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Desafinação vocal: compreendendo o fenômeno

Desafinação vocal:
compreendendo o fenômeno1
TONE DEAFNESS: UNDERSTANDING THE PHENOMENON

SILVIA SOBREIRA Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO  silviasobreira2OO9@gmail.com

resumo O objetivo deste texto é apresentar algumas contribuições para a compreensão


do fenômeno da desafinação vocal, tendo como base pesquisas da área da
cognição musical e da neuropsicologia. É feita a tentativa de analisar o significado
do termo desafinado/a, abordando-se as várias denominações usadas nos estudos
para descrever o problema. São trazidas reflexões a respeito da dificuldade de
se designarem as pessoas como desafinadas e o impacto dessas avaliações
negativas na vida delas. O tema é desenvolvido a partir da análise da relação entre
a desafinação e a musicalidade, além da equivalência da desafinação com o termo
médico amusia.

PALAVRAS-CHAVE: canto, cognição musical, amusia.

abstract The objective of this paper is to present some contributions toward the understanding
of the phenomenon of tone-deafness, supported by research in the areas of music
cognition and neuropsychology. The work attempts to analyze the significance of the
term tone-deafness, looking at the various labels used in studies that describe the
problem. The text reflects on the difficulties involved in determining whether someone
is tone-deaf, and the negative impact such a designation has on that person’s life.
The theme is developed analyzing the relationship between tone-deafness and
musicality, beyond its associated medical term, amusia.

KEYWORDS: singing, music cognition, amusia.

N
Introdução o uso cotidiano da nossa língua, é comum que as pessoas que não cantam adequadamente
sejam consideradas desafinadas. Todavia, estabelecer critérios objetivos para fazer tal
julgamento é uma tarefa difícil, visto que uma série de fatores pode influenciar no resultado.
Um primeiro aspecto que deve ser levado em consideração diz respeito aos equívocos que
podem ser cometidos quanto à classificação de crianças como desafinadas.
Guerrini (2006) mostra, em seu estudo realizado com 174 crianças entre 9 e 10 anos, que
a acuidade vocal varia de acordo com o tipo de atividade proposta. A pesquisadora constatou
que algumas crianças, por não terem uma extensão vocal trabalhada, não conseguiam cantar

1. Este estudo foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por
meio do programa de pesquisa pós-doutoral no exterior.

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afinadamente uma canção completa, embora conseguissem afinar pequenos padrões. Elas
também podiam apresentar diferentes resultados se cantavam sozinhas ou em grupo (Joyner,
1969; Robert; Davies, 1976).
Várias pesquisas (Roberts; Davies, 1976; Welch, 1985; Whidden, 2010; Wolner; Pyle, 1933;
Yarbrough et al., 1991) informam sobre o quão delicado é rotular uma criança como desafinada,
posto que muitos fatores podem levá-la a cantar dessa forma, sem necessariamente determinar
que ela venha a ser, quando adulta, alguém incluída nessa categoria. Contudo, as crianças
que se sentem excluídas nas atividades de canto, e que guardam lembranças dolorosas a
respeito de suas habilidades, podem desenvolver traumas que as levem a atitudes de negação
relacionadas ao ato de cantar. Esse comportamento pode contribuir para que elas se sintam
incapazes de afinar por toda sua vida adulta (Demorest; Pfordresher, 2015; Knight, 2010; Welch,
2001; Wise, 2009). Para Kalmus e Fry (1980, p. 373), uma pessoa abaixo de 15 anos não pode
ser considerada desafinada sem que exames mais profundos sejam realizados.
Wise (2009, p. 12) reforça a opinião anterior ao alegar que a percepção que a criança
tem de sua habilidade ou falta de habilidade para a música pode funcionar como uma
profecia autorrealizável, porque ela encontra um meio de se comportar de acordo com suas
crenças. Essas atitudes, além de serem resistentes a mudanças, também ditam a natureza do
envolvimento que as crianças terão com a música. Ou seja, o fato de se rotular uma criança
como desafinada pode ser o responsável em si pelo início da deficiência.
O problema da desafinação também apresenta desafios no que diz respeito à
classificação de adultos, posto que determinantes culturais podem ser fatores que influenciam
no julgamento. Assim, enquanto músicos treinados podem ter uma avaliação diferenciada,
considerando ínfimas variações como desafinação, uma pessoa não suficientemente treinada
musicalmente pode não perceber essas pequenas distorções e considerar a afinação razoável.
Em estudo realizado com músicos e não músicos, Hutchins e Peretz (2012) puderam concluir
que, enquanto os não músicos conseguem discernir uma nota desafinada a partir de 50 cents
(meio semitom), os músicos percebem a diferença quando ela atinge 30 cents (Hutchins;
Peretz, 2012, p. 92). Além disso, existem outras questões culturais, como o fato de alguns
povos, como os Venda, na África, desconhecerem o fenômeno e, portanto, não terem nem
palavras para defini-lo (Blacking, 1980).
Também deve ser considerado que a maioria das pessoas rotula cantores que têm
timbres pouco usuais de desafinados (Sobreira, 2003). Esse, provavelmente, pode ser o motivo
da grande incidência de pessoas que se autodeclaram desafinadas, sem que apresentem o
problema, conforme observado em vários estudos (Cuddy et al., 2005; Sloboda; Wise; Peretz,
2005).
Cuddy e colaboradores (2005, p. 320) acreditam que essas autoavaliações negativas
podem estar ligadas à pressão cultural para o sucesso, à competição nas aulas de música
e à avaliação dos colegas. Ainda segundo os autores, as memórias da época da infância
também podem ser fatores que influenciam essas autopercepções reprovativas. Sloboda, Wise
e Peretz (2005) compartilham de tal opinião alegando que a percepção das pessoas que se
consideram ou não desafinadas musicais depende muito das comparações que elas fazem.
Pode ser que elas se comparem a pessoas com altas habilidades e, assim, mesmo estando
dentro da média, se considerem muito inferiores.
Algumas características parecem ser comuns em adultos que se consideram desafinados:

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1- os "não cantores" parecem acreditar que não têm e nunca tiveram habilidade para
cantar;
2- a crença de que eles são "não cantores" surgiu, quase sempre, na infância, sempre
após uma experiência negativa de prática coletiva e sempre envolvendo a opinião de uma
"autoridade" no diagnóstico;
3- em situações sociais, eles sempre se declaram incapazes de cantar, e, em suas
narrativas, sempre empregam um tipo de humor autodepreciativo;
4- a marginalização e exclusão advindas desse status de "não cantor" sempre trazem
certo pesar e podem ter efeitos mais deletérios em outros aspectos de suas vidas.
(Knight, 2010, p. 146)

Ademais, "é mais provável que essas pessoas expliquem sua falta de habilidade como uma
aberração genética do que um problema em sua experiência educativa" (Whidden, 2010, p.
84).
Wise (2009) procurou desvendar, por meio de um questionário, o que as pessoas pensavam
a respeito de suas habilidades musicais gerais e se elas se consideravam desafinadas. Das
295 que responderam, ela tirou uma amostra de 15 para entrevistar. A pesquisadora aponta
como curioso o fato dessas 15 pessoas que se autodeclararam desafinadas relatarem que
gostam de cantar, apesar do enorme medo de serem escutadas. Em geral, elas preferem
cantar junto com algum CD colocado em volume alto o suficiente para abafar as próprias vozes
(p. 76).

Medidas para Não existe consenso a respeito da porcentagem de pessoas na população classificadas
se avaliar a como desafinadas. Levitin (1999) menciona uma proporção entre 3% e 4%, próxima aos 4,2%
desafinação propostos por Kalmus e Fry (1980), que levantaram os dados em pesquisa realizada com 604
pessoas. Cuddy e colaboradores (2005) afirmam uma proporção de 11% em 269 pessoas
pesquisadas, enquanto Dalla Bella e colegas (2012) estimam que 10 a 15% das pessoas
possam apresentar o problema.
Para Welch (2001, p. 27), "para responder à questão 'Qual é a porcentagem de cantores
desafinados em culturas ocidentais?', é necessário que se compreenda o processo pelo qual
os pesquisadores obtiveram os dados". Quanto maiores forem as categorias criadas pelos
pesquisadores, maior será o número de pessoas incluídas. A classificação também depende
da atividade requerida e de como ela é apresentada. Assim sendo, cantar pequenos padrões
ou frases pode trazer resultados diferentes quando comparados ao canto de uma canção
completa.
Wise (2009) observou que os desafinados de sua pesquisa cantaram mais afinadamente
músicas de sua própria escolha. Além disso, quando as pessoas reproduzem modelos da
voz humana, em vez de modelos de instrumentos ou de sintetizadores, o nível de afinação é
melhor (Hutchins; Peretz, 2012; Wise, 2015). Ainda há pesquisas que indicam que mulheres
podem cantar com menos acuidade ao tentarem imitar um modelo masculino (Pfordresher;
Brown, 2007).
Segundo Wise (2015), existem duas maneiras básicas de se medir a precisão da afinação,
ambas com limitações. Em um de seus testes de precisão melódica, seus participantes cantam

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músicas de livre escolha e posteriormente são avaliados por juízes especialistas, que respondem
a uma escala de precisão melódica de 1 a 8. Por outro lado, a abordagem matemática mede a
frequência de cada nota produzida e depois a compara com a nota cantada. Algumas pesquisas
(Hutchins; Peretz, 2012) usam um critério de precisão de cerca de 50 cents (meio semitom),
enquanto outras utilizam 100 cents (Pfordresher; Brown, 2007). De acordo com Wise (2015), a
desvantagem dessa maneira de medir é que um critério arbitrário deve ser definido.
Todavia, segundo Welch (2001, p. 16), se a medida for feita usando o "padrão de uma
máquina", todas as pessoas podem ser consideradas desafinadas, porque a performance de um
bom cantor inclui, muitas vezes, algum tipo de desvio, que é até considerado musical. Por isso,
as análises acústicas podem apontar distorções que não seriam consideradas desafinações,
dependendo do contexto
Contudo, tentando compreender melhor os dois processos, Demorest e Pfordresher
(2015) realizaram estudos para comparar a relação existente entre o julgamento humano e as
análises acústicas. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que o julgamento humano
estava muito próximo do julgamento acústico (Demorest; Pfordresher, 2015, p. 299) quando foi
usado o critério de 50 cents na avaliação. Os autores também alertaram que o risco maior é
usar o mesmo critério para comparar cantos de pessoas de diferentes idades, pois as questões
relativas ao desenvolvimento podem afetar a acuidade.

Conceituando Ainda que se levem em consideração todos os fatores mencionados anteriormente,


"desafinação existe, na cultura ocidental, dentro do contexto da música tonal, uma espécie de "acordo tácito"
vocal" que diz respeito ao limite de desvios que uma pessoa comete e que a faz ser classificada
como desafinada mesmo por leigos. Logo, excluindo as crianças, pelos motivos anteriormente
mencionados, e usando critérios puramente humanos para a classificação, pode-se afirmar
que a desafinação vocal é um fenômeno no qual adultos, apesar de habituados aos elementos
musicais da cultura tonal ocidental, demonstram grandes dificuldades para reproduzir
vocalmente uma linha melódica com precisão, em termos de alturas musicais. As modificações
ocorridas no resultado do canto desafinado podem variar de leves distorções a completas
descaracterizações da linha melódica original.
Essa definição de desafinação não se refere aos padrões usados para julgar o canto em
performances artísticas de nível profissional, mas aos usados para avaliar a maneira como
o canto ocorre nos diversos ambientes sociais e informais, tais como o familiar, o escolar, o
da igreja, entre outras possibilidades. Ou seja, o canto como uma forma de comportamento
humano natural. Essa definição também é contrária àquela escolhida por alguns autores (como
Peretz et al., 2003) que vêm estudando o fenômeno da desafinação classificando-o unicamente
a partir de resultados obtidos em testes de percepção musical, indicando que desafinadas são
as pessoas que não conseguem discernir as alturas da música. Em outras palavras, a definição
aqui apresentada não prediz a causa do problema, buscando apenas descrevê-lo. A descrição
também exclui problemas relativos à imprecisão rítmica.
Tal escolha está relacionada ao fato de que a incapacidade de reconhecer padrões
tonais ou notas erradas em uma melodia, embora seja um grande indício da existência do
problema, não é condição sine qua non para a presença da desafinação (Cuddy et al., 2005;
Pfordresher; Brown, 2007; Sobreira, 2003; Wise, 2009). Em outras palavras, de acordo com o

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ponto de vista aqui adotado, para que a pessoa seja considerada desafinada, ela deve cantar
desafinadamente.
Os testes de percepção podem e devem ser usados para uma melhor compreensão das
causas, mas não devem ser os únicos preditores para os problemas ligados à desafinação,
pois, sendo um fenômeno complexo, ela apresenta várias causas e não apenas uma. Há indícios
tanto de cantores desafinados que obtêm êxito em testes de percepção musical (Wise, 2009)
quanto de cantores afinados que não conseguem bons resultados em tais testes (Pfordresher;
Brown, 2007, p. 108). Também é necessário ressaltar que não conseguir cantar afinadamente
não está, necessariamente, relacionado à falta de musicalidade ou à incapacidade de ter
reações e comportamentos musicais, conforme apontado por outros autores (Cuddy et al.,
2005; Sloboda; Wise; Peretz, 2005; Welch, 2001; Wise, 2009).
Como as próprias pesquisas evidenciaram, não é possível estabelecer uma relação
direta entre desafinação e a percepção. Tal constatação deve ser destacada, uma vez que
diagnósticos feitos de maneira superficial e equivocada podem produzir efeitos negativos para
o indivíduo que recebe tal classificação.
Sloboda, Wise e Peretz (2005) entrevistaram 15 pessoas entre 18 e 70 anos tentando
esclarecer: 1) o que é a desafinação e se ela tem a ver com a falta de musicalidade; 2) quais
as explicações que as pessoas dão para a sua desafinação ou incapacidade musical. Os
pesquisadores acharam curioso o fato de algumas pessoas se considerarem desafinadas,
porém musicais. Eles notaram que as pessoas se referem àqueles que desafinam usando
estereótipos: "alguém que canta mal ou alto e que não percebe que está errando ou não se
importa com isso" (Sloboda; Wise; Peretz, 2005, p. 257). Também, para alguns dos sujeitos
daquela pesquisa, a desafinação não é impeditiva para que uma pessoa toque um instrumento.
Contudo, aqueles que se consideravam seriamente desafinados alegaram ser impossível
aprender a tocar um instrumento. As respostas dos questionários também demonstraram ser
comum a crença de que a desafinação é uma deficiência permanente e que impõe restrições
para aquilo que a pessoa possa realizar em termos musicais.

Relações Como a maior parte dos estudos sobre o tema da desafinação é encontrada em textos da
entre o termo língua inglesa, cabe apresentar uma explanação sobre o sentido dessa palavra nessa língua.
em português O termo usado como equivalente à palavra desafinação é tone deafness, que, em sua tradução
literal, significaria “surdez para as notas” (ou “para os tons”). Contudo, a escolha dessa
e em inglês
tradução não faz sentido na língua portuguesa, posto que temos uma palavra específica para
definir o fenômeno, no caso, desafinação. Em português, a palavra é, pelo menos, mais neutra
do que seu equivalente em inglês, pois indica o fenômeno, sem pretensões de estabelecer a
causa.
Mas o termo em inglês também gera muita confusão, suscitando explicações. Assim,
é possível observar, como na pesquisa reportada por Sloboda, Wise e Peretz (2005), a
preocupação em descobrir as causas que as pessoas creditam ao termo tone deafness.
Para a surpresa desses autores, os sujeitos da pesquisa usaram o termo para se referirem
apenas à incapacidade de cantar, não relacionando-o a problemas de ordem perceptiva nem
à falta de musicalidade. Os autores também observaram que as pessoas se referem àqueles
que são considerados tone deaf usando estereótipos como "alguém que canta mal, quase

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sempre alto e sem se importar de estar errando" (p. 257), indicando que ser tone deaf é o
mesmo que não saber cantar, mas também exemplificando como qualquer efeito que soe
diferente ou desagradável é reconhecido por leigos como desafinação, conforme já comentado
anteriormente.
Sloboda, Wise e Peretz (2005) assumem que, embora a maioria das pesquisas trate do
problema como um déficit na percepção, para a maioria das pessoas ele parece ser uma
dificuldade relacionada à produção. Por isso, os pesquisadores lembram que o papel das
habilidades do canto com relação às deficiências musicais merece mais pesquisas (Sloboda;
Wise; Peretz, 2005, p. 260).
Pelo que foi comentado anteriormente, até este ponto percebe-se que o termo em inglês
traz uma implicação conceitual, uma vez que a palavra está atrelada a uma possível explanação
para o fenômeno. Ou seja, a palavra indica que o problema está relacionado à percepção
(surdez) e não à incapacidade de cantar.
Esse fato impõe dificuldades na análise e tradução das pesquisas nas quais o termo
tone deafness é utilizado, porque, enquanto para o senso comum ele significa desafinação,
para grande parte dos estudos o interesse parece se voltar apenas para os aspectos
perceptivos. Então, são encontradas definições como: “[...] um grupo de indivíduos que
mostra insensibilidade para a música, especificamente na incapacidade de discriminar alturas
e melodias é o dos desafinados” (Loui; Schlaug, 2012, p. 354). Ou seja, não se faz menção ao
canto, mas a outros elementos ligados ao fazer musical, o que parece inadequado.
Outros pesquisadores também discutem o problema do significado do termo, explicitando
que, embora de uso corrente, ele não é claro, podendo, também, indicar a falta de instrução
musical, falta de interesse pela música ou mesmo certo número de subcategorias para as
dificuldades musicais (Cuddy et al., 2005, p. 311). Isto é, além das pessoas não serem capazes
de ouvir, elas também seriam incapazes de processar música, assunção que vem sendo
contestada por outros pesquisadores e que será discutida mais adiante neste texto. Logo, é
recomendado que se tenha em mente esse panorama para uma compreensão mais completa
dos estudos empreendidos, uma vez que a maior parte deles parte do pressuposto de que as
pessoas desafinadas têm problemas de ordem perceptiva.
Além disso, é necessário esclarecer que o uso da palavra tone deafness na língua
inglesa, tanto nas pesquisas quanto entre professores de música, é considerado pejorativo e
inadequado. Em vários estudos são feitas tentativas de amenizar o termo ou de criar indicadores
menos negativos, como, por exemplo, "inaccurate singers" (Forcucci, 1975; Yarbrough et al.,
1991), "uncertain singers" (Poter, 1977), "poor pitch singers" (Pfordresher; Brown, 2007; Welch,
1985) ou "non-singers" (Knight, 2010; Mitchell, 1991; Salt, 1987).
Diante do exposto, compreende-se a mudança no uso da designação do fenômeno nas
pesquisas publicadas na língua inglesa e a recorrência, a partir dos anos 2000, de pesquisas
que utilizam expressões mais amenas e politicamente corretas, como “pessoas que se
autoconsideram desafinadas” (Cuddy et al., 2005; Sloboda; Wise; Peretz, 2005; Wise, 2009).
Também podem ser encontradas recomendações explícitas para que não se use o termo, nem
em rápidas alusões (Welch, 2001).
Uma preocupação central no estudo a respeito da desafinação é a de estabelecer se
esse fenômeno pode ser inato e se, nesse caso, ele é passível de correção. Estudos na

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área da cognição e neuropsicologia vêm investigando essa dificuldade sob o termo amusia,
procurando estabelecer as causas para o problema.

Amusia Em artigo de revisão bastante completa sobre os estudos a respeito da amusia, os


pesquisadores brasileiros Nunes-Silva e Haase (2013) esclarecem que o termo foi cunhado
por Steinhal em 1871, para descrever a inabilidade de ouvir música, mas seu conceito médico,
como correspondente à afasia, foi introduzido em 1888, pelo médico e anatomista alemão
August Knoblauch. Os autores informam que o termo continua sendo usado de forma genérica,
não havendo consenso a respeito da classificação das várias formas e definições da síndrome
(Nunes-Silva; Haase, 2013, p. 45-46).
Grande parte do interesse nessa deficiência reside no fato de que, muitas vezes, após
acidentes (cirurgias malsucedidas, derrames etc.), o cérebro deixa de funcionar de maneira
seletiva. Isso significa que as deficiências prejudicam apenas o que diz respeito às habilidades
musicais, deixando intactas outras áreas. A partir de estudos com pessoas que tiveram danos
cerebrais, começou-se a especular sobre a possibilidade de que alguns indivíduos pudessem
já nascer com tal deficiência.

As amusias podem ser de dois tipos: a amusia adquirida, como consequência de


doenças ou lesões cerebrais causadas por acidentes; e a amusia congênita ou do
desenvolvimento, presente desde o nascimento e que pode ocorrer devido a fatores
hereditários. (Nunes-Silva; Haase, 2010, p. 163)

Sloboda, Wise e Peretz (2005) também informam que existe

[...] uma robusta evidência para uma incapacidade de aprendizagem musical denominada
amusia congênita. Ela surge cedo na vida e persiste através da idade adulta. Ela ocorre
na ausência de algum outro tipo de desordem cognitiva identificável ou dificuldade
neurológica e não pode ser explicada pela falta de exposição à música. As pessoas que
sofrem de amusia congênita mostram deficiências na ação de várias tarefas musicais,
incluindo a discriminação e reconhecimento melódico, memória musical, discriminação
métrica, canto ou bater dentro de um pulso. (Sloboda; Wise; Peretz, 2005, p. 256)

Wise (2009, p. 3) e Ayotte, Peretz e Hyde (2002, p. 238) atestam que o primeiro estudo
realizado sobre a amusia foi apresentado por Allen (1878). Segundo Wise (2009), esse
pesquisador aplicou o termo note-deafness2 para esse caso e o comparou ao daltonismo,
indicando que, assim como o distúrbio que impede a percepção correta de algumas cores,
a amusia também poderia ser de caráter congênito. Peretz e colaboradores (2002, p. 187)
também confirmam que a possibilidade de algumas pessoas já nascerem com deficiências
musicais específicas é contemplada há mais de 100 anos, mas apresentada de maneira
descritiva (Peretz et al., 2002, p. 187).
O fenômeno vem sendo criteriosamente estudado por Isabelle Peretz, uma reconhecida
pesquisadora na área da neurociência, desde a década de 1980. Em 2003, Peretz apresentou

2. Surdez para as notas.

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à comunidade científica a "Bateria Montreal de Avaliação da Amusia" (The Battery of Evaluation


of Amusia - MBEA). A MBEA é composta por uma série de testes desenvolvidos por Peretz e
colaboradores, no Canadá (Peretz; Champod; Hyde, 2003, p. 58). Desde a publicação dessa
pesquisa, a MBEA tem sido bastante respeitada e difundida como instrumento válido para
detectar a amusia. No estudo apresentado em 2003, Peretz e colaboradores anunciam que a
MBEA, após mais de 10 anos de testes com pacientes que sofreram lesões, pode ser aplicada
na população geral com a finalidade de detectar pessoas que sofrem de amusia congênita. No
Brasil, a MBEA vem sendo estudada a fim de que ela possa ser adaptada ao contexto brasileiro
(Nunes et al., 2010)3.
Contudo, mesmo em indivíduos identificados como portadores de amusia, nem todas
as habilidades musicais são afetadas igualmente, uma vez que o cérebro é um sistema de
organização complexo. Assim, um indivíduo pode ter comprometimentos que resultarão em
deficiências relativas ao ritmo, mas que não afetarão a área responsável pelo processamento
melódico, e vice-versa. Também pode ocorrer um mau funcionamento no que diz respeito ao
reconhecimento dos intervalos musicais, sem que essa deficiência prejudique a discriminação
de melodias e seu contorno melódico (e vice-versa), dependendo da área onde ocorre a lesão
(Peretz et al., 2003, p. 61).

Descrição Essa bateria de testes é descrita por Peretz, Champod e Hyde (2003, p. 62) como
da Bateria sendo composta por seis testes que avaliam os seguintes componentes musicais: contorno
Montreal de melódico, intervalos, escalas4 , ritmo, métrica e memória. Para isso são usadas 30 frases de
Avaliação quatro compassos, compostas de acordo com as regras estabelecidas pelo sistema tonal. Os
testes são compostos de pares de melodias e, em cada par, o participante precisa dizer se a
da Amusia -
segunda melodia é igual à ou diferente da primeira. Os três primeiros testes são de organização
MBEA
melódica e, neles, são apresentados erros que podem ser: a) uma alteração na escala (uma
nota estranha à tonalidade é inserida); b) uma alteração no contorno melódico (uma nota é
trocada por outra que difere do sentido do contorno melódico original, mas que soa natural
naquela tonalidade); c) uma alteração no intervalo (uma nota é modificada por outra, também
pertencente à tonalidade, mas a direção é mantida).
Com relação ao tempo, os testes podem ter exemplos nos quais a duração das notas
pode ser alterada (alteração no ritmo) ou a métrica. Nesse último caso, os sujeitos devem indicar
se a melodia foi apresentada em estilo de valsa (compasso ternário) ou marcha (binário). Esse
é considerado o teste que avalia a noção de métrica do indivíduo. Para o teste de memória
foram utilizadas as melodias apresentadas anteriormente no próprio teste e, para comparação,
foram criadas outras, mantendo os mesmos padrões.

3. No Brasil, além de por Marília Nunes Silva, estudos sobre desafinação e/ou amusia vêm sendo feitos por Luciane
Cuervo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Mariana Elisa Benassi Werke, da Universidade Federal
de São Paulo (UNIFESP).
4. Apesar da tradução literal, o propósito do "teste de escala" usado nessa pesquisa não é testar escalas, mas padrões
tonais que estariam envolvidos dentro de dada tonalidade; isto é, contidos em uma determinada escala.

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Contudo, mesmo reconhecendo que alguns indivíduos desafinados podem, realmente,


sofrer de amusia congênita, é preciso lembrar que essa deficiência é rara na população e que
nem toda pessoa desafinada sofre, necessariamente, dela.
Um primeiro esforço para determinar as diferenças entre pessoas desafinadas e
aquelas portadoras de amusia foi feito por Wise (2009). A autora comparou pessoas que se
autodeclararam desafinadas com pessoas classificadas em pesquisa anterior de Peretz como
portadoras de amusia, além de compará-las ao grupo de controle, composto por pessoas
afinadas. Os participantes que se consideravam desafinados tiveram uma performance
significativamente menos acurada do que a dos que se consideravam afinados, mas superior
à das pessoas portadoras de amusia. No entanto, a performance destas últimas também
apresentou diferenças individuais muito marcantes, com algumas áreas de competência não
esperadas.
Além de usar a MBEA em sua pesquisa, Wise ampliou os testes, criando o "Musical
Skills Battery"5 para compreender o fenômeno a partir de uma visão mais integrada. Muito
provavelmente, sua experiência como professora de canto, que proporcionou um contato com
alunos com todos os tipos de dificuldades, possibilitou uma visão mais integrada do fenômeno
da desafinação.
A pesquisa de Wise está ancorada na tradição dos estudos neuropsicológicos e cognitivos
ligados a deficiências no desenvolvimento6 e usa paralelos com os distúrbios apresentados na
linguagem (afasia), em analogia com as desordens relativas ao canto (amusia). Um aspecto
muito importante a ser ressaltado no estudo empreendido por Wise é que sua pesquisa procura
analisar os indivíduos em situações nas quais os comportamentos musicais são naturais. Além
disso, indo num sentido contrário aos de outros testes psicométricos, ela se preocupa com as
questões do desenvolvimento, da memória e da produção vocal, além de dar importância aos
significados sociais e de identidade das pessoas que se autodeclaram desafinadas.

As críticas Sloboda, Wise e Peretz (2005, p. 256) informam que muitas pessoas que se consideram
feitas à MBEA desafinadas obtêm resultados normais na MBEA. Uma das possibilidades é a de que algumas
e outras pessoas desafinadas possam ter dificuldades que esses testes não conseguem detectar,
já que as habilidades de cantar e tocar, por exemplo, não são contempladas nessa bateria
possibilidades
(Sloboda; Wise; Peretz, 2005, p. 256).
de testes
Uma das hipóteses de Peretz e colaboradores (2003) para explicar tal discrepância é a
de que essas pessoas talvez estivessem subestimando suas reais capacidades. Porém, os
próprios autores aventam a hipótese de que essas pessoas possam ter dificuldades distintas
daquelas que a MBEA se propõe a detectar, a saber, a percepção e a memória, e chamam
atenção para a possibilidade da heterogeneidade de deficiências, dizendo que elas devem ser
investigadas (Peretz et al., 2003, p. 70).

5. Uma versão em português da "Musical Skills Battery" está sendo feita para participantes brasileiros pela pesquisadora
Mariana Elisa Benassi Werke (UNIFESP).
6. Em seu doutoramento, Wise foi orientada por John Sloboda, autor reconhecido mundialmente por suas pesquisas na
área da cognição e psicologia da música.

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SOBREIRA, Silvia

Wise (2009) argumenta que os testes usados durante o século XX (como o de Seashore,
publicado em 1919, o de Gordon, publicado em 1965 e, depois, em 1979, e o de Bentley, de
1966) estavam alinhados com os testes criados para medir a inteligência e buscavam descobrir
habilidades inatas e predeterminar as capacidades futuras dos indivíduos. Wise menciona os
estudos de Wolner e Pyle (1933) nos quais os autores criticam as deficiências desses testes,
demonstrando que a percepção das alturas, por exemplo, era passível de ser melhorada com a
maturidade e o treino. Além disso, a autora menciona pesquisas (como as de Joyner, de 1969,
e a de Robert e Davies, de 1976, referidas neste texto) que apontam meios para se melhorar a
afinação e a percepção.
A autora atenta para o fato de que as altas habilidades musicais são raras e que a
inabilidade de responder à música pode estar relacionada às oportunidades inadequadas
com relação à aprendizagem musical (Wise, 2009, p. 5). Essa mesma linha de pensamento
é apresentada por Welch (2001), que argumenta que a classificação dos seres humanos em
musicais e não musicais impede que estes últimos tenham aspirações a se tornarem músicos,
bem como que tenham acesso a processos pedagógicos que poderiam ajudá-los a aprimorar
suas habilidades musicais.
A principal crítica apontada por Wise (2009) diz respeito ao fato da amusia ser considerada
de caráter congênito. Ela argumenta que a disfunção não foi testada em crianças ou bebês,
procedimento que deveria ser feito para configurar a doença como congênita. Como os
testes da MBEA foram realizados com adultos (entre 41 e 74 anos), Wise levanta questões a
respeito das contribuições dos fatores relacionados à idade. Essa autora alega que a bateria
Montreal é feita a partir da pressuposição de uma familiaridade dos sujeitos com os esquemas
tonais7. Wise aponta que existe certa "tensão" (Wise, 2009, p. 41) em uma bateria de testes
que se baseia no desenvolvimento das pessoas para a caracterização da desafinação como
um problema congênito. Ela também questiona o fato de Peretz e seus colegas aceitarem
os dados fornecidos pelos sujeitos da pesquisa, que reportam sofrer do problema desde a
infância, como prova de que o problema é congênito. Mas, como pesquisas com crianças não
foram feitas, isso torna o argumento circular (Wise, 2009, p. 49). Na opinião de Wise, para que
a amusia congênita seja comprovada, um enorme esforço de pesquisa deve ser feito para a
criação de uma metodologia que confirme essa hipótese (Wise, 2009, p. 33).
Outra crítica que Wise faz é a de que, apesar dos participantes da pesquisa de Peretz e
colegas (2003) terem sido selecionados de acordo com certos critérios (na tentativa de que os
sujeitos tivessem problemas semelhantes), eles apresentaram diferentes tipos de dificuldades,
mas, mesmo assim, o teste buscou encontrar uma única resposta para todos. Ou seja, a amusia
apresenta uma série de padrões de desordem e não pode ser caracterizada como tendo como
causa única as deficiências no campo da percepção. Wise (2009, p. 46) argumenta que nem
sempre existe uma correlação entre um canto desafinado e a falta de percepção.
Os componentes harmônicos ou as respostas emocionais para música, importantes
elementos que dão significado à experiência musical dos indivíduos, também não são testados

7. Em inglês, “tonal schema” significa a internalização das hierarquias do sistema tonal.

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Desafinação vocal: compreendendo o fenômeno

na MBEA (Wise, 2009, p. 51). A autora acredita que, como os problemas apresentados pelas
pessoas são muito diferentes, pode ser que a MBEA não encontre todas as causas para
a desafinação. Ela também chama atenção para o fato do termo amusia ser usado como
substituto para todos os termos usados na língua inglesa para denominar a desafinação. Creio
que o que Wise quer apontar é uma estreiteza de definição do termo, posto que a amusia
deveria corresponder a deficiências mais complexas no processamento da música e não
apenas à desafinação.
Em suma, apesar do termo amusia ser um forte candidato para expressar o problema da
desafinação para a área médica, e de ter como uma de suas causas problemas no campo da
percepção, nem toda pessoa desafinada sofre, necessariamente, de amusia. A diferença entre
indivíduos desafinados e portadores de amusia é explicitada a seguir.
Embora aqui tenham sido apresentadas algumas críticas à MBEA, cabe lembrar que a
própria Isabelle Peretz, mentora dessa bateria de testes, tem pesquisas posteriores nas quais
busca outras causas para a amusia, tanto no campo da produção (Hutchins; Peretz, 2012)
quanto no da memória (Dalla Bella et al., 2012). A pesquisadora também colaborou com a
pesquisa de Wise (2009) cedendo seus sujeitos devidamente testados e caracterizados como
portadores de amusia para participar do experimento. Esses fatos apenas indicam o quanto
os estudos sobre a amusia apresentam questões a serem investigadas e como ainda não há
respostas definitivas para explicar a síndrome.

Relação entre Wise desenvolveu essa bateria de testes para ser usada em sua pesquisa como
desafinação complemento da MBEA, na tentativa de detectar o perfil musical das pessoas portadoras de
e amusia: a amusia e daquelas que se autodeclaram desafinadas. O teste consiste em: 1) produção, com
"Musical testes relativos à produção vocal, tanto da fala como do canto (incluindo um componente de
memória) e produção não vocal, na qual os participantes devem produzir uma nota com as
Skills Battery"
teclas de um computador; 2) percepção, com testes sobre direção do som e com uma redução
da MBEA; 3) questionários, para se compreender melhor as percepções que os indivíduos têm
de si mesmos em relação ao problema. O teste é mais bem explicitado no esquema abaixo
(Wise, 2009, p. 103).

Tarefas de produção vocal

Tarefas básicas na fala e no canto:


a) imitação de frases emitidas com inflexão exagerada;
b) detecção da extensão vocal (com glissandos, fala exagerada e canto);
c) sustentação de notas isoladas.

Imitação em duas condições: com o suporte de um instrumento ou em eco (nessa última


tarefa, a memória está sendo testada):
a) com notas isoladas;
b) em sequências de 2, 3 ou 5 notas.

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SOBREIRA, Silvia

Canções:
a) "Parabéns pra você" sem acompanhamento;
b) "Parabéns pra você" com acompanhamento;
c) canção de própria escolha da pessoa.

Testes de produção8:
a) julgamento a respeito da direção das notas;
b) exercício no qual a pessoa deve alcançar uma determinada nota, comparada a outra,
com o auxílio do computador.

Autoavaliação:
1. Questionários (ambiente e histórico musical, atividades de canto e as razões para se
definirem desafinados)
1- Autoavaliação nas tarefas 1, 2, 3 e 5.

Wise (2009, p. 183) reporta que, apesar de, como grupo, as pessoas portadoras de amusia
terem um desempenho abaixo da normalidade, analisando os dados de cada indivíduo, foi
possível encontrar pessoas que conseguiam cantar tão bem quanto as pessoas do grupo
de controle de sua pesquisa, desde que tivessem algum tipo de ajuda. As deficiências das
pessoas testadas também foram variadas. Alguns conseguiram reproduzir bem os intervalos,
enquanto outros conseguiram melhores resultados nos testes de contorno melódico. Esses
dados suportam a hipótese de que existem dificuldades distintas. Uma das participantes do
grupo de portadores de amusia, por exemplo, saiu-se muito bem ao imitar ou cantar com uma
voz guia. Talvez seu problema esteja relacionado não a deficiências no campo da percepção,
mas às de memória para os padrões tonais. Resultados similares foram encontrados por Dalla
Bella et al. (2009).
A fim de testar o quanto as deficiências no campo da percepção podem afetar o canto,
os pesquisadores testaram 11 adultos portadores de amusia. Apesar de nove participantes
terem cantado desafinadamente, dois dos indivíduos pesquisados puderam cantar de maneira
razoavelmente precisa. Os autores consideram os resultados como indícios de que possam
existir caminhos neurológicos diferentes para a área da percepção e da ação.
Na pesquisa de Wise (2009) também houve o caso de um participante que estava no
grupo dos que se autodeclararam desafinados, apesar de ter obtido bons resultados na bateria
de testes de Montreal (que privilegia as questões da percepção). Essa pessoa não conseguia
cantar afinadamente, sendo seus resultados similares aos dos portadores de amusia. Ou seja,

8. Em comunicação pessoal, a pesquisadora Mariana Elisa Benassi Werke (UNIFESP), colaboradora da pesquisadora
Karen Wise durante seu pós-doutorado, explicitou que o teste "Computer Pitch Matching" estaria mais relacionado a uma
medida de produção do que de percepção, pois se trata de um teste em que o participante deve produzir uma nota. Ele
apenas não precisa utilizar a voz.

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Desafinação vocal: compreendendo o fenômeno

ela não apresentava problemas no campo da percepção, embora não conseguisse cantar
afinadamente.
Logo, se as dificuldades são tão heterogêneas, para que algum tipo de treinamento seja
eficaz, é preciso que sejam identificadas as causas do problema, ou, ao menos, que sejam
tentadas várias estratégias com a finalidade de abarcar o maior número possível de habilidades.
Com relação aos participantes que se consideravam desafinados em sua pesquisa,
Wise se pergunta o porquê dessas pessoas terem tido uma performance tão inconsistente
ao cantar "Parabéns pra você", enquanto cantaram tão melhor as músicas escolhidas por
eles próprios. Pode ser que, ao terem aprendido "Parabéns pra você" ainda quando crianças,
tenham memorizado padrões errados que foram se consolidando com anos de reprodução
(Wise, 2009, p. 184). Por outro lado, essa canção apresenta dificuldades, pois coloca o cantor
em situações que podem não existir nas canções escolhidas por eles mesmos, como o fato
de não começar na tônica ou de ter o salto para o primeiro grau na região aguda, seguido de
um intervalo descendente, que sempre desestabiliza o centro tonal. Pode ser, também, que
as pessoas errem porque elas podem estar tentando cantar em uma região na qual se sintam
mais confortáveis, mas que não é a correta.
O estudo de Wise (2009) buscou caracterizar as desordens e as diferenças entre portadores
de amusia e pessoas desafinadas, e não propor modificações na atuação dos sujeitos. Mas
estudos posteriores caminham nessa direção, como será mostrado na sequência.

Possibilidades Um estudo realizado por Anderson e colaboradores (2012) procurou investigar se as


de tratamento pessoas classificadas como portadoras de amusia congênita poderiam cantar afinadamente.
para os Os autores tomaram como premissa a capacidade do cérebro humano de se modificar
(plasticidade) e implementaram uma pesquisa na qual cinco mulheres categorizadas como
portadores de
portadoras de amusia pela MBEA foram submetidas a um treinamento musical, no intuito de
amusia
observar a sua capacidade de aprimorar a afinação. O estudo foi feito com o propósito de
fornecer treinamento tanto na produção quanto na percepção. Ele durou sete semanas, com
encontros semanais de uma hora e meia, sendo que as participantes deveriam praticar com
CDs oferecidos pelos pesquisadores por três ou quatro vezes na semana, em sessões de 15
minutos. Esse experimento tomou como base a "Musical Skills Battery" (Wise, 2009), sendo que
muitas das tarefas visavam ao treinamento nas áreas de deficiências propostas por Wise. Além
disso, foi usado o programa Sing and See, que permite que as pessoas monitorem através
da tela do computador o resultado do seu canto. Os autores tentaram propor atividades em
que as participantes se sentissem relaxadas e contentes em participar, independentemente
do resultado da pesquisa. As pessoas do grupo de controle (afinadas) fizeram apenas os pré-
testes, enquanto as portadoras de amusia fizeram, além destes, os testes após a intervenção.
Os resultados comprovaram o que Wise (2009) já havia diagnosticado, com os pacientes
demonstrando variados tipos de habilidades e deficiências. Depois do treinamento, uma das
participantes continuou com performance pobre no canto, embora acertasse quando deveria
comparar as notas nos exercícios feitos com o computador. Uma das participantes continuou
a ter resultados fracos tanto na percepção quanto na produção, enquanto houve outra
participante que teve resultados similares aos participantes do grupo de controle. Em geral,

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SOBREIRA, Silvia

embora o resultado do canto tenha melhorado, não houve mudanças significativas nos testes
de percepção. Esse desencontro entre as reais habilidades de um indivíduo e os resultados
que ele apresenta nos testes de percepção é um dos pontos que o professor de música deve
considerar, especialmente o professor que lida com o treinamento auditivo, como em aulas de
percepção musical. Pode ser que as pessoas precisem de um tempo maior para conseguir
identificar aquilo que já fazem de maneira intuitiva.
Segundo Anderson e colaboradores (2012), os resultados da pesquisa demonstram a
grande variedade de dificuldades que podem ser apresentadas, indicando aos professores que
diferentes abordagens no treinamento podem trazer maior eficácia. Os pesquisadores lembram
que o número restrito de participantes e o curto período de intervenção não podem ajudar
a montar quadros estatísticos, mas, das cinco participantes, apenas uma não apresentou
melhoras no MBEA, nem na sua capacidade de cantar afinadamente.
Dalla Bella e colegas (2012) comprovaram em sua pesquisa que os problemas de memória
podem afetar a capacidade de afinar. Logo, as autoras acreditam que exercícios de imitação,
bem como os do canto acompanhando alguém, podem ajudar a aprimorar a afinação dos
cantores que tenham esse tipo de problema.
Além dos exercícios convencionais usados para ampliar a qualidade vocal, a memória e a
percepção, aparecem como aliados as opções trazidas pelos avanços da informática, tal como
o programa Sing and See (reportado por Anderson et al., 2012).

Conclusões É possível que algumas pessoas desafinadas possam sofrer de amusia congênita, mas
tal possibilidade é pequena. A avaliação para comprovar tal deficiência deve ser feita seguindo
o rigor dos testes propostos pelas pesquisas mencionadas neste texto, e não serem feitas de
maneira leviana. Se os estudos aqui analisados informam sobre a dificuldade da caracterização
das pessoas como desafinadas, maior cuidado deve ser tomado no caso da comprovação da
amusia.
Nesse sentido, é prudente que se evite usar o termo amusia como sinônimo médico
de desafinação. Um equívoco como esse pode ter consequências mais graves na vida dos
indivíduos envolvidos com o problema. De qualquer forma, pode-se afirmar que tanto os casos
de desafinação quanto alguns casos de amusia são passíveis de correção.
Fazendo uma reflexão sobre o conjunto de pesquisas, pode-se detectar a necessidade
de maior colaboração entre os estudos da área da neurociência e os da educação musical. Os
casos relatados por professores não são completamente desconsiderados, mas são tomados
como relatos casuais, por não obedecerem aos critérios de rigor científico. Por outro lado,
alguns testes propostos pela área da neurociência carecem de significado musical ou, pelo
menos, não são representativos para assegurarem que o indivíduo tenha uma determinada
deficiência. O teste em que a pessoa deve reconhecer peças como sendo valsa ou marcha,
por exemplo, é um exemplo de tarefa que, para a maioria dos professores, não poderia ser
considerada como preditora de deficiências com relação à métrica.
Alguns estudos indicam caminhos mais profícuos para trabalhar o problema, por exemplo,
não rotular crianças como desafinadas, buscando técnicas que as ajudem a se sentirem
confiantes. Além disso, tanto em se tratando de adultos quanto de crianças, como as causas

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Desafinação vocal: compreendendo o fenômeno

da desafinação podem ser muitas, deve-se procurar variedade nos exercícios e treinamento,
de maneira a tentar superar o máximo de dificuldades possíveis. Há indícios de que certas
predisposições biológicas podem ser exacerbadas pela falta de experiência musical na
infância; logo, um maior incentivo deve ser dado durante essa fase.
Parece claro que, com os avanços das pesquisas nas áreas da cognição e neurologia,
seria incompleto estudar a desafinação sem mencionar a amusia. Contudo, deve-se ter em
mente que isso não significa que os fenômenos estejam sempre correlacionados. Todas as
pessoas normais possuem capacidades cognitivas básicas para compreender a música de
sua própria cultura, mesmo que, aparentemente, algumas possam ter mais dificuldades. Seria
contraproducente pressupor que aquelas que apresentam o problema da desafinação tenham
alguma incapacidade natural, abandonando-as sem ajuda. Um pensamento como esse só
serviria para tirar a responsabilidade que os professores devem ter diante do compromisso de
ajudar as pessoas que querem (ou necessitam) usar o canto como meio de expressão pessoal.

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Silvia Sobreira é professora do curso de Licenciatura em Música e do Programa de Pós-Graduação


em Música da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutora em Educação pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na área de Currículo e Linguagem. Mestre em Música
e Educação pela UNIRIO. Graduada em Regência pela Escola de Música da UFRJ. Líder do Grupo de
Pesquisa Formação e Práticas em Educação Musical (FORPEM). Pós-doutorado realizado (agosto de 2015
a julho de 2016) no Instituto de Educação (IoE) da University College of London (UCL), sob a supervisão de
Graham Welch, especialista em desenvolvimento da voz infantil.

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