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TRIBUNAL DE JUSTIÇA

PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Registro: 2018.0000062080

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos do Habeas Corpus nº


2254007-31.2017.8.26.0000, da Comarca de Sertãozinho, em que é impetrante
JOSÉ CLAUDIO MOSCATELLI e Paciente ANTÔNIO GEILDO PEREIRA DA
SILVA, é impetrado MM(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA 1ª VARA CRIMINAL DA
COMARCA DE SERTÃOZINHO.

ACORDAM, em 15ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de


Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Ratificaram a liminar e
concederam a ordem. V.U.", de conformidade com o voto da Relatora, que integra
este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores


POÇAS LEITÃO (Presidente) e WILLIAN CAMPOS.

São Paulo, 8 de fevereiro de 2018

KENARIK BOUJIKIAN
RELATORA
Assinatura Eletrônica
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

.Habeas Corpus nº: 2254007-31.2017.8.26.0000 (digital)

Impetrante: José Cláudio Moscatelli (advogado dativo)


Paciente: Antônio Geildo Pereira da Silva
Autoridade Coatora: MM. Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal de
Sertãozinho
Juiz de Direito: Angel Tomas Castroviejo
Comarca: Sertãozinho
Autos originários nº 0008080-83.2015.8.26.0597 (digitais)
Data da prisão: 16/11/2015

VOTO Nº 9542

HABEAS CORPUS. Homicídio. Excesso de prazo.


Duração razoável do processo. Constrangimento ilegal
configurado. Excesso do prazo na instrução que não foi
provocado pela defesa.
Ordem concedida.

Vistos.

Trata-se de habeas corpus (fls. 01/09)


impetrado pelo Dr. José Cláudio Moscatelli, advogado dativo, em favor
de Antônio Geildo Pereira da Silva, sob alegação de constrangimento
ilegal praticado, em tese, pelo MM. Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal
de Sertãozinho, que indeferiu pedido de revogação da prisão preventiva
do paciente (fls. 284/285).

Pugna o impetrante pela concessão de liminar

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e da ordem para que revogada a prisão preventiva, com a expedição de


alvará de soltura. Relata que o paciente foi preso pela prática, em tese,
do crime tipificado no artigo 121, 2º, inciso II, do Código Penal
(homicídio qualificado). Narra o excesso de prazo na prisão preventiva,
que perdura há mais de 2 (dois) anos, 1 (um) mês e 15 (quinze) dias,
sem que encerrada a instrução processual. Argumenta inexistir
justificativa plausível para o esgotamento do prazo máximo previsto
para a instrução processual e que o atraso não foi de forma alguma
provocado pela defesa. Afirma que a situação representa viola direitos
previstos na Constituição Federal e nos demais preceitos legais, em
particular a presunção de inocência. Defende que, conforme a doutrina
e a jurisprudência, o prazo máximo para encerramento da instrução
processual seria de 81 (oitenta e um) dias, e colaciona precedentes.
Destaca que o paciente é primário, possui profissão e residência fixa,
pois, por ocasião da prisão, residia na Rua Tenente Isaías, nº 780,
Distrito de Cruz das Posses, Sertãozinho, SP, junto à sua companheira
Lucimeire e a seu filho. Assevera que o paciente teria assumido
responsabilidade por seus atos, respeitando as autoridades constituídas e
as leis. Aduz não estarem presentes os requisitos para a manutenção da
prisão preventiva. Destaca que a esposa da vítima é a testemunha que
até o momento não foi localizada para prestar depoimento perante o
juízo, e que o paciente não pode ser penalizado pela morosidade da
justiça. Discorre sobre os riscos sofridos pelo paciente com a sua
manutenção no sistema carcerário. Pondera que a atitude inicial do
paciente ao se evadir do local do crime não é suficiente para configurar
a intenção de obstar a aplicação da Lei Penal. Afirma que o paciente se
compromete a comparecer a todos os atos do processo e a não se

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ausentar de seu local de moradia.

Houve pedido de medida liminar, deferido (fls.


287/291), dispensadas informações da Autoridade Coatora, pois os
autos originários são digitais.

A D. Procuradoria Geral de Justiça (Dr. Luís


Daniel Pereira Cintra) opinou pela concessão da ordem.

É o relatório.

A ordem deve ser concedida.

No caso em exame, consta da denúncia (fls.


10/11) que, em 16/11/2015, o paciente foi preso em flagrante pela
prática, em tese, do crime tipificado no artigo 121, §2º, inciso II, do
Código Penal (homicídio qualificado por motivo fútil).

Segundo o apurado na fase de inquérito


policial, o paciente e a vítima André Ferreira de Lima tinham
desentendimentos por questões de vizinhança, em especial relacionadas
ao volume de som.

No dia dos fatos, o paciente teria chamado a


vítima até a calçada de sua residência, para que pudessem conversar, e,
em determinado momento, o paciente teria se apoderado de uma faca e
desferido dois golpes contra o braço esquerdo e a região do coração da

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vítima, que veio a óbito enquanto buscava entrar em casa.

Pois bem.

A prisão sem condenação é medida


excepcional, que deve ser imposta, ou mantida, apenas quando
atendidas as exigências do art. 312 c.c. o art. 313, ambos do Código de
Processo Penal.

Ademais, o direito a um julgamento no prazo


razoável é decorrência do devido processo legal, princípio e garantia
constitucional que permeia todo o ordenamento jurídico brasileiro.
Destaco da doutrina pátria a lição acerca do direito a duração razoável
do processo:

Os principais fundamentos de uma célere tramitação do


processo, sem atropelo de garantias fundamentais, é claro,
estão calcados no respeito à dignidade do acusado, no
interesse probatório, no interesse coletivo no correto
funcionamento das instituições e na própria confiança na
capacidade da justiça de resolver os assuntos que a ela são
levados, no prazo legalmente considerado como adequado
e razoável.
[...]
Processualmente, o direito a um processo sem dilações
indevidas insere-se num princípio mais amplo: a
celeridade processual. Inobstante, uma vez mais se
evidencia o equívoco de uma “teoria geral do processo”,
na medida em que, o dever de observância das categorias
jurídicas próprias do processo penal, impõe uma leitura da
questão de forma diversa daquela realizada no processo
civil. No processo penal, o princípio de celeridade
processual deve ser reinterpretado à luz da epistemologia
constitucional de proteção do réu, constituindo, portanto,
um direito subjetivo processual do imputado. (LOPES JR.,

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Aury e BADARÓ, Gustavo Henrique. Direito ao Processo


Penal no Prazo Razoável. Rio de Janeiro: Editora Lumen
Juris, 2006, p.14-16).

No processo penal, referido direito encontra-se


consagrado na Constituição Federal, onde está grafado nos seguintes
termos:

Art. 5º (...)
LXXVIII - a todos, no âmbito judicial e administrativo,
são assegurados a razoável duração do processo e os meios
que garantam a celeridade de sua tramitação.

É assegurado, portanto, que o acusado preso


seja colocado em liberdade sempre que a duração do processo
ultrapasse um prazo razoável.

No caso em exame, em que pese a gravidade


dos fatos narrados e a violência do delito de que o paciente foi acusado,
verifiquei que, ao tempo da impetração do writ, ele já estava preso há
mais de 780 (setecentos e oitenta) dias, sem que se tivesse encerrado a
instrução processual.

Nesse contexto, verifiquei que a demora não


pode ser imputada à defesa, visto que foram determinantes a demora
nos agendamentos e redesignações das audiências de instrução, a
primeira agendada mais de 1 (um) ano após a prisão em flagrante, e a
ausência da principal testemunha de acusação, esposa da vítima, que
ainda não foi localizada, constando dos autos de origem a informação
de que ela está residindo na comarca de origem (Sertãozinho-SP fls.

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302/303 dos autos de origem).

Ademais, como bem observou a D.


Procuradoria Geral de Justiça, sequer se tem perspectiva aparente de
que a referida testemunha seja localizada, visto que o local mais
recentemente noticiado é, na verdade, o mesmo em que desde o início
ela foi procurada, sem sucesso.

Assim, verifico que a prisão cautelar do


paciente por mais de 780 (setecentos e oitenta dias) feriu o princípio da
razoabilidade e proporcionalidade, o que caracteriza o constrangimento
ilegal por excesso de prazo.

Isto posto, ratifico a liminar e concedo a


ordem.

Kenarik Boujikian
Relatora

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