Вы находитесь на странице: 1из 617

DAVE HUNT

A Igreja Católica Romana


e o s Ultimos Dias

A
Mulher
Montada

O anjo disse:
"...Dlr-te-el o mistério
da mulher e da besta..."
(Apocalipse 17.7) Volume I
/a\
tnù lâ

te t e a

© stop dlitess
m
oo
oEÖJ-<
teteü©SÉliÉ)
db aurdTircr <b cils 'fesKate
Dedicatória
Este livro é dedicado aos quase um bilhão de católicos romanos
mal informados por sua hierarquia; aos 400 milhões de protestan­
tes igualmente ignorantes dos fatos e aos genuínos mártires de am­
bos os lados.

LEIA NO VOLUME 2: — — ------


19. O Vaticano, os Nazistas e os Judeus
20. O Massacre dos Sérvios
21 . As Rotas d e Fuga do Vaticano
22. Só a Escritura?
23. Uma Questão d e Salvação
24. O “Sacrifício” da Missa
25. A Reforma Traída
26. Apostasia e Ecumenismo
27. E Quanto a Maria?
28. A Futura Nova Ordem Mundial
Apêndice E: As Heresias Papais, a Bíblia e Gaiileu
A pêndice F: E Quanto à Tradição?
A pêndice G: João Paulo II p ed e “perdão” "
Apêndice H: A Visita d e João Paulo II a Israel
Apêndice 1: A Declaração Conjunta d e Católicos
e Luteranos Sobre a Justificação
Apêndice J: O Papa Pio XII, o Nazism o e o s Judeus

A disponibilidade do Volume 2 será anunciada em nossas revistas e em nosso site.


Caixa Postal 1683
90001-970 • Porto Alegre/RS * BRASIL
Fone: [5113241.5050« Fax: {511 3249.7385
vww.rhamorfo.tom.bf
Traduzido do original ern ingiês:
“A Woman Rides the Beast”
Copyright © 1994 by Dave Hunt
Publicado por Harvest House Publishers
Eugene, Oregon 97402 EUA

Tradução: Mary Schultze


Jarbas Aragão
Revisão: Traudi Federolf
Edição: Ingo Haake
Capa e layout: Emerson Hoffmann

Todos os direitos reservados para os países de língua portuguesa


© 2001 Actual Edições
R. Erechim, 978 - B. Nonoai
90830-000 - Porto Alegre/RS - Brasil
Fones: (51) 3241-5050 - FAX: (51) 3249-7385
www.chamada.com.br - mail@chamada.com.br

Composto e impresso era oficinas próprias

CATALOGAÇÃO NA FONTE
DO DEPARTAMENTO NACIONAL DO LIVRO

F926g
Hunt, D ave 1926-
A mulher montada na besta: a Igreja Católica Romana e os
últim os dias, voL I / D ave Hunt; tradução: Mary Schultze,
Jarbas Aragão. — Porto Alegre: Actual, 2001.
344 p. ; 15x22cm .
ISB N 8 5 - 8 7 2 7 8 - 1 8 - 5
Tradução de: A woman rides the beast: the Catholic Church
and the last days.
1. Igreja Católica - Literatura polêmica. 2. Bíblia — Profecias.
3. Apocalipse - Crítica, interpretação, etc. 4. Fim do mundo. I.
Título.

CDD: 230.2
Introdução: Uma Tentativa Para Derrubar a Reforma.................. 7
t . A Mulher Montada na Besta...................................................... 15
2. Razão Para Crer.............................................................................21
3. Uma Conspiração da Páscoa?..................................................... 31
4. Uma Revelação Progressiva.........................................................41
5. Mistério: Babilônia........................................................................ 55
6. A Cidade Sobre Sete M ontes......................................................71
7. Fraude e História Forjada............................................................. 91
8. Linha Ininterrupta de Sucessão Apostólica?........................... 103
9. Hereges Infalíveis?..................................................................... 113
10. Infalibilidade e Tirania............................................................... 125
11. Sobre Esta Pedra?....................................................................... 149
12. A Mãe Profana............................................................................165
13. Sedutora de Almas................................................................... 181
14. Uma Metamorfose Incrível........................................................201
15. Alianças Profanas....................................................................... 217
16. Domínio Sobre Reis....................................................................231
17. Sangue dos M ártires..................................................................247
18. Pano de Fundo Para o Holocausto........................................... 269
Apêndice A: O Purgatório.........................................................283
Apêndice B: As Indulgências.................................................... 295
Apêndice C: Domínio Sobre Reis: Mais Documentação.......305
Apêndice D: A Infalibilidade Papal e a Sucessão Apostólica... 313
Glossário..................................................................................... 319
N otas........................................................................................... 323
lim a Tentativa
Para Derrubar a
Reforma
O evento mais significativo dos últimos 500 anos da história
eclesiástica foi apresentado como um fato consumado em 29 de
março de 1994. Naquele dia líderes católicos e evangélicos ameri­
canos assinaram uma declaração conjunta intitulada “Evangélicos e
Católicos Unidos: a Missão Cristã no Terceiro Milênio” . Esse do­
cumento, sem dúvida, visava reverter os efeitos da Reforma e cau­
sou uma inquestionável repercussão no mundo cristão, que persis­
tirá por muitos anos.
Esse acontecimento preocupante foi o ápice de planejamentos e
negociações cuidadosas que duraram cerca de dois anos. Cada pas­
so foi continuamente monitorado e aprovado pelo Vaticano. O New
York Times deu a notícia em primeira mão, que foi reproduzida em
todos os jornais americanos no dia 30 de março. Iremos citá-la aqui
parcialmente:

Eles trabalharam juntos nos movimentos contra o aborto e a por­


nografia, e agora as lideranças dos católicos e evangélicos estão pe^
8 • A Mulher Montada na Besta

dindo aos seus rebanhos que dêem um importante passo de fé: acei­
tarem-se mutuamente como cristãos. No que está sendo chamada de
"declaração histórica", evangélicos, inclusive Pat Robertson e Charles
Colson (um dos principais mentores) juntaram-se aos atuais líderes
católicos conservadores para estreitarem os laços de fé que unem os
maiores e politicamente mais importantes grupos religiosos dos Esta­
dos Unidos. Eles pediram que católicos e evangélicos parem com o
proselitismo agressivo do rebanho alheio, algo feito por ambas as
partes.
John White, presidente do Geneva College e ex-presidente da As­
sociação Nacional dos Evangélicos, disse que a declaração represen­
ta um "momento triunfal" na vida religiosa americana, após séculos
de desconfianças...
Outros evangélicos também são simpatizantes do movimento, in­
cluindo os líderes da Junta de Missões Nacionais e da Comissão de
Vida Cristã da maior denominação protestante dos Estados Unidos: a
Convenção Batista do Sul (que se reuniram em um local diferente); Biil
Bright, fundador da "Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo"...;
Mark Noll, da Universidade de Wheaton, [Os Guiness, Jesse Miran­
da, (das Assembléias de Deus Americanas), Richard Mouw (diretor do
Seminário Teológico Fulier), J. I. Packer e Herbert Schlossbergj.
Robert Simonds, presidente da Associação Nacional dos Evan­
gélicos dos Estados Unidos, com sede no sul da Califórnia, “aplau­
diu a declaração” e disse que espera que ela traga “uma crescente
cooperação entre evangélicos e católicos...” Outros líderes evangé­
licos também assinaram a declaração, enquanto alguns a denuncia­
ram como sendo uma traição à Reforma. Ironicamente o audacioso
movimento “para unir católicos e evangélicos” poderá dividir os
evangélicos como nenhuma outra coisa seria capaz de fazê-lo - al­
go já percebido pelos que apoiam esse movimento.
O documento de 25 páginas reconhece, sem comprometimento,
algumas diferenças básicas entre católicos e evangélicos (tais como
o significado do batismo e a autoridade das Escrituras). Infeliz­
mente, a diferença mais importante - o que significa ser cristão -
não é mencionada. De fato, nega-se que tal diferença exista. Esse
comprometimento do Evangelho é que está no cerne deste acordo.
O elernento-chave por trás dessa histórica declaração conjunta é
a anteriormente inimaginável admissão, por parte dos líderes evan-
Introdução * 9

gélicos, de que a participação ativa na Igreja Católica faz de al­


guém um cristão. Se esse realmente é o caso, então a Reforma não
passou de um erro trágico. Os milhões que foram martirizados (du­
rante dez séculos antes da Reforma e até os dias de hoje) por rejei­
tar o catolicismo como um falso evangelho, terão morrido em vão.
Se, contudo, os reformadores tinham razão, então este acordo entre
católicos e evangélicos seria o golpe mais astuto e mortal contra o
Evangelho de Cristo em toda a história da Igreja. De qualquer ma­
neira, as conseqüências serão perturbadoras. Ao elogiar essa decla­
ração conjunta, um líder evangélico declarou:

[Este documento] tem o poder de relançar todas as discussões ecu­


mênicas que se têm desenrolado durante anos... Esta é uma nova fa­
se. Como evangélicos, nossos amigos mais chegados na tarefa cultu­
ral e teológica fundamental são os católicos romanos. m
As diferenças teológicas entre católicos e protestantes já foram
consideradas tão grandes, que milhões morreram como mártires
para não comprometê-las, e seus executores católicos estavam
igualmente convencidos da importância de tais diferenças. Como
podem essas diferenças ter desaparecido? O que levou os líderes
evangélicos a declarar que o evangelho do catolicismo, que os re­
formadores denunciaram como herético, agora tomou-se bíblico?
Esse evangelho não mudou em nada! Será que a convicção foi
comprometida a fim de criar uma imensa coalizão entre os conser­
vadores por uma ação social e política?
Normalmente os evangélicos americanos iriam protestar se al­
guém dissesse simplesmente que todo aquele que freqüenta uma
igreja é cristão. Como, então, os líderes protestantes concordaram
com a visão de que todos os católicos praticantes são cristãos e
não precisam ser evangelizados? O documento explica que tanto
católicos como evangélicos endossam o Credo Apostólico: “Cristo
padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado...”
Esse credo, porém, como o de Nicéia e outros credos, não expres­
sa o Evangelho que salva (Romanos 1.16): “Cristo morreu pelos
nossos pecados...” (1 Coríntios 15.1-4). Os mórmons também en­
dossam o Credo Apostólico, mas isso não significa que eles sejam
cristãos no sentido bíblico. Não é o fato de abraçar o Credo que
toma os católicos (ou protestantes) cristãos verdadeiros. Além do
10 • A Mulher Montada na Besta

mais, o que os católicos querem dizer quando declaram que Cris­


to morreu pelos seus pecados é totalmente diferente do que os evan­
gélicos entendem sobre essa verdade, conforme mostraremos nas
páginas seguintes.
O catolicismo romano já foi a religião estatal de muitos países -
em toda a América Latina e em grande parte da Europa - e nessa
época proibiu a prática de todas as demais religiões, mas hoje isso
acabou. Roma, então, usa novas estratégias. Em alguns países, co­
mo a França, a Igreja Católica está pressionando o governo para
considerar ilegal o “proselitismo’9 - exatamente o aspecto sobre o
qual os endossadores desse pacto comum têm concordado. Noutros
lugares a Igreja Católica está exigindo que os evangélicos assinem
um acordo similar ao que entrou em vigência nos Estados Unidos.
Uma notícia publicada no início dos anos 90 dizia:

Espantado com o forte crescimento das "seitas" evangélicas no Bra­


sil, os líderes da Igreja Católica Romana têm ameaçado desencadear
uma "guerra santa" contra os protestantes, a não ser que eles parem
de tirar o povo do domínio católico... Na 31a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil... o bispo Sinésio Bohn disse que os evangélicos
são uma séria ameaça à influência do Vaticano neste país. "Declara­
remos uma 'guerra santa', não duvidem", anunciou ele. "A Igreja Ca­
tólica dispõe de uma poderosa estrutura e quando nos mexermos es­
magaremos qualquer um que se colocar em nossa frente..." Conforme
Bohn, tal guerra santa pode ser evitada, desde que 13 grandes deno­
minações protestantes assinem um acordo... [o qual] requerería que
os protestantes cessassem com todos os esforços evangeiísticos no Bra­
sil. Ele disse ainda que, em troca, os católicos concordariam em parar
com todo Hpo de perseguição aos protestantes.[2]
Esse bispo admitiu que a perseguição aos protestantes ainda é
uma política oficial. A extensão de tal política através da história (a
qual iremos documentar) irá surpreender tanto os católicos quanto
os protestantes. E importante notar que o objetivo da Conferência
dos Bispos não era a verdade do Evangelho nem a salvação de al­
mas, mas manter a influência do Vaticano e manter o povo dentro
da Igreja Católica.
Notem ainda que o mesmo acordo que bispo o Bohn exigiu,
ameaçando os evangélicos do Brasil, foi bem aceito nos Estados
Introdução * II

Unidos por Colson, Packer, Bright, Robertson, etc. Fica evidente


que as ameaças de Bohn influenciaram os líderes evangélicos ame- -
ricanos quando vemos a declaração feita por Colson durante uma
entrevista em que ele, e outros signatários do documento, declara­
ram estar “aborrecidos com os conflitos que surgiram em decorrên­
cia do crescimento do protestantismo evangélico na América Lati­
na tradicionalmente católica...” [3]
Enquanto os evangélicos assinam uma trégua, Roma se move no
sentido de convencer os protestantes a virem para a Igreja Católica.
O projeto católico “Evangelização 2000” realizou seis conferências
de treinamento evangelístico nos EUA, em 1994, envolvendo gru­
pos como os “Institutos de Evangelização Paulina” (na capital,
Washington) e a “Associação de Coordenadores de Evangelização
das Escolas Católicas” (também em Washington). Essas foram ses­
sões sérias de treinamento para líderes, no que eles chamaram de
“evangelismo católico”. Charles Colson foi um dos palestrantes na
conferência “João Paulo II e a Nova Evangelização: Implementan­
do a Visão”, realizada em maio daquele ano na cidade de Ypsilanti,
no estado de Michigan. Ele esteve junto a líderes católicos, como o
frei Tom Forrest, que comandava o “Evangelização 2000” para o
Vaticano. [4]
Aparentemente os líderes evangélicos que assinaram a declara­
ção conjunta imaginavam que haveria um companheirismo espiri­
tual com os católicos para ganhar o mundo para Cristo. “Evangelis­
mo” para os evangélicos significa levar as pessoas a Cristo. Para os
católicos, contudo, significa levar as pessoas para dentro da Igreja
Católica Romana - algo que o acordo deixou de declarar. Conside­
remos a seguinte explanação do que vem a ser o “evangelismo ca­
tólico”, dada pelo frei Tom Forrest a um grupo de católicos caris­
máticos em 1990:

Nosso negócio é fazer o povo tão profunda e compietamente cris­


tão quanto possível, fazendo com que sejam parte da Igreja Católica.
Assim a evangelização não é totalmente bem sucedida, apenas par­
cialmente, até que o convertido se torne um membro do corpo de
Cristo, entrando na Igreja [Católica].
Agora escutem novamente as palavras de Paulo VI [o papa].
Esse é um documento que todos vocês deveriam ter em casa...
chama-se "A Evangelização no Mundo Moderno'". O papa dis-
12 * A Mulher Montada na Besta

se: "o compromisso de alguém recém-evangelizado não pode


permanecer abstrato (simplesmente dizer: "oh, eu sou um cris­
tão", é algo muito vago)... Deve assumir uma forma concreta e
visível, entrando para a Igreja [Católica], o nosso sacramento
perceptível da salvação".
Gosto de dizer essas palavras, vou dizê-las novamente: "nosso sa­
cramento visível de salvação". Isto é a Igreja, e se ela é isto, então te­
mos de evangelizar para fazer com que eles entrem para a Igreja!...
Portanto, você não convida alguém para ser cristão, você o convi­
da para ser católico... Por que isso é tão importante? Em primeiro lu­
gar lembre-se que existem sete sacramentos e que a igreja é quem os
administra... Sobre nossos altares temos o corpo de Cristo, bebemos
o sangue de Cristo. Jesus está vivo sobre nossos altares, como ofer­
ta. ,, Tornamo-nos um com Cristo na eucaristia...
Como católicos temos Maria, ela é a nossa mãezinha, a rainha do
céu, que fica rezando por nós, até que nos veja na glória. Como ca­
tólicos temos o papado e a história dos papas, desde Pedro até João
Paulo II...Temos a rocha sobre a qual Cristo edificou a Sua Igreja.
Como católicos - adoro dizer isso - temos o purgatório. Graças a
Deus! Eu sou um daqueles que jamais gozariam da visão beatífica
sem ele. Esse é o único caminho a ser percorrido...
Então, como católicos... é nossa tarefa aproveitar esta última déca­
da do século XX para evangelizar cada pessoa que pudermos, fa­
zendo com que entrem para a Igreja Católica, entrem para o corpo
de Cristo e no terceiro milênio de história católíca.[5]
Bem, apesar dessas explanações tão claras sobre o “evangelis-
mo” dos católicos, os evangélicos continuam participando de esfor­
ços evangelísticos conjuntos. Para os seguidores do catolicismo a
salvação não acontece quando recebemos Cristo como Salvador,
mas é um processo lento que se inicia com o batismo e, portanto,
depende de uma relação contínua com a Igreja Católica. Eles
crêem que a salvação vem pela participação nos sacramentos, peni­
tências, boas obras, sofrimentos pelos seus pecados (e dos outros)
aqui e/ou no purgatório, indulgências para reduzir a pena-no purga­
tório, e uma quantidade quase infinita de missas e rosários rezados
em benefício próprio ou mesmo dos que jã morreram. O “evange-
lismo” católico baseia-se em boas obras, o que é a completa antíte­
se do “evangelho da graça de D eus” (Atos 20.24).
Introdução • 13

Apesar de tudo, muitos católicos, ao ouvirem o verdadeiro Evan­


gelho da graça de Deus, estão recebendo Cristo como Salvador. Es­
ses cristãos católicos eventualmente acabam confrontando o catoli­
cismo romano com aquilo que eles agora descobriram ser o ensino
bíblico - esse é um conflito tão grande que a maioria acha impossí­
vel permanecer na Igreja Católica. Muitos protestantes ficam igual­
mente em dúvida de como deveria ser a sua relação com os católi­
cos.
As questões tratadas pela Reforma estão confusas. O propósito
deste livro é apresentar informações vitais e fatuais que lancem a
luz necessária sobre a relação entre católicos e protestantes. A
grande maioria, tanto dos católicos quanto dos protestantes, ignora
totalmente esses assuntos tão importantes. E nossa esperança e ora­
ção que as páginas seguintes ajudem a esclarecer os fatos e a desfa­
zer essa confusão.
“ Transportou-me o anjo, em espírito, a um deserto e vi uma mu­
lher montada numa besta escarlate, besta repleta de nomes de
blasfêmia, com sete cabeças e dez chifres
- Apocalipse 173
As mais espantosas profecias da Bíblia se encontram em seu úl­
timo livro, chamado “Apocalipse” ou “Revelação” (o sentido origi­
nal da palavra), registradas pelo apóstolo João por volta do ano 95.
Ele afirmou ter recebido do próprio Cristo ressurreto essa série de
visões do julgamento fmal de Deus sobre a humanidade, que finda­
ria a história. Esta última e mais espantosa visão panorâmica do fu­
turo traz a revelação sobre diversos eventos - alguns já cumpridos
e muitos ainda por se cumprir, mas todos ao mesmo tempo incrí­
veis e terríveis. De todas “as coisas que em breve devem aconte­
cer” (Apocalipse 1.1), reveladas por João, nada é tão intrigante e
chocante como a visão registrada por ele no capítulo 17, onde le­
mos sobre uma horrenda besta escarlate com sete cabeças e dez
chifres. Essa não é a primeira vez que ela aparece aos profetas bí­
blicos. Pela sua descrição fica óbvio que essa é a mesma criatura
terrível que foi descrita anteriormente três vezes. O próprio João
viu-a duas vezes. Daniel já a havia visto, porém cerca de 600 anos
antes de João. Mas alguma coisa mudou nessa última visão.
16 • A Mulher Montada na Besta

Nas aparições anteriores da besta na Escritura ela sempre


atraía totalmente o foco das atenções para si e invariavelmente
aparecia sozinha. Porém, agora surge com uma amazona mon­
tada sobre si. Parece algo além da imaginação alguém se atre­
ver, ou ser capaz de cavalgar essa terrível besta. M esmo assim
uma mulher está sentada, bem à vontade e obviamente no con­
trole da situação, sobre uma criatura devoradora de mundos, im­
possível de ser descrita. Uma mulher? Sim, essa é a visão des­
crita pelo livro de Apocalipse!
Por mais de 1900 anos a besta tem sido um dos principais obje­
tos de atenção por parte dos estudiosos da profecia. Sua identidade
e o papel aterrador que irá desempenhar nos últimos tempos, bem
como a sua destruição, têm sido debatidos durante séculos. Nos úl­
timos 200 anos, porém, muitos cristãos evangélicos chegaram perto
de um consenso: a mulher montada na besta representa tanto o Im­
pério Romano (que é a falsificação satânica do Reino de Deus em
escala mundial), quanto o Antícristo, que será o seu novo soberano,
empossado pelo próprio Satanás. Nas páginas seguintes iremos ve­
rificar se tal interpretação está correta ou não.

A Mulher Que Não Pode Ser Ignorada


A mulher é uma figura muito mais enigmática do que a besta.
Os líderes da Reforma tinham certeza de que ela representava a
Igreja Católica Romana como um todo e o papa em particular. Essa
crença, todavia, tem sido rejeitada ultimamente pela maioria dos
protestantes como sendo algo provocativo e humilhante para os
companheiros católicos, com quem os evangélicos desejam traba­
lhar conjuntamente na tarefa de ganhar o mundo para Cristo. Na
verdade, hoje em dia evita-se falar sobre essa mulher, pois esse as­
sunto geralmente é considerado perigoso demais para ser discutido,
já que causa divisão.
Contudo, a mulher retratada em detalhes por João não pode ser
ignorada assim tão facilmente, pois ela é real e dois dos capítulos
finais da Bíblia são dedicados para descrevê-la. Que faremos com
essa mulher? Seria desonesto ignorarmos uma figura profética tão
importante. A Bíblia inteira é a Palavra de Deus. Não podemos fe­
char os olhos para os capítulos 17 e 18 de Apocalipse assim como
não podemos ignorar João 3.16.
A Mulher Montada na Besta • 17

Sem dúvida a mulher é a figura central nestes dois capítulos tão


importantes, uma das principais personagens do drama dos últimos
dias. João dá muito mais atenção a ela do que à besta. A mulher ca­
valga a besta - um ser que tem uma importância tão grande que
ocupa posição de destaque na profecia bíblica. Podemos ver clara­
mente que o segredo da identidade dessa mulher e o papel que ela
desempenhará é a principal chave para entendermos as profecias
bíblicas referentes ao reinado do Anticristo e os eventos que con­
duzirão à Segunda Vinda de Cristo.

A Profecia Mais Impressionante


das Escrituras
Nas páginas seguintes mostraremos que a identidade da mulher
foi meticulosamente revelada pelo próprio João de uma maneira
que não restam dúvidas. Veremos também que a visão da mulher
é uma das mais notáveis e importantes profecias das Escrituras.
As revelações feitas sobre essa mulher, dadas pelo Espírito San­
to, impressionaram muito a João e continuam sendo chocantes até
hoje.
Muitas das visões que João teve já se cumpriram na história e,
portanto, podem ser inquestionavelmente constatadas. Baseados
naquilo que nos foi revelado pelo apóstolo João, nossa identifica­
ção da identidade da mulher será feita de forma cuidadosa e ine­
quívoca. Embora muitos leitores possam vir a questionar nossas
conclusões, ninguém será capaz de refutá-las.
A verdade sobre a visão da mulher montada na besta é uma das
profecias mais assombrosas das Escrituras. Dizemos especifica­
mente “das Escrituras” porque profecias importantes que foram re­
gistradas durante séculos e tiveram um cumprimento posterior são
exclusivas da Bíblia. Não estamos falando de conjecturas de pouca
importância, feitas por videntes, mas de profecias que envolvem
eventos globais de grande importância e que têm um irrefutável re­
gistro histórico.
A imagem da mulher montada na besta, como veremos, nos dará
subsídios importantes para entendermos melhor os eventos que fi­
zeram parte da história mundial no passado e que determinarão o
destino da humanidade no futuro. Essa mulher não está somente
18 • A Mulher Montada na Besta

sobre a besta, mas também na culminância de séculos de profecias


bíblicas.

Uma Questão de Credibilidade


Estamos simplesmente sensacionalizando a visão de João? Por
que deveríamos nos interessar por sua interpretação hoje em dia? A
questão da relevância desse assunto pode ser facilmente esclareci­
da. A maioria das profecias da Bíblia já se cumpriu. Portanto, é
muito simples e fácil examinar-se tais registros. Por causa dos mui­
tos que irão duvidar e também para fortalecer a fé daqueles que já
crêem, devemos dar um rápido passeio pelo fascinante mundo da
profecia bíblica. Provaremos que as profecias do passado eram im­
pecavelmente exatas, seu cumprimento não pode ser explicado pe­
lo acaso e as evidências nos asseguram que não estamos perdendo
nosso tempo examinando as profecias concernentes ao futuro. Essa
mulher montada na besta realmente tem muito a nos mostrar sobre
o futuro.
Depois de alcançarmos o nosso objetivo iremos focalizar nossa
atenção em Apocalipse 17 e 18, tratando de revelar a identidade e o
papel que essa mulher montada na besta terá no futuro, certos que
a profecia será cumprida exatamente como João nos revelou.
Muitas das informações que iremos apresentar aqui não farão
deste livro uma leitura agradável. Mesmo que perturbe e desafie
muitos dos conceitos do leitor, a verdade, apesar de negada por
muitos, será bem documentada. Além disso, essa é uma realidade
que todas as pessoas do planeta Terra (em especial os que se consi­
deram cristãos), e acima de tudo os católicos romanos, precisam
urgentemente perceber.
Lamentamos principalmente por aqueles católicos romanos sin­
ceros, que depositam grande confiança em sua Igreja, aceitando o
que a hierarquia católica lhes diz, sem estudar a história para
aprenderem toda a verdade. E nossa esperança e oração que os fa­
tos aqui relatados sejam comparados com os registros históricos,
para que assim muitos dos devotos seguidores de Roma venham a
encarar as evidências.
“Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou
Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a
mim; que desde o principio anuncio o que há de acontecer e desde
a antigüidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o
meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.
- Isaías 46.9-10
r I .í 3 Tií ;f^’
S y, L
I;

A profecia bíblica é a chave para se entender tanto o passado


quanto o futuro. Embora aos céticos essa talvez pareça uma preten­
são absurda, ela é facilmente comprovada. Pelo fato de já ter se
cumprido a maior parte das profecias registradas na Bíblia, fica
muito simples determinar se essas profecias são confiáveis ou não.
Dois importantes assuntos da profecia estendem-se consistente­
mente por toda a Escritura: (1) Israel; (2) O Messias que vem para
Israel e através de Israel para o mundo como Salvador de toda a
humanidade. Ao redor desses dois temas centrais quase todas as
demais profecias se desenvolvem e encontram seu significado, seja
o Arrebatamento da Igreja, o Anticristo, seu governo e religião vin­
douros, o Armagedom, a Segunda Vinda de Cristo ou qualquer ou­
tra ocorrência profética. A Bíblia é absolutamente única na apre­
sentação dessas profecias, as quais ela registra com detalhes espe­
cíficos, começando há mais de 3.000 anos.
Cerca de 30% da Bíblia é dedicado à profecia. Esse fato confir­
ma a importância do que tem se tomado um assunto negligenciado.
Em contraste marcante, a profecia está completamente ausente no
Corão, nos Vedas hindus, no Baghavad Gita, no Ramayana, nas pa­
lavras de Buda ou Confúcio, no Livro de Mórmon, ou quaisquer
outros escritos das religiões mundiais. Esse fato isolado já provê
um inegável selo de aprovação divina sobre a fé judaico-cristã, ele­
mento que falta em todas as outras crenças. O perfeito registro do
22 ♦ A Mulher Montada na Besta

cumprimento da profecia bíblica é suficiente para autenticar a Bí­


blia como a única e inerrante Palavra de Deus, ao contrário de to­
dos os outros escritos.

Profecia - A Grande Prova


Há muitos motivos importantes para a profecia bíblica. Em pri­
meiro lugar, o cumprimento da profecia estabelece prova irrefutá­
vel da existência do próprio Deus que inspirou os profetas. Pelos
importantes eventos da história mundial, profetizados centenas e
mesmo milhares de anos antes de acontecerem, o Deus da Bíblia
prova ser o único Deus verdadeiro, Criador do universo e da huma­
nidade, o Senhor da História - e que a Bíblia é a Sua Palavra infalí­
vel, dada a fim de comunicar os Seus propósitos e o meio de salva­
ção a todos os que creem. Aqui está uma prova tão simples que
uma criança pode entender, e tão profunda que os maiores gênios
não podem refutar.
A profecia, pois, desempenha um papel vital ao revelar o propó­
sito de Deus para a humanidade. Ela também fornece uma prova
inteiramente segura na identificação do verdadeiro Messias de
Deus, ou Cristo, e desmascara o impostor de Satanás, o Anticristo,
de maneira que ninguém que observar a Palavra de Deus venha a
ser por ele enganado.
Entretanto, por ser a profecia algo único na Bíblia, ela é exclusi­
va para Cristo. Profecia nenhuma narrou a vinda de Buda, Maomé,
Zoroastro, Confúcio, Joseph Smith, Mary Baker Eddy, os popula­
res gurus hindus que têm invadido o Ocidente, ou qualquer outro
líder religioso, todos eles sem as credenciais que distinguem Jesus
Cristo. Entretanto, há mais de 300 profecias do Antigo Testamento
que identificam o Messias de Israel. Séculos antes de Sua vinda, os
profetas hebreus estabeleceram critérios específicos que deveriam
ser preenchidos pelo Messias. O cumprimento destas profecias nos
mínimos detalhes da vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré
demonstra indiscutivelmente ser Ele o prometido por Deus, o ver­
dadeiro e único Salvador.
Visto que estes dois importantes itens da profecia bíblica, Israel
e o Messias, são tratados em alguns dos meus livros, principalmen­
te em Quanto Tempo Nos Resta?, vamos resumi-los aqui rapida­
mente. Em Isaías 43.10, o Deus de Israel declara que os judeus são
Razao Para Crer • 23

Suas testemunhas para o mundo de que Ele é Deus. Tal é o caso}


apesar de 30% dos israelitas hoje declararem-se ateus e a maior
parte dos judeus do mundo inteiro jamais pensar em dizer que
Deus existe. Mesmo assim eles são testemunhas da existência dEle,
tanto para si mesmos como para o mundo, por causa do espantoso
cumprimento exato, na história, daquilo que Deus disse que acon­
teceria a esse povo especial.

O Povo Escolhido - Sua Terra e Seu Destino


Embora muito do que os profetas predisseram para Israel ainda
seja para o futuro, nove profecias importantes envolvendo detalhes
específicos e verificáveis já se cumpriram, exatamente como fora
previsto séculos antes.
1) Deus prometeu uma terra e fronteiras claramente definidas
(Gênesis 15.18-21) a Abraão (Gênesis 12.1; 13.15; 15.7, etc.). Re­
novou essa promessa a Isaque, filho de Abraão (Gênesis 26.3-5),
ao seu neto Jacó (Gênesis 28.13) e aos seus descendentes para
sempre (Levítico 25.46; Josué 14.9, etc.).
2) É um fato histórico Deus ter trazido esse “povo escolhido”
(Êxodo 7.4-8; Deuteronômio 7.6; 14.2, etc.) à Terra Prometida, por
si só uma surpreendente história de milagres.
3) Quando os judeus entraram na Terra Prometida, Deus os ad­
vertiu que, se praticassem a idolatria e imoralidade dos antigos ha­
bitantes daquele lugar, os quais havia destruído por praticarem o
mal (Deuteronômio 9.4), Ele também os lançaria para longe (Deu­
teronômio 28.63; 1 Reis 9.7 e 2 Crônicas 7.20, etc.). Que isso
aconteceu é, também, inegável pela história. Até este ponto, a his­
tória nada tem de especial. Outros povos acreditaram que uma cer­
ta área geográfica era a sua “terra prometida” e depois de entrarem
nela foram posteriormente expulsos pelos inimigos. Porém, as pró­
ximas seis profecias e o seu cumprimento são absolutamente úni­
cos na história dos judeus. A ocorrência desses eventos, exatamen­
te como foram profetizados, jamais pode ter acontecido por acaso.
4) Deus declarou que o Seu povo seria espalhado “entre todos
os povos, de uma até à outra extremidade da terra ” (Deuteronô­
mio 28.64; cf. 1 Reis 9.7; Neemias 1.8; Amós 9.9; Zacarias 7.14,
etc.). E assim aconteceu. O “judeu errante” é encontrado em toda
parte. A precisão com que essas profecias aconteceram exclusiva­
2 4 • A Mulher Montada na Besta

mente aos judeus se tomou marcante, porque segue cumprimento


após cumprimento até que a existência de Deus, através do trato
com o Seu povo escolhido, se tome irrefutável.
5) Deus os admoestou que onde quer que vagassem, os judeus
seriam “pasmo, provérbio e motejo entre todos os povos” (Deute-
ronômio 28.37; 2 Crônicas 7.20; Jeremias 29.18; 44.8, etc.). Incri­
velmente isso tem se tomado realidade a respeito dos judeus atra­
vés de toda a história, exatamente como a geração presente o sabe
muito bem. A maledicência, o desprezo, as piadas, o ódio violento
chamado anti-semitismo, não apenas entre os muçulmanos mas até
mesmo entre os que se chamam cristãos, é um fato único e persis­
tente na história peculiar do povo judeu. Mesmo hoje, apesar da
freqüente lembrança do Holocausto de Hitler, que chocou e enver­
gonhou o mundo inteiro como um desafio à lógica e à consciência,
o anti-semitismo está vivo e recrudesce em todo o mundo.

História de Perseguição
Além disso, os profetas declararam que esse povo espalhado não
apenas seria difamado, denegrido e discriminado, mas:
6) Seria perseguido e assassinado como nenhum outro povo na
face da terra, fato que a história atesta com eloquente testemunho,
pois foi exatamente o que aconteceu aos judeus, século após sécu­
lo, onde quer que fossem encontrados. O registro histórico de ne­
nhum outro grupo étnico ou nacional contém algo que ao menos se
aproxime do pesadelo de terror, humilhação e destruição que os ju ­
deus têm suportado no decorrer da história pelas mãos dos povos
entre os quais foram espalhados.
Vergonhosamente, muitos que afirmavam ser cristãos e, portan­
to, seguidores de Cristo, Ele mesmo um judeu, estavam na linha de
frente da perseguição e extermínio dos judeus. Havendo ganho
completa cidadania no Império Romano pagão, em 212, sob o Édi­
to de Caracalla, os judeus se tomaram cidadãos de segunda classe e
objeto de incrível perseguição depois que o imperador Constantino
supostamente tornou-se cristão. A partir daí, os que se chamavam
cristãos tomaram-se mais cruéis com os judeus do que os pagãos
jamais haviam sido.
Os papas católicos romanos foram os primeiros a fomentar ao
máximo o anti-semitismo. Hitler, que permaneceu católico até o
Razao Para Crer • 25

fim, afirmou que estava apenas seguindo o exemplo dos católicos e


dos luteranos concluindo o que a igreja havia começado. O anti-se­
mitismo fazia parte do catolicismo, do qual Martim Lutero jamais
se libertou. Ele advogava que se incendiassem as casas dos judeus,
dando-lhes a alternativa de se converterem ou ficarem sem a lín-
gua.fl] Quando os judeus de Roma foram libertados de seus guetos
pelo exército italiano em 1870, sua liberdade finalmente pôs fim a
cerca de 1.500 anos de inimaginável humilhação e degradação nas
mãos dos que afirmavam ser os vigários de Cristo. Papa nenhum
odiou os judeus mais do que Paulo IV (1555-1559), cuja crueldade
foi além da imaginação humana. O historiador católico Peter de
Rosa confessa que uma inteira “sucessão de papas reforçou os anti­
gos preconceitos contra os judeus, tratando-os como leprosos, in­
dignos da proteção da lei. Pio VII (1800-1823) foi sucedido por
Leão XII, Pio VUI, Gregório XVI e Pio IX (1846-1878) - todos
eles discípulos de Paulo IV.[2] O historiador Will Durant nos lem­
bra que Hitler teve bons precedentes para a suas sanções contra os
judeus:

O Concílio (católico romano) de Viena (1311) proibiu qualquer


transação entre cristãos e judeus. O Concílio de Zamora (1313) esta­
beleceu que era proibido aos cristãos se associarem aos judeus... E
levou as autoridades seculares (como a Igreja havia há muito estabe­
lecido em Roma e nos Estados papais) a confinar os judeus em quar­
teirões separados (guetos) e compeli-los a usar um distintivo (antes
havia sido um chapéu amarelo) e assegurando sua freqüência aos
sermões para que se convertessem.[3]

Preservação e Renascimento
Deus declarou que, apesar de tais perseguições e massacres pe­
riódicos,
7) Ele não permitiria que o Seu povo fosse destruído, mas o pre­
servaria como um grupo étnico e nacional identificável (Jeremias
30.11; 31.35-37, etc.). Os judeus teriam toda razão de se mistura­
rem através de casamentos [com os gentios], de mudarem seus no­
mes e de esconderem sua identidade de todas as maneiras possí­
veis, a fim de escaparem à perseguição. Por que preservaram sua li­
nhagem sanguínea, se não possuíam uma terra própria, se a maioria
2 6 • A Mulher Montada na Besta

não cria literalmente na Bíblia e se a identificação racial só lhes


trazia as mais cruéis desvantagens?
Deixar de se misturar através do casamento não fazia sentido. A
absorção por aqueles entre os quais eles viviam parecia inevitável,
assim sendo, poucos sinais que caracterizam os judeus como povo
distinto deveriam permanecer até hoje. Afinal, aqueles exilados
desprezíveis foram espalhados por todos os cantos da terra por
2.500 anos, desde a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor
em 586 a.C. Poderia a “tradição” ser tão forte sem uma fé real em
Deus?
Contra todas as previsões, os judeus permaneceram um povo
distinto depois de todos esses séculos. Este fato é um fenômeno
sem paralelo na história e absolutamente peculiar aos judeus. Para
a maioria dos judeus que viviam na Europa, a lei da igreja tomava
impossível o casamento misto sem a conversão ao catolicismo ro­
mano. Aqui mais uma vez a Igreja Católica desempenhou um pa­
pel infame. Durante séculos era pecado mortal, sob a jurisdição dos
papas, o casamento entre judeus e cristãos, proibindo os casamen­
tos mistos mesmo entre os que o desejassem.
A Bíblia diz que quando Deus determinou guardar o Seu povo
escolhido separado para Si próprio (Êxodo 33.16; Levítico 20.26,
etc.), o fez porque:
8) Ele os traria de volta à Sua terra nos últimos dias (Jeremias
30.10; 31.8-12; Ezequiel 36.24,35-38, etc.), antes da segunda vinda
do Messias. Essa profecia e promessa há tanto esperada foi cum­
prida com o renascimento de Israel em sua Terra Prometida. Isso
aconteceu em 1948, quase 1.900 anos após a Diáspora final, que se
deu na destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos liderados
por Tito no ano 70. Essa restauração de uma nação, depois de 25
séculos, é absolutamente espantosa, um fenômeno sem paralelo na
história de qualquer outro povo e inexplicável por meios naturais e
muito menos pelo acaso. Mais notável é que
9) Deus declarou que nos últimos dias, antes da segunda vinda
do Messias, Jerusalém se tomaria “um cálice de tontear... uma p e ­
dra pesada para todos os povos” (Zacarias 12.2-3). Quando Zaca­
rias fez essa profecia, há 2.500 anos, Jerusalém permanecia em ruí­
nas e cheia de animais selvagens. A profecia de Zacarias parecia
uma grande loucura, mesmo após o renascimento de Israel em
1948. Pois hoje, exatamente como íbi profetizado, um mundo de
Razão Para Crer • 27

mais de 6 bilhões de pessoas tem os seus olhos voltados para Jeru­


salém, temendo que a próxima Guerra Mundial, se explodir, seja
travada por causa dessa pequenina cidade. Que incrível cumpri­
mento da profecia!

Não uma Explicação Qualquer


Israel ocupa 1/6 de 1% da área de terra que os árabes possuem.
Os árabes têm o petróleo, a riqueza e a influência mundial que tais
recursos aparentemente inesgotáveis proporcionam. Não apenas o
pedacinho de terra de Israel é dificilmente perceptível no mapa-
múndi, como também lhe faltam todas as coisas essenciais para
que se tome o centro das preocupações de todo o mundo. Entretan­
to, desafiando o bom-senso, Israel é o foco da atenção mundial,
exatamente como foi profetizado.
Jemsalém é uma pequena cidade sem importância comercial ou
localização estratégica. Mesmo assim, os olhos do mundo inteiro
estão sobre ela mais do que sobre qualquer outra cidade. Jemsalém
tomou-se realmente uma “pedra pesada” atada ao pescoço de todas
as nações do mundo, o problema mais irritante e instável que as
Nações Unidas enfrentam hoje. E não há explicação lógica para is­
so. Está se cumprindo hoje o que os profetas hebreus declararam
há milhares de anos e que parecia absolutamente irreal em seu tem­
po. Essa é apenas uma parte da evidência de que os “últimos dias”
profetizados estão chegando para nós, e que a nossa geração, pro­
vavelmente, verá o restante da profecia cumprida.
As profecias acima delineadas (para não citar inúmeras outras),
têm sido assunto de conhecimento público nas páginas da Escritura
e têm estado disponíveis para exame cuidadoso durante séculos.
Que elas tenham se cumprido com detalhes não pode ser obra do
acaso, sendo, na verdade, a prova evidente da existência do Deus
que inspirou a Bíblia, provando a autenticidade e inerrância desse
Livro. Em vista de tal clara e admirável evidência, somente pode­
mos supor benevolentemente que nenhum agnóstico ou ateu tenha
se atrevido a ler as profecias bíblicas nem as tenha pessoalmente
comparado com a história e os eventos atuais.
Existem profecias adicionais concernentes a Israel e Jerusalém
que se referem aos últimos dias, as quais ainda aguardam cumpri­
mento futuro. Entretanto, podemos estar certos, baseados nas profe-
2 8 • A Mulher Montada na Besta

cias que já se cumpriram, que estas também se realizarão em um fu­


turo não muito distante. O tempo mais aterrador de destruição para
os judeus e também para toda a população mundial ainda está por
vir. Ele se chama “tempo de angústia para Jacó” (Jeremias 30.7).
Com espantosa precisão a Bíblia não menciona Damasco, Cairo,
Londres ou Paris como centro da ação dos últimos dias, mas ape­
nas duas cidades específicas: Jerusalém e Roma. Elas são antagôni­
cas, têm sido inimigas desde a época dos césares e notavelmente
continuam rivais pela supremacia espiritual ainda hoje. A Roma
católica reivindica ser a “Cidade Eterna” e a “Cidade Santa”, títu­
los que a Bíblia concede a Jerusalém. Roma também afirma que é a
“Nova Jerusalém”, provocando um conflito direto com as promes­
sas de Deus concernentes à verdadeira Cidade de Davi.
Passaram-se 2.000 anos de tensão e antagonismo entre Roma e
Jerusalém. Durante quase 46 anos após o renascimento de Israel
em 1948, o Vaticano se recusou a reconhecer esse país. Essa ani­
mosidade não foi apagada pela recente abertura, que o Vaticano
usou apenas como expediente para se aproximar de Israel. Roma
quer exercer influência sobre o futuro de Jerusalém, insistindo em
tomá-la uma cidade internacional, sobre a qual Israel não tenha
mais direitos do que qualquer outra nação.
Com espantosa precisão a Bíblia identifica Jerusalém e Roma
como os pontos centrais dos eventos profetizados para os últimos
dias. Ambas vão ter sua parte no julgamento de Deus. Exige-se
pouco mais do que atenção casual sobre as notícias diárias para se
reconhecer a precisão da profecia. Também aí, no que a Bíblia diz
sobre Roma e a Cidade do Vaticano, temos evidências adicionais
de que esse Livro é a Palavra de Deus.
“Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno...
sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus,
vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos
- Pedro, em seu primeiro sermão (Atos 2.22-23)

“Paulo... por três sábados arrazoou com eles (os judeus em sua
sinagoga) acerca das Escrituras... que o Cristo padecesse e ressur­
gisse dentre os mortos... é o Cristo [Messias], Jesus, que eu vos
anuncio1’.
- Paulo, em um dos seus sermões típicos (Atos 17.2-3)
Uma Conspiração
da Páscoa?
As profecias concernentes ao segundo tema mais importante da
Bíblia (a vinda do Messias), são ainda mais numerosas e detalha­
das do que as que dizem respeito a Israel. Já tratei desse assunto
em meus livros anteriores, por isso iremos resumir brevemente al­
gumas delas aqui. Até mesmo os críticos mais anticristãos, que ne­
gam categoricamente que Jesus de Nazaré seja o Salvador do mun­
do, admitem que muitas das profecias messiânicas foram cumpri­
das em Sua vida e crucificação. Na tentativa de diminuir a
importância desse fato, algumas teorias bizarras foram inventadas.
Um exemplo típico dessas tentativas foi um livro e um filme (ne­
nhum deles foi um grande sucesso), lançados alguns anos atrás, in­
titulados A Conspiração da Páscoa. Sua tese era que Jesus, conhe­
cendo algumas das profecias messiânicas do Antigo Testamento,
conspirou com Judas para cumpri-las, aparentando ser Ele o Mes­
sias prometido.

Contradição Inconsistente?
Obviamente é ridículo pensar que Jesus deixou-Se crucificar a
fim de convencer um pequeno bando de seguidores incultos e inep­
32 • A Mulher Montada na Besta

tos de que Ele era o Cristo. De fato, nem Seus discípulos nem qual­
quer outro judeu, inclusive João Batista, poderia crer (embora as
profecias fossem claras, como Cristo sempre explicou) que o Mes­
sias seria crucificado. Na verdade Sua morte até parecia ser uma
prova de que Ele não era o Messias, e cumprindo assim, literal­
mente, as profecias referentes à Sua crucificação, como Ele o fez,
não seria o meio mais apropriado de conseguir seguidores. A ver­
dade é que a morte de Cristo, segundo as profecias ocorreu para
pagar a penalidade pelos nossos pecados.
As profecias referentes à Sua morte (Salmo 22.16; Isaías 53.5;
8-10; Zacarias 12.10, etc.) eram evitadas pelos judeus, como misté­
rios impenetráveis, pois pareciam totalmente destoantes das outras,
as quais declaravam claramente que o Messias haveria de subir ao
trono de Davi e governar um reino magnífico. Como poderia o
Messias estabelecer um reino e uma paz sem fim (Isaías 9.7) e ao
mesmo tempo ser rejeitado e crucificado pelo Seu próprio povo?
Parecia impossível que ambas fossem verdadeiras, por isso os in­
térpretes judeus simplesmente ignoravam o que não fazia sentido
para eles.
O fato dos judeus terem conseguido crucificar Jesus foi a prova
v final e triunfante para os rabinos, e serviu como uma frustrante mas
inegável evidência para o povo judeu e para os Seus discípulos
mais devotados de que Jesus de Nazaré não podia ser o Messias. O
reino messiânico que havia sido profetizado não tinha sido estabe­
lecido e Ele não havia trazido paz a Israel, livrando-o dos seus ini­
migos. Sendo assim, na melhor das hipóteses Ele era um impostor
bem-intencionado e, na pior delas, uma fraude deliberada. Esse
continua sendo o argumento da maioria dos judeus hoje em dia.
Existia, porém, uma maneira de reconciliar essas aparentes con­
tradições: o Messias deveria vir duas vezes, a primeira para morrer
pelo pecado dos homens e a segunda para reinar assentado sobre o
trono de Davi. Mesmo que Jesus tenha explicado esses fatos antes
deles acontecerem, ninguém conseguiu entendê-los. Seria preciso
que Ele ressuscitasse para abrir os olhos cegos.

Mais do Que Um Simples Homem


Sim, Jesus de Nazaré poderia ter conspirado juntamente com Ju­
das, ou com outros, para que fossem cumpridas algumas profecias.
Uma Conspiração Pascal? • 33

A maior parte das profecias, contudo, estava além do controle de


qualquer simples mortal. Por exemplo, nascer em Belém, da des­
cendência de Davi, era um dos principais requisitos para o Mes­
sias. Além disso, o tempo em que ocorreu o nascimento do Mes­
sias, como fora profetizado antes, tampouco podia ser determinado
por qualquer pessoa. Seu nascimento teria de ocorrer antes do “ce­
tro se arredar de Judâ” (Gênesis 49.10), enquanto o templo ainda
estivesse de pé (Malaquias 3.17), enquanto os registros genealógi­
cos ainda estivessem disponíveis para provar a sua linhagem (2 Sa­
muel 7.12; Salmo 89; etc.) e pouco tempo antes que o templo e Je­
rusalém fossem destruídos (Daniel 9.26).
Havia apenas um limitado período de tempo durante a qual o
Messias teria de vir - e Ele veio. Como o apóstolo Paulo, um ex-
mestre do judaísmo, expôs de maneira tão eloquente: “Vindo, p o ­
rém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mu­
lher [ou seja, de uma virgem], nascido sob a lei...” (Gálatas 4.4).
Portanto, seda tarde demais caso o Messias viesse pela primeira
vez hoje em dia. Agora só pode haver uma Segunda Vinda, como a
Bíblia nos ensina. Mesmo assim os judeus aguardam a vinda da­
quele que eles pensarão ser o Messias, mas que na realidade será o
Anticristo.
O cetro foi arredado de Judá por volta do ano 7, quando os rabi­
nos perderam o direito de decretar a pena de morte. Esse direito era
crucial para a prática de sua religião, porque a morte era a penali­
dade para certas ofensas religiosas. Quando Pilatos disse aos ju ­
deus que nada tinha a ver com Jesus, e que eles mesmos O julgas­
sem, os judeus responderam: “A nós não nos é lícito matar nin­
guém” (João 18.31). O Messias teria de nascer antes que esse
poder fosse perdido e deveria morrer em seguida, não sendo ape­
drejado (o modo de execução dos judeus), mas crucificado pelos
romanos. De um modo incrível Sua crucificação fora profetizada
séculos antes que este meio de execução fosse conhecido: “Tras­
passaram-me as mãos e os pés” (Salmo 22.16).
É óbvio que o Messias devia nascer enquanto ainda existissem
os registros genealógicos, ou não haveria prova alguma de que Ele
descendia de Davi. Esse tipo de documentação se perdeu com a
destruição do templo, no ano 70, um evento que tanto Daniel como
Cristo profetizaram (Mateus 24.2). A partir de então passou a ser
tarde demais para que o Messias viesse, embora a maioria dos ju-
3 4 • A Mulher Montada na Besta

deus continue aguardando o Seu primeiro advento. Por outro lado,


os cristãos aguardam a Segunda Vinda, a qual também foi profeti­
zada pelos profetas judeus.

Incríveis Cumprimentos de Profecias


Se Jesus tivesse conspirado para realizar as profecias, Ele tam­
bém teria de induzir Pilatos a condenar os dois ladrões a serem cru­
cificados com Ele, para que Isaías 53.9 se cumprisse. Teria também
de saber quais soldados estariam de serviço naquele dia, a fim de
poder subomá-los com antecedência para que dividissem as Suas
vestes, deitando sortes sobre a Sua túnica (Salmo 22.18), dessem-
Lhe vinagre misturado com fel para beber (Salmo 69.21), O tras­
passassem com uma lança (Zacarias 12.10) ao invés de quebrar
Suas pernas, conforme o costume da época, pois isso não poderia
ser feito ao Messias (Êxodo 12.46; Salmo 34.20).
Os rabinos também eram parte da conspiração? Foi por isso que
eles pagaram a Judas exatamente 30 moedas de prata pela traição,
conforme profetizado em Zacarias (11.12), tendo sido esse dinhei­
ro usado para comprar o “campo do oleiro” para cemitério de fo­
rasteiros (Mateus 27.7), depois que Judas atirou para o santuário as
moedas, o que também foi profetizado (Zacarias 11.13)? É por isso
que eles crucificaram Jesus exatamente no momento em que os
cordeiros pascais estavam sendo mortos em todo o Israel, em cum­
primento de Êxodo 12.6? Quanto mais se examina o cenário dessa
“Conspiração da Páscoa ”, mais ridícula ela se toma.
Onde Jesus conseguiu dinheiro para pagar a multidão que se
amontoava na estrada que leva a Jerusalém e O saudou como o Mes­
sias, enquanto montava um jumento - o último animal que se espera­
ria ser escolhido como a montaria de um rei triunfante - precisamen­
te como fora profetizado em Zacarias 9.9? Isso ocorreu no dia 10 do
mês de Nissan [6 de abril] do ano 32, o dia exato predito pelos profe­
tas em que esse incrível evento aconteceria. Ou seja, 483 anos depois
do dia (69 semanas de anos, conforme a profecia de Daniel 9.25) em
que Neemias, no vigésimo ano do reinado de Artaxerxes Longima-
nus (465-425 a.C.), recebeu [dia Io de Nissan de 445 a.C ] autoriza­
ção para reconstruir Jerusalém (Neemias 2.1)! O cumprimento em
Jesus, dessas e das muitas outras profecias messiânicas em seus mí­
nimos detalhes, não pode ser nem de longe negado.
Uma Conspiração Pascal? • 35

Corpo Desaparecido, Túmulo Vazio


Além do mais, se Jesus tivesse tido sucesso na “conspiração” pa­
ra ser crucificado na data e no tempo exato que havia sido profeti­
zado - apesar da determinação dos rabinos para que ocorresse o
contrário (Mateus 26.5; Marcos 14.2), - Ele ainda teria de ressusci­
tar dos mortos. Nenhuma Conspiração da Páscoa, não importa
quantos conspiradores estivessem envolvidos, poderia fazer com
que isso ocorresse. Uma “ressurreição” de mentira não seria o sufi­
ciente para que Seus seguidores propagassem o cristianismo. So­
mente se Cristo tivesse realmente morrido e ressuscitado é que os
apóstolos teriam motivação e coragem para proclamar o Evange­
lho, enfrentando perseguições e o martírio.
Os soldados romanos não dormiram durante a guarda. Se isso ti­
vesse acontecido enquanto os discípulos roubavam o corpo, todos
eles seriam crucificados no dia seguinte, por terem cometido o cri­
me de violar o selo romano que estava na pedra colocada sobre o
túmulo. Se os discípulos tivessem roubado o corpo e, de algum
modo, mantivessem isso em segredo, por que morreriam por uma
mentira? Eles eram tão covardes que nenhum deles quis morrer pe­
lo que acreditavam ser a verdade. Mesmo assim, mais tarde quase
todos morreram como mártires, declarando até o fim serem teste­
munhas oculares da ressurreição de Jesus. Nenhum deles tentou
salvar a própria vida em troca da revelação do lugar onde o corpo
havia sido escondido. Simplesmente não existe maneira de se ex­
plicar um túmulo inegavelmente vazio, exceto pela ressurreição.
Nem o hinduísmo, o budismo, o islamismo ou qualquer outra re­
ligião do mundo pode ter a pretensão de afirmar que o seu líder
ainda está vivo. Para o cristianismo, contudo, a ressurreição é o co­
ração do Evangelho. Se Cristo não ressuscitou dos mortos, então
tudo não passa de uma fraude. Jesus não mandou os Seus discípu­
los irem para as longínquas terras da Sibéria ou da África do Sul a
fim de pregar a Sua ressurreição, onde ninguém poderia contestar
aquelas declarações. Mas mandou-os começar por Jerusalém, onde,
caso Ele não tivesse ressuscitado, um pequeno passeio até o túmulo
(nos arredores da cidade), provaria que ainda estava morto. Como
os rabinos e o governador romano adorariam poder desacreditar o
cristianismo antes que ele se alastrasse! A maneira mais segura de
fazer isso seria exibir o corpo de Jesus, só que eles não puderam
fazê-lo. O túmulo fortemente guardado, de repente, ficou vazio!
3 6 • A Mulher Montada na Besta

Surge Saulo de Tarso


As provas da ressurreição de Jesus são numerosas e irrefutáveis,
mas como jã tratamos desse assunto em outros livros, mencionare­
mos apenas uma - aquela prova que sempre é ignorada. A única
explicação para o fato de Saulo de Tarso, o maior inimigo do cris­
tianismo, ter se tornado o Seu maior apóstolo é Cristo ter realmente
ressuscitado dos mortos. Saulo, um fariseu jovem e popular, estava
próximo de alcançar grandes honrarias pelo papel de liderança que
desempenhava na perseguição dessa seita aberrante, detendo, pren­
dendo e martirizando os seguidores de Jesus. Então, de repente, ele
se tomou um dos cristãos mais desprezados e perseguidos e por
sua fé acabou sendo detido, espancado e aprisionado várias vezes.
Certa ocasião, chegou a ser apedrejado e abandonado para morrer.
Finalmente foi decapitado. Essa incrível reviravolta em sua vida
não faria sentido... a não ser que a ressurreição fosse verdadeira.
Por que trocar voluntariamente a popularidade pelo sofrimento e
um eventual martírio? Paulo dizia ter se encontrado com o Cristo
ressurreto, afirmava que Aquele que havia morrido pelos pecados
do mundo estava vivo e tinha Se revelado a ele. Esse testemunho,
contudo, não era suficiente para provar que Cristo realmente estava
vivo. Seria necessário algo mais.
Ninguém poderia duvidar da sinceridade de Paulo. Isso foi de­
monstrado pela sua disposição de sofrer e até morrer por Cristo. Po­
rém apenas uma crença sincera de que Cristo realmente estava vivo
não era prova suficiente. Era possível que Paulo tivesse apenas tido
uma alucinação, na qual simplesmente imaginava que Cristo tinha
aparecido e falado com ele, dizendo que ainda estava vivo.
Os governadores romanos Félix e Festo, bem como o rei Agripa,
escutaram a narrativa de Paulo sobre o seu encontro sobrenatural e
tiveram a certeza de que ele era sincero, mas que estava enganado
(Atos 24.26). Essa explicação, contudo, não está de acordo com os
fatos. A intimidade repentina de Paulo com os ensinos de Cristo
fornece prova suficiente da ressurreição, que jamais poderia ser ex­
plicada de outro modo.

Evidência Conclusiva
Paulo, que não havia conhecido Cristo antes dEle ser crucifica­
do, de repente se tomou a maior autoridade naquilo que Jesus ha­
Uma Conspiração Pascal? • 37

via ensinado em particular ao Seu círculo íntimo de discípulos.


Certamente ele O tinha encontrado! Os apóstolos, que haviam sido
pessoalmente instruídos por Cristo durante vários anos, tinham de
reconhecer que seu antigo inimigo, Paulo, sem consultar nenhum
deles, sabia tudo que Cristo lhes havia ensinado e tinha tido revela­
ções até mais profundas do que eles. Quando Paulo repreendeu Pe­
dro por ter se desviado momentaneamente dos ensinamentos de Je­
sus, este submeteu-se à correção (Gálatas 2.11-14).
“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei...” (1
Coríntios 11.23). Foi assim que Paulo começou a sua explanação à
igreja de Corinto sobre o que acontecera na Ultima Ceia e o que
Cristo havia ensinado aos Seus discípulos naquela ocasião. Entre­
tanto, Paulo não esteve presente e nem consultou nenhum dos que
lá estiveram: "...Não consultei carne e sangue, nem subi a Jerusa­
lém para os que já eram apóstolos antes de mim, mas parti para as
regiões da A rá b ia ..(G á la ta s 1.16,17), foi seu testemunho. Ter se
tomado, de repente, o principal apóstolo e a maior autoridade sobre
o que Cristo havia ensinado, só poderia ser explicado pelo fato de
Paulo ter sido instruído pelo próprio Senhor ressurreto, exatamente
como afirmava.
Sem consultar nenhum daqueles que haviam sido discípulos de
Cristo durante o Seu ministério terreno, Paulo tomou-se a principal
autoridade na doutrina cristã, como todas as igrejas tiveram de re­
conhecer. Ele escreveu a maioria das epístolas do Novo Testamen­
to. “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho por mim
anunciado não é segundo o homem. Porque eu não o recebi, nem o
aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cris­
to” (Gálatas 1.11,12), era o testemunho solene de Paulo. Não exis­
te outra explicação a não ser que Cristo realmente ressuscitou e
instruiu a Paulo pessoal mente.

Temos Motivo Para Confiar


O cumprimento das profecias acima mencionadas, bem como
dezenas de outras sobre a vida, morte e ressurreição de Cristo pro­
vam, sem sombra de dúvida, que Ele é o Messias de Israel, o Sal­
vador do mundo. Ninguém pode examinar os fatos e continuar du­
vidando. Aqueles que se recusam a crer, mesmo diante das extraor­
dinárias evidências, tomam-se indesculpáveis.
38 • A Mulher Montada na Besta

Usamos estas poucas páginas para estabelecer a validade da pro­


fecia bíblica com um propósito. Tendo em vista que aquilo que a
Bíblia profetizou a respeito dos eventos do passado se cumpriu
com 100% de precisão, temos razões de sobra para crer que todas
suas profecias relativas ao futuro também serão cumpridas.
Com confiança, então, podemos agora considerar a revelação so­
bre o futuro que nos foi dada em Apocalipse 17 e 18, e estudar a
importante questão da identidade da mulher montada na besta. Mas
antes de tudo, nossa atenção deve ser dirigida à própria besta.
“Quatro animais, grandes, diferentes uns dos outros, subiam do
mar. O primeiro era como leão... O segundo semelhante a um ur­
so... E eis aqui outro, semelhante a um leopardo... E eis aqui o
quarto animal, espantoso e sobremodo forte... E tinha dez chifres...
Os dez chifres correspondem a dez reis...”
- Daniel 7.3-7, 24
Uma Revelação
Progressiva
A visão de João da mulher montada na besta, em Apocalipse 17,
não é a primeira a descrever essa horrenda criatura. Essa é, na verda­
de, a culminância de uma série de visões que começaram 600 anos
antes. A primeira delas foi o sonho do rei Nabucodonosor, na qual
ele viu uma estátua: “A cabeça era defino ouro, o peito e os braços,
de prata, o tronco e os quadris, de bronze; as pernas de ferro, os
pés, em parte, de ferro, em parte, de barro” (Daniel 2.32-33).
A interpretação dada por Deus a Daniel foi a de que a estátua,
com suas quatro partes de metais diferentes, referia-se a quatro im­
périos mundiais: Babilónico, Medo-Persa, Grego e Romano. O
Império Babilónico ainda existia naquela época. Que ele foi suce­
dido pelas outros três, nessa ordem, é confirmado pela história.
Por que só quatro impérios foram vistos? O que foi feito de tan­
tos outros que a história registrou e que ocuparam territórios pelo
menos tão grandes quanto qualquer um desses quatro? A Bíblia ig­
nora todos eles. Por quê? O tempo os fez desaparecer. Eles não
voltarão mais a existir. Apenas Roma ressurgirá, pois sua *ferida
mortal” será curada (Apocalipse 13.13).
Durante séculos o centro do poder mundial foi o Egito. Houve
grandes dinastias na China, o grandioso império de Gêngis Khan e
4 2 • A Mulher Montada na Besta

também os vastos reinos Maia e Asteca, na América Central e do


Sul. Por um determinado período, os árabes controlaram a maior
parte da África do Norte, do Oriente Médio e porções da Europa.
Nenhum desses impérios, contudo, se reerguerá novamente. Só
Roma recobrará a sua grandeza. Assim como controlou o mundo
antigo, ela será o quartel-general da nova ordem mundial, que é o
sonho das Nações Unidas.
Os Estados Unidos têm sido nos últimos 50 anos a força, tanto
industrial quanto militar, dominante no mundo. Esse domínio,
contudo, está destinado ao fim. As profecias são claras: o Império
Romano se reerguerá com o governo do Anticristo na Europa Oci­
dental e o quartel-general da religião mundial ficará em Roma, co­
mo veremos mais tarde. Isso é o que a Bíblia tem nos dito nos últi­
mos 2000 anos, desde o tempo do Novo Testamento e por muitos
séculos antes no Antigo Testamento. Os Estados Unidos nem são
mencionados.

Um Império Dividido
As duas pernas da estátua simbolizavam profeticamente a divi­
são do quarto império, o Romano, em Oriental e Ocidental, e as­
sim aconteceu. No ano 330, Constantino estabeleceu Constantino­
pla (hoje Istambul) como sua nova capital imperial, deixando o
bispo de Roma encarregado do Ocidente, fazendo que assim tudo
ficasse pronto para a divisão política e religiosa final do império.
A ruptura religiosa definitiva aconteceu em 1054, quando a Igreja
Ortodoxa Oriental se desligou da Igreja Católica Romana Ociden­
tal e o papa Leão IX excomungou o patriarca de Constantinopla,
Miguel Cerulário. A divisão entre o catolicismo romano e os orto­
doxos orientais permanece até hoje e foi o que causou as guerras
sangrentas que dizimaram a Iugoslávia, resultando na independên­
cia da Croácia e da Bósnia-Herzegóvina, como iremos documentar
posteriormente.
O Império Romano foi politicamente reativado várias vezes no
Ocidente - por exemplo, no ano 800, com Carlos Magno. Os rei­
nos do Oriente e Ocidente, contudo, nunca mais foram reunifica­
dos. O Império Romano, como um todo, deixou de existir politica­
mente, mas a sua religião continuou crescendo e se espalhou por
todo o mundo. Hoje a Igreja Católica Romana já tem mais de 1 bi­
Uma Revelação Progressiva * 4 3

lhão de membros. A Igreja Ortodoxa tem pouco mais do que um


quinto desse número. A ruptura entre essas duas igrejas será res­
taurada pelo Anticristo.
Os protestantes de várias denominações correspondem ao rema­
nescente do que tem sido conhecido como Cristandade, totalizan­
do 1,7 bilhões de pessoas, cerca de 30% da população do mundo
hoje. De acordo com Apocalipse 13.8, “adorá-lo-ão [ao Anticris­
to] todos os que habitam sobre a terra...” Isso indica que não ape­
nas o catolicismo romano e os ortodoxos se reunificarão, mas tam­
bém os protestantes se unirão a eles, assim como todas as outras
religiões, incluindo até mesmo os muçulmanos, para formar uma
nova religião mundial. Ela envolverá adoração ao imperador, como
na época dos césares, com pena de morte para os que se recusarem
a fazê-lo (Apocalipse 13.14-15).
Este reavivamento da religião de Roma será, sem dúvida, uma
mistura de cristianismo e paganismo, como aconteceu sob Cons­
tantino e continuou daí por diante. Essa forma pervertida e pagani-
zada de cristianismo tomou-se posteriormente conhecida como ca­
tolicismo romano. Afirmando ser infalível e imutável {semper ea-
dem, ou seja “sempre a mesma”), a Igreja Católica Romana
permanece sendo até hoje o veículo que permitirá a união ecumê­
nica final de todas as religiões.

A Importância da Profecia
Os dedos da estátua vista pelo rei Nabucodonosor representa­
vam os dez reis futuros, aos quais Daniel 2.44 se refere, usando
uma linguagem objetiva e inequívoca: “...nos dias destes reis, o
Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído...”
Apesar do Império Romano jamais ter sido governado por dez reis
ao mesmo tempo, essa simples declaração nos diz que ele será res­
taurado sob dez governantes, os quais serão dirigidos, sem dúvida,
pelo Anticristo.
Esse versículo da Escritura convenceu os discípulos de Cristo (e
também João Batista e os rabinos), que não era a hora de Cristo
assumir o trono de Davi, Seu pai. A razão era óbvia: naquele tem­
po não havia dez reis governando o Império Romano. A falta de
entendimento dessa profecia levou os que viveram na época de
Cristo a ficarem decepcionados quando Ele não estabeleceu ime­
4 4 • A Mulher Montada na Besta

diatamente o Seu reino na terra. Aqui vemos novamente a impor­


tância de uma compreensão exata da profecia.
Em sua visão, Nabucodonosor viu “wma pedra cortada sem au­
xílio de mãos, que feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os
esmiuçou. Então, foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o
bronze, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a palha... e o
vento os levou e deles não se viram mais vestígios... E a pedra que
feriu a estátua se tornou em grande montanha, que encheu toda a
terra” (Daniel 2.34-35). A interpretação é clara: a verdadeira Igre­
ja não tomará conta do mundo gradualmente, mas o Reino de
Deus será estabelecido repentinamente por uma intervenção cata­
clísmica dos céus. Cristo retomará para destruir o Anticristo e o
seu Império Romano restaurado e então estabelecerá o Seu reino
milenar para governar o mundo, a partir de Jerusalém, no antigo
trono de Davi que será reinstalado pelo próprio Deus. Esta inter­
pretação é confirmada por outras partes das Escrituras, principal­
mente por 2 Tessalonicenses 2.8, onde é afirmado claramente que
Cristo destruirá o Anticristo “quando fo r revelado o iníquo, a
quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e o destrui­
rá pela manifestação de sua vinda Desse modo, a Segunda Vin­
da (diferentemente do Arrebatamento dos crentes) não acontecerá
até que o Anticristo seja revelado e o governo mundial estabeleci­
do. Só então Cristo retornará, durante o Armagedom (junto com os
crentes que Ele já terá arrebatado ao céu; cf. Zacarias 14.5 e Judas
14) para resgatar Israel dos exércitos do Anticristo, que estarão
prontos para destruí-lo, a fim de executar juízo sobre a terra e esta­
belecer o Seu reino messiânico, governando o mundo assentado no
trono de Davi, em Jerusalém (veja Zacarias 12-14).

A História Foi Escrita Antecipadamente


Algum tempo depois do sonho de Nabucodonosor, Daniel teve a
sua própria visão como próximo estágio da revelação progressiva
de Deus sobre a vinda do governo mundial do Anticristo. Nessa
visão Daniel viu novamente os mesmos quatro impérios mundiais,
dessa vez descritos como animais ferozes. O quarto animal, repre­
sentando o Império Romano, tinha dez chifres, que significavam
os dez dedos da estátua, dez reis ou governantes regionais que se
levantarão no futuro (Daniel 7.24).
Uma Revelação Progressiva • 4 5

A visão de Daniel incluía detalhes tão acurados sobre os impé­


rios Medo-Persa e Grego, que os céticos tentaram desesperada­
mente, mas sem sucesso, mostrar que o livro de Daniel foi escrito
após os fatos terem ocorrido. Caso contrário eles teriam de admitir
que existem profecias verdadeiras.. Sem dúvida a Bíblia está reple­
ta de profecias verdadeiras, datadas de séculos antes do seu cum­
primento. Sem dúvida alguma, as que mencionamos resumida­
mente no capítulo anterior, referentes a Israel e ao Messias, foram
todas escritas muitos séculos antes do seu impressionante cumpri­
mento.
Daniel predisse claramente que o Império Grego, de Alexandre,
o Grande, se dividiria em quatro partes (Daniel 8.20-22; 11.14).
Os 16 versículos seguintes dão detalhes impressionantes das guer­
ras travadas por Ptoíomeu (o general grego que se apossou do Egi­
to após a morte de Alexandre) e as guerras dos seus sucessores
contra os selêucidas da Síria. Essa profecia culmina dando deta­
lhes sobre o governante selêucida Antíoco Epifânio (Daniel 11.21­
36), que era um tipo do Anticristo. É esta história, prevista anteci­
padamente, que os críticos têm tentado desesperadamente provar
que foi escrita após os fatos já terem ocorrido.
Já ficou comprovado que o livro de Daniel foi realmente escrito
durante o cativeiro babilónico, muito antes desses fatos acontece­
rem. Além do mais, Daniel 9.25 revela o dia exato em que o M es­
sias entraria em Jerusalém montado num jumento, sendo saudado
como o Prometido. Até mesmo os críticos mais céticos devem re­
conhecer que o livro de Daniel foi escrito muito tempo antes que
esse evento acontecesse.
Entre o fim do Antigo e o início do Novo Testamento houve
quatro séculos de silêncio antes que Deus falasse novamente atra­
vés dos Seus profetas. Só quando chegamos a Apocalipse 12.3 é
que podemos ver novamente a quarta besta descrita por Daniel,
dessa vez sem referência alguma às outras três, que não serão mais
vistas. Além disso, a partir desse ponto a quarta besta será vista
apenas depois de ter sido revivida.

Surge o Dragão
À medida que a profecia se desenrola, a quarta besta de Daniel
aparece a João como “um dragão grande, vermelho, com sete ca-
4 6 • A Mulher Montada na Besta

beças, dez chifres, e, nas cabeças, sete diademas” (Apocalipse


12.3). Este é Satanás, pois alguns versos depois vemos uma futura
“peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dra­
gão... E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se
chama Diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo...” (vv. 7, 9).
A interpretação é clara: o quarto império mundial revivido, e sob
a liderança do Anticristo, será tão mau quanto o próprio Satanás.
Que coisa terrível está para acontecer com este mundo depois que
Cristo, no Arrebatamento, tiver levado os Seus para a casa do Pai!
Essa “quarta besta” é vista novamente no capítulo 13.1, a
“emergir do m ar”, como todas as quatro bestas de Daniel 7.3 fize­
ram. Aqui ela é novamente descrita como tendo “dez chifres e sete
cabeças”, mas agora com “dez diademas e, sobre as cabeças, no­
mes de blasfêmia A besta é descrita no versículo seguinte como
sendo “semelhante a leopardo... urso... leão...” (v.2) Assim, embo­
ra as outras três bestas já não apareçam mais, devemos lembrar
que existe uma continuidade entre o Império Romano restaurado e
os outros três impérios que o precederam desde a Babilônia. Lem­
bre-se que as bestas representando esses antigos impérios mun­
diais foram descritas como um leão, um urso e um leopardo (Da­
niel 7.4-6).
Em Apocalipse 13, a quarta besta claramente representa tanto o
Império Romano restaurado como o Anticristo e litodos os que ha­
bitam sobre a terra adorarão” (v. 8). Nesta visão impressionante
sobre o futuro, é dito que os povos, “adoraram o dragão porque
deu a sua autoridade à besta” (v. 4). Então Satanás novamente
aparece como o poder por trás do Anticristo e do seu reino: “E
deu-lhe [ao Anticristo] o dragão [Satanás] o seu poder, o seu trono
e grande autoridade ” (v. 2).
Durante a tentação no deserto, Satanás mostrou a Cristo lítodos
os reinos do mundo e a glória deles” (Mateus 4.8) e os ofereceu a
Cristo, dizendo: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” (v.
9) O amor pelo mundo e o desejo de poder levam por fim a uma
associação com Satanás e à sua adoração. Sem dúvida, Cristo re­
sistiu a Satanás. Porém, tragicamente, uma igreja cansada de per­
seguição cairia diante da mesma oferta que lhe seria feita mais tar­
de por Constantino.
Cristo não discutiu a afirmação de Satanás que alegara ser o do­
no do mundo: ,fDar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes
Uma Revelação Progressiva • 47

• reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser" (Lu­


cas 4.6). Como diz João: “o mundo inteiro ja z no Maligno [ou se­
ja, Satanás (cf. 2 Tessalonicenses 2.8)]” (1 João 5.19). Deus, para
realizar os Seus propósitos, permite que Satanás entregue ao Anti-
cristo o mundo que Cristo recusou.

A Futura Religião Mundial


Será feita uma imagem da besta. Todos os que não se ajoelha­
rem diante dela e a adorarem (e consequentemente ao Anticristo)
como sendo Deus, serão mortos (Apocalipse 13.15). Sabemos que
essa era a prática no antigo Império Romano. Estamos, assim, sen­
do informados que a religião de Roma, com a adoração ao seu im­
perador, também será restaurada. A religião deve, de fato, não ape­
nas ser incluída no novo governo mundial do Anticristo, mas cer­
tamente será preeminente, pois Satanás, que controla tanto o
Anticristo como o Império Romano restaurado, é “o deus deste
mundo” (2 Coríntios 4.4) e deseja ardentemente ser adorado por
ele. A mulher montada na besta do capítulo 17 representa sem dú­
vida alguma essa religião mundial, conforme veremos.
A religião sempre foi o elemento dominante nos impérios mun­
diais da antiguidade, inclusive os quatro representados pela estátua
de Nabucodonosor e pelas quatro bestas de Daniel. Sacerdotes,
adivinhos e bruxos eram os conselheiros mais chegados dos gover­
nantes por milhares de anos, e, na maioria dos casos, eram o real
poder que estava por trás do trono, manipulando os soberanos com
suas mágicas e conselhos duvidosos. A própria ciência tem suas
raízes no ocultismo, começando pela astrologia e alquimia. M ate­
rialismo, ceticismo e ateísmo têm origens mais ou menos recentes
e serão imersos nessa onda de interesse renovado pela “espirituali­
dade”, que já está ocorrendo, conforme Jesus previu que acontece­
ria nos últimos dias (Mateus 24.4,5,11,24).
O ateísmo não é a maior arma usada por Satanás em sua campa­
nha para enganar a humanidade fazendo com que eia o siga. O dia­
bo não é ateu, pois sua maior ambição é i(ser semelhante ao Altís­
simo” (Isaías 14.14), demonstrando que ele reconhece que Deus
existe. Satanás deseja ser adorado como Deus, mas já que é um ser
destituído de corpo, terá de satisfazer-se com a adoração recebida
pelo homem que o representa: o Anticristo.
4 8 • A Mulher M ontada na Besta

Sendo o “deus deste mundo”, a maior arma de Satanás são as


falsas religiões e as promessas enganosas que elas apresentam, as
quais perverterão todos os que nelas crerem, impedindo que co­
nheçam a verdade de Deus. A religião desempenhará um papel
primordial no Império Romano restaurado, como o fazia nos tem­
pos antigos. Isso é claramente retratado pelo fato da mulher, que
representa a nova religião mundial, estar montada na besta e segu­
rando suas rédeas.

Ressurreição Satânica?
Durante o desenrolar posterior da revelação da quarta besta,
João viu “uma de suas cabeças como golpeada de morte, mas essa
ferida mortal foi curada e toda a terra se maravilhou, seguindo a
besta” (Apocalipse 13.3). Para muitos intérpretes, essa revelação
significa que o próprio Anticristo será morto e voltará a viver. Ou­
tros crêem que uma figura do Anticristo que viveu no passado, co­
mo Hitler ou Nero, voltará a viver e será o governante na nova or­
dem mundial. Muito ao contrário, nenhuma figura do passado nem
o Anticristo voltarão do túmulo porque Satanás não tem o poder
de criar vida. (Isso não elimina a possibilidade de que o mundo se­
ja enganosamente levado a crer que uma ressurreição aconteceu.
Entretanto, o texto de Apocalipse 13.3 não apóia essa idéia).
O fato de uma das cabeças ter recebido um golpe mortal não in­
dica que a besta tenha morrido, mas sim que ela foi apenas ferida.
Embora se diga que as cabeças representam reis, não poderia ser
literalmente um rei que foi morto e ressuscitou, como já explica­
mos. A besta e suas cabeças representam várias coisas ao mesmo
tempo: reis, reinados, Satanás, o Anticristo e o Império Romano
restaurado. Este último traz consigo elementos de morte e aparente
ressurreição. O Império Romano realmente “morreu”, embora não
completamente, uma vez que os seus fragmentos permaneceram,
juntamente com a eterna esperança da ressurreição final. Quando
essa “ressurreição” acontecer, sob o governo do Anticristo, será
como se o império - e não uma pessoa - voltasse da morte. Tam­
bém está claro que Deus pretende estabelecer Seu reino na terra e
que esse Império Romano restaurado encontra-se em Seu caminho
e deverá ser destruído para que o Reino de Deus seja estabelecido.
Isso foi mostrado bem no início dessa revelação progressiva, re­
Uma Revelação Progressiva ♦ 4 9

presentada pela pedra que esmaga a imagem e enche a terra. Está


igualmente claro que o Anticristo é uma imitação satânica de Cris­
to e que o Império Romano, agora restaurado, é uma imitação do
Reino de Deus.

O Primeiro e o Futuro Anticristo


O prefixo “anti” vem do grego e tem dois significados: 1) oposi­
ção a; e 2) no lugar de ou em substituição a.[lj O Anticristo trará
consigo ambos os sentidos. Sem dúvida ele se oporá a Jesus, da
maneira mais diabólica e astuta possível: fazendo-se passar por
Cristo, pervertendo assim o “cristianismo” desde o seu âmago. O
Anticristo irá, realmente, “assentar-se no santuário de Deus...” (2
Tessalonicenses 2.4).
Quando o Anticristo tentar se passar por Cristo e for adorado
pelo mundo todo (Apocalipse 13.8), seus seguidores serão obvia­
mente chamados de “cristãos”. Assim sendo, o “cristianismo” é
que subverterá o mundo, não o verdadeiro cristianismo, mas uma
imitação criada pelo Anticristo. Lembremos que a grande aposta­
sia precede a sua revelação (2 Tessalonicenses 2.3). Parte dessa
apostasia é o movimento ecumênico, o qual está arranjando tudo
para que ocorra uma união de todas as religiões e tem influenciado
até os evangélicos. O “cristianismo” do Anticristo deve ser criado
para englobar todas as religiões, e ao qual todas as religiões abra­
çarão - o que, aliás, já está acontecendo agora, com uma rapidez
espantosa. Documentamos esse assunto em outros livros, como
Global Peace and the Rise of Antichrist [Paz Global e o Surgimen­
to do Anticristo] e teremos muito mais a dizer sobre isso posterior­
mente.
O equivalente latino para “anti” é “vicarius”, de onde vem a pa­
lavra “vigário”. Assim, “vigário de Cristo” literal mente significa
Anticristo. Embora os papas da Igreja Católica se intitulem “vigá­
rios de Cristo” há séculos, eles não foram os primeiros a fazer is­
so, mas herdaram esse título de Constantino. Seu imitador futuro,
o governador do Império Romano restaurado, será o Anticristo.
Como já observamos antes, no antigo Império Romano o impe­
rador era adorado como um deus. Pela posição que ocupava ele as­
sumia a condição de líder do sacerdócio pagão e da religião pagã
patrocinada pelo império. Foram feitas imagens dos césares, dian-
50 • A Mulher Montada na Besta

te das quais os cidadãos eram obrigados a se ajoelhar. Os que se


recusavam a aceitar o imperador como deus eram mortos. Também
será assim quando o Império Romano for restaurado, sob o gover­
no do Anticristo. O fato é claramente apresentado na extensa visão
de Cristo, dada ao apóstolo João: “[a outra besta] faz com que a
terra e os seus habitantes adorem a primeira besta... dizendo aos
que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta... como
ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta”
(Apocalipse 13.12-15).

A Paganização do Cristianismo
Quando o Imperador Constantino supostamente tomou-se cris­
tão, no ano 313 (algo que, na verdade, foi uma astuta manobra po­
lítica), deu liberdade aos cristãos e deu status oficial ao cristianis­
mo conjuntamente com o paganismo. Uma vez que a Igreja agora
se tomara uma instituição religiosa absorvida pelo Império, Cons­
tantino, como imperador, precisava ser reconhecido como seu líder
<<defacto,\ E como tal, ele convocou o primeiro concílio ecumêni­
co, o de Nicéía, em 325, estabeleceu os assuntos a serem tratados,
fez o discurso de abertura e o presidiu, não estando interessado na
verdade do Evangelho, mas sim na unificação do seu império. Car­
los Magno fez algo semelhante no Concílio de Chalon, 500 anos
mais tarde. Constantino foi o primeiro ecumenista e introduziu o
erro numa Igreja cristã já cansada de tanta perseguição.
Ao mesmo tempo em que dirigia a Igreja cristã, continuava enca­
beçando o sacerdócio pagão, celebrando cerimônias pagãs e endos­
sando a edificação de templos pagãos, mesmo depois de começar a
construir as primeiras igrejas cristãs. Como chefe do sacerdócio pa­
gão, ele era o Pontifex Maximus (sumo pontífice) e precisava de um
título semelhante como cabeça da Igreja Cristã. Os cristãos o honra­
ram com o título de “bispo dos bispos”, enquanto Constantino pre­
feriu dar a si mesmo o título de Vicarius Christi (vigário de Cristo).
Ele queria dizer que era um “outro Cristo”, agindo no lugar de Cris­
to. Quando traduzido para o grego, podemos ver que Vicarius Chris­
ti significa literalmente Anticristo. Constantino era o protótipo do
Anticristo profetizado na Escritura, o qual ainda está por vir.
Na Idade Média os bispos de Roma começaram a afirmar que
eram os novos representantes de Cristo na terra. Exigindo que a
Uma Revelação Progressiva * 51

Igreja do mundo inteiro ficasse sujeita ao seu governo, proibiram


qualquer bispo de ser chamado "papa” (papai) e tomaram para si
mesmos os três títulos de Constantino: Pontifex Maximus, vigário
de Cristo e bispo dos bispos, títulos que usam até hoje.
Como os papas afirmam ter absoluto poder sobre os reinos, o po­
vo e suas propriedades foram taxados, desse modo uma grande cor­
rupção penetrou na Igreja Católica Romana. Os reformadores e seus
credos foram unânimes em identificar cada papa com o Anticristo.
Contudo, a Escritura não dá sustentação a essa afirmação. O Anti­
cristo é único, sem predecessores nem sucessores. Ele será o novo
‘'Constantino”, o governante de um Império Romano revivido.

Uma Revelação Nova e Terrível


A revelação final da quarta besta está na visão que Deus deu a
João, conforme vemos em Apocalipse 17. Dessa vez há um fato
novo e terrível: uma mulher está montada nessa criatura horrível!
Está claro que essa é a mesma besta que Daniel viu e que nos foi
apresentada nos capítulos 12 e 13 de Apocalipse, pois ela tem “se­
te cabeças e dez chifres” (Apocalipse 17.3). Outra característica
que a identifica: ‘‘[ela] é cheia de nomes de blasfêmia”, uma refe­
rência óbvia ao que foi visto em Apocalipse 13.1: “e, sobre suas
cabeças, nomes de blasfêmia ”.
Há uma notável mudança de perspectiva nessa última vez em
que a besta é vista. O foco da atenção agora é, em lugar da besta, a
mulher que a cavalga. A descrição da besta é breve, suficiente ape­
nas para nos dizer que é a mesma que já foi vista antes. Nenhum
outro dado é apresentado sobre qual a natureza ou o significado
dessa criatura horrível. Uma personagem nova ocupa o centro da
cena e dois capítulos inteiros de Apocalipse (17 e 18), são dedica­
dos a uma descrição detalhada da mulher - muito mais espaço do
que foi dado à própria besta em todas as suas aparições anteriores.
João não forneceu qualquer indício, nas três vezes que viu a me­
donha criatura, que tivesse ficado chocado ou mesmo surpreso
com ela. Mas ele expressa agora, finalmente, um grande espanto -
não com a besta, mas com a mulher sobre o seu dorso. É a visão
dela que choca João.
Como pode essa mulher cavalgar uma criatura tão assustadora?
Por que a besta lhe permitiria sentar sobre o seu dorso, segurando
52 • A Mulher Montada na Besta

as rédeas e controlando-a? Obviamente, essa mulher vai desempe­


nhar um papel chave na restauração do Império Romano, no reino
do Anticristo e nos eventos mundiais futuros que conduzirão à Se­
gunda Vinda de Cristo.
Que papel será esse? Quando será revelado? Quem é essa mu­
lher? O propósito deste livro é responder essas perguntas e outras
mais.
“Na sua fronte, achava-se escrito um nome, um mistério: BABI­
LÔNIA, A GRANDE, A MÃE DAS MERETRIZES E DAS ABOMI­
NAÇÕES DA TERRA
-A pocalipse 17.5

Assim como a Lua recebe a sua luz do Sol... também o poder


real [Estado] deriva da autoridade pontifícia, o esplendor da sua
dignidade... O estado do mundo... será restaurado por nossa dili­
gência e cuidado... pois a autoridade pontifícia e o poder real... são
suficientes para tal propósito...
- papa Inocêncio III (1198-1216)
Por que “mistério”? Essa Babilônia, uma cidade antiga cujas ruí­
nas ficaram cobertas pelas areias do deserto por pelo menos 2300
anos, que foi mencionada proeminentemente nas profecias relativas
aos últimos dias, parece ser realmente um enigma. Popularmente
ensina-se que a mulher representa a antiga Babilônia revivida. O
fato de Saddam Hussein, o sádico dirigente do Iraque, ter iniciado
sua reconstrução alguns anos atrás parece contribuir para o cumpri­
mento dessa visão. Entretanto, a antiga Babilônia, mesmo que se
tome uma cidade habitada e em pleno funcionamento, não poderia
ser a Babilônia à qual se refere o que está escrito na fronte da mu­
lher. A reconstrução de Babilônia por Hussein simplesmente não
preenche os critérios estabelecidos por João. Tais critérios, que se­
rão examinados em detalhes, estabelecem a identidade da mulher
que, como veremos, não é a antiga Babilônia.
Saddam imagina ser o Nabucodonosor moderno, talvez até mes­
mo a reencamação desse antigo imperador da Babilônia. O que o
presidente do Iraque mais admira em Nabucodonosor é que ele
destruiu Jerusalém e matou ou levou cativos os habitantes de Israel
para a Babilônia, deixando deserta a terra de Israel. Como o novo
Nabucodonosor, ele sonha em causar a mesma destruição no Israel
56 • A Mulher Montada na Besta

de hoje, a quem considera um dos seus maiores inimigos. Sabemos


que a antiga Babilônia foi conquistada em seguida pelos medos e
persas. Por isso Saddam vê o Irã (sucessor da antiga Pérsia) como
seu outro grande inimigo e, por isso, guerreou contra ele durante
oito anos. Hussein imprimiu orgulhosamente seu nome em cada ti­
jolo usado na reconstrução da antiga Babilônia. Tão odiado quanto
temido por seu próprio povo, um dia Saddam será deposto, como
geralmente acontece com todos os tiranos. Não será surpresa se os
iraquianos, a fim de apagar os últimos vestígios da abominável me­
mória de Saddam, passem então um trator nas estruturas que ele
orgulhosamente erigiu no local da antiga Babilônia. Quer isso
aconteça quer não, é impossível confundirmos essa cidade, recons­
truída depois de estar em ruínas por mais de 2000 anos, com a Ba­
bilônia que é o assunto principal dos capítulos 17 e 18 de Apoca­
lipse.

A Conexão Babel
Sem dúvida existe uma conexão com a antiga Babilônia. O no­
me na fronte da mulher estabelece isso. O que poderia significar
esse nome para o mundo dos “últimos dias”, logo antes da Segunda
Vinda de Cristo? Obviamente ele deve se referir a alguma peculia­
ridade comum aos quatro impérios - um elemento importante do
primeiro império, Babilônia, ainda que seja predominante no quar­
to império, Roma.
Uma das características mais importantes, comum a todos eles,
foi a união existente entre o trono e o altar, entre príncipe e sacer­
dote. A separação entre Igreja e Estado ainda era algo desconheci­
do; na verdade, o que ocorria era o oposto. Os sacerdotes pagãos -
astrólogos, magos, adivinhos, bruxos - eram os conselheiros mais
chegados do imperador e geralmente a influência oculta que con­
trolava o império. Desse modo, um dos aspectos principais desta
mulher, que é tanto uma cidade quanto uma entidade espiritual, se­
rá sua relação adúltera com os governantes seculares.
A união entre Igreja e Estado persistiu nos dias da antiga Babilô­
nia até após a ascensão de Roma, o quarto império mundial da vi­
são de Daniel. Como já vimos, os imperadores romanos, como ou­
tros governantes antigos, encabeçavam o sacerdócio pagão e eram
adorados como deuses. Além do mais, como a religião era o fator
Mistério; Babilônia * 57

dominante em todo império, é válido examinarmos a religião da


Babilônia.

Uma Torre Que Alcançasse o Céu


A Babilônia de Nabucodonosor foi construída ao redor das ruí­
nas da torre de Babel, que fora erigida logo após o dilúvio pelos
descendentes de Noé sob a liderança de Ninrode (Gênesis 10.8-10;
Miquéias 5.6). Seu propósito original fora claramente estabelecido
por seus construtores “Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e
uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nos­
so nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra” (Gê­
nesis 1L4).
A cidade era uma união política e civil dos habitantes da terra
naquele tempo. A torre era claramente um empreendimento reli­
gioso, o meio de atingir o céu. Babel representa, assim, a união de
Igreja e Estado, envolvendo o mundo inteiro na tentativa de elevar
o homem ao nível de Deus. Conseguir realizar isso através da cons­
trução de uma torre utilizando-se a energia e o conhecimento hu­
mano obviamente representa a religião humana do esforço-próprio.
Além disso, como o mundo inteiro estava unido nesse esforço, te­
mos o primeiro exemplo de governo e religião mundial feitos um.
Como o homem começou nessa unidade, também deve terminar
nela; essa é a clara mensagem na fronte da mulher.
A torre era a obsessão dos habitantes da cidade, o propósito de
vida que tanto unia como escravizava. Portanto a religião dominava
a aliança de Igreja e Estado. Será assim também na Nova Ordem
Mundial do Anticristo, pelo menos por algum tempo, e isso está
claramente demonstrado pelo fato da mulher cavalgar a besta.
A torre de Babel contrastava brutalmente com os meios de salva­
ção que Deus tinha ensinado consistentemente desde a oferta de
Abel. A rebelião de Adão e Eva no Jardim do Éden havia separado
o homem de Deus por causa do pecado. Nem a reconciliação com
Deus e nem a entrada no céu seria possível, a menos que fosse fei­
to o pagamento completo pela penalidade do pecado. Para o ho­
mem, uma criatura finita, o pagamento da pena infinita exigida pe­
la infinita justiça de Deus era impossível. Um dia, em misericórdia
e graça, o próprio Deus viria como um homem perfeito e sem pe­
cado, para morrer pelos pecados do mundo, em pagamento total da
58 * A Mulher Montada na Besta

penalidade exigida pela Sua própria justiça. Ele seria o “Cordeiro


de Deus” (João 1.29,36), o único sacrifício aceitável. Em antecipa­
ção ao Messias vindouro, os animais eram sacrificados como tipos
do Santo que “se manifestou uma vez por todas, para aniquilar,
pelo sacrifício de si mesmo, o pecado ” (Hebreus 9.26).
A única aproximação com Deus aprovada por Ele tinha sido cla­
ramente declarada (Êxodo 20.24-26). Sacrifícios de animais seriam
oferecidos sobre um altar de terra. Se o terreno fosse rochoso de­
mais para conseguir juntar terra suficiente, o altar poderia ser feito
de pedras empilhadas, mas não cortadas ou polidas por ferramen­
tas. Nem deveria ser de tal modo elevado que alguém tivesse de su­
bir ao altar por degraus.
Nenhum esforço humano poderia desempenhar qualquer parte
na salvação humana. Ela é um dom de Deus, imerecido e inatingí­
vel. O orgulho humano, contudo, tem sempre resistido à graça de
Deus. Vemos a violação clara da Palavra de Deus continuando até
hoje. Isso é refletido nas catedrais douradas e ornamentadas, nos
altares elevados, tanto de protestantes como de católicos, bem co­
mo nos rituais e boas obras que os homens futilmente imaginam
serem capaz de os tomar aceitáveis para Deus. Tudo começou com
Babel.

Um Modelo Seguido por Roma


A cidade e a torre de Babel estabeleceram o padrão da aliança
profana entre o governo civil e a religião do esforço-próprio e do ri­
tual, essa ligação continuou existindo por milhares de anos, podendo
ser exemplificada tanto na Roma pagã como na Roma "cristã”, após
a “conversão” de Constantino. A “separação de Igreja e Estado” é
um conceito de origem recente, vindo desde a Reforma Protestante,
e à qual a Igreja Católica Romana, como a continuação religiosa do
Império Romano, tem se oposto consistente e selvagemente. O Dr.
Brownson, um jornalista católico muito respeitado do século XIX,
expressa a posição do catolicismo no jornal Brownson Quaterly:

Nenhum governo civil, quer seja monarquia, aristocracia, demo­


cracia... pode ser um governo sábio, justo, eficiente e duradouro, go­
vernando para o bem da comunidade, sem a Igreja Católica; sem o
papado não há e nem pode haver uma Igreja Católica".[ 1]
Mistério: Babilônia * 59

O Vaticano tem combatido consistentemente cada avanço demo­


crático das monarquias absolutistas em direção a um governo po­
pular, começando com a Magna Carta da Inglaterra (em 15 de ju ­
nho de 1215), a “mãe das constituições européias”. Esse documen­
to tão importante foi imediatamente denunciado pelo papa
Inocêncio III (1198-1216), que o “declarou nulo e vazio, excomun­
gando os barões ingleses que o obtiveram”, [2] perdoando o rei pe­
lo seu pacto com os barões. [3] Encorajado pelo papa, o rei João
trouxe mercenários estrangeiros para lutar contra os barões, o que
causou uma grande destruição no país. Os papas subsequentes fize­
ram todo o possível para ajudar o sucessor de João, Henrique III,
que subverteu a Magna Carta, empobrecendo o país com impostos
papais (os salários dos inúmeros padres italianos eram três vezes a
renda anual da coroa). Contudo, os barões prevaleceram no final.
O papa Leão XII reprovou Luiz XVIII por ter aceitado a “libe­
ral” Constituição Francesa, enquanto o papa Gregório XVI conde­
nou a constituição belga de 1832. Sua encíclica ultrajante, Mirari
vos, de 15 de agosto de 1832 (a qual foi confirmada em 1864 por
Pio IX em seu Syllabus Errorum), condenou a liberdade de cons­
ciência, considerando-a “uma tolice insana” e chamando a liberda­
de de imprensa de “um erro pestífero, que não poderia ser suficien­
temente detestado” [4]. Ele reassegurou o direito da Igreja de usar
a força e, como incontáveis papas antes dele, exigiu que as autori­
dades civis prendessem imediatamente os não-católicos que se
atrevessem a pregar sua fé. Um eminente historiador do século
XIX, comentando a respeito da censura do Vaticano às constitui­
ções da Bavária e da Áustria, parafraseou assim tal atitude:

Nosso sistema absolutista, apoiado pela Inquisição, pela censura


mais rígida, pela supressão de toda literatura, com a isenção privile­
giada do clero e o poder arbitrário dos bispos, não pode suportar
nenhum outro governo, senão os absolutistas...[5]
A história da América Latina tem demonstrado a exatidão dessa
declaração. Nos países católicos, o ódio dos papas pela liberdade e
sua aliança com os regimes opressores, que geralmente conse­
guiam manipular para os seus próprios fins, é algo documentado
historicamente. Seja quais forem os seus reais motivos, a história
dá um testemunho completo do fato da Igreja Católica Romana,
6 0 • A Mulher Montada na Besta

em todos os lugares em que pôde agir, suprimiu e condenou aberta­


mente os direitos humanos básicos, como a liberdade de imprensa,
opinião, religião, e até mesmo de consciência.
Antes da revolução feita por Benito Juarez, em 1861, o catolicis­
mo romano havia dominado a vida do povo mexicano e controlado
o governo por 350 anos. Era a religião estatal e a única permitida.
Conforme declarou um historiador, após exaustiva investigação dos
arquivos:

A opressão exercida pela Espanha e pela igreja de Roma esta­


vam tão interligadas que, para o povo, elas se tornaram indistintas.
A hierarquia [Católica Romana] sustentava o regime espanhol e ex­
comungava, através da Inquisição do Novo Mundo, qualquer um que
resistisse ao poder do Estado... O governo, por sua vez, fortificava
as leis da Igreja e, como "braço secular" atuava como órgão de dis­
ciplina e até mesmo de execução da lgreja.[ó]

Conseqüências da Religião Estatal


Depois que o exército francês de Napoleão III derrotou Juarez e
instituiu Maximiliano como imperador do México, este viu que
não seria possível regressar ao antigo totalitarismo. O papa Pio IX
ficou furioso e escreveu indignado a Maximiliano, exigindo que “a
religião católica estivesse acima de todas as coisas, continuando a
ser a glória e sustentáculo da nação mexicana, com a exclusão de
qualquer outro culto dissidente”. Que “instruções públicas ou parti­
culares deveriam ser dirigidas e observadas pelas autoridades ecle­
siásticas” e que ela não deveria ficar “sujeita à arbitrária regra do
governo civil”.[7]
A pobreza e a instabilidade que desgraçaram a América Latina
resultaram da união entre Igreja e Estado, e do poder sobre o go­
verno que Roma, após tê-lo gozado durante séculos na Europa,
trouxe para o Novo Mundo em nome de Cristo. Os clérigos roma­
nos se comportavam como deuses, dominando os nativos, que se
tomaram seus criados. As revoluções nos países da América Latina
foram, em grande parte, criadas pelo contraste entre a pobreza do
povo e a riqueza da Igreja Católica Romana e os maus ditadores
que ela sustentava. A Teologia da Libertação foi pregada na Améri-
Mistério: Babilônia • 6í

ca Latina pelos padres e freiras radicais, cujas consciências pertur­


badas já não podiam justificar a opressão das massas, tanto pela
Igreja como pelo Estado.
Dezenas de outros exemplos poderiam ser citados, mas faremos
isso mais adiante. A questão é que as raízes da aliança profana en­
tre Igreja e Estado, com a Igreja dominando, nos remetem de volta
a Babel. Ninrode fundou o primeiro império mundial, onde Igreja e
Estado eram um só. Esse é o império ideal que o catolicismo roma­
no tem se esforçado ao máximo para estabelecer e manter. Como o
periódico The Catholic World [O Mundo Católico] declarou na
época do Vaticano I:

Conquanto o Estado tenha alguns direitos, eie os tem apenas em


virtude, e com a permissão da autoridade superior... [da] Igreja...[8]
A antipatia do catolicismo romano pelas liberdades humanas bá­
sicas acabou resultando em alianças profanas com os governos to­
talitários de Hitler e Mussolini, que eram aclamados pelo papa e
outros líderes católicos como homens escolhidos por Deus. Os ca­
tólicos foram proibidos de se opor a Mussolini e foram instigadas a
apoiá-lo. A Igreja virtualmente colocou o ditador fascista no poder
(como faria com Hitler alguns anos depois). Em troca, Mussolini
(na Concordata de 1929 com o Vaticano) tomou o catolicismo ro­
mano novamente a religião estatal oficial da Itália e qualquer críti­
ca feita era considerada crime. A Igreja foram concedidos outros
favores, inclusive uma vasta soma em dinheiro e títulos.

Raizes de Uma Ilusão Moderna


A promessa de Satanás feita a Eva de que ela poderia ser como
Deus é a fundação da religião pagã mundial. Para atingir essa meta
o homem teria de se firmar e trabalhar muito, e assim nasceu a reli­
gião do esforço-próprio. Na verdade, as obras em vez da graça,
sempre foi, e continua sendo, a religião da qual o catolicismo ro­
mano é um exemplo perfeito. A edificação da torre de Babel parece
ter fornecido a credencial para a grande ilusão de que o homem po­
de atingir o céu por seu esforço-próprio. E bem provável que Nin­
rode foi o primeiro imperador a ser deificado, o que faz dele um
percursor do Anticristo.
62 • A Mulher Montada na Besta

Babel (e a cidade de Babilônia construída mais tarde ao seu re­


dor) foi o berço da crença em um “destino superior” para toda a
humanidade. Mais tarde esse sonho ficaria limitado à raças espe­
ciais, tais como os arianos, uma idéia que o nazismo de Hitler per­
seguiria a fim de destruir seis milhões de judeus. Fazendo eco à
mentira da serpente, Hitler diria: “O homem está se tomando um
deus... Precisamos de homens livres que sintam e saibam que Deus
está dentro deles próprios”. Os judeus, entretanto, não eram de mo­
do algum homens, na perspectiva de Hitler, mas sim Untermens­
chen (subumanos), os quais ele resolveu exterminar pelo bem da
raça ariana.
A teoria de Hitler da “pureza do sangue”, que ele procurava ob­
ter através do extermínio dos judeus (sem oposição do Vaticano),
teve sua origem no antigo ocultismo. Ela estava ligada a um mítico
Jardim do Éden nórdico, localizado na distante região conhecida
como Hiperbórea. Lá, supostamente, uma raça ariana de homens-
deuses teria sido gerada por deuses visitando a terra. Nietzsche, cu­
jos escritos muito influenciaram a Hitler, iniciou sua famosa obra
“Anticristo” com a seguinte frase: “Vejamos por nós mesmos o que
somos. Somos todos hiperboreanos [deuses]”. Mais uma vez se faz
presente a mentira da serpente do Jardim do Éden.
O historiador Peter Viereck, vencedor de um prêmio Pulitzer de
jornalismo, encontrou as raízes do sonho nazista de raça superior
de homens-deuses governando o mundo não apenas em Hegel e
Nietzsche, mas em Wagner e uma porção de escritores românticos,
e em todos eles ecoava a mentira da serpente. O seguinte excerto é
da conclusão do notável livro escrito por Viereck e publicado em
1940, Meta-Politics: The Roots of the Nazi Mind [Meta-Política:
As Raízes da Mente Nazista], Essa conclusão foi a que o editor ori­
ginal recusou-se a incluir por ser radical demais, mas que em re­
trospectiva mostra-se incrivelmente acurada:

Metn Kampf [Minha Luta, livro escrito por Hitler] já era um cam­
peão de vendas muito antes que o povo germânico, votando livre­
mente na eleição do Reichstag, em setembro de 1930, aumentasse
de 12 para 107 as cadeiras nazistas, fazendo dele o maior partido
da Alemanha. Naquele momento Hitler já havia dito em Minha Luta
(usaremos uma de suas ameaças típicas): "Se no começo [da I Guer­
ra Mundial] tivéssemos envenenado 12 ou 15 mil desses hebreus que
Mistério: Babilônia • 63

subvertem o povo... então o sacrifício de um milhão de alemães no


front não teria sido em vão... A eliminação oportuna de 12.000 an­
darilhos..."
O enigma germânico é: que tipo de comportamento poderiam es­
ses milhões de eleitores pró-HÍtler esperar, a partir de 1930, da men­
te monstruosa que engendrou essas ameaças de extermínio?... seu li­
vro não é um documento secreto... milhões de alemães o possuem...
sendo que poucos devem tê-lo lido. Inclua-se entre os poucos leitores
aqueles que o apoiavam em público e alguns influentes dignitários
que tinham acesso à imprensa, rádio e outros meios para alertarem o
público...
Algum dia os mesmos alemães, que agora vibram com a entrada
triunfal de Hitler em Paris, dirão: "Não sabíamos o que estava acon­
tecendo..." e quando chegar o dia em que ninguém dirá saber de
coisa alguma, então serão ouvidas gargalhadas vindas do infer-
no.[9]

Adolf Hitler, Escolhido por Deus?


Certamente Minha Luta também era conhecido por muitos dos
30 milhões de alemães católicos, bem como pelos líderes da Igreja
Católica Romana tanto na Alemanha como em Roma. Mesmo as­
sim a liderança da Igreja louvava a Hitler, algumas vezes nos ter­
mos mais extravagantes. O papa Pio XI disse ao vice-chanceler
Fritz von Papen, um católico influente, “como estava agradecido
que agora o governo alemão tivesse como líder um homem total­
mente contrário ao comunismo...” [10]. Nenhuma palavra de repro­
vação contra o mal que Hitler havia trazido sobre a Alemanha.
O bispo Beming publicou um livro frisando os laços entre o ca­
tolicismo e o patriotismo e mandou uma cópia a Hitler, dizendo na
dedicatória: “como prova de minha devoção”. Monsenhor Hartz
elogiava Hitler por ter salvo a Alemanha do “veneno do liberalis­
mo... [e] da peste do comunismo”. O jornalista católico Franz
Taeschner elogiou “o Führer, dotado de genialidade” e declarou
que ele tinha “sido enviado pela Providência a fim de fazer com
que as idéias sociais católicas fossem implantadas ” .[113
A maioria dos católicos alemães estava eufórica depois da as­
sinatura da Concordata de 1933 entre Hitler e o Vaticano. Os jo-
6 4 * A Mulher Montada na Besta

vens católicos receberam ordens de “levantar seu braço direito em


saudação e de mostrar a bandeira com a suástica... A organização
juvenil católica Neudeutsche Jugend... reivindicou que houvesse
uma cooperação estreita e completa entre o Estado totalitário e a
Igreja totalitária”. Os bispos alemães unidos declaravam sua soli­
dariedade com o Nacional-Socialismo. Dirigindo-se a uma reunião
de jovens católicos na catedral de Trier, o bispo Bomewasser de­
clarou: “De cabeça erguida e passos firmes, entramos no novo
Reich e estamos dispostos a servi-lo de todo nosso corpo e al­
ma”. [12]
O bispo Vogt de Aachen, em telegrama congratulatório, prome­
teu a Hitler que “a diocese e o bispo participarão alegremente da
construção do novo Reich” . O cardeal Faulhaber, em mensagem
manuscrita a Hitler, expressou o desejo “vindo do íntimo do cora­
ção: que Deus possa preservar o chanceler do Reich para o nosso
povo”. Um desenho apareceu em jornal te uto-americano mostran­
do o vigário-geral Steinmann liderando as organizações da Juven­
tude Católica numa parada diante de Hitler e imitando igualmente
a saudação de braço levantado do Führer. Respondendo à crítica
dos furiosos católicos americanos, Steinmann declarou que “os ca­
tólicos alemães verdadeiramente consideravam o governo de Adolf
Hitler como a autoridade dada por Deus e que algum dia o mundo
reconheceria, agradecido, que a Alemanha... erigiu um bastião con­
tra o bolchevismo...”[13] Que dizer de Minha Luta e do mal que o
nazismo provocou?
Guenter Lewy, professor de política da Universidade de Massa­
chussets, fugiu de sua terra natal, a Alemanha, em 1939, quando ti­
nha 15 anos. Regressou em 1960 a fim de passar anos pesquisando
os arquivos oficiais. Lewy escreve em seu livro The Catholic Church
and Nazi Germany [A Igreja Católica e a Alemanha Nazista]:

Em 1933 o papa Pio XI declarou que o chanceler do Reich Germâ­


nico [Hitler] era o primeiro estadista que, junto com o papa, havia
ciaramente reconhecido o perigo bolchevista... O bispo Landersdor-
fer elogiou 'a harmoniosa colaboração da Igreja com o Estado [em­
bora os nazistas já tivessem aprisionado muitos padres e freiras por
razões políticas]'.
No dia 29 de março de 1936, 45.453.691 alemães, ou 99% dos
cidadãos aptos a votar, foram às urnas. Desses, 44.461.278, ou 98%
Mistério: Babilônia * 65

dos que votaram, declararam sua aprovação à liderança de Hitler


(os votos católicos foram virtualmente unânimes aprovando Hitler).
Uma carta pastora! conjunta [de todos os bispos alemães] foi lida
durante as missas... em 3 de Janeiro de 1937, declarando que 'os
bispos alemães consideram-se no dever de apoiar o líder do Reich
alemão com todos os meios que Igreja Católica dispõe... Devemos
mobilizar todas as forças morais e espirituais da Igreja a fim de for­
talecer a confiança no Führer'.[l 4]
A essa altura ninguém poderia ignorar a crueldade de Hitler e
seus verdadeiros objetivos. Mesmo assim, líderes católicos (bem
como a maioria dos clérigos protestantes) da Alemanha continua­
ram a honrar o seu companheiro católico. Dois livros tratando do
Reich e a Igreja, publicados com permissão eclesiástica, pediam
por uma “maior compreensão do grande trabalho de renovação ale­
mã, ao qual o Führer tem nos convocado”, a “maior tarefa espiri­
tual do catolicismo alemão contemporâneo”. Karl Adam, teólogo
católico renomado mundialmente, declarou que o Nacional-Socia­
lismo e o catolicismo, longe de estarem em conflito, “deveriam es­
tar sempre juntos, como natureza e graça” e que em Adolf Hitler a
Alemanha tinha encontrado finalmente o “verdadeiro chanceler do
povo”.[15]
Uma minoria de homens valentes (tanto católicos como protes­
tantes) se opunha a Hitler, uns abertamente, outros em conspira­
ções secretas. Algumas vozes se levantavam em protesto público.
Uma era a de um padre, o frei Muckermann, que se atreveu a ex­
pressar sua admiração e consternação:

Apesar das brutalidades desumanas perpetradas nos campos de


concentração... apesar dos insultos pessoais contra os príncipes da
Igreja, contra o Santo Padre e toda a Igreja... os bispos encontraram
palavras de apreciação para o que (ao lado do bolchevismo) era o
seu pior inimigo...[16].

Resposta a um Enigma
O enigma da Alemanha é o mesmo da Rússia, da China, Vietnã,
Cuba, Haiti, Iugoslávia, África do Sul, e do mundo todo de hoje.
Por outro lado, não se trata de algo enigmático se aceitarmos o te$-
6 6 • A Mulher Montada na Besta

temunho da Escritura. Encontramos a resposta em Babel - uma tor­


re que jamais deixou de estar em construção. Somente sua localiza­
ção e aparência se alterarão de tempos em tempos, mas a ambição
pervertida, ou seja, o seu sonho impossível, continua.
O resultado final - o julgamento de Deus que virá sobre a huma­
nidade - está profetizado claramente na Bíblia. Não se engane, es­
tamos nos aproximando desse dia. Enquanto isso, a mulher que es­
tá montada na besta, cujo nome é “wm mistério: BABILÔNIA” (Ap
17.5), tem um papel fundamental a desempenhar. Por isso ela irá
experimentar o julgamento de Deus antes que o restante da huma­
nidade conheça toda a extensão do seu incrível poder.
Em sua importante análise, feita em 1940, Viereck alertou que o
nazismo era a religião que havia infectado a juventude alemã. Por
natureza era uma forma de adoração pagã, mas mesmo assim deno­
minada “cristã”, que enganou a milhões de pessoas (como ainda
continua fazendo em muitos lugares do mundo até hoje). Essa per­
versão surgiu no pensamento insano do ministro da propaganda na­
zista, Joseph Gõbbels, que admirava Cristo por Ele ser “um de uma
longa descendência de heróis arianos, que iam desde Wotan e Sieg­
fried até Wagner e Hitler”.[17] Esse mesmo tipo de argumento en­
ganoso foi usado pelo Dr. Ley, líder das Frentes de Trabalho Nazis­
tas, que disse: “Nossa fé... é o Nacional-Socialismo..,!”[18] Hans
Kerrl, ministro de Assuntos Eclesiásticos, levou ainda mais longe
essa idéia mentirosa, que foi aceita pela maioria dos católicos e
evangélicos alemães, dizendo: “O verdadeiro cristianismo é repre­
sentado pelo Partido Nazista... O Führer é o arauto da nova revela­
ção..”^ ]
Nova? Viereck chamou o nazismo de “o novo paganismo”. Na
verdade apenas o verniz era novo, mas o que estava por baixo dele
ainda era Babel. A visão que João teve da mulher montada na besta
deixa isso bastante claro.

Religião do Esforço Próprio


Deus confundiu a língua falada pelos construtores de Babel,
transformando-a em numerosas outras para que assim eles não pu­
dessem se entender e isso os levou à dispersão. Mas a orgulhosa re­
ligião do esforço-próprio que levava à deificação de uma raça supe­
rior persistiu, o que é evidenciado pelas ruínas de torres similares,
Mistério: Babilônia • 6 7

chamadas de zigurates, encontradas em abundância naquela parte


do mundo. Entretanto, devido à tecnologia primitiva disponível na­
queles dias, nenhuma das torres tinha uma grande altura. O céu
ainda estava além do alcance humano. Então os zigurates tom a­
ram-se altares ocultistas onde todo tipo de perversão era praticado.
Foi nos seus pináculos que a astrologia teve início, pois cria-se que
a adoração de corpos celestes tinha o poder místico de controlar o
destino dos homens.
Longe de ter fim, a religião de Babel, que é centrada no esforço-
próprio, foi institucionalizada na Babilônia e por todo aquele vasto
império. Isso é o paganismo, a perene religião mundial que persiste
até os dias de hoje. Não está presente apenas nos povos primitivos
que adoram os espíritos da natureza, mas também pode ser encon­
trada entre os professores de universidades que atribuem inteligên­
cia similar a essas “forças” da natureza.
O paganismo tem sido caracterizado no mundo todo através dos
séculos por misteriosos rituais celebrados em volta de altares deco­
rados e esculpidos em cima de estruturas como as pirâmides que
podem ser encontradas no Egito e na América Central e do Sul.
Mesmo tendo sido alertado pelos seus profetas quanto a esse mal,
Israel também sucumbiu à sedução pagã. Essa corrupção da verda­
de que Deus lhes havia ensinado acabou trazendo o julgamento di­
vino sobre o Seu povo escolhido.
O Antigo Testamento traz muitas referências aos “lugares altos”
que foram construídos em Israel, violando a proibição de Êxodo
20.26: “Nem subirás por degrau ao meu altar, para que a tua nu­
dez não seja ali exposta”, tomando-se os centros da idolatria judia
(Levítico 26.30; Números 22.41; etc.). Nos períodos em que houve
arrependimento e reavivamento esses “lugares altos”, com seus
ídolos, foram destruídos por reis e sacerdotes justos, porém Israel
nunca se viu livre desse mal. Tanto a Igreja Ortodoxa quanto a Ca­
tólica (e algumas das protestantes) abraçaram a mesma corrupção
ao construírem suas estruturas imponentes, altares elevados e ao fa­
zerem uso de vestes ornamentadas e liturgias intrincadas, que su­
postamente agradam a Deus e ajudam a abrir portas para o céu.
Os tijolos e a argamassa utilizados para construí-la nos lembram
que Babel não era apenas uma iniciativa política e religiosa, mas
que fazia uso dos maiores avanços da tecnologia e da ciência de
seus dias. A ciência de hoje continua sendo uma tentativa de elevar
6 8 • A Mulher Montada na Besta

o homem ao status de “deus”, ao conquistar o espaço e o átomo,


encontrando a cura para doenças e, quem sabe um dia, até para a
morte.

Babüônia/Babel Ainda Está Presente Entre Nós


Em Babel, Deus espalhou a humanidade e confundiu a sua lín­
gua para que eles não pudessem comunicar seus maus intentos uns
para os outros. No Areópago, em Atenas, Paulo declarou que Deus
separou as raças e as nações para que eles pudessem “buscar a
D eus” (Atos 17.26-27). Atualmente o consenso é que precisamos
buscar justamente o oposto: a solução para os males da humanida­
de se dará quando as línguas forem unificadas e as nações se alia­
rem para realizar projetos científicos que irão, por fim, transformar
o planeta Terra novamente num paraíso.
Essa foi a declaração feita numa propaganda da Corporação
Lockheed na revista Scientific American, ilustrada com uma ima­
gem da antiga torre de Babel. Ressaltando as realizações tecnológi­
cas da Lockheed, o anúncio gloriava-se de que os avanços científi­
cos estavam “desfazendo o efeito Babel”, aproximando a humani­
dade e tomando possível que todos falassem uma única língua...
Em outras palavras, a Lockheed estava se opondo a Deus, o res­
ponsável pelo que ela chamava de “o efeito Babel”.
Sabemos também que, quando passou a ser integrada por 12 paí­
ses, foi lançado um pôster pela União Européia (cuja unidade mo­
netária provisória - a ECU - apresentava a mulher montada na bes­
ta), onde a torre de Babel estava representada. Em volta da torre
inacabada havia 12 estrelas (representando os países), que, ao con­
trário das estrelas da bandeira americana, tinham suas pontas vira­
das para baixo, formando um pentagrama do ocultismo clássico. O
pentagrama, com os dois “chifres” apontando para cima e sua “bar­
ba” para baixo, também é conhecido como a Cabra de Mendes, ou
Bafomete, um símbolo de Satanás.
A IBM (International Business Machines) também usou uma
gravura artística da torre de Babel em alguns dos seus anúncios,
com modernos edifícios projetados contra o céu, saindo da estrutu­
ra inacabada. Por que essa nostálgica volta ao que a maioria das
pessoas considera hoje um mito? Parece haver uma simpatia inata
por Babel, um reconhecimento que o homem moderno tem de re­
Mistério: Babilônia • 69

começar onde Babel parou e de buscar com a mesma ambição a


imortalidade através do seu próprio esforço.
Deus dispersou os construtores da torre de Babel, mas a determi­
nação de hoje é fazer o contrário: juntar todas as nações em uma
Nova Ordem Mundial. Deus confundiu as línguas, mas a tecnolo­
gia atual intenta quebrar qualquer barreira de línguas. Em breve te­
remos disponíveis no mercado telefones que permitirão que o in­
glês falado nos aparelhos em Los Angeles chegue aos terminais em
Tóquio já traduzido para o japonês.
Podemos nos atrever a dizer que algo está errado? Por que não
encorajar e gozar aquilo que o intelecto e o talento podem atingir?
O próprio Deus reconheceu a falta de limites para a capacidade hu­
mana, quando disse: “...não haverá restrição para tudo que inten­
tam fa ze r” (Gênesis 11.6).
Mas Deus também declarou: “é mau o desígnio íntimo do ho­
mem desde a sua mocidade” (Gênesis 8.21). Então a engenhosida-
de humana, como Deus previu, criaria um mal cada vez mais cres­
cente, até que a sobrevivência da humanidade estivesse em jogo.
Certamente as ameaças à sobrevivência da humanidade, que hoje
são reais, foram originadas da genialidade científica. A honestida­
de também nos forçaria a admitir que o crescimento da urbaniza­
ção, já nos tempos antigos, contribuiu para aumentar a escalada do
mal, ameaçando tomar conta do mundo de hoje.
A visão de João indica que a Babel/Babilônia estará muito viva
nos últimos dias. Estampadas na fronte da mulher montada na bes­
ta estão as palavras “mistério: BABILÔNIA”. Está claro que ela
representa o paganismo revivido.
O mais interessante de tudo é que ela incorpora também o “cris­
tianismo” paganizado. A mulher representa um sistema religioso
mundial que está estabelecido em Roma e afirma ser cristão, mas
que tem suas raízes em Babel e na Babilônia. Essa conclusão se
tomará incontestável quando examinarmos detalhadamente a visão
de João.
“A mulher que viste é a grande cidade que domina sobre os reis
da terra. Aqui está o sentido, que tem sabedoria: as sete cabeças
são sete montes, nos quais a mulher está sentada...”
-A pocalipse 17.18,9
A Cidade Sobre
Sete Montes
A mulher está montada na besta e essa mesma mulher é uma ci­
dade construída sobre sete montes, que domina sobre os reis da ter­
ra! Será que em toda a história jã foi feita uma declaração como es­
sa? João imediatamente caracteriza a aceitação pelo leitor dessa re­
velação como “sabedoria”. Não nos atrevemos a tratar essa
declaração de modo superficial. Este assunto merece um estudo
cuidadoso e feito em espírito de oração.
Aqui não é utilizada uma linguagem mística, nem alegórica, mas
trata-se de uma declaração bastante clara e que nada tem de ambí­
gua: “A mulher... é a grande cidade ” (Apocalipse 17.18). Não é
necessário procurar outro significado oculto, mesmo que livros te­
nham sido escritos e sermões foram pregados insistindo que “M is­
tério: Babilônia” refere-se aos Estados Unidos. Vemos claramente
que esse não é o caso, pois os EUA são um país e não uma cidade.
Com justiça alguém poderia referir-se aos Estados Unidos como
Sodoma, se levarmos em conta a honra dada agora aos homosse­
xuais naquele país, mas certamente não se trata da Babilônia que
João descreve em sua visão. A mulher é uma cidade.
Além disso, é uma cidade construída sobre sete montes. Isso eli­
mina especificamente a antiga Babilônia. Só uma cidade com mais
72 • A Mulher Montada na Besta

de 2000 anos tem sido conhecida como a cidade dos sete montes.
Essa cidade é Roma. A Catholic Encyclopedia [Enciclopédia Cató­
lica] declara: “É dentro da cidade de Roma, chamada de cidade dos
sete montes, que se localiza todo o território do Vaticano”. [1]
É verdade que existem outras cidades, tais como o Rio de Janei­
ro, que também foram construídas sobre sete montes. Por conse­
guinte, João fornece pelo menos mais sete características que limi­
tam a identificação somente a Roma. Examinaremos cada uma de­
talhadamente nos capítulos seguintes. Entretanto, para mostrar
onde queremos chegar, vamos listá-las agora, analisando-as resu­
midamente. Como veremos, existe apenas uma cidade na terra, a
qual, tanto na perspectiva histórica como na contemporânea, passa
em todos os testes propostos por João, inclusive em sua identifica­
ção como “Mistério: Babilônia”. Essa cidade é Roma, e mais espe­
cificamente o Vaticano.
Até mesmo o apologista católico Karl Keating há muito tempo
admite que Roma tem sido identificada como a Babilônia. Ele afir­
ma que a declaração de Pedro: “Aquela que se encontra em Babilô­
nia.... vos saúda...” (1 Pedro 5.13), prova que Pedro estava escre­
vendo de Roma. Keating explica:

Babilônia é uma palavra em código para designar Roma. Ela é


usada dessa maneira seis vezes no último livro da Bíblia (quatro de­
las nos capítulos 17 e 18) e obras extrabíblicas como Oráculos de Si-
bélio {5, 159f.), o Apocalipse de Baruque (ii, 1) e 4 Esdras (3.1).
Eusébio Panfílio escreveu, por volta do ano 303: "é dito que a pri­
meira epístola de Pedro... foi escrita em Roma, e que ele mesmo indi­
ca isso, referindo-se à cidade em sentido figurado como Babilô­
n ia "^ ]
Quanto a “Mistério”, o nome impresso na fronte da mulher, é
uma perfeita designação da Cidade do Vaticano. O mistério está no
coração do catolicismo romano, desde as palavras “Mysterium Fi­
de” pronunciadas na suposta transformação do pão e do vinho lite­
ralmente no corpo e sangue de Cristo até as misteriosas aparições
de Maria ao redor do mundo. Cada sacramento, do batismo até a
extrema-unção, manifesta o poder que o fiel deve acreditar ser
exercido pelo padre, mas para o qual não há evidência alguma. O
novo Catecismo de Roma explica que a liturgia “almeja iniciar as
A Cidade Sobre Sete M ontes * 73

almas no mistério de Cristo (isso é o que se chama de “mistago-


gia”) e que tudo na liturgia da Igreja é um mistério”.[3]

Quem é a Meretriz?
A primeira coisa que se conta sobre a mulher é que ela é uma
“meretriz” (Apocalipse 17.1), “com quem se prostituíram os reis
da terra” (v. 2) e que “com o vinho de sua devassidão, fo i que se
embebedaram os que habitam na terra ” (v. 3). Por que uma cidade
seria chamada de prostituta e acusada de se prostituir com reis? Tal
acusação jamais poderia ser dirigida a Londres, Moscou ou Paris -
ou qualquer outra cidade comum. Não faria sentido.
Prostituição e adultério são usados na Bíblia tanto em sentido fí­
sico como espiritual. Sobre Jerusalém, Deus diz: “Como se fez
prostituta a cidade f ie i’ (Isaías 1.21). Israel, que Deus havia sepa­
rado dos outros povos, para ser santo segundo os Seus propósitos,
havia feito alianças profanas e adulteras com nações vizinhas que
adoravam ídolos. "...Porque adulterou, adorando pedras e árvores
[ídolos]” (Jeremias 3.9). “E com seus ídolos adulteraram” (Eze-
quiel 23.37). O capítulo 16 de Ezequiel explica detalhadamente o
adultério espiritual de Israel, tanto com as nações pagãs, como com
seus falsos deuses, como muitas outras passagens da Bíblia tam­
bém o fazem.
Não há como uma cidade se engajar literalmente em fornicação
carnal. Então só podemos concluir que João, como os profetas do
Antigo Testamento, está usando o termo no sentido espiritual. Por­
tanto, a cidade deve ter uma relação espiritual com Deus. De outro
modo, tal alegação não teria significado.
Embora construída sobre sete montes, não haveria razão para se
acusar o Rio de Janeiro de fornicação espiritual. Essa cidade não
afirma ter uma relação espiritual com Deus. Embora Jerusalém te­
nha tal relação espiritual, não pode ser a mulher montada na besta,
pois não foi construída sobre sete montes, nem preenche outros cri­
térios pelos quais essa mulher será identificada.
A acusação de adultério só poderia ser feita contra uma outra ci­
dade na história. Essa cidade é Roma, mais especificamente a Ci­
dade do Vaticano. Desde o início ela alega ter sido o quartel-gene­
ral do cristianismo e mantém essa afirmação até hoje. O papa, en­
tronizado em Roma, afirma ser o único representante de Deus, o
7 4 ♦ A Mulher Montada na Besta

“vigário de Cristo”. Roma é o quartel-general da Igreja Católica


Romana, dizendo ser a única e verdadeira.
Numerosas igrejas, é claro, têm suas sedes em cidades, mas ape­
nas uma cidade alega ter o quartel-general da Igreja de Cristo. Os
mórmons, por exemplo, têm sua sede principal em Salt Lake City,
mas existem muitas outras igrejas naquela cidade. O mesmo não
acontece com a Cidade do Vaticano. Ela é o coração da Igreja Ca­
tólica Romana e nada mais. Ela é uma entidade espiritual que po­
deria muito bem ser acusada de fornicação espiritual caso não per­
manecesse fiel a Cristo.

Deitada Com os Governantes


Não somente o papa de Roma afirma ser o vigário de Cristo,
mas a Igreja que ele encabeça afirma ser a única verdadeira e a noi­
va de Cristo. A Noiva de Cristo, cuja esperança é reunir-se ao noi­
vo no céu, não pode ter nenhuma ambição terrestre. Contudo, co­
mo prova a história, o Vaticano tem obsessão por empresas terres­
tres. Para conquistar esses objetivos, a Igreja Católica, exatamente
como João previu em sua visão, tem se engajado em relações adúl­
teras com os reis da terra. Esse fato é reconhecido até mesmo pelos
historiadores católicos.
Cristo disse aos Seus discípulos: “Se vós fosseis do mundo, o
mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo,
pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia”
(João 15.19). A Igreja Católica, contudo, é sem dúvida deste mun­
do. Os papas têm construído um império mundial inigualável em
propriedades, riqueza e influência. A edificação desse império não
é algo que foi abandonado no passado. Já vimos que o Vaticano II
estabelece ciaramente que a Igreja Católica Romana ainda hoje
continua tentando colocar sob seu controle toda a humanidade e
toda sua riqueza.
Há muito tempo o papa tem declarado possuir domínio sobre o
mundo e seus povos. A bula do papa Gregório XI, de 1372, (In
Coena Domini) declarou o domínio total sobre o mundo cristão,
secular e religioso, excomungando todos os que falham em obede­
cer aos papas e pagar-lhes os tributos. In Coena foi depois confir­
mada pelos papas subseqüentes e em 1568 o papa Pio V afirmou
que essa bula permaneceria como uma lei eterna.
A Cidade Sobre Sete M ontes • 75

O papa Alexandre VI (1492-1503) afirmava que toda terra que


não havia sido descoberta pertenceria ao pontífice romano, para
dela dispor como bem entendesse em nome de Cristo, já que era
Seu vigário, O rei João n , de Portugal, foi convencido de que em
sua bula Romanus Pontifex o papa havia concedido tudo que Co­
lombo descobrira exclusivamente a ele e seu país. Fernando e Isa­
bel da Espanha, entretanto, pensavam que o papa havia dado as
mesmas terras a eles. Em maio de 1493 Alexandre VI, espanhol de
nascimento, emitiu três bulas para resolver a disputa.
Usando o nome de Cristo, que não tinha onde reclinar a cabeça, o
maligno papa Bórgia, afirmando ser o dono do mundo, traçou uma
linha de norte a sul no mapa-múndi daquela época, dando tudo que
havia no Oriente a Portugal e no Ocidente à Espanha. Desse modo,
por concessão papal, “originada na plenitude do poder apostólico”,
a África foi dada para Portugal e as Américas para a Espanha.
Quando Portugal “conseguiu chegar à índia e à Malásia, assegurou
a confirmação de tais descobertas por parte do papado...” Havia,
contudo, uma condição: “esforçar-se para trazer os habitantes ...a
professarem a fé católica”. [4] Foi exatamente por isso que a Améri­
ca Central e a do Sul, como consequência dessa aliança profana en­
tre Igreja e o Estado, foram forçadas pelo catolicismo, através da es­
pada, a se declararem católicas. A América do Norte (com exceção
de Quebec e Louisiana) foi poupada do domínio do catolicismo ro­
mano por ter sido amplamente colonizada pelos protestantes.
Nem podem os descendentes dos astecas, incas e maias ter es­
quecido que os padres católicos romanos, auxiliados pela espada
secular, deram aos seus ancestrais a escolha entre a conversão (que
quase sempre significava escravidão) ou a morte. Quando João
. Paulo II, numa visita à América Latina, propôs beatificar Junipero
Serra (um dos maiores responsáveis pela imposição do catolicismo
aos índios no século XVIII), esses descendentes fizeram um pro­
testo tal que a cerimônia teve de ser realizada em segredo.
Cristo disse: “(? meu reino não é deste mundo. Se o meu reino
fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por m im ..”
(João 18.36). Os papas, entretanto, têm lutado com exércitos e na­
vios em nome de Cristo para construir um vasto império, que é
realmente deste mundo. E para aumentar o seu império terrestre,
eles têm se comprometido repetidamente em fornicação espiritual
com imperadores, reis e príncipes. Afirmando ser a noiva de Cris­
7 6 • A Mulher Montada na Besta

to} a Igreja Católica Romana tem se deitado na cama com gover­


nantes ímpios por toda a história, e essa relação adúltera continua
até hoje. A fornicação espiritual será comentada com detalhes mais
tarde.

Roma - Vaticano
Alguns podem objetar que Roma, e não a pequena parte conhe­
cida como Cidade do Vaticano, é que está edificada sobre sete ■
montes e além disso o Vaticano não pode ser chamado de “grande
cidade”. Embora ambas as objeções sejam verdadeiras, as palavras
“Vaticano” e “Roma” são usadas universalmente sem distinção. Do
mesmo modo que se alguém se referisse a Washington estaria fa­
lando sobre o governo que dirige os Estados Unidos, quem se refe­
re a Roma trata da hierarquia que governa a Igreja Católica,
Tome-se, por exemplo, um cartaz empunhado por um manifes­
tante na Conferência Nacional dos Bispos Católicos realizada em
Washington D.C. em 1993. Esse cartaz tinha como objetivo protes­
tar contra qualquer um que não concordasse com o papa. Nele esta­
va escrito: “SIGA ROMA OU SIGA EM FRENTE”.[5] Obviamen­
te que, ao dizer “Roma” , estava se referindo ao Vaticano. Isso é al­
go comum. Roma e o catolicismo estão tão interligados, que a
Igreja Católica é conhecida como Igreja Católica Romana ou sim­
plesmente Igreja Romana.
Além disso, por mais de 1000 anos a Igreja Católica Romana
exerceu tanto o controle religioso como o civil sobre toda a cida­
de de Roma e seus arredores. O papa Inocêncio III (1198-1216)
aboliu o Senado Romano secular e colocou a administração de
Roma diretamente sob o seu comando. O Senado de Roma, que
havia governado a cidade sob os césares, havia sido chamado de
Cúria Romana. Esse nome, conforme o Pocket Catholic Dictio­
nary [Dicionário de Bolso do Catolicismo], é agora a designação
“de todo o conjunto de escritórios administrativos e judiciais, atra­
vés dos quais o papa dirige as operações da Igreja Católica”.[6]
A autoridade do papa se estende até mesmo aos grandes territó­
rios fora de Roma adquiridos no século VIU. Naquele tempo, com
a ajuda de um documento feito pelos papas e deliberadamente frau­
dado, conhecido como A Doação de Constantino, o papa Estêvão
III convenceu Pepino, rei dos francos e pai de Carlos Magno, de
A Cidade Sobre Sete M ontes • 77

que os territórios recentemente tomados pelos lombardos dos bi­


zantinos foram, na verdade, doados ao papado pelo Imperador
Constantino. Pepino venceu os lombardos e entregou ao papa as
chaves de mais de 20 cidades (Ravena, Ancona, Bolonha, Ferrara,
Iesi, Gubbio, etc.) e um imenso pedaço de território junto às costas
do mar Adriático.
Datada de 30 de março de 315, a Doação declarava que Cons­
tantino havia dado perpetuamente essas terras aos papas, junto com
Roma e o palácio de Latrão. Em 1440, Lorenzo Valia, um adido
papal, provou que esse documento era uma fraude e até hoje é as­
sim considerado pelos historiadores. Contudo os supostos papas in­
falíveis continuaram asseverando durante séculos que a Doação era
genuína e sobre essa base justificam sua pompa, poder, e posses.
Essa fraude continua sendo perpetuada por uma inscrição no batis­
tério da Igreja de São João de Latrão, em Roma, que jamais foi
corrigida.
Desse modo, o Estado papal foi literalmente roubado pelos pa­
pas dos seus legítimos proprietários. O papado controlou e taxou
esses territórios até 1848, extraindo deles grande riqueza. Nesse
tempo o papa, junto com os governantes da maior parte dos ou­
tros territórios divididos da Itália, foi obrigado a dar uma consti­
tuição aos seus súditos rebelados. Em setembro de 1860, em meio
a furiosos protestos, Pio IX perdeu todos os Estados papais para
o novo reino da Itália, agora finalmente unido, que ainda o dei­
xou, até o Concílio Vaticano I, em 1870, no controle de Roma e
seus arredores.
Vemos assim que, exatamente como João previu em sua visão,
uma entidade espiritual que afirmava ter uma relação especial com
Cristo e com Deus começou a ser identificada com uma cidade
construída sobre sete montes. Essa “mulher” praticou fornicação es­
piritual com os governantes da terra e finalmente reinou sobre eles.
A Igreja Católica Romana tem sido continuamente identificada co­
mo sendo essa cidade. Como a Catholic Encyclopedia declara:

...Daí entende-se o lugar central de Roma na vida da Igreja hoje e


o sentido de seu título 'Igreja Católica Romana', a igreja que é uni­
versal, mas ainda assim centrada no ministério do bispo de Roma.
Desde a fundação da Igreja por São Pedro, Roma tem sido o centro
de toda a cristandade.[7]
78 • A Mulher Montada na Besta

Enriquecimento Ilícito
A incrível riqueza da mulher atraiu logo a atenção de João. Ela
se vestia de “púrpura e escarlata, adornada de ouro, de pedras
preciosas e de pérolas, tendo na mão um cálice de ouro transbor­
dante de abominações e com as imundícias da sua prostituição”
(Apocalipse 17.4). As cores púrpura e escarlate uma vez mais iden­
tificam a mulher tanto com a Roma pagã como com a cristã. Eram
essas as cores dos césares romanos, que os soldados usaram ao co­
brirem Cristo com um manto, cham ando-0 zombeteiramente de
“rei” (Mateus 27.28 e João 19.2-3). O Vaticano tomou-as para si e
até hoje as cores do clero romano são as mesmas das vestes da mu­
lher. A enciclopédia acima mencionada também diz:

Cappa Magna
Uma capa com uma longa cauda e um capuz para cobrir os om­
bros... era de lã púrpura para os bispos; para os cardeais era de se­
da tingida de escarlate (para celebrar o Advento, a Quaresma, a
Sexta-Feira Santa e o conclave, era de lã púrpura); e de seda rosa-
claro para os domingos Gaudete e Laetare; a do papa era de veludo
vermelho, usada nas Matinas de Natal, e a sarja vermelha para ou­
tras ocasiões.
Batina (ou Sotaina)
Roupa até o calcanhar usada pelo clero católico como sua vesti­
menta oficial... A cor para os bispos e outros prelados é púrpura, pa­
ra os cardeais é escarlate..."[8]
O ílcálice de ouro em sua mão” novamente identifica a mulher
com a Igreja Católica Romana. A Catholic Encyclopedia diz sobre
o cálice: “[é] o mais importante dos vasos sagrados... deve ser de
ouro ou de prata; se for de prata nesse caso, seu interior deve ser fo­
lheado a ouro”. [9] A Igreja Católica Romana possui milhares de cá­
lices de ouro maciço guardados em suas igrejas ao redor do mundo.
Até mesmo a cruz de Cristo, outrora suja de sangue, foi agora trans­
formada em uma cruz de ouro, cravejada de pedras preciosas, como
reflexo da grande riqueza de Roma. A Catholic Encyclopedia diz:
“A cruz peitoral (pendurada numa corrente ao redor do pescoço e
usada por abades, bispos, arcebispos, cardeais e pelo papa) deve ser
feita de ouro e... decorada com pedras preciosas...” [10]
A Cidade Sobre Sete M ontes • 79

Roma tem praticado o mal a fim de acumular sua riqueza, pois a


“taça de ouro” está cheia de “abominações”. Muito da riqueza da
Igreja Católica Romana foi adquirida através do confisco de pro­
priedades das pobres vítimas da Inquisição. Até mesmo os mortos
eram exumados para serem julgados e suas propriedades eram con­
fiscadas dos seus herdeiros pela Igreja. Um historiador escreve:

As punições da inquisição não acabavam quando as vítimas eram


queimadas ou trancadas nas masmorras da Inquisição. Seus parentes
eram reduzidos à miséria pela lei que determinava que todas as suas
posses fossem confiscadas. O sistema oferecia oportunidades ilimita­
das para saques...
Essa fonte de ganho demonstra claramente a revoltante prática do
que tem sido chamado de "julgamento de cadáveres"... Que a práti­
ca de confiscar propriedades dos hereges condenados era produto
de muitos atos de extorsão, rapinagem e corrupção não pode ser
contestado por pessoa alguma que tenha um mínimo de conhecimen­
to da natureza humana ou dos documentos históricos... homem ne­
nhum estava a salvo se a sua riqueza pudesse despertar a cobiça, ou
cuja independência pudesse provocar vingança".[11]
A maior parte da riqueza de Roma foi adquirida através da ven­
da de salvação. Incontáveis bilhões de dólares lhe têm sido pagos
pelos que julgam estar comprando o céu, à prestação, para si ou pa­
ra seus entes queridos. A prática continua hoje em dia - mormente
quando o catolicismo está no controle. Nenhum engano ou abomi­
nação maior poderiam ser perpetrados. Quando o cardeal Cajetan,
estudioso dominicano do século XVI, queixou-se da venda de per­
dões e indulgências, a hierarquia da Igreja Católica ficou indignada
e acusou-o de querer “tomar Roma um deserto inabitado, reduzir o
papado à impotência, privar o papa... de fontes de recursos indis­
pensáveis ao desempenho do seu ofício”. [12]
Em adição a tais perversões do Evangelho, que têm levado cen­
tenas de milhões à perdição, existem ainda outras abominações que
o Vaticano e seus representantes têm empregado amplamente. Por
exemplo, as práticas bancárias corruptas, lavagem de dinheiro do
narcotráfico, venda de seguros fraudulentos e negócios com a Má-
fia (fartamente documentados pela polícia e nos registros cíveis).
Nino Lo Bello, ex-correspondente da revista Business Week em
8 0 * A Mulher Montada na Besta

Roma e chefe do escritório do New York Journal o f Commerce em


Roma escreve que o Vaticano está de tal modo aliado à Máfia na
Itália, que “muitas pessoas... crêem que a Sicília ...é nada mais do
que um sustentáculo do Vaticano”.[13]
A Igreja Católica Romana é de longe a instituição mais rica da
terra. Sim, ouvem-se periodicamente os pedidos de Roma exigindo
dinheiro - apelos persuasivos afirmando que o Vaticano não pode
manter-se com suas limitadas reservas e necessita de assistência
monetária. Tais pedidos não passam de conspirações absurdas. O
valor de incontáveis esculturas de mestres tais como Miquelângelo,
pinturas dos maiores artistas do mundo e tantos outros tesouros e
documentos antigos que Roma possui (não apenas no Vaticano,
mas nas catedrais ao redor do mundo) está muito além de qualquer
avaliação. No Sínodo Mundial dos Bispos em Roma, o cardeal
Heenan da Inglaterra propôs que a Igreja Católica vendesse alguns
desses tesouros supérfluos e doasse o lucro aos pobres. Sua suges­
tão não foi bem recebida.
Cristo e Seus discípulos viveram na pobreza. Ele ensinou Seus
discípulos a não acumularem tesouros na terra, mas sim no céu. A
Igreja Católica Romana tem desobedecido este mandamento e acu­
mulado uma quantidade de riquezas sem igual, das quais “o Pontí­
fice Romano é o supremo administrador e mordomo...”[14] Não
existe igreja nem cidade alguma que seja uma entidade, uma insti­
tuição religiosa do passado ou do presente que já tenha ao menos
se aproximado da riqueza da Igreja Católica Romana. Uma repor­
tagem publicada em um jornal europeu descreveu apenas uma fra­
ção desse tesouro numa certa localidade:

O fabuloso tesouro de Lourdes (na França), cuja existência foi


mantida em segredo pela Igreja Católica durante 120 anos, foi des­
vendado... Rumores têm circulado durante décadas sobre uma cole­
ção de cálices de ouro de valor inestimável, crucifixos cravejados de
diamantes (algo bem distante da cruz em que Cristo morreu), prata e
pedras preciosas doadas por peregrinos agradecidos.
Após uma observação indiscreta feita pelo seu assessor de impren­
sa esta semana, as autoridades da Igreja Católica concordam em
mostrar parte da coleção... foram abertos (alguns) contêineres que
estavam abarrotados, revelando 59 cálices de ouro, além de anéis,
crucifixos, estátuas e broches de ouro maciço, muitos deles incrusta­
A Cidade Sobre Sete M ontes • 81

dos de pedras preciosas. Quase escondida no meio de outros tesou­


ros, está a "coroa" cravejada de diamantes de Nossa Senhora de
Lourdes, feita por um joalheiro francês em 1876.
Autoridades da Igreja dizem que é impossível avaliar a coleção.
"Não tenho nem idéia", diz o padre Pierre-Marie Charriez, diretor
de Patrimônio e Santuário. "E de valor incalculável"...
Do outro lado da rua há um prédio onde estão guardados cente­
nas de [antigos] ornamentos eclesiásticos, roupas, mitras, e cinturões
- muitos de ouro maciço...
"A igreja Católica é pobre", insiste o padre Charriez. O "Vaticano
é pobre".[15] [O tesouro aqui descrito é apenas parte do que se en­
contra guardado na pequena cidade de Lourdes, na França!]

A Mãe das Meretrizes e das Abominações


Quanto mais profundamente entramos na história da Igreja Cató­
lica Romana e suas práticas atuais, mais assombrados ficamos com
a impressionante exatidão da visão recebida por João, séculos antes
dela se tomar uma lamentável realidade. A atenção de João é des­
pertada para o título ousadamente colocado sobre a fronte da mu­
lher: “MISTÉRIO: BABILÔNIA, A GRANDE, A MÃE DAS MERE­
TRIZES E ABOMINAÇÕES DA TERRA (Apocalipse 17,5). Infeliz­
mente a Igreja Católica Romana se adapta à descrição “mãe das
meretrizes e abominações”, exatamente como também se adapta a
outros títulos similares. Isto se deve em grande parte à exigência
antibíblica de que seus sacerdotes sejam celibatários.
O grande apóstolo Paulo era um celibatário e recomendou essa
vida a outros que desejassem devotar-se inteiramente ao serviço de
Cristo. Ele, porém, não fez disso uma condição para a liderança,
como a Igreja Católica tem feito, impondo assim um fardo antina­
tural sobre todo o clero, algo que pouquíssimos conseguem supor­
tar. Pelo contrário, Paulo escreveu que o bispo deveria ser “marido
de uma só mulher” (1 Timóteo 3.2), fazendo as mesmas exigências
para os presbíteros (Tito 1.5-6).
Pedro, que os católicos erroneamente afirmam ter sido o primei­
ro papa, era casado, assim como alguns dos outros apóstolos. Isso
não ocorreu por obra do acaso, antes de Cristo os chamar, mas era
considerado uma norma. O próprio Paulo dizia que ele, assim co-
82 • A Mulher Montada na Besta

mo os outros, tinha o direito de se casar: “E também o de fazer-nos


acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apósto­
los, e os irmãos do Senhor [meio-irmãos, filhos de Maria e José] e
Cefas [Pedro]? (1 Coríntios 9.5).
A Igreja Católica Romana, entretanto, tem insistido no celibato,
embora muitos papas, como Sérgio Dl (904-911), João X (914­
928), João XII (955-963), Benedito V (964), Inocêncio VIII (1484­
1492), Urbano VIU (1623-1644) e Inocêncio X (1644-1655), assim
como milhões de cardeais, bispos, arcebispos, monges e padres
através da história tenham violado esses votos. O celibato não ape­
nas fez pecadores os membros do clero que caíram na prostituição,
mas transformou em prostitutas aquelas com quem eles coabitaram
secretamente. Roma é realmente “a mãe das meretrizes” ! Sua iden­
tificação como tal é inconfundível. Nenhuma outra cidade, igreja
ou instituição na história do mundo rivaliza com ela na prática des­
se mal em particular.
A história está repleta de dizeres que zombam do falso clamor
da Igreja pelo celibato e revelam sua verdade: “o eremita mais san­
to tem sua prostituta” e “Roma tem mais prostitutas do que qual­
quer outra cidade porque tem a maioria dos celibatários”, são
exemplos. Pio II declarou que Roma era “a única cidade governada
por bastardos” (filhos de papas e cardeais). O historiador católico e
ex-jesuíta Peter de Rosa escreve:

Os papas tinham amantes de 15 anos de idade, eram culpados de


incesto e perversões sexuais de toda sorte, tinham inúmeros filhos,
eram assassinados em pleno ato de adultério [por maridos ciumentos
que os encontravam na cama com suas esposas]... Como diz o anti­
go ditado católico: Por que ser mais santo do que o papa?[l ó]
Em matéria de abominação, até mesmo os historiadores católi­
cos admitem que entre os papas estavam alguns dos mais degenera­
dos monstros sem consciência da história. Seus incontáveis crimes,
muitos dos quais parecem inacreditáveis, têm sido citados por vá­
rios historiadores a partir de documentos secretos que revelam a
profundidade da depravação papal, alguns dos quais serão tratados
em capítulos posteriores. Chamar qualquer um desses homens de
“sua santidade, vigário de Cristo”, é zombar da santidade de Cris­
to. Ainda assim os nomes de cada um desses papas perversos - ge-
A Cidade Sobre Sete M ontes • 8 3

nocidas, fornicadores, ladrões, fomentadores de guerras, alguns


culpados do massacre de milhares - figuram na lista oficial dos pa­
pas. Essas abominações que João previu não apenas ocorreram no
passado, elas acontecem até hoje, como veremos a seguir.

Embriagada com o Sangue dos Mártires


Em seguida João nota que a mulher está embriagada - mas não
com bebida alcoólica. Ela está embriagada com “o sangue dos san­
tos e com o sangue das testemunhas de Jesus...” (Apocalipse 17.6).
O quadro é horrível. Não são apenas suas mãos que estão tintas de
sangue, mas ela está embriagada com ele. O assassinato de inocen­
tes, que por razões de consciência não concordaram com suas exi­
gências totalitárias, acabou refrescando e animando a mulher de tal
modo, que ela se encontra em estado de êxtase.
Logo pensamos nas Inquisições (Romana, Medieval e Espanho­
la) que durante séculos prenderam a Europa em suas garras terrí­
veis. Em sua History of Inquisition [História da Inquisição], Canon
Llorente, secretário da Inquisição em Madri de 1790 a 1792, tinha
acesso aos arquivos de todos os tribunais e calculou que somente
na Espanha o numero de condenados excedeu os três milhões, com
cerca de 300.000 queimados na estaca. [17] Um historiador católico
comenta sobre os acontecimentos que conduziram ao término da
Inquisição Espanhola em 1809:

Quando Napoleão conquistou a Espanha em 1808, um oficia! po­


lonês do seu exército, coronel Lemanouski, registrou que o$ dominica­
nos [responsáveis pela Inquisição] se trancaram no seu mosteiro em
Madri. Quando as tropas de Lemanouski forçaram a entrada, os in­
quisidores negaram a existência de quaisquer câmaras de tortura.
Os soldados revistaram o mosteiro e as descobriram escondidas
num porão. As câmaras estavam cheias de prisioneiros, todos nus,
muitos ensandecidos. As tropas francesas, acostumadas à crueldade
e ao sangue, não conseguiram evitar as náuseas diante da visão. Es­
vaziaram as câmaras de tortura, jogaram pólvora sobre o mosteiro e
o explodiram.fi 8]
Para conseguir as confissões dessas pobres criaturas, a Igreja Ca­
tólica Romana usava torturas engenhosas, tão atrozes e bárbaras,
8 4 • A Mulher Montada na Besta

que passaríamos mal só de ouvir sua descrição. O historiador da


Igreja, bispo William Shaw Kerr, escreve:

A abominação mais hedionda de todas era o sistema de tortura.


Os relatos de suas operações, feitas a sangue frio, faz-nos estreme­
cer diante da capacidade dos seres humanos de serem cruéis. Elas
eram decretadas e reguladas pelos papas que afirmavam representar
Cristo na terra...
Cuidadosas anotações foram feitas não apenas sobre tudo que era
confessado pelas vítimas, mas também dos seus protestos, gritos, la­
mentações, interjeições interrompidas e apelos por misericórdia. A
coisa mais comovente na literatura da Inquisição não é a narração
do sofrimento das vítimas, mas os frios memorandos guardados pelos
oficiais dos tribunais. Ficamos perturbados e estarrecidos, justamente
porque não havia a mínima intenção de nos chocar.[l 9]
Na Europa, ruínas de algumas câmaras de horror podem ser visi­
tadas ainda hoje. Elas permanecem como memorial para os zelosos
seguidores dos dogmas católicos romanos, que ainda hoje conti­
nuam válidos, e para uma igreja que afirma ser infalível e até aos
dias atuais justifica tais barbaridades. São também memoriais da
espantosa exatidão da visão de João em Apocalipse 17. Em um li­
vro publicado na Espanha em 1909, Emelio Martinez escreve:

A esses três milhões de vítimas {documentados por Uorente), deve­


riam ser acrescentados milhares e milhares de judeus e mouros de­
portados de suas terras natais... Em apenas um ano, 1481, e apenas
em Sevilha, o Santo Ofício [da Inquisição] queimou 2.000 pessoas.
Os ossos e efígies de mais 2.000... e outros 16.000 foram condena­
dos a variadas sentenças.[20]
Peter de Rosa reconhece que a própria Igreja Católica “foi res­
ponsável por perseguir judeus, pela Inquisição, pelo extermínio dos
hereges aos milhares, pela reintrodução na Europa da tortura como
parte do processo judicial”. Mesmo assim a Igreja Romana jamais
admitiu oficialmente que tais práticas fossem más, nem se descul­
pou com o mundo nem com qualquer das vítimas ou seus descen­
dentes. Tampouco pode o papa João Paulo II se desculpar hoje,
porque “as doutrinas responsáveis por essas coisas terríveis ainda
A Cidade Sobre Sete Montes * 8 5

estão em vigor”. [21] Interiormente não houve mudança em Roma,


independente de quão doces sejam suas palavras, quando algo a be­
neficia.

Mais Sangue do que os Pagãos


A Roma pagã transformou em esporte práticas de atirar pessoas
aos leões, queimá-las vivas e os muitos outros modos como foram
mortos milhares de cristãos e não poucos judeus. Ainda assim a
Roma “cristã” exterminou muitas vezes esse número, tanto de cris­
tãos como de judeus. Além das vítimas da Inquisição, os hugueno­
tes, albigenses, valdenses e outros cristãos foram massacrados, tor­
turados e queimados às centenas de milhares. Isso ocorreu porque
eles simplesmente recusaram alinhar-se com a Igreja Católica Ro­
mana, com sua corrupção, dogmas e práticas heréticas. Por razões
de consciência eles tentaram seguir os ensinamentos de Cristo sem
depender de Roma, e por esse crime foram amaldiçoados, caçados,
aprisionados, torturados e assassinados.
Por que Roma iria se desculpar ou mesmo admitir esse holo­
causto? Ninguém exige que ela preste contas hoje. Os protestantes
já esqueceram as centenas de milhares de pessoas queimadas em
fogueiras por aceitarem o simples Evangelho de Cristo e recusarem
dobrar-se diante da autoridade papal. Incrivelmente, os protestantes
agora estão aceitando Roma como sendo cristã, enquanto ela insis­
te para que os “irmãos separados” se reconciliem com ela e acei­
tem seus termos imutáveis!
Muitos líderes evangélicos pretendem trabalhar com os católicos
romanos para evangelizar o mundo. Eles não querem saber de ne­
nhuma recordação “negativa” dos milhões de pessoas torturadas e
assassinadas pela igreja à qual eles agora prestam honra, ou ao fato
de Roma pregar um falso evangelho de sacramentos e obras.
A Roma “cristã” exterminou judeus aos milhares - muito mais
do que a Roma pagã jamais conseguiu. O território de Israel foi
considerado como propriedade da Igreja Católica Romana, não dos
judeus. Em 1096, o papa Urbano II promoveu a Primeira Cruzada
para retomar Jerusalém dos muçulmanos. Com a cruz em seus es­
cudos e armas defensivas, os cruzados massacraram os judeus por
toda a Europa em seu caminho até a Terra Santa. Praticamente, o
seu primeiro ato ao retomar Jerusalém “para a Santa Madre Igreja”
86 • A Mulher Montada na Besta

foi reunir todos os judeus numa sinagoga e atear fogo nela. Esses
fatos históricos não podem ser varridos para debaixo do tapete do
ecumenismo como se jamais tivessem acontecido.
Nem pode o Vaticano fugir da grande responsabilidade pelo Ho­
locausto nazista, o qual era bem conhecido por Pio XII, apesar do
seu silêncio completo, durante toda a guerra, sobre um dos seus as­
suntos mais importantes.[22] O envolvimento do catolicismo no
Holocausto será examinado mais tarde. Se o papa tivesse protesta­
do, como os representantes das organizações judaicas e as Forças
Aliadas lhe pediram que fizesse, ele teria condenado sua própria
Igreja. Os fatos são inegáveis:

Em 193ó, o bispo Berning, de Osnabrück, havia faiado com o


Führer durante quase uma hora. Hitler assegurou a ele que não ha­
via nenhuma diferença fundamental entre o Nacional-Socialismo e a
Igreja Católica. Acaso não tinha a Igreja, que agora o interrogava,
considerado os judeus como parasitas e os trancado em guetos?
"Estou apenas fazendo", ele se gabou, "o que a Igreja tem feito
por 15 séculos, somente com mais eficiência". Sendo ele próprio ca­
tólico, disse a Berning que "admirava e pretendia promover o cristia­
nismo". [23]
Existe, certamente, outra razão pela qual a Igreja Católica Ro­
mana não tem se desculpado nem se arrependido desses crimes.
Mas como poderia? A execução dos hereges (inclusive dos judeus)
foi decretada pelos papas "infalíveis”. A própria Igreja Católica
afirma ser infalível, portanto suas doutrinas não poderiam estar er­
radas.

Reinando Sobre os Reis da Terra


Finalmente, o anjo revela a João que a mulher “é a grande cida­
de que domina sobre os reis da terra ” (Apocalipse 17.18). Existe
tal cidade? Sim, novamente é apenas uma: a Cidade do Vaticano.
Os papas coroaram e depuseram reis e imperadores, exigindo obe­
diência, amedrontando-os com a excomunhão, No tempo do Con­
cílio Vaticano I, em 1869, J. H. Ignaz von Dollinger, professor de
História da Igreja em Munique, preveniu que o papa Pio IX força­
ria o Concílio a fazer um dogma infalível "da teoria favorita dos
A Cidade Sobre Sete M ontes • 8 7

papas - que eles podiam forçar reis e magistrados com a excomu­


nhão e suas consequências, para prosseguirem com suas sentenças
de confisco, prisão e morte...” Ele relembrou seus companheiros
católicos romanos de algumas das más consequências da autorida­
de política papal:

Quando, por exemplo, [o papa] Martinho IV excomungou o rei


Pedro de Aragâo e o colocou sob interdição... prometendo em segui­
da indulgências de todos os pecados àqueles que guerreassem ao
seu lado e ao do tirano Carlos I [de Nápoles] contra Pedro, e final­
mente declarou seu reinado falso... o que custou aos reis da França e
de Aragão suas vidas e à França a perda de seu exército...
O papa Clemente IV, em 1265, depois de vender milhões de italia­
nos do sul a Carlos de Anjou, em troca de um tributo anual de oito­
centas onças de ouro, declarou que ele seria excomungado se o pri­
meiro pagamento fosse menor do que o determinado e que na se­
gunda negativa a nação inteira incorreria em interdição...[24]
Embora João Paulo II não tenha mais o poder de fazer exigências
tão brutais, sua Igreja ainda mantém os dogmas que o autorizam a
fazer isso. E os efeitos práticos de seu poder não são menores do
que os dos seus predecessores, embora exercitados nos bastidores.
O Vaticano é a única cidade que envia e recebe embaixadores dos
países mais importantes da terra. Os embaixadores vêm ao Vaticano
de todos os países importantes, inclusive dos Estados Unidos, não
por mera cortesia, mas porque o papa é hoje o governante mais im­
portante da terra. Até mesmo o ex-presidente Clinton viajou até
Denver em 1993 só para saudar o papa. Ele se dirigiu a João Paulo
*11 chamando-o de “santo padre” e “sua santidade”.
Sim, embaixadores de nações vão a Washington (D.C.), Paris e
Londres, mas só porque o governo nacional tem sua capital lã. N e­
nhuma dessas cidades, ou qualquer outra, pode enviar embaixado­
res a outros países. Só a Cidade do Vaticano faz isso. Diferente de
qualquer outra cidade na terra, o Vaticano é reconhecido como um
Estado soberano com seus próprios direitos, separado e distinto da
Itália onde se encontra. Não existe até hoje outra cidade na história
em que isso tenha acontecido.
Só do Vaticano se poderia dizer que é a cidade que domina sobre
os reis da terra. A frase “a influência mundial de Washington” não
8 8 • A Mulher Montada na Besta

significa a influência de uma cidade, mas dos Estados Unidos, cuja


capital lá se encontra. Quando, porém, se fala da influência do Va­
ticano ao redor do mundo, é exatamente esse o significado - a ci­
dade e o poder mundial do catolicismo romano e do seu líder, o pa­
pa. A Cidade do Vaticano é sem igual.

Não Espere Uma Babilônia Reconstruída


Alguns sugerem que o Vaticano se mudará para a Babilônia, no
Iraque, quando ela for reconstruída. Mas por que o faria? O Vatica­
no tem cumprido a profecia de João, estando localizada em Roma
durante os últimos 1500 anos. Além do mais, já mostramos a cone­
xão com a antiga Babilônia, que o Vaticano tem mantido por toda a
história do cristianismo paganizado que ele tem difundido. Quanto à
antiga Babilônia, ela nem existiu mais nos últimos 2300 anos, por
isso não mais “domina sobre os reis da terra” (Apocalipse 17.18).
A Babilônia está em ruínas enquanto a Roma pagã e depois a Roma
católica, a nova Babilônia, continua dominando os reis da terra.
Um historiador do século XVIII contou 95 papas que afirmavam
ter o poder divino para depor reis e imperadores. O historiador
Walter James escreveu que o papa Inocêncio III (1185-1216) “ti­
nha toda a Europa em sua rede”. [25] Gregório IX (1227-1241) de­
clarava exaltadamente que o papa era o senhor e mestre de tudo e
de todos. O historiador R. W. Southern declarou: “Durante todo o
período medieval havia em Roma uma única autoridade temporal e
espiritual [o papado], exercitando poderes que acabaram exceden­
do todos os que já haviam existido sob as garras do imperador ro­
mano”.[26]
E um fato histórico incontestável que os papas dominaram sobre
os reis, como documentaremos por completo mais tarde. Também é
indiscutível o fato que, conforme João previu, abominações tão
horríveis foram cometidas. O papa Nicolau I (858-867) declarou:
“Somente nós [os papas] temos o poder de prender e soltar, de ab­
solver Nero e condená-lo, e os cristãos não podem, sob pena de ex­
comunhão, executar outro julgamento senão o nosso, o qual é infa­
lível”. Ao ordenar que um rei destruísse outro, Nicolau escreveu:

Nós ordenamos, em nome da religião, que invada seus Estados,


queime suas cidades, e massacre seu povo...[27]
A Cidade Sobre Sete M ontes * 89

A informação especial que João nos dá, sob inspiração do Espí­


rito Santo, para identificar a mulher, que é uma cidade, é específi­
ca, conclusiva e irrefutável, Não existe cidade sobre a terra, no pas­
sado ou no presente, que preencha todos esses critérios, exceto a
Roma católica e agora a Cidade do Vaticano. Esta inegável conclu­
são se tomará cada vez mais clara na medida em que continuarmos
revelando os fatos.
Todo clérigo deve obedecer ao papa, mesmo que ele mande fazer
algo ruim; pois ninguém pode julgar o papa.
- papa Inocêncio III (1198-1216)

A Primeira Sé [Roma/papado] por ninguém é julgada. É somen­


te do pontífice romano o diréito de julgar... aqueles que desempe­
nham os mais elevados cargos civis num Estado...
Não existe apelo nem recurso contra uma decisão ou decreto do
pontífice romano.
- Código de Direito Canônico[l]
Fraude e
História Forjada
Os papas têm sido, geralmente, as figuras religiosas e políticas
mais importantes da terra. Isso continua sendo verdade, mesmo
que o papa-não tenha mais ao seu dispor os exércitos e as tropas ar­
madas dos pontífices romanos do passado. O papado é indispensá­
vel para o catolicismo, que deverá desempenhar um papel vital nos
últimos dias, antes da Segunda Vinda de Cristo. Por conseguinte,
devemos estudar bastante para entender melhor o papado e sua re­
lação tanto com a Igreja quanto com o mundo. Como surgiu o ofí­
cio papal? Qual seu significado hoje?
O número de seguidores do Vaticano (quase um bilhão de pes­
soas) é pelo menos três vezes maior que o número de cidadãos
de qualquer democracia ocidental, sendo superados apenas pela
população da China. Mais importante ainda, seus membros estão
espalhados pelo mundo todo e muitos deles têm altos cargos po­
líticos, militares e comerciais em países que não são católicos.
Além disso o papa dispõe de milhares de agentes secretos espa­
lhados pelo mundo inteiro. Isso inclui os jesuítas, os cavaleiros de
Colombo, cavaleiros de Malta, Opus Dei e outros. O Serviço Se­
creto do Vaticano, com todos os recursos de que dispõe, é inigua­
lável.
92 • A Mulher Montada na Besta

Na maioria das vezes o poder político do papa é exercido nos


bastidores, em algumas ocasiões em cooperação com (e outras ve­
zes contra) a CIA, a Inteligência Britânica, o Mossad de Israel, e
outros serviços de inteligência. Lembrem-se, seus milhões de súdi­
tos estão presos a ele por laços religiosos, que são muito mais for­
tes do que a lealdade política. Nenhum governo secular pode com­
petir com o poder que a crença religiosa exerce.
O católico típico, embora possa discordar da sua Igreja no tocan­
te a assuntos como homossexualidade, aborto, sexo extraconjugal,
anticoncepcionais e a necessidade de confissão, ainda acredita que,
quando chegar a hora da morte, Roma é sua única esperança. O pa­
pa, como “vigário de Cristo”, oferece uma realidade visível e uma
expressão prática para tal esperança. A posição extraordinária do
papa em relação aos membros da Igreja foi expressa de maneira
concisa na publicação romana La Civilta Cattolica, que um docu­
mento papal descreveu nos meados do século XIX como: “o mais
puro órgão jornalístico da verdadeira doutrina da Igreja”.[2]

Não é suficiente que as pessoas apenas saibam que o papa é o


cabeça da Igreja... elas devem entender também que sua própria fé
e vida religiosa emanam dele; ele é o laço que une os católicos uns
aos outros, o poder que os fortalece e a luz que os guia, aquele que
distribui as graças espirituais, o doador dos benefícios da religião,
promotor da justiça e protetor dos oprimidos.[3]
Palavras semelhantes foram ditas pelos seguidores de Joseph
Smith, Sun Myung Moon, e outros líderes de seitas. O papa é “outro
Cristo” e “Deus na terra” para seus seguidores, e, como diz o Vatica­
no II, não pode ser julgado por nenhum homem ou tribunal. [4]

Deixe Seu Cérebro na Entrada


Tanto o papa, quanto a Igreja que o tem como cabeça, afirmam
ser infalíveis. Os fiéis católicos não devem questionar coisa alguma
que o papa ou a Igreja digam com respeito à fé e moral. Os concí­
lios e catecismos têm declarado durante séculos a necessidade dessa
submissão completa e continuam insistindo sobre isso ainda hoje. O
periódico The Catholic World [O Mundo Católico] lembrou a todos
os católicos dos Estados Unidos, durante o Concílio Vaticano I:
Fraude e História Forjada • 93

Todos devem aceitar a fé e a lei da Igreja... Ninguém tem o direito


de questionar as razões da Igreja, a não ser Deus Todo-Poderoso...
Devemos receber com inquestionável docilidade todas as instruções
dadas pela Igreja.[5]
Temos aqui uma negação tão d ara da responsabilidade moral do
indivíduo quanto podemos encontrar em qualquer seita. A mesma
exigência de submissão total foi feita pelo Vaticano II. O Código
de Direto Canônico também reafirma essa regra:

O cristão fiel, cônscio de sua responsabilidade, está obrigado pela


obediência cristã a seguir o que os pastores sagrados declaram, uma
vez que eles, como mestres da fé e representantes de Cristo, são os lí­
deres da Igreja.[6]
No tocante à fé, à moral e ao caminho da salvação, os católicos
devem deixar seus cérebros na porta de entrada da igreja e aceitar o
que lhes é dito. Não podem sequer estudar a Bíblia sozinhos, pois
somente o Magistério pode interpretã-la. Obviamente essa proibi­
ção da liberdade de consciência está relacionada com a total su­
pressão dos direitos humanos básicos para toda a humanidade, que
é o imutável objetivo do catolicismo romano.
Para compreender o catolicismo deve-se ignorar a postura públi­
ca e as idéias manifestadas pela Igreja Católica, promovidas por
seu departamento de relações públicas. A maneira com que Roma
se apresenta ao mundo varia de país para país, dependendo do con­
trole que exerce e do que pode realizar. Em vez disso, devemos
analisar as doutrinas oficiais do catolicismo, que nunca mudam.
Muitos católicos e não-católicos achavam que o Vaticano II ha­
via liberalizado o catolicismo. Na verdade, ele reafirmou os câno­
nes e decretos de importantes concílios anteriores: “Este sagrado
concílio aceita a lealdade e fé de nossos ancestrais... e propõe no­
vamente os decretos do Segundo Concílio de Nicéia, do Concílio
de Florença, e do Concílio de Trento”.[7]
O Concílio de Trento denunciou a Reforma e amaldiçoou as
crenças evangélicas com mais de 100 anátemas. Todas estas conde­
nações do Evangelho da graça de Deus são endossadas e reafirma­
das pelo Vaticano II. Com relação ao papa, ficou estabelecido cla­
ramente que:
94 • A Mulher Montada na Besta

O Pontífice Romano, cabeça do colégio de bispos, goza desta in­


falibilidade em virtude do seu ofício [não de sua santidade de vida],
enquanto supremo pastor e mestre de todos os fiéis... ele proclama
com absoluta decisão as doutrinas referentes à fé e à moral. Por essa
razão suas definições são ditas corretamente, sendo irrefutáveis... em
nenhuma hipótese carecendo da aprovação de outros e não admitin­
do apelação de qualquer outro tribunal.
...os fiéis, por seu lado, ficam obrigados a submeter-se às decisões
dos seus bispos, feitas em nome de Cristo, sobre fé e moral e aderin­
do a elas com pronta e respeitosa fidelidade de consciência. Esta
submissão leal da vontade e intelecto deve ser feita de um modo es­
pecial, à autoridade do autêntico ensino do Pontífice Romano, mes­
mo quando ele não fala ex catedra, com tal sabedoria que a supre­
ma autoridade do seu ensino seja reconhecida com respeito e que se
obedeça às suas decisões de acordo com a sua manifesta consciên­
cia e intenção...[8]
“Obrigados a submeter-se às decisões dos seus bispos... Esta
submissão leal da vontade e intelecto deve ser feita...” I Isso dá a
Roma um poder incrível sobre os devotos católicos. Não importa
que nem todo católico obedeça. O que interessa é que tal palavra é
“o ensino intensivo e imutável da Igreja” , não só para os seus
membros, mas para toda a humanidade.
Mesmo que muitos católicos rebelem-se contra certas doutrinas
da Igreja, eles permanecem ligados nominalmente a ela, embora
muitas vezes a freqüentem somente no Natal e na Páscoa. Contudo,
quando se trata da esperança de ser salvo do purgatório e de alcan­
çar o céu, nenhum católico pode questionar a Igreja para não Gear
fora de sua proteção e ser condenado. O Concílio Vaticano II diz
claramente:

O santo Concílio ensina... que a Igreja... é necessária para a sal­


vação... Por conseguinte, não podem ser salvos aqueles que, saben­
do que a Igreja Católica foi fundada por Deus através de Cristo, se
recusarem a ingressar ou nela permanecer.[9]
Lembre-se que Hitler e Mussolini continuaram sendo católicos
até o fim e jamais foram excomungados pela Igreja. Isso também é
válido para milhares dos piores criminosos de guerra nazistas, que
Fraude e História Forjada • 9 5

o Vaticano retirou da Europa e levou para lugares seguros na Amé­


rica do SuL Esses grandes criminosos foram honrados com fune­
rais católicos, assim como os membros da Máfia, que morrem com
a segurança de que sua Igreja continuará a rezar missas a fim de re­
tirá-los do purgatório e levá-los depois para o céu. É uma política
de segurança que poucos conseguem ignorar completamente.

'im pecabilidade” Versus 'infalibilidade”


A fé cega exigida pelos pronunciamentos do papa e do clero pa­
recem fazer sentido, pois a Igreja Romana é a maior e mais antiga.
Certamente esses bilhões de seguidores não poderiam ter sido en­
ganados por mais de 1500 anos! Assim a fé é mantida pela suposta
segurança de que a Igreja Católica Romana é a única igreja verda­
deira, a única que pode ser rastreada até os apóstolos originais, e
cuja autoridade papal vem diretamente de Cristo (através de Pe­
dro), numa longa e ininterrupta linha de sucessão apostólica.
Como prova, a Igreja fornece uma lista completa de seus papas
(até agora foram 263) com a ascendência desde Pedro. Poucos ca­
tólicos sabem que os papas lutavam entre si, excomungando-se
mutuamente e, por vezes, até matavam uns aos outros. E difícil
achar algum papa que, depois do século V, tenha exibido as virtu­
des cristãs básicas. Suas vidas, conforme registrado na Catholic
Encyclopedia, são comparáveis às novelas de TV em matéria de lu­
xúria, loucura, ostentação e assassinatos. Contudo, todos esses
mestres do crime, envenenadores, adúlteros e genocidas são consi­
derados infalíveis quando falam ex catedra - ou seja, fazem pro­
nunciamentos dogmáticos sobre fé e moral a toda a Igreja.
Os apologistas católicos argumentam que existe uma diferença
entre impecabilidade de caráter e conduta, que os papas certamente
não tinham, e infalibilidade em matéria de fé e moral, o que todo
católico deve crer que eles possuem. [10] É tolice acreditar que um
homem que nega a fé e tem comportamento imoral em sua vida, é
infalível quando fala sobre fé e moral!
Os católicos que conhecem os fatos prontamente admitem que
muitos papas foram terríveis. Mas argumentam que isso prova sim­
plesmente que eles eram humanos e permite que, se somos cons­
cientes do que aconteceu, discordemos deles. Para os católicos faz
sentido que, apesar da inegável maldade do seu clero, a Igreja Ca­
9 6 • A Mulher Montada na Besta

tólica Romana seja a única esperança da humanidade. Afinal de


contas, ela foi fundada pelo próprio Cristo, que fez de Pedro o
primeiro papa. Isto está, supostamente, comprovado nas Escritu­
ras: “7w és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja ”
(Mateus 16.18). Examinaremos detalhadamente esse versículo
mais tarde.

O Dogma Desconhecido
Ao contrário do que se ensina aos católicos, o ofício papal não
começou com o apóstolo Pedro. Ele teve origem centenas de anos
antes do bispo de Roma tentar controlar o resto da igreja e muitos
séculos antes que essa primazia fosse aceita por todos. Em 449, a
carta de Leão o Grande a Flaviano não foi aceita até que o Concílio
de Calcedônia a aprovasse. “O próprio papa Leão [I] reconheceu
que esse tratado não podia tomar-se uma regra de fé, até ter sido
confirmado pelos bispos”.[11]
Houve oito concílios da Igreja antes que o Cisma de 1054 a di­
vidisse em Católica Romana e Oriental Ortodoxa, quando o bis­
po de Roma e o patriarca de Constantinopla se excomungaram
mutuamente. Nenhum desses oito concílios foi convocado pelo pa­
pa, mas sim pelo Imperador, que também deu sua aprovação aos
decretos. Quanto à autoridade papal, um historiador católico nos
lembra:

O papa Pelágio (556-560) fala sobre hereges separando-se das


Sés Apostólicas, ou seja, Roma, Jerusalém, Alexandria (mais Cons­
tantinopla). Em todos os escritos antigos sobre hierarquia não existe
menção de um papel especial do bispo de Roma, nem ainda o título
de "papa"... Das cerca de 80 heresias dos primeiros seis séculos, ne­
nhuma se refere à autoridade do bispo de Roma e nenhuma teve iní­
cio com ele... Nenhuma ataca a [suprema] autoridade do pontífice
romano, já que ninguém ouviu faiar c//sso.[l 2]
O Sínodo Oriental de 680, convocado pelo papa Ágato, foi o pri­
meiro corpo eclesiástico que asseverou a primazia de Roma sobre
o resto da Igreja, mas esse não foi um concílio reunindo toda a
Igreja, portanto suas decisões não foram aceitas em larga escala.
Como frisa o historiador católico Peter de Rosa:
Fraude e História Forjada • 97

...nenhum dos primeiros Pais da igreja via na Bíblia qualquer refe­


rência à jurisdição papal sobre a Igreja. Pelo contrário, eles estavam
certos de que os bispos, principal mente os metropoiitas, tinham o ple­
no direito de governar e administrar seu próprio território, sem sofrer
interferência de ninguém. A Igreja Oriental nunca aceitou a suprema­
cia papal; a tentativa de Roma de impor-se foi o que levou ao Cisma.
...procura-se em vão no primeiro milênio por uma única doutrina
ou legislação imposta apenas por Roma ao resto da Igreja. As únicas
leis gerais procederam de concílios como o de Nicéia. De qualquer
modo, como poderia o bispo de Roma ter exercido jurisdição mun­
dial naquele tempo se ainda não havia a Cúria [Romana]; quando
nenhum bispo permitia interferência de quem quer que foSse, quando
Roma não emitiu dispensação alguma, não exigia tributo nem impos­
to; quando todos os bispos, não apenas o de Roma, tinham o poder
de ligar e desligar; quando nenhum bispo ou Igreja ou indivíduo era
censurado por Roma?
Além disso, durante séculos, o bispo de Roma foi escolhido pelos
cidadãos locais - clero e laicato. Se ele tivesse jurisdição sobre a
Igreja Universal, o resto do mundo não iria desejar dizer algo sobre
a sua nomeação? Enquanto ele acreditava ter supremacia [universal],
o restante da Igreja exigia participar de sua eleição. Isso só teve iní­
cio na Idade Média.[13]

Do Calvário ao Régio Pontífice


E necessário que se faça uma engenhosa modificação para que
da distorção de uma simples declaração: "sobre esta pedra edifica­
rei a minha igreja”, surgisse o ofício petrino, a sucessão apostóli­
ca, a infalibilidade papal, e toda a pompa, cerimônia e poder que
rodeiam o papa hoje. Como um escritor católico sarcasticamente
declara: “Exige-se [uma grande] habilidade para se tomar uma de­
claração feita por um pobre carpinteiro a um pescador, igualmente
pobre, e aplicá-la a um régio pontífice, que em breve passaria a ser
chamado de ‘o Dono do Mundo’.”[14]
Contudo, este é o único fundamento “bíblico” sobre o qual toda
a estrutura da Igreja Católica Romana está baseada. Incluindo a in­
falibilidade papal, a sucessão apostólica e uma intrincada hierar­
quia de padres, bispos, arcebispos e cardeais; o Magistério dos Bis­
9 8 • A Mulher Montada na Besta

pos, o único que pode interpretar a Bíblia; a exigência de que, por


suposta infalibilidade, o papa deve falar ex catedra a toda a Igreja
em matéria de fé e moral, etc. Que nenhum destes conceitos é re­
motamente sugerido, muito menos estabelecido, quer seja em Ma­
teus 16.18 ou em qualquer outro lugar na Escritura, é deixado de
lado pelos apologistas católicos, os quais logo se voltam para a
“tradição” parta apoiar tais crenças. Fazendo isso, entram num la­
birinto de engano e verdadeira fraude.
Foram necessários muitos séculos para se desenvolver engenho­
sos argumentos para que, finalmente, se chegasse à teoria de que o
mesmo Cristo, que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mateus
8.20), viveu em pobreza e fui crucificado nu, deveria ser represen­
tado por um régio pontífice que possui palácios com mais de 1.100
salas cada um, é servido dia e noite por um batalhão de criados e
usa as melhores roupas de seda bordadas com fios de ouro! Que
Cristo delegou a Pedro tal pompa e luxo, o que nenhum dos dois
conheceu, é tanto ridículo quanto blasfemo.
As glórias e poderes desfrutados pelos papas não são, nem re­
motamente, mencionados nos relatos existentes sobre a vida de
pureza e pobreza de Pedro. O apóstolo-pescador declarou: “Não
tenho prata nem ouro” (Atos 3,6). Os luxos do papa e suas pom­
posas declarações de autoridade sobre reis e reinos não eram co­
nhecidos na Igreja até séculos mais tarde, quando papas ambicio­
sos começaram a estender gradualmente e solidificar seu domínio
sobre os governantes. Os líderes supremos do catolicismo come­
çaram a usar títulos como: “supremo governante do mundo”, “rei
dos reis”. Outros afirmaram ser “Deus na terra”, ou até mesmo “o
redentor”, que “pendurados na cruz como o fez Cristo”, assevera­
ram que “Jesus colocou os papas no mesmo nível de Deus”.[15]
Pedro certamente teria denunciado tais fraudes pretensiosas como
blasfêmia.
Roma era a capital do Império Romano antes de Constantino mu­
dar o seu palácio para o Oriente, por isso continuou sendo conside­
rada como capital da porção Ocidental do império. Com o impera­
dor Constantino instalado na cidade de Constantinopla (hoje Istam­
bul), o papa desenvolveu um poder quase absoluto, não apenas
como cabeça da Igreja, mas também como imperador do Ocidente.
Mais tarde, com a queda do Império Romano, o papado foi quem
continuou governando as ruínas fragmentadas. Thomas Hobbes dis­
Fraude e História Forjada ♦ 99

se: “O papado nada mais é do que o fantasma do finado Império


Romano, sentado sobre o seu túmulo com a coroa na cabeça”.
W. H. C. Frend, professor emérito de história eclesiástica em seu
clássico “The Rise of Christianity ” [A Ascensão do Cristianismo]
frisa que, pelos meados do século V a Igreja “tinha se tomado o
mais poderoso elemento nas vidas dos povos do império. A virgem
e os santos haviam substituído os deuses (pagãos) e padroeiros das
cidades”.[16]. O papa Leão I (440-461) gabava-se que São Pedro e
São Paulo haviam “substituído Rômulo e Remo como os padroei­
ros e protetores da cidade [Roma]”. [17] Frend escreve que a Roma
cristã era a “legítima sucessora da Roma pagã... Cristo havia triun­
fado [e] Roma estava pronta para estender sua influência até aos
próprios céus”.[18]

Releitura Desavergonhada da História


Tal era a ambição da maioria dos que almejavam o suposto trono
de Pedro que eles muitas vezes guerreavam uns contra os outros a
fim de conquistá-lo. Usando o nome de Cristo e fazendo piedosa­
mente o sinal da cruz, eles trabalhavam duro para satisfazer sua
ambição de poder, prazer e riqueza. Não havia nas Escrituras, nem
nos escritos dos Pais da Igreja, justificativas para fazerem de si
mesmos governantes absolutos e infalíveis da Igreja, muito menos
do mundo. Por conseguinte, os papas teriam de encontrar outra ma­
neira de obter apoio para isso. A solução encontrada foi escrever
novamente a história, manuseando documentos, supostamente his­
tóricos. A primeira destas ousadas falsificações foi A Doação de
Constantino, a qual já mencionamos. Em seguida surgiram os fal­
sos Decretos de Isidoro, que eram decretos papais supostamente
compilados pelo arcebispo Isidoro (560-636), mas que, na verdade,
foram forjados no século IX. Essas fraudes se tomaram o funda­
mento da maior parte da “tradição” sobre a qual o papado ainda
hoje se apóia.
O historiador católico J. H. Ignaz von Dollinger escreve que “até
o surgimento dos Decretos de Isidoro nenhuma tentativa séria ha­
via sido feita, em lugar algum, para se introduzir a nova teoria ro­
mana da infalibilidade. Os papas nem sonhavam em exigir tal pri­
vilégio”. [19] Ele prossegue explicando que esses Decretos fraudu­
lentos iriam
100 * A Mulher Montada na Besta

de forma gradual, mas de maneira inevitável, mudar a constitui­


ção da Igreja. Seria difícil encontrar em toda a história um outro
exemplo de falsificação tão grosseira, porém tão bem-sucedida.
Durante os três últimos séculos [ele escreveu em 18ó9] eles [os do­
cumentos forjados] têm sido denunciados publicamente, mesmo assim
os princípios que eles introduziram acabaram tornando-se práticas
da Igreja. Tais idéias fixaram raízes tão profundas no solo da Igreja,
fazendo agora parte dela de tal maneira, que mesmo a exposição
da fraude acabou por não produzir nada capaz de abalar o sistema
dominante.[20]
Os Decretos de Isidoro trazem cerca de 100 decretos inventados,
que teriam sido promulgados pelos primeiros papas, juntamente
com falsos escritos de supostas autoridades e sínodos da Igreja. Es­
sas fraudes foram exatamente o que Nicolau I (858-867) precisava
para justificar sua alegação de que os papas “exerciam o papel de
Deus na terra”, com absoluta autoridade sobre os reis, incluindo até
o direito de “comandar massacres” dos que se opunham a eles - tu­
do em nome de Cristo.
Os papas que sucederam Nicolau sentiram-se satisfeitos e mui­
to à vontade para copiar os seus meios. Cada um deles usou as
ações dos seus predecessores para justificar as suas próprias,
construindo, assim, uma condição cada vez maior para a infa­
libilidade, mas sobre um fundamento fraudulento. Escrevendo
no século XIX, o católico e historiador da igreja R. W. Thomp­
son, comenta:

Tempos como esses foram usados para a prática de todo tipo de


impostura e fraude que os papas e o clero achavam necessárias para
fortalecer a autoridade do papado... O interesse pessoal e a ambi­
ção de Jnocêncio 111 levaram-no a preservar todas essas falsificações
com cuidado, uma vez que... a "piedosa fraude" poderia ser santifi­
cada com o tempo... O resultado que ele esperava e desejava foi al­
cançado...
[Estes] falsos Decretos, que são agora universalmente considerados
como ousadas e desavergonhadas falsificações... constituem a pedra
angular do enorme sistema de erro e usurpação que desde então tem
sido construído pelo papado, para reavivar o que Pio IX apresentou
em sua Encíclica e no Syilabus [dos Erros].[21]
Fraude e História Forjada * 101

Os devotos católicos ficariam chocados ao saber que a maior


parte da “tradição apostólica” que lhes ensinaram ser o sustentácu­
lo do catolicismo romano (e que deve ser considerada no mesmo
nível da Escritura) era uma fraude, feita deliberadamente. As dou­
trinas construídas sobre essas falsificações tomaram-se tão interli­
gadas ao catolicismo, que mesmo depois que o engano foi exposto,
os papas relutaram em fazer as necessárias correções. Um papa in­
falível após o outro endossou essa falsificação. Tentar corrigir as
mentiras acumuladas durante séculos iria desestabilizar a farsa do
catolicismo romano.
Pio IX baseou-se na fraude para pressionar os bispos requerendo
que eles fizessem da infalibilidade papal um dogma oficial no Vati­
cano I (embora ela já fosse conhecida por três séculos). Ele obteve
sucesso, mas o testemunho da história decididamente refuta tanto a
sucessão apostólica, quanto a infalibilidade papal.
Esta é a única Igreja de Cristo, que no credo professamos ser
una, santa, católica e apostólica, a qual o nosso Salvador, após sua
ressurreição, confiou ao cuidado pastoral de Pedro, comissionando
a ele e aos outros apóstolos sua propagação e governo...
O pontífice romano, como sucessor de Pedro, é a fonte perpétua
e visível e o fundamento da unidade, tanto dos bispos como de to­
dos os fiéis.
- Vaticano H[l]
Linha ininterrupta
de Sucessão
Apostólica?
A afirmação de que os papas são os sucessores do apóstolo Pe­
dro é o fundamento sobre o qual se baseia o catolicismo romano.
Sem essa declaração a Igreja perderia sua unicidade e não poderia
funcionar. Devemos, portanto, gastar mais tempo para examinar tal
afirmação cuidadosamente.,Existe realmente uma linha ininterrupta
de 262 papas que sucederam a Pedro? ;
Para que ocorresse, de fato, uma sucessão apostólica, cada papa
deveria escolher seu próprio sucessor e impor as mãos sobre ele
pessoalmente para ordená-lo. Esse foi o procedimento adotado
quando Paulo e Bamabé foram enviados pela Igreja de Antioquia
em sua primeira viagem missionária (Atos 13.3). A investidura de
Timóteo para o ministério também se deu pela imposição de mãos
dos presbíteros sobre ele (1 Timóteo 4.14). Paulo agiu assim quan­
do concedeu um dom espiritual especial ao seu discípulo (2 Timó­
teo 1.6). Contudo, esse procedimento bíblico jamais foi seguido
com relação aos sucessores dos bispos de Roma (ou papas). Aque­
le que irá substituir o supremo pontífice não é escolhido por ele,
104 • A Mulher Montada na Besta

mas sim por outros, após a sua morte. Isso freqüentemente ocorre
de um modo profano, conforme veremos.
Além do mais, não há registro algum de que Pedro tenha sido
bispo em Roma, portanto nenhum bispo de Roma poderia ser o seu
sucessor. Irineu, bispo de Lyon (178-200), forneceu uma lista dos
primeiros 12 bispos da capital do império. Lino foi o primeiro. O
nome do “chefe dos apóstolos” não aparece. Eusébio de Cesaréia,
o pai da História da Igreja, nunca o mencionou como bispo de Ro­
ma. Ele diz simplesmente que Pedro esteve naquela cidade “no fim
de seus dias” e lá foi crucificado. Paulo, ao escrever sua Epístola
aos Romanos, saúda muitas pessoas pelo nome, mas não menciona
Pedro. Essa seria uma estranha omissão se o líder dos apóstolos es­
tivesse vivendo em Roma e, especialmente, se fosse seu bispo!

Existem Falhas na “Linha Ininterrupta*’


O Vaticano apresenta uma lista oficial de papas que começa ar­
bitrariamente com Pedro e continua até o presente. Já surgiram
muitas dessas listas, as quais aparentemente foram consideradas
corretas durante um certo tempo, mas em seguida tiveram de ser
revisadas - portanto conflitam umas com as outras. As listas mais
antigas vieram do Liber Pontificallis [Livro dos papas], tendo sido,
presumivelmente, elaboradas pelo papa Hormidus (514-523), em­
bora até mesmo a Catholic Encyclopedia [Enciclopédia Católica]
lance dúvidas sobre a sua autenticidade e a maioria dos eruditos de
hoje concordem que ela mistura fatos com ficção. Não podemos
saber com certeza até hoje quem foram os verdadeiros bispos de
Roma. A própria New Catholic Encyclopedia [Nova Enciclopédia
Católica], publicada pela Universidade Católica da América, reco­
nhece este fato:

Mas deve-se admitir francamente que lapsos ou deficiências nas


fontes tornam impossível, em certos casos, determinar se os reivindi-
cadores eram papas ou antipapas.[2]
A verdade é que a própria Igreja Católica Romana, mesmo com
todos os seus arquivos, não consegue elaborar uma lista exata e
completa dos papas. A suposta “linha ininterrupta de sucessão des­
de Pedro” não passa de mera ficção. Qualquer um que disponha de
Unha Ininterrupta d e Sucessão Apostólica? • 105

tempo para tentar verificar sua exatidão, concluirá que a Igreja for­
jou uma lista oficial a fim de justificar o papado e suas pretensões.
Verá também que o bispo de Roma só veio a ser considerado o pa­
pa da Igreja universal cerca de 1000 anos após o Pentecostes!

Sucessão Apostólica?
Durante séculos os cidadãos de Roma se consideraram no direito
de eleger o bispo de Roma. Este costume é uma prova de que ele ti­
nha jurisdição apenas sobre aquele território, pois se pudesse co­
mandar toda a Igreja, então todos os seus membros estariam envol­
vidos em sua escolha. Houve tempos em que o direito de eleger
seus próprios bispos lhes foi negado. Então os cidadãos de Roma se
revoltaram e impuseram sua vontade sobre as autoridades civis e re­
ligiosas locais. Como poderia tal pressão, baseada na violência, ser
chamada de sucessão apostólica, sob a direção do Espírito Santo?
Os feudos eram governados pelas famílias poderosas (Collona,
Orsini, Annibaldi, Conti, Caetani, e assim por diante), que por sé­
culos disputaram o papado. Por exemplo, Bonifácio VIII, um Cae­
tani, teve de lutar contra os Collona para ficar no poder. No apogeu
do seu governo representantes de todo o cristianismo Ocidental fo­
ram a Roma para o grande jubileu, em 1300. Porém, três anos de­
pois ele foi deposto por emissários de Filipe, o Louro, da França.
Assim sendo, naquela época Roma tomou-se possessão francesa.
Como consequência, o papado foi transferido para a França. Entre
1309 e 1137 todos os papas eram franceses e residiram em Avig­
non. Tais manobras políticas dificilmente poderiam manter uma li­
nha ininterrupta de sucessão!
Os papas eram tanto empossados quanto depostos pelos exérci­
tos imperiais ou pelas multidões romanas. Alguns foram assassina­
dos. Mais de um foi executado por um marido ciumento que o en­
controu na cama com sua esposa - parece que assim seria difícil
haver uma sucessão apostólica. Muitas vezes o dinheiro e/ou a vio­
lência determinavam quem seria o “sucessor de Pedro”. Não é de
admirar que no Acordo de Worms (feita entre o papa Calixto II e o
Imperador Henrique V, em 23 de setembro de 1122), o papa tenha
sido levado a jurar que a eleição dos bispos e abades aconteceria
“sem simonia e sem violência a]guma”[3], como era característico
das decisões da Igreja.
106 • A Mulher Montada na Besta

Houve tempos em que existiam vários rivais, cada um afirmando


ter sido legalmente votado num conselho legítimo. Um dos exem­
plos mais antigos de papas múltiplos foi criado pela eleição simul­
tânea de facções rivais dos papas Ursinus e Dâmaso. Depois de
usar de muita violência, os seguidores do primeiro conseguiram
colocá-lo como papa. Mais tarde, após uma batalha de três dias,
Dâmaso, com o apoio do imperador, saiu vitorioso e continuou co­
mo “vigário de Cristo” por 18 anos (366-384). Então a “sucessão
apostólica” numa “linha ininterrupta desde Pedro” ocorreu através
do uso da força armada! Não é interessante?
Ironicamente foi Dâmaso, em 382, o primeiro a usar a frase:
‘T h és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, para
reivindicar autoridade espiritual. Ele era um papa sanguinário, ri­
co, poderoso e excessivamente corrupto, cercado de luxo tal que
faria um imperador sentir inveja. Não há meio de justificar qual­
quer conexão entre ele e Cristo, embora esse papa permaneça co­
mo um dos elos da suposta corrente de sucessão ininterrupta des­
de Pedro.

Violência, Intriga e Sintonia


Estêvão VII (896-897), que exumou o papa Formoso e condenou
o cadáver por heresia num falso tribunal, logo depois foi estrangu­
lado pelos zelotes que se opunham a ele. Seu partido prontamente
elegeu um cardeal chamado Sérgio para ser papa, mas ele foi ex­
pulso de Roma por uma facção rival, a qual tinha elegido Romano
como o seu “vigário de Cristo”. Sobre a maneira estranha como os
papas sucederam uns aos outros, numa “Unha ininterrupta de su­
cessão apostólica desde Pedro”, um historiador escreve:

Nos 12 meses seguintes, mais quatro papas subiram ao sangrento


trono [papal], mantendo-se precariamente por algumas semanas -
ou mesmo dias - antes de serem lançados nas suas sepulturas.
Sete papas e um antipapa surgiram durante um período de pouco
mais de seis anos quando... O cardeal Sérgio reapareceu, após sete
anos de exílio, agora apoiado pelas espadas de um senhor feudal, o
qual via aquela oportunidade como um meio de ter acesso a Roma.
O papa reinante [Leão V, 903] foi para a sepultura, os assassinatos
na cidade atingiram seu clímax, e o cardeal Sérgio apareceu como o
Linha Ininterrupta de Sucessão Apostólica? * 107

papa Sérgio [III, 904-911]. O único sobrevivente dos reivindicadores


era agora o sumo pontífice.[4]
Tentando dar estabilidade à seleção dos papas, em 1059, Nicolau
II (1059-1061) “definiu o papel dos cardeais no processo de elei­
ção do papa. Durante o Terceiro Concílio de Latrão em 1179, Ale­
xandre III (1159-1181) restringiu as eleições papais aos car­
deais”.[5] Não houve melhora alguma. Como um historiador do sé­
culo XIX frisou: “Poucas eleições papais, se é que houve alguma,
foram realizadas sem simonias [compra de favores]... a invenção
do Sacro Colégio [dos cardeais] foi, de modo geral, talvez a fonte
mais fértil de corrupção na Igreja. Muitos cardeais chegavam a Ro­
ma para o conclave junto com seus banqueiros”.[6]
Muitos indícios dessa corrupção podem ser lidos nos diários de
João Burchard. Ele foi o mestre de cerimônias no conclave que ele­
geu Rodrigo Bórgia (papa Alexandre VI - 1492-1503). Burchard
conclui que apenas cinco votos não foram comprados na eleição.
“O jovem cardeal Giovanni de Médici, que se recusara a vender
seu voto, achou melhor abandonar Roma imediatamente”. [7] N a­
queles dias a posição de cardeal era vendida pelo preço equivalente
ao resgate de um rei; custava uma fortuna entrar na corrompida li­
nha de “sucessão apostólica”. O dinheiro fluía de e por toda a Eu­
ropa para custear os candidatos favoritos. Bórgia comprou o papa­
do com “vilas, cidades e abadias”... [e] quatro mulas carregadas de
prata para que o seu maior rival, o cardeal Sforza, fosse induzido a
renunciar”. Peter de Rosa observa jocosamente: “É instrutivo ver,
pelos diários de Burchard, como o Espírito Santo agia ao escolher
o sucessor de Pedro”. [8]

Sexo e Sucessão
Alguns papas foram colocados no ofício por suas amantes - seis
deles por prostitutas (que eram mãe e filha). Teodora de Roma (es­
posa de um poderoso senador romano) teve muito sucesso usando
essa estratégia. Ela manipulava os políticos de Roma, gabando-se
do fato de sua filha Morósia ser amante do papa Sérgio III. Conhe­
cida como a “amante de Roma”, Morósia não hesitava em ordenar
assassinatos para conseguir o que ambicionava. A própria Teodora
era amante de dois eclesiásticos, os quais ela conseguiu, após a
108 * A Mulher Montada na Besta

morte de Sérgio III, levar em rápida sucessão ao “trono de Pedro”


- os papas Anastásio HE (911-913) e Lando (913-914). Quando
apaixonou-se por um padre de Ravena, ela também o conduziu ao
trono papal.
As prostitutas determinavam quem seria o papa na “sucessão
apostólica” ! Sobre essa mãe e filha notáveis Edward Gibbon escre­
veu em seu livro Decline and Fali ofThe Roman Empire [Declínio
e Queda do Império Romano]:

A influência das duas prostitutas, Morósia e Teodora, era funda­


mentada em sua riqueza e beleza, em suas intrigas políticas e amo­
rosas. Os mais ardentes de seus amantes foram recompensados com
a mitra romana... O filho bastardo, o neto e o bisneto de Morósia -
uma rara genealogia - sentaram-se no trono de São Pedro.[9]
Alberico, outro filho de Morósia, com seus asseclas armados, li­
teralmente controlava Roma. Ele fez os líderes romanos jurar que
elegeriam seu filho (neto de Morósia) Otaviano, não apenas como
seu sucessor ao trono imperial, como também, após a morte do pa­
pa, ao supremo ofício religioso. E assim aconteceu com Otaviano,
que se auto-intitulou papa João XH, enquanto que, ao mesmo tem­
po, reinava como príncipe com o nome de Otaviano. Desse modo,
tanto o trono civil como o eclesiástico foram reunidos sob um só
homem.
João XII (955-963) era obcecado por sexo ilícito, mais ainda
quando estava no poder. Embora tivesse muitas amantes regulares,
elas não eram suficientes. Não era seguro para mulher alguma en­
trar nos seus domínios! O bispo Liúdprand de Cremona, observa­
dor papal e cronista da época, conta que o papa “ficou tão cego de
amor por uma [amante] que a fez governadora de várias cidades -
e até mesmo deu a ela as cruzes e taças de ouro da basílica de São
Pedro”. As multidões romanas que o haviam sustentado e que não
se incomodavam com seus casos amorosos, ficaram com raiva por
causa da perda das propriedades, as quais os romanos considera­
vam parte de sua herança.
Rodeado pelas multidões, que agora ansiavam por removê-lo e
pressionado pelo novo rei da Itália, com seus exércitos, Otaviano
abandonou sua posição como governante civil, mas não desistiu da
influência do papado, muito mais lucrativa, embora não pretendes-
Linha Ininterrupta cie Sucessão Apostólica? • 109

se ser um homem religioso e muito menos um verdadeiro cristão.


O papado ainda tinha o poder de coroar imperadores. O papa con­
vocou Otto, rei da Alemanha e o mais poderoso monarca da Euro­
pa, a Roma para ser coroado imperador do Sacro Império Romano.
Otto veio depressa com seu exército, para auxiliar o pontífice que o
convocara.
Após sua coroação por João XII, o rei Otto tentou admoestar o
jovem papa a abandonar sua vida dissoluta. Ele fingiu obedecer às
exortações, mas depois que o rei alemão e seu exército partiram, o
papa, não querendo abdicar de suas façanhas sexuais, ofereceu a
coroa imperial a Berenger, o mesmo inimigo cujos exércitos ha­
viam pilhado o norte da Itália, o que o havia levado a pedir ajuda a
Otto.
Mesmo tentado pelo prêmio que agora era posto à sua frente,
Berenger o declinou, pois sabia que suas forças não podiam com­
petir com o exército de Otto. O papa enraivecido apelou para to­
dos, dos sarracenos aos hunos, para libertá-lo do homem que ele
acabara de coroar como imperador do Sacro Império Romano, e
com quem ele havia jurado reatar a antiga aliança entre a coroa e o
papado, que havia funcionado tão bem entre Leão III e Carlos
Magno!

A Dança das Cadeiras dos Papas


Quando Otto regressou com seus exércitos para um acerto de
contas, João XII fugiu de Roma para Tivoli com todos os tesouros
do Vaticano que conseguia carregar. Otto abriu um sínodo para de­
cidir a sorte de João. O bispo Liudprand o presidiu em nome do im­
perador e registrou os procedimentos. Testemunhas foram chama­
das e os crimes do papa enumerados, indo desde fornicação com
numerosas mulheres, que tiveram os seus nomes revelados, a ter ce­
gado Benedito, seu pai espiritual; além do assassinato do cardeal
João e da acusação de ter feito um brinde a Satanás no altar de São
Pedro. Mas antes que Otto pudesse executar justiça, o papa João XII
foi morto por um marido que o encontrou na cama com sua esposa.
Mesmo assim, João XII consta da lista oficial dos pontífices, todos
eles conhecidos como “sua santidade, vigário de Cristo”.
Não muito depois da morte de Otto na Alemanha, o papado caiu
sob o controle de uma poderosa família de guerreiros dos montes
110 • A Mulher Montada na Besta

albaneses. O líder da clã, Gregório de Tusculum, usando de sua ri­


queza e do poder da espada, conseguiu colocar dois de seus três fi­
lhos e um neto (um sucedendo o outro) no suposto trono de Pedro.
Os albericos de Tusculum puderam finalmente gabar-se de ver 40
cardeais, três antipapas e 13 papas saindo da mesma família. Seria
cômico afirmar que a riqueza e o poder que esta notável família de
papas produziu tem algo a ver com a sucessão apostólica.
Sobre este período Von Dollinger, um historiador da Igreja e ca­
tólico devoto, escreve:

... a igreja Romana estava escravizada e degradada, enquanto a


Sé Apostólica tornava-se presa e brinquedo de facções rivais de no­
bres, e por um longo tempo de mulheres ambiciosas e depravadas.
Ela foi apenas renovada num curto intervalo (997-1003) por Gregó­
rio V e Silvestre lí, pela influência do imperador saxônio.
Em seguida o papado mergulhou novamente em total confusão e
impotência moral; os condes toscanos tornaram-no hereditário em
sua família. Várias vezes rapazes dissolutos como João XII (tinha 16
anos quando se torne j papa) e Benedito IX (com 11 anos) ocuparam
e desgraçaram o trono apostólico, o qual era comprado e vendido
como mercadoria. Finalmente três papas brigaram pela posição, até
que o imperador Henrique III pôs fim ao escândalo, elevando um bis­
po germânico à Sé de Roma.[l 0]
Perseguido pelas multidões de Roma em 1045, o papa Benedito
IX (1032-44; 1045; 1047-48) fugiu, buscando a proteção do seu
tio, o conde Gregório, cujo exército controlava os montes de Tus­
culum. Em sua ausência, João, bispo do monte Sabine, foi a Roma
e se declarou papa, sob o nome de Silvestre III (1045). Ele ocupou
o “trono de Pedro” por meros três meses, até que Benedito regres­
sou tempestivamente com mais espadas do que Silvestre conseguia
apresentar para se defender e voltou a governar como papa. Mesmo
assim ambos constam da lista oficial do Vaticano como dignos do
título de “sua santidade e vigário de Cristo”.
Cansado do fardo do seu ofício e ansioso por dedicar-se inteira­
mente à sua amante favorita, Benedito vendeu o papado por 750
quilos de ouro ao seu padrinho Giovanni Gratiano, arcebispo da
igreja de São João, junto à Porta Latina. Giovanni assumiu o papa­
do em maio de 1045 com o nome de Gregório VI (1045-1046).
Linha Ininterrupta d e Sucessão Apostólica? • I I I

Mudando de idéia, Benedito voltou a Roma em 1047 e se fez nova­


mente papa. Do mesmo modo agiu Silvestre III. Agora havia três
papas, cada um governando sobre a parte de Roma que era contro­
lada pelo seu exército particular, cada um deles afirmando ser o
“vigário de Cristo” e possuidor das chaves do céu pela virtude da
sucessão apostólica.
Cansando-se daquela situação, os desiludidos e zangados cida­
dãos de Roma apelaram para o Imperador Henrique III, pedindo-
lhe ajuda. Ele marchou até Roma com seu exército e presidiu um
sínodo que depôs todos os três “papas” e instalou o escolhido do
imperador, que se auto-intitulou Clemente II (1046-1047). Mas B e­
nedito não seria despachado assim tão facilmente. Tão logo o exér­
cito do imperador se retirou, ele regressou a Roma e, pela força das
armas, conseguiu governar como papa por mais oito meses (entre
1047 e 1048), até que Henrique voltou e o perseguiu até os montes
da Albânia pela última vez.
Alguém pensaria que a Igreja Católica Romana deveria ficar en­
vergonhada de tais fiascos e apagar a lembrança dos maus papas e
de seus meios fraudulentos, e até violentos de ganhar, perder e reco­
brar o trono papal. Mas apesar de tais rivalidades profanas e de te­
rem seus papados interrompidos (algumas vezes três pessoas afir­
maram ser o papa), todos esses adversários, que reivindicavam o
trono de Pedro, se encontram hoje na lista oficial dos papas do Vati­
cano. (Para ler mais sobre a história dos papas, veja o Apêndice D).
Está claro que ele [o papa] pode errar, mesmo em assuntos rela­
tivos à fé. Ele faz isso quando ensina heresias por seu próprio jul­
gamento ou decreto. Na verdade, muitos pontífices romanos foram
hereges.
- p a p a Adriano VI, 1523[1]
Hereges
Infalíveis?
A grande importância do papado aumenta a necessidade de uma
investigação sobre sua legitimidade. A afirmação de que os papas
são infalíveis quando falam sobre moral e dogma é algo extrema­
mente importante para a Igreja Católica. Se eles não são infalíveis,
a Igreja Católica Romana perde sua liderança única e sua autorida­
de apostólica. Mesmo assim, alguns papas (como Adriano, que já
mencionamos neste livro, e outros) negaram que eles próprios, e os
outros papas, eram infalíveis. Por que não acreditar neles?
Essa declaração do papa Adriano VI vai ainda mais longe. Se
muitos papas foram hereges, então temos outro motivo para afir­
mar que essa linha contínua de “sucessão apostólica desde Pedro”
é inexistente. Para a teologia católica romana, afirmar que o papa,
sendo um ser humano, não é infalível é uma heresia, o que seria
um pecado mortal. Sua conseqüência imediata é a excomunhão
instantânea e automática, [2] segundo afirma o Código de Direito
Canônico (uma compilação de cânones e decretos dos concílios da
Igreja Católica). Um herege é todo aquele que negou a fé e, por is­
so, não pode mais pertencer à Igreja-
Um papa herético não poderia continuar sendo membro da Igre­
ja, muito menos o seu líder. Consequentemente, um herege, mesmo
114 • A Mulher Montada na Besta

sendo papa, não poderia transmitir essa autoridade apostólica ao


seu sucessor. Mesmo assim, a lista oficial da Igreja Católica men­
ciona muitos hereges que foram denunciados como tais, por concí­
lios e pelos outros papas.
Não é de admirar que as teorias da sucessão apostólica e da infa­
libilidade papal só tenham sido propostas muitos séculos após a
morte de Pedro! Quando os papas buscaram alcançar mais poder e
começaram a querer dominar governantes e nações inteiras, essa
era a justificativa que precisavam para perpetuar o seu imperialis- •
mo arrogante e opressivo. Eles já haviam afirmado ser “Deus na
terra” e “vigários de Cristo”, mas isso ainda não era o suficiente.
Então sentiram-se obrigados também a reivindicar sua própria infa­
libilidade.

As Raízes da Infalibilidade
Outros reis e imperadores já haviam afirmado serem deuses, mas
sua ambição se desvanecia à medida que começavam a guerrear
entre si e seus súditos clamavam por mais liberdade. O que faltava
era uma representação infalível da divindade na terra, a quem os
governantes civis pudessem recorrer em suas disputas. Os papas
começaram a atender essa necessidade e, por volta do século XIII,
já haviam se estabelecido como autoridade suprema sobre toda a
Europa. Um importante historiador católico do século XIX descre­
veu como esse monopólio do poder encorajou o despotismo:

...a igreja Católica [desenvolveu] uma atitude suspeita e hostil em


relação aos princípios da liberdade política, intelectual e religiosa, as­
sim como da independência de julgamento... [para que se alcançasse]
o ideal da Igreja [como] um império universal... de força e opressão,
onde a autoridade espiritual é auxiliada por seu braço secular ao su­
primir sumariamente qualquer movimento que a desagrade.
...portanto não poderíamos deixar de salientar ...o lado negro da
história do papado.[3]
Muito do “lado negro da história do papado”, envolvendo esse
“império de força e opressão”, resultou da reivindicação papal de in­
falibilidade. O povo apoiou ardorosamente a idéia, apesar da maldade
dos papas. Afinal de contas, os deuses pagãos também roubavam as
H ereges Infalíveis? * 115
mulheres uns dos outros e viviam desregradamente; então, por que
aqueles governantes religiosos não poderiam fazer o mesmo? Mas é
incrível pensar que o papa, mesmo quando se contradizia violenta­
mente, podia se achar infalível. Apesar de tudo, a fraude continuou.
Esse foi o caso, por exemplo, do papa Clemente XI (1700-1721)
que ungiu o rei Filipe V da Espanha, e logo em seguida o rei Car­
los Hl da Alemanha, ambos com o mesmo título e privilégios, in­
clusive a alta Insígnia da Bula da Cruzada. Como resultado, Carlos
guerreou contra Filipe para exigir a coroa que o papa, aparente­
mente, lhe havia dado. Clemente chegou até mesmo a confirmar
para a mesma diocese dois candidatos diferentes, cada um apresen­
tado por um senhor feudal distinto.
Até poderíamos imaginar que contradições tão visíveis seriam
prova suficiente de que o papa não era infalível. Mesmo assim os
bispos que contestaram o caso de Carlos III, de acordo com um ob­
servador contemporâneo, “confirmaram a infalibilidade do papa,
dizendo que todo cristão é obrigado por sua consciência a aceitar a
última declaração do papa e obedecê-la cegamente, sem indagar as
razões que levaram o papa a fazê-la”.[4] Essa é a ilógica e antibí­
blica, porém absoluta e infalível autoridade papal, que há muito ha­
via sido exigida pelos papas e que se tomou um dogma oficial do
catolicismo romano no Concílio Vaticano 1. Esse Concílio foi con­
trolado por Pio IX (1846-1878), ao ponto de tomar a submissão ao
papa um requisito para a salvação:

Se, portanto, alguém disser que o bendito apóstolo Pedro não foi
nomeado o príncipe de todos os apóstolos e o cabeça visível de toda
a Igreja militante, ou que o mesmo recebeu direta e imediatamente
de nosso Senhor Jesus Cristo apenas o primado de honra e não de
jurisdição verdadeira e própria [sobre toda a Igreja], que seja anáte­
ma [excomungado e, portanto, condenado]!
Cerca de 300 anos antes, em 1591, o cardeal jesuíta Roberto
Bellarmine, cuja lealdade ao papa era absoluta, havia declarado
que qualquer mandamento do supremo pontífice deveria ser aceito
e obedecido, não importando o quão maligno ou ridículo fosse.
Obviamente ele não conseguiu apresentar apoio algum, seja bíbli­
co, lógico ou da tradição, para uma visão tão extremista, que aca­
bava com a responsabilidade moral da pessoa diante de Deus, tão
1 1 6 * A Mulher Montada na Besta

claramente ensinada na Escritura e reconhecida em cada consciên­


cia humana,
O padre franciscano Peter Olivi fez uma das primeiras tentativas de
estabelecer a infalibilidade papal. Sua principal motivação foi o
egoísmo. O papa Nicolau ÍII (1277-1280) tinha favorecido os francis-
canos ao declarar que “a renúncia comunitária de propriedade era um
possível caminho para a salvação”.[5] (O catolicismo romano vinha
há muito ensinando a salvação pelas obras, como o faz ainda hoje).
Desejando tomar incontestável a decisão do papa em favor de si
mesmo e de seus companheiros franciscanos, Olivi propôs que os
pronunciamentos papais fossem considerados infalíveis. Um papa
poderia levar a vida mais dissoluta possível, assassinando rivais,
saqueando cidades, massacrando seus habitantes (como fizeram
muitos papas), e negando a Cristo diariamente através de seus atos
abomináveis. Mesmo assim, se, e quando, ele fizesse um pronun­
ciamento à Igreja sobre fé e m o ra l, estaria alegadamente sob a ins­
piração do Espírito Santo, e desse modo tudo o que dissesse seria
considerado infalível.
A espantosa proposta de Olivi era um afastamento total da tradi­
ção da Igreja. Até então poucos papas haviam se atrevido a verem a
si mesmos como infalíveis, porém a tentação do ego humano de
abraçar tal tolice é grande, em especial para os que são tão altamente
reverenciados e venerados. O teólogo católico Hans Küng escreve:

Com relação à origem da doutrina romana da infalibilidade...


[ela] não se "desenvolveu" ou "desdobrou" vagarosamente, mas foi
criada num passe de mágica no final do século Xíll [por] um excêntri­
co franciscano, Peter Olivi (falecido em 1298), repetidamente acusa­
do de ser herético. A princípio ninguém levou a sério aquela idéia de
OI ivi... Os canonistas medievais... jamais haviam afirmado que a
Igreja precisasse de um cabeça infalível para preservar sua fé... [E] o
ataque da crítica moderna aos princípios da infalibilidade têm o
apoio da Escritura e do corpo da tradição católica.[ó]

“Uma Obra do Diabo”


A idéia do Olivi foi logo denunciada por um pontífice, o qual
decidiu executar uma terrível vingança contra os franciscanos. O
Hereges Infalíveis? • 117

papa João XXII (1316-1334) tinhas suas próprias razões para negar
a infalibilidade papal. Não fossem os franciscanos os maiores
egoístas, João teria aceitado a idéia como útil aos seus propósitos.
Entretanto, ele odiava os franciscanos por causa do voto de pobre­
za que faziam, o qual condenava o seu estilo de vida extravagante.
Ele havia amealhado uma imensa fortuna ‘"explorando os pobres,
vendendo ofícios de clérigos, indulgências e perdões divinos”.[7]
João XXII condenou veementemente como heresias, tanto o modo
franciscano de vida como a comenda de Nicolau III
Para justificar o fato de estar contradizendo outro papa, João es­
creveu sua bula Qui quorundam (1324), uma afirmação dogmática
de doutrina feita a toda a Igreja e, portanto, infalível pelas regras
de hoje. Nela João XXII rejeitava a doutrina da infalibilidade papal
classificando-a de “uma obra do diabo”.
Embora fosse seguidamente apontado como um exemplo de um
verdadeiro herege, João XXII continuou no “santo ofício” por 18
anos, praticando suas maldades e seu nome vergonhosamente per­
manece até hoje na lista oficial dos “vigários de Cristo” do Vati­
cano. Ele foi descrito por um historiador católico como sendo
“cheio de avareza, mais mundano do que um cafetão e com um
risada que ressoava com uma comprovada malícia”.[8] Mesmo as­
sim, ele é um elo essencial na suposta linha da sucessão apostó­
lica desde Pedro, da qual o representante legítimo atual é João
Paulo II.

O Herege dos Hereges Papais


O predecessor de João XXII, Clemente V, havia distribuído toda
a fortuna da Igreja entre seus parentes, deixando o tesouro vazio.
Isso levou o novo papa a buscar uma desforra. Ele fixou um preço
para tudo, incluindo absolvição de pecado e salvação eterna. As­
sim, o cálice empunhado pela mulher montada na besta foi nova­
mente cheio com lucro sujo adquirido por meios abomináveis, exa­
tamente como o apóstolo João previu em sua notável visão.
João XXII publicou uma lista de crimes e pecados graves, junto
com o preço individual de cada um, pecados esses de que somente
ele - como vigário de Cristo e cabeça da única Igreja verdadeira -
poderia absolver os transgressores. A lista não deixava nada de fo­
ra, incluindo desde assassinato até pirataria, incesto, adultério e so-
118 • A Mulher Montada na Besta

domia. Quanto mais rico alguém fosse, mais poderia pecar. E


quanto mais os católicos pecavam, mais rica a Igreja se tomava.
Grande parte da riqueza adquirida desse modo foi gasta com a
paixão de João XXII pelas guerras. Um dos seus contemporâneos
escreveu: “O sangue que ele derramou teria tingido de vermelho as
águas do lago Constança [que é extremamente grande], e, se colo­
cados lado a lado, os corpos dos assassinados iriam de uma mar­
gem à outra”.[9]
A doutrina favorita de João XXII era igual à que é mais popular­
mente pregada na maioria dos programas de rádio e TV cristãos
atuais: Jesus Cristo e Seus apóstolos teriam sido homens de grande
riqueza. E foi isso que ele declarou na bula papal Cum inter non-
nullos (1323). Negar tal dogma era uma heresia passível de morte.
João exigia que os dirigentes seculares queimassem na fogueira os
franciscanos que fizessem voto de pobreza. Os que se negassem se­
riam excomungados. Durante seu pontificado ele entregou mais de
114 franciscanos à Inquisição, os quais foram consumidos pelas
chamas por causa da heresia de viverem propositadamente na po­
breza, como Cristo havia feito. Assim, tomou-se um dogma católi­
co romano oficial que Jesus e Seus discípulos eram homens de
considerável riqueza e que todos os cristãos deveriam ser igual­
mente ricos - um dogma que foi repudiado por outros papas.
Tais heresias papais e as condenações mútuas fazem parte da
história do papado, a qual os católicos devem encarar honestamen­
te. E os protestante também. Aqueles que admiram João Paulo II
devem se dar conta que a posição que ele ocupa e a autoridade es­
pecial que reivindica são resultado de uma longa sucessão de cri­
minosos e hereges, os quais ele e sua Igreja ainda honram como os
“vigários de Cristo” do passado.

O Herege Santo
Milhões de católicos, de quem a verdade histórica tem sido ocul­
tada, olham para João XXII como um homem excepcionalmente
santo. Não foi ele favorecido sobre todos os papas por “N. S. do
Carmo” em uma de suas raras aparições? O papa João jurou que a
“virgem Maria” apareceu para lhe fazer uma grande promessa: ela
iria pessoalmente ao purgatório, no primeiro sábado depois de al­
guém ter falecido e levaria para o céu todos os que, tendo cumpri-
H ereges Infalíveis? ♦ 119

do certas condições, morressem usando o seu escapulário marrom.


Confiando nesse privilégio sabático especial, o qual foi confirmado
por outros papas, um incontável número de católicos desde então
têm usado o escapulário de “N. S. do Carmo” como uma espécie
de “bilhete de entrada para o céu”.
João XXII acabou sendo denunciado como herege pelo impera­
dor Luiz da Bavária, que o depôs, colocando outro papa em seu lu­
gar. Mas o expurgo papal feito pelo imperador tomou-se algo em­
baraçoso. Logo depois que o novo papa assumiu o seu ofício, sua
esposa apareceu. O imperador então decidiu que João XXII não era
tão mau assim. Pois, como Peter de Rosa sarcasticamente observa,
embora João, como a maioria dos papas, tivesse filhos ilegítimos,
“ele jamais havia cometido o pecado do matrimônio”. Tal sarcas­
mo, embora vindo de um historiador católico, pode parecer desa­
gradável a princípio, mas é um fato totalmente comprovado. O
atual Código de Direito Canônico, no cânon n.° 1394, refere-se ao
casamento como um “escândalo” para um padre, porém tais pala­
vras ásperas não são usadas para descrever pecados dos quais os
padres, mesmo hoje em dia, são frequentemente culpados, como:
molestar crianças, ter uma amante, ser homossexual, etc.
Reinstalado como papa, os pronunciamentos heréticos de João
XXII tomaram-se tão odiosos, que somente a morte o salvou de ser
novamente removido do papado. Mesmo assim, ele ainda figura na
longa lista dos supostos sucessores de Pedro, através da qual João
Paulo II recebeu sua autoridade. '
Em 896, Estevão VII (896-897) mandou que o cadáver do seu
antecessor, Formoso (891-896), fosse exumado depois de estar en­
terrado por oito meses. Trajando suas antigas vestes papais e colo­
cado num trono, na câmara do concílio, o cadáver foi “julgado” e
culpado de ter coroado como imperador um dos muitos descenden­
tes ilegítimos de Carlos Magno. De fato, houve muitos casos de pa­
pas que eram, eles próprios, filhos ilegítimos de pontífices anterio­
res. Eles eram, portanto, reinvidicadores ilícitos ao trono de Pedro
e, por conseguinte, incapazes de transmitir aos seus sucessores a
autoridade apostólica.
Tendo sido condenado pela papa Estevão VII, o cadáver do ex­
papa Formoso foi estripado, os três dedos da sua mão direita, usa­
dos para dar a bênção, foram decepados e o resto entregue à multi­
dão que o arrastou pelas ruas e o atirou no rio Tibre, Os pescadores
120 • A Mulher Montada na Besta

deram-lhe um enterro decente. O papa Estevão VII declarou, então,


que todas as ordenações de Formoso eram inválidas, criando um
problema que assombra a Igreja Católica ainda hoje.
Formoso havia ordenado muitos padres e bispos, os quais, por
sua vez, também ordenaram multidões de outros, que, por sua vez,
fizeram o mesmo. Então uma questão permanece aberta e insolú­
vel: quais os padres, bispos, arcebispos e cardeais do presente que
podem ser descendentes daqueles ordenados por Formoso e portan­
to, não têm autoridade apostólica genuína? E quanto àqueles que
foram ordenados pelos muitos outros papas hereges? E o fato de
Formoso também permanecer naquela lista oficial do Vaticano dos
“vigários de Cristo”, assim como o papa que exumou seu corpo e o
denunciou mesmo depois de morto?
O papa Sérgio III concordou com Estevão VII ao declarar que
todas as ordenações feitas por papas hereges eram inválidas - o
que, sem dúvida, seria lógico tendo em vista a excomunhão auto­
mática, que como já vimos antes, acompanha a heresia. Em Cum
ex Apostolatus officio, o papa Paulo IV declarou “pela plenitude do
poder papal” que todos os atos dos papas hereges eram nulos e in­
válidos. Essa declaração infalível deixa a “sucessão apostólica” em
ruínas.

Concílios Superiores aos Papas


Virgílio, um inescrupuloso ex-oticial romano, tomou-se uma
pessoa ainda pior quando foi alçado ao papado (537-555). Ele mu­
dava de idéia sobre a doutrina cada vez que o imperador exigia.
Finalmente acabou sendo declarado herege e excomungado pelo
Quinto Concílio Geral (553), quando foi convocado pelo impera­
dor Justiniano a comparecer em Constantinopla. (Ninguém duvi­
dava que a autoridade do Concílio estava acima da autoridade pa­
pal).
Exilado pelo imperador, Virgílio confessou seus erros e alegou
ter sido enganado pelo diabo. Mesmo assim, o seu reinado assenta­
do no suposto trono de Pedro foi um dos mais longos da história do
papado. Mais de um papa foi condenado como herege pelo concí­
lio da Igreja. O Concílio de Constança (1414-1418) depôs três pa­
pas, çada um deles afirmando ser o único e legítimo “vigário de
Cristo” e excomungou os outros dois. (Veja o Apêndice D)
Hereges Infalíveis? • ÍZt

O papa Honório (625-638) foi condenado como herege pelo


Sexto Concílio Ecumênico (678-687). Durante séculos cada novo
papa que tomava o posto era exigido a declarar, sob juramento, que
Honório havia sido um herege e que o Concílio agiu corretamente
ao condená-lo. Mesmo assim, ele também permanece na lista ofi­
cial dos sucessores de Pedro!
A ação do Sexto Concílio Ecumênico, confirmada pelos papas
subseqüentes, durante séculos foi considerada como prova de que
os papas não eram infalíveis. Mesmo assim, um déspota volunta­
rioso, Pio IX, através de ameaças e da manipulação, engendrou
uma confirmação da infalibilidade papal retificada em 1870, pelo
Concílio Vaticano I.

Contradições, Contradições
Duas pessoas que sustentam opiniões contrárias não podem estar
ambas certas. Mesmo assim, os papas têm quase transformado em
sua ocupação constante o hábito de contradizerem as declarações
importantes uns dos outros. Agapeto (535-536) queimou o anátema
que Bonifácio II (530-532) havia solenemente emitido contra Diós-
corus (530). O último é apresentado como um antipapa, mas Aga­
peto, que esteve do lado dele, é mostrado como um papa verdadei­
ro. Adriano II (867-872) disse que os casamentos civis eram váli­
dos; Pio VII (1800-1823) declarou-os inválidos. Ambos foram
declarados papas legítimos. Nicolau V (1447-1455) anulou “docu­
mentos, processos, decretos e censuras contra o Concílio [da Basi­
léia]” assinados por Eugênio IV, que deviam “...ser considerados
como jamais existentes”.[10] Mesmo assim, ambos permanecem
na lista oficial dos papas até hoje.
No dia 21 de julho de 1773, o papa Clemente XIV emitiu um de­
creto acabando com os jesuítas, entretanto mais tarde, em 7 de
agosto de 1814, um decreto que os restaurava foi emitido pelo pa­
pa Pio VII. Eugênio IV condenou Joana d’Arc (1412-1431) a ser
queimada na fogueira como bruxa e herege, porém ela foi beatifi-
cada por Pio X (1903-1914) em 1909 e canonizada por Benedito
XV (1914-1922) em 1920. Hoje, dentro da catedral de Notre Da­
me, uma das imagens mais populares é a da santa Joana d’Arc, a
“heroína nacional da França”, com uma grande quantidade de velas
sempre queimando diante de si. Como pôde um “papa infalível”
122 • A Mulher Montada na Besta

condenar uma santa à morte, como bruxa e herege? Mesmo assim


Eugênio IV permanece na lista dos supostos infalíveis “sucessores
de Pedro”.
A história nega definitivamente tanto a sucessão apostólica co­
mo a infalibilidade. E, de fato, muitos papas também negaram a
própria infalibilidade, dentre eles Virgílio (537-555), Clemente IV
(1265-1268), Gregório XI (1370-1378), Adriano VI (1522-1523),
Paulo IV (1555-1559) e até Inocêncio III (1198-1216), que gover­
nou a Europa com mão de ferro. Então, por que estava o papa Pio
IX tão determinado a imortalizar essa fraude tão óbvia como um
dogma oficial?
Por um motivo muito especial: a infalibilidade foi a proposta fi­
nal e desesperada com a qual Pio IX esperava sustentar a estrutura
do domínio católico romano (sobre os governantes do mundo e
seus cidadãos), que havia entrado em colapso. Para estabelecer es­
se dogma de uma vez por todas, ele convocou o Concílio Vaticano
I, no dia 8 de dezembro de 1869.
Essas opiniões falsas e perversas [de democracia e liberdade in­
dividual] são por demais detestáveis pelo muito que elas... obs­
truem e banem a influência salutar que a Igreja Católica, por insti­
tuição e mandamento do seu divino Autor, deveria exercer livre­
mente, até a consumação do mundo, não apenas sobre os
indivíduos, mas [sobre] nações, povos, e soberanos.
- papa Pio IX em Quanta Cura (8/12/1864)

Venho proclamar... a mensagem da dignidade humana, com seus


direitos humanos inalienáveis... [como] um peregrino na causa da
justiça e da paz... como um amigo dos pobres... que esperam en­
contrar... o profundo significado da vida, da liberdade e estando em
busca da felicidade.
- o papa João Paulo II, em Miami (10/9/1987), no discurso ofi­
cial de sua “Segunda Visita Pastoral” aos Estados Unidos[l]
Infalibilidade e
Tirania
Era qual das declarações contraditórias dos dois papas, trans­
critas na página anterior, devemos acreditar? Pio IX está apenas
reafirmando a supressão dos direitos humanos básicos, algo que
seus predecessores reforçaram reiteradamente, cora o objetivo de
trazer toda a humanidade sob a absoluta autoridade da Igreja Ca­
tólica Romana. João Paulo II gostaria que acreditássemos que a
sua Igreja sempre foi, e continua sendo, a maior defensora das
liberdades básicas do ser humano. Ele parece tão sincero. Mes­
mo assim, contradiz a consistente voz do papado e os dogmas
de sua Igreja através dos séculos - dogmas que continuam vi­
gorando plenamente.
O regime de governo americano, que João Paulo D elogiou fre­
quentemente durante sua viagem aos Estados Unidos em 1987[2],
foi muitas vezes criticado pelos papas anteriores. Será que Roma
mudou? Ela se gaba de jamais mudar. Ao mesmo tempo em que
apregoa a liberdade, o papa atual disse que para ser um bom católico
“é necessário seguir os ensinos de nosso Senhor expressos através
da Igreja”.[3] Ele está dizendo que os católicos sinceros não podem
aprender diretamente com as próprias palavras de Cristo, porém de­
vem aceitar a explanação oficial da Igreja. É a mesma negação da li­
126 • A Mulher Montada na Besta

berdade de consciência e responsabilidade moral de um indivíduo


diante de Deus que Roma tem perpetuado através da história.
João Paulo II quer que acreditemos que ele e sua Igreja são os
maiores defensores da liberdade. Mesmo assim, já citamos inúme­
ros exemplos que demonstram como Roma tem se colocado per­
manentemente contra os direitos humanos. Caso haja uma mudan­
ça, será necessário que seja feito um pedido claro de perdão pelos
longos séculos de supressão dos direitos humanos perpetuada pelos
papas anteriores e sua Igreja. Como pode o atual papa posar de
amigo dos oprimidos sem denunciar como um terrível erro o assas­
sinato de milhões de pessoas simplesmente porque abraçaram a
doutrina da graça de Deus e por essa “heresia” foram anatematiza­
das por Roma?

Registro Histórico de Supressão


Em contraste ao seu elogio, feito diante das audiências de maio­
ria católica na América Latina, às liberdades básicas na América
do Norte, João Paulo II rejeita os protestantes e a idéia de que os
homens devem ser livres para professar uma religião. A opressão, a
perseguição e talvez o martírio dos que recusaram fidelidade a Ro­
ma tem sido a sua política. Por exemplo a Concordata entre Pio IX
e o Equador, assinada em setembro de 1862, estabelecia o catoli­
cismo romano como a religião estatal e proibia outras religiões na­
quele país. Toda a educação devia ser “controlada rigidamente pela
Igreja”. Uma lei posterior declarava que “somente os católicos po­
deriam ser vistos como cidadãos no Equador” .[4]
Em 1863 a Colômbia tomou o rumo oposto, estabelecendo a li­
berdade religiosa e reduzindo o monopólio sobre a educação e os
privilégios usufruídos pelo catolicismo romano. O papa Pio IX rea­
giu com raiva. No dia 17 de setembro daquele ano, numa encíclica
intitulada Incredibili Afflictamur, ele ironizou as leis “nefastas e
iníquas demais” que a Colômbia havia posto em prática, citando
especialmente o mal de permitir “adoração em seitas não-católi­
cas”. A pena papal asseverou sua autoridade sobre toda a nação, in­
clusive o direito de anular as leis do país:

Nós, com autoridade apostólica, denunciamos e condenamos to­


das essas leis e decretos com todas as suas consequências e, pela
Infalibilidade e Tirania ♦ 127

mesma autoridade, revogamos essas leis e as declaramos inteiramen­


te nulas e sem poder algum.
A Colômbia ignorou o papa naquela ocasião. Porém, em 1948,
um novo governo pró-católico subiu ao poder. Sua Concordata com
o Vaticano instituiu a mesma supressão antes exigida por Pio IX.
Durante os dez anos seguintes, uma grande quantidade de cristãos
não-católicos foram assassinados por causa de sua fé, centenas de
igrejas evangélicas foram derrubadas e queimadas, cerca de 200 es­
colas protestantes foram fechadas e o trabalho evangelístico protes­
tante foi proibido na maior parte do país.[5] Ainda hoje os evangé­
licos continuam sendo mortos por sua fé no México e outras partes
da América Latina. Lares e igrejas foram destruídos e cerca de dez
mil crentes indígenas foram expulsos de suas vilas e campos ape­
nas na região de Chiapas, no México.
João Paulo II não está sendo honesto conosco. A evidência his­
tórica (e não somente do passado distante) é abundante em testifi­
car que o catolicismo romano suprime as liberdades básicas quan­
do, onde e sempre que pode. A afirmação da infalibilidade papal é
usada como justificativa para essa tirania, algo que os pontífices ro­
manos têm expressado e reforçado repetidamente em nome de
Cristo, alegando serem Seus vigários. Este é o testemunho de Von
Dollinger, um católico devoto:

A vida toda desse homem [o papa], a partir do momento em que é


colocado no altar para receber a primeira homenagem no beija-pés,
será marcada por uma corrente contínua de adulações.
Tudo é expressamente calculado para fortalecê-lo na crença de
que entre ele e os outros mortais existe um abismo intransponível e,
quando envolvido na nuvem de fumaça e incenso perpétuo, até mes­
mo o caráter mais firme é levado a ceder a uma tentação que vai
além da capacidade humana de resistência.[ó]
O Triunfo da Santa Sé e da Igreja Sobre os Ataques dos Inova­
dores, escrito pelo papa Gregório XVI (1831-1846) é um desses
exemplos, entre muitos outros. Sua tese principal era que os papas
deviam ser infalíveis para assumir o ofício de um verdadeiro mo­
narca. Como senhores absolutos sobre a Igreja e o Estado, Gregó­
rio rejeitou a liberdade de consciência não apenas dentro da Igreja,
128 * A Mulher Montada na Besta

mas na sociedade como um todo, chamando-a de “um conceito fal­


so e absurdo”. A liberdade de imprensa equivalia à loucura.
O sucessor de Gregório foi Pio IX, que convocou o Vaticano I.
Ele tinha o mesmo pensamento com relação às mais elementares li­
berdades humanas. Os papas haviam declarado abertamente a opo­
sição de Roma aos Estados Unidos e à sua constituição, que garan­
tia a liberdade desde o momento do nascimento dessa nação. Pio
IX fez o mesmo. O periódico Catholic World [Mundo Católico] ex­
pressou francamente o ponto de vista católico romano sobre a for­
ma de governo dos Estados Unidos:

...não o aceitamos, nem o apoiamos como governo de modo al­


gum... Se a República Americana deve ser sustentada e preservada,
deve ser pela rejeição do princípio da Reforma e aceitação do princí­
pio católico. [7]

Desprezo pela Vida Humana


É um registro histórico inquestionável que os papas despreza­
vam a vida humana, assim como a liberdade. O papa Gregório
IX (1227-1241) declarou ser dever de todo católico “perseguir
os hereges”. Um herege era todo aquele que não fosse fiel à
Igreja Católica Romana. Tais pessoas deveriam ser torturadas,
aprisionadas e assassinadas. Deslealdade ao papa era o mesmo
que traição, já que a Igreja e o Estado estavam tão interligados.
Peter de Rosa escreve: “do século XIII em diante, nenhum den­
tre os 80 papas seguintes desaprovou a teologia e o aparato da
Inquisição. Pelo contrário, um após o outro, foram acrescentan­
do seus próprios toques de crueldade aos operadores dessa má­
quina mortífera”. [8]
Não foi apenas a Inquisição que ceifou os direitos e a vida das
pessoas. De Rosa nos recorda que mesmo antes dessa horrenda ins­
tituição, “durante mais de seis séculos, o papado foi ininterrupta­
mente um inimigo declarado da justiça” . Cerca de 400 anos antes
da Inquisição ser iniciada por Gregório IX, o papa Nicolau I (858­
867) encorajou o rei da Bulgária, um novo convertido ao que ele
imaginava ser “cristianismo”, a impor a religião de Roma aos seus
súditos:
Infalibilidade e Tirania • 129

Eu o glorifico por ter mantido sua autoridade ao condenar à morte


as ovelhas desgarradas que se recusam a entrar no rebanho; e... o
congratulo por ter aberto o reino do céu para o povo submisso ao
seu governo.
Um rei não deve ter medo de ordenar massacres quando estes
mantêm seus súditos em obediência ou os leva a submeter-se à fé em
Cristo; Deus o recompensará neste mundo, e na vida eterna, por tais
as$assÍnatos.[9]
Tal declaração parece uma incrível relíquia da Idade das Trevas,
mas podemos citar muitas outras parecidas feitas pelos papas.
Lembrem-se que eles, que toleraram e praticaram a perseguição,
tortura e massacre contra todos que se recusaram a prestar-lhes fi­
delidade, eram os supostos sucessores infalíveis de Pedro e ante­
cessores do papa atual. Eles são peças essenciais na longa linha de
sucessão papal, dos quais João Paulo II recebeu sua autoridade e
poder. Porém, em momento algum o Vaticano reconheceu o mal
praticado pelos papas do passado ou se desculpou por isso.
No tempo de Pio IX a opinião pública estava se voltando contra
os papas em razão de seu exagerado totalitarismo. As idéias revo­
lucionárias de liberdade de imprensa, de religião, de consciência e
do direito do povo de escolher seus governantes e a separação entre
a Igreja e Estado, que fora estabelecida pela constituição dos Esta­
dos Unidos, também estavam ganhando espaço em toda a Europa.
Esse novo “clima” de liberdade amedrontava Roma e precisava ser
sufocado em nome de Cristo. Pio IX estava determinado a conti­
nuar com o governo autocrático romano em parceria com os gover­
nos seculares igualmente autoritários. Para proteger os poderes di­
tatoriais de Roma, a infalibilidade papal precisou ser estabelecida
como uma doutrina oficial e aceita universalmente.

Desprezo pela Verdade e Liberdade


Em seu livro La Inquisición Espanola, Gerard Dufour nos lem­
bra que “o primeiro artigo do primeiro título da constituição [espa­
nhola] proclamava que a religião Católica Apostólica Romana, na
Espanha e em todas as possessões espanholas, deve ser a religião
do rei e da nação e nenhuma outra deverá ser permiti da”.[10] O
mesmo aconteceu na América Latina. Comte Le Maistre, em sua
130 ♦ A Mulher Montada na Besta

defesa da Inquisição espanhola, escreve que num “país católico,


um homem pode acalentar [em sua mente] qualquer opinião que
desejar, religiosa ou não”, mas “deve guardá-las para si mesmo”,
ou então “será levado ao tribunal [da Inquisição]”.[11] .
A constituição dos Estados Unidos foi condenada pelo papado
porque separou a Igreja do Estado e proibiu o estabelecimento de
qualquer religião pelo governo. Os papas, por outro lado, vinham há
muito exigindo que os governos fizessem do catolicismo romano a
religião oficial e proibissem a prática de qualquer outra crença. Em
seu Syllabus Errorum de 1864, o qual, para sermos justos, até conti­
nha alguma verdade, Pio IX condenou veementemente a crença de
que “todo homem é livre para professar a religião que ele considere
verdadeira...”[12] O Syllabus decretou a união da Igreja com o Esta­
do, dizendo que o catolicismo romano deve ser a religião estatal em
todos os lugares e que ela deve usar a força para impor a obediên­
cia, que não há esperança alguma de salvação fora da Igreja Católi­
ca Romana, etc. Esse documento jamais foi rejeitado ou alterado e
permanece até hoje como uma crença da Igreja Católica Romana,
embora não possa ser aplicado em muitos países.
Tomemos um exemplo típico do modo como era imposta a
Constituição Espanhola, que foi inspirada no catolicismo. Em abril
de 1863, três espanhóis, Matamoros, Trigo e Alhama foram julga­
dos e condenados por assistir a cultos protestantes. A sentença foi
severa: nove anos para Alhama e Matamoros e sete anos para Tri­
go, que deveriam ser cumpridos, sem descanso, nas galerasl Esse é
apenas um dos milhares de exemplos de como a Igreja usou o seu
“braço secular” para forçar o cumprimento dos seus decretos na su­
pressão do direito humano de adorar a Deus de acordo com a pró­
pria consciência. Para ser fiel aos seus dogmas básicos e imutáveis,
Roma ainda hoje forçaria uma negação semelhante dos direitos ci­
vis em todo mundo, se tivesse poder para fazê-lo.
A morte em vida nas galeras, onde ao menos existia a esperança
de haver algum livramento caso a pessoa conseguisse sobreviver,
não era a pior das punições. Há muito que os papas haviam decre­
tado a pena de morte por “desviar-se da fé”, não apenas através das
inquisições sobre assuntos religiosos, mas como parte do seu go­
verno civil sobre os vastos territórios conhecidos como Estados pa­
pais. Por exemplo, Clemente XII (1730-1740) tinha especificamen­
te decretado a pena de morte para os membros da maçonaria ou até
Infalibilidade e Tirania • 131

mesmo por alguém “oferecer ajuda, socorro, conselho ou abrigo a


qualquer um de seus membros” .[13]

Pretensões à Onipotência
A luta da Igreja Católica Romana contra os protestantes envolvia
mais do que simplesmente razões religiosas. A Reforma ia espa­
lhando em larga escala o que havia sido suprimido com sucesso
por mais de 1000 anos: liberdade de consciência e os direitos hu­
manos básicos. O desejo de liberdade civil entre o povo ia firman­
do suas raízes e se expandindo por toda parte. Nada era mais odio­
so para o Vaticano, pois a liberdade civil ameaçava os seus funda­
mentos. Como escreveu um historiador do século XIX sobre o
papa Clemente XII (1730-1740):

Tão logo se assentou no trono do apóstolo, assim como seu prede­


cessor [Benedito XII, 1724-1730], ele declarou ser um inimigo das
idéias democráticas, as quais estavam se infiltrando em todas as clas­
ses sociais, anunciando suas pretensões à onipotência e se estabele­
cendo como um pontífice da Idade Média.[14]
Cerca de 50 anos depois, Thomas Jefferson parabenizou os cida­
dãos americanos por terem abolido a “intolerância religiosa sob a
qual, durante muito tempo, a humanidade havia sangrado e sofri­
do”. Ele os desafiou dizendo que “a razão pública, a liberdade de
religião e a liberdade de imprensa” deviam ser preservadas. Tais li­
berdades eram fruto da Reforma. Aproximadamente 100 anos de­
pois de Jefferson, Pio IX ainda continuava esperando que o oposto
ocorresse: o crescimento do catolicismo romano em solo america­
no, que poderia acabar transformando os Estados Unidos num país
católico. Dessa maneira todos os seus cidadãos poderiam benefi­
ciar-se das bênçãos do governo romano. [15]
O Segundo Concílio Nacional de Hierarquia Católica Romana
dos Estados Unidos foi realizado em Baltimore, em outubro de
1866. Presidido pelo arcebispo Spalding, de Baltimore, o “delega­
do apostólico” que representava o papa, o Concílio frisou a dife­
rença entre o sistema de governo protestante, como o dos Estados
Unidos, e o sistema católico, típico dos países da América Latina.
Foi dito que o primeiro devia sua direção e poder ao voto do povo,
132 • A Mulher Montada na Besta

enquanto o outro olhava unicamente para o papa, em obediência à


sua direção e autoridade. Um comentarista observou:

Os dois sistemas estão em antagonismo direto. O sistema protes­


tante separou o Estado da Igreja; o propósito papal é juntá-los nova­
mente. O protestante fundou suas instituições civis baseadas na von­
tade do povo; os propósitos papais são reconstruí-las fundamentado
na vontade do papa. O protestante assegura a liberdade religiosa; o
papai exige que todo homem entregue sua consciência à guarda dos
superiores eclesiásticos.[ló]
O Concílio Nacional da Hierarquia Católica Romana, embora
composto por americanos supostamente leais à sua nação, expres­
sou unanimemente sua preferência pela forma católica de governo
e sua absoluta submissão à autoridade papal. Naquela ocasião foi
enviado um telegrama a Pio IX, desejando-lhe “vida longa, com a
preservação de todos os antigos e sagrados direitos da Santa Sé”. O
papa ficou tão grato com tal expressão de lealdade da América, que
o publicou na Itália como um exemplo para que os seus súditos re­
beldes pensassem a respeito. [17] Apesar de Pio IX ter planejado o
Vaticano I e de sua declaração sobre a infalibilidade papal, mesmo
assim o império papal na Itália estava desabando.

Ventos de Liberdade
Em 1861, o recém-formado reino da Itália, tendo o rei Vittorio
Emanuele II como seu líder, fez de Roma sua capital, embora o pa­
pa e suas forças militares ainda a controlassem e dirigissem. Foi a
primeira vez que a Itália, por tanto tempo refém dos poderes euro­
peus, se uniu sob um governante italiano. Uma multidão juntou-se
ao longo do Corso, gritando: “Viva a Itália! Viva Vittorio Emanue­
le” ! A polícia papal imediatamente abriu fogo contra eles.
O poder absoluto havia corrompido totalmente o papado, e o po­
vo da Itália estava determinado a se livrar daquele jugo. Um impor­
tante líder italiano daquele tempo escreveu que o tribunal da Santa
Inquisição continuava em plena atividade e que “seu poder secre­
to... foi sentido não apenas nas questões religiosas, mas em todas
as outras..,. Sob tal sistema, o homem que tivesse assassinado ou
saqueado outro nada teria a temer da justiça papal”, contanto que
Infalibilidade e Tirania * 1 3 3

não defendesse a liberdade humana “e fosse um adepto fiel do po­


der temporal [do papa]”.[18] Em 1864, quando redigiu Quanta Cu­
ra, Pio IX denunciou o que ele chamou de:

uma opinião errônea muito perniciosa para a Igreja Católica e pa­


ra a salvação das almas, chamada de insanidade (deliramenfum) pe­
lo nosso antecessor, Gregórío XIV, ou seja: "a liberdade de consciên­
cia e de adoração é o direito peculiar (ou inalienável} de todo ho­
mem, a qual deveria ser proclamada por lei, e que os cidadãos têm
o direito de... expressar suas idéias aberta e pubiicamente, seja por
palavras, pela imprensa ou por quaisquer outros meios".[19]
Alguém poderia indagar como essa declaração, feita por um pre­
decessor de João Paulo II, poderia ser conciliada com as afirma­
ções atuais do papa, afirmando que Roma é, e tem sido, a maior
defensora da liberdade humana. Em que buraco negro de sua mente
as pessoas escondem os fatos óbvios, para poderem acreditar que a
Igreja Católica endossa os direitos humanos básicos? Quantos ca­
tólicos sinceros são enganados porque as autoridades da Igreja pa­
recem tão convincentes? Quando um artigo do Catholic World cre­
ditou à Igreja Católica o fato de ter dado à Inglaterra a grande carta
de direitos humanos, a Magna Carta, quantos leitores sabiam que
Roma havia em verdade feito todo o possível para destraí-la?[20]

Resistindo à Ditadura
As revoluções francesa e americana no século anterior haviam
acendido uma centelha de ressentimento contra os governantes auL
tocratas, a qual se transformou em chama através da Europa. Ne­
nhum monarca era mais ditatorial do que o próprio papa. Pio IX
ainda reinou como “rei de Roma” e seus arredores, do mesmo mo­
do que tinham feito durante séculos sobre todos os Estados papais.
O anseio crescente pela democracia era uma ameaça à autoridade
papal, ameaça que o Vaticano I poderia certamente derrubar com a
sua dogmática declaração da infalibilidade papal. Isso, segundo o
papa esperava, encerraria o assunto.
No ano anterior à encíclica de Pio IX (como preparação ao Vati­
cano I), parcialmente mostrada acima, o próprio Abraão Lincoln
havia se referido aos mesmos itens em Gettysburg. Não poderia ha-
134 • A Mulher Montada na Besta

ver desacordo maior entre dois homens. As palavras de Lincoln,


que pretendia levar a nação a se unir naquela crise, eram ao mesmo
tempo uma repreensão, embora provavelmente não intencional, aos
dogmas básicos existentes sob o catolicismo e a tirania papal. Nem
poderia Pio IX ter ignorado a famosa Declaração de Gettysburg, de
maneira que suas palavras só poderiam ser observadas como uma
resposta dura à declaração de Lincoln:

que a partir dessas mortes honrosas possamos aumentar a devo-


çâo pela causa à qual eles demonstraram sua tota! dedicação - que
possamos entender que elas não foram em vão - e que este país,
sob a direção de Deus, verá o renascimento da liberdade; que o
governo do povo, peio povo e para o povo não venha a perecer
sobre a terra.
O ideal de Lincoln era a antítese do catolicismo romano. Muitos
papas haviam procurado evitar tal liberdade, mas nada poderia de­
tê-la na América ou em qualquer lugar. Também o povo italiano,
cansado dos monarcas tirânicos da França, Alemanha e Áustria, es­
tava lutando pela independência. E apesar do seu fervor religioso,
não deixou de dar-se conta que havia sido o maior inimigo da li­
berdade. Um herói militar na luta pela independência apelou aos
seus companheiros italianos, dizendo:

Antes de lutar contra o inimigo externo [os franceses e os austría­


cos], vocês têm inimigos internos para combater; e eu lhes direi que o
chefe deles é o papa...
Sou cristão como vocês sim, pertenço àquela religião que quebrou
as amarras da escravidão, e proclamou a liberdade dos homens. O
papa, que oprime os seus súditos e é inimigo da independência ita­
liana, não é cristão; ele nega o verdadeiro princípio do cristianismo;
ele é o Anticristo.[21]
O povo da província de Roma, onde o papa ainda governava, en­
dossou este ponto de vista numa estrondosa votação: 133.681 a fa­
vor (e somente 1.507 contra) de uma Itália independente, livre da
influência estrangeira e do controle papal. Pio IX revidou violenta­
mente, executou centenas de italianos que sustentaram os pontos
de vista heréticos do governo civil livre da dominação eclesiástica.
Infalibilidade e Tirania • 135

Cerca de 8.000 foram confinados nas prisões papais sob condições


insuportáveis, “muitos estavam acorrentados às paredes e não po­
diam nem mesmo exercitar-se ou ir ao banheiro”. O embaixador
inglês chamou os calabouços de Pio IX de “o opróbrio da Euro­
pa”.[22] Uma testemunha descreveu esse monumento à infalibili­
dade papal:

Desde a aurora até o cair da noite, os miseráveis prisioneiros de­


batiam-se contra as grades de ferro de suas horrendas celas e clama­
vam continuamente aos transeuntes por piedade em nome de Deus.
Uma prisão papai! Tremo ao escrever tais palavras... seres humanos
empilhados uns sobre os outros, cobertos por trapos, vivendo em
meio aos vermes.[23]
O palácio dos inquisidores de Roma ainda permanece próximo ao
Vaticano, e o quartel-general dessa instituição infame é agora cha­
mado de Congregação para a Doutrina da Fé. A odiosa estrutura te­
ria sido queimada por uma multidão, quando Pio IX foi deposto co­
mo “rei de Roma”, não houvesse o novo governo persuadido o povo
a poupá-la, para “algum propósito de caridade”. Ele foi aberto ao
público para “permitir que os cidadãos vissem com seus próprios
olhos os mecanismos secretos do sistema papal”. Uma testemunha
descreveu assim o horror dos que foram parar nessa “casa aberta”:

Eles não precisavam de evidência alguma para saber que o único


crime real mente grave nos Estados papais era o pensamento liberal
[advogar as liberdades básicas humanas] na religião e na política.
Eles sabiam muito bem que alguns de seus amigos e parentes tinham
sido dizimados e outros trancafiados na prisão. Quando as portas
das prisões foram abertas, esses hereges que passaram por tantas
privações, tinham para contar uma história triste sobre os sofrimentos
e torturas engenhosas.[24]

Negando a História para


Construir uma Mentira
A queda da Roma papal aconteceria quase um ano depois que
Pio IX deu início ao Vaticano I, em 8 de dezembro de 1869. Mes-
136 • A Mulher Montada na Besta

mo assim, muito antes do grandioso evento, a oposição à infali­


bilidade papal (a qual todos sabiam seria imposta durante o Con­
cílio) tinha sido grandemente fomentada entre os bispos e os lei­
gos presentes. Não estávamos mais na Idade Média, quando se
usavam documentos forjados para sustentar a autoridade papal. Os
bispos sabiam que a infalibilidade papal jamais havia sido aceita
pela Igreja Católica e que fora negada repetidas vezes. Aceitá-la
agora seria como ir contra as Escrituras e séculos de tradições da
Igreja.
Quando o Concílio começou, os favoráveis à infalibilidade eram
uma pequena minoria. Entretanto, tinham um plano de ação que vi­
sava controlar as posições-chave dentro do Concílio e dos órgãos
da mídia eclesiástica. Eles foram auxiliados em seu intento “pelo
papa, a maior parte da Cúria e os jesuítas”. Para conseguir votos,
esse grupo exerceu grande pressão e “não hesitou em fazer intrigas,
promessas e ameaças”. [25]
Duas semanas antes que o Concílio se reunisse oficialmente,
Lord Acton escreveu ao primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Wil­
liam E. Gladstone, no dia 24 de novembro de 1869: “Já está tudo
pronto para a proclamação da infalibilidade papal”. O encarregado
de negócios inglês na Santa Sé comentou que as preparações para a
aceitação da infalibilidade tinham sido tão bem organizadas que:

...os bispos estrangeiros descobriram ser impossível expressar li­


vremente suas próprias opiniões. Eles ficarão desagradavelmente sur­
presos ao descobrirem que serão forçados a aprovar algo que, na
realidade, desejavam condenar.[2ó]
Muito do que conhecemos a respeito da intriga sinistra que ocor­
reu nos bastidores e a conclusão desonesta a que chegou o Vatica­
no I é devida ao historiador e erudito suíço August Bemhard Has-
ler. Durante os cinco anos que passou no Secretaria Para a Unidade
Cristã do Vaticano, Hasler teve acesso aos arquivos secretos. O que
ele sabia a respeito do Concílio Vaticano I era tão perturbador (“O
negócio todo girou em torno de uma clara manipulação do Concí­
lio”), que ele sentiu-se compelido a escrever um livro chamado
How the Pope Became Infallible [Como o Papa Tomou-se Infalí­
vel]. [27] Hasler morreu “de forma prematura”, logo depois que o
manuscrito foi terminado. Por ter escrito a introdução do livro, o
Infalibilidade e Tirania • 137

teólogo católico Hans Küng foi “destituído dos seus privilégios


eclesiásticos de ensinar”.[28]

Nenhuma Discussão Era Permitida


Os devotos católicos acreditam sinceramente na falsa impressão
dada por sua Igreja de que a declaração do Vaticano I sobre a infa­
libilidade representa o pensamento e o desejo dos bispos que lá
compareceram. Pelo contrário, muitos deles se opuseram fortemen­
te à afirmação da infalibilidade papal, tanto no tocante às Escritu­
ras quanto no terreno da tradição. Alguns se retiraram em protesto
antes que a votação final ocorresse e só concordaram com a resolu­
ção mais tarde, por causa das ameaças do Vaticano e porque visa­
vam resguardar a unidade da Igreja. O bispo Lecourtier ficou tão
desgostoso com a fraude que “jogou seus documentos conciliares
dentro do Tibre e abandonou Roma...” Por esse motivo foi removi­
do de sua diocese.[29]
Os bispos que compareceram eram praticamente prisioneiros. Os
vistos de saída eram deliberadamente guardados, para evitar que
alguém se retirasse antes da hora. Entre os que fugiram de Roma
estavam dois bispos armênios e um deles, Plácido Cassangian, era
o abade-geral de todos os abades antoninos armênios. Do outro la­
do da fronteira romana, fora da jurisdição papal, ele escreveu tanto
ao papa quanto ao Concílio que “sob ameaça constante de prisão e
devido a uma séria doença, temia por sua vida e achava que a única
saída era fugir”.[30]
Regras opressivas foram impostas para sufocar a oposição, vi­
sando eliminar o livre debate dos assuntos. “Não era permitido ha­
ver discussão em pequenos grupos, os discursos do Concílio não
podiam ser impressos... [tomando] impossível que os argumentos
fossem estudados para que uma resposta cuidadosa fosse dada aos
mesmos... os bispos foram proibidos, sob pena de pecado mortal,
de dizer qualquer coisa sobre o que havia acontecido no grande
salão onde o Concílio se reunia”.[31] O controle sobre os partici­
pantes era semelhante aos das seitas, de maneira tal que durante
as sessões aqueles que se atrevessem a usar a voz em oposição
eram interrompidos, “constantemente com a explicação de que a
ninguém era permitido falar tão negativamente sobre a santa
Sé”. [32]
138 • A Mulher Montada na Besta

Os católicos sinceros acreditam que a infalibilidade papal desde


Pedro vem sendo passada aos seus sucessores. Mas, na verdade, ela
foi imposta à Igreja por uma coija inescrupulosa de membros do
Vaticano, os quais conspiraram para evitar discussão, comandaram
as eleições e literalmente intimidaram os bispos a votar, por medo,
a favor de uma proposição contra a qual eles, na verdade, se opu­
nham. “As eleições são desonestas”, escreveu o arcebispo Georges
Darboy em seu diário, no dia 20 de dezembro de 1869. Outro bispo
se queixou da “total invalidade” dessas eleições”. [33]

Dando Licença aos Poderes Ditatoriais


“A pressão era sentida, em especial, pelos bispos que dependiam
financeiramente do Vaticano”, era a sincera reclamação de mais de
um dos membros do Concílio. Muitos sentiam como se estivessem
“com a faca no pescoço”, forçando-os a aprovar o que a vasta
maioria, na verdade, rejeitava.
Quando os bispos armênios, em face das terríveis ameaças, per­
maneceram firmes em sua recusa de sustentar a infalibilidade, o
papa mandou que seus líderes “executassem exercícios espirituais
compulsórios no Mosteiro” . Quando o bispo John Stephanian recu­
sou-se a concordar, a polícia papal o prendeu quando caminhava
pela rua. Sua resistência provocou um tumulto na multidão, que
acabou resgatando-o da prisão.
Para auxiliar na intimidação dos bispos que estavam presentes, a
polícia papal fez buscas-surpresa nas casas deles. “Monsenhor Lo­
renzo Randi, ministro da polícia papal e mais tarde cardeal, inter­
ceptava no correio [do Vaticano] todas as cartas dos corresponden­
tes dos jornais e suprimiu a maioria das notícias negativas”.[34]
Quanto a J. H. Ignaz von Dollinger, um dos mais eminentes his­
toriadores e teólogos católicos do seu tempo, a excomunhão aca­
bou sendo a sua recompensa por ensinar teologia e história católica
romana durante 47 anos. Seu crime foi mostrar que as afirmações
dos papas sobre a infalibilidade careciam de suporte tanto das Es­
crituras quanto da tradição da Igreja. Essa, sem dúvida, era a visão
predominante dos historiadores católicos e da maioria dos bispos
da Igreja de Roma naquele tempo. O trabalho monumental de Von
Dollinger, The Pope and the Council [O Papa e o Concílio], publi­
cado logo antes do Vaticano I, foi imediatamente colocado na lista
Infalibilidade e Tirania • 139

dos livros proibidos. Pio IX não podia permitir que os bispos les­
sem fatos da história como estes:

Tertuliano, Cipriano, Latâncio, nada sabem da prerrogativa espe­


cial do papa ou de qualquer outro que tenha o direito mais elevado e
supremo de decidir em assuntos de doutrina. Nos escritos dos douto­
res gregos, Eusébio, São Atanásio, São Basíiio, o Grande, os dois
Gregórios e São Estefânio, não há uma palavra sequer de quaisquer
prerrogativas ao bispo de Roma. O mais copioso dos pais gregos,
São Crisóstomo, silencia compieíamente sobre este assunto, e assim
acontece aos dois Ciriíos. Igualmente ficaram calados os latinos, Hi­
lário, Paco e Zeno, Lúcifer, Suplício e São Ambrósio...
Santo Agostinho escreveu mais sobre a Igreja, sua unidade e auto­
ridade do que todos os papas juntos... Ele se utiliza de todo tipo de
argumento para mostrar que os donatistas são obrigados a voltar à
Igreja, mas, mesmo sendo um deles, nada sabe sobre o "trono pa­
pal".[36]

Nenhum Apoio Histórico


O bispo Joseph Hefele de Rottenburg, um ex-professor de histó­
ria da Igreja, dirigiu estas palavras ao Concílio Vaticano I: “Per­
doem se falo de modo simples: estou bastante familiarizado com as
fontes de documentos antigos da história e ensino da Igreja, com os
escritos dos Pais e os atos dos Concílios, de modo que posso asse­
verar... Eu os tive em minhas mãos noite e dia. Mas jamais vi em
um desses documentos a doutrina [da infalibilidade papal de fonte
confiável]” . Hasler vai mais adiante em seu argumento:

[O arcebispo] Thomas Connoly... de Halifax, Nova Escócia [pro­


víncia do Canadá], viera a Roma como um adepto convicto da infali­
bilidade. Depois de um estudo profundo ele tornou-se um dos seus
oponentes declarados... Repetidas vezes desafiou os infalibilistas no
saguão do Concílio para que apresentassem textos claros dos três
primeiros séculos - sempre em vão. Ele fez uma oferta particular de
1000 libras (hoje equivalente a uns 30.000 dólares) a qualquer um
que pudesse fornecer o texto que ele desejava. Tudo que conseguiu
foi uma falsificação.[37]
140 • A Mulher Montada na Besta

Von Dollinger, uma das maiores autoridades em História da


Igreja naquele tempo, concordava plenamente com Hefele. Seu li­
vro (banido por Roma) alertava contra o fato de Pio IX estar im­
pondo o dogma da infalibilidade e relembrava aos bispos que iriam
se reunir para tomar essa decisão vital:

Nenhuma das antigas confissões de fé, nenhum catecismo, ne­


nhum dos escritos patrísticos compostos para instruir o povo, contém
uma sílaba sobre o papa, muito menos uma sugestão de que toda
declaração de fé e doutrina dependa dele.
Durante os primeiros 1000 anos da História da Igreja nenhuma
questão de doutrina jamais foi decidida pelo papa... Mesmo a contro­
vérsia sobre Cristo levantada por Paulo de Samosata, que ocupou to­
da a Igreja Oriental por longo tempo, necessitando a promulgação de
vários Concílios, foi concluída sem que o papa tomasse parte nela...
Em três controvérsias durante o primeiro período a Igreja de Roma
tomou parte ativa - a questão do Oriente, o batismo herético e a dis­
ciplina da penitência. Em todas estas três os papas foram incapazes
de dogmatizar sua própria vontade, visão e prática, e as outras igre­
jas mantiveram suas práticas diferentes... A tentativa do papa Vítor
de pressionar as igrejas da Ásia Menor a adotar a prática de Roma,
exciuindo-os da comunhão, redundou em fracasso.[38]
É fato histórico inegável que, durante muitos séculos depois de
Cristo, a Igreja não tinha noção alguma de que o bispo de Roma ti­
vesse a última palavra em todas as disputas ou que ele fosse infalí­
vel. Mormente quando os papas começavam a alegar sua pretensa
infalibilidade, conforme já vimos, eles sempre a usavam perversa­
mente. Além do mais, conforme uma pesquisa feita pela revista Ti­
me em 1987, 93% dos católicos pensavam que “é possível discor­
dar do papa e ainda assim continuar sendo um bom católico”. Um
belo exemplo de infalibilidade! Não é de admirar que a Igreja te­
nha existido por 1800 anos sem ela!

Uma Trágica Farsa


Não resta dúvida de que a afirmação da infalibilidade enco­
raja o despotismo, que já se tomou parte do papado. O despo­
tismo, por sua vez, leva ao desprezo da verdade, pois o poder
Infalibilidade e Tirania • 141

do déspota sobre os demais deve ser mantido a qualquer custo.


Essa falha de caráter em Pio IX se tomou evidente a muitos ob­
servadores. Embora o papa tenha aprovado pessoalmente um ar­
tigo em La Civilta Cattolica, que em fevereiro de 1869 iniciou
sua campanha pela infalibilidade, ele negou qualquer conheci­
mento da mesma em todas as audiências com embaixadores es­
trangeiros. A fraude era evidente, mas o papa parecia cego ao
fato de que qualquer um, em sã consciência, saberia que ele es­
tava mentindo.
O papa escreveu artigos usando um pseudônimo e em seguida
negou conhecê-los. Quando os bispos Cliford, Ramadie e Place
protestaram contra a linguagem abusiva que Pio IX havia usado
publicamente para se referir a eles, “o papa negou tudo”. Diante de
muitas testemunhas, o bispo Mallet, deão da Sorbonne em Paris,
chamou Pio IX de “falso e mentiroso”.
Pio IX sempre se valia de pressão e ameaças, engendrando
intrigas nos bastidores e usando termos ferinos denunciava qual­
quer um que se opusesse à infalibilidade. Contudo, até o fim
ele insistia que desejava “deixar a Igreja completamente livre”.
“Os fatos que provam o contrário são tão numerosos quanto ób­
vios”, escreveu a Viena o conde Trauttmansdorff em 22 de ju ­
nho de 1870. Em vista dessas evidências de marcante desones­
tidade, e de muitas outras, o cardeal Gustavo de Hohenlohe de­
clarou: “Não preciso de nenhum outro argumento [contra a
infalibilidade papal] além desse: em toda a minha vida jamais
encontrei um homem que faltasse tanto com a verdade quanto
Pio IX ”.[39]
Esse era o homem que usou o poder despótico de seu ofício
para forçar os bispos a aprovar um dogma ao qual a maioria de­
les se opunha. O bispo Dupanloup declarou, em 15 de abril de
1870, que vários bispos lhe haviam dito: “Eu preferiria morrer
a presenciar isso”. Alguns dos bispos chegaram a ficar “amar­
gos de decepção e desespero, e sentiram-se enojados”. Para mui­
tos o Concílio parecia um jogo degradante, uma farsa trágica. O
bispo George Strossmayer lamentou que o Vaticano I não teve
a “liberdade necessária de transformã-lo num verdadeiro Concí­
lio a fim de justificar as resoluções aprovadas, cegando a cons­
ciência de todo o mundo católico. A prova disto ficou bastante
evidente” . [40]
142 • A Mulher Montada na Besta

Infalibilidade ou Instabilidade Psíquica?


Como já mostramos, mais que apenas alguns membros “abando­
naram o Concílio antes que terminasse”. No dia 17 de julho de
1870, antes da votação, 55 bispos que se opunham declararam que
“fora de qualquer irreverência contra o ‘santo padre’, eles não de­
sejavam tomar parte [votar]. Em seguida abandonaram Roma em
protesto”. [41]
No dia 18 de julho de 1870, ultimo dia do Concílio, houve ape­
nas 535 votos pelo “sim”, menos da metade dos 1.084 membros
originais aptos a votar. Mesmo assim os jornais do Vaticano escre­
veram muito sobre o assunto, como se tivesse sido uma decisão
unânime. Através das ameaças de demissão, perda de emprego e
outras pressões, o papa finalmente conseguia a submissão dos que
se opunham a que infalibilidade papal se tornasse dogma da Igreja
Católica Romana. Infelizmente, pouquíssimos católicos conhecem
estes fatos.
O bispo Dupanloup escreveu em seu diário, em 28 de junho de
1870: “Nunca mais irei ao Concílio. A violência, a falta de vergo­
nha e muito mais a falsidade, a vaidade e a contínua maneira de
forçar a mentira me obrigam a ficar longe”. Em 26 de agosto de
1870, 14 teólogos alemães declararam: “Estar livre de toda sorte de
coerção moral e de influência pelo uso de força superior é uma
condição sine qua non para todos os concílios ecumênicos. Tal li­
berdade faltou nessa reunião católica...” [42]
Outros aspectos quanto ao caráter e comportamento de Pio IX
que Hasler, durante anos de pesquisas, conseguiu nos arquivos se­
cretos do Vaticano e em outros documentos são trágicos e revela­
dores:

O misticismo doentio, as explosões infantis, a sensibilidade super­


ficial, os devaneios intermitentes, a linguagem que estranhamente era
desapropriada, mesmo em discursos estritamente oficiais, e a obsti­
nação senil, tudo Índica a perda de um sólido senso da realidade...
Além disso há exemplos de megalomania que ainda são difíceis
de avaliar. Em 1866... Pio IX aplicou a si próprio o que Cristo disse:
"fu sou o caminho e a verdade e a vida"... No dia 8 de abril de
1871 o conde Harry von Armim-Suckow registrou para o conselheiro
imperial, o príncipe Otto von Bismarck, a tentativa de Pio IX de reali­
zar um milagre: "Quando passava pela Igreja Trinita dei Monti, o
Infalibilidade e Tirania • 143

papa encarou um aleijado que estava em frente da mesma e falou:


levanta-te e anda'. Mas a experiência falhou".
O historiador Ferdinand Gregorovius havia escrito antes disso em
seu diário, no dia 17 de junho de 1870: "O papa ultimamente tem
urgência de experimentar a sua infalibilidade... Enquanto estava a
passeio, ordenou a um paralítico: levanta-te e anda'. O coitado ten­
tou levantar-se e caiu, o que deixou o substituto de Deus muito furio­
so. A anedota também já foi mencionada nos jornais. Realmente
creio que ele está maluco"...
Pio IX dava a impressão de estar sofrendo de mania de grandeza
também de outras maneiras. Alguns, até mesmo bispos, achavam que
ele estava louco ou falavam de sintomas patológicos. Franz Xaver
Kraus, historiador da Igreja Católica, anotou em seu diário: "A propó­
sito de Pio IX, Du Camp concorda com meu ponto de vista de que des­
de 1848 o papa sofre de uma doença mental e de malignidade".[43]

O Fruto Amargo da Tirania Papal


Enquanto Pio IX, vivendo em seu mundo fantasioso de onipo­
tência, impunha sobre a Igreja e o mundo um conceito difícil de ser
aceito (que a magia de um ofício poderia tomar um homem infalí­
vel), o povo italiano, pressionado pela depravação e barbarismo do
papa, planejava sua queda. Acusando o papado de erigir “uma for­
taleza de poder usurpado sobre os cadáveres de gerações passa­
das”, o patriota italiano Giuseppe Mazzini denunciou eloquente­
mente Pio IX e seus predecessores:

O Evangelho prega amor e fraternidade universal, mas vocês têm


espalhado a discórdia e inspirado o ódio... Vocês deveriam ter prote­
gido os fracos contra os opressores. Vocês, que deveriam ter encora­
jado a paz entre os cidadãos, só contrataram assassinos mercenários
[da Espanha, França, Áustria, e Nápoles] para cravar seus punhais
sobre a pedra do altar, enquanto admoestavam seus cidadãos escra­
vos para que "não se atrevessem a se levantar '■ [44]
Em 1861 o parlamento do recém criado reino da Itália declarou
Roma como sua capital, mesmo que o papa ainda fosse o seu tira­
no. Quando chegou o tempo de reforçar esse veredito, os que luta-
144 • A Mulher Montada na Besta

vam pela independência italiana^ ficaram sozinhos. Os exércitos


combinados do papa, França e Áustria não puderam rechaçar as
forças que lutavam pela liberdade e unificação da Itália. No dia 20
de setembro de 1870, quase dois meses após o Vaticano I ter con­
firmado a infalibilidade papal, ele foi finalmente deposto como go­
vernante da província de Roma. Sobrepujando o exército papal, as
tropas do general Cadoma abriram caminho através dos muros de
Roma, próximo à Porta Pia. O plebiscito, ao qual já nos referimos
antes, confirmou por votação esmagadora que Roma devia ser ane­
xada à Itália unida.
Pio IX confinou-se dentro do Vaticano em uma prisão auto-im-
posta e a partir daquele santuário despejou um considerável bom­
bardeio de palavras condenatórias sobre seus adversários. Sua con­
denação do rei Vittorio Emannuele, “onde quer que ele esteja, quer
em casa, quer no campo... em todas as faculdades do seu corpo...
condenado seja em sua boca, em seu peito, em seu coração... possa
o céu, com todos os poderes que o movem, levantar-se contra ele,
amaldiçoá-lo e condená-lo!” - foi feita com mais de 130 palavras.
Quanto ao restante dos seus inimigos, os quais, conforme a vota­
ção, tinham sido cerca de 99% da população italiana, o papa trove­
jou: “Com a autoridade do Deus Todo-Poderoso, dos santos após­
tolos Pedro e Paulo...

todos... os que perpetraram a invasão, usurpação e ocupação das


províncias de nosso domínio, desta querida cidade [Roma]... incorre­
ram na máxima excomunhão e em todas as demais censuras e pena­
lidades eclesiásticas, cobertas pelos cânones sagrados, constituições
e decretos apostólicos, de todos os concílios gerais, especificamente
do Concílio de Trento.[45]
Sem dúvida, os frustrados ataques do papa, ao menos nessa oca­
sião, foram totalmente em vão. Os italianos não se impressionaram
com o novo dogma da infalibilidade papal. Roma tem continuado
sob o controle do governo italiano até hoje. Como já menciona­
mos, a Concordata com Mussolini em 1929 devolveria aos papas
sua autonomia sobre a Cidade-Estado, o Vaticano, que desde então
tem gozado do status de igualdade com as nações do mundo.
O Vaticano não morreu e nem a Igreja Católica Romana desistiu.
Ela cresceu em todo o mundo e atualmente conta com cerca de um
Infalibilidade e Tirania • 145

biilhão de membros. A influência do papa ao redor do globo, mes­


mo exercida de modo mais sutil, é hoje maior do que nunca. A vi­
são de João ainda se mostra correta, embora muita coisa ainda ve­
nha a se cumprir.

Pompa e Adulação
Pedro declarou que Cristo nos deixou um exemplo para seguir­
mos os seus passos (1 Pedro 2.21). Ele escreveu que os líderes da
igreja não deveriam agir como “dominadores dos que vos foram
confiados”, mas como Cristo, deveriam ser “modelos do rebanho”
(1 Pedro 5.1-3). Que os papas têm desobedecido tanto a Cristo co­
mo a Pedro, que eles afirmam ter sido o primeiro papa, fica absolu­
tamente claro. Como poderia qualquer membro comum do rebanho
seguir o exemplo do estilo de vida autocrático, luxuoso e altamente
privilegiado dos papas? Os bispos de Roma, em desafio àquele que
dizem ter sido o primeiro papa, são literalmente “senhores” sobre
todos os que estão sob suas ordens. Esse fato tem sido manifesto
durante séculos pela sua conduta tirânica, a qual tem se tomado
mais ofensiva pelo fato da infalibilidade ter se tomado um dogma
católico.
A Doação de Constantino, embora fosse uma fraude (conforme
já vimos), e da qual os papas afirmaram ter recebido sua autoridade
e poder, revela muito sobre a maneira como eles se vestiam, viviam
e agiam durante a Idade Média. Como diz Peter de Rosa:

A partir da Doação, fica claro que os bispo de Roma pareciam


ConstantÍno/ viviam como ele, vestiam-se como ele, habitavam seus
palácios, governavam sobre suas terras. Tinham exatamente a mes­
ma visão imperial. O papa também desejava governar sobre a Igreja
e o Estado.
Apenas 700 anos pós a morte de Pedro, os papas haviam se tor­
nado obcecados por poderes e possessões. Os [supostos] sucessores
de Pedro [tornaram-se] não os servos mas os senhores do mundo.
Eles... vestiam-se de púrpura como Nero e chamavam a si mesmos
de Pontifex Maximus [sumo pontífice].[46]
A natureza do ofício papal não é bíblica e dá ao homem que o
possui um poder maior do que o do maior dos tiranos políticos. E
146 • A Mulher Montada na Besta

tanto a oportunidade como a tentação de abuso são elevadas a um


nível imensurável quando o homem é considerado infalível - algo
que hoje nenhum governante se atreveria a dizer sobre si mesmo.
Para vermos o efeito devastador de atribuir-se tal autoridade su­
prema a um mero homem, devemos apenas observar a reação servil
daqueles afortunados o bastante para encontrarem-se pessoalmente
com o papa, apertar sua mão ou apenas tocá-lo. Observemos o en­
tusiasmo de dezenas de milhares de pessoas que se reúnem quando
o papa faz uma aparição pública. Em seu lisonjeiro reconhecimen­
to de infalibilidade existe uma cabal identificação dos fiéis católi­
cos com o poder papal. É uma identificação que produz, mesmo
entre os membros comuns da Igreja, um orgulho cego e destrutivo
de pertencer à “maior e mais antiga... a única Igreja verdadeira, fo­
ra da qual não há salvação”. Tal conceito faz que os devotos católi­
cos fiquem insensíveis ao que, de outra maneira, seria identificado
como as falhas de sua Igreja, e os mantém presos ao seu poder.
A Igreja tornou-se salvadora no lugar de Cristo, conduzindo à
crença sedutora e atraente de que, não importa o que aconteça, essa
instituição, com os bons serviços do papa, dos santos, e especial­
mente de Maria, os levará ao céu, isso se os seus parentes vivos pa­
garem por muitas missas rezadas em nome deles. É uma ilusão
mortal, promovida através do catecismo ensinado a todos os católi­
cos desde a infância. Um engano destrutivo desse porte se tomou
plausível por causa do ensino de que embora Cristo tenha pago pe­
los nossos pecados na cruz, a Igreja é a dispensadora das “graças e
méritos” que Ele conquistou. Acrescente-se a isso o conceito enga­
noso que tem sutilmente envolvido os membros de uma Igreja cujo
cabeça é “infalível”, então teremos elementos para criar supersti­
ções inadmissíveis, e, finalmente, a tragédia.
Mesmo assim, a Igreja Católica Romana tem mudado de idéia
muitas vezes sobre assuntos importantes para demonstrar até a si
mesma que não é infalível. Costumava ser um pecado mortal co­
mer came às sextas-feiras. Medalhas e estátuas de São Cristóvão,
padroeiro dos viajantes, eram colocados não apenas nos painéis
dos veículos, mas até mesmo nos elevadores, como proteção, Mas
este popular santo católico foi declarado um mito. Os milhões de
católicos que durante séculos pensaram que ele os protegia foram
enganados, segundo a última resolução da hierarquia católica. Co­
mo diz a ex-freira Patrícia Nolan:
Infalibilidade e Tirania • 147

Qualquer instituição que possa, com a caneta sacerdotal, remover


a dor da punição eterna por alguém ter consumido um cachorro-
quente numa sexta feira e retirar a imagem de São Cristóvão de mi­
lhões de painéis de carros, pode seguramente admitir que tenha er­
rado sobre outros assuntos.[47]
*

E fácil concordar com isso, mas até hoje Roma não admitiu seus
erros no que se refere à Inquisição, aos maus tratos e massacres de
dezenas de milhares de judeus, ao martírio de milhões de cristãos,
ao assassinato de um milhão de sérvios durante a II Guerra Mun­
dial e à condução de dezenas de milhares de criminosos de guerra
nazistas para esconderijos seguros.
“Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do
Deus vivo. Então, Jesus lhe afirmou: ...tu és Pedro [petros] e sobre
esta pedra [petra] edificarei a minha igreja, e as portas do inferno
não prevalecerão contra ela”.
- Mateus 16.16-18

“Apascenta os meus cordeiros... Pastoreia as minhas ovelhas...


Apascenta as minhas ovelhas
-J o ã o 21.15-17

Após a confissão de fé de Pedro, ele [Cristo] determinou que so­


bre ele construiria a sua Igreja; a ele prometeu as chaves do reino
dos céus...
- Vaticano II [1]
Sobre Esta Pedra?
Um papa infalível como sucessor de Pedro, que tem as chaves
do reino do céu, sendo o vigário de Cristo? Antes foi a declaração
arrogante de que a pompa e os poderes foram herdados de Cons­
tantino. Hoje afirma-se que a declaração de Cristo a Pedro, citada
na página anterior, fez dele o primeiro papa, a pedra sobre a qual
“a única Igreja verdadeira” foi construída, e todos os que o segui­
ram nesse ofício têm sido seus sucessores, não importa a violência
e as fraudes que usaram para consegui-lo, nem suas atitudes malig­
nas. A autoridade que o papa possui hoje e a religião católica que
ele lidera estão ancoradas sobre essa afirmação.
O papa é a Igreja Católica. Sem ele a Igreja não poderia funcio­
nar e nem mesmo existir. Por isso é importante estudarmos esse as­
sunto mais a fundo. Pouco importa o que o fiel católico comum
pense ou faça. Mas as doutrinas e os feitos da hierarquia e princi­
palmente dos papas continuam controlando a Igreja. É aí que o
nosso foco deve estar, não na opinião de alguns católicos que di­
zem não acreditar na metade do que a Igreja ensina. (Essas pessoas
não deveria se chamar “católicas”. Por que confiar numa Igreja pa­
ra obter a salvação eterna se ela nem é digna de confiança em as­
suntos menos importantes?)
E que dizer da declaração de Cristo a Pedro: “sobre esta pedra
edificarei a minha igrejaT’ (Mateus 16.18). Os protestantes argu­
mentam que existe um jogo de palavras no verso chave acima. No
150 * A Mulher Montada na Besta

grego, “Pedro” é petros, uma pedrinha, enquanto “pedra” no grego


é uma petra, como a rocha de Gibraltar, por exemplo. Uma petra
tão imensa obviamente só poderia ser o próprio Cristo e a confis­
são de que Jesus é o Cristo, que Pedro acabara de fazer.
Os apologistas católicos modernos respondem que Cristo estava
provavelmente falando em aramaico, o que elimina o jogo de pala­
vras e deixa Pedro como a pedra sobre a qual a Igreja foi edificada.
Essa posição, contudo, certamente nega uma das doutrinas básicas
do catolicismo romano, a profissão de fé tridentina. Ela exige que
todos os clérigos, a partir do papa Pio IV (1559-1565), aceitem a
interpretação das Sagradas Escrituras somente de acordo com o
consenso unânime dos Pais [da Igreja].

O Testemunho dos Pais da igreja


Como os “Pais da Igreja” (líderes da Igreja até o papa Gregório, o
Grande, que morreu em 604) interpretam esta passagem? Acontece
que neste assunto em particular eles são unânimes em concordar
com a posição dos protestantes. Nenhum deles interpreta essa pas­
sagem como os católicos são ensinados a entendê-la atualmente.
Para estar de acordo com o ensino unânime dos Pais da Igreja,
um católico teria de rejeitar o dogma de que Pedro foi o primeiro
papa, que ele era infalível e que transmitiu sua autoridade a suces­
sores. O historiador e católico devoto Von Dollinger lembra fatos
inegáveis:

De todos os País que interpretam estas passagens nos Evangelhos


(Mateus 16.18, João 21.17), nenhum as aplica ao bispo de Roma
como sucessor de Pedro. Quantos Pais se ocuparam com estes textos,
mas nenhum daqueles cujos comentários possuímos - Orígenes, Cri­
sóstomo, Hilário, Agostinho, Cirilo, Teodoro e aqueles cujas interpre­
tações são coletadas às centenas - têm sequer insinuado que o pri­
mado de Roma é a conseqüência da comissão e promessa feita a Pe­
dro!
Nenhum deles explicou que a pedra ou fundamento sobre o qual
Cristo construiria a sua Igreja seria o ofício dado a Pedro que devia
ser transmitido aos seus sucessores, mas entenderam que se tratava
do próprio Cristo ou da confissão de fé de Pedro sobre Cristo; muitas
vezes afirmando que eram as duas coisas juntas.[2]
Sobre Esta Pedra? • 151

Em outras palavras, ao contrário do que a maioria dos católicos


tem aprendido, os Pais da Igreja Católica Romana posicionaram-se
unanimemente contra a interpretação católica atual. E é um católi­
co devoto, uma autoridade da história eclesiástica e que ama a sua
Igreja, quem aponta para esses fatos.
Outros historiadores católicos concordam com Von Dollinger.
Peter de Rosa, também católico devoto, habilmente contesta a su­
premacia e a linha contínua de sucessão papal desde Pedro:

Pode ser um choque para eles [católicos] saber que os grandes


Pais da Igreja não viam conexão alguma entre a declaração [Mateus
ló .l 8] e o papa. Nenhum deles aplica 'Tu és Pedro" a alguém mais
senão a Pedro. Um após outro, todos analisaram-na: Cipriano, Orí-
genes, Cirilo, Hilário, Jerônimo, Ambrósio, Agostinho. E eles não são
protestantes.
Nenhum deles chama o bispo de Roma de "pedra" ou aplica espe­
cificamente a ele a promessa das chaves do reino. Isso é tão sur­
preendente para os católicos, como se eles não pudessem encontrar
menção alguma dos Pais sobre o Espírito Santo e a ressurreição dos
mortos...
Para os Pais é a fé de Pedro - ou o Senhor em quem Pedro deposi­
ta sua fé - que é chamado de "pedra" e não Pedro. Todos os concí­
lios da Igreja, de Nicéia, no século IV, ao de Constância, no século
XV, concordam que o próprio Cristo é o único fundamento da Igreja,
isto é, a pedra sobre a qual a Igreja se sustém.
...nenhum dos Pais fala de uma transferência de poder de Pedro
aos que o sucederam ...Não há indicação alguma de um ofício petri­
no permanente.
Então a Igreja primitiva não olhava para Pedro como bispo de Ro­
ma, nem, por conseguinte, pensava que todo bispo de Roma seria o
seu sucessor... Os evangelhos não criaram o papado; porém o papa­
do buscou apoio nos Evangelhos [mesmo que isso não seja possí­
v e l]^ ]
O fato dos papas durante séculos terem se baseado em documen­
tos fraudulentos (A Doação de Constantino e os Falsos Decretos)
para justificar sua pompa e poder, mesmo após terem sido expostos
como deliberadas falsificações, mostra como esses “vigários de
Cristo” não apreciavam a verdade. Também nos mostram que na­
152 * A Mulher Montada na Besta

queles dias os papas não baseavam suas justificativas para a sua au­
toridade papal e a suposta sucessão apostólica desde Pedro em Ma­
teus 16.18. Se isso ocorresse eles não precisariam de documentos
falsos para autenticar sua posição. Tal aplicação para as palavras
“Tu és Pedro ” foi inventada muito mais tarde.

Quem é a Pedra?
A verdade sobre o assunto não depende da questionada interpre­
tação de alguns versículos, mas sim da totalidade das Escrituras. O
próprio Deus é claramente descrito como a “pedra” ou “rocha” in­
falível de nossa salvação através de todo o Antigo Testamento.
(Deuteronômio 32.3,4; Salmo 62.1,2, etc.). Na verdade a Bíblia de­
clara que Deus é a única pedra: “Pois quem ê Deus, senão o SE­
NHOR? E quem é rochedo, senão o nosso Deus?” (Salmo 18.31).
O Novo Testamento toma igualmente claro que Jesus Cristo é a
pedra sobre a qual a Igreja é construída, e que Ele, sendo Deus e
um com o Pai, é, portanto, a Pedra. Cristo e Seus ensinamentos
(Mateus 7.24-29) são rocha onde o “homem prudente edifica a sua
casa”, e não Pedro. O próprio apóstolo Pedro frisa que Cristo é a
“pedra angular” sobre a qual a Igreja é construída (1 Pedro 2.6-8).
E ele cita uma passagem do Antigo Testamento para enfatizar isso.
Paulo, do mesmo modo, chama Cristo “a pedra angular” da
Igreja e declara que a Igreja também é edificada “sobre o funda­
mento dos [todos] apóstolos e profetas” (Efésios 2.20). Esta decla­
ração nega claramente que Pedro tenha uma posição especial no
fundamento da Igreja.

Pedro Não Recebeu Promessa Alguma


Quando Cristo deu a Pedro “as chaves do reino dos Céus” (Ma­
teus 16.19), Ele explicou o que aquilo significava: “o que ligares
na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá
sido desligado nos céus”. A mesma promessa foi renovada a todos
os discípulos em Mateus 18.18, assim como em João 20.23, com a
especial aplicação, neste contexto, ao perdão de pecados.
A chave para ligar e desligar e remir ou reter pecados foi clara­
mente dada a todos, não só a Pedro. Portanto, não é certo afirmar
que Pedro tinha poder e autoridade especial sobre os demais após­
Sobre Esta Pedra? * 153

tolos. Tal conceito não se encontra em parte alguma do Novo Tes­


tamento e era desconhecido mesmo para a Igreja Católica Romana
até alguns séculos mais tarde. A Pedro foi dado o privilégio espe­
cial de pregar o Evangelho, primeiro aos judeus (Atos 2.14-41) e
depois aos gentios (Atos 10.34-48), mas ele não recebeu nenhuma
autoridade especial.
Os apologistas católicos alegam que as palavras de Cristo a Pe­
dro em João 21.15-47 ( “apascenta meus cordeiros”, “pastoreia as
minhas ovelhas”) deu-lhe autoridade única. Pelo contrário, o pró­
prio Pedro aplicou esse mandamento a todos os anciãos (1 Pedro
5.2) do mesmo modo que Paulo fez (Atos 20.28). Novamente é
Von Dollinger quem nos informa:

Nenhuma das antigas confissões de fé, nenhum catecismo, ne­


nhum dos escritos patrísticos, que visavam instruir o povo, contém
uma sílaba sequer sobre o papa, nem sequer uma indicação mínima
sobre o fato de toda certeza da fé e doutrina depender dele...
Os Pais da igreja nem ao menos puderam reconhecer no poder
das chaves, e no poder de ligar e desligar, qualquer prerrogativa ou
senhorio do bispo de Roma, tanto mais que - o que à primeira vista
fica óbvio para qualquer um - eles não viram um poder dado primei­
ramente a Pedro, e em seguida repetindo precisamente as mesmas
palavras a todos os apóstolos, como algo que fosse peculiar a ele, ou
uma herança para a linhagem dos bispos de Roma, e eles usavam o
símbolo das chaves significando exatamente o mesmo que a expres­
são figurada de ligar e desligar...
O poder das chaves ou de ligar e desligar, foi universa!mente reco­
nhecido como pertencente a outros bispos, tanto quanto ao bispo de
Roma.[4]

Nenhum Poder Especial Foi Dado a Pedro


A autoridade especial que tem sido alegada pelos papas católicos
romanos, que afirmam ser os supostos sucessores de Pedro, jamais
foi exercida por Pedro. Em suas epístolas o apóstolo exorta seus
iguais; não dá ordens a subordinados. “Aos presbíteros que há en­
tre vós, eu, presbítero como eles...” (1 Pedro 5.7). Ele não oferece
base em seus escritos para nenhuma posição ou poder eclesiástico
154 • A Mulher Montada na Besta

oficial e exaltado. Pedro declara ser simplesmente “testemunha dos


sofrimentos de Cristo " (1 Pedro 5.1) junto com todos os apóstolos,
que foram “testemunhas oculares da sua majestade” (2 Pedro
1.16). Ele não faz uma única afirmação em seu favor, simplesmen­
te se coloca entre os outros apóstolos.
A reunião de “apóstolos e anciãos” em Jerusalém por volta de
45-60 d.C. descrita em Atos 15.4-29 foi organizada por iniciativa
de Paulo, não de Pedro. (Não foi “o primeiro Concílio da Igreja”,
como alguns afirmam. Não havia hierarquia na Igreja, nenhuma
delegação de fora, todos os presentes residiam em Jerusalém.)
Além do mais, foi Tiago, e não Pedro, quem parece ter tomado a li­
derança. Conquanto Pedro tenha feito uma declaração importante,
ela não foi doutrinária, sendo apenas um resumo de sua experiên­
cia ao levar o Evangelho primeiro aos gentios. Tiago, contudo, dis­
correu sobre as Escrituras e argumentou sobre um ponto de vista
doutrinário. Além do mais, foi Tiago quem disse: “Pelo que julgo
eu... [meu veredito é ]” (Atos 15,19) e sua declaração tomou-se a
base da carta oficial enviada a Antioquia.
Não há evidências de que Pedro tenha intimidado os outros, mas
Tiago o intimidou. O temor de Tiago e sua influência e liderança
levaram Pedro a se voltar à tradicional separação dos gentios. Co­
mo resultado, Paulo, que escreveu muito mais do Novo Testamen­
to do que Pedro, e cujo ministério foi muito mais abrangente, cen­
surou Pedro publicamente por seu erro (Gaiatas 2.11-14). Certa­
mente Pedro não agia como papa, nem era tratado assim pelos
outros.

Os Verdadeiros Sucessores dos Apóstolos


Cristo mandou que os apóstolos fizessem discípulos através da
pregação do Evangelho. Ele acrescentou que cada pessoa que cres­
se no Evangelho deveria ser ensinada a obedecer a todas as coisas
que Ele havia ensinado. A declaração: “ensinando-os [aos discípu­
los que se converterão] a guardar todas as coisas que vos tenho or­
denado" (Mateus 28.20), não pode ser atribuída exclusivamente a
uma liderança hierárquica. Esperava-se que todos aqueles que se
tomaram discípulos de Cristo através da pregação dos discípulos
originais obedecessem a tudo que Cristo havia ordenado aos após­
tolos. Para que pudessem fazer tudo que os 11 foram comissiona­
Sobre Esta Pedra? • 155
dos, cada discípulo comum precisava ter a mesma autoridade e o
mesmo poder procedentes de Cristo que os apóstolos tinham*
Quaisquer que tenham sido os mandamentos e poderes que os
apóstolos receberam de Cristo, eles foram passados a todos os que
creram no Evangelho (ou seja, seus próprios discípulos), os quais,
por sua vez, ensinaram esses mandamentos aos seus conversos, e
assim por diante, até o presente. Portanto fica evidente que não so­
mente uma classe especial de bispos, arcebispos, cardeais, papas
ou um Magistério, são sucessores dos apóstolos, mas todos os cris­
tãos.
A história da Igreja primitiva apresentada no Novo Testamento
diz isso. Os apóstolos obedeceram ao que Cristo mandou: fizeram
discípulos aos milhares e ensinaram a eles todos os mandamentos
de Cristo; e o próprio Cristo, do céu, capacitava seus novos discí­
pulos para desempenharem esta grande comissão. Os cristãos se
multiplicaram e as igrejas foram estabelecidas em todo o Império
Romano.
Não havia catedrais. A igreja local se reunia nas casas. Sua lide­
rança era um grupo de anciãos piedosos, mais velhos e maduros na
fé e que viviam vidas exemplares. Não havia hierarquia, nem local
ou tampouco sobre um território maior, que tivesse de ser obedeci­
da por causa de seu ofício ou título. Não havia classe seleta de sa­
cerdotes que possuísse autoridade especial para agir como interme­
diária entre Deus e o povo. Isso se aplicava ao sacerdócio judaico,
que era uma sombra das coisas que haveriam de vir (Hebreus 7.11­
28; 10.1-22) mas tomou-se terrivelmente corrupto e teve seu fim
no sacrifício feito na cruz,
Todos os crentes foram encorajados a orar e profetizar nas
reuniões da Igreja. Paulo deixou isto bem claro: “Quando vos
reunis [como Igreja], um tem salmo, outro, doutrina, este traz
revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Se­
ja tudo feito para edificação. No caso de alguém falar em ou­
tra língua, que não sejam mais do que dois, ou quando muito
três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete... Tratando-
se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem.
Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-
se o primeiro [a fim de que o outro fale]. Porque todos pode­
reis profetizar um após outro, para todos aprenderem e serem
consolados... Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom
1 5 6 * A Mulher Montada na Besta

de profetizar e não proibais o falar em outras línguas” (1 Co-


ríntios 14.26-40).

Não Havia uma Classe de Elite


Nenhuma das promessas de Cristo aos apóstolos foi somente para
eles ou para uma classe de elite. Por exemplo: “Se dois dentre vós,
sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa, que, por­
ventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos
céus ” (Mateus 18.19). “Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso fa­
rei...” (João 14.13) e novamente: “Se pedirdes alguma coisa ao Pai,
ele vo-la concederá em meu nome” (João 16.23). Todos os cristãos
que crêem na Bíblia oram em nome de Cristo, embora a promessa
tenha sido dada ao Seu círculo íntimo de apóstolos. Todos os católi­
cos tomam o pão e o vinho na missa, mesmo que Cristo tenha dito a
todos os apóstolos: “Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22.19).
Está claro que tudo o que Cristo determinou a seus amigos mais
chegados se aplicava a todos os convertidos e a todos os cristãos de
hoje. Isso quer dizer que se dois cristãos concordarem sobre algu­
ma coisa em oração esta lhes será concedida, ou que tudo o que um
cristão pedir ao Pai, em nome de Cristo, lhe será dado? Sim. Então,
por que nem toda oração é respondida? Todas elas são respondidas,
mas para algumas a resposta é “não” e para outras, “mais tarde”. O
“nome” de Cristo não é uma fórmula mágica, que, se adicionada à
oração, assegura uma resposta automática positiva. Pedir em Seu
nome significa pedir como Ele pediria, para Sua honra e glória, não
para a nossa.
Nesse ponto a Igreja tem decepcionado tremendamente os cató­
licos sinceros. Cada oração que um padre católico faz não é res­
pondida automaticamente mais do que aquelas feitas pelos católi­
cos comuns, ministros protestantes ou leigos. Isso é obvio. Ainda
assim diz-se que um membro do clero católico tem um poder espe­
cial sobre qualquer coisa que ele pronunciar usando o nome de
Cristo - o que for ligado ou desligado, ou o perdão de pecados -
ocorre automaticamente. Não é assim. É desonesto dizer que o des­
ligamento do pecado (que não pode ser verificado) ocorre a cada
vez que o sacerdote o pronuncia, se desligar da doença ou do débi­
to (algo que pode ser verificado) raramente acontece quando ele
pronuncia o desligamento.
Sobre Esta Pedra? • 157

A implicação é clara: qualquer coisa que se obtenha através


da oração ao Pai em nome de Cristo, ou qualquer graça obtida
quando dois cristãos concordam, ligar e desligar ou perdoar pe­
cados, não acontecem automaticamente, pela mera expressão de
uma fórmula, mas é feito somente através de Cristo trabalhan­
do por meio de vasos escolhidos, quando, onde e como Lhe
agrada.
Nenhuma dessas promessas era cumprida automaticamente, sob
a direção única de Pedro ou qualquer um dos outros apóstolos.
Nem são concedidas instantaneamente a um membro da Igreja Ca­
tólica Romana ou de qualquer hierarquia religiosa. Esses dogmas
falsos têm posto aqueles que acreditam neles sob o poder de Roma,
levando-os a procurar num sacerdote aquilo que é a herança de to­
do discípulo verdadeiro de Cristo.

Os Tiranos do Passado
e o Magistério de Hoje
O grande apóstolo Paulo escreveu que desde que os governan­
tes civis não ordenem algo contrário à vontade Deus, todo cris­
tão, inclusive os próprios apóstolos, devem obedecer suas ordens
(Romanos 13.1-7). Devemos orar “pelos reis e por todos os que
estão investidos de autoridade” (1 Timóteo 2.1-3). Todos os cris­
tãos devem estar sujeitos “aos que governam, às autoridades...”
(Tito 3.1).
Paulo escreveu aos cristãos: “Sujeitai-vos a toda instituição hu­
mana p o r causa do Senhor, quer seja ao rei como soberano, quer
às autoridades como enviadas por ele.. ." (1 Pedro 3.13-14). Os pa­
pas ensinaram exatamente o contrário: que eles eram os supremos
soberanos e que somente suas leis deveriam ser obedecidas, inclu­
sive pelos reis. A submissão total que Roma exige tem sido expres­
sa por muitos papas, mas nenhum deles as expressou mais clara­
mente do que Nicolau I (858-867):

E evidente que os papas não podem estar ligados nem tampouco


sujeitos aos poderes terrenos, nem mesmo aos do apóstolo [Pedro],
se ele voltasse à terra; desde que Constantino, o Grande, reconheceu
que os pontífices representam o poder de Deus na terra, a divindade
158 • A Mulher Montada na Besta

não pode ser julgada por nenhum homem. Somos, portanto, infalí­
veis, e quaisquer que sejam nossos atos, não precisamos prestar con­
tas deles a ninguém mais do que a nós mesmos.[5]
Fica claro, tanto na história como nos dogmas oficias da Igreja
ainda vigentes, que Nicolau não estava expressando apenas o seu
fanatismo, mas a visão de todos os papas, que acabou se tomando a
doutrina católica. Conforme o Vaticano 31, a ninguém é permitido
sequer questionar o Magistério em assuntos de fé e moral. Somen­
te a hierarquia pode interpretar a Bíblia, e os fiéis devem aceitar es­
sa interpretação como se fosse vinda do próprio Deus. Todos de­
vem obedecer ao papa, mesmo quando ele não fala ex catedra. Tais
exigências de fé cega são vestígios atuais da atuação tirânica dos
papas através dos séculos.

O Fracasso do “Primeiro Papa”


Se as palavras de Cristo a Pedro em Mateus 16.18 fizeram dele o
primeiro papa infalível, então temos outro problema sério. As pala­
vras seguintes na boca de Pedro negam o cerne do Evangelho cris­
tão ao declarar que Cristo não precisava ir até a cruz: "...Tem com­
paixão de ti, Senhor; isso [a morte na cruz] de modo algum te
acontecerá” (Mateus 16.22). Ao que o Senhor respondeu imediata­
mente: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque
não cogitas das coisas de Deus, e sim das obras dos homens” (Ma­
teus 16.23). Esta foi a primeira declaração ex catedra de Pedro a
toda a Igreja (conforme registra a Bíblia) em matéria de fé e moral
(ela tem a ver com o meio de salvação) - e não era infalível, mas
pura heresia!
No próximo capítulo Pedro comete um erro sério, com outro
pronunciamento herético. Ele coloca Cristo no mesmo nível de
Moisés e Elias: f<Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei
aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para
Elias” (Mateus 17.4). Desta vez é o próprio Deus quem censura,
do céu, o “novo papa” : “Este é o meu Filho amado em quem me
comprazo; a ele ouvi” (v. 5).
Mais tarde, temendo por sua vida, Pedro nega, pragueja e jura
não conhecer Jesus - novamente uma declaração de “fé e moral” a
toda a Igreja que nega o próprio Cristo. Mesmo se os papas fossem
Sobre Esta Pedra? • 159

seus sucessores, Pedro dificilmente poderia ter-lhes passado uma


infalibilidade que, obviamente, não possuía.

Base Bíblica para a Infalibilidade?


Hans Küng, teólogo católico contemporâneo, disse: “A principal
prova citada pelo Vaticano I para a infalibilidade papal, Lucas 22.32
( “Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça ”), jamais
foi usada, nem mesmo pelos canonistas medievais, para documentar
esse dogma - o que é correto. Nessa passagem Jesus não prometeu a
Pedro que este não erraria mais, porém deu-lhe a graça de perseverar
na fé até o fim”.[6] Von Dollinger concorda plenamente:

Todos conhecem a clássica passagem da Escritura sobre a qual o


edifício da infalibilidade papal tem se escorado "Eu, porém, roguei
por ti, para que a tua fé não desfaleça, fu, pois, quando te conver­
teres, fortalece os teus irmãos" (Lucas 22.32). Essas palavras refe­
rem-se especificamente a Pedro, à sua negação de Cristo e sua con­
versão...
É totalmeníe contrário ao sentido original da passagem... encontrar
nela uma promessa de infalibilidade futura a uma sucessão de papas...
Até o final do século XVII nenhum escritor sonharia com tal interpretação;
todos eles, sem exceção - num total de 18 - explicam-na apenas como
uma oração de Cristo para que o seu apóstolo não sucumbisse e perdes­
se inteiramenfe a sua fé na prova que teria de enfrentar em breve.[7]
Muitos outros eminentes historiadores e teólogos católicos pode­
riam ser citados do mesmo modo. Peter de Rosa acrescenta sua
própria visão:

De acordo com os Pais [da Igreja], Pedro não tinha sucessor al­
gum. Eles viam todos os bispos como sucessores dos apóstolos, não
um bispo sucedendo um apóstolo apenas, neste caso, Pedro. Logo,
eles não poderiam sequer ter aceito a alegação de que "o sucessor
de Pedro" deveria dirigir a Sé em Roma.
Também já vimos que todas as declarações de doutrina, especial­
mente os credos, não vieram dos papas, mas dos concílios. Nos pri­
meiros séculos jamais ocorreu aos bispos de Roma que eles pudes­
sem definir doutrinas para toda a Igreja.[8]
160 • A Mulher Montada na Besta

Pedras Instáveis
Depois de ter prometido a Cristo na última ceia que preferia
morrer a negá-lo, Pedro fez exatamente o contrário. “Então, come­
çou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem!” (Mateus
26.74). Essa é uma negação completa do próprio Cristo e do cris­
tianismo como um todo. Pedro era uma “pedra” muito instável pa­
ra Cristo ter construído sobre ele a sua Igreja! Porém seus supostos
sucessores foram culpados de coisas ainda piores.
Já mencionamos uma porção deles. Consideremos brevemente
mais um exemplo: o papa Júlio II (1503-1513), sifilítico e infame
mulherengo, pai de inúmeros bastardos. Ele comprou sua posição
no papado. Durante a Quaresma, enquanto os bons católicos fa­
ziam dietas rigorosas, ele se deleitava com ricas iguarias. Usando
sua armadura, Júlio muitas vezes conduziu pessoalmente seus exér­
citos para a conquista de cidades e territórios, com o objetivo de
expandir os Estados papais. Como poderia ser ele o vigário de
Cristo, que afirmou que o Seu reino não era deste mundo e que por
isso os Seus súditos não lutariam? Dizer tal coisa é zombar de
Cristo e de Seus ensinos.

Sucessores de Imperadores
Lembre-se que nos primeiros tempos da Igreja a infalibilidade
não era atribuída ao bispo de Roma, mas ao seu superior, o impera­
dor. O papa Leão I (440-461), por exemplo, concedeu a um impe­
rador incrédulo a mesma infalibilidade que Pio IX persuadiu os
membros do Vaticano I a declararem ter sido sempre o poder ex­
clusivo dos papas. Leão I disse: “Pela inspiração do Espírito Santo
o imperador não necessita de instrução humana e é incapaz de co­
meter erros doutrinários” .[9]
O rasgado louvor que transcrevemos a seguir soa como aquele
que hoje é dado aos papas, mas trata-se de um discurso de Eusébio,
honrando o imperador pagão Constantino depois que este assumiu
a liderança da Igreja:

Deixemos, então, que apenas o Imperador... seja declarado dig­


no... livre... estando acima da sede de riquezas, superior ao desejo
sexual... que dominou as paixões que sobrecarregam o restante dos
homens; cujo caráter é formado conforme o original divino do Supre-
Sobre Esta Pedra? • 161

mo Soberano, e cuja mente reflete, como num espelho, a radiação de


Suas virtudes. Além disso, o nosso imperador é perfeito em prudên­
cia, bondade, justiça, coragem, piedade, devoção a Deus..."[10]
Esse louvor era apenas para o imperador, que o colocava acima
do bispo de Roma, o qual lhe era subordinado. Assim, Constantino
chamou a si mesmo “bispo dos b i s p o s Hoje os papas que osten­
tam os títulos de Constantino e desfrutam de suas regalias são seus
legítimos sucessores e não os sucessores de Pedro. O historiador
Will Durant mostra que “durante a duração de seu reinado, ele
[Constantino] tratava seus bispos como auxiliares políticos; os con­
vocava, presidia seus Concílios e concordava em apoiar qualquer
opinião que a sua maioria formulasse”.[11]
A doutrina nada significava para Constantino - apenas que os
bispos deveriam concordar com ele pelo bem da unidade imperial.
Peter de Rosa cita um bispo do século IV: “A Igreja [naquele tem­
po] fazia parte do Estado”. Ele continua explicando:

Mesmo o bispo de Roma - que não foi chamado de "papa" por


muitos séculos - era, em comparação [com Constantino], uma pessoa
sem importância. Em termos civis, era um vassalo do imperador; em
termos espirituais, quando comparado a Constantino, era um bispo
de segunda classe...
Não o papa, mas ele [Constantino], assim como Carlos Magno
mais tarde, era o cabeça da Igreja, sua fonte de unidade, diante de
quem o bispo de Roma tinha de se prostrar e declarar lealdade. To­
dos os bispos concordavam que ele [o Imperador] era o "oráculo ins­
pirado da sabedoria da Igreja".
Portanto, era Constantino e não o bispo de Roma quem ditava o
tempo e o local dos sínodos da Igreja e até mesmo estipulava como
os votos seriam dados. Sem a sua aprovação, eles não seriam legali­
zados; ele era o único legislador do Império.[12]

A Herança Pagã do Papado


A idéia de um Concílio da Igreja foi inventada por Constanti­
no, o qual, apesar de sua professa “conversão” a Cristo, continuou
sendo pagão. Ele jamais renunciou à sua lealdade aos deuses pa­
162 • A Mulher Montada na Besta

gãos, jamais aboliu o altar pagão de Vitória, no Senado, nem o


das virgens Vestais; e o deus-Sol, não Cristo, continuou a ser hon­
rado nas moedas imperiais. Ele só foi batizado pouco antes de sua
morte, e mesmo assim, por Eusébio, um sacerdote ariano herege.
Durant nos revela que durante toda sua vida “cristã” Constantino
usava tanto os ritos pagãos como os cristãos e continuava a con­
fiar em “fórmulas mágicas para proteger as colheitas e curar doen-
ças”.[13]
O fato de Constantino ter assassinado todos os que pleiteavam o
seu trono [notoriamente seu filho Crispo, um sobrinho e um cunha­
do] é uma evidência ainda maior que sua “conversão” ao cristianis­
mo era, como têm sugerido os historiadores, uma astuta manobra
política. O historiador e padre católico Philip Hughes nos lembra:
“Em seus atos, ele [Constantino] permaneceu sendo até o final de
sua vida o mesmo pagão de sempre. Seus ataques de fúria, a cruel­
dade que, uma vez despertada, não poupava nem a vida de suas es­
posas e filhos, são... um desagradável testemunho da imperfeição
de sua conversão”.[14]
Os três filhos “cristãos” de Constantino (Constantino II, Cons­
tando II e Constanço), asseguraram, após a morte de seu pai, a
posse de suas regiões separadas do império depois de um massacre
implacável da família. Eles conseguiram levar a “cristianização” do
Império a um patamar ainda maior. Foram eles, (e não Pedro) os
antecessores dos papas da atualidade.
Como já foi dito, Constantino convocou, estabeleceu o que seria
discutido, fez o discurso de abertura e desempenhou um papel
proeminente no primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, o Concílio
de Nicéia, e também em uma porção de concílios, assim como fa­
ria Carlos Magno, 500 anos depois. Tendo em vista que os impera­
dores convocavam os concílios, não é de admirar que nenhum dos
que foram realizados nos primeiros 1000 anos tenha reconhecido o
bispo de Roma como cabeça da Igreja.
Cristo exemplificou a humildade e serviço aos outros. Ele disse
aos Seus discípulos: “Cte reis dos povos dominam sobre eles, e os
que exercem autoridade são chamados benfeitores, Mas vós não
sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e
aquele que dirige seja como o que serve” (Lucas 22.25-26). Esque­
cendo essa admoestação, os papas imitaram os imperadores pa­
gãos, de quem herdaram sua posição e poder.
Sobre Esta Pedra? • 163

Cristo também condenou a posição autoritária exercida pelos ra­


binos em Seus dias. Suas palavras aos líderes da religião judaica
são deveras apropriadas à hierarquia católica romana:
“Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras
nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mes­
tres pelos homens. Vós, porém, não sereis chamados mestres, por­
que um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém so­
bre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele
que está nos céus...
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhan­
tes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas in­
teriormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia...
por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade” (Mateus
23.6-9; 27-28).
“Na sua fronte, achava-se escrito um nome, um mistério: BABI­
LÔNIA, A GRANDE, A MÃE DAS MERETRIZES E ABOMINA­
ÇÕES...”
- Apocalipse 17.5

A leitura da história do celibato é tão negra... Em grande parte é


a história da degradação das mulheres... Ivo de Chartres (1040­
1115) nos fala sobre conventos inteiros cheios de mulheres, que
eram freiras só no nome... [mas], na verdade, eram prostitutas.
- Peter de Rosa em Vicars ofC hrist [Vigários de Cristo]

As recentes revelações da grande incidência de conduta sexual


indevida por parte de certos membros do clero católico romano não
constituem surpresa alguma para a maioria de nós, que já fomos
padres ou freiras.
- a ex-freira Patrícia Nolan Savas, no jornal US Today[l]
A Mãe Profana
Que não haja mal entendido: não estamos sugerindo que os pa­
pas, sacerdotes e freiras católicos tenham herdado uma tendência
maior à promiscuidade do que o resto da humanidade. Nossos co­
rações são todos iguais. Muitos deles, sem dúvida, no início tinham
altas aspirações morais e espirituais e com essa disposição dedica­
ram-se ao que eles realmente desejavam que fosse uma vida de pu­
reza e devoção a Cristo. Foi o sistema do privilégio, poder e autori­
dade hierárquicos sobre o laicato que os perverteu e destruiu.
Esse sistema, como vimos, foi se consolidando através dos sécu­
los pela luxúria e ganância dos papas, cuja propensão natural para
o mal (inato em todos nós) manifestou-se através das oportunida­
des incomuns que seu ofício lhes oferecia. Para aumentar seu po­
der eles emitiram uma grande quantidade de documentos falsos,
que eram supostos escritos dos Pais da Igreja e decretos de sínodos
antigos. Um dos temas egoístas dessas falsificações era a alegação
de que os papas haviam herdado “a inocência e a santidade de Pe­
dro” e não podiam ser julgados por homem algum. Von Dollinger
escreve:

Um dito atribuído a Constantino, no Concílio de Nicéia, numa len­


da registrada por Rufino, foi amplificado até se transformar numa
verdadeira mina de pretensões e ambições. Constantino, conforme
essa fábula, quando as acusações mútuas de bispos eram postas
166 • A Mulher Montada na Besta

diante dele, ateava fogo a elas, dizendo... que os bispos eram deu­
ses e ninguém podia se atrever a julgá-los.[2]
Se alguém está no mesmo nível dos deuses, que privilégios essa
pessoa deixaria de exigir? Os deuses estão acima da lei. Portanto,
não é de admirar que os papas tenham começado a declarar aberta­
mente que tinham poder sobre os reis e seus reinos, sobre todas as
pessoas e que eram suficientemente poderosos para se comporta­
rem como tiranos. Aliada a isso estava a pretensa infalibilidade, o
que só fez as coisas piorarem.
Todos os padres e freiras compartilham por associação (embora
em grau menor) desse mesmo absolutismo corrupto e de superiori­
dade sobre o laicato. Adicione-se a essa pretensa autoridade “quase
divina” a regra antinatural do celibato (um jugo intolerável que só
uma pequena minoria conseguia suportar) e fica tudo pronto para
que surja toda sorte de mal. Um historiador católico sincero escre­
veu:

O fato é que o celibato dos padres poucas vezes deu certo. Na vi­
são de alguns historiadores, ele tem causado mais prejuízos morais
do que qualquer outra instituição no Ocidente, incluindo a prostitui­
ção...
A prova dos danos causados pelo celibato não procede de fontes
anticatólicas fanáticas, pelo contrário, inclui documentos papais e
conciliares e cartas de santos reformadores. Todos eles apontam nu­
ma direção: longe de ser uma candeia acesa no mundo ímpio, o celi­
bato dos padres tem sido uma mancha no nome do cristianismo.[3]

Raízes e Frutos do Celibato


Deve-se entender que o celibato forçado não é ensinado na Bí­
blia e tampouco foi praticado pelos apóstolos. Tal ensino acabou se
desenvolvendo e tomou-se parte integrante do sistema papal que
surgia e foi gradualmente tomando-se essencial ao mesmo. O obje­
tivo não foi a moralidade, pois o celibato provou ser uma fonte in­
cessante de maldade. De fato, a regra do celibato não foi a proibi­
ção do sexo, mas sim do casamento. 0 papa Alexandre II (1061­
1073), por exemplo, recusou-se a disciplinar um padre que havia
A Mãe Profana * 167
cometido.adultério com a segunda esposa de seu pai porque não
havia cometido o pecado do matrimônio. Esse era o grande mal
que precisava ser eliminado para que o sacerdócio se devotasse to­
talmente à Igreja.
Em toda a história, não apenas sacerdotes e prelados, mas tam­
bém os papas, tiveram amantes e se encontravam com prostitutas.
Muitos eram homossexuais. Jamais um membro do clero foi exco­
mungado por praticar sexo, mas milhares foram expulsos do sacer­
dócio pelo escândalo de terem se casado. Por que, então, a insistên­
cia sobre o celibato, até o dia de hoje, se ele realmente não leva à
abstinência sexual? É porque o celibato tem um resultado muito
prático e lucrativo para a Igreja: deixa os padres, e especialmente
os bispos e papas sem famílias a quem legar as propriedades, o que
empobreceria a Igreja. O clérigo não pode ter herdeiros.
O papa Gregório VII, lamentando a dificuldade em acabar com o
casamento dos padres, declarou: “A Igreja não pode escapar das
garras do laicato a não ser que primeiro os padres escapem das gar­
ras de suas esposas”. Aqui está mais uma razão vital para o celiba­
to: criar um sacerdócio sem a incumbência (e lealdade amorosa) de
esposas e filhos. Assim a fornicação e o adultério, embora proibi­
dos na teoria, eram preferíveis à relação matrimonial. R. W.
Thompson , historiador do século XIX, explica:

Era considerado absolutamente necessário para o perfeito funcio­


namento do sistema papal que fosse organizado um compacto corpo
de eclesiásticos, destituídos de todas as generosas afinidades que
surgem na relação familiar, para que pudessem dedicar-se melhor ao
serviço dos papas...[4]
Embora naqueles primeiros tempos fosse permitido aos homens
casados o ingresso no sacerdócio, exigia-se que levassem uma vida
celibatária. O papa Leão I (440-461) decretou que os clérigos casa­
dos deveriam tratar suas esposas “como irmãs”. Poucos, ou quase
nenhum dos católicos, se dão conta que até os idos do reinado do
papa Gregório VII (1073-1085) era aceito que os padres fossem ca­
sados e vivessem supostamente em celibato com suas esposas.
Tal exigência era tanto antinatural quanto irrealista. Quem seria
capaz de cumprir tais regras? Por toda a Itália os clérigos possuíam
abertamente grandes famílias e nenhuma disciplina era imposta so~
168 • A Mulher Montada na Besta

bre eles. Além do mais, muitos papas tinham grandes famílias e


muitas vezes nem faziam segredo disso. Peter de Rosa comenta:

Essa confusão teológica numa era de depravação levou o clero,


em particular na Roma do século V, a tornar-se um sinônimo de tudo
que era obsceno e pervertido... Quando o papa Sisto III (432-440)
foi levado a julgamento por seduzir uma freira, ele se defendeu ha­
bilmente citando as palavras de Cristo: "Aquele que dentre vós esti­
ver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra" [João 8.7],
...monges ambulantes tornavam-se uma ameaça social ...houve
longos períodos em que muitos monastérios nada mais eram do que
casas de má fama... O Segundo Concílio de Tours no ano de
567.. .admitiu pubiicamente que dificilmente podia ser encontrado al­
gum clérigo que não tivesse uma esposa ou amante...[5]

Um Sistema Feito Para a Prostituição


Durante séculos o sacerdócio foi quase totalmente hereditário.
Muitos padres eram os filhos de outros padres e bispos. Mais de
um papa era filho ilegítimo de um papa anterior, supostamente celi­
batário. Por exemplo, o papa Silvério (536-537) era filho do papa
Hormisdas (514-523) e João XI (931-935) era filho de Sérgio III
(904-911) e de sua amante favorita, Morósia, à qual já nos referi­
mos antes.
Entre os outros bastardos que dirigiram a Igreja estavam os pa­
pas Bonifácio I (418-422), Gelásio (492-496), Agapito (535-536) e
Teodoro (642-649). E havia outros. Adriano IV (1154-1159) era fi­
lho de um padre. Não é de admirar que o papa Pio II (1458-1464)
tenha dito que Roma era a “única cidade dirigida por bastardos”. O
próprio Pio II admitia ser o pai de pelo menos duas crianças ilegíti­
mas, com mulheres diferentes, uma das quais era casada. A regra
do celibato literal mente criou prostitutas, tornando Roma “A Mãe
das Meretrizes ”, como o apóstolo João previu (Apocalipse 17.5).
Em seus sermões inflamados, Savonarola de Florença (que logo
seria martirizado), chamava Roma de “uma prostituta pronta a ven­
der os seus serviços por uma moeda”[6] e acusou os padres de tra­
zerem “morte espiritual sobre todos... a piedade deles consiste em
passar as noites com prostitutas”. Ele gritava: “mil, dez mil, qua­
A Mãe Profana • 169

torze mil prostitutas são poucas em Roma, pois lá, tanto homens
como mulheres se entregam à prostituição”.[7]
O papa Alexandre VI ameaçou colocar a cidade de Florença
“sob interdição” caso Savonarola não fosse silenciado. Os cidadãos
florentinos obedeceram, com medo de que, como resultado da in­
terdição, todos “os comerciantes florentinos de Roma fossem atira­
dos na prisão”. [8] O papa queria que Savonarola fosse levado a
Roma para julgamento como herege, mas os senhores de Florença
queriam executá-lo pessoalmente. Depois de assinar confissões que
lhe foram arrancadas através das torturas mais cruéis, Savonarola,
juntamente com dois frades amigos seus, foram enforcados e quei­
mados. [9] Mesmo assim, aquele homem que pregou contra a imo­
ralidade dos líderes da Igreja e foi assassinado por católicos roma­
nos agora é homenageado pelo Vaticano como “um gigante de nos­
sa fé, martirizado no dia 23 de maio de 1498”.[10] Que estranha
revisão da história!
Visitando a Alemanha no século VIII, São Bonifácio descobriu
que nenhum dos clérigos honrava os votos de celibato. Ele escre­
veu ao papa Zacarias (741-752): “Jovens que passavam sua juven­
tude praticando estupros e adultério estavam aumentando as fileiras
do clero. Eles passavam as noites na cama com quatro ou cinco
mulheres, e de manhã se levantavam... para celebrar a missa”. O
bispo Ratúrio lamentava que, se fossem excomungados os padres
que não mantiveram a castidade, “não ficaria um só para adminis­
trar os sacramentos, exceto os meninos. Se ele excluísse os bastar­
dos, como exigia a Lei Canônica, nem mesmo os meninos [seriam
deixados]. [11]
Até mesmo os idealistas tomavam-se crápulas sem princípios,
porque o sacerdócio era uma das maneiras mais seguras e rápidas
de se conseguir riqueza e poder, e oferecia oportunidades únicas
para os prazeres mais depravados. O papa João Paulo lí, em sua
encíclica Veritatis Splendor [Esplendor da Verdade], condena vee­
mentemente a promiscuidade. Devia-se respeitar tal declaração, se
ele admitisse que os seus predecessores no papado foram os pio­
res ofensores; que os clérigos, por não poderem casar, tomaram-
se mais dissolutos em matéria de relacionamentos do que os lei­
gos; e que a promiscuidade ainda continua espalhada entre o cle­
ro católico romano. Caso contrário o Esplendor da Verdade soa
falso.
170 • A Mulher Montada na Besta

Vigários de Cristo?
João XII (955-964), a quem nos referimos antes, tomou-se papa
aos 16 anos de idade. Ele mantinha um harém no palácio de La-
trão, e viveu uma vida de maldade que ultrapassa a imaginação,
chegando até mesmo a fazer um brinde ao Diabo diante do altar de
São Pedro. Líder espiritual da Igreja durante oito anos, João XII
dormia com sua mãe e qualquer outra mulher que pudesse ter à
mão. As mulheres eram admoestadas a não se aproximar da Igreja
de São João de Latrão. Liutprand escreveu sobre esse homem em
seu diário:

O papa João é inimigo de todas as coisas... O palácio de Latrão,


que uma vez abrigava os santos e agora é um bordel de prostitutas,
jamais esquecerá sua união com a dama de seu pai, irmã de Estefâ-
nia, outra concubina...
Mulheres... temem vir orar nos altares dos santos apóstolos, pois
sabem que há pouco tempo atrás João agarrou peregrinas e forçou
esposas, viúvas e também virgens a irem para a cama com eie...[l 2]
O registro de São Pedro Damião, feito no século XI, sobre os
males incríveis causados pela exigência do celibato era uma leitura
tão escandalosa que o papa, com quem ele compartilhou seu texto,
simplesmente guardou-o nos arquivos papais. Esse documento, na
verdade, prova que “a depravação entre o clero naquele tempo era
universal. Após seis séculos de esforços extenuantes para a imposi­
ção do celibato, o clero tornou-se uma ameaça para as esposas e
mulheres jovens das paróquias para onde eram enviados”.[13]
O papa Inocêncio IV (1243-1254), forçado a abandonar Roma
pelo Imperador Frederico II, conseguiu refúgio cora a sua Cúria
em Lyon, França. Com o regresso do papa a Roma, após a morte
de Frederico, o cardeal Hugo escreveu uma carta agradecendo ao
povo de Lyon. Ele os lembrou de que também tinham um débito
com o papa e sua corte. Sua observação dá uma pequena revelação
da desavergonhada depravação que imperava na corte papal:

Durante nossa estada em sua cidade nós [a Cúria Romana] fomos


de caridosa assistência com vocês. Em nossa chegada encontramos
apenas três ou quatro irmãs das quais podíamos comprar o amor,
enquanto em nossa despedida, para assim dizer, deixamos à sua dis­
A Mãe Profana • 171

posição um bordel que se estende desde o portão ocidental até o


oriental.fi 4]

A Obrigação do Celibato
O celibato era praticamente desconhecido na Inglaterra, até que
finalmente acabou sendo imposto por Inocêncio IV, por volta de
1250. Muitos padres ingleses eram casados, uma prática há muito
aceita pela Igreja. Mas Roma determinou que teria de pôr fim à de­
voção à família de todos os padres e freiras; sua lealdade agora de­
veria ser somente à santa Madre Igreja e ao papa. R. W. Thompson
explica porque o celibato tomou-se obrigatório na Inglaterra:

Desde que foi introduzido, o celibato do clero romano tem sido


considerado um dos meios mais efetivos de estabelecer a supremacia
dos papas; por isso foi feita a tentativa de introduzi-lo na Inglaterra,
após a conquista normanda.fi 5]
O papa Honório II (1124-1130) enviou o cardeal João de Crema
à Inglaterra para ver se o seu decreto contra o casamento dos pa­
dres fora obedecido. O cardeal juntou os clérigos mais antigos e
criticou-os veementemente por sua má conduta, declarando que
“era um crime acordar pela manhã ao lado de uma prostituta, e em
seguida segurar o corpo consagrado de Cristo”. Entretanto, o clero
a quem ele estava pregando, acabou por surpreendê-lo em seu
quarto, tarde da noite, na cama com uma das prostitutas locais. [16]
Mas, pelo menos, o cardeal não era casado.
No século Xin, São Boaventura, cardeal e general dos francisca-
nos, havia dito que Roma era igual à prostituta de Apocalipse, exa­
tamente como João havia previsto, e conforme veria Lutero, para
sua tristeza, três séculos mais tarde. O papa Bonifácio VIII (1294­
1303) não hesitava em ter tanto a mãe como a filha como suas
amantes ao mesmo tempo. A visita que Lutero fez a Roma comple­
tou sua crescente desilusão com a Igreja.
No século XIV a Igreja havia perdido toda a credibilidade como
exemplo de vida cristã. O cinismo era rompante. Não era segredo
que João XXII (1316-1334) tinha um filho que chegou a ser car­
deal. Assim como Lutero, João Colet, da Inglaterra, ficou chocado
172 • A Mulher Montada na Besta

com a impiedade desavergonhada do papa e dos cardeais quando


visitou Roma. Do púlpito da catedral de São Paulo em Londres, da
qual era o deão, Colet expressou sua desaprovação:

O, a abominável impiedade destes padres miseráveis, os quais es­


ta época tem em abundância, eles não temem sair do lado de algu­
ma prostituta vulgar para adentrar o templo da Igreja, para os alta­
res de Cristo, para os mistérios de Deus![17]

A Vida na Corte papal


Por muitos anos existiu um ditado popular que dizia: “Roma tem
mais prostitutas do que qualquer outra cidade no mundo porque ela
tem mais celibatários”. O papa Sisto IV (1471-1484) transformou
esse fato em fonte de considerável lucro, taxando os inúmeros bor­
déis com um imposto para a Igreja. Dessa maneira ele conseguiu
mais riqueza ainda, impondo uma taxa sobre as amantes mantidas
pelos padres. Will Durant registra:

Havia 6.800 prostitutas registradas em Roma em 1490, sem con­


tar as praticantes clandestinas, numa população média de 90.000
habitantes. Em Veneza, o censo de 1509 registrou 11.654 prostitutas
numa população média de 300.000 habitantes. Foi produzido de
forma rudimentar um "catálogo de todas as principais e mais honra­
das cortesãs de Veneza, com seus nomes, endereços e taxas".[18]
Ao se tornar o papa Alexandre VI (1492-1503), Rodrigo Bórgia,
que havia cometido seu primeiro assassinato aos 12 anos de idade,
gritava triunfantemente: “Eu sou papa, pontífice, vigário de Cris­
to!” Gibbon o chama de “o Tibério da Roma cristã”. Embora pou­
cas vezes fingiu ser cristão, era, como todos os papas, profunda­
mente devotado a Maria. Sobre ele um erudito importante de Flo­
rença escreveu:

Sua maneira de viver era dissoluta. Ele não conhecia vergonha


nem sinceridade, nem fé, nem religião. Além do mais, estava possuí­
do de uma avareza insaciável, uma ambição ostensiva e uma paixão
abrasadora peio progresso de seus muitos filhos que, a fim de obe­
A Mae Profana • 173

decer a seus iníquos decretos, não hesitavam em empregar os meios


mais hediondos.[l 9]
Assim como seu antecessor, o papa Inocêncio VIII (1484-1492),
Bórgia, sendo um pai carinhoso, reconhecia os que eram seus fi­
lhos, batizava-os pessoalmente, dava-lhes a melhor educação e ofi­
ciava orgulhosamente seus casamentos no Vaticano. Tais cerimô­
nias eram assistidas pelas proeminentes famílias de Roma. Alexan­
dre VI tinha dez filhos ilegítimos reconhecidos, quatro deles
(incluindo os notórios César e Lucrécia), eram filhos de Vanozza
Catanei, sua amante favorita. Quando Vanozza faleceu, Bórgia, en­
tão com 58 anos, tomou Giulia Famese, uma jovem recém-casada
de 15 anos de idade. Ela conseguiu que seu irmão fosse oficiado
cardeal (que ficou conhecido posterionuente como o “cardeal de
saias”). Este irmão de Giulia mais tarde tomou-se o papa Paulo III
(1534-1549) e convocou o Concílio de Trento para enfrentar a Re­
forma.

O Registro na Arte e na Arquitetura


A promiscuidade dos papas tem sido imortalizada nas próprias
estruturas e estátuas que decoram o Vaticano, a basílica de São
Pedro e outras igrejas e basílicas famosas de Roma. A magnífica
capela Sistina, por exemplo, foi construída e depois nomeada em
homenagem a Sisto IV, que taxava os outros por manterem aman­
tes, mas nada pagava pelas suas. É nesse local que os cardeais se
reúnem para eleger o próximo papa. Cerca de 200 metros acima
deles, o imenso teto exibe o incrível trabalho artístico de Mique-
langelo.
Os visitantes, que se admiram ao vê-la, não sabem que aquela
hoje considerada a maior obra de arte do mundo, foi encomendada
por Júlio II (1503-1513), que comprou o papado por uma fortuna e
nem mesmo fingia ser religioso, muito menos cristão. Ele era um
notório mulherengo, pai de uma porção de bastardos e estava tão
carcomido pela sífilis que não podia expor seus pés para serem bei­
jados. Assim, a capela Sistina permanece como um dos muitos mo­
numentos de Roma que demonstram que a Igreja Católica possui e
exibe orgulhosamente o título de “Mãe das Meretrizes”, como João
havia profetizado.
174 * A Mulher Montada na Besta

Conhecida como a mais importante igreja cristã ocidental dedi­


cada a Maria, Santa Maria Maggiore é o fruto de esforços combi­
nados de uma porção de papas promíscuos. Sisto III (432-440), ou­
tro notório mulherengo, construiu a estrutura principal. O “teto de
madeira dourada sobre a nave ficou sob os cuidados do papa Ale­
xandre VI, o Borgia (1492-1503)”[20], que pagou por ela com ou­
ro procedente da América, recebido como um presente de Fernan­
do e Isabel da Espanha, a quem ele havia entregado o Novo Mun­
do. A incrível maldade de Bórgia, inclusive seu apreço pela tortura,
suas amantes e seus filhos ilegítimos, foram mencionados abrevia­
damente. Ele “desencadeou a primeira censura aos livros impres­
sos... o Index, que [durou] mais de 400 anos”.[21]
No interior da Basílica de São Pedro o monumento sepulcral do
papa Paulo III (1534-1549) é adornado com figuras femininas re­
clinadas. Uma figura, representando a Justiça, permaneceu despida
por 300 anos, até que Pio IX mandou pintar roupas sobre ela.
Quem lhe serviu de modelo foi a irmã de Paulo n , Giulia, a amante
de Alexandre VI. Desse modo foi imortalizada a promiscuidade
dos papas “celibatários”.

A Tolerância Antibíblica Atual


A grande imoralidade entre os clérigos católicos romanos não
está confinada ao passado, mas ainda hoje continua ocorrendo em
grande escala. Nos dias dos apóstolos, tal maldade era rara e podia
ser causa para excomunhão. Os fiéis não deviam sequer associar-se
aos fornicadores (1 Corintios 5.8,9) que afirmassem ser cristãos, de
modo que o mundo soubesse que tal conduta era condenada pela
Igreja e por todos os discípulos de Cristo. Sobre um homem pro­
míscuo em Corinto, Paulo escreveu à Igreja: "...Expulsai [exco­
mungai], pois, de entre vós, o malfeitor ” (v. 13).
Mesmo assim, inúmeros papas, cardeais, bispos e padres têm si­
do habituais fornicadores, adúlteros, homossexuais e genocidas -
injustos e depravados vilões que continuaram seus estilos de vida
degenerados, imunes à disciplina. Longe de serem excomungados,
esses papas figuram orgulhosamente na lista dos papas do passado,
os “vigários de Cristo”. Hoje, um padre que se envolve em conduta
sexual indevida raramente é destituído do sacerdócio ou excomun­
gado da Igreja. Em vez disso é transferido para outro lugar e talvez
A Mãe Profana • 175

receba aconselhamento psicológico. Os padres considerados cura­


dos por esses centros de tratamento (...) têm sido transferidos para
outras paróquias, apenas para abusar de novas vítimas.[22]
Enquanto Roma condena oficialmente a fornicação, milhares de
seus sacerdotes praticam sexo fora do casamento. Um jornal católi­
co americano registrou: “Sete mulheres francesas... companheiras
de padres que... são forçadas a viver a vida inteira ‘de forma clan­
destina' o amor que elas compartilham com um padre [e que] re­
presentam milhares de mulheres em relacionamentos semelhan­
tes... chegaram ao Vaticano no dia 20 de agosto de 1994. Elas pedi­
ram que o papa... levasse em conta a realidade enfrentada pelas
companheiras de ‘milhares de padres’ que vivem escondidas, mui­
tas vezes com a aprovação dos superiores da Igreja, e pelos filhos
que... são criados apenas por suas mães sozinhas ou são abandona­
dos”. ^ ]
A fraude e a hipocrisia persistem. A ex-freira Patricia Nolan Sa-
vas, autora de Gus: a Nun’s Story [Gus: a História de Uma Freira]
escreve:

Durante meus dez anos como irmã Augusta... testemunhei situações


que iam de comprometedoras a aberrantes... Na teoria, peias regras
éramos proibidas de sequer tocar noutra pessoa, homem ou mulher.
"Amizades particulares", consideradas uma séria violação ao voto de
castidade, deviam ser evitadas a todo custo. E o custo da sexualidade
imposta e da negação do corpo era sempre alto e muitas vezes trágico.
Com exceção de alguns seletos eunucos, muitos dos padres e frei­
ras que conheci acabavam rejeitando essa carga intolerável e, ou
abandonavam a vida religiosa juntos, ou estabeleciam suas ligações
com companheiros de clero ou com estranhos.
Havia algumas valorosas, que prosseguiam em suas tentativas sé­
rias de matar a carne e, muitas vezes, caíam vítimas de sérias desor­
dens psicogênicas. Algumas continuam seriamente prejudicadas na
mente e no corpo, sequestradas em instituições referidas como "reti­
ros" ou outro eufemismo qualquer. Um trágico número tornou-se al­
coólatra e em silêncio beberam até morrer.
A causa principal desse absurdo desperdício de vidas? O celibato
- um estado virtuoso quando aceito livremente, mas um peso esma­
gador quando imposto como dogma sobre todo o clero, como foi pe­
la Igreja Católica Romana, nove séculos atrás.[24]
176 * A Mulher Montada na Besta

Nos idos de 1994, “Terence German, de 51 anos, [um ex-sacer­


dote jesuíta] deu entrada na Suprema Corte do estado de Nova Ior­
que em um processo, no valor 120 milhões de dólares, contra a
Igreja, o papa João Paulo II e o cardeal John O ’Connor”. Ele os
acusava de “fechar os olhos aos seus repetidos apelos sobre a má
conduta sexual de outros padres e o uso indevido dos fundos da
Igreja”. A queixa formal de German explica que:

Ele desistira de todos os seus "bens terrenos" quando fez seus vo­
tos em 1964, em troca da promessa de que a Igreja cuidaria dele até
a morte. A subliminar condição era de que "vivesse guiado pelos
princípios estabelecidos... pela Igreja Católica Romana... A Igreja -
por concordar com má conduta sexual e financeira - descumpriu sua
parte nos princípios estabelecidos... a Igreja não estava impondo
suas próprias regras, de modo que [eu não] podia viver conforme as
regras da Igreja... com gente roubando e tendo relações sexuais com
garotos".[25]
Hoje os fornicadores “celibatários”, pedófilos e pervertidos são
quase sempre transferidos em silêncio. Em suas novas paróquias
eles continuam a celebrar missas e a desempenhar funções sacer­
dotais. Se cometessem o pecado muito mais sério, que é casar, se­
riam proibidos de continuar sendo sacerdotes.

Finalmente Expostos
A má conduta dos clérigos católicos romanos do século XX, en­
coberta durante décadas, agora está sendo exposta. Um crescente
número de vítimas está agora processando a Igreja. Uma quantia
estimada em um bilhão de dólares já foi paga pela Igreja até agora,
nos Estados Unidos, em acordos fora dos tribunais. A arquidiocese
de Santa Fé, Novo México, está à beira da bancarrota por causa de
aproximadamente 50 processos contra os quais agora está se defen­
dendo. “Acredita-se que mais de 45 padres cometeram abuso [se­
xual] contra 200 pessoas, num período de 30 anos”.[26] E Santa Fé
não é a única área onde a Igreja enfrenta esse tipo de processos.
Em 1994, a arquidiocese de Chicago provavelmente pagou mais do
que os 2,8 milhões de dólares gastos em acordos no ano anterior. O
problema está se espalhando.
A Mãe Profana • 177

O Seminário Franciscano em Santa Bárbara, Califórnia, foi fe­


chado por causa de envolvimento sexual da maioria de seus padres
com estudantes. Em todos os Estados Unidos as mulheres que en­
traram com processos de paternidade têm sustento pago pela Igreja
“em troca de manterem silêncio sobre a paternidade”.[27] Nos ca­
sos da arquidiocese de Santa Fé, as 12 companhias de seguros da
qual ela tinha apólices, inclusive a Lloyds de Londres, recusaram-
se a pagar pelas queixas. Elas argumentam que “não deveriam pa­
gar porque os responsáveis da diocese continuam a dar cargos pa­
roquiais a padres com história de abuso sexual”. [28]
Organizações com mais de 15 anos de existência, como a Good
Tidings, que auxiliam padres e mulheres que estão envolvidos se­
xualmente, têm se expandido por todo o mundo. A Good Tidings,
com sede em Canadensis, Pensilvânia, tem ramificações no Canadá,
Austrália e Inglaterra. Ela está “desenvolvendo laços com organiza­
ções congêneres em outros países, esperando criar uma federação
que apresente uma frente unida à Igreja de Roma, que tem tratado as
ligações sexuais entre padres e mulheres como um problema mera­
mente americano”. Muitos padres “apresentam padrões de repetidos
envolvimentos com mulheres”. Algumas das suas amantes conside­
ram-se casadas “de coração, se não legalmente” e alguns relaciona­
mentos chegam a ser “matrimônios conforme a lei...” Mas, “quando
chega a responsabilidade de um filho, o sacerdote desaparece”.[29]

Hipocrisia Desavergonhada
A insistência da Igreja na exigência antinatural e impraticável do
celibato tem conduzido a um sacerdócio de hipócritas que profes­
sam uma coisa e vivem outra. De acordo com o National Catholic
Repórter, cerca de “ 10 % dos padres confirmam a aproximação se­
xual de outro padre enquanto estavam em treinamento... os diretores
espirituais, mestres de noviços, professores de seminários seguida­
mente introduzem o contato sexual em seu ofício espiritual”.[30]
Os bispos do Canadá Ocidental, visitando Roma em setembro de
1993, pediram ao papa, numa série de encontros, para “conceder
uma exceção nos campos culturais e permitir padres casados entre
os povos Inuit e Dene, do norte do Canadá”. O papa foi educado,
mas inflexível. Esses 15 séculos de “infalibilidade” não podem ser
mudados tão facilmente![31]
178 • A Mulher Montada na Besta

Nos dias 12 e 13 de agosto de 1993, a abadia de São João em


Collegeville, Minnesota, foi a cena de uma conferência que marcou
época. O tema era “O Trauma Sexual e a Igreja”, promovida por
dois beneditinos, o abade Timothy Kelly e padre Dietrich Reinhart,
reitor da Universidade Saint John. Alguns protestantes também se
envolveram. Dominados pela pesquisa em busca de soluções psico­
lógicas ao invés das espirituais, os participantes incluíam psicóiogos
e psiquiatras, tais como o padre jesuíta James GUI, psiquiatra e edi­
tor do periódico Human Development [Desenvolvimento Humano].
Os conferencistas observaram que os números precisos de ca­
sos de abuso sexual não se encontram disponíveis devido à com­
pleta supressão dessas informações por parte da Igreja. Um advo­
gado canônico, padre Thomas Doyle, co-autor do relatório sobre
o abuso sexual entre o clero conhecido como "Doyle-Moulton-Pe-
terson”, publicado em 1985, estimou que em 1990, dos 50 mil pa­
dres americanos, três mil estariam "envolvidos sexualmente com
menores”. O relatório estima que "o número de padres que se en­
volvem sexualmente com mulheres era quatro vezes maior que os
sacerdotes que se envolvem com homens e duas vezes maior dos
que estão envolvidos com crianças”.[32] A situação está fora de
controle, como já ocorre há séculos. Ao deixar o sacerdócio, no
século XIX, William Hogan escreveu sobre os seus companheiros
de clero:

Lamento dizer que, peto que conheço deles, desde a minha infân­
cia até o momento presente, não existe um grupo de homens mais
corruptos e libertinos em todo o mundo.[35]
No Vaticano II, Paulo VI usou o dogma da infalibilidade papal
para tirar do Concílio itens críticos como o celibato e o controle da
natalidade, sobre os quais ele emitiu sua própria opinião. Exigiu
que todos os padres renovassem os seus votos de castidade, na
“quinta-feira santa” de 1970. Roma não pode mudar sua posição
sobre o celibato se não admitir que os seus papas infalíveis têm es­
tado errados por insistirem durante séculos neste ponto, sem terem
respaldo das Escrituras e do Espírito Santo, enquanto os protestan­
tes estavam certos o tempo todo.
A hipocrisia de Roma é monumental. Ela continua a discursar para
o resto do mundo sobre assuntos morais e a posar como árbitro e pa­
A Mãe Profana • 179

radigma da virtude, enquanto dezenas de milhares de seus clérigos


violam toda a moralidade que ela proclama. Considerem as 179 pági­
nas da Veritatis Splendor [Esplendor da Verdade], produzida durante
mais de seis anos por João Paulo II e publicada em 1993. Esse enor­
me tratado teológico condena a contracepção, o sexo ilícito e a ho­
mossexualidade, considerando-os “intrinsecamente maus”. Contudo,
conspícua pela sua ausência, não há nela qualquer admissão de que
uma alta porcentagem do clero católico romano pratica todos os três.

Triste Prova de Fracasso


O teólogo católico Hans Küng ecoa a crença da maioria dos ca­
tólicos, quando considera duro demais o pontificado de João Pau­
lo II sobre moralidade sexual e sugere que tal severidade, em vez
de prevenir a má conduta sexual, tem, na verdade, contribuído pa­
ra aumentá-la. Küng, que continua recebendo a desaprovação do
Vaticano, chama a Veritatis Splendor (a qual os líderes da Igreja
saudaram como “um chamado à santificação”) de “o testemunho
do seu fracasso [de João Paulo II]. O ponto de vista de Wojtyla
[o sobrenome verdadeiro do papa], depois de ter sido ouvido em
centenas de discursos pelo mundo inteiro, ressoou em ouvidos que
estavam surdos. Este é fracasso que coroa seus 15 anos de ponti­
ficado”. ^ ]
Na ação judicial de 120 milhões de dólares contra a Igreja, o ex­
padre jesuíta Terence German, que foi um mediador do Vaticano
entre 1978 e 1981, no quartel-general dos jesuítas em Roma, afir­
ma que “o papa fez-se de surdo às suas queixas de impropriedades
sexuais”. E quando os fatos jã não mais podiam ser negados, o pa­
pa tentou dizer que tais coisas só aconteciam nos Estados Unidos.
“Mas isso é sujeira”, diz German. “A mesma coisa está acontecen­
do em Roma e ele sabe disso muito bem”.[35]
O cardeal Joseph Bernardin, de Chicago, gaba-se de que a Veri­
tatis Splendor “reafirma a visão moral que tem sustentado a comu­
nidade católica desde o tempo de Cristo”.[36] Será que ele é tão ig­
norante assim da história e da condição atual de sua Igreja?
Roma é sem dúvida a “Mãe das Meretrizes” de Apocalipse 17.
Essa “mãe” deu origem a literalmente milhões de prostitutas em to­
do o mundo, durante toda história. Não há outra cidade na terra que
possa nem de perto rivalizar com ela nesse sentido.
“Na sua fronte, achava-se escrito... A MÃE DAS ...ABOMINA­
ÇÕES DA TERRA”
-A pocalipse 17.5

A Igreja... ensina e ordena que o uso de indulgências - algo mui­


to benéfico aos cristãos e aprovado pelas autoridades dos sagrados
concílios - deve ser conservado na Igreja; e ela condena com aná­
tema os que dizem que as indulgências nada valem ou que a Igreja
não tem o poder de concedê-las.
- Vaticano II[lj

Desde os primeiros dias da Igreja tem havido uma tradição pela


qual as imagens de nosso Senhor, de Sua santa mãe e dos santos
são colocadas nas igrejas para a veneração dos fiéis. A prática de
colocar imagens sagradas nas igrejas de forma que elas sejam ve­
neradas pelos fiéis deve ser mantida.
- Vaticano II[2]
Almas
“Olhem para o fruto da Reforma: as muitas divisões e denomina­
ções dos protestantes”, é o clamor freqüente dos apologistas católicos.
“Como pode tal confusão vir de Deus?” A implicação é que somente
os protestantes têm diferenças doutrinárias entre si, enquanto a Igreja
Católica Romana é uma unidade de cerca de um bilhão de fiéis unidos,
todos crendo e praticando a mesma coisa. Isso, é claro, está muito lon­
ge da verdade. O catolicismo dá uma falsa impressão de unidade por­
que grandes desacordos de doutrina e prática ficam escondidos debai­
xo de seu largo manto. Como explica E. Michael Jones, um importan­
te escritor católico e editor do periódico Fidelity [Fidelidade], os fiéis

[não abandonam] a igreja Católica... [porque] ela é o único barco


de Cristo... não importa quais ondas de heresia a rodeiem, nunca se
justifica que alguém pule fora do navio, nem mesmo durante as pio­
res tempestades.[3]

Sérias Divisões
Como já vimos, os papas discordavam e se excomungavam uns
aos outros como hereges (mesmo assim os excomungados perma­
182 • A Mulher Montada na Besta

necem na lista dos papas até hoje). Os concílios discordavam entre


si e havia sérias diferenças de opinião dentro do mesmo concílio.
Havia muitos dissidentes no Concílio de Trento - que mesmo não
representando o pensamento de toda a Igreja, permanece até hoje
como a maior fonte de dogmas oficiais da Igreja Católica. No Vati­
cano I muitos bispos se opunham à infalibilidade papal e somente
mais tarde confirmaram o voto para se pouparem da ira do papa.
Aconteceu o mesmo no Vaticano II, com o papa Paulo VI sufocan­
do a oposição.
A versão inglesa do novo Catecismo Universal foi postergada
por mais de um ano, devido a sérias dificuldades entre os bispos.
Algumas dessas dificuldades foram ventiladas na Conferência Na­
cional dos Bispos Católicos, em Washington, nos dias 15 a 18 de
novembro de 1993. Muitos bispos expressaram resistências doutri­
nárias. O arcebispo Rembert Weakland, de Milwaukee, disse na
Conferência: “Existe uma enorme inquietude e desconforto quanto
à liturgia atual”. [4]
As numerosas divisões dentro da Igreja Católica Romana englo­
bam de tudo, desde o arquiconservadonsmo às crenças e práticas
de padres e freiras profundamente envolvidos no hinduísmo e no
budismo, ao liberalismo de Hans Küng. Este último está tão longe
da linha partidária oficial de Roma que, em 1979, o Vaticano revo­
gou sua condição de teólogo. Mesmo assim, ele continua sendo
uma poderosa influência dentro da Igreja Católica. Ou tomemos o
padre Mathew Fox, por exemplo, silenciado por um ano pelo Vati­
cano, mas que acabou fazendo declarações de pontos de vista que
somente podem ser chamadas de pagãos e da Nova Era. Expulso
da ordem dos dominicanos por insubordinação, porém não exco­
mungado da Igreja por suas heresias obscenas, Fox tomou-se desde
então membro da Igreja Episcopal. Muitos outros teólogos e cléri­
gos permanecem na Igreja, desde os padres e freiras da ordem de
Maryknoll que advogam o marxismo e a teologia da libertação, até
os zelotes da Sociedade de São Pio X, que estão escandalizados
com o ecumenismo de João Paulo II.

O Grande Cisma
Houve tantas divisões entre os católicos romanos através dos sé­
culos como entre os protestantes e elas continuam acontecendo
Sedutora de Almas • 183

ainda hoje. Alguns desses desacordos resultaram em guerras. Con­


siderem, por exemplo, o Grande Cisma, quando a França e a Itália
se engalfinhavam pela posse do lucrativo papado. Urbano VI, um
napolitano, tomou-se papa em 1378. Tentando efetuar algumas re­
formas muito necessárias, Urbano excomungou os cardeais que ha­
viam comprado seus benefícios. Foi um movimento bem intencio­
nado, mas politicamente era uma tolice. Como Von Dollinger ex­
plica:

A simonla havia sido por muito tempo o pão diário da Cúria Ro­
mana e o seu fôlego de vida; sem a simonia é inevitável que a má­
quina pare e comece instantaneamente a se desmontar. Os cardeais
tinham, segundo seu próprio ponto de vista, um amplo território para
insistirem na impossibilidade de subsistir sem a simonia. Firmando
um acordo, revoltaram-se contra Urbano e elegeram Clemente Vii,
um homem que os agradava.
Foi assim que de 1378 a 1409 a cristandade ocidental esteve divi­
dida entre duas obediências.[5]
Em 1409, Pisa foi o cenário de um sínodo de toda a Eu­
ropa, convocado para sanar a disputa. Foi a prim eira vez em
300 anos que os participantes de tal ajuntamento se atreve­
ram a falar e votar abertamente. Houve uma sensação de alí­
vio e até mesmo de triunfo quando os dois papas reinantes,
Gregório X e Benedito III, foram depostos como hereges e
um terceiro papa, Alexandre V, foi eleito. É claro que n e­
nhum dos dois “papas” se submeteu à decisão do sínodo. A go­
ra havia três “ vigários de C risto” em vez de apenas dois, exa­
tamente como ocorrera 350 anos antes. A situação durou de
1409 até 1415.[6]
Pode ser que uma das “abominações” à qual a mulher da visão
de João deu à luz fosse a de um homem afirmando ser “vigário de
Cristo” e, pior ainda, três homens, todos afirmando ser o verdadei­
ro e único representante de Cristo na tenra, cada um amaldiçoando
quem seguisse um dos outros dois? Catarina de Siena, que persua­
diu Gregório XI, o sétimo dos papas de Avignon, a retomar a Ro­
ma, hoje é reconhecida como uma santa católica. Ela foi um sus­
tentáculo forte de Urbano VI, mas ele está presente na lista dos an­
tipapas.
184 • A Mulher Montada na Besta

As Piores Abominações
Pouco antes de morrer, Catarina, que tinha longos transes nos
quais supostamente via o céu, o purgatório e o inferno, recebeu
permissão de Deus (assim ela afirmava) “para suportar o castigo de
todos os pecados da humanidade., ” [7] Mesmo que a morte de
Cristo já tenha pago toda a penalidade do pecado, ela foi excomun­
gada como herege por tal blasfêmia? Pelo contrário, tão admirada
se tomou por seu “sacrifício” que a Igreja Católica Romana decla­
rou-a santa.
A Igreja, 500 anos mais tarde, aceitaria a afirmação de que os
sofrimentos (evidência por estigma sangrento nas mãos, pés e lado
onde Cristo foi perfurado) suportados durante 50 anos[8] pelo
monge chamado Padre Pio também eram pagamento pelos pecados
do mundo. Pio afirmava que mais espíritos de mortos costumavam
visitá-lo em sua cela no mosteiro do que pessoas vivas. Tais espíri­
tos vinham agradecer-lhe por pagar os seus pecados com os seus
sofrimentos, para assim poderem ser libertados do purgatório e ir
para o céu. Outros monges testificaram escutar muitas vozes con­
versando com o padre Pio à noite. [9]
A Bíblia, entretanto, repetidamente nos assegura que Cristo so­
freu a total penalidade do pecado: “No qual temos a redenção, p e­
lo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua
graça...” (Efésios 1.7, cf. Colossenses 1.14). Nada restou que os
pecadores tenham que fazer para receber o perdão oferecido pela
graça de Deus. O débito foi totalmente pago: “Está consumado!”,
gritou Cristo em triunfo pouco antes de morrer na cruz (João
19.30). Sugerir outro meio é a mais séria heresia.
João Batista saudou Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo ” (João 1.29). Todos os outros (inclusive Pio e os
demais) sendo pecadores ( “todos pecaram...” [Romanos 3.231) te­
riam de morrer por seus próprios pecados e, portanto, não pode­
riam pagar pelos pecados de outra pessoa. Pedro declarou que
“também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo
[sem pecado] pelos injustos [nós\,p a ra conduzir-vos a. Deus (1 Pe­
dro 3.18).
Mesmo assim, Catarina de Siena, Padre Pio e outros “santos so­
fredores” são reverenciados e recebem as orações de milhões de
católicos, inclusive do papa atual, por terem sofrido pelos pecados
dos outros. Eles são maiores do que Cristo no sentido de que o so­
Sedutora de Almas • 185

frimento de Cristo ainda deixa os bons católicos no purgatório, de


onde o sofrimento de Padre Pio liberta multidões e as leva para o
céu. O Vaticano II declara que os devotos têm sempre “carregado
suas cruzes para fazer expiação por seus próprios pecados e os pe­
cados dos outros... para ajudar os seus irmãos a obter a salvação de
Deus...” [10]
Tal blasfêmia é uma das abominações a que a Igreja Católica
tem dado à luz e que ainda hoje ela ensina. Poderá existir maior
abominação do que ensinar que pecadores, pelos quais Cristo pa­
gou a penalidade total do pecado, ainda “fazem expiação por seus
próprios pecados e os pecados dos outros?”

Abominações de Todos os Teus ídolos


Na Bíblia a palavra “abominação” é um termo espiritual associa­
do à idolatria. Deus condenou Israel pelas uabominações de todos
os teus ídolos” (Ezequiel 1636). Práticas ocultistas também são
chamadas abominações, junto com sexo ilícito e pervertido. Uma
vez que a mulher cavalgando a besta é “a Mae das Meretrizes e
Abominações”, parece claro que estas práticas más, com raízes na
Babilônia, caracterizarão a religião mundial sob o Anticristo, que
essa mulher representa. Ela é chamada a “Mãe” destas coisas por­
que as têm promovido e encorajado. A descrição se encaixa perfei­
tamente tanto na história quanto na prática atual da Igreja Católica
Romana.
A proibição bíblica da fabricação de imagens para fins religiosos
e de se dobrar diante delas (e o ódio de Deus contra esta prática pa­
gã) está claramente determinada no segundo dos Dez Mandamentos
e em numerosas outras passagens da Escritura. Por exemplo: “Não
fareis para vós outros ídolos, nem vos levantareis imagem de escul­
tura... para vos inclinardes a ela... Maldito o homem que fizer ima­
gem de escultura ou de fundição, abominável ao Senhor...” (Levíti-
co 26.1; Deuteronômio 27.15). Mesmo assim o Vaticano II reco­
menda as imagens nas igrejas e diz que elas devem ser “veneradas
pelos fiéis”. Nas igrejas e catedrais católicas ao redor do mundo po­
dem-se ver os fiéis de joelhos dobrados em frente às imagens deste
ou daquele “santo” e, mais freqüentemente, diante de “Maria”.
O segundo dos Dez Mandamentos que Deus deu a Israel declara:
“Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma
186 * A Mulher Montada na Besta

do que há em cima nos céust nem embaixo na terra... Não as ado-


rarás, nem lhes darás culto... (Êxodo 20.4,5; cf. Deuteronômio
5.8,9). Como pode a Igreja Católica Romana desobedecer esta cla­
ra proibição? Ela faz algo pior do que ignorá-la; ela a esconde do
povo.
Os “Dez Mandamentos” relacionados no catecismo católico dei­
xam fora o segundo mandamento, proibindo imagens, e dividem o
último, proibindo a cobiça, em dois. É uma flagrante rejeição de
um claro mandamento de Deus. Além do mais, esta rejeição é de­
sonestamente encoberta pela pretensão de que o mandamento não
existe. É uma fraude deliberada praticada contra os membros da
Igreja, a maioria dos quais nada sabe da Bíblia, exceto aquilo que o
clero lhes diz.
Quando o imperador Leão III publicou o Édito de Constantino­
pla exigindo o batismo forçado dos judeus, ele foi louvado. Mas
em 726, quando determinou que todas as imagens deveriam ser
quebradas, houve um grande alarido por parte dos cidadãos e do
clero. O papa Gregório II afirmava que as imagens não eram adora­
das, mas reverenciadas. A verdade, contudo, escapou em sua carta
ao imperador: “Mas quanto à própria estátua de São Pedro, a qual
todos os reinos do Ocidente estimam como um deus na terra, o
Ocidente tomaria uma grande vingança [se ela fosse destruí­
da]”.[11] Uma guerra sangrenta ocorreu em Ravena por causa des­
te assunto e um sínodo em Roma excomungava todos os que se
atrevessem a atacar as imagens.
Os cristãos não tinham usado imagens até que Constantino se
tomou, de fato, o cabeça da Igreja. A porta que foi aberta ao paga­
nismo naquele tempo jamais foi fechada. A Igreja tentou se aco­
modar aos pagãos, juntando-se a eles e mantendo os seus ídolos,
porém agora com nomes cristãos. Esta prática ainda hoje faz parte
da santeria [culto espírita de países latinos], vodu, etc.
Os apologistas católicos insistem que a veneração não é à ima­
gem, mas ao “santo” que ela representa. Mesmo assim, João Paulo
II promove abertamente a crença pagã de que as imagens têm po­
der. Certa vez o papa declarou na basílica de São Pedro:

Uma misteriosa "presença" do protótipo transcendente parece ser


transferida para a imagem sagrada... A contemplação devota de tal
imagem parece então um pacto tão real e concreto de purificação da
Sedutora d e Almas • 187

alma do fiel... Porque a própria imagem abençoada pelo padre...


pode de certo modo, por analogia com os sacramentos, real mente
ser considerada um canal divino de graça.[12]
A Bíblia condena repetidamente tal idolatria como adultério ou
fornicação espiritual! Nesse sentido, Roma é a “Mãe das Meretri­
zes” e também tem levado milhões à idolatria.

Salvação à Venda
A Igreja Católica Romana fez da venda da salvação aos ingê­
nuos um grande negócio, com a maior parte de sua grande riqueza
acumulada a partir desta fonte. Ela faz isso em nome de Cristo, que
oferece a salvação como um dom gratuito! Ele disse aos Seus dis­
cípulos: “De graça recebestes, de graça dai” (Mateus 10.8). Não
poderia haver abominação maior do que vender a salvação, mas
mesmo assim Roma não tem se arrependido deste mal e continua a
praticá-lo hoje em dia. .
Sob o papa Leão X (1513-1521) - que amaldiçoou e excomun­
gou Martim Lutero - foram divulgados pela chancelaria romana
preços específicos a serem pagos à Igreja pela absolvição de cada
crime possível de ser imaginado. Até mesmo o assassinato tinha
seu preço estabelecido. Por exemplo, um diácono culpado de assas­
sinato poderia ser absolvido por vinte coroas. Os “malfeitores un­
gidos”, como eram chamados, uma vez perdoados pela Igreja neste
sentido, não poderiam ser processado pelas autoridades civis.
A venda de salvação por Leão não era novidade. João XXII
(1316-1334), havia feito o mesmo 200 anos antes, estabelecendo
um preço para cada crime, desde assassinato até incesto e sodomia.
Quanto mais os católicos pecavam, mais rica ficava a Igreja. Um
esquema semelhante a esse tem funcionado na Igreja durante mui­
tos anos.
Inocêncio VIII (1484-1492), por exemplo, havia concedido uma
indulgência chamada de Butterbriefe que era válida por 20 anos.
Por uma certa soma podia-se comprar o privilégio de comer os pra­
tos favoritos durante a Quaresma e outros tempos de jejum. Era a
maneira de receber o crédito pelo jejum, enquanto era possível de­
leitar-se com os mais saborosos alimentos. Além do mais, não
eram os vigários de Cristo que ligavam e desligavam tudo na terra
188 • A Mulher Montada na Besta

e ligavam e desligavam tudo no céu? Os lucros deste esquema ge­


raram a renda para a construção da ponte sobre o Elba. Júlio III
(1550-1559) renovou essa indulgência (por uma taxa atraente) por
mais 20 anos, após ter se tornado o novo papa.
Leão X pôs abaixo a basílica de Constantino e construiu a de
São Pedro, usando em grande parte o dinheiro pago pelas pessoas
que pensavam estar assim recebendo o perdão de seus pecados e
uma entrada para o céu. Essa estrutura magnífica representa uma
evidência de que Roma é a “Mãe das Abominações”.
Assim como Giovanni de Médici, Leão X tomou-se abade com
apenas sete anos, por ocasião de sua primeira comunhão, e foi or­
denado cardeal quando tinha apenas 13. Mesmo sendo o mais jo­
vem cardeal daquele tempo, o papa Benedito IX subiu ao trono de
Pedro com 11 anos de idade. Imagine um menino de 11 anos pro­
nunciando solenemente perdão de pecados como único represen­
tante de Cristo na terra! Foi Leão X quem comissionou o frade Tet-
zel a vender indulgências, que prometiam livrar as almas do purga­
tório ou livrar o comprador, caso fossem compradas em seu
próprio nome, de passar qualquer tempo naquele lugar de tormento
intermediário.
O slogan das vendas infames de Tetzel era: “Tão logo a moeda
tilinta no cofre, uma alma salta do purgatório!” Como poderia al­
guém ser tão tolo para acreditar que o perdão de pecados, pelos
quais Jesus precisou enfrentar na cruz a ira de Deus, poderia ser
conseguido com dinheiro? O “Deus” do Catolicismo, que age em
resposta a tais regulamentos inventados por uma Igreja corrupta,
claramente não é o Deus da Bíblia. (Foi essa abominação da venda
de salvação que escandalizou Martim Lutero e desencadeou a Re­
forma).
Os protestantes bem-intencionados, querendo acreditar no me­
lhor, imaginam que o catolicismo romano tem se livrado das abo­
minações do passado, incluindo as indulgências. O livro de Charles
Colson, The Body [O Corpo], contém exemplos dessas informa­
ções incorretas. Embora o livro fale de forma eloquente sobre mui­
tas verdades, apresenta o catolicismo romano erroneamente como
sendo o cristianismo bíblico e apela para uma união dos evangéli­
cos com ele. Colson escreve: “Os reformadores, por exemplo, ata­
cavam as práticas corruptas das indulgências; hoje elas [indulgên­
cias] já não existem (modernamente temos as práticas equivalentes
Sedutora de Almas • 189

de alguns mercadores televisivos inescrupulosos, ironicamente, na


sua maioria protestantes, que prometem curas e bênçãos em troca
de contribuições).”[13]
Nós endossamos sua condenação aos “mercadores televisivos
inescrupulosos”, mas admiramo-nos de sua interpretação incorreta
de Roma. Um dos principais documentos do Vaticano II dedica 17
páginas a explanar as indulgências e como consegui-las e exco­
munga e amaldiçoa qualquer um que negue que a Igreja tem o di­
reito de conceder indulgências para a salvação hoje.[14] As regras
são tão complexas e ridículas quanto abomináveis. Tente imaginar
Deus honrando regulamentos como conceder certas indulgências
“apenas em dias fixados pela Santa Sé” ou uma “indulgência ple­
nária, aplicável somente aos mortos, que pode ser obtida em todas
as igrejas... no dia dois de novembro”[15], etc. Todo o ensino sobre
indulgências nega a suficiência do sacrifício redentor de Cristo fei­
to na cruz pelos pecados. (Veja o Apêndice B para mais detalhes).
Algumas indulgências antigas permanecem em vigor ainda hoje.
Uma notícia publicada no periódico Inside The Vatican [Por Den­
tro do Vaticano] relembra aos católicos que nos dias 28 e 29 de
agosto de 1994 houve uma oportunidade fora do comum para obter
uma indulgência especial:

O papa Celestino V doou uma "porta santa" à catedral de Maria


Coilemaggio em sua bula de 29 de setembro de 1294. Para obter es­
ta indulgência "perdonanza" é necessário estar na catedral entre 18
horas do dia 28 e 18 horas de 29 de agosto para se arrepender sin­
ceramente dos pecados, confessar-se e ir à missa e à comunhão den­
tro de oito dias da visita. A "porta santa" está aberta todo ano, mas
em 1994 é o 700° aniversário da Bula de Perdão. Vá lá![l ó]

Cuidado: Aí Vem a Reforma!


Na porta da igreja do castelo de Wittenberg, a mesma onde Mar-
tim Lutero afixou suas 95 teses, estavam relíquias (inclusive um
suposto cacho de cabelo da virgem Maria) oferecendo dois milhões
de anos em indulgências aos que as venerassem segundo as regras
prescritas. Nunca a Igreja Católica Romana desculpou-se por ter
levado multidões a se perder dessa maneira. E como se desculpar
190 • A Mulher Montada na Besta

às almas agora no inferno por ter-lhes vendido uma falsa “passa­


gem para o céu”?
Tanto pela infâmia como pela astúcia, nenhum esquema para
arrecadar dinheiro no passado, nem o dos mercadores televisi­
vos inescrupulosos, sequer se aproxima da venda de indulgên­
cias. Ela proveu muito dinheiro para os papas no tempo da Re­
forma. No ano 593, o papa Gregório I propôs pela primeira vez
o conceito antibíblico (mas muito proveitoso) de que havia um
lugar chamado “purgatório”, no qual os espíritos dos mortos so­
friam, para assim serem purgados de seus pecados e totalmen­
te liberados do “débito da punição eterna”. Esta invenção foi
declarada como dogma da Igreja no Concílio de Florença em
1439 e permanece como parte importante do catolicismo roma­
no ainda hoje.
Não foram essas heresias abomináveis, entretanto, que dividiram
os católicos. Todos pareciam contentes com a promessa de que a
Igreja de algum modo os levaria para o céu, não importando quão
repugnantes ao bom senso e à justiça fossem os métodos. Como
disse Chamberlain, “a visão da fé estava cega às discrepân­
cias”.[17] Foi a divisão causada pelos papas rivais, cada um afir­
mando estar encarregado da máquina da salvação, que moveu a
Igreja à ação.
Quando os três rivais depuseram, cada um afirmando ser o “vi­
gário de Cristo”, e em seguida foi nomeado um novo papa, Marti­
nho V, o Concilio de Constança (1414-1418) reunificou a Igreja
(Veja Apêndice D para mais detalhes). Muitos bispos estavam con­
vencidos de que uma reforma era desesperadamente necessária. Pa­
ra mover o Concílio em direção à reforma, Constança declarou que
deveria haver outro concílio ecumênico a cada dez anos. O papa
Martinho V respeitosamente

convocou o Concílio em 1423 para o encontro, primeiro em Pávia,


depois em Siena. Mas no momento em que o mínimo sinal de uma
tentativa de reforma se manifestava, ele o dissolvia "por causa do pe­
queno número de presentes". Contudo, pouco antes de sua morte ele
convocou o novo Concílio para se encontrar na Basiléia.
O sucessor de Martinho V, Eugênio IV, não pôde deixar de cumprir
com o dever que havia herdado de seu predecessor, com o qual ele
já havia solenemente se comprometido no conclave.fi 8]
Sedutora de Almas • 191

A Luta Pela Supremacia


Usando de um pretexto qualquer, Eugênio ordenou que o Concí­
lio debandasse imediatamente, mas a assembléia se recusou e co­
meçou uma contestação ao papa, no início com a garantia da popu­
lação da Europa e do rei Sigismundo. Em vão o papa excomungou
os prelados envolvidos. O suporte para a reforma brotou do apoio
dos reis, príncipes, bispos, prelados e universidades. Sob pressão, o
papa foi obrigado a dar ao Concílio sua completa sanção, um reco­
nhecimento uma vez mais da superioridade do concílio sobre o pa­
pa (que Pio IX ameaçaria reverter no Vaticano I).
O Concílio depôs Eugênio, chamando-o de “um notório pertur­
bador da paz e da unidade da Igreja de Deus, simoníaco, perjuro,
homem incorrigível, cismático, um apóstata da fé, um obstinado
herege, que desperdiçava os direitos e as propriedades da Igreja,
era incompetente e prejudicial à administração do pontificado ro­
m ano../^ 19] (Mesmo assim seu nome permanece na lista oficial
dos vigários de Cristo). Com grande coragem, o Concílio decretou:

Todas as anotações eclesiásticas devem estar de acordo com os


cânones da igreja, toda simonia deve cessar ...todos os padres, quer
sejam das mais altas ou mais baixas posições, devem se afastar de
suas concubinas e quem, dentro de dois meses deste decreto, negli­
genciar estas exigências será privado do seu ofício, mesmo que seja
o bispo de Roma ...os papas não devem exigir nem receber quais­
quer taxas por ofícios eclesiásticos. De agora em diante, um papa
não deveria pensar nos seus tesouros na terra, mas nos seus tesouros
do mundo vindouro.
Esse remédio se mostrou amargo demais e as opiniões se volta­
ram contra o Concílio.[20] O povo queria uma reforma, mas não
tão grande; e a última coisa que o papa e a Cúria desejavam era a
exigência de viverem como verdadeiros cristãos, com um Concílio
controlando o que eles faziam. O papa Eugênio convocou seu pró­
prio Concílio em Florença, depôs e anatematizou os que se reuni­
ram na Basiléia: “fique Basiléia sob interdição, seja excomungado
o concílio municipal e exigido que cada um pilhe os comerciantes
que estavam trazendo suas mercadorias para a cidade, porque está
escrito: ‘o justo espoliou o injusto’.”[21] Então o papa presenteou
o rei Frederico com 100.000 florins “junto com a coroa imperial,
192 • A Mulher Montada na Besta

concedeu-lhe dízimos de todos os benefícios germânicos e... deu


plenos poderes ao seu confessor para lhe dar duas vezes absolvição
plenária de todos os pecados”. Essa é a maneira abominável pela
qual os papas distribuem seus favores, incluindo o perdão de peca­
dos.
O Concílio da Basiléia não podia competir com o poder e a ri­
queza do papa. Eugênio agora tinha a garantia de que precisava.
Von Dollinger comenta: “A vitória de Eugênio foi completa. En­
quanto em seu leito mortuário ele recebia a homenagem dos em­
baixadores alemães, o evento era celebrado em Roma (no dia 7 de
fevereiro de 1447) com repiques de sinos e fogueiras. Como conse­
quência, até mesmo as leves concessões feitas pelo papa aos ale­
mães foram devolvidas em bulas secretas” . Em 1443 um católico
germânico anônimo, de luto por sua Igreja, parece ter confirmado a
visão dada por Deus a João em Apocalipse 17:

A meretriz romana embriagou tantos amantes com o vinho de sua


fornicação, que a Noiva de Cristo, a Igreja, e o Concílio representan­
do-a, dificilmente recebe a devoção leal de um entre cada mil.[22]
Quando faleceu, tendo triunfado sobre o Concílio e a Alemanha,
Eugênio gritava em desespero de consciência: “Como seria melhor
para a salvação de sua alma se você jam ais tivesse se tomado um
cardeal ou papa!”[23] O próximo papa, Nicolau V (1447-1455),
anulou os decretos de Eugênio contra o Concílio da Basiléia (ainda
assim, ambos permanecem na lista oficial dos papas hoje). Era a
última chance de reforma para o papa, mas ela não ocorreu. Logo
em seguida, os diligentes falsificadores da Cúria estavam traba­
lhando novamente na produção de mais documentos falsos para
sustentar a infalibilidade e o domínio dos papas sobre todos.

A Corrupção Daquele Tempo


O domínio de Roma sobre a Igreja e o mundo por mais de 1000
anos utilizando-se de excomunhão, tortura e morte tinha levado a
corrupção a proporções tais que até mesmo a sociedade secular fi­
cou tomada de vergonha e horror. O clamor que ecoava no seio do
Cristianismo era por uma reforma na Igreja. Contudo, todos sa­
biam que isso seria impossível, enquanto a corte de Roma perma­
Sedutora d e Almas • 193

necesse sendo o que era, pois “lá, toda conduta duvidosa é permiti­
da e protegida, e a partir dela se espalha, por isso, a não ser por mi­
lagre, não há esperança de reforma”. [24]
Entre os papas que sucederam Nicolau no suposto trono de
Pedro houve alguns cuja maldade estava além da imaginação.
Von Dollinger fala sobre Paulo II, Sisto IV, Inocêncio III e Ale­
xandre VI, alegando que cada um deles “excedeu os vícios do
seu predecessor”. Um contemporâneo disse que Paulo II havia
“transformado a cadeira papal num esgoto de suas corrup­
ções”. [25] Peregrinos que iam a Roma com grandes esperanças
voltavam desiludidos, como Martim Lutero, ao declarar que “na
metrópole da cristandade, e no coração da grande mãe e aman­
te de todas as Igrejas, o clero, com raras exceções, mantém con­
cubinas”.[26] E a Igreja ainda conseguia tirar proveito dessa si­
tuação.
Sisto IV (1471-1484), que havia licenciado os prostíbulos de
Roma por uma taxa anual e taxava os clérigos por suas aman­
tes, criou um método ainda mais engenhoso de encher os co­
fres da Igreja. Algo que seria bastante proveitoso paia os pa­
pas que o sucederam. Sisto decidiu que ele, como vigário de
Cristo, poderia aplicar indulgências aos mortos, bem como aos
vivos. Era uma idéia nova, algo em que ninguém havia pensa­
do antes e acabou se transformando numa fantástica fonte de
renda.
Que parente vivo poderia recusar-se a comprar o livramento de
pais, tios ou filhos falecidos das torturas do purgatório? E, sem
dúvida, quanto mais ricos fossem os parentes vivos, invariavel­
mente maior era o custo para transferir o morto do purgatório pa­
ra o céu. É de admirar que ninguém falasse uma palavra contra
um papa tão cruel, mas Sisto não era pior do que muitos outros,
e além do mais, mau ou não, ele era o vigário de Cristo e o su­
cessor de Pedro, não era? Mais uma vez Chamberlin expressa is­
so muito bem: “Nenhum monarca em exercício, não importa quão
poderoso e virtuoso fosse, poderia esperar atrair para si mesmo
tão profunda e instintiva reverência dos homens como o sucessor
de Pedro, não importa quão indigno fosse...” [27] As poucas almas
ousadas, tais como Savonarola de Florença, que se atreveram a
criticar as abominações de Roma, foram condenadas às chamas
por causa de seu zelo.
194 • A Mulher Montada na Besta

O Concílio de Trento
Esse era o estado da Igreja Católica Romana no tempo da Refor­
ma. Lembrem-se que Lutero e Calvino eram católicos devotos.
Não havia protestantes. Esta palavra ainda não havia sido inventa­
da. Multidões estavam clamando por reforma durante pelo menos
200 anos. Contudo ninguém, nem mesmo Lutero e Calvino, queria
deixar a Igreja. Eles desejavam vê-la reformada desde o seu inte­
rior.
Furiosos com a oposição ao seu poder, os papas condenaram Lu­
tero e Calvino às chamas, mas incapazes de colocar suas mãos so­
bre eles por causa da proteção de alguns príncipes alemães, a hie­
rarquia católica os excluiu sumariamente da Igreja. Fartas do arro­
gante despotismo do papado, com sua opressão e o extermínio de
qualquer um que não se dobrasse às suas exigências imperiosas,
multidões seguiram Lutero, Calvino e outros líderes da Reforma,
abandonando a Igreja Católica, entusiasmadas com os primeiros si­
nais da liberdade religiosa com que sempre haviam sonhado.
Repentinamente o protestantismo, este rompante clamor de “he­
resia”, estava crescendo e avançava em toda parte. O papa Paulo III
viu seu império afundando e sua influência sobre os reis chegando
ao fim. Paulo III, um papa déspota da Renascença, que havia “con­
cedido a mitra vermelha aos seus sobrinhos de 14 e 17 anos, e os
promovido, apesar de sua notória imoralidade”[28], agiu decisiva­
mente em duas frentes. Ele convocou o Concílio de Trento (cidade
no norte da Itália), que condenaria teologicamente a Reforma, e
trabalhou nos bastidores para organizar uma guerra santa com a
qual pretendia varrer, pelo uso das armas, o protestantismo da face
da terra, em nome de Cristo.
A popularidade de Roma estava em baixa quando o Concílio te­
ve início em 1545 para dar sua resposta ao perigo do protestantis­
mo, que ameaçava a Igreja em grande parte da Europa. Havia ainda
muitos clérigos dentro da Igreja Católica que entendiam a necessi­
dade de uma reforma e esperavam que Trento a trouxesse à tona,
fazendo assim com que fosse possível receber de volta os que ha­
viam deixado a Igreja. O papa e sua Cúria, porém, tinham outros
planos.
O discurso de abertura do Concílio, feito pelo bispo Coriolano
Martorano, até encorajou os que tinham esperanças de reforma. In­
felizmente, poucos dos que partilhavam dessa idéia estavam pre-
Sedutora d e Almas • 195

sentes, pois o papa havia enchido o plenário com seus próprios ho­
mens. Von Dollinger descreve aquele agitado discurso:

O quadro que ele [Coriolano] pintou dos cardeais e bispos, sua


sanguinolenta crueldade, sua avareza, seu orgulho e a devastação
que haviam feito na Igreja era por demais chocante. Um escritor des­
conhecido, que descreveu esta primeira sessão numa carta a um ami­
go, acha que nem o próprio Lutero havia falado tão severamente.[29]
Na verdade, este grito solitário pedindo o retomo ao cristianismo
genuíno foi seguido de um coro de aprovação ao mal que Martora-
no havia exposto. O Concílio de Trento, controlado pelos italianos,
estava provando ser incapaz de enfrentar os fatos. Certa vez, quan­
do um outro delegado, que não era italiano, atreveu-se a trazer
mais denúncias que refletiam negativamente sobre o papado, os
bispos italianos protestaram, bateram os pés e1gritaram que esta
“maldita criatura miserável não pode falar, ele deve ser levado a
julgamento”.[30] A “liberdade de expressão” em Trento era similar
ao que aconteceria 325 mais tarde em Roma, no Vaticano I.
Uma famosa testemunha ocular escreveu logo depois da abertura
do Concílio que nenhuma medida benéfica poderia ser esperada
dos “monstruosos bispos” que lá estavam; “nada havia de episco­
pal neles, exceto os longos hábitos... [eles] haviam se tornado bis­
pos graças a favores reais, através de solicitações, comprados em
Roma através de feitos criminosos, ou após longos anos vivendo na
Cúria”. Eles “devem ser depostos” se Trento quiser produzir algo
digno, mas isso era impossível:[31] Outro contemporâneo, Pallavi-
cini, escreveu: '

Os bispos italianos não tinham outro objetivo senão manter a Sé


Apostólica e sua grandeza. Eles achavam que por trabalharem por
seus próprios interesses, demostravam ser bons italianos e bons cris­
tãos. [32]

As Guerras Entre Católicos e Protestantes


Não satisfeito em ter amaldiçoado os protestantes teologicamen­
te (os cânones e decretos do Concílio de Trento contêm mais de
I9Ó * A Mulher Montada na Besta

íOO anátemas contra as crenças protestantes), o papa Paulo II que­


ria destruí-los fisicamente. Ele ofereceu ao sacro imperador roma­
no Carlos V da Espanha “ 1.100.000 ducados, 12.000 soldados da
infantaria e 500 cavalos, se ele usasse de sua força total contra os
hereges” . O imperador católico estava extremamente feliz por ter
uma razão para levar à sujeição os príncipes alemães protestantes,
seus rivais, e em “esmagar o protestantismo e dar ao seu reino uma
fé católica unificada que, segundo pensava, iria fortalecer e facilitar
o seu governo”.[33]
A guerra travada em toda a Europa durou cerca de dez anos. Paulo
III “emitiu uma bula de excomunhão a todos quantos resistissem a
Carlos V e ofereceu indulgências liberais a todos que o ajudassem”.
Depois de grandes perdas de ambos os lados e muitas traições entre
os governantes rivais, os protestantes permaneceram fortes o bastante
para forçar o imperador a um compromisso. Will Durant explica o
acordo que criou as igrejas estatais que ainda hoje existem na Europa:

À fim de permitir a paz entre e dentro dos Estados, cada príncipe


devia escolher entre o catolicismo romano e o luteranismo; todos os
seus súditos tinham de aceitar "a religião do reino" ao qual perten­
ciam; os que não quisessem obedecer deviam emigrar. Não havia
pretensão de tolerância de nenhum dos lados; o princípio que a Re­
forma sustentara desde o início de sua rebelião - o direito de escolha
pessoa! - seria rejeitado completamente tanto pelos líderes protestan­
tes quanto pelos líderes católicos...
Os protestantes agora concordavam com Carlos V e os papas de
que a unidade na crença religiosa era indispensável à ordem e à
paz... Os príncipes [deveriam] banir os dissidentes ao invés de queí-
má-íos... A vitória real não era a liberdade de adoração, mas a li­
berdade dos príncipes. Cada um deles tornou-se, como Henrique VIII
da Inglaterra, o chefe supremo da Igreja {católica ou protestante) em
seu território, com o direito exclusivo de nomear o clero e os homens
que definiríam a fé obrigatória.
O princípio "Erastiano" - de que o Estado deveria dirigir a Igreja
- foi definitivamente estabelecido. Já que os príncipes, e não os teó­
logos, haviam levado o protestantismo ao triunfo, naturalmente eles
colheram os frutos da vitória - sua supremacia territorial sobre o im­
perador, sua supremacia eclesiástica sobre a Igreja. De fato, o Sacro
Império Romano não acabou em 1806, mas já em 1555.[34]
Sedutora de Almas • 197

A história da Reforma já foi contada em outros livros. Houve


males perpetrados de ambos os lados, mas nos falta espaço para re­
lembrá-los. Neste livro estamos em busca de um objetivo: identifi­
car a mulher montada na besta que é descrita em Apocalipse 17.
Neste capítulo estamos demonstrando o fato de que “Mãe das Abo­
minações” estava inscrito em sua ífonte. Passemos agora do passa­
do para o presente.
“Abominação” é um termo espiritual. Não existe abominação
maior do que rejeitar o sacrifício de Cristo na cruz por nossos pe ­
cados - exceto guiar outros pelo mesmo caminho. Essa abomina­
ção continua de várias maneiras no catolicismo romano até hoje.
Outro dos grandes enganos de Roma se relaciona ao casamento e
ao divórcio.

Outro Nome Para o Divórcio


A Igreja Católica Romana é conhecida pela sua posição obstina­
da contra o divórcio. Mesmo que ela seja uma verdadeira fábrica de
divórcios, acaba escondendo esse fato por usar enganosarnente ou­
tro nome para descrevê-los. Nos Estados Unidos todo ano a Igreja
concede o que ela chama de “anulações” às dezenas de milha-
res.[35] O seu uso da psicologia é especialmente perverso. Muitas
anulações são concedidas mediante razões “psicológicas”, tais co­
mo ter crescido numa família “desajustada” ou estar “psicologica­
mente despreparado” para um casamento que aconteceu décadas
antes e produziu numerosos fdhos. E o máximo em matéria de hipo­
crisia e cinismo, uma das abominações que Roma tem produzido.
Aqui temos o excerto de uma carta típica de uma diocese católi­
ca apresentando a uma mulher perturbada a anulação do seu casa­
mento, concedida ao homem que fora seu marido durante 30 anos
(todos os cinco filhos, o marido e a mulher eram católicos):

A investigação feita pela corte da Igreja Católica determina se um


elemento do sacramento do matrimônio esteve faltando na ocasião
em que foi dado entrada no contrato de casamento. Caso uma inves­
tigação cuidadosa determine que tal elemento, conforme entende a
Igreja, estivesse faltando, então o seu casamento não une você ou o
Sr________ no que diz respeito à Igreja Católica. A decisão não
tem implicações civis e não torna seus filhos ilegítimos.
198 • A Mulher Montada na Besta

É claro que não existem “implicações civis”. Mesmo que muitas


vezes os tribunais sejam injustos, os juizes civis ainda não estão
preparados para fazer de conta que um casamento não aconteceu
de verdade, porque uma das partes afirma que não estava psicologi­
camente preparada na época ou tinha reservas quanto ao fato da re­
lação “dar certo”. Infelizmente, alguns católicos americanos quan­
do casam, deixam agora cartas secretas com seus advogados, ex­
pressando dúvidas caso desejem uma anulação mais tarde. O
bom-senso diria que, se existem dúvidas, então os votos não deve­
riam ser feitos; e uma vez que a promessa de fidelidade é feita “até
que a morte os separe” , então ela deveria ser cumprida. Se os ca­
sais podem fazer votos de fidelidade e mais tarde quebrá-los sem
penalidade e com as bênçãos da Igreja, então todas as relações in­
terpessoais se rompem, sejam comerciais ou particulares. Ninguém
mais merece confiança ao fazer uma promessa.
O programa Prime Time, da TV americana, exibido em 6 de ja ­
neiro de 1994, tratou das anulações católicas. Um padre católico
lembrou ter ouvido um advogado canônico da Igreja lhe dizer:
“Charlie, não existe casamento católico na Igreja nos Estados Uni­
dos que não possamos anular”. Várias das mulheres convidadas fa­
laram que seus ex-maridos, após o divórcio pediram a anulação para
poderem casar novamente na Igreja Católica. Estavam presentes,
por exemplo: Bárbara Zimmerman, casada por 27 anos e mãe de
cinco filhos; Pat Cadigan, casada por 23 anos; Sheila Rauch Ken­
nedy, casada com o deputado Joseph P. Kennedy II, o filho mais ve­
lho de Bobby Kennedy, casada por 12 anos e mãe de filhos gêmeos.
O sacerdote católico que estava no programa, padre Patrick Co-
gan, explicou que são concedidas anulações, mesmo que a Igreja
não creia em divórcio, porque “a Igreja Católica crê que isso deve
ser sujeito a um princípio superior” . Verdade? Ele explicou que
uma anulação significa que “desde o início nunca houve um casa­
mento”. A senhora Kennedy respondeu com raiva: “dizer que um
casamento que durou... quase 13 anos... que foi realizado depois de
nove anos de relacionamento prévio e uma relação que gerou duas
crianças maravilhosas nunca aconteceu, para mim, é absurdo”. O
ex-marido, Joseph Kennedy, havia explicado a ela: “você deve en­
tender que ninguém acredita nisso mesmo - é apenas uma manobra
católica. Essa é a maneira que a Igreja deseja que você diga tais
coisas, portanto não as leve tão a sério”. [36]
T Sedutora de Almas • 199
Enquanto afirma lutar pela santidade, Roma corrompe seus se­
guidores. Durante a exibição do Prime Time, Barbara Zimmerman
declarou: “Em minha opinião, o fato da Igreja dizer algo como:
£bem, você sabe, você não pode obter o divórcio, mas eu anularei o
casamento e vou cuidar disso’ - é algo nojento. E suspeito. É deso­
nesto. É o mesmo que dizer: ‘Vamos ignorar nossas próprias re­
gras’.”
As implicações para a eternidade são muito sérias. Se a Igreja
Católica não merece confiança para dizer a verdade sobre casa­
mento e divórcio, então como pode requerer confiança no tocante à
salvação? Ser enganado nesta vida já é difícil, mas ser enganado
para a eternidade é uma perda que jamais será reconquistada.
O cálice de ouro segurado pela mulher montada na besta estava
transbordante “de abominações e com as imundícias da sua prosti­
tuição” (Apocalipse 17.4). Não há, nem jamais houve, uma cidade
na terra, a não ser a Roma “cristã”, que se encaixe tão perfeitamen­
te nesta descrição. Ela tem sido a sedutora de almas, levando mi­
lhões à abominação da idolatria, à imoralidade sexual, à negação
da suficiência da obra redentora de Cristo na cruz e à enganosa
venda de salvação em seu lugar - e tem feito isso enquanto posa
como a única Igreja verdadeira agindo em nome de Cristo.
“Então, vi a mulher... e, quando a vi, admirei-me com grande
espanto ”
- Apocalipse 17.6

O homem que entra [numa Igreja do século IVj é obrigado a ver


bêbados, miseráveis, trapaceiros, jogadores, adúlteros, fornicado­
res, pessoas usando amuletos, assíduos freqüentadores de feiticei­
ros, astrólogos...
Ele deve ser alertado para o fato de que a mesma multidão que
se acumula nas igrejas durante as festividades cristãs, também en­
che os teatros nos feriados pagãos.
- Santo Agostinho[l]
Uma
Metamorfose
Incrível
Era realmente algo assustador que uma mulher vestida de ma­
neira deslumbrante fosse vista segurando as rédeas e montada so­
bre uma terrível besta devoradora de mundos. Entretanto, o apósto­
lo João parece ter ficado estupefato por algo mais do que esse fato
- ou seja, pela própria mulher (“Quando a vi, admirei-me com
grande espanto”(Apocalipse 17.6)). Por quê? Será porque a mulher
era uma figura religiosa? Provavelmente não.
Nos dias de João era um fato universal que a religião exercia
grande autoridade. A Igreja e o Estado eram um, com a religião de­
sempenhando o papel dominante. Se a mulher representasse apenas
a religião pagã mundial, João dificilmente ficaria surpreso. O que
poderia haver com essa mulher que tanto o espantou? Será que ele
já a conhecia e ficou chocado com sua incrível transformação?
Sob a luxuosa vestimenta, as jóias de valor incalculável, a pesa­
da maquiagem e o olhar desavergonhado e impudente mostravam
haver nela uma familiaridade perturbadora. Não era possível! Co­
mo podería a casta Noiva de Cristo ter-se transformado nessa pros­
202 • A Mulher Montada na Besta

tituta descarada? Que mudança diabólica havia transformado o pe­


queno e desprezado rebanho de seguidores do Cordeiro nessa notó­
ria prostituta brindando a Satanás com o sangue dos mártires num
cálice de ouro?! Como poderia a Igreja, odiada e perseguida pelo
mundo - como Cristo disse que seria - ter se transformado nessa
poderosa instituição mundial que reinava sobre os reis da terra?
João estava perplexo. O que lhe estava sendo mostrado parecia
impossível: os pertencentes a Cristo estavam numa falsa igreja,
uma prostituta. Não havia possibilidade de reformá-la desde o seu
íntimo. O grito viria do próprio Senhor no céu: “Retirai-vos dela,
povo meu, para não serdes cúmplices em seus pecados” (Apoca­
lipse 18.4).
A história confirma a visão de João. Tem-se tomado muito claro
que a religião mundial sob o Anticristo não será o ateísmo, o hin-
duísmo, o islamismo, o budismo e nem mesmo a Nova Era. Será o
cristianismo, mas de forma paganizada - exatamente como foi sob
o governo de Constantino e seus sucessores, os papas. A futura re­
ligião mundial terá seu quartel-general em Roma.

A Perseguição cia igreja Primitiva


Por mais de dois séculos, como disse Tertuliano, o sangue dos
mártires foi a semente da Igreja, consciente do céu e sem ambição
terrena, uma Igreja cujos membros tinham atingido cerca de dez
por cento do Império Romano. A Igreja que Cristo estabelecera pa­
recia florescer sob a perseguição. O desprezo do mundo a manti­
nha pura, desligada dos desejos mundanos e ansiando por estar
com Cristo no céu. Os cristãos eram completamente diferentes dos
pagãos: eram párias, desprezados e culpados por qualquer desastre,
pois sua recusa em adorar ídolos havia supostamente desencadeado
a ira dos deuses. No início do terceiro século, Tertuliano escreve:

Se o Tibre atinge os muros, se o Nilo não enche para regar os


campos, se o firmamento não se movimenta ou se a terra o faz, se há
fome, se há pragas, logo vem o grito: "'Joguem os cristãos aos
leões!" [2]
Tertuliano, um renomado advogado cristão romano, convertido
do estoicismo ao cristianismo, foi um dos primeiros e mais proemi­
Uma M etamorfose Incrível • 203

nentes teólogos e apologistas da Igreja. Ele atacava abertamente to­


das as facetas da cultura e religião pagã. Alfinetando os pagãos que
debatiam com ele, Tertuliano declarava: “Dia a dia vós vos lamen­
tais sobre o progressivo aumento dos cristãos. Vosso grito constan­
te é que o estado em que vos encontrais é responsabilidade nossa,
que os cristãos estão em toda parte” .[3] Um líder da Igreja primiti­
va descrevia os cristãos com estas palavras:

Mas ao mesmo tempo em que eles habitam em cidades gregas ou


bárbaras, conforme cada porção de homens tem sido espalhada, e
seguem os costumes da terra no vestir, no comer e em outros aspectos
da vida diária, mesmo assim as condições de cidadania que eles exi­
bem é maravilhosa e comprovadamente estranha.
Moram em seus países, mas simplesmente como forasteiros... su­
portando a sorte dos estrangeiros...
Existem na carne, mas não vivem segundo a carne. Passam a exis­
tência na terra, mas sua cidadania está no céu. Obedecem às leis es­
tabelecidas, mas vivem acima do padrão estabelecido por elas.
Amam a todos os homens e por eles são perseguidos.[4]
As perseguições do século III eram muito mais severas do que as
dos séculos anteriores. Clemente registra “mortes em fogueiras, na
estaca e decapitações” dos cristãos em Alexandria do Egito antes
de ter abandonado aquela cidade no ano 203.[5] As perseguições
vinham em “ondas”, pontuadas por períodos de relativa tolerância
e tranquilidade. O sistema totalitário dos césares trouxe a visão pa­
gã do imperador como divindade (ele tinha o controle absoluto so­
bre a vida e a morte) tornando admissível tudo o que fizesse. A
lealdade aos cultos pagãos tradicionais, encabeçada pelo imperador
como “Sumo Pontífice” era uma forma de patriotismo. A rejeição
cristã aos deuses pagãos e à adoração ao imperador era vista como
traição e acirrava o ódio popular contra a minoria considerada
“não-patriota”.
Junte-se a isso o fato de que os “templos pagãos começaram a
ser abandonados e as igrejas cristãs a ficarem lotadas”.[6] Nos idos
de 250, o imperador Décio martirizou milhares de pessoas, inclusi­
ve os bispos de Roma, Antioquia e Jerusalém bem como um gran­
de número dos próprios soldados do imperador que se recusavam a
sacrificar aos ídolos. [7] “Nem uma cidade, nem uma vila do ímpé-
2 0 4 • A Mulher Montada na Besta

rio escapou”, informa o historiador Philip Hughes que acrescenta


um dado importante: “a intenção do imperador não era tanto o
massacre de cristãos, mas que voltassem à antiga religião... [atra­
vés] de longos julgamentos... repetidos interrogatórios e extenso
uso de torturas, na esperança de quebrar-lhes gradualmente a resis­
tência”.[8] Chadwick explica ainda:

[Décio exigia] que cada um apresentasse diante de um comissário


especial um certificado (libelo) de que havia sacrificado aos deuses...
Eles [os certificados] eram uma tentativa deliberada de apanhar as
pessoas e foram o mais grave ataque até então sofrido pela Igreja.
O número de apóstatas [os que negavam a fé para salvar suas vi­
das e posses] era enorme, especialmente entre os proprietários de
terras.[9]
Isso parece uma prévia do que acontecerá quando o Império Ro­
mano renascer sob o Anticristo. Depois de um breve intervalo, a
perseguição dirigida pelo imperador Valeriano (253-260) proibiu
toda adoração cristã e focalizou especificamente a execução de lí­
deres da Igreja. Mas também eram inúmeros os mártires entre os
cristãos comuns. O pior, contudo, ainda estava por vir.
A “Grande Perseguição”, como veio a ser conhecida, começou
em 303 sob o imperador Diocleciano e seu co-imperador Galério.
Todas as Bíblias deveriam ser entregues às autoridades, todas as
igrejas destruídas, toda adoração cristã proibida, todos os clérigos
aprisionados e todos os cidadãos do império deviam sacrificar aos
deuses pagãos sob pena de morte. Ém muitos lugares houve um ba­
nho de sangue. Por exemplo, na Frigia, “onde toda a população era
cristã, foi dizimada uma cidade inteira”.[10]

Montando o Palco para a Apostasia


No ápice da mais devastadora perseguição, o livramento veio
de uma maneira surpreendente: na forma de um novo impera­
dor, Constantino. Sendo um brilhante comandante militar, ele
tomou o controle do império no Ocidente, enquanto seu aliado
Licínio conquistou o Oriente. Juntos assinaram o Édito de M i­
lão em 313, restaurando aos cristãos os plenos direitos de ci­
dadãos.
Uma Metamorfose Incrível • 205

O fim da perseguição parecia um presente de Deus. Infeíizmen-


te, esse acontecimento serviu para armar o palco para uma aposta­
sia que envolveria o cristianismo por mais de um milênio. A Noiva
de Cristo havia se casado com o paganismo. Não é de admirar que
João ficasse tão chocado!
O único cristianismo que João conhecia era o “pequeno reba­
nho” (Lucas 12.32) formado por aqueles que, odiados pelo mundo,
seguiam o caminho de Cristo, repleto de rejeição e sofrimento. O
Senhor havia prometido: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo ama­
ria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrá­
rio, dele vos escolhi... Se me perseguiram a mim, também persegui­
rão a vós outros.JJ (João 15.19-20). E foi assim que aconteceu.
Que esse pequeno e desprezado bando, perseguido pelo mundo
por causa de sua santidade e fidelidade a Cristo, pudesse se trans­
formar numa instituição maligna, montada no assento do poder
mundial e governando sobre os reis e reinos da terra, parecia algo
impossível para João, mas ela estava presente na visão que teve so­
bre o futuro.
Com o consentimento e a participação dos bispos, que a princí­
pio foi relutante mas depois tomou-se cada vez mais progressiva e
entusiástica, a Igreja entrou numa apostasia que a conduziu ao ca­
tolicismo romano e que tem perdurado até os dias de hoje. Na ver­
dade agora está chegando o momento do julgamento final de Deus
contra a grande meretriz. Will Durant, um historiador secular, sem
ligação alguma com a religião, comenta sobre o casamento do cris­
tianismo com o paganismo, que ocorreu graças à pretensa “conver­
são” de Constantino e sua assunção à liderança da Igreja:

O paganismo sobreviveu... na forma de antigos ritos e costumes


tolerados, ou aceitos e transformados por uma Igreja muitas vezes in­
dulgente. Uma adoração íntima e confiante dos santos substituiu o
culto aos deuses pagãos. Estátuas de ísis e Horus foram renomeadas
como Maria e Jesus. A "Lupercália" romana e a "Festa da Purifica­
ção" de ísis transformaram-se na "Festa da Natividade"; a "Saturná-
lia" foi substituída pela celebração do Natal... Um antigo festival dos
mortos passou a ser denominado "Dia de Todos os Santos", dedicado
agora aos heróis cristãos; incenso, luzes, flores, procissões, vestimen­
tas, hinos que haviam agradado o povo em cultos mais antigos fo­
ram domesticados e purificados nos rituais da Igreja... logo o povo e
206 • A Mulher Montada na Besta

os sacerdotes usariam o sinai da cruz como uma fórmula mágica pa­


ra afugentar ou expelir demônios...
[O paganismo] foi transmitido como o sangue materno à nova reli­
gião e a Roma que antes era cativa capturou seu conquistador... o
mundo converteu o cristianismo...[11 ]

De Perseguida a Perseguidora
Referindo-se ao desenvolvimento que se deu após Constantino,
Peter Brown escreve: “Longe de ser uma fonte de melhoramento,
esta aliança [com o Estado] foi uma fonte de ‘maior perigo e tenta­
ção’ [do que havia sido a perseguição]... A difusão do cristianismo
na África, enchendo indiscriminadamente as igrejas, havia simples­
mente atirado para longe as claras distinções morais que separavam
a ‘Igreja’ do ‘mundo’.” [12] Considerações políticas começaram su­
bitamente a influenciar a vida e a doutrina cristã (exatamente como
hoje), porque o que era melhor para o Estado parecia melhor para
os assuntos eclesiásticos e o imperador agora tomava conta de am­
bos. Com a queda do Império Romano, os papas assumiriam o pa­
pel do imperador e o casamento com o mundo estaria completo.
Em seu novo papel como a favorecida (e eventualmeute oficial)
religião do império, o “cristianismo” ficou poluído por sua ávida
demanda pelo poder secular. A pureza e o poder espiritual da Igreja
primitiva tinham sido tão admiráveis que os incrédulos não se atre­
viam a se juntar a ela (Atos 5.13). Em contraste, Peter de Rosa des­
creve eloqüentemente aquilo em que a Igreja se transformaria após
Constantino:

Não passou muito tempo [após Constantino] até que os [supostos]


sucessores de Pedro deixassem de ser os servos, passando a ser os
donos do mundo. Eles se vestiriam de púrpura como Nero e chama­
riam a si mesmos de pontifex maximus. Eles se refeririam ao pesca­
dor como "o primeiro papa" e apelariam não para a autoridade do
amor, mas do poder nele investido para agirem como Nero.
Contrariando os ensinos de Jesus, os cristãos faziam aos outros o
mesmo que foi feito com eles e coisas ainda piores. A religião que se
orgulhava de ter triunfado sobre a perseguição mediante o sofrimen­
to tornar-se-ia a fé mais perseguidora que o mundo já viu...
Uma Metamorfose Incrível • 207

Ela ordenava, em nome de Cristo, que todos aqueles que discor­


dassem fossem torturados e, às vezes, crucificados e queimados. Ela
faria uma aliança entre o trono e o altar; insistindo que o trono é o
guardião do altar e o defensor da fé.
Sua idéia seria que o trono (o Estado) devia impor a religião cristã
a todos os seus súditos. Não a perturbava o fato de Pedro ter lutado
contra tal aliança e morrido por causa disso.[1 3]
De perseguida a Igreja tomou-se a principal perseguidora, não
apenas da fé religiosa, como já vimos, mas de toda forma de liber­
dade de consciência. Hasler explica como a metamorfose ocorreu:
“Uma vez que o cristianismo se tomou a religião estatal, os desvios
da ortodoxia ameaçavam tanto a unidade do império como a da
Igreja. E era o imperador quem tinha o maior interesse em resolver
as disputas doutrinarias. Ele convocava concílios ecumênicos e di­
tava os seus resultados”.[14] Os papas, contudo, tinham um trunfo
escondido - as chaves do céu - e o usavam para intimidar reis e
imperadores para se tomarem o braço secular que era a sua exten­
são, especialmente durante as inquisições.
Em 1864 o Syllabiis Errontm de Pio IX condenou “toda a visão
existente dos direitos de consciência e fé e também de profissão reli­
giosa”. O Syllabus declarava que era “um erro terrível admitir que os
protestantes tivessem direitos iguais aos católicos, ou permitir que imi­
grantes protestantes celebrassem seu culto livremente; pelo contrário,
coagir e suprimi-los seria um dever sagrado, quando isso fosse possí­
vel... a Igreja, sem dúvida, agirá com a maior prudência no uso do seu
poder temporal e físico, conforme as diversas circunstâncias...” [15]
A Bíblia era o livro mais perigoso do mundo e tinha de ficar fora
do alcance do povo. O clero daria a eles trechos selecionados e di­
ria o que significavam. A visão protestante de que qualquer um era
capaz de ler e entender a Bíblia destruiria o catolicismo. A consti­
tuição Unigenitm do papa Clemente XI (1713) denunciou as se­
guintes proposições jansenistas apresentadas por Pasquier Quesnel;

"Os cristãos devem santificar o Dia do Senhor ao ler livros piedo­


sos, em especial as Sagradas Escrituras". O julgamento de Clemente:
"CONDENADO"!
'Tirar o Novo Testamento das mãos dos cristãos é fechar a boca
de Cristo contra eles". CONDENADO!"
208 * A Mulher Montada na Besta

"Proibir os cristãos de ler as Sagradas Escrituras e especialmente


os evangelhos é proibir o uso da luz aos filhos da luz e puni-los com
uma espécie de excomunhão". "CONDENADO!"

Liberdade - Ao Estilo de Roma


O Vaticano já não pode hoje impor seus éditos da maneira totalitá­
ria que fazia antigamente. Por isso professa agora defender a liberda­
de de religião e de consciência porque deseja que o seu próprio povo
tenha esses direitos onde os católicos são minoria. O Vaticano II tem
uma seção inteira intitulada “Declaração da Liberdade Religiosa”, a
qual contém declarações como: “o ser humano tem direito à liberda­
de religiosa”.[16] O que ele promove, contudo, é a independência de
qualquer interferência do governo ou discriminação contra a soa re­
ligião. Uma impressão desonesta de que Roma advoga a total liber­
dade de religião acaba sendo transmitida. Não há menção, e muito
menos arrependimento, dos milhões de pessoas que foram martiriza­
dos e massacrados século após século, simplesmente porque não
aceitaram as interpretações católicas romanas da Bíblia.
O Concílio Vaticano II também não concede genuína liberdade
de consciência. Sim, ele diz que todos são livres para procurar a
verdade. Mas declara que a verdade existe apenas dentro da Igreja
Católica Romana. E tampouco o Concílio aponta para a Bíblia, a
Palavra de Deus, como a fonte da verdade, a ser lida e entendida
por todos. Assim como fazia na Idade Média, ele diz que apenas a
Igreja pode interpretar a Bíblia e somente ela tem os sacramentos e
os meios de salvação. A Igreja possui a verdade, é sua guardiã e
sua única despenseira em toda a história.
Assim sendo, apesar de todos os argumentos sobre liberdade de
religião e consciência, nesta seção do documento oficial do Vatica­
no II não existe uma liberdade verdadeira porque esse mesmo do­
cumento deixa claro que a verdade só pode ser conhecida e a alma
salva através da submissão cega e total a Roma. Considere essas
palavras transcritas da seção sobre a “Liberdade Religiosa”:

Cremos que a única religião verdadeira continua a existir na Igre­


ja Católica/ à qual o Senhor Jesus confiou a tarefa de difundí-la entre
todos os homens...
Uma Metamorfose Incrível • 209

Assim, uma vez que a liberdade religiosa que os homens procu­


ram para preencher sua obrigação de adorar a Deus tem a ver com
a liberdade de coerção na sociedade civil, deixa intacto o ensino ca­
tólico tradicional sobre o dever moral dos indivíduos e das socieda­
des no tocante à verdadeira religião e à única Igreja de Cristo...
Através dos tempos, ela [a Igreja Católica Romana] tem preserva­
do e entregue a doutrina que recebeu do Mestre e dos apóstolos... ao
formarem suas consciências, os fiéis devem prestar muita atenção ao
ensino correto e sagrado da Igreja. Pois a Igreja Católica é, segundo
a vontade de Cristo, a mestra da verdade. É seu dever proclamar e
ensinar com autoridade a verdade que é Cristo e, ao mesmo tempo,
declarar e confirmar por sua autoridade os princípios de ordem mo­
ral que brotam da própria natureza humana.
Portanto, enquanto na teoria há liberdade, na prática ela não
existe. A pessoa é livre para procurar a verdade, mas a verdade não
existe na Bíblia de uma maneira que possa ser reconhecida peia
consciência e estar disponível para toda a humanidade, mas reside
somente dentro da Igreja Católica Romana e somente os seus pre­
lados podem reconhecê-la e dispensá-la. Ninguém deve julgar sua
“verdade” pela consciência ou pela Palavra de Deus, mas seus dog­
mas devem ser cegamente aceitos porque ela é a única Igreja ver­
dadeira fundada por Cristo sobre Pedro, e seus papas são os suces­
sores de Pedro.
O próprio Anticristo vai reconhecer essa declaração fantástica (a
mulher cavalgará a besta), mas não com mais sinceridade do que o
fez Constantino. Será uma manobra a fim de usar a Igreja para os
seus próprios fins, até que ele finalmente coloque sua imagem no
templo e exija que o adorem como “Deus” . Naquele momento a
besta se voltará contra a mulher e irá devorá-la (Apocalipse 17.16).

Pastores Enganando Ovelhas


Lembrem-se, foi o sistema papal totalitário que, antes de tudo,
destruiu os homens que se tomaram parte dele e por meio deles
destruiu a Igreja. Os pastores se corromperam com a ambição de
poder levando em seguida a corrupção para todo o clero, o qual,
por sua vez, corrompeu o povo. O cardeal Sadolet, falando sobre
Clemente VII, disse que o conhecia intimamente e que antes de sua
210 • A Mulher Montada na Besta

eleição ele estudava constantemente a Bíblia, mas posteriormente


seu caráter acabou se deteriorando e seu pontificado foi “uma série
de erros, um eterna tentativa de evadir o Concílio que ele odiava e
temia”. Antes de se tomar papa, Paulo IV favorecia a reforma da
Igreja, mas em seguida passou a buscar avidamente os seus interes­
ses egoístas e o progresso e enriquecimento de seus sobrinhos. Um
contemporâneo descreve Pio IV antes do seu pontificado como
“humano, tolerante, beneficente, gentil e altruísta”, mas que agia
de maneira completamente oposta após se tomar papa. Ele “se en­
tregou à sensualidade e desejos vulgares, comia e bebia imoderada­
mente, tomou-se imperioso e trapaceiro” e até mesmo parou de
frequentar o “serviço divino na capela” . O mesmo ocorreu com
Inocêncio X, Alexandre VII e muitos outros.[17]
Com sua clareza usual, Peter de Rosa nos dá mais uma revelação
a respeito do assunto: “No século X, com todos os seus papas ado­
lescentes, adúlteros e assassinos, o papado era um fenômeno local.
O cabeça de uma poderosa família romana colocava o seu acari­
nhado filho adolescente no trono; o rapaz fazia o que bem queria
durante poucos meses ou anos e acabava sendo vítima de uma em­
boscada dos membros de uma família rival, cuja hora havia chega­
do. Mas a partir do século XI, Gregório VII colocou seu selo sobre
o papado. Sua estrutura e prestígio cresceram; sendo capaz de con­
trolar a Igreja inteira, desde o simples cura campestre ao mais po­
deroso arcebispado. O que emergiu foi a corrupção mais terrível
que os cristãos jã haviam visto, ou provavelmente verão. Começou
no alto. O papado foi leiloado em conclaves pelo mais alto preço,
independentemente do valor do candidato”.[18] Von Dollinger es­
tendeu a censura à Cúria inteira:

Quando os cardeais disseram, na caria endereçada ao seu papa,


Gregório Xlf, em 1408, que a Igreja estava doente desde a planta
dos pés até o alto da cabeça, deveriam ter acrescentado, se quises­
sem dizer toda a verdade: "somos nós e nossos colegas, e vossos
predecessores, a Cúria, que saturamos o corpo da Igreja com veneno
moral, e, portanto, ela está agora tão gravemente enferma".[19]
São Boaventura declarou que em Roma “os cargos da Igreja
eram comprados e vendidos, assim faziam os príncipes e governan­
tes da assembléia da Igreja, desonrando Deus por sua incontinên-
Uma Metamorfose Incrível • 211
cia, seguidores de Satanás e saqueadores do rebanho de Cristo... os
prelados, corrompidos por Roma, infestavam o clero com seus ví­
cios; e o clero, com seu terrível exemplo de avareza e depravação,
envenenava e levava à perdição todo o povo cristão”. Outros “dis­
seram que a Cúria era a ‘igreja carnal’ totalmente corrompida...”
Os que ainda tinham alguma esperança de reforma da Igreja, escre­
ve Doilinger, “previram uma grande renovação e purificação atra­
vés de um papa santo, o papa Angelicas, há tanto esperado, mas
que nunca apareceu”.[20]
Petrarca, observador atento da Cúria Romana durante muitos
anos, chegou à conclusão de que Roma era o cumprimento da vi­
são de João em Apocalipse 17. Ela era “a mulher apocalíptica em­
briagada com sangue, sedutora de cristãos e praga da raça huma­
na”. Von Doilinger afirma que as descrições de Petrarca do papado
e da Cúria “são tão atemorizantes que se poderia supor serem exa­
geros de ódio, se não fossem confirmadas por todos os seus con­
temporâneos. Um frade agostiniano de Florença, Luigi Marsigli,
disse que a corte papal não mais governava com hipocrisia - exi­
bindo seus vícios tão abertamente - mas apenas através do horror
inspirado por suas interdições e excomunhões”.[21]
Os papas haviam sobrecarregado São Boaventura de honrarias.
Como cardeal e general de sua ordem, ele era ligado a Roma pelos
laços mais fortes. Mesmo assim, em seu comentário do Apocalip­
se, ele declara que Roma é “a meretriz que embriaga os reis e na­
ções com o vinho de sua prostituição”. Dante também aplicou aos
papas a profecia apocalíptica da meretriz sobre os sete montes, que
está embriagada com o sangue dos homens e seduz príncipes e po­
vos. [22] João achava ser difícil de acreditar que algum dia tal me­
tamorfose ocorresse - mas ela tem se cumprido, exatamente como
Cristo revelou.

Alguns Contrastes a Ponderar


Para o católico comum, a Igreja Católica mantém uma posição
que é inteiramente diferente da relação entre um evangélico e a de­
nominação a que ele pertence. Para os evangélicos, o cristianismo
envolve uma relação pessoal entre o crente, Deus e Jesus Cristo.
Muitos protestantes não têm essa relação pessoal e, portanto, não
são cristãos verdadeiros. Contudo, a perda dessa relação pessoal
212 • A Mulher Montada na Besta

não ocorre porque eles tenham sido ensinados a procurar a salva­


ção numa igreja batista, metodista, presbiteriana ou de qualquer
outra denominação; ao menos esse não é o ensino comum das igre­
jas protestantes.
Em contraste, um mórmon aprende que a salvação vem ao per­
tencer ou permanecer firme na Igreja de Jesus Cristo dos Santos
dos Últimos Dias. O mesmo acontece com as testemunhas de Jeo­
vá, os membros da Ciência Cristã ou de outras seitas, mesmo sen­
do elas “cristãs”, hindus ou budistas. Roma também decreta que a
pessoa só recebe “os méritos e graças de Cristo” através da Igreja.
A essencial relação pessoal com Jesus Cristo, à parte de qualquer
instituição, e a segurança de estar com Ele no momento da morte é
negada aos católicos. Sua esperança está na Igreja: eles esperam
que seus contínuos esforços, mesmo após sua morte, eventualmen­
te os levarão para o céu.
Enquanto a Bíblia ensina a submissão aos líderes da Igreja, tam­
bém insiste em que a submissão vai somente até onde os líderes es­
tiverem seguindo o próprio Cristo. Paulo escreveu: “Sede meus imi­
tadores, como também eu sou de Cristo” (1 Coríntios 11.1). Ele
não quis dizer que todos os cristãos deveriam segui-lo por causa de
sua posição de destaque, mas apenas porque ele era fiel a Cristo e
Sua Palavra. É obvio que, para fazer tal julgamento, a pessoa deve
conhecer por si mesma a Cristo e Sua Palavra.
Paulo diz que todo crente, e não apenas uma classe especial de
clérigos, é livre para apresentar a verdade de Deus à Igreja, e quan­
do os líderes falam à Igreja os ouvintes devem julgar por si mes­
m o s a validade do que está sendo dito (1 Coríntios 14.29-32). Em
contraste, o Código de Direito Canônico do catolicismo declara:
“A Primeira Sé (o papado) por ninguém é julgada”.[23] O Vaticano
II declara que os pronunciamentos dos papas sobre fé e moral são
infalíveis, irreformáveis, “de modo algum necessitam da aprovação
dos outros, e nem admitem que se apele a qualquer tribunal”.[24]
O mesmo é dito sobre “o colegiado dos bispos quando, juntos com
o sucessor de Pedro [o papa], exercerem o supremo ofício do ma­
gistério”. [25]
João diz que todos os verdadeiros crentes têm a unção do Es­
pírito Santo, por isso não devem seguir cegamente a ninguém
(1 João 2.20-27), mas precisam discernir se uma doutrina é bíbli­
ca, seguindo a orientação de Deus através de sua Palavra e do Es-
Uma Metamorfose Incrível • 213

pírito Santo. De que outra forma poderíamos julgar se os que pre­


gam estão ensinando a verdade de Deus, como Paulo diz que de­
vemos fazer? No catolicismo, contudo, é explicitamente declara­
do que ninguém pode ter uma opinião pessoal concernente à ver­
dade bíblica, mas deve aceitar tudo que a hierarquia da Igreja
ensinar.

Grande Responsabilidade, Grande Privilégio


Como já vimos, na linguagem de Mateus 28.19-20, (“ensinando-
os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”), várias con­
clusões são óbvias: 1) Uma linha contínua de mandamentos flui de
nosso Senhor através de sucessivas gerações de discípulos pela his­
tória do cristianismo; 2) Todo cristão comum tem de obedecer a to­
do mandamento que Cristo deu aos Seus discípulos originais, cum­
prindo o que Ele os treinou e mandou fazer, inclusive pregar o
Evangelho a todas as nações e fazer discípulos; 3) Cada cristão re­
cebeu do Senhor alguns dos privilégios, responsabilidades, autori­
dade e poder dados aos apóstolos originais. De outro modo, como
poderia cada geração de novos discípulos obedecer a todos os man­
damentos que Cristo deu aos Seus apóstolos?
Os primeiros cristãos obedeceram essas instruções. Nem mes­
mo o conhecimento de que poderiam ser mortos pôde detê-los.
Após a morte de Estevão eles foram dispersos, e somos informa­
dos de que em toda parte onde iam, pregavam o Evangelho (Atos
8.4). Devemos fazer o mesmo. Encarregado da Grande Comissão
de pregar o Evangelho “a toda criatura”, todo discípulo, a todo
momento na história, é um soldado da cruz e embaixador do Rei
dos reis. Que espantosa responsabilidade - mas que grande privi­
légio!
Infelizmente muitos cristãos não desejam assumir tal responsa­
bilidade. Eles querem deixá-la para uma classe especial de profis­
sionais, muitos dos quais estão muito ansiosos para assenhorear-se
do rebanho. Todo cristão tem autoridade de resistir ao diabo e vê-lo
fugir, de “ligar e desligar” como Cristo capacitou os primeiros dis­
cípulos, e de ser Seu embaixador à humanidade. Na metamorfose
dos séculos após Constantino, a hierarquia romana exigiu para si o
direito exclusivo de fazer o que Cristo intencionava que fosse a ta­
refa de Seus discípulos.
214 • A Mulher Montada na Besta

Distinções Importantíssimas
Cristo fez uma clara distinção entre César e Deus: “Dai a César
o que é d e César e a Deus o que é d e D eus” (Marcos 12.17). Isso é
algo fundamental. A Igreja Católica casou Deus com César. Igreja
e Estado se tomaram um, com a Igreja no controle e o Estado obe­
decendo-lhe, algo que continua acontecendo nos países católicos.
Cristo fez uma clara distinção entre o Seu reino, que não é deste
mundo, e os reinos do mundo (João 18.36) Em desobediência a
Cristo, a quem dizem representar, os papas construíram um reino
que é muitíssimo deste mundo, embora eles afirmem ser o Reino
de Deus. E eles o construíram através de alianças profanas com go­
vernantes seculares.
Cristo fez uma clara distinção entre Sua Igreja (a qual Ele reti­
rou do mundo) e o mundo (cf. João 17.18-20). João declarou:
“Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém
amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2.15).
As distinções que Cristo fez devem ser obedecidas por aqueles
que pertencem a Ele: “Se alguém me ama, guardará a minha pala­
vra... Quem não me ama não guarda as minhas palavras” (João
14.23-24); “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o
que eu vos mando?” (Lucas 6.46).
“Vem, mostrar-te-ei o julgamento da grande meretriz que se
acha sentada sobre muitas águas, com quem se prostituíram os reis
da terra; e, com o vinho de sua devassidão, fo i que se embebeda­
ram os que habitam na terra ”
- Apocalipse 17.1-2

Vós [papa Pio IX] tendes sido condescendente com a união da


fornicação política e o governo civil de todos e quaisquer países
despóticos; vós tendes prostituído a cruz, o símbolo do sacrifício e
salvação, e feito dela um símbolo da tirania e da ruína.
Os que se intitulam vigários de Deus na terra têm se tomado vi­
gários do gênio do mal.
- Giuseppe Mazzini - um italiano patriota, 1863[1]
Alianças Profanas
Uma cidade construída sobre sete montes é acusada de cometer
fornicação com os reis da terra! Já vimos que o termo “fornicação”
é sempre usado na Bíblia no sentido espiritual, significando infide­
lidade a Deus. Ezequiel 16 é totalmente dedicado a denunciar Jeru­
salém por sua infidelidade a Deus, comparando a cidade a uma
“mulher adúltera, que, em lugar de seu marido, recebe os estra­
nhos” (v. 32). Jerusalém havia violado sua relação espiritual com
Deus através da idolatria e alianças com nações pagãs. Algo que fi­
ca claro em muitas passagens da Escritura.
Entretanto, Jerusalém não pode ser a mulher porque, como já vi­
mos, não está edificada sobre sete montes e não preenche nenhum
dos outros critérios. Então é óbvio que essa cidade, que a mulher
representa, deve alegar possuir uma relação com Deus semelhante
a de Jerusalém. De fato, Roma afirma ter substituído Jerusalém na
afeição de Deus. E tem violado esta relação ao fazer alianças pro­
fanas com reis incrédulos da terra. Somente Roma preenche este e
muitos outros critérios especificados por João.
A história está repleta de registros de alianças profanas entre o
Vaticano e os governos seculares. Muitas evidências ainda estão
presentes hoje em igrejas e monumentos de Roma. Por exemplo, o
museu do Vaticano está repleto de pinturas antigas de valor incal­
culável, esculturas, tapeçarias, ouro e jóias anteriormente usadas
ou entesouradas por governantes déspotas. A maioria delas foi doa­
2 1 8 • A Mulher Montada na Besta

da aos papas pelos reis, rainhas ou governos, como lembrança de


sua associação com essas figuras mundanas - relacionamentos que
a Bíblia condena e que seriam impensáveis para a verdadeira Noiva
de Cristo.

O Testemunho da História
Expulso de Roma por um levante popular contra o seu reinado
opressivo, o papa Leão III fugiu para a corte de Carlos Magno, a
fim de conseguir ali ajuda para reconquistar os territórios sobre os
quais os papas haviam reinado. Os exércitos sedentos de sangue re­
capturaram Roma e, em nome de Cristo, devolveram Leão ao trono
papal. Quando Carlos Magno se ajoelhou durante a missa na Basí­
lica de São Pedro, no dia de Natal do ano 800, o papa colocou uma
coroa sobre sua cabeça e o proclamou imperador do Ocidente. O tí­
tulo acabou sendo reconhecido tanto pelo imperador oriental em
Constantinopla, como pelo califa de Bagdá. Como nos relembra
Maurice Keen: “A restauração do domínio mundial de Roma era o
sonho não apenas dos papas e imperadores medievais, mas também
de todos os seus súditos e criados”. [2] Esse sonho será finalmente
cumprido no governo do Anticristo.
A manobra do papa foi astuta. O poder de Carlos Magno havia
ameaçado ofuscar a autoridade do papado. Contudo, após sua cora­
ção pelo papa na basílica de São Pedro, Carlos Magno, em firme
associação com o papado, “trabalhou durante cerca de 40 anos a
fim de criar um Estado cristão, conforme Santo Agostinho havia
determinado anteriormente”.[3] As brutais campanhas militares do
imperador na porção norte da Europa eram acompanhadas pela
conversão forçada dos pagãos. Carlos Magno era o braço secular
do papa para a cristianização dos pagãos pela espada e, dessa for­
ma, alargava o domínio católico romano como os conquistadores
espanhóis iriam fazer mais tarde na América Latina.
Como já foi mencionado aqui, Pepino, o pai de Carlos Magno,
baseado num documento fraudulento chamado A Doação de Cons­
tantino, havia subdividido e devolvido aos papas os imensos terri­
tórios mais tarde conhecidos como Estados papais e governados
pelo papa. Porém Carlos Magno também foi enganado por esta
fraude. Baseado na Doação, ele elaborou formalmente uma carta
que reconhecia o papado como governante espiritual e temporal de
Alianças Profanas • 2 1 9

"todas as regiões da Itália e do Ocidente”. Assim sendo, Carlos


Magno agiu como protetor e sócio dos papas, do mesmo modo que
Constantino havia feito logo no início do desenvolvimento da coa­
lizão Igreja-Estado. Tal arranjo, totalmente contrário aos ensinos
de Cristo, é apenas um exemplo da fornicação espiritual em que a
mulher se envolveria, exatamente como João previu em sua visão.
Finalmente a Igreja e o Estado ficaram ligados tão estreitamente,
que dificilmente podia ser vista uma distinção entre eles. Os impe­
radores convocavam e presidiam os grandes concílios da Igreja e
consideravam o papa e o resto da hierarquia da Igreja como seus
sócios no governo das massas. Essas alianças papais profanas, que
logo seriam comuns, teriam sido anatemizadas pela Igreja primiti­
va; elas zombavam da rejeição e da crucificação de Cristo pelo
mundo. Vejamos outro excerto do discurso vergonhosamente baju­
lador feito por Eusébio (uma porção diferente da que foi previa­
mente mostrada) em louvor a Constantino. Ele atribuía ao impera­
dor pagão as muitas qualidades espirituais e autoridade e funções
eclesiásticas exigidas pelos papas hoje em dia:

Nosso imperador, Seu amigo [de Cristo], agindo como intérprete


da Palavra de Deus, almeja reconduzir toda a raça humana ao co­
nhecimento de Deus; proclamando cíaramente aos ouvidos de todos
e declarando com voz poderosa as leis da verdade e da santidade a
todos os habitantes da ferra... investido da semelhança da soberania
celestial como ele está... molda o seu governo terreno conforme o pa­
drão divino original... a monarquia de Deus".[4]
Não resta dúvida alguma quanto à incrível exatidão da visão de
João de uma cidade que afirma pertencer a Cristo é, mesmo assim,
se prostitui com os reis da terra. Ter os governantes terrenos impon­
do o “cristianismo”, através do poderio militar, sobre um império
papal sempre em crescimento foi uma paródia blasfema da verdade
que Cristo ensinou. Era uma interpretação equivocada do Evange­
lho tão grosseira e uma identificação tão confusa do Estado com a
Igreja, que Cristo acabou sendo considerado o verdadeiro governan­
te de Bizâncio! Moedas eram forjadas retratando Jesus com uma
coroa imperial sobre a cabeça e ícones representavam-nO usando as
vestes do imperador. O próprio trono do imperador permanecia pró­
ximo ao outro, vazio, exceto por uma cópia dos evangelhos, indi­
2 2 0 • A Mulher Montada na Besta

cando ser Cristo o co-imperador de Bizâncio. Esse era o espírito rei­


nante naqueles tempos e que prevalecia também no Ocidente.
Como já mencionamos antes, o papa Inocêncio III acabou por
abolir o Senado Romano e colocou a administração de Roma dire­
tamente sob o seu controle com um único senador como seu repre­
sentante. Em 1266 Clemente IV deu essa função a Carlos d’Anjou,
o qual fundou a Universidade de Roma. O papado continuava parti­
cipando ativamente de quase todas as intrigas políticas e seus exér­
citos estavam aliados às forças militares de muitos reis nas guerras
continentais que se espalhavam pela Europa.
No Novo Mundo a Igreja era a companheira dos conquistadores
espanhóis e dos portugueses na África. No início dos anos 90, ati­
vistas indígenas dos Estados Unidos clamaram ao papa João Paulo
II para revogar formalmente a bula papal Inter Cetera, promulgada
em 1493. Ela declarava que “as nações bárbaras descobertas e ain­
da a serem descobertas deveriam ser subjugadas à fé católica, a fim
de propagar o império cristão”. [5] Exemplos da “fornicação com
os reis da terra” na história antiga poderiam ser multiplicados, mas
precisamos voltar aos tempos modernos.

A Concordata de 1929 Com Mussolini


Já citamos que a independência da Itália foi declarada em 1870, e
o que sobrou dos Estados papais foi absorvido pela nova nação uni­
da. Também dissemos que o povo italiano votou expressivamente
contra o governo do papa e por uma nova independência. Os poderes
temporais dos papas chegaram ao fim, incluindo o prestígio e as
alianças com regimes mundanos. A autoridade civil dos papas ficara
limitada ao Vaticano, onde eles permaneceram num exílio auto-iro-
posto por cerca de 60 anos, até que Mussolini e o papa Pio XI assi­
naram o Tratado de Latrão, em 1929.
Por força da lei, essa Concordata tornou novamente o catolicis­
mo romano a “única religião” da Itália. Certamente nem Pedro,
nem Paulo e tampouco Cristo jamais teriam entrado em tal acordo
com um governo, muito menos com uma ditadura fascista. O Vati­
cano, que afirmava ser a única e verdadeira Igreja, a Noiva de Cris­
to (que disse que o Seu reino não era deste mundo), foi novamente
reconhecido como um Estado soberano, com o status de nação, ca­
paz de enviar e receber embaixadores políticos.
Alianças Profanas * 221

Por ter-se apropriado dos territórios papais em 1870, a Itália pa­


gou à Santa Sé 750 milhões de liras em dinheiro e um bilhão de li­
ras em bônus do Estado. Parte desses fundos foi usado para abrir o
Banco do Vaticano, que ficou famoso por sua corrupção. Outra
parcela do dinheiro recebido acabou sendo destinada a estranhos
investimentos feitos pela Santa Madre Igreja, tais como “uma fá­
brica de armas de fogo italiana e um laboratório farmacêutico ca­
nadense, que fabricava anticoncepcionais”. [6]
Não restam dúvidas de que foi a Igreja Católica Romana quem
colocou Mussolini no poder. Para obter o Tratado de Latrão, o papa
exigiu que os católicos se isentassem de participação política (mui­
tos haviam sido socialistas que se opunham fortemente a Mussolini
e seu Partido Fascista) e deu apoio ao “Duce”. O papa fez fortes
declarações públicas de apoio a Mussolini, como, por exemplo:
“Mussolini é o homem enviado pela Providência Divina” - de mo­
do que os católicos não tiveram outra escolha, a não ser apoiar o
futuro ditador fascista. Sem essa ajuda Mussolini não teria recebi­
do votos e a história teria sido muito diferente. .

Quid Pro Quo


Mussolini, por seu lado, após ter sido assinada a Concordata, de­
clarou: “Reconhecemos o lugar de preeminência da Igreja Católica
na vida religiosa do povo italiano - o que é perfeitamente natural
num país católico como o nosso e sob um regime como o fascis­
mo”. Todos os cardeais em Roma, em um discurso dirigido ao pa­
pa, exaltaram Mussolini como “o eminente estadista [que governa
a Itália] por um decreto da Providência Divina”. Ao fazermos uma
retrospectiva, ficamos admirados em ver como os homens que se
dizem emissários do Espírito Santo pudessem estar tão errados.
Contudo, havia uma razão egoísta para tudo aquilo.
Era um quid pro quo [acordo com vantagens mútuas], que pro­
metia muito para ambas as partes. Mussolini precisava da Igreja
para estabelecer seu domínio na Itália e, por seu lado, a Igreja esta­
va disposta a apoiá-lo em troca da restauração ao menos de um
pouco de seu prestígio e poder anteriores. Com o maciço apoio da
Igreja, Mussolini se firmou como ditador. E graças ao Tratado, o
pontífice romano mais uma vez alcançou o status de braço direito
do imperador, uma posição que os papas outrora haviam desfruta­
222 • A Mulher Montada na Besta

do, começando com Constantino e continuando com os seus suces­


sores. A “fornicação com reis”, após breve interrupção, havia co­
meçado novamente.
A Igreja permaneceu, durante toda a II Guerra Mundial, como só­
cia leal de uma ditadura opressiva, que também havia ficado feliz em
dar ao papa o que ele desejava: a supressão dos direitos humanos bá­
sicos. Com o catolicismo agora sendo a religião estatal, a educação
religiosa tomou-se obrigatória nas escolas; professores e livros textos
tinham de ser aprovados pela Igreja, o casamento religioso tomou-se
obrigatório e o divórcio foi proibido. Críticas ao catolicismo, quer
orais ou na imprensa, caracterizavam uma ofensa penal.
Como Avro Manhattan menciona em seu livro The Vatican and
World Politics [O Vaticano e a Política Mundial]: “Assim a Igreja
tomou-se a arma religiosa do Estado fascista, enquanto o Estado
fascista se tomou o braço secular da Igreja”. Nenhum arranjo desse
tipo com qualquer governo secular poderia ser admitido por outra
Igreja evangélica (batista, metodista, luterana, etc.), mesmo que ele
assim o desejasse. Somente a Cidade do Vaticano é capaz de forni­
cação espiritual, e certamente suas Concordatas com Mussolini, e
posteriormente com Hitler e uma variedade de outros governos, re­
presentam exatamente isso. Não há como equivocar-se quanto à
identidade dessa mulher.
No dia 3 de junho de 1985 o Vaticano e a Itália assinaram uma
nova Concordata, na qual acabaram “muitos privilégios que a Igre­
ja Católica tinha na Itália, inclusive o status de Igreja estatal... o
novo tratado garante liberdade religiosa para os que não são católi­
cos e termina o status de Roma como “cidade sagrada”, [mas] ain­
da reconhece o significado especial de Roma para o catolicismo ro-
mano”.[7]

A Concordata de 1933 com Hitler


Uma das figuras mais importantes da negociação da Concordata
de 1929 com Mussolini foi o procurador Francesco Pacelli, irmão
do cardeal Eugênio Pacelli, que mais tarde se tomou o papa Pio
XII. O último, como secretário de Estado do Vaticano, desempe­
nharia um papel importante na negociação da lucrativa (para a
Igreja) Concordata de 1933 com Hitler. Um dos benefícios da Con­
cordata foram as centenas de milhões de dólares que entraram na
Alianças Profanas » 223

Igreja Católica Romana através da Kirchensteuer (imposto ecle­


siástico) durante toda a guerra. Pio X I I , por sua vez, jamais exco­
mungaria Hitler da Igreja Católica nem levantaria sua voz de pro­
testo contra o assassinato de seis milhões de judeus.
Prelados e teólogos católicos importantes ficaram estáticos du­
rante a assinatura da Concordata de 1933. O teólogo católico M i­
chael Schmaus escreveu em louvor ao autoritarismo do regime na­
zista e comparando-o ao da Igreja: “A forte ênfase da autoridade no
novo governo é algo essencialmente familiar aos católicos.EI a é a
contrapartida, a nível natural, da autoridade da Igreja no âmbito so­
brenatural. Em parte alguma o valor e o sentido da autoridade são
tão evidentes como em nossa santa Igreja Católica”. E claro que is­
so era verdade. O papado havia trabalhado durante séculos em es­
treita associação com os reis e imperadores autocráticos na supres­
são dos direitos humanos básicos.
Os católicos de hoje precisam encarar o fato de que o totalitaris­
mo de sua Igreja foi um fator preponderante na preparação dos ca­
tólicos alemães para aceitarem o regime nazista. O professor de
História da Igreja Católica, Joseph Lortz, “jamais cansou de falar
da 1familiaridade fundamental entre o Nacional-Socialismo e o ca­
tolicismo, uma familiaridade que ocorre a um nível impressionan­
temente profundo...’.” No mesmo ano (1933), um renomado prela­
do de Colônia, Robert Grosche, escreveu no Die Schildgenosserv.

Quando a infalibilidade papa! foi definida em 1870, a Igreja esta­


va antecipando, em um nível mais alto, a decisão histórica que agora
foi tomada em nível político: uma decisão a favor da autoridade e
contra a discussão, a favor do papa e contra a soberania do Concí­
lio, a favor do Führer e contra o Parlamento.[8]
Baseado em anos de estudos de documentos secretos nos arqui­
vos do Vaticano, seu curador por alguns anos, August Bernhard
Hasler, escreveu: “Tanto na Itália, como na Alemanha, a Cúria
aproveitou a oportunidade para obter de um regime ditatorial o que
parecia impossível sob um governo parlamentarista, ou seja, uma
Concordata”. Ele então cita o líder católico alemão Ludwig Kaas:
“o ‘Estado autoritário’ necessariamente compreendia os princípios
básicos da Tgreja autoritária’ mais do que outros”. Na verdade eles
eram sócios feitos um para o outro. Hitler recebeu a seguinte nota
2 2 4 • A Mulher Montada na Besta

calorosa de congratulações do cardeal Michael Faulhaber, seis me­


ses depois de ter assumido o poder:

O que os outros parlamentos e partidos fracassaram em conseguir


durante 60 anos, vossa ampla visão de estadista tornou realidade na
história mundial em apenas seis meses. Essa aliança com o papado,
a maior força moral na história do mundo, é uma poderosa façanha,
cheia de imensas bênçãos e aumento de prestígio alemão no Oriente
e Ocidente, à vista do mundo inteiro.[9]
John Toland, jornalista que ganhou o prêmio Pulitzer, chama
nossa atenção para o fato dos líderes da Igreja Católica Romana es­
tarem ansiosos para conseguir a simpatia de Hitler. Após uma au­
diência com o papa Pio XI, mesmo já tendo Hitler acabado com o
Partido Católico, seu líder, monsenhor Ludwig Kaas (com palavras
que obviamente visavam impressionar o Führer), disse à imprensa:
“Hitler sabe como conduzir o navio. Mesmo antes de se tomar
chanceler, eu me encontrava frequentemente com ele e ficava bas­
tante impressionado com os seus pensamentos claros, com o seu
modo de encarar a realidade, enquanto mantinha seus ideais, que
são nobres”. Toland prossegue, explicando:

O Vaticano ficou tão agradecido por ser reconhecido como sócio


ativo que pediu que Deus abençoasse o Reich. Em um nível mais prá­
tico, ordenou que os bispos alemães jurassem lealdade ao regime
Nacional-Socialista. O novo pacto concluía com essas palavras im­
portantes: "no desempenho do meu ofício espiritual e em minha soli­
citude pelo bem-estar e interesse do Reich alemão, esforço-me para
evitar quaisquer atos prejudiciais que possam deixá-lo em peri-
go".[10]

Atraído Para o Redemoinho


Quando Hitler, apesar das objeções de Mussolini, anunciou que
a Alemanha estava se retirando da Liga das Nações, veio logo um
telegrama da Ação Católica que prometia seu apoio. Astutamente,
Hitler fez com que essa decisão fosse sujeita à votação popular, em
seguida pressionou o povo para que o apoiasse. A Igreja Católica o
Alianças Profanas • 225

apoiou com entusiasmo e deixou claro aos católicos que deveriam


votar a favor da decisão de Hitler. O cardeal Faulhaber, com a
aprovação de todos os bispos da Bavária, declarou que, votando
sim, os católicos “professariam novamente sua lealdade ao povo e
à pátria, e o seu acordo com o porvir e poderosos esforços do Füh­
rer para livrar o povo alemão do terror da guerra e dos horrores do
bolchevismo, para assegurar a ordem pública e criar empregos para
os desempregados”.
Quando Hitler dirigiu suas tropas à Áustria, após suas promessas
habituais de que não o faria, ficou espantado com o entusiasmo das
multidões de austríacos, quase todos católicos, que o saudavam.
Depois de ter falado a uma multidão de cerca de 200.000 na Hal­
denplatz, ele liderou uma parada, passou pelo palácio de inverno
com os generais austríacos que, montados a cavalo, o seguiam.
Mais tarde o cardeal Innitzer saudou Hitler “com o sinal da cruz e
assegurou-lhe que enquanto a Igreja [Católica Romana] mantivesse
suas liberdades, os católicos austríacos se tornariam “os verdadei­
ros filhos do grande Reich, a cujos braços eles tinham sido trazidos
neste dia tão importante”. O Führer apertou a mão do cardeal calo­
rosamente e “prometeu-lhe tudo”.[ ll]
No dia do 50° aniversário de Hitler, “missas especiais em seu fa­
vor foram celebradas em todas as igrejas [católicas] alemãs ‘para
implorar a bênção de Deus sobre o Führer e o povo’. O bispo de
Mainz (Mogúncia) ordenou que todos os fiéis em sua diocese re­
zassem especificamente pelo ‘Führer e chanceler, o inspirador, am­
pliador e protetor do Reich’.” Nem mesmo o papa deixou de enviar
suas congratulações. [12]
De forma quase unânime, a imprensa católica de toda a Alema­
nha declarou que o livramento do atentando contra sua vida em
1939 se deu pela miraculosa proteção de Deus. O cardeal Faulha­
ber mandou que fosse cantado o Te Deum na catedral de Munique
“para agradecer em nome da arquidiocese à Providência Divina pe­
lo Führer ter afortunadamente escapado”. Mesmo tendo deixado de
condenar a aniquilação da Polônia por parte da Alemanha, o papa
não deixou de mandar suas felicitações pessoais a Hitler, pela sua
miraculosa sobrevivência em uma tentativa de assassinato.
Mesmo quando a maldade de Hitler havia sido plenamente reve­
lada, a Igreja Católica continuou a apoiá-lo. Quando as tropas ale­
mãs desencadearam sua ofensiva contra a União Soviética, o papa
226 • A Mulher Montada na Besta

novamente deixou claro que apoiava a luta nazista contra o bolche-


vismo, descrevendo-a como “uma magnânima bravura em defesa
dos fundamentos da cultura cristã’. Como era esperado, muitos bis­
pos alemães apoiaram o ataque abertamente. Um deles o chamou
de ‘uma cruzada européia’, uma missão semelhante àquela dos ca­
valeiro teutônicos. O papa exortou todos os católicos a lutarem por
‘uma vitória que fará a Europa respirar livremente outra vez e pro­
meterá um novo futuro a todas as nações”.
Poderíamos continuar citando páginas e mais páginas de doeu-
mentos. Entretanto, isso deveria ser suficiente para mostrar que o
papa, seus bispos e demais subalternos, incluindo a maioria dos ca­
tólicos, sentiam uma empatia por Hitler e decidiram apoiá-lo, mes­
mo depois que suas injustas ambições expansionistas e crimes con­
tra a humanidade tomaram-se bem conhecidos. Aliança profana?
Fornicação espiritual? Não resta dúvida!

As Alianças Continuam Até Hoje


A capa da revista Time, em 24 de fevereiro de 1992, trazia o re­
trato do ex-presidente Ronald Reagan e do papa João Paulo II jun­
tos, com uma manchete surpreendente: “.ALIANÇA SAGRADA:
Como Reagan e o papa conspiraram para apoiar o movimento Soli­
dariedade da Polônia e apressar a queda do comunismo”. A ten­
denciosa história dizia como Reagan “acreditou fervorosamente
tanto nos benefícios como nas aplicações práticas da relação de
Washington com o Vaticano. Um dos seus primeiros objetivos co­
mo presidente, diz Reagan, foi reconhecer o Vaticano como Estado
e ‘fazer dele um aliado’.”
Eles tornaram-se aliados numa das mais incríveis conspirações
da história. Derrubaram o Muro de Berlim, acabaram com a Guerra
Fria e desestabilizaram total mente o comunismo soviético. Foi uma
história de intriga e cooperação entre a CIA e os agentes do Vatica­
no, que aparentemente eram ainda mais eficientes. Reagan e João
Paulo II, ambos sobreviventes de tentativas de assassinato, compar­
tilhavam de “uma visão espiritual comum e a mesma perspectiva
sobre o Império Soviético: no plano divino, o direito e a justiça
prevaleceriam no final”.
Uma estratégia, dividida em cinco partes, surgiu durante o pri­
meiro semestre de 1982: ela “tinha como objetivo causar um colap-
Alianças Profaneis * 2 2 7

so na economia soviética, desgastando os laços que ligavam, pelo


Pacto de Varsóvia, a União Soviética aos seus Estados clientes e
forçando uma reforma dentro do império soviético” . No desenvol­
vimento do plano, o ex-secretário de Estado Alexander Haig reco­
nheceu que “em todos os sentidos as informações do Vaticano
eram muito mais rápidas e melhores do que as nossas. [O] elo de
ligação do Vaticano com a Casa Branca, o arcebispo Pio Laughi,
estava sempre lembrando aos oficiais americanos: “Ouçam o Santo
Padre. Temos 2.000 anos de experiência nesses assuntos” .[13]
Tanto Reagan, como posteriormente Gorbachev, admitiram fran­
camente que o papa desempenhou um papel importante. Um artigo
foi publicado num dos maiores jornais dos Estados Unidos três se­
manas depois que a história da Time foi divulgada: “ ‘o papa João
Paulo II desempenhou um papel político importante no colapso do
comunismo na Europa Oriental’, disse Michail Gorbachev, ex-líder
da União Soviética. Gorbachev predisse que o papa continuará a
desempenhar ‘um grande papel político’ na transição atual e deli­
cada que está ocorrendo na Europa... Os eventos na Europa Orien­
tal ‘não teriam sido possíveis sem a presença desse papa, sem o
importante papel - incluindo o aspecto político - que ele soube de­
sempenhar na cena mundial’, disse Gorbachev”.[14]
Neste ponto, deixaremos que o leitor considere o que motivou o
Vaticano a fazer uma intervenção política tão pesada. O fato é que
tal papel na cena mundial, com suas alianças profanas, intrigas po­
líticas e objetivos terrenos, seriam anátema para a verdadeira Noiva
de Cristo.
O Vaticano há muito tem se envolvido com muitas nações em
atividades clandestinas visando seu benefício próprio. De acordo
com a revista dos Cavaleiros de Colombo, “a história dos laços di­
plomáticos entre os Estados Unidos e a Santa Sé remonta a mais de
200 anos”. O artigo trazia uma foto do então embaixador no Vati­
cano, Thomas Melady, e de sua esposa Margaret, com o papa e ci­
tava uma declaração dada por Melady:

O papa João Paulo II está numa elevada posição de respeito como


um líder mundial... Nosso governo está cooperando como normalmen­
te um país faz com outros, nesse caso com o governo da Santa Sé. É
uma grande honra para mim estar lá, representando o nosso governo
na Santa Sé, neste período tão importante da história mundial.
2 2 8 • A Mulher Montada na Besta

Aparentemente Cristo, cujo Reino, no início, “não era deste


mundo”, mudou de idéia. Ele, que comissionou os Seus discípulos
a chamar os convertidos para fora do mundo e a receberem a cida­
dania celestial, com o Seu Evangelho da graça redentora, aparente­
mente decidiu trabalhar em acordo com as nações deste mundo vi­
sando criar um paraíso aqui mesmo. O artigo da revista dos Cava­
leiros de Colombo continuou exultando pelo fato de que:

as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a Santa Sé co­


meçaram no século XVIII, quando os Estados papais (antes de sua
absorção pela Itália) concordaram em abrir vários portos no Mediter­
râneo para os embarques dos Estados Unidos. Em 1797 João B. Sar-
tori, um italiano, foi nomeado cônsul americano...
Em 1847, a pedido do presidente James K. Folk, o Senado dos Es­
tados Unidos estabeleceu um posto diplomático nos Estados papais...
até 1867, quando americanos anticatólicos conseguiram que essa
missão diplomática fosse eliminada.
Relações informais foram reatadas em 1939, quando o presidente
Frankiin D. Roosevelt nomeou Myron C. Taylor como seu "enviado es­
pecial" à Santa Sé...
Em 1981, o presidente Reagan nomeou William A. Wilson, um
católico, para o posto. Wilson serviu até 1984, quando o Vaticano e
os Estados Unidos iniciaram relações diplomáticas plenas e Wilson
foi feito o primeiro embaixador dos Estados Unidos na Santa Sé.[15]
Reflitam sobre o seguinte, transcrito de um folheto que anuncia­
va “O Evento Católico do Ano” : “O papa Leão XIII comparou a
relação apropriada entre Igreja e Estado com a ‘união da alma e do
corpo no homem’. Imaginem uma nação sem alma. Os eventos que
ocorreram no início dos anos 90 acabaram confirmando, com cla­
reza espantosa, que os EUA de hoje são uma nação assim. Quem
descobriu a América foi um católico [Cristóvão Colombo], que
exigiu aquela terra para Cristo, o Rei. Se os EUA estão para serem
redescobertos e reclamados por nosso Rei - se eles precisam en­
contrar sua alma - são os católicos que devem agir, e agora”.[16]
Roma não mudou. Suas ambições continuam sendo as deste
mundo. Sem dúvida, é em nome de Cristo que ela deseja estabele­
cer seu “reino sobre os reis da terra”. É para “o bem da humanida­
de e da glória de Cristo”, como ela alega: a “Igreja Católica procu­
_____________________________ Aiianças Profanas • 229

ra, de maneira incessante e eficaz, o retomo de toda a humanidade


e de todos os seus bens”.[17] 0 Vaticano II não poderia ser mais
claro a este respeito.
Temei, então, nossa ira e os trovões de nossa vingança; pois Je­
sus Cristo, com sua própria boca nos nomeou [os papas], juízes ab­
solutos de todos os homens e até mesmo os reis submetem-se à
nossa autoridade.
- papa Nicolau I (1858-1867)[1]

Os italianos são exaltados acima de todas as nações pela graça


especial de Deus, que no papa lhes dá um monarca espiritual, o
qual tem destronado grandes reis e também os mais poderosos im­
peradores, colocando outros em seus lugares, a quem os grandes
reinos, há muito têm pago tributos, como não fazem a nenhum ou­
tro e que distribui riquezas tais aos seus cortesãos, que nenhum rei
ou imperador jamais possuiu para dar.
- Carrerio, diretor e professor de Pádua, 1626[2]

É ofício do papado ter sob os pés reis e imperadores.


- J. H. Ignaz von DoUinger[3]
Domínio
Sobre Reis
A última característica de identificação que foi dada a João
concernente à mulher montada na besta é que ela era uma ci­
dade “que dominava sobre os reis da terra” (Apocalipse 17.18).
Poderia haver uma cidade que verdadeiramente domina sobre
os governantes do mundo? A história sustenta que realmente
houve apenas uma cidade assim: Roma. Isso ocorreu, mais es­
pecificamente, logo após seus bispos começarem a chamar a si
mesmos de “papas” e, afirmando ser os sucessores dos césa­
res, tomaram para si os poderes imperiais da soberania mun­
dial.
Consideremos, por exemplo, o arrogante imperialismo do papa
Alexandre III (1159-1181). Declarando que “o poder dos papas é
superior ao dos príncipes”, Alexandre excomungou Frederico I,
imperador do Sacro Império Romano, rei da Alemanha e da Itália.
Quando tentou castigar o papa, as forças de Frederico foram derro­
tadas pelo exército papal. O imperador vencido foi até Veneza pe­
dir perdão e absolvição, prometendo “submeter-se para sempre à
Igreja Romana”. Imaginem uma Igreja governando o mundo atra­
vés da força militar! Fortunatus Ulmas, historiador católico, des­
creveu a cena com entusiasmo:
232 • A Mulher Montada na Besta

Quando o imperador chegou à presença do papa, deixou de lado


o seu manto imperial e ajoelhou-se, pondo o rosto em terra. Alexan­
dre avançou e colocou seu pé sobre o pescoço dele, enquanto os car­
deais vociferavam em voz alta: "Pisarás o leão e a áspide, calcarás
aos pés o leãozinho e a serpente"...
No dia seguinte, Frederico Barba Roxa... beijou os pés de Alexan­
dre, e voltou da missa solene a pé, conduzindo seu cavalo pelas ré­
deas, até o palácio pontifício...
O papado agora havia chegado a uma posição de grandeza e
poder que jamais havia alcançado antes. A espada de Pedro havia
conquistado a espada de César![4]
Como espadachim, Pedro havia se mostrado totalmente incapaz:
desejando decapitar um servo do sumo sacerdote, conseguiu ape­
nas cortar uma orelha (veja João 18.10). Cristo censurou Seu discí­
pulo, que agiu erradamente, curou a orelha e em seguida permitiu
que aquela turba armada O levasse prisioneiro em Sua jornada até
a cruz. A Igreja primitiva sabia muito bem que os cristãos não de­
veriam empunhar espada ou punhal em defesa de Cristo. Seu reino
“não é deste mundo”, necessitando ser primeiramente estabelecido
nos corações dos que crêem nEle como o Salvador que morreu por
seus pecados. Esses são os verdadeiros discípulos, que seguem o
Seu caminho de rejeição, sofrimento e morte. Como podem, então,
os que chamam a si mesmos “vigários de Cristo” alcançar tal posi­
ção de domínio mundial, a ponto de darem ordens a imperadores,
derrotar seus exércitos com a espada e colocar o pé sobre o pesco­
ço de um soberano vencido?

A Trilha Para a Glória Terrena


Alguns anos após Constantino ter transferido os quartéis-gene­
rais imperiais para o Oriente, o Império Romano no Ocidente divi­
diu-se. O vácuo criado pela ausência de uma autoridade central em
Roma foi preenchida pela Igreja, a única instituição romana capaz
de fazê-lo. A Igreja desempenhou um papel muito importante na
educação e na caridade. Entretanto, gradualmente os papas se
apossaram do governo civil de Roma e seus arredores; em seguida,
utilizando-se de fraudes (como jã vimos), anexaram os grandes ter­
ritórios dos Estados papais aos seus domínios. À medida que suas
Domínio Sobre Reis • 233

ambições aumentavam, os novos pontífices romanos tomavam para


si os títulos e muito da aparência e da função do imperador.
Os papas, alguns deles líderes militares excepcionalmente capa­
zes, possuíam exércitos e navios ao seu comando para alargar e
assegurar seus territórios. Contudo, eles ostentavam um poder bem
maior do que a força dos exércitos, pois “as chaves do céu” eram
suas. Os governantes temporais eram forçados, não importa o
quanto estivessem contrariados, a dobrar os joelhos diante dos pa­
pas. Somente os “hereges” (os verdadeiros cristãos) duvidavam
que a Igreja pudesse determinar quem entraria no céu e que ela
pudesse fechar o portão celestial àqueles que se opusessem a
ela. [5] Os governantes civis mais poderosos tremiam quando eram
ameaçados de excomunhão, pois era uma crença quase universal
que fora da Igreja não havia salvação. O historiador Walter James
escreve:

O papado controlava os portões de entrada do céu no qual todos


os fiéis, inclusive os governantes, ansiosamente esperavam entrar.
Naqueles dias poucos duvidavam dessa verdade e isso deu ao papa
uma autoridade moral que até então jamais tinha sido consegui-
da.[6]
A fraudulenta Doação de Constantino mencionada anterior­
mente foi seguida de uma verdadeira biblioteca de documentos
forjados. Foram esses falsos decretos que traçaram a autoridade
papal retroativamente até os primeiros bispos de Roma e, atra­
vés deles, chegando a Pedro. Até mesmo Tomás de Aquino, o
maior teólogo da Igreja Romana, foi enganado por estas asser­
ções fraudulentas, a ponto de crer que “não havia diferença en­
tre Cristo e o papa...” Aquino ficou tão cego pela pompa e po­
der dos papas que “fez os Pais [da Igreja] dizerem que, de fa­
to, os governantes do mundo deveriam obedecer ao papa como
se ele fosse Cristo”. [7]
Pelo contrário, Cristo nada teve a ver com os governantes deste
mundo, pois os poderosos deste século, longe de obedecer-Lhe, fo­
ram os que crucificaram o Senhor da glória (veja 1 Coríntios 2.8).
Mesmo assim, a heresia católica prevaleceu e tomou-se o princípio
central dos papas, e cumprindo a visão de João, literaJmente domi­
nou sobre os reis da terra.
2 3 4 • A Mulher Montada na Besta

O Domínio Papal Sobre


a Inglaterra e a Irlanda
Durante a Idade Média o espantoso poder alcançado pelos papas
sobre os reis da terra continuou crescendo. Gregório VI (1045­
1046) havia declarado que o papa exigia obediência cega a cada
uma de suas palavras, até mesmo dos soberanos. Alexandre II
(1061-1073), a conselho do grande Hildebrando (mais tarde cha­
mado de Gregório VII), proclamou um decreto afirmando que Ha-
roldo, o rei legítimo da Inglaterra, era um usurpador e excomungou
seus seguidores. O papa decretou que Guilherme, duque da Nor-
mandia, era o detentor legal da coroa inglesa.
Com a bênção do papa, Guilherme o Conquistador matou Harol-
do durante a batalha, tomou a Inglaterra e foi coroado em Londres
no dia de Natal de 1066. Guilherme aceitou a coroa “em nome da
Santa Sé de Roma”. Essa foi um nova vitória para o papado e au­
mentou grandemente a influência católica romana na Inglaterra.
Freeman, em seu livro The Norrnan Conquest [A Conquista Nor-
manda], explica o acordo:

Guilherme foi autorizado [pelo papa] a avançar como um vinga­


dor do céu. A ele foi exigido que ensinasse ao povo inglês a "devida
obediência ao vigário de Cristo" e, o que o papado nunca esquece:
"assegurasse um pagamento mais pontual das obrigações temporais
ao Seu apóstolo".[8]
Em 1155 o papa Adriano IV deu a coroa da Irlanda ao rei da In­
glaterra. Assim, por sua autoridade como “vigário de Cristo”, ele
sujeitou a Irlanda ao governo inglês e entregou “o povo pacífico e
cristão da Irlanda às implacáveis crueldades de Henrique II, sob a
alegação de que aquela terra era uma porção do “patrimônio de São
Pedro e da Santa Igreja Católica Romana”. [9] Os papas seguintes
confirmaram esse decreto.
Durante o tempo em que a Inglaterra permaneceu católica o ar­
ranjo foi tolerável. Mas quando a Inglaterra tomou-se protestante,
seu controle contínuo da Irlanda católica e a perseguição dos cató­
licos pelos protestantes plantaram as sementes de um problema que
persiste até hoje. Ainda que a Irlanda católica tenha muitos proble­
mas legítimos (complexos demais para serem relatados aqui), ela
Domínio Sobre Reis ♦ 235

precisa lembrar que, acima de tudo, foram os papas católicos roma­


nos que deram a Irlanda para a Inglaterra.
Na verdade, os papas também eram os responsáveis por muitos
dos problemas e tribulações da Inglaterra. Os pontífices romanos
tratavam “os seus reis [como] vassalos, e seu povo como quem não
tinha direito algum, sempre que estivesse em conflito com as exi­
gências do papado... O clero católico, como emissário do papa, go­
vernava a Inglaterra, desobedecendo as leis daquele reino, como se
os papas fossem os soberanos do país. As cortes civis não tinham
jurisdição sobre os sacerdotes”. Thompson explica:

Seria impossível enumerar... os ultrajes e excessos praticados na In­


glaterra pelos reis e papas durante esse período sombrio. Eles consi­
deravam a asserção de qualquer direito popular dos cidadãos como
se fosse um crime que Deus lhes havia determinado punir. Mais de
100 assassinatos foram cometidos por eclesiásticos durante o reinado
de Henrique II, pelos quais os responsáveis sequer foram castigados...
O clero tinha poder absoluto sobre os seus corpos e não era per­
mitido apelo algum de suas decisões. Um leigo perdia sua vida pelo
crime de homicídio, mas um eclesiástico ficava impune. Essa era cha­
mada de uma das imunidades do clero! [Quando o rei tentou mudar
a lei para controlar o clero] o papa recusou sua sanção e a denun­
ciou como "prejudicial à Igreja e destrutiva aos seus privilégio$"![10]

O Papa Gregório VII (1073-1085)


Antes de se tomar papa, como o famoso Hildebrando, Gregório
Vfl foi o gênio manipulador por trás de outros cinco papas, in­
cluindo Alexandre TL Gregório iniciou seu pontificado “asseveran­
do o direito de dispor dos reinos, imitando o exemplo seguido pelo
papa Gregório I [o Grande] cerca de 400 anos antes”. Ele declarou
que o poder de “ligar e desligar” concedido por Cristo a Pedro dera
aos papas “o direito de constituir e depor reis, construir e recons­
truir governos, livrar-se de todos os que desobedecessem e.m todo o
território sob seu domínio e outorgá-lo aos que se sujeitassem à au­
toridade papal”. Será que ele não leu Apocalipse 17.18?
Gregório foi o primeiro papa que literalmente destronou reis. Se
decidisse depor o imperador alemão, Gregório diria simplesmente
2 3 6 • A Mulher Montada na Besta

“a mim é dado o poder de ligar e desligar na terra e no céu”. Se de­


sejasse alguma propriedade pertencente a outros, Gregório declara­
va simplesmente, como o fez em seu Sínodo Romano de 1080:
“Desejamos mostrar ao mundo que podemos dar ou tirar, à vonta­
de, reinados, ducados, condados, em uma palavra, a possessão de
todos os homens; porque podemos ligar e desligar”.[ ll]
Imaginemos, por exemplo, em 1077, o humilhado Henrique IV,
chefe supremo do Sacro Império Romano e herdeiro de Carlos
Magno (a quem o papa Leão III havia coroado imperador no ano
800), cruzando os Alpes e, como penitência, sendo forçado a espe­
rar fora do castelo de Canossa, na neve, de pés descalços e vestido
apenas com roupas de peles, para fazer a paz com Gregório VII!
Afirmando ser o “rei dos reis”, Gregório, em razão da disputa com
Henrique, havia declarado: “Da parte de Deus Onipotente, proíbo
Henrique de governar os reinos da Itália e Alemanha. Absolvo to­
dos os súditos de todos os pactos que tenham feito e excomungo
cada um que o servir como rei”. Henrique não tinha como se de­
fender dessa “superarma” dos papas.
Desse modo foi estabelecida a magnífica “meretriz” descrita por
João em Apocalipse 17 - com seu quartel-general localizado na cida­
de edificada sobre sete montes (v. 9) e na qual ela "domina sobre os
reis da terra” (v. 18). Um historiador do século XVIII contabilizou
95 papas que afirmaram ter o poder divino para depor os reis.[12]
Não existe outra cidade que preencha esses critérios da descrição feita
por João. Sua visão tem demonstrado ser incrivelmente precisa.

O Pontífice Mais Sanguinário


A respeito de ínocêncio III (1198-1216), sobre quem se diz “ter
enchido a cristandade de terror... por quase 20 anos”, Peter de Rosa
escreve: “Ele coroou e depôs soberanos, colocou nações sob inter­
dição, virtualmente criando os Estados papais que atravessavam a
Itália Central, desde o Mediterrâneo até o Adriático. Ele não per­
deu uma batalha sequer e, perseguindo seus objetivos, derramou
mais sangue do que qualquer outro pontífice”.[13] Desejando colo­
car Otto da Saxônia no trono alemão, ínocêncio escreveu:

Pela autoridade que por Deus nos foi dada através da pessoa de
São Pedro, nós vos declaramos rei e ordenamos que o povo se renda
Domínio Sobre Reis • 257

a vós nessa condição, homenagem e obediência. Contudo, espera­


mos que vos submetais a todos os nossos desejos como uma recom­
pensa pela coroa imperial.[14]
O espírito orgulhoso de Inocêncio III estava insuflado pelo pen­
samento de que nenhum potentado da terra poderia se igualar a ele.
Portanto, exigia que “todas as disputas entre os príncipes” fossem
levadas ao seu conhecimento e se uma parte se recusasse a obede­
cer à sentença de Roma, seria excomungada e deposta; igual pena­
lidade seria imposta sobre os que se recusassem a atacar qualquer
‘delinquente contumaz’, conforme ele assim declarasse.[15] Como
nos relembram Eh ler e Morrall, “o papado tornou-se não apenas a
maior autoridade quanto à jurisdição internacional, estando capaci­
tada a julgar reis e príncipes, mas também os potentados seculares
buscavam a sanção papal para mudanças importantes de sua posi­
ção internacional, tais como aquisição de novos territórios e títu­
los”. ^ ]
João Sem Terra, rei da Inglaterra, cometeu o erro de ter uma vio­
lenta disputa com o papa Inocêncio III. “Após ter tentado resistir,
ele submeteu-se completamente a Roma, entregando sua coroa real
ao papa Inocêncio III, para recebê-la de volta, mas agora como um
vassalo da Santa Sé”.[17] O documento, datado de 15 de maio de
1213, é conhecido como “A insurreição do rei João Sem Terra
contra Inocêncio 111”.[ 18] (Ver Apêndice C). R. W. Thompson
acrescenta sua perspectiva:

Confiscos, interdições, excomunhões e todo tipo de censura e puni­


ção eclesiástica aconteciam quase diariamente. Mesmo assim, alguns
monarcas como Filipe Augusto e Henrique IV rastejavam diante dele
[Inocêncio III] e Pedro II de Aragão, assim como João da Inglaterra,
consentiram ignominiosamente em converter seus reinos em feudos
espirituais e mantê-los subordinados ao papa, sob a condição de lhe
pagar um tributo anual.[19]

Mais Evidências
Gregório IX (1227-1241), que estabeleceu a Inquisição e a en­
trega dos hereges ao poder secular para execução, esbravejava que
2 3 8 • A Mulher Montada na Besta

o papa era senhor e mestre de tudo e de todos. Inocêncio IV (1243­


1254) concordava porque, segundo ele, os papas não haviam con­
seguido o seu domínio meramente por causa da Doação de Cons­
tantino, mas o receberam de Deus. Bonifácio VIII foi muito além
e, em sua bula Unam Sanctam, em 1302, na qual ele exigia autori­
dade sobre os poderes temporais, tomou como condição de salva­
ção a total obediência ao papa.
Quando morreu o imperador romano Frederico Barba Roxa (so­
bre cujo pescoço Alexandre III havia colocado o pé), já havia fica­
do estabelecido que “ninguém poderia recebê-la [a coroa imperial]
sem que a coroação fosse feita pelo papa” .[20] O imperador Carlos
IV assegurou a paz e completa harmonia com o papado ao renun­
ciar a qualquer atividade imperial no território italiano [deixando
que os papas lá governassem] e esta auto-restrição foi observada
até o fim da Idade Média pelos imperadores que o sucederam. [21]
O papa Júlio II (1503-1513), furioso porque Luiz XII da França
não o apoiaria em suas campanhas militares, emitiu uma bula papal
na qual destituía o rei e entregava o reino a Henrique VIII da Ingla­
terra, contanto que este provasse sua piedade apoiando o papa em
suas guerras. Júlio faleceu antes da bula ser publicada. A paixão do
papa em travar “guerras santas”, com o objetivo de estender os ter­
ritórios papais, inspirou Michelangelo (a quem ele havia contratado
para pintar o teto da capela Sistina), a escrever as famosas frases,
tão apropriadas para Júlio e muitos outros papas:

Dos cálices eles fazem escudo e espada


E vendem, aos baldes, o sangue do Senhor.
Num artigo publicado por um jornal católico no início dos anos
90, um padre confessou: “A Igreja... foi transformada pelas ambi­
ções de homens como Gregório VII, Inocêncio III e Bonifácio VII
numa instituição político-èclesiástica, sustentando o poder totalitá­
rio tanto no âmbito sagrado como no secular”.[22] Ele esqueceu de
mencionar que os dogmas e as declarações de Roma continuam os
mesmos de sempre. A Igreja não mudou, mas as circunstâncias for­
çaram-na a mudar suas táticas.
As agressões e ameaças feitas publicamente por uma pessoa co­
mo Gregório VII não seriam bem sucedidas no mundo moderno.
Mesmo assim, apesar de lutar de modo mais sutil, o poder do Vati-
Domínio Sobre Reis • 239

cano não se tornou menos eficaz do que sempre foi. Um autor que
dedicou a vida inteira a analisar o Vaticano e a escrever sobre ele,
concluiu:

O Vaticano é... a maior superpotência de nossos tempos. Seus


adeptos... que somam quase um bilhão, podem ser levados a agir
em todos os cantos do mundo... Devido à importância [para os go­
vernos] em terem o papa como aliado na busca de qualquer política
mundial... A política do Vaticano é dirigida peio papa... não há ne­
nhum Parlamento, Congresso ou Senado, ou qualquer outra organi­
zação democrática... capaz de limitar suas decisões, poderes ou po­
lítica... Eíe é um dirigente absoluto e um autocrata, no mais estrito
senso da palavra.[23]

Com um Cálice de Ouro na Mão


Os reis habitam em palácios, são servidos por servos e, devido
ao seu controle total sobre os súditos, acabam acumulando gran­
de riqueza. Portanto, seria de se esperar que uma cidade que do­
mina sobre os reis da terra fosse a mais rica de todas. É o que
acontece com a mulher montada na besta. Isso pode ser compro­
vado por ela estar adornada “de ouro, de pedras preciosas e de
pérolas”, bem como por ter na mão “um cálice de ouro” (Apo­
calipse 17.4).
O cálice “transbordante de abominações e com as imundícias
da sua prostituição”, indica que sua riqueza foi adquirida de ma­
neiras abomináveis. O cardeal Baronius, embora seja um defen­
sor do papado, confessou que na cadeira de São Pedro senta­
ram-se monstros, “cheios de desejos carnais e astúcia, com to­
das as formas de maldade [tendo] prostituído o trono de São
Pedro em favor de suas mulheres favoritas e amantes” . No sé­
culo XVI ele escreveu em sua obra, Ecclesiastical Annals [Anais
Eclesiásticos]:

A Igreja Romana estava... coberta de sedas e de pedras preciosas


e prostituiu-se publicamente pelo ouro... Nunca os padres, e espe­
cialmente os papas, cometeram tantos adultérios, estupros, incestos,
roubos e assassinatos... [como na Idade Média].[24]
2 4 0 « A Mulher Montada na Besta

Petrarca, poeta laureado do império, descreveu sarcasticamente a


corte papal de Avignon como “a vergonha da humanidade, um po­
ço de vícios, uma fossa onde se juntam todas as sujeiras do mundo.
Lá Deus é olhado com desprezo, somente o dinheiro é adorado e as
leis de Deus e dos homens sâo desprezadas. Naquele lugar tudo es­
tá infectado pela mentira: o ar, a terra, as casas e, sobretudo, os
quartos”. Referindo-se a Avignon como a Babilônia do Ocidente,
Petrarca declarou:

Aqui reinam os sucessores dos pobres pescadores da Galiléia...


cheios de ouro e vestidos de púrpura, gabando-se de ter espoliado
príncipes e nações. Em vez de santa solidariedade encontramos um
anfitrião criminoso... em vez de sobriedade, banquetes licenciosos...
em vez dos pés descalços dos apóstolos... cavalos eram adornados
com ouro, sua comida era colocada sobre peças de ouro, em seguí*
da serão calçados com ouro, se o Senhor não acabar com essa luxú­
ria escravista.[25]
Sobre a riqueza de Roma na Idade Média, Peter de Rosa diz:
“Os cardeais possuíam palácios imensos com inúmeros criados.
Um adido papal declarou jamais ter visto um cardeal que não esti­
vesse contando suas moedas de ouro. A Cúria era formada por ho­
mens que haviam comprado seus ofícios e estavam desesperados
para reaver seus enormes investimentos... Para cada benefício de
sé, abadia ou paróquia e para toda indulgência havia uma taxa fixa.
O pálio, manto de lã com cinco centímetros de espessura e que ti­
nha cruzes bordadas... pelo qual todo bispo pagava... atraiu... cente­
nas de milhões de florins em ouro aos cofres papais... O Concílio
da Basiléia, em 1432, o chamou de ‘o maior artigo de contravenção
já inventado...’”. De Rosa acrescenta:

As dispensas eram outra fonte de renda papal. Leis extremamente


severas, ou até mesmo impossíveis de serem cumpridas, eram procla­
madas para que a Cúria pudesse enriquecer vendendo dispensas...
[tais como] a do jejum durante a Quaresma... O casamento, de for­
ma especial, era uma rica fonte de renda. Consangüinídade era a
alegação usada para separar casais que jamais imaginaram ser pa­
rentes. As dispensas de consangüinídade para fíns de casamento
eram taxadas em até um milhão de florins de ouro por ano.[26]
Domínio Sobre Reis * 241

O Relatório de uma
Testemunha Ocular na Espanha
D. Antonio Gavin, autor de Master Key to Popery [A Chave-
Mestra do Papado], nasceu e se criou na Espanha no final do sécu­
lo XVI. Como sacerdote católico romano havia se desiludido com­
pletamente pelo mal em que se achava envolvido. Fugindo da In­
quisição, usando como disfarce o uniforme de um oficial, Gavin
conseguiu chegar em segurança até a Inglaterra. Seu livro faz uma
descrição detalhada do catolicismo romano em seus dias e tem
muito a dizer sobre sua incrível riqueza e o papel que ela desempe­
nhou na prática do cristianismo paganizado de Roma:

Na catedral de S. Salvador [em Saragoza], existem 300 quilos de


prata, em placas usadas para adornar os dois cantos do altar nos
grandes festivais [e uma]... abundância de ricos ornamentos para sa­
cerdotes, de valor incalculável. Também há 84 cálices, 20 de ouro ma­
ciço, e 64 de prata com seu interior revestido de ouro; e o rico cálice
que somente o arcebispo pode tomar usando suas vestes pontifícias.
Tudo isso é bagatela em comparação com a grande custódia que
eles utilizam para levar a grande hóstia pelas ruas, durante os feste­
jos de Corpus Christi... [ela é feita de ouro maciço, incrustado de
diamantes, esmeraldas e outras pedras preciosas] pesando cerca de
250 quilos... Vários joalheiros tentaram avaliar essa peça, mas ne­
nhum conseguiu estimar o seu valor exato.[27]
A igreja mais famosa em Saragoza é a de N. S. do Pilar, em ra­
zão de uma suposta aparição da virgem naquele lugar. Gavin des­
creve a coroa da imagem da virgem: “pesa 12 quilos, é toda crave­
jada de grandes diamantes, para que assim não se possa ver o ouro
e todos pensem que é feita só de diamantes. Além dessa, existem
seis outras coroas, feitas de ouro maciço, cravejadas de diamantes
e esmeraldas...” Ele continua, dizendo:

As rosas de diamantes e outras pedras preciosas que ela tem para


adornar o seu manto são incontáveis; pois embora [a imagem da
"virgem"] seja vestida com a cor do festival da Igreja e nunca use
duas vezes [durante o ano] o mesmo manto, que é feito do melhor te­
cido e bordado com ouro. Ela tem rosas de pedras preciosas novas
242 • A Mulher Montada na Besta

para cada dia, podendo ser usadas por três anos seguidos. Tem tam­
bém 365 colares de pérolas e diamantes e seis correntes de ouro in­
crustadas de diamantes, as quais são colocadas sobre o seu manto
nos grandes festivais de Cristo.[28]
Qualquer um que visite Saragoza hoje pode entrar na sala do
tesouro para ver um pouco dessa riqueza. A virgem tem uma tú­
nica diferente para cada dia do ano, todas são bordadas com ou­
ro e incrustadas de diamantes e outras pedras preciosas. Existe
também outra imagem, com cerca de 1,5 metro de altura, feita de
prata e toda incrustada de pedras preciosas, que usa coroa de ou­
ro puro e diamantes. No início do século XVI, o “honorável Lord
Stanhope, então general das forças armadas inglesas”, foi apresen­
tado ao tesouro. Gavin estava presente e ouviu o general excla­
mar: “Se todos os reis da Europa pudessem colocar juntos os seus
tesouros de ouro e pedras preciosas, não poderiam comprar a me­
tade da riqueza deste tesouro”. Tal era a riqueza que havia numa
única catedral, numa pequena cidade da Espanha, há 280 anos
atrás!
As inacreditáveis riquezas do Vaticano têm sido acumuladas
às custas do povo dos países mais pobres. No tempo da guerra
civil mexicana, a Igreja Católica Romana possuía “de um terço
a metade de todas as propriedades do país [e cerca de metade
da Cidade do México]. A renda obtida com dízimos, missas e
a venda de artigos devocionais, como estátuas, medalhas, rosá­
rios e coisas similares arrecadam de seis a oito milhões de dó­
lares anuais, enquanto sua renda total alcança a soma astronô­
mica de 20 milhões de dólares... Esse tipo de arrecadação em
um país pobre como o México era igual às despesas operacio­
nais do governo dos Estados Unidos durante o mesmo perío-
do”.[29j
Vamos chegar ao final deste relatório lastimável. Não pode haver
dúvida alguma de que a marcante visão de João já se cumpriu.
Uma cidade sentada sobre sete montes, cheia de riqueza, que afir­
ma ter uma relação espiritual com Deus e Cristo, literalmente do­
minou os reis da terra. Quanto aos demais critérios de identificação
que João nos fornece, existe apenas uma cidade na história (e ape­
nas uma hoje) que passa neste teste. Peter de Rosa nos relembra o
que deve ter deixado João chocado:
Domínio Sobre Reis • 243

Jesus renunciou às riquezas. Ele sempre ensinou "vai, vende os


teus bens, dá aos pobres... depois, vem e segue-me" (Mateus 19.21).
Ele chamou de loucos os ricos e poderosos... Os vigários de Cristo vi­
vem rodeados de tesouros, alguns de origem pagã. Qualquer insi­
nuação feita para que o papa venda o que tem e o dê aos pobres é
recebida como sendo ridícula e impraticável. O relato do Evangelho
sobre o moço rico diz que ele reagiu da mesma maneira.
Durante toda a sua vida, Jesus viveu de maneira simples, morreu
nu, oferecendo como sacrifício a Sua vida na cruz.
Quando o papa renova esse sacrifício durante a missa solene, não
poderia existir maior contraste. Sem nenhum senso de ironia, o vigá­
rio de Cristo se veste de ouro e sedas finíssimas.
...o papa tem uma dúzia de títulos honoríficos, inclusive "soberano
de Estado". Os adidos do papa também têm títulos, de certo modo
algo impensável à luz o Sermão do Monte: excelência, eminência,
sua graça, meu senhor, ilustre, reverendíssimo, e por aí a fora... Pe­
dro, que sempre viveu sem riquezas, ficaria intrigado ao saber que,
de acordo com o Cânon 1518... seu sucessor é "o administrador su­
premo de todas as propriedades da Igreja" e que o Vaticano possui
o seu próprio banco...[30]
O Vaticano tem acumulado sua incalculável fortuna utilizando-
se dos meios mais abomináveis: vendendo entradas falsas para o
céu. Nino Lo Bello, ex-correspondente em Roma da revista Busi­
ness Week, chama o Vaticano de “o magnata do Tibre”, por causa
de sua inacreditável riqueza e de suas empresas espalhadas por to­
do o mundo. Sua pesquisa indica que ele possui um terço dos imó­
veis de Roma e é provavelmente o maior detentor de ações do
mundo, para não mencionar que tem indústrias, que fabricam des­
de produtos eletrônicos até plásticos, de companhias aéreas até in­
dústrias químicas e de engenharia. [31]
Durante sua viagem pelos países bálticos em setembro de 1993,
“o papa mostrou ser um rígido crítico do capitalismo desenfreado.
Num discurso no qual indicava que no futuro haveria mais críticas,
o papa disse que a ideologia capitalista é a responsável por ‘graves
injustiças sociais’ e o ‘grão de verdade’ do Marxismo está em ver
os defeitos do capitalismo”.[32] É assombrosa a hipocrisia dessas
declarações vindas do cabeça da igreja que é a maior capitalista
deste mundo! Lo Bello sugere que a Igreja “dispa seu manto de
2 4 4 • A Mulher Montada na Besta

piedade; e o Vaticano então exponha a extensão total dos seus inte­


resses financeiros”.[33]
A mulher montada na besta usava sua riqueza e poder para sub­
jugar reis e reinos e assassinar milhões que, embora sujeitos à auto­
ridade civil, não podiam aceitar suas heresias. Até hoje esse cálice
de ouro transborda com o sangue daqueles que, por causa de sua
consciência, foram martirizados pela fé.
T

j
!

[
A horrenda conduta deste Santo Ofício [Inquisição] enfraqueceu
o poder e diminuiu a população da Espanha ao impedir o desenvol­
vimento das artes, ciências, indústria e comércio e por compelir
multidões de famílias a abandonarem o reino; instigando a expul­
são dos judeus e dos mouros, e imolando mais de 300.000 vítimas
em seus açougues flamejantes.
- Jean Antoine Llorente, secretário da Inquisição Espanhola,
1790-1792[1]

A Inquisição é, em sua natureza, boa, gentil e preservadora. É o


caráter universal, indelével de toda instituição eclesiástica; vós a
vedes em Roma e podeis vê-la em qualquer lugar onde a verdadei­
ra Igreja tenha poder.
- conde Le Maistre, 1815 [2]

É melhor ser ateu do que acreditar no Deus da Inquisição.


- um católico anônimo[3]
1

Sangue dos
Mártires
As citações na página anterior apresentam dois pontos de vista
opostos, ambos expressos por católicos. Somente um está certo.
Aprendemos a verdade na visão de João e na História. A mulher
montada na besta está “embriagada com o sangue dos santos e
com o sangue das testemunhas de Jesus” (Apocalipse 17.6), Essa é
uma imagem horrível, mas a História a autentica cabalmente como
sendo somente Roma e nenhuma outra cidade.
Exigia-se que cada cidadão do império fosse católico romano.
Deixar de demonstrar fidelidade total ao papa era considerado uma
traição contra o Estado, passível de morte. Esse foi o argumento
usado para justificar o assassinato de milhões de pessoas. U m cris­
tianismo paganizado foi imposto sobre toda a população da Euro­
pa, sob ameaça de tortura e morte, do mesmo modo como seria fei­
to pelo islamismo alguns séculos mais tarde.
O catolicismo tomou-se “a fé mais perseguidora que o mundo já
havia visto... [dominando] o trono a fim de impor a religião cristã
[católica] a todos os seus súditos. Inocêncio III assassinou muito
mais cristãos em uma tarde... do que qualquer imperador romano
tenha conseguido fazer em todo o seu reinado” .[4] Will Durant es­
creve com franqueza:
2 4 8 • A Mulher Montada na Besta

Comparada com a perseguição da heresia na Europa, entre 1227


e 1492, a perseguição dos cristãos pelos romanos nos primeiros três
séculos depois de Cristo foi um procedimento moderado e humano.
Fazendo todas as concessões requeridas de um historiador e per­
mitidas a um cristão, devemos colocar a Inquisição, juntamente com
as guerras e perseguições de nosso tempo, como uma das manchas
mais negras na história da humanidade, revelando uma ferocidade
desconhecida por qualquer besta selvagem.[5]
/

E claro que nem todos os dissidentes declaravam abertamente


sua deslealdade a Roma. Havia hereges secretos que tinham de ser
procurados diligentemente. O método encontrado foi a Inquisição,
na opinião do autor egípcio Rollo Ahmed, “a instituição mais im­
piedosa e feroz que o mundo já conheceu” em sua destruição de vi­
das, propriedades, moral e direitos humanos. Lord Acton, um cató­
lico, chamou a Inquisição de “assassina” e declarou que os papas
“não eram apenas assassinos em grande estilo, mas tomaram o as­
sassinato a base legal da Igreja Cristã e da condição para a salva­
ção”.[6]

Não há Absolvição Para Roma


Os apologistas católicos romanos tentam enganosamente absol­
ver a sua Igreja de qualquer responsabilidade pela queima dos he­
reges. Eles afirmam que a Inquisição era obra do Estado. Pelo con­
trário, “a força ligada às leis contra os hereges não repousava sobre
os príncipes seculares, mas no domínio soberano dos papas como
representantes de Deus na terra, conforme declara expressamente
Inocêncio III”.[7]
As penalidades eram executadas pelas autoridades civis, que
apenas agiam como o braço secular da Igreja. Inocêncio ordenou
ao arcebispo de Auch, em Gascony: “Damo-vos uma ordem estri­
ta para, usando de todos os meios possíveis, destruir todas as he­
resias... Vós podeis levar os príncipes e o povo a suprimí-las usan­
do da espada”. O papa ofereceu indulgência plenária ao rei e aos
nobres da França pela ajuda em extinguir a heresia Catarista. A
Filipe Augusto, em troca dessa ajuda, o papa ofereceu as terras
de todos os que deixassem de se juntar à Cruzada contra os albi-
genses”.[8]
Sangue dos Mártires • 249

O conde Le Maistre, em sua carta escrita em 1815 para justificar


a Inquisição Espanhola, declara que ela existiu “pela virtude da bu­
la do soberano pontífice” e que o Grande Inquisidor “é sempre um
arcebispo ou um bispo”.[9] Caso as autoridades se recusassem a
executar um condenado, elas mesmas deviam ser trazidas diante do
Tribunal e lançadas às chamas.
Foram os próprios papas que inventaram a Inquisição e garantiram
que ela pudesse continuar. “Ém 1233, Gregório IX transferiu o ofício
[da Inquisição] aos dominicanos, mas sempre para ser exercido em no­
me e na autoridade do papa”.[10] Como já vimos, “dos 80 papas exis­
tentes a partir do século XHI, nenhum desaprovou a teologia e os
meios usados pela Inquisição. Pelo contrário, um após o outro, todos
acrescentaram seus toques pessoais de crueldade aos trabalhos de sua
máquina mortífera”.[ll] Não estamos citando escritores protestantes,
nem mesmo ex-católicos, mas historiadores católicos. Veja o que diz
um importante professor católico de História da Igreja do século XIX:

Através da influência de Graciano... e incansável atividade dos


papas e seus delegados desde 1183, a visão da igreja tinha sido...
[que] cada departamento de ensino da Igreja e cada oposição im­
portante a qualquer ordem eclesiástica devia ser punida com a mor­
te, e do tipo mais cruel: pelo fogo...
Inocêncio III declarou ser uma heresia digna de morte a mera recu­
sa em fazer juramentos e a opinião de que os votos eram ilegais, e
ordenou que todos que discordassem de qualquer aspecto do modo
comum de viver da multidão deveriam ser tratados como hereges.
Tanto o início como a execução desse novo princípio devem ser
atribuídos somente aos papas... Foram os papas que compeliram os
bispos e padres a condenar os heterodoxos à tortura, confiscar os
seus bens, seu aprisionamento e morte, e, sob pena de excomunhão,
impor às autoridades civis a execução dessa sentença.
De 1200 a 1500, a longa série de ordenanças papais sobre a In­
quisição, de severidade e crueldade sempre crescentes, e toda sua
política contra a heresia, continuou sem interrupção. E um sistema rí­
gido e consistente de legislação; cada papa confirma e aumenta os
instrumentos do predecessor. Tudo é dirigido a um só fim: arrancar
definitivamente as raízes de qualquer divergência de crença...
Somente a ditadura absoluta dos papas, e a noção de sua infalibi­
lidade em todas as questões de moral cristã, que fizeram o mundo
250 • A Mulher Montada na Besta

cristão... [aceitar] a Inquisição, o que contradizia os mais simples


princípios da justiça cristã e do amor ao próximo, algo que teria sido
rejeitado com horror na Igreja antiga.[12]
Longe de serem suas iniciadoras, as autoridades civis muitas
vezes tentaram se opor à Inquisição, mas não puderam. Força­
dos a cumprir a sentença, os executores algumas vezes “estran­
gulavam o condenado antes de atirá-lo às chamas” .[13] Tais atos
de misericórdia deficiente eram, infelizmente, raras exceções. Al­
gumas vozes misericordiosas levantavam-se dentro da Igreja: “São
Bernardo disse que Cristo havia proibido expressamente a linha
de conduta prescrita posteriormente pelos papas e que ela só po­
dia multiplicar os hipócritas e confirmar o aumento do ódio da
humanidade contra uma Igreja e um clero sanguinários e perse­
guidores”. [14] Mas a maioria dos clérigos concordava com os
papas.

Decretos Papais
Seguidamente ficamos sabendo da resistência secular através
dos decretos papais que tentavam corrigi-la. Will Durant nos infor­
ma que Leão X proclamou a bula Honestis (em 1521), a qual “or­
denava a excomunhão de todos os oficiais, e a suspensão dos servi­
ços religiosos em qualquer comunidade que se recusasse a execu­
tar, sem exame ou revisão, as sentenças dos inquisidores”[15].
Consideremos a repreensão de Clemente V a Eduardo lí:

Soubemos que vós proibistes a tortura por ser contrária às leis de


vossa terra. Mas nenhuma lei estadual pode sobrepujar nossa lei, a
lei canônica [da Igreja]. Portanto, ordeno-vos imediatamente que
submetais esses homens à tortura.[16]
O papa Urbano II (1088-1099), inspirador da Primeira Cruzada,
decretou que todos os hereges deviam ser torturados e mortos. Isso
tomou-se um dogma da Igreja. Até mesmo Tomás de Aquino, co­
nhecido como o “Doutor Angélico”, ensinou que os não-católicos,
ou hereges, podiam, depois de uma segunda admoestação, ser legi­
timamente mortos. Suas palavras exatas são: “eles mereceram ser
excluídos da terra pela morte”.[17]
Sangue dos Mártires • 251

Em 1429, o papa Martinho V (1417-1431) ordenou que o rei da


Polônia exterminasse os hussitas (simpatizantes do mártir João
Huss), que haviam lutado e derrotado o exército papal. O trecho a
seguir, retirado da carta escrita pelo papa ao rei, reforça o que já
conhecíamos da maldade do totalitarismo papal e nos diz porque os
papas odiavam os hussitas, e outros cristãos independentes, e dese­
javam destruí-los:

Sabei que os interesses da Santa Sé, e os de vossa coroa, tornam


um dever o extermínio dos hussitas. Lembrai-vos de que essas pes­
soas ímpias atrevem-se a proclamar princípios de igualdade; afir­
mam que todos os cristãos são irmãos, e que Deus não deu a homens
privilegiados o direito de governar as nações. Eles sustentam que
Cristo veio à terra a fim de abolir a escravidão; conclamam o povo à
liberdade, isto é, à aniquilação dos reis e sacerdotes.
Portanto, enquanto ainda há tempo, dirigi vossas forças contra a
Boêmia, queimai, massacrai, fazei desertos em toda parte, pois nada
poderia ser mais agradável a Deus ou mais útil à causa dos reis do
que o extermínio dos hussitas.fi 8]
Os próprios papas eram a autoridade por trás da Inquisição. Eles
detinham o poder de vida e de morte até sobre os imperadores. Ca­
so algum papa tivesse se oposto à Inquisição, ele poderia tê-la in­
terrompido, ao menos durante o seu papado. Onde lemos que os
papas emitiam anátemas contra as autoridades seculares que impu­
nham tantas e tais mortes repulsivas às suas vítimas? Em lugar al­
gum! Os magistrados civis teriam desistido desses indesejáveis as­
sassinatos a fim de salvarem suas almas, mas as ordens papais sus­
pendendo as inquisições jamais chegaram.
Pelo contrário, os pontífices romanos, que iniciaram e dirigiram
as inquisições, ameaçavam com excomunhão quem deixasse de
executar os decretos dos inquisidores.
Hoje os apologistas católicos negam os fatos históricos e acusam
os que apresentam a verdade de “não serem eruditos”. D. Antonio
Gavin, padre católico e testemunha ocular da Inquisição Espanho­
la, nos conta:

Os católicos romanos acreditam que existe um purgatório e que as


almas sofrem mais dores lá do que no inferno. Mas acho que a inqui-
2 5 2 • A Mulher Montada na Besta

siçõo é o único purgatório na terra e os santos padres [padres/pa-


pas] são seus juízes e executores. Pelo que já foi dito o leitor deve ter
uma idéia assombrosa da barbaridade daquele tribunal, mas tenho
certeza de que jamais chegará a imaginar como realmente é, pois ul­
trapassa toda a compreensão...[ 19]

Os Dogmas Permanecem Ainda Hoje


Se Roma tivesse confessado a maldade do seu feroz extermínio
de milhões daqueles que ela chamava de hereges e tivesse renun­
ciado a séculos de pilhagem, assassinato, e tivesse varrido essas
doutrinas de seus livros, então poderíamos esquecer aquele horror.
Entretanto, como ela não o fez, devemos admitir os fatos históri­
cos, não importa quão desagradáveis eles sejam. Longe de expres­
sar vergonha pela execução dos hereges, um semanário católico
norte-americano declarou em 1938:

A heresia é um crime horrível contra Deus, e os que começam


uma heresia são mais culpados do que os traidores do governo civil.
Se o Estado tem o direito de punir a traíção com a morte, o princípio
é o mesmo que concede à autoridade espiritual [Igreja Católica Ro­
mana] o poder de vida e morte sobre os arquitraidores [here-
ges].[20]
A infalibilidade jamais poderá admitir que estava errada. Como
John Fox nos lembra em seu Book ofM artyrs [Livro dos Mártires]:
“uma Igreja que se faz passar por infalível sempre irá procurar a
destruição dos que dela discordam...” [21] Peter de Rosa afirma que
o papa João Paulo II

sabe que a Igreja foi a responsável pela perseguição aos judeus,


pela Inquisição, peio extermínio dos hereges aos milhares, pela rein
trodução da tortura na Europa como parte do processo judicial. Mas
ele precisa ser cuidadoso. As doutrinas responsáveis por essas coisas
terríveis ainda sustentam a sua posição. [22]
A desobediência ao papa tornou-se a maior de todas as heresias.
Os que eram culpados disso perdiam imediatamente seus direitos
Sangue dos Mártires • 253

humanos e eram sumariamente levados à morte. Consideremos a


bula In Coena Domini, promulgada por Urbano VIII em 1627.
Gregório XI foi o primeiro a publicá-la, em 1372, e Gregório. XII a
reiterou em 1411, assim como o fez Pio V em 1568 {ele disse que
ela devia permanecer como uma lei eterna na Cristandade). Cada
papa adicionou novos toques, até que se tomou impossível que
existisse na Europa alguém que não fosse católico, algo muito se­
melhante ao que acontecerá àqueles que não se submeterem total­
mente ao Anticristo quando ele estiver governado o mundo. A bula
“excomunga e amaldiçoa todos os hereges e cismáticos, bem como
todos os que os favorecem e defendem, [inclusive] todos os prínci­
pes e magistrados...”[23]
Essa bula continua em vigor até hoje. E não poderia ser de outro
modo, com o pronunciamento ex catedra de quatro papas infalíveis
para apoiá-la. O absolutismo permanece, mesmo que no momento
Roma não seja capaz de extemá-lo com ousadia. O Código de Di­
reito Canônico, cânon 333, parágrafo 3, declara: “não há apelação
ou recurso contra uma sentença ou decreto do pontífice romano”.
O Vaticano II, é claro, diz o mesmo.
A mulher está montada na besta e domina sobre os reis da terra!
Parece incrível, mas é verdade. Aos olhos da Igreja, a heresia era
tratada como uma traição contra a coroa. A Igreja procurava os he­
reges, considerava-os culpados e os entregava às autoridades civis
para a execução. Como o seu braço secular, o Estado fazia o que a
Igreja ordenava na execução dos hereges, no confisco de suas pro­
priedades e no reforço dos decretos da Igreja contra eles e seus her­
deiros.

O Uso da Tortura
Lembrem-se, não é que as mãos da mulher estejam sujas de san­
gue, mas ela está embriagada com o sangue dos mártires. Essa
descrição revela que a Igreja não apenas mata, mas tortura suas ví­
timas que sofrem durante dias e até mesmo semanas. Os inquisido­
res pareciam estar drogados e terem perdido a sensibilidade, a pon­
to de sua percepção de horror ter ficado adormecida. Na verdade,
ser capaz de impor a mais extrema tortura, sem um resquício de
consciência ou pensamento de compaixão, tornou-se uma marca de
santidade e fidelidade à Igreja.
25 4 * A Mulher Montada na Besta

Tente se imaginar sendo preso repentinamente, no meio da noite,


e levado para um lugar desconhecido, impedido de ver sua família
e seus amigos. Não se revela quais são as acusações contra você,
nem a identidade de seus acusadores, os quais permanecem anôni­
mos e, por isso, imunes de qualquer exame para descobrir se estão
dizendo a verdade. Qualquer que seja a acusação, será aceita como
um fato e você será declarado culpado, sem direito a um julgamen­
to. O único julgamento será a mais dolorosa tortura, que continuará
até que você confesse aquele crime de heresia do qual foi acusado.
Imagine o tormento de ter suas juntas deslocadas, sua came rasga­
da e retalhada, uma hemorragia interna, ossos quebrados na mesa
de tortura e reparados pelo médico, a fim de serem novamente par­
tidos em pedaços durante uma nova sessão de tortura. Você inevita­
velmente iria confessar qualquer coisa para acabar com o tormento,
mas independentemente do que possa confessar, será algo que ja ­
mais se encaixará na acusação secreta. Portanto, a tortura continua­
rá até que você finalmente morra, como conseqüência do trauma
insuportável.
Foi isso que aconteceu com milhões de pessoas. Seres huma­
nos de verdade: mães, pais, irmãos, irmãs, filhos e filhas - todos
eles tinham sonhos e esperanças, paixões e sentimentos, muitos
com uma fé que não podia ser rompida pela tortura nem pelo fo­
go. Lembre-se que esse terror, essas maldades de proporção tal
que seriam inimagináveis nos dias de hoje, foram executadas du­
rante séculos em nome de Cristo, a mando dos que afirmavam ser
os Seus vigários. Eles ainda são honrados com esse título por es­
sa Igreja, que jamais admitiu que as inquisições fossem erradas.
Ela não se arrependeu nem se desculpou e ainda hoje atreve-se a
posar como a mestra suprema e um exemplo da moral e da ver­
dade. Lembre-se também que as doutrinas que deram apoio à In­
quisição continuam, até hoje, em pleno vigor dentro da Igreja Ca­
tólica Romana.
Com o uso da tortura, não havia limite para o que o acusado po­
deria acabar confessando. Ao menos uma pobre criatura disse que
admitiria até mesmo ter matado Deus, caso seus inquisidores pa­
rassem de torturá-lo. Mulheres acusadas de serem bruxas confessa­
ram, sob tortura, terem praticado sexo com Satanás e até mesmo
dado à luz a filhos dele, que permaneciam invisíveis, sendo portan­
to a maior ameaça para os católicos. O papa Inocêncio VIII fez de
Sangue dos Mártires » 2 5 5

tal histeria sem sentido um dogma oficial em 1484, com a bula


Summis desiderantes affectibus:

Homens e mulheres afastados da fé católica entregaram-se aos de­


mônios, inçubi e succubi [parceiros sexuais demoníacos, machos e fê­
meas] e através de seus encantamentos, feitiços, conjurações.., têm
assassinado crianças ainda no ventre materno, bem como as crias do
rebanho, destruindo também o produto da terra...[24].
A tortura era considerada como essencial porque a Igreja sentia-
se no dever de identificar pelos lábios das próprias vítimas qual­
quer desvio da sã doutrina. Provavelmente quanto mais excruciante
fosse a tortura, mais pareceria que a verdade fora arrancada dos lá­
bios relutantes. Os inquisidores estavam convencidos de que seria
“melhor que uma centena de pessoas inocentes perecesse do que
um único herege ficasse livre”. Essa doutrina horrenda foi mantida
sob as ordens de cada um dos papas, durante os três séculos se­
guintes. Durant acrescenta que:

Os inquisidores pareciam crer sinceramente que a tortura era um


favor para um acusado que já fora taxado como culpado, uma vez
que poderia creditar-lhe, pela confissão, uma pena mais branda; en­
tão, de qualquer maneira, como após a confissão, ele seria condena­
do à morte, teria direito à absolvição sacerdotal para se salvar do in­
ferno.[25] .

Outro autor, Gerard Dufour, cita um livro escrito em 1552 por


Simancas, declarando que “os inquisidores deviam ser mais incli­
nados ao uso da tortura do que a julgamentos regulares, porque o
crime de heresia é secreto e muito difícil de ser provado”. O propó­
sito da tortura declarado abertamente era “causar a mais intensa
dor ao prisioneiro. Por isso os inquisidores compartilhavam entre si
as receitas [técnicas de tortura]”. Outras autoridades daquele tempo
são citadas dizendo que não era esperado que a tortura absolvesse
o acusado de sua heresia, uma vez que o seu propósito principal
era aterrorizar as massas[26], o que realmente acabou acontecendo.
Os apologistas católicos se apressam em afirmar que o papa Sis-
to IV tentou parar com a Inquisição. Isso não é verdade. Ele emitiu
uma bula em 1482, declarando que os inquisidores na região de
2 5 6 • A Mulher Montada na Besta

Aragão, na Espanha, pareciam mais interessados em enriquecer do


que defender a fé, acusando-os de aprisionar, torturar e banir cató­
licos fiéis, baseados em falsas acusações de seus inimigos e escra­
vos. Ele decretou que o representante do bispo local sempre deve­
ria estar presente, que os acusados deveriam saber o nome dos acu­
sadores e que seriam permitidos apelos à Santa Sé.
Esta bula, contudo, foi só para Aragão e quando o rei Fernando
desafiou-a, Sisto retrocedeu e seis meses depois a suspendeu. En­
quanto isso ele estava recebendo dinheiro por garantir grandes dis­
pensas e absolvições (que os inquisidores nunca honraram) das
sentenças da Inquisição em Aragão. Mas ele não as devolveu. Se o
papa estivesse realmente mais interessado em justiça do que no di­
nheiro, ele teria forçado o rei a concordar e faria com que a bula
fosse válida em toda parte e não apenas em Aragão. [27]

O Mocfus Operandi
Quando os inquisidores entravam em uma cidade, era promulga­
do um “Édito de Fé”, exigindo que cada pessoa revelasse qualquer
heresia de que tivesse conhecimento. Os que escondiam um herege
eram amaldiçoados pela ira da Igreja e dos inquisidores. Os infor­
mantes aproximavam-se dos alojamentos dos inquisidores na cala­
da noite e eram recompensados pelas informações. Nenhum preso
jamais foi libertado.
Os “hereges” eram condenados às chamas porque os papas
criam que a Bíblia proibia os cristãos de derramarem sangue. As
vítimas dos inquisidores excediam em centenas de milhares o nú­
mero de cristãos e judeus que haviam padecido sob os imperadores
romanos.
A Inquisição, estabelecida e repetidamente abençoada pelos pa­
pas, foi um ataque ostensivo à verdade, à justiça e aos direitos hu­
manos básicos. Foi também a perfeita estratégia para os fanáticos,
vilões, inimigos e malucos com uma imaginação exacerbada no
que diz respeito a procurarem vingança, livrar-se de rivais ou con­
seguir satisfação pessoal por terem se tomado importantes para a
Igreja. Peter de Rosa escreve:

Sempre que um dos Estados papais caía sob o exército da nova


Itália e as prisões eram abertas, reveíava-se que as condições dos
Sangue dos Mártires • 257

prisioneiros eram indescritíveis... durante mais de seis séculos, inin­


terruptamente, o papado foi o inimigo figadal da justiça mais bási-
ca.[28]
As propriedades dos hereges eram confiscadas e divididas en­
tre os inquisidores e os papas. O fato do cadáver do papa For­
moso ter sido desenterrado duas vezes, condenado e excomun­
gado, acabou se tomando um exemplo disso. Em 680, o Sexto
Concílio Geral decretou que mesmo os hereges mortos deveriam
ser julgados e condenados. Cadáveres que estavam em suas se­
pulturas por décadas eram exumados, julgados e condenados. A
essa altura, os bens do falecido eram confiscados, fazendo com
que os herdeiros perdessem tudo, inclusive, em muitos casos,
seus direitos civis.
Os apologistas católicos romanos apresentam as inquisições co­
mo uma necessidade de conservar a Igreja doutrinariamente pura.
Eles sugerem que quaisquer excessos foram obra de espanhóis su-
perpatriotas, que estavam a par de que muitos mouros e judeus
“convertidos” não eram realmente fiéis à Igreja. Igualmente esque­
cida é a “crueldade bárbara de alguns padres piedosos inquisidores
na Itália, França, Alemanha, Países Baixos, Inglaterra e terras es­
candinavas” . Além da Inquisição Espanhola houve também a In­
quisição Romana e as Inquisições Medievais. Emmet McLoughlin,
que passou muitos anos pesquisando arquivos históricos relevantes
no Novo Mundo, escreve:

Não havia mouros e apenas un$ poucos judeus no Peru, onde vi a


Sala da Inquisição, os calabouços de aprisionamentos e a beta porta
entalhada que tinha... um buraco feito à altura da boca, para que as
testemunhas pudessem testificar contra o herege acusado sem serem
vistas ou identificadas....[29]
Como uma testemunha ocular que viveu no princípio do século
XVIII na Espanha, Gavin nos conta: “Este tribunal é composto de
três inquisidores, que são juízes absolutos... do seu julgamento não
há apelação... o primeiro inquisidor é um divino, o segundo, um
casuísta e o terceiro, um civil. O primeiro e o segundo são sempre
sacerdotes... O terceiro, algumas vezes, não o é... Os inquisidores
têm um poder despótico de mandar em qualquer alma vivente; e
258 • A Mulher Montada na Besta

nenhuma desculpa pode ser dada, nem contradição ser feita às suas
ordens...[30]

A Igreja Peregrina
Os apologistas católicos admitem que a Igreja “cometeu alguns
erros”, mas insistem em dizer que Roma não poderia ser o lugar
descrito em Apocalipse 17. Por quê? Porque Cristo prometeu que
as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (Mateus
16.18) e o catolicismo romano é a Igreja. Até mesmo muitos evan­
gélicos são enganados por esse argumento.
A verdade é que o catolicismo romano não representava Cris­
to e nem era a Sua Igreja. Durante pelo menos 1000 anos antes
da Reforma a verdadeira Igreja de Cristo era formada de milha­
res de cristãos simples que não faziam parte do sistema romano.
É um fato histórico que tais crentes existiam, recusavam-se a ser
chamados de “católicos” e faziam sua adoração independentemen­
te da hierarquia romana. Eles realmente eram perseguidos, apri­
sionados e mortos, desde o final do século IV. Dentre as evidên­
cias dos antigos registros está o “Édito dos Imperadores Gracia-
no, Valentino II e Teodósio I”, de 27 de fevereiro de 380, o qual
estabeleceu o catolicismo romano como a religião estatal. Em par­
te ele dizia:

Ordenamos que aqueles que seguem esta doutrina recebam o tí­


tulo de cristãos católicos, mas os demais julgamos serem loucos e ir­
racionais, e passíveis de incorrer na desgraça do ensino herético, as
suas assembléias nem devem receber o nome de igrejas. Eles devem
ser punidos, não apenas pela retribuição divina mas também por
nossas próprias medidas, as quais decidimos conforme a inspiração
divina.[31]
Estes católicos não-cristãos haviam se separado, pela sua cons­
ciência diante de Deus e em obediência à Sua Palavra, daquela que
já naqueles dias eles sinceramente chamavam de “a meretriz da Ba­
bilônia”. O bispo Álvaro Pelayo, oficiai da Cúria de Avignon, es­
creveu sobre eles de má vontade: “Considerando que a corte papal
tem enchido a Igreja de simonia e da consequente corrupção da re­
ligião, é natural que os hereges chamem a Igreja de prostituta”.[32]
Sangue dos Mártires • 259

E. H. Broabent chama os cristãos que criam na Bíblia de “Igreja


Peregrina” em seu livro que tem este mesmo título.

Nos vales alpinos de Piemonte durante quatro séculos houve con­


gregações de crentes que chamavam a si mesmos de irmãos, os
quais mais tarde ficaram conhecidos como valdenses ou vaídois...
[por causa de Pedro Valdo, seu líder - NT]. No Sul da França... as
congregações de crentes que se reuniam fora da igreja católica eram
numerosas e cresciam cada vez mais, Eles eram chamados às vezes
de albigenses [e] tinham íntimas ligações com os irmãos - quer fos­
sem chamados valdenses, Homens Pobres de Lyon, Bogomiis ou de
outros nomes - nos países vizinhos, onde as igrejas se espalhavam
entre vários povoados.
Em 1209 [o papa Inocêncio Hl] proclamou uma Cruzada contra
[eles]. Indulgências iguais às que haviam sido concedidas aos cruza­
dos [da Terra Santa]... eram agora oferecidas a todos os que tomas­
sem parte nesta tarefa bem mais fácil, destruir as províncias mais
produtivas da França. Isto e o prospecto de benefício e licença de to­
da espécie atraíram centenas de milhares de homens. Sob a presi­
dência de altos dignitários eclesiásticos e conduzidos por Simon de
Monfort, um líder militar de grande habilidade... a parte mais bonita
e cultivada da Europa naquele tempo foi devastada...[33]
Esses crentes simples foram queimados na estaca ou assassina­
dos à espada (e a maior parte de seus registros foi destruída) quan­
do suas cidades e vilas foram exterminadas pelos exércitos papais.
Os apologistas católicos os acusam falsamente de heresias e práti­
cas abomináveis, que eles negavam. Os relatos que temos de seus
julgamentos revelam que eles tinham crenças semelhantes às dos
evangélicos de hoje. Embora algumas das piores histórias sejam
narradas sobre os Catari, podemos apenas concordar com suas
crenças, conforme descritas por Durant:

[Eles] negavam que a Igreja [Católica Romana] fosse a Igreja de


Cristo; [declaravam que] São Pedro jamais havia estado em Roma,
não fundou o papado; [e que] os papas eram os sucessores dos im­
peradores, não dos apóstolos. [Eles ensinavam que] Cristo não tinha
onde reclinar a cabeça, mas o papa vivia num palácio; Cristo não ti­
nha propriedades nem dinheiro, mas os prelados cristãos eram ricos;
2 6 0 * A Mulher Montada na Besta

certamente... estes abastados arcebispos e bispos, estes padres mun­


danos, estes monges gordos, eram os fariseus da antigüidade renas­
cidos! Eles estavam certos que a Igreja Católica Romana, era a Mere­
triz da Babilônia, o clero era a sinagoga de Satanás e o papa era o
Anticristo. Eles denunciavam os propagadores das Cruzadas como
assassinos... riam das indulgências e relíquias... chamavam as igre­
jas de "covis de ladrões" e os padres católicos lhes pareciam "traido­
res, mentirosos e hipócritas".[34]
Du Pin, autor católico do século XIX, escreve: “o papa [Inocên-
cio III] e os prelados eram da opinião que o uso da força era lícito
para descobrir se aqueles que não estavam certos da sua salvação
poderiam fazê-lo por medo das punições e até mesmo da morte
temporal”. Quase todo mundo sabe que as Cruzadas eram forma­
das por dezenas de milhares de cavaleiros e soldados de infantaria
e visavam a retomada de Jerusalém do controle dos muçulmanos.
Poucas pessoas ouviram falar que Cruzadas similares, envolvendo
imensos exércitos, foram travadas contra os cristãos que não po­
diam, por sua consciência, submeter-se a Roma. Mesmo assim,
elas ocorreram e tiveram início sob o governo do papa Inocêncio
IÍI.[35]
O maior crime daqueles cristãos foi crerem na liberdade de
consciência e adoração - conceitos bíblicos que os papas odiavam,
pois essas crenças acabariam com o poder de Roma. Embora não
estejam disponíveis os números exatos, o assassinato desses cris­
tãos pelos papas provavelmente atingiu milhões durante os 1000
anos que antecederam a Reforma. Somente na cidade de Beziers
cerca de 60.000 homens, mulheres e crianças foram dizimados nu­
ma única Cruzada.[36] Inocêncio III considerava a aniquilação
destes hereges o maior feito do seu papadol Broadbent escreve:

Quando a cidade de Beziers foi obrigada a render-se, seus mora­


dores católicos juntaram-se aos dissidentes em sua recusa... A cidade
foi tomada, e das dezenas de milhares que lá haviam procurado re­
fúgio, nenhum foi poupado.[37]
Apesar dos massacres periódicos, grupos de cristãos indepen­
dentes estavam crescendo, muito antes de Maríim Lutero ter nasci­
do. Aparentemente eles eram exterminados em um local, mas apa­
_____________________ _ _________Sangue dos Mártires • 261

reciam em outro, Como Ulrico Zwínglio diria mais tarde, em 1552,


numa carta que escreveu aos seus irmãos, que temiam ser queima­
dos na fogueira:

Ó, meus amados irmãos, o Evangelho procede do sangue de Cris­


to, essa maravilhosa propriedade, que as mais cruéis perseguições,
longe de diminuir o seu progresso acabam por acelerar o seu triun-
fo![38]
A mão de ferro de Roma não poderia permitir que houvesse in­
dependência. Assim os valdenses franceses incorreram na ira do
papa Inocêncio VIII (1484-1492) “por se atreverem a manter sua
própria religião em detrimento à de Roma”. Em 1487 o papa ini­
ciou uma Cruzada contra eles, na qual prometeu “a remissão de to­
dos os pecados a qualquer um que assassinasse um herege”,[39] e
ordenou a remoção de todo bispo que negligenciasse a limpeza de
sua diocese dos hereges. Não é de admirar que esses cristãos consi­
deravam os papas como anticristos, pois o que eles sofriam era
muito pior do que os imperadores romanos haviam infligido à igre­
ja primitiva, sendo muito semelhante à perseguição que será pro­
movida pelo Anticristo, como foi profetizado em Apocalipse 13.
Em 1838 George Stanley Faber escreveu An Inquiry ínto the
History and Theology of the Ancient Valdenses and Albigense"
[Uma Investigação Sobre a História e Teologia dos Antigos Val­
denses e Albigenses]. Cerca de 200 anos antes, em 1684, Samuel
Morland havia publicado sua History o f the Evengelical Churchs of
Piedmont [História das Igrejas Evangélicas de Piemonte] (região
da França habitada pelos albigenses e outros “hereges”). As inves­
tigações de ambos os autores basearem-se numa grande quantidade
de outras obras, retrocedendo até o século XIII. Dos testemunhos
escritos e públicos de seus julgamentos, fica bem claro que os val-
dois, albigenses, valdenses e outros grupos semelhantes eram here­
ges apenas para Roma. Na verdade, suas crenças eram muito pare­
cidas com a dos reformadores, dos quais eles foram, de certa for­
ma, os predecessores. Martim Lutero reconheceu o seu débito com
eles quando escreveu;

Não somos os primeiros a declarar que o papado é o reino do


Anfícristo, uma vez que durante muitos anos antes de nós, tantos e
262 • A Mulher Montada na Besta

tão grandiosos homens (que são numerosos e cuja memória é eterna)


decidiram expressar a mesma coisa de forma tão simples e cla­
ra. [40]

Os Menonitas
Aos olhos de Roma uma das piores heresias era rejeitar o ba­
tismo infantil. Este rito supostamente removia a mancha do peca­
do original, fazia da criança um filho de Deus e membro da Igre­
j a ^ iniciava o processo da salvação, que consistia em obedecer
as ordenanças de Roma e participar dos seus sacramentos. Aque­
les que conseguiam uma cópia da Bíblia (que Roma fazia todo o
possível para esconder do povo) descobriam que ela contradizia
as doutrinas de Roma. A salvação não vinha pelo batismo, mas
pela fé em Cristo. O batismo era para os que já criam nEle como
seu Salvador. Nenhuma criança era capaz de possuir tal compreen­
são e fé.
Os que criam no Evangelho encontrado na Bíblia desejavam ser
batizados como crentes. O padre holandês Menno Simons relata a
confusão que ele próprio experimentou antes de se tomar cristão:

No dia 20 de março de 1521, um certo alfaiate chamado Sicke


Freerks Snijder foi executado [em Leeuwarden] pelo estranho motivo
de ter sido batizado pela segunda vez. ''Soou estranho aos meus ou­
vidos", diz Menno, que "se falasse de um segundo batismo".
Mais estranho ainda pareceu a Menno quando ele soube que
Freerks era homem piedoso e temente a Deus, que não cria que as
Escrituras ensinavam que as crianças deviam ser batizadas, mas sim
que o batismo deveria ser administrado somente aos adultos que
confessassem ter uma fé pessoal.[41 ]
Muitos que pertenciam ao crescente grupo dos protestantes, tais
como os luteranos, continuaram a batizar crianças e ainda hoje o
fazem - um dos vários elementos do catolicismo dos quais os re­
formadores foram incapazes de se libertar. Assim, os protestantes
também começaram a perseguir e, em alguns casos, a executar os
que haviam se batizado pela segunda vez. Esses “hereges” passa­
ram a ser conhecidos como anabatistas.
Sangue dos Mártires • 263

A Inquisição Católica na Holanda, onde se encontrava a maioria


dos anabatistas, queimou dezenas de milhares na fogueira por de­
fenderem o batismo de adultos que haviam aceitado Cristo como
Salvador. Os que davam ajuda e refugio aos hereges compartilha­
vam do mesmo destino. A maioria dos anabatistas seguia os ensi­
nos de Menno Simmons e eles passaram a ser conhecidos como
menonitas. Menno escreve:

[Por volta de 1539] um homem muito piedoso e temente a Deus,


Tjard Reynders, foi preso no lugar onde eu me encontrava, por haver
recebido em sua casa, embora secretamente, um homem como eu,
sem lar, sem compaixão e sem amor... ele foi, após uma livre confis­
são de fé [somente em Cristo], torturado na roda e executado como
um valente soldado de Cristo, conforme o exemplo do seu Senhor,
embora tivesse o testemunho até mesmo dos seus inimigos, de ser um
homem piedoso e irrepreensível.[42]
As histórias dos mártires que, por terem colocado sua fé somente
em Cristo e se devotado a Ele, foram torturados e assassinados, mui­
tos nas chamas, apresentam um quadro quase inacreditável, tama­
nha é sua tragédia e expressão patética. Através das cartas que eles
escreveram enquanto aguardavam a execução ficamos sabendo tanto
de sua fé quanto do terror que eles encararam com bravura enquanto
estavam nas mãos dos que proclamavam estar servindo a Cristo. Ve­
ja este breve excerto de uma carta que Hans Van Munstdorp escreveu
a sua esposa quando estavam ambos na prisão em Antuérpia:

Saúdo-te com afeto, minha amada esposa, a quem amo de cora­


ção... e devo agora abandonar pela verdade [pela qual] devemos ter
como perda todas as coisas e amá-iO acima de tudo... minha mente
ainda está determinada em aderir à verdade eterna. [Espero] pela
graça de nosso Senhor que seja este também o propósito de tua men­
te, pelo que eu me alegraria em saber. Eu aqui te exorto, minha ado­
rável ovelha, com o apóstolo: "Como recebestes Cristo Jesus, o Se­
nhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados
na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graças".[43]
No dia 19 de setembro de 1573, após a morte de seu marido, ao
dar à luz na prisão, Janneken Munstdorp escreveu uma carta de
2 6 4 • A Mulher Montada na Besta

despedida à sua filha, que ainda era um bebê. Era uma extensa
exortação para que ela vivesse por Cristo, cheia de referências da
Escritura e ensinos da Palavra de Deus, para guiar sua filha, quan­
do esta crescesse. Um curto excerto da carta revela o amor e a fé de
uma jovem m ãe:

Que o verdadeiro amor de Deus e a sabedoria do Pai te fortale­


çam na virtude, minha queridíssima filha... Eu te entrego ao Todo-Po-
deroso, grande e terrível Deus, pois somente Ele é sábio, para que te
guardar e te deixar crescer em Seu temor... tu que és tão jovem e a
quem devo deixar aqui neste mundo mau e perverso... Uma vez que
tu és agora privada de pai e mãe, eu te entrego ao Senhor; deixe
que Ele faça na tua vida a Sua santa vontade...
Minha querida ovelhinha, eu que estou aprisionada... não posso te
ajudar de modo algum; tive de abandonar o teu pai por amor ao Se­
nhor... [nós] fomos presos... [e] eles o afastaram de mim... E agora
que eu... te guardei dentro do meu coração, com grande tristeza du­
rante nove meses, e te dei à luz aqui na prisão, com muitas dores,
eles te tomaram de mim...
Agora que estou sendo entregue à morte, e devo te deixar sozinha
aqui, através destas linhas devo levar-te à lembrança de que quando
tiveres obtido consciência, te empenhes em temer a Deus e examinar
porquê e por cujo nome ambos morremos e não te envergonhes... de
nós; é a maneira como os profetas se foram e o caminho estreito que
conduz à vida eterna...[44]
Talvez a maior tragédia desses mártires tenha sido o fato de que
eles foram esquecidos. Ou, pior ainda, sua fidelidade a Cristo, na
tortura e na morte, hoje é motivo de zombaria da parte dos líderes
evangélicos, os quais afirmam que as verdades pelas quais eles de­
ram suas vidas não eram tão importantes. Eles morreram para levar
o Evangelho de Cristo às almas perdidas, porque o evangelho de
Roma estava enviando multidões para o inferno. Mas muito embo­
ra o evangelho de Roma jamais tenha mudado, muitos líderes evan­
gélicos de hoje estão dizendo que os católicos que servem a Roma
são salvos, e agora eles estão olhando para a Igreja Católica Roma­
na, (a qual queimou pessoas na estaca para que abandonassem as
Escrituras!) como parceira na evangelização do mundo para Cristo.
Os mártires certamente chorariam no céu - não por si mesmos,
________________________________ Sangue dos Mártires • 265

mas pelos perdidos - se Cristo lhes permitisse saber da tremenda


traição à fé pela qual eles morreram.

A Inquisição Atual
A Inquisição medieval havia florescido durante séculos, quando
o papa Paulo III, em 1542, lhe deu o status de primeira das sagra­
das congregações de Roma, a santa, católica e apostólica Inquisi­
ção. Chamada mais recentemente de Santo Ofício, seu nome foi
mudado em 1967 para Congregação para a Doutrina da Fé - algo
muito apropriado, principalmente porque as fogueiras públicas
eram conhecidas como “autos-da-fé” ou “atos de fé”. A persegui­
ção, tortura e matança dos hereges jamais foi repudiada pela Igreja
Católica Romana e continua nos tempos modernos, conforme vere­
mos.
Roma deve fazer uma clara escolha: ou seu zelo na tortura e as­
sassinato de tantas vítimas inocentes é algo de que ela deve se or­
gulhar ou algo para se envergonhar. Sem dúvida Roma não se arre­
pende de seus pecados e nem abre mão de sua infalibilidade. Por
conseguinte, não é surpresa que o Ofício da Inquisição ainda ocupe
o Palácio dos Inquisidores anexo ao Vaticano, embora sob o novo
nome de Congregação para a Doutrina da Fé. O seu atual Grande
Inquisidor, que presta contas diretamente para o papa, é o ex-arce­
bispo de Munique, o cardeal Joseph Ratzinger, a quem a revista Ti­
me chamou de “o cardeal mais poderoso do mundo [e] principal
fortalecedor dos dogmas da Igreja Católica,. ”[45] Essa imposição
pode ser brutalmente direta, ou tratada com muito cuidado por
meio de outra pessoa, como foi o caso, no final de 1993, do amor-
daçamento do padre Joseph Breen pelo bispo de Nashville, Edward
Kmiec. Numa carta aos bispos americanos, Breen ressaltava “a
vasta diferença entre o que Roma diz e o que realmente acontece”
e se declarava a favor de um “celibato opcional”. Ele foi forçado a
assinar uma solene declaração de que “não falaria à imprensa... [e]
não criticaria o que os bispos fizessem”.[46]
Embora não mais imole suas vítimas, a Congregação ainda tenta
manter o controle do Vaticano sectarista sobre o pensamento de seu
clero e dos membros da Igreja. Por exemplo, no dia 9 de junho de
1993, Ratzinger publicou “Instruções... Promovendo a Doutrina da
Fé”. O documento exige que seja “requerida uma autorização pré­
2 6 6 • A Mulher Montada na Besta

via... para o que for escrito pelo clero e membros de instituições reli­
giosas para os jornais, revistas e periódicos que estejam habituados a
atacar abertamente a religião católica ou os bons costumes. A instru­
ção ainda adverte as editoras católicas a se conformarem às leis da
Igreja. E os bispos são obrigados a evitar a venda e exposição em
suas igrejas de publicações sobre religião e moral sem o aval da Igre­
ja...”[47] É a reaparição do “índice dos Livros Proibidos”.

Uma Hipocrisia Monumental


A Igreja Católica Romana tem sido a maior perseguidora, tanto
de judeus como de cristãos, que o mundo já conheceu. Ela tem
martirizado mais cristãos do que a Roma pagã e o islamismo jun­
tos. Excedendo até mesmo Mao e Stalin, os quais, no entanto, nun­
ca afirmaram estar agindo em nome de Cristo. A Roma católica
não possui rival entre as instituições religiosas no que diz respeito
a ser qualificada como a mulher que está “embriagada com o san­
gue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus ” (Apoca­
lipse 17.6).
Ainda que João Paulo II, em seu tratado Veritatis Splendor, te­
nha tido a audácia de falar sobre os santos católicos “que deram
testemunho e defenderam a verdade moral a ponto de suportarem o
martírio...” [48], o que dizer então dos milhões que a Igreja a qual
ele pertence massacrou, por sua consciência moral e do entendi­
mento de que a Palavra de Deus não coincidia com a pregação de
Roma! O silêncio do Vaticano com respeito aos seus infames e in­
contáveis crimes contra Deus e a humanidade ressoa em ouvidos
surdos. Muito pior é a hipocrisia que permite que essa mulher as­
sassina pose como a grande mestra e um exemplo de obediência a
Cristo.
“ ‘Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque
deles é o reino dos céus (Mateus 5.10).’ Foi assim que João Paulo
II iniciou, em 10 de outubro de 1993, a missa solene para beatifica­
ção de 11 mártires [católicos] da Guerra Civil Espanhola e dois re­
ligiosos italianos”.[49] Foi assim que a influente revista Inside the
Vatican registrou o evento: Como sempre, enquanto os mártires ca­
tólicos são louvados, não há desculpa alguma, nem apologia, aos
milhões de cristãos e judeus que foram martirizados pela Igreja Ca­
tólica Romana. A hipocrisia é monumental!
A santa providência divina decretou que numa hora decisiva ele
[Hitler] fosse encarregado da liderança do povo alemão.
- (de um artigo no Klerusblatt, órgão da Associação Diocesana
de Padres da Bavária, honrando Hitler no dia do seu 50° aniversá­
rio em 20 de abril de 1939)[1]

O movimento [nazista], por estar livrando o mundo dos judeus, é


um movimento do renascimento da dignidade humana. O Onis­
ciente e Todo-Poderoso Deus está por trás desse movimento.
- padre Franjo Kralik, em um jornal católico de Zagreb (Croá­
cia), 1941 [2]
v . -i ; . <• >\-

Pano de Fundo
do Holocausto
A aprovação de Hitler pelos prelados católicos e suas declara­
ções sobre como “libertar o mundo dos judeus” parecem chocan­
tes. Mesmo assim elas refletiam apenas o tratamento histórico que
o catolicismo sempre dispensara aos judeus. Hitler justificou sua
“solução final” salientando que a Igreja tinha oprimido e assassi­
nado os judeus durante séculos. É de admirar que aqueles que afir­
mavam ser os sucessores de Cristo e de Pedro pudessem “perse­
guir a raça da qual Pedro - e Jesus - haviam descendido”.[3] Con­
tudo, eles o faziam em nome de Cristo e assim se sentiam
justificados.
Aos católicos romanos foi ensinado que eles haviam sucedido os
judeus como povo escolhido de Deus. A terra de Israel, prometida
por Deus aos descendentes de Abraão, Isaque e Jacó, pertencia
agora à Roma “cristã”. Ela se tomara a “nova Sião”, a “Cidade
Eterna” e a “Cidade Santa”, títulos que Deus havia dado exclusiva­
mente a Jerusalém. Os exércitos papais lutaram para expandir o
“Reino de Deus”. Como nos lembra um historiador do século XIX:
“o território sob o domínio imediato do papa era expandido sempre
que uma guerra ou tratado podia aumentá-lo; e os seus habitantes
pagavam as taxas mais exorbitantes possíveis”.[4]
270 • A Mulher Montada na Besta

Uma Grande Vergonha para Cristo


Os que se auto-intitulam vigários de Cristo acarretaram grande
vergonha para o nome de Cristo pelo seu tratamento contra os ju ­
deus. E o pior é que geralmente o catolicismo é visto como cristia­
nismo. Os judeus que foram perseguidos através dos séculos pela
Igreja Católica Romana jamais se deram conta de que havia mi­
lhões de cristãos fora dessa Igreja - cristãos que não perseguiam o
povo escolhido de Deus e eles mesmos eram perseguidos e mortos
pelos católicos em número bem maior do que os judeus.
Consideremos a menção do “cristianismo” num tratado rabínico
erudito sobre o Holocausto. Notemos que o catolicismo romano é
criticado, não o cristianismo evangélico, que o autor e os leitores
judeus nem mesmo sabem que existe. A citação é do capítulo inti­
tulado “O Papel Cristão [no Holocausto]”:

...sem o cristianismo o sucesso do nazismo não teria sido possí­


vel... Não fosse pelo fato de dezenas de gerações na Europa terem
sido imbuídas de ódio religioso, o crescimento do ódio racista contra
os judeus nos tempos modernos não teria lugar. '
Além do mais, durante o Holocausto, o Vaticano esquivou-se de
protestar contra o assassinato, ficando à parte, resgatando apenas
alguns judeus. Até hoje o Vaticano nega aos estudiosos o completo
acesso aos documentos desse período. Entretanto, ficou comprovado
que o Vaticano estava entre os primeiros do mundo a saber sobre o
genocídio, e nada fez para liberar as informações (ver The Terrible
Secret [O Terrível Segredo], de Walter Laquer)...
E difícil evitar a conclusão de que a inércia do papa tenha signifi­
cado sua aprovação... Mesmo que a Igreja tenha se envolvido em
atividades isoladas de resgate, o motivo parece ter sido levar os ju­
deus resgatados ao seio do cristianismo. Milhares de crianças judias
foram levadas aos mosteiros e, após a guerra, muitas não foram de­
volvidas ao seu povo e à sua fé, mesmo após os seus pais terem im­
plorado pela devolução delas.
Com um cinismo inigualável, muitos cristãos ainda vêem o Holo­
causto como um castigo pesado pela recusa dos judeus em aceitar o
cristianismo.[5]
O rabino continua analisando o cristianismo como ele o vê (tudo
que ele conhece é o catolicismo romano), na tentativa de entender a
Pano cie Fundo do Holocausto • 271

razão do seu fracasso moral em relação ao Holocausto. Suas obser­


vações e argumentos são devastadores, mesmo não sabendo que
existem milhões de cristãos verdadeiros que concordariam com
suas críticas à falsa religião de Roma. Poder-se-ia pensar que ele
jamais ouviu falar da Reforma e dos protestantes, que não possuem
“monges” e cujos ministros são casados:

Os padres do cristianismo [catolicismo] são proibidos de casar, e


seus monges, levando vidas de aflição, isolam-se da sociedade. Essa
religião não é fácil de ser posta em prática... A idéia de que isso seja
possível leva a incomparável hipocrisia... Durante anos o cristianismo
[catolicismo] deu origem a uma quantidade de seitas místicas, algu­
mas das quais se distinguem pela sua afinidade com as formas mais
ba ixas de abominação moral. O processo cristão [católico] de arre­
pendimento também conduz à prática de coisas graves. Quando a
reparação automática é franqueada aos que se confessam a um pa­
dre, a tentação de pecar aumenta consideravelmente...
Enquanto o assassinato, o roubo e o rapto eram totalmente desco­
nhecidos entre as comunidades judaicas na Era Medieval, esses atos
eram generalizados na Europa cristã [católica] devota. A salvação
espiritual prometida pelo cristianismo não teve expressão concre-
ta.[ó]

Anti-Semitismo em Ação
As críticas do rabino ao catolicismo são realmente verdadeiras.
A tragédia é que ele imagina estar tratando do cristianismo. A par­
tir do tempo em que os papas dirigiram Roma, as perseguições aos
judeus - em nome do judeu Jesus Cristo - foram muito mais gra­
ves do que jamais haviam sido nas mãos dos governantes pagãos.
Os pagãos haviam acusado os cristãos de qualquer calamidade.
Agora a Igreja Católica Romana culpava os judeus de tudo. Acusa­
dos de causar a peste negra, os judeus foram sitiados e enforcados,
queimados e afogados aos milhões, por vingança.
Raramente esse ou aquele papa procurou melhorar a situação
dos judeus. Gregório I “proibiu as conversões compulsórias dos
judeus e manteve os seus direitos de cidadania romana nas ter­
ras sob o seu domínio..”. Ao bispo de Nápoles ele escreveu: “não
272 • A Mulher Montada na Besta

permita que os judeus sejam molestados no exercício de seus


serviços [religiosos]”. Alexandre III foi “amistoso com os judeus
e empregou um deles para cuidar de suas finanças” . Inocêncio
III “conduziu o 4o Concílio de Latrão em sua demanda por um
distintivo judaico e estabeleceu o princípio de que eles seriam
destinados à servidão perpétua por terem crucificado Jesus”. En­
tretanto, ele retirou as injunções papais contra as conversões for­
çadas e acrescentou: “nenhum cristão pode causar qualquer in­
júria pessoal aos judeus... ou privá-los de suas posses...” (Con­
tudo, ele massacrou dezenas de milhares de cristãos). Gregório
IX, embora tenha sido o criador da Inquisição, “isentou os ju ­
deus de sua operação ou jurisdição, exceto quando tentassem ju­
daizar os cristãos ou atacassem o cristianismo, ou revertessem
ao judaísmo após terem se convertido. Em 1235, ele proclamou
uma bula denunciando a violência do populacho contra os ju ­
deus” . Inocêncio IV “repudiou a lenda do assassinato de crian­
ças cristãs pelos judeus”.[7]
Apesar das exceções acima, o quadro geral era de perseguição
aos judeus pela Igreja. Numerosos concílios e bulas papais trata­
ram desse assunto, conforme será ilustrado a seguir:

O Concílio de Viena (1311) proibiu qualquer transação entre cris­


tãos e judeus. O Concílio de Zamora (1313) decretou que eles fos­
sem reduzidos à estrita sujeição e servilismo. O Concílio de Basiléia
(1431-33) renovou os decretos canônicos proibindo os cristãos de se
associarem aos judeus e instruiu as autoridades seculares a confina­
rem os judeus em quarteirões separados, compe!indo-os a usarem
um distintivo e assegurarem que tais decretos fossem cumpridos.
O papa Eugênio IV (1431-1447) acrescentou que os judeus de­
viam ser inelegíveis para qualquer cargo público, não poderiam her­
dar propriedades dos cristãos, nem podiam construir mais sinagogas
e deveriam permanecer em casa, por trás das portas e janelas fecha­
das na Semana Santa (uma sábia provisão contra a violência cris­
tã)... Numa bula anterior, Eugênio havia ordenado que qualquer ju­
deu italiano que fosse achado lendo literatura talmúdica deveria so­
frer o confisco de suas propriedades. O papa Nicolau V comissionou
S. João Capistrano (1447) a fazer com que qualquer cláusula desta
repressiva legislação fosse obrigatória, e o autorizou a confiscar a
propriedade de qualquer médico judeu que tratasse de um cristão.[8]
Pano d e Fundo do Holocausto • 273

Mais de 100 documentos anti-semitas foram publicados pela


Igreja Católica Romana entre os séculos VI e XX. O anti-semitis­
mo se tomou sua doutrina oficial. A racionalização era de que os
“crucificadores de Cristo” não tinham direito algum ao Reino San­
to de Deus, a terra de Israel não mais lhes pertencia, mas pertencia
aos cristãos, e a Igreja tinha de tomar à força as terras e possessões
dos árabes e judeus.
A Igreja Católica Romana não tem compreensão alguma das
profecias bíblicas concernentes ao retomo dos judeus a Israel e do
Messias voltando para reinar sobre o Trono de Davi, Seu pai. Ro­
ma se auto-proclamou como a Nova Jerusalém; a Jerusalém antiga
e os judeus já não fazem mais parte do plano de Deus. Em 1862,
La Civilta, a voz semi-oficial do Vaticano, fez eco à crença manti­
da durante séculos ao declarar: “Como antes os judeus foram o po­
vo de Deus, assim são os católicos [romanos] sob a Nova Alian­
ça”. [9] Era natural que este ensino norteasse e mantivesse o anti-
semitismo.

O Registro Histórico
Ao levantar um exército para a Primeira Cruzada, o papa Urbano
II prometia entrada automática no céu, sem passar pelo purgatório,
a todos os que se engajassem na grande causa. Os cavaleiros e os
maus elementos que responderam com entusiasmo a essa enganosa
promessa deixaram um rastro de desordem, pilhagem e assassinato
em seu caminho até Jerusalém, onde massacraram todos os árabes e
judeus. Um dos primeiros atos dessa entrada triunfal em Jerusalém
foi reunir os judeus dentro de uma sinagoga e incendiar todos eles.
Em seu caminho para a Terra Santa, os cruzados davam aos judeus
a opção entre o batismo ou a morte. Peter de Rosa nos conta:

No ano de 1096, metade dos judeus de Worms foram dizimados,


enquanto os cruzados atravessavam a cidade. O restante fugiu para a
residência do arcebispo pedindo proteção. Ele concordou em salvá-
los, contanto que solicitassem o batismo. Os judeus se retiraram para
considerar sua decisão. Quando as portas da Câmara de Audiência
foram abertas, todos os 800 judeus dentro da mesma estavam mortos.
Alguns foram decapitados; pais haviam matado seus filhos antes de
usar suas facas contra as esposas e eles próprios. Um noivo assassi­
2 7 4 • A Mulher Montada na Besta

nou sua noiva. A tragédia do século I em Masada foi repetida em to­


da parte na Alemanha e mais tarde por toda a França.[10]
Durante o breve pontificado do papa Paulo IV (1555-1559), a
população de Roma foi dizimada em quase a metade, sendo os ju­
deus as principais vítimas. Trezentos anos antes, a Igreja havia
confinado os judeus em guetos “e os obrigara a usar no peito, para
sua vergonha, um círculo de pano amarelo” [l 1], porém a observân­
cia desse édito tinha sido relaxada. O papa Paulo IV proclamou,
em 17 de julho de 1555, uma bula anti-semita que foi um marco -
Cum nirnis absurdum. Ela devolvia os judeus aos guetos, forçava-
os a vender suas propriedades com enormes prejuízos e os reduzia
à condição de escravos e comerciantes de retalhos.
O casamento entre um cristão e um judeu era punido com a morte.
Apenas uma sinagoga era permitida em cada cidade. As demais fo­
ram destruídas, sete em cada oito em Roma sofreram esta sorte.
Quando ainda era cardeal, Paulo IV havia queimado livros judaicos,
inclusive o Talmude, e nenhuma substituição foi permitida. Estas são
apenas algumas das indignidades e crimes que os judeus sofreram
com esta bula, que foi um padrão mantido por mais de três séculos.
O papa Gregório XIII declarou que a culpa dos judeus por cruci­
ficarem Cristo “apenas se toma mais profunda com as sucessivas
gerações, estabelecendo sua perpétua escravidão” . Os papas subse­
quentes continuaram a perseguição:

Sucessivos papas reforçaram os antigos preconceitos contra os ju­


deus, tratando-os como leprosos indignos da proteção da lei. A Pio
VII seguiram-se Leão XII, Pio Vttl, Gregório XVI, Pio IX, todos eles
bons discípulos de Paulo IV.
Onze dias após a queda de Roma, em 2 de outubro de 1870, os
judeus, por decreto real, receberam a liberdade que o papado lhes
havia negado durante mais de 500 anos. O último gueto na Europa
[nesse tempo] foi desmantelado.[12]

Conversões Forçadas
A doutrina do catolicismo sobre o batismo infantil anulou a ver­
dade de que alguém se torna cristão, não através de obras ou ri­
Pano d e Fundo do Holocausto « 2 7 5

tuais, mas aceitando a oferta da graça de Deus através da fé pessoal


em Cristo. Uma vez que o batismo sàlva automaticamente, o papa
Leão III decretou o batismo forçado dos judeus. Às vezes lhes era
dada a opção de professar a crença em Cristo ou morrer - e, em al­
guns casos, de serem presos ou expulsos da região. O famoso rabi­
no, filósofo e médico Maimônides fugiu da Espanha para o Marro­
cos, a fim de escapar deste édito, e em seguida foi para o Egito em
1135. Hoje os visitantes dos antigos quarteirões dos judeus na Es­
panha recebem panfletos contando algumas das trágicas histórias,
como por exemplo, esta da cidade de Girona:

No dia 31 de março de 1492, Fernando e Isabel de Castela e


Aragão, conhecidos como os reis católicos, proclamaram o édito ex­
pulsando os judeus do território espanhol... [eles não tinham] nenhu­
ma escolha a não ser renunciar à sua crença religiosa ou a expatria-
ção compulsória. Os que aceitaram converter-se ao cristianismo, a
fim de evitar a expulsão, tiveram de enfrentar a dura Inquisição, a
qual já havia começado a julgar os hereges de Girona em 1490...
Algumas famílias judias foram completamente exterminadas nas
mãos dos inquisidores.
Batizar um infiel significava a entrada de alguém no céu. As crian­
ças judias eram aspergidas à força com água e declaradas “cristãs” por
aqueles que imaginavam com isso garantir sua morada no céu. Bene­
dito XIV (1740-58) apoiou esse terror declarando que uma criança,
mesmo batizada contra a vontade dela e dos pais, tomava-se católica
romana. Se esses convertidos à força negassem a sua nova “fé”, toma­
vam-se hereges, com as horríveis consequências daí resultantes.
Crimes semelhantes perduraram por séculos. Por exemplo, em
1858, Pio IX ordenou que a polícia papal arrancasse o filho de sete
anos de um casal de judeus ricos e o colocasse num colégio interno
católico, Uma ama católica tinha, sem o conhecimento ou consen­
timento dos pais, batizado o garoto, Edgar Mortara, logo após o
seu nascimento, tomando-o assim, supostamente, um membro da
Igreja Católica Romana.
Quando os pais reclamaram a devolução do seu filho ao papa,
ele replicou, na típica maneira papal (referindo-se à publicidade
adversa que o caso havia provocado nos jornais): “não me importo
a mínima pelo mundo todo!” Hasler continua a história:
2 7 6 • A Mulher Montada na Besta

O papa tratou o jovem secretário da comunidade judaica, Sabati­


no Scazzochio, com uma crueldade particular e o humilhou de tal
maneira que ele sofreu um prolongado esgotamento nervoso.
Dois anos mais tarde Pio !X exibiu Edgar Mortara, já vestindo o
hábito de seminarista, aos judeus de Roma.[13]

Fundamento para o Holocausto


Certamente os autores de Shoah, os rabinos Schwartz e Golds­
tein, estão corretos quando afirmam que as perseguições contra os
judeus ao longo dos séculos por parte do catolicismo romano (em­
bora achem que ele é o cristianismo) estabeleceram o fundamento
para o que ainda iria acontecer, o Holocausto nazista. A Igreja Ca­
tólica tem uma grande responsabilidade por esse horrendo crime.
Muitos dos supervisores dos massacres dos judeus eram católicos.
A duradoura perseguição e o extermínio dos judeus pela Igreja,
sem dúvida, motivaram os perseguidores a justificar os seus atos.
O espanto se espalhou pela mídia internacional no dia 26 de
maio de 1994, quando esta manchete apareceu nos terminais da As­
sociated Press: “O VATICANO ASSUMIRÁ CULPA PELO HO­
LOCAUSTO”. O surpreendente artigo, procedente de Jerusalém,
declarava: “A Igreja Católica Romana está preparando um docu­
mento, reconhecendo que a Igreja promoveu séculos de anti-semi­
tismo e fracassou em deter o Holocausto. Um relato liberado na
quarta-feira dizia: ...O rabino David Rosen, negociador israelita
com o Vaticano, informou Israel sobre a elaboração do documento
durante conversações realizadas nesta semana em Jerusalém... ‘Ele
não é apenas importante’, disse Rosen: ‘é espantoso.’ ...O relato
também diz que o documento vai declarar que ‘a tradição anti-ju­
daica da teologia e da Igreja foi um elemento importante em dire­
ção ao Holocausto’”.[14]
No dia seguinte veio uma negativa do Vaticano lembrando ao
mundo que, ao mesmo tempo em que “o papa João Paulo II havia
repetidamente denunciado o anti-semitismo... ele sempre havia de­
fendido os papas anteriores das acusações de que haviam silencia­
do sobre o Holocausto” . O porta-voz do Vaticano, Joaquim Navar­
ro, explicou que o texto referido nos noticiários do dia anterior
“não era de modo algum o esboço de um documento preparado pe-
Pano de Fundo do Holocausto * 277

la Santa Sé, mas talvez pelas Conferências Episcopais Polonesa e


Alemã'’.[15] Desse modo, o Vaticano continua negando o que o
resto do mundo já sabe que é verdade.
Inúmeros exemplos poderiam ser dados mostrando que o ca­
tolicismo preparou o caminho para o Holocausto, mas vamos nos
referir a apenas alguns. Uma Igreja Católica em Deggendorf, na
Bavária (Alemanha), havia exibido durante séculos uma pintura
comemorando o histórico assassinato dos judeus daquela cidade
“no legítimo zelo de agradar a Deus”. Na inscrição sob a pin­
tura lia-se: “Deus queira que a nossa pátria fique para sempre
livre dessa escória infernal”.[16] Essa exibição não ofendia o po­
vo nem os prelados, sendo consistente com o tratamento dado
aos judeus pelo catolicismo romano. Um erudito judeu francês
concluiu que a Igreja realmente preparou os católicos romanos
para Hitler:

Sem os séculos de catequese cristã [católica romana] pregando o


vitupério, os ensinos hitleristas, a propaganda e o vitupério não te­
riam se tornado possiveis.fi 7]

A Subida de Hitler ao Poder


No início a Igreja se opunha a Hitler. “Após a esmagadora vitó­
ria dos nazistas na eleição de 1930, representantes de todas as or­
ganizações católicas se encontraram... para discutir meios de deter
os ameaçadores camisas-marrons”.[18]
Mas depois das eleições do Reichstag, em julho de 1932, duran­
te as quais “os nacional-socialistas conseguiram 37,4% dos votos
populares e elegeram 230 deputados... tomando-os o maior partido
independente do Reichstag”, as críticas dos bispos católicos come­
çaram a diminuir.
Apesar de “todas as dioceses haverem declarado que a filiação
ao Partido Nazista era inadmissível”, centenas de milhares de cató­
licos se filiaram e provavelmente vários milhões estavam apoian­
do-o com os seus votos. Por que afugentar esses bons católicos da
Igreja? Além do mais o papa e os cardeais na Itália louvaram e
apoiaram o Partido Fascista de Mussolini; então, por que não na
Alemanha?
278 * A Mulher Montada na Besta

No dia 13 de março de 1933, numa conferência dos bispos da


Bavária, o cardeal Faulhaber, regressando diretamente de Roma,
registrou que “o Santo Padre Pio XI havia louvado publicamente o
chanceler Adolf Hitler pela posição que ele havia tomado contra o
comunismo... Rumores estavam circulando novamente de que o
Vaticano estava ansioso por uma cooperação amigável dos católi­
cos alemães com o governo de Hitler...”
Em 23 de março, Hitler anunciou que “o governo do Reich, [o
qual] havia se referido ao cristianismo [catolicismo] como o funda­
mento inabalável dos costumes e código moral da nação, atribui o
maior valor às relações amistosas com a Santa Sé e [está] se esfor­
çando para desenvolvê-las”. Cinco dias depois, os bispos alemães
retiraram publicamente sua prévia oposição ao Partido Nazista. [19]
A estratégia que Hitler havia delineado antes para Rauschning esta­
va funcionado:

Nós apanharemos os padres pela sua notória ambição e auto-in­


dulgência. Entâo poderemos estabelecer tudo com eles na mais per­
feita paz e harmonia... Por que iremos brigar? Eles vão engolir qual­
quer coisa para conseguir vantagens materiais.[20]

A Igreja e o Terceiro Reich


Os católicos, em número cada vez maior, correram para apoiar o
Terceiro Reich de Hitler. Organizações como Kreuz und Adler
[Cruz e Águia] foram formadas com eminentes professores católi­
cos de Teologia, tais como Otto Schilling e Theodor Brauer, jorna­
listas como Emil Ritter e Eugene Kogon, e outros líderes católicos
se engajaram no apoio ao novo regime nazista. [21]
Hitler garantiu à Igreja que ela nada teria a temer do Nacional-
Socialismo, enquanto cooperasse total mente. Os bispos “apelaram
para o apoio ao programa do governo de ‘rejuvenescimento espiri­
tual, moral e econômico’.”[22]
Como Hitler era um católico nas boas graças da Igreja, isso deu
crédito às suas promessas de parceria pacífica com ela. Ele havia
crescido numa família católica tradicional, assistia regularmente à
missa, havia servido como coroinha e até sonhado em certo tempo
tornar-se padre, e havia frequentado a escola, quando garoto, num
Pano de Fundo do Holocausto • 279

mosteiro beneditino em Lambach (Áustria). O abade era profunda­


mente envolvido com misticismo ocultista oriental, e foi nesse
mosteiro que Hitler descobriu a suástica hinduísta que mais tarde
adotaria. Depois que subiu ao poder, tampouco Hitler deixou de as­
sistir os serviços da Igreja Católica de tempos em tempos.
G. S. Graber, especialista em história da SS, informa-nos que “o ca­
tolicismo de Himmler era muito importante para ele. Freqüentava assi­
duamente a igreja, recebia a comunhão, confessava-se e rezava”.[23]
No início do diário de Himmler do dia 15 de dezembro de 1939 lia-se:
“Aconteça o que acontecer, eu sempre amarei a Deus, rezarei para ele,
permanecerei fiel à Igreja Católica e defendê-la-ei”.[24]
Após a guerra, escapar era o objetivo mais importante dos mem­
bros da SS, dos quais cerca de um quarto era católico. [25] Muitos
teriam sucesso em iludir a justiça Aliada e em alcançar refúgios,
principal mente na América do S ul Dezenas de milhares dos piores
criminosos de guerra nazistas - na maioria católicos - viajaram por
rotas de fuga secretas, em busca de uma nova vida. O principal
agente dessas fugas foi o Vaticano.
Himmler era capaz de compartimentalizar sua vida de maneira
que, como chefe da infame SS, podia supervisionar o assassinato de
milhões de pessoas com apenas uma penada de sua caneta ou atra­
vés de ordens verbais aos seus soldados e subordinados dessa vasta
organização, mas não conseguia ele mesmo puxar o gatilho. Queria
eliminar os judeus ou quaisquer outros elementos da sociedade que
ele considerasse indesejáveis. Contudo, “não queria ver [com os
próprios olhos] o sangue jorrar, porque isso o induziria a um exame
de consciência, para não mencionar náuseas do estômago”.[26]
Uma cópia gravada e datilografada, com notas caligráficas au­
tenticadas, do discurso de Himmler em 4 de outubro de 1943 em
Po sen, Polônia, feito diante de 100 generais da polícia secreta ale­
mã, foi recentemente descoberta e está exposta no novo Museu do
Holocausto em Washington (EUA). Nele, Himmler dizia:

Eu também quero falar com vocês, muito francamente, sobre um


assunto muito grave. Entre nós, ele deveria ser mencionado com mui­
ta franqueza, mas jamais falaremos dele publicamente.
Quero dizer... o extermínio da raça judaica. Essa é uma página
de glória em nossa história, a qual jamais foi e nem jamais será es-
crita.[27]
2 8 0 • A Mulher Montada na Besta

O coronel da SS Rudolf Hoess, comandante de Auschwitz, e um


dos maiores assassinos de massa da história, também cresceu numa
devota família católica, que esperava vê-lo tomar-se padre. Ele era
dedicado à família, gostava de animais e era um fanático adepto da
religião nazista de Hitler. Em sua autobiografia ele disse: “deixem
o público continuar a me observar como a besta sedenta de sangue,
o sádico mais cruel... [eles] não poderiam entender como o [co­
mandante de Auschwitz] tinha coração e não era tão mau”. [28]
A SS em muitos aspectos foi modelada segundo a Ordem Jesuí­
ta, que Himmler havia estudado e admirado. Incrivelmente o jura­
mento da SS terminava [com as palavras]: “Assim Deus me ajude”.
Seu catecismo “consistia de uma série de perguntas e respostas se­
melhantes a esta: - Pergunta: Por que vocês acreditam na Alema­
nha e no Führer? Resposta: Porque cremos em Deus, cremos na
Alemanha que Ele criou em Seu mundo, e no Führer Adolf Hitler
que ele nos enviou”.
Os judeus podiam ser exterminados em nome de Deus pelos
bons católicos, porque durante séculos a sua Igreja havia demons­
trado ser essa a vontade de Deus, através de sua implacável perse­
guição e assassinatos desses desprezíveis “rejeitadores de Cristo”.
Desde o princípio Hitler, que estava a par do longo histórico an­
ti-judaico da Igreja Católica[29], não fez segredo algum de seus
planos com relação aos judeus. Encontrando-se com os represen­
tantes da Igreja, bispo Beming e monsenhor Steinmann, em 26 de
abril de 1933, “ele relembrou aos seus visitantes que a Igreja [Ca­
tólica] durante 1.500 anos tinha considerado os judeus como para­
sitas, havendo-os banido para os guetos e proibido os cristãos de
trabalharem para eles... Ele, Hitler, apenas pretendia fazer mais
efetivamente o que a Igreja havia tentado consumar durante tanto
tempo” .[30]
Não há indício de que os dois prelados católicos tenham discor­
dado dele. Como poderiam fazê-lo sem denunciar os inúmeros pa­
pas infalíveis e sua Igreja infalível?
A verdade de que os pecados são seguidos de castigos foi divi­
namente revelada. A santidade e justiça de Deus os infligem. Os
pecados devem ser expiados. Isso pode ser feito aqui na terra, atra­
vés dos sofrimentos, misérias e tribulações desta vida e, acima de
tudo, através da morte.
Caso contrário, a expiação deverá ser feita na outra vida, através
do fogo e tormentos ou castigos purificadores... os castigos com os
quais somos atribulados aqui são impostos pelo julgamento de
Deus, que é justo e misericordioso. As razões para sua imposição
são que nossos almas necessitam ser purificadas, a santidade da or­
dem moral precisa ser reforçada e a glória de Deus deve ser restau­
rada à sua completa majestade.
- Vaticano Ò[l]

Se alguém diz que depois de receber a graça da justificação a


culpa é remida e o débito do castigo eterno é apagado de todo pe­
cador arrependido, que nenhum débito de castigo temporal persiste
para ser pago aqui neste mundo ou no purgatório antes que se
abram os portões do céu, seja anátema.
- Concílio de Trento[2]
O Purgatório
Conforme indicam as citações da página anterior, o catolicismo
ensina que apesar da morte de Cristo ter tomado possível o perdão
dos pecados, o pecador perdoado deve sofrer uma pena indefinida
ou passar por um tormento de intensidade e duração desconheci­
das, a fim de ser purgado e só então ficar pronto para entrar no
céu. Enquanto o catolicismo diz que é teoricamente possível ser
purificado através do sofrimento nesta vida e na morte, ninguém,
nem mesmo o próprio papa, pode saber se isso já aconteceu. Con-
seqü ente mente, quase todos os católicos esperam ficar um tempo
indefinido no purgatório. Deixar de aceitar a doutrina do purgatório
leva à excomunhão automática da igreja Católica Romana.
Tanto o Concílio de Trento como o Vaticano II falam daqueles
que “devem ainda fazer expiação [pelos seus pecados], no fogo do
purgatório”[3], apesar de Cristo ter morrido pelos seus pecados.
Aqui está a explicação do Vaticano II sobre essa doutrina:

A doutrina do purgatório demonstra claramente que mesmo quan­


do a culpa do pecado foi apagada, seu castigo ou suas conseqüên-
cias podem permanecer a fim de serem purgados ou apagados.
No purgatório as almas dos que morreram na caridade de Deus e se
arrependeram de verdade, mas não proporcionaram a satisfação com
a penitência adequada pelos seus pecados e omissões, são purificadas
após a morte com castigos preparados para purgar o seu débito.[4]
2 8 4 • A Mulher Montada na Besta

Qual será a penitência adequada? Ninguém sabe. A Igreja ja ­


mais a definiu. Onde a Bíblia diz que castigos purgam pecados?
Em parte alguma!

A Doutrina Impossível
doutrina do purgatório violenta tanto a lógica quanto a Escri­
tura. Romanos 6.23 diz: “O salário do pecado é a morte... [ou seja,
a separação etema de D eus]", não um tempo limitado no purgató­
rio. Estaríamos perdidos para sempre se não fosse o sacrifício de
Cristo pelos nossos pecados. Tampouco o pecado é algo de tal
composição ou qualidade que algum tipo de sofrimento seja capaz
de purgá-lo do coração e da alma. O pecado é parte da própria na­
tureza humana. O sofrimento pode realmente alterar temporaria­
mente a atitude de alguém, mas logo que passa a dor, as velhas ten­
dências voltam, pois o coração não foi mudado. E preciso um mila­
gre de Deus para purgar a alma do pecado - um milagre que, ao
mesmo tempo, deixe intacto o poder do homem para escolher e sa­
tisfazer as exigências da infinita justiça de Deus.
A Bíblia declara inequivocamente que existe apenas um cami­
nho para a alma ser purificada: através dó sangue de Cristo derra­
mado na cruz em pagamento do pecado, e pelo novo nascimento
do Espírito de Deus, através da fé em Cristo e em Sua obra reden­
tora completa. Assim, os sofrimentos no purgatório são falsos em
dois aspectos doutrinários: 1) É impossível que o sofrimento possa
purificar o pecado do coração; 2) É desnecessário que o pecador
perdoado sofra pelo seu pecado, pois Cristo já pagou a penalidade
completa exigida pela justiça de Deus. Somente assim uma pessoa
pode ser limpa de suas iniqüidades.
A Bíblia declara que Cristo “...depois de ter feito a purificação
dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas ” (He­
breus 1.3), indicando que a obra de purificação estava completa. E,
diz outra vez que “...o sangue de Jesus, seu Filho [de Deus], nos
purifica de todo pecado ” (1 João 1. 7). A Escritura é muito clara ao
declarar que foi o sangue de Cristo derramado na cruz, debaixo do
julgamento de Deus, que nos purificou. Além do mais “...sem der­
ramamento de sangue, não há remissão [de pecado]” (Hebreus 9.
22). A descrição do purgatório não é a de um lugar de derramamen­
to de sangue, mas sim de “fogo purificador”. A única purgação pos-
Apêndice A: O Purgatório » 285

sível de nossos pecados foi realizada por Cristo; ela é aceita somen­
te pela fé e ocorre em nosso coração somente pela graça de Deus.
Existe ainda outra razão pela qual o sofrimento do pecador, seja
na terra ou no purgatório, não pode purificá-lo: aquele que faz o sa­
crifício pelo pecado deve ser sem pecado. No Antigo Testamento é
dito 62 vezes que os animais oferecidos deveriam ser “sem mácu­
la ” (Êxodo 12.5; 29.1; LevíticóG.3, etc.). Estes eram “tipos” ou
símbolos de Cristo, o santo e imaculado “Cordeiro de Deus”, que
tiraria todo pecado do mundo (João 1. 29,36). Sendo assim, não há
sofrimento algum do pecador, aqui ou no purgatório, que seja ca­
paz de purificar a ele mesmo, ou a quem quer que seja, do pecado.
Isso só poderia ser feito por um sacrifício sem mácula.
A Bíblia diz que Cristo “não cometeu pecado” (1 Pedro 2.22),
“não conheceu pecado” (2 Coríntios 5.21) e “nele não existe p e­
cado” (1 João 3.5). A impecabilidade absoluta era essencial, ou
então Cristo não poderia ter morrido pelos nossos pecados, pois
Ele estaria sob a penalidade da morte pelos Seus próprios pecados.
Por isso Pedro disse que Cristo, “o justo, [sofreu] pelos injustos
[nós], para conduzir-vos a Deus [ou seja, ao céu e não ao purgató­
rio] ” (1 Pedro 3.18). Ele acrescentou que aqueles que não têm essa
segurança esqueceram “da purificação dos seus pecados de outro-
ra” (2 Pedro 1. 9). Se confiamos em Cristo como Salvador, temos
de aceitar pela fé o fato de que Deus nos purificou através da obra
completa de Cristo.

Origem, Desenvolvimento e
Propósito Dessa Doutrina
A idéia do purgatório, um lugar fictício de purificação, foi inven­
tada pelo papa Gregório o Grande, em 593. Houve uma certa relu­
tância em aceitar a idéia (já que contradizia as Escrituras) e por is­
so o purgatório não tornou-se um dogma católico oficial senão cer­
ca de 850 anos mais tarde - no Concílio de Florença, em 1439.
Nenhuma doutrina aumentou tanto o poder da Igreja sobre os seus
membros, nem multiplicou tanto os seus lucros quanto essa. Até
hoje a ameaça do purgatório paira sobre os católicos, que acabam
dando ofertas repetidas à Igreja em troca da sua ajuda para retirá-
los daquele lugar de tormento.
286 • A Mulher Montada na Besta

Roma promete que, se os seus decretos forem seguidos, a pes­


soa poderá eventualmente sair do purgatório e entrar no céu.
Mesmo assim, a Igreja jamais pôde definir quanto tempo é abre­
viado pelos meios que ela oferece. É muita tolice acreditar que
é possível ser liberto do purgatório por uma Igreja que nem sa­
be quanto tempo deve-se ficar lá por causa de um pecado, ou
quantos ritos ou penitências são necessárias para reduzir o so­
frimento. Apesar disso, os católicos vão dando ofertas à Igreja
e grandes somas são deixadas em seus testamentos (lembre-se
de Henrique VIII) para garantir inúmeras missas rezadas em seu
favor. Esse processo nunca pára, e “só pra garantir” mais mis­
sas são necessárias.
O Concílio de Trento, o Vaticano II e conseqüentemente o Códi­
go de Direito Canônico contêm muitas regras complexas para apli­
car os méritos dos vivos, e especialmente as missas pelos mortos
que estão sendo purificados de seus pecados, a fim de reduzir suas
penas no purgatório.

A igreja oferece o sacrifício pascal pelos mortos de modo que... os


mortos possam ser auxiliados pelas rezas e os vivos consolados pela
esperança.
Dentre as missas pelos mortos está a missa de corpo presente, que
é muito importante... Uma missa pelos mortos deve ser celebrada lo­
go que chega a notícia da morte...[5]
Um dos maiores mentores desta doutrina tão falsa, mas sem dú­
vida proveitosa, foi um frade agostiniano chamado Agostino Trion-
fo. Em sua época (século XIV), os papas governavam como mo­
narcas absolutos, tanto no céu como na terra. Pelo seu poder de “li­
gar e desligar” eles não apenas estabeleciam e depunham reis e
imperadores como também faziam acreditar que podiam abrir e fe­
char as portas do céu para a humanidade, segundo a sua vontade. O
gênio de Trionfo fez crescer essa autoridade até uma terceira esfe­
ra. Von Dollinger explica.

Costumava-se dizer antes que o poder do vigário de Cristo se es­


tendia sobre duas esferas - a terrena e a celestial... A partir do final
do século Xill, uma terceira esfera foi acrescentada, o império que foi
consignado ao papa pelos teólogos da Cúria - o purgatório.fó]
___________________________ Apêndice A: O Purgatório • 287

Problemas com o Apoio de 2 Macabeus


Gavin conta como em seu tempo (início do século XVIII), ainda
era comumente ensinado que havia oito níveis no purgatório. Os
pobres ficavam no nível mais baixo, onde o fogo era menos inten­
so, os reis no nível mais alto, onde o fogo queimava com maior in­
tensidade. Deus, em Sua bondade, havia supostamente planejado
que assim fosse porque os reis e nobres podiam pagar mais à Igreja
para retirar suas almas dali, enquanto os pobres tinham de pagar
pouco. Ele fala de pessoas pobres que, após saberem que um pa­
rente seu, recém-falecido, estava entre os mendigos no purgatório,
juntavam todo o dinheiro que conseguiam para mandar rezar mui­
tas missas, a fim de removê-lo para um nível mais alto. Embora o
tormento fosse maior, eles estariam em melhor companhia. Então
os padres cobravam tanto para aumentar o tormento no purgatório
quanto para retirar as pobres almas de lá!
Nem a palavra “purgatório” e tampouco a idéia do purgatório
podem ser encontradas em parte alguma da Bíblia. Ela sequer é
mencionada por Jesus ou pelos apóstolos. O apologista Karl Kea­
ting admite que a doutrina “não é explicitamente estabelecida na
Bíblia”. [7] O único versículo citado como suporte ao purgatório
vem do livro apócrifo de. 2 Macabeus 12.45: “...era santo e piedoso
o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse sacri­
fício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem ab­
solvidos do seu pecado”.
Existem três problemas óbvios com relação a esse versículo.
Em primeiro lugar, não há sequer um exemplo, em toda a Bí­
blia, de alguém orando pelos mortos. A Bíblia diz claramente:
“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só
vez, vindo, depois disto, o juízo...” (Hebreus 9.27). Depois da
morte é tarde demais para se fazer orações; o que vem em se­
guida é somente o julgamento. Por isso esse versículo contradiz
a Bíblia.
Em segundo lugar, as pessoas a quem o versículo de Macabeus
se refere eram culpadas de idolatria. “Então encontraram, debaixo
das túnicas de cada um dos mortos, objetos consagrados aos ídolos
de Jamnia, cujo uso a Lei vedava aos judeus” (2 Macabeus 12.40).
A idolatria era um pecado mortal e, conforme a doutrina católica,
levaria esses homens não para o purgatório, mas para o inferno de
onde não há escapatória. Então, a idéia de orar por eles seria tanto
2 8 8 • A Mulher Montada na Besta

um blasfêmia quanto perda de tempo e dificilmente serviria como


base para se aceitar a doutrina do purgatório.
Finalmente, o próprio livro de Macabeus diz que não havia pro­
fetas naquele tempo e, portanto, havia cessado a inspiração divina.
“Foi esta uma grandç tribulação para Israel, qual não tinha havido
desde o dia em que não mais aparecera um profeta no meio deles”
(1 Macabeus 9.27). Ê também: “E que os judeus e seus sacerdotes
haviam achado por bem que Simão fosse o seu chefe e sumo sacer­
dote para sempre, até que surgisse um profeta fiel” (1 Macabeus
14.41). Por isso os dois livros de Macabeus, na melhor das hipóte­
ses, podem ser considerados como relatos históricos, mas certa­
mente não como parte das Escrituras, principalmente porque Deus
não estava inspirando pessoa alguma de Seu povo. Fica óbvio que
não se pode sustentar qualquer doutrina verdadeira citando-se essa
fonte. Não é de admirar que ela seja contrária à Bíblia!

£ os Sofrimentos de Paulo?
Os apologistas católicos tentam ser bíblicos quando se baseiam
na doutrina dos sofrimentos purificadores usando Colossenses
1.24, onde Paulo diz: “Agora, me regozijo nos meus sofrimentos
por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha
carne, a favor do seu corpo, que é a igreja ”. Contudo, está claro
que os sofrimentos de Paulo nada tinham a ver com a purificação
de pecados, quer pelos seus ou de outras pessoas, pois os sofrimen­
tos de Cristo haviam completado essa obra. Somente sacrifícios
imaculados e o derramamento de sangue podiam consegui-lo.
Então, o que Paulo quis dizer? Em vez de um sofrimento que
servisse para a purificação dos seus ou dos pecados alheios, Paulo
estava sofrendo pelo anseio de levar o Evangelho para os outros
( “meus sofrimentos por vós...”). Ele se referia à perseguição que é
acarretada a “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo
Jesus” (2 Timóteo 3.12). Jesus disse aos Seus discípulos que eles
seriam odiados e perseguidos pelo mundo (João 15. 18,19). Existe
um “escândalo da cruz” (Gaiatas 5.11) e Paulo dizia que devemos
estar prontos a ser “perseguidos por causa da cruz de Cristo” (Gá-
latas 6.12).
Não é que Paulo estivesse sofrendo pelos pecados para completar
o sofrimento de Cristo na cruz, pois este foi completo. O sofrimento
Apêndice A: Q Purgatório * 289

que Paulo teve de suportar, e que todos os cristãos leais ao Senhor


devem suportar, ocorre para que nos identifiquemos com Cristo e
vivamos vidas verdadeiramente cristãs, que condenam o mundo e
revelam a sua maldade. Portanto, o mundo nos odeia, assim como
odiou a Cristo. Na verdade, Cristo disse que Paulo iria sofrer muito
pelo Seu nome (Atos 9. 16). Em Atos 5.41 os discípulos “se retira­
ram... regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer
afrontas por esse Nome”. O sofrimento que os verdadeiros cristãos
suportam vêm das mãos daqueles que odeiam o Senhor e se escan­
dalizam na Sua cruz. Filipenses 1.29 diz que é um privilégio sofrer
por causa do ódio do mundo a Cristo: "Porque vos foi concedida a
graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele Se­
gunda Tessalonicenses 1.5 diz: “...do reino de Deus, pelo qual, com
efeito, estais sofrendo”. Em 1 Timóteo 4.10 lemos: “labutamos e
nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa espe­
rança no Deus vivo Pedro também se referiu ao sofrimento de to­
do cristão que é fiel ao Senhor (1 Pedro 3.14 e 4.13-16). Muitas ou­
tras passagens expressam o mesmo pensamento.
Em Filipenses 3.10 Paulo demonstra seu desejo de conhecer a
Cristo “e a comunhão dos seus sofrimentos”, os quais, diz ele, o
levarão à conformidade da morte e caráter de Cristo. Está claro que
Paulo se referia aos sofrimentos por amor a Cristo, aqui na terra, na
mão dos pecadores, e não ao sofrimento num futuro purgatório a
fim de ser purificado de algum pecado. Paulo escreve em Romanos
8.18 que “os sofrimentos do tempo presente não podem ser compa­
rados com a glória a ser revelada em nós”. Certamente aqui não
há menção alguma ao purgatório. Nós vamos diretamente dos so­
frimentos deste mundo até a presença da glória de Cristo e de
Deus.

Outros Problemas Sérios do Purgatório


A doutrina do purgatório erra de muitas outras maneiras. Ela es­
quece que ofendemos a infinita justiça de Deus. Tiago diz que mes­
mo o menor pecado toma um pecador “culpado de todos ” (Tiago
2.10). Por quê? Porque qualquer pecado é rebelião contra Deus,
que separa de Deus por toda a eternidade. Somos seres finitos e
nunca poderíamos pagar a penalidade infinita exigida pela justiça
de Deus. Conseqüentemente, não há meio de escapar do inferno,
2 9 0 • A Mulher Montada na Besta

mas o pecador deve sofrer etemamente lá. Portanto, “expiar” o pe­


cado de uma pessoa através do sofrimento é algo impossível.
Claro que, em tese, Deus poderia pagar a penalidade infinita exi­
gida pela Sua justiça por causa do pecado, mas isso não seria justo,
pois Ele não é um de nós. Por isso Deus tomou-Se homem através
do nascimento virginal. Sendo um homem sem pecado e ao mesmo
tempo Deus infinito, numa só Pessoa, Cristo foi capaz de satisfazer
as exigências de Sua própria justiça, “para que todo o que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna ” (João 3.16). A única expia­
ção do pecado é recebida como um dom gratuito da graça de Deus;
qualquer tentativa de ganhá-la ou merecê-la é uma rejeição da ofer­
ta da misericórdia de Deus a pecadores indignos. Além do mais, o
pensamento de que existe qualquer sofrimento deixado para o cris­
tão suportar como pagamento de seus pecados, depois que Cristo
sofreu a penalidade total e bradou “Está consumado! ” (João
19.30), é uma blasfema negação da redenção efetuada por Cristo e
da salvação que Ele nos oferece.
No ensino sobre o purgatório vemos mais uma vez que o católi­
co não aceita a salvação pela graça de Deus, mas insiste em acres­
centar obras humanas ao que Cristo realizou. Embora o catolicismo
afirme que a salvação ocorre somente por causa da graça e através
da fé, ele também declara que as boas obras (ao invés da graça de
Deus operando nos indivíduos) são essenciais à salvação. Citamos
novamente o Vaticano II:

Desde os tempos mais remotos na igreja as boas obras também


eram oferecidas a Deus pela salvação dos pecadores... [pelas] ora­
ções e boas obras do povo santo... o penitente era lavado, purificado
e redimido...
Seguindo os passos de Cristo, aqueles que creem nEle sempre...
carregaram suas cruzes para fazer expiação pelos seus próprios pe­
cados e os pecados alheios... [para] ajudar os seus irmãos a obter a
salvação de Deus...[8]

Somente a submissão cega à Igreja impede que os adeptos do ca­


tolicismo romano vejam que a doutrina do purgatório contém uma
Apêndice A: O Purgatório * 2 9 1

contradição óbvia e fatal. Por um lado, somos informados de que o


sacrifício de Cristo não é suficiente para levar alguém ao céu, mas
além dos sofrimentos de Cristo na cruz o próprio pecador perdoado
deve sofrer tormento para se purificar dos seus pecados. Por outro
lado, e em contradição direta a isso, diz-se que a missa, que é a re­
presentação ou renovação perpétua do sacrifício de Cristo, reduz
(em proporções desconhecidas) esse sofrimento. Presume-se que se
um número suficiente de missas forem rezadas, alguém será purga­
do pela expiação de todos os pecados, sem sofrimento algum. Nes­
se caso, não é preciso que a pessoa sofra para ser purificada.
Se alguém tivesse verdadeiramente de sofrer a fim de que os
portões do céu pudessem ser abertos, a Igreja nada teria a oferecer
e perderia uma importante fonte de renda. O mesmo seria válido se
o sacrifício de Cristo pelo pecado, conforme ensina a Bíblia, fosse
suficiente para purgar o pecador. A Igreja Católica então iria falir.
Portanto, a fim de manter a Igreja em plena operação e com seus
cofres sempre enchendo, ensina-se que alguém pode ser purificado
do pecado através de certos meios que a Igreja pode prover e que o
sacrifício de Cristo na cruz foi insuficiente para fazê-lo. Assim a
missa, pela qual a Igreja recebe dinheiro, pode ser creditada como
algo capaz de reduzir a pena do purgatório e abrir os portões do
céu. É surpreendente como aquilo que o sacrifício de Cristo na
cruz não pôde efetuar, a suposta repetição desse sacrifício nos alta­
res católicos pode completar.
Além do mais, diz-se que o sacrifício de outras pessoas também
pode reduzir o tempo necessário à purificação no purgatório. O es­
tigma de Padre Pio e os sofrimentos dos “santos” podem, assim,
completar o que o sacrifício de Cristo na cruz não conseguiu. Va­
mos reproduzir novamente o que diz o Vaticano II: “Seguindo os
passos de Cristo, aqueles que crêem nEle sempre... carregaram
suas cruzes para fazer expiação pelos seus próprios pecados e os
pecados alheios”. A cruz de Cristo era capaz apenas de perdoar,
mas não de purgar o pecado; contudo, as cruzes levadas pelos ou­
tros têm o poder de purgar e portanto podem fazer mais do que a
cruz de Cristo fez!
A doutrina do purgatório contém uma contradição fatal. Ela de­
clara que a pessoa deve sofrer, a fim de pagar pelos seus pecados;
mas, ao mesmo tempo, diz que não é preciso que haja sofrimento,
desde que certas regras sejam seguidas. A melhor maneira de esca-
292 * A Mulher Montada na Besta

par do sofrimento é através da repetição do sacrifício da missa, em­


bora existam muitas outras maneiras. A redução ou eliminação da
pena no purgatório também é efetuada através de indulgências. Es­
sa doutrina é explicada no Apêndice B.
A indulgência é uma remissão diante de Deus, da pena temporal
pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente
disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio
da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica
com autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos.
A indulgência é parcial ou plenária, conforme liberta, em parte
ou no todo, da pena temporal devida pelos pecados.
Qualquer fiel pode lucrar indulgências parciais ou plenárias para
si mesmo ou aplicá-las aos defuntos como sufrágio.
- Código de Direito Canônico! 1]

Pois o Filho unigénito de Deus... adquiriu um grande tesouro pa­


ra a Igreja militante... Ele o confiou ao bendito Pedro, portador das
chaves do céu, e aos seus sucessores, seus vigários na terra, para
que possa ser distribuído aos fiéis para a sua salvação... O “tesouro
da Igreja”... é o valor infinito e inesgotável que têm junto a Deus as
expiações e os méritos de Cristo...
Esse tesouro inclui também as preces e as boas obras da bem-
aventurada virgem Maria. Elas são realmente imensas, insondáveis
e até mesmo imaculadas.em seu valor diante de Deus. Nesse tesou­
ro, também estão incluídas as orações e boas obras de todos os san­
tos [que].,, operando [por suas boas obras] a sua própria salvação,
também contribuíram para a salvação de seus irmãos...
- Vaticano Il[2]
Podem os cristãos que creem na Bíblia realmente aceitar um
evangelho que é obviamente tão falso e se juntar àqueles que o pre­
gam para “evangelizar” o mundo? Podem os evangélicos, em sã
consciência, encaminhar as almas que estão em busca de repostas a
uma Igreja que prega o purgatório e as indulgências, e concordar
que seus membros são cristãos e não precisam ser evangelizados?
Uma Igreja que afirma ser capaz de controlar os portões do céu e
de abri-los para os que nela depositam sua confiança?
Na verdade, a Igreja Católica gloria-se em sua pretensão de ser
“a dispensadora da redenção” (o cânon 992 diz o mesmo). Roma
admite, sem vergonha alguma, que a salvação que ela oferece deve
ser recebida em parcelas e que a sua eficácia é derivada, não dos
“méritos de Cristo”, mas do superávit na balança das “boas obras
de todos os santos”, que fizeram mais do que precisavam para “ob­
ter sua própria salvação”.
Como é espantoso que os líderes evangélicos possam considerar
o catolicismo romano como sendo cristão, e proponham-se a evan­
gelizar o mundo como se eles fossem seus companheiros no Evan­
gelho! Só podemos deduzir que eles ignoram os verdadeiros ensi­
nos dessa Igreja e foram enganados pelas falsas argumentações dos
apologistas católicos. De que outro modo poderiam aqueles que
pareciam ser destemidos em sua fé, afirmar que evangélicos e cató­
licos concordam sobre os ensinos fundamentais do Evangelho?
2 9 6 • A Mulher Montada na Besta

O Vaticano II diz ainda: “para que a indulgência seja ganha, a


obra prescrita deve ser realizada” .[3] Aqui está mais uma prova, se
esta for necessária, de que Roma prega, promete e pratica a salva­
ção pelas obras. E mesmo assim, estranhamente, a própria pessoa
não precisa realizar as boas obras. As boas obras de outros podem
ser creditadas na conta de alguém em um livro fictício da Igreja, e
estas, quando contabilizadas pelos seus contadores fraudulentos,
abrem as portas do céu.

Origem e Desenvolvimento da
Doutrina das Indulgências
O conceito de indulgências é proveniente do paganismo, a idéia
por trás delas é que a flagelação, a recitação de fórmulas ou as pere­
grinações a santuários, e os sacrifícios feitos aos deuses são meritó­
rios e influenciam o favor dos deuses para alguém. A idéia de que re­
zar tantas ave-marias ou beijar o crucifixo e repetir uma fórmula po­
de reduzir o sofrimento no purgatório, algo que o sacrifício de Cristo
na cruz não pôde anular, é terrível. Contudo, o ensino de que a indul­
gência pode ser aplicada em favor dos mortos leva essa blasfêmia
absurda muito mais longe. A idéia de que a “redução de tempo por
bom comportamento” poderia ser creditada a alguém no purgatório,
que não fez a “obra prescrita” necessária, demonstra mais uma vez a
fraude do romanismo. Tudo é possível mediante uma boa oferta!
O evangelho das indulgências é uma das doutrinas mais ousadas e
antibíblicas de Roma. Ela teve origem durante a Idade Média e con­
tinua em vigor até hoje. O conceito pagão de indulgências foi gra­
dualmente se definindo como parte do catolicismo romano, durante
anos, e acabou se transformou no maior esquema para arrecadação
dc dinheiro do papado. Em tese apenas seria preciso rezar uma missa
para libertar todas as almas do purgatório. Maria, cujo poder é infini­
to, poderia fazê-lo num instante; e os papas, cujo poder também é ili­
mitado, poderiam esvaziar o purgatório com uma simples assinatura
de indulgência plenária. Então, por que não o fazem? Eles não amam
as almas? A resposta é obvia. Von Dolinger escreve:

[Augostíno] Trionfo, comissionado por João XXII para expor os di­


reitos do papa, mostrou que, como despenseiro dos méritos de Cris-
Apêndice B: As Indulgências • 297

to, ele poderia esvaziar o purgatório num instante, e tirar com as


suas indulgências todas as almas que lá estão detidas, com a única
condição de que alguém cumprisse as regras estabelecidas para re­
ceber tais indulgências.
Contudo, ele aconselhou o papa a não fazê-lo... [embora] o poder
do papa seja tão imensurável que nenhum papa jamais seria capaz
de conhecer a sua extensão.[4]
Esvaziar o purgatório poria fim ao influxo das ofertas para mais
missas e das intermináveis graças e favores. Em vez disso, as exi­
gências para retirar almas do purgatório foram ficando cada vez
mais complexas, necessitando de serviços cada vez maiores da
Igreja. A doutrina das indulgências acabou sendo fmalmente ofi­
cializada como dogma oficial da Igreja pelo papa Clemente VI em
1343. Clemente arrazoou que “uma gota do sangue de Cristo teria
sido suficiente para a redenção de toda a raça humana”. O restante
desse sangue derramado na cruz, sua virtude “acrescida pelos méri­
tos da bendita virgem Maria e as obras adicionais dos santos”
[obras que vão além das necessárias para a salvação dos mesmos],
constituem o “tesouro” mencionado anteriormente. Pela bula papal
de 1476, o papa Sisto IV “estendeu esse privilégio às almas que es­
tavam no purgatório [reduzindo seu tempo de sofrimento lá], con­
tanto que os parentes vivos adquirissem indulgências para elas”.[5]
Fora desse “tesouro da Igreja” a salvação/redenção é concedida
pouco a pouco pelo clero católico, através dos sete sacramentos.
Não há meio de saber quanto crédito é concedido por conta de cada
feito, ritual, indulgência ou por quanto tempo esse processo deve
continuar. Jamais são outorgadas graças suficientes para garantir o
céu. E preciso que sempre mais rosários sejam recitados, mais mis­
sas rezadas, mais ofertas entregues a fim de se obter mais graças da
Igreja. Pedro, que os católicos afirmam ter sido o primeiro papa,
advertiu sobre esses "falsos mestres” que “introduzirão, dissimu­
ladamente heresias destruidoras... e, movidos por avareza, farão
comércio de vós... (2 Pedro 2.1,3). Sim, é verdade! Um comércio
tal, que jamais poderá ser comparado a qualquer mina de ouro.
No catolicismo ninguém passa “da morte para a vida ”, confor­
me Cristo prometeu (João 5.24), mas deve passar por um contínuo
processo de conquista da salvação com o auxílio da Igreja e com a
expectativa de terminar esse processo de “limpeza” no purgatório.
298 • A Mulher Montada na Besta

Na verdade, excomunhão é a penalidade dada a um católico que


afirma estar salvo e sabe que possui a vida eterna pela fé na obra
completa de Cristo. O cerne do Evangelho professado pelos evan­
gélicos é negado pelo catolicismo em seu catecismo oficial, nos câ­
nones, decretos, dogmas, e aqueles que se atrevem a professar o
Evangelho bíblico são anatematizados.

A Graça Merecida
Quase não há limite para os engenhosos “meios de graça” que os
papas e seus assistentes têm engendrado. Um dos meios mais po­
pulares para se conseguir “merecer a graça” (uma contradição de
termos), é através do uso do escapulário marrom de N. S. do Car­
mo (ao qual já nos referimos antes). “O privilégio sabatino é basea­
do numa bula supostamente emitida em 3 de março de 1322, pelo
Papa João XXII... [declarando] que aqueles que usassem o escapu­
lário e cumprissem as duas outras condições... seriam libertados do
purgatório [pela virgem Maria], no primeiro sábado depois que
morressem”.[6]
Apesar das heresias e da maldade do papa João XXII, muitos
outros papas (Alexandre V, Clemente VII, Pio V, Gregório XIII,
etc.)[7] endossaram esse ensino sobre o escapulário marrom, que é
algo obviamente contrário à Escritura. O papa Pio X declarou: “Eu
o uso; jamais devemos tirá-lo” . O papa Pio XI “professava alegre­
mente: ‘aprendi a amar o escapulário da virgem ainda nos braços
de minha mãe...”’ O papa Paulo V afirmava que “a bendita virgem
ajudará as almas dos irmãos e irmãs da Fraternidade da Bendita .
Virgem de Monte Carmelo, após sua morte...” O papa Benedito
XV oferecia uma “indulgência parcial a quem beijasse o escapulá­
rio”. E em 1950, “o papa Pio XII escreveu as palavras hoje famo­
sas sobre o escapulário: ‘Deixem que ele seja o seu sinal de consa­
gração ao imaculado coração de Maria, do qual estamos precisando
com particular urgência nesses tempos perigosos’.” [8]
Já tratamos da fatal contradição de que as indulgências desti­
nam-se a abreviar o sofrimento no purgatório, ainda que esse mes­
mo sofrimento seja supostamente essencial para que a pessoa possa
ser purificada a fim de entrar no céu. Isso não faz sentido. Além do
mais, é de admirar como uma pequena indulgência obtida por meio
da adoração ao crucifixo, ou de uma missa rezada, seja mais pode-
A pêndice B: As indulgências « 2 9 9

rosa do que a morte de Cristo na cruz, e como tais “representa­


ções” do Calvário possam completar o que a morte de Cristo não
conseguiu. Isso também não faz sentido, mas os católicos têm
aprendido a não racionalizar o porquê, mas simplesmente acatar o
que a Igreja diz.
Os documentos do Vaticano II têm uma grande seção, contendo
20 provisões complexas que revisam as regras anteriores referentes
a quando e como uma indulgência pode ser obtida. Podemos lem­
brar das recriminações de Cristo contra os rabinos em Mateus 23,
por criarem um “labirinto” de regras, que mantinham o povo de­
pendente de sua direção espiritual. Roma tem feito o mesmo. Seria
necessário um advogado especializado em direito canônico da
Igreja para destrinchar a complexidade de como e quando é possí­
vel maximizar as várias ofertas da “graça”. Esse texto o ilustra
bem:

Aos fiéis que utilizam religiosamente um objeto de piedade (cruci­


fixo, cruz, terço, escapulário, medalha), validamente abençoado por
um padre, concede-se indulgência parcial. Ademais, se o objeto de
piedade foi bento pelo soberano pontífice ou por um bispo, os fiéis
que religiosamente o usam podem também obter a indulgência ple­
nária [total] no dia da festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo, ajun­
tando, porém, a profissão de fé sob uma forma legítima...
A forma como as [indulgências parciais] têm sido determinadas
até agora, por dias e anos, fica abolida. Em seu lugar, Foi estabeleci­
da uma nova maneira. Doravante, índicar-se-á a indulgência parcial
apenas por estas palavras: "indulgência parcial", sem determinação
alguma de dias e anos. [9]
Se Roma estava errada em suas regras referentes às indulgências
no passado, como alguém pode ter certeza que agora ela está certa?
E quanto àqueles que confiaram nas regras antigas? Sem dúvida,
deixar de lado uma prática tão antiga não significa nada, pois desde
o início a Igreja jamais pôde dizer quanto tempo devia ser gasto no
purgatório. Nem as indulgências, agora sob novas regras, têm qual­
quer significado compreensível hoje em dia. E que tipo de “Deus”
ligaria sua justiça a tal artifício, medindo a “graça” conforme a
obra seja realizada num certo dia de “festa” ou se um padre ou sa­
cerdote “abençou” algum objeto supostamente sagrado?
3 0 0 • A Mulher Montada na Besta

O principal meio de se conseguir uma indulgência de valor des­


conhecido é, sem dúvida, através da missa. O cânon 904 declara:
“Lembrando que a obra da redenção é continuamente completada
no mistério do sacrifício da eucaristia, que os padres devem cele­
brar com freqüência.. ”[10] Como já foi relatado aqui, ao invés de
ser um memorial de uma redenção completa, cada missa apenas dá
mais um passo em direção à plena redenção. Ninguém sabe que ta­
manho tem esse pequeno passo, mas deve ser algo minúsculo, a
julgar pelos milhões de missas que continuam a ser celebradas com
resultados incertos!

Salvação ã Venda
Foi a venda de indulgências, mais do que qualquer outra coisa,
que acendeu a ira de Lutero a tal ponto que ele afixou as 95 teses
na porta da capela do castelo de Wittenberg e desencadeou a Re­
forma. Como já vimos, a salvação era vendida de várias outras ma­
neiras além das indulgências, como ocorre ainda hoje. Embora a
taxa seja hoje chamada de “oferta”, na verdade o dinheiro muda de
mãos com a promessa de salvação como incentivo para a “oferta”.
Os comentários de Will Durant são interessantes:

Quase tão mercenária quanto a venda de indulgências era a acei­


tação ou solicitação, pelo clero, de dinheiro, pagamentos, conces­
sões, legados para rezarem missas, as quais supostamente reduzi­
riam o tempo de sofrimento das almas no purgatório. Grandes somas
eram destinadas a esse fim pelas pessoas piedosas, seja para aliviar
um parente que havia falecido ou para abreviar ou anular a sua pró­
pria provação no purgatório após sua morte. Os pobres se queixa­
vam de que devido à sua incapacidade de pagar por missas e indul­
gências, os ricos e não os humildes é que herdariam o reino do céu;
Colombo com pesar louvava o dinheiro porque, segundo ele, "quem
o possui tem o poder de levar as almas ao paraíso".[11 ]
Que fraude! Como se Deus pudesse ser comprado por dinheiro!
Na Espanha a bula papal da Cruzada tinha de ser adquirida por to­
dos, a partir dos sete anos de idade, pelo menos uma vez por ano.
Ninguém podia ser sepultado sem ter a bula atualizada no caixão.
Quando a bula era comprada, o papa imediatamente concedia in-
Apêndice B: As Indulgências * 301

dulgência e absolvição de todos os pecados, exceto os de heresia e


quebra de voto de castidade. Um observador católico da Espanha,
referindo-se a essa bula, fez este comentário condenatório no sécu­
lo XVIII:

Podemos dizer que é possível suspeitar que essa bula envie mais
pessoas para o inferno do que pode salvá-las de lá; pois é a maior
incentivadora do pecado no mundo. Um homem diz: posso satisfazer
meus desejos e paixões, cometer toda maldade e mesmo assim tenho
a certeza de ser perdoado ao receber esta bula por dois reales de
plata [moeda espanhola da época]. Usando a mesma desculpa [a re­
gra da bula], suas consciências não podem expressar qualquer re­
morso ou problema; pois se um homem comete um grande pecado,
ele vai se confessar, recebe absolvição, desde que tenha consigo a
bula {ou permissão para pecar), e sua consciência fica totalmente
tranqüila, ainda mais porque, depois de receber a absolvição, ele
pode ir e cometer novos pecados e voltar a pedir absolvição.fl 2]
O famoso apologista católico americano Peter Kreeft afirma que
“a Igreja logo pôs fim a isso e proibiu [logo após a saída de Martim
Lutero] a venda de indulgências...”[13] Charles Colson erroneamen­
te declara o mesmo.[14] Claro que isso não é verdade! Mas, mesmo
que fosse, não seria possível perdoar tão facilmente o grande engo­
do que tirou tanto dinheiro de seus fiéis e, no processo, lhes roubou
a salvação. Até a época da Reforma, durante séculos a venda de sal­
vação já havia enganado milhões de pessoas. Houve alguma devolu­
ção por parte da Igreja? Claro que não! Algum alívio para aqueles
que partiram para a eternidade achando que tinham comprado a sal­
vação? Não. O mais trágico é que essa fraude continua ainda hoje!
Kreeft, como outros apologistas católicos, omite o fato de que a
doutrina falsa e maligna das indulgências continua sendo parte in­
tegrante do catolicismo atual e que dinheiro ainda é dado em troca
da salvação. Como já vimos, o Vaticano II declara: “A Igreja... or­
dena que o uso de indulgências... deva ser reservado... e condena
com anátema todos aqueles que afirmam que as indulgências são
inúteis ou que a Igreja não tem o poder para concedê-las... [com] o
objetivo de se ganhar a salvação.[15]
Não é certo dizer que as abominações do passado já não são
mais praticadas por Roma. E claro que ainda são, e de maneira bas-
302 • A Mulher Montada na Besta

tante aberta, especialmente nos países católicos, embora com me­


nor intensidade nos Estados Unidos. Contudo, até mesmo naquele
país a salvação (a passos curtos em direção ao céu, é claro) pode
ser adquirida com ofertas para a Igreja. Um amigo deste autor, cujo
pai faleceu há algum tempo, disse que foram gastos mais de 2.000
dólares durante o funeral do seu pai para garantir que muitas mis­
sas fossem rezadas pelo falecido, a fim de ajudá-lo a sair do purga­
tório.
Roma tem oferecido ao seu povo um evangelho de desespero.
Multidões de católicos vivem com pavor de cometer um pecado e
ter de revelar tudo em confissão ou falhar em alguma das regras e
regulamentos que sua Igreja estabeleceu para a salvação. Como
conseqiiência, eles ficam totalmente à mercê da sua Igreja, olhando
para ela em busca da salvação, em vez de descansar na abundante
graça de Deus e na obra completa de Cristo no Calvário.
[A] Sé Apostólica... transferiu o Império Romano dos gregos pa­
ra os alemães de Carlos Magno. [E] os príncipes... reconhecem que
o direito e a autoridade de examinar a pessoa eleita como rei - [ou]
imperador - pertencem a nós, que o ungimos, consagramos e co­
roamos.
- papa Inocêncio III - decreto Venerabilim fratrem, março de
12 0 2 [ 1 ]

João, pela graça de Deus, rei da Inglaterra, senhor da Irlanda... a


todos os fiéis cristãos que devem ver esta presente carta, sauda­
ções...
Nós... oferecemos e gratuitamente concedemos a... nossa mãe, a
santa Igreja, ao nosso senhor, o papa Inocêncio, e aos seus sucesso­
res católicos, todo o reino da Inglaterra e todo o reino da Irlanda...
para a remissão de nossos pecados e de todos os membros de nossa
família, vivos ou mortos; e os recebemos e sustentamos, a partir de
agora, como um vassalo de Deus e da Igreja Romana, nós juramos
agora fidelidade ao já mencionado papa Inocêncio, aos seus suces­
sores católicos e à Igreja Romana...
- doação do feudo de terras do rei João Sem Terra ao papa Ino­
cêncio III em 15 de maio de 1213[2]

A religião católica romana deve continuar a ser a única religião


da república do Equador, e... nenhuma outra forma contrária de
adoração ou qualquer sociedade condenada pela Igreja poderá, em
tempo algum, ser permitida dentro da República do Equador.
- Concordata entre o papa Pio IX e a República do Equador, em 26
de setembro de 1862.
Domínio Sobre
Reis: Mais
Documentação
Um elemento-chave na identificação da mulher montada na bes­
ta descrita por João é a declaração de que ela é uma cidade que do­
mina sobre os reis da terra. Jã documentamos detalhadamente o
fato de que a Roma papal cumpriu essa profecia e que somente ela
preenche tão bem todos os outros critérios que João apresenta para
identificar a mulher. Desafiamos qualquer um que encontre outra
cidade, além de Roma e sua sucessora, a Cidade do Vaticano, que
preencha todas as características da identificação estabelecidas em
Apocalipse 17.
Sem dúvida, a revelação de Cristo a João de que um corpo reli­
gioso professando ser a Noiva de Cristo faria alianças profanas
com os reis e até dominaria sobre eles, é uma das profecias mais
notáveis de toda a Escritura. Vários livros poderiam ser totalmente
preenchidos com a evidência de que essa profecia se cumpriu na
Igreja Católica Romana. Contudo, só temos espaço para apresentar
um pequeno registro de documentação adicional aos que estiverem
interessados.
306 • A Mulher Montada na Besta

Juiz de Todos e por Ninguém Julgado


O papa Leão X (1513-1521) proibiu que os tribunais de todos os
países julgassem qualquer pessoa por um crime do qual ela tivesse
sido absolvida pela Igreja, através do pagamento da taxa estabele­
cida para cada ofensa. Se algum juiz tentasse desobedecer essa or­
dem, era sumariamente excomungado. Naquele tempo ser expulso
da Igreja significava também perder a cidadania, uma vez que as
autoridades eram obrigadas a aceitar os decretos da Igreja.
O papa Paulo IV (1555-1559), inquisidor por excelência, inigua­
lável torturador dos cristãos e perseguidor dos judeus, era tão obs­
ceno que não podia se acreditar no que ele dizia, exceto quando as
testemunham estavam sob juramento. Ele brigava constantemente
até mesmo com dois únicos amigos do papado na época, os reis
Carlos V e Felipe II, porque em sua mente um dos principais obje­
tivos do papado era “calcar aos pés os reis e imperadores”.[4] Pou­
co antes de sua morte, em 1559, em resposta ao grande Cisma Pro­
testante, que então já havia alcançado proporções alarmantes e
ameaçava invadir o próprio Congresso de Cardeais, Paulo IV emi­
tiu a bula Cum ex Apostolatus Officio.
Como “pontífice romano, vigário de Deus e de nosso Senhor
Jesus Cristo na terra, detentor da plenitude do poder sobre na­
ções e reinos, juiz de todos os homens, e por ninguém julgado
nesta era”, Paulo IV declarou possuir poder ilimitado para de­
por cada monarca e tomar as possessões de qualquer pessoa, sem
a necessidade de um processo legal. Qualquer um que tentasse
ajudar os que eram despojados seria excomungado. Seu decreto
dizia:

Qualquer pessoa, quem quer que seja, sendo detectado, reconhe­


cido ou provado, que tenha deixado a fé católica... ou caído em he­
resia, ou tenha tomado parte, fomentado ou organizado cisma, in­
correrá nas penalidades dantes mencionadas [excomunhão e desa­
propriação das propriedades], qualquer que seja sua posição,
situação, ordem, condição ou proeminência que possa gozar, mesmo
se... possuir autoridade temporal e a honra de um conde, barão,
marquês, duque, rei ou imperador...
Não se permite a homem algum desafiar esta declaração... Mas,
se alguém intentar fazê-lo, fique então ciente que incorrerá na ira do
Deus Todo-Poderoso e de seus benditos apóstolos Pedro e Paulo.
Apêndice C: Domínio Sobre Reis: Mais Documentação » 307

Entregue em Roma, em [na basílica de] São Pedro, no ano de


Nosso Senhor de 1559, no 15° dia antes das calendas de março, no
quarto ano do nosso pontificado.[5]
O papa Sisto V (1585-1590), que reescreveu a Bíblia, a fim de
conformá-la às suas próprias idéias, declarava ter jurisdição não
apenas religiosa, mas também civil sobre todos os reis e príncipes e
que podia “nomear ou demitir qualquer um, no momento que lhe
aprouvesse, inclusive imperadores”. Isso não era apenas uma
ameaça. Naqueles dias era comum acreditar que fora da Igreja Ca­
tólica Romana não havia salvação. Portanto, ser ameaçado de ex­
comunhão pelo papa fazia tremer imperadores, pois era o mesmo
que ser sentenciado à eternidade no inferno.
O papa Clemente X I em sua bula In Coena Domini, de 1715, ex­
comungou todos os que deixassem de obedecer ao santo padre e
especialmente todos aqueles que não pagassem a ele os impostos
devidos. A bula declarava que o papa tinha autoridade suprema so­
bre todos os homens (inclusive soberanos) e seus assuntos secula­
res e religiosos. Os papas subseqüentes endossaram esse dogma.
Roma jamais o abrogou.

Mantendo o Domínio Papal


O Vaticano tem sido chamado “um dos maiores repositórios de
arte do mundo” e “a mais notável casa de tesouros do mundo” . Par­
te desse tesouro excursionou pelo mundo (inclusive a Pietá de Mi­
chelangelo). A excursão iniciou em Denver, no estado do Colorado,
para coincidir com a visita do papa João Paulo II àquela cidade, em
agosto de 1993. O tesouro voltou ao Vaticano “a tempo de celebrar
o milênio cristão”. Um dos tesouros exibidos era a tiara do papa Pio
IX, que convocou o Concílio Vaticano I. Ela é descrita assim:

A coroa é o símbolo da soberania do papado... A tiara é adorna­


da com pérolas e pedras preciosas e tem uma inscrição em latim, cu­
ja tradução é: "Ao infalível vigário de Cristo; ao supremo governa­
dor do mundo na terra; ao pai das nações e reis".[ó]
Como vimos antes, declarações como “domina sobre os reis da
terra ” cumprem a visão de João e jamais foram anuladas por Ro­
3 0 8 • A Mulher Montada na Besta

ma, que ainda considera os papas como monarcas absolutos, que


governam o mundo para Deus. Entretanto, o fim das monarquias
deixou o papado sem reinos para governar. Suas sucessoras, as re­
públicas e democracias, colocaram o governo nas mãos do povo e
gradualmente (pelo menos na maior parte dos países) deu igualda­
de a todas as religiões. Já documentamos o fato de que, quando os
papas viram 6 seu poder ameaçado de ruir, fizeram tudo que pude­
ram para minar os novos governos. Sua constante supressão dos di­
reitos humanos básicos é um assunto que pode der inegavelmente
documentado.
Contudo, o poder que os papas tinham no passado não tem dimi­
nuído, como pode parecer à primeira vista. A Igreja Católica Ro­
mana continua ensinando seus membros (quase um bilhão em todo
o mundo) que a lealdade a ela deve vir antes de tudo e que a Igreja
pode absolver qualquer um dos seus súditos da lealdade aos gover­
nos civis. Esse fato, e os perigos que representam para o governo
civil, foi reconhecido pelo estado do Missouri, há mais de 100 anos
atrás. Como consequência, a Constituição Estadual do Missouri re­
cebeu uma emenda, em 1864, para “exigir que todos os clérigos fa­
çam um voto de lealdade ao estado de Missouri e, portanto, aos Es­
tados Unidos. Nesse momento crucial da Guerra Civil Americana,
o arcebispo católico de Saint Louis enviou uma carta pastoral a to­
dos os padres, condenando o voto” e encorajando-os a desafiar o
governo. [7]

Justificando o Totalitarismo
No dia 20 de setembro de 1870, as tropas de uma Itália nova­
mente unida e comandadas pelo general Raffaele Cadorna irrompe­
ram pelos muros aurelianos de Roma, junto à Porta Pia. As forças
armadas do papa, sob o comando do general Hermann Kansler, só
puderam oferecer uma resistência simbólica. Não apenas Roma,
mas o que restava dos Estados papais estavam agora sob o domínio
da Nova Itália. Saboreando sua independência há tanto esperada, as
atitudes dos cidadãos tomaram-se hostis em relação à Igreja, que
havia governado vastos territórios, durante tanto tempo, com mão
de ferro. Alguns meses mais tarde, quando Pio IX (que havia pro­
clamado o dogma da infalibilidade papal no Vaticano I) faleceu, e
o seu ataúde era carregado com grande pompa pelas ruas até a ba-
A pêndice C: Domínio Sobre Reis: Mais Documentação • 309

sílica de São Pedro, multidões de italianos enchiam a praça, atiran­


do pedras e gritando:

Morte ao papa! Morte aos padres! Atirem o porco no rio! Atirem


a fera no Tibre!
Somente a polícia foi capaz de evitar que a multidão cumpris­
se sua ameaça. Essa atitude antipapista da parte do cidadão co­
mum já estava se desenvolvendo durante alguns anos, como uma
resposta à supressão das liberdades básicas experimentadas duran­
te o governo papal. Cinco anos antes do Vaticano I ter início, o
papa havia editado a infame encíclica Quanta Cura, na qual de­
nunciava “os proponentes da liberdade de consciência e liberdade
religiosa”... [e] todos os que concordavam que a Igreja não podia
usar a força”.[8]
O papado havia governado durante séculos usando a força e os
papas temiam os novos sopros da liberdade, que traziam o desejo
dos direitos individuais. Tal atmosfera repugnava o orgulho e a am­
bição do papa. Ele estava certo de que o dogma da infalibilidade,
decretado oficialmente por um concílio de bispos do mundo intei­
ro, tivesse posto um fim a tais sonhos de liberdade. Como um his­
toriador altamente conceituado do século XIX explicou:

A pena de morte por ofensas contra a religião ainda fazia parte


do Código Penal. A igreja ainda era permitido, pela relíquia da falta
de legislatura medieval, o direito de asilar criminosos; todos os regis­
tros civis foram confiados aos sacerdotes paroquiais; os jesuítas rece­
beram o direito de entrar em todos os lugares - para controlar a ca­
sa real, as casas dos cidadãos, as instituições públicas, as escolas,
etc., de modo que o país estava totalmente sujeito ao governo sacer­
dotal. [9]
Lendo o espantoso registro do poder e opressão papal executa­
dos através do seu clero, podemos ficar abismados ao ver como is­
so era aceito como algo comum, não apenas pelo povo (que era in­
capaz de se opor a ele), mas também pelos governantes civis. Nem
mesmo as claras maldades e injustiças perpetradas durante séculos
pela Igreja pareciam lançar qualquer dúvida sobre a validade dos
decretos papais. Von Dollinger descreve esse quadro espantoso:
310 • A Mulher Montada na Besta

Era dito que o vigário de Deus na terra age como Deus, o que se­
guidamente incluía muitas pessoas inocentes no castigo dos poucos
culpados; quem se atreveria a contradizê-lo?
Ele age sob a direção divina e seus atos não podem ser medidos
pelas regras da justiça humana...
Mesmo que pareça algo paradoxal, é um fato histórico que quanto
mais suspeita e escandalosa a condutas dos papas... parecessem aos
homens piedosos, mais inclinados eles se sentiam a procurar refúgio
de suas próprias dúvidas e suspeitas no âmago da infalibilidade pa­
pal... [tendo] aprendido desde sua juventude que o papa é o senhor
e mestre da Igreja, ao qual ninguém pode contradizer ou pedir con­
tas...
Peter Cantor, desde o final do século XII... [reconhece] que a cor­
rupção papal não possui justificativa alguma nas Escrituras... mas,
então seria um sacrilégio encontrar erros no que o papa faz.[10]
A falsa doutrina do domínio papal sobre reis pode ser resumida
nestas palavras, escritas aos patriarcas de Constantinopla pelo papa
Inocêncio III: “O Senhor deixou com Pedro o governo não apenas
da Igreja, mas do mundo inteiro”.[I I] A Igreja Católica Romana
jamais se afastou dessa posição por bulas ou declarações concilia­
res.
No início do século XTV... a natureza da inerrância da Igreja ain­
da não estava definida. A idéia de que o papa pudesse ser pessoal­
mente infalível era muito nova, muito ao contrário de todos os en­
sinos tradicionais, para encontrar aceitação mundial.
- Brian Tiemey em Origins o f Papal Infability [Origens da Infa­
libilidade Papal] [1]

Roma falou, acabou a disputa.


- Santo Agostinho (354-430)
A Infalibilidade
Papal e a
Sucessão
Apostólica
A fim de promover a necessária fé cega na infalibilidade do pa­
pa e no dogma de que a salvação é obtida somente através da
Igreja Católica Romana, sua hierarquia tem ocultado os fatos e
reescrito a história. Um exemplo é a citação de Agostinho na pá­
gina oposta. Se, como diz o argumento, Agostinho, o maior teó­
logo da Igreja, desejava submeter-se a tudo que Roma (ou seja, o
papa e a hierarquia) decretava, então certamente os católicos co­
muns deveriam fazer o mesmo. Contudo, tal submissão não é a
que Agostinho propôs. A citação, em seu contexto, tem outro sig­
nificado. Dois sínodos haviam deliberado sobre um assunto que
causava contenda e o bispo de Roma havia concordado com o que
“parecia a ele [Agostinho] mais do que suficiente, e assim o as­
sunto devia ser considerado encerrado. Ele próprio havia susten­
tado que um julgamento de Roma por si mesmo não era defíniti-
314 • A Mulher Montada na Besta

vo, mas que um concilium plenarium era necessário para esse pro­
pósito...” [2]
Em nenhum outro lugar de seus volumosos escritos Agostinho
chegou sequer a insinuar que o bispo de Roma tivesse a palavra fi­
nal em assuntos de fé e moral. Na verdade, Agostinho disse que a
Igreja Africana estava correta em rejeitar a opinião de Estêvão, bis­
po de Roma (254-257) que tentava conciliar uma disputa sobre o
batismo. Em nenhum dos argumentos propostos por ele, sobre vá­
rios assuntos, Agostinho sugeriu que o bispo de Roma deveria ser
consultado como árbitro final da ortodoxia, nem mesmo que deves­
se ser consultado.
É bastante interessante vermos que, embora o Concílio de Ni-
céia, de 325, decretasse que os três bispos, de Roma, Alexandria e
Antioquia (o conceito de papa ainda não existia) fossem designa­
dos como “superiores” aos demais bispos de centros cristãos me­
nos importantes, o bispo de Roma de então rejeitou tal distinção
para si mesmo. O historiador Lars Qualben comenta ainda:

O Concílio Geral de Constantinopla em 381 designou o bispo da­


quela cidade como patriarca; e o Concílio Geral de Calcedônia, em
451, deu o mesmo título ao bispo de Jerusalém [deixando de fora o
bispo de Roma]...[e] o patriarca de Constantinopla [e não o de Ro­
ma] foi votado como o principal bispo de toda a Igreja.
Depois que o Império Ocidental foi destruído, em 476, o impera­
dor de Constantinopla tornou-se o único imperador do mundo e essa
nova designação naturalmente proporcionou algum prestígio ao pa­
triarca daquela cidade... O bispo de Roma e o patriarca de Constan­
tinopla tornaram-se os principais rivais pela supremacia da lgreja.[3]

Uma Doutrina Declarada


Primeiro Pelos Imperadores
Os imperadores tinham, de fato, declarado a supremacia do bis­
po de Roma sobre a Igreja Ocidental (não sobre a Igreja universal)
e passaram a chamá-lo de “papa romano” a partir do século V. Um
édito dos imperadores Valentiniano III e Teodósio II, em 445, di­
zia: “Declaramos por este édito perpétuo que não será lícito aos
bispos da Gália ou de outras províncias tentar qualquer coisa con­
Apêndice D: A Infalibilidade Papal e a Sucessão Apostólica • 315

trária ao antigo costume, sem a autoridade desse venerável homem,


o papa da Cidade Eterna”.[4]
Devemos destacar que esse reconhecimento da autoridade papal
vem dos imperadores, não dos concílios ecumênicos que represen­
tavam a Igreja. O propósito dos imperadores não era estarem de
acordo com a Escritura, mas manter a unidade do império - e a
unidade entre os bispos rivais e seus seguidores era essencial para
tal fim. Já que Roma era a capital, ela devia ser o centro da autori­
dade eclesiástica, assim como era da autoridade civil.
Além disso, para um católico se consolar com tais declarações,
ele também deve aceitar o fato de que, ao mesmo tempo em que os
imperadores honravam a autoridade do bispo de Roma, eles deixa­
vam bem claro que estavam acima dele. O imperador Justiniano,
por exemplo, em seu édito de 17 de abril de 535, sobre “as relações
entre a Igreja e o Estado”, declarou: “Em verdade na sociedade
cristã existe o reconhecimento da distinção entre os elementos cle­
ricais e os leigos; mas, para fins práticos, o imperador deve estar no
controle de ambos, exercendo, como se espera que ele faça, uma
supervisão do ‘bem estar moral’ do clero”. [5]
Passaram-se séculos antes que os papas estabelecessem sua au­
toridade sobre os imperadores e reis e mais tempo ainda para
que a infalibilidade papal e o domínio sobre toda a Igreja fos­
sem estabelecidos. Na verdade, eram os concílios que exerciam
autoridade sobre os papas. Mais de um concílio depôs os recla­
mantes rivais do trono de Pedro, que simultaneamente insistiam
em dizer que eram o legítimo vigário de Cristo. Assim como
hoje, naquela época o bispo de Roma, por suas próprias razões
egoístas, tentava confirmar sua autoridade sobre o resto da Igre­
ja, mas isso não foi aceito pelo cristianismo como um todo até
o início do segundo milênio. Isso ocorreu também porque ele
não podia citar a tradição ou os decretos conciliares para apoiar
essa idéia.
Essa declaração somente se afirmou no Ocidente 19 anos após o
Grande Cisma, quando o papa Gregório VII, em 1073, proibiu os
católicos de chamarem qualquer pessoa de papa, exceto o bispo de
Roma. Antes disso, muitos bispos eram carinhosamente chamados
“papas” ou “papai”. Embora a Igreja Católica Romana faça uma
lista dos supostos “papas”, que retrocede até o princípio [Pedro], e
todos os bispos de Roma sejam agora chamados assim, na realida-
3 1 6 • A Mulher Montada na Besta

de antes do decreto de Gregório esse título não era aceito por todos
com seu significado atual.

Negando a Infalibilidade para Salvá-la


Já mostramos que a maneira pela qual muitos papas consegui­
ram esse ofício (através da força militar, manobra de prostitutas, si-
monia, patrocínio de imperadores, violência do povo, etc.) acaba
com o argumento que o papado tenha sido transmitido por uma li­
nha ininterrupta de sucessão apostólica desde Pedro. Também pro­
va que a teoria da sucessão apostólica é uma ficção, o fato de mais
de um papa ter ocupado a “cadeira de Pedro” ao mesmo tempo, ca­
da um deles afirmando ser o único papa verdadeiro e infalível, su­
premo cabeça da Igreja e usando o seu suposto poder para exco­
mungar os outros. Na última vez em que vários aspirantes fizeram
reivindicações simultâneas pelo papado, o assunto foi resolvido de
um modo que também invalida qualquer afirmação feita sobre a in­
falibilidade dos papas.
No início do século XV havia três homens afirmando ser o papa.
Eram eles: Gregório XII (1406-1415), cujo primeiro ato pontifical
foi empenhar a sua tiara por 6.000 florins para pagar suas dívidas
de jogo; Benedito XIII (1394-1423) de Avignon (um dos vários pa­
pas que residiram no palácio papal de Avignon durante o Cisma,
que durou mais de 100 anos, com rivais em Roma e Avignon, cada
um afirmando ser o legítimo papa e excomungando o outro); e Ale­
xandre V (1409-1410) cujo passatempo favorito era fazer festas e
que era servido em seu palácio por 400 serviçais, todas mulheres.
Este último foi envenenado por Baldas sare Cossa, que tomou o
pontificado em seu lugar com o nome de João XXIII (1410-1415).
Todos esses três foram depostos pelo Concílio de Constança, até
então o maior concílio do Ocidente, com a presença de 300 bispos,
300 doutores e representantes de 15 universidades. Embora atual­
mente seja apresentado como um “antipapa”, foi João XXIII quem
abriu oficialmente o Concílio de Constança, no Dia de Todos os
Santos, em 1414. As intrigas que rodeavam essa reunião de líderes
da Igreja eram tamanhas, que uns 500 cadáveres acabaram apare­
cendo no lago de Constança, durante os quatro anos de duração
dessa suposta “santa convocação”. Também foi registrado que
1.200 prostitutas tiveram de ser trazidas para conservar o bom hu­
Apêndice D: A Infalibilidade Papal e a Sucessão Apostólica » 317

mor dos bispos, cardeais e seus assistentes. Ainda assim, esse mes­
mo concílio condenou John Huss à fogueira em 1415 por pregar
que não existe autoridade maior do que as Escrituras Sagradas, a
qual todo os homens, mesmo os padres e papas, deveriam obede­
cer, vivendo vidas cristãs e santas.
Dos três papas supramencionados, cada um afirmando ser o legí­
timo vigário de Cristo, somente Gregório XII figura hoje nas listas
oficiais como o legítimo papa (embora tenha sido deposto pelo
Concílio), os outros dois são considerados antipapas. Em 1958,
quando o sucessor de Pio XII recebeu o nome de João XXIII, mais
de uma catedral católica, vendo que sua lista já continha um João
XXIII, teve de fazer uma rápida correção. O papa João XXIII ori­
ginal tem sido descrito como um “ex-pirata, genocida, grande for­
nicador com preferência por freiras, adúltero em escala fabulosa,
simoníaco por excelência, chantagista, cafetão e mestre em fazer
truques sujos”. [6]
O papa João XXIII, que abriu o Concílio de Constança com
grande pompa, numa manobra repentina e inesperada, foi condena­
do à prisão pelo mesmo Concílio. João recebeu um tratamento bem
menos rigoroso do que realmente merecia, as 54 acusações que ori­
ginalmente pesavam contra ele foram reduzidas a apenas cinco.
Edward Gibbon escreveu sarcasticamente em The History o f the
Decline and Falí of the Roman Empire [História do Declínio e
Queda do Império Romano]: “as acusações mais escandalosas
[contra João XXIII] foram suprimidas; o vigário de Cristo foi acu­
sado apenas [e declarado culpado] de pirataria, assassinato, estu­
pro, sodomia e incesto”. Enquanto o incorruptível John Huss havia
sido queimado na estaca pelo Concílio de Constança por pedir a re­
forma da Igreja, a João XXIII foi dada apenas uma sentença de três
anos de prisão por seus terríveis e numerosos crimes.
O cardeal Oddo Colonna foi declarado o novo papa pelo Concí­
lio de Constança e se autonomeou Marünho V (1417-1431). Após
o ex-papa João XXIII ser solto da prisão, o papa Martinho V reco­
locou aquele grande assassino e criminoso como bispo de Frascati
e cardeal de Tusculum. Depois disso, exercendo o poder da Igreja
Católica Romana, o cardeal Baldassare Cossa voltou a ordenar sa­
cerdotes e solenemente transformar a hóstia e o vinho no corpo e
sangue de Cristo - segundo a crença dos fiéis. Como cardeal, o ex­
papa João X Xllí, agora um ex-presidiário, era qualificado a votar ,
3 1 8 • A Mulher Montada na Besta

na eleição de novos papas, junto com seus companheiros cardeais,


muitos dos quais se assemelhavam muito a ele em sua lista de cri­
mes. Ironicamente o Concílio de Constança salvou a Igreja dos três
papas rivais ao demonstrar sua autoridade sobre o papado. O voto
foi unânime no estabelecimento do seguinte princípio:

Todo Concílio Ecumênico legalmente convocado para representar


a Igreja deriva sua autoridade imediatamente de Cristo, e todos, in­
clusive o papa, ficam a ele sujeitos em matéria de fé, reparação de
cismas e reforma da lgreja.[7]
Se a infalibilidade papal, como a conhecemos hoje, fosse aceita,
então a solução apresentada para resolver o dilema de três papas ri­
vais teria sido impossível. O próprio dogma da infalibilidade papal,
declarado pelo Concílio Vaticano I, em 1870, é uma negação que a
autoridade de um concílio anterior (o de Constança), estabeleceu
sobre os papas, a fim de salvar a Igreja.
São interessantes os comentários de Von Dollinger, especialmen­
te porque seu livro foi publicado algumas semanas antes do Vatica­
no I contradizer Constança no tocante a importante questão do con­
flito entre poder conciliar e poder papal:

Gregório Xll e Benedito XIII haviam sido abandonados por seus


cardeais e tudo que podia ser mantido para constituir a Igreja Roma­
na aconteceu no Concílio [de Constança]. Se o papa está sujeito a
um concílio em assuntos de fé, ele não é infalível; a Igreja e o Concí­
lio que a representa herdaram as promessas de Cristo, e não o papa,
que pode errar estando fora do Concílio e pode ser julgado por este,
em razão de seus erros...
E eles [os decretos do Concílio] negam a posição fundamental do
sistema papal, que portanto é tácita, mas muito efoqüentemente si­
nalizada como um erro e abuso. Mesmo que aquele sistema tenha
prevalecido na administração da Igreja durante séculos, tem sido en­
sinado nos livros de direito canônico e nas escolas de ordens reli­
giosas, especialmente pelos pronunciamentos dos tomistas, e reconhe­
cido ou confirmando expressamente em todos os pronunciamentos e
decisões dos papas, que são as novas autoridades para as leis da
Igreja. E até agora nenhuma voz foi levantada em seu favor; nin­
guém se opôs às doutrinas de Constança, ninguém protestou![8]
Glossário
À nátem a - Excomunhão da Igreja Católica Romana pronunciada
contra os hereges ou grandes pecadores. A conseqüência é a condena­
ção eterna, a não ser que o anatematizado se arrependa e volte à Igreja.
O Concílio de Trento pronunciou mais de 100 anátemas contra os que
aceitaram as crenças da Reforma. O Vaticano II os ratificou e acres­
centou mais um. Assim sendo, ainda hoje o catolicismo romano con­
dena ao inferno todos os cristãos evangélicos. O único remédio é arre­
pender-se das doutrinas evangélicas (heréticas para Roma), entrar para
a igreja Católica e submeter-se aos seus decretos. Logo, todo “diálo­
go” e cooperação entre católicos e evangélicos, segundo a definição do
catolicismo, só conduzem a um. único objetivo: levar os evangélicos à
Igreja Catóüca Romana - para que eles possam ser salvos.
Bula Papal - O nome comum dado aos decretos importantes
dos papas nos séculos passados, embora não seja mais usado hoje.
Em latim, a palavra bulia significa selo, e as bulas papais eram
identificadas pelo lacre, ou selo de chumbo, colocado em cada uma
delas. Muitos exemplares dessas bulas foram preservados e podem
ser vistos ainda hoje.
Código de Direito Canônico - É a codificação feita em 1983 de
cânones ou decretos do Concílio Vaticano 11. E um volume grande
(mais de 1.000 páginas), que incorpora as resoluções de concílios
anteriores, bem como os pronunciamentos papais. Esse Código
contém ainda comentários detalhados, explicando a apropriada im­
plementação dos 1.752 cânones de leis aos quais os católicos estão
sujeitos pela obediência à sua Igreja. A última codificação seme­
lhante a essa havia sido feita em 1917.
Concordata - Tratado ou acordo que define as relações e obri­
gações entre o Vaticano e os governos seculares. Isso somente é
3 2 0 • A Mulher Montada na Besta

possível porque a Cidade do Vaticano é reconhecida como Estado,


no mesmo nível das outras nações, podendo, assim, entrar em acor­
dos e fazer um intercâmbio de embaixadores com esses países.
Decreto - Carta papal emitida em resposta a uma questão que
exige posição oficial da Igreja. Muitos desses decretos, coletados e
atribuídos individualmente aos papas, e que no passado eram con­
fiáveis, são hoje reconhecidos como “decretos falsos” . Mesmo as­
sim, muitas das crenças historicamente estabelecidas sobre essas
falsificações jamais foram extirpadas da tradição católica e ainda
hoje continuam fazendo parte integral dela.
Encíclica - Uma carta escrita por um papa, expressando a visão
oficial da Igreja sobre um determinado assunto importante.
Eucaristia - Uma forma especial de pão (bolachinha ou hós­
tia) e vinho comum. Eles são aceitos como sendo literalmente o
corpo e o sangue de Jesus Cristo, pois foram consagrados por um
sacerdote e assim “transubstanciados” através de uma fórmula e
poder especiais, que somente o sacerdote católico possui. A ofer­
ta desse “Cristo” miraculosamente constituído sobre os altares ca­
tólicos é a parte principal do ritual conhecido como “sacrifício”
da missa, o qual acredita-se ser eficaz para a remissão de peca­
dos.
Indulgência - É a “remissão, diante de Deus, da pena temporal
devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devi­
damente disposto e em certas e determinadas condições [decididas
pela hierarquia da Igreja], alcança por meio da Igreja, a qual, como
dispensadora da redenção, distribui e aplica...” Assim é descrita pe­
la Constituição Apostólica na Revisão das Indulgências, decretada
pelo papa Paulo VI, em Io de janeiro de 1967, e incluída como um
dos documentos pós-conciliares do Vaticano II.
A doutrina das indulgências vem da insistência estranha e antibí-
blica de que os sofrimentos de Cristo na cruz pelos nossos pecados,
nas mãos dos homens e de Deus, só conseguiram obter o perdão da
culpa, deixando ainda o “pecador arrependido e perdoado” na obri­
gação de sofrer pelos seus próprios pecados, nesta vida e na outra,
ou, como é mais provável, nas “chamas purificadoras do purgató­
rio” . Presume-se que uma indulgência, através do poder outorgado
à Igreja, reduza o tempo ou a intensidade do sofrimento no purga­
tório, mas em quantidades ainda desconhecidas. (Ver Apêndice B
para mais detalhes).
Glossário • 3 2 1

Interdito - Penalidade imposta pelos papas sobre uma cidade


ou mesmo um país inteiro, proibindo a prática da religião católi­
ca romana. Desse modo, os sacramentos que trazem a salvação
não podiam ser administrados, e toda a população ficava sem os
meios de perdão dos pecados e de entrada no céu. É pecado mor­
tal não assistir à missa pelo menos uma vez por semana, e isso
se tomava impossível durante um interdito. Assim, qualquer pes­
soa que morresse nesse período incorreria em pecado mortal e,
sem os meios de perdão através da confissão e do sacramento dos
enfermos (Extrema-Unção), seria condenada ao inferno. Não é de
admirar, portanto, que os reis e imperadores tremessem diante da
ameaça desta penalidade, quando feita pelos papas, pois lhes da­
va um poder contra o qual nenhum mortal poderia lutar e que fez
da Igreja Católica Romana a “cidade que domina sobre os reis da
terra” (Apocalipse 17.18).
Teologia da Libertação - Movimento dentro da Igreja Católica
Romana, originado na América Latina, que tem como ênfase prin­
cipal a justiça social. Segundo esta teologia, para alguém ser teolo­
gicamente ortodoxo, deve opor-se verbalmente e através da ação a
qualquer tipo de opressão que tanto a Igreja quanto o Estado prati­
quem contra os pobres e as classes mais baixas. Assim, a prova da
salvação de uma pessoa é demonstrada por ela se opor a essa
opressão, ao invés de estar baseada na aceitação do Evangelho e na
confirmação das doutrinas da fé.
Missa - E a oferta feita sobre os altares católicos dos supostos
corpo e sangue de Cristo (sem que haja derramamento literal de
sangue). Diz-se que esse “sacrifício” é eficaz para o perdão dos pe­
cados e a abreviação do sofrimento de alguém no purgatório. Esse
é um erro mortal, que reduz o sacrifício de Cristo na cruz a um pa­
gamento parcial dos pecados. Por isso é necessário que haja uma
continuação sem fim do sacrifício nos altares católicos, algo supos­
tamente essencial para trazer o perdão completo dos pecados e ga­
rantir a entrada no céu. Aquilo que a morte de Cristo na cruz (que a
Bíblia diz ter sido de uma vez por todas e toda-sufíciente) não pôde
fazer e que, segundo a doutrina católica, a missa pode completar,
se for repetida vezes suficientes. Contudo, a Igreja até hoje nunca
definiu (e na verdade não sabe) quantos desses “sacrifícios” da
missa seriam necessários para retirar uma pessoa do purgatório e
fazê-la entrar no céu. Assim, o fiel católico espera que depois de
322 c  Mulher Montada na Besta

sua morte seus parentes paguem para que um número suficiente de


missas continuem sendo rezadas em seu favor.
Pmurgaíório - O lugar de “purgação” onde o católico acredita es­
tarem os falecidos que morreram sem antes terem feito a necessária
restituição (expiação) pelos seus pecados (muito embora Cristo já
tenha pago por eles). Eles devem passar algum tempo nesse lugar,
a fim de ficarem limpos o suficiente para entrar no céu. Diz-se que
as chamas do purgatório são diferentes das chamas do inferno, pois
no purgatório elas purificam a alma para que esta entre no céu, en­
quanto que as do inferno são para o tormento eterno.
E scapulário - Para os que pertencem à ordens religiosas, con­
siste de duas tiras de pano (uma na frente e outra atrás) unidas so­
bre os ombros e usadas sobre as vestes. Para o leigo, geralmente é
feita com dois pedacinhos de pano unidos por um barbante e usa­
dos no pescoço, por baixo da roupa. Existem cerca de 18 varieda­
des de escapulários abençoadas e aprovadas pela Igreja. O uso do
escapulário, aliado à obediência de certas condições, confere prote­
ção e privilégios, em alguns casos até mesmo reduzindo ou elimi­
nando totalmente o tempo da pena no purgatório.
Sé Apostólica, Santa, P rim eira - A “Santa Sé”, ou “Sé de Pe­
dro” é a designação para Roma, e mais especificamente para a Ci­
dade do Vaticano, como residência oficial do papa e quartel-gene­
ral da igreja Católica Romana e seus muitos escritórios. Na verda­
de, mostra que o papa é o líder da “única Igreja verdadeira”,
depositária da verdadeira fé que Cristo comissionou a Pedro, e que
seus sucessores devem levar ao mundo.
Simonia - Prática que visa a obtenção de favores em troca de di­
nheiro. Seu nome deriva da atitude de Simão, o mago, que oferecei?
dinheiro para poder receber o Espírito Santo (Aios 8.18-24). Pas­
sou a ser um sinônimo de tráfico de coisas sagradas ou espirituais,
trocadas por dinheiro ou favores.
Te 3)eam - Um antigo hino latino - Te Deum Laudamus [Lou­
vamos-te, ó Deus] cantado no encerramento das leituras de ofício
aos domingos e em ocasiões festivas. E entoado principal mente
para agradecer a Deus por bênçãos especiais. Foi usado (cantado)
nas catedrais católicas no aniversário de Hitler, quando ele escapa­
va de atentados de morte, nas vitórias nazistas nas batalhas, na su­
bida ao poder de Ante Paveíic como líder do governo croata dos
Ustashi, etc.
Introdução: Uma Tentativa Para Derrubar a Reforma
1
.R evistaM oody, m aiod e19 94,p .62 .
2
.R evistaCharism a, m a
iod e1 9 94.
. N ew Y ork Times, 3
3 0d em arçod e1 99 4 ,p .A 8.
. N ew Evangelization 2000, n
4 úm ero2 3 ,19 9 4.
5
."R om anC atho
licD ou
b le
taíkat In dian a polis'9 0
”.RevistaFoundation, ju
iho-
ag ostod e1 9
90, trecho sdod iscursod ofre iTo m F
orrestnaseçãod etreina­
m entorealizad ad uran teo"S áb adoC atólicoR omano”
.

Capítulo 2 - Razão Para Crer


1
.W illD ura nt, The S tory o f Civilization, The R eform ation { Sim
o nandSch
uster,
1
9 5 0
),v ol.V I,p.72 7.
2
.P eterd eR osa, Vicars o f C hrist: The D ark S ide o f the P apacy (C
rownPu
b lis­
hin gInc .,1 98 8),p
.1 9 4.
3
.D u ra
nt,o p.cit,v ol.V I,p .7 29 .1

Capítulo 4 - Uma Revelação Progressiva


. S tro n g ’s E xhaustive Concordance, G reek D ictionary o f the N ew Testam ent,
1
p.1 2 ; W ebster’s N ew U niversal U nabridged Dictionary, p.2 03 5
.

Capítulo 5 - Mistério: Babilônia


1. B row nson’s Q uarterly Review, jan eirod e1 8 7
3 ,v
o l. i,p .1 0.B rown sonfo iu rn
ren o m ad océticoec riticavaab ertam en teosacerd ó cioatésu aco nv ersãoa
R om acercad e3 0an o san tes. V erW illiam H og
an ,E sq., Popery, A s It Was
a n d A s It Is (H a rtfo rd ,1 8 54),pp .5 0 0-5 3 0 ss.
2
.J.H . Ig na zv onD oiling er, The P ope a n d the C ouncil (L on don,1 86 9), p .1 9 ;
v ertam b émR .W .T h o m pson, The P apacy a n d the C ivil P ow er (N e w Y ork ,
18 76 ),p .4 1 9.
3
.R .W .T h o m p so n , The P apacy an d the C ivil P ow er { N e
w Y ork,187 6),p .4 6 0.
4
.D oilinge r, o p.c it., p .2 1 ;vertam b émS idn eyZ .E h leran dJo hnB .M orrall,
C hurch a n d State Through the C enturies (L o ndon,1 9 45 ),p p.299,3 14.
5
.D oilinge r,o p .c it.,p .2 3 .
6
.E m m et M cL o ug h lin, A n Inquiry into the A ssassination o f Abraham Lincoln
(T heC itad elP ress, 1 9 7 7),p.7 0.
7
. Ib id.,p p.8 0-8 2.
. The C atholic World, ju
8 lh o1 87 0,vo l.x i,p .4 39.
3 2 4 • A Mulher Montada na Besta

9.P eterV ierec k, M eta-P olitics: The R oots o f the N azi M in d (A lfredA .K nop f,
In c.), 19 41 ,ed içãod e1 9 61 ,p p.317-18 ,
1
0.F ran zv o nP ap en, M em oirs, trad.BrianC on nell(L ond on,1 95 2
),p .27 9.
H.G u en terL ew y , The C atholic C hurch a n d N azi G erm any (M cG ra w-Hill, 1
964 ),
pp .1 60 -16 1 .
1
2.Ib id.,p p .1 00 ,1 06. .
1
3.Ib id.,p .1 0 5.
1
4.Ib id.,p p .1 06 -1 0 9
.
1
5.Ib id.,p .1 0 8.
1
6.Ib id.,p .2 1 1.
1
7.V ie reck ,o p .c it.,p.2 82 .
1
8 .Jean -M ich el A ngeb ert, The O ccult and the Third R eich (N ew Y ork,1 974), p.
201.
1
9.WilliamL
.Sirer, The R ise an d Fail o f the Third R eich (N
h ewY
ork
,19
59), p
.
3
3 0 . •

Capítulo 6 - A Cidade Sobre Sete Montes


1. The C atholic Encyclopedia (T ho m asN elso n ,1 9 76),vo cáb u lo'"R o m e".
2.K a rl K eating , C atholicism an d Fundam entalism : The A tta ck on “R om anism ”
by" Bible C hristians" (Ig na tiu sP ress, 1 98 8),p .2 00.
3. C atechism o f the C atholic C hurch (T heW an d ererP ress, 1 9 9 4 ,p ,2 7 9), p ará­
gra fo1 07 5 .
4.S id n ey2 .E hle r,Jo hnB .M o rra
ii, (trad, eed s.) C hurch a n d State Through the
C enturies (L o n do n, 1 95 4 ), p p . 1 53-5 9; H aktuytus Pasthum us (W illia m
S tan sb yfo rH enrieF ethersto ne, L ondo n ,1 62 5)citad oemA vroM an h attan ,
The Vatican B illions (C hin o ,C A,1 983 ),p .9 0.
5. O u r S unday Visitor, 5d ed ezem brod e1 9 93 ,p .3.
6.Jo h nA .H ard o n,S .J., P ocket C atholic D ictionary (Im ag eB oo k s[D o uble da y ],
1 9 85 ,p .9 9.
7. O u r S unday Visitor’s C atholic Encyclopedia (O urS u nd ayV isito rP ublish in g
D iv isio n,1 9 91 ), p.8 4 2
.
8. Ib id .,p p.1 7 5 ,1 7 8.
9.R o b ert B ro d e rick, ed ., The C atholic E ncyclopedia (T ho m as N elson , In c .,
1 9 7 6 ),pp .1 03 -10 4 .
1
0 .Ib id .,p .4 6 6 .
1
1.W illia m S hawK err,A H andbook o f the P apacy (L ond on :M a rsh all, M o rga n&
S c o tt),p .2 4 1.
1
2.J.H ,Ig na zv onD ollin g
er, The Pope and the Council (L o nd on,1 8 6 9),p p.3 0 7 -0 8 .
1
3.N in oL oB ello , The Vatican E m pire (T rid en tP ress, 1 968 ), p.1 6 7 .V ertam b ém
D a v idA .Y a llo p, In G o d 's N am e (B an tamB o oks, 19 84 ); R ic h ardH a m m e rs,
The Vatican C onnection (P en g
u inB o ok s, 1 98 3).
1
4 .Jam esA .C o rid en ,T hom asJ. G reen ,D on aldE ..H eintsch el, ed s., The Code
o f C anon La w (P au listP ress, 1 9 85 ),C ân on1 273 .
1
5 .The European, 9 -1 2d ea b ril, 199 2 ,p.1 .
1
6 .P eterd eR o sa, Vicars o f C hrist: The D ark S ide o f the P apacy (C row nP u b lis­
h ers, 1 98 8),p p .3 9 6 -97.
1
7 .R .W ,T h o m p so n , The P apacy an d the C ivil P ow er (N ew Y ork ,1 8 7 6,p .8 2 ).
Notas • 325

18.D eR osa,o p .c it.,p.1 72 .


19. K e rr,o p.c it.,p p.2 39-2 40.
2
0 .Em e lioM a rtin ez , Recuerdos de Antano (C U E,19 09 ),p p.1 05-106 .
2
1 .D eR o sa,o p .c it.,pp .20 -21.
2
2 .G uen terL e w y , The C atholic C hurch a n d N azi G erm any (M cG raw -H ill, 1
9 64 ),
pp.3 00 -3 0 4 .E ssesm esm o sfatosfo ra m docum en tad osp o rm uito so u tro s
auto reseh isto riad ores.
2
3 .DeR o sa,o p .c it,,p .5 ;L ew y,op.cit.,p,1 11 .
2
4 .Do ilin g e r,o p .c it.,pp .10 -12.
2
5.W a lte rJam es, The C hristian in Politics (O x fordU niv ersityP ress, 1 96 2 ),p.4 7 .
2
6.R .W .S o u th ern , W estern Society an d the Church in the M iddle Ages, voi. 2 ,
PelicanH isto ryo ftheC h urc
hseries(P en gu inB ook s,1 9 70),pp .24 -2 5 .
2
7.C o rm en in , H istory o f the Popes, p .2 43 ,c ita d
oe mR .W .T ho m pso n ,o p
.c it.,
p.3 6 8 .

Capítulo 7 - Fraude e História Forjada


1.Jam esA .C o rid en ,T h om asJ. G reen ,D on aldE .H e intsc h
el, ed s., The Code
o f Canon Law (P a ulist P ress, 1 985 ,C ân o n s14 04
,1 4 0 5e3 33 , see. 3,p p.
9 5 1,2 71.
2.J. H .Ig na zv o nD oilin ger, The P ope an d the C ouncil (L o ndon ,1 86 9),p .3.
3.La Civiita C attolica,1 86 7 ,v ol.xii,p .8 6. .
4.A u stinF la nn e ry ,O .P .,e d itorge ral, Vatican C ouncil II: The C onciliar and P ost
C onciliar D ocum ents (C o stelloP u blishin g,1 9 8
8R ev ise dE d ition),p .3 80.
5. The C atholic World, ag o stod e1 87 1 ,vo l.xiii,pp.580 -8 9 .
6.C o rid en,etal.,o p.c it.,C ân on2 1 2,S eção1 .
7.F la nn ery,o p .c it.,v ol. 1,p .4 12.
8. Ib id.,p p.3 7 9 -3 8 0 .
9. Ib id.,p p.3 65 -3 6 6 .
1
0.K a rl K ea ting , Catholicism an d Fundam entalism : The A tta ck on “R om anism ”
b y “Bible C hristians" (Ig n atiusP ress, 1 9 8 8
),p p
.2 1
5-2 18 .
1
1.D o ilinger,o p .c it.,p .5 9.
1
2.P eterd eR o sa, Vicars o f C hrist:The D ark Side o f the P apacy (C row nP ub lis­
hers, 1 98 8),p p.2 0 5-2 06 .
1
3.Ib id.,p p.2 48 -2 4 9 .
1
4.Ib id.,p .2 5 .
1
5.A ug u stB ern h ardH asler, H ow the Pope Becam e Infallible (D ou bled ay& C o.,
In c., 1 981 ), p .4 8 .
1
6.W .H .C .F ren d , The Rise o f C hristianity {P h iladelp
hia ,1 9 84),p .7 73 .
1
7.H .C hadw ick , The Early C hurch (W m .B .E e rd mans, 1 97 6),p .2 4 3.
1
8.F ren d,op .c it.,p .7 07 .
1
9.D o ilinger,o p .c it.,p .6 2.
2
0.Ib id.,p p.7 6-7 7 .
2
1.R .W .T h o m p so n , The P apacy an d the C ivil P ow er { N e
w York ,1 876 ),p.37 2 .
326 • A Mulher Montada na Besta

Capítulo 8 - Linha Ininterrupta de Sucessão Apostólica?


1.A u stinF la nn e ry ,O .P ., (e ditorg e ra l), Vatican C ouncil II: The C onciliar an d
P ost C onciliar Docum ents (C oste lloP ublishin g,1 98 8R ev isedE dition ),v ol. 1,
p p .3 5 7
,3 7 6.
2. N ew C atholic Encyclopedia (C ath o licU n iversityo fA merica,1 967 ), v oi. 1,p .
63 2,v ocáb u lo“ A n tip o pe s”.
3.S id n eyZ .E h le r, Jo h nB .M orrail, (trad s. eed s.) C hurch an d S tate Through
the C enturies (L o n d o n ,1 9 54 ),p .4 8 .
4.E .R .C h am b e rlin, The B ad Popes (B arnes& N o ble,1 969), p.2 1.
5.Jam esA .C o rid en ,T hom asJ. G reen ,D o naldE .H ein
tsch el, eds., The Code
o f Canon Law (P au listP ress, 1 9 8 5),C an o n3 3 2 ,p .2 70.
6.T .A .T rollo p e, The P apal C onclaves (1 8 7 6)c itad oem P eterd eR o sa, Vicars
o f Christ: The D ark Side o f the P apacy (C row nP u blish
ers, 1 988),p .9 8 .
7.C h a m berlin ,o p .c it.,p .1 72.
8.P eterd eR o sa, Vicars o f C hrist: The D ark Side o f the P apacy (C ro w nP ublis­
h ers, 1 98 8 ),p .1 04 .
9.E d w ardG ib b o n , The Decline an d Fall o f the R om an E m pire (L on do n ,1 83 0),
ca p ítulox lix.
1
0. J. H .Ig na zv o nD o lling er, The Pope a n d the C ouncil (L ond on,1 8 69 ),p .8 1 .

Cap ítu lo9- Hereges Infalíveis?


1.P eterd eR osa, Vicars o f C hrist: The D ark Side o f the P ap acy (C row nP ublis­
h ers, 1 9 8 8),p .2 0 4.
2.Jam esA .C orid en,T h om asJ. G reen ,D o
naldE .H ein tschel, eds., The Code
o f C anon L aw (P au listP ress, 1 985 ),C an o
n1 364 ,p .92 0.
3. J. H . Ign azv onD o llin g
er, The Pope an d the C ouncil (L on don,1 86 9), p
p.x v,
x vii.
4.D .A nton ioG a vin , A M aster-K ey to Popery, 3 äed . (Lo n don,1 77 3), pp.U S -
1 4 .
5.A u g ustB ernh ardH a r, H o w the P ope B ecam e Infallible (D
sle o u
b leda y& C o.,
In c ., 1 98 1),p .3 6 .
6. Ib id .,d ain trod u çãod eH ansK ü ng,p .9 .
7.D eR o sa,o p.c it.,p .1 80.
8. Ib id .,p .2 12.
9. Ib id . .
1
0 .D o lling er,o p.c it.,p .2 75.

Capítulo 10 - Infalibilidade e Tirania


. N ational C atholic News Service, (e
1 d itor), John P aul H, “Building Up the Body
o f Christ, P astoral Visit to the U nited S tates” {Ig natiusP ress, 198 7),p .9.
2
.ib id.
3
. Ib id.
4
.S idn eyZ .E hler, Jo hnB .M o rra
il, (trad s. eed s), C hurch an d S tate Through
the C enturies {L o nd o n
,1 95 4),p.2 7 3 .
. Evangelical C onfederation o f Colum bia, B
5 ulle
tinn 35 0,2 6d eju nh od e1 959.
6
.J.H .Ign a zv onD ollinger, The Pope an d the Council (L ondon,1 869),p p.3
3 7-3
8 .
. C atholic World, ag
7 o stod e1 8 71,p .7 5 5.
Notas ° 32?

0
. P eterd eR o sa, Vicars o f C hrist: The D ark Side o f the P apacy (C row nP ublis­
h ers, 198 8 ),p p .1 7 5-17 6 . "
9
.C o rm en in. H istory o f the Popes, p .2 4 3,c f. citad oe mR .W .Th om pso n, The
P apacy a n d the C ivil P ow er (N e w York ,1 87 6),p .2 4 4 .
10.G erardD ufo u r,La Inquisición E spanola (M on tesino s, 1 9 8
6 ),p.3 2.
11.C o m teL eM a istre , Letters on the Spanish inquisition (B oston,1 815 ), prefá­
c io ,p .x vi.
12
.P ap aP ioIX , The S yllabus o f the P rincipal Errors o f o u r Time..., !!!.1 5.
13.C o rm en in,o p .c it.,p .2 06 .
14
.Ib id .
15
.R .W .T h om p so n , The P apacy a n d the C ivil P ow er (N e w Y ork,1 87 6
),p p.5 1 ­
5 3 ,v ertam bém A p ênd iceB ,p p.7 18-2 0 .
16
.Ib id .,p .5 3.
17
.ib id .,p p .4 3 -5 2 .
13
.C o u n tC harlesA rrib av en e, Italy under Victor E m m anuel (L ondon,1 8 62 ), voi.
II,p .3 6 6, citad oem E m m etM c L oughlin, A n Inquiry into the A ssassination o f
A braham Lincoln (T h eC itad elP ress, 19 7 7
),p .2 05 .
19
.T h o m pso n,o p .c it., oA p ên d iceCtrazn aín teg raotex tod e'T heE n cy clic
a l
L e tte ro fP o p eP iu sIX ",p p.7 21 -2 7,veresp ecialm en teap .7 22.
2
0. The C atholic World, d ezem b rod e1 872 ,v ol.x vi,p .2 90 .
2
1.A rrib a ve ne,o p .c it.,p p.9 3 -94 .
2
2.E m m et M c Lo u g h lin , A n Inquiry into the A ssassination o f Abraham Lincoln
(T h eC itad e lP ress, 1 97 7 ),p .9 4.
2
3.A rrib a ven e,o p .c it.,v oLII,p .3 89 .
2
4.G .S .G o dk in ,Life o f Victor E m m anuel II (L o nd on ,1 8 80 ),p.7 6.
2
5.A u g u stB ern h ardH asler, H ow the P ope B ecam e Infallible (D oubleday& C o.,
In c ., 1 98 1),p .6 4 .
2
6.Ib id .,p p .6 6 -6 7.
2
7.Ib id .,p .7 4 .
2
8.Ib id .,p .2 9 ,eab ap osterio r.
2
9.Ib id .,d ain tro d u çãod eH an sK un g,p.1 4.
3
0.Ib id ,,p p .9 7 -9 8 .
3
1.Ib id .,p p .6 8 -6 9 ,7 8 .
3
2.Ib id .,p .8 0 .
33
.Ib id .,p p .7 1 -7 2 .
3
4.Ib id .,p p .9 3 -9 4 .
3
5.L o ra in eB o ettn er, H om anC atholicism (T heP resb y terianan dR eform edP u ­
b lish in gC o m p a n y ,1 98 2),p .2 46 .
3
6.D o llin g
e r,o p.c it.,7 1 .
3
7.H asler,o p .c it.,p .1 53 .
3
8.D o llin ger,o p.c it.,p p.5 2 -5 5.
3
9.H asler,o p .c it,,p p .1 2 1-1 22.
40
.ib id .,p p .1 2 6 ,1 3 3 .
41
.Ib id .,p .1 89 .
4
2.ib id .,p p .1 3 6,1 4 3 -1 4 4.
3 2 8 • A Mulher Montada na Besta

4
3.Ib id.,p p .1
24-1 2 7 .
4
4.G uillerm oD ellho ra, La fglesia C atólica ante la critica en e l pensam iento y en
e l arte (M ex
ic oC ity,1 929),p .2 4 8.
4
5.F red ericoHo y os, S .V.D., E nciclicas P ontifícias (B
u enosA ire s, 1
958),p.1 79.
4
6.D eR osa,op.c it.,p p.34 ,4 5.
4
7.USA Today, 8 d ed ezem b rod e1 993,p .1 7 A .

Capítulo 1
1 - Sobre Esta Pedra?
1.A u stinF lann ery ,O .P., (e ditorg eral), Vatican C ouncil II: The C onciliar an d
P ost C onciliar D ocum ents (C ostelloP ublish in
g ,198 8,R ev isedE dition )v ol1 ,
p .4 5 4.
2. J. H .Ig n azv onD oiling er, The P ope an d the C ouncil (L o
n do n,186 9),p .74.
3.P eterd eR osa, Vicars o f C hrist: The D ark S ide o f the P apacy (C ro w nP u blis­
h ers, 1 9 8 8),p p .2 4-2 5 .
4.D o ilinge r,o p .c it.,p p .5 3 ,6 6,7 4.
5.C o rm en in , H istory oft h e Popes, p .243, citad oemR .W .T h ompso n , The P a­
p a c y an d the C ivil P ow er (N e w Yo rk,187 6 ),p.2 48.
6.A u g ustB ern hardH asler, H ow the Pope B ecam e Infallible (D oubled ay& C o.,
In c ., 19 8 1),p .8d ain trod uç ão.
7.D o ilinge r,o p .cit, p p .6 5 -66 .
8.D eR o sa,o p.cit, p .2 50 .
9.H .C hadw ick , The E arly C hurch (W m.B.E erdm an
s, 1 9 76),p .245 .
1
0.E u seb iu s, O ration on the Tricennalia o f C onstantine, 5 .4
.
1
1.W ill D ura nt, The S tory o f C ivilization (S im o
nan dS ch uster, 19 50 ), P art III
"C aesar a n d Christ, p .6 56.
1
2.D eR o sa,o p .cit, p .4 3.
1
3.D u rant,o p.c it., P art1 1
1,p .6 5 6
.
1
4.P h ilipH u gh es,A H istory o f the C hurch (L o ndon,19 34 ),vo l. 1,p
.1 98 .

Capítulo 12 — A Mãe Profana


1. USA Today, 8d ed ezem brod e1 993,p .1 7A .
2.J. H . Ignazv onD oilin ger, The Pope a n d the C ou ncil (L ondon,18 69 ), pp.8 9 ­
91 . '
3.P eterd eR osa, Vicars o f C hrist: The D ark Side o f the P apacy (C ro w nP u
b lis­
hers, 1 9 88),p p.3 95 -9 6.
4.R .W .T h o
m pso n , The P apacy an d the C ivil P o w e r (New York,187 6),p .44 3 .
5.D eR o sa,o p.cit.,p p.4 02-0 3.
6.W illD urant, The Story o f C ivilization (Sim o nan dS ch
uster, 19
50 ), vol. VI, p.
18 .
7. Ibid .,v ol.V ,p p
.1 55 -5 6.
8. Ibid ., pp .15 7-58 .
9. Ibid .,p p .15 9-60 .
1
0.Inside the Vatican, a brilde1 9 9
4,p .5 5,so b“ 2 3M ay”
1
1.D eR osa,o p.c it.,p p .4 04-0 5.
1
2.H a rryJ. M argo u lias, B yzantine C hristianity: Em peror, C hurch a n d the W est
(R an dM c
N ally,1 98 2), pp ,10 3-04.
Notas * 3 2 9

1
3.DeR osa,op.c
it.,p .4 05.
1
4.Ibid
.,p.1 1
9.
1
5.Th omp so
n,op.c it.,p.4 43.
1
6.Ibid
.,p.444;vertam bém D eR o sa,o p.c it.,p
.412
.
1
7.FredericSeeboh m , The O xford R eform ers (Lon
don,1
869
), p
p.7
0-7
1,7
4-7
6,
110.
18.D ura n t,o p.c it.,v oi.V ,p .5 7 6.
19.F ran cescoG u ic ciard ini,Storia, I,2 0,c f.citad oe m E .R .C ha mbe rlin, The B ad
P opes (B arn esan dN o ble,1 969),p .1 73 .
20.Inside the Vatican, n ov em b rod e1 993 ,p p.5 5 ,57.
21.E .R .C ham b e rlin , The B ad Popes (B arn esan dN ob le,1 96 9),p.1 9 8.
22.O u r S un da y Visitor, 2 7d efe vereirod e1 99 4,p .5;N ational C atholic Reporter,
7d ejan eirod e1 9 9 4 ,p .9 .
2.N ational C atholic Reporter, 3d
3 esetem brod e1 9
9 3.
24
.P a tric iaN ola nS av as, "M isc on d
u ctb yc lerg
yisn osu rp rise”USA TODAY, 8
d ed ezem b rod e1 9 9 3,p .1 7 A .
2.Tim es (S
5 t. P etersb u rg,F L ),1 1d efe v ereirod e1 99 4,p .3 A .
2.N ation al C atholic R eporter;7d
6 ejan eirod e1 9 94,p .9 .
27
.Ib id .,p .3.
2
8.O ur S unday Visitor, 2 7d efe v
e reirod e1 99 4
,p .5.
2
9.N ational C atholic Reporter, 7d ejan eirod e1 9 94,p .3 .
3
0.Ib id .,1 7d esetem b rod e1 99 3,p.7 .
3
1.Ib id ., 1d eo u tu b rod e1 99 3,p .7 .
3
2.Ib id .,1 7d esetem b rod e1 9 9 3,pp .6-7 .
3
3.W illia m H og a n ,E sq ., P opery A s it Was an d A s It Is (H artford,1 85 4),p .37.
3
4.Inside the Vatican, n ov em b rod e1 99 3, rep ortagem d ecap a, “
A fterth eE nc y­
clic a l:R atzin g er” ,p .4 .
3
5.Times, o p .c it.
3
6.D allas M orning News, o u tub rod e1 993.

Capítulo 13 - Sedutora de Almas


1.A u stinF lanne ry,O .P, (e d ito
rg e ral), Vatican C ouncil II, The C onciliar an d
P ost C onciliar D ocum ents (C o ste lloP ublishing ,19 8
8R ev isedE dition),v ol. 1
,
p .7 1.
2
. Ib id.,p p.3 5,1 93 .
.Fidelity, d
3 ezem brod e1 9 93 ,p .2 .
. O u r S unday Visitor, 5d
4 ed ezem b rod e1 9 93,p .3 .
5
.J. H .Ig na zv onD ollingc r, The Pope an d the C ouncil (L ond on,186 9 ),pp .2 38­
3 9 .
6
. Ib id.,p p.2 41-4 2.
. C atholic Encyclopedia, ed
7 ição1 90 7-23.
8
.P ad re P ioF o un da tiono fA m e ric a(2 4P ro spect Hill R oa d
,C ro m well, C T
0 6 41 6 ), 1 993O calen d áriod em ed itaçõ esp u blicad
op oressafu n daçãotraz
n om êsd ea bril um afo tod op ad rec om asm ão slevan tad asm ostran d oseu
estig m ac om aleg en da: " A sch ag asd ac rucificação.P ad reP iosan groud ia­
riam en tep or5 0an o s".
3 3 0 * A Mulher Montada na Besta

9.N e w sle tte r,T heP ad reP ioF o u nd ationo tA m e


ricaan dth eM assA ssocia tion
(H o lyA p o stles S e m ina ry,C rom w ell, C T0 64
1 6), ag ostoo usetem brod e
1 9 8 8 .
1
0.F la n n e ry ,o p.c it.,v o l. 1,p .6 5 .
1
1.E .R .C h a m b erlin ,T h eB ad P opes (B arn esan dN ob le,1 96 9),p .1 2.
1
2.The Pope Speaks, m arç o/a brild e1 9 90 ,v ol.35,n ö.2 ,"Icon sS p eako fC h ris­
tia nH isto ry ",p p .1 3 0 -1 31 .
1
3.C h arlesC o lso n , The Body, B eing L ig h t in D arkness (W ordP ublish ing,1 9 9 2),
p .2 7 1.
14
.F la n ne ry ,o p .c it.,v o l.1 ,p p .6 2-79 .
15
.Ib id .,p .7 7 .
16.inside The Vatican, a brild e1 9 94 ,p .5 5 ,so b"19M a y"?
17.C h a m b e rlin ,o p .c it.,p .6 9.
18.D o llin g e r,o p.c it.,p p .2 5 0-2 5 1 .
19.S id n e yZ ,E hle r, Jo h nB .M o rrall, (trad s. eed s.), C hurch and S tate Through
the C enturies (L o n d o n,1 9 54 ),p p.1 22-1 2 4
.
20.D o llin g e r,o p.c it.,p p .2 58 -2 59 ,
21.R a y na ld ,Annal. an n o1 4 3 8,5 .
22.D o llin g er,o p.c it.,p .2 7 5.
23.Ib id .,p .2 69 .
24.Ib id .,p .2 78 .
25.Ib id .,p .2 84 .
26.Ib id .,p .2 8 0.
27.C h a m b e rlin ,o p .c it.,p .6 9 .
28.W illD u ra n t, The Story o f C ivilization (S im onan dS ch uster, 1 950 ), vol. V I, p.
9 2 0 .
29.D o llin g e r,o p .c it.,p .2 9 8.
30.P salm aei, C oll.Actor., inL eP lat, vii. ii. 92,citadoemD ollin
g er, op .c it., p p,
2 9 9 -3 0 0 .
31 .D o llin g e r,o p .c it.,p p .2 9 8 -99 .
32 .Storia de l Cone, di Trento, v4 25(e d .M ila
n o,18 44).
33 .D u ra n t,o p .c it.,v o l.V I,p .4 5 3.
34 .Ib id .,p p .4 5 3-5 7 .
35 .N ational C atholic Reporter, 2 7d eag ostod e19 93.
36 .R etira d od eu m atran scriçãod op ro gram a"P rim eT im eL ive
"(red eA B C ), 6
d ejan eirod e1 9 94 . *

Capítulo 14 - Uma Metamorfose Incrível


1
.A u g ustin e ,de cat. rud., X X V,4 8 .
2
.T e rtu llian ,Apology, 4 0.2.
3
.T e rtu llian , To the Nations, 1 .4.
. Epistle o f Diognetus, V
4 .4-1 1.
5
.C le m en t, M iscellanies, 11 .2 0.1 2 5.
6
.W illia m By ronF o rbush ,ed ., F o xe’s B ook o f M artyrs (Z
ond
erv
an,1
962
),p
.14
.
7
. Ibid .,p .1 7 .
Notas * 3 3 1

8
.P h ilipH u g hes,A H istory o f the C hurch (L o n don,1 93 4),v ol. 1 ,p .1 6 5
.
9
.H .C ha dw ick, The E arly C hurch (W m.B .E erdm an s, 19 67),p .1 18 .
10.H u gh es.,o p.c it.,p .1 72 .
11.W illD ura n t, The S tory o f C ivilization (S im o nan dS ch uster, 1 9 50 ), vol. IV ,p .
7 5 ;v o l.M l,p .6 57 .
12.P eter B ro w n , A ugustine o f H ippo (U niv ersityo fC alifo rniaP ress, 1 9 67 ), p .
2 1 3 .
13
.P eterd eR osa, Vicars o f C hrist: The D ark Side o f the P apacy (C ro w nP ub lis­
h ers, 1 98 8 ),p p .3 4 -3 5 .
14
.A u g ustB ern h ardH asler, H ow the P ope B ecam e Infallible (D ou ble day& C o.,
In c ., 1 9 8 1 ),p .3 5.
15
.J. H . Ig n a zv o nD o llin ger, The Pope a n d the C ouncil {L o n d on ,1 8 6 9), pp .1 4 ­
1 5 .
16
.A u stinF la nn ery ,O .P , (e dito
rg eral), Vatican C ouncil II, The C onciliar and
P o st C on ciliar D ocum ents (C ostelloP ublish ing,1 988 ,R ev isedE d ition)v ol. 1,
p.8 0 0.
17
.D o llin g e
r,o p.c it.,p p .
18
.D eR o sa,o p.c it.,p .9 8.
1
9.D o llin g er,o p.c it.,p p .2 45 -24 6
.
2
0.Ib id .,p .1 8 4.
2
1.Ib id .,p .1 8 7.
2
2.Ib id .,p .1 8 4.
2
3.Jam esA .C o rid en,T h om asJ. G reen ,D o na ldE .H ein tsc he l, (ed s.) The Code
o f C anon Law (P au listP ress, 19 85 ),Cân o n1 404.
2
4.F la n nery ,o p.c it.,v o l. 1,p .3 80.
2
5.Ib id .

Capftulo 15 - Alianças Profanas


1.G u iilen n
oD e ilho ra, La Iglesia C atolica ante la chtica en e l pensam iento y en
el arte (M exic oC ity,1 9 2 9 ),p .2 4 8 .
2.M au riceK een , The P elican H istory o f M edieval E urope (P elican,1 969), p
p .
14 -1 5 .
3.C olm a nJ. B a rry,O .S.B ., (ed .), R eadings in C hurch History, v ol. 1,From Pen­
tecost to the P rotestant Re volt (T heN ewm anP ress, I960 ), p.2 23.
4.E useb ius, O ration on the Tricennalia o C onstantine, 2 .4
,3 .5-6.
5. N ational C atholic Reporter, 2 2d eo utu b
rod e1 993,p .3.
6. Tim e,2 6d eju lho2 6d e1 98 2 ,p .3 5 .
7. N ew York Times, 4d eju n hod e1 985 .
8.A u g ustB ern h ardH asler, H ow the P ope B ecam e Infallible (D o ubleday& Co.,
Inc .),1 981,p .2 5 7 ,
9. Ibid .,p .256 .
1
0.Jo h nT oland ,A d o lf H itle r (B allan tineB ooks, 1
9 77),pp .43 1 -32 .
1
1.Ib id .,p .623 .
1
2.Ib id .,p .724 .
1
3.Time, 2 4d efev ereirod e1 99 2 ,p p .2 8-35.
1
4.World, 6d em arçod e1 9 9 2.
332 • A Mulher Montada na Besta

1
5.C olum bia, junh od e1 990,p .8 .
1
6.C hristi Fideies (brochura), "H ow C anC atho
licsR e cla im Am erica ?", an úncio
deu m aco nferênciarealizad aem 17d eo utu
b rode1 9 93.
1
7.A ustinF lannery,O .P,e ditorg eral, Vatican C ouncil It The C on ciliar an d P ost
C onciliar D ocum ents (Co stelloPu blish
in g,19 88,R ev isedE dition ), vol. 1,p p.
36 4-65 .

Capítulo 16 - Domínio Sobre Reis


1.C o rm en in , H istory o f the Popes,p .2 43, citadoem R .W .Th o m pso n, The P a­
p a cy a n d the C ivil P ow er (N ew Y o rk,1 87 6),p .36 9.
2.J.H .Ig n azv o nD o lling er, The P ope a n d the C ouncil (L ondon ,1 86 9),p .3 5.
3. Ib id .,p .3 3 9.
4.C itad oemR .W .T h o m p so n , The P apacy a n d the C ivil P ow er (N e
wY o rk ,
1 8 7 6 ),p p .4 1 4 -1 5 .
5.R e v .P eterG eierm an n,C .S S.R ., The C onvert’s C atechism o f C atholic D oc­
trine (T a nB o o k san dP u blish ers, In c., 19 77), Im prim a
turJo sep hE .R itte r,
S .T .D .,arceb isp od eS ain tL ou is,p .2 4.
6.W a lte rJam es, The C hristian in P olitics (O xfordU niversityP ress, 1 96 2),p .4 7 .
7.D o llin g e r,o p .c it.,p p .2 1 4 -1 8.
8.F reem an , The N orm an C onquest, p .3 20 ,citadoem R .W .T ho m p son ,o p .c it.,
p .4 4 1 .
9.T h o m p so n ,o p .c it.,p p.4 1 0,5 5 7 .
1
0.Ib id ., p .4 6 6.
1
1.D o llin ge r,o p .c it.,p p .8 7 -8 9 .
1
2.P eterd eR o sa, Vicars o f C hrist: The D ark Side o f the P apacy (C row nP u b lis­
h ers, 1 9 8 8 ),p .2 5 3 .
1
3.Ib id .,p .7 3 .
1
4.C o rm en in ,o p .c it.,p .4 59 .
15.H a lla m , The M iddle Ages, p .2 8 7 ,citad oe m T hom p so n,o p.c it.,p .5 59 .
16.S id n eyZ .E h le r, Jo h nB .M orra ll, (trads. eed s.), C hurch an d State Through
the C enturies (L o n d on ,1 9 5 4),p .5 0.
17.Ib id .,p .5 2 .
18.Ib id .,p p .7 3 -7 6 ,p araleru m acó p iadessed ocum en to .
19.T h o m p so n ,o p .c it.,p .5 59 .
20.E h le ran dM o rra ll,o p.c it.,p .5 1 .
21.Ib id .,p .5 3 .
22.N ation al C atholic Reporter, 3d eju lh od e1 992.
23.A v roM an h attan , M urder in the Vatican (O zarkB oo ks, 1985 ), p p.5 -7 .
24.C o rm e n in ,o p .c it.,p .2 7 5 .
25 .C oI m anJ. B a rry ,O .S.B ., (e d.), R eadings in C hurch H istory,v ol. 1, From P en­
tecost to the P rotestant R evolt (T h eN ew m anP ress, I9 60), p p .4 70 -71 .
26 .D eR o sa,o p .c it.,p p.9 9-1 0 0.
27 .D .A n to n ioG a v in ,A M aster K e y to P opeiy: In Five Parts, 3 ?ed . (Lo n do n,E n­
g lan d,1 7 7 3),p .1 5 4.
28 .Ib id .,p p .1 5 7 -5 8 .
Notas • 333

2
9.Em met M c Lou gh lin, A n Inquiry into the Assassination o f Abraham Lincoln
(TheC itad
e lP ress, 1 97 7 ),p .70
.
3
0.DeR o sa,o p .c it.,p p .26 -2 7.
3
1.NinoL oB ello, The Vatican E m pire (T ride
ntPress, 1
9 68),p .1 86eab a.
3
2.Natio
n a lCa tho licR epo rte r,2 2deou tubrode1 993,p.1 1.
3
3.LoB ello ,o
p .c it.,p .1 86 .

Capitulo 17 - Sangue dos Mártires


1 .JeanA n to ineL lo re n te , H istory o f the Inquisition, c itad oe m R .W .T hom p so n ,
The P ap acy a n d the C ivil P ow er (H ew Y ork,18 76),p .8 2.
2.C o m teL eM a istre , Letters on the S panish Inquisition (B oston,1 8 4 3),p .2 2c i­
tad oe m R .W .T h o m p so n , The P apacy a n d the C ivil P ow er (N ew Yo rk,1 87 6 ),
p p .8 2-8 3 . ■
3.P eterd eR osa, Vicars o f Christ: The D ark Side o f the P apacy (C ro w nP u b lis­
h ers, 1 9 8 8 ),p .1 8 0.
4. Ib id .,p .3 5 ,eab a.
5.W illD u ra n t, The S tory o f Civilization (S im onan dS ch u ster, 1 95 0 ), vol. IV ,p .
7 8 4 .
6.D eR o sa,o p .c it.,p .1 7 9.
7.J.H .Ig n azv o nD o lling er, The Pope an d the C ouncil (L o nd o
n ,1 8 69),p .1 95 .
8.D u ra n t,o p .c it.,v ol.(V ,p p .7 7 3-7 4.
9.L eM a istre ,o p .c it.,p .3 9 ,c f.citad oe m R .W.T h
o m pso n , The P apacy an d the
C ivil P ow er (N e w Y o rk ,1 87 6 ),p .8 3 .
1
0 .Ib id .
11.D eR o sa,o p .c it.,p .1 7 5. .
1
2 .D o lling er,o p .c it.,p p .1 90 -1 9 3 .
1
3 .S am uelV ila, H istoria de la Inquisicion y la Reform a en Espana (C LIE ,1 9 7 7 ),
p .4 8 .
1
4 .D o llin g e r,o p .c it.,p .1 9 3.
1
5 .D u ra n t,o p .c it.,v ol.V ,p .5 2 7.
1
6 .Ib id .,v o l.IV ,p .6 8 0 .
17.S ãoT o m asd eA q uin o ,Sum m a Theologica (L o uisG u érin,B a rri-D ucis,1 8 5 7 ),
v o l.4 ,p .9 0.
18. C o rm e nin ,o p .c it., p p.1 1 6 -17 ,c itadoe mR .W .T ho m p son, The P apacy and
the C ivil P ow er (N e w Y ork ,1 8 76 ),p .553 .
19.D .A nto n ioG a v in ,A M aster K ey to Popery: In Five Parts, 3~. e d. (L o ndo n ,E n ­
g la n d ,1 7 7 3),p .2 5 3 .
2
0 .The Tablet, 5d en o ve m b rod e1 9 38 .
2
1 .R e v . Jo h nF o x e ,M .A ., B ook o f M artyrs; or, a H istory o f the Lives, Sufferings
an d Trium phant Deaths, o f the Prim itive as well as P rotestant M artyrs;from
the C om m encem ent o f C hristianity to the Latest Periods o f Pagan a n d Popish
Persecution (E d w inH un t, 1 8 33), transcritod ain tro d uç ãoàed içãod e1 8 33
ed ., p . iv ,b asead on aed içãod e1 82
4 , (c
o rnim p o rtan tesacréscim osfe ito s
p e loR e v .C h arlesA .G oo d ric h).
2
2 .D eR o sa,o p.c it.,p .2 0 .
2
3 .D o lling e r,o p .c it.,p p .3 13 -1 5 .
2
4 .D eR o sa,o p.c it.,p p .1 82 -8 3 .
3 3 4 * A Mulher Montada na Besta

25.D u ra n t,o p.c it.,v o l.V I,p .2 1 1 .


26. G erardD ufo u r,La Inquisition Espanola (M o n te sin os, 1 986),p .3 2.
27.D u ra nt,o p .c it.,v o l.V I,p p .4 1 0-1 5 .
28.D eR o sa,o p .c it.,p .1 75.
29.E m m e tM cL o u gh lin , An Inquiry into the A ssassination o f A braham Lincoln
(T h eC itad elP ress, 1 97 7 ),p p .2 7 -2 8.
30.G av in ,o p.c it.,p .2 12 .
31.S id n e yZ .E h le r,Jo h nB .M orra ll,(tad seed s.), C hurch a n d S tate Through the
C en tu ries(L o n do n ,1 954 ),p .7 .
32.De Planet. Eccl. ii.2 8 ,c itad oem D o lling er,o p .c it.,p .1 8 5.
33.E .H .B roa d b e n t, The Pilgrim C hurch (L o nd on ,1 9 31 ),p p .8 8-89 .
34.D u ra n t,o p .c it.,v o l. IV,p .7 7 2 .
35.D uP in , The inquisition, v ol. ii, p p .1 51 -54 ,c itad oemR .W .T hom pso n, The
P apacy and the C ivil Pow er (N ew Y o rk,1 87 6),p .4 18 .
36.R .W .T ho m p so n , The P apacy a n d the C ivil P ow er (N ew Yo rk,1 87 6), p.41 8;
V e rtam bé m D eR o sa,o p .c it.,p .7 3 .
37.B ro a d b en t,o p .c it.,p p.8 8-8 9 .
38.J.H .M erleD ’A u big n e, H istory o f the G reat R eform ation o f the Sixteenth C en­
tury in Germ any, Switzerland, a n d c .(N ew Y o rk ,1 8 43 ),v oi. 11,p .3 98 .
39. M u sto n, H istory o f the W aldenses, v ol.i.,p .3 1,citad oe m Th om pso n,op .cit.,
p .4 8 9 ;V ertam b ém Bro a db en t,o p .cit,p p .1 0 0 -0 1 .
40 .P lass, W hat Luther Says, v o l. 1 ,p .3 6 .
4
1 .The Com plete W ritings o f M enno S im ons c .1 4 96 -1 5 61(H eraldP ress, 1 956),
p .7 . (tra d uz id od oh olan dêsp orL eo nardV e rd u ineed itadop orIC .W enger,
c o m ab io gra fiaescritap o rH aro ldS .B en d er).
4
2 .Ib id .,p .1 6 .
4
3 .T h ie le m a nJ. v anB ragh t, The B loody Theater o r M artyrs M irror o f the D efen­
seless C hristians Who B aptized O nly Upon C onfession o f Faith, a n d W ho
S uffered and D ied fo r the Testim ony o f Jesus, Their Saviour, From the Tim e
of C hrist to the Year A.D. 1660 (H e raldP ress, ed içãod e1 9 5
0 ,o riginalm ente
p u b lic a doe m 16 6 0 ),p .9 84 .
44.Ib id .,p p.9 8 4 -9 8 5 .
45.Tim e,6d ed ezem brod e1 9 9 3,p .5 8 .
46.N ational Catholic Reporter, 1 0d ed ezem b rod e1 9 9 3,p .5.
47.Ib id ., 1 9d eju n h od e1 9 9 3.
48.O u rS u nd ayV isito r,2 3d ejan eirod e1 9 94 ,p .5 .
49.Inside the Vatican, n o ve m b rod e1 9 9 3,p .3 5. .

Capítulo 1
8- Pano de Fundo Para o Holocausto
1
.“ Z um 20A pril”p o ., Klerusblatt, 1
rJ. S 2d eab rilde1 9 39,p p
.2 21-22.
2
.K atolic
kiT jed nik,25d em aiod e1 94 1.
3
.P eterd eR osa, Vicars o f C hrist: The D ark Side o f the P apacy (Cro
w nP ublis­
h ers, 1988),p .3 4.
4
.G .T .B ettany , A Popular H istory o f the R eform ation an d M odern P rotestan­
tism (L ondon ,1 8 95),p
.4 .
Notas • 335

5.R a b biY oe lS ch w artzeR ab


b iY itz
c h
a kG o ldstein ,S h oah ,A Jew ish p e rspe cti­
ve on tragedy in the con te xt o f the H olocaust (M e sorahP u b
lica tions, L td.,
1 9 9 0 ),p p.1 5 9 -1 61 .
6. Ib id .,p p.1 6 3 -1 6 5.
7.W illD u ran t, The S tory o f C ivilization (S im onan dS ch uster, 1950 ), vol. IV,p .
38 8 .
8. Ib id .,R eform ation, p .7 2 9.
9. La Civilta, v o l.iii,p .1 1 ,18 62.
10.D eR o sa, o p .c it.,p .15 8 .
11.G erardD ufo u r,La fnquisicion Espanola (M onte sin o
s, 1 986 ),pp.1 6-1 7.
12.D eR osa,o p .c it.,p p.1 9 4-95,
13.A u g ustB ern h ardH asler, H ow the P ope B ecam e Infallible (D o ubled a
y& C o.,
In c.,1 9 81),p .2 93.
14.O range C ounty Register, 2 6d em aiod e1 994 , rep ortagem decap a;v ertam ­
b émThe Jerusalem Post, 2 6d em aiod e1 994 .
15.The Jerusalem Post, 2 7d em a iod e1 9 94 .
16.G u en terL e w y , The C atholic C hurch a n d N azi G erm any (M cG raw -H ill, 1 964 ),
p .2 73 .
17.Ju lesIsaac,Jesus e t Israel (P aris, 194 8 ),p .5 08 .
18
.L e w y,o p.c it.,p .1 6 .
19
.Ib id .,p p .2 5 ,3 0 -3 1 ,3 8-4 0.
20
.H .R au sch n in g , The Voice o f D estruction (N ew Y o rk,1 940 ),p.53 .
21
.L e w y,o p.c it.,p p .4 5 -46 .
22
.Ib id .,p ,5 5 .
2
3.G .S .G räber, The H istory o f the S S (M e w Y ork1 9 78),p .11 .
2
4.Ib id .,p .1 2 .
2
5.Ib id .,p p .7 6 ,2 05 .
2
6.Ib id .
2
7.Los A ngeles Tim es,1 7d ea brild e1 9
9 3 ,p .A 10 .
2
8.C ita dop o rH an sA sk en asy ,A re W e A ll N azis? (S ecau cus,N J, 1
9 78 ),p .2 5
.
2
9.L e w y,o p.c it.,p .274 .
3
0.Ib id .

Apêndice A: O Purgatório
1
.A u stinF lan nery ,O .P ., (ed itorg eral), “
A p
o sto
licC o n
stitutio
no ntheR evision
ofIn du lg en ces", Vatican C ouncil If: The C onciliar a n d P ost C onciliar D ocu­
ments, ed .rev ,(C ostelloP u blish ing ,1 988
),v ol. 1
,p.6 3.
2. The C anons a n d D ecrees o f the C ou ncil o f Trent, trad .eed .porH.J. S ch roe-
der,O .P . (T anB ooks, 1 9 78 ),S ex taS eção,C an on3 0,p .4 6
.
3.F la n ne ry ,o p .cit.,voi.2 ,p .3 9 4.
4. Ibid .,p p .6 3 -64.
5. Ibid .,p .2 05.
6.J. H . Ig n azv o nD olling er, The P ope an d the C ouncil (L ond
res, 18 69), pp.
18 6 -18 7 .
7.K a rl K ea ting , C atholicism an d Fundam entalism : The A tta ck on "R om anism "
b y "Bible C hristians" (Ig na tiusP ress, 1 988),p.1 90. ,
3 3 6 • A Mulher Montada na Besta

8
. F la
n n
ery,op.cit.,vo
l. 1
, "A p
osto
licC
onstitu
tio
nonth
eRe
visio
nofIn
dulg
en­
ces", 1
15., 1
116
,p p.65,68 .

Apêndice B: As Indulgências
1.Jam esA .C orid en ,T h om asJ. G reen ,D ona ldE .H ein tsch ei, ed s., The C ode
o f C anon L a w (P au listP ress, 1 9 85 ),C ân ones9 9 2-994 ,p p .69 8 -6 9 9 .
2.A u stinF lan n ery ,O .P ., (ed itorg eral), "A postolicC o
n stitutio no nth eR evision
ofIn d ulg en ces", Vatican C ouncil II: The C on ciliar a n d P ost C onciliar D ocu­
m ents, ed .re v .(C oste lloP u blish ing ,1 988),v ol. 1,pp .6 6-7 0.
3. Ib id .,p .7 2.
4.J. H . Ig n azv onD o llin ge r, The P ope a n d the C ouncil (L on dres, 1 869), pp .
1 8 6 -1 87.
5.E a rleE .C airn es, C hristianity Through the C enturies: A H istory o f the C hris­
tian C hurch (Z o n derv anP u blish in gH ouse, 1 981 ),p.2 8 2 .
6."A b ou tth eB row nS cap u lar", fo lh etopu blicad op orT heB lueA rm yo fO u r
L a d yo fF atim a,W ash in gto n,N J,0 7 882.
7.S ãoA lfo nsod eL ig o rio , The G lories o f M ary (R ed em p toristF ath ers, 1 93 1),p .
2 3 5 .
8. "A b ou tth eB ro w nS cap ular",o p .c it.
9.F la n n ery ,o p .c it.,v ol.1 ,p p .7 7 -7 8.
1
0 .C o rid en,etal.,o p .c it.,p .6 4 6.
1
1 .W illD u ran t, The S tory o f C ivilization (S imo nan dS ch u ster, 1 95 0 ), v o
l.V I, p.
2 4 .
1
2 .D .A nto nioG av in , A M aster-key to P opery: In Five Parts, 3 aed . (Lon dres,
1 7 7 3 ),p .1 4 1.
1
3 .P eterK ree ft, F undam entals o f the F aith: Essays in C hristian A pologetics (Ig ­
n atiu sP ress,1 9 88 ),p .2 7 8.
1
4 .C h arlesC o lso n , The Body, B eing Light in D arkness (W o rldP ub lish in g
,1 9 92),
p .2 7 1.
15.F la n n ery ,o p .c it.,v o l. 1 ,p p .7 1 ,7 4 .

Apêndice C
:Domínio Sobre Reis: Mais Documentação
1.S id n e yZ .E hleran dJo h nB .M orrall,(trad,eed s.), C hurch and State Through
the C enturies (L o n dres, 1 95 4),p .7 0.
2. Ib id .,p p .7 3 -75 .
3. Ib id .,p p .2 7 3-2 7 5 .
4.J.H .Ig n azv onD olling e r, The P ope an d the C ouncil (L ond res,1 86
9 ), p
.339.
5.E h le ryM orra ll, o p,c it., pp .1 73 -1 80p araum acó piad aB ula
;v ertam b
ém
D o llin g e r,op .c it.,p p .3 1 1-3 12.
6. O u r S unday Visitor, 2 2d eag ostod e1 99 3,pp
.1 0-11 .
7.E m m ett M c La u g hlin , A n Inquiry Into the A ssassination o f A braham Lincoln
(T h eC ita delP ress, 1 9 7 7),p .4 5.
8.C itad oenH ow the Pope Becam e Infallible, d eA ug ustB ern hardH asler,(Dou­
b led ay& Co . In c ., 19 8 1 ),p .24 5.
9.G .S .G o dkin, Life o f V ictor E m m anuel H (L o
nd res, 18 80),p p.7 6-7
7 .
1
0.D o lling e r,o p.c it.,p p.2 3 6-2 37.
1
1.The E ncyclopedia Britannica (ed içãod e1 91
0), p.5 7 9.
Notas * 337

Apêndice D: A Infalibilidade Papal e a Sucessão Apostólica


1
.B ria nT ie rne y , O rigins o f P apai Infallibility, 1150-1350: A S tudy on the C on­
cepts o f Infallibility, Sovereignty an d Tradition in the M iddle Ages (L eiden,H o­
lan da, 19 72 ),p .1 44 .
2
.J. H .Ign azv o nD oiling
er, The Pope a n d the C ouncil (L o nd re
s, 186 9),p.5 8.
3
.L a rsQ u alb en ,H istory o f the Christian Church.
4
.S id n e
y2 .E h leran dJo h nB .M o rra
ll, (trad u to
resered atores), C hurch an d
S tate Through the C enturies (L o nd res, 1 95 4),pp.7-9
.
5
. Ib id.,pp.9 -1 0 .
6
.P eterd eR o sa, Vicars o f Christ: The D ark Side o f the Papacy (C row nP u blis­
hers, 1 9 8 8),p p.9 3-9 4
.
7
.D o ilinger,o p .c it.,p .2 44.
8
. Ib id.,pp.2 4 4 -24 5.
DAVF. HUNT
A iR tyt CHOtc* Kervnt
* í n U « im « IV »

A
Mulher

"Besta
Montada

U an|w dtvvrr
'...W r> {r> d o B it\itriú
rL* rn U M + í m A m I m U .,,'
íApo<*ll^ít 17.71 Votunw 2
A
/r\ V

©mÿë) CaiÖgSCgS
öß f
ttOOl s8 ® iö M ö a

CÖSii.lECLÖiXsö■© (Sa
AXcAlBpgm ílV J II
indice - Vol» I
In tro d u ção :U m aT en tativaP araD erru b araR efo rm a..............................7
1.A M u lh erM o n ta d an aB esta.................................................................1 5
2.R azãoP araC rer.................................................................................2 1
3.U m aC on sp iraçãod aP áscoa?.............................................................3 1
4.U m aR ev elaçãoP ro g ressiv a................................................................41
5.M isté rio :B ab ilô n ia..............................................................................5 5
6.A C id ad eS o b reS eteM o n tes...............................................................7 1
7.F rau d eeH istó riaF o rjad a....................................................................9 1
8.L in h aIn in te rru p tad eS ucessãoA p o stó lica?........................................1 03
9.H ereg esIn falív eis?............................................................................1 1
3
1
0. Infalib ilid ad eeT iran ia........................................................................1 25
1
1.S o b reE staP edra?............................................................................1 4
9
1
2.A M ãeP ro fan a..................................................................................1 6
5
1
3.S ed u to rad eA lm as............................................................................1 8
1
1
4.U m aM eta m o rfo seIn críve l..................................................................201
1
5.A lian ç a sP ro fan as.............................................................................2 17
1
6.D o m ín ioS o b reR eis...........................................................................2 31
1
7.S an g u ed o sM ártires..........................................................................2 4
7
1
8.P an od eF u n d oP araoH o lo cau sto ......................................................2 6
9
A p ên d iceA :O P u rg ató rio ...................................................................2 8
3
A p ên d iceB :A sIn d u lg ên cias..............................................................2 9
5
A p ên d iceC :D o m ín ioS o b reR e is:M aisD o cu m en tação ........................3 05
A p ên d iceD :A In fa lib ilidad eP ap a leaS u cessãoA po stó lica ....................3 13
G lo ssário ..........................................................................................3 1
9
N otas..............................................................................................3 2
3
© m m
% coÜ â7^^0 ©
cite ö n a lfe j © cite

Caixa Postai 1688


9D001 970 • Porto Alegre/RS * BRASIL
Föne: {51 ) 3241.5050 * Fox: (51132427385
www.thGmoda.iom.bf
Traduzidod oo rigin
aiem ing
lês:
A W om an R ides the B east
Co p
y right© 199 4byD av
eH u
n t
P
ublicadop
orH arve st H ouse P ublishers
Eu
gen e,OR9740 2(E U A )
T
rad ução:M a ryS chu ltze
Jarb asA rag ão
Revisão:M artaF rie
d !B arcelo s,S érg
ioH o m e n
i,
Trau diF edero lf, Rein holdF e
dero lf,
loneH aak e,C éliaK orz
a nowski, IsraelaF
ede
rolf
E
d ição:ingoH aak e
CapaeL ayou t:E merso nH offm a
n n
T
odo
sosd
ireito
sreserv
ado
sparao
spaísesd
elín
guap
ortu
guesa
C
opy
rig
ht©2
006d
eAc
tua
lEd
içõ
es
R,Erechim,97
8- B.N
o n
oai
9
0 8
3 0-0
0 0- P
O R
TO ALEGR E- R
S/Brasil
Fone:(51)324
1-5
050- F
AX :(5
1)324
9 -738 5
w
ww.ch
amad
a.co
m .b
r- p
edid
os@
ch
amad
a.co
m .b
r
C
omp
ostoeim
pressoemo
ficin
asp
róp
rias
C
ATA
LOG
AÇÃ
O N
AFO
NTED
O D
EPA
RTA
MEN
TONA
CIO
NALD
O L
IVR
O

H939m .

Hunt, Dave 1926-


A mulher montada na besta: a Igreja Católica Romana e os
últimos dias. vol. II / Dave Hunt; tradução: Mary Schultze, Jarbas
Aragão. — Porto Alegre: Actual, 2006.
344 p. ; 15x22cm.
ISBN 8 5 -8 7 2 7 8 -1 9 -3
Tradução de: A woman rides the beast: the Catholic Church and
the last days.
1. Igreja Católica - Literatura polêmica, 2. Bíblia —■Profecias. 3.
Apocalipse - Crítica, interpretação, etc, 4. Fim do mundo. I. Título.

CDD: 230.2
19. O Vaticano, os Nazistas e osJudeus........................................... 7
20. O Massacre dos Sérvios........................... 25
21. As Rotas de Fuga do Vaticano................................................... 37
22. Só a Escritura?............................................................................... 57
23. Uma Questão de Salvação.......................................................... 75
24. O “Sacrifício” da M issa................................................................. 97
25. A Reforma Traída..........................................................................119
26. Apostasia e Ecumenismo...........................................................143
27. Qual o Papei de Maria?.............................................................. 165
28. A Futura Nova Ordem Mundial................................................. 183

Apêndice E Papas Fiereges, a Bíblia e Galileu .. 205


Apêndice F E Quanto à Tradição?.........................209
Apêndice G João Paulo II Pede “Perdão” ............217
Apêndice H A Visita de João Paulo II a Israel.... 225
Apêndice I. Declaração Conjunta de
Luteranos e Católicos ....................... 235
Apêndice J Pio XII, os Nazistas e os Judeus.....247
Apêndice K. A Morte de um Papa........................... 257
N otas......... .................................................................. 265
Antes de tudo, tenho aprendido com os jesuítas. E Lenin tam­
bém fez o mesmo, até onde me recordo. O mundo jamais conheceu
coisa assim tão esplêndida como a estrutura hierárquica da Igreja
Católica. Há realmente algumas coisas dos jesuítas das quais eu
simplesmente me apropriei para o nosso Partido.
- Adolf Hitler[l]

Soldados que regressavam do front oriental contaram histórias


horríveis, de como os civis judeus na Rússia ocupada - homens,
mulheres e crianças - estavam sendo enfileirados e fuzilados aos
milhares.
...Na primavera de 1942, os folhetos da “Rosa Branca”, compos­
ta por um grupo de estudantes e um professor de filosofia da Uni­
versidade de Munique, informavam sobre o assassinato de 300.000
judeus na Polônia, indagando por que o povo alemão [do qual 43%
eram católicos] permanecia tão apático em face desses crimes re­
voltantes. [2]
O Vaticano, o s
Nazistas e os
Judeus
A intenção de Hitler exterminar os judeus jã era conhecida pelo
Vaticano antes da Concordata ser assinada. Contudo, o Holocausto
nunca se tornou um fator crítico nas subseqüentes negociações da
Igreja com o Führer. No dia Io de abril de 1933, cerca de quatro
meses antes do Vaticano assinar a Concordata com ele, Hitler ini­
ciou seu programa sistemático com um boicote contra os judeus.
Ele o justificou com estas palavras: “Creio que ajo agora conforme
o propósito do Criador Todo-Poderoso. Ao combater os judeus, eu
travo uma batalha pelo Senhor”. Quando o embaixador italiano, fa­
lando em nome de Mussolini, solicitou que Hitler reconsiderasse a
sua atitude dura contra os judeus, Hitler predisse “com absoluta
convicção” que dentro de 500 ou 600 anos o nome de Hitler seria
honrado em todos os países “como o homem que de uma vez por
todas exterminou a peste judaica do mundo”.[3]
Hitler tinha o apoio de muitos psiquiatras alemães, os quais mais
tarde iriam declarar que Himmíer, Hess e outros assassinos de m as­
sa nazistas eram perfeitamente “normais”. E quanto aos sentirpen-
8 * A Mulher Montada na Besta

tos dos psiquiatras em relação aos judeus, Cari Jung expressou a


opinião de muitos quando, como presidente da Nova Sociedade
Alemã de Psicoterapia, escreveu:

O inconsciente ariano tem um potencial maior do que o judeu.*.


Freud [um judeu]... conhecia tão pouco a alma alemã quanto os ad­
miradores de seu trabalho. Será que eles aprenderam algo do pode­
roso surgimento do Nacional-Socialismo, para o qual o mundo olha
desiumbrado?[4]
Para A dolf Eichmann, tenente-coronel da SS, seu papel como
dirigente do extermínio dos judeus em toda a Europa ocupada pe­
los nazistas era apenas um trabalho e nada tinha a ver com Deus ou
com religião. Ao contrário dos católicos, ele não apresentava desa­
vença alguma com os judeus. Até mesmo Simon Wiesenthal, que
devotou sua vida a localizar os criminosos de guerra nazistas, disse
que Eichmann não “tinha motivo algum nem odiava [particular­
mente os judeus]... Ele teria feito o mesmo serviço se lhe tivessem
ordenado que matasse todos os homens cujos nomes começassem
por P, ou B ou todos os que tivessem cabelos ruivos”.[5]
Para Hitler, contudo, o Holocausto era uma obra altamente espi­
ritual. De acordo com as suas convicções de estar agradando a
Deus ao exterminar os judeus, Hitler ordenava que a “solução fi­
nal” fosse executada [de forma] “tão humana quanto possível”.
Apesar da perseguição à Igreja sempre que percebia que ela atra­
vessava o seu caminho, Hitler insistiu até o fim: “Eu sou agora, co­
mo era antes, um católico, e sempre o continuarei sendo”. Ele esta­
va convencido de que o plano que havia concebido como um bom
católico iria completar o massacre “daqueles assassinos de Cristo”,
que a Igreja Católica havia iniciado durante a Idade Média mas ha­
via levado a cabo tão medíocre mente. John Toland explica:

O extermínio, portanto, poderia ser feito sem dor na consciência,


uma vez que ele estava apenas agindo como a mão vingadora de
Deus - contanto que fosse feito de maneira impessoal e sem cruelda­
de. Himmler foi instado a assassinar com misericórdia. Ele ordenou
que técnicos especializados construíssem câmaras de gás que elimi­
nassem massas de judeus eficiente e "humanamente". As vítimas
eram amontoadas dentro de vagões de carga e enviadas para o Les-
O Vaticano, os Nazistas e os judeus • 9

te a fim de ficarem em guetos até que os centros de matança na Polô­


nia ficassem pronto$.[ó]

O Apoio da Igreja ao Anti-Semitismo Nazista


Em sua missão de elaborar a Concordata, Hermann Goering e
Franz von Papen foram cordialmente recebidos no Vaticano. A ati­
tude amistosa de Roma para com o regime nazista se tornou clara.
Ninguém havia lido Mein Kampf (Minha Luta)? Claro que sim,
mas Roma e Berlim tinham muito em comum, inclusive a perse­
guição e a matança dos judeus. Não faltavam líderes católicos que
apoiavam abertamente o expurgo dos judeus. Durante os anos de
1933 a 1939, os escritos de católicos influentes, “todos publicados
em jornais e editados por padres ou em livros ostentando o Impri­
matur”, apresentavam idéias como as seguintes:

Os judeus exerceram "uma influência desmoralizadora sobre a re­


ligiosidade e o caráter nacional... [Eles] trouxeram ao povo alemão
mais danos do que benefícios". Os judeus teriam exibido "um ódio
mortal por Jesus, enquanto Pôncio Pilatos, um ariano, tê-lo-ia de bom
grado deixado livre"... Os judeus... "em seu ódio sem fronteiras pelo
Cristianismo continuavam na vanguarda dos que tentavam destruir a
lgreja".[7]
O cura Roth, que se tornara funcionário do Ministério Nazista de
Assuntos Eclesiásticos e um dos primeiros adeptos de Hitler, cha­
mava os judeus de “uma raça moral mente inferior, que deveria ser
eliminada da vida pública”. O Dr. Haeuser, em um livro com o Im­
primatur da diocese de Regensburg, chamava os judeus de “a cruz
da Alemanha, um povo rejeitado por Deus e sob a sua própria mal­
dição [que] detém a maior parte da culpa no fato dos alemães te­
rem perdido a [Primeira] Guerra Mundial...” O padre Senn chama­
va Hitler de “o instrumento de Deus, convocado para eliminar o ju ­
daísmo”. O nacional-socialismo, dizia ele, oferecia “a última
grande oportunidade para se livrar do jugo judaico”.[8]
A Igreja cooperou plenamente com os nazistas no sentido de
“selecionar as pessoas de origem judaica...” Um padre escreveu no
Klerusblatt: “Também neste ministério pelo povo cooperaremos da
10 • A Mulher Montada na Besta

melhor forma possível” . A Igreja prosseguiu com essa diabólica


“cooperação” durante toda a guerra, mesmo quando ser judeu sig­
nificava “deportação e completa destruição física”.[9] A Igreja es­
tava bem a par da tenebrosa sorte dos judeus. Num discurso em 30
de janeiro de 1939, apenas alguns meses antes que seu ataque à Po­
lônia desse início à guerra, Hitler declarou que se a guerra estou­
rasse, o resultado seria o extermínio da raça judaica.[IO]
O totalitarismo de Hitler foi aprovado pela Igreja enquanto ela
pôde fazer parceria com ele. A extensa análise de documentos rele­
vantes de todo o período nazista feita por Guenter Lewy indica que
“a Santa Sé não se opunha às doutrinas políticas centrais do nazis­
mo mais do que os próprios bispos alemães” .[11] O cardeal Fau­
lhaber “chegou ao extremo de declarar que não se preocupava em
defender os seus contemporâneos judeus”. Ele disse que alguém ti­
nha de distinguir entre os judeus antes da crucificação de Cristo e
depois dela. Em 1939, o arcebispo Grober declarou que:

Jesus Cristo... foi fundamentalmente diferente dos judeus do seu


tempo, de tal maneira que eles O odiaram e exigiram a Sua crucifi­
cação, e o "seu ódio assassino continuou pelos séculos afora".
Jesus foi um judeu, admitia o bispo Hilfrich, de Limburg... em
1939, mas "a religião cristã teve... de se impor contra esse povo".
O teólogo Karl Adam defendia a posição de que o povo alemão
tinha de manter puro o seu sangue. Isso seria necessário para sua
autopreservação, pois "justamente pelo sangue o mito alemão, sua
cultura e sua história receberam suas formas".
Um artigo sobre a Revolução de. 1918 no jornal dos padres da Ba­
vária descrevia o papel dos judeus nesta "punhalada pelas costas"
do invencível exército alemão [e nesse estilo prosseguia continuamen-
le].[l 2]
O cardeal Bertram, chefe da província eclesiástica oriental da
Alemanha, e o arcebispo Grober, chefe da província da Alta Renâ-
nia, junto com outros bispos expressaram preocupação pela demis­
são de servidores civis católicos pelo novo governo. Ao mesmo
tempo, contudo, os bispos recusaram os relatos sobre as brutalida­
des nos novos campos de concentração. Grober até mesmo tomou-
se um “membro promotor” da SS e manteve suas contribuições fi­
nanceiras até o mais amargo fim.
Q Vaticano, o s Nazistas e os judeus * 1 1

O Que o Vaticano e os Bispos Alemães Sabiam


Os líderes católicos se opunham ao nazismo somente quando ele
entrava em conflito com os “assuntos e interesses da Igreja”. As­
sim, enquanto permanecia muda em relação ao Holocausto, a Igre­
ja defendia e tentava proteger os judeus convertidos ao catolicis­
mo. Esse fato toma sua falta de oposição ao extermínio dos judeus
pelos nazistas tanto mais repreensível.[13] “Havia 30 milhões de
católicos na Alemanha. Embora os judeus fossem auxiliados secre­
tamente [por algumas pessoas católicas], a Igreja jamais reconhe­
ceu publicamente que defender os judeus era um dever cris­
tão”. [14] O Vaticano bania rigorosamente outros livros, porém ja ­
mais colocou Mein Kampf ou as obras venenosas anti-semitas de
inúmeros líderes da Igreja [Católica] no índex de livros proibi-
dos.[15]
Joseph Müller, oficial da inteligência militar e confidente do car­
deal Faulhaber, “mantinha o episcopado bem informado sobre as
atrocidades sistemáticas cometidas na Polônia”. Assim também fa­
zia Hans Globke, um católico que era alto funcionário do Ministé­
rio do Interior, “encarregado de tratar dos assuntos raciais”. O Vati­
cano e os bispos alemães, bem como a maioria da população ale­
mã, sabiam muito bem que os judeus estavam sendo encurralados e
exterminados. Viereck nos recorda:

O especialista de Hitler para o extermínio, Rudolf Hõss, escreveu


em Commandant of.Auschwitz [Comandante de Auschwitz]: "quando
soprava um vento forte, o cheiro de carne queimada era levado a
muitas milhas e fazia a vizinhança inteira comentar sobre q queima
dos judeus". Ele observa também, a respeito de outro campo, que
sempre que um furgão passava carregado de vítimas, até mesmo as
crianças alemãs gritavam nas ruas: "Aí vem o furgão assassino outra
vez!"[l 6]
A Igreja sabia muito bem o que estava acontecendo, mas fecha­
va seus olhos e seus lábios. Kurt Gernstein, um membro clandesti­
no da oposição evangélica a Hitler, tornou-se oficial da SS a fim de
descobrir pessoalmente o segredo dos campos de extermínio e re­
velá-lo ao mundo. Ele levou o seu relato ao representante do papa
em Berlim, o qual se recusou a recebê-lo quando soube o conteúdo
de sua mensagem.
12 • A Mulher Montada na Besta

“Havia dezenas de milhares de padres em cidades, vilas e al­


deias por toda a Europa. Eles viram as casas esvaziadas e os seus
vizinhos deportados; eles ouviram confissões. Eles eram extraordi­
nariamente bem informados”. Soldados católicos regressavam pe­
riodicamente do front russo com relatos dos massacres em grande
escala. “O Vaticano estava entre os primeiros a saber dos progra­
mas de genocídio. Informações confiáveis sobre a matança foram
enviadas ao Vaticano pelos seus próprios diplomatas, em março de
1942”.[17] .
Hitler costumava alardear ao mundo suas intenções e seus fei­
tos malévolos. O Vaticano, por um lado, não tinha desculpa al­
guma por sua parceria com o nazismo nem pelos seus contí­
nuos elogios a Hitler e, por outro lado, pelo seu silêncio osten­
sivo em relação ao problema dos judeus. Quando o mal se
agigantava, a Igreja Católica continuava a cooperar com o Füh­
rer e até mesmo a exaltá-lo. Mesmo depois das tropas de Hi-
tíer, apesar das promessas em contrário, entrarem e ocuparem a
desmilitarizada Renânia, os líderes católicos de toda a Alema­
nha o elogiavam, dentre eles o cardeal Schulte na catedral de
Colônia.[l8]
A Concordata com Hitler não foi novidade. Os papas haviam si­
do parceiros de governantes malvados durante séculos. Será que
Jesus teria feito algum trato com Pilatos ou o apóstolo Pedro com
Nero? Mesmo assim, os que se proclamam sucessores de Pedro fi­
zeram alianças profanas com imperadores pagãos, a começar por
Constantino, e mantiveram a aliança com Hitler até o fim da guer­
ra, colhendo centenas de milhões de dólares em pagamentos do go­
verno nazista ao Vaticano.

O Fracasso Moral do Silêncio


Pio XII era conhecido pelos seus francos sermões admoestando
os fiéis contra “o abuso aos direitos humanos”.[19] Mesmo assim
ficou em silêncio sobre o Holocausto o tempo todo. Ele jamais pro­
nunciou publicamente uma palavra sequer contra o sistemático ex­
termínio dos judeus por Hitler, porque fazer isso seria condenar a
sua própria Igreja por seus feitos semelhantes. Tal silêncio, concor­
dam os historiadores, encorajava Hitler e contribuía para o indes­
critível genocídio.
O Vaticano, os Nazistas e os [udeus • 13

O papa se gabava de ser o guardião da moral no mundo, mas


mesmo assim nada disse em relação ao pior crime da história hu­
mana. Em sua primeira encíclica, editada em outubro de 1939, Pio
XII declarou que o seu ofício como vigário de Cristo exigia que ele
“testificasse da verdade com firmeza apostólica”. E prosseguia ex­
plicando:

Esse dever engioba necessariamente a exposição e refutação de


erros e falhas humanas, que devem ser conhecidos de antemão para
serem tratados e curados...
No cumprimento desse nosso dever não nos deixaremos influen­
ciar por considerações terrenas nem impedir por desconfianças ou
oposição, por objeções ou falta de apreciação de nossas palavras,
nem ainda pelo medo de incompreensões ou falsas interpreta-
çÕes.[20]
Essas são palavras proféticas, mas provaram ser absolutamente
ocas e vazias. No dia exato em que Pio XII iniciou o seu pontifica­
do, Mussolini expulsava da Itália 69.000 judeus e o papa ficou ca­
lado. Algumas semanas mais tarde, a Itália invadiu a Albânia. O
papa protestou, “não por causa do país ter sido vergonhosamente
atacado, mas pela agressão ter sido levada a cabo numa sexta-feira
santa”.[21] Seria este o “vigário” de Cristo?
Como o seu papa, os bispos alemães também prometiam sempre
“combater destemidamente as injustiças”. Em 1936, o cardeal Fau­
lhaber declarou que um bispo não podia ser servo de Deus “se ele
falasse para agradar a homens ou permanecesse calado por temer
os homens”. Em julho de 1941, o bispo Galen afirmava ser o “de­
fensor dos direitos e liberdades básicos” dados ao homem por Deus
e que o seu dever era “corajosamente... denunciar, como uma in­
justiça que clamava aos céus, a condenação dos inocentes indefe­
sos”. Retórica semelhantemente vazia era bradada dos púlpitos por
outros bispos, todos eles mantendo-se em silêncio enquanto 6 mi­
lhões de judeus eram sistematicamente exterminados como se fos­
sem apenas vermes. Essa hipocrisia sem fim é uma grande prova
de que esta não é a Igreja verdadeira.
O cardeal Joseph Ratzinger (atual papa Bento XVI), que por
muitos anos foi chefe do equivalente atual da Santa Inquisição, ser­
viu como militar na Alemanha durante a guerra, embora não tenha
14 • A Mulher Montada na Besta

participado de combates. Ele admite que estava a par do Holocaus­


to. Nenhum alemão poderia estar completamente desinformado.
“O abismo do hitlerismo não podia ser ignorado”, Ratzinger con-
fessou[22]. Mesmo assim ele o ignorou quando isso poderia lhe
custar algo se falasse contra o mesmo.
Certamente, como o guardião da ortodoxia e o mais antigo e po­
deroso servidor do Vaticano, Ratzinger poderia ter realizado corre­
ções, tanto acerca de seu próprio silêncio como do [silêncio] de sua
Igreja durante todo o Holocausto. Por que não demonstrar genuíno
arrependimento e pedir contristadas desculpas aos judeus? Mas
Ratzinger continua no mesmo silêncio obstinado de Pio XII. E co­
mo poderia se desculpar sem admitir que os seus papas e a sua
Igreja pecaram gravemente contra os irmãos naturais de Cristo, e
que, portanto, a própria alegação de infalibilidade e de ser a única
Igreja verdadeira não passa de uma fraude?

Impossível Fugir da Culpa


Tem-se argumentado que, se o papa tivesse protestado como
muitos lhe pediam, as coisas teriam ficado ainda piores para os ju ­
deus. Elas poderiam ter sido piores? Por acaso o silêncio do Vatica­
no salvou alguém? Obviamente que não. De Rosa coloca isso mui­
to bem: “Havia apenas um homem no mundo cujo testemunho Hi­
tler temia, uma vez que muitos no seu exército eram católicos.
Esse homem não se pronunciou. Em face do que Winston Chur­
chill iria chamar de “provavelmente o maior e mais terrível de to­
dos os crimes jamais cometidos em toda a história mundial”, ele
preferiu ficar neutro”.[23]
A Igreja não economizou palavras de oposição ao programa de
eutanásia do nazismo e obteve sucesso, conseguindo interrompê-
lo. Os bispos levantavam a voz contra os maus tratos aos judeus
que haviam se tornado católicos e contra a classificação como ca­
tólicos judeus dos que eram apenas meio-judeus. A Igreja se opôs
ao divórcio forçado de judeus casados com católicos e à subse-
qüente deportação dos cônjuges judeus. Mas nunca falou contra a
destruição dos judeus. Como afirma Guenter Lewy:

Quando milhares de alemães an linazistas foram torturados até a


morte nos campos de concentração de Hitler, quando a elite inteSec-
O Vaticano, os Nazistas e os judeus • 15

tua! polonesa foi dizimada, quando centenas de milhares de russos


morreram como resultado de serem tratados como eslavos Unter­
menschen [subumanos], e quando seis milhões de seres humanos fo­
ram assassinados por serem "não-arianos", os representantes da
Igreja Católica na Alemanha apoiavam o regime que perpetrava es­
ses crimes. O papa em Roma, líder espiritual e instância moral supre­
ma da Igreja Católica Romana, manteve-se em silêncio.
Em face desta que foi uma das maiores depravações morais que a
humanidade já foi forçada a presenciar nos séculos recentes, os ensi­
nos morais da Igreja, [supostamente] dedicados ao amor e à carida­
de, não se fizeram ouvir a não ser como vagas generalizações.[24]
Quando a Gestapo, em fevereiro de 1943, no processo de deporta­
ção dos últimos judeus alemães para o Leste a fim de serem mortos,
“aprisionou vários milhares de cristãos não-arianos de casamentos
mistos [cerca de 6.000 somente em Berlim]..., algo inesperado e sem
igual aconteceu. Suas esposas arianas os acompanharam aos locais
de detenção temporária e lá ficaram durante horas, implorando e
chorando pelos seus maridos. Com o sigilo de todo o mecanismo de
destruição ameaçado, a Gestapo recuou e os maridos não-arianos fo­
ram libertados. Aqui está um exemplo do que uma consciência exal­
tada poderia fazer, mesmo contra a máquina de terror de Hitler”.[25]
Quando Edoardo Senatro, correspondente do UOsservatore Ro­
mano em Berlim, “indagou de Pio XII o porquê dele não protestar
contra o extermínio dos judeus, o papa respondeu claramente:
“Querido amigo, não se esqueça de que milhões de católicos ser­
vem no exército alemão. Deveria eu levá-los a um conflito de
consciência?”. Guenter Lewy resume:

O papa sabia que os católicos alemães não estavam preparados


para sofrer o martírio pela sua Igreja; muito menos estavam desejo­
sos de incorrer na ira dos governantes nazistas por amor aos judeus,
os quais seus próprios bispos, durante anos, haviam criticado como
sendo uma influência perniciosa na vida alemã.
Numa análise final... o silêncio do Vaticano apenas refletia o senti­
mento profundamente arraigado nas massas católicas da Europa -
da Alemanha e da Europa oriental em particular. A falha do papa foi
um reflexo do fracasso da Igreja em converter o seu evangelho de
amor fraternal e dignidade humana numa realidade viva.[2ó]
16 • A Mulher Montada na Besta

Enquanto o Mundo Virava as Costas


O silêncio do papa Pio XII concernente ao Holocausto foi pri­
meiramente perdoado e encorajado pelos Estados Unidos (o presi­
dente americano Roosevelt também se calou), pela Inglaterra e pela
Suíça “neutra”. Esses países literalmente devolviam os judeus fugi­
tivos aos nazistas e à morte certa. Nos meses cruciais, quando ainda
havia chance de muitos judeus saírem da Alemanha, o Departamen­
to de Estado dos EUA bloqueava deliberadamente a imigração de
judeus e atrasava a expedição de documentos válidos até que os so­
licitantes fossem levados aos campos de extermínio nazistas.
Esses eram os frutos do anti-semitismo feroz nas décadas de
1920 e 1930 por toda a América. Essa foi uma das páginas mais
negras da história americana. Os fatos horríveis de cumplicidade
da América no Holocausto, nos mais altos escalões do governo, fo­
ram parcialmente apresentados na TV no dia 6 de abril de 1994,
pela rede Public Broadcasting System:

[Senadores e Congressistas] abertamente cuspiram o veneno anti-


semita nos próprios salões da capital da nação... Havia campanhas
anti-semitas orquestradas por mais de 100 organizações através da
América... O padre católico Charles Coughlin era o porta-voz anti-
semita mais influente do país. Seu programa de rádio alcançava
mais de três milhões de pessoas.[27]
Documentos descobertos recentemente provam que tanto os Es­
tados Unidos como a Inglaterra não estavam dispostos a receber os
judeus e obstruíram sua imigração. Longe de pressionarem Hitler
para acabar com as matanças, a Inglaterra e a América temiam que
o Fiihrer, indevidamente pressionado, pudesse jogar milhares de
judeus sobre os americanos e os ingleses. Essa era a última coisa
que esses governos hipócritas desejavam, apesar de suas denúncias
públicas das atrocidades nazistas. As potências ocidentais, de for­
ma semelhante ao Vaticano, e em parceria com ele, foram real men­
te cúmplices no Holocausto. A verdade é quase terrível demais pa­
ra ser encarada.
Não menos significativo é o fato de que a Igreja jamais tenha ex­
comungado Hitler, Mussolini, Himmler ou qualquer um dos de­
mais personagens-chave do Holocausto. Eles continuaram católi­
cos até o fim, sob a égide da Igreja-Mãe. Mais que isso, a Igreja
O Vaticano, os Nazistas e os judeus * 17

tem mentido deliberadamente sobre o seu próprio papel, espalhan­


do “uma lenda de resistência da igreja alemã aos nazistas, que pre­
cisa ser historicamente corrigida”.[28] Exceto em casos raros de al­
guns indivíduos, houve colaboração e não resistência. Além do
mais, os que cooperavam com os nazistas, longe de serem repreen­
didos, foram condecorados por Roma. Guenter Lewy nos oferece
alguns exemplos:

Essa dissimulação [da verdade acerca da cooperação da Igreja]


foi tão audaciosa e tão bem sucedida que na Alemanha... nem um
bispo sequer teve de renunciar à sua função [por cooperar com os
nazistas].
Muito pelo contrário, o bispo Berning, que havia servido até a
queda de Hitíer no Conselho de Estado Prussiano de Goering, rece­
beu em 1949 o título honorífico de arcebispo. "Herr" von Papen [que
ajudou na negociação da Concordata em 1933] foi nomeado cama­
reiro privado do papa em 1959.
Tais recompensas a homens profundamente envolvidos com o regi­
me nazista representam uma zombaria das figuras heróicas... que
morreram combatendo Hitler.[29]
Pio XII afirmava que suas encíclicas tinham para a Igreja a mes­
ma validade como declarações ex-catedra. [30] Por conseguinte, se
ele houvesse dado orientação aos membros de sua Igreja, desde o
início teria havido chances de que ele pudesse derrubar Hitler. A
seqüência dos eventos, com a Igreja Católica Romana literalmente
colocando Hitler no poder, e apoiando-o em seguida, invalida a
alegação dos papas de que eles são os vigários de Cristo e dirigidos
pelo Espírito Santo.

Anti-Semitismo em Crescimento
A memória é curta e enganosa, e a consciência mundial facil­
mente endurece, tomando necessário um anúncio por parte do
“United Jewish Appeal” publicado há algum tempo na maior parte
das revistas [americanas]. Ele apresentava a foto de uma unidade
militar não-oficial de camisas-negras na Rússia (aparentemente re­
lacionada com o aumento de poder do fanático fascista Wladimir
Jirinovsky), fazendo a saudação fascista do braço erguido. Seu títu-
18 • A Mulher Montada na Besta

lo foi: “PARA OS JUDEUS NA ANTIGA UNIÃO SOVIÉTICA,


OS SINAIS DA SAÍDA ESTÃO CLARAMENTE INDICADOS”.
O apelo continuava:

Os sinais são familiares demais. A marcha de camisas-negras fas­


cistas. Sinagogas são misteriosamente incendiadas. O extremista de di­
reita Wladimir Jirinovsky estrilando contra os judeus e a "conspiração
sionista"... Mais uma vez os oportunistas atribuem as terríveis condi­
ções em que vivem aos seus bodes expiatórios tradicionais/ os judeus.
E para os judeus, o anti-semitismo é um fator que se acrescenta à
miséria da vida na antiga União Soviética: tremenda penúria econô­
mica, instabilidade política, deprimente falta de oportunidades na
educação e de uma vida melhor.
As ex-Repúblicas Soviéticas não são os únicos lugares onde exis­
te uma óbvia e constante ameaça contra a vida e a cultura judaicas.
O anti-semitismo está recrudescendo em toda parte, inclusive nos
Estados Unidos. Há algum tempo a Associated Press informou:

Ataques anti-semitas, ameaças e molestações aumentaram em


23% nos Estados Unidos... A LAD {Liga Antidifamatória) registrou
1.867 ações anti-semitas em 1993, o segundo maior número regis­
trado nos últimos 15 anos. O mais alto número foi de 1.879 casos
em 1991. Em 1992, o total foi de 1.730...
Alan Swartz, diretor de pesquisa da LAD, citou também renovados
esforços de um revisionista do Holocausto que colocou anúncios em jor­
nais universitários declarando que o Holocausto jamais aconteceu.[31 ]
Os profetas hebreus predisseram esse ódio e abuso contra o povo
escolhido de Deus e que (exceto por breves períodos de refrigério)
não terminariam até que Jesus Cristo voltasse à terra para libertar o
Seu povo (Zacarias 12.10). Por trás de muita propaganda e violên­
cia anti-semita no mundo inteiro, é apenas lógico suspeitar das ma­
quinações anti-semitas dos criminosos de guerra, aos quais o Vati­
cano deu nova oportunidade de continuar a sua obra maligna quan­
do os transferiu clandestinamente para a América do Sul.
A obstinada indiferença ao Holocausto quando este estava em
andamento e o desejo de vê-lo cair no esquecimento do passado é o
que se poderia esperar dos que não conhecem a Deus. O Vaticano,
O Vaticano, os Nazistas e os judeus « 19

contudo, afirma representar Cristo e estabelecer o modelo moral do


mundo. O papa vive pregando paz e amor e repreende os outros
por seus fracassos morais, mas as mãos de sua Igreja estão m an­
chadas com o sangue de milhões de vítimas inocentes.

A Duplicidade Continua
Em 1986, João Paulo II foi a uma sinagoga de Roma, não muito
longe do seu palácio. Em seu discurso ele deplorou os crimes do
passado cometidos contra os judeus “por quem quer que fosse”.
Quando ele repetiu essa última frase, os aplausos explodiram es­
pontaneamente. O papa e o rabino-mor [italiano] Elio Toaff se
abraçaram. Contudo, o lamento velado pelo abuso contra os judeus
por sua Igreja foi uma manobra fraca. O que se necessitava era de
uma admissão específica do que a Igreja havia feito exatamente
aos judeus, desde o confinamento em guetos e o assassinato deles
ao longo da história até a parceria com o nazismo no Holocausto.
Sem essa admissão de culpa e um pedido integral de desculpas, to­
dos os demais gestos de cortesia são enganosos.
No dia 30 de dezembro de 1993, após 18 meses de intensas ne­
gociações, o monsenhor Cláudio Maria Celli, subsecretário para
Assuntos Exteriores da Secretaria de Estado papal, e o Dr. Yossi
Beilin, vice-ministro do Exterior de Israel, assinaram um “Acordo
Fundamental” de 14 artigos, estabelecendo relações diplomáticas
plenas entre o Vaticano e Israel. Seu preâmbulo refere-se “à nature­
za única das relações entre a Igreja Católica e o povo judeu”, bem
como ao “processo histórico de reconciliação” e ao “crescimento
da mútua compreensão e amizade entre católicos e judeus”.[32]
A “natureza peculiar do relacionamento entre a Igreja Católica e
o povo judeu” tem sido a de perseguidora e perseguido, de assassi­
na e assassinado. Quanto ao “processo histórico de reconciliação”,
o arrependimento de Roma para iniciar tal processo ainda está fal­
tando. Como pode-se dar uma reconciliação significativa sem que
a parte que tem abusado tão terrivelmente da outra faça uma con­
fissão completa, peça sinceras desculpas e proceda a uma séria re­
paração?
Desde o estabelecimento do Estado judeu em 1948, durante qua­
se 46 anos, Roma recusou-se a reconhecer a existência de Israel.
Mesmo agora ela insiste que Jerusalém deve ser uma cidade inter-
20 * A Mulher Montada na Besta

nacional não governada por Israel. Por quê, então, o “acordo”


atual? Com as fronteiras de Israel e as relações com a OLP sendo
redefinidas, o Vaticano sabia que, para poder dizer algo sobre o fu­
turo de Israel, tinha que estabelecer relações diplomáticas com ele.
E o Vaticano desejava essa influência.
Os atuais líderes israelenses aparentemente esqueceram que foi
preciso a ajuda do exército italiano para libertar os judeus dos gue­
tos que haviam sido impostos pelo Vaticano em Roma. Esquecida
deve ter sido também a declaração de Pio X que Golda M eir citou
em sua Autobiografia: “Não podemos impedir os judeus de ir a Je­
rusalém, mas jamais aprovaríamos tal coisa... os judeus não reco­
nheceram o nosso Senhor; não podemos reconhecer os judeus”. E
perigoso confiar naqueles cujas palavras ditas no passado e atitu­
des durante séculos consistiram em revelar a falsidade do “acordo”
agora alcançado.
No acordo, o Vaticano exige que Israel se garanta a “observar o
direito humano à liberdade de religião e consciência” . Que remata­
do atrevimento! Roma jamais esteve disposta a conceder tais direi­
tos aos outros sempre que esteve no controle. Já documentamos
fartamente que o catolicismo romano é o inimigo jurado das liber­
dades de expressão, religião e imprensa, e que os papas têm consis­
tentemente suprimido essas liberdades sempre que tiveram o poder
de fazê-lo.
O acordo, além disso, encarrega Israel e o Vaticano de trabalha­
rem juntos contra o anti-semitismo. De que vale tal acordo sem
Roma admitir que tem praticado o mais maligno anti-semitismo
durante séculos, e sem suas desculpas sinceras por ler agido assim?
Para Israel, sem esse gesto mínimo o acordo é razão de tristeza ao
invés de alegria.

A História Ainda Ciama aos Céus


A tentativa enganosa de Roma de encobrir seu anti-semitismo
também se encontra no Concílio Vaticano II. Nele os judeus, em­
bora não citados nominal mente, são mencionados como aqueles
“de quem Cristo descendeu na carne” e chamados “muito amados
por causa dos patriarcas...”[33] Essa declaração dificilmente com­
bina com a maneira com que Roma tem tratado o povo escolhido
de Deus através da história. Pode-se perder a esperança de ouvir a
O Vaticano, o s Nazistas e os judeus » 21

verdade de tal fonte. O próximo parágrafo mostra uma mentira não


menos vergonhosa:

Mas o plano de salvação também inclui os que reconhecem o


Criador, em primeiro lugar dentre eles os muçulmanos que professam
manter a fé de Abraão, e juntamente conosco adoram o único, mise­
ricordioso Deus, juiz da humanidade no último dia.[34]
Que blasfêmia é chamar o Alá do islamismo de Criador, identifi­
cando a antiga divindade pagã que era a principal da Caaba (o deus
da tribo quraish, de Maomé) com Jeová, o Deus da Bíblia. O isla­
mismo nega especificamente que Alá seja um pai ou que tenha um
filho e que seja um ser triúno (Pai, Filho e Espírito Santo). O isla­
mismo, portanto, não tem explicação para Gênesis 1.26: ‘Faça­
mos o homem â nossa imagem, conforme a nossa semelhança”
Alá é misericordioso somente para aqueles que praticam o bem e
odeia os pecadores, enquanto o Deus verdadeiro é amor e ama a
todos. Alá é um deus distante com quem é impossível ter uma rela­
ção pessoal, visto não possuir os atributos de santidade, graça e
amor, e ser o criador do mal. Alá é a antítese perfeita do Deus de
Abraão, Isaque e Jacó.
Quanto a manter “a fé de Abraão”, esse patriarca contemplava a
futura vinda de Cristo como o Cordeiro de Deus que morreria pe­
los nossos pecados (Gênesis 22.8; João 1.29; 8.56) - uma verdade
que os muçulmanos rejeitam inexoravelmente. O islamismo nega
que Jesus é Deus ou o Filho de Deus; nega que Ele tenha morrido
na cruz por nossos pecados (supostamente, outro morreu em seu
lugar) e, é claro, nega a Sua ressurreição. Mesmo assim, esta parte
do Vaticano lí sugere que os muçulmanos estão incluídos no “pla­
no de salvação”.
>

Será que Alá é Yahweh e o islamismo é a “fé de Abraão”? Roma


está sendo tão generosa com os muçulmanos a fim de conseguir o
seu favor? Realmente, esta parte do Vaticano II sugere que todos,
mesmo os idólatras, no final estarão sob o controle salvador da
Igreja Católica Romana - todos, menos os evangélicos. Há limites
para a generosidade de Roma, embora o seu punho de ferro esteja
vestido agora com luva de pelica. Israel está sendo cortejado no
momento, mas o senso comum nos diz que esses motivos não são
nada puros. A história ainda clama aos céus pela nossa atenção.
22 • A Mulher Montada na Besta

Jerusalém tem o seu Yad Vashem (Museu do Holocausto) para


trazer sempre à consciência mundial a lembrança dos 6 milhões de
judeus assassinados por Hitler. Em contraste, não existe memorial
algum para os incontáveis milhões, tanto de judeus como de cris­
tãos, assassinados pela Santa Madre Igreja. As palavras enganosa­
mente suaves provindas do Vaticano não conseguem eliminar a in­
dagação persistente da história recente que Guenter Lewy nos
apresenta:

Quando Hitler lançou sua campanha assassina contra os judeus


europeus, a verdade e a justiça encontraram poucos defensores. O
representante [vigário] de Cristo e o episcopado [católico] alemão
não estavam entre eles. Seu pape! dá uma relevância especial à per­
gunta que uma jovem faz ao seu sacerdote no livro de Max Frisch,
Andorra: "Onde é que o senhor estava, padre Benedito, quando le­
varam o nosso irmão como um animal para o matadouro, onde esta­
va o senhor?"
Esta pergunta ainda aguarda uma resposta.[35]
Um bom ustachi[*] é um ustachi que sabe usar uma faca para ar­
rancar um filho do ventre da mãe.
- Ante Pavelic, o Führer Croata[l]

Ante Pavelic, como poglavnic (Führer) da nação croata, e Stej-


pan Hefer como governador-geral do Condado de Baranja, entra­
ram para a História pisando sobre os corpos mutilados de quase um
milhão de vítimas...
Ambos eram católicos de meia-idade, membros do Parlamento
[e] participaram do genocídio de seus patrícios, em assassinatos
executados com tal sadismo que chocariam até mesmo seus aliados
nazistas [e] ambos escaparam [depois da guerra] para a Argentina
[através das rotas de fuga do Vaticano] a fim de no exílio ressusci­
tarem seu movimento.
- Scott e Jon Lee Anderson em Inside The League [Por Dentro
da Liga]

*O
sterroristascroataslideradosp orA ntePavelicsãoco
nhecid
osp
or“
ustach
is’
ememb ro
sd aorgan izaçãofascistaUstacha.
O apoio do Vaticano a Hitler e Mussolini e ao regime servil na­
zista na França, durante a Segunda Guerra Mundial, coincidiu com
o seu desejo de reavivar o Sacro Império Romano, com os líderes
seculares obedecendo às ordens de Roma. Há muito esse era, e
continua sendo, o sonho do Vaticano. A França (que Pio XI chama­
va de “a primogênita da grande família católica”), juntamente com
a Itália e a Alemanha, eram os principais países católicos da Euro­
pa, onde a Igreja exercia um grande poder. Seus governos estavam
dispostos a trabalhar com a Igreja e até mesmo a estabelecer rela­
ções formais com ela através de concordatas.
O ateísmo agressivo do comunismo soviético e sua impiedosa
destruição de igrejas fez dele o maior inimigo que o catolicismo já
havia encontrado em sua longa existência. As democracias capita­
listas, com a sua inclinação pela liberdade de consciência, religião
e imprensa, também eram incompatíveis com o catolicismo roma­
no. Desse modo, nas décadas de 20 e 30, o fascismo parecia dar à
Europa uma esperança maior de união católica, pois apresentava-se
como um baluarte contra a crescente corrente vermelha do cqmu-
26 • A Mulher Montada na Besta

nismo mundial e a ameaça cada vez maior representada pelos paí­


ses democráticos.
O Vaticano reconheceu que estava numa guerra de morte contra
o marxismo-leninismo. A ele parecia essencial aliar-se com as for­
ças emergentes do fascismo na Europa Ocidental. A concordata de
1929 com Mussolini e a de 1939 com Hitler foram parte dessa po­
lítica. Essas importantes alianças refletiram a hábil diplomacia de
Eugênio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, que era o secretário de
Estado do Vaticano, em sua trajetória para suceder Pio XI. Eugênio
tomou-se o novo papa em 1939, pouco antes de estourar a Segunda
Guerra Mundial, e adotou o nome de Pio XII. Tanto Mussolini co­
mo Hitler eram católicos e sua liderança deveria fortalecer o catoli­
cismo europeu. O imperialismo do Vaticano poderia crescer lado a
lado com o da Itália e da Alemanha.

O Intermariuxn
Nos últimos anos da Primeira Guerra Mundial, Pacelli, que já
era uma estrela ascendente aos olhos do Vaticano, era o núncio pa­
pal em Munique. Ele havia negociado secretamente, em nome do
Vaticano, com os poderes centrais a fim de salvar a Alemanha e o
Império Austro-Húngaro da derrota. Esses países católicos eram
vitais aos interesses do Vaticano na Europa. Sua divisão em Esta­
dos menores significaria a formação