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TEORIA E HISTÓRIA DAS

CIDADES

autor
CARLOS EDUARDO NUNES-FERREIRA

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2017
Conselho editorial  roberto paes e luciana varga

Autor do original  carlos eduardo nunes-ferreira

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  luciana varga, paula r. de a. machado e aline karina


rabello

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  bfs media

Revisão de conteúdo  jeanne almeida da trindade

Imagem de capa  udompeter | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2017.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

N972t Nunes-Ferreira, Carlos Eduardo


Teoria e história das cidades. / Carlos Eduardo Nunes-Ferreira.
Rio de Janeiro: SESES, 2017.
168 p: il.

isbn: 978-85-5548-464-3

1.Cidade. 2. Urbanismo. 3. Teoria. 4. História. 5. Conceitos. I. SESES.


II. Estácio.
cdd 720

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário
Prefácio 5

1. O que é cidade 7
Definições de cidade 9
A cidade como fenômeno geográfico 10
A cidade como posto de troca comercial 10
A cidade como um símbolo cultural 10
A cidade como centro de poder 11
A cidade como obra de arte 12
A cidade como estado de espírito 13
A cidade como berço da civilização 14

O surgimento do urbanismo 15
Há diferentes versões para a origem da palavra urbanismo 15

As diferentes escalas da cidade: do desenho urbano ao planejamento


urbano 18

Ideias, Modelos, Planos e a Realidade 20

2. Dos primeiros assentamentos à cidade


tradicional 25
A origem das cidades 28
Primeiros assentamentos humanos 29
Da ideia de cidade ao ideal de cidade 35

Antiguidade e os modelos de cidades de Grécia e Roma 43


O modelo de cidade da Grécia Antiga 44
O modelo de cidade do Império Romano 50
Legados da Antiguidade 54

Cidades medievais 55

Os espaços urbanos do Renascimento e do Barroco 59


3. A cidade moderna 63
Precursores da cidade moderna 65
Cidade Linear, 1894: Arturo Soria y Mata 66
Cidade Jardim, 1898-1902: Ebenezer Howard 69
Cidade Industrial,1904 Tony Garnier 74
Reforma de Paris,1853-1870: Barão Georges-Eugène Haussmann 78
Plano de Extensão de Barcelona,1859: Ildefonso Cerdá 84

Cidade moderna: de Le Corbusier (1887-1965) aos últimos


CIAM (1928-1956) 88

4. As cidades brasileiras: passado, presente e


perspectivas 95
Processos históricos de ocupação do território: a contribuição indígena,
africana e portuguesa 97
A contribuição indígena 98
A contribuição negra 100
A matriz ibérica 102
Cidades planejadas 109

Cidade ideal e cidade real: de Brasília ao estatuto da metrópole 112

5. Perspectivas do urbanismo contemporâneo 127


Cidade e diversidade 129
A agenda do urbanismo pós-moderno 131
O legado de Jane Jacobs 135
O novo urbanismo norte-americano. 138

Do pós-guerra à globalização: 139


Urbanização dispersa 141
Cidade global, cidade genérica e a cidade da sociedade em rede 142
Urbanismo híbrido 144

Os desafios das megacidades 146


Deslocamento do eixo de crescimento das megacidades 151
A informalidade nas cidades contemporâneas 152

A nova ética da cidade sustentável. 156


Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

A cidade é onde nascemos, vivemos e morremos. Esta grande inovação sur-


giu pela vontade de o ser humano se fixar no território para conviver, proteger-se
e distribuir o fruto de sua produção para os demais. Este intercâmbio de produtos
transformou-se rapidamente em um compartilhamento progressivo de informa-
ção. A cidade passou a concentrar, assim, poder e conhecimento. Hoje, abriga as
sedes de governo e de grandes empresas, as universidades, as instituições culturais
e os maiores equipamentos de lazer, esporte e entretenimento.
No Brasil, a formação de arquiteto e urbanista é unificada. Por isso, é
imprescindível que você conheça os principais autores que analisaram o tema da
cidade e a história da transformação do ser humano em cidadão. O urbanismo é
um campo de conhecimento teórico e prático. O conhecimento sobre as teorias
do urbanismo é indispensável para a sua atuação profissional, mesmo quando você
estiver projetando apenas uma edificação. Afinal, toda arquitetura é construída
sobre um contexto preexistente. E, na maioria das vezes, você irá atuar em um
contexto urbano.
O urbanismo é um importante campo de atuação profissional. A
Constituição Federal de 1988 preconiza a função social da cidade e, cada vez
mais, a população tem debatido a importância dos espaços públicos. Tudo indica
que haverá mais trabalho específico para o arquiteto e urbanista nesta área. Você
precisa estar preparado. Afinal, os desafios são grandes. A desigualdade social
produz cidades desiguais. O Brasil é um país em desenvolvimento e, como tantos
outros, ainda precisa equacionar o desequilíbrio de infraestrutura entre diferentes
grupos da sociedade.
Ao mesmo tempo, a solução para a crise ambiental do planeta passa necessa-
riamente pela criação de cidades mais sustentáveis. Neste sentido, é correto afir-
mar que: a cidade é o grande desafio do século XXI.

Bons estudos!

5
1
O que é cidade
O que é cidade
A humanidade produz edificações isoladas para abrigar as funções primárias
de descanso, trabalho e lazer, assim como equipamentos para o culto e a cultura.
No entanto, em um sentido amplo, a vida humana é um evento coletivo. A
maior representação desta coletividade são os assentamentos humanos formados
para possibilitar a troca de produtos, serviços e ideias.
No nosso primeiro capítulo, veremos que, em determinado momento de sua
história, o ser humano reuniu tudo isso em um único lugar a que deu o nome de
cidade ou urbe, termo derivado do latim. Por isso, o estudo das cidades recebeu o
nome de urbanismo. Hoje, a maioria dos habitantes do planeta vive em cida-
des. Estamos, assim, nos transformando em seres urbanos.
A arquitetura é uma das manifestações da cultura de um povo. O urbanismo
é a expressão espacial de uma sociedade. Entre uma edificação isolada e o pla-
nejamento das cidades, o arquiteto e urbanista irá trabalhar em diferentes escalas e
diversos graus de complexidade. Portanto, é importante que você saiba a diferença
entre elas.
O ser humano produz cidades desde a Antiguidade, mas o urbanismo é uma
disciplina relativamente recente. As cidades têm sido centros de inovação e polos
de riqueza para a humanidade. Este capítulo pretende ser a porta de entrada para
este tema fascinante.

OBJETIVOS
•  Conhecer definições diversas de cidade;
•  Definir o conceito de urbanismo como o estudo da cidade;
•  Refletir sobre a dimensão urbana da vida em sociedade;
•  Identificar o urbanismo como campo de conhecimento técnico, científico, geopolítico, his-
tórico e cultural;
•  Comparar as diferentes escalas do projeto de arquitetura e urbanismo.

capítulo 1 •8
Definições de cidade

A princípio, podemos dizer que a cidade é o conjunto de espaços que abri-


gam as funções do cotidiano humano como morar, trabalhar e divertir-se e que
propiciam a troca de produtos, serviços e ideias. Estes espaços são construídos na
forma de casas, lojas e diferentes instituições (sedes de governo, teatros, templos,
universidades etc.) ou podem ser espaços abertos de acesso público conhecidos
como logradouros (ruas, avenidas, praças, parques etc.). A cidade nasceu como
um ponto de encontro e um posto de troca localizado em um acidente geo-
gráfico que propiciasse uma melhor circulação de pessoas e produtos (próximo a
rios, baías ou vales) ou que permitisse a defesa de seus habitantes (ilhas, colinas e
promontórios). Com o tempo, esta reunião de pessoas propiciou a criação de edi-
ficações diversas para abrigar a prestação de diferentes serviços. Com isso, a cidade
tornou-se um privilegiado espaço de convívio.
Ao longo da história, a cidade ganhou importância geopolítica, econô-
mica, simbólica e cultural. Por isso, diferentes pensadores criaram diversas defi-
nições de cidade a partir da característica que cada autor gostaria de enfatizar. O
filósofo grego Aristóteles (384 - 322 a.C.) já dizia que “uma cidade deve ser cons-
truída para tornar o homem ao mesmo tempo seguro e feliz” (SITTE, 1992, p. 14.
Como citado pelo autor). Já Lewis Mumford (1895-1990), grande intelectual
norte-americano, descrevia a cidade “como uma configuração especial direcionada
à criação de oportunidades diferenciadas para uma vida comunitária e um signifi-
cativo drama coletivo”. Para Mumford, a cidade deve ser encarada como “um tea-
tro da atividade social, e suas necessidades são definidas pelas oportunidades que
ela oferece aos diferentes grupos sociais”. Por outro lado, o conjunto de edifícios e
espaços unificados que se identificam como o lugar da cidade torna-se um símbolo
de unificação social de uma comunidade (LEGATES, 2003, p. 94, tradução livre).
©© BECKSTEI | WIKIMEDIA.ORG

Vista panorâmica do Rio de Janeiro, primeira cidade no mundo a receber da UNESCO o


título de Patrimônio Cultural da Humanidade como paisagem cultural urbana, em virtude da
relação indissociável entre o urbanismo e a natureza local.

capítulo 1 •9
A cidade como fenômeno geográfico

A cidade não pode ser considerada, por definição, um acidente geográfico,


mas é verdade que, invariavelmente, a origem das cidades e o seu desenvol-
vimento estão ligados diretamente à sua localização, próximo a um curso de
água, em um vale ou encosta protegidos, mas também no topo de um monte que
se destaque na paisagem.

A cidade como posto de troca comercial

Para alguns autores, a origem do que hoje chamamos de cidade está diretamente
ligada à criação de um espaço que permitisse a troca dos bens produzidos por um in-
divíduo pelos bens ou serviços que pudessem ser fornecidos por outro indivíduo ou
instituição. Deste ponto de vista histórico, os primeiros assentamentos humanos
eram postos de troca do excedente de produção de um proprietário de terra para
outro, de uma região para a outra, de um produto por um serviço.

Por isso, as cidades de ontem e de hoje se assemelham por estarem em cruzamentos co-
merciais. Hoje esses cruzamentos de produtos e serviços não podem mais ser entendidos
apenas no seu sentido físico, como portos e aeroportos ou estradas que se cruzam, mas
também como interconexões transnacionais, propiciadas pela globalização econômica e
pelas novas tecnologias de informação e comunicação (Nunes-Ferreira, 2014, p. 37).

A cidade como um símbolo cultural

Dos primeiros assentamentos humanos às metrópoles atuais, as cidades se


tornaram um símbolo cultural, pois ali se concentram invariavelmente os equipa-
mentos de produção e transmissão da cultura de um determinado grupo, como:
teatros, cinemas, auditórios, casas de espetáculos, bibliotecas etc. Nas palavras do
professor paulista Teixeira Coelho (TEIXEIRA COELHO, 2008, p. 9):

A cidade é a primeira e decisiva esfera cultural do ser humano. E para realçar ainda
mais seu papel está o fato de que hoje, pela primeira vez na história da humanidade,
mais da metade da população mundial vive em cidades. (Teixeira Coelho)

capítulo 1 • 10
PERCENTUAL DA POPULAÇÃO URBANA
100.0
90.0
80.0
70.0
60.0
50.0
40.0
30.0
20.0
10.0
0
50
55
60
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19
19
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19
19
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20
20
20
20
20
20
20
20
20
20
MUNDO BRASIL

Gráfico de evolução da população urbana no Brasil e no mundo.

COMENTÁRIO
A população urbana ultrapassou a população rural no mundo em 2007. Já no Brasil, a
população urbana superou a população rural em meados dos anos 1960.

A cidade como centro de poder

Há diferentes visões históricas sobre a função original da cidade. Para alguns


historiadores, para além de local destinado ao comércio ou à cultura, a cidade é
um lugar de concentração de poder. Por isso, ela abriga as edificações que, por
sua posição de destaque e monumentalidade, representam os valores de uma de-
terminada sociedade e indicam quem detém a autoridade sobre aquela população.
Este era o caso das catedrais medievais, assim como ainda é o caso dos prédios
públicos governamentais e das altíssimas torres corporativas.

capítulo 1 • 11
©© KING OF HEARTS | WIKIMEDIA.ORG

Panorama da ponta sul da ilha de Manhattan, com destaque para a Torre da Liberdade, que
substituiu as torres gêmeas após os ataques do 11 de setembro de 2001 ao World Trade
Center – ou centro mundial do comércio. Ao atingir Nova York, o intuito era ferir o poder
econômico que aquela cidade representa.

O historiador português José Mattoso reconhece o protagonismo político como


o fator predominante do desenvolvimento das cidades (MATTOSO, 1992, p. 15):

As próprias funções econômicas da cidade e o fenômeno de concentração popula-


cional (...) parecem resultar das suas funções políticas, e não o contrário. A fixação do
chefe de um território no seu centro implica que reúna à sua volta os seus auxiliares
administrativos e o seu séquito militar, os seus servidores e os agentes de abaste-
cimento, os produtores de alimentos, do vestuário, das armas e dos objetos de luxo.
Precisa de tudo isso para subsistir e para manter sua autoridade. A concentração de
gente exigida pela implantação espacial do poder, por sua vez, atrai os produtores e os
comerciantes que os abastecem (...). A abundância dos recursos que aí se acumulam
(...) atraem os pobres e os marginais. Por outro lado, (...) os detentores da autoridade

(...) ostentam os sinais de sua permanência: (...) constroem os palácios, templos ou


muralhas que exprimem, pela sua monumentalidade, a permanência e a solidez do
poder. (José Mattoso)

A cidade como obra de arte

Alguns autores, especialmente arquitetos, irão enfatizar os aspectos artísticos


da cidade, enquanto construção humana coletiva. O arquiteto e historiador da
arte austríaco Camillo Sitte (1843-1903), em seu livro A construção urbana segun-
do seus princípios artísticos, recorre às cidades antigas para compreender a relação
entre edifícios e monumentos, seus vazios e suas dimensões, os fluxos de pessoas

capítulo 1 • 12
e veículos. Propõe, assim, o valor estético da cidade aliado às questões funcionais,
sempre considerando a arte como princípio norteador.

A cidade como estado de espírito

Existe, ainda, a ideia de que a cidade reflete certo estado de espírito, pela re-
união de pessoas de uma cultura específica e de espaços que propiciam deter-
minado tipo de comportamento. O escritor norte-americano Ernest Hemingway
(1899-1961) escreveu em seu livro de memórias, publicado postumamente em
1964: “se você tiver a sorte de ter vivido em Paris quando jovem, não importa por
onde ande pelo resto de sua vida, leva isso junto, porque Paris é uma festa ambu-
lante” (HEMINGWAY, 2013).

Le Baiser de l'Hotel de Ville,


Paris, 1950 by Robert Doisneau
© Estate of Robert Doisneau
Print Available at: allposters.
com. A famosa fotografia do
beijo do casal em frente à pre-
feitura de Paris povoa o imagi-
nário romântico sobre a capital
francesa, a cidade que recebe
15 milhões de turistas por ano.

Como definiu Robert Erza Park (1864-1964), sociólogo da Escola de Chicago


(VELHO, 1967, p. 25):

A cidade é algo mais do que um amontoado de homens individuais e de conveniências


sociais, ruas, edifícios, luz elétrica, linhas de bonde, telefones etc.; algo mais também do
que uma mera constelação de instituições e dispositivos administrativos — tribunais,
hospitais, escolas, polícia e funcionários civis de vários tipos. Antes, a cidade é um
estado de espírito, um corpo de costumes e tradições e dos sentimentos e atitudes
organizados, inerentes a esses costumes e transmitidos por essa tradição. Em outras
palavras, a cidade não é meramente um mecanismo físico e uma construção artificial.
Está envolvida nos processos vitais das pessoas que a compõem; é um produto da
natureza, e particularmente da natureza humana. (Robert Ezra Park)

capítulo 1 • 13
O estado de espírito de que fala Park pode ser fruto de uma época, de uma
atividade econômica ou mesmo de uma percepção que se tenha de uma cidade.
Afinal, tanto os edifícios quanto as experiências vividas em um determinado lu-
gar criam o que chamamos de imaginário, ou seja, um conjunto de símbolos,
conceitos, memória e imaginação de um grupo de indivíduos. De certo modo,
o imaginário de uma cidade faz aquela cidade ser o que é, pois termina por fun-
damentar uma série de representações que, por sua vez, irá inspirar as narrativas
de habitantes e visitantes. Neste sentido, a cidade é uma narrativa de diferentes
representações, assim como a representação de diferentes narrativas.

O imaginário é determinado pela ideia de fazer parte de algo. Partilha-se uma filosofia
de vida, uma linguagem, uma atmosfera, uma ideia de mundo, uma visão das coisas
(MAFFESOLI, 2001, p. 80).

A cidade como berço da civilização

A cidade também possui um aspecto civilizatório. Na própria origem da


palavra, oriunda de civitas, em latim, encontramos a relação entre cidade e ci-
vilidade. Já a polis grega é a cidade formada pelos cidadãos (politikos). Por isso,
consideramos cidadão aquele indivíduo que convive em sociedade e exerce seus
direitos e deveres por meio da política. Civil é aquela relação que se dá entre ci-
dadãos e que se refere também àquilo que não tem caráter militar ou religioso. A
civilidade, portanto, tem no espaço urbano seu cenário principal e a cidade é o
berço do que chamamos de civilização. Afinal, como nos lembra a professora
gaúcha Sandra Pesavento (1945- 2009), “as cidades fascinam (...) porque elas se
encontram na origem daquilo que estabelecemos como os indícios do florescerde
uma civilização: a agricultura, a roda, a escrita, os primeiros assentamentos urba-
nos” (PESAVENTO, 2007).

CURIOSIDADE
A palavra urbanidade está ligada diretamente à civilidade, que, por sua vez, significa
cortesia e respeito mútuo. Do mesmo modo, indivíduo civilizado é aquele que é bem-edu-
cado e urbano.
Fonte: Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2. ed.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

capítulo 1 • 14
A esta altura, você deve estar confrontando as visões de cidade apresentadas
neste capítulo com as notícias diárias de violência nos grandes centros e as cons-
tantes epidemias globais que têm tomado força com as viagens internacionais nes-
te mundo conectado. Vamos demonstrar a seguir como o próprio urbanismo sur-
giu em resposta a problemas de saúde, poluição e violência no coração de grandes
cidades europeias.

O surgimento do urbanismo

O urbanismo é o campo do conhecimento que trata da cidade. Ele pode


ser entendido no seu aspecto teórico e científico, no sentido do estudo da forma-
ção e transformação das cidades ou pela sua aplicação prática, no que se refere ao
planejamento e à execução de obras de intervenção nos espaços de uso público.
Embora haja assentamentos humanos com características de cidade, como Arbela,
no Iraque, habitados há mais de 5.000 anos, o termo urbanismo é relativamente
recente.

MULTIMÍDIA
Assista ao vídeo: 6 mil anos de urbanização ao redor do mundo. Disponível em:
<http://www.archdaily.com.br/br/791595/assista-quase-6-mil-anos-de
-urbanizacao-neste-vid>

Há diferentes versões para a origem da palavra urbanismo

No ano de sua morte, o catalão Ildefonso Cerdá (1815-1867) publicou A


teoria geral da urbanização, a partir do termo urbe. Já os franceses advogam para
si a criação do termo urbanisme. A palavra parece ter sido utilizada oficialmente
pela primeira vez, em 1910, no Bulletin de la Societé Geographique de Neufchatel
(LECOQ, 2004, p. 20).
Mas foi em 1931 que Alfred Agache (1875-1959), arquiteto e urbanista fran-
cês responsável por projetos para algumas cidades brasileiras, como Rio de Janeiro
e Curitiba, definiu, pela primeira vez, o urbanismo como “o conjunto de regras
aplicadas ao melhoramento das edificações, do arruamento, da circulação e do
descongestionamento das artérias públicas”. Ainda para Agache, urbanismo “é a
remodelação, a extensão e o embelezamento de uma cidade, levados a efeito,

capítulo 1 • 15
mediante um estudo metódico da geografia humana e da topografia urbana sem
descurar as soluções financeiras” (SILVA, 2007).
O urbanismo trata, portanto, da cidade em suas diferentes dimensões: a ocu-
pação construtiva do território, a distribuição de funções e o movimento da po-
pulação, além dos interesses sociais e econômicos dos diferentes atores urbanos.
Tudo isso deve levar em conta, ainda, os recursos financeiros existentes.
Como já vimos anteriormente, o ser humano constrói cidades desde a
Antiguidade, mas o urbanismo irá se tornar uma disciplina e um campo profis-
sional apenas no século XIX. Com o sucesso econômico da Revolução Industrial,
multiplicaram-se as oportunidades de trabalho nos grandes centros europeus. Mas
houve um momento em que um paradoxo se instalou. Embora a cidade fosse vista
como um polo de produção de riqueza e prosperidade, o que atraiu um aumento
populacional inédito com a imigração da população rural, as condições de vida da
nova classe operária deterioraram-se. O crescimento econômico de base industrial
terminou por gerar um crescimento urbano desordenado e insalubre. As taxas de
mortalidade cresceram e comprometeram a própria economia. Surgiram, então, as
primeiras operações urbanísticas no sentido de criar a infraestrutura necessária que
permitisse o abastecimento de água limpa, o saneamento e a melhor circulação de
pessoas, bens e serviços.
As grandes intervenções urbanís-
ticas do século XIX visavam a propi-
ciar tanto uma melhor qualidade de
vida quanto o embelezamento das
cidades. Os exemplos mais conhecidos
deste período são: a reforma do centro
de Paris pelo Barão Haussmann e o pla-
no de expansão de Barcelona definido
por Ildefonso Cerdá, que veremos com
mais profundidade no capítulo 3.

capítulo 1 • 16
Aspectos de Paris, antes e depois da reforma de Haussmann.

Estes dois exemplos notáveis já demonstram uma primeira distinção entre


tipos de projeto de urbanismo. Haussmann realizou, entre 1850 e 1870, uma
remodelação de Paris, que já era uma metrópole com meio milhão de habitantes,
intervindo em um tecido urbano existente. Cerdá irá propor um projeto de ex-
pansão de Barcelona que viria a ocupar uma área desocupada, em que teve a liber-
dade de propor um traçado de ruas e quarteirões inteiramente novo. Aliás, uma
das grandes novidades do plano foi trabalhar as diferentes escalas do urbanismo: o
edifício, o quarteirão, o bairro e a cidade.

Vista aérea do Plano de Extensão de Barcelona (conhecido por Ensanche, em espanhol,


e Eixample em catalão), que se prolonga ao redor da Cidade Medieval (no canto superior
direito).

capítulo 1 • 17
CONCEITO
Tecido Urbano é um determinado tipo de urbanização de uma região urbana.
Fonte: Wikipedia.

As diferentes escalas da cidade: do desenho urbano ao


planejamento urbano

A partir da compreensão de que o urbanismo é o campo do conhecimento


que trata da cidade e que a arquitetura se refere à edificação de espaços para abri-
gar as atividades humanas, poderíamos dizer que há uma fronteira tênue e difusa
entre eles. Muito por isso, no Brasil, assim como em outros diversos países, a
formação de arquiteto e urbanista foi unificada. Entre a edificação de uma casa e
o planejamento de uma região, há menos uma diferença de metodologia do que
uma questão apenas de escala de estudo ou trabalho. Neste sentido, o arquiteto e
urbanista poderá trabalhar em diferentes escalas. Curiosamente, estas diferen-
ças serão identificadas tanto no tipo de atividade quanto no próprio produto do
trabalho, cuja escala gráfica também irá variar.
Quando trabalhamos com intervenções internas em uma edificação, que não
alteram significativamente seu aspecto externo ou sistema estrutural, estamos
atuando na arquitetura de interiores. Invariavelmente, esta atuação produzirá
desenhos em uma escala gráfica de 1:20 até 1:100, ou seja, o desenho do projeto
reproduzirá os elementos construtivos de vinte a cem vezes menores do que o pro-
duto final da obra. No caso de um projeto de edificação, quando a construção
será elaborada da fundação até a cobertura, as plantas principais serão desenhadas
normalmente em uma escala entre 1:50 e 1:500.

ATENÇÃO
É importante lembrar que estes são limites flexíveis. Aqui já se pode notar uma interse-
ção entre as escalas gráficas na margem entre 1:50 e 1:100. Nos dois casos, o arquiteto
poderá produzir até desenhos em proporção ainda mais próximas dos elementos finais, no
que se convencionou chamar de projeto de detalhamento, que poderá, inclusive, chegar à
escala 1:1, ou seja, uma representação em tamanho real.

capítulo 1 • 18
De modo similar, o projeto arquitetônico completo deverá definir todas as
intervenções que acontecerão nos espaços entre a construção e os limites do ter-
reno, tais como: acessos, calçamentos, vegetação e equipamentos externos. Por se
tratar de uma interferência na paisagem, o conjunto dessas intervenções receberá
a denominação de projeto paisagístico.
A partir do limite do terreno, ou seja, quando se ultrapassa o domínio da
edificação para o domínio da cidade, começamos a falar sobre o desenho urbano.
Embora sejam conceitos distintos, poderíamos afirmar que, salvo algumas exce-
ções, o desenho urbano será aplicado em áreas de uso coletivo ou espaços públicos.
Neste sentido, o desenho urbano é o projeto dos espaços da cidade. Exatamente
por isso, ele poderá incluir o projeto de edificações e inclui necessariamente o
projeto paisagístico, mas trata principalmente do ordenamento de logradouros,
como ruas, calçadas, praças, esquinas, ciclovias e avenidas, assim como todos os
equipamentos de iluminação, sinalização e acesso às redes de infraestrutura, além
do mobiliário urbano necessário como bancos de rua, abrigos de ônibus etc. Para
o desenho urbano na escala do condomínio ou do bairro, tem-se utilizado fre-
quentemente o anglicismo masterplan.

CURIOSIDADE
A melhor tradução de masterplan para o português seria plano diretor. O problema é que,
no Brasil, nós utilizamos este termo para o projeto que irá tratar de todo o município, como
você verá mais adiante.

À medida que a intervenção ganha complexidade, o projeto passa a ter carac-


terísticas de um plano, pois leva em conta um número maior de dados preexisten-
tes e afeta os interesses de mais pessoas. Por isso, um plano envolverá muito mais
do que o conjunto de plantas de um projeto. Ele terá que incluir a análise mais
aprofundada de dados sociais, econômicos e ambientais; do sistema de transporte
e mobilidade urbana e o tipo de uso e funções que se deseja inibir, preservar ou
incentivar em determinada área. Ao trabalhar com planos de tamanha complexi-
dade, o arquiteto e urbanista estará atuando em planejamento urbano.
O planejamento urbano é o conjunto de ideias e planos que definem as
diretrizes de crescimento de uma cidade. No Brasil, as cidades se localizam em
uma unidade territorial política denominada município, que é administrado por

capítulo 1 • 19
um órgão denominado prefeitura. Um município poderá ter várias cidades ou
distritos sob uma mesma administração e terá perímetro urbano e zona rural. Pelo
artigo 182 da Constituição Federal de 1988, toda cidade com mais de vinte mil
habitantes tem a obrigação de possuir um plano diretor.
“O plano diretor (...) é o instrumento básico da política de desenvolvimento
e de expansão urbana” e, como parte da política nacional de desenvolvimento ur-
bano, “tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da
cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes” (Constituição Federal, Art. 182).
O arquiteto e urbanista poderá atuar na concepção e execução de planos diretores,
assim como poderá contribuir para o bem-estar dos habitantes de uma cidade
ao exercer sua profissão com ética e competência em todas as escalas acima apre-
sentadas. Alguns autores dirão que a complexidade da cidade dificulta qualquer
intervenção eficaz. Por outro lado, Jaime Lerner, o urbanista brasileiro consagrado
internacionalmente por suas bem-sucedidas intervenções em Curitiba, alertou aos
jovens estudantes que “a cidade não foi feita para pessimistas”.

COMENTÁRIO
Esta declaração foi feita em uma palestra conferida no dia 8 de setembro de 2016 du-
rante o evento de lançamento do documentário Jaime Lerner - Uma história de Sonhos,
de Carlos Deiró, da Pandora Filmes.

Ideias, Modelos, Planos e a Realidade

Os grandes planos urbanísticos refletem visões de sociedade e valores ideoló-


gicos. Por outro lado, eles podem ser divididos em categorias por tipo de inter-
venção. Há ainda comunidades e cidades planejadas ou aquelas que cresceram de
forma espontânea, com pouco ou nenhum planejamento.
Em termos ideológicos, por exemplo, a historiadora francesa Françoise Choay
produziu, em seu livro O urbanismo, escrito em 1965, a análise mais aceita entre
os pensadores atuais do urbanismo. Choay reuniu as visões de diferentes arquite-
tos e urbanistas dos séculos XIX e XX em três principais categorias:
•  Urbanismo progressista: visão racionalista orientada para o futuro, em que
a análise técnico-científica determina um padrão de ordem a ser aplicado a qual-
quer agrupamento humano em diferentes lugares ou épocas. O modelo preconiza
o zoneamento por função específica e os espaços abertos com amplas áreas verdes;

capítulo 1 • 20
•  Urbanismo culturalista: visão que defende que a análise cultural de um
agrupamento humano deve ser a base para o planejamento urbano. O modelo
produzirá planos que incorporam o passado e valorizam os aspectos particulares e
originais de cada comunidade;
•  Urbanismo naturalista: visão que valoriza o meio natural em oposição à
expansão das cidades, aproximando-se, assim, da ideia de um antiurbanismo. O
modelo prevê uma rede de comunidades relativamente pequenas que abriguem
todas as funções necessárias para uma vida diretamente ligada à natureza.

Ainda segundo Choay, o urbanismo progressista dará origem ao conceito de


tecnotopia, que acredita que a tecnologia poderia nos levar a uma utopia, um
lugar melhor no futuro, enquanto o urbanismo culturalista terá desdobramentos
no modelo da antrópolis, ou seja, uma cidade mais humanista, fundamentada no
estudo profundo do ser humano (CHOAY, 1979).

COMENTÁRIO
Muitos autores irão apresentar conceitos novos utilizando palavras que eles mesmos
criaram. A isso chamamos de neologismo. Neste caso, a autora construiu dois novos termos
a partir da junção de duas palavras existentes:
Tecnotopia = tecnologia (habilidade) + utopia (não-lugar)
Antrópolis = antropo [Do grego: ánthropos (homem)] + polis [Do grego: pólis (cidade)]

É fácil observar que estas visões derivaram da valorização que se atribuiu às


condições pré-existentes de uma cidade em uma determinada época. As correntes
progressistas e utópicas defendiam uma cisão com o passado, acreditando que as
formas de vida, os meios de produção e os recursos tecnológicos de uma geração
não se encaixavam na forma da cidade pré-industrial. Já os culturalistas e seus
sucessores defendiam que a antropologia e a sociologia deveriam fazer parte in-
trínseca dos processos de planejamento urbano, pois valorizam as relações sociais
e o aprendizado do passado e do presente como ponte para futuras intervenções.
Por outro lado, pode-se dizer que a própria natureza do plano poderá defi-
nir o modelo de intervenção. Pois há projetos urbanos de cidades inteiramente
novas ou planos de expansão de cidades existentes para territórios ainda desocupa-
dos. Em contrapartida, o arquiteto e urbanista poderá ser convocado a intervir em

capítulo 1 • 21
áreas adensadas de valor histórico ou áreas degradadas em meio ao tecido urbano
consolidado.
Existe, ainda, outra característica das cidades atuais que o arquiteto e urba-
nista precisará conhecer. Além dos centros históricos, dos bairros consolidados e
das áreas de expansão, existem, hoje, em diferentes países em desenvolvimento,
comunidades erguidas sem qualquer planejamento, a que chamamos de assenta-
mentos subnormais ou cidade informal. No Brasil, o termo mais utilizado para
estas comunidades é favela.
A dicotomia entre a cidade formal e a cidade informal talvez seja o maior
desafio do urbanismo contemporâneo. Em grande parte das cidades brasileiras, a
proporção entre as construções informais e os bairros legalizados podem se igualar.
Em algumas cidades da América do Sul, a ocupação informal supera a cidade legal.
Situações semelhantes acontecem na Ásia e na África.
O desafio é grande. Neste capítulo, foram apresentados alguns conceitos ini-
ciais e modelos de cidade que serão aprofundados mais adiante. Como campo de
conhecimento e área promissora de atuação do arquiteto e urbanista, o urbanismo
deve ser compreendido em toda a sua complexidade. Pelo que já vimos até o mo-
mento, é muito importante entender o passado e o presente das cidades, porque o
futuro está em suas mãos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
CHOAY, Françoise. O urbanismo. São Paulo: Perspectiva, 1979.
DAVIS, Mike. Planeta favela. São Paulo: Boitempo, 2006.
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2013.
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Lisboa: Fundação CalousteGulbenkian, 1992.

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Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 9 nº 2, 2007). Disponível em: <http://www.
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VELHO, Otávio Guilherme (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.

capítulo 1 • 23
capítulo 1 • 24
2
Dos primeiros
assentamentos à
cidade tradicional
Dos primeiros assentamentos à cidade
tradicional

A cidade como a compreendemos hoje é a última manifestação de um pro-


cesso histórico que se iniciou com uma espécie de decisão coletiva de alguns
agrupamentos humanos: reunir-se em um território fixo e delimitado a fim de
compartilhar um determinado modo de vida e os diferentes frutos do trabalho
de uma coletividade, além de usufruir de uma cultura específica. Embora possa
haver certa convergência sobre um conceito universal de cidade, paradoxalmen-
te, sempre haverá, em qualquer de suas possíveis definições, um relativo grau de
intangibilidade. Afinal, na prática, existem modelos múltiplos de cidade.
A arqueologia tem nos fornecido os fundamentos para identificarmos os pri-
meiros agrupamentos humanos a que poderíamos chamar de cidades, que se loca-
lizavam, muito provavelmente, em algum lugar entre a Mesopotâmia, o norte da
África e o Oriente Próximo, mas certamente em algum lugar não muito distante
do que hoje chamamos de Mar Mediterrâneo. E porquanto possamos falar de uma
teoria da cidade com diferentes representações práticas, também há visões distin-
tas por parte dos historiadores sobre os motivos que levaram os seres humanos a se
agruparem e a conviverem de modo próximo e permanente. Analisar este proces-
so histórico nos faz refletir sobre a dimensão urbana da vida em sociedade. O
estudo da origem da cidade é essencial para que se entenda o urbanismo como um
fenômeno evolutivo. Afinal, para você atuar neste mundo, é preciso conhecê-lo.
Você está lendo este capítulo em português. A língua portuguesa é uma língua
latina. O latim era a língua oficial do Império Romano. Isso quer dizer que a ma-
triz principal de sua cultura é a civilização ocidental, podendo ter sido acrescida de
elementos afro-brasileiros e ameríndios, entre outros. A princípio, entende-se por
ocidente como todo território que esteja a oeste da suposta origem dos primeiros
assentamentos humanos.
Por sua vez, a civilização ocidental, como hoje a conhecemos, foi forma-
da a partir de uma série de influências culturais, fruto de conquistas, conflitos,
anexações, retrações, colonização e mesmo de uma expansão orgânica. Mas há
certo consenso em atribuir o protagonismo de alguns valores ocidentais a siste-
mas sociais que foram desenvolvidos inicialmente na Grécia Antiga e, um pouco
mais tarde, no Império Romano. É, portanto, essencial em nosso estudo sobre o

capítulo 2 • 26
fenômeno urbano, conhecer e analisar as cidades produzidas em um tempo e lugar
que ficou conhecido como o berço da civilização ocidental.
A arquitetura e o urbanismo atuam em um sentido duplo. Se, por um lado,
refletem o sistema de valores e as aspirações existentes em uma sociedade, por ou-
tro lado, ajudam a construir uma determinada realidade que promove, corrobora e
perpetua tais valores e aspirações. Assim como é importante identificar as represen-
tações urbanas de valores que herdamos da Grécia Antiga e do Império Romano
como a democracia e o direito, respectivamente, é igualmente essencial compreen-
der por que as cidades medievais europeias construíram grandes catedrais.
As catedrais cristãs simbolizavam materialmente o poder da Igreja Católica.
Sua monumentalidade representava a onipresença, a onisciência e a onipotência
de um Deus que não podia ser visto. Ao mesmo tempo, elas abrigavam as funções
sociais de uma determinada comunidade. Isto concedia aos sacerdotes o seu do-
mínio social, reforçando o poder religioso sobre aquela população. Mais adiante,
o poder civil, ainda que com menor intensidade, também irá construir grandes
edificações como demonstração de poder e ascendência sobre a população. Como
a política, a cultura também se fará representar no espaço urbano com espaços e
edificações de certa magnitude.
Atualmente, são os grandes centros de poder econômico do mundo contem-
porâneo que empenham vultuosos investimentos em imóveis monumentais e re-
des de tecnologia da informação e comunicação. Isso lhes permite reunir grandes
grupos econômicos e concentrar dados, além de atrair profissionais de alto desem-
penho. Assim, o capital excedente é reinvestido no aperfeiçoamento dos edifícios,
espaços e serviços que terminam por gerar um ambiente de negócios mais eficaz
e sofisticado. Por conseguinte, os altos salários pagos permitem a criação de uma
rede de serviços que tornam a vida mais atraente para as classes mais altas, gerando
empregos e renda para as demais. A riqueza circula e a cidade cresce.
Por isso, torna-se fundamental estudar os elementos principais das cidades
que forjaram os valores da sociedade ocidental e verificar a herança destes edifícios
e espaços nas cidades contemporâneas. Alguns exemplos passaram a fazer parte do
nosso imaginário como uma ideia perfeita de cidade tradicional e exercem certo
fascínio nostálgico sobre um lugar em que nunca vivemos. Por outro lado, alguns
espaços vitais encontrados nas cidades dos primórdios da civilização ocidental
podem nos esclarecer muito a respeito do modo como vivemos atualmente.

capítulo 2 • 27
OBJETIVOS
•  Conhecer diferentes visões sobre a fundação dos primeiros assentamentos humanos;
•  Analisar a evolução destes assentamentos em cidades;
•  Identificar modelos das cidades antigas das civilizações ocidental e oriental;
•  Avaliar o conceito de cidade tradicional a partir das cidades europeias;
•  Reconhecer o fenômeno urbano como um processo evolutivo.

A origem das cidades

Alguns autores, em sua maioria também arquitetos, atribuem a origem da


cidade ao comércio, enquanto os estudiosos mais ligados ao campo da história re-
lacionam o surgimento de cidades à criação de polos de poder político. Há, ainda,
aqueles que entendem que o fato de seres humanos se reunirem em um único ter-
ritório deve-se simplesmente a uma característica humana: o desejo do encontro.
Há registros de vilarejos construídos há mais de 6.000 anos. Há cidades que
foram esvaziadas porque perderam sua viabilidade climática, sua atração econômi-
ca ou apelo cultural. Existem ciclos de crescimento, estagnação e decadência em
uma mesma cidade. Mas podem acontecer, ainda, processos de transformação de
cidades, de polos industriais a centros financeiros, de tecnologia e serviços, como é
o caso de Londres, no Reino Unido, berço da Revolução Industrial. Em nosso país
temos o exemplo de Ouro Preto, antiga potência extrativista do Brasil Colônia,
revertida, hoje, em cidade universitária e polo turístico.

A cidade permanece uma criação histórica particular; ela não existiu sempre, mas
teve início num dado momento da evolução social, e pode acabar, ou ser radicalmente
transformada, num outro momento. Não existe por uma necessidade natural, mas uma
necessidade histórica, que tem um início e pode ter um fim. (Leonardo Benévolo)

A origem das cidades tem algumas versões, entre as quais destacaremos três
principais:
•  A cidade nasce como posto de troca do excedente da produção
de alimentos;
•  A cidade tem origem na prestação de serviços de defesa a uma população;

capítulo 2 • 28
•  A cidade surge quando tribos existentes decidem fixar-se em um
território.
©© KENNY ARNE LANG ANTONSEN | WIKIMEDIA.ORG

Reconstrução da aldeia neolítica de 4.000 a.C., na atual Ucrânia.

Primeiros assentamentos humanos

Embora possa haver discordância sobre o motivo, há certo consenso histórico


de que as primeiras cidades dignas do nome teriam surgido no Oriente Próximo,
no norte da África, no Golfo Pérsico e no Mediterrâneo. Esta “criação histórica”
dará origem a uma divisão de população e ocupação do território que utilizamos
até os dias de hoje: rural e urbano.
A população rural é aquela dedicada diretamente à produção de alimentos e à
extração de matéria-prima e que, por isso, habitará o que chamamos de campo. A
população urbana, por sua vez, será formada por especialistas com as mais diversas
atividades e que moram na cidade. Os mercadores eram responsáveis pela co-
mercialização de produtos. Os artesãos se dedicavam a transformar matéria prima
em artefatos úteis. Os mestres e os sacerdotes tentavam desvendar os mistérios
da vida pela ciência ou pela religião. Os artistas divertiam a população. Os guer-
reiros eram treinados para protegerem a terra e o povo. Os eventuais governantes
tratavam de organizar os interesses e conflitos da população por acordos coletivos.
Os juízes eram convocados para resolverem os conflitos a cada vez que tais acor-
dos foram desrespeitados. A partir desta descrição sucinta, você poderá identificar
a origem de algumas características que permanecem válidas até a atualidade.

capítulo 2 • 29
Há uma interdependência entre campo e cidade. A grande diferença é que,
no início, as distâncias eram curtas e a produção rural abastecia a população ur-
bana mais próxima. Hoje, você vai a um supermercado e encontra produtos de
diversas partes do país ou do mundo, como açaí do Pará ou café do Paraná, maçãs
argentinas, vinhos chilenos e até o trigo do seu pãozinho matinal pode ter vindo
dos campos do meio-oeste dos Estados Unidos.
Também não é difícil identificar que algumas atividades têm suas correspon-
dentes até hoje. Os mercadores são os comerciantes atuais que, além de compra-
rem e venderem mercadorias, também podem prestar serviços a uma determinada
comunidade. O comércio, aliás, foi uma das primeiras formas de integração e
disputa entre os povos. Hoje, ele pode acontecer tanto na venda da esquina da sua
casa quanto no clique de um botão no teclado de seu computador. A matéria-pri-
ma que vem do campo é transformada menos por artesãos e mais por manufaturas
e, mais recentemente, pela indústria. Na cidade, estão os estabelecimentos de en-
sino em todos os níveis. Aos mestres atuais chamamos professores e, enquanto as
escolas são os locais onde recebemos nossa educação formal, a ciência abriga-se nas
universidades. Os templos religiosos ainda permanecem como espaços de culto.
Ao conjunto da produção artística e consuetudinária dá-se o nome de cultura. Os
impostos atuais sobre tudo que produzimos ou consumimos vão em parte para o
financiamento de nossas forças de segurança. Nossos governantes, políticos e
juízes são escolhidos e selecionados para definirem e defenderem, respectivamen-
te, o conjunto de leis de nosso país.

Em resumo, a cidade reúne (de certo modo, desde cedo, em maior ou menor grau e
quantidade): serviços, comércio, indústria, estabelecimentos de ensino, templos religio-
sos, espaços de cultura, forças de segurança, o poder executivo, legislativo e judiciário.

Estas atividades estão relacionadas às três visões principais sobre a origem das
cidades, que vimos no início desta aula. Para concluir este ponto, poderíamos
utilizar a descrição sobre a origem das cidades reproduzida em um importante
documento que analisaremos com mais profundidade no capítulo 3: a Carta de
Atenas (IPHAN, 2014).
Na Carta, enquanto se admite que “os motivos que deram origem às cidades
foram de natureza diversa”, afirma-se que:
•  Às vezes, era o cruzamento de duas rotas, uma cabeça de ponte ou uma
baía do litoral que determinava a localização do primeiro estabelecimento;

capítulo 2 • 30
•  Por vezes, era o valor defensivo. E o alto de um rochedo ou a curva de um
rio viam nascer um pequeno burgo fortificado;
•  Isolado, o homem sente-se desarmado; por isso liga-se espontaneamente a
um grupo. (...) Incorporado ao grupo, (...) pode satisfazer sua profunda necessi-
dade de vida social.

Em outro trecho, o mesmo documento tenta descrever um padrão para as primei-


ras cidades. “A cidade era de formato incerto, mais frequentemente em círculo ou se-
micírculo” podendo também ter “eixos de ângulos retos” e ser “cercada de paliçadas re-
tilíneas. Tudo nela era ordenado segundo a proporção, a hierarquia e a conveniência”.

As pessoas aí se aglomeravam e encontravam, conforme o grau de civilização, uma


dose variável de bem-estar. Aqui, regras profundamente humanas ditavam a escolha
dos dispositivos; ali, constrangimentos arbitrários davam origem a injustiças flagrantes.
Sobreveio a era do maquinismo. A uma medida milenar, que se poderia crer imutável, à
velocidade do passo humano, somou-se uma medida em plena evolução, a velocidade
dos veículos mecânicos.

Algumas cidades disputam o título daquela que seria a mais antiga de todas, entre
elas: CatalHöyük, na atual Turquia (abaixo), e Arbela, no que hoje denominamos Iraque.

Simulação eletrônica de como seria a estrutura de CatalHöyük, com habitações retangulares


com lajes intercaladas em diferentes níveis, por onde se tinha acesso aos espaços cobertos.

capítulo 2 • 31
Podem-se notar algumas diferenças significativas entre elas. A estrutura le-
vemente ortogonal da primeira contrasta com a configuração circular da outra.
Na simulação em computação gráfica de CatalHöyük (acima), podemos perce-
ber que o acesso às casas era feito pela cobertura. Já na foto de Arbela (abaixo),
vemos o contraste da área originalmente murada, que pode ser percorrida por
um longo eixo central, e os bairros contemporâneos que circundam a cidade an-
tiga. CatalHöyük tornou-se um sítio arqueológico, enquanto Arbela é habitada
até hoje.
©© JAN KURDISTANI | WIKIMEDIA.ORG

Vista aérea panorâmica de Arbela, Iraque, cidade habitada há 5.000 anos.

À medida que as cidades atraíam mais habitantes, foram-se desenvolvendo


estratégias para, primeiramente, possibilitar a co-habitação e, posteriormente, or-
denar esta ocupação “segundo a proporção, a hierarquia e a conveniência”. A alta
densidade das cidades mais antigas era compensada, pois as casas eram organiza-
das em torno de pátios centrais, como neste exemplo do norte da África.

capítulo 2 • 32
©© SURONIN | SHUTTERSTOCK.COM

O sítio arqueológico de Mohenjo Daro, no Egito, demonstra como a organização em pátios


centrais servia para amenizar a alta densidade dos primeiros assentamentos humanos.

No Oriente, a ordenação das cidades aconteceu mil anos mais tarde e surgiu
movida por diferentes simbolismos. De acordo com Benévolo, nos assentamentos
mais antigos da China, há a representação de um eixo, cuja orientação derivava
de aspectos geográficos. “O poder deve garantir o justo equilíbrio entre o norte
e o sul, manter à distância os perigos que vêm do norte, refrear as águas que des-
cem dos altiplanos, e transformá-las em elemento de vida no sul - yin e yang”.
(BENÉVOLO, 2015, p. 55).

capítulo 2 • 33
Antiga planta da cidade de Pequim, capital da China (esquerda) em comparação à foto de
satélite da Cidade Proibida hoje (direita). Esquerda: Gravura de Erhard e Bonaparte, a partir
de baixos relevos chineses antigos. Publicado em le tour de Monde, Paris, 1864. Copyright:
Marzolino. Direita: Google Earth.

A cidade ocupa um posto dominante e carregando-se de grande quantidade de sig-


nificados utilitários e simbólicos. É a sede do poder, sendo, pois, o órgão onde se dá a
mediação entre os opostos, que regula e representa todo o território. A ordem latente
no universo torna-se aqui uma ordem visível, geométrica e arquitetônica. (BENÉVOLO,
2015, p.55).

Também nas cidades japonesas, a estrutura das vias de circulação principais


está orientada pelos pontos cardeais norte, sul, leste e oeste. Isso cria uma ligação
com o próprio universo. Como as primeiras cidades da Mesopotâmia e da África,
os agrupamentos japoneses também eram murados. No exemplo a seguir reprodu-
zido, note que a ortogonalidade do muro da cidade é refletida no muro do palácio
imperial em destaque. Também as construções menores derivam sua forma do
conjunto e vice-versa.

capítulo 2 • 34
©© WIKIMEDIA.ORG

Mapa da cidade de Heiankyo. Reproduzido por Mori Koan in 1750.

Importante reparar: em todos os exemplos aqui apresentados, há uma relação direta


entre a arquitetura e o urbanismo. Algumas cidades ganham forma a partir do conjunto
das formas das edificações. Em outros casos, as edificações são construídas a partir do
formato geral das cidades. E há, ainda, aqueles exemplos em que estas duas caracte-
rísticas são verdadeiras.

Da ideia de cidade ao ideal de cidade

Ao longo dos séculos, o traçado das cidades foi sofrendo alterações.


Invariavelmente houve uma tentativa de organizar os espaços urbanos, tanto para
orientar melhor os habitantes e melhorar o fluxo de pessoas, quanto para dar des-
taque aos edifícios que tinham maior importância para a coletividade.

capítulo 2 • 35
Foto de satélite de Veneza com a Praça São Marcos em destaque em meio ao denso tecido
urbano.

Ao analisar o caso de Veneza, na Itália, pode-se observar que a cidade foi cons-
truída inicialmente com um traçado irregular, que se estende sobre 117 ilhas. No
seu ponto de maior destaque, está a Praça de São Marcos, que recebeu de Napoleão
Bonaparte o apelido de salão mais belo da Europa. Lá encontram-se as grandes edifi-
cações que representam, respectivamente, o poder civil e o poder religioso: o Palácio
dos Doges e a Basílica de São Marcos (ambos no canto direito da foto abaixo). Antes
um modesto largo, a praça ganhou seu formato atual em 1.777.

capítulo 2 • 36
Vista aérea da Praça de São Marcos em Veneza, Itália. Observe como o ângulo inclinado
entre as edificações dramatiza a perspectiva em direção às edificações principais. Agora ima-
gine o impacto de chegar a este espaço após uma caminhada pelas ruas tortuosas da cidade.
No urbanismo, como na arquitetura, muitas vezes o percurso do observador e a sequência
dos espaços são tão importantes quanto as construções em si.

CURIOSIDADE
Bruno Zevi é o autor que irá aplicar à arquitetura o conceito da quarta dimensão. Além de
comprimento, largura (ou profundidade) e altura, Zevi define o tempo como a quarta dimen-
são do espaço. Ao contrário de um objeto ou escultura, a arquitetura e o urbanismo criam es-
paços que podem ser percorridos pelo observador em um tempo dado. Isto permite ao autor
do projeto definir a sequência de percepção de cada espaço, provocando assim sensações
determinadas. Esta característica levou Göethe, o filósofo alemão, a declarar que: “arquitetura
é música congelada”.

capítulo 2 • 37
Por outro lado, a ideia de se criar uma cidade ideal e planejada, capaz de
promover, ao máximo, o bem-estar de sua população, persiste na história do ur-
banismo. Na maioria de exemplos deste caso, traçados de geometria racional são
empregados, como se a regularidade e a simplicidade formais - e a ordem e a previ-
sibilidade dela resultantes - fossem uma garantia de civilidade e evolução humana.
Veja como a foto aérea de Palmanova, também na Itália, localizada a cerca de
100 Km de Veneza, revela este aspecto e esta intenção. O projeto da cidade foi
concebido como uma fortaleza de nove lados e três entradas que conduzem a uma
praça central em forma de hexágono. Construída no século XVI, pretendia, ao
mesmo tempo, proteger os habitantes de inovações bélicas poderosas para a época
e criar uma ambiência perfeita para o desenvolvimento dos seus cidadãos. Em
virtude de seu formato, Palmanova é conhecida como cidade estrela.
©© WIKIMEDIA.ORG

Mapa histórico (esquerda) e foto de satélite (direita) da cidade de Palmanova, construída como
cidade-estrela, forma idealizada de cidade.

Como já vimos anteriormente, formas regulares são comumente utilizadas em


cidades planejadas. Mas também foram escolhidas pelos primeiros urbanistas que
decidiram reformar as inchadas cidades europeias do século XIX. São diversos ca-
sos, de Viena a Milão, mas nenhum exemplo é mais significativo para a história do
urbanismo do que a reforma por que passou Paris entre 1850 e 1870, que veremos
com detalhe no capítulo 3. Foi deste período que herdamos boa parte da imagem
que temos até hoje da capital francesa. Lá, o tecido irregular da cidade medieval
foi substituído, em grande parte, por uma trama de longas avenidas arborizadas.
E, onde elas já existiam, foram alargadas e embelezadas, como é o caso da praça
que circunda o famoso Arco do Triunfo. Não é por mera coincidência, portanto,
que ela se chama Praça da Estrela (ou Place de L’Etoileem francês).

capítulo 2 • 38
Place de L’Etoile, em Paris, França, com o Arco do Triunfo ao centro.

A esta altura, você já poderá ter concluído que os primeiros assentamentos


humanos seguiam o relevo da topografia e tendiam a ter traçados espontâneos e
irregulares, baseados nos trajetos das antigas estradas e cursos de rios. Vimos, por
meio de exemplos dos séculos XVI, XVIII e XIX, que houve diversas tentativas
de impor um traçado mais regular às estruturas urbanas, que dessem mais visibili-
dade e hierarquia às edificações de maior significado. Mas esta não é uma história
tão simples assim. Ao longo das aulas desta disciplina, veremos que esta “criação
histórica particular” teve seus momentos de expansão e retração. E que não há
necessariamente um consenso sobre a melhor forma de se construir uma cidade.

Representação da Cidade ideal (c. 1470). O quadro é atribuído tanto ao pintor italiano Piero
della Francesca quanto ao arquiteto Leon Battista Alberti.

O urbanismo reproduz o pensamento de uma sociedade em uma determinada


época. Isto vale para tanto para modelos da cidade real quanto para projetos da
cidade ideal. De maneira simplificada, poderíamos afirmar que modelo é aquilo

capítulo 2 • 39
que serve de exemplo, algo que deveria ser reproduzido. Já ideal, entre outras
acepções da palavra, é aquilo que atingiu a perfeição e que dificilmente se po-
derá alcançar na realidade. Portanto o urbanismo irá produzir modelos e ideais
diferentes de acordo com a época, o lugar e a corrente de pensamento. O quadro
Cidade Ideal (acima reproduzido) retrata a visão renascentista de ordem, simetria
e proporção, fazendo uso privilegiado da perspectiva em sua representação, mas
dificilmente corresponderia a uma visão contemporânea de cidade, como veremos
nos próximos capítulos.
Françoise Choay, autora que apresentamos no primeiro capítulo, escolheu
para seu livro O urbanismo o subtítulo: utopias e realidades. Utopia é uma palavra
formada pelo prefixo grego óuque significa “não” e a palavra grega topos ou “lugar”.
De certo modo, utopia seria um lugar que ainda não existe, exposto em projetos
visionários que muitos urbanistas utilizam a fim de demonstrar para o público sua
visão do que seria uma cidade perfeita. Cabe lembrar que a própria Choay classifi-
ca tais visões, no que se refere aos séculos XIX e XX, como progressista, culturalista
e naturalista. Enquanto o urbanismo progressista buscava um padrão racional, a
visão culturalista valorizava os aspectos originais de cada comunidade e a corrente
naturalista preconizava uma relação mais estreita entre urbanismo e natureza.

capítulo 2 • 40
©© WIKIMEDIA.ORG
O urbanismo progressista da cidade contemporânea de Le Corbusier e a visão culturalista da
Cidade Jardim de Ebenezer Howard, que analisaremos nos próximos capítulos.

Você poderá se perguntar, a esta altura, como um arquiteto e urbanista decide


optar por esta ou aquela visão de cidade. Um caminho seria avaliar os valores que
fundamentam cada proposta. Alguns modelos de cidade irão propiciar o encontro
entre as pessoas. Entre elas, algumas promoverão tanto o convívio quanto a diver-
sidade. Outros modelos darão prioridade à segurança. Assim como a arquitetura
trabalha com os conceitos de função, estrutura e forma, também no urbanismo é
preciso buscar um equilíbrio entre utilidade, viabilidade (técnica e econômica) e
beleza.
A complexidade maior do urbanismo reside, no entanto, em outro fator prin-
cipal. O cliente do projeto urbano é a população de uma comunidade, sejam
os moradores de um bairro, sejam os habitantes de toda uma cidade, com suas
diferentes visões e prioridades, seus desejos e interesses muitas vezes conflitantes.
Alguns projetos podem parecer atraentes no primeiro caso, mas tornarem-se ina-
dequados para contextos mais complexos.
Veja o exemplo da comunidade de Seaside, na Flórida, Estados Unidos.
Construída a partir dos princípios do novo urbanismo norte-americano, que vere-
mos no capítulo 5. Ela foi concebida como uma cidade modelo, a ponto de se tor-
nar cenário do filme O show de Truman (1998, direção de Peter Weir), em que o
protagonista de um reality show nasce e vive em uma cidade supostamente perfeita
sem nunca ter conhecido o mundo real. Embora Seaside tenha atraído uma classe

capítulo 2 • 41
média afluente norte-americana, dificilmente este modelo seria adequadamente
implantado em contextos sociais e culturais diferentes.
Por fim, é importante ressaltar que o urbanismo é, ao mesmo tempo, um vasto
campo de conhecimento e uma prática em constante evolução.

Vista e masterplan de Seaside, comunidade idealizada e retratada em O show de Truman.

ATENÇÃO
Uma boa estratégia utilizada pelos arquitetos e urbanistas para analisar o traçado de
uma cidade é conhecida como Mapa Nolli ou Mapa de Nolli.GianbattistaNolli produziu um
mapa de Roma (Pianta Grande di Roma) em 1748, em que enfatizava a relação entre cheios
e vazios. Esta técnica tem sido muito utilizada pelos urbanistas mais recentes a fim de de-
monstrar as características da estrutura urbana da cidade tradicional.

capítulo 2 • 42
Veja o Mapa Nolli da região da Praça Navona em Roma.

Antiguidade e os modelos de cidades de Grécia e Roma


©© NZEEMIN | WIKIMEDIA.ORG

Mapa do Mar Mediterrâneo.

capítulo 2 • 43
O Mar Mediterrâneo recebeu este nome, que significa “entre as terras”, exa-
tamente porque está localizado entre Europa, Ásia e África. Estes eram, afinal,
os três continentes habitados conhecidos na Antiguidade de um ponto de vista
eurocêntrico. Nesse sentido, “mediterrâneo” poderia ser interpretado simbolica-
mente como o mar que estava no centro da Terra. Repare que, em suas margens,
podemos localizar: Egito (no norte da África); Israel, Palestina e Turquia (no oeste
da Ásia); Grécia e Itália (no sul da Europa). Por isso mesmo, alguns autores irão
relacionar o Mar Mediterrâneo como o berço da civilização ocidental.

O modelo de cidade da Grécia Antiga

A Grécia Antiga era formada por um conjunto de cidades que tinham auto-
nomia política, mas que desfrutavam de uma cultura comum: Atenas, Esparta,
Tebas, Corinto, Rodes, entre outras. Seria impreciso delimitar o início de sua for-
mação, mas poderíamos afirmar que esse sistema vigorou nos mil anos anteriores
ao domínio do Império Romano.

CURIOSIDADE
O termo “grego” tem origem latina. No idioma grego, o país que hoje conhecemos por
Grécia é denominado Hélade ou República Helênica. Helenismo, por sua vez, significa a
expansão e difusão da cultura helênica (ou grega) no mundo ocidental.

Por sua autonomia política e militar, cada cidade da Grécia Antiga era con-
siderada uma cidade-Estado. Para este modelo de organização deu-se o nome de
polis. Repare que esta é a mesma palavra de origem grega que dará origem ao
termo política. Nesse sentido, a cidade é o espaço da cidadania e da política.
Leonardo Benévolo (BENEVOLO, 2015, pp. 75-76) comenta a relação entre
cidade, sociedade e cultura, quando se refere a um ambiente propício à formação de
“uma nova cultura, que ainda hoje permanece base da nossa tradição intelectual”:

capítulo 2 • 44
É necessário recordar sucintamente a organização da pólis, a cidade-Estado, que tor-
nou possíveis os extraordinários resultados da literatura, da ciência e da arte. A origem
é uma colina, onde se refugiam os habitantes do campo para defender-se dos inimi-
gos; mais tarde, o povoado se estende pela planície vizinha, e geralmente é fortificado
por um cinturão de muros. Distingue-se então a cidade alta (a acrópole, onde ficam os
templos dos deuses) (...) e a cidade baixa (a astu, onde se desenvolvem os comércios
e as relações civis. (Leonardo Benévolo)

©© WIKIMEDIA.ORG
Simulação da Acrópole de Atenas na pintura de Leo von Klenze (1846), acervo da Neue
Pinakothek de Munique, Alemanha.

A partir desta descrição, poderíamos identificar três áreas distintas na cida-


de grega:

PÓLIS OU CIDADE-ESTADO
Área sagrada Área pública Área privada

Acrópole Ágora Astu

Cidade alta Cidade baixa

Templos dos deuses e úl- Assembleia dos cidadãos


Habitação
timo refúgio e praça do mercado

capítulo 2 • 45
©© SINGINGLEMON | WIKIMEDIA.ORG

Planta baixa da antiga Atenas, com destaque para a Acrópole (centro) e para a Ágora
(esquerda).

Atenas, capital da Grécia até a atualidade, guardava estas características de


modo bem evidente, além de demonstrar as condições ideais para a implantação
das primeiras cidades. Localizada a poucos quilômetros da costa, tinha no monte
da Acrópole seu último reduto de segurança contra invasores. Atenas destoava
do modelo de cidade grega apenas pela população considerada excessiva para os
padrões gregos. Ela atingiu os 40.000 habitantes no século IV a.C. A população
ideal a ser considerada era de 10.000 habitantes, que tinha sua origem em uma
opção política e militar. Permitia o exercício pleno da cidadania e era considerado
suficiente para reunir uma força armada para a defesa da população.
A estrutura viária da antiga Atenas seguia um meio termo bastante interessante
entre uma ocupação espontânea e um traçado regular. Por um lado, pode-se dizer
que as ruas e construções acompanhavam parcialmente o relevo. Mas, se analisar-
mos a hierarquia entre os espaços ou edificações, principais e secundários, veremos

capítulo 2 • 46
que havia uma tentativa de ordenamento, orientação e articulação entre logra-
douro e edifício, ainda que não tão rígido. Afinal, as grandes construções eram
retangulares, fruto de um sistema estrutural relativamente simples. Este contraste
terminava por permitir que os edifícios ganhassem destaque na paisagem, pois
dificilmente eram vistos por um ângulo reto. Invariavelmente, a vista alcançava
mais de uma fachada, criando, por meio da perspectiva, um efeito tridimensional.
Poderíamos, ainda segundo Benévolo, estabelecer quatro princípios básicos
das cidadesda Grécia Antiga:
• Unidade;
• Articulação;
• Limite de crescimento;
• Natureza.

UNIDADE

NATUREZA ARTICULAÇÃO

LIMITE DE
CRESCIMENTO

Os espaços e edifícios públicos tinham muito mais relevância do que os am-


bientes privados. A vida de Atenas acontecia a céu aberto. As casas variavam
menos na estrutura do que no tamanho. Havia pouca ou nenhuma distinção en-
tre bairros mais ricos ou pobres. Enquanto a vida privada tinha pouco interesse,
a cidade promovia a reunião dos seus cidadãos. Até hoje essa característica se vê
refletida na utilização dos termos “agregar” e “congregar”.

capítulo 2 • 47
©© A. SAVIN | WIKIMEDIA.ORG

Vista atual da Acrópole de Atenas.

À medida que o mundo helênico foi-se expandindo, a cidade grega evoluiu


para um modelo mais regular, sem perder, no entanto, as suas quatro característi-
cas principais. Na costa da atual Turquia, surgiu a cidade de Mileto. Hipódamo
de Mileto é considerado, por alguns autores, o inventor do traçado urbanístico
regular. No entanto, como já vimos anteriormente, o traçado regular das cidades
já existia alguns séculos antes do nascimento de Hipódamo, no século V a.C. De
todo modo, ele poderia ser considerado um precursor do planejador urbano.
Em Mileto, os quarteirões eram regulares e uniformes, com dimensões de
cerca de 30m x 50m. A cidade era composta por mais de uma área religiosa, mais
de uma área civil e comercial, além de ter três áreas residenciais. Não havia área
sagrada tão destacada como a acrópole. Já a ágora subdividia-se com “praças” ao
norte, sul e oeste. As vias principais ligavam as edificações mais relevantes por
fachadas laterais, muitas vezes, gerando uma série de visadas surpreendentes no
percurso. Mas cabe notar que toda esta regularidade não se descontextualizava. Ela
ainda se adequava aos condicionantes naturais, que terminavam por definir a for-
ma final da cidade. Era precisamente o contraste entre as características geográficas
irregulares e a ortogonalidade de ruas e edifícios que criava a unicidade de Mileto.

capítulo 2 • 48
Planta baixa de Mileto.

A espacialidade e a abertura da ágora grega, que permitia a livre circulação de


pessoas e ideias, podem nos revelar a importância de criarmos espaços públicos
de acesso livre se quisermos desenvolver cidades mais democráticas. Por sua vez, a
democracia, como modelo político, e a cidade democrática com espaços públicos
de qualidade, como modelo espacial, permitirão o surgimento da cidadania e da
civilidade. Uma cidade de espaços democráticos cria o cenário propício para a
liberdade de expressão e manifestação, que nos permitirá chegar ao conhecimento
mais sofisticado a que damos o nome de filosofia, outra herança que devemos aos
antigos gregos.
Tampouco é por acaso que a edificação que abriga atualmente os grandes
tribunais de justiça de nossas cidades chama-se fórum. A palavra vem do latim, a
língua falada na Roma Antiga. Na verdade, o fórum romano não era um edifício,
mas o espaço urbano de maior importância das cidades romanas, onde aconteciam
os debates públicos e as eleições, como acontecia na ágora grega, mas também as
soluções e o julgamento de conflitos e delitos. O fórum reunia o principal centro
comercial e as construções públicas mais relevantes.
Portanto, a ágora grega está vinculada à ideia de democracia, assim como
o fórum romano está associado ao espaço em que o cidadão exerce seu direito.

capítulo 2 • 49
O modelo de cidade do Império Romano
©© ANDREI NACU | WIKIMEDIA.ORG

Mapa da extensão do Império Romano.

A partir da consolidação do Império Romano, o Mar Mediterrâneo passa


a ser chamado, em latim, de Mare Nostrum, ou seja, Nosso Mar. Afinal, grande
parte das conquistas do Império acontece em torno de suas águas. Os romanos
herdam a cultura helênica e a transformam em um sistema cultural de domina-
ção, além de lhe terem acrescido diferentes elementos.
A expansão do Império Romano contou com o desenvolvimento de técnicas
construtivas muito sofisticadas aplicadas a estradas, pontes, aquedutos e fortifi-
cações. Houve também grande investimento na fundação de cidades novas nos

capítulo 2 • 50
territórios ocupados. O modelo da cidade romana foi sendo desenvolvido, natu-
ralmente, a partir da capital, Roma, que chegou a reunir um milhão de habitantes.
É precisamente do termo urbe (cidade em latim) que teremos a expressão urba-
nismo, o estudo das cidades. Deve-se, ainda, a esta rede viária e ao conjunto de
cidades construídas ou expandidas a partir do modelo central, a máxima: “todos
os caminhos levam a Roma”.

Modelo de simulação de uma vista aérea da Antiga Roma.

capítulo 2 • 51
©© WIKIMEDIA.ORG

Mapa da Roma republicana, com destaque para os montes (mons), colinas (collis) e fóruns.

A cidade romana poderia ser dividida em três áreas: cívica, pública e privada.
As colinas e montes de Roma eram reservados à área cívica, com os edifícios pú-
blicos de maior importância política, por sua visibilidade e simbolismo de poder.
O fórum era a grande área pública, o espaço urbano de maior centralidade das
cidades romanas, destinado, ao mesmo tempo, aos mercados e aos tribunais. Ali
aconteciam as grandes feiras e festas, mas também os debates políticos e os julga-
mentos dos cidadãos que houvessem cometidos crimes ou delitos. Deriva-se desta
função, portanto, a denominação contemporânea da edificação que abriga hoje o
tribunal central em diversas cidades. Deste modo, o fórum reunia, em seu entor-
no, o principal centro comercial e as construções públicas mais relevantes. A partir
dali, nascia um circuito que percorria diferentes prédios de caráter público com
diferentes funções: circos, teatros, arenas, banhos púbicos, entre outros.
Nas áreas privadas, as construções encontradas eram de dois tipos. O domus
era a habitação unifamiliar, de um único proprietário e sua família. Note que

capítulo 2 • 52
este termo gerou a expressão atual domicílio. Já os edifícios que abrigavam diver-
sas famílias eram chamados insulae, precursores dos apartamentos de hoje, pois
contavam com alguns pavimentos. As insulae eram habitadas pelas populações
mais pobres.

URBE
Área cívica Área pública Área privada

Colinas ou montes Fórum Habitação

Edifícios de poder político Tribunal e mercado Domus e Insulae

A ocupação do território pelo Império Romano vai-se dar segundo eixos prin-
cipias denominados cardo maximus e decumanus maximus. Eles delimitavam zonas
cadastrais que formavam uma quadrícula de terras cultivadas. O cruzamento des-
tes dois eixos ortogonais tornava-se, assim, um importante entroncamento viário.
Nada mais natural, então, que novas cidades surgissem nestes cruzamentos e fos-
sem estruturadas a partir destes dois eixos.
No modelo de cidade romana ideal, o cardo seria traçado na direção norte-sul
e o decumanus iria de leste a oeste. No encontro dos dois estaria localizado o fórum.

Esquema de cidade romana tradicional. Neste caso, Barcelona, Espanha.

capítulo 2 • 53
Já vimos que os romanos herdaram e divulgaram a cultura grega, assim como
analisamos anteriormente o traçado de Mileto, segundo desenho de Hipódamo.
Segundo Leonardo Benévolo, “as cidades romanas traçadas com um desenho re-
gular” (...) poderiam ser consideradas “um prosseguimento, simplificado e padro-
nizado, da prática hipodâmica difundida no mundo helenístico” (BENEVOLO,
2015, p. 197).

Legados da Antiguidade

Ao estudarmos a maneira que as cidades antigas se desenvolveram segundo


o modelo da Grécia Antiga e do Império Romano, podemos perceber diferentes
tipos de legado para o estudo das cidades atuais.
Vimos que o próprio termo urbanismo advém da palavra latina para cidade
(urbe). De modo similar, o termo grego para cidade (pólis) gerou as palavras:
política e metrópole. Da pólis e da urbe, herdamos espaços públicos ligados às
noções de democracia (ágora) e do direito (fórum) respectivamente. Alguns equi-
pamentos das cidades antigas ganharam novas tipologias no mundo atual, como
os teatros, os circos, os estádios e as arenas, além dos banhos públicos conhecidos
como termas. Outras construções mudaram de uso ou foram mantidas como po-
los de interesse por seu valor histórico, como os aquedutos.

©© THAD ROAN | WIKIMEDIA.ORG


©© CAROLE RADDATO | WIKIMEDIA.ORG

À esquerda, a ponte sobre o rio Gard, construída pelos romanos no sul da França atual com
a dupla função de estrada e aqueduto. À direita, os Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, cuja
forma inspira-se nos aquedutos romanos, eram responsáveis pela transmissão da água das
montanhas para o centro do Rio e hoje são utilizados como passagem de bondes e atração
turística.

O traçado regular ortogonal também é outra herança que podemos perceber


nas cidades contemporâneas.

capítulo 2 • 54
A cidade romana ideal segundo o tratado de Vitrúvio (à esquerda) (BENEVOLO, 2015,
p.200) e um exemplo real, a cidade de Como, no norte da Itália (à direita) como exemplo que
pode ser visitado hoje (Google Earth).

Cidades medievais

A Idade Média recebeu esta denominação a partir de uma divisão histórica


convencional e eurocêntrica que a determinou como o período intermediário en-
tre a Antiguidade e a Idade Moderna. Alguns historiadores definem como seus
marcos históricos, de início e fim respectivamente: a Queda do Império Romano
do Ocidente, no século V (AD 476), e a Queda do Império Romano do Oriente
no século XV (1453). Nestes mil anos, houve inicialmente um processo de retra-
ção do fenômeno urbano. Posteriormente e concomitantemente com mudanças
estruturais, foi sendo observado um novo crescimento das cidades europeias.
A decadência do Império Romano do Ocidente significou o enfraquecimento
de um poder central. Somada à profusão de invasões bárbaras, esta descentrali-
zação do poder ocasionou a dispersão dos habitantes pelos campos, por proprie-
dades denominadas feudos. O sistema socioeconômico derivado desta estrutura
chamava-se feudalismo, em que, grosso modo, o proprietário da terra ou senhor
feudal oferecia abrigo e proteção militar aos produtores da terra -nesta relação
chamados vassalos - em troca da produção. Formaram-se, então, aldeias rurais em
colinas (muradas) e confluência de rios.

capítulo 2 • 55
Arles, sul da França atual.

Em contrapartida, houve o desenvolvimento de burgos, cidades-estado e


cidades novas. Estas cidades reuniam artesãos, mercadores e corporações (bur-
gueses); o clero e parte da nobreza. Elas gozavam de autonomia administrativa
e cobravam taxas para obras públicas. Criou-se, no decorrer da Idade Média, uma
divisão de centralidade entre o poder religioso (inicialmente o mais forte), o po-
der civil (que ganha força paulatinamente) e o poder das corporações (a partir da
expansão comercial entre os burgos, cidades e “países”).
A cidade medieval tinha três características principais (Benevolo, 2015):
•  Continuidade dos percursos principais ao longo de toda a cidade;
•  Complexidade da trama viária secundária e das formas edificadas;
•  Concentração da população e edificações, em geral, intramuros.

capítulo 2 • 56
Estrutura básica de uma cidade medieval – Lübeck.

Invariavelmente, a ocupação acompanhava a topografia. A cidade era formada


por uma rede irregular de ruas com gradação entre vias principais e vias secun-
dárias. As vias principais configuravam um circuito de praças e largos onde esta-
vam localizadas as áreas cívicas, as sedes do governo civil e das corporações, além,
principalmente, das áreas sagradas com grandes catedrais ou templos das ordens
religiosas. O conjunto das habitações formava um todo denso e complexo, que
emoldurava as vias, as praças e os largos, além de servir de contraponto aos palá-
cios e demais edificações de destaque.

BURGO OU CIDADE-ESTADO
Área cívica e religiosa Área pública Área privada

Catedral e ordens religiosas Rede viária


Palácios
Sede do governo civil Praças, largos e “campos”
Habitação comum
Sede das corporações Praça do mercado

capítulo 2 • 57
Veja a seguir o exemplo da famosa Siena, cidade italiana da região da Toscana:

Vista aérea de Siena em que se podem observar as três características bases da cidade me-
dieval – continuidade, complexidade e concentração – assim como a manifestação espacial
do poder religioso (esquerda), do poder civil (centro) e do poder das corporações (embaixo à
direita). A continuidade interna da estruturação urbana de Siena também se estende na sua
relação com o território rural criando uma rede de comunicação regional. Fonte: Google Earth
©© DLANGLOIS | WIKIMEDIA.ORG

Vista panorâmica da cidade de San Geminiano, Itália.

capítulo 2 • 58
O centro da cidade é o local mais procurado: as classes mais abastadas moram no
centro, os mais pobres na periferia; no centro se constroem algumas estruturas muito
altas – a torre do palácio municipal, e o campanário ou os zimbórios da catedral – “o
arranha-céu de Deus dominava a paisagem” (Le Corbusier) - que assinalam o ponto
culminante do perfil da cidade e unificam o seu cenário também na terceira dimensão.
(BENEVOLO, 2015, pp. 269-270)

Os espaços urbanos do Renascimento e do Barroco

Em termos históricos ou, mais precisamente, do ponto de vista da história da


arte, o Renascimento e o Barroco são delimitados, grosso modo, do século XIV
ao século XVI e do século XVII ao século XVII, respectivamente. De todo modo,
estes são limites de referência.
O Renascimento recebeu este nome por diferentes motivos. Entre eles está,
ainda que indiretamente, o florescimento de uma nova vida urbana em toda a
Europa, inspirado pelos chamados grandes descobrimentos e a intensificação do
comércio internacional. A arquitetura ganhou destaque renovado como uma
união entre arte, ciência e técnica. Ao contrário de boa parte da produção arqui-
tetônica medieval, que se caracterizava como obra coletiva sem autoria específica,
as grandes obras passaram a ter um autor reconhecido pela sociedade. Arquitetos
e construtores valorizavam sobremaneira a razão e a proporção em arquitetura.
O desenvolvimento da perspectiva teve grande impacto, tanto na maneira de se
conceberem as novas edificações, como na sua implantação em meio ao tecido
urbano. A relação entre edifício e espaço urbano, percurso e perspectiva terão uma
inserção dramática no interior da cidade medieval, com a inserção de ruas retilí-
neas e novos edifícios regulares.
O período seguinte, conhecido por Barroco, potencializou a monumenta-
lidade e a teatralidade dos espaços urbanos. O intuito era prolongar o controle
da paisagem construída, de forma simétrica e regular até a linha do horizonte. Os
percursos do observador seriam cada vez mais preestabelecidos e a percepção das
edificações se dava do relevo volumétrico à riqueza dos acabamentos.
Do ponto de vista do urbanismo, ambos representaram, cada um em seu pe-
ríodo de maior importância, nesta ou naquela região da Europa – com conse-
quências para todas as colônias que os europeus passaram a conquistar a partir
do século XVI – a uma tentativa de ordenar o emaranhado tecido original da
cidade medieval.

capítulo 2 • 59
Na cidade de Florença, pode-se notar a herança do período em que a arquitetura do Re-
nascimento tenta abrir espaço em meio ao tecido da cidade medieval. Fonte: Google Earth.
©© STEVE HERVEY | WIKIMEDIA.ORG

Vista de Florença, com as torres do Duomo, ou Igreja de Santa Maria del Fiore (direita) e do
Palazzo dela Signoria (esquerda), representando o poder religioso e o poder civil respectiva-
mente. Foto: Steve Hersey.

capítulo 2 • 60
No Renascimento, a arte desenvolveu a perspectiva. A arquitetura iria privile-
giar os conceitos da razão e da proporção. No urbanismo, isso significava abrir vias
retilíneas que criassem eixos e perspectivas para o observador em meio à trama da
cidade existente, além de edificações mais regulares.

O tecido humilde e emaranhado é cortado sem hesitações para dar lugar a novas ruas
retilíneas e novos edifícios regulares (... avalia-se o contraste entre a cidade medieval
e acidade moderna, mas destrói-se o tecido medieval, sobrepondo os novos traçados
regulares aos antigos irregulares). (BENEVOLO, 2015, p. 446)

Mapa Nolli da Roma Barroca, com eixos estruturantes partindo da Praça do Povo (Piazza Del
Popolo). Fonte: <https://br.pinterest.com/pin/520095456941914438/>

No período do Barroco, estas características são levadas à mais alta potência, a


partir de intervenções completas, visadas controladas, perspectivas monumentais,
racionais e simétricas, que praticamente ignoram qualquer contexto inicial.

capítulo 2 • 61
A atual configuração do Vaticano é fruto de intervenções superpostas que vão da Idade Mé-
dia ao Barroco. Fonte: Google Earth.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENEVOLO, Leonardo. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 2015.
CHOAY, Françoise. O urbanismo. São Paulo: Perspectiva, 1979.
Google earth. Disponível em: <http://www.earth.google.com>.
IPHAN. Carta de Atenas de novembro de 1933, Assembleia CIAM. Disponível em: <http://www.iphan.
gov.br>.
ZEVI, Bruno. Saber ver a arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

capítulo 2 • 62
3
A cidade moderna
A cidade moderna
O termo moderno traz consigo uma ambiguidade permanente. A palavra em
si remete simplesmente à atualidade, àquilo que acontece hoje. Entretanto, o adje-
tivo moderno já foi utilizado em diferentes momentos da História para qualificar
um movimento ou acontecimento que indicasse algo radicalmente novo e voltado
para o futuro. E como, necessariamente, tudo o que é novo, oportunamente, dei-
xa de sê-lo, o termo logo tornou-se anacrônico. A Idade Moderna, por exemplo,
teve início com a Queda de Constantinopla, em 1453. Mas teve seu término em
1789, com a Revolução Francesa, que deu início à Idade Contemporânea. A cida-
de europeia barroca foi considerada moderna em oposição à estrutura da cidade
medieval. E assim por diante.
Moderno tambémnos remete à ideia de moda, um estilo aceito em uma
determinada época ou um resultado comum em um certo conjunto de dados.
Além disso, refere-se, ainda, “às manifestações artísticas e literárias do século XX”
(FERREIRA, 1986,p. 1.147). Portanto, cidade moderna poderia significar o mo-
delo de cidade mais aceito durante o século XX.
Neste capítulo, analisaremos a origem e a evolução da cidade moderna.
Partiremos das transformações das cidades da Europa a partir da Revolução
Industrial do século XVIII e das inovações implantadas nas capitais do continen-
te no século XIX, para chegarmos às propostas do Movimento Moderno para o
urbanismo.
Entende-se por Movimento Moderno o conjunto de ideias que dominaram
a arquitetura e o urbanismo do século XX. Tais ideias foram divulgadas intensa
e extensivamente pelo planeta por meio de manifestos, congressos e exposições,
mas principalmente, pelos textos, projetos e obras do franco-suíço Le Corbusier
(nascido Charles-Edouard Jeanneret, 1887-1965).
Os arquitetos e urbanistas deste movimento trabalhavam invariavelmente o
tema do espaço e da construção desde a habitação até a escala urbana. Para Le
Corbusier, por exemplo, era urgente trabalhar “uma escala nova e maior no ur-
banismo”. A cidade moderna que ele propõe é a cidade da “liberdade do mo-
vimento contínuo”, “intimamente relacionada à concepção de espaço-tempo”
(NUNES-FERREIRA, 2014, p. 22)

capítulo 3 • 64
CURIOSIDADE
A origem da palavra moderno está em dois termos do latim: modus e hodiernus.
Modus: “modo”, maneira.
Hodiernus: “hodierno” tem origem em hodie, “hoje”.
Moderno seria “dos nossos dias, recente, atual, hodierno”. *
Em uma interpretação mais livre, poderíamos incluir, nesta composição, a palavra moda,
que, por sua vez, remete a dois significados:
1. “Uso, hábito ou estilo geralmente aceito”.**
2. Na matemática, “o valor que ocorre com maior frequência num conjunto de dados,
isto é, o valor mais comum”.***
Os dois significados remetem, portanto, à ideia de um valor ou modelo que está sendo
muito utilizado no tempo presente.
*Fonte: Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, (CUNHA, 2000,
p. 526)
** Fonte: Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, (FERREIRA,1986, p. 1.146)
***Fonte: Wikipedia

OBJETIVOS
•  Analisar as transformações das cidades do século XIX e XX;
•  Identificar os precursores da cidade moderna;
•  Estudar os casos emblemáticos de Paris e Barcelona;
•  Analisar o pensamento urbanístico de Le Corbusier e suas consequências para o urbanis-
mo do século XX.

Precursores da cidade moderna

A cidade europeia da segunda metade do século XIX e do início do século


XX, inchada pela afluência da mão de obra necessária para o desenvolvimento da
indústria, era considerada inadequada e obsoleta por diferentes autores, autori-
dades e profissionais. Destacamos, neste capítulo, aqueles exemplos que inspira-
ram os arquitetos e urbanistas das gerações subsequentes. Boa parte dos estudos e

capítulo 3 • 65
propostas do período foram dedicados a repensar o fenômeno urbano do ponto
de vista de uma equação entre os benefícios do crescimento, da indústria e das
máquinas e o resgate da saúde e do bem-estar da população das grandes cidades.
Afinal, “a densidade das cidades industriais havia se tornado desumana e a am-
bição do empreendedor podia agir livre das restrições legais de hoje” (KOSTOF,
1991, p. 76).

Cidade Linear, 1894: Arturo Soria y Mata

Vista aérea da proposta de Cidade Linear de Artur Soria y Mata

Arturo Soria y Mata foi um pensador espanhol que, como os demais autores
estudados neste capítulo, refletiu sobre a sociedade de seu tempo e, além de fazer
críticas ao sistema vigente, optou em propor o modelo de uma “nova arquitetura
das cidades”, como ele mesmo definiu seu projeto.
A proposta da Cidade Linear idealizada por Arturo Soria é, certamente, a
concepção mais simples entre aquelas apresentadas neste momento de construção
do urbanismo como campo de conhecimento teórico e prático.
Na teoria, a proposta visava:
•  a diminuição da mortalidade;
•  a eficácia da locomoção;
•  a regularização da propriedade territorial;

capítulo 3 • 66
•  a barateamento das mercadorias e serviços;
•  o embelezamento da vida urbana.

Em termos práticos, o projeto da Cidade Linear podia ser resumido em algu-


mas poucas linhas descritivas:

Corte esquemático da Cidade Linear.

Uma rua única ou principal de 40 metros de largura com via férrea dupla em seu
centro; ruas secundárias transversais perpendiculares aos trilhos, que circunscrevem
quadras de 40 a 60.000 metros quadrados de superfícies, e dentro delas, casas com-
pletamente isoladas e separadas umas das outras por uma massa de vegetação, des-
tinada aos ricos, na fachada paralela à via, às fortunas modestas, nas fachadas das vias
transversais; às demais classes da sociedade, na parte mais distante da via; ficando
reservados os grandes espaços centrais a todos os edifícios de caráter coletivo, fábri-
cas, armazéns, mercados, quartéis, igrejas, teatros, instituições de caridade, museus,
colégios etc. (SORIA, 2004, p.86)

Estes itens refletiam os grandes temas abordados pelos urbanistas deste perío-
do: saúde, mobilidade e distribuição social da propriedade, além do embeleza-
mento das cidades.
Ao iniciar a justificativa sobre o seu projeto, Arturo Soriay Mata explicou
que sua motivação principal foi a morte de um filho para a difteria. O arquiteto
atribuiu esta morte “à facilidade com que, nas grandes cidades, se propagam (...)
tantas enfermidades” (SORIA, 2004, p.9). O remédio para esta doença invariavel-
mente passava por uma estrutura urbana que privilegiasse a “luz, o sol e o ar puro”.

capítulo 3 • 67
Também a mobilidade urbana era ponto central das propostas. A cidade mo-
derna exigia velocidade. Neste caso, o urbanista espanhol privilegiou o trans-
porte sobre trilhos. Ao reunir estes dois aspectos, salubridade e movimento, Soria
definiu que “a forma mais perfeita das cidades modernas” (SORIA, 2004, p.3) (...)
“deve ser a de uma linha férrea ou bonde com casas isoladas entre si (‘com árvores,
plantas e flores’) de um lado e de outro dos trilhos” (SORIA, 2004, p.16).
O terceiro ponto que iria permear os projetos de cidades modernas, ou aqueles
que lhe seriam precursores, seria a ideia de que o interesse público deveria estar
acima do interesse privado. Por outro lado, o interesse público precisaria manifes-
tar-se pela legislação ou pelo planejamento urbano. A cidade não deveria crescer
“por instinto, e sim como produto do cálculo e da reflexão” (SORIA, 2004, p.18).
Neste sentido, o ideal seria começar uma estrutura inteiramente nova. Arturo
Soria y Mata parte de um princípio básico: “considerar em primeiro lugar as ne-
cessidades urbanas dos cidadãos para depois definir a colocação das casas – esta
será a forma da cidade” (SORIA, 2004, p.14). Havia, ainda, uma inspiração de
caráter social, pois, na proposta de Soria, “ricos e pobres viverão juntos” (SORIA,
2004, p.18).
Pela proposta apresentada, a eficácia no transporte provocaria diretamente um
menor valor dos produtos para o consumidor final. Pois, nos trilhos, circularia um
bonde rápido de passageiros durante o dia e um trem de carga para abastecimento
de mercadorias à noite.

Planta baixa da Cidade Linear.

Por último, na proposta de Soria, como na de alguns de seus contemporâneos,


persistia a ideia de que uma cidade moderna deveria privilegiar os grandes equipa-
mentos públicos como parte de uma estratégia de embelezamento urbano.

capítulo 3 • 68
Havia, no entanto, uma peculiaridade na proposta da Cidade Linear e tam-
bém uma grande diferença. O sistema sobre trilhos tinha destaque em relação
ao caminho dos automóveis, que ocupariam vias laterais. E entre os seus pares,
Soria foi aquele que optou firmemente pela horizontalidade, com casas de dois
ou três andares, “em vez de seguir o absurdo caminho da vertical, que conduz ao
delirium tremens dos edifícios de vinte e quatro pavimentos de Londres e Nova
York”(SORIA, 2004, p.16).
Em 16 de julho de 1894, são inauguradas as obras da Cidade Linear de Madri
com a colocação da pedra fundamental da primeira casa. Hoje ela subsiste na for-
ma de um bairro periférico denominado Ciudad Lineal.

Cidade Jardim, 1898-1902: Ebenezer Howard

©© WIKIMEDIA.ORG

Desenho conceito da Cidade Jardim elaborado por Ebenezer Howard.

capítulo 3 • 69
A base teórica da proposta de Cidade Jardim apresentada por Ebenezer
Howard, um ativista do movimento socialista inglês, consistiu em conciliar os
benefícios da vida no campo e as vantagens da vida na cidade. Howard utilizou-se,
para isso, da imagem de dois imãs com as características de cada modo de vida:
o imã cidade e o imã campo. A Cidade Jardim teria como inspiração um terceiro
imã: o imã cidade-campo.
A proposta de Howard consistia em uma estratégia combinada de gestão co-
munitária da propriedade e ocupação do território. Uma companhia começaria
por adquirir um terreno rural que pudesse abrigar uma comunidade de cerca de
30.000 habitantes. Para que todos tivessem fácil acesso à “beleza natural” dos
“campos e parques”, a população deveria ser mantida neste patamar. A pequena
cidade ali criada teria seu próprio comércio e indústria, além de ser circundada
por sítios e fazendas.
A Cidade Jardim distinguia-se dos subúrbios das grandes cidades exatamente
por seu grau de autonomia e “oportunidades sociais”: empregos com “salários
altos” gerados ali mesmo para seus habitantes, equipamentos culturais próprios
em que haveria “muito a fazer”, sedes administrativas e serviços completos com
“preços baixos”. O cinturão verde seria a maior garantia da preservação dos limi-
tes daquela comunidade, além de fornecer alimentos e “água e ar puros” para os
seus moradores.
Os primeiros exemplos deste modelo foram Letchworth e Welwyn, ambos
na Inglaterra. O projeto também inspirou o programa New Town, que surgiria
naquele país depois da Segunda Guerra Mundial. Mas a popularidade do modelo
como princípio de planejamento ganhou o mundo. Fundamentou estratégias de
descentralização da população de Paris, na França, nos anos 1920. Foi assimila-
do parcialmente em algumas comunidades nas proximidades de Nova York, nas
primeiras décadas do século XX. Em São Paulo, Brasil, a Companhia City foi
fundada em 1912 e aplicou alguns atributos formais resultantes do modelo em
diversos bairros de classe média alta da capital paulista, como Jardim América,
Jardim Europa e, naturalmente, Cidade Jardim, entre outros.

capítulo 3 • 70
IMÃ CIDADE IMÃ CAMPO IMÃ CIDADE-CAMPO
Afastamento da
Beleza natural Beleza natural
Natureza

Oportunidades
Pouca vida social Oportunidades Sociais
Sociais

Bosques, campinas, Campos e parques de fá-


florestas cil acesso

Aluguéis altos Aluguéis baixos Aluguéis baixos

capítulo 3
Salários altos Salários baixos Salários altos

Taxas baixas

• 71
Locais de
Falta de entretenimento Muito a fazer
entretenimento

Preços altos Preços baixos

Oportunidades de Jornada excessiva de


Jornadas longas Nenhuma exploração
emprego trabalho

Exército de
Desemprego
desempregados
IMÃ CIDADE IMÃ CAMPO IMÃ CIDADE-CAMPO
Distância do trabalho Terra ociosa Espaço para empreender

Fluxo de capital

Ar viciado e céu
Ruas bem iluminadas Ar fresco Água e ar puros
escuro

Abundância de água

Drenagem custosa Falta de drenagem Drenagem boa

Casas e jardins
Edifícios palacianos Casas superlotadas
esplendorosos

capítulo 3
Nevoeiros e seca Sol brilhante Ausência de poluição

• 72
Necessidade de
Favelas e cortiços Ausência de favelas
reforma

Aldeias desertas

Isolamento das
Barreiras e divisas Liberdade
multidões

Bares Falta de espírito público Cooperação


Os três imãs da teoria da Cidade Jardim de Ebenezer Howard.

O lugar de (Ebenezer) Howard na virada do século permanece único. Seu pensamento


não era original. Ele próprio deu crédito generosamente aos seus predecessores, cha-
mando a Cidade Jardim de “combinação única de propostas” diante do público. Mas
esta defesa singela e apaixonada de um ambiente humano idealmente equilibrado,
onde cidade e campo se encontram, que já havia sido apresentada anteriormente,
teve um apelo enorme. Seria o mais próximo que chegaríamos a um paraíso na Terra:
‘Beleza da Natureza. Oportunidade social. Campos e parques de fácil acesso. Aluguéis
baixos, altos vencimentos. Baixas taxas, muito a fazer. Preços baixos. Sem exploração...
Ar e água puros... Casas brilhantes e jardins, sem fumaça, sem favelas. Liberdade,
cooperação’. (KOSTOF, 1991, pp. 202-203)

capítulo 3 • 73
Cidade Industrial,1904 Tony Garnier

Panorama da proposta da Cidade Industrial de Tony Garnier. Acervo do Het Nieuwe Instituut
- Architecture Collection [No restrictions], via Wikimedia Commons.

No prefácio ao documento em que apresentava a Cidade Industrial, em 1917,


Tony Garnier escreveu:

Fatores determinantes para o estabelecimento de tal cidade deveriam ser a proximida-


de de matérias-primas ou a existência de uma força natural capaz de ser usada como
energia ou a conveniência dos métodos de transporte. (...)
As fábricas principais estão situadas na planície, na confluência do rio com seu afluen-
te. Uma linha-tronco de ferrovia passa entre as fábricas e a cidade, situada acima das
fábricas, num planalto. Mais acima, ficam os hospitais; estes, a exemplo da cidade,
estão protegidos dos ventos frios e têm seus terraços voltados para o sul. Cada um
desses elementos principais (fábricas, cidade, hospitais) fica isolado, de modo a tornar
possível sua expansão. (...)
A distribuição da terra, todas as coisas ligadas à distribuição de água, pão, carne, leite
e suprimentos médicos, bom como a reutilização do lixo, serão entregues ao poder
público. (FRAMPTON, 1997, p.117)

capítulo 3 • 74
Nesta descrição parcial, encontram-se os conceitos centrais que a Cidade
Industrial inaugura para o urbanismo, compartilha com modelos anteriores ou
deixa de herança para modelos futuros.
1. A inspiração era, naturalmente, a indústria e seus requisitos básicos:
matéria-prima, energia e transporte;
2. O modo de ocupação do território era o zoneamento. Meios de produ-
ção, civilização e saúde, cada um isolado em seu setor específico. Fábricas
na planície (trabalhar) e a cidade no planalto (habitar). Já os hospitais fica-
vam no topo da composição. Afinal, no processo civilizatório de formação
da cidade moderna, a higiene e a salubridade tinham papel primordial,
assim como os espaços verdes eram exaltados;
3. A gestão social e a distribuição da terra, que seriam “entregues ao po-
der público”.

Como nas demais propostas precursoras da cidade moderna, como a Cidade


Linear, de Arturo Soria y Mata, e a Cidade Jardim, de Ebenezer Howard, o au-
tor optou por criar uma nova cidade, em vez de reformar a cidade existente.
Como o próprio Tony Garnier adverte: “nossa cidade é uma fantasia sem realida-
de” (CHOAY, 2002, p. 164).
No modelo de Garnier, a população prevista seria de 35.000 habitantes. O
sistema viário seria formado por uma malha de ruas com diferentes larguras e tra-
tamentos paisagísticos (20 m com aleia dupla, 19 m com aleia única e 13 m sem
arborização). A via principal teria origem na estação de trem, correndo de leste
para oeste. As quadras teriam 150 metros no sentido leste-oeste e 30 metros no
sentido norte-sul. O lote unitário teria 15 por 15 metros, podendo ser agrupado
em diferentes formatos. Em todo caso, a taxa de ocupação do terreno deveria ser
sempre inferior a 50%. Haveria passagens entre os lotes, que seriam abertas ao pú-
blico e independentes dos traçados das ruas. Além disso, não haveria muros entre
os diferentes lotes. A cidade era vista como um grande parque.
As edificações seriam baixas, com dois pavimentos em sua maioria. As residên-
cias teriam formas bem simples, sem ornamentos, separadas entre si por quintais e
orientadas para o sul, a fim de receber a maior quantidade de luz ao longo do dia.
Todo espaço deveria ser iluminado e ventilado pelo exterior.

capítulo 3 • 75
Imagem da proposta de bairro residencial da Cidade Industrial. Acervo do Het Nieuwe Insti-
tuut - Architecture Collection [No restrictions], via Wikimedia Commons.

ATENÇÃO
A melhor orientação de uma construção irá depender da localização do terreno, em es-
pecial, sua latitude ou posição em relação à trajetória solar.
Embora o projeto de Tony Garnier seja uma idealização, ele utiliza como parâmetro a
região sudeste da França.

No centro da composição, estaria localizada a grande assembleia, um conjun-


to de salas de reunião cívica e social para 3.000 pessoas, no salão central, ladea-
do por um auditório com 1.000 lugares e, ainda, dois anfiteatros com capacida-
de para 500 pessoas. Estes espaços seriam utilizados para conferências, reuniões
de comitês e projeções de filmes. Próximo à grande assembleia, alguns edifícios

capítulo 3 • 76
concentrariam serviços administrativos como o conselho da cidade e o tribunal
de justiça, além de escritórios, consultórios, hotéis e restaurantes. Em um outro
grupo de edificações monumentais, estariam as “coleções”: museu, biblioteca, jar-
dim botânico etc. Um terceiro grupo seria destinado a esportes e espetáculos: sala
para 1.900 espectadores, anfiteatros, ginásios, casa de banhos, quadras de esporte
e pistas de corrida. O marco principal seria uma torre de relógios, que seria vista
ao longo de toda a via central.
A modernidade da cidade de Garnier estava também no material de constru-
ção previsto. As edificações utilizariam amplamente o concreto armado, enquanto
o aço seria utilizado nos grandes vãos do setor industrial. Por outro lado, o culto
ao desempenho da máquina já era um prenúncio das propostas futuras de Le
Corbusier. Na Cité Industrielle, “a estrada de ferro de longo percurso deveria ser
completamente reta, de modo a servir para trens de alta velocidade” (CHOAY,
2002, p. 169).
Segundo o crítico e historiador britânico Kenneth Frampton, o edifício de
reuniões de Garnier pretendia ser o equivalente moderno da ágora e a Cidade
Industrial “era, sobretudo, uma cidade socialista sem muros ou propriedade pri-
vada, sem igreja ou quartéis, sem delegacia de polícia ou tribunal de justiça; uma
cidade onde todas as áreas não-construídas eram parques públicos” (FRAMPTON,
1997, p.120). Já para Françoise Choay, a publicação de 1917 foi “o primeiro
manifesto do urbanismo progressista” (CHOAY, 2002, p.163). Isto se confirma
na associação entre técnica e beleza, tão cara aos modernistas, que Tony Garnier
defendia em seu texto de apresentação da Citè: “uma cidade em que todos são
conscientes de que o trabalho é a lei humana e de que há ideal bastante no culto
da beleza e da bondade para tornar a vida esplêndida” (CHOAY, 2002, p. 170).
A Cidade Industrial de Garnier não teve aplicação prática e suas ideias ficaram
registradas apenas em textos e ilustrações. No entanto, há indícios do que preten-
dia o arquiteto e urbanista francês em algumas realizações suas na cidade francesa
de Lyon, que inspirou a Citè Industrielle desde o início. O bairro residencial lionês
denominado Estados Unidos, projetado em 1924 e erguido por volta de 1935, foi
considerado uma amostra reduzida de seu pensamento urbanístico.

capítulo 3 • 77
Vista do Museu Urbano Tony Garnier, no bairro Estados Unidos, em Lyon, França.

Reforma de Paris,1853-1870: Barão Georges-Eugène Haussmann

Vista da Avenida da Ópera em Paris, exemplo do legado de Haussmann. Foto: Guilhem Vellut

capítulo 3 • 78
As propostas aqui apresentadas têm em comum a ideia de que as transforma-
ções no modo de vida e nos meios de produção haviam gerado uma necessidade de
repensar a cidade de forma estrutural. Mas enquanto a maioria dos autores tratou
de imaginar um novo modelo em uma situação ideal, seja em um terreno vazio ou
como uma expansão de cidades existentes, coube ao Barão Haussmann reformar
aquela que já era uma das grandes metrópoles do mundo: Paris.
Se considerarmos válida a metáfora da cidade doente, a reforma que o Barão
de Napoleão III empreendeu por quase duas décadas pode ser abordada como uma
grande intervenção cirúrgica. Mas o grande mérito do pensamento de Haussmann
tenha sido trabalhar simultaneamente com as diferentes escalas e significados –
que já vimos nos capítulos de abertura – daquilo que poderíamos dizer que é a
cidade.
A cidade é um sistema integrado. O alargamento das vias principais da ci-
dade combinado à criação de novos eixos em longas linhas retas propiciava a boa
ventilação e iluminação, além da melhor circulação de pessoas e mercadorias, na
superfície, enquanto, do ponto de vista da infraestrutura urbana, facilitava a im-
plantação e a melhoria de todo o sistema de águas e esgotos da cidade, o cabea-
mento de fios elétricos e toda sorte de instalações.
A cidade é uma obra de arte. As grandes vias e suas longas perspectivas abri-
ram aos olhos dos transeuntes toda a beleza dos monumentos já existentes em
Paris, além daqueles que foram construídos à época, como a Ópera. No cruza-
mento dos grandes eixos, foram localizados outros tantos pontos de interesse,
como esculturas, obeliscos, jardins e praças. Também os monumentos já existentes
foram valorizados, com a abertura de novas vias radiais, como aconteceu com o
Arco do Triunfo.
A cidade é a expressão de uma época. Tudo isso reunido representava uma
nova era de desenvolvimento da burguesia afluente, da vida urbana em espaços pú-
blicos dignificados, acompanhado de uma revolução sanitária. Paris, assim como
diversos centros urbanos densificados pela mão de obra necessária à industrializa-
ção mundo afora, havia sido acometida por diversos surtos de doenças fatais como
a cólera. Agora, a cidade renascia bela e saudável como a Capital do Século XIX.

capítulo 3 • 79
© MARK JAROSKI | WIKIMEDIA.ORG

Gráfico de abertura de vias na Reforma de Haussmann. Autor: Mark Jaroski.

Foi possível trabalhar com as diferentes dimensões urbanas, pois Haussmann


tinha objetivos bastante definidos. Ele pretendia: otimizar o tráfego de pessoas e
bens; melhorar a saúde pública e construir uma capital monumental. Entretanto,
é importante destacar que tal reforma foi financiada por uma classe dominante
ávida de poder e de reprodução e retorno do capital investido. Isso implicou na
valorização das áreas centrais da cidade com a consequente remoção da população
pobre de vários bairros. A estrutura em eixos longilíneos também permitiu a maior
vigilância do poder público contra manifestações políticas contrárias à ordem vi-
gente. Neste sentido, pode-se afirmar que, do ponto de vista social e político, a
reforma de Haussmann refletia a hegemonia da classe burguesa dominante.

capítulo 3 • 80
Imagem de Paris em 1853, antes da Reforma de Haussmann. Autor: Charles Marville.

Estes aspectos reunidos formam o que poderíamos considerar o legado de


Haussmann para o urbanismo, pois ele criou um modelo que acabou sendo re-
produzido parcial ou totalmente em cidades como Estocolmo, Cidade do México,
Chicago, Washington D.C., Nova York (parques) e Rio de Janeiro.
O modelo se baseava na ideia de estruturação axial, a partir da constatação de
que eixos são bons para o comércio e para os serviços, mas também funcionam
melhor para o deslocamento cada vez mais acelerado de pessoas. O aumento da
mobilidade urbana também permitiu a apropriação da cidade pela totalidade dos
seus habitantes. A cidade foi unificada (arquitetônica e urbanisticamente) e ra-
cionalmente estruturada. Bairros insalubres foram substituídos por vizinhanças
de valor imobiliário agregado pelas melhorias públicas. O preço a ser pago foi a
destruição de milhares de edifícios e a desagregação de comunidades seculares,
com sua remoção para as periferias.

capítulo 3 • 81
Panorama de Paris em setembro de 2014 – Foto: Myth.

Haussmann fortaleceu os eixos existentes Norte-Sul (Boulevard de


Sébastopol – Boulevard Saint-Michel) e Leste-Oeste (Rue de Rivoli – Avenue des
Champs-Élysées), que até hoje se cruzam na área entre o Palácio do Louvre e a
Catedral de Notre Dame. Além destes dois grandes eixos, rasgou o tecido urbano
original com vias retilíneas que partiam de grandes monumentos e entroncamen-
tos viários até outros pontos de interesse, formando uma espécie de trama trian-
gular. Por último, a proposta incluiu a utilização dos rastros dos antigos muros da
Paris medieval, que foram transformados em bulevares arborizados concêntri-
cos em relação ao coração da cidade na Île de la Cité. Será a superposição destas
três estratégias de projeto que irá gerar a configuração final do projeto e o aspecto
geral da cidade, que permanecem praticamente intactos.
Os aspectos técnicos do Plano Haussmann dão visibilidade a conceitos urba-
nísticos que se propagaram até os dias de hoje e que se veem refletir em propostas
mais recentes. Neste aspecto, o urbanismo aproximou-se das ciências humanas
aplicadas. Afinal a Paris reformada era a expressão tangível de uma sociedade (bur-
guesa) e de um sistema de pensamento (iluminista) que acreditava que a liberdade
advinha da ordem e da técnica. Neste sentido, a cidade tornou-se motivo de or-
gulho cívico – de seus habitantes e de toda uma nação – e também o símbolo das
vantagens (e subprodutos) da ideologia predominante.

capítulo 3 • 82
CURIOSIDADE
Você sabia que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro teve seu projeto inspirado na
Ópera de Paris? Compare.
©© HAAKON S. KROHN | WIKIMEDIA.ORG

Fachada principal do Theatro Municipal no Rio de Janeiro, que foi inaugurado em 1909.

capítulo 3 • 83
Plano de Extensão de Barcelona,1859: Ildefonso Cerdá

Plano de Expansão de Barcelona.

O Plano Cerdá para Barcelona rivalizou com a reforma de Haussmann para


Paris como paradigma de projeto de urbanismo no momento em que a disciplina
ganhava a relevância de política pública. As motivações e premissas dos dois pro-
jetos convergiam para alguns pontos comuns.
O crescimento vertiginoso da população foi o primeiro. A população da
capital da Catalunha passou de pouco mais de 80.000 habitantes, em 1818, para
quase 200.000 pessoas, quando o plano foi elaborado.
Também havia ali a uma questão de saúde pública. Assim como Paris,
Barcelona era acometida com intensas epidemias de cólera, matando milhares de
pessoas a cada vez. A circulação de ar, que aproveitava a melhor direção dos
ventos, seja nas ruas, seja na ventilação cruzada em tantas edificações quanto pos-
sível, a arborização regulare a previsão de pátios nos interiores dos quarteirões são
alguns elementos que contribuem para estes aspectos sanitários. No corte esque-
mático da via padrão do plano, Cerdá preconizava um sistema de águas e esgoto,
que também se aproveitava do aspecto retilíneo das novas ruas e avenidas.

capítulo 3 • 84
Corte esquemático de uma via característica do Plano Cerdá.

O aspecto do controle de rebeliões, bastante constantes dentro dos limites


das muralhas do centro medieval, também foi um fator considerado. Mas em ter-
mos políticos, a situação central do plano para Barcelona foi além disso. Já havia
um plano vencedor de um concurso para a expansão da cidade, do catalão Antoni
Rovira. Para muitos barceloneses, o Plano Cerdá foi visto como mais uma impo-
sição da coroa espanhola ao povo da Catalunha.
Há três características parcialmente realizadas, mas amplamente divulgadas
do Eixample, como ficou conhecida a proposta de expansão de Barcelona, que é
preciso destacar:
•  Visão científica: racionalista com base predominante na quadrícula;
•  Visão de futuro: previsão de espraiamento ilimitado;
•  Visão igualitária: proximidade de classes sociais distintas.

Sobre o aspecto racionalista do plano, certamente contou a formação de


Cerdá como engenheiro civil. Mas a quadrícula ou grid é uma base recorrente
no urbanismo, desde Mileto, como vimos no capítulo anterior, até boa parte das
grandes cidades norte-americanas, como Chicago e Nova York. A grande diferença
estava na inovação de suas configurações específicas, a primeira, na escala global
do território e a outra no desenho de cada quarteirão.

capítulo 3 • 85
O sistema viário radial foi posicionado a 45 graus da trama ortogonal com
duas vias que se interceptam com um ângulo de 90 graus. Estas grandes vias foram
criadas com o objetivo de orientar o fluxo para as entradas da cidade, umano Vale
do Rio Llobregat (Avenida Paralela), ao sul, e a outra para o Vale do Rio Besos
(Avenida Meridiana), ao norte. Finalmente, uma terceira via oblíqua à quadrícula,
a Avenida Diagonal, como o nome revela, cruza a cidade de ponta a ponta. Esta
superposição de vias radiais sobre um sistema ortogonal reforça a ordem inicial,
mas permite um fluxo mais veloz de mobilidade regional por meio destas grandes
avenidas, que terminam por estender o plano até onde a topografia permitir. O
plano não se limita ao seu próprio tempo.

Esquema da esquina característica do Plano Cerdá.

Por outro lado, na escala do quarteirão padrão do projeto, que foram proje-
tados com 113 m por 113 m, as edificações de esquina receberam chanfros com
20 m de largura, que transformaram os cruzamentos em espaços públicos octogo-
nais de grande interesse, precisamente onde há uma maior quantidade de pessoas.

Tudo isso leva a pensar na possibilidade de que o octógonotenha um papel a desempenhar


a nível urbano como gerador de uma ordem superior. (...) que distribui igualmente os valores
que o plano contém em si: o igualitarismo, a racionalidade e a flexibilidade, em duplo senti-
do, de uma estrutura aberta a possíveis variações que não alteram a ideia geral. (...) São as
próprias palavras de Cerdá que melhor expressam o modelo teórico que se pode deduzir
do próprio plano: ‘Tudo o que é resultado de ações humanas deve ter sua razão de ser na
vontade deliberada do homem que a produziu’. (Creíxell e Pares, 1976, p.53)

capítulo 3 • 86
E a vontade deliberada de Cerdá privilegiou a densidade multifamiliar em
detrimento do modelo de residência unifamiliar. Aqui entra o aspecto social do
plano, no sentido de que a compactação diminuiria os custos de construção e
permitiria, a priori, uma maior proximidade entre as classes sociais dentro do ter-
ritório urbano. A padronização qualificada dos quarteirões do Eixample indicava
uma igualdade de oportunidades. É neste ponto que o Plano Cerdá se afastava da
proposta de Haussmann, pois esta implicava na gentrificação do centro histórico
de Paris.

CONCEITO
Gentri o quê?
Gen-tri-fi-ca-ção. Vem de gentry, uma expressão inglesa que designa pessoas ricas, liga-
das à nobreza. O termo surgiu nos anos 60, em Londres, quando vários gentriers migraram
para um bairro que, até então, abrigava a classe trabalhadora. Este movimento disparou o
preço imobiliário do lugar, acabando por “expulsar” os antigos mora-dores para acomodar
confortavelmente os novos donos do pedaço. O evento foi chamado de gentrification, que
numa tradução literal, poderia ser entendida como o processo de enobrecimento, aburgue-
samento ou elitização de uma área… Mas nós preferimos ficar com o aportuguesamento do
termo original.

Por último, pode-se dizer que a visão de Cerdá se aproximava, ainda que ape-
nas no campo abstrato, da tentativa de conciliar as benesses da vida no campo e as
facilidades da vida na cidade expressa pelos três imãs de Ebenezer Howard em seu
conceito de Cidade Jardim. Em sua Teoria Geral da Urbanização, um dos textos
fundadores do urbanismo, Cerdá descreveu a máxima de que se deve ter: “rurali-
zado aquilo que é urbano e urbanizado aquilo que é rural” (Rosa, 2014, p. 126).
Como uma espécie de síntese entre os urbanistas progressistas e culturalistas (Ver
capítulo 1), Cerdá combinou racionalismo e socialismo, visão sistêmica e contex-
tualização social, econômica, jurídica e demográfica, sendo, por isso, considerado,
por muitos, um dos fundadores do urbanismo.

capítulo 3 • 87
Cidade moderna: de Le Corbusier (1887-1965) aos últimos CIAM
(1928-1956)

Croqui de visão da cidade contemporânea de Le Corbusier.

Os princípios urbanísticos de Le Corbusier foram apresentados ao mundo por


meio de sua proposta detalhada para “uma cidade contemporânea de três milhões
de habitantes”. Era uma proposta alternativa à Paris de seu tempo, que estava
prestes a atingir essa marca populacional e que ele descrevia como “uma cidade
doente, muito doente”. A proposta foi batizada Ville Contemporaine (cidade con-
temporânea), foi divulgada pelo próprio autor em 1922 e reproduzida também
em seu livro Urbanismo, de 1924. Era um plano urbanístico visionário que já
defendia a ideia de criar-se uma cidade a partir do zero, em oposição a requalificar
condições preexistentes.

Os princípios ali expostos inspiraram a Carta de Atenas, conhecido documento que


consagrou a urbanística do Movimento Moderno, com base nos debates realizados por
arquitetos de vários países nos CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Mo-
derna). Foram 10 eventos intermitentes, realizados de 1928 a 1956, sempre debaten-
do questões da habitação e da cidade. A Carta de Atenas foi discutida no congresso
de 1933, mas só foi publicada em 1941. Para Le Corbusier, as cidades europeias do
pós-Primeira Guerra Mundial eram ineficazes, desordenadas e decadentes. O urba-
nismo moderno pretendia responder ao modo de vida da sociedade industrial e a uma
nova dimensão da cidade e seus desafios. (NUNES-FERREIRA,2014, p.20)

A cidade contemporânea representava uma sociedade “de base anticapita-


lista e igualitária”, cujo ideário representava “uma crítica política do desenvol-
vimento capitalista na Europa”, segundo o antropólogo nova-iorquino James
Holston, professor da Universidade da Califórnia (Holston, 1993, p. 49). Já para

capítulo 3 • 88
Kenneth Frampton, crítico britânico e professor da Universidade de Columbia, Le
Corbusier “compartilhava a fé da vanguarda soviética daquele começo do século
XX no cultivo do ‘homem novo’ que viria a transcender os limites da sociedade
burguesa” (Frampton, 2001, p.161). Nas palavras do próprio Le Corbusier, ela era
o “protótipo de uma cidade sem classes” (Le Corbusier, 2000, p. 281).
No livro Urbanismo, Le Corbusier sintetizou os princípios fundamentais do
urbanismo moderno em quatro itens (síntese que já utilizara para divulgar ao
mundo os Cinco Pontos para uma Nova Arquitetura, em 1926):
•  o descongestionamento do centro das cidades;
•  o aumento da densidade;
•  o alargamento das vias de circulação;
•  o aumento das áreas de vegetação.

A cidade moderna era planejada para facilitar a circulação dos diferentes


meios de transporte, incluindo os veículos automotivos que começavam a se
multiplicar; de espaços claramente demarcados conforme a função de cada um; e
adensada pela colocação dos habitantes em grandes edifícios públicos, comerciais
e residenciais, entremeados por extensas áreas verdes de uso coletivo.
De certo modo, a historiografia do urbanismo, durante certo tempo, atribuía
a Le Corbusier o papel de catalizador de diferentes ideias precedentes, como
aquelas apresentadas neste capítulo. De fato, ele levou às últimas consequências
as ideias de salubridade pelo contato com a natureza e mobilidade por eixos com
alta velocidade. Mas dificilmente Soria y Mata, Garnier, Howard, Haussmann e
Cerdá se identificariam com os diferentes planos desenvolvidos por Le Corbusier
(como, por exemplo, o PlanVoisin, de 1925, que botava abaixo boa parte da Paris
Haussmanniana, ou os planos para Rio de Janeiro e São Paulo de 1929). Um
pouco mais fácil, talvez, seria que esses autores compartilhassem algumas ideias
expressas no projeto da Ville Radieuse, de 1935, em que uma lâmina contínua de
habitação multifamiliar serpenteava ortogonalmente sobre uma imensa área verde.
A verdade é que, em termos de urbanismo, Le Corbusier mais inspirou do que
construiu. Seu projeto realizado de cidade foi erguido em 1952, como capital do
estado indiano do Punjabe. Chandigarh manteve alguns fundamentos do urba-
nismo moderno concebido desde a ville contemporaine, mas incorporou novos
aspectos. Além disso, suas construções já exibiam o brutalismo da produção arqui-
tetônica Corbusiana posterior à Segunda Guerra Mundial. O projeto era dividido
em unidades básicas de planejamento, que tinham 800 por 1.200 metros. Cada

capítulo 3 • 89
unidade foi projetada para abrigar de 3.000 a 20.000 pessoas e para ser autossu-
ficiente com suas próprias lojas, escolas, postos de saúde e lugares para recreação
e culto. Mas havia autonomia e integração, ao mesmo tempo. A rua comercial de
cada setor era ligada à rua comercial do setor contíguo. O parque de cada setor
estendia-se ao parque do setor seguinte.
©© AJAY TALLAM | WIKIMEDIA.ORG

Mapa de Chandigarh.

Os projetos visionários de Le Corbusier, em sua forma e conteúdo, tive-


ram muito mais influência mundial do que sua obra construída de urbanismo,
Chandigarh. Mas, por outro lado, nenhum outro arquiteto e urbanista foi respon-
sável pela transformação de cidades, ou setores delas, em tal proporção. Em muitas
áreas de expansão de grandes cidades mundo afora e em diversas cidades novas
construídas no mundo no último século, encontram-se ideias de Le Corbusier
aplicadas ou reinterpretadas por seus discípulos.

capítulo 3 • 90
No Brasil, os dois maiores exemplos são a própria capital do país, Brasília e
a Barra da Tijuca - área de expansão da antiga capital, o Rio de Janeiro - ambos
projetos de Lucio Costa, sobre os quais falaremos no próximo capítulo.
O urbanismo moderno, ainda mais do que a arquitetura moderna, foi con-
siderado algo além de um conjunto de diretrizes. A nova cidade do século XX
deveria surgir sobre novos fundamentos que, juntos, formavam, para muitos ur-
banistas, uma nova ideologia.
Esta ideologia foi construída nos congressos internacionais de arquitetura mo-
derna, conhecidos pela sigla CIAM. Foram conferências realizadas em intervalos
desiguais entre 1928 e 1953, em que representantes do Movimento Moderno de
diversos países debatiam os temas considerados mais relevantes para a profissão à
época. Na verdade, ali se construiu o arcabouço teórico que se tornaria hegemô-
nico para a prática da arquitetura e do urbanismo em grande parte do mundo.

C.I.A.M. Conferências realizadas:


•  1928, CIAM I (La Sarraz, Suíça): Fundação dos CIAM.
•  1929, CIAM II (Frankfurt, Alemanha): Unidade mínima de habitação.
•  1930, CIAM III (Bruxelas, Bélgica): Desenvolvimento racional do lote.
•  1933, CIAM IV (Atenas, Grécia): A Cidade Funcional.
•  1937, CIAM V (Paris, França): Moradia e recreação.
•  1947, CIAM VI (Bridgwater, Inglaterra): Nossas cidades podem sobreviver?
•  1949, CIAM VII (Bérgamo, Itália): Sobre a cultura arquitetônica.
•  1951, CIAM VIII (Hoddesdon, Inglaterra): O coração da cidade.
•  1953, CIAM IX (Aix-en-Provence, França): A Carta da Habitação.
•  1956, CIAM X (Dubrovnik, Iugoslávia): Surgimento do Team X.

O I CIAM ocorreu em 1928 em um castelo no município suíço de La Sarraz.


O congresso contou com 28 representantes europeus, que entenderam que a ur-
banística moderna deveria atender às três funções cotidianas do ser humano: habi-
tar, trabalhar e recrear. Já em 1933, após a análise de 33 cidades de Europa, Ásia
e América, percebeu-se a importância de somar a esta tríade as questões essenciais
ligadas à mobilidade urbana. Deste modo, a estrutura das cidades deveria ser pen-
sada para abrigar também uma quarta função: mover-se.
O Congresso de 1933 produziu o documento mais importante do urbanis-
mo moderno: a Carta de Atenas. Esta denominação se deve a uma característica
bastante interessante do evento e extremamente reveladora do espírito da época.

capítulo 3 • 91
O CIAM daquele ano foi realizado a bordo do navio SS Patris I, que viajou de
Marselha, na França, a Atenas, na Grécia. O tema a ser desenvolvido era a cidade
funcional. A partir desta premissa – de que uma cidade, acima de tudo, tem que
funcionar - foram analisadas 33 cidades de diferentes países. A partir desta análise,
um extenso diagnóstico concluiu que todas as cidades estudadas testemunhavam
o mesmo fenômeno: a desordem instituída pelo maquinismo. A cidade já não cor-
respondia mais à sua função principal, que é a de bem abrigar os seres humanos.
A estrutura urbana herdada dos séculos anteriores teria sido comprometida
pelo advento da era da máquina, com suas imensas perturbações no comporta-
mento humano. “O caos entrou nas cidades”. A falta de espaço suficiente, a falta
de superfícies verdes, a ausência de sol nos setores urbanos congestionados, teriam
tornado as condições de habitação nefastas.

As construções edificadas ao longo das vias (...) são prejudiciais à habitação: barulhos,
poeiras e gases nocivos. O alinhamento tradicional das habitações à beira das ruas
só garante insolação a uma parcela mínima das moradias. (...) Deve ser proibido! O
emprego de estilos do passado é nefasto e não será tolerado de forma alguma.

Após conclusões tão alarmantes, foi construído um ideário tão consistente, que
dominou a prática do urbanismo em boa parte do planeta por algumas décadas:
•  Liberdade individual e ação coletiva são os dois polos entre os quais se de-
senrola o jogo da vida;
•  O dimensionamento de todas as coisas no dispositivo urbano só pode ser
regido pela escala humana;
•  As chaves do urbanismo estão nas 4 funções: habitar, trabalhar, recrear-
se e circular;
•  O zoneamento, levando em consideração as funções-chave, ordenará o
território urbano;
•  É da mais urgente necessidade que cada cidade estabeleça seu programa,
promulgando leis que permitam sua realização;
•  O número inicial do urbanismo é uma célula habitacional (uma moradia) e sua
inserção num grupo formando uma unidade habitacional de proporções adequadas;
•  O interesse privado será subordinado ao interesse coletivo;

Todos estes itens constam da Carta de Atenas, que foi publicada em 1941, oito
anos depois do CIAM de 1933, sob forte influência de Le Corbusier. As cidades,

capítulo 3 • 92
de fato, estabeleceram seus programas com base nas quatros funções da urbanísti-
ca moderna. Isto levou naturalmente ao zoneamento (ou setorização) do território
urbano em áreas exclusivamente residenciais ou comerciais ou industriais ou de
lazer. E ligando todas elas, foram construídas vias expressas em que o automóvel
particular, então símbolo de emancipação do ser humano moderno, era o protago-
nista. Unidades habitacionais foram construídas em Marselha e Nova York, onde
adquiriram o apelido de projects. No Brasil, reconhecemos alguns destes conceitos
nas superquadras de Brasília ou nos inúmeros conjuntos habitacionais que foram
construídos, em especial, na segunda metade do século XX.
O último CIAM ocorreu em 1956, na cidade de Dubrovnik, na Iugoslávia.
Ali se iniciou um lento processo de revisão do excessivo funcionalismo do urba-
nismo moderno, que possibilitou o surgimento de alguns grupos dissidentes como
o Team X, que representava uma nova geração de urbanistas, e culminou com a
criação de uma nova agenda para o urbanismo, que veremos no capítulo 5.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CREIXELL, Santiago Padrés & PARÉS Santiago Vela. O modelo teórico do Plano de Cerdá. Revista
eletrônica UPC Commons. Barcelona: Universitat Politècnica de Catalunya, 1976. Disponível em:
<https://upcommons.upc.edu/bitstream/handle/2099/5313/Article10.pdf>. Acesso em: 19 out. 2016.
CUNHA, Antônio Geraldo. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2. ed.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
FERREIRA, Aurélio B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1986.
FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. Tradução: Jefferson Luiz Camargo.
São Paulo: Martins Fontes, 1997.
KOSTOF, Spiro. The city shaped: urban patterns and meanings through history. Londres: Thamesand
Hudson, 1991.
LE CORBUSIER. Urbanismo. Tradução: Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
NUNES-FERREIRA, Carlos Eduardo. Barra da Tijuca: o presente do futuro. Rio de Janeiro:
E-papers, 2014.
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modernas. Madri: Centro de Investigaciones Sociológicas, 2014.
SORIA, Arturo. Tratados de urbanismo y sociedade. Madri: Clan Editorial, 2004.

capítulo 3 • 93
capítulo 3 • 94
4
As cidades
brasileiras:
passado, presente e
perspectivas
As cidades brasileiras: passado, presente e
perspectivas

Toda memória é um processo seletivo que organiza lembranças e opera esquecimentos.

Ruth Levy (LEVY, 2010, p.11)

Esta visão seletiva da história pode ser aplicada ao caso do urbanismo brasi-
leiro em diferentes sentidos. Há poucos estudos, por exemplo, sobre a contribui-
ção dos nativos ameríndios para o modo como se organizaram nossas cidades.
Tampouco há disponível um conjunto robusto de estudos sobre a contribuição
negra para a construção das cidades brasileiras.
Esta dificuldade desaparece no que se refere aos elementos que constituem a
cidade tradicional brasileira, de raiz europeia adaptada ao relevo e ao clima, cujos
exemplos são comumente denominados “cidades históricas”. No sentido oposto,
analisaremos projetos de cidades planejadas, como Belo Horizonte, Goiânia e
Brasília, por meio de seus princípios teóricos como resposta ao crescimento po-
pulacional vertiginoso do país do final do século XIX até a segunda metade do
século XX.
Por último, você será apresentado à evolução da legislação urbana brasileira,
que vem tentando equacionar os desafios impostos pelo legado demográfico do
século XX, as desigualdades sociais ainda existentes no país e a dicotomia entre
cidade formal e cidade informal.

CURIOSIDADE
O termo cidade histórica é utilizado no Brasil para as cidades que conservam melhor
as edificações e espaços públicos do século XVII, XVIII e XIX. Geralmente, são cidades que
tiveram um ciclo econômico forte naquele período seguido de certa estagnação nos séculos
seguintes, como as cidades ligadas ao clico do ouro e do diamante em Minas Gerais e ao
ciclo do café no Vale do Paraíba. O termo também é associado aos assentamentos de outros
ciclos econômicos, como o ciclo da borracha no Norte ou o ciclo da cana de açúcar no Nor-
deste. Na verdade, se refletirmos melhor, toda cidade tem uma história.

capítulo 4 • 96
OBJETIVOS
•  Analisar a contribuição dos povos indígenas nativos e afro-brasileiros para o urbanismo no Brasil;
•  Conhecer os elementos de formação das cidades brasileiras;
•  Identificar os principais projetos de cidades planejadas no Brasil;
•  Conhecer a legislação urbana vigente no país.

Processos históricos de ocupação do território: a contribuição


indígena, africana e portuguesa

As manifestações culturais tanto dos povos indígenas quanto dos negros trazi-
dos da África podem ser sentidas no Brasil até hoje em diversos aspectos:
•  Na linguagem:
Muitos nomes de lugares conhecidos no Brasil vieram da língua tupi-guarani,
como: Ipanema e Paraíba. Já as palavras xodó e manha têm origem africana.

•  Na culinária:
A tapioca, também conhecida como beiju, é um exemplo da influência da
culinária indígena no nosso dia a dia. Já a receita do acarajé, considerado bem
cultural de natureza imaterial pelo IPHAN em 2005, tem origem no Golfo de
Benim, na África Ocidental (Fonte: Portal do IPHAN).

•  Na música e na dança:
O samba, o batuque, o jongo e o maracatu são ritmos de origem africana,
assim como a capoeira é uma luta criada no Brasil a partir de danças angolanas.

PERGUNTA
Mas qual foi o legado dos povos nativos e dos negros trazidos da África para a formação
das cidades brasileiras?

capítulo 4 • 97
A contribuição indígena

Como falamos na introdução deste capítulo, muito pouco se estuda sobre a


influência dos povos nativos ameríndios para a formação das cidades brasileiras.
Entre as honrosas exceções, está o trabalho de Rubens Gianesella sobre as vilas
litorâneas do estado de São Paulo que exemplifica, no caso da relação entre nativos
(“brasileiros”) e colonizadores (“europeus”) como “os espaços construídos são
testemunhos de identidades históricas”:

Entre percursos sinuosos e retilíneos, a imagem de nossas vilas litorâneas revela, an-
tes de tudo, harmonia na escala dos edifícios, na amplitude dos vazios, na densidade
de ocupação e, sobretudo, na inserção ambiental. Impossível dissociá-las das raízes
pré-coloniais. No intraurbano, o diferencial tortuoso das ruas direitas sugere o encan-
tamento das antigas trilhas, dos caminhos pelos melhores contornos, do desvio das
águas, dos morros, das serras. Por isso sua sinuosidade é reveladora. Seu traçado
reproduz a naturalidade da interação ambiental dos antigos habitantes. (...) E ficaram
estampados talvez na maioria dos desenhos das vilas e cidades do colonialismo. Re-
presentam as ocupações anteriores, expressão simbólica da vertente cultural indígena
em nossas produções urbanas. Da mesma forma, simbolizam a aceitação e a incorpo-
ração dos vetores antigos pelo colonizador. A harmonia ambiental dos seus traçados
com as determinantes geométricas da arquitetura ibérica é síntese do encontro cultu-
ral. (Gianesella, 2012).

Além de constatar que a herança indígena “ficou fortemente incorporada na


produção dos espaços da nova sociedade”, Gianesella conclui que os lugares indí-
genas de vivência justificaram a configuração da rede urbana brasileira (Gianesella,
2012).

COMENTÁRIO
Você deve ter reparado que foram utilizados parênteses e aspas nas expressões: nati-
vos (“brasileiros”) e colonizadores (“europeus”).
Neste caso, os parênteses foram utilizados para indicar que a informação é comple-men-
tar. Se os termos forem retirados, a frase pode ser entendida sem alterar o seu sentido. Por
que, então, as expressões “brasileiros” e “europeus” foram incluídas na afirmação?
Neste exemplo, as aspas indicam um destaque para provocar a sua reflexão: em que
momento podemos começar a nos referir à nossa terra como Brasil? Afinal, este foi o nome
dado pelos portugueses. O nome que os tupy-guarani utilizavam era Pindorama, ou terra das

capítulo 4 • 98
palmeiras. Assim, a descoberta do Brasil é considerada, para os povos nativos, a invasão de
Pindorama (Wikipédia, acesso em: 17 set. 2016).
Por outro lado, o autor citado fala de um processo de encontro cultural que perdurou
mais de uma geração. Neste sentido, o colonizador de cultura europeia, a partir da segunda
geração, já poderia ser chamado de brasileiro e não mais de europeu.

O encontro cultural que Gianesella descreve não parece ter sido tão pacífico
assim. Muitos embates, quase sempre vencidos pelos colonizadores devido à sua
superioridade bélica, fizeram com que os povos autóctones tivessem três destinos:
a morte, a escravidão ou o deslocamento para o interior do país. Os indígenas
brasileiros viviam da caça, da pesca e da coleta. Deslocavam-se periodicamente,
permitindo que a vegetação nativa se regenerasse constantemente. Organizavam-
se em tribos, sem um Estado ou funções político-administrativas representadas
por edificações específicas.
As tabas eram os agrupamentos dos índios, onde o espaço central era reser-
vado às cerimônias festivas e religiosas, além das reuniões comunitárias. As tabas
eram formadas por um conjunto de quatro a sete ocas.
A oca ou maloca era a habitação dos índios brasileiros. Com cobertura de
palha e estrutura de madeira, poderia ter a forma circular (tribos da Amazônia) ou
longilínea (povos do litoral). Diferentes famílias ocupavam uma mesma oca, que
poderia abrigar até duzentos indivíduos.

Reconstrução de uma oca longitudinal.

capítulo 4 • 99
Curiosamente, o legado dos povos nativos faz-se notar principalmente na pró-
pria denominação das cidades brasileiras. Como lembra o arquiteto e historiador
José Pessôa:

Os conquistadores fizeram como os indígenas que nomeavam os lugares pelas suas


características. Os nomes em tupi-guarani, ou na mistura deste com o português – Icó,
Corumbá, arraial do Tijuco, Igaraçú, Guarapari, Camamú, Iguaçú, Maragogipe, Pinda-
monhangaba, Mogi-mirim, Nossa Senhora da Conceição do Itanhaém, São José de
Aquirás, Nossa Senhora da Ajuda de Jaguaripe, Santana de Parnaíba, Exaltação da
Santa Cruz de Ubatuba, Santo Antônio de Guaratinguetá, Nossa Senhora das Neves
de Iguape, São José do Aracati -, também foram adotados nas aldeias, vilas e cidades,
materializando na toponímia local, as características dos sítios em que se implantavam.
(PESSÔA, 2007, p. 18)

A contribuição negra

Causa mais assombro, ainda, a precariedade ainda existente de análise a res-


peito da participação do negro na construção de nossos espaços urbanos. Afinal,
em 2014, enquanto a população indígena ou amarela correspondia a menos de
1% dos habitantes do país, as populações branca e parda já se equivaliam em 45%
do total, com adicionais 9% de brasileiros que se declaravam “pretos”, segundo o
IBGE (Portal Brasil, 2016).

Isso significa que a população negra, composta de pretos e pardos, representa a maio-
ria da população brasileira. (Fonte: Portal Brasil, IBGE, 2016)

A pesquisadora Ana de Lourdes Ribeiro da Costa, da Universidade Federal


da Bahia, já alertava, à época de sua dissertação de mestrado, “como as fontes
bibliográficas são insuficientes para um maior entendimento sobre a questão”. De
todo modo, após recorrer a leis, resoluções e ao censo da época, além dos relatos
dos viajantes estrangeiros, Costa analisou os espaços negros em Salvador no século
XIX que, segundo a autora, tem na “paisagem fortemente marcada pela presen-
ça do homem negro”, “sua singularidade em relação a outras cidades brasileiras”
(Costa, 1990, p.138):

capítulo 4 • 100
O rastro desta presença negra se configura em vários espaços permeados por toda a
cidade desde seu centro à área periférica. Estes territórios negros vão se constituir em
uma variedade entremeada em espaços de moradia, trabalho, lazer, culto etc.

A autora analisa duas tipologias: os cantos e as lojas. Os cantos eram ajun-


tamentos de negros, muitas vezes já libertos, geralmente pertencentes à mesma
nação, onde os fregueses podiam requerer serviços urbanos, com destaque para o
transporte de pessoas e mercadorias. Os cantos ocupavam “geralmente um ângulo
ou um cruzamento de ruas” e recebiam “o nome da localidade onde se instala-
vam, como por exemplo: canto da Calçada, canto do Portão de São Bento, canto
da Mangueira, etc.” (Costa, 1990, p. 142). Já as lojas eram espaços de moradia
situados em porões, térreos e subsolos que abrigavam, em sua maioria, negros
libertos que trabalhavam como “pedreiros, sapateiros, marceneiros, carpinteiros,
funileiros, quitandeiros, alfaiates, lavadeiras, costureiras, engomadeiras, saveiristas
e calafates, dentre outros” (Costa, 1990, p. 147).
Mas é importante lembrar que a pesquisadora baiana ressalta a singularidade
deste processo em relação à formação de outras cidades brasileiras. Como nos
lembra o professor Marcos Paraguassu de Arruda Câmara, também docente da
UFBA, “a exclusão espacial dos negros pelo escravismo foi mais dolorosa” do
que a exclusão indígena. Houve a “heroica tentativa” de se criarem quilombos,
mas eles foram massacrados em sua grande maioria (Câmara, 1996, p.585).
Os quilombos eram agrupamentos de escravos refugiados de seus donos, en-
contrados predominantemente nas áreas rurais. Mas exatamente por serem refú-
gios, os quilombos estavam localizados invariavelmente fora das aldeias, vilas e
cidades, embora haja registro de alguns quilombos urbanos. A própria repressão
à manifestação livre das populações afro-brasileiras dará origem a um dos espaços
urbanos que irá constituir, junto com a Casa de Câmara e a Cadeia, o coração das
cidades coloniais brasileiras: o pelourinho.
O pelourinho é uma coluna de pedra localizada em praça pública, que se
destinava à punição de criminosos. Embora tenha sido utilizado para todo tipo de
sentença, no Brasil, em especial, ficou associado ao castigo de escravos rebeldes.
Hoje é preservado nos centros históricos de algumas cidades como registro da
crueldade dos tempos da escravidão. Sua maior expressão atual encontra-se em
Salvador, capital do estado da Bahia.

capítulo 4 • 101
©© ANDRÉ UREL | WIKIMEDIA.ORG

Vista do Largo do Pelourinho em Salvador, na Bahia.

A matriz ibérica

A história das cidades no


Brasil se inicia efetivamente em
1532, com a fundação da vila
de São Vicente por Martim
Afonso.

Desenho histórico de "St. Vincen-


te", de autor não identificado. Ilus-
tração do "Reys-boeck van het rijc-
ke Brasilien". Acervo da Koninklijke
Bibliotheek, Haia.

capítulo 4 • 102
Em 1532, Martim Afonso de Souza fundou a vila de São Vicente a mando de
D. João III, Rei de Portugal. Começou, então, a história das cidades brasileiras, que,
segundo Bianca e Paulo Bricca, poderiam ser agrupadas por região e período históri-
co de acordo com os ciclos econômicos do período colonial (BRICCA, 2008, p.14):

CICLO REGIÃO PERÍODO HISTÓRICO


Cidades do
Nordeste Final do século XVI ao século XIX.
açúcar

Cidades da
Sudeste e Centro-oeste Do século XVII ao fim do século XVIII.
mineração

Cidades do
Sudeste Século XIX e início do século XX.
café

Cidades do Segunda metade do século XVIII e


Sul
gado início do século XIX.

Cidades da Durante o século XIX e início do


Norte
borracha século XX.

Por outro lado, as cidades brasileiras poderiam ser classificadas pelos papéis
que exerceram na grande rede urbana criada pelos portugueses. Segundo o Atlas
de centros históricos do Brasil, Salvador e Rio de Janeiro seriam capitais adminis-
trativas, juntamente com São Luís e Belém. Ouro Preto e Goiás seriam as cidades
da mineração, tal qual Mariana, Diamantina e Pirenópolis. Olinda e Vassouras
foram centros agrícolas de exportação, como Cachoeira e São Félix, Marechal
Deodoro e Muqui. Porto Seguro e Paraty poderiam ser consideradas cidades de
conquista e povoamento, assim como Santana de Parnaíba, João Pessoa, São
Cristovão, São Francisco do Sul, Icó e Lapa. Já Petrópolis e Corumbá são exem-
plos de cidades novas do século XIX, como Antonio Prado. (PESSÔA, 2007).
Mas nossas cidades refletem também a ordem social, política, ideológica e
cultural do país, além dos condicionantes ambientais e técnicos.

capítulo 4 • 103
©© PY4NF | WIKIMEDIA.ORG

Vista panorâmica de Diamantina – MG.

Em um primeiro momento, as vilas no Brasil foram construídas para marcar


a conquista do território, seu controle e sua defesa, especialmente ao longo do
imenso litoral brasileiro. Marcavam o domínio político-militar e facilitavam a ex-
ploração econômica da terra. A implantação das vilas litorâneas seguia diretrizes
bastante similares.
Sempre que possível, buscava-se a ocupação simultânea de elevações e orlas
próximo a fontes de água doce. Os morros e colinas permitiam a vigilância de
toda a área e os portos eram essenciais para o escoamento da produção. A água
dos rios era necessária para abastecer a população. O sítio era escolhido invariavel-
mente em um ponto de águas mais calmas e ao abrigo do vento. Ao longo da orla,
instalava-se a maior parte da população. No ponto mais alto, eram instaladas as
igrejas e as casa de câmara e cadeia, como a representação mais evidente do poder
religioso e do poder civil respectivamente.

Ao longo de todo este litoral leste, a ocupação por Portugal da faixa litorânea se deu
a partir de pontos definidos pela existência de baías, de ilhas com seus canais pro-
tegidos, locais onde foram fundados núcleos urbanos e construídos fortes para sua
defesa. Victor Hugo Mori (BICCA, 2008, p.30)

capítulo 4 • 104
Aspecto atual de Vila Velha – ES. Foto: Cleferson Comarela.

Mas os portugueses não hesitavam em abandonar o sítio original de implanta-


ção de uma vila para instalá-la em uma localização mais segura ou com melhores
possibilidades de expansão. Foi o que ocorreu no Espírito Santo. Em 1550, a vila
de Vitória foi fundada em uma colina na ilha de Santo Antônio, apesar da existên-
cia a pouca distância dali, no continente, do povoado que, por causa disso, passa a
chamar-se: Vila Velha. Um pouco mais ao sul, Estácio de Sá fundou a Cidade de
São Sebastião do Rio de Janeiro aos pés do morro Cara de Cão, próximo à entrada
da Baía de Guanabara. Mas o núcleo urbano foi logo transferido para o alto do
Morro do Castelo, onde foram construídos: um forte, a igreja matriz (ou Sé) e o
colégio dos jesuítas.

capítulo 4 • 105
Quadro Fundação da Cidade do Rio de Janeiro. Autor: Antonio Firmino Monteiro (1855-1888).

A presença religiosa ajudou a formar a estrutura das duas maiores cidades


brasileiras. No Rio de Janeiro, além dos jesuítas no Morro do Castelo, os carme-
litas instalaram-se na Rua Direita (atual Primeiro de Março), em frente à Praça XV
de hoje, os franciscanos ocuparam o Morro de Santo Antônio, enquanto os bene-
ditinos ocuparam o Morro de São Bento. Já a cidade de São Paulo nasceu, pelas
mãos do padre jesuíta Manoel da Nóbrega, no famoso Pátio do Colégio, instalado
em uma elevação próxima ao rio Tietê, entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú.
O traçado irregular do centro histórico da capital paulista ligava quatro praças: a
dos jesuítas, a dos beneditinos, a dos franciscanos e a dos carmelitas.
As construções características das primeiras cidades brasileiras eram as igrejas,
com conventos e mosteiros anexos (na maioria dos casos), as casas de câmara e
cadeia e as fortificações. Os espaços públicos que emolduravam estas construções
eram as praças-adros, em frente às igrejas, os pelourinhos, que ficavam diante das
casas de câmara e cadeia, os rossios, as ruas novas e as ruas direitas, entre outros.

Rua Direita é uma entidade urbana fundamental para entendermos as cidades na


América Portuguesa. Constituiu-se no elemento chave da primeira expansão dos as-
sentamentos, (...) em que se revestiu de status comercial, espécie de fórum romano
das cidades de origem portuguesa. (Pessôa, 2007, p. 22)

capítulo 4 • 106
Os logradouros, em geral, acompanhavam as curvas de nível do terreno e as
ruas direitas, em particular, conectavam os principais edifícios civis ou religiosos.
Não havia palácios privados, como nas cidades europeias, embora os governantes
morassem em casas mais ricas que o habitual.

Vista aérea de Ouro Preto-MG com a Casa de Câmara e Cadeia (atual Museu da Inconfidên-
cia) e a Igreja de N.S. do Carmo. Foto: Marcello Casal Jr.-ABr - Agência Brasil.

Numa sociedade já então de natureza política e, no caso, extensão de Portugal, as


arquiteturas das residências dos Governadores e das casas de Câmara e Cadeia, bem
como os pelourinhos, eram imprescindíveis ao exercício, inclusive simbólico, do poder
constituído. (BRICCA, 2008, p. 11)

Estas características levaram à criação de cidades baixas (porto) e cidades altas


(proteção). Vejamos alguns exemplos mais conhecidos: Olinda foi construída so-
bre uma elevação à beira-mar, enquanto o porto e a cidade do Recife, localizados
a poucos quilômetros, ocuparam a foz dos rios Beberibe e Capiberibe. Salvador
foi implantada sobre uma escarpa à beira da Baía de Todos os Santos. Na cidade
baixa, havia o porto. Na cidade alta, localizavam-se duas praças com os edifícios
principais. Em uma delas, foi erguida a Casa de Audiência e Câmara. Na outra, foi
construída a igreja da Sé. A cidade era cercada por muros e foi organizada a partir
de quarteirões retangulares, sem uma rigidez excessiva.

capítulo 4 • 107
Assim, houve no caso da cidade de Salvador, um plano prévio que foi adaptado ao sítio
natural, plano este estruturado a partir de logradouros que se dispunham segundo uma
malha ortogonal básica.
Augusto C. da Silva Telles (BICCA, 2008, p. 26)

Algumas características poderiam variar de uma região para outra. No interior


do país, de São Paulo ao sertão nordestino, as vilas de instalaram ao longo dos ca-
minhos das tropas de gado e seus locais de pouso e repouso. Nas vilas nascidas com
a mineração, era comum que a rua principal acompanhasse paralelamente o rio
de onde era extraída a riqueza do lugar. Já no urbanismo da Amazônia do século
XVIII predominou a geometrização.
No início, o modelo português era bem mais flexível do que aquele im-
plantado na América hispânica, que partia de uma quadrícula bem mais rígida.
Entretanto, o século XVII assistiu, no Brasil, ao fenômeno que havia ocorrido na
Europa desde o fim da Idade Média: a tentativa de implantar traçados regulados
ou ordenar o traçado das vilas já existentes, como São Luís e Paraty respectivamen-
te. No século XVIII, a partir da reconstrução da Baixa Pombalina de Lisboa, após
o grande terremoto de 1755, o modelo urbano de quarteirão passaria a influenciar
as regras urbanísticas das colônias. Já no século XIX, são construídas cidades idea-
lizadas sem levar em conta a topografia local, como Teresina, Aracaju e Corumbá.
Após a fundação da vila de São Vicente, em 1532, o segundo grande marco
da história urbana brasileira foi a fundação da cidade de Salvador, em 1549, como
sede do Governo Geral. A atual capital baiana exerceu esta função até 1763, quan-
do a sede foi transferida para o Rio de Janeiro. Foi ali que, em 15 de novembro de
1889, foi proclamada a República. Este novo período da história brasileira traria
novas transformações, como a criação das cidades da industrialização. Como
nos descreve Giorgio Piccinato:

Os velhos bairros coloniais desapareceram, dando lugar a novo sistema de praças e


de avenidas, e monumentos arquitetônicos relevantes foram destruídos para serem
substituídos por novos edifícios que expressassem os tempos e as funções modernas.
A nova era republicana nasceu cortando os laços com o passado, substituindo-os por
imagens da civilização industrial. Como em outros países latino-americanos, no Brasil,
o sonho da nova cidade, perseguido sem sucesso em tantos países europeus, tornou-
se realidade. (PESSOA, 2007, p. 15).

capítulo 4 • 108
Cidades planejadas

Você já deve ter concluído que a história do Brasil simplesmente não pode ser
contada sem que se leve em conta a história das cidades brasileiras. A ocupação de
um território tão vasto contou com a fundação de vilas, no início da colonização,
e com a construção de capitais novas e planejadas, de Salvador, em meados do
século XVI, a Palmas já no final do século XX, passando por Teresina, Aracaju,
Belo Horizonte, e Goiânia. A própria mudança da capital do país de Salvador para
o Rio de Janeiro e, depois, do sudeste para o centro-oeste, com o projeto e obra
de Brasília, paradigma mundial de cidade moderna, revela que esta estratégia de
ocupação permaneceu vigente até recentemente.

E quando ao longo da história olhamos a constituição e a ocupação do território bra-


sileiro, tal como as atividades econômicas o foram configurando, é impossível ignorar
a presença marcante da arquitetura e das cidades, como verdadeiros baluartes desse
processo. Seja, por exemplo, na interiorização da sociedade brasileira, no início asso-
ciada, sobretudo, às cidades da mineração; seja na posse da Região Sul, terra contes-
tada e objeto das disputas entre portugueses e espanhóis. Mais recentemente, a partir
do final do século XIX, a criação em alguns Estados de novas cidades-capitais, Belo
Horizonte, Goiânia, e a fundação de Brasília, Capital Federal contribuíram decisivamen-
te para a construção das modernas história e geografia brasileiras, dando continuidade
ao sempre renovado processo de participação da arquitetura na formação do Brasil.
(BICCA, 2008, p.13)

A missão dos arquitetos e urbanistas definida na revista Ilustração Brasileira,


n. 20, de 21 de abril de 1922, bem poderia ser aplicada a diferentes projetos de
cidades planejadas no Brasil, como Belo Horizonte, Goiânia e Brasília: “aos nossos
arquitetos cumpre agora fazer dessa cidade nova um atestado magnífico da nossa
jovem civilização e das nossas capacidades técnicas” (LEVY, 2010, p.73)
O marco político da instalação da República concomitante ao marco temporal
da virada do século XIX para o século XX potencializaram a ideia de materializar
no espaço urbano a inauguração de um novo tempo, que seria mais próspero e
civilizado. Na alvorada do novo século, o presidente Rodrigues Alves e o prefeito
Pereira Passos se empenharam em uma reforma estruturante da cidade do Rio de
Janeiro que revelava “um esforço de remover os resíduos da cidade colonial insa-
lubre e pobre, ‘civilizando’ urbanisticamente, ao olhar europeu, a então capital
do país” (BICCA, 2008, p.314). A Reforma Passos rendeu ao prefeito carioca a
alcunha de Haussmann tropical.

capítulo 4 • 109
Em Minas Gerais, este mesmo espírito havia se manifestado, anteriormente,
na decisão de transferir a capital do Estado, da colonial Ouro Preto para uma nova
cidade planejada. Belo Horizonte foi inaugurada em 1897, para ser uma cidade
bela, saudável e monumental. Foi criada, para este fim, a Comissão Construtora
da Nova Capital, que foi comandada por Aarão Reis, depois substituído por outro
engenheiro, Francisco Bicalho. A equipe de projeto era formada por outros enge-
nheiros, egressos principalmente da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, além de
arquitetos estrangeiros ou que haviam trabalhado no exterior, como o brasileiro
José de Magalhães, o francês Paul Villon e o suíço João Morandi.
©© WIKIMEDIA.ORG

Planta de Belo Horizonte, projeto urbanístico de Aarão Reis.

O plano elaborado para Belo Horizonte resume boa parte da cultura técnica e das
preocupações estéticas do século XIX relativas à cidade. Ele denota conhecimento do
plano de l'Enfant para Washington, da reforma realizada por Haussmann em Paris
e, sobretudo, do plano de La Plata, que lhe era contemporâneo e com o qual o plano
de Belo Horizonte divide uma mesma concepção geral. (Arquivo Público da Cidade de
Belo Horizonte)

capítulo 4 • 110
No caso do Plano de Urbanização de Goiânia (1933), a inspiração viria de
dois autores já citados em capítulos anteriores. O projeto foi iniciado por Atílio
Correa Lima, seguidor da escola francesa liderada por Alfred Agache e foi con-
cluído por Armando Augusto de Godói, discípulo do inglês Ebenezer Howard, o
fundador do conceito da Cidade Jardim.

Cartaz de lançamento de lotes (acima) e aspecto atual de Goiânia (abaixo).

Em 1942, na inauguração da nova capital do Estado de Goiás, situada a cer-


ca de duzentos quilômetros de onde Juscelino Kubitschek mandaria construir
Brasília no final dos anos 1950, Getúlio Vargas declarou: “torna-se imperioso

capítulo 4 • 111
localizar no centro geográfico do país grandes forças capazes de irradiar e garantir
a nossa expansão futura” (BICCA, 2008, p.334).

Cidade ideal e cidade real: de Brasília ao estatuto da metrópole

A ideia de ocupação do território brasileiro por uma rede de cidades, como já


vimos anteriormente, remonta a época da colonização e teve seu coroamento na
construção da capital federal próximo ao centro geográfico do país.

A primeira ideia de localizar no sertão do Brasil a sede do governo deu-se no século


XVIII e é atribuída ao marquês de Pombal. Os inconfidentes mineiros, em 1789, incluí-
ram a transferência da capital para o interior como um dos objetivos de seu movimento.
Depois da independência, na sessão da Assembleia Geral Constituinte do Império de
7 de junho de 1823, o deputado Antônio Ferreira França leu memorial de José Boni-
fácio de Andrada e Silva, onde este propunha a instalação da capital na recém-criada
comarca de Paracatu do Príncipe. O nome seria Brasília ou Petrópole.
A partir de 1839, passou-se a imaginar a construção de uma cidade no Planalto Cen-
tral entre os rios São Francisco, Maranhão ou Tocantins. A Constituição de 1891 es-
tabeleceu a mudança da Capital, fato este ratificado pela Constituição de 1934. Na
Assembleia Nacional Constituinte, em 1946, as opiniões se dividiram quanto ao local
da nova capital. O deputado Juscelino Kubitschek defendeu a localidade de Pontal, no
Triângulo Mineiro, como mais favorável para a instalação do novo Distrito Federal; o de-
putado Artur Bernardes sugeriu que se repetisse simplesmente o texto da constituição
de 1891; já o deputado João Café Filho opinou a favor de Goiânia. Por fim, a Consti-
tuição de 18 de setembro de 1946 determinou que a capital fosse transferida para o
Planalto Central. Posteriormente, no primeiro comício de sua campanha eleitoral, em
Jataí/GO, no dia 4 de abril de 1955, o candidato a Presidente da República Juscelino
Kubitschek, quando interpelado em praça pública se de fato efetuaria a mudança da
capital, respondeu que cumpriria a constituição. (Portal Sóleis, 2016)

Somava-se, agora, à estratégia de ocupação do interior do país, a vontade de


representar a construção de um novo país, que no futuro espelha sua grande-
za, como proclama o Hino Nacional Brasileiro. De forma análoga ao intuito da
República de se fazer significar como algo novo em comparação ao passado co-
lonial, representado pela remodelação do Rio de Janeiro e a construção de Belo
Horizonte e Goiânia, o Governo Juscelino Kubitschek utilizou uma prerrogativa
constitucional para se empenhar na construção do símbolo maior de uma política
desenvolvimentista.

capítulo 4 • 112
©© WIKIMEDIA.ORG
©© WIKIMEDIA.ORG

Versão simplificada do Plano Piloto de Brasília (esquerda) e foto de satélite da NASA: Brasí-
lia em novembro de 1990 (direita).

A proposta para a construção de Brasília encontrou sua expressão mais con-


tundente no urbanismo moderno. Afinal, nada melhor para simbolizar um
país novo do que uma cidade inteiramente nova, como preconizavam diversos
autores já citados, com destaque para Le Corbusier. Mas enquanto as propostas
do mestre suíço-francês visavam a substituir (ville contemporaine) ou desobstruir
(Plan Voisin) uma congestionada Paris dos anos 1920, Brasília seria a capital da

capítulo 4 • 113
integração nacional que, a partir dos anos 1960, substituiria a antiquada cidade
do Rio de Janeiro, antiga capital da Colônia, do Império e da República, voltada
para o litoral e localizada na porção já consolidada do país.

©© MARIO ROBERTO DURÁN ORTIZ | WIKIMEDIA.ORG


Esplanada dos Ministérios ao longo do Eixo Monumental (leste-oeste) em Brasília-DF. Foto:
Mariordo (Mario Roberto Duran Ortiz)

O projeto da nova capital seria escolhido por meio de concurso público.


Entretanto, as propostas apresentadas convergiam invariavelmente para os funda-
mentos de Corbusier e da Carta de Atenas, como constatou o crítico contempo-
râneo de arquitetura e urbanismo Guilherme Wisnik:

O Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil, ocorrido entre setem-
bro de 1956 e março de 1957, representa um momento de grande maturidade da
produção arquitetônica no país, marcada por uma adesão quase consensual aos prin-
cípios éticos e formais da arquitetura e do urbanismo modernos. (BRAGA, 2010, p. 7)

O resultado do concurso foi divulgado em 16 de março de 1957 e a nova capi-


tal do país foi inaugurada em 21 de abril de 1960. A proposta vencedora de Lucio
Costa para o concurso nacional para o Plano Piloto de Brasília tornou-se, então, a
primeira aplicação no Brasil em escala monumental e a realização mais completa
do urbanismo moderno a nível mundial.

capítulo 4 • 114
Os quatro princípios do urbanismo de Le Corbusier estavam presentes no
Plano Piloto com algumas adaptações. O descongestionamento era uma premis-
sa do plano. Em alguns setores, a densidade atingia os níveis previstos para a ville
contemporaine, mas, em geral, restringia-se à metade disso, sendo que as principais
edificações encontravam-se próximas ao cruzamento das vias de maior tráfego. O
alargamento das vias de circulação foi representado pelas avenidas expressas que
estruturavam a cidade, principalmente nos eixos cartesianos norte-sul e leste-oes-
te. O aumento de áreas verdes também era uma característica do partido urbanís-
tico. Comparada às demais capitais, Brasília seria um imenso parque.

Parte oeste do eixo Monumental de Brasíla. Foto: Arturdiasr.

As funções urbanísticas definidas pela Carta de Atenas – habitar, trabalhar,


recrear-se e circular – refletiam-se no alto grau de setorização da cidade. Em
Brasília, a habitação foi situada principalmente ao longo do eixo norte-sul. Os
setores ligados ao trabalho foram localizados perto do cruzamento dos eixos car-
tesianos estruturantes. Na direção leste-oeste, concentravam-se os principais edifí-
cios de caráter cívico e os equipamentos culturais. Havia a previsão de áreas verdes,
escolas e comércio nas superquadras, mas os maiores equipamentos de lazer foram
localizados às margens do lago Paranoá. A circulação deveria acontecer com gran-
de eficácia nos eixos rodoviários denominados Eixo Monumental e “Eixão”.

capítulo 4 • 115
Havia, ainda, um zoneamento subjacente definido pelas tipologias arquitetô-
nicas. Em Brasília, as superquadras residenciais formariam um conjunto de blocos
horizontais multifamiliares isolados, localizadas por números ao longo do Eixão
(norte-sul). As torres comerciais localizavam-se às margens do cruzamento dos
eixos cartesianos, assim como os centros comerciais. Os palácios oficiais formaram
o tal Eixo Monumental (leste-oeste) também em edificações isoladas de caráter
monumental.

As superquadras da Asa Sul do Eixão. Foto: Victoria Camara.

O grande elemento inovador do Plano Piloto estava precisamente nas super-


quadras. Ainda que inspiradas pelas unidades de habitação de Le Corbusier, com
comércio de conveniência e escolas de ensino fundamental, elas representaram
uma nova tipologia urbanística. Lucio Costa previu algumas diferenças entre elas
no que se refere à densidade de ocupação, ao tamanho de famílias por unidade e
ao material e acabamento das construções. Elas foram dimensionadas com cerca
de 280x280m e 15% de taxa de ocupação, com cerca de 3.000 moradores em mé-
dia. Foi concebido um primeiro tipo com 11 edifícios com seis pavimentos mais
pilotis, que se tornou mais valorizado. No segundo tipo, um pouco mais afastado
do Eixão, seriam 19 edifícios, em média, com quatro pavimentos (com ou sem pi-
lotis). O número de apartamentos por bloco também variava entre seis (de 178m2
cada), oito (de 134m2), 10 (107m2) e 12 (89m2) unidades.

capítulo 4 • 116
A densidade da superquadra, em média, se aproximaria dos 300 hab./ha pre-
vistos por Le Corbusier para as áreas centrais da ville contemporaine. Além das su-
perquadras, foram previstas as quadras de habitação individual geminada e setores
residenciais no lado oposto do Lago Paranoá, com residências unifamiliares. Um
dos legados das superquadras foi subverter a lógica da rua tradicional, ao separar
pessoas e veículos. Como paradigma do urbanismo moderno, Brasília ficou co-
nhecida como uma cidade sem esquinas, pois o Plano Piloto criava, como queria
Le Corbusier, grandes eixos rodoviários sem cruzamentos, que eram vistos como
inimigos da velocidade. A cidade moderna era a cidade da velocidade.
Entretanto, além de uma cidade moderna, Brasília era também o projeto sin-
gular de uma cidade administrativa, que seria a nova capital de um país. Neste
sentido, Lucio Costa, segundo seu próprio relato, aproveitou os eixos cartesianos
para organizar a dupla função da cidade: civitas e urbs (COSTA, 1995, p. 203).
Assim, o Eixo Monumental, leste-oeste, reuniu os edifícios cívicos caracterís-
ticos de uma capital federal com o Congresso Nacional no seu extremo leste. Já
o chamado Eixão abrigava os setores residenciais e comerciais, nas chamadas asas
norte e sul, assim denominadas porque a forma final do Plano Piloto assemelhou-
se involuntariamente ao formato de um avião. O encontro dos dois eixos foi ocu-
pado pela rodoviária, de onde se avistam os grandes palácios e as torres comerciais
da cidade, além de tornar evidente o caráter rodoviarista do Plano.
©© URI ROSENHECK WIKIMEDIA.ORG

Panorama de Brasília vista da Torre de Televisão.

Brasília foi o primeiro conjunto urbano do século XX a ser reconhecido


pela Unesco, em 1987, como Patrimônio Mundial. O conjunto urbanístico de
Brasília, construído em decorrência do Plano Piloto traçado para a cidade, por
Lucio Costa, foi inscrito no Livro de Tombo Histórico pelo Iphan em 14 de março
de 1990.
Após a repercussão internacional da construção da nova capital do país, Lucio
Costa foi convidado a desenvolver novo Plano Piloto, agora para uma área de
expansão da antiga capital, a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Entretanto, a
situação era bastante diferente, o que possibilitou que o autor desenvolvesse, ainda
mais, alguns princípios e testasse novas estratégias urbanas.

capítulo 4 • 117
Embora tenha mantido no Plano Piloto da Barra da Tijuca a lógica estrutural (dois
eixos principais, setorização funcional, locomoção motorizada) adotada em Brasília,
Lucio Costa não impôs um desenho preciso e rígido para os núcleos de ocupação da
Barra. (Ao contrário, ele recomenda que) as instruções para aprovação de empreendi-
mentos sejam vistas como “simples balizamento suscetível de certa margem de tole-
rância”. Lembra ainda que a região deveria ser “considerada como área experimental

(...) para que fosse capaz de absorver – sob rigoroso controle – as sucessivas inova-
ções propostas pelo espírito empreendedor das partes interessadas”. Se a conjuntura
“especialíssima” de Brasília levava ao ordenamento preciso, a proposta de Lucio Costa
para a Barra pretendia justamente promover inovação e experimentação. (NUNES-
FERREIRA, 2014, pp. 137-138)
©© RAFAEL RABELLO DE BARROS | WIKIMEDIA.ORG

Panorama da Barra da Tijuca e Montanhas do Parque Nacional da Tijuca.

Desde os anos 1960, o urbanismo moderno de Brasília influenciou a cons-


trução de novas cidades pelo país, além de mais uma nova capital de estado -
Palmas, no Tocantins, fundada em 20 de maio de 1989 – assim como o modelo
de urbanismo da Barra da Tijuca vem sendo reproduzido em áreas de expansão
de diferentes cidades do Brasil. A população brasileira cresceu vertiginosamente,
tornando-se predominantemente urbana. Entretanto, a realidade econômica im-
pôs-se ao espaço urbano, reproduzindo no território a desigualdade social do país.

capítulo 4 • 118
EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO NO BRASIL
250.000,000

200.000,000

150.000,000

100.000,000

50.000,000

0
1960 1970 1980 1990 2000 2010
RURAL URBANA

Fonte de dados: Sinopse do Censo Demográfico 2010. Disponível em: <http://www.


censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=8>. Acesso em: 30 out. 2016

A urbanização acelerada do Brasil nas últimas décadas, em combinação com


a grande desigualdade social que persiste no país, contribuiu para um quadro
de divisão territorial entre a cidade formal e a cidade informal. Grosso modo,
entende-se como cidade formal aqueles bairros que são atendidos por uma infraes-
trutura urbana completa como água, luz, esgoto, asfalto, calçamento etc. Cidade
informal seriam os assentamentos urbanos que reúnem, via de regra, as classes
mais pobres, sem os serviços básicos com que identificamos a vida urbana.

A intensificação da dualidade entre cidade formal e cidade informal tem sido uma
constante na estrutura das cidades brasileiras (Maricato, 1996). O ritmo do crescimen-
to dos loteamentos irregulares, das favelas e dos cortiços nas periferias das grandes
cidades é mais intenso que a taxa média de urbanização do país. Ou seja, as grandes
cidades crescem, sobretudo, nas periferias, o que tem reforçado a função estrutural
da informalidade na composição do espaço urbano. Enquanto São Paulo contava com
apenas 1% de áreas de favelas em 1970, em 2000 elas já ocupam 20% da cidade.
A quase totalidade das grandes cidades do país tem atualmente em torno de 30% de
áreas ocupadas por favelas, chegando às vezes a 50%, como em Belém do Pará (Pro-
jeto Moradia, 2000). Em oposição às estruturas urbanas informais, a cidade formal,
por sua vez, se restringe a uma parcela do espaço urbano, e contempla apenas uma
pequena porcentagem da população. (Ferreira, 2000)

capítulo 4 • 119
©© ALICIA NIJDAM | WIKIMEDIA.ORG

A Favela da Rocinha e o bairro de São Conrado (ao fundo) no Rio de Janeiro.

A partir do processo de democratização do final dos anos 1980 e principal-


mente com o marco da Constituição de 1988, foram criados instrumentos le-
gais para tentar equacionar as diferenças sociais produzidas no crescente território
urbano do país, como o Estatuto da Cidade e, mais recentemente, o Estatuto
da Metrópole.
Os instrumentos de política urbana tentam apaziguar as diferenças sociais.
Em 2006, no pósfácio do livro Planeta Favela, do professor norte-americano
Mike Davis, Ermínia Maricato descreveu este processo:

O movimento pela reforma urbana, que reúne entidades profissionais, acadêmicas, de


pesquisa, ONGs, funcionários públicos, além das entidades nacionais que lutam pela
moradia, são uma das características positivas da sociedade brasileira na conjuntura
atual. Esse movimento social conquistou a aprovação de leis importantes como o Esta-
tuto da Cidade. (...) Conquistou ainda a criação do Ministério das Cidades (ele era uma
reivindicação que vinha sendo feita havia mais de dez anos). Com ele, o movimento
acabou se fortalecendo, devido à promoção das Conferências Nacionais das Cidades,
processo que teve início nos municípios, envolveu todos os estados da federação e

capítulo 4 • 120
culminou em Brasília com a participação de mais de 2.500 delegados, dos quais 70%
foram eleitos nas Conferências Estaduais e o restante indicado por entidades nacio-
nais. A primeira conferência das cidades, em 2003, abrangeu a participação de 300
mil pessoas para debater princípios, diretrizes e prioridades da Política Nacional de
Desenvolvimento Urbano. (DAVIS, 2006, p. 223 e 224)

A Constituição Federal de 1988 descrevia o direito de propriedade entre os


direitos e garantias fundamentais do cidadão, mas alertava logo em seguida que,
por outro lado, “a propriedade atenderá a sua função social” (inciso XXIII do
art. 5º). Já a Lei nº 10.257 de 10 de julho de 2001, denominada Estatuto da
Cidade, propôs-se a regular “o uso da propriedade em prol do bem coletivo”
(parágrafo único do art. 1º).Preconizava, também, a “gestão democrática” das
cidades brasileiras (inciso II do art. 2º) e a “garantia do direito a cidades sustentá-
veis” (inciso I do art. 2º). Neste sentido, a expansão urbana deveria ser compatível
“com os limites da sustentabilidade ambiental”. Previa, ainda, “normas especiais
de urbanização” para as populações de baixa renda.
Mas a grande inovação do Estatuto da Cidade foi reunir um conjunto de
instrumentos de política urbana que deveriam propiciar a realização destes prin-
cípios na prática. Para o exercício pleno de um arquiteto e urbanista no Brasil, é
fundamental o conhecimento de todos esses instrumentos, presentes no Capítulo
II daquele Estatuto (assim como o Capítulo III, que versa sobre o Plano Diretor,
já citado no primeiro capítulo deste livro). Merecem destaque, no entanto, aqueles
mais inovadores, tais como:
•  A gestão orçamentária participativa define que os recursos do poder pú-
blico municipal “devem ser objeto de controle social, garantida a participação de
comunidades, movimentos e entidades da sociedade civil” (Parágrafo 3º do art. 4º);
•  As zonas especiais de interesse social (ZEIS) criam um regime jurídico espe-
cial para a urbanização e a regularização dos assentamentos informais, além de reservar
parte do território urbano para a construção de habitação de interesse social (HIS);
•  A outorga onerosa do direito de construir permite que o proprietário ad-
quira o direito de construir (outorga) acima das normas previstas “mediante con-
trapartida a ser prestada pelo beneficiário” (ônus) com vistas ao bem comum, tais
como a implantação de equipamentos urbanos ou a criação de espaços de lazer;

capítulo 4 • 121
O Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo de 2014 (Lei estadual nº 16.050
de 31 de julho de 2014) incorporou diversos instrumentos do Estatuto da Cidade como a
outorga onerosa.

•  As operações urbanas consorciadas são intervenções urbanísticas estrutu-


rais coordenadas pelo poder público que contam com a participação de investido-
res privados, proprietários, moradores ou usuários;
•  A assistência técnica, que se tornou a Lei nº 11.888, de 24 de dezembro de
2008, que “assegura às famílias de baixa renda assistência técnica pública e gratuita
para o projeto e a construção de habitação de interesse social”;
•  O IPTU progressivo para propriedades urbanas subutilizadas, cujo pro-
prietário terá seu imposto predial e território urbano crescente;
•  O direito de superfície permite que o proprietário conceda, a outro usuá-
rio, o direito de utilizar o solo, o subsolo ou o espaço aéreo relativo ao terreno de
sua propriedade.

O Estatuto da Cidade previa (no inciso III do seu Capítulo IV) que a gestão
democrática da cidade deveria ser garantida pela realização de “conferências sobre

capítulo 4 • 122
assuntos de interesse urbano, nos níveis nacional, estadual e municipal”. Em maio
de 2003, a I Conferência Nacional das Cidades ocorreu em Brasília, como acon-
tece até hoje.
A comunidade de arquitetos e urbanistas também comemorou a criação
do Ministério das Cidades, que se deu em 2003, primeiramente pela Medida
Provisória nº 103, que foi confirmada pela Lei Federal nº 10.683 daquele mesmo
ano. Com uma população urbana consolidada, as cidades ganharam foro ministe-
rial e o termo direito à cidade consagrou-se como disciplina jurídica e urbanística.
Uma iniciativa mais recente reconheceu os limites expandidos da cidade con-
temporânea. A Lei nº 13.089, de 12 de janeiro de 2015, instituiu o Estatuto da
Metrópole para definir as diretrizes da governança interfederativa. Este termo
significa que, nos casos das regiões metropolitanas ou de aglomerações urbanas
em que haja interdependência de dois ou mais municípios limítrofes, deverá ser
desenvolvido um plano de desenvolvimento integrado que envolva mais de uma
unidade da federação (município, estado ou o Distrito Federal).
©© JONATHAN OLSSON | WIKIMEDIA.ORG

Vista panorâmica de São Paulo.

O Estatuto da Metrópole representou o reconhecimento oficial de que uma


cidade pode ser reconhecida como tal para além das fronteiras legais ou fiscais, que
no Brasil denominamos municípios. Além disso, a lei reconheceu a “complemen-
taridade funcional e integração das dinâmicas geográficas, ambientais, políticas e
socioeconômicas” (inciso I do Art. 2º) entre diferentes cidades.
Por tudo isso, ressurge nas universidades o interesse pela formação de “um
novo tipo de profissional de arquitetura e urbanismo, voltado para promover a
moradia popular e intervir nos bairros periféricos” ou favelas. (Maricato, 2011,
p.11). Por outro lado, há quem encare os desafios da cidade contemporânea brasi-
leira como um problema que transcende a questão da habitação de interesse social.
Como alerta Raquel Ronik, professora da FAU-USP que atuou como relatora
especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia
Adequada, por dois mandatos (2008-2011, 2011-2014): “A questão fundamental
no Brasil não é o déficit habitacional, porque as pessoas moram. A questão fun-
damental no Brasil é o déficit de cidade”.

capítulo 4 • 123
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SITTE, Camillo. A construção das cidades segundo seus princípios artísticos. São Paulo: Ática,
1992.
SUL 21 Jornal Eletrônico. Entrevista com Raquel Rolnik. Disponível em: <http://www.sul21.com.br/
jornal/nosso-grande-problema-nao-e-o-deficit-de-moradia-mas-sim-o-deficit-de-cidade/>. Acesso em:
25 jul. 16.
United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division (2014). World
Urbanization Prospects: The 2014 Revision, CD-ROM Edition.

capítulo 4 • 125
capítulo 4 • 126
5
Perspectivas
do urbanismo
contemporâneo
Perspectivas do urbanismo contemporâneo
Nos capítulos anteriores, verificamos que os modelos de cidade do século XIX
até as propostas mais radicais do século XX tinham como justificativa o crescimen-
to insalubre e incontrolável das cidades, principalmente em virtude do fenômeno
da industrialização. Formou-se, por uma centena de anos, um consenso quase
generalizado de que uma nova cidade deveria surgir a partir das novas funções e
necessidades do mundo contemporâneo.
No entanto, a partir das experiências reais de cidades novas construídas de
acordo com os preceitos modernos, um processo de reação começou a tomar for-
ma. Essas realizações frustraram os teóricos do urbanismo porque trouxeram mais
segregação e fragmentação do que a cidade tradicional, quando, na verdade, o in-
tuito era criar uma cidade mais igualitária e coesa. A estrita divisão funcional, com
setores isolados para cada função urbanística (moradia, trabalho e lazer), gerou
ineficácia de custo e tempo, quando a cidade moderna deveria ter sido a cidade do
desempenho e da velocidade. Para os novos autores do urbanismo, a prioridade
deixou de ser a funcionalidade: a cidade deve ser o espaço da diversidade.
Além disso, o crescimento demográfico observado desde o fim da Segunda
Guerra Mundial, em diferentes regiões do planeta, trouxe novos desafios para a
humanidade. As megacidades se formaram, tanto em países desenvolvidos quan-
to em nações em desenvolvimento, em uma escala inédita que transformou nossa
visão de cidade, de uma unidade finita para um organismo quase intangível. A
evolução dos meios de telecomunicação e da tecnologia da informação apro-
ximou pessoas e culturas distantes, tendo influência até nos meios de produção de
riqueza e conhecimento. Novamente, os urbanistas tentaram classificar os novos
modelos de cidade do século XXI de acordo com suas características inéditas.
Por último, a previsão de esgotamento das riquezas naturais e as mudanças
climáticas demonstraram a urgência de rever o modo como a humanidade ocu-
pou o território deste incrível planeta desde o primeiro assentamento humano.
As cidades seriam responsáveis por grande parte das emissões de gases do efeito
estufa de origem humana que contribuem para o aquecimento global. Para al-
guns pesquisadores, o planeta Terra já teria entrado em uma nova época geológica
denominada antropoceno, em que a humanidade substituiu a natureza como
força ambiental dominante. Em contraponto, novos caminhos começaram a ser
traçados pelos arquitetos e urbanistas em busca do novo paradigma da cidade
sustentável.

capítulo 5 • 128
Este último capítulo será dedicado a montar um panorama dos temas, pro-
blemas e oportunidades do urbanismo pensado por arquitetos e urbanistas nas
últimas décadas. Você poderá formar sua própria visão crítica sobre a cidade con-
temporânea e estará preparado para atuar, de forma ética e profissional, no campo
do urbanismo.

OBJETIVOS
•  Analisar as transformações do mundo atual;
•  Conhecer diferentes teorias do urbanismo contemporâneo;
•  Identificar novos modelos de cidade contemporânea;
•  Estabelecer um pensamento crítico-reflexivo sobre a cidade atual;
•  Refletir sobre a sustentabilidade no urbanismo.

Cidade e diversidade

O paradigma da cidade funcional estabelecido pelos Congressos Internacionais


de Arquitetura Moderna começou a perder força a partir da análise de projetos
executados no mundo inteiro, como Brasília, “o exemplo mais completo já cons-
truído das doutrinas arquitetônicas e urbanísticas apresentadas pelos manifestos
dos CIAM” (HOLSTON, 1993), que analisamos no capítulo anterior. Aclamada
inicialmente como vitrine da arquitetura moderna brasileira e símbolo maior da
reinauguração de um país, a capital federal logo se mostrou uma cidade de segre-
gação social e fragmentação excessiva.
O rígido zoneamento preconizado na Carta de Atenas terminou por dividir
as cidades em setores monofuncionais. Por outro lado, a lógica do capital e o setor
imobiliário promoveram uma ocupação das cidades por classes distintas em áreas
separadas.

capítulo 5 • 129
©© WIKIMEDIA.ORG

Vista aérea do complexo de Pruitt-Igoe, Saint Louis, nos Estados Unidos, que se tornou sím-
bolo do fracasso do planejamento urbano moderno, quando foi implodido em 1972.

No Brasil, assim como em outros países de perfil social semelhante, estes fa-
tores reunidos produziram cidades partidas pela dicotomia entre cidade formal e
cidade informal, como já vimos anteriormente.
Tampouco o “conceito cartesiano de cidade ordenada, onde tudo é estabeleci-
do com lógica, precisão e rigidez” (COSTA, 1962, p. 347), atraía os pensadores do
urbanismo contemporâneo. A própria ideia de planejar uma cidade inteiramente
nova perdeu interesse para boa parte da geração do pós-guerra, como descreveu,
em 1965, Christopher Alexander, professor emérito da Universidade da Califórnia
em Berkeleye fundador do Center for Environmental Structure (ALEXANDER,
1965):

Tem aumentado, cada vez mais, a certeza de que falta algum ingre-diente essencial às
cidades artificiais. Quando as comparamos às cidades antigas, que adquiriram a pátina
da vida, nossas tentativas modernas de criar cidades artificialmente são, de um ponto
de vista humano, inteiramente malsucedidas. (Christopher Alexander)

A palavra de ordem do urbanismo passou a ser a diversidade: funcional, social


e tipológica. O zoneamento perdeu espaço para as áreas de uso misto, em que
se pudesse morar, trabalhar e se divertir com pouco deslocamento. A construção

capítulo 5 • 130
de imóveis destinados a diferentes classes sociais em um mesmo bairro passou
a ser estimulada e virou instrumento de política urbana, em especial na França.
Diferentes tipos de edificações com funções diversas e complementares em uma
mesma área também se tornaram bem-vindas, porquanto induzem à diversidade
de usos e à ocupação diuturna dos espaços públicos.

A agenda do urbanismo pós-moderno

Os fundamentos do urbanismo moderno passaram a ser questionados com


grande oposição e foram confrontados por novos temas. A diversidade induzia
ao tratamento individual e personalizado em detrimento da abordagem coletiva
e padronizada do modernismo. A centralidade de um ser humano supostamente
universal, a quem corresponderia um estilo internacional, foi substituída por uma
abordagem mais local e mais adequada a uma sociedade multicultural. A ideia de
que a tecnologia e a racionalidade trariam a solução para todos os problemas foi
deslocada para o estudo dos fenômenos sociais. Assim como na arquitetura, os
projetos de comunidades perderam certo caráter abstrato em nome de uma repre-
sentação mais humana dos espaços de uso comum.
O automóvel deixou de ser o protagonista em nome do pedestre e da escala
humana. A busca incessante da originalidade das cidades planejadas perdeu des-
taque para as estratégias de requalificação de bairros existentes. O isolamento da
obra arquitetônica passou a ser menos valorizado do que sua contextualização. Os
processos históricos passaram a ser mais respeitados do que a pura inovação. A
construção coletiva e colaborativa do pensamento, inclusive no que se refere à teo-
ria e à doutrina urbanísticas, tornou-se mais valorizada do que o gênio artístico do
arquiteto e urbanista individualmente. Os pequenos relatos cotidianos ganharam
relevância em detrimento das grandes narrativas totalitárias. O estudo da cidade
real prevaleceu sobre a busca incessante pela cidade ideal.

URBANISMO MODERNO URBANISMO PÓS-MODERNO


Global Local

Padronização Particularidade

Universalidade Regionalismo

capítulo 5 • 131
URBANISMO MODERNO URBANISMO PÓS-MODERNO
Hegemonia Multiculturalismo

Racionalismo Fenomenologia

Tecnologia Sociologia

Abstração Figurativismo

Maquinismo Escala humana

Originalidade Requalificação

Isolamento Contexto

Inovação História

Talento individual Processo colaborativo

Grandes narrativas Pequenos relatos

Cidade ideal Cidade real

Tabela comparativa de conceitos do planejamento urbano moderno em comparação às teo-


rias mais recentes do urbanismo.

Delimitar o pós-modernismo como período histórico gera sempre muita con-


trovérsia. Definir esse conjunto de ideias pelo termo urbanismo pós-moderno,
que é um adjetivo temporal, também carece de exatidão conceitual. É bastante
provável que uma denominação mais precisa possa surgir em breve no campo teó-
rico do urbanismo. Entretanto, esta denominação serve como marco de oposição
às ideias do urbanismo moderno.

capítulo 5 • 132
©© N. WINSLOW | WIKIMEDIA.ORG

Esta praça, no centro da cidade holandesa de Haia, é um belo exemplar da aplicação de


vários princípios do urbanismo pós-moderno: a escala humana é respeitada, pois as torres
estão recuadas em relação à praça; os edifícios mais recentes fazem referência ao con-
texto histórico, tanto na forma quanto no material utilizado; há uma colagem entre o antigo
e o novo, o simples e o monumental; o pedestre é valorizado; os pontos de referência são
destacados e o conjunto de edificações gera um espaço urbano qualificado e cheio de refe-
rências culturais.

Podemos, ainda, destacar outras concepções urbanísticas do mesmo período:


•  Contextualização: adequação (simples ou complexa) às condições existentes;
•  Cidade colagem: modo de conferir integridade a uma mescla assimétrica
entre ordem/desordem, simples/complexo, privado/público, inovação/tradição,
singelo/monumental. Este conceito foi criado por Collin Rowe, professor e histo-
riador, no livro Collage City, que foi publicado originalmente em 1978 (ROWE,
1978);
•  Cidade como texto (legibilidade): caminhos, limites, módulos, bairros e
pontos de referência na paisagem. Foram ideias expressas por Kevin Lynch, em
1960, na primeira edição de seu conhecido livro A imagem da cidade (LYNCH,
1997);

capítulo 5 • 133
•  Historicismo: uma atitude de interesse pelas tradições anteriores muito
baseada nos escritos do arquiteto britânico Alan Colquhoun (COLQUHOUN,
1989).
•  Regionalismo crítico: o crítico norte-americano Kenneth Frampton pro-
pôs que, assim como a arquitetura vernácula é uma resposta arquitetônica ao lugar
específico, ao clima local e ao material disponível, projetos climaticamente defi-
nidos obterão bons resultados estéticos e ecológicos e serão capazes de resistir às
pressões homogeneizadoras do capitalismo moderno (FRAMPTON, 1997);

A Capela Otaniemi (1957), dos arquitetos Heikki e Kaija Siren (esquerda), e a Capela do
Silêncio (2012), de K2S Architects, demonstram como os finlandeses conseguiram trabalhar
a modernidade com uma boa dose de regionalismo, em especial, pelo uso do material carac-
terístico da Finlândia: a madeira. Fotos: acervo pessoal do autor.

•  Neorracionalismo europeu: valorizava a tipologia arquitetônica e a expe-


riência espacial urbana como representação de valores e significados, em que a ci-
dade é um artefato artístico e cultural. Um dos textos fundadores deste movimen-
to foi o livro A arquitetura da cidade, do arquiteto italiano Aldo Rossi, publicado
pela primeira vez em 1966 (ROSSI, 1988).

capítulo 5 • 134
Na apresentação do livro Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica
(1965-1995), da professora norte-americana Kate Nesbitt, o arquiteto e crítico de
arquitetura Victor Delaqua tentou sintetizar este período:

Na Europa e nos EUA, a partir de meados dos anos 1960, as objeções à ideologia
do movimento moderno se avolumaram e proliferaram rapidamente, incitando novas
reflexões e questionamentos não apenas sobre o movimento, como também sobre a
própria disciplina arquitetônica. A crítica que se constituiu a partir daqueles anos, de-
dicada ao reexame da disciplina e da modernidade cultural em curso, foi influenciada
por paradigmas externos à arquitetura, provenientes da literatura, da filosofia e da
psicanálise e caracterizou-se pela pluralidade e inexistência de um tópico ou ponto de
vista predominante (NESBITT, 2006).

Nesbitt cita, ainda, outros paradigmas teóricos. A semiótica interessava aos


arquitetos e urbanistas da época porque é o estudo da linguagem como um sistema
de signos e significados. A arquitetura e o urbanismo eram vistos como um sistema
de códigos e convenções funcionais e simbólicos. A obra tinha que ser analisada em
seu contexto porque, assim como na linguagem, o que nos permite compreender
um determinado significado é a relação que construímos e percebemos entre os
elementos individuais de uma composição. No urbanismo moderno, o conjunto
resultante era de fácil assimilação devido à unidade e semelhança entre as partes.
Já no pós-modernismo, buscavam-se conjuntos complexos que poderiam gerar
diferentes interpretações. Robert Venturi, autor do impactante livro Complexidade
e contradição em arquitetura, publicado originalmente em 1966, chamou essa nova
ordem de “o todo difícil” (VENTURI, 1995).
Enquanto os arquitetos e urbanistas modernos privilegiavam o Zeitgeist, que
podia ser traduzido literalmente da língua alemã como espírito do tempo, os
pós-modernos procuravam valorizar o genius loci, que, interpretado do latim, se-
ria o espírito do lugar específico. Como definiu o arquiteto austríaco Raimund
Abraham: projetar é reconciliar as consequências da intervenção na paisagem
(NESBITT, 2006)

O legado de Jane Jacobs

O livro Morte e vida das grandes cidades foi escrito em 1961, por Jane Jacobs,
e sintetizou a agenda do urbanismo pós-moderno, que analisamos anteriormen-
te,em uma linguagem de mais fácil compreensão para o leitor leigo. Na verdade,

capítulo 5 • 135
a autora não tinha formação específica em arquitetura, embora tenha trabalhado
como editora da revista nova-iorquina Architectural Forum.
A crítica principal da autora ao urbanismo moderno foi desenvolvida a partir
de uma análise muito simples. De acordo com Jacobs, o grande equívoco dos ur-
banistas modernos foi propor soluções de simplicidade elementar para as questões
complexas da cidade contemporânea. Por outro lado, ela alertava que o extremo
oposto tampouco era válido: imaginar a cidade como um fenômeno irracional e
desordenado levaria à imobilidade e à sensação de impotência. Entre estes dois
extremos, a autora apontava para uma nova direção metodológica: a cidade é um
problema de complexidade organizada.
A melhor maneira de intervir no espaço urbano seria, antes de tudo, ater-se ao
mundo real, prestar atenção à vida cotidiana dos habitantes do lugar e só então
propor qualquer ação. Ao invés de partir de um modelo universal pré-estabeleci-
do, melhor seria analisar as situações concretas. Para Jacobs, o principal elemento
da cidade era a calçada, que comparava a um espetáculo diário: “o balé da boa
calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre
repleto de novas improvisações” (JACOBS, 2003, p. 52).
Após analisar exemplos de diferentes bairros nas cidades norte-americanas de
Los Angeles, Boston, Chicago e Nova York, Jane Jacobs apontou algumas necessi-
dades básicas para o bom funcionamento dos espaços urbanos:
•  A necessidade do uso misto: os bairros devem ter mais de uma função, a fim
de atrair pessoas com diferentes propósitos em horas diferentes do dia e da noite;
•  A necessidade de pequenos quarteirões: quadras devem ser curtas, com in-
terseções movimentadas que permitam criar oportunidades para a interação entre
os pedestres (conectividade);
•  A necessidade de edifícios antigos: bairros devem mesclar construções anti-
gas e edifícios novos, com diversas formas e que abriguem classes sociais diferentes;
•  A necessidade da densidade: bom bairro é aquele que tem alta concentra-
ção de pessoas e edifícios.

Além disso, a gestão das comunidades deveria contar com ações integradas,
adaptáveis à realidade específica e que contassem com a participação da população
local a fim de que se criassem espaços públicos de alta qualidade.

capítulo 5 • 136
Cena típica de um dia comum em Greenwich Village, bairro onde Jane Jacobs morava quan-
do escreveu Morte e vida das grandes cidades, e que inspirou notadamente a autora em suas
propostas. Foto: A shot in Greenwich Village, de Seth Werkheiser.

Jacobs morava na cidade de Nova York na época do rodoviarismo de Robert


Moses. Ele foi o mentor intelectual do sistema de autoestradas (highways) e estra-
das-parque (parkways) que recortaram todo o estado de Nova York. Este modelo
de urbanismo, que se baseava no automóvel particular como símbolo de desen-
volvimento pessoal, teve repercussões em diversos países, inclusive o Brasil. Apesar
disto, a grande batalha entre os dois foi vencida pela escritora, que conseguiu
impedir que uma via expressa projetada por Moses rasgasse o tecido urbano do sul
da ilha de Manhattan, no bairro que ficou mundialmente conhecido como Soho.
O livro de Jacobs, associado à sua ação política, foi uma arma poderosa contra
o modelo rodoviarista e seus efeitos para o pensamento urbanístico podem ser sen-
tidos até hoje. Camila Bortoluzzi, em artigo para ArchDaily de outubro de 2012,
assim definiu o legado de Jane Jacobs:

Provavelmente a maior colaboração de Jane Jacobs às cidades é ter transformado o


modo como são analisadas. Sua crítica e suas ideias reverteram as tendências mais
tecnocratas da planificação para dar maior atenção ao valor das comunidades em
construir seu próprio projeto social no território (BERTOLUZZI, 2012).

capítulo 5 • 137
MULTIMÍDIA
Você poderá se interessar por: Jane Jacobs e a disputa das cidades, de Guilherme Prado
e Simon Ducroquet, do Nexo Jornal, publicado em julho de 2016 no YouTube: <https://www.
youtube.com/watch?v=vB8aJgMsrLg>.

O novo urbanismo norte-americano.

O legado de Jane Jacobs pode ser sentido atualmente na abordagem dos pro-
blemas de planejamento urbano, que tem tido um caráter mais local e mais hu-
mano, na revitalização dos centros históricos em diversas cidades do mundo e até
na revalorização do patrimônio histórico.
Nos Estados Unidos, alguns autores e movimentos seguiram direções bastante
diferentes a partir das diretrizes definidas por Jacobs. Robert Venturi, que seis anos
antes havia provocado uma revolução na teoria da arquitetura, ao iniciar um livro
com a expressão “Less is a bore!” – Menos é uma chatice!(VENTURI, 1995) –
aventurou-se pelo urbanismo com o trabalho intitulado Aprendendo com Las Vegas,
de 1972, fruto de uma pesquisa acadêmica realizada juntamente com os arquite-
tos e pesquisadores norte-americanos Denise Scott Brown, sua esposa, e Steven
Izenour (VENTURI, 1972). Venturi, Brown e Izenour analisaram o fenômeno da
urbanização dispersa (que veremos a seguir) a partir de Las Vegas, um “exemplo
exagerado de onde se podem tirar lições sobre o típico”. Mas veja como a premissa
básica para o trabalho poderia ter sido escrita pela própria Jacobs: “uma maneira
de o arquiteto ser revolucionário” é “aprender com a paisagem existente”.
Os herdeiros mais diretos de Jane Jacobs, porém, foram os arquitetos e ur-
banistas que formaram o movimento conhecido como New Urbanism ou novo
urbanismo norte-americano (Peter Calthorpe, Michael Corbett, Andrés Duany,
Elizabeth Moule, Elizabeth Plater-Zyberk, Stefanos Polyzoides e Daniel Solomon).
Eles estabeleceram um decálogo que listava os princípios que deveriam reger
um bom master plan (Fonte: Portal do New Urbanism):
10 Princípios do New Urbanism

1. Habilidade para caminhar (walkability): caminhadas de 10 minutos, com


ruas de pedestres e para pedestres;
2. Variedade de conexões (connectivity): uso da quadrícula (grelha ou grid),
além da indução de pedestres para os espaços públicos;

capítulo 5 • 138
3. Uso misto e diversidade: na escala do bairro, da quadra e até no mesmo edifício
com o convívio de pessoas de diferentes idades, classes sociais, culturas, etnias etc;
4. Diferentes tipologias residenciais: com tipos, tamanhos e preços diversos;
5. Qualidade de projeto na arquitetura e no desenho urbano: que leve em conta
a escala humana, os usos cívicos e coletivos, além da preocupação com o conforto,
a estética e o sentido de lugar;
6. Estrutura tradicional de bairro/comunidade: com uma distinção clara entre o
centro e a borda, distantes entre si por uma caminhada de dez minutos. No centro,
estaria o grande espaço público e cívico, visível para o restante do bairro ou cidade;
7. Densidade crescente: a proximidade gera eficiência;
8. Transporte eficiente: sobre trilhos (entre bairros e cidades: VLT –Veículo
Leve sobre Trilhos / bonde, trem e metrô) e pessoal (dentro do bairro: bicicletas,
patins, scooters / vespas / motocicletas);
9. Sustentabilidade: com impacto mínimo obtido pela utilização de tecnologia
limpa aliada à eficiência energética. A ideia seria minimizar o uso de combustíveis
não-renováveis e maximizar a produção local: caminhar mais e dirigir menos;
10. Qualidade de vida: “elevar o espírito humano”.

A comunidade de Celebration, na Flórida, tentou reunir diversos arquitetos historicistas em


uma cidade nova construída a partir dos princípios do New Urbanism: a sede dos correios foi
projetada por Michael Graves, o centro de acolhimento foi concebido por Philip Johnson, o
posto de saúde por Robert A. M. Stern. Há, ainda, obras de Charles Moore (centro de previ-
são), Cesar Pelli (cinema) e Robert Venturi e Denise Scott Brown (agência bancária).

Do pós-guerra à globalização:

Há um lapso de tempo entre a teoria e a prática em todas as áreas do conhe-


cimento, embora elas sejam indissociáveis. No caso da arquitetura, existe um fator
agravante. O arquiteto necessita de um cliente para poder conceber e aprovar um

capítulo 5 • 139
projeto até que a obra possa ser realizada. E estes já são momentos bem distintos:
as diferentes fases do projeto, a aprovação pelo cliente (além da legalização pelo
órgão público competente) e a etapa final, que é a da construção. Quando se trata
do urbanismo, estas etapas demoram ainda mais. O cliente de um projeto urbano
geralmente é um órgão governamental público ou uma grande empresa constru-
tora. O poder decisório, nestes casos, tende a ser mais lento, seja pelo montante de
dinheiro envolvido, seja pela quantidade de pessoas a serem consultadas.

TEORIA PROJETO

CRÍTICA OBRA

Quatro etapas da construção do pensamento em arquitetura e urbanismo, com destaque


para a crítica como etapa de renovação da teoria.

Há outro aspecto, quase sempre esquecido, que é o papel da crítica. Após a


ocupação pela população, os diferentes impactos na cidade podem ser avaliados.
A crítica alimenta as novas teorias, que são pensadas, elaboradas e debatidas nas
instituições acadêmicas e de pesquisa, nas publicações da crítica especializada etc.
Por último, há dois elementos que precisamos adicionar a este quadro: os interes-
ses do mercado imobiliário e o imaginário do público leigo.

REFLEXÃO
Se há, inevitavelmente, um deslocamento temporal entre a teoria e a prática, é muito
comum haver um descolamento conceitual entre o pensamento arquitetônico e urbanístico e
a oferta ou produção de edifícios, bairros, cidades e planos diretores.

capítulo 5 • 140
Por isso, enquanto os autores citados (como Alan Colquhoun, Christopher
Alexander, Collin Rowe, Kenneth Frampton e Kevin Lynch, todos professores)
buscavam um caminho alternativo e um novo pensamento para o urbanismo do
século XX, a cidade real, movida pela lógica do capital, espraiava-se pelo território
em categorias que ficaram conhecidas como: urbanização dispersa, cidade global,
cidade genérica, entre outras.

Urbanização dispersa

O termo urbanização dispersa tem sido a tradução utilizada com mais fre-
quência para o fenômeno conhecido originalmente pelo termo em inglês urban
sprawl. Entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o início dos anos 1970, o
aumento do preço dos terrenos nas áreas centrais das grandes cidades norte-a-
mericanas impulsionou uma procura por áreas mais distantes, com espaços mais
generosos e preços mais acessíveis.
A grande atração seriam os loteamentos com residências unifamiliares bas-
tante amplas e confortáveis. O poder público estimulou este processo com a cons-
trução de autoestradas. Os empresários do comércio viram aí uma grande opor-
tunidade para expandir as cadeias de lojas de departamento, enquanto a indústria
automobilística iria se beneficiar com o aumento das vendas de automóveis par-
ticulares. Demorou pouco para alguém tentar reunir lazer e comércio, com fácil
acesso por automóvel, em uma nova tipologia de centro comercial: os shopping
centers. Os subúrbios norte-americanos foram assim formados pela combinação
de autoestradas, loteamentos e shopping centers.

Segundo alguns, essa nova modalidade de metropolização descontínua, formada por


múltiplos centros urbanos, foi promovida por razões de defesa militar: espalhar a po-
pulação a fim de dispersar os alvos de uma eventual guerra nuclear. De acordo com
outros, o verdadeiro objetivo era o desenvolvimento da indústria automobilística, com o
aproveitamento das plantas industriais dedicadas, até aquele momento, à produção de
veículos para as forças armadas.
Em qualquer hipótese, o fenômeno foi impulsionado fortemente pela valorização do
preço do solo nos grandes centros urbanos e a consequente busca de terrenos mais
baratos, em áreas semirrurais que passariam a ser alimentadas por autoestradas (high-
ways) e por filiais das grandes redes de varejo norte-americanas, reunidas em centros

capítulo 5 • 141
comerciais climatizados e com vasta oferta de estacionamento (shopping malls ou
shopping centers). A forma residencial característica desse modo de vida seriam os
grandes condomínios fechados de residências unifamiliares com garagens e jardins
próprios, além de alguns serviços compartilhados voltados ao lazer e à segurança.
(NUNES-FERREIRA, 2014, pp. 18 e 19)

Vista aérea de uma comunidade característica da urbanização dispersa, em Colorado


Springs, subúrbio norte-americano.

O fenômeno da dispersão urbana não ficou restrito aos Estados Unidos. Muito
ao contrário, o modelo foi reproduzido em diversas áreas de expansão de cidades
mundo afora, inclusive no Brasil. Como o poder de investimento da iniciativa
privada mostrou-se muito superior ao planejamento público, os subúrbios afluen-
tes brasileiros transformaram-se em manchas de um tecido urbano descontínuo e
fragmentado.

Cidade global, cidade genérica e a cidade da sociedade em rede

A globalização econômica e as telecomunicações contribuíram para produzir uma es-


pacialidade para o urbano que se apoia em redes transnacionais e localizações territo-
riais com concentrações maciças de recursos. Esta não é uma característica

capítulo 5 • 142
completamente nova. Ao longo de séculos, as cidades têm estado nos cruzamentos
de grandes processos, amiúde internacionais. O que é diferente hoje são a intensida-
de, a complexidade e a abrangência global destas redes, a extensão a que porções
significativas de economias são agora desmaterializadas e digitalizadas e, portanto,
a extensão que elas podem viajar a grandes velocidades através de algumas dessas
redes, e, em terceiro lugar, o número de cidades que são parte de redes transnacionais
operando em escalas de geografia extensa.
A nova urbanidade espacial assim produzida é parcial em um duplo sentido: ela é res-
ponsável apenas por parte do que pensaríamos como as divisas espaciais administrati-
vas ou no sentido de um imaginário público da cidade. O que sobressai, entretanto, é a
extensão da qual a cidade permanece uma parte integral nestas novas configurações.
Saskia Sassen (LEGATES, 2003, p.220)

A cidade do século XXI tem recebido diversas denominações, que variam de


acordo com as características específicas que cada autor decidiu enfatizar. O con-
ceito da cidade global foi cunhado por Saskia Sassen, professora de sociologia da
Universidade de Chicago, a partir das considerações expostas na citação acima
reproduzida. Já Rem Koolhaas, famoso arquiteto holandês, analisou diversos cen-
tros urbanos da atualidade, em especial as megacidades que surgiram na virada
do século nos países em desenvolvimento (entre eles os BRICS: Brasil, Rússia,
Índia, China e África do Sul – South Africa, no original em inglês), e destacou
sua semelhança aparente, a despeito das diferenças culturais originais. Por isso,
ele escolheu o termo cidade genérica para designar esta interpretação crítica sobre
bairros mais recentes, áreas de expansão e projetos de cidades novas encontrados,
particularmente, no sudeste asiático e em países da América do Sul, como o Brasil.
A cidade genérica é estruturada a partir de pistas de alta velocidade que co-
nectam diferentes empreendimentos privados fechados, tais como condomínios
residenciais, comercias ou corporativos. Os espaços de convívio e lazer também
são privatizados em shopping centers, arenas de esporte e aeroportos, onde “tudo
é consumo”. As tipologias residenciais são predominantemente verticais. A cidade
genérica é policêntrica, com núcleos de serviços ao longo de uma rede espraia-
da pelo território. Consequentemente, seus moradores guardam pouca relação de
identidade com os centros históricos das cidades tradicionais. Como definiu o
próprio Koolhaas:

capítulo 5 • 143
A cidade genérica é a cidade livre da opressão do centro, da camisa de força da iden-
tidade. (...) É a cidade sem história, um reflexo das habilidades e das necessidades do
presente. (...) A (sua) grande originalidade (...) é simplesmente abandonar o que não
funciona. (...)
A cidade genérica é tudo que restou do que era a cidade – é a pós-cidade. (KOO-
LHAAS, 1995, pp. 1248 a 1264)

A cidade contemporânea, global e genérica, como descrita e interpretada


por Sassen e Koolhaas respectivamente, seria uma manifestação de diferentes for-
ças atuantes na sociedade pós-industrial, cujo principal meio de produção são os
fluxos de informação e a oferta de serviços. O cientista social espanhol Manuel
Castells descreveu as cidades atuais como “pontos nodais de conexão às redes glo-
bais”, distanciadas de aspectos locais em favor de uma grande sociedade em rede
mundial (CASTELLS, 2002).

Urbanismo híbrido

As diferentes visões sobre o que é uma cidade que vimos até o momento
parecem evidenciar que cidades são sistemas complexos e variáveis, que estão
em permanente transformação. Enquanto, nos séculos XIX e XX, boa parte dos
urbanistas estava à procura de uma forma para a cidade ideal, os autores mais
contemporâneos, em sua maioria, buscam analisar a cidade real.
Você já deve ter notado que alguns conceitos apresentados aqui não são neces-
sariamente excludentes. Podemos encontrar, por exemplo, fragmentos da cidade
moderna, da cidade informal e da cidade genérica reunidos em diversas regiões
metropolitanas do Brasil. Por isso, o termo urbanismo híbrido tem sido utilizado
com frequência cada vez maior.
A expressão cidade híbrida foi utilizada por George Katodrytis, professor
da American University de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, para se referir
a cidades como Dubai, onde os edifícios e os espaços urbanos reúnem símbolos
heterogêneos de diversas culturas (KATODRYTIS, 2004). Na verdade, esta defi-
nição aplica-se a diversas cidades contemporâneas, que refletem a superposição de
camadas da cultura atual: erudita e popular, local e global.

capítulo 5 • 144
©© PIXABAY.COM

Dubai é um exemplo de cidade contemporânea, onde há referências a diferentes culturas.

O arquiteto argentino Juan Carlos Pérgolis, que hoje é diretor do Centro de


Pesquisa da Faculdade de Arquitetura da Universidade Católica da Colômbia, di-
vidiu os modelos ocidentais de urbanismo em três momentos:
•  Cidade contínua: cidade tradicional pré-industrial;
•  Cidade descontínua: modelo de urbanismo moderno do século XX
(CIAM);
•  Cidade fragmentada: produto de uma nova sociedade, mais individualis-
ta, em que “a fragmentação se apresenta como um traço dominante em todos os
campos da cultura”.

Este terceiro momento aproxima-se de temas que já analisamos anteriormente


como a dispersão urbana, a cidade global, a cidade genérica e a sociedade em rede. A
cidade fragmentada, segundo Pérgolis, tem uma dimensão difícil de assimilar por-
que é resultado da conurbação, ou seja, da união territorial e da interdependência
de mais de uma cidade. Há diversas referências de centralidade, normalmente em
espaços de uso coletivo com controle privado de acesso, como os grandes shopping
centers. As relações sociais terminam por acontecer tanto ou mais pelas intercone-
xões globais, como as redes sociais e a internet, do que a nível local, pela interação
dos vizinhos de uma mesma comunidade (PÉRGOLIS, 2005).

capítulo 5 • 145
Os desafios das megacidades

POPULAÇÃO (BILHÕES HAB)


12.000

10.000

8.000

6.000

4.000

2.000

0.000
1050
1100
1150
1200
1250
1300
1350
1400
1450
1500
1550
1600
1650
1700
1750
1800
1850
1900
1950
2000
2050
Crescimento da população mundial entre os anos de 1050 e 2050.

O início do século XX marcou um ponto de inflexão do crescimento demográfico


mundial que podemos sentir até hoje. A Terra teria atingido a marca de 7 bilhões de
pessoas em 2011, podendo chegar a 10 bilhões de habitantes em 2050, com reflexos
no processo de urbanização do planeta. Em 1900, apenas 10% da população vivia em
cidades. Estudos revelam que a população urbana teria superado a população rural por
volta de 2007, enquanto estima-se que 75% das pessoas viverão em cidades no ano de
2050. A escala também mudou. De acordo com as Nações Unidas, em 1950, menos
de uma centena de cidades no mundo tinham ultrapassado a marca de 1 milhão de
habitantes. Estima-se que, hoje, elas sejam mais de quinhentas. (DAVIS, 2006, p. 13).
Atualmente, consideramos que metrópole é a reunião de mais de uma cidade
que estabelecem entre si alguma interdependência funcional ou simbólica. Acima
das metrópoles, teremos as megacidades e as megalópoles.
As megacidades contemporâneas são aglomerações urbanas com mais de dez
milhões de habitantes. Elas podem estar em países desenvolvidos, como Estados
Unidos e França, ou em países emergentes como Brasil e México. Mas definitivamen-
te a megacidade é um fenômeno predominantemente asiático: entre as dez maiores
cidades do mundo, oito estão em diferentes países da Ásia (Japão, Indonésia, Índia,
Coreia do Sul, Filipinas, Paquistão e China). E se levarmos em consideração as atuais
conurbações entre megacidades, há sistemas espaciais urbanos na China que podem
atingir a marca dos 50 milhões de habitantes, como o Deltado Rio das Pérolas, que
inclui, entre outras, as cidades de Hong Kong, Macau, Cantão e Shenzhen.

capítulo 5 • 146
CIDADE - POP. (MIL HAB.)
Tóquio-Yokohama 37.750

Jacarta 31.320

Déli 25.735

Seul-Incheon 23.575

Manila 22.930

Mumbai 22.885

Karachi 22.825

Xangai 22.685

Nova York 20.685

São Paulo 20.605

Pequim 20.390

Cidade do México 20.230

Guangzhou-Foshan 18.770

Osaka-Kobe-Kyoto 16.985

Moscou 16.570

Daca 16.235

Cairo 15.910

Bangkok 15.315

Los Angeles 15.135

Calcutá 14.810

Buenos Aires 14.280

Teerã 13.680

Istambul 13.520

Lagos 12.830

Shenzhen 12.240

capítulo 5 • 147
CIDADE - POP. (MIL HAB.)
Rio de Janeiro 11.815

Kinshasa 11.380

Tianjin 11.260

Lima 10.950

Paris 10.870

Chengdu 10.680

Lahore 10.355

Londres 10.350

Bangalore 10.165

Ho Chi Minh 10.075

Nagoya 10.035

Lista das megacidades mundiais. Fonte: Demographia 2016.

POPULAÇÃO (MIL HAB)


40.000
35.000
30.000
25.000
20.000
15.000
10.000
5.000
0
a

rta

li

ai

hi

ai

ork

lo

m

nil
o

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ng

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rac
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ca
ha

Y
Ma

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Xa
Inc

Mu

Ka
Ja

va
ko

No


Yo

ul-
io-

Se
qu

10 maiores cidades do mundo por população, com destaque para as 8 maiores, localizadas
no continente asiático.Fonte: Demographia 2016.

capítulo 5 • 148
A cidade de São Paulo, onde moram 12.038.175 pessoas, é o único municí-
pio no Brasil com população superior a dez milhões de habitantes (Fonte: IBGE,
estimativa para 2016). Já a Região Metropolitana de São Paulo ultrapassa os 20
milhões de habitantes. Por outro lado, o Grande Rio de Janeiro, com seus 21 mu-
nicípios, seria a segunda megacidade do país.

REGIÃO
POSIÇÃO METROPOLITANA UF POPULAÇÃO
1 São Paulo SP 21 242 939

2 Rio de Janeiro RJ 12 330 186

3 Belo Horizonte MG 5 873 841

4 Distrito Federal DF 4 291 577

5 Porto Alegre RS 4 276 475

6 Fortaleza CE 4 019 213

7 Salvador BA 3 984 583

8 Recife PE 3 940 456

9 Curitiba PR 3 537 894

10 Campinas SP 3 131 528

11 Manaus AM 2 568 817

Vale do Paraíba e Litoral


12 SP 2 475 879
Norte

13 Goiânia GO 2 458 504

14 Belém PA 2 422 481

15 Sorocaba SP 2 066 986

16 Vitória ES 1 934 983

17 Baixada Santista SP 1 813 033

18 Ribeirão Preto SP 1 662 645

19 Natal RN 1 577 072

20 São Luís MA 1 526 213

capítulo 5 • 149
REGIÃO
POSIÇÃO UF POPULAÇÃO
METROPOLITANA
21 Piracicaba SP 1 452 691

22 Norte/Nordeste Catarinense SC 1 363 854

23 Maceió AL 1 314 254

24 João Pessoa PB 1 268 360

25 Teresina PI e MA 1 199 941

26 Florianópolis SC 1 152 115

27 Londrina PR 1 085 479

A tabela abaixo traz as regiões metropolitanas do Brasil acima de 1 milhão de habitantes


listadas por população conforme a estimativa para 2016.

Por último, há autores que consideram a interdependência entre Rio e São


Paulo (incluindo os municípios do Vale do Paraíba, da Grande Campinas e da
Baixada Santista) tão significativa que mereceria uma referência como uma mega-
lópole de 40 milhões de habitantes, também conhecida por Região Metropolitana
Ampliada Rio-São Paulo (RMARSP) (DAVIS, 2006, p.16).

Imagem de satélite da megalópole Rio de Janeiro - São Paulo à noite. Foto: NASA Earth
Observatory, 2014

capítulo 5 • 150
Deslocamento do eixo de crescimento das megacidades

Londres foi a grande metrópole da Revolução Industrial. Paris foi considerada


a capital do século XIX. Nova York recebeu, no século XX, o apelido de capital do
mundo. Todas estas cidades são metrópoles ocidentais. Mas o século XXI assistiu
a um deslocamento do crescimento vertiginoso de cidades. Em 1950, 60% da
população urbana vivia em cidades localizadas em países desenvolvidos, enquanto
40% moravam em cidades situadas nos países em desenvolvimento. Quarenta
anos mais tarde, os percentuais se inverteram. Estima-se que, hoje, 3 em cada 4
habitantes de grandes cidades estejam em países em desenvolvimento, propor-
ção que deve se aproximar de 80% em 2030.

DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO URBANA


PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO PAÍSES DESENVOLVIDOS

28% 25% 22%


38% 33%
51% 45%
60% 56%

72% 75% 78%


62% 67%
49% 55%
40% 44%

1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020 2030

Distribuição da população urbana mundial entre países em desenvolvimento e paí-


ses desenvolvidos.
©© CIDIDITY HAT | WIKIMEDIA.ORG

Vista noturna de Mumbai, 2011. Megacidade indiana com mais de 20 milhões de habitantes.

capítulo 5 • 151
Por fim, algumas tendências também podem ser destacadas. A Europa parece
ter atingido um patamar médio de estagnação. Algumas cidades europeias crescem
pouco, enquanto outras encolhem. O único país desenvolvido em que as cidades
continuam a crescer consideravelmente são os Estados Unidos. A América do Sul
é o continente mais urbano, com 80% de sua população vivendo em cidades. A
África é o continente menos urbanizado, com 40% da população em cidades,
embora algumas de suas cidades estejam entre as que mais crescem no mundo,
como Kinshasa e Lagos. A Ásia contém o maior número de cidades que crescem
mais rapidamente.

A informalidade nas cidades contemporâneas

A afluência de pessoas para as cidades parece ser um fenômeno irreversível. O


fato de que este fenômeno esteja acontecendo predominantemente em países em
desenvolvimento só se torna um problema devido a dois motivos centrais: a baixa
renda da população e o pouco poder de investimento dos governos destes países.
Alejandro Aravena, o arquiteto chileno ganhador do Prêmio Pritzker de 2016,
dividiu esta questão em três temas principais ou “ameaças”:
•  Escala;
•  Velocidade;
•  Escassez.

ATENÇÃO
O Prêmio Pritzker de Arquitetura é considerado a maior honraria que um arquiteto pode
re-ceber. O prêmio tem sido concedido anualmente, desde 1979, pela Fundação Hyatt (que
é comandada pela família Pritzker), para um arquiteto “que tenha produzido contribuições
consistentes e significativas para a Humanidade e para o ambiente construído por meio da
arte da arquitetura”. (Fonte: Portal Pritzker Prize – tradução do autor)

De acordo com Aravena, um terço dos 3 bilhões de pessoas que vivem nas
cidades atualmente tem uma renda inferior à linha de pobreza. Em 2030, serão
2 em cada 5 bilhões de pessoas abaixo desta mesma faixa de renda. Ele sintetiza
a questão em uma simples equação: o mundo precisaria construir o equivalente
a uma cidade de 1 milhão de pessoas a cada semana pelos próximos 15 anos
(ARAVENA, 2014).

capítulo 5 • 152
MULTIMÍDIA
A apresentação de Alejandro Aravena Aravena fez parte da série TED Talks e ocorreu no
Rio de Janeiro em 2014. Disponível em ted.com ou no YouTube.

Mas a equação de Aravena pode ser considerada otimista. Algumas cida-


des crescem a taxas inimagináveis até o século passado. Daca, em Bangladesh, e
Kinshasa, no Congo, cresceram cinquenta vezes desde 1950. A região metropo-
litana expandida de Lagos pulou de 300 mil habitantes em 1950 para os mais de
20 milhões atuais. Até 2050, a capital da Nigéria terá crescido cem vezes em cem
anos (Fonte: Gypsi Database)
A obra mais contundente sobre a informalidade das cidades nos países em desen-
volvimento foi o livro Planeta Favela, lançado em 2006 pelo professor do departa-
mento de História da Universidade da Califórnia, Mike Davis. A confirmar os dados
de Aravena, Davis nos lembra que “desde 1970, o crescimento das favelas em todo o
hemisfério sul ultrapassou a urbanização propriamente dita” (DAVIS, 2006, pp. 28 e
29). Na maioria das cidades brasileiras a proporção entre as construções informais e os
bairros legalizados varia de 20% a 50%. Lima, a capital do Peru tem 70% de ocupação
informal. Situações semelhantes acontecem na África e em boa parte da Ásia.
©© CHENSIYUAN | WIKIMEDIA.ORG

Via principal de acesso à favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

capítulo 5 • 153
O sudeste asiático merece destaque neste contexto, pois ainda guarda algu-
ma relação entre urbanização e crescimento econômico. Se a China tem hoje
200 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, ao menos a economia chine-
sa vem crescendo fortemente nas últimas décadas. Como lembra um estudo da
Universidade de Yale:

Depois das reformas econômicas de 1978, a China tornou-se a grande economia que
mais cresceu no mundo, com taxas médias de crescimento de dois dígitos durante os
últimos 34 anos. Em 2010, a China tornou-se a segunda maior economia do mundo
em PIB nominal, atrás apenas dos Estados Unidos, e (...) poderá tornar-se a maior
economia do mundo já em 2020. (YIN, 2013)
©© J. PATRICK FISCHER | WIKIMEDIA.ORG

Perfil de Pudong, centro de Xangai, na China.

De fato, a situação chinesa é bem mais confortável do que aquela de outros


países da África e da América Latina, onde as cidades crescem 5% ao ano, em
média, mesmo em tempos de recessão econômica. E, mesmo no caso da China,
nem todas as notícias são boas. O estudo de Yale concluiu que “os benefícios desse
crescimento acelerado não alcançaram igualmente todos os segmentos da popula-
ção. Nos últimos anos, à medida que a economia se expandiu, a desigualdade de
riqueza na China também aumentou dramaticamente” (YALE, 2013).

capítulo 5 • 154
A primeira megalópole surgiu no país mais rico do mundo. Estima-se que
ela abrigue hoje 50 milhões de habitantes entre as cidades de Boston, Nova York,
Filadélfia, Baltimore e Washington D. C., no nordeste dos Estados Unidos. Já a
maior conurbação “pobre” do planeta deverá ser aquela que se desenvolve em tor-
no de Lagos, na Nigéria, que poderá alcançar, em poucos anos, um total de mais
de 60 milhões de pessoas vivendo em quatro países à beira do Golfo da Guiné
(DAVIS, 2006, p. 16).

©© BENJI ROBERTSON | WIKIMEDIA.ORG


©© ZOUZOU WIZMAN | WIKIMEDIA.ORG

Vista panorâmica de Lagos, na Nigéria (esquerda) e dia de mercado em uma de suas ruas.

capítulo 5 • 155
Assim, as cidades do futuro, em vez de feitas de vidro e aço, como fora previsto por ge-
rações anteriores de urbanistas, serão construídas em grande parte de tijolo aparente,
palha, plástico reciclado, blocos de cimento e restos de madeira. Em vez das cidades
de luz arrojando-se aos céus, boa parte do mundo urbano do século XXI instala-se
na miséria, cercada de poluição, excrementos e deterioração. Na verdade, o bilhão de
habitantes urbanos que moram nas favelas pós-modernas podem mesmo olhar com
inveja as ruínas das robustas casas de barro de Çatal Hüyük, na Anatólia, construídas
no alvorecer da vida urbana há 9 mil anos. (Mike Davis)

A nova ética da cidade sustentável.

A primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano,


ocorrida em Estocolmo em 1972, colocou o conceito de sustentabilidade no
centro dos debates internacionais. Em 1987, a Comissão Mundial sobre o Meio
Ambiente e o Desenvolvimento produziu, sob a coordenação da então primei-
ra-ministra da Noruega, Gro Hardt Brundtland, o documento intitulado Nosso
Futuro Comum. O documento ficou conhecido também como Relatório
Brundtland e sua definição de sustentabilidade é a mais aceita até hoje.

CONCEITO
Sustentabilidade é a capacidade de satisfazer as necessidades presentes, sem com-
prometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.

A arquitetura nunca mais foi a mesma. Afinal, a construção de edifícios foi


logo considerada como um dos fatores que comprometem esta sustentabilidade
em diversos aspectos. Construções ocupam espaços antes vazios e, muitas vezes,
verdes. Edifícios consomem energia. Obras produzem entulho. Todo o material
utilizado consome algum tipo de matéria prima, muitas vezes é produzido in-
dustrialmente, tem de ser transportado desde a sua origem e aquilo que não for
aproveitado, será descartado como lixo.
O processo de decisão em um projeto arquitetônico passou a incluir novas
preocupações, tais como pesquisar o ciclo de vida útil do material a ser utilizado,
inclusive o modo como ele é produzido e transportado, e incorporar fontes de
energia renovável para suprir as necessidades das edificações. Nos países mais frios,
fez-se necessário, cada vez mais, isolar os ambientes internos para evitar a troca

capítulo 5 • 156
térmica com o exterior, enquanto, nos países tropicais, a conhecida preocupação
com o conforto ambiental juntou-se ao novo conceito de eficiência energética.
©© TOM CHANCE | WIKIMEDIA.ORG

O condomínio BedZED, na Inglaterra foi pioneiro na tentativa de se tornar carbono zero.

Demorou pouco, também, para que as cidades fossem igualmente responsabi-


lizadas pelo aumento da temperatura do planeta. Grandes áreas urbanas, com sua
combinação nociva de edifícios feitos de concreto e ruas revestidas por asfalto, for-
mam o efeito conhecido como ilha de calor. Já as emissões de gases do efeito estufa
nas cidades têm origem nos transportes, na produção industrial, assim como no uso
de energia para a iluminação pública e para o funcionamento de toda a infraestru-
tura urbana, além da climatização de edifícios e dos aparelhos elétricos ali utilizados.
De acordo com dados do Banco Mundial, as cidades são responsáveis por
dois terços do consumo total de energia do mundo e contribuem com uma es-
timativa de 70% dos gases do efeito estufa do planeta. Por isso, em 2013, o banco
lançou o Programa Cidades Habitáveis de Baixo Carbono, que visa a fomentar
projetos e políticas de desenvolvimento sustentável nas 300 maiores cidades do
mundo, a fim de diminuir as emissões de carbono ligadas aos setores de energia,
construção, transporte e resíduos sólidos e líquidos. Pelos cálculos do programa,
“se apenas 100 das maiores cidades do mundo embarcarem em um caminho de
desenvolvimento de baixo carbono, as emissões globais de gases de efeito estufa
poderia diminuir em cerca de 10% ao ano” (World Bank, 2014).

capítulo 5 • 157
A nova ética da sustentabilidade provocou um efeito paradoxal no campo do
urbanismo. Por um lado, ela vai ao encontro da agenda do urbanismo pós-mo-
derno, que analisamos anteriormente neste capítulo, no que se refere a revitalizar
bairros já consolidados da cidade existente, com toda a infraestrutura instalada, e
estimular usos mistos, o transporte público, a caminhabilidade, as ciclovias e tudo
o que represente uma menor utilização de combustíveis fósseis. A cidade compac-
ta tornou-se, assim, sinônimo de uma cidade mais sustentável.

A cidade de Nova York, com sua alta densidade, foi considerada por Le Corbusier um desas-
tre iminente. Hoje é um exemplo de cidade compacta. Além disso, diferentes medidas têm
sido tomadas para devolver algumas ruas e avenidas aos pedestres e reduzir a emissão de
gás carbônico dos veículos motorizados. Foto: acervo pessoal do autor.

Por outro lado, o projeto de uma sociedade fundamentada nas diferentes di-
mensões da sustentabilidade (ambiental e territorial, social, política, cultural e
econômica) resgatou em muitos arquitetos e urbanistas a ideia de criar novamente
uma cidade ideal. Entretanto, o projeto mais conhecido de cidade de emissão
zero vem sofrendo vários retrocessos.
Em 2006, o governo de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, contratou
o escritório do arquiteto e urbanista inglês Norman Foster para desenvolver o pro-
jeto da cidade de Masdar, um centro global para a indústria de tecnologia limpa,
com 50.000 habitantes e nenhum automóvel, que somaria 22 bilhões de investi-
mentos em dez anos. Hoje, a comunidade abriga o Instituto Masdar de Ciência e

capítulo 5 • 158
Tecnologia, onde estudam 2.000 alunos, sendo que apenas 300 moram no local
gratuitamente, e pequenas filiais de empresas de energia como a General Electric
e a Siemens, onde trabalha uma centena de funcionários. Das cem estações de
veículos autônomos previstas, foram construídas apenas duas. Estima-se que este-
jam concluídos apenas 5% do projeto, que combina os princípios da arquitetura
vernacular árabe com tecnologia de ponta. Por tudo isso, o jornal britânico The
Guardian declarou recentemente que a cidade de Masdar poderia se tornar a pri-
meira cidade verde fantasma no mundo (GOLDENBERG, 2016).
Mas o aparente insucesso de iniciativas como a cidade de Masdar não significa
que algumas iniciativas mundo afora não estejam apontando um caminho na bus-
ca de cidades mais sustentáveis. No início dos anos 1990, a cidade de Freiburg, no
sudoeste da Alemanha decidiu transformar um antigo quartel desativado em um
bairro sustentável para 5.000 moradores. O projeto de Vauban fundamentou-se
na tríade mobilidade, energia e construção social sustentável, além de promo-
ver a gestão participativa do bairro. Ligada ao centro da cidade por uma linha de
VLT (veículo leve sobre trilhos), a comunidade tem apenas duas ruas para veículos
motorizados, estacionamentos periféricos e um sistema de compartilhamento com
16 automóveis.
©© ANDREAS SCHWARZKOPF | WIKIMEDIA.ORG

A comunidade de Vauban, em Freiburg, na Alemanha tem metas arrojadas para a redução de


emissões de gás carbônico.

capítulo 5 • 159
As edificações têm até quatro pavimentos e contam com telhados verdes, pai-
néis solares fotovoltaicos, aquecimento solar de água, isolamento térmico, apro-
veitamento de água pluvial para vasos sanitários e jardins, cogeração de energia
por biomassa e drenagem de esgoto a vácuo. As residências consomem 10% da
energia de uma casa convencional, produzindo, em alguns casos, mais energia do
que o próprio consumo. As lojas exibem painéis eletrônicos que indicam a energia
produzida e economizada. Calcula-se que, em 2050, as emissões de gás carbônico
em Vauban cheguem a 20% em relação a comunidades convencionais (DIAS,
2015).
No Brasil, uma tentativa similar está sendo desenvolvida no bairro da Pedra
Branca, um loteamento com 250 hectares construído no terreno de uma antiga
fazenda, localizado a dezoito quilômetros de Florianópolis, Santa Catarina.
O urbanismo verde tem transformado também as áreas centrais de cidades co-
nhecidas internacionalmente. Em Amsterdã, algumas áreas de expansão do centro
histórico têm sido construídas a partir dos preceitos do novo urbanismo susten-
tável. Com uma releitura da arquitetura dos antigos canais, o bairro de Borneo
conta com uma rede de vias estreitas que privilegiam os pedestres e as bicicletas em
uma escala humana bastante agradável.

Bairro de Borneo, Amsterdã. Fotos: acervo pessoal do autor.

Mas o exemplo recente mais emblemático aconteceu na cidade de Nova York.


Uma linha férrea desativada foi transformada em um passeio público suspenso com
diferentes opções de lazer, gastronomia e contemplação. Em 2009, foi inaugurada a
High Line, projeto do escritório nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro, vencedor de
um concurso internacional. Todo o entorno de sua milha e meia de extensão transfor-
mou-se rapidamente em uma das áreas mais valorizadas do sul da ilha de Manhattan.

capítulo 5 • 160
Diferentes aspectos da High Line, em Nova York. Fotos: acervo pessoal do autor.

Em maior ou menor escala, urbanistas do mundo inteiro trabalham para criar


ambientes urbanos mais responsáveis do ponto de vista ambiental. Mas essas ini-
ciativas fazem mais sentido à medida que elas venham acompanhadas das teorias
mais recentes do urbanismo. A nova visão da cidade contemporânea pretende
recolocar o ser humano no centro das estratégias do planejamento urbano e preco-
nizam que os espaços públicos retomem seu papel de promotores da convivência
humana, além de estabelecerem uma relação mais harmoniosa com a natureza.

capítulo 5 • 161
Torre mais alta da Europa, o edifício The Shard, do arquiteto italiano Renzo Piano, localizado
no centro de Londres. Foto: acervo pessoal do autor.

O Edifício sintetiza algumas ideias do urbanismo contemporâneo:


•  Uso misto: abriga apartamentos, escritórios, hotel, comércio;
•  Cidade compacta: a cidade cresce por dentro, ela não se espalha
pelo território;
•  Diversidade: edifícios novos e antigos;
•  Valorização do espaço público: estímulo ao pedestre em detrimento
do automóvel;
•  Sustentabilidade: A forma propicia a circulação de ar natural.

capítulo 5 • 162
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