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Psicologia Profunda

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Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Neumann, Erich. Psicologia profunda e nova ética/Erich Neumann; [tradução João Rezende Costa; revisão Ivo Stomiolo], — São Paulo: Edições Paulinas, 1991 — (Coleção amor e psique)

ISBN 85-05-01183-X

1. Bem e mal — Aspectos psicológicos 2. Ética —

Aspectos psicológicos 3. Psicanálise I. Título. II. Série.

90-1805

CDD — 150.1954

— 111.84

— 170

— 616.8917

índices para catálogo sistemático:

1. Bem e mal: Metafísica 111.84

2. Ética: Filosofia 170

3. Psicanálise: Medicina 616.8917

4. Psicologia analítica junguiana 150.1954

Coleção AMOR E PSIQUE

Uma busca interior em psicologia e religião, J. Hillman

A sombra e o mal nos contos de fada, Marie-Luise von Franz

A individuação nos contos de fada, Marie-Luisc von Franz

A psique como sacramento — C. G. Jung e P. Tillicli, J. P. Dourley

Do inconsciente a Deus, Ema van de Winckel

Contos de fada vividos, H. Dicckmann

Caminlio para a iniciação feminina, S. B. Perera

Os mistérios da mulher antiga e contemporânea, M. E. Harding

Os parceiros invisíveis, J. A. Sanford

Menopausa, tempo de renascimento, A. Mankowitz

A doença que somos nós, J. P. Dourley

Mal, o lado sombrio da realidade, J. A. Sanford

Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô, Anônimo

Os sonhos e a cura da alma, J. A. Sanford

• Bíblia e psique Simbolismo da individuação no AT, E. F. Edinger

A prostituta sagrada, N. Q.-Corbett

A inteqnetação dos contos de fada, Marie-Louise von Franz

As deusas e a mulherNova psicologia das mulheres, J. S. Bolen

Psicologia profunda e nova ética, E. Neumann

Meia-idade e vida, A. Brennan e J. Brewi

*

índice

5

Introdução à coleção “amor e psique’

7

Prefácio

9

1. Introdução

16

2. A velha ética

41

3. Fases da evolução ética

56

4. A nova ética

80

5. Fins e valores da nova ética

Impresso na Gráfica de Edições Paulinas - 1991 Via Raposo Tavares, Km 18,5 - 05550 SÃO PAULO

Erich Neumann

PSICOLOGIA PROFUNDA

E

NOVA ÉTICA

Edições Paulinas

Título original Tiefenpsychologie und neue Ethik Fischer Taschenbuch Verlag, 5°. ed., 1985

© Kindler Verlag GmbH, München

Tradução João Rezende Costa

Revisão

Ivo Storniolo

Coleção AMOR E PSIQUE dirigida por Dr. Léon Bonaventure Pe. Ivo Storniolo Profa. Maria Elci S. Barbosa

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EDIÇÕES PAULINAS

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TELEX (11) 39464 (PSSP BR) FAX (011) 575-7403 Rua Dr. Pinto Ferraz, 183 04117 SAO PAULO - SP END. TELEGR.: PAULINOS

©

EDIÇÕES PAULINAS — SÃO PAULO — 1991 ISBN 3-596-42005-9 (Alemanha) ISBN 85-05-01183-X (Brasil)

INTRODUÇÃO À COLEÇÃO AMOR E PSIQUE

Na busca de sua alma e do sentido de sua vida, o homem descobriu novos caminhos que o levam para a sua interioridade: o seu próprio espaço interior toma-se novo lugar de experiência. Os viajantes desses caminhos nos revelam que somente o amor é capaz de gerar a alma, mas também o amor precisa da alma. Assim, em lugar de buscar causas, explicações psicopatológicas para nossas feridas e sofrimentos, precisamos, em primeiro lugar, amar a nossa alma, assim como ela é. Deste modo é que poderemos reconhecer que essas feridas e sofrimentos nasceram de falta de amor. Por outro lado, revelam-nos que a alma se orienta para um centro pessoal e transpessoal, para a nossa unidade e a realização de nossa totalidade. Assim, a nossa própria vida porta em si um sentido, o de restaurar a nossa unidade primeira.

Finalmente, não é o espiritual que aparece primeiro, e' sim o psíquico, e depois o espiritual. É a partir do olhar do imo espiritual interior que a alma toma seu sentido, o que significa que a psicologia pode de novo estender a mão à teologia.

Essa perspectiva psicológica nova é fruto do esforço para libertar a alma da dominação da psicopatologia, cio espírito analítico e do psicologismo, para que volte a si

mesma, à sua própria originalidade. Ela nasceu de refle­ xões durante a prática psicoterápica, e está começando a renovar o modelo e a finalidade da psicoterapia. É uma nova visão do homem na sua existência cotidiana, do seu tempo, e dentro de seu contexto cultural, abrindo dimen­ sões diferentes de nossa existência para podermos reen­ contrar a nossa alma. Ela poderá alimentar todos os que são sensíveis à necessidade de colocar mais alma em todas as atividades humanas.

A finalidade da presente coleção é precisamente restituir a alma a si mesma e “ver aparecer uma geração de sacerdotes capazes de entenderem novamente a lingua­ gem da alma”, como C. G. Jung o desejava.

Léon Bonaventure

Prefácio

Este livro, elaborado durante a segunda guerra mundial e sob sua pressão, é publicado em época obscure­ cida pelo surgir do fantasma da terceira guerra mundial. Pergunta-se: num período de dança dos mortos, de que o nazismo na Alemanha não passou de mera antecipação, é afinal confiável levantar-se a questão de uma ética ou mesmo de uma “nova ética”? Os povos, que ainda ontem se blasonavam de uma luta ombro a ombro em prol da liberdade do homem, continuam a apostar entre si na produção de bombas atômicas uns contra os outros, e quem haveria de duvidar que o incrível de hoje é a evidência de amanhã? O que quer nesta situação do mundo a pergunta ridícula acerca da ética e a resposta, ainda mais ridícula, de que se trata do indivíduo? Pode parecer que pergunta e resposta sejam ultra­ passadas e que não passem de angústia de uns poucos indivíduos moribundos aos quais então se tenta respon­ der. Tudo fala contra este parecer. Uma consciência histó­ rica que lança uma visão global sobre a evolução da humanidade haverá de reconhecer que a gênese do indi­ víduo, desde sempre, foi tida como o mais elevado empenho da espécie. A comunidade de indivíduos livres, eis a fina­ lidade próxima da evolução — se bem que ainda distante — mas quejá surge no horizonte. Comunidade e liberdade

não se proclamam, com bombas atômicas, liberdade e in­ dividualidade não se estabelecem por obra e virtude de Estados colossais. Supera-nos a todos o lado sombrio da humanidade, que escurece o céu com os raios da morte e com as bombas atômicas. Quase sempre o grande aniquila o pequeno; mas este sempre sobrevive. Sempre Davi vence Golias. O pequeno é sempre portador de um prodígio, porque ele é um indivíduo criativo com o qual a humanidade palmilha o seu caminho histórico Assim o pequeno permanece grande, e a psicologia, que considera a individualidade como um problema cen­ tral da comunidade, está apenas aparentemente em po­ sições perdidas. Sempre ocorre ser a perda de posições um ponto decisivo para a humanidade.

Israel, Tel-Aviv, maio de 1948

Erich Neumann

1

Introdução

“Deus está perto, porém é difícil entendê-lo. Mas quando há perigo cresce também a salvação”. Hõiderlin

O problema do mal é um dos problemas mais cen­

trais do homem moderno. Nenhum apelo a velhos valores e paradigmas nos impede de reconhecer que vivemos num mundo em que o mal no homem, que se levanta gigante das profundezas, nos coloca a todos sem exceção diante da pergunta: como poderemos haver com esse mal?

A modernidade é a era da humanidade em que

ciência e técnica demonstram a capacidade da consciência de se haver com a natureza física e de dominá-la em larga escala, em maior medida do que qualquer outra época da história da humanidade. E também o período em que a

incapacidade de se haver com a natureza psíquica, a alma humana, manifesta-se tão terrível como nunca antes.

O lodo de sangue, que tragou a Europa e ameaça

engolir o mundo todo — as guerras mundiais não passam de um sintoma deste estado de coisas — , é a conseqüência dessa incapacidade.

O fenômeno, que marca o nosso tempo, é a irrupção

coletiva do mal no homem, o que jamais se revelou na his­ tória universal antes, em semelhante medida. As várias explicações ideológicas, políticas, sociológicas e outras,

como consta da psicologia profunda, jamais captaram a verdadeira causa de um acontecimento. Além disso, não poderiam negar o fato de que o mal pudesse aprisionar

centenas de milhões de seres humanos. A velha ética judeu-cristã mostrou-se incapaz de exorcizar as forças destruidoras do homem.

A ruína da denominada “velha ética”, como se pode

comprovar, é um fenômeno necessário na história da humanidade. Mas ela nos coloca diante da pergunta: se já existem orientações e esquemas básicos de uma nova ética, pois a humanidade está em perigo de aniquilar-se pela moral insanity, que dela tomou posse como sintoma de um período transitório sem ética. Na luta hodierna da humanidade, só aparentemen­ te estão claros os frontes. A luta contra o mal difere do próprio mal, mas a invasão dos homens pelo mal extrapola os frontes políticos e militares, atingindo-nos a todos, onde quer que estejamos. Culpados não são apenas os assassi­ nos, mas também os assassinados. Vincula-se com o mal todo aquele que viu e não fez, todo aquele que deixou de ver porque não queria ver, todo aquele que não viu se bem que poderia ver, mas também todo aquele cujos olhos não podiam ver. Culpados somos todos nós, culpados são todos os povos, todas as nações, todas as religiões, todas as classes — culpada é toda a humanidade.

O mal, que irrompeu na pretensão imperialista dos

nazistas, é o que impediu até hoje a solução da questão social e da igualdade jurídica dos povos de cor do mundo civilizado e tenta com todas as forças aniquilar a unidade

da humanidade e minar a consciência de um destino único da humanidade e da cultura.

O homem contemporâneo vê-se numa situação abje­ ta de poder opor à aniquilação dos valores pelo mal apenas uma ética que perdeu sua eficácia anímica. A insegurança interna do indivíduo, que continua apelando à velha ética judeu-cristã sem perceber intimamente sua eficácia, cada dia experimentando sua invalidade, converte-se com muita facilidade em vítima da infecciosa do mal.

Todos temos visto que para “o bem” mão alguma se levanta, ainda que a mão faça parte de um corpo elemen­ tarmente em perigo. Isso significa, porém, que não é o bem que determina o homem ou o povo, ainda que estes colo­ quem o bem acima das ideologias, mas somente o impulso de autoconservação ativado pelo perigo. Enquanto o mal não ameaçar a existência individual, se camufla com belos mantos, que somente são rasgados quando ele se volta, com ataque devorador, contra a própria pessoa, a própria casa e o próprio país. Não é a luta contra o mal — e essa

é a verdade amarga de nossa experiência —, mas, na

melhor das hipóteses, a luta contra a ruína causada pelo mal é que põe em movimento o homem moderno. Está-se inclinando a admitir que essa reação é geral­ mente humana e atitude básica da humanidade. Mas deixa-se, de ver que houve tempos em que a iniciativa dos homens na luta contra “o mal” era inquestionavelmente mais eficaz e que até levou a movimentos de massa. Uma análise dessas iniciativas e desses movimentos de massa poderá mostrar não só cruzamentos com forças contrárias, mas também chegará à comprovação de forças que apenas se utilizaram da máscara do bem. Mas, indubitavelmente, para a consciência desses homens o mal era ruim e a luta

contra ele era uma “luta santa”. Enquanto foi válida a velha ética, os seus valores

tiveram força eficaz, mas desde a irrupção do lado escuro de sua cosmovisão, o homem moderno tomou-se tão cético

e inseguro dos valores, que não mais pôde-se perceber como um lutador contra o mal e em favor do bem. Ele

perdeu a ingenuidade de lutador, e a pergunta secreta, que torna insegura sua posição interna, diz: Quem luta contra quem, e luta contra o quê? Enquanto a orientação religiosa constituiu o fundo da orientação ética, sabia-se que Javé ou Ormuzd, Cristo ou Alá ordenou a luta e, conseqüentemente, os valores. A questão, porém, é se a “indústria” ou a “classe”, o “imperi­ alismo”, a “nação” ou a “raça” constituem o fundo condutor da luta, se o indivíduo é enganado nessa luta, se ele é inconsciente, porque as forças condutoras no fundo são camufladas, se ele luta sem saber do que afinal estas forças constituem na verdade um sintoma — essa pergunta, aparentemente insolúvel e à qual são dadas milhares de respostas de diversas formas, está na consciência de todo lutador como expressão da situação caótica do nosso tempo.

A absoluticidade com que as diversas ideologias

mutuamente contrárias se oferecem como solução, de fato “ajuda” a consciência do indivíduo que consegue deixar-se impregnar por semelhante ideologia. Mas há uma lei psicológica, segundo a qual, todo fanatismo consciente é compensado por uma dúvida igualmente forte no incons­ ciente. Isto explica por que essas ideologias contribuíram tanto para a confusão do nosso tempo e tão pouco para sua nova orientação.

A velha ética determinou, em sua forma judeu-

cristã, a estrutura da humanidade ocidental. O fato do mundo ter-se tornado ineficiente foi a causa, efeito e expressão de uma catástrofe, na qual se tornam visíveis as forças contrárias aprisionadas pela velha ética. Mas tam­ bém em toda parte podem-se detectar os inícios de uma nova ética que manifesta uma mudança na constelação psíquica básica do homem moderno.

O problema do mal apresenta-se ao homem moderno de forma coletiva e individual, esse irrompeu na humani­ dade ocidental há 150 anos em lugares diversos, aluiu e

destruiu o cunho da velha cultura, mas também pode ser acompanhado até em pormenores na história psíquica do indivíduo. O desenvolvimento do indivíduo, mediante o prisma da psicologia profunda, no qual se manifesta o problema do mal, permite, mais do que o pode fazer uma pesquisa do evento coletivo, detectar os novos enfoques sintéticos, ou seja, os elementos básicos de uma nova ética. Esta observação relaciona-se com o fato de que a evolução externa coletiva acompanhando com atraso de decênios a evolução dos indivíduos que, como tropa de reconhecimento, já se ocuparam antes dos problemas que mais tarde atingem o coletivo como massa. Entende-se facilmente que se podem detectar antes e mais claramente os ensaios individuais de solução no processo de desenvolvimento individual do que no do coletivo. O indivíduo defende-se da ruína ao se debater com o problema do mal, sendo por ele abalado e não raro atirado à beira do abismo. Para continuar a sobreviver, ele carece, não por vontade arbitrária, mas por neces­ sidade urgente, das forças profundas do inconsciente a fim de, a partir delas e de si mesmo, encontrar novos caminhos, novas formas de vida, novos valores e símbolos condutores. Mas a realidade do mal, que atinge o indivíduo, nasce não só de uma realidade individual, mas também da conformação individual de uma situação do coletivo. As­ sim como as forças criadoras do seu inconsciente, que apontam novos caminhos, não são apenas forças individu­ ais, mas também a figura individual da dimensão criadora do inconsciente coletivo e universal. Tanto o problema quanto a sua solução tornam-se visíveis no indivíduo, pois ambos estão coletivamente fundados. É isso que precisamente torna tão importante a experiência individual do homem. O que nele ocorre é

exemplar para o todo, e os enfoques de solução, que lhe trazem solução e salvação, são os inícios de valores e símbolos futuros para o coletivo.

O futuro do coletivo vive no presente dos indivíduos

acabrunhados por seus problemas, que representam como que os órgãos desse coletivo. Os homens sensíveis, animicamente doentes e criativos, são sempre os precurso­ res. Sua capacidade de serem mais penetrados pelos con­ teúdos do inconsciente coletivo, da camada profunda que determina a história do evento grupai, os faz receptíveis aos novos conteúdos que surgem, conteúdos que ainda não foram percebidos pelo coletivo. Também a esses homens, os problemas se tomam pessoalmente agudos cinqüenta anos antes que o coletivo tenha tomado conhecimento da presença desses problemas. Assim como a questão das mulheres foi percebida pelas mulheres do romantismo, também a crise moral do século XX foi antes percebida por Nietzsche, apenas para mencionar dois exemplos. O que vale para os homens criativos, vale em menor escala também para os homens sensíveis e para uma parte dos neuróticos. Não raro uma pessoa sensível fica doente pela impossibilidade de se haver com um problema que não foi percebido como proble­ ma pelo mundo em que vive, mas é um problema futuro da humanidade que se propõe nele e o leva à luta. Assim se explica que esses homens são extem­ porâneos, afastados do seu tempo e caminhantes solitários, mas também se explica o seu pioneirismo profético. O seu destino e a sua luta não raramente trágica com a proble­ mática são de decisiva importância para o coletivo, que recebe e assume, preparados precisamente por esses in­ divíduos, não apenas os problemas, não apenas a crítica destruidora do passado, mas também a síntese que cons­ trói o novo.

A relação da problemática do indivíduo com a proble­

mática do coletivo é muito mais estreita do que se percebe

no geral da humanidade. Ainda que nem sempre se perce­ ba a constelação de totalidade, na qual cada indivíduo é um órgão do coletivo, cuja estrutura interna comum ele

traz consigo no seu inconsciente coletivo, e na qual o coletivo não é nenhum abstrato, mas a unidade de todos os indivíduos, representada por ele. A tragédia matrimonial do indivíduo é o palco onde

o coletivo faz valer o problema da mudança das relações

homem-mulher, problema que é significativo e ativo tam­ bém para além dos conflitos matrimoniais do indivíduo.

Igualmente o problema moral, que leva o indivíduo a adoecer neuroticamente, é ao mesmo tempo palco e ex­ pressão de que o coletivo não está se saindo bem com o problema do mal, que nele se põe em discussão.

Enquanto determinados valores do coletivo são for­ ças vivas e eficazes, o indivíduo, quando não se trata de homem excepcional, não tem nenhuma problemática de valor. Ele não adoece pelo problema desses valores, pois existem formas institucionais de se haver validamente com o problema do valor. Enquanto e à medida que existe

o sacramento do matrimônio, não existe nenhuma neurose

dos problemas matrimoniais, mas sim adultério e pecado, castigo e perdão. A orientação é válida, ainda que o indivíduo se comporte invalidamente. Mas, quando o coletivo não mais possui o valor, isso significa que se introduziu uma crise de valor, e falta ao indivíduo a orientação coletiva. Ele adoece levado por um problema para o qual não existe mais uma resposta cole­ tiva e uma forma coletiva de solução. Ele entra então numa situação de conflito, de que nenhuma instituição não mais

o pode livrar, conflito no qual ele deve sofrer e experimen­

tar a solução individual no evento do seu destino pessoal.

2

A velha ética

É muito vasta a abrangência do que chamamos de “a

velha ética”. Ela abarca os ideais mais diversos do homem

e implica em si graus de perfeição de ordem diversa. Mas

se trata sempre da absolutização de valores que são postos como “devidos” pela velha ética.

A velha ética ocidental tem muitas fontes, das quais

as mais vigorosas são as judeu-cristãs e gregas. Não é nossa tarefa apontar as origens, as funções e mudanças dessa velha ética e acompanhar sua evolução. Oparadigma do santo ou do sábio, do nobre ou do bom, do herói ou do sóbrio pode estar no centro da velha ética. Quer se trate do kalòs kai agathós — belo e bom — dos gregos, quer da postura de cavaleiro do inglês, quer da piedade de Francisco ou da fidelidade à lei do fariseu, sempre se trata de um bem que se pode conhecer como valor absoluto. Esse valor pode ser tido como lei revelada ou imanente, como idéia teórica ou como mandamento da razão, sempre é um valor codificável e comunicável, que determina “geralmente” o modo de se comportar do homem. O ideal de perfeição pode e deve se realizar pela di­ luição dos traços que contradizem essa perfeição. A “nega­ ção do negativo”, sua exclusão vigorosa e sistemática, é o traço fundamental dessa ética. Por mais variáveis que possam ser os seus paradigmas, a formação é apenas possí­ vel por meio de uma tendência consciente à unilateralidade, pela absolutização do valor ético, que sempre exclui os gru­ pos de propriedades que contradizem esse valor.

Não temos de pesquisar a legitimidade dos valores, cuja relativização é um dos resultados da evolução espiri­ tual ocidental, nem de estabelecer sua hierarquia. Nossa tarefa consiste em pesquisar as conseqüências psíquicas que a velha ética teve sobre o homem ocidental. Ao compreendê-la, podem-se perceber dois princípios funda­

mentais, e até se poderia dizer dois métodos fundamen­ tais, que possibilitaram a imposição da velha ética. Esses métodos fundamentais são a supressão e a repressão.

A “negação do negativo”, como princípio fundamen­

tal da velha ética, fica mais clara na supressão, ou seja, no

desligamento, realizado pelo ego consciente, de todos os traços e tendências da personalidade que não correspondem ao valor ético. Disciplina e ascese constituem as formas mais conhecidas dessa maneira de supressão, em que, por exemplo, os santos judeu-cristãos, bem como os hindus e maometanos excluem as exigências do corpo e da sexuali­ dade de sua realização, o homem fiel à lei elimina todas as tendências que contradizem a lei, e o gentleman não ad­ mite em si qualquer traço que se oponha a essa cosmovisão do homem.

A supressão é uma ação consciente do ego que em

geral se desenvolve e se cultiva sistematicamente. E importante notar que na supressão se faz um sacrifício que leva ao sofrimento. Tal sofrimento é aceito e por isso os conteúdos e partes da personalidade excluídos mantêm permanente vinculação ao ego. Uma proibição moral que requer a supressão de uma tendência impulsiva, como, por exemplo, o exercício da sexualidade, exclui, com efeito, de sua realização esta tendência impulsiva suprimida, mas a tendência impulsi­ va recalcada desempenha papel importante na cosmovisão do ego consciente abafado. Vamos nos ocupar com a econo­ mia psíquica da súpressão ao analisar os efeitos psíquicos da velha ética. Em contraste com a supressão está a repressão com

a forma mais freqüente pela qual a velha ética impõe os seus valores. Na repressão, os conteúdos reprimidos e excluídos, as partes da personalidade que contradizem o valor ético, perderam a relação com o sistema da consciên­ cia, são inconscientes ou esquecidos, ou seja, o ego nada sabe de sua presença. Por isso os conteúdos reprimidos, diversamente no caso da supressão, são retirados do con­ trole da consciência, funcionam independente dela e, como o mostrou a psicologia profunda, levam subterraneamente uma vida autônoma e eficaz, que é fatal tanto para o indivíduo como para o coletivo. O que o estudo das neuroses demonstrou quanto ao indivíduo, nós o mostraremos agora quanto ao coletivo; os complexos do inconsciente, impedidos pela repressão de virem à luz do dia da consciência, minam e destroem o mundo da consciência. A insanidade e impenetrabilidade da situação anímica, que surge pela repressão, levam a conseqüências que superam de longe a periculosidade da ascese com sua clara atitude consciente de supressão. A instância de que se valeu a velha ética para se impor ao indivíduo é a “consciência” (Gewissen), no que esta instância da consciência (Gewissen), comojá Spitteler expôs no seu “Prometeu e Epimeteu”, está em constraste com a “voz” como a expressão individual do psíquico. Freud na verdade revisou1 mais tarde sua afirmação de que a consciência é em sua origem “medo social” e “nada mais”2 mas se partirmos da distinção de consciência (Gewissen) e voz interior, sua afirmação tem razão de ser3. Uma parte essencial da instância moral no homem

1. Freud, S., Zeitgemãsses über Krieg und Tod.

2. Freud, S., Das Unbehagen in der Kultur.

3. Nota do tradutor: O termo “consciência” em português é ambíguo para

traduzir o alemão “Bewusstsein” (o estado anímico em que o sujeito sabe dos conteúdos) e “Gewissen” (a instância moral psíquica que acolhe os valores para o indivíduo). Para evitar essa ambigüidade na tradução, todas as vezes em que

aparece o termo “consciência” neste segundo significado- se acrescenta ao português a palavra alemã: consciência (Gewissen).

está condicionada pelo ambiente, pela sociedade e pelo tempo. Estar de acordo com o cânon dos valores, que domina na comunidade e constituir a “cultura do superego”, significa ter uma “boa consciência” (gutes Gewissen), o não- acordo com ele é a “má consciência” (Schlechtes Gewissen). A consciência (Gewissen) é a representante da norma co­ letiva e com ela muda de conteúdo e pretensão. A mesma instância, que do homem médio na Idade Média exigia coletivamente o total acordo com a cosmovisão do Antigo Testamento e condenava e recalcava o aspecto científico como “heresia”, exigia no século XIX o total acordo com a cosmovisão científica e condenava tendências religiosas como engano dos padres. A mesma consciência (Gewissen) proíbe na casta dos guerreiros o pacifismo e num grupo pacifista o impulso de agressão. Uma vez que a consciência do indivíduo desenvolve- se primeiramente com a ajuda do coletivo e recebe dele a comunicação dos “bons valores”, o ego como centro dessa consciência normalmente se torna também o portador e representante dos valores eventualmente válidos do cole­ tivo. É a instância que, em identificação mais ou menos perfeita com esses valores, representa as exigências do coletivo no âmbito individual e rejeita as tendências con­ trárias existentes. O fim que o coletivo se coloca é sempre produzir uma vida e um modo de viver em comum que sejam o menos possível perturbados pelas forças ativas do indivíduo, pouco importando que estas forças tenham valores baixos ou altos. Tudo o que está em contraste com o equilíbrio do coletivo é convertido em tabu e proibido o seu desenvol­ vimento no indivíduo, sendo que os valores, que produzem esses equilíbrios nem sempre são fixos quanto ao conteúdo. O que significa valor para uma sociedade, para um grupo de determinada época ou comunidade, pode significar para outros um desvalor. O acordo com os valores do coletivo é a linha diretiva

ética do indivíduo que faz parte do grupo, e a consciência (Gewissen) é a instância do sistema psíquico que, reagin­ do, tenta produzir esse acordo. A explicação de Freud, que diz ser o superego a autoridade externa introjetada, tem razão neste ponto. O acordo com os valores eventualmente dominantes do coletivo é, porém, uma tarefa inatingível. Uma vez que os valores da velha ética são “absolutos”, ou seja, não referidos à realidade do homem individual, a adaptação a esses valores constitui uma das tarefas mais difíceis da vida de todo indivíduo. Ela faz parte de sua adaptação ao coletivo. Vimos que a supressão e a repressão são os métodos principais de que se vale o indivíduo para adaptar-se ao ideal ético. A formação de dois sistemas psíquicos na personalidade é o resultado natural de semelhante ten­ tativa: um deles permanece em geral inteiramente in­ consciente, e o outro se forma para ser uma parte essencial com a participação do ego e da mente consciente. O sistema que geralmente permanece inconsciente é a sombra4, e o outro é a personalidade aparente ou persona5. A formação da personalidade aparente é operação essencial da cons­ ciência (Gewissen). Só com sua ajuda é que se tornam afinal possíveis o costume e a convenção, uma vida social da comunidade e uma ordem moral da sociedade. A formação da persona é tão necessária quanto universal. A persona, a máscara, aquilo pelo qual alguém é considerado e pelo qual aparece em contraste com o seu ser real individual, corresponde à adaptação às exigências- do tempo, do entorno e da comunidade. A persona é a veste e a cobertura, a couraça e o uniforme, por trás da qual e na qual o indivíduo se esconde, e com muita freqüência não só do mundo, mas de si próprio também. É a “atitude”, atrás da qual permanece invisível o incontrolado e o

4. Jung, C. G., Die Beziehungen zwischen dem Ich und dem Unbewussten. 5. Ibidem.

incontrolável, a aparência considerada, detrás da qual permanecem invisíveis o que é escuro e singular, desviante, secreto-misterioso. Uma parte essencial da educação dedica-se sempre

à formação de uma persona, que torna o indivíduo “puro”

e “capaz de sociedade”, e contribui não com o que ele é, mas com o que é preciso considerar como real; formação em que uma maior parte cabe ao aprendizado do que é preciso deixar de ver e passar por cima, em cada sociedade e em

cada tempo, mais do que aguçar o olhar para o desenvol­ vimento da vigilância e do amor pela verdade. Quer se trate de um tabu dos primitivos, de uma

convenção da sociedade ou de uma proibição moral, quer se trate de não se falar de determinados conteúdos, de não se ver determinados fatos ou se comportar como se deter­ minadas coisas, que não existem, existissem, quer se trate de dizer coisas que não se pensa ou de não pronunciar coisas de que se pensa de fato — em cada um desses casos

a exigência do coletivo está orientada por valores que são

urgentemente necessários para o seu desenvolvimento e para o desenvolvimento da consciência, e sem os quais o coletivo não poderia existir ou crê que não poderia existir.

O ego recebe a recompensa do reconhecimento ético coletivojustamente à medida que consegue a identificação com a persona, a personalidade aparente coletivi-zada, pois essa personalidade aparente é a expressão do acordo com os valores do coletivo. O processo da formação da persona ocorre sempre de acordo com a abrangência e a índole do indivíduo e do tempo em diversos níveis. Nesse processo, não importa que essa personalidade-persona, na qual o ego se identifi­ ca com as exigências e valores da sociedade, do status ou do grupo popular, seja a de um médico ou de um advogado, de um cacique ou de um funcionário do partido, de um rei ou de um artista. Também pouco importa que a sociedade,

que coloca no indivíduo a máscara coletiva da persona, seja primitiva ou civilizada, democrática ou fascista.

O contraste da “consciência” (“Gewissen”) com a “voz

interna”, de que nos ocuparemos mais tarde de modo mais abrangente, pode confirmar o que afirmamos sobre a relação da ética com a formação da persona. Temos mais claro esse contraste no caso do fundador de uma nova religião ou de um movimento ético: este é sempre conside­ rado “criminoso” e é inevitável que seja considerado como

tal. Abraão que quebrou os ídolos do seu pai, os profetas que dissolveram a mentalidade nacionalista-religiosa do povo judeu, Jesus que dissolveu a velha lei, Lutero que revolucionou o catolicismo, todos foram considerados como criminosos, assim como Sócrates que introduziu “novos deuses”, ou Marx e Lenin que começaram a aniquilar a velha ordem social.

O revolucionário de toda ordem sempre está do lado

da voz interior e contra a consciência (Gewissen) do seu tempo, que sempre é expressão dos velhos valores domi­ nantes, e a execução de tais revolucionários acontece sempre em obediência a motivos “éticos” bons. O curso da história reconhece com muita freqüência — não absoluta­ mente sempre, como o ensina a história dos hereges — os “criminosos da voz interna” como precursores de uma nova ética. Mas isso em nada muda no fato de que a consciência (Gewissen) dos novos tempos, se bem que formada também pela ação de muitos revolucionários da voz interna, volte contudo a construir um cânon de valores dominantes e exija a adaptação a esse cânon mediante o processo de sua personalidade aparente.

A persona exclui, sob a autoridade da consciência

(Gewissen), um bom número de componentes psíquicos. Em parte eles são reprimidos no inconsciente, mas em parte são controlados pelo ego e conscientemente manti­ dos afastados da personalidade. Todas as propriedades, capacidades e tendências que não estão de acordo com os

valores coletivos, tudo o que teme a luz da opinião pública torna-se agora a sombra, a parte escura do ego, a parte não conhecida e não reconhecida da personalidade. A infinita

série das figuras de sombra e figuras dúplices na mitolo­ gia, nos contos de fada e na literatura vai de Caim e Edom, passando por Judas e Hagen, até ao Mr. Hyde Stevenson e o homem mais feio de Zaratustra; ela sempre se apresen­ tou de maneira nova à consciência, mas o significado psicológico dessas contra-imagens até o momento não se tomou perceptível para a humanidade.

A sombra é o outro lado. É a expressão da própria

imperfeição e terrenidade, é o negativo que não se harmo­

niza com os valores absolutos. Ela é a corporalidade em contraste com a absoluticidade e eternidade de uma alma que não pertence “a este mundo”. A sombra representa a

unicidade e transitoriedade de nossa natureza, é o condi­ cionamento e o limite próprio, mas constitui assim um sistema nuclear de nossa individualidade.

A velha ética conhece duas reações à situação psíqui­

ca criada pela consciência (Gewissen). Ambas são, com efeito, fatais, mas o são em diversa medida e com diversas conseqüências para o indivíduo. A situação mais freqüente e mais corrente para o homem médio é que o ego se identifique com os valores éticos. Essa identificação cavalga sobre uma identificação do ego com a persona. O ego confunde-se com a personalidade aparente, que é, com efeito, apenas a parte coletivamente medida da personali­ dade, e se esquece de que possui dimensões que estão em contradição com a persona. O que, porém, significa que o ego reprimiu o lado da sombra, e não existe nenhum

contato com os conteúdos escuros, que são afastados da zona da consciência como negativos. Pela identificação do ego com os valores coletivos, o ego tem então uma “boa consciência” (“gutes Gewissen”). Ele se forma para estar de acordo com os valores positivamen­ te reconhecidos de sua cultura e não mais se sente apenas

como portador da luz da consciência do conhecimento humano, mas também como portador da luz moral do mundo dos valores.

O ego cai então numa inflação perigosa, ou seja, na

ofuscação da consciência por um conteúdo inconsciente. A inflação da boa consciência (Gewissen) consiste na injustificada identificação de um valor muito pessoal, a saber, do ego, com um valor suprapessoal, identificação que leva o indivíduo a esquecer a sua sombra, isto é, sua

limitação e corporalidade de criatura, pelo que o inevitável não-acordo do ego com os valores coletivos é postergado.

A repressão da sombra e a identificação com os

valores positivos são dois lados de um só e mesmo processo. A identificação do ego com a personalidade aparente

possibilita a repressão, e a repressão é a base da identifi­ cação pessoal do ego com os valores coletivos, através da persona. As formas com que se expressa a atitude aparente ética vão da ilusão genuína, passando por uma vida “como se”, até o farisaísmo e a mentira aparentemente santos. Essas reações falhas do homem à exigência ética não se limitam a determinado tempo histórico, mas o ocidente desses últimos cento e cinqüenta anos apresenta com muita freqüência essa pseudo-atitude. Em nenhuma época a iden­ tificação com valores, ilusionista e camufladora da realida­ de, dos homens ocidentais, foi tão grande como na época da precedente era burguesa. Ao contrário, porém, com tempos anteriores, ela se tornou consciente na autocrítica do ho­ mem moderno a partir de muitas perspectivas.

A fé positivista no progresso é um precursor da

primeira guerra mundial, e o estabelecer-se do homem moderno como sentido e cume da evolução criativa é o

início do estabelecimento bestial da raça dos senhores arianos no nazismo.

O iluminismo e o engano do coletivo na guerra e na

paz é causa e resultado do iluminismo e do engano dos

indivíduos que em todas as esferas manifestam sua atitu­ de pseudocristã, pseudo-humanística, pseudoliberal e pseudo-humana.

A inflação do ego significa sempre uma inundação

por um conteúdo maior, mais forte e mais cheio de energia do que a consciência, e que, por isso, causa uma espécie de possessão da consciência. Tal possessão é perigosa, não importando o conteúdo que lhe subjaz, porque ela impede o ego e a consciência de uma genuína orientação para a realidade. Toda infação e possessão é acompanhada por uma limitação da consciência. Sua forma mais clara está na idéie fixe, ou seja, na situação em que o ego é acossado e preso por uma idéia fixa e em razão disso deixa de ver partes essenciais da realidade. O predomínio do conteúdo de que está possuída a consciência leva à repressão dos elementos da realidade que contradizem o conteúdo que exerce a possessão, e a negligência desses fatores leva à

catástrofe. Como a história mostra sobejamente, todo fanatismo, todo dogma, toda unilateralidade forçada, são levados à ruína pelos elementos que tinham reprimido, suprimido e ignorado. A inflação do ego por sua identificação com os valores éticos coletivos não é tão fatal pelo fato de esses valores serem perigosos em si, e sim pelo fato de o indivíduo limitado enquanto ego pessoal identificar-se com o suprapessoal na figura dos valores coletivos, ele perde os seus limites e se toma desumano.

A não-identidade do indivíduo com o impessoal é a

base da sua vida. Somente distinguindo-se a criatura- limitada do criador-ilimitado é que se torna real a singu­ laridade e individualidade do homem. Pela inflação, essa

situação básica é descurada, e o homem vira quimera, mero espírito e fantasma. Tal constelação se manifesta psicologicamente, en­ tre outras coisas, em sonhos de voador ou sonhos em que

se fica invisível, e termina depois também com freqüência

como o vôo de ícaro, que é a representação simbólico- mitológica dessa situação psíquica básica. As asas, coloca­ das apenas com cera, do ego inflacionado não se mantêm, no seu vôo demasiado alto, à força de derreter sob o sol do suprapessoal. A queda no mar, o ser tragado pelo incons­ ciente, a aniquilação do ego, que se imaginava imortal, é

o fim.

E o elemento inferior, invadido pela hybris, a ímpia

soberba do homem, que provoca a queda; o que fora reprimido e se deixara de ver no orgulho de voar, agora se vinga.

Conhecemos o mar, que traz a simbologia da mito­ logia e dos sonhos, como imagem do inconsciente. A lei, segundo a qual, na mitologia, a hybris do homem é casti­ gada pela vingança dos deuses e pela queda por ela

causada, é projeção de uma lei psicológica. Toda inflação, todo identificar-se do ego com um conteúdo suprapessoal — e tal é o significado da hybris, em que o homem se ima­ gina igual aos deuses — leva à ruína, na qual o conteúdo impessoal, os deuses aniquilam o ego que não é capaz de reconhecer que o poder deles é superior.

A imagem mitológica representa a conseqüência da

inflação para o ego individual. Contudo, vamos nos ocupar mais com as catástrofes coletivas que resultam do com­ portamento que a velha ética exige. A inflação dos valores

é a forma que o homem médio escolhe com mais freqüência

para realizar a velha ética, mas não é a única forma.

A velha ética era originalmente uma ética de elite.

Era a solução de naturezas fortes que queriam, com a

ajuda da supressão, resolver o problema ético com a consciente negação do negativo.

A situação psicológica desse grupo de elite o expõe a

outros perigos diversos da repressão e da inflação do ego,

pois para ele é típica outra constelação psicológica. A desumanização como conseqüência da inflação do ego é

impedida por um fenômeno, que se vincula com a supres­ são e o sacrifício, a saber, pelo sofrimento.

A tendência ascética da velha ética sempre se faz

acompanhar pelo sofrimento consciente do indivíduo por causa de sua divisão em “duas almas”, a divisão entre a parte que deve ser rejeitada e suprimida e a parte que quer os valores e é consciente. É de importância secundária se tal sofrimento adquire a forma da renúncia ascética, da superação heróica, da adoração da fé ou da fiel observância da lei. No sofrimento, acolhe-se e realiza-se a situação humana básica de ser limitada. A impossibilidade de uma identificação do ego pessoal com o suprapessoal é expe­ riência viva no sofrimento do homem por causa de sua dupla natureza, no sofrimento pelo sacrifício do lado rejeitado.

A finalidade da velha ética consiste na exigência de

que “o homem deve ser nobre, disponível a servir e bom”, ou exprimindo de outra forma esses valores éticos: piedo­ so, fiel, corajoso, ativo, devoto a Deus, racional. Os métodos para atingir tal finalidade eram, como já acentuamos várias vezes, a repressão ou a supressão de todos os componentes “negativos”. Sendo assim, a concep­ ção básica da velha ética é dualista. Reconhece um mundo contrário de luz-treva, divide a existência em dois hemis­ férios de puro e impuro, bom e mau, Deus e Diabo, e aponta ao homem o seu dever nesse mundo dualisticamente dividido.

A função do ego é a de se tornar representante do lado

da luz. São possíveis formas ativas e passivas, extroverti­

das e introvertidas, políticas e religiosas, filosóficas e artísticas dessa atitude básica. O ego pode identificar-se na luta com o lado da luz e buscar representá-lo. Mas também pode lutar por ele e sofrer por ele. Em todo caso, o mundo dualisticamente dividido em luz e treva apanha também o homem.

O indivíduo acha-se agora fundamentalmente divi­

dido num mundo de valores, com que se deve identificar,

e num mundo de valores inferiores, que dele faz parte e até

pode dominá-lo e que se contrapõe, como treva, à luz do mundo da consciência e dos valores.

O dualismo da velha ética, que está especialmente

claro em sua versão irânico-judeu-cristã e gnóstica, divide

o homem, assim como o mundo e a divindade, em duas partes, um homem superior e um inferior, um Deus e um Diabo. Essa divisão em duas partes é eficaz para além de todas as declarações de unidade ideológica e filosófica, religiosa ou metafísica. A realidade do homem ocidental está até hoje determinada basicamente por essa divisão em duas partes. A velha ética repousa sobre o princípio do conflito de

opostos. A luta entre bem e mal, luz e treva é um problema fundamental. Se bem que no particular o conteúdo do bem

e do mal podem mudar, o princípio da contrariedade dos

opostos e sua luta e conflito permanecem como conteúdo da ética.

A figura principal desta ética, sempre é o herói, quer

como santo seja tido por idêntico com o princípio da luz — uma ilusão que se simboliza na auréola do santo — quer esmague, como são Jorge, o dragão. O outro lado é sempre erradicado ou decisivamente vencido e se lhe tira a vida. Mas a luta dos opostos — o que corresponde à concepção ética básica irânica da luta da luz contra as trevas — é infinita, pois a treva reprimida, suprimida e vencida sempre volta a se levantar, sempre de novo crescem à hidra as cabeças cortadas.

A humanidade acha-se perante o estranho e, para a

velha ética, o paradoxal problema de que mundo, natureza

e alma são o palco de um inesgotável renascimento do mal.

Assim como a luz não é eliminável por nenhuma força superior da treva, assim também não há sinais de que a treva possa ser eliminada por uma força superior da luz.

Ao passo que para o homem médio a velha ética repousava sobre a inflação do ego e na repressão, e sua solução aparente consistia na identificação do ego com os

valores coletivos, tal situação é mais complicada no caso da elite ética. Nela encontramos também uma constelação contrária, a saber, uma deflação do ego. Essa deflação, uma identificação com o desvalor, o mal, expressa-se numa consciência dominadora de pecado, tal como encon­ tra sua forma mais clara na doutrina do pecado original,

o “ser mau do homem desde criança”.

Aí a desvalorização do ego pode ser tão forte, o sentimento de inferioridade com respeito ao suprapessoal tão catastroficamente acentuado, que não permaneça mais nenhum espaço propriamente significativo para uma nova ética. A queda no mal é experimentada aí tão decisivamen­

te que, perante ele, somente a redenção pelo ato da graça de Deus, e não por um agir ou ser do homem, pode segurar

o braço da balança.

Partindo dessa posição extrema e unilateral de identificação com o mal, muitos graus de consciência do pecado, que se vivência de imediato como certo incômodo mais ou menos sem esperança perante o terreno-material, corpóreo e animal, levam a uma posição intermediária. Chega-se nela pelo menos à experiência da própria natu­ reza dupla, que a um só tempo é boa e má. Mas então tambi.' :n prepondera o sofrimento por causa do próprio ser que é mau e que se deve suprimir, e “a vida neste mundo”

adquire assim — como no puritanismo e no farisaísmo — um cunho severo, enrijecido e inimigo da vida. E característica então que, ao lado da depressão causada pela consciência do pecado, pode-se tomar ativa simultaneamente a inflação do ego e da identificação com os valores. A soberba da inflação de saber do bem e a segurança presunçosa de “possuir” o bem no seu próprio agir podem coexistir com a humildade de uma consciência contrita de pecado.

Nessa psicologia encontram-se todas as misturas,

desde o ilusionismo moral e narcisismo do cumprimento

da lei, passando pela estrada do combate em prol do bem,

até o sofrimento por causa do dualismo do mundo, do desespero pela má índole do próprio coração e da consciên­

cia autodevoradora do pecado. Em todo caso, porém, a vida adquire, pela experiên­ cia do sofrimento, um fundo escuro, onde retorna indire­ tamente o elemento suprimido e atinge a consciência. Ao

passo que na repressão o contato causador de sofrimento com os seus conteúdos pouco inteligíveis vem-a ser excluído pela ruptura com os elementos inconscientes, o sofrimento permite ao recalcado uma vida relativamente sã. Não é, como o repressor, acossado e vencido pelo lado escuro do inconsciente. A limitação espontânea da vida pelo sacrifí­

cio e pela supressão constitui uma forma de vida que não

torna o indivíduo incondicionalmente doente. As conse­ qüências dessa supressão para o coletivo, porém, são funestas, mesmo quando o indivíduo não é prejudicial. O método da supressão comunga com o método da repressão usado pela velha ética quando o coletivo paga pela falsa

virtude do indivíduo. A supressão, e ainda mais a repressão, leva a um estacionamento dos conteúdos omitidos ou reprimidos na consciência. Sob o aspecto de economia da energia, no caso da supressão a situação volta a ser mais favorável. O elemento supresso desempenha sempre o papel e a tarefa de inquietar a consciência. O embate do mal assume espaço essencial na consciência. Acresce que se sacrifica

ao elemento omisso um acervo significativo de energia

psíquica a partir do ego. A energia usada para a supressão

age em parte como equivalente psíquico da não-realização

do conteúdo anulado. A energia, se deveria investir na

realização do conteúdo, agora é sacrificada a esse conteú­ do, na figura da energia que se requer para sua supressão.

O equivalente dessa energia permanece vinculado ao

conteúdo rejeitado e vem a ser causa de inibição, de bloqueio e de mecanismos comportamentais que são ins­ trumentos da supressão. Tal forma de embate com o consciente tem em parte

na história evolutiva. Mas nem a forma do

sacrifício de um equivalente de energia, nem a ocupação consciente com a supressão, nem o sofrimento causado por ele são suficientes para dominar o problema psíquico que surge da supressão de partes eticamente rejeitadas, ou seja, partes más da personalidade. Na repressão, ao invés, faltam também as elabora­ ções parciais, equivalentes a válvulas, que aparecem na supressão. As forças e conteúdos que são totalmente repri­ midos, não tendo nenhum acesso à consciência, não ficam inalterados no inconsciente com o seu caráter original, mas se transformam. Os conteúdos reprimidos tornam-se “re­ gressivos” e negativamente se revigoram. Sem podermos tratar aqui do processo da repressão6, podemos dizer que mediante ele vivificam-se formas mais primitivas de rea­ ção. Um golpe mortal por afeto constitui, por exemplo, uma reação humana mais primitiva do que a que foi superada pelo desenvolvimento da consciência na figura da instância da consciência (Gewissen) e da formação do direito. A cons­ ciência mais elevada se dissolve no processo da regressão e novamente entra em seu lugar a reação primitiva anterior. De acordo com uma experiência geral, que não pode­ mos esclarecer com mais detalhes no momento, os conteú­ dos capazes de chegar à consciência, mas aos quais se fecha o seu acesso, tornam-se malignos e destrutivos. Sabemos pela vida diária que a incapacidade e falta de vontade de se tomar conhecimento de um fato ou de um conteúdo ou de se “reagir” a algo faz de uma mosca um elefante ou uma serpente venenosa. O conteúdo reprimido fica regressivo, associa-se no inconsciente a outros com

sua justificação

6. Jung, C. G., Uber die Energetik der Seele.

conteúdos primitivos e negativos, e no caso dos psiquica­ mente instáveis, por exemplo, não é um fato raro que uma pequena raiva, que não se deixa entrar na consciência, converta-se em acesso de furor ou de depressão. Pode-se dizer, de maneira muito geral, que forças reprimidas se estancam e formam no inconsciente uma forte tensão que tende à sua destruição. Surge agora a pergunta: O que ocorre com as partes

da personalidade — tendências, forças e impulsos — que, pela velha ética, foram excluídos da vida? Essa exclusão é tanto mais radical, a divisão e cisão entre a consciência que se identifica com os valores e o inconsciente ético é tanto maior quanto mais dogmaticamente se impõe a velha ética ao grupo ou ao indivíduo, isto é, quanto mais

forte é o exercício da

O viver da consciência (Gewissen) manifesta-se na

supressão do sentimento de culpa consciente, e, na repres­ são, do sentimento de culpa inconsciente. O sentimento de culpa corresponde à constatação da sombra, que, em caso de supressão, expressa-se em sofrimento, e, em caso de inflação e repressão, porém, permanece inconsciente. O afastamento desse sentimento de culpa, que repousa na presença da sombra, realiza-se, individual e coletivamen­ te, de maneira semelhante, ou seja, no fenômeno da projeção da sombra. A sombra, que está em contradição

com os valores, não pode ser aceita como parte negativa da própria estrutura projetada, ou por isso colocada para fora

e experimentada como algo externo. E combatida, punida

e extirpada como “estranho fora” em vez de um “próprio interno”.

A forma da velha ética de eliminar o sentimento de

culpa e de excluir as forças negativas proibidas constitui um dos maiores perigos para a humanidade. Estamos pensando no expediente psicológico do bode expiatório. Essa tentativa de solução, que se pode constatar em tods

consciência ( Gewissen).

a humanidade7, é mais conhecida no ritual do judaísmo: a

purificação do coletivo era feita reunindo o mau e impuro sobre o bode expiatório, que em seguida era expulso para

o deserto de Azazel. Com a ajuda desse ritual, o mal era

expulso da comunidade e de sua consciência para o campo do desconhecido e do inconsciente.

Os conflitos psíquicos inconscientes dos grupos e das massas exteriorizam-se sobretudo em irrupções epidêmi­ cas, em guerras e revoluções violentas, nas quais as forças inconscientes coletivamente acumuladas tomam-se do­ minantes e fazem história. Deparamos na psicologia do bode expiatório uma tentativá primitiva, se bem que in­ suficiente, de se solucionar os conflitos inconscientes. A psicologia do bode expiatório determina quer a vida inte­ rior, quer a vida em comum <los povos. As irrupções em epidemias de massa e a psicologia do bode expiatório são as duas reações psíquicas, não raro associadas entre si, que são conseqüências de um conflito inconsciente. Se esse conflito ainda não se achava suficientemente maduro ou se foi reprimido pela consciência, relativamente pouco importa traduzir o seu efeito. No estádio primitivo, quando os homens que com­ punham o coletivo ainda tinham consciência fraca, o progresso rumo aos valores exigidos não se pôde obter de outra forma do que pela projeção do mal para fora. O mal só é capaz de entrar na consciência sendo “lançado aos olhos” do coletivo e apagado em grande solenidade. O efeito purificador consiste na conscientização que ocorre pela visualização do mal e, na libertação do consciente deste conteúdo, pela projeção. O que significa que nesta fase o mal não é reconhecido, com efeito, como mal próprio

e individual, mas é conhecido como mal. Em formulação

mais precisa, reconhece-se a pertença do mal à própria es­ trutura coletiva e se soluciona de maneira coletiva, à

7. Frazer, J. G., The Golden Bough: The Scape Goat.

medida que, por exemplo, o sumo sacerdote transfere os pecados do povo ao bode expiatório como sacrifício vicá­ rio.

O efeito psíquico dessa purificação existe enquanto

se percebe a identidade com o sacrifício vicário, ou seja, enquanto este sacrifício impressiona verdadeiramente o coletivo, não sendo rebaixado o processo de sua execução a mero teatro. Nesse estádio da psicologia do bode expiatório domi­ na a fase mais primitiva da ética, o da responsabilidade grupai e da identidade grupai. Não deixa de ser verdade que no judaísmo posterior também o indivíduo, ao confes­ sar seus pecados, insere-se como indivíduo na purificação, sendo assim levado à consciência do seu lado da sombra. No entanto, mesmo neste estágio, a confissão dos pecados não é individual, mas nasce do espírito da responsabilida­ de coletiva, cada qual se penitenciando da culpa coletiva ao afirmar: “Nós pecamos. Nós traímos” etc.

O homem primitivo— e o homem grupai de qualquer

povo reage como homem primitivo —: não consegue reco­ nhecer o mal como “mal pessoal”,uma vez que a consciência ainda se acha pouco desenvolvida para poder enfrentar os conflitos dela resultantes. Por essa razão, o mal é experi­ mentado pelo homem grupai como estranho, sendo as vítimas da projeção da sombra, os estrangeiros.

As minorias de todo povo, os estrangeiros, são os objetos dessa projeção; quando elas são de raça e nação diferentes, são especialmente adaptadas para esse efeito. Esse problema psicológico relativo às minorias tem suas variantes religiosas, nacionais, racistas e sociais, mas é sem exceção o sintoma de uma estrutura anímica coletiva dividida e cindida. Chineses, negros e judeus desempe­ nham o mesmo papel de estranhos, assim como antes o desempenharam os prisioneiros de guerra e os náufragos. Também a minoria religiosa está em todas as religiões sob

essa lei, e o fascista desempenha na comunidade comunis­ ta o mesmo papel que o comunista entre os fascistas.

O papel de outcast do estranho como objeto da proje­

ção da sombra, é muito importante para a economia psíquica, porque na sombra, enquanto a parte da persona­ lidade estranha ao ego, a posição contrária própria, que mina a atitude de segurança da consciência, é sempre situada fora e eliminada. No herege, combate-se a própria dúvida religiosa; no adversário político, a insegurança da própria posição política; no inimigo nacional, a uni-

lateralidade do próprio ponto de vista nacional.

A necessidade que o coletivo tem de se libertar com

a ajuda da psicologia do bode expiatório, existe enquanto está presente o sentimento inconsciente de culpa que, como fenômeno de divisão, é um resultado da formação da sombra. A consciência de não estar à altura dos valores declarados diretivos, leva à formação da sombra, mas a um só tempo também ao sentimento inconsciente de culpa e à insegurança interior, porque a sombra contradiz a imagi­ nação do ego de se identificar com os valores. Por isso se busca e se aproveita toda ocasião no sentido de criar a convicção de corresponder aos valores. A maneira mais fácil de se fazer ocorrer isso é a erradicação da sombra como bode expiatório.

O segundo grupo, que representa a vítima da psico­

logia do bode expiatório, é constituído pelos “eticamente menos valorizados”, ou seja, os que não correspondem aos valores absolutos do coletivo e também não estão em condições de, mediante a formação de uma personalidade aparente, realizar sua adaptação ética. Os eticamente menos valorizados, por exemplo, psicopatas, doentes e ativistas, ou seja, aqueles que psiquicamente pertencem a uma época anterior à evolução da humanidade, são odia­ dos, punidos e executados pela justiça e pelos tribunais. Pelo menos isso acontecejauando o coletivo não pode usar

esse grupo. Em épocas de guerra, ao invés, são utilizados de boa vontade. Este grupo também é tratado como estranho e erradicado como estranho, porque por esse expediente acentua-se marcadamente para o coletivo sua diferença e sua diversidade em relação ao mal. A solenidade coletiva com que se procede à erradicação do mal, corresponde ao originário alcance coletivo, que o sacrifício do bode expiatório de fato possui para uma fase primitiva. Estado e autoridade religiosa assistem, com plena posse da boa consciência (Gewissen), a execução do castigo às vítimas infelizes da psicologia do bode expiatório, e o alívio, que se cria para o indivíduo e o coletivo pela eliminação do mal, pode-se sempre de novo observá-lo claramente. Que os dois grupos do sacrifício do bode expiatório podem-se trocar mutuamente, e que não só se experimenta o mal como estranho, mas também, vice-versa, o estranho como mal, faz parte dos fatos básicos da psicologia huma­ na. É um traço que se pode acompanhar desde a psicologia do primitivo até a moderna política estrangeira dos assim chamados estados civilizados. Um terceiro grupo, que é escolhido para vítima da psicologia do bode expiatório, está no mais agudo contras­ te com o grupo dos eticamente menos avaliados que descre­ vemos. O terceiro grupo, que é sacrificado, consiste nos de mais valor, os líderes e os gênios. A velha tendência primitiva de sacrificar ritual e vicariamente o mais exce­ lente e dele usar como bode expiatório para a purificação coletiva, pode-se mostrar em muitos fenômenos. Essa tendência é provavelmente o elo comum que liga os restos totêmicos, que Freud entendeu equivocadamente como “assassínio do pai”, com a morte ritual do rei na história primitiva da humanidade e com a doutrina do sacrifício da morte do Deus sofredor. Dois motivos se ligam aqui mutuamente. A repre­ sentação vicária do excelente torna-o apropriado para

representar em seu sacrifício o coletivo também diante das “forças”. Mas, ademais, o excelente, visto desde o coletivo, é também de novo o “estranho”. A tendência do menor esforço da massa, que quer manter sua própria posição média, sacrifica os expoentes das margens, os de menos valor, que estão abaixo do nível médio, assim como tam­ bém os de mais valor, que ousam se movimentar acima desse nível médio. Normalmente a história, também a dos assim cha­ mados povos de cultura, caracteriza-se pelo sacrifício dos indivíduos excelentes que são, com efeito, os pontos de concentração que movimentam a história. Sócrates e Je­ sus e também Galileu encontram-se nesta série infinita. Todos os povos e todos os tempos contribuem para o sacrifício do bode expiatório dos excelentes, se bem que não mais se trate de um ritual consciente, mas de um ritual inconsciente, que, aliás, é um progresso questionável. Se essa reação não é uma vingança do coletivo pela exigência e superexigência da cultura, que representa o excelente, é uma questão de que não nos podemos ocupar aqui. Mas importa reconhecer que o elemento inconsciente da sombra, de que o coletivo tenta se livrar com o auxílio da psicologia do bode expiatório, volta a se impor precisa­ mente na crueldade exercida no sacrifício do bode expiatório, sem que essa conexão seja consciente para o coletivo. O consciente, fiel ao princípio básico da psicologia do bode expiatório, vê-se identificado com os valores supe­ riores e executa os mais abissais horrores com a “melhor das consciências” (Gewissen). Toda guerra e toda guerra de religião, toda luta de partidos e de classes revelam essa ligação da “boa consciência” (Gewissen) com a consciência (Bewustsein) e a irrupção à sombra no nível da ação. Também aqui temos de distinguir os dois grupos, os que suprimiram o lado da sombra, nos quais a atitude de vida ascético-heróica está ligado aos sentimentos consci­ entes de culpa e sofrimento, e os repressores, nos quais

permanecem inconscientes o sentimento de culpa e o sofrimento por ele. Como conseqüência da negação do negativo, encon­ tramos nos dois grupos um revigoramento inconsciente do negativo até às raias do sadismo e do apetite bestial de destruição. A distinção entre eles está em que o sadismo está mais próximo da consciência e assume forma sistemá- tico-racionalizada no caso do grupo ascético, ao passo que, no caso do grupo repressor, da massa, apresenta-se com uma emocionalidade selvagem que domina a consciência. Sob essa lei psicológica encontra-se a inquisição e o puritanismo, o judaísmo farisaico fiel à lei, e também a disciplina do prussianismo. O rigor do comportamento ascético compensa-se por um sadismo agressivo, que é utilizado institucionalmente pelos defensores da ascese.

O grupo, psiquicamente dividido pela identificacão

da consciência com os valores e pela inconsciência da sombra, manifesta, além do sentimento inconsciente de culpa, uma insegurança psíquica como compensação pela autojustiça da consciência. A repressão sempre deve vol­ tar a colocar-se na defensiva contra a constatação do lado

da sombra, pois o revigoramento inconsciente do lado da sombra torna difícil à consciência e ao ego não tomarem de algum modo conhecimento dela.

A divisão interna que constata o lado da sombra leva

então ao sentimento inconsciente de inferioridade e às formas de reação descobertas por Alfred Adler. O senti­ mento de inferioridade vem a ser supercompensado por uma tendência à auto- armação, levando ao fortalecimen­ to da repressão. Sistematiza-se então a projeção da som­ bra, chegando-se às reações paranóicas dos indivíduos e dos povos, cuja própria tendência reprimida pela agressão, manifesta-se no medo de perseguição dos outros e do

ambiente. As teses da política de cerco, do juramento dos sábios de Sião, do perigo branco, amarelo ou negro, da ânsia de conquista do capitalismo e do bolchevismo, todos

esses sistemas ideológicos são destinados a reprimir a própria agressão e a própria sombra. Essa autojustiça encontrou sua expressão, no seio do coletivo, na velha pedagogia e instituição jurídica da punição. Também aí deparamos o compromisso da psico­ logia do bode expiatório, que, na veste do comportamento

ético, se oferece ao próprio lado da sombra a possibilidade de se desabafar na forma de castigo, tortura e terrorismo. Execução, penitenciária, prisão, casa de correção, tutela,

e também escola e família são, em graus diverso, enquanto

formas institucionais do coletivo, expressão precípua e cruel campo de afirmação, justamente do lado da sombra.

Todajustiça que se baseia sobre punição, ou seja, não sobre

o

reconhecimento de que o coletivo no culpado que praticou

o

mal, tornou-se ele próprio culpado por esse mal, não

passa de forma camuflada de justiça de linchamento. A forma institucional da psicologia do bode expiatório, em geral é usada pelos líderes da velha ética, pelos tipos

ascéticos, como meios de cultura e civilização, o seu lado emocionalmente acentuado desempenha papel muito mais significativo e funesto para a humanidade. As instituições da psicologia do bode expiatório não têm mais um caráter orgíaco que traz redenção do problema da sombra ao coletivo, como era possível outrora nas execuções solenes com participação de todo o povo. Assim se torna premente para o coletivo a necessidade de se livrar com a explosão e

a violência das forças estancadas da agressão, para ao

menos provisoriamente se livrar do estado de tensão e estancamento. Essas explosões epidêmicas das massas ocorrem no seio do coletivo, nos grupos afetados pela psicologia do bode expiatório, mas a projeção da sombra, como fenômeno original dessa psicologia, também de­ sempenha papel decisivo nas lutas internacionais dos povos, que chamamos de guerras. Guerra alguma pode se levar avante, se não se fizer do inimigo o eventual portador da projeção da sombra; e o

prazer e o júbilo da execução da guerra, sem o que nenhum homem poderia ser levado a ela, nascem da satisfação do lado inconsciente da sombra do coletivo. Percebemos aí a mesma constelação fenomênica que encontramos no caso do indivíduo. Todo o povo se entende, na inflação da “boa consciência” (Gewissen), idêntico com os valores elevados da humanidade, com eles se identifi­ cando e orando com a melhor das consciências (Gewissen) ao “seu Deus” como o símbolo do lado da luz, que deve dar- lhe a vitória. Essa inflação da “boa consciência” (Gewissen), porém, de modo algum é perturbada pela realização de uma sombra bestial. (Hoje talvez se possam observar, contudo, entre os povos diferenças neste rumo. A incons­ ciência totalmente bestial da repressão, acha-se ao lado de um saber consciente relativamente maior, que reconhece o negativo da destruição como negativo, assumindo-o em nova forma de responsabilidade). A cisão de um mundo ético de valores na consciência, por um lado, e de um mundo subterrâneo do inconsciente que nega os valores e que carece ser suprimido e reprimido, por outro, leva a sentimentos de culpa na humanidade e a estancamentos de forças agora inimigas da consciência, cujas explosões transformam a história humana num rio de sangue sem similar. A velha ética é culpada pela negação do lado da sombra e, em decorrência, também pelo surgimento dessa divisão e cisão, cujo extermínio é decisivo para o futuro da humanidade. O progresso desta depende em parte não pequena de se ter êxito em evitar a divisão e cisão psíquica do coletivo.

3

Fases da evolução ética

Para se entender por que, em nossa época, a velha ética entrou em crise e por que, precisamente nos últimos cento e cinqüenta anos, se chegou à ruína dos velhos valores e ao caos do homem moderno, de que nós próprios somos testemunhas oculares e vítimas, temos de nos ocupar brevemente com a evolução da consciência e de suas diversas fases dentro da humanidade. A evolução da ética e a evolução da consciência acham-se unidas estrei­ tamente entre si, não podendo se entender uma sem a outra. Expusemos em outro lugar1expressamente as fases da evolução da consciência e vamos esboçar aqui, sem entrar em detalhes, as grandes linhas dessa evolução. No início da evolução temos a fase da “unidade originária”. O germe do ego ainda não-autônomo e domi­ nado pelo inconsciente, vive nesta fase em ampla indepen­ dência do grupo, do mundo e do inconsciente coletivo. A participation mystique e a dominância da psique coletiva sobre a psique individual ainda não diferenciada são as características dessa situação humana originária. Corres­ ponde a isso que no primeiro estádio da referência ética ainda não exista responsabilidade ética individual e cons­ ciente. Assim como o indivíduo funciona apenas como

1. Neumann, E., UrprungsgeschichtedesBewusstseins. Nesta obra publicada

depois, os conceitos de psicologia cultural, empregados aqui, encontram o seu lugar numa exposição sistemática da evolução da consciência e da cultura. A tarefa deste escrito é indicar o significado do aspecto cultural-psicológico para a ética.

parte do grupo e a consciência do grupo é mais importante do que a do indivíduo2, também encontramos aqui sempre uma responsabilidade grupai e uma ética grupai. O estado de participation mystique, da identidade inconsciente das pessoas umas com as outras, expressa-se em que o grupo é responsável pelo indivíduo e, vice-versa, cada indivíduo vale como encarnação de todo o grupo. A psicologia dos primitivos está cheia de maneiras de comportamento que mostram que o grupo é idêntico com os indivíduos de que se constitui, e, vice-versa, também cada indivíduo repre­ senta em si todo o grupo. O que ocorre a um indivíduo ocorre a um só tempo a todo o grupo, que, por exemplo, reage com a vingança de sangue ao que acontece à parte. O grupo, e não o indivíduo, é responsável. Assim como todo o grupo se considera atingido, ele também pouco se importa em atingir o assas­ sino individual. Uma vez que todo o grupo a que o assas­ sino pertence é culpado, pode-se fazer a vingança de sangue em qualquer pessoa que seja. A identidade inconsciente das partes do grupo entre si vai tão longe, que, por exemplo, um parricida ou fratricida pode permanecer sem vingança, porque o assassino, por assim dizer, cortou na própria carne. Ele e o parente próximo são como que um só, de sorte que nesse caso, como por exemplo no suicídio, não se ofendeu nenhum interesse do grupo, e, com efeito, somente este vale. Igualmente o ressarcimento de danos, no caso do assassínio de um parente distante, é menor do que se deve fazer no caso do assassínio de um estrangeiro. O parente assassinado é, por força de sua identidade grupai, co-propriedade do assassino. E vice-versa, encontramos, por exemplo, na China uma situação em que se tirou a outra conseqüência dessa identidade, sendo, no caso de um crime do filho, responsabilizados e punidos os pais ou o grupo familiar.

2. Levy-Bruhl, Die Seele des Primitiven.

Também a idéia do judaísmo, sobre uma reação de recompensa ou castigo da parte de Javé que atinge a descendência, faz parte desse contexto. Ela pressupõe

eticamente a identidade grupai da geração familiar. Expe­ rimentam-se aí como grupo não só os membros de paren­ tesco que vivem ao mesmo tempo, mas também a série de gerações dos pósteros forma uma unidade, um conceito que é da maior importância para compreender ojudaísmo.

A realidade da identidade grupai não se pode com­

provar apenas biologicamente, mas, como sempre, revela de novo a análise do homem moderno, é psicologicamente real. Não raramente, a doença ou a reação falha de um indivíduo depende da “culpa” dos pais, e muitas vezes até mesmo dos avós, que se mostra ativa enquanto permanece inconsciente. Assim, a severidade do avô, para dar apenas um exemplo, condiciona a heteronomia da filha, cuja reação na educação dos seus filhos agora os neurotiza.

Na fase originária, quando os membros individuais do grupo ainda são em larga escala não-individualizados, o “grande indivíduo” representa a personalidade-mana3, sendo ele, de certa forma, o si-mesmo do grupo, o seu centro criador, e, como líder e homem criador, também aquele de que o coletivo recebe os seus valores.

O grande indivíduo é, como o expusemos em outro

lugar4, fundador em todos os setores, ou seja, espiritual­

mente gerador. Ele o é, como agente e herói, artística, científica, filosófica, religosa e também eticamente.

O surgimento dos valores éticos ocorre mediante a

revelação da “voz” no indivíduo fundante. O fundamento da ética coletiva na revelação do indivíduo fundante pode ser acompanhado em toda parte, desde os primitivos até os povos de cultura. Os ditos dos deuses, a decisão dos videntes ou curandeiros, dos sacerdotes, caciques e dos

3. Jung, C. G., Die Beziehung zwischen dem Ich und dem Unbewussten. 4. Neumann, E., o.c. Appendix I, Die Gruppe, der grosse Einzelne und die Entwicklung des Individuums.

possuídos por Deus, desde o oráculo e juízo de Deus até à revelação da divindade na lei, são sempre atos revelatórios singulares e nascidos numa situação. Mais tarde são codificados e vêm a ter validade geral abstrata, isto é, desligados da concreta situação de revelação.

Os fatos originários da ética nascem da “voz” que fala

em indivíduos agraciados.Oseucarisma consistej ustamente em escutarem a voz. Quer se trate da voz de um deus ou de um animal, quer de um sonho ou de uma alucinação: a realidade da voz é vinculante para o indivíduo fundante. Provém “de Deus” ou do símbolo que responde por Deus, é assumida por uma elite, que se reúne ao redor do fundador

e, em seguida, é imposta ao grupo como norma coletiva. Os indivíduos criativos realizam em si mesmos a atitude religioso-ética, mas no ato fundante, no qual transmitem como lei a ética que lhes foi revelada, a ética da “voz”, a uma elite de seguidores, a ética individual torna-se uma ética do coletivo. A elite educa o coletivo nos seus rumos e apresenta os seus valores como valores humanos geralmente válidos, ou seja, como valores do coletivo, que o coletivo deve cumprir. Essa atitude do indivíduo, que repousa na re­ velação interna da voz, nós a conhecemos a partir dos primitivos, mas também com os grandes fundadores de religião, que sempre impuseram à comunidade, que a assumiram, também uma nova carga ética.

A evolução ética procede passando pelos atos de

revelação nos grandes indivíduos e pela identificação da elite com eles até ao estádio da ética coletiva, em que o grupo assume “o todo” em si e sobre si, sendo sem impor­ tância qual seja o conteúdo dessa lei. O coletivo sujeita-se finalmente ao cânon ético acriticamente, com a mesma espontaneidade com que o homem inconsciente se depara com qualquer dado. Para uma existência sem consciência crítica, costume é costume e lei é lei, porque afinal sempre foi assim, sendo essa fundamentação apenas a reposta a

uma pergunta, que na verdade não é posta pelo primitivo, mas pelo estrangeiro. A sujeição à lei coletiva corresponde, porém, a um progresso essencial da consciência. Na evolução da consciên­ cia chega-se à superação da unidade originária com a prevalência do inconsciente, e, a diferenciação e o fortaleci­ mento do ego e da consciência levam a uma separação dos sistemas de consciência e do inconsciente. Tal separação de sistemas liga-se a uma evolução geral de tendência e funções, que buscam fortalecer a consciência e sua distinção do in­ consciente. Justamente nessa direção age a ética do coletivo. Na humanidade primitiva, a vida em comum do grupo

e sua formação e evolução é perturbada e dificultada por uma prevalência de forças inconscientes. Por isso a lei, enquanto norma coletiva que toma visível o lado luminoso dos valores

e da consciência e promove a luta contra o escuro, é absolu­

tamente necessária. A legiferação coletiva, que é proclamada pela elite como a executora da personalidade fundante, sempre está do lado da consciência e contra a prevalência da dominação avassaladora do inconsciente. A velha ética era produtiva, enquanto tirava o homem do estado originário de uma existência inconsciente, fazendo do indivíduo o portador da tendência consciente. O ético “tu deves”, mesmo na forma primitiva de uma lei moral geral­ mente fixada de índole coletiva, é fomentadora de consciên­ cia, quando surge como orientação geral, que constitui um limite para a natureza inconsciente do homem com sua emocionalidade elementar, incontrolável. Por essa razão, a velha ética é instrumento importante na evolução da consci­ ência humana. Ela representa uma fase necessária de transição, e, com a sua supressão e a sua repressão, faz parte das medidas defensivas da consciência contra o inconsciente. Essa consciência e seu desenvolvimento têm inicialmente urgente necessidade de uma desvalorização, de uma deflação do inconsciente, porque ela é pequena e sem essa tendência de desvalorização com referência ao inconsciente, jamais se

teria podido formar, sistematizar e se comprovar como criadora de cultura. Na fase mágico-primitiva, como por exemplo no ritual do bode expiatório, o drama misterioso do mal lançado diante dos olhares, constitui uma primeira fase da conscientização. Aí tudo se passa no exterior, fora, no campo do objeto, como que no palco da projeção. O portador do evento é, como na tragédia antiga, o coletivo que faz a experiência e não o indivíduo. A experiência do mal fora e no outro oferece a base para a formação da instância da consciência (Gewissen) dentro, que representa os valores da ética coletiva. A forma­ ção da consciência (Gewissen), porém, é, como formação de uma instânciapsíquicainterna,expressão daindividualização dos homens do grupo, muito embora os conteúdos da cons­ ciência (Gewissen) sejam coletivos e não-individuais. A evolução do ego e da consciência está sob a influência da ação do coletivo. Evolução do ego ainda não significa de imediato evolução para o ego criador, mas para um ego que esteja em condições de se impor e de se aplicar, também com referência a si, as exigências do coletivo com autonomia e por próprio alvitre, isto é, de realizar como indivíduo os manda­ mentos e as proibições da ética coletiva com a ajuda de sua consciência (Gewissen). Assim, a evolução da humanidade com a progressiva individualização é a separação do indivíduo e de sua consci­ ência do ego em relação ao coletivo primitivo e a passagem para a segunda fase ética, ou seja, a fase da responsabilidade ética individual. Essa responsabilidade individual é exercida de imediato dentro da ética coletiva, isto é, o indivíduo tenta realizar os valores do coletivo ou com eles se identificar. Desde que a evolução e diferenciação da consciência se reconhecem como tendência evolutiva necessária da humanidade, a elite tentou, na velha ética, excluir todas as tendências contrárias. Se ela, como vimos, não atingiu os seus propósitos, possibilitou contudo certo alargamento da consciência no sentido da evolução global. Antes do surgimento da velha ética, o ego era em

larga escala vítima das forças do inconsciente, que agora são proibidas. Estava sujeito e dominado por essas forças

e impulsos, que, como a sexualidade, vontade de poder e

crueldade, fome, medo e superstição, dele se apossavam. O ego era instrumento e nada sabia de sua possessão, porque ele a vivia sem poder se distanciar das forças que dele tomavam posse. Todavia, para um ego do qual se exige

aceitar responsabilidade, este estágio de inconsciência e possessão implica em pecado. A ética exige agora o reconhecimento desses conteú­ dos e a sua supressão. Supressão é um dos atos típicos do distinguir-se, do distanciar-se, que proporcionam base para a consciência. A parte da psique, que antes represen­ tava uma dominante e “impulsionava” o ego, torna-se agora, ao menos parcialmente, o conteúdo da consciência,

o objeto de uma luta e de um conflito, em que o ego como

sujeito se contrapõe a essa parte da psique como objeto. Até quando o ego falha eticamente, peca e é dominado pela

força a ser recalcada, não mais se situa na indecisão originária do ser-impulsionado pré-ético, pois ele sabe que

é o que teria tido de suprimir. Ele comeu da árvore do

conhecimento do bem e do mal. A posição ética da consci­ ência mantém-se ainda que o ego falhe. Em duas direções chega-se então ao desenvolvimento interior da ética do coletivo, que constitui, com a responsa­ bilidade individual diante da consciência (Gewissen), a forma clássica da velha ética. Os dois desenvolvimentos correspondem a processos análogos na evolução do ego e da consciência do indivíduo.

Uma das orientações leva com progressiva

individualização à ética de individuação, à “nova” ética, e

a outra leva à degenerescência da velha ética e a fenôme­

nos de regressão, que foram expostos em outro lugar5 Assim como na evolução da humanidade o herói é prototípico

5. Neumann, E., o.c., Appendix II, Die Bildung des Massenmenschen und

die Rekolletivierungsphánomene.

da evolução do indivíduo6, assim também a personalidade fundadora é prototípica do que hoje pode ocorrer em cada indivíduo, em particular.

A revelação da voz no indivíduo pressupõe um indi­

víduo com individualidade tão forte que pode se tornar independente do coletivo e de seus valores. Toda perso­

nalidade ética fundadora é herege, à medida que coloca a revelação da voz contra a da consciência (Gewissen), en­ quanto esta representa a ética coletiva.

A lei psicológica acerca da realidade da revelação

ética diz que a revelação individual do discipulado da elite se impõe ao coletivo, e que o homem coletivo assume em seu

interior a lei revelada, como instância da consciência

(Gewissen) com a ajuda da supressão e da repressão, de todas as forças e tendências que se contrapõem à revelação. Todo novo “surto de revelação”, ou seja, todo novo revelar-se da voz num indivíduo está contra a consciência (Gewissen) como representante da ética coletiva. Por isso

é inevitável que a revelação ética no indivíduo criativo

preceda o coletivo e represente um novo nível ético que está acima, e não raro muito acima do nível ético normal do coletivo. Essa antinomia é indissolúvel. Pelo ato fundante do indivíduo precedente dá-se ao coletivo uma lei, pela qual este é levado avante dentro da história em sua

evolução, mas o coletivo ainda não está maduro de fato para essa lei. Se estamos hoje na virada da velha ética, não deve­ mos esquecer o que ela significou para a evolução da humanidade, e que ainda continua válida para uma par­ te essencial da humanidade, com a limitação que mais tarde vamos fundamentar. As regressões na evolução mostram, porém, que a forma legiferante da velha ética exige demasiado da maioria da humanidade, de sorte que

é preciso encontrar vias que possam impedir os efeitos

6. Neumann, E., o.c., Erster Teil: Die mythologischen Stadien der B

wusstseinsentwicklung.

negativos dessa exigência demasiada, porque do contrário se chega, através das exigências legiferantes da elite, a uma divisão desastrosa. De um lado, temos a pequena

camada, para a qual a legislação do fundador corresponde à sua índole própria e ao seu próprio nível, quer esta elite

se constitua de curandeiros, sacerdotes, guerreiros e filó­

sofos, quer de santos, profetas ou discípulos de profetas, e,

de outro lado, o grupo, ao qual é imposto “como lei” o cânon

dos valores, mas que não está maduro para o seu nível. Embora a exigência do cânon de valores possa ser vivida

pela elite sem prejuízo maior com supressão, sacrifício, ascese e autodisciplina, quando imposta ao coletivo, a mesma exigência pode provocar conseqüências catastrófi­ cas. Este é um perigo que nunca foi suficientemente reconhecido. A elite cria um ideal humano, que o coletivo reconhe­ ce como o valor máximo bem como tenta vivê-lo. Mas o coletivo, que se compõe de homens medianos, possui uma estrutura psíquica mais primitiva, em que as forças e tendências que precisam ser superadas, são especialmen­

te fortes e vívidas, em todo caso muito mais fortes que na

elite. Por isso o coletivo pode quando muito adaptar-se ao ideal anunciado pela elite somente mediante violentos esforços. A essa altura introduzem-se a identificação, que descrevemos, com os valores da personalidade aparente e

a repressão, que reduz à sombra todas as partes da

personalidade que não estão de acordo. A situação para­ doxal é que o indivíduo como homem do grupo fica em contradição com os paradigmas dos valores coletivos. Eles

são coletivamente válidos e coletivamente reconhecidos,

se bem que impingidos pela elite em atos legiferantes que

não correspondam à natureza do coletivo. Isso seria paradoxal e incompreensível, se a elite e a personalidade ética fundadora não representassem real­ mente um progresso evolutivo necessário. Mas visto que é

este o caso, e, para dar somente um exemplo, a assunção do julgamento pelo Estado e pela sociedade é um progres­ so, em relação à vingança de sangue, existe uma tendência natural também no homem grupai a aceitar a lei superior da elite. Ao fazê-lo, ele reprime ou, na melhor das hipóteses, suprime as tendências de sua natureza que contradizem à nova regulamentação ética. Essa evolução revigora-se pelo rigorismo ético da elite, que é rigorosa, com referência a si própria e ao coletivo, em impor a exigência ética. O que parece situar- se na linha do progresso ético, fortalece desastrosamente o processo de divisão do grupo. Essa divisão psíquica, como resultado da velha ética, deságua, porém, na psicologia do bode expiatório e nas explosões violentas do lado reprimido nas epidemias de massa.7 A evolução da consciência e da individualização nos últimos séculos revigorou a ética individual de uma elite crescente, arrancou um número cada vez maior de seres humanos da responsabilidade anônima grupai, levando- os a uma responsabilidade ética individual, mas cuja exigência ética mais elevada continuou sendo o reconhe­ cimento de valores canonizados pelo coletivo. Contrasta com essa evolução individualizante o processo de massificação da modernidade, e extraordiná­ rio crescimento da espécie humana nos últimos séculos. Essa massificação acarretou a dissolução dos grupos. Massas têm, por sua própria natureza, menor valor para

7. O problema do grupo, sob uina norma coletiva ética para ele demasia

elevada existiu sempre, mas antes era equilibrado pela identidade grupai ainda eficaz. Mesmo quando não mais existia a unidade do coletivo popular com sua originária responsabilidade grupai, existia ainda contudo a comunidade da aldeia, a corporação e enfim a família do coletivo. O coletivo conseguia assimilar os seus membros de menos valor, que não se achavam maduros para o eventual nível cultural e os seus valores, torná-los inofensivos ou deles cuidar, sem que constituíssem um problema coletivo. O imbecil da aldeia ou o aleijado, o louco e o surdo conviviam na comunidade, pouco importando que a identidade grupai fosse formada por clâ ou classe, pela comunidade da aldeia ou família. Tal situação se manteve enquanto se tratava de pequenos grupos e existia forte consciência de identidade grupai.

a velha ética e tendem à identidade grupai humana primi­

tiva, isto é, comportam-se atávica e regressivamente, sem

serem abordadas por uma responsabilidade grupai

abrangente. No seio desse processo de massificação, grupos hu­ manos cada vez maiores não estão maduros para o standard cultural da elite e são violentados pelo postulado ético. Quanto maior é a massa, tanto menor necessariamente é

o seu nível médio, dentro do prisma cultural e ético.

Forma-se, pois, uma camada de seres humanos cada vez mais larga que se vêem desvalorizados pelo nível da elite, não alcança o standard exigido e tornam-se associados, de menor valor, rejeitados e criminosos. Os esforços dessa camada no sentido de suprimir e reprimir suas tendências contrárias, manifesta-se numa ativação do lado negativo inconsciente do indivíduo e do grupo. Isso significa que se chega a uma divergência crescente entre a forma elevada da ética individual e a ética do coletivo. O acúmulo dos conteúdos reprimidos no coletivo massificado ameaça dissolver a velha éticajudeu-cristã, e as correntes niilistas e materialistas, que nascem como seqüela dessa crise, tendem a eliminar até o grau da responsabilidade ética individual. A divisão crescente entre a consciência dos homens da massa e o seu lado sombrio levam de imediato, com o revigoramento da persona do indivíduo, à camuflagem da

diferença entre o que é cumprido realmente e o que é exigido pela velha ética, que se tornou visível no farisaísmo

e no disfarce do século passado, de modo especial na era

vitoriana. Mas se a distância da natureza a respeito da exigência

da elite é demasiado grande, também se torna impossível

a solução aparente da identificação consciente com os

valores. Trata-se aqui dos grupos de seres humanos que

nestes últimos séculos foram crescendo vigorosamente,

homens que por sua natureza estão em contraste com a ética da elite. Trata-se com freqüência de seres humanos que possuem a psicologia normal de períodos anteriores e não vivem com a estrutura de sua consciência da época a que pertencem cronologicamente. Semelhantes atavismos são somente casos extremos do desequilíbrio, que também se podem observar normal­

mente no homem moderno, que não raro se expressa no fato dele, por exemplo, viver como técnico no presente, como filósofo no iluminismo, como religioso na idade mé­ dia, e como guerreiro na antigüidade, sem ter nenhuma consciência de que maneira e em que essas atitudes parciais mutuamente se contradizem.

A esta altura deve-se registrar psicologicamente a

concepção errônea da igualdade entre os homens, salva­

guardando ao mesmo tempo também o cerne de verdade que está contido nesse erro contra toda possibilidade de equivocação, o cerne de verdade sobre a igualdade da natureza humana. Estamos apenas no início da percepção, de que essa identidade se enraíza na natureza profunda humana, no inconsciente coletivo.

O inconsciente coletivo é o depósito da mesma reação

originária instintiva da espécie humana. É o que faz o homem ser homem em relação e contraste com toda outra espécie animal. O modo, permanentemente o mesmo, de sua reação profunda, como se pode ver nos instintos e arquétipos, é o correlato da construção do sistema psicofísico com sua tensão contrária de sistema autônomo de nervos e sistema cérebro-espinal, de sistema vegetativo e sistema perceptivo-reflexivo. Em contraste, porém, com a igualdade da estrutura profunda, está presente uma desigualdade acentuada da estrutura de consciência. Essa desigualdade não se observa unicamente entre raças, como, por exemplo, entre os negros e as grandes raças e os povos brancos, mas também entre tribos, famílias e indivíduos.

A diferença constitucional de dotação, de capacidade evolutiva em geral e de possibilidade evolutiva da cons­ ciência em particular — apenas para mencionar algo — é extraordinária. Hereditariedade e domesticação, influên­ cia coletiva e individualidade articulam-se complexamen- te umas com outras e contra as outras. Mas, não obstante, para evitar toda interpretação errônea, é preciso reconhe­ cer que, pelo princípio da igualdade dos homens, precisa­ mente numa época de injustiça social, fundou-se o direito de promover o desenvolvimento do indivíduo e de excluir do mundo o empecilho desse desenvolvimento por circuns­ tâncias externas injustas. Sem dúvida, uma ordem social maisjusta, que parte da igualdade do gênero humano, poderá desenvolver me­ diante as massas grandes elites de seres humanos. Isso em nada muda a retidão de nossa afirmação da desigualdade dos homens e da divisão, que se cria com a moderna massificação, entre uma elite e um crescente número de homens que não se acham maduros para as exigências da elite e entram em contraste com ela. A exigência exagerada sobre o coletivo por ação da elite e o estancamento causado por esta exigência, do lado da sombra reprimida no inconsciente, é problema ético muito atual e de nova feição. Temos aí o surgimento de uma ética que não considera mais isoladamente a postura e decisão ética do indivíduo e não avalia somente sua situação consciente, mas também leva em conta, ao julgar sua influência sobre o coletivo e insere na avaliação ética também a posição do inconsciente. Ao falar de nova ética do coletivo, não queremos naturalmente dizer com isso que as tendências de regres­ são originárias de nossa época, tentam restabelecer a ética coletiva dos homens primitivos, fazendo refluir a respon­ sabilidade individual. Queremos dizer, ao invés, que uma evolução ética progressiva do indivíduo deve levar em

conta também a atuação sobre o coletivo que o seu com­ portamento ético provoca. Além da “responsabilidade diante de Deus”, que faz

o indivíduo ouvir a “voz”, coloca-se a responsabilidade

“diante da comunidade”. A responsabilidade não consiste, como antes, em simplesmente fazer da ética da voz, indi­ vidualmente vinculante, uma ética geral e válida para todos em atos legiferantes. O indivíduo não é apenas responsável por si e por poder cumprir sua exigência, mas, ao generalizar esse comportamento, deve também levar em conta em sua responsabilidade os seus efeitos incons­ cientes naqueles que se situam em nível espiritual, humano

e ético inferior. Assim se chega a uma forma relativizante e hierár­ quica da ética, que leva em conta a individualização progressiva do homem moderno e sua pronunciada di­ versidade. O fim é evitar a divisão psíquica como conse­ qüência da velha ética, para afastar uma causa essencial de muitas doenças e desenvolvimentos falhos, eliminando com isso uma condição decisiva para explosões epidêmicas de massa, provenientes do lado da sombra no seio da humanidade. Antes de nos voltarmos à “nova ética”, que já se começa a vislumbrar, se bem que não em sua figura completa, masjá numa quantidade de contextos e detalhes, vamos resumir mais uma vez nossas teses sobre a “velha ética”. A velha ética, falando psicologicamente, é uma “ética parcial”. Ela é uma ética da atitude consciente, deixando de considerar e avaliar as tendências e efeitos no incons­ ciente. Caracteriza-a a sentença de Agostinho, quando agradecia a Deus por não ser responsável por seus sonhos. A velha ética exige supressão e sacrifício e, em princípio, permite também a repressão, isto é, ela não olha o estado da psique, a personalidade total, mas contenta-se com a atitude ética da consciência como um sistema

parcial da personalidade. Isso favorece coletivamente uma forma ilusória de ética, que se refere unicamente ao agir do ego e da consciência. Esse ilusionismo é, porém, perigoso, porque, na vida em comum do grupo e do coletivo, leva a fenômenos negativos de compensação, nos quais o lado reprimido e recalcado da sombra irrompe no seio da vida comunitária, na forma da psicologia do bode expiatório, e, na vida em comum internacional, nas explosões epidêmi­ cas de reações ativistas de massas, as guerras.

A velha ética tornou-se para o homem moderno não

somente insuficiente para solucionar os seus problemas morais urgentes, mas, ademais, o põe em perigo pela tendência à divisão, que é uma conseqüência de sua concepção dualista do mundo è dos valores. A ética parcial é ética individualista porque não assume nenhuma res­ ponsabilidade pelas reações inconscientes do grupo, do

coletivo. A velha ética é insuficiente porque precisamente sua relação compensatória, por ela visada, entre consciência e inconsciência, revelou-se como uma das causas principais da crise da humanidade, sendo pois o problema ético algo decisivo para o nosso tempo. A exigência ética de assumir a responsabilidade também para com os processos inconscientes, pode-se facilmente deduzir da problemática psíquica individual do homem moderno. Mas esse problema surge coletivamente em primeiro plano na forma em que nenhuma elite pode impor sua ética à massa, sem referir a si as catástrofes que daí surgem.

O processo de massificação e o da individualização,

que se lhe contrapõe, levam a uma grande diferença de nível ético no homem moderno, e, como decorrência, a uma tensão psíquica de tal forma revigoradora no indivíduo e no coletivo, que tal situação carece de novo desenvolvi­ mento da consciência e de nova ética para a sua solução.

4

A nova ética

Vamos agora nos ocupar com a problemática do indivíduo e sua crise moral, buscando compreender os processos que caracterizam a transição para a nova ética. Remetemos aqui às relações inicialmente acentuadas en­ tre o coletivo e o indivíduo, a vinculação da problemática coletiva com o destino do indivíduo que a esclarece. O conflito ou o adoecimento, que obriga o homem moderno a submeter-se ao método da psicologia profunda, é de tal sorte que basta, para a sua solução, a mera correção da consciência, mera reorganização do material dado no sentido de uma nova ordem. Em geral, é neces­ sário descobrir camadas da personalidade tomando-as acessíveis à consciência, camadas que se achavam até o momento fora do âmbito de seu governo e experiência, sendo, precisamente por isso, chamadas de “inconscientes”. Em épocas anteriores, uma crise desse tipo era vista como ameaça à salvação da alma. Por exemplo, um pecado grave cometido tinha um peso para a consciência que ameaçava a existência inteira, o cerne da vida ou a “alma”. Mas o homem moderno percebe sua situação de imediato somente como crise de sua consciência e do seu ego. Interpreta o conflito como falha, queda, mero não conseguir equilibrar-se numa situação ou num problema da vida. Mas o homem quase nunca se sente em perigo ou questionado em sua totalidade. Sente, em geral, que

apenas foi tocado no seu ego, evitando perceber o âmbito e alcance de sua problemática.

A via da psicologia profunda, que refaz a situação e

sua origem desde as profundezas da personalidade, sempre leva necessariamente a um abalo do mundo do ego e da

consciência. Com efeito, por essa via, o mundo da consciência vem a se confrontar com a totalidade da personalidade e o infinitochão da realidade inconsciente. (Como sempre quando falamos da via psicológica, visamos apenas os homens para

os quais se faz necessário o processo da individuação, a saber,

homens sobretudo na segunda metade de suas vidas, que já têm atrás de si sua adaptação ao coletivo). Se o homem se submete ao trabalho da psicologia profunda tendo já uma experiência que lhe revelou que sua

cosmovisão, seu código moral e sua condução da vida não estão maduros para enfrentar o choque dos problemas que encon­ trou, ou somente aí constata que sua orientação até o momento

é inadequada — quase sempre está no início da vida da

psicologia profunda, um abalo do seu mundo de valores.

O desenvolvimento psíquico do homem moderno

começa quase sem exceção com o problema moral e sua

reorientação, que se realiza na assimilação da “sombra” e na reelaboração da “persona”1. Apresentamos esse pro­ cesso na terminologia da psicologia analítica de C. G. Jung, porque é a mais perfeitamente diferenciada. Mas ela pode — em todo caso em suas fases iniciais — traduzir-se facilmente na terminologia de Adler e Freud.

O conceito de “personalidade da sombra” constitui

a formulação mais clara da problemática da psicologia

profunda. A zona da sombra e o embate com ela, como o reconheceu Jung, está no começo da via que conduz pela hierarquia das zonas da psique que se podem perceber em toda evolução do profundo.

O efeito decepcionante do encontro com a própria

X. Jung, C. G., Die Beziehungen zwischen dem Ich und dem Unbewussten.

sombra, a parte negativa inconsciente da personalidade, surge em toda parte em que o ego viveu identificado com

a persona e os valores coletivos da época. Tal encontro é,

por essa razão, de especial agudeza e dificuldade para os extrovertidos que, por índole, tem menor visão de sua subjetividade que o introvertido. A autoparcialidade ingê­ nua do ego, que mais ou menos se identificou com todo o

bem e o belo, recebe um duro golpe, sendo o abalo dessa posição o conteúdo essencial da primeira fase da análise. Chama a atenção o fato de que no caso de uma multidão de homens não se tenha absolutamente destruído

a atitude enganosa do ego em virtude da crise ou doença

que levou à análise. A falta de uma “consciência do pecado” — ou seja, de uma reação moral ao abalo de vida sofrido — parece ser uma característica de nossa época. Antes a doença ou falha era experimentada em categorias de pecado, culpa e castigo. Essa reação moral, porém, é geralmente estranha à consciência do homem moderno, se bem que não ao seu inconsciente. Concebe-se

a situação em larga medida como um “ser atuado”, pro­

cedente dos outros homens, das circunstâncias, do eterno

e da hereditariedade, comportando-se a personalidade

como “vítima”. A concepção causativa popular da psicanálise, que admite quaisquer experiências anteriores como “causa” da falha posterior, vai bem ao encontro dessa atitude, sundo inclusive uma de suas expressões. O ego em crise percebe- se nesse contexto como inocente, uma vez que não pode identificar-se responsavelmente com o ego dos inícios de sua infância. No encontro com a sombra, o ego foge à sua iden­ tificação de persona com os valores coletivos. O trabalho analítico redutivo de Freud e Adler abordaram profusa­ mente o lado da sombra da psique humana, em seu contraste com a auto-avaliação enganosa do ego. O encontro com o “outro lado”, a parte negativa, vem a se realizar em

muitos sonhos, em que o interessado se vê indo ao encontro do ego como mendigo e deficiente, forasteiro e mau, louco e fracassado, humilhado e ofendido, ladrão ou doente.

O que abala dessa forma o indivíduo é a necessida­

de de perceber que o outro lado do seu caráter, inimigo do

ego e estranho ao ego, faz parte de sua própria personali­ dade. A grande e terrível sentença “você é assim!”, que como refrão perpassa por toda a psicologia profunda, começa com a sombra em acorde doloroso e tremendamente dissonante de início.

A crise individual obriga o indivíduo a entrar em

tal profundidade à qual em geral nunca antes chegara espontaneamente. A velha imagem idealizada do ego vem abaixo. Chega-se ao reconhecimento perigoso da ambi­ güidade e pluralidade da própria natureza. Um processo em que o ego se vê obrigado a reconhe- cer-se como mau e doente, como associai e sofredor, como feio e limitado, uma via analítica que dissolve a inflação do ego, fazendo-o perceber como e onde é limitado e unilateral, tipologicamente determinado, cheio de preconceitos e in­ justo, representa uma forma tão amarga de auto-encontro, que é fácil se entender a resistência que ocorre. Reconhecer-se como infantil e frustrado, como infe­ liz e feio, como homem-animal e parente de macaco, como ser sexual e animal de manada, certamente já traz um abalo duro para todo ego que se identificara com os valores coletivos. Mas o problema da sombra tem raízes mais profundas e torna-se mortalmente sério, quando a son­ dagem vai até às fontes do mal, onde a personalidade

experimenta em sua própria estrutura sua mútua perten­ ça em luta com o inimigo da humanidade, com o impulso de agressão e destruição. Evidencia-se necessário ao indivíduo “assumir” o seu mal. Essa afirmação pode de imediato parecer in­ compreensível, em todo caso o seu alcance não se pode perceber absolutamente à primeira vista. O ato de assu-

mir o mal não deve ser minorado ou velado por nenhuma tentativa de relativização, que busca tranqüilizar-se di­ zendo que afinal esse mal a ser assumido é apenas meio mal, e a situação torna-se ainda mais aguda pelo fato de o mal não surgir como dado do coletivo. Justamente o fato de o meu mal não ser nenhum mal para o meu próximo, ou vice-versa, é que constitui a dureza da situação moral. A avaliação grupai e a respon­ sabilidade grupai cessam onde nenhuma aprovação pela norma geral retira ao indivíduo a percepção de ter agido de forma ruim, e onde, vice-versa, ojulgamento pelo coletivo não pode nem deve mais substituir a orientação do ego. A distinção entre o meu mal e o mal geral constitui peça essencial de autoconhecimento que a ninguém se poupa no processo de individuação. Com essa individualização, esfacela-se ao mesmo tempo a velha tendência à perfeição do ego. A exaltação inflacionária do ego precisa ser sacrificada, o ego deve chegar de alguma forma a um acordo de gentleman com a sombra, uma tendência que se distingue da tendência de absolutismo e perfeição da velha ética. Assim, a luta com a sombra leva aparentemente a uma nivelação moral da personalidade. Reconhecer e assumir a sombra pressupõe a disponibilidade de não só ver a irmã obscura continuando a deixá-la debilitar-se na prisão como eliminada, mas também dar-lhe liberdade e participação na vida. Por isso, deixar conviver também a sombra só é possível a um nível moralmente “mais profun­ do” de vida. O ego precisa descer do seu trono e perceber sua imperfeição individual, constitucional, inevitável e histórica. Assumir a própria imperfeição é tarefa extraordi­ nariamente difícil. Todo homem, independentemente do tipo psicológico e do sexo, possui sua função de menor valor e sua sombra. E assimilar esse lado da personalidade custa por isso igualmente a todo homem.

Quando em sonho um corcunda salta por cima da cerca e pula na goela do que sonha exclamando “também eu quero ter parte em sua vida”, acentuam-se a violência e o caráter rapace da sombra. Esta precisa usar de violên­ cia, quando o ego não se põe de acordo; o que significa que, na ação do inconsciente que o ego experimenta, impõem-se violentamente conteúdos da sombra que de imediato são estranhos e desconhecidos à consciência do ego. A pro­ blemática da sombra e o conflito moral vêm então ao encontro do ego na forma camuflada mas avassaladora do desenvolvimento do complexo. A redução, que Freud e Adler fazem da doença neurótica ao impulso sexual e respectivamente impulso de poder, repousajustamente no fato de a sombra se impor como sintoma ou complexo. Podemos nos inclinar a rejeitar este “assumir o lado negativo” como um processo insensato, desnecessário e inclusive perigoso, retendo de imediato permitida e necessária a redução da posição do ego pela sombra apenas para casos particulares “patológicos”.Mas aredução da posição do ego não é nada de individualmente casual ou arbitrário. E a manifestação individual de uma situação coletiva contemporânea. O homem ocidental encontra-se — ao contrário, por exemplo, do homem medieval-cristão ou do homem antigo, asiático ou primitivo — em estado de redução coletiva do seu próprio valor, que urge tomar como fato e reelaborar. Não se pode mais anular a irrupção do lado escuro na consciência ocidental. Entendemos por irrupção do lado escuro na consciência ocidental o fato de, no decorrer destes últimos cento e cinqüenta anos, em muitos campos ao mesmo tempo e de modo semelhante, ter-se tornado visível o fenômeno do “escuro” e ter-se imposto como problema. Esse fenômeno acha-se condicionado pelo que chamamos de processo de massificação do ocidente, que levou ao fortalecimento do fenômeno coletivo e a uma proeminên­ cia visível do evento do coletivo sobre o evento individual.

A irrupção do lado escuro corresponde a um desvio

psíquico fundamental de peso rumo ao que é daqui de baixo, rumo à terra, como o mundo ocidental cristão até ao

momento não conhecera nem podia conhecer. A descoberta do “mais feio dos homens”, do infeliz, do mau e do primi­ tivo, assume, na vida cultural de nossa época, espaço tão vasto que não pode ser facilmente explicado. A descoberta da natureza primitiva humana é

decisiva. O mundo dos primitivos, a história originária e primitiva da humanidade, oferecem ao homem uma nova posição no mundo e no cosmo, mostram-lhe a raiz escura no terreno de que provêm, parecendo destruir radicalmente como ilusão sua semelhança divina e sua posição como centro do mundo.

O “condicionamento pela natureza” — hereditari­

edade e constituição, o homem de massa e a estrutura de impulso dos indivíduos, o inconsciente como determinante decisivo — todos esses fatores, em sua surpreendente inequivocidade e no seu alcance inquestionável para a posição do ego individual, urgem na mesma direção: o reconhecimento do lado escuro. A destruição dos velhos valores abrange a “prova” darwiniana referente ao pa­ rentesco humano com o macaco, a crítica bíblica e a tese que concebe o espírito como epifenômeno do econômico, e também o “além do bem e do mal” de Nietzsche e o “future de uma ilusão” de Freud. Secularização, materialismo, empirismo e relativismo são os conceitos correlatos que ilustram esse desvio de centro de gravidade, especialmen­ te em contraste com o homem medieval-cristão e sua orientação ao mundo. Em nenhum período da história da humanidade, o lado escuro passou dessa forma ao primeiro plano do interesse. O doente, o psicopata e o louco, o degenerado e deficiente, o desamparado, o anormal e o criminoso susci­ tam o interesse e a simpatia do homem moderno. Não apenas a pesquisa, mas também as instituições estatais

começam a se interessar por esses grupos humanos, não

raro com a fascinação que parece perversa ao se constatar simultaneamente a falta de interesse pelo homem normal

e sua miséria. Em consonância com a corrente geral, têm acesso na arte o feio, o dissonante e o mau. O caminhar da música desde Mozart, passando por Beethoven, chegando à mú­ sica atonal, e os processos correspondentes de dissolução

e mudança na literatura e na pintura são expressões desse

ocaso da velha ordem do mundo e dos valores também no campo estético. Quanto a isso, que não se pense absolu­ tamente apenas nos grandes reformadores, como, por exemplo, Dostoievsky, que coloca no centro do desespero o homem doente, o mau e o abissal. Também o fenômeno universal do romance e do filme de crime e aventuras inserem-se nesse contexto lúgubre. Seria exagero dizer que nenhuma época anterior teria visto essa dimensão do homem. As religiões de redenção, entre as quais o cristianismo, sempre se volta­ ram para esse lado do homem. Mas, em períodos anteri­ ores, as camadas humanas profundas eram vistas como más e carentes de redenção, devendo ser rejeitadas e buscando exilá-las e reprimi-las do cânon de valores. Hoje em dia, porém, está presente uma profunda, sinistra e

perigosa fascinação por esse lado do mundo. Essa fascinação do homem moderno pelo lado escuro “quer”, com efeito, algo dele, não se podendo omitir e eliminar, inventando interpretações. No seu escuro reside o perigo, mas também

o germe de toda evolução futura do ocidente, se bem que de

imediato ocupe o primeiro plano o seu caráter de desgraça

e abalo. O ocidental dos nossos tempos se entende como um ser determinado biológica, histórica, sociológica e psico­ logicamente; sabe de sua dependência de dados políticos e econômicos, estando, em decorrência, profundamente pe­ netrado pela dubiedade de sua posição ideológica e espiri-

tual. Nem sempre se acha, com efeito, plenamente consci­ ente como ego e como indivíduo — pelo que a situação se toma propriamente perigosa — dessa determinação, mas ela constitui a atmosfera e a base de sua insegurança existencial. A proeminência de todo coletivo, assim como uma experiência de ser individualmente determinado abala a posição do indivíduo, arrancando-lhe o seu último apoio e autoconfiança. Isso ocorre de modo especial quando se experimenta, ademais, a estrutura do consciente e do ego como depen­ dente de um inconsciente psíquico que se manifesta em

todos e em cada um como algo de mais forte e superior. Mas

o homem ocidental jamais teve consciência individual

dessa irrupção do lado obscuro antes de surgir a psicologia

profunda, evidentemente com a exceção de seus expoentes

geniais. A inflação ocidental do ego, a que levou a evolução da Europa a partir do renascimento, continuou, ao invés, a marca e a cosmovisão do indivíduo. O que quer dizer que

o sentimento ou a suspeita de risco ou de inseguran­

ça existencial subsiste ao lado da “segurança” de um ego que acredita tudo fazer, saber e ordenar segundo a divi­ sa: “onde existe vontade, também existe um caminho”. Com o crescente revigoramento dessas posições contrári­ as, vale dizer, da auto-segurança do ego e do lado escuro que cada vez mais se impõe, chega-se a uma divisão da personalidade no indivíduo e, em decorrência, também do

grupo. Assim, o abalo coletivo do homem moderno, preci­ samente quando permanece inconsciente e não elaborado, ou seja, não se tornou experiência individual do homem, conduz a uma série de reações perigosas, que marcam, coletiva e individualmente, a imagem da nossa época e dos nossos contemporâneos. Faz-se mister distinguir duas orientações básicas, que podem se vincular entre si de modo característico no homem individual.

Uma dessas tendências representa uma reação

deflacionista: é coletivista e desvaloriza o indivíduo e o ego.

A outra é uma reação inflacionária: é individualista e

super valoriza e dá maior peso ao indivíduo e ao ego. Ambas são tentativas inconscientes de fugir do problema propriamente dito. Ambas comungam em querer ocultar que se faz necessária uma nova ética para que possamos acalmar os conflitos que molestam o homem moderno. Uma das respostas ao abalo do velho mundo de valores é niilista-negativista, enfeixando em si múltiplas formas de deflação de autovalor humano. O ideal da fera loira e o princípio “consciência como ruína”2, assim como também a ideologia do sangue-e-chão, são variantes dessa reação catastrófica. A todas é comum “saber” da invalidade dos valores da consciência, bem como a reação, inimiga da consciência, e desse conhecimento. Se o mundo dos valores da consciência é uma ilusão, toma-se então impossível uma renovação pela consciência e deve ser abandonada. Introduz-se, pois, uma identificação do ego com os des- valores coletivos em contraste com a identificação do ego com os valores coletivos, típica da velha ética. Consciência e conhecimento tomam-se pseudo-

grandezas, e, ao passo que ainda, como em Adler, o in­ consciente era tido como truque da consciência, ou seja, um apêndice da consciência, a reação niilista, ao invés, faz

da consciência um truque do inconsciente. A consciência é

agora apenas meio para impor as forças instintivas do

inconsciente, o espírito e o conhecimento valem apenas como instrumentos de quaisquer constelações impulsivas

do grupo ou do indivíduo.

Essa reação niilista é uma radicalização da tendên­ cia materialista, que também pertence ao quadro sintomá­ tico da irrupção do lado escuro no mundo ocidental. Tam­ bém na tendência orientada materialisticamente chega-se

2. Seidel, Bewusstsein als Verhängnis.

à redução e deflação do autovalor humano, à medida que

a consciência, o lado do espírito e do valor tomam-se o

epifenômeno de uma base estrutural diferenciada. Assim como os valores são tidos, graças ao prisma sociológico, apenas como ideologias e superestruturas de dados “re­ ais”, assim também os fatos culturais são vistos, mediante oprisma psicanalítico, apenas como produtos “inautênticos” de compromisso de uma estrutura psíquica que é essenci­ almente inconsciente. Em todo caso, essa espécie de impostação básica pessimista-deflacionária é expressão de profundo abalo da consciência pela experiência do lado da sombra do mundo. Ao passo que a ética judeu-cristã experimentou dua- listicamente os contrastes, seja no sofrimento, seja no combate ao outro lado, a reação niilista é monístico- negativa, isto é, reduz o princípio do contraste a uma, por exemplo, estrutura básica materialista e explica o lado

contrário do espírito como epifenômeno. A outra forma de reação, a inflacionária, na verdade é também monista, apresentando-se, porém, sob vimsigno

contrário. Pode ser caracterizada como pleromático-mística.

É lima concepção do mundo que precisamente em nossa

época tomou-se especialmente visível. Nela tenta-se passar por cima da realidade como dado. É “pleromática” no sentido de que o pleroma, a plenitude do divino no seu estado pré-mundano em que a divindade ainda não entrou no mundo, é considerado como o estado “propriamente dito” do mundo. É mística, porque só se pode atingir o liame com o pleroma pela mística ou pela ilusão. A reação pleromático-mística surge em geral vin­

culada a elementos escatológicos, ou seja, com tendências

a antecipar utopicamente um estado de redenção que a

história das religiões coloca, ao contrário, no final dos tempos. Nela, além de resquícios da velha ética, está ativa

uma psicologia de um tempo final e de uma redenção realizada, que pensajá ter alcançado um além dos contras­

tes. Com a expansão místico-inflacionista do indivíduo, que se coloca como sendo um com o pleroma, o espírito original, a divindade etc., e agora paira e se dissolve no

ilimitável e absoluto, tenta iludir a problemática do escuro e da sombra no mundo e na humanidade. Tipifica hoje essa concepção a Christian Science, que simplesmente nega o negativo, mas coisa semelhante se encontra em muitos movimentos místicos, sectários e políticos. A reação pleromática e a reação niilista ao problema da sombra não raro se acham mutuamente unidas no homem moderno, acoplagem que encontramos em pré- formação em várias seitas gnósticas. A tendência pleromático-mística tem sua manifestação mais clara nos movimentos coletivistas, que pretendem trazer a redenção

e em certo sentido também o fazem, enquanto vêem o

indivíduo pleromaticamente realizado, alçando-o assim

ao estado de redenção conquistada. O indivíduo vê-se dessa forma recoletivizado, ou seja, novamente convertido em parte coletiva da massa, mas, à medida que se lhe tira

a responsabilidade individual, ele fica ao mesmo tempo

redimido do seu isolamento. A libertação do indivíduo da

problemática moral e a assunção da responsabilidade pelo coletivo está na base do cunho redentor de todo'movimento coletivo. Esse caráter de redenção assumiu hoje em geral

a forma política, mas não é difícil reconhecer o fato e a

maneira como aí a política é “ópio do povo” e substitutivo da religião. Na crença, na doutrina e no líder ou redentor,

o componente da realização pleromática é de tal sorte

vigoroso que o problema moral parece ficar diluído, o que,

passando pela recoletivização da consciência individual, leva à sua dissolução e à moral insanity do coletivo como decorrência da reação místico-pleromática. O nazismo é a forma mais clara desse fenômeno, mas o fanatismo e coletivização política produzem fenôme­ nos semelhantes em toda parte. A figura do Führer iden­ tifica-se com a figura do redentor, a personalidade-mana

do inconsciente coletivo3, estabelecendo-se sua doutrina como doutrina salvífica. Reconhecendo essa doutrina, a consciência moralmente decisiva do indivíduo é substituída pela personalidade-mana, e a figura vicária do redentor é identificada com o espírito originário que está acima dos valores. Assim se dissolve a personalidade, esquecendo-se

a sombra, e o indivíduo, convertido em fantasma, lança-se

nos braços da doença do espírito. Sabemos desse fenômeno pèla psicologia da alucinação religiosa e nessa linha de­

vemos compreender uma multidão de fenômenos coletivos de nosso tempo que vão nessa direção.

Quer as reações niilistas, quer as pleromáticas tendem a um monismo onde se tenta abolir o princípio da contrariedade que marca o problema moral, e absolutizar

um dos dois pólos. A reação niilista faz/do lado espiritual

o epifenômeno, ao passo que a concepção pleromática tem

o espírito como o existente propriamente dito, sendo o mundo material apenas o seu epifenômeno que facilmente se deixa de ver; o mundo toma-se algo que se poderia cha­ mar de erro de perspectiva.

Uma última forma, enfim, da reação à urgência do problema da sombra é o empenho no sentido de livrar-se de valores e conceber a vida de forma behaviorista ou libertinista e utilitarista. Constitui outra tentativa de colocar entre parênteses o mundo escuro e assim evitar a crise inevitável da consciência, que acarreta toda tentati­ va de levar a sério o problema do mal.

Essa forma de não-reagir surge em geral como forma mista, ou seja, amalgamada com outras atitudes. Por uma espécie de política do avestruz diante do mal,

busca-se eliminar o problema moral, em parte reduzindo-

o materialisticamente e, em parte, projetando-o em outros

dados. Típico dessa atitude é que o homem não assume

3. Jung, C.G., Die Beziehungen zwischen dem Ich und dem Unbewussten.

sobre si o mal como problema, deixando-lhe, em conse­ qüência, total espaço de ação. As duas reações de fuga diante do problema da sombra, a saber, a coletivista e a individualista-místico-

pleromática, constituem tentativas extremas de se iden­ tificar com um dos lados do contraste que criam o conflito:

com a massa ou com a elite. No coletivismo, sacrificam-se

consciência do ego e o mundo dos valores e, na tendência místico-pleromática, o homem de massa e a sombra. As duas reações não se acham em condições de eliminar-se do mundo e solucionar a realidade do proble­ ma da sombra que se impõe ao homem moderno. Mas

a

o

movimento coletivista que tende ao niilismo e também

o

pleromático que não raro tem um matiz ilusionis-

ta-liberalista, são extremamente perigosos para a exis­ tência política e social, devido à instabilidade de seus representantes.

A análise não apenas do indivíduo, mas também das tendências coletivistas sempre voltam a mostrar que

se confundem com o seu contrário, ou seja, que o homem

coletivista é um secreto místico-pleromático, e o pleromático

é secretamente um niilista. Essa confusão, compreensível

pela tendência de equilíbrio inconsciente, fortalece a labilidade de seus portadores, tornando-os, não obstante sua aparente segurança dogmática, vítimas fáceis de qualquer infecção contrária. Os indivíduos dogmaticamente unilaterais con­ vertem-se, por sua divisão interna, em camada humana altamente insegura, que falha e deve falhar em toda situação genuína de luta e decisão. Temos o exemplo clássico dessa falha na camada burguesa, que se situa entre os representantes da velha ética e, por exemplo, na Alemanha apresenta-se com um impacto idealista- pleromático manifesto. A falha dessa camada — alias, de maneira alguma não só na Alemanha, como o futuro ainda haveria de ensinar— permaneceu enigmática. Sua vonta-

de ética parecia fazer dos representantes desse grupo indivíduos e pioneiros éticos, mas na realidade foram em larga escala apanhados pelo lado oposto de forma incons­ ciente, lado oposto que tinham reprimido. Semelhantes

indivíduos e grupos unilaterais em princípio sempre per­ tencem, sem o saber, à quinta coluna do fronte contrário à sua própria ideologia consciente, porque neles a sombra é mais vívida e vigorosa que o ego ético do sistema consci­ ente. Em hora de decisão, os homens que integram esse grupo mudam de atitude e passam para o fronte oposto. A sua pactuação com as forças contrárias tem sua mais profunda razão na divisão em que de fato vivem. Alabilidade de atitude, determinada pela oposição contrária inconsciente, vamos encontrá-la não apenas no homem médio, que como parte da massa constitui os sequazes de todos os “movimentos”, mas também, o que se toma ainda mais funesto, nos assim chamados homens dirigentes, educadores e mestres, e inclusive políticos.

A incapacidade dos estadistas, dos quais o homem

modemo se tomou parente de forma tão cruel e sanguino­ lenta, está ancorada, no essencial, em sua insuficiência humana, ou seja, em sua estrutura psíquica minada, que o levou à falha total em todas as decisões reais. O fato de estadistas e dirigentes não terem comprovado suas qua­

lidades humanas e morais parecerá no futuro tão grotesco, como hoje em dia seria grotesco para nós, fazer de um portador de difteria o diretor de um posto pediátrico.

A insuficiência moral de um estadista no sentido da

nova ética, não está no fato de não ser em sua consciência uma personalidade ética sem reparos, se bem que nada o garanta neste aspecto. Sua inconsciência da sombra e a tendência ilusória de sua consciência, que àquela se vin­ cula, é o fator decisivo e não raro catastroficamente deci­ sivo a se levar em conta. Eticamente sem reparos, no sentido da nova ética, é somente o homem que assumiu o problema de sua

sombra, ou seja que se conscientizou do seu próprio lado negativo. O risco, que sempre volta a ameaçar a humani­ dade e até o momento dominou sua história, está em não se testar os líderes que podem, com efeito, no sentido da velha ética, ser íntegros, mas cuja ação contrária incons­ ciente e não propositada fez em geral mais “história” que sua consciência. Justamente porque hoje em dia sabemos que o inconsciente determina não raro, se não sempre, a vida de um homem mais fortemente que sua consciência,

sua vontade e sua intenção, não mais nos poderemos dar por satisfeitos absolutamente com a assim chamada “boa intenção”, que é um sintoma da ciência. O fato, porém, que, ao invés de assumir a sombra não é para se realizar mediante uma identificação com ela, parece na verdade ser evidente por si, mas, como ensina a história da irrupção do lado escuro no ocidente, também semelhante inter­ venções da velha ética, paralelamente aos cultos dos demônios na idade média, emergiram e fizeram história mundial.

A nova ética rejeita o domínio de uma estrutura

parcial da personalidade e fomenta a personalidade total como base no comportamente ético. Fundamentar a ética pela sombra é tão unilateral quanto uma tendência que se orienta somente pelos valores do ego. Leva à supressão, ao estancamento e à irrupção das forças contrárias positivas, mas a instabilidade da estrutura humana é nela tão grande como na velha ética. Uma ética negativa terrorista

da ditadura, da violência e de fins utilitaristas que nega a dignidade do indivíduo humano é também uma ética parcial da mesma forma que a ética judeu-cristã. Conduz às mesmas conseqüências, só que aí o positivo, no sentido da velha ética, há de desempenhar o papel do bode expiatório.

A nova ética é total em dois rumos. Em primeiro

lugar, porque não mais considera individualisticamente apenas a situação ética do indivíduo, mas insere no pensa­

mento também os efeitos da atitude individual sobre o coletivo. Em segundo lugar, porque não é apenas uma ética parcial da consciência, mas leva também em conta os efeitos da atitude consciente sobre o inconsciente, esta­ belecendo assim o total da personalidade como portador da responsabilidade, e não somente o ego como centro da consciência. Esses dois desenvolvimentos relacionam-se es­ treitamente. À consideração da sombra, que se insere coletivamente na esfera exterior, também o homem primi­

tivo de massa na responsabilidade ética, corresponde individualmente na esfera interior à referência responsá­ vel ao homem primitivo de massa, que integra o conteúdo interno da personalidade inteira.

O coletivo que existe fora, com suas tendências

arcaicas, faz-se representar no inconsciente coletivo de

todo indivíduo. As tendências e imagens arcaicas do in­ consciente coletivo, que representam o lado instintivo, são o depósito da experiência coletiva dos antepassados do homem, da maneira como este desde sempre reagiu e fez suas experiências. Este mesmo inconsciente coletivo, po­ rém, é também o que dirige a massa e encontra o seu depósito e a sua expressão nos fenômenos de massa do coletivo.

A nova ética apresenta-se sob o signo de uma

intuição maior, de uma verdade mais total e de um co­ nhecimento menos ilusório da natureza humana global, que é o resultado propriamente dito da psicologia profun­ da. Para ela, o problema moral do indivíduo só se situa a partir do conjunto de ego e sombra, alargando a respon­

sabilidade da personalidade para atingir o inconsciente, ao menos a parte pessoal do inconsciente, que contém a figura da sombra. A responsabilidade pelo grupo pressupõe uma per­ sonalidade que se houve bem com o seu problema da sombra. O indivíduo deve elaborar a sua problemática

básica moral, antes de estar em condições de representar um fator coletivo responsável. A percepção da própria imperfeição, que implica a assunção da sombra, é trabalho difícil, em que o indivíduo deve desprender-se do absoluto de uma fixação pleromática tanto quanto de uma identifi­ cação com os valores do coletivo. A redução da personalidade, que a assunção da sombra acarreta, é apenas uma redução aparente. Na verdade, reduz-se apenas à identificação do ego com o absoluto, isto é, uma idealização pessoal ilusória parcial, que aliás é torpedeada pela realidade e pela ação contrária do inconsciente. O sacrifício do ideal de perfeição absoluta, que a velha ética ensinava, não leva absolutamente a uma redução do valor humano. Já a supressão das conseqüên­ cias negativas dos fenômenos da divisão seria para a vida um ganho tão imenso que apenas por isso se justificaria a nova exigência ética de se assumir o negativo. Por isso cai a acusação de que a nova ética provém do “impulso de tomar mais fácil a própria vida pessoal”4. E é falsa também a acusação de oportunismo e comodismo, estando em contraste com a radicalidade e o rigor da absoluta exigência da velha ética. Esse rigorismo ético sempre se limitou apenas a uma ética parcial da consciên­ cia e jamais pôde fazer sequer a tentativa de referir-se à personalidade global. Por outro lado, o perigo do rigorismo é enormemente grande. Sempre voltamos a encontrar na história universal que a ação funesta da personalidade criminosa só é alcançada por outra categoria humana, ou seja, pelo idealista radical, dogmático e absolutista. Ao lado de Nero e César Bórgia perfilam-se somente Torquemada e Robespierre. A nova ética repousa sobre a conscientização das forças positivas e negativas da estrutura humana e sobre

4. Jaspers, Diegeistige Situation derZeit, p. 141.

a sua inserção consciente na vida do indivíduo e da comu­

nidade. A sombra, que é mister assumir, é o forasteiro da vida. Ela é a forma individual que o lado escuro da humanidade assume em mim e por mim como parte de minha personalidade.

O meu lado da sombra é parte e representante do

lado da sombra da humanidade em geral, e quando minha sombra é associai e cobiçosa, cruel e má, pobre e miserável, quando ela se me apresenta como mendigo, como negro e como fera, está por detrás da reconciliação com ela a

reconciliação com a irmã escura da humanidade em geral,

e à medida que a assume e nela a mim mesmo, assumo com ela também toda a parte da humanidade que como minha sombra é “o meu próximo”.

O amor ao próximo de Jesus de Nazaré toma-se aí

amor ao próximo como o malfeitor e a sombra. Em sua limitação a uma figura pessoal interior, ele parece ser uma

forma paradoxal de “amor próprio”, em contraste com o

amor do Nazareno que abstrai de si. Mas somente o amor

à sombra e sua assunção constitui psicologicamente a base

para um comportamento ético realizável também para

com o tu que se acha fora de nós.

A negação do negativo leva à psicologia do bode

expiatório com sua peculiar autojustificação e, a um só tempo, também à negação do amor para com o próximo. A ética cristã, ao contrário da ética cristã primitiva de Jesus de Nazaré, jamais ultrapassou essa divisão e cisão, porque

manteve em princípio, de forma dualista-gnóstica, a divi­ são do homem em homem superior e homem inferior, uma dualidade deste e do outro mundo no homem e no mundo. Somente me experimentando como escuro — não como pecador — é que logro aceitar o ego escuro do outro, pois percebo minha pertença comum e solidariedade com ele justamente no meu ser-também-escuro, e não somente no meu ser-também-claro. Na auto-experiência de vida da psicologia profun­

da, onde o liame com a sombra representa o primeiro estágio, o- homem toma-se mais pobre de ilusão, mas também mais rico de compreensão e intuição, porque o alargamento da personalidade através da sombra não só transmite um novo acesso ao ego profundo, mas também,

em decorrência, ao lado escuro da humanidade em geral.

A assunção da sombra é um amadurecimento rumo ao

profundo da própria origem, e, com a perda da ilusão flutuante de um ideal do ego, logra-se novo aprofun­

damento, enraizamento e firmeza.

A relação com a sombra vem a ser vivenciada pelo

ego com sua pertença comum e solidariedade com a espécie humana e com sua história na experiência interior, à medida que encontra presente em si próprio uma série de estruturas psíquicas, tais como impulsos, instintos, ima­ gens originárias, símbolos, concepções arquetípicas e maneiras primitivas de se comportar. Só se houver esse encontro, ficará consciente a psicologia grupai do homem, assim como também, em conseqüência, o fenômeno básico de que a zona do ego e da consciência, que distingue entre si os homens, constitui apenas uma parte muito pequena do mundo psíquico que se alarga infinitamente. O humano e individual forma apenas a camada superior do inconsciente coletivo que vai até o mundo animal. Por isso o empenho •do ego em desligar-se desse seu fundamento e identificar-se com

quaisquer valores absolutos, independentes dos limites do terreno, é disparatado e alheio à realidade.

O surgimento de elementos e símbolos pagãos em

nexo com o lado da sombra, se bem que não absolutamente

só com ele, é expressão clara de uma necessária vinculação

retrospectiva a uma camada psíquica anterior, que se esconde sob a cultura judeu-cristã ética e religiosa do homem modemo. Na medida em que o ego constata sua comum ■pertença e solidariedade com os homens mais feios, com os

homens animais de rapina e com o homem-macaco que aterroriza as matas virgens5, vem à tona algo de decisivo, cuja falta devia levar o homem moderno à catástrofe de sua divisão e do isolamento do seu ego, a saber, vem à tona a ausência de sua ligação com a natureza e com a terra. Não pesquisamos aqui os elementos positivos, construtivos e fomentadores da consciência dessa camada profunda do inconsciente, cuja importância para o futuro da humanidade é extraordinariamente grande, pois nos interessa agora somente o encontro com o que, visto a partir do ego, constitui o mal. Surpreendentemente se revela, também na análi­ se individual, que o encontro com a sombra e a reconcili­ ação com ela, sempre volta a ser o pressuposto de uma atitude verdadeiramente tolerante para com o outro ho­ mem, outros grupos humanos, outras formas psíquicas de cultura e outras camadas de cultura. Somente a assimilação do lado primitivo da própria natureza conduz a uma forma estável de sentimento de comum pertença e solidariedade e de responsabilidade coletiva. Visto que a Ética total insere também a sombra na responsabilidade, cessa a projeção dessa parte, cessa a psicologia do bode expiatório, cessa a luta, eticamente camuflada, de erradicação do mal, cedendo lugar a uma atitude, onde não mais é determinante a duvidosa impo­ sição de castigo e purificação da velha ética. Assumir a sombra, integra o processo de desenvol­ vimento em que se produz uma estrutura de personalidade que, como se disse, associa entre si os sistemas do consci­ ente e do inconsciente. A personalidade se alarga median­ te assimilação e conscientização de conteúdos inconscien­ tes prenhes de futuro que apontam à consciência novos rumos e novas vias, e mediante a transformação e

5. Pra evitar equívocos, nota-se que se trata de uma imagem psíquica, qu

dessa forma surge e é projetada. Essa imagem corresponde, pois, a uma realidade anímica, mas não a uma realidade zoológica ou antropológica.

integração de conteúdos inconscientes “negativos”, ou seja, os que se apresentam como conteúdos inimigos do ego

e da consciência. Esses conteúdos são autônomos, como chegou a experimentar a psicologia profunda. O inconsciente con­ siste numa série de conteúdos parciais descentrados com

tendências próprias, os complexos descobertos por Jung, que levam uma existência separada mas altamente ativa

e real no inconsciente, para além do controle e da consci­ ência do ego.

A vida do doente e do normal, mas sobretudo a vida

do grupo acha-se determinada pela ação desses conteúdos

inconscientes autônomos. Não só um conteúdo negativo como a sombra, mas também um conteúdo positivo in­

consciente, como, por exemplo, um instinto ou um arquétipo, pode vir a impor-se na vida de um indivíduo com força autônoma, sem que o ego tome conhecimento da influência

a que está exposto.

A labilidade do grupo e do indivíduo é tanto maior

quanto mais extenso é o território dos conteúdos incons­ cientes e quanto menor a extensão da consciência. Essa lei domina na psicopatologia do indivíduo e do grupo. Assim, no primitivo e na massa é especialmente forte a eficácia do afeto, mas, com isso, também é especialmente grande também a labilidade. Como tivemos oportunidade de frisar com fre­ qüência, uma vez que a psicologia do primitivo e da massa penetra profundamente em todo indivíduo, essa lei pode ser comprovada em toda parte e em todo homem. A labilidade, incontrolabilidade e irresponsabilidade de um homem cresce na medida que decresce sua consciência e que, vice-versa, se vivifica a região dos conteúdos autôno­ mos inconscientes. Essa vivificação pode, exceto em deter­

minadas constelações básicas constitucionais evolutivas, como, por exemplo, na infância e puberdade, e também na doença, no sono, no envenenamento e embebedamento, vir

a acontecer sem intenção, mas pode ser aduzida conscien­

temente para fins cultural-religiosos, e também pode vir a ocorrer mediante uma ação massificante, que recoletiviza

o indivíduo para o estado de homem primitivo.

Em todas essas e outras situações chega-se a vima desintegração da personalidade. O que quer dizer: a uni­ dade da personalidade, que é normalmente representada pelo ego, é dissolvida, e um conteúdo parcial do inconsci­ ente, vim complexo, vima constelação vivificada de impul­ sos, por exemplo, toma a direção e se impõe, independen­ temente das tendências conscientes que o ego tinha reco­ nhecido na situação prévia como dirigentes. Mostramos uma dessas reduções da personalida­ de, por exemplo, no caso da inundação do lado da sombra do inconsciente, em que voltam a se impor precisamente os conteúdos rejeitados e reprimidos. A nova ética deve levar avante sua tarefa com mé­ todos, tendências e modos de proceder inteiramente ou­ tros que os da velha ética. A tensão de contrários, que como dualismo era a característica da velha ética, de maneira alguma não se pode simplesmente eliminar do mundo e negar. Se a nova ética quer “assumir” os conteúdos incons­ cientes, associando-os à consciência, em vez de os recalcar

e reprimir, ela se acha no caso perante a tarefa de reelaborá- los.

A vinculação desses conteúdos numa totalidade maior, que não seja a totalidade dada na velha consciência, ocorre mediante o processo de reintegração. Os conteúdos até o momento autonomamente separados vêem a se tomar nela partes de uma estrutura psíquica abrangente que se liga com o ego e a consciência, recebendo assim uma mudança de sentido e valor. Queremos apresentar neste estudo apenas as ori­ entações e os conteúdos básicos da nova ética, sem os comprovar em material casuístico. Expomos em outro

lugar6 como se apresenta a mudança de um conteúdo negativo inconsciente para um conteúdo do consciente e a maneira como se dá essa transformação.

6. Cf. Jung, C.G., Psychologie und Religion. Jung, C.G., The Integration of the Personality. Jung, C.G., Psychologie und Alchemie.

5

Fins e valores da nova ética

A tarefa mais importante da nova ética consiste em produzir uma integração, o seu primeiro fim é tornar integráveis as partes dissociadas e inimigas ao sistema de vida do indivíduo. A justaposição dos contrastes, que enche a totalidade do mundo experimentável, não se deve mais solucionar pela vitória de um lado e a repressão do outro, mas unicamente pela síntese dos contrários. Ao passo que a concessão de fim da velha ética era divisão, diferenciação, separação e cisão, tal como se for­ mulou na projeção mitológica do juízo final como separa­ ção entre os bodes e os cordeiros, os bons e os maus, o paradigma da nova ética é a união dos contrários numa estrutura unitária. Da série de forças contrárias, da mul­ tiplicidade dos pares deve-se produzir uma estrutura que ligue entre si os contrários, e na qual a variedade dos contrastes esteja unida na firmeza de vima unidade supra- ordenação. Quanto mais forte for a tensão dos contrários unidos, tanto mais forças polares entram na nova união, e, tanto mais valiosa é a estrutura conseguida1. A meta da ética total é produzir a globalidade, a totalidade da personalidade. Nessa totalidade, não se

1. A estrutura de totalidade, que se alcança na integração dos componen

psíquicos, é arealização de uma tendência básica da personalidade, a centroversão,

cujo desenvolvimento expusemos em outro lugar. A centroversão, que se origina na função de totalidade da personalidade e visa produzir e conservar essa totalidade, é, na ética total, tornada consciente e assumida pelo ego.

separa nem se cinde a contrariedade dos sistemas da consciência e do inconsciente. Também o encaminhamen­ to da consciência do ego não vem a ser minado pelas

tendências contrárias de conteúdos inconscientes, de que

o ego e a consciência não tomam nenhum conhecimento. A

consciência do ego converte-se, na nova situação ética, em

cabeça responsável de uma aliança dos povos, de que fazem parte os diversos grupos que integram o Estado, primitivos e pré-humanos e também diferenciados e mo­ dernos, e onde se fazem presentes lado a lado, com forças diferenciadas, elementos ateus e religiosos, impulsivos e espirituais, destrutivos e construtivos.

Deve-se levar em conta todos esses grupos de forças, pois, conforme mostra avida coletiva dos povos, a supressão

e a repressão levam a reações contrárias que abalam e

mantêm em permanente inquietação a vida do todo. A nova ética presta a maior atenção não ao fato de que o indivíduo seja “bom”, mas ao fato de que seja psicologicamente autônomo, ou seja, são e produtivo e também que não seja psiquicamente infeccioso. A autono­ mia da personalidade ética consiste em que a elaboração e emprego das forças negativas presentes em toda a estru­ tura ocorram conscientemente no quadro da realização da personalidade. Não raro, se não regularmente, ocorria na velha ética que a personalidade “ética” vigorosa não vivia

suas próprias forças negativas, mas se imiscuía no exte­ rior nos lugares fracos do eterno, de sorte que, no seio imediato da família ou no coletivo, os conteúdos negativos reprimidos e suprimidos agiam compensatoriamente, sem que a personalidade do “repressor” sequer tivesse imagi­ nado sua responsabilidade moral por esse fenômeno. A meta ética, enquanto visa “não se tornar um infeccioso”, parece implicar apenas algo de negativo. Mas

a delimitação negativa é complementada pelo aspecto de

totalidade da personalidade, cuja influência sobre a ética

e o problema do mal é muito mais ampla. A totalidade da

personalidade, sua autonomia e integridade no sentido da nova ética, é a base de processos criativos, vale dizer, produ­ tivos de valores. Somente estes são a prova real de que na verdade se alcançou uma estrutura de totalidade da perso­ nalidade e teve êxito sua descentralização. Mas não ser infeccioso parece quase mais importante do que ser criativo.

O coletivo carece, com efeito, do trabalho criativo do indiví­

duo, mas pode de preferência renunciar a este, quando se expõe à influência infecciosa inconsciente do homem não- integrado e, neste sentido, não psicologicamente são. A psicologia do bode expiatório é em última análise o conceito genérico que implica também essa forma de infecção

da zona mais estrita pessoal. Apenas cabe indicar aqui o fato

de que, em virtude da identidade presente primariamente no

grupo, são em si possíveis e freqüentes tanto recepções semelhantes de conteúdos do entorno com também abandono deles. Da psicologia das crianças e dos primitivos podem-se aduzir a esse respeito inúmeros exemplos2. Autonomia ética e ética total significa cuidar por si e conscientemente da economia de sua sombra. Freud tem inumeráveis razões ao dizer que “na realidade não há nenhuma erradicação do mal”3, e uma vez, porém, que essa afirmação estende-se ao indivíduo, a personalidade tem o dever de viver livre e responsavelmente o mal “que lhe cabe” pelo destino. O mal, que age inconscientemente e irradia-se sub­ terraneamente, tem a eficácia perigosa da epidemia, ao passo que o mal feito conscientemente e assumido res­ ponsavelmente pelo ego não infecciona o entorno, mas se

apresenta ao indivíduo como tarefa e como conteúdo a ser incorporado na vida e na formação da personalidade, assim como também todo outro conteúdo psíquico4.

2. Wickes, U.a.F.C., Analyse der Kinderseele; Levy-Bruhl, v. acima.

3. Freud, S., Zeitgemasse über Kricg und Tod.

4. Jung, C.G., Nach der Katastrophe, in: Aufatze zum Zeitgeschchte. Cf. a

resp.: Anmerkungen, p. 122.

O “haver-se com” um conteúdo é a expressão vulgar para o que designamos como interpretação. Assumir, haver-se com, digerir, elaborar, estar maduro, são formu­ lações para dizer esse ato de assimilar. Indicam diversos graus pelos quais a personalidade se apodera do novo conteúdo estranho ao ego e, não raro, inimigo do ego, mas não mais dele se defende, como o fazia a velha ética, mediante supressão e repressão. Em outro lugar mostramos como a evolução do ego e da consciência do indivíduo imita o evento prototípico da vida e ação do herói. Entre os conflitos fundamentais da existência do herói, mas também de toda evolução da personalidade, está o ato de operar o mal. “Separação do mundo dos pais” e “originário assassinato dos pais” são os grandes símbolos que caracterizam o feito e o crime do herói, que é a um só tempo a necessária ação libertadora do ego. Assim também na vida normal do indivíduo o — simbólico — assassinato do pai é uma fase evolutiva que não se deve saltar e, como o ensina um grande número de evoluções falhas, com muita freqüencia o privilégio de ser “um bom menino”, que tem medo do assassinato dos pais, é pago com o sacrifício perigoso da própria autonomia de vida.

Já a análise psicológica de toda evolução normal revelou a necessidade- de praticar certa medida de mal, elaborá-la e ser capaz de superar os conflitos que daí surgem, para se tornar adulto. Todo tomar-se autôno­ mo associa-se com a capacidade do ego de não apenas assumir os valores do coletivo, mas também de impor e levar avante necessidades do indivíduo, que se acham em contraste com os valores coletivos, o que, porém, quer dizer fazer o mal. Sempre se volta a colocar-se na evolução psíquica do indivíduo o problema de que a “voz”, em contraste com a “consciência” (Gewissen), exige que “o mal” seja feito e se assumam os conflitos internos e externos que daí surgem,

com todas as suas dificuldades. Surpreendentemente não

é raro evitar o mal e o conflito, que acarretam apresentando- se como “aéticos” no sentido da “voz”. Em épocas normais da cultura, em que a personali­ dade se acha bem segura no cânon da cultura, cujos valores pode reconhecer como genuínos, também a vivacidade emocional da camada humana profunda possui sua ex­ pressão adequada5. Religião e arte, rito e costume são tão saciados de símbolos, que a vida normal do indvíduo — se bem que não a do “grande indivíduo” — está encerrada viva na cultura do seu tempo. Mas em épocas de revolução, épocas de ocaso de um período cultural, o indivíduo descai desta segurança, indo parar nas mãos das forças primitivas e deuses para a vida ou para a morte. Para a realidade do indivíduo, isso significa que em sua vida está exposto mais diretamente ao perigo e à experiência não-assegurada por nenhuma convenção. Esse problema pode, para dar um exemplo, manifestar-se de tal sorte que surge um conflito de rela­ ções, em que a moral convencional está contra um amor que irrompe. O maior perigo ameaça quem não leva a sério uma problemática dessa índole. Ater-se à lei não mais mantém a vida do indivíduo, e chega-se a perturbações e evoluções falhas, que o homem antigo e toda cosmovisão mitológica, que conhece forças transpessoais como deuses, teriam interpretado como “vingança de Afrodite”. O perigo da irrupção dos deuses é o perigo da expe­ riência vívida da camada profunda, cujo poder numinoso

e pretensão suprapessoal não se devem pôr entre parênte­

ses, para sua própria perdição, a vitalidade, a profundida­

de e o suprapessoal. Temos então o conflito de— no sentido do cânon da cultura — ter que fazer o “mal”, sem dúvida não na frivolidade de uma inundação inconstante, mas na

5. Neumann, E., o.c., Zweiter Teil.

consciente e conflituosa “assunção do mal”, que a “inter­ venção dos deuses” está no caso a exigir. Em consonância com a velha ética, evitar o conflito

e o sofrimento que ele acarreta é coisa louvável, mesmo com o perigo de que o interessado caia, por exemplo, em fantasias sexuais. Que dessa forma suas relações huma­ nas “moralmente legais” venham a ser envenenadas, e não apenas o próprio homem mas também todo o seu ambiente de vida venham a cair nessa infecção, não raramente o desvela somente uma penetração analítica de sua situação que se tomou necessária pelas pertubações que advieram de sua “comprovada” moral. Pertubações dessa índole, que podem se manifestar fora na realidade, constitui um e não absolutamente o único aspecto deste problema. A responsabilidade para com o total da personalidade, que a ética total exige, estende-se não só à realidade externa, mas também à realidade interna da alma, ou seja, a sonhos, fantasias, pensamentos etc., implica em saber que as conseqüências de uma fantasia podem ser tão sérias como as de uma ação,

o que há muito tempo se aprende no oriente. A realidade

própria da alma, que a psicologia profunda apenas começa

a descobrir, é maior e mais profunda do que o percebe a

consciência média do ocidental. Indivíduos e grupos, mas também povos e períodos históricos são marcados pela força de realidades psíquicas internas que não raro sur­ giram de imediato como fantasias do indivíduo. Não so­ mente a religião e a arte, mas também a política e as técnicas constituem parte das zonas de expressão do mundo interior. A imagem fantástica de um homem levado por fantasias de poder, sempre volta a devastar o mundo com guerras e destruição, assim como também a imagem interna do homem criativo torna-se posse cultural da humanidade. A realidade do mundo interno significa também que assumir o mal não quer dizer em todos os casos e para todo

homem um agir externo. Com muita freqüência dá-se jus­ tamente o contrário: concretizar uma imagem interna não

é realizá-la fora. Percebê-la interiormente não quer dizer

absolutamente, por exemplo, reagir aela. A multiplicidade

e complexidade desta situação toma impossível toda fixação teórica de um comportamento ético. A constelação interna

e externa, o tipo psicológico e constitucional, a idade do

indivíduo e a individualidade são componentes de toda decisão ética, que, por isso, sempre deve ter feição diversa, pois o mal para um pode ser o bem para outro, e vice-versa. Ojulgamento moral deve em princípio ser restringido, uma vez que é impossível prever a forma psicológica em que o mal irá aparecer na história concreta de qualquer indivíduo. Ao mesmo tempo, a experiência da psicologia profunda e a crise com que o homem atual se defronta (e, em particular, a sua inabilidade para viver dentro das

categorias da velha ética) torna necessário chegar a for­ mulações que terão uma validade geral aproximada. Isso significa que as “exigências” da nova ética precisam ser vistas em certo sentido apenas de modo “formal”; sua realização concreta deve ser deixada aos processos únicos

e imprevisíveis pelos quais cada pessoa individual vai

abrindo seus caminhos através de suas próprias decisões.

Todavia, embora seja verdade que as “exigências” da nova ética possam apenas ser realizadas em termos indi­ viduais, também não é menos verdade que a situação moral do homem atual permanece, a despeito de todas as variantes pessoais, essencialmente um problema geral. O resíduo cristalizado deixado atrás pela recorrência de certos padrões típicos na multidão de vidas individuais pode, de fato, ser formulado em termos gerais. “Fazer o bem”, como se entendia na velha ética, com

a conseqüência repressão do mal e obediência à convenção,

é freqüentemente nada mais do que uma saída fácil, que

evita o perigo e procura a segurança estabelecida. Toda­ via, “onde há perigo, também cresce o remédio” e a voz da

nova ética, ou o que quer que seja, determina-se a aceitar

o perigo e o remédio ao mesmo tempo, pois um não pode ser

encontrado sem o outro. Já por aí fica claro que o caminho da nova ética é algo bem diverso do que “tornar as coisas mais cômodas”. Pelo contrário. O fato de se abandonar o saber, seguro e cole­ tivamente aprovado, dos valores da velha ética, acerca do que é bom ou mau, e de se escolher a ambigüidade da experiência interna, sempre é algo que custa ao indivíduo, porque não cessa de ser uma marcha para o incerto com

todos os seus riscos, o que significa para todo ego responsável

a assunção do mal. Tal situação pode ser esclarecida pelo seguinte sonho de uma judia da Palestina:

“Estou com X em Jafa. De repente surge algo pertubador, sou afastada de X e eis-me sozinha no meio dos árabes. Um árabe arreganha os dentes e me agárra, e

então muitos arremessam-se contra ele, arrancam-no de mim, xingam e amaldiçoam-me, e dizem que ela foi pou­ pada para o rei. Nova situação. Estou numa ponte, existem aí só árabes. Sei que é impossível uma fuga. Ademais, sei que me devo casar com o filho do rei árabe. Reflito. Estou muito triste por estar afastada de X. Contudo, nada po­ de mudar a situação. Penso que não existe nenhuma saí­ da, e é melhor então que eu consinta. — Um sacerdote está

a meu lado e diz: ‘Pois só podemos redimir os que se tomam impuros’. Naturalmente, é preciso primeiro tornar- se impuro, ousar algo, para ser redimido, penso eu. O sacerdote continua a dizer então: ‘Osíris está embaixo

também’

São necessárias algumas observações para interpre­ tar este sonho, inclusive para evitar o equívoco do que a assunção do mal deveria ocorrer “fora” e seria a conseqü­ ência de uma situação negativamente insatisfatória. Ambas as coisas são falsas. Trata-se aí, por exemplo, de uma mulher que se encontrava em i’elação sexual e sentimen­

talmente feliz com X, e não estava absolutamente insatis­ feita.

Jafá e árabes são — para judeus palestinenses — símbolos freqüentes da sombra com acentuação sexual. Que a situação básica do “tomar-se impuro” não se limita, porém, ao sexual, vê-se pela simbologia sacral do sonho.

Ser poupada para o “rei”, bem como menção do Osíris, o deus e rei egípcio dos mortos e da ressurreição, indicam o significado mais profundo e mais elevado do evento. As­ sumir o mal passava-se aí também essencialmente “no espaço interior”,como evento de mudança de personalidade.

A simbologia sexual sacral das fantasias que irromperam

depois deste sonho tomou-se — como não é raro ocorrer — compreensível no sentido da “feliz nostalgia” de Goethe, ou seja, como “cópula superior”, que no mito é prefigurada na relação de Isis para com o falecido Osíris6. Não vamos entrar aqui na interpretação e no signi­ ficado do sonho, mas apenas frisar o nexo entre “tomar-se impuro” e “redenção”. Justamente a pureza de sua cons­ ciência e sua consciência e sua conservação deviam ser abandonadas por essa mulher, não em vista de uma pureza superior, mas para experimentar a mudança que Osíris e o mundo inferior lhe prometem, e pela qual deve precisamente vincular-se com o escuro e o abismo.

O sacrifício que aí se deve oferecer é o da inocência e

inequivocidade. Somente na experiência do “impuro” como

o que lhe falta, essa mulher podia chegar a si mesma e a

uma avaliação e visão da vida, que agora não mais é coletivamente convencional, mas cujo caráter de redimida

abarca claro e escuro, puro e impuro.

A coragem para a avaliação individual, que se faz

dependente dos valores coletivos quanto ao bem e ao mal, é uma das mais difíceis exigências que a nova ética põe ao indivíduo. O fato de que aí os valores do coletivo possuem

6. Neumann, E., o.c., Ester Teil.

sua representação interior no superego do indivíduo, leva na maioria dos casos a série conflito psíquico: assumir a voz não pode significar, por exemplo, reter tudo o que vem do interior, e tampouco o negativo significa fazer sem resistência o negativo. O cumprimento da nova exigência ética significa que

o indivíduo elabora assumindo em suas próprias mãos,

autonomamente, a parte do mal “que lhe cabe” constitu­ cional e fatalmente. Ao fazê-lo, é preciso, individualmente

e em diferente medida, viver conscientemente uma parte

do negativo. Uma parte não pequena do trabalho da psicologia profunda consiste em capacitar o homem para

a vida neste mundo, a fim de que tenha a coragem moral

de querer não ser melhor do que ele é. Assumir o negativo torna-se em geral urgente para homens de um nível ético superelevado. Assim se diz no sonho de um homem destes:

“Diante de mim está um monte de letras, que se devem esfregar até desaparecer. Quando eu tinha feito

uma parte apenas, uma mão grande estendeu-se ao monte,

a fim de levá-las embora. Eu quero gritar: Ainda não

acabei todas as letras! Eu estou diante de um grande livro. Muitas letras são turvas, alguém me diz que devo encontrar o meio, para

ver que na realidade também brilham e luzem. Só que o seu lado brilhante está oculto”. Não é preciso a associação dos sonhadores da cabala

e nenhuma doutrina manifesta ou oculta para reconhecer

que também aqui se trata do conhecimento sagrado- esotérico do ser brilhante do turvo. Mas é preciso achar a

via de aprender a ver esse fato fundamental do mundo —

e é preciso ser um homem que queria “esfregar até desa­

parecer”, isto é, que também no sentido da velha ética se empenhava e “se esforçava” para fazer o bem. Indivíduos que querem tomar fácil a assunção do mal sempre fazem parte dos tipos primitivos, que têm de

experimentar primeiro os valores da velha ética. Não têm, com efeito, necessidade de aprender o método da repres­ são, mas a capacidade da supressão e do sacrifício, da disciplina e da ascese, para afinal aprenderem a necessária segurança do ego do homem da cultura. Deparamo-nos novamente aqui com o princípio da hierarquia da nova ética, que diz que ela é canonizável e não pode ser o fundamento de uma legiferação geral “sem levar em conta a pessoa”. A diversidade de estrutura humana e a pertença dos indivíduos, que vivem num só e mesmo tempo, às diversas camadas culturais e fases de consciência, fazem parte dos conhecimentos básicos da nova ética. A abrangência diversa da consciência e da persona­ lidade corresponde também a diversos graus éticos de responsabilidade. No caso de menor desenvolvimento da personalidade, como, por exemplo, para um ego primitivo ou ego infantil, basta a ética geral do coletivo como “lei”, ao passo que no caso de formas mais elevadas de personalida­ de, no caso da totalidade desenvolvida, a instância da “voz” desliga a lei coletiva da consciência (Gewissen). Esse fenômeno se tornou visível e ativo somente no caso das personalidades éticas geniais, mas hoje em dia afeta já uma camada muito maior de homens ocidentais individualizados. Um sinal desse desenvolvimento é o fato de que mesmo a legiferação no último século chegou progressivamente a uma individualização tendo em vista oindivíduo esua responsabilidade constitucional epsíquica. Entra neste contexto a rejeição da punição por parte da nova ética. Esta tem sempre a tendência de extirpar o negativo, de suprimi-lo e reprimi-lo. Não tem como método nenhuma mudança da personalidade como fim, mas so­ mente uma mudança ético-parcial real ou ilusória da consciência. Por isso, a nova ética, fundada na psicologia profun­ da, não está interessada na punição. Em sua conseqüên­

cia, pode, com efeito, anuir, por exemplo, ao desligamento de partes não-assimiláves do coletivo, mas não o faz a partir do princípio da punição ou do princípio de uma superioridade própria moral, mas com a consciência da incapacidade pessoal psicológica e biológica. O fato de um organismo não poder digerir algo, não fala contra o indigerível, mas somente contra a capacidade do organismo de o integrar. Já encontramos inícios da realização da nova ética em toda parte: na mitigação da velha entidade carcereira e também na pedagogia analítica, na assistência social e também no sistema punitivo da nova Rússia. Precisa­ mente o fato de que, independentes entre si e partindo de diferentes ideologias, se podem indicar evoluções na mesma linha, confirma nossa concepção de uma mudança geral da estrutura psíquica do homem moderno, do ocaso da velha ética e da manifestação visível de uma nova ética. A necessidade de elaborar o mal, tomando-o em suas próprias mãos autonomamente, leva ao postulado da conscientização como dever ético. Justo quando se reco­ nheceu que desgraça a inconsciência causada pela repressão do indivíduo e do coletivo, esta exigência, na qual a tendência ao conhecimento científico do homem europeu vem ao encontro da nova ética, adquire significado central. E terrível observar como a mentira, que, na repressão e em sua tendência, está em não se querer ver a realidade, esvazia e devora desde o interior os homens, indivíduos e

povos Poderia parecer que o princípio da mentira tomou

lugar do mal na antiga ética, tratando-se, por isso, na nova

ética de novo apenas de uma mudança do que se tinha como mau. Trata-se, no entanto, de coisa totalmente diversa. O princípio da verdade refere-se na nova ética à relação real entre ego e inconsciente. A consciência como princípio ético, significa que a consciência é estabelecida como instância para controlar e produzir a relação de

o

totalidade do psíquico, a relação dos conteúdos inconscien­ tes com a consciência. Essa tarefa é independente do conteúdo que se deve pôr em relação com a consciência, e do fato de ele ser bom ou mau no sentido da velha ética.O critério da verdade é neste ponto o que é eticamente decisivo. O autoconhecimento e sua abrangência surge neste contexto como grandeza ética e não como científica.

O reconhecimento do próprio mal é bom. Ser bom

demais, isto é, sempre sabendo também da responsabili­ dade, e ao qual não foge, é eticamente bom. A repressão do mal, sempre acompanhada por auto-supravalorização

inflacionística, é má, ainda quando parte de uma “boa intenção” ou de uma “boa vontade”.

A vinculação da nova ética com a consciência, e a

ênfase que nela recebem a consciência e o ego, parece de imediato demasiado racionalísta e, por exemplo, não fazer justiça à maneira instintiva, isto é, inconsciente, com que o homem como totalidade pode estar em condições de conviver com o seu próprio mal. Contudo, veremos mais tarde que o ego, apesar da ênfase com que é frisado, não possui de fato a última decisão.

O operar consciente do mal acha-se em contraste com

o que se designa, no sentido de Freud, por “sublimação”. A sublimação vale como um truque pelo qual o mal é “desnaturado” e orientado para uma finalidade da cultura. A sublimação de Freud, ao fazer isso, é uma adaptação in­ consciente, e não, por exemplo, uma condução consciente. Quando um homem “sanguinário”, cuja natureza contém preponderantemente elementos impulsivos agressivos, tor- na-se açougueiro, soldado ou cirugião, trata-se de uma su­ blimação, na medida que a tendência primitiva “para o sangue” fica inserida em formas de realização mais ou menos fomentadoras de cultura ou aprovadas pela sociedade. Sem podermos tratar agora do obscuro capítulo da “sublimação” e do problema de sua presença, basta notar o seguinte:

Quando está realmente em ação uma “disposição para a mudança de impulsos egoísticos e impulsos soci­ ais”7, pode ocorrer uma sublimação. Mas à medida que essa organização está presente, também não existe ne­ nhum problema ético. A experiência mostra, contudo, que uma sublimação voluntária, ou seja, dirigida a partir do ego e da consciência, só é possível em abrangência bem diminuta, isto é, o ego não pode desviar para finalidades culturais orientações impulsivas naturais. Onde, porém, existe tal possibilidade, encontramo- nas no seio do movimento negativo circular da velha ética, isto é, a sublimação é paga com a desgraça infecciosa, que surge pela repressão e pela supressão dos elementos inconscientes não-sublimados. Conhecemos os santos su­ blimados, cuja existência acha-se, no sentido da velha ética, livre da sexualidade vívida e cheia de amor para com o próximo, à medida que se refere à consciência. Mas um olhar mais penetrante não pode deixar de ver a infernal

auréola que tal santide irradia. Reconhecemos como margem correspondente a este meio brilhantemente puro a coroa de fantasias sexuais perversas, que o “diabo” envia como tentações, e também como o anel de sangue e fogo, que, com perseguições humanamente odiosas de todos os incréus com fogueiras, câmaras de tortura e cruzadas, desmentem o amor ao próximo e as “sublimações” da consciência.

A nós tal santidade tomou-se repugnante, onde quer

que surja, seja a santidade de inquisidor ou do bonzo do partido, pois que acabamos de reconhecer que se trata aí

de um só e mesmo fenômeno, sendo as diferenças meras

diferenças de veste e época, e não diferenças do humano.

A velha posição da “exigência absoluta” tinha como

contrapeso necessário o “pecado original” como expressão

da impossibilidade de cumprir a exigência absoluta. A

7. Freud, S., Zeitgemasses zu Krieg und Tod.

conseqüência dessa situação era a rejeição da “vida neste mundo”, a rejeição da terra e do terreno e, não em último lugar, do próprio homem. Negaram-se, como portadores do mal e do negativo, a vida, a terra e o homem. Em todas as formas de fuga da vida, na desvalorização do ego operada pela consciência avassaladora do pecado, bem como na inflação do ego, pela auta-santificação, evadiu-se desse lado “inferior” do mundo rumo ao céu como símbolo do positivo e bom. Ao invés, a nova ética é, ao assumir o negativo, tanto expressão da auto-afirmação do homem moderno como do seu assumir a terra e a vida neste mundo. De forma característica, a nova orientação sempre volta a ser colo­ cada sob o símbolo da descida, e inclusive do pacto com o diabo. A aliança enti’e Fausto e Mefisto é a aliança do homem moderno com a sombra e o mal, que é a única coisa que lhe possibilita a marcha através da plenitude da vida até em baixo entre as matrizes e até em cima no eterno feminino. Não sem culpa, esta via atravessa todo o mundo do vivente, a qual vai dar, não casualmente, até a pro­ fundidade da camada da realidade judeu-cristã. E, na sucessão de Fausto, sempre volta a surgir desde o in­ consciente do homem moderno a figura de Pã, a imagem originária não-deturpada do diabo cristão, e traz a chave ao profundo como guarda do mistério da natureza. O tentador não é rejeitado, mas assumido, pois parece que somente pode ser redimido hoje aquele cujo esforço e empenho não evita o perigo do ocaso e do caos. Ao assumir o mal, o homem moderno assume o mundo e a si próprio na perigosa natureza dupla que cabe a ambos. Essa auto-afirmação deve ser entendida no sentido mais profundo como uma afirmação da totalidade humana, que abarca tanto o inconsciente como a consci­ ência, e cujo centro não é o eu, que constituiu o ponto central só da consciência, mas também não é o superego, e sim o si-mesmo. O si-mesmo é para a consciência um

conceito-limite, ou seja, não pode ser apreendido por ela racionalmente. Sobre o seu surgimento e a sua forma fenomênica, porém, já se pode afirmar muita coisa desde os pocessos da evolução da personalidade. Antes de elucidarmos, em contraposição ao super­ ego, o conceito do si-mesmo, uma analogia simples pode esclarecer sua natureza. Quando consideramos a multi­ plicidade dos processos do corpo e do seu evidente entrecruzamento e cooperação de processos químico-bio- lógicos e neuro-psíquicos, dos quais só se podem sempre captar, desde o prisma das ciências da natureza, apenas processos particulares, sabemos, então, apesar disso, que este corpo funciona todavia como organismo unitário e total. Todos os processos parciais, desde os processos perceptíveis ultramicroscopicamente ou invisíveis até ao grande sistema da circulação sanguínea e às reações do sistema nervoso, decorrem coordenamente e são destina­ dos uns aos outros em mútua interdependência. Esses processos representam uma unidade, cujo virtual ponto central é o si-mesmo ou a enteléquia como símbolo para o fenômeno total do organismo. A figura, como grandeza genérica de todas essas relações parciais, pode ser com­ preendida também como centro que as dirige e governa como sua periferia. Esse governo de todos os processos parciais por um centro invisível é o fenômeno mais patente que distingue o vivente do anorgânico8. A pesquisa científica das conexões causais nada tem a ver com esta necessária maneira de considerar teleologicamente o organismo. O si-mesmo como o centro do psíquico, que implica na totalidade do corpo, porque, como devemos supor e em parte já podemos comprovar, todos os processos psíquicos têm também ao menos correlatos físicos. Sem entrar aqui no tema da relação entre alma e

8. Cf. a respeito o conceito de contraversão em Neumann, E., o.c.

corpo, tão importante para a neuropsicologia, é pi’eciso observar que a inclusão do inconsciente sempre implica também inclusão do corpo. Quando falamos da terra, essa terra identifica-se simbolicamente com o corpo, assim como também fuga da terra é sempre ao mesmo tempo fuga do corpo. Mas, ao passo que a totalidade do corpo opera inconscientemente como todo orgânico em sua uni­ dade e centralidade como fenômeno da natureza, a situação humana caracteriza-se pelo fato de que no psíquico de­ senvolveu-se historicamente a tensão contrária de cons- ciente-inconsciente e levou a uma separação dos opostos. Tal separação dos opostos, cujos pólos consciente-incons-

ciente, espírito-vida, acima-embaixo, céu-terra ou em outros símbolos, podem-se formular mitológica, filosófica, moral

e religiosamente, é em si necessária para a evolução da

consciência, mas o seu exagero revela-se funesto para o

indivíduo e o coletivo. Pela separação e cisão dos opostos,

o homem se perdeu no centro. E com isso não só se pôs em

perigo sua posição no mundo, mas também de maneira muito profunda a vida em comum dos homens. A tendência ao desenvolvimento da totalidade parece de imediato ser apenas uma necessidade individual, tal como ela surge nos processos individuais de desenvolvi­ mento com a necessidade, e inclusive com urgência de se tornar unicamente uma estrutura estável que, fortalecida, se contraponha às tendências dissolventes do mundo e do inconsciente. Não podemos abordar agora o problema do processo de individuação e sua importância para o indivíduo. Jung apresentou essas correlações com o material correspon­ dente. A relação deste processo com a ética, porém, está no fato de que a tendência para a estabilização da persona­ lidade é eticamente de extraordinária importância. Também aí podemos acompanhar a transição para uma nova época da evolução da humanidade. A evolução da lei, da moral geral obrigatória, dos

valores coletivos, e a formação e desenvolvimento da consciência (Gewissen) e do superego serviram para forta­ lecer o sistema da consciência e do ego e para desligá-lo de sua originária dominação pelo inconsciente. Também o desenvolvimento da consciência com todas suas conseqüên­ cias surgiu originariamente da necessidade de formar uma estrutura estável frente às tendências dissolventes do inconsciente e do mundo. Os valores coletivos agem no sentido dessa evolução, e a consciência (Gewissen) como a instância psíquica, que no indivíduo representa os valores coletivos, tinha originariamente a função positiva de proteger o indivíduo e o coletivo de uma recaída na impulsividade emocional inconsciente. Neste sentido, o superego representa, com efeito, uma ética do estranho, uma heteronomia, mas, com refe­ rência ao ego primitivo, representa um ponto de vista relativamente superior e é uma encarnação de si-mesmo válida para esta fase de desenvolvimento, se bem que relativa. O ego primitivo é um ego infantil. Vem-lhe ao encontro o coletivo na figura do superego, apetrechado com todo o peso da autoridade exterior. A consciência (Gewissen) como “medo social”, a lei com o seu princípio de recompensa e castigo e o sentimento de culpa para com o superego cultural, constitui a vivência moral primária para o ego infantil do homem primitivo. A relação do ego individual infantil para o superego coletivo surge regularmente na imagem da relação pai-filho, mas esse estado de coisas simbólico ainda não justifica absolutamente a dedução da moral do romance familiar. O complexo de Édipo é um mito, e como mito é verdadeiro, ao passo que sua interpretação personalista como romance familiar por feito e ação de Freud é equi­ vocado. A teoria de Freud sobre o pai primordial ( Urvater) é, somente um pouco disfarçada, velha história de Adão e Eva como a origem da família humana. Que em Freud a

família de Adão e Eva seja ampliada na linha de uma horda primordial, nada muda no fato de que a história familiar da família de Adão seja posta simplesmente no

começo da evolução da humanidade. O paradoxo do assassinato do pai entendido concreta- mente torna-se de modo especial claro, se formos obrigados

a

admitir que o drama do assassinato do pai, tal como Freud

o

compôs no totem e no tabu, deveria ter ocorrido realmente

inúmeras vezes e ter-se repetido em toda parte, para valer como história da origem do superego. Não se deve duvidar absolutamente da presença do complexo de Édipo no inconsciente e de seu significado decisivo — e esta permanece a descoberta inesquecível de Freud. Aqui, como não raro, a confusão do arquétipo do pai pessoal, que leva a erro, é uma confusão que é sugerida pelo fato do arquétipo do pai ser projetado na infância sobre o pai pessoal. O arquétipo do pai, porém, é um símbolo, uma imagem, em que o ego infantil do homem primitivo expe­ rimenta a ação do superego coletivo. No sentido de ilus­ trar, simplificando, poder-se-ia dizer que o pequeno ego individual experimenta o coletivo supra-individual, de que provém e que dispõe sobre ele, e que lhe prescreve os seus valores, como arquétipo do pai. Precisamente a partir da identidade grupai da era primitiva é inteligível essa experiência da faísca do ego. Aquilo que foi reduzido e excluído na interpretação da psicanálise é a causa principal. O fato de que o arquétipo do pai é percebido no totem como algo de não-humano, é a forma de expressão imaginosa para dizer que se trata de

algo não-pessoalmente-conhecido, mas de algo numinosamente-estranho-suprapessoal. E como tal o ho­ mem primitivo experimentou também o animal, o mais freqüente portador do totem, em sua diversidade. Na medida que o pai pessoal surge para o ego infantil como representante do coletivo e dos valores coletivos,

como em geral no mundo patriarcal, o arquétipo do pai é experimentado como projetado sobre ele e nele, no pai pessoal. Assim, a sentença de Freud: “O que começou no

pai, consuma-se na massa”9, é exatamente o contrário. Sob

o prisma da história evolutiva, surgem tanto fílogenética

como ontogeneticamente os conteúdos coletivos

supratemporais antes da formação dos conteúdos pesso­ ais, que se referem ao ego, e, a zona pessoal somente mais tarde se separa, junto com a evolução do ego, do entorno coletivo. O mito precede ao romance familiar, assim como

o

inconsciente coletivo somente mais tarde deslancha de si

o

ego com sua zona de vida10.

A consciência (Gewissen) como representante do superego coletivo é uma influência heterônoma que vem de fora, pouco importando se esta influência é ou não fomentadora de consciência (Bewusstsein). A autoridade externa do superego, que apresenta o caráter do dado fixo

em lei e pela tradição rígida, contrapõe-se a “voz” como algo determinante e determinação, como expressão da revelação interna do novo que se tem de desenvolver, daquilo que deve vir.

Sempre e inevitavelmente, a voz tem o caráter de “filho” com respeito ao cárater de “pai” da lei, e o assassinato do pai pelo filho permanece uma eterna imagem primor­ dial da história interna da humanidade e do homem. Essa relação não existe absolutamente apenas entre a religião do filho do cristianismo e a religião do pai dojudaísmo, mas

o mesmo arquétipo domina o assassinato do pai-papa, que

na verdade é o papai, pelo herege Lutero, como vice-versa, no judaísmo a revolução do filho do hassidismo contra a posição patrotípica do rabinismo. O processo de massifição da modernidade, cujo cole- tivismo significa um crescente perigo de dissolução para o

9. Freud, S., Das Unbehagen in der Kultur. 10. Cf. a respeito o conceito de personalização secundária e sua importância em Neumann, E., op. cit.

indivíduo, leva compensatoriamente, no processo de individuação, a uma nova tendência de consolidação. Essa tentativa de estabilização não se apóia mais apenas na consolidação da consciência, mas na única estrutura psí­ quica totalizada. No lugar do superego, enquanto expressão de uma ética coletiva heterônoma que vem de fora, que se sobrepõe ao ego infantil, acede agora o si-mesmo como centro interno da personalidade. A consciência do ego, que se tornou adulta e autônoma, que, no decorrer da individualização

na história ocidental, perdeu o seu caráter infantil, orienta- se por “si mesma” ou pelo si-mesmo como o centro da totalidade da psique. Essa colocação do si-mesmo no lugar do superego heterônomo é expressão de ganho de uma nova autonomia ética por parte da personalidade.

A orientação pelo si-mesmo agora pode não ocorrer

de forma simples, de sorte que o ego se oriente pelos valores existentes, mas ela exige um processo de duradouro autoquestionamento e autocontrole. Ela é na verdade feita pelo ego — temos frisado a aceitação desse dever ético pela consciência —, mas o seu fim é não um questionamento da

consciência no sentido de uma comprovação dos motivos e conteúdos da consciência, mas o objeto da sondagem é a estrutura de totalidade, que o inconsciente implica em si. O fenômeno básico, sobre o qual o ego pode vir a apoiar-se nesse processo, é a compensação psíquica, que diz que entre o inconsciente e a consciência existe uma relação de tal índole que os conteúdos que faltam ao sistema da consciência e necessários à totalidade surgem revigorados no inconsciente. Essa lei da compensação leva, por exemplo, a que uma falsa postura da consciênca seja corrigida no sonho noturno ou que um princípio, suprimido mas importante para a vida, um impulso ou outro conteúdo façam valer sua pretensão em fantasias, sonhos, atos falhos ou pertubação.

A compensação é uma manifestação direta da totali-

dade e, em decorrência, do si-mesmo. Nela, não se conside­ ra unilateralmente uma estrutura parcial, seja a consciên­ cia, seja o inconsciente, mas precisamente aí se impõe o aspecto de totalidade da psique diante das evasões arbi­ trárias dos sistemas parciais. Temos, comojá frisamos, correspondentes conduções da totalidade em toda parte no orgânico; a cooperação dos sistemas particulares só é possível afinal pela ação de fenômenos equilibradores de compensação. Uma consci­ ência que persegue essa compensação no psíquico e não apenas leva em conta sua manifestação, mas também a ela reage, representa assim uma reta orientação do ego pelo si-mesmo. Dessa forma, no processo de autoquestionamento desvia-se pouco o centro de gravidade da personalidade, indo do ego e da consciência para o si-mesmo e o fenômeno de totalidade da psique. Somente torna-se compreensível agora porque pude­ mos afirmar que a evolução, em que a ética visa o caráter de totalidade da psique, leva a um revigoramento da personali­ dade. A labilidade, que nasce da dissociação do lado sombrio com suas conseqüências catastróficas, é evitada, se sombra e inconsciente permanecerem sob o controle da consciência e se tentarem, em contraste com o esforço, ligá-los com a consciência e a vida. Assim o processo de integração, com sua observância da compensação e sua orientação pelo si-mesmo e pela tota­ lidade, leva a uma estrutura da personalidade que não mais pode ser dissolvida pela luta dos opostos e a preponderância de um ou de outro lado. A via média, onde se realiza a evolução da persona­ lidade, acha-se agora livre das unilateralidades da posição dogmaticamente absolutizada dos sistemas parciais. Acha- se livre de ser somente “bem” ou somente “mal” e, de forma semelhante, livre da unilateralidade de um pensamento consciente apenas racionalista, assim como também de um irracionalismo de princípio. Mas com isso a persona­ lidade toma-se capaz de suportar a dialética catastrófica

em que uma posição unilateral volta sempre a ser substi­ tuída violentamente por uma contraposição igualmente unilateral. Essa libertação dos opostos, assim como essa “via média” não devem ser confundidas com sua grande predecessora oriental. A via média tem com ela em comum

a autonomia ética e com isso um pouco da independência

do mundo, além de vários outros traços particulares, mas,

ao contrário da espiritualidade oriental inimiga do mun­

do, trata-se na via média de um “ser no mundo” revigorado

e

aprofundado, que possibilita a centralização no si-mesmo

e

a inserção dos elementos inconscientes na estrutura da

personalidade. O processo da assimilação das partes in­ conscientes da personalidade deixa pouco espaço para a sublimação. Prescindindo da realização conscientemente controlada dos conteúdos negativos, sua transformação dentro da personalidade desempenha o maior e decisivo papel. A transformação do negativo foi o problema funda­ mental da alquimia. Como o expôs Jung", a transforma­ ção do chumbo, o menos valioso, em ouro, o mais valioso dos metais, foi entendido pelos próprios alquimistas como processo anímico. De forma correspondente mas outra, encontra-se esse problema na cabala e no hassidismo, o movimento de renovação religiosa que há mais de 150 anos conquistou as massas orientais do judaísmo. Quando aí se diz: “No degrau mais baixo há a mais santa faísca” e “o bem está escondido no escuro”, isso significa esse processo de trans­ formação, bem como a interpretação da sentença: “Amar a Deus de todo o coração”: dever-se-ia amá-lo “com o impulso bom e com o mau impulso”.

Temos a expressão mais clara dessa concepção, cujo alcance foi percebido somente por alguns líderes do

11. Jung-Wilhelm, Das Geheimnis der goldenen Blilte.

hassidismo, mas não do judaísmo, na seguinte interpreta­ ção: No versículo “ama o teu próximo como a ti mesmo, eu Iahweh”, a palavra hebraica “teu próximo” é traduzida pela palavra de som igual (escrita de outra maneira): “teu mal”. Lê-se então: “Ama teu mal como tu, eu Iahweh”, e a interpretação reza: “como tu te comportas, assim eu me comporto, Iahweh”, isto é, assim como tu amas o teu mal, eu o amo12. Aqui não é lugar para expor que feição possa ter a transformação do mal e do negativo dentro da personali­ dade individual. E uma parte do processo de individuação, onde de maneira típica também se tratando do caso do homem moderno, surgem símbolos alquimistas que indi­ cam o caráter da transformação. A transformação, cocção e refundição da personalidade, que não raro aparece liga­ da à simbólica do renascimento, está sempre sob o signo do “ser total”. Chega-se, assim, na nova ética, à avaliação: O que leva à totalidde é um bem, o que leva à divisão e separação é um mau. Integração é boa, desintegração, má. Vida, construção, integração estão do lado do bem; morte, se­ paração e desintegração, do lado do mal. Neste ponto, o homem sabe da mútua pertença indissolúvel dos dois princípios. Mas assim como a substância viva caracteriza- se por nela preponderarem os processos de integração, assim também a alma viva. A avaliação ética não mais se refere a conteúdos, qualidades ou atos como “entidades”, mas ela se refere fundamentalmente à totalidade. O que ajuda à Integração da totalidade centrada no si-mesmo, é bom, de qualquer índole que esta ajuda seja. E; vice-versa, é mau tudo o que leva à desintegração, seja a “boa vontade”, seja o “valor coletivamente reconhecido”, seja qualquer outro “bem em si”. A incorporação do negativo no processo de integração

12. Therat Rabbi Nachmann, p. 73 (S.A. Horodetzky).

não é só um critério do poder, mas da conquista da ética. Tal vontade permanece verdadeira mesmo que, com bastante freqüência, tal conquista seja de fato um tipo de sofrimento

e possa no momento adquirir uma aparência de falha — ou

se expressa em termos de falha real. O sofrimento, aceitação

e assimilação do sofrimento, também é uma conquista da

vitalidade psicológica do indivíduo. Que isso não seja apenas

a questão de nossa busca externa do mal, mas do mal, como

se ele existisse, batendo em nossa porta, é coisa que não requer mais ênfase. Contudo, quando é assimilado, esse mal que bate em nossa porta é construído dentro da totalidade da personalidade, sem o caráter de oposição necessária entre “bem” e “mal” durante o processo. A totalidade viva de fato vive a partir da tensão entre os pares de opostos que nela são mutuamente ligados para formar uma unidade supra-or- denada, ainda que se chamem esses opostos de bom e mau,

masculino efeminino, externo einterno, racional eirracional,

e outras coisas mais. A totalidade na unidade do consciente e do inconsci­

ente combina em seu desenvolvimento as forças inferiores

e as superiores. Na preponderância de forças espirituais-

celestes é preciso lutar contra o perigo de separação, tanto quanto na preponderância de forças terreno-impulsivas. Um crescimento, que supera a unilateralidade da natureza condicionada tipologicamente, tanto quanto da natureza condicionada sexualmente, é o paradigma da nova ética, na qual o homem moderno faz a tentativa de não mais negar, ao avaliar, a realidade do mundo, mas de a acolher

e de sintetizá-la em si numa unidade mais alta. Por isso um dos símbolos fundamentais do processo de individuação é a mandala, ou círculo sagrado. E a figura perfeita do psíquico, como esfera ou como flor, como redon­ deza da alma harmonizada em si, onde a quaternidade das funções, a polaridade de masculino-feminino e a multiplici­ dade contrária das personalidades parciais herdadas do inconsciente são interligadas numa estrutura unitária.

A nova ética é, por um lado, uma ética individual,

uma ética de individuação. Contém a tarefa, singular para

cada indivíduo e resultante da singularidade de sua si­ tuação, de haver-se adequadamente com os seus pro­ blemas morais específicos, tais como resultam de sua

constituição psico-física e de seu destino. O outro aspecto, ao menos igualmente importante da nova ética, porém, é precisamente o significado coletivo da individuação exigida por ela. O que chamamos de fortalecimento da estrutura psíquica é, como frisamos, de enorme importância para o coletivo. Chamamos de “infecciosa” a constelação da velha ética, porque nela o negativo não é assumido pelo indiví­ duo e na zona própria não é elaborado, transformado, vivido e sofrido, mas é reprimido e cindido pela consciên­ cia, emigrando para as partes primitivas do grupo, para aí levar à irrupção da doença.

A personalidade que encontrou, no sentido da ética

total, o seu centro e adquiriu sua autonomia ética, cons­ titui, com o fortalecimento de sua estrutura e com o alargamento de sua consciência, ao invés, um ponto de sólido apoio para o coletivo. Ela é um pólo repousante na abalada dos fenômenos, em que se despedaçam fora e dentro as ondas avassalantes do coletivismo e da alma da massa. Essas ondas arrastam consigo somente a perso­ nalidade ética parcialmente desenvolvida, visto que suas raízes não se ancoram no inconsciente. O ímpeto do evento massivo ao redor dela e nela a subjulga, como podemos ver hoje por toda parte, como prepotência estranha. O revigoramento da estrutura do homem da ética total corre menos risco, porque ele elaborou e integrou um grande número de elementos da alma de massa, do in­ consciente coletivo, pelos quais são subjulgados os outros homens acossados pelo modo ou pela estupidificação, pela admiração ou pelo arrebatamento. Uma personalidade dessa índole acha-se mais familiarizada com os altos e

baixos, com as profundezas e abismos do humano, porque os experimentou e vivenciou em si própria. Nas catastróficas inundações psíquicas de épocas de convulsões coletivas, ela constitui uma resistência contra a agitação do evento epidêmico de massa como instância de guarda e purificação

do coletivo. Para falar com palavras de C. G. Jung: “Mas a

personalidade não se deixa apanhar pelo pânico dos que acordam, pois já deixou para atrás o espanto e o medo. Ela está madura para enfrentar a mudança do tempo, pois é

líder sem saber e sem querer”13. Essa forma de elaborar conteúdos coletivamente eficazes é-nos conhecida, por exemplo, nos profetas do Antigo Testamento. Primeiramente sentiram em si pró­ prios o aspecto da sombra do povo e os seus perigos, para depois anunciá-los antecipademente, assim como também, vice-versa, primeiramente vivenciaram eles próprios, no malogro, as novas forças construtivas da profundidade e as possibilidades de salvação, para depois externá-las como consolo e promessa. Assim, o indivíduo, vivendo na realidade a totalidade

do seu ser individual, é uma retorta de alquimista, em que

os elementos do coletivo são derretidos e chegam a uma nova síntese, sendo logo após oferecidos ao coletivo. Mas é também, ao elaborar antecipatoriamente o mal assimilan­

do sua sombra, um órgão de imunização para o coletivo. A

sombra do indivíduo está sempre associada com a sombra

do cultivo grupai, e, na elaboração do seu mal, sempre se

elabora também uma parcela do mal do coletivo. Ao invés da psicologia do bode expiatório, onde o indivíduo empurra o seu mal para o fraco, antes temos

aqui o fenômeno contrário, ou seja, o do “sofrimento vicário”.

O indivíduo assume parte da carga do coletivo em sua

própria responsabilidade e desenvenena e integra este mal com o seu próprio trabalho de transformação interna.

13. Jung, C.G., Wirhlichkeit derScele.

Quando se tem êxito, isso leva a uma libertação interna do coletivo, que pelo menos em parte se redime desse mal14. Com o problema do sofrimento vicário e da redenção, entramos fundo na zona do religioso, que se associa indis­ soluvelmente com a ética. Assim como a assunção do escu­ ro sempre aponta ao indivíduo o condicionamento de sua estrutura, a determinação terrena do seu ser e também de sua dependência dos impulsos e instintos o humaniza, assim também o divino vem-lhe sempre ao encontro em figura humana, ou seja, ele não o vivência na absoluticidade do abstrato e no infinito sem conteúdo, mas na finitude relativa de uma revelação real intra-humana, como voz. Precisamente ao assumir o lado escuro da existên­ cia, nascem possibilidades não só de nova experiência ética, mas também religiosa. Essas possibilidades acham- se, com efeito, em contradição com a ética antiga e à forma antiga correspondente de religião, mas elas conseguem

14. Uma complementação essencial para as exposições do presente traba­

lho, terminadas em substância em 1943, encontra-se nas explanações de Jung, C.G., Aufsätze zur Zeitgeschichte (pp. 79ss), sobre o conceito de culpa coletiva psicológica.

A culpa coletiva psicológica apóia-se no fato de que, dentro do coletivo, a

psique grupai domina em larga escala ao se sentirem os indivíduos consciente­ mente ligados ao grupo, ou seja, na “participation mystique”. A isso corresponde a responsabilidade da ética grupai pelas ações do coletivo. No evento grupai suspende-se a ética individual, como, por exemplo, a proibição de matar,

normalmente vinculante para o indivíduo, suspende-se na guerra. Mas segue também daí a responsabilidade de todas as partes do grupo pelas ações do grupo,

que é levada a efeito pela ética grupai primitiva (v. supra p. 40). Essa base real da culpa psicológica deve ser reconhecida pelo indivíduo que é parte do grupo. A regressão ética à ética grupai leva então, por exemplo, à introdução da punição coletiva. À consciência individual “inocente” isso pode parecer de imediato injusto. Mas se inserirmos, no sentido da ética total, na responsabilidade também a participação do indivíduo em sua totalidade no evento grupai, muda- se também a avaliação ética. Precisamente o reconhecimento e a assunção da culpa coletiva é neste sentido um mandamento da nova ética, para a qual a responsabilidade do homem não se limita à sua intenção consciente.

A problemática da relação de justiça entre o indivíduo e o coletivo, ou seja,

precisamente o problema da culpa coletiva, já foi com toda certeza discutida na disputa de Abraão com Iahweh antes da ruína de Sodoma (Gn 18,23ss). A discussão, em que Abraão protesta contra que “o justo pereça junto com o ímpio”, também termina com o reconhecimento da culpa coletiva, inclusive do justo

unir a vitalidade da nova imagem do homem com a mu­ dança da imagem da divindade que vai surgindo. Humanamente, a assimilação da sombra restabelece

a ligação do ego com camadas que correspondem ao mundo

da função inferior15e à camada primitiva da humanidade.

Por trás dos problemas morais pessoais do indivíduo surge

o

problema moral do coletivo, a que pertence o indivíduo,

e

a conscientização de suas mentiras coletivas e repressões,

seus condicionamentos pelo tempo e suas insuficiências.

Como último degrau aparece o problema moral da huma­ nidade, que a um só tempo é também o da divindade.

O problema moral ultrapassa então, na experiência

interna, os limites do pessoal, alargando-se para atingir o problema do mal na humanidade e do mal em geral, ou seja, em formulação teológica, o problema do mal em Deus.

A nova ética corresponde à originária concepção judaica,

segundo a qual a divindade fez aluz e a treva, o bem e o mal,

e na qual Deus e Satã eram aspectos do numinoso, não

separados mas vinculados entre si. O traço pretensamente

primitivo do conceito judaico de Deus diz que sempre ao lado do Deus-Pai se manteve na experiência viva o seu aspecto de força irracional.

O homem ligado a Deus no judaísmo antigo não era

absolutamente caracterizado por seu comportamento ético.

A relação do divino com o mundo, em que o homem estava

inserido, realizava-se originariamente na audição da voz interior do divino no homem, e não no cumprimento dos deveres éticos dados. Abraão, que deixou o pai,assim como também o intrujão Jacó, Moisés o assassino, e o adúltero Davi, não eram absolutamente coroados com a auréola de santo dos lutadores gloriosos contra o dragão das trevas, embora neles se encontrem traços dessa índole. Sua na­ tureza lançava uma densa sombra, mas o centro de sua existência permaneceu precisamente por isso ligado com a

15. Jung, C. G., Psycliologische Typen.

divindade, a cuja imagem foram criados. Pois essa mesma divindade não era indiferente e oniciente, mas, em sua impenetrabilidade, eram ativos, além de justiça e graça, também ira e furor, além do compreensível também o incompreensível, e, além da luz, também e ao mesmo tempo a treva. No sonho de um homem de hoje, a voz de alguém invisível gritou ao sonhador, quando queria esquivar-se de entidades-fantasmas de doença e morte: “Deus ama também a peste”. A afirmação e exigência dessa frase arruina a velha ética, arruina o seu velho problema de opostos e força o ego a uma nova orientação que coloque alguém acima do bem e do mal como pressuposto de uma vida válida. Não mais a luta contra a peste, não mais somente a assunção e tolerância da peste, mas o amor a ela não deve, pois, ser a exigência paradoxal, que se põe ao homem que busca uma orientação ética? Um abismo perigoso de alucina­ ção, crime e morte escancara-se de uma só vez diante de nós. Oque ainda significa então orientação? Seráque não é o ocaso de toda ética? Não se trata então realmente de uma tentação inexeqüível, insensata, que atrai a aniquilação, por parte daquilo que antes se chamava de Satã, e que agora se dá, em veste moderna, como exigência do inconsciente? Sem dúvida, o espantoso desta afirmação supera a possibilidade da percepção humana. Mas nela está contida uma auto-revelação da divindade que de uma vez por todas elimina a ingenuidade da imaginação ética que separa e cinde o mundo de Deus em luz e treva, puro e impuro, sadio e doentio. O criador da luz e da treva, do bom e do mau impulso, da saúde e da doença apresenta-se, na unidade da sua numinosa ambigüidade, ao homem moderno numa impenetrabilidade perante a qual a orientação da velha ética fica manifesta como uma posição demasiada­ mente segura de si e infantil. Ao surgir a nova ética como exigência ao homem de

ser responsável como unidade, o princípio da perfeição é sacrificado em benefício da totalidade. A ética total defron­ ta-se com uma imperfeição, que abarca o homem, o mundo e a divindade, pois a divindade é inclusive imperfeita, porque e na medida que implica em si o princípio da contraditoriedade.

A totalidade para além dos contrastes, que se faz

mister estabelecer, é uma unidade em que se encontram não somente a exigência estética e ética, mas também a religiosa. A exigência de, confessando a unidade, tomar posição para com este um, é a tarefa fundamental do homem moderno. A nova posição humana, em que se assume o escui'0 e o negativo, associa em si os elementos positivos do cristianismo, a afirmação do mundo pelo judaísmo e a acentuação secularizada da terra pelo ho­ mem moderno que, acima da ruína do cosmo antro- pocêntrico, reage, com um desvio cada vez mais claro de centro de gravidade, buscando o suprapessoalmente hu­ mano e o humano-fratemo.

A derrocada da velha orientação de valores e a correspondente destronização do homem levaram a uma situação psíquica caótica. O homem moderno encontra-se numa infinitude fisicamente morta como crosta de um planeta minúsculo, relativizado pelo conhecimento do próprio condicionamento e restringido, no que respeita à possibilidade de redenção, pelos limites da constituição psico-física humana e individual.

A crescente percepção do geral limite humano deve

e vai levar, nos próximos séculos, a um aumento do sentimento humano de solidariedade e ao reconhecimento da estrutura humana fundamentalmente unitária, ape­ sar de toda diferença. Começa a se tornar manifesto o enraizamento de toda religião e filosofia no inconsciente coletivo da humanidade. Fica claro que entre os povos, as raças e as épocas em particular, dominam ou refluem

diversas constelações arquetípicas, mas a espécie humana apresenta uma unidade indivisível em sua estrutura espi­ ritual.

Assim como essa comum pertença e solidariedade constitui a hsitória interna da humanidade, assim também

a unidade do orbe terrestre haverá de determinar a história do futuro. E como se a humanidade, impressionada pelo gelo do mundo vazio de vida, desdivinizada, desanimizada

e desumanizada, devesse concentrar-se mais, no sentido

de resistir essa superioridade de forças. A humanidade vai anulando, lenta mas progressivamente, as projeções anímicas com que apetrechara o vazio do mundo em hierarquias de deuses e espíritos, céus e infernos, e percebe, admirada, a plenitude criadora de sua própria fonte ori­ ginária anímica. Do meio desse círculo humano — que começa a se formar com a fusão de todas as partes da humanidade, todos os povos e raças, regiões da terra e culturas, vemos interiorizar-se, sem face e plurifacética, a mesma divindade que antes enchia os céus afora e as esferas do mundo humano.

Em sua busca da perfeição, a “velha ética”, sustentada | principalmente pela cosmovisão judeu-cristã, chegou a um J, beco sem saída: como lidar com o lado sombrio e negativo jj que, suprimido ou reprimido, foi pouco a pouco se acumu- « lando ao lado da luz e da perfeição tanto almejada ? Uma das saídas foi a psicologia do “bode expiatório”, fosse ele "?. outra pessoa, grupo, classe, raça ou nação. Isso tudo com g- resultados catastróficos, que sempre levaram à ° destrutividade mútua. Apoiado nos dados de psicologia profunda de C.G. Jung, Erich Neumann nos propõe uma no-va ética, buscando não a perfeição maniqueísta, mas a integração do lado sombrio e negativo que liabia em cada um de nós. Em vez de nos tornarmos vítimas de projeções, podemos ser os colaboradores da unidade e integ7'ação, pa­ ra o nosso bem e o de todos os outr'os.

Erich Neum ann (1905-1960) era poeta, novelista, filósofo e m édico. A partir di± 1934 conheceu C. G. Jung, de quem se tornou discípulo e um dos m aiores colaboradores. Produziu obras im portantes e praticou a análise terapêutica até o fim

de sua vida.

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