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Permanecer Indistinto

EDUARDO QUIVE | eduardoquive@gmail.com

Jorge Dias ao intitular “O Plano das Coisas” a sua exposição não revela-nos o
seu verdadeiro plano. Até o dia 12 de Julho o público irá dialogar com as suas
obras na galeria do Centro Cultural Português (CCP), em Maputo, e poderá
descobrir vários horizontes: nós descobrimos a permanência na indistinção
de Jorge Dias, que teima em fazer do incomum um lugar de vida, da
coisificação da existência e da fluidez da estética. É pois permanente essa
paixão por planos que exigem execuções afinadas por parte de quem vê os
seus quadros…

Faz tempo que as artes plásticas vão revelando o outro lado da sociedade
moçambicana. Um lado às vezes sufocado pelo medo, incerteza, ou simplesmente,
incapacidade de dizer o que realmente vai na alma, principalmente nestes últimos dias
em que, ressacados da palavra “tensão” entramos para outras expressões: crise, subida
e dívida.

São várias as lamúrias no campo sociopolítico que pode se lhes dar ouvidos no silêncio
gritante. Ou por meras ameaças de abrir a voz e reclamar alguma coisa. Mas na arte
não é bem assim. Não basta o grito, como também não se pode suster a rebeldia. Um
artista sufoca-se nos seus próprios medos, mas liberta-se com as náuseas do enredo.

Jorge Dias, artista plástico, professor e director da Escola Nacional de Artes Visuais
(ENAV) é um artista de difícil interpretação, mas, sobretudo, de difícil adivinhação sobre
o que tem em plano. As suas presenças em galerias quase esporádicas e inesperadas
são uma prova de que a sua arte não brota do acaso. Há, sim, um plano, há por aí
alguma coisa…

Um artista que parece olhar a cidade noutra posição, provavelmente de cabeça


inclinada. Como se os prédios que se sobrepõem e se substituem uns aos outros
fossem o descaminho para o futuro, um regresso ao tempo da “aldeia comunal”, como
de resto até existem em algumas partes deste imenso país, mas que a imagem pública
não nos revela.
Desta vez, em “O Plano das Coisas”, inaugurado a 6 de Abril e em aberto até Julho,
parece que as suas estruturas inanimadas ganharam uma outra forma, um outro plano.
As obras que partem de uma concepção habitual das artes plásticas, das telas, e vão se
desfazendo em mistério da sua imaginação e um certo trabalho de questionamento à
estética formal, ora em rectângulos, ou em esferas, compõem-se em tecidos, linhas,
animais em plástico e madeira, folhas secas, folhas de plástico, flores, missangas,
pedras entre outras.

Como é de sua característica, Jorge Dias, deu costas ao pincel e continua a cavalgar
pelos caminhos de novas formas, coisificando o pensamento incomum, estagnando
objectos que já por si, não tem vida, como animais em plástico ou em madeiras e
pedras. Uma viagem que de certo levou-o para longe a avaliar pelos resultados que se
mostram na exposição das obras maioritariamente de 2016.

A galeria do CCP ganhou uma outra forma com esse trabalho. Olhando para os quadros
é possível na viagem da mente, ouvir os sons dos lagartos e outros bichos tão comuns
no nosso meio, quanto desprezíveis. As peneiras, as eskupas e a capulana entram para
o jogo indefinido do criador e nos revelam outras belezas, com a combinação de cores.

O artesanato que povoa e compõe o retrato de aldeias lança-nos para um outro olhar
na forma que vai ganhando o espaço urbano. Não propriamente a procura de gerar
uma imagem do folclore, um tipo de saudosismo sobre a arquitectura tradicional
africana, mas um questionamento para as distâncias humanas que se vão criando hoje,
agora, enquanto a cidade vai se fazendo por alto, por cima. Talvez em Jorge Dias a arte
ganhe novas formas, mas as formas são as que mais se beneficiam com o pensamento
deste artista, que vai para além dos requisitos, quase inexistentes, numa sociedade que
está a descobrir a cor.

O Plano das Coisas ainda não foi revelado, talvez por agora. Mas um olhar sem planos,
pode revelar-nos a utilidade das coisas. Uma exposição que nos põe a pensar sobre
coisas que andam a nossa volta, que com vida são pouco úteis e sem vida menos úteis
ainda. Talvez porque não mudamos a posição em quem elas se encontram… talvez
porque nem as olhamos… permanecemos indistintos.

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GESTÃO DE ESPÓLIO: Debater sobre as obras de
Malangatana e Craveirinha

REDACÇÃO | r.literatas@gmail.com

A plataforma cultural Mbenga Artes e Reflexões organizou, no dia 12 de


Julho, na Galeria do Centro Cultural Moçambicano-Alemão, um debate
subordinado ao tema Gestão do Espólio de José Craveirinha & Malangatana
Valente Nguenha.

O encontro faz parte do projecto Debate (oficina-criativa) que pretende incrementar as


ferramentas e informações sobre as artes e cultura, tendo em vista a melhoria dos
conteúdos produzidos nestas áreas.

Segundo a organização do evento o debate surge da necessidade de reflectir sobre a


administração das obras produzidas e não exibidas pelos artistas, ainda em vida.”O
objectivo é despertar a sociedade da importância que este material possui, enquanto
património cultural do país e despertar aos jornalistas para a necessidade de tratar este
tema com mais atenção de modo que se possa melhor intervir e atrair apoios” entende
o grupo.

José Craveirinha, Malangatana, Ricardo Rangel, Alexandre Langa, Carlos e Zaida


Chongo. A lista é extensa. O que é feito das obras artísticas depois da morte dos
autores?

Zeca Craveirinha e Mutxini Malangatana, gestores do espólio de José Craveirinha e


Malangatana, nomeadamente, partilharam a sua experiência na gestão do espólio dos
seus progenitores.

Na ocasião, quer Zeca, quer Mutxini, defenderam a necessidade de recuperar as obras


espalhadas pelo mundo, uma vez que são parte do património cultural e que precisam
ser do domínio dos moçambicanos, contribuindo na construção da cidadania e
identidade nacionais. Afinal, ao ignorar a produção remanescente destas duas
“instituições culturais”, o país corre o risco de perder um importante capítulo da história
da arte moçambicana.

Zeca Craveirinha conta que recuperar os poemas de Craveirinha tem sido uma grande
ginástica. Por exemplo, conta Zeca, quando o seu pai esteve preso em Portugal, em
1965, na famigerada Cela 1, escreveu uma série de poemas e cartas, em papéis
higiénicos que enviava para um indivíduo residente, na altura, em Moçambique. No
entanto, este indivíduo negou-se e nega-se a devolver os escritos.

“Como recuperar essas cartas e poemas?”questionou Zeca, como que prevendo a


resposta, exaspera-se”Elas são individuais, são do meu pai, são minhas, porque as
pessoas nos tiram o que é nosso?

Ficaram com as coisas do meu pai, mesmo as fotografias não aceitam devolver.
Normalmente, só me trazem cópias, que legitimidades têm essas pessoas para ficar
com os documentos?”

Mutxini, vai pela mesma via, mas fala duma dimensão Internacional, porque há muitas
obras do seu pai que estão espalhadas pelo mundo e que precisam ser recuperadas.
“Soube que foram expostas em Portugal uma vez, mas são obras que ele nunca
vendeu, são desenhos feitos na prisão”.

Os dois gestores voltam os olhos para o estado moçambicano, sublinhando que este
deve ajudar na intervenção ao nível internacional na recuperação, sobretudo, das obras
da colecção privada dos seus pais, já que boa parte dessas obras estão fora do país.
“Eu tenho limitações, há processos sobre esses assuntos nos tribunais, mas nada anda.
Mesmo as obras da colecção Mário Soares, nós da família temos restrições para ter
acesso, mas não devia ser assim, aquele acervo também nos pertence”, disse Mutxini.

Por sua vez, a Jurista Jéssica Albertina, presente no evento, disse que, o Estado
Moçambicano pode e deve intervir na recuperação das obras dos artistas em alusão,
espalhadas pelo mundo. “Isso significa que temos falsos titulares a enriquecer, mas há
plataformas que podem ser accionadas para a recuperação dos bens, há tribunais e
deve haver actuação na fiscalização”.

Para a jurista, a obrigação do estado é preservar o direito de pertença aos herdeiros,


desde que primeiro analise a cooperação internacional que tem com outros países, mas
também um olhar objectivo dos factos, para não correr risco de tirar bens que
realmente pertence a privados.

Noutro desenvolvimento, assumiram os filhos que, um dos grandes desafios é a


conservação das obras devido a falta de espaços condignos.
Mutxini explicou que há dificuldades, sublinhando que a família está a fazer um esforço
“razoável” no sentido de conservar as obras do mestre Malangatana.

Por outro lado, a família Craveirinha possui um memorial, localizado no Zimpeto. A


iniciativa visa tirar o foco da figura do centro urbano. Entretanto, no que diz respeito a
Casa-Museu, explicou que não cabe a sua família dar o estatuto de Casa-Museu,
sublinhando que a mesma está disponível para quem queira fazer visita. “Isso
ultrapassa a família, houve uma intenção de dar esse estatuto, mas depois a coisa
parou. Então, por agora, não se pode considerar o local de Casa-Museu”.

Mutxini explicou, ainda, que uma das dificuldades na gestão do espólio do mestre é a
questão da falsificação das obras. Segundo ele, a sua família tem feito esforços na
identificação dos infractores, mas alega que não possui capacidade suficiente para
acabar com o mal.

“Do nosso lado, temos dificuldades em chegar a obras falsificadas ou outras roubadas
em instituições. Hoje em dia, até temos casos de obras que as vimos ser
comercializadas, mas nunca se fez a sua venda. Para casos em que há informações
seguras sempre há processos judiciais” conta para sentenciar “O Estado tem o papel de
vigiar obras de todos no que diz respeito a esse assunto, mesmo na travessia fronteiriça
das obras desta natureza”.

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