Hock, R.R. (1995) Studies that changed Psychology: Explorations into history of
psychological research. New Jersey: Prentice Hall, Englewood Cliffs.
Você alguma vez se perguntou de onde é que vêm suas reações emocionais? Se sim,
você não está sozinho. A origem das emoções tem fascinado os cientistas do comportamento
ao longo da história da Psicologia. Parte da evidência dessa fascinação pode ser encontrada
aqui, neste livro; há quatro entre os quarenta artigos selecionados, que estão diretamente
relacionados a respostas emocionais (ver Ekman & Frieson, 1971; Harlow, 1958; Seligman &
Meier, 1967; e Wolpe, 1961). O presente estudo de Watson e Raynor sobre respostas
emocionais condicionadas, constituiu uma demonstração de pesquisa bastante poderosa
quando foi publicada, há mais de 70 anos atrás, e continua a exercer influência ainda hoje.
Dificilmente você encontrará um livro-texto sobre Psicologia geral ou sobre aprendizagem e
comportamento que não contenha um resumo dessas descobertas.
A importância histórica desse estudo é devida não apenas aos resultados de pesquisa,
mas também ao novo território psicológico que ele descortinou. Se pudéssemos voltar ao
início do século e ter uma noção do estado da Psicologia naquela época, veríamos que ela
estava quase que completamente dominada pelo trabalho de Sigmund Freud (ver a leitura
sobre A.Freud). A concepção psicanalítica de Freud sobre o comportamento humano se
baseava na idéia de que somos motivados por instintos inconscientes e por conflitos
reprimidos na infância. Em termos Freudianos simplificados, o comportamento, e
especificamente a emoção, é gerada internamente por meio de processos biológicos e
instintivos.
Nos anos 20 começou a tomar corpo um movimento novo na Psicologia, disseminado por
Pavlov e Watson, e conhecido como comportamentalismo (behaviorismo). O ponto de vista
comportamentalista era radicalmente oposto à escola psicanalítica e propunha que o
comportamento é gerado fora da pessoa, por vários estímulos ambientais ou situacionais.
Assim, Watson teorizava, respostas emocionais existem porque somos condicionados a
responder emocionalmente a certos estímulos do ambiente. Em outras palavras, nós
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aprendemos nossas reações emocionais. Watson acreditava, de fato, que todo
comportamento humano era um produto da aprendizagem e do condicionamento, como
afirmou em seu famoso manifesto de 1913:
Dêem-me uma dúzia de crianças sadias, bem formadas, e meu próprio mundo
especial onde eu possa criá-las, e eu garanto tomar qualquer uma delas ao acaso e
treiná-la para se tornar qualquer tipo de especialista que eu possa selecionar -
médico, advogado, artista, comerciante, e, sim, assaltante e ladrão (Watson, 1913).
Esta era, naquela época, uma perspectiva extremamente revolucionária. A maioria dos
psicólogos, assim como a opinião pública em geral, não estava pronta para aceitar essas
novas idéias. Isto era especialmente verdadeiro para reações emocionais que, de alguma
forma, pareciam ser geradas internamente. Por isso, Watson criou as condições para
demonstrar que as emoções poderiam ser experimentalmente condicionadas.
PROPOSIÇÕES TEÓRICAS
MÉTODO E RESULTADOS
O sujeito, Albert B., foi recrutado para esse estudo com a idade de 9 meses, em um
hospital onde ele era criado como órfão desde o nascimento. Os pesquisadores e a equipe do
hospital consideravam-no muito sadio, tanto física quanto emocionalmente. Para verificar se
Albert tinha medo de alguns estímulos, foram apresentados a ele um um rato branco, um
coelho, um macaco, um cachorro, máscaras com e sem cabelos, e um maço de algodão
branco. As reações de Albert a esses estímulos foram cuidadosamente observadas. Ele se
mostrou interessado em vários dos animais e objetos e tentava alcançá-los, e até mesmo
pegá-los, mas nunca demonstrou o mais leve medo por qualquer um deles. Uma vez que não
produziam medo, eles foram considerados "estímulos neutros".
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A fase seguinte do experimento consitiu em determinar se era possível produzir uma
reação de medo em Albert, pela exposição a um ruído intenso. Todas as pessoas, e as
crianças em especial, exibem reações de medo a ruídos súbitos e intensos. Uma vez que não
é necessário aprendizagem para que esta reação ocorra, o ruído intenso é considerado um
"estímulo incondicionado". Nesse estudo, um dos experimentadores bateu com um martelo
sobre uma barra de aço de aproximadamente um metro de comprimento, localizada atrás de
Albert. Esse ruído o assustou e amedrontou, e o fez chorar.
Agora o cenário estava pronto para testar a idéia de que a emoção de medo podia ser
condicionada em Albert. O verdadeiro teste de condicionamento não foi feito até que a criança
estivesse com 11 meses de idade. Os experimentadores hesitaram em criar
experimentalmente reações de medo na criança, mas finalmente decidiram ir em frente (com
base no raciocínio que será discutido em conjunto com outras questões éticas envolvidas
nesse estudo, no final deste capítulo).
Quando o experimento teve início, os pesquisadores apresentaram a Albert
simultaneamente o ruído forte e o rato branco. De início, Albert estava interessado no rato e
tentava pegá-lo. Quando ele fazia isso, a barra de aço era malhada, o que assustava e
amendrontava Albert. Esse processo foi repetido três vezes. Uma semana mais tarde, o
mesmo procedimento foi realizado. Depois de um total de sete pareamentos entre o ruído e o
rato, o rato foi apresentado sozinho para Albert, sem o ruído. Como você já deve ter
advinhado, Albert reagiu com extremo medo do rato. Ele começou a chorar, virou-se para o
lado oposto, rolou sobre seu corpo e começou a engatinhar para longe do rato tão depressa
que os experimentadores tiveram que correr para segurá-lo, antes que ele caisse da ponta de
mesa! A resposta de medo tinha sido condicionada a um objeto que não havia produzido
medo há menos de uma semana atrás.
Os pesquisadores queriam determinar, então, se o medo aprendido se transferiria para
outros objetos. Em termos psicológicos, essa transferência é referida como "generalização".
Se Albert mostrasse medo de outros objetos semelhantes, então seria possível dizer que o
comportamento aprendido havia se generalizado. Na semana seguinte Albert foi novamente
submetido ao teste e, novamente, mostrou medo do rato. Então, para fazer o teste de
generalização, foi apresentado a ele um objeto semelhante ao rato (um coelho branco). Nas
próprias palavras dos autores: "Respostas negativas ocorreram imediatamente. Ele se afastou
do animal o máximo que pode, choramingou e então caiu em lágrimas. Quando o coelho foi
colocado em contato com ele, ele enterrou o rosto no colchão , então se colocou de quatro e
engatinhou para longe, chorando." (p.6). Lembre-se, Albert não mostrara medo do coelho
antes do condicionamento e, também, que ele não foi condicionado a ter medo do coelho
especificamente.
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Ao longo daquele mesmo dia foram apresentados ao pequeno Albert um cachorro, um
casaco branco de peles, um pacote de algodão, e a cabeça do próprio Watson, com seus
cabelos brancos. Ele reagiu com medo a todos esses itens. Um dos testes de generalização
mais conhecidos e que deu a essa pesquisa famosa uma má fama, ocorreu quando Watson
apresentou a Albert uma máscara de Papai Noel. A reação? Sim… medo!
Cinco dias depois Albert foi novamente submetido aos testes. A sequência de
apresentações nesse dia está resumida na Tabela 1.
Um outro aspecto das reações emocionais condicionadas que Watson queria explorar era
se a emoção aprendida seria transferida de uma situação para outra. Se as respostas de
medo de Albert a esses vários animais e objetos ocorressem apenas na situação experimental
e em nehuma outra, o significado das descobertas seria enormemente reduzido. Para testar
esse aspecto, mais tarde, naquele mesmo dia em que foram realizados os testes resumidos na
Tabela 1, Albert foi levado para uma sala completamente diferente, mais iluminada e com mais
pessoas presentes. Nessa nova situação, as reações de Albert ao rato e ao coelho foram,
ainda, claramente de medo, embora um pouco menos intensas.
O teste final que Watson e Raynor queriam realizar consistia em verificar se as respostas
emocionais recém-aprendidas por Albert persistiriam ao longo do tempo. Mas Albert tinha sido
adotado e deveria deixar o hospital em pouco tempo. Assim, todos os testes foram
interrompidos por um período de 31 dias. No final desse período, foram novamente
apresentados a ele a máscara de Papai Noel, o casaco de peles branco, o rato, o coelho e o
cachorro. Depois de um mês, Albert ainda se mostrava amedrontado com todos esses
objetos.
Watson e seus colaboradores tinham planejado tentar "recondicionar" o pequeno Albert e
eliminar todas essas reações de medo. No entanto, ele deixou o hospital no dia em que os
últimos testes foram feitos e, tanto quanto se sabe, nenhum recondicionamento chegou a ser
feito.
Watson tinha dois objetivos fundamentais neste estudo e em todo o seu trabalho: (a)
demonstrar que todo comportamento humano se origina da aprendizagem e do
condicionamento; e (b) demonstrar que a concepção freudiana de Psicologia, de que todo o
nosso comportamento se origina em processos inconscientes, estava equivocada. Este
estudo, com todas as suas fraquezas metodológicas e com os sérios problemas de conduta
ética (discutidos na seção seguinte) foi, em larga extensão, bem sucedido em convencer uma
ampla parcela da comunidade psicológica de que o comportamento emocional poderia ser
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condicionado através de técnicas simples de estímulo e resposta. Essa descoberta, por sua
vez, ajudou a alicerçar uma das principais escolas de pensamento na Psicologia: o
behaviorismo. Aqui, algo tão complexo, pessoal e humano como uma emoção havia se
mostrado sujeito ao condicionamento, do mesmo modo que um rato, em um labirinto, aprende
a encontrar o alimento cada vez mais rápido, ao longo de sucessivas tentativas.
Uma extensão lógica dessa descoberta é que outras emoções como raiva, alegria,
tristeza, surpresa e nojo podem ser aprendidas da mesma maneira. Em outras palavras, a
razão pela qual você fica triste quando ouve aquela música antiga, fica nervoso (a) quando tem
uma entrevista para obter um emprego (ou uma bolsa), fica feliz quando chega a primavera, ou
com medo quando ouve o motor do dentista, é que em seu cérebro se desenvolveu, por
condicionamento, uma associação entre esses estímulos e emoções específicas. Outras
respostas emocionais mais extremas, como fobias e fetichismo sexual, também podem se
desenvolver através de sequências semelhantes de condicionamento. Esses processos são
da mesma natureza dos que Watson encontrou com o pequeno Albert, embora geralmente
mais complexos.
Watson foi muito apressado em afirmar que suas descobertas poderiam explicar o
comportamento humano em termos muito simples e diretos, em comparação com as noções
psicanalíticas de Freud e seus seguidores. Como Watson e Raynor explicaram em seu artigo,
um freudiano explicaria o chupar o dedo como uma expressão do instinto original de busca do
prazer. Albert, no entanto, chupava o dedo sempre que estava com medo. Assim que
colocava o dedo na boca, ele parava de ficar com medo. Assim, Watson interpretou o chupar
o dedo como um recurso condicionado para bloquear estímulos eliciadores de medo.
Um outro ataque ao pensamento freudiano, feito neste artigo, dizia respeito a como os
freudianos analisariam no futuro, se tivessem oportunidade, o medo de Albert pelo casaco de
peles. Watson e Raynor disseram que eles "provavelmente conseguirão dele a descrição de
um sonho que, pela sua análise, mostrará que o pequeno Albert, aos três anos de idade,
tentara brincar com os pelos pubianos de sua mãe, e fora violentamente repreendido por ela".
O principal argumento dos autores era que eles haviam demonstrado com Albert que distúrbios
emocionais na vida adulta não podem sempre ser atribuídos a traumas sexuais na infância,
como a concepção freudiana comumente interpretava.
QUESTÕES E CRÍTICAS
À medida que leu este texto, é possível que você tenha ficado preocupado(a) ou mesmo
com raiva do tratamento que os experimentadores impingiram a essa criança inocente. Esse
estudo viola claramente os padrões atuais de conduta ética na pesquisa com humanos. Seria
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altamente improvável que qualquer Comitê de Pesquisa com Sujeitos Humanos, em qualquer
instituição de pesquisa, aprovasse esse estudo atualmente. Setenta anos atrás, porém, tais
padrões éticos não existiam formalmente, e não é incomum encontrar relatos na literatura
psicológica daquela época, de procedimentos de pesquisa que agora nos parecem muito
questionáveis. Deve ser destacado que Watson e seus colaboradores não eram pessoas
sádicas ou cruéis e que estavam envolvidos em uma área de pesquisa nova e inexplorada.
Eles de fato mostraram uma considerável hesitação sobre prosseguir ou não com o processo
de condicionamento, mas decidiram que isto era justificável uma vez que, na opinião deles,
alguns dos medos se instalariam de qualquer modo quando Albert deixasse o ambiente
protegido do hospital. Mas mesmo assim, seria apropriado amedrontar tanto uma criança,
qualquer que fosse a importância potencial da descoberta? Nos dias de hoje qualquer cientista
do comportamento concordaria que não.
Um outro aspecto ético importante neste estudo foi o fato de que Albert tivesse tido
permissão de sair do hospital sem nunca ter sido "recondicionado", no sentido de que seus
medos fossem removidos. Watson e Raynor argumentam, em seu artigo, que tal
condicionamento emocional pode persistir ao longo de toda a vida de uma pessoa. Se eles
estivessem corretos a respeito desse ponto, é extremamente difícil, de uma perspectiva ética,
justificar que se permita que alguém cresça até a idade adulta com medo desse tipo de objetos
(e quem sabe, de quantos outros!).
Vários pesquisadores também têm questionado essa suposião de Watson e Raynor de
que estes medos condicionados pudessem persistir indefinidamente (Harris, 1979). Outros
argumentam que Albert não foi tão efetivamente condicionado como afirmam os autores
(Samelson, 1980). Tem sido frequentemente demonstrado que comportamentos adquiridos
através de condicionamento podem ser perdidos devido a outras experiências, ou
simplesmente devido à passagem do tempo. Imagine, por exemplo, que quando fêz cinco anos
Albert tenha ganho um coelhinho branco de presente de aniversário. De início, ele pode ter
ficado com medo dele (o que sem dúvida causaria estranheza a seus pais adotivos). Mas à
medida que ele continuou a ser exposto ao coelho, sem que qualquer coisa assustadora
ocorresse (tal como o ruído intenso), é muito provável que ele fosse gradualmente ficando com
menos medo, até que o coelho não produzisse mais respostas de medo. Esse é um processo
muito bem estabelecido na Psicologia da aprendizagem, denominado "extinção" e que ocorre
rotineiramente, como parte dos constantes processos de aprender e desaprender e de
condicionar e descondicionar, que experienciamos ao longo de nossas vidas.
APLICAÇÕES RECENTES
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Como mencionado inicialmente nesta discussão, uma emoção, o medo, em sua forma
extrema, pode produzir conseqüências psicológicas negativas sérias, conhecidas como fobias.
Muitos cientistas do comportamento acreditam que as fobias são condicionadas da mesma
forma que o medo do pequeno Albert de animais de pelo (ver a discussão da pesquisa de
Wolpe sobre o tratamento de fobias mais a frente neste livro). A pesquisa de Watson continua
a ser citada em novos estudos sobre a formação e o tratamento de várias fobias simples,
complexas e mesmo incomuns.
Um estudo recente e facinante, que envolve o artigo inicial de Watson, examinou o papel
da Biologia e da predisposição genética no desenvolvimento de vários tipos de fobias em
mulheres (Kendler e col., 1992). Outro estudo que cita a pesquisa de Watson descreveu o
tratamento de um garoto de 9 anos de idade que tinha uma fobia de jornais (Goldberg &
Weisenberg, 1992). E, finalmente, há um artigo que oferece um novo suporte para as idéias de
Watson em um contexto contemporâneo de Psicologia (Davey, 1992), para ilustrar como os
psicólogos que continuam a desvendar os mistérios das emoções ainda confiam neste
revolucionário estudo de 75 anos de idade.
Davey, G. (1992) Classical conditioning and the acquisition of human fears and phobias: A
review and synthesis of the literature. Advances in Behaviour Research and Therapy, 14,
29-66.
Goldberg, J., & Weisenberg, M. (1992) The case of a newspaper phobia in a 9-years-old child.
Journal of behavior therapy and experimental psychiatry, 23, 125-131.
Harris, B. (1979). What ever happened to little Albert? American Psychologist, 34, 151-160.
Kendler, K., Neale, M., Kessler, R., Heath, A., & Eaves, L. (1992) The genetic epidemiology of
phobias in women: The interrelationship of agoraphobia, social phobia, situational phobia,
and a simple phobia. Archives of General Psychology, 49, 273-281.
Samelson, F. (1980). Watson's Little Albert, Cyril Burt's twins, and the need for a critical
science. American Psychologist, 35, 619-625.
Watson, J.B. (1913). Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, 20, 158-
177.
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