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AVANÇOS E RETROCESSOS NA LUTA CONTRA O HIV

Renato Frossard (Março, 2018)

Da negação ao direito de internação ao tratamento de alta eficiência com


um comprimido diário (TARV), muito já foi feito até agora, na luta contra o vírus
da imuno deficiência. Mas se por um lado avançam as legislações e os
protocolos de tratamento se tornam cada vez mais eficientes, por outro, o
preconceito resiste e atrapalha a adesão aos tratamentos e a vida dos
pacientes que convivem com o HIV.

De acordo com Barata (2006), o surgimento da AIDS (Síndrome da


Imuno Deficiência Adquirida) na década de 1980 foi considerado a maior
epidemia do século XX e mudou o papel da medicina e da ciência enquanto
solução para os problemas humanos. Segundo a autora, a doença, então
cercada por medo e dúvidas, trouxe à tona questões como o preconceito, o
comportamento sexual de risco, questões relacionadas à medicina e à indústria
farmacêutica.

Foi mais ou menos assim: da noite para o dia a TV passou a veicular


notícias sobre um novo tipo de vírus que se alojava no corpo da pessoa e, em
pouco tempo, a levava à morte. Vimos famosos perderem a vida para a doença.
Sua aparência totalmente desfigurada pelo mal desconhecido nos aterrorizava
e nos fazia repensar nossos comportamentos, nossas convicções e nossas
esperanças para o futuro. As notícias apontavam como “grupo de risco” os
homossexuais masculinos, as prostitutas, e os hemofílicos. Este fato, além de
fazer aumentar o preconceito contra estas pessoas dava a falsa ideia de que
elas eram culpadas pelo surgimento e pela disseminação da doença. Então,
diante do pavor imposto pela doença e da tristeza de ver morrendo nossos
ídolos, tínhamos a certeza de que não queríamos fazer parte deste tão
vulnerável grupo.

Greco (2016) relata que, no princípio da epidemia, havia muito medo e


preconceito envolvendo os pacientes identificados como tendo os sintomas da
doença. Hospitais, como o HC de Belo Horizonte, se recusavam a internar os
mesmos, temendo pela segurança dos demais pacientes e temendo que a
doença pudesse se espalhar. Como razão, os hospitais alegavam falta de
leitos, de conhecimento especializado, de material ou de pessoal qualificado, o
que correspondia ao real motivo para esta recusa. O autor relata que somente
em 1985, com a criação de uma ala específica para o tratamento dos pacientes
infectados com o vírus, o HC passou a poder oferecer o devido cuidado a estes
doentes. Infelizmente, com a ausência de tratamentos específicos a sobrevida
destes pacientes era curta e não lhes restava muito a fazer a não ser aguardar
a morte, dolorosa, lenta e humilhante.

Em 1987, com a descoberta do AZT o número de mortes começou a


reduzir e uma esperança começou a se desenhar. No entanto, o preconceito e
o medo continuavam a fazer com que os pacientes fossem tratados com certo
desprezo e medo por parte da população em geral, devido ao
desconhecimento ou à falta de entendimento de que estas pessoas já haviam
sofrido o suficiente apenas pelo fato de terem contraído o vírus.

À época, campanhas educativas eram constantemente veiculadas nos


principais meios de comunicação. Tais campanhas incentivavam a todos a
reduzirem o número de parceiros sexuais, a usarem preservativos em todas as
relações e a utilizarem apenas seringas e outros materiais descartáveis a fim
de evitar a contaminação. Por sua vez, as instituições religiosas pregavam a
abstinência e o heterossexualismo como forma de se evitar a disseminação da
doença. Se, por um lado, isto ajudou de alguma forma a reduzir o número de
contaminações, por outro, fez aumentar o preconceito contra os homossexuais
e prostitutas que já eram mal vistos pela sociedade. Uma ideia errônea de que
o homossexualismo era apenas uma questão de escolha começou a ser
propagada, aumentando o sofrimento dessas pessoas e fazendo com que elas
se recolhessem a uma posição de “anonimato”, o que só servia para fortalecer
o poder da doença, já que estas pessoas não podiam trazer a público suas
inclinações sexuais e precisavam manter suas práticas afetivas à sombra e às
ocultas.
A indústria de preservativos começa a lucrar bilhões, pois o medo da
doença e as campanhas educativas mudaram a forma como as pessoas se
comportavam sexualmente, e o uso da “camisinha” passou a ser peça quase
que obrigatória nas relações sexuais entre jovens solteiros. Apesar disso, os
casos de contaminação continuaram a ocorrer em todo o mundo,
principalmente nos países em desenvolvimento, onde o nível de pobreza e a
falta de acesso à informação facilitavam a disseminação da doença.

De acordo com Greco (2016), a partir de 1996 o uso de terapia


antirretroviral combinada (ARV) trouxe uma nova perspectiva para o tratamento
dos pacientes com HIV. Além disso, o desenvolvimento de exames de alta
precisão e eficácia na identificação da infecção tornaram possíveis que as
pessoas iniciassem o tratamento o mais cedo possível, além de diminuir
consideravelmente as infecções através de transfusão sanguínea, ficando o
combate ao vírus, praticamente, voltado para o combate à transmissão por via
sexual.

Hoje, cerca de 30 anos após a identificação da doença, o quadro é


completamente diferente do ponto de vista da ciência e da medicina, mas
permanece semelhante no que diz respeito à discriminação e ao preconceito.
De fato, o medo que as pessoas têm de serem identificadas como “portadoras”
do vírus, termo que pejorativamente recebem os pacientes de HIV, faz com que
as pessoas resistam à mera ideia de realizar um exame para detectar a
contaminação. Além disso, o medo de que as instituições por trás da realização
dos exames se aproveitem da confiança das pessoas ou divulguem
informações sigilosas a respeito dos exames realizados faz com que uma
grande quantidade de pessoas evite, a todo custo, a realização do exame para
identificar a contaminação pelo vírus, o que poderia diminuir o risco de novas
infecções, além de permitir o início precoce do tratamento, evitando-se a
infecção por doenças oportunistas através da vacinação e da manutenção das
células de defesa imunológica do paciente em níveis aceitáveis, do ponto de
vista médico.

Enquanto, por um lado, a indústria farmacêutica vem crescendo e


lucrando aos bilhões, os pacientes que realizam tratamento para manter o vírus
fora de circulação, e sem condições de causar danos ao organismo, muitas
vezes permanecem no anonimato, por medo do preconceito, por se sentirem
inferiores a outras pessoas e por medo da reação de amigos e familiares.
Desta forma, décadas de pesquisas e avanços no campo da medicina têm sua
eficácia diminuída, não conseguindo trazer de volta a qualidade de vida destas
pessoas ao que era antes de se contaminarem.

De um outro ponto de vista, num cenário cinematográfico, elaborados


métodos de coação e tortura são utilizados para manterem isoladas e
amedrontadas as pessoas identificadas como HIV positivas. Estas pessoas são
levadas aos serviços de psiquiatria, pois julgam que estar sofrendo de surto
psicótico ou de esquizofrenia. Elas são expostas a ruídos direcionados durante
a noite e durante o dia de forma a causar nelas uma série de transtornos como
depressão, ansiedade e até mesmo transtornos esquizoafetivos. Como não
têm como provar nada, estes pacientes são obrigados a sofrer calados, ou
mesmo passar por desequilibrados ou doentes mentais. Este relato pode não
encontrar relatos na literatura, mas não se trata de invenção ou devaneio.
Embora não estejam claros os motivos ou razões por que este tipo de ação é
tomado contra os pacientes de HIV, este é um fato que, absurdamente,
acontece, ainda nos dias de hoje. Somente com muito esforço a pessoa
consegue se manter mentalmente saudável e em condições para exercer
atividade laboral remunerada.

Enquanto as legislações referentes aos servidores públicos os protegem


e amparam em caso de infecção por HIV, podendo os mesmos inclusive
solicitar uma aposentadoria por invalidez, caso venha a desenvolver alguma
doença incapacitante, a luta destas pessoas, muitas vezes é na verdade pelo
contrário. Elas desejam ter o direito ao trabalho e ao respeito. De forma
preconceituosa, muitos enxergam o paciente como um problema, ou como uma
pessoa que se negará a realizar as tarefas que são de sua responsabilidade.
No entanto, este fato não corresponde à verdade, pois, uma vez que a pessoa
receba tratamento adequado e apoio psicológico, estará em perfeitas
condições de desenvolver suas atividades profissionais, de forma normal.
Embora o HIV ou AIDS ainda permaneçam um problema sério a ser
enfrentado de todas as formas disponíveis, já não é mais possível que as
pessoas permaneçam desinformadas e carregadas de preconceito em relação
ao vírus e sua forma de contaminação. Os tratamentos e terapias preventivas
também devem ser conhecidos e divulgados. As campanhas educativas de
prevenção, principalmente para o público jovem, devem ser retomadas. Não é
possível enxergarmos o preconceito e a discriminação como algo normal ou
aceitável. As pessoas que combatem o vírus através de remédios e que
cuidam para não contaminar outras e não contrair outras doenças devem ser
respeitadas e amparadas. Não é possível fecharmos os olhos e fingirmos que
não estamos vendo o que estas pessoas estão passando.

Concluo este artigo com um apelo para que as autoridades e para que
todos os cidadãos voltem os olhos para a realidade de que, hoje em dia,
existem soluções adequadas para o problema do HIV, e que estas soluções
precisam ser divulgadas e apoiadas para que possamos vencer esta luta. O
preconceito apenas atrapalha os esforços que já foram feitos até o momento na
luta contra a doença. É preciso também ter consciência de que os “milagres”
podem vir em diversas formas, até mesmo na forma de um medicamento. Sem
descuidarmos da prevenção, que ainda é a melhor saída, precisamos nos
conscientizar de que a medicina já tem uma resposta satisfatória para os que,
por alguma infeliz coincidência, se contaminarem. O fim do mundo, na questão
do HIV, não é o fato de ele poder levar à morte, se não for tratado, mas o fato
de saber que, por medo do preconceito e da discriminação, as pessoas, às
vezes, prefiram a primeira opção a aderir ao tratamento.

REFERÊNCIAS

BARATA, Fernandes Germana. A Primeira Década da AIDS no Brasil: O Fantástico


Apresenta a Doença Ao Público. Artigo disponível em: <
http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-07072006-124258/pt-br.php.
GRECO, Bartolomeu Dirceu. Thirty years of confronting the Aids epidemic in Brazil,
1985-2015. Artigo disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-
81232016000501553&script=sci_arttext&tlng=en>. Acesso em: 05/03/2018.

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