usuários, especialmente àqueles já em atividade profissional.
Este livro coloca à disposição do leitor de forma atualizada, todos os conceitos envolvidos em
abastecimento de água, de modo que, esperamos estar contribuindo para o desenvolvimento da nossa
engenharia sanitária e ambiental.

Milton Tomoyuki Tsutiya


mtsutiy a @sabesp.com.br
tsutiya@usp.br
AGRADECIMENTOS

Este livro contou com a contribuição de várias pessoas que não tiveram o crédito do seu trabalho
documentado no texto. Essas contribuições foram as mais variadas. O autor deseja registrar seu
agradecimento às seguintes pessoas:
Antonio Augusto da Fonseca
Antonio Celso de A.Werneck
Edson Almeida Torre
Fernando Ramos de Oliveira Junior
Gislene Flávio Lopes
Guaraci Loureiro Sarzedas
Hélio Luiz Castro
José Everaldo Vanzo
Júlio Nakai
Leonardo Silva Macedo
Lourival Yalentim Terciani
Luiz Paulo de Almeida Neto
Marcelo Perez Barbosa
Marcos Masuko
Mario Albino Martins
Paulo Ernesto Marques Silva
Paulo Hideo Sato
Walter Rangueri
À Sioe Lan, minha esposa, pela coordenação
na editoração do livro e pelo apoio incessante, que
tomou possível a concretização de mais uma obra.
Ao meu filho Fernando, pelo apoio e incentivo.
MILTON TOMOYUKI TSUTIYA

Engenheiro civil formado em 1975, pela Escola Politécnica da Universidade de São


Paulo. Recebeu os títulos de Mestre em Engenharia, em 1984 e de Doutor em Engenharia em
1990 pela Escola Politécnica da USP. Iniciou suas atividades acadêmicas em 1982, no De­
partamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica da USP, onde
atualmente ocupa o cargo de Professor Doutor na Área de Saneamento. Ministrou vários
cursos de aperfeiçoamento e de extensão em várias cidades do Estado de São Paulo, princi­
palmente para os engenheiros da SABESP. Têm cerca de cem trabalhos publicados nos mais
variados assuntos referentes aos sistemas de abastecimento de água e sistemas de esgoto
sanitário. Publicou os seguintes livros:
• Coleta e transporte de esgoto sanitário;
• Redução do custo de energia elétrica em sistemas de abastecimento de água;
• Biossólidos na agricultura;
• Membranas filtrantes para o tratamento de água, esgoto e água de reúso.
É funcionário da SABESP desde 1976, onde iniciou como engenheiro júnior, ocupando
posteriormente os cargos de coordenador de projeto, coordenador de planejamento e coorde­
nador de pesquisas e desenvolvimento tecnológico. Participou de um grande número de estu­
dos de concepção, projeto básico e projeto executivo de sistemas de abastecimento de água e
de esgotos sanitários, e também, de Planos Diretores. Na área de pesquisa, tem atuado em
temas relacionados com a redução de custos operacionais e melhoria de eficiência dos siste­
mas de água e esgoto.
IX

SUMÁRIO

Capítulo 1 Abastecimento de Água

1.1. Introdução.................................................................... ... 1 1.4.2. Benefícios do abastecimento de água ao orçamento


1.2. Evolução dos sistemas de captação, transporte e da União.................. ................6
distribuição de água de abastecimento..................... ... 2 1.4.3. Maior cobertura do abastecimento de água, menos
1.3. O abastecimento de água no Brasil........................... ... 4 doenças................................... ................6
1.4. Os sistemas de abastecimento de água e a saúde 1.4.4. O fator educação....................... ................6
pública.......................................................................... ... 5 1.4.5. Confiabilidade dos sistemas de abastecimento de
1.4.1. Benefícios do abastecimento de água à saúde ág u a.......................................................................7
pública................................................................ 5 1.4.6. Flúor na água de abastecimento........................... 7
Referências bibliográficas................................................ 8

Capítulo 2 Concepção de Sistemas de Abastecimento de Água

2.1. Definição e objetivos...................................................... 9 2.4.10.Estimativa de custo das alternativas propostas.. . 14


2.2. Partes de um sistema de abastecimento de água....... 9 2.4.11. Análise das alternativas propostas.................... 14
2.3. Normas para projetos de sistemas de abastecimento 2.4.12. Concepção escolhida......................................... 15
de água........................................................................... 10 2.5. Concepções de sistemas de abastecimento de água ... 15
2.4. Estudo de concepção de sistema de abastecimento de 2.5.1. Concepções de sistemas de abastecimento de
11 água com captação em manancial superficial.... 15
2.4.1. Caracterização da área de estudo........................ 11 2.5.2. Concepções de sistemas de abastecimento de
2.4.2. Análise do sistema de abastecimento de água água com captação em manancial subterrâneo... 24
existente............................................................... 11 2.6. Licenciamento ambiental de sistemas de
2.4.3. Levantamento dos estudos e planos existentes.... 11 abastecimento de água.................. ............................ 31
2.4.4, Estudos demográficos e de uso e ocupação do 2.6.1. Considerações gerais......................................... 31
so lo .........t........................................................... 12 2.6.2. Licença Prévia.................................................. 3?
2.4.5. Critérios e parâmetros de projeto....................... 12 2.6.3. Licença de Instalação....................................... 33
2.4.6. Demanda de água............................................... 12 2.6.4, Licença de Operação......................................... 33
2.4.7. Estudo de mananciais............ ............................ 12 2.6.5. Outros aspectos do licenciamento ambiental.... 34
2.4.8. Formulação das alternativas de concepção........ 13 Referências bibliográficas............................................ 34
2.4.9. Pré-dimensionamento das unidades dos sistemas
considerados para a escolha da alternativa........ 13

o Capítulo 3 Consumo de Água

3.1. Introdução..................................................................... 35 3.4. Fatores que afetam o consumo ................................ 50


3.2. Classificação de consumidores de água..................... , 35 3.5. Variações no consumo............................................. 51
3.2.1. Agua para uso doméstico................................... 36 3.5.1. Variações diárias....................... ..................... 52
3.2.2. Agua para uso comercial.................................... 36 3.5.2. Variações horárias........................................... 57
3.2.3. Água para uso industrial..................................... 43 3.5.3. Curvas de consumo de ág u a.......................... 5?.
3.2.4. Agua para uso público........................................ 46 , 55
3.2,5. Modelos de previsão de consumo de água........ 47 3.6. Estudo da população............................................... 57
3.3. Consumo per capita de água.................. ................... . 47 3.6.1. População da área de projeto......................... 57
3.3.1. Determinação do consumo efetivo per capita e 3.6.2. Métodos para o estudo demográfico.............. 58
consumo per capita a partir da leitura dos Exercício 3 .2 .............................................................. 6?
hidrômetros......................................... ............... . 47 3.7. Vazões de dimensionamento das partes principais de
3.3.2. Leitura do medidor instalado na saída do um sistema de abastecimento de água................... 64
reservatório........................................................ 48 Exercício 3 .3 .............................................................. 65
3.3.3. Quando não existir medição.............................. 48 Referências bibliográficas.......................................... 65
3,3.4. Valores do consumo médio efetivo per capita de
ág u a.................................................................... 49
X
Capítulo 4 Captação de Águas Superficiais

Introdução................................................................ .....67 4.3. Captação em cursos de água.............................. ........77


Manancial superficial............................................. .....67 4.3.1. Escolha do local de captação.................... ........77
4.2.1. Medidas de controle dos mananciais............ .....68 4.3.2. Partes constituintes de uma captação........ ........78
4.2.2. Qualidade da água........................................ .....69 Exercício 4.1.......................................................... ........92
4.2.3. Seleção do manancial................................... .....74 4.4. Captação em represas e lagos............................ ........94
4.2.4. Estudos hidrológicos.................................... .....74 Referências bibliográficas..................................... ........99
4.2.5. Monitoramento da qualidade de água de
mananciais .................................................... .....75

Capítulo 5 Captação de Água Subterrânea

5.1. Águas subterrâneas e hidrogeologia......................... 101 5.6.3. Locação do ponto de perfuração......................... 119
5.2. Aspectos legais............................................................. 102 5.6.4. Características técnicas de projeto..................... 119
5.3. Formação geológica e aqü ífera................................... 102 5.7. Operação e manutenção de poços............................134
5.3.1. Rochas sedimentares........................................ 103 5.7.1. Considerações gerais....................................... 134
5.3.2. Rochas ígneas.................................................. 103 5.7.2. Controle operacional....................................... 135
5.3.3. Rochas metamórficas....................................... 103 5.7.3. Problemas mais freqüentes empoços............... 135
5.3.4. Distribuição da água no subsolo....................... 103 5.7.4. Identificação da natureza do problema e das
5.3.5. Classificação dos aqüíferos............................... 104 causas mais prováveis..................................... 136
5.3.6. Tipos de aqüíferos........................................... 104 5.7.5. Manutenção............................................ ......... 140
5.3.7. Pressões dos aqüíferos ..................................... 105 5.8. Especificação de conjunto motor-bomba para
5.3.8. Comportamento horizontal dos aqüíferos....... 107 utilização em poços profundos..................................143
5.4. Hidráulica de poços.................................................... 107 5.8.1. Generalidades.................................................. 143
5.4.1. Considerações gerais................... .................... 107 5.8.2. Especificação do conjunto motor-bomba
5.4.2. Definição de termos utilizados na hidráulica de submerso.................. ....................................... 144
poços................................................................. 108 5.8.3. Características técnicas do conjunto
5.4.3. Fenômenos que se verificam num aqüífero.....109 motor-bomba submerso.................................... 145
5.5. Hidroquímica das águas subterrâneas..................... 114 5.9. Detalhes do cavalete de saída de poço tubular
5.5.1. Finalidade de uma análise...................................114 profundo...................................................................... 146
5.5.2. Normas gerais de amostragem d’água............... 115 5.10. Extração de água de poços tubulares profundos.... 146
5.5.3. Importância da análise química..........................116 5.10.1. Considerações gerais........................................ 146
5.6. Avaliação hidrogeológica............................................118 5.10.2. Sistemas de extração de água.......................... 148
5.6.1. Demanda de projeto.......................................... 118 5.10.3. Aplicabilidade da solução................................ 152
5.6.2. Estudo exploratório prévio..................................118 Referências bibliográficas........................................... 153

Capítulo 6 Adutoras

6.1. Introdução.................................................................... 155 Exercício 6 .1 ................................................................. 170


6.2. Classificação das a d u to ra s ........................................ 156 6.6.2. Adutora por recalque....................................... 171
6.2.1. Quanto à natureza da água transportada......... 156 6.7. Materiais das adutoras............................................. 172
6.2.2. Quanto à energia para a movimentação da 6.7.1. Considerações gerais....................................... 172
ág u a.................................................................. 156 6.7.2. Principais materiais das tubulações................... 172
6.3. Vazão de dimensionamento....................................... 158 6.8. Acessórios das adutoras............................................ 175
6.3.1. Horizonte de projeto................... ..................... 158 6.8.1. Considerações gerais....................................... 175
6.3.2. Vazão de adução.............................................. 158 6.8.2. Enchimento de adutoras.................................. 176
6.3.3. Período de funcionamento da adução............. 158 6.8.3. Descarga de adutoras......................................... 183
6.4. Hidráulica para a d u to ras.......................................... 159 6.8.4. Admissão de ar em adutoras........................... 189
6.4.1. Equações gerais............................................... 159 6.9. Dispositivos de proteçãodas adutoras......................193
6.4.2. Equações para cálculo das perdas de carga.... 160 6.9.1. Blocos de ancoragem......................... ............ 193
6.5. Ttaçado da ad u to ra ...................................................... 163 6.9.2. Proteção contra a corrosão................................ 198
6.5.1. Traçado da adutora e a posição do plano de 6.10. Limpeza e reabilitação das adutoras...................... 203
carga e a linha piezométrica............................ 163 6.10.1. Sedimentação................................................... 203
6.5.2. Recomendações para o traçado das adutoras.... 166 6.10.2. Incrustação....................................................... 203
6.5.3. Faixas de servidão ou desapropriação............. 167 6.10.3. Alternativas para aumentar a capacidade de
6.6. Dimensionamento hidráulico...................................... 167 adução.............................................................. 204
6.6.1. Adutora por gravidade.................................... 167 6.11. Equipamentos de medição........................................209
XI
6.11.1. Considerações gerais...........................................209 6.12.3.0 novo processo...............................................216
6.11.2. Medidores em condutos forçados....................... 209 6.13. Obras especiais........................ ...................................218
6.11.3. Medidores em condutos livres .............................215 6.13.1. Travessia de córregos e rios............................. 218
6.12. Intervenção em adutoras em carga...........................216 6.13.2. Travessias sob ferrovias ou estradas de
77 6.12.1. Considerações gerais...........................................216 rodagem............................................................ 222
77 6.12.2. Processo tradicional.............................................216 Referências bibliográficas............................................223
78
92
94
99
Capítulo 7 Estações Elevatórias

7.1. Introdução............................ .......................................225 7.9.4. Órgãos acessórios............................................... 292


7.2. Componentes de uma estação elevatória.................225 Exercício..................... ................................................... 301
7.3. Bombas.........................................................................226 7.10. Redução do custo de energia elétrica em estações
7.3.1. Classificação das bom bas............................... 226 elevatórias de águ a.......................................................304
7.3.2. Bombas centrífugas......................................... 227 7.10.1. Considerações gerais.......................................... 304
19
7.4. Motores elétricos............................................ ............ 233 7.10.2. Principais alternativas para a redução do custo
19 7.4.1. Motores de corrente alternada.........................233 de energia elétrica............................................... 304
34 7.4.2. Motor de indução............................................. 234 7.11. Sistemas de automação de estações elevatórias de
34 7.4.3. Métodos de comando de motores de indução... 235 água................................................................................ 305
35 7.4.4. Características eletromecânicas dosmotores 7.11.1. Considerações gerais...........................................305
35 elétricos de indução trifásicos......................... 236 7.11.2. Projeto de sistemas de automação de estações
7.4.5. Variação da rotação de motores deindução..... 238 elevatórias...........................................................306
36 7.5. Seleção de conjuntos elevatórios.............................. 239 7.11.3. Principais componentes de automação das
40 7.5.1. Bombas centrífugas........... ..............................239 estações elevatórias............................................ 313
7.5.2. Seleção de motores.......................................... 251 7.12. Avaliação do custo de sistemas de bombeamento .... 317
43 7.5.3. Número de conjuntos elevatórios....................252 7.13. Transitórios hidráulicos em estações elevatórias....318
43 7.6. Sistema de controle de operação das bom bas.......... 252 7.13.1. Considerações gerais.......................................... 318
7.7. Painel de comando elétrico..........................................252 7.13.2. Descrição do fenômeno.......................................318
44 7.8. Projeto de estações elevatórias de água..................... 254 7.13.3. Fechamento instantâneo da válvula.................... 318
7.8.1. Localização das estações elevatórias................254 7.13.4. Fechamento gradual da válvula..........................320
45 7.8.2. Vazões de projeto............................................... 255 7.13.5. Equações básicas............................... .................321
7.8.3. Tipos de estações elevatórias..... .......................255 7.13.6. Análise das equações........................................322
46 7.8.4. Poço de sucção................................................... 274 7.13.7. Método das características..................................323
46 7.9. Tübulações e órgãos acessórios................................... 290 7.13.8. Separação de coluna........................................... 324
46 7.9.1. Tubulação de sucção......................................... 290 7.13.9. Métodos e dispositivos para controle dos
48 7.9.2. Barrilete........................................................... . 291 efeitos de golpe de aríete................................... 325
52 7.9.3. TYibulaçÕes de recalque (adutora)......................292 Referências bibliográficas.............................................. 335
53

Capítulo 8 Reservatórios de Distribuição de Água

70 81.. 337 8.4.2. Pesquisas em modelos físicos das saídas dos


71
72
82.. 338 369
338 8.5. Tübulações e órgãos acessórios............................... 370
72 340 8.5.1. Tubulação de entrada...................................... 370
72 8.2.3. 340 376
75 350 376
75 8.3. 351 376
76 8.3.1. Determinação do volume útil para atender as 8.5.5. Acesso ao interior do reservatório.................. 377
83 352 8.6. Detalhes construtivos............................................... 377
89 357 8.6.1. Fundações e laje de fundo.............................. 377
93 8.3.2. 364 8.6.2. Paredes e cobertura......................................... 377
93 8.3.3. 364 8.6.3. Drenos de fundos............................................ 377
98 8.3.4. 365 8.6.4. Impermeabilização......................................... 379
03 8.3.5. Volume de reservação utilizados na elaboração 8.7. Operação de reservatórios....................................... 3/9
:03 365 8.7.1. Limites operacionais de segurança................. 381
:03 8.3.6. 365 8.7.2. Regras operacionais.................... ................... 383
366 8.7.3. Acidentes devido às falhas em reservatórios..... 384
:04 8.4. 368 Referências bibliográficas.......................................... 386
09 368
xn
C a p ít u lo 9 R e d e s d e D is t r ib u iç ã o d e Á g u a

9.1. Introdução............................................................. ......389 Exercício 9 .2 ................................................................ 411


9.2. Tipos de red e ........................................................ ......389 9.6. Roteiro básico para a elaboração de projetos de
9.2.1. Rede ramificada.......................................... ......390 rede de distribuição de água................ .................... 429
9.2.2. Rede malhada............................................. ......391 9.7. Materiais para redes.................................................. 431
9.2.3. Rede mista.........................................................394 9.7.1. Considerações gerais........................................ 431
9.2.4. Recomendações para o traçado da rede.... ......394 9.7.2. Critérios para seleção dos materiais................ 432
9.3. Alternativas para fornecimento de água para a 9.7.3. Materiais dos tubos e peças............................. 432
......395 9.8. Órgãos e equipamentos acessórios........................... 438
9.4. Vazão para dimensionamento............................ ......399 9.8.1. Válvula de manobra......................................... 439
9.5. Dimensionamento de redes................................. ......400 9.8.2. Válvula de descarga......................................... 440
9.5.1. Análise hidráulica...................................... ......400 440
9.5.2. Pressões mínimas e máximas na redes...... ......400 9.8.4. Válvula redutora de pressão............................. 440
9.5.3. Velocidades mínimas e máximas............... ......402 9.8.5. Válvula sustentadora de pressão...................... 443
9.5.4. Diâmetro mínimo....................................... ......403 443
9.5.5. Métodos de dimensionamento das redes.... ......403 9.9. Dispositivos de proteção das redes........................... 451
Exercício 9.1 .......................................................... 404 Referências bibliográficas............................................ 455

Capítulo 10 Controle e Redução de Perdas

10.1. Introdução........................................................... ......457 10.7.7. Melhoria da qualidade dos materiais........... 503


10.2. Perdas em sistemas de abastecimento de água ......458 10.7.8. Melhoria da qualidade da mão-de-obra na
10.2.1. Entendimento básico............................. ......458 execução dos serviços e obras..................... 504
10.2.2. Balanço hídrico...................................... ......460 10.7.9. Quadro geral................................................. 504
10.3. Indicadores de perdas....................................... ......464 10.8. Controle de perdas aparentes................................. 505
10.3.1. Indicador percentual.............................. ......465 10.8.1. Generalidades .............................................. 505
10.3.2. índice de perdas por ramal..................... 10.8.2. Implantação e manutenção do sistema de
10.3.3. índice de perdas por extensão de rede .........466 macromedição............................................... 506
10.3.4. índice infra-estrutural de perdas............ ......466 10.8.3. Melhoria da micromedição.......................... 507
10.3.5. Exemplo de aplicação dos indicadores ........466 10.8.4. Combate às fraudes...................................... 509
10.4. Perdas reais......................................................... ......467 10.8.5. Melhorias no sistema comercial.................. 509
10.4.1. Vazamentos............................................ ......467 10.8.6. Qualificação da mão-de-obra....................... 510
10.4.2. Extravasamentos.................................... ......472 10.8.7. Quadro geral................................................. 510
10.4.3. Avaliação de perdas reais....................... ......473 10.9. Gerenciamento do controle de perdas................... 511
10.5. Perdas aparentes................................................ ......479 10.9.1. Considerações básicas.................................. 511
10.5.1. Erros dos medidores de vazão............... ......479 10.9.2. Estruturação de um programa de controle e
10.5.2. Gestão comercial................................... ......484 redução de perdas......................................... 51?
10.5.3. Avaliação de perdas aparentes............... ......485 10.9.3. Análise econômica....................................... 514
10.6. Controle e redução de perdas........................... ......487 10.10. Novas tecnologias utilizadas no controle e redução
10.6.1. Histórico......................................... ....... ......487 de perdas................................................................... 57,0
10.6.2. Unidades de controle............................. ......487 10.10.1. Cartografia digital e sistemas de informações
10.6.3. Prazos..................................................... ......490 geográficas................................................... 57,0
10.7. Controle de perdas reais................................... ......490 10.10.2. Sistemas de supervisão e controle............... 57,0
10.7.1. Generalidades........................................ ......490 10.10.3. Armazenadores de dados de ruídos de
10.7.2. Controle ativo dos vazamentos.............. ......492 vazamentos................................................... 571
10.7.3. Reparo de vazamentos........................... ......495 10.10.4. Tubos com baixo índice de vazamentos....... 577
10.7.4. Melhoria da condição da infra-estrutura ......496 10.10.5. Medição de vazões e volumes..................... 577
10.7.5. Controle de pressão............................... ......498 10.11. Considerações finais................................................ 577
10.7.6. Controle de extravasamentos................. 502 Referências bibliográficas.......................................... 523

Capítulo 11 Ligações Prediais e Medidores

11.1. Introdução........................................................... ......527 11.2.4. Estrutura de medição de multi-usuário........ 537


11.2. Componentes da ligação predial....................... ......528 11.3. Hidrômetros.............................................................. 543
11.2.1. Dispositivo de tomada........................... ......528 11.3.1. Definição...................................................... 543
11.2.2. Ramal predial......................................... ......530 11.3.2. Classificação dos hidrômetros mais
11.2.3. Estrutura de medição de usuário individual.. 531 utilizados...................................................... 543
XIII
11 3.3. Novas tecnologias de medição .................... 547 11.3.7. Critérios para a escolha de hidrômetro........ 554
11.3.4. Principais documentos normativos relativos 11.3.8. Ensaio e recebimento de hidrômetros.......... 555
a hidrômetros................................................ 550 557
11.3.5. Definição de grandezas características de 558
hidrômetros................................................... 550 11.3.10. Manutenção de hidrômetros......................... 559
11.3.6. Curvas características de hidrômetros.......... 554 560
19
n
n
\2 Capítulo 12 Uso Racional da Água
\2
*8
59 12.1. Introdução................................................................. 561 12.5.8. Arejadores.................................................... 568
» 12.2. Metodoiogia básica................................................... 563 12.6. Estudos de casos na Região Metropolitana de São
W 12.3. Ações alternativas para redução de consumo de Paulo........................ ........ 568
564 12.7. Experiências sobre economia de água em outros
io
13 12.4. Equipamentos economizadores de água................. 564 países................................ . ............... 568
12.5. Aparelhos sanitários de baixo consumo de água ... 567 12.8. Medição individual de água em apartamentos..... 570
13
12.5.1. Bacias sanitárias........................................... 567 12.8.1. Considerações gerais.................................... 570
>1
12.5.2. Registro regulador de vazão........................ 567 12.8.2. Vantagens da medição individualizada........ 571
>5
12.5.3. Fechamento automático hidromecânico....... 567 12.8.3. Projetos de instalações prediais de água
12.5.4. Fechamento automático hidromecânico com fria para a medição individualizada de
sistema antivandalismo................................ 568 apartamentos................................................ 572
12.5.5. Acionamento mecânico com os p é s ............ 568 12.8,4. Esquemas básicos principais........................ 574
12.5.6. Fechamento automático hidromecânico para 12.8.5. Medição individualizada em edifícios
deficientes..................................................... 568 antigos.......................................................... 574
>3 12.5.7. Acionamento por presença........................... 568 Referências bibliográficas.................................•........ 575

)4
)4 Capítulo 13 Automação de Sistemas de Abastecimento de Água
)5
)5
13.1. Introdução............................ .......................................577 13.11.3. Sistemas mistos............................................ 596
)6 13.2. O conceito de autom ação........................................... 577 13.12. Redes de automação................................................ 597
)7 13.3. Características da autom ação................................... 578 13.12.1. Arquitetura................................................... 597
)9 13.4. Campo de aplicação..................... ..............................578 13.12.2. Redes para automação..................................599
)9 13.5. Requisitos da autom ação........................................... 581 13.12.3. Protocolo...................................................... 600
LO 13.5.1. Requisitos do sistema de automação..............581 13.12.4. Outros elementos do sistema....................... 605
LO 13.5.2. Requisitos do processo de fornecimento......581 13.13. Sistema SCADA (Supervisory Control and Data
[1 13.5.3. Plano de automação........................................583 Acquisition)............................................................... 606
11 13.5.4. Estimativa de benefício versus custo.............583 13.13.1 Unidades Terminais Remotas (UTRs)..........606
13.6. Controle de processos.................................................584 13.13.2. Comunicação............................................... 606
12 13.6.1. Processo..................................... ....................584 13.13.3. Estação mestre............................................. 606
14 13.6.2. Controle...........................................................585 13.13.4. Alguns aspectos importantes para o projeto e
13.6.3. Técnicas de controle automático................... 586 desenvolvimento de um sistema SCADA....606
>0 13.7. Controladores program áveis........................... j........588 13.14. Aplicações da automação em sistemas de
13.7.1. Definições.......................................................588 abastecimento de água............................................ 607
>0 13.7.2. Controlador Lógico Programável (CLP)......588 13.14.1.Monitoramento da qualidade de água bruta
>0 13.7.3. Características construtivas ........................... 589 captada.......................................................... 608
13.7.4. Arquitetura básica.................................. i....... 590 13.14.2. Controle de bombeamento da água bruta.......
>i 13.8. Instrum entação..................................................:........591 13.14.3.Controle do bombeamento de água tratada... 609
12 13.8.1. Instrumentação digital.................................... 591 13.15. Estudos de casos....................................................... 610
12 13.8.2. Instrumentação analógica................................591 13.15.1. Automação de sistemas produtores de água e
12 13.9. Atuadores ou acionam entos.............................1........ 591 tratamento de esgotos - Aqualog................. 610
13 13.9.1. Atuadores ou elementos finais..................... 591 13.15.2. Automação de poços profundos na
13.9.2. Acionamentos elétricos................................ 591 Unidade de Negócio do Vale do Paraíba
13.9.3. Acionamentos hidráulicos e pneumáticos....592 da SABESP.................................................. 617
13.10. Entradas e saíd as........................................................592 13.15.3. Controle da distribuição de água através de
13.10.1. Entradas...........................................................592 sistemas informatizados de supervisão e
13.10.2. Saídas..............................................................593 comando a distância na Unidade de Negócio
13.10.3. Outras entradas e saídas................................. 594 Pardo e Grande da SABESP: alguns
M 13.10.4. Ligações de entradas e saídas........................ 594 resultados práticos........................................622
L3 13.11, Sistemas de controle distribuídos............................. 594 13.15.4. Sistema de Controle da Operação de
L3 13.11.1. Evolução tecnológica dos sistemas de Adução da Região Metropolitana de São
controle........................................................... 594 Paulo - SCOA............................................... 628
L3 13.11.2. Controle baseado em P C ................................ 595 Referências bibliográficas.......................................... 643
ABASTECIMENTO DE AGUA
Pedro Alem Sobrinho (MSc., Dr.)*
Getúlio Martins (MSc., Dr.)**

1.1. INTRODUÇÃO

Uma das principais prioridades das populações é o atendimento nor siste­


ma de abastecimento de água em quantidade e qualidade adequadas, pela
importância para atendimento às suas necessidades relacionadas à saúde e ao
desenvolvimento industrial.
Em vista da importância de um adequado sistema de abastecimento de
água, grandes esforços vêm sendo feitos, particularmente nas últimas décadas
do século 20, com elevados investimentos, de modo a se levar água de boa
qualidade ao maior número possível de usuários, especialmente dos países
em desenvolvimento, onde a situação de abastecimento de água é menos
favorável. No Brasil, um imenso progresso em relação à implantação de
sistemas de abastecimento de água se deu nas décadas de 1970 e 1980 com a
implementação do PLANASA - Plano Nacional do Saneamento - que permitiu
ao país atingir níveis de atendimento de cerca de 90 % da população urbana.
Hoje, nos centros urbanos mais desenvolvidos, as maiores deficiências
observadas em sistemas de abastecimento de água se devem principalmente à
deterioração dos sistemas mais antigos, especialmente na parte de distribuição
de água, com tubulações antigas apresentando freqüentes problemas de
rompimentos e de vazamentos de água, ou mesmo a falta de abastecimento de
áreas urbanas que apresentam rápido e desordenado crescimento. Assim, para
esses centros urbanos, as necessidades de adequações dos serviços de
abastecimento de água está ligada à reabilitação de redes de transporte e
distribuição de água mais antigas, bem como a construção e ampliação dos
sistemas para atender às novas áreas de crescimento. Estima-se que nos grandes
centros urbanos os maiores investimentos necessários serão para a recuperação
das partes mais antigas do sistema de transporte e distribuição de água potável.
A deterioração dos sistemas de transporte e distribuição de água mais antigos,

(*) Professor Titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo. E-mail: palem@usp.br.
(**) Engenheiro Civil, formado pela Escola de Engenharia de Taubaté em 1975. Mestre e Doutor em Saúde Pública pela USP
C o n su lto r A m b ien tal. P ro fe sso r do N úcleo de Inform ações em Saúde A m biental - N ISA M , da USP, E-m ail:
getmartins @uol.com.br.
2 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

que não sofrem adequada m anutenção e 1.2. EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS DE CAP­
recuperação, resultam em elevada perda de TAÇÃO, TRANSPORTE E DISTRIBUI­
água, com importantes perdas de faturamento ÇÃO DE ÁGUA DE ABASTECIMENTO
por parte da prestadora do serviço, devido aos
vazamentos, bem como deixa o sistema de Desde que as pessoas passaram a ter ativi­
abastecimento vulnerável à contaminação da dades agrícolas e criar animais, passaram a se fixar
água através da perda de estanqueidade das em vilas, que posteriormente se transformaram em
tubulações e juntas danificadas. Ainda, em cidades, que já eram observadas cerca de 5000 a
relação a grandes centros urbanos, em casos 4000 A.C., a necessidade de água para atender às
onde se tem elevada concentração de população necessidades da população e também para irrigação
em áreas com pouca disponibilidade de água, de suas culturas agrícolas fez com que as primeiras
como São Paulo, por exemplo, o reúso de água obras visando o abastecimento de água fossem
passa a ser uma alternativa cada vez mais construídas. As primeiras obras com sucesso para
im portante, devendo ser considerada na se controlar o fluxo de água foram feitas na Meso-
ampliação dos sistemas de abastecimento a potâmia e no Egito, onde ruínas de canais de irriga­
im plantação de linhas independentes de ção pré-históricos ainda existem (Mays, 2000).
transporte e distribuição de águas de reúso in­ A cidade de Knossos, na ilha de Creta, foi
dustrial, ou mesmo de irrigação e limpeza de inicialmente habitada depois de 6000 A.C. e por
áreas urbanas. volta de 3000 A.C. era a maior cidade da região.
Já para os centros urbanos menos Por volta de 1700 - 1450 A.C. a cidade estava
desenvolvidos e em pequenos aglomerados em seu apogeu e desenvolveu um sistema de
hum anos, particularm ente nos países em transporte de água que utilizava condutos circula-
desenvolvimento, ainda se tem uma razoável res e distribuíam água para a cidade e para o palá­
parcela da população que não conta com cio em tubulações pressurizadas. Estes, possi­
atendimento por serviço de abastecimento de velmente, foram os primeiros tubos utilizados já
água ou contam com o serviço de forma que outras civilizações apenas se utilizavam de
inadequada, seja em relação à quantidade ou à canais superficiais.
qualidade da água. Nesses casos, esforços Na região de Anatólia, também chamada de
devem ser feitos no sentido de propiciar a essas Ásia Menor, atualmente parte da Turquia, ainda são
populações um serviço adequado de encontradas ruínas de antigos sistemas de abas­
abastecimento de água, que em muitos casos tecimento de água, construídos entre 2000 - 200
som ente poderão ser conseguidos com A.C., incluindo tubulações, canais, túneis, sifões
subsídios de governos estaduais ou nacionais invertidos, aquedutos, reservatórios, cisternas e
ou mesmo de organismos internacionais, pois barragens. Nessa região, um exemplo marcante é o
sem um adequado sistema de abastecimento de da cidade de Ephesus, que para o abastecimento de
água as condições de saúde da população serão água construiu, de 4 a 14 D.C., um sistema composto
negativamente afetadas. de uma barragem, de onde a água era retirada e
De acordo com Gleick (1993), em 1990, transportada para a cidade por uma adutora de 6
nos países em desenvolvimento, cerca de 1,232 km, contendo uma linha de tubo grande e duas de
bilhões de pessoas (243 milhões na área urbana tubos menores, todos de material cerâmico. A
e 989 milhões na área rural) não contavam com distribuição de água era através de tubos.
serviço comunitário de abastecimento de água, Por volta de 100 D.C. os romanos já haviam
com uma previsão de que no ano 2000, com o construído vários aquedutos, procurando trazer
forte crescimento das populações mais pobres, água de fontes para o abastecimento, pois
o déficit de atendimento por sistema comunitá­ consideravam essas águas de melhor qualidade que
rio de abastecimento de água nesses paises em as dos rios para a saúde da população, além de não
desenvolvimento chegaria a 2.114 x 106pessoas necessitar serem elevadas para níveis mais altos,
(813 x 106 na área urbana e 1.301 x 106 na área para atender aos consumidores, como era necessá­
rural). rio para as águas dos rios. Em realidade os romanos
ABASTECIMENTO DE ÁGUA 3
não foram os primeiros a construir aquedutos, pois Nos Estados Unidos da América do Norte, o
os fenícios e os helenos já os haviam construído primeiro sistema de abastecimento de água foi
anteriormente (Mays, 2000). construído no Estado da Pennsylvania, em 1754.
Enquanto muitos dos aquedutos romanos A essa época, os sistemas de abastecimento de
eram construídos acima do terreno, com escoamen­ água incluíam bombas movidas a cavalos e a
to livre em canais, tinha-se também condutos distribuição de água feita com tubos de ferro
enterrados para o transporte da água para reservató­ fundido. Até a primeira metade do século 20,
rios (castelos) e posterior distribuição de água para praticamente todos os sistemas de distribuição de
os pontos de uso, principalmente as fontes e casas água nesse país utilizavam o ferro fundido,
de banho. Os tubos de distribuição de água que quando então passaram a ser utilizados tubos de
partiam dos reservatórios eram normalmente de ferro dútil e posteriormente outros materiais.
chumbo ou cerâmicos e eram colocados sob as Sistemas de abastecimento de água mais próximos
principais ruas das cidades. Tubos de chumbo eram dos atualmente utilizados começaram a ser
bastante comuns, embora os Romanos reconhe­ utilizados quando as bombas tocadas a vapor para
cessem que a água transportada por esses tubos elevatórias de água passaram a ser utilizadas,
representava um perigo à saúde. inicialm ente em 1764, em Bethlehem, na
A queda do Império Romano se estendeu por Pensylvania (Mays, 2000).
um período de transição superior a 1000 anos, du­ No Brasil, a primeira cidade a ter sistema de
rante os quais os conceitos científicos relacionados abastecimento de água foi o Rio de Janeiro, que
aos recursos hídricos regrediram. Após a queda do em 1561 teve um primeiro poço escavado, por
Império Romano, as condições de saneamento e Estácio de Sá e depois, somente em 1673 se
de saúde pública na Europa eram, em muitos casos iniciaram obras de adução de água para a cidade.
deploráveis, com águas poluídas, dejetos humanos Em 1723 foi construído o primeiro aqueduto do
e de animais nas ruas e águas servidas jogadas pelas Rio de Janeiro, aduzindo águas do rio Carioca
janelas, tendo ocorrido aí várias epidemias. Du­ através dos arcos velhos até o chafariz público. Em
rante o mesmo período, culturas islâmicas na 1750 era construído o aqueduto do Carioca, com
periferia da Europa, por influência religiosa 13 km, através dos arcos novos. Em 1810 a cidade
mantinham elevado nível de higiene pessoal, man­ contava com mais de 20 chafarizes públicos e em
tendo sistemas de abastecimento de água bastante 1860 o sistema de abastecimento de água distribuía
desenvolvidos e adequados sistemas de esgotamen­ 8 milhões de litros por dia. Apenas em 1876 foi
to sanitário (Mays, 2000). contratado o projeto para o primeiro sistema de
Em 1237 era construído o primeiro sistema abastecimento de água encanada do Rio de Janeiro
de abastecimento de água encanada de Londres, (Azevedo Netto, 1984).
utilizando tubos de chumbo, que seguramente não Em São Paulo, o primeiro chafariz público foi
era o material ideal para tubulações de água de construído em 1744 e em 1746 foram construídas
abastecimento. O domínio da produção de tubos pequenas linhas adutoras para abastecer os
de ferro fundido foi um fato importante para o conventos de Santa Tereza e da Luz. Em 1842 foi
desenvolvimento dos sistemas de abastecimento elaborado o primeiro projeto de adução e
de água. Embora em 1455 tenha sido empregada a distribuição de água para a cidade que até então
primeira tubulação de ferro fundido no Castelo de era servida por chafarizes públicos.
Dillenburgh na Alemanha, o seu uso em grande Outros sistemas de abastecimento de água
escala parece ter demorado a acontecer. Em 1652 executados no Brasil, ainda no século 19, citadas
uma adutora de ferro fundido foi construída em por Azevedo Netto (1984) foram: Porto Alegre em
Boston, USA, e em 1664 uma adutora de mais de 1861; Santos em 1870; Campos, RJ, em 1880;
22 km foi construída na França, também em ferro Campinas, SP, em 1891; Bofete, SP, em 1892, com
fundido para abastecer o Palácio de Versailles, a perfuração do primeiro poço profundo no Brasil
tomando-se a maior linha de tubos da época e ainda e Belo Horizonte, em 1897, juntamente com a
hoje parte dessa tubulação permanece em serviço inauguração da cidade, que também contava com
(Azevedo Netto, 1984). sistema de esgoto sanitário.
4 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Outros fatos marcantes que merecem ser água, particularmente no Brasil, foi durante muito
citados, por apresentarem um grande avanço em tempo relegada a segundo plano, porém, em vista
relação aos sistemas atuais de abastecimento dos benefícios, principalmente econômicos
público de água são a introdução de medidores (economia de custos de produção de água e de ener­
distritais em Londres, em 1880 e o primeiro estudo gia elétrica e controle de perdas de faturamento) e
relativo a perdas de água, realizado em Glasgow, de qualidade dos serviços (garantia de água em
na Escócia, em 1881, que chegou a um índice de qualidade e quantidade adequadas), resultantes de
perdas de 77%. No Brasil, somente em 1950 foi uma adequada operação tem feito com que as
feito um primeiro levantamento de perdas de água, prestadoras de serviços de saneamento dediquem
na cidade de Manaus, que mostrou um índice de cada vez mais atenção à operação dos sistemas de
perdas de 70%. Trabalhos mais recentes sobre as abastecimento de água. O uso da informática, com
perdas em sistemas de abastecimento de água têm modelos matemáticos e equipamentos de controle
mostrado índices de perdas muitas vezes alarman­ hoje bem desenvolvidos e disponíveis no mercado
tes, ressaltando a grande importância do controle e pessoal preparado para a sua utilização têm sido
de perdas, principalmente na distribuição de água de grande valia para uma eficiente operação dos
para um uso racional desse recurso cada vez mais sistemas de saneamento.
limitado, especialmente próximo aos grandes
centros consumidores.
Em sistemas mais antigos de abastecimento 1.3. O ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO
de água, em grande parte pertencente a cidades BRASIL
de maior porte, o transporte e distribuição de água
utilizam principalmente nas tubulações princi­ A situação do abastecimento de água no
pais, tubos de ferro fundido, um material de longa Brasil, se considerados os números globais de
durabilidade, porém que ao longo do tempo, em população atendida, pode ser considerado como
muitos casos, têm sua capacidade de transporte razoavelmente bom. No Diagnóstico dos Ser­
de água reduzida pelo aumento da rugosidade viços de Água e Esgotos de 2001 (ABES, 2003),
interna, que por outro lado pode ter sua capaci­ o índice de atendimento da população urbana
dade de transporte recuperada por limpezas “in- com abastecimento de água no país era de
loco” e por revestimento interno dos tubos com 92,4%, com um total de 28.897,9 x 103 ligações
cimento, que em princípio são soluções menos ativas de água, sendo 75,5% das ligações
custosas do que a simples troca dos tubos. atendidas por companhias estaduais de água e
Vazamentos nessas redes mais antigas devem ser esgotos (que têm 267,5 x 103 quilômetros de
consertados, e apenas tubulações muito deteriora­ rede de água) e o restante por serviços munici­
das ou com capacidade já superada pelo aumento pais (autarquias, companhias municipais ou
de vazão necessária são substituídas. Assim, a operadoras privadas).
reabilitação de sistemas existentes de abasteci­ Dentre as companhias estaduais o maior
mento de água se toma cada vez mais importante, destaque é para a SABESP - SP, com 5155,1 x 103
sendo em muitas áreas até mais importante que a ligações ativas, seguida da COPASA - MG, com
construção de novos sistemas. O uso de matérias 2597,3 x 103 ligações ativas.
alternativos para as tubulações e também para Em relação às perdas de faturamento, medidas
revestimento interno de tubos, suas juntas, pela relação entre os volumes faturados e volumes
equipamentos de controle de pressão e bombas disponibilizados para distribuição, a situação dos
de melhor rendimento, bem como o uso de serviços de abastecimento de água no Brasil pode
modelos matemáticos adequados têm tido um ser considerada preocupante, apresentando um
papel importante no projeto, construção, recu­ valor médio nacional de tal perda foi de 40,6%,
peração e operação dos sistemas modernos de em 2001. Para as companhias estaduais, as perdas
transporte e distribuição de água de abastecimento de faturamento apresentaram em 2001, média de
público. 40,4%, sendo os valores por Região apresentados
A operação dos sistemas de abastecimento de na Tabela 1.1.
ABASTECIMENTO DE ÁGUA 5
Tabela 1.1- Perdas de faturamento de água pelas companhias estaduais de água e esgoto em 2001.
Região Perda de faturamento Perda de faturamento
Valor médio Valor máximo estadual
Norte 51,4% 66,6%
Nordeste 47,0% 68,9%
Sudeste 39,2% 57,1%
Sul 36,4% 51,0%
Centro-oeste 30,0% 37,2%
Fonte: ABES (2003).
1.4. OS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO Pesquisas realizadas no Vale do Ribeira e na
DE ÁGUA E A SAÚDE PÚBLICA Região do Médio Paranapanema, no Estado de São
Paulo, em 1992 e 1996, no período de um ano após
As mudanças ocorridas nos padrões epidemio- a implantação de sistemas de abastecimento de
lógicos em todas as sociedades foram marcadas água, constataram que, apesar da manutenção das
pela redução das taxas de mortalidade por doenças condições sócio-econômicas das comunidades,
infecciosas e pelo aumento das doenças crônico- houve reduções de até 78% na prevalência das
degenerativas. A água é o principal vetor de trans­ doenças associadas à água contaminada, nas
missão das doenças infecciosas. Já as crônico- populações observadas (Martins 1995, 2000).
degenerativas são associadas a fatores hereditários As enfermidades que podem ser transmitidas
e ao estilo de vida das pessoas. pela água pertencem ao grupo das Doenças
As principais causas dessas mudanças foram Infecciosas e Parasitárias - DIP, conforme a
as melhorias do saneamento ambiental e do estado Classificação Internacional de Doenças - CID
nutricional da população, além da redução das estabelecida pela Organização Mundial da Saúde
taxas de natalidade. Os cuidados médicos e os - OMS. No Brasil, em 1979, essas doenças
avanços tecnológicos na área da saúde tiveram representavam 10,26% de todos os óbitos. Em
importância secundária nessas transformações 1995, elas passaram a representar 4,33% dos óbitos
(Barreto, 2000). (DATASUS 2003). O grupo de idades mais
atingido por essas doenças é o de crianças até nove
1.4.1. Benefícios do abastecimento de água à anos Entre as DIP, as enfermidades diretamente
saúde pública relacionadas com a água contaminada são as doen­
ças infecciosas intestinais caracterizadas pelas
Entre as melhorias do saneamento ambiental diarréias.
os sistemas de abastecimento de água são os que O enorme benefício dos sistemas de abaste­
provocam maior impacto na redução das doenças cimento de água à saúde da população em todos
infecciosas. A água contém sais dissolvidos, os estratos sociais, ao proporcionar as mesmas
partículas em suspensão e microrganismos, que oportunidades de higiene, conforto e bem-estar,
podem provocar doenças, dependendo das suas mesmo às camadas mais desfavorecidas, tem um
concentrações. Livre desses agentes, além de evitar reflexo imediato na redução da demanda por
a contaminação das pessoas, a água provoca serviços de saúde. A proporção entre óbitos,
inúmeros benefícios diretos à saúde. Ajuda na internações e consultas médicas, apresentada pelo
preparação de alimentos, favorecendo uma Sistema Único de Saúde - SUS em 1995 foi de
nutrição saudável, possibilita a higiene corporal e 1:14:356. Assim, pode-se constatar que por trás
a limpeza do ambiente e contribui para a hidratação da redução de óbitos mostrada pelos dados do
do organismo. Quando fluoretada fortalece o DATASUS, há um contingente enorme de pessoas
esmalte dos dentes na formação da dentição perma­ que deixa de procurar os serviços de saúde. Com
nente, reduzindo em cerca de 65% a prevalência isso, obtém-se um alívio no orçamento dos setores
de cáries dentárias. da Saúde, da Previdência e da Educação.
6 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

1.4.2. Benefícios do abastecimento de água ao crianças menores de um ano, por DIP, no Brasil,
orçamento da União de 1980 a 1996. Cerca de 80% dos óbitos nessa
idade é causado por doenças infecciosas intestinais.
Martins et ai. (2001) avaliaram o alívio A Figura 1.1 mostra que na medida em que aumenta
orçamentário pela redução dos gastos com consultas a cobertura dos serviços de água, cai a proporção
e procedimentos médicos, tratamento medicamen­ de óbitos de crianças. Outros fatores como a re-
toso, exames laboratoriais e de apoio ao diagnóstico, hidrataçao oral, certamente contribuíram para essa
internação hospitalar, acrescidos das estimativas do redução, mas não se pode deixar de ressaltar a
equivalente aos dias de trabalho e de aulas perdidos. importância dos sistemas de abastecimento de
Chegaram à relação de US$ 1,16, para cada dólar água. Essa importância ficou registrada nos jornais
gasto com serviços de água e esgotos. Conside­ brasileiros pelo depoimento da Dona Silvânia
rando-se os benefícios associados a valores Matias da Silva, lavadeira, moradora de uma favela
subjetivos como conforto, bem-estar, desenvolvi­ do Recife visitada pelo Presidente Lula, em 08/
mento econômico, por exemplo, essa relação pode 01/2003, para lançamento do programa “Fome
chegar a US$ 3,50 para cada dólar gasto em água e Zero”: "O que o pessoal precisa mesmo é de uma
esgotos. Isso tudo, sem considerar o custo de não casa com água e esgoto. Tendo uma habitação
fazer, que nesse caso pode significar morte em vez digna, a comida a gente consegue” (FSP 2003).
de saúde para a população.
1.4.4. O fator educação
1.4.3. Maior cobertura do abastecimento de
água, menos doenças A escolaridade das mães e das crianças é o
principal aliado dos sistemas de abastecimento de
Há uma forte correlação negativa, entre a água para a redução de doenças. Na busca de
proporção de pessoas abastecidas por sistemas fatores determinantes para explicação das varia­
públicos de água e a proporção de óbitos de ções dos indicadores de saúde, a escolaridade tem

-A— População Óbitos de < 1 ano por


abastecida (%) DIP relação ao total (%)

Figura 1 . 1 - Proporção da população atendida por sistemas de abastecimento de água (ABES,


1998) e óbitos de menores de um ano por DIP (DATASUS\ 2003), em relação ao total de óbitos,
de 1980 e 1996, no Brasil.
ABASTECIMENTO DE ÁGUA 7
sido a variável mais importante, segundo os Nos Estados Unidos, o custo dos surtos
modelos estatísticos. Assim, recomenda-se que a causados pelos problemas de contaminação da
implantação de sistemas de abastecimento de água água dos sistemas públicos de abastecimento é
seja acompanhada de programas de educação avaliado em US$ 3 milhões por ano, principal­
sanitária, a fim de se incentivar mudanças de mente pelo absenteísmo no trabalho provocado
hábitos na população beneficiada. pelas enfermidades (Payment, 1997).
Por trás dos fracassos na redução de doenças Em todos esses casos o maior prejuízo e mais
após a implantação dos sistemas de abastecimento difícil de ser recuperado é a confiança da população
água, está sempre a ausência de programas educa­ na empresa de saneamento básico.
cionais. Lavar as mãos antes das refeições e ao
preparar alimentos e mamadeira para as crianças, 1.4.6. Flúor na água de abastecimento
tomar banho e trocar de roupa regularmente, prote­
ger e limpar as caixas d’água domiciliares são A fluoretação da água, que passou a ser
cuidados higiênicos fundamentais para que seja praticada no Brasil em 1953, mas ganhou impulso
rompido o círculo vicioso saúde-doença. Esse em 1985 com o início da aplicação de flúor na água
círculo é característico das situações em que o distribuída na Região Metropolitana de São Paulo,
paciente recebe tratamento médico, retorna para é um importante fator de prevenção de cáries em
ambientes e práticas insalubres. Com as defesas crianças com conseqüências importantes para a
orgânicas debilitadas, ele volta a ser contaminado saúde bucal também dos adultos. Dentes sadios
e recomeça o círculo. possibilitam boa mastigação e alimentação
adequada, contribuem para a inserção social das
pessoas e aumento da auto-estima. Ao levar esse
1.4.5. Confiabilidade dos sistemas de abaste­ benefício até as camadas mais desfavorecidas da
cimento de água população, que não têm acesso a dentistas, a
aplicação do flúor na água constitui uma das
Os sistemas de abastecimento de água, quando melhores formas de implementação de políticas
são construídos e operados inadequadamente, não públicas.
são garantias de saúde para a população. Mesmo O Ministério da Saúde, em 1996, realizou uma
nos países desenvolvidos há vários exemplos de pesquisa nacional de saúde bucal que mostrou
surtos de doenças transmitidas pela água, quê menor incidência de cáries nos habitantes das
ocorreram por falhas na operação ou na construção regiões com maior proporção de domicílios
dos sistemas de abastecimento de água. atendidos por sistemas públicos de abastecimento
Na Suécia, de 1980 a 1995, ocorreram 90 de água, independente da aplicação de flúor, como
surtos de doenças transmitidas pela água, envol­ mostra a Figura 1.2. Nessa figura, C P012
vendo 50 mil pessoas com dois óbitos (Andersson, representa o índice de ataque de cáries aos 12 anos,
1997). Na Finlândia, de 1980 a 1992, ocorreram calculado pelo somatório dos dentes cariados (C),
24 surtos que atingiram 7700 pessoas (Lahti, 1995). perdidos (P) e obturados (O), dividido pelo total
Nesses dois países as causas principais foram de crianças observadas.
falhas na desinfecção da água. A Secretaria da Saúde do Estado de São
Na índia, em 1956 e 1972, houve surtos de Paulo, em 1998, realizou um “Levantamento
hepatite que afetaram milhares de pessoas, por Epidemiológico sobre Saúde Bucal” que mos­
causa da contaminação da água pelo esgoto. trou índices de cáries menores em populações
Verificou-se que a tubulação de água estava servidas por sistemas de abastecimento de água
assentada embaixo da rede coletora de esgotos. As com flúor (SES 2000). É fácil imaginar o
tubulações de ferro galvanizado apresentavam impacto dessa medida na saúde bucal de 34
sinais de ferrugem e muitos pontos de vazamen­ milhões de pessoas que nunca foram ao dentista
tos. Com as constantes paradas no abastecimento, no Brasil, conforme mostrou a pesquisa por
os esgotos eram sugados para dentro das tubula­ amostragem de domicílios do IBGE em 2000
ções, contaminando a água (Raman, 1978). (IBGE, 2000).
8 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Oeste

— A— População abastecida ( % ) — ■— C P 0 12(x10)

Figura 1.2 - Proporção da população atendida por sistemas de abastecimento de água (ABES
1998) e índice CPO 12 (DATASUS 2003) por Região e total do Brasil, em 1996.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[ABES] Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Martins G, Boranga J A, França J T L , Pereira H A S L.


Ambiental. Catálogo brasileiro de engenharia sanitária - Impacto de sistemas de abastecimento de água na saúde
CABES XVIII: guia do saneamento ambiental do Brasil: pública. Apresentado no XXVII Congresso Interameri-
1993-96. Rio de Janeiro; 1998. cano de Engenharia Sanitária e Ambiental realizado de 3
a 8 de dezembro de 2000, em Porto Alegre - RS - Brasil.
[ABES] Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e
Ambiental. Diagnóstico dos serviços de água e esgotos 2001 Martins G. Benefícios e custos do abastecimento de água e
- Revista Bio ano XIII, n 25, pp 19-34, janeiro / março, 2003. esgotamento sanitário em pequenas comunidades. São Paulo;
Rio de Janeiro; 2003. 1995. [Dissertação de Mestrado - Faculdade de Saúde
Pública da USP].
Andersson Y, Jong B, Studahl. Waterbome Campylobacter
in Sweden: the cost ofan outbreak. Wat. Sei. Tech. Vol. 35, n
Martins G; Latorre M R D O; Boranga J A; Pereira, H A
ll-14.Gret Britain. Elsevier Science Ltd. IAWQ. 1997
S L. Curar é mais barato do que prevenir. Certo ou
Azevedo Netto, J.M. Cronologia do abastecimento de água errado?. In: XII Encontro Técnico da Associação dos
(até 1970) - Revista DAE, vol 44, n 137, pp 106-111, São E ngenheiros da S abesp, 2001, São Paulo. R evista
Paulo, junho, 1984. SANEAS. 2001.

B arreto M L, Carmos E H. M udanças de padrão de Mays, L.W. Water distribution systems handbook ~ McGraw
morbimortalidade: conceitos e métodos. In: Monteiro C A. Hill Ed. USA, 2000.
Velhos e novos males da saúde no Brasil: a evolução do país e
suas doenças. São Paulo: Hucitec, Nupens/USP, 2000. Payment P. Epidemiology ofendemic gastrointestinal and
respiratory diseases: incidence, fraction attributable to
[DATASUS]. Informações de Saúde. Disponível: http:// tap water and costs to society. Wat. Sei. Tech. 1997; 35(7/10).
tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sim/cnv/obtuf.def.
[02/01/2003]. Raman V, Parhad N M, Deshpande A W, Pathak S K. As-
sessment and control o f water quality in a town distribu­
[FSP]. Jornal Folha de São Paulo. Frases. Opinião. A2.
tion system w ith reference to the incidence o f
Edição de 09/01/2003.
astrointestinal diseases. Progress in Water Technology,
[IBGE] Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios: 11 (1/2): 65-71, 1978.
acesso e utilização dos serviços de saúde, 1998. Rio de
Janeiro; 2000. Relatório disponível no endereço: http:// [SES]. S ecretaria E stadual da Saúde. Levantam ento
www.Ibge.gov.br. [17/04/2002]. epidemiológico em saúde bucal: Estado de São Paulo, 1998.
P ublicado em 2000. D isponível: http://w w w .saude.
Lahti K, Hiisvirta L. Causes o f waterbome outbreaks in com- sp.gv.br. [15/11/2002],
munity water systems in Finland: 1980 ~ 1992. Wat. Sei.
Tech. Vol. 31, n 5 -6 , pp 33-36.Gret Britain. Elsevier Science Walski, T.M.;Chase, D.V.; Savic, D.A. Water distribution
Ltd. IAWQ. 1995. modeling - Haested Press, lst. Ed., USA, 2001.
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS
DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA

2.1. DEFINIÇÃO E OBJETIVOS

Entende-se por concepção de sistema de abastecimento de água, o


conjunto de estudos e conclusões referentes ao estabelecimento de todas as
diretrizes, parâmetros e definições necessárias e suficientes para a caracte­
rização completa do sistema a projetar.
No conjunto de atividades que constitui a elaboração do projeto de um
sistema de abastecimento de água, a concepção é elaborada na fase inicial do
projeto. O estudo de concepção pode, às vezes, ser precedido de um diagnóstico
técnico e ambiental da área em estudo ou, até mesmo, de um Plano Diretor da
bacia hidrográfica.
Basicamente, a concepção tem como objetivos:
• Identificação e quantificação de todos os fatores intervenientes com o sistema
de abastecimento de água;
• Diagnóstico do sistema existente, considerando a situação atual e futura;
• Estabelecimento de todos os parâmetros básicos de projeto;
• Pré-dimensionamento das unidades dos sistemas, para as alternativas
selecionadas;
• Escolha da alternativa mais adequada mediante comparação técnica,
econômica e ambiental, entre as alternativas;
• Estabelecimento das diretrizes gerais de projeto e estimativas das quanti­
dades de serviços que devem ser executados na fase de projeto.

2.2. PARTES DE UM SISTEMA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA

A concepção deverá estender-se aos diversos componentes do sistema


de abastecimento de água e definidas a seguir:
• Manancial: é o corpo de água superficial ou subterrâneo, de onde é retirada
a água para o abastecimento. Deve fornecer vazão suficiente para atender a
demanda de água no período de projeto, e a qualidade dessa água deve ser
adequada sob o ponto de vista sanitário.
10 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Captação: conjunto de estruturas e dispositivos, A Tabela 2.1 apresenta os indicadores de custo


construídos ou montados junto ao manancial, de implantação de sistema convencional de
para a retirada de água destinada ao sistema de abastecimento de água.
abastecimento.
• Estação elevatória: conjunto de obras e equipa­
mentos destinados a recalcar a água para a unida­ 2.3. NORMAS PARA PROJETOS DE
de seguinte. Em sistemas de abastecimento de SISTEMAS DE ABASTECIMENTO
água, geralmente há várias estações elevatórias, DE ÁGUA
tanto para o recalque de água bruta, como para o
recalque de água tratada. Também é comum a As normas da ABNT para projetos de sistemas
estação elevatória, tipo “bòoster”, que se destina de abastecimento de água estão relacionadas a
a aumentar a pressão e/ou vazão em adutoras ou seguir:
redes de distribuição de água.
• Adutora: canalização que se destina conduzir • NBR 12 211 - Estudos de Concepção de Siste­
água entre as unidades que precedem a rede de mas Públicos de Abastecimento de Água, pro­
distribuição. Não distribuem a água aos consu­ mulgada em 1992;
midores, mas podem existir as derivações que • NBR 12 212 - Projeto de Poço para Captação de
são as sub-adutoras. Água Subterrânea, promulgada em 1992;
• Estação de tratamento de água: conjunto de uni­ • NBR 12 213 - Projeto de Captação de Água de
dades destinado a tratar a água de modo a adequar Superfície para Abastecimento Público, promul­
as suas características aos padrões de potabilidade. gada em 1992;
• Reservatório: é o elemento do sistema de distri­ • NBR 12 214 - Projeto de Sistema de Bombea-
buição de água destinado a regularizar as variações mento de Água para Abastecimento Público,
entre as vazões de adução e de distribuição e condi­ promulgada em 1992;
cionar as pressões na rede de distribuição. • NBR 12 215 - Projeto de Adutora de Água para
• Rede de distribuição: parte do sistema de abas­ Abastecimento Público, promulgada em 1991;
tecimento de água formada de tubulações e • NBR 12 216 - Projeto de Estação de Tratamento
órgãos acessórios, destinada a colocar água de Água para Abastecimento Público, promulga­
potável à disposição dos consumidores, de forma da em 1992;
contínua, em quantidade e pressão recomendada. • NBR 12 217 - Projeto de Reservatório de Distri­
buição de Água para Abastecimento Público,
O objetivo principal do sistema de abasteci­ promulgada em 1994;
mento de água é fornecer ao usuário uma água de • NBR 12 218 - Projeto de Rede de Distribuição
boa qualidade para seu uso, quantidade adequada de Água para Abastecimento Público, promul­
e pressão suficiente. gada em 1994.

Tabela 2.1 - Indicadores de custo do sistema convencional de abastecimento de água.


Partes Custo (%)
constituintes
do sistema P<10.000 10.000<P<40.000 40.0GQPsl00.0G0 P>100.000
Captação 30 20 8 3
Adução 8 9 11 11
Bombeamento 6 5 5 1
Tratamento 12 9 9 5
Reservação 6 6 6 4
Distribuição 38 51 61 76
P = população em habitantes. Fonte: Tsutiya f 1998).
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 11
2.4. ESTUDO DE CONCEPÇÃO DE SISTE­ • Sistema de drenagem e controle de cheias:
MA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA canalizações, barragens, etc;
• Saúde: índice de mortalidade infantil,
Para o estado de concepção de sistemas de ocorrência de internamentos e mortes por
abastecimento de água, é necessário o desen­ doenças de veiculação hídrica;
volvimento de uma série de atividades, sendo as • Sistema viário;
principais listadas a seguir. • Energia elétrica.

2.4.1. Caracterização da área de estudo 2.4.2. Análise do sistema de abastecimento de


água existente
a) Características físicas
a) Descrição do sistema existente
• Mapa de localização;
• Principais vias e estradas de acesso;
Identificação de todos os elementos do siste­
• Topografia, relevo e geologia;
ma existente com planta geral, croqui e descrição
• Vegetação;
de todas as unidades: manancial, captação, caixa
• Bacia hidrográfica.
de areia, estação elevatória de água bruta, adutora
de água bruta, estação de tratamento de água,
b) Uso e ocupação do solo
estação elevatória de água tratada, adutora de água
• Planos diretores municipais e regionais; tratada, reservatório, rede de distribuição de água
• Identificação de áreas protegidas ambiental- e ligação de água. Devem ser descritas as caracte­
mente ou com restrições à ocupação; rísticas principais das unidades, tais como: tipo,
• Uso e ocupação atual do solo. processo, diâmetro, capacidade e potência.

c) Aspectos sociais e econômicos b) Diagnóstico do sistema existente


• Atividades econômicas;
Deve ser feito um diagnóstico das unidades do
• Caracterização do mercado de trabalho e
sistema, através de cálculos de verificação de capa­
mão-de-obra disponível;
cidade, abordando aspectos de conservação, desem­
• Distribuição da renda;
penho e dificuldades operacionais, visando o reapro-
• Indicadores sócio-econômicos.
veitamento das edificações e instalações existentes.
Devem constar também avaliações sobre:
d) Sistemas de infra-estrutura e condições
sanitárias
• Área atendida;
• Abastecimento de água: índice de cobertura • População atendida e nível de atendimento;
do sistema de abastecimento de água (popula­ • Regularidade de abastecimento por setor;
ção atendida, índices de atendimento, volume • Consumo per capita e consumo por economia;
produzido, etc); • Número de ligações e consumo por categoria;
• Esgoto sanitário: índice de cobertura do siste­ • Perdas de água no sistema;
ma de esgoto (população atendida, índices • Manejo de Iodos e demais resíduos gerados nas
de atendimento com coleta e tratamento, unidades de tratamento;
volume coletado, volume tratado, etc); • Qualidade da água bruta e tratada, com base em
• Resíduos sólidos urbanos, industriais, hospi­ dados históricos.
talares e dos sistemas de saneamento: coleta,
tratamento e disposição final; 2.4.3. Levantamento dos estudos e planos
• Apresentação da situação de licenciamento existentes
ambiental e de outorga dos sistemas de sanea­
mento do município, ou de programas de • Identificação e análise crítica de todos os estu­
regularização ambiental, caso existentes; dos, projetos e planos existentes que interfiram
12 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

neste estudo, tendo em vista embasar os parâme­ dessa informação, adotar os dados de comuni­
tros, critérios e alternativas a serem propostas. dades de características semelhantes;
• Consumo comercial, público, industrial e espe­
2.4.4. Estudos demográficos e de uso e ocupa­ cial, tendo como base a pesquisa dos mesmos e
ção do solo efetuando suas projeções. Na falta dessa infor­
mação, adotar os dados de atividades similares.
Para a definição da área de atendimento deve­
rão ser observados os seguintes aspectos: b) Cálculo das demandas
O cálculo da demanda média, máxima diária
• Dados censitários;
e horária deve ser apresentado ano a ano, por setor
• Catalogação dos estudos populacionais exis­
de abastecimento e sazonalidade, e distribuído em:
tentes;
residencial, comercial, pública, industrial e especial.
• Pesquisa de campo;
• Levantamento da evolução do uso do solo e
2.4.7. Estudo de mananciais
zoneamento da cidade;
• Análise sócio-econômica do município, bem
a) Manancial superficial
como o papel deste na região;
• Plano diretor da cidade, sua real utilização, atua­ • Estudos e levantamentos hidrológicos das bacias
lização e diretrizes futuras; hidrográficas;
• Projeto da população urbana baseada em méto­ • Usos de recursos hídricos na área de influência;
dos matemáticos, analíticos, comparativos e • Caracterização da cota de inundação;
outros (ano a ano); • Caracterização sanitária e ambiental da bacia,
• Análise e conclusão das projeções efetuadas; considerando:
distribuição da população e suas respectivas - Condições de proteção e as tendências de ocu­
densidades por zonas homogêneas e por setores pação da bacia analisando interferências que
de atendimento. possam afetar a quantidade e qualidade da água
do manancial;
2.4.5. Critérios e parâmetros de projeto - Abordagem do problema de transporte de sedi­
mentos (erosão e assoreamento);
Os critérios e parâmetros de projetos a serem - Análise dos impactos decorrentes da redução
utilizados, listados a seguir, deverão ser considera­ da disponibilidade hídrica em função da capta­
dos devidamente justificados: ção pretendida e dos possíveis conflitos pelo
uso da água;
• Consumo per capita; - Análises físico-químicas, bacteriológicas e
• Coeficientes de variação das vazões: Kv K2, K3; toxicológicas das águas do manancial, dados
• Coeficiente de demanda industrial; de monitoramento e recomendações existen­
• Níveis de atendimento no período de projeto; tes, interpretando-os em função da legislação
• Alcance do estudo. pertinente e da ocupação da bacia de contribui­
ção em questão;
2.4.6. Demanda de água - Avaliação de riscos decorrentes da proximi­
dade de vias de circulação ou indústrias, em
a) Estudo de demanda caso de acidentes com produtos químicos
tóxicos ou perigosos;
• Análise do consumo e sua distribuição nas cate­ • Caracterização topográfica e geotécnica na área
gorias: residencial, comercial, pública, industrial da captação;
e especial; • Condições da bacia a montante e a jusante;
• Consumo per capita ou por economia, tendo • Tratabilidade das águas do manancial;
como base os consumos medidos, efetuando a • Compatibilização com diretrizes estabelecidas
projeção da evolução desse parâmetro. Na falta pelo Plano Diretor da Bacia Hidrográfica.
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 13
b) Manancial subterrâneo empreendimento, os quais devem ser devidamente
considerados na seleção da alternativa, como
• Levantamento cadastral dos poços existentes;
também, os aspectos legais junto às entidades
• Catalogação e estudos das condições hidrogeo-
competentes.
lógicas da região em estudo;
• Zoneamento de áreas de maior potencialidade
2.4.9. Pré-dimensionamento das unidades dos
explorável;
sistemas considerados para a escolha da
• Histórico do aproveitamento dos recursos
alternativa
hídricos na área;
• Caracterização ambiental da bacia de contri­
Devem constar do pré-dimensionamento as
buição e de recarga;
memórias de cálculo e elementos gráficos para seu
• Levantamento sanitário da bacia incluindo
perfeito entendimento.
interpretação de análises físico-quím icas e
bacteriológicas das águas dos poços da região
a) Captação
em estudo, dados de monitoramento e recomen­
dações existentes, considerando a legislação • Localização e descrição;
pertinente; • Pré-dimensionamento hidráulico-sanitário da
• Uso e ocupação atual do solo e tendências futu­ tomada de água com identificação do tipo e forma;
ras ou outros tipos de interferências que possam • Identificação de rede de energia elétrica e de
afetar a qualidade e quantidade da água dos telefonia no local, indicado suas características;
mananciais; • Caracterização topográfica, batimétrica e geotéc-
• Tratabilidade das águas do manancial; nica das áreas estudadas;
• Compatibilidade com as diretrizes estabelecidas • Delimitação da área de inundação e seus impactos;
pelo Plano Diretor da Bacia Hidrográfica. • Identificação da área de desapropriação.

c) Seleção de mananciais b) Estação elevatória e linha de recalque


A seleção dos mananciais passíveis de • Localização;
utilização deve ser precedida de análise preliminar • Pré-dimensionamento dos conjuntos elevatórios,
dos principais aspectos técnicos, econômicos e incluindo curvas características da bomba e do
ambientais envolvidos, de forma a subsidiar a sistema;
formulação e apresentação de alternativas factíveis • Pré-dimensionamento do poço de sucção da
para o sistema em questão. elevatória, dimensões e formas geométricas;
• Pré-dimensionamento hidráulico-sanitário de
2.4.8. Formulação das alternativas de concepção tubulações, peças e acessórios;
• Identificação das tubulações, peças e acessórios
As alternativas a serem formuladas a partir (definição do material);
dos diagnósticos e estudos apresentados, devem • Identificação de travessias de rios, rodovias,
contemplar aspectos locacionais, tecnológicos e ferrovias, de faixas de servidão/desapropriação
operacionais, com a descrição de todas as unidades e áreas de proteção ambiental;
componentes do sistema. Devem também ser • Identificação de rede de energia elétrica e de
apresentadas alternativas de aproveitamento total telefonia no local, indicando suas características;
ou parcial de sistemas existentes, e também, • Identificação de interferências e pontos notáveis;
recuperação das águas de lavagem das unidades • Identificação de áreas de desapropriação e de
da estação de tratamento de água, sistema de proteção ambiental.
tratamento e disposição dos resíduos sólidos e
estudos de análise de risco. c) Adutoras
Para cada alternativa devem ser avaliados os
impactos ambientais negativos e positivos das • Alternativas de traçado;
diversas fases de implantação e operação do • Estudo técnico-econômico de alternativas;
14 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Definição do traçado; 2.4.10. Estimativa de custo das alternativas


• Pré-dimensionamento hidráulico-sanitário de propostas
tubulações, peças e acessórios;
• Identificação das tubulações, peças e acessórios Para a estimativa de custo das alternativas
(definição do material); deverão ser consideradas as obras de Ia etapa,
• Identificação de travessias de rios, rodovias, subdivididas em obras de implantação imediata e
ferrovias, faixas de servidão/desapropriação e obras de complementação da Ia etapa e também,
áreas de proteção ambiental; de 2a etapa. As planilhas de orçamento, memorial
• Identificação de interferências e pontos notáveis. de cálculo do orçamento e eventuais composição
de custos de serviços e propostas de materiais e
d) Estação de tratamento de água equipamentos, com data base definida, farão parte
da apresentação do custo de alternativas. Para essa
• Localização e tipo de tratamento; estimativa devem, também, ser considerados os
• Pré-dimensionamento hidráulico-sanitário das custos operacionais, custos de manutenção, custos
unidades das alternativas das ETAs; de desapropriação e custos das medidas mitiga-
• Caracterização geotécnica das áreas estudadas doras e compensatórias para cada alternativa
através de sondagens; estudada.
• Estudo técnico-econômico de alternativas;
• Estudo da locação da ETA em função da 2.4.11. Análise das alternativas propostas
topografia;
• Identificação de rede de energia elétrica e de A análise é efetuada através de estudo técnico,
telefonia no local, indicando suas características; econômico e ambiental, de modo que o cotejo entre
• Identificação das tubulações, peças, acessórios as alternativas deve apresentar o elenco de
e equipamentos; vantagens e desvantagens. De um modo geral, as
• Identificação das áreas de desapropriação. análises devem estudar os seguintes aspectos:

e) Reservatório • Análise técnica: deve considerar a compatibi­


lidade entre a tecnologia empregada, a equipe
• Estudo de alternativas técnicas e locacionais operacional mínima necessária, a flexibilidade
identificando tipo e capacidade; operacional, a vulnerabilidade do sistema ao
• Pré-dimensionamento hidráulico-sanitário longo da vida útil esperada, o prazo de execução,
do reservatório incluindo tubulações, peças entre outros aspectos relevantes para cada caso;
e acessórios; ® Análise econômica: deve considerar o estudo
• Identificação de tubulações, peças e acessórios econômico a valor presente dos correspondentes
(definição do material); investimentos previstos e das despesas de explo­
• Caracterização geotécnica das áreas estudadas ração e manutenção durante a vida útil dos com­
através de sondagens; ponentes de cada alternativa, adotando a taxa
• Identificação da área de desapropriação. de desconto e o período do estudo definido pela
contratante;
f) Rede de distribuição • Análise ambiental: identificar e avaliar os prin­
cipais impactos inerentes a cada alternativa estu­
• Estudo de setorização; dada e que podem ocorrer em função das diver­
• Estudo de traçados da rede; sas ações previstas para a implantação e opera­
• Pré-dimensionamento hidráulico-sanitário de ção do empreendimento. Fornecer subsídios para
tubulações principais; a escolha da melhor alternativa, devendo os
• Identificação de tubulações (definição do material); impactos associados à alternativa escolhida
• Identificação de travessias de rios, rodovias, serem melhor detalhados por ocasião da elabo­
ferrovias, faixas de servidão/desapropriação e ração dos estudos ambientais necessários ao
de áreas de proteção ambiental. licenciamento prévio;
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 15

as : • Comparação técnica, econômica e ambiental: 2.5.1. Concepções de sistemas de abasteci­


a concepção mais adequada é definida a partir mento de água com captação em manan­
de um estudo comparativo de viabilidade cial superficial
as técnica, econômica, ambiental e institucional
>a, entre as alternativas estudadas, mediante As concepções variam em função do tipo de
e apresentação do elenco das vantagens e desvan- captação em manancial superficial, que podem ser:
n, tagens inerentes a cada aspecto em considera-
al ção. A avaliação do aspecto ambiental pode ser • Captação em curso de água;
Io realizada a partir de uma matriz de impactos • Captação em represas;
e contemplando todas as alternativas propostas • Captação em manancial de serra.
te e respectivas medidas mitigadoras e compensa­
da tórias, como também os planos e programas
>s ambientais necessários. 2.5.1.1. Captação em curso de água
)S
i- 2.4.12. Concepção escolhida A Figura 2.1 apresenta um sistema simples
a de abastecimento de água, com captação em curso
Para a concepção escolhida deverá ser elabo­ de água e com reservatório apoiado a montante.
rado o projeto hidráulico-sanitário das unidades A Figura 2.2 apresenta a concepção anterior,
do sistema. O projeto deverá conter além dos incluindo, neste caso, o reservatório elevado
estudos já elaborados, os estudos discriminados a a montante.
>, seguir, obedecendo-se no que couber, as normas A Figura 2.3 apresenta um sistema de
e técnicas brasileiras. Para todas as unidades do siste- abastecimento de água que atende a zona baixa,
e ma a ser projetado, devem ser realizados os levan- através de um reservatório apoiado, e a zona alta,
s tamentos topográficos e investigações geotécnicas através de um reservatório elevado.
acompanhado do seu respectivo relatório, bem A seguir, são apresentadas algumas concep­
como a delimitação de áreas a serem desapro­ ções de sistemas de abastecimento de água opera­
priadas, faixas de servidão e áreas de proteção das pela SABESP, com captações em cursos de
j ambiental. água:
; Deverão ser apresentados em texto e em
> plantas todos os elementos constituintes das unida­ • Sistema de abastecimento de água da cidade de
des e das obras lineares previstas, de modo a Boituva, Estado de São Paulo (Figura 2.4).
; possibilitar a caracterização da futura obra, • Sistema de abastecimento de água da cidade de
i devendo conter informações seguras como tipo de Franca, Estado de São Paulo (Figura 2.5).
i fundação, movimento de terra, escoramentos, • Sistema principal de abastecimento de água da
equipamentos eletro-mecânicos, estrutura, método cidade de Ubatuba, Estado de São Paulo (Figura
construtivo, jazidas, permitindo a correta previsão 2.6).
orçamentária e visão global das atividades relativas • Sistema de abastecimento de água de Santos, São
a futura obra. Vicente e Cubatão, Estado de São Paulo (Figura
2.7).

2.5. CONCEPÇÕES DE SISTEMAS DE Sistema de abastecimento de água de Santos,


ABASTECIMENTO DE ÁGUA São Vicente e Cubatão

De um modo geral, as concepções de sistemas Esses três municípios são abastecidos por dois
de abastecimento dependem principalmente do sistemas produtores. O sistema produtor Pilões
tipo de manancial, da topografia da área e da capta água nos rios: Marcolino, Pedras, Kágado e
população a ser atendida. A seguir são apresentadas Passareuva, totalizando cerca de 600 lfe.O sistema
algumas concepções de sistemas de abastecimento produtor Cubatão, o mais importante da Baixada
de água. Santista, capta água no rio Cubatão, (barragem sub-
16 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

a) Planta

Curso de água Rede de


Estação de
Tratamento distribuição
de Água Reservatório

Adutora de Adutora de
água bruta água tratada
Estação
elevatória
de água bruta

b) Perfil
Estação de
Tratamento
de Água
Estação
elevatória
de água bruta
Curso de Cidade
água
ÔP
%

Figura 2.1 - Sistema de abastecimento de água, com captação em curso de água e com
reservatório apoiado.

Reservatório
elevado

Estação Estação de Estação


elevatória Tratamento elevatória de Cidade
de água bruta de Águ£ água tratada
Curso de
água

Adutora de Adutora de
Reservatório água tratada
água bruta
enterrado

Figura 2.2 - Sistema de abastecimento de água com captação em curso de água e com reser­
vatório enterrado e elevado.
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 17
Manancial

Figura 2.3 ■- Sistema de abastecimento de água que atende a zona baixa e a zona alta. Fonte:
Orsini (1996).
álvea) e em frente aos canais de fuga da usina Tabela 2.2 - Sistemas produtores de água da
Henry Borden, totalizando aproximadamente RMSR
4,0 m3/s. A Figura 2.7 apresenta os sistemas pro­ Vazão de produção
dutores, as ETAs, reservatórios e as adutoras do Sistema
(m3/s)
sistema integrado de abastecimento de água de
Santos, São Vicente e Cubatão. Cantareira 33
Guarapiranga 14
2.5.1.2. Captação em represas e reservatórios Alto Tietê 10
Rio Grande 4,2
Neste caso, a diferença em relação à captação Rio Claro 3,6
em curso de água, consiste no fato de que a água é Baixo Cotia 0,6
captada em represa, reservatório ou lago. Como Alto Cotia 0/9
exemplo deste tipo de captação será apresentado Ribeirão da Estiva 0,1
o sistema de abastecimento de água da Região
Metropolitana de São Paulo. Fonte: Pollachi (2002).
A RMSP é abastecida através do Sistema
Adutor Metropolitano (SAM) que é operada pela 2.5.1.3. Captação em manancial de serra
SABESP, sendo constituído de 8 estações de trata­
mento de água, 1200 km de adutoras e sub-adutoras, Algumas cidades litorâneas do Estado de São
135 reservatórios, cerca de 24000 km de redes de Paulo têm sua captação de água em manancial de
distribuição, além de uma grande quantidade de serra. A diferença fundamental nesse tipo de
boosters e estações elevatórias. Esse sistema abaste­ captação consiste no fato de que essa água, não
ce cerca de 17 milhões de habitantes, distribuídos passa por um tratamento convencional, podendo
em 39 municípios que formam a Região Metropoli­ ser distribuída apenas com a aplicação de produtos
tana de São Paulo. A captação de água é realizada químicos (cloro e flúor), ou passando por uma
em 8 sistemas produtores apresentados na Tabela 2.2. peneira estática para remoção de material em
A Figura 2.8 apresenta o sistema de abasteci­ suspensão e aplicação de produtos químicos (cloro
mento de água da Região Metropolitana de São e flúor). Nesses sistemas geralmente não há neces­
Paulo. sidade de estação elevatória junto à captação.
18 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

EEAB-BR-ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE ÁGUA BRUTA-BAIXO RECALQUE


EEAB-AR-ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE ÁGUA BRUTA-ALTO RECALQUE
ETA-ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DE ÁGUA
R-RESERVATÓRIO
T-TORRE OU RESERVATÓRIO ELEVADO
EEAT-ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE ÁGUA TRATADA
EPAT-ESTAÇÃO PRESSURIZADORA DE ÁGUA TRATADA

Figura 2.4 - Sistema de abastecimento de água da cidade de Boituva, interior do Estado


de São Paulo. Fonte: SABESP (2000).
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 19
Z. Alta

Restinga

Z. Alta

Z. Alta (íoo)—■
^ oo) R
Noemia Sta Cruz

to - 159m*
600 m3 LJxEA^ Oi

EEAB-ESTAÇAO ELEVATÓRIA DE ÁGUA BRUTA


ETA-ESTAÇÂO DE TRATAMENTO DE ÁGUA
R-RESERVATÔraO
CAPTAÇÃO'' T-TORRE OU RESERVATÓRIO ELEVADO
EA-ESTAÇAO ELEVATÓRIA DE ÁGUA
ZALTA-ZONA ALTA
Z.BAIXA-ZONA BAIXA
CAPTAÇAO
CAPTAÇÃO Pouso □ MEDIDOR DE VAZÃO
Canoas Alegre O VÁLVULA MOTORIZADA
® VÁLVULA DE RETENÇÃO

Figura 2.5 - Sistema de abastecimento de água da cidade de Franca, interior do Estado


de São Paulo. Fonte: SABESP (2002).
20 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

o
■o
(D

Figura 2.6 - Sistema principal de distribuição de água da cidade de Ubatuba, litoral do Estado
de São Paulo. Fonte: Tsutiya e David (2002).
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 21

Figura 2.7 - Sistema de abastecimento de água de Santos, São Vicente e Cubatão. Fonte:
SABESP (1995).
to
Figura 2.8 - Sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo.
SABESP (1995).
to
Francisco
Morato zb

ABASTECIMENTO
Franco
da Rocha

DE ÁGUA
ETA CASA
GRANDE

— Adutoras existentes
^ 2 Estação de Tratamento de Água
g Reservatório de Distribuição
A Estação Elevatória
Fonfe:
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 23
A Figura 2.9 apresenta o sistema de abasteci­ de água do Guarujá, e os detalhes da peneira
mento de água de Peruíbe, que é abastecida através estática são apresentados na Foto 2.1.
de dois sistemas: Cabuçu e Guaraú. O sistema
Cabuçu é composto por captações em mananciais
superficiais de serra (Ribeirão do Cabuçu, Ribeirão
Quatinga e Ribeirão São João). Esse sistema conta
com unidades de tratamento (peneiramento, desin-
fecção e fluoretação), reservação e rede de distri­
buição. O sistema Guaraú é constituído por peque­
no manancial de serra, desinfecção por hipoclorito
de sódio e adução diretamente à rede de distribui­
ção.
O município de Guarujá é abastecido pelo
sistema Jurubatuba, composto pelos rios Jurubatu-
ba e Jurubatuba-Mirim. O tratamento dessas águas
consiste em passar por peneiras estáticas, desin­ Foto 2.1 - Peneira estática instalada na capta­
fecção por cloro, fluoretação e correção de pH. A ção de água de Jurubatuba Mirim no Guarujá,
Figura 2.10 apresenta o sistema de abastecimento litoral do Estado de São Paulo.

°V/A

'061

ANA DIAS Oa *Cto

CAPTAÇÃO
CABUÇU

RIBEIRÃO SÃO JOÃO


CAPTAÇÃO SÃO JOÃO MAR
PERUIBE

POSTO CLORAÇÃO
MORRO DO GUARAU GUARAÚ

RESERVATÓRIO PERUIBE
CAP. 5D00m3

Figura 2.9 - Sistema de abastecimento de água de Peruíbe, litoral do Estado de São Paulo.
Fonte: SABESP (1995).
24 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Figura 2.10 - Sistema de abastecimento de água de Guarujá, litora! do Estado de São Paulo.
Fonte: SABESP (1995).

2.5.2. Concepções de sistemas de abastecimen­ vencional e a água é clorada e distribuída aos


to de água com captação em manancial consumidores.
subterrâneo
2.S.2.2. Captação através de poços horizontais
2.5.2.I. Captação através de caixas de tomada
e drenos A captação de água subterrânea poderá ser feita
através de poços horizontais radiais, desde que as
Quando o aqüífero é freático e o lençol aflora, condições locais sejam favoráveis a esse tipo de
como no caso de encostas formando minas de água, alternativa. Os poços horizontais são dotados de
a captação poderá ser feita com caixas de tomada placas filtrantes periféricas que permitem apenas a
(Figura 2.11), e com drenos, quando o lençol aflora passagem da água e de um pré-filtro que é injetado
no terreno ou está à profundidade muito pequena ao longo do seu comprimento, externamente às
(Figura 2.12). Essas alternativas são geralmente placas, no momento da sua execução. A construção
utilizadas para pequenas comunidades, sendo que, deste tipo de captação minimiza os impactos
nesses casos, não há necessidade de uma ETA con­ ambientais durante a sua implantação e mesmo
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 25
durante a sua vida útil, visto que não ocorrerá a Um número considerável de cidades brasilei­
inundação de áreas resultante da elevação do nível ras consome água obtida de poços, principalmente
do rio. Além disso, em termos qualitativos, a água do tipo tubular profundo. Somente no Estado de
captada por este tipo de estrutura poderá ser, prova­ São Paulo há mais de 300 cidades que extraem e
velmente, distribuída diretamente para a população, utilizam água de lençóis subterrâneos.
sendo necessário efetuar apenas a cloração, a As vantagens do aproveitamento de água
fluoretação e a correção do pH. subterrânea podem ser resumidas nos seguintes
A Figura 2.13 apresenta um esquema de pontos:
captação subterrânea através de poços horizontais.
• Possibilidade de ocorrência próxima ao consumo;
2.5.2.3. Captação através de poços profundos • Qualidade da água, geralmente satisfatória para
fins potáveis;
Para abastecimento público, a água subterrâ­ • Relativa facilidade de extração da água.
nea apresenta-se como notável recurso em muitas
regiões onde existem condições favoráveis para Quanto à qualidade, as águas de lençóis sub­
seu aproveitamento. terrâneos apresentam geralmente características

a) Planta

b) Corte

Figura 2.11 - Captação em afloramentos de água através de caixas de tomada.


26 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

T
Leito drenante
areia e pedra

Tubo circular

Corte A-A

Figura 2.12 - Captação através de drenos.

físicas perfeitamente compatíveis com os padrões Conforme se observa na Figura 2.14, o poço
de qualidade. Devido à ação de filtração lenta atra­ perfurado em um aqüífero freático - poço freático
vés de camadas permeáveis, apresentam-se com - terá o nível de água em seu interior coincidente
baixos teores de cor e turbidez, dispensando o trata­ com o nível do lençol. Em um poço que penetra
mento (menos cloração). Também são isentas de num aqüífero artesiano - poço artesiano - o nível
bactérias normalmente encontradas em águas de água em seu interior subirá acima da camada
superficiais, a não ser que o lençol aproveitado aqüífera. Poderá, às vezes, atingir a boca do poço
esteja sendo atingido por uma fonte poluidora nas e produzir uma descarga contínua. Neste caso
proximidades do ponto de captação. particular, o poço artesiano denomina-se jorrante
Sob o aspecto químico, a água de certos aqüí­ ou surgente.
feros pode conter sais solúveis em maiores propor­ A Figura 2.15 apresenta um esquema típico
ções e, por essa razão ser imprópria para fins potá­ de captação de água em um poço profundo e o
veis. Também a dureza poderá ser elevada em bombeamento para um reservatório de água.
alguns casos e, assim, exigir um tratamento espe­ As cidades de Jales e Terra Roxa (interior do
cial de abrandamento ainda que, para fins potáveis Estado de São Paulo), são exemplos de cidades
ela não seja prejudicial. que utilizam a água subterrânea para seu abasteci­
A relativa facilidade de captação e a possibi­ mento. As Figuras 2.16 e 2.17 apresentam os
lidade de localização das obras nas proximidades esquemas de abastecimento de água dessas cida­
dos centros de consumo concorrem para uma subs­ des.
tancial economia no custo da instalação de sistemas Em algumas regiões do Estado de São Paulo
de abastecimento. onde a água subterrânea é captada através de
A Figura 2.14 apresenta esquematicamente, poços profundos, no aqüífero Guarani, com
os tipos de aqüíferos e de poços, bem como as áreas profundidade acima de lOOOm (cidade de Jales e
de realimentação dos lençóis. Observa-se que o Femandópolis), a água extraída desses poços tem
rio é o ponto de descarga do lençol freático. O temperatura de cerca de 55°C. Para o resfriamento
lençol artesiano descarrega-se num ponto baixo da água, a SABESP utiliza dois processos que se
aonde o mesmo irá novamente aflorar à superfície baseia na troca de calor água-atmosfera por
(não apresentado na figura). evaporação:
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 27

ÁREA DE CAPTAÇÃO
m t qF ?
1

CAMADA IMPERMEÁVEL

Figura 2.13 - Captação subterrânea através de poços horizontais. Fonte: Adaptado de Murioz
(2000).

Linha Piezométrica Poço


, Poço Artesiano do Aqüífero Artesiano Artesiano
i Jorrante

Figura 2.14 - Tipos de aqüíferos e de poços. Fonte: Yassuda e Nogami (1976).


28 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Profundo

Figura 2.15 - Captação de água subterrânea.

• Torre de resfriamento de água: a água quente • Tanque de pulverização: a água é resfriada atra-
é distribuída por recalque na parte superior da vés de bicos especiais, formando uma cortina de
unidade, de forma uniforme por toda a área; após água que troca calor com a atmosfera (Foto 2.3).
a distribuição a água escoa por gravidade através
do enchimento otimizando o contato água-ar; o Muitas das cidades do interior do Estado de
ventilador promove a remoção do ar úmido do São Paulo captam água no manancial superficial e
interior da torre e a água resfriada é recolhida no manancial subterrâneo para o abastecimento de
na parte inferior da torre (Foto 2.2). água, conforme pode ser observado na Figura 2.18.

Foto 2.2 - Torre de resfriamento de água do Foto 2.3 - Tanque de pulverização de água do
Poção I e II da cidade de Jales, interior do Es- Poção I e III da cidade de Fernandópolis, inte-
tado de São Paulo. rior do Estado de São Paulo.
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 29

Figura 2.16 - Sistema de abastecimento de água da cidade de Jales, interior do Estado


de São Paulo. Fonte: SABESP (2000).
30 ABASTECIMENTO DE ÁGUA
Zona Alta I

PP-POÇO PROFUNDO
EEAT-ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE ÁGUA TRATADA
R-RESERVATÓRIO
T-TORRE OU RESERVATÓRIO ELEVADO

Figura 2.17 - Sistema de abastecimento de água da cidade de Terra Roxa, interior do Estado
de São Paulo. Fonte: SABESP (1996).
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 31

Figura 2.18 - Sistema de abastecimento de água com captação em manancial superficial e


subterrâneo. Fonte: Orsini (1996).

2.6. LICENCIAMENTO AMBIENTAL DE Os sistemas de abastecimento de água são


SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE objeto de licenciamento ambiental por utilizarem
ÁGUA recursos ambientais, por serem obras de saneamen­
M aria do Carmo Alcântara (*) to que podem causar modificações ambientais, por
conterem unidades de tratamento geradoras de
resíduos consideradas como fonte de poluição pela
2.6.1. Considerações gerais
legislação estadual.
O Licenciamento Ambiental "é um proce­ A legislação federal (Resolução CONAMA
dimento administrativo pelo qual o órgão ambien­ 001 de 1986), institui a obrigatoriedade do Estudo
tal competente licencia a localização, instalação e de Impacto Ambiental - EIA e Relatório de
operação de empreendimentos e atividades utili- Impacto Ambiental - RIMA, para o licenciamento
zadoras de recursos ambientais, consideradas de atividades modificadoras do meio ambiente,
efetivamente poluidoras ou daquelas que, sob mas os procedimentos para o licenciamento
qualquer forma, possam causar degradação ambiental são estabelecidos pela legislação
ambiental, considerando as disposições legais e estadual.
regulamentares e as normas técnicas aplicáveis ao Para o Estado de São Paulo, a Resolução SMA
caso” (Resolução CONAMA n° 237 de dezembro 42 de 1994 instituiu dois instrumentos preliminares
de 1997). ao ELA - RIMA, o Relatório Ambiental Preliminar
Para o processo de licenciamento ambiental - RAP e o Termo de Referência - TR, e estabeleceu
entende-se por sistema de abastecimento de água, que o licenciamento ambiental é feito em 3 etapas,
todo os seu componentes: captação (eventuais definidas a seguir:
barragens), adução, tratamento, reservação e distri­
buição. O licenciamento ambiental pode ser feito • Licença Prévia (LP): deve ser solicitada na fase
para todo o sistema a ser implantado ou para de planejamento da atividade, aprovando sua
alguma etapa a ser implantada emergencialmente localização e concepção. E emitida contendo os
ou no caso de ampliações. requisitos básicos a serem atendidos nas fases

(*) Geógrafa pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Especialista em Gestão Ambiental
pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Gestor de Meio Ambiente no Departamento de Projetos e Licenciamento Ambiental
da Superintendência de Gestão de Empreendimentos de Sistemas Regionais da SABESP. E-mail: malcantara@sabesp.com.br.
32 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

de instalação e operação. A LP atesta a viabili­ • As medidas mitigadoras e compensatórias e/ou


dade ambiental do sistema a ser implantado. de controle ambiental em função dos impactos
• Licença de Instalação (LI): deve ser solicitada previstos;
após a emissão da LP, na fase de detalhamento • A apresentação de manifestações e/ou autoriza­
do projeto e deve atender às solicitações e exigên­ ções de outros órgãos (DEPRN, DUSM, IF, etc)
cias feitas pelo órgão ambiental na LP, para a fase ou parceiros (Prefeitura, DAEE, CONDEPHAAT,
de LI. A Licença de Instalação autoriza a instala­ etc) do processo.
ção do empreendimento ou atividades de acordo
com as especificações constantes dos planos, Caso se configure a exigência de EIA -
programas e projetos aprovados, incluindo medi­ RIMA, o interessado submete à Secretaria do Meio
das de controle ambiental e demais condicionantes. Ambiente - SMA o Plano de Trabalho para
• Licença de Operação (LO): deve ser solicitada elaboração do EIA - RIMA, no prazo máximo de
após a implantação do empreendimento, autoriza 180 dias após a publicação da decisão de exigir
a operação do empreendimento após a verifica­ sua apresentação. Com base no Plano de Trabalho
ção do efetivo cumprimento das exigências soli­ apresentado e das informações disponíveis, o órgão
citadas nas licenças anteriores, com as medidas licenciador (SMA) definirá o Termo de Referência
de controle ambiental e condicionantes determi­ do EIA - RIMA, onde o empreendedor será
nadas para a operação. informado dos elementos mínimos a serem abor­
dados e do prazo para sua elaboração.
2.6.2. Licença Prévia O Estudo de Impacto Ambiental é um estudo
que pretende avaliar possíveis alterações ambien­
O RAP é o primeiro documento para iniciar o tais que ocorram com a implantação do empreendi­
processo do licenciamento ambiental de sistemas mento ou atividade, que de forma direta ou indireta
de abastecimento de água. A função do RAP é de possam afetar a saúde, o bem estar, a segurança da
instruir a decisão de exigência ou não de E1A - população, as atividades sociais e econômicas, à
RIMA para obtenção da Licença Prévia. O órgão biota, as condições estéticas e sanitárias do meio
ambiental analisará o RAP, podendo: indeferir o ambiente e a qualidade dos recursos ambientais.
pedido de licença por razões técnicas ou legais, As diretrizes gerais e as atividades técnicas a serem
exigir ou dispensar de EIA-RIMA. desenvolvidas na elaboração de um EIA é definido
O conteúdo mínimo, definido pelo órgão am­ pela Resolução CONAMA n° 01, de 23 de janeiro
biental, a ser contemplado no escopo de um RAP de 1986, entre as diretrizes importantes, destaca-
para sistemas de abastecimento de água deve se lembrar que o estudo de impacto ambiental
considerar: deverá ser realizado por equipe multidisciplinar
habilitada, não dependente direta ou indiretamente
• O objeto do licenciamento: os componentes do do proponente do projeto e que será responsável
sistema a ser implantado, os mananciais e vazões tecnicamente pelos resultados apresentados.
a serem captadas e distribuídas; O Relatório de Impacto Ambiental é um
• A justificativa do empreendimento com as relatório destinado ao público, reflete as conclusões
possíveis alternativas tecnológicas e de localiza­ do EIA, é um relatório acessível ao público,
ção das edificações; disponibilizado no órgão ambiental estadual para
• A caracterização do empreendimento, de forma os interessados, as informações devem ser apresen­
a permitir uma avaliação do projeto proposto; tadas em linguagem acessível, de modo a se enten­
• Um diagnóstico ambiental preliminar da área de der as vantagens e desvantagens do projeto, bem
influência do empreendimento, refletindo as como todas as conseqüências ambientais da sua
condições atuais dos meios: físico, biológico e implantação.
sócio-econômico, inter-relacionadas; Aprovado o estudo que comprova a viabili­
• A identificação e avaliação dos impactos dade ambiental do sistema de água a ser implanta­
ambientais possíveis de serem gerados pelo do, a SMA emite a Licença Prévia - LP, com prazo
empreendimento; fixado (máximo de 5 anos) e indicação do órgão
CONCEPÇÃO DE SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA 33
i/ou que se responsabilizará pelas demais fases do licen­ • Os possíveis conflitos de uso do solo e da água,
'tos ciamento, qual sejam a Licença de Instalação - LI e suas principais conseqüências: erosões e
e a Licença de Operação - LO. assoreamentos;
iza- • Os documentos de aprovação de uso dos
;tc) 2.6.3. Licença de Instalação recursos hídricos emitidos pelo órgão gestor
AT, destes recursos, o DAEE (para rios estaduais) e
A Licença de Instalação é solicitada pelo a Agência Nacional das Águas - ANA (para rios
empreendedor, no órgão especificado pela LP, por federais).
!l - meio de requerimento e comprovação do cumpri­
eio mento das exigências formuladas na mesma. Um Para obras de pequeno porte com pequeno
ara dos pré-requisitos para emissão da LI para sistemas potencial de impacto ambiental, ou para captações
de de abastecimento de água é a emissão pelo órgão a fio d’água que retirem menos de 20% da vazão
gir gestor dos Recursos Hídricos da Autorização de mínima de referência do manancial, é possível
:hO Implantação de Empreendimento (AIE do DAEE) obter uma dispensa de licenciamento. Para isso,
;ão ou Outorga Prévia (da ANA). Este documento deve-se encaminhar uma consulta prévia ao Depar­
^ia informa ao órgão de meio ambiente que aquele tamento de Avaliação de Impactos - DAIA da
trá recurso hídrico está disponível e reservado para SMA, para que se manifeste a respeito.
DT- uso deste empreendimento. A LI é emitida fixando As captações subterrâneas (perfuração de
prazo de validade para o empreendedor iniciar a poços) não são objeto de licenciamento ambiental,
do obra (até 3 anos), podendo ser renovada por igual são consideradas como uso de recursos hídricos,
n- período, caso seja necessário. desta forma, apenas sujeitos à solicitação de
3i- outorga de uso ao DAEE.
ita 2.6.4. Licença de Operação Para 0 licenciamento da maioria das obras de
da sistemas de abastecimento de água em municípios
à A Licença de Operação é solicitada após a operados pela SABESP, tem sido exigido o RAP,
io conclusão das obras, por meio de requerimento e visto que, não há (como no caso dos sistemas de
is. comprovação das exigências formuladas nas LP e esgotamento sanitário) uma legislação para simpli­
m LI. O órgão licenciador indicado, após vistoria ficar os procedimentos de licenciamento destes siste­
Io atestará 0 cumprimento das exigências e a LI é mas. E, apenas projetos de sistemas que contem­
ro emitida, pela SMA ou CETESB com prazo de plam barragens, diques, alagamento de áreas, trans­
a- validade determinado. posições de bacias, têm sido objeto de EIA - RIMA.
al Um dos órgãos importantes do processo de
ar 2.6.5. Outros aspectos do licenciam ento licenciamento ambiental é o Conselho Estadual de
te ambiental Meio Ambiente - CONSEMA que entre as suas
3] muitas atribuições, aprecia os EIA - RIMA. Esta
Alguns aspectos importantes a serem consi­ apreciação é feita por uma das câmaras técnicas,
n derados nos estudos ambientais para o licenciamento após a análise do DAIA, ouvindo o interessado,
íS ambiental de sistemas de abastecimento de água são: os técnicos da SMA e demais segmentos sociais
>, envolvidos. Após a análise, a câmara técnica emite
a • Os recursos hídricos: disponibilidade, qualidade, um parecer técnico aprovando ou reprovando o
usos a montante e a juzante, interferências (barra- empreendimento, que ainda será submetido a
mentos, diques), operação e manutenção da plenária do CONSEMA onde poderá acatá-lo,
Q qualidade da águas dos reservatórios artificiais; modificá-lo ou até recusá-lo, reservando para si a
a • A unidade de tratamento (ETA), o destino das deliberação final.
águas de lavagem dos filtros e o tratamento e Outro aspecto muito importante relacionado
disposição final do lodo gerado; com o licenciamento ambiental foi a promulgação
• A compatibilidade do projeto do uso do manan­ em fevereiro de 1998, da Lei n° 9605, conhecida
) cial com planos e programas aprovados pelo como Lei de Crimes Ambientais, que dispõe sobre
> Comitê da Bacia; as sanções penais e administrativas derivadas de
34 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. A Pela Lei de Crimes Ambientais caracteriza-se
partir desta data incidem penas a quem de qualquer como infração administrativa, sujeita a punição
forma, concorrer para a prática dos crimes, contra a (embargo, multas), a implantação de componentes
fauna, a flora, o ordenamento urbano e o patrimônio de sistemas de abastecimento de água, passíveis de
cultural, a administração ambiental ou causar poluição. licenciamento ambiental, sem as devidas licenças.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MUNOZ, A.Z. Abastecimento y distribución de agua. Colé­ SABESP Sistema de abastecimento de água de Franca.
gio de Ingenieros de Caminos, Canales y Puertos. 4a Unidade de Negócio Pardo e Grande. Vice Presidência do
Edición, 2000. Interior, 2000.

ORSINI, E.Q. Sistemas de abastecimento de água. Apostila SABESP Estudo de concepção do sistema de abastecimen­
da Disciplina PHD 412 - Saneamento II. Escola Politécnica to de água. Norma Técnica NTS 061. São Paulo, 2002.
da Universidade de São Paulo. Departamento de Engenha­
ria Hidráulica e Sanitária. São Paulo, 1996. SECCO, C.K.Z. Operação de sistemas de abastecimento com
limitação de produção de água: Estudo de caso da Região
POLLACHI, A. R edesenho com tecnologia na produção Metropolitana de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Esco­
de água. Slides de apresentação.SABESP. São Pau­ la Politécnica da Universidade de São Paulo. Departamento
lo, 2002. de Engenharia Hidráulica e Sanitária. São Paulo, 2002.

SABESP Relatório síntese. SAM 75. Encibra S.A. São Pau­ TSUTTYA, M. T. et al. Procedimento para elaboração de
lo, 1995. estudos de concepção de sistemas de abastecimento de água.
Superintendência de Planejamento Técnico. Diretoria de
SABESP Plano diretor de abastecimento de água da Bai­ Engenharia, SABESP. São Paulo, 1994.
xada Santista. Consórcio Hidroconsult, Estática e Latin Con-
sult. São Paulo, 1995. TSUTIYA, M. T. Avaliação de custo de sistemas de abasteci­
mento de água. Relatório Técnico. Superintendência de Pesquisa
SABESP Sistema de abastecimento de água da cidade de e Desenvolvimento Tecnológico. 12 p. SABESP. São Paulo, 1998.
Terra Roxa. Unidade de Negócio Pardo e Grande. Vice
Presidência do Interior, 1996. TSUTIYA, M. T. DAVID, A. C. Estudo de redução de cus­
tos de energia elétrica para o sistema de abastecimento de
SABESP Sistema de abastecimento de água da cidade de água de Ubatuba. Relatório Técnico. Superintendência de
Jales . Unidade de Negócio do Baixo Tietê e Grande. Vice Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico. 27 p. SABESP.
Presidência do Interior, 2000. São Paulo, 2001.

SABESP Sistema de abastecimento de água de Boituva. YASSUDA, E. R. NOGAMI, P. S. Captação de água sub­
Unidade de Negócio do Médio Tietê. Vice Presidência do terrânea. Capítulo 5. In: Técnica de abastecimento e trata­
Interior, 2000. mento de água. Voi. I. CETESB. São Paulo, 1976.
fl
se
io
es
ie
s.

CONSUMO DE AGUA

3.1. INTRODUÇÃO

Para o planejamento e gerenciamento de sistema de abastecimento de


água, a previsão do consumo de água é um dos fatores de fundamental impor­
tância. A operação dos sistemas e as suas ampliações e/ou melhorias estão
diretamente associados à demanda de água.
O dimensionamento das tubulações, estruturas e equipamentos são função
das vazões de água, que por sua vez dependem do consumo médio por
habitante, da estimativa do número de habitantes, das variações de demanda,
e de outros consumos que podem ocorrer na área em estudo.

3.2. CLASSIFICAÇÃO DE CONSUMIDORES DE ÁGUA

A classificação dos consumidores por categorias de consumo é uma


prática comum nas prestadoras de serviços de saneamento. Tradicionalmente,
os consumidores são classificados em quatro grandes categorias:

• Doméstico;
• Comercial;
• Industrial;
• Público.

A divisão dos consumidores nessas categorias baseia-se no fato de que


essas categorias são claramente identificáveis, e também devido à necessidade
de estabelecimento de políticas tarifárias e de cobranças diferenciadas. A
categoria de economias residenciais (uso doméstico) é a mais homogênea,
apresentando uma variabilidade de consumo relativamente pequena, quando
comparada à variabilidade das outras categorias. As categorias comercial e
industrial são mais heterogêneas, ocorrendo desde pequenos consumidores
de água como bares, padarias e pequenas indústrias artesanais, até grandes
consumidores de água como shopping center e indústrias de bebida.
A Figura 3.1 apresenta a distribuição percentual do número de ligações de
água na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) por categorias de consumo.
36 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Residencial por Francisco Bicalho, publicada em 1905


89,7% (Yassuda e Nogami, 1976). Por esse estudo, cada
indivíduo consome, em média, de 50 a 90 litros de
água por dia, conforme apresentado na Tabela 3.1.

Tabela 3.1 - Consumo doméstico de água.


Uso Consumo de água
(l/hab .dia )
Figura 3.1 - Ligações de água na RMSP por
categorias de consumo. Fonte: SABESP(2002). Bebida 2
Preparo de alimentos 6
3.2.1. Água para uso doméstico Lavagem de utensílios 2 -9
Higiene pessoal 15-35
A água para uso doméstico corresponde a sua Lavagem de roupas 1 0 - 15
utilização residencial, tanto na área interna como Bacia sanitária 9-10
na área externa da habitação. Na área interna, a Perdas 6-13
água pode ser utilizada para bebida, higiene pessoal, Totaí 50 - 90
preparo de alimentos, lavagem de roupa, lavagem
de utensílios domésticos e limpeza em geral. Para- Rocha e Barreto (1999) obtiveram um perfil
a área externa, utiliza-se a água para rega de jardins, do consumo de água de uma residência unifamiliar,
limpeza de pisos e fachadas, piscinas, lavagem de localizada em um conjunto de apartamentos da
veículos, etc. cidade de São Paulo (Tabela 3.2).
O consumo de água em uma habitação depende Yoshimoto e Silva (2001) apresentam a distri­
de um grande número de fatores, que podem ser buição de consumo de água em residências na
agrupados em seis classes a seguir apresentadas: RMSP:
* 30,9% para descarga de bacia sanitária;
• Características físicas: temperatura do ar, inten­ * 26,7% para banhos;
sidade e freqüência de precipitação da chuva, etc; * 30,0% para pia de cozinha;
• Renda familiar; * 12,4% para outros usos (bebidas, lavagem de
• Características da habitação: área do terreno, roupas, limpezas de pisos, jardins, lavagem de
área construída do imóvel, número de habitantes, carros e outros).
etc; A determinação do consumo de água para o
• Características do abastecimento de água: uso doméstico tem sido freqüentemente realizada
pressão na rede, qualidade da água; nos Estados Unidos, entretanto, os valores obtidos
• Forma de gerenciamento do sistema de abas­ pelos norte-americanos servem apenas como
tecimento: micromedição, tarifas, etc; referência. A Tabela 3.3 apresenta valores de
■ Características culturais da comunidade. consumo doméstico de água nos Estados Unidos,
sem e com práticas de conservação de água.
Dentre as variáveis que afetam a demanda A Tabela 3.4 apresenta o consumo doméstico
doméstica de água, uma das mais importantes é o de água em alguns prédios, publicados em litera­
preço, pois é uma das poucas sob total controle tura nacional.
dos responsáveis pelo sistema de abastecimento
de água. Geralmente, elevações no preço da água 3.2.2. Água para uso comercial
acarretam diminuição no consumo, até um limite
correspondente ao essencial; reduções no preço Várias são as atividades comerciais que utili­
causam aumento no consumo. zam a água, de modo que, nessa categoria ocorrem
As pesquisas para a determinação de consumo desde pequenos até grandes consumidores como:
de água de uso doméstico têm sido pouco realiza­ bares, padarias, restaurantes, lanchonetes, hospi­
das em nosso país. A mais conhecida foi elaborada tais, hotéis, postos de gasolina, lava-rápidos,
CONSUMO DE ÁGUA 37
1905 Tabela 3-2 - Perfil de consumo doméstico de água.
cada Consumo diário Consumo diário Consumo
3s de Pontos de
por habitação per capita percentual
13.1. utilização de água
(^/habitação) (l/dia.ha bita nte) (%)
Bacia sanitária 24 5 5
ja.
Chuveiro 238 60 55
ja Lavadora de roupas 48 12 11
Lavatório 36 9 8
Pia 80 20 18
Tanque 11 3 3
Total 437 109 100
Fonfe: Rocha e Barreto (1999).
Tabela 3.3 - Valores de consumo doméstico clubes, lojas, prédios comerciais, shoppings centers,
de água nos Estados Unidos, sem e com prá­ entre outros. A Tabela 3.5 apresenta consumos de
ticas de conservação de água. água em estabelecimentos comerciais, publicados
Consumo (l/h a b .d ia ) em literatura nacional.
;rfil
Para os Estados Unidos, os valores típicos
tiar, .. Sem Com normalmente utilizados para o consumo de água
da conservação conservação em áreas comerciais variam de 7,5 a 14 m3/ha.dia.
de água de água Na Tabela 3.6 são apresentados os valores típicos
tri-
Banho 5 5 de consumo de água em estabelecimentos norte-
na
Chuveiro 50 42 americanos.
Lavagem de pratos 4 4
Lavagem de roupas 64 45 Tabela 3.5 - Consumo de água em estabele­
Torneira 43 42 cimentos comerciais.
de
Banheiro 73 35 Consumo
de
Perdas 36 18
Estabelecimento Unidade
(i/d\a)
to Outros usos domésticos 6 6 Escritório Pessoa 50
da Total 281 197 Restaurante Refeição 25
os
10 Fonte: Adaptado de A WWA (1998). Hotel (sem cozinha
Pessoa 120
3e e lavanderia)
>s, Tabela 3.4 - Consumo doméstico de água Lavanderia kg de roupa seca 30
em prédios.
Hospital Leito 250
:o Consumo
Prédio Unidade ..... .
a- [i/aia) Garagem Automóvel 50

Apartamento Pessoa 200 Cinema, teatro e Lugar 2


templo
Residência Pessoa 150
Mercado m2 de área 5
Escola - internato Pessoa 150
Escola - externato Pessoa 50 Edifício comercial Pessoa 50
n Casa popular Alojamento provisório Pessoa 80
Pessoa 120
>:
Alojamento provisório Pessoa 80 Fonte: Yassuda e Nogam i (1976), Orsim
Fonte: NBR 7229 (1982), Dacach (1979). (1996), Dacach (1979), NBR 7229 (1982).
38 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Os valores de consumo de água em estabele­ • Clubes esportivos:


cimentos comerciais apresentados nas Tabelas 3.5 Cm = 26 NC v (3.1)'
e 3.6, são apenas orientativos. Entretanto, apesar de • Edifícios comerciais:
sua grande importância no gerenciamento de siste­ Cm = 0,08 AC v
(3.2)7
mas de abastecimento de água, são poucas as pesqui­ • Escolas de Io e 2o graus:
sas para a determinação do consumo de água em Cm = 0,05 AC + 0,1 NV + 0,7 NF + 20 (3.3)
instalações comerciais em nosso país, destacando- • Escolas de nível superior:
se a pesquisa realizada por Berenhauser e Pulici Cm = 0,03
7 AC + 0,7 NF + 0,8 NBS + 50 (3.4)'
(1983), que determinaram equações para o cálculo • Creches:
de consumo mensal de água nas seguintes atividades: C = 3,8 NF + 10 (3.5)

Tabela 3.6 - Consumo típico de água em estabelecimentos comerciais nos Estados Unidos.
Consumo
Estabelecimento Unidade (l/unidade.dia)
Variação Valor típico
Aeroporto Passageiro 11-19 15
Apartamento Quarto de dormir 380 - 570 450
Veículo servido 30-57 40
Posto de serviço de automóvel
Empregado 34-57 50
Assento 45-95 80
Bar
Empregado 38-60 50
Pensão Pessoa 95-250 170
Centro de conferência Pessoa 40-60 50
Banheiro 1300-2300 1500
Loja
Empregado 30-57 40
Hóspede 150-230 190
Hotel
Empregado 30-57 40
Prédio industrial (somente uso doméstico) Empregado 57-130 75
Lavanderia (self-service) Máquina 1500-2100 1700
Camping Unidade 470 - 570 530
Hospedaria (com cozinha) Hóspede 210-340 230
Hospedaria (sem cozinha) Hóspede 190-290 210
Escritório Empregado 26-60 50
Lavatório público Usuário 11-19 15
Restaurante convencional Cliente 26-40 35
Restaurante com bar Ciiente 34 - 45 40
Empregado 26 - 50 40
Shopping center
Estacionamento 4-11 8
Teatro Assento 8-15 10
Fonte: M etcalf e Eddy (2002).
CONSUMO DE ÁGUA 39
• Hospitais: 3.2.2.1. Consumo de água em padarias
C = 2,9 NF + 11,8 NBS +2,5 NL + 280 (3.6)
• Hotéis de Ia categoria (5, 4 e 3 estrelas): As padarias têm uma importância significativa
Cm = 6,4 NB + 2,6 NL + 400 (3.7) no consumo de água devido ao seu grande número.
• Hotéis de 2a categoria: Nos últimos anos, as padarias tradicionais têm
Cm= 3,1 NB + 3,1 NL - 40 (3.8) sofrido uma progressiva modificação em suas
• Lavanderias industriais: atividades, voltando seu perfil para lojas de produ­
Cm= 0,02 x kg de roupa/mês (3.9) tos de conveniência e lanchonete, onde a produção
• Restaurantes: e a comercialização de pães é apenas uma parcela,
Cm - 7,5 NF + 8,4 NBS (3.10)
v 7 muitas vezes de pouca importância no faturamento
total do estabelecimento. A distribuição do consu­
onde: Cm= consumo mensal de água, m3; mo de água em 4 padarias é apresentada na Figura
NC = número de chuveiros; 3.2.
AC - área c onstruída, m2; As padarias caracterizam-se por duas ativida­
NV = número de vagas; des distintas, panificação e confeitaria, com carac­
NF = número de funcionários; terísticas mais próximas de atividades industriais,
e os serviços de lanchonete, café e refeições rápi­
NB = número de banheiros;
das, de classificação essencialmente comercial. O
NBS = número de bacias sanitárias; grande consumo de água nas padarias são as ativi­
NL = número de leitos. dades comerciais, pois essas atividades estão rela­
cionadas com as atividades de copa (lavagem de
Pela sua importância para o sistema de água, utensílios e preparação de refeições) e uso de
será apresentada a seguir, a parametrização de banheiros.
consumo de água realizada na RMSP nas seguin­ A aplicação dos modelos de regressão para
tes atividades comerciais: seleção de parâmetros indicou que os números
de funcionários e existência ou não de lan­
• Padarias; chonetes, podem ser considerados suficientes para
• Postos de gasolina; prever o consumo de água em estabelecimento
• Shopping center; do tipo padarias. Além disso, esses dois parâ­
• Hospitais. metros são obtidos com facilidade, o que não

Cozinha/Confeitaria Copa/Balcão
48% Vazamentos 53%
3%
Limpeza Panificação
5% 3%
Panificação' . . Banheiros
Banheiros Limpeza chão Confeitaria 27%
5%
11% 4% 10%
Cozinha/
Cozinha/Confeitaria Confeitaria
Outros 39% Outros 39%
2% 2%

Panificação Panificação
7% 7%
Copa Copa Banheiros
Banheiros 32%
20% 20%
32%

Figura 3.2 - Distribuição de consumo de água, em porcentagem, em 4 padarias.


40 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

acontece com outros diversos parâmetros 3.2.2.2. Consumo de água em postos de gasolina
estudados. A Figura 3.3 apresenta a distribuição
do consumo mensal, em função do número de A principal atividade de postos de gasolina
funcionários de 141 padarias estudadas na é a venda de combustíveis, entretanto, quanto ao
RMSP. consumo de água, a atividade de lavagem de carros
é o fator determinante. De modo geral, os postos
de gasolina consomem água de duas formas: lava­
gem de carros e uso de banheiros pelos funcioná­
rios, na proporção aproximada de 70 a 80% para
lavagem e 20 a 30% para os banheiros. Quando o
posto não lava cairos, o consumo de água é pequeno.
A Figura 3.4 apresenta o resultado das pesqui­
sas realizadas em 136 postos de gasolina, localizados
na Região Metropolitana de São Paulo, onde estão
apresentados os consumos de água em função do
número de funcionários, número de bicos, galona-
Número de empregados gem e número de bombas. A partir da Figura 3.4
pode-se obter as taxas de consumo de água em
Figura 3.3 - Distribuição de consumo men­
função dos parâmetros pesquisados (Tabela 3.7).
sal em padarias.

O consumo mensal de água de uma padaria Tabela 3.7 - Taxas de consumo de água em
pode ser estimado através da equação (3.11). postos de gasolina.
Parâmetro Unidade Consumo mensal
C = - 6,8 + 3,48 NE + 43,4 L (3.11) de água (m3)
Funcionário Pessoa 11
onde: C = consumo mensal, m3; Galonagem m3 0,63
NE = número de empregados; Bicos Unidade 12
L = 1 - padaria com lanchonete; Bombas Unidade 24
L = 0 padaria sem lanchonete. Fonte: SABESP/lPT (2000).

1000
800

o
a
w
G
O
U 50 60
Número de funcionários Número de bicos

«L> 1000 -T «D 1000


.8 a 800
800 -
sÈL 600-
O
400 -
w 200 - co
O 0- O
U
0 500000 1000000 1500000
Galonagem (l/mês) Número de bombas

Figura 3.4 - Consumo de água em postos de gasolina.


CONSUMO DE ÁGUA 41

O parâmetro galonagem é o mais significa­ 3.2.2.3. Consumo de água em shopping center


tivo, porém é o menos operacional devido à
dificuldade de se obter informações sobre este A categoria shopping center é importante em
parâmetro nos postos de gasolina, o mesmo aconte­ cidades de grande porte, devido a sua quantidade,
ce com o parâmetro número de funcionários, que e também ao seu grande consumo unitário, pois o
também é significativo. Com relação aos parâme­ shopping é tratado como consumidor comercial
tros, número de bombas e bicos, não são tão signifi­ individual, sendo freqüentemente o maior consu­
cativos, entretanto são fáceis de serem obtidos. midor de água da região em que se localiza.
Uma outra forma de estimar o consumo de água A instalação de um estabelecimento do porte
em postos de gasolina, é através da equação (3.12) de um shopping sem uma estimativa adequada do
que foi ajustada através da curva de regressão, a consumo de água pode trazer problemas de sub-
partir de dados levantados em 82 postos. dimensionamento na rede e reservatórios de água,
e sobrecarga do sistema de esgoto.
C = 18,8 + 12,2 NF - 3,55 NB (3.12) A Figura 3.5 apresenta a distribuição de consu­
mo de shopping por categoria. A cobrança de água
onde: C = consumo mensal de água, m3; das lojas em shopping pode ser feita por medição
NF = número de funcionários; do consumo de cada loja ou por meio de rateio do
NB = número de bicos. consumo total do shopping, utilizando parâmetros

Formas de consumo

saunas
lojas não tem
consumo

Figura 3.5 - Distribuição de consumo em shopping center.


42 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

como área do estabelecimento, tipo de estabele­ Para a estimativa do consumo de água da


cimento, etc. componente variável, que é função da variação do
Para shopping de grande porte da cidade de público, observou-se que 35% das lojas apresen­
São Paulo, a divisão de consumo por categoria é taram uma freqüência alta às três da tarde, e que
apresentada na Figura 3.6. no sábado o consumo é maior (Figura 3.7).

Lavanderia a) Dia
Cinema l% Playland 9-
Praça de
2% -- 1 / 2%
Público alim entação
Lavagem geral 38%
32%
:ã 5-
A cadem ias 1 4H
Ar — 3% 3
c/j
7
J
G
condicionado O
CJ
9
z
d
14% M ercado
Lojas d
1%
Âncoras C abelereiros a^
n— i— f— !— !— i— i— i— i— ! I I I I 1 T
50/ o Lojas em d
1% 8 10 12 14 16 18 20 22
geral + Bancos d
1% Horas do dia
v
b) Semana
Figura 3.6 - Divisão de consumo por catego­ n
20,0%
ria em shopping center. li

o* 15,0% o
O consumo de água em um shopping center
pode ser caracterizado por: 10,0% -
d
h

• Parcela de comportamento estável: depende ai


de fatores fixos da instalação, como a área, ci
equipamentos de ar condicionado, número de 0,0%
lojas, lojas de alimentação, funcionários, banhei­
ros, cinemas, etc;
* <D°
• Parcela de comportamento variável: depende
principalmente do público e que caracteriza a Figura 3.7 - Variação de consumo de água
vazão de pico e pode variar ao longo do dia, sema­ em shopping center.
na e época do ano.
3.2.2.4. Consumo de água em hospital
Após estudos em diversos shoppings da cida­
de de São Paulo, resultou a equação (3.13) que O consumo de água em hospital pode ser divi­
poderá ser utilizada para estimar o consumo de dido em dois componentes:
água em um shopping center. • Uso doméstico: a água consumida em apartamen­
tos, enfermarias, salas cirúrgicas e salas de espera;
C = - 1692 (±338) + 0,348 ABL - • Uso em instalações de apoio e utilidades: lavande­
0,0325 ATT + 0,0493 ATC - 468 NC (3.13) ria, cozinha e geração de vapor.

onde: C = consumo de água, m3; A Figura 3.8 apresenta os consumos medidos


ABL = área bruta locável; por setor em hospitais da Região Metropolitana
de São Paulo, sendo que o setor de utilidades (55%
ATT = área total do terreno; do consumo) foi desmembrado em consumo da
ATC = área total construída; cozinha, lavanderia e outros consumos (inclui a
NC = número de cinemas. geração de vapor).
CONSUMO DE ÁGUA 43
Retro lavagem
i da dos filtros . Lavanderia
:>do 5,1% | Setor de 23,5%
sen- utilidades
que 55,1% Cozinha
Consumo 24,6%
Outros
doméstico
consumos
39,8% 7,0%
a) Consumo total b) Consumo no setor
de utilidades

Figura 3.8 - Distribuição do consumo de água em hospital.

Observa-se na Figura 3.8 que cerca de 40% • Uso humano;


do consumo total refere-se ao consumo humano • Uso doméstico;
do hospital, valor esse considerado relativamente • Água incorporada ao produto;
-H alto pelas bibliografias internacionais. Para o setor • Água utilizada no processo de produção;
de utilidades destacam-se os consumos da lavan­ • Água perdida ou para usos não rotineiros.
deria e da cozinha, sendo cada uma delas responsá­
vel por cerca de 25% do consumo total. Os consu­ O uso da água para o consumo humano refere-
mos em geração de vapor, ar condicionado e se ao banheiro, banho e alimentação (inclusive
— limpeza geral são menos significativos. lavagem de utensílios), de modo que esse consumo
Para estabelecer uma equação para determinar depende essencialmente do número de funcio­
o consumo de água em hospital, foram considera­ nários edo seu regime de trabalho. Considera-se
dos os parâmetros relacionados com atividades como uso doméstico, a água utilizada em limpeza
humanas como banheiros e consumo humano, e geral e manutenção da área do estabelecimento e,
atividades de lavanderia e cozinha. A partir da em alguns casos, a água utilizada em utilidades
curva de regressão, obteve-se a equação (3.14). (torre de resfriamento, equipamento para irrigação,
etc).
C = 0,53 D + 0,056 R + 0,062 NR + 10 RL (3.14) Como exemplo de água incorporada ao
produto, pode-se citar, a água incorporada a
onde: C = consumo de água, m3; shampoos e outros produtos de higiene pessoal,
a D = número de diárias (paciente ou água incorporada a bebidas, água incorporada a
acompanhante por dia); alimentos, etc. Para os casos de água utilizada no
R = roupa seca lavada no período, kg; processo de produção e não incorporada ao
NR = número de refeições servidas no produto, tem-se: água para geração de vapor, água
período; para refrigeração, água para preparação de
RL - número de retrolavagens no filtro, argamassa de cimento, água para lavagem de
no período. roupas em lavanderias, etc.
Como água perdida, considera-se o consumo
; Os números de retrolavagens são características ocorrido sem relação com a atividade de produção
dos hospitais estudados, pois esses hospitais utilizam da empresa, como: água para incêndio, água para
água de poço artesiano e necessitam de tratamento lavagem de reservatórios, água perdida por vaza­
da água. Este consumo não seria necessário se a água mentos e para usos não identificados.
fosse abastecida diretamente do sistema público. Para Munoz (2000), as taxas de consümo de
água que normalmente podem ser consideradas
3.2.3. Água para uso industrial para as indústrias são:

O uso da água em uma instalação industrial • 47 m3/ha.dia - para áreas industriais;


pode ser classificado em cinco categorias: • 3 0 - 9 5 ^/pessoa.dia - para usos sanitários.
44 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Observa-se, entretanto, que o volume de água direto de água, vindo a seguir em ordem decres­
utilizados variam de uma indústria a outra e, por cente de consumo, os processos de produção de
outro lado, mesmo para indústrias semelhantes, o detergentes, shampoos e desodorantes. A Figura 3.9
consumo pode variar consideravelmente. apresenta a distribuição de consumo em uma
indústria de produtos de higiene pessoal.
A Tabela 3.8 apresenta o consumo de água Com base na Figura 3.9 obtêm-se os consu­
em alguns estabelecimentos industriais publicados mos de água para a produção de sabonetes, deter­
em literatura nacional. Na Tabela 3.9 é apresentado gentes, shampoos e desodorantes (Tabela 3.10).
o consumo de água em várias atividades industriais Nesses dados, não está incluído o consumo domés­
na Espanha. tico, como o uso da água para limpezas, sanitários,
Vários outros consumos de água em ativi­ chuveiros, preparo de alimentos, etc, que podem
dades industriais, tais como: granjas, indústria de ser estimados através de estudos apresentados para
papel, pólvora, transportes, têxtil, destilarias, carne, outros tipos de indústrias.
empacotadoras, alumínio, álcool, azeites, etc, são
apresentados por Munoz (2000), onde se encon­ Consumo humano
tram maiores detalhes. e outros
11% Produção
Na Região Metropolitana de São Paulo foram de sabonetes
pesquisados os consumos de água em algumas 40%
Produção
instalações industriais, como: de vapor
38%
• Indústrias de produtos de higiene pessoal; Produção
Produção
• Indústrias de pré-moldados de concreto; de shampoo de detergentes
• Indústrias de artefatos de borracha. 3% 8%

Figura 3.9 - Divisão de consumo de água


Os detalhes dessas instalações são apresenta­ para indústria de produtos de higiene pessoal.
dos a seguir.

3.2.3.I. Consumo de água em indústrias de 3.2.3.2. Consumo de água em indústrias de


produtos de higiene pessoal pré-moldados de concreto

Os produtos fabricados em uma indústria de As indústrias de pré-moldados de concreto


higiene pessoal podem ser divididos em quatro geralmente produzem estacas, postes e elementos
grupos principais: sabonetes, detergentes, shampoos pré-moldados de diferentes formatos e dimensões.
e desodorantes. O processo de fabricação de O processo produtivo é semelhante nas três unida­
sabonetes é o responsável pelo maior consumo des de produção que compõem a fábrica.

Tabela 3.8 - Consumo de água em estabelecimentos industriais.


Consumo
Estabelecimento Unidade
(//dia)
Indústria - uso sanitário Operário 70
Matadouro - animais de grande porte Cabeça abatida 300
Matadouro —animais de pequeno porte Cabeça abatida 150
Laticínio kg de produto 1-5
Curtumes kg de couro 50 - 60
Fábrica de papel kg de papel 100-400
Tecelagem - sem alvejamento kg de tecido 10-20
Fonte: Yassuda e Nogami (1976), Orsini (1996), Dacach (1979).
CONSUMO DE ÁGUA 45
res- industriais na Espanha.
) de Consumo (m3/dia)
13.9 Atiirírlnde industrial
A T I V I U V i U w i i i w w ^ i i ivfli

ima Por empregado Por m3 de planta


Produtos de alimentação 7,9 13,5
ísu- Produtos lácteos 9,5 29,2
ter- Conservas de frutas 6,8 8,2
10). Açucareiras 36,8 6,3
iés- Tinturas e produtos têxtil, exceto lã 2,5 11,3
Têxteis em geral 0,5 3,2
ios,
Serraria 44,1 7,3
em
Cartões 17,1 88,5
ara
Indústria química orgânica e inorgânica 20,0 9,2
Materiais plásticos, exceto vidros 5,7 2,4
Sabão, detergente, cosmético 2,0 7,8
Pinturas, verniz, laca, esmalte 3,2 11,5
Agricultura química 6,1 3,5
Produtos químicos diversos 3,8 2,2
Refinarias de petróleo 14,5 1,8
Produtos derivados do petróleo e de carvão 1,5 1,3
Curtido e produtos de pele 2,8 8,4
Produtos de vidro 0,5 2,1
Cimento hidráulico 7,3 2,6
Ladrilho, tijolo 1,1 -

Olaria 1/1 3,4


ia
Gesso 7,9 0,1
il.'
Pedreira 0,9 2,9
Asbesto abrasivo 3,2 5,6
Altos fornos, aço e laminação 2,5 0,1
Fundição secundária, acabamento 1,9 1,3
Materiais não ferrosos 1,4 2,9
Fundição de metais não ferrosos 0,5 3,5
Motores de veículos e equipamentos 0,8 4,8
Aviões e seus componentes 0,4 2,1
Estaleiro 0,4 1,0
Laboratório de engenharia e científicos 0,3 2,7
Fonte: Munoz (2000).
Tabela 3 .1 0 - Consumo de água para Na produção direta do concreto, o volume de
produtos fabricados em indústrias de higiene água consumido foi estimado através da utilização
pessoal. dos traços que determinam a proporção volumé-
trica da mistura, em termos de volume da água
Consumo de
Produto por m3 de concreto produzido, resultando em 0,14
água/Produção (m3/kg)
m3 de água por m3 de concreto. O uso doméstico
Sabonete 2,58 refere-se ao número de funcionários, número de
Detergente 0,93 refeições e caminhões. Para o escritório, o consu­
Shampoo 4,48 mo médio por funcionário foi de 60 litros de água
por dia. A Figura 3.10 apresenta a distribuição dos
Desodorante 0,044 consumos de água em indústrias de pré-moldados
Fonte: SABESP/iPT(2000). de concreto.
46 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Produção _ das empresas e o consumo doméstico com o núme­


de vapor Consumo ro de funcionários, conforme apresentado na
i A0/ doméstico
Tabela 3.11.
A distribuição do consumo de água por ativi­
dade em duas indústrias é apresentada na Figura
3.11.
As duas empresas tem uma diferença consi­
30% 26% derável no perfil de consumo de água, que pode
ser justificada pela diferença nos processos produ­
Figura 3.10 - Uso da água em indústria de tivos (a indústria 2 tem uma linha produtiva mais
pré-moldados de concreto. antiquada). Para este tipo de indústria, apesar do
volume de água incorporada ao processo produtivo
O parâmetro mais importante na indústria de ser muito importante, não se deve negligenciar o
pré-moldados é o consumo global de água por m3 consumo humano, sendo mais adequado combinar
de concreto produzido, sendo recomendado o valor parâmetros quantificadores de produção, como
de 0,845m3 de água por m3 de concreto. produção média em unidades ou peso, com um
parâmetro relativo ao número de funcionários no
3.2.3.3. Consumo em indústrias de artefatos período.
de borracha
3.2.4. Água para uso público
Essas indústrias produzem pneus para cami­
nhões, ônibus, veículos agrícolas e câmaras de ar Inclui nesta classificação a parcela de água
para os mais variados tipos de veículos. Para este utilizada na imgação de parques e jardins, lavagem
item são apresentados os consumos de água obser­ de ruas e passeios, edifícios e sanitários de uso
vados em duas empresas localizados na Região público, fontes ornamentais, piscinas públicas,
Metropolitana de São Paulo. O consumo da parte chafarizes e torneiras públicas, combate a incên­
produtiva foi relacionado com a produção mensal dios, limpeza de coletores de esgotos, etc.

Tabela 3.11 - Consumo de água em indústrias de artefatos de borracha.


Parâmetro Unidade Indústria 1 Indústria 2
Consumo médio mensal m3 56.000 78.000
Número de funcionários Pessoa 1.800 3.500
Produção média mensal ton(1)/peça(2) 5.000(1) 1.000.000™
Consumo por funcionário m3 6,89 3,09
Consumo por produção m3 8,72(1) 0,0672®-
Fonte: SABESP/IPT (2000).

Indústria 1 Indústria 2
Consumo Consumo
Produção
humano Produção humano
de vapor
22% de vapor 14%
29%
65%

Processo
produtivo
Processo 21%
produtivo
49%

Figura 3.11 - Distribuição do consumo de água para indústrias de artefatos de borracha.


CONSUMO DE ÁGUA 47
lúmei l A Tabela 3.12 apresenta o consumo de água abastecimento de água processa periodicamente
,0 na para alguns estabelecimentos públicos publicados os dados das leituras dos hidrômetros, para efeito
| em literatura nacional. De um modo geral, os de cobrança e controle. Observa-se que, uma
ativi~| consumos públicos são de difícil mensuração e ligação de água pode atender a uma ou mais
ÍgUra depende de caso a caso. economias.
As informações contidas na leitura dos hidrô-
onsi- fabela 3.12 - Consumo de água para uso metros e de interesse para este item são:
P0(*e público- _________________
‘°du- " ' Consumo * Consumo no período por tipo de economia
mais Estabelecimento Unidade (^/unjcjacje>cjja) (domiciliar, industrial, comercial e público);
ir do —— T TT • Número de cad
itivo Edifício pú ico essoa avaliar o número de habitantes atendido e o índi-
iaro Quortel Pessoa 150 ce de atendimento.
>inar Escola pública Pessoa 50
3mo J a r d i m público m 1,5 ^ partir dessas informações avalia-se o
um Uso púb ico - gera— _____ ;___ ;______ consumo médio efetivo de água por habitante
s no Fonte: Yossudo e Nogomi (1976), Orsim nesse período, englobando o consumo domés-
(1996), Dococh (1979), NBR 7229 (1982). tico, o industrial, o comercial e o público. Essa
determinação pode ser feita através da equação
3.2.5. Modelos de previsão de consumo de água (3.15).

gua Para estimar o consumo de água em grandes Vc


^em consumidores e consumidores especiais, com o ^ “ NE x ND x NH/L
uso objetivo de diminuir os erros de subdimensiona-
'as, mento e superdimensionamento de hidrômetros, onde: qe = consumo efetivo per capita de água;
ên- foram desenvolvidos pela SABESP e IPT, modelos Vc = volume consumido medido pelos
de previsão de consumo de água (Tabela 3.13). Para hidrômetros;
Yoshida et al (2003), esses modelos são mais preci- NE = número médio de economias;
sos do que os desenvolvidos por Berenhauser e ND = número de dias da medição pelos

NH/L = número de habitantes por ligação.


3.3. CONSUMO PER CAPITA DE ÁGUA
Para a determinação do consumo per capita
De um modo geral, o consumo de água de de água deve-se incorporar as perdas de água
um determinado setor de abastecimento ou de uma do sistema de abastecimento ao consumo efetivo
cidade, pode ser determinado através dos seguintes per capita, conforme se observa na equação
métodos: (3.16).

• Leitura dos hidrômetros; cfiOflnetKç/b q

q^ = consumo efetivo per capita de água;


3.3.1. Determinação do consumo efetivo I = índice de perdas.
p e r ca p ita e consumo p e r ca p ita a partir
da leitura dos hidrômetros No caso de projetos, é comum fixar um índice
de perdas como meta (por exemplo, 20%) e não
Quando existem hidrômetros nas ligaçõesutilizar valores atuais, que geralmente são bem
prediais, a empresa responsável pelo sistema de maiores.
48 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Tabela 3.13 - Modelos para previsõo de consumo de água.


Categoria de consumidor Consumo médio (m 3/mês)
Condomínios residenciais -21,7 + 0,0177 x (área total construída) + 2,65 x (n° de banheiros) + 3,97 x (n° de dormitórios)
(prédio de apartamentos) - 50,2 x (n° de dormitórios > 3(sim/não))(1) + 46 x (n° vagas de garagem/apartamento)
Parâmetro que assume valor 1 ou 0 (há mais de 3 dorm itórios por apartamento: 1; caso contrário:0)

Clubes esportivos {*) 26 x n° de chuveiros


Creches 5,96 x (área total construída)00417 x (n° de bacias x n° de vagas oferecidas)0,352
Escolas pré, 1° e 2o graus -28,1 + 0,0191 x (área total construída) -1- 2,85 x (n° de bacias) -1- 4,37 x (n° de duchas/
chuveiros) + 0,430 x (volume da(s) piscina(s)) + 1,05 x (n° de funcionários)
Edifícios comerciais 0,0615 x (área total construída)
Faculdades com mais -22,3 + 0,0247 x (área total do terreno) + 286 x (torres de resfriamento(sim/não))(1) + 608 x
de 100 bacias (número de bacias > 100(sim/não))(2) + 6,32 x (n° de mictórios) + 0,721 x (n° de funcionários)
Parâmetro que assume valor 1 ou 0 (há torres de resfriamento: 1, caso contrário: 0)
,2) Parâmetro que assume valor 1 ou 0 (há mais de 100 bacias: 1; caso contrário: 0)

Faculdades com menos 34,7 + 0,168 x (área de jardim) + 0,724 x (n° de vagas de estacionamento) + 0,0246 x
de 100 bacias (n° de vagas oferecidas) + 2,06 x (n° de bacias) + 0,368 x (n° de funcionários)
Hospitais (2,9 x n° de funcionários) + (11,8 x n° de bacias) 4- (2,5 x n° de leitos) + 280
Hotéis de 1 a 3 estrelas -29,8 + 0,0353 x (área total construída) + 2,99 x (n° de leitos ocupados)(1} + 48,9 x
(bar(sim/não))(2) + 2,96 x (n° de vagas de estacionamento) + 5,43 x (volume de piscinas(3))
(1> estimativa de ocupação média
<21 parâm etro que assume vaior 1 ou 0 (há bar: 1; caso contrário: 0)
!3) para hotéis 3 estrelas

Hotéis de 4 a 5 estrelas -46,2 4- 1,97 x (área de jardim) + 2,19 x (n° de restaurantes/bares) x (capacidade total de
restaurantes/bares) + 0,987 x (n° de vagas de estaáonamento) + 6,6 x (n° de funcionários)
Lavanderias industriais (0,02 x quantidade de roupas lavadas)
Motéis (0,35 x área total construída)
Padarias -6,8 + 3,48 x (n° de funcionários) + 43,4* (lanchonete(sim/não))(1)
Parâmetro que assume vaior 1 ou 0 {há lanchonete: 1; caso contrário: 0)

Postos de gasolina 18,8 + 12,2 x (n° de funcionários) - 3,55 (n° de bicos para abastecimento)
Prontos socorros (**) (10 x n° de funcionários) - 70
Restaurantes (7,5 x n° de funcionários) -1- (8,4 x n de bacias)
Shopping centers -1692 + 0,348 x (área bruta locávei) - 0,0325 x (área total do terreno) + 0,0493 x (área
total construída) - 468 x (n° salas de cinema)
(*) Estabelecimentos com quadra esportiva e/ou piscina e no mínimo 5 chuveiros.
(**} Estabelecimentos com mais de 20 funcionários.
Area construída, área do terreno, área de jardim, m2.
Volume de piscina, m 3.

3.3.2. Leitura do medidor instalado na saída obtém-se o consumo per capita por economia
do reservatório ou consumo per capita por habitante. Nestes
consumos incluem-se todos os tipos de consu­
O medidor instalado na saída do reser­midores, inclusive os grandes consumidores.
vatório irá fornecer os volumes consumidos a
cada hora ou outro intervalo de tempo escolhido 3.3.3. Quando não existir medição
para medida. Alguns modelos fornecem o gráfi­
co tempo-vazão, que permitirá conhecer não só Nesse caso, podem ser adotados valores de
o consumo médio per capita, mas também, os consumo médio per capita de água e os seus
coeficientes de variação de vazão. Neste caso, coeficientes de variação de vazão encontrados em
se dividirmos os volumes consumidos pelo medições de setores ou sistemas com carac­
número de economias ou número de habitantes, terísticas semelhantes.
CONSUMO DE ÁGUA 49
3.3.4. Valores do consumo médio efetivo per Tabela 3.14 - Consumo médio efetivo per
capita de água capita de água na RMSR
Consumo micromedido
3 3 ,4 .1 . Consumo médio efetivoper capita no Brasil uniuQvie a©
Negócio Per capita Por economia
A Figura 3.12 apresenta o índice de microme- (//hab.dia) (l/economia.dia)
diçao relativo ao volume disponibilizado, índice MC 246 563
de perdas de faturamento e consumo médio per
capita de água dos prestadores de serviços regio­ MN 145 483
nais e microrregionais no Brasil.
MS 130 430
3.3A2. Consumo médio efetivo per capita de
água na Região Metropolitana de São ML 144 460
Paulo
MO 273 487
A Tabela 3.14 apresenta o consumo microme- Vice-Presidência ^ 2]
dido per capita de água, e o consumo micromedido 510
Metropolitana
por economia para o ano 2002. Esses valores referem-
se aos dados da Vice-Presidência Metropolitana Fonte: Rocha Filho (2002).
de Distribuição da SABESP, que atende a uma
população de 14.353.985 habitantes, com extensão 3.3.4.3. Consumo médio efetivo per capita no
de rede de 24.804 km, extensão de ramal predial interior do Estado de São Paulo
de 20.307 km, número de ramais de 3.384.435,
número de economias de 5.324.103, índice de A Tabela 3.15 apresenta o consumo médio
atendimento e índice de hidrometração de 100%, efetivo per capita de água, consumo por economia
densidade de ramais de 136 ligações/km e 1,57 e consumo por ligação da Vice-Presidência do
economias por ramal. Interior da SABESP, para o ano 2001.

□ = 1 CONSUMO MÉDIO PER CAPITA DE ÁGUA


— ÍMXCEDEMICROMGBÇÃO RB.ATIVO AO VOLUMEKSPOHSLIZADO
-B —ÍNDICEDEPERDASDE FATURAMENTO

Figura 3.12 - Consumo médio efetivo per capita de água e outros indicadores de prestadores
de serviço de saneamento no Brasil. Fonte: SNfS (1998).
50 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Tabela 3.15 - Consumo médio efetivo per capita de água em municípios do interior do Estado
de São Paulo.
Consumo micromedido
Unidade de Núm ero de
Por economia Por ligação
Negócio M unicípios Cu ^ ° ,
r (^/hab.dia) (l/economia.dia) (l/ligação.dia)
IA 53 140,2 410,3 421,1
IB 62 173,2 504,7 520,4
1G 29 157,0 459,7 491,0
IM 47 149,0 446,0 466,0
IT 83 162,8 446,8 464,1
IV 24 158,0 496,4 550,9
Vice-Presidência do Interior 298 156,3 463,7 489,8
Fonte: SABESP (2001).
3.3.4.4. Consumo médio efetivo por economia • Condições climáticas
para os municípios do litoral do Estado
de SãoPaulo Normalmente o consumo é maior no verão
quando as pessoas utilizam mais água para o banho
Para os municípios da Baixada Santista, litoral e rega de jardins. Quanto mais quente a região
do Estado de São Paulo, onde há uma afluência maior o consumo. A umidade também exerce
grande de populações flutuantes, foram adotados influência, sendo maior o consumo em zonas mais
os índices de consumo efetivo por economia, uma secas do que em zonas mais úmidas. Outro fator
vez que nesse caso o consumo per capita induz a climático que tem uma grande influência no
distorções devido ao acentuado afluxo turístico ao consumo de água é o índice pluviométrico.
longo do ano e, sobretudo, no período de alta
temporada. Os consumos por economia foram • Hábitos e nível de vida da população
discriminados para duas situações distintas
(SABESP, 1996): Os hábitos da população refletem na
utilização de água, tais como: banhos, lavagem
• Verão, correspondentes aos meses de janeiro e feve­
reiro, em que são registrados o maior afluxo de Tabela 3.16 - Consumo efetivo de água por
população flutuante e o maior consumo de água; economia para os municípios da Baixada
• Restante do ano, correspondente aos demais Santista, Estado de São Paulo.
meses do ano, inclusive o mês de julho em que,
apesar de férias escolares, não se tem regis­ Consumo por economia
trado incremento no consumo médio de água. M unicípio (m3/econ.mês)
Verão Restante do ano
A Tabela 3.16 apresenta o consumo de água
Peruíbe, Itanhaém,
por economia para os municípios da Baixada
Mongaguá, Praia
Santista, para o período de 1995 a 2015,
Grande, Bertioga, 20 15
considerando o verão e o restante do ano.
Guarujá e Vicente
de Carvalho
3.4. FATORES QUE AFETAM O CONSUMO São Vicente 21 19
Vários são os fatores que afetam o consumo Santos e Cubatão 23 21
de água. Os mais importantes são apresentados a
seguir. Fonte: SABESP (1996).
CONSUMO DE ÁGUA 51
de pisos, lavagem de logradouros, irrigação de • Rede de esgoto
jardins e gramados públicos ou particulares.
Quanto mais elevado o poder econômico e social A existência ou não da rede coletora de esgoto,
da população, maior o consumo em decorrência influi significativamente no consumo de água.
da maior utilização da água, resultante do Dados obtidos no Canadá (Alberta Environmental
emprego de máquinas de lavagem de roupa, de Protection, 1996) indicam que, com a construção
lavagem de pratos, de lavagem de automóveis e da rede de esgoto, houve um aumento no consumo
de numerosas outras aplicações que visam trazer de água de 50 a 100%. Esse aumento é devido à
conforto e facilidades. despreocupação com a capacidade do seu sistema
de disposição de esgoto, tais como a fossa séptica.
» Natureza da cidade
• Preço da água
O consumo de água pode ser diferente,
dependendo das características da cidade. Para O preço da água também é um fator que influi
cidades com características industriais, onde se no consumo. Vários trabalhos mostram essa
consome água no processo industrial, o consu­ relação, de modo que muitos pesquisadores têm
mo per capita de água é maior. Os agrupa­ procurado estabelecer relações entre a demanda
mentos tipicamente residenciais como as vilas doméstica e o preço da água, e determinar os
operárias, cidades satélites e conjuntos habi­ valores de elasticidade - preço da demanda, isto
tacionais, são os que geralmente apresentam é, a variação percentual na demanda originada pela
menor consumo. variação percentual no preço.

* Medição de água 3.5. VARIAÇÕES NO CONSUMO

A presença de medidores de água (hidrôme­ Em um sistema de abastecimento de água, a


tros) é fundamental para a diminuição do consumo quantidade de água consumida varia conti­
de água. Para Alberta Environmental Protection nuamente em função do tempo, das condições
(1996), no Canadá, a falta de medição aumenta o climáticas, hábitos da população, etc. Normalmen­
consumo de água em 25%. Em todas as cidades te, o consumo doméstico apresenta uma grande
em que o serviço medido não foi implantado, variação, enquanto que para o consumo industrial
observa-se que o consumo per capita é bem mais a variação é menor. Quanto aos consumos comer­
alto comparativamente às cidades semelhantes cial e público, a variação de consumo situa-se em
onde há medição parcial ou total (Yassuda e uma posição intermediária.
Nogami, 1976). De um modo geral, para o abastecimento de
água de uma determinada área ocorrem variações
• Pressão na rede anuais, mensais, diárias, horárias e instantâneas do
consumo de água:
O consumo de água aumenta com a pressão
na rede de distribuição de água. Por isso, as • Variação anual: o consumo de água tende a
redes de distribuição devem trabalhar a pressões crescer com o decorrer do tempo, devido ao
tanto quanto possível reduzidas, desde que aumento populacional e, às vezes, o aumento do
assegurem abastecimento adequando aos consu­ consumo per capita é devido a melhoria dos
midores. Para Clark et al (1977) há um aumento hábitos higiênicos da população e do desenvol­
de 30% no consumo para um aumento de vimento industrial;
14 mH20 de pressão na rede. Se na rede de • Variação mensal: nos meses de verão, o consu­
distribuição a pressão passar de 18 para mo supera o consumo médio, enquanto que, no
36 mH20 , o consumo de água pode sofrer um inverno, o consumo é menor;
aumento de cerca de 35% (Alberta Environmental • Variação diária: o consumo diário geralmente é
Protection, 1996). maior ou menor que o consumo médio diário
52 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

anual, sendo que o consumo é maior no verão, e nais responsáveis por alterações no consumo de
menor no inverno; água. Para a determinação do Kv recomenda-se
• Variação horária: o consumo varia com as horas que sejam considerados, no mínimo, cinco anos
do dia, geralmente o maior consumo ocorre entre consecutivos de observações, adotando-se a média
10 às 12 horas; dos coeficientes determinados.
• Variação instantânea: ocorrem nas extre­ A Tabela 3.17 apresenta o coeficiente K5
midades da rede, quando atendem a prédios obtido em medições ou recomendadas para projeto,
desprovidos de reservatório domiciliar. por diversos autores ou entidades.
Dentre essas diversas variações no consumo
de água, os mais importantes para o dimensio­ 3.5.2. Variações horárias
namento e operação dos sistemas de abastecimento
de água são as variações diárias e horárias, os quais A relação entre a maior vazão horária obser­
são apresentadas a seguir, com maiores detalhes. vada num dia e a vazão média horária do mesmo
dia, define o coeficiente da hora de maior consumo
3.5.1. Variações diárias (K2), ou seja:

A relação entre o maior consumo diário maior vazão horária no dia


K2 = (3.18)
verificado no período de um ano e o consumo vazão média do dia
médio diário neste mesmo período, considerando-
se sempre as mesmas ligações, fornece o A Figura 3.14 apresenta a variação da vazão
coeficiente do dia de maior consumo (K ), ou seja: de água em um dia. Obtém-se o valor do coeficiente
da hora de maior consumo (K^), dividindo-se o valor
maior consumo diário no ano . máximo da vazão horária pela vazão média do dia.
i ” consumo médio diário no ano
Vazão máxima
A Figura 3.13 apresenta a variação do consumo
de água em um ano. Obtém-se o valor do coeficiente
do dia de maior consumo (Kt), dividindo-se o valor
máximo do consumo pelo consumo médio anual.

i----- 1------r
18 20 22 24

Horas do dia

Figura 3.14 - Variações do consumo diário.

A Tabela 3.18 apresenta o coeficiente


J J A obtido em medições ou recomendadas para projeto,
Meses do ano por diversos autores ou entidades.
Figura 3.13 - Variações do consumo no ano.
3.5.3. Curvas de consumo de água
Para a determinação dos valores do consumo Cecília M. Hassegawa (*)
médio diário, do coeficiente do dia de maior consu­
mo e do coeficiente da hora de maior consumo, As curvas de consumo dos setores de abaste­
devem ser excluídos os consumos dos dias em que cimento da Região Metropolitana de São Paulo
ocorreram acidentes no sistema, ou fatos excepcio­ foram obtidas a partir de uma série de dados histó-

(*) Engenheira Civil pela Escola Politécnica da USP (1992). Gerente de Divisão de Controle de Perdas da Superintendência
de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da SABESP.
CONSUMO DE ÁGUA 53
Tabela 3.17 - Coeficiente do dia de maior consumo (K,).

Autor/Entidade Condições de obtenção


Local Ano Coeficiente Kn
do valor
Recomendação
DAE São Paulo - Capital 1960 1,50
para projeto
Recomendação
FESB São Paulo - Interior 1971 1,25
para projeto
Recomendação
Azevedo Netto Brasil 1973 1,1 - 1,5 para projeto
Recomendação
Yassuda e Nogami Brasil 1976 1,2 - 2 ,0 para projeto
Medições em sistemas
CETESB Valinhos e Iracemápolis 1978 1 ,2 5 -1 ,4 2
operando há vários anos
Recomendação
PNB-587-ABNT Brasil 1977 1,2 para projeto
Recomendação
Orsini Brasil 1996 1,2 para projeto
Recomendação
Azevedo Netto et al. Brasil 1998 1,1 - 1 ,4 para projeto
Medições em sistema
Tsutiya RMSP - Setor Lapa 1989 1 ,0 8 -3 ,8 operando há vários anos
Medições em sistema
Saporta et al. Barcelona - Espanha 1993 1,10 - 1,25 operando há vários anos
Recomendação
Walski et al. EUA (*) 2001 1 ,2 -3 ,0 para projeto
Medições em sistemas
Hammer EUA (*) 1996 1 ,2 -4 ,0 norte-americanos
Recomendação
AEP Canada (*) 1996 1 ,5 -2 ,5 para projeto
(*) Nes$es sistemas não há reservatórios domiciliares.

ricos de aproximadamente 3,5 anos. Foram anali­ comportamento típico para a maioria dos setores,
sados 22 setores de abastecimento, sendo que a em que a vazão mínima ocorre por volta das 3 h, a
curva típica foi obtida a partir da relação entre o vazão máxima por volta das 12 h e a vazão média é
valor médio horário da série de dados e a média coincidente com o consumo do período entre as 7h
dos valores horários da curva média de consumo e 8h e entre 18h e 22h.
do setor. As curvas foram ajustadas por polinômios, Quando se analisam as curvas médias obtidas
de maneira a se obter uma curva suavizada mais para cada dia da semana, observa-se, em geral, que
coerente com o consumo real do setor. A Tabela nos setores predominantemente residenciais, não
3.19 apresenta os dados básicos dos setores pes­ há mudanças significativas da forma das curvas
quisados. de consumo, tampouco da magnitude das vazões
A Figura 3.15 apresenta as curvas médias médias e extremas (Figura 3.16). Nos setores com
adimensionais obtidas dividindo-se a vazão média parcela de uso comercial significativo, há uma
de consumo em cada hora pelo consumo médio do redução nas vazões máximas horárias da ordem
setor. A partir dessas curvas, pode-se observar um de 15% nos finais de semana (Figura 3.17).
54 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Tabela 3.18 - Coeficiente da hora de maior consumo (KJ-


Condições de obtenção
Autor/Entidade Local Ano Coeficiente do valor
Recomendação
Azevedo Netto Brasil 1973 1,5 para projeto
Recomendação
Yassuda e Nogami Brasil 1976 1 ,5 -3 ,0 para projeto
Medições em sistemas
CETESB Valinhos e Iracemápolis 1978 2,08 - 2,35 operando há vários anos
Recomendação
PNB-587-ABNT Brasil 19 77 1,5 para projeto
Recomendação
Orsini Brasil 1996 1,5 para projeto
Recomendação
Azevedo Netto et al. Brasil 1998 1 ,5 -2 ,3 para projeto
Medições em sistema
Tsutiya RMSP - Setor Lapa 1989 1 ,5 -4 ,3 operando há vários anos
Medições em sistema
Saporta et al. Barcelona ~ Espanha 1993 1 ,3 - 1,4 operando há vários anos
Recomendação
Walski et al. EUA (*) 2001 3,0 - 6,0 para projeto
Medições em sistemas
Hammer EUA (*) 1996 1,5 - 10,0 norte-americanos
Recomendação
AEP Canada (*) 1996 3,0 - 3,5 para projeto
(*) Nesses sistemas não há reservatórios domiciliares.

Hora Hora

Figura 3.15 - Comportamento da curva típica Figura 3.16 - Variação do perfil de consumo
de 22 setores de abastecimento de água da em função do dia da semana para o setor
RMSR Itaim Paulista, predominantemente residencial.
CONSUMO DE ÁGUA 55
Tabela 3.19 - Dados básicos dos setores de abastecimento da RMSR

Consumo Ocupação do setor [%)


médio [l/s) Residencial Comercial
Setor
Industrial Público
1 Americanópolis 1518 90,7 6,7 1,0 -1,6
2 Araçá 599 73,6 17,8 0,4 8,2
3 Avenida 890 71,3 23,0 0,4 5,3
4 Butantã 400 80,8 14,1 1,2 3,8
5 Casa Verde 371 59,1 27,9 10,7 2,3
6 Consolação 741 46,3 46,7 0,3 6,6
7 Gama Lobo 243 76,0 14,1 3,3 6,6
8 Interlagos 526 78,6 10,5 6,8 4,0
9 Itaim Paulista 940 91,9 5,8 0,1 2,1
10 Jabaquara 762 76,9 12,5 1,1 9,5
11 Jaçanã 662 88,1 8,0 0,5 3,5
12 Jaguaré 406 60,5 19,0 5,4 15,1
13 Mirante 267 31,1 17,7 2,2 49,0
14 Pirajussara 180 86,8 9,9 0,9 2,5
15 Pirituba 496 85,4 9,1 2,8 2,8
16 Sapopemba 861 90,8 6,4 0,6 2,3
17 Sapopemba Z. Alta 924 90,8 6,4 0,6 2,3
18 Vila América 821 75,9 15,0 0,1 9,0
19 Vila Deodoro 364 72,1 20,1 4,6 3,2
20 Vila Jaguara 213 67,8 14,5 7,0 10,7
21 Vila Madalena 1107 59,7 32,5 0,7 7,1
22 Vila Maria 547 57,8 29,5 8,8 3,8

A Figura 3.18 apresenta as curvas típicas de


consumo do setor Itaim Paulista e a curva média
desse setor. O gráfico mostra que o comportamento
da curva de consumo em um dia qualquer pode
ser diferente da curva média do setor, em função
de outros parâmetros que interferem no sistema.
Isto evidencia a limitação do uso de uma curva
média em aplicações de operação em tempo real.
Nesses casos, uma alternativa seria a utilização de
curvas de dias típicos de consumo do setor.

Figura 3.17 - Variação do perfil de consumo Exercício 3.1


em função do dia da semana para o setor Ave­
nida, com ocupação predominantemente co­ Através da leitura de um medidor de vazão
mercial. instalado na saída do reservatório, e das leituras
56 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Solução

• Cálculo da população atendida pelo sistema de


abastecimento de água
50.D21
- Número médio de economias: = 4.168
12
- Número de habitantes por economia: 4,3
- População média atendida:
4.168 x 4,3 = 17.922 habitantes
Figura 3.18 -Curvas adimensionais de con­
sumo do setor Itaim Paulista.
Cálculo da população total da área, avaliada pelo
número de ligações de energia elétrica
dos hidrômetros domiciliares, obteve-se a Tabela
El. Calcular o consumo per capita, o consumo - Número de ligações de energia elétrica: 5.170
efetivo per capita de água e o índice de perdas - População total: 5.170 x 4,3 = 22.231 habitantes
desse sistema.
Determinação do índice de atendimento de água
Levantamentos adicionais realizados:
17 922
• Amostragem in loco na área abastecida, obtendo- - índice de atendimento: 2 2 2 3 1 x = 80>62%
se o valor médio de 4,3 habitantes por domicilio;
* Número de ligações de energia elétrica fornecida Cálculo do consumo per capita de água (q)
pela concessionária: 5.170.
volume produzido
Tabela El - Dados do sistema de abasteci­ população atendida
mento de água.
1.459.126
Volume (m3) q- = 0,223 mYhab.dia
N9 de
365 x 17.922
Mês Medidor de Hidrômetro
economia
vazão mensal bimensal q = 223 //hab.dia
Janeiro 123780 163408 4051
• Determinação do índice de perdas (IP)
Fevereiro 123808 4070
Março 122970 159580 4089
voL perdido vol. produz. - vol. consum.
Abril 122545 4110 IP =
vol. produz. vol. produzido
Maio 121740 157714 4132
VP-VC 1.459.126-962.880
Junho 120898 4144 IP= x 100=34,01%
VP 1.459.126
Julho 118780 152040 4182
Agosto 115128 4198 Cálculo do consumo efetivo per capita de água (qe)
Setembro 119005 171078 4205 volume consümido
121950
população atendida
Outubro 4252
Novembro 123010 159060 4287 962.880
= 0,147 m3/hab.dia
Dezembro 12551 2 4301 ^ 365 x 17.922
Total 1459126 962880 50021
q = 147 Miab.dia
CONSUMO DE ÁGUA 57
3 6. ESTUDO DA POPULAÇÃO Se o município for composto por mais de um distrito,
deve-se estudar e projetar a participação de cada
As obras de abastecimento de água e sistemas distrito na população total do município.
de esgotos sanitários das cidades devem ser projetadas Para Alcantara (2002) a projeção da popu­
para atender a uma determinada população, em geral lação para dimensionamento de um sistema de
maior que a atual, correspondente ao crescimento abastecimento de água deve levar em consideração
demográfico em um certo número de anos. A esse as especificidades da área de projeto, suas caracte­
período de tempo, chama-se de período do projeto rísticas sócio-econômicas, urbanísticas e a dinâmi­
ou plano do projeto, ou ainda, horizonte do projeto. ca na ocupação do solo. Estas variáveis escapam
Esse período tem variado entre 20 a 30 anos, sendo às projeções populacionais elaboradas apenas a
comum adotar-se o período de 20 anos. partir de expressões matemáticas.
Entretanto, se as obras previstas no projeto forem As projeções resultantes da aplicação do
construídas para atender o horizonte do projeto, nos método dos componentes, que trabalha com grupos
anos iniciais haverá grande ociosidade o que significa ou subgrupos homogêneos, introduzem variáveis
onerar a população atual. Para que tal não aconteça, importantes (nascimentos, óbitos, migração) e tem
as obras que podem ser subdivididas deverão ser revelado boa aderência com a realidade para o
executadas em etapas. Por exemplo, uma casa de universo municipal, mas para área do projeto há
bombas pode operar inicialmente com duas bombas necessidade de detalhamento da distribuição
(uma de reserva) e à medida da necessidade vão sendo espacial e da dinâmica da ocupação populacional.
instaladas mais bombas em paralelo; uma estação de Desta forma, a elaboração de projeções de
tratamento pode ter a sua capacidade duplicada ou população para projetos de saneamento deve
triplicada construindo-se mais unidades. A idéia é considerar (Alcantara, 2002):
que a disponibilidade de obras acompanhe o mais
próximo possível a curva de demanda da cidade. • Dados populacionais do município e distritos dos
últimos quatro censos demográficos, quanto à
3.6.1. População da área de projeto população residente urbana e rural e número de
habitantes por domicílio, considerando popula­
Fixado os períodos de projeto e etapas de ção residente e domicílios ocupados;
construção, deve-se estimar a população a ser • Os setores censitários da área de projeto, a popu­
abastecida nesses anos. Para o estudo da projeção lação residente e o número de domicílios ocupa­
populacional dos municípios e distritos, a serem dos, pelo menos dos últimos dois censos;
utilizados no projeto de sistemas de abastecimento • Os dados atuais do número de ligações de água
de água e de esgotos sanitários, devem ser levados e luz (residenciais, comerciais, industriais e
em consideração os seguintes aspectos: públicas), bem como os índices de atendimento
divulgados pelas concessionárias;
• Qualidade das informações que servirão de base • Dados atualizados do cadastro imobiliário da
para a projeção populacional; prefeitura;
• Efeito do tamanho da área, pois em geral, para • Pesquisa de campo com amostra representativa
áreas pequenas os erros esperados numa projeção da área de projeto para consolidai' parâmetros
populacional são maiores; urbanísticos e demográficos da ocupação atual,
• Período de tempo alcançado pela projeção, quanto assim como diferentes usos, padrão econômico,
mais longo, maiores serão os erros esperados; tamanho médio do lote, domicílios por lote, habi­
• Compatibilização das diversas projeções realiza­ tantes por domicílio, índice de verticalização,
das, para diferentes níveis geográficos. percentual de área institucional, etc, no caso de
municípios sem Plano Diretor e/ou com cadastro
A evolução do crescimento populacional das imobiliário desatualizado ou também em mo­
áreas urbanas deve ser estudada de forma comple­ mentos muito distantes do último levantamento
mentar e harmônica ao estudo de uso e ocupação censitário;
do solo, considerando o município como um todo. • Planos e projetos (industriais, habitacionais,
58 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

transportes, agropecuários) que existam para a O método dos componentes parte de uma
região, que possam afetar a dinâmica popula­ divisão da população de base em grupos ou
cional e o uso e ocupação do solo; subgrupos homogêneos. Para cada grupo são
• O Plano Diretor do município, a sua real utilização aplicadas as correspondentes taxas de fecundidade,
e atualidade, bem como as diretrizes futuras; mortalidade e migração com o propósito de
• A situação sócio-econômica do município e seu calcular a população do próximo período da
papel na região em que se insere. projeção, período este que será a base da população
para o período seguinte. Este procedimento é então
Com os dados censitários e a população do repetido até a extensão final a ser projetada.
momento, inferida através das variáveis sintomá­ Para a projeção da população da Região
ticas (ligações de água, luz, imposto predial), a Metropolitana de São Paulo (RMSP) no período
projeção da população deve ser feita utilizando a compreendido entre 1995 a 2015, foi utilizado o
expressão matemática que melhor se ajuste aos método dos componentes. Para Stefani e Rodrigues
dados levantados. os pontos de partida para essa projeção foram os
A participação de cada distrito deve ser municípios, sendo que a Região Metropolitana de
estudada e projetada tendo como parâmetro a São Paulo é constituída por 92 diferentes zonas
população total do município. administrativas, considerando-se todos os distritos
Definida a população do distrito, deve-se e subdistritos do município de São Paulo e demais
estudar e projetar a participação da área de projeto municípios que compõem a RMSP. A heteroge-
no total do distrito que a contém. neidade dessas 92 zonas é bastante acentuada, as
variáveis intervenientes são muitas e de compor­
3.6.2. Métodos para o estudo demográfico tamento, em geral, de difícil previsibilidade,
tomando-se temerário prever o comportamento
Diversos são os métodos aplicáveis para o demográfico e sócio-econômico de cada uma
estudo demográfico, destacando-se os seguintes: dessas zonas isoladamente.
A metodologia utilizada para a elaboração dos
• Método dos componentes demográficos; estudos demográficos consistiu em projetar a
• Métodos matemáticos; população da RMSP como uma macrozona, onde
• Método de extrapolação gráfica. as variáveis são muito mais previsíveis e as tendên­
cias são sempre mais constantes, com menor grau
3.6.2.I. Método dos componentes demográficos de oscilação e maior inércia. Para a projeção
populacional foram analisadas as tendências de
Este método considera a tendência passada cada uma das três variáveis demográficas básicas
verificada pelas variáveis demográficas: fecun- - mortalidade, fecundidade e migração -
didade, mortalidade e migração, e são formuladas separadamente, reunindo-as, depois, no processo
hipóteses de comportamento futuro. A expressão técnico de projeção. Como essas três variáveis não
geral da população de uma comunidade, em função existem isoladamente, não se pode projetá-las
do tempo, pode ser expressa da seguinte forma: utilizando-se funções matemáticas sem levar em
conta os complexos fatores sócio-econômico s-
P = P0 + (N - M) + (I - E) (3.19) culturais e ambientais que as afetam, condicionam
e mesmo as determinam. As principais tendências
onde: P = população na data t; sócio-econômicas da RMSP analisadas foram:
P0 = população na data inicial t0; • Tendências sócio-econômicas do processo de
N = nascimentos (no período t-t0); metropolização;
M = óbitos; • Tendências demográficas globais;
I = imigrantes no período; • Tendências da mortalidade;
E = emigrantes no período; • Tendência da fecundidade;
N - M = crescimento vegetativo no período; • Tendência migratória e população recenseada
I - E = crescimento social no período. da RMSP.
CONSUMO DE AGUA 59
na Conhecendo-se a população base, referida a Utilizando-se a equação (3.23), chega-se à
>u 1990, e a projeção de tendências de fecundidade, expressão geral do método ar/tmético:
Io de mortalidade e de migrações, até o ano 2015 e
le, para os anos intermediários, procedeu-se a projeção p = p2 + k ( t L y (3.24)
le populacional. Segundo esse estudo, a RMSP terá
la um crescimento cada vez mais lento, chegando-se onde t representa o ano dai projeção.
io a quase estabilização no ano 2015, com taxa de
ío crescimento igual a 0,2% ao ano no último Este método admite que a população varie
qüinqüênio. Nas duas próximas décadas, a popula­ linearmente com o tempo e pode ser utilizado para
io ção deverá crescer apenas 25%, aproximadamente a previsão populacional para um período pequeno,
lo quatro milhões de pessoas, passando de 16,6 de 1 a 5 anos. Para previsão por período muito
o milhões de habitantes em 1990 a 20,6 milhões em longo, torna-se acentuada a discrepância com a
ÍS 2015, crescimento pequeno se comparado ao de realidade histórica, uma vez que o crescimento é
)S décadas passadas (Stefani e Rodrigues, 1996). pressuposto ilimitado.
le
is 3.6.2.2. Métodos matemáticos
• Método geométrico
>s
LS Neste caso, a previsão da população futura é
Este método considera para iguais períodos de
estabelecida através de uma equação matemática, cujos
tempo, a mesma porcentagem de aumento da
parâmetros são obtidos a partir de dados conhecidos.
população. Matematicamente, pode ser apresentada
Vários são os métodos matemáticos conhecidos,
da seguinte forma:
destacando-se: aritmético, geométrico e curva logística.
dP
* Método aritmético - = k P (3.25)
dt *

Este método presssupõe uma taxa de cres­ onde as variáveis são as mesmas já definidas ante­
cimento constante para os anos que se seguem, a riormente, exceto kg, que representa a taxa de
partir de dados conhecidos, por exemplo, a crescimento geométrico. Integrando a equação
população do último censo. Matematicamente, (3.25) tem-se:
pode ser representado da seguinte forma:

dP
=k (3.20)
dt
lo g P j - lo g P ^ k (3.27)
nos quais dP/dt representa a variação da população
(P) por unidade de tempo (t), è kaé uma constante.
Considerando que Px é a população do penúltimo k logP, - logP,
t2 tx (3.28)
censo (ano t}) e P2, a população do último censo
(ano t2), tem-se:
A expressão geral do método geométrico para
estimar a população para o ano t ê dado pela
Jp d p = k » l !2 dt (3.21) equação (3.29) ou (3.30).

Integrando entre os limites definidos, tem-se: log P = log P2+ k (t - tj) (3.29)
'(3.22)
t-h
l 2_ tl
P2 - - P , P = P„ (3.30)
k = t2 tj (3.23)
60 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Neste caso foi utilizado o logarítimo na base de tempo entre o ano da projeção e t0. Esses parâ­
10, para a solução da equação (3.25). Caso seja metros são determinados a partir de três pontos
utilizado o logarítimo neperiano, a expressão geral conhecidos da curva P0(tQ), P: (tj) e P2(t2) igualmente
do método geométrico será dada pelas equações espaçados no tempo, isto é, - 10= t2- tr Os pontos
(3.31) e (3.32), conforme deduzido por Tsutiya e P0, Pj e P2devem ser tais que P0<Pj<P2 e P()P2<P,2.
Alem Sobrinho (1999). Os parâmetros da equação da curva logística
são definidos através das expressões que se seguem:
k it-O
P = P2e (3.31)
2P PP
z 'r 0 r l x 2
(P3)2 (P0+P2)
K= (3.34)
_ ln P2 - ln 1> P0P2“ (Pi)J
g tl 2 —t (3.32)

b=- log (3.35)


• Método da curva logística 0,4343d Pj (K - P0)

Neste caso, admite-se que o crescimento da


população obedece a uma relação matemática do 1 , K ~ Po
a= •lo g — ■ (3.36)
tipo curva logística, nos quais a população cresce 0,4343
assintoticamente em função do tempo para um
sendo d, o intervalo constante entre os anos t0, tj e t2.
valor limite de saturação (K).
A curva logística possui três trechos distintos:
o primeiro corresponde a um crescimento acele­ 3.Ó.2.3. Método da extrapolação gráfica
rado, o segundo a um crescimento retardado e o
último a um crescimento tendente à estabilização. Este método pode ser utilizado para estimar a
Entre os dois primeiros trechos há um ponto de população por um período grande. Consiste no
inflexão (Figura 3.19). traçado de uma curva arbitrária, que se ajusta aos
dados já observados, de populações de outras
comunidades com características semelhantes ao
estudo, mas que tenham uma população maior
(Figura 3.20).

Figura 3.19 - Curva logística.

A equação logística é da seguinte forma:

k
P= (3.33)
1 + ea-bT
onde: a e b são parâmetros eea base dos logarítimos
neperianos. O parâmetro a é um valor tal que, para
T = a/b, há uma inflexão (mudança no sentido da
curvatura) na curva; o parâmetro b é a razão de Figura 3.20 - Previsão da população por
crescimento da população e T representa o intervalo extrapolação gráfica.
CONSUMO DE ÁGUA 61
*a- 3.6,2A* População flutuante dade com a tendência verificada. Estimou-se que
os no horizonte de projeto a taxa de ocupação dos
ite É a população que se estabelece no núcleo domicílios permanentes na Baixada Santista
os urbano por curtos períodos de tempo, como no caso chegará a 3,0. Quanto a taxa de ocupação dos
■2 dos municípios de veraneio, estâncias climáticas
1' domicílios de uso ocasional foi considerado o valor
ca e hidrominerais. de 6,5 pessoas por domicílio, no período de maior
n: A avaliação da população flutuante pode ser afluxo da população (carnaval).
feita a partir das informações do censo demográfico Para a estimativa da população no Litoral
discriminando os domicílios por tipo de ocupação: Norte, Estado de São Paulo, considerou-se para a
residencial, ocasional, fechado e vago, permitindo população fixa, a ocupação de 20 a 50% do número
estimar a proporção entre os domicílios de uso de imóveis ou economias, dependendo das caracte­
ocasional e os de uso residencial. rísticas das praias, adotando-se a relação 4 habitantes
Outras fontes para realizar esta avaliação são por economia. Para população flutuante, considerou-
5)
as séries de informações sobre o consumo de se a ocupação de 50 a 80% do número de economias,
energia elétrica das concessionárias de energia adotando-se a relação 7 habitantes por economia,
elétrica, que conta com informações detalhadas no período de carnaval (Tsutiya et al., 1996).
5) para significativa parte dos municípios, e sua
cobertura é geralmente bastante elevada. Avaliam- 3.Ó.2.5. Distribuição demográfica
se as faixas de consumo e obtém-se o número de
domicílios de uso ocasional pela diferença com o Para a elaboração dos projetos de esgoto
total de domicílios. Calculam-se, então, coeficien­ sanitário e de abastecimento de água, há necessi­
tes entre os domicílios de uso ocasional e de uso dade de se conhecer a distribuição da população
a residencial, ajustando-se uma função matemática atual da área de projeto e a evolução dessa
10 sobre estas relações, a fim de extrapolar para o distribuição a nível de adensamentos e ocupação
3S período da projeção, não deixando de levar em de novas áreas, ao longo do período do projeto.
as consideração fatores como o potencial turístico, a A densidade atual pode ser estimada através
io acessibilidade, os aspectos econômicos, etc. dos dados dos setores censitários, de ligações de
Dr Para a estimativa da população flutuante na energia elétrica, de água, ou através de pesquisas
Baixada Santista, Estado de São Paulo, foram anali­ em campo com amostras representativas de conta­
sados os seguintes indicadores (SABESP, 1996): gem de domicílios e do número de habitantes por
domicílio.
• Variação do consumo de energia elétrica; )Para estimativas de densidades demográficas
• Variação do consumo de água; futuras é preciso considerar os seguintes aspectos:
• Variação do fluxo de veículos no sistema Anchie-
ta-Imigrantes; • Parâmetros da ocupação atual (diferentes usos,
• Crescimento da capacidade instalada na região padrão econômico, tamanho médio do lote, área
para alojamento. institucional, índice de verticalização, habitantes
por domicílio, etc);
As projeções realizadas utilizaram esses indica­ • Planos e projetos aprovados e em estudo na Pre­
dores como balizadores das taxas de crescimento feitura Municipal;
adotadas. Essas projeções tomaram como referência • Características da área: topografia, facilidades
também as condições de saturação das praias de expansão e preço do terreno;
(m2/banhista) e de alojamento na região. Nesse • Existência de infra-estrutura: água, esgoto, águas
particular, ressalta-se que os domicílios permanentes pluviais, transporte, comunicação, etc.
foram considerados, também, como parte do
potencial da região para abrigar população flutuante. Com base na análise da ocupação atual pode-
A estimativa do número de domicílios perma­ se definir as áreas homogêneas, cujas previsões
»r nentes baseou-se na adoção de uma taxa decres­ futuras podem ser feitas mediante os métodos de
cente de ocupação dos domicílios, em conformi­ previsão demográficas já vistos anteriormente.
62 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

A Tabela 3.20 apresenta valores de densidade Utilizando os dados da população dos dois
demográfica e extensão média de armamentos últimos censos (1991 e 2000) tem-se:
estimados para a Região Metropolitana de São
Paulo. - Cálculo de k

Exercício 3.2 k = p2- pi_ 68.808-46.867 = 2.437,89


2000-1991
Calcular a população de uma cidade para o
ano 2010 e 2020, utilizando os seguintes métodos - População para o ano 2010
de previsão populacional:

• Aritmético; P = P2 + ka (t - 12)
• Geométrico; P = 68.808 + 2.437,89 (2010 - 2000)
• Curva logística. P = 93.187 habitantes

São conhecidos os dados da população urbana


- População para o ano 2020
da cidade referente aos censos de 1980, 1991 e
2000, apresentados na Tabela E2.
P = 68.808 + 2.437,89 (2020 - 2000)
P = 117.566 habitantes
Solução

• Método aritmético: P = P2 + k; (t\-12) Método geométrico: P = P ek*(t t2)

Tabela 3.20 - Densidades demográficas e extensões médias de arruamentos por hectare esti-
mados para a Região Metropolitana de São Paulo.
Características urbanas Densidade dem ográfica Extensão média de
dos bairros de saturação (hab/dia) arruam entos/ha (m)
Bairros residenciais de luxo com
100 150
lote padrão de 800 m2
Bairros residenciais médios com
120 180
lote padrão de 450 m2
Bairros residenciais populares com
150 200
lote padrão de 250 m2
Bairros mistos residencial-comercial
da zona central, com predominância 300 150
de prédios de 3 e 4 pavimentos
Bairros residenciais da zona central
com predominância de edifícios de 450 150
apartamentos com 10 e 12 pavimentos
Bairros mistos residencial-comercial-
industrial da zona urbana com
600 150
predominância de comércio e
indústrias artesanais e leves
Bairros comerciais da zona central
com predominância de edifícios 1000 200
de escritórios
CONSUMO DE ÁGUA 63
Tabela E2 - Dados da população.
■h = - 1 , 28809(654767 - 44839)
Ano População (hab) 0,4343 (10)10g44839(654767 - 28809)
1980 28.809 b = 0,0468
1991 46.867
2000 68.808 - Cálculo de a

1 K- P
- Cálculo de kgcom os dados dos censos de 1991 e a _ 0,4343 log~~p—
0
2000
1 654.767 - 28.809
ln—P9à--------------------------------------------i
ln P ln 68.808- ln 46.867 a " 0,4343 loS 2ÕÕ9-------
i --- 0Q427
s t2- t x 2000-1991 ’
a = 3,0786
- População para o ano 2010 - População para o ano 2010
p = P ek‘<w‘'
p _ 808 (2010 —2000) r _ K 654767
J + e a-b(t-to) y + e 3,0786- 0,0468 (2010 -1980)
P = 105.459 habitantes
P = 103.330 habitantes
- População para o ano 2020
- População para o ano 2020
P = 68.808 e0’0427(2020"2000)
p _______654.767
P = 161.632 habitantes
1 + e3,0786-0’0468(202°- 1980>
• Método da curva logística: P = | ------ tt—,
° + g a - b ( t - t 0) P = 150.795 habitantes
Para a aplicação do método de curva logística
• Comparação entre os métodos de previsão popu­
é necessário que sejam conhecidos três pontos
lacional
da curva, PQ(t0), Pj (tx) e P2 (t2) igualmente
espaçados e que PQ< Pj<P2 e P0 P2 < Pj2.
A Tabela E3 apresenta a população obtida
Para o exercício serão utilizados: P0= 28809
através dos métodos de previsão populacional.
hab (censo de 1980); P: = 44.839 hab (população
de 1990 calculada através do método geométrico
utilizando-se os dados de censo de 1980 e 1991); Tabela E3 - Comparação entre os métodos
P2 = 68.808 hab (censo de 2000). de previsão populacional.
População (hab)
Método
- Cálculo de K Ano: 2010 Ano: 2020
2P nP|P 2 - ( P /( P 0 + P2) Aritmético 93.187 117.566
Geométrico 105.459 161.632
P„P2-(P ,)2
Curva logística 103.330 150.795
y 2(28809)(44839)(68808)-(44839)2(28809 +68808)
(28809) (68808) - (44839)2 Nesta previsão populacional, o método
K = 654.767 aritmético resultou no menor valor de população
e os métodos geométricos e a curva logística
- Cálculo de b resultaram em valores razoavelmente próximos.
Entretanto, para se definir qual será o crescimento
■_ 1 , PoCK-P,) populacional a ser adotado deve-se considerar
0,4343 d Pj (K - P0) outros parâmetros, como os apresentados no item
64 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

3.6.1, e também, utilizar-se do método de média do dia de maior consumo e servir de volante
extrapolação gráfica observando-se a tendência de para as variações horárias. A estação de tratamento
crescimento de outras comunidades maiores com de água geralmente consome cerca de 1 a 5% do
características semelhantes. volume tratado para lavagem dos filtros e decan-
tadores.
As expressões para cálculo das vazões para
3.7. VAZOES DE DIMENSIONAMENTO os diversos componentes do sistema de abasteci­
DAS PARTES PRINCIPAIS DE UM mento de água (Figura 3.21) são apresentadas a
SISTEMA DE ABASTECIMENTO DE seguir:
ÁGUA
• Vazão da captação, estação elevatória e adutora
Um sistema de abastecimento de água é geral­ até a ETA (inclusive)
mente constituído pelos seguintes componentes
(Figura 3.21): KiPq x CETA
Qi = + Qesp
86.400
• Captação;
• Estação elevatória; * Vazão da ETA até o reservatório
• Adutora;
• Estação de tratamento de água; Q = ^1 i Q
• Reservatório; 86.400 p
• Rede.
• Vazão do reservatório até a rede
O dimensionamento dessas diversas partes,
deve ser feito para as condições de demanda máxi­ = K , K 2 Pq
ma, para que o sistema não funcione com deficiên­ 86.400 p
cia durante algumas horas do dia ou dias do ano.
As obras a montante do reservatório de distri­ onde: P = população da área abastecida;
buição devem ser dimensionadas para atender a q = consumo per capita de água;
vazão média do dia de maior consumo do ano. A Kj = coeficiente do dia de maior consumo;
rede de distribuição deve ser dimensionada para a Kj = coeficiente da hora de maior consumo;
maior vazão de demanda, que é a hora de maior Q^p = vazão específica, por exemplo, gran­
consumo do dia de maior consumo. des consumidores (indústrias, comér­
A função principal do reservatório de distri­ cios, etc);
buição é receber uma vazão constante, que é a CKl,A= Consumo na ETA;

Figura 3.21 - Partes constituintes de um sistema de abastecimento de água.


CONSUMO DE ÁGUA 65
Exercício 3.3 • Vazão da ETA até o reservatório

Calcular as vazões de dimensionamento de um Q = £ -Z ü + q


sistema de abastecimento de água (Figura 3.21), para 86.400 ind
atender uma população de 100.000 habitantes com
vazão industrial de 25 £/s, sendo o consumo per 1,2x100.000x200 „
capita de água de 200 Miab.dia e um consumo na Q 2 = ------------------------ + 2 5
ETA de 3%. Adotar para = 1,2 e K2 = 1,5.
Q, = 302,78 tis
Solução
• Vazão da captação, estação elevatória, adutora e Vazão do reservatório até a rede
ETA
f K, p q + Q \o3 o - K<K2 pq + o.
86.400 j 86.400

1,2 x 100.000 x 200 1,2x1,5x100.000x200


Qi 1,03 q 3= + 25
86.400 86.400

Qj = 311,86 £/s Q, = 441,67 m

REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

ALBERTA ENVIRONMENTAL PROTECTION Waterand DACACH, N.G. Sistemas'urbanos de água. Livros Técnicos
wastewater operations manual. AEP. Levei I M anual. e Científicos Editora. 2a edição. Rio de Janeiro, 1979.
Volume B. Unit 6. Canada, 1996.
FESB Projeto de sistemas de distribuição de água. Fomento
ALCANTARA, M.C Estudo demográfico. Relatório Técnico Estadual de Saneamento Básico. São Paulo, 1971.
IP. SABESP, 2002.
HAMMER, M J .; HAMMER JR, M .J. Waterand wastewater
AM ERICAN WATER W O R K S A SSO C IA TIO N technology. Prentice Hall. New Jersey, 1996.
Residencial water use survey. AWWA. Denver, CO, 1998.
HERNANDEZ, N.C.; YOSHIDA, O .S. Diagnóstico, uso
AM ERICAN WATER W O R K S A SSO C IA TIO N da água e param etrização de consumo de água em postos
RESEARCH FOUNDATION Residencial and uses o f water. de gasolina da Região M etropolitana de São Paulo. 21°
AWWARF. Denver, CO, 1999. C o n g re s s o B r a s ile ir o d e E n g e n h a ria S a n itá r ia e
Am biental. ABES. João Pessoa, Setem bro de 2001.
AZEVEDO NETTO, J.M; ALVAREZ, A .G. Manual de
hidráulica. Editora EdgardBlücher. 6aedição. São Paulo, 1986. METCALF & EDDY Wastewater engineeríng, treatment
and reuse. Fourth edítion. McGraw - Hill. New York, 2003.
AZEVEDO NETTO, J.M. et al. M anual de hidráulica. 8a
edição. Editora Edgard Blücher. São Paulo, 1998. MOTTA, S.A.; SANCHEZ, J.G. Diagnóstico e param e­
trização do consumo de água em padarias da RMSP. 21°
BERENHAUSER, C J.B .; PULICI, C. Previsão de consumo Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental.
de água p o r tipo de ocupação do imóvel. 12° Congresso ABES. João Pessoa, Setembro de 2001.
Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental. ABES.
Balneário Camboriú, Novembro de 1983. ORSINI, E.Q. Sistemas de abastecimento de água. Apostila
da disciplina PHD 412 - Saneamento II. Escola Politécnica
CLARK et al. Water supply and pollution control. Third da Universidade de São Paulo. Departamento de Engenharia
edition. Harper & Row, Publishers. New York, 1977. Hidráulica e Sanitária. São Paulo, 1996.
66 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

ROCHA FILHO, C.M. Relatório Técnico. SABESP, 2002. TSUTIYA, M.T; ALEM SOBRINHO, P. Coleta e transporte
de esgoto sanitário. Escola Politécnica da Universidade de
ROCHA, A .L.; BARRETO, D. Perfil do consumo de água São Paulo. Departamento de Engenharia Hidráulica e
de uma habitação unifamiliar. 20° Congresso Brasileiro de Sanitária. São Paulo, 1999.
Engenharia Sanitária e Ambiental. ABES. Rio de Janeiro,
Maio de 1999. TSUTIYA, M.T. et al. Diretrizes básicas para o programa
de melhoria e ampliação dos sistemas de esgotos sanitários
SABESP Plano diretor de abastecimento de água da Baixada do Litoral Norte. Diretoria de Engenharia e Meio Ambiente.
Santista. Consórcio Hidroconsult - Estática - Latin Consult. Diretoria do Litoral. SABESP. São Paulo, Janeiro de 1996.
Superintendência de Planejam ento T écnico e M eio
Ambiente. São Paulo, 1996. WALSKI, T.M. et al. Advanced Water distribution modeling
and management. First edition. Haested Methods, Inc.,2003.
SABESP/IPT Guia para param etrização do consumo de
água na Região M etropolitana de São Paulo. Relatório YASSUDA, E.R.; NOGAMI, P.S. C onsum o de água.
Técnico. São Paulo, 2000. Capítulo 4. In: Técnica de Abastecimento e Tratamento de
Água. Vol. 1. CETESB. São Paulo, 1976.
SANTO, G. E.; SANCHEZ, J.G. Caracterização do uso da
água em Shopping Centers da Região Metropolitana de São YOSHIDA, O.S. et al. Determinação de modelos de previsão
Paulo. 21° Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e de consumo de água para dimensionamento de ramais e
Ambiental. ABES. João Pessoa, Setembro de 2001. hidrôm etros de grandes consum idores. 22° Congresso
Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental. ABES.
SNI Diagnóstico dos serviços de água e esgotos. Sistema Joinville, Santa Catarina, Setembro de 2003.
Nacional de Informações sobre Saneamento. Brasília, 1998.
YOSHIMOTO, P.M.; SILVA, S.M.N. Uso racional de água.
STEFANI, M.C.G.; RODRIGUES, O .C. Projeção da Capítulo 6. In: Redução do Custo de Energia Elétrica em
população da Região M etropolitana de São Paulo . Revista Sistemas de Abastecimento de Água. ABES. São Paulo,
Saneas, n.° 9. AESABESP. São Paulo, Setembro de 1996. 2001.

TSUTIYA, M.T. Redução do custo de energia elétrica em


estações elevatórias de sistemas de abastecimento de água
de pequeno e médio portes. Tese de Doutoramento. Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo. Departamento
de Engenharia Hidráulica e Sanitária. São Paulo, 1989.
irte
de
a e

ma
ios
tte.
6
> .
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS
ng
)3. SUPERFICIAIS
de

10
e

4.1. INTRODUÇÃO

Captação de água de superfície para abastecimento público é um conjunto


de estruturas e dispositivos, construídos ou montados junto a um manancial,
para a retirada de água destinada a um sistema de abastecimento.
As obras de captação devem ser projetadas e construídas de modo a:

• Funcionar ininterruptamente em qualquer época do ano;


• Permitir a retirada de água para o sistema de abastecimento em quantidade
suficiente ao abastecimento e com a melhor qualidade possível;
• Facilitar o acesso para a operação e manutenção do sistema.

Quando o manancial encontra-se em cota inferior à da cidade, haverá a


necessidade de uma estação elevatória, e nesse caso, as obras de captação são
associadas às obras de uma estação elevatória. De um modo geral, as captações
de água para abastecimento público são realizadas em:

• Cursos de água;
• Lagos e represas.

Essas captações, por trata-se geralmente de estruturas construídas junto


ou dentro da água, sua ampliação é, por vezes, muito onerosa. Por isso,
recomenda-se a construção das partes mais difíceis numa só etapa de execução,
mesmo que isto acarrete maior custo inicial.

4.2. MANANCIAL SUPERFICIAL

Manancial é a fonte para o suprimento de água, sendo que os mananciais


superficiais são geralmente constituídos pelos córregos, rios, lagos e represas.
As águas desses mananciais deverão preencher requisitos mínimos no que se
refere aos aspectos quantitativos, como também quanto aos aspectos da
qualidade do ponto de vista físico, químico, biológico e bacteriológico.
68 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Os principais fatores que alteram a qualidade 4.2.1. Medidas de controle dos mananciais
da água dos mananciais são:
As medidas de controle dos mananciais
• Urbanização; podem ser de dois tipos: de caráter corretivo e de
• Erosão e assoreamento; caráter preventivo.
• Recreação e lazer; As medidas de caráter corretivo visam
• Indústrias e minerações; corrigir uma situação existente, buscando através
• Resíduos sólidos; de sua aplicação, a melhoria da qualidade das
• Córregos e águas pluviais; águas. São exemplos de medidas desta natureza
• Resíduos agrícolas; (Mota, 1995):
• Esgotos domésticos.
• Implantação de estações de tratamento de esgoto
Os mananciais, de um modo geral, vêm nas fontes poluidoras existentes (cidades, indústrias
sofrendo degradações em suas bacias hidrográ­ ou outras), visando reduzir a carga de poluentes;
ficas, principalm ente devido ao avanço da • Medidas aplicadas aos próprios mananciais, tais
malha urbana com desenvolvimento desor­ como:
denado associado à carência de coleta e trata­ - Eliminação de microrganismos patogênicos,
mento de esgoto. Com isso, aumenta a dete­ através da aplicação de desinfetantes, como
rioração da qualidade de água bruta, trazendo cloro e outros;
como conseqüência o aumento do consumo dos - Remoção de algas, aplicando-se algicidas (sul­
produtos químicos utilizados para o tratamento fato de cobre, cloro, rosinaminas, quinonas, per-
de água com reflexos na qualidade da água manganato de potássio, etc);
tratada. Para os casos mais graves, há necessi­ - Combate a insetos, crustáceos e moluscos,
dade de tratamento avançado das águas, ou até usando-se cloro, moluscocidas e inseticidas;
mesmo, a inviabilidade técnica-econômica da - Remoção do lodo do fundo, por sistemas de
utilização do manancial para o abastecimento dragagem;
público. - Aeração da água, visando aumentar a quanti­
Medidas de controle de mananciais devem ser dade de oxigênio dissolvido;
tomadas tendo em vista os aspectos de quantidade - Eliminação da vegetação aquática superior,
e qualidade das águas. Essas medidas devem envol­ através de processos físicos (arrancamento
ver a bacia hidrográfica como um todo, uma vez manual ou mecânico, queima), químicos (apli­
que o volume e a qualidade da água de um recurso cação de herbicidas, sulfato de cobre) ou bioló­
hídrico dependerão dos seus tributários e, conse­ gicos (peixes, como a tilápia).
qüentemente, das ações desenvolvidas em toda a • Instalação de estação de tratamento de água,
bacia. dotada de tecnologia compatível com a qualidade
Não é conveniente, embora muitas vezes seja da água bruta, de modo a produzir água de quali­
imprescindível, que o manancial escolhido esteja dade desejada para o abastecimento humano, uso
numa bacia hidrográfica diferente daquela onde a industrial e outros.
água será utilizada como forma de se evitar
situações de conflito. O ideal também é que exista As medidas de caráter preventivo são aquelas
um planejamento adequado, o que se pressupõe que, quando aplicadas, evitam ou minimizam o
que as áreas que serão utilizadas como mananciais lançamento de poluentes nos mananciais. Essas
devem ser dotadas, desde muito tempo antes de medidas tem sido as preferidas, por serem as mais
sua efetiva utilização, de instrumentos legais de eficientes e menos onerosas. O planejamento ade­
conservação e fiscalização para evitar o uso quado do uso e ocupação do solo tem sido apontado
inadequado do solo. Além disso, deve-se procurar como a melhor forma de prevenir a poluição
efetuar todo o tipo de investigação necessária, ou ambiental.
seja, hidrológica, ambiental, social, econômica, etc. Entre as medidas de caráter preventivo,
(Castro, 2002). destacam-se (Mota, 1995):
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 69
Implantação de sistemas de coleta e tratamento Devido à degradação cada vez maior dos
de esgotos domésticos, industriais, ou de outros mananciais localizados próximo às áreas urbanas,
tipos. Na implantação de um sistema de esgotos é necessário estabelecer programas e ações volta­
deve-se considerar: das a para a proteção dos mananciais. Para a Região
- Lançamento dos efluentes dos tratamentos a Metropolitana de São Paulo foi estabelecido um
jusante da tomada d’água; programa de conservação dos mananciais que tem
- Tipo e grau de tratamento a ser aplicado, em a seguinte estrutura geral:
função da carga poluidora, da capacidade de
autodepuração do corpo receptor e da qualidade • Ordenamento conceituai para o aproveitamento
desejada para o manancial. dos recursos hídricos e dos mananciais;
Planejamento do uso e ocupação do solo visando a • Avaliação dos recursos hídricos e dos mananciais;
preservação dos mananciais. São exemplos de me­ • Proteção dos recursos hídricos, da qualidade das
didas de preservação dos mananciais adotados atra­ águas e dos ecossistemas aquáticas;
vés do planejamento do uso e ocupação do solo: • Saneamento ambiental e reabilitação dos manan­
- Zoneamento: definição de usos para as diversas ciais;
áreas de uma bacia hidrográfica, compatível • Mananciais e desenvolvimento urbano sustentável;
com a infra-estrutura sanitária e com a capaci­ • Aperfeiçoamento e atualização da capacidade
dade do meio de absorver as cargas poluidoras; técnico-gerencial;
- Definição de áreas especiais de proteção: esta­ • Fiscalização integrada.
belecimento de restrições quanto à ocupação,
como por exemplo, áreas de vegetação abun­ É importante ressaltar que, a definição de uma
dante, encostas, áreas de recarga de aqüíferos, bacia como manancial de abastecimento estabelece
alagados, pântanos, etc; a mais nobre e importante vocação desta área, a
- Estabelecimento de faixas sanitárias de prote­ produção de água de boa qualidade, a qual todos
ção: disciplinamento dos usos do solo locali­ os demais usos devem estar subordinados. A idéia
zados às margens dos mananciais, visando a de aceitar a definição de uso está expressa na estra­
sua preservação; tégia de definir as Áreas de Proteção Ambiental
- Controle da ocupação do solo: definição de como os instrumentos de manutenção da qualidade
índices urbanísticos como: taxas de ocupação destas áreas. A definição de mananciais deve ser
de terrenos, densidades, áreas mínimas dos revestida de garantias legais, institucionais e polí­
lotes, percentuais de áreas livres, etc, compatí­ ticas para garantir a sua manutenção frente às
veis com a infra-estrutura sanitária. pressões desenvolvimentistas. Trata-se de realizar
Controle da erosão, do escoamento superficial um estudo estratégico e buscar o consenso político
da água, e da vegetação. O aumento da erosão através da participação pública. (Andreoli et al.,
do solo, como conseqüência do desmatamento e 2003)
das alterações no escoamento superficial, pode
causar mudanças na qualidade da água. 4.2.2. Qualidade da água
Controle da qualidade da água das represas. As
principais medidas de controle são as seguintes: A água para uso humano deve atender a crité­
- Limpeza do terreno a ser inundado; rios rigorosos de qualidade, e para isso, não deve
- Controle do assoreamento; conter elementos nocivos à saúde (substâncias
- Controle das fontes externas de poluição; tóxicas e organismos patogênicos) e nem possuir
- Disciplinamento dos usos das margens; sabor, odor ou aparência desagradável. Uma água
- Controle dos usos da água represada. própria para este fim é denominada de água potá­
Avaliação prévia de impactos ambientais. Essa vel, e a característica que a mesma deve atender é
avaliação possibilita a identificação das chamada de padrões de potabilidade.
conseqüências negativas sobre os mananciais e, Na água potável pode estar presente uma gran­
principalmente, a adoção de medidas visando de quantidade de substâncias, que não devem ultra­
minimizá-las. passar certos limites de concentração, pois podem
70 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

tomar-se nocivas pelo seu uso continuado. Essa lista aos indicadores microbiológicos, deve ser observado
de substâncias tende a ser modificada e aumenta o padrão de turbidez expresso na Tabela 4.2.
à medida que novos compostos químicos são Após a desinfecção, a água deve conter um
inventados e utilizados pelo homem em sua teor mínimo de cloro residual livre de 0,5 mg//,
indústria, ou que novas descobertas são feitas pela sendo obrigatória a manutenção de, no mínimo,
ciên cia a resp eito de suas propriedades 0,2 mg!£ em qualquer ponto da rede de distribuição,
fisiológicas. recomendando-se que a cloração seja realizada em
Os padrões de potabilidade de água são defini­ pH inferior a 8,0 e tempo de contato mínimo de 30
dos pela Portaria n° 518 de 25 de março de 2004 do minutos.
Ministério da Saúde. Aportaria em vigor define água A água potável deve estar em conformidade
potável como sendo a água para consumo humano com o padrão de radioatividade, conforme apresen­
cujos parâmetros microbiológicos, físicos, químicos e tado na Tabela 4.3.
radioativos, atendam ao padrão de potabilidade e que A água potável deve estar, também, em con­
não ofereça riscos à saúde. O padrão de potabilidade formidade com o padrão de aceitação de consumo
define o limite máximo para cada elemento ou expresso na Tabela 4.4.
substância química, não estando considerados
eventuais efeitos sinérgicos entre elementos ou Além disso, recomenda-se:
substâncias.
• No sistema de distribuição, o pH da água seja
4.2.2.I. Padrão de potabilidade - Portaria n° mantido na faixa de 6,0 a 9,5;
518/MS • O teor máximo de cloro residual livre, em
qualquer ponto do sistema de abastecimento, seja
A Tabela 4.1 apresenta os principais parâme­ de 2,0 mg/f;
tros de qualidade da água para o consumo humano. • Realização de testes para detecção de odor e
Para a garantia da qualidade microbiológica da gosto em amostras de água coletadas na saída
água, em complementação às exigências relativas do tratamento e na rede de distribuição.

Tabela 4.1 - Padrões de potabilidade de água de acordo com a Portaria n°518 do Ministério da Saúde.

B- M icrobiológico
Parâmetro Valor Máximo Permitido (VMP)
/
Agua para consumo humano
Escherichia co/i ou coliformes termotolerantes Ausência em 100 m£
Água na saída do tratamento
Coliformes totais
Ausência em 100 m£
Água tratada no sistema de distribuição (reservatórios e rede)
Escherichia coli ou coliformes termotolerantes Ausência em 100 m£
Sistemas que analisam 40 ou
mais amostras por mês:
ausência em 100 m£ em 95%
das amostras examinadas no
mês; Sistemas que analisam
Coliformes totais
menos de 40 amostras por
mês: apenas uma amostra
poderá apresentar
mensalmente resultado positivo
em 100 m l
f
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 71

II - Substâncias químicas Tabela 4.2 - Padrão de turbidez para água


pos-filtração ou pré-desinfecção.
parâmetro____________ Unidade_____________ VMP
inorgânicas Tratamento da água VMPW
Anfimônio m g /£ 0,005 Desinfecção 1UT <2>em 95%
Arsênio m g /£ 0,01
(água subterrânea) das amostras
Bário mg/£ 0,7
n Cádmio mg/f? 0,005 Filtração rápida
Cianeto m g /£ 0,07 (tratamento completo
0
1 UT P)
Chumbo m g /£ 0,01 ou filtração direta)
Cobre m g /£ 2
e Cromo m g /£ 0,05
Filtração lenta 2 UT P» em 95%
Fluoreto m g /t 1,5 das amostras
i- Mercúrio mg/^ 0,001
Nitrato (como N) mg f l 10 (1) Valor máximo permitido.
Nitrito (como N) mg f í 1 (2) Unidade de turbidez.
Selênio rc\g/£ 0,01
Orgânicas
Acrilamida l^gH 0,5 Tabela 4.3 - Padrão de radioatividade para
Benzeno M-g/f 5 água potável.
Benzo (a) pireno m /t 0,7
Cloreto de Vinila m /z 5 Parâmetro VMP
1,2 Dicloroetano m /£ 10
Radioatividade alfa global 0,1 Bq/7
1,1 Dicloroeteno m /t 30
Diclorometano |xg/£ 20 Radioatividade beta global 1,0 Bq// (*)
Estireno m /t 20
Tetracloreto de Carbono ytg/£ 2
(*) Se os valores encontrados forem superio­
Tetracloroeteno \ig/£ 40 res aos VMP deverá ser feita a identificação
Triclorobenzenos (Ltg/^ 20 dos radionuclídeos presentes e a medida das
Tricloroeteno m /* 70 concentrações respectivas.
Agrotóxicos
Alaclor m /t 20,0
Aldrin e Dieldrin lig /£ 0,03 Tabela 4.4 - Padrão de aceitação para con­
Atrazi na M-g/^ 2
Bentazona
sumo humano.
\ig /£ 300
Clordano (isômeros) m /t 0,2 Parâmetro Unidade VMP
2,4 D m /t 30 v
DDT (isômeros) M-gf i 2 Alumínio m g// 0,2
Endossulfan m /t 20 Amônia (como NH3) m g// 1,5
Endrin m /t 0,6
Glifosato 500 Cloreto m g// 250
m /t
Heptacloro e Cor Aparente uH 15
Heptacloro epóxido m /t 0,03 Dureza m g// 500
Hexaclorobenzeno m /t 1
Lindano ( y - BHC) 2 Etilbenzeno m g// 0,2
m /t
Metolacloro \ig /£ 10 Ferro m g// 0,3
Metoxi cloro m /t 20 Manganês mg/i? 0,1
Molinato m /t 6
Pendimetalina 20 Monoclorobenzeno m g// 0,12
M-g/^
Pentaciorofenol jjtg/^ 9 Odor - Não objetável
Permetrina m /t 20 Gosto - Não objetável
Propanil m /t 20
Simazina 2 Sódio m g// 200
m /t
Trifluraiina m /t 20 Sólidos dissolvidos totais m g// 1000
Cianotoxinas Sulfato m g// 250
Microcistinas m /t 1,0 Sulfeto de Hidrogênio m g// 0,05
Desinfetantes e produtos secundários da desinfecção
Surfactantes m g// 0,5
Bromato m g /£ 0,025
Clorito m g /£ 0,2 Tolueno mg / / 0,17 -
Cloro iivre m g /£ 5 Turbidez UT 5
Monocloramina vng/£ 3 m g// 5
2,4,6 Triclorofenol m g /£ 0,2
Zinco
Trihalometanos Tota! m g /£ 0,1 Xileno m g// 0,3
72 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

4.2.2.2. Planos de amostragem - Portaria n°


518/MS

O número mínimo de amostras e freqüência de sistema ou solução alternativa de abas­


mínima de amostragem a serem efetuadas pelos tecimento de água, são apresentados nas Tabelas
responsáveis pelo controle da qualidade da água 4.5 a 4.8.

Tabela 4.5 - Número mínimo de amostras para o controle da qualidade da água de sistema de
abastecimento, para fins de análises físicas, químicas e de radioatividade, em função do ponto
de amostragem, da população abastecida e do tipo de manancial.
Saída do Sistema de distribuição
tratam ento (reservatórios e rede)
Parâmetro Tipo de (número de População abastecida
m anancial amostras por
<50.000 50.000 a >250.000
unidade de
hab. 250.000 hab.
tratam ento)
hab.
Cor 1 para cada 40 + (1 para
Superficial 1 10
Turbidez 5.000 hab cada 25.000 hab.)
pH 1 para cada 20 + (1 para
Subterrâneo 1 5
10.000 hab. cada 50.000 hab.)
Cloro residual Superficial 1
n)
livre Subterrâneo 1
Superficial ou 1 para cada 20 + (1 para
Fluoreto 1 5
Subterrâneo 10.000 hab. cada 50.000 hab.)
Cianotoxinas Superficial ](2) - - -

Superficial 1 1(3) 4(3) 4(3)


Trihalometanos
Subterrâneo - 113) ]{3) 1(3)
Demais Superficial ou
1 1(5) 1(5) 1(5)
parâmetros (4) Subterrâneo
(1) Em todas as amostras coletadas para análises microbiológicas deve ser efetuada, no momento
da coleta, medição de cloro residual livre ou de outro composto residual ativo, caso o agente
desinfetante utilizado não seja o cloro.
(2) Sempre que o número de cianobactérias na água do manancial, no ponto de captação,
exceder 20.000 células/m^ (2 mm3/^ de biovolume), será exigida a análise semanal de
cianotoxinas na água na saída do tratamento, sendo que esta análise pode ser dispensada
quando não houver comprovação de toxicidade na água bruta por meio da realização semanal
de bioensaios em camundongos.
(3) As amostras devem ser coletadas, preferencialmente, em pontos de maior tempo de detenção
da água no sistema de distribuição.
(4) Apenas será exigida obrigatoriedade de investigação dos parâmetros radioativos quando da
evidência de causas de radiação natural ou artificial.
(5) Dispensada análise na rede de distribuição quando o parâmetro não for detectado na saída
do tratamento e, ou, no manancial, à exceção de substâncias que potencialmente possam ser
introduzidas no sistema ao longo da distribuição.
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 73
4.6 - Freqüência mínima de amostragem para o controle da qualidade da água de
T a b e la
sistema de abastecimento, para fins de análises físicas, químicas e de radioatividade, em função
do ponto de amostragem, da população abastecida e do tipo de manancial.
Saída do Sistema de distribuição
tratam ento ___________ (reservatórios e rede)__________
Parâmetro Tipo de (freqüência População abastecida
m anancial por unidade <50.000 50.000 a >250.000
de hab. 250.000 hab. hab.
tratam ento)
Cor Superficial A cada 2 horas
Turbidez
Mensal Mensal Mensal
pH
Fíuoreto Subterrâneo Diária

Cloro residual Superficial A cada 2 horas


oi
livre Subterrâneo Diária
Cianotoxinas Superficial Semanal^ - -
Superficial Trimestral ' Trimestral Trimestral Trimestral
Trihalometanos
Subterrâneo - Anual Semestral Semestral
Demais Superficial ou
parâmetros (3) Semestral Semestral (4) Semestral (4) Semestral (4)
Subterrâneo
(1) Em todas as amostras coletadas para análises microbiológicas deve ser efetuada, no momento
da coleta, medição de cloro residual livre ou de outro composto residual ativo, caso o agente
desinfetante utilizado não seja o cloro.
(2) Sempre que o número de cianobactérias na água do manancial, no ponto de captação, exceder
20.000 células/m^ (2 mm3/ l de biovolume), será exigida a análise semanal de cianotoxinas na água
na saída do tratamento, sendo que esta análise pode ser dispensada quando não houver comprovação
de toxicidade na água bruta por meio da realização semanal de bioensaios em camundongos.
(3) Apenas será exigida obrigatoriedade de investigação dos parâmetros radioativos quando da
evidência de causas de radiação natural ou artificial.
(4) Dispensada análise na rede de distribuição quando o parâmetro não for detectado na saída
do tratamento e, ou, no manancial, à exceção de substâncias que potencialmente possam ser
introduzidas no sistema ao longo da distribuição.

Tabela 4.7 - Número mínimo de amostras mensais para o controle da qualidade da água de
sistema de abastecimento, para fins de análises microbiológicas, em função da população abastecida.
Sistema de distribuição (reservatórios e rede)
Parâmetro População abastecida
<5.000 5.000 a 20.000 20.000 a 250.000 >250.000
hab. hab. hab. hab.
105 + (1 para
Coliformes totais 10 1 para cada 30 + (1 para cada 5.000 hab.)
500 hab. cada 2.000 hab.) Máximo de 1.000
(*) Na saída de cada unidade de tratamento devem ser coletadas, no mínimo, 2 (duas) amostra
semanais, recomendando-se a coleta de pelo menos, 4 (quatro) amostras semanais.
74 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Tabela 4.8 - Número mínimo de amostras e freqüência mínima de amostragem para o controle
da qualidade da água de solução alternativa, para fins de análises físicas, químicas e
microbiológicos, em função do tipo de manancial e do ponto de amostragem.
Saída do Núm ero de amostras
Freqüência
Tipo de tratam ento retiradas no ponto
Parâmetro de
m anancial (para água de consumo111
amostragem
canalizada) (para cada 500 hab.)
Cor, turbidez,
Superficial 1 1 Semanal
pH e
coliformes
Subterrâneo 1 1 Mensal
totais
Cloro Superficial ou
1 1 Diário
residual livre Subterrâneo
(1) Devem ser retiradas amostras em, no mínimo, 3 pontos de consumo de água.

4.2.3. Seleção do manancial ma, deve ser prevista a complementação da vazão


em condições técnicas e econômicas aceitáveis.
Para a seleção do manancial devem ser con­ O levantamento das condições sanitárias de
siderados todos os mananciais que apresentem qualquer manancial superficial, com vistas à esco­
condições sanitárias satisfatórias e que, isolados lha do ponto de captação deve ser feito por inspe­
ou agrupados, apresentem vazão suficiente para ção sanitária realizada na sua bacia, complemen­
atender à demanda máxima prevista para o alcance tada por análises de amostras de suas águas coleta­
do plano. das em pontos significativos e em períodos repre­
O manancial é selecionado tendo em vista os sentativos, A inspeção sanitária deve englobar o
seguintes fatores: levantamento, com localização em planta dos
núcleos habitacionais, das indústrias, das explora­
• Garantia de fornecimento da água em quantidade ções agropecuárias e de qualquer outro agente
e qualidade desejadas. Deve ser feita retirada de poluidor, bem como suas características e seu
amostras para exame físico, químico e bacterio­ regime de funcionamento. Quando a área da bacia
lógico; for consideravelmente maior do que a necessária
• Proximidade do consumo; para abastecer a população no alcance do plano,
• Locais favoráveis à construção da captação; sem obras de regularização,' a inspeção sanitária
• Transporte de sedimentos pelo curso de água. pode-se restringir aos agentes poluidores conside­
rados mais significativos.
Devem ser levadas em conta as condições A seleção é feita mediante o estudo técnico,
futuras que os mananciais possam apresentar, em econômico e ambiental, comparando-se às diversas
decorrência do crescimento de agentes polui- alternativas viáveis. Nem sempre o manancial mais
dores. próximo da cidade será a melhor solução.
A vazão a ser consideradas para fins de escolha
de mananciais abastecedores deve ser a correspon­ 4.2.4. Estudos hidrológicos
dente ao dia de demanda máxima prevista para o
alcance do plano. Quando a diferença entre a vazão É necessário conhecer o regime de vazões e a
disponível estimada para o manancial e a vazão variação da cota do nível d’água, o que é feito com
requerida não ultrapassar 10% da vazão necessária, os estudos hidrológicos, que avaliará para o período
além do manancial estudado para abastecer o siste­ de retomo adequado, a vazão mínima do manan-
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 75
ciai. Também, as vazões de enchente deverão ser impactar o tratamento e atingir o consumidor final.
avaliadas, tendo em vista a construção da barragem A Figura 4.1 apresenta o esquema geral do
de acumulação de água ou de elevação de nível, e sistema de monitoramento contínuo em tempo real
o problema da inundação da área. da qualidade da água dos mananciais da RMSP,
Na falta de dados hidrológicos devem ser realizado pela SABESP.
investigados, cuidadosamente, todos os elementos Conforme se observa na Figura 4.1, o sistema
com relação às oscilações do nível de água entre de monitoramento é constituído essencialmente de
períodos de estiagem ou de cheias e por ocasião estações remotas e unidades de recepção de dados.
das precipitações torrenciais, apoiando-se em As estações remotas são compostas de módulos
informações de pessoas conhecedoras da região. de coleta de dados, programa de coleta de dados,
Quando não se conhecem os dados sobre as módulos de armazenamento de dados, módulos de
vazões médias e mínimas do curso de água, toma- alimentação e suporte de ènergia, módulos de
se necessária a programação de um trabalho de comunicação de dados e de sensores de aquisição
medições diretas. Através de correlações com de dados.
dados de precipitações e de comparações com Os parâmetros de qualidade de água moni­
vazões específicas conhecidas de bacias vizinhas, torados são: pH, turbidez, condutividade, potencial
é possível chegar-se a dados aproximados. de oxi-redução, oxigênio dissolvido e temperatura.
As obras de proteção da seção do curso de água Esses parâmetros são medidos diretamente no local,
devem ser projetadas considerando a vazão de através de uma sonda multiparâmetro, com sensores
enchente correspondente a um período mínimo de instalados que medem os parâmetros relacionados.
retomo de 50 anos, e dimensionadas considerando- A quantidade de sondas varia de acordo com a
se as condições hidráulicas a montante e jusante profundidade do local, variando de três (superfície,
do trecho a ser estabilizado. meio e fundo), até uma única sonda para locais de
pouca profundidade. O sistema permite que os
4.2.5. Monitoramento da qualidade de água parâmetros possam ser monitorados de forma contí­
de mananciais nua (“on line”) ou em outra freqüência, dependendo
Armando Perez Flores (*) das necessidades de monitoramento.
Edvaldo Sorrini (**) O sistema apresentado é uma excelente ferra­
menta de vigilância dos mananciais, e com isso,
A RMSP é abastecida por 99,5% de águas dois importantes benefícios podem ser conse­
provenientes de reservatórios superficiais, que em guidos:
grande parte se localizam em áreas que estão sendo
atingidas pela mancha urbana dessa região. A • Fenômenos que provocam alterações bruscas na
despeito das restrições impostas pela Lei de Prote­ qualidade da água poderão ser detectados a
ção de Mananciais, a ocupação das bacias de tempo de prevenir o tratamento;
contribuição desses reservatórios vem ocorrendo, • Amplia-se significativamente o conhecimento
via de regra, de forma descontrolada, compro­ sobre o comportamento do reservatório, em
metendo seriamente a qualidade das suas águas. termos da qualidade da água, permitindo dirigir
Neste cenário, toma-se de fundamental importân­ melhor o monitoramento de rotina (não contínuo)
cia o monitoramento da qualidade das águas dos para períodos e áreas críticas, o que poderá resul­
mananciais, de forma a obter respostas rápidas e tar numa redução da quantidade de amostras e,
confiáveis, visando evitar que possíveis variações portanto, numa redução equivalente nos custos
bruscas na qualidade das águas nas represas possam desse monitoramento.

( ________________________________________________________________
(*) Bacharel em Química. Especialização em Saneamento Básico p e l a Faculdade de Saúde Pública da USP e MBA em
Desenvolvimento Gerencial. Gerente da Divisão de Controle de Qualidade da SABESP. E-mail: aflores@sabesp.com.br.
(**) Bacharel em Biologia. Especialização em Saneamento Ambiental e Gestão Ambiental. Biólogo da Divisão de Controle
de Qualidade da SABESP.
ciais da RMSR
Figura 4.1 - Esquema geral do monitoramento contínuo da qualidade da água dos manan­ <»
ov
Unidade Central de Recepção
Divisão de Controle de Qualidade

ABASTECIMENTO
Via modem
Linha Telefônica
Via modem
Linha Telefônica Unidade de Recepção
Via modem Sistema Alto Tietê
; : " ~ íb Linha Telefônica ETA Aíto Tietê

DE ÁGUA
Unidade de Recepção
Sistema Guarapiranga
Taquacetuba
ETA Alto da Boa Vista

Unidade de Recepção
Sistema Rio Grande
ETA Rio Grande

Represa Guarapiranga

Unidade Remota j
(Ex: Tipo Bóia) |
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 77
4 3 . CAPTAÇÃO EM CURSOS DE ÁGUA às áreas eventualmente inundáveis e aos focos de
poluição existentes e potenciais.
captação em cursos de água é um conjunto
A A captação de água deve ser localizada em
de estruturas e dispositivos, construídos ou monta­ trecho reto ou, quando em curva, junto à sua curva­
d o s junto a um manancial, para a retirada de água tura externa (margem côncava), onde as velocida­
destinada a um sistema de abastecimento. Em geral des da água são maiores, evitando-se assim, os
depende da variação do nível de água, podendo bancos de areia que poderiam obstruir as entradas
distinguir captação em manancial com pequena de água (Figura 4.2). Nessa margem côncava as
variação de nível de água e captação em manan­ profundidades são sempre maiores e poderão
cial com grande variação de nível de água. Além oferecer melhor submersão da entrada de água.
disso, a concepção da captação é função da concen­ Devem ser reduzidas ao mínimo as alterações
tração de sólidos sedimentáveis em suspensão do no curso de água, como conseqüência da implan­
manancial. tação da obra, em face de possibilidade de erosão
Quando a vazão a ser retirada é menor que a ou de assoreamento e deve ser investigada a
vazão mínima do manancial, a captação é feita a existência de processo de sedimentação em desen­
fio d’água. Quando existem períodos no ano em volvimento, no local previsto para a instalação da
que essa vazão é maior, haverá necessidade da captação.
construção de um reservatório de regularização, As obras de captação devem ficar protegidas
devendo nesse caso, a vazão média do rio ser maior da ação erosiva das águas e dos efeitos decorrentes
que a vazão a ser retirada para permitir a regula­ de remanso e da variação de nível do curso de água.
rização. Também, deverá ser considerada a necessidade de
acesso ao local da captação, mesmo ocorrendo
4.3.1. Escolha do local de captação fortes temporais e inundações. Por essa razão é,
muitas vezes, contra indicada a construção de obras
O local para implantação das obras de captação em terrenos baixos próximos ao rio, mesmo que a
deve ser o resultante da análise conjunta de todos estrutura em si fique ao local abrigo das cheias.
os elementos disponíveis sobre a área reservada As estradas que conduzem ao local devem, igual­
para esta finalidade. A análise deve ser comple­ mente, dar livre trânsito em qualquer época do ano.
mentada por inspeções de campo, observando-se A maneira de levar energia elétrica até a capta­
principalmente os aspectos ligados às característi­ ção, bem como seu custo, deve ser examinada com
cas hidráulicas do manancial, à geologia da região, bastante cuidado.

I < | Captação

Figura 4.2 - Captação de água: trecho reto (a); trecho curvo (b). Fonte: Adaptado de Yassuda e
Nogami (1976).
78 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

De um modo geral, os principais cuidados que a) Barragem


devem ser observados para a escolha do local da
captação são: A barragem é um elemento estrutural construí­
do em um curso de água transversalmente à direção
• Evitar locais sujeitos à formação de bancos de de escoamento de suas águas e destinada à criação
areia; de um reservatório de acumulação que poderá aten­
• Evitar locais com margens instáveis; der a uma ou a diversas finalidades: abastecimento
• Local à salvo de inundações, garantia de acesso de água para cidades ou indústrias, aproveitamento
todo o tempo; hidrelétrico, irrigação, controle de enchentes, regu­
• Condições topográficas e geotécnicas favorá­ larização de curso de água, etc.
veis. Geralmente a barragem é construída quando
as vazões médias do curso de água são superiores
às necessidades de consumo, entretanto, as vazões
Estudo das condições do leito do rio mínimas são inferiores. A água disponível no curso
no local da captação de água será acumulada durante os períodos chuvo­
sos, para que possa haver uma reserva suficiente
No local da captação devem ser verificadas as que cubra o déficit entre a demanda e as vazões
condições da seção do curso de água quanto à mínimas durante os períodos de estiagens. -
necessidade de sua estabilização, em especial nos As barragens que formam os reservatórios de
casos em que apresenta baixa declividade, ou seja, regularização são em geral, de grande porte e o
sujeita a regime muito variável de descargas* seu dimensionamento é feito a partir do volume
útil que deve ser armazenado. Esse volume é calcu­
4.3.2. Partes constituintes de uma captação lado a partir dos histogramas do curso d’água e da
vazão de demanda.
Os esquemas das instalações são muito variá­ A Figura 4.3 apresenta o desenho esquemático
veis, dependendo das condições do curso de água, do Sistema Cantareira que abastece cerca de 10
variação de nível de água, topografia, etc. Na milhões de habitantes da RMSP. Esse sistema é
maioria dos casos, as partes constituintes das capta­ constituído por várias barragens formando as repre- 1
ções são: sas, com 48 quilômetros de túneis e canais, pois |
as represas estão situadas em diferentes níveis e
• Barragem, vertedor ou enrocamento; são interligados de tal maneira que, desde o Jaguarí
• Tomada de água; e o Jacareí, as águas passam por gravidade pelas
• Gradeamento; represas do Cachoeira, Atibainha e Juquerí, e
• Desarenador; chegam à estação elevatória de Santa Inês, onde a
• Dispositivos de controle; água é bombeada para a represa de Águas Claras,
• Canais e tubulações. construída no alto da Serra da Cantareira. Desta* !
represa as águas passam por gravidade para a ETA j
4.3.2.1. Barragem, vertedor ou enrocamento Guaraú, e após o tratamento, a água é distribuída
paia a RMSP.
São obras executadas em cursos de água,
ocupando toda a sua largura para elevar o nível de b) Barragem de nível i
água a uma cota pré-determinada, de modo a garan­
tir o nível mínimo da águarpara o bom funciona­ E uma obra executada em curso de água para
mento da captação e das/bombas. elevar o nível do manancial a uma cota pré-
Em curso de água profundo com grande lâmina determinada. Geralmente, essa cota é para manter
de água no ponto da captação e vazão mínima uma submergência adequada para evitar o vórtice
superior a vazão máxima necessária para abastecer na tomada de água. A barragem de nível, em geral,
a cidade, dispensa-se a construção desses disposi­ é de pequeno porte, tem pequena altura, funciona
tivos. como extravasor, sendo normalmente executada
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 79
em concreto (Foto 4.1). Na Foto 4.2 são apresen­
tados detalhes da captação de água da cidade de
Ul- Franca (captação no rio Canoas).
;ão
:ão

Ito
ito
;u~

do
es
es
so
0-
te
2S Foto 4.1 - Barragem de nível no rio Canoas
para captação de água da cidade de Franca,
le Estado de São Paulo.
o
le
1-
ia .

o u
0
é

W O

Foto 4.2 - Detalhes da captação de água para


O a cidade de Franca, Estado de São Paulo.
2 O ,9
fe
Q* </>©
VD Deve ser estudado o comportamento hidráu­
"i 2 oo
a lico da barragem para a vazão máxima do curso
de água, bem como as condições desfavoráveis
de seu funcionamento, pois as vazões de enchen­
te que passam pela barragem não deverão
provocar inundações danosas à captação e nem
comprometer a sua estabilidade. Quando a largu­
o# ra da barragem não é suficiente para extravasão
■1 •“
S 3 aS _ das vazões de enchente é necessária a construção
0V a , <n
rv-* 100
a< ctj o ra g

de extravasores laterais.
A barragem deve ser dotada de dispositivos
para controle do nível de água, em áreas onde se
Figura 4.3 - Desenho esquemático do Siste­ deseja minimizar eventuais prejuízos decorrentes
ma Cantareira. Fonte: SABESP (2002). de inundações.
80 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

c) Vertedor de barragem oblíqua em relação ao eixo do rio


ou localização da tomada de água em canal
Os vertedores são estruturas especialmente lateral. A captação no rio Una, que abastece parte
projetadas para elevar o nível de água, e podem da cidade de Taubaté, Estado de São Paulo (Foto
ser de alvenaria, de pedras, de concreto simples 4.5), é um exemplo de captação onde o curso de
ou ciclópico (Foto 4.3). água tem transporte intenso de sólidos.

Foto 4.3 - Vertedor para captação de água da


cidade de Monte Aprazível, Estado de São Paulo. Foto 4.5 - Captação no rio Una, com barra­
gem de nível, tomada de água e caixa de areia
d) Enrocamento mecanizada.

O enrocamento é uma barragem de nível cons­


tituída de blocos de rocha colocados no curso de 4.3.2.2. Tomada de água
água (Foto 4.4).
É um conjunto de dispositivos destinado a
conduzir a água do manancial para as demais partes
constituintes da captação.
A tomada de água deve obedecer às seguintes
condições:

• A velocidade nos condutos livres ou forçados da


tomada de água não deve ser inferior a 0,60 m/s;
• Nos casos em que possa ocorrer vórtice, deve
ser previsto dispositivo que evite a sua formação.

Vários são os tipos de tomada de água em


curso d’água, sendo que as principais são apresen­
Foto 4.4 - Barragem de enrocamento para tadas a seguir.
captação de água da cidtide de Cardoso, Es­
tado de São Paulo. \ a) Tomada de água com barragem de nível,
gradeamento, caixa de areia e estação
e) Curso de água com transporte intenso de sólidos elevatória

Em curso de água com transporte intenso de A Figura 4.4 apresenta uma tomada típica de
sólidos, cuja concentração de sólidos sedimen- água para captação em cursos d’água com pequena
táveis em suspensão é superior a 1,0 deve variação de nível. Nessa figura, observa-se as
ser estudada também a possibilidade de inserção principais partes constituintes de uma captação de
r
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 81
QUADROS
10
ESTAÇÃO ELEVATÓRIA
al BARRAGEM de elevaç ao
/ GRADE GROSSA
e l é t r ic o s

POÇO DE
d e n ív e l
GRADE MÉDIA SUCÇÃO
te
\ BOMBA E
MOTOR
to COMPORTA COMPORTA
EDIFÍCIO

le
BOMBA E

r
MOTOR

TOMADA E CAIXA DE AREfA


ADUTORA POR /
GRAVIDADE

ADUTORA PARA

PLANTA

CORTE
Figura 4.4 - Captação em curso de água com pequena variação de nível. Fonte: O rsini(1996).

água: barragem de nível, tomada de água, caixa de águas, devem ser previstas fundações profundas ou
areia e estação elevatória. O trecho entre o curso de proteção do solo adjacente com enrocamento.
água e o desarenador deve ser o mais curto possível. As principais configurações para este tipo de to­
mada de água são apresentadas nas Figuras 4.5 a 4.9.
b) Tomada de água através de tubulação Quando os rios apresentam grande variação de
níveis máximos e mínimos, além da alternativa
A tomada de água por tubulação deve obedecer apresentada na Figura 4.9, outras podem ser estu­
às seguintes condições: dadas, tais como:

• Em cursos de água com transporte intenso de • Sistema de torre de tomada - pode ser utilizada
sólidos, deve haver, no mínimo, uma tubulação para a retirada de grandes vazões em rios cauda-
para cada variação de 1,50 m do nível; losos, semelhante ao que se executa em lagos e
• As tubulações devem ser ancoradas e protegidas represas;
contra a ação das águas; • Captação flutuante - são baseados na mobili­
• As tubulações devem ser dotadas de válvulas dade dos conjuntos elevatórios, que são monta­
para interrupção de fluxo, com possibilidade de dos sobre embarcações (Foto 4.6) ou estruturas
fácil manobra. flutuantes. A necessidade de encurtar ou alongar
Na tomada de água através de canal ou tubula­ a tubulação de recalque ou de permitir a sua
ção, o trecho entre o curso de água e o desarenador, flexibilidade, vem a ser um obstáculo sério à ado­
também deve ser o mais curto possível. Em caso de ção desta alternativa, além de reduzir a segurança
possibilidade de solapamento inferior por ação das de operação.
82 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Figura 4.5 - Tomada de água com caixa de areia, grade e estação elevatória.

Figura 4.6 - Tomada de água com estação elevatória.

Motor

Figura 4.7 - Tomada de água em dois níveis.

Figura 4.8 - Tomada de água através de sifão.


c a p t a ç ã o d e á g u a s s u p e r f ic ia is 83

GUINCHO

______ 3 <=> NJ
"m m m m àfar-

Figura 4.9 -Tomada de água em corpos de água com grande variação de nível.

c) Tomada de água através de um canal

Neste caso, o canal desvia uma parte da água


do rio para a captação (Figura 4.10).

As Figuras 4.11 a 4.13 e a Foto 4.7 apresentam


a nova captação de água no rio Paraíba para o abas­
tecimento de água da cidade de Taubaté, Estado
de São Paulo. A capacidade dessa instalação é de
1440 £is (Silva, 2002).

A tomada de água através de canal em cursos


Foto 4.6 - Tomada de água flutuante, através de água com transporte intenso de sólidos deve
de balsa, para abastecimento de água da cida­ ter, no mínimo, um dispositivo de admissão de água
de de Riolândia, Estado de São Paulo. para cada variação de 1,50 m do nível de água.
84 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

RtO

PLANTA

CORTE

Figura 4.10 - Tomada de água através de canal.

d) Tomada de água diretamente por bombas

A tomada de água diretamente por bombas é


normalmente recomendada nos seguintes casos:

• Quando for dispensável o desarenador;


• Quando for indispensável a instalação de recal­
que para transferir água do manancial para o
desarenador;
• Tomada de água para população de projeto inferior
a 10000 habitantes, a critério do órgão contratante.

Os equipamentos de recalque de eixo horizontal,


quando instalados acima do nível do rio, não deverão
ser distanciados deste, tanto em elevação, como Foto 4.7 - Captação de água através de um
também, em extensão. Em cada caso deverá ser canal para abastecimento de água da cidade
examinada a máxima distância que poderá existir de Taubaté, Estado de São Paulo.

í ____________ - __________________________________________ CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 85

\ \

Figura 4.] 1 - Captação no Rio Paraíba - Planta Geral. Fonfe: SABESP/COPLAENGE(1997).


86 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

<
<

Figura 4.12 - Captação e estação elevatória de água bruta no rio Paraíba - Planta alta e baixa.
Fonte: SABESP/COPLAENGE (1997).
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 87

comtQ

Figura 4.13 - Captação e estação elevatória de água bruta no rio Paraíba - Cortes.
Fonte: SABESP/COPLAENGE (1997).
88 ABASTECIMENTO DE AGUA

entre a bomba e o nível mínimo da água no manan­ grades são constituídas de barras paralelas destina­
cial. Geralmente, não deve ultrapassar 6 a 7 metros. das a impedir a passagem de materiais grosseiros,
Como alternativa para esses casos, pode-se utilizar flutuantes ou em suspensão, como tronco de árvo­
bombas de eixo vertical, ou ainda, conjuntos motor- res, galhos, plantas aquáticas peixes, etc, que
bomba submerso. normalmente são trazidos pelos cursos de água.
As Figuras 4.14 a 4.17 apresentam as principais As telas são dispositivos constituídos de fios que
configurações para a tomada de água diretamente formam malhas, destinadas a reter materiais
por bombas. flutuantes não retidos na grade.
Em cursos de água sujeitos a regime torrencial
4.3.2.3. Gradeamento e quando corpos flutuantes de grandes dimensões
possam causar danos às instalações de grades
Grades e telas são dispositivos que devem ser finas ou telas, devem ser previstas as instalações
utilizadas em captações superficiais de água. As de grades grosseiras.

Figura 4.14 - Tomada de água por bomba de eixo vertical.

Figura 4.16 - Tomada de água por tubulação horizontal com crivo.


CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 89

Figura 4.15 - Tomada de água com tubula- Figura 4.17 - Tomada de água com tubula­
ção horizontal. ção vertical.

As grades grosseiras devem ser colocadas no onde: p = coeficiente, função da forma da barra
ponto de admissão de água na captação, seguidas (Figura 4.18);
pelas grades finas e pelas telas. O espaçamento s = espessura das barras;
entre barras paralelas deve ser de 7,5 a 15 cm para b = distância livre entre barras;
a grade grosseira, e de 2 a 4 cm para a grade fina. a = ângulo da grade em relação à horizontal.
As telas devem ter de 8 a 16 fios por decímetro.
As grades ou telas sujeitas à limpeza manual Em telas, o coeficiente de perda de carga pode
exigem inclinação para jusante de 70° a 80° em ser determinado pela equação (4.3).
relação à horizontal, e passadiço para fácil
execução dos serviços de manutenção. Na seção 1—82
k - 0,55 (4.3)
de passagem, correspondente ao nível mínimo de £
água, a área das aberturas da grade deve ser igual
onde: e = porosidade, razão entre a área livre e a
ou superior a 1,7 cm2por litro por minuto, de modo
área total da tela, sendo:
que a velocidade resultante seja igual ou inferior a
- para tela de malha quadrada
10 cm/s, sendo as perdas de carga avaliadas
E = (1 - nd)2 (4.4)
admitindo obstrução de 50% da seção de passagem.
- paratela de malha retangular
A perda de carga nas grades e telas pode ser
e = ( l - n 1d1) ( l - n 2d2) (4.5)
determinada através da equação (4.1):
onde: n, np = número de fios porunidade de
comprimento;
d, áv d2 = diâmetro dos fios.

onde: h = perda de carga, m; Em obras de captação com vazão superior a


V = velocidade média de aproximação, m/s; 500 m , ou em mananciais que, por suas caracterís­
g = aceleração da gravidade, m/s2; ticas, exigem limpeza freqüente das grades finas,
k = coeficiente de perda de carga, função deve ser estudada a possibilidade de empregar
dos parâmetros geométricos das grades equipamento mecânico.
e telas, adimensional. As barras e os fios que constituem as grades e
as telas devem ser de material anticorrosivo ou
Em grades, o coeficiente de perda de carga protegido por tratamento adequado.
pode ser determinado por: A Foto 4.8 apresenta a instalação de grades na
captação de água da cidade de Cardoso, Estado de
k = (3 (s/b)1,33 sen a (4.2) São Paulo.
90 ABASTECIMENTO DE ÁGUA
Seção transversal

■*- b

0,5 s
FORMA A

P
Figura 4.18 - Forma geométrica segundo a seção transversal das barras.

• Velocidade crítica de sedimentação das partículas


igual ou inferior a 0,021 m/s;
• Velocidade de escoamento longitudinal igual ou
inferior a 0,30 m/s;
• Comprimento do desarenador, obtido pela aplica­
ção dos critérios anteriores, deve ser multiplicado
por um coeficiente igual ou superior a 1,50
(coeficiente de segurança).

No dimensionamento do desarenador de nível


variável, devem ser consideradas as condições de
operação para os níveis máximo e mínimo.
Foto 4.8 - Grade na captação de água da A Figura 4.19 apresenta o esquema em planta e
cidade de Cardoso, Estado de São Paulo. corte de caixa de areia, sendo Q a vazão e Vs a velo­
cidade de sedimentação de uma partícula de areia.
Uma partícula que na entrada da caixa de areia
4.3.2.4. Desarenador com profundidade h esteja na superfície da água
deverá depositar ao longo do comprimento L, com
Muitos cursos de água trazem uma quantidade tempo de percurso t e velocidade Vs. Sendo V a
muito grande de areia em suspensão, que não devem velocidade do fluxo ao longo da caixa de areia,
ir para o sistema. A retenção de areia é feita através tem-se:
de desarenador ou caixa de areia, que são disposi­
tivos por onde as águas passam com velocidade
reduzida, havendo um processo de sedimentação. V - (4.6)
O desarenador deve ser instalado preferen­
cialmente, próximo à tomada de água. É recomen­
dável a instalação de dois desarenadores, sendo v = L =^ _ (4.7)
cada um deles dimensionados para a vazão final, t b-h
pois um deles será de reserva. Pela equação (4.7), obtém-se:
O desarenador pode ser de nível constante ou
variável, dimensionado segundo os seguintes Qt
h (4.8)
critérios: b-L
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 91

Planta

NA, NA,
NA.

NA Hs

Corte

Figura 4.19 - Esquema em planta e corte da caixa de areia

Substituindo a equação (4.8) em (4.6), deve-se prever passadiços amplos que possibili­
obtém-se: tem sua fácil manobra. O equipamento deve ser
perfeitamente caracterizado, quanto ao tipo de
V. (4.9) acionamento, processo ou sistema de deslocamen­
b -L to, vazão e altura manométrica. A Foto 4.10
apresenta a retirada de areia através de um equipa­
Como b • L = A, a área em planta, tem-se: mento mecanizado.
Para a remoção de areia por processo manual
Q são feitas as seguintes recomendações:
V (4.10) • Depósito capaz de acumular o mínimo equiva­
A
lente a 10% do volume do desarenador;
ou seja, a taxa de aplicação em m3/m2.s é a veloci­ • Largura mínima que permita acesso e livre movi­
dade de sedimentação da partícula. A área da caixa mentação do operador e do equipamento auxiliar
de areia é obtida dividindo-se a vazão afluente pela de limpeza.
velocidade de sedimentação da partícula.
Para se obter as outras dimensões da caixa de
areia, L, b e h, deve-se considerar (Orsini, 1996):
• Relação L/b > 4, para evitar que curtos circuitos
na caixa de areia reduzam a sua eficiência;
• Velocidade de escoamento na caixa de areia,
menor ou igual a 0,3 m/s;
• A largura b > 0,5m, para possibilitar facilidades
de construção e operação;
• As dimensões da caixa de areia devem ser compa­
tíveis com o terreno disponível e com a topografia
local.
A remoção de areia pode ser feita hidraulica­
mente com descarga através de tubulação insta­
lada no fundo do tronco de pirâmide (Figura 4.20)
ou através de equipamentos.
Se a remoção for através de bombas do tipo Figura 4.20 - Caixa de areia com remo­
draga (Foto 4.9) ou equipamento semelhante ção hidráulica através de tubulação.
92 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Foto 4.9 - Retirada de areia através de bom­ Foto 4.10 - Caixa de areia mecanizada ins­
bas tipo draga. Captação de água no rio Ca­ talada na captação de água no rio Una em
noas para abastecimento de água da cidade Taubaté, Estado de São Paulo.
de Franca, Estado de São Paulo.

O desarenador pode ser dispensado quando for Para compensar a turbulência na entrada e
comprovado que o transporte de sólidos sedimentá- saída da caixa de areia, aplica-se um coeficiente
veis não é prejudicial ao sistema. de segurança de 50% no comprimento da caixa,
Os detalhes de uma captação, caixa de areia e resultando:
estação elevatória são apresentadas na Figura 4.21.
L ='7,78 x 1,50=11,67m —> L = 12,00m (valor adotado)
Exercício 4.1.
Assim, as dimensões da caixa de areia serão de:
Calcular as dimensões da caixa de areia com
os seguintes dados: - Largura: 3,00 m
- Comprimento: 12,00 m
• Vazão de projeto
- Ia etapa: 350 £fs * Profundidade da caixa de areia
- 2a etapa: 490 £/s
Para a velocidade de escoamento longitudinal
• Características das partículas a serem removidas: V = 0,30 m/s, a área transversal A será:
- Diâmetro médio > 0,2 mm
- Velocidade de sedimentação < 0,021 m/s Q 0,49
Q = V A - A = - = — = l,63m>
Solução
Sendo A = b • h, obtém-se h:
• Cálculo da área da caixa de areia
h = —■= - 0,54 m —>h=0,55 m (valor adotado)
A =— = = 23,33 mJ b 3,00
Vs 0,021
• Dimensões da caixa de areia 4.3.2.S. Dispositivos de controle

Adotando-se a largura da caixa de areia Para controlar o fluxo e permitir a operação


b = 3,00 m, o comprimento L resulta: do sistema são utilizadas comportas e válvulas que
permitem fechar a passagem da água. As compor­
T A 23,33 _ _ Q tas são necessárias quando houver necessidade de
L= - —= 7,78 m
b 3,00 interromper o fluxo, como é o caso da caixa de
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 93

PLANTA

Figura 4.21 - Captação, caixa de areia e estação elevatória do sistema de abastecimento de


água da cidade de Cotia, Estado de São Paulo. Fonte: SABESP/PS/ (1977).
94 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

areia. Nos sistemas pequenos e médios essas onde a temperatura é mais elevada e a penetração
comportas são simples placas de madeira, alumínio dos raios solares mais intensas, enquanto que, as
ou fibra de vidro introduzidas em ranhuras nas camadas inferiores podem conter em determinadas
paredes e fundo. Nos sistemas de grande porte, as épocas do ano, principalmente no verão, água com
comportas pelas suas dimensões, deverão ser excessivo teor de matéria orgânica em decomposi­
acionadas por dispositivo mecânico de elevação, ção, com produção de compostos causadores de
de comando manual ou por motores elétricos, gosto e cheiro desagradável. Por essa razão e levan­
quando necessários. do em conta as vantagens em impedir a entrada no
sistema de abastecimento desses organismos ou da
4.3.2.6. Canais e tubulações de interligação água com gosto e cheiro desagradáveis, procura-se
fazer com que a tomada possa ser feita a uma profun­
A interligação entre as unidades pode ser feita didade conveniente, em cada caso particular. Isto
por condutos livres ou forçados; eventualmente se consegue com a construção de torres de tomada,
pode ser canais abertos. A solução é imposta pelas localizadas no interior da massa de água, nas proxi­
condições topográficas. midades das margens ou mesmo a grandes distâncias.
A torre de tomada consta de uma estrutura
fechada, contendo em sua parede diversas entradas
4.4. CAPTAÇÃO EM REPRESAS E LAGOS para a água, localizada em cotas diferentes, e que
são comandadas pela parte superior da torre. A
Para a captação em represas e lagos é impor­ água introduzida por essas entradas é retirada pelo
tante levar em consideração as variações da quali­ fundo, através de condutos especiais que vão
dade da água em função da profundidade e as atingir a parte de jusante do maciço da barragem
oscilações de nível. ou as margens de um lago. As Figuras 4.22 a 4.25
As águas represadas propiciam o aparecimento apresentam algumas alternativas para captação em
de algas, principalmente nas camadas superiores, lagos e represas.

Figura 4.22 - Tomada de água através de tubulação em vários níveis de água.


CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 95

T U BU LAÇÃO
DE S A Í D A ABERTURA
PARA
PASSARELA E NT RA D A
DE ÁGUA

T UB UL A ÇÃ O
CANA DE S A Í D A

PL A NT A

rn m m
Figura 4.23 - Tomada de água através de várias aberturas para a entrada de água.

Torre de
Tomada

Figura 4.24 - Tomada de água com entrada de água na parte inferior.

Figura 4.25 - Tomada de água com torre de tomada, tubulação, grade, poço de sucção e
estação elevatória.
96 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Outro sistema utilizado para a captação de água A Figura 4.26 apresenta os detalhes da capta­
em represas e lagos, consiste na construção de ção no reservatório Taiaçupeba para o sistema
tubulões ou estruturas semelhantes à torre de produtor Alto Tietê da Região Metropolitana de
tomada, dentro das quais são colocadas bombas São Paulo. Nesta captação, a água bruta pode se
de eixo vertical. Os motores e todo o equipamento admitida através de 6 tubulões de concreto armado
elétrico são instalados em um compartimento vazados, que por meio de manobras de comportas
construído sobre os tubulões. A entrada de água instaladas em 3 níveis distintos de cada tubulão,
para o interior dos tubulões é feita através de com­ permitem a seleção da água buta a ser enviada à
portas semelhantes às que existem nas torres de estação de tratamento de água Taiaçupeba. Estas
tomada, sendo comandadas pela parte superior do comportas (1.500 x 1.500 mm) são dotadas de
conjunto. Este tipo de concepção foi utilizado na grades removíveis para retenção de materiais de
captação de água no resevatório Billings (braço grande porte. Os 6 tubulões de admissão de água
do rio Grande) e na captação na represa Taiaçupeba, tem cada um, diâmetro externo de 4,60m, diâmetro
ambas na Região Metropolitana de São Paulo, interno de 4,20 m e 12,45 m de comprimento. No
conforme apresentadas nas Fotos 4.11 e 4.12, interior dos tubulões estão instaladas bombas de
respectivamente. eixo vertical, com vazão unitária de 2,83 m3/s e
altura manométrica de 57,50 mH20 que são
acionadas por motores elétricos, rotor gaiola, com
potência de 3.000 cv e tensão de 13.200 V, confor­
me se observa na Foto 4.13 (Wemeck e Cittadella,
2002).

Foto 4.11 - Captação no reservatório Billings


(braço do Rio Grande). Sistema Rio Grande
da RMSR Vazão de 4,2 m3/s.
Foto 4.13 - Estação elevatória para captação
de água no reservatório Taiaçupeba. Sistema
Alto Tietê da RMSR

A tomada de água por torre requer avaliação


especial dos aspectos econômicos, de modo a
justificar a escolha. A torre de tomada seletiva,
estrutura que contém aberturas para entrada de
água localizadas em cotas diferentes, deve ser
utilizada, caso as variações de nível ou da qualida­
de da água do manancial a recomendem. As aber­
turas da torre de tomada devem ser providas de
grades grosseiras e de comportas de controle de
Foto 4.12 - Captação de água na represa admissão de água.
Taiaçupeba. Sistema Alto Tietê da RMSR Vazão Também, poderá ser utilizado uma tomada de
de 10 m3/s. água diretamente no lago ou represa sem a necessi-
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 97
a) Planta

:c:l:3„:i^gz:i;z[rx3^y ~h:i:DÍzt5!p|

iiü

;^=:pí3f-=E1 ni:: r. a 'tcnztzxiazx::


..c.n _ic.i.3_,iL.3._]ti:i:_8_x:i!['z r.j:iram ::

= 4 =

b) Corte

Figura 4.26 - Captação de água bruta no reservatório Taiaçupeba. Sistema Alto Tietê da RMSR
Planta e Corte. Fonte: Werneck e Cittadella (2002).
98 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

dade da torre de tomada (Figuras 4.27 e 4.28). A


tomada de água da Figura 4.27 poderá ser utilizada,
principalmente quando o nível de água no local da
captação for pequeno. A Figura 4.28 refere-se à
tomada de água no reservatório Paiva Castro da
Região Metropolitana de São Paulo (Foto 4.14),
onde é captada a vazão de 33 m3/s, representando
cerca de 52,4 % de toda a água captada para o
abastecimento da Região Metropolitana de São
Paulo. Foto 4.14 - Captação de água no reservató­
rio Paiva Castro. Sistema Cantareira da RMSR

Figura 4.27 - Tomada de água com tubulação, stop-log, grade, poço de sucção e estação
elevatória.

a) Planta

W rs *- fs 'S/S
/ / /+
VáIv ufa
77y y y"sv/l*
/ y>?/ ■
'/ / / /wy y"r / // j / / O d isp e rso ra
■ /
“V..
f s / / .r. $S 600 mm
y/y V / / : / A '* / / / '
/ y / S / / / / / / / / / / / £4/* s s*//S
F i V fr y V X / -f « > >/ / / Xv v * * x s fsss///:/.
/ s ^ J/s//£^/ // // // /y,A
5,65 16,00
------1-—
Ma t e r i a l By pass 0 600 mm
com pactado

Figura 4.28a - (Planta) - Captação de água bruta no reservatório Paiva Castro da RMSR Siste­
ma Cantareira. Vazão de 33 m3/s. Fonte: SABESP/JNS (1998).
CAPTAÇÃO DE ÁGUAS SUPERFICIAIS 99
Stop-log
b) Corte Stop-Jog
Linha de referência
RESERVATÓRIO do emboque
PAIVA CASTRO
Material compactado

v y /////////,
^ y y /y /y y /y /% / / v/ :/y y /y //
■'///y /y /y s C 's '///s /y /y y . ■

/ / / y / / ' S y y /y Z /^ t-A

i = 0,5 %

i“1
— i = 12vt
---y— % #’..' .*»’■
; .V*'Y-.:
■.to• 1■
. :V,‘. ' Hr' y .V'..-1;*.**y......\
’ " V >
|_______________ 16,00___________________ |

início do túnel n* 3

Figura 4.28b - (Corte) - Captação de água bruta no reservatório Paiva Castro da RMSR Sistema
Cantareira. Vazão de 33 m3/s. Fonte: SABESP/JNS (1998).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTRO, H.L. Mananciais utilizados para abastecimento SABESP. Sistema Cantareira. 18p. São Paulo, 2002.
público. Relatório Técnico. Divisão de Proteção de Recur­
sos Hídricos de Produção. SABESP, 2002. SABESP/COPLAENGE. Sistema de abastecimento de água
de Taubaté/Tremembé. São Paulo, 1997.
FLORES, A.P.; SORRINI, E. Monitoramento em tempo real
da qualidade da água dos mananciais da RMSP. Revista SABESP/JNS. Data oper sistema cantareira. São Paulo, Se­
SANEAS. Vol. 02, n° 13, janeiro/2002. Associação dos En­ tembro de 1989.
genheiros da SABESP - AESABESP.
SABESP/PSI. Sistema de abastecimento de água de Cotia.
JAPAN ASSOCIATION OF AGRICULTURAL ENGI- Projeto Básico. São Paulo, 1997.
NEERING ENTERPRISES. Pumping station engineering
handbook. Tokyo, 1991. SECCO, C.K.Z. Operação de sistemas de abastecimento com
limitação da produção de água: estudo de caso da Região
JAPAN WATER WORKS ASSOCIATION. Design criteria Metropolitana de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Esco­
for waterworks facilities. 1978. la Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2002.

MACINTYRE, A J. Bombas e instalações de bombeamento. SILVA, P.E.M. Captações de água para a cidade de Taubaté.
Editora Guanabara Dois. Rio de Janeiro, 1980. Relatório Técnico. SABESP, 2002.

MOTA, S. Preservação e conservação de recursos hídricos. WERNECK, A.C.A.; CITTADELLA, L. Instalação do


2a edição. ABES. Rio de Janeiro, 1995. sistema produtor Alto Tietê. Relatório Técnico. Departamento
de Produção Leste da Vice-Presidência Metropolitana de
ORSINI, E.Q. Sistem as de abastecim ento de água. Produção de Água da SABESP. São Paulo, 2002.
Apostila do Curso de PHD 412 - Saneamento II. Depar­
tamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola YASSUDA, E.R; NOGAMI, P.S. Captação de águas
Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo, superficiais. Capítulo 7. In: Técnica de Abastecimento e
1996. Tratamento de Água. CETESB. 2a Edição. São Paulo, 1976.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA
SUBTERRÂNEA
João Carlos Simanke de Souza*

5.1. ÁGUAS SUBTERRÂNEAS E HTOROGEOLOGIA

O planeta é azul visto do espaço porque tem 1,5 bilhão de quilômetros


cúbicos de água. Tomando apenas sua extensão superficial, temos 70% mais
água do que terra firme. O ciclo é perfeito, contínuo e perene: o sol aquece o
solo, os rios e os mares, então, o vapor sobe, agrega-se formando nuvens,
precipitando-se na forma de chuva, neve ou geada alimentando rios, lagos,
represas e aqüíferos. Este circuito fechado nos faz constatar que a água é um
recurso natural renovável, v--
Apenas 2,7% desse 1,5 bilhão de km3 é de água doce, própria para
consumo, sendo que grande parte dessa água está congelada nas regiões
polares. Somente 0,7% está escondida no subsolo e parcos 0,007% estão na
.forma de rios e de lagos. Se pegarmos uma garrafa com 1 litro de água e a
dividirmos proporcionalmente ao encontrado no planeta, a quantidade de agua
doce disponível seria equivalente a uma única gota. Essa baixa disponibilidade
sofre degradação antrópica, especialmente nos grandes aglomerados urbanos.
Cerca de dez milhões de pessoas morrem todo ano por causa do consumo de
água contaminada.
A água subterrânea faz parte do ciclo hidrológico, ocorrendo nos poros e
interstícios das formações geológicas de caráter sedimentar, ou nos planos de
fraqueza estrutural das formações geológicas de caráter ígneo ou metamórfico,
representado por falhas, fendas, fraturas e fissuras. A água subterrânea e a
água superficial são o mesmo recurso hídrico fluindo por um meio físico
diferente. A água superficial flui rápida através dos cursos d’água, enquanto a
subterrânea flui lentamente através das formações geológicas. É um recurso
finito, limitado, dotado de grande valor econômico.
A geração de energia elétrica a partir dos recursos hídricos impulsionou
o conhecimento da hidrologia no Brasil, resultando num uso prioritário das
águas superficiais. A água subterrânea pelo fato de ser um recurso oculto,

(*) Geólogo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1974). Doutorando em Recursos Minerais e Hidrologia no
Instituto de Geociências da USP. Relator das normas da ABNT, NBR 12.212/92 e 12.244/92. Gerente da Divisão Técnica
Operacional em Águas Subterrâneas da SABESP.
102 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

nada fotogênico e cercado de algumas incertezas normas e o padrão de potabilidade de água ;


técnicas, foi sendo preterida em função das águas destinada ao consumo humano, a serem observa­
superficiais. Atualmente, há um movimento basea­ dos em todo o território Nacional;
do no conhecimento técnico, onde há uma cons­ • Resolução Estadual SS-4 de 10 de janeiro de j
cientização para os usos múltiplos da água, em 1996: estabelece os procedimentos do programa
virtude do modelo de gerenciamento adotado cuja de vigilância da qualidade da água para consumo
unidade é a bacia hidrográfica. Entretanto, a bacia humano no Estado de São Paulo e dá outras
hidrográfica e a bacia hidrogeológica têm limites providências;
muito diferentes; na hidrográfica, os divisores de • Lei Estadual n° 10.083, de 23 de setembro de
água estabelecem limites claros que não são respei­ 1998: dispõe sobre o Código Sanitário do Estado;
tados em subsuperfície pela bacia hidrogeológica, • Lei Federal n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998:
porém é razoável manter este tipo de gestão, com­ dispõe sobre as sanções penais e administrativas
patibilizando o estudo parcial da bacia hidrogeo­ derivadas de condutas e atividades lesivas ao
lógica dentro dos limites da bacia hidrográfica. meio ambiente; j
A água subterrânea é largamente utilizada no • Resolução Federal n° 15 de 11 de janeiro de 2001
Brasil, e o Estado de São Paulo é pioneiro nos aspectos do Conselho Nacional de Recursos Hídricos:
de legislação e controle. A SABESP utiliza atualmen­ estabelece diretrizes para a gestão das águas sub­
te mais de 1.000 poços para abastecimento público terrâneas;
atendendo cerca de 3.000.000 de usuários (dados de • Resolução Federal n° 22 de 24 de junho de 2002
2003). O órgão gestor no aspecto quantidade é o do Conselho Nacional de Recursos Hídricos:
DAEE que concede a licença de perfuração e pos­ estabelece diretrizes para inserção de águas sub­
teriormente a outorga de uso, e no aspecto qualidade terrâneas nos Planos de Bacia Hidrográfica. ;
é a CETESB e a SECRETARIA DA SAÚDE com a
legislação existente e pertinente. O usuário que opta A perfuração indiscriminada sem obediência
por fonte própria assume a responsabilidade de captar, à técnica e legislação traz riscos à saúde pública,
tratar, reservar e distribuir a água, muitas vezes sem perigo de contaminação dos aqüíferos, falta de ;
conhecimento da legislação básica vigente. recolhimento de taxas aos órgãos gestores e compa­
nhias de saneamento e falta de controle de um bem j
essencial à população, considerado reserva estra­
5.2. ASPECTOS LEGAIS tégica. !
Por outro lado, o uso do recurso subterrâneo
O poço tubular profundo é uma obra de vem sendo ampliado intensivamente em função da
engenharia geológica, com recolhimento de ART economia comparativa com a água de superfície,
junto ao CREA, com projeto específico (Norma mais vulnerável e mais cara em função do trata- j
ABNT NBR 12.212/1992 - Projeto de poço para mento necessário. Dentre as principais vantagens i
captação de água subterrânea) e regras construtivas da água subterrânea, destacam-se a facilidade de [
(Norma ABNT NBR 12.244/1992 - Construção locar os poços próximos aos pontos de reservação/ 1
de poço para captação de água subterrânea) ambas distribuição e a qualidade da água normalmente j
em revisão em 2003; satisfatória. i
A empresa perfuradora e usuário das obras \
\

de captação de água subterrânea devem obedecer


todas as vigências e disposições constantes na Lei 5.3. FORMAÇÃO GEOLÓGICA E AQÜÍFERA
Estadual 6.134 de 02/06/88 e no Decreto 32.955
de 01/12/91, Lei Estadual n° 7.663 de 30/12/91 e A água subterrânea ocorre em materiais
portaria DAEE n° 717/96 de 12/12/96. rochosos consolidados (rochas firmes), e em mate­
Outras legislações são apresentadas a seguir: riais desagregados não consolidados (rochas
friáveis). Qualquer tipo de rocha, sedimentar, ígnea
• Portaria Federal 1.469 de 29 de dezembro de ou metamórfica, seja consolidada ou não, pode
2000 do Ministério da Saúde/Funasa: trata das constituir um aqüífero se for suficientemente poro-
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 103
Sa e permeável. As rochas sedimentares constituem d’água é designada Zona de Aeração. Imediata­
5% da crosta terrestre, porém contém 95% da água mente abaixo onde os interstícios estão repletos
subterrânea. Estão amplamente difundidas geogra­ d água, está a Zona de Saturação.
ficamente e possuem excelentes propriedades
aqüíferas.
Superfície do solo'

5.3.1. Rochas sedimentares Faixa da :* *y.v ;


água do
solo
As rochas sedimentares constituem os
melhores e mais amplos aqüíferos existentes e são Faixa *• Poros parcialmente .
representados pelos arenitos e cascalhos, os quais intermediária '• * ocupados pela água *
possuem uma grande variedade de dimensões,
granulometrias e graus de compactação. Também
as rochas carbonáticas, calcáreas e dolomitos, Franja da
capilaridade' ------ Ascensão capilar —
quando possuem fraturas, fissuras ou cavernas,
podem constituir-se bons aqüíferos. / / Superfície livre
I I /. do lençól / / / / / "
I /V
I *iz/V /////'
I I I/í'ü n/ / n/ / 11 11 Í! s .atS
5.3.2. Rochas ígneas U<s ' .//.iV 11' ' ' 1,/ / / i
Água subterrânea / / /
'/ / / tsa> w
P
São rochas macro e microcristalinas na sua Kl
/////////////////
forma original. Os basaltos estruturalmente com­ IIIIIIIlliltliitil
Água subterrânea é a massa da água da
postos por sucessivos derrames constituem-se bons subsuperfície contida na zona de saturação
aqüíferos, enquanto os granitos podem fornecer
pequenas quantidades de água, quando possuem F ig u ra 5.1 - D istribuição de ág u a em
fissuras na sua parte superior proveniente de mate­ subsuperfície.
rial desgastado que constitui o manto de intem-
perismo. A Zona de Aeração é dividida em três faixas:

5.3.3. Rochas metamòrfícas • Faixa de água do solo;


• Faixa intermediária;
Em geral, essas rochas são aqüíferos pobres e • Franja da capilaridade.
são formadas por rearranjos provocados por altas
pressões e temperaturas. A água obtida é a de As faixas variam em profundidade, mas seus
fendas e fraturas, que podem ocorrer próxima do limites não são bem definidos, por diferenças
cimo da formação geológica, onde o material tenha físicas dos materiais terrosos. Há uma transição
sido desgastado criando manto de intemperismo. gradual de uma para outra.
As principais rochas são: quartzitos, gnaisses, Os recursos de água subterrânea, de um modo
micaxistos, ardósias e mármores. geral, excedem 30 vezes o volume de águas super­
ficiais. As condições potenciais, tendo em vista o
5.3.4. Distribuição da água no subsolo seu uso, são muito maiores do que as conhecidas
ou reconhecidas, tendendo a aumentar à medida
O conhecimento da ocorrência subterrânea que se aperfeiçoa a tecnologia de captação.
requer um estudo da distribuição vertical d’água nos O aproveitamento de água subterrânea tem
materiais ou formações geológicas de subsuperfície sido prejudicado pelos seguintes fatos negativos:
(Figura 5.1). A parte mais externa da crosta terrestre conhecimento insuficiente das formações aqüífe­
é normalmente porosa. É chamada Zona Detrítica, ras, falta de estudos e levantamentos, ensaios e
onde os poros, interstícios ou cavernas, podem estar técnica inadequada na execução de poços.
parcial ou completamente cheios d’água. A camada Na Europa, o sistema de abastecimento de
superior onde os poros estão parcialmente cheios água, depende em 75% da água subterrânea para o
104 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

abastecimento da população. Em países como a limitantes e suas características físicas. Os tipos


Dinamarca, Suécia, Bélgica, Alemanha e Áustria, de aqüíferos são apresentados a seguir:
representa 90%. A água subterrânea abastece 100% • Aqüífero livre ou não confinado: um aqüífero
dos núcleos urbanos da Argélia, 58% do Irã, 50% livre é um extrato permeável, parcialmente satu­
nos Estados Unidos. No Brasil, estima-se que 50% rado d’água, sobrejacente a um extrato ou forma­
das cidades são abastecidas por água subterrânea. ção impermeável (Figura 5.2).
O Estado de São Paulo é o maior usuário nacional,
com 70% das cidades e, 90% das indústrias.
Capitais de estados brasileiros como Campo
Grande-MT, Maceió-AL, Recife-PE, Natal-RN,
João Pessoa-PB, Fortaleza-CE, Belém-PA,
Manaus-AM, Teresina-PI dependem da água
subterrânea para o abastecimento público. Esta­
dos que possuem extensas coberturas sedimen­
tares como o Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí,
Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São
mm.
y *.> A H
Impermeável
Aqüífero
Superfície freática

Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul Grão fino (b) Semi-livre
e sul de Goiás têm na água subterrânea, a alterna­
tiva mais viável de abastecimento de suas comuni­ (a) Livre
dades. Em São Paulo destacam-se: Ribeirão Preto, Figura 5.2 - Aqüífero livre (a) e semi-livre (b).
Fernandópolis, Jales, Monte Alto, Novo Horizon­
te, Lins, Catanduva, São José do Rio Preto e Avaré. • Aqüífero confinado ou artesiano: é aquele
completamente saturado d’água, cujas capas,
5.3.5. Classificação dos aqüíferos (superior-teto e inferior-piso) são extratos
impermeáveis (aquicludes). A água deste
• Aqüíferos: são camadas ou formações geoló­ aqüífero se chama artesiana ou confinada, sua
gicas de material poroso e permeáváí que contém pressão geralmente é mais alta que a pressão
água subterrânea, permitem seu movimento atra­ atmosférica e quando se perfura o aqüífero, a
vés de seu espaço intersticial e podem fornecê- água sobe para nível bem superior ao limite do
la em volumes apreciáveis. Exemplo: camadas aqüífero (Figura 5.3).
de areia.
• Aquicludes: são as formações que contém água, C onfinado

mas não podem cedê-las. Exemplo: argila^, sh h bh h e


comportando-se como impermeáveis.
• Aquifuges: são as formações que não contém
água e não permite o movimento da água. Exem­
plo: rochas graníticas compactas.
• Aquitardes: são os extratos de baixa permea­
bilidade, mas com capacidade suficiente para
transmitir certa quantidade de água aos extratos Impermeável
que estão sobrejacentes e subjacentes. Exemplo: Aqüífero
arenito argiloso. Os aquitardes podem ser recarre­
Superfície piezométrica
gados por Zonas Saturadas. Exemplo: rochas
basálticas fraturadas. Figura 5.3. - Aqüífero confinado ou artesiano.

5.3.6. Tipos de aqüíferos Aqüífero semiconfínado: o aqüífero saturado


que tem como limite superior um extrato semi-
Os aqüíferos se apresentam com característi­ permeável (aquitarde) e como piso, um extrato
cas distintas com relação aos outros extratos impermeável ou semipermeável (Figura 5.4). Os
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 105
extratos semiperíneáveis sobrejacentes, através Aqüíferos físsurados ou fraturados: ocorrem em
de grandes superfícies de contato, contribuem rochas cristalinas (granitos, basaltos, xistos, etc)
significativamente para os aqüíferos semiconfi- localmente não compactadas. As fraturas, fissuras
nados; às vezes a água do aqüífero semiconfinado ou outros sistemas de fraquezas localmente encon­
ascende através do aquitarde ou extrato semicon- trados, podem funcionar como excelentes reserva­
finante. A percolação da água é feita desde o tórios d’água subterrânea, transformando esses
aqüífero e chama-se filtração por gotejamento “aquitardes” em bons aqüíferos (Figura 5.6).
(Figura 5.4).

YYXXXJÍ
Nível piezométrico = nível estático (N.E.)
Impermeável Fraturas / fissuras „
Aqüífero , Rocha cristalina
ty /////. Semi-permeável-
Figura 5.6 - Aqüífero fissurado.
-----------Superfície piezométrica
Superfície freática
Figura 5.4 - Aqüífero semiconfinado. 5.3.7. Pressões dos aqüíferos

Aqüíferos suspensos: são originados por um Em aqüíferos podem ser definidos os seguin­
extrato de reduzida permeabilidade, que retêm a tes conceitos:
água descendente desde a zona de umidade do
solo. Quando o piso é um extrato semipermeável, • Superfície do aqüífero: superfície da água que
tais aqüíferos chamam-se semi-suspendidos limita a parte superior do aqüífero; em um
(Figura 5.5). aqüífero livre, é o nível freático. Em um aqüífero
confinado em que a água está com pressão
Nível freático artesiana, é a superfície inferior do teto do aqüífe­
_2,
! »**,'A t ’ •".'A .• .•* »A, «a. t * . * * . í** >Ai í . ».* * .
f * * * * 1 • * "V * * U *• V * V £ •• V . / i » V ? m , . **««v # V : ro (Figura 5.7).
Aqüífero livre • Superfície piezométrica ou de hidrohipsas: é
uma superfície real ou fictícia de um aqüífero,
Nível freático suspenso
Aqüífero semi-suspenso onde a pressão da água é igual à pressão atmos­
férica; a água de um poço ascende até esse nível.
Um aqüífero em movimento apresenta uma
•Capa impermeável superfície piezométrica inclinada, em que se
devem distinguir os gradientes regionais (Figura
Nível freático semi-suspenso 5.8).
• Nível piezométrico: em um ponto ou perfuração,
mm.i é a distância vertical entre a superfície do terreno
neste ponto e a superfície piezométrica. O nível
^ Capa semi-pemieável — ^ ^
piezométrico é negativo quando a superfície
^jezométrícOiver menor cota que a superfície
do terreno; e positiva, quando a água jorra acima
da superfície do terreno (água surgente) confor­
Figura 5.5 - Aqüífero suspenso. me se observa na Figura 5.7.
106 ABASTECIMENTO DE AGUA

Superfície
piezométrica

_ Sxjperfícjej)i£^raétrica _ _________
Aqui fero 1
y y ;y ? ? y y ? y y y /y y y / yyyyyyy^ y y y y /2 %
< 2222:42^ 'yyyyyyy/yyyyys yyyyyy Aquiclude 1
Aqüífero 2

yy/yyyyyyyy/yyyyyyyyyy/yy' yyyyyyyyyyyyy yy> y y ^


Aquiclude2
//> //////^ /////yyyy/yyy^ 'yyyyyyy/yyyyy. < yyiy y i
Aqüífero 3

Figura 5.7 - Superfície piezométrica nos aqüíferos.

Zona de alimentação Zona de circulação

Zona de acumulação
—J
Zona de
escorrimento Setor livre do aqüífero
subterrâneo
* Zona de águas Zona de águas
1/------ ------- ' j artesianas artesianas
I surgentes surgentes
Setor confinado do aqüífero V— '—^ r------- ----------J
Zona de águas
artesianas ascendentes

Manancial
de depressão

Manancial de ^ieár
Manancial
transbordamento
artesiano

Figura 5.8 - Comportamento horizontal dos aqüíferos.

• Pressão artesiana: é a pressão hidrostática de Na Figura 5.7 observa-se que o nível da água
um aqüífero artesiano, e seu valor é aproxima­ do poço A do aqüífero livre 1, tem um nível freático;
damente igual á diferença de elevação entre a os poços B e C tem nível piezométrico negativo.
área de recarga e o ponto considerado, menos as Os poços C e D que exploram o aqüífero 3, mais
perdas de carga devidas à fricção da água em confinado, tem comportamento distinto, o C é
movimento. ascendente e o D é surgente por razões topográficas.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 107
5.3.8. Comportamento horizontal dos aqüíferos • Zona artesiana surgente: é aquela cuja superfí­
cie piezométrica esta por cima da superfície do
No sentido horizontal do aqüífero, desde sua solo (nível piezométrico positivo).
origem, pode-se distinguir (Figura 5.8):
A Figura 5.9 apresenta o comportamento
• Zona de alimentação ou recarga: é a zona, por hidráulico dos aqüíferos.
onde o aqüífero se alimenta das águas das chuvas.
Na zona de recarga, a zona de aeração pode 5.4. HIDRÁULICA DE POÇOS
chamar-se também zona de infiltração, em que a
água se introduz no aqüífero segundo uma 5.4.1. Considerações gerais
componente vertical predominante;
• Zona de circulação ou percolação: é a zona O elemento mais importante no estudo de
onde a água circula desde a alimentação até hidrologia subterrânea é o poço, através do qual
a evacuação; realizam-se as observações do comportamento dos
• Zona de evacuação ou descarga dos aqüíferos: aqüíferos, podendo-se determinar suas caracterís­
é a zona onde a água sai do aqüífero, para ticas hidrodinâmicas. Todavia, para suas determina­
introduzir-se noutro aqüífero ou para manifestar- ções, deve-se conhecer certos parâmetros. A hidráu­
se como manancial (fonte, nascente, minas e lica de meios porosos é baseada na Lei de Darcy
olhos d’água); (equação 5.1), cuja demonstração esquemática e
• Zona de escorrimento subterrâneo: forma sucinta é apresentada na Figura 5.10.
parte da zona de recarga;
• Zona de acumulação: é aquela que compreende
as áreas livres e confinadas do aqüífero, sendo
que desta zona fazem parte as zonas de acumu­
lação, as zonas de circulação e as zonas de
onde: Q = vazão do fluxo;
artesianismo surgente;
K = condutividade hidráulica;
• Zona artesiana ascendente ou semi-surgente:
A - área;
é aquela cuja superfície piezométrica corta ou
está por debaixo da superfície do solo (nível dh
~ = gradiente hidráulico.
piezométrico negativo); dL

Figura 5.9 - Comportamento hidráulico dos aqüíferos.


108 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

HORIZONTAL (A)
O NDE PASSA O FLUXO
DE ÁG U A

Figura 5.10 - Hidráulica de meios porosos. //vJpjcAã>©«. 02? er/OTD

5.4.2. Definição de termos utilizados na cia o prolongamento da superfície horizontal doNE-


hidráulica de poços é chamada de raio de influência (Figura 5.11).

Os termos técnicos utilizados na hidráulica • Vazão específica (Q/s): é o quociente da vazão


de poços são apresentados a seguir: (Q) pelo rebaixamento (s) do poço. Serve como
• Nível estático (NE): ^corresponde à pressão , indicador do j endimanto da formação aqüífera.
jieutra do aqüífero no ponto considerado. E a A vazão específica diminui com o tempo de bom-
superfície livre da água dentro do poço, medida beamento, devendo por isso mesmo, ser indicada
ajjailiiida^uperfície do solo e referida ao nível
médio dos mares: 9 Coeficiente de armazenamento (S) e armaze­
• Nível dinâmico (ND): é o nível do lençol de água namento específico: a capacidade de um aqüífe­
dentro do poço, quando o mesmo está sendo ro armazenar e transmitir água depende das pro­
bombeado. É medido a partir da superfície do priedades do fluido (densidade, viscosidade e
solo até o nível do bombeamento compressibilidade) e das propriedades do meio
• Rebaixamento (s): corresponde a distância verti­ (porosidade, permeabilidade intrínseca e com­
cal dentro do poço, entre o NE e ND, ou seja: pressibilidade). Estas propriedades são respon­
sáveis por todo o comportamento do aqüífero. O
s = ND - NE (5.2) armazenamento específico de um aqüífero satu­
rado (Ss) é definido como o volume de água libe­
• Raio de influência (r): quando um poço está rado por um volume unitário do aqüífero subme­
sendo bombeado, formam-se em tomo do mesmo, tido a um decréscimo unitário de carga hidráulica
um “cone de depressão” com o seu vértice volta­ (equação 5.3).
do para o fundo do poço.
ôV liberado
S„ = (5.3)
A distância que vai desde o centro do poço até V ôh
o ponto em que a superfície interior do cone tangen- onde ô indica uma pequena variação.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 109
Raio de influência
Solo

Sup.piezométrica
\ original
\
-X- Camada impermeável
S = rebaixamento \ / Cone de depressão
\ /

ND Aqüífero

Camada impermeável

Figura 5.11 - Detalhes de um poço.

O mecanismo de liberação de água nos aqüí­ um gradiente hidráulico unitário, conforme


feros confinados é bem diferente dos aqüíferos mostra a equação (5.5).
livres. Nos aqüíferos livres não confinados, a água
é liberada para poços ou fontes, principalmente em T = K xm (5.5)
função da drenagem dos poros. Os vazios passam
a ser ocupados pelo ar e o nível freático fica mais O coeficiente de transmissividade é expresso,
baixo. Nos casos de aqüíferos confinados, ao em mVhora ou m2/dia.
liberar água os poros não são esvaziados. A pressão
é maior que a pressão atmosférica e ao ser perfu­ 5.4.3. Fenômenos que se verificam num aqüífero
rado um poço e extrair água do aqüífero, ocorre
gradativamente um alívio na pressão hidrostática Do ponto de vista hidrológico, os fenômenos
e, conseqüentemente, o peso das camadas geológi­ hidrodinâmicos que se verificam nos aqüíferos,
cas superiores passa a apoiar-se mais na estrutura podem ser resumidos em três tipos principais:
do material poroso, provocando uma compactação
do aqüífero. Nestes casos, a água é liberada devido a) Fenômenos que se verificam no conjunto do
a dois fatores: um deles devido a expansão da água aqüífero, no seu estado natural, isto é, antes da
proporcionada pela redução da pressão e o outro exploração por poços (não será abordado);
devido a redução dos vazios do aqüífero causada
pelo aumento da pressão sobre a estrutura do meio b) Fenômenos que se verificam durante o bombea­
poroso. mento.
O coeficiente de armazenamento é um parâ­
metro adimensional definido pela expressão: Quando se bombeia um poço, um certo volu­
me de água que se encontra disponível é pronta­
S = SS b (5.4) mente retirado e o nível piezométrico das águas
do aqüífero começa a baixar nas imediações do
onde b é a espessura do aqüífero (L). poço bombeado. Esta baixa provoca um desequilí­
brio da pressão hidrostática do sistema e, devido a
Transmissividade (T): a transmissividade isso, a água do aqüífero começa a se escoar para o
corresponde à quantidade de água que pode ser interior do poço. Mas como a viscosidade da água
transmitida horizontalmente por toda espessura não é nula, seu movimento convergente para o poço
saturada do aqüífero, e corresponde a uma taxa se realiza com perdas de energia, as quais produ­
de escoamento de água que escoa numa faixa de zem uma queda de pressão ao longo das linhas de
espessura m com largura unitária submetida a fluxo. Nestas condições, a superfície das águas
110 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

subterrâneas se aprofunda adquirindo a forma de toma-se cada vez maior, e desta forma a velocidade
um cone de revolução de geratriz curvilínea, que de aprofundamento diminui até atingir uma estabi­
se convencionou chamar de cone de depressão lização aparente.
(Figura 5.12). Dupuit (1848) e Thiem (1906), desenvol­
Assim, pouco a pouco, a influência de veram fórmulas a partir da Lei de Darcy, que permi­
bombeamento cresce e se aprofunda, consumindo tem determinar as constantes hidrodinâmicas dos
o volume de água de saturação ou de armazena­ aqüíferos (T e S), conhecendo-se a vazão de bom­
mento. beamento do poço, os abaixamentos de nível em
Com a expansão do cone, o volume da água, poços de observação situados a distâncias diferen­
liberado por unidade de abaixamento de nível, tes do ponto bombeado, quando a pseudo-

Figura 5.12 - Parâmetros hidráulicos do teste de vazão.


CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 111

estabilização for atingida. Neste caso o regime de Existem vários softwares de cálculo e inter­
equilíbrio ou permanente foi atingido. pretação de testes de vazão em que é possível
Estes métodos supõem, portanto, um novo determinar os vários métodos aplicados dependen­
estágio de equilíbrio do sistema, isto é, o aqüífero do do tipo de aqüífero e das condições hidrogeo-
compensa a vazão explorada. Contudo a experiên­ lógicas e hidrológicas presentes. Como exemplo,
cia tem demonstrado que na realidade a superfície é apresentado na Figura 5.13 um teste de vazão
do cone de depressão raramente atinge uma posi­ executado em Pumptest que utiliza o software
ção estável. Devido a esse fato o regime estabele­ Aquifer Test 3.5 da Waterloo Hydrogeologic Inc,
cido durante o bombeamento é um regime de não- normalmente utilizado pela SABESP para
equilíbrio ou transitório. interpretação da forma de utilização dos seus poços.

Fórmula de Jacob - Método aproximativo c) Fenômenos que se verificam após o bombea­


mento
Jacob verificou que para valores muito
grandes de t (tempo de bombeamento), o valor de A recuperação dos níveis dos poços de bom­
u (R2s/4Tt) tende para quantidades muito pequenas beamento e de observação, após a parada da
que podem ser desprezadas, podendo a equação bomba, pode ser interpretada pelo método de
de Theis ser reescrita da seguinte forma: Jacob, mediante um artifício de calculo, tendo em
vista a determinação das características hidrodi-
0,186 Q,i0g (2,22Tt)
s - --------- „— nâmicas dos aqüíferos.
(5.6)
T RS
Princípio da superposição dos escoamentos
onde: s = abaixamento no poço de observação, m;
Q = vazão de bombeamento, m3/h;
Com base na lei de Darcy pode-se imaginar
t = tempo de bombeamento, h;
que no instante da parada da bomba, tudo se passa
R = distância do poço de observação ao poço
como se esta continuasse a funcionar sem modifi­
em bombeamento, m;
cação do regime, mas a água bombeada, ao invés
T = coeficiente de transmissividade, m2/h;
de ser despejada no exterior, é reinjetada no poço;
S = coeficiente de armazenamento, adimen-
considera-se, portanto que depois da parada da
sional.
bomba, os fenômenos hidrodinâmicos que se veri­
ficam seguem a mesma evolução que foi registrada
A equação (5.6) fornece valores tanto mais
durante o bombeamento, superpondo-se aos exis­
precisos quanto os tempos (t) são longos. Para sua
tentes.
aplicação, o tempo mínimo de bombeamento
No poço real, onde é realizada um bombea­
deverá ser de 48 horas. Observam-se as variações
mento de vazão +Q, vem se superpor, no instante
de nível num poço de observação, em função do
da parada da bomba, um poço absorvente no qual
tempo, e constrói-se um gráfico semi-log, dos
é injetada uma vazão -Q igual a +Q.
valores de s/Q em função do log t.
Em coordenadas semi-logarítimicas, esta
Equação da recuperação
curva representa uma reta de coeficiente angular.
,S/Q Seja (tb) o tempo decorrido do início ao fim do
logt (5.7) bombeamento, e (t,) o tempo decorrido após aparada
do bombeamento, e t o tempo total (t = tb + tj).
T = 2,303 Assim, o método de Jacob ou de aproximação
4 tcT (5.8) logarítmica se aplica:

T = S0,186
.
• Aos piezômetros - o método permite calcular T e S.
• Para o poço de bombeamento quando não se pode
—logt (5-9)
Q obter o valor S.
112
ANALYSIS OF DRAWDOWN USING THE JACOB METHOD
Test Date ]0/rev/02

AB ASTECIMENTO
Pumping Duration 1440.00
Standiiig Water Levei 81.00
Pumping Started S,00
Bore radius (m) 0.25
Discharge Rate (m3/d) 6072.00

Túne Sinee Water

DE ÁGUA
Pumping Levei Dntwdown
Stürtód s'
(min) (m) (m)
5 94,00 13,00
10 95,22 14.22
14 98,46 17.46
20 98,46 17,46
30 98,86 17,86
40 99,62 18.62
50 99,94 18.94
60 100.13 19.13
120 100,88 19.88
180 101,25 20.25
240 101,33 20.33
480 102,00 21,00
720 102,42 21.42
840 102,74 21,74
960 102,79 21.79
1020 102,83 21.83
1080 102,93 21.93
1140 102,93 21.93
1200 103,00 22,00
1260 103,03 22,03
1320 103,02 22.02
1380 102,95 21.95
1440 103,90 22.90

Jacob Aaalysis o f Drawdovm - Pump Bore 21

METODO SABESP - CÁLCULO T e S

Figura 5.13 - interpretação do teste de vazão do poço Parque Mondesir da cidade de Lorena, Estado de São Paulo.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 113
O rebaixamento provocado no poço que • Dotada de escoamento laminar;
bombeia a vazão +Q, pode ser determinado através • Com substrato impermeável e horizontal.
da equação (5.10):
Estas condições são as mesmas estabelecidas
pela Lei de Darcy. Assim sendo, as equações só
4nT RS seriam aplicáveis no caso de formações aqüíferas
ideais. Todavia, considerações previamente estuda­
O rebaixamento provocado pelo bombeamen- das sobre esses aspectos limitantes, permitem dizer
to de vazão -Q é; que um ensaio pode ser interpretado, salvo anoma­
lias, considerando-se que as condições limitantes
. -0,186 Q , 2,25 T t impostas por um aqüífero idealmente simples, são
S{= - log------r—- (5.11)
4kT R2S satisfeitas.

Assim, o rebaixamento resultante (sr) é: Utilização prática das características


hidrodinâmicas dos aqüíferos - T e S
s = 0,186 Q
log +1 (5.12)
Quando se bombeia em um poço, cria-se um
cone de rebaixamento que se propaga. A fórmula
Representa-se as variações de s/Q em função
de Theis mostra que as extensões e forma do cone
de log +1 , que é uma reta em coordenadas dependem somente das características hidrodi­
ti nâmicas do aqüífero e do tempo de bombeamento.
semi-logarítmica; Estas características são definidas pelos valores do
O coeficiente angular desta reta é: coeficiente de transmissividade (T) e coeficiente
de armazenamento (S) em aqüífero confinado ou
s/Q coeficiente de restituição (m) em aqüífero livre.
a= \ (5.13)
+ i
log
Evolução do cone de rebaixamento

0,186Q Utilizando-se os valores de T e S, procura-se


T= (5.14)
determinar a evolução do cone de rebaixamento com
o tempo. Para isso é utilizado a equação de Theis:
Todavia estas curvas somente fornecem o
valor de T e não S, pois este coeficiente é inde­
R 2S
pendente da recuperação. (5.15)
4T t
Limites de validez da equação do
regime transitório W(u) = 4T (5.16)

A fórmula estabelecida por Jacob somente é


T e S sendo conhecidos, determina-se para um
aplicável para uma formação aqüífera nas seguintes
tempo dado (t = 1 dia, um mês, um ano, etc), os
condições:
valores de u para: R=lm, R-10 m, R=100 m, etc.
• Homogênea e isotrópica;
• De extensão lateral infinita; Conhecendo-se u calcula-se W (u) na curva
• Inicialmente em repouso; padrão. A equação (5.16) permite calcular S.
• Não realimentada; A evolução do cone de rebaixamento com o
• De espessura constante; tempo, poderá ser determinada de duas maneiras:
• Captada em toda sua altura;
• Quando sua água bombeada é retirada instanta­ • Constrói-se um gráfico semi-logarítimico dos
neamente; valores de S/Q em função de log t, para os
F
114 ABASTECIMENTO DE ÁGUA ___ _________________________________________________

diferentes valores de R adotados (1 m, 10 m, 5.5. HIDROQUÍMICA DAS ÁGUAS |


100 m, 1000 m, etc). SUBTERRÂNEAS
• Constrói-se um gráfico semi-logarítimico de S/Q
em função de log R para diferentes tempos: um A química das águas tem uma importância J
dia, um mês, um ano, etc, conforme se observa considerável em hidrogeologia, especialmente nas j
na Figura 5.14. regiões áridas e semi-áridas como o Nordeste brasi­
leiro. O problema não consiste unicamente em
Definição do regime fide exploração encontrar água. É preciso, sobretudo, que ela seja
utilizável. Por esta razão, é indispensáve 1 se conhe­
Conhecendo-se a evolução do cone de rebai­ cer, embora sumariamente, as leis da química que
xamento com o tempo, pode-se definir o regime permitem determinar a composição e as causas da
de exploração que melhor se adaptar às condições salinização das águas. J
hidrogeológicas do aqüífero. O estudo químico das águas pode fornecer entre
O princípio da superposição estabelecido com outras coisas, elementos sobre o movimento das águas
base na Lei de Darcy, possibilita conhecer a evolu­ subterrâneas e sobre a evolução da sua composição.
ção dos abaixamentos de níveis num poço testado Além disso, entre os numerosos problemas
em função do tempo, para períodos de exploração que se apresentam ao hidrogeólogo ou engenheiro,
superiores ao do bombeamento realizado. o da interpretação gráfica na análise de uma água )
Assim, se as características do projeto exigi­ não pode ser negligenciado, como também não 1
rem o conhecimento da evolução do nível d’água pode ser, por exemplo, o da coleta de amostras de
nos poços, no fim de um ano de exploração contí­ água no campo, para a análise em laboratório.
nua, ou segundo um regime de 12/24 horas, 18/24
5.5.1. Finalidade de uma análise
horas, etc, pode-se determiná-la, utilizando as
constantes hidrodinâmicas e os princípios básicos Quando se vai requerer uma análise de água \
já definidos conforme pode ser observado na subterrânea, deve-se ter em mente qual será seu objeti­
Figura 5.15. vo e quais serão os parâmetros a serem solicitados.

Distância (m)

Figura 5.14 - Ensaio de bombeamento.


CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 115
0
4 -
f /
8

12

16
------------
20
24 Rnsaio de ■jombeamenti
Macaíba - RN
28 Evolução teórica do cone
de rebaixamento
32 -— .—
i —. i —r..
36 üvoiuçao ao cone em DomDeamenio continuo (5 i/s - Z4ü / z^nj
40 Idem ao bombeamento alternado (8 i/s - 12h / 24h)
Curva de rebaixamento
44
------- - - Curva de recuperação
... i -.. i -.. i s f r i i i i i t

Figura 5.15 - Evolução teórica do cone de rebaixamento.

5.5.1.1. Análise físico-química • Para todos os poços recém terminados, para averi­
guar se está dentro dos padrões de potabilidade.
Deve ser solicitada para as águas nos seguin­
tes casos e condições: 5.5.2. Normas gerais de amostragem d’água
• Para poços em perfuração
- Existência de poços próximos com compro­ Tendo em vista as variações nas condições
vado alto teor em sólidos totais dissolvidos, locais e variedade de finalidade de uma amostra­
como por exemplo, a água salina; gem, toma-se bastante difícil o estabelecimento
- Existência de poços próximos com caracterís­ de normas absolutas para todos os casos. Existem,
ticas físicas excessivas, como por exemplo, o entretanto, princípios gerais aplicáveis na maioria
odor, o gosto, a turbidez, etc. dos casos, em que podem ser adaptados sempre
• Para poços recém terminados, necessitando-se que necessário, a saber:
determinar sua composição físico-química e, se
o mesmo estará dentro das normas e padrões • O objetivo de qualquer amostragem, é sempre
requeridos. coletar uma porção representativa para exame,
• Para poços em perfuração quando, através de cujo resultado fornecerá uma imagem real do
conhecimentos prévios de poços próximos, sabe- universo estudado.
se da existência de íons com teores acima dos • O número de amostras, a freqüência da amos­
limites estabelecidos, como por exemplo, o flúor, tragem e o número de pontos de coleta são deter­
o ferro, etc. minados pela finalidade do estudo.
• As amostras devem ser coletadas, acondicio-
5.5.1.2. Análise bacteriológica nadas, transportadas e manipuladas antes de seu
exame, de maneira a manter suas características,
Também deve ser solicitada para as seguintes permanecendo assim, inalterados os seus consti­
condições: tuintes e as suas propriedades.
• Para poços em perfuração quando da existência • Cada amostra coletada e devidamente identifi­
de muitas fossas próximas, poços vizinhos com cada deverá ser acompanhada de uma ficha,
comprovada contaminação e nas imediações de contendo informações que a caracterizem perfei­
aterros sanitários; tamente:
116 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

- Data da coleta; 5.5.3. Importância da análise química


- Origem da amostra;
- Identificação do ponto; 5.5.3.I. Durante a perfuração
- Hora da coleta;
- Condições climáticas; Durante a perfuração de poços para a explo­
- Nome do coletor; ração da água subterrânea, a análise química é
- Nome do interessado; importante nos seguintes casos:
- Observações que possam auxiliar na interpreta­
ção do resultado; a) Prevenção de corrosão e incrustação em filtros
- Medidas efetuadas em campo: pH, temperatura dos poços
da amostra, temperatura do ar, cloro, leitura de
vazão e de nível, finalidade do exame (potabi- Na construção de poços profundos, a vida
lidade, controle, irrigação, estudo, abastecimento útil do mesmo depende em grande parte das carac­
doméstico, abastecimento industrial, etc). terísticas do revestimento e dos filtros. A água
ao passar pelas aberturas do filtro, exerce não só
As técnicas gerais e especiais de coleta são uma ação erosiva, como também uma ação que
diferentes conforme o tipo de exame a que a amos­ pode ser incrustante ou corrosiva. A ação química
tra será submetida posteriormente. Estes exames seja corrosiva ou incrustante, exercida pela água,
podem ser: depende de suas características. Pode-se inferir,
qualitativamente, as possibilidades da incrusta­
• Exame físico-químico; ção, ou corrosão de um filtro, se a água possuir
* Exame bacteriológico. as características apresentadas na Tabela 5.1.
Quando se dispõe de uma análise química
Cada exame apresenta particularidades, exi­ completa, pode-se calcular o índice de saturação
gindo técnicas específicas de coleta para cada parâ­ através da equação (5.17) que indicará se a água é
metro requerido. Manuais explicando detalhada­ incrustante ou corrosiva.
mente as técnicas são encontrados em órgãos
executores. I = pH - pHs (5.17)

Tabela 5.1 - Análise química da água.


Características da água Incrustação Corrosão

pH Superior a 7,0 Inferior a 7,0


Dureza Alta >300 m g// Baixa < 300 m g//

Ferro Superior a 2,0 m g//

Manganês Superior a 1,0 m g//

Cloretos Superior a 500 m g//

Sólidos totais dissolvidos Inferior a 200 m g// Superior a 1000 m g//

Gás carbônico Igual ou superior a 500 m g//

Gás sulfídrico Se o cheiro e o gosto são bem notados

Oxigênio dissolvido Superior a 2,0 m g//


CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 117
onde: I = índice de saturação; b) Detecção de aqüíferos portadores de água não
pH = corresponde ao pH da amostra; potável
pHs = é o pH de saturação calculado pela
Figura 5.16. Quando previamente sabe-se da existência na
região de poços com teores acima dos limites
padrões, tais como:

• Sólidos totais dissolvidos (S.T.D.);


• Características físico-químicas: odor, gosto,
turbidez, cor, etc;
• íons como: flúor, ferro, fósforo, etc.

Sua comprovação levará ao abandono do poço


ou isolamento do aqüífero, caso existam outros
exploráveis.

5.5.3.2. Após a perfuração

Durante a execução do teste de bombeamento


final de um poço, depois de várias horas do início
(cerca de 20 horas), deve-se coletar amostra d’água
para ser feita análise química objetivando:
a) Determinação da composição química da água

Dentre os elementos químicos de uma análise


completa, pode-se considerar como primordiais
os seguintes:
• fons eletronegativos ou radicais ácidos Cl", S04 ,
HC03“ eventualmente C03~~, N03, N02~, S02 .
• fons eletropositivos ou radicais básicos
Na+ + K+(expressos em Na+), Ca++, Mg++,
eventualmente Fe++.
Figura 5.16 - Diagrama de estabilidade do
• Outros parâmetros:
cálcio.
- Alcalinidade permite determinar a quantidade
de OH", C 03“ e HC03~, contidos numa amostra
Após o cálculo de “I”, pode-se analisar a água d’água. Fm geral, não existem os hidróxidos,
da seguinte forma: restando o carbonato sempre existente. A alca­
linidade geralmente é expressa em CaC03«
I positivo: água incrustante - formará escamas; - A dureza á devida a presença geralmente sob a
I negativo: água corrosiva - dissolverá escamas; forma de bicarbonatos. São eles que produzem
1 zero: água neutra. incrustações em filtros. O grau de dureza é a
quantidade de sais alcalino-terrosos que a água
Os valores de “I” encontrados são válidos contém. Existem três graus de dureza:
para a temperatura de 25°C; para valores maiores
ou menores, o valor original deve ser corrigido Dureza total: é a soma da dureza permanente
de 1,5% para cada grau de diferença, somando- mais a temporária;
se quando a temperatura de utilização da água Dureza de carbonatos ou temporária: é chama­
for maior do que 25°C, e, subtraindo-se em caso da temporária porque á devida aos carbonatos
contrário. e bicarbonatos de cálcio e magnésio;
118 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Dureza de não carbonatos ou permanente: é juntamente com a altura de recalque aproximada,


causada pelos sulfatos e cloretos de cálcio e ou seja, a altura geométrica (diferença entre a cota
magnésio. A reação química é CaC03+ H20 + do nível dinâmico do poço e a cota do reservató­
C 02 Ca(HC03)2. As incrustações nos filtros rio) mais as perdas de carga, propiciarão as pri­
de poços resultam na presença de C 02que se meiras condições limites para o projeto. Esses
desprende, devido ao rebaixamento resultante dados darão subsídios para se estipular o diâmetro
do bombeamento quando os filtros ficam e profundidade da “câmara de bombeamento”,
expostos ao ar. função do diâmetro e altura manométrica das
bombas existentes no mercado. Os demais com­
- pH é a medida da acidez ou alcalinidade da ponentes do projeto são complementares a esses
água. O pH da água destilada é igual a 7. Na dados, que são a “espinha dorsal” do projeto.
natureza, o pH das águas subterrâneas varia
geralmente, entre 3 e 8,5. O pH de campo é 5.6.2. Estudo exploratório prévio
determinado no local da coleta da amostra de
água, com o auxílio do papel indicador univer­ O projeto de um poço para extração de água
sal pH que varia de 1 a 10. Ao mesmo tempo, envolve a seleção dos fatores dimensionais mais
mede-se a temperatura ambiente e a tempera­ adequados a sua estrutura, bem como a seleção
tura da água. dos materiais a serem utilizados na sua construção.
- Resíduo seco (sólidos totais dissolvidos): é a Antes do projeto de um poço, deve-se pesquisar e
quantidade de sais dissolvidos na água em mgÍL rever os dados disponíveis, relacionados com os
Pode ser determinado no laboratório ou no poços existentes na área, tendências e flutuações
campo, com resistivímetro portátil que também da superfície piezométrica, mapas hidrogeológicos
fornece o valor da resistividade. e publicações geológicas e geográficas. Também
- Condutividade: está intimamente relacionado se faz necessário uma inspeção de reconhecimento
ao resíduo seco e às concentrações dos sais no campo, com o fim de suplementar e intercorre-
dissolvidos. É dado em micro-mho. Cada um lacionar as informações obtidas.
dos parâmetros apresenta quesitos particulares Com base nos dados e condições concretas,
os quais devem ser obedecidos para não acarre­ podem ser necessários trabalhos adicionais de
tar posteriormente problemas graves. campo, tais como perfuração e perfilagens de poços
pilotos, testes de bombeamento para determinar
5.5.3.3. Normas de potabilidade as características do aqüífero e coleta de amostras
de água para análise química. Deve também ser
Os padrões de potabilidade são definidos pela especificado o método para se perfurar o poço. O
Portaria n° 1469, do Ministério da Saúde, apresen­ requisito habitual é que o poço possua diâmetro
tada no Capítulo 4, item 4.2.1. - Qualidade da água. suficiente de modo a permitir a inserção de um
Toda a água para uso potável, inclusive as revestimento de certo tamanho para limites especi­
águas subterrâneas devem obedecer a essa Portaria. ficados de verticalidade e alinhamento, permitindo
a colocação de pré-filtro de modo a assegurar um
bom envoltório de areia selecionada ao redor das
5.6. AVALIAÇÃO HIDROGEOLÓGICA seções filtrantes.
A perfuração de poços pilotos tem a finali­
5.6.1. Demanda de projeto dade de obter dados sobre a estratigrafia, amostrar
os materiais para uso na seleção da abertura de
Ao iniciar os estudos visando a elaboração filtros, estabelecimento da granulometria do pré-
de um projeto técnico-construtivo de um poço filtro, testes de bombeamento e perfilagens elétri­
tubular profundo, deve-se estar ciente de alguns cas. Estes dados permitem o desenho final do
aspectos básicos que orientarão a configuração poço e a obtenção dos dados de projeto do filtro,
do mesmo. Primeiramente, deve-se conhecer a revestimento e pré-filtro adequado, antes que se
vazão de demanda requerida pelo projeto, que inicie a construção propriamente dita.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 119
5.6.3. Locação do ponto de perfuração Vantagens:
• Baixo custo operacional;
O ponto de perfuração deve ser locado em área • Operação simples;
acessível para equipamentos de perfuração • Perfura em quaisquer tipos de formações geoló­
disponíveis no mercado, considerando uma relação gicas, com mais eficiência em rochas duras;
sinérgica entre as características geológicas • Perfura e completa os poços.
favoráveis, a distância e o caminhamento da aduto­
ra, a proximidade de fontes de energia, a distância Desvantagens:
dos reservatórios a serem supridos e demais obras • Baixa velocidade de perfuração;
complementares. Não se deve perder de vista que • Limite até cerca de 400 m de profundidade.
o poço faz parte do sistema poço-adutora-
reservatório-desinfecção-rede de distribuição; e Sistema percussivo pneumático
comum esquecer algum ponto vulnerável que “Down the Hole”
acaba se tornando o elo mais fraco da corrente que
irá inviabilizar a operacionalidade do sistema. Também denominado sistema percussão com
“alta freqüência” ou pneumático. Trata-se de
5.6.4. Características técnicas de projeto sistema mais sofisticado, utilizando-se de compres­
sores dc alta pressão para permitir a perfuração
5.6.4.I. Sistema de perfuração percussiva com alta freqüência (cerca de 1.000
Atualmente no Brasil, são utilizados dois pancadas por minuto). A Foto 5.2. apresenta
sistemas de perfuração de poços tubulares, o per- detalhes do sistema pneumático para perfuração
cussivo e o rotativo, com duas variantes cada, dc poços tubulares.
empregados em terrenos mais compatíveis com as
suas eficiências.
' 'V- ..
a) Sistema percussivo
' -w '■
Sistema percussivo a cabo

Também denominado sistema percussão de


baixa freqüência, que por ser simples e difundido
no país, foi por muitas décadas a opção preferencial
para perfuração de poços em terrenos cristalinos ou
com pequenas espessuras de manto de intemperismo
ou sedimentares não muito friáveis. A Foto 5.1 apre­
senta um equipamento a cabo fabricado pela
Prominas para perfuração de poços tubulares.
Foto 5.2 - Pneumático perfurando o poço Jar­
dim das Fontes na cidade de São Paulo.

Vantagens:
• Rapidez na perfuração dos poços;
• Determinação de entradas com água.

Desvantagens:
• Perfuração somente em rochas duras;
• Manutenção mais cara e especializada;
Foto 5.1 - Equipamento a cabo para perfura­ • Necessidade de compressores sofisticados e de
ção de poços tubulares. alto consumo;
120 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

b) Sistema rotativo
Sistema rotativo com circulação direta

Utiliza a circulação do fluido de perfuração no


sentido interior das hastes-broca - espaço anular,
através de bomba de lama e é o sistema rotativo mais
simples e difundido para as rochas sedimentares. A
Foto 5.3 apresenta a perfuração de poço tubular
através do sistema rotativo com circulação direta.

Foto 5.4 - Circulação reversa para perfura­


ção de poço tubular na Patagônia.

Vantagens:
• Não há necessidade de uso dos fluidos de perfu­
ração que podem colmatar as paredes do poço;
• Alto rendimento de perfuração em rochas sedi­
mentares.

Desvantagens:
Foto 5.3 - Circulação direta para perfuração • Sofisticação do sistema;
no Vale do Paraíba - SR • Custos operacionais superior aos demais sistemas.

Vantagens: 5.Ó.4.2. Poço coletor horizontal


• Rapidez na perfuração dos poços em rochas
sedimentares; Os poços coletores radiais são obras para capta­
• Perfuração de poços em grandes diâmetros e ção de água subterrânea construídas em sedimentos
grandes profundidades; inconsolidados saturados de água, preferencial­
• Perfuração em rochas inconsolidadas. mente alimentados por fonte conhecida e com vazão
média muito superior ao pretendido pela demanda.
Desvantagens: Quando há uma condição de infiltração do rio
• Baixo rendimento em rochas duras; para o aqüífero é muito importante conhecer sua
• Necessidade de fluido de perfuração; condutividade hidráulica e seus limites para enten­
• Dificuldade para executar desenvolvimento dos der a relação de interdependência entre eles. É
poços perfurados; desejável o maior número de informações técni­
• Uso de fluidos que podem colmatar as paredes cas nesse sentido, sendo que as principais são apre­
do poço. sentadas a seguir.

Sistema rotativo com circulação reversa a) Sondagens preliminares de investigação

Utiliza a circulação dofluido de perfuração A perfuração de poços para definir as carac­


(água) no sentido: tanque de lama - espaço anular terísticas geológicas em sub superfície é absolu­
- broca - haste de parede dupla, através de bomba tamente necessária para definir os parâmetros cons­
de lama ou compressor. É um sistema mais sofisti­ trutivos. Estes poços são perfurados para coletar
cado e de raro emprego no Brasil. A Foto 5.4 apre­ amostras preservadas do terreno a ser investigado.
senta a perfuração de poço tubular na Patagônia Durante a perfuração são coletadas amostras
com a utilização da circulação reversa. de metro em metro ou à cada mudança de litologia.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 121
As amostras retiradas de camadas de interesse hidráulica do sedimento, da espessura saturada por
hidráulico (areias) devem ter cerca de 1 a 2 kg para água subterrânea e a quantidade de infiltração da
possibilitar análises granulométricas. água do rio. O objetivo é expandir a área de infiltra­
ção do rio para o aqüífero o máximo possível.
b) Taxa de infiltração A quantidade e arranjos geométricos das
sondagens e poços de observação devem ser ajusta­
Quando se bombeia água subterrânea próximo dos e suplementados de acordo com o andamento
aos corpos de água, esta se infiltra no aqüífero devi­ dos trabalhos de investigação.
do à diferença de potencial hidráulico entre o nível Com base na experiência do profissional
do rio, lago ou represa, e o aqüífero (cone de depressão envolvido deve ser selecionada uma área com
causado pelo bombeamento). A quantidade de água características favoráveis à adoção deste tipo de
infiltrada não pode ser calculada teoricamente porque captação. Um bom planejamento seleciona a área
é preciso conhecer a espessura, limites da camada e baseada no tamanho e extensão do aqüífero
a relação corpo d’água/aqüífero. Isto significa que adjacente ao rio, através de sondagens de reconhe­
a quantidade de água infiltrada na camada arenosa cimento no qual se determina a espessura do sedi­
só pode ser determinada através da instalação de mento armazenador, com superfície local de recar­
poços de teste na vizinhança da área de interesse. ga (em m2) que permita manter a proteção legal
para a área de contribuição e captação.
c) Poço teste As vantagens deste tipo de captação são sua
proximidade do reservatório, economia de aduto­
O tamanho do poço teste deve ser determinado ras, capacidade de filtração com eliminação de
de acordo com os resultados das sondagens protozoários e criptosporídeos, além de utilizar
preliminares, possibilitando que a vazão de bom­ uma reserva reguladora em constante ligação com
beamento produza um cone de depressão mensu­ a água de superfície.
rável e dentro das expectativas calculadas. Operacionalmente tende a induzir uma melho­
Com um número suficiente de poços de obser­ ria contínua na qualidade da água captada, o que
vação, o nível piezométrico da área em teste pode significa que deve-se ter um produto cada vez
ser corretamente medido. E recomendável perfurar melhor quanto maior for seu uso. Este tipo de poço
alguns poços de observação nas proximidades da pode funcionar ininterruptamente com uma ou
camada arenosa, perfurados com uma profundidade mais bombas atendendo as demandas sazonais de
conveniente, que assegure um registro com confia­ pico, otimizando o sistema, conjugando tecnologia
bilidade do nível de água do aqüífero. O tempo de limpa de altíssima qualidade com o mínimo de
bombeamento deve ser longo o suficiente para deter­ impacto ambiental.
minar uma diferença mensurável entre o estado origi­ Todos os passos tradicionais para a conclusão
nal dos poços de observação, poço piloto e a água de que a área é favorável devem ser seguidos à
superficial (rio). A quantidade de água extraída deve risca, com a seguinte ordem de investigação:
ser tal que possibilite um registro mensurável no poço
teste, no nível do rio e nos poços de observação. • Execução de sondagens de investigação tipo SPT
Deve-se assegurar que o rebaixamento seja para determinar a litologia, sua espessura e topo
tal que possibilite a percolação de água do rio para do embasamento cristalino;
o aqüífero. Neste caso, entre o rio e o nível de água • Execução de furos estratégicos para medir a
do aqüífero, irá se formar uma camada de água permeabilidade e condutividade hidráulica das
aerada que terá uma condutividade menor do que camadas de interesse, confirmando os valores dos
a presente no aqüífero natural. parâmetros hidrodinâmicos considerados essen­
ciais para os cálculos construtivos;
d) Dimensionamento do poço • Execução de medidas de eletroresistividade com
varredura da área de interesse para confirmar a
O projeto de construção do poço deve ser feito presença das camadas arenosas nos pontos inter-
após análise dos resultados da condutividade polados, confirmação da topografia rochosa de
122 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

subsuperfície e obter segurança quanto à ausência a água subterrânea e a água superficial são os
de salinidade, quando tratar-se de área litorânea; mesmos recursos fluindo por um meio físico
• Execução de medidas de eletroresistividade local diferente, ou seja, as áreas de várzea são um
e nas proximidades da área de interesse, no caso caminho de duas vias, na seca o aqüífero alimenta
de litoral, para confirmar a ausência de salini­ e mantém o fluxo de base do curso d’água e na
dade; cheia o curso d’água estoca para os tempos difíceis.
• Execução de poço piloto e piezômetros em várias
direções para medir os parâmetros hidráulicos 5.6.4.3. Diâmetros de perfuração de poços
do aqüífero, suaporosidade, sua permeabilidade, convencionais
sua transmissividade e condutividade hidráulica,
testando sua ligação e alimentação com o rio Na escolha do diâmetro do poço, devem ser
adjacente; satisfeitos vários requisitos:
• Execução de análises granulométricas das cama­
das de interesse para efetuar o correto dimensio­ • O diâmetro do. furo deve ser o menor possível
namento dos filtros e pré-filtro a ser aplicado na para conseguir-se uma certa vazão, pois o custo
construção do poço; se eleva bastante com seu aumento (Tabela 5.2);
• Coleta de água para análises físico-química e • Deve permitir a descida do revestimento e filtros
bacteriológica. no poço, sobrando espaço (3” pelo menos - norma
ABNT) de cada lado para a colocação de pré-filtro;
Com base nos dados apurados é dimensionado • O revestimento do poço deve ter uma seção
um poço coletor horizontal para atender a demanda suficientemente ampla que acomode a bomba,
desejada. Esta tecnologia é muito utilizada nos permi-tindo um espaço livre para a sua instalação
países desenvolvidos e infelizmente ainda não é / e operação;
muito utilizada no Brasil. Há uma experiência \ • O diâmetro da seção de entrada d’água deve ser
pioneira na Vila Mandaçaia, no município Brejo da tal que assegure uma boa eficiência hidráulica.
Madre de Deus (PE) com adaptações engenhosas
de baixo custo. Esta tecnologia foi inicialmente 5.6.4.4. Escolha do revestimento e do filtro
desenvolvida por Ranney, um engenheiro norte-
americano, em 1934. Hoje é largamente usado na a) Revestimento
Alemanha, Holanda, Estados Unidos e outros países
detentores de tecnologias de ponta. O revestimento de um poço tem a função
A Figura 5.17 apresenta o sistema de abasteci­ principal de sustentar as paredes deste e permitir a
mento de água de Boiçucanga operado pela introdução de bomba para extração de água.
SABESP onde foi projetado alternativamente um Todavia, o revestimento pode estar sujeito a ação
poço coletor radial para vazão de 140 tís (Figura de águas erosivas, corrosivas e incrustantes, as
5.18). Geralmente esses poços têm capacidade de quais poderão afetar principalmente os pontos de
100 tis até 1.000 f/s, dependendo do manancial solda na junção de tubos, devendo-se precaver
disponível. De qualquer modo é a prova cabal que quanto à qualidade da água do poço.

Tabela 5.2 - Relação entre diâmetros; e incremento de vazão dos


2 4 6 8 12 18 24 Diâmetros em polegadas
0 10 15 20 25 33 38 Porcentagem
0 5 10 15 23 28 de
0 5 10 18 23
acréscimo
0 5 13 18
de
0 8 13
vazão
0 5
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 123
SISTEMA PRODUTOR W 1
£9<KJEMA HIDRÁULICO

CBíTRO DEfí£SERVAÇAO-Cf&

Figura 5.17 - Sistema alternativo de abastecimento de água de Boiçucanga, litoral do Estado


de São Paulo.

Na captação de água subterrânea, os tubos de ^ ™ij•—$ •■


revestimentos fabricados segundo as normas APÍ-
5L; ASTM-A-120; ASTM-A-53 e DIN-2440 ou
2441 são os mais recomendados pela sua qualidade.
Os filtros são os componentes do revestimento
do poço, destinados a deixar passar água do aqüífero
para dentro do mesmo. Constituem a parte mais
vulnerável do revestimento, pois a água passando
através de suas aberturas encontra facilidade de agir
mecânica e quimicamente, ocasionando os proces­
sos de erosão, corrosão e incrustação.
A vida de um poço depende da qualidade do
filtro utilizado. Os critérios para a escolha de um
determinado tipo de filtro baseiam-se no seguinte:
• Teor mineral da água;
• Presença de lodo bacteriano;
• Resistência mecânica do filtro.

c)Filtros
Tipos de filtros
SELAÚEMDEFVMQp/
Existem diversos tipos de filtros fabricados
pela indústria nacional. Numa classificação gené­
rica, pode-se dividi-los nos tipos apresentados a Figura 5.18 - Poço coletor horizontal proje­
seguir. tado para a cidade de Boiçucanga.
124 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Filtros espiralados Neste tipo de filtro, a chapa é estampada e


posteriormente calandrada e soldada. São bastante
São filtros de aberturas contínuas horizontais, suscetíveis a processo de corrosão e incrustação,
constituídos por barras verticais, às quais são propiciando vida útil pequena aos poços.
enroladas em forma de espiras de fios metálicos Podem ser fabricados nos diversos tipos de
(Foto 5.5). A seção dos fios podem ser circular, aço existentes ou mesmo de chapa de latão. No
triangular ou trapezoidal. Os filtros espiralados Brasil, o tipo mais comumente usado é o “Nold”
apresentam maior eficiência, e conseqüentemente, de abertura vertical, fabricados em aço carbono
menores perdas de carga. São especialmente reco­ preto 1020 em paredes de 3/16” (4,75 mm).
mendados para poços de grande vazão possuindo
também maior eficiência que os demais filtros para • Filtros rasgados ou perfurados
poços de vazões pequenas.
São feitos comumente de tubos de aço preto
com paredes de 3/16” ou 1/4”. Os rasgos podem
ser verticais ou horizontais. Ainda são muito
usados no Brasil, porém, com a industrialização e
o desenvolvimento da técnica de construção de
poços, tendem a desaparecer.

• Outros tipos

Existe, também, a possibilidade de fabricação


sob encomenda, de uma variação do filtro perfura­
do. São os filtros com envoltório de cascalho
Foto. 5.5 - Filtros espiralados Perfil V inox apli­ selecionado, colados por resina especial, em áreas
cados no poço Lorena R21 operado pela SABESP com geologia estudada e granulometria bem conhe­
cidas (Figura 5.20). São caros e pouco usados.
• Filtros estampados

Os filtros de chapa estampados (Figura 5.19)


são os mais comuns e os mais usados no Brasil. As
aberturas desses filtros são geralmente dos seguin­
tes tipos:
- Aberturas verticais;
- Aberturas horizontais.

\CHAPA PERFURADA
OU ESTAMPADA
a) Aberturas verticais b) Aberturas horizontais
Figura 5.19 - Filtros estampados. Figura 5.20 - Filtro com envoltório de cascalho.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 125
Diâmetro dos filtros - 40% se a formação tem um coeficiente de
uniformidade maior do que 3 (três). São forma­
O filtro ou seção de filtros, sendo a continui­ ções pouco uniformes;
dade do revestimento do poço, ppderá também - 50% se a formação tem um coeficiente igual
variar de diâmetro, sem todavia, haver grandes ou menor do que 3 (três). São as formações
variações na produção do poço. Assim, duplicando- uniformes.
se o diâmetro do filtro, a produção do poço não
duplicará e sim, será aumentada de apenas 10% . Nas Figuras 5.21 e 5.22 são apresentados dois
O filtro, por mais simples que seja, terá um exemplos de abertura de filtros a partir da curva
preço por metro linear, bem mais elevado do que granulométrica. Na Figura 5.21, a abertura dos
o revestimento do poço. Isso, por si só, já é filtros é de 0,8 mm, e na Figura 5.22, é de 0,32 mm.
suficiente para se cogitar e variar o seu diâmetro.
Contudo, não se deve variar o seu comprimento que • Abertura do filtro aliado ao pré-filtro
depende da espessura e do tipo do aqüífero e, nem
suas aberturas que dependem da granulometria do A finalidade primordial do filtro, no caso, é a
aqüífero. de reter o pré-filtro. A deste, é a de reter a formação.
A variação do diâmetro do filtro deverá satis­ Diversas razões de ordem geológica levam a
fazer um princípio fundamental, qual seja: “A área tratar o poço com relação ao pré-filtro:
total das aberturas ou das ranhuras do filtro, ou - Aqüíferos muito fino e uniforme (Exemplo:
das seções de filtros, deverá ser suficiente para arenito guarani): levaria a dimensionar filtros
permitir que a velocidade de fluxo d’água para de aberturas muito pequenas, acarretando gran­
dentro do poço, seja em tomo de 3 cm/segundo”. des perdas de carga;
Gutro elemento importante a se considerar no - Aqüíferos artesianos muito espessos: é econô­
dimensionamento do diâmetro do filtro, é a chama­ mico usar filtros de menor diâmetro e preencher
da “capacidade de transmissão do filtro (em litros o espaço anular com cascalho;
horários de água por metro linear de filtro). Quase - Arenitos com intercalações de camadas de
todos os fabricantes de filtro fornecem tabelas granulometria muito variada. Nestes arenitos,
contendo estes dados. mesmo que apresentem boa permeabilidade em
toda a sua seção, devido à presença de camadas
Aberturas do filtro muito finas, alternadas com outras mais gros­
seiras, seria impraticável e anti-econômico
Uma das características mais importantes do selecionar-se diversos tipos de filtros.
filtro é a de impedir, através de suas aberturas, o
carreamento de partículas de sedimento para dentro A aplicação de pré-filtro em um poço oferece
do poço. diversas vantagens:
O dimensionamento das aberturas só poderá
ser efetuado mediante dados fornecidos pelas - Aumenta o diâmetro efetivo do poço, aumen­
curvas granulom étricas dos m ateriais que tando a área de captação;
envolverão o filtro. - Reduz as perdas por fricção, diminuindo conse­
Para a determinação das aberturas do filtro, qüentemente o rebaixamento e aumentando a
há dois casos a considerar: capacidade específica;
- Diminuindo o rebaixamento, diminui também
• Abertura do filtro colocado diretamente na o total de tubulação a ser colocada dentro do
formação poço e a potência da bomba para recalcar água;
- Evita colapsos sobre o filtro, dando em geral,
As aberturas neste caso serão determinadas uma maior vida média ao poço.
de modo que, no desenvolvimento, o filtro retenha
em peso as seguintes percentagens das partículas As aberturas dos filtros ou das seções de filtros
que o envolvem: devem ser determinadas de acordo com a grânulo-
126 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

metria do pré-filtro. A granulometria deste, por sua deverá formar um anel cilíndrico contínuo em tomo
vez, será determinada em função da curva de do filtro. Para que se possa assegurar uma perfeita
distribuição granulométrica da seção mais fina do filtragem deve ter espaço anular entre os filtros e
aqüífero. Uma vez conhecida a curva granulométri­ as paredes do poço, de pelo menos 7,5 cm e, prefe­
ca da seção mais fina do aqüífero, as aberturas do rivelmente maior. Somente em casos especiais esta
filtro só serão determinadas após a especificação tolerância pode ser desprezada.
/da curva granulométrica do pré-filtro. É comum encontrarem-se poços que embora
tecnicamente bem perfurados, com os filtros e o
Injeção/colocação de pré -filtro pré-filtro bem dimensionados, produzem bastante
areia durante o bombeamento, danificando o
Um poço bem construído deverá ter pré-filtro equipamento. É tal o descaso que se faz quanto ao
bem dimensionado em função do aqüífero que pré-filtro e sua colocação que, de um modo geral,

| Abertura do filtro Abertura (mm)

Figura 5.21 - Determinação da abertura do filtro em formação de granulometria pouco uniforme.

£
3
%

%
*•3

Pi)-<

Figura 5.22 - Determinação da abertura do filtro em formação de granulometria fina e uniforme.


CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 127
dos contratos de perfuração não consta qualquer dos tubos/hastes, aplicados dentro da coluna de
referência sobre exigências mínimas de quantidade revestimento. A água irá paulatinamente retirar
de areia que poderá passar pelos filtros. Embora a boa parcela de reboco existente na parede do
técnica de construção de bombas tenha avançado poço, quando então, deverá ser aplicado o pré-
muito com o emprego de material altamente resis­ filtro pelo espaço anular, concomitante com o
tente, o limite aceitável de areia bombeada é da bombeamento d’água.
ordem de até 25 g/m3 de água bombeada.
A injeção de pré-filtro em poços tubulares Cimentação
(Figura 5.23) deverá seguir as seguintes etapas:
A cimentação de um poço pode ser exigida
• Após a descida da coluna de revestimento, o por razões puramente técnicas, construtivas ou
fundo do poço deverá ser vedado com um “plug” ainda devido à necessidade de se proteger o manan­
ou cimentado, para poços que perfurarão rocha. cial subterrâneo contra futuros problemas de polui­
• Deverá ser colocada a própria coluna de hastea- ção. Sempre, e em qualquer lugar que se perfure
mento ou uma coluna de tubos 0 2”-3”, com um um poço, um tipo de cimentação será requerido.
plunge invertido acoplado à sua extremidade Atualmente, no Brasil e, principalmente no Estado
inferior, posicionada a cerca de 1 m acima da de São Paulo, a poluição dos mananciais subterrâ­
base da seção de filtro inferior. neos é um fato consumado.
• O espaço anular entre a coluna de revestimento Embora se desconheçam dados concretos,
e a coluna de tubos/hastes, necessitará ser vedada sabe-se através de observações locais que a polui­
(de preferência com um plug de madeira ou ção constatada em poços, é devida principalmente
similar). às más características técnicas construtivas, salien-
• Bombear água limpa através de bomba de alta tando-se nesse particular, a falta de uma cimen­
vazão ou mesmo pela bomba de lama, através tação adequada.

BOMBA
ÁGUA
PRÉ-FILTRO
v e d a ç ã o d o espaç o a n u la r
ENTRE TUBOS {PEÇA DE MADEIRA) 77////////////,

FECHADO/CIMENTADO

Figura 5.23 - Injeção de pré-filtro em poços tubulares.


128 a b a s t e c im e n t o d e á g u a

Tipos partir do nível do solo, aconselhando-se quando


existem fossas próximas, que o poço fique a pelo
Cimentação superficial menos 25 metros distantes.

Este é o tipo mais simples. Tem por finalidade, Cimentação para isolamento de aqüíferos
preparar a futura plataforma para as instalações indesejáveis
de bombeamento, bem como fixar a tubulação à
superfície do terreno. Sua profundidade é variável Devem ser isolados aqueles aqüíferos de
sendo recomendado no máximo 1 m, para facilitar natureza salina, ou mesmo quando já se encontram
em caso de manutenção corretiva, a partir da poluídos ou impróprios para o uso a que se destina
superfície do solo, podendo a argamassa ser do o poço (Figura 5.24).
tipo cimento/areia/brita, na proporção recomenda­
da pela fiscalização. Métodos

Cimentação de fundo Dependendo do tipo da perfuração utilizada,


percussão ou rotativa com lama, das características
Quando o tubo inferior do revestimento não é geológicas das formações atravessadas, da
tamponado, é necessário que se faça a cimentação profundidade do poço e na finalidade da cimenta­
de fundo para evitar, a entrada de material para ção, os métodos de executá-la podem variar,
dentro do poço. Poderá ser descido através de conforme apresentado a seguir:
caçamba de limpeza, até o fundo do poço, uma
argamassa de cimento/areia-grossa, na proporção • Poço perfurado à percussão, sem tubo de crava-
de 1:2 ou 1:1, até a altura de 1,0 metro por dentro ção.
do tubo. Nesta operação, o revestimento deve ser • Poço perfurado pelo método rotativo com lama
ligeiramente suspenso para perm itir que a com cimentação pelo espaço anular: para a apli­
argamassa penetre um pouco lateralmente e cação da cimentação pelo espaço anular, necessita-
posteriormente deve ser cravado novamente. se que este tenha uma largura de pelo menos 3”
ou 4”, isto é, que a diferença entre o diâmetro de
Cimentação para proteção sanitária - Tubo de perfuração e o revestimento seja de 6” ou 8”.
Boca • Cimentação por dentro: quando não se dispõe de
espaço anular suficiente, que garanta a introdu­
Nas zonas urbanas ou próximas a pontos ção e retirada da tubulação de cimentação pelo
suspeitos como foco de poluição, é imperioso que espaço anular, pode-se injetar a calda de cimento
se construa o poço dentro dos critérios se seguran­ por dentro do revestimento. Este método propor­
ça, para prevenir a contaminação do aqüífero que ciona não só uma operação contínua como tam­
se vai explorar. bém é muito eficiente.
Quando se aproveita um aqüífero, cuja
formação superior é constituída de material areno­ Perfilagem geofísica
so, ou silto-arenoso, deve ser usada uma argamassa
de argila/cimento, na proporção de 1:1, do tipo Esse serviço, em geral, é realizado no poço,
usado quando do isolamento de aqüíferos indese­ após a conclusão do furo-guia, portanto antes do
jáveis. revestimento do mesmo. Trata-se da corrida de
Quando a camada superior for argilosa, o uma sonda dentro do furo registrando-se continua­
operador deverá cimentar o espaço anular entre o mente algumas características da formação, que
tubo de revestimento e o poço, com uma argamassa irá subsidiar junto com a descrição litológica e perfil
de cimento/areia, na relação 1:2 com 8% de bento- de penetração, a aplicação correta de filtros interca­
nita para impedir o craqueamento da pasta quando lando-os com os tubos de revestimento. A quase
solidificada. Em qualquer caso, a cimentação deve totalidade dos serviços de perfilagem são executa­
ser feita até uma profundidade de 18 metros, a dos em poços que penetram em rochas sedimentares.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 129

Figura 5.24 - Cimentação de aqüíferos indesejáveis.

As informações fornecidas são precisas e superfície, havendo graduação em escalas 1:50,


imprescindíveis para uma boa construção de um 1:500 e 1:1000. São corridos de baixo para cima
poço tubular profundo. Essas informações são do furo e registradas todas as características
relacionadas a seguir: continuamente em papel quadriculado. Após sua
conclusão, pode-se analisar cada metro perfilado
• Fornecem informações qualitativas sobre os que juntamente com as descrições das amostras
aqüíferos; de calha irão subsidiar as interpretações dos
• Possibilitam a criação de dados petrofísicos para melhores intervalos permo-porosos.
estudos hidrogeológicos;
• Permitem a correlação entre poços, facilitando Desenvolvimento de poços
mapeamento dos aqüíferos;
• Determinam profundidade e espessura dos A finalidade do desenvolvimento de um poço
aqüíferos; é assegurar o máximo de eficiência em produção.
• Determinam porosidade efetiva e total dós Benefícios adicionais importantes obtidos com um
aqüíferos; desenvolvimento adequado são o de reduzir a velo­
• Determinam a água retida pelas argilas nos cidade de corrosão e/ou incrustação e evitar bom­
aqüíferos; beamento de areias ou silte.
• Determinam a quantidade de sais dissolvidos O desenvolvimento consiste na remoção dos
totais (STD) nas águas intersticiais. finos, tanto do aqüífero natural ou do envoltório
de cascalho nas vizinhanças imediatas do filtro.
Os perfis mais usualmente realizados são: Um desenvolvimento adequado aumenta a porosi­
potencial espontâneo - SP, resistividade e raios dade do material, próximo ao poço e, portanto,
gama. aumenta a área aberta para a passagem da água,
através dele. Estas mudanças reduzem a velocidade
Apresentação da perfilagem de chegada da água no poço, melhorando sua
eficiência.
Os perfis são corridos, através de uma sonda Os principais métodos para o desenvolvi­
presa por um cabo elétrico a um guincho em mento de poços são apresentados a seguir.
130 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

a) Ar comprimido distância de 0,60 m acima da base do filtro. O


tubo de ar deverá posicionar-se a 0,30 m acima
A agitação do poço usando ar comprimido, é da base do tubo de descarga;
freqüentemente usada pelas perfuradoras que • Bombear o poço da maneira usual, até que a água
possuem equipamento necessário. Ele é um método saia;
efetivo, mas requer um considerável equipamento • Fechar a válvula de saída do compressor, permi­
e habilidade, por parte do operador. tindo que neste, a pressão se eleve de 7 a 10
kg/cm2. Ao mesmo tempo baixar o tubo de ar de
Método do poço aberto ou surgimento modo que sua extremidade inferior fique a 0,30 m
mais baixo que a extremidade do tubo de descarga;
É um método bastante simples e eficiente, • Abrir rapidamente a válvula de saída do com­
para formações aqüíferas heterogêneas, que pressor, para permitir que o ar procedente do
contenham argila e/ou silte. É também conhecido mesmo penetre subitamente no poço. Um jato
como método de “ferver o poço”, sendo o método rápido d’água sairá do poço através de seu reves­
mais utilizado. timento e do tubo de descarga, quase de imediato,
provocando a agitação da água filtro afora;
Princípio do método • Fazer o tubo de ar voltar à posição de bombea­
mento, logo após que a primeira carga violenta
Consiste numa combinação entre o bom-
beamento e o surgimento. A reversão do fluxo de AR
água dentro do poço, provocada por súbitas descar­
gas de ar seguidas de bombeamento, provê uma
vigorosa agitação do poço e remoção das partículas
finas do aqüífero. Neste tipo de desenvolvimento,
os melhores resultados são alcançados quando a
razão de submergência seja de pelo menos 60%.
A submergência é a relação entre a altura da
coluna de água dentro do poço, acima da extremi­
dade inferior dos tubos, e o comprimento total
destes, vezes 100. Assim é que, se um poço tem
um nível estático de 10 metros e a extremidade
dos tubos de bombeamento está a 50 metros, tem-
se uma submergência dada pela equação (5.18).

40
S = — x 100 = 80% (5.18)

Naturalmente, com o bombeamento contínuo


o poço tende a baixar o nível e então, a razão de
submergência diminui.

Procedimento

A Figura 5.25 mostra a instalação de um poço


em desenvolvimento por este método. O desenvol­
vimento por esse método compreende várias etapas
descritas a seguir:
Figura 5.25 - Esquema da disposição do equi­
• Preparar o conjunto de bombeamento, de modo pamento para desenvolvimento de poço por
que o tubo de descarga seja colocado a uma surgimento.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 131
de ar tiver sido lançado para dentro do poço. Isto Sendo operado em movimentos descendentes
produzirá uma forte reversão de fluxo para cima, e ascendentes dentro do poço, força a água a entrar
através do tubo de descarga, causando uma agita­ e sair através do filtro. A força de entrada da água
ção, mais ou menos efetiva no aqüífero; para dentro do poço (quando o pistão sobe), é maior
Bombear até a água sair limpa; do que a de saída (quando o pistão desce), isto é, o
Fechar a válvula para acumulação de pressão, fluxo no sentido aqüífero-poço é mais forte do que
enquanto que o tubo de adução de ar será baixado no sentido contrário. A vantagem desse tipo de
para desferir outro golpe de ar, após o que, o “plunge” é que dependendo da profundidade em
mesmo será levantado para se reiniciar o bom­ que ele é operado, consegue-se executar simulta­
beamento. Repetir o processo, até que a água neamente com o desenvolvimento, o bombeamento
fique liberta de partículas de sedimento. Isto no poço.
mostra que o desenvolvimento está completo no A Figura 5.26 apresenta o esquema de um
trecho considerado; plunge de válvula.
Repetir o procedimento para as subseqüentes
seções de filtros. Operação do pistão

b) Pistoneamento • Limpar bem o poço com a caçamba de limpeza;


• Verificar se o plunge está corretamente enroscado
O pistoneamento ou plungeamento, é um dos e se os demais acoplamentos da coluna estão em
métodos mais utilizados, pois combina rapidez e perfeitas condições;
eficiência com simplicidade de operação e baixo • Regular o balancim da perfuratriz para o curso
custo, não exigindo equipamento sofisticado. Ao médio ou longo;
se operar um pistão dentro de um poço, com • Descer lentamente o “plunge” até uma posição
movimento de subida e descida, provoca-se um de 1,0 m ou 1,5 m acima do topo do primeiro filtro;
fluxo e refluxo da água em direção ao aqüífero, • Acionar a perfuratriz iniciando lentamente os
favorecendo o rearranjo dos grãos em tomo do movimentos ascendentes e descendentes do
filtro e melhorando a permeabilidade. São conhe­ “plunge”.
cidos dois tipos de “plunge”: o sólido e o de válvu­
la, sendo este último o mais utilizado. Ao iniciar a operação de plungeamento, a
freqüência do balancim não deve ser superior a 15
Pistão do tipo de válvula pancadas' por minuto. No início da operação, fazer
a limpeza no poço com a caçamba a cada 5 minu­
O pistão ou “plunge” de válvula, contém tos, tempo este que poderá ser aumentado desde
aberturas ou válvulas que se abre quando o pistão que se verifique que está entrando pouca areia no
desce e fecham-se quando ele sobe dentro do poço. poço.

Figura 5.26 - Plunge de válvula.


132 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

À medida em que se executa o desenvolvi­ Quando se utiliza os componentes de sódio,


mento, observando sempre as recomendações acima, procede-se assim:
verificar se a quantidade de areia diminui, e em caso
afirmativo, aumentar gradativãmente a freqüência da • Limpar bem o poço com a caçamba de limpeza
máquina até 30 ou 35 pancadas por minuto. até que a água saia o mais claro possível;
Para poços com seções intercaladas de filtros • Preparar uma solução de 1,5 kg de hexa­
e tubos, dever-se iniciar a limpeza dos filtros de metafosfato de sódio, por exemplo, com 200
cima para baixo, no início e posteriormente de litros de água;
baixo para cima. • Encher o poço com a solução preparada e aguar­
dar durante um período de 2 horas;
c) Superbombeamento • Fazer o desenvolvimento normal do poço com
“plunge de válvula” como já especificado;
Consiste em bombear o poço a uma vazão Quando se utilizar tanino, preparar uma
maior do que aquela que se vai extrair do mesmo, solução com 10 kg ou mais para 1 m3 de água, e
o que implica dizer que o rebaixamento que provo­ proceder como no caso anterior.
ca é maior do que o alcançado quando o poço
estiver com produção normal. e)Outros métodos
É o método mais simples de desenvolvimento,
sendo aconselhável somente para formações areno­ Outros métodos de menor eficiência e difícil
sas, onde a quantidade de argila e/ou silte, seja uso poderão ser aplicados, dependendo das
desprezível. circunstâncias. São eles:
Por sua simplicidade há uma tendência gene­
ralizada do seu emprego cujos resultados nem • Chicoteamento;
sempre são eficientes e às vezes até desastrosos. • Jateamento d’água;
• Embolo maciço.
d) Compostos químicos • Gelo seco

Na perfuração de poços, muitas vezes é Testes de bombeamento


necessário aproveitar aqüíferos pobres, de baixa
permeabilidade, devido geralmente à presença de a) Teste de vazão
argila e/ou silte disseminados na matriz arenosa; a Após a conclusão do poço, isto é, perfurado,
argila adere à superfície dos grãos de areia o que revestido, encascalhado, desenvolvido e cimenta­
dificulta a sua remoção. Por outro lado, quando se do, antes de sua entrega ao cliente, deverá o mesmo
perfura um poço com sonda rotativa, a lama de ser submetido a um teste de vazão ou teste de
perfuração penetra no aqüífero colmatando-o, além produção.
de formar nas paredes do poço um “reboco”, que A duração de um teste de vazão é bastante
é tanto mais espesso quanto maior for a viscosidade variável, porém nunca inferior a 24 horas de
da lama. O desenvolvimento de poço em tais bombeamento contínuo. Geralmente o teste de
circunstâncias, pelos métodos mecânicos, não vazão é realizado tendo em vista atingir-se um nível
produz os efeitos desejados. dinâmico estabilizado para uma determinada vazão
Para remover a argila e/ou silte, é recomen­ de bombeamento, tendo-se o cuidado, porém, de
dável o uso combinado dos métodos mecânicos não rebaixar o nível abaixo do topo da primeira
de desenvolvimento com compostos químicos que seção filtrante.
atuam como dispersantes, defloculando a argila Durante o teste de vazão, deverão ser anotadas
existente no aqüífero. níveis dinâmicos correspondentes à intervalos de
Dentre os dispersantes mais comumente tempo pré-determinados.
usados, encontram-se o hexametafosfato de sódio, A realização de um teste de vazão exige que
o tetrapirofosfato de sódio, o tripolifosfato de sódio se tomem medidas prévias, dentre as quais se
e o tanino comercial. destacam:
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 133
• Colocar a bomba sempre acima das seções com vazões aproximadas de 20%, 40%, 60% e
filtrantes, defronte a tubos lisos. A colocação da 80% da obtida na primeira etapa. Recomenda-se
bomba na frente dos filtros causará um forte para cada uma, um tempo variando entre 6 horas e
turbilhonamento, podendo entupir os mesmos e 12 horas. A finalidade desse expediente visa deter­
produzir muita areia; minar-se e/ou calcula-se o “ponto crítico” do poço
• Paralelamente à tubulação da bomba ou compres­ e suas reais condições de exploração. Para tanto, é
sor, descer um tubulação de 1” ou 3/4” para apresentado a seguir um exemplo (Figura 5.27).
introdução do medidor elétrico de nível;
• Medir antes do bombeamento o nível estático;
• Quando se tratar de aqüíferos livres, descarregar
a água do poço a pelo menos 250 a 300 metros
distantes do mesmo. Caso se tenha noção ou
mesmo se conheça a direção do fluxo subterrâ­
neo, a descarga deverá ser feita no sentido do
mesmo. A descarga próxima à boca do poço acar­
retará uma recarga quase imediata, aumentando
a vazão e induzindo menores rebaixamentos;
• Ter sempre disponível dois ou mais medidores
de nível;
• Em alguns casos especialmente recomendados,
coletar amostra de água a intervalos de 6 em 6
horas. Normalmente, são coletadas duas amostras
de água ao final do teste de vazão;
• Para a coleta das amostras de água, deverão ser
utilizados recipientes de plástico brancos ou Vazão Q (m3/h)
incolores, previamente lavados.
Figura 5.27 - Determinação do ponto crítico
do poço.
Para facilitar a anotação de todos os dados
durante a realização do teste de vazão, deverá ser
preparada uma folha de campo. Como não se pode Exemplo de “pontos críticos”
prever o comportamento de um poço, sugere-se Um teste de bombeamento realizado, apresen­
que se prepare uma tabela, contendo um maior tou os seguintes dados:
número possível de intervalos de leituras, de acor­
do com as escalas seguintes: Etapa Vazão Nível Rebaixamento
(m3/h) dinâmico (m) (m)
• Até 10 minutos do início: medidas de minuto em
minuto; lâ 50 80 70
• De 10 até 90 minutos: de 10 em 10 minutos; 2â 45 62,50 52,50
• De 90 até 420 minutos: de 30 em 30 minutos; 3ã 40 50 40
• De 420 minutos até estabilizar o nível (no 4- 30 40 30
mínimo até 1.440 minutos): de hora em hora. 5â 20 30 20
(*) Nível estático do poço: 10 m.
Após a estabilização do nível a uma vazão
constante, deve-se aguardar cerca de 3 horas, no b) Medição de vazão
mínimo, para verificar a velocidade da estabili­
zação, quando então se paralisa o teste e inicia-se Existem diversos métodos e equipamentos
a recuperação. Em função da vazão obtida na disponíveis para medir a descarga de um poço,
primeira etapa ou etapa de vazão máxima, após a dentre os quais, por sua simplicidade de operação e
recuperação inicia-se o escalonamento do teste, facilidade de instalação, destacam-se os seguintes:
134 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Recipiente de volume conhecido: este é o 5.7. OPERAÇÃO E MANUTENÇÃO DE


método mais simples e o mais difundido entre POÇOS
os perfuradores de poços. Constitui em
descarregar a água bombeada dentro de um 5.7.1. Considerações gerais
recipiente de volume conhecido (tambor de 200
litros, por exemplo) medindo-se com um Um serviço permanente de operação e manu­
cronômetro o tempo necessário para enchê-lo. tenção de poços, baseado em programas sistemá­
A imprecisão deste método decorre do fato de ticos de caráter preventivo, certamente propor­
que sendo a água descarregada sob pressão, o cionará benefícios na diminuição das despesas de
nível da mesma dentro do recipiente oscila energia e de depreciação de materiais e equipamen­
muito, não se podendo medir corretamente o tos, na racionalização do trabalho das equipes,
tempo de enchimento, principalmente quando padronização de materiais e equipamentos e redu­
a vazão bombeada é alta; ção dos estoques necessários, de modo a garantir
• Método dos vertedores: é usado para grandes a eficiência dos sistemas de abastecimento de água
vazões sendo utilizados os vertedores retangular, e assegurar o padrão sanitário exigido.
triangular e Cipolletti; Um programa de manutenção preventiva
• Orifício circular ou tubo de Pitot; consiste em assegurar inspeção dos poços nos
• Descarga livre em tubo horizontal. prazos certos, efetuar o registro sistemático de
medidas e informações sobre o comportamento do
Desinfecção de poços aqüífero, sobre as perdas hidráulicas nas captações
e sobre a eficiência e durabilidade dos equipa­
Durante a perfuração de um poço, cria-se um mentos e materiais em uso, detectar as prováveis
ambiente favorável para a contaminação do causas dos problemas do poço e da bomba, orga­
aqüífero. Embora, geralmente fraca, esta contami­ nizar um serviço eficiente de suprimentos, baseado
nação pode atingir níveis elevados, principal­ em almoxarifados regionais e locais, adequada­
mente quando se utiliza lama de perfuração, visto mente localizados e dimensionados em função da
que a água com a qual se prepara a lama, distribuição geográfica dos poços em operação.
geralmente não é tratada, sendo em alguns casos Deste modo, a racionalização dos serviços minimi­
de procedência e qualidades duvidosas. Além za a probabilidade de ocorrerem situações de emer­
disso, é inevitável a caída de sujeira dentro do gência no abastecimento, como freqüentemente
poço, sejam estas constituídas por fragmentos de ocorrem nas horas de máxima demanda de água,
madeira, estopas de limpeza, ou mesmo resíduos quando a manutenção é baseada em medidas
de graxa e óleo resultante da lubrificação das aleatórias, de caráter puramente corretivo.
ferramentas. A prática de manutenção de tipo corretivo,
A desinfecção de um poço tem por objetivo adotada de forma rotineira e predominante em toda a
principal, eliminar a contaminação do mesmo, parte, padece de distorção de base que consiste em
pelos microrganismos patogênicos, tais como as atacar os problemas pelos efeitos imediatos, sem
bactérias coliformes, ou mesmo eliminar alguns procurar investigar suas causas. E mesmo assim,
tipos de bactérias ferruginosas que provocam de forma parcial, dando atenção só às falhas eletro-
inscrustação do revestimento e entupimento dos mecânicas apresentadas pelos equipamentos e des­
filtros. cuidando do que possa estar ocorrendo com o poço.
A desinfecção de poços é feita mediante a A natureza do problema que ocorre num poço
introdução no mesmo, de uma solução clorada de durante a operação não é facilmente discemível.
tal modo que se consiga obter uma concentração O processo de deterioração geralmente se desen­
no poço, que varia geralmente entre 50 e 200 mg/f volve de forma lenta e gradual até atingir um ponto
de cloro livre. Quando se trata de eliminar bactérias crítico a partir do qual acelera-se rapidamente,
ferruginosas, geralmente é necessário aplicar solu­ resultando ao final no colapso.
ções cloradas que induzam concentrações de até Se a natureza da deterioração for reconhecida
400 mg!£ de cloro livre. a tempo, antes que atinja o ponto critico, é possível
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 135
reabilitar o poço, o que torna de fundamental • Estabelecimento de regimes ideais de operação
importância os procedimentos de operação. para sistema com um ou mais poços operando
conjuntamente;
5.7.2. Controle operacional • Padronização de equipamentos com vistas à
montagem de estoques adequados que viessem
Os poços existentes, apesar da legislação solucionar quaisquer problemas não dependendo
atual, são em geral construídos e operados preca­ dos prazos dos fornecedores geralmente superio­
riamente, empregando equipamentos deficientes res a 60 dias e necessano para suprir de imediato
num regime ditado pelo empirismo e desconhe­ aqueles danificados;
cimento. • Averiguação e análise prévia dos dados operacio­
As principais deficiências desses poços são: nais (Q, N.E., N.D., qualidade d’água, aspectos
dos equipamentos, etc), que poderão prevenir
• Ausência parcial e/ou total de relatório do poço problemas que viriam a paralisar o funcionamen­
contendo suas características geológicas e cons­ to do poço, acarretando prejuízos ao sistema;
trutivas; • A obtenção de menores custos operacionais
• Existência de material de qualidade inferior através da melhor eficiência do sistema (energia,
(tubos, filtros, etc), ou até mesmo sua ausência; pessoal, etc).
• Produção de grãos de areia em abundância, em
poços cujo perfil geológico indica a necessidade 5.7.3. Problemas mais freqüentes em poços
de coluna de revestimento. Em virtude desse
aspecto a grande maioria dos poços nessas condi­ A detecção da natureza do problema apresentado
ções, muitas vezes, são explorados com compres­ por um poço e, principalmente, de suas causas mais
sores de ar não danificáveis pela areia (mas com prováveis, requer o exame cuidadoso das variações
um consumo energético 30% superior às eletro- das medidas e observações periódicas efetuadas,
bombas submersas), ou mesmo pelas bombas em associação com os registros de desempenho
submersas com vida útil, em geral, menor em do equipamento de bombeamento. Para facilidade
50% do que em condições normais; de abordagem da questão convém discriminar os
• A constatação de que muitos dados informados poços tubulares em duas categorias:
como reais (profundidade, vazão, níveis, etc), na
realidade estão em geral, bastante diferenciados • Poços perfurados em terrenos sedimentares;
dos medidos; • Poços perfurados em rochas duras, compactas.
• O estado sanitário, em 80% dos casos, é classifi­
cado como precário sujeito a propiciar contami­ Esta distinção é útil visto que uns e outros
nações ao aqüífero; f são, em geral, construídos segundo métodos e
• A operação dos equipamentos de exploração é rea­ técnicas diferentes e, em decorrência, podem apre­
lizada sem controle de eficiência, estando os mes­ sentar problemas peculiares durante a exploração.
mos, na maioria dos poços, funcionando em pro­ Nas perfurações em terrenos sedimentares o
fundidades inexatas, super ou subdimensionados; fluxo d’água para o interior do poço se realiza
• Grande parte destes poços em virtude de suas através de aberturas na tubulação de revestimento,
instalações antigas e inconvenientes, não possibi­ que incluem a abertura da extremidade inferior e
lita a medição de suas vazões e níveis, ficando os mais variados tipos de seções filtrantes como
sua aferição prejudicada. tubos rasgados, perfurados, ranhurados ou filtros;
nas perfurações em terrenos duros, compactos, a
Os seguintes parâmetros são primordiais para passagem de água se dá diretamente, através de
uma sistemática operacional eficiente: fendas, fraturas, fissuras e canais da própria rocha.
Tendo em vista esta distinção, são analisados
• Viabilização de equipamentos mais eficientes os problemas mais comuns e freqüentes que podem
para determinadas condições de operações ocorrer em poços e, a seguir, são fornecidos crité­
(bombas, quadros, etc); rios para a procura e aplicação de soluções.
136 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

5.7.4. Identificação da natureza do problema quando se trata de bactérias de ferro, esta causa
e das causas mais prováveis pode ser indicada por mudança de coloração da
água bombeada; porém, na maioria dos casos, é
De modo geral, para efeito de análise, os de difícil detecção e requer a execução de análises
problemas que ocorrem em poços podem ser bacteriológicas especiais.
classificados como de origem mecânica, hidráulica
e de qualidade da água. b) Produção de areia
Na prática, esses processos atuam de forma
combinada, tornando difícil a identificação do A produção de areia em poços é, geralmente,
fator predominante. um problema originado pela corrosão e, por sua vez,
indicador da existência da mesma. Outras causas
5 .7.4.1. Problemas mecânicos de produção incrementada de areia são as seguintes:

Os problemas de natureza mecânica são: as • Possíveis pontes intercaladas na coluna de pré-


obstruções dos filtros, a produção de areia, a filtro, deixando seções filtrantes diretamente
deterioração da estrutura do poço e defeitos no expostas à formação arenosa;
equipamento de bombeamento. • Recalque do material de pré-filtro, deixando os
primeiros filtros descobertos, por falta de reali-
a) Obstruções das seções fíltrantes mentação de pré-filtro durante a operação;
• Ruptura da coluna de revestimento e filtros,
Reflete-se em rebaixamentos progressivos do geralmente nas juntas.
nível dinâmico, sem decaimento apreciável do
nível estático, podendo ser detectadas na interpre­ No caso de haver recalque do material de pré-
tação dos dados de operação. A diminuição da filtro a detecção do problema é simples, bastando
vazão específica e o incremento da perda de carga medir o nível do pré-filtro, através do tubo de
no poço são determinantes na detecção do proble­ alimentação, e compará-lo com o nível original.
ma. A procura das causas das obstruções, quando Nos outros casos, a identificação das causas
não são evidentes ou não foram previstas após a requer, geralmente, a execução de análises sedi-
construção do poço, segue um processo de dedução mentológicas e mineralógicas das amostras do
e exclusão, com base nas características do poço e material retirado do fundo do poço. Comparando
na composição química da água. os resultados destas análises com aquelas efetuadas
As obstruções podem ser causadas por acumu­ durante a construção do poço, é possível chegar a
lação de argila, silte ou areia no filtro e no pré- algumas conclusões úteis. Se o material produzido
filtro; se for notada produção desses materiais na tiver granulometria sensivelmente maior que a de
descarga do poço e se o perfil litológico indicar a qualquer intervalo do aqüífero explorado, ou
sua ocorrência em trechos próximos às seções semelhante a do pré-filtro, é sinal de que há ruptura
filtrantes, é muito provável que a obstrução seja na coluna de revestimento e filtros; ao realimentar
devida a este fato. a coluna de pré-filtro, se houver consumo exagera­
Outra causa de obstrução mecânica são os do de material, a suposição será confirmada.
subprodutos da corrosão que se depositam nas Se, inversamente, o material produzido tiver
seções filtrantes e no fundo do poço; se o índice granulometria de diâmetro menor que o das
de agressividade da água for elevado (indicando a aberturas do filtro, a causa mais provável do
possibilidade de corrosão), a água bombeada problema é a existência de pontes na coluna de
poderá apresentar turbidez ou a presença de resí­ pré-filtro. Se as conclusões anteriores não forem
duos, o que confirmará a causa; em processos avan­ confirmadas, a causa da produção de areia poderá
çados, a produção anormal de areia é forte indício estar relacionada ao alargamento das aberturas do
da corrosão. filtro por corrosão. Existem equipamentos
Os subprodutos do metabolismo bacteriano apropriados para a localização em detalhe de zonas
podem, também, produzir obstruções, às vezes, deterioradas, pontos de ruptura e outros problemas
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 137
no interior do poço; os mais usados são os • Entupimento do crivo da bomba;
equipamentos de televisão em circuito fechado que • Perda de submergência em compressores, com
realizam a endoscopia dos poços, possibilitando interrupções prolongadas na descarga;
diagnósticos seguros. • Perda de sucção nas bombas de eixo horizonta],
Porém, um método fácil e acessível para com interrupção na descarga.
localizar zonas deterioradas consiste na utilização
de um equipamento constituído de um pistão Freqüentemente estas falhas se refletem em
comum de desenvolvimento de poço ao qual se aquecimento anormal dos motores e consumo
adapta um recipiente de chapa de aço, por meio de excessivo de energia elétrica.
um eixo de 0,5 metros de comprimento. Procede-
se a um vigoroso pistoneamento nos trechos que 5.7.4.2. Problemas hidráulicos
se pretende examinar, durante uns 30 minutos; em
seguida, retira-se o equipamento do poço e Os problemas de natureza hidráulica são
examina-se o recipiente, à procura de material do associados à queda de produção de água e à
pré-filtro ou da formação. Se houver deposição de diminuição da vazão de bombeamento.
material, a zona deteriorada terá sido localizada A queda de produção de um poço tem, em
com razoável aproximação. geral, as seguintes causas:

c) A deterioração da estrutura de um poço • Taxa de bombeamento superior à taxa de recarga


do aqüífero;
E um problema cujos sintomas podem ser • Taxa de bombeamento superior ao limite de
observados à superfície, manifestando-se em produção poço (superbombeamento);
abatimento do terreno em tomo do poço, na forma­ • Interferências provocadas por poços vizinhos;
ção de gretas e sulcos convergentes e no rompi­ • Obstruções das seções filtrantes.
mento da base de assentamento da bomba. Em
alguns casos, o problema poderá estar relacionado No primeiro caso, a detecção é feita através
a uma taxa de bombeamento acima da capacidade do exame da hidrógrafa do nível estático corres­
do aqüífero. Na maioria das vezes, no entanto, pondente a um ciclo hidrológico completo; se
resulta do bombeamento excessivo de areia em houver decaimento progressivo e permanente do
poços mal desenvolvidos ou mesmo de colapso nível estático é sinal de bombeamento excessivo,
parcial ou total da coluna de revestimento e filtros. esgotando o aqüífero. Os sintomas do superbom­
Durante a operação pode haver mascaramento beamento se manifestam com um decaimento
sobre a detecção da verdadeira natureza do proble­ acentuado do nível dinâmico em queda significa­
ma, induzindo conclusão equivocada quanto à tiva de nível estático, resultando em rebaixamento
existência de defeito no poço. excessivos no poço. Para confirmar esta causa, é
A diminuição da vazão de bombeamento necessário efetuar um teste de produção, comparar
acompanhada de leve ascenso do nível dinâmico, os resultados com os do teste anterior e verificar
é indício de defeito no equipamento instalado. se o ponto crítico foi ultrapassado.
As falhas mais comuns, cujos sintomas ajudam Os fenômenos de interferência podem influir
na identificação do problema, são as seguintes: na queda de produção de um poço, podendo ser
detectados por oscilações bruscas e irregulares dos
• Desregulagem do conjunto de rotores e demais níveis d’água, durante o controle de operação.
partes da bomba, com vibrações anormais do Se nenhuma destas três causas ficar eviden­
equipamento, devido a desgastes por abrasão, ciada, a investigação deve ser voltada para a
corrosão ou uso intensivo; possível obstrução das seções filtrantes ou do fundo
• Cavitação nos rotores, devido a presença de ar ou do poço. A diminuição da vazão de bombeamento
gases na água bombeada (rotores “pipocando”); do poço, sem que haja modificação apreciável dos
• Furos no tubo de descarga, produzindo ruído de níveis d’água é, geralmente, causada por defeitos
“cachoeira”; no equipamento de bombeamento, tal como
138 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

mencionado em item anterior. Em poços perfura­ gás sulfídrico, metano, dióxido de carbono,
dos em terrenos cristalinos o problema de queda oxigênio, substâncias minerais, cloretos, compos­
de produção, está em geral, associado ao “esgota­ tos de ferro, carbonatos e sulfatos e de fenóis.
mento” parcial de uma ou mais zonas aqüíferas Uma água que apresenta odor e gosto caracterís­
(entradas d’água), devido ao mecanismo restrito tico poderá estar ativando processos de corrosão
de circulação da água no decorrer da exploração; ou de incrustação.
neste caso, a detecção se orienta pelo exame da Variações de temperatura das águas subterrâ­
curva de recuperação do poço, cuja conformação neas podem acentuar o desenvolvimento de proces­
geral é anômala. sos de deterioração de poços. Aumentos de tempe­
ratura provocam um decréscimo da viscosidade da
5.T.4.3. Problemas de qualidade da água água, incrementando a difusão de oxigênio, ativan­
do o processo de corrosão. Um incremento de tem­
Durante a exploração podem surgir problemas peratura da ordem de 4 a 5°C pode duplicar o
de corrosão ou de incrustação no poço, no aqüífero potencial de corrosão da água.
e no sistema de bombeamento, geralmente causa­ A condutividade especifica está diretamente
dos por mudanças nas características físico-químicas relacionada ao total de sólidos dissolvidos (STD)
e bacteriológicas da água. Estas modificações na água; qualquer incremento de STD é um acele­
podem estar associadas aos seguintes fatores: rador da corrosão, que se torna severa quando este
parâmetro é superior a 1000 mg//. A condutivi­
• Influência das condições de bombeamento de dade está, também, associada ao aumento do teor
água, alterando o estado natural e de equilíbrio de cloretos, notadamente em áreas litorâneas ou
físico-químico; semi-áridas, o que aumenta a probabilidade da
• Expansão do cone de rebaixamento, atingindo corrosão. A turbidez da água de poços mais antigos
zonas com água de composição físico-química é indicadora de problemas de natureza mecânica,
diferentes; bem como o colapso de seções filtrantes. Em poços
• Incrementos acentuados de recarga no aqüífero; novos, freqüentemente resulta de desenvolvimento
• Contaminações produzidas durante a operação insuficiente durante a construção.
e manutenção do poço. A turbidez leitosa, quando provém de gases
dissolvidos na água, pode produzir cavitação nos
As modificações nas características físicas da rotores da bomba.
água, embora não possam, por si próprias, servirem A atividade bacteriana acarreta quase sempre
para detectar por inteiro a natureza do problema, problemas de incrustação e/ou corrosão em poços.
produz efeitos que ajudam no diagnóstico. A detecção da existência de bactérias na água é
A água bombeada pode apresentar coloração feita, inicialmente, com base em suas propriedades
indicando, na maioria das vezes, um processo de organolépticas e em análises bacteriológicas de
obstrução. A coloração vermelha e “ferrugem” rotina. Uma vez obtidos indícios de ação bacteria­
resultam da presença de compostos de ferro e/ou na, a identificação dos tipos de bactérias requer
das chamadas “bactérias do ferro” indicando análise especifica, sendo necessário coletar amos­
provável incrustação. tras mediante raspagem das partes internas dos
Águas de coloração marrom ou parda indicam filtros e remoção de material depositado no fundo
a presença de bactérias redutoras ou de compostos do poço. As bactérias mais ativas nos processos
de manganês; em regiões de mangues, indicam a de corrosão são chamadas bactérias redutoras de
presença de matéria orgânica combinada com sulfatos, anaeróbias. O potencial redox do solo e
tanatos e gelatos. da água é um indicador do potencial de corrosão
Águas amareladas geralmente indicam a destas bactérias.
presença de compostos derivados de oxidação do As bactérias aeróbias podem, também, causar
ferro, que podem ser produtos da corrosão. corrosão, enquanto as chamadas “bactérias do
Odor e gosto são indícios da presença na ferro”, e os gêneros filamentosos são muito impor­
água de microorganismos, de gases dissolvidos, tantes nos processos de incrustação.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 139
Modificações nas características químicas produzir perfurações; o poço perde resistência, as
aberturas dos filtros são alargadas e pode haver
Estas modificações da água são provocadas passagem de areia.
por variações de pressão e velocidade durante a
extração, são estimuladoras dos processos de A corrosão de tipo eletroquímico se produz
incrustação e de corrosão em poços. A incrustação basicamente de duas maneiras:
química consiste na precipitação e deposição do
material nas seções filtrantes, no pré-filtro, no • Corrosão seletiva, em que um dos componentes
próprio aqüífero, na bomba e, até nas tubulações da liga metálica é removido (ânodo), deixando o
de água; o material incrustante é constituído outro enfraquecido (cátodo) e, por isso, eventual
principalmente por carbonatos de cálcio, acompa­ receptor dos produtos da corrosão;
nhado de silicato de alumínio, sulfato de ferro e • Corrosão bimetálica, produzida pela geração de
outros minerais contidos no aqüífero. Os estudos corrente elétrica no meio do condutor em contato
modernos do fenômeno apóiam-se na teoria com dois metais diferentes; é o caso de poços
eletrocinética que explica suas causas da seguinte em que o material do filtro é diferente do revesti­
maneira: mento ou, ainda, em que as uniões e soidas são
de metais diferentes.
• Durante o bombeamento de um poço, o fluxo
de água incrementa o fluxo de potencial elétrico A identificação da corrosão em poços, salvo
que atua como catalizador nas reações de incrus- quando está avançada e o material produzido sai
tação; no bombeamento, é difícil de ser feita. Torna-se,
• O processo de incrustação se desenvolve nas pois, fundamental o controle através de sucessivas
superfícies metálicas quando estão carregadas análises químicas, no sentido de detectar incremen­
negativamente. tos nos parâmetros atuantes no processo.
Um dos componentes mais vulneráveis à
Um dos primeiros sintomas de incrustação é corrosão é o equipamento de bombeamento instala­
o aumento de consumo de energia da bomba, do no poço, devido às condições de trabalho a que
refletindo perda de eficiência do poço. A confirma­ está submetido e aos materiais usados em sua
ção pode ser feita pela inspeção do equipamento fabricação. Os rotores das bombas são geralmente
de bombeamento que geralmente apresenta mate­ de bronze, estando sujeitos à corrosão seletiva
rial depositado no crivo e nas vizinhanças; a inter­ (dezincificação).
pretação dos resultados de análises químicas O fluxo turbulento e os correspondentes
sucessivas indicará as variações dos parâmetros incrementos de velocidade da água, ao passar pelo
que atuam no processo. reduzido espaço entre a câmara de bombeamento
Há casos de poços em que operadores e a bomba favorece o maior escapamento de gases
experientes são capazes de detectar o grau maior contidos na água, provocando corrosão mais
ou menor de incrustação nas tubulações através rápida e severa na bomba e no tubo de descarga,
dos diferentes sons produzidos por batidas no tubo junto com provável cavitação nos rotores. As
de descarga, com objeto metálico. vezes, em bombas de motor submersível,
O fenômeno de corrosão em poços resulta de utilizam-se arames de cobre para amarrar os cabos
reação química ou eletroquímica da água em elétricos à tubulação de descarga, o que provoca
contato com a estrutura metálica do poço; sua reações eletroquxmicas que acarretam forte
ocorrência é sempre possível em qualquer instala­ corrosão no tubo. Desta maneira, deve-se ter em
ção de extração de água subterrânea porque a água mente que podem ocorrer situações em que
é quimicamente ativa e tem características de processo de corrosão quase não se manifesta na
eletrólito. A corrosão de natureza química está estrutura metálica do poço, porém, pode atacar
relacionada a presença de C 0 2, 0 2, H2S, ácidos severamente a bomba. Neste caso, será necessá­
orgânicos e sulfatos de ferro na água e resulta na rio retirá-la do poço com maior freqüência e
diminuição da espessura do metal, chegando a inspecioná-la.
140 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

5.7.5. Manutenção • Manutenção preventiva para evitar paralisações


abruptas no abastecimento, que poderiam em até
Como foi visto, a investigação das causas dos 90% dos casos ser previamente detectadas e
processos de deterioração em poços é complexa, solucionadas antes de ocorrerem;
pois freqüentemente atuam diversos fatores inter- • Previsão e treinamento de equipe para executar
rel acionados. serviços especiais de recuperação e limpeza para
Uma vez detectado o problema, ao se procurar evitar fatos comuns como bombas caídas no fundo
o método mais adequado de solucioná-lo e ao se dos poços, tubos edutores desconectados, tubos
executar os serviços necessários, uma dificuldade de PVC e borrachas obstruindo os poços, produ­
objetiva se antepõe: os filtros e demais partes ção de areia, água com contaminação superficial
vulneráveis do poço não podem ser submetidos à e turbidez, entre outros.
inspeção visual, nem tampouco os reparos efetua­
dos podem ter controle direto, na maioria dos casos. Devido à qualidade das águas subterrâneas, à
Desta maneira, o recondicionamento de poços, falta de precauções na operação dos poços e o
quando requer a execução de serviços em sua estru­ tempo de vida útil dos equipamentos de bombea­
tura interna, está sujeito a riscos. mento, deve-se a cada período de operação, quando
Um planejamento dos trabalhos a serem necessários executar serviços de limpeza com
efetuados, visando garantir sua eficácia e diminuir pistão, compressor e produtos químicos, visando
a margem de risco, deve levar em conta os elemen­ aumentar a vida dos equipamentos e do próprio
tos básicos da história do poço, a saber: poço, atualmente prevista para 20 anos, no mínimo.
São apresentadas, a seguir, algumas linhas
• Relatório técnico do poço, quando de sua cons­ orientadoras para o recondicionamento de poços,
trução; de acordo com a causa predominante do problema
• Resultados da primeira análise físico-química da apresentado. Convém lembrar que cada poço tem
água; sua própria história e, portanto, deve ser objeto de
• Sumário do controle de qualidade química da um plano específico de trabalho, quando se trata de
água durante a operação; recuperação; por isso as indicações apresentadas têm
• Sumário do controle anual de operação; um certo grau de generalidade, requerendo tratamen­
• Sumário do controle anual de manutenção. to mais pormenorizado em cada caso específico.

O sucesso de uma boa manutenção deve prever: 5.7.5.1. Obstrução

• Planos sistemáticos para a aquisição e/ou estoca- O tipo de obstrução referido neste item é o de
gens de bombas, tubos, quadros elétricos, cabos natureza mecânica, resultante da colmatação de
e outros materiais imprescindíveis aos poços, filtros e deposição de materiais no perímetro do
com parcerias quanto aos prazos de entrega junto poço (frontalmente aos filtros) ou no fundo do
aos fornecedores; poço. Neste caso, trata-se de proceder à sua estimu­
• Pessoal com treinamento e material apropriado lação, utilizando métodos semelhantes aos de
para instalação e troca de equipamentos de explo­ desenvolvimento de poços durante a construção.
ração (guinchos elétricos, cadeirinhas, chaves O método mais recomendável é o de pistoneamen-
especiais, ferramental adequado); to, com pistão de válvula, nos trechos correspon­
• Nos casos de instalações e principalmente substi­ dentes às seções filtrantes, devendo o trabalho
tuições nos equipamentos, deve haver um rígido obedecer aos seguintes procedimentos:
controle, para se registrar tais alterações. Sem o
registro corre-se o risco dos equipamentos repos­ • Medir a profundidade real do poço; se for
tos não preencherem as características dos origi­ constatada a redução da profundidade por acúmu­
nalmente instalados, provocando problemas lo de material no fundo do poço, a primeira
diversos tais como, sub ou super bombeamento atividade a ser feita é removê-lo com a utilização
do poço, produção de areia, etc; de caçamba;
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 141
• Efetuar o trabalho de pistoneamento, partindo do equipamento de bombeamento. Toma-se necessá­
topo da primeira seção filtrante, de cima para rio retirar a bomba e fazer os reparos necessários.
baixo, tendo o cuidado de, em cada trecho,
colocar o pistão 1,0 metro acima do filtro; 5.7.5.3. Prevenção e tratamento de incrustação
• Fazer a limpeza com caçamba, depois de
pistonear cada trecho e verificar a quantidade de Não existe maneira de evitar por completo a
material removido. incrustação produzida em poço, mas é possível ate­
nuar os processos através das seguintes medidas:
Quando o material de obstrução for constituí­
do principalmente de lama, é conveniente utilizar • Reduzir a vazão de bombeamento, mantendo o
polifosfato, de modo a tornar a estimulação mais menor rebaixamento possível, e aumentar o tempo
eficiente; antes de iniciar o pistoneamento, coloca- de operação; para esta providência, talvez seja
se a solução de polifosfato (hexametafosfato de necessário trocar a bomba por outra de menor
sódio) no poço, na proporção de 20 kg para cada capacidade que possa funcionar continuamente;
500 litros d’água, agita-se a solução dentro do poço • Se houver déficit no volume total de água
com pistão, aguarda-se de 2 a 3 horas e, então, requerido pelo sistema, efetuar a exploração com
inicia-se a operação de pistoneamento. A confirma­ mais poços, convenientemente distribuídos e
ção da melhoria das condições do poço é feita por com vazões e rebaixamentos moderados;
comparação de suas características hidráulicas • Efetuar limpeza e tratamento periódicos, quando
(principalmente a vazão específica) imediatamente da realização da manutenção geral do sistema.
antes da estimulação e depois dela.
Para realizar um tratamento eficaz da incrus­
5.7.S.2. Queda de produção tação é necessário conhecer sua composição,
procedendo à análise do material e comparando
A queda de produção motivada por problemas os resultados com os da água.
de natureza hidráulica no aqüífero e no poço, tem A coleta de amostra do material incrustante
soluções relativamente simples; embora, quase pode ser feita através de raspagem da superfície
sempre, resultem em redução do volume total de interna dos filtros, com um disco delgado de
água desejado e, por isso mesmo, as pessoas diâmetro um pouco menor do que o diâmetro interno
resistam em aplicá-las, entretanto, são necessárias da coluna, colocado na haste de uma perfuradora
para garantir a operação normal do poço. de modo semelhante a um pistão.
Num poço com evidência de superbombea- Se o material incrustante contiver, predomi­
mento e de taxa de extração excessiva, o único nantemente, carbonatos de cálcio e magnésio e
remédio adequado é reduzir e regular a vazão de hidróxido de ferro, o tratamento mais adequado é
exploração. Se isto implicar em déficit, em relação com ácido clorídrico ou ácido sulfâmico.
à demanda de água exigida, devem perfurar mais Se o material da amostra contiver 20% ou
poços. mais de compostos de ferro ou manganês, é
O que não é correto, embora seja largamente provável que exista um processo combinado de
praticado, é simplesmente recorrer a “solução” de incrustação e corrosão; neste caso, quando a razão
descer o crivo da bomba à maior profundidade. molecular do hidróxido de ferro para sulfato de
Esta medida paliativa resultará em aumento do ferro é maior que 3:1, indica a existência de
rebaixamento, para uma vazão igual ou levemente bactérias redutoras de sulfatos. O tratamento
superior a que vinha sendo bombeada, com maior adequado, nestas condições, consiste em alternar
probabilidade de deterioração e diminuição da vida aplicação de ácidos e de cloro, de modo a remover
útil do poço e, além disso, tomando o bombea­ os produtos de incrustação e as bactérias.
mento antieconômico.
Quando se trata de queda de vazão no poço, Tratamento com ácido muriático
sem evidência de decaimento significativo dos
níveis d’água, o defeito deve estar relacionado ao Na aplicação de ácido hidroclórico ou muriá-
142 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

tico, utiliza-se o tipo comercial, de concentração Tratamento com cloro


27,92% (18° Baumé), sem diluição, misturado
com uma substância inibidora na proporção de O tratamento dos poços com cloro, é mais
100 gramas para cada 100 litros de ácido; esta efetivo que o dos ácidos para retirar crescimentos
substância pode ser gelatina incolor e sem sabor. bacterianos e depósitos de lamas de ferro.
Calcula-se o volume de água contido em cada As concentrações de cloro devem ser altas
seção filtrante; o volume de ácido necessário é o (200 a 500 m%fl de cloro livre). As fontes de cloro
dobro do de água. A operação é feita da seguinte podem ser soluções de hipocloritos de cálcio ou
maneira: sódio, ou cloro líquido.
A aplicação efetua-se da mesma forma que
• Desce-se uma tubulação de plástico de 1 com os ácidos em solução: coloca-se uma tubu­
polegada de diâmetro até a base do filtro inferior; lação de 1” ou 3/4” até o fundo do filtro. No caso
• Verte-se a solução no tubo, por meio de um funil de soluções de hipocloritos, verte-se a solução pelo
e, em seguida, ergue-se lentamente o tubo até a tubo, por meio de um dosificador, vagarosamente.
parte superior do filtro; No caso do cloro líquido, acopla-se a tubula­
• Repete-se a operação para as demais seções ção do cilindro e introduz-se a quantidade de cloro
filtrantes; ao final, deixa-se a solução em contato necessário, também vagarosamente. Agita-se a
com os filtros por um período de 1 a 6 horas, água com pistão ou outro método similar, por 1
dependendo do grau de incrustação; hora. Deixa-se o poço em repouso por 2 horas e
• Pistoneia-se o poço durante uma hora e, duas extraem-se os produtos da desincrustação, com a
horas depois, faz-se a limpeza com compressor caçamba ou ar comprimido.
ou caçamba, até que a água saia limpa e com pH
próximo ao valor anterior ao tratamento; Tratamento com polifosfatos
• Efetua-se um teste expedido de bombeamento;
se a vazão específica não tiver sofrido aumento Os polifosfatos ou fosfatos cristalinos, como
apreciável, repete-se a operação. são chamados comumente, dispersam argilas,
Iodos, óxidos e hidróxidos de ferro e manganês.
Tratamento com ácido sulfâmico Os materiais dispersados podem ser extraídos
facilmente com bombeamento. Geralmente são
O ácido sulfâmico é mais vantajoso no trata­ usados junto com soluções de hipocloritos, para
mento da incrustação que o ácido hidroclórico, por obter o efeito de remoção das “bactérias do ferro”
ser granulado, de fácil manejo, e ter menor capaci­ e de desinfecção dos poços.
dade de ataque aos metais. A dosificação mais usada é a de 20 kg de
Na aplicação, prepara-se uma pasta fluída, polifosfatos por 500 litros de água no poço.
constituída dos seguintes ingredientes para 1.000 A aplicação é similar à dos tratamentos com
litros de água: 30 kg de ácido sulfâmico, 20 kg ácidos e cloro, pistoneando posteriormente por 1
de ácido cítrico, 1,5 kg de um agente umectante, hora, deixando o poço em repouso por 3 horas e
40 kg de dimetilureia e 150 kg de sulfato de sódio. bombeando até obter água limpa.
A operação segue a mesma sistemática indicada
para a do ácido muriático; porém, o tempo de Desincrustação de zonas fraturadas
contato da solução no poço deve ser mais prolon­
gado, de 6 a 12 horas, porque sua ação é mais As fraturas e outras aberturas em poços perfu­
lenta. No caso mencionado, em que os compo­ rados em rocha cristalina também estão sujeitas à
nentes de ferro ou manganês excedem a 20% do incrustação. Neste caso, a aplicação de ácidos pode
material incrustante, agrega-se à solução sal de produzir bons resultados.
Rochele, para manter os precipitados em suspen­ A operação é semelhante a dos poços com filtros,
são; emprega-se 1 kg de sal para cada 5 litros de requerendo especial atenção na forma de pistonea­
solução de ácido hidroclórico ou 1 kg de sal para mento. Quando o tubo de boca atinge a profundidade
cada 15 kg de ácido sulfâmico. de 3 a 5 metros, abaixo do nível d’água, o pistonea-
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 143
inento deve ser vigoroso dentro do tubo; quando, • Calcular o volume de água contido no poço; para
porém, o tubo de boca não estiver à profundidade tanto, uma maneira prática, embora aproximada,
adequada/dentro da água, torna-se necessário é usar a fórmula:
instalar um tubo auxiliar, ancorado e selado à
superfície, de modo a permitir o pistoneamento. d 2
Uma vez colocada a solução nos trechos V = y H (5.19)
correspondente às zonas fraturadas, pistoneia-se
o poço no trecho do tubo em períodos de 20 a 30 onde: V = volume de água, em metros cúbicos;
minutos, seguidos de 1 descanso de 1 hora, com d = diâmetro do poço, em polegadas;
duração total de 8 horas, e faz-se a remoção do H = comprimento da coluna d’água no poço.
material com caçamba ou compressor.
• Efetuar a desinfecção com o equipamento de
bombeamento instalado;
Limpeza e desinfecção
• Verter a solução de cloro no poço e, após 30
minutos ligar a bomba, fazendo com que a
Uma vez por ano e sempre que for realizado
descarga retome ao poço durante algum tempo;
algum serviço de manutenção do poço e do equipa­
a seguir, testar o teor de cloro na água do poço e,
mento de bombeamento, é necessário proceder à
se for inferior à concentração requerida, adicionar
limpeza e desinfecção da unidade. Uma eficiente
mais solução;
limpeza do poço significa:
• Deixar a solução no poço por um período de 6
horas;
• Remover com caçamba ou ar comprimido todo
• Bombear o poço até que a água saia sem gosto
o resíduo acumulado no fundo do poço, restabele­
ou odor de cloro e a concentração de cloro
cendo a profundidade original;
residual seja muito baixo.
• Pistonear o poço com pistão de válvula, a baixa
velocidade cerca de 30 batidas por minuto durante
2 ou 3 horas, e verificar os resultados; se não
5.8. ESPECIFICAÇÃO DE CONJUNTO
houver acúmulo de resíduo no fundo do poço,
MOTOR-BOMBA PARA UTILIZAÇÃO
passar o pistão por toda a coluna e, mais uma
EM POÇOS PROFUNDOS
vez, limpar;
• Fazer a limpeza da bomba, do tubo de descarga Walter Jorge Michaluate*
e dos cabos e eletrodos.
5.8.1. Generalidades
Após a execução de qualquer serviço no
poço, é fundamental proceder a sua desinfecção Em poços tubulares profundos são geralmente
com hipoclorito de cálcio ou hipoclorito de sódio. utilizados os conjuntos motor-bomba submersos
O hipoclorito de cálcio é mais usado por ser mais para a extração de água subterrânea. Outros tipos
conveniente; porém, quando o teor de cálcio na de equipamentos, como compressores, bombas
água do poço for superior a 300 mg//, deve-se ejetoras e bombas de eixo prolongado, possuem
evitar o seu emprego. O hipoclorito é encontrado baixo rendimento e são de uso restrito.
em solução; praticamente todos os alvejantes O conjunto motor-bomba submerso foi
comerciais são soluções deste tipo de hipoclo­ desenvolvido pelo russo Arutunoff em 1918 e
rito. As concentrações de cloro, quando se trata chegou à Europa Ocidental por volta do ano de 1920.
de bactérias patogênicas, devem ser de aproxi­ Os conjuntos motor-bomba submersos têm
madamente 100 mg//. um custo baixo em relação ao sistema recalque e
Para efetuar a desinfecção recomenda-se os poço, mas são vitais para o funcionamento do
seguintes procedimentos: mesmo. O funcionamento do sistema de recalque

(*) Engenheiro Mecânico pela Faculdade de Engenharia Industrial - FEI (1972). Ministra Palestras pelo ABAS. Engenheiro
da SABESP desde 1976.
144 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

depende do conjunto motor-bomba, que deve ser solicitados na “Especificação'”. No caso, de ser
operado de forma correta para evitar perdas ou impossível ao fornecedor atender a certos detalhes
danos em todo o sistema. da “Especificação” devido às técnicas diferentes
de fabricação, o mesmo deverá descrever os
5.8.2. Especificação do conjunto motor-bomba aspectos que estão em desacordo com o solicitado.
submerso Para a elaboração de uma especificação de
compra de um conjunto motor-bomba submerso
Para especificar um conjunto motor-bomba deve ser considerado os fatores descritos a seguir:
submerso deve-se pensar em adquirir um equipa­
mento que tenha o melhor rendimento, uma vida • Líquido
útil longa e com um mínimo de manutenção
corretiva. O esquema de instalação de um conjunto Sendo água de um poço tubular profundo, a
motor-bomba é apresentado na Figura 5.28. quantidade de areia que vai passar pelo sistema de
Os equipamentos e implementos a serem bombeamento deverá ser analisada e informada ao
adquiridos devem estar de acordo com os itens fornecedor por meio de especificação de compra.

Figura 5.28 - Esquema de instalação de um conjunto motor-bomba submerso.


CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 145
A quantidade de areia que passa pelo sistema é do rodamoinho formado quando é pequena a
importante para definir os materiais que serão submergência do conjunto. O efeito “vórtice” pode
utilizados na construção do equipamento. prejudicai’ o rendimento do conjunto, pois haverá
uma queda na eficiência da bomba.
• Temperatura
• Altura manométrica total
A temperatura da água do poço também é
importante. Geralmente situa-se em tomo de 24°C. Altura manométrica de uma bomba é a energia
Até 30°C o equipamento é comum. Quando for por unidade de peso que a bomba é capaz de
superior a 30°C o projeto do equipamento de fornecer ao fluído bombeado.
motor-bomba deve ser especial. O nível dinâmico é o ponto mais baixo da curva
O motor trabalha submerso, na posição do sistema para cálculo da altura manométrica total,
vertical, e tem sua forma de construção feita para por essa razão deve ser calculado com precisão, pois
operar em poços tubulares profundos, em alguns todo o dimensionamento do sistema de recalque
casos podem ser montados dentro de tubos verti­ dependerá desta informação.
cais e, neste caso, devem ser operados da mesma A Figura 5.29 apresenta os gráficos para a
forma que em poços tubulares profundos, ou na escolha da bomba, onde se observa a curva do
posição horizontal ou inclinada, caso o fabricante sistema, a curva da bomba escolhida e o ponto de
autorize. / trabalho.
Os motores das bombas submersas são arpefe-
cidos pelo fluxo ascendente da própria águáoom-
beada que circula entre a carcaça do motor e as
paredes do poço.
A parte interna do motor é preenchida com
água na fábrica. A água interna do motor tem duas
funções: resfriar através da troca de calor e contro­
lar a pressão interna do motor.
Antes de entrarem em operação os motores
devem ser novamente preenchidos internamente
com água limpa, sem aditivos, para compensar
eventuais perdas durante o transporte. Para tanto,
na carcaça do motor existem dois bujões, um para
a entrada da água e outro para a saída do ar. Os
bujões deverão ser fechados após a complemen-
tação da água. Figura 5.29 - Curva da bomba submersa e
Um fator que pode prejudicar o arrefecimento do sistema.
é a velocidade da água junto da parede do motor.
A velocodade ideal para a maioria dos projetos é
de 1 a 3 m/s. 5.8.3. Características técnicas do conjunto
motor-bomba submerso
* Vazão
O conjunto motor-bomba submerso deverá ser
É aquela que estará disponível na saída do adequado ao trabalho em água potável, em
sistema. temperatura ambiente e com teor de areia de
O crivo da bomba submersa deverá ter uma 15 g/m3. De um modo geral, o conjunto motor-
submergência mínima de 7 metros abaixo do nível bomba possui rotor radial para vazões até 35 m3/h
dinâmico final ou a submergência mínima fornecida e rotor semi-axial para vazões maiores.
pelo fabricante. Isto evitará o efeito “vórtice”, isto As características do conjunto motor-bomba
é, a entrada de ar pela sucção da bomba, resultante submerso são apresentadas a seguir.

146 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

a)Bomba O acoplamento do eixo do bombeador com o


eixo do motor deverá ser rígido, tipo luva ou através
A Figura 5.30 mostra o corte transversal de de luva de encaixe tipo macho-fêmea.
um conjunto motor-bomba submerso. No projeto do bombeador deverá ser prevista
Para a construção da bomba, normalmente são proteção contra a areia.
utilizados os seguintes materiais:
b) Motor
• Carcaça: ferro fundido GG-20, GG-25 ou aço inox;
• Rotor: bronze SAE 40; O motor deverá ser totalmente fechado,
• Eixo: aço inox; trifásico e com freqüência de 60 Hz. Para o diâme­
• Luva do mancai: aço A ISI420 ou AISI 316; tro do rotor selecionado, deverá ter potência sufi­
• Parafusos, porcas e arruelas que ficam em contato ciente para cobrir toda a curva da potência consu­
com a água: aço inox (obrigatoriamente); mida pela bomba.
• Crivo: aço inox. O cabo elétrico de alimentação deverá ser
trifásico, do tipo chato, próprio para o trabalho
submerso e deverá ser provido de dispositivo de
conexão com o terminal do motor.
Tendo-se em conta a distância do conjunto ao
quadro elétrico de comando e proteção, no dimen­
sionamento do cabo deverá ser considerada uma
queda máxima de tensão de 3%. /

5.9. DETALHES DO CAVALETEJWÍSAÍDA


DE POÇO TUBULAR PROFUNDO

A Figura 5.31 apresenta os detalhes do cava­


lete de saída de poço tubular profundo e as Fotos
5.6 e 5.7 ilustram esses cavaletes.

5.10. EXTRAÇÃO DE ÁGUA DE POÇOS


TUBULARES PROFUNDOS (*)

5.10.1. Considerações gerais

A extração de água de poços tubulares


Figura 5.30 - Corte transversal de conjuntos
profundos através de conjuntos motor-bomba
motor-bomba submersos.
submersos, pelas vantagens apresentadas em
relação aos outros tipos de equipamentos, tem
Os tipos de construção para alguns compo­ sido utilizada em praticamente todos os poços em
nentes são: operação nas comunidades operadas pela
SABESP no interior do Estado de São Paulo, para
• Carcaça: concêntrica; fins de abastecimento público.
• Rotor: radial ou semi-axial; Para os poços tubulares de grande vazão, um
• Lubrificação: pela própria água bombeada. dos problemas encontrados pelas áreas de operação

(*) Adaptado do trabalho elaborado pelos engenheiros João Baptista Comparini, Renato Orsi, Walter Antonio Orsatti e Luiz Caríos Dias de Barros, para a
Diretoria de Operação do Interior da SABESP.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 147

Foto 5.6 - Detalhes do cavalete do poço 16 Foto 5.7 - Detalhes do cavalete do ^oção 1da
da cidade de Lins, Estado de São Paulo. cidade de Fernandópolis, Estado de São Paulo.
VENTOSA SÍMPLES

e
CORTE

LAJE DE PROTEÇÃO

PLANTA

Figura 5.31 - Cavalete de saída de poço tubular profundo. Fonte: SABESP (1997).
148 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

e manutenção refere-se ao período excessivo de 5.10.2. Sistemas de extração de água


tempo gasto na substituição de conjuntos submer­
sos quando de avarias, com decorrente falta d’água A extração de água de poços com conjuntos
por período indesejado e suas implicações. Essa motor-bomba submersos podem ser feitos através de:
demora é causada principalmente por dois fatores:
necessidade de retirada e colocação da tubulação • Sistema convencional;
adutora e o peso da coluna, o que exige equipa­ • Sistema desenvolvido pela SABESP.
mento especial para execução do serviço.
Tendo por objetivo a redução de tempo para 5.10.2.1. Sistema convencional
substituição desses conjuntos motor-bomba, bem
como a redução dos custos desses serviços, foi O sistema convencional de extração de água
desenvolvido pela engenharia de operação do de poços tubulares com conjunto motor-bomba
interior, na SABESP, um sistema cujos resultados submerso (Figura 5.32) consta basicamente de:
recomendam a aplicação para uma parcela dos
poços que apresentam características adequadas, • Conjunto motor-bomba propriamente dito;
particularmente para poços de vazões elevadas. • Tubulação edutora acoplada à saída da bomba.
SAÍDA PARA BARRILETE

Figura 5.32 - Extração de água de poços tubulares profundos com conjunto motor-bomba
submerso —Sistema convencional.
CAPTAÇÀO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 149
A profundidade de lançamento do equipa­ Para os poços de grande vazão, ou melhor,
mento dentro do poço é determinada em função naqueles onde o peso da coluna não pode ser
da cota do nível d’água dinâmico (ND) para a suportado pelo guincho descrito (acima de 3 t), a
vazão a ser extraída. Em cerca de 1.000 poços ope­ operação tem sido efetuada com guincho do tipo
rados pela SABESP no interior do Estado de São Tadano, de 18 t de capacidade. Em vista do alto
Paulo essa profundidade varia normalmente numa custo desse equipamento e de sua utilização de
faixa de 30 a 150 m, contados a partir da cota da forma intermitente, ou seja, quando da ocorrência
tubulação de “boca” do poço. de manutenções, não se tem mostrado viável
Em comparação com o sistema de extração economicamente dispor desse tipo de equipamento
de água por conjunto motor-bomba de eixo prolon­ somente para manutenção em poços. Dessa forma,
gado, o tempo gasto na retirada e montagem de considerando a utilização desse guincho em outros
um conjunto motor-bomba submerso em poços é tipos de serviços, nem sempre há disponibilidade
substancialmente inferior. Ainda assim esse tempo, no momento necessário.
que varia geralmente de 4 a 14 horas, tem o incon­ Outra solução que se apresenta nos casos de
veniente de paralisação do bombeamento e abaste­ colunas com peso elevado é a execução de pórtico
cimento durante a execução dos serviços, com em cada poço, sendo a operação efetuada através
conseqüências de ordem sanitária e de saúde. de guincho de alta tonelagem ou talha elétrica, solu­
A operação de descida do equipamento de ções também de custo elevado e que apresentam
bombeamento no poço é feita acoplando-se, dificuldades no manuseio da tubulação edutora.
inicialmente, a saída do bombeador ao primeiro Afora o aspecto econômico dessas alternati­
tubo de edutor, através de rosqueamento. vas, o problema do tempo não fica solucionado,
A tubulação edutora é constituída normalmen­ uma vez que a operação de saque e montagem da
te de tubos de aço galvanizado com diâmetros que tubulação continua necessária.
variam de 50 a 250 mm, e comprimentos de 3 a 6
m. A partir do primeiro tubo a conexão entre este 5.10.2.2. Sistema desenvolvido na SABESP
e o subseqüente pode ser feita por luva rosqueável
ou flanges, e assim sucessivamente até a profundi­ Objetivando tanto a redução de tempo na
dade desejada. paralisação do bombeamento quanto a diminuição
A medida que a tubulação é descida, o cabo dos custos de manutenção, foi desenvolvido por
elétrico do motor e o tubo de medição de nível do técnicos de Operação do Interior da SABESP, um
poço são baixados conjuntamente, amarrados à sistema que afeta os dois quesitos discutidos acima:
tubulação. tempo e peso da coluna.
Além do aspecto relacionado ao tempo de O sistema consiste na instalação definitiva de
manutenção, outro a destacar refere-se ao peso da tubulação edutora no poço, com diâmetro tal que
coluna, que determina o tipo de equipamento permita a descida posterior do conjunto motor-
utilizado para a operação de saque e descida. Esse bomba no seu interior até a profundidade desejada,
peso é composto pelo conjunto motor-bomba, por meio de cabo de aço (Figura 5.33).
tubulação edutora, coluna d’água (função do Na extremidade inferior do primeiro tubo a
diâmetro da tubulação e profundidade do conjunto ser descido no poço é soldado em assento cônico
motor-bomba) e cabo elétrico. (fêmea), que servirá de apoio para a peça fixada
Nos poços operados pela SABESP os valores na saída da bomba (macho) quando de sua descida
variam entre 1 e 161aproximadamente, sendo que (Figura 5.34).
para a grande maioria, poços de pequena e média Após a colocação do primeiro tubo no poço
vazão, a operação é efetuada com guincho com os demais vão sendo conectados por meio de luvas
capacidade de 3 t e torre móvel, constituído com rosca, flanges, ou solda, até que a peça fêmea
basicamente por um motor de 5 HP, redutor, atinja a profundidade de instalação da bomba. A
sistema de freio e tambor com cabo de aço. Esse extremidade superior da coluna é então fixada no
conjunto é montado em uma base fixa, transpor­ tubo de boca do poço. O tubo de medição de nível
tável em veículos utilitários. é descido amarrado à tubulação edutora.
150 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Uma vez instalada a tubulação, a operação Quando da troca do conjunto motor-bomba


de descida do conjunto motor-bomba é feita por a operação restringe-se então ao simples saque
meio de cabo de aço, juntamente com o cabo do mesmo juntamente com o cabo elétrico, não
elétrico do motor. havendo necessidade da retirada da tubulação
Na saída do bombeador do conjunto motor- edutora. Isso implica uma redução substancial no
bomba é fixada uma peça macho, em cuja tempo de paralisação do bombeamento uma vez
superfície é assentado um anel de borracha que, que, sendo as barras de tubo de comprimento entre
aderindo à parede da peça fêmea dá a estanquei- 3 e 6 m, no sistema convencional há necessida­
dade necessária ao sistema. O peso do conjunto de de acoplamento entre os vários tubos a serem
motor-bomba, somado à pressão interna na sua descidos ou retirados, o que se constitui na opera­
saída quando do bombeamento, provoca a ção mais demorada.
aderência necessária, fazendo-se o recalque pelo O peso da coluna fica restrito ao do conjunto
tubo edutor. motor-bomba e cabo elétrico, possibilitando a

Figura 5.33 - Extração de água de poços tubulares profundos com conjunto motor-bomba
submerso - Sistema desenvolvido pela SABESR
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTE]
S S S T B ^A L T B V M nV Q DERETIRAtM DE SOMBA$

Figura 5.34- Detalhes do sistema para a extração de água de poços tubulares profundos. Fonte: O rsi(2003).
152 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

operação com o guincho de 3 t anteriormente mercado e os diâmetros comerciais de tubulações,


citado. chega-se aos diâmetros dos poços que poderão
receber esse tipo de sistema.
5.10.3. Aplicabilidade da solução Nos municípios operados pela SABESP,
tendo em vista as características dos poços já
A principal restrição a esse sistema de construídos, a utilização desse sistema é possível
extração de água refere-se ao diâmetro da câmara em vários poços tubulares. Esses poços, com
de bombeamento dos poços em operação. Consi­ vazões exploráveis acima de 140 m3/h, possuem
derando-se que o conjunto motor-bomba é descido diâmetros da câmara de bombeamento superio­
no interior da tubulação edutora, o diâmetro dessa res a 350 mm.
tubulação é superior ao dos sistemas convencio­ A aplicação dessa solução, se considerarmos
nais, exigindo diâmetros de poços adequados. os poços dos municípios não operados pela
O diâmetro externo dos conjuntos motor-SABESP no Estado de São Paulo e os poços com
bomba submerso de fabricação nacional, e características adequadas nos demais Estados do
comumente utilizados em poços profundos, varia país, podem abranger um número muito grande
numa faixa de 140 a 270 mm. Para a descida de unidades.
do conjunto no interior do edutor é necessária Para os projetos de novos poços tubulares
uma folga, evitando atrito do mesmo com a algumas alternativas poderiam ser analisadas em
parede da tubulação, e para que o conjunto função do sistema proposto:
motor-bomba não fique preso às paredes. É
importante um perfeito alinhamento entre as • Perfuração da câmara de bombeamento dos
barras de tubulação para evitar esse tipo de poços com diâmetro maior que os normalmente
problema. especificados;
Entre a parede do poço e a tubulação edutora • Instalação do tubo de revestimento da câmara
também há necessidade de folga pelos mesmos de bombeamento do poço já com a peça fêmea
tipos de problemas acima citados. incorporada, possibilitando o recalque pelo
Dessa forma, considerando os diâmetros mesmo, o que elimina a necessidade de tubulação
externos dos conjuntos motor-bomba existentes no edutora.
CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA 153
referências bibliográficas

AMISIAL, R.; FACTOR, A. Curso latino. Americano de GORDON, R. W. Perfuração de poços à percussão. 1968.
Captación en Desarollo. Argentina, 1976.
JOHNSON. Água subterrânea e poços tubulares. 2000.
CPRM. H idrogeologia: conceitos e aplicações. Serviço
Geológico do Brasil, 1997. LOGAN, B. Interpretação de ánalises químicas da água. 1965.

DINIZ, H. N.; MICHALUATE, W. J. In terp reta çã o de ORSI, R. Sistema alternativopara colocação ou retirada de bom­
te s te s d e v a z ã o em p o ç o s tu b u la r e s p r o fu n d o s - bas submersas de poços profundos. SABESP. ITEP. Lins, 2003.
D im ensionam ento e esp ecifica çõ es de bom bas su b m er­
sa. In stitu to G eo ló g ico . B o letim n° 16. São P a u ­ SABESP. Especificações técnicas sobre perfurações. 1964,
lo, 2002.
SABESP. Cavalete de saída de poço tubular profundo tipo “A ”
NEVES, B.; BLEY, B. M anual desenho de poços. 1967. Planta, Cortes e Detalhes. Departamento de Empreendimentos do
Interior. Superintendência de Planejamento e Apoio. Vice-
CANÕMAT, S.A. Instruciones pa ra calculo de filtro y Presidência Interior. 1997.
desarollo de poços.
ROCHA, G.A.; JARBAS, A.F. M anual de operação e
COMPARIN1, J. B. et al. Solução alternativa para extração manutenção de águas. DAEE. São Paulo, 1982.
de água de poços tubulares profundos. Revista DAE, Vol.
47, n° 149. Jun/Set 1987. SANTOS, J. P. et al. Construção, operação e manutenção
de poços. CETESB/USP, 1974.
Departamentos do Exército e da Força Aérea Norte-
Americana. Poços - M anual Técnico n° 5-297, 1967. SUDENE. Elementos de hidrogeologia prática. 1967.

DERÍSIO, J.C.; SOUZA, H.B. Guia técnico de coleta. TODD, D. K. Hidrologia de águas subterrâneas. 1959.
CETESB, 1976.
YASSUDA, E.R.; NOGAMI, P.S. Captação de água subterrâ­
GIAMPÁ, E. Q. Á guas subterrâneas e poços tubulares. nea. Capítulo 5. In: Técnica de Abastecimento e Tratamento
SABESP. Curso Interno. 1984. de Água. Vol. I. CETESB. São Paulo, 1976.
ADUTORAS

6.1. INTRODUÇÃO

Adutoras são canalizações dos sistemas de abastecimento de água que


conduzem a água para as unidades que precedem a rede de distribuição. Elas
interligam captação, estação de tratamento e reservatórios e não distribuem a
água aos consumidores. Dependendo do sistema há casos em que partem
ramificações da adutora principal (subadutoras), para levar água a outros pontos
do sistema, A Figura 6.1 apresenta a localização de adutoras em um sistema
de abastecimento de água.

Curso de água

zona alta por recalque

Figura 6.1. - Localização das adutoras em sistema de abastecimento de água. Fonte: Orsini
(1996).
As adutoras e subadutoras são unidades principais de um sistema de
abastecimento de água, necessitando de cuidados especiais na elaboração do
projeto e na implantação das obras. Recomenda-se uma criteriosa análise de
seu traçado em planta e perfil, a fim de verificar a correta colocação de seus
órgãos acessórios, assim como, ancoragens nos pontos onde ocorrem esforços
que possam causar o deslocamento das peças.
156 ABASTECIMENTO DE ÁGUA_____________

6.2. CLASSIFICAÇÃO DAS ADUTORAS 6.2.2.1. Adutoras por gravidade


As adutoras por gravidade são aquelas que
6.2.1. Quanto à natureza da água transpor­ transportam a água de uma cota mais elevada para
tada a cota mais baixa.
A adução por gravidade pode ser feita em:
Em função da natureza da água conduzida, as
adutoras podem ser denominadas: • Conduto forçado: a água está sob pressão maior
que a atmosfera (Figura 6.2);
• Adutoras de água bruta; • Conduto livre: a água permanece sob pressão
• Adutoras de água tratada. atmosférica (Figura 6.3).
Também, as adutoras por gravidade podem
As adutoras de água bruta são tubulações que ter trechos em conduto forçado e trechos em con­
transportam a água sem tratamento, enquanto que,
duto livre (Figura 6.4).
as tubulações que transportam a água tratada, são
denominadas adutoras de água tratada. 6.2.2.2. Adutoras por recalque

6.2.2. Quanto à energia para a movimentação As adutoras por recalque transportam a água
da água de um ponto a outro com cota mais elevada, atra­
vés de estações elevatórias. A Figura 6.5 apresen­
As adutoras podem ser classificadas, segundo ta a adutora por recalque simples, e a Figura 6.6, a
a energia utilizada para a movimentação da água: adutora por recalque duplo.

6.2.2.3 Adutoras mistas


• Adutora por gravidade;
• Adutora por recalque; As adutoras mistas se compõem de trechos por
• Adutoras mistas. recalque e de trechos por gravidade (Figura 6.7).

Reservatório

nível d ácmí»
Reservatório

Figura 6.3. - Adutora por gravidade em conduto livre.


ADUTORAS

Figura 6.4. - Adutora por gravidade com trechos em conduto livre.

Figura 6.5 - Adutora por recalque simples.

elevatória 1
Figura 6.6 - Adutora por recalque duplo.

Figura 6.7 - Adutora mista com trecho por recalque e trecho por gravidade.
158 ABASTECIMENTO DE AGUA

6.3. VAZÃO DE DIMENSIONAMENTO Adutora de água bruta (captação até a ETA)

Para o cálculo da vazão de dimensionamento f K .P q


das adutoras é necessário conhecer os seguintes
Qa =
86.400
+ Qe CETA (6.1)
fatores intervenientes:
• Adutora que interliga a ETA ao reservatório de
distribuição
• Horizonte de projeto;
• Vazão de adução; K .Pq
• Período de funcionamento da aciução. Qb = + Qe (6.2)
86.400
6.3.1. Horizonte de projeto • Adutora que interliga o reservatório à rede

O horizonte de projeto a ser considerado de­ q = KLK2g q +Q (6.3)


pende de vários fatores, tais como: c 86.400

• Vida útil da obra; onde: P = população a ser atendida, hab;


• Evolução da demanda de água; q = consumo médio per capita incluindo as
• Custo da obra; perdas de água, ^/hab.dia;
• Flexibilidade na ampliação do sistema; Kj = coeficiente do dia de maior consumo;
• Custo da energia elétrica. K2 = coeficiente da hora de maior consumo;
Q = vazão de consumo específico, Us\
A avaüação desses fatores, geralmente não é C™ , - Consumo na ETA.
hlA
tarefa fácil, de modo que, em sistemas de abaste­
cimento de água é normalmente utilizado um ho­ 6.3.3. Período de funcionamento da adução
rizonte de projeto situado entre 20 a 50 anos. _
r Para o cálculo da vazão de adução do item
6.3.2. Vazão de adução (^ )^ ^ ^ <anterior, considerou-se um período de 24 h/dia.
0^ Entretanto, se for considerado um período menor,
A vazão de adução é estabelecida em função a vazão deverá ser maior.
da população a ser abastecida, da cota per capita, Aduções por gravidade podem chegar a um
dos coeficientes de variação das vazões e do núme­ período diário de 24 horas, o que geralmente não
ro de horas de funcionamento. Também, as vazões acontece em aduções por recalque, onde normal­
de dimensionamento dependem da sua posição em mente se utiliza o período de bombeamento diário
relação ao sistema de abastecimento de água, con­ de 16 a 20 horas, devido à necessidade de manu­
forme se observa na Figura 6.8. tenção dos equipamentos eletromecânicos, falta de
As vazões a serem veiculadas nas adutoras de energia elétrica, etc.
um sistema de abastecimento de água, podem ser Outro aspecto que pode ser considerado para
calculadas da seguinte forma: definir o período de adução é o bombeamento fora

Curso de água

Figura 6.8 - Vazões a serem veiculadas nas adutoras.


ADUTORAS 159
do horário de ponta, do sistema elétrico, que po­ onde: Z = carga de posição, m;
derá diminuir os custos com energia elétrica. P = carga^de pressão
— -

Corresponde ao horário de ponta, o período de três


^ P
horas contínuas a ser estabelecido pela concessio­ (em conduto livre - = Y), m;
nária de energia elétrica compreendido entre 17:00 V2 V
e 22:00 horas, de segunda a sexta-feira. —— = carga cinética, m;
A fixação do período de funcionamento da 2g
adução deve ser definida em função do dimensio­ Ah = perda de carga.
namento hidráulico.
A equação (6.4) é conhecida como equação
6.4. HIDRÁULICA PARA ADUTORAS de Bemoulli.
Conhecendo-se a trajetória do líquido, pode-
6.4.1. Equações gerais se definir:

De um modo geral, para o dimensionamento • Z + —, corresponde à linha piezométrica;


das adutoras considera-se o escoamento em regi­
me permanente e uniforme. p V2
• Z + —+ , corresponde à linha de carga;
As equações gerais do escoamento são apre­
sentadas a seguir. P V2 .
• Z + —+— + Ah, corresponde ao plano de carga.
6.4.1.1. Equação de energia
6.4.I.2. Equação da continuidade
Considerando duas seções transversais do
escoamento, conforme mostram as Figuras 6.9 e A equação da continuidade é decorrente da
6.10, pode-se escrever a seguinte equação: lei de conservação de massa. Aplicando-se esse
conceito entre duas seções indicadas nas Figuras
(6.4) 6.9 e 6.10, de um conduto livre ou forçado, tem-se:
1 2g Y 2g

Plano de carga

1 2
figura 6.9 ~ Escoamento em conduto livre. Figura 6.10 - Escoamento em conduto
160 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Q = V1A1= V2A2 = VA = constante (6.5) onde n é o coeficiente de rugosidade de Manning.


Substituindo a equação (6.7) na equação (6.6) re­
onde: Q = vazão, m3/s; sulta:
V= velocidade média na seção, m/s;
A = área da seção de escoamento, m2. V = Í R “ I“ ou J ^ R h'3 (6.8)
6.4.2. Equações para cálculo das perdas de carga

6.4.2.I. Perdas distribuídas ^ = A R - ou <6'9>

a) Condutos livres
Embora a fórmula de Manning tenha sido
Existem várias equações que podem ser utili­ estabelecida para os condutos livres, também se
zadas para o cálculo das perdas de carga em aplica ao cálculo de condutos forçados.
condutos livres, tais como, Chézy, Manning, Uni­ Na Tabela 6.1 são apresentados os valores de
versal, Hazen-Williams, Ganguillet e Kutter, n para vários tipos de tubos.
Bazin, etc.
São apresentadas a seguir as equações de Tabela 6.1 - Valores do coeficiente n de
Chézy e Manning. A fórmula Universal é utiliza­ Manning.
da tanto para conduto livre como em conduto for­ M aterial dos condutos n de M anning
çado. Todas as equações citadas são apresentadas Cerâmico 0,013
com detalhes nos livros e manuais de hidráulica. Concreto 0,013
PVC 0,010
• Equação de Chézy (1775) Ferro fundido com revestimento 0,012
Ferro fundido sem revestimento 0,013
As fórmulas estabelecidas para o escoamen­ Cimento amianto 0,011
to dos condutos livres, baseiam-se na própria Aço soldado 0,011
expressão de Chézy. Poliéster, polietileno 0,011
V =c j R j (6.6) Fonte: Tsutiya e Alem Sobrinho (1999).
onde: Y = velocidade média do escoamento, m/s; b) Condutos forçados
Rh = raio hidráulico, m;
I = declividade da linha de energia, m/m; Também neste caso, existem várias equações
C = coeficiente de Chézy. para o cálculo das perdas de carga em condutos
forçados, destacando-se a fórmula Universal e a
O coeficiente C depende não só da natureza e de Hazen-Williams.
estado das paredes dos condutos, mas também da
sua própria forma, havendo fórmulas em que seu • Fórmula Universal (1850)
valor relaciona-se ainda à declividade.
Darcy, Weisbach e outros deduziram uma fór­
• Equação de Manning (1890) mula para determinar as perdas de carga por atrito
em condutos, a partir dos resultados efetuados em
A partir da equação de Chézy, Manning obte­ várias tubulações. Essa equação também conheci­
ve um coeficiente de resistência, dependente tam­ da como fórmula Universal, tem a seguinte forma
bém do raio hidráulico. para tubos circulares:
ADUTORAS 161
Em termos de vazão (Q), a equação (6.10) se Para escoamento não laminar situados na zona
transforma em: de transição, 2.000 < R <4.000, o valor de f pode
ser determinado pela expressão de Colebrook:
8f LQ2
Áh =
7i2 g D 5 K 2,51
^ = -2,og 0,27 — + (6.15)
D RVf
onde: Ah - perda de carga, m;
f = coeficiente de atrito; Na Tabela 6.2 são apresentados os valores das
L = comprimento da tubulação, m; rugosidades das tubulações (K) para serem utili­
V = velocidade média, m/s; zados na fórmula Universal.
D = diâmetro da tubulação, m;
g = aceleração da gravidade, m/s2; • Fórmula de Hazen-Williams (1903)
Q = vazão, m3/s.
Dentre as fórmulas empíricas mais utilizadas
O valor de f varia em função do número de na engenharia sanitária, encontra-se a de Hazen-
Reynolds (R), rugosidade e dimensões da tubula­ Williams, cuja expressão é:
ção e de outros fatores. Portanto, f = <p (R, K/D),
onde K/D é a rugosidade relativa. J = 10,65 Q1,85CT1,85D ^’87 (6.16)
O número de Reynolds é dado pela equação onde: J = perda de carga unitária, m/m;
(6.12). Q = vazão, m3/s;
D = diâmetro, m;
(6.12) C = coeficiente de rugosidade.
M-
onde: R = número de Reynolds, adimensional; A fórmula também pode ser escrita explici­
V = velocidade, m/s; tando a vazão ou a velocidade:
D = diâmetro da tubulação, m; (6.17)
Q = 0,279 CD2’63J0’54
p = densidade do fluido, kg/m3;
ju = viscosidade dinâmica do fluido, N.s/m2;
v = viscosidade cinemática do fluido, m2/s. V = 0,355 CD 0,63 Jt 0,54 (6.18)
O coeficiente C depende de natureza e do es­
Para tubos lisos com escoamento laminar, tado das paredes do tubo. A Tabela 6.3 apresenta
R < 2.000, o valor de f pode ser determinado pela os valores de C normalmente utilizados em projetos.
equação (6.13). A fórmula de Hazen-Williams, a despeito de
sua popularidade entre projetistas, deve ser vista
f =— (6.13) com reservas. Em problemas de condução de água,
R que pela sua importância exija avaliação das per­
Para tubos rugosos com escoamento turbu­ das de água tão rigorosa quanto possível, diante da
lento, R < 4.000, a relação entre o coeficiente de incerteza sobre o tipo de escoamento turbulento,
atrito (f), rugosidade relativa (K/D) e o número de deve-se utilizar a fórmula Universal (Porto, 1998).
Reynolds (R) é mais complicada. Para números
de Reynolds elevados, o coeficiente de atrito é in­ 6.4.2.2. Perdas localizadas '"'W5* Pe
dependente do número de Reynolds.
Para tubos rugosos o valor de f pode ser de­ De um modo geral, as perdas de carga locali­
terminado pela expressão de Karman-Pradtl. zadas, podem ser expressas por uma equação do
tipo:

Í =U4+2l0gl (6.14)
AhL = K (6.19)
2g
162 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

onde: AhL = perda de carga localizada, m; O valor de K pode ser obtido experimen­
K = coeficiente adiraensional que depende da talmente para cada caso. Os manuais de hidráu­
singularidade, do número de Reynolds, lica trazem os valores de K para cada tipo de
da rugosidade da parede e, em alguns singularidade. Outra forma de calcular a perda
casos, das condições de escoamento; de carga é através de seu comprimento equiva­
V = velocidade média, m/s; lente em tubulação retilínea, do mesmo mate­
g = aceleração da gravidade, m/s2. rial e diâmetro.

Tabela 6.2 - Rugosidade das tubulações.


MATERIAL RUGOSIDADE (K) (mm)
TUBO DE AÇO: JUNTAS SOLDADAS E INTERIOR CONTÍNUO
• Grandes incrustações ou tuberculizações 2,4 a 12,0
• Tuberculização geral de 1 a 3 mm 0,9 a 2,4
• Pintura à brocha, com asfalto, esmalte ou betume em camada espessa 0,6
• Leve enferrujamento 0,25
• Revestimento obtido por imersão em asfalto quente 0,1
• Revestimento com argamassa de cimento obtida por centrifugação 0,1
• Tubo novo previamente alisado internamente e posterior revestimento de 0,06
esmalte, vinyl ou epóxi obtido por centrifugação
TUBO DE CONCRETO
• Acabamento bastante rugoso: executado com formas de madeira muito 2,0
rugosas; concreto pobre com desgastes por erosão; juntas mal alinhadas
• Acabamento rugoso: marcas visíveis de formas 0,5
• Superfície interna alisada a desempenadeira; juntas bem feitas 0,3
• Superfície obtida por centrifugação 0,33
• Tubo de superfície lisa, executado com formas metálicas, acabamento médio 0,12
com juntas bem cuidadas
• Tubo de superfície interna bastante lisa,, executado com formas metálicas, 0,06
acabamento esmerado, e juntas cuidadas
TUBO DE CIMENTO AMIANTO 0,1
TUBO DE FERRO FUNDIDO (NOVO)
• Revestimento interno com argamassa de cimento e areia obtida por 0,1
centrifugação com ou sem proteção de tinta a base de betume
• Não revestido 0,15 a 0,6
• Leve enferrujamento 0,30
TUBO DE PLÁSTICO 0,06
TUBOS USADOS
• Com camada de lodo inferior a 5,0 mm 0,6 a 3,0
• Com incrustações de lodo ou de gorduras inferiores a 25 mm 6.0 a 30,0
• Com material sólido arenoso depositado de forma irregular 60.0 a 300
Nota:
• Para adutoras medindo mais de 1.000 m de comprimento: 2,0 vezes o valor encontrado na
tabela acima para o tubo e acabamento escolhidos.
• Para adutoras medindo menos de 1.000 m de comprimento: 1,4 vezes o valor encontrado na
tabela para o tubo e acabamento escolhidos.
Fonte: PNB-591/ABNT (1997).
ADUTORAS 163
A Tabela 6.4 apresenta os valores aproxima­ outros aspectos devem ser considerados para o tra­
dos de K para as peças e perdas mais comuns na çado da adutora, tais como: a influência do plano
prática. Para Azevedo Netto et al (1998), essa ta­ de carga e da linha piezométrica; localização e
bela foi elaborado com base em dados disponíveis perfil da adutora; faixas de servidão ou desapro­
mais seguros e fidedignos. priação para a implantação e operação das adutoras.
Para o dimensionamento das adutoras, em
conduto livre ou em conduto forçado, a rigor, 6.5.1. Ttaçado da adutora e a posição do plano
devem ser consideradas as perdas de carga locali­ de carga e a linha piezométrica
zadas na entrada e ny saída das tubulações, nas
mudanças de direção e nas peças especiais que pos­ As adutoras por gravidade podem estar total­
sam eventualmente existir no projeto. Contudo, tais mente abaixo, coincidentes ou acima, em alguns
perdas localizadas atingem na maioria dos casos pontos, do plano de carga e da linha piezométrica,
um valor desprezível, comparativamente às per­ como mostra a Figura 6.11.
das por atrito ao longo da tubulação. Por esse mo­ Portanto, podem ser consideradas dois planos
tivo, são geralmente desprezadas nos cálculos mais de carga: o absoluto, em que se considera a pressão
comuns (Yassuda e Nogami, 1976). atmosférica, e o efetivo, referente ao nível de
montante. Em correspondência, são consideradas
a linha de carga absoluta e a linha de carga efetiva.
6.5. TRAÇADO DA ADUTORA
• Adutora localizada abaixo da linha piezomé­
Uma vez definido o esquema geral do siste­ trica efetiva em toda a sua extensão
ma de abastecimento de água, com a posição das
diversas unidades em planta, deverá ser feito o tra­ Para uma adutora por gravidade, que liga dois
çado da adutora, que normalmente é função das reservatórios mantidos em níveis constantes,
características topográficas do terreno. Entretanto, suficientemente longas para que se possam des-

Tabela 6.3 - Valor do coeficiente C para a fórmula de Hazen-Williams.

TUBOS USADOS USADOS


NOVOS
± 10 ANOS 20 ANOS
Aço corrugado (chapa ondulada) 60 - -

Aço galvanizado roscado 125 100 -

Aço rebitado, novos 110 90 80


Aço soldado, comum (revestimento betuminoso) 125 110 90
Aço soldado com revestimento epóxico 140 130 115
Chumbo 130 120 120
Cimento-amianto 140 130 120
Cobre 140 135 130
Concreto, bom acabamento 130 - -

Concreto acabamento comum 130 120 110


Ferro fundido, revestimento epóxico 140 130 120
Ferro fundido, revestimento de argamassa de cimento 130 120 105
Grés cerâmico, vidrado (manilhas) 110 110 110
Latão 130 130 130
Madeira, em aduelas 120 120 110
Tijolos, condutos bem executados 100 95 90
Vidro 140 - -

Plástico (PVC) 140 135 130


Fonte: Azevedo Netto et a! (1998).
164 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Tabela 6.4 - Valores de K para o cálculo das perdas de carga localizadas.


Peça K Peça K
Ampliação gradual 0,30* Junção 0,40
Bocais 2,75 Medidor Venturi 2,50**
Comporta aberta 1,00 Redução gradual 0,15*
Controlador de vazão -2 ^ 0 Saída de canalização 1,00
Cotovelo de 90° 0,90 Tê, passagem direta 0,60
Cotovelo de 45° 0,40 Tê, saída de lado 1,30
Crivo 0,75 Tê saída bilateral 1,80
Curva de 90° 0,40 Válvula de ângulo aberta 5,00
Curva de 45° 0,20 Válvula de gaveta aberta 0,20
Curva de 22,5° 0,10 Válvula borboleta aberta 0,30
Entrada normal em canalização 0,50 Válvula-de-pé 1,75
Entrada de borda 1,00 Válvula de retenção 2,50
Existência de pequena derivação 0,03 Válvula de globo aberta 10,00
Velocidade 1,00
* Com base na velocidade maior (seção menor)
**Relativa à velocidade na canalização________
Fonte: Azevedo Netto et of (1998).

— Traçado das adutoras


P.C. Plano de Carga
L.P. Linha Piezom étrica

Figura 6.11 -Traçado das adutoras por gravidade e a posição do plano de carga e da linha piezométrica.

prezar as perdas localizadas, com comprimento ta condição, a perda de carga total é igual ao des­
(L), diâmetro (D) e sem alteração do material da nível geométrico correspondente à diferença de
tubulação, apresenta o esquema piezométrico con­ cotas das superfícies livres dos reservatórios.
forme Figura 6.12. Como a velocidade média de
escoamento encontra-se em tomo de 1 a 2 m/s, o • T\ibulação coincide com a linha piezométrica
que significa que a carga cinética se situa entre efetiva
0,05 a 0,20 m, valores bem menores que as outras
formas de energia, de modo que admite-se a coin­ Neste caso, o escoamento será em conduto
cidência das linhas de carga e piezométrica, uma livre (Figura 6.13). É recomendável que em situa­
vez que a carga cinética pode ser desprezada. ções reais, sejam projetadas as adutoras segundo
A adutora encontra-se na sua totalidade abai­ esta posição, ou quando em conduto forçado, na
xo da linha de carga efetiva (linha piezométrica posição anterior, pois se a tubulação cortar a linha
efetiva), de modo que as seções da adutora estão piezométrica efetiva as condições de funcionamen­
submetidas a uma carga de pressão positiva. Nes­ to não serão satisfatórias.
ADUTORAS 165

Descarga

Figura 6.12 - Adutora por gravidade com tubulação assentada abaixo da linha piezométrica efetiva.

Plano de carga absoluto

Reservatório
R-2
Figura 6.13 - Adutora por gravidade com tubulação em conduto livre.

• Tubulação acima da linha piezométrica linha piezométrica corta a adutora entre os pontos
efetiva, porém abaixo da linha piezométrica A e B, a carga de pressão absoluta, nesse trecho é
absoluta inferior à pressão atmosférica local. Em virtude
dessa pressão negativa, o escoamento toma-se
A Figura 6.14 apresenta a situação em que irregular, pois nesse trecho há um acúmulo de ar
trechos da tubulação localizam-se acima da linha com formação de bolsas de ar e conseqüente
piezométrica efetiva, porém abaixo da linha piezo­ diminuição da vazão de escoamento. Nessas
métrica absoluta. condições, não é recomendável a instalação de
Neste caso, estando a adutora previamente ventosas, pois entraria mais ar por elas, sendo
cheia, o escoamento deveria acontecer em condi­ necessária equipamentos ou outros meios para
ções normais, sob a carga Ah. Entretanto, como a extrair o ar.
166 ABASTECIMENTO DE ÁGUA
Plano de carga absoluto

R-2

Figura 6.14 - Adutora por gravidade com trecho da tubulação abaixo da linha piezométrica
absoluta, porém acima da piezométrica efetiva.

• TYibulação corta a linha piezométrica efetiva 6.5.2. Recomendações para o traçado das adu­
e o plano de carga efetivo, mas fica abaixo da toras
linha piezométrica absoluta
Para diminuir os custos de implantação das
A Figura 6.15 apresenta a situação em que a adutoras são apresentadas a seguir as principais
tubulação corta a linha piezométrica efetiva e o recomendações para o traçado:
plano de carga efetivo, entretanto, fica abaixo da
linha piezométrica absoluta. * A adutora deverá ser implantada, de preferência
Conforme se observa na Figura 6.15, trata-se em ruas e terrenos públicos;
de um sifão funcionando em condições precárias, * Deve-se evitar traçado onde o terreno é rochoso,
exigindo escorva sempre que entrar ar na tubulação. pantanoso e de outras características não adequadas;

Reservatório
R-2

Figura 6.15 - Adutora por gravidade com trecho da tubulação acima da linha piezométrica efetiva
plano de carga efetivo, porém abaixo da linha piezométrica absoluta.
ADUTORAS 167
• A adutora deve ser composta de trechos 6.5.3. Faixas de servidão ou desapropriação
ascendentes com declividade não inferior a 0,2%
e trechos descendentes com declividade não A adutora deve ser instalada de preferência
inferior a 0,3%, mesmo em terrenos planos; em faixas de domínio público, entretanto não sen­
• Quando a inclinação do conduto for superior a do possível, deve prever a desapropriação da fai­
25%, há necessidade de se utilizar blocos de xa ou a instituição de servidão sobre ela. As largu­
ancoragem para dar estabilidade ao conduto; ras recomendadas para essas faixas encontram-se
• Não se devem executar trechos de adução definidas na Tabela 6.5. É importante observar que
horizontal; no caso do perfil do terreno seja hori­ a largura da faixa deve ser definida considerando-
zontal, o conduto deve apresentar alternada­ se as necessidades para execução e futura manu­
mente, perfis ascendentes e descendentes; tenção das adutoras, e a tolerância do proprietário
• São recomendados os traçados que apresentam que a concede.
trechos ascendentes longos com pequena decli­
vidade, seguido de trechos descendentes curtos, Tabela 6.5 - Largura da faixa de servidão ou
com maior declividade; desapropriação em função dos diâmetros das
• A linha piezométrica da adutora em regime adutoras.
permanente deve situar-se, em quaisquer condi­ Diâmetro da tubulação Largura da faixa
ções de operação, acima da geratriz superior do (mm)_____________________ (m)
conduto.
Até 400 2,00 "
Acima de 400 até 800 3,00
Para o traçado definitivo da adutora (Figura
Acima de 800 até 1.500 4,00
6.16), recomendam-se as seguintes atividades:
Acima de 1.500 Estudar cada caso
• Inspeção de campo para a escolha da melhor Fonte: SABESP NTS 021 (1999). ~
alternativa de traçado;
• Levantamento topográfico planialtimétrico e
6 6 . . DIMENSIONAMENTO HIDRÁULICO
cadastral de uma faixa envolvendo o melhor
traçado (de 30 a 60 metros de largura);
6.6.1. Adutora por gravidade
• Sondagens de terreno a trado e a percussão ao
longo da faixa, para obtenção de informações
Para as adutoras por gravidade, geralmente
geotécnicas sobre o subsolo;
são significativos os custos da tubulação e de seu
• Com os dados dessas três atividades, deverá ser
assentamento, sendo que os custos de operação e
lançado na planta da faixa, o eixo da adutora,
manutenção, de modo geral têm pouca variação
que deverá ser estaqueado de 20 em 20 metros;
em função do diâmetro, não sendo considerado no
• Elaboração do perfil do terreno e da adutora.
estudo das alternativas. Portanto, a determinação
do diâmetro da adutora por gravidade, do ponto
Ao se elaborar o traçado, o projetista deve
de vista econômico se resume no aproveitamento
estar atento aos aspectos apresentados a seguir que
máximo da seção da tubulação e na altura geomé­
dizem respeito à sua construção e operação:
trica disponível.
Os parâmetros para o cálculo da adutora são:
• Evitar que o perfil da adutora corte a linha piezo­
métrica;
• Vazão (Q);
• Evitar ou minimizar as obras para travessia dos
• Velocidade (V);
fundos de vale;
• Perda de carga unitária (I);
• Procurar sempre o terreno com melhores condi­
• Diâmetro (D).
ções de solo, procurando evitar os rochosos,
alagadiços e de baixa resistência;
A adução por gravidade pode ser feita em
• Procurar minimizar o problema de desapropria­
conduto forçado e em conduto livre.
ção ou da faixa de utilização.
168 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

PLANTA

PERFIL

Figura 6.16 - Planta e perfil de uma adutora.


ADUTORAS 169
. .I.I.
6 6 Adutora por gravidade em conduto qualidade de água, tem sido normalmente adotado
forçado nos projetos, o valor de 0,5 m/s para velocidade
mínimas nas adutoras.
Neste caso, o escoamento se dará entre um
nível d’água mais elevado (cota NAj) e um mais
Tabela 6.6 - Velocidade mínima nas adutoras.
baixo (cota NA2), sendo a diferença dessas cotas a
energia disponível para o escoamento. Assim sen­ Q ualidade da água Velocidade
do, na fórmula Universal: mínima (m/s)
Águas com suspensões finas 0,30
L V2 Águas com areias finas 0,45
õ '2 g (6'20) Águas com matéria orgânica 0,60

onde: Ah = cota NAt - cota NA2, m;


Fonte: Martins {1976).
f = coeficiente de atrito;
Para o dimensionamento das adutoras revesti­
L = comprimento da adutora, m;
das em condutos livres, os limites máximos para
D = diâmetro da adutora, m;
as velocidades são indicados na Tabela 6.7.
V = velocidade média da água, m/s;
g = aceleração da gravidade, m/s2.
Tabela 6.7 - Ve! ocidades máximas em
Geralmente, a vazão (Q) é conhecida, sendo conduto livre.
o diâmetro (D) o parâmetro que se pretende deter­ M aterial Velocidade
minar. Como se dispõe somente de duas equações, máxima (m/s)
a da continuidade (equação 6.21) e da perda de Alvenaria de tijolos 2,5
carga na tubulação (equação 6.22), apresentadas a Rochas estratificadas 2,5
seguir: Rochas compactas 4,0
Concreto 5,0
Q=— V (6 .21) Fonte: NB - 591 /ABNT (1991).
A escolha da velocidade máxima nas adutoras
(6 .22) em conduto forçado, geralmente depende dos se­
D 2g
guintes fatores (Azevedo Netto et al, 1998):
é necessário fixar um dos parâmetros, J ou V, para
determinar D, e em seguida, verificar se o valor • Condições econômicas;
do parâmetro adotado é aceitável. • Condições relacionadas ao bom funcionamento
A velocidade na tubulação é o primeiro parâ­ dos sistemas;
metro a ser estudado. Pequenas velocidades favo­ • Possibilidade de ocorrência de efeitos dinâmicos
recem a formação de depósitos de materiais sedi- nocivos (sobrepressões prejudiciais);
mentáveis nas tubulações e dificultam a remoção • Limitação da perda de carga;
hidráulica de ar nos pontos altos. Por outro lado, • Desgaste das tubulações e peças acessórias
velocidades elevadas aumentam as perdas de carga (erosão);
e favorecem o aparecimento de transientes hidráu­ • Controle da corrosão;
licos, cujas sobrepressão e subpressão nas tubula­ • Ruídos desagradáveis.
ções, variam em função da velocidade.
Quando a adutora transporta água com mate­ Para os diversos tipos de materiais das aduto­
rial sólido, deve-se observar limite mínimo para a ras, como: concreto, ferro fundido, aço e plásticos,
velocidade de modo a impedir a deposição de se­ os limites máximos de velocidade apresentados na
dimentos. A Tabela 6.6 apresenta a velocidade literatura tem variado em 4,0 a 6,0 m/s. Entretanto,
mínima em função da qualidade da água. Apesar levando-se em conta os aspectos técnicos e econômi­
da variação da velocidade mínima em função da cos, o limite máximo de velocidade nas adutoras
170 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

não tem ultrapassado o valor de 3,0 m/s. Para Rey Ah = 576,25 - 552,69 = 23,56 m
et al (1996) é recomendável que a velocidade má­
Para se obter o menor diâmetro, toda a ener­
xima seja menor, não ultrapassando 1,5 m/s.
gia disponível deverá ser utilizada para vencer as
resistências, ou seja, fazer o desnível entre reser­
. .1.2.
6 6 Adutora por gravidade em conduto
vatórios iguais à perda de carga contínua.
livre
Àh 23,56
Quando as condições topográficas forem fa­ J = — = -------= 0,0044 m/m
L 5.350
voráveis, é possível a adutora funcionar como con­
duto livre. O seu dimensionamento é feito em fun­
• Cálculo do diâmetro da adutora
ção de uma declividade disponível, utilizando-se
de preferência a fórmula de Chézy. Sendo conhecidos:
No dimensionamento dos trechos da adutora
sujeitos a escoamentos gradualmente variados, • Q = 143 íls;
deve-se efetuar o cálculo das curvas de remanso. • J = 0,0044 m/m;
• C = 130 (valor obtido da Tabela 6.3)
Exercício 6.1 pode-se determinar o diâmetro da adutora através
Em um sistema de abastecimento de água, da equação de Hazen-Williams.
uma adutora que interliga 2 reservatórios (Figura
J = 10,65 Q1,85C-1’85D-4’87
E.l), deverá transportar uma vazão de 143 //s.
Sabendo-se que, o comprimento da adutora é de 1_
5.350 m e os níveis médios de água nesses reser­ 10,65 Q 4,87
D=
vatórios correspondem às cotas altimétricas de
576,25 m e 552, 69 m, determinar:
• Diâmetro da adutora; 10,65 (0,143)1,85(I30r1,85l 4'87
D=
• Vazão máxima a ser veiculada e a sua velocidade. 0,0044 J
O material da adutora é de ferro fundido dúctil D = 0,372 m —> Adota-se: D = 400 mm.
novo com revestimento de argamassa de cimento.
Utilize a fórmula de Hazen-Williams, desprezan­ • Cálculo da vazão máxima
do as perdas de cargas localizadas.
Através da equação de Hazen-Williams obtém-
Solução se a vazão máxima a ser veiculada na adutora.
• Determinação da perda de carga Q = 0,279 C D2’63 J0’54
O desnível entre reservatórios (carga dispo­ Q = 0,279 (130) (0,400)2,63(0,0044)°>54
nível) será: Q = 0,174 m3/s = 174 ih
ADUTORAS 171
• Cálculo da velocidade • Aquisição e assentamento dos tubos, peças e
aparelhos;
Conhecidos a vazão e o diâmetro, obtém-se a • Aquisição do conjunto motor-bomba adequado
velocidade pela equação da continuidade. a cada valor do diâmetro;
• Operação, manutenção e consumo de energia
elétrica;
• Amortização e juros.
V ^ l Q - = .4 (0:.174) =1,38 m/s
tcD“ 7c(0,400) A Figura 6.17 apresenta as relações entre o
custo de investimento e o custo de operação em
função do diâmetro, de modo que, quando passam
6.6.2. Adutora por recalque por um custo mínimo, tais relações correspondem
ao diâmetro econômico da adutora.
Para o dimensionamento da adutora por recal­ A velocidade econômica em adutoras por
que, geralmente são conhecidos: recalque tem-se situado, de um modo geral, entre
1,0 a 1,5 m/s.
• Vazão de adução, Q;
* Comprimento da adutora, L;
Recomendações para o estudo do diâmetro
* Desnível a ser vencido,’ Hg;
econômico da adutora
• Material da adutora.
Para a escolha do diâmetro econômico, reco­
O diâmetro da adutora por recalque é hidrauli­
menda-se:
camente indeterminado, sendo que para a mesma
vazão, diminuindo-se o diâmetro, aumenta-se a
• Pré-dimensionamento do diâmetro através da
potência do equipamento de recalque e vice-versa.
fórmula de Bresse, utilizando-se, no mínimo, os
Existem, portanto, vários pares diâmetro-potência
valores de K de 0,9, 1,0,1,1 e 1,2. A fórmula de
que permitem solucionar a questão, para a mesma
Bresse é apresentada a seguir:
vazão de bombeamento.
A determinação do diâmetro da adutora nor­
d = k VÕ (6-23>
malmente é feita levando-se em consideração
aspectos econômico-financeiros, por isso sendo onde: D - diâmetro, m;
escolhido o diâmetro que conduz ao mínimo cus­ Q = vazão, m3/s;
to de implantação, de operação e manutenção do K = coeficiente de Bresse.
sistema elevatório. Portanto, a escolha final do
diâmetro da adutora é feita após cotejo técnico- O valor do coeficiente de Bresse é função da
econômico, para diferentes valores do diâmetro da velocidade econômica (V) de escoamento na
tubulação, considerando-se os custos de: adutora e pode ser determinado pela expressão:

Custo

Deconômico
Figura 6.17 - Determinação do diâmetro econômico da adutora.
172 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Além dos aspectos relacionados, também de­


vem ser considerados outros fatores na seleção do
tipo de material das tubulações, tais como: carac­
• Análise econômica através do critério do valor pre­ terísticas do local (declividade do terreno, altura
sente, com taxa de desconto de 12% ao ano, ou indi­ de aterro, tipo de solo, localização do lençol freáti­
cada pelo órgão financiador do empreendimento; co); disponibilidade (dimensões, espessuras, jun­
• Consideração de todos os custos não comuns, tas e acessórios); propriedades do material (reves­
tais como: timentos, resistência à fadiga, resistência à corro­
- custo de aquisição e implantação da adutora; são); pressões externas (peso da teira, carga do trá­
- custo dos equipamentos; fego) e métodos de assentamento.
- despesas de energia elétrica;
• As obras comuns, como tubulações da elevatória, 6.7.2. Principais materiais das tubulações
blocos de ancoragem, descargas, ventosas, etc,
não necessitam ser consideradas; Os principais materiais utilizados na fabrica­
• Definição das etapas de implantação da adutora ção de tubos utilizados para os sistemas de abaste­
e dos conjuntos motor-bomba; cimento de água são:
• Alternativas a serem estudadas com o mesmo tipo
de bomba e também com a mesma modulação. • lYibos metálicos
- Aço;
- Ferro fundido dúctil;
6.7. MATERIAIS DAS ADUTORAS - Ferro fundido cinzento (não está sendo fabri­
cado no Brasil).
6.7.1. Considerações gerais a Tubos não metálicos
- Materiais plásticos (PVC, poliéster reforçado
Em um sistema de abastecimento de água, com fibra de vidro);
a tubulação é normalmente definida como sendo - Concreto protendido;
2? um conjunto de tubos e conexões com a finalidade - Cimento amianto (não está sendo fabricado no
de transportar água de um ponto a outro. Para esse Brasil),
íj/j' transporte, os materiais utilizados nas tubulações
ff devem atender aos seguintes aspectos: Todos esses materiais, de um modo geral,
• Qualidade de água: o material da tubulação não podem ser utilizados em adutoras. Entretanto, sen­
deverá prejudicar a qualidade de água, não deverá do o aço, o ferro fundido dúctil e o concreto proten­
ser dissolvido pela água, e se dissolver, não dido, os mais utilizados em adutoras, estes serão
deverá provocar danos aos usuários; objeto deste capítulo. Quanto aos materiais plásti­
• Quantidade de água: a seção da tubulação não cos, serão apresentados com detalhes no Capítu­
deverá sofrer modificação, e sua rugosidade inter­ lo 9 - Redes de Distribuição de Água.
na, não deverá sofrer alteração sensível durante o
decorrer do tempo; 6.7.2.I. Tubulação de aço
• Não provocar vazamentos nas juntas;
• Não provocar trincas, corrosões e arrebentamen- A tubulação de aço geralmente é competitivo
tos por ações externas e internas; com o ferro fundido dúctil para grandes diâmetros
• Pressão de água: os materiais devem resistir aos e pressões elevadas.
esforços internos, inclusive contra os transitórios As principais vantagens da tubulação de aço
hidráulicos, sem provocar trincas, arrebentamen- são: alta resistência às pressões internas e exter­
tos e vazamentos nas juntas; nas; vazamentos quase inexistentes quando forem
• Economia: os materiais devem satisfazer condi­ soldadas; baixa fragilidade; e são disponíveis para
ções técnicas pelo menor custo, ter durabilidade, vários diâmetros e tipos de juntas. Como desvan­
resistir à ação de choques, permitir o menor núme­ tagem, destaca-se a pouca resistência à corrosão
ro de juntas e facilitar a operação e manutenção. externa, necessitando de revestimentos especiais
ADUTORAS 173
e proteção catódica, e, além disso, a tubulação de • Junta flangeada: geralmente utilizadas em
aço necessita de uma série de precauções, como o tubulações de sucção e no barrilete de estações
transporte e armazenamento adequado dos tubos, elevatórias, onde facilitam as montagens e
cuidados com a dilatação térmica e dimensiona­ desmontagens e dispensam os blocos de ancora­
mento adequado quanto ao colapso das paredes gem;
dos tubos. • Junta elástica: utilizada para tubulação de aço
As juntas da tubulação de aço podem ser: com ponta e bolsa e tem a vantagem da facilidade
de montagem e manuseio dos tubos, permite
• Junta soldada: podem ser de aço biselado ou deflexões com perfeita estanqueidade e dispensa
de ponta e bolsa. A tubulação de aço biselado é a necessidade do uso da areia na execução da
formada por duas pontas lisas, sendo as mesmas envoltória para o seu assentamento.
com extremidades biseladas para soidas, e são
geralmente utilizadas para adutoras de alta A Figura 6.18 apresenta os vários tipos de
pressão, e tem como vantagens, a boa estanquei- juntas soldadas e juntas elásticas em tubulações
dade em aplicações aéreas e enterradas, e elimi­ de aço.
nação de blocos de ancoragem. A tubulação de Todas as estruturas e tubulações metálicas
aço ponta e bolsa são formadas por uma ponta enterradas estão sujeitas às ações corrosivas de
lisa e uma bolsa expandida na extremidade do natureza eletroquímica ou eletrolítica, havendo
tubo ou conexões, e tem as vantagens da facili­ necessidade de revestimentos internos e externos.
dade de montagem, sistema intercambiável com Esses revestimentos são executados especifica­
outros sistemas de ponta, bolsa e junta elástica, mente de acordo com as aplicações dos tubos e
permite deflexões e dispensa solda de raiz e solda acessórios, obedecendo as normas e padrões nacio­
de topo; nais e internacionais.

a) Junta soldada
zzzzzz#fczzzz>
CD (1) Junta soldada nas extremidades
( 2)
(2) Junta soldada nas extremidades com anel
¥ / / / / / / / % / / / / / /y (3) Junta com solda dupla nas extremidades
(3 ) (4) Junta com solda tipo copo
(5) Junta com solda nas duas extremidades

(4 ) (5 )

b) Junta elástica
ANEL-JE
BOLSA

ANTES da MONTAGEM

APÓS a MONTAGEM APÓS a MONTAGEM

Figura 6.18 - Tipos de juntas em tubulações de aço.


174 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Os principais revestimentos externos podem O ferro fundido dúctil é obtido a partir de um


ser (Confab, 2002): ferro gusa, no qual se introduz pequena quantida­
de de magnésio, com isto, a grafita se cristaliza
• FBE (Fusion Bonded Epoxy): é constituído por sob a forma de esferas ou de nódulos, de onde pro­
uma pintura em pó a base de resina epoxy, e sua vém o nome de ferro dúctil ou ferro nodular. Es­
aplicação forma um filme contínuo aderido à ses nódulos tornam o material mais elástico (me­
superfície metálica, proporcionando alta resistên­ nos frágil) e resistente à tração e aos impactos.
cia química à corrosão e ao descolamento cató- Os tubos de ferro fundido dúctil são fabrica­
dico; dos nos diâmetros de 50 a 1200mm, com compri­
• Polietileno tripla camada: esse revestimento é mentos variando de 3, 6, 7 m, nas classes K-9, K-7
composto por primer epoxy, adesivo e polietileno/ e 1 MPa. A escolha da classe apropriada depende­
propileno, formando uma barreira protetora entre rá, em cada caso específico, da pressão de serviço,
a superfície do tubo e o ambiente, garantido alta das sobrepressões devido aos transitórios hidráuli­
eficiência contra a corrosão e o descolamento cos e da altura de recobrimento da tubulação.
catódico; Os tubos de ferro fundido dúctil são revesti­
• Poliuretano tar: sua principal característica é a dos internamente com argamassa de cimento apli­
alta resistência à abrasão e ao impacto; cada por centrifugação, e externamente recebem
• Primer e p o x y com alumínio fenólico: o primer uma camada de zinco metálico puro, obtida pela
epoxy confere ao tubo uma barreira química fusão de um fio de zinco por arco elétrico que é
contra a corrosão, o alumínio fenólico proporcio­ projetado por ar comprimido. Após a cura do ci­
na excelente impermeabilidade, alta reflexão à mento, uma camada de pintura betuminosa é apli­
luz e resistência térmica. cada sobre a camada de zinco.
Os tipos de juntas utilizadas em tubulações
Para revestimento interno, tem sido utilizado de ferro fundido são (Barbará, 1998):
o coaltar epoxy.
A Tabela 6.8 apresenta ás aplicações desses • Junta de chumbo: utilizado para tubos de ferro
revestimentos para as diversas situações das tubu­ fundido cinzento, sendo executado em ligação
lações, e também, para peças especiais. ponta e bolsa, com vedação através de estopa
alcatroada e chumbo;
6.7.2.2. Tbbulação de ferro fundido • Junta elástica: é o mais utilizado em tubulações
de ferro fundido dúctil de ponta e bolsa, sendo cons­
Os tubos de ferro fundido são do tipo dúctil e tituída de um anel de borracha e suas principais
do tipo cinzento, sendo que este último, não é mais vantagens são a facilidade de montagem, a mobi­
fabricado, devido a sua elevada fragilidade e lidade, o isolamento térmico e a estanqueidade;
vulneabilidade à corrosão, principalmente em ter­ • Junta elástica travada: é basicamente uma junta
renos agressivos. Como o tubo de ferro fundido elástica, cujo travamento é obtido acrescentando
cinzento foi bastante utilizado no passado, exis­ um cordão de solda, um anel de trava partido, um
tem ainda hoje, em operação, várias tubulações contraflange e um conjunto de parafusos e porcas,
com esse tipo de material. e tem por função, neutralizar esforços dinâmicos

Tabela 6.8 - Revestimentos para tubulações e peças especiais de aço.


Tubulação Revestimento Revestimento
Peças especiais externo interno
Tubulação aérea Primer epoxy com alumínio fenólico Coaltar epoxy
Tubulação enterrada FBE, polietileno tripla camada, poliuretano Coaltar epoxy
Peças especiais Poliuretano tar Coaltar epoxy
Fonfe: Confab (2002).
ADUTORAS 175
que ocorrem nas tubulações, evitando-se a desco­ 6.7.2.3. Ttobulação de concreto
nexão destas, através do travamento de suas
bolsas. Essa junta pode ser utilizada em solos de Tradicionalmente no Brasil, tubos de concre­
pequena resistência, travessia de rios, canais e to simples ou armados, são utilizados em obras de
declives acentuados, e tem como principal drenagem urbana e esgotos sanitários. Além da uti­
vantagem, a dispensa de blocos de ancoragem, e lização em sistemas de esgoto sanitário e galerias
como desvantagem, o seu custo elevado; de águas pluviais, ocasionalmente têm-se aplica­
• Junta mecânica: é uma junta preparada para do tubos de concreto em adutoras de água por gra­
suportar altas pressões, sendo recomendada para vidade em conduto livre, entretanto, não tem sido
as tubulações de diâmetros médios e grandes. A atualmente muito usual a aplicação de tubos de
sua montagem é muito simples e rápida e oferece concreto em adutoras pressurizada. Como exem­
a possibilidade de desmontagem e reaprovei- plo da aplicação de tubos de concreto em adutoras
tamento do material, no caso de modificação ou de água pressurizada, pode-se citar a adutora Rio
desativação da tubulação; Grande, localizada em São Paulo e a adutora Ri­
• Junta de flanges: é constituída por dois flanges beirão das Lajes localizada no Rio de Janeiro.
entre os quais se interpõe uma arruela especial,
a qual é comprimida pelo aperto de parafusos e
porcas, o que garante sua estanqueidade. E uma . .
6 8 ACESSÓRIOS DAS ADUTORAS
junta rígida que permite a desmontagem da
tubulação. São geralmente utilizados em 6.8.1. Considerações gerais
tubulações não enterradas e sujeitas a eventuais
desmontagens, tais como, captação, tomada de As condições operacionais das adutoras e
água e estação elevatória. subadutoras de um sistema de abastecimento de
água podem ser agrupadas em três categorias, em
A Figura 6.19 apresenta os detalhes das jun­ função da freqüência de ocorrência (Koelle,
tas, elástica, elástica travada, mecânica e de flange. 1998):

C o ntrafiange Parafuso

Anel Cordão
de Trava de Solda

b) Junta elástica travada

a (fla n g e in te g ra l) (fla n g e roscado)

c) Junta mecânica d) Junta de flange

Figura 6.19 - Detalhes das juntas de tubulações de ferro fundido dúctil. Fonte: Bárbara (1994).
176 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Condição normal: é a condição resultante de Para o enchimento das adutoras, devem ser
manobras necessárias para a adequação do instaladas em locais adequados, as válvulas para
sistema às situações operacional pré-determina- expulsão de ar (ventosas), procurando-se evitar o
das no projeto. São consideradas manobras bloqueio da adutora. Em sistemas de elevada car­
normais: abertura e fechamento de válvulas, ga, a má operação da ventosa, confinando o ar no
enchimento e esvaziamento da adutora na fase interior da tubulação permitirá sua compressão
de pré-operação e em fases intermediárias, com pressões elevadas. Esse ar comprimido, ao se
operações de início e interrupção do bombea­ expandir rapidamente, poderá provocar o deslo­
mento nas condições admitidas no projeto. camento da tubulação e a ocorrência de sobrepres-
• Condição emergencial: advém da falha opera­ sões no seu interior, detectadas através de deslo­
cional de um dos dispositivos previstos para camentos estruturais e vazamentos em juntas.
operar em manobras normais. Como exemplo de
condição emergencial, tem-se: tempo de mano­ 6.8.2.1. Bloqueio de adutoras
bra de uma válvula de controle, superior ao
especificado; funcionamento inadequado dos Consiste na total paralisação do escoamento,
dispositivos de proteção contra os transitórios ocasionada pela existência de ar confinado nos
hidráulicos. Pode-se evitar em qualquer sistema pontos altos de uma adutora.
a ocorrência das condições de emergência pela Caso as ventosas não operem ou não forem
adequada duplicação dos dispositivos ou verifi­ instalados, mesmo havendo carga disponível, po­
cação das condições de operação dos dispositivos derá ocorrer o bloqueio, conforme apresentado na
de proteção instalados. Figura 6.20. Essa figura refere-se à adutora por
• Condição catastrófica: a ocorrência é dita gravidade. Para h: + h2 = h3, a situação é de equilí­
catastrófica quando for excepcional, ou seja, um brio e a adutora é bloqueada, isto é, não há escoa­
acidente operacional. Tal condição operacional mento. Para haver escoamento, h} + h2 > h3, inde­
é extremamente subjetiva e de difícil previsão pendentemente do valor da carga disponível Ho .
na fase de projeto. Deve ser considerada quando A Figura 6.21 apresenta a situação de bloqueio
a ocorrência do acidente poderá provocar riscos da adutora por recalque. Por essa figura, observa-
de vida e/ou danos excepcionais às instalações e se que, se Hs + h2= h: + h^ + h4não há escoamento
adjacências. A condição de ruptura num ponto e a adutora é bloqueada. Para haver escoamento
inferior e crítico da adutora poderá ser conside­ haverá a necessidade de Hs + h2> h} + h3+ h4, o
rada como uma condição catastrófica, pois é de que é obtido com a eliminação do ar preso. O ter­
pequena ou quase nula probabilidade de ocorrên­ mo Hs refere-se a carga total máxima da bomba
cia. (shut-off).

6.8.2. Enchimento de adutoras 6.8.2.2. Remoção de ar durante o enchimento


e operação de adutoras
O enchimento de uma adutora está condicio­
nado à expulsão plena de ar, com a gradativa e O acúmulo de ar em adutoras restringe a seção
lenta admissão de água, sendo recomendada uma de escoamento causando acréscimo de perda de
velocidade média da ordem de 0,3 m/s. Essa velo­ carga e redução de sua capacidade, podendo em
cidade baixa evita situações transitórias que po­ determinados casos, até mesmo paralisar o escoa­
dem ocorrer durante o enchimento. mento. Outros problemas poderão ser ocasiona­
Para Koelle (1998), a sobrepressão originada dos pelo aprisionamento de ar, como emulsiona-
com o bloqueio da operação de enchimento pela mento da água, dificuldades operacionais dos fil­
pequena ou não expulsão de ar confinado em tros, diminuição da eficiência das bombas, e cor­
alguns pontos críticos, é da ordem de 100 vezes a rosão das tubulações.
velocidade de enchimento, ou seja, se a velocida­ O ar entra de várias maneiras em uma adutora,
de de enchimento for de 0,3 m/s a sobrepressão como por exemplo, através do poço de sucção de
máxima será da ordem de 30 mH20. uma estação elevatória ou na tomada de água de
ADUTORAS 177

Figura 6.20 - Bloqueio da adutora por gravidade. Fonfe: Koelle (1998).

Figura 6.21 - Bloqueio da adutora por recalque. Fonfe: Koelle (1998).


178 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

um reservatório (Figura 6.22). A penetração pode ou, bruscamente, por meio de ressalto (Figura
ser causada pela liberação de ar existente na água 6.23b e 6.23c). Nessas condições, verifica-se uma
em razão da variação da temperatura e pressão, e perda de carga adicional ÁH^ provocada pela bol­
também, pelo enchimento ou drenagem das linhas. sa de ar que, no caso de não haver ressalto, é igual
Válvulas e bombas constituem, igualmente, pon­ à diferença de cotas, AZ dos pontos que limitam a
tos onde poderá haver liberação de ar. superfície da bolsa de ar (Figura 6.23c). Em insta­
A Figura 6.23a mostra uma bolsa de ar apri­ lações de recalque essa perda adicional ocasiona
sionada no ponto alto de uma tubulação com a água acréscimo na altura manométrica, provocando di­
em repouso; as superfícies do líquido que limitam minuição da vazão e aumentando o consumo de
a bolsa são, portanto, horizontais. Quando há mo­ energia elétrica.
vimentação da água, o escoamento a jusante do
ponto alto processa-se como superfície livre e, Processos para a remoção de ar
dependendo da declividade do trecho de jusante, a
passagem para o escoamento sob pressão realiza- O ar pode ser retirado das adutoras através
se através do aumento gradual da altura da água de dois processos:

« , Ar preso, dependendo da
| Arraste de ar declividade da adutora,
& X intermitente ^ - poder4 se movimentar

(a) Nível muito baixo

■> Para a bomba


\ 3 r :-;q
Entrada de ar pelo — O o Oo o
escoamento turbulento
— Entrada de ar

(b) Descarga superior com introdução de ar

(c) Formação de vórtice

Figura 6.22 - Alternativas para a entrada de ar em adutoras.


ADUTORAS 179
a)

c)
_ Í Í ? í i d e en ^ g ia serab o jsad e,

Figura 6.23 - Tubulação com bolsa de ar: em repouso (a); em movimento sem ressalto (b); com
ressalto (c). Fonfe: Quinfelo (1981),

• Remoção hidráulica de ar: processo no qual o dade média do escoamento (V) é igual ou maior
ar é arrastado pelo escoamento; que um certo valor mínimo, denominado velocidade
• Remoção mecânica de ar: processo no qual o crítica (Vc) conforme mostra a Figura 6.24. Se a velo­
ar é removido através de válvulas de expulsão cidade for menor que Vc deve-se promover a remo­
de ar (ventosas). ção mecânica de ar através da instalação de ventosa.

a) Remoção hidráulica de ar

Vários pesquisadores examinaram a possibili­


dade da tubulação transportar pequenas bolsas e
bolsões de ar, sem que ocorra ressalto. Também,
estudaram as características hidráulicas a jusante do
ressalto para que haja carreamento de ar. Como re­
sultado dessas pesquisas, concluíram que a remo­ Figura 6.24 - Condições de acúmulo de ar
ção de ar em tubulações é obtida quando a veloci­ na tubulação.
180 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

A determinação do valor da velocidade críti­ Segundo Koelle (1986), a ventosa para ex­
ca (V ) tem sido objeto de estudos de diversos pes­ pulsão de ar deverá ser dimensionada para a va­
quisadores como Kalinske e Bliss (1943), Kent zão lenta de enchimento da linha, com velocidade
(1952), Gandenberger (1966) e de Wisner et al da ordem de 0,3 m/s. A vazão de entrada da água
(1975), cujos detalhes dessas pesquisas foi apre­ deve ser igual à de saída do ar através da ventosa.
sentado por Tsutiya (2001). A Figura 6.25 apre­ De um modo geral, os pontos para se verifi­
senta todas as pesquisas citadas e observam-se as car a necessidade da instalação de ventosas são
diferentes recomendações dos pesquisadores para (Azevedo Netto et al, 1998):
um mesmo assunto.
A fórmula de Kent (1952) tem sido utilizada • Todos os pontos altos;
para determinar a velocidade de arraste de ar acu­ • Os pontos de mudança acentuada de inclinação
mulado na tubulação. Sua equação é a seguinte: em trechos ascendentes;
• Os pontos de mudança acentuada de declividade
Vc =l,36^/gDsene (6.25) em trechos descendentes;
• Os pontos intermediários de trechos ascendentes
onde: VC = velocidade crítica,? m/s;’
muito longos;
g = aceleração da gravidade, m/s2;
• Os pontos intermediários de trechos horizontais
D = diâmetro da tubulação, m;
muito longos;
0 = ângulo que o conduto forma com a hori­
• Os pontos intermediários de trechos descenden­
zontal a jusante do ponto alto, graus.
tes muito longos;
• Os pontos iniciais e finais de trechos horizontais;
b) Remoção mecânica de ar
• Os pontos iniciais e finais de trechos paralelos à
Nos pontos em que há necessidade de remo­ linha piezométrica.
ção mecânica de ar, tanto na fase de enchimento
da linha como em operação de adução utilizam-se A Figura 6.26 apresenta alguns pontos de lo­
válvulas de expulsão de ar (ventosas). calização das ventosas e descargas em uma adutora.

Q
oo

V sen 0 '

Figura 6.25- Velocidade crítica de arraste de ar versus declividade da tubulação. Fonte:


Edmunds (1979).
ADUTORAS 181
Reservatório

Figura 6.26 - Localização de ventosas e descargas em uma adutora.

Os fabricantes de equipamentos classificam Ventosa dupla


as válvulas de expulsão de ar em três tipos:
A ventosa dupla também conhecida como
• Ventosa simples; ventosa de tríplice função (Figura 6.28), é consti­
• Ventosa dupla, de pequeno e grande orifício; tuída por um corpo dividido em dois compartimen­
• Válvula de admissão de ar. tos (principal e auxiliar), cada um contendo um
flutuador esférico em seu interior, cujas finalida­
Ventosa simples des específicas são:

A ventosa simples (Figura 6.27) é constituí­ • Expelir o ar deslocado pela água durante o enchi­
da de uma câmara com um flutuador. Com a câ­ mento da linha (compartimento principal);
mara cheia de líquido, o flutuador é empurrado • Admitir quantidade suficiente de ar, durante o
para cima pelo empuxo exercido pela água e obtu- esvaziamento da Unha;
ra o orifício do niple, por onde sai o ar. Durante o • Expulsar pequenas quantidades de ar desprendi­
funcionamento da rede, o ar acumula-se no interi­ do da água e não arrastado pelo fluxo.
or da ventosa, o empuxo diminui, o flutuador des­
ce e o ar acumulado é eliminado pelo orifício do A Figura 6.29 apresenta o funcionamento da
niple. Durante a operação normal essa ventosa é ventosa dupla. Durante o enchimento da tubula­
suficiente para a expulsão das pequenas quantida­ ção, o volume de água cresce lentamente, e o ar
des de ar, não arrastadas pelo escoamento e acu­ escapa pelo orifício A com um volume equivalen­
muladas nos pontos elevados. te à quantidade de água que entra na tubulação
(Figura 6.29a). Na operação normal da adutora, o
Niple de
ar que se acumula na tubulação é eliminado pelo
Descarga orifício B, como na ventosa simples (Figura 6.29b).
Tampa
Durante o esvaziamento ou a ocorrência de uma
depressão na tubulação, o flutuador 1 desce sob
ação do próprio peso, liberando a entrada de ar
pelo orifício A (Figura 6.29c).
O dimensionamento da ventosa é feito em
função da vazão de ar a ser expulsa ou admitida
em determinado tempo e sob determinada pressão
Bucha de ou subpressão em relação à pressão atmosférica
Redução
local. Admitido escoamento incompressível, a
Figura 6.27 - Ventosa simples. vazão de ar é limitada a um diferencial de pressão
182 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Figura 6.28 - Ventosa dupla (tríplice função).

(a) Enchimento da adutora de (0,53 x P ), pois acima deste valor ocorre o


bloqueio da vazão. Para São Paulo, a pressão at­
mosférica é de 9,5 mH20 , sendo que o diferencial
de pressão será de 5 mH20, produzindo a maior
vazão (Koelle,1986).
Para o dimensionamento das ventosas, a
Barbará (1998), recomenda que seja feito através
de um gráfico (Figura 6.30) no qual devem ser
conhecidos a vazão da linha e o valor do diferencial
de pressão entre o interior da ventosa e a atmosfera,
(b) Operação normal da adutora no momento do enchimento ou esvaziamento da
tubulação (geralmente adota-se 3,5 mH20 ou 0,035
MPa).
Usualmente, para se evitar velocidades eleva­
das de escape de ar, o que acarretará ruídos exces­
sivos prejudiciais à circunvizinhança, adota-se para
velocidade máxima o valor de 40 m/s, o que corres­
ponde a um diferencial de pressão obtido através
da relação D/d = 23. Para Koelle (1986), a relação
D/d = 12 recomendada (valor extremo D/d = 23),
permite definir os diâmetros das ventosas para
(c) Esvaziamento da adutora expulsão de ar, se necessárias para instalação nos
pontos elevados da tubulação de diâmetro D.
Azevedo Netto e Alvarez (1986) recomendam
para a admissão e expulsão de ar, d > D/8 e, so­
mente para a expulsão de ar, d > D/l 2 , onde D é o
diâmetro da canalização e d o diâmetro nominal
da ventosa.
As ventosas são instaladas sobre uma tomada
vertical na parte superior da tubulação, normal­
mente com a utilização de um tê (Figura 6.31a).
Figura 6.29 - Funcionamento da ventosa Quando não for possível a compatibilização do
dupla (tríplice função). Fonte: Catálogo da diâmetro da ventosa com a do tê, é necessário o
Bárbara (1998). uso de uma redução (Figura 6.31b).
ADUTORAS 183

Vazão de água da lin h a , l/ s

Figura 6.30 - Gráfico para a escolha da ventosa de tríplice função. Fonte: Barbará (1998).
(a) Instalação direta As Figuras 6.32 e 6.33 apresentam detalhes
da instalação de ventosa dupla em adutoras. A Fi­
gura 6.32 trata-se de uma instalação simples de
pequenas adutoras, enquanto que a Figura 6.33
apresenta a instalação em adutoras maiores, sen­
do que, neste caso, a ventosa é interligada a um
poste de ventilação.
------------------- -------------------------------- -----------------
6.8.3. Descarga de adutoras

(b) Instalação com peça de redução Válvulas de descarga em adutoras para água
têm sido instaladas nos pontos baixos do perfil
topográfico e são justificados com os mais varia­
dos argumentos (Koelle, 1998):

• Necessidade de descargas de água na fase de pré-


operação em que ocorre a limpeza e a desinfecção
da adutora;
• Necessidade de drenagem em raras ocasiões em
que, na manutenção de acessórios, torna-se
Figura 6.31 - Instalação de ventosa. Fonte: necessária a remoção do acessório - caso de
Barbará (1998). válvulas instaladas em linha;
184 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Necessidade de remoção de sólidos


(areia) que, se decantados nos pontos
baixos, reduzem a seção de escoamento,
diminuindo a eficiência operacional da
adução;
• Necessidade de drenagem total da
adutora para inspeção interna em
ocasiões excepcionais.

Para a norma da ABNT NB-591/


1991, nos pontos baixos da adutora de­
vem ser instalados dispositivos para des­
carga de água, com as seguintes caracte­
rísticas:

• O dispositivo deve ser dimensionado de


modo a propiciar velocidade mínima de
arrasto, para remover o material even­
tualmente sedimentado;
• O dispositivo deve proporcionar o
esvaziamento completo do trecho da
CORTE B-B adutora, por gravidade; caso não seja
possível, deve-se prever meio adequa­
do de completar o esvaziamento;
• A água deve ter sua energia dissipada e
ser convenientemente encaminhada ao
sistema receptor.

6.8.3.I. Detalhes das instalações da


válvula de descarga

Para a operação de drenagem da


adutora, a abertura da válvula de descarga
acarreta um escoamento de alta velocida­
de, sendo necessária a sua dissipação, que
poderá ser feito através de estruturas de dis­
sipação de energia. Entretanto, em áreas
urbanas quando não é possível a instala­
ção dessas estruturas, a descarga poderá ser
realizada nas bocas de lobo do sistema de
drenagem urbana e a dissipação de ener­
gia é efetuada numa estrutura (chapa de
aço) instalada na extremidade de jusante
do mangote flexível, que é utilizado para
PLANTA conduzir a água da coluna de descarga até',
a boca de lobo. Caso seja necessário, ã
adutora poderá ser esvaziada com bomba
submersível colocada na coluna de descar­
Figura 6.32. —Instalação da ventosa em adutora. ga, conforme se observa na Figura 6.34.
ADUTORAS 185

CORTE AA

|t>A

PLANTA

Figura 6.33 - Caixa de ventosa com poste de ventilação.


186 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

CORTE AA

PLANTA

Figura 6.34 - Descarga de adutoras utilizadas no Sistema Adutor Metropolitano da RMSR Fonte:
SABESP (1978).
ADUTORAS 187
De um modo geral, a descarga normalmente é O uso de hidrantes de incêndio como descar­
feita em galerias, valas e córregos, devendo ser evi­ ga da adutora deverá ser sempre considerada.
tada qualquer conexão com esgoto (Figura 6.35). As válvulas utilizadas nas descargas são do
Nos casos em que a descarga é realizada acima do tipo gaveta ou borboleta, entretanto soluções tecni­
ponto baixo da adutora, geralmente é necessária a camente mais corretas seriam válvulas de disco
utilização de bombas para o esvaziamento total da ou de agulha, especialmente para menores pres­
tubulação. Para esses casos, a Figura 6.36 apre­ sões. A cavitação deve ser sempre verificada, sob
senta um arranjo que permite essa opção. pena de ao fechar novamente a descarga, esta não
TAMPÃO DE RUA

CORTE AA

PLANTA

Figura 6.35 - Descarga da adutora em galerias, valas e córregos.


188 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

CORTE A-A

PLANTA

Figura 6.36 - Detalhes para o esvaziamento da adutora.


ADUTORAS 189
mais vedar. Nesse caso é recomendada a implanta- onde: D = diâmetro da adutora, m;
ção de placa de orifício antes da descarga para a at­ d = diâmetro da descarga, m;
mosfera, que pode até ser retirada quando a pressão T = tempo de esvaziamento da adutora, h;
cair, se houver pressa no esvaziamento (Azevedo
Netto et al, 1998). Í Z +L
Zm=carga média disponível —1L-—■ - 2 ,m;
Para o enchimento e esvaziamento da adutora \ 2
na fase de pré-operação, a utilização do “pig” é L = extensão total da adutora entre os pontos
factível, inclusive, nos casos em que se necessita a altos nos quais há admissão de ar (L„ +
remoção dos sólidos que são encontrados no interior L ^m ;
da adutora após a construção. A propulsão do “pig” z máx= carêa máxima de (Zx, Zj), m;
poderá ser efetuada com água (enchimento) ou ar z mín= carêa mínima de (Zv ZJ, m.
comprimido no caso do esvaziamento, sendo que neste
caso, as válvulas para liberação do ar são fechadas
(Koelle, 1998).

6.8.3.2. Dimensões da descarga

As descargas são dimensionadas como bocais,


em função do tempo admitido para o esvaziamento
completo da linha ou do trecho de linha em conside­
ração. O tempo máximo de 4 horas poderá ser
utilizado para a drenagem do trecho por gravidade.
ParaAzevedo Netto et al (1998), na falta de melhores
estudos e como regra prática de campo para um
dimensionamento provisório, recomenda-se adotar o
diâmetro da descarga como sendo igual a 1/6 do Figura 6.37 - Parâmetros básicos para o
diâmetro da tubulação a drenar. dimensionamento da descarga.
Koelle (1998) propõe um modelo para a obten­
ção das dimensões da válvula de descarga, com base 6.8.4. Admissão de ar em adutoras
em estudos da velocidade e tempo de descarga, em
ramais simples e duplos (descarga intermediária). A Quando ocorre a descarga de água na adutora
relação do diâmetro da adutora e o diâmetro da ou eventual ruptura em um ponto baixo, é necessária
descarga é apresentada na equação (6.26) e as velo­ a admissão de ar nos pontos altos da adutora, para se
cidades máximas e mínimas são apresentadas nas evitar a ocorrência de pressões internas negativas
equações (6.27) e (6.28), sendo que na Figura 6.37 menores que a pressão admissível para a tubulação,
são apresentados os parâmetros dessas equações. evitando-se, assim, o colapso do tubo.
Para a norma da NB 591/1991 ABNT, deve ser
previsto dispositivo de descarga e admissão de ar nos
(6.26) seguintes casos:

• Pontos suscetíveis de acumulação de ar;


• Pontos altos, imediatamente antes e logo após as
^ =2 , 5 ^ ^ (6.27) descargas de água da adutora.

Segundo essa norma, o dispositivo deve ser


dimensionado para descarregar vazão de ar igual
V2 =1,25Vz “ ( ^ (6.28) à vazão máxima de água na adutora, em condi­
ções de enchimento com velocidade máxima de
0,30 m/s. O dispositivo deve admitir vazão de ar
190 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

igual à vazão máxima de água descarregada pelo Para Azevedo Netto et al (1998), o dimensio­
ponto de descarga mais próximo, em condições namento da válvula de admissão de ar deve ser
normais de operação, e vazão de ar suficiente para feito para a hipótese mais desfavorável, que
evitar o colapso da adutora, em condições de es­ corresponde normalmente à ruptura total e instan­
coamento variado. Recomenda-se pontos interme­ tânea de um ponto baixo da tubulação, sendo que
diários de entrada de ar quando a linha piezomé­ a válvula ou conjunto de válvulas a ser calculada
trica correspondente à descarga de um trecho da deve ter a capacidade de admitir uma vazão de ar
adutora está situada abaixo desta. igual à vazão no ponto de rompimento, para
O dispositivo de descarga e admissão de ar minimizar os efeitos de subpressão. Na impossi­
deve ser instalado de modo a impedir entrada de bilidade de dimensionamento detalhado, ou seja,
água na adutora. como solução provisória de campo, recomenda-se
adotar como critério de escolha expedita de vál­
6.8.4.I. Dimensionamento das válvulas de vula de admissão de ar, uma seção de ar igual ou
admissão de ar maior que 12,5% da seção do tubo (>1/8 do diâ­
metro do tubo onde for instalada).
Para Koelle (1998), o modelo adequado para As Figuras 6.39a, 6.39b e 6.39c apresentam
a determinação do diâmetro da válvula para a uma situação em que há rompimento da adutora
admissão de ar é admitir a drenagem de um trecho em um ponto baixo (ponto E). Como nessas cir­
sem a afluência de vazão de água no ponto alto cunstâncias é possível que o pessoal da operação
onde é admitido o ar, sendo que, o caso desfavorá­ feche as válvulas de saída junto aos reservatórios
vel ocorre em fase de enchimento e pré-operação A e F, as configurações vão evoluir para a situa­
da adutora onde há maior possibilidade de colap­ ção mostrada na Figura 6.39c, e observa-se nessa
so do tubo. O dimensionamento da válvula de figura que a válvula em C deve aumentar a sua
admissão de ar poderá ser feito através da equa­ capacidade para atender ao período de esvaziamen­
ção (6.29), cujos parâmetros hidráulicos são apre­ to do trecho CE.
sentados na Figura 6.38. Nos casos em que no mesmo ponto houver
necessidade de válvula de expulsão de ar (diâme­
da = 0,21 Z 1/4d (6.29) tro d:) e válvula de admissão de ar (diâmetro d2),
deverá ser instalada nesse ponto, a válvula única
onde: da = diâmetro da válvula de admissão de para admissão e expulsão de ar, como por exem­
ar, m; plo, as ventosas de tríplice função, com um diâ­
d = diâmetro da descarga de água, m; metro da= max (dj, d2).
Z = máximo de (Zv Z2), m.

6.8.4.2. Condições de colapso das tubulações

A espessura da tubulação deverá ser adequa­


da à condição de colapso e ser compatível com a
limitação da deformação, pois a tubulação de aço,
por exemplo, flamba ou entra em colapso quando
a deformação vertical no seu diâmetro atinge um
valor de cerca de 20%. Por outro lado, tubulações
flexíveis enterradas em valas adequadamente
compactadas com envoltória de areia apresentam
uma elevada resistência ao colapso, pois a envol­
tória externa de solo limita a flambagem.
Figura 6.38 - Parâmetros básicos para o Algumas recomendações para se precaver
dimensionamento da válvula de admissão de contra o colapso das tubulações são apresentadas
ar. a seguir (Koelle, 1998):
ADUTORAS 191
a) Adutora em operação normal
N.A.

b) Rompimento da adutora no ponto baixo E

c) Configuração final da adutora

Figura 6.39 - Representação de um sistema adutor. Fonte: Azevedo Netto et a! (1998).

• Escolhidas as espessuras das tubulações de aço dade do solo granular de enchimento para que a
satisfazendo a relação (diâmetro/espessura) D/t tubulação não colapse com a ocorrência do vácuo
<155 não haverá colapso das tubulações aéreas absoluto no seu interior;
ou enterradas (com 65% de compactação mínima • Para tubulações aéreas, se D/t < 155, a tubulação
e 5% de deformação) em condições de emergên­ (coeficiente de segurança =1) não necessita anéis
cia correspondentes à ocorrência do vácuo abso­ de reforço para resistir ao colapso; se D/t > 155,
luto no seu interior (coeficiente de segurança para que a tubulação resista ao colapso, quando
s l,0 ); submetida ao vácuo absoluto no seu interior, é
• Para tubulações enterradas, a escolha da relação necessário a instalação de anéis de reforço para
D/t, implica na definição da compactação do solo aumentar a resistência estrutural;
granular de enchimento da vala e na determina­ • A ocorrência de eventuais situações catastróficas
ção da cobertura da vala para limitar a deforma­ (de ocorrência extremamente difícil em tubula­
ção a 5% do diâmetro. Definida a relação D/t é ções de aço) advindas com a ruptura total da
necessário determinar a çobertura máxima da tubulação num ponto inferior não deverá
vala para limitar a deformação e definir a densi­ provocar o colapso nos pontos altos da tubulação,
192 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

pois estas poderão ser econômica e adequada­ das juntas tipo ponta e bolsa que atuam como ele­
mente dimensionadas pela definição da relação mentos enrijecedores, geralmente não há risco do
D/t, altura de recobrimento da vala e compacta­ colapso, de modo que, normalmente, não se utili­
ção do solo; zam para esses materiais as válvulas de admissão
• A instalação das válvulas de admissão de ar não de ar, mas apenas ventosas de duplo efeito.
é necessária para situações catastróficas, pois
quando essas válvulas são dimensionadas ade­ 6.S.4.3. Detalhes da válvula de admissão de ar
quadamente para a drenagem normal, são sufi­
cientes e confere a adutora uma segurança A válvula de admissão de ar consta basicamen­
adicional no caso da ocorrência catastrófica de te de uma derivação da adutora contendo uma ou
ruptura da adutora num ponto inferior. mais válvulas de retenção, em paralelo, que permi­
tem apenas a entrada de grandes quantidades de ar
Em adutoras de ferro fundido dúctil, devido a sob as condições definidas anteriormente.
relação espessura e diâmetro da tubulação ser rela­ A Figura 6.40 apresenta uma caixa com deta­
tivamente grande, e também, devido a existência lhes da instalação de válvulas de admissão de ar.
TAMPAO E CAIXA PARA REG13THO

CORTE AA

PLANTA

Figura 6.40 - Caixa com válvula de admissão de ar. Fonte: SABESP(1980).


ADUTORAS 193
6.9. DISPOSITIVOS DE PROTEÇÃO DAS • Tensão longitudinal, causada pela pressão interna
ADUTORAS quando há mudança de direção ou obstrução da
tubulação ou outra mudança das condições de
Os principais dispositivos de proteção de escoamento;
adutoras são: • Tensão longitudinal devida as variações térmicas;
• Blocos de ancoragens; • Tensões de compressão e de flexão causadas por:
- Peso próprio da tubulação;
• Proteção contra corrosão;
- Peso da água da tubulação;
• Proteção contra os transitórios hidráulicos.
- Cargas externas: pressão da terra de recobri-
Os dispositivos de proteção contra os transitó­ mento, pressão de sobrecargas, etc;
rios hidráulicos serão apresentados no Capítulo 7 - • Tensões causadas pelas reações dos apoios sobre
Estações Elevatórias. os quais as tubulações estejam assentadas.

6.9.1. Blocos de ancoragem Devido a sua importância no dimensiona­


mento dos blocos de ancoragem, neste item serão
As tubulações e seus acessórios, além de es­ calculados apenas os esforços externos provenien­
forços internos, geram ou podem gerar esforços tes de desequilíbrio da simetria, como por exem­
externos, que necessitam ser absorvidos e transfe­ plo, em uma curva (Figuras 6.41).
ridos a outras estruturas. Esses esforços externos
que são originados em curvas, reduções, válvulas
fechadas ou parcialmente fechados, derivações,
etc, devido a pressão interna não se anulam em
todas as direções e sentidos. A resultante da soma
desses vetores é a força a ser absorvida externa­
mente através do bloco de ancoragem, que é uma
estrutura que tem a função de absorver e transferir
essa força ao solo.
Em tubulações contínuas, tais como de aço
soldado, a importância dessas estruturas é muito
menor, pois a própria estrutura do tubo, longitudi­
nalmente, costuma ser suficiente para absorver os
esforços resultantes de uma curva ou mesmo de
uma extremidade fechada ou válvula, transferindo-
os para outra parte do sistema, que por ser fechado
acaba por anular todas as forças ou transferi-las
ao solo por atrito.
Também, há necessidade de blocos de anco­
ragens quando a declividade da tubulação é de tal
ordem que, os atritos entre a tubulação e o terreno
é insuficiente para manter o equilíbrio da tubula­
ção assentada.

6.9.1.1. Cálculo da resultante dos esforços

De um modo em geral, as tubulações estão


sujeitas aos seguintes tipos de esforços:
F ig u ra 6.41 - Esforços em uma curva
• Tensão tangencial, normal a geratriz, causada horizontal. Planta e Corte. Fonte: Azevedo
pela pressão interna do líquido; Netto et aI (1998).
194 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Pelo esquema da Figura 6.41, o setor Ô tem k = coeficiente, função da geometria da


uma área maior externa do que interna, em termos peça da tubulação:
de projeção em plano paralelo ao plano da curva. - Flanges cegos, caps, tês: k = 1
Supondo a curva horizontal, os esforços Ve e V - Reduções: k = 1 - A7A
(esforços verticais resultantes ao longo da curva) (A' = seção de menor diâmetro)
q
se anulam inteiramente, porque a curva é simétri­ - Curvas de ângulo 0: k = 2 sen —
ca em relação ao plano horizontal que passa pelo
k = 1,414 para curvas de 90°
centro. Os esforços He e H. não se anulam, porque
k = 0,765 para curvas de 45°
haverá mais He do que H., ou seja, mais área do
k = 0,390 para curvas de 22° 30’
lado de fora do que para o lado de dentro da curva.
k = 0,196 para curvas de 11° 15’
Para curvas com juntas ponta e bolsa, o cál­
culo da resultante deve considerar a seção trans­
versal com diâmetro externo do tubo, isto porque A Tabela 6.9 apresenta as equações para o
a bolsa fica cheia de água à mesma pressão, aumen­ cálculo da força resultante para vários acessórios
tando a área e a resultante. das tubulações (curvas e peças especiais).
A resultante dos esforços pode ser calculada Para o caso de derivações em “Y”, são apre­
aplicando-se o teorema de Euler, cujos cálculos sentados na Figura 6.42 as equações das forças
foram detalhados por Munõz (2000). Entretanto, resultantes.
em nosso meio, é comum utilizar-se uma expres­
são simplificada para a determinação da resultan­ 6.9.1.2. Dimensionamento
te de esforços:
Quando a força resultante (R) não for absor­
R = k-P-A (6.30)
vida pela própria tubulação, ou pelo terreno, ha­
onde: R = força resultante, N; verá a necessidade de um bloco de ancoragem, que
P = pressão máxima de teste, Pa; geralmente são blocos de concreto projetados para
A = área da seção externa do tubo ou da resistir aos esforços da força resultante.
saída do tê ou a diferença de áreas no Os dados necessários para o cálculo dos blo­
caso de redução, m2; cos, além da resultante (direção e intensidade) são:

R = P J t (2 d \c o s tt -D 2)
4 1
Figura 6.42 - Valor da força resultante para derivações em "Y " Fonte: Azevedo Netto et a! (1998).
ADUTORAS 195
Tabela 6.9 - Valores das forças resultantes para os acessórios das tubulações.
i .

LU
_____ _\
Curva / / — K a
0
/ / <r í R — 2PA sen —
/ / /
Ç \/ /

Curva de 90c
'A R = 1,414 PA

Curva de 45c
R = 0,765 PA

Curva com tubos retos R = 2 PA sen

Válvula
£ 3 R= PA

Fonte: Munõz (2000).


196 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Tensão máxima admissível na parede lateral da Para verificar a estabilidade dos blocos de
vala; ancoragem é necessário estudar os seguintes as­
• Coesão do solo; pectos:
• Ângulo de atrito interno do solo;
• Tensão máxima admissível pelo solo na vertical; • Equilíbrio de esforços horizontais: descarregar
• Peso específico do solo; toda a resultante horizontal na lateral se o terreno
• Especificações do concreto a ser utilizado; lateral é confiável. Caso, não o seja, considera-se
• Atrito concreto-solo. somente a força de atrito concreto-terreno. Não
se recomenda que a face superior do bloco de
Critérios de cálculo ancoragem fique a menos de 60 cm da superfície
do terreno, e assim mesmo, deve-se verificar a
O bloco reage aos esforços de duas formas: estabilidade do conjunto bloco-terreno. Nunca
considerar, nem as forças de atrito lateral do bloco
• Por atrito entre o bloco e o solo (peso do bloco); nem as cunhas laterais de resistência passiva;
• Por reação de apoio da parede da vala • Equilíbrio de esforços verticais: a resultante
(engastamento). será equilibrada pela reação do terreno ou pelo
peso do bloco;
Na prática, os blocos de ancoragem são cal­ • Equilíbrio de tombamento: deve ser verificado
culados levando em consideração o atrito e a re­ o equilíbrio de tombamento, considerando:
sistência de apoio sobre o terreno. Quando exis­ - momento equilibrante maior ou igual a 1,5
tem obstáculos ou se a má qualidade dos terrenos vezes o momento do tombamento;
impossibilita a construção de blocos de ancora­ - força resultante passando pelo núcleo central
gem, é possível utilizar a técnica de tratamento das da base, isto é, excentricidade em relação ao
juntas. eixo médio da base menor ou igual a 1/6 da
A Figura 6.43.apresenta as forças normalmen­ longitude da base.
te envolvidas para o dimensionamento de blocos
de ancoragem. Sendo: Maiores detalhes do dimensionamento dos
blocos de ancoragem, inclusive com exemplos de
R = força resultante; cálculo, encontram-se na referência Lasmar
P = peso do bloco; (2003).
W = peso do aterro;
B = apoio sobre a parede da vala;
f = atrito sobre o solo; 6.9.1.3. Ancoragem de adutoras em declive
M = momento de tombamento.
É conveniente ancorar uma tubulação quan­
W do a declividade for maior que os valores apresen­
tados a seguir:

• 20% para tubulação área;


•25% para tubulação enterrada.

Geralmente, nesses casos, os atritos entre as


tubulações e o terreno são insuficientes para man­
ter a tubulação equilibrada. É necessário equili­
brar o componente axial da força que age na tubu­
lação (Figura 6.44) pela utilização de blocos de
Figura 6.43 - Forças envolvidas para o ancoragem ou de juntas travadas.
dimensionamento de um bloco de ancoragem. Para o assentamento aéreo de tubulações com
Fonte: Barbará (1998). grande declividade (Figura 6.45), recomenda-se:
ADUTORAS 197
• Um bloco de ancoragem atrás de cada bolsa do tubo; bulações. A técnica de assentamento consiste em
• As bolsas devem ser direcionadas para acima, a utilizar um bloco de ancoragem colocado na ca­
fim de favorecer o apoio sobre os blocos; beceira do trecho, atrás da bolsa do primeiro tubo
• Folga de 10 mm deve ser deixada entre a ponta a montante, ou utilizando-se um comprimento de
do tubo e o fundo da bolsa, a fim de absorver as travamento suplementar.
dilatações térmicas (condições clássicas de O esforço axial máximo é suportado pela pri­
assentamento de juntas elásticas). meira junta travada a jusante do bloco. Esse esfor­
O assentamento de tubulação enterrada com ço é função do declive e do comprimento do tre­
grande declividade (Figura 6.46), poderá ser feita cho travado. O comprimento máximo admissível
através da ancoragem por trecho travado, ou seja, deve, portanto, ser definido pela resistência máxi­
nesse trecho são utilizados juntas travadas nas tu­ ma da junta travada.

Figura 6.45 - Assentamento de tubulação aérea: ancoragem tubo por tubo. Fonte: Barborá
(1998).

Figura 6.46 - Assentamento de tubulação enterrada com ancoragem por trecho travado. Fonte:
Barbará (1998).
198 ABASTECIMENTO DE AGUA

Se o comprimento do declive é superior àquele (ferrovias, troleibus, metrô, etc) ou de sistemas de


do trecho travado admissível, é possível realizar a proteção catódica instalados em estruturas de ter­
descida em vários trechos independentes, cada um ceiros.
ancorado na cabeceira por um bloco de concreto. Uma das razões mais importantes para se con­
Neste caso, não se travam as juntas das extremi­ trolar a corrosão, além de eventuais colapsos ou
dades dos trechos (Barbará, 1998). graves acidentes, tem sido o custo. Estimativas
mostram que a corrosão custa anualmente aos pa­
6.9.2. Proteção contra a corrosão íses cerca de 3,5% de seu PIB, Executando-se
medidas de prevenção e controle adequadas, 50%
Zacharias Elias Filho (*) desse custo pode ser economizado, conforme re­
latório de 1970 da T.P. Hoar Comission, no Reino
6.9.2.I. Considerações gerais Unido. A técnica conhecida como proteção
catódica para o controle da corrosão, é uma das
A percepção de que os materiais metálicos formas mais utilizadas mundialmente com grande
corroem, havendo necessidade de protegê-los não sucesso, devido ao seu baixo custo de implanta­
é novidade para a sociedade. No início do século ção, operação e manutenção.
XIX, Sir Humphry Davy utilizou a proteção
catódica para seus problemas de corrosão do re­ 6.9.2.2. Conceito de corrosão
vestimento de cobre dos navios de madeira. Nesta
mesma época, Michael Faraday e outros pesqui­ A corrosão é definida como a deterioração de
sadores observaram a resistência à corrosão do um material, geralmente metálico, por ação quími­
ferro ligado com cromo. Grande número de dife­ ca ou eletroquímica, aliada ou não a esforços me­
rentes tipos de produtos anticorrosivos, tais como cânicos. Em alguns casos, pode-se admitir a corro­
aços inoxidáveis, tintas, anodos e inibidores de são como o inverso do processo metalúrgico, cujo
corrosão, tornaram-se disponíveis no início da objetivo principal é a extração do metal a partir de
Revolução Industrial. seus minérios ou de outros compostos, ao passo que
A primeira instalação de proteção catódica no a corrosão tende a oxidar o metal. Assim, muitas
Brasil foi na Ia adutora do Rio Guandú, que tinha vezes o produto da corrosão de um metal é bem
por objetivo proteger contra a corrosão a armadu­ semelhante ao minério do qual é originalmente ex­
ra de proteção dos tubos. Este sistema foi implan­ traído. A Figura 6.47 apresenta o ciclo de metais.
tado no ano de 1956, e operou até junho de 1973.
A técnica de proteção catódica teve um im­
pulso importante a partir da década de 60, princi­ y Metal
palmente nas instalações da PETROBRÁS, sendo Metalurgia kÍ I Corrosão
a partir de então continuamente aplicada em todo
Minério
o país.
Todo material metálico enterrado ou submer­ Figura 6.47 - O ciclo dos metais.
so, dentre os quais tubulações e tanques de armaze­
namento são passíveis de corrosão. A corrosão se 6.9.2.3. Tipos de corrosão
processa através de reações eletroquímicas com o
meio, resultando na deteriorização do metal. Os principais tipos de corrosão habitualmen­
Vários fatores são os causadores de processo te observados são:
corrosivo, entre os quais destaca-se: má qualidade
dos revestimentos, composição eletroquímica do • Corrosão gaivânica: é o processo corrosivo
meio envolvente, e principalmente correntes resultante do contato físico entre dois materiais
contínua provenientes de sistemas eletrificados metálicos diferentes, na presença de um eletrólito.

* Engenheiro Eletricista (1977). MBA em Administração para Engenheiros (2002). Engenheiro responsável pelo sistema de
proteção catódica da SABESP.
ADUTORAS 199
Corrosão em frestas: nestas condições, o motivo • Corrosão pela água: corresponde aos processos
principal da corrosão é por aeração diferencial. corrosivos no qual o eletrólito é um meio aquoso.
Corrosão atmosférica: as estruturas aéreas estão As taxas de corrosão dependem da quantidade
dispostas a sofrer corrosão em função da de sais, ácidos ou bases dissolvidos, velocidade
agressividade da atmosfera, o qual depende e temperatura, presença de bactérias e grau de
basicamente da umidade relativa do ar, do teor aeração.
de sais em suspensão e do teor de gases poluen­ • Corrosão eletrolítica: são processos corrosivos
tes. Para este tipo de corrosão é conveniente de natureza eletroquímica. Estão sujeitas a este
lembrar que a proteção catódica não é aplicada tipo de corrosão estruturas metálicas enterradas
diretamente. ou submersas, os quais são submetidas a corren­
Corrosão pelo solo: estruturas metálicas enterra­ tes elétricas dispersas no eletrólito, tais como,
das estão sujeitas a este tipo de corrosão e sua adutoras, oleodutos e gasodutos. Quando esta
intensidade depende do teor de umidade, da corrente elétrica deixa a estrutura metálica direta­
composição química e do pH do próprio solo. mente para o meio, acontece o processo corrosi­
Na prática, um índice bastante adequado para a vo. Este tipo de corrosão, dependendo da intensi­
medição da agressividade do solo é a sua dade da corrente elétrica pode ser um dos mais
resistividade elétrica. Um solo de baixa resisti- agressivos às estruturas metálicas. Por exemplo,
vidade é considerado mais agressivo, pois possui para o caso de tubulação de ferro, a corrente de
umidade permanente e sais minerais dissolvidos, 1 ampére por ano diminui a massa da tubulação
enquanto um solo com alta resistividade elétrica em 9,1 kg.
é menos agressivo, pois possui menos umidade ®Outros tipos de corrosão: corrosão por bacté­
e sais minerais dissolvidos. Outros fatores que rias, corrosão intergranular, corrosão por com­
influem na corrosão do solo são: permeabilidade, postos de enxofre, corrosão grafítica, corrosão
presença de bactérias e poluentes. A Tabela 6.10. em concreto, corrosão sob fadiga e corrosão sob
classifica o grau de agressividade do solo. Nessa tensão.
tabela não está considerado o teor de sais
dissolvidos, porém é de grande utilidade para a A aparência da superfície corroída define as
análise da corrosão e projetos de proteção formas da corrosão, sendo as principais: corrosão
catódica. uniforme, corrosão por placas, corrosão alveolar,

Tabela 6.10.- Classificação do grau de agressividade do solo.

Potencial em relação
ao eletrodo de Resistividade em ohm.cm
C u/C uS04 (volt)

De 500 a 1.000 De 1.000 a 10.000 De 10.000 a 100.000

Até -0,4 Pouco corrosivo Muito corrosivo Não corrosivo

Moderadamente Muito pouco


-0,4 a - 0,5 Pouco corrosivo
corrosivo corrosivo

Moderadamente Pouco corrosivo


-0,5 a -0,6 Corrosivo
corrosivo

Moderadamente
Além de -0,6 Muito corrosivo Corrosivo
corrosivo
200 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

corrosão por pite, corrosão intergranular e corro­ Os materiais empregados como anodos são
são transgranular. ligas de Zn, Mg e de Al, por apresentarem maior
As taxas de corrosão expressam a velocidade diferença de potencial em relação ao aço. A Figu­
do desgaste do material. Sua avaliação é de gran­ ra 6.48 mostra de forma esquemática a proteção
de importância para a determinação da vida útil catódica galvânica.
de equipamentos e instalações industriais. Seus Em função das diferenças de potencial serem
valores são expressos em mm/ano ou mg/dm2/dia pequenas (em geral não superior a 1,2V), para que
(mdd). se obtenha corrente suficiente para se proteger a
estrutura, é necessário que a resistência final do
6.9.2.4. Proteção catódica circuito seja muito baixa. Esta condição limita o
uso da proteção galvânica a eletrólitos de baixa
O mecanismo de funcionamento da proteção resistividade elétrica, no máximo até 6.000 ohm.cm
catódica é bastante simples. Consiste basicamen­ para anodos de magnésio e 1.500 ohm.cm para
te na injeção de corrente contínua na estrutura a anodos de alumínio e zinco.
ser protegida elevando seu potencial em relação Outra limitação dos sistemas galvânicos é que
ao meio. Por exemplo, o aço tem seu potencial eles não são eficientes em estruturas sujeitas a for­
natural ao redor de -0,50V, para ser protegido deve- tes correntes de interferência e não permitem a
se elevá-lo a -0,85V em relação a uma meia-célu- regulagem da corrente injetada.
la de Cu/CuS04. Este é o valor mínimo que uma
estrutura deve ter para ser considerada protegida b) Proteção catódica por corrente impressa
contra a corrosão.
Os sistemas de proteção catódica podem ser Nesse sistema a diferença de potencial entre
por corrente impressa ou galvânica. A diferença o leito de anodos e a estrutura a ser protegida é
básica entre os dois é que no sistema por corrente promovida por uma fonte geradora de corrente
impressa utiliza-se de um retificador para se injetar contínua (retificador, bateria ou gerador). A Figu­
a corrente na tubulação. No sistema galvânico os ra 6.49 mostra de forma simplificada a proteção
anodos são ligados diretamente à estrutura a ser por corrente impressa.
protegida. A grande vantagem desta configuração é que
ela permite a injeção de corrente de maior intensi­
a) Proteção catódica galvânica dade e também a regulagem desta corrente.
A proteção catódica por corrente impressa se
Na proteção catódica galvânica, a diferença aplica a estruturas em eletrólitos de qualquer resis­
de potencial entre a estrutura a ser protegida e o tividade. E também, o mais indicado para estruturas
anodo galvânico ou anodo de sacrifício promove de médios e grandes portes ou extensões mais lon­
a corrente elétrica de proteção. gas, como grandes adutoras, gasodutos ou oleodutos.

— NT
W \ 'm v a Mk 'm m m ^
Leito de anodos galvânicos

ser protegida

Figura 6.48 - Esquema simplificado de uma proteção catódica galvânica.


ADUTORAS 201

ser protegida

Figura 6.49 - Esquema simplificado de um sistema por corrente impressa.

São apropriadas para estruturas sujeitas à in­ A corrente flui através do solo e ao atingir a su­
fluência de correntes de interferência, geralmente perfície externa dos tubos eleva seu potencial, de­
presente em grandes centros urbanos onde se en­ nominado potencial tubo/solo, A intensidade de
contram metrô, ferrovias e tróleibus. corrente pode ser regulada através da modificação
Os anodos mais usados para a dispersão de dos taps do retificador.
corrente são: grafite, ferro-silício-cromo e titânio
(o mais utilizado atualmente). • Drenagem
Neste sistema, o pólo negativo da fonte é li­
gado a estrutura a ser protegida e o pólo positivo é A drenagem de corrente é um equipamento
ligado ao leito de anodos. Em hipótese alguma esta instalado junto às vias permanentes de ferrovias e
configuração deve ser invertida. metrô que tem por finalidade impedir a descarga
de correntes de fuga diretamente para o solo, pro­
c) Componentes básicos de um sistema de porcionando a estes fluxos um caminho preferen­
proteção catódica cial através da conexão de um diodo conveniente­
mente direcionado do tubo para o trilho.
Os equipamentos utilizados em proteção
catódica estão diretamente associados aos siste­ • Caixa de medição e interligação
mas de corrente impressa. A seguir é apresentada
sua utilidade no controle dos processos corrosivos Quando há o cruzamento ou paralelismo en­
em tubulações enterradas. Processo semelhante tre tubulações, é necessário um ponto de medição
ocorre em estruturas submersas. comum a estas estruturas. Nestas caixas os siste­
mas podem ser interligados eletricamente, sem­
• Retificador e leito de anodos pre buscando o equilíbrio entre eles, ou seja, im­
pedindo que as correntes de proteção de cada sis­
O retificador injeta corrente contínua através tema isolado seja prejudicial aos demais.
do leito de anodos que são constituídos de grafite,
ferro-silício-cromo ou titânio, entre outros. Os • Pontos de teste
anodos são enterrados e preferencialmente insta­
lados perpendiculares à estrutura a ser protegida. Os pontos de teste são instalados ao longo das
202 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

tubulações. Através dele são realizadas as medi­ inspeção visual do tubo mostrava regiões em avan­
ções dos potenciais tubo/solo. Fazendo analogia çado estado de corrosão que evoluiriam para no­
com um processo de medição de temperatura, os vas perfurações da chapa e provocariam novos
pontos de teste desempenham a função do vazamentos ao longo do tempo. Este ciclo seria
termômetro neste processo. contínuo, mesmo com o remanejamento da linha,
que continuaria submetido às ações do processo
6.9.2.S. Aplicação da proteção catódica em corrosivo.
uma adutora da RMSP Muito embora o segmento em aço fosse cur­
to, sua localização geográfica e as freqüentes inci­
Na SABESP os sistemas de proteção catódica dências de vazamentos, justificavam a instalação
são instalados de forma preventiva, ou seja, quan­ de um sistema de proteção catódica por corrente
do da construção de novas adutoras ou reservató­ impressa, tendo em vista a relação custo versus
rios metálicos, os sistemas de proteção contra a benefício.
corrosão são implantados em conjunto com as Para a elaboração do projeto foi considerada
novas estruturas metálicas. à área da superfície a ser protegida, a densidade
Porém, há casos em que linhas antigas sem de corrente necessária, a resistividade do solo e as
proteção, apresentam vazamentos provocados por características do anodo utilizado.
corrosão. Como ilustração desta condição será A montagem do sistema resultou nos seguin­
apresentado um caso ocorrido em 1999. tes componentes principais:
Um trecho curto em aço com diâmetro de 400
mm, que interliga 2 redes de ferro fundido apre­ • 1 retificador 50 V/30 A (padrão SABESP);
sentava freqüentes vazamentos, e para seu reparo •1 2 anodos de titânio;
era necessário o corte no abastecimento de água. • 1 ponto de teste;
Após levantamentos preliminares, nos quais • Vida útil dos anodos superior a 20 anos.
foram medidos os potenciais tubo/solo e a
resistividade do solo, ficou caracterizada a presen­ A Figura 6.50 apresenta o sistema de proteção
ça de corrente de interferência (potencial tubo/solo catódica utilizada na adutora de derivação Conso­
positivo) e baixa resistividade (solo agressivo). A lação/Casa Verde da RMSP.

03OOmm_________ | ___ ^BOOmmj^P1


ADUTORA CASA VERDE-CONSOLAÇÂO AV. ORDEM E PROGRESSO

Figura 6.50 - Sistema de proteção catódica aplicada em uma adutora da RMSR


204 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

6.10.3. Alternativas para aumentar a


capacidade de adução

Para aumentar a capacidade de adução pode-


se adotar uma das seguintes medidas:

• Construção de uma nova adutora ou de outra em


paralelo;
• Aumento da capacidade de recalque pela
substituição dos conjuntos elevatórios ou troca
de rotores das bombas; Corte A-A

• Instalação de boosters; Espuma Espuma


d=32/35 g/cm d=32/35 g/cm3
• Limpeza periódica das tubulações existentes para
Espuma Espuma
garantir que a capacidade das tubulações não d=25 g/cm d=25 g/cm3
fiquem abaixo de determinado valor;
• Reabilitação das tubulações existentes visando
completa recuperação.

Corte B-B
6.10.3.1. Limpeza das tubulações
Figura 6.51 - Polly-pig.
Um dos métodos utilizados pelas prestadoras
de serviços de saneamento para a limpeza dos tu­
a) Limpezas efetuadas com “polly-pig”
bos, é o da passagem de equipamentos que remo­
vem as incrustações através de raspagem. A esco­ • Subadutora de água tratada do Alto da Boa Vista
lha do tipo da peça para efetuar a limpeza, depen­ (ABV) - Jabaquara/SP
de do material que caracteriza a tubulação e da - Diâmetro: 1.200 mm
incrustação existente. Nos tubos metálicos reves­ - Extensão: 6,6 km
tidos, tubos de PVC, concreto e fibrocimento, uti­ - Material: concreto
liza-se o “polly-pig” equipamento dotado com fita - Ano de implantação: 1962
de material abrasivo, para não danificar a parte - Medidas realizadas:
interna da tubulação (Figura 6.51). No caso de tu­
bos metálicos não revestidos emprega-se o “polly- Coeficiente Variação
Data Evento
pig” com escovas de aço, ou, ainda o raspador de "C " (%)
arraste hidráulico (Figura 6.52). Mai/72 109
A utilização do “polly-pig” ou do raspador Jun/72 1a Limpeza 118 8
de arraste hidráulico tem a vantagem de pratica­ Jan/73 2a Limpeza 127 8
mente, não interromper a operação normal da Jul/78 127 0
adutora, devido a rapidez de realização do serviço
de limpeza. Além disso, seu custo é bastante redu­ Subadutora de água tratada do ABV - França
zido, pois é executado pelo pessoal da própria Pinto/SP (Ialinha)
prestadora de serviço. Com esse método é possí­ - Diâmetro 1.000 mm
vel diminuir significativamente a rugosidade, con­ - Extensão: 6 km
forme resultados obtidos em diversas adutoras e - Material: ferro fundido dúctil sem revestimento
subadutoras da SABESP, algumas das quais - Ano de implantação: 1932
exemplificadas a seguir. - Medições realizadas:
ADUTORAS 205

Data EventoCoeficiente Variação


"C " (%)
Fev/73 82
Jul/73 81 -1/2
Ago/73 I a Limpeza 90 + 11,1
Fev/74 90 0
Dez/74 89 -1,1
Dez/74 2a limpeza 101 + 13,5
Mai/75 94 -6,9
Mar/76 91 -3,2
Jul/77 91 0

• Adutora de água tratada da cidade de Cajuru,


Estado de São Paulo
- Diâmetro: 200 mm
- Extensão: 2,5 km
- Material: cimento-amianto
- Ano de implantação: 1975
- Medições realizadas:
Coeficiente Variação
Data Evento
"C " (%)
Nov/77 80
Dez/77 Limpeza 113 +41,3

• Adutoras de água bruta da cidade de São José


dos Campos, Estado de São Paulo
Características das adutoras:
- Diâmetro: 600 mm
Material: ferro fundido dúctil sem revestimento
Extensão: 3,1 km
Ano de implantação: 1973
- Diâmetro: 600 mm
Material: ferro fundido dúctil com revestimento
Extensão: 3,1 km
Ano de implantação: 1979
Resultados obtidos após várias limpezas:
• Adutora de ferro fundido dúctil sem revestimento
© ©® Data Evento Coeficiente Variação
"C " (%)
Jan/78 70
Set/84 59 -15,7
Figura 6.52 - Raspador de arraste hidráulico. Set/84 I a Limpeza 119 + 101,7
Mar/85 82 -31,1
Mar/85 2a limpeza 95 + 15,9
Abr/87 75 -21,1
Abr/87 3a limpeza 98 + 30,7
206 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

• Adutora de ferro fundido dúctil com revestimento Coeficiente Variação


Data Evento
Evento Coeficiente Variação "C " (%)
Data
"C " (%) Out/79 78
Mar/85 79 Out/79 Limpeza 97 + 24,4
Mar/85 I a limpeza 109 +38,0
Abr/87 85 -22,0 • Adutora de água bruta Guarapiranga-AB V/SP (1a
Abr/87 2a limpeza 116 +36,5 linha)
- Diâmetro: 1.000 mm
Pelo que se observa destes dados, nos tubos - Extensão: 3,5 km
de ferro fundido dúctil com ou sem revestimento, - Material: ferro fundido dúctil sem revestimento
a rugosidade tem aumentado no decorrer do tem­ - Ano de implantação: 1957
po, em proporções mais ou menos iguais, o que se - Medições realizadas:
deve principalmente à qualidade da água do rio
Paraíba do Sul que contém excesso de ferro e de Data Evento Coeficien,e Variação
"C " (%)
manganês.
Abr/81 60
De modo geral, a experiência tem mostrado
Abr/81 Limpeza 83 +38,3
que em adutoras de água bruta, mesmo as
revestidas internamente com argamassa de cimen­
As medições demonstram que o processo de
to, a rugosidade aumenta com o passar dos anos.
raspagem executado pelo “polly-pig” e por arras­
te hidráulico apresenta a desvantagem de fazer
voltar as incrustações. Isto se repetirá a cada lim­
b) Limpezas efetuadas com raspadores de
peza, que passará a ser feita em intervalos meno­
arraste hidráulico
res. A Figura 6.53 mostra a variação do coeficien­
te de Hazen-Williams para tubos limpos por ras­
• Subadutora de água tratada da Bela Vista - Vila
pagem, obtidos por Dutting (1968).
Iara/SP
Para Rodrigues et al (1985), é necessário rea­
- Diâmetro: 375 mm
lizar pelo menos duas passagens do raspador pela
- Extensão: 3,1 km
tubulação. Segundo esses autores, nos três primei­
- Material: ferro fundido dúctil sem revestimento
ros meses subseqüentes à realização da limpeza,
- Ano de implantação: 1960
observa-se uma redução parcial do coeficiente “C”
- Medições realizadas:
em tomo de 10%.
Data Evento Coeficiente Variação
"C " (%) Operação dos “polly-pigs”
Mai/77 65
Dez177 I a' limpeza 84 +29,2 A Figura 6.54 apresenta detalhes da introdu­
Mar/78 2a- limpeza 109 +29,8 ção do “polly-pig”” em uma adutora e a sua saída.
Jul/78 98 -10,1 Também o “polly-pig” pode ser introduzido de
Set/78 94 -4,1 outras formas, em adutoras de pequeno diâmetro,
Fev/80 94 0 como mostram as Figuras 6.55 a 6.57. Para os ca­
sos das Figuras 6.55 e 6.57 há necessidade de uma
• Subadutora de água tratada Jabaquara-Sacomã/ fonte externa de água pressurizada para introduzir
SP o “polly-pig” na adutora.
- Diâmetro: 900 mm Para a movimentação do “polly-pig” é utili­
- Extensão: 4,7 km zada a própria pressão de água da adutora, sendo
- Material: ferro fundido dúctil sem revestimento recomendada uma velocidade variando de 0,6 a
- Ano de implantação: 1955 1,2 m/s. A sua movimentação pode ser acompa­
- Medições realizadas: nhada instalando-se no “polly-pig” um pequeno
rádio transmissor.
ADUTORAS 207

Anos

Figura 6.53 - Variação do coeficiente de Hazen-Williams devido a limpezas por raspagem.


Fonte: Duffing (1968).
POLLY-PIG

Figura 6.55 - Introdução do Figura 6.56 - Introdução de Figura 6.57 - Introdução do


"polly-pig" através de hidran- "polly-pig" através de uma pe- "polly-pig" através de uma pe-
te, sem registro. ça especial. ça em Y.
208 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Para a escolha dos locais de introdução e re­ econômico, se comparado com a troca da tubula­
moção desses equipamentos, devem ser levados ção por uma nova. E eficiente, porque devolve a
em consideração os seguintes fatores: tubulação suas características de adução, evitan­
do o processo corrosivo. Para diâmetros menores
• Pressão disponível a montante do ponto de recomenda-se a substituição da tubulação por uma
introdução do raspador para promover o seu nova, ou limpeza por raspagem (Macedo e Ribei­
deslocamento devido à diferença de pressão ro, 1985).
provocada pelo mesmo; A Figura 6.58 apresenta um esquema para a
• Perfil e profundidade de caminhamento da reabilitação de tubulações assentadas através de
tubulação, bem como a existência de peças espe­ limpeza e revestimento com argamassa de cimen­
ciais, válvulas, descarga, etc, no seu percurso. to. A argamassa de cimento é bombeada direta­
Deve-se evitar introduzir o raspador próximo a mente para uma máquina com uma cabeça rotató­
uma curva a fim de não causar a sua paralisação ria da qual é atirada através da força centrífuga na
nesse ponto; parede da tubulação. Uma pá de arrasto, acoplada
• Existência de galerias de águas pluviais, cursos à máquina de revestimento proporciona um aca­
de água, reservatórios, hidrante, poço de sucção bamento liso. Pás rotativas alisam a argamassa
ou uma outra estrutura que possa retirar o aplicada até que o acabamento fique hidraulica­
raspador. Isto se toma necessário, pois, como esse mente eficiente. . ....
local permanece com a tubulação aberta durante O uso do revestimento com argamassa de ci­
a operação de limpéza, toda a vazão veiculada mento em tubulações foi divulgado pela primeira
pela adutora que ultrapassa o raspador afluirá vez, pela Academia Francesa de Ciência, em 1836,
para este ponto. Em geral, utilizam-se bombas e é considerada a técnica mais usada para reabili­
de esgotamento de vala para promover a remoção tação das tubulações. Essa técnica pode ser apli­
de toda a água da adutora. cada em tubulações desde 100 mm até 2000 mm
de diâmetro, e apresenta as seguintes vantagens:
6.10.3.2. Reabilitação das tubulações não é necessária a abertura de valas, as tubulações
antigas são reabilitadas e há uma redução na inter­
O revestimento com argamassa de cimento é rupção do fornecimento de água. Entretanto, tem
utilizado para recuperar tubos de ferro fundido com a desvantagem de reduzir o diâmetro interno da
ou sem revestimento e tubos de aço, com proble­ tubulação. (Venturini e Barbosa, 2002)
mas sérios de corrosão e incrustação. Para diâme­ O revestimento com argamassa de cimento
tros superiores a 150 mm, pode ser um processo vem sendo utilizado pela SABESP na Região

Betoneira especial
Gerador
Guincho c/
velocidade regulável Revestidora
Mangueira de
alta pressão recuperado

V iX
Até 300 m entre acessos

Figura 6.58 - Aplicação do revestimento de argamassa de cimento. Fonte: ERCON (1997).


ADUTORAS 209
Metropolitana de São Paulo, desde 1982. A Tabe­ Em sistemas de abastecimento de água, os
la 6.11 apresenta os valores médios, por diâmetro, condutos livres são normalmente utilizados nas
encontrados para o coeficiente C (Hazen-Williams) captações, estações de tratamento de água e aque­
em várias tubulações já assentadas. dutos.
De um modo geral, os medidores instalados
Tabela 6.11. - Valores médios do coeficiente em adutoras são conhecidos como macromedido-
de Hazen-Williams em tubulações reabilitadas res, que normalmente são medidores de maior por­
e revestidas com argamassa de cimento. te, e são utilizadas para medição de água bruta,
medições na entrada de setores de distribuição, ou
Coeficiente "C" ainda medição de água tratada entregue por ataca­
Diâm etro do a outros sistemas públicos. A qualidade da
(mm) Antes do Depois do
medição de vazão tem uma importância muito
revestimento revestimento
grande, pois é relacionada diretamente ao fatura­
250 57 125 mento e à gestão eficiente de operação.
300 57 127
375 58 129 6.11.2. Medidores em condutos forçados
500 62 130
6.11.2.1. Medidores de pressão

6.11. EQUIPAMENTOS DE MEDIÇÃO a) Tipos de medidores


Os medidores de pressão medem a pressão
Luiz Carlos Helou (MSc., Dr.)*
Gisela Coelho Nascimento Helou (MSc.)** relativa, considerando como origem de medida a
pressão atmosférica. Existem três categorias de
6.11.1. Considerações gerais medidores mecânicos de pressão:
- Manômetros em que a medição de pressão se
Os sistemas de medição constituem em um faz por equilíbrio com uma coluna de líquido
instrumento indispensável à operação de sistemas de densidade conhecida, como por exemplo, o
públicos de abastecimento de água, pois é uma tubo de Pitot;
ferramenta para avaliar a eficiência da operação, e - Manômetros em que a medição de pressão se
permite o controle de parâmetros, como: vazão, faz equilibrando a força produzida sobre uma
pressão, volume, etc. área conhecida, com uma força mensurável;
As adutoras podem transportar a água atra­ - Manômetros em que a medição de pressão se
vés de tubulações em conduto forçado ou em con­ faz por equilíbrio da força produzida numa área
duto livre. A medição de vazão em condutos for­ conhecida com a tensão atuante num meio
çados é geralmente feita através de um instrumen­ elástico.
to de medida instalado em linha. Exemplos de
medidores instalados em condutos forçados são: Manômetros
Venturis, ultrassônicos (por efeito doppler e tem­
po de trânsito), placas de orifício, magnéticos e Os manômetros mais simples são constituí­
tubo pitot. Os medidores de pressão são necessá­ dos por um tubo em U ao qual se acopla um sensor
rios em muitos dispositivos que servem para de­ de pressão que fornece um sinal a um elemento
terminar a velocidade de uma corrente de fluido secundário. Conforme se observa na Figura 6.59 o
ou sua vazão, devido à relação entre velocidade e diferencial de pressão em um manômetro pode ser
pressão, dada pela equação da energia. determinado através da equação (6.31).

(*) Engenheiro Civil pela Escola Politécnica da USP (1978). Mestre em Engenharia (1994) e Doutor em Engenharia (2000)
pela Escola Politécnica da USP. Gerente de Divisão de Operação da ETE Barueri da SABESP. E-mail: ehelou@sabesp.com.br.
(**) Engenheira Civil pela Escola Politécnica da USP (1979). Mestre em Engenharia pela Escola Politécnica da USP (1996).
Consultora em saneamento ambiental. E-mail: gisela-helou@uol.com.br.
210 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

AP = (pm- pf)gh (6.31) Nunca devem ser utilizados com líquidos visco­
sos, contendo resíduos sólidos ou que tenham pos­
onde: AP = diferencial de pressão;
sibilidade de solidificar.
pm= massa específica do líquido manomé-
trico;
pf = massa específica do fluido que está Transdutores de pressão
sendo medido. Os transdutores de pressão (Figura 6.60) são
conversores de sinal baseados na presença de um
elemento primário elástico, cujo deslocamento,
proporcional à pressão que se deseja medir, é con­
vertido num sinal elétrico, magnético ou eletro­
magnético. Desta forma, os diferentes tipos de
transdutores que existem se destinguem pelo dis­
positivo que se acopla ao elemento primário
elástico encarregado de converter o sinal elástico
em um sinal tratável de forma extema.

<1-
L

1
Oiafraç ma

Figura 6.59 - Manômetro.


TU í
Os diversos tipos de manômetro diferem en­
tre si pelo dispositivo sensível à pressão. Os prin­ Figura 6.60 - Transdutores de pressão.
cipais tipos de manômetros são apresentados a
seguir. Os principais tipos de transdutores de pressão
são:
Manômetro de Bourdon
Na extremidade inferior o tubo que constitui • Transdutor magnético de pressão: é o
o elemento elástico de medição é ligado ao fluido transdutor no qual o elemento elástico, pela sua
que se quer medir. O aumento da pressão no inte­ deformação, posiciona uma barra rígida do
rior deste tubo faz com que ele se deforme, giran­ transmissor. Um circuito oscilador associado ao
do o ponteiro ao qual está ligado na outra extremi­ transdutor alimenta uma bobina de modo que a
dade. A mola tem como função fazer com que o força gerada reposiciona a barra através do
ponteiro retome ao zero da escala quando a pres­ equilíbrio de forças. Configura-se desta forma
são é aliviada. um circuito de realimentação em que a corrente
de saída é proporcional à pressão aplicada.
Manômetro do tipo fole • Transdutores capacitivos: baseia-se na idéia de
O manômetro do tipo fole é um medidor de se acoplar sobre o elemento primário elástico,
pressão em que a medição se faz por equilíbrio da uma das placas de um capacitor enquanto a outra
força produzida numa área conhecida com a ten­ se mantém fixa. A deformação faz variar a
são atuante num meio elástico. Neste tipo de me­ separação entre as placas e sua capacidade. Ao
didor o elemento sensível é um fole que pode ser se aplicar uma corrente elétrica alternada, a
interno ou externo. intensidade que circula é proporcional à capaci­
Este medidor é utilizado em aplicações de dade do condensador e à pressão.
baixa pressão e preferencialmente com gases. • Transdutores extensiométricos: estes são os
ADUTORAS 211
transdutores de pressão mais empregados na 6.11.2.2. Medidores de vazão
atualidade. Consistem em um ou mais espirais
de fio capilar condutor que se apoia em uma placa De um modo geral, os medidores de vazão
de armação sobre a qual é aplicada a pressão. em condutos forçados podem ser:
Como conseqüência da deformação, o fio
condutor se estira (ou contrai, de acordo com o • Medidores de obstrução;
modelo) modificando o comprimento, o diâmetro • Medidores ultrassônicos;
e sua resistência elétrica. A medição de uma • Medidores eletromagnéticos.
corrente que passa por este fio será proporcional
à sua resistência e à pressão. a) Medidores de obstrução
• Transdutores piezoelétricos: são baseados em
materiais cristalinos que por ação da pressão são Medidor Venturi
capazes de gerar um sinal elétrico. Sua resposta O medidor Venturi (Figura 6.61) constitui-se
às variações de pressão é linear e podem realizar em uma peça instalada em uma linha de um condu­
medições dinâmicas de elevadas freqüências, to forçado. Esta peça possui três regiões definidas:
porém são muito sensíveis a temperatura e
choques. • Seção de montante, convergente, dotada de anel
piezométrico para tomada de pressão,
b) Amplificadores de sinal • Garganta, também dotada de anel piezométrico;
• Seção de jusante, divergente onde se faz a
Normalmente os sinais produzidos pelos concordância com a tubulação.
transdutores necessitam de amplificação, e por isto,
encontra-se acoplados a um circuito elétrico do tipo No escoamento do tubo para a garganta, a
“ponte de Wheatstone”, onde o sinal é captado e velocidade aumenta (a seção diminui) e conseqüen­
enviado a um amplificador eletrônico, o qual per­ temente a pressão diminui de tal forma a manter-
mite ainda ajustar o sistema frente a desvios e se a carga na seção de controle. Pode-se deduzir
melhorar sua sensibilidade. Finalmente a etapa de analiticamente a equação para a determinação da
saída transformará, caso necessário, o sinal de sa­ vazão em um medidor do tipo Venturi, por meio
ída de 0-100 mV a padrões do mercado, principal­ da aplicação direta do teorema de Bemouli. A ex­
mente 4-20 mV. pressão para a determinação da vazão é dada por:

Figura 6.61 - Esquema típico dos medidores Venturi. Fonte: Streeter (1974).
212 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

gases. A medida do diferencial de pressão (P} - P )


é realizada através de uma placa de orifício. Esta
placa é confeccionada em chapa metálica com um
Q =C A, furo central concêntrico em cantos vivos e retos a
(6.32)
montante, com espessura muito menor que o diâ­
metro da tubulação.

• O coeficiente Cv é obtido através de ensaios de


laboratório ou por calibração em campo; m
• dQe d5são as densidades do líquido manométrico
e do fluido, respectivamente;
• D, eD2são respectivamente as seções de montan­
te e da garganta;
• R’ é a diferença de cotas entre os níveis no tubo,
conforme mostra a Figura 6.61.

Os valores de Cd podem ser avaliados atra­


vés dos gráficos da Figura 6.62.

Medidor de orifício

Os medidores de orifício (Figura 6.63) são


utilizados para determinar a vazão de líquidos e Figura 6.63 - Medidor de orifício.

1.00E+04 1.00E+05 1.00E+06

Re
-•— Chapa de aço — a— Usinado - - a-- A ço forjado

Figura 6.62 - Valores do coeficiente de descarga para vários tipos de tubo Venturi em função
do número de Reynolds. Fonte: LMNO (1999).
ADUTORAS 213
O princípio de medição do medidor de orifí­ Reynolds (Re). O coeficiente do orifício de 0,61
cio é idêntico ao do medidor Venturi. A redução pode ser tomado como medida padrão para Re-
da seção transversal da corrente, ao passar através 104, embora o valor se altere sensivelmente para
do orifício aumenta a velocidade à custa da pres­ valores de Re menores.
são e a redução da pressão entre os dois pontos é O valor de b influencia na perda permanente
medida por um manômetro. A correlação entre a de pressão. Para valores de b = 0,5 a perda de car­
pressão e a velocidade é feita pela equação de ga é cerca de 73% do orifício diferencial.
Bernoulli e fornece:
Comparação entre medidores Venturi e
1 í2 ( P a - P b ) medidores de orifício
vk = (6.33)
A placa de orifício pode ser trocada com fa­
cilidade para acomodar uma larga faixa de valores
O Dk de vazão, enquanto que, o diâmetro da garganta
onde p = — (6.34)
D. do Venturi é fixo. Assim, a amplitude das vazões
está circunscrita aos limites práticos do diferenci­
Uma importante complicação que aparece nos al de pressões.
medidores de orifício, e que não existe no medi­ O medidor de placa de orifício tem uma per­
dor Venturi, é a de que a área do escoamento de- da de carga de pressão permanente por causa da
cresce de Aana seção a, para Ao na seção do orifí­ presença de vórtices no lado de jusante. A forma
cio, e então para Ab na seção da veia contraída. A dos medidores Venturi previne a formação destes
área na veia contraída pode ser relacionada à área vórtices e diminui esta perda de pressão.
do orifício através do coeficiente de contração Cc Os orifícios são mais baratos e fáceis de ins­
definido como sendo a relação entre as áreas da talar. Os medidores Venturi são caros e devem ser
veia contraída e a do orifício. fabricados de forma cuidadosa. Um orifício
artesanal é normalmente satisfatório enquanto um
r —
medidor Venturi deve ser comprado de um fabri­
(6.35) cante de instrumentos.
c An
Por outro lado, a perda de carga de um orifí­
Portanto, pela equação da continuidade vbAb cio para as mesmas condições de um Venturi é
= voAo ,’ ou seja, v = vK
J ’ o
C Substituindo os valores
bc. muitas vezes maior. A energia perdida é proporci­
na equação da velocidade, obtém-se: onalmente maior e quando um orifício é inserido
em uma linha por longos períodos de tempo, o
2 (p*-pb) custo da energia pode ser desproporcional ao cus­
to do investimento inicial. Orifícios são, portanto,
C A„^ (6.36) uma boa escolha para testes ou outros casos em
que a perda de carga não seja um fator importante.
Contudo, apesar das considerações de perda
Utilizando-se o coeficiente de descarga Co de carga, os orifícios são largamente empregados,
para se levar em conta as perdas de carga no me­ em parte por sua grande flexibilidade, pois a ins­
didor e parâmetro C , a vazão obtida será: talação de uma placa de orifício com uma abertu­
ra diferente é uma tarefa simples. O medidor
Venturi não pode ser alterado facilmente, assim
Q_ C „A 0 2 (P„“ Pb)
são instalados em sistemas permanentes.
y V (6.37) Deve-se notar que, para um dado diâmetro de
1-
tubulação e um diâmetro de orifício, a leitura de
VA “ J
um medidor Venturi será cerca de 2,6 vezes menor,
O valor de Co varia consideravelmente com ou seja, o medidor de orifício irá mostrar uma leitu­
as variações da relação A / Aa e com o número de ra de manômetro maior para a mesma velocidade.
214 ABASTECIMENTO DE ÁGUA

b) Medidores ultrassônicos de montante para o de jusante será maior que o


tempo de trânsito do sinal do transdutor de jusante
Os medidores de vazão de tempo de trânsito para o de montante. Assim, pela diferença de tem­
e efeito doppler são dois tipos de medidores que po de trânsito pode-se obter a velocidade do esco­
têm sido largamente utilizados em líquidos em todo amento.
mundo. Algumas companhias estão se utilizando Considerando-se c, a celeridade do sorii no
métodos de tempo de trânsito para medições em meio líquido e v , a velocidade do escoamento
escoamentos de gases. Os medidores ultrassônicos (Figura 6.66), então as velocidades de propagação
podem ser utilizados para medições em água, es­ dos pulsos ultrassônicos de 1 para 2 e de 2 para 1
goto, hidrocarbonetos líquidos, compostos quími­ são respectivamente:
cos orgânicos e inorgânicos, leite, cerveja, óleos,
e muitos outros. O requisito básico é de que o flui­ VBA=C- Vm-COS(P (6.38)
do seja condutor ultrassônico e tenha um escoa­
mento relativamente bem desenvolvido. Alguns V AB=C + ' V C0S(P (6.39)
destes medidores podem ser utilizados sem qual­
quer contato com o meio fluido, garantindo que
não haja interferência de corrosão e outros efeitos
do fluido sobre os sensores ou partes eletrônicas.
Os aparelhos podem ser colocados de modo
a receberem as ondas diretamente ou através de
reflexão na parede da tubulação conforme apre­
sentado nas Figuras 6.64 e 6.65,
Modo Diagonal

Figura 6.66 - Parâmetros dos medidores


ultrassônicos.

Os tempos de trânsito são respectivamente:

tla b = (6.40)
Figura 6.64 - Medidor ultrassônico - Modo VAB VBA
diagonal
2 ■vm•cos cp _ 2 •vm•L •cos cp
At = t BA —tl AB =
(c2~~v^cos2<p)
(6.41)
A aproximação feita na expressão anterior é
possível, visto que, a celeridade do som no fluido
é muito maior que a velocidade do escoamento,
que pode então ser desprezada no denominador.
Resulta então:
Figura 6.65 Medidor ultrassônico - Modo
reflexivo c2 •At L ■At •c
=
2-L-cos(p 2-cos(p-L
A unidade eletrônica irá medir o tempo que o
sinal leva para transitar de um transdutor a outro. LÁt 4 2-L-At
Se o fluido está parado não se vê diferença de tém- 2 C 0 S (P (Ia B + Ie a ) C 0S < P ( t A B + t BA )
po entre as duas ondas, mas quando o movimento
(6.42)
se inicia o tempo de trânsito do s