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GEOUSP – espaço e tempo, São Paulo, N°32, pp.

89- 109, 2012

A TEORIA DA PRODUÇÃO DO ESPAÇO DE HENRI LEFEBVRE: EM DIREÇÃO A


UMA DIALÉTICA TRIDIMENCIONAL

Christian Schmid

Tradutores: Marta Inez Medeiros Marques*; Marcelo Barreto

Resumo: Esse artigo trata da teoria da produção do espaço de Henri Lefebvre com o
objetivo de explicar os seus fundamentos e assim contribuir para a superação de confusões
que têm ocorrido com frequência na apropriação e interpretação de sua obra. Schmid
analisa e reconstroi a teoria de Lefebvre, identificando os elementos que constituem a sua
estrutura básica bem como os fundamentos de sua epistemologia. Para ele, é preciso
considerar três aspectos cruciais até então negligenciados para compreender a teoria de
Lefebvre: (1) sua versão triádica da dialética, desenvolvida com base em Hegel, Marx e
Nietzsche; (2) sua teoria da linguagem baseada em Nietzsche; e (3) a influência da
fenomenologia francesa em seu pensamento.

Palavras-chave: produção do espaço, teoria, Henri Lefebvre, dialética tridimensional,


fenomenologia.

THEORY PRODUCTION OF SPACE BY HENRI LEFEBVRE: TOWARD A THREE-


DIMENTIONAL DIALETIC

Abstract: This article examines Henri Lefebvre’s theory of production of space in


order to explain its fundaments, and thus contribute to overcome the misunderstandings
frequently occurred in the appropriation and interpretation of his work. Schmid analyzes and
reconstructs the theory of Lefebvre, identifying the elements that constitute its basic
structure as well as the fundaments of its epistemology. For him, it is necessary to consider
three crucial aspects hitherto neglected to understand Lefebvre’s theory: (1) his triadic
dialectic version, developed on the basis of Hegel, Marx and Nietzsche; (2) his theory of
language based on Nietzsche; and (3) the influence of French phenomenology in his
thinking.

Key Words: production of space, theory, Henri Lefebvre, three-dimensional


dialectic, phenomenology.

Introdução

A teoria da produção do espaço de espaço despertaram pouco interesse. A


Henri Lefebvre vem passando por um problemática sobre o espaço não figurava
considerável ressurgimento nos últimos até então na agenda teórica. Porém,
anos. Isso é ainda mais surpreendente hoje, o livro A Produção do Espaço é
porque ela provocou muito pouca reação regularmente citado. A “virada espacial”
na época do seu lançamento no início dos tem tomado as ciências sociais e as
anos 1970. Embora os textos de Lefebvre questões sobre o espaço têm recebido
sobre o marxismo, a vida cotidiana, e a grande atenção, estendendo-se para além
cidade tenham sido amplamente lidos da Geografia. Na essência, isto está
nessa época, suas reflexões sobre o ligado aos processos combinados de

*Professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. Mestre e Doutora em


Geografia Humana pela Universidade de São Paulo e especialista em Desenvolvimento Rural pela
Universidade de Paris I. Email: mimmar@usp.br
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urbanização e globalização: novas tem sido apreendido corretamente até o


geografias se desenvolveram em todas as momento e tem levado a consideráveis
escalas. Essas novas configurações mal-entendidos. O segundo fator
espaço-temporais que determinam o determinante é a teoria da linguagem. O
nosso mundo clamam por novos conceitos fato de que Lefebvre desenvolveu uma
de espaço correspondentes às condições teoria própria da linguagem (LEFEBVRE,
sociais contemporâneas. 1966) baseada em Nietzsche foi muito
A teoria da produção do espaço de raramente considerado na recepção e
Lefebvre parece ser altamente atraente interpretação de seus trabalhos, não
neste contexto. Sua significância reside obstante a virada linguística. Foi aqui que
especialmente no fato de que ela integra ele também, pela primeira vez, realizou e
sistematicamente as categorias de cidade aplicou sua dialética triádica
e espaço em uma única e abrangente concretamente. O terceiro elemento
teoria social, permitindo a compreensão e crucial é a fenomenologia francesa.
a análise dos processos espaciais em Enquanto que a influência de Heidegger
diferentes níveis. E mais, a ampla nos trabalhos de Lefebvre já foi discutida
recepção da teoria de Lefebvre de modo detalhadamente (veja os trabalhos de
algum fez uso dessas categorias em sua Elden e Waite), a contribuição dos
totalidade. Acima de tudo, sua fenomenológos franceses Maurice
reformulação e monopolização pós- Merleau-Ponty e Gaston Bachelard, na
modernas tem contribuído para uma maioria das vezes, não recebeu a devida
grande confusão. Isto requer uma consideração. Esses três aspectos
reconstrução da teoria da produção do negligenciados poderiam contribuir
espaço que particularmente incluísse decisivamente para um melhor
também o contexto. O que segue visa entendimento dos trabalhos de Lefebvre e
esclarecer os elementos que formam sua para uma apreciação mais completa de
estrutura básica e explicitar os sua importante e inovadora teoria da
fundamentos da epistemologia de produção do espaço.
Lefebvre, baseado numa ampla análise e
reconstrução de sua teoria da produção do UMA CONCEPÇÃO RELACIONAL DE
espaço (SCHMID, 2005). ESPAÇO E TEMPO
A análise mostra que, acima de
tudo, três aspectos negligenciados até o O conceito de produção de espaço
presente momento são cruciais para a era ainda incomum na época em que
compreensão da teoria de Lefebvre. Lefebvre desenvolveu sua teoria. Hoje,
Primeiro, um conceito específico de esta afirmação quase parece uma fórmula
dialética que pode ser considerado como vazia. Ela tem sido citada com tanta
sua contribuição original. No decurso de frequência que seu significado tem se
sua extensa obra, Lefebvre desenvolveu desgastado, não sendo mais possível
uma versão da dialética que foi, em todos reconhecê-lo. Porém, esta formulação e
os sentidos, original e independente. Ela suas implicações deveriam ser levadas a
não é binária, mas triádica, baseada no sério uma vez que elas indicam uma
trio Hegel, Marx e Nietzsche. Isso não
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mudança paradigmática no conceito status de puros, conceitos a priori. Eles


sociológico de espaço e tempo. são entendidos como sendo aspectos
Espaço (social) é um produto integrais da prática social. Lefebvre os vê
(social). Para entender esta tese como produtos sociais, consequentemente
fundamental, é necessário, antes de tudo, eles são ambos, resultado e pré-condição
romper com a concepção generalizada de da produção da sociedade.
espaço, imaginado como uma realidade Por conseguinte, espaço e tempo
material independente, que existe em “si não existem de forma universal. Como
mesma”. Contra tal visão, Lefebvre, eles são produzidos socialmente, só
utilizando-se do conceito de produção do podem ser compreendidos no contexto de
espaço, propõe uma teoria que entende o uma sociedade específica. Dessa forma,
espaço como fundamentalmente atado à espaço e tempo não são apenas
realidade social - do que se conclui que o relacionais mas fundamentalmente
espaço “em si mesmo” jamais pode servir históricos. Isso demanda uma análise
como um ponto de partida epistemológico. capaz de considerar as constelações
O espaço não existe em “si mesmo”. Ele é sociais, relações de poder e conflitos
produzido. relevantes em cada situação.
Mas, de que forma se abarca esse Como o espaço (social) é
espaço social? Como na maioria das produzido? A chave para a teoria de
i
teorias contemporâneas sobre o espaço , Lefebvre é a compreensão de que a
Lefebvre avança a partir de um conceito produção do espaço pode ser dividida em
relacional de espaço e tempo. O espaço três dimensões ou processos
representa simultaneidade, a ordem dialeticamente interconectados. Lefebvre
sincrônica da realidade social. Tempo, por também os chama de formantesii ou
outro lado, denota a ordem diacrônica e, momentos da produção do espaço. Eles
assim, o processo histórico da produção são duplamente determinados e da
social. Sociedade aqui não significa nem mesma forma duplamente designados.
uma totalidade espaço-temporal de Por um lado, eles se referem à tríade da
“corpos” ou “matéria”, nem uma soma “prática espacial”, “representações do
total de ações e práticas. São centrais espaço” e “espaços de representação”.
para a teoria materialista de Lefebvre, os Por outro lado, eles se referem ao espaço
seres humanos em sua corporeidade e “percebido”, “concebido” e “vivido”. Esta
sensualidade, sua sensibilidade e série paralela aponta para uma
imaginação, seus pensamentos e suas abordagem dupla do espaço: uma
ideologias; seres humanos que entram em fenomenológica e outra lingüística ou
relações entre si por meio de suas semiótica.
atividades e práticas. Na obra de Lefebvre, entretanto,
Lefebvre constroi sua teoria da essas três dimensões existem em um
produção do espaço social e do tempo estado de incerteza. Fiel às suas
social a partir dessas suposições. De premissas epistemológicas, Lefebvre as
acordo com essa perspectiva, espaço e introduz primeiramente como
tempo não são puramente fatores aproximações. Ele explora seus intervalos
materiais. Nem podem ser reduzidos ao de validade e as modifica ao longo de suas
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incursões teóricas. Seguiu-se então, na de palavras e um trocadilho que não se


recepção da teoria, uma confusão quase traduz, nada formal, e talvez também
total de opiniões sobre essas três nada que possa ser formalizado em um
dimensões. A discussão abrange todos os discurso perfeitamente coerente”
aspectos das três dimensões: seu status, (LEFEBVRE, 2000, p. 40).
sua construção interna e suas Hegel utilizou o conceito de
interconexões. Meras referências a Aufheben precisamente tendo em conta
passagens de seus textos para definir sua deslumbrante polissemia:
essas dimensões, porém, são
insuficientes. O significado das três “Suprassumir” possui dois
sentidos na língua: por um lado,
dimensões se torna claro somente no
significa preservar, manter, por
contexto geral da teoria e pode ser outro, também significa cessar,
levar ao fim. Mesmo “preservar”
reconstruído somente a partir de toda a
inclui um elemento negativo, ou
obra de Lefebvre. Para entendê-las, há de seja, que algo é removido de sua
imediaticidade e assim de uma
se começar pela dialética.
existência que é aberta às
influências externas, para ser
preservado. Desta forma, o que é
PENSAMENTO DIALÉTICO
“suprassumido” é ao mesmo
tempo preservado; apenas perde
sua imediaticidade, mas não é por
O que significa o pensamento
isso aniquilado. As duas
dialético? Primeiramente, significa o definições de “suprassumir” que
nós apresentamos, podem ser
reconhecimento de que a realidade social
referidas como dois significados de
é marcada por contradições e que dicionário para esta palavra. Mas
é certamente notável que uma
somente pode ser entendida por meio da
língua venha utilizar uma mesma
compreensão dessas contradições. palavra para dois sentidos
opostos. É um deleite para o
No âmago da dialética, encontra-
pensamento especulativo
se um conceito cujo significado mais encontrar na língua palavras que
trazem nelas mesmas uma
profundo aparece somente na língua
acepção especulativa; a língua
alemã: das Aufheben des Widerspruchs alemã possui várias delas... Algo é
“suprassumido” apenas na medida
(suprassunção da contradição)iii.
em que entra em unidade com o
Aufheben significa: por um lado, negação seu oposto; neste sentido mais
particular como algo refletido,
e superação; por outro lado, preservação
pode ser apropriadamente
e colocação em um nível superior. Essa chamado de momento (HEGEL,
1969, p. 107).
ambigüidade é completamente perdida na
Em oposição à lógica formal ou
maioria das traduções: por exemplo, no
bivalente, na dialética nenhuma
Francês (dépasser) ou no Inglês
construção de relações inequívocas e
(transcend ou sublate).
regras de associação lógica da verdade ou
Sobre o conceito de Aufheben,
falsidade das preposições é possível.
Lefebvre escreve: “É óbvio que este
Onde a lógica formal diz “nenhuma
conceito não tem aquela simplicidade,
proposição é simultaneamente verdadeira
clareza e sofisticação que o pensamento
e falsa”, o especialista em dialética
cartesiano nos leva a procurar nos
Lefebvre sustenta:
conceitos. O que nós encontramos na
origem desse conceito essencial? Um jogo
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Se nós considerarmos o conteúdo, atividade criativa não tanto real, mas uma
se existe um conteúdo, uma
realização: um devir. Entre as duas
proposição isolada não é nem
verdadeira, nem falsa; toda determinações, a negação e a
proposição isolada deve ser
conservação, se encontra, de acordo com
transcendida; toda proposição
com um conteúdo real é ambos Lefebvre, o indefinido, a abertura: a
verdadeira e falsa, verdadeira se é
possibilidade de realizar, por meio de uma
transcendida, falsa se é declarada
como absoluta (LEFEBVRE, 1968, ação, o projeto. A razão lógica e analítica
p.42).
e o discurso coerente e estritamente
formal não podem capturar o devir, o
Esta citação é a chave para a
movimento da suprassunção no ato
famosa figura de retórica de Lefebvre na
criativo.
qual ele responde às suas próprias
questões com “sim” e “não”.
Nós gostaríamos de dizer que o
Na opinião de Lefebvre, uma
‘conceito’ de suprassunção aponta
contradição, quando suprassumida, não para aquilo que, na atividade viva
(produtiva, criativa), não pode ser
alcança o seu verdadeiro estado ou
alcançado por meio do conceito
destino final, mas sua transformação – é em si mesmo. Por que não?
Porque essa força criativa não
superada, mas ao mesmo tempo também
pode ter uma completa definição,
preservada e adicionalmente não pode ser determinada
exaustivamente (LEFEBVRE, op.
desenvolvida, de acordo com essa dupla
cit.).
determinação (LEFEBVRE, 2000, p. 40).
Assim, suprassunção neste sentido radical Na suprassunção há sempre um
não significa de forma alguma alcançar risco, um possível fracasso e, ao mesmo
uma verdade superior ou definitiva. A tempo, uma possibilidade - uma promessa
contradição tende à sua solução, ainda (LEFEBVRE, op. cit.).
que a solução não negue simplesmente a Estas passagens demonstram
velha contradição mas também claramente que a dialética de Lefebvre
simultaneamente a preserve e a conduza possui fontes extremamente diferentes.
a um nível mais elevado. Portanto, a Esses trechos expressam não somente o
solução carrega nela o germe de uma pensamento de Hegel e de Marx, mas -
nova contradição. Esta compreensão da sobretudo - de Nietzsche.
dialética é caracterizada por uma
interpretação dinâmica e profundamente A DIALÉTICA ALEMÃ: HEGEL, MARX E
histórica do desenvolvimento e da NIETZSCHE
história. Lefebvre destaca: “Movimento é,
por conseguinte transcendência” No curso de seu longo esforço
(LEFEBVRE, 1968, p. 36). Isto poderia criativo, Lefebvre desenvolveu uma versão
também ser lido em seu reverso: altamente original da dialética baseada em
transcendência (suprassunção) significa seu continuado engajamento crítico com
movimento (histórico). Hegel, Marx e Nietzsche; três pensadores
Mas Lefebvre não para por aí. alemães que foram, de longe, os que mais
Lendo de forma materialista, o conceito de influenciaram a configuração de sua
suprassunção denota um ato (ação), uma teoria.
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Não é possível apresentar aqui termo que pode ser resumido na figura
uma exposição, mesmo que parcialmente bem conhecida: afirmação, negação e
“válida”, da dialética de Lefebvre, mais negação da negação. O primeiro termo
ainda, uma vez que ele modificou sua postulado, a afirmação, também contém
posição repetidas vezes, enriquecendo-a nele mesmo sua negação que o nega e ao
com novas facetas. Sua familiaridade com mesmo tempo o completa. Baseado em
a dialética se reporta ao período em que sua conexão interior, os dois termos
ele era um jovem estudante de filosofia. exercem uma influência recíproca em cada
Os elementos essenciais das dialéticas um e produzem um terceiro termo no qual
iniciais de Lefebvre já são especificados o primeiro termo reaparece mais bem
em La Conscience Mystifiée. O Marxismo definido e enriquecido, e também o
Dialético apresenta uma discussão mais segundo, cuja definição se junta ao
ampla da dialética de Hegel e a sua crítica primeiro. O terceiro termo volta-se contra
feita por Marx. Finalmente, uma o primeiro ao negar o segundo e assim
formulação detalhada e extremamente redime o conteúdo do primeiro termo pela
sofisticada é encontrada em Lógica superação do que nele estava incompleto
Formal, Lógica Dialética, projetada como o e limitado – destinado a ser negado
primeiro volume e introdução de uma (LEFEBVRE, 2000, p. 34).
série amplamente ambiciosa de oito Lefebvre critica esta dialética
volumes sobre o materialismo dialético. O hegeliana em dois planos. Primeiro, ele
próximo estágio importante é rejeita sua concepção idealista. Para
Métaphilosophie. Nela, Lefebvre Hegel, o movimento dialético ocorre no
desenvolve uma crítica radical da filosofia conceito e,6conseqüentemente, apenas no
focada em Nietzsche, articulando ao pensamento. A crítica de Lefebvre chama
mesmo tempo uma nova dialética triádica. a atenção para o fato de que esta dialética
A mais importante realização e aplicação não pode ser aplicada à realidade. Além
dessa dialética encontra sua expressão em disso, a contraditória natureza da vida não
A Produção do Espaço. Porém, ela só é é imaginada, mas real. Consequentemente
desenvolvida completamente em estudos é mais importante compreender a vida
posteriores, particularmente em o Retour real em todas as suas contradições. Por
de la Dialectiqueiv. isso, Lefebvre segue Marx que pôs de pé a
Seguindo a dialética hegeliana, a dialética de Hegel e deu precedência não à
dialética de Lefebvre começa no nível do ideia, mas ao processo material da
conceito: a identidade de um termo produção social.
somente pode ser compreendida em A segunda crítica de Lefebvre
relação a outros termos e assim em relaciona-se ao “sistema” dialético
relação à sua própria negação. Assumir a construído por Hegel: ao sistematizar a
existência de um objeto, então, também filosofia, Hegel para o fluxo do tempo,
significa sempre assumir a existência de declara o processo do devir fechado,
seu oposto. Um terceiro termo emerge de destruindo sua mais valiosa abordagem.
modo que, ambos, nega e incorpora os Essa linha de pensamento impede a
outros dois. A postulação de um termo, liberação do homem porque tende a
desta forma, inicia um auto-movimento do dominar a prática e desse modo alia-se
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com o poder, até mesmo tornando-se o A DIALÉTICA TRIDIMENSIONAL


próprio poder. Essa crítica do poder
prático e da força da abstração – de Assim, Lefebvre desenvolve uma
pensar, escrever, e da linguagem – é o figura tridimensional da realidade social. A
leitmotiv que percorre toda a obra de prática social material tomada como ponto
Lefebvre. Isso também constitui a base de de partida da vida e da análise constitui o
seu ataque cortante e geralmente furioso primeiro momento. Ela permanece em
à filosofia e à ciência contemporâneas, e, contradição com o segundo momento:
em suas últimas obras, ao planejamento e conhecimento, linguagem e palavra
à arquitetura. escrita, compreendidos por Lefebvre como
Contra o poder mortal do signo, abstração, como poder concreto e como
Lefebvre, seguindo Nietzsche, postula a compulsão ou constrangimento. O terceiro
metamorfose do signo: a poesia. Na visão momento envolve poesia e desejo como
de Lefebvre, a obra de arte sozinha é a formas de transcedência que ajudam o
unidade do finito e do infinito, devir a prevalecer sobre a morte.
infinitamente determinada e viva Lefebvre, porém, não para nessa
(LEFEBVRE, op. cit.). No curso da luta que suprassunção em transcedência e poesia.
supera a contradição entre trabalho e Desta maneira, uma figura dialética
brincadeira, o poeta resgata a palavra da tridimensional emerge em que os três
morte – uma luta que é tão somente tão momentos são dialeticamente
terrível quanto o terreno instável no qual interconectados: prática social material
ela se resolve. Aqui a preocupação de (Marx); linguagem e pensamento (Hegel);
Lefebvre não é a arte erudita, mas a arte e o ato criativo, poético (Nietzsche).
cotidiana, a poesia da vida cotidiana, a Isso tem uma importância
arte da vida: “Por este meio, a decisiva, pois com essa figura
racionalidade marxista se junta ao tridimensional a natureza da dialética
pensamento de Nietzsche na elucidação alterou-se profundamente. Enquanto a
do devir” (LEFEBVRE, 2000, p. 129). dialética hegeliana (e também a marxista)
Por meio de sua adoção da repousa em dois termos em contradição
“dialética germânica”, Lefebvre chega a entre si e que são suprassumidos por
uma renovada dialética tridimensional que meio de um terceiro termo, a dialética
não tem paralelo na filosofia e na história triádica de Lefebvre postula três termos.
do conhecimento. Lefebvre, ele mesmo, Cada um deles pode ser compreendido
descreve sua dialética como uma crítica como uma tese e cada um se refere aos
radical de Hegel baseada na prática social outros dois e permaneceria uma mera
de Marx e na arte de Nietzsche (LEFEBVRE abstração sem eles. Essa figura triádica
1991, p. 406). Num nível geral, a figura não termina numa síntese como no
dialética fundamental na obra de Lefebvre sistema hegeliano. Ela liga três
pode ser compreendida como a momentos, que permanecem distintos
contradição entre pensamento social e entre si, sem reconciliá-los numa síntese –
ação social, suplementada pelo terceiro três momentos que existem em interação,
fator do ato criativo e poético. em conflito ou em aliança entre si
(LEFEBVRE, 2004, p. 12). Assim, os três
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termos ou momentos assumem igual mas a análise do devir. Seu método


importância e cada um toma uma posição analítico possibilita a descoberta ou
semelhante em relação aos outros. Desta reconhecimento do sentido: um horizonte
forma uma nova, tridimensional ou de devir – de possibilidades, incertezas,
triádica, versão da dialética emerge. probabilidades. E isso permite a
Foi apenas em seus últimos formulação de uma estratégia – sem a
trabalhos que Lefebvre definiu certeza de se atingir o objetivo
explicitamente essa dialética (LEFEBVRE, 1986, p. 41 e 42).
v
tridimensional . De acordo com ele, o seu A idéia de que isso possa ser uma
desenvolvimento foi em certa medida “dialética espacial” (SHIELDS, 1999) é,
subterrâneo por um longo tempo e contudo enganadora. Em vez disso, isto é
somente emergiu completamente mais um princípio geral aplicado por Lefebvre a
vi
tarde . Ele considera essa figura campos muito diferentes. Assim a tríade
tridimensional básica um desenvolvimento forma – estrutura – função, por exemplo,
complementar da dialética que ele aparece repetidamente em várias
compara com suas famosas passagens de sua obra. Em sua teoria da
predecessoras, a dialética hegeliana e a linguagem, ele segue este princípio
dialética marxista. De acordo com triádico e cuidadosamente diferencia entre
Lefebvre, a tríade hegeliana “tese – as dimensões paradigmática, sintática e
antítese – síntese”, que supunha construir simbólica da linguagem (ver abaixo). Em
o processo do devir, é uma ilusão uma vez Rhythmanalisys a tríade lê-se: melodia –
que é construída apenas uma harmonia – ritmo (LEFEBVRE, 2004, p.
representação. Em contraste com isso, a 12). Em La Présence et l’ausence ele
tríade marxista “afirmação – negação – questiona: “Existe de fato uma relação
negação da negação” reivindica a entre dois termos, exceto na
interpretação do processo de devir mas representação? Eles são sempre três. Há
não cumpre esta ambiciosa reivindicação. sempre o outro” (LEFEBVRE, 1980, p.
Ao que parece, no tempo histórico não 143). E, então, ele acrescenta uma lista
tem havido tantas rupturas profundas, de tríades que se relacionam aos mais
surpresas e lacunas intransponíveis como variados asepctos da realidade.
tem havido bifurcações, meia-voltas e Finalmente uma menção pode ser feita à
desvios que essa dialética não poderia unidade triádica fundamental da
compreender. Em oposição, Lefebvre concepção espaço-tempo: espaço-tempo-
avança a sua própria versão de dialética, energia (LEFEBVRE, 1986, p. 42).
“triádica” ou “ternária”, que é uma análise
triplamente avaliada. Ela postula três TEORIA DA LINGUAGEM
momentos de igual valor que se
relacionam entre si por meio de relações A primeira aplicação detalhada
variadas e movimentos complexos em que deste princípio tridimensional fundamental
ora um, ora outro, triunfa sobre a negação ocorreu em Le langage et la societé,
de um ou de outro. A reivindicação de publicada em 1966. Aí Lefebvre
Lefebvre não é mais a interpretação do desenvolve a sua própria teoria da
devir, nem mesmo a produção do devir, linguagem de orientação nietzschiana, a
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qual em muitos aspectos rompe com cada palavra torna-se


imediatamente um conceito, não
relação a premissas básicas da semiótica
tendo que servir como uma
contemporânea. Com sua construção recordação única e completamente
individualizada da experiência
tridimensional, forma-se uma espécie de
original, a qual ela deve o seu
cenário preliminar na teoria da produção nascimento, mas tendo que
simultaneamente se adequar a
do espaço, mesmo que Lefebvre não se
inúmeros casos mais ou menos
refira a isto especificamente. similares, que, falando
estritamente, nunca são iguais,
O ponto de partida da teoria da
portanto completamente
linguagem de Lefebvre é a poética de desiguais. Cada conceito se forma
equalizando o desigual
Nietzsche, especialmente em seu texto
(NIETZSCHE, op. cit.).
“Verdade e Mentira em um sentido Extra-
Moral”, publicado em 1873 (NIETZSCHE,
O que é então a linguagem?
1968, p. 42-47)vii. Lefebvre sustenta que
Lefebvre responde com a definição de
somente Nietzsche expõe o problema da
verdade de Nietzsche:
linguagem corretamente ao partir da
palavra falada e não de um modelo, e por
O que então é verdade? Uma
ligar, desde o início, significado com valor arma móvel de metáforas,
metonímias, antropomorfismos,
e conhecimento com poder. Lefebvre se
em resumo, uma soma de
refere especialmente aos conceitos relações humanas que têm sido
poética e retoricamente
clássicos de metonímia e metáfora que
intensificadas, transpostas e
assumiu um sentido radical na obra de embelezadas, e que parecem para
as pessoas, depois de um longo
Nietzsche. As palavras aqui vão além do
uso, fixas, canônicas, irrevogáveis
imediato, do sensual, do caos de (NIETZSCHE, op. cit.)ix.
impressões e sentimentos. Elas
Lefebvre, então, vê metáfora e
substituem esse caos com uma imagem
metonímia no sentido original como atos
ou uma representação falada, uma
que se tornam figuras retóricas somente
palavra, e desse modo uma metamorfose.
por meio do uso. Em conformidade, ele
As palavras de uma língua
compreende a sociedade como um espaço
consequentemente nos dão a posse
e uma arquitetura de conceitos, formas e
apenas de metáforas das coisas, e os
regras cuja verdade abstrata prevalece
conceitos surgem de uma identificação do
sobre a realidade dos sentidos, do corpo,
não-idêntico e, com isso, de uma
das vontades e dos desejosx.
metonímia (NIETZSCHE, op. cit.)viii.
Iniciando por estas considerações
Nietzsche escreveu: nós achamos que
Lefebvre desenvolve uma teoria da
conhecemos algo sobre as coisas em si,
tridimensionalidade da linguagem em seu
quando nós falamos de árvores, cores,
Le langage et la societé. A primeira,
neve e flores, e não possuímos nada além
dimensão sintática ou sintagmática, é
de metáforas das coisas, o que de forma
aqui, a bem dizer, a dimensão clássica da
alguma corresponde à sua essência
linguística e da gramática. Ela lida com as
original (NIETZSCHE, op. cit.).
regras formais de combinação que
Para Nietzsche,
determinam a relação entre as coisas,
suas possíveis disposições, estrutura das
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sentenças, e sintaxe (LEFEBVRE, 1966, p. segundo significado de símbolo: que é sua


242). substancialidade, sua ambiguidade e sua
Lefebvre diferencia por acréscimo complexidade que são integrais à
a dimensão paradigmática. Este conceito linguagem viva e vivida. Em sua opinião,
se refere a Roman Jakobson, que até mesmo a filosofia não tem tido
desenvolveu uma teoria bidimensional da sucesso em abrir mão de imagens e
linguagem, distinguindo entre dois tipos símbolos e, desta forma, da poesia,
de classificação de um signo linguístico embora ela tenha se comprometido com o
(JAKOBSON, 1971). O primeiro é a rigor discursivo. Assim, na filosofia
combinação ou o contexto; cada signo é também há ambiguidades e enganos,
formado por uma combinação de signos
ou aparece em combinação com outros uma feliz ambiguidade, o risco de
um engano. Que o discurso
signos. Cada unidade da linguística, desse
provenha do mestre para o
modo, serve como um contexto para discípulo, isto ocorre, não apesar
de, mas, por causa dessas
unidades mais simples ou ocorre no
ambiguidades e enganos: devido à
contexto de unidades mais complexas. palavra falada que sustenta o
discurso, e à imagens ou símbolos
Essa primeira classificação do signo que
que emprestam força aos
corresponde a um processo metonímico conceitos” (LEFEBVRE, 1966, p.
247-248).
pode ser atribuída à dimensão
sintagmática. Jakobson então diferenciou
Assim, Lefebvre não pretende, de
uma segunda operação linguística: seleção
forma alguma, cair na irracionalidade e no
ou substituição. Essa operação implica a
misticismo. Pelo contrário, ele quer
possibilidade de substituir um termo por
investigar o instintivo, o emocional e o
outro que é equivalente ao primeiro a
“irracional” como fatos sociais. É somente
partir de um ponto de vista e diferente
neste sentido que ele pretende
dele quando visto por um outro ângulo.
desenvolver interesse pelo símbolo
Esta segunda classificação do signo
novamente: em sua significância para os
corresponde a um processo metafórico e
seres humanos numa dada sociedade. O
se relaciona a um código, um sistema de
símbolo, assim, entra nas estruturas e
significados: paradigmas. Lefebvre nomeia
ideologias sociais e serve como um pilar
esta dimensão como a dimensão
para a alegoria e o fetiche. Ele constiui a
paradigmática.
base do imaginário social, que é diferente
Finalmente, Lefebvre acrescenta
do imaginário individual.
uma terceira dimensão a essas duas: a
Consequentemente há também uma
dimensão simbólica. Como ele mesmo
distinção clara entre a função filosófica do
admite, o conceito de símbolo causa
imaginário e a função social do símbolo.
confusão aqui, uma vez que vários
Que os símbolos não são exauríveis é para
significados podem ser atribuídos a ele.
Lefebvre de importância decisiva. Deste
De um lado, ele denota o signo
modo, sua formalização não é possível
formalizado da matemática; do outro, ele
(LEFEBVRE, 1966, p. 258-269).
é também carregado de imagens,
emoções, afetividade e conotações.
Lefebvre está visando precisamente esse
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LINGUAGEM E ESPAÇO fala como tal e,


conseqüentemente, encerram
A aplicação deste esquema ao formas verbalizadas tais como:
espaço pareceria agora inteiramente descrições, definições e
óbvia. Assim, Lefebvre postula especialmente teorias (científicas)
repetidamente que a atividade no espaço do espaço. Ademais, Lefebvre
estabelece um sistema que corresponde considera mapas e plantas,
xi
ao sistema de palavras até certo ponto . informação em fotos e signos
A partir desta perspectiva, a análise dentre as representações do
tridimensional da produção do espaço espaço. As disciplinas
aparece como se segue: especializadas envolvidas com a
produção dessas representações
Prática espacial: este são a arquitetura e o
conceito designa a dimensão planejamento e também as
material da atividade e interação ciências sociais (e aqui, a
sociais. A classificação espacial geografia é de especial
significa focar no aspecto da importância).
simultaneidade das atividades. A
prática espacial, em analogia com Espaços de representação:
a dimensão sintagmática da a terceira dimensão da produção
linguagem, denota o sistema do espaço é definida por Lefebvre
resultante da articulação e como a inversão (terminológica)
conexão de elementos ou da “representação do espaço” xii.
atividades. Em termos concretos, Trata-se da dimensão simbólica do
poder-se-ia pensar como as redes espaço. De acordo com isso,
de interação e comunicação se espaços de representação não se
erguem na vida cotidiana (ex. a referem aos espaços
conexão diária entre casa e o local propriamente, mas a algo mais:
de trabalho) ou no processo de um poder divino, o logos, o
produção (relações de produção e Estado, o princípio masculino e
troca). feminino e outros. Esta dimensão
da produção do espaço refere-se
A representação do ao processo de significação que se
espaço: representações do espaço conecta a um símbolo (material).
dão uma imagem e desta forma Os símbolos do espaço poderiam
também definem o espaço. ser tomados da natureza como as
Análoga à dimensão paradigmática árvores ou formações topográficas
da linguagem, uma representação proeminentes, ou eles poderiam
espacial pode ser substituída por ser artefatos, prédios e
outra que mostre similaridades em monumentos; eles poderiam
alguns aspectos e diferenças em também se desenvolver a partir
outros. Representações do espaço da combinação de ambos, como,
emergem ao nível do discurso, da por exemplo, as “paisagens”.
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que um morador da cidade desfruta um


De acordo com esse esquema, o passeio por lá (LEFEBVRE, 1991, p. 113).
espaço (social) pode ser analisado em Todavia, a atitude de Lefebvre em relação
relação a essas três dimensões. Na à versão fenomenológica da percepção é
primeira, o espaço social aparece na um tanto cética. Por isso, ele a combina
dimensão da prática espacial como uma com o conceito de prática espacial para
cadeia ou rede de atividades ou interações mostrar que a percepção não acontece
interligadas, as quais por sua parte apenas na mente mas se baseia numa
residem sobre uma base material materialidade concreta e produzida
determinada (morfologia, ambiente (LEFEBVRE, op. cit.).
construído). Na segunda, esta prática O conceito de vivido (le vécu)
espacial pode ser linguisticamente definida também revela um ponto de referência
e demarcada como espaço e, neste caso, fenomenológico. Lefebvre entende que o
constitui uma representação do espaço. vivido não pode ser compreendido
Esta representação serve como um historicamente sem o concebido. De
esquema organizador ou um quadro de acordo com o seu entendimento, a
referência para a comunicação, que separação do concebido a partir do vivido
permite uma orientação (espacial) e, ocorreu primeiro na filosofia ocidental.
assim, ao mesmo tempo, co-determina a Isso é como a contradição básica entre o
atividade. Na terceira, a “ordem” material vivido e o concebido surgiu, entre o “vécu”
que aflora na superfície pode tornar-se ela e o “conçu”. Rob Shields afirma, sem
mesma um veículo transmitindo referência alguma, que Lefebvre adotou o
significados. Dessa maneira, um “dualismo central” entre o vivido e o
simbolismo (espacial) se desenvolve concebido de Nietzsche e Spinoza
expressando e invocando normas, valores (SHIELDS, 1999, p. 9). No entanto, o
e experiências sociais. próprio Lefebvre relaciona o conceito de
vivido à fenomenologia e ao
FENOMENOLOGIA existencialismo, especialmente à Jean-
Paul Sartre. Em Métaphilosophie ele
Se a teoria da linguagem de Henri considera o vivido como o termo filosófico
Lefebvre é tida como uma fonte para a para a cotidianeidade (la quotidienneté)
teoria da produção do espaço, a outra (LEFEBVRE, 2000, p. 79).
fonte pode ser encontrada na Mesmo a interligação do vivido
fenomenologia. Os pontos de referência com o espaço, e assim o conceito de
fenomenológicos também se tornam espaço vivido, não foi criada por Lefebvre.
claros nos seguintes termos básicos: o O problema do espaço vivido começou a
percebido, o concebido e o vivido. ser levado em consideração no início da
Percepção é um conceito central década de 1930, nas observações das
da fenomenologia. Como um sujeito anomalias da experiência espacial na
percebe uma imagem, uma paisagem, um psiquiatria, sob hipnose e o consumo de
monumento? Evidentemente a percepção substâncias psicodélicasxiii.
depende do sujeito: um camponês não A fenomenologia descritiva foi de
enxerga “sua” paisagem da mesma forma grande importância para Lefebvre, no
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entanto. Em Fenomenologia da Percepção, Lefebvre. Essas imagens do espaço feliz


publicada em 1945, Maurice Merleau- procuram definir o valor humano de
Ponty desenvolveu uma teoria baseada “espaços de posse” (espaces de
nos conceitos básicos: “espaço”, “tempo” possession). Bachelard se refere aqui aos
e “mundo vivido” (monde vécu) espaços protegidos contra forças hostis,
(MERLEAU-PONTY, 1962). A diferença espaços amados ou espaços louvados.
entre o mundo vivido e o mundo
percebido já é explícita aqui; da mesma Vinculado a seu valor de protecão,
que pode ser positivo, existem
forma que o pensamento de que, por um
também valores imaginados, os
lado, a ciência se refere a uma experiência quais logo se tornam dominantes.
O espaço que foi apreendido pela
do mundo (e desta forma ao mundo
imaginação não pode permanecer
vivido) sem a qual os símbolos da ciência indiferente, sujeito às medidas e
estimativas do investigador. Ele
não teriam nenhum sentido e de que, por
foi vivido, não na sua positividade,
outro lado, a ciência é uma determinação mas com toda a parcialidade da
imaginação (BACHELARD, 1969, p.
e uma explicação do mundo percebido.
xxxi-xxxii).
Correspondentemente, Merleau-Ponty
distingue um espaço físico construído pela Aqui aparece a primeira distinção
percepção, um espaço geométrico entre um aspecto “real” (ou material) do
conceitualmente compreendido e, espaço e um aspecto vivido por meio da
finalmente, um espaço vivido (espace qual fica claro que ambos aspectos
vécu): o espaço mítico, o espaço dos poderiam se referir a um único e mesmo
sonhos, da esquizofrenia e da arte. Este “espaço”. O espaço feliz não é
espaço baseia-se na relação entre o meramente imaginado ou vivido, mas
sujeito e o mundo dele ou dela e é possui um valor de proteção original e
incorporado na corporeidade deste sujeito real. Também corresponde à prática
(MERLEAU-PONTY, 1962, p. 243-244 e espacial.
291). O terceiro aspecto do espaço, o
Todavia, a teoria de Lefebvre é espaço concebido, também aparece na
baseada muito mais em Heidegger e em obra de Bachelard e, de fato, é
Bachelard, cujos pensamentos sobre o explicitamente demarcado a partir do
viver e o morar, especialmente, ele espaço imaginado. No contexto da
enfatiza. A Poética do Espaço de Gaston estética do oculto, que trabalha com
Bachelard, a análise fenomenológica arcas, guarda-roupas e gavetas,
clássica sobre o vivido, publicada em Bachelard escreve: “uma gaveta vazia é
1957, possui particular significância neste inimaginável. Ela pode apenas ser
contexto. Nesta obra, Bachelard segue o pensada. E para nós que temos que
difícil projeto de esboçar uma descrever o que imaginamos antes daquilo
fenomenologia da imaginação baseada em que conhecemos, o que sonhamos antes
imagens poéticas do “espaço feliz” na do que verificamos, todos os guarda-
literatura (BACHELARD, 1969, p. xxxi). roupas estão cheios” (BACHELARD, 1969,
Em longos trechos desta obra, encontram- p. xxxiii-xxxiv). A seguinte passagem de
se reflexões que já apontam para o Lefebvre, que se pretende crítica, aparece
conceito tridimensional de espaço de como uma continuação: “Espaços vazios
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no sentido de um vazio mental e social apreendido por meio dos sentidos.


que facilita a socialização de um domínio Essa percepção constitui um
ainda não social é, na verdade, componente integral de toda
meramente uma representação do prática social. Ela compreende
espaço” (LEFEBVRE, 1991, p. 190). tudo que se apresenta aos
Um segundo ponto de referência sentidos; não somente a visão,
central da teoria da produção do espaço é mas a audição, o olfato, o tato e o
revelado, portanto, da seguinte forma: paladar. Esse aspecto
fenomenologia (francesa). Não obstante sensualmente perceptivo do
Lefebvre considera esta abordagem um espaço relaciona-se diretamente
tanto criticamente; em sua opinião, é uma com a materialidade dos
abordagem que ainda é muito fortemente “elementos” que constituem o
influenciada pela separação do sujeito e “espaço”.
do objeto de Descartes. Dessa forma, ele
critica Husserl, o fundador da Espaço concebido: o
fenomenologia, tanto quanto o seu aluno espaço não pode ser percebido
Merleau-Ponty, acima de tudo porque eles enquanto tal sem ter sido
ainda fazem da subjetividade do ego o concebido previamente em
ponto central da sua teoria e assim não pensamento. A junção de
são capazes de superar seu idealismo elementos para formar um “todo”
(LEFEBVRE, op. cit.). A proposta de que é então considerado ou
Lefebvre é, assim dizendo, a de uma designado como espaço presume
fenomenologia materialista – um projeto um ato de pensamento que é
que Merleau-Ponty também perseguiu, ligado à produção do
mas que nunca conseguiu completar. conhecimento.

A TRÍADE DIALÉTICA DO HOMEM Espaço vivido: a terceira


dimensão da produção do espaço
Lefebvre indica o acesso é a experiência vivida do espaço.
fenomenológico às três dimensões da Essa dimensão significa o mundo
produção do espaço com os conceitos de assim como ele é experimentado
percebido (perçu), de concebido (conçu) e pelos seres humanos na prática de
de vivido (vécu). Essa tríade é, ao mesmo sua vida cotidiana. Neste ponto,
tempo, individual e social; não é somente Lefebvre é inequívoco: o vivido, a
constitutiva da auto-produção do homem, experiência prática, não se deixa
mas da auto-produção da sociedade. exaurir pela análise teórica.
Todos os três conceitos denotam Sempre permanece um excedente,
processos ativos individuais e sociais ao um remanescente, o indizível, o
mesmo tempo. que não é passível de análise
apesar de ser o mais valioso
Espaço percebido: o resíduo, que só pode ser expresso
espaço tem um aspecto por meio de meios artísticos.
perceptível que pode ser
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A partir da perspectiva tridimensional. Ela procura apreender a


fenomenológica, a produção do espaço é prática social enquanto totalidade e não
baseada em uma tri-dimensionalidade que meramente um aspecto parcial dessa
é identificável em todo processo social. prática. É assim direcionada para um
Lefebvre demonstra isso utilizando o ponto crucial de toda teoria do espaço: a
exemplo da troca. A troca assim como a materialidade da prática social e o papel
origem histórica da sociedade da central do corpo humano.
mercadoria não é limitada à troca (física) Agora, Lefebvre vem para um
de objetos. Ela também requer segundo conjunto de conceitos: “o
comunicação, confronto, comparação e, percebido”, “o concebido” e “o vivido”.
por conseguinte, linguagem e discurso, Como demonstrado anteriormente, estes
signos e trocas de signos, ou seja, uma conceitos derivam da fenomenologia
troca mental, para que a troca material se francesa, especialmente de Bachelard e de
realize efetivamente. A relação de troca Merleau-Ponty. No entanto, comparado a
também contém um aspecto afetivo, uma essas abordagens, Lefebvre procura
troca de sentimentos e paixões que ao repetidamente manter o seu ponto de
mesmo tempo liberta e aprisiona o vista materialista dialético. Dessa forma,
enfrentamento (LEFEBVRE, 1977, p. 20- a perspectiva epistemológica desloca-se
22). do sujeito que pensa, atua e experimenta
para o processo de produção social do
DIMENSÕES ESPAÇO-TEMPORAIS DA pensamento, ação e experiências.
REALIDADE SOCIAL Quando aplicada à produção do
espaço, esta abordagem fenomenológica
Os princípios fundamentais da conduz às seguintes conclusões: um
teoria da produção do espaço de Lefebvre espaço social inclui não somente a
estão agora claros. O que é espaço? materialidade concreta mas um conceito
Lefebvre o compreende como um processo pensado e sentido - uma “experiência”. A
de produção que acontece em termos de materialidade em si mesma ou a prática
três dimensões dialeticamente material de per si não possui existência
interconectadas. Ele define essas quando vista a partir de uma perspectiva
dimensões de duas maneiras: de um lado, social sem o pensamento que os expressa
ele utiliza os três conceitos “prática e representa e sem o elemento da
espacial”, “representação do espaço” e experiência vivida, os sentimentos que
“espaços de representação”, que estão são investidos nesta materialidade. O
fundados em sua própria teoria da pensamento puro é pura ficção; ele vem
linguagem tridimensional. O aspecto do mundo, do Ser, do Ser material assim
especial de sua teoria da linguagem como de sua experiência vivida. A
consiste, por um lado, em sua construção “experiência” pura é, em última análise,
dialética básica tridimensional e, de outro, puro misticismo: ela não possui uma
na sua dimensão “simbólica” baseada em existência real (social) sem a
Nietzsche. No entanto, a teoria da materialidade do corpo na qual está
produção do espaço dá um passo decisivo baseada e sem o pensamento que a
adiante da teoria da linguagem estrutura e expressa. Estas três
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dimensões da produção do espaço Lefebvre é particularmente notável apesar


constituem uma unidade dialética das últimas reconsiderações de Harvey.
contraditória. É uma tripla determinação: Entretanto, essa teoria dialética foi
o espaço emerge somente da interação de precisamente o que ajudou Lefebvre a
todas as três. avançar para além de um marxismo
O núcleo da teoria da produção do estreito e das limitações da crítica clássica
espaço identifica três momentos da da economia política. Para seguir esta
produção: primeiro, a produção material; posição, Harvey teria sido compelido a
segundo, a produção de conhecimento; e, verificar mais precisamente as premissas
terceiro, a produção de significados. Isso básicas de seu próprio edifício teórico. De
torna claro que o foco da teoria de acordo com a própria análise de Lefebvre,
Lefebvre não é o “espaço em si mesmo”, esta questão forma a linha divisória entre
nem mesmo o ordenamento dos objetos e a teoria da produção do espaço e a
artefatos (materiais) “no espaço". O “economia política do espaço” como foi
espaço é para ser entendido em um subsequentemente mais desenvolvida por
sentido ativo como uma intrincada rede de Harvey (LEFEBVRE, 1991, p. 350).
relações que é produzida e reproduzida Problemas maiores são causados
continuamente. O objeto da análise é, particularmente pela interpretação de
consequentemente, o processo ativo de Edward Soja, o qual tem sido
produção que acontece no tempo. extrememente influente, dentro e fora do
campo da geografiaxiv. O problema básico
CONFUSÕES DIALÉTICAS com essa apropriação pós-moderna da
teoria de Lefebvre se encontra no fato de
Esta reconstrução contextual da que ela constroi, assim dizendo, espaços
teoria da produção do espaço mostra independentes a partir das três dimensões
claramente como algumas de suas ou momentos da produção do espaço.
interpretações atuais mais influentes Soja postula a existência autônoma dos
possuem consideráveis limitações e três espaços: um primeiro espaço físico,
contribuem mais para a confusão do que um segundo espaço mental e um terceiro
para o esclarecimento. o espaço social. Ele vê uma importância
Até mesmo David Harvey, que se estratégica no espaço social e rotula este
apropriou criativamente de muitos como “terceiroespaço” (thirdspace). Ele o
conceitos de Lefebvre, teve dificuldades entende como representando um espaço
com a tridimensionalidade de sua teoria. completo, um espaço vivo de
Ele conclui sua única e pequena digressão representação e o enxerga como um lugar
sobre esta questão com o seguinte de onde todos os espaços podem ser
argumento: “Mas afirmar que as relações apreendidos, entendidos e transformados
entre o experimentado, o percebido e o ao mesmo tempo (SOJA, 1996, p. 68-69).
imaginado são determinados De acordo com esse esquema sobre os
dialeticamente mais do que casualmente, três espaços, Soja também distingue
deixa as coisas demasiado vagas” “epistemologias” espaciais específicas que
(HARVEY, 1989, p. 219). Esse ceticismo são destinadas a serem investigadas
da tridimensionalidade da teoria de respectivamente: o primeiro, o segundo e
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até o terceiro espaço. Em Postmetropolis conceito, transcendental, que ele


ele utiliza esta diferenciação para dividir denomina como “a espacialização”. A luta
as diferentes abordagens da pesquisa com a dialética de Lefebvre finalmente
urbana em três categorias básicas. termina, no caso de Shield, em uma total
Apresar de tal concepção parecer confusão.
interessante, ela não tem muito em Até mesmo Stuart Elden tem uma
comum com a teoria de Lefebvre. De considerável dificuldade em acertar as
acordo com Lefebvre, não pode haver nem contas com a dialética de Lefebvre
um “terceiroespaço”, nem um primeiro ou (ELDEN, 2004, p. 37). Em sua crítica a
segundo espaço. Como demonstrado Soja e Shields ele corretamente postula
conclusivamente aqui, Lefebvre nunca que a concepção de Lefebvre nem
parte de três espaços independentes mas substitui o pensamento dialético nem
de três processos de produção representa a introdução do espaço na
interconectados dialeticamente. Apresar dialética. Ele localiza “os problemas de
de Soja repetidamente citar Lefebvre, sua Lefebvre com o materialismo dialético em
teoria espacial é, em última análise, sua tendência a uma imagem linear e
fundamentalmente diferente da teoria da teleológica da transformação histórica”
produção do espaço de Lefebvre. (ELDEN, op. cit.). Consequentemente, ele
Porém, não é apenas Edward Soja argumenta que Lefebvre concebe que “o
que tem dificuldades para entender a terceiro termo não é um resultado da
dialética de Lefebvre. Rob Shields, quem dialética... ele está lá mas não é mais um
trouxe à tona a primeira ampla exposição desfecho” (ELDEN, op. cit.). A dialética
do trabalho de Lefebvre em Inglês, não é simplesmente a solução de dois
também experimenta problemas termos conflitantes, mas um processo de
consideráveis com sua dialética. Em sua três vias onde a síntese é capaz de reagir
interpretação, parcialmente inspirada em sobre os dois primeiros termos. Também é
Soja, ele afirma que Lefebvre não exauriu questionável se tal construção ainda
completamente o significado de sua poderia ser denominada dialética porque o
“dialética espacial” (SHIELDS, 1999, p. pensamento dialético é fundamentalmente
120). Ele afirma, sem evidência alguma, baseado na dinâmica das contradições e
que a “interpretação usual” da dialética de não se restringe à interação mútua dos
Lefebvre é uma tese com duas antíteses: elementos. Consequentemente, Elden
a tese é “prática cotidiana e percepção”; a afirma que a “suprassunção” de Lefebvre
primeira antítese é “a teoria analítica e as (dépassement) é muito mais uma
instituições”; e a segunda antítese tradução de Überwinden (superação) de
compreende “os momentos vividos Nietzsche do que a Aufhebung marxista ou
intensamente”. Entretanto, o próprio hegeliana (abolição e preservação)
Shields considera tal exposição confusa e (ELDEN, op. cit.). Entretanto, como eu
então tenta traduzir novamente a dialética procurei demonstrar, esta interpretação
de Lefebvre a partir do esquema hegeliano não pode ser sustentada pela obra de
clássico de afirmação, negação e negação Lefebvre. Até mesmo a exposição de
da negação. Para completar esse Elden fracassou em minimizar a confusão
esquema, Shields encontra um quarto referente à dialética de Lefebvre.
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PERSPECTIVAS FUTURAS compreendido. Para isto, três tarefas


serão de vital importância. Primeiro, é
A conclusão crucial a ser extraída importante apreender a construção básica
da análise e da reconstrução da teoria da da epistemologia de Lefebvre para
produção do espaço de Lefebvre é a alcançar uma base teórica válida para a
seguinte: as três dimensões da produção análise empírica. Segundo, aplicações
do espaço precisam ser entendidas como fecundas da teoria de Lefebvre precisam
sendo fundamentalmente de igual valor. ser encontradas. Várias possibilidades
O espaço é, ao mesmo tempo, percebido, surgiram com este propósito, as quais
concebido e vivido. Nenhuma dessas esperam para serem inteiramente
dimensões pode ser imaginada como a exploradas. No entanto, algumas análises
origem absoluta, como “tese”, e nenhuma promissoras existemxv. Terceiro, o ponto
é privilegiada. O espaço é inacabado, crucial da abordagem de Lefebvre deve
assim, ele é continuamente produzido e ser levado em consideração: ir além da
isso está sempre ligado com o tempo. filosofia e da teoria e alcançar a prática e
Eu espero que com a atual a ação.
“terceira onda” de interpretações de
Lefebvre seu projeto teórico seja melhor

i
Ver, dentre outros: Harvey (1996) e Werlen ix
Ver também em Lefebvre, op. cit.
(1993).
x
ii
Ver também em Lefebvre (1991, p. 139).
Termo emprestado por Lefebvre do estudo de
sons musicais. Fant (1960) definiu formantes xi
Ver, como exemplo, em Lefebvre (1978, p.
como os picos espectrais do espectro sonoro. 282; 1991, p. 117).
Em diversas passagens de sua obra Lefebvre
usa o termo formante como sinônimo de xii
O tradutor para a língua inglesa utiliza aqui o
elemento, componente, dimensão. (nota dos termo “espaços de representação” ao invés de
tradutores) “espaços representacionais” o qual aparece na
iii
tradução para o inglês de A Produção do
Paulo Meneses e José Machado na tradução Espaço. A razão para tal não é somente pela
da Enciclopédia das Ciências Filosóficas e da precisão lingüística (em francês, Lefebvre utiliza
Fenomenologia do Espírito adotam o o termo “espaces de représentation”), mas para
neologismo “suprassumir” para traduzir o verbo dar importância ao termo “representação” que
aufheben e assim alcançar o seu triplo sentido é diretamente ligado à teoria (inacabada) de
de: negar, conservar e elevar. Suprassumir Lefebvre sobre a representação. Ver em
associa foneticamente termos que apresentam Lefebvre (1980).
o significado que se deseja expressar: supra
(elevar, ir além, ultrapassar); assumir xiii
Ver também em Gosztonyi (1976).
(conservar, manter para si); sumir (negar,
desaparecer). (nota dos tradutores) xiv
Ver Soja (1989; 1996; 2000).

iv
Ver Lefebvre & Guterman (1936) e Lefebvre xv
Ver Milgrom, et. al. (2005) e Stanek (2006).
(1947; 1986).

v
Ver Lefebvre (1980; 1986).

vi
Compare em Lefebvre (1986, p. 41-42).

vii
Ver também em Lefebvre (1991, p. 138).

viii
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GEOUSP – espaço e tempo, N°32 MARQUES, MARTA

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