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PARTE I

Processos de
reconhecimento de
palavras na leitura

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Introdução

O reconhecimento de palavras é a base da leitura; todos os outros processos depen-


dem dele. Se os processos de reconhecimento de palavras não funcionarem de forma
fluente e eficiente, a leitura será, na melhor hipótese, altamente ineficiente. O estudo
dos processos de reconhecimento de palavras é uma das mais antigas áreas de pesqui-
sa em psicologia experimental (Cattell, 1886). Os capítulos desta seção apresentam
uma visão geral das atuais teorias, métodos e resultados do estudo dos processos de
reconhecimento de palavras na leitura.
O que queremos dizer aqui com a palavra reconhecimento? O reconhecimento
envolve ter acesso às informações armazenadas na memória. No caso do reconhe-
cimento visual de palavras, isso geralmente envolve recuperar informações sobre a
forma falada e o significado da palavra a partir da sua forma escrita. Os dois pri-
meiros capítulos, de Coltheart e Plaut, apresentam os dois arcabouços teóricos mais
influentes para estudos do reconhecimento visual de palavras.
Coltheart apresenta a história e a evolução dos modelos de dupla rota da leitura
em voz alta (i.e., como é gerada a pronúncia de uma palavra impressa). Esses modelos
postulam que existem duas rotas da palavra impressa à fala: uma rota lexical e uma
rota não lexical. De forma ampla, a rota lexical envolve analisar a pronúncia de uma
palavra armazenada em um léxico ou dicionário mental. Em contrapartida, a rota não
lexical envolve traduzir os grafemas (letras ou grupos de letras) em fonemas e gerar a
pronúncia da palavra a partir dessa sequência de fonemas. Esse processo deve funcio-
nar tão bem para não palavras quanto para palavras, desde que a palavra siga o padrão
ortográfico da língua (uma leitura não lexical de YACHT* não produzirá a pronúncia
para um tipo de barco a vela). Essa ideia é incorporada em um modelo computacional
explícito (o modelo DRC) que Coltheart descreve em detalhe. É importante enfatizar
que esse modelo altamente influente é um modelo de como os adultos leem em voz

* N. de R.T.: Transcrição fonética: [jɑt]. Um exemplo para o português é a palavra TÁXI, que se for lida
1
pela rota não lexical [ ta兰i] não produzirá a pronúncia para meio de transporte.

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alta; ele não está interessado em como se adquire o conhecimento que permite que
isso ocorra. Um foco importante do modelo é como podemos explicar diferentes
transtornos da leitura em voz alta que ocorrem após lesões cerebrais em adultos.
Plaut faz uma síntese de uma classe diferente de modelos da leitura em voz alta
que empregam arquiteturas conexionistas (modelos que aprendem a pronunciar pa-
lavras por meio do treinamento de associações entre representações distribuídas da
ortografia e fonologia). Um modelo particularmente influente desse tipo é o chama-
do modelo triangular (Plaut, McClelland, Seidenberg e Patterson, 1996; Seidenberg
e McClelland, 1989). Esse modelo abandona a distinção entre um procedimento le-
xical e um procedimento não lexical para traduzir palavras impressas em pronúncias.
Em vez disso, o mesmo mecanismo é usado para converter palavras e não palavras em
pronúncias com base em padrões de conexões entre estímulos ortográficos e produ-
tos fonológicos. Outra diferença crítica entre o modelo triangular e o modelo DRC
é que o modelo triangular incorpora explicitamente um procedimento de aprendi-
zagem e, assim, pode ser considerado um modelo para leitura e desenvolvimento da
leitura em adultos. Está claro que essas são concepções muito diferentes de como a
mente lê palavras individuais. As duas abordagens lidam com uma grande variedade
de evidências. Talvez o modelo DRC seja o mais bem-sucedido para lidar com a
forma detalhada de comprometimentos da leitura observada após lesões cerebrais em
adultos, ao passo que a capacidade de pensar sobre o desenvolvimento e o desempe-
nho de adultos conjuntamente no modelo triangular é um atrativo considerável. Não
existe dúvida de que as diferenças entre esses modelos serão fonte de intenso interesse
nos próximos anos.
O capítulo de Lupker faz uma revisão de um enorme corpus de pesquisas ex-
perimentais sobre como os adultos reconhecem palavras escritas. Muitos desses ex-
perimentos investigam um processo notavelmente rápido e preciso na maioria dos
adultos, mensurando o tempo de reação ou comprometendo o desempenho com
o uso de mascaramento (impedir que os sujeitos vejam uma palavra de forma clara
pela sobreposição de outro estímulo imediatamente após a apresentação da palavra).
Qualquer modelo completo do reconhecimento de palavras, em última análise, terá
que explicar muitos fenômenos desses experimentos, inclusive o fato de que as pes-
soas percebem as letras com mais eficiência quando estão inseridas em palavras, que
as palavras de alta frequência (i.e., mais familiares) são reconhecidas com mais facili-
dade do que palavras menos familiares e que o reconhecimento de palavras é influen-
ciado pelas palavras apresentadas anteriormente (ver antes uma palavra relacionada
em forma ou significado nos ajuda a reconhecer a palavra que a segue). Uma forte
conclusão advinda da revisão de Lupker é a necessidade de modelos interativos em
que a ativação de informações ortográficas e a ativação de informações fonológicas
se influenciem reciprocamente. Essa questão é abordada em detalhe por Van Orden
e Kloos, que apresentam uma variedade de evidências que convergem para a ideia de
que existe uma interação íntima e perpétua entre as representações da ortografia e
da fonologia (letras e sons) durante o processo de reconhecer uma palavra impressa.
Avançando do reconhecimento de palavras isoladas, Rayner, Juhasz e Pollatsek
discutem os movimentos oculares na leitura. Os movimentos dos olhos propiciam
uma visão fascinante de como os processos de reconhecimento de palavras atuam

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no contexto mais natural da leitura, dos textos. Parece que o padrão de movimentos
oculares na leitura é altamente influenciado pelos processos cognitivos que auxiliam
o reconhecimento de palavras e a compreensão textual. A maioria das palavras do
texto é fixada diretamente (geralmente em algum ponto da primeira metade da pa-
lavra). Para leitores de inglês, a área do texto processado durante uma fixação (a dis-
tância perceptiva) é de aproximadamente três ou quatro letras à esquerda da fixação
e por volta de 14 a 15 letras à direita. Esse limite parece ser um limite básico, deter-
minado por limitações de acuidade, e o indivíduo somente extrai informações úteis
sobre a identidade das letras de uma área menor, talvez sete ou oito letras à direita do
ponto de fixação. Parece que apenas palavras curtas, frequentes ou muito previsíveis
são identificadas antes de serem fixadas (de modo que podem ser omitidas). Todavia,
informações parciais (sobre a ortografia e fonologia da palavra, mas geralmente não
sobre o seu significado) sobre a palavra após o ponto de fixação costumam ser extraí-
das e combinadas com informações extraídas subsequentemente quando a palavra é
fixada diretamente. Esses estudos condizem com a visão de que a velocidade e a efi-
ciência dos processos de reconhecimento de palavras (bem como processos superiores
baseados no texto) impõem limitações cruciais sobre a velocidade com a qual mesmo
leitores hábeis leem o texto.
Talvez a questão central no estudo do reconhecimento de palavras na leitura seja
o papel da fonologia. Todos os capítulos da Parte I abordam essa questão explicita-
mente. Parece que existe um consenso: a codificação fonológica é central ao reconhe-
cimento de palavras, embora existam posições divididas sobre muitos detalhes do
acesso à fonologia e sua possível importância em proporcionar acesso a informações
semânticas.

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1
Modelando a leitura:
a abordagem da
dupla rota
Max Coltheart

Ler é processar informações: transformar es- No princípio…


crita em fala, ou escrita em significado. Qual-
quer pessoa que tenha aprendido a ler terá ad- A concepção da leitura segundo a dupla rota
quirido um sistema mental de processamento foi enunciada inicialmente por De Saussure
de informações capaz de realizar essas trans- (1922, p. 34):
formações. Se quisermos compreender o pro-
cesso de leitura, devemos entender a natureza [...] também existe a questão da leitura. Le-
desse sistema. Quais são seus componentes mos de duas maneiras; a palavra nova ou des-
individuais para o processamento de informa- conhecida é decomposta letra por letra, mas
ções? Quais são as vias de comunicação entre uma palavra comum ou familiar é vista em
esses componentes? um único vislumbre, sem preocupação com as
A maioria das pesquisas sobre a leitura letras individuais: sua forma visual funciona
realizadas desde 1970 tem investigado o pro- como um ideograma.
cesso de leitura em voz alta e, assim, busca
Todavia, foi só na década de 1970 que
aprender a respeito das partes do sistema de
essa concepção alcançou a sua aceitação atual.
leitura que estão particularmente envolvidas
em transformar a escrita em fala. Existe um Uma expressão clara e explícita da ideia da
amplo consenso teórico: independentemen- dupla rota foi proposta por Forster e Cham-
te de as teorias serem conexionistas (p. ex., bers (1973):
Seidenberg e McClelland, 1989; Plaut, neste
A pronúncia de uma palavra apresentada
livro) ou não conexionistas (p.ex., Coltheart, visualmente envolve designar algum tipo
Curtis, Atkins e Haller, 1993), concorda-se de codificação acústica ou articulatória à
que, dentro do sistema de leitura, existem sequência de letras em questão. Presume-se
dois procedimentos diferentes que realizam que existam duas maneiras alternativas em
essa transformação – existem duas rotas da que se pode designar tal codificação. Primei-
palavra impressa à fala. (A distinção entre ramente, a pronúncia pode ser calculada pela
teorias conexionistas e não conexionistas será aplicação de um conjunto de regras grafê-
discutida mais adiante neste capítulo.) micas e fonêmicas, ou regras de correspon-

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dência entre letras e sons. Essa codificação são usados para pronunciar palavras impres-
pode ser realizada independentemente de sas. (Baron e Strawson, 1976, p. 391)
qualquer consideração sobre o significado ou A nomeação pode ser feita por tradução
a familiaridade da sequência de letras, como ortográfico-fonêmica ou por referência ao léxi-
na pronúncia de sequências que nunca foram co interno. (Frederiksen e Kroll, 1976, p. 378)
encontradas antes, como flitch, mantiness e
streep*. De maneira alternativa, a pronúncia Nessas primeiras explicações sobre a ideia
pode ser determinada pesquisando a memó- da dupla rota, geralmente se estabelecia um
ria de longa duração em busca de informa- contraste entre palavras (que podem ser lidas
ções armazenadas sobre como pronunciar
pela rota lexical) e não palavras (que não po-
sequências familiares de letras ou obtendo
dem, de modo que necessitam da rota não le-
as informações necessárias com uma olhada
direta no dicionário, em vez da aplicação de xical). Baron e Strawson (1976) foram os pri-
regras. Obviamente, esse procedimento so- meiros a enxergar que, dentro do contexto de
mente funcionaria para palavras familiares. modelos de dupla rota, esse não é exatamente
(Forster e Chambers, 1973, p. 627) o contraste a fazer (pelo menos para o inglês):
Os sujeitos sempre começam a calcular
pronúncias a partir do zero, ao mesmo tempo A principal ideia por trás do Experimento 1
em que começam a busca lexical. O processo era comparar o tempo necessário para ler três
que for concluído primeiro controla o produ- tipos diferentes de estímulos: (a) palavras re-
to gerado. (Forster e Chambers, 1973, p. 632) gulares, que seguem as “regras” da ortografia
inglesa, (b) palavras de exceção, que violam
No mesmo ano, Marshall e Newcombe essas regras, e (c) palavras sem sentido, que
(1973) propuseram uma ideia semelhante somente podem ser pronunciadas confor-
com um fluxograma. O texto do seu artigo me as regras, pois não são palavras. (Baron e
indica que uma das rotas nesse modelo con- Strawson, 1976, p. 387)
siste em ler “seguindo as supostas regras de
correspondência entre grafemas e fonemas” Baron (1977) foi o primeiro a expressar
(Marshall e Newcombe, 1973, p. 191). Como essas ideias em um fluxograma totalmente ex-
a outra rota do modelo que propuseram en- plícito para modelar a leitura, que é mostrado
volve ler segundo a semântica e, assim, so- na Figura 1.1. Esse modelo tem característi-
mente está disponível para palavras familiares, cas notavelmente modernas: por exemplo, ele
sua concepção parecer ser exatamente igual à tem uma rota lexical não semântica para a lei-
de Forster e Chambers (1973). tura em voz alta (uma rota que somente está
Essa ideia se disseminou rapidamente: disponível para palavras, mas que não ocorre
por meio do sistema semântico) e considera
Podemos […] distinguir entre um mecanis- a possibilidade de uma rota da ortografia à
mo ortográfico, que faz uso de relações gerais semântica usando partes de palavras (Baron
e produtivas entre padrões existentes de letras tinha em mente prefixos e sufixos), além de
e sons, e um mecanismo lexical, que se baseia uma que use palavras inteiras.
no conhecimento específico de pronúncias de De maneira ainda mais importante, o
determinadas palavras ou morfemas, ou seja, diagrama da Figura 1.1 envolve dois usos
um léxico de pronúncias (ou também de sig-
diferentes da concepção da dupla rota. To-
nificados). (Baron e Strawson, 1976, p. 386)
Parece que os dois mecanismos que suge- dos os trabalhos citados anteriormente neste
rimos, os mecanismos ortográficos e lexicais, capítulo dizem respeito a uma explicação de
dupla rota para a leitura em voz alta; todavia,
* N. de R.T.: Pseudopalavras. o modelo de Baron também propunha uma

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Semântica

Partes de palavras

Associações
específicas de palavras

Associações
específicas
Ortografia de palavras Fonologia
Regras de
correspondência

FIGURA 1.1 Arquitetura do sistema de leitura.


Fonte: Adaptado de Baron, 1977.

explicação de dupla rota para a compreensão significado. Ela deve ser usada para distinguir
da leitura: homófonos quando o contexto for insuficien-
te, por exemplo, na sentença Give me a pair
[...] podemos passar diretamente da escrita (pear).* (Baron e McKillop, 1975, p. 91)
para o significado – como quando usamos
imagens ou mapas e possivelmente quando A teoria da dupla rota da leitura em voz
lemos uma frase como I saw the son – ou in- alta e a teoria da dupla rota da compreensão
diretamente, pelo som, como quando lemos da leitura são logicamente independentes: a
pela primeira vez uma palavra que somente adequação de uma não diz nada sobre a ade-
tínhamos ouvido. (Baron, 1977, p. 176) quação da outra. Uma discussão mais apro-
Existem duas estratégias disponíveis para fundada sobre essas duas teorias pode ser en-
leitores de inglês identificarem uma palavra
contrada em Coltheart (2000). Este capítulo
escrita. A estratégia fonêmica envolve primeiro
traduzir a palavra para uma representação fo-
considera apenas a abordagem da dupla rota à
nêmica completa (auditiva e/ou articulatória), leitura em voz alta.
e depois usar essa representação para recuperar Uma última questão que merece ser men-
o significado da palavra. Esse segundo passo cionada quanto ao capítulo de Baron tem a
baseia-se no mesmo conhecimento usado para ver com a analogia que ele usa para ilustrar por
identificar palavras na língua falada. Essa estra- que duas rotas podem ser melhores que uma
tégia deve ser usada quando encontramos pela (mesmo que uma seja imperfeita – a rota não
primeira vez uma palavra que ouvimos mas não lexical com palavras irregulares, por exemplo):
vimos. A estratégia visual envolve usar a própria
informação visual (ou, possivelmente, algum
derivativo dela que não seja formalmente equi- * N. de R.T.: Um exemplo semelhante no português
valente à pronúncia explícita) para recuperar o poderia ser: “Veio sem (cem) balas”.

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Uma terceira – e, para mim, satisfatória – ex- presentes no léxico); a leitura pela rota não lexi-
plicação do uso da via indireta […] é que ela é cal não faz referência a esse léxico, mas envolve
usada paralelamente à via direta. Se esse for o fazer uso de regras que relacionam segmentos
caso, podemos esperar que ela seja útil mesmo da ortografia com segmentos da fonologia. A
que seja geralmente mais lenta que a via direta citação de De Saussure, que abre este capítulo,
para fornecer informações sobre o significado. sugere que os segmentos ortográficos usados
Se imaginarmos as duas vias como manguei-
pela rota não lexical são letras individuais, mas,
ras que possam ser usadas para encher um
como discutido por Coltheart (1978), não pode
balde com informações sobre o significado,
podemos ver que a adição de uma segunda estar certa, pois, na maioria das línguas alfabé-
mangueira pode acelerar o enchimento do ticas, os fonemas individuais são representados
balde, mesmo que ela forneça menos água que muitas vezes por sequências de letras, em vez de
a primeira. (Baron, 1977, p. 203) letras individuais. Coltheart (1978) usa o ter-
mo “grafema” para se referir a qualquer letra ou
Uma analogia que costuma ser usada para sequência de letras que represente um fonema
descrever a relação entre as duas rotas em mo- individual, de modo que TH e IGH são os dois
delos de dupla rota é a corrida de cavalos: as grafemas da palavra THIGH*, que tem dois
rotas lexical e não lexical correm e a que ter- fonemas. Ele sugere que as regras usadas pela
minar primeiro é responsável pelo resultado. rota de leitura não lexical são, especificamente,
Porém, essa analogia está errada. Na leitura em regras de correspondência entre grafemas e fo-
voz alta de palavras irregulares, nas ocasiões em nemas, como TH → /θ/ e IGH → /ai/.**
que a rota não lexical vence, segundo a analo-
gia com a corrida de cavalos, a resposta estará
errada: será um erro de regularização. Porém, Fenômenos explicados pelo
o que costuma ser visto em experimentos so-
bre o efeito da regularidade na leitura em voz
modelo da dupla rota
alta é que as respostas a palavras irregulares são
Este modelo visa explicar dados não apenas
corretas, mas lentas. A analogia com a corrida
da leitura normal, mas também fatos sobre
de cavalos não consegue captar esse resultado os transtornos da leitura, tanto os adquiridos
típico, ao passo que a analogia de Baron com a quanto os do desenvolvimento.
mangueira e o balde consegue. A segunda ana- Os tempos de reação em experimentos
logia é igualmente apropriada no caso do mo- com leitura em voz alta são mais longos para
delo de dupla rota da compreensão da leitura. palavras irregulares do que para palavras regu-
lares e o modelo da dupla rota atribui isso ao
fato de que as duas rotas geram informações
Rotas de leitura “lexicais” e conflitantes no nível do fonema quando a
palavra é irregular, mas não quando a palavra
“não lexicais” é regular: resolver esse conflito leva tempo, e
isso é responsável pelo efeito de regularidade
Este uso dos termos “lexical” e “não lexical” em
na leitura acelerada em voz alta. Os efeitos da
referência às duas rotas de leitura parece ter se
frequência na leitura em voz alta foram expli-
originado com Coltheart (1980). A leitura pela
rota lexical envolve procurar uma palavra em * N. de R.T.: Exemplo próximo no português: palavra
um léxico mental que contém conhecimento CHÁ.
sobre as grafias e pronúncias de sequências de ** N. de R.T.: CH → /兰/ e a → /a/, em que dois grafe-
letras que formam palavras reais (e, assim, estão mas (ch) produzem um fonema (/兰/).

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cados propondo-se que o acesso a entradas Suponhamos, por outro lado, que a lesão
para palavras de alta frequência no léxico men- cerebral em uma pessoa letrada comprometa
tal era mais rápido do que o acesso a palavras seletivamente a operação da rota não lexical
de baixa frequência. Conclui-se que, segundo para a leitura em voz alta, deixando intacta a
o modelo da dupla rota, as palavras de baixa rota lexical. Como ficaria a leitura dessa pes-
frequência apresentarão um efeito de regulari- soa? Bem, as palavras irregulares e as palavras
dade maior, pois o processamento lexical será regulares ainda seriam lidas com precisão nor-
relativamente lento para essas palavras e have- mal, pois a rota lexical consegue cumprir essa
rá mais tempo para que as informações da rota função; porém, as não palavras sofreriam, pois
não lexical afetem a leitura; essa interação da a sua leitura correta exige a rota não lexical.
frequência com a regularidade foi observada. Esse padrão exato – boa leitura de palavras e
Suponhamos que uma lesão cerebral em leitura deficiente de não palavras – é observa-
uma pessoa letrada comprometa seletivamente do em certas pessoas cuja capacidade de leitura
a operação da rota lexical para a leitura em voz foi comprometida por uma lesão cerebral; ele
alta, deixando intacta a rota não lexical. Como se chama dislexia fonológica (ver Coltheart,
ficaria a leitura dessa pessoa? Bem, as não pa- 1996, para uma revisão desses estudos). Essa
lavras e as palavras regulares ainda seriam lidas também é uma boa evidência da concepção da
com precisão normal, pois a rota não lexical dupla rota para o sistema de leitura.
consegue cumprir essa função; contudo, as pa- Os transtornos da leitura discutidos são
lavras irregulares sofreriam, pois a sua leitura chamados de dislexias adquiridas, pois são ad-
correta exige a rota lexical. Se ela falhar com quiridos como resultado de lesões cerebrais em
uma palavra irregular, a resposta virá apenas pessoas que eram letradas. O termo “dislexias
da rota não lexical e, assim, será errada: island do desenvolvimento”, ao contrário, refere-se a
será lida como “iz-land”*, yacht rimará com pessoas que tiveram dificuldade para aprender
“matched”**, e have rimará com “cave.”*** Esse a ler em primeiro lugar e nunca alcançaram um
padrão exato é observado em certas pessoas nível normal de habilidade de leitura. Assim
cuja capacidade de leitura foi comprometida como uma lesão cerebral pode afetar seletiva-
por uma lesão cerebral; ele se chama dislexia mente a rota de leitura lexical e não lexical, a
superficial, ou dislexia de superfície, e dois ca- aprendizagem dessas duas rotas está sujeita à
sos particularmente claros são os publicados mesma influência seletiva. Isso ocorre de fato.
por McCarthy e Warrington (1986) e Behr- Existem crianças que têm muita dificuldade,
mann and Bub (1992). A ocorrência de dis- para a sua idade, para ler palavras irregulares,
lexia superficial é uma boa evidência de que o mas que são normais na leitura de palavras re-
sistema de leitura contém rotas lexicais e não gulares (p. ex., Castles e Coltheart, 1996); essa
lexicais para a leitura em voz alta, pois esse é a dislexia do desenvolvimento superficial. E
transtorno da leitura é exatamente o que se es- existem crianças que têm muita dificuldade,
peraria se a rota lexical for comprometida e a para a sua idade, para ler não palavras, mas que
rota não lexical for poupada. são normais na leitura de palavras regulares e ir-
regulares (p. ex., Stothard, Snowling e Hulme,
1996); essa é a dislexia fonológica do desenvol-
* N. de R.T.: Transcrição fonética: ['ailənd], mas será vimento. Como parece haver dificuldades em
1
lida como [ izlend]. aprender apenas a rota lexical ou apenas a rota
** N. de R.T.: Transcrição fonética: [jɑt], mas será lida
não lexical, esses padrões diferentes de dislexia
como [jεtʃ] que rimará com [mεtʃ].
do desenvolvimento também são boas evidên-
*** N. de R.T.: Transcrição fonética: [hv], mas será lida
h
como [heiv] que rimará com [k eiv]. cias para o modelo da dupla rota da leitura.

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A CIÊNCIA DA LEITURA 29

Modelagem computacional façam previsões diferentes – ou seja, cujos re-


sultados em simulações com os dois modelos
da leitura
computacionais sejam conflitantes.
Vimos que a concepção da dupla rota, apli- De todos os domínios cognitivos, a leitura
cada à leitura em voz alta e à compreensão da é aquele em que a modelagem computacional
leitura, foi estabelecida em meados da década tem sido empregada de forma mais intensiva.
de 1970. Outro passo importante no estudo Isso começou com o modelo da competição
da leitura foi a modelagem computacional. e ativação interativa (IAC) de McClelland e
Um modelo computacional de uma forma Rumelhart (1981) e Rumelhart McClelland
de processamento cognitivo é um programa de (1982), que era um modelo apenas do reconhe-
computador que não apenas executa essa forma cimento visual de palavras, e não se ocupava da
específica de processamento, mas que o faz de semântica ou fonologia. Estes domínios foram
um modo que o modelador acredite que tam- introduzidos no modelo computacional bastan-
bém seja a maneira como os seres humanos te mais extensivo desenvolvido no artigo semi-
realizam a tarefa cognitiva em questão. Diversas nal de Seidenberg e McClelland (1989). Uma
virtudes costumam ser reconhecidas para a mo- influência que seu artigo teve foi levar ao desen-
delagem computacional – por exemplo, ela per- volvimento de uma versão computacional do
mite ao teórico descobrir partes de uma teoria modelo de dupla rota: o modelo de dupla rota
que não sejam suficientemente explícitas; partes em cascata (DRC) (Coltheart et al., 1993; Colt-
indefinidas de uma teoria não podem ser tradu- heart, Rastle, Perry, Langdon e Ziegler, 2001).
zidas para instruções de computador. Uma vez
que o problema foi resolvido e foi escrito um
programa que possa ser executado, o modela-
dor pode determinar o quanto o comportamen-
O modelo de dupla rota
to do modelo corresponde ao comportamento em cascata (DRC)
dos seres humanos. Será que todas as variáveis
que influenciam o comportamento de seres O DRC é um modelo computacional que cal-
humanos enquanto realizam a tarefa cognitiva cula a pronúncia a partir da escrita por meio de
relevante também afetam o comportamento do dois procedimentos, um procedimento lexical e
programa e do mesmo modo? E será que todas um procedimento não lexical (ver Figura 1.2).
as variáveis que influenciam o comportamento O procedimento lexical envolve acessar
do programa enquanto ele realiza a tarefa cogni- uma representação do léxico ortográfico de pa-
tiva relevante também afetam o comportamen- lavras reais e, a partir daí, ativar o nó da palavra
to de seres humanos e do mesmo modo? Con- no léxico fonológico de palavras reais, que, por
siderando que a resposta às duas perguntas seja sua vez, ativa os fonemas da palavra no nível
sim, o estudo do comportamento do modelo fonêmico do modelo. As não palavras não
computacional demonstrou que a teoria a partir podem ser lidas corretamente por meio desse
da qual o modelo foi gerado é suficiente para procedimento, pois não estão presentes nesses
explicar o que se sabe atualmente sobre como os léxicos, mas isso não significa que a rota lexical
humanos agem no domínio cognitivo relevan- simplesmente não possa produzir nenhum re-
te. Isso não significa que não possa haver uma sultado fonológico quando o estímulo for uma
teoria diferente, a partir da qual se possa gerar não palavra. Uma não palavra como SARE
um modelo computacional diferente que tenha pode gerar ativação de entradas no léxico orto-
o mesmo nível de desempenho. Nesse caso, é gráfico para palavras visualmente semelhantes
hora de fazer experimentos nos quais as teorias a ela, como CARE, SORE ou SANE; isso, por

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escrita

Unidades de
características visuais

Unidades de letras

Léxico
ortográfico

Sistema Sistema de regras


semântico grafêmicas e
fonêmicas

Léxico
fonológico

Sistema
Conexão excitatória fonêmico

Conexão inibitória
fala

FIGURA 1.2 O modelo de dupla rota em cascata (DRC).


Fonte: O autor.

sua vez, pode ativar o léxico fonológico e, as- grafemas e fonemas à sequência de estímulos
sim, o nível fonêmico. Essa ativação lexical não para converter letras em fonemas. Isso ocor-
consegue gerar a pronúncia correta para uma re na sequência da esquerda para a direita,
não palavra, mas existem evidências de que in- considerando inicialmente apenas a primeira
fluencia a leitura em voz alta de não palavras. letra da sequência, depois as duas primeiras
Por exemplo, uma não palavra como SARE, letras, depois as três primeiras letras e, assim
que é semelhante a muitas entradas no léxico por diante, até passar pela última letra do estí-
ortográfico, será lida em voz alta com um tem- mulo. Ele converte não palavras corretamente
po de reação menor do que uma não palavra da escrita para o som e também palavras re-
como ZUCE, que é semelhante a poucas en- gulares (aquelas que obedecem suas regras de
tradas (McCann e Besner, 1987). correspondência entre grafemas e fonemas).
O procedimento não lexical do modelo As palavras irregulares (exceções) são “regula-
DRC aplica regras de correspondência entre rizadas” pelo procedimento não lexical – ou

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A CIÊNCIA DA LEITURA 31

seja, suas pronúncias baseadas nas regras, que lavra contém a letra e, assim, a ativação
estarão incorretas. transmitida da unidade de palavra para a
O processamento pela rota lexical ocorre unidade de letra é positiva.
da seguinte maneira:
Ciclo 4: tudo que acontece nos Ciclos 1,
Ciclo 0: definir todas as unidades para ca- 2 e 3 acontece novamente aqui. Além disso:
racterísticas visuais que estejam presentes na
sequência de estímulos como 1; definir todas a. Anterógrado: cada unidade no léxico fo-
as outras como zero. nológico contribui para a ativação de todas
Ciclo 1: cada característica visual definida as unidades fonêmicas a que está conecta-
como 1 contribui para a ativação de todas as da. As conexões são inibitórias quando a
letras nas unidades de letras a que está conecta- pronúncia da palavra não contém aquele
da. As conexões são inibitórias quando a letra fonema e, assim, a ativação transmitida
não contém essa característica e, assim, a ati- da unidade de palavra para a unidade de
vação transmitida é negativa; as conexões são fonema é negativa; as conexões são exci-
excitatórias quando a letra contém a caracterís- tatórias quando a pronúncia da palavra
tica e, assim, a ativação transmitida é positiva. contém aquele fonema e, assim, a ativação
Ciclo 2: o que acontece no Ciclo 1 acon- transmitida da unidade de palavra para a
tece novamente aqui. Além disso, cada unida- unidade de fonema é positiva.
de de letra contribui para a ativação de todas b. Retrógrado: cada unidade do léxico fono-
as unidades de palavra no léxico ortográfico a lógico contribui retroativamente para a
que está conectada. As conexões são inibitó- ativação da sua unidade correspondente
rias quando a palavra não contém aquela letra no léxico ortográfico.
e, assim, a ativação transmitida da unidade
de letra para a unidade de palavra é negativa; Ciclo 5: tudo que acontece nos Ciclos 1,
as conexões são excitatórias quando a palavra 2, 3 e 4 acontece novamente aqui. Além disso,
contém aquela letra e, assim, a ativação trans- cada unidade fonêmica contribui retroativa-
mitida da unidade de letra para a unidade de mente para a ativação de todas as unidades de
palavra é positiva. palavras no léxico fonológico a que está co-
Ciclo 3: tudo que acontece no Ciclo 1 e no nectada. As conexões são inibitórias quando
Ciclo 2 acontece novamente aqui. Além disso: a palavra não contém aquele fonema e, assim,
a ativação transmitida da unidade de fonema
a. Anterógrado: cada unidade do léxico or- para a unidade de palavra é negativa; as cone-
tográfico contribui para a ativação da sua xões são excitatórias quando a palavra contém
unidade correspondente no léxico fono- aquele fonema e, assim, a ativação transmitida
lógico. da unidade de fonema para a unidade de pa-
b. Retrógrado: cada unidade de palavra na lavra é positiva.
unidade do léxico ortográfico contribui E assim por diante. À medida que os ciclos
retroativamente para a ativação de todas de processamento avançam, influências inibitó-
as unidades de letras a que está conecta- rias e excitatórias continuam a fluir para cima e
da. As conexões são inibitórias quando para baixo da maneira descrita até que a respos-
a palavra não contém a letra e, assim, a ta de leitura em voz alta esteja pronta. Como
ativação transmitida da unidade de pa- essa prontidão é determinada? Conforme a se-
lavra para a unidade de letra é negativa; guir. Na descrição dos ciclos de processamento
as conexões são excitatórias quando a pa- apresentada, o primeiro ciclo em que o sistema

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fonêmico recebe qualquer ativação é o Ciclo 4. recebe estímulo até o Ciclo 10, lida apenas com
Ao final do Ciclo 4, algumas unidades de fo- D até o Ciclo 27, lida apenas com DE do Ciclo
nemas serão ativadas, mas de forma extrema- 28 ao Ciclo 44, depois com DES até o Ciclo
mente fraca. À medida que o processamento 60, DESK até o Ciclo 76 e assim por diante.
continua, a ativação de algumas das unidades Os cálculos para a rota lexical e não lexical
de fonemas aumentará lentamente. Com fre- ocorrem simultaneamente – ou seja, considera-
quência, no começo do processamento, algu- -se que as informações do nível das caracterís-
mas das unidades fonêmicas ativadas serão as ticas visuais fluem simultaneamente pelas rotas
incorretas. Porém, ao longo do tempo, à me- lexical e não lexical e convergem no sistema fo-
dida que as ativações fonêmicas continuarem a nêmico a partir dessas duas fontes. Independen-
aumentar, são os fonemas corretos que são mais temente de o estímulo ser uma palavra irregular
ativados. Considera-se que a resposta de leitura ou uma não palavra, as duas fontes de ativação
está pronta quando os fonemas atingiram um entram em conflito no nível fonêmico. Para que
nível crítico de ativação (definido como 0,43 o sistema gere pronúncias corretas para palavras
quando o modelo é usado para simular a leitura irregulares e para não palavras, ele terá que ter
em voz alta por seres humanos). A pronúncia um modo de resolver esses conflitos em favor
gerada pelo modelo consiste do fonema mais da pronúncia correta. Não obstante, o modelo
ativado dentro de cada oito conjuntos de uni- lê palavras irregulares e não palavras em voz alta
dades fonêmicas (um conjunto por posição) com grande precisão, de modo que esses con-
que compreendem o sistema fonêmico. O ciclo flitos quase sempre são resolvidos de um modo
de processamento em que esse estado de coisas que resulta em uma pronúncia correta (pela
ocorre é a latência da leitura em voz alta no mo- inter-relação entre inibição e ativação em níveis
delo DRC para a sequência de letras específica variados do modelo). Isso depende de uma es-
que foi usada como estímulo. colha criteriosa de valores para os parâmetros
O processamento ao longo da rota não le- do modelo, como as intensidades das conexões
xical não começa a operar até o Ciclo 10. Sem inibitórias e facilitadoras entre componentes do
esse lapso de tempo após a rota lexical começar modelo. Se a rota lexical for forte demais em
a operar, o modelo teria sérias dificuldades para relação à rota não lexical, todas as palavras se-
ler palavras irregulares em voz alta. Quando se rão lidas corretamente, mas haverá erros na lei-
chega ao Ciclo 10, a rota não lexical traduz a tura de não palavras. Se a rota lexical for fraca
primeira letra da sequência para seu fonema demais em relação à rota não lexical, todas as
usando a regra apropriada de grafemas e morfe- palavras regulares e não palavras serão lidas cor-
mas e contribui para a ativação da unidade do retamente, mas haverá erros na leitura de pala-
fonema no sistema fonêmico. Isso continua a vras irregulares. É necessário que se estabeleça
ocorrer pelos próximos 16 ciclos de processa- um equilíbrio delicado entre as intensidades
mento. O sistema de conversão grafema-fone- das duas rotas para que o modelo funcione bem
ma (CFG) opera da esquerda para a direita, de com não palavras e palavras irregulares.
modo que pode considerar a segunda letra da
sequência, assim como a primeira. A cada 17
ciclos, o sistema CFG passa a considerar a pró-
xima letra, traduzi-la para um fonema e ativar
O que o modelo DRC consegue
esse fonema no sistema fonêmico. Desse modo, explicar
com a sequência DESK*, o sistema CFG não
Uma maneira na qual Coltheart et al. (2001)
* N. de R.T.: Foi mantido termo original (tradução: avaliaram o modelo DRC foi comparar os
mesa) para não interferir na análise do autor. tempos de reação do modelo a determinados

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A CIÊNCIA DA LEITURA 33

conjuntos de estímulos com os tempos de rea- pseudo-homófonos derivados de palavras


ção de leitores humanos quando estão lendo de baixa frequência (p. ex., glew).****
os mesmos estímulos. Será que as variáveis que h. O número de vizinhos ortográficos que
afetam os tempos de reação de seres humanos uma não palavra não pseudo-homofômi-
ao lerem em voz alta também afetam os tem- ca possui (i.e., o número de palavras que
pos de reação do modelo para a leitura em voz diferem por apenas uma letra), mais rapi-
alta? Coltheart e colaboradores (2001) apre- damente ela será lida em voz alta.
sentam muitos exemplos em que isso aconte- i. O número de vizinhos ortográficos que
ce. Para leitores humanos e o modelo DRC: um pseudo-homófono tem não influen-
cia a rapidez com que é lido em voz alta.
a. Palavras de alta frequência são lidas em j. Quando mais letras houver em uma não
voz alta com mais rapidez do que palavras palavra, mais lentamente ela será lida em
de baixa frequência. voz alta; mas o número de letras tem pou-
b. Palavras são lidas em voz alta com mais co ou nenhum efeito sobre a leitura de
rapidez do que não palavras. palavras reais em voz alta.
c. Palavras regulares são lidas em voz alta com
mais rapidez do que palavras irregulares. O modelo DRC também foi usado para
d. O tamanho da vantagem da regularidade simular dislexias adquiridas. A dislexia superfi-
é maior para palavras de baixa frequência cial foi simulada reduzindo a taxa de acesso ao
do que para palavras de alta frequência. léxico ortográfico: esse modelo DRC lesionado
e. Quanto mais adiante em uma palavra cometeu erros de regularização com palavras
irregular se encontra a correspondência irregulares, e ainda mais quando tinham baixa
entre fonemas e grafemas irregulares, me- frequência, como é visto na dislexia superficial,
nor o custo incorrido pela irregularidade. ao passo que a leitura em voz alta de palavras
Assim, CHEF (irregularidade na posição regulares e não palavras permaneceu normal,
1) é pior que SHOE (irregularidade na como nos casos puros de dislexia superficial
posição 2), que é pior do que CROW (ir- (Behrmann e Bub, 1992; McCarthy e Warring-
regularidade na posição 3).* ton, 1986). A dislexia fonológica foi simulada
f. Pseudo-homófonos (não palavras que são desacelerando-se a operação da rota não lexical:
pronunciadas exatamente como palavras esse modelo DRC lesionado ainda leu palavras
reais em inglês, como brane)** são lidos corretamente, mas leu não palavras incorreta-
em voz alta com mais rapidez do que não mente, especialmente se fossem não pseudo-ho-
palavras não pseudo-homofômicas (como mófonos, como no caso da dislexia fonológica.
brene).*** Assim, o modelo DRC pode explicar um
g. Pseudo-homófonos derivados de palavras número surpreendentemente grande de resul-
de alta frequência (p. ex., hazz) são lidos tados de estudos sobre a leitura normal e trans-
em voz alta com mais rapidez do que tornos da leitura, muito mais do que qualquer
outro modelo computacional da leitura. En-
tretanto, Coltheart e colaboradores (2001)
* N. de R.T.: Em CHEF, o grafema CH é irregular e
chamaram atenção para algumas limitações
está na primeira posição da palavra, em SHOE o OE é
irregular e em CROW o OW é irregular, ou seja, esses da atual implementação do modelo DRC: seu
grafemas têm mais de um som possível.
** N. de R.T.: Um exemplo em português seria xapéu, **** N. de R.T.: Pinheiro (1994) investigou a frequência
uma pseudopalavra que pela pronúncia gera uma palavra. de ocorrência das palavras em português. Fonte: Pinhei-
*** N. de R.T.: Um exemplo em português seria xadéu, uma ro, A.M.V. (1994) Leitura e escrita: uma abordagem
pseudopalavra que não gera uma palavra pela pronúncia. cognitiva. Campinas: Editorial Psy.

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procedimento para a tarefa de decisão lexical Uma segunda diferença importante entre
era grosseiro, não era aplicável à pronúncia de a modelagem conexionista e a não conexio-
palavras polissilábicas e não oferecia nenhuma nista, pelo menos como essas abordagens têm
explicação para um paradigma popular para sido usadas por enquanto, é que os modelos
estudar a leitura (ativação mascarada); a dife- conexionistas geralmente são desenvolvidos
rença entre os tempos de reação na leitura de aplicando-se um algoritmo de aprendizagem
palavras e não palavras pelo modelo era gran- de rede neural a um conjunto de estímulos de
de em níveis implausíveis; a quantidade de treinamento, ao passo que as arquiteturas de
variância nos tempos de reação na leitura de modelos não conexionistas geralmente são es-
palavras que o modelo conseguia explicar, ain- pecificadas pelo modelador com base nos efei-
da que sempre significativa, era decepcionan- tos empíricos que o modelo busca explicar.
temente baixa e o modelo implementado não O modelo computacional conexionista
dizia nada sobre semântica. Uma nova versão da leitura de Seidenberg e McClelland (1989)
do modelo DRC, que corrigirá essas e outras costuma ser apresentado como uma alternati-
limitações do modelo existente, encontra-se va ao modelo de dupla rota. De fato, afirma-
em processo de desenvolvimento. ções como “o modelo de dupla rota tem sido
questionado recentemente por uma pletora de
modelos computacionais de rota única basea-
Modelagem conexionista e não
dos em princípios conexionistas” (Damper e
conexionista Marchand, 2000, p. 13) são comuns na litera-
Este capítulo faz uma distinção entre mode- tura. Porém, essa não era a visão dos autores.
los conexionistas da leitura (como os modelos Eles foram claros com relação a isso: “nosso
de Seidenberg e McClelland, 1989, e Plaut, modelo é um modelo de dupla rota”, afirmam
McClelland, Seidenberg e Patterson, 1996) e (Seidenberg e McClelland, 1989, p. 559).
modelos não conexionistas da leitura (como o Isso fica perfeitamente evidente a par-
modelo DRC). A descrição do modelo DRC tir do seu diagrama do modelo (Seidenberg e
em Coltheart e colaboradores (2001) usa o McClelland, 1989, Figura 1, reproduzido aqui
termo “conexão”, e o modelo, de fato, “con- como Figura 1.3): ele representa explicitamente
tém” por volta de 4,5 milhões de conexões, duas rotas distintas da ortografia à fonologia,
no sentido do termo “conexão” usado por uma direta e outra via significado, e representa
Coltheart e colaboradores (2001). Todavia, explicitamente duas rotas distintas da ortografia
no modelo DRC, as conexões são apenas dis- à semântica, uma direta e outra via fonologia.
positivos expositivos usados para falar sobre Uma das duas rotas para a leitura em voz alta
como os módulos do modelo se comunicam (via semântica) somente pode ser usada para ler
entre si. Pode-se explicar isso de outras ma- palavras em voz alta; ela não funcionaria para
neiras sem usar o termo “conexão”. Em com- não palavras. A outra rota (não semântica) para
paração, nos modelos conexionistas, as cone- a leitura em voz alta é exigida se o estímulo
xões costumam ser consideradas semelhantes for uma não palavra. Esse modelo passou a ser
a neurônios, os modelos são chamados de chamado de modelo triangular, talvez por cau-
redes neurais e costumam-se aplicar termos sa da referência em Seidenberg e McClelland
como “inspiração biológica” ou “neuralmente (1989, p. 559) ao “terceiro lado do triângulo
plausível”. Aqui, uma conexão é algo que é na Figura 1”. Mais de um modelo subsequente
realizável fisicamente como um objeto indivi- já foi chamado de modelo triangular, apesar de
dual, ao contrário do modelo DRC, no qual o ser diferente do modelo de Seidenberg e Mc-
termo não tem esse sentido. Clelland. Por enquanto, já houve sete modelos

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A CIÊNCIA DA LEITURA 35

Contexto

Semântica

Ortografia Fonologia

MAKE /mAk/

FIGURA 1.3 O modelo de Seidenberg e McClelland (1989). O modelo implementado está em negrito.
Fonte: Seidenberg e McClelland (1989).

triangulares diferentes, uma questão discutida as pessoas leem não palavras em voz alta, pois
mais adiante neste capítulo. sua precisão nessa tarefa era menor que a preci-
O que levou a esse mal-entendido co- são apresentada por leitores humanos (Besner,
mum? A resposta é clara: a incapacidade de Twilley, McCann e Seergobin, 1990). Coltheart
distinguir as duas hipóteses a seguir: e colaboradores (1993) mostraram que a suges-
tão estava incorreta (Seidenberg e McClelland,
a. É possível que um único sistema de pro- 1990, p. 448) de que isso ocorreu porque o
cessamento leia todas as palavras irregula- banco de dados de palavras com o qual o mo-
res e todas as não palavras corretamente delo foi treinado era limitado demais e não
em voz alta. continha informações suficientes para aprender
b. O sistema de leitura humano possui ape- a leitura de não palavras com ele. Eles desenvol-
nas um procedimento para calcular a pro- veram um algoritmo de aprendizagem de regras
núncia a partir da escrita. CFG e o aplicaram ao conjunto de treinamen-
to de Seidenberg-McClelland. O conjunto de
Seidenberg e McClelland (1989) propu- regras que o algoritmo aprendeu a partir do
seram a hipótese (a). Porém, não propuseram conjunto de treinamento foi usado com as 133
a hipótese (b); de fato, conforme indica a ci- não palavras de Glushko (1979). Enquanto o
tação no parágrafo anterior, eles repudiaram a modelo de Seidenberg e McClelland acertou
hipótese (b). É por isso que o seu modelo é um apenas 68% em um subconjunto de 52 dessas
modelo de dupla rota da leitura em voz alta. não palavras, o modelo DRC leu 97,9% delas
Esse modelo seminal não se mostrou ca- corretamente. Isso mostra que as informações
paz de oferecer uma boa explicação de como necessárias para aprender a ser um excelente

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36 MARGARET J. SNOWLING & CHARLES HULME (ORGS.)

leitor de não palavras estão presentes no banco Modelo 1: puramente anterógrado, 105
de dados do modelo e, assim, “o fraco desem- unidades de grafemas, 100 unidades ocultas,
penho do modelo PDP* na leitura de não pala- 61 unidades de fonemas.
vras é um defeito não do banco de dados, mas Modelo 2: como no Modelo 1, mas com
do próprio modelo” (Coltheart et al., 1993, p. retroalimentação de unidades fonêmicas para
594). Assim, conforme observado por Plaut unidades ocultas: uma rede atrativa.
(1997, p. 769) e Plaut e colaboradores (1996, Modelo 3: como no Modelo 1, mas acres-
p. 63), o modelo de Seidenberg e McClelland centando estímulo externo (não implemen-
não conseguiu fornecer evidências de que é tado) às unidades de produto, de maneira a
possível que um sistema de processamento úni- reproduzir o que aconteceria se houvesse um
co leia todas as palavras irregulares e todas as sistema semântico implementado, ativado
não palavras em voz alta corretamente. pela ortografia e, por sua vez, ativando a fono-
Não obstante, pode ser possível criar um logia. Essa abordagem, discutida a seguir, foi
procedimento de processamento único que perseguida na tentativa de simular a dislexia
consiga ler todas as palavras irregulares e to- superficial adquirida.
das as não palavras em voz alta corretamente. Em que nível esses modelos conseguem
Plaut e colaboradores (1996) tentaram criar ler não palavras? O Modelo 1 (que, depois
esse procedimento, treinando uma rede cone- do treinamento, acertou 100% da leitura das
xionista, semelhante em arquitetura geral à da 2.972 palavras não homográficas do conjunto
rede de Seidenberg e McClelland apresentada de treinamento) saiu-se muito bem na leitura
na Figura 1.3 (ela era, por exemplo, um mo- de não palavras (ver Tabela 3 de Plaut et al.,
delo de dupla rota no mesmo sentido que Sei- 1996), quase tão bem quanto leitores huma-
denberg e McClelland consideravam seu mo- nos. Todavia, ele ainda falha com itens como
delo como um modelo de dupla rota, embora JINJE, pois não existe nenhuma palavra no
o treinamento tenha sido feito apenas para conjunto de treinamento que termine com
uma das duas rotas), mas diferente do modelo o grafema final dessa não palavra. Conclui-
de Seidenberg e McClelland em diversas ma- -se que uma seleção cuidadosa de não pala-
neiras, incluindo as formas de representações vras que explorasse essas lacunas no corpus de
ortográficas e fonológicas usadas na rede. As treinamento produziria um conjunto de não
unidades de estímulo, que eram representa- palavras com o qual o modelo teria o esco-
ções distribuídas no modelo de Seidenberg e re de zero ou próximo de zero. Os leitores
McClelland, tornaram-se representações lo- humanos seriam imensamente superiores ao
cais (cada uma representando um grafema). modelo nessas não palavras. Os resultados
As unidades de produto, que eram represen- com a leitura de não palavras pelo Modelo 2
tações distribuídas no modelo de Seidenberg e foram semelhantes, embora sua leitura de não
McClelland, tornaram-se representações locais palavras tenha sido um pouco pior do que a
(cada uma representando um fonema). do Modelo 1. O problema JINJE se manteve.
Plaut et al. (1996), na verdade, apresen- Considerando esse trabalho de Plaut e
taram três modelos diferentes, ainda que rela- colaboradores (1996), o que podemos dizer
cionados – ou seja, um segundo, um terceiro sobre as duas hipóteses mencionadas acima?
e um quarto modelos triangulares, sendo o As hipóteses eram:
primeiro modelo triangular o de Seidenberg
e McClelland (1989): a. É possível que um único sistema de pro-
cessamento leia todas as palavras irregula-
* N. de R.T.: O modelo de processamento distribuído res e todas as não palavras corretamente
em paralelo será apresentado no Capítulo 3. em voz alta.

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A CIÊNCIA DA LEITURA 37

b. O sistema de leitura humano possui ape- e Warrington, 1986) e MP (Behrmann e Bub,


nas um procedimento para calcular a pro- 1992). Ambos apresentavam precisão pratica-
núncia a partir da escrita. mente normal na leitura de palavras regulares
e de não palavras em voz alta, especialmente
Embora a leitura de não palavras tenha sido quando fossem de baixa frequência (KT: alta
melhor com os modelos PMSP do que com o frequência 47%; baixa frequência 26%; MP:
modelo SM, os modelos PMSP ainda não leem alta frequência 93%; baixa frequência 73%).
não palavras corretamente, no sentido de “tão Os modelos computacionais buscam ex-
bem quanto leitores humanos”, pois não é di- plicar a leitura comprometida além da leitura
fícil pensar em não palavras que leitores huma- normal; ou seja, deve ser possível lesionar arti-
nos leiam bem e que os modelos PMSP leiam ficialmente esses modelos, de modo que seus
incorretamente: não existe maneira em que ler padrões de leitura preservada ou comprome-
JINJE de modo a rimar com “wine” (como fa- tida correspondam corretamente aos padrões
zem os modelos PMSP) possa ser considerado observados em formas diversas de dislexia ad-
correto. Assim, a hipótese (a) permanece sem quirida. Portanto, Plaut e colegas investigaram
amparo. E nenhum modelo atual da leitura em se havia algum modo de lesionar qualquer um
voz alta faz a hipótese (b). Assim, atualmente, é de seus três modelos, que levasse à leitura com-
razoável considerar as duas hipóteses falsas. prometida de palavras irregulares, com leitura
Todavia, o trabalho com a simulação da preservada de palavras regulares e não palavras.
dislexia superficial usando o Modelo 3 tem Isso foi investigado estudando-se os efeitos
uma implicação interessante para essas hipóte- de deletar proporções variadas das conexões na
ses. De fato, de um modo geral, a simulação via implementada da ortografia à fonologia,
de transtornos, ao contrário da leitura normal, ou proporções variadas das unidades ocultas,
tem sido particularmente crucial nos últimos no Modelo 2. Essa medida não teve sucesso
anos para uma avaliação comparativa de mo- em simular o paciente KT, considerado mais
delos computacionais da leitura. Assim, grande grave: qualquer lesão que produzisse níveis de
parte da discussão a seguir sobre a modelagem acurácia de aproximadamente 26% para pala-
de dupla rota se concentrará na aplicação desses vras irregulares de baixa frequência também
modelos à explicação de transtornos da leitura. produzia um desempenho muito fraco com
não palavras, ao passo que KT era perfeito na
Simulando transtornos da leitura com leitura de não palavras. Assim, não foi possível
simular a dislexia superficial adquirida apenas
os modelos triangulares com a parte implementada do modelo.
Simulando a dislexia superficial adquirida. Portanto, Plaut e colaboradores passaram
A dislexia superficial adquirida (Marshall do Modelo 2 para o Modelo 3, que tem um
e Newcombe, 1973; Patterson, Marshall e componente não implementado (estímulo
Coltheart, 1985) é um transtorno da leitura semântico no nível do produto fonológico).
causado por uma lesão cerebral no qual ocorre Com suficiente treinamento, o Modelo 3 se
um comprometimento seletivo da capacidade sai bem com palavras irregulares, palavras re-
de ler palavras irregulares em voz alta, sendo gulares e não palavras. O crucial aqui, con-
relativamente poupada a leitura de palavras tudo, é a competência da parte implemen-
regulares e não palavras. Muitos casos não tada (ortografia à fonologia) do Modelo 3.
são normais para a leitura de palavras regu- Quando treinado sem a semântica (que é o
lares e não palavras; enfocarei aqui, como Modelo 1), ele aprende a ler palavras irregula-
fizeram Plaut e colaboradores (1996), dois res perfeitamente e não palavras muito bem.
casos particularmente puros, KT (McCarthy Todavia, isso não ocorre quando é treinado

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38 MARGARET J. SNOWLING & CHARLES HULME (ORGS.)

com estímulo semântico concomitante. As lavras em voz alta corretamente, a maioria dos
palavras irregulares de baixa frequência nun- leitores humanos não possui tal sistema.
ca são aprendidas perfeitamente aqui pela via Como existem pacientes com lesão se-
direta da ortografia à fonologia: com essa via mântica grave que conseguem ler palavras
operando por conta própria, a precisão para irregulares com precisão normal (p. ex., Ci-
palavras irregulares de baixa frequência é de polotti e Warrington, 1995; Lambon Ralph,
em torno de 70% após 400 períodos de trei- Ellis e Franklin, 1995; Schwartz, Saffran e
namento e depois decai a por volta de 30% Marin, 1980a; ver também Gerhand, 2001),
corretas depois de 2 mil períodos. O desem- Plaut et al. (1996, p. 99) tiveram que supor
penho com palavras irregulares de alta fre- que certas pessoas aprendem a ler sem ne-
quência é quase perfeito com 400 períodos, nhum amparo da semântica e, assim, con-
mas a continuação do treinamento deteriora seguem ler todas as palavras irregulares sem
o desempenho com essas palavras progressi- recorrer à semântica. Porém, em outro traba-
vamente, chegando a apenas 55% no período lho com o uso dos modelos triangulares, essa
2 mil. O desempenho com palavras regulares suposição foi abandonada:
e não palavras é quase perfeito no período
400 e permanece nesse nível com a continua- É importante observar que, como essa versão
ção do treinamento até o período 2 mil. do modelo triangular pressupõe uma relação
Se o treinamento for interrompido em causal entre o comprometimento semântico e
400 períodos e o estímulo semântico para a dislexia superficial, sua adequação é questio-
o sistema for removido, o desempenho será nada por observações de pacientes com com-
prometimento semântico cuja leitura não re-
bom com palavras regulares, não palavras e
vela um padrão disléxico superficial. (Fushimi
palavras irregulares de alta frequência, mas
et al., 2003, p. 1656)
um pouco comprometido com palavras irre- Um sistema semântico degradado inevi-
gulares de baixa frequência; isso corresponde tavelmente compromete a capacidade de “re-
ao padrão disléxico superficial apresentado conhecer” uma sequência de letras […] como
por MP. pertencente ao repertório de palavras reais.
Se o treinamento for interrompido em (Rogers, Lambon Ralph, Hodges e Patterson,
2 mil períodos e o estímulo semântico para 2004, p. 347)
o sistema for removido, o desempenho será
bom com palavras regulares e não palavras, Segundo o Modelo 3, tal qual aplicado à
comprometido com palavras irregulares de análise da dislexia superficial, os leitores hu-
alta frequência e muito fraco com palavras ir- manos intactos possuem duas rotas da escrita
regulares de baixa frequência; isso correspon- à fala. Vamos chamá-las, de uma forma neutra
de ao padrão disléxico superficial apresentado em relação a teorias, Rota A e Rota B. As pro-
por KT. priedades dessas rotas são:
A sugestão aqui é que a causa da dislexia
superficial adquirida é uma lesão semântica e a. A Rota A consegue ler todas as palavras
que quanto mais o paciente necessita do es- conhecidas (regulares ou irregulares) em
tímulo semântico para ler em voz alta na si- voz alta corretamente, mas não consegue
tuação pré-mórbida, mais grave será a dislexia ler não palavras em voz alta corretamente.
superficial quando houver lesão semântica. b. A Rota B consegue ler todas as palavras
A implicação é que, mesmo que seja possível regulares e todas as não palavras em voz
que um único sistema de processamento leia alta corretamente, mas lê incorretamente
todas as palavras irregulares e todas as não pa- X% das palavras irregulares.

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A CIÊNCIA DA LEITURA 39

Esse modelo conexionista de dupla rota no sem a presença de um comprometimento


da leitura em voz alta difere do modelo não fonológico e essa previsão está incorreta. Dé-
conexionista de dupla rota da leitura em voz rouesné e Beauvois (1985), Bisiacchi, Cipo-
alta (Coltheart et al., 2001, discutido a seguir) lotti e Denes (1989), e Caccappolo-van Vliet,
apenas com relação ao valor de X. Segundo Miozzo e Stern (2004) publicaram casos de
Plaut e colaboradores (1996), na situação pré- dislexia fonológica adquirida com processa-
-mórbida, X pode, em raras ocasiões, ser zero mento fonológico preservado.
(nos pacientes supracitados, que são normais Como vimos, o desenvolvimento de mo-
na leitura de palavras irregulares, mas apre- delos triangulares conexionistas da leitura foi
sentam comprometimentos semânticos gra- consideravelmente influenciado por tenta-
ves), mas geralmente não é, podendo chegar tivas de simular a dislexia adquirida; e essa
pelo menos a 64% (a taxa de erro geral do pa- abordagem também foi aplicada à simulação
ciente KT com palavras irregulares). Segundo da dislexia do desenvolvimento.
o modelo DRC, X é sempre 100%.
Desse modo, embora seja logicamente Simulando a dislexia do desenvolvimento.
possível que o sistema que os seres humanos Harm e Seidenberg (1999) desenvolveram
usam para ler em voz alta tenha uma arqui- um modelo para simular transtornos do de-
tetura de rota única, não existem hipóteses senvolvimento da leitura. Seu modelo trian-
teóricas sobre essa arquitetura que possam gular específico diferia de todos os modelos
escapar da refutação com base nos dados dis- triangulares anteriores em diversas maneiras:
poníveis de estudos sobre leitores com desen-
volvimento típico e comprometidos. Todos os a. A aprendizagem nas unidades fonológicas
modelos são modelos de dupla rota. A teori- foi assistida pela presença de um conjun-
zação atual e futura é e será sobre os detalhes to de unidades de limpeza anexadas às
dessas duas rotas. unidades fonológicas.
b. As unidades fonológicas representavam
características fonéticas e não fonemas.
Simulando a dislexia fonológica
c. As unidades ortográficas representavam
adquirida letras e não grafemas.
Harm e Seidenberg (2001) usaram outro mo- d. A codificação posicional da ortografia era
delo triangular conexionista em um trabalho relativa à vogal na sequência de estímulos,
que visava simular a dislexia fonológica ad- em vez de absoluta.
quirida. Em sua visão, essa forma de dislexia
adquirida sempre é causada por um compro- Depois do treinamento, o modelo atingiu
metimento fonológico. Portanto, depois de níveis satisfatórios de desempenho na leitura
treinarem seu modelo até que tivesse um bom de palavras irregulares no conjunto de treina-
desempenho na leitura de palavras e não pa- mento e também na leitura de não palavras
lavras, eles lesionaram o componente fonoló- (embora, mais uma vez, o desempenho pare-
gico do modelo, adicionando ruído aleatório cesse um pouco inferior à leitura de não pala-
cada vez que as unidades do componente fos- vras por humanos).
sem atualizadas. Isso prejudicou a leitura de Harm e Seidenberg (1999) estavam inte-
não palavras mais que a leitura de palavras e, ressados especificamente em tentar simular a
assim, simulou a dislexia fonológica. Todavia, dislexia do desenvolvimento. Tendo mostrado
essa explicação da dislexia fonológica adqui- que seu modelo triangular era capaz de apren-
rida prevê que não haverá casos do transtor- der a ler adequadamente, eles investigaram

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40 MARGARET J. SNOWLING & CHARLES HULME (ORGS.)

maneiras de impedir a sua aprendizagem que é possível haver dislexia fonológica do desen-
pudessem resultar em dois subtipos diferentes volvimento grave e pura em leitores huma-
de dislexia do desenvolvimento, um em que a nos? Alguns casos foram publicados (ver, p.
leitura de não palavras é afetada seletivamen- ex., Campbell e Butterworth, 1985; Funnell
te (dislexia fonológica do desenvolvimento) e e Davison, 1989; Holmes e Standish, 1996;
outro em que a leitura de palavras irregulares Howard e Best, 1996; Stothard et al., 1996).
é afetada seletivamente (dislexia superficial Assim, esses dados da neuropsicologia cogni-
do desenvolvimento; Harm e Seidenberg pre- tiva do desenvolvimento proporcionam um
feriam o termo “reading delay dyslexia”, pois desafio para o modelo conexionista da leitura
acreditavam que a leitura de crianças com dis- de Harm e Seidenberg (1999).
lexia superficial do desenvolvimento é igual à A dislexia superficial do desenvolvimento
leitura de crianças menores que estão apren- (“reading delay dyslexia”) foi simulada no tra-
dendo a ler normalmente). balho de Harm e Seidenberg (1999), reduzin-
Como Harm e Seidenberg (1999) acre- do-se o número de unidades ocultas na rede
ditavam que a dislexia fonológica evolutiva de 100 para 20 e também reduzindo a taxa de
sempre é causada por um déficit do proces- aprendizagem da rede. Os dois tipos de lesão
samento fonológico da criança, sua aborda- evolutiva na rede prejudicaram a aprendiza-
gem para simular a dislexia fonológica do gem de palavras irregulares mais que a apren-
desenvolvimento envolvia lesionar o sistema dizagem de não palavras; porém, nos dois ca-
fonológico do modelo. Isso foi feito de duas sos, a aprendizagem de não palavras também
maneiras diferentes: sofreu. Assim, não foi possível simular a disle-
xia superficial do desenvolvimento “pura” (i.e.,
a. Comprometimento fonológico leve: um leitura comprometida de palavras irregulares
pequeno grau de decaimento de pesos foi com leitura normal de não palavras). Toda-
imposto sobre as unidades de característi- via, a dislexia superficial do desenvolvimento
cas fonéticas por meio do treinamento. pura é observada em leitores humanos (Cas-
b. Comprometimento fonológico mode- tles e Coltheart, 1996; Hanley e Gard, 1995;
rado: além do decaimento de pesos, as Goulandris e Snowling, 1991). Portanto, mais
unidades de limpeza foram removidas da uma vez, esses dados da neuropsicologia cog-
rede, assim como uma porcentagem alea- nitiva do desenvolvimento não proporcionam
tória de 50% das interconexões entre as suporte para o modelo conexionista da leitura
unidades de características fonéticas. de Harm e Seidenberg (1999).
Os dois tipos de lesão comprometeram a
capacidade do modelo de aprender a ler não
palavras. Todavia, quando esse comprome- Conclusões
timento era mais que leve, a capacidade do
modelo de aprender a ler palavras também Os teóricos da leitura são unânimes em relação
foi comprometida. Assim, o que não pode ser à existência, no sistema humano de leitura, de
simulado aqui foi a dislexia fonológica do de- dois procedimentos separados para a leitura
senvolvimento grave e pura (em que “pura” em voz alta – ou seja, duplas rotas da escrita
significa que a leitura de palavras está na faixa à fala. Uma dessas rotas de processamento so-
normal, e “grave” significa que o comprome- mente pode ser utilizada quando o estímulo a
timento da leitura de não palavras era mais ser lido for uma palavra real; ela não consegue
do que leve). Isso suscita a seguinte questão: ler não palavras. A outra rota consegue ler to-

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A CIÊNCIA DA LEITURA 41

das as não palavras e palavras regulares; ainda conseguem. Além disso, os modelos conexio-
existe debate com relação ao nível da sua capa- nistas não conseguem explicar os transtornos
cidade de ler palavras irregulares. do desenvolvimento da leitura, ao passo que
Esses modelos de dupla rota diferem o modelo DRC é compatível com tudo o que
no sentido de se são modelos conexionistas, sabemos atualmente sobre esses transtornos.
como os modelos triangulares, ou modelos Finalmente, nenhum dos modelos conexio-
não conexionistas, como o modelo DRC. nistas consegue explicar todos os fenômenos
Atualmente, os dados favorecem a abordagem dos estudos supracitados para a leitura normal
não conexionista. O modelo DRC faz um (ver a seção “O que o modelo DRC consegue
bom trabalho em simular padrões de dislexia explicar”), mas todos podem ser simulados
adquirida que os modelos conexionistas não pelo modelo DRC.

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