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Os discursos ideológicos das corporações midiáticas e a

construção do imaginário social na civilização informacional


RENATO NUNES BITTENCOURT*

Resumo: Neste artigo propomos uma análise crítica dos dispositivos


ideológicos representados usualmente na Comunicação Social, utilizados em
especial pelo sistema jornalístico em sua expressão corporativa; tal
circunstância prejudica uma autêntica compreensão dos mecanismos
técnicos que fomentam as práticas comunicativas em sua expressão concreta.
Por conseguinte, o ofício do filósofo crítico da teoria da comunicação
consiste em desmistificar os conceitos e procedimentos que regem as
práticas jornalísticas do mundo corporativo.
Palavras-chave: Ideologia; Verdade; Informação; Jornalismo.

Abstract: In this article we propose a critical analysis of the ideological


devices represented usually ma Media, used in particular by journalistic
system in your corporate expression; such circumstances affect an authentic
understanding of technical mechanisms that foster communicative practices
in its concrete expression. Therefore, the craft of the philosopher critic of the
theory of communication is to demystify the concepts and procedures
governing journalistic practices of the corporate world.
Key words: Ideology; Truth; Information; Journalism.

*
RENATO NUNES BITTENCOURT é Doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. Professor do
Curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA.

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Fonte: Comunicação Corporativa e Design

Introdução conveniente os dispositivos técnicos


A proposta deste artigo consiste em utilizados pelos comunicadores
analisarmos criticamente alguns dos profissionais. Para tanto, se torna
pressupostos básicos das práticas imprescindível que coloquemos em
comunicativas estabelecidas pelo xeque a pertinência axiológica de
sistema midiático hegemônico, conceitos de suma importância na
realizando uma desmistificação configuração dos processos
conceitual e uma desmontagem comunicativos, tais como “verdade”,
semiológica da própria estrutura “objetividade”, “neutralidade”; tais
ideológica da moderna Comunicação conceitos, curiosamente, são abordados
Social, favorecendo assim uma como autênticos axiomas, circunstância
compreensão profunda da dimensão que prejudica o estabelecimento de uma
ideológica que perpassa as atividades genuína análise sobre a influência, a
comunicativas tradicionais. Cada vez interferência e a importância dos
mais constatamos a formação deficitária aparatos comunicativos na constituição
dos profissionais dos setores da da subjetividade humana. A própria
comunicação, pois se visa acima de estrutura midiática em seus mecanismos
tudo uma inserção imediatista no monopolistas do poder de distribuição
mercado de trabalho para o desempenho pública de informações de uma forma
de funções alienantes nas corporações geral propaga discursos ideológicos
midiáticas, e não o desenvolvimento falseadores das relações sociais e não
acadêmico através da reflexão crítica, saberes consistentes que promovam a
concretizado em especial pelo apreço supressão da alienação coletiva.
pela leitura de textos ou estudos de Althusser, em seu texto Aparelhos
casos técnicos relevantes para a Ideológicos do Estado, defende a tese
ampliação dos horizontes intelectuais do de que a Escola, a Igreja e a Família
comunicador social. seriam mecanismos pelos quais o
Estado inocularia na sociedade a sua
A análise crítica do ofício midiático é própria ideologia: “Toda formação
uma tarefa fundamental na constituição social, para existir, ao mesmo tempo
democrática da moderna sociedade de que produz, e para poder produzir, deve
informação, pois assim a esfera pública reproduzir as condições de sua
pode compreender de maneira justa e produção” (ALTHUSSER, 1985, p. 54).

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Mesmo que algumas corporações observador, que relaciona os fatos
midiáticas se encontrem em divergência propriamente ditos, mas também ao
com a estrutura do poder estabelecido, jornalista como intérprete e ao
seja por questões de cunho político, jornalista como narrador. A esses
econômico ou deontológico, tais três níveis correspondem as
exigências metodológicas
empresas da comunicação também são
respectivas de objetividade,
difusoras de ideologia, de modo que se imparcialidade e autenticidade, que
justifica a inserção da mega-mídia na são constitutivas de uma
categoria de “aparelhos ideológicos”. A informação verídica (CORNU,
argumentação de Niceto Blazquéz 1998, p. 64, nota 2).
corrobora a exposição precedente: “Os
meios de comunicação social são um Se analisarmos criticamente essa
instrumento de enorme eficácia para perspectiva, constataremos que ela é
impor ideologias e interesses de todo repleta de conotações ideológicas que
tipo, criando uma opinião pública na não correspondem exatamente àquilo
medida dos grupos que controlam as que é realizado na experiência concreta
informações” (BLAZQUÉZ, 1999, p, da prática jornalística, especialmente
51). quando esta é submetida a critérios
comerciais alheios aos concernentes ao
Portanto, um estudo rigoroso dos “nobre” ofício de promover o
mecanismos ideológicos subjacentes esclarecimento público. Afinal, a
nos meios de comunicação e em seus comunicação social é um poder
processos discursivos requer que estes empresarial, ideológico, econômico e
sejam abordados nesta categoria político de primeiro nível na sociedade
valorativa como maneira de se capitalista, e todas as organizações
proporcionar ao estudioso do assunto corporativas necessariamente se
uma genuína reflexão intelectual, utilizam dos seus mecanismos em prol
destituída de entraves preconceituosos da participação hegemônica na
que limitam a amplitude das formação da opinião pública. Heródoto
capacidades analíticas do investigador. Barbeiro salienta que “a comunicação
A construção do discurso midiático assume um lugar importante na
corporativo e sua inserção no estratégia das empresas porque um
imaginário social índice muito alto dos valores de
mercado de uma empresa é constituído
Certamente um dos quesitos mais de fatores intangíveis. Ela tem um papel
importantes para a elaboração da decisivo na percepção que a empresa
deontologia profissional do quer ter por parte da sociedade”
comunicador social reside no seu (BARBEIRO, 2010, p. 43). No entanto,
compromisso em transmitir a construção da imagem pública da
incondicionalmente a “verdade” acerca empresa como um organismo ético é um
dos acontecimentos e buscar acima de método persuasivo para a manipulação
tudo obter a “verdade” e assim da opinião pública, pois os interesses
transmiti-la em toda sua pureza para a corporativos, essencialmente
coletividade social. Daniel Cornu econômicos, são intrinsecamente
apresenta os parâmetros abstratos das alheios aos âmbitos dos valores morais.
disposições deontológicas das Alain Woodrow apresenta um
atividades jornalísticas: questionamento extremamente
A exigência da verdade se impõe perspicaz acerca desse problema que
não somente ao jornalista como aflige a atividade social do

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comunicador: “A deontologia continua objetividade jornalística. Heródoto
a fazer sentido quando lógica da Barbeiro considera que
indústria da comunicação é puramente
econômica?” (WOODROW, 1996, p. Com as ferramentas de
229). comunicação acessíveis a todos, o
receptor de mensagem de ontem é
É impossível, epistemológica e um formador de opinião hoje; é
ontologicamente, para os meios de capaz de transportar notícias para
comunicação, independentemente de todo lado, e não tem
seu grau de sofisticação, apresentar um necessariamente nenhum
quadro completo do mundo. Todavia, os compromisso com as regras
jornalísticas. Escreve e pronto. Uma
aparatos midiáticos mistificam esse multidão está atrás de novidades e
processo de transmissão de pouco preocupada com a
informações, impondo ao público veracidade do que está sendo
receptor uma determinada maneira de informado (BARBEIRO, 2010, p.
compreensão da realidade. Nesse 17).
sentido McCombs pontua: “Os veículos
de comunicação são mais do que As convergências tecnológicas
simples canal de transmissão dos informacionais apenas ampliaram as
principais eventos do dia. A mídia facilidades de trocas comunicacionais
corporativa constrói e a apresenta ao entre os indivíduos, quebrando
público um pseudo-ambiente que razoavelmente as relações hegemônicas
significativamente condiciona como o estabelecidas pela mídia corporativa,
público vê o mundo” (MCCOMBS, que edita a imagem de mundo conforme
2009, p. 47). Dessa maneira, a estrutura as suas próprias conveniências
midiática hegemônica escamoteia o fato ideológicas. Nesse contexto, Luiz Costa
de que toda tentativa de se reproduzir e Pereira Júnior destaca: “Expor o
descrever a realidade circundante acontecimento significa, antes de mais
sempre será um processo nada, escolher episódios, aproximar
epistemologicamente redutor e até eventos dispersos, privilegiar um
mesmo falho do ponto de vista técnico. incidente em lugar do outro”
Quando usamos a linguagem ou (PEREIRA JÚNIOR, 2006, p. 19). Por
qualquer sistema simbólico para conseguinte, dentre uma série de
representar ou manipular a realidade, acontecimentos diários, ocorre uma
podemos fazer grandes ações, mas seleção operada pelos comunicadores,
nunca representar o mundo percebido obedecendo a critérios de aceitabilidade
de maneira efetivamente clara. Bourdieu coletiva, em especial temas que atrairão
considera que o poder simbólico é um a atenção dos receptores, tais como as
poder de construção da realidade que notícias acerca de crimes hediondos,
tende a estabelecer uma ordem escândalos políticos, falcatruas
gnosiológica: o sentido imediato do econômicas, banalidades da vida de
mundo e, em particular, do mundo uma celebridade, dentre possibilidades
social (BOURDIEU, 2002, p. 9). A afins. Caio Túlio Costa diz: “Como os
notícia midiática nada mais é que uma fatos são infinitos, cabe estabelecer uma
construção “intelectual” como qualquer seleção a fim de se dar preferência
outra, de uma sucessão de escolhas àqueles que merecem ser recordados ou
ideológicas, arbitrárias e afetivas, de um conhecidos. Seleção pressupõe
conteúdo de editoriais mascarados hierarquização” (COSTA, 2009, p. 44).
muitas vezes pela postulada Nessas condições, como é possível

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haver uma verdade plena no processo furta a toda expressão unívoca
discursivo operado pelo discurso (CORNU, 1999, p. 332-333).
jornalístico? Antes há apenas um
recorte técnico da realidade conforme as O jornalista, proclamado na estrutura
conveniências dos detentores dos meios social moderna como o grande
de produção do sistema informativo. intérprete dos acontecimentos do
Esclarecendo essa questão, José Arbex mundo, amplifica assim o seu prestígio
Jr. afirma que profissional junto ao público,
adquirindo influência carismática na
A mídia cria diariamente a sua moldagem subjetiva dos indivíduos.
própria narrativa e a apresenta aos Pedro Gilberto Gomes destaca que
telespectadores – ou aos leitores –
como se essa narrativa fosse a O profissional da comunicação é,
própria história do mundo. Os fatos, de certa maneira, o hermeneuta da
transformados em notícia, são realidade. Portanto, o sucesso de
descritos como eventos autônomos, seu trabalho depende,
completos em si mesmos. Os fundamentalmente, da capacidade
telespectadores, embora embalados que ele tiver para situar-se no
pelo “estado hipnótico” diante da horizonte do outro, tanto para
tela de televisão, acreditam que compreendê-lo como para
aquilo que vêem é o mundo em transmitir-lhe a sua mensagem
estado natural, é o próprio mundo (GOMES, 2006, p. 72).
(ARBEX JÚNIOR, 2001, p.103).
Nessas condições, o jornalista atua
Sem o estabelecimento de uma relação publicamente como uma espécie de
de credibilidade do público receptor em sacerdote secularizado em uma
relação ao seleto grupo de emissores, sociedade que, apesar de seu
sofreríamos o risco de sequer desenfreado materialismo e subsequente
estabelecermos as mais elementares degradação da experiência religiosa,
relações comunicativas na experiência continua sectária de discursos
cotidiana. Conforme aponta Daniel universalizantes da tradição moral
Cornu, cristã. Paul Virilio apresenta um
comentário contundente acerca da
Observador do notável, o jornalista construção imaginária da imagem de
assume-se como intérprete da “santidade moral” do jornalista:
atualidade, entendida como o
momento presente da realidade. Depois de alguns milênios, nos
Não tem um acesso direto ao cerne damos conta de que a nossa época,
dessa realidade presente. Não pode apesar de alheia à religião, não
apreendê-la na sua verdade deixou de dotar seus meios de
profunda, que lhe escapa. Deve comunicação com os atributos
tentar decifrá-la através dos ameaçadores da teocracia e que a
fragmentos de que não pode ter milagrosa credibilidade da mídia –
conhecimento: acontecimentos hoje questionada – não era talvez
vividos ou relatados, atas, mais do que um dos últimos
discursos. A complexidade, as avatares de uma infalibilidade
contradições, as incoerências, as outrora sobre-humana; no início do
lacunas da atualidade – esta século XX, os grandes jornais
apresenta-se como um tecido americanos se apresentavam menos
esburacado – são evidentes. como fontes de informação do que
Decifrar a atualidade é enfrentar um como “palavras do Evangelho” e
texto vago, opaco, plural, que se censores dos domínios social,

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econômico ou político (VIRILIO, também o problema da alienação
1996, p. 31). muda de significação (ECO, 1984,
p. 166).
O acentuado grau de confiabilidade
projetado pela esfera pública na No mundo tecnocrático das práticas
atividade jornalística concede aos comunicativas, o compromisso moral
profissionais do ramo a “aura” de com a transmissão da “verdade” é algo
precisão, infalibidade e honestidade lucrativo para as corporações, pois
inquestionável em seus procedimentos; assim se cria uma publicidade positiva
mais ainda, acredita-se que o jornalista acerca do papel de efetiva dedicação
detém o conhecimento autêntico de social do veículo comunicacional para
diversos ramos do saber, talvez em com a esfera pública. Para Caio Túlio
nível mais elevado do que os Costa, não há jornalismo, desde seu
pesquisadores acadêmicos, nascimento enquanto indústria, que não
circunstância que revela a mistificação seja simultaneamente prestação de
social em torno da profissão do serviço público e negócio (COSTA,
comunicador. Florence Aubenas e 2009, p. 44). A desonestidade
Miguel Benasayag criticam esse jornalística surge quando o veículo de
dispositivo ideológico ao afirmarem que comunicação transmite publicamente a
noção de que as suas atividades nascem
Entre os tabus da profissão, há um
de uma disposição de neutralidade
particularmente resistente.
Ninguém jamais ouvirá um
política e ideológica diante das forças
jornalista dizer: “não sei”. Ou: “não sociais, quando efetivamente a partir
compreendo”. A imprensa em parte dessa falácia mascaram os seus próprios
construiu sua legitimidade com interesses políticos e ideológicos,
base nessa promessa de um mundo gerando submissão pública aos seus
enfim explicável, que possa ser processos discursivos. Luiz Carlos
apreendido de uma só vez, linear Pereira Júnior é enfático nessa questão
(AUBENAS & BENASAYAG, ao destacar que
2003, p. 51).
O pecado ético do jornalista não é
A organização da vida civilizada trazer consigo convicção e talvez até
associou historicamente o poder político preconceitos. Isso todos temos. O
ao discurso detentor da verdade, pecado é não esclarecer para si e para
impondo de forma moralista o seu os outros essas suas determinações
pronunciamento social. A mídia, íntimas, é escondê-las posando de
quando comprometida com os poderes “neutro”. O pecado ético do
hegemônicos e na defesa desses jornalista, em suma, é falsear a sua
relação com os fatos, tomando parte
interesses, fabrica os acontecimentos a
na impostura da neutralidade
fim de configurar a construção (PEREIRA JÚNIOR, 2006, p. 38).
imaginária da realidade que visa
divulgar para a massa consumidora de Nesses termos, a defesa do ideário
informações. Segundo Umberto Eco, objetivista do discurso jornalístico
promove a mistificação das técnicas da
A comunicação transformou-se em
comunicação social, fazendo do
indústria pesada. Quando o poder
econômico passa de quem tem em profissional da notícia uma espécie de
mãos os meios de produção para canal puro, pelo qual a verdade se
quem detém os meios de manifesta sem qualquer interferência
informação que podem determinar externa. Desse modo, o papel de
o controle dos meios de produção, discrição pessoal apresentado

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publicamente pelo comunicador social Uma vez que é impossível haver
revela-se uma atitude embusteira, pois decodificação de informações sem a
nasce de uma necessidade de se interferência da visão de mundo e do
transmitir para os receptores uma jogo de linguagem próprio do jornalista,
imagem falseadora de imparcialidade, como tal embuste ideológico se
tecnicamente inexistente, pois todo perpetua na sociedade de informação?
discurso necessariamente é processado Talvez a própria massa consumidora de
pelo canal difusor conforme sua própria informações prefira se manter
experiência de mundo. De acordo com docilmente no véu de ignorância. A dita
Ignacio Ramonet, objetividade discursiva, portanto,
revela-se, primeiramente, ilusória e,
Enquanto se entrechocam gigantes caso ela seja escamoteada e aproveitada
que pesam vários bilhões de dólares,
como mecanismo de persuasão pública,
como poderia sobreviver uma
informação independente? Num
torna-se instrumento de dominação
mundo cada vez mais pilotado por sobre a coletividade receptora de
empresas colossais que obedecem à informações, que passa a confundir os
lei do business e exclusivamente à simulacros jornalísticos, ou seja, os
lógica comercial, e onde tantos recortes arbitrários da “realidade”, com
governos parecem escapar esta. Para Luiz Costa Pereira Júnior,
sofrivelmente às mutações em curso,
como ter certeza de que não somos Essa objetividade aparente será
manipulados pela mídia? ritualizada, tornada simulacro, um
(RAMONET, 2010, p. 131). pacto de leitura que produz um efeito
de real, porque esconde o arbitrário
Podemos afirmar categoricamente que a das escolhas que lhe dão origem,
Comunicação Social exerce um efeito tenta dar conta de uma expectativa de
deletério sobre a esfera pública quando objetividade construída pela relação
o jornalista se torna instrumento de um entre veículo e público (PEREIRA
sistema de poder que se aproveita da JÚNIOR, 2006, p. 56).
confiabilidade depositada pela Uma vez que todo discurso é enunciado
população em seu discurso para lhe por um sujeito dotado de valorações
manipular ideologicamente e próprias e interesses, torna-se
politicamente em nome da pretensa impossível que ele não sofra algum tipo
objetividade jornalística. Como então a de manipulação, que por si só não pode
estrutura midiática constrói a ser avaliada como boa ou má, do ponto
experiência de mundo da forma tal de vista da conscientização pública.
como é apresentada pelos veículos Conforme esclarece Hans Magnus
informativos de massa? Tal como Enzensberger: “Não existem escritos,
exposto por Philippe Breton, filmagens e exibição não manipuladas.
A manipulação apóia-se numa Dessa forma, a questão não é se as
estratégia central, talvez única: a mídias são manipuladas ou não, mas
redução mais completa possível da quem as manipula”
liberdade de o público discutir ou (ENZENSBERGER, 2003, p. 35-36).
de resistir ao que lhe é postulado. Qualquer uso dos dispositivos
Essa estratégia deve ser invisível, já midiáticos pressupõe, portanto,
que seu desvelamento indicaria a manipulação, pois os procedimentos
existência de uma tentativa de mais elementares da produção
manipulação (BRETON, 1999, p. comunicativa, desde a escolha do
20).
suporte midiático, passando pela

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gravação, pelo processo de corte, de horizontalidade nos processos de
mixagem e mesmo os pontos sociabilização, mas acima de tudo a
estratégicos de distribuição pública, são oportunidade de indivíduos narcísicos
intervenções particulares nos materiais se pavonearem publicamente em
disponíveis. performances editadas espetacularmente
tendo-se em vista a conquista de
A configuração ideológica da presença seguidores e, por conseguinte, criando-
dos meios de comunicação na se um consenso unilateral, circunstância
civilização industrial se caracteriza que nada mais significa do que a
principalmente pelo esforço em transposição das técnicas hegemônicas
domesticar o potencial criativo de cada de supressão do debate público para o
pessoa, confundindo sua percepção nível das relações microssociais.
precisa da realidade circundante através Habermas afirma que “A despolitização
hierarquização arbitrária da agenda da massa da população e o
pública cotidiana, onde o social efetivo desmoronamento de uma opinião
de interesse coletivo e o espetacular pública política são componentes de um
alienante se fundem em um amálgama sistema de dominação que tende a
que embota o discernimento do receptor eliminar da discussão pública as
de informações. Na própria dinâmica questões práticas” (HABERMAS, 1994,
corporativa se manifesta também essa p. 122).
relação comunicacional
ideologicamente distorcida, ao impor Por conseguinte, apesar de postular uma
para o empregado o cumprimento de razão social de auxiliar da esfera
metas que exaurem a sua saúde, de pública no processo de difusão de
maneira que o ritmo estressante do informações, a estrutura midiática,
trabalho se infiltra na sua própria vida quando utilizada para fins alheios ao
particular; através da virtualização progresso do bem comum na sociedade,
comunicacional, todo indivíduo não gera apenas a perda de qualquer
pode mais se imiscuir de sua submissão referencial concreto do receptor em
aos imperativos invasivos dos seus relação ao seu pequeno mundo, cada
superiores. Lícia Egger-Moellwald vez mais reduzido ao formato
comenta que padronizado e distribuído pelo sistema
O aprendizado a respeito da midiático. Conforme a indagação de
importância de manter meios de John B. Thompson, como é viver num
comunicação eficientes, somados às mundo cada vez mais mediado de
novas tecnologias de informação, dá formas mediadas de informe e
a possibilidade de as empresas comunicação? Que acontece com o self
ampliarem seu ramo de interferência num mundo onde a experiência mediada
e influência na vida de seus desempenha um papel crescente e
empregados. Isso é feito de tal forma substancial nas vidas diárias dos
que muitos destes não conseguem indivíduos? (THOMPSON, 2005, p.
estabelecer a diferença entre a vida
201).
pessoal e a vida profissional
(EGGER-MOELLWALD, 2011, p.
Cabe a cada indivíduo elaborar,
4).
mediante o conjunto de informações
De um modo geral, a ampliação das recebidas pela estrutura midiática, a sua
possibilidades comunicacionais no própria compreensão acerca dos
advento dos aparatos eletrônicos não acontecimentos sociais, sem qualquer
significou o estabelecimento de maior dependência da autoridade legitimadora

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outorgada pelo discurso midiático que, divulgação de informações em nossa
em sua configuração corporativa, se atual conjuntura ideológica.
sustenta pela axiologia da oficialidade e
da univocidade. Nesse quesito, a Muitos indivíduos acreditam piamente
colocação de Juremir Machado da Silva que o discurso jornalístico cotidiano
é perscrutadora das falácias da mídia apresenta “a verdade tal como ela é” e
hegemônica no processo de difusão de sequer duvidam que essa dita “verdade”
noticias: é proveniente de um processo de edição
técnica realizada pelo “arúspice dos
O jornalismo continua a apoiar-se fatos”, isto é, o jornalista. Assim, urge
na mitologia do serviço público, do que a esfera pública conheça de maneira
interesse social, da verdade e precisa como funciona o mecanismo de
mesmo da objetividade, da
neutralidade e da imparcialidade.
produção da verdade na comunicação e
Nada mais do que mercadorias o efetivo papel social da atividade de
reembaladas pelos departamentos difusão de informações e notícias, de
de marketing (MACHADO DA modo a se estabelecer uma genuína
SILVA, 2006, p. 94). relação de horizontalidade com os
grandes veículos comunicativos. Muniz
Essa situação, entretanto, poderia ser
Sodré salienta que
atenuada, bastando-se que houvesse nos
quadros jornalísticos indivíduos Se aceitarmos como vital a
comprometidos com o progresso experiência da realidade criada
cultural da sociedade e com o exercício pelos dispositivos técnicos e
do debate público de ideias, em vista do mercadológicos da comunicação,
estímulo ao ato de autonomia de segue-se que os seus efeitos de
pensamento e percepção da realidade convencimento têm uma
especificidade não necessariamente
em cada receptor. Dessa maneira, a
afinada com a razoabilidade
atividade jornalística, considerada sob tradicional (SODRÉ, 2006, p. 43).
uma perspectiva “ideal”, seria capaz de
exercer um grande estímulo para a Quem detém os aparatos comunicativos
capacidade reflexiva do ser humano; detém o poder ideológico sobre a esfera
este, ao se deparar com as informações social. Cabe então aos intérpretes
transmitidas pelos profissionais da críticos da teoria da comunicação que se
notícia, não transferiria para outrem a apresentem publicamente como
sua capacidade pessoal de pensar, indivíduos cônscios de seu
vivendo sob um regime heterônomo de compromisso intelectual com a
tomadas de decisão, mas pensaria por si sociedade e demonstrem a série de
mesmo, mediante os seus próprios lugares comuns que constituem o
procedimentos cognitivos e suas universo normativo das práticas
valorações pessoais singulares. jornalísticas, como forma de
estimularem da coletividade social o
Uma vez que na organização social do
desenvolvimento de uma consciência
capitalismo tardio a experiência de
seletiva e crítica acerca daquilo que é
mundo foi paulatinamente substituída
assimilado diariamente na dedicação
pelo processo de decodificação de
passiva do culto aos “fatos
informações operado pelos meios de
jornalísticos”. Tal como destacado por
comunicação de massa, é de suma
Deleuze e Guattari,
importância que reflitamos sobre os
diversos usos possíveis dos dispositivos Os jornais, as notícias, procedem
jornalísticos, principal fonte de por redundância, pelo fato de nos

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dizerem o que é “necessário”
pensar, reter, esperar, etc. A
linguagem não é informativa nem Referências
comunicativa, não é comunicação ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos
de informação, mas – o que é do Estado. Trad. de Walter José Evangelista e
bastante diferente – transmissão de Maria Laum Viveiros de Castro. Rio de Janeiro:
palavras de ordem, seja de um Graal, 1985.
enunciado a outro, seja no interior ARBEX JÚNIOR, José. Showrnalismo – a
de cada enunciado – uma vez que notícia como espetáculo. São Paulo: Casa
um enunciado realiza um ato e que Amarela, 2001.
o ato se realiza no enunciado
(DELEUZE & GUATTARI, 1995, AUBENAS, Florence & BENASAYAG,
Miguel. A fabricação da informação: os
p. 16-17).
jornalistas e a ideologia da comunicação. Trad.
O discurso jornalístico não substitui a de Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola,
capacidade singular de cada indivíduo 2003.
interpretar e decodificar os BARBEIRO, Heródoto. Crise e Comunicação
acontecimentos cotidianos conforme os Corporativa. São Paulo: Ed. Globo, 2010.
seus próprios critérios axiológicos; BLAZQUÉZ, Niceto. Ética e Meios de
todavia, as corporações midiáticas não Comunicação. Trad. de Rodrigo Contrera. São
estão interessadas em desmistificar Paulo: Paulinas, 1999.
publicamente os seus dispositivos BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Trad.
jornalísticos, uma vez que o controle da de Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand
produção de informações representa a Brasil, 2002.
conversação do poder de formação de BRETON, Philippe. A manipulação da
opinião e consenso acerca dos palavra. Trad. de Maria Stela Gonçalves. São
acontecimentos sociais. Paulo: Loyola, 1999.

Considerações finais CORNU, Daniel. Ética da Informação. Trad.


de Laureano Pelegrin. Bauru: EDUSC, 1998.
Ao longo deste texto analisamos alguns
aspectos da fabricação de consenso ______. Jornalismo e Verdade: para uma ética
da informação. Trad. de Armando Pereira da
social operada cotidianamente pelos Silva. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
meios de comunicação de massa e seus
efeitos sobre a consciência de uma COSTA, Caio Túlio. Ética, jornalismo e nova
mídia: uma moral provisória. Rio de Janeiro:
esfera pública cada vez mais Jorge Zahar, 2009.
despolitizada e submetida ingenuamente
aos ditames comerciais dos grupos DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Mil
Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, Vol. 2.
midiáticos corporativos hegemônicos na Trad. de Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia
ordem capitalista vigente. Uma vez que Leão. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
a base produtora de informação se
ECO, Umberto. Viagem na irrealidade
encontra atualmente presente nesses
cotidiana. Trad. de Aurora Fornoni Bernardini
aparatos tecnocráticos da mídia e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro:
corporativa, é tarefa fundamental a Nova Fronteira, 1984.
desmistificação dos dispositivos
EGGER-MOELLWALD, Lícia. Comunicação
ideológicos subjacentes nos mesmos, Corporativa: a disputa entre a ficção e a
gerando-se assim uma paulatina realidade. São Paulo: Cengage Learning, 2011.
transformação das bases sociais da
ENZENSBERGER, Hans Magnus. Elementos
produção dos discursos e a conseqüente para uma teoria dos meios de comunicação.
ampliação da freqüência cognitiva dos Trad. de Cláudia S. Danbusch. São Paulo:
receptores sociais. Conrad, 2003.

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GOMES, Pedro Gilberto. A Filosofia e Ética RAMONET, Ignacio. A tirania da
da Comunicação na midiatização da Comunicação. Trad. de Lucia Mathilde Endlich
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