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Bakunin e a Instrução Integral

como parte da revolução libertária1

Paulo L. A. Marques2

“A justiça humana, e não aquela divina ou jurídica, exi-


ge que todos os homens, desde o nascimento, tenham o
quanto possível a igualdade do ponto de partida, ou
seja, meios iguais de provisão e desenvolvimento da in-
fância, de educação e instrução para a juventude. Exige,
ao mesmo tempo, que ao aprendizado completo, e já
durante o aprendizado, à medida que cada indivíduo
torna-se mais forte e mais autônomo, cada um possa
sempre decidir mais sobre seu destino. Eis como enten-
demos a liberdade, a dignidade e a responsabilidade de
cada homem” (Mikhail Bakunin)3
Já a algum tempo tornou-se lugar comum dos discursos de políti
cos e formadores de opinião em geral a defesa da “Educação integral”
como “solução” para os problemas da Educação no Brasil. Todavia, o
conceito de “Educação Integral” utilizado atualmente refere-se na maio-
ria das vezes na proposição de ampliação do tempo do estudante na es-
cola. O que menos é discutido é o que se propõe para esse tempo maior
de “internação” do estudante na instituição. O debate contemporâneo so-
bre educação têm se resumido à “resultados” quanto a índices de evasão,
repetência, eficácia, “qualidade total”, e muitos outros elementos originá-
rios do vocabulário do “mercado”, que substitui a sociedade como o de -
terminante e determinador da vida contemporânea.
Diferentemente dessa perspectiva limitada, podemos encontrar
no pensamento anarquista/libertário que emerge na segunda metade do
século XIX na Europa, uma significativa contribuição para um outro
conceito sobre Educação/Instrução Integral. Esta vista agora de uma pers-
pectiva filosófico política com finalidade não só de transformação da
educação mas como meio de transformação da própria sociedade.

1
Trabalho apresentado no Colóoquio Internacional Mikhail Bakunin e a A.I.T.,
realizado na Universidade de São Paulo/FFLCH-USP em 13/11/2014.
2
Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas-UFPel, coordena o Grupo
de pesquisa “Memórias e Práticas de cultura-educação libertária no Rio Grande do Sul.
3
Citado em Codello(2007).

1
A integralidade a que se referem os pensadores anarquistas,
estão relacionados aos elementos significativos e necessários para a
formação intelectual e humana do indivíduo e não apenas o “tempo”
diário em sala de aula. Fazem parte do projeto mais amplo de forma-
ção/instrução do sujeito libertário.
Temos, portanto, na perspectiva libertária de educação, um outro
sentido para a Educação Integral, que foi desenvolvido originalmente por
Proudhon e Bakunin nos debates sobre educação no seio do movimento
anarquista internacional, na segunda metada do século XIX e colocado em
prática em algumas experiências emblemáticas por educadores libertários
como Paul Robin, Sebastién Faure, Ferrer i Guardia no século XIX e XX 4.
Neste breve artigo buscamos resgatar esse conceito de Instrução
Integral do revolucionário anarquista russo Mikhail Bakunin(1814-1876),
que sustentava o papel da Instrução integral como parte da luta por uma so
ciedade emancipada e libertária. Ao mesmo tempo buscamos prestar nossa
homenagem a este grande revolucionário libertário, nascido há exatos 200
anos. O presente artigo está dividido em três partes: na primeira tecemos
algumas considerações sobre a relação de Bakunin com a Educação, na se -
gunda apresentamos uma breve síntese de sua elaboração teórica sobre o
tema e concluímos com algumas considerações acerca do legado da con-
tribuição de Bakunin para a luta por uma educação libertária.

Bakunin e a Educação

Mikhail Bakunin nunca escreveu uma obra específica sobre


Educação ou pedagogia. Todavia, o tema da Educação esteve presente
ao longo de suas reflexões políticas de forma significativa, fazendo jus a
tradição anarquista de colocar a educação no centro de seu ideário.
Conforme o estudo de Codello(2007) no âmbito educativo, Bakunin
adotará a ideia da instrução integral de Proudhoniano, convertendo a
mesma em um incentivo de transformações sociais individualizando
nela, diferentemente de Proudhon, não apenas um instrumento de for-
mação profissional, mas também uma abordagem para a interpretação
e para a leitura acerca do modo de formar-se pelas desigualdades.

4
No Brasil a experiência educacional dos anarquistas deu-se através das Escolas Modernas,
existentes em São Paulo e Porto Alegre durante a primeira década do século XX.

2
Para Codello “Educação e revolta constituem, dessa forma, em
Bakunin, um binômio inseparável que serve, todavia, a uma dimensão
absolutamente revolucionária da ação humana. Sendo assim, para o re-
volucionário russo, educar significa substancialmente estimular e pro-
mover aquela dimensão rebelde e intolerável à autoridade, que caracte-
riza a natureza humana. Para Bakunin, segundo Codello, a “educação é
um elemento importante, ainda que não seja o único, de um projeto re-
volucionário mais amplo ( Codello,2007 p. 107)”.
Corroborando com essa análise do sentido da educação como
parte da luta emancipatória do homem, Antony(2011) observa ainda
que para Bakunin a educação tem uma enorme importância ao lado
do instinto de revolta, pois “educar é liberar o indivíduo e suas po-
tencialidades revolucionárias, e respeitar, evidentemente, a liberdade
do aprendiz, inclusive se se trata de um jovem aluno”. Ou seja, “mais
do que o militante de Besançon, ele insiste na necessária ruptura re-
volucionária, da qual a educação é apenas o elemento, uma prepara -
ção, um meio( Antony, 2011, p. 49) . Dessa forma que Bakunin salien -
ta que “a primeira tarefa é aquela de sua emancipação econômica,
que engendrará necessariamente sua emancipação política e sua
emancipação intelectual e moral”. 5
Segundo Lenoir(2014), Bakunin inscreve-se na linhagem de
Proudhon, ao recusar a dicotomia entre trabalho manual, e defende,
para este fim, a educação integral, que é para ele fonte de igualdade
entre os indivíduos e uma garantia contra uma eventual tomada de
poder por uma classe de intelectuais(Lenoir, 2014, p. 38). É dessa con -
cepção que Bakunin vai compor sua forte crítica ao que ele chamará
de “aristocracia da inteligência”, ou seja, a elite de “ilustrados” que do-
minará e dirigirá a sociedade.
“Estamos de tal sorte convictos de que a instrução é a
medida do grau de liberdade, de prosperidade e de hu-
manidade, que uma classe tanto quanto um indivíduo
podem alcançar, que pedimos para o proletariado não
só instrução, mas toda a instrução, a instrução inte-
gral, e completa, a fim de que não possa mais existir
acima dele, para protegê-lo e dirigi-lo, isto é, para ex-
plorá-lo, nenhuma classe superior pela ciência, ne-
nhuma aristocracia da inteligência.”6

5
Citado em Antony(2011) “OS microcosmos.
6
Citado por Codello 2007.

3
Nesse sentido, é possível caracterizar a integralidade da educação
não só pelo conjunto de saberes que devem estar incluídos no processo
educacional, mas sobretudo porque o sentido desse aprendizado está volta-
do, desde o seu início, para a formação da autonomia e liberdade do sujeito,
impedindo qualquer tipo de subordinação de uns sobre os outros, ou seja,
daqueles que dominam o conhecimento e aqueles que não dominam.
Podemos identificar claramente a diferença da proposta de Bakunin
em relação à “educação integral” estatal que tem o objetivo único de formar
mão de obra para o capital, a partir da aprendizagem baseada na lógica do co
mando/obediência. Dessa forma, desde cedo o jovem é direcionado, ou para
tornar-se chefe/patrão, no caso das escolas para a elite ou trabalhador bra -
çal/operário, no caso das chamadas “escolas técnicas” públicas.
Conforme aponta Antony (2011) Bakunin destacará que somente
uma sociedade livre pode assegurar uma formação humana real, dado que
na sociedade capitalista, as elites intelectuais, os “savans”7 são pouco confi-
áveis em termos de emancipação (Antony, 2011)
O debate, todavia, não é simples como em uma teoria vulgar, que
discute sobre quem vem primeiro, ou a educação ou a revolução social,
pois para a ideia libertária ambas compõe o processo de transformação
civilizacional levado a cabo pelos anarquistas. Ou seja, a formação /ins -
trução visando um sujeito libertário vivendo em relações libertárias, o
que requer um aprendizado permanente. Daí que deriva a necessidade de
pensar qual aprendizagem, método e até mesmo conteúdo dessa educa -
ção, direcionada para uma perspectiva de construir o ethos libertário.
Nesse aspecto Bakunin deixa claro que a educação não signi-
fica apenas “adquirir/assimilar conteúdos”, que é a forma ainda pre-
dominante da educação burguesa. Para Bakunin, diferentemente a
educação é o lugar para o indivíduo construir-se e dotar-se de um es-
pírito crítico indispensável(Lenoir, 2011). Contrariando o senso co-
mum vigente hoje Bakunin sustenta que:
“[.]para ser perfeita, a educação deveria ser muito
mais individualizada do que o é hoje, individualizada
no sentido da liberdade e unicamente pelo respeito
da liberdade[.] Ela deveria ter por objeto não o
[adestramento] caráter, do espírito e do coração, mas

7
Michel Antony em sua obra “Os microcosmos” destaca o significado da palavra
francesa “savan” usada por Bakunin para referir-se a prepotência dos pensadores
socialistas burgueses e autoritários, em especial Marx. O termo pode significar :
douto, pensador, letrado, sábio, pesquisador. Bakunin usa o termo como ironia.

4
seu despertar a uma atividade independente e livre,
e não perseguir outro objetivo senão a criação da li-
berdade, nem outro culto, ou melhor, outra moral,
outro objeto de respeito, senão a liberdade de cada
um e de todos; senão a simples justiça, não jurídica,
mas humana[.]”8
Segundo Lipiansky(2007) contrariamente à atitude manifestada
pelos teóricos da pedagogia, o que a concepção anarquista questiona
não são apenas os métodos de ensino, mas igualmente seu conteúdo:
“É inútil retornar à definição de educação integral, longamente desen-
volvida pela maioria dos autores: o ponto central é a sua ligação entre
reflexão intelectual e trabalho manual, trabalho que não é apenas con-
cebido como um pretexto ao exercício, mas orientado expressamente
para uma atividade produtiva, e como prévia e ponto de partida de
todo estudo teórico(Lipiansky, 2007, p. 67).
Bakunin advoga por uma integralidade no conteúdo da práti-
ca do saber, a partir da “pedagogia do erro” ou da experimentação,
onde propõe deixar que as crianças livremente, por exemplo, esco-
lham sua carreira, ou como ele mesmo escreveu:
“Se elas enganam-se, o próprio erro que elas tiverem
cometido servir-lhes-á de ensinamento eficaz para o fu-
turo, e, com a instrução integral que tiveram recebido,
servindo de luz, poderão tornar à via que lhes é indica-
da por sua própria natureza”9
Portanto, a instrução integral não está desvinculada da liberda-
de, do livre pensar sobre o que fazer com esse conhecimento e saberes
adquiridos de forma integral. A sua originalidade está na posição que
assume com relação a questão do próprio saber. Seja o saber a ser
transmitido quanto o saber sobre os modos de transmissão ou o saber
sobre o aluno e suas necessidades(Lipiansky, 2007)
Conforme Lipiansky(2007) a ciência é apenas um saber morto e até
mesmo nocivo se ela não vai à frente das aspirações da criança e das “ne-
cessidades do povo”. Este autor destaca a posição de Bakunin a cerca da
ciência burguesa que para ele ela não apenas não aporta ao povo os benefí-
cios que se poderia esperar dela, como também é fonte de uma nova pobre
za e de novas desigualdades e ainda um instrumento de poder nas mãos da
classe dominante. Nas palavras indignadas de Bakunin:
8
Trecho do texto Théorie General de la Revolution, citado por Lenoir em
“Compendio de Educação Libertária”, Editora Intermezzo, 2014, p.40)
9
Trecho citado por Lenoir(2014) extraído do livro LAnarchisme, de Pelletier, Paris, 2010, p. 16.

5
“Ciência de governo, de administração e ciência finan-
ceira[.] ciência de tosar os rebanhos populares sem
fazê-los gritar em demasia, e quando eles começam a
gritar, ciência de impor-lhes o silêncio, a paciência e a
obediência por uma força cientificamente organizada,
ciência de mantê-las sempre em uma ignorância salu-
tar, a fim de que elas nunca possam, ajudando-se mu-
tuamente e reunindo seus esforços, criar um poder ca-
paz de derrubá-los; ciência militar antes de tudo, com
todas as suas armas aperfeiçoadas e esses formidáveis
instrumentos de destruição que 'fazem maravilhas' 10

Os escritos de Bakunin sobre educação integral


Bakunin abordará o tema da educação, principalmente nos
artigos conhecidos como A Instrução integral, que era parte do peri-
ódico L'Égalité, de Genebra, no ano de 1869, com destaque para o seu
texto “Les Endormeurs” 11(Lenoir, 2014). Cabe destacar que além des-
tes escritos específicos sobre educação, as reflexões pedagógicas de
Bakunin podem ser encontradas em toda sua obra.
Odavia, é nesse conjunto de artigos que segundo Codello (2007) o
pensamento de Bakunin sobre esse tema atinge uma notável e precisa ma-
turidade, “suficiente para constituir um ponto fundamental de toda sua ela-
boração a respeito do vínculo da formação e da evolução das classes. Vale
citar essa análise de Codello sobre o significado destes artigos:
“Esses artigos constituem uma exposição homogênea e coe-
rente que deseja demonstrar como a divisão hierárquica do
trabalho, entre manual e intelectual, constitui a causa mais
profunda e estrutural da formação das classes. Além disso,
ele afirma que a diversidade natural e a igualdade social não
são valores autênticos, mas, pelo contrário, constituem os
dois aspectos fundamentais de modo a complementar a li-
berdade. Para construir uma sociedade verdadeiramente livre
é necessário, portanto, promover a integração entre trabalho
manual e intelectual por meio de uma educação que tenha
como base a aquisição de um saber que integre e complete
ambos os momentos. Somente assim se pode ter um verda -
deiro saber que integre e complete ambos os momentos.
( Codello, 2007, p. 116-117)
10
Citado por Lipiansky, E. A pedagogia libertária, Imaginário, 2007, p. 69
11
Essa obra foi publicada em português pela Editora Imaginário e Faísca com o
título “Os enganadores”

6
Dessa forma, a partir do estudo de Codello(2007) podemos
sistematizar de forma breve os conteúdos dos quatro artigos de Baku-
nin a cerca da Instrução integral da seguinte forma:
Primeiro artigo: Versa sobre “a educação integral como meio revo-
lucionário e eficaz para construir uma sociedade libertária”. É aqui, segundo
Codello(2007) que Bakunin sustenta que os progressos que os saberes re-
alizam permanecem no poder de poucos, tornam-se fontes de escravidão
intelectual, aumentando o abismo que separa a inteligência popular da-
quela das classes privilegiadas. No artigo Bakunin afirma:
“Todas as invenções da inteligência, todas as grandes
aplicações da ciência na indústria, no comércio e, em
geral, na vida social, beneficiaram até agora apenas as
classes privilegiadas, além da potência dos Estados- es-
ses eternos protetores de todas as iniquidades políticas
e sociais-, nunca as massas populares”12.
Dessa forma Bakunin, neste primeiro artigo denunciava a ciência
burguesa que era a causa da relativa ignorância do proletariado. Assim
proclamava a renunciar e a combater a ciência burguesa e a riqueza bur-
guesa, pois, segundo ele: “Combatê-las e rejeitá-las no sentido de que, destru-
indo a ordem social que as fazem patrimônio de uma ou mais classes, deve-
mos reivindicá-la enquanto bem comum de todos”. Ou seja, a ciência e as ri-
quezas não devem ser privilégios da classe dominante, mas de todos.
Segundo artigo: Versa sobre a relação dos diferentes graus de
instrução com a perpetuação das desigualdades entre as classes e uma
vez que se busque combater isso é necessário que todos devem ser ins -
truídos e trabalhem. Em cada indivíduo devem ser desenvolvidos as fa-
culdades intelectual e física. No artigo Bakunin salienta:
“Como consequência, no mesmo interesse do trabalho,
como também naquele da ciência, não devem mais existir
nem operários nem cientistas, mas somente alguns ho-
mens[.]Não teremos mais esses poucos homens que to-
cam os céus, mas em compensação, haverá milhões de
homens que caminharão de modo humano sobre a terra:
nem semideuses, nem escravos”. 13
Trata-se, para Bakunin, de conciliar a ciência com a vida(Co-
delo, 2007)

12
Citado em Codello, A Boa Educação. Cap. 5 Mikhail Bakunin: A educação como
paixão e revolta. p. 117
13
Idem p. 118

7
Terceiro artigo: Versa sobre o papel da Instrução integral para
formação das crianças, de ambos os sexos “para a vida do pensamen -
to e para a vida do trabalho, a fim de que todos possam se tornar, de
forma igual, homens completos”. Nesse artigo Bakunin irá sustentar
o valor da liberdade da criança, ou seja, para ele as crianças tornam-
se sábias graças às experiências que realizam por si, nunca pela
transmissão daquelas feitas por outros. Na educação integral, o ensi-
no teórico deve estar sempre acompanhado do ensino prático. Outro
elemento a destacar é em relação a moral, que Bakunin advoga como
uma moral humana e não divina: “A moral divina é fundamentada
sobre dois princípios morais: o respeito à autoridade e o desprezo
pela humanidade. A moral humana, ao contrário, é fundamentada no
desprezo pela autoridade e no respeito à liberdade e à humanidade”.
No quarto e último artigo da série Bakunin destacará como todo
esse projeto de ensino integral não é possível na sociedade do seu tempo.
Não apenas pela oposição da classe dominante, mas também pelas condi-
ções subjetivas e objetivas em que vivem professores e pais. Ele escreverá:
“A moral é divulgada de forma útil apenas com o exemplo, e
considerando que a moral socialista é exatamente o oposto
da moral atual, os mestres em alguma medida necessaria-
mente dominados por esta última, deveriam se comportar
diante de seus alunos de maneira absolutamente contrária
àquela que eles pragariam. Portanto, a educação socialista é
impossível nas escolas e nas famílias atuais”.14
Qualquer semelhança com o que vivemos hoje não é mera
coincidência. Isto, no entanto, não significa a impossibilidade da
construção de formas de educação em perspectiva libertária, como
não significava isto na época de Bakunin. Nesse sentido, conforme
destacou a pesquisadora Tina Tomassi, no seu “Breviário del Pensa-
mento educativo Libertário”. Bakunin no seu escrito sobre instrução
integral de 1869 recomenda a atenção à resolução votada no Con-
gresso de Bruxelas da Internacional, em 1867, que diz:
“Reconhecendo que por enquanto é impossível organizar
um ensino racional, o congresso convida as distintas se-
ções para que prepare cursos públicos seguindo um pro -
grama de ensino científico profissional e produtivo; quer
dizer um ensino integral, para neutralizar na medida do

14
Idem, p. 120-121

8
possível a influência da instrução que agora recebem os
operários. Fica em pé que a redução de horas de trabalho
se considera uma condição indispensável para dito fim” 15
Ou seja, para além da escola estatal, Bakunin propunha seguir a resolu-
ção da Internacional de que suas seções organizassem cursos de educa-
ção integral para os trabalhadores. Podemos ver aí uma ação precursora
das experimentações de Educação Popular, que utilizam dos mais diver -
sos espaços de auto-organização como sindicatos, associações, clubes
para a autoeducação que não é garantida pelo Estado, ou em substitui-
ção à educação de caráter burguês oferecida por este mesmo Estado.

Considerações Finais
Neste breve artigo sobre a contribuição teórica de Bakunin para
o tema da Educação Integral, não pretendemos esgotar o assunto, nem
mesmo sistematizar um estudo aprofundado, mas objetivamente apre-
sentar, em linhas gerais, uma introdução ao pensamento deste grande
anarquista russo no que tange ao tema da educação.
Conforme Passetti e Augusto(2008), para os anarquistas:
“a alfabetização, o conhecimento dos direitos, das
ciências, da produção de riquezas, as maneiras iguali-
tárias de viver e suas lutas dependiam da formação da
liberdade a cada instante. Isso supunha libertar-se das
disciplinas escolar, produtiva, militar, domesticadora e
cruel. Para eles, a educação ia além dos conhecimen-
tos monopolizados pelo governo ou mesmo pela esco-
la, normalizadora das atividades diárias. Educar era
inovar, potencializar a liberdade de cada um nas suas
associações igualitárias e federalistas, sem separar
trabalho intelectual de trabalho manual, lazer de ativi-
dades de trabalho, hábitos de inovações. Educar para a
vida livre de cada um era educar para a vida livre de
todos, para a possibilidade de cada um realizar seus
talentos, quereres, igualdades(Passetti, Augusto, p.
37)”.
Essa descrição sintética mas muito certeira sobre o valor e o sentido
que a educação adquire para o pensamento libertário é o que podemos en-
contrar nos escritos de Bakunin e de outros célebres pensadores ácratas. Em
15
Trecho do texto “Instrução Integral” de Bakunin, citado por Tomassi, “ Breviário del
pensamiento educativo libertário, Madrid, 1978, p. 123

9
todos eles há a nítida vinculação entre apropriação do conhecimento e do
saber com a vida prática em uma atitude e um “fazer com” fundamental-
mente em liberdade e para a liberdade. Por isso a perspectiva de educação in
tegral de Bakunin se insere em uma tarefa e objetivo mais amplo que a sim-
ples “reforma educacional”. Ela não pode e não tem condições de ser pensada
de forma isolada da sociedade, sem refletir ao mesmo tempo sobre o que é e o
que pode vir a ser a sociedade onde está inserida. Isto porque as estruturas
que impedem a construção dessa educação libertária estão muio bem postas
nas instituições como a família, a igreja, o Estado, e portanto, requerem uma
ação de transformação estrutural que ao mesmo tempo necessita de uma
prática de liberdade no campo do saber.
É por isso que Bakunin, mesmo reconhecendo a dificuldade
de uma educação libertária ser realizada pelo Estado burguês, via
como possibilidade concreta a realização em associações auto-orga-
nizadas dos trabalhadores, como os sindicatos, associações culturais e
Ateneus de práticas de Instrução Integral. Essas alternativas, que re-
almente foram experimentadas ao longo dos séculos XIX e XX, leva-
da a cabo por inúmeros anarquistas, inclusive no Brasil , nas primei -
ras décadas do Século XX, carecem ainda de reconhecimento por par-
te da academia e dos estudiosos da educação. Suas experiências fo -
ram ricas em inovações para a época em que foram realizadas mas
também para o período atual, pois se a ideia de uma educação em e
para a liberdade era o centro da Educação libertária dos pioneiros,
hoje estamos cada vez mais distantes desse objetivo.
Em sua maioria as escolas de hoje, cada vez mais se parecem
com prisões, com muros altos, cadeados, e “celas” abarrotadas de
“condenados” a aprender lições de obediência, de hierarquia e de po-
der. A liberdade torna-se uma palavra vazia de sentido quando a
mesma é negada, justamente no local onde deveria ser experimenta-
da, nos espaços de aprendizagem.
A título de conclusão podemos dizer que o revolucionário
russo Bakunin cujo bicentenário é comemorado neste ano tem muito
a contribuir com seu pensamento libertário sobre educação para os
debates atuais sobre o tema, principalmente quando vivemos um mo-
mento marcado, sobretudo no campo da educação, por discussões
simplistas, que se inserem apenas no jogo de dominação e poder po-
lítico das classes dominantes que controlam o Estado e direcionam o
debate conforme seus interesses. É nesse sentido que a palavra “edu-
cação integral” se banaliza e perde qualquer vinculo com uma ideia

10
d e instrução integral fundamentada no pensamento libertário que
nasce no século XIX no contexto da primeira internacional operária e
mantém um legado de grande força para a ideia de que se é livre
exercendo a liberdade.
Por isso acreditamos assim como afirmam Passetti e Augusto
que “diante da obrigatoriedade da escola oficial tomada como normali-
dade, da disseminação de escolas e equipamentos escolares, da crença
nos direitos da criança e adolescentes administrados pelo Estado, não
será estranho a reaparição da prática anarquista da desescolarização ou
novas invenções de liberdades”( Passetti, Augusto, 2008, p.99)
A ideia de uma educação libertária, que ainda é um desafio
para os libertários de hoje, tem na contribuição de Mikhail Bakunin
uma importante ferramenta para a criação do novo, que ele visualiza-
va em seus escritos e permanece como possibilidade:
“Já não serão escolas, mas sim academias populares,
nas quais não haverá distinção entre professores e alu-
nos, nas quais as pessoas terão acesso livremente para
receber, se o desejam, uma instrução gratuita, na qual
cada um por seu turno fará frutificar sua própria com-
petência específica para ensinar aos professores, os
quais por sua vez se ocuparão de transmitir aqueles co-
nhecimentos que faltam as demais ( Bakunin) 16
A partir dessa possibilidade de construir “academias popula-
res”, escolas, Universidades livres, baseadas na igualdade e colabora-
ção ao invés da hierarquia e da lógica do comando/obediência que
caracteriza a educação predominante seja Estatal ou privada, o pen-
samento de Bakunin nos remete ao centro da questão: que educação
queremos, que educação estamos fazendo? Para quem e para quê? E
ao mesmo tempo nos remete aos libertários que têm boas ferramen-
tas teóricas e práticas para responder a estas questões, e Bakunin,
sem dúvida é uma delas.
Assim, podemos dizer que o pensamento de Bakunin perma-
nece mais vivo do que nunca, inspirando a todXs que lutam por uma
educação e uma sociedade libertária.

16
Citado por Trasatti, F. Actualidade de la Pedagogia Libertária, Editorial Popular, Madrid, 2004.

11
Referências Bibliográficas:

ANTONY, M. Os Microcosmos. Experiências utópicas libertárias so-


bretudo pedagógicas: “Utupedagogias”. São Paulo, Imaginário,
2011.
CODELLO, F. “A Boa Educação” Experiências libertárias e teorias
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zo/Imaginário/IEL, 2014.
LIPIANSKY, E. M. A Pedagogia Libertária. São Paulo, Imaginário/Edi-
tora EDUA/UFA, 2007.
PASSETTI, E. AUGUSTO, A. Anarquismo e educação. Belo Horizonte,
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TOMASSI, T. Breviário del Pensamiento educativo libertário. Madrid,
Campo Abierto Ediciones, 1988.
TRASATTI, F. Actualidad de la Pedagogia Libertaria. Madrid, Editorial
Popular, 2004.

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