O problema
Jurema Alcides Cunha
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O psicodiagnóstico é um processo, desen-
cadeado quase sempre em vista de um en-
caminhamento, que tem início numa consul-
convivem com o paciente, inclusive por aque-
las que podem ser classificadas como agentes
de saúde mental (como professores, orienta-
ta, a partir da qual se delineiam os passos do dores, padres, médicos, etc.).
exame, que constitui uma das rotinas do psi- Já em 1970, Shaw e Lucas lembravam que
cólogo clínico. Entretanto, tal tipo de avalia- muitos pais hesitam em considerar certo com-
ção decorre da existência de um problema pré- portamento do filho como motivo de preocu-
vio, que o psicólogo deve identificar e avaliar, pação, alegando que muitas crianças podem
para poder chegar a um diagnóstico. apresentá-lo, no que muitas vezes têm razão.
Não obstante, entre a emergência de sinais Freqüentemente, é a falta de distinção entre
ou sintomas precoces e incipientes, nem sem- desajustes ocasionais e prolongados que faz
pre fáceis de detectar ou de identificar, e a che- com que as pessoas confiem no tempo para
gada à primeira consulta, podem surgir mui- que desapareçam. Às vezes, há certa tolerân-
tas dúvidas, fantasias e busca de explicações, cia quanto a comportamentos que devem ser
que retardam a ajuda, podem agravar o pro- superados, seja porque deixaram de ser pro-
blema e, eventualmente, interferem na objeti- porcionais às suas causas, porque uma deter-
vidade do relato do caso. minada idade foi ultrapassada, por normas
Dizem que “os sintomas estão presentes mais flexíveis do ambiente ou, ainda, porque
quando os limites da variabilidade normal são alguém da família apresentava os mesmos sin-
ultrapassados” (Yager & Gitlin, 1999, p.694). tomas na infância.
Então, se considerarmos a aparente continui- Quando o problema ocorre com um adul-
dade entre ajustamentos que as mudanças de to, pode-se verificar uma tendência a enfren-
rotina impõem, os estados emocionais asso- tá-lo sem ajuda, ou uma tentativa de explicá-
ciados a acontecimentos da vida diária, as rea- lo em termos de fatores circunstanciais e, as-
ções a situações estressantes freqüentes e os sim, talvez resolvê-lo através de mudanças ex-
sintomas iniciais de um transtorno mental, evi- ternas. De qualquer maneira, desde o surgi-
dencia-se a dificuldade de julgar quando se mento do problema e até a consulta, “a natu-
configura um problema que necessita de uma reza e a expressão dos sinais e sintomas psi-
avaliação clínica. E tal dificuldade tanto pode quiátricos são profundamente alteradas pelos
ser sentida pelo sujeito como pelas pessoas que recursos pessoais, capacidades de enfrenta-
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bação é proporcional às causas, ficando cir- bavam a rotina da vida cotidiana, ignorando
cunscrita aos efeitos estressantes dos mesmos. alguns sintomas mais graves.
Não obstante, se sua intensidade for despro- Quando as mudanças percebidas são de
porcional às causas e/ou tal alteração persistir natureza qualitativa, habitualmente chamam
além da vigência normal dos efeitos das mes- a atenção por seu cunho estranho, bizarro, idi-
mas (por exemplo, no luto patológico), já pode ossincrásico, inapropriado ou esquisito e, en-
ter uma significação clínica. Naturalmente, tão, mesmo o leigo tende a associá-las com
deve ser considerada a possibilidade de outras dificuldades mais sérias. Apesar disso, ainda
variações, quando uma alteração aparentemen- que sejam geralmente tomadas como sinal de
te pareceu ser autolimitada, mas reaparece sob perturbação, eventualmente poderão ser expli-
diferentes modalidades, numa mutação sinto- cadas em termos culturais ou subculturais.
mática, ou da mesma maneira, repetitivamen- Pode-se afirmar que “um comportamento ou
te, de forma cíclica. experiência subjetiva definidos como sintomá-
Por certo, esses critérios de intensidade e/ ticos em um contexto podem ser perfeitamen-
ou persistência podem ser também aplicados te aceitáveis e estar dentro dos limites normais
à dimensão desenvolvimento, considerando os em outro contexto” (Yager & Gitlin, 1999,
limites de variabilidade para a aprendizagem p.694). Uma manifestação inusitada, do pon-
de novos padrões de comportamento, para to de vista qualitativo, deve, assim, ser julgada
certos comportamentos imaturos serem supe- dentro do contexto em que o indivíduo está e,
rados, em determinadas faixas etárias. Por como sintoma, será tanto mais grave se for
exemplo, o controle definitivo do esfíncter ve- compelida mais por elementos interiores do
sical deve ser alcançado, no máximo, ao redor que pelo campo de estímulos da realidade, que
dos três anos. Então, um episódio de aparente é praticamente ignorada. Entretanto, é preci-
fracasso em fase posterior não teria maior sig- so ficar bem claro que um sintoma único não
nificação, se fosse uma reação a uma situação tem valor diagnóstico por si, o que vale dizer
estressante. Mas sua persistência já pode re- que nenhum sintoma é patognomônico de uma
presentar um sinal de alerta, justificando-se determinada síndrome ou condição reconhe-
uma avaliação clínica. cida. Assim, “todos os sintomas psiquiátricos
Note-se que aqui estamos utilizando um devem ser considerados como inespecíficos –
julgamento clínico. Entretanto, sobre questões vistos em uns poucos e, mais provavelmente,
de desenvolvimento, há muita coincidência em muitos transtornos” (Yager & Gitlin, 1999,
entre o senso comum e o que é sancionado p.694).
pela ciência. A expectativa social, porém, às Dada a relatividade dos critérios usuais na
vezes, não é corroborada pelas normas e cos- definição de um problema, a abordagem cien-
tumes de uma ou outra família. Nota-se que, tífica atual para a determinação diagnóstica
na prática, as famílias podem diferir na deter- advoga o uso de critérios operacionais. É, pois,
minação de quais são os limites da variabilida- necessário que o paciente apresente um certo
de normal, por rigidez ou, pelo contrário, por número de características sintomatológicas,
protecionismo. Isso faz com que determinado durante um certo período de tempo, para ser
comportamento pareça sintomático num de- possível chegar a uma decisão diagnóstica.
terminado ambiente familiar, mas não em ou-
tro. Por outro lado, nem sempre os problemas
que chamam a atenção da família são clinica- PROBLEMAS PSICOSSOCIAIS E AMBIENTAIS:
mente os mais significantes. Num estudo de ACONTECIMENTOS DA VIDA
80 crianças, realizado por Kwitko (1984), hou-
ve diferença quanto à média dos sintomas in- O conceito de estresse, termo cunhado no
formados e a registrada pelos técnicos duran- âmbito da pesquisa endocrinológica, pela me-
te o exame. Por outro lado, as queixas de fami- tade do século XX, teve o seu sentido extrema-
liares referiam-se mais a sintomas que pertur- mente expandido para explicar, de um modo
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cada vez mais não ignore a importância do No DSM-IV (APA, 1995), é reapresentada a
modelo dimensional. Já o psicólogo, na práti- definição de transtorno mental que foi incluí-
ca, costuma dar ênfase ao modelo dimensio- da no DSM-III e no DSM-III-R, não por parecer
nal. Na realidade, avaliar diferenças individuais especialmente adequada, mas “por ser tão útil
envolve algum tipo de mensuração. Além dis- quanto qualquer outra definição disponível”
so, o enfoque quantitativo oferece fundamen- (p.xxi).
tos para inferências com um grau razoável de Na tradução brasileira dessa classificação,
certeza. Mas o psicólogo utiliza, também, o consta que transtorno mental pode ser con-
modelo categórico. Na maioria das vezes, po- ceituado “como uma síndrome ou padrão com-
rém, associa o enfoque quantitativo e o quali- portamental ou psicológico clinicamente im-
tativo, no desenvolvimento do processo psico- portante, que ocorre no indivíduo”, registran-
diagnóstico, utilizando estratégias diagnósti- do-se, a seguir, “que está associado com sofri-
cas (entrevistas, instrumentos psicométricos, mento (...) ou incapacitação (...) ou com um
técnicas projetivas e julgamento clínico) para risco significativamente aumentado de sofri-
chegar ao diagnóstico. mento atual, morte, dor, deficiência ou perda
É evidente que, conforme o objetivo, o pro- importante da liberdade” e, ademais, “não
cesso diagnóstico terá maior ou menor abran- deve ser meramente uma resposta previsível e
gência, adotará um enfoque mais qualitativo culturalmente sancionada a um determinado
ou mais quantitativo, e, conseqüentemente, o evento, por exemplo a morte de um ente que-
elenco de estratégias ficará variável no seu rido”. Além disso, independentemente da cau-
número ou na sua especificidade. sa original, “deve ser considerada no momen-
Embora o psicodiagnóstico tenha um do- to como uma manifestação de uma disfunção
mínio próprio, o seu foco na existência ou não comportamental, psicológica ou biológica no
de psicopatologia torna essencial a manuten- indivíduo” (p.xxi). Comportamentos socialmen-
ção de canais de comunicação com outras te desviantes não são considerados transtor-
áreas, precisando o psicólogo estar atento para nos mentais, a não ser que se caracterizem
questões que são fundamentais na determina- como sintoma de uma disfunção, no sentido
ção de um diagnóstico. já descrito.
A partir dessa conceituação, vê-se que é cla-
ra a exigência de uma associação com sofri-
TRANSTORNOS MENTAIS E mento ou incapacitação ou, ainda, com risco
CLASSIFICAÇÕES NOSOLÓGICAS de comprometimento ou perda de um aspec-
to vitalmente significante. Em segundo lugar,
Se abrirmos o Novo Dicionário Aurélio (Ferrei- fica evidente que os sintomas devam ser com-
ra, 1986), na página 1.703, vamos encontrar que portamentais ou psicológicos, embora possa
transtorno é sinônimo de perturbação mental. haver uma disfunção biológica. Em terceiro
Entende-se que se pode categorizar, como tal, lugar, esse conceito descaracteriza os serviços
uma diversidade de condições, que se situam e os membros da comunidade de saúde men-
entre o que se costuma caracterizar como nor- tal como agentes de controle social, no mo-
malidade e patologia. Portanto, é uma expres- mento em que considera que um conflito en-
são menos compatível com a antiga concep- tre indivíduo e sociedade pode ser identifi-
ção de doença mental. Não obstante, temos cado como um desvio, condenável pelos pa-
de convir que, semanticamente, bastaria o ter- drões sociais, mas que, por si, não é tido
mo transtorno, embora a sua significação não como transtorno mental, a menos que, ao
modificasse a crítica feita à expressão transtorno mesmo tempo, constitua o sintoma de uma
mental, que, “infelizmente, implica uma distin- disfunção.
ção entre transtornos ‘mentais’ e transtornos ‘fí- Essa caracterização de transtorno mental é
sicos’, que é um anacronismo reducionista do apresentada pelo DSM-IV, que é a edição mais
dualismo mente/corpo” (APA, 1995, p.xx). recente da classificação oficial nos Estados
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