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Como funciona a lavagem de dinheiro

Autor:
Julia Layton

http://empresasefinancas.hsw.uol.com.br/lavagem-de-dinheiro.htm

Em outubro de 2005, o deputado americano Tom DeLay foi acusado de


lavagem de dinheiro, o que o obrigou a renunciar ao cargo de presidente da
câmara. Lavagem de dinheiro é uma acusação séria. Em 2001, promotores
americanos conseguiram quase 900 condenações, com sentenças, em média,
de 6 anos de prisão. No Brasil, somente em 2005, a Polícia Federal abriu 919
inquéritos policiais contra suspeitos de lavagem de dinheiro. O crescimento dos
mercados financeiros mundiais torna a lavagem de dinheiro mais fácil do que
nunca, países com leis de sigilo bancário são diretamente ligados a países
cujas leis obrigam a declaração, tornando possível depositar dinheiro "sujo"
anonimamente em um país e então transferi-lo para ser usado em outro país.

A lavagem de dinheiro acontece em praticamente todos os países do mundo e


um esquema simples geralmente envolve transferir dinheiro entre vários países
para esconder sua origem. Neste artigo, aprenderemos o que exatamente é a
lavagem de dinheiro e porque é necessária, quem lava dinheiro e como o
fazem, e quais medidas as autoridades estão tomando para tentar prevenir
operações desta natureza.

Tom DeLay
Em outubro de 2005, um município do Texas acusou o deputado Tom
DeLay de lavagem de dinheiro e de conspiração para violar leis eleitorais.
A acusação de conspiração foi arquivada mais tarde, e desde maio de
2006 o caso aguarda a data para o julgamento. No Texas, candidatos a
deputado não podem receber doações de empresas para a campanha,
proposta que tem sido discutido pelo Congresso Nacional no Brasil. A
promotoria alega que DeLay participou de um suposto esquema para
violar esta lei e esconder as origens corporativas do dinheiro que acabou
nas mãos de candidatos republicanos no Texas. O suposto esquema de
lavagem envolvia o envio de doações de empresas do Texas para a sede
do Comitê Nacional Republicano em Washington, que mandava o
dinheiro de volta para o Texas para ser usado na campanha. Dois
assessores de DeLay e seu principal contribuinte de campanha já
confessaram serem culpados em dois inquéritos separados para crimes
de conspiração; de fraude fiscal, de correspondência, de transferência
bancária e de corrupção de funcionários públicos.

Princípios básicos da lavagem de dinheiro

Lavagem de dinheiro, em termos simples, é o ato de fazer o dinheiro que sai da


"Origem A" parecer que vem da "Origem B". Na prática, criminosos estão
tentando camuflar a origem do dinheiro proveniente de atividades ilegais para
que pareça que foi obtido de fontes legais. Do contrário, não podem usar o
dinheiro porque ele seria vinculado a atividades criminais e a polícia iria
bloqueá-lo.
Os criminosos que mais precisam lavar dinheiro são traficantes de drogas,
estelionatários, políticos corruptos, funcionários públicos, membros de
quadrilhas, terroristas e golpistas. Traficantes de drogas precisam de bons
sistemas de lavagem porque lidam quase que exclusivamente com dinheiro
vivo, o que causa todo tipo de problemas logísticos. O dinheiro vivo não só
chama a atenção da polícia, como também é pesado. Um milhão de dólares
em cocaína pesa cerca de 20kg, enquanto um milhão de dólares em notas
pesa cerca de 110kg.
O processo básico de lavagem de dinheiro tem três etapas:

1. Colocação - nesta etapa, o criminoso coloca o dinheiro sujo em uma instituição


financeira legítima. Isto geralmente acontece na forma de
depósitos bancários em dinheiro. É a etapa mais arriscada do processo de
lavagem porque grandes quantias de dinheiro chamam muito a atenção, e os
bancos são obrigados a declarar transações de valor alto. Assim, muitos fazem
pequenos depósitos para despistar.

2. Ocultação - é o envio do dinheiro através de várias transações financeiras


para mudar seu formato e dificultar o rastreamento. A ocultação pode ser feita
através de várias transferências de um banco para outro; transferências
eletrônicas entre várias contas de pessoas diferentes em países diversos;
realização de depósitos e saques a fim de alterar os saldos das contas;
mudança de moeda e compra de artigos caros (barcos, casas,
carros, diamantes) para mudar a forma do dinheiro. É a fase mais complexa
do esquema de lavagem, e seu objetivo é dificultar ao máximo o rastreamento
da origem do dinheiro sujo.

3. Integração - nesta fase, o dinheiro é reincorporado ao sistema econômico de


forma legítima - parece que é proveniente de uma transação legal. Isto pode
ser feito através de uma transferência bancária para a conta de uma empresa
local na qual o criminoso "investe" em troca de participação nos lucros; da
venda de um iate comprado durante a fase de ocultação; ou da compra de uma
chave de fenda de US$ 10 milhões de uma empresa da qual o criminoso seja
proprietário. Neste estágio, o criminoso pode usar o dinheiro sem ser pego em
flagrante. É muito difícil pegar um criminoso durante a fase de integração se
não houver documentação durante as fases anteriores.
A lavagem de dinheiro é um passo crucial no sucesso de atividades terroristas
e de tráfico de drogas, para não falar em crimes de colarinho branco, e há
várias organizações tentando lidar com o problema. Nos Estados Unidos, o
Departamento de Justiça, o Departamento de Estado, o FBI, a Receita Federal
e a Agência de Combate às Drogas (DEA) têm divisões de investigação de
lavagem de dinheiro e das estruturas financeiras que sustentam esta prática.
No Brasil, o Ministério da Justiça cordena o Departamento de Recuperação de
Ativos e Cooperação Jurídica Internacional reúne cerca de 50 órgãos federais,
estaduais e municipais para alinhavar uma política comum de combate ao
tráfico. Além disso, o Brasil tem acordos bilaterais com vários países entre eles,
Estados Unidos, Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia, França, Itália, Peru,
Coréia do Sul e Portugal.

Como os sistemas financeiros globais têm um papel importante na maioria dos


altos esquemas de lavagem, a comunidade internacional está combatendo a
lavagem de dinheiro de várias maneiras, como a Força-Tarefa de Ação
Financeira para Lavagem de Dinheiro (FATF), que em 2005 tinha 33 membros
incluindo estados e organizações. AsNações Unidas, o Banco Mundial e o
Fundo Monetário Internacional também têm divisões contra lavagem de
dinheiro.

Métodos de lavagem de dinheiro

Em 1996, o economista Franklin Jurado, formado em Harvard, foi preso por


"limpar" US$ 36 milhões (cerca de R$ 86 milhões) para o traficante colombiano
Jose Santacruz-Londono. Pessoas com uma quantia muito grande de dinheiro
sujo contratam profissionais para cuidar do processo de lavagem. É um
processo complexo por necessidade: a idéia é tornar impossível para as
autoridades o rastreamento do dinheiro sujo durante a limpeza.
Há várias técnicas de lavagem de dinheiro que as autoridades conhecem e
provavelmente outras tantas que são desconhecidas. Aqui vão as mais
populares:
 mercado negro de câmbio colombiano

Este sistema, que a DEA chama de "o maior mecanismo de lavagem de


dinheiro de drogas do hemisfério oeste" [ref - em inglês], surgiu nos anos 90.
Um oficial colombiano se reuniu com o Departamento do Tesouro americano
para discutir o problema dos produtos americanos que estavam sendo
importados ilegalmente para a Colômbia usando o mercado negro. Quando
pensaram na questão considerando o problema de lavagem de dinheiro de
drogas, os oficiais americanos e colombianos analisaram os fatos e
descobriram que o mesmo mecanismo servia aos dois propósitos.
Este complexo arranjo conta com o fato de que há empresários na Colômbia -
geralmente importadores de produtos internacionais - que precisam de dólares
para conduzir seus negócios. Para burlar os impostos do governo americano
para a conversão de pesos para dólares e as tarifas de importação, estes
empresários podem recorrer aos corretores de pesos do mercado negro que
cobram uma pequena taxa para conduzir a transação sem a intervenção do
governo.
Este é o lado da importação ilegal do esquema. Na lavagem de dinheiro
acontece assim: um traficante de drogas entrega dólares sujos para um
corretor de pesos na Colômbia. O corretor então usa dólares de drogas para
comprar produtos nos Estados Unidos para importadores colombianos. Quando
os importadores recebem os produtos (sem passar pelo radar do governo) e os
vendem em pesos na Colômbia, pagam o corretor usando os rendimentos. O
corretor então devolve ao traficante o equivalente ao original em pesos
(descontada a comissão), os dólares sujos do início do processo.
 depósitos estruturados

Também conhecido como smurfing, este método consiste na quebra de


grandes quantias de dinheiro em quantias menores e menos suspeitas. Nos
Estados Unidos, esta quantia menor tem de ser de, no máximo, US$10 mil, a
partir da qual os bancos americanos devem declarar a transação ao governo.
No Brasil, o valor é de R$ 5 mil por depósito. O dinheiro é então depositado em
uma ou mais contas bancárias por várias pessoas (smurfs) ou por uma única
pessoa durante um determinado período.

 bancos internacionais

Lavadores de dinheiro geralmente enviam valores através de várias "contas


offshore" em países protegidos pela lei de sigilo bancário, o que significa que
não importa qual o propósito, eles permitem movimentação bancária anônima.
Um esquema complexo pode envolver centenas de transferências bancárias de
e para bancos estrangeiros. De acordo com o FMI, os paraísos fiscais incluem
as Bahamas, Bahrain, as Ilhas Cayman, Hong Kong, Antilhas, Panamá e
Singapura.

 sistema bancário alternativo

Alguns países da Ásia têm sistemas bancários alternativos legais e bem


estabelecidos que permitem depósitos, saques e transferências sem
documentação. São sistemas baseados na confiança, geralmente com raízes
na antiguidade, que não deixam rastro em papel e operam fora do controle do
governo. É o caso do sistema hawala no Paquistão e na Índia, e do fie chen na
China.

 empresas de fachada

São empresas falsas que existem somente para lavar dinheiro. Elas recebem
dinheiro sujo como pagamento por supostos bens e serviços que nunca
existiram na prática; simplesmente criam a aparência de transações legítimas
através de notas fiscais e balanços falsos. Muito comum no Brasil em casos de
financiamentos públicos desviados como no milhões de reais desviados da
Superintendência da Amazônia (Sudam) descobertas entre 2000 e 2002.

 investimento em empresas legítimas

Os criminosos às vezes colocam dinheiro sujo em empresas legítimas para


limpá-lo. Eles podem usar empresas grandes, como corretoras de valores ou
cassinos que manipulam tanto dinheiro fazendo o dinheiro sujo se perder no
meio, ou usam negócios menores, que usam bastante dinheiro vivo, como
bares, lava-rápidos, casas noturnas ou lojas. Estas empresas são as
"empresas de frente" que fornecem bens e serviços de verdade, mas cujo real
propósito é limpar o dinheiro do criminoso. Este método geralmente funciona
de dois modos: o criminoso consegue mesclar seu dinheiro sujo com receita
limpa da empresa - neste caso, a empresa declara receitas maiores do que as
reais para seu negócio lícito; ou o lavador de dinheiro pode simplesmente
esconder o dinheiro sujo nas contas legítimas da empresa na esperança de
que as autoridades não vão comparar os extratos bancários com os relatórios
financeiros da empresa.

 compra de bilhetes sorteados

No Brasil, um tipo de lavagem de dinheiro diferente é a compra de bilhetes


sorteados da loteria. Com a ajuda de funcionários da Caixa Econômica Federal
(CEF), banco responsável pelo pagamento dos prêmios, os golpistas
conseguem limpar o dinheiro dizendo que ganharam na loteria. Nesse caso, o
funcionário paga o valor do bilhete para o verdadeiro ganhador, mas na hora de
registrar o vencedor registra no nome do criminoso.
A maioria dos esquemas de lavagem de dinheiro envolve a combinação desses
métodos, apesar de o mercado negro de câmbio colombiano ser um sistema de
balcão único quando alguém contrabandeia o dinheiro até o corretor. A
variedade de ferramentas disponíveis para os lavadores de dinheiro torna difícil
coibir esta prática, mas as autoridades pegam alguns bandidos de vez em
quando para chegar até o esquema. No próximo capítulo, falaremos sobre
duas operações de lavagem de dinheiro descobertas pela polícia nos Estados
Unidos.

Lavagem de colarinho branco: Eddie Antar

Nos anos 80, Eddie Antar, dono da Crazy Eddie's Electronics, encobriu milhões
de dólares da empresa para escondê-los da Receita Federal. Este era o plano
original, mas ele e seus comparsas resolveram que podiam fazer melhor uso
do dinheiro se o devolvessem para a empresa disfarçado de receita. Assim, os
ativos declarados da empresa seriam inflados durante o processo de
preparação para a abertura de capital. Em uma série de viagens a Israel,
Antar carregou milhões de dólares presos ao corpo e dentro da sua pasta. Aqui
vai uma breve descrição de como funcionava o esquema:

Colocação: Antar fez uma série de depósitos separados em um banco em


Israel. Em uma viagem, chegou a fazer 12 depósitos em um único dia.
Camuflagem: antes que as autoridades americanas ou israelenses notassem o
saldo subitamente gigantesco na conta, Antar solicitou que o banco israelense
transferisse tudo para o Panamá, onde há leis de sigilo bancário vigentes. A
partir daquela conta, Antar conseguia fazer transferências anônimas para
várias contas estrangeiras.
Integração: Antar então transferia aos poucos o dinheiro dessas contas para a
conta legítima da Crazy Eddie's Electronics, onde o dinheiro se misturava aos
dólares legítimos e era documentado como receita.
No final, Crazy Eddie lavou mais de US$ 8 milhões (cerca de R$ 19 milhões).
Seu esquema aumentou o valor inicial das ações na oferta primária e a
empresa acabou valendo US$ 40 milhões (R$ 96 milhões) a mais do que
valeria sem o esquema de adição de receita. Antar vendeu suas ações e saiu
com lucro de US$ 30 milhões (R$ 72 milhões). As autoridades o encontraram
em Israel em 1992, foi extraditado para os Estados Unidos para ser julgado
e foi condenado a 8 anos de prisão.

Lavagem de dinheiro de drogas: Franklin Jurado

No final dos anos 80 e início dos anos 90, o economista Franklin Jurado,
formado em Harvard, coordenou uma operação para lavar dinheiro para o
traficante colombiano Jose Santacruz-Londono. O esquema dele era bem
complexo. Em termos simples, a operação funcionou mais ou menos assim:
Colocação: Jurado depositou dinheiro de venda de drogas nos Estados Unidos
em contas no Panamá.
Camuflagem: ele então transferiu o dinheiro do Panamá para mais de 100
contas em 68 bancos distribuídos em países na Europa, sempre em transações
menores do que US$ 10 mil (R$ 24 mil) para não levantar suspeita. As contas
estavam no nome de fantasmas e das amantes e membros da família de
Santacruz-Londono. Jurado então abriu empresas de fachada na Europa para
documentar o dinheiro como receita lícita.
Integração: o plano era enviar o dinheiro para a Colômbia, onde Santacruz-
Londono usaria para financiar seus vários negócios lícitos. Mas Jurado foi
pego.
No total, Jurado lavou US$ 36 milhões (cerca de R$ 86 milhões) em dinheiro de
drogas através de instituições financeiras legítimas. O esquema de Jurado foi
descoberto quando um banco de Mônaco quebrou, e, em seguida, uma
auditoria revelou várias contas que quando rastreadas levavam a Jurado. Ao
mesmo tempo, o vizinho de Jurado em Luxemburgo prestou uma queixa de
barulho, pois Jurado tinha uma máquina de contar dinheiro que funcionava a
noite toda. As autoridades locais investigaram, e a corte de Luxemburgo por fim
declarou-o culpado de lavagem de dinheiro. Quando terminou de cumprir pena
em Luxemburgo, uma corte dos Estados Unidos também o declarou culpado e
ele foi condenado a 7 anos e meio de prisão.
Quando as autoridades conseguem interromper um esquema de lavagem, a
recompensa é enorme, levando a prisões, apreensão de dinheiro e
propriedades sujos, e às vezes ao desmantelamento de uma quadrilha. No
entanto, a maioria dos esquemas de lavagem de dinheiro passa despercebida
e grandes operações causam sérios danos à saúde econômica e social.

A moeda da vez
Há décadas, o dólar americano é a moeda mais usada entre os lavadores
de dinheiro. Sua popularidade é devido a sua grande aceitação e ao
volume de transações globais que usam esta moeda - alguns milhões de
dólares mudando de mãos não chamam a atenção. Porém, o euro tem
ganhado espaço na indústria da lavagem de dinheiro desde que começou
a ser usado, em 2002. No que se refere à lavagem de dinheiro, o euro
poderia ser a moeda perfeita: é a moeda oficial de mais de uma dúzia de
países, o que significa que circula em grande volume e cruza fronteiras
regularmente sem aviso algum.

Os efeitos da lavagem de dinheiro

Dependendo a qual agência internacional que você pergunte, vai saber que os
criminosos lavam cerca de US$ 500 bilhões a US$1 trilhão (cerca de R$1
bilhão a R$ 2,15 trilhões) no mundo todo por ano. O efeito global é
desequilíbrio em termos sociais, econômicos e de segurança.
No âmbito sócio-cultural, obter sucesso na lavagem de dinheiro significa que a
atividade criminosa compensa e isso acaba encorajando criminosos a manter
seus esquemas ilícitos, pois eles podem gastar seus lucros sem repercussão
nenhuma. Isto significa mais fraudes e mais administração fraudulenta (ou seja,
mais trabalhadores perdendo suas pensões quando a empresa quebra), mais
drogas nas ruas, mais crime relacionado a drogas, esgotamento dos recursos
para a polícia e um desânimo geral por parte de empresários que não violam a
lei e cujas empresas não chegam nem perto dos lucros dos criminosos.
Os danos econômicos acontecem em uma escala mais ampla. Países em
desenvolvimento geralmente têm muitos problemas com a lavagem de dinheiro
moderna porque os governos ainda estão no processo de estabelecer regras
para seus recentes setores financeiros privatizados. Isto faz com que se tornem
alvos perfeitos. Na década de 90, vários bancos nos estados bálticos em
desenvolvimento acabaram recebendo gigantescos depósitos de dinheiro
sujo, fato que foi muito comentado. Clientes dos bancos sacaram seu dinheiro
limpo com medo de perdê-lo caso os bancos fossem investigados e perdessem
o seguro. Os bancos quebraram. Outros problemas que as economias
mundiais têm de enfrentar incluem erros na política econômica resultantes de
setores financeiros artificialmente inflacionados. Grandes fluxos de dinheiro
sujo que entram em determinados setores da economia, favoráveis para os
lavadores de dinheiro, criam falsa demanda e o governo age nessa nova
demanda ajustando a política econômica. Quando o processo de lavagem
atinge um certo ponto, ou quando a polícia começa a mostrar interesse, o
dinheiro some de repente sem nenhuma causa econômica previsível, e aquele
setor quebra.

Alguns problemas, em uma escala mais local, referem-se à taxação e


competição entre pequenas empresas. Dinheiro lavado geralmente não paga
imposto, ou seja, no final todos nós temos que compensar a perda em receita
fiscal. Além disso, pequenas empresas legítimas não conseguem competir com
negócios baseados em lavagem de dinheiro, que podem bancar a venda de
produtos por um preço bem mais barato porque seu principal objetivo é lavar
dinheiro e não obter lucro. Eles têm uma entrada tão grande de dinheiro que
podem até mesmo vender um produto ou serviço abaixo do preço de custo.
Além dessas conseqüências a lavagem de dinheiro desviado de órgãos
públicos cria a óbvia queda dos investimentos estatais em projetos relevantes
para a economia de um país como projetos sociais, educacionais, criação de
infraestrutura adeqüada, aparelhamento de órgaõs públicos.
A maioria das investigações globais concentra-se em duas principais indústrias
de lavagem de dinheiro: tráfico de drogas e as organizações terroristas. O
resultado da lavagem de dinheiro é simples: mais drogas, criminalidade e
violência. A conexão entre lavagem de dinheiro e terrorismo pode ser um
pouco complexa, mas ela tem papel fundamental na sustentabilidade das
organizações terroristas. A maioria das pessoas que financiam organizações
terroristas não assina cheques e simplesmente os entrega para um membro do
grupo terrorista. Eles enviam o dinheiro por caminhos complexos, permitindo o
patrocínio do terrorismo e permanecendo anônimos. E, por outro lado, os
terroristas não usam cartões de crédito nem cheques para comprar armas,
passagens de avião e a ajuda de civis necessárias para conduzir o plano. Eles
lavam o dinheiro para que as autoridades não consigam rastreá-lo de volta até
eles e coibir seu ataque planejado. Interromper o processo de lavagem pode
brecar o financiamento a grupos terroristas.

Então a próxima pergunta é: o que as autoridades estão fazendo para prevenir


a lavagem de dinheiro?
Brecando o fluxo
de dinheiro lavado

O combate à lavagem de dinheiro


É uma tarefa intimidante rastrear a origem de qualquer depósito quando cerca
de 700 mil transferências eletrônicas são feitas no mundo, todos os dias [ref -
em inglês]. Qual dinheiro é sujo e qual é limpo? Nos Estados Unidos há 2
métodos principais usados pelo governo para detectar e combater a
lavagem: lei e polícia.
Os Estados Unidos tratam do crime da lavagem de dinheiro em inúmeras leis.
Algumas delas são:
Lei de sigilo bancário (1970) - basicamente elimina a movimentação bancária
anônima nos Estados Unidos. Ela autoriza o Departamento do Tesouro a forçar
os bancos a manter registros que tornam mais fácil localizar uma operação de
lavagem. Isto inclui a declaração de todas as transações únicas acima de
US$10 mil (R$ 4 mil) e múltiplas transações totalizando mais de US$10 mil de
ou para uma única conta no mesmo dia. O banqueiro que violar esta regra
sistematicamente pode passar 10 anos na prisão.
Lei de controle da lavagem de dinheiro de 1986 - transforma a lavagem de
dinheiro em um crime por si só ao invés de apenas um elemento de outro
crime.
Lei de supressão da lavagem de dinheiro de 1994 - obriga os bancos a
estabelecerem suas próprias forças-tarefa para se livrarem de atividades
suspeitas em suas instituições. A US Patriot Act de 2001 estabelece a
obrigatoriedade de cheques identificados para os clientes de bancos
americanos e fornece recursos para o rastreamento de transações nos
sistemas bancários alternativos freqüentados por agentes financeiros
terroristas. Para uma lista mais completa das leis americanas de combate à
lavagem de dinheiro, confira FDIC: lei do sigilo bancário e o combate à
lavagem de dinheiro (site em inglês).
No Brasil
O Brasil a lei Lei Federal 9.613/98, de março de 1998, regulamenta as
punições para o crime de lavagem de dinheiro, cuja a pena é de três a
dez anos de prisão, mais multa. O Departamento de Recuperação de
Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), vinculada à Secretaria
Nacional de Justiça (SNJ), do Ministério da Justiça, coordena ações
integradas de mais de 50 órgãos federais, estaduais e municipais, além
de fechar parcerias internacionais.

Além das leis cujo propósito é detectar operações de lavagem de dinheiro,


infiltrar agentes disfarçados também faz parte do combate. A Operação
Juno da DEA, que terminou em 1999, é um bom exemplo. A DEA conduziu
uma operação de infiltração de agentes que forneceu recursos para traficantes
de drogas lavarem dinheiro. Os agentes disfarçados da DEA fecharam
negócios com traficantes para transformar dólares de drogas em pesos
colombianos usando o mercado negro de câmbio colombiano. A operação
terminou em 40 prisões e a apreensão de US$10 milhões (R$ 24 milhões) em
dinheiro do tráfico e de 3.600 quilos de cocaína.
Apesar destas vitórias, a verdade é que nenhum país sequer tem o poder de
pôr fim à lavagem de dinheiro - se um país é hostil à lavagem, os criminosos
simplesmente procuram outro lugar. A cooperação global é essencial. A
organização internacional mais proeminente neste aspecto é provavelmente a
Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF), que tinha 33 estados-membros e
organizações internacionais registradas em 2005, inclusive o Brasil. A FATF
publicou as "40 recomendações para bancos" (atualmente há 49, mas o título
continuou o mesmo) que acabaram se tornando padrões de combate à
lavagem de dinheiro. As recomendações incluem:
 identificar os depositantes e fazer um levantamento do histórico deles
 declarar qualquer atividade suspeita, como por exemplo, se o histórico mostrou
que o depositante trabalha em uma siderúrgica e deposita US$ 2 mil (R$ 4.800)
a cada 15 dias, uma série de 10 depósitos de US$ 9 mil no período de 2
semanas deveria acender a luz vermelha
 criar uma força-tarefa interna para identificar pistas de lavagem
As "recomendações" são, na verdade, mais regras do que dicas. A FATF
mantém uma lista de "países que não cooperam" ou que não colocaram as
recomendações em prática. A FATF estimula seus membros a não tratarem de
assuntos financeiros com estes países.
Outras organizações mundiais que combatem a lavagem de dinheiro são
as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, e
grupos menores, como a FATF do Caribe e o Grupo de Lavagem de Dinheiro
para Ásia/Pacífico.
Enquanto os esforços mundiais estão aos poucos fazendo a diferença na
indústria da lavagem de dinheiro, o problema é gigantesco e os lavadores de
dinheiro estão ganhando muito. Países com leis de sigilo bancário, que
indiscutivelmente fornecem benefícios legítimos ao depositante honesto,
tornam o rastreamento do dinheiro extremamente difícil quando ele é
transferido para o exterior. Ainda assim, a lista da FATF dos países que não
cooperam caiu de 15 países, em 2000, para 2 (Myanmar e Nigéria), em 2005.
De acordo com os padrões, este é um importante sinal de progresso. Somente
o aumento da consciência e da cooperação globais é capaz de impedir o
sucesso da indústria da lavagem de dinheiro.
Para mais informações sobre lavagem de dinheiro e tópicos relacionados,
confira os links na próxima página.

Entre os anos de 1998 e 2002, promotores e procuradores públicos brasileiros


descobriram várias empresas que usavam para lavar dinheiro as
chamadas contas CC5, contas que permitiam transferência de dinheiro (reais)
para o exterior, criadas em 1969. Essas contas são voltadas para brasileiros
residentes fora do Brasil, empresas exportadoras e financeiras com vínculos no
exterior. Assim, é permitido, sem autorização prévia do Banco Central do
Brasil, repassar uma determinada quantia de reais que se transformam em
dólares para outros países e resgatar do exterior dólares que se transformam
em reais para o Brasil. A princípio, a norma nada tem de ilegal, afinal o Brasil
participa intensamente do comércio exterior e várias pessoas físicas brasileiras
moram no exterior como os estudantes que fazem intercâmbios. Acontece que
várias autoridades e políticos famosos e seus assessores usaram as contas
para passar, para o exterior, dinheiro fruto de desvio dos cofres públicos e,
conseqüentemente, limpar o seu nome.
Segundo a Procuradoria da República, R$ 124 bilhões passaram pelos canais
da CC5 desde meados da década de 90 até 2000, nem todos necessariamente
frutos de transições ilícitas.
O esquema com as CC5 era feito normalmente com o uso de “laranjas”. Os
“laranjas” são normalmente pessoas (manipuladas ou não) que tem seu nome
usado para desviar o dinheiro de outros. Há também empresas “laranjas”,
criadas artificialmente para ajudar no desvio.
Entre os famosos que são acusados de usar as CC5 para lavagem estão o ex-
prefeito de São Paulo e deputado federal eleito em 2006, Paulo Maluf. O ex-
prefeito é acusado de desviar cerca de R$ 500 milhões durante as obras de
construção da avenida Água Espraiada. Nem todo o dinheiro desviado foi
mandado para o exterior, mas, em um dos seus relatórios, o Ministério Público
Federal detectou que uma das empresas que participaram da obra mandou
US$ 6,8 milhões para o exterior, por meio das CC5, que depois teriam sido
desviados para contas de Maluf em paraísos fiscais.
Outro caso é o do Banco Nacional, que deixou um rombo de R$ 6 bilhões em
1996, e teria usado seu parceiro uruguaio Interbanco para desviar pelas CC5.
Alguns corruptos usaram o mesmo ''laranja'' para desviar o dinheiro para o
exterior. O juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, condenado a 26 anos de
prisão por desviar R$ 196 milhões durante a construção da sede do Tribunal
Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, usou as contas de um tal Pedro
Paulo Velasquez Romero, que depois foi confirmado pelas investigações como
um nome “fantasma”, criado pelos grupos que articulavam o esquema. Esse
mesmo Pedro Paulo Romero auxiliou o sócio do ex-senador e deputado federal
eleito em 2006, Jader Barbalho,Osmar Borges, a mandar para o exterior pelo
menos R$ 110 milhões, que teriam que ser usados para projetos agropecuários
financiados pela Superintendência da Amazônia (Sudam).
Depois de vários casos de desvio, o Conselho Monetário Nacional (CMN)
mudou as regras das contas CC5 em 2005, restringindo o acesso e ampliando
o controle do dinheiro enviado. Quanto aos acusados de lavagem de dinheiro,
dois (Jader Barbalho e Paulo Maluf) passaram poucos dias na cadeia depois
que a justiça decretou prisão provisário, foram soltos e eleitos deputados
federais pelos seus Estados (Pará e São Paulo) em 2006. O juiz Nicolau dos
Santos Neto, depois de condenado de prisão por lavagem de dinheiro entre
outros crimes, passou um tempo na cadeia, acabou sendo solto por alegar
sofrer de depressão, mas voltou para prisão em julho de 2007. No caso do
Banco Nacional, onze diretores, inclusive pessoas que eram controladores do
banco, foram condenados a prisão, mas tiveram a pena revertida em prestação
de serviços à comunidade.

(escrito por Luís Indriunas, do HSW Brasil)