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Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez

Zolá Pozzobon 1

O véu e a espada
As guerras através dos tempos

ZOLÁ POZZOBON

2003

EDITORA
ÁGORA DA ILHA
Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez
2 O véu e a espada

Ficha catalográfica

POZZOBON, Zolá (1925)

O VÉU E A ESPADA / POZZOBON

Rio de Janeiro, janeiro de 2003


246 páginas

Editora Ágora da Ilha - ISBN 7576

História (das guerras da humanidade) CDD - 900


História das civilizações CDD - 909

COPYRIGHT: Zolá Pozzobon


RIO DE JANEIRO - RJ. TEL.: (0 XX 21) 2295-3623
E-MAIL: pozzeba@ms.microlink.com.br

DIREITOS DE EDIÇÃO RESERVADOS A ZOLÁ POZZOBON. É PROIBIDA A REPRODU-


ÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTA OBRA SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DO MESMO.

RIO DE JANEIRO, JANEIRO DE 2003

FOTOS: EXTRAÍDAS DE HISTÓRIA DO SÉCULO 20, A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


EMIRADOR

REVISÃO: ROSEMARY CAETANO

EDITOR: PAULO FRANÇA

EDITORA ÁGORA DA ILHA - TEL.FAX: 0 XX 21 - 3393 4212


E-mail: editoraagoradailha@terra.com.br
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Zolá Pozzobon 3

A os estudiosos da História e da
Guerra, tão antiga esta quanto aquela;
A meus colegas militares, que par-
ticiparam de conflitos armados ou de-
dicaram suas vidas a estudá-los, a
fim de manter a pátria livre de suas
horríveis conseqüências;
Às vítimas de todas as guerras,
sejam militares nos campos de bata-
lha ou inocentes civis nas cidades e
vilas, para que a civilização humana
possa um dia, com a ajuda de Deus,
conter as ambições de poder e de
domínio de governantes de todos os
matizes políticos que têm levado a
humanidade, por motivos fúteis ou
tresloucados, a sacrificar milhões de
nossos semelhantes.
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Zolá Pozzobon 5

Apresentação

Tendo sido assíduo leitor de assuntos militares, mesmo antes de entrar


para o Exército, prossegui durante minha carreira a compulsar quase todos
os livros que surgiam sobre o assunto.
A partir de outubro de 1998, venho escrevendo uma série de artigos
para o jornal O Correio sob o título de “As guerras e seus mistérios”.
Com o passar do tempo, tive a idéia de compilar tais artigos e acrescentar
outros, tudo dentro de uma certa ordem cronológica. Assim, faço desfilar,
desde a remota Antigüidade até os dias que correm, a maioria dos embates
político-militares e suas profundas implicações.
São capítulos condensados, nos quais se destacam causas e
conseqüências dos conflitos, atuação dos políticos e chefes militares e
aspectos curiosos que poucos livros salientam.
Algumas vezes, tendo em vista situar determinada campanha ou
operação militar, descrevo em largos traços o quadro que as envolve,
embora já tenha a ele me referido em outro capítulo. Não se trata, pois, de
simples repetição de cenários.
Em O véu e a espada encontrareis a a disputa milenar entre palestinos
e judeus até a atualidade; a atuação de grandes chefes militares; guerreiros
vencendo enormes distâncias e travando inúmeras batalhas para darem
vasão a sua ânsia de poder; sonhos e pesadelos que agitaram nações e
continentes; as portas do inferno abrindo-se sobre a terra, através das
quais abateram-se as hecatombes das I e II guerras mundiais e o apocalipse
nuclear, e, finalmente, a terceirização da guerra, através de conflitos
localizados e telecomandados pelas grandes potências.
Não serão encontradas descrições de batalhas, o que demandaria uma
coleção de livros e o trabalho conjunto de pesquisadores e historiadores.
Talvez sirva esta obra de motivação para que se estude o fenômeno
“guerra” ligado às questões políticas e econômicas, e não apenas o
desenvolvimentos das operações militares em terra, no mar e no ar, parte
esta mais afeita aos militares, embora de interesse de todos os que são
influenciados por seus efeitos.
rotua O
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Zolá Pozzobon 7

Índice

Davi e Golias. ........................................................ 13


A Palestina e o Sionismo .............................................................. 15
Os árabes ..................................................................................... 17
Oriente Médio ............................................................................... 19
Oriente X Ocidente ....................................................................... 21
O inevitável estado da Palestina ................................................... 23
Guerra do Yom Kippur .................................................................. 27

Grandes chefes militares ....................................... 29


Alexandre da Macedônia .............................................................. 31
O desfiladeiro das termópilas........................................................ 35
Delenda est carthago! .................................................................. 39
Alea jacta est ................................................................................ 43

Os guerreiros ......................................................... 47
Belisário, o bizantino ...................................................................... 49
O flagelo de Deus .......................................................................... 53
Djebel al-Tarik (A Montanha de Tarik) ............................................ 55
O véu e a espada .......................................................................... 59
A grande cavalgada ....................................................................... 63
Avalanche turca ............................................................................. 65
Um só no céu, um só na terra! ....................................................... 73
Ivan, O Terrível .............................................................................. 75

Sonhos e pesadelos............................................... 77
Frederico e a artilharia montada .................................................... 79
Herói de muitas batalhas! .............................................................. 83
Conflito Norte X Sul ....................................................................... 87
Sonho de um império tropical......................................................... 91
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8 O véu e a espada

A ascenção do Império do Sol Nascente ....................................... 99


Uma blitzkrieg sem panzer e sem stukas! ................................... 101

O inferno na terra ................................................ 103


A dupla hecatombe do século XX. ............................................... 105
A ousadia de Hitler ..................................................................... 111
Corrida para a Noruega .............................................................. 117
Por onde atacarão os alemães? ................................................ 125
Hitler “presenteia” aos ingleses a Retirada de Dunquerque ........ 129
Um corsário nos mares do sul ..................................................... 131
O fantasma do Atlântico Norte! ................................................... 135
Operação Leão Marinho (Seelöwe) ............................................ 139
Rudolph Hess - A queda da poderosa sombra ............................ 143
U - 47.......................................................................................... 147
Napoleão, Hitler e o General Inverno! ......................................... 151
Erros e equívocos de Hitler ........................................................ 159
A Cobra está fumando! ............................................................... 165
A maior operação anfíbia da Historia .......................................... 169
Os pára-quedistas ...................................................................... 173
Roosevelt sabia? ........................................................................ 189
Skorzeny: um herói legendário! .................................................. 191
Furtos de guerra ......................................................................... 199
As duas faces de uma mesma nação .......................................... 203
O apocalipse nuclear .................................................................. 205

Tempos modernos .............................................. 207


O esquálido x o atleta ................................................................. 209
Fúria na Mesopotâmia ................................................................ 213
Falkland x Malvinas .................................................................... 221
Bactriana .................................................................................... 229
Uma confrontação perigosa ........................................................ 235
Bálcãs - um vulcão eruptível ....................................................... 239
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Zolá Pozzobon 9

As guerras, seus
segredos e mistérios
O fenômeno Guerra abrange os conceitos de conflito, luta,
peleja, combate, batalha, agressão, ataque, defesa e outros
semelhantes.
Em seu sentido amplo, é um fenômeno social, uma vez que
atinge o homem e a sociedade, abalando-os, destruindo-os ou
transformando-os. Por desentendimento, inveja, ambição e ou-
tras manifestações, como defesa de interesses grupais ou mania
de grandeza coletiva, lançam-se os povos uns contra os outros,
cada qual a defender a “nobreza” de sua causa e a condenar a
“torpeza” dos adversários.
Muitas vezes, nacionalismo e patriotismo são invocados para
justificarem a agressão. Há muitas classificações de guerras: mun-
dial, localizada, civil, revolucionária, irregular, subversiva, psicológi-
ca, convencional, química, biológica, bacteriológica, nuclear etc.,
conforme as classificam os estudiosos do assunto.
Mas... quando começaram as guerras? Poderíamos responder:
desde que o homem, pela primeira vez, sacrificou seu semelhante.
Caim, primogênito de Adão e Eva, por inveja, matou seu irmão
Abel e foi amaldiçoado por Javé, que lhe impôs um sinal....
(Gênesis, 4, 8-16)

Os patriarcas, a partir de Abraão, o primeiro judeu, segundo


ensinam mestres de seu povo, sustentaram guerras com reis
vizinhos.
O povo hebreu, ao deixar o Egito, depois de séculos de domi-
nação, conduzido por Moisés, “como o Sol”, foi perseguido pelo
faraó, cuja cavalaria e carros foram tragados pelas águas do Mar
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10 O véu e a espada

Vermelho (Êxodo 14, 26-31)


Após saírem daquele país, sustentaram os judeus inúmeras
lutas contra os reis dos territórios por onde passavam, até chega-
rem à terra prometida. Josué, “como a Lua”, conquistou Canaã,
onde iriam se fixar os israelitas. É muito conhecido o relato sobre
a queda de Jericó, cujos muros teriam ruído após toques de trom-
betas, isto é, “caíram de maduros”. A história dos juízes e reis de
Israel é um desfile de pugnas contra seus vizinhos. É bastante
difundida a vida de Davi e suas lutas contra os filisteus – hoje,
palestinos – e outros povos.
O rei da Babilônia combateu Jerusalém e todas as cidades da
Judéia e conduziu seus habitantes ao cativeiro, onde eles permane-
ceram por largos anos.
No tempo de Cristo, estava o país sob o domínio de César.
Quando do julgamento do Mestre, diante de Pilatos, ao perguntar
este ao povo a quem devia soltar, se a Cristo, que se dizia rei, ou
a Barrabás, um ativista subversivo que lutava contra os romanos,
os príncipes dos sacerdotes atiçaram o populacho a gritar:
“Barrabás. Barrabás!”
Em 66 d. C. começou a rebelião judaica contra a ocupação
romana, dando-se o verdadeiro início à Diáspora. No ano 70 d.
C., o imperador romano Tito abafou uma grande revolta dos ju-
deus e destruiu Jerusalém. Patriotas zelotas, e talvez sobreviven-
tes dos essênios, ocuparam a fortaleza e cidade de Massada,
próxima ao mar Morto, e aí se
sacrificaram até o último comba-
tente, resistindo ao assédio da 10ª
Legião Romana, sob comando de
Flávio Silva. (73 d. C.)
Tomando-se por base o
Período Neolítico, ou da Pedra
Polida, há cerca de 10 mil anos,
embora as primeiras atividades
humanas já tenham se manifes-
tado muito antes, no Paleolítico,
a era mais antiga da pré-história,
sustentam os estudiosos que a
humanidade conheceu somente
200 anos de paz, mesmo assim,
entrecortados por conflitos limita-
dos, a pipocarem aqui e ali.
E se dissermos que a Guerra
é.anterior
S a tudo isso?
Zolá Pozzobon 11

Então houve no céu uma grande batalha: Miguel, “quem como


Deus” e seus anjos pelejaram contra o Dragão e o Dragão com
seus anjos pelejaram contra ele. Porém, estes não prevaleceram,
nem seu lugar se achou mais no céu. E foi precipitado aquele
grande Dragão, aquela antiga serpente que se chama o Diabo e
Satanás que seduz a todo o mundo. Sim, foi precipitado na terra e
precipitados com ele seus anjos. (Apocalipse 12, 7-9)

O evangelista Lucas, que não era judeu, e sim grego, conta-nos


ter Jesus enviado 72 de seus discípulos a anunciarem a boa-nova
do Reino de Deus. Ao retornarem de suas jornadas, através dos
lugarejos da Palestina, deram-lhe conta do trabalho:
Mestre, até os demônios se submetiam, em virtude de teu nome.
(Lucas, 10, 17)

Respondeu-lhes, então Jesus: Eu via cair do céu a Satanás


como um relâmpago. (Lucas, 10,18)

Para os cristãos fica difícil admitir que Cristo estivesse fazendo


piada ao responder aos 72 dedicados discípulos.
Muitos leitores poderão não concordar com os trechos bíbli-
cos aqui citados, argumentando que a linguagem oriental é sim-
bólica e rica em parábolas. A própria Igreja admite que os auto-
res de boa parte dos livros do Antigo Testamento tenham recor-
rido ao simbolismo para transmitir a grandeza da Criação e ad-
vertir os homens contra a prática do mal, levando-os a não con-
fiarem inteiramente em si mesmos, mas a recorrerem a Javé, o
Deus único que não aceita ídolos.
Tema estranho nos dias que correm é falar em anjos bons e
anjos maus a sociedades acostumadas às evidências científicas.
Essas mesmas sociedades, porém, estão à busca constante de
novos ídolos, acreditam em astrologia, astral, magias de todo o
tipo, guiam-se por horóscopos e quiromancia, invocam espíritos de
mortos e outras entidades do Além, quer para benefício de si pró-
prias, quer para atraírem o mal a seus desafetos.
Na melhor das hipóteses, como a guerra é um fenômeno da
História terrena, e, quem sabe, cósmica, devemos admitir que é um
mistério. Embora possa ser analisada de diversos ângulos, não
deixa de apresentar qualidades estranhas e imponderáveis. Uma
conquista conduz a outra e a dinâmica do guerreiro leva-o a perse-
guir a glória insaciável, que sempre está além do horizonte.
Um dos maiores mistérios que desafia o homem pós-moderno é
12 O véu e a espada

a questão de o Universo ser ou não povoado, pois a lógica nos


conduz a admitir tal possibilidade. Para grande parte das pessoas,
seria muito mais emocionante e sensacional deparar com ET’s e
homúnculos cabeçudos vindos de Marte ou de outro sítio no espa-
ço, do que com anjos (mensageiros de Deus).
Vivemos rodeados de mistérios, a começar pela vida e a morte,
o interior da matéria e das partículas, a dimensão “infinita” do Uni-
verso, a origem do homem, seu destino último e por aí a fora.

O autor.
Zolá Pozzobon 13

Davi e Golias
Zolá Pozzobon 15

A Palestina e o Sionismo

A PALESTINA - Pequena faixa de terra situada entre o Líbano


ao Norte, o Rio Jordão e o Mar Morto a Leste, o deserto do Sinai
ao Sul e o Mar Mediterrâneo a Oeste. Sua história remonta a
3.500 anos a. C. Era habitada por cananeus, amorreus, hititas,
moabitas, fenícios e filisteus. Por volta do ano 2.000 a. C., um
grupo de origem judaica (semita), sob a chefia de Abraão, deixou
Ur, na Caldéia (atual Sul do Iraque), e se dirigiu à Palestina.
Ao tempo em que José, descendente de Abraão, se tornou
ministro do faraó, os judeus da Palestina, tangidos pela fome,
transferiram-se para o Egito, onde se multiplicaram. Cerca de oito
séculos depois, forçados pelas autoridades, deixaram o país e,
como nômades, erraram 40 anos pelo deserto. A ferro e fogo,
conquistaram diversas cidades da Palestina (Canaã).
Aí permaneceram os judeus por 13 séculos, travando contínu-
as lutas com outros povos. A terra parcialmente conquistada ficou
sendo conhecida como “Filistina”, ou terra dos filisteus. No século
VI a. C. foram os judeus exilados durante 70 anos por
Nabucodonosor, na Babilônia. No ano 135 d. C., o imperador
Adriano expulsou-os da Palestina e eles passaram a viver na
Diáspora (dispersão dos judeus pelo mundo).
Sucederam-se persas, gregos e romanos no domínio daquele
território, até a vez dos árabes, que, a partir de 637 da Era Cristã,
misturaram-se com os habitantes originais, formando o povo pa-
lestino. Este completou, em 1917, 18 séculos de ocupação.

O SIONISMO – Esta palavra deriva de Sion, uma das colinas de


Jerusalém, sobre a qual se eleva a maior parte da cidade. Assim é
conhecido o movimento em busca de “um lar”, iniciado no século
XIX, quando os judeus viviam ainda dispersos em vários países.
16 O véu e a espada

Não constituíam mais uma raça, mas se tornaram o fruto de algu-


mas miscigenações. Também tinham adotado outras religiões. Po-
rém, guardavam identidade e solidariedade, que os distinguiam. As
perseguições de que foram alvo recrudesceram neles o caráter
separatista. Seu legado cultural e espititual baseava-se na Bíblia.
Quanto ao futuro, após várias tendências de estabelecerem
uma pátria fora do antigo território, prevaleceu a idéia do jornalista
austríaco Theodoro Herzl (1860-1904), cujo objetivo era transfor-
mar a Palestina, onde vivia 1% de judeus e 99 % de árabes, em
um Estado judeu, embora aquela área fizesse parte, então, do
Império Otomano.
Após a I Grande Guerra, a Palestina constituiu um mandato
britânico. Terminada a II Guerra Mundial, muitos judeus que para
lá haviam imigrado promoveram toda a sorte de agitações e mes-
mo terrorismo contra a administração inglesa. Os judeus acaba-
ram alcançando a proclamação, pela ONU, de um Estado judeu,
em 1947.
Na ocasião, era Secretário-Geral da organização o diplomata
brasileiro Oswaldo Aranha. O novo país tomou o nome de Israel.
A partir daí, teria início uma série de confrontações militares
entre tal país, os estados árabes vizinhos e o povo palestino.
Zolá Pozzobon 17

Os árabes

Os árabes - Quando, no século VII, os árabes começaram


sua expansão, iriam encontrar civilizações milenares, das quais
haveriam de auferir importantes conhecimentos, mas também
acrescentariam contribuições científicas, artísticas, filosóficas, li-
terárias e religiosas.
É de se listar o poeta Abu Nauas; os filósofos Al-Ghazali, Al-
Maari, Al-Hariri; os místicos Al-Hallaj e Ibn Al-Farid; escritores
como Al Jahez; historiadores como Ibn Khaldum e outros expoen-
tes.
O império abácida chegou a estender-se da Espanha às
Índias e suas cortes eram esplendorosas. Em 830, o califa Al-
Mamum estabeleceu em Bagdá a Casa da Sabedoria (academia
científica, observatório e biblioteca). Quando a cidade foi destruída
pelos mongóis, tinha 16 bibliotecas públicas.
A cidade ibérica de Córdoba (cerca de um milhão de habi-
tantes), ocupada pelos árabes, apresentava, por volta do ano
1.000, setenta bibliotecas, com meio milhão de volumes.

Os bárbaros - Assim como a Europa sofreu a invasão dos


bárbaros (godos, visigodos, ostrogodos etc.), a partir do século
XII o mundo árabe foi assolado por incursões de hordas sinistras,
oriundas do centro da Ásia: Gengis Khan e os tártaros, Tamerlão
e os mongóis, Osman e seus turcomanos.
Os primeiros estabeleceram o império mais extenso do mun-
do: do Mar Negro ao Mar da China. Seu objetivo era apossar-se,
destruir e matar. Com referência a Tamerlão, conta-se que os
habitantes da cidade cercada de Siuas, para obterem clemência,
enviaram-lhe uma comitiva de mil crianças, as quais foram literal-
mente esmagadas sob patas de cavalos.
Quanto aos turcomanos, os assassinatos começavam em
18 O véu e a espada

casa: Salim I massacrou dois irmãos e vários primos. Salim II


executou dois filhos e Amurat III eliminou cinco irmãos.
Os dois primeiros impérios passaram rapidamente, mas
os otomanos permaneceram no Oriente Médio por oito séculos,
perpetrando crueldades sem paralelo e promovendo o obscu-
rantismo.
Somente no fim da I Guerra Mundial iria aquela região,
com ajuda da Europa, libertar-se do domínio otomano.
Zolá Pozzobon 19

Oriente Médio

O Oriente Médio é um trecho da superfície do globo, cuja maior


parte das terras se situa no continente asiático (na Ásia Menor) e no
nordeste da África (Egito). Encontram-se aí a Turquia, Israel, Irã,
inúmeros países árabes, entre os quais se destaca, pela extensão,
a Arábia Saudita.
Sua forma é maciça, com ramificações em penínsulas, istmos,
arquipélagos e conta com mares e golfos. São bastante conheci-
dos nomes como Suez, Mar Mediterrâneo, Dardanelos, Mar Ne-
gro, Mar Vermelho e Golfo Pérsico.
Encontram-se grandes elevações, principalmente ao norte, onde
seus cumes são cobertos por neves eternas, montanhas pitores-
cas e férteis, como no Líbano e em parte da Palestina, extensas
planícies, qual a da Mesopotâmia, regada pelos rios Tigre e Eufrates,
e alongados vales, em que se salienta o vale do Nilo, no Egito.
Todos esses acidentes geográficos constituem o chamado Cres-
cente Fértil. E mais os enormes desertos, como o Saara e outros,
na Judéia, Jordânia, Sinai e Arábia.
É o berço do Islã, do Judaísmo e do Cristianismo.
Verdadeira encruzilhada entre a Europa, Ásia e África, a região
abriga a maior bacia petrolífera do mundo, daí advindo sua enorme
importância política, econômica e estratégica.
As mais antigas civilizações de que se tem notícia surgiram nes-
sa grande encruzilhada, também conhecida como Oriente Próximo:

- Na Mesopotâmia, os assírios e a esplendorosa Nínive, que,


segundo cronistas antigos, exigia três jornadas para cobrir sua
extensão. A biblioteca do rei contava com quatro mil volumes,
escritos em caracteres cuneiformes.
- Os babilônios, pouco mais ao sul, e sua capital Babilônia, a
20 O véu e a espada

ed ortnec ,sosnepsus snidraj sues moc ,ogitna odnum od siraP


.otnemitrevid e omsitnatelid

ejoh edno aerá an ,oenârretideM od snegram sà ,soicínef sO -


a marignita serodagevan sues euq atsnoC .onabíL o artnocne es
ed setna opmet otium ossi ,arret rop aidnÍ a e ram rop acirémA
-nuba oãt oruo o are ,latipac a ,oriT me ,ailbíB a odnugeS .otsirC
.sadartse sad arieop a otnauq etnad

oãçazilivic amu ed sonod ,acirfÁ ad etsedron on ,soicpíge sO -


socsetnagig sortuo ed e sedimârip sad seroturtsnoc ,ranelimitlum
-avitluC .oãçarimda asson macovorp ejoh éta euq sotnemunom
euq siaerec ed es-maihcne sotisóped sues e oliN od elav o mav
.sohniziv sod éta emof a mavaicas

omoC .oenârretideM od snegram sà ,anitselaP an ,sueduj sO -


ocinôtetiuqra oinêg o men sele marevit oãn ,atillahC rusnaM avresbo
aicádua a men e soiríssa sod ratilim ojorra o men ,soicpíge sod
e etnerefid amrof ed ,maríubirtnoc ,mérop ,soicínef sod amitíram
.lasrevinu oãçazilivic a arap ,roirepus
Zolá Pozzobon 21

Oriente X Ocidente

Ao fim da I Grande Guerra, de libertadores os países euro-


peus passaram a colonizadores e encararam o Oriente Médio
como presa de guerra. Embora tenham levado para lá alguns be-
nefícios de sua civilização, mostraram-se arrogantes, autoritários
e jamais procuraram compreender a mentalidade daquelas popu-
lações. Tal atitude despertou um só desejo nos povos da área:
libertação dos novos opressores.
Após a II Guerra Mundial, os denominados “mandatos” che-
garam ao fim. Porém, os europeus iriam deixar o Oriente Médio
como verdadeiro campo minado, devido à perfídia com que pro-
moveram as divisões territoriais e organizaram as unidades políti-
cas da região.
Esse campo haveria de explodir, como explodiu e explode
até hoje. O Sionismo foi o grande instrumento de agressão na
área, particularmente ao mundo árabe. Como resultado, desen-
cadeou-se a violência e radicalizou-se o Islã.
No Irã, foi o xá Reza Pavlevi, de governo pró-Ocidente, der-
rubado pelo fanatismo do aiatolá Khomeiny. Na Bagdá das “mil e
uma noites”, onde o poeta Abu Nauas celebrava a vida, instalou-
se o regime de Saddan Hussein, ávido de poder e nutrido pelo
ressentimento contra a “generosa” política do Ocidente que, “de
maneira tão hábil”, havia lançado a cizânia do ódio na região.
Os ocidentais e o Sionismo continuam agredindo os direitos
e os interesses dos povos do Oriente Médio, e mantêm seu domí-
nio através do controle dos mananciais de petróleo. Fosse o Kuwait
um país agrícola, os EUA e seus “comparsas” não teriam desen-
cadeado a Guerra do Golfo.
Os valores dos povos do Oriente Médio não são exatamente
iguais aos dos países do Ocidente, mas devem ser respeitados.
22 O véu e a espada

A chave do futuro para a região está com a Europa e os EUA, por


serem mais fortes e ricos. A ONU não deve ser instrumento de
interesses de grupos, mas promover a justiça e o equilíbrio.
Zolá Pozzobon 23

O inevitável estado
da Palestina
Após 1948, tendo
sido os palestinos tan-
gidos da terra onde
habitavam havia sécu-
los – a Palestina – pela
ocupação judaica, pro-
curaram eles abrigo
nos países árabes vi-
zinhos, já assoberba-
dos com problemas de
subdesenvolvimento.
Grande parte dos pa-
lestinos que não se Premiê de Israel Shimon Peres com Yasser Arafat
conformou com a situ-
ação concentrou-se na Jordânia, constituindo ameaça à estabili-
dade da monarquia hachemita, do rei Hussein. Em setembro de
1970, (Setembro Negro, segundo os palestinos), o monarca lan-
çou seu exército contra os feddayyin. Embora impopular em todo
o mundo árabe, essa guerra consolidou o poder de Hussein.
A OLP (Organização para Libertação da Palestina) – Conven-
ceram-se os palestinos de que eles próprios deviam buscar “um
lugar ao sol” no Oriente Médio e escolheram o caminho do terro-
rismo, como meio de desestabilizar Israel. Surgiram vários grupos
de combatentes, enquadrados por elementos que já vinham
hostilizando os judeus através de operações militares não conven-
cionais. Entre tais grupos, destacou-se a OLP, sob o comando de
Yasser Arafat.
Os judeus decidiram atacar os numerosos acampamentos pa-
24 O véu e a espada

lestinos concentrados no Líbano, com ações aéreas no início e, a


seguir, mediante invasão por terra.
Encontrava-me em Israel, em junho de 1982, visitando os Lu-
gares Santos do Cristianismo, quando observei inusitado movi-
mento de viaturas militares de comunicação realizando exercícios
nas estradas. Poucos dias depois, formações blindadas israelen-
ses penetraram no Líbano e pressionaram os palestinos até às
cercanias de Beirute. Pareciam contados os dias de Arafat e da
OLP. Entretanto, ele e seus principais seguidores conseguiram
escapar e se estabeleceram provisoriamente na Tunísia, onde
reorganizaram o movimento.
Os judeus evacuaram paulatinamente a maior parte do territó-
rio libanês. Entretanto, mantiveram em suas mãos, por “alegadas
razões de segurança”, uma faixa de terreno limítrofe com Israel.
Novos grupos terroristas passaram a combater Israel, em que
se destaca o Hamas, apoiado pelo Irã.
Por sentir que o momento exigia novas formas de conduzir suas
reivindicações face a Israel e que, neste país, políticos como Isaac
Rabin e Shimon Perez mostravam indícios de desejarem uma so-
lução pacífica para seu problema com os palestinos, Arafat fez
gestões junto aos EUA, os quais promoveram a necessária apro-
ximação mútua entre os contendores.
Rabin, que já havia substituído Golda Meir em 1974, na chefia
do governo, foi eleito novamente primeiro-ministro. Atendendo a
convite dos americanos, compareceram Arafat e Rabin aos EUA,
onde firmaram acordo provisório, em que foi estabelecida a Auto-
ridade Palestina, status político inferior à situação de um Estado,
porém, importante passo para se resolver o impasse que parecia
não ter fim.
Diante do acordo provisório firmado entre Isaac Rabin e Yasser
Arafat perante o presidente dos EUA, Bill Clinton, dividiram-se as
opiniões no seio da população israelense, porém, a maioria esta-
va inclinada à paz com os palestinos. Os vários confrontos arma-
dos com os países árabes, em que o único resultado positivo foi a
paz com o Egito – o que representou muito! – e os contínuos
ataques terroristas, em que Israel tinha experiência de sobra e
agora era vítima, haviam enlutado inúmeras famílias judias, que
perderam seus filhos na luta armada.
A ala radical em que se destacavam membros do partido religi-
oso, bem como os colonos que desejavam se estabelecer em
sítios destinados aos palestinos, exaltaram os ânimos da direita
israelense. Tal situação conduziu ao assassinato do “premier” Isaac
Zolá Pozzobon 25

Rabin, no dia 4 de novembro de 1995, em plena via pública, du-


rante manifestação do movimento “Paz agora”, pelo jovem fanáti-
co israelense Igal Amir, relacionado com o partido religioso. O
fato causou comoção em Israel e provocou demonstrações de
solidariedade aos familiares da vítima, inclusive por parte de tradi-
cionais inimigos de antes, como o Egito e a Jordânia.
Para substituir Rabin, foi eleito Benjamin Netaniahu, elemento
radical que imprimiu mudança política em relação aos palesti-
nos, relegando as negociações ao marasmo. Ele apoiava os
colonos judeus que constróem residências em áreas destinadas
aos palestinos.
Os EUA vem insistindo para que Israel reserve cerca de 14%
do território da chamada Cisjordânia aos seguidores de Arafat e
seu povo, e tem enviado àquela região não somente a Secretária
de Estado, Madeleine Allbright, como também seu representante
para questões do Oriente Médio, Mr. Ross, objetivando a obten-
ção de resultados definitivos em favor da paz.
Escorado no argumento da segurança de Israel, Netaniahu
escamoteou esforços em favor de um acordo duradouro.
Os palestinos exercem autoridade sobre a faixa de Gaza, junto
ao Mediterrâneo, assim como em Jericó, Hebron e em alguns
outros pontos da Cisjordânia. Diante da dureza política de Netaniahu
e seus seguidores, tendem aqueles a radicalizarem. Arafat tem
afirmado sua intenção de estabelecer um Estado Palestino, com
a capital na parte árabe de Jerusalém. Mas o governo israelense
afirma que Jerusalé é indivisível e será sua eterna capital.
Entretanto, a consciência de uma nação palestina é irreversível.
Parte de seu povo já está lá. O restante, como antes acontecia
com os judeus, está na “diáspora”, a maioria em volta de Israel.
É uma questão de tempo a fundação da Palestina como esta-
do soberano, com território compatível e reconhecimento pela
comunidade das nações.
Quem estará no lugar de Oswaldo Aranha, que reconheceu
Israel em 1948, enquanto Secretário-Geral da ONU, nos dias em
que a Palestina se tornar mais um país independente e, assim, for
modificado o mapa geográfico do Oriente Médio?
Zolá Pozzobon 27

Guerra do Yom Kippur

Desde antes da década de 70,


as forças armadas egípcias rece-
biam orientação e equipamentos
militares da URSS. Porém, dada a
intromissão de assessores russos
nos assuntos internos do Egito, seu
presidente, Anwar Sadat, expulsou
a missão militar soviética. Tal fato
pode ter induzido os israelenses a
considerarem remota a possibilida-
de de reação armada por parte de
seu vizinho do sul, no sentido de re-
cuperar o Sinai pela força.
No dia 6 de outubro de 1973, os
egípcios transpuseram o Canal de
Moshe Dayan Suez em botes de borracha e as-
saltaram as posições israelenses da Linha Bar Lev, estabelecida
na margem oriental do obstáculo, obtendo completa surpresa
estratégica. As primeiras forças blindadas da reação foram com-
pletamente destruídas, enquanto as perdas aéreas israelenses
tornaram-se proibitivas, dado o emprego dos mísseis antiaére-
os Scud, que abatiam os aviões adversários como moscas.
Nesse ínterim, a Síria atacou as posições judaicas nas coli-
nas de Golã, ao nordeste de Israel. A situação para esse país
tornou-se crítica, a ponto de levar o ministro da Defesa, Moshe
Dayan, a pensar em solicitar um cessar-fogo.
Entretanto, os sírios não souberam aproveitar o êxito em Golã e
os israelenses, mediante contra-ataques habilidosos, equilibraram
a situação, liberando forças para atuarem no sul contra o Egito.
28 O véu e a espada

Agentes israelenses percorreram países da Europa e os EUA,


contratando pilotos mercenários e comprando aviões de comba-
te a peso de ouro para lutarem no deserto contra o Egito. Os
americanos enviaram às pressas os mais avançados mísseis
de curta e média distância e toda a classe de equipamentos
militares aos israelenses, numa verdadeira ponte aérea de su-
primentos. Com isso, os judeus conseguiram estabelecer uma
cunha entre o II e o III exércitos egípcios no Sinai, atravessaram
o canal de Suez de leste para oeste com uma força-tarefa e
progrediram para o sul, em território egípcio, com o objetivo de
se apossarem da cidade de Suez, no golfo do mesmo nome, ao
norte do Mar Vermelho.
Estabeleceu-se a maior confusão de tropas na área. De leste
para oeste: no Sinai, israelenses x egípcios; Canal de Suez; no
Saara, imediatamente a oeste do canal: tropas israelenses x
tropas egípcias, um “sanduíche” múltiplo de forças incapazes de
impor uma decisão imediata à luta.
Enquanto o Egito cerrava novos efetivos sobre o canal, aper-
tando o círculo contra a força-tarefa israelense, chegou àquele
país o secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger, o qual
conferenciou em caráter de urgência com Anwar Sadat. Este,
então, verificou a impossibilidade de prosseguir a guerra contra
Israel, pois estava lutando não só com os judeus, mas com o
poderio dos EUA. Kissinger assinalou a necessidade do estabe-
lecimento de um imediato cessar-fogo. Interrompidos os com-
bates, fez-se o remanejamento de forças na área em conflito.
Em 1975, Israel e Egito, sob mediação americana, firmaram
um acordo pelo qual os israelenses devolviam territórios ao Egito
em troca de uma distensão e da busca da solução pacífica. A
Síria não concordou e passou a apoiar organizações palestinas
que desejavam o incremento da luta contra Israel.
Anwar Sadat dirigiu-se pessoalmente a Israel, fato inédito no
relacionamento entre povos que acabavam de lutar um contra o
outro, e propôs a paz entre os dois países. O respectivo acordo
foi firmado entre Sadat e Menahem Begin.
Hoje, todo o Sinai está sob controle do país do Nilo e a situa-
ção entre Israel e Síria é de “beligerância adormecida”.
Zolá Pozzobon 29

Grandes chefes
militares
Zolá Pozzobon 31

Alexandre da Macedônia

Alexandre é nome utilizado por papas e imperadores. A perso-


nalidade que vamos comentar neste trabalho refere-se a Alexan-
dre Magno ou O Grande, nascido em Pella, na então Macedônia
e hoje Grécia, em 356 a. C.. Era filho de Filipe II e de Olímpia, filha
do rei Neoptolemus do Épiro, princesa supersticiosa e arrogante,
de quem o marido se divorciou. Filipe iniciou a hegemonia da
Macedônia sobre os demais Estados gregos. Não obstante ata-
cado por Demóstenes, nas célebres Filípicas, conseguiu, em quatro
“guerras santas”, dominar toda a península, vencendo finalmente
a resistência grega em Atenas e Tebas, na famosa batalha de
Queronéia (338 a. C.). Seu filho Alexandre tinha, então, 18 anos.
e participou da refrega, tornando-se herói.
Sendo seu pai assassinado quando se preparava para atacar
os persas, Alexandre tornou-se rei aos 20 anos. Em 335 a. C., foi
aclamado, no congresso pan-helênico de Corinto, generalíssimo
das forças gregas.
Alexandre é considerado o mais famoso chefe militar da
antigüidade, comandando os gregos na conquista do império persa.
À frente de uma força de 35 mil infantes, cinco mil cavalarianos e
uma frota de 169 trirremes (embarcações com três pavimentos
dotados de remos), atingiu o Helesponto (estreito de Dardanelos)
em 334. Sua primeira vitória em território asiático foi às margens
do rio Granico. Ocupou várias localidades, entre elas a região
litorânea e a Frígia (centro-ocidental da Ásia Menor), com sua
capital Górdio. Nessa cidade havia um nó complicado que, segun-
do a tradição, daria o império da Ásia a quem o desembaraças-
se. Então, Alexandre o desfez.
Em 333, atingiram os greco-macedônios a planície de Isso,
que dá acesso à Síria. Aí, feriu-se nova batalha, saindo-se Ale-
32 O véu e a espada

xandre vitorioso. Dirigindo-se à Fenícia, arrasou Tiro (322), por


lhe ter oferecido resistência. Mais ao sul, Gaza foi também vencida
e arrasada. Sua fama correu na frente e, ao atingir o Egito, foi
recebido como descendente dos faraós. Com o título que alcan-
çou - filho de Amon - teve a popularidade aumentada.
No delta do Nilo fundou Alexandria. Ao tempo dos Ptolomeus,
chegou a cidade a contar com 900 mil habitantes. Ligou-se à ilha
Faros, na qual se erguia o célebre farol, uma das sete maravilhas
da antigüidade. Tornou-se bastante conhecida sua famosa biblio-
teca, bem como a escola neoplatônica, na qual buscava-se a har-
monia entre as idéias do Oriente e do Ocidente.
Alexandre venceu Dario III na famosa batalha de Gaugamela
(331), impropriamente chamada de Arbela, à margem esquerda
do alto rio Tigre, no então território da Assíria. Em uma manobra
muito estudada na história militar, Alexandre desbaratou as tropas
adversárias, cinco vezes superiores em número.
Então, não viu mais limites para sua ambição expansionista.
Rumou para o Oriente e atingiu o Indus. Derrotou o rei Poros e
ocupou suas terras. Aí, a expedição dividiu-se em duas compo-
nentes: uma embarcou na frota e, navegando pelo Oceano Indico
e o Golfo Pérsico, atingiu a Mesopotâmia; a outra regressou por
terra, comandada pelo próprio Alexandre. Em 334, encontrava-se
este em Babilônia.
Dez anos de campanha e o mundo civilizado havia sofrido gran-
de mudança. Dedicou-se o grande general a organizar o império
conquistado. Seu escopo era realizar a união entre vencedores e
vencidos. Mais velho fosse, dir-lhe-ia a experiência que tal era
impossível, pois, como já apreciamos em páginas anteriores, o
ser humano não aceita o domínio alienígena por todo o tempo e
como fato consumado.
Fundou muitas cidades, sobretudo no Irã, a fim de garantir o
caminho terrestre para a Índia. Adotou uma política de tolerância
quanto à religião, às leis e aos costumes dos orientais. Escolheu
persas como colaboradores, dando-lhes postos importantes no
exército e no governo dos territórios. Seus ambiciosos projetos
foram interrompidos pela morte, que o colheu na Babilônia, atra-
vés de febre violenta, em 323. Foi enterrado em Alexandria, onde,
em 1977, se encontrou o que se presume ser seu sarcófago - não
de ouro, como rezava a lenda, mas de alabastro.
Deixado “ao mais bravo”, rapidamente desmembrou-se o impé-
rio de Alexandre em diversos Estados - os reinos helenísticos. Sob
o ponto de vista político, foi sua obra inconsistente, pois abalou a
urbes grega, com suas instituições seculares, e arrasou velhos im-
Zolá Pozzobon 33

périos. Sua atuação social, econômica e cultural foi a de um cons-


trutor. Conseguiu que milhões de indivíduos superassem, pelo me-
nos temporariamente, antagonismos étnicos e vivessem em comu-
nidades de mútuos interesses. Deu início ao helenismo no mundo
antigo e, por isso, sua figura domina a evolução da humanidade até
a conquista romana. Há historiadores que consideram a idéia de
império universal como sua contribuição à história política.
Os britânicos devem ter-se inspirado em Alexandre para esta-
belecer seu império de terras descontínuas, que chegou a cobrir
35 milhões de Km2 da superfície do globo, onde viviam cerca de
500 milhões de habitantes, e isso até pouco antes do fim da II
Guerra Mundial. O importante é que houve também um fim para
seu império.
O Reich de 1000 anos, que conquistou meio mundo (europeu)
e ameaçou a outra metade, durou de 1933 à 1945, uns míseros
13 anos, o que nada significa historicamente, a não ser pelas fu-
nestas conseqüências que provocou.
Os sovietes alcançaram o domínio sobre 22 milhões de Km2,
onde viviam os mais diversos tipos de povos. E, após a queda do
Muro de Berlim, assistimos ao desmoronamento da URSS.
O império americano, escudado em uma base territorial que
alcançou, através de métodos nem sempre plausíveis, em rique-
zas amealhadas principalmente como butim da II Guerra Mundial;
no domínio de áreas sensíveis e dotadas das maiores fontes de
combustíveis do planeta (Kuwait, Arábia Saudita etc.); no seu in-
contestável poderio militar e na pressão econômica, poderá indu-
zir muita gente a concluir que atravessará milênios. Bem, a passa-
gem para o século XXI está garantida, mas daí para diante, é
uma questão incógnita. É preciso apostar no indomável espírito
de liberdade do homem!
Zolá Pozzobon 35

O desfiladeiro
das Termópilas
Na história da humanidade, houve guerras que se desenvolve-
ram não só por décadas, mas pelo espaço de um século, embo-
ra intermitentemente, como foi o caso dos confrontos entre gre-
gos e persas.
Aqueles eram descendentes de vários povos que habitavam o
território da atual Grécia, país balcânico, debruçado sobre o Me-
diterrâneo Oriental. Foram antepassados dos gregos os minóicos
e micenenses, vindos da Ásia ou do Oriente Médio, e que criaram
civilizações na ilha de Creta e em Micenas, no continente, entre
3.000 e 200 a. C.
Os persas originaram-se de tribos indo-iranianas, provenien-
tes da Transoxiana e do Cáucaso, as quais invadiram o planalto
iraniano, entre o mar Cáspio e o golfo Pérsico, no início do pri-
meiro milênio.
Dois soberanos persas – Cambises e Ciro – em apenas 30
anos criaram um império que se estendia do Vale do Indus ao Mar
Egeu e do Cáucaso à Arábia.
Cambises era rei da Média, que governou de 529 a 522 a. C..
Derrotou os egípcios e lutou para conquistar a Etiópia. Ciro foi
nome adotado por vários reis da Pérsia. Tratamos aqui, porém,
de Ciro II, O Grande, filho de Cambises, fundador do império
aquemênida, que derrubou Astíages (556 a. C.) e se assenhoreou
do império meda. Venceu Creso, rei da Lídia (parte oeste da atual
Turquia). Conquistou a Babilônia e tornou-se senhor de toda a
Ásia ocidental.
Após ser a Lídia dominada, os pequenos estados gregos da
costa da Ásia Menor submeteram-se aos persas. Esparta, po-
rém, o mais forte estado da Grécia continental, enviou veementes
36 O véu e a espada

protestos diplomáticos. Reinando de 522 a 486 a. C., Dario I, O


Grande, consolidou e expandiu o império persa. Descontentes com
os tiranos inescrupulosos, apoiados pelos dominadores, insurgi-
ram-se os estados jônicos (499 - 493 a. C.), com aprovação de
atenienses e erétrios. Tal revolta foi dominada, no entanto, serviu
para mostrar à causa grega a necessidade de cooperação entre
seus diversos estados.
Esparta e Atenas, que ainda não se entendiam bem, depara-
ram-se com o desembarque de 25 mil homens de Dario em Eubéia
e a captura de Caristo e Erétria.
Em 490 a. C., novo desembarque persa, agora na planície de
Maratona, no nordeste da Ática. Os atenienses informaram aos
espartanos e, comandados por Milcíades, tomaram a iniciativa,
atacando os persas e obrigando-os a se retirarem.
Em 480 a. C., Xerxes sucedeu a Dario e cruzou o Helesponto
(hoje, estreito de Dardanelos) com uma grande esquadra. Contu-
do, a progressão das tropas desembarcadas foi muito lenta, dan-
do tempo a que os estados gregos, sob a liderança de Esparta,
se unissem e se preparassem para a defesa. As forças gregas
tinham duas componentes: a terrestre, de espartanos e aliados,
que ocuparam o desfiladeiro das Termópilas, com cerca de sete
mil homens, sob o comando do rei Leônidas; e a naval, na maioria
atenienses, magistralmente comandados por Temístocles, consti-
tuída de 271 navios, os quais tomaram posição em Artemísio, no
norte da ilha de Eubéia.
O fator sorte interveio na batalha em favor dos gregos, pois
uma tempestade retardou a esquadra de Xerxes, destruindo cer-
ca de 200 navios ao sul de Eubéia. A seguir, na parte norte dessa
mesma ilha, os gregos afundaram muitos navios silícios, a serviço
dos persas. Nas operações em terra, a infantaria persa sofreu
grandes baixas nas Termópilas logo no primeiro dia de combate.
Na jornada seguinte, amargaram novo revés.
Então, fez-se presente outro fator: a traição. Conduzidos pelo
grego Efialtes, os persas surpreenderam as forças de Leônidas.
Percebendo este que o grosso de seus combatentes iria ser en-
volvido, despediu a maioria para não ser destruída e postou-se no
desfiladeiro das Termópilas, com apenas 300 espartanos.
Através de um mensageiro, os persas mandaram dizer-lhe:
“Nossas flechas são tão numerosas que encobrirão o Sol!”
Respondeu-lhes Leônidas: “Melhor! Combateremos à sombra”.
Xerxes apresentou-lhe ultimatum: “Entrega as tuas armas.”
Resposta do arrogante e corajoso espartano: “Vem buscá-las.”
(Segundo biografia de Plutarco sobre Leônidas.)
Zolá Pozzobon 37

O objetivo da resistência nas Termópilas era o retardamento,


isto é, atrasar a marcha do inimigo sobre Atenas. Leônidas e seus
300 bravos cumpriram integralmente a missão!
Segundo Heródoto, historiador grego, no túmulo dos heróis que
ali tombaram foi gravado o epitáfio: “Estrangeiro, vá dizer à Esparta
que aqui morremos cumprindo as suas leis!”
Leônidas e seus homens resistiram bravamente até à morte,
mas não puderam deter a avalanche inimiga.
Pouco depois, feriu-se uma batalha naval, com grandes perdas
para ambas as partes. O restante da armada grega refugiou-se
no estreito de Salamina.
Alcançando Atenas, Xerxes mandou incendiá-la, mas achou-a
quase deserta, pois Temístocles aconselhou seus moradores a se
refugiarem nos navios. Mediante hábil manobra, este chefe simulou
uma retirada de seus barcos de guerra e, no momento oportuno,
atacou a frota persa, que, apesar da superioridade numérica, se
desequilibrou na batalha e retornou para a costa da Ásia.
Entrementes, um poderoso exército persa, comandando por
Mardônio, acampou na Tessália e escorraçou os gregos para as
encostas do monte Citéron, perto de Platéias. Diante de enorme
dificuldade de abastecimento, as forças helênicas retiraram-se
desordenadamente e, então, Mardônio atacou um grupamento
isolado de 11.500 homens. Estes, porém, comandados por
Pausânias, enfrentaram a infantaria persa e a derrotaram. Além
disso, alcançaram os gregos grande vitória naval em Mícale. Com-
pletou-se assim a derrocada dos persas.
A partir daí, Atenas formou, com os estados gregos das ilhas e
da costa asiática, a Confederação de Delos. Uma série de
investidas vitoriosas culminou (em cerca de 466 a. C.) com o ani-
quilamento da armada persa em Panfília.
Os atenienses apoiaram os egípcios rebelados contra os persas,
em 460 a. C., mas estes derrotaram os revoltosos, que firmaram
paz em separado. Uma expedição grega deixou-se apanhar de
surpresa no Nilo e foi aniquilada. Atenas, que então estava em
guerra com Esparta, acertou com esta um armistício e as forças
unidas obtiveram grande vitória em Chipre.
Mediante acordo de paz (em cerca de 448 a. C.) entre
atenienses e aliados, de uma parte, e Artaxerxes I, de outra, foi
reconhecida a liberdade dos estados gregos da Europa e da Ásia
e a esquadra persa deixou o mar Egeu.
O fim de uma guerra de cem anos!
Zolá Pozzobon 39

Delenda est Carthago!

Os cartagineses, conhecidos como poeni, habitavam a atual


Tunísia e tinham como capital Cartago ou Kart hadasht (cidade
nova). Roma terminara a unificação da península e Cartago já se
havia aventurado até as ilhas de Córsega, Sardenha e Sicília, ocu-
pando as duas primeiras e parte da última. Estava em jogo o domí-
nio da bacia do Mediterrâneo e o choque entre as duas metrópoles
era inevitável. Assim, a partir do século III a. C., tiveram início as
guerras púnicas, ou contra os poeni. Este conflito, como o que se
feriu entre gregos e persas, durou cerca de um século e inclui três
fases, denominadas de primeira, segunda e terceira guerra púnica.

1ª Guerra Púnica (264 a. C. - 241 a. C.) – Siracusa, situada na


parte sudeste da Sicília, era aliada de Cartago e atacou Messina,
erigida junto ao estreito do mesmo nome que separa a ilha da pe-
nínsula itálica. Os mamertini, mercenários da Campânia e que ocu-
pavam o estreito, pediram socorro tanto a Cartago quanto à Roma.
Os cartagineses chegaram em primeiro lugar, capturaram Messina
e entenderam-se com Hérion, tirano de Siracusa. Roma, no entan-
to, desembarcou tropas na cidade, prendeu o almirante cartaginês,
por meio de uma cilada, e obrigou os invasores a se retirarem.
Unidos, os combatentes de Cartago e Siracusa investiram contra
Messina, sendo porém derrotados. Voltaram-se, então, os roma-
nos, em 263, contra os territórios de Hérion, que foi forçado a
assinar com eles uma paz em separado e um pacto de aliança. Os
“aliados” capturaram a base cartaginesa de Agrigentum, contudo,
outras pequenas possessões inimigas da ilha foram mantidas.
Em 260 a. C., sofreram os cartagineses grave derrota naval em
Mylae, ao norte da Sicília e, sucessivamente, foram expulsos da
Córsega. Sua esquadra foi repelida à altura do cabo Ecnomus e os
40 O véu e a espada

romanos estabeleceram uma cabeça de ponte na África, em Clypea


(atual Kelibia, Tunísia). Os cartagineses estavam dispostos a nego-
ciar, mas recuaram diante das exageradas condições estabelecidas
pelo cônsul Atilius Regulus.
Em 255, o mercenário espartano Xanthippus, no comando de
forças cartaginesas, derrotou e aprisionou Atilius Regulus. Porém,
nova esquadra romana chegou à África, deu combate à marinha
cartaginesa em frente ao cabo Hermaeum (atual Bon) e resgatou
remanescentes da força expedicionária antes encurralada em
Clypea. Navegaram então os romanos para nordeste e, na Sicília,
capturaram a fortaleza de Panormus (Palermo). Não se dando por
vencidos, rumaram também os de Cartago para a Sicília e ali de-
sembarcaram reforços, chegando a guerra a um impasse.
Só em 250 o general romano Caecilius obteve uma vitória nas
proximidades de Panormus, que lhe permitiu atacar por terra e mar
a principal base púnica de Lilybaeum (Marsala) e a de Drepanum
(Trapani). Resistiram os cartagineses e atacaram esta última por
mar, onde o almirante Claudius Pulcher perdeu 93 navios. Exauri-
dos, os dois adversários concederam-se uma trégua. Então, de-
senvolveram-se operações de guerrilhas, chefiadas pelo cartaginês
Amilcar Barca, de suas posições nos montes Erecte e Eryx, na
costa oeste da Sicília. Prolongava-se essa guerra de desgaste quan-
do surgiram 200 barcos romanos, construídos e equipados por subs-
crição pública, que bloquearam Lilybaeum e destruíram a frota
cartaginesa ao largo das ilhas Aegusae (241).
Os púnicos, derrotados e tendo de lidar com a revolta de seus
mercenários na África (a chamada “guerra inexplicável”), pediram
a paz, renunciaram à Sicília e às ilhas Lipari (pequeno arquipéla-
go ao norte) e obrigaram-se a pagar, em 10 anos, um tributo de
3.200 talentos.

2ª Guerra Púnica (218-201 a. C.) – Para compensar a perda


da Sicília, procuraram os cartagineses, sob a chefia de Amílcar
Barca, conquistar a Ibéria. Com o produto das minas de Sierra
Morena pagaram as dívidas de guerra. Asdrúbal, o Belo, genro
de Amílcar, fundou no litoral a cidade de Nova Cartago, ou
Cartagena (227), com o compromisso de não ultrapassar o Ebro.
Sua soberania foi reconhecida ao sul do rio pelos romanos. Po-
rém, estes, por segurança, aliaram-se a Saguntum, cidade do sul,
na costa oriental. Tendo Asdrúbal sido assassinado em 221, Aníbal,
filho de Amílcar, assumiu o comando dos cartagineses na Espanha.
Pouco depois sitiou e tomou Saguntum. Os romanos exigiram a
restituição da cidade, ao que se negou o conselho de Cartago,
Zolá Pozzobon 41

preferindo a guerra.
Os romanos tinham um plano de atacar, ao mesmo tempo, a
Ibéria e a África, com dois exércitos, partindo das bases da Sicília.
Não deu certo, pois representava uma divisão de esforços. Aníbal
decidiu levar a guerra à Itália, conduzindo suas forças através da
Ibéria e da Gália, atravessou os imponentes obstáculos dos Pirineus
e dos Alpes e, depois de seis meses de penosas marchas, atingiu
o Vale do Rio Pó em 218, com 50 mil combatentes de infantaria,
nove mil cavalarianos e 37 elefantes. Nos embates que se segui-
ram, foi vitorioso em Tessino, contra o cônsul Cornelius Scipio (Cipião)
e, no ano seguinte, derrotou o cônsul Flaminius, às margens do lago
Trasimeno, na Umbria, onde os romanos perderam 15 mil homens.
Tal revés deixou Roma à mercê do inimigo, mas então Aníbal
cometeu o erro de hesitar, quando lhe bastava marchar para o sul
e apoderar-se da capital inimiga. Assim, tiveram os romanos tem-
po de lançar uma hábil guerra de usura contra os cartagineses.
Foi autor de tal estratégia Quintus Fabius Maximus, que granjeou
o apelido de Conctatur (contemporizador). Não obstante, em 2 de
agosto de 216, feriu-se a batalha de Cannae – a mais desastrosa
derrota sofrida pela república romana e também uma das mano-
bras clássicas estudadas na história militar: o cônsul Paulo Emílio
foi levado por Aníbal a lançar um ataque frontal, em terreno previ-
amente escolhido pelo cartaginês, que envolveu completamente
as forças romanas, as quais perderam 50 mil dos 80 mil comba-
tentes que possuíam. Mas, inexplicavelmente, Aníbal não realizou
o aproveitamento de tão grandioso êxito, com o que poderia ter
decidido em definitivo a disputa com Roma. Em vez disso, deixou-
se ficar em Capua.
O senado romano, então, retomou a direção da guerra,
reagrupando forças e recursos. Despachou para a Espanha tropas
comandadas por dois dos irmãos Cipião, os quais foram derrota-
dos por Asdrúbal Barca. Mas um terceiro chefe, Publius Cornelius,
tomou Cartagena e completou a conquista da Ibéria. Então, Asdrubal
Barca decidiu cruzar os Alpes e se juntar a Aníbal na Itália. Foi,
porém, derrotado em Metauro por Livius Salinator e Claudius Nero,
sendo decapitado. Marcelo investiu contra Siracusa, na Sicília, e
saqueou-a, não obstante terem sido empregados os engenhos de-
fensivos de Arquimedes, que morreu durante a pilhagem. Aníbal,
depois de perder Cápua, onde ficara em incompreensível atitude
de contemplação e de ter chegado às portas de Roma, viu-se obri-
gado a voltar à África, pois Cipião (O Africano) intimidava Cartago.
É de se admirar que os romanos, tendo ainda a ameaçá-los as
forças de Aníbal desdobradas na península e próximas de Roma,
42 O véu e a espada

hajam destacado expedições para a Ibéria e contra Siracusa. É


bem verdade que a coluna de Publio Cornelius haveria de ameaçar
Cartago e obrigar Aníbal a socorrê-la.
A 150 Km a sudoeste da cidade de Zama, feriu-se uma batalha
decisiva (202). As forças de Aníbal, extenuadas pelos intermináveis
deslocamentos desde a Itália até a atual Tunísia, atravessando a
Gália, a Ibéria, o Estreito de Gibraltar, os territórios do atual Marro-
cos e da Argélia, foram fragorosamente derrotadas e tiveram de
aceitar duríssimas condições de paz: renúncia à Ibéria, entrega da
esquadra (com exceção de 10 trirremes), indenização de 10 mil
talentos, proibição de fazer a guerra fora do continente e seus as-
suntos exteriores passariam a ser controlados pelos romanos. Aníbal
refugiou-se na Síria, junto de Antíoco, e depois na Bitínia, com
Prusias, onde cometeu suicídio para não se entregar ao implacável
inimigo (183 a. C.).

3ª Guerra Púnica (149-146 a. C.)


Apesar da enorme redução de seu poderio militar, Cartago pro-
curou, com pertinácia, recuperar-se rapidamente, e já no século II
a. C. eram pujantes seu comércio e economia, a ponto de causar
preocupação a Roma. Marcius Porcius Cato (Catão), estadista e
escritor romano, foi questor, edil, pretor, cônsul e, finalmente, cen-
sor, título este que ficou incorporado historicamente a seu nome.
Em memoráveis discursos, dedicou-se a atacar o comportamento
dos jovens da nobreza romana e à pregação da guerra contra
Cartago, repetindo constantemente a frase: Delenda est Carthago
- Cartago precisa ser destruída!
Massinissa, que comandara a cavalaria romana na batalha de
Zama, recebendo como prêmio por sua vitória toda a Numídia, de
que se fez rei, entrou em hostilidades com os cartagineses. Estes
dispuseram-se a entregar reféns e a desarmar-se. Roma, porém,
exigiu a migração em massa dos habitantes de Cartago para o
interior. Optando pela luta, foi a cidade cercada durante três anos.
Iniciado o assalto à localidade, em 146 a. C., resistiu a todo o tran-
se, de casa em casa. De uma população inicial de 250 mil habitan-
tes, restaram 50 mil, vendidos como escravos. A cidade foi arrasa-
da, não restando pedra sobre pedra, e o sítio (conforme relato
histórico) condenado à desolação perpétua. Até seu nome sumiu: o
antigo território passou a constituir a província romana da África.
A sudoeste de Túnis, no vale do rio Miliane, encontram-se as
ruínas do aqueduto romano entre o monte Zaghvan e Cartago, cujas
ruínas constituem ponto de atração turística, o que desmente o
relato histórico de não ter restado pedra sobre pedra!
Zolá Pozzobon 43

Alea jacta est

Caio Júlio César (Roma, 101 a 44 a. C.) reuniu em sua pessoa


as qualidades de militar, estadista e escritor. Tornou-se senhor ab-
soluto da política, fundando o regime denominado “cesarismo”. Para
isso, eliminou seu rival Pompeu da vida política de Roma, fez-se
ditador, progressivamente por um ano, depois por dez, e, afinal, por
toda a vida.
Como escritor, compôs Commentarii de bello Gallico - Comen-
tários sobre as guerras da Gália, a França de hoje, no ano 51 a. C.,
obra que revela admirável estilo de prosador e clara inteligência.
Seus dotes de orador foram sobejamente comprovados no cenário
político de Roma. Os historiadores reconhecem seu gênio e a mai-
oria louva sua generosidade e encanto pessoal, mas não chegam a
acordo ao julgarem o cesarismo, pois, para muitos, não passou de
uma criação política para sustentar César, que acabou por destruir
a liberdade em sua pátria e esmagou a dignidade do cidadão roma-
no. De fato, ele demonstrou pouco respeito pelas antigas institui-
ções e tradições de Roma; aumentou para 900 o número de sena-
dores, introduzindo no Senado elementos das províncias, porém,
tratava a instituição com desprezo e não como órgão verdadeira-
mente representativo das diversas raças e nacionalidades. Desde-
nhando a dignidade das funções públicas, minou o respeito próprio
de seus súditos, acabando por reinar, como os imperadores que o
seguiram, sobre uma verdadeira nação de escravos.
Aos 16 anos, César adquiriu a maioridade e pouco depois foi
feito sacerdote de Júpiter, função que manteve por um ano. Seguiu
então para a Ásia, onde serviu sob o comando de Minúcio Termo e
teve sua primeira experiência em combate, lutando contra focos de
resistência à ocupação das legiões. Voltando a Roma em 78 a. C.,
exerceu alguma atividade forense e, dois anos depois, seguiu para
44 O véu e a espada

Rodes, a fim de estudar retórica com Molon. Durante a viagem, foi


aprisionado por piratas e todo o tempo os tratou desdenhosamen-
te, prometendo crucificá-los assim que fosse libertado, o que real-
mente cumpriu à risca. Então, envolveu-se em intrigas políticas,
dívidas e vida dissoluta. Mas demonstrava apreço pelas tradições
democráticas e promovia divertimentos públicos. Tornando-se po-
pular, foi eleito pontifex maximus em 63 a. C., ano da conspiração
de Catilina, na qual possivelmente esteve envolvido
Catilina era um aristocrata romano que fomentou conjuração
contra o Senado, a qual foi denunciada por Cícero, através das
Catilinárias, constituídas de quatro célebres e violentos discursos,
conseguindo frustar a conjuração.
Em 60 a. C., junto com Pompeu e Crasso, formou César o pri-
meiro triunvirato, sendo virtualmente abolido o governo constitucio-
nal. Obteve ele por cinco anos, prorrogados mais tarde, a nomea-
ção para o governo das Gálias.
Então, revelou sua enorme capacidade militar através de brilhan-
tes campanhas, em que consolidou o poder de Roma, eliminando
as ameaças dos germânicos. Conquistou a Inglaterra (o que, mais
tarde, nem Napoleão nem Hitler conseguiram). Venceu confedera-
ção de tribos hostis, aprisionou o chefe gaulês Vercingetorix, mon-
tou a administração da província conquistada, fixou o montante de
tributo anual e mostrou-se relativamente magnânimo. Não, porém,
em relação ao chefe aprisionado, que foi levado em correntes para
Roma, a fim de ser exibido durante a entrada triunfal de César.
Mas sua posição tornava-se crítica na capital. Crasso morrera e
Pompeu fez passar uma lei possibilitando a substituição do coman-
do da Gália e permitindo que, como cidadão privado, César fosse
processado por seus atos inconstitucionais. O comandante das
Gálias procurou negociar com Pompeu e, havendo falhado no inten-
to, marchou à frente de uma legião, atravessou o Rubicão, na fron-
teira italiana, exclamando: Alea jacta est. - A sorte está lançada!
Havia uma superstição pela qual tornava-se amaldiçoado o exército
que transpusesse aquele pequeno rio. César ignorou tal crendice.
Pompeu arregimentou algumas tropas na Itália e, em Brundísio,
embarcou para o Oriente, onde seu prestígio era maior. A Espanha
ficara em mãos de seus lugares-tenentes e para lá rumou César,
dizendo que ali combateria um exército sem general para, mais
tarde, no leste, combater um general sem exército! Em ambas as
campanhas saiu-se vitorioso e também derrotou Pompeu na bata-
lha de Farsália, na Grécia, no ano de 48 a. C.. Pompeu dispunha de
40 mil homens, enquanto César, 25 mil, com grande inferioridade
de cavalaria. A vitória foi devida ao comando direto de César, ao
Zolá Pozzobon 45

passo que Pompeu abandonou o campo de batalha, perdendo a


iniciativa. Foi um dos mais completos êxitos da história militar, em
que César perdeu somente 300 combatentes, enquanto o adversá-
rio amargou o prejuízo de 15 mil mortos e 24 mil prisioneiros.
Conta a tradição que, após essa vitória, César foi ao Egito,
onde permaneceu nove meses e ficou seduzido por Cleópatra.
Seguiu depois para a Ásia Menor, onde defrontou-se com Farnaces,
filho de Mitrídades, 0 Grande. Sobre tal batalha, teria dito: Che-
guei, vi e venci!
Voltou à Itália para abafar um levante das legiões. Tornou a cru-
zar o Mediterrâneo, derrotando em Tapsos um exército republica-
no, em que a maioria dos chefes pereceu (46 a. C.). Entre 26 e 29
de julho, celebrou em Roma um triunfo quádruplo e recebeu a dita-
dura por 10 anos. Em novembro, foi à Espanha e derrotou os filhos
de Pompeu em Munda.
É interessante observar não haver dados que revelem qualquer
derrota ou insucesso militar de César. Foi vitorioso toda a vida!
Ao voltar a Roma, foi assassinado por membros de um conluio
chefiado por Brutus, no Senado, aos pés da estátua de Pompeu.
Mortalmente ferido, teria César dito a Bruto, antes de morrer: Até
tu, Brutus, meu filho?
Além de seu grande talento militar, foi César o primeiro chefe
romano a executar em larga escala planos de colonização ultrama-
rina, a unificar o sistema de governo local na Itália e a defender o
princípio de que o império devia ser governado e não meramente
explorado.
A palavra César ligou-se historicamente ao sentido de impera-
dor. Dela, os alemães tiraram o termo Kaiser, e os russos, Czar.
Cesarismo tem o sentido de governo despótico, ditadura, auto-
cracia.
Cinco localidades adotaram o nome de Cesaréia, na antigüidade:
- Cesaréia da Capadócia (região situada entre a Armênia e a
Frígia, na Ásia Menor), às margens do rio Halis.
- Cidade da antiga Palestina, hoje em Israel, construída por
Herodes e residência dos procuradores romanos.
- Cidade da Fenícia (Cesaréia do Líbano)
- Cidade situada na África do Norte, capital da Mauritânia Cesa-
riana, hoje Argélia.
- Fortaleza à margem do rio Orontes, que os muçulmanos
batizaram de Chaizar.
A cesariana, ou cesária, intervenção cirúrgica pela qual se extrai
o feto da cavidade uterina por via abdominal, teria recebido essa
designação devido à crença de que César nascera desta maneira.
46 O véu e a espada

Os fariseus acercaram-se de Jesus e, para o tentar, pergunta-


ram-lhe: “Mestre, é justo pagar o tributo a César”?
O Rabi disse-lhes: Mostrai-me uma moeda.
O grupo de judeus entregou-lhe uma das moedas correntes na
Palestina, dominada pelos romanos.
- De quem é esta imagem e esta inscrição?
- De César.
- Pois bem: daí a César o que é de César e a Deus o que é de
Deus! (Evangelho de Marcos, 22, 15-22).
Zolá Pozzobon 47

Os guerreiros
Zolá Pozzobon 49

Belisário, o bizantino

A cidade de Bizâncio foi fundada pelos gregos antigos, na mar-


gem esquerda do Estreito do Bósforo, a meio caminho entre o Me-
diterrâneo e o mar Negro. Encruzilhada obrigatória do comércio
com a Anatólia e o resto da Ásia, prosperou rapidamente.

O termo bizantinismo, alusão à corte de Bizâncio, onde filóso-


fos e teólogos se entretinham em discutir minúcias e sutilezas
especulativas, enquanto a cidade estava cercada, conserva o sen-
tido de discussão a respeito de futilidades, emprego de sofismas
e sutilezas inúteis.

Bizâncio foi destruída por Dario I, ocupada pelos atenienses e


conquistada por Alcebíades e Lisandro. Independente em 358, não
se deixou absorver nem pelo império de Alexandre nem pelo dos
romanos, porém foi por estes arrasada.
Mais tarde, após reconstruída, Constantino, O Grande, mudou
seu nome para Constantinopla, tornando-se uma Segunda Roma.
Foi sede do Império Romano do Oriente, ou Bizantino.
Seu poder era marítimo e continental, constituía um laço indis-
pensável entre a Europa e a Ásia, entre a cultura cristã e as civiliza-
ções orientais.
Manteve sua unidade política até 1453, quando Constantinopla
caiu em poder dos turcos otomanos. Durante o século V, os impe-
radores bizantinos livraram-se dos bárbaros (Alarico, Átila,
Teodorico...) pagando-lhes tributos e, assim, desviando-os para o
Ocidente. Mas construíram importantes obras de defesa nas prin-
cipais cidades, principalmente em Constantinopla.
O apogeu do império veio a ocorrer no reinado de Justiniano
(527-565). Sua bela esposa, Teodora, era profundamente ambicio-
50 O véu e a espada

sa, tinha espírito lúcido, firmeza, coragem e calma, exercendo grande


influência em todas as áreas da vida do império.
Dois setores de atividades caracterizam o reinado de Justiniano:
intensa produção intelectual e artística (Corpus Iuris Civilis e a
Basílica de Santa Sofia - Hagia Sophia) e vigorosa política exterior.
Tanto defendeu o império quanto procurou ampliá-lo, isto é, resta-
belecer o antigo Império Romano do Ocidente.
Passou, então, à preparação de suas forças. Precisava de ge-
nerais competentes e teve a sorte de contar com Belisário e Narsés.
Aquele (o primeiro na Ilíria, em 505, e o outro em Constantinopla,
em 565) exercia um comando na fronteira da Pérsia (528) quando a
elevação de Justiniano fez dele o primeiro general do império. Como
Comandante em Chefe do Exército da Ásia, venceu os persas em
Dara (530). No ano seguinte, entretanto, foi derrotado em Callínicum,
sem perder o prestígio, pois aproveitou a oportunidade que surgiu
em seguida de salvar o trono, reprimindo com energia a rebelião de
Nika (532). Diante de tal êxito, foi considerado imprescindível para
levar a cabo os ambiciosos plano do imperador.
Os Vândalos eram uma tribo germânica que atravessou a Euro-
pa, tomou e saqueou Roma e fixou-se na África do norte (século V).
Justiniano atribuiu a Belisário a missão de conquistar a região sub-
metida aos germânicos. Em sete meses de campanha, com ape-
nas duas batalhas, este destruiu o reino de Gelimer, que foi levado
prisioneiro à presença de Justiniano (533/34). Como prêmio, Belisário
foi nomeado cônsul.
Logo depois, dirigiu-se à Sicília e a ocupou (535). Passou para a
península italiana e conquistou Roma e Nápoles. Suas forças, po-
rém, estavam desgastadas e seus efetivos reduzidos. Então, Vittiger,
novo rei dos ostrogodos, cercou Belisário em Roma. Este resistiu
ao cerco durante um ano, de março de 537 a março de 538. Além
das preocupações com a defesa da cidade, ainda achou tempo de
depor o papa Silvério, conforme o desejava a imperatriz Teodora.
Os ostrogodos levantaram o cerco e retiraram-se. O bizantino
marchou sobre Ravena e a conquistou em 540, apesar da má von-
tade de seus generais. Então, foi chamado por Justiniano para de-
ter a marcha de Cosroes, na Ásia, saindo-se vitorioso (541/42).
Embora tenha passado por um período de desfavor por parte de
Justiniano (intrigas?), foi novamente designado para outra impor-
tante missão: conter os ostrogodos de Totila, na Itália. Para lá rumou
em 544. Apesar de seu valor como general, nada pôde fazer, pois
as forças de que dispunha eram muito inferiores em poder de com-
bate. Roma foi submetida e o general pediu demissão, recolhendo-
se a Constantinopla, onde comandou a Guarda Imperial. A sorte,
Zolá Pozzobon 51

porém, virou em seu favor: em 559, desbaratou um ataque dos


búlgaros a Constantinopla, salvando a capital dos bizantinos.
Observado sempre com suspeita pelo imperador, implicou-se
numa conspiração em 562, sendo despojado de seus cargos.
Mas, ao morrer, tinha novamente conquistado as boas graças
do soberano.
Há uma versão histórica que o apresenta mendigando para so-
breviver. Segundo abalizados historiadores, tal versão não tem fun-
damento. Entretanto, motivou pintores de nomeada, como Van Dick,
Salvador Rosa, Davi e Francisco Gérard, que o apresentam em
seus quadros como mendicante, bem como Marmontel em seu ro-
mance político-filosófico, Belisário.

- O grande general bizantino viu sorrirem-lhe brilhantes vitóri-


as, mas também experimentou o amargor de derrotas.
- Algumas destas podem ser atribuídas à disparidade entre
suas forças e as dos adversários, que se apresentaram com efetivos
e meios superiores. Há um princípio que reza: Quem dá a mis-
são, dá os meios! Isso, porém, não exime o chefe de sua respon-
sabilidade. Cabe-lhe, ao menos, alertar as autoridades sobre o
risco que a tropa vai correr!
- Estar nas boas graças ou no desfavor do rei era uma situação
que ocorria com freqüência no passado, onde reinavam a intriga e
a inveja. Porém, ao que parece, Belisário, pelo menos uma vez,
ao se envolver numa conspiração, deu motivo às desconfianças
de Justiniano.
- A atitude de Belisário em Roma, enquanto a cidade estava
cercada pelos ostrogodos, de encontrar tempo para derrubar o
papa Silvério, inegavelmente foi uma “bizantinice” de sua parte.
- A apresentação de Belisário como mendicante em quadros e
tratados parece ter sido frivolidade de seus autores, ou seja,
bizantinismo!
Zolá Pozzobon 53

O flagelo de Deus

A denominação de hunos é atribuída a pelo menos quatro po-


vos de origem ainda obscura: 1) os hunos que, de 372 a. C. a 453
d. C. invadiram o império bizantino e se mostraram mais agressi-
vos sob o comando de Átila; 2) os húngaros ou magiares, que
atravessaram os Cárpatos em direção à Hungria, em 898 d. C., e
aí se miscigenaram; 3) os hunos brancos ou eftalitas, já conheci-
dos dos bizantinos e que perturbaram o Império Persa, de 420 a
557 d. C., e 4) os hunos invasores da Índia, na mesma época.
Nos primeiros séculos da era cristã, guerreiros hunos, ou
Hsiung-nu, impeliram os chineses para oeste. Parte deles per-
manecia na Transoxiana e no Afeganistão e outros avançaram
até os montes Urais.
O que caracteriza todos os ramos desse povo é o nomadismo,
a têmpera guerreira e o vigor físico.
Na Europa ocidental, os primeiros a absorver os choques
dos hunos foram os alanos e, a seguir, os ostrogodos. Os
visigodos tiveram de se desalojar de suas posições diante da
pressão dos invasores.
Átila, rei dos hunos (406 - 453 d. C.), foi seu chefe mais célebre.
Passou os oito primeiros anos de seu reinado lutando contra outras
tribos bárbaras, até tornar-se dominador supremo na Europa cen-
tral. Fazendo alianças, tornou-se senhor incontestável dos territóri-
os que se estendem entre o mar Cáspio e o rio Reno. Durante
anos, assolou os Bálcãs e ameaçou Constantinopla. Tendo subido
ao trono de Bizâncio o imperador Marciano, voltou-se este com
energia contra os hunos, os quais volveram para o Ocidente, atra-
vessaram o Reno e saquearam a maior parte da Gália belga, onde
foi atribuído a seu chefe Átila o cognome de Flagelo de Deus.
Como os conquistadores não sabem parar, dirigiu-se ele para
54 O véu e a espada

o sul e sitiou Orléans, sendo esta cidade salva pelo exército roma-
no-godo, chefiado por Aécio e Teodorico. A seguir, travou-se a
batalha dos Campos Cataláunicos (Chalons-sur-Marne), embate
decisivo na história do Ocidente. Após um dia de luta insana, so-
frendo ambas as partes baixas proibitivas, foram os hunos derro-
tados. Átila retirou-se para a Panônia. Porém, não se deu por
vencido. Voltou-se para a Itália, onde tomou e destruiu Aquiléia,
principal cidade da Venetia, bem como Concórdia, Altinum e Patávia
(Pádua). Os sobreviventes destas localidades buscaram refúgio
nas lagunas do mar Adriático e assim fundaram Veneza. Continu-
ando sua trajetória de devastação, saqueou Milão e as cidades
da Lombardia ocidental.
Então, deu-se um fato que assinalou a história do Ocidente
europeu: o papa Leão I mandou a Átila uma embaixada e a seguir
foi encontrar-se com ele em Mântua. Não se sabe que conversa o
sumo pontífice passou no rei dos hunos, o caso é que este con-
sentiu em se retirar para o norte dos Alpes mediante o recebimen-
to de um tributo.
O famoso Flagelo de Deus morreu subitamente, em 453, na
noite seguinte a um banquete, em que comemorava seu casa-
mento com uma jovem chamada íldico.
Zolá Pozzobon 55

Djebel al-Tarik
(A Montanha de Tarik)
Gibraltar é uma colônia britânica encravada no território espa-
nhol e situada no extremo sul da península ibérica, diante do
estreito do mesmo nome que liga o mar Mediterrâneo ao oceano
Atlântico. Ali ergue-se uma praça forte, tomada pelos ingleses
em 1704 e que até hoje permanece em seu poder, apesar da
constante pressão do governo de Madri.
O território da colônia não passa de 6 km2, possui depósitos
fossilíferos, inclui o rochedo (The rock), o qual forma um pro-
montório de 425 metros. Esta área está ligada ao continente por
uma planície arenosa que mal atinge um metro acima do nível do
mar. Aí encontra-se o território neutro, entre o domínio britânico
e a cidade de La Línea (Espanha).
A palavra Gibraltar deriva do idioma árabe, Djebel al-Tarik e
significa Montanha de Tarik
Maomé (570 a 632 d. C.) fundou o Islamismo e motivou a
formação do império árabe, baseado no unidade da fé islâmica,
ou muçulmana, e conquistado através da “guerra santa” (Jihad):
“Os bravos caídos no campo de batalha são olhados no para-
íso como mártires”, diz o Al Corã, o livro sagrado islâmico).
Seu domínio haveria de se estender por 1800 léguas de litoral,
com grande rapidez, e abrangendo povos totalmente diferen-
tes. Fizeram parte desse imenso conglomerado o império
bizantino, o império sassânida da Pérsia, o reino gótico-cristão
da Espanha, a Síria, o Egito, o Turquestão, a Ásia Menor, a
Armênia, a África do Norte.
O exército egípcio, comandado por Musa, conquistou o Mar-
rocos em 710. No ano seguinte, seu lugar-tenente, Tarik Ibn Siyad,
atravessou o Estreito de Gibraltar, à frente de sete mil berberes
56 O véu e a espada

(habitantes da África setentrional), reforçados por cinco mil ára-


bes, e derrotou, na batalha de Guadalete, o rei visigodo Rodrigo,
assegurando a posse da Ibéria, com exceção da região monta-
nhosa das Astúrias. Na verdade, ocuparam os árabes
efetivamente só 1/5 do território.
É interessante ressaltar que eles deixaram intactas as comu-
nidades cristãs, com sua religião e leis. Freqüentes disputas tribais
mantinham Al-Andaluz, como era chamada a Espanha, em cons-
tante ebulição. Em 755, o príncipe Abd-al-Rahman, da dinastia
dos Omíadas, fugiu de um massacre na Síria e estabeleceu em
Córdoba um califado, que alcançou grande esplendor cultural e
econômico. A partir de 1009, a Espanha moura mergulhou na
anarquia, facilitando a posterior expulsão dos invasores.
Como uma conquista leva a outra, também os árabes foram
adiante, atravessaram os Pirineus e intentaram expandir seu do-
mínio no território dos francos (França). Porém, lá os esperava
alguém que os faria retroceder: Carlos Martel (689 - 741 d. C.),
duque dos francos e que sucedeu a seu pai, Pepino de Heristal,
como prefeito do palácio dos merovíngios, tornando-se rei de
fato. Conduziu inúmeras campanhas militares contra os frísios
(então habitantes da Holanda) e saxões. Em 732, enfrentou os
invasores mouros (norte-africanos) e derrotou-os na batalha de
Poitiers, evitando a expansão do Islã para o centro da Europa.
Por volta de 1195, Afonso de Aragão foi vencido em Alarcos
pelo sultão almôada Abu Iacub Iussef. Suas hostes conquista-
ram a Andaluzia. Os cristãos, porém, tiraram sua desforra em
Novas de Tolosa (1212). Prosseguiu a “reconquista” da Ibéria:
Fernando III de Castela entrou em Córdoba, em 1236. Jaime I
de Aragão ocupou as Baleares em 1235 e, três anos depois,
entrou em Valença.
A dinastia almôada desapareceu em 1268. O reino de Grana-
da, último reduto da Espanha muçulmana, protegido por suas
montanhas e por uma cintura de castelos, bem como defendida
pelos Merínidas, esboroou-se aos poucos, de 1231 a 1492.
O que a Europa deve ao Islã recebeu-o através da Espanha.
Lá, deixaram os árabes mais do que lembranças. Além de mo-
numentos, como a Mesquita de Córdoba, o Alhambra de Gra-
nada, a Giralda, irmã da Torre Hassane, o Alcáçar, de Sevilha,
muralhas e fortificações, há outros vestígios de uma ocupação
de oito séculos.
Outrossim, foi forte a contribuição étnica do Oriente e da Áfri-
ca para a constituição da raça espanhola (e portuguesa). No que
diz respeito à língua, enriqueceu-se o vocabulário românico. O
Zolá Pozzobon 57

flamenco, o fado e outras músicas cantadas e entoadas na pe-


nínsula ibérica deixam transparecer visivelmente os cantares do
Oriente muçulmano. No tocante às instituições, é devida aos ára-
bes a origem da Justicia mayor, em Aragão. A influência deixa-
da pelas guerras na imaginação popular manifestou-se forte-
mente na literatura, através dos romances de fronteira.
Zolá Pozzobon 59

O véu e a espada

As Cruzadas foram expedições militares empreendidas pelos


cristãos da Europa Ocidental, durante a Idade Média, no período
de 1096 a 1291, com o manifesto objetivo de libertar o Santo Sepul-
cro e os lugares santos do domínio muçulmano.
Foram múltiplas as causas que desencadearam tais movimen-
tos: intolerância religiosa dos turcos seldjúcidas; expansão turca na
Ásia Menor; desejo do papado de reunificar a cristandade, abalada
pelo cisma do Oriente (1054); a existência de uma classe militar – a
Cavalaria – cuja finalidade máxima era a defesa da fé; o aumento
da população européia; a atração pela luta; o desejo de conquista
de terras e riquezas orientais...
No Concílio de Clermont (1095), após a pregação da Cruza-
da pelo próprio papa Urbano II, em que o pontífice usou as pala-
vras do Evangelho “Renuncia a ti mesmo, toma tua cruz e segue-
me”, a multidão manifestou-se ruidosamente a favor, aos gritos
de “Deus o quer”.
Foram tomadas medidas iniciais, como a suspensão de guerras
privadas entre os Estados cristãos, concessão de graças especiais
e privilégios para quem empunhasse as armas em defesa da cruz e
diretrizes para concentração de forças em Constantinopla, de onde
partiria a ofensiva contra os muçulmanos.
É de se imaginar o entusiasmo que se espalhou pela Europa, a
partir de tal pronunciamento, motivado não só pelo espírito místico
que dominava a civilização da época, como também pela perspec-
tiva de amealhar fortuna. As Cruzadas constituíram uma verdadeira
Guerra Santa, fenômeno que se tem manifestado algumas vezes
na História e de que é exemplo a Jihad dos muçulmanos, ao tempo
da construção do Império Árabe, como modernamente, nas lutas
de palestinos contra israelenses.
60 O véu e a espada

É fácil de reprovar o que se passou nos séculos XI e XII, quando


os cristãos desencadearam sua luta contra o Islã, mas cada época
tem suas categorias de pensamentos e sua escala de valores. Hoje,
parece-nos absurdo que os papas de então tenham estimulado tais
iniciativas, porém, as gerações futuras, ao olharem para o nosso
século, também hão de estranhar o desencadeamento de duas
guerras mundiais, justificadas por ambas as facções em luta, e
finalizada a última com a explosão de duas bombas nucleares. A
Alemanha conseguiu levantar boa parte da Europa para participar
de uma campanha “sagrada” contra a URSS e o perigo comunista.
Embora repudie ao bom senso humano, o radicalismo racista é
muito mais arraigado do que se imagina em povos que combate-
ram o racismo nazista contra os judeus. O neo-nazismo tem seus
representantes nos EUA e ostentam a Hakerkreuz (cruz gamada)
em suas camisas; na própria Alemanha, onde tal movimento nas-
ceu e cresceu e, por incrível que pareça, está surgindo também na
Rússia, tiranizada pelas tropas SS de Hitler durante o último grande
conflito! E, no início de 2000, a Áustria, terra natal de Hitler, empossa
na cabeça do Governo um nazista confesso, ao que, desta vez, o
mundo levantou-se imediatamente contra. No entanto, o líder nazis-
ta foi mantido no cargo.
Guerra religiosa parece-nos um absurdo, e é, e a Irlanda, a cus-
to, está conseguindo se livrar desse mal que, diga-se de passa-
gem, vem mesclado de outras motivações e interesses.
Voltando às Cruzadas, houve várias delas, a primeira, chamada
de Cruzada dos Cavaleiros (1096 - 99). Concentraram-se as for-
ças em Constantinopla e libertaram a Terra Santa. Estabeleceram-
se reinos e condados, o mais célebre o Reino Latino de Jerusalém,
tendo no trono Godofredo de Bouillon. Contudo, tais Estados foram
efêmeros e caíram sob o poder muçulmano.
São Bernardo de Claravel pregou a Segunda Cruzada (1147
- 49), cuja motivação foi a queda do condado de Edessa em
poder do Islã. Forças germânicas e francesas atuaram separa-
damente e da mesma forma foram batidas pelos turcos. Foi nulo
o resultado de tal empreendimento.
A Terceira Cruzada (1189 - 92) constituiu-se pelos mais pode-
rosos reis católicos da Europa: Frederico Barba Roxa, imperador
germânico; Felipe Augusto, rei da França, e Ricardo Coração de
Leão, rei da Inglaterra. Partiram para o Oriente a fim de dar com-
bate a Saladino, sultão do Egito, Síria, Iêmen e Palestina, bem
como fundador da dinastia dos aiúbidas. Em julho de 1187, o che-
fe árabe encurralou e destruiu, em Hattin, próximo ao lago de
Zolá Pozzobon 61

Tiberiádes, tropas da Terceira Cruzada. Em seguida, reconquis-


tou Jerusalém, depois de 88 anos de ocupação pelos francos. Por
duas vezes tentaram os cruzados, sob o comando de Ricardo
Coração de Leão, arrebatar a Cidade Santa das mãos dos infiéis,
sendo rechaçados. O rei inglês negociou uma trégua de três dias
e visitou o Santo Sepulcro.
Conta-se que teria havido um encontro pessoal entre aquele rei
e Saladino, em que cada qual procurou materializar num gesto o
próprio valor combativo. Ricardo mandou colocar uma barra de fer-
ro entre dois suportes e, com sua poderosa espada, desferiu um
violento golpe sobre a peça metálica, quebrando-a em duas partes.
A seguir, Saladino chamou um de seus servos, o qual, ao sinal do
amo, lançou para o alto um finíssimo véu de seda. O árabe desem-
bainhou seu afiado sabre e esperou a queda do véu, dividindo-o em
dois pedaços com a afiadíssima lâmina.
É preciso assinalar que, dos três chefes cruzados que haviam
iniciado o movimento para a Terra Santa, somente Coração de Leão
prosseguiu até o fim, pois Felipe Augusto, da França, retornou a
seu país, de onde conspirou contra o colega. Sobre Barba Roxa, a
História pouca registra em matéria de ação militar na Palestina.
A Terceira Cruzada marcou profunda transformação nas rela-
ções entre cristãos e muçulmanos: um certo espírito de tolerância e
cavalheirismo substituiu a primitiva luta de extermínio. Para isso con-
tribuiu a generosidade do soberano árabe, que enviou neve a seu
oponente, para minorar-lhe as dores dos ferimentos. Ao que dizem,
quando morreu, Saladino não deixara dinheiro suficiente para que
fosse pago seu túmulo.
A Quarta Cruzada (1202 - 04) foi pregada pelo papa Inocêncio
III e constituída, na maior parte, por cavaleiros franceses, e des-
viou de rumo: em vez de buscar Jerusalém, dirigiu-se a
Constantinopla, dando combate tanto a muçulmanos quanto a cris-
tãos do Oriente, fundando o Império Latino de Constantinopla. O
desvio foi provocado por Veneza, interessada na abertura dos
portos do reino bizantino a seu comércio.
Em 1212, dois jovens, o pastor francês Estêvão de Blois e o
alemão Nicolas, reuniram milhares de adolescentes na “Cruzada
das crianças”. A maior parte morreu antes de atingir o mar e outros
foram vendidos como escravos ou capturados por piratas.
Últimas Cruzadas - Houve ainda mais quatro cruzadas, che-
gando-se temporariamente a um condomínio da Terra Santa, em
que os muçulmanos conservaram sua liberdade de religião. Tal pac-
to durou até 1244. O rei da França, Luis IX (São Luis), comandou
pessoalmente uma delas, tendo marchado contra o Egito (1249),
62 O véu e a espada

onde caiu prisioneiro e pagou resgate. Durante nova campanha,


morreu em Túnis (127), vítima da peste.
Os cristãos deram-se conta, então, de que as cruzadas eram
uma idéia do passado. A célebre Ordem dos Templários era cons-
tituída mais por banqueiros do que por monges-soldados e a força
do Islã não foi debilitada.
Como conclusão, podemos dizer que tais movimentos tiveram
um significado histórico: o enriquecimento da cultura do Ocidente
pelo contato com a do Oriente; conhecimento da ciência e da filoso-
fia greco-islamita; costumes de galanteria; heroísmo; aquisição de
novas técnicas de combate; desenvolvimento do nacionalismo nas-
cente; enfraquecimento do feudalismo etc..
Quanto à parte econômica: cultivo de novas espécies agrícolas;
novos instrumentos e processos de fabricação; desenvolvimento
da vida urbana; expansão do comércio com a Ásia; implantação do
sistema bancário; expansão comercial de Gênova e Veneza....
Com referência ao significado espiritual: surgimento de idéias
heréticas na Europa Ocidental; incapacidade dos papas em dirigir
temporalmente a cristandade (o que não era de fato sua incumbên-
cia); conservação de Constantinopla sob domínio cristão por mais
quatro séculos.....
Zolá Pozzobon 63

A grande cavalgada

No fim do século XII, a Mongólia e o Gobi foram divididos entre


as tribos turco-mongólicas e tunguesas. Consta que os turcos
queraítas eram um povo cristão nestoriano (*), cujo rei foi ligado
ao famoso Preste João, personagem das histórias de Marco Polo,
chefe de um vasto império no Extremo Oriente, ao qual D. João II
de Portugal enviou duas expedições no século XV, uma sob o
comando de Bartolomeu Dias e outra chefiada por Pero de Covilhã.
Naquelas paragens quase desconhecidas e pouco estudadas
por nós, ocidentais, surgiu, por volta de 1162, Gengis Khan (**)
chefe militar fundador do império mongol.
Seu nome era inicialmente Temudjin, e revelou desde cedo inte-
ligência e tino militar. Mais tarde, apoiado por Toghril, khan dos
queraítas, logrou ser reconhecido chefe e adotou o nome de Gengis
Khan, o maior de todos os governantes mongóis.
Apoiado pelos queraítas, lançou-se contra os tártaros, em 1198.
Entrementes, Djamuca, que fora seu amigo, reuniu chefes de vá-
rios grupos mongóis e se fez proclamar khan universal, supremo
título turco-mongol. Em 1202, Gengis Khan derrotou os tártaros
e, mais tarde, os queraítas, cujo chefe foi morto quando batia em
retirada. Djamuca (em 1204 ou 1208) foi preso e morto. Recebeu
então Gengis Khan a submissão dos merquites, oirates e quirguises.
A Mongólia estava unificada sob sua autoridade.
Ele iniciou a organização do Estado e do exército e atacou (em
1204?) o clã tibetano dos Hia, dominando-os depois de cinco anos
de luta. Decidiu a guerra contra o império dos Chin, vindo a capital,
Pequim, a cair, em cerca de 1215. Voltou-se para oeste, venceu
os caraquitãs, anexou seus territórios e virou-se contra o império
turco dos Khwarizm, dominando suas terras: a Transoxiana, o
Afeganistão e a maior parte do atual Irã.
64 O véu e a espada

A vanguarda mongol, sob o comando dos generais Djebé e


Subo-tai, os melhores cabos-de-guerra de Gengis Khan, chegou
a realizar uma fantástica incursão de cavalaria em torno do mar
Cáspio, através do Corassan, o Iraque Adjemi, o Azerbaijão, o
Cáucaso e a Rússia meridional, num percurso de milhares de
quilômetros e com duração de quase três anos. No decorrer des-
sa extraordinária cavalgada, exigiram os mongóis resgate de ci-
dades persas, esmagaram os georgianos (1221) e destruíram o
exército russo em Calcá, às margens do mar de Azov (1223).
Enquanto isso, Gengis Khan submetia o Irã Oriental, repelia a
contra-ofensiva do herdeiro de Carezm – Djelal el Din – e, como
represália, destruía as cidades da região.
Ao completar a conquista do reino Si-Hia, juntou-se Gengis
Khan aos guerreiros que pereceram em suas conquistas, a 18
de agosto de 1227.
A grande obra do conquistador consistiu em haver unificado as
nações turco-mongólicas da Ásia central e mantê-las militarmente
organizadas. Através do terror, fez reinar ordem inflexível em seus
Estados e manteve a segurança das rotas de comércio. Entre
tantos e profundos traços de violência, demonstrava tolerância
religiosa. No meio de seus massacres, externou grande simpatia
pelo budismo, taoísmo e cristianismo nestoriano, embora ele pró-
prio antes fosse xamanista (***).
(*) Nestoriano - relativo à doutrina do heresiarca Nestório, que distinguia
duas pessoas em Cristo, uma divina e outra humana, contrariando a Igreja,
cuja doutrina defende duas naturezas unidas em uma só pessoa divina.
(**) Khan - chefe, soberano, imperador
(***) Xamanista - acredita que os espíritos bons e maus são dirigidos pelos
xamãs (exorcistas), isto é, por magos que afugentam o mal.
Zolá Pozzobon 65

Avalanche turca

Fundado sobre as ruínas do Estado seldjúcida da Anatólia (sé-


culos XIII e XIV) e, mais tarde, de novo, sobre a derrocada do
Estado bizantino, o império otomano viria a ser, depois da queda de
Constantinopla (1453), a maior potência do mundo muçulmano e
uma das maiores da Europa e do Oriente Próximo.
A partir de 1229, Ósman, ou Ótman, de onde se origina o nome
de seu império – otomano – príncipe sábio e patriarcal, iniciou o
processo de independência de um pequeno Estado na Anatólia (Ásia
Menor). Descendia ele da tribo Kayl, pertencente à federação dos
turcomanos, os quais formaram no século VI de nossa era um im-
pério, ocupando a Ásia do norte, desde o mar Negro até a Coréia.

Ósman expandiu seu território, lutando com sucesso contra os


comandantes dos castelos-fortalezas bizantinos mais ou menos
autônomos. Seu filho Órcan tomou Brussa, quando então seu pai
morreu. Criou antes dos europeus a infantaria regular (pyiade) e fez
cunhar a primeira moeda otomana. Conquistou Nicéia (na Grécia) e
transformou a igreja onde fora proclamado o Símbolo dos Apósto-
los em mesquita (1330). Com a queda de Nicomédia, a Ásia bizantina
ficou reduzida a Escutari e Filadélfia.

Órcan tornou-se genro do imperador João VI. Ao abdicar este,


Solimão Paxá, filho de Órcan, apoderou-se de Galípoli e de outras
localidades. Morreu pouco antes do pai, ao cair do cavalo, inter-
rompendo-se sua série de conquistas.

Murad I cercou-se de generais competentes e ele próprio con-


quistou Angorá (Ancara). Diante da ameaça de invasão, coligaram-
se os sérvios, os húngaros e outras nações balcânicas, mas os
66 O véu e a espada

turcos apoderaram-se da Macedônia e da Bulgária. Com a batalha


de Kosovo, desapareceu a independência da Sérvia. Porém, Murad
ali encontrou a morte, assassinado por um sérvio de nome
Obrenovitch. Dessa época provém a milícia dos Janízeros, cris-
tãos recrutados à força.

Bazajé I instituiu o cruel costume de condenar à morte os irmãos


do sultão que subissem ao trono. Adquiriu a Turquia, por meio de
seu casamento com a filha do príncipe de Guermian, e completou a
conquista da Macedônia e da Bulgária e de outras regiões balcânicas.
Formou-se, então, uma cruzada, atendendo ao apelo de Sigismundo,
rei da Hungria, sob o comando de João Sem Medo, em cujas filei-
ras se encontravam os grão-mestres da Ordem dos Cavaleiros de
Rodes e dos Cavaleiros Teutônicos. Sendo o exército cristão derro-
tado, chegaram os turcos à Tessália e ao sul do Peloponeso.
Prestes a unificar a Anatólia, deparou-se Bazajé com Tamerlão.
Feriu-se a batalha campal na planície de Ancara, em que Bajazé foi
aprisionado, vindo a morrer no cativeiro. Com isso, retardou-se a
queda do Império Bizantino.
Houve, então, um interregno de 1402 a 1413.

Murad II, filho de Bazajé, derrotou outros pretendentes e, am-


pliando conquistas nos Bálcãs, foi obrigado a assinar a paz em
Zseged, (1444), com João Huniadi, da Transilvânia. Seguiu-se uma
trégua de 10 anos com Ladislau, rei da Polônia e da Hungria.
Murad abdicou em favor de seu filho Maomé II. O dito João Huniadi,
instigado pelo legado apostólico Cesarini, reiniciou as hostilidades
contra os turcos e foi derrotado em Varna, onde o rei Ladislau
encontrou a morte. Surgiu, então, a figura de Jorge Castrioto, edu-
cado na religião muçulmana, o qual escapou dos turcos e contra
estes levantou o Epiro.

Maomé II conquistou Constantinopla, onde derrotou forças


genovesas comandadas por Giustiniani. Dominou a Sérvia, apo-
derou-se de todos os empórios genoveses do mar Negro, inclu-
sive a Criméia e Azov. Aos venezianos, arrebatou diversas pos-
sessões no mar Jônio.

Bajazé II, o Santo, filho de Maomé II, foi soberano bondoso, o


que não o eximiu de realizar novas conquistas: Lepanto, Durrazo,
Navarino. Houve dissensões na família e conta-se que o próprio
Bajazé foi envenenado.por seu filho Selim.
Zolá Pozzobon 67

Selim I, o Terrível, obteve as seguintes conquistas: Curdistão,


inclusive Mossul, no atual Iraque; a Síria, defendida pelo velho sul-
tão Cansu el-Gavri, morto em combate; o Egito, apesar da brava
resistência do sultão Tuman Bei, o qual foi enforcado nos arredores
do Cairo. Esta última conquista representou para Selim a posse
das cidades santas de Hedjaz, Meca e Medina, sendo dessa épo-
ca as pretensões otomanas ao califado.

Solimão II, o Magnífico, filho único de Selim, teve um longo


período de glórias: 16 campanhas chefiadas pelo próprio sultão, o
que representou o apogeu do poderio otomano (1520-1566). No
Natal de 1522, ele desembarcou em Rodes, defendida pelos Cava-
leiros de São João Hospitaleiro, e apoderou-se do lugar.
Os turcos assediaram inutilmente Viena, em 1529. Solimão aliou-
se com Francisco I, adversário de Carlos V. Toulon, no sul da Fran-
ça, transformou-se em base naval turca.
O almirante veneziano Andréa Doria foi derrotado na África e
todo o norte desse continente, até a fronteira marroquina, tor-
nou-se possessão da Turquia. Na Ásia, os turcos tomaram Bag-
dá e Mascate, porém fracassaram no assédio à ilha de Malta,
defendida por Lavalette (1565).

Solimão morreu no assédio a Sziget, na Hungria. Além de


notável guerreiro, foi grande administrador, promoveu os poe-
tas, os jurisconsultos e historiadores. Foi fraco nas questões
familiares. A morte de Solimão assinalou o início da decadência.
Os janízeros transformaram-se em tropas pretorianas, avessas
às reformas. A influência religiosa em todos os assuntos, mes-
mo privados, estorvou muitas vezes a legislação leiga dos sul-
tões. A venalidade generalizou-se.

De Selim II a Ibraim I (1566 -1648). O primeiro era inepto e


bêbado, mas escolheu um bom grão-vizir. Conquistou a ilha de
Chipre, entretanto, os turcos sofreram o revés da batalha naval do
golfo de Lepanto.

Murad III era letrado, mas deixou-se dominar por seu harém
(sua mãe Nur-Banu e sua favorita, a sultana Bafá). Teve mais de
uma centena de filhos.

Maomé III retomou o poder, ilustrou-se com a tomada de


Erlau e com a vitória de Kereszt. Concluiu uma paz de vinte
anos com a Áustria.
68 O véu e a espada

Ósman II esforçou-se por restabelecer a autoridade do sultão.


Foi derrotado na Polônia (1621), em Chocin.

Murad IV, irmão de Ósman II, era enérgico e cruel e reconquis-


tou Erivam e Bagdá das mãos persas.

Ibraim I, irmão do anterior, foi um devasso. Substituído pelos


comandantes de tropa, foi estrangulado.

Maomé IV, o Caçador, filho de Ibraim, subiu ao trono com sete


anos de idade. O poder caiu nas mãos de sua avó e de sua mãe.
Nesse reinado teve início a gestão dos grãos-vizirs da família Coprulu.

Tendo Fazil Amed Paxá conquistado Neuhausel, formou-se a


Santa Liga, composta pelo imperador Leopoldo, o papa Alexandre
VII e Luis XIV, os quais alcançaram a vitória de São Gotardo (1664)
e a paz de Vasvar. Porém, a ilha de Creta, após 21 anos de sítio,
caiu em poder dos turcos.

Cará Mustafá Paxá não teve êxito no assédio a Viena e os


austríacos recuperaram definitivamente a Hungria (1687). Por essa
época, o Partenon de Atenas, transformado em fábrica de pólvora
pelos trucos, foi desmantelado por uma explosão.

Hussein Paxá salvou a Turquia, negociando a Paz de Karlowitz:


pela primeira vez, a Turquia recuava na Europa!

No reinado de Amed III entrou em cena um novo adversário: a


Rússia. Por instigação de Carlos XII da Suécia, derrotado na ba-
talha de Poltava, o grão-vizir Baltaji Maomé Paxá declarou guer-
ra a Pedro, o Grande, da Rússia, e cercou-o em Prut. Ludibriado
pela czarina Catarina, que acompanhara o marido à guerra, o
grão-vizir assinou o tratado de Prut, salvando-se assim Pedro, o
Grande, que teve de ceder Azov. Os turcos deram a Carlos XII o
apodo de Demir bach, Cabeça de Ferro, e a Pedro o de Deli
Petro, Pedro, o Louco. Tendo-se reiniciado a guerra com Veneza e
depois com a Áustria, o príncipe Eugênio foi vitorioso em
Peterwardein, onde pereceu o grão-vizir Damad ali Paxá. Veneza
e Áustria obtiveram vantagens territoriais.
Em 1730, enquanto instalava na Turquia uma oficina de impres-
são, foi Amed III expulso do trono por uma revolta dos janízeros. Os
turcos denominaram seu reinado de lalé devri (Época das tulipas),
devido às festas de flores e de fogos. Foi um período de renascimento
Zolá Pozzobon 69

artístico, influenciado pelo estilo rococó de Luis XIV e notabilizado


pelo poeta Nedim.

Mamud I sustentou guerra com a Pérsia, conquistando a Geórgia


(1732) e saindo-se vitorioso no ano seguinte sobre o famoso
usurpador persa Nadir Xá. Pela paz de Belgrado, terminou a guerra
contra a Rússia e a Áustria.

Mustafá III levou o país novamente à guerra com a Rússia. A


esquadra turca foi destruída em Tchesmé pelo almirante Orlof.

O reinado de Abdul-Hamid I foi assinalado por uma série de


acontecimentos adversos à causa turca. O país foi obrigado a acei-
tar a independência da Criméia; perdeu Kertch e outras cidades
importantes para os russos e evacuou a Geórgia. Em 1787, em
nova guerra contra Catarina da Rússia, perdeu Otchakov, a última
cidade ocupada pelos turcos no litoral do mar Negro.

O período que se segue assinala o desmembramento do Impé-


rio Turco e a adoção de reformas. Todos os impérios, no decorrer
da História, acabam por se esfacelar inexoravelmente, pela razão
maior de que o ser humano não se deixa dominar sempre por
ambições alienígenas e acaba por sacudir a tirania. Exemplo re-
cente disso é o desmoronamento da URSS. O século vindouro
possivelmente registrará outras quedas espetaculares. Na certa,
nossos filhos e netos testemunharão os fatos.

Selim III foi reformador do exército e do sistema financeiro. O


russo Suvorov obteve grandes êxitos em Rimnik, apoderou-se de
Bender e de Ismail, mas o temor causado pela Revolução France-
sa salvou a Turquia: celebraram-se os tratados de Sistova com a
Áustria, em 1791, e de Iassy com a Rússia, no ano seguinte. Deno-
minado o “Segundo conquistador do Egito”, restabeleceu Selim re-
lações com Napoleão Bonaparte, que malograra em sua campa-
nha no norte da África. Abdicou em favor de seu primo.

Mamud II - Em nova guerra com a Rússia, perdeu a Bessarábia.


Houve revoltas na Sérvia e na Arábia, esta dominada por Tussn
Paxá. Outrossim, estouraram levantes na Albânia e na Grécia.
Ao tentarem reprimir a revolta grega, sofreram os turcos enorme
revés, uma vez que sua esquadra e a do Egito foram destruídas em
Navarino (1827). Nova crise abateu-se sobre a Turquia: Ibraim Paxá,
senhor da Síria, invadiu a Anatólia e bateu Rechid Paxá em Conia
70 O véu e a espada

(1832). O sultão, porém, procurando apoio, concluiu com a Rússia


o tratado de Unkiar Skelessi, colocando-se praticamente sob a tu-
tela do czar. Mamud II morreu em 1839, tendo antes instituído o
uso obrigatório do fez (barrete oriental).

Abdul Mejid (1839-1861), filho de Mamud II, atingiu o apogeu


de um programa de reformas - o Tanzimat.
Conflitos a respeito dos Lugares Santos, na Palestina, provoca-
ram a aliança da Turquia com a França e a Inglaterra e a guerra
contra a Rússia. A esquadra turca foi incendiada pelo almirante
Nakhimov em Sinope, em 1853. A Turquia participou da campanha
da Criméia e, pelo Tratado de Paris (1856), teve resguardada a
integridade de seu território.

Abdul Assiz(1861-1876). Em sua administração, tiveram iní-


cio os manifestos dos Jovens turcos, os quais, imbuídos dos
princípios da Revolução Francesa, pediam regime constitucional
e parlamentar.

Abdul Hamid II (foto) - Uma


revolta na Herzegovina provo-
cou a guerra com a Sérvia e o
Montenegro. Rompeu com a
Rússia e, apesar da heróica
resistência de Ósman Paxá em
Plevna, a Rússia ocupou Andri-
nopla e impôs a paz à Turquia..
A França, que se apoderara
de Argel, ocupou a Tunísia. Os
ingleses, tomando como pre-
texto a revolta de Arabi Paxá
no Egito, ocuparam “temporari-
amente” o país. A Turquia es-
forçou-se por reprimir as revol-
tas que grassavam nos Bálcãs
e na Armênia. Os Jovens tur-
cos aproveitaram o desconten-
tamento existente e consegui-
ram exilar Abdul Hamid II em
Salônica, colocando no trono
seu dócil irmão, Maomé V.
Zolá Pozzobon 71

Quando um animal de grande porte está ferido, as hienas se


aproximam e todas elas, para abocanhar pedaços de carne, dão
suas mordidas. Assim, ferido o Grande império Otomano, per-
dendo aqui e ali partes de seus membros, aproximaram-se os
predadores internacionais, não para libertarem povos oprimidos,
mas para também os oprimirem.

A Itália apoderou-se da Tripolitânia (1911). A Bulgária aliou-se à


Servia e à Grécia e tal coligação atacou os turcos. Os búlgaros só
foram detidos a 30 Km de Istambul. Tendo assinado os Prelimina-
res de Londres (1913), os turcos mantiveram no continente euro-
peu apenas uma pequena faixa de terra (Galípoli).
Na I Guerra Mundial, por temor às ambições russas, alinhou-
se a Turquia aos alemães. O coronel Mustafá Kemal defendeu
valorosamente os Dardanelos contra a aventura aliada de con-
quistar Galípoli. Em Kutelamara, na frente iraquiana, foi captura-
do o general inglês Townsend. Por sua vez, Enver Paxá fracas-
sou na tentativa de conquistar Suez e ainda sofreu a derrota de
Sarikamish, face aos russos.
A revolução bolchevista de 1917 salvou os turcos de um desas-
tre na frente russa e o general inglês Allenby apoderou-se da Pales-
tina. Ao assinar o armistício de Mudros (1918), a Turquia já perdera
a Arábia, a Palestina e a Síria.
Então, depois de chegarem a um Estado mínimo, embora de
não exíguas dimensões, sentiram as lideranças turcas a necessi-
dade de estabelecer uma grande reforma. Autorizava uma das
cláusulas do armistício que os aliados poderiam ocupar pontos do
território turco, em proveito da própria segurança do país (1919).
Porém, cometeram a asneira política de apoiar um desembar-
que grego em Esmirna. Mustafá Kemal conseguiu fazer-se desig-
nar comandante do III Exército e desembarcou a 19 de maio em
Sansum, organizou a resistência nacional e formou em Ancara a
grande assembléia nacional da Turquia., que votou a primeira cons-
tituição do “Novo Estado” turco. Mustafá continuou a “guerra da
independência”, para anular o tratado que atribuía Esmirna aos
gregos e dava autonomia à Armênia. Após as duas batalhas de
Inonu e a vitória decisiva de Mustafá em Sacaria, foram os gregos
empurrados até o mar.
A paz definitiva foi assinada em Lausanne (1923), por Ismet Paxá.
Procedeu-se à série de reformas que fizeram da Turquia um Esta-
do moderno.
Hoje, debate-se o país com o problema dos curdos, que habi-
72 O véu e a espada

tam o território turco, além de outras áreas no Iraque, Síria e Irã,


todo esse povo aspirando a constituir-se em um país independente.

É de se lamentar que a Turquia esteja servindo de “porta-avi-


ões” americano, de onde partem os F-16 e F18 que bombardeiam
o Iraque dia sim dia não, na perseguição de uma política inócua e
ultrapassada, cujo resultado prático até agora é o sofrimento cada
vez maior da população iraquiana.
Zolá Pozzobon 73

Um só no céu,
um só na terra!
Coxo de nascimento (1336), embora fosse turco, proclamou-
se descendente e continuador do mongol Gengis Khan. Cons-
truiu um império e escolheu Samarkand (no atual Uzbequistão)
para sua sede. Intolerante e fanático, converteu-se ao islamismo
e anunciou a quem estava ou não obrigado a ouvi-lo nada menos
que a conquista do mundo, seguindo uma reflexão muito sim-
ples: “Deus sendo um, não podia haver senão um rei em toda a
terra”, e a este trono candidatou-se. Tal foi Timur-Lang, ou Timur,
O Coxo - (Tamerlão).
Uma de suas primeiras campanhas foi contra o sultão Bayezid.
Enfrentaram-se os dois poderosos exércitos em Ancara (antiga
Encira ou Angorá, no planalto da Anatólia, a 1000 metros de altitu-
de). Os turcos foram derrotados e Bayezid feito prisioneiro. Con-
ta-se que foi enjaulado em uma gaiola de ferro e levado assim a
passear pelas cidades, como um animal de circo, exposto à zom-
baria do populacho.
Timur conquistou a maior parte do Afeganistão, atacou diver-
sas regiões da Rússia, apoderando-se de Azov. Invadiu a Pérsia
e a Índia, tendo alcançado Delhi. Bagdá foi duas vezes por ele
devastada, em 1392 e em 1401.
Apesar de todas essas violências, a ele é creditada a grande
obra de unificação da Ásia Central. Sob a dinastia dos timúridas,
quando a capital do império foi transferida para Herat, houve um
período de paz e prosperidade (1404 a 1507). A capital tornou-se
grande centro da civilização islâmica. Porém, em 1507, os uzbeques
de Mohamed Khan Shabani apoderaram-se de Herat.
A última campanha do conquistador foi contra a China, cujo
domínio ambicionava. Entretanto, não conseguiu ultimar sua con-
74 O véu e a espada

quista, uma vez que morreu em marcha contra esse império do


Extremo Oriente. Ele queria ser o controlador da “estrada da seda”,
por onde se fazia o comércio de Pequim até o mar Negro.
Tendo neutralizado a expansão turca, concluem alguns histori-
adores que o império de Tamerlão retardou a derrocada da Ida-
de Média na Europa. Convém assinalar que a unificação de tal
império foi um grande fator de importância econômica, uma vez
que favoreceu e estimulou o intercâmbio comercial entre o Oci-
dente e o Oriente. Por algum tempo, a conquista mongólica im-
pôs a paz à Ásia Central.
Zolá Pozzobon 75

Ivan, O Terrível

O nome Ivan é tão ligado à Rússia que, em diversos países,


muitas pessoas, ao se referirem a algum russo, dizem: “O Ivan
chegou”, ou “Hoje conversei com Ivan” etc..

Ivan IV, O Terrível (Ivan Vassilievitch – 1530 - 1584), foi o pri-


meiro czar da Rússia. Fez um governo cruel (mais de três mil
execuções). (Mas um santo, se comparado com Stalin, responsável
por milhões de vítimas!).
Era filho de Vassili (Basílio) III e de Helena Glinskaia. Ainda crian-
ça, foi proclamado grão-duque e assumiu a chefia do governo em
1547. Sua infância foi influenciada pelo ambiente de violências e
intrigas entre clãs rivais que disputavam o comando político. A partir
de 1542, o metropolita de Moscou e chefe da Igreja Ortodoxa rus-
sa, Makari, induziu-o a adotar a concepção do direito divino dos
reis. Ele foi coroado em 1547 como primeiro czar e, dois anos
depois, reunia-se a primeira Zemski Sobor (assembléia). Usava
oficialmente o título de Grande Soberano, Czar e Grão-príncipe de
toda a Rússia. As reformas por ele adotadas fortaleceram o Esta-
do e concederam certa autonomia a citadinos e campesinos.
Estendeu o poder moscovita além das terras russas. Dominou
a bacia do rio Volga e iniciou sua colonização. Com a tomada de
Kazan, indicou o caminho para a conquista da Sibéria. Ao apos-
sar-se de Astrakan, penetrou no mar Cáspio, mas interferiu na
esfera de influência do Império Otomano. Estabeleceu relações
com a Pérsia e os Estados da Ásia Central. Foi o primeiro
governante russo a procurar contato com o Ocidente. A fim de
forçar uma saída para o mar Báltico, enfrentou a Polônia, Lituânia
e Livônia, envolvendo-se na chamada Guerra da Livônia (1558-
83), onde foi derrotado. Ocupou-se então em expandir seu reino
76 O véu e a espada

para a Sibéria Ocidental.


Internamente, combateu os privilégios militares e territoriais dos
boiardos (membros da aristocracia que se seguiam aos prínci-
pes). Tal repressão foi executada com incrível violência, o que lhe
valeu o cognome de Grozny (O Terrível). Em 1565, dividiu o reino
em duas partes, uma dirigida pessoalmente por ele e outra por um
conselho especial de boiardos. Tal sistema quase provocou a de-
sagregação da economia nacional. Para atingir seus fins de domi-
nação pessoal, criou a oprichnina, cujos membros, os oprichniki,
administradores de um domínio especial do reino, fizeram-se fa-
mosos pelo emprego da violência contra os opositores do regime.
Usavam como símbolo crânios de cães e vassouras penduradas
às selas de seus cavalos negros.
Ivan formou o primeiro corpo de tropa regular (antes, contava
com hordas enfurecidas), construiu fortalezas, estimulou as artes
e mandou imprimir os primeiros livros russos. (É o caso de dizer-
se “Ivan, O Incrível.).
Após sua morte, o país entrou em anarquia. Só em 1613 con-
seguiu erguer-se, com a escolha de Miguel Romanov para ocu-
par o trono.
Zolá Pozzobon 77

Sonhos e pesadelos
Zolá Pozzobon 79

Frederico e a
artilharia montada
Com o nome de Frederico, foram batizados os três monarcas do
Sacro Império Romano-Germânico, que se estendeu por toda a
Alemanha e a Itália medievais, dos quais mais se notabilizou Frederico
I, o Barba Roxa (1123-1190); os três reis da Prússia, Frederico I, II
(O Grande) e III e vários outros monarcas, com esse prenome
acrescido de Guilherme. Assim: Frederico Guilherme, O Grande
Eleitor, e Frederico Guilherme I, II, III e IV, reis da Prússia.
Frederico II, O Grande, foi excelente guerreiro e hábil adminis-
trador. Como político, contava-se entre os “Déspotas esclarecidos”,
regime do século XVIII que consistia numa adaptação do absolutis-
mo ao pensamento e às realidades econômico-sociais da época.
Era, porém, um absolutismo ornado com as luzes dos filósofos e
despojado da concepção divina do poder. Propunha-se a realizar o
bem do povo (qual o regime que não se propõe a isso?), sem,
contudo, permitir-lhe a participação na obra do governo.
Seu prestígio como monarca passou a preocupar vários paí-
ses da Europa (Áustria, França, Suécia, Rússia e Saxônia), que
contra ele se uniram, obrigando-o a buscar o apoio da Inglaterra.
Nas rivalidades entre este último país e a França, causadas pelo
desencontro de interesses comerciais e marítimos, com relação
às colônias francesas e inglesas na fronteira do Canadá com os
EUA, assim como à crescente influência da França nas Índias,
reside o estopim inicial que desencadeou a chamada Guerra dos
Sete Anos (1756-1763).
Bem informado e perspicaz, assim que percebeu as intenções
da coalizão, iniciou a concentração de suas tropas, enviando-as à
Pomerânia, à fronteira russa e à Silésia. Seu exército era bem
instruído, disciplinado e iria empregar, pela primeira vez na história
80 O véu e a espada

militar, a artilharia montada (em 1759), que só surgiu na França


por ocasião da Revolução Francesa.
Em 29 de agosto de 1756, Frederico transpôs a fronteira da
Saxônia, iniciando a guerra. Mesmo encontrando dificuldades, avan-
çou até a Boêmia, derrotando a seguir os austríacos na Batalha de
Praga (1757). Pouco depois, desvantagens militares abateram-se
sobre ele, que experimentou a derrota em Leimeritz, agravada pela
vitória dos franceses sobre os ingleses no norte da Europa. Entre-
tanto, ainda em 1757, obteve a grande vitória de Rossbach contra
os franceses e a de Leuthen contra os austríacos.
No ano seguinte, vanguardas russas começaram a se aproxi-
mar de Berlim, mas foram repelidas e recuaram para Landsberg
e Königsberg. Feriu-se a Batalha de Hochkirch, em que Frederico
foi surpreendido pelo ataque dos austríacos, sob o comando de
Zieten, e obrigado a retirar-se até Dresden.
Embora numerosas, as reservas militares de Frederico começa-
ram a mostrar sinais de esgotamento. Entrementes, William Pitt, pri-
meiro- ministro da Inglaterra, prestou grande auxílio à causa da Prússia.
Com a ascensão de George III, no entanto, cessou a ajuda.
Nova derrota experimentou o chefe prussiano, desta vez face às
forças austro-russas, comandadas pelo príncipe Ferdinando, em
Maxen e Minden (1759), restando-lhe o consolo das vitórias ingle-
sas no Canadá e o aumento de sua popularidade na Grã-Bretanha.
Em 1760, iniciou sua ofensiva sobre a Silésia, onde derrotou
russos e austríacos. Pouco depois, travaria em Torgau sua última
grande batalha, em que ambos os lados – prussianos e austría-
cos – sofreram pesadas baixas.
Dominado pela exaustão, Frederico II, O Grande, foi declinando
sensivelmente o ritmo da guerra. Com a morte da czarina Elisabeth
(1762), subiu ao trono Pedro III, que propôs a paz. Através do
Tratado de São Petersburgo, a Pomerânia foi devolvida a Frederico.
Mas a paz definitiva só foi firmada em 1763, em Hubertusburg.
Pelas cláusulas, a Áustria perdia a Silésia e a Polônia era dividida
pela primeira vez, sendo ocupada pela Prússia, Rússia e Áustria.

- O monarca Frederico II, O Grande, déspota esclarecido, foi


notável administrador e chefe militar.
- Sua aliança com a Inglaterra trouxe-lhe vantagens
indiretas, ou seja, o engajamento dos franceses com forças
daquele país, aliviando, assim, a participação da França contra
Frederico na Europa.
- Obteve vitórias e sofreu derrotas e não poderia ter sempre
Zolá Pozzobon 81

bom êxito contra forças coligadas de cinco países.


- Ao fim da Guerra dos Sete Anos, entre outras conseqüênci-
as surgiu a primeira divisão da Polônia, fato que iria se repetir na
história do continente, a última vez em 1939, quando Hitler man-
dou invadir aquele país, ficando a Alemanha com a parte oeste
de seu território e a URSS, com a porção leste.
Zolá Pozzobon 83

Herói de muitas batalhas!

Quando estudei a história da formação


dos países latino-americanos, impressio-
nei-me com o nome de um herói: José An-
tonio de la Santisima Trinidad Simón Bolívar.
Porém, não é somente pelo nome que este
personagem impressiona.
General e estadista venezuelano, nas-
cido em Caracas, em 1783, falecido na
Quinta de S. Pedro Alexandrino, perto de
Santa Marta, Colômbia, em 1830, Simón
Bolívar era possuidor de boa erudição. Tem-
perava seu idealismo libertário com leitu-
ras de Plutarco e Rousseau. Chefiou as
revoluções que libertaram sua pátria, Co-
lômbia, Equador, Panamá, Peru e Bolívia. Simón Bolívar

Tantas foram suas andanças que contam ter seu cavalo bebido
das águas da maioria dos rios sul-americanos, desde o Orinoco
até o Prata!

Era de família ilustre e abastada. Foi investido do título de “Liber-


tador” pelos congressos dos países pelos quais lutou; fundou a
Grã-Colômbia, que reunia Nova Granada, Venezuela e o reino de
Quito. Outrossim, assumiu o poder no Peru e seu nome designa um
país, a Bolívia.
Seus inúmeros feitos constituem um gigantesco mural de glória e
tragédia, vitórias e derrotas. Seus escritos, discursos, proclama-
ções e correspondência formam preciosa herança política da Amé-
rica espanhola. Grande observador e analista, previu com exatidão
84 O véu e a espada

as variadas lutas que se haveriam de travar pela liberdade. Sua


aguda inteligência levava-o bem à frente de seu tempo. Embora
acerbamente criticado (quando os invejosos deixaram de se mani-
festar?) tanto em vida como depois de morto, foi e é reconhecido
como um dos maiores expoentes da era revolucionária que infla-
mou a América Latina em fins do século XVIII e início do XIX.
Simón Bolívar estudou e casou na Espanha. Ao voltar à América,
sua esposa foi colhida pela febre amarela, obrigando-o a voltar ao
velho continente. Em Paris, assistiu à coroação de Napoleão I. A
seu professor, o pedagogo Simón Carreño Rodriguez, a quem acom-
panhou em viagem à Europa, prometeu solenemente em 1805, no
Monte Aventino (Roma), libertar sua terra do jugo espanhol.
No ano seguinte, na Venezuela, ligou-se a grupos liberais e par-
ticipou da junta do governo que veio a substituir a autoridade espa-
nhola na colônia. Este foi o primeiro governo a se estabelecer na
América Latina sem ingerência da metrópole.
Fez-se amigo de seu compatriota Francisco Miranda, que lutara
com Washington na guerra da independência americana, fora ge-
neral nas hostes de Napoleão e liderou a tentativa revolucionária de
1806. Quando Miranda foi alçado a generalíssimo, Bolívar encarre-
gou-se da defesa de Puerto Cabello. Devido à traição de um oficial,
fracassou a revolta, sendo seu chefe aprisionado.
Como refugiado, Simón Bolívar publicou o primeiro dos docu-
mentos que constituem o acervo literário das revoluções hispano-
americanas. Assumiu o comando dos rebeldes de Nova Granada
(Colômbia), os quais haviam-se revoltado a 20 de julho de 1810.
Realizou sua primeira campanha militar: marchou cerca de 1200
quilômetros, venceu seis batalhas e entrou em Caracas (1813),
sendo aí proclamado “El Libertador”. É oportuno registrar que nes-
sa admirável campanha contou com a ajuda de um revolucionário
brasileiro, o general José Inácio de Abreu e Lima.
No ano seguinte, a sorte virou: sofreu várias derrotas diante dos
espanhóis e dos llaneros do ex-pirata Boves, e deixou a Venezuela.
De volta à Colômbia, decidiu assaltar Bogotá, sem êxito, contu-
do, pois fora batido em Santa Marta. Abandonando o comando,
partiu para a Jamaica. Aí, em 1815, lançou a famosa Carta da
Jamaica, cujas idéias centrais eram:
- Projeto de um Estado constituído pela Venezuela, Nova Gra-
nada e Quito, sob forma republicana e com executivo forte.
- União dos povos americanos, cujo centro seria o Panamá.

Cumpre assinalar que Bolívar não defendia a adoção do regime


democrático, pois entendia que as populações americanas ainda
Zolá Pozzobon 85

não haviam alcançado maturidade para a prática da democracia.


Por essa época, a aventura da independência em relação ao
jugo espanhol parecia fadada ao fracasso: Quito, América Central
e Chile foram reconquistados pelas forças de Madri, além do que
acontecera na Venezuela e Colômbia, como vimos.
Se buscarmos as causas de tais derrotas, vamos localizá-las
principalmente na fragmentação política do continente e nas rivali-
dades pessoais que neutralizavam os esforços e paralisavam as
vontades. Além disso, elementos da Igreja Católica e da elite criolla
não apoiaram a luta, pois temiam uma revolução social atrelada aos
movimentos de independência. Acresça-se o fato de os revoltosos
não terem marinha, o isolamento de seus diversos focos, dadas as
grandes distâncias e as dificuldades de comunicação. As improvi-
sadas forças rebeldes não podiam, de início, enfrentar soldados
profissionais bem adestrados. Só com o tempo haveria de se modi-
ficar tal panorama.
Depois da derrota de Napoleão, em 1815, e da restauração da
dinastia dos Bourbon na Espanha, viu-se a Inglaterra livre para ex-
plorar a situação reinante na América espanhola, apoiando, em pro-
veito próprio, diplomática e materialmente, a causa dos rebeldes. A
própria matriz, seguindo uma política de repressão brutal e desas-
trada, com execuções e confiscos, provocou a oposição geral.
Depois de alguns anos de luta, já estavam generais revoltosos e
massas nativas experimentados na arte de guerrear, adaptados ao
terreno e às condições locais. A eclosão de levantes quase simultâ-
neos em vários pontos iria dificultar a repressão, cujas forças teri-
am de se deslocar de suas bases.
Com apoio dos ingleses, Bolívar voltou à América do Sul e, a
partir de 1818, passou a dominar a foz do Orinoco. Do próprio
bolso contratou mercenários ingleses e irlandeses para reforçarem
os contingentes de índios das terras altas, formando, assim, um
exército bastante heterogêneo. Em 1819, realizou-se uma conven-
ção constituinte em Angostura (Bolívar de hoje, na Venezuela), com
delegados de Casanare (Colômbia) e províncias venezuelanas.
Não obstante as hábeis táticas de Morillo, comandante espa-
nhol, conseguiram os revoltosos atravessar os Andes, derrotar
os espanhóis em Boyacá (em 7 de agosto de 1819) e libertar
Nova Granada. No ano seguinte era fundada a Colômbia. A se-
guir, Bolívar marchou para a Venezuela, venceu o adversário na
batalha de Carabobo e conquistou Caracas, fundando a Terceira
República venezuelana (1821).
Após 1812, expandindo-se o ideal de emancipação em Quito,
Bolívar cavalgou para o sul, a partir de Nova Granada, e José de
86 O véu e a espada

San Martin (Argentina) marchou para o norte, encontrando-se os


dois famosos chefes em território equatoriano. Na cidade de
Guayaquil há um monumento comemorativo de tal evento.
Em 1822, o general Antônio José Sucre, no comando de tropas
equatorianas, venezuelanas, colombianas, argentinas, chilenas,
bolivianas e peruanas derrotou espetacularmente os espanhóis, na
batalha de Pichincha. Quito, que então se integrou à República de
la Gran-Colômbia, por sugestão de Bolívar, passou a constituir seu
Departamento Sul. Em 1830, porém, separou-se e tornou-se a
República do Equador.
San Martin, um dos artífices da libertação do Peru, após ter
ocupado o porto de Pisco e entrado em Lima, sentiu que não dispu-
nha de recursos militares suficientes para atacar os espanhóis no
interior do Vice-reinado do Peru. Solicitou ajuda de Bolívar, já ocu-
pado com a libertação do norte do continente. O general argentino,
percebendo que sua solicitação não era atendida, retirou-se para o
sul. Então, foi a vez de os peruanos recorrerem a Bolívar, que assu-
miu o poder no país. Feriram-se as batalhas de Junin (6 de agosto
de 1824) e Ayacucho (9 de dezembro de 1824), em que os espa-
nhóis foram definitivamente derrotados. Bolívar governou o Peru
até seu retorno à Colômbia. Em 1823, uma expedição chefiada por
Andrés Santa Cruz ocupou a área entre La Paz e Oruro. No ano
seguinte, a chegada do general Antônio José de Sucre provocou
levante geral contra o domínio espanhol, promovendo esse chefe
um congresso de delegados em Chuquisaca. Tornou-se, então, o
Alto Peru uma república independente, com o nome de Bolívia, em
honra ao grande Bolívar. Este redigiu a constituição do país, ratificada
em 1826, e Sucre foi eleito presidente.
Fernando VII, ao restaurar seu poder absoluto na Espanha em
1823, sonhou em restabelecer os domínios na América. Mas, para
os EUA e Inglaterra, era de grande interesse a fragmentação da
América Colonial, pois ia ao encontro de sua política antimonopolista
e lhes permitiria a ampliação de mercados. A Inglaterra deixou claro
que usaria seu poder naval para bloquear expedições militares à
América. Seguindo tal atitude, os EUA proclamaram a Doutrina
Monroe (A América para os americanos). Bolívar batalhava pela
unidade continental da América Ibérica, porém seus sonhos se
esboroaram com o fracasso do Congresso do Panamá (1826),
convocado por sua iniciativa, a que compareceram representantes
da maioria dos países recém-emancipados.
Para tal desfecho negativo contribuíram eficazmente os interes-
ses do capitalismo britânico, que forçou a ausência de países como
o Brasil, o Chile e a Argentina.
Zolá Pozzobon 87

Conflito Norte X Sul

Escravidão é o estado social do indivíduo ou grupo obrigado,


sob coação, a servir a outro indivíduo ou grupo que, assim, pre-
tende ter direito de propriedade sobre aquele, inclusive o de lhe
atribuir valor de mercadoria. Tal abuso social subsistiu, em diver-
sos países, até fins do século XIX.
No Brasil, esse regime foi abolido progressivamente, até que,
em 1888, extinguiu-se de forma oficial (Lei Áurea).
Nos EUA, o problema da escravidão negra provocou, junto com
outros fatores, um conflito interno de tal magnitude que ficou co-
nhecido como Guerra de Secessão, em que o país viu ameaçada,
por cinco anos, sua unidade política e territorial.
Durante o período colonial, os escravos chegaram a constituir
um quarto da população, e quatro quintos deles estavam localiza-
dos nos territórios meridionais.
Segundo a História, de início os EUA haviam sido apenas as 13
colônias. Após a guerra com o México, estendeu-se, de oceano a
oceano, mais de cinco vezes a área original. A maioria das cidades
situavam-se no litoral atlântico. A vida rural predominava no sul, no
meio oeste e no extremo oeste. O norte desenvolvia a indústria.
Sua independência foi declarada durante o segundo Congresso
de Filadélfia, a 4 de julho de 1776. No decorrer da vida republicana,
foram-se definindo as tendências em relação aos escravos negros:
o norte pronunciava-se pela abolição do cativeiro, enquanto o sul
era escravista. Durante o governo de Pierce (1852-1856) e de seu
sucessor, James Buchanam (1856-1860), recrudesceu a luta em
torno do problema dos escravos. O romance de Harriet Beecher
Stowe, A cabana do Pai Tomás, publicado em 1852, comoveu mi-
lhões de corações. A escravidão estava passando pelo mais sério
momento desde sua instituição na América do Norte.
88 O véu e a espada

Nascido no estado sulista de Kentucky, Abraham Lincoln (1809),


após formar-se advogado, empenhou-se em debates em torno
do Caso Dred Scott. Um escravo negro, auxiliar do cirurgião Dr.
Emerson, do Missouri, o qual fora residir em Illinois e depois em
Minnesotta, anti-escravista, acompanhou seu amo, a quem auxili-
ava em seus trabalhos. Voltando ambos ao Missouri, o Dr. Emer-
son, num momento de ira, açoitou o escravo. Este apelou para a
Justiça, alegando que não era mais escravo, pois vivera em dois
Estados Livres. A corte de Saint Louis deu-lhe ganho de causa,
mas houve apelação à Corte Suprema do Missouri e depois à dos
Estados Unidos. Dred Scott foi declarado sem direito de intentar
questão pois, como escravo, “nem cidadão era”.
Pelo fato de Lincoln, cogitado para candidato ao cargo de Pre-
sidente da República, ter publicamente defendido a causa de Dred
Scott e outras questões conexas, tornou-se incompatível para o
sul apoiar sua candidatura. No entanto, tendo havido uma cisão no
Partido Democrático, veio Lincoln a ganhar as eleições, com a
vitória dos Republicanos.
Assim que se soube da vitória, realizou-se uma convenção na
Carolina do Sul (1860), em que este estado se declarava separa-
do da União. Seguiram-no a Geórgia, o Alabama, a Flórida, o
Mississipi, a Luisiana e o Texas. Foi organizada uma república
com o nome de Estados Confederados da América, sob a presi-
dência do general Jefferson Davis. A 15 de abril, Lincoln declarou
o estado de guerra entre os Estados Unidos e os sulistas. Outros
estados romperam com a União: Virgínia, Kansas, Carolina do
Norte e Tennessee.
Nos primeiros meses do conflito, o Sul, embora menos populo-
so, mostrou-se mais aguerrido. Dispunha de um grande general:
Robert Edward Lee. As tropas federais marcharam sobre Richmond,
capital dos insurretos. Porém, o general confederado Thomas
“Stonewell” Jackson obteve a primeira vitória na batalha de Bull
Run (21 de julho de 1861). A notícia abalou a União. Lincoln apelou
para o voluntariado, de 50 mil pessoas, ao menos. Bloqueou com a
esquadra o litoral sulino, cortando-lhe qualquer ligação, inclusive com
a Inglaterra, de quem os insurretos esperavam ajuda.
No ano seguinte (em 6 de abril), Ulysses Grant, general da
União, venceu a memorável batalha de Shiloh, no Tennessee, em
que também começou a brilhar a estrela de William T. Sherman.
Ulysses Grant (1822-1885), além de brilhante militar, era político
e veio a exercer por dois mandatos a presidência dos EUA. Con-
cedeu o direito de voto aos negros.
No mar, o encouraçado Monitor destruiu o Merrimac, que os
Zolá Pozzobon 89

sulistas chamavam de Virgínia. Pouco depois, o comodoro David


Farragut penetrou no Mississipi pelo sul, com uma frota de 47
navios de guerra, passou pelos fortes de Jackson e Saint Phillips
e entrou em Nova Orleans, poderoso reduto sulino. Apesar des-
sas vitórias no Oeste, foram as forças da União derrotadas na
segunda batalha de Bul Run.
Em Antietam Creek, Mac Clellan venceu Robert Lee, mas o
vencido conseguiu evadir-se com sua tropa e tornou a cruzar o
Potomac. O nortista Brass, que invadira o Kentucky, foi repelido
pelos sulistas Buel e Rosecrans.
Nesse momento, Lincoln lançou sua famosa Proclamação de
Emancipação, em que declarava livres todos os escravos que vi-
viam nos Estados revoltosos, a partir de janeiro de 1863.
Os sulistas, por essa época, ainda estavam fortes. Em
Vicksburg, mantinham uma barreira que impedia a posse pela União
de todo o vale do Mississipi. Por sua vez, Lee atravessava Maryland
e invadia a Pennsylvania. Então, travou-se aí, em Gettysburg, a
maior batalha de guerra civil (1 de julho). Batidos, os confedera-
dos retiraram-se para o sul. Logo depois, os yankees alcançavam
nova vitória em Vicksburg, abrindo o caminho para o vale do
Mississipi. Chattanooga e Atlanta também caíram nas mãos dos
nortistas. Sherman avançou através da Geórgia e capturou
Savannah – “presente de Natal do cabo-de-guerra ao Presidente
Lincoln”. Após rápido descanso, Sherman prosseguiu para o nor-
te, capturou Columbia e forçou a queda de Charleston.
Entrementes, seguia Grant para o sul, aproximando-se de
Richmond. Lee, que a defendia, pensou em abandoná-la e juntar
suas tropas às de Johnston. O audacioso Sherman, entretanto,
cortou-lhe o movimento, obrigando-o a retirar-se de Petersburg.
Lee, vendo sua causa perdida, não teve outra opção que render-
se a Grant, em Appomattox, na Virgínia, em 9 de abril de 1865.
Estava praticamente terminada a Guerra de Secessão: quatro
anos de luta, que se desenvolveu durante todo o primeiro período
presidencial de Lincoln, com milhares de mortos e feridos, destrui-
ção e pobreza, principalmente entre os confederados.
Lincoln candidatou-se novamente e foi reeleito, dedicando-se
agora à administração. Entretanto, a luta continuava no sul, com
pequena intensidade. O presidente não conseguiu ver coroada sua
obra de pacificação. Em 14 de abril de 1865 foi assassinado, em
seu camarote do Teatro Fox, por um fanático sulista, o ator John
Wilkes Booth. Poucos dias depois, terminou de fato a guerra, com
a rendição do último exército confederado, a oeste do Mississipi.
A Guerra de Secessão foi o maior conflito armado registrado
90 O véu e a espada

no período que decorreu entre as guerras napoleônicas e a Pri-


meira Guerra Muindial. Foram, então, desenvolvidas novas ar-
mas, novas táticas e surgiram os navios encouraçados.
Destacaram-se sobremaneira as figuras de Ulysses Grant,
William Sherman e Robert Lee como chefes militares. Os dois
primeiros entre os da União, e o último, como general confederado.
Zolá Pozzobon 91

Sonho de um
império tropical
Aleixo Garcia, partindo do litoral brasileiro em 1524, e Sebasti-
ão Caboto, ao subir o rio Paraná em 1526, foram os primeiros
europeus a atingir as terras interiores da Bacia do Prata, hoje
pertencentes ao Paraguai. Lá, situavam-se os guaranis, que, para
viverem em paz, foram obrigados a tanger as tribos do Grande
Chaco para o norte, no século XV. Os primeiros núcleos coloniais
foram fundados por Domingo Martínez de Irala (1536 - 56). A
partir de Assunção, lançou ele os fundamentos do Paraguai. Deli-
mitou fronteiras com o Brasil, através de uma linha de fortes, para
conter a expansão portuguesa, fundou inúmeras vilas e estimulou
a miscigenação de espanhóis e guaranis.
A partir do século XVI e por 150 anos, desenvolveram os jesu-
ítas 33 reduções guaraníticas, onde viviam 100 mil índios, que
contavam com centros de conversão religiosa, agropecuária, co-
mércio (erva-mate), manufaturas e artes.
Declarando-se independentes (1810), os argentinos pretendi-
am estender sua jurisdição ao território do Paraguai, contra o que
insurgiram-se os de Assunção. A expedição do general Manuel
Belgrano não conseguiu concretizar a incorporação da província.
Em 1811, o governador espanhol do Paraguai pediu auxílio portu-
guês para defender a colônia contra os de Buenos Aires. Lidera-
dos por Fulgêncio Yegros, Pedro Juan Caballero e Vicente Inácio
Iturbide, depuseram os paraguaios o governador Bernardo Velasco
e proclamaram a independência do país (14 de maio de 1811).
Após tal evento, reinou um curto período de anarquia, a que
pôs fim José Gaspar Rodrigues Francia, mediante a implantação
de uma ditadura. Seu governo caracterizou-se pelo isolamento do
país, que não mantinha quaisquer relações diplomáticas e eram
92 O véu e a espada

proibidas a imigração e a emigração. O ditador estimulou a auto-


suficiência agrícola e desenvolveu a manufatura, a fim de evitar
a necessidade do comércio exterior. Tais medidas contribuíram
para preservar o caráter homogêneo do povo e fortalecer seu
espírito independente.
O sucessor de Francia, Carlos Antônio López, deu uma guina-
da na política externa, abandonando o isolacionismo e abrindo as
portas a técnicos estrangeiros.
Até 1852, a Argentina contestou a soberania do Paraguai,
objetivando incorporá-lo a um grande conjunto territorial, correspon-
dente ao antigo Vice-Reinado do Prata. A diplomacia brasileira pro-
curou manter as melhores relações com Assunção, interessada em
evitar o estabelecimento de forças mais poderosas próximas às
suas fronteiras, bem como em manter livre a navegação do rio
Paraguai. A independência deste país foi logo reconhecida pelo
Brasil, que passou a defender sua causa junto aos demais. Quando
Rosas subiu ao poder na Argentina (1944) e ameaçou a integridade
do Paraguai, o Brasil asseverou seu “firme propósito de sustentar,
com todas as conseqüências, a independência daquele país”.
Após a era Rosas na Argentina, passaram as relações Brasil-
Paraguai a apresentar altos e baixos, devido às questões de limi-
tes e navegação. O governo do país vizinho começou a advogar a
anexação de parte do Estado do Mato Grosso. Após várias ges-
tões e a assinatura de um tratado de amizade, comércio e nave-
gação, surgiram melhores perspectivas de entendimento.
Em sucessão ao pai Carlos Antônio López, subiu ao poder Fran-
cisco Solano López, em 1862. Herdou uma grande fortuna de
Lázaro Rojas de Aranda, seu padrinho e padrasto de sua mãe.
Aos 18 anos, fora nomeado brigadeiro-general e serviu durante
dois anos no cargo de ministro plenipotenciário do Paraguai na
França. A estada neste país e, principalmente, a proximidade a
Napoleão III, influenciaram de forma marcante a impulsiva perso-
nalidade de Solano López. Orgulhoso e autoritário, tornou-se ami-
go do luxo e da ostentação, empolgado pelo clima da corte fran-
cesa. Na capital, deixou-se seduzir pela beleza e inteligência de
Elisa Lynch, jovem irlandesa separada do médico francês
Quatrefages, e levou-a consigo para Assunção.
Já na chefia do governo, reestruturou as forças armadas, trans-
formando-as em poderoso instrumento de persuasão nas discus-
sões internacionais.
Alguns anos depois, novos fatos ocorridos no Prata haveriam
de conturbar o relacionamento entre nosso pais e o governo de
Assunção. Em 1863, ocorreu uma rebelião no Uruguai, chefiada
Zolá Pozzobon 93

por Venâncio Flores. Não foi difícil ao governo de Montevidéu con-


vencer Solano López de que Brasil e Argentina estavam por trás
de Flores, inspirando-lhe os atos de rebelião e auxiliando-o militar-
mente. Solano López resolveu intervir no cenário do Prata, fazen-
do gestões junto à Argentina e ao Brasil. Falava em tom incisivo a
respeito da ameaça a que estavam submetidos os países da re-
gião e, particularmente, os interesses do Paraguai. Sentia-se bas-
tante forte em relação ao Brasil e à Argentina para tentar impor
sua vontade pelas armas.
As relações entre Paraguai e Argentina tornaram-se extre-
mamente tensas e, no que tange ao Brasil, desembocaram em
atos de hostilidade militar. Devido à rebelião de Venâncio Flores,
acabou nosso país envolvendo-se nos assuntos internos do Uru-
guai. Tal fato deu pretexto a que Solano López invadisse o Mato
Grosso em dezembro de 1864, iniciando-se, assim, uma guerra
que duraria cerca de seis anos, o maior conflito armado da histó-
ria sul-americana.

Em sua estada na Europa, Solano López observara a política


empregada pelos governantes, marcada por anexações e inva-
sões, sob os mais variados pretextos. Dessa forma, chegando
em sua terra, um país mediterrâneo, sem saída direta para o
mar, ao qual estava ligado apenas por via fluvial, mas cuja foz
era dominada pela Argentina, procurou aplicar procedimentos
semelhantes ao dos chefes europeus. O Paraguai, acrescido
de extensões da Argentina, sul do Brasil e Uruguai, representa-
ria um novo país com expressão territorial muito significativa.

Ao lado do Brasil colocou-se o novo governo uruguaio, ocupa-


do pelo vitorioso Venâncio Flores. Tendo o Paraguai invadido a
província de Corrientes (fevereiro de 1865), visando a levar suas
forças ao Rio Grande do Sul, firmou a Argentina com o Brasil e o
Uruguai o Tratado da Tríplice Aliança (1 de maio de 1865).
O Paraguai contava com um exército de 80 mil homens (0,08%
da população) e suas forças navais compunham-se de 23 navios
e 12 chatas. O país dispunha escassamente de um milhão de
habitantes e sua economia era fraca.
A Tríplice Aliança possuía nítida superioridade naval, porém
apresentava-se inferiorizada em efetivos terrestres. Em 1864, o
Exército brasileiro não tinha mais do que 18 mil homens,
incrementados paulatinamente através de recrutamento forçado,
94 O véu e a espada

“voluntários da pátria” e escravos (que assim ganhavam alforria).


A Marinha passou de 45 navios, inicialmente, para 94, no fim da
guerra. Quanto aos argentinos, suas forças nunca foram além de
1/4 dos efetivos brasileiros e a participação do Uruguai foi simbó-
lica. Em largos traços, pode-se dizer que a guerra se travou entre
o Brasil e o Paraguai, o que não significa dizer que os dois outros
países estivessem ausentes da pugna. É de se levar em conta
sua contribuição sob o ponto de vista geográfico, político e moral.
Os confrontos desenvolveram-se em dois teatros de opera-
ções: o principal, constituído pela província de Corrientes e vale
do rio Paraguai, em que se desenvolveram as ações mais decisi-
vas; e o secundário, no território do Mato Grosso.
Para o Brasil, apresentava-se de início uma desvantagem, que
era a grande distância entre seu centro político e econômico e o
teatro de operações.

A guerra pode ser dividida em três fases:


Início de dezembro/1864 - setembro/1865, caracterizada pela
iniciativa paraguaia: invasão do Mato Grosso, Corrientes e Rio
Grande do Sul e ataque à esquadra brasileira fundeada no rio
Paraguai. López alcançou algumas vitórias no Mato Grosso, apo-
derando-se de Corumbá, Nioac e Miranda. Entretanto, foi derro-
tado na batalha naval do Riachuelo (11 de junho), no combate de
Iataí (17 de agosto) e, após a efêmera conquista de Uruguaiana,
as tropas paraguaias, sob o comando do general Estigarríbia,
foram sitiadas e tiveram de se render (18 de setembro). O saldo
desses revezes mostrou-se bastante negativo, pois grande parte
da esquadra paraguaia foi destruída e seu exército sofreu baixas
de mais de 10 mil homens. Perdendo a capacidade ofensiva, pas-
saram os paraguaios a adotar a estratégia defensiva, aproveitan-
do ao máximo as características do terreno por eles tão bem
conhecido. Conseguiram, assim, retardar sensivelmente o ritmo
de progressão das forças aliadas para o norte.

Setembro/1865 - janeiro/1869 - Os aliados invadiram o terri-


tório guarani e, mediante operações demoradas, destruíram o
exército de López e ocuparam Assunção. Para isso, foram neces-
sários, em 1866, a transposição do rio Paraná, operação anfíbia
de vulto, realizada por cerca de 65 mil brasileiros, argentinos e
uruguaios (17 de abril); sustentação de vários combates, como o
do Passo da Pátria (2 de maio), Estero Bellaco (20 de junho),
Batalha do Tuiuti (24 de maio - onde se distinguiram vários chefes
brasileiros, entre os quais Manoel Luiz Osório, Sampaio e Mallet),
Zolá Pozzobon 95

Curuzu e Curupaiti, sendo neste último combate derrotadas as


forças aliadas. Em 1867: derrota brasileira em Laguna (dando
lugar à célebre Retirada da Laguna); começo da grande ofensiva
contra o Paraguai (julho); ataque paraguaio contra Tuiuti. Em 1868:
rendição dos paraguaios em Curupaiti e Humaitá; vitórias brasilei-
ras em Itororó (ponte de Itororó, sob a liderança pessoal de Caxias),
Avaí, Lomas Valentinas e Angostura. Em 1869: derrota paraguaia
em Assunção (1 janeiro) e em Luque (5 janeiro). Convém destacar
as dificuldades encontradas, como as condições do terreno, ha-
bilmente aproveitadas pelos paraguaios, as epidemias e o largo
movimento de flanco empreendido pelos aliados e que envolveu
as fortes posições inimigas de Curupaiti e Humaitá.

5 de janeiro a 15 de agosto de 1869: Perseguição às forças


militares guaranis e morte de Solano López e de seu filho Panchito,
em Cerro Corá.

Em Assunção foi estabelecido um governo provisório e, após a


reunião da convenção Nacional Constituinte, instalou-se o governo
definitivo e firmou-se a Constituição do país.
O tratado de paz com o Brasil foi assinado em 1872. Com o
Uruguai no ano seguinte e com a Argentina em 1876.
Nosso país resolveu em definitivo sua questão de limites com o
Paraguai e teve assegurada a livre navegação para o Mato Gros-
so. Tais vantagens custaram 33 mil mortos!
Entretanto, para enfrentar as despesas de uma guerra não
desejada, o Brasil contraiu dívida de 45 milhões de libras em ban-
cos ingleses.
Os argentinos perderam 18 mil homens e os uruguaios, cerca
de 700. As perdas humanas do Paraguai foram inacreditáveis:
cerca de 600 mil mortos! Consta que, para incrementar e repor
sua população, o governo daquele país tolerou e, veladamente
estimulou, a poligamia.
Derrotado, o Paraguai viu afastarem-se nas brumas seus so-
nhos de expansão. Resolveram-se as questões ligadas à inde-
pendência do Uruguai e desvaneceu-se a reconstituição do vice-
reinado do Prata.
Inglaterra e França auferiram grandes lucros com esta guerra:
aquela, com os juros sobre os grandes empréstimos; a segunda,
com a venda de armas aos países em conflito.
96 O véu e a espada

Solano López nasceu e criou-se no seio da ditadura, regime


adotado no país desde sua independência até há pouco. Rico,
orgulhoso e autoritário, ainda jovem desempenhou a função de
ministro plenipotenciário na França, como já vimos, onde expe-
rimentou o luxo e a ostentação da corte de Napoleão III. Apren-
deu a admirar os métodos políticos adotados no continente eu-
ropeu e observou a facilidade com que se retalhavam países,
incorporavam-se províncias e modificavam-se os mapas das
nações. Voltou à sua terra cheio de idéias e projetos. Preparou
uma força armada bastante significativa para a época, superior
a de seus futuros oponentes. Contava com população dócil e de
limitado nível cultural, voltada para a satisfação de suas neces-
sidades básicas. O guarani era patriota e leal a seus superiores.
Parece mais que temerário, por parte de López, ter concebi-
do um plano político-militar que iria envolver três países adver-
sários: Brasil, Argentina e Uruguai. Atacou o primeiro no Mato
Grosso. Atravessou o território de Corrientes, pertencente à Ar-
gentina, para chegar ao Rio Grande do Sul, onde realizou a
efêmera conquista de Uruguaiana. Além disso, pretendia domi-
nar o Uruguai e debruçar-se sobre o estuário do Prata.
O paraguaio não avaliou a potencialidade do Brasil, que tinha
capacidade de multiplicar seus efetivos humanos e economia
capaz de adquirir armas e equipamentos militares rapidamente,
bem como carrear seus recursos para o teatro de operações,
não obstante as consideráveis distâncias. Outrossim, lançou-se
o Paraguai à luta com forças navais muito inferiores às da Tríplice
Aliança, quando era necessária uma nítida superioridade nas
águas fluviais para apoiar as forças invasoras, a exemplo do que
hoje significa ter superioridade aérea na ofensiva.
A invasão do Mato Grosso foi desnecessária e inócua: basta-
va uma cobertura, para então concentrar o esforço na frente sul.
A grande ação retardadora de Solano López, levada a efeito
desde o Passo da Pátria até Assunção, aliada às dificuldades do
terreno, muito bem aproveitado pelos guaranis, conseguiu pro-
longar a guerra. Talvez alimentasse o ditador a esperança de
concentrar novos recursos e reverter a marcha dos aconteci-
mentos, o que seria difícil. Com a queda de Assunção, estava
selada a sorte do conflito.
Há uma literatura atual sobre a Guerra do Paraguai em que
os autores atribuem ao Brasil a prática de genocídio contra o
país vizinho. Não concordamos com tais versões. O Império Bra-
sileiro foi agredido pelo Paraguai e teve partes de suas terras
invadidas, no Mato Grosso e no Rio Grande do Sul. Nosso país
Zolá Pozzobon 97

defendeu-se e, junto com a Argentina e o Uruguai, levou a guer-


ra ao território do agressor. Solano López resistiu às investidas
da Tríplice Aliança, a qual envidou grandes esforços para chegar
a Assunção. Houvéssemos apenas expulso os guaranis, obri-
gando-os a voltarem a seu território, teríamos dado oportunida-
de a que o ditador se reconstituísse e voltasse a seu intento.
Não faltariam potências estrangeiras a lhe fornecer material de
guerra e a atiçar sua sede de poder.
Após a queda de Assunção, muitos acham que a chamada
“Campanha das Cordilheiras”, isto é, a perseguição aos rema-
nescentes do exército paraguaio, foi completamente desneces-
sária. Há um princípio de guerra segundo o qual o inimigo deve
ser derrotado, quer dizer, incapacitado de continuar lutando, ou
deve capitular. López, ao buscar refúgio no interior do país,
procurou, em primeiro lugar, não se expor a ser preso pelo inimi-
go, mas, quem sabe, não nutria ele ainda a esperança de rever-
ter a situação bélica? Em suma: guerras não finalizadas geram
novas guerras!
Zolá Pozzobon 99

A ascenção do Império
do Sol Nascente
A Mandchúria é uma histórica região situada no nordeste da
China, que compreende as províncias de Liaoning, Kirin e
Heilungkiang. Caracteriza-se por extensas planícies, rodeadas de
montanhas, onde existem compactas florestas. O clima apresen-
ta verões curtos e invernos rigorosos, com chuvas escassas, mais
abundantes na estação quente. Além de região industrial, é rica
em matérias-primas e possui solo fértil. Sua capital é Mukden.
São bastante conhecidos os portos de Port Arthur e Dairen.
Em 1234, foi dominada pelos mongóis. A partir de 1858, come-
çaram a surgir conflitos entre a Rússia e a China pela posse da
região, de que participou o Japão, desde 1895. No ano seguinte,
registrou-se crescente penetração russa na província e na Coréia,
terminando com o arrendamento de Port Arthur. Aproveitando-se
da Revolta dos Boxers (sociedade secreta chinesa que se empe-
nhava em expulsar da China os estrangeiros), a Rússia invadiu o
território em 1900 e aí permaneceu, a despeito dos protestos das
grandes potências. A reação japonesa não se fez esperar.
Em 1902, conseguiu o Império do Sol Nascente assinar com o
Reino Unido um tratado de aliança que o garantia contra a França
em caso de guerra sino-russa, como também maior liberdade de
ação na Coréia. Convencidos da inutilidade de novas conversa-
ções com a Rússia, os japoneses atacaram os russos de surpre-
sa, em 8 de fevereiro de 1904, destruíram-lhe a frota em Port
Arthur, avançaram sobre a Mandchúria e derrotaram os exércitos
inimigos em maio do mesmo ano, após realizarem a longa traves-
sia que dava acesso ao Ialu – a Transiberiana.
Os nipônicos obtiveram outras vitórias, como em Liaoyang
(1904) e Mukden (1905). Port Arthur capitulou em janeiro desse
100 O véu e a espada

ano. Diante de tal abalo militar e tendo de enfrentar a revolta inter-


na de 1905, a Rússia aceitou a mediação dos EUA, que já come-
çavam a se preocupar com a ascenção do Império do Sol Nas-
cente. O Japão também aceitou-a, uma vez que suas finanças
estavam quase arruinadas.
Pelo Tratado de Portsmouth, cedeu a Rússia ao Japão o sul da
ilha de Sakalina e transferiu-lhe o arrendamento do Liaotung, além
de concordar com a expansão japonesa na Coréia. Depois de eva-
cuada pelas duas potências, foi a Mandchúria devolvida à China.

- O Japão firmou-se, desde então, como potência naval.


- Alcançou prestígio entre as chamadas grandes potências.
- Pela primeira vez, uma potência asiática saía vitoriosa con-
tra outra européia, o que despertou sentimentos nacionalistas
em todo o continente.
Zolá Pozzobon 101

Uma blitzkrieg sem


panzer e sem stukas!
Sabemos de guerras cuja duração foi muito curta. Em 1939,
surgiu a expressão “Guerra relâmpago” (Blitzkrieg). O surgimento
de novas armas e equipamentos, as táticas empregadas e o
princípio da combinação do fogo com o movimento da tropa le-
varam a que, em poucos dias, as coisas se definissem a favor
de um dos contendores.
É verdade que, desde então, nem todos os conflitos se resolve-
ram assim. Mas, em 20 dias, a Polônia sucumbiu ao ataque alemão
(setembro de 1939). De 10 de maio a 22 de junho de 1940 (44
dias), o Reich conduziu com absoluto êxito a campanha na frente
ocidental da Europa, conquistando Holanda, Bélgica, Dinamarca e
Noruega, impondo armistício à França e obrigando os ingleses a
evacuar Dunquerque, sob pesado bombardeio da Luftwaffe.
No Oriente Médio, têm sido rápidos os encontros armados en-
tre árabes e israelenses, como em 1967 (A Guerra dos Seis dias)
e em 1973 (A Guerra do Yon Kipur).
Entretanto, se olharmos para os séculos passados, embora te-
nha havido conflitos que se arrastaram por cem anos, em 1870/71
ocorreu um embate rápido entre dos países europeus, a chamada
Guerra Franco-Prussiana. Na época, não existiam blindados nem
aviação e os meios de comunicação eram muito limitados.
Três conflitos marcaram a unificação da Alemanha, sob a égide
da Prússia: as guerras contra Dinamarca, Áustria e França. O
artífice de tal unificação, o príncipe Otto von Bismarck, uma vez
vencidos os dois primeiros países, parecia não planejar senão
uma aliança com a França. Entretanto, surgiu a questão da candi-
datura do príncipe Leopoldo, parente do imperador Guilherme I,
ao trono espanhol, iniciativa que feria o prestígio e o orgulho naci-
102 O véu e a espada

onal dos franceses a tal ponto que a França declarou guerra à


Prússia. Tal fato prestava-se aos objetivos de Bismarck: os ale-
mães do sul, até então refratários à unificação com o norte, abra-
çaram a causa prussiana.
O chanceler germânico estava preparado política e militar-
mente para fazer face a mais este embate. Contava com os
excelentes generais Moltke e Roon no comando das forças ale-
mãs. Moltke chefiara o exército prussiano contra os dinamar-
queses (1866) e estabelecera um sistema de comando e de
estado-maior que foi imitado por todos os poderes continentais
europeus e também pelo Japão.
A 4 de agosto de 1870, irromperam os germânicos na Alsácia
e derrotaram uma divisão francesa em Weissenburg. O principal
exército do marechal Patrice Mac Mahon foi forçado a retirar-se
da região. Cinco dias depois, outro exército alemão invadiu a
Lorena, sendo então nomeado o general Bazaine para comandar
os franceses. Após sangrentas batalhas naquele mês, Bazaine
retraiu-se para a região do Metz. As forças francesas, às quais se
incorporou o próprio imperador Napoleão III, ficaram imobilizadas
em Sedan, numa posição indefensável, perto da fronteira belga,
cercadas pelos alemães. A 2 de setembro, o marechal Mac Mahon
e toda a sua tropa renderam-se.
Cerca de quatro semanas bastaram para definir a guerra, que
poderia ter seu fim em Sedan. A França, porém, não aceitou a
derrota. Proclamada de novo a República, organizou-se uma luta
heróica, em condições muito adversas. Em 28 de setembro, a
fortaleza de Strasburgo rendeu-se aos alemães. Bazaine foi der-
rotado em Metz. Na batalha de Josnes (de 7 a 10 de dezembro de
1870), amargaram os franceses nova e pesada derrota. Teve iní-
cio em janeiro de 1871 o ataque a Paris. A fome grassava em
toda a cidade e a resistência seria impossível. A pedido dos fran-
ceses, foi ajustado o armistício.
No palácio de Versailles, o rei da Prússia foi coroado imperador
da Alemanha. A França obrigou-se a abandonar a Alsácia e parte
da Lorena e a pagar uma indenização de 5 bilhões de francos. À
medida que fossem pagos, as tropas alemãs evacuariam os territó-
rios ocupados. Tal situação provocou enorme ressentimento entre
os franceses, que passaram a nutrir a idéia de revanche.
Tal mágoa teria vazão na Primeira Guerra Mundial, num conflito
que conduziu a Europa e o mundo à guerra de 1939 a 1945.
Zolá Pozzobon 103

O inferno na terra
Zolá Pozzobon 105

A dupla hecatombe
do século XX
Hecatombe tem basicamente o sentido de morticínio. Nosso fa-
moso século XX, que está por espirar, chamado de Século das
Luzes, apresentou dois períodos de trevas, em que milhões de
vidas humanas foram ceifadas em nome dos mais variados moti-
vos, das mais extravagantes ideologias ou doutrinas, ou mesmo
para se defenderem os mais lídimos direitos e garantir a liberdade.
Referimo-nos às duas guerras mundiais, na verdade, uma “Guer-
ra de 30 anos”, com um “cessar-fogo” de duas décadas.

A I Guerra Mundial irrompeu a 28 de julho de 1914, entre o


império austro-húngaro e a Sérvia, alastrando-de logo, como ver-
dadeira queimada varrida pelo vento, através da Europa e do mundo
e reunindo, de um lado, as Potências Centrais, e do outro, os
“Aliados”. As causas residem nas rivalidades comerciais, existen-
tes desde o século anterior, entre os grandes Estados europeus.
Após o período napoleônico, estabeleceu-se uma periclitante
paz armada, prestes a explodir. Sob Bismack, realizou-se a unifi-
cação dos pequenos Estados germânicos, orientando-se sua po-
lítica pela expansão e o isolamento da França. Promoveu ele a
chamada Tríplice Aliança germano-austro-italiana e um acordo com
a Rússia. Subindo ao trono, Guilherme II afastou Bismarck e de-
nunciou o acordo com Moscou. O czar Alexandre II, então, cele-
brou o tratado franco-russo.
A Inglaterra, “envolvida nas brumas do Mar do Norte”, alarmou-
se com o programa naval e comercial do kaiser, voltou-se para a
França e celebrou com ela um acordo. A partir de 1908, a Tríplice
Entente – França, Inglaterra e Rússia – opunha-se com freqüência
à Tríplice Aliança, irrompendo várias crises (marroquina, balcânica
etc..). Bastaria incidente um pouco maior para desencadear a
106 O véu e a espada

guerra. Foi o que não faltou.


Em 28 de junho de 1914, um nacionalista sérvio assassinou,
em Sarajevo, o arquiduque Francisco Ferdinand, herdeiro do tro-
no da Áustria, o que serviu de pretexto para este país declarar
guerra à Sérvia. Em agosto, a Alemanha rompeu com a Rússia, a
qual havia desdobrado seus exércitos junto à fronteira austro-
germânica. Dois dias depois, invadiu a Bélgica, cuja fronteira havia
reconhecido, procurando atingir a França pelo norte. Tal fato pro-
vocou a entrada da Inglaterra no conflito.
A partir da Bélgica, o exército alemão penetrou na França rapi-
damente, só se detendo às portas de Paris. Em setembro, na
contra-ofensiva do Marne, os franceses rechaçaram os germânicos
para o norte. Estes, após entrincheirarem-se, procuram atingir a
costa do Canal da Mancha. Em Ypres (outubro/novembro de 1914),
a “corrida para o mar” dos alemães foi detida.
Na frente ocidental, em 1915/16, os adversários postaram-se
frente à frente, da fronteira da Suíça à Mancha. É de se salientar
o ataque alemão contra Verdun e a defesa dos franceses, que
tomaram a dianteira na ofensiva aliada no Somme. A batalha cus-
tou mais de um milhão de combatentes para ambos os lados, o
que os levou à completa exaustão. Em abril de 1916, os alemães
deram início à guerra química, em Ypres. Aviões começaram a
ser empregados, principalmente como arma de observação, bem
como os zepelins, para bombardeio na área do Canal. Em 1916,
os ingleses usaram, pela primeira vez, na batalha do Somme (em
Cambrai), tanques de guerra (carros de combate).
Na frente oriental, cumpre destacar as duas vitórias alcançadas
pelos alemães contra os russos nos Lagos Masurianos: a de
verão, em 1914, e a de inverno, no ano seguinte. A partir de
1915, os russos conseguiram fazer recuar os austríacos até à
Galícia, na Polônia. Tendo os poderes centrais alcançado vanta-
gens em Bukovina e Curland, na Polônia e na Lituânia, desfe-
charam os russos uma grande contra-ofensiva, dos Cárpatos
ao Báltico, mas os objetivos previstos não foram alcançados,
pois o moral da tropa decrescia verticalmente. O czar abdicou
em março de 1917. As iniciativas militares do governo Kerensky
foram mal sucedidas. Então, os bolchevistas tomaram o poder
na Rússia. Pelo tratado de Brest-Litovsk, cedeu este país uma
série de territórios e se retirou da luta.
Na frente italiana (1915-1918), apesar de signatária da Tríplice
Aliança, recusava-se a Itália a entrar no conflito. Cortejada pela
diplomacia de ambos os lados, que lhe ofertavam vantagens, deci-
diu-se o governo de Roma pela declaração de guerra contra o im-
Zolá Pozzobon 107

pério austro-húngaro (em 23 de maio de 1915). A luta acendeu-se


ao longo do eixo Isonzo-Trieste, ficando, porém, estacionária até
1917. Então, os Poderes Centrais romperam a linha italiana, que
recuou até o rio Piave. O ataque austríaco contra a nova posição
defensiva foi rechaçado. Tal fato, acrescido ao desgaste da Áustria
na guerra, transformou em êxito a jornada italiana. A 3 de novem-
bro, as autoridades de Viena assinaram o armistício.
A Turquia (1914-1918) aderiu ao conflito bombardeando vári-
os portos russos no mar Negro e, a seguir, lançou uma ofensiva
direta contra a Rússia, sua rival no Oriente Médio. Em conseqü-
ência, decidiram os Aliados atacar os Dardanelos. A península
de Galípoli, na Turquia européia, foi severamente bombardeada
em 1915/1916. Mesmo assim, as operações não alcançaram
êxito e os Aliados se retiraram. O Reino Unido, auxiliado pelos
árabes e pelas façanhas do coronel Lawrence (Lawrence da
Arábia), logrou capturar Gaza, Jaffa e Jerusalém na Palestina e
derrotar as tropas turcas em Megido.
Os Bálcãs (1914-1917) foram alvo de campanhas diplomáticas
por ambas as facções em luta, visando a atrair os países da re-
gião para sua causa. Anglo-franceses desembarcaram em Salô-
nica (Grécia) e alemães atacaram a Sérvia, sendo coadjuvados
pelos búlgaros. Em 1918, ajudados por contingentes italianos,
gregos e sérvios, os anglo-franceses de Salônica lançaram-se
contra a Bulgária, que solicitou armistício. Os gregos uniram-se
às forças aliadas em junho de 1917.
Guerra marítima e aérea. Em 31 de maio de 1916, feriu-se a
batalha naval do Jutlândia (no estreito de Skagerrak) entre as
armadas quase completas da Alemanha e da Inglaterra, com enor-
mes perdas para esta última. Porém, aproveitando-se da neblina,
o almirante Scheer frustrou os planos do almirante Jellicoe, reti-
rando-se para suas bases, de onde não mais saiu.
A campanha naval mais efetiva foi conduzida pelos submarinos
alemães, os quais passaram a atacar cargueiros isolados ou em
comboios escoltados pela marinha de guerra adversária. Sentin-
do seu comércio prejudicado, os norte-americanos protestaram,
o que não demoveu os alemães. Como resultado, ambos declara-
ram-se beligerantes.
Os aviões começaram a ser empregados como arma de ata-
que na frente francesa. Os alemães realizaram bombardeios aé-
reos contra Londres e Paris. Os ingleses, desenvolvendo sua avi-
ação, revidaram atacando cidades e centros industriais alemães.
Vitória aliada no Ocidente. Os EUA entraram na guerra em 6
de abril de 1917. A situação no ocidente da Europa permanecia
108 O véu e a espada

estacionária. No ano seguinte, lançaram-se os alemães contra a


região da Champagne, chegando a 60 Km de Paris. Foram deti-
dos pela contra-ofensiva francesa e retrocederam, o que provo-
cou a queda do governo em Berlim. No poder, o príncipe Max von
Baden solicitou o armistício, com base nos “Quatorze Pontos” do
presidente Wilson, dos EUA. Com isso, a esquadra alemã rebe-
lou-se, estouraram revoltas na Baviera e na Prússia e o impera-
dor Guilherme II fugiu para os Países Baixos.
O Brasil na guerra (1917-1918). Dos oito países latino–
americanos que se declararam beligerantes, somente Brasil e
Cuba fizeram-se presentes nas operações militares. Após o
torpedeamento de navios brasileiros por submarinos alemães,
nosso país entrou no conflito. Colaborou com alguns cruzado-
res ligeiros e contratorpedeiros, pilotos do Corpo de Aviação
Naval, 2000 homens da Divisão Naval desdobrados em Dakar
(dos quais 464 foram vítimas da peste), uma missão médica
com 100 cirurgiões... Nosso país fretou à França 30 navios
alemães apreendidos. O Brasil também participou do Tratado
de Versailles, que assentou os termos de paz.

Conseqüências:
- Devastação de extensas áreas da Europa.
- 15 milhões de vítimas, sendo mais de 10 milhões o total de
mortos nos campos de batalha.
- As despesas a serviço da destruição foram de US$ 338
bilhões.
- Crise e desequilíbrio no continente europeu.
- Revoluções políticas e sociais.
- Queda de dinastias e avanço dos regimes republicanos.
- Estabelecimento de inúmeras ditaduras.
- Descrédito da Europa, em benefício, particularmente, dos EUA
e Japão.
- Baixa das moedas nacionais, instabilidade do câmbio e espe-
culação da carestia.
- A crise econômica mundial de 1929.
- Esboroamento do equilibrado império austro-húngaro.
- Com a moratória de um ano, recomendada pelos EUA, para
todas as transações internacionais e o agravamento financeiro na
Áustria, Inglaterra, Alemanha e mesmo nos EUA, começaram a
surgir protestos públicos contra o Tratado de Versailles.
- A Europa Central tornava-se um conglomerado de pequenos
Estados, com todos os problemas das minorias, criando condições
para a implantação de hegemonia por parte de quem reunisse con-
Zolá Pozzobon 109

dições propícias, como veio a acontecer com a Alemanha nazista.


- Estava preparado o cenário para a II Guerra Mundial.

A II GUERRA MUNDIAL teve como marco inicial a invasão ale-


mã da Polônia, em 1 de setembro de 1939, e prosseguiu na Europa
até a queda da Alemanha (em 7 de maio de 1945) e, no Pacífico,
com a rendição dos japoneses, em 2 de setembro de 1945.
Muitas das conseqüências da grande guerra anterior constituem
as causas do segundo conflito mundial. Entretanto, houve aconteci-
mentos mais próximos que aceleraram a eclosão dessa hecatombe.
Hitler tornou-se chanceler da Alemanha em 1933, dando início
à desintegração do aparente equilíbrio europeu. Decretou imedia-
tamente o rearmamento do país e o serviço militar obrigatório.
Tais ações e as que se seguiram estavam inspiradas nos princípi-
os escritos por ele em Mein kampf, sua “bíblia política”, que, na
época, não chamou maior atenção.
Tendo Benito Mussolini assumido o poder na Itália, estabelecido
um protetorado na Albânia (1926) e conquistado a Etiópia em 1935,
o Führer aproximou-se dele, formando o eixo Roma-Berlim. A débil
e apática Liga das Nações não foi capaz de proteger a Áustria da
crescente dominação alemã. A crise da Etiópia motivou Hitler a
remilitarizar a Renânia, com apenas três batalhões. A partir daí, os
pequenos Estados europeus passaram a temer por sua segurança,
não mais acreditando na proteção das grandes potências ocidentais
(França e Inglaterra) e, assim, declararam-se neutros e assumiram
posições conciliadoras para com a Alemanha.
No entanto, a crise não se limitou à Europa. O Japão invadiu a
Mandchúria (1931) e iniciou a conquista do norte da China. Para
proteger-se contra a URSS, acertou um pacto anticomunista com
a Alemanha, ao qual aderiu a Itália, daí surgindo o eixo Roma-
Berlim-Tóquio.
Aproveitando-se da crise provocada pela Guerra Civil Espa-
nhola (1936-1939), Hitler anexou a Áustria (Anchluss) e depois
estabeleceu um protetorado sobre a Boêmia-Morávia (na
Tchocoslováquia), em março de 1939. A partir daí, França e In-
glaterra passaram a esperar o pior e começaram seus preparati-
vos para a guerra. A Alemanha concertou um pacto de não-agres-
são com a URSS. Após a negativa da Polônia de enviar ministro
plenipotenciário a Berlim para tratar de assuntos territoriais com o
Führer, este determinou a invasão daquele país. Dois dias depois,
França e Grã-Bretanha declararam guerra ao III Reich.
110 O véu e a espada

e sedadiralucitrap ,sahlatab ,sotnemicetnoca ,soidósipE


od etrap atsen sodadroba oãs laidnuM arreuG II ad ”soirétsim“
,mérop ,osorogir otnemaedacne mes ,solutípac ed sévarta ,orvil
etse erbos revercsE .acigólonorc medro atrec amu odnadraug
so otnat ,zef o áj etneg atium acissálc arienam ed otilfnoc ednarg
,atsoporp assoN .”aniloc ad odal ortuo od“ so otnauq serodecnev
.ovitejbo siam res é ,otnatertne

-áluclacni marof laidnuM arreuG II ad SAICNÊÜQESNOC SA


otnemahnila o moc odroca ed sadimuser res medop ,mérop ,siev
:sodad snugla ed
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-imedipe ,emof ,soeréa soiedrabmob a odived sotrom siviC -
sadatupmoc oãtse oãN( seõhlim 51 :sodigirid sercassam e sa
omertxE od seõçan sartuo e anihC à setnerefer savitamitse sa
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seõhlim 7 – SSRU -
seõhlim 6 – ainôloP
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.arreug ed socrab erbos sieváifnoc sodad somet oãN .)saturb sadal
,sodilávni a aicnêtsissa ,ariecnanif aduja moc UNO ad sotsaG -
:sonaretev arap soicífeneb e soriegnartse sesíap ed oãçapuco
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-rem soivan 13 ,seõiva 22 ,)sivic e etnacrem ahniraM ,sadamrA
ed seõhlib 12 :lairetam latot otsuC .arreug ed soivan sêrt e setnac
.)0691 ed sodad( soriezurc
-rene ad ogerpme e seraelcun sasiuqsep sad otnemarelecA -
.seratilim snif arap omotá od aig
e soremúni sues e )airF arreuG( etseO – etseL oãçatnorfnoC -
.sodazilacol sotilfnoc sotnergnas
Zolá Pozzobon 111

A ousadia de Hitler

Hitler aproveita-se do prestígio do marechal Hindenburg e toma a Alemanha

Nascido na Áustria (Braunau), em 20 de abril de 1889, Adolf


Hitler passou a infância nas imediações de Linz. Era estudante me-
díocre e instável. Não conseguiu graduar-se no curso secundário.
Por duas vezes tentou o ingresso na Academia de Belas-Artes de
Viena. Transferindo-se para Munique, Alemanha, alistou-se no 16º
Regimento da Baviera ao irromper a I Guerra Mundial. Em 1918, foi
atingido por gases tóxicos, durante um ataque aliado. Duas vezes
foi condecorado por bravura: em 1914 e em 1918, mas chegou
somente à graduação de cabo, um posto acima de soldado raso.
Após a guerra, ligou-se ao pequeno Partido Trabalhista Ale-
mão, de Munique. Em 1920, mudou o nome da organização para
Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazi). Dele
fez-se presidente, dedicando-se à realização de comícios. Em
112 O véu e a espada

1923, aproveitando o descontentamento popular com o Tratado


de Versailles e a terrível inflação que assolava o país, tentou apo-
derar-se do governo da Baviera e iniciar marcha sobre Berlim.
Porém, o putsch (golpe) de novembro falhou, e Hitler foi conde-
nado a cinco anos de prisão, dos quais cumpriu apenas nove me-
ses, na fortaleza de Landsberg.

Nessa primeira demonstração de ousadia, Hitler não teve êxi-


to, mas suas ambições políticas eram muito grandes para que
ele se deixasse abater pelo revés.

Então, escreveu o primeiro volume de Mein kampf (Minha luta),


em que expôs cruamente suas idéias e prognósticos da futura
ação política. Anistiado, reestruturou o partido. Em 1929, alcan-
çava audiência em quase toda a nação. Através da imprensa,
proclamava sua fé no soerguimento da Alemanha. Em 1930, seu
partido nazista já era o segundo do país.
As idéias políticas básicas de Hitler penetraram no ambiente
da classe média de Viena. Exaltava a raça ariana (para os moder-
nos teóricos do racismo alemão, seria uma raça pura, descen-
dente dos árias, sem ascendência judaica). Ele era o Führer (o
guia), encarnação do volk (povo), unidade natural da espécie hu-
mana pura. Os judeus, para ele os maiores inimigos do nazismo e
do povo alemão, constituíam aquilo que mais temia e odiava.
Quando a II Guerra Mundial acabou, verificou-se ter sido
concretizado de forma macabra o ódio de Hitler e de seus
seguidores, que executaram nos campos de concentração cerca
de seis milhões de judeus, constituindo a “solução final”
encontrada pelo nazismo para o problema judeu e a implantação
da “nova ordem” na Europa.
Convidado, em 1933, pelo presidente, marechal Hindenburg,
para chanceler da Alemanha, o ex-cabo estabeleceu um regime
ditatorial absoluto no país. Em fevereiro, os nazistas incendiaram
o Reichstag e atribuíram o crime aos comunistas, buscando
desculpa para anular as garantias de liberdade. Joseph
Goebbels, ministro da Propaganda, passou a exercer o controle
sobre os órgãos de notícias, promovendo as idéias de Hitler e
orientando a opinião pública.

Mal tornou-se chanceler, Hitler assumiu plenos poderes, com


o controle da imprensa e da população. Sua ousadia impulsio-
nava-o à ação imediata, a pôr em prática o que escrevera em
Mein kampf.
Zolá Pozzobon 113

Decretou o serviço militar obrigatório no Reich. A Itália de


Mussolini estabelecera, em 1926, um protetorado na Albânia, e,
em 1935, o Duce lançou-se à conquista da Etiópia, como já vimos.
Hitler aproximou-se do ditador italiano e estabeleceu-se, então, o
eixo Roma-Berlim. O nazista reocupou a região da Renânia com
apenas três batalhões.
A crescente crise não se limitou ao teatro europeu. Em setem-
bro de 1931, em busca da hegemonia comercial, o Japão invadiu a
Mandchúria, dando início à conquista da China. Para proteger-se
contra a URSS, o Império do Sol Nascente acertou com a Alema-
nha um pacto anti-comunista (1936), ao qual aderiu a Itália. Am-
pliou-se, assim, o Eixo, agora chamado de Roma-Berlim-Tóquio
(assunto tratado anteriormente).
Em 1938, Hitler anexou (Anschluss) a Áustria, já preparada
pela infiltração nazista para não se opor às tropas alemãs. Curio-
so que cerca de 30% das viaturas militares que constituíam as
colunas em marcha ficaram resolvendo panes nas estradas, o
que alarmou o Führer.
As autoridades nazistas iniciaram ampla campanha em favor
da autodeterminação das minorias germânicas (sudetos) na
Checoslováquia. Em 15 de março de 1939, o ditador alemão
proclamou, no castelo de Praga, um protetorado sobre a
Boêmia-Morávia.

Os governos inglês e francês assistiram passivamente tanto


a reocupação da Renânia quanto a anexação da Áustria e o
protetorado da província checa. No caso da Renânia, bastava
aos governos da França e da Inglaterra enviarem um ultimato
para a Alemanha ter de retirar de lá suas tropas, pois ainda se
encontrava debilmente armada. Mais uma vez tivera êxito a
ousadia de Hitler.

Novos lances daria o Führer a seguir. Seus generais alertaram-


no de que a Wehrmacht só estaria em condições de ser empre-
gada com êxito a partir de 1943. Ele, porém, não estava disposto
a esperar tanto tempo. Depositava grande confiança em sua intui-
ção, na astúcia e na surpresa, e, ao mesmo tempo, contava com
a inanição dos franco-britânicos. Em 23 de agosto de 1939, Ale-
manha e URSS firmaram pacto de não-agressão, que permitiria a
Hitler lutar em uma só frente (no caso, a frente ocidental) quando
iniciasse o conflito. Mas ele voltou-se para a Polônia, a quem
solicitou a presença de um embaixador plenipotenciário, a fim de
tratar de assuntos territoriais. Não sendo atendido, invadiu aquele
114 O véu e a espada

país, em 1 de setembro de 1939.


Parecia que os Aliados também iriam tolerar este novo lance.
Mas para tudo há um basta! Após terem mandado ultimato ao go-
verno alemão, exigindo a retirada das forças atacantes, e não ob-
tendo resposta, França e Inglaterra declararam-se em estado de
beligerância com o III Reich. O ataque germânico foi seguido pela
invasão da Polônia, de leste para oeste, por tropas soviéticas, o
que também havia sido concertado no pacto de não-agressão.

Talvez Hitler acalentasse a esperança de atacar a Polônia


sem se preocupar com a frente ocidental. Desta vez, porém, ele
tinha ido longe demais. Entretanto, as coisas se passaram como
se nada tivesse acontecido. Os Aliados simplesmente decreta-
ram a mobilização, deslocaram forças para lá e para cá, os in-
gleses desembarcaram um contingente expedicionário na Fran-
ça, e nada mais. Não lançaram qualquer ataque contra a Linha
Siegfried, guarnecida por tropas de segunda categoria nem bom-
bardearam qualquer instalação alemã. Enfim, comportaram-se
como se a simples declaração de guerra fosse suficiente. De-
ram tempo, assim, para a Wehrmacht esmagar a Polônia, se-
guida pelos sovietes. Após três semanas de ocupado o país,
começaram os alemães a deslocar tropas para o Ocidente.

Quando os Aliados se deram conta de que a Alemanha estava


recebendo minérios da Suécia, necessários a seu esforço de guer-
ra, planejaram atacar aquele país fornecedor a partir de um de-
sembarque inicial na Noruega. Informado a respeito, através do
almirante Raeder, Hitler percebeu logo o perigo de os ocidentais
dominarem a Escandinávia, o que representaria ameaça ao Reich
pelo norte. Então, deu a seus generais um prazo ínfimo para pre-
pararem o plano de invasão que antecedesse a ação dos Aliados.
Os alemães chegaram pouco antes de seus adversários aos fiordes
noruegueses do Mar do Norte. Após a ocupação da Dinamarca, a
Luftwaffe pôde apoiar mais de perto as operações navais e em
terra. A Wehrmacht sustentou difícil luta para se manter no país,
dada a superioridade naval britânica.
A guerra ainda não estava definida ao norte e os exércitos
alemães irromperam na frente ocidental, derrotando Holanda e
Bélgica, introduzindo suas cunhas blindadas entre franceses e in-
gleses, a partir de 10 de maio de 1940, e chegando à costa do
Canal da Mancha.
Tal fato levou ao desengajamento as forças aliadas que
combatiam ao norte, desequilibrando as operações a favor do
Zolá Pozzobon 115

Reich, que se firmou na Escandinávia.

Fosse a reação de Hitler um pouco mais lenta, teriam, talvez,


os franco-britânicos obtido êxito em suas operações no norte da
Europa, cortando importantes suprimentos de que necessitavam
os alemães, ameaçando o Reich a partir do Báltico e, quem
sabe, comprometido a ofensiva germânica no Ocidente. Partir
para a ação imediatamente requer decisão e ousadia.

A partir da queda da França e da retirada de Dunquerque,


raríssimas vezes se descortinariam ocasiões em que Hitler pu-
desse utilizar seu espírito de desafio. Seguiram-se grandes ope-
rações, como a batalha aérea da Inglaterra, em setembro/outu-
bro de 1940, em que a Royal Air Force (RAF) e o país consegui-
ram sobreviver, e a guerra submarina, na qual os comboios dos
ocidentais foram impiedosamente dizimados, a ponto de ficar
ameaçado o apoio logístico às Ilhas Britânicas. A abundância dos
recursos marítimos aliados era, porém, superior à capacidade de
destruição dos submarinos alemães.
A guerra contra a URSS, seu ex-aliado, foi uma alternativa de
Hitler ao desafio de invadir a Inglaterra. O Führer, por mais ousa-
dia que tivesse demostrado, não quis correr o risco de tal empre-
endimento, que poderia redundar num gigantesco fracasso.
Então, lançou sua bem planejada ofensiva contra a URSS,
“a luta da civilização contra a barbárie comunista”, no entanto,
não obteve, em tempo útil, isto é, antes do inverno de 1941/
42, os resultados que aguardava. O restante do tempo a leste
foi um confronto de muitos recursos do lado germânico e de
seus colaboradores europeus contra meios ainda maiores por
parte dos sovietes, apoiados pelos americanos através do
porto de Murmansk. A horda soviética chegaria a Berlim como
uma avalanche.
A intervenção germânica na Grécia foi provocada pela impru-
dência de Mussolini em invadir aquele país com tropas inadequa-
das, enquanto forças peninsulares estavam engajadas contra os
britânicos na África do Norte, em situação desvantajosa. Hitler
teve de determinar o desvio de grandes unidades Panzer para os
Bálcãs, preparadas que estavam para a ofensiva contra os
sovietes, o que contribuiu para “salvá-los”.
A intervenção de tropas germânicas na África, da mesma for-
ma que nos Bálcãs, foi motivada pelos insucessos dos italianos,
ameaçados de perderem toda a Tripolitânia. A partir daí, os ítalo-
116 O véu e a espada

germânicos obtiveram grandes êxitos militares, mas o fluxo de


suprimentos do Eixo era inferior à capacidade dos oponentes.
Quando Rommel solicitou apoio, a fim de aparar o próximo golpe
do VIII Exército britânico em El Alamein, Hitler, obcecado com a
frente russa, não o atendeu. Mais tarde, na Tunísia, quando as
forças do Eixo estavam pressionadas ao leste (britânicos) e a
oeste (norte-americanos), com a sorte já selada, achou o Führer
de reforçar suas tropas com os últimos modelos de carros de
combate Tigre, recentemente saídos das fábricas.
Esforço inútil!
Zolá Pozzobon 117

Corrida para a Noruega

Dezembro de 1939. Vidkun Quisling, líder fascista da Noruega,


comunicou ao almirante Raeder, comandante da Marinha de Guerra
alemã, que os ingleses pretendiam invadir o país. Raeder transmitiu
a informação a Hitler, o qual recebeu a visita de Quisling, após o
que determinou à Wehrmacht que preparasse um plano de ocu-
pação da Dinamarca e da Noruega.
Entretanto, mais urgente era a próxima batalha a ser travada
contra os Aliados, na Europa ocidental. Ocorreu que, a 16 de
fevereiro de 1940, um destróier britânico atacou, em águas norue-
guesas, o transporte alemão Altmark, que havia acompanhado o
Graf Spee no combate naval do Rio da Prata (frente a Montevi-
déu), conduzindo 300 náufragos ingleses, os quais foram resgata-
dos. Em conseqüência, os germânicos aceleraram os preparati-
vos para realizarem a “Operação Weserübung”. (cognome ale-
mão da invasão da Noruega).
O general von Falkenhorst, que combatera na Finlândia na I
Guerra Mundial, foi escolhido para comandar a invasão da
Escandinávia. O Führer deu-lhe um prazo de 24 horas para pre-
parar os planos. O general chamou seu motorista e lhe determi-
nou que comprasse imediatamente um Baedecker, guia turístico
que continha mapas sem relevos e com poucos acidentes do ter-
reno, sobre a Escandinávia. O plano, aprovado por Hitler, com-
portava múltiplos ataques a serem realizados por cinco divisões
contra os portos de Oslo, Stavanger, Trondheim, Bergen e Narvik.
A invasão foi marcada para as 5h20min. de 9 de abril de 1940.
Enquanto isso, os Aliados resolveram intervir na península da
Escandinávia, a fim de interromper os suprimentos de ferro sueco
para a Alemanha, através do porto Norueguês de Narvik. Após
terem desistido do projeto de lançar minas fluviais no rio Reno,
118 O véu e a espada

franceses e ingleses começaram a embarcar suas tropas para as


operações na Noruega.
A esquadra alemã de invasão era comandada pelo vice-almi-
rante Gunther Lutjens, que a constituiu em cinco flotilhas, com
tropas de assalto do Exército destinadas à ocupação de Narvik,
Trondheim, Bergen, Kristiansand e Oslo. Pára-quedistas iriam saltar
sobre o aeroporto de Sola, o mais importante do país. Os
encouraçados Gneissnau e Scharnhorst encarregaram-se da
proteção, enquanto sete cargueiros e três petroleiros já se encon-
travam nas áreas próximas a Narvik e Trondheim. Outros quinze
barcos de vulto transportaram 50 mil soldados de Falkenhorst
para o assalto a Bergen e Oslo.
Tropas germânicas penetraram na Dinamarca de surpresa e
ocuparam aeroportos que, utilizados pela Luftwaffe, propiciaram-
lhe raio de ação sobre toda a Noruega.
Por outro lado, a 8 de abril de 1940, às 5 horas da manhã, os
Aliados puseram em marcha a ”Operação Wilfred” (cognome in-
glês para a invasão da Noruega). Uma flotilha de destróieres
ingleses começou a minar a entrada do porto de Narvik, a fim de
interromper o suprimento de minério de ferro para o Reich.
Uma esquadrilha de Wellingtons avistou a frota alemã e se lan-
çou ao ataque. Dois aparelhos foram abatidos e os demais se
retiraram, após perderem de vista a formação adversária, enco-
berta sob o mau tempo.
Após tais eventos, o almirante Forbes, comandante da Home
Fleet, determinou a perseguição da frota alemã. Grandes
encouraçados dirigiram-se à costa escandinava. No dia seguinte,
os cruzadores Glasgow e Devonshire, repletos de soldados britâ-
nicos, com a missão de ocuparem a base aérea de Sola e o porto
de Stavanger, receberam ordens de desembarcar a tropa nas
bases de partida e se unirem à frota de Forbes. Tal medida teria
funestas conseqüências, pois iria propiciar aos pára-quedistas ale-
mães a conquista, sem esforço, do aeroporto de Sola.

Há uma brincadeira nas Forças Armadas que se refere ao


“Regulamento de Ordens e Contra-Ordens”, quando determina-
da tropa recebe, em curto espaço de tempo, ordens contraditóri-
as, cujo resultado é sempre confuso ou ruim. Foi o que aconte-
ceu com os ingleses.

Dez destróieres germânicos penetraram no canal de acesso a


Narvik. Cinco deles, mais à retaguarda, desembarcaram tropas
sobre as costas do fiorde e os demais prosseguiram para o porto.
Zolá Pozzobon 119

O comandante da guarnição norueguesa capitulou.


O almirante Lutjens navegava a toda à máquina para o norte,
a fim de engajar os navios britânicos em frente a Narvik. Às 3
horas da madrugada de 9 de abril, os encouraçados Gneissnau
e Scharnhorst travaram luta, em meio a pesada nevasca, com o
encouraçado Renown e a flotilha de destróieres do capitão
Waberton Lee. Após receberem alguns impactos, os navios ale-
mães escaparam para o norte, sob forte tormenta. Os ingleses
saíram-lhes ao encalço. Às 4h35min., Hardy, o navio insígnia de
Waburton Lee, irrompeu no porto de Narvik e alvejou o capitânea
Wilhelm Heikamp, que, incendiado, ficou à deriva e o comandan-
te Bontö mortalmente ferido. Outro destróier e alguns carguei-
ros alemães foram afundados. De repente, surgiram três
destróieres alemães que estavam escondidos num fiorde.
Julgando Lee ser um deles um cruzador, ordenou a retirada
inglesa, mas foi interceptado pelos germânicos. O Hardy foi alvo
de torpedos e artilharia e explodiu, atingindo Lee mortalmente.
Os outros navios escaparam para o mar.
Às 9h50min. iniciou-se o assalto aeroterrestre contra o aero-
porto de Solo, que foi ocupado em curto tempo. Reforçados por
tropas aerotransportadas, marcharam os tedescos sobre
Stavanger e se apoderam do porto. Três cargueiros atracaram e
desembarcaram armamento e munição. A partir de Sola, a
Luftwaffe impedia a ação da frota britânica em Bergen e Trondheim.
No mesmo dia, 9 de abril, a flotilha do almirante Schmundt,
composta dos cruzadores Köln e Königsberg, do navio-escola
Bremse e de lanchas torpedeiras, dominaram as defesas de Bergen
e desembarcaram no porto 1900 soldados. Avariado, o Königsberg
foi posto a pique por aviões ingleses.
Naquela tarde feriu-se a primeira batalha aeronaval da História:
Forbes destacou quatro cruzadores e sete destróieres para bom-
bardearem o porto de Bergen. Os Stukas da Luftwaffe iniciaram
seu ataque contra os barcos. Vários desses foram atingidos e o
Gurkha afundado. À noite, o almirante Forbes ordenou a retirada.
Mais ao sul, os Stukas silenciaram as baterias costeiras de
Kristiansand e uma flotilha alemã apoderou-se do porto.
Na noite anterior, o Pol 3, patrulheiro norueguês, avistou o destróier
alemão Albatroz dirigindo-se para o norte, como vanguarda da frota
de invasão do almirante Kumnetz, para a conquista de Oslo. O Pol
3 deu o alerta por rádio e investiu violentamente contra o flanco do
Albatroz. Mas os artilheiros alemães abriram fogo à queima-roupa
e enviaram o valente norueguês para o fundo do mar.
Alertadas, as baterias de defesa de Oslo prepararam-se para
120 O véu e a espada

repelir o ataque. A poderosa frota era composta de dois cruzado-


res, um encouraçado, cinco destróieres e nove caça-minas. A for-
ça de assalto era comandada pelo general Engelbrecht e constitu-
ída de 2000 homens. A artilharia da costa atingiu a torre de direção
de tiro do cruzador Blücher e seu hangar de aviões anfíbios. Com
torpedos, os noruegueses transformaram o cruzador numa fo-
gueira. O almirante Kumnetz e o general Engelbrecht consegui-
ram nadar para a costa, mas foram aprisionados. Fracassou o
ataque naval a Oslo!
Apesar disso, o rei da Noruega alarmou-se e retirou-se com
sua família e o Parlamento para Hamar, a 200 Km ao norte de
Oslo. Seguiu-o uma coluna de caminhões, levando todo o ouro do
banco da Noruega e documentos secretos. O embaixador alemão
enviou mensagem urgente a Berlim e, a seguir, aviões Junker des-
pejaram cinco companhias de pára-quedistas e tropas
aerotransportadas próximo ao aeroporto de Fornebu. Estabele-
ceu-se a maior confusão em Oslo. Aproveitando-se disso, a força
alemã, precedida de improvisada banda de música, entrou mar-
chando tranqüilamente na capital e se apossou de todos os pon-
tos estratégicos sem dar um tiro!
A Dinamarca foi ocupada simultaneamente ao ataque contra a
Noruega. O cruzador Hansestadt Danzig e dois patrulheiros pene-
traram na baía de Copenhague, passaram pelas baterias do forte,
atracaram no porto, no centro da cidade, e desembarcaram tro-
pas. Enquanto isso, forças motorizadas da Wehrmacht cruzavam a
fronteira e se apoderavam das principais cidades do pais. Três
flotilhas da Kriegsmarine ocuparam os portos mais importantes.
Em Copenhague, após breve combate, o rei Christian, julgando
toda a resistência inútil, ordenou a deposição das armas.
A ousada operação custou aos alemães somente 20 baixas,
entre mortos e feridos, e permitiu à Luftwaffe a ocupação dos
aeroportos dinamarqueses, o que foi decisivo para o sucesso das
operações na Noruega.
Voltando a este país: enquanto o grosso das forças do general
Falkenhorst avançavam de Oslo para o norte, os Aliados ultima-
vam a preparação do Corpo Expedicionário a ser enviado para
cooperar com as forças norueguesas que resistiam aos alemães
no centro do território. Como base de operações, elegeram
Trondheim, já ocupada pelos alemães, que contavam com o apoio
tropas aerotransportadas e de esquadrilhas de Stukas, no aero-
porto de Voernes. Os anglo-franceses planejaram realizar um ata-
que naval contra o porto (Trondheim) e desembarcar tropas ao
norte (Namsos) e ao sul (Andalsnes). O almirantado inglês, consi-
Zolá Pozzobon 121

derando a superioridade aérea da Luftwaffe, desistiu do ataque


naval e só a fase terrestre da operação foi executada.
A 20 de abril, os Stukas bombardearam violentamente Namsos
e destruíram praticamente a totalidade do abastecimento e muni-
ção do Corpo Expedicionário. À noite, parte da guarnição de
Trondheim (cerca de 400 combatentes) foi conduzida ao largo da
costa por um destróier escoltado e desembarcou à retaguarda
das tropas britânicas. Ao amanhecer, a Luftwaffe e navios ale-
mães apoiaram o ataque terrestre. O general Carton Wiart, para
evitar o cerco, retirou-se.
Ao sul, o desembarque britânico começou a 18 de abril, com o
efetivo de uma brigada, sob o comando do general Morgan, que
atingiu o porto de Andalsnes e progrediu até Dombas, entronca-
mento ferroviário entre Trondheim e Oslo. Sua missão era apoiar
as forças do general norueguês Rugé, que combatiam com difi-
culdade os alemães instalados na região de Lillehamer. Por insis-
tência do adido militar britânico na Noruega, Morgan decidiu ata-
car Lillehamer. Os soldados ingleses, a maioria recrutas, foram
transportados de trem. Ao chegarem, viram-se atacados por uma
divisão alemã apoiada por artilharia e unidades de esquiadores.
Os ingleses retiraram-se apressadamente para o norte, persegui-
dos pelos alemães, que, mediante um movimento envolvente, cer-
caram grande parte da brigada e a reduziram à metade.
Nova brigada britânica desembarcou à noite em Andalsnes. A
23 de abril, o general inglês Paget assumiu o comando de todas
as forças que operavam ao sul de Trondheim. Em seguida, entre-
vistou-se com o general norueguês Rugé, o qual lhe comunicou
estarem suas tropas chegando ao limite da capacidade combativa.
O inglês deu-se conta de que tudo estava perdido. Os alemães,
apoiados pelos Stukas, quebraram a resistência da nova brigada
e marcharam para Dombas.
Enquanto os franco-britânicos estavam sendo acossados pe-
los germânicos, ao sul e ao norte de Trondheim, Chamberlain e
Reynaud reuniram-se a 27 de abril em Londres. O premier britâni-
co declarou a seu colega francês estar decidido a retirar suas
tropas de Namsos e Andalsnes, devido à supremacia aérea da
Luftwaffe. Reynaud conformou-se.
A ordem de retirada foi transmitida e, no dia seguinte, 29 de
abril, o embaixador britânico comunicou a notícia ao rei Haakon
e o convidou a trasladar-se para Tromsö, de onde embarcou no
cruzador inglês Glasgow, acompanhado de ministros e embaixa-
dores aliados.
Faltava a última cartada em Narvik, local em que os ingleses
122 O véu e a espada

pretendiam manter uma cabeça de ponte na Escandinávia. Após


o renhido combate naval de 10 de abril, o general alemão Dietl
consolidou suas defesas e destacou para o note uma coluna, a fim
de ocupar o aeroporto de Bardufoss.
Três dias depois, penetrou no fiorde de Narvik uma flotilha inte-
grada pelo encouraçado Warspite, nove destróiers e o porta-avi-
ões Furious. No interior da baía, aguardavam-nos os oito
destróieres restantes da flotilha do capitão Bontö. A superiorida-
de britânica resultou no afundamento de quatro destróieres adver-
sários. Os demais refugiaram-se num estreito fiorde, suas tripula-
ções os abandonaram e se incorporam às tropas de Dietl.
Os ingleses eram donos das águas em Narvik, mas, por ironia,
nada podiam fazer, pois não dispunham de tropas de desembar-
que. Withworth enviou mensagem ao almirante Cork, solicitando-
lhe força de assalto para conquistar o porto. A 15 daquele mês, o
general Mackesey desembarcou com uma brigada na ilha de Hinnoy,
ao norte de Narvik, e estabeleceu sua base de operações. Cork
incitou Mackesey a se lançar imediatamente ao ataque. Porém, o
general era muito metódico, queria realizar a operação em etapas
ordenadas e esperava reforços franceses e noruegueses.
Enfurecido com tais notícias, Churchill designou o almirante Cork
Comandante em Chefe das forças destacadas em Narvik e orde-
nou um bombardeio naval contra o porto, para obrigar os alemães
à capitulação. Foi iniciado o canhoneio e um batalhão de irlande-
ses encontrava-se pronto para desembarcar assim que os ale-
mães dessem sinal de esmorecimento. Porém, estes dispersa-
ram-se e escaparam aos efeitos da artilharia.
Em Berlim, a notícia do desembarque aliado provocou pânico
em Hitler, que determinou aos chefes da Wehrmacht organizarem a
imediata evacuação das tropas de Dietl, o que era irrealizável, por
falta de aeroporto em Narvik. Com grande esforço, 12 aviões Junker,
carregados com uma bateria de canhões de montanha, realizaram
acidentada descida num lago gelado, ficando com seus trens de
aterrissagem destruídos. O reforço, contudo, foi realizado.
A 27, chegou a Narvik o Corpo de Caçadores Alpinos francês,
sob o comando do general Béthouart, o qual apressou o general
Mackesey a lançar-se ao ataque contra o porto, mas encontrou
obstinada negativa do inglês. Novos fatos, porém, forçam-no a
pôr de lado sua decisão.
Ao sul de Narvik, 40 mil soldados alemães derrotaram as for-
ças britânicas que se interpunham em sua marcha e avançaram
para auxiliar Dietl. Para os Aliados, urgia conquistar o porto.
No dia 7 de maio Mackesey deu seu consentimento e Béthouart
Zolá Pozzobon 123

conquistou a península de Oijord, pouco ao norte de Narvik, refor-


çado por três batalhões da Legião Estrangeira e uma brigada
polonesa, a qual se apossou do porto de Ankenes, ao sul.
Preparavam-se os franco-britânicos para lançarem o ataque fi-
nal contra Narvik quando os Grupos de Exércitos alemães iniciaram
sua devastadora ofensiva na França, Bélgica e Holanda, que culmi-
nou com o cerco de franceses e ingleses em Dunquerque. No dia
24, o almirante Cork recebeu ordens de evacuar todas as tropas
que combatiam na Noruega e enviá-las ao território francês.
Dois dias depois, ao tomar conhecimento das novas ordens, o
general Béthouart solicitou permissão para levar a cabo o ataque
contra Narvik, antes de empreender a retirada. Desejava salvar a
honra de suas armas.
Dado o consentimento, na noite de 27 desembarcaram fran-
ceses e noruegueses e assaltaram o porto. Após encarniçado
combate com os alpinos de Dietl, ocuparam a cidade destruída.
Ao sul, os poloneses assaltaram Ankenes e estabeleceram
contato com os legionários procedentes de Narvik. A 2 de junho
os poloneses conseguiram apossar-se das posições que domina-
vam o quartel-general de Dietl. Então, Béthouart deu ordens para
deter a ofensiva. Já se dava por satisfeito, pois julgava sua honra
resgatada. O general alemão foi “salvo pelo gongo”!
Dias depois, o rei Haakon, o corpo diplomático e o príncipe
herdeiro embarcaram no Devonshire para a Grã-Bretanha. Em 8
de junho o Corpo Expedicionário Aliado abandonou a Noruega.
A II Guerra Mundial prosseguia ao sul da Escandinávia e iria
durar ainda cinco anos, com seu sinistro rastro de destruição!
Zolá Pozzobon 125

Por onde atacarão


os alemães?
Os Aliados ocidentais haviam derrotado a Alemanha na I Guer-
ra Mundial, em que se desenvolveram operações defensivas que
constituíram os “combates de trincheiras”, verdadeira Sitzkrieg,
isto é, guerra estacionária. Porém, os tempos haviam mudado,
novas organizações estavam surgindo, especialmente as grandes
unidades blindadas e o cerrado apoio aéreo ao movimento das
forças terrestres. Isso ocorreu na Polônia, quando a Blitzkrieg teve
sua estréia, com êxito extraordinário.
Entretanto, ao que parece, tal fato não afetou a maneira de
pensar dos generais aliados, cujos louros colhidos no período de
1914-1918 os mantinham apegados a velhos conceitos e os em-
balavam em sonhos de superioridade. Tinham os ocidentais for-
ças blindadas? Sim, e mais numerosas que os alemães. O “calca-
nhar de Aquiles” dos Aliados residia na mentalidade reinante e na
maneira pulverizada com que pensavam empregar tão preciosa
máquina de combate, a tropa blindada, da qual haviam sido os
pioneiros, em 1917 (Cambrai- França).
Na I Guerra Mundial, os alemães montaram o Plano Schlieffen,
que consistia, em linhas gerais, em realizar o esforço da ofensiva
alemã sobre os Aliados, através dos Países Baixos (Bélgica e
Holanda), em direção ao território francês, fixando o restante da
frente com efetivos menos importantes, porém capazes de atuarem
de acordo com as oportunidades que se apresentassem.
Em 1940, pressionado por Hitler para montar a ofensiva, o Alto
Comando do Exército projetava empregar mais uma vez o Plano
Schlieffen de 1914. Era um plano simples e que não apresentava
a menor surpresa. Mas o general Erich Von Manstein vinha traba-
lhando numa manobra diferente, que consistia em: realizar um
126 O véu e a espada

potente ataque blindado, através do Luxemburgo e da Bélgica


meridional, em direção a Sedan (França), seguido da ruptura do
prolongamento da linha Maginot e a conseqüente divisão da frente
aliada em duas partes.
Tal concepção mudaria o esforço da ofensiva germânica e evi-
taria a repetição do Plano Schlieffen. O general Heinz Guderian
inteirou-se do assunto e opinou que fossem empregados no es-
forço principal a maioria dos blindados de que dispunha o Reich.
Um capricho do acaso iria determinar como e onde romper o
dispositivo aliado no Ocidente: um oficial da Luftwaffe, transpor-
tando via aérea importantes documentos, inclusive uma cópia da
atualização do Plano Schlieffen (modificado), desviou-se de sua
rota, cruzou inadvertidamente a fronteira belga e, devido a uma
pane, fez aterrissagem forçada naquela área. Não sabiam os ale-
mães se o piloto tivera tempo de destruir os documentos. Era
lícito, então, admitirem que belgas, franceses e ingleses tomas-
sem ciência dos planejamentos em curso.
Segundo o raciocínio alemão, o adversário levantaria as se-
guintes hipóteses para a ocorrência: “1 - a aterrissagem foi força-
da devido à pane no avião; 2 - o incidente foi forjado, para que os
papéis caíssem em nossas mãos. No primeiro caso, estaríamos
de posse do plano a ser executado, mas, na certa, não o seria.
Os germânicos alterá-lo-iam. No segundo, colocaríamos as mãos
em um plano “isca”, feito de propósito para nos enganar.”
Como reagiriam os Aliados no terreno? Haveriam de se des-
dobrar para fazerem face à manobra constante do plano captu-
rado? Muito pelo contrário, aguardariam a execução fiel ou qua-
se, por parte dos alemães, do antigo Plano Schlieffen? E quanto
aos alemães, o que executaria a Wehrmacht? O Plano Schlieffen
original ou o modificado? Ou levariam a efeito algo completa-
mente diverso dos dois?
Na primavera de 1940, os germânicos possuíam uma visão
clara do dispositivo adversário: da fronteira da França com a
Alemanha, a partir da Suíça, para noroeste - a Linha Maginot
(sistema soberbamente fortificado até Montmédy e, daí por di-
ante, bem mais fraca) - o grosso do Exército francês e a Força
Expedicionária britânica estacionados na Flandres, entre o rio
Mosa e o Canal da Mancha, com seu dispositivo francamente
voltado para a fronteira da Bélgica.
De tal ordem de batalha, deduziram os alemães que o inimigo
esperava fosse reeditado o Plano Schlieffen de 1914.
A 10 de maio de 1940, tropas aeroterrestres da Wehrmacht
desceram na Holanda, próximo a Roterdam. A aviação desse país
Zolá Pozzobon 127

foi completamente destruída. As fortificações no rio Maas e do


famoso sistema defensivo do Canal Alberto (considerado inex-
pugnável) foram ultrapassados. As forças ocidentais estaciona-
das na Flandres avançaram e penetram na Bélgica, para conjurar
a ameaça a nordeste.
No dia seguinte teve início a grande ofensiva das forças Panzer
alemãs (esforço principal), apoiadas pela massa do poderio aéreo
da Luftwaffe, conquistando o Luxemburgo, parte do sul da Bélgica,
penetrando em território francês em movimento de pinças blinda-
das e se dirigindo velozmente para a costa do Canal da Mancha.

Nesta época eu freqüentava o ginásio dos Irmãos Maristas, em


Porto Alegre, quando o diretor do estabelecimento reuniu os alu-
nos e comunicou-nos o que ocorria na Europa Ocidental: cerca de
um milhão de franceses, ingleses e belgas estavam cercados e
foram separados do restante das forças que defendiam a França.

Desvendara-se o mistério. A trapalhada do piloto alemão que


aterrissou na Bélgica resultou na aplicação do Plano Schlieffen
modificado, cujos esboços estavam de posse dos ocidentais!
Zolá Pozzobon 129

Hitler “presenteia” aos


ingleses a Retirada
de Dunquerque
Após a ruptura das linhas defensivas dos Aliados em Sedan
(maio de 1940), os mais audaciosos generais alemães só tinham
um pensamento: atingir a costa do Canal da Mancha com suas
poderosas forças Panzer no mais curto prazo possível. Entretan-
to, houve paradas inexplicáveis. No dia 15, Von Kleist ordenou
suspensão de qualquer avanço.
Devido à presença de forças blindadas francesas do general De
Gaulle no flanco sul das colunas atacantes, Hitler temeu fosse sua
ofensiva ameaçada. Aquele que aprovara o audacioso Plano
Manstein, o mesmo que não pronunciara uma só palavra contra a
proposta de Guderian em aproveitar ao máximo o êxito da ruptura,
agora deixava-se atemorizar diante de uma desprezível ameaça de
flanco. Várias unidades de De Gaulle foram aprisionadas, ao entra-
rem, inadvertidamente, em cidades ocupadas pelos alemães.
No dia 24, Hitler determinou a parada da ala esquerda diante
do canal do Aa (próximo a Saint Omer), deixando seus generais
estupefatos. A ordem recebida continha, entre outros detalhes:
“Dunquerque deve ser deixada à Luftwaffe. Caso a conquista de
Calais se torne difícil, este porto também deve ser deixado à
Luftwaffe.” Mesmo assim, muitos comandantes de tropas avan-
çadas procuraram tirar vantagens locais, conquistando pontos-
chave para facilitar o movimento.
No dia seguinte, a 10a Divisão Panzer, lutando nas proximida-
des de Calais, enviou ultimato ao comandante inglês, brigadeiro
Nicholson, que respondeu laconicamente: “Não aceito a rendição.
O dever do Exército britânico é combater, tanto quanto o é o do
Exército alemão.” Assim, teve este de assaltar a cidade para
130 O véu e a espada

conquistá-la. O general Schaal declarou a seu chefe, general


Guderian, não acreditar que a localidade cederia unicamente me-
diante ações aéreas.
Em 17 de maio os alemães retomaram o ataque em direção a
Dunquerque, para fechar o cerco à fortaleza e conquistá-la. En-
tretanto, chegaram renovadas e peremptórias ordens superiores
de fazer alto. Assim, os alemães apenas assistiram aos contínuos
ataques da Luftwaffe e à chegada de navios ingleses de todos os
tipos e tamanhos para retirarem seus combatentes.
Atacantes e assistentes daquele cenário, tropas alemãs em
outros setores que souberam do caso, autoridades, comandan-
tes e tropas combatentes da Grã-Bretanha, que já aguardavam o
aniquilamento do Exército Expedicionário Inglês, têm-se pergun-
tado porque Hitler permitiu que tal acontecesse. Os historiadores
militares apontam algumas razões:
- Hermann Goering, chefe da Luftwaffe, teria asseverado a
Hitler que sua força aérea sozinha liquidaria com os retirantes;
- O “Führer” queria demonstrar que seu objetivo não era o ani-
quilamento dos ingleses e, sim, estabelecer uma “Nova ordem” na
Europa, captando simpatias para seu futuro e grandioso projeto:
a ofensiva contra a URSS.
Entretanto, na tarde de 26 de maio, as forças atacantes ale-
mãs receberam permissão para retomar o movimento. A captura
de Dunquerque só se ultimou após terem os britânicos retirado
para a Inglaterra a maioria de seus combatentes.
Para tanto, foram mobilizados 220 navios de guerra e 650
embarcações ligeiras. Cerca de 335 mil soldados, dos quais 200
mil britânicos, conseguiram desembarcar na Inglaterra. A França
perdera 26 divisões e os ingleses tiveram quatro destroçadas.
Muitos estrategistas opinam que a estagnação temporária, ou
aquela espécie de “torpor” causado em Hitler por uma vitória aci-
ma do esperado, tenha salvado a Inglaterra e dado novo rumo à
guerra, pois a nata de seus combatentes conseguiu escapar.
Zolá Pozzobon 131

Um corsário nos
mares do sul

Chega ao fim o reinado de terror do Graf Spee

Ao iniciar-se a II Guerra Mundial, a Marinha alemã dispunha,


entre outros barcos de superfície, de três cruzadores de bolso,
cuja construção fora permitida pelo Tratado de Versalhes. Possu-
íam canhões de 11 polegadas, forte blindagem, desenvolviam 26
nós de velocidade e deslocavam 10 mil toneladas.
Iniciadas as hostilidades, em 1 de setembro de 1939, foram
empregados como corsários para atacar os comboios britânicos
no Atlântico e no Índico. Cada um deles era acompanhado por um
navio auxiliar como apoio logístico.
O Graf Spee cruzou a rota comercial do Atlântico Norte sem
ser visto e se dirigiu para o sul dos Açores. A 30 daquele mês, ele
afundou o navio de carreira britânico Clement, de cinco mil tonela-
das, na costa de Pernambuco, Brasil. Os ingleses organizaram
132 O véu e a espada

vários grupos de caça, à base de dois a três navios, considerados


capazes de fazer frente à um cruzador de bolso.
Depois de afundar outro barco na rota do Cabo, o Graf Spee
desapareceu por um mês. Seus adversários ampliaram a vigilância
marítima até o Índico. A 15 de novembro, ele pôs a pique um petro-
leiro britânico no canal de Moçambique. Para disfarçar sua presen-
ça naquele oceano, seu comandante – Langsdorff – rumou para
uma área bem ao sul do Cabo e entrou no Atlântico novamente.
Eram desproporcionais a força naval germânica na área (os
ingleses desconfiavam da presença do Scheer, cruzador gêmeo
do Graf Spee) e as medidas defensivas tomadas pelo Almiranta-
do britânico, o que se tornava um tanto vexatório.
Apareceu o Graf Spee mais uma vez na rota Cabo – Freetown,
onde afundou o Doric Star e outros dois navios, em 2 e 7 de
dezembro de 1939, sucessivamente.
As imediações do Rio da Prata e do Rio de Janeiro constituíam
áreas bastante freqüentadas por navios mercantes, que poderi-
am servir ao esforço de guerra da Grã-Bretanha e que, por isso
mesmo, atrairiam a “cobiça” do Graf Spee. Nessa região, os in-
gleses procuraram concentrar os cruzadores Cumberland (ainda
em reparos nas Falklands), Exeter, Ajax e Achilles. A 13 de de-
zembro foi avistada a fumaça do corsário alemão, que se aproxi-
mava do Rio da Prata.
Embora o comandante Langdorff julgasse constituir-se o inimi-
go de um cruzador e dois contratorpedeiros, deparou-se com três
cruzadores. Em vez de manter-se à distãncia e tirar proveito do
alcance de sua artilharia, resolveu investir contra o Exeter. Então,
o Graf Spee foi atingido pelo fogo dos três adversários, mas der-
rubou a torre B do Exeter, destruiu-lhe as comunicações e o pôs
fora de combate por algum tempo. Ocupado em defender-se con-
tra os outros dois, aliviou a situação no navio inimigo atingido, e
passou a receber tiros de três diferentes direções. Lançando uma
cortina de fumaça, Langsdorff rumou aparentemente para o Rio
da Prata. Logo depois, mudou de curso, voltou a atacar o Exeter,
o qual foi reduzido ao silêncio e afastou-se para reparos.
A batalha passou a se desenvolver à base de dois cruzadores
ingleses versus um alemão. Então, as duas torres de popa do
Ajax foram derrubadas e o Achilles danificado. O comandante in-
glês Howard, praticamente sem munição pesada, afastou-se, en-
coberto pela fumaça. O Spee rumou para Montevidéu, buscando
reparos e suprimentos. Transferiu os feridos para o navio de
acompanhamento Altmark e fez relatórios ao Führer.
Na noite de 14 de dezembro, o Cumberland, que estivera nas
Zolá Pozzobon 133

ilhas Falkland em reparos, ocupou o lugar do Exeter.


Em 16 de dezembro, Langsdorff telegrafou ao Almirantado ale-
mão, informando da extrema dificuldade de fuga. Apresentavam-
se as seguintes linhas de ação: afundar voluntariamente o navio;
retê-lo no porto; abrir caminho à bala, com o risco de ser destruído.
O comandante recebeu a seguinte resposta: “Tente ganhar tempo
em águas neutras.... Abra caminho, combatendo, até Buenos
Aires... Tente destruição efetiva se o navio for afundado.....”
É preciso levar em conta que o estuário do Prata apresenta
pouca profundidade.
Na tarde de 17 de dezembro, o Spee transferiu mais de 700
homens, com bagagens e provisões, para o mercante Altmark.
Às 18h15min., observado por imensa multidão, deixou o porto de
Montevidéu e rumou para o mar, observado pelos três cruzadores
britânicos. Às 20h54min., enquanto o sol se punha, um avião do
Ajax informou: “O Graf Spee explodiu!”
Dois dias depois, desolado com a perda de seu navio, Langsdorff
suicidou-se.
O mercante Altmark conseguiu escapar, enquanto os ingleses
vigiavam o Graf Spee e, depois de longa viagem, foi localizado em
um fiorde da Noruega. Abordado por navios de guerra britânicos,
foi dominado. Abrigava, além de marinheiros alemães do Graf
Spee, cerca de 300 náufragos ingleses.
Zolá Pozzobon 135

O fantasma do
Atlântico Norte!

O Bismarck

Passada a Batalha da Inglaterra (Luftwaffe X Royal Air Force),


adquiriram os aviadores ingleses capacidade de bombardear o
território germânico. Tal fato forçou os navios da Krigsmarine a se
desdobrarem em pontos mais abrigados do litoral do país. Hitler,
porém, não desejava manter escondidos seus navios, como coe-
lhos diante do caçador.
136 O véu e a espada

Entre as possíveis linhas de ação a realizar e hipóteses levan-


tadas, o almirante Raeder sugeriu uma saída dos encouraçados
Bismarck, Tirpitz e outras belonaves para atacarem e destruí-
rem navios de guerra que escoltavam comboios aliados. O plano
era: com os encouraçados, atrair a atenção das belonaves
adversárias, enquanto cruzadores e destróieres se encarregari-
am de afundar os mercantes.
Alguns navios alemães, devido à ação aérea e de minas flutu-
antes, sofreram avarias e se atrasaram. A 18 de maio de 1941, o
almirante Lutjens, comandante da frota de ataque, reduzida ao
Bismarck e ao Prinz Eugen, deu ordem de partida, do porto de
Gdinia, no mar Báltico, aventura verdadeiramente temerária ou de
exagerada coragem!
A Home Fleet (Frota Metropolitana da Grã-Bretanha) tinha sua
base em Scapa Flow, sob as ordens do almirante Cronyn Tovey.
Tendo sido informado sobre a partida dos navios alemães, con-
cluiu acertadamente aquela autoridade que a possível intenção do
inimigo era interceptar a passagem dos comboios no Atlântico
Norte. E deu ordem a todos os seus navios para se porem em
condições de ação imediata.
Dois dias depois o Bismarck e o Prinz Eugen foram localizados
ao sul do porto de Bergen, na Noruega, por dois aviões ingleses
Catalina. Toda a tripulação do Bismarck assistiu a artilharia antia-
érea do tenente Kösener abater um dos aparelhos, a quase 5000
metros de distância. O outro, porém, conseguiu escapar e infor-
mar a frota inglesa.
A 21, esperavam os britânicos haver atingido as duas belonaves
alemãs, devido à intensa ação da Royal Air Force desenvolvida
sobre a costa norueguesa. Entretanto, os dois corsários haviam
desaparecido. Imediatamente passaram a ser patrulhadas as
águas do estreito da Dinamarca. Da Home Fleet, partiram os
encouraçados Hood (cap. Kerr) e Prince of Wales (cap. Linch)
rumo à Islândia. Ficou ainda uma enorme frota de prontidão em
Scapa Flow: o King George V, cinco cruzadores, cinco destróieres,
o porta-aviões Victorious e o encouraçado Repulse. Enquanto isso,
nada se sabia do paradeiro dos navios alemães, apesar dos cora-
josos e difíceis reconhecimentos noturnos, sob péssimas condi-
ções meteorológicas, realizados pelo tenente Goddard, o qual,
mesmo assim, afirmou que o inimigo não se encontrava nos fiordes
da Noruega. Em conseqüência, o almirante Tovey despachou o
King George V e vários navios em busca do inimigo.
Os alemães, devido à inatividade forçada de sua aviação, por
Zolá Pozzobon 137

causa das péssimas condições meteorológicas, desconheciam as


rotas seguidas por seus inúmeros adversários, entre os quais cer-
ca de 12 navios de guerra de porte, fora outros menores.
Ao ultrapassar o círculo Polar Ártico, o Bismarck e o Prinz Eugen
reduziram sua marcha, obrigados pela fraca visibilidade e o perigo
dos icebergs.
Às 10 horas do dia 23, o capitão Lindemann foi informado da
aproximação de um submarino alemão, que solicitava provisões e
combustível. Então, Lindemann soube que os ingleses dispunham
de um artefato pelo qual determinavam a presença do inimigo à
distância, sob qualquer tempo. Tratava-se do radar, que os ale-
mães só teriam mais tarde. Porém, às 7h0min. deste mesmo dia,
um radioperador captou uma mensagem cifrada dos ingleses, a
qual foi decodificada e dizia: “Do capitão Ellis, do H.M.S. Sufolk,
ao comandante Walker, de seu igual Norfolk - barcos inimigos
avistados na entrada do estreito da Dinamarca.... Espero ordens.”
A pequena frota alemã pôs-se em alerta máxima.
Pouco mais tarde, nova mensagem cruzava o espaço: “Do con-
tra-almirante Wake Walkers, a bordo do H.M.S. Norfolk, ao capi-
tão Ellis, a bordo do H.M.S. Sufolk: Mantenha-se a prudente dis-
tância, sem descobrir-se nem perder de vista o inimigo. Espere
ordens complementares.”
Ainda longe, avançavam os encouraçados Hood e Prince of Wales.
Aquele era o maior encouraçado e o orgulho da Marinha inglesa,
embora tivesse alguns erros de construção. Por brincadeira, o pró-
prio pessoal da força naval dizia que o Hood era “o maior submarino
de superfície do mundo”, pois, quando navegava em mar grosso, a
maior parte de sua coberta ficava tomada pelas águas!
Às 10 horas de 23 de maio surgiu nas telas do radar do Norfolk
a silhueta do Bismarck. Sua posição: 66 graus e 11 min. de latitu-
de norte por 26 graus e 44 min. de longitude oeste! Às 23 horas e
13 min. O Bismarck avistou o Norfolk e disparou sua artilharia da
Torre 1. Iniciava-se uma das mais eletrizantes batalhas navais da
II Guerra Mundial.
No dia 24, às 5 horas, avançando a toda à máquina, o Hood
avistou o Bismarck. Iniciado o duelo, a tripulação germânica duvidou
do que estava assistindo: após gigantesca explosão, o Hood, em
poucos minutos, desapareceu sob as águas geladas do Ártico: fora
atingido por certeiro tiro em sua parte média, onde se localizava o
depósito de munição! Entretanto, o Bismarck sofreu avarias em seu
sistema de combustível. Procurou afastar-se e esconder-se, a fim
de escapar da armadilha que se fechava sobre ele. Surgiu um avião
138 O véu e a espada

adversário que foi alvo de todas as peças antiaéreas do navio,


sendo espetacularmente abatido, sob os aplausos dos marinheiros
alemães. Porém... o destemido piloto inglês, antes de cair com seu
aparelho, havia irradiado a posição do Bismarck.
Da coberta do porta-aviões Ark Royal decolaram15 aviões
Swordfish, sendo logo dois deles abatidos. Os demais soltaram 12
torpedos que não atingiram o navio alemão, devido às rápidas e
bruscas manobras ziguezagueantes dirigidas pelo próprio coman-
dante Lindemann. Restava o último avião. Este se aproximou voan-
do pouco acima da superfície, lançou seu torpedo e virou para se
afastar. Nesse momento foi atingido e explodiu no ar. Porém o tor-
pedo inutilizou o leme do Bismarck, deixando-o à deriva. Aos pou-
cos, quais lobos do mar, foram surgindo no horizonte as silhuetas
dos encouraçados e cruzadores britânicos. O Bismarck concentrou
sua artilharia sobre o King George V, mas logo teve de transferir os
fogos para atingir o Rodney, que se encontrava mais próximo.
A última fase da batalha começou às 9 horas do dia 27 e durou
até às 10h36min., quando o bravo navio alemão, descarregando
toda a sua artilharia, desapareceu da superfície do mar! Pratica-
mente toda a frota britânica do Atlântico havia sido empregada
para afundar o arrrojado fantasma dos mares do norte!

Nota: O Prinz Eugen recebera ordens de se pôr a salvo e


tentar escapar. Foi o que fez, ajudado belas brumas do mar,
chegando incólume à Alemanha.
Zolá Pozzobon 139

Operação Leão Marinho


(Seelöwe)
A posição geográfica da Alemanha, situada no centro-norte da
Europa, embora banhada pelo mar do Norte e o Báltico, empresta-
lhe uma vocação política continental. É histórica sua atração para o
Leste (Drang nach Osten). Não obstante, a Marinha destacava-se
pela qualidade e potência de seus vasos de guerra e o desempe-
nho de sua frota de submarinos, os quais impuseram pesadas bai-
xas aos Aliados, tanto na I Guerra Mundial quanto na II.
Os britânicos, ancorados nas ilhas do Mar do Norte, são ho-
mens do mar e voltaram-se há longo tempo à conquista de um
império que lhes suprisse as necessidades não garantidas pelas
limitações de seu território. Assim, desde cedo buscaram e alcan-
çaram seu lebensraum (espaço vital), doutrina condenada aos
alemães e praticada pelos ingleses.
Para garantir o domínio dos mares, a Grã-Bretanha desenvol-
veu poderosa marinha mercante e de guerra. Somente os EUA, à
época da II Guerra Mundial, seguidos pelo Japão, estariam alcan-
çando o nível atingido pelo Império Britânico nesse setor.
Logo depois de ter eclodido a guerra, em setembro de 1939,
com a invasão da Polônia pelos alemães, o almirantado germânico,
segundo documentos capturados após o conflito, iniciou seus es-
tudos de Estado Maior, tendo em vista a invasão da Grã-Bretanha.
Os almirantes estavam convencidos de que a única maneira de
dominá-la seria desembarcar do outro lado do Canal da Mancha e
fincar pé no seu território.
Após a estrondosa vitória no leste europeu, enfrentava o Reich,
antes de mais nada, a necessidade de decidir a guerra na frente
ocidental, onde estavam estacionados enormes efetivos aliados,
numa situação de inexplicável expectativa.
140 O véu e a espada

A adoção de operações alternativas às previstas no Plano


Schlieffen, já conhecido dos Aliados desde a I Guerra Mundial, pro-
porcionou, junto com o fator surpresa e o emprego maciço da força
aérea e dos blindados, a grande vitória alemã de maio de 1940. Os
britânicos conseguiram evacuar boa parte de seu Exército Expedi-
cionário para a Inglaterra e a França entrou em colapso.
O sucesso alcançado surpreendeu os próprios alemães. Para
uma nação que havia perdido a guerra anterior, com suas tropas
ainda fora do país, tal vitória representava uma satisfação tre-
mendamente compensadora. Hitler e seu Estado Maior acompa-
nharam pessoalmente o desfile das tropas germânicas através do
Arc du Triomphe e dos Champs Ellisée, em Paris. Do outro lado
da Mancha, os britânicos lambiam suas feridas de guerra e la-
mentavam as enormes perdas sofridas.
O comando do Exército alemão, desde o início, havia considera-
do a invasão da Inglaterra um empreendimento muito preocupante.
Em 21 de julho de 1940, os comandantes das três forças reuniram-
se com Hitler que, entre outras, fez as seguintes considerações:
“.... Não se trata da simples travessia de um rio, mas de um
mar dominado pelo inimigo... A travessia não será única, como na
Noruega; não teremos surpresa operacional e enfrentaremos um
adversário decidido... Estimo que o Exército necessitará de 40
divisões... Em matéria de abastecimento, não podemos contar
com qualquer recurso local capturado na Inglaterra. Devido às
condições no Mar do Norte, a operação mais importante será
concluída até 15 de setembro. Após, será difícil a coordenação
do apoio aéreo com a Marinha e as forças de desembarque.”

Durante o estudo de situação, surgiram divergências entre o


Exército e a Marinha quanto à frente de desembarque. O chefe do
Estado Maior da Marinha deixou claro não haver a menor possibi-
lidade de uma movimentação de tropa da ordem pretendida pelo
Exército (160 mil em primeiro escalão, entre North Foreland e a
Ilha de Whigt, seguidos de mais 160 mil em vários pontos. Só o
transporte da segunda leva exigiria uma capacidade de carga de
dois milhões de toneladas. Ainda haviam os problemas relativos
às diferenças de horários da preamar nos diversos pontos esco-
lhidos. Após altercações entre o general Halder e o chefe da
Marinha, Hitler resolveu conciliar, reduzindo a frente de desembar-
que. Tudo isso estava sujeito à conquista da vitória na batalha
aérea sobre a Inglaterra, em pleno curso havia seis semanas.
O comando da operação foi confiado a Rundstedt, à frente dos
VI e IX Exércitos, as forças reduzidas a 13 divisões de primeiro
Zolá Pozzobon 141

escalão e mais 12 em reserva. No início de setembro, o Estado


Maior da Marinha informou ter requisitado 168 navios de transpor-
te (700 mil toneladas), 1.910 chatas, 410 rebocadores e trainei-
ras e 1.600 barcos a motor.
Em 1 setembro de 1940, o primeiro grande fluxo de navios
destinados à invasão, em deslocamento para o sul, foi avistado
e atacado pela Royal Air Force, em toda a extensão que vai da
Antuérpia a Le Havre. O Exército e a Marinha passaram à
Luftwaffe a preocupação quanto à segurança das operações.
Campos de minas, nos limites do corredor de invasão, deveriam
ser estabelecidos sob a proteção da Força Aérea e esta
dominaria os ares, a fim de permitir a chegada das tropas de
assalto ao outro lado de Mancha, bem como o estabelecimento
das cabeças-de-ponte.
Goering não fazia objeção em aceitar tamanho encargo, confian-
te de que a Luftwaffe ganharia a batalha aérea em curso e, assim,
incapacitaria a Royal Air Force. Parece que ele estava decidido a
conquistar uma vitória espetacular apenas com sua Força Aérea. O
Almirantado alemão não estava nada convencido disso.
Em 30 de agosto, o Estado Maior da Marinha informou que,
devido às ações aéreas britânicas contra as flotilhas que se con-
centravam para a invasão, os preparativos da Operação Leão
Marinho não ficariam cloncluídos em 15 de setembro. Houve, en-
tão sucessivos adiamentos.
Às 20 horas de 7 de setembro, foi transmitida aos comandos
do Leste e do Sul das forças de defesa da Inglaterra, a senha
“Cromwell”, que significava “invasão iminente”.
O clima de triunfo de que estavam impregnadas as forças ale-
mãs, devido às repetidas vitórias no Ocidente, em particular, na
Noruega e na França; os grandiosos planos de Halder (Exército)
em deslocar imensas forças e a desmedida ambição de Goering
em “ganhar a guerra sozinho” foram cedendo lugar ao sentimento
de dúvida no desfecho da operação.
Por fim, alegando a necessidade de enfrentar a URSS, que cons-
tituía uma ameaça a Leste e bem poderia se lançar sobre “as cos-
tas” da Alemanha enquanto esta se empenhasse nas operações de
desembarque, Hitler cancelou a operação, devendo ter causado
imenso alívio à Wehrmacht e, na certa, beneficiando a Grã-Bretanha.
Zolá Pozzobon 143

Rudolph Hess - A queda


da poderosa sombra

A
“consciência
do partido”,
Rudolf
Hess

Aquele que viria a se tornar


o segundo homem do Nazis-
mo, venerado como “a cons-
ciência do partido”, nasceu em
1894, de uma família alemã
que morava em Alexandria,
Egito. Estudou num rigoroso
internato na Alemanha, pas-
sando os verões com os pais,
na Baviera.
Rudolf Hess participou
como combatente da I Guer-
ra Mundial, quando sofreu ferimentos, entre os quais uma lesão
pulmonar que lhe dificultaria a respiração por toda a vida. Tornou-
se piloto do Corpo Aeronáutico Imperial, porém, não experimen-
tou qualquer combate aéreo, devido ao armistício que pôs fim
144 O véu e a espada

ao conflito. Marcado pela guerra, era introspectivo, não bebia,


não fumava nem dançava.
Lançou-se à política, atormentado pelo caos advindo da humi-
lhante derrota da Alemanha, que ameaçava a própria existência do
país. Hess temia a subversão comunista e chegou a confrontar-se
com seus adeptos em Munique, sofrendo ferimento na perna, o que
lhe atiçou o ódio contra o bolchevismo.
Na universidade, já alimentava sentimentos anti-semitas. Defen-
dia a união nacional, sob a autoridade de um homem forte. Conhe-
ceu, então, Adolf Hitler, mentor do recém-criado Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães (Partido Nazista), no qual
ingressou, tornando-se seu 16º membro.
Rudolf Hess sofreu a influência do Prof. Karl Haushofer e de
suas lições de geopolítica e passou a imaginar a união da Inglaterra
com a Alemanha, povos anglo-saxões, de “raça superior”, aptos a
governarem o mundo. Achava que o Reich precisava de mais espa-
ço vital (Lebensraum).
Em 1923, Hitler não conseguiu êxito em seu putsch (golpe de
Estado) em uma cervejaria de Munique, tendo sido preso. Hess,
após haver fugido para a Áustria, ofereceu-se para acompanhar
Hitler na prisão de Landsberg. Aí, tornou-se secretário do Führer,
datilografando o que este lhe ditava, vindo constituir-se tal trabalho
no famoso livro Mein kampf, em que o chefe nazista delineou seu
projeto de regeneração da Alemanha.
Após ter Hitler assumido o cargo de Chanceler, Hess fez parte
de seu círculo mais íntimo de colaboradores. No entanto, tendo-se
iniciado a guerra em 1939 e deslocando-se as atenções para as
vitórias militares, começou a sentir-se posto de lado. Hermann
Goering e Martin Bormann passaram à sua frente na linha de su-
cessão do partido.
Ao que parece, devido a isso, Rudolf Hess tentou realizar algo
para recuperar a posição de mais destacado conselheiro de Hitler.
Influenciado pelo brilhante filho do Prof. Haushofer, Albrecht, con-
cluiu que a Alemanha devia fazer a paz com a Inglaterra, a fim de
que todo o poderio militar alemão pudesse ser lançado contra a
URSS de Stalin, que constituía o verdadeiro perigo.
Entretanto, Albrecht Haushofer era veladamente anti-nazista. Ao
mesmo tempo em que se ofereceu a Hess para contatar o duque
de Hamilton, advertiu-o de que os britânicos dificilmente chegariam
a um acordo com Hitler.
É pouco difundido o fato de que Goering, após ter a Alemanha
invadido a Polônia, em 1939, se ofereceu para voar até a Inglaterra,
a fim de explicar a situação. Porém, Hitler não nutria a menor
Zolá Pozzobon 145

esperança de êxito no intento.


Rudolf Hess esperava acolhimento amistoso por parte do
duque de Hamilton, o qual havia almoçado em sua casa duran-
te os Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha. Então, realizou
um vôo clandestino até a Escócia e ali saltou de pára-quedas.
Entretanto, foi recebido friamente, após ter sido aprisionado.
Mesmo assim, Hess ter-lhe-ia exposto as condições de paz de
Hitler: Os dois países não mais se envolveriam em guerras um com
o outro e a Grã-Bretanha não se mostraria contrária à hegemonia
germânica no continente europeu..” Ele desejava ser recebido por
Churchill, mas foi ignorado e mantido em prisão.
É possível ter Hitler aguardado algum sinal positivo quanto às
“negociações” de Hess com as autoridades britânicas. Porém, de-
vido ao mutismo destas, mandou publicar a notícia de que Rudolf
Hess sofria de desequilíbrio mental e consultava hipnotizadores e
astrólogos. Entretanto, o alto comando nazista temia que ele reve-
lasse aos ingleses a Operação Barba Roxa.
Tanto no continente como nas ilhas, era grande a perplexidade
diante de acontecimento tão fora do comum. Stalin, no entanto,
convenceu-se de que Churchill negociava com Hitler e acreditou
terem suas suspeitas se confirmado quando o Reich atacou a URSS,
em 22 de junho de 1941.
A recusa dos ingleses em levarem a sério as propostas do emis-
sário e em recebê-lo como herói da paz contribuíram para piorar o
estado psicológico de Hess. Uns diziam que ele era paranóico; ou-
tros, que não passava de uma farsa, e houve grupos que advoga-
vam a idéia de que ele não poderia ser mantido preso na Grã-
Bretanha, pois fora desfraldar a bandeira branca. Entretanto, entregá-
lo de volta à Alemanha representaria perigo de vida para ele.
Após a guerra, durante seu julgamento em Nürenberg, no “Tribu-
nal do Vencedores”, Hess manteve-se mudo e fingiu sofrer de am-
nésia, ou sofria mesmo.
Permaneceu quatro décadas na prisão de Spandau, em Berlim.
Mostrava-se introvertido, hipocondríaco e sofria de perturbações
gastrointestinais. Após 28 anos no cárcere, ele concordou em rece-
ber a curta visita de sua mulher e do filho.
Houve tentativas para abreviar a prisão de Hess, depois de tanto
tempo de sofrimento. Contudo, os russos não concordavam, por
acreditarem que ele fora um dos mentores da destruição de
incontáveis vidas na URSS.
Hudolf Hess permaneceu em Spandau de 1946 até sua morte,
em 1987. A outrora poderosa sombra do Führer desapareceu
para sempre.
Zolá Pozzobon 147

U - 47
O tenente Günther Prien,
comandante do submarino
alemão U-47, afundou, em
1939, o Royal Oak, porta-
aviões britânico lançado em
1938

Como conseqüência do Tratado de Versailles (1918), a mari-


nha de guerra germânica foi reduzida, podendo contar apenas
com seis encouraçados, seis cruzadores e 12 torpedeiros, mas
nenhum porta-aviões e submarino.
Com a ascenção de Hitler, em 1933, o almirante Raeder iniciou
um programa de construção. Pelo Tratado Naval de Londres
(1935), modificaram-se as exigências, podendo a Alemanha cons-
truir, em porta-aviões, até 47 mil toneladas, e, em submarinos, 24
mil toneladas, sendo-lhe facultado, no caso destes últimos, em
situação de emergência, elevar a tonelagem ao dobro. Raeder
encarregou o almirante Doenitz, um dos mais destacados coman-
dantes de submarinos da Primeira Guerra Mundial, a dar início ao
programa de construção de submersíveis. O treinamento da nova
força era realizado na base naval de Kiel, no Mar Báltico.
Receberam especial atenção os submarinos do Tipo VII,
projetados para operarem contra linhas de abastecimentos no
Atlântico. Ao estourar a II Guerra Mundial, em 1939, contava o
III Reich com 57 submarinos, porém, muito aquém dos 300 de-
sejados. Raeder ordenou imediatamente que a frota de subma-
rinos se situasse nas áreas pre-fixadas, nas rotas de navegação
do Atlântico e do Mar do Norte.
A primeira vítima dos “Lobos do mar” na II Guerra Mundial foi
148 O véu e a espada

algo muito estranho. Quando o comandante do U-23 fez emergir


seu barco, verificou ter torpedeado nada mais nada menos que
uma rocha imóvel, contra a qual as águas agitadas se quebravam
em abundante espuma. Além disso, o comandante mandou irradi-
ar à sua base a seguinte mensagem: “Rocha torpedeada, porém,
não afundada.” Ao regressar a Kiel, a tripulação foi recebida com
festas. Indagando o motivo, ao comandante dirigiu-se o próprio
Doenitz, que lhe perguntou como tinha sido o afundamento do
“Nelson”, ao que este respondeu jamais tê-lo visto. O almirante
conferiu a mensagem recebida: “Nelson torpedeado, porém não
afundado.” A explicação do incidente estava numa troca de letras:
rocha, em alemão, é felsen, e a recepção registrou Nelson!
Só mais tarde seria o Nelson realmente afundado por outro
submarino!
Cerca de 12 ases distinguiram-se como comandantes de sub-
marinos alemães, a quem foram creditados afundamentos de
411 barcos inimigos, perfazendo um total de 2.460.000 tonela-
das. O número de rochas atingidas ficou mesmo em uma!
O almirante Doenitz planejou levar a cabo um audacioso ata-
que à base naval britânica de Scapa Flow, nas ilhas Orcadas.
Durante a I Guerra Mundial, já haviam os alemães, por duas
vezes, tentado penetrar naquele refúgio, sem êxito. Através de
fotografias aéreas, verificou-se ser o estreito canal de Kirk a
entrada menos defendida. Para tal missão, foi escolhido o U-47,
capitaneado pelo tenente Gunther Prien, experiente e audaz co-
mandante de submarinos. Em 13 de novembro de 1939, às 22
horas, teve início a operação, com noite calma e sem luar e as
marés favoráveis. Navegando na superfície, Prien deslizou seu
barco através do estreito de Kirk para o interior da baía de Scapa
Flow. O submersível passou quase roçando em cascos de navi-
os afundados que bloqueavam a entrada.
O comandante rumou para sudoeste, onde constava achar-se a
maior parte dos navios britânicos. Porém, não avistou ali qualquer
coisa. A frota inglesa havia-se feito ao mar no dia anterior. Prien
dirigiu-se para o norte da baía e distinguiu as silhuetas de dois gran-
des navios de guerra. Escolheu um como alvo, identificando-o como
o Royal Oak. Disparou contra ele uma salva de cinco torpedos. Ao
ouvirem a explosão, os oficiais do porta-aviões julgaram tratar-se
de uma explosão interna, seguros que estavam da impossibilidade
de penetração de submarinos inimigos.
Como não houve reação, Prien tomou nova posição e desen-
cadeou outro ataque contra o Royal Oak, em que pereceram o
contra-almirante Blagrove e 786 oficiais e marinheiros. Acele-
Zolá Pozzobon 149

rando ao máximo seus motores, o U-47 escapou sem ser visto


pelos destróieres inimigos, atravessou o canal de Kirk e ganhou
o mar aberto. A façanha acabara de ser cumprida!
Além da destruição do Royal Oak em Scapa Flow, Gunther Prien
afundou no Atlântico 32 navios, num total de 203.000 toneladas!
Seguem-se alguns princípios operacionais recomendados por
comandantes de submarinos alemães de então:
- Em toda a operação de submarinos, é de vital importância
contar com vigias competentes.
- A organização do pessoal deve ser a melhor possível: qual-
quer peça frouxa pode significar a destruição do barco e a morte
da tripulação.
- A vigilância deve ser sobre o mar e no céu: a aviação cons-
titui elemento cada vez mais importante na segurança dos com-
boios inimigos.
- Os navios isolados que não ostentam pavilhão neutro nem
distintivo da Cruz Vermelha e que pareçam beligerantes devem
ser afundados por canhoneio, para economizar torpedos.
- Deve-se ajudar os náufragos sempre que se dispuser de
tempo e não houver ameaça para o submarino.
- Ataques contra comboios devem ser realizados de prefe-
rência à noite.
- Ao avistar um comboio de dia, segui-lo e manobrar, para
tomar posição de ataque favorável após o cair da noite.
- Salvas de torpedos à grande distância não oferecem garan-
tia e êxito e representam desperdício de munição.
- Às vezes, é necessário disparar, irrompendo através da
cortina anti-submarina da escolta e mesmo dentro das colunas
do comboio.

Observe-se que, à época, não dispunham os contendores


de radar, equipamento que os ingleses inventaram e utilizaram
a partir de pouco tempo depois e os alemães só mais tarde.
Zolá Pozzobon 151

Napoleão, Hitler e
o General Inverno!
NAPOLEÃO BONAPARTE, general e estadista, imperador da
França, nascido na Córsega em 1769 e, como prisioneiro, faleci-
do na ilha de Santa Helena, em 1821. Tido como gênio militar e em
outras atividades humanas, foi durante muito tempo objeto de es-
tudos, figura comentada nas rodas eruditas e intelectuais. Nos
dias de hoje, é personagem praticamente desconhecido das mo-
dernas gerações.
A serviço do governo revolucionário de 1789 (Revolução Fran-
cesa), como jovem general, distinguiu-se na campanha da Itália
(1796), regressando vitorioso a Paris, onde foi delirantemente
aclamado.
Apoiado por Tayllerand, obteve o comando da expedição ao Egito,
com vistas à destruição do poder inglês na Índia, acompanhado não
só de guerreiros, mas também de inúmeros cientistas, que revela-
ram ao mundo a civilização da época dos faraós. Champollion have-
ria de decifrar os segredos dos hieróglifos egípcios. A vitória de
Napoleão às portas do Cairo foi empanada pela derrota que o almi-
rante Nelson infligiu à esquadra francesa em Abukir.
De volta à França, assumiu o governo, aos 30 anos de idade.
Revelou-se hábil administrador e notável legislador. Em 1804, foi
proclamado imperador dos franceses, com o nome de Napoleão
I, tornando-se soberano absoluto.
Na política externa, obteve vantagens territoriais: a Áustria re-
conhecera, após a vitória napoleônica em Marengo (1800), a
margem esquerda do Reno como limites naturais da França. Con-
tinuou a luta contra a Inglaterra, que firmou o Tratado de Amiens,
devolvendo à França algumas colônias. Formou-se contra seu país
a terceira coligação européia. O imperador venceu os austríacos
152 O véu e a espada

em Ulm (1805) e, no mesmo dia, ganhou a Batalha de Austerlitz,


chamada A Batalha do Três Imperadores (Rússia, Áustria e Fran-
ça). Porém, Nelson destruiu a esquadra franco-espanhola em
Trafalgar. Tornou-se “protetor” dos Estados do sul e do oeste da
Alemanha, assim findando o Sacro Império Romano-Germânico.
Bateu Napoleão os prussianos em Viena e, em 1806, entrou
triunfalmente em Berlim. Então, decretou o bloqueio continental
contra a Inglaterra. Seu general – Junot – invadiu Portugal, que
não aderira ao bloqueio, obrigando a família real portuguesa a
transferir-se para o Brasil. Venceu os russos nas batalhas de Eylau
e Friedland. Pelo Tratado de Tilsit (1807), desmembrou a Prússia.
A Quinta Coligação deu oportunidade a Bonaparte para as vitórias
de Eckmühl, Essling e Wagram, em que a Áustria perdeu vasta
extensão territorial. Em 1810, Napoleão divorciou-se de Josefina
e desposou Maria Luísa, filha do imperador da Áustria.
Em meados de 1812, ele declarou guerra à Rússia, pois o czar
Alexandre I não observara o bloqueio continental. A Napoleão,
aliaram-se o imperador da Áustria e o rei da Prússia. Inglaterra e
Suécia alinharam-se com a Rússia. Bonaparte saiu-se vitorioso
nas batalhas de Smolensk e Moscou. Ao entrar na capital, encon-
trou-a destruída pelo fogo, ateado por seus próprios habitantes
que, assim, negaram aos franceses abrigos e suprimentos para
enfrentarem o rigoroso inverno que se aproximava. Sentindo que
não poderia conquistar São Petersburso, Napoleão ordenou a re-
tirada, em que pereceram milhares de soldados franceses, exte-
nuados pela fome, pelo frio e pelas intermináveis marchas para o
Ocidente. Era a presença do poderoso “General Inverno”!
Formou-se a Sexta Coligação contra Bonaparte, que foi vitori-
oso em Lutzen Bautzen, mas derrotado em Leipzig (1813).
Napoleão perdeu a Alemanha e seus generais a península ibé-
rica. A França foi invadida em várias frentes e, a 30 de maio de
1813, entraram em Paris o czar da Rússia e o rei da Prússia.
Napoleão foi forçado a abdicar em Fontainebleau. A dinastia dos
Bourbons foi restaurada no trono e a França voltou às suas fron-
teiras de 1792. Napoleão foi exilado na ilha de Elba.
No entanto, sabendo da impopularidade do rei Luís XVIII, ele
evadiu-se e, em marcha triunfal, conhecida como “O vôo da águia”,
voltou vitorioso a Paris. Ocupou o trono durante cem dias, mas
em junho de 1815 foi definitivamente derrotado em Waterloo.
Abdicando novamente, foi conduzido para a ilha de Santa Hele-
na, onde faleceu.
Zolá Pozzobon 153

ADOLF HITLER, ao lançar-se à conquista da Polônia, em 1 de


setembro de 1939, alimentava a esperança de que os Aliados Oci-
dentais não interviessem, como não o fizeram na ocupação da
Renânia, dos Sudetos e na anexação da Áustria. Porém, dois dias
depois franceses e ingleses declararam guerra à Alemanha, embo-
ra nenhuma iniciativa prática tomassem na Frente Ocidental. Em
maio de 1940, desencadeou-se a grande ofensiva germânica a oeste,
que culminou com a queda da França, o encurralamento dos ingle-
ses em Dunquerque e sua apressada fuga para a Inglaterra.
Após tão espetacular vitória, esperavam os alemães que a
Grã-Bretanha fizesse o armistício com o Reich. Achavam os na-
zistas que germânicos e ingleses pertenciam à raça superior dos
anglo-saxãos, destinados a gerir os negócios do mundo. Exigiam
somente que a Grã-Bretanha deixasse o Reich livre para conduzir
sua política no continente europeu.
Goering desejava fazer contato com os ingleses, e Rudolf Hess,
o segundo homem na hierarquia nazista, buscou concretamente tal
contato, lançando-se de pára-quedas na Escócia. Não obteve êxi-
to, devido à negativa dos ingleses. Porém, com o intuito de ganha-
rem tempo, para melhor organizarem a defesa das Ilhas, fizeram
crer aos alemães que haveria possibilidade de entendimento.
Os violentos bombardeios aéreos levados a efeito pela Luftwaffe
contra as áreas densamente povoadas e industrializadas do sul
da Inglaterra não conseguiram dobrar o ânimo do país em conti-
nuar a luta. Não obstante, alguns historiadores opinam que eles
não suportariam tais ataques por mais algumas semanas!
Hitler tinha pressa e ansiava resolver logo a questão com a Grã-
Bretanha, pois pressentia que a existência da URSS a leste consti-
tuía potencial ameaça, embora tivesse celebrado um “Pacto de não
agressão” com Stalin, antes da invasão da Polônia, em 1939.
Então, expediu a diretriz de planejamento para a operação “Leão
Marinho”, ou seja, a invasão da Inglaterra. Seria um empreendi-
mento gigantesco, a exigir numerosos meios de desembarque,
supremacia aérea sobre a área de atuação, campos minados nos
flancos, flotilhas de submarinos e enorme apoio logístico, além de
poderosos efetivos navais de combate, pois teriam de enfrentar a
famosa e eficiente Home Fleet.
Embora tivessem obtido êxito nos desembarques de tropas
contra a Noruega, a operação em vista superaria em muito os
esforços em todos os setores de planejamento e execução. A
Kriegsmarine teria de se empenhar em sua totalidade e corria o
risco de sofrer perdas proibitivas.
O próprio Führer não era entusiasta da operação. Quando avi-
154 O véu e a espada

ões ingleses destruíram alguns meios de desembarque em deslo-


camento para portos estratégicos de partida na costa européia,
convenceu-se Hitler da dificuldade do empreendimento, e passou
a postergar sucessivamente a data do “apronto final” para o início
da invasão e a pensar mais e mais na questão russa.
Além de conjurar a ameaça, um ataque de surpresa conta a
URSS, seguido de rápida vitória, asseguraria ao Reich os recursos
necessários, principalmente em cereais e petróleo, para o país pros-
seguir na luta e, enfim, dominar a Inglaterra. Assim, Hitler cancelou
todas as ordens referentes à Operação Leão Marinho.
Sua primeira instrução sobre a Operação Barba Roxa (Invasão
da URSS) foi expedida em 18 de dezembro de 1940, recomen-
dando como data ideal para início do ataque o dia 15 de maio.
Nessa época, o total de forças alemãs desdobradas na frente
oriental montava a 34 divisões, o que seria multiplicado por três no
decorrer do planejamento.
Em janeiro e fevereiro de 41, forças alemãs foram envolvidas
na aventura balcânica em que se metera o Duce – Benito Mussolini
– na empreitada de invadir a Grécia, com efetivos insuficientes e
mal preparados, numa campanha desenvolvida em terreno mon-
tanhoso e sob rigorosas condições meteorológicas (frio, neve e
lama). Para apoiar os italianos, o Führer mandou deslocar cinco
divisões do leste para o sul. A campanha dos Bálcãs – resistência
grega e revolução iugoslava – durou cinco semanas e desgastou
enormemente importantes forças blindadas alemãs, as quais tive-
ram de se recuperar para voltarem ao dispositivo anterior. Além
disso, atrasou o início da campanha no leste, marcada para maio
de 41. Conforme Churchill, é lícito presumir que tais acontecimen-
tos tenham contribuído para salvar Moscou.
Os alemães pretendiam atingir a capital da URSS – no centro –
antes do início do inverno, bem como conquistar importantes áre-
as ao norte e ao sul da frente oriental. Porém, a concentração só
foi concluída em meados de junho e a ofensiva começou a 22
desse mês. Para tal, os germânicos atacaram com 120 divisões,
das quais 17 eram blindadas e 12 motorizadas. Seis divisões ro-
menas foram incluídas no Grupamento de Exércitos do Sul (Von
Rundstedt). Na reserva geral, 26 divisões. O apoio aéreo contava
com 2.700 aeronaves.
Embora, conforme estimativas alemãs, 186 divisões russas
estivessem concentradas atrás das fronteiras soviéticas, 119 das
quais diante da frente germânica, os exércitos russos foram basi-
camente apanhados de surpresa. Muitas centenas de aviões fo-
ram destruídos no solo, ao alvorecer de 22 de junho.
Zolá Pozzobon 155

Numa conferência em 14 desse mês, Hitler traçou a linha de


conduta a ser observada pelas forças alemãs para com os solda-
dos e o povo russo. Segundo o general Keitel, do estado maior
pessoal do Führer, este defendia a tese de que aquela seria uma
batalha decisiva entre as duas ideologias – nazismo e comunismo
– e que todos os métodos, mesmo os não usuais nos termos da
legislação internacional, deviam ser empregados. Conforme de-
poimento do general Guderian, comandante de um Grupo Panzer,
encarregado, junto com outras grandes unidades, da conquista de
Moscou, enquanto o território russo permaneceu sob controle
administrativo do Exército, as populações do interior – campone-
ses e aldeões – em pleno desenvolvimento da batalha saíam ao
encontro dos germânicos e lhes ofereciam bandejas com pães,
manteiga e ovos, num gesto de acolhida aos libertadores contra o
férreo regime comunista. Em pouco tempo, conseguiram os agen-
tes das SS – Escalão de Segurança – mudar o quadro e destruir
a simpatia pelos alemães, praticando violências contra a popula-
ção civil e, assim, provocando a criação das guerrilhas russas.
Em agosto, diante da possibilidade de conseguir enorme êxito
contra o inimigo na região de Kiev e, baseado em seus argumentos
de que era absolutamente necessário dominar a Ucrânia, celeiro de
suprimentos para os alemães, mudou Hitler sua prioridade da con-
quista de Moscou, grande centro de comunicações, ferrovias e ro-
dovias soviéticas. Tal fato, certamente, atrasou as operações con-
tra a capital da URSS. Quando foi retomado o esforço principal
nessa direção, já estava presente o “General Inverno”. As vanguar-
das alemãs chegaram à periferia de Moscou, porém, o grosso da
tropa estava extenuado para realizar ataque de monta, com objetivo
de conquistar a cidade, sob condições climáticas adversas.
Foram extremamente rigorosas as nevascas que se abateram
sobre a URSS, no inverno de 41/42 e seguintes, com temperatu-
ras de -40º C, cobrindo cidades e campinas com um manto branco
que se congelava facilmente. Devido a que o plano engendrado
contava com a conquista dos objetivos principais até o início do
inverno, não foram as tropas alemãs devidamente preparadas para
lutar nessas condições e tiveram de improvisar toda a série de
abrigos e vestuários. Famílias alemãs fizeram coleta de roupas
grossas e as enviaram para a frente oriental, a fim de minorar o
sofrimento dos combatentes. Milhares foram atingidos por gan-
grena e hipotermia.
Embora os alemães tenham alcançado retumbantes vitórias na
frente oriental, cercando e aprisionando milhares de russos, como
na Batalha de Kiev, encaminhavam os sovietes sempre novos
156 O véu e a espada

efetivos à luta e passaram a receber significativa ajuda dos Alia-


dos ocidentais, em material de guerra e suprimentos de toda a
classe, através do porto de Murmansk, no Círculo Polar Ártico.
Não tendo conseguido apoderar-se de São Petersburgo (na
época, Leningrado), no norte; Moscou, no centro e, sofrendo a
derrota de seu VI Exército na área de Volgogrado (na época,
Stalingrado), em que caiu prisioneiro até seu comandante, o ge-
neral von Paulus), iniciou-se a retirada dos exércitos alemães para
oeste, sob as mais severas condições. Em maio de 1945, as
tropas soviéticas, sob o comando do general Zukov, acercaram-
se de Berlim, enquanto os Aliados Ocidentais faziam contato com
os russos mais a oeste. Vendo chegar seu fim e o de sua causa,
suicidou-se Hitler no bunker do Reichstag, a 30 de abril de 1945.

Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler


Duas trajetórias históricas

Após ter apresentado, em largos traços, as fulgurantes e fuga-


zes trajetórias percorridas por tais personagens, permitam-me
destacar alguns aspectos comuns que distinguiram suas atuações
políticas e militares:

ASPECTOS NAPOLEÃO HITLER

Personalidade Centralizador Ditador

Governo Império Grande Reich

Segurança do Estado Polícia do Estado Gestapo (Polícia


(Fouché) - Polícia dos Secreta do Esta-
Ministérios - Polícia do) - SS (Escalão
do Imperador (espiona- de Segurança)
va as demais)
Política Expansionista Lebensraum

Gênio militar Incontestável Inegáveis traços

Em relação a Apoderou-se da cida- Chegou aos


Moscou de e abandonou-a arredores
Zolá Pozzobon 157

Principais Inglaterra, Rússia Idem


Inimigos e o “General Inverno”

Área principal Europa Continental, Idem


de atuação Inglaterra, África do
Norte e Mediterrâneo

Período princi- 1802 - 1815 1933 - 1945


pal de atuação (13 anos) (12 anos)

Ocaso Prisioneiro na ilha de Suicidou-se em


Santa Helena, onde “foi Berlim, no bun-
suicidado” (envenena- ker do Reischs-
do). tag.
Zolá Pozzobon 159

Erros e equívocos de Hitler

É muito fácil apontar erros ou equívocos de outrem, ainda mais


de pessoas de projeção, cujos atos se destacam na multidão dos
acontecimentos e sobre estes exercem influência especial. Não
desejo fazer crítica pessoal à figura de Adolf Hitler, porém, arris-
co-me a destacar atos, atitudes, decisões e pronunciamentos
que resultaram em erros político-militares.
Tais falhas nem sempre foram cometidas unicamente por ele,
mas representam o produto de interações, discussões, trocas de
idéias, decisões e emissão de ordens.
O princípio da existência de uma raça pura, descendente dos
árias, tribos nômades caucasianas, de fala indo-européia, apre-
sentava caráter mítico, uma vez que não há nem nunca houve
raça ariana, mas tão somente línguas arianas, à qual pertencem,
na Europa, muitos idiomas, entre os quais as línguas celtas,
germânicas, grega, itálicas etc..
Alguns autores europeus do século XIX, como o conde
Gobineau, Vacher de la Pouge e Houston S. Chamberlain identifi-
caram erroneamente o termo ariano, ligado unicamente a língua,
com uma suposta raça ariana, que seria a nórdica (de louros,
altos, olhos azuis e cabeças alongadas). Tal identificação tornou-
se a base das teorias de superioridade racial do branco nórdico.
O filósofo alemão Friederich Nietszche (1844-1900) dizia que a
sorte da humanidade sempre dependeu de seus tipos supremos.
Tudo deveria levar à criação desses super-homens e não para
sua aniquilação em favor do rebanho. O super-homem podia so-
breviver pela seleção humana, pela eugenia e por um elevada
educação. O que é bom? – perguntava-se Nietszche. Tudo o que
aumenta o sentimento e a vontade de poder. O que é mau? Tudo
o que vem da fraqueza!
160 O véu e a espada

Tais categorias de pensamentos iriam influenciar fortemente


a tendência nazista em cultuar a raça e a predominância do
mais forte.
Alfred Rosenberg (1893-1946), nascido em Tallinn, na Estônia,
após a revolução comunista de 1917, imigrou para Munique, onde
se juntou a Hitler, Röhm e Hess no que viria a ser o partido nazista.
De 1922 em diante, tornou-se editor do Völkischer Beobachter,
órgão oficial da organização. Até 1941, encarregou-se da educa-
ção dos membros do partido e depois tornou-se ministro dos ter-
ritórios orientais ocupados. Foi responsabilizado pela morte de
milhões de judeus, pelo que foi submetido a julgamento pelo Tribu-
nal de Nürenberg, sendo condenado à morte. Sua doutrina foi
inspirada em Houston S. Chamberlain, que citamos acima, e nos
apócrifos Protocolos dos Sábios do Sião, e pregava a superiori-
dade da raça alemã “ariana”, sobre as raças inimigas: “tártaros
russos e semitas.” Entre os últimos, incluía ele judeus, latinos e
católicos. Seus escritos e discursos foram publicados com o título
de Blut und Ehre - Sangue e honra. Rosenberg é considerado o
mais importante dos teóricos racistas do nazismo.
Sendo a alma de Hitler terreno fértil para o desabrochar de
todas essas categorias de pensamentos, nutrindo profundo ódio a
tudo aquilo que levara a Alemanha ao desastre de 1918 e
enfeixando nas mãos todos os poderes do Estado, ele estabeleceu
um forte serviço de segurança, perseguiu os comunistas e judeus
e deu carta branca ao estabelecimento dos campos de concen-
tração, em que milhares de inimigos, reais ou virtuais do nazismo,
foram confinados e vieram a perecer.
Nos países ocupados do Leste, também estendeu sua políti-
ca preconceituosa e racista. Na URRS, cujas populações rurais
receberam as tropas da Wehrmacht como libertadoras do regi-
me de Stalin, as SS (Forças de Segurança) submeteram os cam-
poneses a todo o tipo de perseguições e violências, desfazendo
em pouco tempo a boa impressão que os alemães de início lhes
proporcionaram.
Os gastos com gigantescas instalações a serviço da repres-
são e a imobilização de importantes efetivos para guarnecer tal
aparato representaram um enorme desvio de energia e recursos
que o Reich poderia ter canalizado mais inteligentemente para o
esforço de guerra. O ódio despertado foi proporcional ao que se
nutria contra seus inimigos e isso atiçou a oposição manifesta ou
surda contra os nazistas e tudo o que era alemão.
Outro aspecto a considerar sobre Hitler e a máquina de guerra
Zolá Pozzobon 161

nazista é o relativo às relações de comando. Além da Wehrmacht,


da Luftwaffe e da Kriegsmarine, havia as Waffen SS, sendo es-
tas forças de segurança armadas, as quais foram crescendo até
constituírem divisões, inclusive, blindadas. As unidades de defesa
aérea pertenciam à Luftwaffe. Não havia entrosamento satisfatório
entre as forças singulares. Quando se tratou do planejamento da
Operação Leão Marinho (Seelöwe), não se entendiam os coman-
dos quanto às prioridades a estabelecerem. As discordâncias eram
dirimidas – e com perda de tempo – pelo próprio Hitler. Este, em
vez de atribuir liberdade de manobra aos altos comandos, intro-
metia-se constantemente na condução da luta, atribuindo a si
próprio o controle de importantes efetivos, como foi o caso do XV
Corpo Blindado, que Rommel desejava empregar de imediato con-
tra as tropas invasoras anglo-americanas em junho de 1944. Hitler
argumentou que a verdadeira invasão seria em frente a Calais,
não passando de uma finta as ações desenvolvidas nas praias da
Normandia. Todos sabem qual foi o resultado.
Antes disso, após o estabelecimento da cabeça de ponte pe-
las forças Panzer no rio Mosa, em maio de 1940, como que
estupefato pelo êxito alcançado, Hitler deixou-se preocupar de-
masiadamente quanto à ligação com a infantaria que vinha pro-
gredindo à retaguarda. A 17 de maio, o general Guderian recebeu
ordens de parar. Não fosse o artifício de “realizar reconhecimen-
tos em força”, teriam as forças blindadas perdido inestimável tem-
po em sua corrida para a costa do Canal da Mancha.
Outro detalhe que causou nervosismo foi a presença da 4ª
Divisão Blindada francesa, sob o comando de De Gaulle, por
volta de 19 de maio, no flanco sul alemão, à altura dos velhos
campos de batalha do Somme da I Guerra Mundial. O Führer
superestimou a ameaça, logo conjurada, mas quase atrapalhou
o ritmo das operações.
A 24 de maio, Hitler determinou que a ala esquerda das pontas
de lança blindadas que se dirigiam velozmente para a costa france-
sa estacionassem diante do canal do Aa. “Dunquerque deve ser
deixada à Luftwaffe”. Após a queda de Calais, ao tentarem as Panzer
investir contra Dunquerque, receberam renovadas e peremptórias
ordens de fazer alto. Então, de suas posições, os alemães contem-
plaram a Luftwaffe atacando a cidade e vislumbraram a grande
frota de navios, de todos os tamanhos, realizando a evacuação das
tropas britânicas para a Inglaterra. Somente na tarde do dia 26,
Hitler autorizou a retomada da progressão sobre Dunquerque. A
cidade foi conquistada, porém os ingleses tinham escapado!
Por que decidiu o Führer deixar a questão de Dunquerque para
162 O véu e a espada

a Luftwaffe? Consta que Goering lhe havia garantido liquidar com


o exército expedicionário britânico mediante bombardeio aéreo. A
retirada foi feita, entre outras, em centenas de embarcações de
pequeno porte, as quais puderam furtar-se aos efeitos das bom-
bas. O problema maior foi que, para satisfazer a vaidade de Goering,
o ditador alemão deixou de aprisionar mais de 300 mil homens, que
representavam tudo o que a Grã-Bretanha dispunha de imediato
para defender as ilhas e continuar lutando. Pode-se dizer que ali a
sorte da guerra sofreu forte inflexão a favor dos britânicos.
Por volta de agosto de 1941, quando a Wehrmacht já havia
conquistado importantes objetivos na URSS, o alto comando
germânico tratava de tomar uma decisão importante, ou seja,
quanto ao esforço principal da ofensiva. A maioria dos generais
optava pelo setor central, como fora decidido de início, por onde a
progressão levaria a Moscou, centro primordial das comunica-
ções, ferrovias e rodovias soviéticas, bem como importante par-
que industrial. Sua conquista teria enorme efeito psicológico, não
somente sobre o povo russo, mas para todo o mundo.
Os soldados alemães aguardavam com entusiasmo a ocasião
de desfilar na Praça Vermelha, à vista do Kremlin e da catedral de
São Basílio. Além disso, era o objetivo mais direto, suscetível de
ser alcançado antes da chegada do inverno. Entretanto, em reu-
nião dos comandantes com o Führer, argumentou este que “seus
generais nada conheciam sobre os aspectos econômicos da guer-
ra”; que o Reich necessitava das matérias-primas e da produção
agrícola da Ucrânia, pelo que se impunha, de imediato, mudar o
esforço, tendo em vista a conquista de Kiev e neutralizar a Criméia,
aquele “porta-aviões russo, preparado para atacar a indústria
petrolífera da Rumênia”. Tratavam-se de operações de vulto, que
demandavam tempo e enormes recursos.
Quando, finalmente, foi dirigido o esforço principal na direção de
Moscou, já se abatiam sobre a frente oriental os primeiros sinais de
uma estação que seria particularmente rigorosa, como o foi o inver-
no de 41/42. Patrulhas alemãs atingiram alguns subúrbios de Mos-
cou, porém, o grosso da tropa não estava em condições de se
apossar da grande capital. Os combatentes permaneceram ao re-
lento ou em bivaques, estabeleceram-se defensivamente e aguar-
daram novas ordens. Os alemães jamais entrariam em Moscou!
A 30 de abril de 1942, Hitler e Mussolini reuniram-se em
Berchtesgaden (Baviera) e concordaram em incrementar as ope-
rações ofensivas no norte da África. Para tanto, deveria a ilha de
Malta ser de imediato conquistada. A seguir, teria então lugar a
Operação Hércules, contra o Egito.
Zolá Pozzobon 163

A 21 de junho, a fortaleza de Tobruk, na Cirenaica, foi conquis-


tada pelos italo-germânicos, tendo sido capturados 33 mil prisio-
neiros. No dia seguinte, os dois chefes de Estado postergaram os
planejamentos sobre Malta e decidiram acelerar as operações
sobre o Egito. Rommel conseguiu atingir as alturas de El Alamein,
a cerca de 160 km do delta do Nilo, mas foi detido. Churchill con-
venceu-se de que era necessário concentrar forças sensivelmen-
te superiores às do Eixo na região, a fim de empurrá-las definitiva-
mente para oeste e evitar ameaças contra o Oriente Médio. Agiu
nesse sentido e encaminhou importantes efetivos e equipamentos
para o Cairo. O comandante do Panzer Armee Afrika detectou a
incrementação das forças britânicas e solicitou reforços ao Führer.
Este mostrou-se reticente.
É de se admitir que Hitler tenha falhado redondamente em sua
avaliação estratégica da frente africana. O êxito retumbante, po-
rém momentâneo de Rommel em Tobruk, e seu avanço para les-
te, deu motivo a que o Führer considerasse desnecessária a con-
quista de Malta. Ora, essa ilha, situada entre a Sicília e o golfo de
Sirte, na Tunísia, era uma importante base para o controle aeronaval
do Mediterrâneo. Sua posse, por parte do Eixo, daria enorme
liberdade de navegação a seus navios para o apoio logístico à
Tripolitânea. Haveria, então, a possibilidade de as forças do Panzer
Armee Afrika atingir o Cairo, negar aos britânicos a utilização dos
portos do Egito e ameaçar o Oriente Médio.
O Cáucaso, com suas enormes jazidas de petróleo, não se
acha muito distante do Canal de Suez. A URSS teria de desviar
enormes efetivos e recursos para as fronteiras da Armênia e
Azerbajão, a fim de conjurar a ameaça contra seu “baixo-ventre”.
Com isso, as forças germânicas, desdobradas na frente sul-ori-
ental, poderiam cercar as forças de socorro ao Cáucaso. E a
história seria outra! O que aconteceu realmente foi que as forças
do Eixo tiveram de abandonar a Tripolitânea e se retraírem para a
Tunísia, onde capitularam, imprensadas entre forças britânicas de
leste e norte-americanas desembarcadas na Argélia, encerran-
do-se a guerra no norte da África.
O primeiro avião militar a jato foi o alemão Heinkel (1939), que
não se tornou plenamente operacional. O britânico Gloster Meteor
e o germânico Messerschmidt (ME 262) operavam em 1944. Os
alemães fizeram grandes esforços por melhorar tal jato, tendo em
vista interceptar as formações de bombardeiros aliados que ata-
cavam intensamente o país. Seu desempenho, particularmente
devido à velocidade desenvolvida, chegou a preocupar os coman-
dantes britânicos e norte-americanos.
164 O véu e a espada

Hitler foi convidado a assistir a uma demonstração do ME 262,


em que oficiais da Luftwaffe e funcionários da Messerschmidt es-
meraram-se em salientar as possibilidades de interceptação do
novo aparelho. O Führer, depois de tudo ver e ouvir, disse que o
avião seria melhor empregado em missões de bombardeio e não
liberou sua construção em massa! Os assistentes ficaram a olhar
uns para os outros. Assim, mesmo que o desempenho do ME 262
tenha sido bom, a quantidade produzida não foi de molde a preju-
dicar sensivelmente os ataques da aviação aliada contra a Alema-
nha, tendo em vista a quantidade de aparelhos de que dispunha e
as tripulações que ela estava disposta a sacrificar.
Hitler não somente era o Führer de todos os alemães como se
tornara o Pontifex maximus para todos os assuntos do Reich!
Zolá Pozzobon 165

A cobra está fumando!


Por causa da colabora-
ção do Brasil com o esforço
de guerra ianque, entre ou-
tras facilidades permitindo a
utilização pelos EUA de nos-
sas bases do Nordeste
para o controle do Atlântico
e suas ligações com a
África e a Europa, os navios
mercantes brasileiros pas-
saram a ser torpedeados
por submarinos alemães.
Embora não fosse inten- Brasileiro guarda prisioneiros alemães
ção do governo Getúlio Var-
gas envolver o país diretamente no conflito, diante da mobilização
da opinião pública, geralmente favorável à causa dos Aliados, achou
por bem o presidente reconhecer o estado de beligerância com
os países do Eixo (em 22 de agosto de 1942).
Em agosto de 1943 foi criada a 1ª Divisão de Infantaria Expedi-
cionária (1ª DIE) e alguns serviços, num total de 25.334 compo-
nentes. Coube ao general João Batista Mascarenhas de Moraes
o comando do corpo expedicionário.
A instrução do contingente, selecionado em diversas regiões
do Brasil, apresentou várias dificuldades, devido, entre outros fa-
tores, à doutrina militar por nós adotada, segundo a orientação
da missão militar francesa, que aqui chegou em 1921, e à neces-
sidade de adaptação aos métodos norte-americanos, o que re-
presentava adotar nova doutrina rapidamente. Apesar dos esfor-
ços empreendidos, a preparação da Força Expedicionária Brasi-
leira (FEB) ficou aquém do desejável, havendo necessidade de se
166 O véu e a espada

complementar na Europa a formação para o combate.


Em 1943, Mascarenhas de Moraes visitou o norte da África e a
Itália, nosso futuro teatro de operações. Ele deixou, junto ao QG
do V Exército americano, um grupo de observadores para colhe-
rem dados que facilitassem nossa futura entrada em ação na Eu-
ropa. A 31 de março e a 24 de maio de 1943, a FEB desfilou pelas
ruas do Rio de Janeiro, sob aclamações do povo.
Seguindo um plano de despistamento, partiu a 2 de julho o 1º
escalão da FEB para Nápoles, onde aportou a 16 do mesmo mês.
Os 2o e 3º escalões partiram simultaneamente do Rio a 22 de
setembro para o mesmo destino, onde chegaram a 6 de outubro.
O depósito de pessoal embarcou ainda em 1944.
Uma vez na Itália, o 1º escalão foi logo incorporado ao V Exér-
cito e seguiu para Littória, onde se armou e equipou. Em Vada,
sujeitou-se a intenso treinamento. Havendo escassez de efetivos
nas tropas americanas, foram os brasileiros designados para um
setor de combate, embora relativamente calmo, para submete-
rem-se ao “batismo de fogo”.
Esse “grupamento tático”, sob comando do general Zenóbio
da Costa, ficou adido ao IV Corpo de Exército (gal. Grittenberger)
e o QG da 1ª DIE subordinado diretamente ao V Exército (gal.
Mark Clarck), até que a divisão fosse empregada como um todo,
sob o comando de Mascarenhas de Moraes.
Em meados de setembro de 1944, o Destacamento FEB subs-
tituiu tropas americanas na área de Vecchiano. No dia 16, progre-
diu para o norte e, à noite, tomou posse da linha Monte Comunale
– Il Monte, ocupando Massarosa e Bozzano. A 18, atacou e con-
quistou Camaiore. Dali, lançou-se, como um todo, à conquista das
elevações que dominam a Rodovia La Rena – Fattoria. No fim da
jornada, a transversal estava em nossas mãos, com exceção do
flanco oriental, dominando a 19. Assim, o Destacamento alcançou
os postos avançados da “Linha Gótica”.
Em 26 setembro, fortemente apoiadas por canhões brasileiros
e carros de combate ianques, nossas patrulhas alcançaram o Monte
Prano, abandonado pelos alemães. A FEB teve cinco mortos e 17
feridos, depois de avançar 18 Km e capturar 31 prisioneiros.
No dia 28 de setembro, o Destacamento progrediu na direção
de Castelnuovo di Garfagnana, com esforço principal no vale do rio
Serchio. A 6 de outubro, foram ocupadas as localidades de Fornaci
e Coreglia Antelminelli, onde se encontravam uma fábrica de muni-
ções e outra de acessórios para aeronaves. Eurico Dutra, ministro
da Guerra do Brasil, visitou o teatro de operações da Itália e co-
Zolá Pozzobon 167

mandou interinamente o IV Corpo de Exército, composto por um


grupamento tático ianque e pelo destacamento FEB. As tropas bra-
sileiras adotaram a expressão “A cobra está fumando”.
A 30 de outubro, com uma série de conquistas, completou-se o
primeiro tempo da Operação Castelnuovo de Garfagnana. O inimi-
go lançou contra-ataques e retomou algumas posições. Então, apro-
ximou-se da frente o grosso da DIE e o general Zenóbio ficou en-
carregado do preparo para o combate dos 1º e 2º regimentos.
Em 30 de outubro de 44, o general Mark Clarck, comandante
do V Exército norte-americano, reuniu seus generais de corpos
e divisões no Passo de Futa e lhes expôs a situação geral na
frente italiana. A 1ª DIE, incorporada ao IV Corpo de Exército,
substituiu a 1ª Divisão Blindada ianque. Ao IV Corpo, couberam
operações preliminares, a fim de, entre os rios Reno e Panaro,
melhorar as condições de partida para a ofensiva geral, no eixo
Pistóia-Bolonha, importante para os alemães como barreira ao
acesso à planície do Pó.
Após uma série de marchas e contramarchas, pequenas vitóri-
as e derrotas, a 10ª Divisão de Montanha, recentemente chegada
à Itália, atacou, no dia 21 de fevereiro, o Monte Belvedere, dele
apoderando-se, enquanto a 1ª DIE, depois de duas tentativas frus-
tradas, alcançou sua mais árdua e gloriosa vitória, conquistando o
Monte Castelo.
Graças à tomada de La Serra pelos brasileiros, os americanos
conquistaram o Monte Della Torraccia, seu segundo objetivo. A 5
de março, apossamo-nos dos montes Della Castellana e de
Castelnuovo, abrindo definitivamente a estrada Porreta Terme-
Marano ao tráfego aliado.
No dia 16 de abril, as tropas brasileiras apoderam-se de Vargaro
e Tole, atingindo o Vale do Pó. Após a reunião de Castelluccio,
com o general Grittenberger (IV Corpo), ficou assentada a investida
contra Montese, que foi conquistada a 21.
A partir daí, o IV Corpo cerrou sobre o Pó, a fim de evitar a
evasão das forças alemãs para o norte. A 28 de abril, os brasilei-
ros, apertando o cerco em torno das forças inimigas, que busca-
vam atravessar o Pó pela estrada Fornovo-Collecchio, consegui-
ram fazê-las se retraírem para Fornovo, intimando-as a se rende-
rem. Destacou-se nessa ação o Esquadrão de Reconhecimento
Mecanizado (Cavalaria), comandado pelo então capitão Plínio
Pitaluga, hoje general reformado de nosso Exército. Foram aprisio-
nados 14.799 soldados inimigos pertencentes à 148ª DI alemã
(general Pico) e remanescentes de outras tropas inimigas.
Após a rendição da 148ª Divisão de Infantaria alemã, começa-
168 O véu e a espada

ram a desmoronar os dispositivos de defesa do inimigo na Itália. A


1ª Divisão ocupou as regiões de Piacenza e Alessandria, enquanto
outras tropas americanas tomaram Novara e prosseguiram sobre
Turim, onde o 75º Corpo de Exército alemão solicitou-lhe condi-
ções de rendição, através do general Joseph Pensel.
A 2 de maio, na última atuação da campanha na Itália, foi
estabelecida a ligação com a 27ª DI Alpina, em Susa.. Poucos
dias antes chegaram emissários do general Vietinghoff levando os
termos da rendição, que assinaram no Palácio Real de Caserta. A
2 de maio foi anunciada a capitulação incondicional das tropas do
Eixo na área do Mediterrâneo pelo general Von Senger und Etterlin,
o qual assinou em Florença, com o general Mark Clark, os últimos
instrumentos da rendição..
Após a vitória final, a 11 de maio de 1945, celebrou-se missa
solene na Catedral de Alessandria, com sufrágio das almas dos
componentes da Força Expedicionária tombados na Itália. O re-
torno da FEB foi realizado em escalões, por via marítima, entre 6
de junho e 19 de setembro. No primeiro dia da volta, o ministro da
Guerra subordinou as unidades da FEB ao comando da lª RM, o
que significou a dissolução do contingente expedicionário.
As cinzas dos corpos dos heróis mortos no conflito foram
transladadas de Pistóia para o Brasil em 5 de outubro de 1960 e
hoje repousam no Monumento ao Expedicionário, no Aterro do
Flamengo, Rio de Janeiro.
A Força Aérea Brasileira lutou na Itália através do 1o Grupo de
Caças, que realizou 445 missões de combate, com 5465 horas de
vôo (2550 surtidas individuais). Destruiu ou danificou 1990 viaturas
automóveis, 1085 vagões ferroviários, 105 locomotivas, 76 pon-
tes, 100 posições de artilharia, 72 embarcações, 46 depósitos de
combustíveis e munições, 98 viaturas hipomóveis, 11 aviões no
solo e numerosos outros objetivos.
Particularmente nos últimos meses, os brasileiros superaram
em muito as formações aliadas. Durante de abril de 1945, nosso
Grupo de Caças tinha a seu crédito a destruição de 85% dos
depósitos de munição, 36% dos de combustíveis, 28% das pon-
tes e 15% das viaturas, do total realizado pelo XXII Comando
Aerotático Aliado, de cujo efetivo representava apenas 5%.
O 1º Grupo de Caças atuou na Itália até 22 de abril. Ao retornar,
foi sediado na Base Aérea de Santa Cruz, Rio de Janeiro.
O Brasil encerrou com chave de ouro sua participação na II
Guerra Mundial.
Zolá Pozzobon 169

A maior operação
anfíbia da Historia
Depois de haver desistido de invadir a Grã-Bretanha, não ten-
do pois conseguido eliminar em 1940 seu adversário de oeste,
Hitler julgou necessário livrar-se da ameaça que pairava a leste - a
URSS. Suas diretrizes de planejamento ao alto comando alemão
previam uma campanha vigorosa e rápida, tendo em vista atingir
Moscou e outros objetivos paralelos ao norte e ao sul, antes de
começar o inverno de 1941.O Führer tinha pressa. Estava com 56
anos de idade e queria acabar com a guerra antes de se tornar
velho. Os grandes recursos agrícolas e energéticos de que dispu-
nham os russos, uma vez conquistados, haveriam de sustentar as
necessidades do Reich para, enfim, submeter a Inglaterra!
Em 1941, a Alemanha concentrou sua aviação na frente ori-
ental, para apoiar a Operação Barba Roxa, ou seja, a ofensiva
contra a URSS, que teve início no dia 22 de junho. Tal fato ensejou
à força aérea inglesa os ataques ao continente. Com a ajuda da
aviação norte-americana, foram desencadeados contínuas in-
cursões aéreas contra os grandes centros da Alemanha, redu-
zindo-os a montes de ruínas. Berlim viu caírem as primeiras bom-
bas explosivas e incendiárias no outono de 1943. No início do
ano seguinte, incrementara-se impressionantemente o poderio
bélico dos Aliados.
O engenheiro Werner von Braun foi nomeado diretor de um pro-
grama bélico de foguetes, sediado em Peenemünde, às margens
do Báltico. Dali foram lançados centenas dos artefatos V-1 e V-2
(bombas voadoras) contra o sul da Inglaterra, causando significati-
vos danos, sem, contudo, impedir os preparativos para a invasão.
Einsenhower observou em seu livro Cruzada na Europa que, se tais
armas tivessem sido empregadas antes, poderiam ter mudado o
170 O véu e a espada

curso da guerra.
Diante do avanço alemão no interior da URSS, Stalin pressio-
nava os Aliados para que abrissem logo uma segunda frente na
Europa ocidental. Em novembro de 1943, Roosevelt, Churchill e
Stalin conferenciaram em Teerã e combinaram o lançamento da
ofensiva geral contra Hitler.
A organização da defesa da costa ocidental do continente, co-
nhecida como Muralha do Atlântico (Westwall), fora supervisiona-
da por Rundstdet e Rommel, que tudo fizeram para transformá-la
em um obstáculo de respeito às tropas de desembarque. Entre-
tanto, os recursos de que o Reich precisava estavam dispersos
na frente oriental, no centro da Europa e no Mediterrâneo, e a
extensão a defender no litoral a oeste era enorme. Assim, para
enfrentar o inimigo que detinha a iniciativa, podendo escolher os
pontos de desembarque (fator surpresa), necessitavam os defen-
sores de meios muito mais poderosos, como reservas de blinda-
dos em zonas de reuniões, capazes de se deslocar rapidamente
para contra-ataques, bem como apoio aéreo que desorganizasse
e destruísse as barcaças em movimento para as praias e garan-
tisse a realização dos referidos contra-ataques. Mas a Luftwaffe
estava esgotada.
O marechal Rundstedt, dispondo de 60 divisões, comandava
toda a Muralha do Atlântico, desde a Holanda até a baía de Biscaia,
e a costa francesa do Mediterrâneo. Rommel, seu subordinado,
defendia a costa, da Holanda ao rio Loire. Seu XV Exército, com
19 divisões, estava encarregada da defesa entre Calais e Boulogne
e seu VII Exército contava com 10 divisões na Normandia. Quanto
aos blindados, dispunham os alemães de 10 divisões Panzer que,
estranhamente, se desdobraram em larga frente, cometendo os
mesmos erros dos franceses em 1940 e dispersando a mais po-
derosa arma de contra-ataque!
Havia duas linhas estratégicas para a defesa da Muralha do
Atlântico:1a: feito o desembarque, aguardar que se definissem as
penetrações e os esforços do inimigo, para então jogá-lo de volta
ao mar, mediante contra-ataques vigorosos. 2a: repelir imediata-
mente os desembarques, onde quer que se realizassem, utilizan-
do reservas dispostas próximo às praias. Rundstedt era partidá-
rio da primeira linha de ação, bem como o próprio Führer. Rommel
inclinava-se pela segunda, argumentando que o deslocamento de
reservas maiores e desdobradas mais à retaguarda seria dificul-
tado pela superioridade aérea dos Aliados.
Por outro lado, Rundstedt acreditava o tempo todo que o prin-
cipal assalto seria lançado no estreito de Dover, rota marítima
Zolá Pozzobon 171

mais curta. Rommel concordara com tal raciocínio por certo tem-
po. Porém, consta que Hitler e seu Estado Maior receberam infor-
mações de que a Normandia fora escolhida para a principal frente
de batalha. As dúvidas persistiram, pois era mais lógico o assalto
nas proximidades de Calais.
Quando ocorreu a invasão, a 6 de junho de 1944, nas praias da
Normandia, o Führer obstinou-se na idéia de que o principal esfor-
ço do inimigo não seria lá, e sim mais a nordeste (Calais).
Quando as reservas blindadas, reunidas a certa profundidade,
iniciaram seus deslocamentos para realizarem contra-ataques,
foram furiosamente hostilizadas pela força aérea aliada, pois cons-
tituíam alvos de vulto e demandavam certo tempo até entrarem
em contato com o inimigo. Rommel solicitou a liberação das tro-
pas Panzer que estavam empenhadas diretamente ao Führer, e
este não o atendeu, com o argumento de que necessitava delas
para enfrentar a “verdadeira invasão”. Quando tais tropas foram
liberadas, já era tarde demais para reverter o quadro.
Pára-quedistas da 82a e 101a Divisão Aeroterrestre norte-ame-
ricanas foram lançadas à retaguarda dos defensores, realizando
a destruição de vias de comunicação e postos de comando inimi-
gos. Apesar de os alemães terem lutado com obstinação, em 11
de junho haviam os Aliados estabelecido uma frente contínua e
seus caças começaram a operar de pistas avançadas no conti-
nente. No dia 17, numa conferência entre Hitler, Rudstedt e Rommel,
os dois militares fizeram ver a ele ser uma loucura sangrar o Exér-
cito alemão até à morte na Normandia, e recomendaram um re-
traimento, a fim de travar uma batalha defensiva mais móvel, à
retaguarda. Suas recomendações foram repelidas. Exatamente
um mês depois caças de mergulho britânicos feriram gravemente
Rommel. Rundstedt foi substtuído por Von Kluge. No dia 20, não
teve êxito o atentado contra Hitler, em Rastenburg, na frente ori-
ental, perpetrado pelo coronel conde von Staufenberg.
A libertação dos países ocupados, a penetração em território
alemão e a chegada dos russos em Berlim eram uma questão de
tempo. No dia 6 de maio de 1945 as hostilidades na Europa che-
gavam ao fim.
Zolá Pozzobon 173

Os pára-quedistas

O pára-quedas permite à pessoa que dele se utiliza a realiza-


ção de uma descida relativamente lenta até atingir o solo. É muito
174 O véu e a espada

comum, nos dias de hoje, verem-se lançamentos de pára-


quedistas, quer em clubes de aficionados, quer através de de-
monstrações militares.
Tal engenho remonta a Leonardo da Vinci, o primeiro a concebê-
lo. Sua invenção é atribuída ao mecânico francês Louis Sébastian
Lenormand. A primeira experiência com pára-quedas consta ter
sido realizada por Jean-Pièrre-François Blanchard, em 1785, lan-
çando um cão a partir de um aeróstato. Seguiram-se várias expe-
rimentações, tendo o capitão Albert Berry, pela primeira vez, rea-
lizado um salto de pára-quedas, de bordo de uma aeronave, em
1912. Foi quase ao término da I Guerra Mundial que aviadores de
ambos os lados começaram a usá-lo, quando seus aparelhos eram
atingidos pelo adversário.
Ao ter início a II Guerra Mundial, em 1939, já havia tropas pára-
quedistas constituídas para cumprir missões militares, de acordo
com suas características próprias.
As tropas pára-quedistas realizam operações aeroterrestres,
deslocando-se por via aérea e lançando-se sobre áreas previa-
mente selecionadas e a certa profundidade, à retaguarda do ini-
migo. Os assaltantes devem manter seus objetivos até ser reali-
zada a junção com as unidades terrestres amigas. Essas tropas
exigem seleção rigorosa, treinamento específico e desenvolvimento
de qualidades que as tornem capazes de suportar condições ad-
versas, desde o salto até o cumprimento de suas missões.
Tais operações também são levadas a efeito por tropas
aerotransportadas, em aviões ou planadores, as quais desem-
barcam na área do objetivo, o que exige ligeiro treinamento para
cumprirem a missão. Também neste caso é essencial que seja
alcançada a junção antes referida.
Helicópteros podem ser empregados para assaltos à retaguarda
do inimigo, executando operações aeromóveis ou de envolvimento
vertical. Neste caso, prevêm-se combates de curta duração, após
o que, normalmente, são os assaltantes retirados por via aérea
para as linhas amigas ou mantêm suas posições até a junção.
A seguir, alguns exemplos de operações executadas por pára-
quedistas durante a II Guerra Mundial.

Invasão da Noruega
As operações na Noruega caracterizaram-se por uma verda-
deira corrida, entre ingleses e alemães, pelo controle da
Escandinávia: os primeiros, com o objetivo de privar o III Reich
dos suprimentos de minério de ferro da Suécia, necessários à sua
máquina de guerra. Os alemães, para impedir a concretização de
Zolá Pozzobon 175

tal intento e garantir segurança no flanco norte da Europa.


As informações que alertaram os nazistas foram fornecidas
por Vidkun Quisling, o líder fascista norueguês.
A luta envolveu desembarques anfíbios, diversos encontros
navais, com graves perdas de ambos os lados, pesada atuação
aérea, principalmente da Luftwaffe, e emprego de tropas
aeroterrestres.
Os alemães anteciparam-se na corrida. O almirante Lutjens
organizou sua esquadra em cinco flotilhas, com tropas de assalto,
destinadas a ocuparem os portos de Narvik, Trondheim, Bergen,
Kristiansand e Oslo.
A conquista do porto de Stavanger e do aeroporto próximo de
Sola, o mais importante da Noruega, ficaria a cargo de tropas
aeroterrestres (pára-quedistas e aerotransportadas). O grosso
do Exército, sob o comando de von Falkenhorst, compunha-se de
50 mil homens. O ataque inicial seria conduzido só por 9 mil com-
batentes, providos unicamente de armas portáteis.
A 8 de abril de 1940, os Aliados puseram em marcha a Opera-
ção Wilfred, cujo objetivo principal era a conquista de Narvik (norte
da Noruega). Sabedor de que a frota alemã navegava, do sul para
o norte, ao longo do litoral daquele país, o almirante inglês Forbes
ordenou a seus navios que saíssem ao encalço da frota adversária.
Depois de pesados combates navais em Narvik e Trondheim,
conseguiram os alemães atingir aqueles dois portos.
A frota alemã comandada pelo almirante Kummetz estava en-
carregada de atacar e conquistar Oslo, a capital. Porém, a vigi-
lância norueguesa detectou, na madrugada de 9 de abril, a pre-
sença dos barcos germânicos, que foram alvo dos canhões da
fortalezas de Oscarsborg e de Kopas: o cruzador Blücher, capitânia
da frota, explodiu e afundou, obrigando o almirante Kummetz e o
general Engelbrecht a nadarem para a costa, onde foram aprisio-
nados. O ataque havia fracassado.
Apesar dessa vitória, o rei Haakon VII e seus ministros deixa-
ram Oslo, buscando maior segurança em Hamar, cerca de 200
Km ao norte da capital.
Tropas de desembarque inglesas que, a bordo dos cruzadores
Glasgow e Devonshire, deveriam partir naquela manhã para ocu-
parem o porto de Stavanger e a base aérea de Sola, receberem
ordens de desembarcar desses navios. Os dois cruzadores deve-
riam incorporar-se à frota do almirante Forbes, em perseguição
aos navios alemães.
Essa medida apressada teve funestas conseqüências, pois
possibilitou aos pára-quedistas alemães conquistar o vital aero-
176 O véu e a espada

porto sem encontrarem maior resistência.


Ao ter notícia do insucesso em Oslo, o alto comando germânico
enviou rapidamente uma formação de transportes Junker carre-
gados de tropas ao aeródromo de Fornebu, próximo à capital. Ao
meio-dia de 9 de abril, cinco companhias de pára-quedistas e
tropas aerotransportadas conseguiram apossar-se de Fornebu.
Aproveitando a confusão reinante – para a qual contribuiu sobre-
maneira a fuga do rei e de seu séquito – a reduzida força assaltan-
te, precedida por uma improvisada banda de música, entrou mar-
chando tranqüilamente em Oslo e se apossou de todos os pontos
estratégicos sem disparar um só tiro!
Em Narvik, os Aliados tentariam jogar sua última cartada para
manter uma cabeça de ponte em território norueguês. Após o con-
fronto naval travado diante daquele porto, seguiram-se três dias de
calma, que o general alemão Dietl aproveitou para consolidar as
defesas. Outrossim, enviou ele uma coluna de combatentes para
ocuparem o aeródromo de Bardufoss, o único campo de aterrissa-
gem em toda a região. Tendo chegado novos barcos ingleses, tra-
vou-se no fiorde de Narvik sério combate naval, em que os mari-
nheiros alemães, apesar de lutarem bravamente, foram derrota-
dos. Os que conseguiram sobreviver integraram-se aos combaten-
tes de Dietl. A tropa de desembarque britânica ficou paralisada,
devido à demasiada cautela de seu comandante – general Mackesey.
Finalmente, foi desembarcado um batalhão irlandês, aguardando o
término do bombardeio naval para atacar. Os alemães furtaram-se
aos efeitos dos canhões, dispersando suas tropas.
Berlim ficou intensamente alarmada com o desembarque alia-
do. Hitler chegou a cogitar da evacuação aérea das tropas de
Dietl, operação irrealizável, por escassez de campos de pouso.
Foi decidido, então, reforçar Dietl pelo ar, através de 12 transpor-
tes Junker, com uma bateria de canhões de montanha. Os apare-
lhos realizaram acidentada descida na superfície de um lago gela-
do, todos eles ficando com os trens de aterrissagem destruídos.
Chegaram a Narvik os caçadores alpinos do general francês
Béthouart, o qual insistiu com Mackesy para determinar ataque
imediato, mas encontrou obstinada negativa deste chefe.
Ao sul de Narvik, um forte grupamento de forças alemãs, com
cerca de 40 mil homens, conseguiu derrotar as forças britânicas
que se interpunham em seu caminho e avançou em marcha forçada
para ajudar as tropas de Dietl. Tal fato obrigou Mackesey a dar seu
consentimento a Béthouart (reforçado por elementos da Legião
Estrangeira e uma brigada polonesa), que entrou imediatamente
em ação para capturar Narvik, antes de esta ser socorrida.
Zolá Pozzobon 177

Enquanto decorriam tais operações, a Wehrmacht iniciava, na


França, Bélgica e Holanda, sua devastadora ofensiva, que culmi-
naria com o cerco do grosso do exército franco-britânico em
Dunquerque. Os Aliados determinaram, a 24 de maio, que se pro-
cedesse à evacuação de todas as tropas que combatiam na No-
ruega. Por uma questão de prestígio, o chefe francês atacou Narvik
e ocupou a cidade destruída. Depois de mais algumas escaramu-
ças bem sucedidas, Béthouart deu ordens para deter a ofensiva.
A 7 de junho, o rei Haakon embarcou para a Inglaterra. No dia
seguinte, às 23 horas, terminou a retirada. O Corpo Expedicioná-
rio Aliado havia abandonado a Noruega.

Conclusões:
A ordem expedida pelo almirante inglês Forbes aos navios
Glasgow e Devonshire, para desembarcarem as tropas que iri-
am assaltar Stavanger e o aeroporto de Sola e se incorporarem
à frota de combate, possibilitou aos pára-quedistas alemães
apossarem-se das referidas localidades, quase sem luta.
- A decisão alemã de enviar tropas pára-quedistas e
aerotransportadas para o aeroporto de Fornebu, sem perda de
tempo, a fim de contrabalançar a derrota sofrida diante de Oslo,
reverteu completamente a situação naquela área. Ao insucesso
inicial, seguiu-se a fácil captura da capital da Noruega.
- A confusão reinante foi aproveitada pelos aeroterrestres para
desfilarem, com banda de música, como se estivessem em uma
cidade de seu país, antes de se apossarem da cidade de Oslo.
- Embora tenham perdido 12 aviões de transporte, que se
inutilizaram ao aterrissarem no lago gelado, conseguiram os
germânicos reforçar as tropas do general Dietl, sobrepujando
condições extremamente desfavoráveis.
- Foi premiada a tenacidade de Dietl em se manter comba-
tendo, mesmo em situações quase insustentáveis: os Aliados
tiveram de suspender seus ataques, devido ao desastre militar
sofrido na França.

Operação Dantzig
Às 5 horas da manhã de 10 de maio de 1940, dando início às
operações na frente ocidental, cerca de 3.000 aviões da Luftwaffe
iniciaram ataques de surpresa contra aeródromos aliados ao nor-
te da França, Bélgica e Holanda. Centenas de aparelhos foram
destruídos em terra. Assim, desde o início da campanha, estabe-
leceram os alemães incontestável supremacia aérea.
As tropas do Grupo de Exércitos “B” (general Von Bock) lança-
178 O véu e a espada

ram-se ao assalto através da fronteira. Simultaneamente, 4.500


pára-quedistas e 20 mil soldados aerotransportados desciam na
Bélgica e na Holanda, a fim de se apossarem das pontes por onde
as forças terrestres penetrariam para oeste.
É de se destacar a atuação de 78 sapadores, comandados
pelo tenente Witzig, os quais aterrissaram em planadores, junto à
cúpula principal do forte Eben Emael, ponto-chave das defesas
fronteiriças da Bélgica. Mediante ousado golpe de mão, por meio
de petardos e cargas de destruição, dominaram os fortins e apo-
deram-se das galerias superiores. Embaixo, nas entranhas do forte,
ficaram isolados 1.200 combatentes inimigos. Reforçado por con-
tingentes de pára-quedistas, Witzig conseguiu manter confinados
os belgas, até à chegada, ao meio-dia, dos blindados do VI Exér-
cito de Von Reichenau que, assim, fizeram junção com as tropas
vindas do ar. Estava aberto o caminho para Bruxelas.
Em Rotterdam, os pára-quedistas do general Student conse-
guiram apropriar-se do aeródromo e das pontes vitais sobre o Rio
Mass. Entretanto, o ataque das tropas do general Sponeck con-
tra Haia foi rechaçado.
Cerca de 500 pára-quedistas saltaram na Bélgica, junto à mar-
gem do canal Alberto – profundo curso de água que os Aliados
desejavam utilizar como barreira anticarro – e se apoderaram sem
luta das três pontes principais.
O ataque das forças aeroterrestres, em cujo planejamento o
próprio Hitler tomou parte, alcançou êxito absoluto. Em meio ao
pânico e à confusão na retaguarda das linhas aliadas, causados
pelos pára-quedistas e bombardeios da Luftwaffe, as forças do
general Von Bock, precedidas por três divisões Panzer, interna-
ram-se rapidamente na Bélgica e Holanda.
Às 6h30min., após informado do fulminante ataque alemão, o
general Gamelin, comandante em chefe dos Aliados, ordenou que
suas forças saíssem ao encontro da Wehrmacht.
Na manhã de 13 de maio de 1940, a vanguarda do XVIII Exér-
cito de Von Küchler estabeleceu contato (junção) com os pára-
quedistas que, havia três dias, combatiam nas pontes, na área de
Rotterdam. Dois dias antes, a 9ª Divisão Panzer, apoiada pela
Luftwaffe, repeliu para o sul o VII Exército francês do general
Giraud, o qual havia intentado socorrer a guarnição de Rotterdam.
Estava selada a sorte da Holanda.
As tropas holandesas de Haia dispuseram-se a oferecer tenaz
resistência. Porém, a 13 de maio, cumprindo determinação direta
de Hitler, que desejava alcançar a capitulação imediata do país, a
Luftwaffe bombardeou pesadamente Rotterdam, sem saber que
Zolá Pozzobon 179

sua guarnição já havia iniciado negociações para a rendição da


cidade. O general Choltitz, comandante das forças aeroterrestres,
tentou avisar, através de sinalização, aos aviadores alemães, que
interrompessem o bombardeio, não o conseguindo devido à má
visibilidade e à fumaça dos incêndios. O caminho de Haia estava
livre. A rainha Guilhermina embarcou num destróier inglês e diri-
giu-se à Inglaterra.

Conclusões:
- O fator surpresa e a confusão causada pelo emprego de for-
ças aeroterrestres profundamente em sua retaguarda, somados
aos pesados e constantes bombardeios aéreos, desorganizaram
a defesa dos Países Baixos, aceleraram o ritmo dos combates e
levaram ambos à rápida capitulação.
- Obstáculos tidos como intransponíveis, como o forte Eben
Emael e o canal Alberto, foram rapidamente dominados por for-
ças “nascidas do ar” (airborn).
- Tais forças abriram caminho para os blindados alemães, que
rapidamente dominaram Bélgica e Holanda..
- Foi realizada em tempo útil a junção dos blindados com as
tropas aeroterrestres, cujas baixas foram desprezíveis.
- As operações relatadas realizaram-se na frente do Grupo de
Exércitos “B” (general von Bock) e serviram para atrair a ala norte
dos exércitos aliados, enquanto os ataques decisivos iriam se
efetuar mais ao sul: o Grupo de Exércitos “A“ (von Rundstedt) iria
romper o dispositivo aliado e alcançar a costa do Canal da Man-
cha, encurralando milhares de combatentes ingleses e franceses.

Operação Mercúrio
Nos últimos dias de abril de 1941 chegavam ao fim as opera-
ções militares do Eixo contra a península balcânica, tendo os bri-
tânicos evacuado os remanescentes de suas tropas 2
para a ilha de
Creta. Esta possui uma superfície de 8.331 Km e situa-se no
limite sul do Mar Egeu.
A 28 do mesmo mês, o general Student, comandante do XII
Fliergerkorps (Corpo Aéreo), grande unidade da Luftwaffe, na qual
estavam reunidas todas as forças de pára-quedistas, propôs a
Hitler a complementação da campanha dos Bálcãs, mediante a
conquista de Creta, por meio de tropas aeroterrestres.
De início, o Führer considerou temerário e irrealizável o empre-
endimento, mas foi convencido, diante dos argumentos apresen-
tados pelo general.
Pouco depois, foram transportados para a região de Atenas, a
180 O véu e a espada

7a Divisão de Pára-quedistas e cerca de 700 aviões trimotores


Junker. Tomaria parte da invasão a 5a Divisão de Caçadores de
Montanha, que se distinguira na campanha balcânica, sob o co-
mando do general Ringel. O VIII Fliegerkorps, do general Richtofen,
apoiaria a operação em Creta, neutralizando o controle do Medi-
terrâneo oriental realizado pela Marinha britânica.
Nessa ilha, contavam os ingleses com cerca de 30 mil solda-
dos, sob o comando do general Freyberg. Este desdobrou suas
forças em quatro núcleos principais, na costa setentrional: em
torno dos aeródromos de Maleme, Rethymon, Cândia e o porto
de Canéia. Informados sobre a iminente invasão, os defensores
fortificaram tais núcleos de defesa e receberam 12 carros de com-
bate vindos do Egito.
Os germânicos tinham em mente ocupar os objetivos da costa
norte com três grupos de assalto; a oeste, o do general Meindl,
sobre Maleme; no centro, o do general Süssmann, para conquis-
tar o porto de Canéia e o aeroporto de Rethymon; o general
Ringel teria a seu cargo a captura de Cândia. Uma vez dominados
os aeroportos, seria a 5a Divisão transportada via aérea. Parte da
6a Divisão de Montanha, tanques e artilharia transportados em
três flotilhas de 70 embarcações gregas, requisitadas e escolta-
das por dois destóieres e 12 lanchas torpedeiras italianas, refor-
çariam as tropas atacantes.
Às 5h30min. de 20 de maio de 1941, iniciaram os Stukas, es-
coltados por velozes Messerschmidts, intenso bombardeio sobre
os aeródromos de Maleme, Cândia e o porto de Canéia, procu-
rando neutralizar as instalações defensivas e baterias antiaéreas.
Às 7 horas, 400 Junker despejaram a primeira onda de pára-
quedistas. De seus entrincheiramentos, os ingleses dispararam
cerrado fogo contra os invasores. O comandante do agrupamen-
to oeste, general Meindl, caiu gravemente ferido. O general
Süssmann acidentou-se na descida e foi parar numa ilhota próxi-
ma à costa. As duas forças de assalto, privadas de seus chefes e
batidas pelo fogo, refugiaram-se entre as rochas.
Em Rethymon e Cândia, também encontraram os alemães sé-
ria resistência. Aviões com pára-quedistas foram atingidos pelo
fogo antiaéreo e acabaram abatidos com seus ocupantes, cau-
sando sérias baixas. Ao cair da noite, mantinham os defensores
os aeroportos em suas mãos. Porém, em Maleme, os alemães
conseguiram apoderar-se das pistas. Student, em Atenas, ao re-
ceber tais informações, determinou que o grosso de suas forças
aeroterrestres se dirigissem para Maleme.
Na madrugada de 21 de maio, vários Junkers aterrissaram numa
Zolá Pozzobon 181

praia próxima a Maleme e desembarcaram armas, munições e


pára-quedistas. Após, outros Junkers, transportando caçadores
de montanha, desafiaram o fogo antiaéreo e pousaram temerari-
amente sobre as pistas. Ao amanhecer, estava o aeroporto firme-
mente em mãos alemãs.
O dia 22 de maio assinalou a fase culminante da batalha. Na
noite anterior, três cruzadores e quatro destróieres ingleses conse-
guiram interceptar, à oeste de Creta, uma das flotilhas que conduzi-
am reforços para os invasores da ilha. Uma lancha torpedeira itali-
ana enfrentou valentemente as naves atacantes e conseguiu cobrir
a retirada da maior parte das embarcações que conduziam tropas,
não podendo, porém, impedir que 10 delas fossem afundadas.
Desde o amanhecer, lançou-se a Luftwaffe ao ataque contra
os barcos britânicos, conseguindo afundar os cruzadores
Gloucester e Fiji e o destóier Greyhound. O encouraçado Warspite
sofreu sérias avarias. No dia seguinte, os Stukas renovaram seus
ataques e afundaram os destróieres Kashmir e Kelly.
À noite, o general Ringel assumiu o comando das forças con-
centradas no aeroporto de Maleme e determinou o avanço para
oeste, em direção ao porto de Canéia. A 23 de maio, após mar-
charem através de terreno montanhoso e planícies litorâneas, os
caçadores e pára-quedistas estabeleceram contato com o grupo
central. Em Canéia, dispôs-se o general britânico Freyberg a re-
sistir e concentrou suas forças em torno da cidade. Com reforços
aerotransportados, lançaram-se os alemães ao ataque e, após
quatro dias de luta, dobraram a resistência britânica.
Freyberg e sua tropa retraíram para o sul, onde a Marinha
inglesa conseguiu evacuar cerca de 15 mil combatentes.
Ao norte, as tropas de Ringel completaram a ocupação da ilha
e estabeleceram contato com extenuados grupos de pára-
quedistas, entrincheirados em torno de Rethymon e Cândia.
A vitória custou aos alemães 6 mil baixas, entre pára-quedistas
e caçadores, bem como 151 trimotores Junkers.

Conclusões:
- A Operação Mercúrio deu aos alemães uma extraordinária
base de valor estratégico no Mediterrâneo oriental, colocando-os
em condições de atacar as rotas de navegação britânicas e as
bases aéreas e navais no Egito. Entretanto, pouco proveito tira-
ram os vencedores de tão custosa operação. Se atuassem agres-
sivamente sobre o Cairo e outros centros importantes da área
litorânea do Egito, teriam auxiliado sobremaneira os esforços de
Rommel na África do Norte.
182 O véu e a espada

- O serviço de informações da Wehrmacht subestimou o valor


das defesas da ilha.
- As operações aeroterrestres contra Creta, como dissemos,
exigiram alto preço em homens e material, levando o ditador ale-
mão a desistir de qualquer outro intento da mesma natureza.
- Por outro lado, souberam os aliados tirar lições de tal empre-
endimento, o que resultou na organização de poderosas grandes
unidades “airborn”.
- O domínio do mar depende muito da prévia conquista da
supremacia aérea e, como os britânicos não a possuíam no Medi-
terrâneo oriental, sofreram perdas navais proibitivas nessa área.
- Um ano depois, cogitariam Hitler e Mussolini de invadir a Ilha
de Malta, situada entre a Sicília e o norte da África, importante
base aeronaval britânica, que controlava a passagem entre o
Mediterrâneo oriental e ocidental e constituía ameaça ao supri-
mento das tropas do Eixo que operavam na Líbia. Os planejamentos
não se concretizaram, o que constituiu um erro, na opinião deste
autor, pois comprometeu o desempenho do Afrika Korps de
Rommel face ao VIII Exército britânico. Sem dúvida, a posse de
Malta seria muito mais importante para o Eixo do que a de Creta.

Normandia
Em Teerã, durante reunião realizada entre Roosevelt, Churchill
e Stalin, o presidente dos EUA prometeu ao ditador soviético a
abertura de uma segunda frente de operações contra a Alema-
nha, a ter início na primavera de 1944, o que aliviaria de muito a
pressão que ainda sofria a URSS por parte das forças germânicas.
Além disso, o desembarque na Europa ocidental impediria que
o inimigo reforçasse suas defesas no litoral da França e eliminaria
a ameaça representada pelo lançamento de bombas V-1 e V-2
contra as zonas de concentração no sul da Inglaterra.
A data da invasão estava subordinada a vários fatores: condi-
ções meteorológicas, marés, hora do nascer do sol, lua cheia etc..
Havia também a necessidade de entrosar a Overlod - Invasão
da Europa, com a ofensiva de verão dos russos, prevista para
início de maio, além de se concretizarem os êxitos que se espera-
vam na campanha da Itália.
As operações aliadas contra o continente começaram a 6 de
junho de 1944, depois de alguns adiamentos, dadas as condições
meteorológicas adversas. O VII Exército alemão, desdobrado na
Normandia, teve de suportar todo o peso inicial das forças de
invasão, uma vez que o restante do Grupo de Exércitos a que
pertencia, sob o comando de Rommel, foi mantido imóvel na re-
Zolá Pozzobon 183

gião do Passo de Calais.


O general germânico desejava contra-atacar de imediato e soli-
citou a liberação do XV Exército Panzer, empenhado por Hitler, o
qual acreditava que a verdadeira invasão ainda não acontecera,
pois esperava o ataque na parte mais estreita do Canal da Mancha.
Tal não ocorreu, vindo a comprometer a reação oportuna de Rommel.
De acordo com as previsões do Shaef (Comando das Forças
Expedicionárias Aliadas), a linha limite da cabeça-de-praia deveria
ser atingida a D+9; durante a consolidação, alcançaria Condé –
Vire – Granville, a D+17. Todavia, a obstinada resistência alemã em
Caen alterou completamente os planos, e a manobra aliada teve de
se prolongar por um mês. Liberado, afinal, seu emprego, o XV
Exército Panzer movimentou-se para o sul e contra-atacou o flanco
das forças norte-americanas que progrediam sobre o rio Loire.
Tal atuação provocou desvantajosas repercussões no campo
tático aliado e o insucesso da manobra prevista, com danosos
efeitos de ordem moral, particularmente devido às restrições que
a difícil personalidade de Montgomery (no comando das opera-
ções) provocara entre os chefes que lutavam sob suas ordens.
Assim que foi possível, livrou-se o general norte-americano Bradley
da subordinação a Montgomery e foi constituído o XII Grupo de
Exércitos, em pé de igualdade com o XXI britânico.
Desde a meia-noite do dia 6 de junho tiveram início as operações
aeroterrestres aliadas em grande escala contra o continente. Tro-
pas pára-quedistas, seguidas por planadoristas, foram lançadas
em locais escolhidos sobre vasta área, tendo em vista confundir o
inimigo quanto ao verdadeiro esforço dos ataques, fixar suas tropas
em outros setores e dificultar suas comunicações.
Foram empregadas três divisões aeroterrestres à retaguarda
dos defensores alemães que enfrentavam as tropas de desem-
barque anfíbio: A 6a Divisão Aerotransportada inglesa capturou
um ponto de apoio a leste do rio Orne, imediatamente ao norte de
Caen. A 101a Div. Aet. (EUA) desceu na região de Carentan-Isigny
e a 811a Div. Aet. (EUA) atacou nas imediações de Sainte Mère
Église, através da estrada de Carentan a Cherburgo. Sobre tais
forças recaía a tarefa de destruir as pontes úteis aos alemães e
capturar e manter aquelas que fossem de interesse aos movimen-
tos aliados. Mais próximo da costa, outras formações atacaram
posições de artilharia e núcleos de defesa em segundo escalão.
Assim, viram-se os alemães obrigados a combater à frente e à
retaguarda simultaneamente. Apesar de intensos ataques desfe-
chados contra as forças aerotransportadas aliadas, puderam es-
tas, poderosamente reforçadas pelo ar durante os dois dias se-
184 O véu e a espada

guintes, repelir os ataques, e conseguiram finalmente estabelecer


junção com as tropas de desembarque anfíbio que lutavam a fim
de abrir caminho para o interior da França.

Market-Garden
As forças aeroterrestres norte-americanas e britânicas haviam
desempenhado relevantes missões durante os desembarques alia-
dos na Normandia. Logo depois, retornaram ao Reino Unido, a fim
de se reorganizarem e reequiparem. À medida que se desenvolvia
o avanço para o interior do continente, inquietavam-se os “airborn”,
pois sentiam-se como impedidos de tomarem parte no “baile”.
Chefes norte-americanos e ingleses faziam pressão sobre o
general Eisenhower, comandante supremo aliado, para empre-
gar as tropas aeroterrestres. Entretanto, ele já vinha cogitando
disso, tendo em vista acelerar o ritmo das operações. O general
britânico Montgomery, comandante do XXI Grupo de Exércitos,
concebeu a idéia de lançar como que um tapete de tropas
aeroterrestres do outro lado das vias navegáveis holandesas. Tendo
o Reno já para trás e a linha Siegfried flanqueada, poderiam as
formações de blindados infletir para o sul e sudeste, a caminho do
Ruhr e da planície que se estende em direção a Berlim.
Tal plano surpreenderia os alemães que, provavelmente, não
esperavam uma aproximação nessa rota. Além disso, haveria
oportunidade de serem capturadas as plataformas de lançamen-
to das bombas V-2, que castigavam o sul e o leste da Inglaterra.
O estuário do Escalda ficaria livre de tropas alemãs e o porto de
Antuérpia, o terceiro maior do mundo, receberia todos os tipos de
suprimentos de que necessitavam os Aliados.
Com aprovação de Eisenhower, começou a ser montada a
Operação Market, o braço aeroterrestre da grande manobra es-
tratégica concebida por Montgomery. O segundo braço, encarre-
gado de ir ao encontro daquele, numa amplo movimento de jun-
ção, teria o nome de Garden, e o conjunto, Market-Garden.
A faixa sul do “tapete” foi atribuída à 101a Divisão Aeroterreste
(EUA), com lançamento a
previsto sobre as pontes logo ao norte
de Eindhoven. A 82 Div. Aet. (EUA) apossar-se-ia das pontes
sobre o Mass, em Grave. e sobre o Waal, em Nijmegen (faixa
intermediária do “tapete”). No extremo norte, a 1a Div. Aet. britâni-
ca, reforçada pela brigada polonesa, ficou com a missão de cap-
turar e defender a ponte de Arnhem.
O que os Aliados não sabiam era que, em 6 de setembro, o II
Panzerkorps SS ( 9a e 10a Panzer SS), que vinha retardando os
Aliados desde a Normandia, se desengajou do combate e se diri-
Zolá Pozzobon 185

giu imediatamente para o norte, a fim de se reabilitar e reorgani-


zar. A área escolhida foi Arnhem, pacata e calma região a mais de
100 km da frente, onde já se encontrava um batalhão SS, equipa-
do com modernos lança-foguetes.
A 17 de setembro de 1944, a partir das 13 horas, cerca de
5.000 aviões e 2.500 planadores iniciaram o transporte da maior
parte do efetivo de um exército pelo ar. As rotas tinham origem em
ampla área do sul da Inglaterra, passavam pelo norte da França,
Bélgica e terminavam na Holanda, em diversas Zonas de Lança-
mento (ZL). Era o I Exército Aerotransportado Aliado a descer
atrás das linhas alemãs e a dar início à operação Market-Garden.
Em terra, desdobradas ao longo da fronteira belgo-holandesa,
as colunas blindadas do II Exército inglês iniciaram seu avanço em
direção à Holanda, em busca da junção com os pára-quedistas, o
que esperavam alcançar em 48 horas. Era a fase Garden da gi-
gantesca operação.

Operação Market – Desenvolvimento


101a Div. Aet. (EUA – gal. Taylor) – A maioria de seus meios foi
lançada no dia 17 de setembro, e sua Engenharia e Artilharia nos
dias D+1 e D+2, com a missão de conquistar as regiões de pas-
sagem entre Eindhoven e Vechel. Na aproximação para as ZL,
sofreram violento fogo aéreo, não obstante o prévio amaciamento
da aviação de caça aliada. Apesar disso, foram conquistadas as
passagens sobre o Waal, Saint Oedenrode e Best, com muitas
perdas. Tendo sido dinamitada a ponte sobre o Son, foi a passa-
gem conquistada
a
a nado e, posteriormente, reconstituída a ponte.
- 82 Div. Aet. (EUA – gal. Gavin) – Lançada ao norte da 101a
Div. Aet., com a missão de conquistar várias pontes, em 16 km de
extensão, desde Grave até Nijmegen, bem como as alturas que
dominam Groesbeck. Outrossim, exercer vigilância sobre a flo-
resta de Reichswald. Foi conquistada a ponte sobre o Mass, po-
rém, das quatro passagens sobre o canal Mass-Waal, somente
uma foi tomada intacta. A demora na conquista da ponte em
Nijmegen permitiu que os alemães reforçassem sua defesa, sen-
do a obra d’arte conquistada somente em 20 de setembro, após
duros combates, com apoio de tropas e carros de combate das
forças da Operação Garden.
- 1a Div. Aet. inglesa (gal. Urquhart) – Seu objetivo principal era
a ponte rodoviária em Arnhem e o secundário, mais duas pontes a
4 km a oeste da cidade. As ZL (pára-quedistas) e Z At
(planadoristas) eram muito distantes dos objetivos (9 a 13 km).
No Dia D, a 1a Bda. Pqdt., destinada à conquista das pontes,
186 O véu e a espada

encontrou grande resistência e não conseguiu seu intento.


Desgastada, aguardou reforços da segunda vaga, sob pesado
fogo de defesa antiaérea alemã. Dispunha-se a 4a Bda. Pqdt. a
atacar, em D+2, para conquistar as alturas norte de Arnhem. En-
tretanto, o general Urquhart sustou tal ataque e decidiu empregar
toda a divisão em um único perímetro. Isso custou cerca de 300
baixas à 4a Brigada, entre as quais quatro comandantes de unida-
des. Ao chegar a 1a Bda. Pqdt. Polonesa, foi a mesma hostilizada
por fortes ataques da Luftwaffe, sendo a metade das aeronaves
desviadas de suas ZL. Mesmo desfalcados, tentaram os polone-
ses a travessia do Reno, para conquistar a ponte em Arnhem.
Porém, devido à intervenção do inimigo, decidiu o comandante
estabelecer-se próximo a Driel. Em D+4, era a situação da 1a Div.
Aet. inglesa muito crítica, pois estava sendo destruída paulatina-
mente. Não havia frente contínua e os suprimentos aéreos caíram
em mãos do inimigo. Várias tentativas dos poloneses foram frus-
tradas, com baixas significantes. Em D+7, três batalhões das for-
ças Garden tentaram a travessia em botes, mas não obtiveram
êxito. Face à grave situação, o general Urquhart considerou duas
linhas de ação a seguir: uma tentativa final de travessia, com mei-
os descontínuos e insuficientes, ou a evacuação do perímetro
ocupado, o que pouparia a vida dos restantes. Escolheu a opção
mais lógica.
Na noite de 25 daquele mês encerrou-se a Market Garden e
teve início a Operação Berlim, com a finalidade de resgatar a 1a
Div. Aet. inglesa.

Conclusões:
- A maior operação aeroterrestre da História, inegavelmente,
terminou em fracasso, com perdas estimadas em 50% de seu efetivo.
- Embora estivesse Eisenhower disposto a empregar tais for-
ças novamente, não resta dúvida de que a pressão sobre ele
exercida contribuiu para a tomada de decisão quanto à Market
Garden, depois de ter a mesma sido adiada por 17 vezes.
- O poder de combate do inimigo foi avaliado incorretamente.
De acordo com as últimas informações do XXI Grupo de Exérci-
tos, acreditava o comando aerotransportado aliado que suas tro-
pas enfrentariam forças deficientemente organizadas. Entretanto,
o oficial de informações do I Exército Aerotransportado inglês,
coletando dados da resistência holandesa, assinalou a presença
de duas divisões Panzer SS na área de operações. Ao tomar
conhecimento, Eisenhower pensou em cancelar a missão, mas
resolveu delegar a responsabilidade da decisão ao idealizador da
Zolá Pozzobon 187

operação, general Montgomery. Este não levou a sério tal fato e


decidiu executar o plano.
- A tropa aerotransportada é altamente vulnerável
a
a blindados, o
que foi visível no quase aniquilamento da 1 Div. Aet. inglesa.
- O terreno utilizado pelas forças Garden apresentava pratica-
mente uma única via de acesso, cortada por inúmeros canais e
rios, sobre os quais se estendiam 16 pontes, sendo duas de capi-
tal importância, todas a serem conquistadas e mantidas. Assim, o
tempo estimado para tais operações ultrapassou de muito as es-
timativas, sendo que a 1a Div. Aet. inglesa não conquistou seus
objetivos, teve de retrair e ser acolhida pelas forças terrestres.
- As comunicações funcionaram mal e, em conseqüência:
a
hou-
ve perda de contato entre o comandante da 1 Div. Aet. inglesa e
seus comandados por 48 horas; impossibilidade de apoio aéreo
em favor das forças de junção; dificuldade de ligação terra-avião,
devido a freqüências diferentes,
a
afetando o ressuprimento aéreo.
- As ZL e Z At. da 1 Div. Aet. inglesa foram localizadas de 9
a 13 km de distância dos objetivos escolhidas.
- Não foi cogitado o aproveitamento da resistência holandesa
que, entre outros apoios, poderia fornecer preciosas informações.
- No primeiro dia da operação, os alemães capturaram todo o
planejamento da Operação Market Garden, encontrado em um
planador que caíra, o que possibilitou aos defensores antecipa-
rem-se e tomarem medidas contra as operações adversárias.
- O lançamento diurno prejudicou a surpresa e permitiu ao ini-
migo identificar as manobras dos pára-quedistas aliados.

“Esta missão não pode ser bem sucedida. Estou achan-


do esta ponte longe demais.” (Palavras do general de Divisão
Sosabowski, comandante da 1a Brigada Pára-quedista polone-
sa, ante a dificuldade de conquistar o objetivo atribuído à sua
grande unidade).
Zolá Pozzobon 189

Roosevelt sabia?

Sem declaração de guerra, na madrugada de 22 de junho de


1941 as forças germânicas atacaram a URSS, na maior ofensiva
da História, obtendo êxitos espetaculares desde o início da ope-
ração. Ao final do ano, atingiram a linha Leningrado – proximida-
des de Moscou – Sebastopol. Os nazistas queriam converter a
luta numa “Guerra da Europa contra o comunismo” ou “Luta do
destino no Leste”.
Enquanto isso, o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt,
pressionava o governo japonês para que retirasse suas tropas da
Indochina. Outrossim, tanto os EUA quanto a Grã-Bretanha esta-
beleceram barreiras para os produtos japoneses e embargo às
exportações de petróleo para o Japão.
Este país, através de intensa propaganda, objetivava apoiar a
conquista de espaço e a legitimidade de sua supremacia no Extre-
mo Oriente, com o lema “Ásia para os asiáticos”, despertando
ressentimentos antieuropeus e mobilizando o povo contra os colo-
nizadores brancos, particularmente holandeses, ingleses e ianques.
A 26 de novembro foi assinalada uma esquadra japonesa na-
vegando em direção ao Havaí, arquipélago da Polinésia, situado
no Pacífico Central e tido, por sua posição estratégica, como “en-
cruzilhada do Pacífico”. Localizava-se ali a base naval norte-ame-
ricana de Pearl Harbor.
Em 7 de dezembro, o mundo ficou sabendo, estupefato, que a
guerra havia irrompido no Oriente: os nipônicos, a partir de porta-
aviões, realizaram violentos ataques aéreos contra Pearl Harbor,
apanhando os incrédulos norte-americanos de surpresa. Foram
afundados ou sofreram pesadas avarias seis encouraçados, bem
como outros navios de guerra, ficando seriamente comprometi-
das as instalações portuárias. A 11 de dezembro, Alemanha e
190 O véu e a espada

Itália declararam-se em estado de beligerância contra os EUA. As


chamas do conflito espalharam-se por todo o globo terrestre.
O ataque a Pearl Harbor causou forte impacto sobre a popula-
ção dos EUA, país que até então se mantinha fora da guerra, ape-
nas apoiando a Grã-Bretanha em suprimentos e material militar. Os
ianques, protegidos por dois oceanos, o Atlântico a leste e o Pací-
fico a oeste, compraziam-se em seu relativo isolacionismo. Roosevelt
desejava participar do conflito ao lado dos ingleses, mas precisava
de um argumento forte para envolver a vontade popular.
Comentava-se na época que Roosevelt tinha sérias suspeitas ou
mesmo sabia que os nipônicos atacariam no Pacífico. Concretizada
a ameaça japonesa, pôde então o presidente mobilizar o povo e os
imensos recursos do país contra o nazi-fascismo na Europa e o
imperialismo nipônico no Pacífico.
Os japoneses, com seu ataque a Pearl Harbor, contavam imobi-
lizar os EUA por muito tempo, o necessário para concretizarem
suas ambiciosas conquistas territoriais na Ásia. Cometeram um erro,
porém: precisavam ter ocupado o Havaí, garantindo, assim, um
posto avançado a meio caminho entre o Japão e a América do
Norte, o que lhes daria maior segurança para a consolidação dos
territórios conquistados. A pujança industrial dos EUA armou uma
máquina de guerra que iria não somente recuperar o Havaí, mas
levar os japoneses de volta a seu exíguo e acidentado arquipélago.
Zolá Pozzobon 191

Skorzeny: um
herói legendário!
Todo filme de faroeste apre-
senta o seu “mocinho”, o qual,
arrostando mil dificuldades, ven-
ce os bandidos. O culto aos he-
róis é algo que caracteriza as
sociedades e a história das na-
ções. Nós, ou os norte-america-
nos, ingleses, enfim, todos os
povos, temos estórias de faça-
nhas e heroísmos. Na II Guerra
Mundial surgiram figuras como
Pitaluga (capitão comandante do
esquadrão de reconhecimento da
FEB), Patton, Montgomery, Skorzeny em foto de 1943
Tassigny, Rommel, Timoshenko e
tantos outros. Entretanto, desejo destacar um soldado que eletrizou
a atenção de meio mundo devido a seus feitos audaciosos, coragem
e pronta resposta que encontrava para as situações mais difíceis,
fruto de imaginação fértil e versatilidade que o caracterizavam. Com
os leitores: Otto Skorzeny!
Nascido em Viena, Áustria, era engenheiro e teve uma empresa
em Meidling, junto à capital. Iniciada a guerra, foi admitido nas Waffen-
SS, corporação paralela à Wehrmacht e que chegou a contar com
38 divisões, perfazendo um total de 900 mil combatentes. Seu pos-
to máximo alcançado foi o de coronel, embora, em algumas ocasi-
ões emergenciais, tenha até comandado divisão, função para ge-
neral. Devido à natureza de suas missões, mantinha freqüentes
contatos com Hitler, Himmler, Kaltenbrunner e outras autoridades
192 O véu e a espada

do alto escalão do Reich. Entre seus comandados contava com


especialistas das mais diversas atividades. Formou equipes técni-
cas de combate que atuaram em muitas frentes. Assim sendo, for-
mou-se na Alemanha a idéia de que missões difíceis e arriscadas
deviam ser atribuídas a Skorzeny, o qual “daria conta do recado”!
O Ocidente travou conhecimento, pela primeira vez, com a fi-
gura de Skorzeny através da audaciosa libertação de Benito
Mussolini, em 12 de setembro de 1943. A entrada da Itália na
guerra não trouxera aos peninsulares a não ser dissabores. No
norte da África, fora Grazziani derrotado pelos britânicos, após
terem as forças italianas penetrado no Egito. Obrigado a retrair,
abandonou toda a Cirenaica, quando tropas alemãs desembarca-
ram na Tripolitânea, sob o comando de Rommel, para apoiar os
italianos. Após longos movimentos de vai-vém no deserto, com
significativas vitórias e derrotas de ambos os lados, o inglês
Montgomery lançou potente ofensiva, com grande superioridade
de meios, sobre as combalidas unidades do Eixo, carentes de
toda a sorte de apoios.
O desembarque dos norte-americanos na Argélia e a ofensiva
aliada contra a Tunísia, último reduto dos italo-germânicos na Áfri-
ca do Norte, selou a sorte destes, os quais capitularam (130 mil
alemães e 120 mil italianos foram feitos prisioneiros). Além disso,
a Itália perdeu suas colônias da África Oriental. Já a 28 de outubro
de 1940 decidira o Duce lançar-se contra a Grécia, a partir da
Albânia, com tropas insuficientes e pouco adequadas, num terre-
no de difícil progressão e enfrentando os rigores de um inverno
prematuro. Os alemães viram-se na contingência de desviar tro-
pas Panzer destinadas à ofensiva contra a URSS a fim de evitar
que os Bálcãs fossem ocupados pelos ingleses.
A 10 de julho de 1943, iniciaram os anglo-americanos a Opera-
ção Husky, invadindo a Sicília. Diante de tais revezes, era insusten-
tável a posição de Mussolini à frente do governo italiano. A 24 da-
quele mês, o Grande Conselho Fascista, reunido em Roma, votou
uma resolução, aprovada pelo rei Vítor Emanuel III, destituindo O
Duce. O monarca mandou prendê-lo e, em seu lugar, nomeou o
marechal Pietro Badoglio como chefe do governo. Assim, foi Mussolini
conduzido em segredo para uma prisão no norte da Itália.
Mas Hitler desejava libertar seu colega e determinou que fosse
localizado o esconderijo. Mandou chamar o então capitão Skorzeny
e o encarregou de trazer Mussolini para a Alemanha. Skorzeny
escolheu um pequeno grupo de aguerridos pára-quedistas SS,
fez um cuidadoso estudo de situação, provido de mapas e foto-
grafias aéreas, e, em 12 de setembro de 1943, aterrissou com
Zolá Pozzobon 193

sua equipe na região do Gran Sasso, nos Montes Abruzzi, onde


Mussolini se encontrava prisioneiro em um pequeno hotel.
O terreno era precário e não se prestava à descida, porém o
piloto mostrou-se extremamente habilidoso. A surpresa foi total.
Em poucos minutos os SS dominaram a guarda e o Duce foi con-
duzido às pressas para bordo do avião, viajando em companhia
de Skorzeny e seus SS. Três dias depois Mussolini assumiu o
governo da chamada República de Saló, junto ao lago Guarda.

**************************

Em 1944, uma unidade sob o comando de Skorzeny, composta


por representantes do Exército, Marinha, Força Aérea e Waffen
SS, foi acrescida de uma seção de “armas especiais”. Tendo a
Itália, novamente sob a direção de Mussolini, continuado a lutar ao
lado dos alemães, tomaram estes conhecimento das atividades da
X Flotilha MAS, sob o comando do príncipe Valério Borghese. Tal
organização contava com pequenos barcos explosivos que navega-
vam a toda a velocidade em direção a alvos escolhidos. Pouco
antes do choque, o piloto era ejetado para fora da embarcação.
Também dispunha de torpedos tripulados por dois homens, os
quais se salvavam de forma semelhante à anterior. Assim, foram
desfechados dois bem sucedidos ataques contra navios britânicos
ancorados em Alexandria e Gibraltar, fatos só difundidos após a fim
da guerra. Não parava por aí a inventiva da X Flotilha MAS. Grupos
de mergulhadores aproximavam-se de navios inimigos e aderiam
cargas explosivas em seus cascos. Foram os homens de Skorzeny
quem inventaram os “pés-de-pato”, aumentando a velocidade do
nadador. Chegou-se a calcular em 50 mil toneladas a carga de
navios mercantes adversários postos a pique por um certo capitão
H.. Pilotando “torpedos humanos” aperfeiçoados, homens do bata-
lhão de Skorzeny realizaram um ataque na área da cabeça-de-
ponte de Anzio, avariando um cruzador, uma lancha-torpedeira e
afundando mais de 30 mil toneladas de navios de transportes.

*****************************

No verão e outono de 1944, algumas missões de destaque


foram cumpridas pelas unidades de Skorzeny. Uma ação conjun-
ta com a Marinha causou surpresa. Durante a operação “Market-
Garden” (emprego em larga escala de tropas aeroterrestres anglo-
americanas nos Países Baixos), conquistaram os pára-quedistas
aliados uma importante cabeça-de-ponte em Niemegen, sobre o
194 O véu e a espada

Waal, um dos braços na desembocadura do Reno.


Cerca de 12 homens da equipe alemã, usando nadadeiras,
conduziram correnteza abaixo minas-torpedos (explosivos flutuan-
tes, com forma e tamanho de torpedos) até às bases dos pilares
da ponte intacta. Aí, foram abertas as válvulas dos flutuadores e
retirados os pinos de segurança das espoletas de tempo. Cinco
minutos depois, ouviu-se enorme explosão, que deixou a ponte
em pedaços. Enquanto isso, os atacantes fugiram, levando três
feridos pelo intenso tiroteio que choveu sobre eles.

**********************

Em agosto, oficiais do Estado Maior do general Jodl informaram


a Skorzeny terem recebido comunicação de um agente russo, a
serviço dos alemães, de que “numa região boscosa, ao norte de
Minsk, encontram-se unidades alemãs que ainda não se entrega-
ram...” Eram cerca de dois mil homens, sob o comando do tenente-
coronel Scherhorn. O general Jodl atribuiu a Skorzeny a missão de
resgatar aquela tropa cercada. O plano de resgate foi logo prepa-
rado em Friedenthal, batizado com o nome de “Franco-atirador”, e
sua execução ficou a cargo do Batalhão de Caçadores Leste, que
designou e treinou pequenos grupos de cinco homens, munidos de
rádios, provisões e equipamentos, inclusive pistolas e uniformes
russos, sem esquecer papéis e documentos necessários.
Os homens rasparam as cabeças e tomaram o aspecto um tan-
to desleixado que caracterizava a tropa russa. Os grupos saltaram
de pára-quedas e alguns deles se extraviaram. A audácia do pri-
meiro-sargento R. chegou ao ponto de ele entrar fardado de tenen-
te russo em um cassino de oficiais, onde almoçou, bebeu vodca,
cantou e pediu licença, pois “precisava cumprir sua missão”.
Foram lançados do ar socorro médico e suprimentos de todo o
tipo. Localizado o acampamento de Scherhorn, foi tentada a cons-
trução de uma pista de pouso para evacuação de seus homens,
mas ataques russos impediram-no. Ficou então acertado que os
homens de Scherhorn marchariam cerca de 250 Km para o norte,
junto à fronteira russo-lituana, onde os lagos existentes ficam con-
gelados no início de dezembro. Pousando no gelo, seria tentado o
resgate aéreo da tropa por meio de pequenos aviões.
O movimento foi executado, dividindo-se a tropa em duas colu-
nas, as quais foram constantemente hostilizadas. Os suprimentos
aéreos tornaram-se cada vez mais raros. Skorzeny usava de to-
dos os expedientes possíveis para continuar o salvamento daque-
le pessoal, mas sentia que as dificuldades cresciam na medida
Zolá Pozzobon 195

em que os russos avançavam para oeste. Vontade e determina-


ção não faltavam, e, sim, meios adequados. Os pedidos pelo rá-
dio continuavam a chegar, deixando Skorzeny angustiado por não
ter condições de socorrer aqueles bravos. Isso prolongou-se até
8 de maio de 1945, quando terminou a missão “Franco atirador”.
O armistício fora assinado poucos dias antes!

************************

Em fins de agosto de 1944, o Grupo de Exércitos Sul parecia


desmantelado na Bessarábia e na Rumênia diante da avalanche
russa. As Unidades de Caçadores de Skorzeny receberam or-
dens superiores para constituírem dois grupamentos, a serem
transportados via aérea, com a missão de “bloquear os desfila-
deiros dos Cárpatos, reconhecer as regiões do outro lado, dificul-
tar o transporte de suprimentos dos russos e apoiar a evacuação
das pessoas de sangue alemão”. Quatro equipes chegaram aos
desfiladeiros. O avanço russo pôde ser retardado em vários pon-
tos, dando oportunidade de escape a muitos grupos de alemães.
O tenente G., com uniforme de soldado rumeno, fingiu come-
morar a vitória dos russos, mas ao tentar a travessia da linha de
contato foi descoberto e ferido no pé. Escondeu-se num pântano
e atingiu as linhas alemãs, onde prestou preciosas informações
sobre os movimentos do inimigo, salvando do cerco um Corpo de
Exército Alemão próximo a Gyergyoti.
Uma das equipes de Skorzeny encontrou-se na Rumênia com
uma unidade de artilharia alemã, com cerca de dois mil homens,
que aguardavam junto a uma estrada a ocasião de se entregar ao
inimigo. Trezentos deles juntaram-se voluntariamente à equipe,
decididos a abrirem caminho à bala até às linhas alemãs. E con-
seguiram. Quanto aos outros, nada se soube.

*************************

Em sua autobiografia, Skorzeny revela alguns detalhes sobre a


Luftwaffe. Em conversa com o general Ritter von Greim, cogitado
por Hitler para substituir Hermann Goering, ouviu dele a seguinte
crítica: “A Luftwaffe dormiu sobre os louros das vitórias conquista-
das em 1939/40 e não pensou no futuro. As palavras ‘teremos a
melhor, a mais rápida e a mais valorosa Força Aérea do mundo’,
usadas uma vez por Goering, não bastam para ganhar uma guer-
ra.” Refletindo sobre meios aéreos, perguntava-se Skorzeny, con-
forme sua autobiografia, se os aviões a jato não poderiam estar
196 O véu e a espada

disponíveis há mais tempo, uma vez que sua construção termina-


ra praticamente em 1942. Por que não foram empregados antes?
Mais um capítulo da história de guerra da Alemanha enquadra-
da na expressão: “Demasiado tarde!”

***********************

Em outubro de 1944, encontrava-se Skorzeny no “Covil do Lobo”


(Quartel-General de Hitler na frente oriental). O Führer encarre-
gou-o de nova missão, à qual deu a maior importância. Explicou-
lhe tudo nos menores detalhes. Tratava-se da “Ofensiva das
Ardenas”, pela qual a Alemanha pretendia reverter a situação no
Ocidente. O papel de Skorzeny seria empregar sua tropa como
destacamento de vanguarda, ocupar vários pontos-chaves do
Mosa, entre Liège e Namur, desorientar as sinalizações de trans-
portes e avisos nas rodovias, espalhar boatos, interromper os
meios de comunicações. Enfim, causar a maior confusão a co-
mandos e tropas adversárias. Os alemães atuariam envergando
uniformes ingleses e americanos.
Empolgado pela nova incumbência, pôs-se Skorzeny febrilmente
a campo, na faina de escolher e preparar homens e equipamen-
tos adequados à natureza da missão. Foram selecionados milita-
res e mesmo civis que soubessem falar inglês, tanto com sotaque
da Inglaterra quanto dos EUA. Os selecionados tiveram de se
familiarizar com expressões idiomáticas, conhecimentos sobre o
cotidiano da vida nos dois países inimigos, apelidos de seus co-
mandantes etc. e foram munidos de armamento portátil, cigarros
e outros objetos de uso de americanos e ingleses. Estudaram
cartas, mapas e fotografias aéreas da região das Ardenas. A
tropa manteve-se confinada na área de treinamento, tendo em
vista preservar o sigilo.
Nos primeiros dias de dezembro, Hitler deslocou seu QG da
Prússia Oriental para Ziegenberg, no Ocidente. A Wehrmacht ata-
caria partindo do Eifel em direção ao Mosa, ao sul de Liège, a fim
de abrir uma brecha na frente aliada. Em seguida, atravessaria
aquele rio e atacaria com duas pontas de lança blindadas sobre
Bruxelas e Antuérpia, realizando uma ruptura estratégica. Os
grupamentos inimigos, ao norte da ruptura, seriam então cerca-
dos e destruídos.
As operações tiveram início no dia 16, com as condições at-
mosféricas favoráveis à cobertura de movimentos e impeditivas
quanto ao emprego de meios aéreos, devido à forte neblina rei-
nante. As tropas especializadas de Skorzeny haviam-se infiltrado
Zolá Pozzobon 197

nas linhas inimigas e iniciado seu trabalho de sabotagem.


A ofensiva foi conduzida por dois grupamentos: na faixa sul, o V
Exército Panzer (gal. Manteuffel) e, na faixa norte, o VI Exército
Panzer (gal. Sepp Dietrich), mais forte em blindados, realizando o
esforço principal. Na cobertura do flanco sul, o VII Exército (gal.
Brandenberger), carente em meios de mobilidade.
A partir da madrugada daquele dia16, Manteuffel conseguiu
profunda penetração nas posições adversárias, atingindo as 116a
e 2a Divisões Panzer pontos próximos à margem do Mosa. O VI
Exército Panzer enfrentou congestão nas estradas estreitas e
cobertas de gelo, o que prejudicou o ímpeto da progressão. Devi-
do às dificuldades surgidas no flanco sul (VII Exército), Manteuffel
teve de deslocar frações blindadas para lá, ficando assim
sacrificada a realização da ruptura em grande estilo. Em vez de
escolherem então objetivos mais modestos, tanto Hitler quanto o
Alto Comando aferraram-se ao plano inicial.
No entanto, com a melhoria das condições atmosféricas, en-
traram em ação as forças aérea aliadas, atingindo profundamente
as colunas blindadas alemãs, já sem a proteção da Luftwaffe, que
se encontrava esgotada.
E quanto às tropas de Skorzeny? Causaram a maior confusão
entre os Aliados, desorientando unidades em marcha, prestando
falsas informações, levando tropas amigas a se enfrentarem e
provocando sensação de incerteza e insegurança. Muitos foram
mortos, feridos ou aprisionados e outros conseguiram se retrair
para as linhas alemãs, entre estes, o próprio Skorzeny.

************************

Outras importantes missões foram confiadas a Skorzeny e suas


tropas especiais, como a Operação Panzerfaust, em outubro de
44, com o objetivo de evitar que a Hungria fizesse acordo com os
russos e, assim, expusesse as tropas alemãs estacionadas naque-
le país. Outrossim, as operações junto à cabeça-de-ponte do rio
Oder, no início de 1945, em que as tropas russas sofreram sensí-
veis baixas e foram bastante retardadas. Conta Skorzeny que a
chamada “Divisão Schwedt” era integrada por homens de várias
origens, entre os quais uma companhia de cossacos e um regimen-
to romeno. Nas fileiras dos batalhões de caçadores lutavam norue-
gueses, dinamarqueses, holandeses, belgas e franceses.

***********************
198 O véu e a espada

Após a morte de Hitler, em 30 de abril de 1945, o almirante


Dönitz assumiu a direção do Reich, e anunciou o armistício a
partir de 6 de maio. Skorzeny, sabedor de que o Exército dos EUA
estava à sua procura, enviou uma mensagem às tropas norte-
americanas dizendo para não perderem tempo em procurá-lo, pois,
dentro de alguns dias, entregar-se-ia voluntariamente. Foi o que
fez, apresentando-se ao posto de comando de uma unidade ianque.
À medida que os vencedores tomavam conhecimento de sua pre-
sença, olhavam-no como se ele fosse um ser estranho e perigo-
so, tal tinha sido sua fama nos últimos meses da guerra. Foi inter-
rogado por inúmeros oficiais, que lhe formulavam as mesmas per-
guntas. Alguns pediam-lhe que fosse franco e contasse logo: “Onde
você escondeu Hitler?” Skorzeny dava-se ao trabalho de repetir
que o Führer havia se suicidado em Berlim, enquanto ele, no dia
30 de abril, encontrava-se nos Alpes austríacos.

**************************

Em certo dia do verão de 1946, Skorzeny foi tirado de sua


cela incomunicável no bunker de Dachau para ser interrogado.
O coronel americano Rosenfeld, após ter-lhe dito que tinha sido
o oficial encarregado da segurança no Quartel-General Aliado,
confessou que, naquela época, estava convencido de que o
major Skorzeny procuraria, a todo custo, chegar a Paris, ata-
car a sede do comando e assassinar o general Eisenhower. O
prisioneiro esclareceu que nunca cogitara nem recebera ordem
de realizar tal operação, mas acrescentou que, se dela fosse
encarregado, tê-la-ia cumprido integralmente!
Skorzeny foi absolvido pelo tribunal encarregado de julgar os
criminosos de guerra. A partir de 1948, passou a residir em Ma-
dri. Escreveu sua autobiografia, que é lida em escolas militares de
diversos países e leitura obrigatória pelos militares de Israel, onde
circula uma edição em hebraico.
O legendário herói alemão faleceu em 5 de julho de 1975.
Zolá Pozzobon 199

Furtos de guerra

Durante as campanhas militares, é muito comum os vencedores


apropriarem-se das riquezas dos vencidos, não somente no que diz
respeito a território, como também a obras de arte, tesouros, re-
servas financeiras e moedas. Na Antigüidade, os derrotados tudo
perdiam, inclusive boa parte de suas populações era transformada
em escravos.
Quando Napoleão invadiu o Egito (1798), os franceses apo-
deraram-se de inúmeras riquezas históricas que remontavam ao
tempo dos faraós. Mais tarde, durante a ocupação inglesa
daquele país, iniciada em 1882, aproveitaram os dominadores a
oportunidade para transformar museus da Inglaterra em grandes
repositórios de estátuas, cerâmica, múmias, sarcófagos e
preciosos documentos escritos em hieróglifos, tudo afanado do
Egito, sem falar nas apropriações privadas por parte de inúmeros
súditos de sua majestade britânica.
Há poucos meses atrás (estamos em outubro de 1998), tra-
tava o noticiário internacional das riquezas surrupiadas pelos na-
zistas aos judeus alemães e depositadas em bancos suíços.
Estes dispuseram-se a devolver grandes somas às vítimas ou
seus descendentes, embora a comunidade judaica ainda recla-
me novos ressarcimentos.
Se, por um lado, os nazistas lesaram os judeus, bem como se
apoderaram de inúmeras obras de arte, particularmente oriundas
da Grécia (muitas encontradas na coleção privada de Hermann
Goering), é bem verdade que a Alemanha também sofreu o saque
de suas riquezas, embora procurasse escondê-las de todos os mo-
dos, à medida em que o fim da II Guerra Mundial se aproximava,
com seu espectro de destruição e derrota.
Em fevereiro de 1945, durante um grande bombardeio aliado
200 O véu e a espada

sobre Berlim, foi o monumental Reichsbank, o principal banco ale-


mão, completamente destruído. Seus cinco mil funcionários, refu-
giados em profundos abrigos, inclusive seu presidente – Walter
Funk – sobreviveram. Porém, a devastação do centro nevrálgico
financeiro do país provocou uma sucessão de acontecimentos que
constituiriam um dos mais intrigantes e ainda não resolvidos mis-
térios da História.
Das riquezas alemãs transportadas sigilosamente para locais
secretos, a fim de não caírem nas mãos do inimigo, grandes
porções foram desviadas por funcionários governamentais ganan-
ciosos. Os cofres do Reichsbank guardavam a maior parte das
reservas em ouro da Alemanha, que valeriam hoje cerca de US$
7,5 bilhões, incluídos US$ 1,5 bilhões em ouro italiano.
O Dr. Funk ordenou que fossem transportadas as reservas de
ouro e moeda do Reichsbank para a mina de potássio de Kaiserode,
a 320 Km a sudoeste de Berlim, onde havia um esconderijo a 800
metros de profundidade. O grosso das reservas nazistas – 100
toneladas de ouro e 1000 sacos de marcos em cédulas – exigiu a
utilização de 13 vagões de carga para seu transporte.
Menos de dois meses depois, atingiam a área as vanguardas do
III Exército americano do general George Patton. Duas mulheres
francesas, detidas pela polícia militar, foram escoltadas até Merkers
e, ao passarem por Kaiserode, observaram: “Esta é a mina onde
está guardado o ouro.”
A 7 de abril de 1945, oficiais americanos encontraram, a 700
metros de profundidade, um bilhão de marcos que tinham ficado
para trás. Em seguida, acharam 7.000 sacos numerados, numa
galeria de 45 metros de comprimento por 22 de largura e quatro
de altura. O tesouro incluía 8.527 barras de ouro, moedas de
ouro da França, Suíça e EUA. Baixelas de ouro e prata, amas-
sadas para reduzir espaço, empilhavam-se em caixas e arcas.
Outrossim, havia malas com diamantes, pérolas e outras pedras
preciosas roubadas às vítimas dos campos de concentração.
Contando ainda com dinheiro inglês, norueguês, turco, espanhol
e português, constituia-se todo aquele acervo num dos maiores
tesouros do mundo. Era cerca de 93,17% das reservas do III
Reich no fim da guerra.
Tendo Hitler aprovado a tentativa de evacuação das reservas
ainda existentes, o coronel Rauch procurou enviar para a Baviera
barras e moedas de ouro que teriam hoje o valor de US$ 150 mi-
lhões. Com os bombardeios aliados, desorganizaram-se as comu-
nicações e transportes da Alemanha. Durante o trajeto de duas
semanas até Munique, em que parte dos valores foram transferi-
Zolá Pozzobon 201

dos para caminhões, algo desapareceu. Atribui-se a Hans Alfred


Von Rosenberg-Lipinski a retenção de moedas e caixas contendo
tesouros. Outros seguiram-lhe o exemplo, como Emil Januszewski,
do Reichsbank, que acabou se suicidando ao ser descoberto quan-
do tentaram acender a lareira de um alojamento de oficiais e desco-
briram que a chaminé estava entupida com barras de ouro.
O Dr Funk e outros altos oficiais nazistas não revelaram aos
Aliados a localização do restante das reservas de ouro. Após qua-
tro anos de rigorosa investigação, especialistas americanos relata-
ram que cerca de US$ 46,5 milhões em ouro e US$ 12 milhões em
papel-moeda (tudo nos valores de hoje) haviam desaparecido.
Não só os alemães se aproveitaram da confusão para enri-
quecer, como também numerosos soldados americanos mos-
traram terem “dedos leves”, o que verificou o general Patton
com muito desgosto, pois era homem honesto e até escrupuloso
em matéria de dinheiro.
Em 1990, o mundo soube que valiosas obras de arte alemãs,
inclusive inúmeros exemplares medievais, estavam inexplicavelmente
sendo comercializadas pelos herdeiros de um desconhecido vete-
rano de guerra do Texas, o Sr. Joe T. Meador.
Entre tais obras encontrava-se um manuscrito dos quatro Evan-
gelhos, do século IX, encadernado a ouro e prata, com iluminuras
de 1.100 anos, proveniente de uma igreja de Quedlinburg, Alema-
nha. Subitamente, o manuscrito foi vendido na Suíça por US$ 3
milhões! O verdadeiro valor desta “jóia”, escrita 600 anos antes da
publicação da Bíblia de Gutenberg, é de cerca de US$ 30 milhões.
O tesouro escondido por Meador, no Texas, ainda incluía outro
manuscrito de 1513; peças em forma de coração ou de salvas; um
valioso frasco de cristal de rocha, que se dizia conter uma mecha
dos cabelos de Nossa Senhora; um crucifixo de ouro e prata; um
pente do século XII, que pertenceu a Henrique I, e inúmeros outros
objetos de grande significado histórico e religioso.
O audacioso texano foi autor de um dos maiores roubos de objetos
de arte do século XX, ultrapassando de longe Hermann Goering, o
famoso comandante da Luftwaffe. Certa vez ele confessou a um
amigo que se debatia entre sentimentos de culpa e a satisfação
que lhe proporcionava a beleza daquelas obras!
Os herdeiros do ladrão americano concordaram em renunciar
à totalidade do tesouro contra o pagamento de US$ 2,75 mi-
lhões, superando em um milhão a primeira importância já recebi-
da pelos Evangelhos!

Para Meador e seus herdeiros, o crime compensou!


Zolá Pozzobon 203

As duas faces de
uma mesma nação
A Coréia é uma península do leste da Ásia, ao sul da Mandchúria
e da Sibéria. Possui 917 Km no sentido dos meridianos e de 200 a
322 Km no sentido dos paralelos. São seus limites, ao norte, os rios
Yalu e Tumen; ao sul, o Estreito da Coréia; a oeste, o Mar Amarelo,
e, a leste, o Mar do Japão. Sua área, de cerca de 220 mil Km2, é
dotada de um litoral de 8.690 Km, onde se encontram 3.500 ilhas.
Em 1945, ao fim da II Guerra Mundial, tropas norte-america-
nas e soviéticas ocuparam a península, respectivamente ao sul e
ao norte do Paralelo 38o norte. Em 1947, após eleições separa-
das, estabeleceram-se governos independentes em cada zona.
Após contínuos ataques, forças comunistas invadiram a Coréia
meridional, em 25 de junho de 1950. O Conselho de Segurança da
ONU prestou socorro ao país através de contingentes da Austrá-
lia, Bélgica, Canadá, Colômbia, Etiópia, França, Holanda, Reino
Unido, Turquia e África do Sul.
A ofensiva norte-coreana progrediu rapidamente para o sul e,
depois de três dias de luta pela posse de Seul, tomaram a capi-
tal. O porto de Pusan também teria sido conquistado, não fosse
a intervenção imediata de forças norte-americanas estaciona-
das no Japão.
Diante de Taejon, foi detida a ofensiva comunista. O general
Douglas Mac Arthur, comandante norte-americano no Extremo
Oriente, assumiu a chefia das tropas da ONU. No decorrer de
setembro e outubro, não só foi reconquistada a Coréia do Sul
como as tropas de Mac Arthur cruzaram pela primeira vez o Para-
lelo 38o, avançando até às fronteiras da Mandchúria.
Porém, em princípios de novembro, cerca de 500 mil soldados
chineses, atravessando o Rio Yalu, iniciaram uma ofensiva em
204 O véu e a espada

toda a frente. Em fins de dezembro, caiu Seul novamente, agora


capturada por chineses e norte-coreanos.
Em fevereiro de 1951, a China foi condenada pela Assembléia
Geral da ONU como potência agressora. A resposta chinesa foi o
lançamento de nova ofensiva. No entanto, as tropas da ONU reto-
maram Seul em março e cruzaram novamente o Paralelo 38o.
Diante desse vai-e-vem, o general Mac Arthur advogou levar a
guerra ao território chinês, com o que discordou o presidente dos
EUA, Harry Truman, que o substituiu pelo gal. Matthew Ridgway,
sendo este depois substituído por Mark Clark.
Em julho de 1951, iniciaram-se em Panmunjom conversações
de trégua que se prolongaram por dois anos (até junho de 1953).
No mês seguinte, foi assinado o armistício. Em abril de 1954,
representantes dos países que haviam tomado parte na luta reu-
niram-se em Genebra, em busca de uma solução definitiva para o
problema coreano. Não chegaram a acertar qualquer acordo,
baseado em eleições livres, sob supervisão da ONU.

Pontos de análise:
1) A Guerra da Coréia foi um choque de fronteira, em que se
enfrentaram comunismo e capitalismo ocidental, não diretamente
num conflito geral entre os mentores das duas facções, mas atra-
vés de terceirização de combatentes.
2) O conflito assumiu grandes proporções. Estima-se em dois
milhões o número de soldados mortos em combate ou em conse-
qüência da guerra, entre norte-coreanos e chineses. Houve muita
destruição no território da península e milhares de civis coreanos
perderam a vida.
3) A sugestão do general Mac Arthur de levar a luta ao território
chinês, já que Pequim enviara 500 mil combatentes para invadi-
rem a Coréia do Sul, foi fruto de raciocínio puramente militar. As
conseqüências políticas, caso tal decisão fosse adotada, poderi-
am representar o envolvimento dos EUA e de seus aliados em um
confronto direto com a China, o que o presidente Truman evitou,
muito acertadamente.
Zolá Pozzobon 205

O apocalipse nuclear

Nos primeiros dias de março de 1945, 334 bombardeiros ameri-


canos B-29 atacaram Tóquio, destruindo 267.171 prédios. Morre-
ram 84 mil civis e 40 mil ficaram feridos. Foram arrasados 41 km2
da cidade. Em 22 de junho de 45, a guarnição japonesa que defen-
dia a llha de Okinawa rendeu-se, face ao desembarque americano.
Dois dias depois, tropas australianas ocuparam a região petrolífera
situada no norte de Bornéu.
Teve inicio, a 10 de julho, a grande ofensiva aérea anglo-ame-
ricana contra o Japão. Os chineses, com seu território invadido
pelos nipônicos desde a década de 30, começaram uma franca
reação o contra o invasor e se apossaram da base aérea de Kweilin,
no sul da China. O presidente dos EUA, Harry Truman, (substituto
de Roosevelt) e o Alto Comando já percebiam a necessidade de
invadir o arquipélago japonês, porém, o custo da gigantesca opera-
ção seria elevado, tanto em material quanto ao número de vítimas.
Os cálculos estimavam em mais de um rnilhão de mortos e feri-
dos, entre os americanos atacantes e os nipônicos na defensiva.
Mas os ianques possuíam um trunfo para evitarem a concretização
de tão terrível perspectiva.
Os homens da ciência haviam apreendido a dominar o processo
da fissão nuclear. Os materiais necessários para isso eram o isótopo
do urânio, denominado urânio 235, e o plutônio. A descoberta da
fissão do urânio (divisão do átomo), capaz de liberar grande ener-
gia, foi anunciada em janeiro de 1939 por dois cientistas alemães,
Otto Hahn e F. Strassmann. No outono daquele ano, Albert Einstein
persuadiu o presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, a priorizar
os estudos e experiências, cujo resultado foi a invenção e o fabrico
da bomba atômica. Tal empreendimento contou com a participação
dos governos dos EUA, Grã-Bretanha e Canadá, bem como de
206 O véu e a espada

cientistas de várias nacionalidades, e exigiu, além de ampla investi-


gação científica, o emprego de várias instalações industriais.
A primeira bomba explodiu a 16 de julho de 1945, no campo de
experiências da Base Aérea de Alamogordo, no Novo México, EUA.
A explosão iluminou montes situados a 16 Km de distância. Houve
tremendo estrondo e deslocamento de ar semelhante a um fura-
cão. Levantou-se imensa nuvem em forma de cogumelo, que che-
gou a mais de 12 mil metros de altura. O calor de milhões de graus
centígrados derreteu a torre que servia de suporte à bomba. For-
mou-se no local imensa cratera, cujo chão de areia ficou vitrificado.
Tudo isso realizou-se no maior segredo possível.
Em 6 de agosto, o mundo surpreendeu-se com a notícia de que
os EUA haviam lançado a primeira bomba nuclear sobre o território
japonês, em Iroshima (343 mil habitantes). Todo o setor do comér-
cio central desapareceu, restando apenas as armações de concre-
to de três edifícios. A mais de 3 Km do centro, as casas sofreram
sérios danos. As vítimas foram 66 mil mortos e 69 mil feridos, isso
em questão de segundos.
As autoridades japonesas não sabiam exatamente do que se
tratava. Três dias depois, outra bomba nuclear foi lançada sobre
Nagasaki, onde pereceram 39 mil pessoas e 25 mil ficaram feridas.
Não restava alternativa a não ser a capitulação.
As armas nucleares abreviaram a guerra, liquidando com 105 mil
pessoas e inutilizando 94 mil, a maior parte vítimas irremediáveis de
radiações nucleares. No entanto, os terríveis artefatos evitaram o
sacrifício de um milhão de seres humanos nos meses seguintes,
caso a invasão se concretizasse. Foi um risco calculado, traçado
sobre as costas dos japoneses.
Os soviéticos aproveitaram a oportunidade para declarar guerra
ao Japão, a fim de obterem vantagens territoriais. A partir de 30 de
agosto, os americanos ocuparam a cidade de Yokohama e a área
em torno de Tóquio. Enfim, em setembro, os japoneses assinaram,
a bordo do encouraçado Missouri, a capitulação diante dos aliados.
A 9 de setembro, o general Mac Arthur, comandante americano na
área do Pacifico, desembarcou na capital japonesa.
No dia seguinte, o exército nipônico, com cerca de um milhão
de homens, rendeu-se na China, cessando as operações contra
aquele país.
Assim terminou o maior conflito armado da História, que envol-
veu todos os continentes, dezenas de países e ceifou a vida de 15
milhões de militares e quase o dobro de civis.
O homem aprendeu a fissionar o átomo e adquiriu o poder de
extinguir sua própria espécie da superfície da Terra!
Zolá Pozzobon 207

Tempos modernos

Os Aliados agora reúnem-se sob a bandeira da Otan e não


lutam mais por territórios, mas sim por mercados consumidores
Zolá Pozzobon 209

O esquálido x o atleta

O Vietnã está situa-


do na parte oriental da
península da Indochina.
Resultou da reunifica-
ção (1976) do Vietnã do
Norte, com cerca de
158 mil Km2 e capital
em Hanói, e do Vietnã
do Sul (173 mil Km2),
capital em Saigon. A
população contava, no
início da década de 80,
com 53 milhões de ha-
bitantes. A última cida-
de denomina-se hoje Ho Chi Min e Hanói é a capital.
Ao norte, destacam-se o delta aluvial do Rio Vermelho e uma
grande região montanhosa. A zona central compõe-se de peque-
nas planícies isoladas e dominadas pelos contrafortes da cadeia
Anamita. No sul, distingue-se o delta do Rio Mekong. O clima do
país é tropical, com monções de verão.
O contato com a Europa começou através dos navegadores
portugueses e espanhóis, no século XVI. Seguiram-se mercado-
res ingleses e holandeses e missionários franceses. Os gauleses
conquistaram o país na segunda metade do século XIX, sob
Napoleão III. Em 1925, Ho Chi Minh fundou a Liga Revolucionária
da Juventude Vietnamita. Ao norte, era de caráter comunista o
movimento de independência. No sul, de aspecto semi-religioso.
Durante a II Guerra Mundial, o país foi ocupado pelos japoneses.
Em 1946, a França reconheceu a independência do Norte, no
210 O véu e a espada

quadro da União Francesa. 15 mil de seus homens estabelece-


ram-se em Hanói. No mesmo ano, irrompeu a guerra, que durou
até 1954, quando a base de Dien Bien Phu caiu após um cerco de
55 dias. O país ficou divido em duas porções. A partir de 1961,
iniciaram-se as guerrilhas do Vietcong, braço armado da Frente
de Libertação Nacional. No sul, sucederam-se efêmeras ditaduras,
até 1967, com a eleição do general Nguyen Van Thieu. O Vietnã
do Norte mostrava-se estável, com Ho Chi Minh na presidência e
o estrategista Vo Nguyen Giap no Ministério da Defesa.
A partir de 1965, iniciaram-se as infiltrações no sul, por parte
das tropas regulares do Vietnã do Norte. Temendo a expansão
comunista, os EUA enviaram tropas àquela região: os contingentes
iniciais, de 23 mil homens em 1965, passaram para 542.500 em
1969. As ações terrestres e os bombardeios aéreos estratégicos
contra o Vietnã do Norte pareciam alterar o balanço de forças con-
tra os comunistas. Porém, em janeiro e fevereiro de 1968, o Vietcong
lançou a Ofensiva do Tet, gigantesca campanha de ataques suces-
sivos, durante a qual ocupou 36 das 44 capitais provinciais, chegan-
do os combates aos subúrbios de Saigon. Percebendo a gravidade
da situação, a opinião pública norte-americana demonstrou seu pro-
fundo descontentamento com a situação. Lyndon Johnson, presidente
dos EUA, determinou a suspensão, em outubro de 1968, dos
bombardeios ao Vietnã do Norte, o que abriu caminho às negocia-
ções com Hanói, Saigon e o Vietcong. Em 1973, firmou-se em Paris
um acordo definitivo de cessar-fogo, com troca de prisioneiros,
neutralização do Vietnã do Sul e reunificação das duas partes em
que fora dividido o país. Sucederam-se violações ao acordo. A maior
parte das forças americanas deixou o sul e as tropas regulares do
Vietnã do Norte entraram no conflito. Meio milhão de civis e militares
fugiram para o extremo sul. A 30 de março de 1975, caiu Danang e,
em abril, os comunistas obtiveram a vitória decisiva de Xuan Loc.
Enquanto se preparava a rendição, navios norte-americanos e sul-
vietnamitas transformavam-se em refúgio para mais de 100 mil
pessoas. 160 mil sul-vietnamitas exilaram-se nos EUA. Em 2 de
julho de 1976, os dois países foram oficialmente reunificados, após
22 anos de separação.

O receio de que o comunismo reinante no Vietnã do Norte se


difundisse para o Sul fez com que os EUA prestasse assistência
ao governo de Saigon. De início, apenas assessores; depois,
equipamentos militares e tropa, num crescendo que atingiu mais
de meio milhão de homens, milhares de aviões e dezenas de
Zolá Pozzobon 211

navios de guerra.
A conjugação de fatores desfavoráveis, como o terreno mon-
tanhoso e a floresta tropical densa e desconhecida, dificultou a
atuação das tropas norte-americanas, não adaptadas a tais cir-
cunstâncias e acostumadas a lutarem em terreno aberto, com
linhas nítidas, ligações fáceis, em certos casos, até pela vista.
Grande parte daquela guerra foi de caráter irregular, sem fren-
tes definidas. O inimigo atacava de surpresa e diluía-se na flo-
resta, deixando os ianques sem possibilidade de caçá-lo e de
empregar seu sofisticado armamento.
Os vietcongs (guerrilheiros) eram hábeis em preparar arma-
dilhas, com os meios encontrados nos próprios locais de empre-
go, como laços, covas cobertas com vegetação, escondendo
enormes espetos de pontas de bambu contaminadas com fezes.
Ao caírem em tais buracos ou neles colocarem o pé inadvertida-
mente, feriam-se os soldados norte-americanos, ficando sujei-
tos a infecções, muitas vezes fatais.
Os vietcongs cavavam abrigos subterrâneos e extensos tú-
neis que davam acesso à retaguarda de seus inimigos, e dessa
forma surgiam inopinadamente nos mais diversos lugares, cau-
sando o máximo de confusão ao adversário.
Os camponeses do Vietnã do Sul foram forçados a apoiar os
vietcongs, que não titubeavam em os ameaçar, caso dessem a
menor ajuda aos combatentes de Saigon ou dos EUA.
Os acampamentos dos sul-vietnamitas e norte-americanos
eram espionados constantemente. Muitos indivíduos que lhes
prestavam serviços à luz do dia, durante a escuridão participa-
vam de ataques, orientando as tropas de infiltração dos vietcongs.
O governo do Vietnã do Sul era oportunista e apresentava
visíveis sinais de corrupção, o que dificultava o esforço norte-
americano e levava o descontentamento à população.
A opinião pública norte-americana, a partir do momento em
que se deu conta do “atoleiro” em que seus combatentes haviam
caído, praticamente passou a exigir de Johnson a retirada das
forças dos EUA da região do conflito.
Milhares de soldados ianques sofreram grandes desajustes
durante a guerra, seja devido às péssimas condições de combate;
ao adversário “invisível” e, ao mesmo tempo, onipresente; ao uso
das drogas, à correspondência que recebiam de casa, na qual
seus parentes só desejavam vê-los fora daquele “inferno” tropical.
A Guerra do Vietnã causou verdadeira síndrome à nação nor-
te-americana, tanto às forças armadas quanto à população.
212 O véu e a espada

Quando se desencadeou a Guerra do Golfo, em 1991, os ianques


sofriam de insegurança, estando presentes na memória de mui-
tos os revezes que, pela primeira vez na História, haviam expe-
rimentado no Vietnã. Mas, dessa vez, não havia motivos para
temores: o Iraque é um país sem cobertura vegetal significativa
e seus combatentes não tinham a “garra” dos vietcongs!
Zolá Pozzobon 213

Fúria na Mesopotâmia

Situado na histórica Mesopotâmia, limita-se o Iraque ao norte


com a Turquia, a leste com o Irã, a sudeste com o Golfo Pérsico,
ao sul com o Kuwait e Arábia Saudita e a oeste com a Jordânia e
a Síria. Estende-se por cerca de 435 mil Km2 e a população é
estimada em 18 milhões de habitantes. É elevado o índice de
analfabetismo: 75%. A capital é Bagdá, às margens do Rio Tigre.
O território apresenta uma vasta planície disposta entre planaltos
assimétricos. A oeste e noroeste, as terras elevam-se gradualmente.
A oeste do Vale do Eufrates, surge, em certos pontos, uma escarpa
(Iraque) bem discernível. Administrativamente, o território comprende
16 províncias.
Assim como o Egito é um dom do Nilo, o Iraque o é de seus
caudalosos rios Tigre e Eufrates, que correm no sentido
noroeste– sudeste e se lançam no golfo, depois de se juntarem
no Shat Al Arab.
Na planície, o clima é árido e quente. Na região mais elevada
do Curdistão e da Assíria, a precipitação atinge 1.000 mm. A
cobertura vegetal não é significativa. A vegetação é do tipo estépico,
com herbáceas, bem como espinheiros e arbustos.
A maioria da população é constituída por árabes, no centro, oeste
e sul do país. No norte e leste, predominam os curdos. A religião
oficial é a muçulmana, sendo 75% do rito xiita. Quase a metade da
população vive da pecuária e da agricultura. O país é o maior produtor
de tâmaras do mundo, mas sua riqueza é o petróleo.
A História do Iraque remonta à antiguidade e está ligada à
Assíria, Babilônia, Mesopotâmia e Pérsia. É de se destacar que,
da cidade de Ur, na Caldéia (ao sul), saiu Abraão, patriarca
considerado o pai do povo judeu.
A entrada da Turquia na I Guerra Mundial levou o Reino Unido a
214 O véu e a espada

invadir o atual Iraque para proteger seus interesses no Oriente Médio.


Estabeleceu-se, então, um mandato que durou até 1932. A partir
de 1970, o país adotou a forma republicana de governo. A autoridade
suprema concentrou-se no Conselho do Comando da Revolução.
Em 1978, Saddan Hussein, do partido Baath, assumiu a
Presidência, iniciando um ambicioso programa de modernização
do país. Natural de Tikrit (1937), cidade a noroeste de Bagdá,
desde a juventude ele exerceu forte militância política, inclusive
participando de tentativas de golpe.
No vizinho Irã, seu monarca, o xá Reza Pahlevi, que formara
uma agremiação política única, o Partido da Ressureição Nacional,
passou, em 1977 e 1978, a enfrentar crescentes manifestações
contrárias a seu governo, com caráter marcadamente religioso,
sob o comando do líder xiita o aiatolá Khomeini, então exilado em
Paris. No ano seguinte, o movimento transformou-se em insurreição,
obrigando o xá a deixar o país, oficialmente “em férias”. O aiatolá
voltou ao Irã, a monarquia foi derrubada e cerca de 700
colaboradores do rei foram fuzilados.
Diante das agitações que ocorriam do outro lado da fronteira, e
aproveitando-se da “desordem lá reinante”, Saddan Hussein passou
a encarar seriamente a possibilidade de invadir o Irã, tendo em
vista evitar que a avalanche fundamentalista dos xiitas iranianos
viesse a ameaçar suas aspirações de hegemonia na região.
Soviéticos e norte-americanos dispuseram-se discretamente a
apoiar o Iraque com material de guerra.
Assim, em 1980, Saddan ordenou a invasão do Irã, iniciando
uma guerra que iria durar oito anos e causaria muito desgaste
para ambos os lados.
Mas os atacantes não foram capazes de realizar penetrações
significativas no dispositivo iraniano nem de explorar seus êxitos
parciais sobre um inimigo fraco e às voltas com profundas
mudanças políticas. Ao cessar as hostilidades, o Iraque não obteve
qualquer vantagem visível nem o Irã viu sua integridade abalada
pelo militarismo iraquiano.
A terceira peça neste tabuleiro é o Kuwait, um pequeno país
desértico situado ao sul do Iraque e às margens do Golfo Pérsico,
com 17.818 Km2 e população de pouco mais de 1,1 milhão de
habitantes. O petróleo proporciona-lhe uma das maiores rendas
per capita do mundo, altos padrões de educação e assistência
médica. Tornou-se protetorado do Reino Unido a partir de 1914,
protegendo-se, assim, contra tentativas de controle pela Turquia.
Em 1961, ficou independente, e o Iraque passou a reclamar
Zolá Pozzobon 215

soberania sobre o país, sendo mesmo iminente a invasão,


impedida, porém, pela ajuda militar britânica.
Em 1990 começaram a surgir indícios de que Saddan Hussein
mandaria suas tropas invadir o Kuwait. Em 15 de julho daquele ano,
o ministro das Relações Exteriores iraquiano, Tarik Aziz, enviou carta
ao Secretário Geral da Liga Árabe acusando o Kuwait de roubar
petróleo do campo petrolífero de Rumália, junto à fronteira do Iraque.
No dia 18 o Gabinete do Kuwait examinou a demanda iraquiana de
ressarcimento de US$ 2,4 bilhões pelo petróleo de Rumália. No dia
25, Hussein disse à embaixadora dos EUA em seu país, April Glaspie:
“Sua sociedade é tal que não pode aceitar 10 mil mortos numa
batalha.” Glaspie teria respondido que os EUA ainda não haviam
formado uma opinião sobre a disputa de fronteira entre Iraque e
Kuwait, no entanto, advertiu que o emprego da força seria um erro.
A 31, tiveram início as conversações entre Iraque e Kuwait em
Jeddah, quando Saddan exigiu que lhe fosse entregue a área
contestada (Rumália) e o pagamento de US$ 10 bilhões. A seguir, o
Iraque concentrou 100 mil homens na fronteira e retirou-se das
conversações com o Kuwait. No dia 2 de agosto, os iraquianos
iniciaram a invasão ao país vizinho, a partir das 4 horas da manhã.
Pela Resolução 660, o Conselho de Segurança da ONU
condenou a invasão e pediu a retirada imediata das forças, mas o
Iraque proclamou o Kuwait como sua 19ª província.
Os EUA iniciaram intensa campanha diplomática, tendo em vista
formar uma coalizão de forças para atuar no Oriente Médio e
obrigar o Iraque a voltar atrás, mesmo pelo emprego da força.
Simultaneamente iniciaram a mobilização e a concentração de
efetivos militares na Arábia Saudita, no Mar Vermelho e no Golfo
Pérsico. Em 29 de novembro, o Conselho de Segurança da ONU
concedeu prazo ao Iraque até o dia 15 de janeiro próximo para
cumprir todas as resoluções prévias. A partir daí, as forças da
coalizão estavam autorizadas a empregar a força, se necessário.
Dois dias depois de vencido o ultimato, às 02h30min. em Bagdá,
teve início a operação Tempestade no Deserto, com maciços
ataques aéreos e de mísseis contra objetivos no Kuwait e no
Iraque. Mísseis iraquianos foram lançados contra Israel e Arábia
Saudita. A 30 de janeiro carros de combate e tropas iraquianas
penetraram na Arábia Saudita até a cidade de Khafjie, onde foram
contra-atacados e repelidos. Mais de 50 poços petrolíferos no
Kuwait estavam em chamas. Poucos dias depois, passavam de
150 os poços incendiados.
No dia 23 de fevereiro, às 4 horas, teve início a ofensiva terrestre.
216 O véu e a espada

39 países forneceram forças para formarem a coalizão contra o


Iraque. É óbvio que as mais numerosas e representativas foram
as dos EUA: mais de 527 mil homens; 1.200 carros de combate e
2.200 viaturas blindadas; 100 navios de guerra, incluindo o Mis-
souri e o Wisconsin e os porta-aviões Midway, Ranger, Saratoga,
John Kennedy, America e Theodore Roosevelt; mais de 1.800
aeronaves de combate e 1.700 helicópteros.
Do lado iraquiano, forças desdobradas para a defesa do Kuwait
ocupado: 550 mil soldados e, na fronteira com a Turquia, três divisões;
unidades de defesa interna e antiaéreas no interior do país. Pode-
se admitir que o Iraque tenha mobilizado um milhão de homens,
entretanto, convém ressaltar que somente as forças da Guarda
Republicana (150 mil homens) estavam em condições de tentar
enfrentar os exércitos profissionais presentes no teatro de operações.
As forças terrestres, comandadas pelo general Schwartzkopf,
foram se desdobrando no terreno de forma a indicarem seu futuro
emprego. Revistas especializadas expuseram a idéia de que o
esforço principal da coalizão não se realizaria em território
kuwaitiano e, sim, a oeste, através do Iraque, num movimento
envolvente. Assim, parece incompreensível que Saddan Hussein
não levasse tais “dicas” em consideração.
Eis o dispositivo adotado pelos EUA e seus aliados, de leste
para oeste: no litoral, os fuzileiros navais, com cerca de duas
divisões. Força árabe multinacional: egípcios, sauditas, kuwaitianos
e sírios. I Divisão de Cavalaria, Divisão britânica, VII e XVIII
batalhões do Exército dos EUA e Divisão francesa.
No que se refere aos iraquianos: defesa da fronteira do Kuwait
com uma linha de frente (forças mobilizadas), protegidas com
obstáculos contra carros e pessoal. À retaguarda, forças em
reserva (com valor de combate relativo), para contra-ataques
imediatos. Mais atrás, as divisões de elite da Guarda Republicana,
para as reações de caráter estratégico. Observou-se um descuido
mais do que tolerável quanto ao guarnecimento da fronteira entre
o Iraque e a Arábia Saudita (oeste).
As operações a oeste foram realizadas com facilidade, dado o
descuido iraquiano quanto ao setor: os franceses, com o caminho
livre, manobraram no primeiro dia (24 fev.), penetrando 70
quilômetros no deserto, até Al Salman, sem encontrar oponentes.
A 82ª Divisão Aeroterrestre organizou, por via aérea, pontos de
suprimento de combustível e munições, mais ou menos na metade
da distância entre a fronteira e Nassiriyah. Com tal apoio logístico,
as forças de oeste puderam prosseguir rapidamente.
No que tange às operações no território do Kuwait: os fuzileiros
Zolá Pozzobon 217

avançaram ao longo da costa, com apoio naval. Os árabes


penetraram no Kuwait, na direção de Al Salem, sendo os primeiros
a entrar no país. A 1ª DC atravessou a fronteira, numa ação
destinada a atrair as reservas inimigas.
As forças de defesa iniciaram um contra-ataque imediato,
abortado pela ação dos fuzileiros, da aviação e dos helicópteros
anticarros. Pára-quedistas ocuparam o aeroporto da cidade do
Kuwait. Houve rendições em massa. A força aérea passou a atacar
as unidades que se retiravam.
O que se passou com a Guarda Republicana? Ao que parece,
impossibilitado de controlar e dirigir seus exércitos, devido à enorme
deficiência de comunicações, Saddan determinou a seus
subordinados que atuassem de acordo com critérios próprios. A
divisão blindada Tawakalna deslocou-se para o sul, atraídos pela
finta da 1a DC, o que permitiu ao VII Exército e aos britânicos
atacá-la de flanco no segundo dia. A desinformação e a supremacia
aérea adversária explicam a aparente falta de combatividade da
Guarda Republicana. No terceiro dia, o comando da tropa de elite
iraquiana deu-se conta da situação e decidiu salvar, pelo menos
em parte, suas unidades. Com exceção das divisões Tawakalna e
Medina, as demais puderam escapar, apesar de fustigadas pela
aviação. O mau tempo veio em auxílio da Guarda Republicana,
dificultando sobremaneira as manobras dos atacantes.
Resultados: as unidades que ocupavam o Kuwait encontravam-
se em franca retirada, perseguidas pelas forças aéreas. O VII
corpo do Exército havia alcançado o Rio Tigre e a área de
Nassiriyah. Os pontos de apoio logístico desdobrados no deserto
iraquiano funcionavam bem. A força multinacional árabe entrara
na cidade do Kuwait e a guerra estava terminando.
A 27 de fevereiro de 1991, num discurso televisionado, George
Bush anunciou que o combate ofensivo fora suspenso e apresentou
as condições para permanente cessar-fogo: “O Kuwait foi
libertado... E o Exército iraquiano derrotado... Nossos objetivos
militares foram atingidos.” O Kuwait alertou que jamais negociaria
a questão fronteiriça (Rumália) com o Iraque, apesar da resolução
da ONU para fazê-lo. Iraque aceitou os termos norte-americanos
de cessar-fogo, o qual teve início às 8h (hora saudita), 100 horas
depois de haver começado a ofensiva terrestre e 1020 horas após
o início da Tempestade no Deserto.
Não se pode omitir o fato de que Saddan Hussein desejava
capitanear a política no Oriente Médio. Mas, para isso, teria de
enfrentar a oposição de Israel, inimigo tradicional dos árabes e
também hostilizado pelo Irã fundamentalista. Além dos judeus, o
218 O véu e a espada

regime do aiatolá Komeini representava um grande obstáculo e


ameaça latente às pretensões de Hussein.
Em 1980, o Iraque obteve apoio não muito ostensivo dos
ocidentais e da URSS, armou-se e atacou o Irã, numa guerra
que durou muito mais tempo do que o desejado e sem resultados
satisfatórios para o atacante e prejuízos significativos para o
defensor.
O país da Mesopotâmia, que havia tentado incorporar o Ku-
wait em 1961 (na verdade, uma continuação do território
iraquiano), no que foi impedido pelos britânicos, acusou este
último de estar extraindo indevidamente petróleo do campo de
Rumália, situado junto à fronteira. A atitude do Kuwait em
declarar, logo após a expulsão dos iraquianos, que jamais
discutiria com estes a questão da Rumália, apesar das
determinações da ONU para que o fizesse, levanta suspeitas
de que o Iraque tinha razão ao formular sua denúncia.
É de se acreditar que o governo iraquiano não esperava
oposição tão decisiva e determinada quanto a que os EUA
apresentou, secundado pelos membros da coalizão, ao se
consumar a invasão do Kuwait. Caso parecido ocorrera uma
década antes, quando a junta militar que governava a Argentina
desencadeou o ataque às ilhas Falkland (Malvinas): o Reino Unido
foi à guerra para recuperar sua posse sobre o arquipélago do
Atântico Sul.
Embora tivesse grande experiência de combate, adquirida na
demorada guerra contra o Irã, as forças armadas iraquianas não
desenvolveram uma doutrina militar adequada para enfrentar
possíveis reações, que só partiriam de países interessados no
petróleo do Oriente Médio e possuidores de exércitos profissionais
modernos, como os EUA, Grã-Bretanha e França..
Mesmo admitindo que as forças iraquianas tenham alcançado
o efetivo de um milhão de homens, por ocasião da Guerra do
Golfo, dosdobradas ao norte, no interior do país e no sul, o que
mais importava considerar era seu valor combativo e a capacidade
de aplicar esforços decisivos em tempo útil e nos locais desejados.
Na II Guerra Mundial, Mussolini vangloriava-se de que a Itália
dispunha de “sete milhões de baionetas” para fazer face a seus
inimigos. Entretanto, suas tropas não levaram a bom termo a
guerra no norte da África nem na Grécia.
Embora tivesse enviado importantes efetivos ao sul, para
enfrentar as forças que se concentravam na Arábia Saudita e
arredores, Hussein descuidou-se flagrantemente do flanco oeste,
desprezando, ou ignorando, os indicativos de que fortes
Zolá Pozzobon 219

contingentes poderiam manobrar por aquele setor e comprometer


suas forças no Kuwait e no sul do Iraque. Tem-se a impressão
de que ele aguardava algum fato novo que pudesse gerar uma
solução negociada, com vantagem para si. Até porque, a
supremacia aérea da coalizão era mais do que nítida, impedindo
qualquer esforço eficaz por parte da aviação iraquiana.
O lançamento de foguetes Scud contra Israel, que não fizera
parte da coalizão, teve o objetivo de avivar entre os árabes sua
tradicional aversão ao Estado judaico (como aconteceu com a
Jordânia, que não escondeu a simpatia pela causa iraquiana) e,
assim, levantar apoio no mundo muçulmano.
O mundo perguntava-se porque Bush determinara a suspensão
das hostilidades, logo após a libertação do Kuwait e a retirada das
forças iraquianas para o norte, uma vez que Saddan Hussein
continuava no poder e ainda dispunha de numerosos efetivos
armados. Argumentavam os mais entendidos em assuntos militares
que, segundo os princípios de Klausewitz, o inimigo deve ser
destruído ou capitular. Ora, o Iraque havia sido parcialmente
derrotado, mas não capitulara. Simplesmente tinha aceito os
termos de cessar-fogo. Tanto é que, pouco depois, suas forças
armadas conseguiram dominar os levantes curdos no norte e as
manifestações instigadas pelos fundamentalistas iranianos no sul.
Explicam os mais versados em política internacional que a a
derrubada de Hussein representaria um vácuo de poder e a
instalação da desordem no Iraque, o que incitaria o fundamen-
talismo xiita iraniano a se aventurar além-fronteiras. Daí, o “alto”
das forças coligadas.
É de se admitir também que as autoridades norte-americanas
tivessem pressa em retirar a maioria de seus combatentes da
região, tendo em vista satisfazer a opinião pública interna e por
um fim à sangria financeira causada pelos fabulosos gastos de
guerra, não obstante as contribuições alemãs e japonesas.
A Desert Storm, com toda a sofisticação de seu aparato bélico,
não passou mesmo de uma tempestade, com a diferença de
que, depois dela, não veio a bonança. Até hoje aviões ianques e
ingleses continuam fazendo exercícios de pontaria no norte e no
sul do Iraque, sediados na Arábia Saudita e Turquia.
Até quando esses países vão servir de base à agressão anglo-
americana?
Zolá Pozzobon 221

Falkland x Malvinas

Em pleno Atlântico Sul,


a 400 km do ponto mais
próximo da costa patagô-
nica (Argentina), há um ar-
quipélago com cerca de
200 ilhas cujo nome de-
pende de quem se julga
com direito a sua posse:
os britânicos chamam-nas
de Falkland e os argen-
tinos, de Malvinas. Sua la-
titude é de 50º Sul. Está Euforia argentina na guerra contra a Inglaterra
situada a 6.115 km da ilha
da Ascensão e a 13.005 km do Reino Unido. Ocupa excepcional
posição estratégica, permitindo o controle das passagens maríti-
mas entre o Atlântico e o Pacífico, está próxima da rota entre o
Índico e o Atlântico e, junto com as ilhas Geórgia, Órcadas e
Sandwich, todas do sul, constitui como que uma linha de sentinelas
ao norte da Antártida, riquíssimo continente adormecido em torno
do Pólo Sul.
São duas as ilhas principais: Soledad, a leste, e Gran Malvina, a
oeste, separadas pelo estreito de San Carlos. Naquela encontra-se
Port Stanley, ou Puerto Argentino, a capital. O clima é frio e úmido,
com ventos persistentes de oeste. As principais exportações são
lã, couros e peles. São reais as possibilidades de exploração do
“krill”, da pesca, de nódulos minerais do leito marinho e de petróleo.
As ilhas foram descobertas em 9 de agosto de 1592 pelo nave-
gador inglês John Davis. O primeiro desembarque, porém, data de
1690, sob o comando do capitão John Strong, que as denominou
222 O véu e a espada

de Falkland. Tiveram outros nomes, como Anican, Bélgica, Australis,


Neuves de St. Louis, conforme os viajantes que as visitavam, inclu-
sive os de Malovines (de onde a denominação de Malvinas), devido
a pescadores de St. Malo (França), que freqüentavam suas águas
desde o início do séc. XVIII e que nelas se estabeleceram.
Em 1764, L. A. de Bougainville fundou Port Louis, que, por
tratado entre a França e a Espanha, foi cedido a esta, com o
nome de Puerto de la Soledad. No ano seguinte, os ingleses fun-
daram um forte em Port Egmont, na ilha de Saunders, a noroeste
do arquipélago, e reclamaram todas as ilhas para a Coroa. Tor-
nando-se independente, a Argentina tomou Puerto de la Soledad
(1820), até que os ingleses expulsaram seus ocupantes, em 1833.
Desde então, a Argentina passou a reivindicar a posse das
ilhas, sem resultado. Em 1981, governava o país a junta militar
liderada pelo general Galtieri. Era precária a situação interna, a
qual poderia desembocar em grave crise política, econômica e
social, já apresentando sintomas de sublevação do povo. Com o
Chile, agravava-se o caso do canal de Beagle. Havia correntes
que temiam o “expansionismo brasileiro”. E a questão das Malvinas
era uma reivindicação sempre presente na memória dos argenti-
nos. O argumento da soberania sobre as ilhas era legítimo, tanto
sob o ponto de vista histórico quanto geo-político, uma vez que o
arquipélago se posta em frente à província da Patagônia. O go-
verno militar precisava obter condições psicológicas que favore-
cessem a estabilidade interna.
Apoiada em tais realidades, lançou-se a Junta à conquista das
Malvinas. Em 2 de abril de 1982, forças argentinas atacaram-nas
de surpresa, pela madrugada, e as conquistaram. O governador
Rex Hunt e seus auxiliares foram presos e deportados. Assim,
teve início a guerra no Atlântico Sul, que deterioraria as relações
da América Latina com a Europa e os EUA e haveria de causar a
morte de quase mil jovens argentinos e ingleses.
Os sul-americanos, situados à distância dos principais teatros
em que se desenvolveram as últimas guerras, verificaram que
estas também podiam estourar em seus “quintais”, e isso, de uma
hora para outra.
O apoio popular argentino foi imediato, a chama do patriotismo
espalhou-se por toda a nação e as dificuldades foram esqueci-
das. A ocupação mostrou-se fácil, devido à surpresa e ao reduzi-
do poder de reação local.
Uma vez alcançado o objetivo inicial, tratava-se de manter a
posse das ilhas. O governo argentino contava negociar com o
Zolá Pozzobon 223

Reino Unido, na hipótese de que este aceitasse o fato consumado


e reconhecesse a soberania do país sobre as ilhas. Entretanto,
os ingleses não aceitaram a condição prévia da soberania argen-
tina, o que levou a Junta a considerar realmente as medidas ne-
cessárias para opor-se a qualquer tentativa, por parte da Grã-
Bretanha, no sentido de impor sua vontade pela luta armada.
À primeira vista, uma análise ainda que superficial sobre a crise
que então lavrava no Reino Unido, em seus aspectos econômicos
e sociais, comparada ao valor político-econômico das Falklands,
não recomendaria ao governo conservador inglês uma imediata
tomada de posição. Entretanto, a primeira-ministra Margareth
Thatcher, antes mesmo de os EUA se oferecerem para mediar o
conflito, tomou as medidas de mobilização do país.
As negociações, de que foi encarregado o gal. norte-america-
no Alexander Haig, foram demoradas e exigiram movimentação
intensa dele entre Washington, Londres e Buenos Aires. Enquanto
isso, preparava-se a Grã-Bretanha para enfrentar algo com que
não contava: travar uma guerra no Atlântico Sul, a milhares de
quilômetros de distância.
Da parte dos ingleses, havia a exigência de a Argentina voltar
atrás, isto é, retirar suas forças das Falklands. Do outro lado,
para entabular qualquer negociação, os argentinos persistiam no
reconhecimento prévio de sua soberania sobre as Malvinas. Haig
não conseguiu demover nem um nem outro. Os ingleses não es-
conderam sua decisão: arrebatar das mãos do adversário o pe-
queno arquipélago gelado.
Os meios de comunicação começaram a noticiar o deslocamen-
to de tropas e forças aeronavais britânicas para o Atlântico Sul. Boa
parte das elites ibero-americanas evocaram a existência da Orga-
nização dos Estados Americanos (OEA) e o Tratado Interamericano
de Assistência Recíproca (TIAR), ou o Tratado do Rio de Janeiro,
esperando que os EUA se posicionassem a favor da causa argen-
tina. Ledo engano. Os ianques desconheceram a existência de tal
órgão e tratados e, como membros da OTAN, de que fazia parte a
Grã-Bretanha, apoiaram abertamente sua causa e forneceram in-
formações sofisticadas por meio de aeronaves AWACS e satélites.
Com a recusa dos militares argentinos em se retirarem das
ilhas, o governo britânico dirigiu-se à ONU, que, através da Reso-
lução 502, exigiu da Argentina o abandono das Malvinas/Falkland
e a volta à situação anterior. Diante da irredutibilidade da Junta,
Margareth Thatcher decretou o bloqueio do mar argentino, deslo-
cando para lá quatro submarinos atômicos.
224 O véu e a espada

O Almirantado organizou seu plano de operações: desembar-


car nas ilhas e expulsar ou aprisionar os efetivos inimigos. A força-
tarefa inglesa compunha-se de mais de 100 navios de todos os
tipos, em que se destacavam os de transporte de tropas, os sub-
marinos atômicos, que se anteciparam na área de operações,
destróieres, porta-aviões para o emprego de Harriers (aviões de
decolagem vertical), navios de assalto, fragatas, aviões de obser-
vação Nimrod, helicópteros e navios de apoio logístico. A tropa de
assalto compreendia 10 mil fuzileiros, pára-quedistas e forças
especiais. A manobra consistia em reunião da força ao largo das
Malvinas e ocupação da Geórgia do Sul, como medida de segu-
rança. Em seguida, desembarque na ilha de Soledad, sede do
comando argentino.
Em Buenos Aires, a Junta Militar reforçou os efetivos deslo-
cados para as Malvinas, aparelhando-os com todos os meios
necessários à nova fase das operações: a manutenção das ilhas.
As bases de apoio logístico e operacional situavam-se no conti-
nente, a 700 quilômetros, ou mais, de distância, fator não muito
favorável aos tipos de aparelhos da aviação argentina, mais ade-
quados a operações contra objetivos no solo e de defesa do
espaço aéreo do país.
Tais condições impunham o máximo de competência, criatividade
e adestramento de seus quadros e comandos. As unidades da
Marinha eram antigas, não obstante terem sido modernizadas, de
características defensivas, próprias à ação anti-submarina, à guar-
da das águas costeiras contra tentativas de desembarque e ao
bloqueio do Rio da Prata. O efetivo do Exército beirava os 150 mil
homens, a maioria composta de recrutas, porém enquadrada por
oficiais e graduados competentes.
Foram transportados para a ilha cerca de nove mil combatentes,
mas o equipamento, fardamento e outros itens não eram satisfatórios
ao clima local, o que viria a afetar a saúde da tropa. O material
bélico provinha das mais variadas origens, adequados ao combate
moderno. Aos defensores presumivelmente competia barrar o de-
sembarque anfíbio, em cooperação com pára-quedistas emprega-
dos a partir de helicópteros, tudo levado a efeito por tropas de alto
valor combativo; rechaçar os invasores; manter, a todo o custo, um
sistema defensivo em torno de Porto Argentino (Stanley).
Pelo que se deduz de informes colhidos na imprensa, os
argentinos se propunham ainda a defender o Estreito de São
Carlos, desde Porto Darwin a Goose Green, incluindo o acesso
sul, na Baía de Fox, e desdobrar à retaguarda dessas posições
Zolá Pozzobon 225

uma reserva móvel de contra-ataque, para acorrer onde se


fizesse necessário.
Na madrugada de 21 de maio, os britânicos desembarcaram
2.500 combatentes (dobrados até o fim do dia) em quatro locais
na Baía de São Carlos. A aviação argentina contra-atacou, reali-
zando seu esforço máximo entre esse dia e 25 de maio. Os ata-
cantes perderam a fragata Ardent, tiveram os navios Argonaut e
Antrim atingidos e mais dois danificados. Do lado argentino, qua-
tro aparelhos foram abatidos. A 22, os ingleses consolidaram suas
posições e, no dia seguinte, a aviação argentina voltou a atacar e
atingiu a fragata Antelope, que explodiu e afundou. A 25, foi a vez
de o destróier Coventry ser posto a pique. Dois Super Etandard,
armados com mísseis Exocet, atingiram o navio mercante Atlantic
Conveyor, destruindo nove helicópteros a bordo.
Foi notável o desempenho da aviação argentina, porém, seus
pilotos, concentrando os ataques contra os navios-escolta, deixa-
ram as naves de desembarque e de transporte praticamente ile-
sos. Após o dia 25, a Força Aérea Argentina estava quase esgo-
tada, embora viesse a atacar novamente.
No dia seguinte, teve início a progressão dos atacantes sobre
Port Stanley: 1) - Royal Marines e 3º Btl. Pára-quedista, marchan-
do a pé, devido a perdas de helicópteros, pelo norte, na direção
Douglas-Til Inlet, através de terrenos considerados impraticáveis
pelos argentinos; 2) - 2º Btl. Pqd., também a pé, em direção ao
sul, até Darwin e Goose Green, para depois orientar-se sobre
Port Stanley. A 28 e 29, foram conquistadas as duas localidades
acima mencionadas, tendo morrido em ação o comandante do 2º
Btl. Pqd., tenente-coronel Jones. As forças terrestres argentinas
mostraram-se sem iniciativa, a qual passou inteiramente para o
lado do adversário. Os britânicos fizeram mudanças de comando,
para que a 5ª Brigada de Infantaria participasse do ataque a Stanley.
Soldados helitransportados cerraram sobre o Monte Kent.
Entre 5 e 7 de junho, Scot Guards e Welsh Guards, da 5ª Briga-
da, foram conduzidas por mar até Bluff Cove. No dia seguinte, em
plena operação de desembarque, detectada por radares inimi-
gos, dois aviões argentinos atacaram os navios de desembarque
Sir Galahad e Sir Tristan, incendiando um e danificando seriamen-
te o outro. A bateria de mísseis Rapier, instalada para a defesa,
ficou inoperante, devido a defeitos mecânicos. O desastre foi com-
pleto, com perda de inúmeras vidas.
Entre 10 e 14 de junho feriram-se combates nas alturas que
dominam a capital. Apoiados por artilharia de campanha e naval,
226 O véu e a espada

atingiram os britânicos o perímetro de Port Stanley. Às 20 horas


do dia 14, rendeu-se o comandante argentino, general Mário Ben-
jamin Menendez. Pelos recursos que ainda lhe restavam, em
efetivos e equipamentos, era de se esperar maior empenho de-
fensivo. Foram capturados 10 mil prisioneiros, copioso material
bélico terrestre, diversas aeronaves e duas embarcações.

Conclusões
- A decisão de invadir as Malvinas – objetivo nacional perma-
nente da nação argentina, partiu dos pressupostos de que os bri-
tânicos não reagiriam e a operação seria rápida e de baixo custo.
Quanto ao primeiro, é de se admitir que, devido à ambigüidade da
política britânica nas postergadas negociações sobre as ilhas, tenha
levado a Junta a contar com a não reação, sem considerar a
História da Grã-Bretanha que, através dos séculos, só se tem
retirado de determinadas áreas quando a situação é tal que não
compensa ou é impossível de ser revertida. Foi o caso com a
Independência dos EUA, na África do Sul, na Índia, na Palestina
etc.. Mas, admitissem os ingleses a perda das Malvinas como
fato consumado, eventos semelhantes poderiam pipocar aqui e ali
e o prestígio do Reino Unido perante o mundo e a Otan sofreria
grande abalo.
- Quanto ao segundo pressuposto, a conquista das ilhas foi
fácil e de baixo custo. Porém, a manutenção mostrou-se um pro-
blema cuja solução estava acima das possibilidades da Argentina.
Se esta tivesse jogado a premissa da soberania para mais tarde
e negociado, poderia alcançar certas vantagens parciais que, no
futuro, resultassem na posse das Malvinas.
- Como vimos, o apoio dos EUA à Grã-Bretanha desarticulou o
sistema de segurança coletiva do hemisfério (OEA e TIAR).
- O descrédito da Junta, em conseqüência do insucesso bélico,
levou a população argentina a exigir o retorno à democracia.
- A falta de integração entre os comandos argentinos foi um
dos fatores da derrota. Os comandantes-em-chefe das forças
singulares davam ordens diretas a seus subordinados em campa-
nha, sem levar em conta o conjunto das operações. Enviaram às
Malvinas unidades de várias províncias, em lugar de empregarem
um Corpo de Exército já integrado (espírito de corpo).
- A presença de submarinos nucleares britânicos constituiu sé-
ria ameaça à Marinha argentina, que não dispunha de meios para
enfrentá-los, abstendo-se de realizar operações de superfície. Isso
ficou comprovado pelo afundamento do cruzador General Belgrano.
Zolá Pozzobon 227

Os submarinos convencionais argentinos foram empregados em


missões não apropriadas.
- A Força Aérea e os aviões da Marinha lutaram bravamente,
porém, partiam de bases no continente e operavam no limite de
seu raio de ação. Se a pista de Puerto Argentino comportasse o
emprego de aviões de ataque e o navio aeródromo 25 de Mayo
tivesse sido empregado com êxito, travar-se-ia uma batalha
aeronaval decisiva, talvez com resultados bastante diferentes do
que aconteceu.

No que tange à Grã-Bretanha:


- Foram dignos de nota o alto grau de integração de suas for-
ças armadas, a condução das operações combinadas e a estru-
tura de comando.
- Em pouco tempo, a Royal Navy planejou e executou opera-
ções em um teatro de guerra a 13 mil km de distância.
- A contribuição dos submarinos nucleares foi valiosíssima para
a vitória no mar.
- Os navios-aeródromos representaram as únicas plataformas
para emprego de aeronaves ao sul da ilha da Ascenção.
- A participação dos bombardeiros Vulcan da Royal Air Force,
baseados em Ascenção, foi muito pequena, pois, apesar do rea-
bastecimento em vôo, operavam no limite de seu raio de ação.
Um desses aparelhos teve de solicitar, ao aeroporto do Rio de
Janeiro, licença para pousar. Após desarmado, foi-lhe dada per-
missão de decolar e seguir destino.
- A falha dos mísseis Rapier em Bluff Cove possibilitou a dois
aviões argentinos atacantes atingirem dois navios em plena ope-
ração de desembarque, o que provocou grande número de baixas
entre os britânicos.
- Sem a requisição de navios mercantes para transporte de
tropas e apoio logístico não teria sido possível deslocar para o
Atlântico Sul os meios necessários às operações militares.
- Foi importante a ajuda norte-americana aos britânicos, no que
tange a informações através de satélites e dos aviões AWAC.

O conflito revelou que os países latino-americanos não estão


preparados para a guerra moderna face a um inimigo bem arma-
do e adestrado. Sem querer provocar corrida armamentista no
continente, pode-se dizer que nosso país, por seu peso estratégi-
co, é uma nação desarmada: basta computar nossos efetivos e
examinar a exigüidade do orçamento militar. Está em desenvolvi-
228 O véu e a espada

mento o projeto de construção de um submarino nuclear brasilei-


ro, o que demonstra a visão das autoridades navais de nosso
país, que muito aprenderam com a Guerra das Malvinas. É preci-
so equipar nosso navio-aeródromo com aviões de ataque, a fim
de estender-se a área de atuação de nossas forças aeronavais.
Finalmente, novos navios desse tipo devem ser construídos, le-
vando em conta a extensão do litoral brasileiro.
Zolá Pozzobon 229

Bactriana

Báctria era uma antiga região da Ásia (no Afeganistão), onde


viveu Zoroastro. Foi conquistada por Alexandre, o Grande, em
329 a. C., tornou-se independente com a criação do Reino da
Bactriana, no século III a. C., sobreviveu até o século V d. C.,
quando foi devastado pelos hunos.

Oh Deus! Do veneno da cobra, do dente do tigre e da vingan-


ça de um afegão, livrai-nos!
Antigo provérbio hindu.

O Afeganistão é limitado ao norte pelo Turquemenistão,


Uzbequistão e Tadjiquistão; a oeste, pelo Irã e a leste e sul pelo
Paquistão. Portanto, é um país mediterrâneo. Sua área é cerca
de 648.000 km2 e a população (senso da década de 80) era de 22
milhões de habitantes. Kabul é a capital, situada na parte leste de
seu território.
O relevo é constituído de uma grande cadeia de montanhas,
com picos que se elevam a 7600 metros, no sentido geral nordes-
te-sudoeste. Apresenta profundos vales e elevações intermiten-
tes. O clima oferece grandes amplitudes térmicas, ventos e perí-
odos de seca. Nas regiões baixas, a temperatura alcança 40o C
e, nas altitudes, desce a -20o C. As montanhas de médio porte
são cobertas de coníferas.
Existem várias nacionalidades, em que se falam línguas e
dialetos diferentes. As características físicas da população são
diversas, com variados costumes. Como resultado disso, há uma
tênue consciência nacional. Somente 10% da população são alfa-
betizados e a expectativa de vida alcança apenas 40 anos.
A história do Afeganistão remonta a 2500 anos. O país sofreu
230 O véu e a espada

muitas invasões. Já nos referimos a Alexandre e aos hunos. De-


pois, vieram chineses, árabes e mongóis. Mais tarde, ingleses e
hindus. A Rússia, em 1925, 1929 e 1930.
Em 1978, instalou-se um governo pró-soviético. Entre outros,
o fator que mais contribuiu para criar antagonismos ao regime
comunista foi sua identificação com o ateísmo. Outrossim, as
numerosas execuções, num país em que os laços de sangue são
fundamentais, exacerbaram o ânimo dos afegãos. Assim, eclodiu
a insurreição. As tropas do governo mantinham o controle duran-
te o dia, enquanto à noite os mujaheddins dominavam a cena.
De modo geral, os rebeldes controlavam o campo e as aldeias, e
o governo, as cidades.
Em março de 1979, soldados afegãos de Herat juntaram-se
aos rebeldes e perpetraram tremenda carnificina, em que foram
eliminados militares legalistas, autoridades governamentais e con-
selheiros soviéticos, bem como suas famílias. Cabeças de russos
foram espetadas em lanças e exibidas em desfile pela cidade.
O Exército afegão mostrou-se avesso à repressão, suas unida-
des se recusavam a lutar contra seus patrícios, multiplicou-se o
número de desertores, os quais levavam consigo armamento mo-
derno, como foguetes e mísseis anti-carro, com que se abasteci-
am os rebeldes.
Em setembro de 1979, um tiroteio no palácio presidencial ante-
cedeu o desaparecimento de Taraki, chefe do governo. Hafizullah
Amin substituiu-o, apoiado pelos russos.
A incapacidade de o governo afegão conter a revolta, levou a
URSS a enviar 4500 conselheiros àquele país, bem como copioso
e moderno material de guerra. Pilotos soviéticos operavam heli-
cópteros e caças em ataque aos rebeldes. Porém, isso tudo não
foi suficiente. A inviolabilidade e o prestígio do império soviético,
agora de certa forma ameaçados por guerrilheiros de um país
fronteiriço de segunda ou terceira categoria, bem como a necessi-
dade de impor o regime comunista para lá exportado, fizeram com
que URSS se decidisse pela invasão. A Doutrina Brezhnev justifi-
cava a medida, tendo em vista manter intacto o “cordão sanitário”
naquela parte de sua fronteira. Por outro lado, o fanatismo muçul-
mano afegão poderia contagiar as populações muçulmanas sovié-
ticas contrárias ao comunismo e à dominação russa.
A 24 de dezembro de 1979, milhares de soldados soviéticos
transportados pelo ar assumiram o controle de Cabul. Simultanea-
mente, três divisões invadiram o país por terra, dirigindo-se para
Herat, Quandahar e Cabul. A 27, uma unidade de assalto atacou o
Zolá Pozzobon 231

palácio do governo e, apesar de pesadas baixas, assassinou Amin


e membros de sua família. Babrak Karmal foi empossado no poder.
Nos dias seguintes, mais quatro divisões soviéticas cerraram sobre
o Afeganistão. Cerca da metade dos 40 mil homens do Exército
afegão desertaram, muitos deles juntando-se aos mujahedins.
Em março de 1980, unidades soviéticas e afegãs investiram
contra os guerrilheiros em três áreas montanhosas: em torno de
Herat, nas províncias orientais e na região central. Os resultados
foram medíocres. Os soviéticos empregaram helicópteros de as-
salto, bombardeio com napalm e outros agentes químicos, po-
rém, não conseguiram impedir que os guerrilheiros empregassem
sua tática tradicional de ataque, com surpresa e fuga. As baixas,
somadas às da população civil, chegaram a mais de um milhão,
no final de 1984.
A atuação militar soviética desenvolveu-se em três fases no
Afeganistão: 1 - período de guerra convencional. 2 - operações
ofensivas de varredura, conduzidas por pequenas unidades. 3 -
operações especiais.
A primeira, a nível divisão, com o objetivo de esmagar os
mujahedins, não surtiu o efeito desejado. Os blindados não eram
os melhores meios para perseguir os rebeldes.
Na fase subseqüente, empregaram-se forças à base de bata-
lhões reforçados por armas combinadas e apoiados por helicóp-
teros. Foram obtidos melhores resultados, porém, não marcantes.
Na terceira fase, foi dada ênfase às operações especiais. O
grosso dos combates terrestres ficou a cargo das forças afegãs
e algumas unidades de infantaria motorizada russas. Os sovietes
empregaram forças de incursão em profundidade, apoiadas por
helicópteros e aeronaves de combate, com o fim de eliminar a
resistência.
Todas essas modalidades não corresponderam à altura do que
se desejava. O número de baixas e os gastos aumentavam as-
sustadoramente.
Depois de um cessar-fogo unilateral decretado pelo general
Mohamed Najibulá (1986), para facilitar negociações, mas recu-
sado pela guerrilha, foi assinado um acordo em Genebra (1988),
tendo em vista a retirada dos sovietes. A URSS revelou as baixas
sofridas: 13.310 mortos, 34.478 feridos e 311 desaparecidos.
As tropas soviéticas mostraram debilidades em seu desempe-
nho: não estavam aptas à guerra de montanha, não conseguiam
neutralizar os ardis empregados pelos mujahedins, seu apoio aé-
reo não era suficientemente eficaz, as operações de reconheci-
232 O véu e a espada

mento mostraram-se falhas e mesmo a resistência física de


seus combatentes deixou a desejar. As condições de inverno
afegão acarretavam constantes avarias nos carros de combate
e viaturas de transporte de tropas, então fáceis de serem
alvejados nas montanhas.
Com a invasão soviética, a guerra civil entre facções afegãs,
que competiam entre si pelo poder, transformou-se em luta de
libertação nacional contra o odiado invasor russo. As manifesta-
ções contra os sovietes irromperam com grande ímpeto em Ca-
bul, resultando em sérios tumultos, a ponto de provocarem reação
das tropas invasoras e da polícia afegã, que dispararam contra
as multidões, matando e ferindo milhares de pessoas.
Os rebeldes eram imbuídos de uma fanática determinação de
lutar contra o invasor até à morte. Os mullás declararam a luta
uma Jihad (guerra santa) entre fiéis genuínos e os infiéis.

A maioria dos grandes países transformam-se em impérios e


a sede de poder leva-os a se expandirem cada vez mais, até o
ponto de ruptura. Poucos têm sabido manter equilíbrio de convi-
vência com seus vizinhos.
O czarismo russo foi marcado por Ivan, o Terrível (1547-84),
em que a Rússia se tornou um vasto e integrado império. Com
Pedro, o Grande (1682-1725), o império contava com uma po-
pulação multinacional de2
17.500.000 habitantes e uma superfí-
cie de 12.000.000 Km . Catarina II (1762-96) tomou parte na
primeira partilha da Polônia e realizou outras anexações.
Após a Revolução Socialista de 1917,
2
estabeleceu-se a URSS,
estendendo-se por 22.402.200 Km , o que correspondia a 1/7 da
área emersa da Terra, com territórios na Europa e na Ásia.
Uma vez aparada a invasão germânica, na II Guerra Mundial,
com ajuda dos EUA, passou a URRS a controlar o leste europeu,
constituído pelos países do Pacto de Varsóvia.
Fazia parte de sua estratégia buscar uma saída para os “ma-
res quentes”, isto é, não sujeitos a congelamentos. Se a campa-
nha do Afeganistão tivesse êxito, é bem possível que, a seguir,
Moscou dirigisse sua atenção para o Oceano Índico, que seria
atingido através do Paquistão.
O insucesso soviético na “Bactriana” constituiu um ponto de
inflexão para o expansionismo da URSS. Seu universo começou
irremediavelmente a fase de retração, início imposto por um país
do terceiro mundo.
O desgaste provocado pela sustentação da chamada “Guerra
Fria”, que comportava corrida armamentista e espacial, culmi-
Zolá Pozzobon 233

nando com a necessidade de fazer face à chamada “Guerra nas


Estrelas”, à época uma falácia de Ronald Reagan, e a fraqueza do
comunismo como sistema econômico, muito bom para “distribuir
riquezas que não produzia”, levou Gorbachev a realizar
intempestivamente reformas sociais e econômicas, as chama-
das Glasnost e Perestroika, que abalaram profundamente a es-
trutura do Estado soviético, o qual acabou ruindo. Suas 15 repú-
blicas federadas separaram-se. A Rússia, a maior delas, hoje faz
parte, “cambaleante”, da União dos Estados Independentes.
Como castelo de cartas, desmanchou-se o Pacto de Varsóvia.
O muro de Berlim foi derrubado e as duas Alemanhas unifica-
ram-se.
A União Européia e o Euro são novas realidades.
A Otan é uma incógnita que ameaça intervir em toda parte,
se necessário for, para manter a política do G-7.
Zolá Pozzobon 235

Uma confrontação perigosa

A Índia está situada no sul da Ásia. Limita-se ao norte por


Jammu e Caxemira, China, Nepal e Butão; a nordeste por
Bangladesh e Birmânia; a noroeste pelo Paquistão; a sudeste pelo
Golfo de Bengala; ao sul pelo Oceano Índico e a sudoeste pelo
Mar da Arábia. Possui cerca de 3.280.000 km2 e sua população
está chegando a um bilhão de habitantes. Ao norte, fica a cordi-
lheira do Himalaia, o “teto do mundo”.
Em algumas regiões há grande diversidade racial. Em outras,
certa uniformidade. Embora o censo de 1951 tenha registrado 845
línguas e dialetos, há quatro grupos lingüísticos principais. Cerca
236 O véu e a espada

de 83% dos indianos professam o hinduísmo, 11% são islamitas


e, em proporções menores, praticam-se outras religiões.
A Índia regista cerca de 2000 anos de História conhecida, com
inúmeras invasões estrangeiras e rivalidades dinásticas. A expan-
são árabe na Índia teve início em 712, penetrando com ela a reli-
gião islâmica. Os portugueses chegaram ao país à época das
grandes navegações (séculos XV e XVI). Lá estabeleceram-se
Pedro Álvares Cabral (1500) e sucessores, estes ocupando posi-
ções estratégicas. A maior expansão lusitana nas Índias ocorreu
por volta da metade do século XVI. Os holandeses realizaram sua
primeira viagem ao Oriente em 1595 e fundaram a Companhia
Holandesa das Índias Orientais (1602). Com a chegada do con-
quistador inglês Robert Clive (1759) e a fundação da Companhia
Inglesa das Índias Orientais, foram os flamengos forçados a aban-
donar o país. Por sua vez, buscaram os franceses tesouros na-
quela região. Os ingleses, no entanto, combateram-nos, derro-
tando o general Thomas de Lally (1760).
Os britânicos alcançaram o domínio através de lenta conquis-
ta, utilizando, com habilidade, tropas indianas contra seus própri-
os compatriotas, dominando o subconsciente dos subordinados.
Aos poucos, porém, dadas as ligações, influências culturais, ma-
teriais e ideológicas do Ocidente, foi-se formando um movimento
nacional indiano. A I Guerra Mundial favoreceu o ritmo de liberta-
ção. Cresceu a indústria do país e seus filhos, que haviam comba-
tido ao lado dos ingleses, esperavam concessões ao nacionalis-
mo após o conflito. A partir de 1918, produziram-se ondas de
manifestações antibritânicas, sob orientação de Ghandi, seguin-
do-se choques e massacres.
Com o advento da II Guerra Mundial, passaram os indianos a
exigir a independência. O país conheceu notável surto de industri-
alização. Numerosas tropas indianas lutaram na África e na Euro-
pa, incorporadas ao VIII Exército Britânico. Em 1940, foi anuncia-
da a independência e a partilha da Índia em dois estados: o
Paquistão e a própria Índia. Houve enormes movimentos de popu-
lação, mais massacres e cerca de 500 mil pessoas perderam a
vida. Seis milhões de hindus e sikhs migraram do Paquistão Oci-
dental para a Índia, enquanto seis milhões e meio de muçulmanos
fizeram percurso contrário. Em 30 de Janeiro de 1948 Ghandi foi
assassinado por um fanático hindu.
A questão da Caxemira levou a um conflito com o Paquistão
em fins de 1948. Portugal recusou-se a fazer concessões em Goa,
Damão e Diu, que foram anexadas manu militari à Índia. Nehru,
chefe do governo, seguiu uma política neutralista, recebendo as-
Zolá Pozzobon 237

sistência financeira e técnica dos EUA e da URSS.


Em 1965, agravou-se a disputa indo-paquistanesa sobre a
Caxemira, eclodindo guerra não declarada, que durou um mês. A
ONU interveio e cessaram as hostilidades. Indira Ghandi, eleita
primeira-ministra, enfrentou sérias dificuldades e, durante a guer-
ra civil no Paquistão, em fins de 1971, sua intervenção militar na
parte oriental daquele país provocou o desmembramento e a in-
dependência do mesmo, sob o nome de Bangladesh.

O Paquistão fica ao sul da Ásia, na península hindustânica,


juntamente com a Índia e o Bangladesh (ex-Paquistão Oriental).
Limita-se a oeste com o Irã, a noroeste e norte com o Afeganistão,
a nordeste com Jammu e Caxemira, a leste com a Índia e ao sul
com com Mar da Arábia. Sua extensão é de cerca de 804 mil Km2
e a população, avaliada em 1980, era de 84 milhões de habitan-
tes, que já deve ter sido de muito ultrapassada.
Trata-se de um país montanhoso, em que sobressaem ao nor-
te os contrafortes ocidentais do Himalaia. A lingua oficial é o urdu,
mistura de vocábulos árabes, persas e hidis, escrita em caracte-
res persas. Na vida diária são usados idiomas regionais. A maior
parte da população é muçulmana, mas há minorias cristãs,
hinduístas e budistas.
A economia é baseada na agricultura, pecuária, mineração li-
mitada, extrativismo nas florestas montanhosas, pesca artesanal,
indústria têxtil, de cimento, química, açucareira e metalúrgica.
Quanto à História do Paquistão, por mais de seis séculos antes
da dominação inglesa, grande parte do contingente humano, em
que predominavam os hindus, era governada por militares e admi-
nistradores muçulmanos. Ao surgirem os novos governantes, a
isso não se adaptaram os paquistaneses.
Enquanto os hindus reivindicavam uma reforma constitucional
pelo Congresso Nacional Indiano, os muçulmanos procuravam
garantir suas posições através da Liga Muçulmana de toda a Índia
(Daca, 1906). O líder nacionalista Mohamed Ali Jinnah conven-
ceu-se de que o único meio de manter os indianos muçulmanos
em completa subordinação, em todos os campos, era a criação
de um Estado muçulmano. Os ingleses tentaram evitar a ruptura
política e econômica, mas Jinnah não arredou pé. Em 1940, sur-
giu uma nova bandeira no pavilhão das nações, como “domínio”,
no seio da Comunidade Britânica.
A partição e o movimento de refugiados foram seguidos de mas-
sacres, tanto por parte dos hindus quanto pelos muçulmanos. A
Índia mostrou-se hostil ao novo país. Somente o grande prestígio
238 O véu e a espada

pessoal de Jinnah pôde enfrentar o problema de gerir duas áreas


tão diversas, sob todos os pontos de vista, quanto às do Paquistão
Oriental e Ocidental, separadas pela cunha territorial da Índia.
Entre 1951 e 1958, o novo país manteve boas relações e
procurou melhorar sua convivência com a Índia. Mas quando os
chineses realizaram incursões armadas na sua fronteira, a Índia
recebeu apoio de potências ocidentais, o que provocou protes-
tos do Paquistão.
Em 1965, feriu-se um conflito de grandes proporções entre
Índia e Paquistão, como conseqüência de disputas de fronteira
(Caxemira), que foi encerrado por gestões da ONU.
Quando os problemas de manter o domínio sobre a área se
tornaram maiores do que as vantagens ligadas à permanência de
sua administração, os ingleses se retiraram, fazendo a partilha
das Índias, que abrangiam todo o território ocupado por súditos
hindus e paquistaneses. Assim, surgiram dois Estados: Índia e
Paquistão, incluindo este porções ocidentais e orientais separa-
das. Tal medida provocou enorme movimento de populações (vide
a Índia), genocídios e total descontentamento.
Dificilmente qualquer país colonialista conseguiria criar maior
confusão administrativa, após dominar e explorar uma região,
do que o fez o Reino Unido, em relação ao sul da Ásia. Londres
deve ter adotado o lema: “Après moi, le deluge!” (“Depois de
mim , o dilúvio!”).
Surgindo movimento autonomista no Paquistão Oriental
(Bangladesh), o governo central em Islamabad enviou forças mili-
tares àquela região. Assim, eclodiu a guerra civil, com grandes
perdas para ambos os lados. Com apoio da Índia (dividir para
governar!), o Paquistão Oriental saiu vitorioso e independente.
De uns tempos para cá, Índia e Paquistão vêm desenvolvendo
a pesquisa do átomo, inclusive no que tange a explosões nuclea-
res. Ambos realizaram vários experimentos nessa área. Há pou-
co, assistimos pela TV explosões realizadas pelos dois países.
As principais potências mundiais externaram sua preocupação a
respeito. Os respectivos chefes de Estado rivais encontraram-se
mais de uma vez, buscando solução aceitável que afaste a amea-
ça nuclear. No início de julho de 1999 recrudesceram as ações
militares indo-paquistanesas na disputada região da Caxemira.
Confrontação entre países nucleares pode trazer conseqüên-
cias imprevisíveis para os contendores, a região e o resto do mundo!
Zolá Pozzobon 239

Bálcãs – um vulcão eruptível

Soldados gregos durante conflito dos Bálcãs

Bálcãs, grande península do sul da Europa, onde se encontram


a Iugoslávia, a Albânia, a Grécia, a Romênia e parte da Turquia.
Ao norte, correm os rios Danúbio e Drava. A área é banhada pelo
Mediterrâneo, com nomes locais – mar Adriático, Jônio, Egeu e
também pelos mares de Mármara e Negro. Os estreitos de Bósforo
e Dardanelos separam-na da Ásia.
O solo é extremamente montanhoso e o litoral, bastante recor-
tado, com inúmeras ilhas, penínsulas, canais e enseadas. Apre-
senta clima temperado, continental, com invernos rigorosos. É
grande a complexidade étnico-lingüística dos Bálcãs: turcos, indo-
europeus, gregos, albaneses e eslavos, a que pertencem os
240 O véu e a espada

búlgaros e os iugoslavos (estes englobam sérvios, croatas,


eslovenos, macedônios e minorias latinas, como os valáquios).
A complexidade religiosa não é menor: eslovenos e croatas
são católicos; sérvios, macedônios, búlgaros, gregos e a maior
parte dos romenos (70%) são cristãos ortodoxos; os turcos, mu-
çulmanos, bem como minorias eslavas, notadamente da Iugoslá-
via, assim como a maior parte dos albaneses (69%). O restante
destes é composto de cristãos católicos e ortodoxos.
Os turcos dominaram a maior parte da península por mais de
cinco séculos, deixando marcas urbanas, como as mesquitas, e
rurais, como as lavouras de tabaco.

A Iugoslávia. Desde sua formação, em 1919, limitava-se com


a Áustria, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Itália e o Mar
Adriático. Tinha 255.804 Km2 e cerca de 22 milhões de habitantes
(década de 80). Sua capital é Belgrado. A população era constitu-
ída de sérvios, croatas, eslovenos e macedônios, além de minori-
as albanesas, magiares, turcas e outros grupos eslavos e não-
eslavos. Sérvios e croatas falam a mesma lingua, mas aqueles
adotaram o alfabeto cirílico (como também os macedônios), e os
croatas, o latino. A população professa a religião ortodoxa sérvia,
porém, há católicos, outros cristãos e cerca de 10 mil judeus (da-
dos não atualizados).
Os sérvios e os croatas têm a mesma origem étnica e lingüística.
Estabeleceram-se a noroeste dos Bálcãs por volta de 636, oriun-
dos da Galícia. A Sérvia tornou-se poderosa no século XV, com
Dusan, que conquistou a Macedônia e a Albânia. Foi subjugada
pelos turcos desde a batalha de Kosovo (1389) até 1815. Sepa-
rou-se do Império Otomano pelo Tratado de Berlim (1878) e tor-
nou-se reino em 1882. Havendo a coroa passado para outra di-
nastia, na pessoa de Pedro I, o país enfrentou a hostilidade da
Áustria, tendo culminado com o assassinato do arquiduque
Ferdinando, por nacionalistas sérvios e bósnios, o que deu pretex-
to para o início da I Guerra Mundial.
Croácia e Eslovena – Aquela, antes de incorporar-se à Ser-
via, foi ducado independente, reinado que se uniu aos húngaros
por oito séculos, mas resistiu às tentações de absorção e partici-
pou do movimento pela unificação dos povos eslavos. A Eslovênia
é a parte oriental da Croácia, separada desde o século XIII, nova-
mente incorporada em 1538 e, mais tarde, subordinada à coroa
húngara, até voltar a se unir à Croácia em 1918.
Bósnia-Herzegovina – A partir do Tratado de Berlim, perten-
ceu aos turcos, mas foi administrada pelo Império Austro-húngaro
Zolá Pozzobon 241

e anexada, finalmente, pelos Habsburgos, em 1908.


Montenegro - Pelo mesmo Tratado de Berlim, tornou-se prin-
cipado e depois reino. Na I Guerra Mundial, uniu-se aos Aliados e
foi ocupada pela Áustria.

O Estado Iugoslavo, como vimos, formou-se em 1919, da união


da Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e
parte da Macedônia, como resultado da rearrumação da Europa
após a I Guerra Mundial. Iniciou sua trajetória enfrentando as dificul-
dades causadas pela guerra e disputas internas de nacionalidades,
bem como revoltas camponesas inspiradas nos exemplos russos.
Em 1938, diante do perigo de nova guerra na Europa e temen-
do a ameaça alemã, o governo assinou um pacto com o Eixo, mas
foi deposto. Suspeitando que os novos detentores do poder fosse
simpático aos ingleses, Hitler invadiu a Iugoslávia (abril de 1939).
A principal resistência aos invasores partiu dos comunistas que,
liderados pelo croata Jossip Broz, conhecido por Tito, consegui-
ram liberar boa parte da Sérvia e do Montenegro. Com a chegada
das tropas soviéticas à Sérvia, consolidou-se o poder de Tito.
Em 1948, o Cominform condenou a direção do PC iugoslavo,
por “direitismo e nacionalismo burguês” e a Iugoslávia enfrentou
boicote econômico por parte da URSS e países do bloco oriental.
Tito seguiu uma política de aproximação com o Ocidente. Após a
morte de Stalin, normalizaram-se as relações com a URSS, sen-
do o país visitado por Kruchev e Bulganin e, mais tarde, por Brejnev.
A Iugoslávia, em ligação com Egito e Índia, promoveu, junto aos
países do terceiro mundo, a “Política do não-alinhamento”, isto é,
de afastamento dos dois blocos liderados pelos EUA e URSS.
Com a morte de Tito, seus continuadores não conseguiram
manter o equilíbrio politico do país, sujeito a forças, interesses e
tendências tão divergentes. Novas medidas foram tomadas para
reforçar o regime federativo, porém, o espírito autonomista conti-
nuava vivo, particularmente na Croácia. Assim sendo, em 1995,
forças da Otan intervieram no conflito da Bósnia, portanto, fora
dos limites de seu território, mas autorizadas pela ONU. As nego-
ciações foram difíceis, perigosas e demoradas. A situação que
vive hoje a Bósnia-Herzegovina, embora longe da ideal, é de rela-
tiva tranqüilidade, pelo menos, melhor que durante o conflito.
Dadas as modificações políticas ocorridas, a Iugoslávia dos
dias de hoje é formada unicamente pelas repúblicas da Sérvia e
do Montenegro.
Vê-se que os Bálcãs – e a Iugoslávia – constituem a região
mais complexa e explosiva da Europa, tanto sob o ponto de vista
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geográfico, como político e social, com implicações de ordem ét-


nica, lingüística e religiosa. É como se, nos vales apertados entre
as montanhas, se depositassem emaranhados humanos, arrasta-
dos por enxurradas de guerras, disputas e perseguições.

A característica da região é a instabilidade


A questão principal da Iugoslávia gira em torno da província de
Kosovo, nome que assinala a batalha ocorrida em 1389, entre
sérvios e turcos otomanos, em que os primeiros foram dizimados.
Tal província pertence à Sérvia, porém, nela habita expressivo
contingente de população albanesa, de credo muçulmano.
O Exército de Separação do Kosovo luta para obter autonomia
em relação à Sérvia, com o que não concorda esse país, a partir
de seu presidente – Slobodan Milosevich. Ele é acusado de estar
fazendo depuração racial na província, isto é, perseguindo os
albaneses e forçando-os a deixarem o Kosovo.
Alegando a necessidade de pôr cobro à perseguição racial
contra a população albanesa, a Otan iniciou ataques aéreos con-
tra a Iugoslávia, à base de bombas e mísseis, no sentido de re-
verter a situação e obrigar Slobodan a parar seu “genocídio”. A
ofensiva aérea já dura dois meses e o país não dá mostras de
capitular (estamos em 1999).
Como conseqüência da ofensiva aérea, os opositores de
Slobodan, dentro da própria Iugoslávia, cerram fileiras em torno
dele, pois já não se trata de outra coisa a não ser a defesa do
país contra a agressão da Otan.
Além disso, se havia fuga de albaneses devido à perseguição de
soldados sérvios, agora aumenta a corrida para fugir dos bombar-
deios. Se estes têm atingido importantes alvos militares, outrossim
alcançaram um trem de passageiros civis, com inúmeros mortos e
feridos, bem como um comboio de retirantes, com semelhantes
resultados, hospitais e outros erros grosseiros. Os bombardeios
“cirúrgicos” da Otan têm causado carnificina, além de destruir pon-
tes sobre o Rio Danúbio e outros alvos não militares.
A Rússia vem mantendo contatos com os EUA, tendo em vista
uma solução pacífica para o conflito. Até agora, os representan-
tes dos dois países concordaram unicamente em continuar bus-
cando uma solução, enquanto as populações sofrem fome, frio e
todo o tipo de privações, ao perambularem de um lugar para ou-
tro, nas estradas e montanhas geladas da Iugoslávia.
A estratégia da Otan é de continuar os ataques aéreos, até
fazer com que Slobodan capitule. Porém, já se pensa em empre-
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gar meios terrestres. Quanto a isso, não há consenso entre os


membros da organização. A verdade é que só a força aérea não
tem posto fim a nenhuma guerra, como o bombardeio de Londres
em 1940, pela Luftwaffe e os ataques aéreos da “coligação oci-
dental” contra o Iraque, na Guerra do Golfo.
É preciso lembrar que a Otan não é nenhuma organização
mundial representativa da vontade das nações e, sim, um pacto
militar, tendo em vista a defesa de seus membros. Sua desastra-
da intervenção na Iugoslávia deveria, no mínimo, ser respaldada
pelo aval das Nações Unidas, fruto de reunião do Conselho de
Segurança e de apreciação da Assembléia Geral.
Muitos comentam que, fosse a Otan esperar pela decisão da
ONU, Slobodan perpetraria seus crimes por inteiro, nada mais
restando a fazer. Bem, nesse caso qualquer organização regional
pode decidir o que fazer e mandar a ONU às favas!
É difícil prever o fim do presente conflito, como tudo o que
acontece nos Bálcãs. Mas urge evitar que o rastilho de pólvora se
estenda e provoque uma explosão geral, como aconteceu em
Sarajevo, com o assassinato do arquiduque Ferdinando, estopim
que desencadeou a I Guerra Mundial.
Seja qual for a solução para Kosovo – o pomo de discórdia –
ela não será inteiramente satisfatória para qualquer dos lados,
como tem acontecido com os problemas dos Bálcãs, em que nada
é definitivo!
Após este artigo, a situação na Iugoslávia evoluiu, ficando a
província do Kosovo controlada por tropas de países ocidentais e
da Rússia, sob a égide da ONU. Continuam os conflitos entre
albaneses e sérvios, porém, com menos intensidade. A solução
satisfatória para o conflito continua distante.
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