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Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque de

Castro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional de
História da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,
2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7)

O CONCEITO POLÍTICO DE POVO NO BRASIL (1750-1840):


REVOLUÇÃO E “HISTORICIZAÇÃO” DA LINGUAGEM POLÍTICA
Luisa Rauter Pereira∗

A história não pertence aos profissionais que a escrevem. A história é uma


dimensão essencial da vida prática dos homens no mundo. A construção da história se
dá primeiramente no cotidiano, no “solo instável da convicção relativamente difusa,
pré-teórica e assistemática”, para citar Jorn Rüsen (RÜSEN, 2001), no qual os homens
pensam, agem, perseguem seus objetivos. Ao agirem no mundo, e se expressarem
através da linguagem, os homens constroem visões da história e do tempo, referem-se a
fatos, criam concepções de causalidade e continuidade, interpretações sobre o passado,
o presente e o futuro.
A linguagem é, portanto, revestida de historicidade, especialmente a linguagem
política. Ela é uma expressão da consciência histórica das sociedades. Uma maneira de
abordar essa questão é investigar a história dos conceitos políticos: abordar a diacronia
das transformações na semântica dos conceitos fundamentais do vocabulário político
para revelar as mudanças na forma como os homens constroem o tempo, a história, o
passado e o futuro.
Apresentarei aqui uma investigação histórica sobre o conceito de povo no Brasil
entre 1750 e 1840, no debate político luso-brasileiro através de uma documentação que
inclui debates parlamentares, periódicos, textos doutrinários, e outros. Elegi para análise
o fenômeno da temporalidade na semântica política e o processo de “historicização” que
marcou a linguagem política entre os séculos XVIII e XIX no Brasil e no mundo
ocidental como um todo.
Na linha de autores como Reinhart koselleck, Marcel Gauchet, Pierre
Rosanvallon, entre outros, definimos como historicização conceitual dois fenômenos
correlacionados: primeiramente, a inserção dos conceitos em concepções processuais e
universais do tempo o que lhes confere uma profundidade histórico temporal que antes


Doutora em Ciências Humanas: Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ
(IESP-UERJ); Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC-Rio). Bacharel e Licenciada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Professora Substituta no Departamento de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU);
Agência Financiadora: CAPES

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Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque de
Castro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional de
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não possuíam. Também definimos como historicização dos conceitos seu


contingenciamento, isto é, o fato de seus significados passarem a ser extraídos de
percepções, análises, diagnósticos e julgamentos da realidade empírica presente, sejam
quais forem os pontos de vista que os presidem”. Estes dois fenômenos afastaram cada
vez mais a conceitualidade política de repertórios semânticos estáticos e a-históricos
característicos do Antigo Regime e da medievalidade.
Meu trabalho parte da segunda metade do século XVIII na vasta colônia
portuguesa chamada Brasil. O conceito de povo, especialmente em seu plural “povos”,
era de grande importância na linguagem política e administrativa daquele momento. Os
povos eram considerados a base do corpo social e político: o conjunto hierárquico dos
corpos do reino português. “Felicidade”, “conservação” e “sossego” dos povos eram as
justificativas, por exemplo, das petições das câmaras municipais ao rei. Nos textos
legais de base do Império português, as Ordenações, o conceito aparece como o alicerce
do corpo político social que deveria ser conservado e protegido, mantendo-se a justiça,
isto é seus lugares estabelecidos, com seus privilégios e jurisdições. Era muito comum o
uso de metáforas como a do corpo humano, na qual os povos eram os membros, e o rei
a cabeça; e a metáfora da família, em que os povos eram os filhos e o rei o pai.
Enquanto o rei tinha o dever de manter a harmonia e a justiça, os povos tinham
determinadas funções para garantir o “bom funcionamento” do corpo social. O que
importa destacar para os nossos fins é a a - historicidade destas concepções, seu caráter
estático, fora do tempo histórico, e sua importância nesta segunda metade do século
XVIII, de onde partimos. Vejamos um trecho das Ordenações Manoelinas que expressa
bem estes significados: “assim se deve fazer o bom Príncipe, pois que por Deus foi dado
[seu poder] principalmente não para si, nem seu particular proveito, mas para bem
governar o seu povo, e aproveitar a seus súditos como a próprios filhos” (Ordenações
Manoelinas,1984: 1).
Este conceito de povo tradicional essencialmente a-histórico, teve uma versão
modernizada construída no século XVII. A razão natural dizia que os povos eram os
detentores originários do poder, que fora dado a eles diretamente por Deus, e
posteriormente passado ao reis sob condições estabelecidas em um pacto. Nesta
concepção, o retorno da soberania aos povos era uma possibilidade em caso de tirania, o
que seria um descumprimento do pacto originário. Os povos eram, junto ao rei,

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responsáveis por manter a justiça, conservando de forma latente o poder dado por Deus.
Poderiam, portanto, tomá-lo de volta em caso de arbitrariedade do detentor da
soberania. Nos grandes movimentos de fins de século XVIII e primeira metade dó
século XIX essa idéia esteve amplamente presente, somando-se às idéias da ilustração
francesa.
No movimento de 1817 na Província de Pernambuco essa concepção apareceu
de forma evidente. A nobreza pernambucana se referia à tradicional relação entre os
povos e o monarca, recordando que “a obrigação do rei e dos seus ministros é conservar
os vassalos e suditos em paz, fazendo observar a cada um os ditames da razão e justiça”.
Porém, continuava o documento, “como a justiça divina é só reta e igualmente
distributiva, permite algumas vezes superiormente, que os mesmos que reconhecem a
obediencia castiguem as tiranias, mostrando rebeldia (...)” (Ordenações Manoelinas,
1984: 1)
Para além dessas concepções tradicionais e a-históricas sobre o povo no sistema
político, o mundo luso brasileiro viveu na segunda metade do século XVIII as
conseqüências de uma política que pretendeu “modernizar” o Império em crise através
de diversas reformas institucionais e econômicas. O despotismo ilustrado pombalino
buscou horizontalizar os povos como “súditos” do monarca, enfraquecendo a idéia de
que estes tinham privilégios específicos dentro do Estado, os quais o rei deveria
respeitar. Também combateu a penetração do ideário lustrado europeu.
Trouxe também, o que é central neste trabalho, a noção do povo como realidade
natural a ser diagnosticada e controlada pelo estado monárquico. Nesta visão, os
administradores do Estado deveriam basear sua ação política na apreciação do “estado
civilizacional” do povo, o que seria definido por uma visão do mundo sócio-político
orientada pelas ciências naturais.
Neste contexto, o conceito de “população” teve grande importância contra o
perigo que o conceito povo representava enquanto sujeito de direitos e privilégios e
ação no mundo. Na linha da doutrina fisiocrata, os administradores coloniais
preocupavam-se com a falta de uma população na colônia, tanto no sentido quantitativo,
como qualitativo, e a necessidade de aumentá-la, conhecê-la e controlá-la. Nas
memórias da Academia de Ciências de Lisboa, essa temática foi constante.
A população colonial sempre foi um problema para as elites dirigentes, questão

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que se agravou no século XVIII. Além da imensa quantidade de escravos, que sempre
foi motivo de preocupação no que diz respeito à segurança, as autoridades percebiam
como muito problemática a existência de um contingente humano etnicamente diverso,
formado, por brancos pobres, índios, escravos libertos e mestiços sem lugar definido no
sistema produtivo. Fora muito comum a percepção de que na colônia não havia um
verdadeiro povo, mas sim uma vasta “plebe”, palavra correlata à palavra povo, que
denota uma parte considerada inferior da população. Quero destacar que na primeira
metade do século XVIII, a plebe era percebida de maneira totalmente diferente do que
foi feito na segunda metade. Ao se buscar compreender as características da plebe, os
administradores coloniais, via de regra, buscavam o exemplo histórico ou a autoridade
de autores clássicos. A plebe do século XVIII era tida como a mesma da Antiguidade.
Era como se o tempo não houvesse transcorrido. O mundo Antigo era um repertório de
exemplos e máximas edificantes capazes de apontar características constantes da
natureza do homem. O curso do tempo não era ainda visto como produtor do novo, pois
a natureza humana não sofria alteração histórica.
Deste ponto de vista, tratando de uma revolta ocorrida na primeira metade do
século XVIII, um administrador colonial buscou Platão que comparava a plebe

a um grande animal, do qual é preciso conhecer as manhas para saber como há


de ser tratado, que se não tem este animal quem o amanse, faz-se furioso, se não
o guiam, não sabe para onde anda, é terrível se não tem medo, começando a
temer se perturba e foge. (LORETO COUTO, 1904)

Retomando o argumento, na segunda metade do século XVIII, com o


despotismo ilustrado cientificista, entrou em cena outra forma de perceber a plebe
colonial por parte das elites coloniais. Através da idéia de “população”, a plebe passou
a ser objeto de observação, catalogação, análise, a partir dos parâmetros das ciências
naturais e econômicas do momento, deixando em segundo plano, o exemplo e a
autoridade clássicas. Tratou-se de uma forma mais historicizada em que o tempo
histórico era capaz de produzir diferença.
Num segundo momento da minha pesquisa, busquei investigar o conceito
político de povo em uso no processo de Independência Brasileira, que se deu entre 1820
e 1823. Com o Rei português no Rio de Janeiro desde 1808, após a invasão napoleônica
na península ibérica, as elites portuguesas iniciaram um processo revolucionário, que

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pedia a volta do rei à Portugal sob um sistema constitucional. No reino do Brasil, os


acontecimentos em Portugal tiveram repercussões que acabariam em 1822 levando à
emancipação política, haja vista a intenção dos liberais portugueses de recolonizar o
Brasil. É preciso ter em mente que desde 1808, o Brasil fora elevado à Reino Unido,
deixando de ser uma colônia em termos jurídicos, uma vez que era então a sede da
monarquia.
Nos anos de efervescência revolucionária do constitucionalismo do início dos
anos 1820, o conceito de povo passou por um intenso processo de politização, isto é
passou a ser objeto de maior controvérsia e disputa política. A tônica da utilização do
conceito foi dada pela idéia de regeneração política. Era uma consciência do tempo
como retorno a um momento ou estado considerado áureo que dominava a semântica do
conceito: a regeneração era um processo em que os povos estavam acordando de um
profundo sono; voltando a um estado originário em que seus direitos naturais haviam
sido respeitados plenamente. Tal estado originário era freqüentemente representado pelo
passado medieval português, anterior ao absolutismo monárquico.
Ao se falar em povo ao longo do movimento, os diversos grupos tendiam a
perceber o conceito como algo estático, a histórico, numa forma de consciência histórica
típica do século XVIII, marcada pela idéia de natureza humana, leis universais e estados
originários: os povos eram então um conjunto de indivíduos com direitos naturais que
deveriam ser satisfeitos. Independente e soberano – para os grupos de viés republicano;
já para os monarquistas constitucionais, o povo seria indissoluvelmente vinculado à
figura real, numa concepção que mantinha fortes vínculos com a idéia dos povos como
os filhos ou corpos em relação com a figura real, mas agora reelaborada pelas teorias
monárquicas da restauração francesa. A soberania do povo, portanto, não eliminava em
absoluto o lugar fundamental do rei e o tipo de relação que tradicionalmente era
esperado que mantivesse com seus povos: este continuava sendo “a cabeça e parte
essencial desse corpo moral”, um “pai no meio dos seus filhos” (O Bem da Ordem. n. 5
1821. Apud. SILVA ,1987)
A facção monarquista constitucional predominou no movimento que realizou a
independência a partir do Rio de Janeiro. Este grupo trouxe à tona também o conceito
criado pelo despotismo ilustrado do século XVIII, reatualizado pelo liberalismo
conservador do século XIX, que punha em relevo o “estado de civilização” do povo e a

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conseqüente necessidade da tutela monárquica. Este viés sobrepujou o conceito


político-revolucionário de povo posto em relevo por republicanos – entendida esta
palavra na sua acepção mais larga.
Cabe ressaltar, citando os trabalhos de Valdei Lopes Araújo (ARAÚJO, 2008)
que este conceito de civilização que circulou entre a segunda metade do século XVIII
até os anos 1820 não tinha toda a carga histórica que ganharia mais tarde: significava
antes o grau de aproximação ou “atualização” em relação à natureza racional do homem
e não tanto um movimento ou curso da história. Significava o movimento dos povos
tomando consciência, ficando mais racionais, vencendo os obstáculos para a execução
de seus direitos no mundo, acercando-se da realização prática de sua natureza, e não
ainda propriamente um marcha universal do tempo.
Nos debates a respeito do poder provincial da primeira assembléia constituinte
brasileira, aberta em 1823, percebemos nas falas de deputados de todas as vertentes usos
do conceito que remetem a uma estabilidade e a-historicidade. Em geral, o conceito
apresentou significados estáveis, estáticos e permanentes. Na fala de membros de
diversas tendências políticas o povo é “sempre falto de luzes”, o povo é “sempre
incapaz”, o que mostra que a constância e estabilidade ainda era a marca do uso do
conceito. Tratava-se de um povo visto numa perspectiva em grande medida ainda a-
histórica, própria deste contexto.
Percebemos nestes anos de 1820 também a permanência dos usos do passado
como mestre da vida. Uma vez que a natureza dos povos era considerada constante, era
possível ainda aprender com os exemplos oferecidos pela história. A experiência recente
da Revolução Francesa e o passado Greco-romano eram freqüentemente inseridos nos
argumentos políticos de todos os matizes. O periódico Regulador Brasílico-Luso de
1822 defendeu a continuidade do regime monárquico no Brasil após a Independência. A
mudança de governo era sempre um mal como revelavam, na perspectiva do periódico,
diversos exemplos históricos:

Qual será entre nós aquele que pretenda cingir sua frente com os louros
ensangüentados dos Thouréts, dos Clemens, dos Maral, e dos Desmoullins?
Quem deseja ver cortada a carreira dos seos dias, ser hoje applaudido por um
partido ephémero como foi Caio Graco em Roma e amanhm ser assassinado,
como aquele foi ás portas do Templo de Diana? Ser hoje levado ao Pantheon
como Mirabeau e amanhãn lançado na cloaca como esse fingido republicano?”
(Regulador Brasílico-Luso. 29 de Julho de 1822)

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Acreditamos que na experiência política e social conflituosa histórica da década


de 1830, a historicização do conceito se aprofundou: os liberais conservadores que
chegaram ao poder construíram um discurso político em que o conceito de povo
apareceu cada vez mais despido de seu caráter político e potencialmente revolucionário,
caracterizado pela historicidade típica do pensamento do Antigo Regime, e inserido em
visões processuais do tempo e sociologicamente fundadas em diagnósticos do real. A
história mestra da vida, embora não tenha sido abandonada de todo, fora cada vez
menos posta em uso.
A questão do “legítimo povo”, aquele que teria direito a se expressar na cena
pública, foi intensamente debatida nos periodismo da época. As lideranças liberais
conservadoras no poder procuraram mostrar que as tentativas revolucionárias revoltas
das ruas não eram manifestações do verdadeiro povo, mas de facções de desordeiros
compostos pela plebe e por traidores da pátria. Atacando um jornal radical, o principal
jornal liberal-moderado questionava: “O povo!! Pois 20 ou 30 vadios sem moral, sem
educação, sem respeito alguns as leis constituem o povo para os redactores do Tempo!”
(Aurora Fluminense, 1831)
O conceito de povo generalista, abstrato e teórico exaltado, fundado em direitos
naturais á liberdade, à participação política e à insurreição, havia sido, neste discurso, o
impulsionador do “espírito de sedição”, que havia dominado as províncias levando o
caos ao Império. O lema destes políticos era o de que a política real não deveria ser
fundada em perigosas teorias da soberania popular, mas na analise acurada das
circunstancias do tempo, capaz de apontar o estágio de civilização do povo, que,
julgava-se, ainda inicial. Era preciso substituir a “revolução dos homens” pela
“revolução do tempo”, a única capaz de fazer marchar a civilização.
Nos debates na câmara e no senado em torno do federalismo – um dos grandes
debates do Império brasileiro – fica claro este caráter temporal do conceito de povo:
inserido na marcha temporal da civilização, agora entendida como a própria dinâmica
universal do tempo histórico. Esta idéia do povo em processo apareceu nos debates do
período vinculada à idéia de um espírito progressivo de ordem que estaria dominando o
povo após as grandes revoluções provinciais. Apontava-se o apontavam o“espírito
progressivo de ordem que tem desenvolvido a maioria do bom Povo Brasileiro, mais
judicioso, e sensato, do que o supunhão os que o tem julgado incapaz de sustentar suas

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Instituições livres, sua Independência, e Dignidade” (Relatório do Ministro da Justiça.


1835. Ministro Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho: 5).
O conceito de povo se inseriu na consciência “moderada” e posteriormente,
francamente conservadora erguida nesses anos, numa perspectiva temporal e
sociológica que pretendia apontar as características do povo no presente histórico. Ao
falar em povo, os liberais conservadores brasileiros realizavam analises sociológicas a
respeito do momento civilizacional do povo, com o intuito dar um embasamento realista
e factual ao projeto político centralizador, monárquico e antidemocrático. Era preciso
atentar para os fatos, capazes de derramar “huma luz immensa sobre o estado do Povo;
convém que não passem desapercebidos quando se trata de avaliar o grão de efficacia
das nossas leis que tem por fim prevenir e reprimir os delictos” (Relatório do Ministro
da Justiça. 1833. Ministro Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho: 5)
Formavam-se as bases da tradição imperial que sustentou o Império brasileiro
até sua queda em 1889: enquanto o povo estivesse seguindo o lento e gradual processo
de civilização, cabia à Coroa ocupar-se dos negócios políticos. Minha hipótese é a de
que até a década de 1830, esta historicização não levou a uma visão futurista ou
teleológica e a uma idéia clara de um futuro “povo brasileiro”. O povo permanecia
numa eterna e latente trajetória histórica, pois parecia ainda impossível vislumbrar a
constituição de um novo povo apto à vida política moderna. Uma história do conceito
que permanece, portanto, ainda, sem final e sem amanhã.
Foi apenas mais tarde, nas últimas décadas do século XIX, que este conceito de
povo eternamente “sem amanhã” dos anos 1830 foi posto em xeque. Novos grupos
políticos e de opinião criticaram a tradição política imperial, trazendo a idéia de um
futuro povo brasileiro. Este, entretanto, não seria um futuro de caráter político, mas
eminentemente sociológico: o Brasil seria um povo-nação mestiço, unido, não por laços
políticos, de vontade e ação, mas por elementos naturais, “sociológicos” ou “empíricos”
como meio, raça, natureza.

Fontes
Anais da Câmara dos Deputados.
Anais do Senado Imperial.

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Aurora Fluminense.
COUTO, Domingos de Loreto. Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. Rio
de Janeiro: Officina Typographica da Biblioteca Nacional, 1904.
Memórias Econômicas da Academia Real de Ciências de Lisboa para o
adiantamento das Artes e da industria em Portugal e suas conquistas.
Tomo V, ano. 1815.
Ordenações Manoelinas. Livro I. Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.
Regulador Brasílico-Luso.
Relatórios de Ministros da Justiça. [on line] E-collections at the Center for Research
Libraries. Brazilian Government Document Digitization Project
<http://www.crl.edu/content.asp?l1=5&l2=24&l3=45>
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Formas de Representação política na época da
independência. Brasília: Câmara dos Deputados, 1987.

Referências Bibliográficas
ARAUJO, Valdei. A experiência do tempo. Conceitos e narrativas na formação
nacional brasileira (1813-1845). São Paulo: Hucitec, 2008.
GAUCHET, M. La Condition Politique. Paris : Gallimard, 2005.
GAUCHET, Marcel. La révolution des pouvoirs: la souveraineté, le peuple et la
représentation, 1789-179. Paris : Gallimard, 1995.
KOSELLECK, R. Futuro Pasado. Para una semántica de los tiempos históricos.
Barcelona: Paidos, 1999.
ROSANVALLON, Pierre. Le peuple introuvable: histoire de la représentation
démocratique en France. Paris: Gallimard, 1998.
RUSEN, Jörn. Pragmática – A constituição do pensamento histórico na vida prática. In.
Razão Histórica. Teoria da História: Fundamentos da Ciência Histórica.
Brasília: Editoda Universidade de Brasília, 2001.
WEHLING, Arno. O conceito jurídico de povo no antigo regime: o caso luso-brasileiro.
Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro a.164,
n. 421. Out/dez 2003.