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MA14 - Aritmética

Unidade 1
Resumo

Divisibilidade

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM

Julho 2013
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 3 - Seção 3.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 1 - Resumo - Divisibilidade slide 2/1


Introdução
O nosso objeto de estudo neste curso é o conjunto dos números
inteiros:

Z = {. . . , −2, −1, 0, 1, 2, . . .},


munido com as suas operações de adição e multiplicação, tendo as
seguintes propriedades, para quaisquer a, b, c ∈ Z:

Comutativa: a + b = b + a e a · b = b · a.
Associativa: (a + b) + c = a + (b + c) e (a · b) · c = a · (b · c).
Existência de elementos neutros: a + 0 = a e a · 1 = a.
Existência de simétrico: Para cada a existe b(= −a), tal que
a + b = 0.
Distributiva: a · (b + c) = a · b + a · c.

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Introdução - Continuação

Reveja, no Capı́tulo 1 do livro texto, as propriedades da adição e


da multiplicação, a ordenação dos inteiros, os Princı́pios da Boa
ordenação e Indução Matemática.

Em Z há um subconjunto que se destaca, o conjunto dos números


naturais:
N = {1, 2, 3, . . .}.

Alguns autores consideram 0 ∈ N. O fato de considerarmos que


0 6∈ N é apenas uma escolha.

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Divisibilidade - Definições

Dados dois números inteiros quaisquer, é possı́vel somá-los,


subtraı́-los e multiplicá-los.
Entretanto, nem sempre é possı́vel dividir um pelo outro, por
exemplo: em Z não é possı́vel dividir 3 por 2, mas é possı́vel dividir
4 por 2.
Só existe a Aritmética nos inteiros porque a divisão nem sempre é
possı́vel.
Diremos que um inteiro a divide um inteiro b, escrevendo
a|b,
quando existir c ∈ Z tal que b = c · a.

Neste caso, diremos também que a é um divisor ou um fator de b


ou, ainda, que b é um múltiplo de a.

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Exemplos
−2|0, pois 0 é múltiplo de −2: 0 = 0 · (−2);
1|6, pois 6 é múltiplo de 1: 6 = 6 · 1;
−1| − 6, pois −6 é múltiplo de −1: −6 = 6 · (−1);
2|6, pois 6 é múltiplo de 2: 6 = 3 · 2;
−3|6, pois 6 é múltiplo de −3: 6 = (−2) · (−3);
i! divide o produto de i números naturais consecutivos.
Parece difı́cil de mostrar a última afirmação, mas escrevendo os
inteiros consecutivos convenientemente, ou seja,
n, n − 1, . . . , n − (i − 1),
para algum natural n, o resultado segue, imediatamente, da
seguinte igualdade
 
n
n · (n − 1) · · · (n − i + 1) = i! ,
i
o que mostra o desejado.
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Exercı́cio - Aplicação do último exemplo
6 divide todo número da forma n(n + 1)(2n + 1), onde n ∈ N.
Solução
De fato, se n = 1 temos que n(n + 1)(2n + 1) = 6 e 6|6.
Se n > 1, então
n(n + 1)(2n + 1) = n(n + 1)(n + 2 + n − 1)
= n(n + 1)(n + 2) + n(n + 1)(n − 1).
Como cada uma das parcelas n(n + 1)(n + 2) e n(n + 1)(n − 1) é o
produto de três naturais consecutivos, elas são múltiplas de 3! = 6.

Portanto, sendo o número n(n + 1)(2n + 1) soma de dois múltiplos


de 6, ele é também múltiplo de 6.
Este fato não é surpreendente, pois sabemos que
n(n + 1)(2n + 1)
= 12 + 22 + 32 + · · · + n2 .
6
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Definições
A negação da sentença a | b é representada pelo sı́mbolo:
a 6 | b,
significando que não existe nenhum número inteiro c tal que
b = c · a.
Por exemplo, 3 6 | 4 e 2 6 | 5.

Suponha que a|b, onde a 6= 0, e seja c ∈ Z tal que b = c · a.


O número inteiro c, univocamente determinado, é chamado de
b
quociente de b por a e denotado por c = .
a
Por exemplo,
0 0 6 −6 6 6
= 0, = 0, = 6, = 6, = 3, = −2.
1 −2 1 −1 2 −3

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Proposição (Propriedades da divisibilidade)
Sejam a, b, c ∈ Z. Tem-se que
i) 1|a, a|a e a|0.
ii) 0 | a ⇐⇒ a = 0.
iii) a divide b se, e somente se, |a| divide |b|.
iv) se a|b e b|c, então a|c (Propriedade transitiva).
Demonstração
i) Isso decorre das igualdades a = a · 1, a = 1 · a e 0 = 0 · a.
Deixamos as demonstrações dos itens (ii) e (iii) como exercı́cio.
iv) a|b e b|c implica que existem f , g ∈ Z, tais que
b =f ·a e c = g · b.
Substituindo o valor de b da primeira equação na outra, obtemos
c = g · b = g · (f · a) = (g · f ) · a,
o que nos mostra que a|c. 
Os itens (i) e (ii) da proposição acima nos dizem que todo número
inteiro a é divisı́vel por ±1 e por ±a.
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Propriedades da divisibilidade - Continuação
Listaremos a seguir outras propriedades da divisibilidade, cujas
provas são semelhantes às feitas acima.

Proposição
Sejam a, b, c, d ∈ Z. Tem-se que
i) a|b e c|d =⇒ a · c|b · d;
ii) a|b =⇒ a · c|b · c;
iii) a|(b ± c) e a|b =⇒ a|c;
iv) a|b e a|c =⇒ a|(xb + yc), para todos x, y ∈ Z.
v) Seja b 6= 0. Tem-se que a|b =⇒ |a| 6 |b|.
É conveniente entender bem o significado das propriedades acima,
pois elas serão utilizadas a todo momento. É também conveniente
adquirir a habilidade em demonstrar tais propriedades, pois as
demonstrações contêm argumentos usados com frequência.
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Resultados importantes
Existem três propriedades da divisibilidade que são utilizadas com
frequência ao longo do Curso. A primeira é dada a seguir.
Proposição
Sejam a, b ∈ Z e n ∈ N. Temos que a − b divide an − b n .

Demonstração
Vamos provar isso por indução sobre n.
A afirmação é obviamente verdadeira para n = 1, pois a − b divide
a1 − b 1 = a − b.
Suponhamos, agora, que (a − b)|(an − b n ). Escrevamos
an+1 − b n+1 = aan − ban + ban − bb n = (a − b)an + b(an − b n ).
Como (a − b)|(a − b) e, por hipótese, (a − b)|(an − b n ), decorre da
igualdade acima e da Propriedade (iv) que (a − b)|(an+1 − b n+1 ).
Estabelecendo assim o resultado para todo n ∈ N. 

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Na verdade poder-se-ia provar o resultado mais forte:

an − b n = (a − b)(an−1 + an−2 b + · · · + ab n−2 + b n−1 ).

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Resultados importantes - Continuação

Seguem as outras duas propriedades.

Proposição
Sejam a, b ∈ Z e n ∈ N ∪ {0}.
Temos que a + b divide a2n+1 + b 2n+1 .

Proposição
Sejam a, b ∈ Z e n ∈ N. Temos que a + b divide a2n − b 2n .

Novamente, as provas se fazem por indução sobre n, nos mesmos


moldes da prova da primeira propriedade.
Deixamos os detalhes por sua conta. Mãos à obra. Depois confira
as suas soluções na Seção 1 do Capı́tulo 3 do livro texto.

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Exercı́cios

a) Mostre que 5 | (137 − 87 )

Solução

Da propriedade
(a − b)|(an − b n ),
temos, para todo n ∈ N, que

(13 − 8)|(13n − 8n ).

Portanto, 5 = 13 − 8 divide 137 − 87 .

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Exercı́cios - Continuação

b) Mostre que 13 | (270 + 370 ).

Solução

Note que
270 + 370 = 435 + 935 .
Como 35 é ı́mpar, da propriedade

(a + b)|(a2n+1 + b 2n+1 ),

temos que 4 + 9 divide 435 + 935 .


Portanto, 13 divide 270 + 370 .

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Exercı́cios - Continuação
c) Mostre que 9 e 41 dividem 524 − 424 .

Solução
Temos que

524 − 424 = 52·12 − 42·12 = (25)2·6 − (16)2·6 .

Da propriedade
(a + b)|(a2n − b 2n ),
obtemos que

(5 + 4)|(52·12 − 42·12 )
e
(25 + 16)| (52 )2·6 − (42 )2·6 .


Portanto, 9 e 41 dividem 524 − 424 .


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Exercı́cios - Continuação

d) Mostre que 14 | 34n+2 + 52n+1 , para todo n ∈ N ∪ {0}.




Solução

Temos, para todo n ∈ N ∪ {0}, que


2n+1
34n+2 + 52n+1 = 32 + 52n+1 = 92n+1 + 52n+1 .

Pela propriedade

(a + b)|(a2m+1 + b 2m+1 ),

temos que 14 = 9 + 5 divide 34n+2 + 52n+1 , para todo




n ∈ N ∪ {0}.

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Exercı́cios - Continuação
e) Mostre que 5 e 13 dividem 92n − 24n , para todo n ∈ N.

Solução

Temos, para todo n ∈ N, que


2n
92n − 24n = 92n − 22 = 92n − 42n .

Pelas propriedades

(a − b)|(a2m − b 2m ) e (a + b)|(a2m − b 2m ),

temos que 5 = 9 − 4 e 13 = 9 + 4 dividem 92n − 24n , para todo


n ∈ N.
Os exercı́cios (d) e (e) poderiam ser resolvidos utilizando indução.
Tente fazê-lo.
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MA14 - Aritmética
Unidade 2
Resumo

Divisão Euclidiana

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte da disciplina e o seu


estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 3 - Seção 3.2

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Estes resumos contaram com a colaboração de Maria Lúcia T.


Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 2 - Divisão Euclidiana slide 2/21


Divisão Euclidiana

Mesmo quando um número inteiro a, não nulo, não divide um


número inteiro b, vale o seguinte fato:

É sempre possı́vel efetuar a divisão de b por a, com resto pequeno.

Este resultado, de cuja justificativa geométrica daremos uma ideia


quando a é natural, foi utilizado por Euclides (Século 3 a.C), nos
seus Elementos, no âmbito dos números naturais, sem enunciá-lo
explicitamente.

Essa propriedade não só é um importante instrumento na obra de


Euclides, como também é um resultado central da teoria elementar
dos números.

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De fato, suponhamos que a ∈ Z e consideremos a decomposição
de Z em união de intervalos disjuntos:

Z = . . . ∪ [−2a, −a) ∪ [−a, 0) ∪ [0, a) ∪ [a, 2a) ∪ . . .

Fica claro que qualquer número inteiro b pertence a um e somente


um desses intervalos, digamos b ∈ [qa, qa + a).

Portanto, b = qa + r , onde q e r são univocamente determinados,


com 0 6 r < a.

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Agora enunciamos o resultado geral:
Teorema (Divisão Euclidiana)
Sejam a e b dois números inteiros com a 6= 0. Existem dois únicos
números inteiros q e r tais que

b = a · q + r, com 0 6 r < |a|.

Nas condições do teorema, os números a e b são o divisor e o


dividendo, enquanto q e r são chamados, respectivamente, de
quociente e de resto da divisão de b por a.

Note que
o resto da divisão de b por a é zero se, e somente se, a divide b.

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Exemplos

Como 19 = 5 · 3 + 4, o quociente e o resto da divisão de 19


por 5 são q = 3 e r = 4.

Como −19 = 5 · (−4) + 1 o quociente e o resto da divisão de


−19 por 5 são q = −4 e r = 1.

Como 32 = (−5) · (−6) + 2 o quociente e o resto da divisão


de 32 por −5 são q = −6 e r = 2.

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Exemplos - Continuação
Mostrar que o resto da divisão de 10n por 9 é sempre 1,
qualquer que seja o número natural n.
Solução
Como mostrar um tal resultado?
Alguns experimentos ajudam a entender melhor o problema:
101 = 10 = 9 × 1 + 1,
102 = 100 = 9 × 11 + 1,
103 = 1000 = 9 × 111 + 1.
Agora já entendemos melhor a questão e o resultado nos parece
tão óbvio que até podemos dizer que
10n = 9 × |1 . {z
. . 11} +1,
n vezes

donde, por ser 0 ≤ 1 < 9, podemos afirmar que o resto da divisão


por 9 é sempre 1.
PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 2 - Divisão Euclidiana slide 7/21
Muito bem, alguém poderia ponderar: Pronto, já mostramos!

Mas, atenção! Mostrar em matemática é sinônimo de provar!

E aı́, como provar tal resultado?

Via de regra, quando temos uma asserção que envolve todos os


números naturais maiores do que um dado natural, a tendência é
tentar indução, a menos que tenhamos uma ideia melhor!

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A nossa asserção se traduz matematicamente do seguinte modo:
P(n) : Existe q ∈ Z tal que 10n = 9q + 1.
Já verificamos acima que P(1) é verdade.

Para mostrar que P(n) =⇒ P(n + 1), suponhamos que P(n) seja
verdade, ou seja que existe q ∈ Z tal que 10n = 9q + 1.
Multiplicando por 10 ambos os lados dessa última igualdade,
temos que

10n+1 = 10(9q + 1) = 9 × 10q + 10 = 9(10q + 1) + 1,


o que mostra que existe q 0 = 10q + 1 tal que 10n+1 = 9q 0 + 1,
provando que P(n + 1) é verdade.

Pelo Princı́pio de Indução Matemática, P(n) é verdade ∀ n ∈ N.


PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 2 - Divisão Euclidiana slide 9/21
Outra Solução
Com o que temos em mãos, poderı́amos ter dado uma
demonstração alternativa da nossa propriedade.
De fato, lembrando da propriedade
(a − b)|(an − b n ),
temos que
(10 − 1)|(10n − 1n ),
ou seja, 9|10n − 1.
Assim, 10n − 1 = 9q, logo 10n = 9q + 1.
Como 0 ≤ 1 < 9, pela unicidade na divisão euclidiana, tem-se que
o resto da divisão de 10n por 9 é sempre 1.
Recomendação: Antes de começar a resolver um problema,
convém ler o enunciado com cuidado e tentar ver como o que se
pede se relaciona com o que já conhecemos, isto pode poupar
tempo e energia preciosos.
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Exemplos - Continuação
O resto da divisão de 74n − 24n + 93 por 45 é sempre 3, para
todo n ∈ N.
Solução
Note que
74n − 24n + 93 = 492n − 42n + 93.
Temos que 45 = 49 − 4 divide 492n − 42n , para todo n ∈ N, logo
74n − 24n = 45q, para algum q ∈ Z.
Por outro lado, como 93 = 45 · 2 + 3,
74n − 24n + 93 = 45q + 2 · 45 + 3 = 45(q + 2) + 3,
com 0 ≤ 3 < 45.
Da unicidade do resto na divisão euclidiana, segue que 3 é o resto
da divisão de 74n − 24n + 93 por 45, para todo n ∈ N.
Tente, como exercı́cio, mostrar essa propriedade por indução.
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Parte inteira do racional ba , com b > 0
Sejam a, b ∈ Z com b > 0. Escrevamos a divisão euclidiana de a
por b:
a = bq + r , com 0 ≤ r < b.
Vamos dar uma interpretação para o quociente q dessa divisão.
Como
bq ≤ bq + r < bq + b = b(q + 1),
| {z }
a
temos que
bq ≤ a < b(q + 1).
Então, dividindo por b,
a
q≤ b < q + 1.
Portanto, q é o maior inteiro menor ou igual ao racional ba e é
a
chamado
 a  de parte inteira do número racional b , sendo denotado
por b .
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Exemplos de parte inteira

Aproveitando alguns cálculos feitos anteriormente, temos


 19   5·3+4 
= 3 + 45 = 3.
 
5 = 5

h i
 −19  5·(−4)+1
= −4 + 15 = −4.
 
5 = 5

Note que −4 < −3, 8 = − 19


5 < −3.

     
−32 5 × (−7) + 3 3
= = −7 + = −7.
5 5 5

Se a ∈ Z e α ∈ Q, com 0 ≤ α < 1, então [a + α] = a.

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Aplicação
Quantos múltiplos de 9 há entre 238 e 1247?
Entendemos que se algum dos números 238 ou 1247 for múltiplo
de 9, ele deve ser contado.
Solução
Às vezes, um problema se torna mais claro, quando generalizado.
Dados 0 < a < c, vamos contar quantos múltiplos de a existem
entre 1 e c.
Pela divisão euclidiana, temos que
c = aq + r , com 0 ≤ r < a.
Portanto, podemos escrever a lista dos múltiplos de a entre 1 e c
como segue:
a, 2a, . . . , (q − 1)a, qa.
Agora ficou fácil contar esses números: o seu número é q = ca .
 

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Continuação
Agora, dados 0 < a < b < c, se quisermos contar quantos são os
múltiplos de a entre b e c, procedemos como segue:
De ca , que é o número de múltiplos de a entre 1 e c,
 

devemos subtrair b−1


 
a , que é o número de múltiplos de a
anteriores a b.
Assim, o número de múltiplos de a entre b e c é
hc i b − 1
− .
a a

Portanto, a resposta para o nosso problema é:


   
1247 238 − 1
− = 112.
9 9

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Par ou ı́mpar?

Desde os tempos de Pitágoras, os números inteiros são


classificados em pares e ı́mpares. Essa classificação pode ser
justificada pela divisão euclidiana.

Dado um número inteiro n ∈ Z qualquer, temos duas


possibilidades:

i) n é par: o resto da divisão de n por 2 é 0, isto é, existe q ∈ N tal


que n = 2q; ou

ii) n é ı́mpar: o resto da divisão de n por 2 é 1, ou seja, existe


q ∈ N tal que n = 2q + 1.

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Generalização: divisão por m ≥ 3

Mais geralmente, fixado um número natural m > 2, pode-se


sempre escrever um número qualquer n, de modo único, na forma
n = mk + r , onde k, r ∈ Z e 0 6 r < m.

Por exemplo,
todo número inteiro n pode ser escrito em uma, e somente
uma, das seguintes formas: 3k, 3k + 1, ou 3k + 2.

Ou ainda,

todo número inteiro n pode ser escrito em uma, e somente


uma, das seguintes formas: 4k, 4k + 1, 4k + 2, ou 4k + 3.

Este último fato, permite mostrar o resultado a seguir.

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Exercı́cio

Nenhum quadrado de um número inteiro é da forma 4k + 3.


Solução
De fato, seja a ∈ Z.

Se a = 4k, então a2 = 16k 2 = 4k 0 , onde k 0 = 4k 2 .


Se a = 4k + 1, então a2 = 16k 2 + 8k + 1 = 4k 0 + 1,
onde k 0 = 4k 2 + 2k.
Se a = 4k + 2, então a2 = 16k 2 + 16k + 4 = 4k 0 ,
onde k 0 = 4k 2 + 4k + 1.
Se a = 4k + 3, então a2 = 16k 2 + 24k + 9 = 4k 0 + 1,
onde k 0 = 4k 2 + 6k + 2.

Vamos aplicar este resultado para mostrar algo interessante.

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Exercı́cio

Nenhum número da forma a = 11 . . . 1 (n algarismos iguais a 1,


com n > 1) é um quadrado.

Solução

De fato, podemos escrever

a = b · 100 + 11 = 4(25 · b + 2) + 3,

onde b = 11 . . . 1 (n − 2 algarismos iguais a 1). Logo, a é da forma


4k + 3 e, portanto, não pode ser um quadrado.

Com esta técnica pode-se mostrar que nenhum número da forma


11 . . . 1 é soma de dois quadrados. Deixamos isto como exercı́cio.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 2 - Divisão Euclidiana slide 19/21


Exercı́cio

a) Quais são os números que, quando divididos por 7, deixam resto


igual à metade do quociente?
Solução
Seja a o número com a propriedade descrita acima. Pela divisão
euclidiana de a por 7 temos que existem inteiros q e r , tais que
a = 7q + r , com 0 ≤ r < 7. Como 0 ≤ r = q2 ≤ 6, então q é par,
com 0 ≤ q ≤ 12.
Os valores possı́veis de q, r e a estão na seguinte tabela:

q 0 2 4 6 8 10 12
r 0 1 2 3 4 5 6
a = 7q + r 0 15 30 45 60 75 90

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Exercı́cio

b) (ENC: 2011) Seja N um número natural. Mostre que a divisão


de N 2 por 6 nunca deixa resto 2.
Solução
Pela divisão euclidiana de N por 6, existem inteiros q e r tais que
N = 6q + r , com 0 ≤ r ≤ 5.
Portanto, N 2 = 36q 2 + 12qr + r 2 = 6(6q 2 + 2qr ) + r 2 .
Assim, o resto que N 2 deixa na divisão por 6 é o mesmo resto de
r 2.
Analisaremos os valores de r 2 , na seguinte tabela:

r 0 1 2 3 4 5
r2 0 1 4 9 = 6 · 1 + 3 16 = 6 · 2 + 4 25 = 6 · 4 + 1

Logo, os restos possı́veis são 0, 1, 3 e 4.

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MA14 - Aritmética
Resumo 3

Sistemas de Numeração

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 4 - Seção 4.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Estes resumos contaram com a colaboração de Maria Lúcia T.


Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 2/21


Sistemas de Numeração

Sabemos que existem infinitos números naturais.


Os primeiros tantos possuem até nomes. Por exemplo:
um, dois, três, . . . ,
cem, cento e um . . .
...
um trilhão, um trilhão e um . . .

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 3/21


É impossı́vel dar um nome para cada um dos números naturais,
mas é possı́vel de modo engenhoso dotar cada um deles de uma
representação com um pequeno número de sı́mbolos, por meio dos
chamados sistemas de numeração.

O sistema universalmente utilizado pelas pessoas comuns para


representar os números inteiros é o sistema decimal posicional.

Podemos nos restringir à representação dos números naturais,


pois todo número inteiro negativo é representado por um número
natural precedido pelo sinal − e zero tem seu próprio sı́mbolo que
é 0.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 4/21


Sistema decimal

No sistema decimal, todo número natural é representado por uma


sequência formada pelos algarismos

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9,

acrescidos do sı́mbolo 0 (zero), que representa a ausência de


algarismo.

Por serem dez os algarismos, o sistema é chamado decimal.

O sistema é também chamado posicional, pois cada algarismo,


além do seu valor intrı́nseco, possui um peso que lhe é atribuı́do
em função da posição que ele ocupa no número.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 5/21


Peso do algarismo

Esse peso, sempre uma potência de dez, varia do seguinte modo: o


algarismo da extrema direita tem peso 1; o seguinte, sempre da
direita para a esquerda, tem peso dez; o seguinte tem peso cem; o
seguinte tem peso mil, etc.

Portanto, os números de um a nove são representados pelos


algarismos de 1 a 9, correspondentes. O número dez é representado
por 10, o número cem por 100, o número mil por 1000.

Por exemplo, o número 12019, na base 10, é a representação de

1 · 104 + 2 · 103 + 0 · 102 + 1 · 10 + 9 = 1 · 104 + 2 · 103 + 1 · 10 + 9.

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Ordem de um algarismo/Classe de uma terna de ordens

Cada algarismo de um número possui uma ordem contada da


direita para a esquerda.
Assim, no número 12019, o primeiro 1 que aparece (não se
esqueça, sempre da direita para a esquerda) é de segunda ordem,
enquanto que o último é de quinta ordem. O 9 é de primeira
ordem, enquanto que o 2 é de quarta ordem.

Cada terna de ordens, também contadas da direita para a


esquerda, forma uma classe. As classes são, às vezes, separadas
umas das outras por meio de um ponto.

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Classes e ordens
Damos a seguir os nomes das primeiras classes e ordens:


 unidades 1a ordem
Classe das Unidades dezenas 2a ordem
centenas 3a ordem


 unidades de milhar 4a ordem
Classe do Milhar dezenas de milhar 5a ordem
centenas de milhar 6a ordem


 unidades de milhão 7a ordem
Classe do Milhão dezenas de milhão 8a ordem
centenas de milhão 9a ordem

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Expansão na base b

Os sistemas de numeração posicionais baseiam-se no resultado a


seguir, que é uma aplicação da divisão euclidiana.

Teorema
Dados números inteiros a e b, com a > 0 e b > 1, existem números
inteiros n ≥ 0 e 0 ≤ r0 , r1 , . . . , rn < b, rn 6= 0, univocamente
determinados, tais que a = r0 + r1 b + r2 b 2 + · · · + rn b n .

A representação dada no teorema acima é chamada de expansão


relativa à base b.
Quando b = 10, essa expansão é chamada expansão decimal.
Quando b = 2, ela toma o nome de expansão binária.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 9/21


Demonstração

Aplicamos sucessivamente a divisão euclidiana, permitindo


determinar a expansão de a na base b, como segue:
a = bq0 + r0 , 0 ≤ r0 < b,
q0 = bq1 + r1 , 0 ≤ r1 < b,
q1 = bq2 + r2 , 0 ≤ r2 < b,
e assim por diante. Como a > q0 > q1 > · · · , deveremos, em um
certo ponto, ter qn−1 < b e, portanto, de
qn−1 = bqn + rn ,
decorre que qn = 0, o que implica 0 = qn = qn+1 = qn+2 = · · · , e,
portanto, 0 = rn+1 = rn+2 = · · · .
Temos, então, que
a = r0 + r1 b + · · · + rn b n .

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 10/21


Exemplo 1
Vamos determinar a expansão na base b = 2 do número 53.
53 = 2 · (26) + |{z}
1 ;
|{z}
q0 r0

26 = 2 · (13) + |{z}
0 ;
|{z}
q1 r1

13 = 2 · |{z}
6 + |{z}
1 ;
q2 r2
6 = 2 · |{z}
3 + |{z}
0 ;
q3 r3
3 = 2 · |{z}
1 + |{z}
1 ;
q4 r4
1 = 2 · |{z}
0 + |{z}
1 ;
q5 r5

Logo, 53 = 1 + 0 · 2 + 1 · 22 + 0 · 23 + 1 · 24 + 1 · 25 .

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Exemplo 2

Vamos determinar a expansão de a = 113 na base b = 3.


113 = 3 · (37) + |{z}
2 ;
|{z}
q0 r0

37 = 3 · (12) + |{z}
1 ;
|{z}
q1 r1

12 = 3 · |{z}
4 + |{z}
0 ;
q2 r2
4 = 3 · |{z}
1 + |{z}
1 ;
q3 r3
1 = 3 · |{z}
0 + |{z}
1 .
q4 r4
Logo, 113 = 2 + 1 · 31 + 0 · 32 + 1 · 33 + 1 · 34 .

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 12/21


A expansão numa dada base b nos fornece um método para
representar os números naturais. Para tanto, escolha um conjunto
S de b sı́mbolos

S = { s0 , s1 , . . . , sb−1 },

com s0 = 0, para representar os números de 0 a b − 1.


Um número natural a na base b se escreve na forma

xn xn−1 . . . x1 x0 ,

com x0 , . . . , xn ∈ S, e n variando, dependendo de a, representando


o número
x0 + x1 b + · · · + xn b n .

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 13/21


No sistema decimal, isto é, de base b = 10, usa-se

S = {0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9}.

Se a base b é tal que b 6 10, utilizam-se os sı́mbolos


0, 1, . . . , b − 1.
Se a base b é tal que b > 10, costuma-se usar os sı́mbolos de 0 a
9, acrescentando novos sı́mbolos para 10, . . . , b − 1.
No sistema de base b = 2, temos que

S = { 0, 1},

e todo número natural é representado por uma sequência de 0 e 1.

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Representação na base 2
O número 10 na base 2 representa o número 2 (na base 10).
Quando estivermos lidando com números em bases diferentes num
mesmo contexto, utilizaremos sı́mbolos como [a]b significando que
a é a representação de um número na base b. Portanto,
[10]2 = [21 + 0]10 = [2]10 ;
[11]2 = [21 + 1]10 = [3]10 ;
[100]2 = [22 + 0 · 2 + 0]10 = [4]10 ;
[101]2 = [22 + 1]10 = [5]10 ;
[110]2 = [22 + 2 + 0] = [6]10 ;
[111]2 = [22 + 2 + 1]10 = [7]10 ;
[1011]2 = [23 + 2 + 1]10 = [11]10 .
O sistema na base 2 é utilizado nos computadores.

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Exemplo 3

a) Representar na base 2 o número cuja representação na base 10


é 53.
Segue do Exemplo 1 que
53 = 1 + 0 · 2 + 1 · 22 + 0 · 23 + 1 · 24 + 1 · 25 ,
então [53]10 = [110101]2 . .

b) Representar na base 3 o número cuja representação na base 10


é 113.
Segue do Exemplo 2 que
113 = 2 + 1 · 31 + 0 · 32 + 1 · 33 + 1 · 34 ,
então [113]10 = [11012]3 .

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Exemplo 4

Representar na base 5 o número cuja representação na base 10 é


723.
Por divisão euclidiana sucessiva,

723 = 144 · 5 + 3,
144 = 28 · 5 + 4,
28 = 5 · 5 + 3,
5 = 1 · 5 + 0,
1 = 0 · 5 + 1.

Portanto,

723 = 3 + 4 · 5 + 3 · 52 + 0 · 53 + 1 · 54 ,

e, consequentemente, 723 na base 5 se representa por 10343.

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Exemplo 5
a) Representar na base b = 11 o número cuja representação na
base 10 é 5799.
Usaremos S = {0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, α}, onde α é o sı́mbolo
para 10 = b − 1. Aplicando sucessivamente o algoritmo euclidiano,
temos
5799 = 4 + 3 · 11 + 10 · 112 + 2 · 113 .
Logo, 5799 é representado na base 11 por 2α34.
b) Quais os números na base 10 representados na base b = 11 por
10, 100, 11 e 12?
representação na base 11 número decimal
10 0 + 1 · b = b = 11
100 0 + 0 · b + 1 · b 2 = 112 = 121
11 1 + 1 · b = 1 + 11 = 12
12 2 + 1 · b = 2 + 11 = 13

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 18/21


Critérios de divisibilidade por 5 e por 10

Seja a = rn · · · r1 r0 um número representado no sistema decimal.


Uma condição necessária e suficiente para que a seja divisı́vel por 5
(respectivamente por 10) é que r0 seja 0 ou 5 (respectivamente 0).
Demonstração
Sendo a = 10 · (rn · · · r1 ) + r0 , temos que a é divisı́vel por 5 se, e
somente se, r0 é divisı́vel por 5, e, portanto, r0 = 0 ou r0 = 5. Por
outro lado, a é divisı́vel por 10 se, e somente se, r0 é divisı́vel por
10, o que somente ocorre quando r0 = 0.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 19/21


Critérios de divisibilidade por 3 e por 9
Seja a = rn · · · r1 r0 um número representado no sistema decimal.
Uma condição necessária e suficiente para que a seja divisı́vel por 3
(respectivamente por 9) é que rn + · · · + r1 + r0 seja divisı́vel por 3
(respectivamente por 9).
Demonstração
Temos que

a −(rn +· · ·+r1 +r0 ) = rn 10n +· · ·+r1 10+r0 −(rn +· · ·+r1 +r0 ) =

rn (10n − 1) + · · · + r1 (10 − 1).


Sabemos que o termo à direita nas igualdades acima é divisı́vel por
9 (Exemplo na Unidade 2), logo, para algum número q, temos que

a = (rn + · · · + r1 + r0 ) + 9q,

de onde segue o resultado. 

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 20/21


Exercı́cio
Verifique que 9 não divide 8285748537 e 3 divide 8285748537.
Solução
Aplicaremos, sucessivamente, os critérios de divisibilidade por 9 e
por 3.
Temos que
8 + 2 + 8 + 5 + 7 + 4 + 8 + 5 + 3 + 7 = 57 e 5 + 7 = 12.

É claro que 9 6 | 12 e 3 | 12.

Portanto,

9 6 | 12 se, e somente se, 9 6 | 57 se, e somente se, 9 6 | 8285748537 e

e 3 | 12 se, e somente se, 3 | 57 se, e somente se, 3 | 8285748537.

PROFMAT - SBM Aritmética - Resumo 3 - Sistemas de Numeração slide 21/21


MA14 - Aritmética
Unidade 4
Resumo

O Jogo de Nim

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 4 - Seção 4.2

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Estes resumos contaram com a colaboração de Maria Lúcia T.


Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 2/13


Introdução
O Jogo de Nim faz parte de uma teoria, relativamente jovem,
chamada Teoria de Jogos. Vários jogos podem ser reduzidos a
esse, conforme veremos mais adiante em um exemplo.
O jogo de Nim consiste de N palitos separados em três grupos com
números distintos de elementos e colocados em cima de uma mesa,
no qual dois jogadores se alternam retirando, cada um na sua vez,
um número não nulo qualquer de palitos de apenas um dos grupos,
podendo retirar inclusive todos os palitos do grupo escolhido.
Ganha o jogo quem primeiro não deixar nenhum palito sobre a
mesa.
Cada estado do jogo pode ser representado por uma terna de
números, representando o número de palitos em cada grupo,
ordenados previamente como Grupo 1, Grupo 2 e Grupo 3,
começando com uma configuração inicial (n1 , n2 , n3 ), onde
n1 + n2 + n3 = N.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 3/13


Tomemos como exemplo a configuração inicial (3, 5, 7) e que os
jogadores sejam João (J) e Maria (M) e vejamos um exemplo de
uma partida:
J M J
(3, 5, 7) → (2, 5, 7) → (2, 5, 0) → (2, 2, 0).

Neste ponto já dá para perceber que Maria não tem mais saı́da,
pois se ela retirar dois palitos de um grupo, João tira os dois
palitos que sobraram no outro grupo e ganha o jogo. Se Maria tira
um palito de um grupo, João tira um palito do outro grupo e assim
Maria fica também sem saı́da. Portanto, João ganhou a partida.
A primeira jogada do João, bem como as seguintes, não foram
jogadas aleatórias, ele seguiu uma estratégia vencedora que
explicaremos a seguir.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 4/13


Voltemos à situação inicial da partida entre João e Maria em que
N = 15, n1 = 3, n2 = 5 e n3 = 7.

||| ||||| |||||||

Neste caso particular, vamos estabelecer uma estratégia de tal


modo que, quem iniciar a partida fazendo uma boa abertura e
seguindo as regras que estabeleceremos, sempre vencerá.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 5/13


Para isto, a cada jogada, escreve-se o número de palitos de cada
grupo na base 2, colocando-os um em cada linha, de modo que os
algarismos das unidades se correspondam. Por exemplo, no inı́cio
da partida tem-se

Grupo 1 11
Grupo 2 101
Grupo 3 111

Somando os três números acima como se fosse na base 10,


obtemos o número 223, que chamaremos, a cada etapa, de chave
do jogo.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 6/13


O primeiro jogador poderá, então, com uma jogada, tornar todos
os algarismos da chave pares. Por exemplo, poderá retirar um
palito do grupo três, obtendo

Grupo 1 11
Grupo 2 101
Grupo 3 110
222

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 7/13


Agora, qualquer jogada que o segundo jogador efetuar transformará
a chave 222 numa chave com, pelo menos, um algarismo ı́mpar
(você pode verificar isto com a análise de todas as possibilidades).

Agora, mediante uma jogada conveniente, o primeiro jogador


poderá recolocar o jogo na situação em que todos os algarismos
sejam pares.

Uma situação em que todos os algarismos da chave são pares será


chamada de posição segura, enquanto que, quando pelo menos um
dos algarismos da chave é ı́mpar, será uma posição insegura.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 8/13


Pode-se mostrar, de modo bem elementar, que qualquer que seja a
configuração inicial do jogo, se um jogador encontra na sua vez
uma posição segura, qualquer que seja a jogada que faça, só
poderá chegar a uma posição insegura.

Mostra-se também que, de uma posição insegura, pode-se, com


uma jogada conveniente, sempre retornar a uma posição segura.

Finalmente, observando que quem chegar primeiro em 000 ganha o


jogo e que esta é uma posição segura, ganhará o jogo quem
sempre, após a sua vez de jogar, se mantiver em posições seguras.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 9/13


Em geral, nem sempre a configuração inicial do jogo será favorável
ao primeiro jogador. Por exemplo, o jogo com a configuração
inicial (3, 5, 6), nos dá a seguinte chave:

Grupo 1 011
Grupo 2 101
Grupo 3 110
222

Esta chave já coloca o primeiro jogador em desvantagem, pois


qualquer jogada que fizer, o deixará em posição insegura.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 10/13


Esta versão, bem como a sua estratégia, podem ser generalizadas
sem dificuldade para um número arbitrário de grupos com um
número arbitrário de palitos em cada grupo.

Vamos a seguir discutir um problema emprestado do livro de


Terence Tao (Resolvendo Problemas Matemáticos, Coleção
Professor de Matemática, SBM).

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 11/13


Um jogo consiste de um tablete de chocolate dividido em 6 × 10
quadradinhos separados por sulcos e jogado por dois jogadores.

Cada jogador, na sua vez, quebra a barra de chocolate numa


horizontal ou numa vertical ao longo de todo um sulco e come
uma das partes. O jogo prossegue até que um dos jogadores é
obrigado a comer o último quadradinho que restar e perde o jogo.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 12/13


Vejamos como podemos reduzir este jogo a um jogo de Nim e
aproveitar a estratégia já estudada.
Cada sulco na horizontal é representado por um palito. Portanto,
os 5 sulcos na horizontal são representados por 5 palitos e formam
um dos dois grupos de um jogo de Nim. O outro grupo é formado
por 9 palitos representando os 9 sulcos na vertical.
Cada jogador, ao retirar um pedaço da barra de chocolate, está na
realidade retirando um certo número de sulcos na horizontal ou na
vertical, o que corresponde a retirar o mesmo número de palitos de
um dos grupos.
Ganha o jogo quem tirar o último palito, pois quando esse jogador
retirar o último palito, o que sobrou da barra de chocolate é um
pedaço sem sulcos, ou seja, um último quadradinho de chocolate
que o outro jogador terá que comer, perdendo a partida.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 4 - Resumo - Jogo de Nim slide 13/13


MA14 - Aritmética
Unidade 5
Resumo

Máximo Divisor Comum

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM

Julho 2013
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 5 - Seção 5.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 2/19
Divisor Comum

Sejam a e b dois inteiros, distintos ou não. Um número inteiro d


será dito um divisor comum de a e b se d|a e d|b.

Por exemplo, os números ±1, ±2, ±3 e ±6 são os divisores


comuns de 12 e 18.

A definição a seguir foi essencialmente dada por Euclides nos


Elementos e se constitui em um dos pilares da sua aritmética.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 3/19
Definição: Máximo Divisor Comum
Um número inteiro d > 0 é um máximo divisor comum (mdc) de
dois inteiros a e b se possuir as seguintes propriedades:
i) d é um divisor comum de a e de b, e
ii) d é divisı́vel por todo divisor comum de a e b.
Exemplo
O máximo divisor comum de 12 e 18 é 6.

A condição (ii) acima pode ser reenunciada como segue:


ii0 ) Se c é um divisor comum de a e b, então c|d.
Em particular, se d e d 0 são dois mdc de um mesmo par de
números, então d | d 0 e d 0 | d, o que, juntamente com as
condições d ≥ 0 e d 0 ≥ 0 implicam d = d 0 .
Ou seja, quando existe, o mdc de dois números é único.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 4/19
Veremos mais adiante que sempre existe o mdc de dois números
inteiros a e b e o denotaremos por (a, b).
Como o mdc de a e b não depende da ordem em que a e b são
tomados, temos que
(a, b) = (b, a).
Em alguns casos particulares, é facil verificar a existência do mdc.
Por exemplo, se a é um número inteiro tem-se claramente que
(0, a) = |a|, (1, a) = 1 e (a, a) = |a|.
Mais geralmente, para todo b ∈ Z, temos que
a|b ⇐⇒ (a, b) = |a|. (1)
Observação
Sejam a, b ∈ Z. Tem-se que (a, b) = 0 ⇐⇒ a = b = 0.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 5/19
A demonstração da existência do mdc de qualquer par de números
inteiros, não ambos nulos, é bem mais sutil.

Se d > 0 é um mdc de a e b não nulos e c é um divisor comum


desses números, então c divide d e, consequentemente, |c| divide
d. Portanto, c 6 |c| 6 d.

Isto mostra que, efetivamente, quando existe, o máximo divisor


comum de dois números, não ambos nulos, é o maior dentre todos
os divisores comuns desses números.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 6/19
Poderı́amos, como se faz usualmente no Ensino Fundamental,
definir o máximo divisor comum de dois números a e b, não ambos
nulos, como o maior elemento do conjunto de todos os divisores
comuns desses números, o que de imediato garantiria a sua
existência.

De qualquer modo, seria necessário provar a propriedade (ii) da


definição de mdc, pois é ela que possibilita provar os resultados
subsequentes, e não o fato do mdc ser o maior dos divisores
comuns.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 7/19
Observe que dados a, b ∈ Z, se existir o mdc (a, b) de a e b, então

(a, b) = (−a, b) = (a, −b) = (−a, −b).

Assim, para efeito do cálculo do mdc de dois números, podemos


supô-los não negativos.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 8/19
Resultado fundamental para o Algoritmo de Euclides

Para provar a existência do máximo divisor comum de dois inteiros


não negativos, Euclides utiliza, essencialmente, o resultado abaixo.

Lema
Sejam a, b, n ∈ Z. Se existe (a, b − na), então (a, b) existe e

(a, b) = (a, b − na).

O Lema é efetivo para calcular mdc, conforme veremos nos


exemplos a seguir, e será fundamental para estabelecermos o
algoritmo de Euclides, que permitirá, com muita eficiência, calcular
o mdc de dois números naturais quaisquer.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 9/19
Exercı́cio

Vamos determinar o máximo divisor comum de 96525 e 90, usando


o Lema.
Solução
(90, 96 525) = (90, 96 525 − 90 × 1 000) = (90, 96 525 − 90 000)
= (90, 6 525)
= (90, 6 525 − 70 × 90) = (90, 6 525 − 6 300)
= (90, 225)
= (90, 225 − 2 × 90) = (90, 225 − 180)
= (90, 45)
= (45, 90)
= 45.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 10/19
Exemplo 1
Dados a ∈ Z com a 6= 1 e m ∈ N, temos que
 m 
a −1
a−1 , a − 1 = (a − 1, m).

Solução
A igualdade acima é trivialmente verificada se m = 1. Suponhamos
que m > 2. Chamando de d o primeiro membro da igualdade,
temos que
d = (am−1 + am−2 + · · · + a + 1, a − 1) =
(am−1 − 1) + (am−2 − 1) + · · · + (a − 1) + m, a − 1 .


Como
a − 1|(am−1 − 1) + (am−2 − 1) + · · · + (a − 1),
segue-se, para algum n ∈ N, que
(am−1 − 1) + (am−2 − 1) + · · · + (a − 1) = n(a − 1).
Portanto, pelo Lema anterior tem-se que
d = (n(a − 1) + m, a − 1) = (a − 1, n(a − 1) + m) = (a − 1, m).
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 11/19
Exemplo 2
Determinemos os valores de a ∈ Z e n ∈ N para os quais a + 1
divide a2n + 1.
Solução
Note inicialmente que

a + 1|a2n + 1 ⇐⇒ (a + 1, a2n + 1) = |a + 1|.

Como a2n + 1 = (a2n − 1) + 2, e a + 1|a2n − 1, segue-se do Lema


anterior, para todo n, que

(a + 1, a2n + 1) = (a + 1, (a2n − 1) + 2) = (a + 1, 2).

Portanto, a + 1|a2n + 1, para algum n ∈ N, se, e somente se,


|a + 1| = (a + 1, 2), o que ocorre se, e somente se, a = 0, a = 1,
a = −2 ou a = −3 e n qualquer.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 12/19
Exemplo 3

Vamos, neste exemplo, determinar os valores de a ∈ Z e n ∈ N


para os quais a + 1 divide a2n+1 − 1.

Solução
Note que

(a + 1, a2n+1 − 1) = (a + 1, a(a2n − 1) + a − 1) = (a + 1, a − 1).

Portanto, a + 1|a2n+1 − 1, para algum n ∈ N, se, e somente se,

|a +1| = (a +1, a2n+1 −1) = (a +1, a −1) = (a +1, −2) = (a +1, 2)

o que ocorre se, e somente se, a = 0, a = 1, a = −2 ou a = −3 e


n qualquer.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 13/19
Algoritmo de Euclides
Prova construtiva da existência do mdc dada por Euclides.
Dados a, b ∈ N, podemos supor a 6 b. Se a = 1 ou a = b, ou
ainda a|b, já vimos que (a, b) = a. Suponhamos, então, que
1 < a < b e que a 6 | b. Logo, pela divisão euclidiana, podemos
escrever
b = aq1 + r1 , com 0 < r1 < a.
Temos duas possibilidades:
a) r1 |a, e, em tal caso, por (1) e pelo Lema,

r1 = (a, r1 ) = (a, b − q1 a) = (a, b),

e termina o algoritmo, ou
b) r1 6 | a, e, em tal caso, podemos efetuar a divisão de a por r1 ,
obtendo
a = r1 q2 + r2 , com 0 < r2 < r1 .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 14/19
Novamente, temos duas possibilidades:
a0 ) r2 |r1 , e, em tal caso, novamente, por (1) e pelo Lema de
Euclides,

r2 = (r1 , r2 ) = (r1 , a − q2 r1 ) = (r1 , a) = (b − q1 a, a) = (b, a) = (a, b),

e paramos, pois termina o algoritmo, ou


b0 ) r2 6 | r1 , e, em tal caso, podemos efetuar a divisão de r1 por r2 ,
obtendo
r1 = r2 q3 + r3 , com 0 < r3 < r2 .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 15/19
Este procedimento não pode continuar indefinidamente, pois
terı́amos uma sequência de números naturais

a > r1 > r2 > · · · ,

que não possui menor elemento, o que não é possı́vel pela


Propriedade da Boa Ordenação.
Logo, para algum n, temos que rn |rn−1 , o que implica que
(a, b) = rn . 

O algoritmo acima pode ser sintetizado e realizado na prática,


como mostramos a seguir.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 16/19
Inicialmente, efetuamos a divisão
q1
b = aq1 + r1
b a
e colocamos os números envolvidos
r1
no diagrama ao lado.
Continuamos efetuando a divisão
q1 q2
a = r1 q2 + r2
b a r1
e colocamos os números envolvidos
r1 r2
no diagrama ao lado.

Prosseguindo, enquanto for possı́vel (até que para algum n > 2


rn | rn−1 ), teremos

q1 q2 q3 · · · qn−1 qn qn+1
b a r1 r2 · · · rn−2 rn−1 rn = (a, b)
r1 r2 r3 r4 · · · rn

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 17/19
Exemplo 4
Calculemos o mdc de 372 e 162:
2 3 2 1 2
372 162 48 18 12 6
48 18 12 6
Observe que, no exemplo acima, o Algoritmo de Euclides nos
fornece:
6 = 18 − 1 · 12
12 = 48 − 2 · 18
18 = 162 − 3 · 48
48 = 372 − 2 · 162
Donde se segue que
6 = 18 − 1 · 12 = 18 − 1 · (48 − 2 · 18) = 3 · 18 − 48 =
3 · (162 − 3 · 48) − 48 = 3 · 162 − 10 · 48 =
3 · 162 − 10 · (372 − 2 · 162) = 23 · 162 − 10 · 372.
Temos, então, que
(372, 162) = 6 = 23 · 162 + (−10) · 372.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 18/19
Note que conseguimos, através do uso do Algoritmo de Euclides de
trás para frente, escrever 6 = (372, 162) como múltiplo de 162
mais um múltiplo de 372.

O Algoritmo de Euclides nos fornece, portanto, um meio prático de


escrever o mdc de dois números como soma de dois múltiplos dos
números em questão. Esta é uma propriedade geral do mdc que
redemonstraremos com todo rigor na próxima seção.

Quando utilizarmos o Algoritmo de Euclides para expressar (a, b)


na forma ma + nb, com m, n ∈ Z, nos referiremos a ele como
Algoritmo de Euclides Estendido.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 5 - Resumo - Máximo Divisor Comum slide 19/19
MA14 - Aritmética
Unidade 6
Resumo

Propriedades do mdc

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM

Julho 2013
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 5 - Seção 5.2,

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 2/9


Sejam a, b ∈ Z. O conjunto a seguir desempenhará papel
importante
I (a, b) = {xa + yb; x, y ∈ Z}.

Note que se a e b não são simultaneamente nulos, então

I (a, b) ∩ N 6= ∅.

De fato, temos que a2 + b 2 = a · a + b · b ∈ I (a, b) ∩ N.

A importância do conjunto I (a, b) pode ser medida pelo resultado


a seguir.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 3/9


Teorema
Sejam a, b ∈ Z não ambos nulos. Se d = min I (a, b) ∩ N, então
i) d é o mdc de a e b; e
ii) I (a, b) = dZ (= {xd; x ∈ Z}).

Esse teorema nos dá uma outra demonstração da existência do


mdc de dois números.

Note que essa demonstração, ao contrário da prova de Euclides,


não é construtiva, no sentido de que não nos fornece um meio
prático para achar o mdc dos dois números.

O teorema admite vários corolários.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 4/9


Corolários
1. Quaisquer que sejam a, b ∈ Z, não ambos nulos, e n ∈ N,

(na, nb) = n(a, b).

2. Dados a, b ∈ Z, não ambos nulos, tem-se que


 
a b
, = 1.
(a, b) (a, b)

Dois números inteiros a e b serão ditos primos entre si, ou


coprimos, se (a, b) = 1; ou seja, se o único divisor comum positivo
de ambos é 1.

3. Dois números inteiros a e b são primos entre si se, e somente


se, existem números inteiros m e n tais que ma + nb = 1.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 5/9


Um Teorema Fundamental
A propriedade acima estabelece uma relação crucial entre as
estruturas aditiva e multiplicativa dos números naturais, o que
permite provar o importante resultado a seguir.
Teorema
Sejam a, b e c números inteiros.

a | b · c e (a, b) = 1 =⇒ a|c.

Corolário
Dados a, b, c ∈ Z, com b e c não ambos nulos, temos que
bc
b|a e c|a ⇐⇒ | a.
(b, c)

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 6/9


Generalização do conceito de mdc

Um número natural d será dito mdc de dados números inteiros


a1 , . . . , an , não todos nulos, se possuir as seguintes propriedades:
i) d é um divisor comum de a1 , . . . , an .
ii) Se c é um divisor comum de a1 , . . . , an , então c|d.
O mdc, quando existe, é certamente único e será representado por

(a1 , . . . , an ).

Dados números inteiros a1 , . . . , an , não todos nulos, existe o seu


mdc e pode ser calculado recursivamente através da fórmula:

(a1 , . . . , an ) = (a1 , . . . , (an−1 , an )).

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 7/9


Exemplos

(72, 138, 252) = (72, (138, 252)) = (72, 6) = 6.

1 1 4 1 3
252 138 114 24 18 6
114 24 18 6

(15, 72, 180) = (15, (72, 180)) = (15, 36) = 3.

2 2 2 2 2
180 72 36 e 36 15 6 3
36 6 3

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 8/9


Os inteiros a1 , . . . , an serão ditos primos entre si, ou coprimos,
quando (a1 , . . . , an ) = 1.

Exemplo
(5, 12, 18) = (5, (12, 18)) = (5, 6) = 1.

(143, 175, 245) = (143, (175, 245)) = (143, 35) = 1.

1 2 2 4 11 1 2
245 175 70 35 e 143 35 3 2 1
70 35 3 2 1

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 6 - Resumo - Propriedades do mdc slide 9/9


MA14 - Aritmética
Unidade 7
Resumo

Mı́nimo Múltiplo Comum

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM

Julho 2013
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 5 - Seção 5.4

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 2/9
Mı́nimo Múltiplo Comum
Um número inteiro é um múltiplo comum de dois números inteiros
dados se ele é simultaneamente múltiplo de ambos os números.

Exemplo
Os números ab e 0 são sempre múltiplos comuns de a e b.

Um número inteiro m ≥ 0 é um mı́nimo múltiplo comum (mmc)


dos números inteiros a e b, quando vale:
(i) m é um múltiplo comum de a e b, e
(ii) se c é um múltiplo comum de a e b, então m|c.

Exemplo
12 é um múltiplo comum de 2 e 3, mas não é um mmc destes
números. O número 6 é um mmc de 2 e 3.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 3/9
Se m e m0 são dois mı́nimos múltiplos comuns de a e b, então, do
item (ii) da definição acima, temos que m|m0 e m0 |m. Como m e
m0 são números inteiros não negativos, temos que m = m0 , o que
mostra que o mı́nimo múltiplo comum, se existe, é único.

Por outro lado, se m é o mmc de a e b e c é um múltiplo comum


de a e b, então m|c. Portanto, se c é positivo, temos que m 6 c,
mostrando que m é o menor dos múltiplos comuns positivos de a e
b.

O mı́nimo múltiplo comum de a e b, se existe, é denotado por


[a, b].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 4/9
Caso exista [a, b] é fácil mostrar que

[−a, b] = [a, −b] = [−a, −b] = [a, b].

Assim, para efeito do cálculo do mmc de dois números, podemos


sempre supô-los não negativos.
É também fácil verificar que

[a, b] = 0 ⇐⇒ a = 0 ou b = 0.

De fato, se [a, b] = 0, então 0 divide ab, que é múltiplo de a e b,


logo ab = 0 e, portanto a = 0 ou b = 0.
Reciprocamente, se a = 0 ou b = 0, então 0 é o único múltiplo
comum de a e b, logo [a, b] = 0.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 5/9
Relação entre o mdc, o mmc e o produto de dois inteiros

Proposição
Dados dois números inteiros a e b, temos que [a, b] existe e

[a, b](a, b) = |ab|.

Em virtude da proposição acima, o mı́nimo múltiplo comum de


dois inteiros, ambos não nulos, pode ser encontrado por meio do
Algoritmo de Euclides para o cálculo do mdc, pois basta dividir o
módulo do produto dos dois números pelo seu mdc.

Corolário
Se a e b são números inteiros primos entre si, então [a, b] = |ab|.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 6/9
Exemplo

Sejam b e m dois números naturais. Vamos mostrar que, na


sequência de números

b, 2b, 3b, . . . , mb,

existem exatamente (b, m) números divisı́veis por m.

De fato, os números da sequência divisı́veis por m são múltiplos de


b e m; logo, múltiplos de [b, m]. Esses são:

[b, m], 2[b, m], 3[b, m], . . . , (b, m)[b, m] (= mb).

Portanto, tem-se (b, m) números divisı́veis por m na sequência.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 7/9
Generalização do conceito de mmc
Podemos estender a noção de mmc para vários números, como
faremos a seguir.
Diremos que um número natural m é um mmc dos inteiros não
nulos a1 , . . . , an , se m é um múltiplo comum de a1 , . . . , an , e, se
para todo múltiplo comum m0 desses números, tem-se que m|m0 .
É facil ver que o mmc, se existe, é único, sendo denotado por
[a1 , . . . , an ].
Além disso, o mmc de vários inteiros não nulos é o menor múltiplo
comum positivo desses inteiros.

Proposição
Sejam a1 , . . . , an números inteiros não nulos. Então existe o
número [a1 , . . . , an ] e

[a1 , . . . , an−1 , an ] = [a1 , . . . , [an−1 , an ]] .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 8/9
Exemplo

Temos que

[−56, 16, 24] = [56, [16, 24]] = [56, 48] = 336,

pois

16 × 24 16 × 24
[16, 24] = = = 2 × 24 = 48 e
(16, 24) 8

56 × 48 56 × 48
[56, 48] = = = 56 × 6 = 336.
(56, 48) 8

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 7 - Resumo - Mı́nimo Múltiplo Comum slide 9/9
MA14 - Aritmética
Unidade 8
Resumo

Equações Diofantinas Lineares

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM

Julho 2013
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 6 - Seção 6.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 2/15
A resolução de vários problemas de aritmética recai na resolução,
em números inteiros, de equações do tipo

aX + bY = c,

com a, b, c ∈ Z.
Tais equações são chamadas equações diofantinas lineares em
homenagem a Diofanto de Alexandria (aprox. 300 d.C.).
Nem sempre estas equações possuem solução.
Exemplo
A equação

4X + 6Y = 3
não possui nenhuma solução x0 , y0 em números inteiros pois, caso
contrário, terı́amos 4x0 + 6y0 par e, portanto, nunca igual a 3.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 3/15
É, então, natural perguntar-se:
1) Em que condições tal equação possui soluções?
2) Caso as tenha, como determiná-las?

As respostas para estas perguntas são relativamente fáceis e serão


dadas nas duas proposições a seguir.

Proposição
Sejam a, b, c ∈ Z. A equação aX + bY = c admite solução em
números inteiros se, e somente se, (a, b) | c.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 4/15
É imediato verificar que a equação aX + bY = c, com a 6= 0 ou
b 6= 0 e (a, b) | c é equivalente à equação
a1 X + b1 Y = c1 ,
onde
a b c
a1 = , b1 = e c1 = .
(a, b) (a, b) (a, b)
Note que (a1 , b1 ) = 1 e, portanto, podemos nos retringir às
equações do tipo
aX + bY = c, com (a, b) = 1,
que sempre têm soluções.

Mostraremos a seguir como as soluções de uma equação diofantina


como acima podem ser determinadas a partir de uma solução
particular qualquer x0 , y0 .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 5/15
Proposição
Seja x0 , y0 uma solução da equação aX + bY = c, onde (a, b) = 1.
Então, as soluções x, y em Z da equação são

x = x0 + tb, y = y0 − ta; t ∈ Z.

Segue-se da proposição acima que a equação diofantina


aX + bY = c, com (a, b) = 1, admite infinitas soluções em Z.

A seguir, descreveremos um método para encontrar uma solução


particular de uma equação do tipo aX + bY = c, quando
(a, b) = 1.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 6/15
Solução particular de aX + bY = c, quando (a, b) = 1

Se |a|, |b| e |c| são números pequenos, uma solução pode ser
encontrada por inspeção.
Mais geralmente, o método descrito abaixo sempre permitirá achar
uma solução particular da equação.

Usando o algoritmo euclidiano estendido, é possı́vel determinar


m, n ∈ Z tais que
ma + nb = (a, b) = 1.
Multiplicando ambos os membros da igualdade acima por c,
obtemos
cma + cnb = c.
Logo, x0 = cm e y0 = cn é uma solução particular da equação
aX + bY = c.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 7/15
Exemplo: Resolvamos a equação 24X + 14Y = 18
A equação tem solução, pois (24, 14) = 2 e 2|18.
Dividindo ambos os membros da equação por 2 = (24, 14),
obtemos a equação equivalente 12X + 7Y = 9.
Vamos, em seguida, achar uma solução particular x0 , y0 desta
última equação. Pelo algoritmo euclidiano, temos
12 = 7 · 1 + 5, 7 = 5 · 1 + 2, 5 = 2 · 2 + 1.
Substituindo as equações acima umas nas outras, obtemos
1 = 12 · 3 − 7 · 5,
portanto,
9 = 12 · 27 + 7 · (−45).
Logo, x0 = 27 e y0 = −45 é solução particular da equação e,
consequentemente, as soluções são
x = 27 + t7, y = −45 − t12; t ∈ Z.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 8/15
Equações Diofantinas sobre N
Algumas vezes é necessário resolver em N ∪ {0} equações
diofantinas da forma aX + bY = c, onde a, b, c ∈ N.
Sejam a, b ∈ N. Definimos o conjunto
S(a, b) = {xa + yb; x, y ∈ N ∪ {0}},
chamado de semigrupo gerado por a e b.

É claro que aX + bY = c, com (a, b) = 1, tem solução em


N ∪ {0} se, e somente se, c ∈ S(a, b).
Portanto, é de fundamental importância caracterizar os elementos
do conjunto S(a, b), ou do conjunto de lacunas de S(a, b):
L(a, b) = N \ S(a, b).
Pode-se provar que
L(a, b) = {ma − nb ∈ N; m, n ∈ N, m < b}.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 9/15
Teorema
A equação aX + bY = c, onde (a, b) = 1, tem solução em
números naturais se, e somente se,

c 6∈ L(a, b) = {ma − nb ∈ N; m, n ∈ N, m < b}.

Note que o conjunto L(a, b) é finito e o seu maior elemento é

max L(a, b) = (b − 1)a − b.

Portanto, se

c > (b − 1)a − b + 1 = (b − 1)(a − 1),

a equação aX + bY = c admite solução nos naturais.


Se c = (b − 1)(a − 1) − 1, ela não admite solução.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 10/15
A única solução m, n da equação aX + bY = c, com m < b, é
uma solução minimal, no sentido de que se x, y é uma solução,
então x > m.
Com isto, podemos enunciar o resultado a seguir.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 11/15
Proposição
Suponha que a equação aX + bY = c, com (a, b) = 1, tenha
solução e seja x0 = m, y0 = n a solução minimal. As soluções x, y
da equação são dadas pelas fórmulas

x = m + tb, e y = n − ta, t ∈ N ∪ {0}, n − ta > 0.

Note que este tipo de equação tem, no máximo, um número finito


de soluções, correspondentes aos seguintes valores de t:
hni
0, 1, . . . , ,
a
hni
onde representa o quociente da divisão euclidiana de n por a,
a
n
ou seja a parte inteira de .
a

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 12/15
Exemplo

Vamos determinar para quais valores de c ∈ N a equação


11X + 7Y = c tem soluções em N ∪ {0}.

O conjunto de lacunas de S(11, 7) é o conjunto

L(11, 7) = {m11 − n7 ∈ N, m, n ∈ N, m < 7}

= {1, 2, 3, 4, 5, 6, 8, 9, 10, 12, 13, 15, 16, 17, 19, 20, 23, 24, 26, 27, 30,
31, 34, 37, 38, 41, 45, 48, 52, 59}.
Portanto, a equação 11X + 7Y = c admite solução em N ∪ {0} se,
e somente se, c 6∈ L(11, 7).

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 13/15
Exemplo: Resolver a equação 11X + 7Y = 58 em N ∪ {0}
Como, de acordo com o Exemplo anterior, 58 6∈ L(11, 7), a
equação possui soluções.
Para determiná-las, considere o algoritmo euclidiano,
11 = 7 · 1 + 4, 7 = 4 · 1 + 3, 4 = 3 · 1 + 1
Logo,

1 = 4 − 3 = 4 − (7 − 4) = 2 · 4 − 7 = 2(11 − 7) − 7 = 2 · 11 − 3 · 7.

Portanto,

58 = (58 · 2)11 − (58 · 3)7 = (4 + 16 · 7)11 − 174 · 7 = 4 · 11 + 2 · 7.

Segue daı́ que x0 = 4 e y0 = 2 é a solução minimal da equação.


Logo, as soluções são

x = 4 + t7, y = 2 − t11,

que só têm sentido para t = 0, e, portanto, a equação só possui a


solução x0 = 4, y0 = 2.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 14/15
Para resolver equações como as acima, não é necessário usar toda
a técnica que desenvolvemos, pois os números envolvidos são
suficientemente pequenos para que seja viável achar as soluções
por inspeção.
No exemplo acima, bastaria testar os valores X = 0, 1, 2, 3, 4, 5 ou
6 para verificar que apenas x0 = 4 é possı́vel.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 8 - Resumo - Equações Diofantinas Lineares slide 15/15
MA14 - Aritmética
Unidade 9
Revisão

Atividade Especial

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Esta unidade será dedicada à resolução de uma Lista de Problemas


sobre a matéria até agora desenvolvida.

O material completo a ser revisado encontra-se nos

Capı́tulos 3, 4, 5 e 6, Seção 6.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 2/10


Lista de Problemas
1 a) Quantos múltiplos de 5 existem no intervalo [1, 120]? e no
intervalo [1, 174]?
b) Quantos múltiplos de 7 existem em cada um dos intervalos
[70, 342] e [72, 342]?
2 Dados 0 < a ≤ n < m, mostre que no intervalo [1, n] existem q
múltiplos de a, onde q é o quociente da divisão de n por a.
Quantos são os múltiplos de a no intervalo [n, m]? (Na última
situação, divida a análise em dois casos: n múltiplo de a e o
contrário.)
3 Mostre que dados m inteiros consecutivos um, e apenas um,
deles é múltiplo de m.
4 Mostre que o produto de quatro números inteiros consecutivos,
quaisquer, é sempre múltiplo de 24.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 3/10


5 a) Ache o menor inteiro positivo n tal que o número 4n2 + 1
seja divisı́vel por 65.
b) Mostre que existem infinitos múltiplos de 65 da forma 4n2 + 1.
c) Mostre que se um dado número divide um número da forma
4n2 + 1, ele dividirá uma infinidade desses números.
d) Para este último resultado, existe algo de especial nos números
da forma 4n2 + 1? Teste o seu resultado para números da forma
an2 + bn + c, onde a, b, c ∈ Z, com a e b não simultaneamente
nulos.
e) Mostre que existem infinitos múltiplos de 7 da forma
8n2 + 3n + 4.
6 a) Sejam dados os dois números a = 10c + r e b = c − 2r , com
c, r ∈ Z. Mostre que a é divisı́vel por 7 se, e somente se b é
divisı́vel por 7.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 4/10


b) Deduza o seguinte critério de divisibilidade por 7:
O número n = ar · · · a1 a0 é divisı́vel por 7 se, e somente se, o
número ar · · · a1 − 2a0 é divisı́vel por 7.
c) Utilize repetidas vezes o critério acima para verificar se 2.368 é
ou não divisı́vel por 7.

Um número inteiro n é dito um quadrado se existe a ∈ Z tal que


n = a2 . Dizemos que n é uma potência m-ésima quando n = am .

7 a) Mostre que o algarismo das unidades de um quadrado só


pode ser um dos seguintes: 0, 1, 4, 5, 6 e 9.
b) Mostre que nenhum dos números 22, 222, 2222, . . ., ou
33, 333, 3333, . . ., ou 77, 777, 7777, . . ., ou ainda
88, 888, 8888, . . . pode ser um quadrado.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 5/10


8 a) Mostre que todo quadrado ı́mpar é da forma 4n + 1.
b) Mostre que nenhum número na sequência 11, 111, 1111, 11111,
etc., é um quadrado.
c) Mostre que nenhum número na sequência 44, 444, 4444, 44444,
etc., é um quadrado.
d) Mostre que nenhum número na sequência 99, 999, 9999, 99999,
etc., é um quadrado.
e) Mostre que nenhum número na sequência 55, 555, 5555, 55555,
etc., é um quadrado.
9 a) Mostre que nenhum número da forma 4n + 2 é um quadrado.
b) Mostre que nenhum dos números 66, 666, 6666, . . . é um
quadrado.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 6/10


10 a) Mostre que a soma de quatro inteiros consecutivos nunca é
um quadrado.
b) Mostre que a soma dos quadrados de quatro inteiros
consecutivos nunca é um quadrado. Faça o mesmo para a soma
dos quadrados de três inteiros consecutivos.
11 a) Mostre que todo quadrado é da forma 8n, 8n + 1 ou 8n + 4.
b) Mostre que nenhum número na sequência 3, 11, 19, 27, etc.,
é um quadrado.
12 Mostre que numa sequência de inteiros da forma

a, a + d, a + 2d, a + 3d, . . . ,

se existir algum número que é quadrado, existirão infinitos


números que são quadrados.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 7/10


13 Dados dois inteiros a e b distintos, mostre que existem
infinitos números n para os quais mdc(a + n, b + n) = 1.
14 Resolva o seguinte sistema de equações:

mdc(x, y ) = 6
mmc(x, y ) = 60

15 Observe que mdc(x, y ) divide mmc(x, y ), quaisquer que sejam


x, y ∈ Z, não nulos.
Mostre que se no seguinte sistema:

mdc(x, y ) = d
mmc(x, y ) = m

d - m, ele não admite solução. Mostre que se d | m, o sistema


sempre admite solução.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 8/10


16 Mostre que
a) mdc(a2 , b 2 ) = [mdc(a, b)]2 .
b) mmc(a2 , b 2 ) = [mmc(a, b)]2 .
c) Generalize.
17 (Esse é um problema proposto no século 16) Um total de 41
pessoas entre homens, mulheres e crianças foram a um banquete e
juntos gastaram 40 patacas. Cada homem pagou 4 patacas, cada
mulher 3 patacas e cada criança um terço de pataca. Quantos
homens, quantas mulheres e quantas crianças havia no banquete?
18 (Proposto por Euler) Um grupo de homens e mulheres
gastaram numa taberna 1.000 patacas. Cada homem pagou 19
patacas e cada mulher 13. Quantos eram os homens e quantas
eram as mulheres?

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 9/10


19 Uma pessoa comprou cavalos e bois. Foram pagos 31 escudos
por cavalo e 20 por boi e sabe-se que todos os bois custaram 7
escudos a mais do que todos os cavalos. Quantos cavalos e
quantos bois foram comprados, sabendo que o número de bois está
entre 40 e 95?
20 Em um certo paı́s, as cédulas são de $4 e $7. Quais das
afirmações a seguir são verdadeiras? Com elas é possı́vel pagar,
sem troco, qualquer quantia inteira
a) a partir de $11, inclusive.
b) a partir de $18, inclusive
c) ı́mpar, a partir de $7, inclusive
d) que seja $1 maior do que um múltiplo de $3
e) que seja $1 menor do que um múltiplo de $3

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 9 - Revisão - Atividade Especial slide 10/10


MA14 - Aritmética
Unidade 10
Resumo

Expressões Binômias

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 6 - Seção 6.2

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 10 - Resumo - Expressões Binômias slide 2/7


Nesta unidade, mostra-se como calcular o mdc de pares de
números da forma an ± 1, onde a, n ∈ N, mediante o uso do Lema
e do Algoritmo de Euclides.

Enunciaremos a seguir os principais resultados da unidade.


Proposição
Se n, m, a ∈ N, com a > 2, então
(am − 1, an − 1) = ad − 1, onde d = (m, n).

Exemplo
(218 − 1, 215 − 1) = 23 − 1 = 7, pois 3 = (18, 15).

(325 − 1, 320 − 1) = 35 − 1, pois 5 = (25, 20).

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 10 - Resumo - Expressões Binômias slide 3/7


Proposição
m
Sejam n, m ∈ N, com n|m e par. Se a ∈ N, então,
n

m n 1, se a é par
(a + 1, a + 1) =
2, se a é ı́mpar

Exemplo
18
(218 + 1, 23 + 1) = 1, pois 3 | 18, 3 = 6 e a = 2 é par.
24
(524 + 1, 56 + 1) = 2, pois 6 | 24, 6 = 4 e a = 5 é ı́mpar.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 10 - Resumo - Expressões Binômias slide 4/7


Teorema
Se a, n, m ∈ N, com a > 2, então

(am − 1, an − 1) = a(m,n) − 1,
n o
(am ± 1, an + 1) ∈ 1, 2, a(m,n) + 1 .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 10 - Resumo - Expressões Binômias slide 5/7


Corolário 1.
Tem-se que

[m, n]


 a(n,m) + 1, se é ı́mpar


 (m, n)




m n
 [m, n]
(a + 1, a + 1) = 2, se é par e a é ı́mpar

 (m, n)





 [m, n]
1, se e a são pares


(m, n)

Corolário 2. Se a ∈ N, tem-se que


 m n
 a(n,m) + 1, se é par e é ı́mpar



 (m, n) (m, n)

(am − 1, an + 1) = 2, caso contrário e a é ı́mpar






1, caso contrário e a é par

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 10 - Resumo - Expressões Binômias slide 6/7


Exemplo (Corolário 1)
1. (220 + 1, 212 + 1) = 24 + 1 = 17,
[20,12] 60
pois 4 = (20, 12), 60 = [20, 12] e (20,12) = 4 = 15.

2. (216 + 1, 212 + 1) = 1 e (316 + 1, 312 + 1) = 2,


[16,12] 48
pois 4 = (16, 12), 48 = [16, 12] e (16,12) = 4 = 12.

Exemplo (Corolário 2)
1. (218 − 1, 215 + 1) = 23 + 1 e (318 − 1, 315 + 1) = 33 + 1,
18 15
pois, 3 = (18, 15), 3 = 6 é par e 3 = 5 é ı́mpar.

2. (218 − 1, 230 + 1) = 1 e (318 − 1, 330 + 1) = 2,


18
pois, 6 = (18, 30), 6 = 3 é ı́mpar.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 10 - Resumo - Expressões Binômias slide 7/7


MA14 - Aritmética
Unidade 11
Resumo

Números de Fibonacci

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 6 - Seção 6.3

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 11 - Resumo - Números de Fibonacci slide 2/7


Números de Fibonacci
Nesta seção, apresentamos algumas propriedades dos números de
Fibonacci (Capı́tulo 2, Seção 2.3, Exemplo 2.14).
A sequência de Fibonacci é a sequência (un ) de números naturais,
definida, por recorrência, pelas relações

un = un−1 + un−2 , com u1 = u2 = 1.

Os elementos da sequência de Fibonacci são chamados de números


de Fibonacci.
Exemplo
Os 13 primeiros números de Fibonacci são

1 1 2 3 5 8 13 21 34 55 89 144 233

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 11 - Resumo - Números de Fibonacci slide 3/7


Propriedades dos números de Fibonacci
Proposição
Para todo par de números naturais n e m, temos que
un+m = un um+1 + un−1 um

Lema
Dois termos consecutivos da sequência de Fibonacci são coprimos.

Lema
Se n, m ∈ N são tais que n|m, então, un |um .

Teorema
Seja (un )n a sequência de Fibonacci; então,
(um , un ) = u(m,n) .

Corolário
Sejam m ≥ n > 2. Na sequência de Fibonacci, temos que un divide
um se, e somente se, n divide m.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 11 - Resumo - Números de Fibonacci slide 4/7
Exemplo

O resultado anterior nos permite estabelecer alguns critérios de


divisibilidade para os termos da sequência de Fibonacci.

Quais os termos um da sequência de Fibonacci divisı́veis por 3?

Basta notar que u4 = 3 e que

3|um ⇐⇒ u(4,m) = (u4 , um ) = (3, um ) = 3 = u4 ,


e, portanto,

3|um ⇐⇒ (4, m) = 4 ⇐⇒ 4|m.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 11 - Resumo - Números de Fibonacci slide 5/7


Exercı́cio
1. Calcule (un , un+4 ).
Solução
Sabemos do Teorema que

(un , un+4 ) = u(n,n+4) = u(n,4) .

Por outro lado,



 4, se n = 4k
(n, 4) = 1, se n = 4k + 1 ou n = 4k + 3
2, se n = 4k + 2.

Logo,

3, se 4 | n
(un , un+4 ) = u(n,4) =
1, se 4 6 | n

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 11 - Resumo - Números de Fibonacci slide 6/7


Exercı́cio

2. Mostre que 55 divide um se, e somente se, 10 divide m.


Solução
Como u10 = 55, então pelo Corolário do Teorema,

55 | um ⇐⇒ u10 | um ⇐⇒ 10 | m.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 11 - Resumo - Números de Fibonacci slide 7/7


MA14 - Aritmética
Unidade 12
Resumo

Teorema Fundamental Da Aritmética

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 7 - Seção 7.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 2/10
Números Primos
Um número natural maior do que 1 que só possui como divisores
positivos 1 e ele próprio é chamado de número primo.
Dados dois números primos p e q e um número inteiro a qualquer,
decorrem da definição acima os seguintes fatos:
I) Se p|q, então p = q.
II) Se p 6 | a, então (p, a) = 1.
Um número maior do que 1 e que não é primo será chamado
composto.
Portanto, se um número natural n > 1 é composto, existirá um
divisor natural n1 de n tal que 1 < n1 < n. Logo, existirá um
número natural n2 tal que
n = n1 n2 , com 1 < n1 < n e 1 < n2 < n.
Exemplo
2, 3, 5, 7, 11 e 13 são números primos, enquanto que 4, 6, 8, 9, 10
e 12 são compostos.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 3/10
Do ponto de vista da estrutura multiplicativa dos naturais, os
números primos são os mais simples e ao mesmo tempo são
suficientes para gerar todos os números naturais, logo todos os
números inteiros não nulos, conforme veremos mais adiante no
Teorema Fundamental da Aritmética.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 4/10
A seguir, estabelecemos um resultado fundamental de Euclides (Os
Elementos, Proposição 30, Livro VII).

Proposição (Lema de Euclides)


Sejam a, b, p ∈ Z, com p primo. Se p|ab, então p|a ou p|b.

Na realidade, a propriedade dos números primos descrita na


proposição acima, os caracteriza totalmente (Veja Problema
7.1.9).

Corolário
Se p, p1 , . . . , pn são números primos e, se p|p1 · · · pn , então p = pi
para algum i = 1, . . . , n.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 5/10
Teorema Fundamental da Aritmética

Teorema
Todo número natural maior do que 1 ou é primo ou se escreve de
modo único (a menos da ordem dos fatores) como um produto de
números primos.

Agrupando no teorema os fatores primos repetidos, se necessário, e


ordenando os primos em ordem crescente, temos o seguinte
enunciado:

Teorema
Dado um número inteiro n 6= 0, 1, −1, existem primos
p1 < · · · < pr e α1 , . . . , αr ∈ N, univocamente determinados, tais
que
n = ±p1α1 · · · prαr .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 6/10
Proposição
Seja n = p1α1 · · · prαr um número natural escrito na forma acima.
Se n0 é um divisor positivo de n, então

n0 = p1β1 · · · prβr ,

onde 0 ≤ βi ≤ αi , para i = 1, . . . , r .

Denotando por d(n) o número de divisores positivos do número


natural n, temos que se n = p1α1 · · · prαr , onde p1 , . . . , pr são
números primos e α1 , . . . , αr ∈ N, então

d(n) = (α1 + 1)(α2 + 1) · · · (αr + 1).

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 7/10
MDC e MMC

A fatoração de números naturais em primos revela toda a estrutura


multiplicativa desses números, permitindo, entre muitas outras
coisas, determinar facilmente o mdc e o mmc de um conjunto
qualquer de números.

Teorema
Sejam a = ±p1α1 · · · pnαn e b = ±p1β1 · · · pnβn . Pondo

γi = min{αi , βi }, δi = max{αi , βi }, i = 1, . . . , n,

tem-se que

(a, b) = p1γ1 · · · pnγn e [a, b] = p1δ1 · · · pnδn .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 8/10
Exemplo
Seja n > 4 um número natural, vamos provar que n é composto se,
e somente se, n|(n − 2)!.
Suponhamos n composto. Provaremos inicialmente que n|(n − 1)!.
De fato, suponha que n = n1 n2 com 1 < n1 < n e 1 < n2 < n.
Se n1 6= n2 , podemos supor que 1 < n1 < n2 , e portanto,

(n − 1)! = 1 · · · n1 · · · n2 · · · (n − 1),

o que mostra que n|(n − 1)!, neste caso.


Suponhamos que n1 = n2 > 2. Logo,

(n − 1)! = 1 · · · n1 · · · 2n1 · · · (n − 1),

o que implica também que n(= n1 n1 ) divide (n − 1)!.


Agora, note que (n, n − 1) = 1 e que n|(n − 2)!(n − 1); portanto,
n|(n − 2)!.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 9/10
Exemplo - continuação
Reciprocamente, se n | (n − 2)!, n não pode ser primo, pois é
maior do que os fatores primos de (n − 1)!.

A propriedade acima pode ser generalizada como segue:

Se n > 4 é composto e p é o menor número primo que divide n,


então, n|(n − p)!
De fato, temos que

(n − 1, n) = (n − 2, n) = · · · = (n − (p − 1), n) = 1.
Logo, segue-se que

((n − 1)(n − 2) · · · (n − p + 1), n) = 1,


o que, em vista do fato de n|(n − 1)!, acarreta o resultado.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 12 - Resumo - Teorema Fundamental da Aritmética slide 10/10
MA14 - Aritmética
Unidade 13
Resumo

Pequeno Teorema de Fermat

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 7 - Seção 7.3

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 13 - Resumo - Pequeno Teorema de Fermat slide 2/6
A demonstração do Teorema de Fermat se baseia no lema a seguir.
Lema  
p
Seja p um número primo. Os números , onde 0 < i < p, são
i
todos divisı́veis por p.

Teorema (Pequeno Teorema de Fermat)


Dado um número primo p, tem-se que p divide o número ap − a,
para todo a ∈ Z.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 13 - Resumo - Pequeno Teorema de Fermat slide 3/6
Exemplo

Dado um número qualquer n ∈ N, tem-se que n9 e n, quando


escritos na base 10, têm o mesmo algarismo da unidade.
A afirmação acima é equivalente a 10|n9 − n.
Como n9 e n têm a mesma paridade, segue-se que n9 − n é par;
i.e, 2|n9 − n.
Por outro lado,

n9 − n = n(n4 − 1)(n4 + 1) = (n5 − n)(n4 + 1).

Logo, pelo Pequeno Teorema de Fermat, temos que 5|n5 − n e,


portanto, 5|n9 − n.
Tem-se, então, que 10|n9 − n.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 13 - Resumo - Pequeno Teorema de Fermat slide 4/6
Corolário
Se p é um número primo e se a é um número inteiro não divisı́vel
por p, então p divide ap−1 − 1.

O corolário acima é também chamado de Pequeno Teorema de


Fermat.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 13 - Resumo - Pequeno Teorema de Fermat slide 5/6
Exercı́cios Resolvidos
1. Mostre que 5 | a12 − 1, se a ∈ Z e (a, 5) = 1.
Solução
Como 5 | a4 − 1 e a4 − 1 | (a4 )3 − 1 = a12 − 1 então, pela
transitividade da divisibilidade, 5 | a12 − 1.
2. Mostre que 7 | a6 − b 6 , se a e b são inteiros primos com 7.
Solução
Como 7 | a6 − 1 e 7 | b 6 − 1 então, por
 propriedade da
6 6 6
divisibilidade, 7 | (a − 1) − (b − 1) = a − b . 6

3. Mostre que 21 | a6 − b 6 , se a e b são inteiros primos com 21.


Solução
Neste caso, a e b são primos com 3 e 7. Pelo exercı́cio anterior,
7 | a6 − b 6 . Como 3 | a2 − 1 e 3 | b 2 − 1 então, por propriedade da
divisibilidade, 3 | (a2 − 1) − (b 2 − 1) = a2 − b 2 . Além disso,
a2 − b 2 divide (a2 )3 − (b 2 )3 = a6 − b 6 . Portanto, 3 | a6 − b 6 .
Logo, 21 | a6 − b 6 .
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 13 - Resumo - Pequeno Teorema de Fermat slide 6/6
MA14 - Aritmética
Unidade 14
Revisão

Atividade Especial

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Esta unidade constitui-se na tarefa da resolução da Lista dos


Problemas suplementares do Capı́tulo 7 de 7.S.1 a 7.S.14 do
livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

O material completo a ser revisado encontra-se no

Capı́tulo 7, Seções 7.1 e 7.3,

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 14 - Revisão - Atividade Especial slide 2/1


MA14 - Aritmética
Unidade 15
Resumo

Primos de Fermat e de Mersenne

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 8 - Seção 8.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 15 - Resumo - Primos de Fermat e de Mersenne slide 2/7
Primos de Fermat
Os números de Fermat são os números da forma
n
Fn = 22 + 1.
Fermat achava que esses números eram todos primos.
De fato, F1 = 5, F2 = 17, F3 = 257, F4 = 65 537 são primos.
Em 1732, Euler mostrou que
5
F5 = 22 + 1 = 4 294 967 297 = 641 · 6 700 417,
portanto, composto, desfazendo assim esta crença de Fermat.
Os números de Fermat primos são chamados de primos de Fermat.
Até hoje, não se sabe se existem outros primos de Fermat além dos
quatro primeiros.
No Exemplo 6.18(a), como consequência do Corolário 6.17 do livro
texto, observamos que
(Fn , Fm ) = 1, se n 6= m.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 15 - Resumo - Primos de Fermat e de Mersenne slide 3/7
Primos de Mersenne
Os números de Mersenne são os números da forma
Mp = 2p − 1,
onde p é um número primo.
No intervalo 2 ≤ p ≤ 5 000 os números de Mersenne que são
primos, chamados de primos de Mersenne, correspondem aos
seguintes valores de p:
2, 3, 5, 7, 13, 19, 31, 61, 89, 107, 127, 521, 607, 1 279, 2 203,
2 281, 3 217, 4 253 e 4 423.
Até o presente momento, o maior primo de Mersenne conhecido é
M57 885 161 , descoberto em janeiro de 2013 e que possui no sistema
decimal 17 425 170 dı́gitos.
Anteriormente, em agosto de 2008, havia sido descoberto o primo
M43 112 609 , que tinha no sistema decimal 12 978 189 dı́gitos.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 15 - Resumo - Primos de Fermat e de Mersenne slide 4/7
Teorema de Dirichlet

Enunciaremos a seguir, sem demonstração, um resultado profundo


devido a Lejeune Dirichlet:

Teorema (Dirichlet)
Em uma PA de números naturais, com primeiro termo e razão
primos entre si, existem infinitos números primos.

A demonstração deste resultado é bem difı́cil e pertence à teoria


analı́tica dos números.

Nos limitamos no texto a demonstrar alguns casos particulares do


teorema. O primeiro caso particular é o seguinte:

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 15 - Resumo - Primos de Fermat e de Mersenne slide 5/7
Proposição
Na progressão aritmética 3, 7, 11, 15, . . . , 4n + 3, . . . existem
infinitos números primos.

O que a proposição nos diz é que existem infinitos primos da forma


4n + 3.
A prova de que existem infinitos primos da forma 4n + 1 é um
pouco mais sutil.
Em outras seções provaremos outros casos particulares.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 15 - Resumo - Primos de Fermat e de Mersenne slide 6/7
Exercı́cio
Mostre que existem infinitos números primos da forma 6n + 5.
Solução
Note que todo número primo ı́mpar maior do que 3 é da forma
6n + 1 ou 6n + 5.
O conjunto Λ = {6n + 1; n ∈ N} é fechado multiplicativamente.
De fato,
(6n + 1)(6n0 + 1) = 6(6nn0 + n + n0 ) + 1.
Suponhamos, por absurdo, que haja apenas um número finito de
números primos 5 < p1 < · · · < pk da forma 6n + 5.
Portanto, o número a = 6(p1 · p2 · · · pk ) + 5 não é divisı́vel por
nenhum dos números primos 5, p1 , . . . , pk e, consequentemente,
sua decomposição em fatores primos só pode conter primos da
forma 6n + 1. Logo, a é da forma 6n + 1, o que é uma
contradição, pois é da forma 6n + 5.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 15 - Resumo - Primos de Fermat e de Mersenne slide 7/7
MA14 - Aritmética
Unidade 16
Resumo

Números Perfeitos

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 8 - Seção 8.2

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 16 - Resumo - Números Perfeitos slide 2/6


Números Perfeitos

Os números como 6 e 28, com a propriedade de serem iguais à


metade da soma de seus divisores, tiveram o poder de fascinar os
gregos antigos, que os chamaram de números perfeitos.

Até a Idade Média, conheciam-se apenas os seguintes números


perfeitos:

6, 28, 496, 8 128 e 33 550 336.


Atualmente, conhecem-se mais alguns números perfeitos.
Um fato curioso é que todos os números perfeitos conhecidos são
pares.
Não se sabe nada sobre a existência ou não de números perfeitos
ı́mpares.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 16 - Resumo - Números Perfeitos slide 3/6


Denotemos por S(n) a soma de todos os divisores naturais de um
número natural n.
Tem-se que S(1) = 1 e se p1α1 · · · prαr é a decomposição em fatores
primos de n > 1,então
p1α1 +1 − 1 p αr +1 − 1
S(n) = ··· r .
p1 − 1 pr − 1
Exemplo
32 − 1 22 − 1 32 − 1
S(3) = = 4. S(6) = S(2 · 3) = = 12.
3−1 2−1 3−1
22 − 1 33 − 1
S(18) = S(2 · 32 ) = = 39.
2−1 3−1
2 23 − 1 2
7 −1
S(28) = S(2 · 7) = = 56.
2−1 7−1
3 3−1 52 − 1
S(45) = S(32 · 5) = = 78.
3−1 5−1

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 16 - Resumo - Números Perfeitos slide 4/6


Podemos então dizer que um número natural n é um número
perfeito se S(n) = 2n. Ou ainda, se o número é igual à soma dos
seus divisores naturais distintos dele mesmo.

A função n 7−→ S(n) possui as seguintes propriedades:

A função S(n) é multiplicativa; isto é,


se (n, m) = 1, então S(n · m) = S(n)S(m).

Se n > 1, tem-se que


n é primo se, e somente se, S(n) = n + 1.

O teorema que enunciaremos a seguir caracterizará os números


perfeitos pares, relacionando-os com os números de Mersenne
definidos na Seção 8.1 do Capı́tulo 8.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 16 - Resumo - Números Perfeitos slide 5/6


Teorema (Euclides-Euler)
Um número natural n é um número perfeito par se, e somente se,
n = 2p−1 (2p − 1), onde 2p − 1 é um primo de Mersenne.

A primeira parte da demonstração do teorema acima, sem dúvida a


mais fácil, já se encontra nos Elementos de Euclides (Proposição
36, livro IX). A recı́proca data do século 18 e é devida a Euler.

O fato do número 2p − 1, no enunciado do teorema, ser um


número primo de Mersenne, implica que p é primo.
Note, ainda, que o teorema reduz a existência ou não de um
número infinito de números perfeitos pares ao problema análogo
para primos de Mersenne.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 16 - Resumo - Números Perfeitos slide 6/6


MA14 - Aritmética
Unidade 17
Resumo

Fatoração do Fatorial

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 8 - Seção 8.3

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 2/10


O Teorema de Legendre
Nesta Seção, vamos mostrar como achar a fatoração em números
primos de n!, onde n é um número natural arbitrário.
hai
Se a e b são números naturais, vamos designar pelo sı́mbolo o
b
quociente da divisão de a por b, na divisão euclidiana.
hai
Uma observação útil é que se b > a > 0, então = 0.
b
Dados um número primo p e um número natural m, vamos denotar
por Ep (m) o expoente da maior potência de p que divide m, ou
seja, o expoente da potência de p que aparece na fatoração de m
em fatores primos.
Por exemplo, E2 (12) = E2 (3 · 22 ) = 2, E3 (54) = E3 (2 · 33 ) = 3.
Teorema (Legendre)
Sejam n um número natural e p um número primo. Então,
     
n n n
Ep (n!) = + 2 + 3 + ···
p p p
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 3/10
Na prática, é fácil calcular Ep (n!).
Isto se faz com o uso do seguinte algoritmo:

n = pq1 + r1
q1 = pq2 + r2
...
qs−1 = pqs + rs
...
Como q1 > q2 > · · · , segue-se que, para algum s, tem-se que
qs < p.

Portanto, segue-se que

Ep (n!) = q1 + q2 + · · · + qs .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 4/10


Exemplo
Vamos determinar a decomposição de 10! em fatores primos e
descobrir com quantos zeros termina a representação decimal desse
número.
Para resolvermos o problema, deveremos achar Ep (10!) para todo
primo p ≤ 10.
Sendo
E2 (10!) = 5 + 2 + 1 = 8, E3 (10!) = 3 + 1 = 4,

E5 (10!) = 2, E7 (10!) = 1,
segue-se que
10! = 28 34 52 7.
Consequentemente, como há dois fatores iguais a 5 e oito fatores
iguais a 2 na decomposição de 10! em fatores primos, vê-se,
imediatamente, que 10! termina com dois zeros.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 5/10
O próximo resultado relacionará Ep (n!) com a representação
p-ádica de n (i.e., a representação relativa à base p de n).
Teorema
Sejam p, n ∈ N com p primo. Se

n = nr p r + nr −1 p r −1 + · · · + n1 p + n0

é a representação p-ádica de n, então

n − (n0 + n1 + · · · + nr )
Ep (n!) = .
p−1

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 6/10


Exercı́cio

(a) Mostre que, para todo n ∈ N, tem-se que 2n 6 | n!.


Solução
Escrevendo n na sua expansão binária temos, para algum m ≥ 0,

n = 2m + am−1 2m−1 + · · · + a0 ,
onde cada ai é 0 ou 1.
Pelo teorema anterior,

n − (1 + am−1 + · · · + a0 )
E2 (n!) = = n − (1 + am−1 + · · · + a0 ).
2−1
Logo, E2 (n!) < n, mostrando que 2n 6 | n!.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 7/10


Exercı́cio

(b) Mostre que 2n−1 | n! se, e somente se, existe m ∈ N tal que
n = 2m .
Solução
Temos que 2n−1 | n! se, e somente se, E2 (n!) ≥ n − 1.
E2 (n) = n − (1 + am−1 + · · · + a0 ) ≥ n − 1 se, e somente se,
am−1 = · · · = a0 = 0 se, e somente se, n = 2m é uma potência de
2.

(c) Determine todos os números naturais n tais que 2n−2 | n!.


Solução
Da mesma forma, vemos que os números n tais que E2 (n) ≥ n − 2
são as somas de duas potências de 2.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 8/10


Exercı́cio

(d) Se r ∈ N, determine todos os números naturais n tais que


2n−r | n!.
Solução
Em geral, os números n tais que E2 (n!) ≥ n − r são as somas de r
potências de 2.

Apresentamos a seguir um algoritmo para determinar o número


n

Ep m , para n > m, cuja demonstração está no Capı́tulo 8 na
Seção 8.3 e é consequência do teorema anterior e da representação
p-ádica de n e m.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 9/10


Algoritmo (Kummer)
n

O número Ep m , para n > m, é igual ao número de vezes que
se “toma emprestado” uma unidade da casa superior ao
efetuarmos a subtração n − m na base p.
Exemplo
196

Vamos determinar o valor de E3 ( 67 ).

Temos que 196 = [21021]3 e 67 = [2111]3 , logo

1 1
2 1 0 2 1
2 1 1 1
1 1 2 1 0
196

Portanto, E3 ( 67 ) = 2.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 17 - Resumo - Fatoração do Fatorial slide 10/10


MA14 - Aritmética
Unidade 18
Resumo

Congruências

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 9 - Seção 9.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 2/1


Nesta unidade, apresentamos uma das noções mais fecundas da
aritmética, introduzida por Gauss no seu livro Disquisitiones
Arithmeticae, de 1801. Trata-se da realização de uma aritmética
com os restos da divisão euclidiana por um número fixado.

Seja m um número natural. Diremos que dois números inteiros a e


b são congruentes módulo m se os restos de sua divisão euclidiana
por m são iguais.
Quando os inteiros a e b são congruentes módulo m, escreve-se
a ≡ b mod m.
Exemplo
21 ≡ 13 mod 2, já que os restos da divisão de 21 e de 13 por 2
são iguais a 1.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 3/1


Quando a relação a ≡ b mod m for falsa, diremos que a e b não
são congruentes, ou que são incongruentes módulo m.
Escreveremos, neste caso, a 6≡ b mod m.

Exemplo
20 6≡ 17 mod 5, pois o resto da divisão de 20 por 5 é 0, enquanto
17 deixa resto 2 na divisão por 5.

Como o resto da divisão de um número inteiro qualquer por 1 é


sempre nulo, temos que a ≡ b mod 1, quaisquer que sejam
a, b ∈ Z.
Isto torna desinteressante a aritmética dos restos módulo 1.

Portanto, doravante, consideraremos sempre m > 1.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 4/1


Decorre da definição, que a congruência, módulo um inteiro fixado
m, é uma relação de equivalência;
Proposição
Seja m ∈ N. Para todos a, b, c ∈ Z, tem-se que
(i) a ≡ a mod m,
(ii) se a ≡ b mod m, então b ≡ a mod m,
(iii) se a ≡ b mod m e b ≡ c mod m, então a ≡ c mod m.

Proposição
Suponha que a, b, m ∈ Z, com m > 1. Tem-se que a ≡ b mod m
se, e somente se, m | b − a.

Exemplo
13 ≡ 21 mod 4, pois 4 | 8 = 21 − 13;
25 6≡ 16 mod 6, pois 6 6 | −9 = 16 − 25.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 5/1


Sistema Completo de Resı́duos Módulo m
Note que todo inteiro é congruente módulo m ao seu resto pela
divisão euclidiana por m, e, portanto, é congruente a um dos
números 0, 1, . . . , m − 1. Além disso, dois desses números distintos
não são congruentes módulo m.
Chamaremos de sistema completo de resı́duos módulo m a todo
conjunto de números inteiros cujos restos pela divisão por m são os
números 0, 1, . . . , m − 1, sem repetições e numa ordem qualquer.
Portanto, um sistema completo de resı́duos módulo m tem m
elementos.

Exemplo
{a1 = 0, a2 = 1, a3 = 2}, assim como {b1 = 10, b2 = 11, b3 = 12}
são sistemas completos de resı́duos módulo 3, pois seus restos na
divisão por 3 são, respectivamente, 0, 1, 2 e 1, 2, 0.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 6/1


O que torna útil e poderosa a noção de congruência é o fato de ser
uma relação de equivalência compatı́vel com as operações de
adição e multiplicação nos inteiros, conforme veremos na
proposição a seguir.
Proposição
Sejam a, b, c, d, m ∈ Z, com m > 1.
i) Se a ≡ b mod m e c ≡ d mod m, então
a + c ≡ b + d mod m.
ii) Se a ≡ b mod m e c ≡ d mod m, então
ac ≡ bd mod m.

Corolário
Para todos n ∈ N, a, b ∈ Z, se a ≡ b mod m, então
an ≡ b n mod m.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 7/1


Exemplo: 45 | 133n + 173n , para todo natural ı́mpar n.
De fato,
133 = 132 · 13 ≡ 34 · 13 = 442 ≡ 37 ≡ −8 mod 45,
logo
133 ≡ −8 mod 45.
Portanto, como n é ı́mpar, pelo Corolário anterior,
133n ≡ (−8)n = −8n mod 45.
Por outro lado, como
173 = 172 · 17 ≡ 19 · 17 = 323 ≡ 8 mod 45,
segue-se que
173n ≡ 8n mod 45.
Assim, do item (i) da Proposição anterior,
133n + 173n ≡ −8n + 8n = 0 mod 45.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 8/1


Pequeno Teorema de Fermat

Com a notação de congruências, o Pequeno Teorema de Fermat se


enuncia como se segue:

Teorema (Pequeno Teorema de Fermat)


Se p é número primo e a ∈ Z, então

ap ≡ a mod p.

Além disso, se p 6 | a, então

ap−1 ≡ 1 mod p.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 9/1


Exemplo: Qual o resto da divisão de 23728 por 13?
Certamente, calcular a potência 23728 , para depois dividir o
resultado por 13, não é o melhor caminho.
Note que 237 ≡ 3 mod 13, pois 3 é o resto da divisão de 237 por
13.
Pelo Pequeno Teorema de Fermat, segue-se que
23712 ≡ 1 mod 13.
Pelo Corolário anterior,
23724 = (23712 )2 ≡ 12 = 1 mod 13.
Analogamente, temos que
2374 ≡ 34 = 81 ≡ 3 mod 13.
Segue, do item (ii) da Proposição anterior, que
23728 = 23724 · 2374 ≡ 1 · 3 = 3 mod 13.
Portanto, o resto da divisão de 23728 por 13 é 3.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 10/1
Proposição
Sejam a, b, c, m ∈ Z, com m > 1. Tem-se que

a+c ≡b+c mod m ⇐⇒ a ≡ b mod m.

A seguir, um resultado relacionado com o cancelamento


multiplicativo;
Proposição
Sejam a, b, c, m ∈ Z, com m > 1. Temos que
m
ac ≡ bc mod m ⇐⇒ a ≡ b mod .
(c, m)

Corolário
Sejam a, b, c, m ∈ Z, com m > 1 e (c, m) = 1. Temos que

ac ≡ bc mod m ⇐⇒ a ≡ b mod m.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 11/1


Exercı́cio: Dê os inteiros tais que 7(X 2 − 1) ≡ 21 mod 8
Solução
Temos que
7(X 2 − 1) ≡ 21 mod 8 ⇐⇒ 7(X 2 − 1) ≡ 7 · 3 mod 8.
Como (7, 8) = 1, pelo Corolário anterior, podemos cancelar o fator
7 obtendo
X 2 − 1 ≡ 3 mod 8 ⇐⇒ X 2 ≡ 4 mod 8.
Analisamos na seguinte tabela todas as possı́veis congruências
módulo 8, lembrando que se x ≡ r mod 8, então x 2 ≡ r 2 mod 8,

inteiro congruência módulo 8


x 0 1 2 3 4 5 6 7
x2 0 1 4 1 0 1 4 1

Portanto, x ≡ 2 mod 8 ou x ≡ 6 mod 8, isto é, x = 8k + 2 ou


x = 8k + 6, com k ∈ Z.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 12/1
A seguir, propriedades adicionais das congruências relacionadas
com a multiplicação:
Proposição
Sejam a, b ∈ Z. Se m, n, m1 , . . . , mr são inteiros maiores do que 1,
temos que
i) se a ≡ b mod m e n|m, então a ≡ b mod n;
ii) a ≡ b mod mi , ∀ i = 1, . . . , r ⇐⇒
a ≡ b mod [m1 , . . . , mr ];
iii) se a ≡ b mod m, então (a, m) = (b, m).

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 13/1


Exemplo
Qual o menor múltiplo positivo de 7 que deixa resto 1 quando
dividido por 2, 3, 4, 5 e 6?
Queremos achar a menor solução positiva u do seguinte sistema de
congruências:

7X ≡ 1 mod 2, mod 3, mod 4, mod 5 e mod 6.

Pela Proposição anterior item (ii), temos que toda solução


simultânea das congruências acima é solução da congruência

7X ≡ 1 mod [2, 3, 4, 5, 6],

e reciprocamente.
Portanto, devemos achar a menor solução positiva u da
congruência 7X ≡ 1 mod 60.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 14/1


Continuação do Exemplo
Por outro lado, resolver a congruência 7X ≡ 1 mod 60 é
equivalente a resolver a equação diofantina 7X − 60Y = 1.
Pelo algoritmo euclidiano estendido, temos que
60 = 7 · 8 + 4 7=4·1+3 4 = 3 · 1 + 1.
Portanto,
1 = 4 − 3 · 1 = 4 − (7 − 4) = 2 · 4 − 7 = 2(60 − 7 · 8) − 7
= 7 · (−17) − 60 · (−2).
Logo, x0 = −17 e y0 = −2 é uma solução particular da equação
diofantina 7X − 60Y = 1 e a sua solução geral é x = −17 + t60 e
y = −2 − t7, com t ∈ Z.
Portanto, o menor valor positivo de u de modo que exista v para
os quais u, v é uma solução da equação diofantina 7X − 60Y = 1
é u = −17 + 1 · 60 = 43.
Segue-se, então, que o número procurado é 7 · 43 = 301.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 18 - Resumo - Congruências slide 15/1
MA14 - Aritmética
Unidade 19
Resumo

Aplicações de Congruências

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 9 - Seção 9.2

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 19 - Resumo - Aplicações de Congruências slide 2/16


Aplicações de Congruências
Esta unidade é dedicada a apresentar um leque de aplicações da
noção de congruência, mostrando um pouco de sua vasta
utilização.
Note que nem todo número de Mersenne é primo. O primeiro
número de Mersenne que não é primo é M11 . De fato, é fácil
verificar que M2 , M3 , M5 , M7 são primos e que

M11 = 211 − 1 = 2047 = 23 · 89.

Exemplo 1. Vamos mostrar que o número de Mersenne


M83 = 283 − 1 não é primo.
De fato, temos que

28 = 256 ≡ 89 mod 167 216 ≡ 892 = 7921 ≡ 72 mod 167


2 ≡ 72 = 5184 ≡ 7 mod 167 264 ≡ 72 = 49 mod 167.
32 2

Daı́, segue-se que 283 = 264 216 23 ≡ 49 · 72 · 8 ≡ 1 mod 167,


o que implica que 283 − 1 é divisı́vel por 167.
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Exemplo 2. Vamos mostrar que o quinto número de Fermat
5
F5 = 22 + 1 não é primo.

Note que, da igualdade 641 = 5 · 27 + 1, temos que


5 · 27 ≡ −1 mod 641.
Portanto, segue-se que
54 228 = (5 · 27 )4 ≡ (−1)4 = 1 mod 641. (1)
Disto, e da igualdade
54 + 24 = 641,
temos que
54 · 228 + 232 ≡ 0 mod 641,
logo, de (1),
5
1 + 22 ≡ 0 mod 641,
o que mostra que 641|F5 .

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Exemplo 3. Critérios de divisibilidade por 2, 5 e 10

Notando que
10 ≡ 0 mod 2, 10 ≡ 0 mod 5 e 10 ≡ 0 mod 10,
temos que, para todo i > 1,
ni 10i ≡ 0 mod 2, ni 10i ≡ 0 mod 5, ni 10i ≡ 0 mod 10.
Portanto, dado um número n = nr nr −1 . . . n0 , na base 10, temos
que

n ≡ n0 mod 2, n ≡ n0 mod 5, n ≡ n0 mod 10,


o que nos diz que
n é divisı́vel por 2, 5 ou 10 se, e somente se, n0 é divisı́vel por 2, 5
ou 10, respectivamente.

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Exemplo 4. Critérios de divisibilidade por 3 e 9
Como
10 ≡ 1 mod 3 e 10 ≡ 1 mod 9,
segue-se que
ni 10i ≡ ni mod 3 e ni 10i ≡ ni mod 9.
Isto mostra que, se n é representado na base 10 como
nr nr −1 . . . n0 , então

n ≡ nr + nr −1 + · · · + n0 mod 3

e
n ≡ nr + nr −1 + · · · + n0 mod 9,
o que prova que n é divisı́vel por 3 ou 9 se, e somente se,
nr + nr −1 + · · · + n0 é divisı́vel, respectivamente, por 3 ou por 9.

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Regra dos nove fora

Isto justifica a famosa regra dos noves fora, que se enuncia como
se segue:

Para verificar se um dado número é divisı́vel por 3 ou por 9,


somam-se os seus algarismos, desprezando-se, ao efetuar a soma,
cada parcela igual a nove.

Se o resultado final for 0, então o número é divisı́vel por 9.

Se o resultado for um dos algarismos 0, 3 ou 6, então o número é


divisı́vel por 3.

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Exemplo 5. Critério de divisibilidade por 11
Como
10 ≡ −1 mod 11,
temos que
102i ≡ 1 mod 11 e 102i+1 ≡ −1 mod 11.
Seja n = nr · · · n5 n4 n3 n2 n1 n0 um número escrito na base 10.
Temos, então, que
n0 ≡ n0 mod 11
n1 10 ≡ −n1 mod 11
n2 102 ≡ n2 mod 11
n3 103 ≡ −n3 mod 11
...
Somando, membro a membro, as congruências acima, temos que
n ≡ n0 − n1 + n2 − n3 + · · · mod 11.
Logo, 11 | n se, e somente se, 11 | n0 − n1 + n2 − n3 + · · · .
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Exemplo 6. Prova dos nove

A prova dos nove é um teste que se realiza nas quatro operações


para detectar erros de contas.
Como exemplo, suponhamos que efetuamos a multiplicação a · b,
obtendo o resultado c, cuja exatidão queremos verificar.
Suponha que na base 10 tenhamos

a = an an−1 . . . a1 a0 , b = bm bm−1 . . . b1 b0 , c = cr cr −1 . . . c1 c0 .

Após ter posto os noves fora em a0 + a1 + · · · + an , obtém-se o


algarismo a0 .
Fazendo o mesmo para b e c, obtemos os algarismos b 0 e c 0 .
Efetua-se a multiplicação a0 · b 0 e põem-se os noves fora, obtendo
c 00 .
Se c 0 6= c 00 , então, certamente, foi cometido um erro na operação.

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A justificativa é a seguinte:

c 0 ≡ c ≡ a · b ≡ a0 · b 0 ≡ c 00 mod 9,

com 0 ≤ c 0 < 9 e 0 ≤ c 00 < 9.

Caso c 0 = c 00 , nada podemos afirmar quanto à exatidão da


operação efetuada, mas podemos garantir que a nossa conta
tornou-se mais confiável por ter passado por um teste.

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Representação decimal de número perfeito par
Exemplo 7. Todo número da forma an = 22n (22n+1 − 1), onde
n ∈ N, na sua representação decimal, ou termina em 28 ou termina
em a6, onde a é um algarismo ı́mpar. Em particular, todo número
perfeito par termina de um desses modos.
De fato, recorde que, pelo Problema 8.2.6, temos que

a2k+2 = 256a2k + 240 · 16k e a2k+1 = 256a2k−1 + 60 · 16k .

Faremos agora a análise dos últimos dois algarismos de 16n ao


variar n em N. Temos que

16 ≡ 16 mod 100 164 ≡ 36 mod 100


162 ≡ 56 mod 100 165 ≡ 76 mod 100
163 ≡ 96 mod 100 166 ≡ 16 mod 100,

e, daı́ para a frente, esses números se repetem periodicamente.


Portanto, para todo n ∈ N, os dois últimos algarismos de 16n são
da forma b6, onde b é ı́mpar.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 19 - Resumo - Aplicações de Congruências slide 11/16
Observe agora que a2 = 496, logo, termina em a6, onde a é ı́mpar.
Vamos provar, por indução sobre n, que o mesmo ocorre para
todos os números da forma a2n . Suponha que a2n termina em a6,
onde a é um algarismo ı́mpar; logo,

a2(n+1) = 256a2n + 240 · 16n ≡ 56 · a6 + 40 · 16n ≡


(50 + 6)(10a + 6) + 40(10b + 6) ≡ 10(6a + 3 + 4) + 6 ≡
10c + 6 mod 100,

onde c é um algarismo. O resultado, portanto, segue-se neste


caso, pois o número 6a + 3 + 4 é ı́mpar.
Observe agora que a1 = 28; logo, termina em 28. Vamos provar
por indução sobre n que o mesmo ocorre para todos os números da
forma a2n+1 . Suponha que a2n−1 termina em 28. Logo,
a2n+1 = 256a2n−1 + 60 · 16n ≡ 56 · 28 + 60 · 16n ≡
56 · 28 + 60(10b + 6) ≡ 68 + 60 ≡ 28 mod 100.

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Exemplo 8.
Dado um número natural m, existe um número de Fibonacci un tal
que m|un .
De fato, sejam r1 , r2 , . . ., respectivamente, os restos da divisão de
u1 , u2 , . . ., por m.
Como, para todo i, tem-se que 0 6 ri < m, segue-se que existem,
no máximo, m2 pares ri , ri+1 distintos.
Portanto, dentre os pares r1 , r2 ; r2 , r3 ; . . . ; rm2 +1 , rm2 +2 existe pelo
menos um par que se repete.
Seja k o menor ı́ndice para o qual rk , rk+1 se repete.
Vamos mostrar que k = 1.
Suponha, por absurdo, que k > 1. Seja rl , rl+1 um par que repete
rk , rk+1 . Como
rk−1 ≡ uk−1 = uk+1 − uk ≡ rk+1 − rk = rl+1 − rl ≡
ul+1 − ul = ul−1 ≡ rl−1 mod m,
segue-se que o par rk−1 , rk é igual ao par rl−1 , rl , o que contradiz a
minimalidade de k.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 19 - Resumo - Aplicações de Congruências slide 13/16
Seja agora rs , rs+1 , com s > 2, um par que repete o par r1 , r2 , que
é o par 1, 1. Temos então que

us−1 = us+1 − us ≡ rs+1 − rs = 1 − 1 = 0 mod m.

Isto nos diz que m | us−1 , provando que existe pelo menos um
número de Fibonacci divisı́vel por m.
Decorre daı́ e do Problema 6.3.1 que existem infinitos números de
Fibonacci divisı́veis por m.
Deduz-se, ainda, que, dado um número primo p, qualquer, existe
um número de Fibonacci divisı́vel por p; ou seja, nas
decomposições dos números de Fibonacci em fatores primos
aparecem todos os números primos.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 19 - Resumo - Aplicações de Congruências slide 14/16


Exemplo 9.
Descreveremos todos os n para os quais un é divisı́vel por m.
Seja m um número natural, definamos
Dm = {n ∈ N; m | un }.
Do exemplo anterior, sabemos que Dm 6= ∅.
Seja m0 o menor elemento de Dm . Vamos mostrar que
Dm = m0 N = {m0 x; t ∈ N }.
De fato, sabemos que m0 N ⊂ Dm , já que, pelo Corolário 6.26,
todo elemento m0 t de m0 N é tal que um0 | um0 t , logo m | um0 t ; ou
seja, m0 t ∈ Dm .
Reciprocamente, seja n ∈ Dm . Escrevamos
n = m0 t + r , com 0 6 r < m0 .
Pelo Teorema 6.25, temos que
(un , um0 ) = (um0 , ur ).
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 19 - Resumo - Aplicações de Congruências slide 15/16
Daı́, como m | un e m | um0 , segue-se que m | ur , o que contradiria
a minimalidade de m0 , a menos que r = 0.
Portanto, conclui-se que também vale Dm ⊂ m0 N.
Assim, provamos que Dm = m0 N.
Portanto, para achar os números de Fibonacci divisı́veis por um
número natural m, basta achar o primeiro deles um0 e tomar todos
os un para os quais n ∈ m0 N.
Por uma análise grosseira do Exemplo 8, pode-se ver facilmente
que o número m0 se encontra no conjunto {1, 2, . . . , m2 }.
O exemplo acima, esclarece vários resultados que encontramos pelo
caminho, como, por exemplo, o Problema 6.3.2 e o Exemplo 6.27.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 19 - Resumo - Aplicações de Congruências slide 16/16


MA14 - Aritmética
Unidade 20
Resumo

Teoremas de Euler e de Wilson

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 10 - Seções 10.1 e 10.2

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 2/14
Teorema de Euler
Nesta Unidade, estudaremos dois importantes teoremas em Teoria
dos Números: o Teorema de Euler, uma generalização do Pequeno
Teorema de Fermat, e um teorema de Lagrange, conhecido pelo
nome de Teorema de Wilson.
O Teorema de Euler e suas consequências serão fundamentais para
o estudo dos sistemas criptográficos que empreenderemos nas
Unidades 23 e 24.
Será muito útil no que se segue, determinar se a congruência
aX ≡ 1 mod m possui alguma solução em X . A esse propósito
temos o seguinte resultado:
Proposição
Sejam a, m ∈ Z, com m > 1. A congruência aX ≡ 1 mod m
possui solução se, e somente se, (a, m) = 1. Além disso, se x0 ∈ Z
é uma solução, então x é uma solução da congruência se, e
somente se, x ≡ x0 mod m.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 3/14
Uma solução da congruência aX ≡ 1 mod m determina e é
determinada por qualquer outra solução.
Se considerarmos que duas soluções congruentes módulo m são,
essencialmente, a mesma, temos a unicidade da solução da
congruência aX ≡ 1 mod m.
Exemplo 1.
A congruência 3X ≡ 1 mod 10 possui x0 = 7 como solução e as
soluções inteiras são x ≡ x0 mod 7, isto é, x = 7 + 10t, com
t ∈ Z.
Exemplo 2.
A congruência 9X ≡ 1 mod 10 possui x0 = 9 como solução e as
soluções inteiras são x ≡ x0 mod 9, isto é, x = 9 + 10t, com
t ∈ Z.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 4/14
Sistema Reduzido de Resı́duos módulo m
Um sistema reduzido de resı́duos módulo m é um conjunto de
números inteiros r1 , . . . , rs tais que
a) (ri , m) = 1, para todo i = 1, . . . , s;
b) ri 6≡ rj mod m, se i 6= j;
c) Para cada n ∈ Z tal que (n, m) = 1, existe i tal que n ≡ ri
mod m.
Pode-se obter um sistema reduzido de resı́duos r1 , . . . , rs , módulo
m, a partir de um sistema completo qualquer de resı́duos a1 ,
. . . am , módulo m, eliminando os elementos ai que não são primos
com m.
Exemplo 3.
0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 é um sistema completo de resı́duos módulo
10, enquanto 1, 3, 7, 9 é um sistema reduzido de resı́duos módulo
10.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 5/14
A Função ϕ de Euler
Dois sistemas reduzidos de resı́duos módulo m têm o mesmo
número de elementos.
Designaremos por ϕ(m) o número de elementos de um sistema
reduzido de resı́duos módulo m > 1, que corresponde à quantidade
de naturais entre 0 e m − 1 que são primos com m.
Pondo ϕ(1) = 1, isso define uma importante função

ϕ : N −→ N,
chamada função fi de Euler.

Pela definição, temos que


ϕ(m) ≤ m − 1, para todo m > 2.
Também vale a igualdade
ϕ(m) = m − 1 se, e somente se, m é um número primo.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 6/14
Mais adiante, mostraremos como calcular ϕ(m), em geral.
A função ϕ é de grande utilidade em Teoria de Números.
Uma das primeiras aplicações pode ser apreciada no seguinte
exemplo.
Exemplo 4.
Se n = kd, com k, d ∈ N, então a quantidade de números naturais
m tais que 1 ≤ m ≤ n e (m, n) = d é ϕ(k).
De fato, temos que

1≤λ≤k e
1 ≤ m ≤ n e (m, kd) = d ⇐⇒ m = λd, com
(λ, k) = 1.
Portanto, a quantidade de números naturais m, como acima, é
igual à quantidade dos λ ∈ N tais que 1 ≤ λ ≤ k e (λ, k) = 1; ou
seja, ϕ(k).

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 7/14
Exemplo 5. X
Seja n ∈ N. Tem-se que ϕ(d) = n, d ∈ N.
d|n

De fato, seja I = {1, 2, . . . , n} e seja d ∈ N tal que d|n. Defina


Id = {m ∈ I ; (m, n) = d}.
[
Note que, se d 6= d 0 , então Id ∩ Id 0 = ∅ e Id = I .
d|n
X
Portanto, n = #I = #Id .
d|n
Por outro lado, os elementos de Id são os múltiplos de d da forma
md, com m, dn = 1 e 1 ≤ m ≤ dn . Portanto,
#Id = ϕ dn .


Note que, quando d percorre todos os divisores de n, os números


n
d também percorrem todos os divisores de n, logo,
X X n X
n= #Id = ϕ = ϕ(d).
d
d|n d|n d|n
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 8/14
O Cálculo de ϕ(m)

O cálculo de ϕ(m) em geral é feito através dos dois resultados a


seguir:

Proposição
Sejam m, m0 ∈ N tais que (m, m0 ) = 1. Então

ϕ(m · m0 ) = ϕ(m)ϕ(m0 ).

Proposição
Se p é um número primo e r , um número natural, então tem-se que
 
r r r −1 r 1
ϕ(p ) = p − p =p 1− .
p

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 9/14
Assim, obtemos:

Teorema
Seja m > 1 e seja m = p1α1 · · · pnαn a decomposição de m em
fatores primos. Então,
   
α1 αn 1 1
ϕ(m) = p1 · · · pn 1 − ··· 1 − .
p1 pn

A fórmula do Teorema acima pode ser reescrita como se segue:

ϕ(p1α1 · · · pnαn ) = p1α1 −1 · · · pnαn −1 (p1 − 1) · · · (pn − 1) .

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 10/14
Teorema de Euler
Recorde o Pequeno Teorema de Fermat (PTF):
Se p é primo e a ∈ Z é tal que (a, p) = 1, então ap−1 ≡ 1 mod p.
Pois, bem, como ϕ(p) = p − 1, por ser p primo, podemos
reescrever o PTF usando a função de Euler como segue:
Se p é primo e a ∈ Z é tal que (a, p) = 1, então

aϕ(p) ≡ 1 mod p.
Este resultado se generaliza para um número natural m qualquer
no lugar do primo p, como segue:

Teorema (Euler)
Sejam m, a ∈ Z com m > 1 e (a, m) = 1. Então,

aϕ(m) ≡ 1 mod m.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 11/14
Para calcular o resto da divisão de uma potência an por um
número natural m > 1, é conveniente achar um expoente h de
modo que a potência ah ≡ 1 mod m, pois, se n = hq + r é a
divisão euclidiana de n por h, teremos
an ≡ ahq ar ≡ ar mod m.
Portanto, é clara a utilidade do Teorema de Euler para a resolução
desse tipo de questão, como se pode ver no próximo exemplo.
Exemplo 6. Vamos achar o resto da divisão de 3100 por 34.
Note que
ϕ(34) = ϕ(2 · 17) = 20 170 (2 − 1)(17 − 1) = 16.
Pelo Teorema de Euler, temos que 316 ≡ 1 mod 34, logo,

3100 = 316·6+4 ≡ 34 ≡ 13 mod 34.

Portanto, 13 é o resto da divisão de 3100 por 34.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 12/14
Teorema de Wilson
Se p é um número primo, então
(p − 1)! ≡ −1 mod p.
Demonstração
O teorema é válido obviamente para p = 2 e p = 3. Suponhamos
p ≥ 5 primo. Pela proposição inicial, a congruência iX ≡ 1 mod p
possui uma única solução, módulo p, para cada i ∈ {1, . . . , p − 1};
ou seja, dado i ∈ {1, . . . , p − 1} existe um único j ∈ {1, . . . , p − 1}
tal que ij ≡ 1 mod p. Por outro lado, se i ∈ {1, . . . , p − 1} é tal
que i 2 ≡ 1 mod p, então p|i 2 − 1, o que equivale a p|i − 1 ou
p|i + 1, o que só pode ocorrer se i = 1 ou i = p − 1. Logo,

2 · · · (p − 2) ≡ 1 mod p.

e, portanto,

1 · 2 · · · (p − 2)(p − 1) ≡ p − 1 ≡ −1 mod p,

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 13/14
Exemplo 7.
Se p é um número primo ı́mpar, então p|2p−1 + (p − 1)!.
De fato, sendo p um número primo ı́mpar, pelo Pequeno Teorema
de Fermat, temos que p|2p−1 − 1.
Por outro lado, pelo Teorema de Wilson, p|(p − 1)! + 1.
Logo, p|[2p−1 − 1] + [(p − 1)! + 1] = 2p−1 + (p − 1)!.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Teoremas de Euler e de Wilson slide 14/14
MA14 - Aritmética
Unidade 21
Resumo
Resolução de Congruências e
Teorema Chinês dos Restos

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 11 - Seções 11.1 e 11.2

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 2/11
Resolução de Congruências Lineares
Nesta Unidade, mostraremos como resolver congruências e
sistemas de congruências lineares.
Na resolução de sistema, ocupa lugar de destaque o Teorema
Chinês dos Restos, que possui inúmeras aplicações, tanto teóricas
quanto práticas.

Começamos com a resolução de congruências do seguinte tipo:

aX ≡ b mod m, onde a, b, m ∈ Z, m > 1,

ou seja, o problema de determinar, se existirem, os números


inteiros x tais que ax ≡ b mod m.

Vamos, inicialmente, dar um critério para determinar se tais


congruências admitem solução.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 3/11
Critério para existência de solução e descrição das soluções
Proposição
Dados a, b, m ∈ Z, com m > 1, a congruência

aX ≡ b mod m

possui solução se, e somente se, (a, m)|b.


O próximo resultado descreve as soluções, quando existem, da
congruência aX ≡ b mod m.
Teorema
Sejam a, b, m ∈ Z, com m > 1 e (a, m)|b. Se x0 é uma solução da
congruência aX ≡ b mod m, então
m m m
x0 , x0 + , x0 + 2 , . . . , x0 + (d − 1) ,
d d d
onde d = (a, m), formam um sistema completo de soluções da
congruência, duas a duas incongruentes módulo m.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 4/11
Exemplo 1. Resolvamos a congruência 8X ≡ 4 mod 12.
Como d = (8, 12) = 4 divide b = 4, temos que a congruência tem
d = 4 soluções módulo 12.
Por tentativa e erro, obtemos a solução x0 = 2.
Portanto, as soluções módulo 12 são
2, 2 + 3, 2 + 6, 2 + 9.
Todas as soluções inteiras são dadas

2 + 12t, 5 + 12t, 8 + 12t, 11 + 12t


onde, t ∈ Z.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 5/11
Corolário
Se (a, m) = 1, então a congruência aX ≡ b mod m possui uma
única solução módulo m.

A congruência aX ≡ 1 mod m, com (a, m) = 1, admite uma única


solução módulo m. Esta solução será chamada de inverso
multiplicativo módulo m.

Exemplo 2. Resolvamos a congruência 5X ≡ 1 mod 7.


Como d = (5, 7) = 1, temos que a congruência tem d = 1 solução
módulo 7.
É fácil ver que x0 = 3 é solução.
A única solução é 3 mod 7, o inverso multiplicativo de 5 mod 7.
Todas as soluções são dadas por 3 + 7t, com t ∈ Z.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 6/11
Observação: Redução de Congruências
Note que, se a congruência

aX ≡ b mod m

possui solução, então d = (a, m) divide b.


a b m
Pondo a0 = , b0 = e n= ,
d d d
temos que a congruência acima é equivalente a

a0 X ≡ b 0 mod n, com (a0 , n) = 1,


que, por sua vez, é equivalente à congruência

X ≡ c mod n,

onde c = a00 b 0 , sendo a00 o inverso multiplicativo de a0 mod n.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 7/11
Via de regra, as congruências aX ≡ b mod m são mais fáceis de
resolver por inspeção quando o módulo m é pequeno.
Podemos tirar partido das propriedades das congruências para
baixar o módulo, como mostramos no exemplo a seguir.
Exemplo 3. Resolvamos a congruência 13X ≡ 4 mod 42.
Como (13, 42) = 1, temos que a congruência tem apenas uma
solução módulo 42.
Note que, como 42 = 2 × 3 × 7, e [2, 3, 7] = 42, temos, pela
Proposição 9.13(ii), que x0 é solução da congruência acima se, e
somente se, x0 é solução simultânea das congruências:

13X ≡ 4 mod 2, 13X ≡ 4 mod 3, 13X ≡ 4 mod 7.

É fácil ver por inspeção que x0 = 10 é solução simultânea do


sistema acima. Portanto, todas as soluções são dadas por
10 + 42t, onde t ∈ Z.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 8/11
Teorema Chinês dos Restos
No primeiro século da nossa era, o matemático chinês Sun-Tsu
propôs o seguinte problema:

Qual é o número que deixa restos


2, 3 e 2
quando dividido, respectivamente, por
3, 5 e 7?

A resposta dada por Sun-Tsu para este problema foi 23.

Traduzido em linguagem matemática, o problema de Sun-Tsu


equivale a procurar as soluções do seguinte sistema de
congruências:
X ≡ 2 mod 3
X ≡ 3 mod 5
X ≡ 2 mod 7.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 9/11
Mais geralmente, estudaremos sistemas de congruências da forma:
ai X ≡ bi mod ni i = 1, . . . , r .
Para que tal sistema possua solução, é necessário que (ai , ni )|bi ,
para todo i = 1, . . . , r .
Neste caso, pela Observação (Redução de Congruências), o
sistema acima é equivalente a um da forma

X ≡ ci mod mi i = 1, . . . , r . (1)

Teorema (Teorema Chinês dos Restos)


Se (mi , mj ) = 1, para todo par mi , mj com i 6= j, então o sistema
(1) possui uma única solução módulo M = m1 m2 · · · mr .
As soluções são
x = M1 y1 c1 + · · · + Mr yr cr + tM,
onde t ∈ Z, Mi = M/mi e yi é solução de Mi Y ≡ 1 mod mi ,
i = 1, . . . , r .
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 10/11
Solução do problema de Sun-Tsu
Vamos resolver o sistema
X ≡ 2 = c1 mod 3, X ≡ 3 = c2 mod 5, X ≡ 2 = c3 mod 7.
Neste caso, temos que
M = 3 × 5 × 7 = 105, M1 = 35, M2 = 21 e M3 = 15.
Por outro lado, as congruências
35Y ≡ 1 mod 3, 21Y ≡ 1 mod 5 e 15Y ≡ 1 mod 7.
têm como soluções, respectivamente,
y1 = 2, y2 = 1 e y3 = 1.
Portanto, uma solução módulo M = 105 é dada por
x = M1 y1 c1 + M2 y2 c2 + M3 y3 c3 = 233.
Como 233 ≡ 23 mod 105, segue-se que 23 é uma solução, única
módulo 105, do Problema de Sun-Tsu e qualquer outra solução é
da forma 23 + 105t, com t ∈ Z.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 20 - Resumo - Resolução de Congruências e Teo. Chinês dos Restos slide 11/11
MA14 - Aritmética
Unidade 22
Resumo

Aritmética das Classes Residuais

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 11 - Seção 11.3

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 2/18
Classes Residuais
As congruências módulo um número natural m > 1 permitem
definir novas aritméticas.
Atualmente, essas aritméticas são a base de quase todos os
procedimentos de cálculo dos computadores e possuem muitas
aplicações na própria matemática e na tecnologia.
Dado um inteiro m > 1, vamos repartir o conjunto Z dos números
inteiros em subconjuntos, onde cada um deles é formado por todos
os números inteiros que possuem o mesmo resto quando divididos
por m. Isto nos dá a seguinte partição de Z:

[0] = {x ∈ Z; x ≡ 0 mod m},


[1] = {x ∈ Z; x ≡ 1 mod m},
..
.
[m − 1] = {x ∈ Z; x ≡ m − 1 mod m}.
Paramos em [m − 1], pois tem-se que [m] = [0], [m + 1] = [1], etc.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 3/18
O conjunto
[a] = {x ∈ Z ; x ≡ a mod m}
é chamado de classe residual módulo m do elemento a de Z.
O conjunto de todas as classes residuais módulo m será
representado por Zm . Portanto,

Zm = { [0], [1], . . . , [m − 1] }.
Note que Zm é um conjunto de conjuntos.
Por mais estranho que isto possa parecer, o conjunto Zm tem uma
aritmética própria e tem a vantagem de ser finito, algo muito
desejável em computação.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 4/18
Exemplos
Exemplo 1. Seja m = 2. Então,
[0] = {x ∈ Z ; x ≡ 0 mod 2} = {x ∈ Z ; x é par}, e
[1] = {x ∈ Z ; x ≡ 1 mod 2} = {x ∈ Z ; x é ı́mpar}.
Temos também que
[a] = [0] se, e somente se, a é par e
[a] = [1] se, e somente se, a é ı́mpar.
Exemplo 2. Seja n = 3. Então
[0] = {3t ; t ∈ Z}
[1] = {3t + 1 ; t ∈ Z}
[2] = {3t + 2 ; t ∈ Z}
Tem-se que
[0]
 , se a é múltiplo de 3
a ∈ [1] , se a tem resto 1 quando dividido por 3

[2] , se a tem resto 2 quando dividido por 3.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 5/18
Representante de uma classe residual

Dado [x] ∈ Zm , um número inteiro a tal que [x] = [a] será


denominado de representante de [x].
Observe que [x] é determinado por a, mas há infinitos números
inteiros b tais que [x] = [b], pois
qualquer inteiro b ∈ [a] = {a + km; k ∈ Z} é tal que [b] = [a].

Exemplo 3. Se m = 2, então qualquer inteiro par é representante


da classe residual [0] e qualquer inteiro ı́mpar é representante da
classe residual [1].
Assim, 0, 2, 4, 6, −2, −4, −6 são representantes da classe residual
[0], enquanto que 1, 3, 5, −1, −3, −5 são representantes da classe
residual [1].

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Representante de uma classe residual
Exemplo 4. Se m = 3, então
qualquer múltiplo de 3 é representante da classe residual [0].
Temos que
1, 4, 7, 10, etc, são representantes da classe residual [1],
enquanto
2, 5, 8, 11, etc., são representantes da classe residual [2].

Proposição
Para cada a ∈ Z existe um, e somente um, r ∈ Z, com 0 6 r < m,
tal que [a] = [r ].

Corolário
Existem exatamente m classes residuais distintas módulo m, a
saber, [0], [1], . . . , [m − 1].

Uma caracterı́stica importante das classes residuais é que


transformam a congruência a ≡ b mod m na igualdade [a] = [b].
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 7/18
As Operações de Adição e Multiplicação de Zm
Em Zm podemos definir as seguintes operações:

Adição: [a] + [b] = [a + b]


Multiplicação: [a] · [b] = [a · b]

Note que, tendo sido definidas estas operações usando os


representantes a e b para as classes residuais [a] e [b],
respectivamente, temos que verificar que ao mudarmos os
representantes das classes [a] e [b], não mudam os valores de
[a + b] e de [a · b].

Para verificar que isto acontece, basta notar que


se a ≡ a0 mod m e b ≡ b 0 mod m, então [a + b] = [a0 + b 0 ] e
[a · b] = [a0 · b 0 ],
o que se segue diretamente dos itens (i) e (ii) da Proposição 9.3

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 8/18
Propriedades das Operações de Zm

As operações que acabamos de definir, gozam das seguintes


propriedades:

Propriedades da Adição

Para todos [a], [b], [c] ∈ Zm , temos

A1 ) Associatividade ([a] + [b]) + [c] = [a] + ([b] + [c]);


A2 ) Comutatividade [a] + [b] = [b] + [a];
A3 ) Existência de zero [a] + [0] = [a] para todo [a] ∈ Zm ;
A4 ) Existência de simétrico [a] + [−a] = [0].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 9/18
Propriedades das Operações de Zm

Propriedades da Multiplicação

Para todos [a], [b], [c] ∈ Zm , temos

M1 ) Associatividade ([a] · [b]) · [c] = [a] · ([b] · [c]);


M2 ) Comutatividade [a] · [b] = [b] · [a];
M3 ) Existência de unidade [a] · [1] = [a].
AM) Distributividade [a] · ([b] + [c]) = [a] · [b] + [a] · [c].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 10/18
Recorde que, no Capı́tulo 1, chamamos de anel a todo conjunto
munido de uma operação de “adição” e de uma operação de
“multiplicação” com as propriedades acima.
Portanto, Zm , com as operações acima, é um anel, chamado anel
das classes residuais módulo m, ou anel dos inteiros módulo m.

Um elemento [a] ∈ Zm será dito invertı́vel, quando existir [b] ∈ Zm


tal que [a][b] = 1. Neste caso, diremos que [b] é o inverso de [a].

Exemplo 5. Em Z7 temos, pela definição da multiplicação, que


[2][4] = [8] = [1] [5][3] = [15] = [1] e [6][6] = [36] = [1],
logo
[4] é o inverso de [2], [3] é o inverso de [5] e [6] é o inverso de [6].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 11/18
Tabuada de Z2
As tabelas da adição e da multiplicação em Z2 = {[0], [1]} são

+ [0] [1] · [0] [1]


[0] [0] [1] [0] [0] [0]
[1] [1] [0] [1] [0] [1]

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 12/18
Tabuada de Z3
As tabelas da adição e da multiplicação em Z3 = {[0], [1], [2]} são

+ [0] [1] [2] · [0] [1] [2]


[0] [0] [1] [2] [0] [0] [0] [0]
[1] [1] [2] [0] [1] [0] [1] [2]
[2] [2] [0] [1] [2] [0] [2] [1]

Note que todo elemento não nulo de Z3 é invertı́vel pois, pela


definição da multiplicação,

[1][1] = [1] e [2][2] = [4] = [1].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 13/18
Tabuada de Z4
Em Z4 = {[0], [1], [2], [3]} temos

+ [0] [1] [2] [3] · [0] [1] [2] [3]


[0] [0] [1] [2] [3] [0] [0] [0] [0] [0]
[1] [1] [2] [3] [0] [1] [0] [1] [2] [3]
[2] [2] [3] [0] [1] [2] [0] [2] [0] [2]
[3] [3] [0] [1] [2] [3] [0] [3] [2] [1]

É interessante notar que em Z4 existem dois elementos não nulos


cujo produto é nulo: [2] 6= [0] e, no entanto, [2] · [2] = [4] = [0].

Os elementos [1] e [3] são invertı́veis em Z4 pois, pela definição da


multiplicação,

[1][1] = [1] e [3][3] = [9] = [1].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 14/18
Tabuada de Z5

Em Z5 = {[0], [1], [2], [3], [4]} temos

+ [0] [1] [2] [3] [4] · [0] [1] [2] [3] [4]
[0] [0] [1] [2] [3] [4] [0] [0] [0] [0] [0] [0]
[1] [1] [2] [3] [4] [0] [1] [0] [1] [2] [3] [4]
[2] [2] [3] [4] [0] [1] [2] [0] [2] [4] [1] [3]
[3] [3] [4] [0] [1] [2] [3] [0] [3] [1] [4] [2]
[4] [4] [0] [1] [2] [3] [4] [0] [4] [3] [2] [1]

Note que todo elemento não nulo de Z5 é invertı́vel, pois

[1][1] = [1], [2][3] = [1] e [4][4] = [1].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 15/18
Note que em Z2 , Z3 e Z5 , todo elemento distinto de [0] é
invertı́vel.
Mas isto não ocorre em todos os Zm . Por exemplo, em Z4 temos
que [2] não é invertı́vel.
Um anel onde todo elemento não nulo possui um inverso
multiplicativo é chamado de corpo.
Portanto, Z2 , Z3 e Z5 , com as operações acima definidas, são
corpos; mas Z4 não é um corpo.

As classes residuais permitem resolver as congruências do seguinte


modo:
Resolver uma congruência aX ≡ b mod m se reduz a resolver em
Zm a seguinte equação:
[a]Z = [b].

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 16/18
Exemplo 6.
Resolver a congruência 4X ≡ 3 mod 5 equivale a resolver em Z5 a
equação

[4]Z = [3]. (1)


Pela definição da multiplicação de Z5 , temos que

[4] · [4] = [16] = [1].


Logo, [4] é invertı́vel em Z5 com inverso [4].
Portanto, multiplicando ambos os membros da equação (1) por [4]
obtemos
[1]Z = [4][4]Z = [4][3] = [2].
Portanto, Z = [2], o que nos diz que as soluções de (1) são
x = 2 + t5, onde t ∈ Z.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 17/18
Vemos, portanto, a importância de saber se um determinado
elemento de Zm é invertı́vel. Esses elementos serão caracterizados
a seguir.
Proposição
Um elemento [a] ∈ Zm é invertı́vel se, e somente se, (a, m) = 1.

Corolário
Zm é um corpo se, e somente se, m é primo.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 22 - Resumo - Aritmética das Classes Residuais slide 18/18
MA14 - Aritmética
Unidade 23
Resumo

Introdução à Criptografia

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 13 - Seção 13.1

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 2/15


Introdução

Introduziremos nesta Unidade e na próxima as noções básicas da


criptografia moderna, teoria que se estabelece em meados dos anos
70 do Século 20, envolvendo de modo efetivo alguns resultados
estudados neste livro. Até então, a Teoria dos Números, da qual a
Aritmética é a parte mais elementar, era considerada uma das
áreas mais puras e abstratas da Matemática, desprovida de
aplicações práticas. Esse panorama muda completamente a partir
do desenvolvimento da Teoria da Informação, que compreende a
Criptografia entre outros assuntos, motivado pela evolução e
popularização dos computadores e a facilidade de conexão com as
grandes redes mundiais.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 3/15


Noções de Criptografia
A palavra criptografia origina-se do grego, onde Kriptos significa
oculto e, portanto, a palavra criptografia significa “escrita oculta”.
Tem-se notı́cia de que persas, gregos e chineses utilizavam vários
métodos para ocultar mensagens, dentre os quais o recurso a tinta
invisı́vel. A evolução da criptografia foi no sentido de não mais
ocultar fisicamente as mensagens, mas usar estratagemas para
ocultar o seu significado às pessoas que não fossem as legı́timas
destinatárias das mesmas, de modo que pudessem ser veiculadas
através de um canal público de comunicação.
Um dos métodos mais famosos de sistemas criptográficos da
antiguidade foi um sistema utilizado na Roma antiga por Júlio
César, denominado cifra de César. O sistema consiste em substituir
cada letra do alfabeto na mensagem original por uma outra letra
do alfabeto, seguindo um padrão bem determinado.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 4/15


Cifra de Cesar
Por exemplo, consta que César, para cifrar as suas mensagens,
teria utilizado a substituição de cada letra da primeira linha pela
letra correspondente da segunda linha das tabelas a seguir:

alfabeto a b c d e f g h i j k l m
cifra D E F G H I J K LM N O P

alfabeto n o p q r s t u v w x y z
cifra Q R S T U V W X Y Z A B C

Exemplo
Vejamos como uma hipotética mensagem de César aos seus
generais, na primeira linha abaixo, seria cifrada na segunda linha:
aut vincere aut mori
DXW YLQFHUH DXW PRUL

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 5/15


Este tipo de sistema criptográfico é chamado de cifra por
substituição simples, onde as letras de um alfabeto são substituı́das
por outras. O código de César possui pelo menos vinte e cinco
variantes, que correspondem a iniciar a segunda linha por qualquer
outra letra do alfabeto ao invés de D, excluindo a letra A.
A principal fraqueza dos sistemas criptográficos por substituição
simples é que em um texto de uma determinada lı́ngua as letras do
alfabeto ocorrem com frequências distintas, além de haver certas
regras rı́gidas de contato entre letras, como por exemplo, em
português, a letra q vem sempre seguida pela letra u, o que dá
pistas valiosas para os criptoanalistas, nome dado aos que se
dedicam à tarefa de quebrar as cifras alheias.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 6/15


A fragilidade desse método custou literalmente o pescoço à rainha
da Escócia Maria Stuart (1542-1587) que tramava o assassinato de
sua prima a rainha Elizabeth I da Inglaterra, através de mensagens
cifradas, onde as letras e algumas palavras muito recorrentes eram
substituı́das por outros sı́mbolos. A interceptação das mensagens e
a análise de frequência permitiu a quebra do seu sigilo e forneceu
provas contra Maria que foi condenada à morte por decapitação.
Para evitar a quebra de um código por análise de frequência, há
uma outra vertente de sistemas criptográficos que se baseia na
transposição, ou seja, na formação de anagramas da mensagem
original.
Por exemplo, uma mensagem com 100 letras dá origem a 100!
permutações distintas das letras, o que a torna praticamente
impossı́vel de ser decifrada se não possuirmos a chave para tal.
O problema dessa modalidade de cifragem é que a troca de chaves
entre os usuários do sistema torna-se difı́cil se há muitos deles.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 7/15


A combinação dos dois métodos: substituição de letras e
transposição, pode dar origem a sistemas criptográficos mais
robustos.
Em 1466, em pleno renascimento, o arquiteto italiano Leone
Battista Alberti, uma das mentes luminosas do perı́odo e
considerado o pai da criptologia ocidental, propôs uma variante
bem mais robusta da cifra de César com o uso de um sistema de
substituição polialfabética. Tratava-se do uso de um artefato,
chamado de disco de Alberti consistindo de dois discos
concêntricos de diâmetros distintos, presos por um pino central, o
menor sobre o maior, podendo o disco menor girar. Esses discos
eram divididos em 24 setores iguais, onde na borda do disco maior
estavam inscritos, no sentido horário, as 20 letras A, B, C, D, E, F,
G, I, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V, X, Z e os numerais 1, 2, 3, 4,
um em cada setor. Na borda do disco menor, estavam inscritos,
em ordem aleatória, as letras minúsculas do alfabeto, exceto as
letras j, u e w, além da palavra do latim et.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 8/15


Descrição do sistema
Cada correspondente possuı́a uma cópia do disco idêntica à do
outro. A mensagem a ser enviada era cifrada da seguinte forma:
Iniciava-se, mediante combinação prévia, com o disco rotatório em
uma determinada posição, por exemplo o k alinhado com o A em
seguida, cada letra da mensagem a ser cifrada era localizada no
disco maior e substituı́da pela letra correspondente no disco menor.
Os numerais serviam para formar os números de 11 a 4444, com os
quatro algarismos, os quais codificavam 336 palavras ou frases
constantes em um pequeno livro de códigos previamente produzido
em duas cópias.
A grande inovação do Alberti foi o uso de cifras polialfabéticas,
como segue: a cada grupo de algumas palavras (quatro ou cinco),
o pegueno disco é girado aleatoriamente e a nova letra do disco
menor correspondente à letra A no disco maior é inserida na
mensagem original, indicando que a partir daquele momento é essa
a nova posição do disco rotativo (o menor) com relação ao disco
fixo (o maior).
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 9/15
Tabula Recta

O importante passo seguinte foi dado pelo grande intelectual de


sua época, o alemão Johannes Trithemius, no livro intitulado
Poligrafia, publicado postumamente em 1518. Nesse livro,
Trithemius propõe o sistema criptográfico a seguir. Forma-se uma
tabela, chamada por ele de tabula recta com o mesmo número de
linhas e de colunas, com na primeira linha, o alfabeto na ordem
normal e, em cada uma das linhas seguintes, uma permutação
circular da linha anterior (veja uma versão com o alfabeto
completo na Tabela 1).
A cifragem procedia da seguinte forma: a primeira letra da
mensagem a ser cifrada é transformada na letra correspondente da
segunda linha, a segunda letra é transformada na letra
correspondente da terceira linha e assim sucessivamente até esgotar
todas as linhas quando se volta para a segunda linha novamente.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 10/15


a b c d e f ··· v w x y z
B C D E F G ··· W X Y Z A
C D E F G H ··· X Y Z A B
D E F G H I ··· Y Z A B C
.. ..
. .
Y Z A B C D ··· T U V W X
Z A B C D E ··· U V W X Y
A B C D E F ··· V W X Y Z
Tabela 1

Exemplo
A frase
mensagem para o rei
é transformada em
NGQWFMLU YKCM B FTY.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 11/15


Mais um passo é dado em 1553, quando da publicação de um
pequeno livro da autoria do italiano Giovanni Battista Bellaso,
intitulado La cifra del Sig Giovan Batista Belaso, onde é
introduzida a ideia de chave para cifrar e decifrar uma mensagem.
O sistema utiliza a tabula recta e o compartilhamento de uma
chave que pode ser uma palavra, uma sequência de letras, ou uma
frase. De posse da chave, escrevem-se numa linha o texto a ser
cifrado e na linha acima as letras da chave sobre as letras do texto
repetidas o quanto for necessário. A cifragem ocorre do seguinte
modo:
Se sobre uma dada letra do texto se encontra uma determinada
letra da palavra chave, então se substitui essa por aquela que lhe
corresponde na sua coluna e na linha que começa com a letra da
palavra chave.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 12/15


Exemplo
Suponhamos que a palavra chave seja “segredo” e que Maria
Stuart tenha usado esse código para enviar a seguinte mensagem
para seus aliados:
matem elizabeth ao meio dia.
A cifragem ocorreria do seguinte modo:
s e g r e d o s e g r e d o
m a t e m e l i z a b e t h
E E Z V Q H Z A D G S I W V
s e g r e d o s e
a o m e i o d i a
S S S V M R R A E
A mesma chave utilizada para cifrar uma mensagem é utilizada
para decifrá-la, realizando o procedimento inverso. Essa cifragem
era tida difı́cil de ser quebrada, pois é imune à análise de
frequência. Muito provavelmente, Maria Stuart não teria “perdido
a cabeça” se tivesse utilizado este método criptográfico.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 23 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 13/15
O método de Bellaso foi amplamente divulgado através do livro
Traicté des Chiffres de autoria do diplomata francês Blaise de
Vigenère, publicado em 1586. Nesse livro, Vigenère descreve o
método de Bellaso, impropriamente chamado posteriormente de
sistema de Vigenère, e acrescenta mais um método de cifragem.
Esses métodos de cifragem eram pouco utilizados, pois, como a
cifragem é feita letra por letra, eles são muito trabalhosos.
Finalmente, após ter sido considerada inquebrável por mais de 300
anos, a cifra de Bellaso foi quebrada em meados do Século 19.
Em todo método criptográfico é necessário haver uma troca de
chaves para que cada parte possa decifrar a mensagem que lhe é
destinada e o maior desafio consiste em que apenas o legı́timo
destinatário da mensagem possa fazê-lo. Fica o problema de além
da cifragem ter que ser robusta, ainda ser necessário fazer chegar
ao destinatário, de modo seguro, a chave da cifra.

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As cifras polialfabéticas voltaram a ser utilizadas quando do
advento das máquinas cifradoras, duas das quais se tornaram
célebres pelo seu protagonismo durante a Segunda Guerra
Mundial, a japonesa Purple e a alemã Enigma.
A Enigma era uma máquina eletromecânica inventada pelo
engenheiro alemão Arthur Scherbius no inı́cio do Século 20 e
inspirada no disco de Alberti e a Purple era uma adaptação dessa.
O sistema de cifragem dos alemães custou a ser quebrado pelos
britânicos que contaram para isso com uma das grandes mentes do
século 20, Alan Turing, considerado um dos pais da computação.
Todos esses sistemas criptográficos se caracterizam pelo uso de
chaves simétricas, ou seja, a mesma chave é usada para cifrar e
decifrar uma dada mensagem.

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MA14 - Aritmética
Unidade 24
Resumo

Introdução à Criptografia

Abramo Hefez

PROFMAT - SBM
Aviso

Este material é apenas um resumo de parte do conteúdo da


disciplina e o seu estudo não garante o domı́nio do assunto.

O material completo a ser estudado encontra-se no

Capı́tulo 13 - Seções 13.2 e 13.3

do livro texto da disciplina:

Aritmética, A. Hefez, Coleção PROFMAT.

Colaborou na elaboração desses resumos Maria Lúcia T. Villela.

PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 24 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 2/16


O Advento dos Computadores
A chegada dos telégrafos e finalmente dos computadores
revolucionaram a Teoria da Informação. Como os computadores
utilizam códigos binários, foi preciso transformar todas as
informações nesse código. Assim, nasce o American Standard Code
for Information Interchange, abreviado por ASCII e significando
Código Padrão Americano para o Intercâmbio de Informação.
Essa codificação, desenvolvida a partir de 1960, não é um método
de cifragem, ela é apenas uma tradução à linguagem binária dos
sı́mbolos mais corriqueiros. Ela atribui significados especı́ficos aos
27 = 128 números binários (formados por 0 e 1) de 7 dı́gitos.
Um grande desafio para a computação é a questão da privacidade
na troca de informações e na uniformização dos padrões.
Estabelecido o código ASCII, após intensa busca, em 1973, o
National Bureau of Standards, órgão governamental americano,
escolheu o sistema criptográfico Data Encryption Standard (DES),
desenvolvido pela IBM, para ser o sistema oficial americano.
PROFMAT - SBM Aritmética - Unidade 24 - Resumo - Introdução à Criptografia slide 3/16
Este sistema, utilizado até 1999, funcionava com uma distribuição
de chaves simétricas. Ou seja, um número (a chave) é acertado
entre duas partes para definir os parâmetros da função cifragem
que é a mesma para a decifragem.
Como o segredo das mensagens é garantido através da manutenção
do segredo das chaves, isto criou um enorme problema logı́stico de
distribuição de chaves, uma verdadeira “operação de guerra”.
Hoje em dia são utilizados outros sistemas como o AES ou
Skipjack.
Coube a três norte americanos, Whitfield Driffie, Martin Hellman e
Ralph Merkle, resolver o problema da troca de chaves entre
correspondentes.
É aı́ que começa a entrar no campo da criptografia, timidamente,
mas de modo irreversı́vel, a Teoria dos Números através da noção
de congruências.

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A ideia da trinca americana
João e Maria querem trocar entre si uma chave secreta por um
meio de comunicação insegura, como, por exemplo, por telefone.
Eles escolhem em comum acordo um par de números naturais
a e m e os tornam públicos.
João escolhe um outro número natural αJ e o mantém secreto.
Com ele, calcula o único número βJ < m tal que
aαJ ≡ βJ mod m e o envia para Maria.
Maria escolhe um número natural αM , mantendo-o secreto,
e com ele calcula o único número βM < m tal que
aαM ≡ βM mod m e o envia para João.
αJ
Em seguida, João calcula βM , obtendo
αJ
βM ≡ (aαM )αJ ≡ aαM αJ ≡ α mod m, com α < m.
Por sua vez, Maria calcula βJαM , obtendo
βJαM ≡ (aαJ )αM ≡ aαJ αM ≡ α mod m, com α < m.
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Pronto! Está trocada a chave secreta α entre João e Maria.
Portanto,
são públicas as informações a, m, βJ e βM e
são secretas as informações:

αJ , que somente João conhece,

αM , que somente Maria conhece, e

α, que apenas João e Maria conhecem.

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Exemplo
Suponhamos que João e Maria tenham escolhido de comum
acordo a = 52 e m = 271.
Por outro lado, João escolhe a sua chave secreta αJ = 7, enquanto
Maria escolhe αM = 5.
Vejamos qual é a chave secreta α que ambos compartilharão.
João faz o seguinte cálculo para determinar βJ e enviá-lo a Maria:
522 ≡ 2704 ≡ 265 mod 271,
524 ≡ 2652 ≡ 36 mod 271,
527 = 524 × 522 × 52 ≡ 36 × 265 × 52 ≡ 150 mod 271.
Logo, βJ = 150.
Maria faz a seguinte conta para determinar βM e enviá-lo a João:
525 = 524 × 52 ≡ 36 × 52 ≡ 246 mod 271.
Logo, βM = 246.

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Exemplo - Continuação

Qual a chave secreta α, sabendo que βM = 246 e βJ = 150?


αJ
Para determinar a chave α, João tem que reduzir βM = 2467
módulo 271. Logo,
2462 = 60 516 ≡ 83 mod 271,
2464 = 2462 × 2462 ≡ 83 × 83 ≡ 114 mod 271,
2467 = 2464 × 2462 × 246 ≡ 114 × 83 × 246 ≡ 33 mod 271.
João encontra então α = 33.
Agora é a vez de Maria calcular o resı́duo de βJαM = 1505 módulo
271. Mas,
1502 = 22500 ≡ 7 mod 271,
1505 = 1502 × 1502 × 150 = 7 × 7 × 150 ≡ 33 mod 271,
encontrando também, como era de se esperar, α = 33.

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O sucesso deste método reside no fato de ser difı́cil descobrir
qualquer dos três números αJ , αM ou α, conhecendo apenas os
dados públicos a, m, βJ e βM .
Este sistema denominado DHM, em homenagem aos seus
inventores, foi o primeiro passo na direção da solução do problema
da distribuição de chaves.
O sistema, porém, tem um grande defeito, pois serve apenas para
a troca de chaves secretas entre dois indivı́duos de cada vez e isso
em um mundo globalizado é totalmente insatisfatório.
Ocorreu então a Driffie a ideia de considerar sistemas com chaves
assimétricas, ou seja, cada usuário teria duas chaves, uma pública
para cifragem e outra privada para decifrar as mensagens
recebidas.

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A cifragem deve ser um processo fácil de fazer usando a chave
pública, enquanto que a decifragem deveria ser quase impossı́vel de
se fazer sem a chave secreta.
Assim, se João quer enviar uma mensagem para Maria, ele usaria a
chave pública de Maria para cifrar a mensagem que ninguém em
princı́pio, exceto Maria, conseguiria decifrar, pois é a única a
possuir a chave secreta para tal.
Driffie não conseguiu implementar a sua ideia na prática, mas a
publicou para que outros pudessem resolver o problema.
Foram Ronald Rivest, Adi Shamir e Leonard Adleman, do
Laboratório de Ciência da Informação do Massachusetts Institute
of Technology (MIT), que deram em 1978 o passo decisivo para a
implementação do primeiro sistema criptográfico com chaves
assimétricas, idealizado por Driffie.

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A Grande Revolução: O Sistema RSA
O princı́pio baseia-se na relativa facilidade em encontrar números
primos grandes e ao mesmo tempo na enorme dificuldade prática
em fatorar o produto de dois tais números, além do uso de
propriedades relativamente elementares da Teoria dos Números,
como a variante do Teorema de Euler dada na Proposição 10.9
Vamos aos detalhes matemáticos dessa descoberta. Recordando,
estamos à procura de um sistema criptográfico com duas chaves,
uma pública e outra privada para que qualquer pessoa possa cifrar
uma mensagem previamente codificada em ASCII e somente o seu
legı́timo destinatário possa decifrá-la.
Suponhamos, então, que João queira criar um sistema
criptográfico em que qualquer pessoa possa lhe enviar uma
mensagem cifrada segundo uma chave pública e que ele e somente
ele possa decifrá-la com a sua chave secreta.

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João escolhe dois números primos distintos p e q muito grandes e
efetua o seu produto m = pq.
Note que é fácil calcular o número m, mas é extremamente difı́cil e
computacionalmente muito demorado desfazer esta operação, ou
seja, fatorar m.
Em seguida, João escolhe um par de números α e β tais que

αβ ≡ 1 mod ϕ(m).

Note que obrigatoriamente (α, ϕ(m)) = (β, ϕ(m)) = 1.


Ele pode escolher inicialmente α tal que (α, ϕ(m)) = 1 e em
seguida resolver a congruência αX ≡ 1 mod ϕ(m).
João então torna públicos os números m e β, que são a chave
pública.
A chave secreta de João são os primos p e q, os números
ϕ(m) = (p − 1)(q − 1) e α.

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Dado um número x < m, que pode ser a representação decimal
de um sı́mbolo ASCII, ou de uma sequência de sı́mbolos ASCII,
vistos como um número na base 2, a codificação feita por Maria ou
por qualquer outra pessoa que conheça a chave pública de João
(m, β), pode cifrar x como segue:
Maria acha o único C (x) < m tal que

x β ≡ C (x) mod m.

Maria então envia C (x) para João.


João ao receber C (x) usa a sua chave privada α para achar o
número D(C (x)) < m tal que

C (x)α ≡ D(C (x)) mod m.

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Note que somente João consegue determinar D(C (x)), pois só ele
detém a chave α. Mas, D(C (x)) = x, pois existe k ∈ N tal que
αβ = 1 + kϕ(m) e, pela Proposição 10.9,
temos que

D(C (x)) ≡ C (x)α ≡ (x β )α = x αβ = x kϕ(m)+1 ≡ x mod m,

e ambos D(C (x)) e x são menores do que m.


Como funciona? O leitor atento poderia objetar com razão que se
Maria apenas cifrasse cada número correspondente a um sı́mbolo
na codificação ASCII, a quebra do sistema seria imediata, pois
qualquer pessoa poderia calcular os C (x) ao variar x na tabela do
código ASCII e com a correspondência (em geral não biunı́voca)
x 7→ C (x) poderia com uma análise de frequência na mensagem
cifrada descobrir os x a partir de suas imagens C (x).

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Esta fragilidade é resolvida do seguinte modo: Maria primeiro
traduz a mensagem para o código ASCII escrevendo a mensagem
traduzida de modo corrido, utilizando a sequência 0100000 para
representar o espaço entre palavras.
Obtém-se assim uma longa sequência de 0 e 1.
Corta-se então esta longa sequência em uma sucessão x1 , x2 , . . . xr
de sequências de comprimentos arbitrários e variáveis, nenhuma
iniciando com 0 e de modo que o número na base 2 representado
por cada xi seja menor do m.
A restrição de xi não iniciar com zero é para poder recuperar uma
sequência a partir do número que ela representa e de cada xi ser
menor do que m é para garantir que ele não se altera quando
reduzido mod m.
Em seguida, Maria calcula C (x1 ), C (x2 ), . . ., C (xr ) e os envia para
João.

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Por sua vez, João calcula D(C (x1 )) = x1 , D(C (x2 )) = x2 , . . .,
D(C (xr )) = xr e os enfileira de modo corrido.
Em seguida separa o texto em sequências de 7 dı́gitos e os
reconverte de ASCII para caracteres comuns e eis que aparece a
mensagem que Maria queria enviar para João.

É genial de tão simples! Mas não se engane, para pôr isto em


funcionamento há muitas contas a serem feitas e isso só é possı́vel
com o uso de um computador. É também necessário ter acesso a
números primos muito grandes e escolher com certo critério as
chaves do sistema.

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