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A logística reversa como ferramenta competitiva e de

sustentabilidade ambiental
Winston Castanon de Mattos1

Profa. Dra. Selma Simões Santos2

O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPQ, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico – Brasil.

Resumo
Este artigo tem como proposta definir e explicar de que forma a logística reversa pode ser utilizada como
uma ferramenta para obtenção de vantagem competitiva e sustentabilidade ambiental. Assim, emprega
conceitos teóricos que se encontram associados à realidade prática de empresas que buscam um melhor
equacionamento dos fluxos reversos como forma de ampliar o capital natural do planeta.
Palavras-chave: sustentabilidade ambiental, logística reversa, reciclagem, latas de alumínio, legislação
ambiental.

1 Introdução
Cada vez mais, as pessoas questionam-se sobre o futuro da espécie humana no planeta, e esse
debate envolve as empresas por serem os agentes que utilizam o maior número de recursos naturais,
pois conduzem as atividades econômicas de produção.
A investigação de temas relacionados à sustentabilidade ambiental é de extrema importância ao
entendimento das ameaças que pairam sobre o capital natural do planeta, uma vez que as necessidades
de bens e de serviços, juntamente com os processos de fabricação destes, têm se dado em uma escala
que cresce geometricamente, enquanto o estoque de recursos naturais é acrescido em uma escala
aritmética. Nesse contexto, é imprescindível o surgimento de uma consciência social que assuma a forma
de práticas sustentáveis para amenizar o déficit existente entre a quantidade limitada de recursos
produtivos e a infinidade dos desejos humanos.
A crescente preocupação com o meio ambiente sinalizou para a necessidade do reuso e a
consequente redução de resíduos. Assim, ao invés de um fluxo único dos materiais, acrescenta-se a
concepção de um ciclo bidirecional, isto é, que abrange o fluxo direto e reverso, dando origem à logística
reversa, que, se bem utilizada pelas organizações, passa a representar, simultaneamente, uma fonte de
vantagem competitiva e sustentabilidade ambiental.
Para desenvolver essa investigação, o método selecionado foi a pesquisa bibliográfica. Os
procedimentos de coleta assumiram a forma de revisão de literatura especializada sobre logística reversa
e sustentabilidade ambiental. Houve, ainda, a busca em sites da internet para a explanação da logística
reversa das embalagens de alumínio.
Na busca de melhor discutir a temática proposta, este artigo está estruturado da seguinte forma:

1
Aluno do curso de Tecnólogo em Gestão Financeira – Claretiano Faculdade – Rio Claro
2
Professora Claretiano Faculdade – Rio Claro

Revista Ensaios & Diálogos – Nº7 – janeiro/dezembro de 2014 94


A logística reversa como ferramenta competitiva e de sustentabilidade ambiental

Seção 1: contém a abordagem inicial do tema e a metodologia.


Seções 2 e 3: desenvolvimento teórico sobre logística reversa e sustentabilidade
ambiental.
Seção 4: apresentação da logística reversa das latas de alumínio no Brasil.
Seção 5: considerações finais.
Seção 6: referências bibliográficas.

2 Logística e logística reversa: conceitos e aplicações


Este tópico discorre sobre a logística reversa com a finalidade de evidenciar sua importância à
sustentabilidade e competitividade das organizações.

2.1 A logística reversa


A crescente preocupação com o meio ambiente sinalizou à necessidade do reuso. Assim, ao invés
de um fluxo único dos materiais, acrescenta-se a concepção de um ciclo bidirecional, isto é, que abrange
o fluxo direto e reverso (RAZZOTO, 2010).
A logística reversa compreende a responsabilidade em promover o retorno dos produtos de pós-
consumo e de pós-venda e seu endereçamento a diversos destinos.
O início do ciclo da logística reversa ocorre em função da existência de bens e serviços que já
foram processados e destinados ao consumidor final, mas que retornaram ao processo produtivo devido
às falhas nos processos ou em virtude de formas de reaproveitamento encontradas pelas empresas
(LEITE, 2009).
Segundo Razzoto (2010), a logística reversa consiste no processo logístico de retirar produtos
novos ou usados de sua posição inicial na cadeia de suprimentos, redistribuindo-os por meio do
gerenciamento de materiais com o objetivo de ampliar sua vida útil.
As atividades realizadas pela logística reversa variam de acordo com o tipo de material e em
função do motivo pelo qual este ingressou no sistema. Os materiais são divididos em dois grandes
grupos: embalagens e produtos.
Os fluxos de logística reversa que se incidem nas embalagens ocorrem, fundamentalmente,
devido à reutilização ou em função das exigências legais. Por exemplo, na Alemanha, a legislação não
permite o descarte de embalagens no meio ambiente, fator que obriga seus produtores a reinseri-las no
sistema de produção após sua utilização pelo consumidor final (FIGUEIREDO; FLEURY; WANKE, 2006).
No caso dos produtos, as necessidades de reciclagem e reparo dão origem aos fluxos de logística
reversa.

A figura 1 apresenta um conjunto de atividades que compõem o processo logístico reverso.

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Figura 1 − O Processo Logístico Reverso


Fonte: RAZZOTO, 2010.

Fazem parte do escopo da logística reversa:

 atividades de recuperação de produtos estocados em excesso nos armazéns;


 recolhimento de produtos que sofreram processos de obsolescência;
 sobras de produção;
 manuseio de mercadorias devolvidas;
 processos industriais de desmontagens;
 produtos que serão reprocessados para utilização em outras cadeias de abastecimento;
 produtos com defeito;
 descarte e recuperação de sucatas;
 retorno do produto à origem;
 revenda do produto retornado;
 venda do produto num mercado secundário;
 remanufatura;
 reciclagem;
 recuperação ou reabilitação;
 extração de materiais constituintes;
 reintegração tecnológica;
 rastreabilidade;
 doação, entre outros (LEITE 2009; RAZZOTO, 2010).

Na concepção da logística reversa, a vida de um produto não se encerra com sua entrega ao
cliente, pois, a qualquer instante, um produto poderá retornar ao seu ponto de origem para ser
reaproveitado, reparado ou descartado (FIGUEIREDO; FLEURY; WANKE, 2006). Logo, em termos
financeiros, há custos decorrentes do gerenciamento do fluxo reverso que se somam aos custos de
aquisição de suprimentos, de produção, de armazenagem e de estocagem.

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Figueiredo, Fleury e Wanke (2006, p. 478) afirmam que:


Existem variantes com relação ao tipo de reprocessamento que os materiais podem ter,
dependendo das condições em que estes entram no sistema de logística reversa. Os
materiais podem retornar ao fornecedor quando houver acordos nesse sentido. Podem ser
revendidos se ainda estiverem em condições adequadas de comercialização. Podem ser
recondicionados, desde que haja justificativa econômica. Podem ser reciclados se não
houver possibilidade de recuperação. Todas essas alternativas geram materiais
reaproveitados, que entram de novo no sistema logístico direto.

A logística reversa volta-se às formas nas quais os produtos, com pouco uso após a venda, com
ciclo de vida ampliado ou após a extinção de sua vida útil, retornam ao ciclo produtivo ou de negócios,
readquirindo valor no mesmo mercado original ou em mercados secundários.
Conclui-se, portanto, que a logística reversa constitui-se em uma ferramenta estratégica que
possibilita a agregação de valor econômico ou de obediência às legislações, em virtude da criação de um
diferencial quanto à marca e à imagem das organizações envolvidas nesse processo.

2.2 Dificuldades na disseminação da logística reversa


No Brasil, as dificuldades de adoção da logística reversa estão fortemente relacionadas aos
seguintes fatores:
1. Impossibilidade de algumas organizações em atingir escala, isto é, alcance de um volume que
torne economicamente viável a implementação do fluxo reverso.
2. Desconhecimento quanto à importância da adoção de práticas de logística reversa para a
sustentabilidade ambiental do planeta tanto por parte de alguns gestores quanto de uma parcela da
sociedade.
Assim, na medida em que os fatores citados acima forem resolvidos, ocorrerão a disseminação de
práticas de logística reversa no Brasil, a consequente redução de passivos ambientais e o alcance da
sustentabilidade econômica das empresas. Nesse sentido, emerge a importância da atuação dos seguintes
agentes:
1) Governo: possui a capacidade de implementar, estimular e subsidiar
programas de logística reversa, bem como realizar campanhas de âmbito nacional, capazes de evidenciar
os benefícios ambientais, sociais e financeiros das práticas reversas.
O Estado tem um papel crucial no que se refere à adoção de práticas sustentáveis por parte dos
agentes econômicos por meio da regulação formal que assume a forma e controle, que é a adoção de
instrumentos econômicos.
O comando compreende o estabelecimento de regulamentações governamentais relacionadas ao
uso dos recursos ambientais que se caracterizam pela fiscalização do cumprimento da legislação e nas
consequentes sanções aos eventuais infratores. Nesse contexto, observa-se que a decisão da empresa
em diminuir ou não a contaminação estará diretamente relacionada à diferença entre os custos que
poderão ser abatidos e a intensidade das sanções (DIAS, 2011).
O controle reflete o preço dos bens ambientais de modo a cobrar da sociedade a utilização desses
bens por meio de taxas, subsídios, entre outros. As interferências governamentais que incitam
investimentos de controle ou de prevenção da contaminação serão bem-sucedidas na medida em que
gerarem, simultaneamente, benefícios ambientais e privados de modo a ampliar o bem-estar social e
melhorar as condições de competitividade das organizações (DIAS, 2011).
Dias (2011, p. 58-59) complementa a questão acima ao afirmar que:
[...] o Estado e o seu poder regulador não é o único incentivo que têm as
empresas para melhorar seu desempenho ambiental. Além das pressões

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geradas pela regulação formal, há uma resposta ambiental das empresas com a
diminuição da contaminação gerada motivada por diferentes fatores, entre os
quais: pressões da comunidade, de diferentes grupos organizados, do mercado,
dos consumidores, dos fornecedores etc.

2) Organizações: a responsabilidade ambiental e social das organizações é imprescindível para


que os programas de logística reversa sejam operacionalizados.
As organizações devem assumir a tarefa de concentrar esforços para a formação e estruturação
das cadeias setoriais de logística reversa.
A responsabilidade ambiental emerge como fator de diferenciação competitiva que concede às
organizações o status de empresas cidadãs, ou seja, corporações com maiores percepções e
sensibilidades quanto à importância em conciliar suas atividades operacionais à sustentabilidade do meio
ambiente de modo a incluir a gestão ambiental em suas estratégias empresariais.
Curi (2011) ressalta que práticas irresponsáveis são cada vez mais condenadas pelos
consumidores, que passam a evitar os produtos dessas empresas. Além disso, uma parcela de
investidores busca se aproximar de empresas adeptas aos princípios de responsabilidade socioambiental.
3) Sociedade: a conscientização e interesse da sociedade em participar de programas de
logística reversa, como a coleta e separação de materiais que serão coletados, ampliam os resultados das
práticas sustentáveis.
Leite (1999) apud Leite (2009) ressalta quatro condições essenciais para a operacionalização da
logística reversa:
 Remuneração em todas as etapas reversas: o retorno financeiro obtido em cada fase
reversa deverá satisfazer aos interesses econômicos dos inúmeros agentes envolvidos no processo.
 Qualidade dos materiais reciclados: a qualidade do produto da logística reversa está
diretamente relacionada às matérias-primas originais, que, por sua vez, dependerão das condições, do
tipo de coleta e da forma de reprocessamento do fluxo reverso.
 Escala econômica de atividade: a quantidade do output gerado deve estar em um
nível suficiente e com constância temporal para garantir o alcance de uma escala econômica e
empresarial. As cadeias reversas apresentam como dificuldades gerais a obtenção de regularidade de
fornecimento e de quantidades satisfatórias.
 Mercado para os produtos com conteúdo de reciclados: é necessário analisar a
parte quantitativa e qualitativa do mercado reverso e, a partir daí, mensurar a operacionalidade do novo
produto e a possibilidade de retorno financeiro.

3. A sustentabilidade ambiental e a vantagem competitiva a partir de ações


sustentáveis
Este tópico apresentará o conceito e as implicações da sustentabilidade ambiental com a
finalidade de evidenciar as vantagens da adoção de canais de distribuição reversos.

3.1. A sustentabilidade ambiental


O conceito de desenvolvimento sustentável anuncia que o crescimento econômico deve buscar a
redução dos impactos ambientais. Logo, parte da premissa em se atender as necessidades da sociedade
sem comprometer as gerações futuras. Por conseguinte, requer a elaboração de um conjunto de
legislações e a adoção de conceitos de responsabilidade empresarial.

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Ao longo do tempo, o conceito de sustentabilidade ambiental disseminou-se no ambiente


organizacional. Assim, as corporações incorporaram na gestão de seus negócios a meta de reduzir,
sucessivamente, os impactos ambientais decorrentes de suas atividades de processamento.
Leite (2009, p. 130) complementa a questão acima ao afirmar que:
A teoria do desenvolvimento sustentado prega a necessidade de encontrar maneiras de
alcançar o desenvolvimento econômico preservando as condições ambientais adequadas
às novas gerações. A origem da idéia do limite do crescimento deve-se ao fato de que, se
o nível de consumo de energia e matérias-primas em geral, nos países de primeiro mundo,
fosse ampliado para toda a humanidade, não haveria recursos naturais para todos. Assim,
serão necessários avanços de todas as ordens, tecnológicos, de redução de uso, de
reaproveitamento, entre outros, para que todos possam usufruir dos recursos naturais.

A sustentabilidade ambiental vai de encontro à percepção da perda de qualidade e segurança de


vida nas últimas décadas em todo o planeta, resultantes da destruição de fontes naturais, da poluição, da
escassez da água, das modificações climáticas e da degradação ambiental. Incorpora, ainda, o alto preço
pago pela sociedade devido ao atraso em estabelecer as prioridades de desenvolvimento sustentável,
evidenciando a necessidade urgente em extinguir o mito da incompatibilidade entre natureza e
desenvolvimento econômico (ODEBRECHT, 2006).
Dias (2011) menciona três dimensões do desenvolvimento sustentável das organizações, a saber:

1. Econômica: requer que as ações sustentáveis sejam financeiramente viáveis às


organizações. Assim, deverá ocorrer um retorno aos investimentos sustentáveis realizados.
2. Social: compreende o oferecimento de melhores condições de trabalho aos empregados
de uma empresa, além da participação ativa dos gestores em atividades socioculturais da comunidade
que vive no entorno da unidade produtiva.
3. Ambiental: inclui a ecoeficiência dos processos produtivos que assume a forma de
logística reversa, produção mais limpa, desenvolvimento de uma cultura ambiental organizacional,
adoção de responsabilidade ambiental, entre outras.
Dias (2011, p. 45) corrobora o exposto acima com a seguinte afirmação:
O mais importante na abordagem das três dimensões da sustentabilidade empresarial é o
equilíbrio dinâmico necessário e permanente que devem ter, e que tem de ser levado em
consideração pelas organizações que atuam preferencialmente em cada uma delas:
organizações empresariais (econômica), sindicatos (social), e entidades ambientalistas
(ambiental). Deve ser estabelecido um acordo entre as organizações de tal modo que
nenhuma delas atinja o grau máximo de reivindicações e nem o mínimo inaceitável, o que
implica num diálogo permanente para que as três dimensões sejam contempladas de
modo a manter a sustentabilidade do sistema.

A ecoeficiência pressupõe o uso eficiente dos recursos naturais. Logo, apregoa a exploração do
ecossistema de forma responsável com a finalidade de diminuir os impactos econômicos e ambientais da
produção, o que, em termos práticos, assumea forma de redução de custos e de recursos e aumento de
lucros.
Curi (2011) apresenta as seguintes estratégias como constituintes do paradigma da ecoeficiência:
 aproveitamento das fontes de energia limpa disponíveis;
 reciclagem de materiais;
 diminuição do consumo de energia;
 redução do número de acidentes;
 racionalização do uso de matérias-primas e aumento de sua eficiência;
 diminuição da quantidade de lixo tóxico.

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O monitoramento do impacto das atividades econômicas sobre a natureza deve ultrapassar o


caráter corretivo e abranger a precaução para que o progresso tecnológico não gere consequências
irreversíveis. Logo, tem-se a ecoeficiência como uma fase de inovação no mundo dos negócios (CURI,
2011).

3.2. Canais de distribuição reversos


Os bens industriais possuem ciclos de vida variáveis e, após seu vencimento, são descartados de
diferentes formas, resultando nos produtos pós-consumo e resíduos sólidos em geral.
A redução do ciclo de vida útil dos produtos associada ao aumento do número de bens e serviços
fornecidos à sociedade ampliou a quantidade de resíduos gerados, alardeando para o esgotamento da
capacidade dos sistemas tradicionais de disposição de resíduos e tornando imprescindível a elaboração de
estratégias para a destinação final dos bens pós-consumo com a finalidade de reduzir o impacto
ambiental gerado por eles. Essa realidade tem despertado nas empresas a consciência quanto à
importância de um planejamento estratégico que inclua programas e regras de gestão de resíduos sólidos
para “melhorar” os canais reversos, diminuindo, consequentemente, os impactos negativos que os
produtos e processos industriais acarretam ao meio ambiente (CAIXETA FILHO; MARTINS, 2007).
Os canais de distribuição reversos podem assumir a forma de pós-venda ou pós-consumo, os
quais, por meio de atividades de reciclagem, desmanche e reuso, darão origem a novos produtos que
serão disponibilizados em um mercado. Em geral, os canais reversos do pós-venda constituem-se dos
mesmos agentes da cadeia direta.
Os bens industriais de pós-venda retornam à cadeia de suprimentos em função do término de
validade, da existência de estoques excessivos no canal de distribuição, da comprovação de defeitos, do
nível não atingido de qualidade, da consignação, das avarias no transporte, entre outros. São destinados
aos mercados secundários por meio de reformas, desmanches, reciclagem ou dispostos em aterros ou,
ainda, incinerados.
Leite (2009, p. 13) apresenta a seguinte colocação:
Uma parcela dos bens vendidos por meio da cadeia de distribuição direta retorna ao ciclo
de negócios ou produtivo pelos canais de distribuição reversos. Os bens de pós-venda,
com pouco ou nenhum uso, constituem os canais reversos de pós-venda, enquanto os
bens de pós-consumo, que foram usados e não apresentam interesse ao primeiro
possuidor, serão retornados pelos canais reversos de pós-consumo.

Os canais de distribuição reversos pós-consumo compreendem as distintas formas de


processamento e de comercialização dos produtos de pós-consumo e de seus materiais constituintes, que
têm início na coleta e término na reintegração do bem ao ciclo produtivo como matéria-prima secundária.
Os canais reversos de pós-consumo são subdivididos em canais reversos de reuso de bens
duráveis e semiduráveis, de remanufatura de bens duráveis e de reciclagem de produtos e materiais
constituintes. Caso não seja possível proceder a essas revalorizações, os bens pós-consumo terão sua
disposição final em aterros sanitários ou serão incinerados.
O reuso assume a forma de reparo, reciclagem e remanufatura.
A remanufatura caracteriza-se pela preservação da identidade principal do produto. Dessa forma,
por meio de processos de desmontagem e montagem de peças com eventuais reparos, tem-se um novo
produto (remanufaturado), como ocorre com os motores de aeronaves e peças de máquinas (RAZZOTO,
2010).

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O desmanche constitui o processo industrial de desmontagem de um produto durável pós-


consumo, no qual se separam os componentes em condições de uso para posterior reprocessamento e
envio ao mercado de peças usadas.
Na reciclagem, busca-se extrair, industrialmente, os componentes aproveitáveis dos produtos
descartáveis para transformá-los em matérias-primas secundárias ou recicladas que deverão ser
utilizadas na fabricação de novos produtos que não preservam a estrutura anterior. Entre os materiais
largamente reciclados estão os vidros, embalagens de alumínio, os papéis e os pneus. A reciclagem
justifica-se quando a recuperação é mais vantajosa economicamente do que a disposição final.
Para amenizar o impacto ambiental causado pela poluição, contaminação e esgotamento dos
sistemas tradicionais de disposição final, as legislações ambientais buscam responsabilizar as empresas
ou as cadeias industriais pelo equacionamento dos fluxos reversos dos produtos de pós-consumo,
contribuindo para a adoção da logística reversa.
Há uma sinalização de que as crescentes exigências incorporadas à legislação ambiental
responsabilizem, cada vez mais, as empresas pelo ciclo de vida total de seus produtos. Logo, as
empresas se tornarão legalmente responsáveis pelo destino de seus produtos após sua entrega aos
clientes, fator que inclui o impacto que esses produtos causam ao meio ambiente.

4 A logística reversa do setor de latas de alumínio no Brasil


Este tópico contextualizará a logística reversa do setor de latas de alumínio no Brasil. Logo,
apresentará sua dimensão e contribuição à sustentabilidade ambiental.

4.1 Latas de alumínio: reaproveitamento e amenização de problemas


ambientais
A lata de alumínio como embalagem primária ou de contenção possui excelentes qualidades,
como baixo nível de isolamento térmico, fator que contribui para a rápida refrigeração, capacidade de
manter a integridade dos produtos embalados, baixo peso que amortiza o custo de transporte na
distribuição direta, facilidade de armazenamento, já que o fundo da lata se encaixa perfeitamente na
tampa da outra lata, contribuindo para a redução de espaço de armazenagem. Essas vantagens
justificam a evolução do emprego das embalagens de latas de alumínio (LEITE, 2009).
Por ser atóxico, resistente e maleável, o alumínio é ideal para acondicionar alimentos, produtos
de beleza, de higiene e medicamentos sensíveis ao calor, à luz e à água.
A embalagem de alumínio é inquebrável, representando segurança ao consumidor, além de ser
leve, não enferrujar e manter inalterado o sabor da bebida (RECICLAR, 2014).
O setor de latas de alumínio para embalagem é um canal reverso fechado, pois o processo
industrial de reciclagem reaproveita 100% dos materiais que serão utilizados no novo produto. Dessa
forma, há um processo de limpeza e fundição de latas que dará origem a lingotes, que reintegram o ciclo
produtivo por meio da fabricação da chapa de alumínio que será utilizada para uma nova lata (LEITE,
2009).
Produtos de alumínio, como, por exemplo, esquadrias de janelas ou carcaças de automóveis,
despertam menor atenção dos recicladores por terem processo de reciclagem mais longo, demoram mais
tempo para serem descartados, não possuem uma estrutura eficiente de coleta como no caso das latas
de alumínio e tendem a ser descartados juntamente com muitos outros tipos de materiais (IDRIUNAS,
2014).

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A reciclagem do alumínio acarreta vantagens como economia de energia, pois o processo de


recuperação gasta cerca de 700 quilowatts por hora ao ano, o que equivale a menos de 5% da energia
gasta no processo de elaboração primária do alumínio, que transforma a bauxita em alumina e, depois,
em barras ou chapas de alumínio. O processo de reciclagem economiza etapas, pois a matéria-prima é
derretida e moldada novamente, eliminando a extração, refino e redução (FERRÉ, 2013).
O programa de reciclagem tem um importante impacto social ao constituir-se em uma fonte de
renda para catadores, aposentados, desempregados, subempregados. No Brasil, aproximadamente
160.000 pessoas vivem, exclusivamente, da coleta de latas de alumínio e atividades relacionadas com a
reciclagem (RECICLAR, 2014).
A indústria de alumínio no Brasil destaca-se mundialmente nas ações de preservação ambiental
devido às iniciativas pioneiras, as inúmeras parcerias institucionais que justificam o alto volume de
reciclagem de latas de alumínio, resultando em diminuição no consumo de recursos naturais, redução de
emissões, recuperação de áreas mineradas e reaproveitamento e reciclagem de resíduos e produtos.
Dessa forma, o setor contribui grandemente para a redução do efeito estufa (RECICLAR, 2014).

4.2 A reciclagem das latas de alumínio no Brasil


A reciclagem de latas de alumínio para bebidas movimentou, em 2012, o valor de R$ 1,8 bilhões
na economia brasileira. Desse total, R$ 645 milhões foram resultantes da etapa de coleta, isto é, compra
das latas usadas, a qual gerou emprego e renda para 251 mil pessoas (LATASA, 2014).
No ano de 2012, o Brasil reciclou 248,7 mil toneladas de sucata de latas de alumínio, que
correspondeu a 18,4 bilhões de unidades ou 50,4 milhões por dia ou 2,1 milhões por hora (LATASA,
2014).
De acordo com a Associação Brasileira de Alumíno (ABAL) e a Associação Brasileira
Indústria de Latas (ABRALATAS), o Brasil ocupou, no ano de 2012, o primeiro lugar no ranking do índice
de reciclagem de latas de alumínio, com 94,4% do material consumido sendo reaproveitado (FERRÉ,
2013).
O processo de reciclagem das latas de alumínio é constituído pelas seguintes fases:
1ª) Coleta das latas descartadas após o consumo.
2ª) Recebimento da coleta pelos agentes processadores.
3ª) Seleção e triagem do material coletado.
4ª) Prensagem das latas em grandes fardos para facilitar o transporte.
5ª) Fundição. Nesse processo, as latas são derretidas em fornos especiais.
6ª) Lingotamento: formação de tiras de alumínio apropriadas para a transformação.
7ª) Laminação: os lingotes transformam-se em bobinas de alumínio após passar pelo processo de
deformação plástica.
8ª) Conformação de novas latas: as bobinas transformam-se em novas latas.
9º) Enchimento das latas: envase das bebidas.
10º) Retorno ao consumo (reuso): distribuição das latas aos pontos-de-venda, finalizando o ciclo
de reaproveitamento do alumínio (LATASA, 2014; A IMPORTÂNCIA, 2010).
A reciclagem das latas de alumínio conta com a presença de catadores que vendem as latas para
cooperativas, pequenos, médios e grandes sucateiros. Estes, por sua vez, vendem a sucata de latas para
as empresas recicladoras. Nota-se que a coleta e venda de latas de alumínio rendem muito mais do que
qualquer outro material possível de reciclagem, como PET ou papéis (FERRÉ, 2013).

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O alumínio é uma matéria-prima que pode ser reciclada infinitas vezes sem perder suas
qualidades nesse processo. Essa característica lhe confere uma função multiplicadora na cadeia
econômica.
A reciclagem de latas de alumínio estimula o desenvolvimento de novos segmentos, como o de
fabricantes de máquinas para amassar e prensar as latas e coletores. Motiva o envolvimento de
ambientalistas, gestores de instituições públicas e privadas que buscam a sustentabilidade de ações
industriais.
O sucesso do programa de reciclagem da lata de alumínio no Brasil é explicado pelos esforços
contínuos dos agentes da cadeia de reciclagem: fabricantes de chapas e de latas, envasadores de
bebidas, cooperativas e recicladoras. Além disso, o aporte do Governo auxilia na propagação de
campanhas que visam à conscientização da população.
Outros fatores que alavancam a reciclagem de latas de alumínio no Brasil residem:
1. Na existência de um mercado de reciclagem já estabelecido em todas as regiões brasileiras.
2. Na facilidade de coleta, transporte e venda e no alto valor financeiro da sucata de alumínio
associados à grande disponibilidade do material durante todo o ano (LATASA, 2014).

5 Considerações finais
A crescente globalização e competitividade no ambiente organizacional conduziram as empresas a
incorporar a visão holística de competir, inovar e colaborar com o ambiente, de modo a adequar a
produção e o consumo aos parâmetros da sustentabilidade ambiental.
O conceito de sustentabilidade apregoa o crescimento correto, equilibrado e consciente como
imprescindível à sobrevivência, a longo prazo, de uma empresa. Assim, na medida em que uma
organização contribui de forma continuada para a viabilidade do planeta, alicerça suas bases
competitivas.
Nessa ótica, entende-se a razão de muitas empresas buscarem o crescimento em harmonia com
o meio no qual estão inseridas. Para isso, assumem a responsabilidade de adotarem práticas sustentáveis
a partir da implementação da logística reversa.
Para que as práticas de logística reversa sejam convertidas em ganhos reais, os custos para
reintegrar produtos ou sobras de produção ao ciclo produtivo não podem ser superiores às vantagens
econômicas de sua reutilização. Assim, é imperiosa a criação de condições de rentabilidade operacional
para a alavancagem e implementação dessas práticas.
Nesse contexto, entende-se a importância do desenvolvimento e implementação de uma
infraestrutura que viabilize a operacionalização de ações sustentáveis por meio de um planejamento
contínuo, sinergia entre os agentes que atuam em uma cadeia (fornecedores, fabricantes, atacadistas,
varejistas e consumidores finais) e o apoio governamental.
O sucesso da logística reversa das latas de bebidas de alumínio no Brasil é resultado de uma
eficiente estruturação logística que assume a forma de localização, sistema de transporte, condições da
organização, processadores intermediários, centros de processamento, centros de consolidação,
adensamento de cargas materiais, dentre outros.
Por fim, tem-se que, na medida em que as organizações produtivas aperfeiçoarem o
equacionamento dos seus fluxos reversos, haverá, simultaneamente, uma melhoria da qualidade de vida
e a promoção da sustentabilidade ambiental.

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6 Referências bibliográficas

A IMPORTÂNCIA da sustentabilidade. 24 ago 2010. Disponível em


<http://sustentabilidadesu.blogspot.com.br/2010/08/reciclagem-das-latas-de-aluminio.html>. Acesso
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ALBUQUERQUE, J. L. Gestão ambiental e responsabilidade social: conceitos, ferramentas e
aplicações. São Paulo: Atlas, 2009.
ANDRADE, R. O. B.; TACHIZAWA, T.; CARVALHO, A. B. Gestão ambiental: enfoque estratégico aplicado
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2007.
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Revista Ensaios & Diálogos – Nº7 – janeiro/dezembro de 2014 104