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A PRÁTICA DA CAPOEIRA: SOBRE PARTICIPAÇÃO E

APRENDIZAGEM1

RESUMO
O texto sintetiza dados de uma pesquisa bibliográfica sobre aprendizagem da capoeira.
Tendo como princípio orientador a noção de aprendizagem como inerente à participação na
prática cotidiana, o objetivo do estudo foi compreender aspectos que envolvem a prática
cotidiana da capoeira procurando (em etnografias) pistas sobre seus processos de
aprendizagem.
PALAVRAS-CHAVE: aprendizagem; antropologia; capoeira.

INTRODUÇÃO
O presente trabalho é um recorte da pesquisa intitulada “A aprendizagem na prática:
um estudo sobre os modos de aprendizagem de práticas de movimento”, que – ao estabelecer
diálogo entre a Antropologia e a Educação – colocou foco nos processos cotidianos de
aprendizagem. A partir da leitura de trabalhos etnográficos sobre práticas de movimento (ou
das práticas que no âmbito da Educação Física são denominadas como cultura corporal de
movimento: lutas, danças, esportes, jogos e etc.), à luz das teorias antropológicas 2, o estudo
concentrou-se nas discussões sobre a aprendizagem, deslocando-se das concepções
convencionais que evidenciam o ensino. O objetivo da pesquisa foi, portanto, desvelar os
aspectos que constituem/envolvem a aprendizagem cotidiana dessas práticas de movimento.
Para isso, realizamos uma pesquisa bibliográfica buscando mapear/analisar em textos
etnográficos descrições sobre tais processos.
A investigação iniciada em fevereiro de 2014 nos permitiu perceber a escassez de
etnografias sobre a aprendizagem das diferentes práticas de movimento. Isso (mas, também a
intenção de realizar um estudo em profundidade) nos levou a concentrar naquelas práticas das
quais conseguimos maior volume de descrições3. A singularidade do caso da capoeira (e
também da dança) nos chamou a atenção, pois há mais trabalhos etnográficos sobre esse tema
1
Pesquisa realizada com fomento do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica
PROBIC/FAPEMIG Edital PRPQ – 02/2014.
2
Sobretudo, a noção de aprender como processo vital em Bateson (1986), a noção de aprendizagem como
participação na prática cotidiana em Lave e Wenger (1991) e o aprender como constituição de habilidades em
Tim Ingold (2001).
3
Durante a o ano de 2014 a pesquisa se desenvolveu em um grupo de pesquisa cuja temática central era a
aprendizagem de práticas de movimento (dentre as quais a Capoeira). No decorrer da pesquisa o grupo – que se
reunia semanalmente – mapeava e apresentava as etnografias encontradas pelos pesquisadores sobre as
diferentes práticas (danças, esportes, jogos, etc.) e também estudos teóricos relacionados ao tema da
aprendizagem da cultura.

1
– mesmo que muitos deles não tratem especificamente das questões que envolvem as
aprendizagens da prática. Isso nos levou a recortar a capoeira como a prática a ser estudada
nessa investigação, ou seja, fizemos o estudo das etnografias produzidas sobre o tema
tentando encontrar indícios de como a aprendizagem nela ocorre.
Nas etnografias mapeadas conseguimos evidenciar algumas características dos
processos de aprendizagem da/na capoeira. São esses aspectos que ganham relevo nesse texto
e que, portanto, segue descritos. Iniciamos, entretanto, nosso trabalho fazendo um breve
esboço dessa prática no Brasil.

A PRÁTICA DA CAPOEIRA: UM BREVE ESBOÇO


A capoeira é considerada uma manifestação cultural que surgiu no Brasil como
resultado da miscigenação dos povos que aqui se encontravam no século XVIII e XIX.
Segundo Falcão (2008) e Moreira (2012) a formação da capoeira é influenciada
principalmente pelos pela população afro-brasileira, que trouxeram diversos aspectos da
cultura africana para a prática. Embora a principal influência tenha sido africana, a capoeira
também recebeu influências europeias e indígenas. Segundo Falcão (2008), não só os negros
praticavam a capoeira no inicio do século XVIII, mas também aquelas pessoas que queriam
conhecer os lugares ocultos do Rio de Janeiro. Sendo assim, as rodas de capoeira,
principalmente nessa cidade, se tornaram um evento em que se reuniam diferentes pessoas e
interesses.
Praticada por negros e os ditos “marginais”, a capoeira carregou os mesmos estigmas
que estavam atrelados a essas pessoas no Brasil do século XIX. Assim, o conservadorismo e o
racismo perseguiram os praticantes (a prática) da capoeira não apenas de uma forma
simbólica, mas também institucional: por exemplo, quando em 1890 a capoeira entra para o
Código Penal brasileiro, só saindo depois em 1934.
A capoeira era, então, um jogo praticado nas ruas das cidades brasileiras e segundo
Moreira (2012) até os fins dos anos 1920 ela era aprendida somente nesses processos
cotidianos de participação e entre pares, ou seja, entre os jovens e os mais velhos na prática.
Não havia, portanto, uma metodologia (ou algo que pudéssemos identificar como tal)
previamente explicitada para a aprendizagem da capoeira. Os seus conhecimentos (que vão
muito além do movimento em si como veremos mais adiante) eram incorporados por meio do
engajamento prático dos praticantes na roda e da oralidade (MOREIRA, 2012).
Devido à perseguição institucional acima mencionada, entretanto, um mestre baiano
de capoeira, o mestre Bimba, desenvolveu uma metodologia para a capoeira afim de

2
distanciar a prática desses estereótipos mencionados. Mestre Bimba criou, assim, a Luta
Regional Baiana que posteriormente veio a ser conhecida como Capoeira Regional. É apenas
mais tarde, na década de 1930, que vai surgir outro estilo de capoeira que, influenciado por
intelectuais que buscavam ressaltar a identidade nacional na figura dos afro-brasileiros,
incentivavam o retorno das práticas dos primórdios (da capoeiragem), surgindo assim a
Capoeira Angola (Moreira, 2012). Como é possível perceber, a história de constituição dessa
prática conjuga jogos de poder e tensões que estão muito além da prática da capoeira.
A maioria dos trabalhos que tivemos acesso no decorrer da pesquisa mostrou que
atualmente há diversos grupos de capoeiristas no Brasil/mundo que praticam os dois estilos de
Capoeira4. Mostram também: a) que “os capoeiras” dividem a prática em dois momentos: os
momentos de treino e o momento da roda; b) que a roda da capoeira não difere muito nos dois
estilos, ou seja, revelam que a diferença entre a Capoeira Regional e Capoeira Angola está
mais fortemente marcada na forma da aprendizagem. Assim, a metodologia dos treinos difere
dependendo do mestre, do estilo, do grupo (o que nos faz refletir se o modo de aprender
também é parte do que é aprendido), enquanto a roda costuma ter a mesma configuração.
Na roda os capoeiristas se organizam em círculo, e nesse círculo se encontram os
jogadores, o mestre e também os músicos, que tocam tambores, pandeiros e berimbaus. Os
jogadores vão de dois em dois para dentro da roda e mostram seus melhores movimentos
numa espécie de luta, enquanto outro jogador já espera para entrar substituindo o que perder
essa determinada luta5.
O antropólogo Greg Downey (2005), que para realizar o trabalho de campo se
submeteu ao processo de aprendizado da Capoeira Angola no Pelourinho (fazendo da
aprendizagem da capoeira uma experiência de investigação) descreve o momento da roda da
seguinte maneira:
"Guiados pelo ritmo e impulsionados pelo canto, os dois jogadores lentamente
começam a testar uns aos outros. Ainda agachados, se debruçam sobre seus
braços e, deliberadamente, voltam-se para o centro da roda, segurando seu
peso em suas mãos. Giram em torno de um de seus pés enquanto a perna de
trás está reta e estendida em [...] um pontapé chamado de "rabo de arraia". Seu
adversário rola ainda mais perto do chão, apoiando-se nos braços
extremamente dobrados. Acompanhando a direção do chute, sua bochecha
esbarra no chão. Quando o calcanhar do seu adversário passa perto, ele se vira
e rola para liberar a sua própria perna para um contra-ataque proposital.

4
(GUIZARDI, 2013); (FALCÃO, 2004)
5
Aqui é importante ressaltar que essa é uma descrição que coloca em evidencia a configuração mais imediata da
organização da prática, ou seja, há um conjunto de aspectos que envolve a capoeira e seus praticantes e que – por
motivo de recorte - não são explorados nesse texto.

3
Os dois capoeiristas se movem pacientemente no chão ao seu redor, dando
rasteiras, girando, e deslizando perto do chão. [...] Os ataques são mais
implícitos do que reais. A maioria dos chutes passa perto do outro jogador
forçando-o a mover-se e responder com um contra-ataque. Os jogadores
disputam posição superior, demonstrando flexibilidade e equilíbrio, muito
mais do que apenas ataques. Eles atacam o espaço em torno de si com sua
perna e sua cabeça, usando seus braços apenas para pastorear o outro em
estranhas posições. "(DOWNEY, pag. 2, tradução nossa, 2005)
Atualmente a capoeira é difundida no Brasil em oficinas, aulas de educação física e
em academias, e segundo Falcão (2004) um curso superior de Capoeira foi criado no Brasil
em 1998 na Universidade Gama Filho no Rio de Janeiro, e, também, que diversas
organizações e federações esportivas têm dado suporte à prática. É importante dizer que a
capoeira tem servido de referência para muitos jovens que procuram práticas esportivas. Mas
que uma vez engajados na prática, esses jovens encontram algo mais. Isso por que a capoeira
não se limita às definições de um esporte ou uma dança, mas também porque ela é uma forma
de resistência política e de sobrevivência da cultura dos povos afro-brasileiros.

O APRENDER NA CAPOEIRA: UM PROCESSO SUTIL E COLETIVO


Ainda que grande parte das teorias da psicologia trate o aprender como processo
individual e de internalização de conhecimentos (Lave e Wenger, 1991), as etnografias
estudadas permitem abordar a aprendizagem da capoeira como processo coletivo e de
participação/engajamento no mundo. Tal argumento não está pautado no fato de que a
capoeira seja uma prática coletiva, mas no princípio de que toda aprendizagem ancora no
coletivo. Isso também é o que nos ajuda a entender Wacquant (2002) ao fazer a narrativa da
aprendizagem do boxe (esporte individual) como processo coletivo. Para além dos momentos
entre pares (que conjugam virilidade, vigor, coragem, informações pugilísticas,
conhecimentos da rua, etc.) a prática é sempre referenciada no coletivo.
Nas descrições etnográficas da capoeira, pudemos perceber que os autores ressaltam a
importância dos momentos “informais” na produção da pratica e dos praticantes. Downey
(2005), que realizou estudos com um grupo baiano de Capoeira Angola, aponta que o jogo
demanda não apenas uma aprendizagem de habilidades corporais isoladas, mas que, ao
contrário, essas habilidades estão conectadas à outras habilidades, como, por exemplo, saber
quando o momento e as situações em que é permitido o uso ou não um movimento corporal
aprendido (DOWNEY, 2005). Afirma também que essas habilidades não são deliberadamente
ensinadas. Elas são apreendida na participação/engajamento na prática cotidiano.

4
Dias e Souza (2010, p. 9) explicam que os saberes da capoeira não são transmitidos de
forma explícita, mas que esses “saberes do corpo” são “comunicados no silêncio do gesto, no
jogo de corpo, que nos dizem do ethos da capoeira”. Como no caso do Boxe descrito por
Wacquant (2002), o estudo de Dias e Souza (2010) apresenta a prática da capoeira como
contexto no qual os sujeitos se afirmam como participantes da cultura, potencializando
sentidos e significados da gestualidade do corpo. Os autores reafirmam, também, o aprender
capoeira como processo que se funda no coletivo ao dizerem que: “sem o outro não há jogo de
capoeira”.
Magalhães e Melo (2012) estudando rito, corpo e movimento na entre capoeirista no
estado do Pará, também ressaltam a importância da aprendizagem entre pares nessa prática –
o que aparece na fala dos próprios praticantes. O fragmento da entrevista realizada na
pesquisa desses autores merece destaque:
“[...] em uma roda de Angola, o outro te compreende. Você faz uma
mandinga, uma malícia, o outro te compreende, você estabelece o
diálogo corporal, entende? O diálogo de corpos é a movimentação
corporal que eu faço e que eu pergunto pra você, e eu quero
respostas, porque quando você acaba não dando mais essas
respostas, você acaba perdendo o jogo. O jogo já foi estabelecido,
eu já lhe prendi você já ficou sem movimentação, ou então,
você espera com paciência, ocultando seu pensamento, não
expressando em seu rosto suas intenções no jogo, mas tendo em mente
que assim como você pode perder nessa conversa, pode sair vencedor
também. (mestre de capoeira, 37 anos).”(MAGALHAES e MELO,
2012, P. 9)
Outro aspecto que aparece relacionado à aprendizagem no decorrer da investigação é a
centralidade da repetição. Downley (2005) coloca em seu trabalho que muito mais do que
mera imitação mecânica, a repetição fundamenta a prática (e a aprendizagem) e os
movimentos produzidos por iniciantes e veteranos segue transformando. Ele observa que é
exigido muito mais do que uma “capoeira robótica”, ou seja, ao repetir os movimentos os
capoeiristas precisam de um autocontrole corporal, sobre, por exemplo: o cansaço, o mover-se
mais rápido ou mais devagar, o lugar em que ocupar na roda, a inclinação no solo, entre
outros. (DOWNEY, 2005)

O ENGAJAMENTO NA CAPOEIRA: SOBRE ALGUNS SENTIDOS NA PRÁTICA

Outro aspecto que segue destacado em quase todos os trabalhos analisados é o fato de
que na capoeira os aprendizes aprendem mais do que técnicas. Nela os praticantes estão

5
também imersos em (e exercitam) um contexto politico de afirmação cultural e racial, visto
que a capoeira é tomada como resistência da cultura dos negros no Brasil.
Sendo assim, lutar, jogar e cantar na capoeira representaria uma forma de permitir que
a cultura afro-brasileira seja respeitada. Melo e Magalhães (2012) afirmam que a capoeira
seria um momento significativo de leitura dos valores culturais desse povo. A participação no
cotidiano dessas práticas seria para eles uma forma de aprendizagem, “na qual os sentidos do
corpo (visão, tato, audição, paladar e olfato) são construídos para expressar e reafirmar
esteticamente o ethos do grupo, internamente e externamente.” (MELO e MAGALHÃES,
2012, P. 1)
Assim, o processo de aprendizagem da capoeira abrange um campo mais amplo e
complexo. Observando rodas de capoeira Dias e Souza (2010), puderam perceber que o
conhecimento que se constrói ali é um campo aberto:
É possível perceber o movimento como característica dos saberes da
tradição, na medida em que a construção desse conhecimento é um
campo em aberto, em potência. Portanto não opera pela indiferença,
ou intransigência ao movimento da história, na medida em que
reorganiza constantemente o que já existiu, a partir de novas
interpretações, projetando novas possibilidades, contrário a uma
perspectiva do tempo e da cultura como elementos fixado,
imobilizado (ALMEIDA, 2001).” (SOUZA e DIAS, 2010, p.4)
Pudemos perceber que a aprendizagem não é um processo fixo e estático, mas que
(assim como a prática) está em constante mudança (Lave e Wenger, 1991). O que mostra que
ao mesmo tempo em que elementos da história da prática e do seu povo são constantemente
acionados, o lugar do novo é ressaltado, como uma significação dessa história.
Segundo Downey (2005), na capoeira Angola a prática tem grande ligação com a
política e com processos que vão além do corpo – já que os membros desses grupos defendem
a valorização do estilo Angola e, tendo diversas críticas ao estilo Regional, o grupo sempre
debate questões que tocam a cultura negra, aos estilos de movimento e as variações nas
técnicas corporais dos dois estilos. O grupo associa a participação na capoeira (que
compreendemos como geradora da aprendizagem) com uma importante parte da política
contra o racismo, servindo para unificar a comunidade afro-brasileira. Downey (2005)
entende que a agenda antirracismo do grupo parece levar importantes elementos para a
aprendizagem da capoeira e para a transformação da vida do praticante além da roda.

A PARTICIPAÇÃO COMO TRANSFORMAÇÃO DA PESSOA: O APRENDIZADO PARA


ALÉM DA TÉCNICA

6
Na prática da capoeira todo o corpo é acessado durante o movimento, todos os
sentidos, inclusive a audição (Dias e Souza, 2010). A partir das contribuições de Ingold
(2001), pode-se pensar na aprendizagem como processo de constituição de habilidades e que
ela envolve as relações entre a pessoa, os instrumentos, o ambiente, etc. Nas etnografias
estudas são descritos momentos em que os capoeiristas utilizam não apenas o corpo para
realizar os movimentos, mas precisam também estar atentos à musicalidade, ao que elas
representam, visto que as músicas contam uma história (DOWNLEY, 2005; DIAS e SOUZA,
2010; MAGALHÃES e PINTO, 2013).
Sendo assim, os praticantes da capoeira, ao participarem dos contextos da prática estão
aprendendo não são apenas técnicas, mas vivenciam o movimento como um todo, ou seja,
estar na roda de capoeira representa muito mais do que apenas estar aprendendo técnicas.
Amplificando a melodia dos instrumentos, a musicalidade é
acompanhada de cantigas, entoadas como narrativas que apresentam
funções simbólicas nas rodas de capoeira, redimensionando a
compreensão do tempo, que na circularidade da roda inclui a sincronia
e a diacronia, bem como dando andamento ao jogo, no sentido de
envolver os camaradas ao contar, cantando, histórias. (DIAS e
SOUZA, p.8, 2010)
Downey (2005) ressalta na sua tese que o envolvimento na prática acaba por
transformar a vida dos “capoeiras” e suas relações cotidianas fora dos contextos das rodas e
dos treinamentos. Segundo esse autor (2005), as habilidades adquiridas nesse contexto são
levadas para a vida pessoal dos praticantes: “capoeiristas acreditam na mudança no jeito que
os estudantes andam, respiram, se levantam e tratam seus corpos, irá afetar sua vida
emocional, suas interações sociais e percepções”. (DOWNEY, 2005, tradução livre, P.7)
Dessa forma, o contexto da aprendizagem também se expande e os capoeiristas não
estão aprendendo apenas nos momentos em que estão efetivamente jogando ou treinando.
Eles experimentam a aprendizagem dessa prática no fluxo da vida cotidiana. Segundo
Downey, os capoeiristas entendem que a percepção também pode ser treinada, e assim as
experiências na vida cotidiana podem ser afetadas pelas habilidades aprendidas na roda e nos
treinos.
A arte transforma os estudantes. A habilidade que eles aprendem afeta
progressivamente a maneira como eles se conduzem e como percebem o
mundo do lado de fora da roda. Os jogadores se tornam um novo tipo social,
experimental e físico: o capoeirista. (DOWNEY, 2005, tradução livre, p. 22-
23)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Os dados levantados nos textos etnográficos revelam o aprender na e da capoeira

como um processo contínuo e inerente à participação/engajamento dos praticantes na prática e

que se dá em diferentes processos cotidianos: seja nos “treinos” e práticas que antecedem a

roda; seja na roda; seja nos exercícios produzidos, sobretudo, pelos jovens nos diferentes

contextos cotidianos (por exemplo, nas repetições que os praticantes realizam dos

movimentos na escola, nas ruas, etc.); seja nas muitas interações que se dão para além desse

contexto.
A investigação deu visibilidade também à aprendizagem da capoeira como um

processo coletivo e que se dá por meio das relações entre pares (iniciantes, iniciados e

veteranos) e que esses contextos são atravessados por relações de poder. Nas etnografias

ganham destaque as relações cotidianas – quando os praticantes que ganham acesso

incorporam a prática social e aprendem de maneira situada (Lave e Wenger, 1991). Sendo

assim, pudemos perceber que na capoeira o aprendizado é parte de um fluxo contínuo que está

difuso na participação cotidiana e que se dá a partir do engajamento prático (não se dá por

transmissão de representações mentais). Nos contextos de capoeira os praticantes se

constituem capoeiristas e nesse processo fomentam a produção cultural dessa prática:

constituem-se praticantes, constituindo o corpo, mas também identidades, tradição, memória e

engajamento político.

CAPOEIRA PRACTICE: PARTICIPATION AND LEARNING


ABSTRACT
The text summarizes data from a literature search on capoeira learning. With the guiding
principle the notion of learning as inherent to participation in everyday practice, the
objective of the study was to understand aspects involving the everyday practice of capoeira
looking for (in ethnographies) clues about their learning processes.
KEY WORDS: learning; anthropology, capoeira.

LA PRÁCTICA DE LA CAPOEIRA: PARTICIPACIÓN Y APRENDIZAJE

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RESUMEN
El texto resume los datos de una investigación bibliográfica sobre el aprendizaje de la
capoeira. Con el principio rector de la noción de aprendizaje como inherente a la
participación en la práctica cotidiana, el objetivo del estudio era entender los aspectos
relacionados con la práctica diaria de la capoeira buscando (en etnografías) pistas sobre sus
procesos de aprendizaje.
PALABRAS CLAVE: aprendizaje; antropología, capoeira.

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