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ANAIS ELETRÔNICOS

II Encontro de História – Historiografia Brasileira: Problemas, Debates e Perspectivas


25 a 27 de Outubro de 2010
ISSN 2176-784X

HISTORICISMOS: a ciência da história entre Johann Gustav Droysen e


Leopold von Ranke

José Alisson de Abreu Bispo


Universidade Federal de Alagoas
Orientadora: Profa. Dra. Arrisete C. L. Costa

É a partir da década de 1990 que os estudos sobre o Historicismo entram na pauta dos
historiadores brasileiros. No livro A Invenção da História: estudos sobre o historicismo, 1994,
Arno Wehling vai chamar atenção para a “polissemia infernal” do termo. Em 2008, um grupo de
historiadores1 preocupados com a teoria e a metodologia da história realizou um evento nacional
objetivando discutir o tema do historicismo, do qual se originaram várias análises e perspectivas
esclarecedoras em torno da tradição historicista no campo da história. Esse debate suscitou o
interesse em estudar a temática do Historicismo. Assim, no ano de 2009, apresentei no I
Encontro Estadual de História/Simpósio Temático: Teoria e Narrativas, um paper sobre A crítica
histórica e o método erudito de Leopold Von Ranke e as ambiguidades do “tal como
efetivamente sucedeu”, versando sobre as relações entre a Escola Metódica alemã e o seu
emblemático historiador Leopold Von Ranke. Atualmente, proponho discutir o Historicismo no
contexto intelectual alemão no século XIX, mostrando a riqueza e a heterogeneidade de um
debate epistemológico inovador que transformou a relação entre sujeito e objeto do
conhecimento histórico. De forma que, neste estudo historiográfico, busco esclarecer sobre
parâmetros genéricos que permitam discernir concepções básicas desse movimento intelectual e,
particularmente, sobre dois de seus mais expressivos historiadores em torno de seus conceitos
sobre a ciência da história. Para a abordagem das obras de Leopold Von Ranke e Johann Gustav

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José Carlos Reis, Fernando Nicolazzi, Valdei Lopes de Araújo, Estevão de Rezende Martins, Pedro Spinoza Pereira
Caldas, entre outros.
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Droysen, o utilizo o método comparativo, a fim de identificar suas especificidades, similaridades


e antagonismos.
Segundo o historiador Arno Wehling, o termo Historicismo foi utilizado pela primeira
vez em 1881, no estudo de Karl Werner2 sobre Vico3. Seu sentido estava ligado à valorização do
conhecimento histórico, em contraposição ao racionalismo ahistórico cartesiano4. Todavia, o
fenômeno vai ter um nome, após um século de crescimento.5 O historiador Georg Iggers
caracteriza o Historicismo como [...] uma posição que torna a história um princípio [...] ele
existe como oposição ao pensamento a-histórico e procura introduzir a abordagem histórica em
todos os campos da cultura6. Foi no século XIX que a história almejou se despir de todo o
idealismo das filosofias da história e substituí-lo pela ciência. Segundo José Carlos Reis a “[...]
nova “ciência da história’, incipiente, tornou-se o centro da oposição ao idealismo e uma força
cultural orientadora”.7 Essa é uma época efervescente da história das sociedades ocidentais - do
Capitalismo industrial ou Liberalismo econômico e formação da sociedade capitalista burguesa
(1760-1880), que sob a influência da Revolução Francesa eclodida em 1789-1799, desdobra-se
em outras revoluções como as de 1830 (burguesia X aristocracia), 1848 (burgueses e proletários)
e 1871 (Comuna de Paris). Nos interstícios dessa historicidade é que ocorre um expressivo
esforço de constituição de uma história científica.

A construção de uma história científica era o guia para o debate epistemológico sobre as
especificidades do conhecimento histórico. Os historiadores historicistas queriam uma história
científica sem leis, sem modelos a priori que, supostamente, garantiriam a racionalidade e a
inteligibilidade do processo de análise do conhecimento histórico. Segundo José Carlos Reis,
para os historicistas

A consciência histórica é finita, limitada, relativa a um momento histórico


específico. Não é um princípio supra-histórico que organiza todo processo

2
Teólogo austríaco (1821-1888). Estudioso da cultura escolástico-medieval.
3
Giambattista Vico (1668-1744). Filósofo italiano.
4
René Descartes (1596-1650). Filósofo, físico e matemático francês.
5
WEHLING, Arno. A invenção da História: estudos sobre o historicismo. Rio de Janeiro: UFF, 1994, p. 13.
6
IGGERS, Georg. Apud WEHLING, Arno. op. cit.
7
REIS, José Carlos. A História entre a Filosofia e a Ciência. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 7.
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histórico efetivo, mas sim a própria história que determina os indivíduos, que
existem em uma ‘situação’, um lugar, uma data, um evento.8

Eles julgavam que para uma história ser científica deveria compreender o passado,
conhecer sua lógica intrínseca, particularidade, sua plena historicidade, sem qualquer preconceito
ou tendências, evitando qualquer anacronismo. Afinal, seria possível conhecer o passado com
uma atitude a priori de rejeição e antipatia? Para os historicistas esta não seria uma atitude digna
de um historiador, mas de um filósofo. A história historicizante9 se rebela contra a filosofia, ao
postular um conhecimento a posteriori, ou seja, livre do anacronismo causado pelo uso de
modelos teóricos, que a priori, distorciam o conhecimento histórico. Sem a sua particularização
temporal, a produção do historiador perde toda sua veracidade; perde a raiz que a prende ao chão
e passa a flutuar, sem sustentação, em meio a ficções. O conhecimento histórico não poderá
jamais se submeter a nenhum modelo teórico a priori, estes é que devem se submeter à história,
pois, só podem ser pensados e explicados, historicamente, ou seja, relativizados diante das
particularidades do seu tempo.

Para divergir dos filósofos da história, os historiadores alemães evitavam lançar


sentenças sobre os fatos, mas acabaram por cultivar certo “relativismo” ético extremamente
perigoso. Somado ao culto do estado-nação, este relativismo ético-cultural trouxe consequências,
principalmente, entre historiadores de menor expressão no cenário acadêmico alemão, que por
influência de nomes como Droysen e Ranke passaram, indiscriminadamente, a legitimar
qualquer regime ou ato político como relativo ao espírito nacional de cada povo. Este
relativismo, apesar de não se ver tão claramente em Ranke e Droysen, se enraizou entre
historiadores e professores medíocres por algumas gerações na Europa até pelo menos a segunda
guerra mundial, onde a sua radicalização alcançou o auge ao legitimar o regime nazista10. Mas

8
Ibid., p. 9.
9
Os termos historicizante e historicização, são usados como derivação do termo historicismo que aqui será usado,
não com o mesmo significado que o utilizado por Popper e outros filósofos, que o usaram (usam) para designar
alguns intelectuais que propõem teorias ou modelos sociais de fundo escatológico. Alguns intelectuais – como
Sérgio Buarque de Holanda e Arno Wehling – usam o termo historismo com o mesmo significado que será usado
neste artigo: usado para designar a Escola Histórica Alemã e outros intelectuais historicistas.
10
FONTANA, Lazaro Josep. História análise do passado e projeto. Bauru, SP: EDUSC, 1998.
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este relativismo não impedia os historicistas de postularem a realização de um conhecimento


histórico objetivo:

Nesse sentido ele se identifica com o relativismo, mas com um


relativismo antropológico ou cultural, não com um relativismo
epistemológico como subjetivismo ou relativismo objetivista
einsteiniano. [...] Há uma realidade cultural atomizada e irrepetível,
radicalmente relativa, mas não necessariamente subjetiva como Ranke
procurou demonstrar em toda sua obra [...].11

Observa-se que esse relativismo cultural é parte constituinte do espírito historicista,


pois, ao enfatizar a história como o reino do particular, do singular e do irrepetível, conduz a
produção do conhecimento histórico a um relativismo espacial e temporal. Tanto o sujeito
quanto o objeto do conhecimento histórico são “historicizados”. Restringindo o relativismo à
ética, ao direito e a cultura, buscavam e acreditavam que a universalidade epistemológica é que
faria o conhecimento histórico alcançar o tão sonhado caráter científico:

A mudança é substancial: a questão da universalidade não pertence mais ao


objeto, mas ao conhecimento. A história científica quer ser “objetiva”, isto é,
quer formular enunciados adequados ao seu objeto e que sejam válidos para
todo tempo e lugar, como ela estimava que fizessem as ciências naturais.12

Posto que, supostamente ao abandonar a influência da filosofia da história e pretender


assumir uma forma científica, o conhecimento aspira à “objetividade”, a questão que se coloca
então é: a história historizante não buscava a universalidade de leis naturais ou processos
históricos, mas sim, uma universalidade epistemológica. E uma história científica, positiva, não
pode ser feita através especulações, de modelos teóricos abstratos, mas através do estudo de
11
WEHLING, Arno. op. cit. p. 34.
12
REIS, José Carlos. op. cit. 2004, p. 10.
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dados empíricos e concretos fornecidos pelas fontes. Por tudo isso, o passado, particular,
singular, individual, é objeto da história e não da filosofia.

Os historicistas queriam avaliar uma época, segundo seus próprios critérios e valores
particulares. Iniciando pelo processo heurístico de “seleção” e análise externa das fontes nos
arquivos oficiais, até o estabelecimento do fato em si, o conhecimento histórico passava a
postular a verdade científica13. São os passos para um método objetivo, positivo, que
possibilitasse a qualquer historiador, entender o passado a partir das fontes. Esse “espírito
positivo” passa a predominar entre os historiadores, e inicia-se uma luta contra a influência da
filosofia da história sobre a nova ciência histórica. Para a ascendente historiografia alemã,
finalmente, a história tinha estruturado seu conhecimento sobre bases empíricas positivas.

O homem atemporal, com valores universais, que sempre foi e será o mesmo das
filosofias da história, não existe. E mesmo que o homem tenha suas características atemporais, o
que realmente importa para o historiador são justamente as mudanças que este sofre no tempo.
Para os historicistas, “Os homens são as suas expressões constatáveis no tempo, registradas nas
fontes. O historicismo ‘aceita’ a diversidade de éticas, que variam com as épocas e lugares”14.
Cada indivíduo, cada sociedade, vive num universo particular, onde valores e ideias encontram
não uma legitimidade, mas uma coerência. Assim, um simples fato, deve ser observado com
muito cuidado pelo historiador, pois este está inserido dentro de um quadro cronológico
recheado de particularidades éticas e morais que o torna único.

O historicismo combatia as idéias jusnaturalistas15 que ao legitimarem uma ruptura


radical entre presente e passado, construíam uma história do passado pelo futuro; uma história
onde o futuro justifica o presente e o passado. Segundo os historicistas, a história científica
diferencia claramente as duas dimensões objetivas do tempo: passado e presente, assim como,
não profetarizará sobre o futuro.16 Ao contrário dos filósofos iluministas, os historicistas não
especulavam um futuro onde o progresso trazido pela razão transformaria o mundo em um lugar

13
CARDOSO, Ciro Flamarion. Uma introdução à história. 9 ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.
14
REIS, José Carlos. op. cit. 2009, p. 210.
15
O jusnaturalismo ou direito natural é uma teoria que postula a existência de direitos naturais e universais de todo
ser humano e foi uma das bases mestras do iluminismo setecentista.
16
REIS, José Carlos. op. cit. 2004, p. 10.
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melhor como contraponto a um passado de tirania e trevas. O futuro “não-revolucionário” de


uma sociedade não seria melhor nem pior, muito menos igual ao de outras; seria apenas outro.
“No mundo concreto, há uma dispersão, uma pluralidade de lógicas autônomas que liberam da
tirania de um destino comum.”17

Em comparação com as filosofias da história, que recusavam o “evento” enquanto


história “real” dos homens, a história historicizante assume este como o particular que representa
o todo; o singular que revela as variáveis. O objeto do historiador é o evento, datado, localizado,
irrepetível, singular. A história historizante é, portanto, de oposição as filosofias racionalistas,
que consideram a história e a realidade humana determinada por princípios naturais e
atemporais. Para os historicistas, não há modelos teóricos imutáveis e supremos de análise
histórica. A “historicização” da história significou a sua libertação destes modelos. A ideia de
que a história era mera exemplificação de leis gerais da razão e do progresso foi substituída pela
ideia de particularidade inerente a cada evento, cada processo histórico.

Meinecke considera o historicismo como um exemplo do romantismo na historiografia


do século XIX. Para ele, o surgimento do movimento seria uma materialização do embate entre o
espírito alemão contra o francês. Usado como arma de combate pelos fundadores do Estado
nacional alemão contra o predatório expansionismo da filosofia (cultura) francesa, o historicismo
visava não só conter esta expansão, mas também inculcar entre o dividido povo alemão uma
história nacional que enfatizasse a construção da riqueza e originalidade do espírito alemão, de
forma a criar um sentimento nacional de unidade e independência. O historicismo deveria
combater qualquer influência francesa, inclusive, alemães francófilos como Hegel, Kant, Marx e
outros que acabaram por serem contaminados pelo discurso iluminista francês. Assim, o
historicismo não foi apenas uma formulação teórica sobre a história, nem o iluminismo era só
uma teoria. Eram, sobretudo, um pensamento alemão e um pensamento francês, em um contexto
de guerra, quase eterno entre os dois povos. Como arma política, o historicismo tinha o objetivo
de defender os interesses nacionais do povo alemão, frente o expansionismo francês oculto sobre
o discurso universalista dos iluministas que insistia em desprezar os privilégios históricos da

17
REIS, José Carlos. op. cit. 2009, p. 210.
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cada povo, fruto da evolução específica de cada nação.18 Veja-se o comentário de José Carlos
Reis:

[...] Os indivíduos não se ligam por contratos abstratos, mas pela tradição
comum. Os historiadores alemães não viam as instituições surgirem de
decisões conscientes e racionais, mas como expressões inconscientes de uma
“alma histórica”. Eles queriam apreender o gênio de um povo, que aparecia
em suas instituições, costumes, valores e biografias. Cada sociedade possui
uma legitimidade inscrita em sua estrutura atual, um espírito que a envolve,
uma estrutura própria, sem a qual seus membros perdem o sentido de viver.
[...] A Razão só pode ser histórica, e se manifesta nas formas e criações de
cada sociedade, envolvendo profundamente cada um de seus membros.19

Para o historiador francês Raymond Aron que estudou o historicismo alemão no início
século XX, o historicismo de tipo conservador, tradicionalista, reacionário, era reflexo da
aristocracia alemã que reagia à chegada de uma nova era: liberalismo, industrialismo, socialismo,
enfim, tudo o que a Santa Aliança do Congresso de Viena combatia com todas as forças. A
aristocracia alemã, principalmente os junkers20 prussianos, se prendia ao passado negando o
presente, justamente por saber o inevitável futuro fatalista que a aguardava. O historicismo,
reflexo dessa sociedade, para usar a história como sua principal arma, reformula-a
transformando-a num “estudo documentado” que tem por objetivo recuperar e manter vivo e
possível o passado. Criticando os românticos franceses que usavam poemas e lendas medievais
para construir sua história nacional, os historicistas alemães afirmavam que a objetividade
almejada para a história residia nas fontes oficiais, estas sim, possuíam legitimidade suficiente e,
consequentemente, passíveis de uma rígida crítica documental. O passado a ser preservado e
recuperado através das fontes seria, justamente, o dos arquivos reais das monarquias européias.

18
REIS, José Carlos. Historia e Teoria. 3 ed. Rio de Janeiro: FGV, 2009.
19
Ibid., p. 209-210.
20
Aristocratas grandes proprietários de terra que lutavam pela manutenção de vários de seus direitos feudais,
inclusive os de criar milícias privadas e ter autonomia política dentro de seus “feudos”.
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Até o momento foi mostrado um panorama das propriedades genéricas do Historicismo


alemão, todavia, alerto para o fato de que, na maioria das vezes, os manuais de história tratam os
historiadores da chamada Escola Histórica Alemã, de forma superficial e indistinta. Essa ideia de
homogeneidade não corresponde à riqueza do debate proposto pelos alemães. Um bom exemplo
dessa riqueza intelectual consiste na polêmica ocorrida no interior da própria escola entre os
historiadores Leopold Von Ranke e Johann Gustav Droysen. Antes de configurar esse debate,
considero pertinente apresentar algumas informações sobre a trajetória biográfica desses
historiadores. Em seguida, abordarei questões levantadas pelas obras desses dois historiadores
historicistas, analisando-as e comparando-as. O método comparativo utilizado por este estudo
permitiu identificar não apenas as especificidades de cada um, mas também, suas similaridades e
antagonismos.
O historiador Leopold Von Ranke (1795-1886) é o nome de maior destaque do
historicismo alemão do século XIX. Concebia como tarefa do historiador dizer “o que de fato
existia”. Ou seja, a estrita observação dos fatos, a ausência de moralização e ornamentos, à
“pura verdade histórica”. Atribuía excessiva importância a história política e diplomática. O
historiador Sérgio Buarque de Holanda ao referir-se à famosa formulação de Ranke “[apenas
mostrar] tal como efetivamente sucedeu”, afirma que, para muitos, essa teria sido a sua principal
contribuição historiográfica. Considera-a uma “fórmula infeliz” porque dá margem às
interpretações que “não correspondem ao pensamento do autor”. Em seu ensaio21, não faltam
defesas às contribuições de Ranke. Também faz reparações contundentes quanto a sua
identificação na América do Norte como historiador positivista, em contraposição à noção alemã
que o via na “antítese do empirismo não-filosófico, e com raízes no idealismo”. Segundo Arno
Wehling22, apesar das origens da metodologia da história não pertencerem ao início do século
XIX, é na primeira obra de Ranke, Geschichte der romanischen und germanischen Völker von 1494
bis 1514 de 1824, que localiza-se a origem da metodologia da História, intimamente ligada à
obra de Leopold von Ranke e à Escola de Berlim, entre os anos 1820-30. A obra foi
extremamente bem recebida no ambiente acadêmico prussiano o que lhe valeu não só ingresso
como professor extraordinário na Universidade de Berlim, como também, principalmente, o

21
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). Ranke. Trad.: Trude Von Laschan Solstein. São Paulo: Ática, 1979.
22
WEHLING, Arno. op. cit. 1994, p. 98.
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acesso a biblioteca real de Berlim e seus 48 volumes de documentos abarrotados de materiais


valiosíssimos sobre a história da Itália, Espanha, Áustria, do Papado e outros reinos da Europa.
Tal arquivo permitiu que Ranke estimulasse sua “curiosidade arquivística”23 aprimorando suas
técnicas e postulados metodológicos, sobretudo, no que diz respeito ao processo primário –
geralmente deixado a cargo de arquivistas e bibliotecários, mas que fazia questão de participar –
de classificação, reunião e seleção de fontes que julgava úteis. Processo realizado,
pioneiramente, no que diz respeito a separação entre fontes primárias e secundárias, já que os
historiadores de sua época faziam uso indiscriminado de crônicas, romances e relatos
interpolados. Almejando a objetividade ao conhecimento histórico, Ranke sempre valorizava o
uso de fontes primárias às secundárias, sempre buscando nestas novas fontes primárias. Estas, na
compreensão dele, resguardariam o “fato tal como aconteceu”. Sobre este assunto, Arno
Wehling comenta:

Na verdade, esta foi a primeira vez que fontes históricas passaram a integrar
uma obra, no sentido que entendemos hoje: nem mero arrolamento, com
consulta de documentos, nem história invertebrada, opinativa, com consulta
eventual às fontes que confirmassem a tese do autor.24

Em 1831, a pedido da monarquia prussiana, Ranke fundou e editou a revista Jornal de


História-Política, onde publicou vários artigos criticando os ideais liberais anglo-franceses e
defendendo a política centralizadora do Estado prussiano. Por seus esforços em prol da
universidade, Ranke foi nomeado professor efetivo da Universidade de Berlim, cargo que
exerceu até 1871 quando se aposentou. Em 1836, Ranke publicou o que talvez seja o seu livro
mais conhecido e que lhe deu projeção em toda Europa. “O Papa, a igreja católica e seu estado
nos séculos XVI e XVII”, que trata da atuação do alto clero da Igreja Católica, principalmente, no
que tange à Contra-Reforma. Continuando sua promíscua relação com a nobreza prussiana,

23
GAY, Peter. O estilo na História, São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 63-77.
24
WEHLING, Arno. 1994, p.116.
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Ranke foi contratado (em 1841) como historiador oficial da dinastia dos Hohenzollern25 e em
1865, foi nobilitado como barão pelos serviços prestados à monarquia prussiana. Já velho e no
final da vida, mas com as faculdades mentais ainda intactas, iniciou um ambicioso projeto junto
com vários de seus discípulos na compilação de uma obra de nove volumes intitulada História
Mundial, obra que tinha por objetivo narrar a história das principais civilizações humanas até o
século XV. Ranke morreu em 1886, nos arredores de Berlim, deixando a última obra incompleta
e uma carreira extremamente produtiva para a construção da história enquanto disciplina
autônoma e válida.

Como se pode perceber em várias da suas histórias nacionais, a obra de Ranke


procurava e acreditava na possibilidade de se extrair os fatos históricos “puros” das fontes, mas
de forma alguma – mesmo que, como alguns sustentam, Ranke acreditasse que a função do
historiador só se resumisse a isso – o trabalho de Ranke se restringiu a extrair fatos, muito pelo
contrário. Religioso e nacionalista ferrenho, Ranke “exalava” suas convicções através de sua
narrativa. Nesse sentido, argumenta Bispo:

Em meio às lutas pela unidade nacional e o crescente sentimento nacionalista


pelo qual passava o povo alemão no início do século XIX, Ranke trouxe à tona
uma história que não procurava estabelecer leis universais, mas sim as origens e
as singularidades de cada povo, o que seria possível graças a ação do Estado
que, composto pelas individualidades e especificidades raciais da nação,
representaria esta indissociavelmente. Para Ranke a história era o reino do
Espírito, que se manifestava de forma individual. Feito das especificidades
individuais de pessoas e grupos e que só poderiam ser apreendidas por meios de

25
Governando o primeiramente ducado, mas depois reino da Prússia desde o século XVII, os Hohenzollern saíram
do esfacelamento do Sacro Império Romano-Germânico como uma das mais fortes e influentes monarquias da
Europa liderando a unificação dos estados alemães em 1871. A dinastia permaneceria no poder até 1919, com o
fim da primeira guerra mundial e a conseqüente extinção do Império Alemão seguido pela Proclamação da
República de Weimar.
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métodos hermenêuticos, através de suas manifestações no mundo dos


sentidos.26

Quanto ao historiador e teórico da história Johann Gustav Droysen (1808-1886), revela-


se como um dos mais importantes nomes do historicismo alemão. Seu pai foi um pastor luterano
que lutou contra as tropas francesas de Napoleão, e assim como Ranke, Droysen cresceu num
ambiente religioso e nacionalista, características que podem ser percebidas em suas principais
obras. Em 1833, Droysen publica o primeiro volume de uma das suas maiores obras: A história
do helenismo, onde analisa a decadência da cultura clássica grega e o surgimento “renovador” do
cristianismo primitivo. Mas foi no Grundiss der Historik – ou somente Historik, como a obra
ficou conhecida - que Droysen revelou ser o pioneiro historiador como hoje é reconhecido. Para
Escudier, embora introdutória e muitas vezes lacônica, esta obra trouxe uma série de questões
que mesmo dentro do historicismo, tiveram o papel de estabelecer um novo debate
epistemológico sobre a nascente ciência da história:

Ele representa uma verdadeira cisão fundadora no interior da própria história da


teoria e da metodologia da história. É o primeiro tratado a formalizar as
diferentes fases da operação historiográfica: dessa forma ele constitui ainda hoje
um ponto de referência cuja atualidade não deixa de surpreender.27

A partir de sua principal obra, podemos ver que Droysen elaborou uma reflexão teórica
e metodológica da história enquanto disciplina extremamente válida e importante que procura
sintetizar o particular e o universal, o empírico e o especulativo, entre o sujeito e o objeto do
conhecimento histórico. Em um ambiente intelectual “hostil”, Droysen combateu uma história
que fosse uma mera ciência de textos, crítica de fontes ou ainda pura narração de fatos. A obra

26
BISPO, José Alisson de Abreu. “A crítica histórica e o método erudito de Leopold Von Ranke e as ambiguidades
do ‘tal como efetivamente sucedeu’.” In: Anais do I Encontro de História: Historiografia e Documentação.
UFAL/ICHC/HIS. 23-26 de Nov. de 2009.
27
ESCUDIER. Apud BENTIVOGLIO, Julio. Apresentação. IN: Droysen, Johann Gustav. Petropolis: Vozes, 2009,
p. 11.
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de Droysen desmitifica a imagem de um “movimento historicista” passivo e homogêneo28,


imagem que perdura até hoje, principalmente entre a grande maioria dos graduandos em história.

Considerados como nacionalistas defensores da unificação do povo alemão sob a


monarquia prussiana, Ranke e Droysen mantiveram um forte relação de “antipatia intelectual”,
principalmente, por parte do segundo, que via certa injustiça no reconhecimento de Ranke como
um dos grandes historiadores da época, como podemos ver neste trecho do prefácio de historik
em que comenta sobre o cenário historiográfico de meados do século XIX:

A Escola de Göttingen do final do século XVIII, que ora está findando, ocupou-
se com as questões gerais, que de tempos em tempos foram repetidamente
tratadas. Procurou comprovar que a história seria ‘basicamente a história
política’ e que entorno desse núcleo se agrupam as variadas ciências
elementares, auxiliares e outras da nossa área. Reconheceu-se, então, a essência
da história em seu método, caracterizando este como ’crítica das fontes’ e como
produção do ‘puro fato’. Encontrou-se a meta determinante de nossa ciência na
exposição artística e na ‘obra de arte histórica’ e celebrou-se como maior
historiador de nossa época, aquele que, em sua maneira de exposição, mais se
aproxima dos romances de Walter Scott.29

Apesar da “rivalidade” e das diferenças, ambos eram contemporâneos e, sobretudo,


historicistas, portanto, também guardavam similaridades intelectuais. A seguir, como forma de
melhor gerar parâmetros sobre as ideias e os conceitos fundamentais em cada um dos
historiadores, enumero alguns importantes pontos de concordância e discordância entre os dois:
1. Como Ranke, Droysen também reconhecia a especificidade do conhecimento histórico frente
aos das ciências naturais, mas via no primeiro, um potencial integrador com o segundo, ou seja,
o método histórico teria a potência de integrar o universal e o singular. O historiador Pedro
Caldas discute o que significava para Droysen optar entre um ou outro método, ou seja, a

28
BENTIVOGLIO, idem.
29
DROYSEN, Manual de Teoria da História. Trad. Sara Baldus e Julio Bentivoglio. . Petrópolis: Vozes, 2009. p.
30.
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obrigatoriedade do homem escolher a partir de uma falsa alternativa. Para ele, ambos os métodos
cristalizam uma parte da natureza do homem, e seriam, simultaneamente, espiritual e sensorial,
não poderia fixar-se definitivamente em um dos dois aspectos sob o risco de tomar a parte pelo
todo.30 Este postulado de Droysen revela um grande antagonismo entre as duas concepções do
que seria a ciência da história, já que para Ranke, o objeto do historiador residia no singular, no
irrepetível; 2. Outra grande discordância entre os dois, mas desta vez epistemológica, residia no
fato de que, enquanto para Ranke a possibilidade de se construir uma história científica residia
na objetividade das fontes históricas usadas pelo historiador, para Droysen esta objetividade era
uma impossibilidade, sendo o conhecimento histórico fruto de uma construção do historiador e
ambos, historiador e produção, são inexoravelmente, frutos de especificidades temporais e
espaciais. Para Droysen, o “fato puro” era uma impossibilidade, a reconstrução total do passado
através do de fontes históricas também era vã ilusão; 3. A terceira discrepância a ser destacada é
a importância dada por Ranke a uma história do “passado pelo presente”, enquanto, em Droysen
seria uma espécie de história do “presente pelo presente”. Para Droysen a verdadeira chave para
a compreensão da história era justamente a historicidade enfrentada pelo sujeito do
conhecimento histórico. Pesquisar, analisar e ser ativo diante das questões postas pelo presente
daria ao método histórico o necessário para compreender a história. Em Droysen:

O homem pensa historicamente quando ele não se remete ao passado como se


este fosse um exemplo a ser seguido, ao qual ele delegaria, portanto, as
experiências que ele deveria fazer, bem como quando ele não se sacrifica
perante um futuro imaginado, mas do qual não se tem testemunho real. De
qualquer forma, ele renuncia a uma plenitude de sentido.31

30
CALDAS, Pedro Espínola Pereira. “Uma dificuldade no historicismo: uma leitura de Droysen com filtro
Marxista.” IN: A Dinâmica do Historicismo: Revisitando a Historiografia Moderna. Belo Horizonte: Argvmentvm,
2008, p. 110.
31
Ibid., p.114.
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ANAIS ELETRÔNICOS
II Encontro de História – Historiografia Brasileira: Problemas, Debates e Perspectivas
25 a 27 de Outubro de 2010
ISSN 2176-784X

Para Droysen, o passado não deve ter a função de explicar nem justificar o presente. Ao
contrário, Ranke vê a reconstrução da história como forma de recuperar, construir ou dar
consciência de um passado construtor e norteador de um presente sem rupturas com suas origens.

Quanto às similaridades destaco, em primeiro lugar, o nacionalismo – enquanto


valorização da primazia da ação do estado como totalidade e forma do espírito nacional – tanto
Ranke, quanto Droysen destilam por suas obras, destacadas ênfases a supostas características
raciais de várias nações muitas vezes de forma determinista; em segundo lugar, friso que, apesar
de ambos discordarem radicalmente quanto à objetividade do conhecimento histórico,
concordavam no que diz respeito a utilização de métodos hermenêuticos de críticas textuais para
o “construção” ou “extração” da história nas fontes. Em Ranke, o método hermenêutico servia
como forma de “purificação” da fonte, como uma forma de tirar desta o fato o mais intacto
possível. Já para Droysen, é por meio da interpretação hermenêutica que o historiador dar
sentido ao mais rudimentar dado histórico, ele opera subjetivamente, chega a conclusões que não
estão inscritas nas fontes e nem estão disponíveis da mesma maneira para todos e para qualquer
um;32 em terceiro lugar, observa-se que ambos repudiavam uma história universalista onde as
individualidades e as particularidades da nação se dissolviam na construção de um futuro natural
da humanidade. Enfim, como se pode perceber, a partir de alguns dos pressupostos teóricos e
metodológicos de cada historiador, o movimento historicista retinha uma amplitude que permitiu
a formação de um debate epistemológico e filosófico rico, inovador e, sem dúvida, uma das
maiores forças transformadoras do processo de construção do conhecimento histórico como uma
área do conhecimento influente e autônoma que, com a contribuição desses historiadores
constituiu a ciência histórica.

32
Ibid., p.119.
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