You are on page 1of 447

ns von Campenhausen

Ig r e ja
A vida e a doutrina dos primeiros teólogos cristãos
(i^ rig in a lm e n te publicados em duas
edições separadas, os clássicos de H ans von
C am penhausen foram reunidos
num a única edição.
N esta obra, o leitor encontrará u m
panoram a com pleto acerca da Igreja
Primitiva, revelado na vida e obra daqueles
que com seu p ró p rio sangue escreveram
as prim eiras páginas da H istória da Igreja,
lançando os fundam entos
de sua doutrin a e fé.
D entre outros nom es registrados nas
edições de Os Pais da Igreja Grega e
Os Pais da Igreja Latina, encontram -se:

* Justino
• Irineu
C lem ente de A lexandria
• O rígenes
« Eusébio de Cesaréia
• Atanásio
« Jo ão C risóstom o
• Tertuliano
• A gostinho
I g r e ja
( S ^ ^ ío b ra s de H ans von C am penhausen, originalm ente publicadas em dois
volum es, Os Pais da Igreja Grega e Os Pais da Igreja Latina, estão reunidas em
u m só volum e nesta nova edição. A obra Os Pais da Igreja tradicionalm ente
descreve os escritores ortodoxos da Igreja Prim itiva.
A Igreja passou a considerar estas pessoas com o expoentes da verdade divina
na época em que a Igreja ainda estava to m an d o a sua form a.
As interpretações que tinham em relação aos credos prim itivos da Igreja
tiveram um a influência decisiva sobre a teologia posterior.
R ed ig id o com notável facilidade de linguagem , este livro contém
os estudos biográficos de doze dos mais im portantes Pais gregos e sete
dos mais im portantes Pais latinos. O professor von C am penhausen coloca
os Pais da Igreja no co n tex to de suas próprias épocas e das situações que
os rodearam , descrevendo a personalidade de cada um , seus propósitos
intelectuais, b em com o a sua co n tribuição para a vida da Igreja
ou para a sua doutrina, em u m estilo atraente e de agradável leitura.
Esta é um a maravilhosa introdução a estes cristãos prim itivos,
tanto para estudiosos com o para leigos.
C ^x ans von C am p en h au sen
foi diretor do departam ento
de História da Igreja
da Universidade de Heidelberg,
e m em bro honorário
da Academia Britânica.
E um a das autoridades mundiais sobre
o pensam ento e doutrinas da Igreja
Primitiva. Suas obras incluem
A Formação da Bíblia Cristã,
Jerusalém e R om a:A Questão da
Autoridade na Igreja Primitiva,
Autoridade Eclesiástica
e Poder Espiritual na Igreja
dos Três Primeiros Séculos
e Os Homens que Deram Forma
à Igreja Ocidental.
°MRis
DA
IGREJA
ns von Campenhausen

°m is
T DA
IGREJA
A vida e a doutrina dos primeiros teólogos cristãos

Traduzido p o r D egm ar R ibas Jú n io r

CB©
Todos os direitos reservados. C o p yright © 2005 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias de
Deus. Aprovado pelo C onselho de D outrina.

T ítulo do original em inglês: The Fathers o f the Church

Prim eira edição em inglês: 1998

Tradução: D egm ar R ibas Jú n io r

C D D : 270 —H istória da Igreja


ISBN: 85-263-0679-0

As citações bíblicas foram extraídas da versão A lm eida R evista e C orrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do
Brasil, salvo indicação em contrário.

Para maiores inform ações sobre livros, revistas, periódicos e os últim os lançam entos da CPAD, visite nosso site:
h ttp ://w w w .cp ad .com .br

SAC — Serviço de A tendim ento ao C liente: 0800 701-7373

Casa P u b lica d o ra das A ssem bléias de D eus


Caixa Postal 331
20001-970, R io de Janeiro, R J, Brasil

5a im pressão- 2010
A G u is a d e P r e f á c io

“C om toda a franqueza, não considero com o um a tarefa m uito difícil, espe­


cialmente em nossos dias, escrever u m livro erudito ou um a obra considerada
com o tal, isto é, um livro com citações eruditas, notas, explicações e apêndices
deste tipo. E m m inha opinião, é m uito mais difícil escrever um livro que dispen­
se todos os m étodos de aprendizagem, mas que pressuponha um estudo sólido e
bem fundamentado. Considero um a tarefa com o esta não som ente m uito mais
difícil, mas incom um ; porque envolve u m certo poder de renúncia, uma dispo­
sição a privar-se do aplauso de muitos, que julgam o aprendizado por aquilo que
é exterior.
“Mas em m inha opinião, quanto mais rara for a tarefa, será mais frutífera e
recompensadora; na verdade, considero-a com o o tipo mais nobre de autoria
literária...Já temos o bastante, e de sobra, em term os de literatura de pouco peso;
além de literatura para entretenim ento, p o r um lado, e obras de estilo cansativo,
úteis a um núm ero relativamente m en o r de leitores, p o r outro; com o conse­
qüência, o público cristão educado é despedido vazio.
“Já indiquei o ideal que mantive diante de m im enquanto escrevia este livro.
N inguém seria capaz de estar mais consciente do que eu, quanto àquilo que me
faltou. Porém esforcei-me; e espero que este fato seja reconhecido pelos críticos
perspicazes e justos” .

F r ie d r ic h B õ h r in g e r
D ie Kirche Christi und ihre Zeugen,
oder die Kirchengeschichte in Biographien,
1,2 (1842), p. viii f.
O s Pais G regos
Introdução ..................................................................................................................... 11
Ju stin o ............................................................................................................................. 15
I r e n e u .............................................................................................................................23
C lem ente de A lex an d ria............................................................................................ 31
O rí g e n e s ........................................................................................................................ 41
Eusébio de C esaréia.....................................................................................................57
A tanásio......................................................................................................................... 67
Basílio de C esaréia.......................................................................................................79
G regório N azian zen o .................................................................................................93
G regório de N is s a .....................................................................................................105
Sinésio de C ir e n e ...................................................................................................... 115
João C risóstom o........................................................................................................ 127
C irilo de A lexandria................................................................................................. 143
C o n clu são ................................................................................................................... 153
Tabela C ro n o ló g ica.................................................................................................. 159
Bibliografia.................................................................................................................. 161
O s P ais G r e g o s
In t r o d u ç ã o

O s P a t r í s t i c o s e o s P a is da I g r e ja

“ Os Pais da Igreja” é o título utilizado para descrever os escritores ortodoxos


da Igreja Primitiva. Q ualquer um que se proponha a escrever a respeito deles
não se encontrará em um campo novo, mas m uito antigo, constantem ente traba­
lhado, e que tem sido objeto de acirradas controvérsias. Portanto, poucas form u­
lações do conceito e das origens do que é conhecido com o “patrística” ou
“patrologia” devem ser apropriadas.
A tarefa norm al da patrologia é a investigação, a avaliação e a exposição dos
acontecim entos literários e teológicos da Igreja dos Pais. E um tipo de história
literária da Igreja, que caminha lado a lado com plem entando a história das dou­
trinas e dos dogmas, form ando ao mesm o tem po um apêndice para a história
literária da antiguidade clássica. Os estudos patrísticos não se originaram, contu­
do, na filologia ou na história geral da Igreja. Se assim fosse, seria impossível
penetrar nas curiosas limitações deste campo que são impostas pelos pontos de
vista denom inacionais e teológicos dos autores.
N a verdade, o próprio term o “Pais da Igreja” tem o seu suporte na esfera dos
dogmas e origina-se nas necessidades dos apologistas católicos. A patrística teve
sua origem na necessidade prem ente de reunir testemunhas a favor da “autênti­
ca” tradição ortodoxa, para que fosse acrescentado o seu peso de autoridade com
a finalidade de validar ou opor-se a doutrinas. Tendo em vista esta finalidade,
foram em pregados grandes esforços desde o quarto século para que fosse
estabelecida a visão autorizada dos teólogos que foram expressamente descritos
com o os “Pais da Igreja” . A autoridade deles foi aceita com o válida na época, e
adicionada à autoridade mais antiga e evidente, que é a da Bíblia Sagrada.
Este interesse dogmático pela “tradição” ainda é algo considerável na igreja
católica da atualidade. Esta é a razão pela qual o título “Pais da Igreja” é m antido
para alguns ensinadores com o Orígenes, que foram am plamente reconhecidos
em sua própria época. A autoridade de outros, com o C lem ente de Alexandria, é
considerada incerta; e outros, com o o patriarca alexandrino Cirilo, são distingui­
dos p o r um a posição especial intitulada doctores ecclesiae. Estas classificações pos­
teriores constituem um paralelo à correspondente consideração do cânone
das Escrituras e da literatura cristã primitiva. E m casos mais recentes, uma série
de docum entos foi considerada com o “apostólica” e com binada ao N ovo Testa­
m ento com o uma coleção “canônica” dogmática e oficial, enquanto outros es­
critos, possivelmente tão antigos quanto originais, e tam bém considerados da
mais alta im portância, foram definidos com o “apócrifos” , ou até mesmo com ­
pletam ente rejeitados.
N este trabalho não se dará nenhum a atenção a tais distinções, por se tratar
de intenções puram ente históricas. M esm o assim estas devem ser eclesiastica-
m ente significativas e, no caso do N ovo Testamento, com pletam ente justificadas.
C ontudo, está claro que são irrelevantes aos propósitos de um a exposição pura­
m ente histórica dos Pais.
Por outro lado, uma abordagem limitada aos aspectos da história literária
não é certam ente o único m étodo aceitável, sendo p o r si mesmo bastante inade­
quado. Deve ser lembrado que os hom ens com quem esta obra se preocupa não
desejavam de m odo algum serem vistos m eram ente com o escritores. Considera­
vam-se com o os expoentes da verdade divina, e sentiam o dever de preservá-la
em cada igreja local, e de pregá-la ao m undo da época. R ejeitaram expressamen­
te as ambições literárias e acadêmicas —estes não eram de m odo algum os seus
principais interesses na vida. Consideravam-se com o os ensinadores autorizados
da Igreja, com o cristãos filósofos, com o intérpretes treinados e iluminados da
Bíblia, que contém a verdade salvadora de Deus. E sob esta luz que devemos
estudá-los e com preendê-los. D e outra maneira, o principal propósito do traba­
lho e da atividade deles será interpretado de m odo errôneo. Isto tam bém se
aplica ao julgam ento histórico das suas realizações.
N ão pode haver nenhum a dúvida de que a com binação das heranças cristãs
e clássicas, que constitui o alicerce da civilização ocidental, foi prim eiram ente
criada e estabelecida pelos Pais da Igreja. O s Pais em preenderam o seu tem po
pensando no problem a contido neste duplo legado, e procuraram encontrar uma
solução fundam entalm ente teológica. N ão estavam, contudo, preocupados com
o problem a da adaptação e da preservação da tradição clássica, que era um assun­
to m uito discutido: estavam preocupados com a absoluta verdade que encontra­
ram na Bíblia Sagrada e na tradição da Igreja.
Os estudos seguintes têm o objetivo de descrever os Pais da Igreja sob a
mesma luz pela qual eles mesmos se consideravam. N ão se deve ler esta obra
com o um resumo da história literária da Igreja Primitiva ou com o um a breve
história do dogma cristão. Antes, devemos nos preocupar com as personalidades
e com os seus propósitos intelectuais, dentro do contexto do próprio m undo e
da época em que viveram, bem com o com a função eclesiástica que cum priram
p o r m eio de seu ensino e instrução.
A prim eira parte deste livro limita-se aos Pais da Igreja que escreveram em
grego. A literatura cristã que nos está disponível tem o seu princípio no m undo
grego, e a teologia grega ocupou a posição de liderança nos quatro prim eiros
séculos da história da Igreja. Ela se desenvolveu de forma bastante independente,
e o quadro que em erge dela não deve ser confundido pela introdução de outro
fenôm eno, seja ocidental ou oriental, simplesmente pelo fato de terem sido con­
temporâneos.
N ão é um fato acidental que a prim eira personalidade de envergadura que
deve ser apresentada no início da série tenha se revelado em um período em que
a idéia do cânon do N ovo Testamento estava adquirindo um a gradual e decisiva
im portância. Os Pais já não se consideravam com o testemunhas diretas da reve­
lação cristã com o aconteceu com as gerações da época apostólica e sub-apostó-
lica. E m todo o seu trabalho tinham com o pressuposição o testem unho daquelas
gerações anteriores. N ão escreveram evangelhos, nem apocalipses, nem cartas
apostólicas mas interpretações e tratados, breves literaturas polêmicas e apologéticas,
de natureza devocional, sistemática e, ocasionalmente, histórica, m antendo-se
em seus próprios limites de experiência, conhecim ento e método. Desejavam
servir à Igreja com os seus dons e habilidades especiais, porém com o homens
com pletam ente livres.
E mais difícil determ inar o período em que a era patrística teve fim do que
decidir a respeito de seu início. D ecidi considerar o final deste período no ponto
em que o trabalho dos próprios Pais já havia estabelecido um a tradição válida
por si mesma, que já estivesse restringindo a liberdade da pesquisa bíblica e
sistemática. Esta influência restritiva levou a um a m udança nos m étodos e no
posicionam ento da teologia. A partir do quinto século, a teologia tornou-se
“ escolástica” no sentido de que a autoridade dos antigos Pais da Igreja to rn o u
cada vez mais obscuras a influência e a responsabilidade dos ensinadores con­
temporâneos.
Deve-se m encionar que os doze hom ens a respeito dos quais estamos discu­
tindo constituem apenas um a pequena seleção dentre a inumerável hoste de Pais
gregos; o seu núm ero poderia ser facilmente multiplicado. Porém espero que
não esteja faltando nenhum a de suas mais significativas personalidades, e que os
pontos mais essenciais no desenvolvimento de suas idéias estejam representados.

/s
JuSTIN O

Wà Igreja Primitiva não se envolvia em discussões teológicas .Vi­


via em suas tradições e nas revelações de seus líderes e profe­
tas. Suas profecias, instruções e epístolas eram transmitidas
muitas vezes de form a anônima, com a autoridade do Espírito Santo, mas poste­
riorm ente tam bém através de pseudônim os, no nom e das testemunhas apostóli­
cas originais. Mestres teológicos, confiantes em seus próprios trabalhos intelec­
tuais, o que pressupõe uma formação e treinam ento acadêmico e em penho em
defender, estabelecer e desenvolver a verdade cristã, apareceram somente duran­
te o segundo século.
Este desenvolvimento é inseparável da influência do pensam ento grego, da
concepção grega da razão, e de toda a tradição da cultura helenística. A influên­
cia grega não era m eram ente externa, em bora certos contatos fossem inevitáveis
desde que a Igreja foi separada de sua terra natal e se espalhou pelo Im pério
R om ano, tornando-se parte da civilização mundial. C om o as comparações ofe­
recidas pelo judaísm o e pelo islamismo indicam, a aceitação do legado grego era
espiritualm ente inevitável e u m fator vital na criação do que chamamos agora
de teologia. O prim eiro teólogo neste sentido foi Justino ae ‘o filósofo’, com o ele
era chamado em sua própria época, ou ‘J ustino, o M ártir’, porque ele selou sua
vida com o um filósofo cristão m orrendo com o mártir.
Pode-se tam bém questionar se Justino foi realmente o prim eiro a se esforçar
em interpretar o cristianismo do p o nto de vista grego. A história das idéias está
em constante fluxo, e cada ponto crítico, cada fim e com eço postulado pelos
historiadores, é uma pura simplificação simbólica. N a verdade, tentativas foram
ocasionalmente feitas antes de Justino apresentar o Evangelho nos moldes da
cultura‘filosófico-racionalista, a fim de torná-lo disponível para um público maior.
N o entanto, à parte das mais antigas tentativas registradas nos Atos dos Apósto­
los, estes esforços foram tão mal feitos, secundários e primitivos que eles podem
com certeza ser desconsiderados.Tais esforços não obtiveram nenhum peso teoló­
gico e prestígio até o aparecimento de Justino, e neste ponto ele foi um pioneiro e
um inovador, embora nunca tenha reivindicado nada para si mesmo. É errado
colocá-lo lado a lado com os outros apologistas da última metade do segundo
século, como se ele fosse meramente parte de um grupo maior e típico de uma
corrente intelectual com um . Quase todos os defensores posteriores do cristianis­
mo, tais com o Tatiano e Atenágoras, aprenderam com ele, e ele está posicionado
acima dos mais antigos com o Aristides e o pouco conhecido Quadratus.
Isto não foi m eram ente resultado de sua educação mais rica e mais profunda;
acima de tudo, foi proveniente de um a nova e diferente atitude para com a
educação e a cultura. Justino não só desejava mostrar-se aos gentios com a apa­
rência de filósofo; ele queria realmente ser u m filósofo, e o que ele tinha a lhes
dizer não o interessava simplesmente com o um apologista cristão, mas porque
ele prim eiro se convenceu dessa verdade. Sua filosofia cristã foi além de copiar os
ataques judeus e céticos contra a idolatria para propósitos apologéticos; resultou
de seu próprio desenvolvimento intelectual e compromisso independente. Isto é
o que torna sua obra tão interessante, em bora muitos dos detalhes sejam secun­
dários, a obra seja modesta, e sua teologia com o um todo não seja um a obra
completa.
D e acordo com sua própria declaração,‘J ustino, o filho de Priscus e neto de
Bakcheius’, nasceu em Flávia Neápolis (perto de Siquém, na Palestina) (Apol. I,
1). U m a vez ele descreveu os samaritanos com o seus compatriotas, mas isto não
significa que devemos pensar nele com o u m ‘oriental’. A antiga cidade foi total­
m ente destruída por Vespasiano na guerra contra os judeus e na época foi
reconstruída com o uma colônia greco-rom ana. D e qualquer forma, Justino era
originariam ente um pagão. Ele parece ter sido um típico representante da classe
média alta urbana da época. Leal, separado das tradições antigas, de aparência
cosmopolita, intelectualm ente ativo e curioso, honesto de pensam ento e econo­
m icam ente independente.Justino não precisou ganhar o próprio sustento; ele se
devotou aos seus interesses intelectuais e se to rn o u um ‘filósofo’. Foi assim que
ele conheceu os cristãos e tornou-se um deles.‘Esta é a única filosofia realmente
confiável e útil que eu encontrei.’ Sua conversão provavelmente ocorreu em
Efeso, onde ele preparou o seu Diálogo com o Judeu Trifo. E m seguida, vamos
encontrá-lo em R om a. Lá, com cerca de cinqüenta anos de idade, publicou,
entre outras obras, um a Apologia endereçada aos gentios, e foi executado com o
um m ártir cerca de dez anos depois.
N o início do Diálogo, Justino fez um a explanação minuciosa do curso de seu
desenvolvimento. Ele descobriu que a superioridade do cristianismo residia
preem inentem ente no claro conhecim ento do Ser verdadeiro e Divino, o qual
só é possível se a virtude e a justiça forem praticadas simultaneamente. N a Apo­
logia, Justino dá um a ênfase particular ao am or cristão pelos seus inimigos, à
paciência cristã, à castidade e à honestidade, e, acima de tudo, à coragem diante
da m orte. Estas qualidades deveriam, cria ele, ser suficientes para dissiparem as
calúnias habituais sobre o m odo de vida cristão, nas quais ele mesmo havia uma
vez acreditado.
O cristianismo de Justino é marcado pelo ím peto de dar uma expressão
prática à sua fé e pela plena certeza de suas convicções absolutas. Os cristãos
possuem a verdade na qual baseiam suas vidas; isto é provado pelo alto padrão
moral de sua conduta. Além disso, a fonte de onde obtêm os seus conhecim entos
a respeito de D eus é, sem dúvida alguma, confiável. N este ponto, seus ensina­
mentos cum prem a verdadeira missão da filosofia, a qual, de acordo com Justino,
é acima de tudo explorar aquilo que é Divino.
Ainda mais reveladora é a crítica que ele dirige contra as escolas de filosofia
pagãs. E m sua busca pela verdade, Justino deseja explorar em todas as direções,
para se tornar familiarizado com todo o m onstro ‘de muitas cabeças’ (Dial. 2, 2)
da filosofia. Ele considera os ensinam entos dos estóicos um campo estéril p o r­
que eles não exploram os assuntos relacionados a D eus de m odo real. O filósofo
peripatético o decepcionou ainda mais porque depois de alguns dias ele levan­
tou a questão do pagamento, que é tão indigno de u m filósofo. Os pitagóricos
dissuadiam o pesquisador a buscar m enos que o conhecim ento, que para eles
pressupunha u m conjunto de inform ações musicais, astronômicas e geométricas,
o qual Justino não possuía nem tinha tem po para adquirir.
E m sua opinião, a filosofia não deveria ser u m ram o especializado do apren­
dizado; por fim, ele seguiu a Platão e se autodenom inou platonista. C ontudo, ele
simplificou a filosofia platônica para atender aos requisitos da nova teologia: as
principais idéias do Platonismo —que possuíam um toque dualista —referiam-se
à pura verdade do Ser, a qual era acessível ao puro pensam ento da Razão. Deus
é Ú nico, além do m undo criado, e u m com o B om e o Belo. O filósofo pagão
m édio daquela época provavelmente não possuía um a compreensão mais pro­
funda do que Platão realmente ensinou. Está claro que Justino não som ente leu
Platão, mas teve, à sua própria maneira, um a compreensão vívida a respeito dele.
Em seus escritos se referiu ao filósofo grego e o im itou repetidamente. Para
Justino, e para tantos quantos vieram depois dele, Platão se to rn o u a ponte inte­
lectual que conduzia aos ‘filósofos mais antigos’ (Dial. 7,1), que o próprio Platão
deve ter conhecido e usado, isto é, os profetas do A ntigo Testamento e, conse­
qüentem ente, o próprio Cristo. Justino assumiu dali p o r diante sua posição inte­
lectual ao lado deles, e Platão se to rn o u um precursor e um aliado mais que um
líder.

/ r
A intenção de Justino, portanto, não era realizar um tipo de investigação
filosófica da mensagem cristã e misturar Platão com o cristianismo. Para ele, o
cristianismo era a própria verdade filosófica; achava que Platão estivesse inteira­
m ente de acordo com a verdade do cristianismo. D eus havia agido em todas as
épocas e entre todos os povos. Ele havia, em todas as épocas, revelado aos povos,
fora dos limites do povo ju d eu , fragmentos e partes de sua verdade. Mas em Jesus
Cristo a sua razão eterna havia se manifestado de forma definitiva. Portanto, era
possível dizer que ‘todos os hom ens que viveram de acordo com a razão’ eram
cristãos, incluindo, por exemplo, Sócrates e Heráclito entre os gregos, e Abraão,
Elias e muitos outros, entre os ‘bárbaros’ (Apol. I, 46).
Para Justino, toda a história do espírito hum ano se resumiu e foi consumada
em Cristo. Jesus Cristo é o Filho de Deus. Por este dogma cristão básico, Justino
deu aos pagãos algo com o uma justificativa filosófica racional, com a qual tinha a
intenção de dissipar as suspeitas de politeísmo. Cristo era o Logos, isto é, a própria
razão divina, a qual Deus Pai admitiu sair de si mesmo sem a diminuição do seu
próprio ser. Através dEle foi tam bém realizada a criação do mundo. E sendo a
‘Palavra’ de Deus, o Logos foi capaz de no final até mesmo assumir a forma de
carne humana, a fim de ensinar aos homens a verdade e a sabedoria perfeitas. A
prova mais segura da verdade destas afirmações reside no cum prim ento miraculoso
de todas as profecias que ocorreram quando Jesus Cristo se manifestou. Em con­
ju nto com os milagres que Ele operou e ainda opera hoje, e com a grandiosidade
do próprio Evangelho, não é possível que haja mais qualquer dúvida sobre a sua
origem divina. Cristo é o novo legislador que sobrepuja toda resistência demoníaca
e traz salvação ilimitada para o m undo diante do fim que se aproxima. N ão deve­
mos perm itir que seu sofrimento e m orte venham confundir nossas mentes, da
mesma forma que a perseguição atual pela qual os cristãos estão sujeitos, que é o
destino dos verdadeiros filósofos em todas as épocas.
E surpreendente com o Justino tinha certeza de que a fé defendida p o r ele
era um conhecim ento razoável e totalm ente esclarecedor, e com o ele é pouco
afetado pelas doutrinas que se apresentam diante da filosofia clássica, as quais
haviam provocado desprezo e crítica em todas as épocas. A crucificação do Filho
de Deus, os efeitos miraculosos de sua U ltim a Ceia, a ressurreição da carne, e até
mesmo a antiga esperança do m ilênio com a Nova Jerusalém com o seu centro —
a qual já estava sendo questionada na própria Igreja — tudo isto é aceito por
Justino com o certezas irrefutáveis baseadas no testem unho da Bíblia, e elas clara­
m ente não lhe oferecem quaisquer problemas sérios. Fica óbvio com o ele firme
e naturalm ente está enraizado na Fé e nas idéias da Igreja, a despeito de todo o
seu treinam ento filosófico. Ele considera a validade da Bíblia com o absoluta.
Provavelmente isto seria ainda mais evidente se todas as suas obras estritamente
eclesiásticas, isto é, aquelas expressamente escritas para os leitores cristãos, não
tivessem se perdido. Elas não eram adequadas para um a época posterior e esta­
vam fadadas a parecer talvez até mesm o perigosas.
C ontudo, Justino se considera u m filósofo, e, expressamente com o u m cris­
tão, ele com eçou a ensinar e a agir. M udou-se para um local apropriado em
R o m a ,‘acima do Tanque d eT im ó teo ’,e reuniu discípulos, incluindo alguns que
mais tarde se tornaram bem conhecidos com o professores e escritores cristãos.
C om o um autêntico professor de filosofia, ele naturalm ente recusou pagam ento
po r suas aulas. Ele partilhava incondicionalm ente os ‘preceitos da sabedoria’ com
qualquer um que desejasse vir a ele (Act.Just. 3) e continuava a vestir a capa de
filósofo com orgulho. A luz dos efeitos de seu ensino ele poderia tam bém ser
descrito com o um missionário da Igreja. Mas ele apareceu em público em seu
próprio nom e e não trabalhou mais, com o os professores cristãos primitivos,
dentro da com unidade religiosa, mas dentro da nova estrutura sociológica de
uma ‘escola’ filosófica privada. Ele e seus alunos foram atraídos para a luta com ­
petitiva habitual das escolas e facções filosóficas, sendo que a única diferença era
que estas disputas adquiriram um a intensidade e perigo adicionais por causa dos
conflitos religiosos que reinavam de m odo furioso por trás delas.
O próprio Justino relata (Apol. II, 8 [3]) com o ele pessoalmente desafiou o
cínico filósofo Crescêncio, que havia atacado os cristãos, e registra que ele pro­
vou a com pleta ignorância do cínico, em bora naturalm ente sem proveito. O
maligno fanfarrão continuou a caluniar os cristãos e a falar sobre coisas que ele
não entendia ou não queria entender; de acordo com Justino, ele não merecia de
maneira alguma o nom e de filósofo. E m seu Diálogo, ele apresenta sua própria
concepção de um a séria discussão filosófica sobre questões de Fé. O cristão e o
ju d eu que aqui se colocam em lados opostos, ambos fazem um esforço para
conduzir o debate em tons dignificados e atingir um a objetividade e imparciali­
dade que tendessem a u m argum ento racional. U m perm ite ao outro ter sua
oportunidade de expressão, e ambos abrem mão de vitórias polêmicas insignifi­
cantes. Sua única preocupação é chegar à verdade, e esta verdade deve ser trazida
à luz de uma form a desapaixonada, objetiva e prática. Esta é a nova atitude
‘filosófica’, tam bém refletida na agradável civilidade da discussão —um a qualida­
de derivada de Platão. Este tipo de discussão estava além do alcance do porta-voz
mais antigo da Igreja.
Mas quando estudamos o conteúdo da discussão, a relação com a antiga
tradição cristã fica evidente em toda parte, e a elaboração filosófica da introdu­
ção parece um disfarce quase acidental e desnecessário. O próprio Justino diz em
determ inado ponto que ele é obrigado a abrir mão das regras elaboradas da
exposição m etódica e retórica. N o lugar de um tratam ento sistemático da ética
cristã, ele simplesmente apresenta, na form a de catecismo, os mandamentos do
Senhor; ao invés de um a exposição do que é a Igreja, ele descreve o que acontece
dentro dela, e com o são os seus cultos. M esm o nos contextos puram ente teoló­
gicos, ele às vezes se satisfaz com as formulações tradicionais - p o r exemplo, o
Credo Trinitariano.
Justino considera com o sua principal tarefa, acima de tudo, a interpretação
das Escrituras do Antigo Testamento. C o m o os prim eiros mestres cristãos, ele
proclama que recebeu do próprio D eus o ‘dom da graça’ para desem penhar esta
tarefa. Mas ele enfatiza especificamente a im portância de seu m étodo claro e
racional. A repetição m eram ente mecânica dos dizeres aprendidos de cor está
sujeito a provocar contradição e desprezo. E ainda em outro aspecto avança além
de seus predecessores: ele deseja desenvolver provas escriturísticas ao limite ex­
tremo. O Diálogo torna-se assim u m com pêndio com pleto de todas as provas
textuais confirm ando a fé em Cristo, contidas no Antigo Testamento. N este as­
pecto, raram ente foi superado.
N ão é necessário dizer que, nesta obra, Justino confia em prim eiro lugar nos
m étodos alegóricos e tipológicos já utilizados no judaísmo, com binados com
uma verdadeira minuciosidade rabínica na reunião de indícios aparentem ente
relacionados e afinidades ocultas. A ‘árvore da vida’ no Paraíso, as varas de álamo
verdes com as quais Jacó colore os cordeiros, a ‘coluna’ de pedra ungida de Betei
e todos os ‘ungidos’ em geral, os cajados de Arão e Moisés e todos os outros
cajados e árvores do Antigo Testamento, incluindo a ‘árvore plantada nos rios de
água’ e a ‘vara e cajado’ dos quais o salmista canta - para Justino são claros sinais
e prefigurações, ‘tipos’ da cruz de Cristo e das profecias do próprio Cristo. Por
mais fatigante e complicado que tais exposições possam nos parecer hoje, escrito
num estilo laborioso e de form a alguma agradável, não se pode dizer que Justino
perdeu de vista as considerações mais amplas: ele se elevou acima de seus escri­
tos. E a sua exposição final da cristandade com o o novo povo de Deus, de sua
santidade e espiritualidade e a maravilhosa universalidade de sua fraternidade,
que abraça o m undo todo, é particularm ente impressionante. Esta interpretação
da Igreja é um outro sinal da abordagem erudita e cosmopolita na base da qual
Justino, o filósofo, recebe o cristianismo com o a religião do novo m undo e a
única verdade que deve ser proclamada em sua própria era.
Está m uito evidente por toda parte:Justino se dirige a todos os homens, não
im porta se ele está falando particularm ente aos judeus, hereges, ou pagãos, e a
razão para isso não é m eram ente u m deleite na discussão nem um interesse em
um avanço intelectual e edificação gerais, mas isto é feito para forçar os homens
a um a decisão bem definida. A verdade não se apoia mais em um a fria neutrali­
dade acima das partes em discussão: tornou-se concreta em Cristo e vive dentro
de um a com unhão específica, em um a doutrina específica, em um a Palavra es­
pecífica. O fato de que nesta form a isto se to rn o u acessível não som ente para os
letrados, para os filósofos, mas a todo hom em , parece ser um a nova prova de sua
perfeição. Por esta razão é de suma im portância que se apoie publicam ente con­
tra todos os preconceitos e calúnias, com o convém a um filósofo, e se necessário
arrisque a própria vida. Ser um filósofo significa ter uma missão e dedicar a sua
vida a isso.
A Apologia de Justino, escrita em R o m a antes do Diálogo, é a mais impressio­
nante evidência desta intenção. Ela tom a a form a de um a reclamação formal
dirigida ao imperador, A ntonino Pio, e seus companheiros regentes, ao Senado
e a todos os rom anos.‘E um a injustiça’, ele declara,‘que os cristãos sejam consi­
derados com o uma seita crim inosa e sejam constantem ente perseguidos. Seus
pretensos crimes deveriam prim eiro ser provados; eles mesmos, então, seriam os
últimos a defender o culpado. N a verdade, eles são as pessoas mais justas, mais leais
e devotas que o Im pério possui; são os verdadeiros e naturais aliados do governo
em sua luta pela paz do mundo. U m governo esclarecido não quereria censurá-los
por se recusarem a compartilhar os preceitos corruptos da superstição. Por trás das
perseguições perpetradas pelos gentios se escondem, na realidade, somente dem ô­
nios hostis que têm m edo de perder seu domínio sobre o hom em ’.Justino estava
aqui adotando uma noção popular em círculos filosóficos, e lhe dá meramente
uma nova roupagem polêmica. ‘A razão dirige aqueles que são verdadeiramente
devotos e filosóficos a honrarem e amarem o que é verdadeiro, recusando-se a
seguir opiniões tradicionais, se estas forem inúteis’ (Apol. I, 2,1).
Justino procura deste m odo apelar aos imperadores com o filósofo, e lembrá-
los de seus repetitivos e freqüentes pedidos para que expusesse m étodos de go­
verno esclarecidos e atualizados. Mas este elogio nada tem de mera lisonja.‘Vocês,
então, desde que sejam chamados de pios e filósofos, guardiões da justiça e amantes
do aprendizado, prestem bem atenção... se vocês são de fato assim, isto será ma­
nifesto. Porque não viemos lhes fazer lisonja por esta escrita nem lhes agradar pela
nossa palestra, mas para pedir que vocês julguem após uma apurada e rigorosa
investigação, não adulada por preconceito ou pelo desejo de agradar a homens
supersticiosos, nem induzidos po r impulso irracional ou rumores malignos que há
m uito têm prevalecido, para dar um a decisão que provará ser contra vocês mes­
mos. Q uanto a nós, vocês podem nos matar mas não nos atingir’ (Apol. I, 2, 2).
A im portância da Apologia de Justino reside na inusitada com binação dos
elementos morais e teológicos com os elementos legalistas e políticos. E verdade
que Justino não exam inou a fundo nem recusou-se a ver a pressuposição final
das perseguições dos cristãos: a relação fundamental entre o Estado e a religião
que o Im pério R o m an o foi fadado a dar com o certa, com o qualquer outra
organização política da antigüidade. A retórica de seus argumentos quase legais,
no entanto, às vezes parece u m pouco artificial e afetada. Mas de m odo geral seus
argumentos e tam bém suas referências práticas aos cristãos com o pagadores de
impostos, a futilidade das perseguições e o sofrim ento moral de tais condutas,
são bastante contundentes. É bem tocante notar com o ele ansiosamente presu­
me que todos estão interessados em suas preocupações e, por exemplo, que os
imperadores já ouviram falar dele e de seus debates com Crescêncio. Mas, ao
invés de sorrir para tal ingenuidade e contar os erros crassos que ocasionalmente
introduziam -se em suas longas discussões polêmicas de filosofia e m itologia pa­
gãs, deve-se antes admirar sua honestidade, a franqueza e audácia incomparável
de um hom em que aqui defende a causa de um a com unidade sem esperança,
cuja situação deve ter sido perfeitam ente óbvia a ele. N ão é de se surpreender
que ele finalmente tivesse que pagar com sua vida.
O relato do m artírio de Justino nos foi declarado. D urante o governo do
prefeito Rusticus (163-67 d.C.), ele foi preso, juntam ente com outros seis cris­
tãos. Ele foi descrito com o ‘razoável e bem inform ado’, e no tribunal ele era o
porta-voz dos cristãos. C om o seus companheiros, ele categoricam ente recusou-
se a obedecer às ordens do ju iz e negar seu Salvador, Jesus Cristo; após cuidadoso
exame ele tinha reconhecido a verdade dos ensinamentos de Cristo e pretendia
ser leal a isto, ‘mesmo se isto não estivesse de acordo com as pessoas que eram
escravas do engano’ (Act.Just. 2,3). Ele professou sua firme crença na R essurrei­
ção e no Julgam ento do U ltim o Dia, e com os outros, recebeu sua sentença sem
medo: ‘Porque eles não sacrificam aos deuses e se recusam a obedecer às ordens
do imperador, serão flagelados de acordo com a lei e levados para ser decapita­
dos’ (Act.Just. 5, 8).
Justino se coloca diante de nós com o um personagem simples, direto e
descomplicado. A bertam ente declara aquilo em que acredita e o que pretende, e
não duvida que esta seja a verdade, que os ensinamentos de C risto que ele traz
signifiquem salvação para o m undo todo. N em o seu relacionam ento com a
filosofia nem a sua posição na Igreja representaram um problem a para ele. Foi
somente mais tarde que os hom ens lentam ente vieram a perceber as dificuldades
que a sua posição necessariamente acarretava. Mas a vida deste ‘filósofo e m ártir’
(Tertuliano, Adv. Vai. 5) foi um modelo. Quase todos os patriarcas gregos da
Igreja foram, consciente ou inconscientem ente, seus imitadores.
Ir e n e u

reneu era de uma geração mais jovem que a de Justino e foi


teologicamente influenciado por ele. Apesar disso, ele repre­
senta de certa maneira um tipo mais antigo de ensinador cris­
tão e de mestres eclesiásticos. Ireneu não veio de fora para a Igreja com problemas
e expectativas específicas: ele cresceu na Igreja Primitiva, conhecia suas tradições e
vivia a seu serviço. N ão tinha desejo algum de ser filósofo, mas sim um discípulo
dos antigos Pais, um inspirado guardião da autêntica tradição apostólica. A verdade
é que seus únicos escritos que chegaram até nós tinham com o alvo os leitores
dentro da Igreja. A situação aqui é inversa à de Justino, conhecido apenas como
um apologista. Provavelmente Ireneu teria produzido um estudo detalhado sobre
os problemas e gostos dos pagãos quando saiu a falar-lhes. Mas é evidente que esta
tarefa foi algo secundário à sua atividade e escritos para a Igreja.
O único tratado apologético que Ireneu dirigiu aos gregos foi, de acordo
com Eusébio,‘admirável’ mas tam bém ‘m uito cu rto ’ (H ist. Ecl.W, 26). As apologi­
as não eram o principal centro de seu interesse. Isto fica claro a partir do seu
estilo de apresentação, e por todo o teor de seu pensam ento nos escritos que
sobreviveram. Ireneu tem a maneira de u m pregador experiente, não de um
filósofo ou um missionário convencendo seus ouvintes. Seu estilo é pausado,
paternal, edificante, às vezes rústico e dissonante. C om o escritor ele é um fracas­
so quando tenta ser erudito ou espirituoso, mas é bem -sucedido pelo fervor,
urgência, e seriedade de suas crenças religiosas básicas, as quais ele desenvolve
com entusiasmo convicto e convincente. Ireneu se to rn o u desta forma o p rotó­
tipo do pastor consciencioso e o defensor incansável do ensino da Igreja. Os
séculos que se seguiram voltaram seus olhos para ele com grata admiração, com o
a grande testem unha da verdade apostólica num período difícil e perigoso.
Ireneu nasceu na costa grega da Ásia M enor. Q uando m enino em Esmirna,
ele tinha, com o gostava m uito de salientar, ouvido os sermões do grande bispo e
m ártir Policarpo, que era considerado um discípulo dos próprios apóstolos. N es­
te lugar ele veio a conhecer o genuíno e autêntico Evangelho, ao qual ele per­
m aneceu fiel por toda a sua vida. Q uando cresceu foi ordenado presbítero na
Igreja em Lião. N o ano 177 d.C ., o bispo da Igreja foi vítima de perseguição e
caiu nas mãos da multidão, e Ireneu, ainda relativamente jovem , foi indicado para
ser seu sucessor. Desta form a ele se to rn o u ao mesmo tem po bispo deViena e de
outras congregações menores ou grupos de congregações p o r todo o sul da
Gália, as quais estavam conectadas ao centro principal.
O grego, a língua-mãe de Ireneu, era falado por uma considerável parte da
população desse local e era entendido sem nenhum a dificuldade em todas as vilas
e cidades. N o segundo século, o grego ainda era um tipo de língua eclesiástica para
os cristãos ocidentais em geral. N inguém se sentia ofendido pelo fato de um cida­
dão da longínqua Ásia ser designado com o bispo na Gália. O caráter cosmopolita
do Im pério R om ano e sua civilização helenística também ajudaram a levar a Igre­
ja adiante. Mas ela não estava ligada à uma língua e cultura. N a África, os primeiros
sermões em latim foram proferidos neste período, e o próprio Ireneu, por causa
dos seus ouvintes celtas, algumas vezes usava a sua própria língua. Em seu zelo
missionário, a Igreja Cristã era ainda mais ecumênica e menos preconceituosa do
que o restante da sociedade greco-romana, que ignorou os ‘bárbaros’.
A influência que Ireneu exerceu não estava limitada à Gália. N o m om ento
em que ele se ju n to u à unidade de uma só Igreja e proclam ou-a e exaltou-a
com o um milagre divino, sua voz foi logo ouvida e observada p o r quase toda a
cristandade. Enquanto ainda era presbítero, foi enviado a R o m a pelos líderes
cativos da Igreja em Lião para entregar um a carta na qual solicitava um a com ­
preensão da ‘nova profecia’ do m ontanism o. Este foi u m m o v im en to de
reavivamento que teve origem na Ásia M en o r e que estava preocupando toda a
Igreja. Mas Ireneu foi solidário a ele. Sua crença antiga no poder miraculoso do
‘Espírito’ e sua severidade moral um pouco reacionária tocou um a nota simples
e familiar em seu coração, e ele não queria ver estes pios movimentos da Igreja
e seus ‘profetas’ liquidados sem qualquer com preensão pela ação de oficiais ecle­
siásticos. Posteriorm ente Ireneu escreveu cartas em seu próprio nom e que foram
enviadas para R om a e Alexandria. Sua preocupação era apaziguar e mediar entre
as partes em disputa. Q uando V itor de R o m a aceitou ser persuadido a rom per
relações eclesiásticas com as igrejas na Ásia M enor, por causa das diferenças dura­
douras sobre a festa da Páscoa, Ireneu lhe escreveu uma vigorosa carta na qual
condenava esta ação ditatorial ‘de uma maneira conveniente’ (Eus., H .E. V, 24,11).
Diferenças nas questões práticas na Igreja podem ser toleradas sem causar
prejuízo; na verdade, até certo ponto elas m eramente realçam a contínua unidade
que é criada pela Fé. O que tem grande im portância é esta própria fé antiga, a
verdade do Evangelho transmitida pelos apóstolos; no entanto, é im portante
estarmos atentos quando aparecem novas doutrinas que tentam roubar ou falsi­
ficar o tesouro original. Ireneu pessoalmente cham ou a prestar contas homens
cuja teologia lhe parecia questionável; ele advertiu que estes não poderiam mais
ser tolerados com o membros do clero, e ao diácono que o representava em Viena
ele com unicou instruções dogmáticas de com o os hereges deveriam ser instru­
ídos. Lutar contra falsas doutrinas era parte da pregação verdadeira e um proble­
ma urgente no qual Ireneu em penhou-se e dedicou-se por toda a sua vida. Seus
escritos tam bém foram dedicados prim ordialm ente a este fim.
Sua obra principal, os cinco volumes da Refutação e Derrocada do Gnosticismo,
foi dedicada exclusivamente à luta contra as heresias, e ainda perm anece sendo a
mais im portante fonte de inform ação sobre a história teológica e sectária do
segundo século. N o entanto, Ireneu não deve ser considerado com o uma pessoa
intolerante e briguenta, para quem as discussões dogmáticas eram um a necessi­
dade para seu próprio bem . D evido à rápida expansão em u m m undo estrangei­
ro e pagão, a Igreja neste período tinha de fato atingido um a séria crise que
ameaçava m udar a essência religiosa da fé e destruir seus fundam entos históricos.
Apenas um vigoroso contra-ataque poderia ser bem -sucedido para afastar este
perigo. Ireneu sustenta, com Justino e vários outros teólogos de sua geração, uma
única e igual frente neste aspecto. Os inimigos com quem deviam lutar estavam
ainda em parte dentro da Igreja, mas a m aioria deles já estava fora, divididos em
inúm eros grupos e escolas, e ocasionalmente se reuniam em sociedades distintas
e independentes, das quais os seguidores de M arcião representavam os mais for­
tes e mais im portantes. A única coisa que pareciam ter em com um era que eles
estavam alterando e atacando o que Ireneu considerava o ensino apostólico ori­
ginal. Mas de fato, apesar de todas as diferenças individuais, eles form aram um
único m ovim ento religioso coerente em seus impulsos e intenções finais, que
perm eou o m undo todo nos últimos tempos da antigüidade. H oje o descreve­
mos com o ‘gnosticismo’ porque seus representantes freqüentem ente afirmavam
ter um a mais elevada - porém na visão de Ireneu, ‘falsamente suposta’ gnose
religiosa, ou conhecim ento de mistérios espirituais.
Os gnósticos transformaram o cristianismo em uma religião escapista e dualista
no que tange à redenção e abandonaram não som ente o A ntigo Testamento, mas
tam bém a antiga compreensão cristã da fé, e o plano da salvação com o um
estágio inferior no cam inho para a perfeição. Cristo não era mais considerado
com o um hom em histórico real de carne e sangue, que cum pre as promessas a
Israel, mas com o um Ser celestial parcialmente místico, de dimensões cósmicas.
Pensavam que sua conquista decisiva foi a transmissão do conhecim ento revelador
pelo qual a alma hum ana é arrancada do m undo dos sentidos e chamada de volta

B S
ao seu verdadeiro e eterno lar, ao qual deve voltar novam ente através do novo
conhecim ento do espírito, diretamente, ou com a ajuda de práticas sacramentais
e ascéticas específicas. Ela assim retornará ao Ser espiritualm ente divino do qual
Cristo deu testemunho. Dessa forma, entendiam que ela não teria mais nada a
fazer neste m undo; e que o Deus Criador, com seus anjos e leis, era o poder
realmente hostil do qual deviam fugir.
Ireneu não foi bem -sucedido em esquadrinhar e lutar contra a massa des-
norteante das idéias gnósticas, mitos e especulações na form a simplificada em
que as esboçamos aqui. Ele se deu ao trabalho de explorar o ensino e as origens
de cada seita em particular, o que apenas aum entou a impressão de confusão e
complicada fantasia. Ireneu tentou publicar sua Refutação tão sistemática e bem
detalhada quanto possível. Mas ele mesm o faltou com a clareza, objetividade
sem preconceitos, e poder de exposição organizado, o que era necessário para a
tarefa. Dessa forma, a obra se to rn o u u m exemplo típico de ataque desorganiza­
do e cansativo contra os hereges, os quais, não tendo superioridade intelectual, se
aproveitaram de cada argum ento para desacreditar, lançar suspeitas e caricaturar
o inimigo. As pretensões ridículas, as contradições e os absurdos de suas teorias
arbitrárias, os constantes desentendim entos entre seus vários grupos e partidos e,
não menos, as vidas imorais e as atitudes sem princípios de seus líderes, são
expostas repetidam ente. Logo, no entanto, quando Ireneu recorre a uma exposi­
ção positiva da fé da Igreja, o nível de seus escritos se eleva e fica claro que ele
tem um sentim ento verdadeiro para com as questões fundamentais no conflito.
Ele está preocupado em repelir a atitude gnóstica blasfema relativa à criação e
refutar a afirmação de que existe um D eus C riador ju d eu que se coloca em
contraste com Cristo. E m oposição a isto, o im portante é com preender a relação
entre Criação e Redenção, a unidade interna da tríplice obra do Pai, do Filho e
do Espírito Santo, em seu verdadeiro significado.
N o princípio Deus criou e adornou o m undo com suas duas mãos, o Filho
e o Espírito, e fez o hom em conform e a sua própria im agem para viver neste
m undo. N a verdade, o hom em e toda a criação caíram, mas Deus não os deixou
caídos. E m três etapas, Ele levantou o hom em novamente: N a antiga aliança os
profetas deram testem unho dEle com o o Senhor, e Ele agora nos concedeu o
poder de nos tornarm os filhos de Deus através de seu Filho. E, em algum dia por
vir, Ele se revelará com o Pai em seu R eino. Ele perm anece para sempre essenci­
almente incomensurável, mas em am or Ele se aproxim ou de nós e nos deu do
seu Espírito. ‘E a glória de D eus que o hom em viva; mas é fundamental para a
vida do hom em que ele veja a D eus’ (Haer. IV, 20,7). Esta é a chave do significa­
do da história do m undo, e a R edenção não anula, mas conduz transcendental-
mente, à criação. Ireneu não está ensinando um a crença de pouco valor. Tudo
em seu pensam ento diz respeito ao novo relacionam ento de filiação que Cristo
estabeleceu. Mas é o único e o mesm o Deus que em seu poder triuno opera
todas as coisas e conduz o m undo e a hum anidade à perfeição eterna, de acordo
com o seu decreto misterioso.
N ão é fácil ter certeza de com o tais afirmações estão longe de ser o produto
do próprio pensam ento de Ireneu. Ele mesmo, com o já vimos, não dá grande
importância em se mostrar original; pelo contrário, ele se refere por toda a sua
obra ao testem unho dos ‘antigos’, o qual ele apenas busca preservar e transmitir.
O m elhor que ele tinha a oferecer não brotou em sua própria mente. Desde que
isso se tornou evidente, Ireneu perdeu m uito de sua reputação anterior com o
um grande teólogo.
D a mesma forma, ele to rn o u os frutos de sua leitura com o seus e era bastan­
te capaz de expressá-los à sua própria maneira. Ireneu parece mais independente
quando não está lutando contra os hereges em bases puram ente dogmáticas, mas
atacando-os com argumentos históricos. Ele os trata com o ‘inovadores’ e não se
preocupa em enfatizar o absurdo e a falta de fundam ento do cristianismo deles,
contrastando-o com o testem unho original e autêntico da fé apostólica. A ver­
dadeira Igreja não pode tolerar alterações arbitrárias daquilo que recebeu desde
o princípio.
N ão é necessário dizer que Ireneu não pergunta se a sua própria Igreja,
apesar dos seus valores históricos e talvez p o r causa do seu absoluto com prom is­
so com as Escrituras e os testem unhos do passado, não poderia estar passando
tam bém por transformações. Ele se satisfaz com uma referência aos antigos do­
cum entos com o evidência das mensagens autênticas da Igreja. Se estudarmos os
escritos apocalípticos dos gnósticos, com seus mitos e suas várias tradições apócrifas,
seremos bastante justificados em concluir que Ireneu estava perfeitam ente certo
ao rejeitá-los.
Ele foi o prim eiro teólogo literário consciente da Igreja cristã. Ele foi o
prim eiro a colocar os quatro Evangelhos, com um a série de escritos apostólicos
posteriores, em bora não exatamente a seleção atual, lado a lado com o Antigo
Testamento. Da mesma forma, eles são citados com o ‘escritura’. A Bíblia cristã
de dois volumes estava nascendo. Mas o im portante é a atitude básica que Ireneu
adota em relação à Bíblia cristã, sua intenção declarada em recusar ir além daqui­
lo que foi revelado no princípio, e a convicção de que o depósito final e irrevogável
dos ensinamentos apostólicos era de um a vez p o r todas suficiente para a salvação.
Os textos são inabaláveis, e Ireneu quer defender até mesmo seus próprios escri­
tos contra todas as tentativas de aperfeiçoá-los. A tradição da Igreja não é mais
um fator independente ao lado das Escrituras: ela simplesmente confirm a o tes­
tem unho da Bíblia. Q uando os gnósticos se referem a suas alegadas tradições
especiais secretas, deve ser afirmado que eles são presunçosos e que som ente os
anciãos da Igreja, seus bispos e mestres, mantiveram continuidade direta com os
apóstolos. Eles devem, portanto, estar de posse da tradição autêntica e original. O
exemplo da lista romana de bispos que haviam sido recentem ente oficializados e
que Ireneu registra (Haer. III, 3, 3), mostra esta continuidade com as origens
apostólicas de um a form a exemplar, e a unanim idade esplêndida de todas as
congregações ortodoxas confirm a mais um a vez onde a verdade realmente pode
ser encontrada.
C om esta ênfase na universalidade e na sucessão de bispos, que o exemplo
rom ano ilustra tão clara e instrutivam ente (‘acima de todos os outros’), Ireneu
apresenta idéias que provaram ser especialmente valiosas para o pensamento ecle­
siástico posterior. Ele mesmo som ente as usou com o armas na luta contra as
reivindicações dos gnósticos, e fora dessa intenção polêmica ele não teve mais
nenhum interesse nelas. Para ele a Igreja com o u m todo está fundada diretamen­
te na antiga palavra apostólica da verdade, e através do Espírito Santo, que dá a
ela seus maravilhosos dons, ela está unida em todo lugar, em espírito.
Isto fica particularm ente evidente p o r u m panfleto posterior, que sobrevi­
veu apenas em um a tradução armênia, que reúne os principais dogmas do ensi­
no cristão de um m odo edificante ‘com o evidência da mensagem apostólica’.
N ão há mais aqui nenhum a m enção de considerações ‘canónicas’ ou oficiais. A
mensagem cristã é apresentada em um a form a simples, de acordo com a história
bíblica, com eçando com a criação e a queda e conduzindo através da história
sagrada de Israel a Jesus Cristo, que redim iu o hom em pelo seu sofrimento,
m orte e ressurreição. Este evento decisivo não precisa de n enhum outro apoio,
senão a prova escriturística do A ntigo Testamento, o qual Ireneu, com o Justino,
expõe novam ente de form a integral. Então, os apóstolos espalharam o Evange­
lho por todo o m undo e estabeleceram a Igreja; ela é um novo paraíso plantado
neste m undo. Ela está impregnada pelo Espírito Santo em todas as suas ramifica­
ções, e Ele torna plano o cam inho da adoração e da justiça. O poder dos ídolos
e da idolatria foi quebrado e um a nova vida de perfeita santidade teve início. O
judaísm o agora tam bém pertence definitivamente ao passado. ‘Porque temos o
Senhor da lei, o Filho de Deus, e pela fé nele aprendemos a amar a Deus de todo
o nosso coração e ao próxim o com o a nós mesmos. Mas o am or a Deus não tem
parte com o pecado e o am or ao próxim o não opera maldade contra os nossos
com panheiros’ (Epid. 95). A Igreja está protegida em sua simplicidade de todas as
tentações humanas. Seus membros sabem que um hom em de Deus, mesmo
ignorante, é sempre m elhor que um filósofo im prudente.
Justino tinha apresentado a reivindicação ‘filosófica’ pela qual o cristianismo
poderia ser mostrado com o a verdade em u m sentido absoluto, até mesmo para
o julgam ento crítico racionalista. C ontudo, Ireneu nos lembra que o cristianis­
mo jamais pode ser um a mera filosofia, e que ele certam ente se baseia na revela­
ção e nas tradições sagradas, que ele age no Espírito Santo e é transmitido so­
m ente pela Igreja universal e sua palavra apostólica. C o m este testem unho, ele se
tornou uma figura fundam entalm ente significativa, e continua a influenciar a
cristandade, especialmente o m undo ocidental. Seus escritos foram traduzidos
para o latim em um período anterior, e depois para o siríaco e o armênio.
Seu testem unho ortodoxo foi integralm ente aprovado tam bém pelos patri­
arcas gregos da Igreja, mas, em bora ele próprio fosse grego, seus escritos caíram
rapidamente para um segundo plano e foi quase esquecido pelos seus com patrio­
tas. Seu estilo simples, deselegante e ingênuo parecia m uito antiquado e m uito
primitivo. Os teólogos gregos, buscando um a compreensão mais com pleta do
cristianismo e da Igreja, im ediatam ente encontraram -se confrontados por novas
e difíceis perguntas, que eram impossíveis de ser respondidas pelas linhas tradicio­
nais da devoção com um . Eles eram mais ‘filosóficos’ que Ireneu, e buscavam
novos caminhos para com preender a antiga verdade e torná-la inteligível para
seus contem porâneos, num espírito de espantosa independência.
C lem ente de A l e x a n d r ia

om o Justino, C lem ente de Alexandria chegou ao cristianis­


m o p o r m eio da filosofia. Mas a Palavra tem um conteúdo
m uito mais profundo e rico para ele do que tinha para Justino.
Este, em sua zelosa tentativa de educar e converter, sempre tentou tom ar o cami­
nho mais curto, com um aparato filosófico que nada continha fora do com um.
N enhum patriarca da Igreja foi julgado de tantas maneiras diferentes com o C le­
mente.
C om a força e flexibilidade de sua personalidade, ele tinha no fundo uma
multifacetada natureza contendo um a grande essência; nunca se manteve na
trajetória corriqueira, deliberadam ente evitou slogans e fórmulas estabelecidas, e
nunca deixou de perguntar, pesquisar e raciocinar. Era um mestre da discussão,
poder-se-ia quase dizer um típico hom em de letras e um boêmio. Mas ele tam­
bém , ao tornar-se cristão, deu um claro e decisivo passo para alcançar um propó­
sito final e inabalável a todos os seus interesses e esforços intelectuais.
C lem ente tam bém é um servo, e considera com o o propósito de sua vida
conduzir os hom ens a C risto —um a missão que ele manteve de um a maneira
pessoal estranham ente flexível e não dogmática. Clem ente não era um mestre
público da Igreja e, apesar do seu grande conhecim ento, não era realmente um
erudito. Ele era um hom em de conversação, de experiência espiritual, e um
culto pastor de almas. C om o tal ele dem onstrou inspiração, perguntas bem colo­
cadas, possibilidades e problemas ponderados, os quais não encontramos em quase
nenhum outro lugar. Alguns mestres nas reuniões secretas gnósticas podem ter
se assemelhado a ele, e mais tarde foi interpretado e estimado de m odo particular
p or um grande núm ero de em inentes monges. Mas eles mesmos estavam geral­
m ente tocando as raias da heresia ou já tinham cruzado as suas fronteiras
involuntariamente. E m seu próprio século, C lem ente era aparentem ente tolera­
do sem dificuldade.
Pouco sabemos sobre a trajetória secular de sua vida. D izem que ele nasceu
em Atenas, mas talvez esta informação seja apenas simbolicamente correta. C om o
Justino, ele era um viajante; e mesmo depois de tornar-se cristão, viajou por
todas as províncias de língua grega do im pério, da Ásia M enor e Síria para locais
com o Itália e Egito, esforçando-se em toda parte para increm entar sua educação.
E característico que posteriorm ente ele tenha pensado nestas viagens com o uma
busca por um verdadeiro ‘mestre’. Apenas o sexto mestre que ele encontrou o
satisfez realmente: Panteno, que, em seu julgamento, superou todos os outros em
sua interpretação da Bíblia, mas que desprezou deixar por escrito quaisquer de suas
palestras. C om o os ‘antigos’, os mestres do período cristão inicial, Panteno ensinou
somente pela palavra falada; portanto, é impossível julgarm os sua qualidade.
Aproximadamente em 180 d.C., C lem ente o conheceu em Alexandria e lá
se estabeleceu, trabalhando com o professor, da mesma form a que Justino em
R om a. N aturalm ente, estava em contato com a congregação cristã, mas não há
razão para supor que ele deu aulas a favor da Igreja, com o o líder responsável p o r
sua instrução bíblica, com o a tradição relata. Sua ‘escola’ era independente, com
alunos livremente inscritos de todos os lugares. Pagãos,judeus e ‘filósofos’ de todos
os tipos provavelmente vieram juntos com cristãos letrados e cristãos sedentos por
educação, alguns deles originariam ente hereges, e todos foram ensinados, ajudados
e, sem dúvida, muitos deles foram convertidos no fim pela Igreja.
Clem ente se considerava um ortodoxo, u m cristão universal, a tal ponto de
alcançar o resultado mais im portante na luta contra os gnósticos: a Bíblia da
Igreja. Ele aceitou o A ntigo Testamento e sua crença na criação, e se esforçou
para basear seu ensino nas Escrituras. Portanto, com o teólogo, C lem ente tam ­
bém era, acima de tudo, um exegeta: considerava a interpretação da Bíblia com o
sua real tarefa e vocação. Ao mesmo tem po, contudo, levou em consideração
todas as outras teorias e ‘filosofias’ que estavam ao seu redor e tentou encam inhá-
las para uma conversação frutífera. Ele lutou contra as falsas doutrinas dos gnósticos
e outros hereges, mas também os estudou e tentou aprender deles. Seus argumen­
tos eram voltados à instrução e à compreensão ao invés de um direto ‘anátema’. Ele
tam bém conviveu em um m undo intelectual com um com os filósofos pagãos até
aquele m om ento, enquanto eles não se tornaram epicureus que negavam a exis­
tência da providência divina. Mais uma vez, Platão ficou em prim eiro plano e foi
considerado com o o que mais se aproximou da verdade do cristianismo.
A m etrópole de Alexandria, com sua vida variada e ricam ente animada, era
u m local ideal para as atividades de um hom em com o Clem ente. N ão estou
pensando m eram ente na cultura acadêmica e, num sentido estrito, filosófico do
lugar. A mistura e o intercâm bio de culturas, escolas e tradições tinham aconte-

S2
eido aqui durante m uito tem po e abraçado todo tipo de religião e pontos de
vista. Acima de tudo era u m lugar onde as tendências teosóficas da antigüidade
foram capazes de se espalhar rapidamente, aqui nos arredores do antigo m undo
mágico do Egito.
Tudo isto tinha no passado facilitado a penetração do judaísm o, com o estava
agora acontecendo com o cristianismo, nos círculos intelectuais. É impossível
entender Clem ente, a m enos que ele seja visto em um plano mais amplo. Ele
estava ardentem ente interessado em todas as antigas revelações, tradições secretas
e mistérios, mesm o quando condenava seus conteúdos, e pensava no cristianis­
mo não apenas com o um a ‘filosofia’, mas tam bém com o um a realidade e poder
misteriosos que m udam e exaltam o hom em integralmente.
C ontudo, diferentem ente de alguns mestres gnósticos, C lem ente não se
perdeu neste m undo m ágico dos sonhos, pois buscou o trem or do m isterioso
não sim plesm ente p o r causa do enlevo e das paixões. Ele buscou em todos os
lugares preferentem ente a verdade, a séria e com pleta verdade que pode esta­
belecer e unir a vida hum ana, a verdade que significa para ele o conhecim ento
de Deus, a decisão m oral e a razão, o u seja, todas estas qualidades ju ntam ente.
Era isto que ele perseguia em Platão e com preendeu da m aneira mais perfeita
a ‘aparência’ terrena do Logos divino, C risto. D esde a vinda de C risto, toda a
verdadeira vida e experiência espiritual não poderia ser nada além de u m de­
senvolvim ento desta clara, inesgotável, misteriosa e, contudo, revelada e reco­
nhecida verdade viva de Deus.
O legado literário de C lem ente teve o m esm o destino de todos os pais
deste período inicial: a m aioria desapareceu. N o entanto, um a boa quantidade
sobreviveu, suficiente para nos p erm itir seguir a m ente curiosam ente versátil
deste hom em nos campos mais variados. O Protréptico é um tratado missioná­
rio cristão com posto inteiram ente no estilo das antigas ‘adm oestações’ filosófi­
cas. Sua intenção é a mesma daquelas usuais ‘apologias’ cristãs do segundo
século, mas ele atingiu um nível diferente e não tem nada da habitual banalida­
de arrogante destes tratados.
D e acordo com Eduard N orden (Die antike Kunstprosa, 1898,549), mesmo o
prefacio, com suas sentenças curtas, rítmicas e ornamentais, é u m dos produtos
mais aprimorados da prosa sofisticada. C o m grande vigor de espírito ele desafia
o leitor a ouvir doravante a nova canção cujo cantor e assunto é o novo O rfeu,
o Logos vindo de Sião, ao invés das canções mitológicas em louvor aos deuses da
antigüidade. Aí segue-se o ataque tradicional à insensatez e à imoralidade dos
m itos, mistérios, sacrifícios e im agens pagãos. A verdade relativa contida na
mensagem dos filósofos é reconhecida. Mas o conhecim ento com pleto e límpido
será encontrado som ente nos profetas e, acima de tudo, no Logos, que conduz a
toda a verdade.
A seqüência desta adm oestação será encontrada no am plo Paedogogus, ou
‘E ducador’. O propósito deste tratado é lidar com as questões de interesse
m oral e social para cristãos iniciantes de um a m aneira fácil e despretensiosa. A
discussão passa a ser acima de tu d o sobre as questões práticas da vida e do
com portam ento, de grande interesse para os estudantes da história do com ­
portam ento: hábitos de com ida e bebida; a vida e a organização do lar; festivais
e divertim entos; sono e recreação; m aquiagem e adorno; relacionam ento na
sociedade e entre os sexos: todos estes tópicos são discutidos. U m capítulo
inteiro é dedicado a calçados, u m outro, de considerável tam anho, exclusiva­
m ente a perfum es, ungüentos e grinaldas.
Claro que Clem ente baseou grande parte de sua obra na literatura sobre
etiqueta então disponível; os seus com entários sobre o virtuoso e o natural nem
sempre são originais. C ontudo, é evidente que Clem ente está perseguindo um a
linha definida por todo o palavreado e exame de cada consideração possível, e
que tem um objetivo em vista, que fica além de todas estas discussões aparente­
m ente triviais.
O cristianismo não pode ser pensado com o um m ero m andam ento ou exi­
gência exterior, que deva ser cum prida de acordo com a letra da lei. É, ao invés
disso, um a questão do coração, do hom em por inteiro; e a ética cristã é uma ética
de intenção, tanto em seu compromisso quanto em sua liberdade. Clem ente,
portanto, não é solidário com ideais ascéticos radicais. O próprio Paulo nos
lembra que o R ein o de Deus não consiste em com er e beber (R m 14.17) nem ,
portanto, na abstenção de carne e bebida, mas em retidão e paz e alegria no
Espírito Santo. Alguém pode ser rico e pobre ao mesmo tempo, ter posses e não
tê-las, usar o m undo e não desfrutá-lo (1 C o 7.31). ‘Igualmente, a hum ildade
não consiste na mortificação do corpo, mas em mansidão, assim a abstinência
tam bém é uma virtude da alma, que tem seu ser não no visível, mas nos lugares
ocultos’ (Strom. III, 48, 3).
Todas as coisas externas são neutras, adiaphora, no sentido estóico, e o cristão
está totalm ente ‘livre’ em relação a elas. Mas esta liberdade não é sinónim o de
capricho e licenciosidade.Todos os excessos são indignos do hom em e, portanto,
do cristão. Clem ente pode explicar o fato de que os pés de Jesus foram ungidos
com um precioso ungüento (Lc 7.37), apenas m encionando que a m ulher que
os ungiu não era convertida. Ele usa um a alegoria para interpretar o incidente: o
ungüento precioso tipifica o ensino divino que deveria ser praticado no m undo
pelos pés de Jesus, isto é, pelos seus apóstolos.
Em geral, moderação, dom ínio próprio, discrição, utilidade e bom senso
serão recom endados com o virtudes cristãs, a prática das quais é sempre decorosa
e, portanto, de acordo com as exigências da filosofia. C ontudo, o poder supremo
que governa a liberdade cristã não é a m era razão, mas o am or que ama a Deus
e tam bém o próxim o e lhe dá voluntariam ente tudo o que necessita. Este amor,
que já havia sido ordenado ao hom em no A ntigo Testamento, está de acordo
com a justiça e o bom senso, os conceitos básicos da filosofia social dos antigos.
E compreensível que C lem ente tenha sempre sido o favorito de todos os
humanistas. Ele deseja m anter a fé com os ideais helénicos clássicos, e o fato de
que ele sempre tenta dar um to m filosófico e racional tanto quanto razões
escriturísticas para o que tem a dizer não deveria ser rejeitado com o m ero con­
formismo. Para ele não há antítese incompatível entre os dois. Os filósofos clás­
sicos e os profetas ‘bárbaros’ do A ntigo Testamento parecem se colocar quase que
inteiram ente na mesma linha de pensam ento com o pioneiros da verdade que foi
revelada em Cristo.
N en h u m povo foi totalm ente abandonado pela providência, e, afinal,‘o úni­
co Deus verdadeiro é o A utor de toda a beleza, seja helénica ou seja nossa’ (Strom.
I, 28). O fato de muitas ‘ervas daninhas’ serem encontradas nos filósofos, o que
não acontece com a Bíblia, e que ‘nem todas as nozes são comestíveis’ (Strom. I,
7,3) não afeta este discernim ento fundamental. Clem ente se recusa a ser intim i­
dado por espíritos ansiosos que desconfiam da ciência e da cultura e têm m edo
da filosofia grega ‘com o crianças que são assustadas pelo hom em negro’ (Strom.
VI, 80, 5). Se acrescentarmos que ele rejeita as exigências de ascetismo com
absoluta determ inação e afirma o nobre prazer das coisas terrenas com o naturais
e concordantes com a vontade de Deus (‘Por que eu não deveria apreciá-las?
Pois para quem elas foram criadas senão para nós?’ [Paed. II, 119,2]), ele parece
ser quase o protótipo de um teólogo liberal, com sua piedade mundana. Mas, na
verdade, Clem ente não era mais u m liberal do que um piedoso. Ele se esforçou
deliberadamente para ir além destas duas atitudes básicas, exaltando o cristianis­
m o com o um a religião em si mesma, que elevava-se acima do paganismo e
sem elhantem ente do judaísmo. O cristianismo é a novidade de vida de um novo
ser, que é aperfeiçoado acima de toda a maneira prévia de vida, além de todo o
m ero racionalismo e moralidade legalista. É u m novo entusiasmo de com unhão
com Deus em fé, esperança e amor, e é, portanto, a coroação de toda a cultura e
religião humana: é a perfeição da vida em Deus.
Para conhecer bem C lem ente é necessário atentar para a sua obra Stromateis
(‘Colcha de retalhos’,‘Mala de tapeçaria’), que é uma obra de grande amplitude,
que não conduz realmente a lugar algum em particular, ou seja, a estranheza que
aum enta quanto mais a conhecem os melhor. M esmo a form a exterior da obra,
na qual nenhum plano claro pode ser detectado, parece bastante confusa. O
título a coloca entre produções variadas similares com o os escritores clássicos
conhecidos com o ‘tapeceiros’, ‘bordadeiros’, ‘prados’, ou ‘hélicons’. São miscelâ­
neas, estudos e esboços preliminares, que foram desenvolvidos em uma espécie
de forma artística na Grécia. Por último, na oitava miscelânea (Mala de tapeça-

is
ria), o material não é de form a alguma arranjado: ele consiste inteiram ente em
esboços e trechos preliminares dos quais C lem ente pretendia fazer uso posteri­
orm ente. Pode-se perguntar, no entanto, qual era o alcance da Stromateis para um
público absolutamente maior. Talvez ele represente o material de ensino da es­
cola Clem entina, e com o tal pode ser capaz de nos dar uma idéia dos seus
métodos de instrução, preferencialmente da maneira com o se fazia anotações de
palestras.
D a mesma forma, as intenções literárias da obra parecem ir além disso. O
conteúdo destas ‘Malas de tapeçaria’ é extremam ente variado, mas sempre relacio­
nado a certas questões fundamentais e centrais. C lem ente lida, por exemplo, com
o significado da filosofia clássica, e discute fé e conhecim ento, o am or de Deus e
problemas do casamento e da virgindade. Seções mais longas tratam do propósi­
to e significado do verdadeiro m artírio, o testem unho cristão da palavra e do
sangue. C lem ente discute doutrinas específicas dos hereges; ele se refere à tradi­
ção de seus próprios mestres e dos ‘anciãos’ e patriarcas da Igreja. Finalmente, ele
se volta com am or especial e simpatia para as figuras do perfeito ‘gnóstico’, o
cristão que é integralm ente um com D eus em conhecim ento e amor. A palavra
‘gnóstico’ não é, portanto, de form a alguma limitada neste contexto aos hereges,
com o é freqüente no uso m oderno. Pelo contrário, o conceito real de C lem ente
sobre o cristianismo é consum ado no ideal do cristão ‘conhecedor’.
É quase impossível discernir a linha de pensam ento operando na ‘Mala de
tapeçaria’. Mas a m aior dificuldade surge da constante m udança não somente de
assunto, mas tam bém dos pontos de vista, estilo e nível intelectual. O ponto de
referência é repetidam ente a Bíblia, cujos ecos, m esm o involuntariam ente,
perm eiam todo o discurso.
Mas poetas e filósofos são tam bém citados em grande abundância, e C le­
m ente os segue bem de perto p o r longos períodos. Ele lida com objeções e
diferenças de opinião; ele parece oscilar para trás e para frente, num a conversação
perpétua, para fazer perguntas, ouvir, discutir, e então continuar sozinho, depois
de fazer algumas ressalvas. Ele não tem m edo de form ar julgam entos e dedicar-
se à sua própria posição; mas eles são com freqüência m eram ente provisórios;
parece nunca tratar exaustivamente dos assuntos e, com freqüência, rem ete o
leitor a exposições que estão p o r vir. Tem-se a impressão de que o que ele tem
em m ente é um todo definitivo na direção em que está apontando, mas que o
evita repetidam ente, o que ele acha impossível de com preender.
A ambigüidade e a confusão da exposição, que im pele o leitor a um pensa­
m ento e questionam ento adicionais, são, contudo, bem intencionais. C o m certe­
za, Clem ente não é um pensador estritam ente sistemático, mas seria um a injus­
tiça a ele interpretar seu compromisso com este estilo estranho com o uma confis­
são modesta de sua própria incapacidade ou mesmo com o um a fuga cuidadosa
da crítica que poderia ser provocada p o r esta discussão livre e literária das ques­
tões sagradas.
Clem ente afirma no princípio da obra, e muitas vezes bem claramente em
outros lugares, p or que elaborou u m princípio irregular e freqüentem ente m u­
dou seus padrões e pontos de vista. O m étodo segue a natureza da causa a que se
pretende servir. Pensava-se que o cristianismo não poderia simplesmente ser
ensinado, a qualquer custo, que não poderia ser com unicado por escrito e posto
à disposição de todos, de um a vez p o r todas. Sua realidade é misteriosa e inteira­
mente revelada som ente para aqueles que estão maduros para recebê-la e são
suficientemente abençoados p o r Deus.
A fé precisa ser apropriada p o r cada nova pessoa; e espalhá-la é profaná-la
por divulgação precipitada. As ‘Malas de tapeçaria’, portanto, constituem um
bosque deliberado, um ‘parque espiritual’ onde árvores frutíferas e não frutíferas
são plantadas desordenadamente, para que o mero curioso ou hipócrita não
possa roubar a fruta, mas aqueles que estão interiorm ente preparados irão encontrá-
las im ediatam ente e desfrutá-las.
Clem ente ficaria satisfeito se escrevesse para um único leitor que realmente
o entendesse; mas este leitor irá entendê-lo não simplesmente p o r lê-lo, mas
baseado em sua própria experiência de vida e em um a afinidade interior pela
qual descobre o que se relaciona consigo.
C om o podem os ver, há mais em C lem ente do que no habitual mercado do
mistério dos monges, ou nas misteriosas disciplinas e fingimentos ridículos. Ele
está preocupado, em bora na elegante roupagem exterior de tais idéias, com a
‘verdade com o um encontro’ e um a experiência, com as dificuldades e possibi­
lidades de um a com unicação individual-existencial e apropriação da verdade.
Este foi um problem a com o qual Platão já havia lutado, quando deliberadam en­
te renunciou à com unicação direta e dogmática do ensino pela escrita. C lem en­
te está, portanto, bastante justificado quando refere-se a ele.
O verdadeiro conhecim ento do estabelecimento da vida deve ser adquirido
pessoalmente; pode ser ensinado, mostrado e testem unhado apenas pessoalmen­
te, pela palavra falada, p o r m eio de u m encontro responsável e direto. O conhe­
cim ento supremo não pode ser adquirido a partir dos livros, e não deveria ser
revelado em livros. N ão se coloca um a faca nas mãos de um a criança. E p o r isto
que a personalidade do mestre é tão extraordinariam ente im portante e tão abso­
lutam ente indispensável para um cristianismo vivo.
Clem ente exorta a todos a escolher tal guia espiritual e amigo que lhe dirá
a verdade abertamente, e que não tenha medo, se a necessidade surgir, de se
em penhar de m odo convicto, com o u m m eio de ajudar e curar. N a esfera de um
conhecim ento religioso mais elevado, a figura do mestre atinge uma im portân­
cia ainda mais extensa. Ele não é simplesmente o mestre vigilante, o ajudador e
parceiro socrático no cam inho para um a independente apropriação e apreciação
da verdade; com o o hom em que foi alcançado e consagrado p o r Deus, ele é o
correto m ediador da verdade, o prim eiro a fazê-lo realmente vivo e visível para
o iniciante.
A presentando-o gradualmente ao novo m undo da oração, visão e am or cris­
tãos, ele transforma aquele que o busca e o crente simples, e isto pela prim eira
vez, em um compreensivo, ardente e radiante ‘conhecedor’ do seu Senhor. Julga­
do contra estas realidades e experiências definitivas, todo conhecim ento m era­
m ente teórico pode ser nada mais que um a preparação, um tipo de p ré-conhe-
cim ento e pré-com preensão, com o servem de auxílio para a filosofia matérias
com o geom etria ou outra matéria propedêutica. M esm o um livro cristão, até
m esm o a própria Bíblia, na qual toda a sabedoria está contida, não pode simples­
m ente com o um livro substituir o mestre. O fogo do espírito somente pode ser
aceso por um fogo vivo.
A perfeição é alcançada no nível mais elevado do conhecim ento. O perfeito
gnóstico não necessita mais do mestre hum ano, desde que ele se to rn o u direta­
m ente ligado a Deus através do Logos e desse m odo se to rn o u amigo e íntim o
de Deus. Ele foi levantado bem acima dos cuidados e paixões deste m undo; eles
não mais o alcançam, em bora exteriorm ente continue a viver livremente e sem
constrangim ento no mundo. Ele não é mais seduzido ou assustado pelas coisas
visíveis. Pela ligação interna de sua vontade a Deus ele entrou para o coral dos
eternos anjos adoradores. Ele pode viajar e se associar com outras pessoas, des­
cansar, ler, se envolver em negócios - mas basicamente sua vida toda é um a
oração ininterrupta, um relacionam ento contínuo com Deus, um deleite cons­
tante. Deus sempre atenta para este esforço em sua direção, em bora não possa ser
expresso em palavras. O verdadeiro gnóstico, contudo, não vive mais para si
mesmo neste estado de abençoada perfeição. E m seu am or a Deus, o am or de
Deus vive nele; ele se torna a im agem viva e ativa de C risto e desce com alegria
até seu companheiro, pois todos são - com o ele - chamados para o Altíssimo e
entrarão no reino do conhecim ento divino através dele.
Neste louvor do perfeito gnóstico, C lem ente está descrevendo a si próprio o
ideal que ele tentou desenvolver com seus alunos que viram nele o seu mestre,
pastor e padrão. Clem ente quase nunca m enciona o com panheirism o mais am­
plo da Igreja e sua organização. Q uando fala dos clérigos e suas tarefas, com o os
textos do A ntigo Testamento necessariamente o convidaram a fazer, eles auto­
m aticam ente se tornam tipos e alegorias dos decretos de perfeição espiritual,
com os quais ele está exclusivamente preocupado.
N o fundo, os oficiais da Igreja não o interessam . O gnóstico e o m estre
gnóstico são os personagens sacerdotais reais, e o legado espiritual no qual
eles se alim entam não pode ser transm itido p o r canais oficiais. C o n tu d o , esta
relativa desconsideração pelo clerical e eclesiástico não p o d e ser interpretada
no sentido de um a rejeição ou um a expressão de hostilidade secreta. Em
certa ocasião, o p ró p rio C lem en te disse que o gnóstico genuíno não deveria
evitar o louvor público da Igreja, m esm o que ele m esm o não necessite mais
disso.Temos até um longo serm ão que o p ró p rio C lem en te pregou. N a ver­
dade, não está claro se este foi u m serm ão realm ente proferido na Igreja ou
um tipo de ‘lição bíblica’ ou palestra religiosa destinada apenas a u m círculo
lim itado de seus próprios alunos.
D e qualquer maneira, podem os ver com o Clem ente entendeu com o desen­
volver um a linha de pensam ento com perfeita simplicidade e clareza e levá-la até
o fim sem qualquer enfeite ostentoso e com sentim ento verdadeiro. Mas o nível
acadêmico do sermão e o problem a com o qual ele trata parece direcionado
particularm ente aos altos níveis da sociedade cristã. C lem ente mostra em relação
à parábola do ‘jovem rico ’ que não poderia ter sido a intenção de Jesus excluir
com pletam ente os ricos do R ein o de Deus. Neste ponto, a questão é fundam en­
talmente interior e espiritual — a saber, a libertação do coração dos laços da
cobiça terrena. U m a vez que isto tenha sido alcançado, as riquezas, corretam ente
utilizadas, são uma coisa boa e podem até se tornar um meio de salvação eterna.
N inguém deveria se desesperar ao atingir este fim. O sermão é concluído com
uma nota viva e comovente, com a história do ‘j ovem que foi salvo’. A antiga
história do apóstolo João, que ganhou de volta para a Igreja u m discípulo infiel
que tornou-se o líder de um bando de ladrões, ilustra a imensidão do perdão
divino, o resgate do aparentem ente perdido pela força do arrependim ento e o
maravilhoso poder transform ador do Evangelho cristão.
C om respeito ao final de sua vida, pouco ou nada sabemos. Ele não perm ane­
ceu até o fim de seus dias em Alexandria, onde viveu por tanto tempo. N o ano 202
ou 203 ele a deixou para sempre, aparentemente para escapar da opressão imposta
por medidas instituídas contra os cristãos e sua propaganda missionária, o que foi
intensificado no governo de Sétimo Severo. Por volta do ano 211, vemos um
relato vindo da Capadócia de que naquele lugar Clem ente tinha ‘fortalecido a
igreja local e expandido o seu conhecim ento’ e tinha viajado de lá para Antioquia
da Síria levando uma mensagem da Igreja (Eus. H .E .V I, 2, 5 f.). Ele deve ter
m orrido logo depois disso, uma vez que por volta do ano 215-16 o antigo bispo
Alexandre de Capadócia incluiu ‘C lem ente’, seu excelente ‘mestre e irm ão’, com
Panteno, entre os ‘pais que se foram antes de nós’ (Eus. H .E .V 1 ,14, 8 f.).
A Igreja posterior não incluiu C lem ente entre os seus reconhecidos santos.
Pouco se conheceu a respeito dele, e alguns dos seus ensinamentos pareciam
suspeitos. Ele foi julgado sobretudo pelo ponto de vista de um a época diferente.
Ele merecia ser lembrado mais favoravelmente pela posteridade. Mas a falta de
entusiasmo é compreensível quando se lembra que de todos os patriarcas da
Igreja, C lem ente foi, sem dúvida alguma, o ‘m enos eclesiástico’ de todos; em
outras palavras, aquele que foi o mais indiferente à Igreja organizada.
Além do mais, mesmo tão antiga quanto sua época, a questão da Igreja -
suas leis, suas funções e a ortodoxia de sua pregação —estava se tornando cada
vez mais im portante em toda parte. Doravante, não era mais possível tratar dessas
questões com o ele havia feito, com o sendo de im portância mais ou menos se­
cundária, ou simplesmente abandoná-las. O cristianismo vivo agora passou a ser
entendido em term os de Igreja e não com o um a questão de conhecim ento e
treinam ento puram ente pessoal, com o o ensino de um a extravagante e individu­
al perfeição espiritual.
O ríg enes

omparada à de Orígenes, a obra dos antigos patriarcas da Igreja


parece um m ero prelúdio. D e acordo com a experiência e o
caráter pessoais eles escolhem em m eio à profusão das antigas
tradições cristãs aquilo que mais lhes atrai, e isto recom endam ao m undo pagão
com zelo missionário, orientando-se pelas exigências e expectativas do cristia­
nismo educado e elevado, com o o cum prim ento de toda a sabedoria e religião.
Eles se consideram pregadores da verdade que foi revelada, e a Bíblia, livremente
interpretada, é seu único firm e apoio. Mas eles não estabelecem em nenhum
lugar um corpo sistemático do pensam ento teológico e, com a exceção de C le­
mente, o uso da filosofia e o aprendizado é um pouco am ador e determ inado
por seus próprios interesses apologéticos e polêmicos. Eles não perceberam a
natureza problem ática de suas posições na Igreja.
O mais im portante desses hom ens foi H ipólito de R om a, que trabalhou em
parte no mesmo período que O rígenes (até o ano 235). H ipólito foi aluno de
Ireneu e, provavelmente com o ele, era natural do O riente. Ele se tornou presbítero
e bispo em R om a, e, com o tal, sentiu um orgulhoso senso de responsabilidade
pela representação e defesa das antigas tradições cristãs que supostamente deri­
vavam-se dos apóstolos.
H ipólito era tam bém um ‘filósofo’ e u m profundo estudioso, que escreveu,
além dos seus sermões, os prim eiros com entários contínuos sobre a Bíblia e
tam bém um a crônica e tabelas cronológicas. Seus seguidores erigiram um a está­
tua em sua m em ória, que o mostra ensinando em seu trono com o bispo, com
um catálogo de suas obras ao lado. Mas por mais respeitável que os estudos
filosóficos e o zelo dogmático de H ipólito possam ter sido, no todo ele era
rudim entar e superficial demais para ser capaz de criar um a compreensão inte-
lectual e eclesiástica confiável que os cristãos necessitavam no novo século.
O rígenes foi o prim eiro a realizar isto.
Sem contar o pagão Plotino, ele era a m ente mais completa de seu tem po e
apareceu em um m om ento histórico decisivo, quando a Igreja estava abandonan­
do para sempre a mesquinhez de uma existência de reuniões secretas e as bases
foram plantadas para o futuro. M oldando pontos de vista, ideais e o sacerdócio de
seus contemporâneos, determ inou a direção da teologia grega por mais de um
século, influenciando seu destino e contribuindo em parte para a sua queda final.
Estamos m uito m elhor informados sobre a vida e obra de Orígenes do que
de seus predecessores. Eusébio dedicou a ele praticam ente todo o sexto livro da
sua obra História da Igreja e era capaz de recorrer à própria biblioteca de Orígenes
em Cesaréia, que continha todos os seus bens literários e tam bém as cartas que
agora estão faltando. D e seus escritos, dos quais dizem ter havido milhares, um a
quantidade considerável sobreviveu, em bora muitos deles existam apenas em
traduções e antologias nas quais a mais audaciosa e, portanto, a mais ofensiva de
suas idéias, foi omitida ou ‘m elhorada’. Devemos nos restringir aqui ao mais
im portante de suas idéias.
O rígenes foi provavelmente o prim eiro escritor cristão que sabemos com
certeza ter vindo de um lar cristão, e que recebeu educação cristã. C om o Ireneu,
O rígenes não veio de fora para a Igreja, ele não buscou pontes e acessos para
abri-la e fazê-la inteligível para o m undo: a fé cristã era para ele um fato consu­
mado, o centro da verdade de onde ele olhava para todas as coisas. Seu desenvol­
vim ento intelectual avançava sem fanatismo e sem transigência, sem intervalo,
tranqüilam ente e sem pausa.Tem-se a impressão de que este hom em —cuja vida,
com o diz Eusébio, é ‘notável pela sua restrição à liberdade progressista’ (H .E .V I,
2, 2) —nunca perdeu um m om ento e nunca sofreu qualquer interrupção espi­
ritual. O pendor intelectual tam bém veio de seus pais.
Seu pai, Leônidas, tinha sido um mestre em Alexandria e certam ente teria
ensinado seu próprio filho não som ente as matérias ‘encíclicas’ —matemática,
gramática, retórica - , mas tam bém o início do conhecim ento cristão. N o ano
202 ele foi vítima da perseguição aos cristãos. Orígenes, que tinha p o r volta de
dezessete ou dezoito anos de idade na época, tinha encorajado seu pai em uma
carta a não enfraquecer nem desistir, p o r am or à sua esposa e filhos. C onta-se
que ele próprio só escapou do m artírio porque sua mãe escondeu suas roupas e,
dessa forma, im pediu-o de sair. Estas foram as proteções sob as quais ele adentrou
à vida adulta. Ele não possuía nada do prazer despreocupado, às vezes quase
divertido, da cultura, tão típico de Clem ente, que estava fugindo da perseguição
nesta mesma época.
Por detrás da gigantesca obra de erudição que iria realizar, havia desde o
início um a austera e ascética seriedade e a ferrenha resolução de um hom em que
nunca perdeu de vista a possibilidade do martírio. Pode ser que em sua ju v en tu ­
de, seu radicalismo entusiástico tenha tocado as raias da heresia. Baseando sua
ação em um a palavra de Jesus (M t 19.12), Orígenes tom ou a decisão, que ele
mesmo mais tarde desaprovaria, de se castrar a si mesmo ‘por am or ao R ein o de
Deus’. C ontudo, no início ele era m em bro da Igreja ortodoxa. Juntou-se a ela
em Alexandria e continuou sendo leal posteriorm ente, mesmo nas longas via­
gens que, com o Justino e Clem ente, fez à Ásia M enor, Grécia e R om a.
Para começar, O rígenes tam bém se to rn o u um mestre, concentrando-se
ainda mais que seu pai na instrução cristã. Havia um a falta de mestres cristãos e
mestres de cristianismo, desde que a perseguição havia lhes afetado mais que a
qualquer outro grupo. O rígenes não foi dissuadido, e D em étrio, o vigoroso bis­
po de Alexandria, reconheceu sua qualidade e o pôs em segurança, apesar de sua
juventude, para a instrução regular dos novatos. Sob sua direção esta escola semi-
oficial adquiriu um a rápida e crescente im portância e, por assim dizer, status
acadêmico. Ela tam bém era freqüentada p o r hereges e pagãos, obviamente, sem
cobrança de qualquer pagamento. O rígenes viveu do produto da venda de livros
da biblioteca de autores pagãos de seu pai, recebendo uma modesta anuidade
suficiente apenas para a m anutenção da vida de um ascético, o qual estava cons­
tantem ente trabalhando e que abnegou-se de todos os prazeres desnecessários.
C ontudo, O rígenes não se manteve neste cam inho para sempre. Em bora
tenha conquistado a admiração de seus amigos, não estava satisfeito com o trei­
nam ento que havia recebido e decidiu tornar-se um estudante novam ente e
estudar as ciências encíclicas e, acima de tudo, filosofia.
Isto somente poderia ser feito aos pés de mestres pagãos, e o mestre de
Plotino, A m m onio Saccas, parece ter sido tam bém o mestre de O rígenes por
cerca de cinco anos. E m sua escola, Orígenes conheceu o futuro bispo alexandrino
Heraclas, a quem defendeu com o u m colega em sua própria escola. Mais tarde,
confiou-lhe o ensino mais básico da escola e dedicou-se ao ensino filosófico,
teológico e bíblico avançado, ensinando seus alunos de nível mais elevado. D e­
pois do rom pim ento com D em étrio, Heraclas sucedeu O rígenes com o diretor
da escola.
A im portância destes anos de estudo filosófico p o r Orígenes, dificilmente
pode ser superestimada. O rígenes foi o prim eiro cristão a ingressar na elite inte­
lectual de sua época, cham ando a atenção para o ensino do cristianismo de uma
maneira que forçou até mesmo os seus inimigos a dar-lhe atenção. N ada menos
que Porfirio, o biógrafo de Plotino, testifica isto com um misto de admiração e
exasperação. Orígenes, ele pensa (Eus. H .E .W 1 ,19,7 f.), professou o ensino dos
bárbaros e viveu com o u m cristão em oposição às leis; mas, no entanto, em sua
visão sobre D eus e o m undo, tinha um pensam ento helénico. ‘Estava bastante
fam iliarizado com os escritos de N u m ên io , C rônio, A polofanio, Longino,
M oderato, N icom acho, e os célebres pitagóricos’. Apenas, ‘infelizm ente’ na opi­
nião dos pagãos helénicos, ele ‘apresentou idéias platônicas com o mitos estran­
geiros’; em outras palavras, ele as interpretou com o afirmações da Bíblia Judai-
co-cristã.
Naturalmente, o próprio Orígenes jamais teria concordado com esta descri­
ção. Ele estudou os filósofos pagãos para ser capaz de refutá-los, e estava firm em en­
te convencido de que ele mesmo havia anterior e completamente retirado da
revelação cristã quaisquer elementos que o ligassem a eles. Ele não pode, contudo,
ter considerado inútil o estudo m etódico da filosofia, visto que ele também o
tornou uma matéria obrigatória para seus alunos. Portanto, pode-se perguntar se o
julgam ento pungente de seus oponentes sobre ele não seria de fato justificado.
O rígenes oferece o prim eiro grande exemplo de um a teologia que, enquan­
to tem intenções exclusivamente cristãs, todavia, inconscientem ente, corre o
risco de concordar em agir de acordo com os inimigos que levam isso tão a sério
- na época, com o N eoplatonism o que estava surgindo, e, depois, com muitos
pensadores com o Kant, H egel ou Heidegger. E impossível responder direta­
m ente sim ou não à pergunta se um a teologia desse tipo é cristã ou não. M esmo
em Orígenes, a mistura de elementos é extrem am ente orgânica e complicada
para se dar um a simples resposta aceitável.
E m contraste com os desenvolvimentos filosóficos m odernos, a filosofia pla­
tônica daquele período ainda não havia sido influenciada e condicionada pelo
cristianismo; mas foi sustentada a um grau crescente pela mesma atmosfera gnóstica
que perm eou e dirigiu o pensam ento cristão nos últimos tempos da antigüida­
de. Os problemas teológicos e antropológicos com o a teodicéia, o desenvolvi­
m ento moral, a doutrina da imortalidade, a exigência de se retirar do m undo
material, o problem a do significado da decadência do m undo material e seu
possível retorno à unidade divina original, a investigação do conceito do Ser em
si mesm o —todas estas coisas eram tópicos e problemas que os impeliram para
frente e foram interpretadas com o os problemas básicos da filosofia platônica,
assim com o elas eram, na visão de O rígenes, os problemas básicos do próprio
cristianismo.
D e m odo geral, considerado historicam ente, O rígenes estava adiantado em
relação aos desenvolvimentos filosóficos de sua época, nas perguntas que faz e
nas respostas que dá. Seu ponto de partida foi diferente, à medida em que ele já
era capaz de sair da realidade de um a revelação divina com pletam ente suficiente,
baseada no testem unho da Bíblia. Teosofistas e ‘filósofos’judeus, com o Fílon de
Alexandria, gnósticos e teólogos cristãos com o Clem ente, o haviam precedido, e
mesmo os filósofos pagãos há m uito tem po estavam interessados na sabedoria
sagrada e nos mitos e mistérios antigos, e tinham iniciado um a interpretação
alegórico-filosófica, particularm ente dos épicos hom éricos.

W
Se alguém olhar, po r exemplo, para a doutrina dos anjos e dem ônios em que
Orígenes estava vitalm ente interessado, e a qual os neoplatonistas tinham o hábi­
to de tratar com o um a parte im portante de sua teologia e interpretação do
mundo, é com toda a certeza impossível separar suas origens e trajetórias de
desenvolvimento e influência. O novo elem ento que O rígenes deu à Igreja foi
prim eiram ente o grande resumo sistemático. Ele foi responsável pela m udança
de um interesse ocasional e superficial em filosofia, para um estudo m etódico de
problemas intelectuais; do aforismo da discussão educada para a construção res­
ponsável de um sistema teológico bem estabelecido. N ão há sequer um a senten­
ça em O rígenes que tenha sido escrita negligentem ente, nenhum a idéia que não
possa ser levada a sério e seguida. Assim com o ele conduziu seus próprios alunos
em um cuidadoso plano educacional através do estudo da ‘física’ lógica e
ontológica, da geom etria e astronomia para a ética, e daí para a própria teologia
e o estudo da Bíblia, a santa essência do universo espiritual, então, em seu sistema
de pensamento, cada idéia é apresentada e examinada dentro de u m abrangente
contexto de conhecim ento.
N enhum dos posteriores Pais gregos atingiu esta integração no mesmo grau.
Orígenes foi o único a apresentar o cristianismo com o u m todo na form a de um
sistema filosófico viável. N o prim eiro período alexandrino de sua vida, quando
tinha aproximadamente quarenta anos de idade, escreveu sua obra mais caracte­
rística: Peri archon (Latim: Deprincipiis), um a obra cristã referente ao dogma ‘sobre
as coisas originais’ (ou ‘sobre as principais doutrinas’). Adm ite-se a ousadia deste
ensaio que inevitavelmente traz à luz a problemática natureza da teologia de
Orígenes com o um todo.
O Evangelho cristão som ente pode ser trazido a u m padrão objetivo com o
sendo a doutrina de Deus e o m undo, com a ajuda de um a reinterpretação
radical de seu conteúdo. A tradição da Igreja, com a sua m itologia e esquema de
redenção, está misturada com as categorias abstratas e conceitos dos valores da
filosofia, resultando num a estranha mistura - u m tipo de história teosófica cós­
mica do espírito e da revelação que é desenvolvida por linhas especulativas baseada
em certos postulados bíblicos.
A obra não chegou até nós integralm ente, em sua form a original. N a intro­
dução, O rígenes declara que não pretende se desviar sequer p o r um fio de cabe­
lo dos ensinamentos da Igreja; o que de fato ele oferece, porém , se parece mais
com um m ito gnóstico da queda, ascensão e passagem do m undo, sendo a única
diferença que o m ito é grandem ente transposto em conceitos filosóficos e in­
terpretados mais ou m enos ‘sim bolicam ente’ — um a espécie de desmitificação
que traz as idéias m uito próximas ao posterior sistema neoplatônico de Plotino.
Para começar, trata sobre a doutrina de Deus - Deus, que é a essência espi­
ritual absoluta e imutável, a unidade original, de quem tam bém deve se pensar

M
com o o Ser vivo original e eterno Criador. DEle surge o Logos eternam ente
com o sua imagem. Pelo Espírito, a natureza divina é estendida à Trindade, e
finalmente, pelo Logos, Deus cria o ilimitado m undo dos espíritos, que o rodeia,
amoroso e amado.
C om o seres pessoais eles são livres; podem , portanto, abusar de sua liberdade
e com eter o pecado de abandonar a Deus. Sendo assim, o m undo tende, avan­
çando em círculos maiores com o em u m processo de ‘mortificação’, a se tornar
desviado de Deus em meio às trevas sempre crescentes, até que um estágio
corpóreo é alcançado, no qual os espíritos caídos - e as almas humanas que
tam bém são pre existentes - são aprisionados com a finalidade de um a punição
e purificação.
Mas a Criação caída é sempre sustentada e guiada pela providência de Deus
que incessantemente se esforça pela recuperação do aparentemente perdido. Pen­
sam que o envio do Logos, Cristo, que está unido à pura alma humana, é um
evento decisivo neste processo. Ao final dele, porque o mal não é um poder
positivo e não pode ter uma realidade duradoura, pensam que mesmo os piores
dem ônios do inferno são com pletam ente restaurados a Deus. C om o todo o
pecado, castigo e dor, o mal é apenas um a negra transição conduzindo, pelo
cuidado orientador de Deus, para o m elhor no final. A liberdade, e com ela a
possibilidade de recuperação, jamais pode ser perdida.
O rígenes não reconhece a existência do ‘mal absoluto’ ou a possibilidade da
eterna separação e maldição. A natureza herética deste conceito idealizado é
aum entada pelo fato de que, para ele, a restauração final do R ein o de Deus
dificilmente pode form ar u m fim absoluto de maneira consistente. C onclui-se
da natureza da liberdade espiritual e do caráter da educação divina (que conduz,
mas nunca força) que novas trevas e novas eras de redenção p o d em ser
desencadeadas nas distâncias infinitas do tempo.
Mas Orígenes não enfatiza esta idéia. Para ele o tem po em si não é definiti­
vo, visto do ponto de vista de Deus. A verdadeira vida reside além do tempo, na
eternidade. E m nosso m undo terreno, porém , não estamos num a posição ade­
quada para com preender este estado eterno. Q uando O rígenes ultrapassa os li­
mites da revelação cristã, ele está bem ciente que todas as suas especulações estão
indubitavelmente marcadas por um elemento de metáfora, imaginação e poesia.
Mas ele não tem dúvida de que desta form a se aproxima mais da verdade contida
na Bíblia, do que se aproximaria se ele simplesmente seguisse as afirmações literais
‘deturpadas’de seu antropomorfismo, com o a simples massa de fiéis costuma fazer.
A antropologia e a ética adequada a esta metafísica apresentam as mesmas
características idealistas e ascéticas. Pelo conhecim ento de sua origem e pela
vocação que Cristo trouxe, cada alma é convidada a se libertar dos grilhões deste
m undo visível e com eçar a viagem de retorno e ascensão a Deus em nova santi­
dade. O rígenes não segue um a fria descrição e contemplação. Ele se considera
um missionário e pastor de seus alunos e tenta treiná-los para se tornarem h o ­
mens de oração, mártires e santos. Todos devem, com o guerreiros espirituais, se
juntar ao exército de cristãos, aos espíritos e anjos que estão ao lado de Deus, e
tom ar as armas contra as imoralidades e dem ônios do mundo.
H á várias formas de serviço e de ajuda; mas a força decisiva que conduz à
salvação e à vitória perm anece misteriosa, o inteiro conhecim ento da verdade
divina. Ela só é verdadeiramente encontrada em Cristo, o mestre e padrão de
todos os cristãos. Ele encontra a alma, com o a alma exige; ele torna integralm en­
te disponíveis na Igreja auxílios espirituais e instrum entos da graça. Mas a alma
precisa tom ar a sua própria decisão e, em últim o recurso, é pela capacidade inata
e pela liberdade espiritual que a verdade é conhecida e a redenção obtida.
Este conceito de liberdade e direção não som ente confirm a a dignidade
espiritual e im ortal do hom em ; tam bém serve para justificar os caminhos de
Deus e o aparentem ente im perfeito governo divino do mundo. A teodicéia ocu­
pa grande espaço na obra de O rígenes e estabelece um claro relacionam ento
entre sua teologia e os sistemas contem porâneos do platonismo. N ão há lugar
para o conceito cristão genuíno do julgam ento, pecado e perdão, ou até mesmo
da redenção, no exato sentido da palavra. Orígenes não percebe com o os con­
ceitos bíblicos são transformados sob suas mãos, crendo que ele está somente
tentando com preendê-los mais profundam ente. Parece quase com o se o caráter
cristão do seu ponto de vista fosse mostrado somente no m aior fervor com o
qual ele professa sua crença, e na devoção pessoal e cordialidade com as quais se
em penha em ganhar novos crentes.
O rígenes descreve o processo da redenção menos antropologicam ente que
os filósofos, ou seja, não som ente com o um m ito da queda e o possível retorno
da alma a seu lar, mas teologicam ente, com o a expressão do propósito divino de
am or e direção. N o final, contudo, estas são meras nuanças e leves diferenças de
ênfase da mesma visão básica da vida. O único fator decisivamente cristão é que
Orígenes - ao contrário da lógica form al do seu sistema —nunca falha em rela­
cionar todo o conhecim ento e santificação à pessoa e padrão de Cristo, e que a
Bíblia perm anece sendo o mais im portante docum ento, garantia e suporte de
sua fé. Dessa forma, ele segue a linha dos antigos ‘mestres’ cristãos, e nenhum
desprezo filosófico pelo barbarismo de seus ‘m itos’ o perturba.
A última seção de sua principal obra apresenta um a justificativa explícita
para este procedim ento: um a teoria detalhada das Escrituras e os princípios pelos
quais deveriam ser ‘espiritualm ente’ interpretadas.
C om o todos os antigos patriarcas, O rígenes deve ser prim eiram ente julgado
com o um teólogo bíblico, visto que grande parte de sua obra literária, que refle­
te seu m étodo de instrução, consiste em exegese bíblica. E verdade que, além do
Peri archon, é possível m encionar mais alguns monólogos teológicos de m enor
alcance: sobre a ressurreição, sobre a oração, sobre o m artírio, e tam bém um a
obra, que infelizmente desapareceu, com um título que já conhecem os - Mala
de tapeçaria - , que dizem ter contido um a espécie de doutrina de harm onia
bíblica e filosófica.
Mas, fora o fato de que estes escritos tam bém consistem largamente em
exegese, eles quase desaparecem ao lado da massa de extensos com entários bíbli­
cos, um estudo mais curto, na m aior parte explicando pontos individuais, e as
homilias, os sermões, que lidam às vezes com livros inteiros da Bíblia, de forma
consecutiva. Cerca de u m terço destas obras sobreviveram, mas absolutamente
nada dos com entários feitos nos estudos em relação a eles. C ontudo, com o um
estudioso da Bíblia, O rígenes não se lim itou à exegese.
C om seu habitual cuidado, procurou colocar todas as coisas sobre um amplo
e firm e fundamento. E, assim, com o prim eiro passo, fez para seu próprio uso
uma completa edição dos textos do A ntigo Testamento, o assim denom inado
Hexapla, ou edição sêxtupla. Ao lado dos textos hebraicos impronunciáveis, foi
dada prim eiram ente um a transliteração grega, para preservar os sons originais,
depois seguiram-se em colunas adicionais as várias traduções gregas - acima de
tudo, a venerável tradução judaico-alexandrina da Septuaginta (LXX), as defici­
ências e adições que foram especialmente indicadas pelos sinais habituais.
C om o regra, a edição oferecia quatro traduções, perfazendo no total seis
colunas estreitas, as quais podiam deste m odo ser visivelmente comparadas. Mas,
em certos casos, O rígenes adicionou um a quinta, sexta ou sétima tradução. A
respeito de certo texto, ele com enta que foi encontrado incidentalm ente dentro
de um jarro em Jericó. Portanto, as m odernas e sensacionais descobertas que
ocorreram nas cavernas próximas ao m ar M orto, tiveram seu predecessor no
terceiro século.
O assim denom inado Tetrapla (um trecho da Hexapla) foi produzido para um
círculo mais amplo de leitores. Este continha som ente as quatro traduções gre­
gas, sem o texto hebraico. O próprio original da Hexapla provavelmente nunca
tenha sido reproduzido. Mas cento e cinqüenta anos depois, Jerônim o ainda foi
capaz de usá-lo na biblioteca cristã de Cesaréia, e ele se deparou especialmente
com as correções que Orígenes havia feito de próprio punho.
E m sua obra exegética O rígenes referiu-se, portanto, de tempos em tempos,
a este manuscrito que servia com o firm e alicerce. Sua exegese tinha a intenção
de ser um a conquista estritam ente científica, especialmente na grande obra
intitulada Comentários. E m term os de detalhes, não são inferiores a nenhum con­
tem porâneo m oderno. A interpretação do Evangelho de João (até o capítulo 13,
verso 33) cobre não m enos que trinta e dois ‘volumes’. A explicação para as
primeiras cinco palavras,‘N o princípio era o Verbo’, exigiu u m volum e inteiro.
O rígenes não deu a m ínim a im portância à decoração literária ou efeitos
retóricos. Ele não era artístico p o r natureza, e desprezava ‘os mestres que nunca
querem fazer nada exceto com pilar declarações de bom som e frases ressonantes’
(Hom. Ezech. 3,3). Ele está preocupado exclusivamente com a questão apresenta­
da, por isso coloca as perguntas e dá as respostas tranqüilamente e de uma maneira
clara e organizada. Ele trata em detalhes as visões divergentes e não evita obstáculos
ou desvios onde eles pareçam necessários para uma compreensão adequada. De
vez em quando ele discute problemas de crítica textual e conhecimento histórico.
Falando de m odo geral, contudo, isto raramente ocorre e é bastante secundário. O
interesse real é de natureza puram ente teológico-sistemática.
A Bíblia é o docum ento oficial p o r trás de todo o ensino e pesquisa de
Orígenes: a fonte inesgotável de toda a metafísica e ética, todo o conhecim ento
teológico, filosófico e científico. O rígenes está convencido de que a Bíblia em
sua forma atual, com o o livro da Igreja, representa um maravilhoso e multifacetado
conjunto que Deus criou p o r inspiração direta. Ele interpreta a inspiração da
Bíblia não com o ‘testem unho’, ou seja, o depósito da história sagrada ou a pro­
fissão de fé na função de seus autores humanos, mas na essência eterna da própria
revelação divina,‘um m ar de m istérios’. As narrativas e palavras individuais são
explicadas até o últim o detalhe e feitas para expressar novos e, às vezes, surpreen­
dentes mistérios.
N ós já conhecem os este m étodo de interpretação nas obras de Justino e
Clem ente; o m étodo com o tal não era novidade na Igreja. Mas por causa da
profundidade com que O rígenes a trata, ela agora assume um significado teoló­
gico universal. N o nosso m odo de pensar, torna-se desse m odo fantástica, mas é
da essência da alegoria que quanto mais inflexível e consistentemente ela for
aplicada, mais parecerá ser justificada e confirmada. Seus resultados não podem
ser mais contraditórios do que as pressuposições nas quais ela está baseada, po­
dendo ser verificadas pelo texto atual.
Orígenes, portanto, não tinha dúvida de que seus procedim entos eram m e­
tódicos, cientificamente perfeitos e apropriados. C om o dissemos, ele era capaz
de referir-se às teorias da filologia helénica, e para ele o m étodo alegórico é
justificado, acima de tudo, porque é às vezes utilizado até mesmo na Bíblia. C om
sua relatividade espiritual e gradações, ela se encaixa maravilhosamente e por
com pleto com o seu ponto de vista. Portanto, não deveríamos nos surpreender
de que ele estivesse bastante convencido da validade de seu discernimento.
Para cada texto na Bíblia, O rígenes distingue entre u m significado físico (ou
material), psíquico e espiritual. Isto corresponde, a grosso modo, em bora não
inteiram ente, à posterior distinção do significado histórico, moral e teológico.
N orm alm ente, porém , os dois níveis mais elevados coincidem , e o prim eiro, a
interpretação literal ou histórica, é, às vezes, totalm ente ignorado.
N a visão de Orígenes, há textos que seria absurdo e imoral interpretar lite­
ralmente. Eles têm a intenção de, pela afronta que oferecem, apontar para o
significado real e profundo que reside sob a superfície do texto. ‘Q ue pessoa
razoável irá crer, por exemplo, que no prim eiro, segundo e terceiro dia, a noite e
o dia vieram a existir sem o sol, a lua e as estrelas, e mesmo o primeiro dia sem o
céu?’ O u ‘Q uem não seria levado a considerar a lascívia com o nada, quando se lê
que Judá se deitou com uma meretriz ou que os patriarcas tinham várias mulheres
simultaneamente?’ (De Princ. IV, 16) —a menos que estas coisas sejam tomadas de
m odo figurado, com o devem ser, e afirmadas em seu verdadeiro sentido espiritual.
D e outra maneira, o cristão teria que se ruborizar pela lei divina do A ntigo
Testamento, em vista das ‘leis m uito melhores e sensatas dos romanos ou atenienses’,
p or exemplo (Hom. Lev. 5, l).Tais considerações esclarecem que a concepção
moralizadora, racionalista, e não-histórica da Bíblia leva O rígenes a aceitar a
alegoria com o um a saída. Era impossível defender o A ntigo Testamento contra
os pagãos e, acima de tudo, contra as críticas dos gnósticos e hereges marcionitas.
Deve-se tam bém adm itir que, apesar do erro essencial do m étodo, a interpreta­
ção alegórica nem sempre e necessariamente traz um a má compreensão à ques­
tão que está sendo estudada na Bíblia.
N o curso da história da Igreja ele foi com freqüência o m eio de se chegar ao
verdadeiro significado do texto, em bora de um a maneira indireta. Este, no en­
tanto, raram ente é o caso de Orígenes. E profundam ente com ovente notar com
que energia e seriedade este grande e devoto erudito dedica o trabalho de uma
vida a esquadrinhar a verdade deste livro único e ardentem ente amado, firm e­
m ente convencido que está no cam inho de penetrar ainda mais profundam ente
em seu conteúdo, enquanto na verdade perm anece prisioneiro das pressuposi­
ções do seu ponto de vista platônico e gnóstico, incapaz até mesmo de ver o que
o separa do Antigo e do N ovo Testamento.
N en hum daqueles que sucum biram sob seu encantam ento agiram de m a­
neira diferente, e seu núm ero cresceu rapidamente. O rígenes não era p o r nature­
za um estudioso solitário, mas prim ariam ente um mestre que se dedicou, com
um a meticulosidade m uito m aior que a de C lem ente, à instrução oral e ao ensi­
no de seus alunos. Ainda temos o discurso de despedida de u m deles, Gregório
Taumaturgo (‘trabalhador-maravilhoso’), que mais tarde tornou-se bispo e mis­
sionário igualmente famoso na Ásia M enor.
Neste pronunciam ento ele expressou seu agradecim ento entusiasmado ao
seu amado mestre. Para ele, O rígenes foi o único hom em que conheceu que
‘com preendia o divino dom da palavra pura e claramente e que sabia com o
interpretá-la aos outros’ (Greg.Thaumat. XV, 175). Sob a direção deste mestre, ele
diz, nada perm aneceu ‘oculto ou inacessível’. O rígenes sabia a resposta de cada
pergunta e pôs cada fato em seu lugar correto.
Por interm édio de um próspero patrono chamado Ambrósio, a quem ele
havia convertido anteriorm ente de um a antiga heresia para a doutrina cristã,
abundantes recursos para o trabalho e publicação acadêmicos foram colocados à
sua disposição. ‘Sete estenógrafos que se revezavam em intervalos definidos, e
outros tantos escreventes de livros e mulheres calígrafas’ (Eus. H .E. VI, 23, 2),
estavam sempre disponíveis e encarregavam-se disso tanto quanto possível para
que nenhum a de suas palavras fosse perdida.
A produtividade quase incrível deste hom em , que, de acordo com seu pró­
prio testem unho, nunca conheceu u m m om ento de descanso p o r toda sua vida
e ad q u iriu o apelido am bíguo de ‘trab alh ad o r co m vísceras de b ro n z e ’
(Chalkenteros), som ente pode ser explicada se tivermos em m ente toda esta
assessoria. Q uase todos os seus escritos carregam as marcas de um m odo rude de
pronunciar seus discursos. Mas eles eram lidos por todas as igrejas de língua
grega, m uito além dos confins de Alexandria e de sua própria escola.
Enquanto isso, O rígenes havia se tornado uma celebridade mundial. O go­
vernador da Arábia solicitou ao seu colega egípcio e tam bém escreveu ao bispo
D em étrio uma carta amável pedindo que fosse perm itido que Orígenes desse
algumas palestras em sua presença. Sob as ordens da imperatriz Júlia ele foi escoltado
para a corte em Antioquia porque ela desejava receber ‘uma amostra de sua univer­
salmente admirada inspiração em relação às coisas divinas’ (Eus. H .E. VI, 21,3).
Havia tam bém cartas de um período posterior que O rígenes havia enviado
ao im perador Filipe, o Árabe, e à sua esposa, que estavam favoravelmente dispos­
tos aos cristãos. D entro da própria Igreja, O rígenes era considerado mais ainda
com o um a autoridade. Ele recebia convites de todas as localidades, e era chama­
do a ajudar especialmente quando era u m caso de refutar um a heresia aprendida
ou elucidar problemas teológicos difíceis.
Orígenes não som ente sabia com o impressionar seus oponentes p o r seu
conhecim ento e sagacidade, mas tam bém com o convencê-los interiorm ente e
ganhá-los para a Igreja Cristã. Os fatos recentem ente descobertos de uma destas
disputas na qual toda a congregação com pareceu oferecem um quadro vivo de
seu testem unho, tão modesto quanto diferenciado, e seu minucioso e objetivo
m étodo de ataque.
A prim eira vista parece espantoso que este hom em tenha se envolvido cada
vez mais em diferenças e dificuldades eclesiásticas, próxim o à sua terra natal, as
quais finalmente levaram-no a u m conflito aberto. A ‘defesa de O rígenes’ é o
prim eiro exemplo célebre de rivalidade e conflito entre o poder livre, não ofici­
al, de um ‘m estre’ independente e a autoridade de seus superiores eclesiásticos.
N ão é mais possível desembaraçar todos os detalhes desta disputa. Além de di­
vergências pessoais, dúvidas com relação à sua ortodoxia podem ter desempe­
nhado um papel desde o início. O fator decisivo, no entanto, foi provavelmente

<?/
a questão da posição legal da escola de O rígenes em relação à autoridade d o u tri­
nária do bispo ‘apostólico’.
D em étrio era um bispo determ inado e que fazia um esforço bem -sucedido
para ganhar reconhecim ento p o r sua autoridade em todo o Egito. Ele queria a
‘escola catequética’ tam bém sob sua imediata supervisão; mas neste ponto ele
encontrou oposição. Deve ser lem brado o desinteresse descuidado com o qual,
na geração anterior, Clem ente de Alexandria tinha dado form a ao seu ensino
teológico. N ão lhe havia ocorrido referir-se à autoridade clerical, nem havia
necessidade de fazer dessa forma, tendo em vista a sua posição totalm ente inde­
pendente.
Orígenes tinha um a mentalidade mais eclesiástica desde o início. Ele queria
servir a toda a Igreja com o mestre, e, ao mesm o tempo, ser u m m em bro leal à sua
própria Igreja alexandrina. Porém , ele tam bém se considerava livre para ensinar
o que pensava ser adequado, e não se sujeitar a nenhum julgam ento hum ano,
em bora estivesse disposto a enfrentar quaisquer críticas e perguntas. O próprio
D eus o abençoou, com o um profeta cristão antigo, com o dom de sabedoria e o
conhecim ento das Escrituras que, por sua própria natureza, estavam reservados
para poucos.
Sem dúvida que O rígenes não tinha o desejo de perturbar a fé cristã dos
membros simples da Igreja e fervorosamente reconheceu o valor da fé simples.
Mas o conhecim ento mais elevado ainda tinha seus próprios direitos e não deve­
ria ser m edido pelos padrões normais do cristão mediano. O rígenes estava se
esforçando para com binar e m anter em equilíbrio os diferentes graus da m aturi­
dade e iluminação espiritual, mas isto apenas chama a atenção para as reservas
mentais e superioridade dos ‘gnósticos’. A diferença não pôde ser tolerada e as
suspeitas dos ‘símplices’ foram despertadas. Esta foi a situação que o bispo en­
frentou. Orígenes tentou superar a ruptura ameaçadora p o r meios puram ente
espirituais, apontando a ortodoxia substancial de sua teologia‘mais elevada’e sua
disposição em com partilhar a vida e o louvor da Igreja. Mas D em étrio exigiu
um a integração e submissão formal e na prática: a ordenação divina e o episco­
pado m onárquico deveriam ser a garantia viva da verdade ortodoxa e a clara e
única expressão da unidade da Igreja.
N a visão de Orígenes, a solução mais simples para a situação tensa teria sido
ordená-lo para o sacerdócio e com binar sua autoridade oficial e extra-oficial em
um a espécie de unidade pessoal. Parece que ele fez esforços para esse fim, mas
em vão. D em étrio queria submissão a si mesmo, e, na posição quase episcopal
dos presbíteros alexandrinos, a independência do líder da escola teria apenas sido
aum entada se ele fosse tam bém ordenado.
Fora do Egito ninguém com preendia a maneira com o a política eclesiástica
era dirigida no Egito. E m Jerusalém, cujo bispo havia sido amigável com C le­
m ente de Alexandria, e em Cesaréia, onde um dos alunos de Orígenes estava à
frente da Igreja, ele recebeu permissão para pregar na Igreja sem qualquer per­
gunta. Os violentos protestos que D em étrio fez contra esta ‘desconhecida’ ino­
vação foram rejeitados.
Alguns anos mais tarde, quando O rígenes estava hospedado novam ente na
Palestina, em seu cam inho para a Grécia, a serviço da Igreja, de repente foi
decidido ordená-lo para o sacerdócio. O rígenes não fez qualquer objeção, clara­
m ente esperando que seria livre de restrições adicionais às suas atividades. Mas o
oposto ocorreu. A mudança to rn o u sua posição em Alexandria bastante insus­
tentável. Em seu retorno para casa lhe deram um a recepção não m uito amistosa,
o que o forçou a decidir por abandonar de vez seu campo de atividade em sua
terra natal e mudar-se para Cesaréia, onde ele foi recebido de braços abertos. Em
um sínodo de sacerdotes ocorrido em Alexandria, D em étrio baniu-o formal­
mente, e no ano 231-32 um segundo sínodo o depôs do sacerdócio porque o
haviam ordenado sem a anuência da autoridade correta, o que era, de qualquer
modo, ilegal, p or ser ele um eunuco.
Estes pontos conflitantes, aparentem ente fortuitos, provocaram uma antítese
mais profunda com os participantes imediatos, que não estavam inteiram ente
cientes naquela época. Por todo seu am or pela paz e sua hum ildade pessoal,
Orígenes não poderia conceder para o oficio de bispo a im portância que era
exigida para isso, e isto p o r razões de princípios teológicos e religiosos. E m sua
opinião, o que im porta a longo prazo, o conhecim ento vivo da verdade, não
pode ser transmitido e controlado p o r oficiais.Todos os direitos que são outor­
gados e possuídos pelo bispo, os sacramentos que ele administra, o poder de
excom unhão e absolvição que ele exerce, perm anecem exclusivamente exterio­
res se estes não estiverem revestidos com um poder espiritual verdadeiro. Isto
não pode ser executado pelo ofício com o tal mas som ente pelo Espírito Santo,
pela atitude correta do am or e pelo conhecim ento que Deus concede e que o
mestre espiritual com unica acima de tudo.
Os pontos de vista de O rígenes não são de form a alguma revolucionários.
Ele sabe e enfatiza que a cristandade deve, com o todas as ‘pessoas’, ter seus legis­
ladores e esta ordem na Igreja é absolutamente necessária. Exclusivamente por
este motivo, os portadores do ofício m erecem obediência e respeito, e Orígenes
deseja de todo o seu coração que todos eles sejam iluminados, tanto quanto
possível, com dons espirituais e que sejam verdadeiros mestres e modelos para os
seus rebanhos. Mas ele tam bém sabe e vê claramente que, com m uita freqüência,
eles não conseguem ser exatam ente o que deveriam, e que o hom em espiritual
é, em princípio, livre e independente da autoridade. C o m a metade de sua natu­
reza Orígenes é um pietista conservador e eclesiástico; mas com a outra metade
ele perm anece um idealista liberal, que de coração vive mais na Igreja invisível

s i
do que na visível. Ele foi o prim eiro para quem esta distinção veio a assumir um a
im portância teológica fundamental.
Ele suportou com um a calma dignidade ‘todos os ventos da malícia’ (Comm.
Jo. VI, prol. 9) que D em étrio lançou contra seu outrora protegido. C oncentran­
do-se em sua obra teológica, ele tentou superar sua amargura, e se consolou com
a lembrança do que a Bíblia diz, que ninguém deve confiar no hom em . Seus
inimigos eram, ele pensava, mais dignos de compaixão que de ódio. Deveria orar
p o r eles, não amaldiçoá-los, visto que nós fomos criados para abençoar.
Exteriorm ente, D em étrio era incapaz de prejudicá-lo ainda mais. Tentou
em vão incitar seus colegas bispos de fora do Egito contra Orígenes. A escola foi
restabelecida em Cesaréia. Orígenes tam bém trabalhou ardentem ente com o pre­
gador para a congregação. Seus alunos e amigos bispos o amavam e o reverenci­
avam com o santo. Foi em Cesaréia que Orígenes finalmente assegurou a supre­
ma glória conhecida pela Igreja: sofrer até a m orte pela verdade de sua fé e de
seu Senhor.
A m aior parte da vida de O rígenes se passou em um período de ‘paz’, um
período de calma, às vezes até mesmo u m entendim ento amistoso entre o Esta­
do e a Igreja. C om o um bom discípulo de Platão, Orígenes m ostrou m uito
apreço pelos direitos dos legisladores e a responsabilidade que cada cidadão deve
ter pelo bem -estar do Estado. Mas um sincretismo de pouco valor e um a conci­
liação política eram igualmente estranhos à sua mente. Os cristãos eram diferen­
tes de todos os outros povos que viviam dentro dos limites do Im pério R om ano,
visto que eram o povo santo de Deus, que não interferem nos assuntos do m un­
do e que nunca podem se tornar subservientes às suas metas. Os cristãos cum ­
prem seus deveres externos e tam bém oram pelo im perador e seu exército, mas
devem se recusar a carregar armas, visto que são um a raça sacerdotal, reconhe­
cendo apenas a batalha do espírito.
Em avançada idade, Orígenes escreveu um a elaborada Apologia, na qual refu­
tou as críticas que o filósofo pagão Celso havia feito aos cristãos duas gerações
passadas. Mais um a vez seus dois lados se mostraram: a afinidade ao ponto de
vista de seu oponente filosófico e seu orgulhoso senso de superioridade com o
um cristão. Logo depois disso, com a anuência do novo im perador Décio, no ano
249, um a mudança política ocorreu e a prim eira perseguição sistemática aos
cristãos abrangendo todo o im pério foi desencadeada.
N ão era mais viável destruir a Igreja pelo exterm ínio físico direto de seus
membros individuais. Era um a questão de forçá-los a se render através do terro­
rismo e de medidas bem concebidas de coação, e o prim eiro e mais im portante
passo era subjugar ou eliminar os seus líderes. Orígenes, um hom em idoso com
quase setenta anos, foi preso, lançado na prisão, e cruelm ente torturado. Estava
claro que a intenção não era matá-lo, mas ele foi colocado em um cavalete e seus

d f/
pés foram esticados por dias a fio ‘até o quarto furo’. Ele foi ameaçado de m orte
por fogo, mas apesar disso nada conseguiram. Orígenes tinha que ser libertado,
mas ele estava fisicamente debilitado. N o entanto, ele escreveu mais alguns cur­
tos tratados ‘que foram m uito úteis para aqueles que precisavam de consolação’
(Eus. H .E . VI, 39, 5). Ele m orreu no final do ano 254.
Até o fim, o quadro apresentado pela vida e caráter deste hom em estranho
foi notavelmente claro e consistente. Austero, ainda que bondoso, totalm ente
puro e honesto, inteiram ente dedicado à obra intelectual e à piedade ascética, foi
um estudioso e, acima de tudo, u m pensador sistemático, capaz de enfrentar
qualquer oponente. Ele não foi, em qualquer sentido, um personagem proble­
mático, nem , em última análise, original. C om binou a tradição não-filosófica da
Igreja com as tendências gnóstico-neoplatônicas do século em um plano inte­
lectual mais elevado, e assim criou um a estrutura teológica de uma grandeza e
perfeição admirável.
Porém nada sentiu em relação aos problemas profundos e essenciais da ver­
dadeira teologia cristã. Por isso suas soluções tinham um sucesso fácil e aparen­
tem ente sem controvérsias. Eram as soluções de um teórico genial, que cons­
truiu a realidade a partir da idéia, sem ser movido para um nível mais profundo
através da dúvida e do sofrimento. Tais pessoas não encontram dificuldade para
obter alunos e sucessores.
Somente nas gerações seguintes de seus seguidores o progresso do desenvol­
vim ento histórico revelou lentam ente, mas com certeza, os aspectos espirituais
inadequados da teologia de Orígenes. A nova geração confrontou este desenvol­
vim ento desamparada, porque era incapaz de recorrer ao seu venerado mestre
para obter sua direção para a solução de seus apuros e problemas, enquanto
reconhecia-se, ao mesmo tempo, com o inferior a ele em poder sistemático e
disciplina do pensamento, na universalidade e profundidade da cultura filosófica,
e na pureza de intenção e convicção.
E u sébio de C esaréia

eio século após a m orte de Orígenes, sua teologia havia se


espalhado por toda a Igreja ocidental. Ela foi considerada com o
a única teologia científica realmente em harm onia com a cul­
tura mais elevada e, particularm ente, a filosófica. Os precursores literários do
cristianismo, os trabalhadores cristãos intelectualm ente ativos nas escolas e cen­
tros de treinamento, os bispos de visão mais ampla, juntaram -se a ela e se em pe­
nharam em ensinar e agir no seu espírito. Im perceptivelm ente a tradição com e­
çou a mudar, a se misturar com outras tradições, e a adaptar-se às novas situações
na igreja e no m undo das idéias.
E nquanto essas mudanças ocorriam , divisões intelectuais surgiram e fra­
quezas internas se tornaram evidentes, as quais foram m enos facilm ente supe­
radas, porque não era mais possível m anter de form a consistente as suposições
filosóficas de O rígenes. Os conceitos e idéias de Aristóteles estavam alterando
os fundam entos platônicos e os interesses eclesiásticos. A consideração pela
verdade literal da Bíblia estava exigindo seu direito, e novos problem as estavam
surgindo.
O rígenes tinha sido um pensador sistemático, e com o tal havia moldado sua
exegese e sua teologia e ontologia em um simples padrão unificado. A nova
geração de teólogos tentou usar novos métodos. A reviravolta da filosofia em
filologia, para o exame criticam ente exato dos fundamentos bíblicos, é perceptí­
vel na personalidade e obra de Panfilo.
Panfilo era um rico advogado de Berito, na Fenícia, que decidiu, sob a influ­
ência de Pierio, diretor da escola cristã em Alexandria, abandonar sua carreira
pública e dedicar toda sua vida a serviço da Igreja. C om o presbítero da Igreja em
Cesaréia ele se tornou o bibliotecário encarregado do espólio literário de Orígenes,
o qual ele com eçou a classificar e separar. Acima de tudo, esforçou-se para
produzir um texto confiável da Bíblia com base na Hexapla e nos com entários
de Orígenes sobre o Antigo e N ovo Testamentos.
Nesta tarefa ele requisitou assistentes e colaboradores, e o jovem Eusébio se
to rnou o mais útil e esforçado m em bro de sua equipe. Ele ajudou Eusébio a
alcançar a independência econôm ica e intelectual, e o jovem assistente, que de­
veu todo o seu início a Panfilo, expressou sua lealdade com binando, com o um
escravo liberto, o nom e de seu mestre com o seu. Dessa forma, ele entrou para a
literatura e para a história da Igreja com o ‘Eusébio Panfili’. Ainda existe um
manuscrito da Bíblia com um a anotação registrando seu trabalho conjunto de
revisão.
Eusébio recebeu com o influência de seu mestre uma profunda veneração
po r Orígenes e se ocupou com suas obras póstumas, a fim de aum entar a repu­
tação de seu incomparável mestre. Ele tentou produzir um corpo com pleto das
correspondências de Orígenes, tarefa que tinha com o objetivo im pedir a sua
dispersão e a desintegração da tradição.
D urante a última grande perseguição aos cristãos, Panfilo foi lançado na
prisão e, na im inência da m orte, decidiu escrever um a outra Apologia, com a
intenção de protegê-lo das críticas dirigidas a O rígenes p o r seus companheiros
de prisão e de vários teólogos recentes. Esta foi a única parte independente dos
escritos de Panfilo e, ao mesmo tempo, a única produção de seu aluno Eusébio,
que o auxiliou e teve que concluí-la de m odo independente. Panfilo m orreu
com o um mártir; Eusébio, que ainda era desconhecido na época, se salvou. Sua
fama com o estudioso logo iria ultrapassar a de seu mestre.
Antes de mais nada, Eusébio continuou seus estudos acadêmicos, apesar das
perturbações produzidas pela contínua perseguição. C om o um arquivista, cole­
tou todas as informações sobre m artírios e outros eventos na Igreja que foi
possível. Ele então apresentou seus próprios escritos. Separadamente das pesqui­
sas puram ente filosóficas, históricas e exegéticas, eles consistem em tratados com ­
pletos dirigidos contra os oponentes do cristianismo, pagãos e judeus.
Eusébio era um cristão fiel e sentiu uma profunda obrigação em ajudar a
causa da fé e a Igreja com seus conhecim entos e dons. A partir do ano 313, a
Igreja havia novamente adquirido a liberdade de se desenvolver sem impedimento
e parecia estar se movendo em direção a u m futuro novo e mais excelente.
Se compararmos as obras teológicas deste período com as obras dos apologistas
mais antigos com o Justino, a diferença na situação e na qualidade pessoal de
Eusébio torna-se im ediatam ente evidente. A cristandade não era mais o pe­
queno e pobre bando de dissidentes ‘bárbaros’, que lutava penosam ente por seu
direito de existir e usufruir de u m m ódico respeito intelectual em um m undo
rico e presunçoso.

£<?
H á m uito tem po ela havia se espalhado por todo o m undo civilizado; as
cidades e as zonas rurais foram influenciadas por suas igrejas, e em todas as pro­
fissões, e não menos nas intelectuais, as atividades dos cristãos tinham crescido
em grandes proporções. Enquanto a sociedade pagã havia se tornado empobrecida
e m oralm ente degenerada na época das guerras civis e do declínio universal, a
Igreja se manteve e continuou a crescer ininterruptam ente, graças à sua firme
coerência e disciplina, e à coragem tenaz de sua fé.
Dessa form a, ela surgia com u m aspecto diferente. Para Eusébio, a evidên­
cia apologética para a verdade do cristianism o não dependia mais de certas
correspondências e detalhes miraculosos que relacionam as profecias do A nti­
go Testamento com a pessoa de Jesus. A vitória do verdadeiro conhecim ento
m onoteísta de D eus, a nova virtude que havia trazido renovação à Igreja, a
expansão e o visível triunfo da Ig reja‘entre todos os povos’ - todas essas coisas
falam po r si só.
Trata-se apenas de dem onstrar que todo este espantoso desenvolvimento
deve-se ao plano divino desde o princípio e só poderia ter se realizado pela
maravilhosa ajuda do próprio Deus. O paganismo, com seu politeísmo e seus
sacrifícios de sangue, suas superstições demoníacas e o eterno conflito infrutífero
de suas filosofias, parecia uma forma antiquada de religião fadada a desaparecer. Ele
não podia mais se m anter no foro da razão culta e da moralidade mais elevada.
Esta transformação mundial trouxe tam bém uma mudança da ênfase no
significado da esperança cristã. N ão estava mais centralizada exclusivamente no
m undo vindouro: ela com eçou a ser percebida no m undo atual. O cristianismo
era o poder decisivo p o r trás do progresso moral do mundo, a consumação da
história do pensam ento e da religião, e suas profecias e mandamentos haviam se
tornado a base de um programa de renovação humana.
O m onoteísm o e a nova moralidade idealista, que para Eusébio era o centro
do evangelho de Jesus, foram incapazes de governar o m undo desde o início.
Antes de mais nada, o estágio nôm ade da civilização tinha de ser superado; cidades
precisavam ser construídas, leis deveriam ser feitas, artes e habilidades desenvolvi­
das, e ‘a vida, que ainda era, até certo ponto, animal e indigna’, tinha de ser domada
e moldada pelas origens da filosofia e civilização (H .E . 1,2,17-19).
Q u an d o o Im p ério R o m a n o trouxe paz ao m undo, sobrepujando a
multiplicidade de governos, o m om ento certo para a mensagem cristã havia
chegado, de acordo com a vontade de Deus (Praep. Ev. I, 4). N o início, eles
perm aneceram com suas reivindicações em segundo plano, a fim de não provo­
car os legisladores romanos e não perturbar a paz do im pério; porém , nessa nova
fase, os cristãos haviam se tornado os aliados declarados e naturais do poder
secular. Esta era um a idéia que há m uito tem po estava latente na concepção do
cristianismo com o a consumação da filosofia e cultura antigas. As origens do
pensam ento de Eusébio são encontradas em Orígenes, especialmente quando
ele disputa com os inimigos pagãos da Igreja. Mas a estrutura de seu pensam ento
era excessivamente espiritual e seriam ente dualista para perseguir tais idéias.
O rígenes não estava interessado em história mundial e política. A vitória da
Igreja era para ele talvez um a idéia que poderia ser considerada teoricam ente,
mas não um objetivo para o qual sua energia poderia ou deveria ser direcionada.
A postura de Eusébio era bem diferente. Tam bém é verdade que para ele o
próprio Deus era um a realidade inteiram ente transcendental, e ele considerava a
separação ascética do m undo e a adoração do Ser D ivino com o o objetivo su­
prem o da piedade cristã. Os sacerdotes celibatários da Igreja, sua camada mais
alta de líderes santos e espirituais, devem satisfazer esta exigência com um a devo­
ção representativa.
Mas com esta devoção representativa, as reivindicações do ideal de renúncia
mundana foram alcançadas. Isto está além do alcance de um ‘m odo de vida
universal e hum ano’ e deve, portanto, perm anecer com o exceção à regra. A
maioria dos cristãos tem suas tarefas neste m undo, mesmo tendo sua porção
completa da salvação e do ensino redentor da Igreja (Demonstr. Eu I, 8, 29 f.).
Deus tem protegido sua Igreja no m undo contra todos os ataques furiosos de
seus inimigos, e a tem conduzido à vitória e ao sucesso com o um a luz para
ilum inar as nações.
Estas são algumas das idéias que fizeram de Eusébio u m historiador da Igre­
ja. A história da Igreja Primitiva originou-se com os apologistas assim com o a
história m oderna originou-se do Iluminismo. Esta é a razão da fraqueza interna
da posição de Eusébio. Suas obras de história da Igreja e de história contem po­
rânea favorecem um a visão m oralizadora clara, p orque suas intenções são
apologéticas; ele tem predileção pela retórica e pela edificação e se esforça o
tem po todo para impressionar e convencer o leitor. Ele deixa a desejar no rígido
critério teológico.
Claro que é Deus quem está p o r trás dos sucessos da Igreja, e eles são todos
miraculosos; suas derrotas são causadas pela ação dos poderes demoníacos e dos
vilões humanos que são seus cúmplices. Mas elas tam bém podem ser impostas
p o r Deus para testar ou punir a Igreja. Elas não são de m odo algum a palavra
final; mesmo dentro da Igreja a verdade apostólica irá sempre vencer a longo
prazo contra todas as inovações heréticas.
A antiga estrutura mitológica, que calculava a história do m undo de acordo
com as ‘semanas de anos de D aniel’ e que culminava com a volta de Cristo em
um a data que poderia ser supostamente calculada, foi abandonada p o r Eusébio
de uma vez por todas. O projeto otimista de uma educação progressiva da raça
humana, dirigida por Deus, é a base de toda sua visão de m undo e do plano da
salvação. Além disso ele não estava interessado nos problemas fundamentais de
uma teologia da história, e, p o r esta razão, seu senso crítico e seu interesse nos
recursos da história foram capazes de se desenvolver sem restrição.
Nesse aspecto, sua obra foi exemplar para seu período e merece todo o
louvor. Eusébio era realmente um estudioso, e a consciência e precisão de suas
pesquisas filológicas, arqueológicas e históricas são evidentes e capazes de resistir
a toda prova. Mas para ele deveríamos conhecer tanto a história da Igreja dos
primeiros séculos, quanto deveríamos conhecer o cristianismo primitivo, se Lucas
não houvesse escrito os Atos dos Apóstolos. A dm ite-se que em comparação
com esta última obra, a História da Igreja de Eusébio não é de m odo algum uma
obra de arte. O material variado foi preferivelmente disposto em ordem de colu­
nas ao invés de ser elaborado de um a forma limitada. Para as páginas finais, são
permitidas que citações interrom pam a exposição e o estilo vigoroso jo rra sobre
nós com o uma torrente de palavras e frases de som solene e dificilmente inteligí­
veis. M esmo assim, em sua própria época, Eusébio foi considerado um orador. Sua
reputação com o erudito pode ter influenciado este julgam ento sobre ele.
M esmo antes de ter com eçado sua História da Igreja, Eusébio tinha desenvol­
vido suas ‘tabelas cronológicas’ no m odelo dos antigos cronistas cristãos, em bora
de m odo mais minucioso e detalhado. Após um a longa e apurada introdução
sobre os diferentes sistemas cronológicos, ele apresenta tabelas sincronizadas da
história do m undo. A justaposição das datas bíblicas e seculares tinha com o ob­
jetivo provar que o cristianismo, longe de ser um a religião recente, era, com
suas testemunhas do A ntigo Testamento, a mais antiga e a mais venerada religião
do mundo. Cristo apresentou seu período final, o qual estava tendo agora o seu
desdobramento na história da Igreja. A partir deste ponto, o material na coluna
dedicada ao plano da salvação torna-se cada vez maior, quase excluindo os regis­
tros seculares.
A História da Igreja é, até certo ponto, um a versão independente desta parte
da crônica, publicada com o u m novo livro. A maneira um tanto superficial na
qual as informações sobre bispos famosos, teólogos, hereges, perseguições, os
destinos do povo ju d eu e outras questões são colocadas lado a lado mostra a
influência do m étodo antigo. N o entanto, Eusébio corretam ente enfatizou a
novidade de seu em preendim ento e as dificuldades especiais apresentadas por
uma prim eira tentativa desta natureza. Ele se considerava com o que trilhando
um cam inho com pletam ente novo, ‘sem encontrar o mais leve traço de homens
que o tenham trilhado antes dele; som ente registros e anotações ocasionais, nos
quais um hom em , de um a maneira, ou u m outro, de outra, deixou para trás um
relato fragmentado de sua própria época’ (H .E . 1 ,1,3).
Estes registros antigos devem ter-lhe dado direção, com o faróis ou sinais
distantes na escuridão. C om o dissemos, Eusébio era aficionado em citar tais re­
gistros de form a textual, especialmente quando eles pareciam ter valor cronoló­
gico, e, dessa maneira, numerosos fragmentos da literatura foram preservados, os
quais teriam sido inteiram ente perdidos. O lhando com o um todo,Eusébio cons­
truiu sua obra tão m inuciosam ente que ela perm aneceu oficial por m uito tem ­
po. Os historiadores da Igreja que lhe sucederam m eram ente continuaram ou
simplesmente traduziram esta obra básica.
A exposição de Eusébio com eça com Jesus C risto, cuja natureza e ativida­
des ‘apresentam-se para u m investigador consciencioso de m odo tão sublim e e
poderoso, que não podem mais ser hum anas’ (H .E . 1 ,1,7). D epois, no decorrer
de sete livros, ele conduz o assunto para sua própria época, e a aborda nas três
últimas obras. Até hoje é possível constatar que Eusébio não escrevia estes
trechos de um a só vez, mas trabalhava continuam ente neles e os aprimorava,
enquanto desenvolvimentos adicionais ocorriam e novas inform ações lhe che­
gavam.
Seu julgam ento dos legisladores varia de acordo com a medida do sucesso
de cada um deles e de suas mudanças de atitude em relação ao cristianismo. As
tendências pessoais do autor e as intenções propagandistas tornam -se m uito acen­
tuadas e lançam um a luz duvidosa em seus freqüentes relatos contraditórios. E m
sua edição final, a obra alcançou u m resultado patente; a própria história supriu
o triunfante historiador da Igreja com a devida conclusão.
A vitória do im perador Constantino, amigo dos cristãos e amado p o r Deus,
e o princípio do seu reinado singular, tanto no O cidente com o no O riente
(324), trouxeram o desenvolvimento prévio para alcançar seu objetivo e teve
início um a nova época. Tam bém para Eusébio, um a nova era começava em sua
própria vida. Até então, Eusébio não havia sido u m hom em público ou um
político da Igreja. Ele era um erudito de coração e alma, e, com o teólogo, um
defensor da verdade e dos direitos da Igreja Cristã.
C om o Orígenes, assumiu o cargo de presbítero em Cesaréia, e em 313-14,
foi ordenado bispo daquela cidade. C o m o sacerdote, ele cum priu, sem dúvida,
seus deveres de acordo com as regras; mas perm aneceu fundam entalm ente o
hom em que realmente era, dedicado, acima de tudo, a seus trabalhos eruditos.
N ão era um mestre com o Orígenes; era prim eiram ente u m pesquisador, um
historiador, um filólogo e um apologista. Tam bém pregou com uma freqüência
m uito m enor que Orígenes, apesar da posição reconhecida e representativa que
havia alcançado na Igreja.
Isto não era devido à indiferença com respeito aos deveres de seu ofício e
chamado espiritual. Nós vimos que ele pôs toda a sua obra, incluindo seus estudos
estritamente acadêmicos, a serviço da Igreja, e pensava que reconhecia inteira­
m ente novas oportunidades para o serviço cristão. C om a vitória de Constantino,
a Igreja emergiu do período de preparação para a era do cumprimento. ‘Estas
coisas foram preditas por Isaías e colocadas na Sagrada Escritura desde uma época
imemorável; a infalibilidade destes oráculos agora tinha que ser provada por meio
de fatos’ (H.E. X , 4,53). O vencedor político levou também a salvação ao mundo.
Eusébio havia enfatizado a relação providencialmente íntim a entre o im pé­
rio e a Igreja em um a ocasião anterior; ele agora incluiu a instituição do im pe­
rialismo e a pessoa do im perador nesta relação. O im perador enviado por Deus,
o R edentor que aparece após o longo torm ento de dissensão e perseguição, é o
mensageiro escolhido de Deus para o m undo inteiro. Seu dom ínio terreno é a
imagem do governo de Deus e do governo de Cristo que a Bíblia predisse. A
ordem final das coisas havia sido alcançada. ‘O próprio Deus, o G rande R ei,
estendeu do alto sua mão direita e to rn o u -o neste dia vitorioso sobre todos os
seus inimigos’ (Laus Const. 8). Este im perador, amado por Deus, é um filósofo e
um m odelo de piedade, a essência de todas as virtudes reais, dignidade, beleza,
força, cultura, razão inata e sabedoria divina. Eusébio afirma que havia percebido
este fato muitos anos antes, quando viu pela prim eira vez o então desconhecido
príncipe.
Eusébio foi freqüentem ente criticado pela extravagância de tais elocuções e
pela falta de sinceridade de seu ‘bizantinism o’. Mas é fácil esquecer o decreto
perante o qual tais expressões vieram a ser aceitas com o verdadeiras no tipo de
corte orientalizada da época. Além disso, C onstantino sabia com o lidar com as
pessoas. Ele obviamente deu im portância ao apoio do distinto erudito e sua
propaganda para a Igreja, e o recebeu com a esperada deferência e as considera­
ções mais lisonjeiras.
Eusébio era um hom em de origem hum ilde, não sendo de m odo algum do
grande m undo da política; p o r isso não surpreende que tenha sido ludibriado. O
im portante, porém , foi a realização de seu acordo básico que o uniu ao im pera­
dor com um a espécie de inevitabilidade teológica. Este filósofo realista e apósto­
lo da nova ordem cristã foi inevitavelmente u m ‘cristão bizantino’. Toda a sua
teologia foi direcionada para a realização de um a civilização moral unida a uma
igreja mundial. M esm o sem saber, tornou-se a versão cristã atualizada da antiga
teologia pagã do im pério e do im perador. Eusébio teria que ter aberto mão de
seu próprio ego se não tivesse nesse m om ento seguido o im perador com o o
‘instrum ento escolhido’ de Deus, p o r quem havia esperado e em cuja missão e
destino ele acreditava. Para ele, um a ‘vitória’ final para a Igreja somente poderia
ser concebida em aliança com o im pério e somente sob o patrocínio da unidade
perm anente de um a ordem cristã, e de um a paz mundial sagrada, cuja criação e
preservação eram tarefa do imperador.
Este era o cristianismo de Eusébio, e isto o levou ao fracasso com o político
eclesiástico. A controvérsia ariana estava dividindo a Igreja grega no exato m o­
mento da vitória de Constantino. Ela nada tinha que ver com a política, mas não
poderia ter vindo em u m m om ento mais inoportuno. Era essencialmente a luta
pelo fundam ento da fé cristã na salvação, que tinha sua origem na pessoa divina
e hum ana de Cristo. Eusébio não era de m odo algum um ‘ariano’ convicto,
com o foi acusado pelos historiadores da heresia. Cristo era para ele mais que
um a mera criatura e mais que um semideus superior. Ário, a quem Eusébio
havia recolhido com o um refugiado, tinha hábil mas enganosam ente iludido-o a
dar início ao radicalismo de sua cristologia.
Eusébio foi persuadido a ver no exilado um a vítima inocente da perse­
guição, que tinha, com o Orígenes, vindo a Cesaréia porque o m uito amado
patriarca alexandrino recusou-se a perm itir o desenvolvimento da teologia ci­
entífica. Erros antigos sobre a com pleta identidade do Pai com o Filho, que
haviam há m uito tem po sido refutados p o r Orígenes, pareceram estar ressurgin­
do no campo dos inimigos de Ário. Para Eusébio, estas grandes confissões de fé
significaram o fim de um a teologia atualizada, filosoficamente fundamentada e
cientificamente defensável. Portanto, passou a apoiar Á rio de m odo convicto.
Mas fundam entalm ente não estava interessado no ‘mistério da redenção hum a­
na’ com o tal; estava, sim, lutando pelas aspirações intelectuais e morais que a
pregação m onoteísta da Igreja tinha que sustentar na nova ordem mundial.
C ontra este cenário, as disputas cristológicas pareciam com o meros sofismas,
ou, de qualquer maneira, elas não estavam destinadas a u m lugar no prim eiro
plano da política eclesiástica com o seus oponentes desejavam. C o m genuíno
terror, Eusébio notou como, no m om ento histórico de libertação e vitória dada
p o r Deus, as rixas teológicas e a intolerância ameaçavam rom per o relaciona­
m ento entre o im pério e a Igreja, e a frente cristã unida estava se desfazendo
‘para que os mistérios sagrados dos ensinam entos divinos sofressem vergonhoso
escárnio em m eio aos teatros dos infiéis’ ( Vit. Const. II, 61).
N este ponto havia um a genuína unanim idade entre ele e Constantino. A m ­
bos tinham o mesmo objetivo em vista: superar esta situação desagradável o mais
rápido possível, a qualquer custo. Som ente Eusébio era teólogo e bispo de sua
Igreja. Por tornar o critério de suas decisões, de m odo inconsciente, em fins
estratégicos e políticos, envolveu-se em contradições que o levaram à hum ilha­
ção pessoal e que o forçaram, apesar das suas intenções honestas, a dar passos que
com prom eteram a sua reputação de m odo irreparável.
N o Conselho de N icéia (325), C onstantino foi com pelido a se subm eter aos
oponentes de Ário. Até mesmo Eusébio deve ter percebido com o o ensino ari­
ano era duvidoso. N ão obstante, em penhou-se em manter-se leal ao seu prote­
gido. N o final, porém , precisou deixá-lo, a fim de salvar-se da excom unhão e da
deposição. A confissão de fé que ele subm eteu ao Conselho foi publicamente
louvada por Constantino, mas foi modificada tão extensamente p o r todo tipo de
acréscimo anti-ariano que o próprio Eusébio já não poderia mais aceitá-la ho­
nestamente. Ele foi, no entanto, forçado a assiná-la, e a carta tortuosa na qual
justificou sua ação para sua própria igreja prova, com suas reinterpretações e
evasivas insustentáveis, que sabia perfeitam ente o que havia feito.
Este não era o fim de sua desonestidade. Mais uma vez, por interm édio do
favor do im perador e considerando-se digno desse íntim o relacionam ento com
ele, utilizou sua influência para conseguir a decisão que, p o r maneiras indiretas,
causaria um golpe pessoal àqueles que apoiavam o C redo de Nicéia e dando seu
consentimento entusiasmado para que fossem repudiados e banidos por meios
políticos.
N ão precisamos estudar os acontecim entos em detalhes. N ão é necessário
dizer que os tratados teológicos que Eusébio escreveu ainda atingiram u m alto
nível intelectual, m uito em bora tenham sido inspirados pelo aborrecim ento pes-
soal.Também continuou suas pesquisas eruditas, e foi considerado com o o p rin­
cipal porta-voz da Igreja, um notável defensor da política im perial para a Igreja
e o Estado nos novos tempos. Seu supremo triunfo foi quando C onstantino o
indicou para o contestado bispado de Antioquia. Eusébio m odestam ente recu­
sou a indicação, alegando que sua aceitação infringiria certos estatutos eclesiásti-
cos.Talvez percebesse suas próprias limitações. D e qualquer forma, preferiu ficar
com a sua incomparável biblioteca em Cesaréia, em meio ao seu am biente fami­
liar. Lá m orreu em paz alguns anos após C onstantino (339-40).
N o final de seus dias, Eusébio acreditou que havia atingido o objetivo da
obra de sua vida. O Estado e a Igreja haviam se juntado; a ‘paz’ de uma unidade
baseada em fundam entos políticos parecia estar firm em ente estabelecida; uma
teologia moderada, tal com o apreciava, prevalecia. E, ainda assim, esta impressão
estava baseada em um a ilusão.
N a geração seguinte, a oposição ao regim e que estava no poder, que havia
sido oficialmente reduzida ao silêncio, iria novam ente em ergir com paixão re­
novada e com pelir a um a revisão básica de todas as decisões que Eusébio e seus
amigos tinham defendido em bases estratégicas e políticas, ao invés de dogmáticas
e eclesiásticas.
Mais tarde, a Igreja decidiu com certa firm eza que Eusébio poderia não
ser considerado com o ortodoxo e que viam nele um ho m em ‘hip ó crita’ (Soer.
H .E. I, 23), m uito em bora não se pudesse dispensar suas obras históricas e
filológicas ‘p o r am or às inform ações concretas que são úteis à instrução’ (Decr:
Gelas. 5, 22). N isto foram injustos, p o r causa das qualidades que possuía com o
hom em .
Seu destino revela mais do que o fracasso pessoal de um hom em que era
também conhecido com o estudioso respeitável, e que não estava preparado para
enfrentar as dificuldades da política im perial e eclesiástica que o confrontaram.
Isto revela ainda mais a falência da tendência teológica que foi incapaz, por
razões políticas, de se libertar do p o d er e das oportunidades mom entâneas, e que
não pôde levar realmente a sério a si ou a sua fé em Cristo. A crise da teologia
de O rígenes tornou-se assim evidente, e fez com que um a nova compreensão do
ensino da Igreja se tornasse urgentem ente necessária. Isto estava fadado a ter um
efeito na posição de teólogos e mestres responsáveis.
A tanásio

tanásio pertence a um a geração mais jovem que a de Eusébio.


Ele nasceu po r volta do ano 295, e suas memórias não rem on­
tam a um a época anterior às últimas perseguições. C ontudo,
ele as experim entou, e a dureza de seu caráter e o seu gosto p o r decisões absolu­
tas, resumidas e objetivas podem ter sido aumentados p o r estas experiências
anteriores. Atanásio cresceu dentro da ordem da igreja imperial: esta foi uma
instituição aceita, à qual ele aderiu rapidamente, e p o r toda a sua vida. Mas com
ele tam bém uma nova era na teologia se inicia.
Atanásio foi o prim eiro patriarca grego da Igreja que não se sentia à vonta­
de na atmosfera acadêmica da filosofia cristã. Era um ‘m em bro da igreja’ bem
versado nos assuntos teológicos, mas foi treinado na administração da hierarquia
alexandrina. Seu lar espiritual era o serviço divino e a administração no escritó­
rio eclesiástico, e não a plataforma escolar. N o início do terceiro século nenhum
bispo possuía um a máquina administrativa tão grande, tão bem organizada e tão
eficiente quanto o patriarca de Alexandria.
A partir do bispado de D em étrio, que m orreu no ano 232, Alexandria do­
minava eclesiasticamente todo o Egito, com o tam bém as áreas circunvizinhas da
Líbia e de Pentápolis. Ele havia designado os prim eiros bispos em sua província,
que perm aneceram dependentes dele, e havia se posicionado em defesa de here­
ges e de outros elementos recalcitrantes. Encontram os D em étrio com o adversá­
rio de Orígenes. Mas a teologia não havia se extinguido em Alexandria por
causa de sua expulsão. O bispo D ionísio,‘o G rande’ (que m orreu no ano 265),
tinha sido aluno de O rígenes e tam bém era bem conhecido com o teólogo.
Mas no m om ento em que a escola teológica havia perdido sua antiga inde­
pendência, a teologia passou a levar em conta as exigências práticas da vida da
Igreja e da política da Igreja. Percebe-se isto nas próprias origens da polêmica
ariana. Para o novo bispo, Alexandre, era prim ordial forçar o obstinado presbítero
A rio a submeter-se às disciplinas oficiais dos seus superiores espirituais. Além do
mais, o antigo cisma egípcio causado pela libertação dos colaboradores de Melito,
a quem A rio havia se ju n tad o p o r um tem po, m isturou-se à polêmica teológica.
Desde o início o problem a dogm ático tornou-se no Egito um problem a de
autoridade episcopal e de ‘lei da Igreja’.
Atanasio familiarizou-se com todo este m undo de política eclesiástica e
problemas administrativos, talvez enquanto ainda jovem . Foi declamador, depois
diácono, e com o tal, confidente especial e conselheiro teológico do bispo, por
interm édio de quem lhe era perm itido acom panhar o Conselho de Nicéia.
Q uando Alexandre m orreu no ano 328, dizem que ele queria Atanásio com o
seu sucessor. Sua rápida eleição não foi levada a cabo sem oposição. Talvez as
pessoas temessem a energia implacável deste incom um , mas não mais desconhe­
cido, jovem candidato. Sua oposição aos arianos era certa. Tam bém procurou
tom ar ações imediatas e brutalm ente decisivas contra os melitianos, com quem
as negociações ainda estavam em andamento, resultando novamente na deflagração
da resistência deles.
Mas Atanásio teria, sem dúvida, enfrentado e vencido estes problemas do­
mésticos. N o entanto, a polêmica ariana desde m uito tem po havia se estendido
alem do Egito e havia chegado a todo o O riente. Ao recom eçar o ataque com
um vigor renovado, Atanásio mais um a vez levantou uma questão sobre a quase
com pleta vitória do partido de oposição. A partir de então, jamais deixaria de
lutar. D urante quarenta e cinco anos continuou a travá-la com um a tenacidade,
agilidade e energia constantes, m ostrando versatilidade em seus m étodos e for­
mulações, inabaláveis e inflexíveis nas questões essenciais, não reafirmadas por
algum sucesso parcial, nem desencorajadas p o r qualquer fracasso. Q uando Ata­
násio m orreu, estava prestes a vencer. Todo o desenvolvimento subseqüente da
Igreja Imperial Bizantina foi baseado unicam ente na luta e no sucesso deste
homem.
A decisão de N icéia não foi acidental; mas a maneira com o aconteceu foi
essencialmente o resultado de medidas e pressões táticas p o r parte do imperador.
O que preocupava C onstantino era, acima de tudo, a pacificação e a firm e uni­
ficação da Igreja Imperial que ele havia fundado. As condenações de Á rio e do
credo de N icéia tinham o objetivo de servir a este propósito. Q uando o acordo
com pleto não foi alcançado, o im perador, com o já vimos, foi persuadido pelos
seus conselheiros a expandir os limites do entendim ento na igreja universal um
pouco além, e subseqüentem ente revogou a decisão que havia sido tomada. Por
fim, A rio foi favorecido. A ordem form al para reconhecer esta decisão em
Alexandria e adm itir o herege condenado em sua antiga esfera de atividade por
amor à ‘harm onia’ chegou exatam ente quando Alexandre estava m orrendo.
M orreu antes de poder responder ao com unicado do imperador. R ecaiu sobre
seu sucessor a tarefa de tom ar a decisão.
Atanásio não ficou em dúvida, sequer por um m om ento, sobre o que deve­
ria ser feito. R estaurar A rio estaria fora de questão. Q ualquer que fosse a expli­
cação que ele poderia ter dado, tal passo seria entendido pelo público unica­
mente com o uma retirada e uma derrota teológica e política do bispo alexandrino,
o que som ente teria beneficiado os seus adversários. Atanásio tom ou o posicio­
nam ento de que a admissão de pessoas ‘que inventaram uma heresia em oposi­
ção à verdade e que foram consideradas anátemas por um sínodo geral’ era fun­
damentalmente impossível (Apol. II, 59,5). Esperar seriamente que Á rio mudas­
se de idéia tam bém estava fora de questão, e Atanásio foi, portanto, capaz de
achar-se em seu direito e não apenas com o pretexto tático.
D e m odo diferente de Alexandre, ele havia percebido o alcance e a im por­
tância do conflito teológico desde o princípio. A doutrina ariana da ‘criatura’,
isto é, a negação da natureza essencialmente Divina do R edentor, não foi para
ele a solução questionável ou perversa de um problema teológico, mas o fim da
própria fé cristã, a traição de tudo quanto a Igreja havia se preocupado desde o
princípio.
Atanásio não deu atenção ou qualquer im portância aos ideais teológicos e
políticos mais amplos, aos quais Eusébio havia tão habilm ente se dedicado na
luta a favor de sua cristologia racionalista e relativista. A igreja não estava interes­
sada em nenhum programa secular, mas na salvação eterna do hom em . O m u n ­
do criado e a razão do hom em não foram obviamente capazes de salvá-lo da
corrupção. Era necessária a vinda de Cristo, que era a Palavra em si m esm o’
(Contra os Gentios, 40); ele teve que tom ar a nossa carne e assim unir nossa
natureza a D eus e à vida eterna de Deus. A encarnação foi o evento decisivo no
processo da salvação. O próprio D eus agiu derrubando a barreira para a criatura
caída e trazendo à luz a vida e a imortalidade, com o conhecim ento de sua
verdadeira natureza. U m semideus teria sido inútil ao hom em . O aspecto moral
do processo da redenção, a idéia do conhecim ento do pecado, a expiação e o
perdão dos pecados, são de interesse apenas secundário para Atanásio. A salvação
da m orte e a fraternidade doadora da vida com D eus são seus temas centrais.
C om um fervor genuinam ente religioso, ele saúda o milagre da vinda de
Cristo. Esta é um a teologia que tem pouco em com um com Orígenes, sob
qualquer ponto de vista. Atanásio naturalm ente conhecia ‘o Orígenes suprema­
m ente culto e diligente’, e de vez em quando tentava defendê-lo de uma inter­
pretação ariana im própria que lhe era atribuída (De Decr. 27, í ; A d Serap. 4, 9);
mas no geral raram ente o m enciona. Ele nos relembra principalm ente a fé em o­
cional que o velho Ireneu possuía.
D e acordo com Atanásio, a igreja pode viver som ente na única verdade do
verdadeiro Deus e Salvador Jesus Cristo, que é proclamada através da pregação
feita pela Igreja e representada miraculosa e efetivamente em seus sacramentos.
Q ualquer pessoa que não crer nem sentir esta verdade, qualquer u m que esteja
satisfeito com teorias gerais de virtude e fracas especulações sobre o espírito, o
mundo, e um Cristo-Logos criado, é u m ariano, em bora o negue por milhares
de vezes. H á um quê de paranóia sobre a regularidade m onótona com que Ata­
násio finca posição nas mesmas idéias básicas, e incessantemente volta atrás para
as mesmas reclamações e acusações. Mas seria errado suspeitar de estupidez ou
incom petência teológica p o r trás deste m étodo altamente eficiente.
Atanásio sabia com o organizar seu m aterial clara e sensatamente; no de­
senvolvim ento de suas idéias, m ostra um a adm irável habilidade e destreza
dialética, e sua exegese bíblica, que conduz à imposição de um a prova dogmática,
é freqüentem ente penetrante e profunda, p o r sua força. Fica claro que ele foi
u m bom estudante em sua ju ventude, e u m teólogo b em treinado. Mas é difícil
perceber se a obra teológica com o tal lhe tenha dado algum prazer, sem m encio­
nar que ele não tinha desejo algum de usá-la com o propósito de educar a
outros ou se estabelecer com o ‘m estre’. Para ele, a teologia era simplesmente
um a arma.
Os escritos de Atanásio foram quase inteiram ente dedicados à polêmica. H á
uma rara nota de desconfiança na cultura helénica; de qualquer maneira, ele ignora
com pletamente as suas preciosidades. C om o pessoa, considerava-se naturalmente
um grego. Mas dificilmente se pode entender com o um acaso que ele tenha sido,
com o sabemos, o prim eiro teólogo de qualquer posição a pregar no idioma copta.
Havia algo não grego em sua natureza, que é dura e rígida, sem um toque de graça
ou charme intelectual. Seu retrato, se possuíssemos um, provavelmente lembraria
mais os antigos faraós e seus oficiais, do que um filósofo grego.
M esmo antes de Constantino p oder retornar ao caso de Ario, os melitianos
apresentaram reclamações adicionais contra Atanásio. Alegaram que ele teria su­
bornado um mensageiro im perial, derrubado u m altar, destruído u m cálice
sagrado, e até mesmo assassinado um bispo m elitiano no curso de suas ações
violentas contra os sectários. N o que diz respeito a estas últimas acusações, Ata­
násio pôde se defender. Seu serviço secreto foi bem -sucedido em seguir a pretensa
vítima, que estava se escondendo em u m mosteiro no Alto Egito; e quando o
hom em procurado fugiu, foi posteriorm ente descoberto em Tiro e identificado
a tem po pelo bispo daquele lugar.
Reclamações sobre atos de violência e transgressões aos direitos de outras
pessoas acom panharam o patriarca p o r toda sua vida. N ão é mais possível avaliar
sua credibilidade em cada caso. Atanásio rejeitou toda reclamação nos term os
mais violentos. Ele sabia com o não ceder em meio à pressão das intrigas e polê­
micas desonestas; era um mestre em impressionar as massas. Seus panfletos reve­
lam a inteligência e a clareza de um a personalidade notável, mas ao mesmo
tempo em pregam todo m eio possível de difamação e constantem ente caricatu­
ram seus adversários com as cores mais sombrias. Sangue foi derram ado repeti­
damente nas lutas alexandrinas, e, em seus anos posteriores, Atanásio mais de
uma vez se aproxim ou de com eter um a alta traição. Mas era impossível hum ilhá-
lo, e ele continuou a acreditar e afirm ar os seus direitos.
Por certo tem po parecia que Atanásio poderia vencer o im perador em seu
ponto de vista. E verdade que seus inimigos na corte estavam na direção dos
acontecimentos e eles já haviam estado em contato com os melitianos no Egito.
N o entanto, Atanásio recusou-se a com parecer perante o tribunal deles. Por fim,
foi obrigado a apresentar-se perante um Conselho em Tiro, onde protestou aber­
tamente, de form a ininterrupta, e, antes que a sentença pudesse ser pronunciada,
fugiu secretamente por mar. Apresentou-se mais um a vez, em Constantinopla,
im pondo-se perante o im perador e exigindo uma audiência. E m uma carta, o
próprio im perador descreveu com o Atanásio lhe havia pego de surpresa. Ele até
mesmo achou difícil ficar cara a cara contra a fúria leonina do bispo.
Novas discussões com seus adversários começaram, mas quando explicaram
ao im perador que Atanásio, cujos predecessores já haviam desempenhado um
im portante papel no com ércio egípcio de grãos, estava agora prestes a interrom ­
per todo o suprim ento para a capital, a paciência do im perador esgotou-se. D e
acordo com o próprio relato de Atanásio, C onstantino ficou extrem am ente en­
colerizado e o expulsou para Trier sem qualquer apelação. Foi o prim eiro de
cinco exílios pelos quais Atanásio passou, que o mantiveram afastado de seu
bispado por um período de dezessete anos.
N ão podemos deixar de seguir qualquer detalhe sobre sua vida, nem sobre os
altos e baixos de seu desenvolvimento político e eclesiástico. Acima de tudo, duas
circunstâncias lhe possibilitaram fazer valer seus direitos no final. A prim eira foi o
apoio que encontrou no m undo latino. O tradicional bom relacionamento entre
os bispados de Alexandria e R o m a foi renovado por sua permanência temporária
no Ocidente. Todo o O cidente tornou-se conscientemente atanasiano. A difícil
especulação filosófica que form ou a base da controvérsia ariana não encontrou ne­
nhuma sustentação no Ocidente; o que foi dado como verdadeiro é que deve haver
uma íntima ligação entre o Pai e o Filho. Houve de fato uma tendência muito
difundida para identificar na prática as duas pessoas da Divindade - o maior crime
teológico imaginável para um teólogo grego treinado na escola de Orígenes!
Para que esta solidariedade ocidental pudesse tornar-se eficaz, um outro
fator puram ente político teria que entrar em ação. Constantino havia dividido o
Império entre seus filhos, e isto levou a um a perda de unidade na política ecle­
siástica do Estado. Cada legislador em separado favorecia a tendência predom i­
nante em sua parte do Im pério e esforçava-se para prom ovê-la da m elhor m a­
neira possível tam bém nas regiões vizinhas. Dessa forma, o filho mais fraco,
Constâncio, que governava no O riente, foi po r duas vezes forçado p o r seu irm ão
a readm itir Atanásio.
A prim eira vez que isto aconteceu foi logo após a m orte de Constantino, no
ano 337. E m vez de ir diretam ente a Alexandria, Atanásio viajou p o r meses a fio
pelas províncias da Síria e da Ásia M enor, a fim de restaurar seu partido no
O riente e fortalecer sua unidade. Q uando foi chamado de volta, após um perí­
odo adicional de vários anos no exílio, nas mesmas circunstâncias, conseguiu
explorar sua vitória ainda mais intensam ente. O im perador que o havia expulsa­
do foi forçado a convidar Atanásio, não m enos que três vezes, antes que ele se
apresentasse diante dele novamente, em Antioquia.Voltando para casa passou por
Jerusalém, onde um sínodo estava em andam ento, entrando em sua cidade epis­
copal de m odo triunfante.
Q uando Constâncio tornou-se o único legislador no ano 353 e pôde tom ar
medidas contra Atanásio, a situação parecia novam ente desesperadora.A questão
foi decidida por um a carta que Atanásio manteve e que foi usada para afirm a r
que ele estava conspirando no período intervencionista com um usurpador oci­
dental. Desta vez até mesmo os sínodos ocidentais foram impelidos a abandonar
Atanásio, e, apesar da furiosa oposição do povo de Alexandria, foi feita um a
tentativa de rem ovê-lo p o r força militar. Atanásio havia, porém , fugido em boa
hora; perm aneceu na cidade em u m esconderijo bem arranjado e organizou
uma contínua resistência de seus seguidores. M esm o quando um sucessor foi
indicado, os tum ultos continuaram e a luta prosseguiu.
O lhando para a aparência tempestuosa do curso destes acontecim entos, p o ­
demos ser tentados a interpretá-los com o lutas pelo poder político na Igreja. Foi
precisamente isto que os oponentes de Atanásio sempre afirmaram. Eles cuida­
dosamente evitaram enfatizar a base teológica de suas oposições, e trataram Ata­
násio simplesmente com o um obstinado causador de problemas, um hierarca
intolerante e que procurava conseguir poder, sem cuja teimosia e violência a
Igreja estaria vivendo em paz, livre de qualquer perturbação.
Este m étodo de fazer acusações puram ente políticas e criminosas era a m a­
neira mais segura de reduzir a oposição teológica ao silêncio, quando tinha-se o
poder do Estado ao seu lado. E m contraste a estas táticas não inteiram ente h o ­
nestas, Atanásio apresentava im ediatam ente cada polêmica levando em conside­
ração o plano teológico. E m um tom de suprema indignação, ele impiedosamente
declarou que qualquer um que se opusesse a ele era um notório herege, um
‘ariano louco’, um blasfemador de Cristo estimulado pelos mais malévolos m o ­
tivos, e um inim igo da Igreja verdadeira. N ão aceitava qualquer dúvida sobre a
validade de sua própria posição. A absoluta autoconfiança de seu ataque e defesa
deu aos seus panfletos a turbulenta atmosfera e o eco retum bante que ele preci­
sava para o seu sucesso.
Atanásio era um propagantista vigoroso e determ inado a favor de sua causa.
Não se deve, contudo, deduzir que os princípios teológicos que ele afirmava
estar defendendo eram meros pretextos e sem qualquer im portância verdadeira
para ele. Atanásio cria no que declarava. Porém faltava-lhe o distanciamento
necessário entre os interesses religiosos que ele representava, e a posição eclesiás­
tica que queria manter. N ão pensava realmente na Igreja com o um a instituição
sacramental, mas em term os do dogm a sagrado que a sustentava.
N o entanto, para todas as intenções e propósitos, crença, credo, e a Igreja —ou
melhor, o partido eclesiástico que o apoiava — eram todos um para ele. N ão existia
algo com o um credo sem seguidores, e suas exigências políticas eram santificadas
pela causa que era o objeto de toda a contenda. Foi isto que provocou a falta de
escrúpulos e o farisaísmo, com o tam bém a paixão e a coragem im prudente com a
qual Atanásio com bateu as lutas de sua vida, sacrificou sua segurança e paz, sua
reputação e, quando a necessidade surgiu, até mesmo os seus amigos. Dessa forma,
tornou-se um símbolo vivo da ortodoxia e da igreja invencível. Ele foi o centro do
qual amigos e inimigos, de igual modo, tinham que tom ar seus rumos —um m e­
lhor e mais claro do que as fórmulas e decisões emaranhadas dos Conselhos que
acompanharam a luta no âmbito de sua personalidade.
N os princípios essenciais de sua teologia, Atanásio perm aneceu constante.
Mas os m étodos com os quais conduziu sua luta e a maneira pela qual estabele­
ceu e confirm ou sua posição política, estavam sujeitos ao aperfeiçoamento. Em
seu período inicial, havia ingenuam ente rogado ao im perador e lutado para al­
cançar o seu consentim ento. A personalidade do im perador-libertador im peliu-
o a certas considerações indispensáveis, embora, com o já vimos, sua submissão
ao im perador teve suas limitações em um a situação de emergência. Sua atitude
em relação a Contâncio, o qual não possuía nenhum a das qualidades superiores
de seu pai, era bastante diferente desde o início. Atanásio estava em um conflito
quase contínuo com ele, e cada vez mais abandonou todas as considerações por
este ‘patrono da im piedade e im perador da heresia’ (Hist.Ar,: 45,4). O fato de os
arianos terem ousado perturbar o im perador com assuntos absolutamente ecle­
siásticos, de subm eterem suas decisões sinodais a ele para sua confirm ação e de
mobilizaram soldados para executá-las foi agora declarado ser um ‘crim e escan­
daloso’, contrário a toda tradição canônica:‘0 que o im perador tem a ver com a
Igreja?’ (H ist. Ar. 52, 3). Pela prim eira vez, a idéia de ‘liberdade da Igreja’ foi
defendida, por Atanásio e seus amigos, contra um legislador cristão. Mesmo quando
se vê pelos motivos estratégicos que residem p o r trás disso, este é ainda u m fato
significativo. A partir do ponto de vista de um a teologia eusebiana, tal procedi­
m ento jamais teria sido possível.
Atanásio tam bém desenvolveu seu m étodo de polêm ica dogmática. Nos
anos iniciais ele dificilmente fez qualquer uso do C redo de Nicéia. As provas da
absoluta divindade de Cristo eram puram ente objetivas e bíblicas, e qualquer
u m que as deturpasse seria, com o já vimos, im ediatam ente denunciado com o
u m ‘ariano’, mesmo após A rio ter desaparecido de cena e m orrido há m uito
tempo, ou, com o Atanásio afirm a,‘partido em pedaços no banheiro público’ (De
Morte Ar. 3,3).
Ele apenas passou a ver gradualm ente as possibilidades que o conceito de
Hom oousios (‘de um a substância’), usado no Credo de Nicéia, continha para
sua própria posição teológica, ao passo que este jamais poderia ser aceito por
seus adversários arianos e eusebianos. Passou a referir-se regularm ente a este
conselho considerado sagrado e a seu credo com o o único escudo seguro da
ortodoxia. Fez do reconhecim ento da sua autoridade a condição indispensável
para um a genuína pacificação. Desta form a, Atanásio criou o conceito do p ri­
meiro sínodo ‘ecum ênico’. O niceno, ou o posteriorm ente expandido, credo
niceno-constantinopolitano, foi considerado desde então com o o exclusivo, ou
no mínimo, o único credo perm anentem ente oficial e válido da fé cristã. Sua
exclusividade e rigidez proporcionou um a bem -vinda oportunidade de escar­
necer de toda m anobra ateísta em relação às novas fórmulas que estavam cons­
tantem ente sendo utilizadas pelos adversários de Atanásio no esforço de se ajus­
tarem às circunstancias mutáveis da política eclesiástica. D e acordo com Atanásio,
a verdade desde há m uito tem po foi descoberta e uma teologia genuinam ente
séria deve consistir apenas na interpretação do que a Igreja já estabeleceu de
um a vez por todas.
Porém,Atanásio perm aneceu com pletamente flexível em seu próprio raciocí­
nio. Sua obstinação não pretendia prom over fórmulas com o tais, mas a causa de
seu partido e da única verdade imutável, oculta no símbolo niceno. Ao final de
sua vida, ele deu uma prova impressionante disso. N o fundo, estava interessado
em apenas um a coisa: a com pleta e absoluta divindade e unidade com Deus do
Cristo Logos que tornou-se hom em . Por causa disto ele havia há m uito tem po
deixado em paz aqueles amigos que não fizeram um a clara distinção entre as
duas pessoas divinas. A princípio ignorou, com o um a especulação duvidosa e
desnecessária, a idéia de três pessoas interrelacionadas em u m único Ser Divino.
Mas a teologia não poderia perm anecer estática, e mais um a vez foram os desen­
volvimentos no m undo da política eclesiástica que abriram os olhos de Atanásio
e o levaram a mais um passo à frente.
N os últimos anos de seu governo, Constâncio se aproxim ou cada vez mais
de uma posição radicalmente ariana, e a ‘política de unificação’ que estava se­
guindo não afetou mais unicam ente a Atanásio e aos rígidos defensores do C re­
do de Nicéia. M uitos membros do antigo partido do centro e a geração mais
jovem de teólogos não se sentiram m enos afrontados e tentaram entrar em con­
tato com os teólogos da mesma opinião sustentada pela ala ‘direita’, a fim de
obter seu apoio na luta contra a política oportunista e inescrupulosa dos diri­
gentes da Igreja. Eles poderiam ter sido capazes de aceitar o C redo de Nicéia,
mas tinham m edo da idéia da com pleta identidade das pessoas divinas que ela
parecia encorajar. Assim, Atanásio decidiu tom ar um a posição firm e contra esta
interpretação e reconhecer a praticabilidade das três hipóstases, contanto que a
unidade inseparável do único Ser D ivino fosse claramente preservada.
A oferta de paz decisiva foi feita no ano 362, em u m sínodo em Alexandria,
cenário no qual ocorreu a m udança de situação da igreja, sob o governo do novo
im perador pagão cham ado Júlio. Ele havia perm itido que todos os exilados
retornassem, e pareceu determ inado a deixar a Igreja cuidar inteiram ente de si
mesma, e entregue às suas próprias disputas. A política de coação seguida até
aqui havia ruído, e o cam inho foi aberto para um novo acordo de reagrupam ento
entre as partes. A reconciliação não foi alcançada de forma tão rápida quanto
Atanásio provavelmente gostaria; mas foi um começo, e a reunião final do grupo
da ala direitista, ocorrida anos depois, originou-se na política iniciada no ano 362.
Para começar, era um a questão de sobreviver a uma nova onda de repressão
por parte do Estado. E m sua tentativa de retom ar a velha adoração pagã, Júlio
havia encontrado a resistência universal da Igreja, e Atanásio seria o últim o h o ­
m em a fazer qualquer tipo de concessão para o ocupante do trono imperial.
Logo foi im pelido a deixar vago o seu bispado. Mas este tipo de situação havia
aparentemente deixado de impressioná-lo. D izem que ele confortou a multidão
abatida que o cercou em sua despedida com as palavras que se tornaram famosas:
‘N ão sejam levados para o mau cam inho, irmãos; isto não é senão um a pequena
nuvem que rapidam ente passará’ (R uf. H .E . I, 34: Nolite, o filii, conturbari, quia
nubicula est et cito pertransibit). Ele provou estar certo.
Mais um a vez Atanásio foi forçado ao exílio sob o governo ‘ariano’ do suces­
sor de Júlio. Depois disso a paz gradualmente chegou à sua vida. O governo pro­
vavelmente havia chegado à conclusão de que a atitude mais sensata seria deixar
Atanásio em paz no Egito, apesar de sua rebeldia, do que enfurecer as pessoas que
eram devotadas a ele, por repetidas intervenções. Q uando ele morreu, no ano 373, a
vitória ainda não havia sido alcançada por todo o império, mas alguns anos mais
tarde, o novo imperador,Teodósio, do Ocidente, declarou que todos os seus súditos
deviam considerar o Credo de Nicéia com o tendo autoridade e a ele obedecerem.
Aquilo pelo que a personalidade política e teológica mais forte da Igreja do quarto
século havia se empenhado foi finalmente estabelecido.
Mesmo para os seus contemporâneos, Atanásio parecia uma figura quase mítica;
mesmo os pagãos reconheciam o m érito de seu conhecim ento sobrenatural. Em
épocas posteriores foi considerado com o o incomparável ‘pilar da igreja’, através

r s
de quem Deus havia protegido e preservado a verdadeira fé no período mais difícil
(Greg. Naz. Or. 21,26). ‘Se você encontrar algo dos escritos de Atanásio’, escre­
veu um abade do sexto século,‘e não tiver nenhum papel à mão, escreva em suas
roupas’ (Joh. M osch. Prat. Spir. 40). Suas obras —as autênticas e as inúmeras não
autênticas que foram publicadas sob a proteção de seu nom e - desfrutaram de
um a grande circulação p o r causa de sua alta reputação. A partir de u m ponto de
vista histórico, porém , sua im portância reside nem tanto em seus escritos em si,
quanto nas coisas que ele defendeu e sustentou com suas ações, em uma vida
cheia de tensão e perturbação. E m u m m om ento crítico incom um na história da
Igreja, quando todas as antigas idéias e organizações estavam sendo transforma­
das e reconstruídas na nova Igreja de Constantino, Atanásio manteve o caráter
essencial e a independência espiritual do cristianismo em suas lutas contra os
imperadores e todos os representantes oficiais do m undo teológico.
C om o resultado de seus esforços, a crença em Cristo perm aneceu, no senti­
do mais estrito, com o a genuína crença em Deus, e manteve-se distinta de todas
as teorias pagãs, filosóficas e idealistas. Mas para ele, com o H arnack disse (Lehrbuch
d. Dogmengeschichte II [1909 (4)], 224), a Igreja provavelmente teria caído nas
mãos dos filósofos (do tipo eusebiano); seu credo ficaria sem controle ou se
tornaria um regulam ento im perial governando a adoração da ‘divindade radian­
te’. Atanásio salvou a Igreja de tornar-se um a organização embaraçada com a
idéia do progresso cultural e das armadilhas do poder político. Através dele, no­
vam ente tornou-se um a instituição de salvação, isto é, um a igreja no sentido
estrito da palavra, com a pregação de C risto com o o seu propósito essencial. N ão
foi por acaso que a Igreja veio a ser considerada com o um corpo autônom o, no
sentido legal, independência que deve ser preservada em todas as circunstâncias.
Já indicam os que isto tam bém envolveu um novo afastamento da própria
igreja. Atanásio foi o prim eiro patriarca grego que não se considerava um
‘filósofo cristão’, mas que, m esm o com o u m teólogo, perm aneceu com o bispo.
C om o tal, ele buscou preencher uma lacuna entre a teologia e a multidão de
membros da igreja e sua devoção. D e m odo diferente de Clem ente e Orígenes,
não considerava a ‘perfeição’ espiritual com o o assunto de um seleto círculo de
gnósticos altamente educados e intelectuais. D irigiu-se aos celibatários organi­
zados dentro da Igreja, aventurou-se a pregar no idiom a copta, e, se p o r um lado
fosse forçado a carregar os lemas do conflito teológico para as multidões, tom a­
ria com o seu ponto de partida as suas idéias cruas de santidade e suas crenças em
milagres.
Foi bem -sucedido em travar contato com o m ovim ento de renovação reli­
giosa que em ergiu no m eio do povo egípcio, e assim conseguiu dirigi-lo nos
caminhos do aperfeiçoam ento e da devoção da igreja cristã. C ertam ente este
não foi o m enor de seus serviços históricos. Atanásio descobriu o monasticismo
e deu-lhe a form a na qual, daí p o r diante, perm eou a Igreja grega em seus
múltiplos desenvolvimentos e ramificações, e tam bém determ inou a maneira
clerical de vida e os conceitos religiosos fundamentais dos teólogos.
As origens do monasticismo egípcio são mais antigas que Atanásio; elas re­
m ontam à segunda m etade do terceiro século. O m ovim ento monástico foi o
resultado da conversão em grande escala dos moradores das terras planas, que
quase não foram tocadas pela civilização grega, e de sua antiga população com ­
posta por lenhadores. Estas pessoas se apegaram aos antigos mandamentos ascéticos
da Igreja com um novo entusiasmo e tentaram executá-las, incondicionalm ente,
na profunda solidão do deserto, em vez de fazê-lo dentro das igrejas locais.
A este respeito, o ‘Patriarca’A ntônio foi apenas uma das muitas figuras repre­
sentativas da época. Foi Atanásio, que o conheceu pessoalmente, que o fez o
‘inventor’ e o protótipo do monasticismo eremítico. O livro no qual descreveu
sua vida, apresentou a Igreja a u m novo fenôm eno, e estimulou uma imitação
universal. M esm o na história da conversão de Agostinho, a VitaAntonii represen­
ta um im portante papel, e inúmeras vidas de santos gregos foram moldadas pelo
padrão que ela havia estabelecido.
E m seu relato sobre a vida de A ntônio, Atanásio ateve-se aos fatos, porém
descreveu o monasticismo da maneira com o queria vê-lo e promovê-lo. O pe­
queno livro não foi escrito sem intenções apologéticas e propagandistas. Sem
detrim ento da sua natureza simples e original, A ntônio foi apresentado com o a
encarnação das virtudes filosóficas que som ente são verdadeiramente encontra­
das nos cristãos, e que som ente podem ser adquiridas pelo poder e graça de
Cristo. Ao mesmo tempo, ataca os sábios pagãos e hereges arianos e mostra uma
profunda e sincera consideração por todos os representantes da herança espiritual.
Os santos estabeleceram o padrão para a igreja ao experim entar e colocar
em prática as mais elevadas atitudes em seu zelo ascético: eles são inspirados e
tornam -se instrum entos de poderes sobrenaturais. O ideal ascético foi igual­
m ente apresentado às pessoas cultas e incultas com o um novo e encantador
m odo de vida, e ainda perm aneceu claramente estabelecido em Cristo e no
ensinam ento ortodoxo da Igreja. N este sentido, Atanásio esforçou-se para com ­
binar o monasticismo com a ortodoxia nicena e m esclou-os no profundo senti­
m ento popular e na consciência da Igreja.
Os teólogos que sucederam Atanásio continuaram a ser discípulos de Orígenes,
filósofos e gregos. Mas não dissolveram a sólida unidade na qual ele havia unido
as reivindicações do dogma, do ascetismo e da Igreja. N o quarto século essa
unidade tornou-se m undialm ente predom inante. O próprio Atanásio havia sido,
acima de tudo, um dogmático e u m hierárquico e, com o tal, um político eclesi­
ástico. Mas com ele, e com a sua geração, um a nova era teve início na vida da
Igreja grega, na situação interior da teologia e da vida espiritual.

??
B asílio d e C esaréia

I asílio nasceu p o r volta da época em que Atanásio


30, possivelmente dez anos antes da m orte de Eusébio de
ICesaréia. A Igreja na qual Basílio cresceu foi reconhecida e
assistida pelo Estado, e todas as correntes políticas, sociais e intelectuais do ‘m u n ­
do’ viriam a ser aceitas nela. A Igreja havia se tornado u m fator notável na vida
pública. Seus bispos sempre se encontravam em posições destacadas e gozavam
de estima pública, riquezas e extensivas esferas de influência. Havia um a forte
tendência a um tipo de cristianismo mais cultural e oportunista, em bora isto
fosse tristem ente zom bado e criticado p o r observadores de visão aguçada de
dentro e de fora da Igreja. A questão sobre os fundam entos religiosos da Igreja,
levantada pela polêm ica ariana ainda não havia sido decidida. M uitos membros
da Igreja estavam tentando evitar tom ar um a decisão, entregando-se a atividades
gerais com adornos devocionais.
Por outro lado, a mensagem de Cristo estava ameaçando tornar-se tema de
todo tipo de conflito teológico. O governo im perial estava tentando lim itar a
tensão e polêmica ilimitadas e m anter a Igreja unida, p o r m eio de decretos oca­
sionais, resoluções sinodais e medidas coercivas. N enhum a consciência estava
bastante conciliada a tudo isto, mas a m aioria dos bispos buscava de alguma
maneira chegar a um acordo com as fórmulas flexíveis que estavam sendo ofere­
cidas, ou silenciosamente fugir da situação difícil. C riaram o hábito de ignorar
protestos e mais ou m enos abertam ente deixaram que a teologia se degenerasse.
Em um período de progresso material e cultural visivelmente constatado, a Igre­
ja foi ameaçada com o declínio e a perda de sua consciência. N o processo de
tentar dom inar a situação, a possibilidade de um a ação responsável no futuro
estava sendo lenta, mas seguram ente bloqueada.
Este é o cenário em que a personalidade e obra de Basílio devem ser vistas.
Basílio era essencialmente um ascético e um teólogo. C om o tal, abriu cam inho
para os seus ameaçados contem porâneos. Ele fazia uma forte e consciente opo­
sição à grande maioria de seus colegas episcopais. C om o ‘jovem niceno’, Basílio
era seguidor do velho Atanásio; continuou a luta de sua vida em um a outra
esfera geográfica e em um outro espírito teológico. Mas em bora tenha sido
pessoalmente poupado do exílio e de sérios danos, achou m uito mais difícil fazer
valer seus direitos, visto que Capadócia tinha pouca im portância com o uma
província eclesiástica independente no Egito. Basílio teve tam bém que lutar contra
problemas espirituais maiores, porque tinha um a natureza m uito mais sensível e
era dotado de um caráter m uito mais rico, que sentiu mais profundam ente as
ambigüidades da luta que era tensa, e sofreu mais intensam ente que o antigo e
inflexível patriarca de Alexandria.
C om o hom em e teólogo, Basílio não estava enraizado no m undo clerical, e
seu caráter não foi m oldado pelas lutas da política eclesiástica. O orgulho e a
independência eram -lhe inatos desde o princípio. C om o cristão, reprim iu deli­
beradam ente estas qualidades, mas a sua autoconfiança era baseada nas lem bran­
ças de um a grande família de um a antiga área rural, que estava se expondo
naquele m om ento, e de m odo amplo, à vida cristã.
D e acordo com um a freqüente e notável citação de M om m sen, a antiga
província hitita e depois província persa da Capadócia era “m enos grega no
princípio da era im perial do que Brandenburgo e Pomerania eram francesas no
governo de Frederico, o G rande” (Rõm . Gesch.V, ch. 8). O cristianismo foi disse­
m inado aqui por G regório Taumaturgo, o discípulo de Orígenes, e pode, em
troca, ter espalhado a influência do helenismo. Ambas as forças, helenismo e
cristianismo, foram um a tradição conjunta aceita pela família de Basílio. Seus
avós eram cristãos e tiveram que fugir p o r u m tem po durante a última persegui­
ção sob o governo de M axim ino. U m tio, e posteriorm ente dois irmãos, com o o
próprio Basílio, foram nom eados bispos, e sua irm ã M acrina dedicou-se inteira­
m ente à vida ascética. U m a educação mais elevada no espírito helenista era
considerada tão verdadeira quanto a cristã, isto é,um a educação niceno-cristã. O
pai de Basílio não queria que ele recebesse um a educação ‘caolha’ (Greg. Naz.
Or. 4 3 ,1 2 ),mas que usufruísse de u m treinam ento clássico e filosófico completo.
E m vista da riqueza da família, derivada de propriedades que estavam espalhadas
p o r três províncias, não havia n enhum obstáculo financeiro.
Basílio iniciou seus estudos em Cesaréia da Capadócia quando tinha por
volta de quinze anos de idade, e os continuou em Constantinopla. Passou os
períodos decisivos em Atenas, a partir do ano 351 em diante. Gregório Nazianzeno,
com quem deu início a uma amizade vitalícia neste período, mais tarde registrou
com o havia salvado seu com panheiro da exploração da qual os calouros eram

< fo
geralmente sujeitos, e afirm ou que, em sua ardente paixão pelo estudo, haviam
passado todo seu tem po na sala de aula ou na Igreja.
Devemos levar em consideração, além do desejo de santificação que Gregório
enfatiza, sua posição social e um antigo senso de superioridade intelectual. D e
qualquer maneira, Basílio adquiriu nestes anos uma educação com pleta. Seus
escritos m ostram que conservou um a intim idade perm anente com Platão,
Homero, e com os historiadores e oradores, que certam ente influenciaram o seu
estilo. N ão se sentiu constrangido em seu contato com os pagãos. Ele conheceu
o famoso orador Libânio pessoalmente, e correspondeu-se com ele. Basílio n u n ­
ca se tornou um entusiasta p o r cultura com o Gregório, contudo, com o um frade
e bispo, mais tarde voltou os olhos de maneira um tanto crítica sobre o ‘êxtase
inútil’ que havia naquele período em Atenas (Greg. Naz. Or. 43,11). Basílio não
ignorou os perigos morais da literatura clássica, mas o conselho que deu a seu
sobrinho sobre os livros que deveria estudar mostra que ele não estava preparado
para renunciar às preciosidades do aprendizado clássico. O im portante era seleci­
onar cuidadosamente a leitura. N egou que os escritores pagãos não tivessem
nada mais que uma im portância puram ente propedêutica (isto é, servindo com o
uma introdução a um estudo mais elevado), mas a sua utilidade não era limitada
aos aspectos m eram ente formais e estéticos; eram tam bém auxílios bem -vindos
na educação m oral dos cristãos.
Parece que o próprio Basílio hesitou entre a possibilidade de seguir carreira
de orador e seus ideais cristãos. Voltou para casa com o ‘um navio pesadamente
carregado de cultura’ (Greg. Naz. Or. 43,21). Era procurado em toda parte, e a
carreira pública abriu-se para ele. Mas resolutamente fugia. N ão queria servir ao
‘m undo’, e foi batizado a fim de dar início a um a vida puram ente ascética, de
acordo com o m andam ento do Senhor. N ão está bem claro com o veio a tom ar
esta decisão. A tradição familiar, a fé zelosa de sua irm ã, um a impressão deixada
por uma viagem pelos refúgios do Egito, todas estas coisas provavelmente tive­
ram um papel im portante em sua decisão. Basílio provavelmente tam bém havia
recebido um estímulo decisivo de u m antigo m ovim ento ascético em sua terra
natal, e especialmente de um hom em a quem admirava grandem ente na época e
que veio a desprezar mais tarde: Eustátio de Sebaste, na Armênia.
Este pioneiro do ideal monástico tam bém havia atraído muitos seguidores
na Capadócia, sendo assim considerado suspeito p o r alguns dos bispos que esta­
vam pouco inclinados ao ascetismo profundo. Basílio, porém , tornou-se seu dis­
cípulo. M uito do que ele ensinou sobre a vida monástica e o ofício da liderança
espiritual provavelmente se originou nos ensinos de Eustátio. Os dois hom ens
separaram-se posteriorm ente p o r razões dogmáticas. Eustátio se opôs ao Credo
de N icéia e foi, em conseqüência disso, vilipendiado com o um ‘ariano’; nesta
conjuntura, o C redo era mais im portante para Basílio do que a antiga amizade e
com unhão no serviço dos ideais ascéticos. Ele não queria um cristianismo que
ignorasse o dogma.
Para ser entendido, Basílio deve ser estudado prim eiram ente com o um monge.
Ele era um ascético, de corpo e alma; o ascetismo severo era o elem ento no qual
ele viveu e se moveu, e manteve o seu ser espiritual. Era um ascético na medida
em que é possível ser, sem entrar em conflito com a Igreja e sua doutrina cristã.
R espeitou esses limites p o r toda a sua vida, porém , na Capadócia isto não era
algo sem importância. Basílio nunca voltou sua vida monástica contra a Igreja,
nunca acreditou que era impossível que os cristãos casados fossem salvos, com o
os seguidores de Eustátio vieram a defender. Para ele, mesm o o mais severo
ascetismo não era dualisticamente m otivado em um sentido marcionista ou
maniqueísta.
Neste ponto, Basílio perm aneceu com o u m ‘grego’. Sem dúvida, seu racio­
cínio estava baseado na antítese entre carne e espírito, terra e céu, tem po e
eternidade, e o ponto de vista escatológico sempre teve um papel m uito vital em
seu pensam ento teológico. O m undo físico e tem poral era, em sua visão, não o
mal em si, mas m eram ente um constante incitam ento ao mal. Defendia que a
vida é com pletam ente significativa quando baseada no Espírito, em Deus e na
sua bendita eternidade. Mas esforçando-se neste objetivo e subm etendo-se a um
duro treinam ento e autodisciplina, o m onge não destrói o seu verdadeiro ego
humano. Pelo contrário, seu verdadeiro ego é libertado, adornado com asas e
elevado além das barreiras limitadoras, podendo entregar-se inteiram ente a Deus,
ver a Deus, e tornar-se u m com Deus.
Este conceito se origina da metafísica neoplatônica e das idéias de Orígenes,
o amado mestre de Basílio. Mas Basílio dá um a ênfase m aior que a de seus
predecessores, com a possível exceção de Clem ente, no ponto em que o poder
real desta vida liberta não é m eram ente conhecim ento, mas amor, am or não
somente no sentido teológico do am or a Deus, mas tam bém am or ao próximo.
Para Basílio, a vida monástica é, portanto, um a vida fundam entalm ente em co­
munidade, onde todos podem servir uns aos outros e cada um pode ser ajudado
e aperfeiçoado pelos outros, tornando-se assim a verdadeira vida na qual todas as
potencialidades humanas estão sublimadas à vida cristã p o r excelência.
N a verdade, o que aconteceu é que Basílio afastou-se das propriedades que
sua família possuía no rio íris, e onde sua mãe e sua irm ã já estavam vivendo há
m uito tem po em piedoso isolamento. R eu n iu companheiros da mesma opinião
que aceitaram submeter-se à sua liderança, e estabeleceu mais mosteiros nos
quais oferecia instrução e conselho espiritual. A disciplina era rígida, a obediên­
cia absoluta, existindo hum ildade em todas as atividades com propósito espiritu­
al. E m acréscimo à contemplação espiritual, os monges faziam simples trabalhos
manuais. U m retorno ao m undo era impossível. Mas o espírito e a atmosfera

<&
dessas comunidades não pretendiam ser guiados p o r regras e regulamentos: os
irmãos viviam em liberdade de espírito. A oração é o poder sustentador da vida
monástica; as horas fixas de louvor e oração conferem um padrão rítmico. Dava-
se a m aior im portância ao intercâm bio dos irmãos. Em suas reuniões podiam
livremente manifestar seus vários desejos, problemas e questões. Podiam ter seus
próprios conselheiros espirituais e posteriorm ente tornaram -se os conselheiros
espirituais de outros monges.
A prática regular da confissão monástica se origina, acima de tudo, de Basí-
lio. Esta maneira de viver não excluía o prazer na obra intelectual e o conheci­
mento teológico. Porém , para a m aioria dos irmãos, a atividade central era o
estudo da Bíblia, e especialmente os escritos de Paulo e os evangelhos sinóticos.
Foi, no entanto, nesta época que Basílio com pilou a Antologia dos escritos de
Orígenes, com a cooperação de seu amigo Gregório.
C om o monge, Basílio vivia com pletam ente só. Os poderes pelos quais foi
capaz de suportar as tentações sempre presentes, conhecer a verdade de D eus e
gozar toda a ‘beleza divina’ foram aumentados pela amada paz e quietude do
mosteiro. A famosa carta (Ep. i 4, ad Greg.) na qual tentou incentivar Gregório,
que ainda estava vivendo a distância, a juntar-se a ele, é u m docum ento surpre­
endente neste aspecto. A descrição de seu retiro, que lhe oferece uma visão
esplêndida no alto do vale, perto da cascata, e que lhe trouxe paz em m eio ao
puro frescor da natureza, é a prim eira descrição profunda de um a paisagem co­
nhecida no m undo ocidental - u m antigo idílio que tem algo de misterioso
presságio e que o coloca fora de todas as categorias tradicionais.
Q ualquer um que seja capaz de gostar da solidão até certo ponto não pode
esperar que isto dure para sempre. Basílio era m uito mais um hom em de ação, ou
ao menos de um a responsabilidade moral ativa, para ser capaz de perm anecer
para sempre impassível neste m odo de vida aparentem ente agradável. Os cuida­
dos e as obrigações teológicas o fizeram retroceder irresistivelmente a uma vida
pública na Igreja. Neste período, a política anti-nicena do im perador havia aca­
bado de atingir seu estágio mais implacável. N o ano 360, Basílio acom panhou
Eustátio a Constantinopla para negociações acerca de assuntos dogmáticos. O
partido N iceno não era tão fraco com o parecia, mas faltou-lhe coragem para
declarar-se abertamente. Dois anos mais tarde, Basílio recebeu a confissão de
arrependim ento de seu próprio bispo, que havia traído o C redo de Nicéia mas o
chamou ao seu leito de morte.
O novo bispo Eusébio de Cesaréia (na Capadócia, não na Palestina, onde o
famoso Eusébio havia sido bispo) foi bem -sucedido na tarefa de induzir Basílio
ao serviço da Igreja em tem po integral. N o ano 364 ele foi ordenado presbítero.
O orgulhoso nobre rural provavelmente não foi um subalterno tranqüilo; talvez
seu zelo ascético tam bém o fizesse suspeito. Logo surgiram tensões entre o

<?s
presbítero e seu bispo; com o resultado, Basílio, que não tinha nenhum desejo de
fom entar discussões dentro da Igreja, de repente decidiu retornar ao seu retiro.
Esta interrupção, porém , não durou m uito tempo. O próprio Eusébio procu­
rou a reconciliação, e Basílio não hesitou em chegar a um acordo com ele. A Igreja
precisava de seu trabalho. Ele rapidamente passou a desempenhar o papel de
coadjutor de seu bispo, e com o tal, sua tarefa era administrar uma grande diocese.
N ão evitou os detalhes irritantes e as batalhas de guerrilhas do cotidiano na Igreja.
C om o sempre, em toda parte havia falta de clérigos realmente úteis, pregadores
conscienciosos e legisladores altruístas. E m meio à absoluta preguiça, a Igreja havia
com freqüência indicado homens bastante inadequados para cargos de responsabi­
lidade. Cultos foram comprados e ocorreram casos de suborno; houve clérigos
casados que se recusaram a abandonar suas esposas, e, além de todos os conflitos
dogmáticos, havia as habituais brigas de partidos, calúnias e mexericos.
Basílio tom ou uma forte atitude onde a questão era reforçar os regulam en­
tos eclesiásticos negligenciados até este ponto. Porém sempre procurava atribuir
razões inteligíveis às suas medidas. Discutia-as com seus bispos, e, se houvesse
qualquer reclamação, estava sempre disposto a arcar pessoalmente com a culpa.
U m a natureza generosa, com um a dignidade inata, não tinha dificuldade em
atingir um verdadeiro equilíbrio entre as exigências que seu ofício lhe trazia, e a
hum ildade pessoal que precisava m anter com o cristão e asceta. Basílio tornou-se
o prim eiro grande representante do ideal monástico do sacerdote e bispo, a
quem a geração seguinte fez referência p o r várias vezes.
Logo tornou-se popular entre as pessoas de Cesaréia. C riou, sem dúvida em
grande parte com seus próprios recursos, um com plexo de instituições de obras
sociais caridosas. Lá surgiu um a com pleta ‘nova cidade’ (Greg. Naz. Or. 43,63) de
am or prestativo e cuidado social agrupados nas proximidades da Igreja e do
mosteiro, consistindo de albergues, asilo de pobres e hospitais para doenças in­
fecciosas, e o próprio bispo m orou lá. A fundação era imitada e m uito admirada,
mas tam bém criticada. Era considerada com o um a ameaça para a independência
da administração do Estado, uma objeção que o próprio Basílio recusou-se a
aceitar. A antiga atividade cristã de obras de am or estava adquirindo novas di­
mensões ‘medievais’ na Igreja imperial; o espírito que inspirou estas obras de
caridade era mais monástico do que político e hierárquico. N ão era intenção da
Igreja que os leigos caíssem novam ente na passividade. Os sermões de Basílio
estavam repletos de exortações e exemplos práticos, estimulando os atos de am or
cristão e a prática da virtude. Especialmente durante a grande fome do ano 368,
ele provou sua índole em sermões impressionantes contra os aproveitadores e os
ricos indiferentes. Ele mesmo organizou refeições gratuitas para as pessoas que
tam bém estavam acessíveis, para imigrantes estrangeiros, pagãos, e até mesmo
para os infiéis filhos de Israel.

&
Seria errado, no entanto, julgar Basílio em prim eiro lugar com o um hom em
de ação eclesiástica e um administrador. E m m eio aos seus assuntos e, acima de
tudo, em sua pregação, sempre era ao mesmo tem po pastor e teólogo. Basílio é
considerado com o o iniciador do sermão form al em grego. Deliberadam ente
m oldou o discurso religioso em regras de retórica, estabelecendo desta forma
um precedente. Este esplendor de oratória, cuidadosamente cultivada, com sua
ostentação artificial e floreada, é algo bastante estranho para nós hoje. O que é
m uito mais fascinante em Basílio é a vigorosa sensatez, a precisão e a simplicida­
de de suas idéias básicas, o que distingue seus sermões. Quase todos eles são
baseados em textos bíblicos. O sermão m oral predom ina, mas mesmo os ser­
mões teológicos não são puram ente teóricos e ‘dogmáticos’, no mau sentido da
palavra. R efletem os conflitos dogmáticos reais da Igreja na sua época, em rela­
ção aos quais Basílio teve que se posicionar, e na qual logo alcançou um a posição
de autoridade.
N o ano 370, foi nom eado arcebispo de Cesaréia, e, daquele m om ento em
diante, toda a responsabilidade e preocupação da confusa situação na Igreja re­
pousou, acima de tudo, sobre ele. Nesta conjuntura não havia algo com o uma
frente nicena unida. O próprio Basílio usou um a alegoria de duas esquadras de
guerra que foram arrastadas pela tempestade, de maneira que é impossível distin­
guir o amigo do inimigo. Foi som ente através de sua influência que a Capadócia
lentamente se to rn o u algo com o u m baluarte da Igreja ortodoxa, em bora o
conflito ainda enfurecesse todos à sua volta.
A política eclesiástica do governo ainda estava se dirigindo para outra dire­
ção, e em toda parte colocaram obstáculos no cam inho de Basílio, que recebia
instruções para que cooperasse com as autoridades políticas. A divisão da provín­
cia da Capadócia, ação que pretendia dim inuir a influência eclesiástica de Cesaréia,
deve tam bém ser m encionada. Basílio recusou-se a ser intimidado.Viajou pesso­
almente de lugar em lugar, tentando amarrar a situação da form a mais adequada,
estabelecendo novas dioceses e conduzindo um a incansável correspondência em
todas as direções. A tensão atingiu seu clímax quando o im peradorValêncio fez
uma visita pessoal a Cesaréia. Esperava-se que Basílio se entregasse ou que fosse
para o exílio. N ão tom ou nenhum a destas duas atitudes. Parece que a calma
determinação com que resistiu aos autocratas persuadiu o im perador a se mover
cautelosamente e evitar um conflito. D urante todo esse tempo, a ortodoxia nicena
estava ganhando terreno na Capadócia.
O sucesso que Basílio alcançou deve ser considerado com o o mais alto, visto
que, para começar, sua posição não era nada segura. D iferentem ente de Atanásio,
não possuía um grupo de seguidores cegamente devotados e prontos a acompanhá-
lo em qualquer ocasião. Talvez não quisesse aquele tipo de apoio. Seus triunfos
eram prim ariam ente fruto do genuíno trabalho eclesiástico e teológico que exe­
cutou juntam ente com seus com panheiros, edificando sobre o alicerce da antiga
tradição niceno-origenista do país.
Basílio percebeu que o conflito com os arianos era devido a um conflito
elem entar de crenças. Cristo não pode ser um a criatura, se ele vai tornar acessí­
vel a salvação do Criador. Ele realmente era o Filho de Deus desde a eternidade,
e D eus por natureza, que desceu à nossa pobre hum anidade para redim ir a raça
hum ana perdida do poder da m orte e do Diabo, e para restaurar a liberdade na
qual a nova vida cristã, glorificada pela graça, está baseada. Basílio era um teólo­
go trinitariano totalm ente convicto e via na doutrina da Trindade a própria
essência da religião cristã. C om eçou, portanto, com um esclarecimento sistemá­
tico das relações que existem dentro da Divindade. Indo além de Atanásio, subli­
nhou aTrindade d a ‘hipóstase’,as peculiaridades diferenciadoras que não destróem
a unidade e a perfeição da Vida divina. Tam bém m editou sobre sua relação m ú ­
tua. Tais reflexões nunca se tornaram um fim em si mesmas; não eram dirigidas à
m orte. Deve haver sempre um significado que pode, no m ínim o, ser visto por
trás de afirmações dogmáticas, e acima de tudo, estas devem ser baseadas nas
Escrituras.
Apesar da pressão de seus com panheiros e inimigos, Basílio recusou-se a
fazer declarações mais precisas sobre a pessoa do Espírito Santo, que consistiriam
em meras palavras. E verdade que para ele, com o para Orígenes, o Espírito Santo
inquestionavelmente tem seu lugar ao lado do Pai e do Filho. N a escala da
existência, afirmar que não pode haver nada entre a Divindade incriada e a
criatura é um a conclusão precipitada, à qual Basílio repetidam ente prestou aten­
ção. Todavia, evitou tanto quanto possível descrever claramente o Espírito com o
‘D eus’, e foi bastante omisso sobre a posição peculiar do Espírito na Trindade.
Pelo contrário, ‘confessa sem m edo’ que a m elhor coisa e tam bém o menos
‘perigoso’ é adm itir francamente a sua ignorância (Contra Sab. et Ar. 24,6).
Várias vezes encontramos tais admoestações em Basílio. N ão há a mínima
ingenuidade nesta cuidadosa limitação à ‘simplicidade de uma fé sólida’. Basílio
percebe que o hábito da controvérsia levou a Igreja à beira do abismo e da disso­
lução. Deseja evitar adicionar qualquer novo combustível ao fogo da infinita dis­
cussão; deseja preferivelmente estabelecer limites ao escolasticismo acadêmico e
conduzir os fiéis à serenidade espiritual e ao louvor adorador dos mistérios de
Deus. N a sua visão, este era o propósito real de toda a teologia. O nde a Bíblia se
cala, os teólogos também deveriam se calar, e não perturbar as pessoas, preocupan­
do-se com ninharias. O hom em conhece a Deus guardando seus mandamentos,
conhecendo o Bom Pastor que deu a sua vida pelas ovelhas,‘não fazendo pergun­
tas sobre as coisas sobrenaturais, e não ponderando sobre as coisas que não podem
ser vistas’ (Hom. in Mam. Mart. 4). Estes são motivos inconfundivelmente monásti­
cos, apontados pelas amargas experiências de uma longa luta eclesiástica. Mas Ba-
sílio não tinha o desejo de fugir totalm ente da teologia e acabou com um mero
praxis pietatis. Ele queria estabelecer os fundamentos para um tipo frutífero de
teologia que aproximaria todos os teólogos sérios e verdadeiros.
Até este ponto, a sua reserva no que tange às questões doutrinárias tinha
uma im portância para a política da Igreja. Isto fica especialmente claro em rela­
ção à doutrina do Espírito Santo. Basílio fez os maiores esforços para vencer os
chamados pneum atólogos, que recorreram a N icéia e se recusaram a aceitar a
divindade do Espírito Santo, que não havia sido ali expressamente formulada.
Também tentou entrar em discussão com os representantes do chamado Partido
Central e com muitos individualistas doutrinários.
Seus esforços não foram sem sucesso, mas não é surpresa que a liberalidade
de uma postura de im portância tanto teológica com o eclesiástica não tenha
tornado a situação mais facil para u m m em bro da Igreja que tivesse que m anter
a sua posição em m eio a um a guerra partidária. Sua falta de princípio, ou seu
orgulho espiritual, foi com entado em todos os lugares, em bora por várias vezes
tenha tentado refutar as críticas, sempre oferecendo-se para participar de conversa­
ções e discussões. U m fator altamente im portante foi o apoio que Atanásio deu a
Basílio. Apesar de algumas diferenças teológicas, havia discernido a notável im por­
tância deste companheiro de armas, reconhecendo-o durante toda a sua vida.
Basílio percebeu desde o início que os problemas dogmáticos da Igreja não
poderiam ser resolvidos em bases particulares. E verdade que teria sido relativa­
mente facil para ele perm anecer em seu próprio círculo capadócio, onde sua
autoridade era, de qualquer maneira, incontestável. Mas teria considerado este
fato com o um a traição da causa com um de todos os cristãos. Basílio solicitou
um ponto de vista ‘ecum ênico’ de todos os bispos. D e m odo contrário às apa­
rências, há um a unidade, um a voz única dos verdadeiros crentes ao redor do
mundo. O im portante é estar seriamente preocupado a respeito ‘da fraternidade
que existe em todo lugar’ (Ep. 133 ad Petr.Alex.), que coloca seus membros em
contato uns com os outros e, deste m odo, torna a unidade visível e eficaz. Foi a
esta finalidade que a intensa e crescente correspondência de Basílio serviu. ‘Per­
gunte aos pisídios, aos licaônios, e aos isaurianos, aos habitantes de ambas as
partes da Frigia, aos arm ênios, tão longe quanto estejam seus vizinhos, aos
macedônios, gregos, ilirianos, gauleses, espanhóis, aos de toda a Itália, aos sicilianos,
africanos, à parte central do Egito e ao que restou da Síria [ortodoxa]; a todos os
que enviam -m e cartas, e que tam bém recebem minhas respostas’: isto foi o que
Basílio escreveu certa vez para Ponto (Ep. 204, 7 ad Neocaes.).
A parte dos antigos baluartes da ortodoxia, R o m a e Alexandria, surgiu um
novo centro no qual, com o logo iria ficar claro, um a linha independente seria
seguida.Todos os esforços de Basílio estavam baseados na pressuposição de que o
im portante era aplicar o peso do O cidente niceno em favor de uma correspon-

< f?
dente reforma da Igreja oriental, em bora preservando tanto quanto possível a
compreensão teológica e o caráter deste último. Basílio superou o orgulho inato
dos gregos e voltou-se para os seus colegas ocidentais, pedindo ajuda, im ploran­
do sua ‘solidariedade’.Voltou-se, acima de tudo, para o mais im portante deles, o
bispo Damásio, de R om a.
Havia dificuldades especiais que precisavam ser superadas em A ntioquia, e
foi aqui que Basílio esperou que o bispo de R o m a interviesse em prim eira
instância. A grande m aioria dos habitantes ortodoxos de A ntioquia reconheceu
o bispo M elétio com o seu bispo. Após algumas dúvidas iniciais, este havia se
posicionado claramente ao lado do C redo de Nicéia. Infelizmente, porém , um
pequeno grupo de antigos veteranos irreconciliáveis havia defendido um a ade­
são mais severa ao C redo de Nicéia. A oposição entre os nicenos antigos e jo ­
vens, à qual Atanásio havia sobrepujado, tinha surgido novam ente na capital do
cristianismo sírio. Esta tornou-se mais intensa e am eaçou arruinar todo o traba­
lho de unificação.
Basílio im ediatam ente apoiou M elétio. Ele sabia m uito bem que o O ciden­
te, que achava ser quase impossível com preender as distinções mais sutis que
causaram estes conflitos dogmáticos, inclinava-se para o partido de oposição e
teria preferido falar bem francam ente de um a hipóstase divina. Mas ele susten­
tou a opinião de que, agora que a paz teológica entre os dois campos ortodoxos
havia sido declarada, era possível contar com a compreensão de R o m a e ganhar
o apoio de Damásio para o único m étodo viável de se chegar a u m acordo.
Estava enganado. Damásio, que tem sido cham ado de o ‘prim eiro Papa’ e que
quase tinha a aparência exterior de um príncipe, estava apenas m oderadam ente
interessado nos problemas teológicos; para ele, a unificação da Igreja significava,
em um a frase, o favorecimento dos partidários de R o m a e a garantia da sujeição
à autoridade papal. N o entanto, logo de início, as negociações foram inconclusas.
Basílio deu vazão ao seu sentim ento em relação a esta maneira de cuidar da
Igreja, por m eio destas palavras amargas:‘L em bro-m e das palavras de Diom edes
(II. IX, 698 f.): E inútil implorar, pois o ho m em é presunçoso’ (Ep. 215 ad Euseb.
Sam.). E m outro aspecto, tam bém , Basílio foi levado à beira da amargura e do
desprezo em sua luta contra o mal crônico do espírito sectarista. Porém não
reduziu os seus esforços, e gradualm ente ganhou terreno.
Basílio não iria atingir o objetivo de seus esforços. Desgastou-se antes do
tempo. D oente, sofrendo de uma enferm idade no fígado, com o tantos ascéticos,
m orreu com cerca de cinqüenta anos de idade, no ano 379. Dois anos mais tarde,
realizou-se em Constantinopla, sob a presidência de M elétio, o cham ado segun­
do Conselho Ecum ênico, que o im perador Teodósio usou para reconhecer a
Igreja oriental de acordo com os escritos do C redo de Nicéia. Atanásio e Basílio
já haviam apresentado os fundam entos eclesiásticos e teológicos. Teodósio, o
ocidental, havia tam bém , no início, baseado sua política no ‘eix o ’ R o m a -
Alexandria, mas rapidam ente m udou de idéia. C om o Basílio havia desejado, os
portões da renovação da Igreja im perial foram agora abertos para todos aqueles
que aceitaram o C redo de Nicéia, e os protestos dos inflexíveis antigos nicenos
do O riente e do O cidente foram ignorados. Mas esta foi um a decisão que ocor­
reu por razões puram ente práticas. N o m om ento crítico, a política eclesiástica
revelou-se m uito mais forte do que a teologia. Se Basílio ainda estivesse vivo, os
fatos teriam provavelmente tom ado u m rum o diferente e mais feliz. A era do
epígono estava raiando.
A verdadeira grandeza de Basílio somente torna-se aparente quando ele é
estudado no contexto dos conflitos de sua época e quando seu papel é correta­
mente com preendido. C om o um político eclesiástico, Basílio não m ostrou a
força inabalável de Atanásio; com o teólogo, não possuiu a harm onia e a univer­
salidade de seu irm ão mais jovem , G regório de Nissa; com o um monge, não
possuiu o sutil refinamento de alguns dos místicos posteriores. Mas estes fatos
não devem ser interpretados com o sinais de incapacidade natural ou de fraqueza
em seu caráter. Pelo contrário, foi a sua dedicação às necessidades do m om ento,
e a necessidade de se adaptar às dificuldades de sua situação, que constantem ente
o com peliram a variar suas táticas; e para ele tornou-se impossível desenvolver
seus ricos talentos em paz ou seguir a tendência de seu espírito com o desejava.
Achava m uito difícil o seu trabalho com o político eclesiástico, porque não ape­
nas era mais sábio e mais previdente, mas tam bém mais profundo e mais honesto
que a maioria de seus colegas. É graças a ele, em prim eiro lugar, que a Igreja
estatal dos nicenos, construída tão rapidamente, não somente com em orou vitó­
rias tranqüilas, mas conservou um a vida teológica real e a liberdade intelectual.
Enquanto outros nunca foram além da teologia de suas escolas, nunca vislum­
braram além dos interesses de seus partidos e das considerações puram ente ma­
teriais, Basílio sempre teve em vista a vida da Igreja com o um todo. Sofria com
a mentalidade estreita e a falta de discernim ento espiritual de seus colegas bispos,
m uito mais do que aqueles que eram excessivamente espirituais, demasiadamen­
te sensíveis e m uito complacentes para entrar em rixas pessoais. E Basílio perce­
bia, além das preocupações e dos problemas do m om ento, profundas mudanças
que teriam de ser aceitas. Percebeu que era impossível voltar no tempo.
D o ponto de vista histórico, talvez este seja o aspecto mais interessante de
seu caráter. Basílio percebeu o abismo que havia surgido entre as intenções, os
desejos do presente e o espírito original do cristianismo. Por várias vezes com ­
para os pecados atuais com os que a Igreja já havia com etido no passado. O
anseio por um cristianismo original ideal correspondia em sua teologia ao an­
seio pela perfeição eterna. Foi p o r isto que Basílio tornou-se um monge. A
com unidade monástica reviveu para ele, dentro de um a esfera rigorosamente
limitada, a vida da Igreja Primitiva, e sua intenção era que a vida monástica
influenciasse toda a Igreja nesta direção. A idéia era que, na vida monástica, os
dons espirituais, o prim eiro am or e a dedicação intensa aos relacionamentos
mútuos florescessem mais um a vez. Este era o propósito que estava p o r trás da
chamada ‘R eg ra’ que ele form ulou.
O ascetismo monástico era considerado com o o caminho para o radicalismo
e para a santidade da Igreja Primitiva. E Basílio tam bém esperava que este condu­
zisse ao reavivamento da teologia. As intermináveis discussões e disputas dogmáticas
não estavam mais preocupadas, a seu m odo de ver, com a essência ou com os
problemas básicos da fé cristã. Era necessário a tentativa de novamente voltar às
origens, aos valores eternos, sobrepujar a dissensão e os erros dos hereges internos.
O biblicismo enfático que Basílio retratou p o r repetidas vezes estava enraizado em
sua convicção. Foi uma confissão de fé na antiga tradição eclesiástica.
Ambos os fatores, a Bíblia e a tradição, já haviam desempenhado um papel
im portante na Igreja no segundo século. Eles tinham um a relação m uito próxi­
ma a Orígenes. Mas enquanto ele via a incum bência com o u m avanço para
longe da tradição, Basílio preferiu se voltar a Irineu. Basílio defendeu o isola­
m ento ao invés de um a m aior expansão. Foi som ente a mania que os hereges
tinham pela inovação que to rn o u necessário o envolvimento cada vez m aior das
fórmulas complicadas. E m seu vão ciúme, os teólogos profissionais colocaram
suas ‘armadilhas’, não p o r am or à verdade, mas pelo m ero am or ao argum ento
(De Spir. S. l ) .‘N ós nos recusamos a aceitar uma nova fé, que nos é recom endada
por outros; mas não somos suficientem ente corajosos para transmitir os produtos
de nosso próprio pensamento, e transformar a palavra da religião em palavras
humanas. Assim com o fomos ensinados pelos santos patriarcas, assim o procla­
mamos àqueles que nos indagam’ (Ep. 14 0 ,2 ad Eccl. A n t .) .0 dogma e a tradição
assumem novamente um propósito decididam ente defensivo, com o um escudo
e salvaguarda. Basílio aconselha infatigavelmente que todos os cristãos m ante­
nham -se no Credo de Nicéia, e não sejam atraídos para longe dele p o r nenhum a
questão sutil e capciosa.
Karl H oll fala a este respeito, de u m perceptível ‘envelhecim ento do
helenism o’. A expressão não parece bem adequada. N ão era o helenismo que
havia envelhecido ou se tornado cansativo, ao menos não na pessoa de Basílio,
mas o fardo da situação eclesiástica e os avanços na teologia, que haviam com e­
çado a ficar pesados quanto à liberdade de pesquisa e estavam forçando os teólo­
gos a consolidar e conter suas energias, ao invés de fazer novos avanços. O que
parecia agora preem inentem ente necessário era a m anutenção da estabilidade do
dogma, um claro compromisso com a Bíblia e com as tradições oficiais.
Fica claro que, no quarto século, esta antiga necessidade tinha um significa­
do diferente do que tinha na época de Justino ou Clem ente, de Orígenes ou

ffO
mesmo de Eusébio de Cesaréia. Até este ponto há um sentim ento do que é
verdadeiro ao se dizer que a Igreja grega havia envelhecido, porque as suas tradi­
ções teológicas haviam envelhecido e sentia-se que uma época na história da
Igreja estava chegando ao fim. Basílio sentiu a gravidade da situação, em meio
aos perigos quase desesperadores da época; pensou, acima de tudo, na necessida­
de de concentrar todos os esforços disponíveis contra os hereges e restaurar a paz
na Igreja, o que poderia levar novam ente a um a vida espiritual verdadeira. N ão
estava preocupado com o destino da teologia no futuro, porque estava verdadei­
ramente absorvido pela vida atual e sentia um forte senso de responsabilidade
para dar tudo o que pudesse de sua própria vitalidade espiritual.
N o ano 368, Basílio escreveu um a nota obituária sobre o bispo M usônio, de
Nova Cesaréia, na qual ele pinta, em nobre elocução e com vivacidade retórica,
o quadro de um bispo líder a quem ele veio a assemelhar-se grandem ente.‘H á’,
ele pergunta (Ep. 28, í ad Eccl. Neocaes.),‘na. vida deste hom em qualquer caracte­
rística que deva ser esquecida ou ocultada silenciosamente? N ão posso m encionar
tudo de uma vez e ainda assim tem o não fazer justiça à verdade apresentando um
relato fragmentado. U m hom em nos deixou, o qual superou a todos os seus
contemporâneos em capacidade humana; foi o sustento de sua terra natal, o
adorno de suas igrejas, um pilar e um baluarte da verdade, um firm e apoio da fé
cristã, um leal ajudador de seus amigos, um a força de resistência invencível para
seus inimigos, um m antenedor dos estatutos dos pais, e u m inimigo de toda
inovação. Incorporou em sua própria pessoa o antigo padrão da Igreja; m oldou
a vida da Igreja nele de acordo com o protótipo sagrado original. Aqueles que
tiveram o privilégio de conviver com ele poderiam pensar que conviveram com
um hom em que ilum inou o m undo com o estrelas há duzentos e poucos anos’.
G r e g ó r io N a z ia n z e n o

s estudiosos tradicionalm ente com binam no trio dos “grandes


capadócios” , Basílio, seu irm ão mais novo, Gregório de Nissa,
e seu c o m p an h eiro lig eiram en te mais velho, G reg ó rio
Nazianzeno. Mas Basílio era a figura de destaque, o líder e guia dos seus compa­
nheiros e colaboradores. G regório N azianzeno tornou-se seu seguidor e buscou
sua ajuda; tam bém o considerava seu mestre teológico. C o m grande intensidade,
com eçou a estudar a nova piedade ascética para a qual Basílio recrutou partidá­
rios, e estava igualmente ansioso para vê-la influenciando a Igreja.
G regório não era, porém , um a personalidade dom inante e estava constante­
m ente sendo frustrado pelas duras e rotineiras realidades que ignorou em seu
raciocínio. Era um orador, um hom em de letras e u m tanto poeta; possuía uma
natureza lírica que estava sempre dependente da com panhia e resposta de outras
pessoas, um a daquelas personalidades que não podem viver sem simpatia e admi­
ração. Foi isto que o im peliu para a vida pública na igreja, o que constituía para
ele, por sua educação e convicção, a totalidade de seu mundo.
Mas os m om entos de tribulação não perm itiram que desenvolvesse seus
talentos em paz e constantem ente o envolviam; um hom em que era forte so­
m ente com as palavras, assumiu tarefas para as quais não estava capacitado e teve
que desistir. O desapontam ento e a derrota, a retirada e a fuga das obrigações que
ele havia se incum bido, significaram sempre o fim de suas atividades públicas;
para com pensar todas as suas tribulações e dores, ele canta os louvores da vida
solitária, da vida da contem plação monástica “filosófica” , da riqueza e da tran­
qüilidade em Deus, com grande entusiasmo. D evido à sua natureza intranqüila, a
oratória de G regório to rn o u impossível que ele ficasse continuam ente calado, o
que tornou a situação ainda mais dolorosa; toda a sua amargura, vaidade e mau
hum or pessoais encontraram expressão num a série de intermináveis efusões e
reflexões habilidosamente trabalhadas.
N ão havia nada de heróico acerca de Gregório. Para ser justo com ele, deve-
se estudá-lo com o ele era em sua vida particular. Percebe-se aí, apesar de tudo,
uma pureza de intenção, um a delicadeza de sentim ento moral e, com toda sua
introspecção, uma sensibilidade genuína que perm aneceu capaz de compaixão e
de um a devoção religiosa profunda até o final. A natureza de G regório era
extrovertida e declamatória, mas ele não era frívolo e conhecia tão bem quanto
Basílio, e talvez m elhor ainda, o significado da vida espiritual.
Ele estava em casa, no mesmo am biente intelectual e social de Basílio e de
muitos de seus companheiros. Pertencia à mesma rica nobreza da Capadócia que
deu ao campo seus bispos e, para este povo antigo, um ím peto repentino e sur­
preendente, levando-os a ter contato com a fé cristã e a cultura grega. Gregório
também cresceu dentro de uma tradição cristã. Seu pai, Gregório, foi originaria­
m ente adepto de uma seita pagã-judaica híbrida que cria na adoração sem ima­
gem do Deus “suprem o” ; mas sua mãe era uma cristã zelosa que conseguiu a
conversão de seu marido.
Foi nom eado bispo da cidade rural de Nazianzo. G regório não nasceu longe
dali, em uma das propriedades rurais de seus pais em Arianzo, em 329-30. Foi o
filho ardentem ente desejado de um casamento que p o r m uito tem po ficou sem
filhos. Ele foi, com o registra em sua obra, “ oferecido” e dedicado “ao Senhor”
(Or. I, 77) por sua mãe, desde que nascera. A educação religiosa intensa que ele
recebeu caiu em solo fértil. Gregório nunca perseguiu seriamente os ideais “m un­
danos” . Q ueria viver exclusivamente para o Salvador que o havia redimido, e
achou a Palavra de Deus “mais doce que o m el” . Mas o “m undo” no qual ele
cresceu não era mais um m undo pagão. C o m um apetite voraz, a juventude
talentosa devorou todas as coisas boas da cultura que lhe foram oferecidas nas
escolas de Cesaréia da Palestina, em Alexandria, e sobretudo em Atenas.
Em Atenas conheceu e viveu em um a fraternidade próxim a e “santa” com
Basílio, que chegou ali um pouco mais tarde. N aquela época, Gregório ainda
considerava-se o mais velho e superior dos dois. C onduziu o seu com patriota
mais jovem sob suas asas, apresentou-o à vida acadêmica e tentou protegê-lo das
tentações de seu ambiente. Interiorm ente, porém , desistiu dos prazeres intelec­
tuais do estudo com um abandono m aior do que o seu tranqüilo e jovem com ­
panheiro. Para Gregório, a cultura intelectual, a poesia, a conversação e a arte
eram a própria vida, contanto que as seivas venenosas do paganismo fossem
removidas dos conteúdos morais e estéticos da literatura clássica e que alguém
fosse preparado para oferecer a Cristo toda a luz e ajuda obtida nesse processo.
“A sabedoria do Espírito Santo que vem do alto e que se origina de Deus deve
ser justam ente a senhora de todos os tipos mais baixos de cultura” (Carm. II, 2, 8
ad Seleucum, 245 ff. Este poem a atribuído a G regório foi provavelmente escrito
por seu prim o mais novo, Anfilóquio de Icônio; mas expressa o seu pensamento).
A expressão “cultura mais baixa” , usada neste poem a, foi empregada inte­
gralmente no sentido tradicional da palavra. Gregório assumiu os ideais culturais
da antigüidade recente, com suas técnicas retóricas formalizadas e inúmeras tri­
vialidades morais e filosóficas. Mas tam bém apropriou-se dos textos clássicos,
sobretudo da poesia de H om ero e dos trágicos, com um entusiasmo intenso e
com a confiança de um orador nato, para quem é um prazer reviver as formas
antigas e aplicá-las em centenas de maneiras diferentes.
O conhecim ento literário de Gregório era extraordinariamente vasto e rico.
Ele também teve um treinamento filosófico, mas isto não o transformou em um
pensador e erudito independente.Tornou-o um orador. Seus inúmeros discursos e
pronunciamentos religiosos não eram sermões sobre textos bíblicos, mas obras de
arte oratórias que consistiam em palestras, encómios e memoriais oficiais, discur­
sos fúnebres e discursos proferidos em todos os tipos de ocasiões eclesiásticas e
pessoais. Pode ser claramente apresentado com o tendo levado em consideração as
regras da oratória pela maneira com o construiu seus discursos e desenvolveu os
seus temas. U sou em abundância os métodos “asiáticos” de estilo, comparações e
antíteses, consonância e ritmos paralelos, na maioria das sentenças curtas, mostran­
do toda a habilidade de um virtuose na oratória. E difícil apreciarmos hoje estes
discursos, na época m uito admirados. Mas eles são totalmente característicos do
estilo de Gregório. Eles nos surpreendem com seu egocentrismo constante e qua­
se infantil. Ao lado da descrição desinibida do próprio caráter, opiniões e senti­
mentos do autor há m uito auto-elogio, mas também auto-acusação, e uma extensa
reflexão moralista e psicológica. N o entanto, tinham a finalidade de ser obras espi­
rituais e devocionais: Constantem ente apresentam referências a exemplos, palavras
e imagens bíblicas e tudo é apresentado à luz da eternidade. São freqüentemente
encerrados com uma adoração devota da Santa Trindade.
N ão se torna necessário dizer que G regório tam bém atacou a heresia ariana
em seus discursos. Declarou que a doutrina de Deus —isto é, a confissão o rtodo­
xa da Trindade — era o centro da fé cristã e de toda a verdadeira religião. Em
fórmulas suaves, lindam ente balanceadas, ele decididam ente professou sua fé na
unidade essencial das três pessoas divinas. “A divindade é adorada na Trindade e
a Trindade constitui um a unidade. E adorada com o um todo e tem poder majes­
toso, compartilhando um único trono e uma única glória, sobrenatural, atemporal,
incriada, invisível, intocável e incompreensível, conhecida somente p o r si mes­
ma no que se refere a sua estrutura interna, mas m erecedora de nossa reverência
e adoração” (O .V I, 2 2).“R estringir aTrindade, ainda que um pouco, é equiva­
lente a destruí-la com pletam ente, com o se alguém fizesse um ataque total à
doutrina de Deus e com a cabeça exposta” (Or.VI, 11).
Gregório enfatiza bem mais a pessoa divina do Espírito Santo do que Basí-
lio, que hesitou em se com prom eter. Para Gregório, com seu treinam ento fun­
dam entado em Orígenes, o m undo espiritual e do espírito é o reino fundam en­
tal da religião. O Espírito Santo de Deus deve libertar nosso espírito dos grilhões
terrenos, e o objetivo final da vida cristã é ser transformada pela natureza divina.
N inguém foi mais atacado e condenado p o r G regório com tanta fúria e
amargura pessoal quanto o im perador Júlio, o apóstata. Por ódio a ele, G regório
descreveu seu inim igo, o im perador “ arian o ” Constâncio, quase com o um m o ­
delo de piedade e virtude. Júlio havia ordenado que os clássicos não fossem
ensinados aos cristãos. Ele foi o p io r tipo de tirano, porque queria “ obstruir
nossa educação” ; foi u m odioso precursor da insensatez, porque esperava tri­
unfar com armas desiguais na luta pela verdade (Or. IV, 6). Os interesses pesso­
ais de G regório foram atingidos. Para ele, o que cham ou de educação “ ática”
era um a necessidade vital e um elem ento sum am ente im portante, e quanto
mais falhava em atingir o equilíbrio entre o ático e os ideais cristãos em um
nível mais profundo, mais violentam ente protestava quando os valores clássicos
eram usados contra a fé cristã.
E m sua opinião, a vitória e a superioridade da Igreja seriam m elhor apresen­
tadas em sua com pleta adoção das tradições da cultura clássica. Se Gregório às
vezes age com o se realmente não se importasse tanto com a sabedoria pagã, tudo
indica que se tratava de um ligeiro senso de incerteza. Tais observações não
precisam ser levadas mais a sério do que a declaração retórica, igualmente co­
m um e típica, de que seu único desejo é falar franca e objetivamente, deixando
de lado todo o brilho superficial da eloqüência artificial. N a verdade, ele ainda
considerava a retórica com o uma “arma da virtude” nas mãos de um hom em
honesto (Or. IV, 30).
Logo após Basílio ter partido de Atenas, para novam ente dedicar-se por um
curto período à vida secular, G regório decidiu dedicar-se inteiram ente à devo­
ção “ teórica” e à “filosofia” dos monges: ele decidiu entrar para um silencioso
retiro. N ão se conhece as datas exatas. Mais tarde observaria que esta decisão
poderia ser difícil de entender, mas qualquer u m que já houvesse sentido este
desejo o entenderia. Parecia-lhe no m om ento algo incomparavelmente maravi­
lhoso “m anter um a conversa som ente consigo mesmo e com D eus” , e “viver
uma vida além dos limites das coisas que se vêem ” . Ele sempre quis preservar
“estas inspirações divinas imaculadas das impressões e ilusões do m undo, e ser e
constantem ente tornar-se um espelho de D eus e das realidades divinas verdadei­
ram ente im polutas” . Ele queria “acrescentar luz à sua luz e receber brilho para
substituir a penum bra, já gozando da esperança das bênçãos do m undo p o r vir;
para se relacionar com os anjos e, enquanto reside tem porariam ente na terra, ser
tom ado dela e ser arrebatado ao céu pelo E spírito” (Or. II, 7).
N o entanto, parece que G regório não foi capaz de levar suas intenções a
cabo. Seus pais queriam tê-lo com eles em Nazianzo, e ele foi incapaz de deixá-
los. Foi batizado e, por fim, a pedido da Igreja, consagrado presbítero p o r seu
próprio pai. Deve naturalm ente ter consentido de uma maneira ou de outra;
todas as suas reclamações sobre ter sido forçado a isso e sobre a “tirania” de seu
pai não podem alterar o fato (Carm. I, 1, 11 de vita sua 345). Porém, mal havia
sido ordenado, quando deixou a igreja em protesto e retirou-se para íris com
Basílio, para restabelecer-se em isolamento e ser inspirado por seu com panheiro
com nova confiança e coragem. Depois, ele voltou e explicou as razões de seu
com portam ento em três pom posos discursos. D eclarou ter superado a sua “co­
vardia e fraqueza” (Or. 1,2). Fundam entalm ente, estes traços eram o resultado de
uma avaliação exagerada do ofício eclesiástico, do qual os piedosos eram com
freqüência os prim eiros a se esquivar (Or. II).
Ele havia retornado, mas a congregação que o havia retirado de seu amado
retiro não havia, infelizmente, retribuído ao seu am or sacrificial com o am or que
era esperado, tendo desse m odo m agoado-o profundam ente (Or. III, 1-5). É
quase impossível descobrir nestes longos discursos e sentimentos particulares
dilatados o que ele realmente queria dizer e o que havia p o r trás da abundância
de palavras.
N ão dem orou m uito para que os conflitos dogmáticos começassem a gol­
pear Nazianzo. O próprio pai de G regório havia negado o Credo de Nicéia
assinando a fórm ula da “paz” apresentada diante dele. Isto levou a distúrbios na
Igreja, em que os monges tiveram participação com o líderes. Mas Gregório foi
bem -sucedido ao induzir seu pai a fazer um a nova declaração ortodoxa e a
restabelecer as boas relações. Ele tam bém com em orou este acontecim ento com
um grande discurso.
N o geral, G regório não tinha simpatia p o r discussões dogmáticas, especial­
m ente quando elas corrom piam pessoas fora do círculo de teólogos versados. Ele
se esforçou para apaziguar a Igreja, ao invés de incitá-la. Percebeu que há limites
para o desejo de paz nos assuntos da Igreja, mas não acreditava em tom ar uma
atitude por m era desconfiança. “A paciência é m elhor do que a precipitação”
(Or. VI, 20), e deve-se ter em m ente aqueles membros da Igreja cuja fé ainda não
está forte. A Igreja deve expressar sua ortodoxia “não tanto em palavras, mas em
ações” (Or. III, 7).
Os esforços de G regório pela paz eram intencionais, e de forma alguma
caprichosos ou inescrupulosos. Mas, às vezes, eles parecem um pouco sentim en­
tais e pessoais. Até mesmo na Igreja estava sempre falando de seus próprios sen­
timentos, de seu am or pela Igreja e da adoração ao Pai de todos. Isto estava
relacionado à sua profunda necessidade de com unhão. Ele amava ternam ente o
seu irm ão mais novo, Cesário, e havia algo arrebatador acerca de seu relaciona-
m ento com Basílio. “ Se ganhei algo em m inha vida, foi a m inha amizade e
associação com você!” (Ep. 58, 1 ad Basílio) Ele ficou m uito mais profundam ente
magoado por qualquer diferença de opinião com seus com panheiros do que por
qualquer injustiça, real ou imaginária, que lhe tenha sido feita.
Basílio retribuiu sinceramente a amizade de Gregório, mas não de m odo ex­
cessivo. Após ter-se tornado bispo de Cesaréia, a política eclesiástica o manteve
bastante ocupado, e não surpreende que ele agora tenha tentado atrair seu compa­
nheiro Gregório à uma associação política mais próxima. Seu poder foi cruelm en­
te enfraquecido pela divisão da província eclesiástica da Capadócia. Ele tentou
fortalecer a posição vacilante dos nicenos estabelecendo novos bispados. Dessa
forma, Gregório deveria ser nomeado bispo: a pequena e disputada vila fronteiriça
de Sasima, nas proximidades de Nazianzo, deveria manter-se leal a ele. Isto foi um
erro. Basílio deveria ter levado em conta o caráter e as limitações de seu compa­
nheiro, em vez de ir direto ao ponto com sua habitual energia e determinação.
A princípio, porém , G regório submeteu-se, perm itindo ser ordenado (372).
C om eçou a resistir violentam ente som ente quando chegou o m om ento de de­
sem penhar os deveres de seu ofício. Por fim, fugiu para as montanhas ressentido,
infeliz e deprim ido. N unca assumiu seus deveres em Sasima, e anos mais tarde
sua cólera se manifestaria, quando veio a falar deste episódio.“ Q u e presunção foi
esta” , declarou Gregório, “transplantar-me, com fins puram ente políticos, para
um a cidade esquecida p o r Deus, onde nenhum a folha verde e nenhum hom em
livre poderiam se desenvolver!”

O bem -estar espiritual dos fiéis form ou o pretexto;


mas a ânsia pelo poder foi a verdadeira razão —
sem m encionar o interesse pelo dinheiro dos impostos,
pelo qual o m undo se despedaça.
(Carm. II, I, 11, de vita sua 460 ff.)

Esta tentativa de Gregório de procurar esconder o seu próprio fracasso não é


u m espetáculo atraente, pois faz as mais indignas acusações contra o seu falecido
companheiro, a quem sempre elogiou grandemente. Mas sua desventura foi ele
nunca ser capaz de recusar as tarefas eclesiásticas que lhe foram ofertadas, em parte
por um senso de dever, e em parte, provavelmente, por vaidade e fraqueza. Se ele
tivesse sido mais independente e menos atencioso, teria se poupado de considerá­
vel constrangimento e de muitas exposições dolorosas de sua impotência.
Desta vez tam bém a pausa para respirar não durou muito. Pela segunda vez,
G regório foi incapaz de suportar as fervorosas súplicas de seu pai. Voltou a
Nazianzo para trabalhar com o um a espécie de coadjutor até seu pai m orrer, com
quase cem anos de idade, no ano 374. G regório recusou-se a sucedê-lo, e quando
sua mãe m orreu, no ano seguinte, não havia nada que o mantivesse na cidade
abandonada. Então retirou-se para a Selêucia, onde perseguiu seus interesses
intelectuais e teológicos p o r alguns anos, com o u m ascético, m antendo uma
intensa correspondência com seus amigos nicenos por todo o mundo.Voltaram-
se para ele, e G regório teve que aconselhá-los.
Após a m orte de Basílio, G regório havia se tornado a autoridade principal
para muitos dos jovens nicenos. Mas mesmo agora ele não estava feliz. Em bora
ainda não tivesse cinqüenta anos de idade, estava solitário e exausto. H á algo de
comovente em suas reclamações hipocondríacas: “Você pergunta como estou” ,
ele escreve a um orador amigo, “Bem , estou m uito mal. N ão tenho mais Basílio,
não tenho mais Cesário; m eu irm ão espiritual e m eu irm ão físico, ambos m orre­
ram.‘M eu pai e m inha mãe me deixaram’, posso dizer com o Davi. Fisicamente,
estou doente; sinto o peso dos anos que estão chegando. Os cuidados estão me
sufocando; afazeres me oprim em ; não há confiança nos amigos e a Igreja está sem
pastores. O bem está desaparecendo; o mal se mostra com toda a sua força. Estamos
viajando na escuridão; não há farol e Cristo está adormecido em nosso barco. O
que se pode fazer? Eu conheço apenas uma salvação para estes males, e é a morte.
Mas mesmo o m undo por vir parece terrível, a julgar pelo m undo atual” (Ep. 80 ad
Eudoxium: este é o texto completo desta pequena carta lindamente escrita).
N a verdade, a grande mudança pela qual Basílio havia se em penhado duran­
te toda a sua vida estava im inente, e daria a G regório uma outra chance de agir.
Iria levá-lo pela prim eira vez além da esfera da Ásia M enor e colocá-lo p o r um
curto período bem no centro dos acontecim entos da Igreja.
O desastre da Batalha dosVisigodos, em Adrianópolis (378), na qual o impera­
dor Valente perdeu sua vida, teve u m efeito im portante na organização da Igreja.
Teodósio, o Grande, um espanhol ortodoxo, havia assumido o trono imperial, e a
reforma da Igreja de acordo com a teologia nicena era agora apenas uma questão
de tempo. O im perador ainda estava residindo no O cidente latino, mas Gregório
já estava recebendo de vários lugares convites para aceitar pastorear a pequena
Igreja nicena em Constantinopla. Esta Igreja estava sem pastor, e era necessário
preencher a lacuna que havia sido deixada na capital, ocupando a posição que foi
deixada p or um ariano que ali esteve durante os últimos quarenta anos. Para seus
seguidores, G regório parecia o m elhor e o mais representativo hom em disponí­
vel para o cargo, e ele aceitou o compromisso, sob protesto e “ coação” com o
sempre; mas, de qualquer forma, aceitou. Desta vez um a recusa teria sido na
verdade justificada em bases táticas, tendo em vista os riscos envolvidos na situa­
ção política obscura então predom inante na Igreja. Tem-se a impressão de que
Gregório havia avaliado corretam ente a importância do momento, pois desta vez
ele realmente aplicou toda sua força à difícil tarefa, e dedicou-se a ela com cora­
gem e habilidade. Os dois anos seguintes foram o ponto culminante de sua vida.
Q u a n d o este h o m e m a p are n tem e n te sem im p o n ên cia apareceu em
Constantinopla, os nicenos nem m esm o tinham um a igreja à sua disposição.
G regório teve que com eçar a celebrar os cultos em um a capela modesta, sob
ameaças de tum ultos e distúrbios que p o r certo tem po expuseram -no seriam en­
te ao perigo. Mas recusou-se a ser intimidado, e as grandes palestras teológicas
que com eçou a proferir im ediatam ente proporcionaram apenas o que era espe­
rado da parte dele. Elas ofereciam um a exposição brilhante e bem respeitada da
teologia nicena, argumentos lúcidos sem inclinações à insignificância, e uma
firm e exortação ao seu pequeno rebanho para dar um exemplo digno na vida
prática da igreja, o que iria estimular a todos os amantes da paz a unirem -se a
eles. G regório estava claramente determ inado a m anter tanto quanto possível
um a posição acima da luta partidária, sem renunciar às suas próprias convicções
dogmáticas, e assim preparar-se de um m odo eficaz para seus próprios com pro­
missos e para a futura reorganização das tarefas.
Seu conhecim ento limitado da natureza hum ana e a falta de experiência na
política eclesiástica foram dem onstrados em u m incidente que poderia ter tido
sérias conseqüências. U m a das pessoas que se juntaram à sua igreja e que tentou
tornar-se particularm ente ligada a G regório foi u m certo “filósofo” chamado
M áximo, do Egito, um orador cristão. G regório mais tarde escarneceu dele, cha­
m ando-o de cínico e falastrão mentiroso, que tinha sido, com seu cabelo tingido
de dourado, um com pleto fútil, u m janota inútil e u m hipócrita desavergonhado.
Mas no com eço havia aparentem ente dado a este orador calorosas boas-vindas,
com o a um a pessoa da família e, com o era seu hábito, havia feito im ediatam ente
um discurso público sobre ele.
N a verdade, o hom em era u m rival disfarçado que, assim com o Gregório
fora para os nicenos, havia sido designado pelo invejoso patriarca de Alexandria
para ser o futuro bispo, ordenando-o que fosse a Constantinopla. U m a tentativa
prem atura de ordená-lo revelou a conspiração, e M áxim o foi forçado a desapa­
recer. Q uando Teodósio com pareceu a Constantinopla para a festa de Natal, no
ano 380, descobriu que G regório era o único candidato niceno. O bispo ariano,
que havia governado a cidade até então, foi sum ariam ente enviado para o exílio
e G regório foi bem recebido com o seu provável sucessor. Sob forte escolta m i­
litar, ele tom ou posse da Igreja dos Apóstolos, ao lado do imperador. Mas ele não
cedeu à pressão para que fosse im ediatam ente empossado com o bispo, porque
queria um endosso eclesiástico mais forte. Isto seria proporcionado pelo sínodo
que se reuniu na primavera do ano 381.
O chamado Segundo C oncílio Ecum ênico foi presenciado quase que intei­
ram ente pelos jovens adeptos nicenos da Ásia M enor e da Síria. Portanto, tudo
prom etia ir bem. M elétio de A ntioquia, que presidia o sínodo, elegeu Gregório
imediatamente. Ele foi ordenado, entronizado e form alm ente empossado com o

to o
bispo da capital. Pela prim eira vez em sua vida, ele parece não ter levantado
nenhuma séria resistência e m ostrou-se pronto a aceitar o cargo que era esplên­
dido e de alta responsabilidade. Mas a oposição de vários grupos e facções logo
começou a fazer-se sentir novamente.
Pouco depois da eleição de G regório, M elétio m orreu inesperadamente, e a
velha e infeliz disputa sobre a ocupação do bispado de A ntioquia veio mais uma
vez colocar-se em pauta (cf. p. 97). G regório lem brou-se da infeliz idéia de que
toda a igreja antioquiana poderia agora passar à administração do antigo candi­
dato niceno, Paulino. Isto estava em conform idade com um antigo acordo e foi
agora proposto com o um sinal de justiça e reconciliação verdadeiras, mas que
politicamente era impossível de ser colocado em prática. G regório fracassou em
vencer a oposição de seus próprios companheiros. E m vão utilizou o velho
método que havia aplicado após o caso de M áximo, ameaçando dem itir-se e ir
embora. Foi obrigado a adm itir a derrota.
Sua situação tornou-se realmente desesperadora quando os bispos “ociden­
tais”, isto é, prim eiram ente os egípcios, apareceram no Concílio e se colocaram
em oposição a ele. G regório não foi mais capaz de suportar a situação. Declarou
que, em bora fosse inocente, queria, com o Jonas, lançar-se ao m ar pelo b em de
todos, e, então, anunciou sua demissão, que foi aceita. Foi uma decisão amarga.
Seu discurso de despedida foi majestoso e salvou as aparências, mas não é surpre­
sa para ninguém que conheça G regório que em ocasiões posteriores, especial­
mente em seu poem a autobiográfico, ele tenha dado vazão à sua profunda irritação
e ao seu sentim ento infeliz, e feito em pedaços os bispos incultos e intolerantes,
o Concílio briguento, e os concílios em geral.
Mais uma vez, portanto, o velho orador falhou na tentativa de ocupar um
cargo eclesiástico —desta vez ainda mais dolorosam ente que o habitual, porque
ele havia oferecido o m elhor de si e não contava com tal desfecho. Para o m undo
exterior, ele declarou repetidam ente que estava m uito feliz p o r estar longe da
agitação da luta cotidiana e poder retornar à paz e tranqüilidade filosóficas. Mas
levou m uito tem po até que as feridas fossem curadas e ele pudesse realmente
desfrutar de sua recém -adquirida liberdade.
Prim eiram ente voltou a Nazianzo, que ainda estava sem bispo, e em preen­
deu o trabalho ali até que fosse capaz, após algumas dificuldades, de indicar
alguém com o bispo. A nova heresia cristológica dos apolinaristas trouxe-lhe
muito aborrecim ento neste período. Por fim, retirou-se para a propriedade de
seu pai em Arianzo, onde p o r cerca de sete anos ele realmente pôde viver uma
vida sossegada. Deve ter m orrido no ano 389-90.
Gregório não m udou nesses últimos anos de sua vida. R eclam ou muito,
criticou em abundância, falou e escreveu incessantemente sobre si mesmo, sua
melancolia e seus sofrimentos. Mas a com pleta liberdade, com a qual ele foi

fO f
capaz de se expressar, o fez parecer mais amável, mais natural, e tam bém m ais
sério, do que em seus prim eiros anos.
Sendo sempre um missivista ardoroso, dedicou-se a esta form a de literatura
mais pessoal com afeição especial. Pelo que sabemos, ele foi o prim eiro autor
grego a reunir e publicar suas próprias cartas. Tam bém passou a ter um novo
passatempo predileto: Escrever poesias em todas as métricas clássicas possíveis.
Escreveu epigramas, descrições de acontecim entos passados, tratados teológicos
e, sobretudo,“sobre si m esm o” . M uitos de seus escritos são simplesmente prosas
transformadas em versos, com o p o r exemplo, um poem a sobre as diferenças das
árvores genealógicas de Jesus descritas p o r M ateus e Lucas. O utros poemas são
mais elegantes e mais pessoais, porém , mesm o no m elhor deles, seus esforços não
eqüivalem a nada mais do que verso humanista bem -sucedido.
A extensa educação clássica de G regório lhe facilitou encontrar frases ade­
quadas, imagens e alegorias para cada h u m o r e cada pensamento. Seus escritos
estão cheios de alusões e referências literárias. Ele acreditava que o verso forçava
o escritor a praticar auto disciplina. Q ueria provar que a nova cultura cristã não
era inferior ao paganismo nesta área. A parentem ente esperava p o r u m efeito
ainda mais im ediato dos seus poemas sobre os apolinaristas, que também, com o
os arianos, utilizavam o verso em sua propaganda. Acima de tudo, aproveitou as
novas oportunidades que sua liberdade lhe proporcionou para praticar a atividade
e a expressão literária, agora que os seus dias com o orador estavam terminados.

C om o um hom em velho isto m e tem feito bem


escrever verso e cantar para m im mesmo
sem lamentos, mas um a canção de adeus
com o o velho cisne que sussurra consolação
a si mesmo com suas asas cansadas.
(Carm. II, 1, 39, in suos versus 55 ff.)

Gregório se expressa com a m aior simplicidade, entusiasmo e integridade


sempre que fala sobre aqueles que lhe foram queridos, seus parentes e com pa­
nheiros que m orreram , e quando testifica da sua fé na redenção.
Já notam os que, com o um teólogo trinitariano, G regório não era realmente
criativo, mas apenas com pletou e continuou a defender em term os educados a
posição sustentada por Basílio. M uito mais im portante e reveladoras são as suas
últimas declarações anti-apolinaristas, a respeito da obra e pessoa de Cristo.
Apolinário restringiu a natureza hum ana de Cristo a fim de fortalecer sua rela­
ção com a Divindade. G regório estava preocupado em enfatizar a completa
hum anidade do Salvador, ao lado da sua com pleta divindade. Assim com o a
natureza hum ana de Cristo e, particularm ente, seu espírito hum ano, a realidade
que foi negada pelos apolinaristas, é com pletam ente vivificada naquilo que é
divino; assim o nosso espírito é transfigurado e torna-se divino através da associa­
ção com Cristo.
Gregório não está, porém , satisfeito com esta concepção espiritualista da
redenção. Cristo, o hom em -D eus e Senhor, é indispensável para ele, sobretudo
porque o seu santo, incomensurável sofrim ento e m orte proveu a expiação pela
qual o poder do D iabo e do pecado, e todo o fardo de nossas imperfeições
humanas é verdadeiramente vencido. E com o se em sua fraqueza individual e na
desunião de sua existência, este, o mais refinado dos pais da Igreja, tenha sentido
uma irresistível necessidade de estabelecer a certeza final de sua salvação além de
todas as “vãs” possibilidades humanas da religião, o que significava tanto para ele.
Neste aspecto, G regório talvez tenha sido mais profundo do que todos os
teólogos gregos que viveram antes e depois dele. O apelido de “ o teólogo” que
lhe foi dado por seus “ discursos teológicos” em Constantinopla, não era total­
mente injustificado em um sentido mais profundo, em bora ele devesse a sua
extraordinária reputação na era seguinte, em prim eiro lugar, às qualidades for­
mais de seus escritos, que eram freqüentem ente utilizados com o modelos de
estilo. Foi o orador, o “D em óstenes” cristão, com o os bizantinos o chamavam,
que teve m aior influência sobre a posteridade, e não o “teólogo” . O verdadeiro
teólogo, no sentido erudito e “filosófico” , foi seu hom ônim o e confidente oca­
sional, o irm ão mais novo de Basílio, G regório de Nissa.

/o i
G r e g ó r io de N issa

regório N azianzeno considerava-se com o tendo se dedicado a


Deus desde a sua juventude, e, mesm o sendo um líder e bispo
da Igreja, perm aneceu com o um orador. Gregório de Nissa
veio do mesm o m undo intelectual e social, e seus com panheiros provavelmente
tinham com o certo que ele se dedicaria aos assuntos espirituais e ao ministério.
C ontudo, ele não nasceu para ser bispo. Era u m pensador e u m filósofo; tinha um
olhar penetrante e observador e u m talento fora do com um para o pensamento
sistemático, mas não era u m ho m em para o dia-a-dia da Igreja e a vida em
com unidade. A energia que Basílio gastou no serviço externo da Igreja era, em
Gregório, concentrada em ocupações intelectuais; ele era ambicioso nesta esfera
de atividade.
N o entanto, o fato de este hom em ter se tornado prim eiro um orador e
depois um bispo é típico da época em que viveu. A cultura era baseada na tradi­
ção retórica, e a Igreja atraiu para si todas as coisas que ajudavam no desenvolvi­
m ento da vida espiritual. A vida de G regório parece diferenciar-se, quando exa­
minada interior ou exteriorm ente; e este fato lhe confere um a característica
difícil e problemática.
Em bora G regório seja geralmente descrito com o tím ido e reservado, ele
talvez não fosse originariam ente tão diferente do seu irm ão Basílio. Ambos sen­
tiam a mesma necessidade p o r independência, ambos tinham u m orgulho cons­
ciente e muitas vezes expresso de form a desdenhosa, e ambos estavam determ i­
nados a desenvolver suas personalidades intelectuais e espirituais. Basílio, porém ,
voluntariam ente sacrificou estas coisas, enquanto G regório teve que lutar pelos
direitos de sua personalidade, p o r sua posição e m odo de vida. Ele foi sobrecar­
regado pelo destino de ser o irm ão mais novo; foi o seguidor exagerado de uma
grande geração, e nunca adquiriu a certeza de um a renúncia sincera que deu tal
harm onia ao caráter de Basílio. Apesar de sua extraordinária inteligência, por
m uito tem po perm aneceu em segundo plano, e com o conseqüência, teve uma
qualidade velada, remota, e às vezes ambígua, até mesmo sobre a sua originalida­
de e a sua teologia.
Adm ite-se que tam bém tornou-se m uito famoso no final da vida, e referên­
cias ocasionais que ele fez a este fato m ostram que sua fama deu-lhe prazer.
C o m o irm ão de Basílio, ele era considerado, ju n ta m e n te com G reg ó rio
Nazianzeno, o hom em m elhor qualificado para preservar o legado de Basílio, e
era considerado a autoridade principal em todas as questões dogmáticas. Mas,
com exceção de seus parentes mais próxim os, ele quase não tinha amigos. Sua
correspondência interessante é silenciosa a este respeito. C o m o erudito e m onge
viveu sua própria vida. Ele fez exigências supremas sobre si mesmo, e suas maiores
conquistas foram nos campos da teologia e da filosofia.
Basílio interpretou o monasticismo à sua própria maneira, deu-lhe uma
profundidade bíblica e testou-lhe de um a nova forma. G regório o seguiu, mas
ele deu ao ideal que havia assumido um a expressão diferente, na com binação de
reflexão e meditação, e no desenvolvimento das idéias básicas. Ele evoluiu e
im prim iu sua própria marca em um a nova teoria da piedade monástica e mística
que continuou a existir.
Por longos períodos, o curso exterior de sua vida é coberto de trevas. Ele
com eçou a escrever apenas na m aturidade, e é impossível reconstruir seu desen­
volvimento anterior com alguma certeza. Deve ter nascido p o r volta do ano
335. Parece que foi gasto m enos dinheiro em sua educação, com parando com a
de Basílio, seu irm ão mais velho. N ão temos qualquer informação sobre G regório
de Nissa ter cursado alguma universidade estrangeira, e ele mesmo confessou
não ter nada “ excepcional” para registrar sobre estudar com mestres famosos (Ep.
13, 4 ad Liban.). Repetidas vezes observou que som ente Basílio havia sido seu
“mestre e pai” , e o louvou entusiasticamente.
Para Gregório, Basílio era “a m aior maravilha do m u n d o ” e o protótipo do
verdadeiro filósofo (Or. iti X L Mart., M igne Gr. 46, 7 7 6 A); ele o coloca ao lado
dos santos e declara que seus escritos são inspirados. Ele foi “verdadeiramente
criado de acordo com a vontade de Deus e teve a sua alma moldada conform e a
im agem do C riador” (De Hom. O pif, M igne Gr. 44, 125 B). Seus leitores perce­
beriam sua dependência de Basílio, mesm o onde ele não identifica seu mestre
pelo nom e (De Virg., Praef, M igne Gr. 46, 320). G regório era, na realidade, um
aluno de Basílio, mas este louvor deliberadamente fastidioso não significa que ele
tenha ficado quieto, sem nada a oferecer de si mesmo, de m odo independente.
A maneira despreocupada pela qual ele “torna o sólido e resistente pão da
Escritura” digerível por meio de um a livre interpretação alegórica (Hom. in Cant.

fO ff
7, M igne Gr. 44, 925 B) exala u m espírito diferente. G regório deve ter lido uma
quantidade incom um de literatura; sobretudo, Platão, Plotino, e outros filósofos
platônicos, além de Fílon. E, entre os autores cristãos, especialmente Orígenes.
Ele admirava o orador pagão Libânio com o o supremo e fiel representante da
cultura grega clássica. G regório foi possivelmente o teólogo mais versátil do
século. Seus escritos contêm até mesmo discussões sobre ciência e medicina
naturais que revelam com preensão profunda e conhecim ento. E m tudo isso ele
foi sem elh an te a B asílio, m as, sem d ú v id a algum a, su p e rio r a ele em
aprofundam ento e perfeição de seu conhecim ento.
E m sua juventude, G regório havia servido ocasionalmente com o leitor das
Escrituras na Igreja. Mas ele não se sentiu envolvido por este trabalho. Por pura
“am bição” , com o G regório N azianzeno furiosamente declarou em um a carta,
ele se perm itiu ser persuadido a trocar as Escrituras pelos “livros amargos e
intragáveis” do m undo, a “se deixar ser chamado mais de orador do que de
cristão” (Greg. N az. ep. í í ad Greg.). E ele deu um passo além. Casou-se com
Teosébia, um a m ulher de posição intelectual elevada e grandem ente querida.
Em seu prim eiro tratado, Sobre a Virgindade, lam entou-se de que somente
poderia falar sobre este ideal com o um a testemunha da bem -aventurança que
outros experim entaram , visto que ele mesmo havia um a vez “posto o seu pé na
vida m undana” (De Virg. 3, M igne Gr. 46, 325). Tais reclamações não deveriam
ser levadas tão a sério. N em a retórica, nem o casamento, que ele mais tarde
conduziu em u m nível puram ente “ espiritual” , obstruíram seu desenvolvimento
religioso. G regório manteve-se em contato com o centro monástico que sua
família m antinha em íris, e parece ter estado lá de tempos em tempos. Sua irm ã
mais velha, M acrina, a chefe de u m convento no lugar, era especialmente próxi­
ma a ele. Ele a chamava de “mestra” e dedicou um pequeno livro a um comovente
relato de sua vida e, em particular, de sua m orte, ocasião em que ele esteve
presente. Posteriorm ente ele com pôs um Diálogo, conform e o m odelo do Fedro,
de Platão, que consistia em um a conversa “sobre a alma e a ressurreição” , enta­
bulada, segundo Gregório, com a sua irm ã nesta última reunião na terra.
Naquela época, ele havia há m uito tem po desistido de sua vida livre como
orador e teólogo da linha filosófica, e havia se tornado bispo da pequena cidade de
Nissa (em 371). D e uma vida cultural, de estudo e contemplação pessoal, ele tam­
bém havia sido chamado para o serviço da Igreja, de uma maneira que ele mesmo
certa vez descreveu com o sendo a m elhor e mais útil abordagem para o oficio
eclesiástico. Parece que aqui tam bém Basílio havia exercido sua influência. C om o
no caso de Gregório Nazianzeno, o lugar que seria preservado pelo mandato do
irm ão de Basílio era relativamente modesto, mas politicamente importante.
G regório de Nissa tam bém teve que ser “im pelido” a aceitar o cargo (Basil
Ep. 225 ad Demosth.). Porém renunciou ao novo papel, e logo com eçou a parti-

fO ?
cipar da política eclesiástica de form a mais intensa do que era aprazível a Basílio.
As particularidades não estão bem claras. E possível que G regório tenha m antido
contato com os antigos nicenos com os quais Basílio havia rom pido relações,
sem adm itir a discordância abertamente. Temos um a carta notavelm ente violen­
ta, na qual Basílio chega a acusar G regório de ter foijado certas cartas, ocasio­
nando deste m odo um a situação extrem am ente embaraçosa. Ele disse que
doravante recusaria perm itir que G regório participasse de negociações eclesiás­
ticas; havia sido provado que suas palavras não correspondiam aos fatos. Ele recu­
sou categoricam ente quando lhe foi sugerido que G regório deveria ser enviado
a R o m a com o um núncio apostólico; declarou que seu irm ão era inexperiente
em assuntos eclesiásticos e inadequado para tais missões, p o r conta de sua natu­
reza franca. N o entanto, G regório estava igualm ente sob a pressão do regime
anti-niceno e foi atacado ainda mais diretam ente do que o próprio Basílio, em
quem o Estado não ousaria tocar.
Acusado de irregularidades financeiras, foi deposto e substituído p o r um
bispo ariano. Todos os protestos que Basílio fez ao governador foram em vão:
Nissa estava perdida e G regório foi suspenso e teve que deixar o país. Somente
pôde retornar após a grande mudança que ocorreu no ano 378, quando recebeu
uma grande ovação por parte de sua congregação. Ele participou do Concílio de
Constantinopla em 381. Nesta época, o irm ão do grande Basílio, que agora já
não estava mais vivo, havia se tornado bem conhecido para um público m uito
maior. Através de um decreto em itido p o r Teodósio, foi indicado com o bispo
principal de toda a diocese do Ponto, o que significa que, apesar da insignificân­
cia de seu cargo eclesiástico, ele foi nom eado conselheiro confidencial para o
governo e tinha a última palavra na questão da remoção de arianos e indicação
de novos bispos nicenos.
M esm o antes disso, encontram os G regório com parecendo a sínodos estran­
geiros. Estando neste posto estatal, viajou para a Arábia e visitou Jerusalém; diri­
giu a eleição do bispo de Ibora, na A rm ênia M enor, e livrou-se de ser ele mesmo
eleito bispo de Sebaste. N a história da vida de M acrina, ele inseriu passagens em
que ela supostamente havia dito que a fama dele agora ultrapassava em brilho a
de seus ancestrais; que o seu nom e era m encionado nas cidades, nas igrejas e
entre as nações, e que as “igrejas solicitavam a sua presença e mandavam buscá-lo,
para que pudesse apoiá-las na luta pela organização” ( Vita Macr., M igne Gr. 46,
981 B). N o entanto, G regório perm aneceu sendo um colega difícil de lidar; e
com seus com entários críticos, estava longe de ser universalmente popular.
Ele resumiu suas impressões sobre a Terra Santa em um a carta que represen­
ta um ataque direto às condições naquele país. “ Sei perfeitam ente bem o que as
pessoas dirão com o resposta” (Ep. 2,11 ad Censit.), mas é u m fato que a desor­
dem, a depravação e a imoralidade em n en h u m lugar cresce tão grandem ente

W<f
quanto nos grandes centros de peregrinação. A genuína piedade está agora mais
em casa entre os capadócios. As pessoas deveriam ser dissuadidas de participar de
peregrinações - por causa dos princípios. A verdadeira vida santa e filosófica
busca tranqüilidade e solidão; D eus não limita sua presença a lugares sagrados. Se
o Espírito sopra onde quer, devemos participar de seus dons pela fé —“ de acordo
com a medida da fé” (R m 12.6) e não “de acordo com a nossa permanência física
em Jerusalém” . Gregório não foi bem -sucedido em estabelecer um relacionamen­
to tolerante com seu próprio líder. A inveja deste por seu subordinado mais famoso,
irmão de seu predecessor, pode ter tido algo a ver com este fracasso.
Anos mais tarde, G regório foi novam ente convidado, p o r duas vezes, a ir a
Constantinopla. Pediram que ele pronunciasse discursos fúnebres pelos m em ­
bros da família imperial. N o ano 394, ele participou de um sínodo pela última
vez. Deve ter m orrido logo depois desta reunião. As informações fragmentadas
que temos sobre ele quase não são suficientes para construir um quadro com ple­
to de sua vida, em bora isso realm ente sugira os aspectos incom uns de seu caráter.
Para conhecer G regório corretam ente, devemos nos concentrar em sua teologia
e em seus escritos.
Seria bastante errado considerar Gregório, com seu jeito rebelde e crítico,
com o um cético ou mesmo u m teólogo deliberadamente não-eclesiástico. Ele
depende teologicam ente do fundam ento da Igreja, e sua atividade política é
suficiente para mostrar com o reconhece e defende os seus direitos públicos e
sagrados. Os dias de C lem ente de Alexandria há m uito tem po ficaram para trás;
nenhum a teologia poderia se desenvolver em um am biente puram ente acadê­
mico. A adoração da Igreja ocupa u m grande espaço em seus escritos e sermões;
ele enfatiza a im portância da regra da lei e a ação redentora dos sacramentos,
especialmente do batismo. Ele foi o prim eiro teólogo cristão a definir claramen­
te o conceito do sacerdote, enfatizando o poder transform ador de sua ordenação
e seu papel peculiar na liturgia.
Nesse ponto, ele foi o precursor dos areopagitas, que u m século mais tarde
desenvolveriam sua im portante doutrina das “hierarquias” celestiais e eclesiásti­
cas. Mas a doutrina e a “filosofia” da Igreja são importantíssimas, e a maneira
reservada de Basílio se m anter dentro dos limites da Bíblia nestas questões era
estranha para Gregório. Nesta abordagem metódica, ele se volta para Orígenes.
Considera a pregação da Igreja m eram ente com o u m ponto de partida para
idéias mais avançadas, e a coerência intelectual e os fundamentos lógicos do
sistema coerente são mais im portantes do que provar suas bases nas Escrituras.
O ensino da Igreja era agora m uito mais fortem ente articulado e estabeleci­
do do que havia sido até então, e G regório foi cuidadoso ao respeitá-lo e evitar
toda resistência declarada. Basicamente, porém , ele reativou o antigo plano gnóstico
da teologia com o um a interpretação e desenvolvimento de um imenso drama

fo ff
tem poral e atemporal em que, um a vez rem ovido pela queda de sua unidade
original e do relacionam ento original com Deus, o ser espiritual retorna às suas
origens de uma maneira ampla e trabalhosa. Os elementos fantásticos agora re­
trocedem ao passado, e a interpretação filosófica da mitologia é mais rigorosa­
m ente sustentada. Os elementos mitológicos são agora interpretados de um ponto
de vista mais rigorosam ente filosófico. E m relação a isto, G regório está ainda
mais perto de Plotino do que de Orígenes.
Por outro lado, porém , a especulação nunca é considerada com o um fim em
si mesma; com o a ética, a filosofia natural e toda a cultura secular, ela tem que
“som ente enfeitar o tem plo divino da revelação misteriosa” (De Vita Moysis,
M igne Gr. 44, 360 C). Cristo está no centro, e a questão real é a redenção do
hom em , isto é, a elevação, a purificação e o retorno da alma individual ao seu
C riador e Senhor. G regório busca u m relacionam ento vivo com Deus, não a
ordem neutra de um ser graduado. Ele não crê que haja qualquer perm anência
na natureza humana; isto pode ser com preendido e verdadeiramente percebido
som ente com base em seu destino divino. A teologia se encerra na união
adoradora e amorosa com Deus, que é incompreensível e insondável. Tudo o
que ocorre entre o ser criado e o incriado é concebido em term os da graça, e é
cum prido no reino da liberdade e da santificação. Aqui está a linha divisória
entre o cristianismo e o panteísmo neoplatônico. G regório se compraz em falar
da divinização do hom em , mas ele se refere à semelhança com Deus que o
h om em é chamado a alcançar, com o um espelho vivo purificado de toda lama e
ferrugem de um ser terreno, com o a verdadeira im agem de Deus. Para toda a
eternidade, o único objetivo do hom em , e a bênção em si, é ser ilum inado e
sustentado por Deus. E é a m agnanimidade de Deus, não a nossa ação, que
sozinha perm ite e torna possível esse regresso ao lar e esse cum prim ento.
N os anos em que ocupava um a posição de destaque na política eclesiástica,
G regório tam bém se ocupava das polêmicas da época em relação à Trindade e à
natureza de Cristo. E m vários tratados direcionados contra o ariano Eunôm io,
ele defendeu as doutrinas ortodoxas da Igreja com perspicácia, sagacidade e
exatidão. G regório estava mais interessado do que Basílio na unidade interna e
na perm anente cooperação das três pessoas da Trindade. E m penhou-se em rela­
cionar o Espírito não somente ao Pai, mas tam bém ao Filho, e to rn o u público os
problemas posteriores do “realismo” ocidental, isto é, o problem a do conteúdo
real dos conceitos gerais em sua relação com a individualização concreta. C o m ­
bateu tam bém o apolinarismo.
D iferente de G regório Nazianzeno, defendeu um a cristologia que se apro­
xima da posterior concepção “antioquina” , à m edida em que é feita um a distin­
ção clara entre a natureza divina e a hum ana na pessoa do Salvador. N o “ Grande
C atecism o” , teve que lidar com a doutrina da Trindade e com as doutrinas da

ffO
encarnação e da redenção, term inando com batismo, com unhão, fé e novo nas­
cimento. A obra foi concebida com o um a ajuda à pregação apologética; mas,
apesar de sua form a de certo m odo popular, foi a m aior tentativa de expor todo
o ensinam ento do cristianismo com o um a unidade, desde a época de Orígenes.
O que move G regório mais profundam ente, porém , não são os tópicos da
teologia tradicional, mas os problemas do hom em . A realização da salvação, a
elevação e transformação do indivíduo, a relação com a vida do corpo e a sobre­
vivência da alma após a m orte são problemas aos quais ele retorna várias vezes,
com o alguém que anda em círculos. Estes se tornam a po n te entre a sua visão
platônico-origenista do m undo, e as possibilidades do desenvolvimento e da
educação, tanto no sentido moral com o no pessoal. Nesta relação, as experiências
práticas do filósofo-m onge foram úteis e ele provavelmente tam bém se aproxi­
m ou de fontes mais obscuras, ocultas em sua própria vida interior. G regório era,
em última análise, um bo m e m uito discreto psicólogo.
Seu antigo tratado Sobre a Virgindade já aborda este ponto de vista. Gregório,
o hom em da Igreja e um hom em casado, recusa-se sumariamente a condenar o
casamento e suas alegrias, e sabe com o descrevê-las de m odo vivaz. N o entanto,
outros entendiam que som ente a vida de castidade poderia realmente fazer ju s­
tiça ao supremo destino do hom em , vida na liberdade e no poder da absoluta
santidade que abraça tanto a alma com o tam bém o corpo. A m orte, que é des­
truidora, esconde-se po r detrás de todas as alegrias e dos sentidos que são da
terra. U m a vida duradoura som ente é encontrada no espírito, que se eleva acima
do m undo. Isto faz surgir ao mesm o tem po o difícil problem a do significado da
vida do corpo. N ão pode simplesmente ser do mal, mas está indissoluvelmente
ligado ao pecado.
G regório acredita que isto foi criado p o r D eus para nós, p o r causa do peca­
do posterior. Mas o que acontece quando a alma deixa o corpo? Q ual é o m odo
de existência entre a m orte individual e a ressurreição final e geral? C om o é
possível para o corpo receber de volta, do m undo, os vários elementos que lhe
pertenceram? O que acontece com os órgãos digestivos e reprodutivos dos quais
a alma assexuada não necessita mais? Por longo tempo, G regório esforça-se em
profundas reflexões, quase cientificamente precisas, para afastar-se do perigoso
espiritualismo de Orígenes. E m parte revive as críticas iniciais dirigidas contra
Orígenes. Ao final, porém , aceita a pura espiritualidade do corpo celestial. Após
longos desvios retorna a um a form a de origenism o apenas ligeiram ente modifi­
cada.
A alma, e som ente a alma, é criada à im agem de Deus e para a eterna com u­
nhão com Ele. O significado disto está descrito por G regório em cores vivas,
ultrapassando de longe as descrições correspondentes em Fílon e Orígenes.
Gregório foi o fundador de uma nova piedade mística e arrebatadora. O ascetismo

/ / /
progressivo que ele adquiriu de seus m onges não é u m m ero exercício no cami­
nho a um objetivo futuro, mas conduz a u m amoroso encontro e união entre
C risto e sua Igreja, entre a alma e seu D eus no presente. D e acordo com a
interpretação alegórica de Gregório, todas as Escrituras estão relacionadas a estas
experiências espirituais. Se isto é um a questão relacionada aos textos do Antigo
ou do N ovo Testamento, à “vida de M oisés” , ou ao exemplo do apóstolo Paulo,
ele encontra os mesmos ideais de purificação, santificação miraculosa e com u­
nhão abençoada com Deus.
Particularm ente, o livro de Cantares de Salomão foi escrito para dar fruto
em piedade espiritual. A alma purificada, cheia da excitação da sobriedade
santificada, sente na brilhante escuridão da noite divina a aproximação e a beleza
de seu noivo, em bora, ou porque, ele esteja sempre parcialmente invisível, intan­
gível e inesgotável.“A bem -aventurança, diz o Senhor (M t 5.8), não consiste em
conhecer a respeito de Deus, mas ter a presença de D eus em si m esm o” (Or. de
Beat. 6, Migne Gr. 44, 1269 Q . Para ter a presença de D eus dentro de si, a alma
deve, com o Cristo, já ter m o rrido para o m undo. “Se ela não m orrer, perm anece
inteiramente morta; somente através da morte, e removendo todas as coisas mortais,
ela pode alcançar a vida” (H om. in Cant. 12, M igne Gr. 44, 1020 B ).A alma está
sempre viajando em um a desejosa e bem -aventurada “jornada para Deus, que
não term ina jam ais” (Hom. in Cant. 12, M igne Gr. 44, 1025 D), na mais maravi­
lhosa unidade de paz e m ovim ento. As águas da alma livre encam inham -se a
Deus com o um a fonte; “ela tem a profundidade de um a fonte, mas o m ovim en­
to constante de um rio ” (Hom. in Cant. 11, M igne Gr. 44, 911 C). Ela mesma é
cheia por Deus com o um a torrente; ela é acesa pela luz com o uma tocha e é
conduzida ao alto pelo espírito com o p o r um a carruagem. Q ualquer um que
tenha experim entado isto irá transm itir o que aprendeu, com o fizeram os profe­
tas e os apóstolos. A Igreja se expande cada vez mais e o m ovim ento ascendente
dos espíritos é irresistível. A crença na restauração de todas as coisas a D eus é
encontrada, no final, tanto em G regório quanto em Orígenes. Para ele, esta tam ­
bém não é nenhum a fria proposição metafísica. E um a confissão de fé na viva
experiência do Espírito que é o próprio Deus, e, portanto, o extrem o poder
majestoso e a realidade vitoriosa sobre e acima de todas as coisas.
G regório nunca foi condenado especificamente p o r causa desta heresia. Mas
as condenações dos séculos V e VI naturalm ente tinham -no em mente. G regório
defendeu suas teses mais audaciosamente do que os outros origenistas de sua
época. Ao m esm o tem po, porém , ele enfatizou seu caráter hipotético, e pro­
vavelmente considerou que a doutrina das últimas coisas não dizia respeito ao
centro dogmático da teologia, mas a questões sobre as quais as discussões deveriam
perm anecer abertas e nas quais, com o seu com panheiro G regório N azianzeno
disse, até mesmo um erro não seria algo “perigoso” (Greg. Naz. Or. 21,10).
Esta distinção é m uito característica. Por um lado, a doutrina de Deus com o
um dogma universalmente unido e rigidam ente fixado, e, p o r outro, a especula­
ção mística livre que é alimentada p o r outras fontes, mas, no entanto, toca nos
maiores e mais im portantes problemas da vida pessoal e da fé. A intenção parece
ter sido remover ou relaxar a tensão entre o indivíduo e a Igreja com o um
conjunto totalm ente uniform e. Basílio já havia sido guiado p o r tais considera­
ções em sua política eclesiástica. A tradição dogmática estava se tornando um
poder com o qual o teólogo tinha que contar. Foi neste período que surgiu a
prim eira “A ntologia” teológica, isto é, um a coletânea de citações dos mais anti­
gos mestres da Igreja, reconhecidos pelo uso prático em controvérsias sobre a
verdade válida. G regório não som ente aceita, com um novo tipo de ênfase, tudo
o que as Escrituras dizem, mas tam bém as norteadoras “ explicações dos pais”
(Contra Eunom. III, ÍO, 9 ).“E suficiente para a prova da nossa doutrina saber que
a tradição tenha chegado até nós p o r m eio dos patriarcas, com o um a herança
que foi entregue pelos apóstolos aos santos que vieram depois deles” (Contra
Eunom. III, 2, 98). G regório apela para a mesma vocação que seu irm ão mais
velho, Basílio, mas não percorre todo o cam inho com ele. Direciona-se para os
domínios de seus próprios pensam entos e vida espiritual, onde sente-se desem­
baraçado e livre.
SlNÉSIO DE ClRENE

hom em a quem este capítulo é dedicado não foi um dos mais


reconhecidos Pais da Igreja. N o entanto, apesar de ter sido
apenas um personagem sem tanta im portância, seus escritos
foram avidamente lidos, praticados e até com entados durante a Idade M édia
Bizantina. E verdade que além de filósofo —o que nesse período queria dizer
tam bém teólogo —, Sinésio era ainda um retórico pagão e um artista, e não um
cristão. C ontudo, no fim de sua vida ele foi ungido com o bispo cristão. E m uito
revelador que tal fato tenha sido possível. O decorrer da vida de Sinésio, assim
com o seu desfecho, confirm a de form a surpreendente o que já havia sido cons­
tatado, nos últimos capítulos, em relação ao caráter envolvente da Igreja Cristã,
no sentido de atrair e de agregar todas as forças intelectuais da época e dem ons­
tra quão abrangente havia se tornado a corrente que conduziu sua vida e seus
ensinamentos.
Existia um a afinidade grande entre o últim o dos filósofos pagãos e os Pais da
Igreja. Encontram os, em ambos os lados, os mesmos elementos de introspecção
espiritual e de devota especulação, o mesmo em penho pela pureza moral e pela
santificação, a mesma reverência aos tesouros da revelação, da cultura e do co­
nhecim ento que as antigas tradições haviam preservado para aqueles que se
mostrassem preparados para aprender. N o entanto, fundamentalmente, havia apenas
uma única organização na qual se pensava que esses ideais tinham condições de
encontrar um a expressão socialmente responsável e de serem postos em prática:
a Igreja Cristã. Por fim, até mesm o os pagãos e os recalcitrantes descobriram o
cam inho para seus umbrais.
A esse respeito, Sinésio pode ser com parado aos grandes capadócios. O rig i­
nalmente, sua terra natal, a Cirenaica, foi uma região de ‘bárbaros’ que, em tem ­
pos passados, havia assimilado a cultura helénica e as leis romanas de form a ainda
mais abrangente que a própria Capadócia. Lá existia tam bém um a opulenta
nobreza, constituída po r proprietários de terras, e Sinésio pertencia a uma das
mais antigas famílias da região, cujos antepassados remontavam até os com pa­
nheiros de Hércules. D a mesma form a que os capadócios, Sinésio associava um
patriotism o vigoroso e intrépido a um a postura im perial e a um cosmopolitismo
helénico, de caráter burguês, e m uito mais rural do que urbano.
Outrossim, ele tinha u m profundo senso familiar. Cultivava amizades e gas­
tava grande parte de seu tem po com relacionamentos sociais. Concedia a todos
que o procuravam um auxílio generoso. Para ele o platonismo - nesse caso, o
platonismo pagão - implicava um a obrigação filosófica que, na plena acepção da
palavra, era tam bém religiosa. Ele em penhou toda a sua existência em vivê-la
com o se estivesse sob os olhos de um Deus onipotente, nunca tendo se cansado
de louvar e de adorar sua glória. Sua piedade, no entanto, se ressentia daquelas
características monásticas e ascéticas que outorgava um a qualidade m uito mais
fervorosa à fé de seus contem porâneos, em bora mais agressiva e torturada. Sinésio
nos transmite uma impressão de harm onia, de pureza e de integridade.
E m seus escritos, Sinésio é bastante aberto e natural, além de mostrar-se não
influenciado. Os seus escritos são, com o ele mesm o diz, os filhos que gerou em
parte com a filosofia, em parte com a poesia, ambas adoradas no mesmo templo,
e, em parte, com a retórica dos tem pos.‘Porém , pode-se ver que todos são filhos
do mesmo pai, que por vezes se dedicou ao esforço mais soberano e, p o r outras,
à mais prazerosa alegria’ (Ep. 1, 1 ad Nicand.). N o estilo filosófico, característico
de seus últimos anos, Sinésio parece com prazer-se em refletir sobre seus ideais e
sobre seu m odo de vida, mas não se revela exageradamente presunçoso com o
m uitos outros sofistas pagãos, n em com o u m h o m em cham ado G regório
Nazianzeno, entre os Pais da Igreja. Ele está preocupado em defender sua alegre
versatilidade contra os ataques de críticos im pertinentes e, nesse mister, recorre
ao seu exemplo padrão, D io Crisóstomo, de Prusa, cidadão do m undo filosófico
do prim eiro século d. C. Por que não poderia ele, tam bém , alternar-se livrem en­
te entre a teoria e a prática, entre os objetivos filosóficos e artísticos e, no entanto,
ser ao mesmo tem po um filósofo com pleto?
A cultura e a obra desse hom em m odesto são admiráveis. Ele dom ina toda a
literatura grega - filósofos, poetas, oradores - e sua ardente admiração pela tradi­
ção ‘clássica’ nos faz lembrar dos prim eiros humanistas. Seus escritos, em língua
ática, são impecáveis e cuidadosamente acabados; po r outro lado, seus hinos fo­
ram, apropriadamente, elaborados no dialeto dórico. Ele parece ter sido capaz de
realizar muitas coisas; podia fazer citações e imitações e, depois, escrever com
total isenção, de acordo com seu próprio estilo. Escreveu tratados e relatórios,
discursos, poemas, composições literárias fortuitas, cartas e diários. Porém, a im -
pressão que nos deixou não foi a de um escritor experim entado; ao contrario,
foi a de um aristocrata da mais elevada categoria e de u m mestre da arte de viver,
que tinha tudo sob seu controle. Ele não fugia das obrigações políticas de sua
posição social. ‘Os livros e a caça são a m inha vida — quando não estou em
alguma missão’ (De Insomn. 18). T inha grande am or por sua tranqüila casa de
campo em A nchem achos, assim com o Basílio havia amado sua propriedade
monástica no rio íris. Porém , os estudos não im pediam seus exercícios militares
e eqüestres, pelos quais, desde sua juventude, possuía uma ‘paixão violenta’ (Ep.
105 ad Fratrem). A filosofia de tal hom em estaria ligada a uma construção eclética;
entretanto, não poderia ser julgada com o m ero diletantismo, pois perm eou toda
sua vida e estava baseada sobre os alicerces de um a relevante educação.
Sinésio estudou em Alexandria, a grande m etrópole cultural. Ele teve a feli­
cidade de ser introduzido ao m undo intelectual, mas não som ente através de um
itinerário puram ente acadêmico: encontrou em Hipatia a tão admirada mestra
de filosofia neoplatônica, um a professora que o encantava e inspirava e que foi
um a amiga constante durante toda a sua vida. Ao mesmo tempo, penetrou em
um círculo de jovens com identidade de pensamentos e, mais tarde, encontrou
um a esposa pertencente a um a ilustre família cristã, m oradora da mesma cidade.
Lem bram o-nos da grande amizade intelectual que unia Basílio a G regório
Nazianzeno - não m enos desejosa de cultura e entusiasmada pelo platonismo -
que teve início em Atenas. E m certa ocasião, Sinésio visitou Atenas e desapon­
tou-se quando a com parou a Alexandria. E m sua opinião, som ente a fama de seu
nom e e as ‘aparências’ de sua vida passada ainda perm aneciam . A filosofia havia,
há muito, desaparecido e ‘m udado de endereço’. ‘E m nossos tempos, o solo do
Egito está desenvolvendo as sementes que H ipatia e outros plantaram ’ (Ep. 136
[135] ad Fratrem).
Infelizmente, as inform ações que chegaram até nós, a respeito dos ensina­
mentos dessa m ulher incom um , são som ente de fontes indiretas e incompletas.
Ela era possuidora de um a sabedoria austera e impressionava a todos com sua
personalidade, até mesmo ao populacho de Alexandria. Os fundam entos da cul­
tura antiga foram apresentados a Sinésio, que durante toda a sua vida manteve
u m interesse ativo, principalm ente pela astronomia. N o entanto, em últim a aná­
lise, tudo se dissolvia em um grande sistema neoplatônico, no qual as idéias de
Porfírio reviveram. Mas os ‘m istérios’ fundamentais dessa escola não chegaram
ao conhecim ento do grande público, pelo fato de serem decididam ente pagãos e
de não ousarem entrar em conflito com as leis de u m Estado cristão.
Os estudos sobre a natureza e suas forças misteriosas levaram a um conheci­
m ento mais profundo do m undo intelectual e espiritual que, p o r sua vez, e
através de vários estágios, conduziu ao conhecim ento de um Ser Ú nico Divino
refletido na inteireza do cosmos e que som ente podia ser devidam ente venerado

ff?
sob um a condição de im agem e de adoração que transcendia a totalidade do
m undo visível. O significado desta concepção para Sinésio som ente pode ser
mais nitidam ente avaliado através de um pequeno tratado que, ainda hoje, con­
tinua a despertar interesse: o tratado sobre sonhos que o autor alega ter escrito na
madrugada de uma única noite. Q u e maravilhoso im pério de beleza, sabedoria e
revelações os sonhos são capazes de oferecer a cada um dos seres humanos, sem
a necessidade de mágicas ou lugares específicos para adoração!
N ão fazia parte das intenções de Sinésio escrever u m livro popular sobre
sonhos e oráculos. N os sonhos, a alma se liberta de suas limitações materiais. N o
poder da imaginação ela agita suas asas e se aproxima da origem de sua verdadei­
ra existência. E sabido que os sonhos contêm o perigo das frustrações e da sedu­
ção, conform e as mais íntimas condições da alma sonhadora. Porém, u m espírito
santificado, purificado pela moderação e pela disciplina, rapidam ente deixa de
lado essa possibilidade dem oníaca e os experim entos mágicos das adivinhações.
Ele se levanta, leve e puro, sobre as asas da graça divina, em direção aos exemplos
do que é verdadeiramente eterno e real e com eça a tom ar conhecim ento da
suprema realidade: da essência sobrenatural, do maravilhoso e eterno significado
das coisas espirituais e de seus próprios direitos naturais em um m undo que
tem po algum poderá destruir. Q uando corretam ente interpretado, o universo
dos sonhos é testem unha da unidade intelectual do m undo, escondida sob sua
superfície caótica, e um a prova da im ortalidade da alma.
Sabemos, por outro lado, que isso não constitui alimento para u m público
m edianam ente educado. Nas cidades em que os ‘professores do povo’, encoraja­
dos por sua educação deficiente, discutiam sobre Deus, eles esperariam ganhar o
apoio de Sinésio; mas ele som ente se orientava pelos conceitos de Hipatia (Ep.
154 ad Philos. Magistr.). Ele se m antinha distante e exprim ia seu desprezo pela
‘filosofia cristã’ do proselitismo dos bispos, e da mesma form a agia em relação a
certos ‘sofistas’ pagãos. Seu desejo era m anter-se independente de todos os par­
tidos e fiel apenas à suprema verdade conhecida pelo hom em .
Logo após seu retorno ao lar, Sinésio precisou participar de um empreendi­
m ento de grande importância para seus compatriotas. A província, seriamente
deteriorada pelas repetidas incursões das tribos do deserto, cruelmente explorada
por funcionários incompetentes e inadequadamente defendida, estava precisando
de um a redução de impostos, o que somente poderia ser alcançado na própria
corte imperial. Sinésio tom ou para si essa missão, que o manteria em Constantinopla
por três anos, mais tarde chamados por ele de horríveis, anos perdidos que ele
preferiria ter passado em seu lar ‘com seus livros e com sua caça’. M esmo assim,
esses anos tiveram grande influência em seu desenvolvimento.
A nobreza, intelectualm ente rica e notável, havia agora se colocado à vonta­
de dentro da mais alta sociedade. Ele aprendeu a encontrar seu cam inho no

/ / /
labirinto da diplomacia da corte: desenvolveu contatos influentes e encontrou o
reconhecim ento da parte de seus admiradores. Foi-lhe perm itido fazer um dis­
curso ‘A respeito do Im pério’ perante o jovem Arcádio e sua corte.
A despeito de um a retórica de estilo convencional, sua fala consegue revelar
certas facetas de seu caráter. Sinésio não só conseguiu a coragem necessária para
protestar contra a corrupção e o abuso de poder, com o fez-se tam bém porta-voz
do m ovim ento antigovernista. D eclarou ser um a desgraça que a defesa das fron­
teiras e os postos administrativos mais im portantes do im pério estivessem sendo
transferidos aos bárbaros, às raposas vorazes, e não aos ‘cães de guarda’ prescritos
p o r Platão. Ainda em vida chegou a ver as mudanças realizadas em favor de u m
exclusivo grupo da corte n acional‘rom ana’.
Sinésio descreveu essas mudanças através de um a linguagem mistificada no
tratado intitulado Os Egípcios ou Sobre a Providência, no qual foram registrados a
queda e o retorno de seu patrono Aureliano, Prefeito da Cidade. O personagem
é apresentado com a máscara de Osíris, que foi perseguida p o r seu cruel irm ão
Tifao. Esse foi um trabalho que procurou ser ao mesmo tem po filosófico, mítico
e histórico, e era típico do gosto rebuscado da ‘sociedade’ daquele período. U m
outro pequeno tratado dessa época descreve os engenhosos instrum entos astro­
nôm icos com que Sinésio presenteou um a personalidade altamente posicionada.
Pode-se razoavelmente duvidar se Sinésio foi convenientemente aconselhado
a protestar contra as tropas alemãs, supostamente destruidoras e desnecessárias.
Porém , ele ainda perm anecia sendo u m genuíno nacionalista romântico, pois
associava suas palavras aos fatos. Q uando retornou ao lar, im ediatam ente tentou
organizar um a guarnição para proteger a fronteira. C olocou em ação um a forte
milícia, assumiu ele próprio o controle, inventou u m novo projétil e fortaleceu
as guarnições fronteiriças contra os ‘bárbaros’. C ooperou com os comandantes e
oficiais, dando-lhes freqüentes instruções e substituindo-os p o r outros nas ocor­
rências de insucessos óbvios.
Mais um a vez o platonismo estava fazendo exigências práticas e inspirando
atividades políticas. Assim que a paz foi conquistada, Sinésio retornou à sua vida
‘filosófica’. E ncontram o-lo em sua propriedade no campo, ao lado de seus am i­
gos e entre seus livros e escritos, ocupado com a educação de seu sobrinho.
Canta louvores ao lazer, aos estudos, à devoção espiritual, à tranqüilidade e à
glória de Deus. Os hinos que anteriorm ente m encionam os representam a mais
agradável e solene expressão de seu tem peram ento.
Os hinos de Sinésio eram trabalhos artísticos cuidadosamente elaborados,
compostos de acordo com todos os ritm os clássicos, repletos de alusões literárias
e de corajosas inovações lingüísticas. N a verdade, eram genuínos poemas lírico-
religiosos e ‘filosóficos’, de radiante majestade e baseados nos ensinamentos dos
filósofos neoplatônicos. A admiração pela beleza do cosmos, a devota e inexpri-

f/9
mível ascensão ao Ser Ú nico e a ânsia da alma pela pureza e pela perfeição foram
expressas com elevada emoção.

Ao R e i dos deuses elevamos nossa voz:


A Ele tecemos um a coroa, e trazemos
U m sacrifício de palavras, um sacrifício sem sangue.
(H ino 1 [3], 8-11).

O louvor espiritual havia tom ado o lugar das antigas convenções devocionais
religiosas, proibidas por lei e desnecessárias às orações do hom em filosófico.
Provavelmente, os nove hinos foram escritos no período anterior à ordenação de
Sinésio com o bispo e até mesm o antes que ele tivesse se tornado m em bro da
Igreja. N o entanto, os conceitos cristãos já aparecem ao lado de concepções
puram ente mitológicas e pagãs. U m dos hinos, de form a bastante óbvia, exalta a
descida de Cristo ao inferno e sua ascensão; em outro, o autor tem em m ente a
adoração dos magos. Pode-se perceber a progressiva aproximação do cristianis­
m o no constante fluxo dos sentimentos. O ‘P rim ogênito’ Divino, assim com o o
‘H erói’, é transformado no ‘Logos’, o ‘Filho’ e o ‘Filho da virgem ’: a trindade
neoplatônica do Ser Ú nico, do Espírito Criador, e da Alma Suprema, tornam -se
o poder trino da Trindade cristã. Porém , é questionável até que po n to poder-se-
ia avaliar os hinos dessa forma, com o um a form a de confissão pessoal e, então,
interpretá-los biograficamente. Sinésio sente a afinidade das imagens e dos con­
ceitos, não tem escrúpulos em utilizar os ‘m itos’ cristãos e rende homenagens
àquilo que julgava ser a sua verdade. Para ele, o paganismo e o cristianismo
encontram -se lado a lado, com o duas ‘denom inações’ interligadas, e a verdade
que partilham é m aior do que aquela que os divide.
O poeta, que vive com uma esposa cristã no mais feliz dos casamentos,
difere do ponto de vista cristão da vida em um grande núm ero de aspectos e não
se sente inclinado aju n tar-se à Igreja. Porém , isso não o im pedia de prestar seu
tributo à verdade, qualquer que fosse a form a sob a qual se apresentasse. Sua carta
a um amigo cristão, que se converteu à vida monástica, é bastante típica (Ep. 147
[146\ ad Johann.). Para Sinésio, os grosseiros ‘m antos-negros’ (monges) não lhe
eram m uito atraentes, em bora não sentisse qualquer desejo de lançar dúvidas
sobre a seriedade de sua vida contemplativa e tivesse, de todo o coração, parabe­
nizado seu amigo por ter conseguido, com u m único passo, o que ele há tanto
tem po vinha se esforçando para alcançar vestido com seu m anto branco de ‘filó­
sofo’. ‘Eu rendo hom enagens a tudo que acontece p o r am or ao divino’.
Essa é a posição do hom em que foi eleito bispo de Ptolemaida, no verão do
ano 410, e que se tornou o clérigo mais im portante de toda a Cirenaica. A fim
de com preender com o isso aconteceu devemos lembrar que, nessa época, o bispo

tâ o
era legal e tradicionalm ente a pessoa mais im portante e influente da vida pública
e que de form a alguma tinha suas atividades restritas exclusivamente à esfera
religiosa. Ele era o hom em que tinha em suas mãos as obrigações do bem -estar
social e, de certa forma, para o qual a administração da justiça convergia, o único
porta-voz que ninguém poderia proibir de falar, o defensor dos oprim idos con­
tra as ações arbitrárias do cobrador de impostos e da burocracia política. N ão é
p o r acaso que altos funcionários eram freqüentem ente transferidos para im por­
tantes postos do episcopado. Até onde u m eficiente prelado m etropolitano podia
alcançar e representar pode ser dem onstrado na vida de Basílio, ou de qualquer
outro grande bispo daqueles tempos. Era, portanto, bastante natural que os cris­
tãos da Cirenaica desejassem colocar com o responsável por sua administração
eclesiástica o lorde feudal mais influente e eficaz de seu país, que era, inclusive, o
hom em intelectualm ente mais notável e o mais rico.
Será que Sinésio desejava ser eleito ou será que foi simplesmente surpreen­
dido? Posteriorm ente, suas cartas mais íntimas enfatizavam, mais de um a vez,
que aceitar essa nom eação significou-lhe u m grande sacrifício, que ele preferia
ter m orrido dez mil m ortes a carregar o peso desse cargo e que apelava a ‘Deus
que honra a filosofia e a am izade’ com o testem unha de que estava dizendo a
verdade (Ep. 96 [95] ad Olymp.). Ele explicava que um a recusa obstinada teria
tornado sua vida impossível; se não aceitasse o cargo teria que renunciar à sua
amada terra natal. Tais afirmações são perfeitam ente dignas de crédito, porém
um hom em dessa qualidade não pode ser julgado exclusivamente pelos critérios
de seus próprios sentimentos.
A nteriorm ente, Sinésio foi considerado com o possível candidato a u m car­
go político e, nessa ocasião, ele havia se declarado disposto a aceitar - embora
não fosse exatam ente o tipo adequado para tal compromisso. Agora, pela segun­
da vez, ele teria que enfrentar o problema, sob um a form a mais séria e renovada,
e parece que considerou esse compromisso sob o mesmo aspecto que antes: sua
terra natal precisava dele e Sinésio, em bora pudesse, não iria se evadir dos servi­
ços que lhe eram requisitados. Porém , a decisão que devia tom ar não era mais
simplesmente por motivos exteriores. O bispo era, também, o líder moral e
religioso e o mestre de seu povo. T inha o dever de dem onstrar publicam ente as
exigências da verdadeira filosofia e foi justam ente essa responsabilidade que, de
form a evidente, o impressionou. Considerava que a indicação ao cargo havia
sido mais do que um m ero acidente: não eram os homens, mas o próprio Deus
que estava a exigir dele esse trabalho. E ‘com ele, dizem, todas as coisas são
possíveis, mesm o aquelas que de outra form a pareceriam impossíveis’ (Ep. í í ad
Presb.).
Por outro lado, entretanto, as dificuldades eram bastante óbvias. Sinésio nun­
ca foi batizado e não era cristão. Ele não se sentia capaz de desonrar suas antigas
convicções e não queria levantar falsas esperanças. Acima de tudo, seu futuro
superior, bispo Teófilo de Alexandria, que iria consagrá-lo, deveria ser previa­
m ente inform ado, com toda a franqueza, sobre o que iria fazer. Para resolver o
dilema, a maneira escolhida por Sinésio foi explicar m inuciosam ente suas opini­
ões em uma carta a seu irmão, onde claramente expunha as coisas que estaria ou
não preparado para fazer caso fosse nomeado. Essa carta, com o ele próprio energi­
camente assinalou, tinha a intenção de ser lida p o r todos e de esclarecer a situação
ao patriarca. Era, portanto, uma ‘carta aberta’ cuidadosamente elaborada, onde cada
palavra tinha um significado extremamente im portante (Ep. 105, ad Fratrem).
A carta começava da seguinte m aneira:‘Seria extrem am ente difícil com pre­
ender se eu não estivesse im ensamente grato aos cidadãos de Ptolemaida p o r me
terem considerado digno de um trabalho que eu mesmo não m e sinto capaz de
realizar’. A dignidade desse novo cargo espiritual requeria um a alma serena, to­
talmente imaculada e repleta de santidade religiosa, cujo m érito Sinésio estava
longe de se sentir possuidor. A declaração de sua própria indignidade ao cargo
era o procedim ento norm al nesses casos. Sinésio, porém , exalta essa declaração
convencional através de referências à sua vida pregressa totalm ente secular e tão
inadequada com o preparação à vida de um mestre público das leis de Deus.
N o entanto, por am or à causa, Sinésio sente-se com pletam ente capacitado a
realizar o sacrifício que lhe é imposto. As alegrias do esporte e da caça, e mesmo
seus estudos particulares teriam que ser abandonados. Mas ele não estava dispos­
to a abrir mão de seu casamento. Segundo sua opinião, seria igualmente errado
afastar-se inteiram ente de sua esposa ou, p o r outro lado, m anter com ela um
relacionam ento secreto.‘Pelo contrário, eu desejo muitos filhos bem educados’.
Sinésio não tinha mais qualquer hesitação em juntar-se à Igreja ou em aceitar o
batismo: essas seriam as condições que ele agora aceita com o inevitáveis para o
cargo episcopal. Porém , algumas restrições sobre assuntos do dogma, que ele
fazia questão de deixar bastante claras, seriam ainda mais im portantes. A ele
deveria ser perm itido conceber a fé através de term os filosóficos e, quando as
barreiras entre suas convicções e os atuais dogmas eclesiásticos fossem insuperá­
veis, ele teria a permissão de se m anter fiel aos seus anteriores pontos de vista. A
eternidade do m undo, a preexistência da alma e a crença em sua im ortalidade e
não na negação da ressurreição física eram alguns dos pontos de divergências,
sobre os quais recusava-se a condescender.
Sinésio estava preparado para não lhes dar m uita im portância. N ão se pode­
ria esperar que ele os fosse contradizer e, particularm ente, teria permissão para
continuar a ser um filósofo; porém , em público, e com o era de se esperar, deveria
‘falar m itologicam ente’. Para um ‘neoplatônico’, um a oferta dessa natureza não
seria considerada uma traição. Ele sabia que as verdades fundamentais a respeito
da Divindade não deveriam, em hipótese alguma, ser reveladas às multidões. N o

/£>£>
entanto, com o bispo, jamais deveria afirmar algo em que não acreditasse,‘pois
Deus e a sinceridade estão sempre unidos’.
O propósito da carta é óbvio: Sinésio desejava fazer com que fosse impossí­
vel qualquer futura reprovação ou qualquer m edida que pudesse ser tomada
contra ele por razões de heresia. Se essas condições fossem aceitas, ele estaria
disposto a ser ordenado. Infelizmente, não sabemos com o tiveram andam ento as
negociações decisivas com o patriarca. Sinésio havia conhecido Teófilo durante
sua estadia em Alexandria, sendo que o próprio bispo havia celebrado seu casa­
mento. Portanto, não poderia ter ficado m uito feliz com a carta e com a situação
p o r ela criada. D entre todos os hom ens, Teófilo não foi preparado para levar tais
propostas em consideração, em sua posição de baluarte da fé na luta contra os
hereges e os discípulos de Orígenes. Mas, evidentem ente, ele não gostaria de
recusar; não queria incorrer no desagrado, tanto do próprio e famoso candidato
com o da província da Cirenaica, localizada nos limites de sua própria província.
A única coisa que sabemos é que Sinésio não perm aneceu m enos de sete
meses em Alexandria, antes de seu retorno com o u m consagrado bispo cristão. E
provável que, por fim, tenha concordado em renunciar ao seu casamento, pois
não há nenhum a m enção de sua esposa no período subseqüente. N ão se acredita,
no entanto, que Sinésio tenha sacrificado suas convicções filosóficas. N enhum a
palavra foi suprimida da ‘carta aberta’ elaborada p o r ele, e esta perm aneceu em
plena vigência.
O quadro das atividades do bispo Sinésio que observamos é ainda mais
surpreendente. Em bora tenha se recusado a abandonar suas convicções, parece
ter sido, em todos os aspectos, um bispo leal, escrupuloso e com pletam ente orto ­
doxo que, aparentemente, em nada se diferenciava de seus colegas. N ós o vemos
viajando por sua diocese, solucionando conflitos, fundando mosteiros e condu­
zindo ordenações. Ele apresenta suas dúvidas ao patriarca, procura os conselhos
espirituais do santo m onge Isidoro de Pelúsia e com bate as heresias de m odo
rigoroso; e onde quer que surgissem heresias com o as dos arianos eunom ianos
radicais, tomava vigorosas medidas contrárias. Os fragmentos remanescentes de
seus sermões estão impregnados de irrepreensíveis correções doutrinárias. As
citações bíblicas que agora fazia com zelo e precisão, antes eram para ele com ­
pletam ente estranhas, comparadas aos seus conhecim entos de Platão e dos poe­
tas antigos. Tudo isso era exigido pelas incumbências do trabalho de liderar as
pessoas em direção à adoração a Deus. Sinésio não m udou sua fé: simplesmente
fez a transposição das atitudes que havia alimentado durante sua vida de filósofo
e de indivíduo com um , para os term os prescritos pela vida pública.
Seria desnecessário m encionar que Sinésio não deixou de participar das
lutas políticas de sua terra natal. Agora, mais do que nunca, colocou todos os
mecanismos em ação para prevenir que ocorresse um desastre militar na luta

/B i
contra as tribos do deserto. A situação havia piorado e, às vezes, parecia quase
desesperadora. Sinésio estava determ inado a resistir até o fim. Recusava-se a uma
retirada precipitada; porém , se toda a resistência tivesse sido em vão, estaria pron­
to a abraçar as colunas do altar e aguardar o golpe final contra a Igreja. M esmo
agora, foi visto supervisionando o alistamento dos recrutas e todas as medidas
que eram tomadas para a defesa do país, fazendo comoventes apelos ao público.
Entretanto, agora tinha armas mais eficazes à sua disposição para serem utilizadas
contra a deslealdade daqueles que foram responsáveis pelas fraquezas do país. A
prim eira excom unhão de que se tem notícia na história da Igreja foi imposta
por Sinésio ao duque A ndrônico, que havia sido responsável p o r inúm eros casos
de extorsão, chantagem e brutalidade. U m aviso foi enviado a todas as igrejas
espalhadas pelo m undo, inform ando que ele e seus cúmplices deveriam ser ex­
pulsos da casa de Deus, e que todos que com ele partilhassem seu teto ou sua
mesa estariam sujeitos a incorrer no mesm o terrível castigo. Sinésio obrigou o
orgulhoso crim inoso a arrepender-se e a obedecer. Q u em poderia acreditar que
o gentil ‘neoplatônico’ dos tempos antigos seria capaz de um a atitude tão rigo­
rosa e medieval?
N a verdade, Sinésio não havia realmente mudado. Ele sofria m uito p o r causa
das obrigações e dos fardos que precisava suportar. Queixava-se que tudo havia
m udado e que o prazer, a honra e a felicidade, que anteriorm ente haviam preen­
chido sua vida, haviam agora desaparecido. Tam bém foi perseguido p o r terríveis
infortúnios em seus negócios familiares. Seu irm ão precisou fugir do país para
evitar ser eleito Decurio, isto é, fiador público da coleta de impostos, um cargo
que haveria de arruiná-lo financeiramente. Sinésio viu seus três adorados filhos
m orrerem um após o outro e a tristeza partiu seu coração. C ontudo, em público,
ele orgulhosam ente reprim ia todo seu sofrim ento particular e só às vezes dava
lugar às queixas em breves notas a seus velhos amigos. Acreditava que não era
sem razão que o oráculo dos sonhos havia profetizado que a m orte haveria de
chegar no ano de sua ascensão ao cargo. Sentia-se com o se já tivesse m orrido.
U m a de suas últimas cartas, cheia de tristeza e fadiga, foi endereçada à Hipatia,
sua ‘amada’ e mestra. Logo depois, no ano 415, acusada de paganismo, ela foi
capturada pela plebe de Alexandria, arrastada até a igreja e reduzida a pedaços.
Parece que Sinésio não viveu o suficiente para tom ar conhecim ento de seu
horrível destino. E possível que tenha m orrido em 413.
Será que Sinésio conseguiu levar a term o o seu trabalho na com unidade
cristã com o havia almejado ‘não com o um declínio, porém , com o um a ascensão
aos píncaros da filosofia’? (Ep. 11 ad Presb.; 96 [95\ ad O lym p). N ão se conhece
qualquer inform ação que poderia sugerir que Sinésio tivesse se arrependido, ou
mesmo que tivesse tido problemas de consciência. C om o bispo, Sinésio sabia
que ocupava o lugar para o qual Deus e os governantes de sua terra natal o
haviam chamado e onde era seu dever perm anecer. Da mesma forma que Basí-
lio, Sinésio havia deliberadam ente sacrificado seu lazer e sua filosofia p o r causa
das exigências que lhe foram impostas, em prol do bem -estar com um . Nesse
sentido, ele estava sendo mais sincero que Gregório de Nissa, que nunca fora
capaz de superar o retórico individualista que existia dentro dele.
N o entanto, podem os nos lem brar de G regório de Nissa quando vemos
com o foi capaz de assegurar para si, no mais íntim o de sua personalidade, um
im pério particular onde gozava de uma liberdade m aior do que a revelada ao
m undo exterior. Q uantos bispos parecidos com ele poderiam ter ocupado os
tronos da Igreja grega? A cultura clássica e a filosofia platônica nunca m orreram
no Im pério Bizantino e, se Sinésio realmente acreditasse na possibilidade de
preservar suas antigas convicções, mesm o após ter-se convertido em cristão e
bispo, a ‘cristianização’ do platonismo e a ‘platonização’ do cristianismo se torna­
riam um a tradição com um nas épocas seguintes. M esm o até onde fosse impossí­
vel ignorar as diferenças, a Igreja geralmente deixava em paz os filósofos que se
com portavam com o Sinésio. As verdadeiras crises e conflitos sempre surgiram
nos lugares em que os teólogos tentaram levar sua profissão demasiadamente a
sério, esforçando-se para tornar as qualidades e características peculiares da fé
cristã vinculadas a si próprios e às suas igrejas.

/$ £
J o ã o C r isó st o m o

cristianismo grego não conheceu o conflito entre a Igreja e o


Estado, no sentido medieval. O corriam lutas pelo poder, mas
sempre relacionadas ao próprio poder dentro da Igreja. Até
mesmo os maiores bispos jamais exigiram ser ouvidos sobre questões políticas
ou ser-lhes perm itido tom ar decisões nesse terreno. Pelo contrário, era o im pe­
rador, com o o cristão encarregado do supremo poder na terra, que comandava e
supervisionava os assuntos da Igreja. Eram colocados limites para suas ações so­
m ente nas esferas espirituais mais profundas e nos assuntos sacerdotais. E isto não
evitava que ele interviesse e tomasse partido em disputas e usasse a sua autorida­
de para decidir questões. O verdadeiro problem a no O rien te era, portanto, ter o
im perador a seu lado, com seu auxílio, para desarmar inimigos eclesiásticos. O nde
quer que isto falhasse, tudo o mais tornava-se u m protesto de fé, o direto apelo
aos mandamentos e à verdade de Deus, e o caminho ao martírio. A Igreja grega
jamais careceu de homens preparados para trilhar este caminho, se fosse necessário.
João Crisóstom o não foi m ártir da fé ortodoxa; questões dogmáticas rara­
m ente fizeram parte de sua vida. Mas era o protótipo de um m em bro da Igreja
que perm anece leal à sua missão espiritual, até o final, que consideraria traição
qualquer consideração p o r circunstâncias políticas e pelo poder deste mundo. Se
houvesse sido possível para ele perm anecer com o era em sua essência - o incan­
sável pregador e intérprete da Palavra de Deus, o ensinador e verdadeiro conse­
lheiro de sua congregação, o am igo e ajudador do pobre, do oprim ido e do
necessitado -, provavelmente a sua vida teria term inado de m odo pacífico. Po­
rém, os seus maravilhosos dons, o am or e admiração que possuía e que o seu
trabalho sempre trazia à m ente, o elevavam acima de sua própria vontade, mes­
m o às mais altas posições, às de im portância decisiva no m undo ou às eclesiásti-
cas. N este terreno, o hom em que era capaz de dom inar a si mesmo, não somente
pelos dons espirituais que possuía, ou p o r ser um pregador e pastor, carecia de
habilidade política. Ele era, contudo, bastante consciente e enérgico para condu­
zir de m odo sério as responsabilidades da liderança e governo que lhe eram
impostas por seu ofício. Tornou-se, então, envolvido em problemas e conflitos
que deveria enfrentar.
O m undo de onde C risóstom o veio era diferente daquele dos patriarcas que
discutimos nos capítulos anteriores. Nasceu em A ntioquia, a m etrópole síria em
Orontes. N ão era, portanto, um cavalheiro e ju iz por descendência, mas o filho
de um a grande cidade e de sua vida peculiar. O am biente em que foi criado era
de classe alta e abastada. R ecebeu toda a sua educação da parte de mulheres,
com o acontecia com muitos devotos ascéticos, um a vez que seu pai, um oficial
de alta patente, m orreu jovem . Se levarmos em consideração seu depoim ento,
concluiremos que teve uma vivência no cam po durante certo período,‘engana­
do pela cobiça do m undo’ (De Sacerd. 1,3). Mas nos exemplos que ele dá - pelo
gosto de comidas finas, por gostar de teatro, a participação nas atividades públicas
da corte - observamos de form a definitiva que não devemos considerar com o
m uito sérias as acusações que faz sobre si mesmo. D edicou u m grande cuidado
aos jovens, em m eio ao que cham ou de “casa ardente” , referindo-se à vida da
cidade grande.
C o m 18 anos de idade João foi batizado, o que foi a seus olhos o selo de uma
vida espiritual, e somente três anos mais tarde, após ter concluído sua educação
geral em retórica, foi ordenado com o proclamador. Provavelmente este foi o
princípio de um a carreira religiosa, porém ainda era som ente um tem po de
preparação em sua vida. Duas forças deram form a a seu desenvolvimento: o ideal
monástico, que tinha raízes profundas na Síria, e a cultura que adquiriu na exce­
lente escola bíblica de A ntioquia. C risóstom o era considerado na região de
A ntioquia com o um ascético e devotado a exercícios espirituais e trabalhos teo­
lógicos sérios.
O monasticismo já estava bastante divulgado neste período na região de
Antioquia. Os monges eram considerados santos pelo povo, que se dirigia às suas
cavernas ou comunidades, e possuía distintos teólogos em seu grupo. Freqüente­
m ente forneciam à igreja os seus líderes e bispos. C risóstom o dedicou-se de
m odo entusiasmado aos ideais monásticos. A conquista das paixões terrenas bá­
sicas, a disciplina moral de um am or desprendido de si mesmo e concentrado em
Deus pareciam a ele ser o verdadeiro cum prim ento do m andam ento cristão. Ele
praticava os exercícios ascéticos do jejum , de suportar o frio, de orar, de m odo
tão obstinado a ponto de causar ferim entos perm anentes em sua saúde, e prova­
velmente o tenha feito p o r considerar a princípio que passaria toda sua vida
com o um monge.

/&<?
Por outro lado, tinha um caráter m uito ativo e uma consciência missionária
m uito forte para poder encontrar satisfação duradoura na sua busca da perfeição
ascética. A paz interior que o m onge aspira, no m elhor de sua capacidade, não
pode existir sem um egocentrism o secreto (De Compunct. 1,6) e jamais pode ser
alcançado som ente por meio dos exercícios físicos. U m a outra e m aior motiva­
ção é necessária; o am or p o r C risto que autom aticam ente nos leva aos outros
cristãos. Além do mais, trata-se de um trem endo erro acreditar que som ente o
m onge tem o compromisso de buscar a perfeição. Cristo cham ou todos os h o ­
mens e não fez distinção entre a vida secular e a vida ascética. O amor, que é o
supremo bem , é com um a ambos. Paulo ‘requereu o mesmo am or das pessoas do
m undo, assim com o Cristo o requereu de seus discípulos’ (Adv. Oppugn. 3,14).
O m onge apenas considera mais facil apegar-se à meta, porque renuncia ao
casamento e a milhares de tentações exteriores. D evem ainda ser admirados to ­
dos aqueles que estão no m undo com o sacerdotes, trazendo salvação e santificação
a outras pessoas. Mais tarde, com o um jovem clérigo, C risóstom o escreveu um
tratado intitulado ‘Sobre o Sacerdócio’, no qual desenvolveu estas idéias ampla­
m ente, tom ando Gregório N azianzeno com o ponto de partida. Aqueles que
têm a permissão de oferecer o mais santo sacrifício no altar, que ajudam os
hom ens a desenvolver-se na vida espiritual, sabem que som ente Deus no céu é
capaz de confirm ar o julgam ento deles, e ascender a verdadeiras esferas sobre­
humanas.
N ão é surpreendente que o m onge sinta-se em perigo em seu ofício, mas é
a m aior das duas vocações religiosas. ‘Q ualquer um que compara os torm entos
da vida monástica com o trabalho espiritual conduzido de m odo apropriado,
encontrará um a diferença tão grande quanto de um a pessoa com um e o im pera­
dor’ (De Sacerd. VI, 5). Está claro que a trajetória ousada do m onastério ao bispa­
do, que Basílio arriscou-se a trilhar, com o coração pesaroso, começava a ser a
construção de um sólido cam inho aberto para todos.
M esmo antes do início de sua vida no monastério, Crisóstom o iniciou seus
estudos teológicos. O patriarcado de A ntioquia foi obrigado a retroceder quanto
aos distúrbios causados pela controvérsia ariana, e abdicar em favor de Alexandria
e tam bém em favor da jovem capital de Constantinopla. Mas o prim eiro lugar
onde os discípulos foram chamados cristãos (At 11.26) - distinção que Crisóstomo
ressalta repetidam ente - ainda reivindica orgulhosam ente ser o centro das ativi­
dades teológicas e da educação. A tradição de sérios estudiosos desenvolvida em
Pérgamo foi retom ada na escola de Antioquia. D urante este período, havia o
grande D iodoro de Tarso, que havia resistido de m odo glorioso à opressão dos
“arianos” , sob o com ando do imperadorValério, e era um estudioso de dialética
e filologista treinado na escola aristotélica. Era tam bém um teólogo que susten­
tava razões precisas para a doutrina das duas naturezas de Cristo, e encorajava
seus alunos a discutir todos os problemas teológicos imagináveis. Mas a principal
influência que ele exerceu sobre Crisóstom o foi com o mestre bíblico.
Foi com D iodoro que C risóstom o aprendeu a valorizar e a explorar o Novo
Testamento com o a fonte de todo o verdadeiro conhecim ento e estabeleceu os
alicerces de seu entendim ento e conhecim ento bíblico. E verdade que ele mes­
mo não se tornou um erudito. Crisóstomo jamais se graduou em qualquer idioma
além do grego, sua língua nativa, sendo obrigado a confiar em especialistas para
conhecer o texto original do A ntigo Testamento e suas versões siríacas. Porém
jamais deixou de possuir u m cuidadoso treinam ento filológico. Levou esta tarefa
a sério e acreditou que todas as considerações históricas e psicológicas devem
obrigatoriam ente servir para estabelecer o significado original do próprio texto,
não devendo ser utilizadas simplesmente para encontrar de m odo arbitrário in­
terpretações teológicas e especulações alegóricas de um a ou de outra passagem.
Crisóstom o tam bém estudou os caracteres pessoais e as diferenças entre os vári­
os autores da Bíblia, e, em muitos problemas exegéticos, o seu sábio juízo ainda
tem peso nos dias atuais.
Por fim, contudo, toda exegese deve se subm eter ã pregação do evangelho,
na qual, por si só, através do ensino, do despertam ento e da edificação dos ouvin­
tes, é capaz de atingir o seu com pleto efeito e desenvolvimento. N o sermão
ouvim os a voz de Cristo e a chamada de seus apóstolos. Este fato deveria nos
revelar o am or perdoador que Deus m ostrou enviando-nos o seu Filho e, por
meio do sacrifício feito na cruz, despertou nosso am or p o r Ele, levando-nos a
uma nova vida de discipulado e boas obras.
Crisóstomo não contribuiu para o pensamento teológico a respeito de Cristo,
nem dem onstrou m uito interesse nas disputas acadêmicas daqueles dias sobre
este assunto. O que lhe interessava era o despertam ento dos corações humanos,
que a sua energia moral fosse estimulada, desenvolvendo nestes o am or verda­
deiro e uma vida espiritual não fingida. N ão p o r acaso M ateus foi o seu evange­
lho favorito, assim com o nutria um grande apreço pelos escritos de Paulo, sobre
quem escreveu um a completa exposição, direcionada, acima de tudo, aos aspec­
tos devocionais e morais das epístolas. O âmago da doutrina paulina da justifica­
ção fazia sentido para Crisóstomo. Pelágio referiu-se a ele (Crisóstomo) com o
um a autoridade neste assunto.
Provavelmente graças ao antigo bispo M elétio, que deu im portância à edu­
cação do clero, C risóstom o retornou de sua caverna nas montanhas à cidade no
inverno do ano 380 ou 381. M elétio ordenou-o diácono de sua catedral antes de
sua última jornada a Constantinopla para participar do Concílio. Mais tarde,
C risóstom o foi ordenado sacerdote. Diz-se que devido ao seu excessivo em pe­
nho ascético esteve prestes a ter um colapso físico, de m odo que não poderia
mais viver sozinho. Encontram o-lo daqui p o r diante engajado com o organizador

/io
de obras de caridade, com o um pregador e pastor com pletam ente devotado ao
serviço prático da igreja.Também continuou a dedicar-se às atividades literárias,
desenvolvidas nas horas de folga de seu trabalho diário, que eram sóbrias, realistas
e naturais. Escreveu um a obra de consolação para alguém que era m entalm ente
enferm o, outra para um a jovem viúva, u m tratado sobre educação dos filhos,
um a advertência contra o segundo m atrim ônio. Tam bém escreveu u m tratado
especial contra o abuso monástico que era a coabitação com virgens consagra­
das, conhecida com o casamento espiritual.
E m um a série de aulas apologéticas forneceu as evidências, tanto aos judeus
com o aos pagãos, de que C risto é o Filho de Deus. A pedidos especiais, C risós­
tom o tam bém pregou sobre temas relacionados a problemas de controvérsias
teológicas; porém , a grande maioria de seus sermões era simplesmente interpre­
tações de textos bíblicos, não dedicados a questões particulares, mas homilias nas
quais o texto é parafraseado e aplicado. Deste modo, Crisóstom o freqüentem en­
te discutia e pregava através de todos os livros da Bíblia Sagrada. Os seus sermões
eram então publicados ou incorporados aos seus com entários. Mas mesmo em
seu trabalho puram ente literário, preferia a forma da homilia.
C om o pregador era incansável, tendo influenciado o seu próprio m undo
bem com o a sua posteridade, acima de tudo, por m eio de seus sermões. “N ão
posso sequer deixar que passe um dia sem alimentá-los com os tesouros que
estão contidos nas Escrituras” (Hom. In Genes. 28.1-2). Só recebeu o cognom e
de Crisóstom o (que significa boca de ouro) no século VI, porém a admiração
p o r sua pregação já era amplamente difundida em seus próprios dias. N ão de­
m orou m uito para que se tornasse o orador mais popular em Antioquia. Vários
taquígrafos costumavam redigir suas palavras, havendo longos aplausos onde quer
que ele falasse, mesm o nas ocasiões em que estava pregando autênticos sermões,
e não ministrando simples aulas. A simpatia, a jovialidade e a naturalidade de seu
discurso eram im ediatam ente percebidos. Q uanto à sua aparência, era sóbrio e
simples. Sua voz não era forte, pois sempre teve uma saúde precária. Porém , a
pregação era um a necessidade vital para ele. Assim que a congregação estivesse
faminta para ouvir, ele estaria fam into para pregar. ‘Pregar torna-m e saudável;
assim que abro m inha boca, todo o cansaço vai em bora’ (Hom. PostTerrae Motum,
M igne 50, 713 f.).
Crisóstom o pregava com m uita desenvoltura, o que deixava claro tratar-se
de um orador treinado. Porém evitava as usuais ostentações retóricas, expressan­
do-se de form a m uito simples, com o era apropriado. O seu desejo era que todos
fossem capazes de entendê-lo. Os seus sermões eram geralmente bem prepara­
dos, porém era capaz de tam bém desviar-se e passar a abordar sugestões espon­
tâneas de sua audiência sem a m enor dificuldade. A marca do verdadeiro pastor
é não ser presunçoso no seu relacionam ento com a sua congregação, e esta era

f£ f
uma atitude original da natureza de Crisóstom o. Q uando seus sermões eram
publicados, as digressões pessoais eram geralmente apagadas.
Problemas práticos e morais eram predom inantes em sua interpretação e
aplicação dos textos bíblicos. Os seus sermões continham um a parte significativa
de exortação e correção moral. Freqüentemente reclamava da falta de aperfeiçoa­
m ento moral em sua congregação, porém tam bém sabia quando encorajá-la e
elogiá-la. O objetivo supremo era m antê-los ativos no exercício da bondade.
C ontudo, o ‘bem ’ consiste não somente em exercícios devocionais e treinam en­
to ascético mas, acima de tudo, nas formas amorosas de tratar as pessoas e no
serviço social dentro da Igreja.
Q uanto sofrim ento existe em uma grande cidade; quantos aleijados e pe­
dintes aglomeram-se diante de cada igreja; quantos enfermos cujo sofrimento
clama ao céu! Crisóstom o apresenta profundas descrições dos sofrimentos dos
enfermos que jazem com suas úlceras ou deformidades, que não têm sequer
uma roupa para cobrir-se, que congelam e m orrem de fome. N em tudo deveria
ser deixado para a Igreja e para aqueles que nela trabalham socorrendo a outros.
As próprias pessoas deveriam ir aos banheiros, às casas de caridade e aos hospitais
mantidos pela Igreja, e prestarem auxílio voluntário.
A diferença apavorante que existe entre ricos e pobres, tendo de u m lado a
luxúria que não faz sentido e, do outro, a extrema pobreza dentro da mesma
sociedade que se autodenom ina cristã, é o próxim o tópico que Crisóstom o
abordará com incansável sinceridade. O hom em rico e o pobre Lázaro, os sofri­
mentos de Jó, as recomendações do Sermão do M onte, o padrão da igreja apos­
tólica, são trechos bíblicos aos quais ele retorna constantemente.
U m a de suas freqüentes reclamações era sobre o desejo insaciável da con­
gregação pelo prazer. Ele reclama que a antiga mania p o r circos e teatro,‘a escola
universal da dissolução’, este ‘campo de treinam ento da im pureza’ e ‘trono de
pestilência’ (Hom. 6, 1 de Poen.), ainda está desenfreada. N os festivais populares
em partes da cidade de Dáfene, infelizmente têm havido poucas mudanças desde
os dias malignos do paganismo. Em tais dias, até mesmo as igrejas ficam vazias e
o pregador pode perceber sua com pleta falta de poder. E m tempos difíceis ou
quando ameaças de desastres ocorrem , a atmosfera m uda m uito rapidam ente e
todos vão para a igreja em grandes grupos, em busca de auxílio espiritual.
Isso aconteceu na primavera do ano 387, quando Crisóstom o pregou a fa­
mosa série de sermões intitulada ‘Sobre as Estátuas’. D evido a um aum ento na
taxação sofrida pelo povo, em u m súbito tum ulto, as estátuas do im perador fo­
ram desfiguradas e, por esta razão, esperava-se uma terrível punição. Toda a cida­
de, na qual execuções individuais já haviam ocorrido, estava paralisada pelo medo
e parecia um a ‘colméia abandonada’ (Hom. de Stat. 2,1). Crisóstom o visitou os
prisioneiros, dirigiu-se pessoalmente ao com andante, e procurou confortar o

/S $
povo e prepará-lo para qualquer eventualidade. Enfatizou que a responsabilidade
imediata pelo desastre não repousava sobre os cidadãos antigos, já estabelecidos,
mas sobre os da ralé forasteira. Porém os diversos pecados do povo, acima de
tudo os seus juram entos e blasfêmias, tornou-os participantes da culpa. Agora
estava claro o que todo o bem -estar e glória do m undo realmente m ereciam no
tem po da ira. D everiam depositar em Deus toda a sua confiança, e não dar um
mau exemplo aos pagãos p o r covardia e melancolia. O bispo de A ntioquia viajou
então a Constantinopla, e, após semanas de espera, a cidade obteve o perdão
imperial, principalm ente devido à intercessão dos monges e do clero.
N o ano 397 ocorreu u m im portante evento: a m orte do bispo N ectário de
Constantinopla. C om o leigo e pretor, ele foi prom ovido a esta posição por
Teodósio, no Concílio de 381, tendo em vista que o bispo eleito, G regório
Nazianzeno, não foi capaz de controlar a tempestade dos conflitos religiosos
entre os grupos eclesiásticos. A indigna com petição pela sucessão foi agora re­
novada. Candidatos e partes interessadas fizeram com que as suas vozes fossem
ouvidas em todas as partes. E m particular, o patriarca de Alexandria,Teófilo, deu
início a seus esforços, com o de costume, para garantir que este cargo influente
fosse ocupado por alguém que lhe fosse submisso e estivesse de acordo com as
suas opiniões.
O im perador Arcádio era com pletam ente diferente de seu pai Teodósio, e
estava em um a situação em que não podia contar com nenhum auxílio, mas o
seu favorito e poderoso auxiliar Eutrópio decidiu tom ar o assunto em suas pró­
prias mãos. Sem revelar nada aos vários representantes da Igreja, procurou evitar
a ameaçadora confusão acontecida no ano 381, promovendo um hom em que
estava fora do tum ulto da política eclesiástica, com a exceção de que desta vez não
se tratava de um leigo mas de um teólogo de grande envergadura, capaz de satisfa­
zer as demandas do decoro eclesiástico e representar a Igreja na corte e na capital.
Nesta ocasião, Crisóstom o já era famoso com o pregador e escritor, m uito
além dos limites de sua cidade natal. Porém tom ou-se o cuidado de não infringir
sequer o m enor ponto do compromisso, até mesmo pelo próprio Crisóstomo,
para evitar qualquer oposição em A ntioquia. C erto dia ele simplesmente rece­
beu uma ordem de um alto oficial do im pério, que residia na cidade, instruindo-
o a com parecer a uma pequena capela de mártires fora dos portões, para uma
conversa. U m a carruagem estava à sua espera, na qual foi obrigado a embarcar,
sendo levado às pressas a Constantinopla. Ali, os bispos sobre quem não havia
quaisquer suspeitas já estavam reunidos para a eleição, e o próprio Teófilo foi
forçado, após vãos protestos, a ordenar Crisóstomo. D o dia para a noite, o sacer­
dote de Antioquia, pequeno e desprovido de poder, tornou-se o bispo-chefe do
O riente, o governante espiritual de Constantinopla, o pregador cuja responsabi­
lidade era pregar na presença do im perador e de sua corte suntuosa.
N ão é necessário m encionar que Crisóstom o jamais havia desejado tal su­
cessão de eventos, e que não possuía o m ínim o preparo para tal. Porém, uma vez
designado, não hesitou em aderir às novas tarefas que o confrontaram com notá­
vel vigor. Ele já considerava a pregação e o trabalho pastoral com o suas tarefas
mais im portantes, e a este respeito cum priu todas as expectativas que foram
colocadas sobre ele. Os cultos que ele coordenava eram os mais freqüentados em
Constantinopla, e logo u m grande círculo de seguidores pessoais e admiradores
o cercou, especialmente dentre as mulheres devotas que lhe davam suporte em
seus esforços espirituais e colocavam grandes somas de recursos à sua disposição.
Crisóstom o procurou reorganizar e expandir o trabalho social de socorro
aos necessitados e as atividades de enferm agem. C o m esta finalidade em vista,
restringiu a construção de novos templos e subm eteu a administração e o siste­
ma contábil a um aprofundado escrutínio. N ão estava inteiram ente satisfeito
com as condições existentes em m eio ao clero. E m Constantinopla, o sistema de
‘casamentos espirituais’ havia se espalhado p o r todo o clero paroquial, e vários
sacerdotes, indignos desta responsabilidade, tiveram que ser privados de seus ofí­
cios. Vadios monásticos foram banidos dos monastérios e levados a uma estrita
vida religiosa. Crisóstom o tam bém levou a cabo a luta contra as heresias; recu­
sou-se a tolerar por mais tem po os erros ocorridos nos conventos. Por sua mansi­
dão pessoal e prontidão para discutir os assuntos, de m odo algum poderia ser
considerado um ‘liberal’em relação a isto, e cria nos direitos de uma Igreja Univer­
sal ligada ao Estado.‘Os judeus e os pagãos devem aprender que os cristãos são os
salvadores, os protetores, os diretores e ensinadores da cidade’ (.Hom. de Stat. 1,12).
M esmo as necessidades políticas especiais de sua diocese encontraram nele
um hom em de visão nítida, que vigorosam ente dava passos em direção a novos
caminhos. O Concílio que aconteceu no ano 381 fez com que o bispo de Nova
R om a se tornasse o segundo candidato ao bispado da antiga R o m a no Ocidente.
Mas o seu relacionam ento com a sua vizinhança m etropolitana ainda precisava
ser resolvido. D e fato, tudo o que ele realmente possuía era uma cidade isolada
sem um interior de im portância expressiva. Sob o com ando de Crisóstomo, a
importância do patriarcado de Constantinopla cresceu. O que ele tinha em m ente
era a posição ocupada por A ntioquia na Síria. D entre outras coisas, ele depôs o
indigno bispo de Efeso, interveio em outra diocese seriam ente negligente na
Ásia M enor e estabeleceu a ordem. Os cinco anos de atividades ininterruptas
que lhe foram conferidos com o bispo form aram o alicerce para o posterior
desenvolvimento de Constantinopla.
Era inevitável que surgisse oposição ao com pleto espírito de reform a que
ele introduziu, bem com o aos procedim entos que adotou. Até então, o povo
estava acostumado a esperar que o bispo da capital vivesse de m odo esplêndido,
e se apresentasse com o o representante da Igreja em ocasiões públicas. Esperava-
se que desempenhasse certo papel na vida social da corte, e que mantivesse as
portas abertas para receber todos os visitantes eclesiásticos à capital. Crisóstom o
reduziu esta exposição ao nível m ínim o. Fazia suas refeições a sós, introduziu o
conceito de econom izar ao máximo, e jamais se cansou de reafirmar que consi­
derava o cuidado para com os pobres e a atividade nas esferas espiritual e ascética,
com o sendo as tarefas essenciais de seu ofício. R ejeitou o anterior padrão de
viver de m odo dispendioso às custas da Igreja. Logo, muitos bispos passaram a ser
seus inimigos, pois estavam freqüentem ente perdendo tem po pensando nos as­
suntos da capital e da corte, ao invés de cuidarem das igrejas pelas quais eram
responsáveis nas cidades onde viviam.
Suas constantes críticas às diversões públicas e à luxúria das classes mais altas
incom odaram muitas pessoas influentes na cidade.Vieram de todos os lados com
a finalidade de desaprovar este m onge colérico. N ão faltavam ocasiões para a
inimizade e a intriga em Constantinopla. Crisóstom o tom ou o nobre, porém
perigoso, rum o de ignorar estes fatos e manter-se firm e na direção que havia
determ inado para si. Nestas circunstâncias, o suporte que possuía e que seria
capaz de m anter na corte era da mais alta importância.
Para começar, Crisóstom o foi recebido com grande amabilidade e boa von­
tade. Arcádio, que era considerado u m excepcional devoto, recebeu o novo pa­
triarca, cuja reputação de santidade lhe havia precedido, com grande entusiasmo
e alegria. Porém tinha pouca influência sobre as decisões do governo. Era m uito
mais im portante para o novo bispo que estabelecesse boas relações com a vivaz
e em preendedora im peratriz Eudóxia. Ela tam bém recepcionou o novo patriar­
ca com grandes expectativas. E m um a das primeiras cerimônias organizadas por
ele, a solene entrada das relíquias de Focas, bispo de Sinope, no Ponto, ela con­
descendeu em carregar os restos do m ártir pela cidade em um a procissão que
aconteceu certa noite. N o sermão proferido logo após a cerim ônia, o bispo não
fracassou ao dar a devida atenção a esta admirável expressão de suprema devoção
por parte da im peratriz.
Q uando a necessidade surgiu, Crisóstom o controlou o estilo extravagante
da retórica empregada na corte, e não se poupou em louvores pela piedosa
devoção que a casa im perial tinha para com Cristo. Evidentem ente, nos prim ei­
ros anos sua posição na corte não era de form a alguma ruim . Q uando Eutrópio
foi derrotado no ano 399, por m eio da intercessão de Crisóstomo, ele foi poupa­
do. E utrópio fugiu para o altar na catedral. U m a vez mais, Crisóstom o aprovei­
tou a oportunidade para mostrar à congregação a fragilidade de toda a grandeza
terrena, e sem misericórdia reprovou o miserável hom em , expondo-lhe uma
lista de pecados. Porém foi capaz de salvar a vida dele.
Os sentimentos contra Crisóstom o tiveram início entre algumas moças jo ­
viais, e parecem ter sido a causa do relacionam ento dele com Eudóxia se tornar

/ i s
nebuloso. Pessoas hostis e causadoras de intrigas não pouparam falsidades para
interpretar mal e falsificar certas inocentes observações que este fez em seus
sermões. E m particular, foi dito que prejudicou-se p o r tom ar partido no caso de
um a viúva que foi de m odo injusto privada de suas propriedades p o r Eudóxia, e,
nesta conexão, é possível que ele a tenha realmente com parado à rainha Jezabel,
do Antigo Testamento (1 R s 21). Tudo isto conduziu-o ao desastre; contudo,
som ente quando os seus inimigos hierárquicos foram capazes de ju n tar forças
com a corte é que tornaram -se capazes de dom iná-lo.
A inveja do patriarcado de Alexandria contra C onstantinopla já existia há
m uito tempo, e estava sendo constantem ente alimentada pelas atividades de
Crisóstomo. A hostilidade veio à tona quando um grande grupo de monges em
Constantinopla agiu contra Teófilo. Este grupo era liderado p o r quatro dos cha­
mados ‘Altos Irm ãos’, e tinha o objetivo de protestar contra o rigor das decisões
do patriarca e as injustiças que lhes foram feitas. Teófilo os havia classificado
com o fora de com unhão e hereges malignos p o r causa do treinam ento origenista
que possuíam, e finalmente baniu-os do Egito. Perseguidos p o r seus com unica­
dos e cartas vingativas que circulavam pelas regiões, pediram o auxílio de
Crisóstomo. Este não era de m odo algum cego em relação aos perigos desta
situação, e procurou acalmar e refrear os hom ens iracundos, que ele hospedou
fora da hospedaria oficial da igreja. Escreveu um a polida e correta carta a este
colega alexandrino, e fez tudo aquilo que estava ao seu alcance para evitar que
este conflito tomasse grandes proporções.
Mas Teófilo recusou-se a negociar, e os monges fizeram contato com o
governo, que aceitou a sua citação e convocou um concílio com a finalidade de
decidir a questão, no qual Teófilo deveria apresentar-se com o réu e Crisóstom o
deveria tom ar parte com o julgador. O seu amargurado e agressivo colega foi
então, não intencionalm ente, forçado a com portar-se de m odo extremo, e a
situação tom ou o rum o de um a catástrofe final.
Teófilo não considerou que devesse se expor diretamente, mas procurou
dom inar a situação, e não perdeu tem po lidando com esta questão.
Pesquisou a vida pregressa de seu rival em A ntioquia, porém esta tentativa
fracassou por não revelar nada que o desabonasse. Acudiu a um estrito inimigo
dos heréticos, o bispo Epifânio de Salamis, para que fosse a Constantinopla e
difamasse Crisóstomo. Fez contato com os bispos que haviam sido reprimidos
por Crisóstom o e não poupou dinheiro para encorajar a facção que era contrá­
ria a Crisóstom o na corte. A disseminação de trechos de sermões em parte falsi­
ficados, contendo ataques pessoais à im peratriz quanto à luxúria de sua vida na
corte, provou ser uma estratégia particularm ente efetiva.
Q uando Teófilo finalmente chegou a Constantinopla, trouxe consigo, sob
expressas instruções, um grupo de bispos egípcios e realizou um a pomposa en­
trada na cidade, escoltado p o r esta com panhia. Estabeleceu sua residência em um
palácio que pertencia a Eudóxia. R ejeito u u m convite que lhe fora feito por
Crisóstomo. Fez tudo o que pôde para m udar o seu papel de acusado para acu­
sador. A despeito dos maus presságios, Crisóstom o não tom ou nenhum a atitude
naquele m om ento. Esta decisão era bastante correta; porém , sem dúvida, a mais
ineficaz que poderia ter escolhido. N a realidade, quando Arcádio, que evidente­
m ente ainda lhe dava apoio, finalmente deu ordens para que a audiência tivesse
início, Crisóstom o declarou-se incom petente para presidir, por exagerado res­
peito às leis, e provavelmente tam bém na esperança de ser propício e acalmar
Teófilo. Mas com essa atitude som ente to rn o u a situação favorável para que
Teófilo executasse um a ação arbitrária no m om ento seguinte.
Em setembro do ano 403,Teófilo convocou um a assembléia com a partici­
pação daqueles que o apoiavam, fora dos portões da cidade, em um mosteiro
próxim o a um carvalho, e intim ou C risóstom o a com parecer perante eles. N ão
é necessário dizer que Crisóstom o recusou-se a comparecer, mas não somente
protestou e deixou o assunto daquela maneira. C o m excessiva humildade e cons­
ciência declarou-se pronto a comparecer, contanto que os seus inimigos declara­
dos fossem retirados de entre aquele grupo que se propôs a julgá-lo.
U m a outra delegação requisitando o com parecim ento de C risóstom o à ‘as­
sembléia do carvalho’ foi am plam ente proclamada, e os procedim entos contra
ele foram abertos em sua ausência. Foi tom ada um a decisão no m enor tem po
possível. N ão precisamos m encionar todos os quarenta e seis pontos da denún­
cia. As reclamações acerca da extensão de sua esfera de influência foram especi­
almente significativas. Mas falando em term os gerais, era tudo um a mistura de
publicações difamatórias, de m al-entendidos com etidos de form a inocente ou
deliberada, e acusações políticas, cujo propósito era claro desde o início: provar
que Crisóstom o era culpado de suborno e corrupção. Diziam: ‘Ele tem o seu
sustento de form a independente e vive com o ciclope; com eteu atos de violência
e insultou a Majestade Im perial’.
Este julgam ento era, contudo, confirm ado pelo frágil imperador. O povo
estava exasperado, e se C risóstom o quisesse, provavelmente poderia ter resistido.
Porém ele não era hom em de explorar oportunidades para estabelecer revolu­
ções, quanto mais organizar um a resistência p o r iniciativa própria. R endeu-se
aos soldados de m odo calmo e quieto, perm itindo que fosse retirado da cidade
na calada da noite. Parecia que sua carreira com o bispo de Constantinopla se
encerrara.
C ontudo, a situação se m odificou de repente. O acaso e a inconstância da
administração da igreja im perial tornaram -se tão óbvios, que entendem os a ra­
zão pela qual a sua acusação crim inal foi revogada, apenas u m dia após a sua
destituição do cargo que ocupava. Eudóxia, que havia claramente agido p o r trás
das cenas que se sucederam ao longo de todo este episódio, sofreu u m aborto.
Em m eio aos seus terrores, creu que se tratava de um julgam ento divino, e deu
ordens para que Crisóstom o retornasse im ediatam ente às suas funções.Teve pro­
blemas para assegurar uma anulação mais ou m enos legal da sentença que foi
ditada contra ele. Tudo deveria ser perdoado e esquecido. Porém , um a vez per­
turbado, não era facil restaurar o relacionamento. Apenas algumas semanas mais
tarde, a tensão alcançou novam ente proporções ameaçadoras e o desastre surgiu
de m odo perigoso.
D urante a dedicação de uma estátua em hom enagem à im peratriz, o baru­
lho do regozijo popular assemelhou-se à adoração a Deus. Os com entários irri­
tados a respeito de tal distúrbio que escaparam dos lábios de Crisóstom o chega­
ram, naturalm ente, aos ouvidos de Eudóxia. Então, na festa em que se com em o­
rava a m em ória de João Batista, ele deu início ao seu sermão fazendo uma refe­
rência a Herodias, que estava requerendo a cabeça de João Batista‘um a vez mais’,
e os seus inimigos foram provavelmente justificados ao interpretá-lo com o uma
nova alusão à imperatriz.
A . ^ ^ /
A antiga oposição não estava m orta. E verdade que Teófilo havia se retirado,
porém os conselheiros da corte episcopal posicionaram-se agora declarando que
o processo contra Crisóstom o não fora concluído. Eudóxia deu atenção ao as­
sunto, declarando que não iria à catedral novam ente até que o caso estivesse
concluído e o bispo fosse absolvido das acusações que lhe foram feitas. D e fato,
dificilm ente seria possível levar esta proposta adiante. A intenção era obvia­
m ente livrar-se de Crisóstom o sem a necessidade do uso da violência, e ele
novamente revelou-se sem qualquer malícia diante das intrigas que foram lançadas
de todos os lados contra a sua pessoa. Por um lado, recusava-se de m odo resoluto
a abandonar de m odo voluntário o rebanho que Deus lhe confiara. Por outro,
não fez nada para evitar que um a nova e desautorizada assembléia conspirasse
contra ele. N ão estando a situação com pletam ente definida p o r ocasião da Pás­
coa do ano 404, o governo procurou evitar p o r m eio das forças armadas a reali­
zação dos batismos que eram norm alm ente conduzidos pelo bispo nesta época,
e esta ação levou ao derram am ento de sangue.
Por fim, o im perador foi obrigado, contra a sua vontade, a assinar um decre­
to de destituição. Crisóstom o reuniu o seu clero fiel e os seus bispos para uma
oração final na sacristia, e exortou as fiéis diaconisas e as assistentes a que não se
tornassem frias quanto ao zelo espiritual. Tom ou então as devidas providências
para evitar distúrbios, e pela segunda vez dirigiu-se calmamente ao exílio e ao
cativeiro sob escolta militar.
A confusa situação se to rn o u praticam ente intolerável e cam inhou para um
desfecho. Está claro que a indolência e a suscetibilidade deA rcádio em relação às
influências externas foram os fatores responsáveis p o r esta situação. Ele não foi

/S < ?
capaz de esboçar qualquer ação mais vigorosa, deixando todas as decisões a cri­
tério de sua esposa, e aos conselheiros que se reuniam em to rn o dela. O próprio
Crisóstom o recusou-se a entrar em um terreno no qual a batalha poderia ter
sido ganha praticam ente sozinho. Estava destinado a ser derrotado ao final, em ­
bora por duas vezes lhe tenha sido oferecida a chance de vencer. Escolheu com ­
pletar a carreira que estava diante de si não com o um príncipe e líder da Igreja,
mas com o um m ártir de seu ofício e de sua fé.
D estituindo Crisóstomo, o im perador provavelmente teve apenas a intenção
de dar fim a um a situação de desespero, sem a intenção de ferir o próprio
Crisóstom o ou seus seguidores. Mas os seus inimigos entenderam que ainda não
era o final deste assunto. Imediatamente após sua partida, a catedral de Crisóstomo
foi incendiada por motivos que jamais foram explicados e, contudo, os seus se­
guidores foram responsabilizados. Q uanto a estes, alguns recusaram-se a dar qual­
quer suporte ao novo bispo, e foram cruelm ente perseguidos. O tratam ento e a
recepção que Crisóstom o recebeu em sua longa viagem tam bém variaram de
acordo com a atitude de seus irm ãos na igreja. As inúmeras cartas que escreveu a
seus antigos amigos mostraram sua clara posição e sentimentos. Escrever cartas
era algo considerado com o arte neste período, e, portanto, estas cartas ainda
retêm traços de consciência própria, que os gregos carentes de formação na
época pós-clássica perderam inteiram ente. Acima de tudo, todavia, elas nos m o ­
vem pela hum anidade e pureza de pensam ento que revelam. C risóstom o sentiu-
se m uito fraco, e não negou que muitas vezes sofreu m uito devido aos maus-
tratos que recebeu, por não poder dorm ir, pelo frio, pela falta de medicamentos
e assim por diante; porém procura constantem ente fortalecer os seus correspon­
dentes pela garantia de que estava sentindo-se melhor. Procura encorajar e con­
solar os seus amigos, e, mesmo a distância, continua sendo o seu pastor.
Q uando chegou a seu destino, ao inóspito sul da Arm ênia, a sua situação
com eçou a ter um a pequena m elhora. Sua m aior tristeza foi que dificilmente
teria outra chance de pregar. Porém os seus amigos cuidaram para que não tives­
se falta de dinheiro, com o qual, um a vez mais, procurava ajudar os outros. Os
seus amigos m antinham -no suprido de notícias e inform avam -no sobre todos os
esforços que estavam sendo feitos a seu favor. Crisóstom o interessou-se p o r to ­
das as coisas, dando conselhos e adm oestações. As cartas eram a sua m aior ale­
gria; nada o preocupava mais do que quando estas não chegavam, e quando os
seus antigos amigos não lhe escreviam mais devido à preguiça ou ao medo.
Mas os seus pensamentos não estavam, de m odo algum, concentrados ape­
nas em Constantinopla e em seus seguidores, seu clero e seus pobres. Buscava
novos desafios para a Igreja. Havia anteriorm ente se concentrado na conversão e
no cuidado dos bárbaros que viviam em Constantinopla. Ele voltou então a sua
atenção à Pérsia, que estava próxim a, e ponderou a respeito da possibilidade de

/s &
realizar um a obra missionária cristã naquele país. U m trabalho que dificilmente
foi considerado por algum outro líder da Igreja grega.Também procurou m anter
contato com o bispo de R o m a e outros representantes influentes das igrejas do
O riente e do O cidente. N ão abandonou a sua causa, e continuou a almejar a paz
para a Igreja e a vitória daquilo que é correto.
O fato de estes esforços não terem sido u m com pleto fracasso provavelmen­
te contribuiu para a sua derradeira derrota. Apenas um ano mais tarde, no verão
de 405, foi obrigado a partir da Arm ênia, ao ser ameaçado pelos bárbaros. Foi a
Arabissus, e ali tam bém foi seguido por u m grande núm ero de peregrinos que
desejavam vê-lo, visitá-lo e falar com ele. N o verão do ano 407, chegaram ins­
truções para que fosse levado aos confins do im pério: a Pitius, no m ar Negro.
C onform e ele mesmo adm itiu, nada o cansava tanto quanto as viagens, e era
evidente que estas tinham o intento de matá-lo, ao forçarem -no a cam inhar com
dificuldade pelas veredas mais rudes do m undo. Foi-lhe recusado qualquer alí­
vio. Aquele hom em severamente enferm o foi exposto ao calor do sol e às fortes
chuvas. N ão lhe era concedida qualquer chance de repouso; era dirigido de
m odo a não receber qualquer alento. M esm o às vésperas de sua m orte foi força­
do a marchar, com alta febre, cerca de oito quilôm etros até o centro de Comana.
Ali foi carinhosam ente recebido pela pequena congregação, porém seria obriga­
do a viajar na m anhã seguinte. Após cerca de cinco quilômetros e meia de cami­
nhada, sofreu um com pleto colapso. Foi levado de volta a C om ana, envolto em
um a m ortalha branca, e assim recebeu o sacramento pela última vez. Crisóstom o
crucificou-se a si mesmo e m orreu com um a palavra de louvor p o r toda a sua
vida:‘A glória seja dada a D eus por todas as coisas! A m ém ’.
A luta em torno de seu nom e e de seus direitos prosseguiu. O m undo ociden­
tal da época sempre recusou-se de m odo obstinado a reconhecer a validade de sua
deposição e da forma com o foi banido. N o m undo grego também tornou-se rada
vez mais difícil silenciar a injustiça óbvia que foi praticada contra ele. N o ano 438, o
filho de Arcádio, o im perador Teodósio II, m andou sepultar os restos deste
santo de m odo solene na igreja apostólica de C onstantinopla. A fama póstu­
ma de Crisóstomo tornou-se imensa. N en h u m dos escritos de algum outro patri­
arca da Igreja foram tão lidos ou divulgados com tamanha riqueza de manuscritos.
Foram logo traduzidos para o latim e para vários idiomas orientais. Até hoje João
Crisóstomo desfruta da consideração e respeito de todas as igrejas cristãs. Ele, cuja
vida foi amargada e destruída por seus inimigos, já não tem mais nenhum inimigo.
C om o teólogo, não era nem profundo nem original. Era um típico representante
de sua escola, de seu período e de seus ideais eclesiásticos e ascéticos. Pode-se,
contudo, por meio dele ter uma impressão das forças morais e espirituais que ainda
estavam vivas na igreja m undana ligada ao Estado, apesar dos muitos bispos que
apresentavam uma conduta desapontadora e desonrosa.

ffo
Os seus sermões mostram que a teologia ainda era capaz de cum prir inte­
gralm ente a sua tarefa na Igreja. As homilias de C risóstom o são provavelmente
as únicas dentre toda a antigüidade grega que, ao menos em parte, ainda são legí­
veis nos dias atuais com o sermões cristãos. R efletem algo sobre a autêntica vida
conform e o Novo Testamento, por serem tão éticas, simples e claramente expostas.

/ / /
C irilo de A l e x a n d r ia

[ disputa acirrada entre Crisóstom o e Teófilo não foi um mero


V conflito entre duas personalidades, duas regiões, duas tradi­
ções teológicas, duas atitudes intelectuais e espirituais, funda­
m entalm ente diferentes, com petindo entre si. Em Crisóstom o a herança grega
tornou-se completa, ética, ascética e santificada, e tão profundam ente permeada
pelo espírito do cristianismo que tornou-se impossível ser vencida, triunfando
até mesmo na m orte dele. Porém não deve ser ignorado que o seu opositor, o
patriarca de Alexandria, foi, de todo m odo e em todos os aspectos, o vencedor
político.
O Egito, que neste tem po não era contado com o parte integrante do “ O ri­
ente” grego, era um m undo eclesiástico extrem am ente centralizado, e a tradição
da ortodoxia im perial que tomava form a e corpo p o r m eio dos “papas” (foi aqui
que esta palavra adquiriu a sua conotação oficial) jamais havia sido checada. Se
for estendida a partir de D em étrio, po r m eio de Atanásio, até Teófilo, deveria ser
incorporada nas gerações seguintes em uma poderosa figura que não fosse infe­
rior aos seus antecessores em consistência de esforços, superando-os na audácia
de suas intenções.
Este era o bispo Cirilo, o últim o dentre os grandes patriarcas da Igreja, e o
clérigo mais distinto da ortodoxia bizantina. Q uanto ao seu caráter moral, estava
aberto ao ataque. “N ão creio” , disse o cardeal N ew m an, u m tanto envergonha­
do, “ que C irilo possa ter concordado que os seus atos exteriores devessem ser
considerados com o a m edida de sua santificação interior” . Porém C irilo prepa­
rou o leito pelo qual a corrente do desenvolvimento teológico passou em segui­
da de m odo tão profundo que, falando de m odo geral, a partir de então jamais
deixou de fluir.
C om ele, elogiado pelo O cidente com o título de “Doutor da Igreja”, concluí­
mos nossa série de estudos a respeito dos patriarcas gregos da Igreja. As marcas da
hierarquia egípcia estavam tão intensam ente estampadas na personalidade de
Cirilo, que raras vezes parece im portar que não saibamos quase nada a respeito
de sua juventude e desenvolvimento inicial.
Era descendente da grandiosa família alexandrina, à qual o seu tio e antecessor
Teófilo havia pertencido. Estava provavelmente destinado a uma carreira na Igreja
desde a sua mais tenra idade. D e qualquer m odo, tom ou parte na Assembléia do
Carvalho em 403, com o m em bro da com panhia de seu tio. Pelo resto de sua
vida, Teófilo considerou a retirada de C risóstom o de seu posto com o resultado
daquela assembléia, com o u m ju sto triunfo de sua igreja. A m em ória deste
evento determ inou a carreira de Cirilo, com o aconteceu com Atanásio, influen­
ciado por sua participação no Concílio de Nicéia.
Após a m orte de Teófilo, houve apenas um a breve campanha eleitoral. O
candidato mais provável, o arquidiácono Tim óteo, teve que ceder lugar a Cirilo
em 17 de outubro de 412, apenas dois dias após a posição ter ficado vaga. Este
não devia ser de idade avançada naquela ocasião; ocupou o trono alexandrino
por não menos do que trinta e dois anos, tendo desempenhado suas responsabi­
lidades com vigilância e incansável vigor. Seria errado, contudo, pensar em Cirilo
apenas com o um político eclesiástico e um legislador espiritual. M uito mais que
seu tio, desejava tornar-se um teólogo, representar e personificar a verdadeira
tradição da fé, tanto com o ensinador com o na posição de bispo.
C irilo era um grande pregador e um prolífico escritor, cujas obras sobrevi­
ventes com preendem hoje dez majestosos volumes. O trabalho literário dava-
lhe prazer, e sua obra mostra com o resultado uma inflexível diligência. C om o
escritor, não era desprovido de ambição, em bora seus esforços ocasionais para
alcançar os efeitos retóricos e a elegância nas formas não tenham sido bem -
sucedidos. Seu estilo penetrante é constante, m o n ó to n o e pomposo.Vai direto ao
ponto que está procurando alcançar com enfadonho vigor, porém é sempre
bem -sucedido ao expressar quase sem erros aquilo que está procurando com u­
nicar. O s seus livros mostram que possuía u m raciocínio claro e m etódico, em ­
bora lhe faltassem os requintes resultantes de um cuidadoso treinamento. Intro­
duziu os conceitos filosóficos som ente de m odo ocasional e de forma bastante
superficial. Desprezou os filósofos pagãos que tão freqüentem ente se “ contradi­
ziam” e que, na opinião de Cirilo, roubaram as melhores partes de Moisés. D e
m odo semelhante, considerou O rígenes com o u m herege que havia sido conde­
nado de m odo justo “porque não pensava com o cristão, mas seguia o estilo de
conversação dos helenistas” (Ep. 81, M igne 77,373).
A partir de Crisóstom o ele foi, não surpreendentem ente, incapaz e relutante
em aprender alguma coisa. Sob protestos, e som ente quando havia se tornado

t w
inevitável, ele dignou-se a restaurar seu nom e na lista oficial dos bispos. Em sua
exegese, C irilo se atém ao significado “histórico” do texto bíblico, com o oposta
à interpretação espiritualista desintegrante de Orígenes. Mas, na verdade, sua
exegese era inteiram ente originada da alegoria e tipologia tradicionais, e quase
não se preocupa com o significado hum ano direto da história da Bíblia. Seu
principal interesse é exclusivamente dogmático e polêmico. Ele utiliza a Bíblia
para refutar as falsas doutrinas dos hereges, para estabelecer a verdadeira concep­
ção da Trindade e da pessoa simultaneamente divina e hum ana do Salvador, na
qual a verdadeira piedade está baseada. A santidade cristã é consumada na adora­
ção destes mistérios divinos, na recepção dos sacramentos vivificantes e nas vir­
tudes ascéticas do m odo de vida monástico.
E m seu entendim ento da m ensagem de salvação, Cirilo se considera com o
o herdeiro de todos os mestres eclesiásticos anteriores, acima de todos os grandes
luminares ortodoxos de sua própria cidade, Alexandria. Ele considera Atanásio
com o o porta-voz da Igreja p o r excelência. U m terço da prim eira obra de Cirilo
sobre assuntos dogmáticos, o trem endo Tesouro, sobre a Trindade sagrada, consiste
em um trecho do correspondente Discurso de Atanásio. Além do mais, Dídim o,
um teólogo sem fama, que viveu na segunda metade do século IV, em bora nunca
m encionado explicitamente, um a vez que era leigo e origenista, não foi menos
engenhosam ente explorado, e através dele algo da obra dos capadócios fluiu para
os escritos de Cirilo. N o restante, ele não se preocupa m uito com as controvér­
sias teológicas da época.
Seus incansáveis ataques são direcionados aos velhos inimigos tradicionais:
Ario, Eunôm io, e ao “ím pio” im perador Juliano. Para refutá-los escreveu trinta
livros. Ele sempre apresenta as doutrinas ortodoxas com o se fossem fatos tradicio­
nais sólidos e revelados, que som ente a malignidade diabólica poderia distorcer e
interpretar erradam ente. Cristo, com o o Logos Divino, ou seja, com o o próprio
Deus, perm anece com o o tem a central. C om o m ero hom em , Ele não teria sido
tão útil para a humanidade. O propósito real de sua encarnação é unir a nossa
natureza à divindade e conduzi-la inteiram ente ao divino; assim com o os ele­
m entos da Santa Ceia devem ser cheios com o poder divino, um a vez que eles
nos levam à salvação e à vida eterna.
Considerar Jesus “separadam ente” , com o um mero hom em , portanto, pare­
ce uma conduta absolutamente ímpia. E somente o Filho de D eus encarnado
quem realiza a obra da nossa salvação. C irilo não considera sério o perigo da
hum anidade de Jesus poder ser dissipada ou diminuída. E óbvio que ele sabe da
condenação de Apolinário, que a alma hum ana da pessoa do R ed en to r não deve
ser negada; mas não está convencido sobre as implicações teológicas disto. Quando,
nas lutas com seus inimigos antioquinos, C irilo foi im pelido a desenvolver sua
cristologia de forma mais detalhada, não hesitou em utilizar as fórmulas apolinárias,

/M
as quais erroneam ente considerava atanasianas, e falou da “natureza encarnada
do D eus-Logos” .
A luz das formulações teológicas posteriores, sua cristologia era bastante
imprecisa e monofisista. Mas C irilo nunca duvidou de que a crença em Cristo
somente poderia ser corretam ente professada e defendida pela maneira com a
qual ele estava acostumado. C irilo abominava todos os enfraquecimentos e dis­
cussões “tolerantes” da verdade, e onde quer que tivesse poder, estava sempre
pronto a utilizá-lo im piedosam ente para suprim ir toda oposição ao seu dom ínio
espiritual.
O panoram a no Egito no início de seu regim e foi turbulento. O assassinato
brutal de Hipatia foi organizado pelo clero e a culpa foi posta, indiretam ente, em
Cirilo. Ele ordenou que as igrejas dos novacianos fossem fechadas à força, em bo­
ra até este ponto tivessem usufruído de um a tolerância oficial com o sectários
ortodoxos, m oralm ente austeros. Seguiram-se expulsões de judeus e hereges, e
quando o governador im perial tentou interceder p o r eles, Cirilo tam bém se
opôs a ele. Jamais cederia. Sua autoridade espiritual era tão incontestável no
Egito quanto seu poder econôm ico com o senhor dos negócios de cereais e das
propriedades do interior.
Visitou os monges, os quais eram mantidos com o seus partidários através de
cartas circulares e formavam o seu exército espiritual mais forte. Cirilo tentou
concluir a luta de seu predecessor contra o origenismo e contra os monges origenistas
treinados, confiando prim eiram ente nos incultos santos coptas.Mas até mesmo ele
teve que condenar a crueldade bárbara dos assim chamados “antropomorfistas” ,
que imaginavam Deus com o tendo a imagem corpórea de um homem.
Mas nesse ponto mais um a vez o desespero provocou a oposição que recu-
sou-se a ser derrotada sem luta. N o ano 428, um a delegação de monges egípcios
dirigiu-se a Constantinopla para protestar ao patriarca N estório contra o vio­
lento estatuto de seu suserano espiritual. C irilo descreveu-os com o um grupo de
fracassados e falidos dos “m onturos de A lexandria” (Ep. ÍO .A C O 1,1, p. 111,22).
O conflito interno espalhou-se assim para a esfera da política eclesiástica univer­
sal, dando início a um desenvolvimento catastrófico cujas conseqüências eram
naquele m om ento imprevisíveis.
Parece que C irilo percebeu im ediatam ente a gravidade da situação. A lem ­
brança do caso de Crisóstom o era óbvia e, até certo ponto, noticiada de m odo
geral. Após um longo período de fraqueza política, um m onge de Antioquia,
possuidor de um a posição intelectual elevada, sentou-se novam ente no trono da
capital. Ele era teológica e m oralm ente implacável e destemido, mas, com o
Crisóstomo, incapacitado para as complicações políticas de sua tarefa. Mais uma
vez o patriarca de Alexandria foi acusado diante dele p o r seus próprios subordi­
nados. Se N estório se recusasse a ceder espontaneamente, C irilo se depararia

/M
com a seguinte questão: Será que este reverteria a situação e passaria para uma
posição de ataque, e acabaria com a antiga luta pelo poder com Constantinopla,
assegurando sua própria predom inância no O riente?
C om o seu predecessor, Cirilo manteve um a missão diplomática perm anen­
te em Constantinopla. Seus “partidários” estavam lá a fim de conduzir negocia­
ções com o im perador e o patriarca, e ainda temos algumas das cartas contendo
instruções detalhadas que receberam de Alexandria. Q uando N estório os infor­
m ou, de um a maneira perfeitam ente correta, sobre as reclamações que haviam
sido recebidas, eles o confrontaram im ediatam ente com um a insolência desafia­
dora. Declararam que era absolutamente im próprio aceitar qualquer reclamação
contra um bispo tão ilustre, especialmente quando este havia até então reco­
nhecido N estório sem a m enor reserva e o tratado bondosamente.
Q uando N estório perm aneceu firme, sugeriram que este posicionamento
poderia ser-lhe perigoso, se o comunicassem a Alexandria. N estório respondeu
orgulhosam ente que não precisava de u m tipo de amizade que o obrigava a
aprovar e a tolerar o erro. Parece que C irilo tinha razão suficiente para evitar
um a investigação minuciosa do assunto pendente; mas isto significava partir do
m étodo form alm ente correto de procedim ento, até este m om ento seguido. A
m elhor maneira parecia ser adotar as táticas bem-sucedidas utilizadas anterior­
m ente po r Atanásio e transferir a disputa legal para o plano da crença religiosa.
Se o hom em que criticou os duvidosos atos oficiais de Cirilo pudesse ser apre­
sentado sob suspeita de alguma heresia secreta, isto iria desviar a atenção de
qualquer reclamação prévia, e o incôm odo agressor se tornaria em defensor, e
suas ações levariam à ruína a causa de seu oponente.
N ão foi difícil encontrar elem entos para um a acusação teológica, e pode-se
presumir que C irilo não teve que agir contra suas convicções. N estório era um
típico representante da teologia antioquina e da nítida distinção que foi feita
entre a natureza hum ana e divina de Cristo, o que era uma abominação para
Cirilo. D iferentem ente de Crisóstom o, N estório, com sua grande confiança em
si mesmo com o teólogo, sentiu-se obrigado a elaborar a doutrina e assegurar o
seu reconhecim ento universal. Ele tam bém já tinha construído um a reputação
com o inim igo dos hereges e sectários por toda a Constantinopla. Seus inimigos
estavam bastante preparados para cooperar com Cirilo, e colocar à sua disposição
anotações incriminadoras retiradas de sermões ou coisas semelhantes.
U m sentimento ruim foi desencadeado especificamente pelo fato de Nestório
ter criticado a descrição corrente de M aria com o “a mãe de D eus” (Theotokos). A
verdade é que ele havia adm itido que este term o poderia em um certo sentido
ser utilizado de form a excessivamente devota e ortodoxa. Mas era fundamental
com preender que tal natureza divina não poderia ser nascida, nem se tornar um
ser hum ano, nem sofrer e m orrer na cruz.Todas estas afirmações devem se referir

f f r
ao aspecto hum ano da pessoa de Cristo, e M aria, portanto, dera à luz o hom em
Jesus, não ao eterno Logos de Deus. N estório recom endou, a fim de term inar
com esta discussão perigosa, chamá-la preferivelmente de a “mãe de C risto”
(■Christotokos), o que satisfaria a todos. Isto era bem coerente com a opinião
antioquiana, mas o povo recusou-se a ser iludido com tais discussões insípidas e
racionalistas. A suposta crítica da dignidade e glória da mãe de Deus tocou um
ponto sensível na devoção popular, e C irilo sabia o que estava fazendo quando
declarou o term o “mãe de D eus” com o sendo a marca distinta de toda a verda­
deira fé em Cristo.
A partir de seu ponto de vista teológico, e isto era bastante coerente, assegu­
rou um amplo apoio das massas para seus atos posteriores. D o ponto de vista
histórico, a vitória que ele teria sobre N estório deve ser considerada com o o
prim eiro grande triunfo da adoração popular de Maria.
Passou-se algum tem po até o conflito estar com pletam ente desenvolvido.
C om o era de se esperar, N estório, em sua irritação e com seu orgulho ferido,
mostrou pouca habilidade diplomática. Q ueria evitar um a ruptura, mas se expôs
através de vários erros táticos, na confiança de que deveria agir adequadam ente
e perm anecer com a razão. D eixando de lado todos os julgam entos morais na­
quele m om ento, deve ser adm itido que a destreza e o gênio de C irilo aparece­
ram de maneira espetacular. Ele deu seu consentim ento a todo m étodo de intri­
ga e propaganda silenciosa, bem com o o habitual m étodo de suborno em larga
escala, na form a de promessas e “presentes” suntuosos. Enquanto seu colega rude
e m oralm ente austero zombava das “flechas douradas” ( A C O 1,5, p. 43,17) com
as quais seria ferido, C irilo infatigavelm ente reunia o “ m aterial” que iria
com prom etê-lo, tendo contato com cada grupo hostil a N estório, e sem fazer
nenhum ataque aberto, fom entou o ódio popular crescente pela suposta nova
heresia. Ele não estava grandem ente preocupado com a verdade; exteriorm ente,
porém , continuou a representar o papel de líder ansioso e previdente que se
recusava a tom ar um a atitude p o r razões de rancor puram ente pessoal, deixando
os prim eiros passos para seus com panheiros e mediadores.
Duas cortes de apelação foram especialmente im portantes no conflito im i­
nente: o im perador de Constantinopla e o bispo Celestino de R om a. C om o
ocidental, Celestino I ficou até certo ponto de fora da polêm ica teológica e era,
com o disse N estório acertadamente, “simples demais para ser capaz de penetrar
nos significados mais delicados das verdades doutrinárias” (A C O 1,4, p. 25,34).
Mas foi tom ado o cuidado de apresentar as teses cristológicas de N estório diante
dele de uma forma grosseiramente caricaturada, a ponto de ser imediatamente
persuadido a tom ar uma posição contra essas “blasfêmias óbvias” (A C O 1,2, p. 8,1).
Toda a discussão surgiu porque certos dogmas foram levados a extremos
lógicos. N estório jamais adm itiria com o sua opinião a suposição de “ dois filhos

/ / /
de D eus” , da qual ele foi acusado. Mas sua carta a R om a, escrita em u m tom
bastante tranqüilo e amigável, om itia incluir os term os habituais de tratamento,
enquanto C irilo se dirigia a seu colega mais jovem com o seu “pai mais santo, o
mais amado de D eus” , e se pôs à sua disposição com a mais diligente humildade.
Logo teve o bispo de R o m a inteiram ente a seu lado. E m um a carta graciosa­
m ente escrita, Celestino o apontou com o seu deputado e o instruiu a perseguir
a perigosa discussão com incessante energia.
Cirilo foi m enos feliz em Constantinopla. Ele tentou incitar contra N estório
não somente o im perador, mas tam bém a im peratriz, e, sobretudo, a enérgica
princesa Pulcheria. N aquele m om ento, Teodósio II ainda estava convencido de
que seu patriarca estava com a razão, e Cirilo era suspeito de tentar propagar
dissensão na família do im perador ao dedicar certos tratados teológicos a dife­
rentes membros da família. N o entanto, nem tudo estava perdido na corte.Teodósio
era um fraco, com o seu pai, e tinha o hábito de transigir com seus eunucos e outros
conselheiros não confiáveis, que não estavam fora do alcance das cartas de Cirilo e
de seu ouro. U m sucesso inicial foi alcançado pelo fato de apenas as discussões
religiosas terem sido designadas ao Concílio convocado para Efeso, no ano 431, e
ações adicionais contra membros individuais ser expressamente proibidas.
Cirilo não esperou para ser cham ado pelo Concílio. Após m uito tem po de
aparente hesitação, percebeu que som ente a pressa implacável poderia assegurar-
lhe a vitória. Confiando no apoio incondicional de R om a, convocou u m concí­
lio de seus partidários egípcios em Alexandria, o qual condenou N estório com o
u m herege. Os “anátemas” que apoiaram o julgam ento foram baseados tão rui­
dosa e unilateralm ente na com pleta unidade da pessoa de Cristo no Logos divi­
no, que foram justificadamente interpretados com o apolinários pelos antioquinos
e inteiram ente rejeitados.
Mas seus partidários deram a C irilo a chance de tratar N estório em Efeso
com o um herege notório, cuja amizade ou negociação de qualquer tipo estava
fora de questão. O bispo local de Efeso, em penhado em sua própria independên­
cia, havia sido persuadido a se u n ir ao partido anticonstantinopla e colocar todas
as igrejas da cidade à disposição de Cirilo. N estório foi virtualm ente excluído.
Apesar dos protestos dos funcionários imperiais encarregados da administração
do evento, o C oncílio desistiu de esperar pelos delegados sírios e romanos, e os
seguidores de C irilo foram reconhecidos com o o sínodo legalmente constituí­
do. O C oncílio não hesitou em excom ungar form alm ente N estório com o um
herege. A população jubilosa com em orou nas ruas a queda do “inimigo da santa
virgem ” e a honra da “grande, sublime e gloriosa mãe de D eus” .
Q uando o bispo João, de A ntioquia, e outros defensores de N estório final­
m ente chegaram, tudo que puderam fazer foi realizar u m sínodo separado que
condenou C irilo e seus seguidores. N o com eço, o im potente im perador reco-

/S 9
nheceu a verdade do ponto de vista de ambas as partes, e tanto C irilo com o
N estório foram colocados em custódia. Tiveram início demoradas e complica­
das negociações em que Cirilo, com seus “m étodos de persuasão bem conheci­
dos” , isto é, suborno (A C O 1 ,1, 5, p. 136,17), rapidam ente ganhou alguns p o n ­
tos. Mas o ponto decisivo ocorreu quando N estório capitulou e ofereceu sua
demissão, pensando que deveria servir à causa da paz. Sua demissão foi aceita, e
lhe foi perm itido retirar-se para o seu antigo mosteiro antioquino. Cirilo tam­
bém teve permissão de fugir para Alexandria, onde im ediatam ente proclam ou
por toda parte, com o resultado do sínodo sagrado, o triunfo da verdade e a
vitória sobre seus ímpios adversários. C om esta declaração completamente m enti­
rosa, ele finalmente prevaleceu, mas somente muitas décadas mais tarde. As sessões
ilegais que Cirilo havia organizado com seus seguidores ainda são descritas com o
o “ T erceiro C o n cílio G eral de É feso” , q u e h o n ro u a “ m ãe de D e u s” e
pretensam ente salvou a fé verdadeira em Cristo da deturpação e distorção. E
com o resultado desse Concílio, o próprio C irilo foi canonizado.
Será que Cirilo alguma vez acreditou realm ente em seu próprio relato dos
acontecimentos? Esta é, provavelmente, a maneira errada de colocar a pergunta.
Ela pressupõe um am or à justiça e um a imparcialidade da qual o hierarca irascí­
vel e amargurado nunca foi capaz. D ogm ático, violento e astuto, cheio da gran­
deza de sua posição e da dignidade de seu ofício, ele nunca considerou nada
com o certo a menos que fosse útil a ele no avanço de seu poder e autoridade, e
de acordo com sua tradição e trein am en to teológicos. A brutalidade e a
inescrupulosidade de seus m étodos nunca o preocuparam , e o fato de que m éto­
dos semelhantes ainda foram freqüentem ente utilizados em conflitos teológicos
posteriores pode ser pleiteado com o justificativa. A acusação mais séria contra
ele é que, no final, nem mesmo ele foi fiel a seus princípios teológicos, mas por
razões táticas, a fim de conservar suas vitórias exteriores, realmente renunciou à
m aioria dos pontos que havia m antido em Alexandria e Éfeso.
Após a abdicação de N estório e a fuga de Cirilo, de Éfeso, o partido de
oposição ainda não havia desistido da luta teológica. Pelo contrário, sob a lide­
rança habilidosa de João de A ntioquia, um a tempestade de protestos se levantou
p o r todo o O riente contra a condenação cínica de u m conceito cristológico
que a m aioria dos teólogos e bispos gregos havia adotado. O governo apoiou o
protesto, e ,p o r fim, Cirilo teve que ceder. Após negociações demoradas e extre­
m am ente desagradáveis, ele aceitou um a fórm ula de conciliação, em 433, que
simplesmente ignorava suas teses mais extravagantes e que N estório teria aceitado
a qualquer m om ento.
Mas este foi precisamente o ponto no qual Cirilo perm aneceu inflexível: o
caso de N estório nunca foi reaberto. Ele perm aneceu condenado com o um
herege, e para o m undo exterior Cirilo ainda era “o hom em que havia desmas-

fS O
carado os blasfemadores e conduzido a verdade à vitória. N a verdade, ele não
descansou até que o infeliz hom em , abandonado pelos seus próprios com pa­
nheiros e apoiadores, foi arrancado de seu refúgio antioquiano e deportado para
o próprio território de Cirilo. Ele foi internado em um local rem oto, próxim o
ao deserto egípcio; sobreviveu a C irilo e m orreu quinze anos mais tarde, interi­
orm ente intacto até o final.
Temos a propensão de negar a im portância teológica de Cirilo, em vista de
seu com portam ento abominável, e ver nele o m ero político poderoso, frio e
calculista, que sacrificou tudo no altar de seu sucesso pessoal.Já dissemos que tal
interpretação não está de acordo com o próprio sentim ento de Cirilo. N ão é
suficiente ver nesta subordinação de interesses teológicos sérios as considerações
puram ente políticas e a expressão de m ero subjetivismo e paixão partidárias. Foi
preferivelmente a expressão de um tipo particular de irm andade eclesiástica que
não estava mais ligada à teologia, e tentou m anter a vitória da fé, forçando a
aceitação da autoridade e da “verdadeira” tradição eclesiástica.
O antigo problem a das fronteiras da teologia, que Atanásio já havia sentido
e que Basílio havia ponderado teologicamente, estava agora resolvido de uma
maneira que justifica a corrupção do pensamento sistemático e da conscientização
teológica. Afinal, o rebanho pensa de acordo com os desejos do pastor (A C O I,
4 ,p. 227,19). O im portante não é mais a clareza e a pureza das fórmulas obtidas,
tanto quanto os hom ens justos, os hom ens do partido correto, que têm o poder
de fazê-los cum prir. A paz da Igreja, conquistada p o r acertos táticos, pode ser
defendida pela referência habitual à imensidão essencial dos mistérios religiosos
e da reputação de fútil curiosidade em favor da sabedoria eterna da Igreja e sua
tradição perm anente. “N ão é certo dissolver as tradições da fé, que chegaram até
nós por m eio dos próprios santos apóstolos; é errado dissolvê-las com nossa
engenhosidade exagerada, e é errado tentar superar o que transcende a razão
com perguntas levadas ao extremo, ou mesm o frivolamente declarar com certos
artistas em definição: isto é certo; isto é errado. O que é necessário e abençoado
é preferivelmente deixar o Deus onisciente tom ar suas próprias decisões e não
criticar com audácia leviana o que ele julga ser b o m ” (De Fide Recta ad Imper. 17,
A C O 1,1, p. 53,10).
Aqui vemos as limitações, ou, se preferirmos, a individualidade de Cirilo como
mestre da Igreja. C om o já vimos, Cirilo na verdade desejava ser um teólogo. Mas
para ele, as respostas da teologia não eram mais apenas suficientes para si mesma
dentro da Igreja. Ela se tornou a esfera do ofício de ensinar e deve em todas as
circunstâncias agir de acordo com as tradições da Igreja. N inguém antes de Cirilo
havia enfatizado a importância dos “patriarcas” tão incansavelmente. Ele estava
convencido de que eles não haviam absolutamente “excluído ou descuidado de
nada vital” , e todos aqueles que aceitaram a fé ortodoxa encontrariam suas “con-

fS /
fissões e interpretações”, com o um material útil p o r meio do qual poderiam refu­
tar “toda heresia e insolência ímpia” (De Symb. 4, A C O 1,4,4 , p. 50,22).
Ele iniciou a prática de decidir questões de fé, não unicam ente com base na
Bíblia, mas com a ajuda de citações adequadas de autoridades reconhecidas e,
sobretudo, do grande Atanásio. Este foi o propósito de sua própria obra, que foi
desde o princípio baseada tão largamente em citações e trechos. Isto foi conside­
rado então com o o verdadeiro “cam inho real” da teologia: “para deter-se em
cada questão referente às confissões dos santos patriarcas, que ocorreram através
da inspiração do Espírito Santo; e para m anter firm e na m ente a seqüência de
seus pensam entos” (Ep. 1 7 ,3, A C O 1 ,1, l,p . 35,12).
Isto significava que a era criativa da teologia da Igreja Primitiva havia chega­
do ao fim. E m virtude deste programa teológico, C irilo pode ser considerado o
prim eiro dos acadêmicos bizantinos. N o m undo grego ele foi o últim o dos
patriarcas da Igreja porque, estritam ente falando, ele não tinha mais qualquer
desejo de ser um deles. Por esta razão, foi considerado, com o teólogos posterio­
res disseram, o “guardião da exatidão” (Eulog. Al. in Photios, Bibl. Cod. 230) e
representa o “selo final dos patriarcas” (Anastas. Sin., viae dux 7).

/S B
C o n clu sã o

O F inal da E r a
dos P ais G r eg o s

Q uando revisamos as séries dos pais p ré- e pós-nicenos, nos surpreendem os


pela rica variedade de caracteres, pontos de vista independentes, estilos de vida
individuais e diferentes formas de expressão.
Foi um grande campo de atividade intelectual com que estiveram preocu­
pados durante três séculos, nos quais esforçaram-se, alcançaram realizações e
moldaram-nas teologicamente. Seu trabalho não foi desem penhado de acordo
com um plano predeterm inado, mas com a cautela de quem trabalha por uma
causa com um , e com um senso de responsabilidade voltado à liberdade da cren­
ça, razão pela qual era respeitada.Todos os patriarcas a respeito dos quais estuda­
mos consideravam-se membros da única Igreja “Universal” e lutaram para que
pudessem servir à pregação do Evangelho, da verdade de Deus e da fé.
A Bíblia, e a revelação de C risto da qual a própria Bíblia testifica, form a­
ram o fundam ento natural, o p o n to com um de partida e a n orm a de todo o
seu trabalho e pesquisa. A partir destes fundam entos, procuraram precaver-se
contra “ erros” e evitar a dissolução e a desintegração interna da Igreja. Ao
mesm o tem po, contudo, olharam na direção exterior, para o m undo, e consi­
deraram os seus problemas morais e filosóficos. Todas as coisas deveriam ser
ganhas para o Verbo de Deus, purificadas p o r Ele e com preendidas nEle de
um a nova maneira. A teologia deles com o um todo tam bém tinha o objetivo
de ser sim ultaneam ente um a “filosofia” anti-herética e missionária, polêm ica e
apologética quanto às suas intenções. Algumas vezes existe u m toque de inge­
nuidade a respeito de sua renovada confiança na vitória, mas em lealdade à
“única coisa necessária” perm anece vivaz e flexível, avança e, apesar das difi­
culdades internas e externas, m antém a sua superioridade sobre os seus inim i­
gos, e finalm ente em erge vitoriosa.
A era dos Pais da Igreja chegou ao seu fim po r várias razões: gerais, políticas,
sociológicas, culturais e biológicas. C om o em todas as questões históricas defini­
tivas, não há um a explicação com pletam ente conclusiva para este fato. Já toca­
mos neste assunto ao longo da introdução e em nossa descrição dedicamos aten­
ção, prim eira e principalm ente, às pressuposições que são fundamentais para o
ensino da Igreja. U m lento processo de m udança aconteceu na concepção da
teologia e no posicionam ento dos ensinadores na Igreja, que foi o inevitável
resultado de seus próprios trabalhos e influências. Estas mudanças, de todo modo,
conquistam em nosso ponto de vista um significado essencial e decisivo.
Desde o princípio, a crença na Bíblia Sagrada com o o docum ento que con­
tinha a divina revelação, digna da mais alta consideração p o r razões “naturais” ,
andava de mãos dadas com a franca aceitação da autoridade e da tradição eclesi­
ástica. O fortalecimento destes laços e de sua im portância política, além da pro­
gressiva sistematização da herança teológica que tornava-se cada vez mais rica e
complexa, contribuíram grandem ente para a estagnação gradual da vida intelec­
tual e do conseqüente final da era patrística “clássica” .
N ão podem os aqui fazer mais do que m eram ente um esboço deste processo.
O ponto de mudanças que foi alcançado p o r m eio da ascensão de C onstantino
e da elevação da igreja im perial liga-se de m odo m uito próxim o à ordem públi­
ca, e sem dúvida constitui o m om ento mais significativo no processo de desen­
volvimento. Trouxe novos laços políticos e legais que fortaleceram as tendências
anteriores, e ao mesmo tem po trouxeram alguns perigosos desenvolvimentos
que envolveram uma consideração estrita pela unidade dogmática e pelas deci­
sões eclesiásticas.
Pela prim eira vez, o “ C redo” foi estabelecido no O rien te com o um padrão
dogmático e legal, sobre a Igreja com o u m todo. A vitória da ortodoxia nicena
foi alcançada “por meio deste sinal” . Tanto Atanásio com o Basílio apelaram à
decisão de Nicéia, porém não tinham qualquer desejo de ir além do C redo de
N icéia e diligentem ente evitaram acrescentar outras formulações dogmáticas.
Tam bém em Efeso (431), o antigo Credo, que havia sido simplesmente “ estendi­
d o ” em Constantinopla em 381, foi preservado, e até mesmo na Calcedônia
(451) foi travada uma violenta batalha, que ao final fracassou, não evitando uma
nova formulação da fé.
Por outro lado, contudo, havia esforços em andam ento p o r um longo tem po
para que os conceitos das tradições “genuínas” e oficiais fossem mais claramente
definidos e divulgados de m odo mais inteligível. O im perador Teodósio deu o
prim eiro passo nessa direção quando ordenou que fosse preparada a reorganiza­
ção das igrejas orientais, que consistia em um grupo de teólogos que deveria
dirigir os demais (380-81). Pouco mais tarde, em 383, foram feitas referências a
antigos patriarcas, que já não estavam mais vivos, e que haviam proclamado a

ZdT /
verdade da m aneira “ correta” , tendo sido reconhecidos pela Igreja. Mais adiante,
contudo, esta referência resumida relacionada aos Pais da Igreja não foi conside­
rada suficiente. Escritos particulares e oficiais de Atanásio e de outros ensinadores
foram selecionados para servir com o critério. Estes tam bém foram suplantados
pelas antologias durante o período seguinte, por serem estas mais fáceis de ma­
nusear: coleções de citações dogmáticas, que variavam de acordo com as necessi­
dades transitórias das controvérsias teológicas, e que trouxeram consigo genuínas
citações extraídas de seus contextos originais juntam ente com uma grande quan­
tidade de material adulterado ou não autêntico.
Cirilo de Alexandria foi quem utilizou este m étodo mais do que qualquer
outro em suas controvérsias, tornando-o predominante. Por razões práticas análo­
gas, o m étodo tam bém foi intro d u zid o nas jurisprudências, na m esm a época.
A “Citação da Lei” im perial de 426 ligou a administração da justiça de m odo
bastante formal a autoridades particularm ente conhecidas do passado. A conde­
nação final de Orígenes p o r Justiniano em 543 fez com que o esforço da Igreja
e do Estado concretizasse um a padronização de tradições.
A medida que o processo de padronização avançava, o entusiasmo e a capa­
cidade de pesquisa teológica independente, bem com o o ensino, enfraqueciam-
se.Todo aquele que desejava dizer algo realmente novo, era mal visto e conside­
rado perigoso. Deste m odo, no final do século IV, os apolinários haviam cam u­
flado sua literatura condenada com o nom e de Atanásio. Próxim o à virada do
século IV para o V I, u m m onofisista co lo co u em circulação suas idéias
neoplatônicas e místicas a respeito da liturgia sob o m anto de Dionísio, o areopagita
(At 17.34). D urante uma discussão religiosa que aconteceu em Constantinopla
no ano 532, seus escritos ainda eram rejeitados com o não autênticos, porém
anos depois foram reconhecidos.
Era inevitável que graças a esta santificação da tradição eclesiástica, a própria
Bíblia foi mais e mais utilizada com o fundamento. A teologia oficial já não res­
pondia mais à sua força revolucionária. E verdade que foi reavivada nas fases
iniciais do monasticismo, e exatam ente p o r esta razão os monges não confiaram
mais nos dogmas e nem na teologia oficial. O mais im portante crítico dos desen­
volvimentos anteriores, o líder do m ovim ento eucarístico messaliano, Simeão da
M esopotâmia, que m orreu no final do século IV, foi condenado com o herege e
sobreviveu somente porque utilizou o pseudônim o “M acário” .
O utro fator foi a confusão e as complicações inerentes à própria tradição
dogmática. A fábula de uma uniform idade ininterrupta está em contradição com
a verdade, e deveria ser preservada às custas de um a sempre crescente ingenuida­
de formalística. O efeito do C oncílio da Calcedônia foi particularm ente catas­
trófico a este respeito. Significou um a séria derrota para a teologia alexandrina
que havia triunfado vinte anos antes em Efeso.

/£ £
Porém este fato foi ocultado um a vez que Cirilo, que era o conquistador de
Efeso, foi enaltecido em Calcedônia com grande entusiasmo e superou o bispo
Léo de R om a, que tinha um posicionam ento teológico com pletam ente dife­
rente. Por esta razão, pouco tem po depois, levantou-se a controvérsia a respeito
da definição calcedônica, que somente foi concluída cem anos mais tarde sob o
governo de Justiniano (monofisismo alexandrino), de uma maneira destituída de
qualquer sentido histórico, e que foi então transformado em um dogma pelo
novo Concílio de Constantinopla em 553.
Dificuldades similares e harmonizações artificiais afetaram as proposições e
os m étodos da filosofia, com o se estas fossem as mesmas pressuposições tradicio­
nais para a teologia e para os dogmas. Todos os prim eiros Pais da Igreja foram
platônicos; uns mais, outros menos. E a doutrina da Trindade foi o r i g in a lm e n t e
concebida em term os platônicos e neoplatônicos. N os séculos V eV I a lógica
aristotélica com eçou a ter destaque e foi combinada com as tradições neoplatônicas
dentro e fora do campo da teologia. Por esta razão tornou-se um aparato terri­
velmente complicado que, contudo, não funcionava de acordo com as suas p ró ­
prias leis, mas era forçada a adequar-se aos princípios metafísicos e teológicos
particulares que deveria justificar.
O resultado de todas estas mudanças foi o escolasticismo bizantino, uma
teologia científica tão fortem ente encouraçada cujo cam inho somente poderia
ser encontrado pelos especialistas mais treinados, pelos monges e pelos clérigos.
Esta fez com que um hom em com o M áxim o, o Confessor (662), com seu vigor
de pensam ento e fé, lutasse nesta arm adura e ainda se fizesse entender, colocan­
do toda a Igreja em m ovim ento e revelando os erros do m onoteletism o com o
erros de fé. N orm alm ente, os dogmáticos fracassavam quanto a causar algum
im pacto sobre a piedade cotidiana. Os problemas do misticismo e da controvér­
sia sobre imagens eram habilmente, porém apenas em um estágio mais avançado,
ligados à doutrina e por esta razão conduzidos a uma decisão.
Neste contexto, o nom e mais im portante é João de Damasco, que m orreu em
749, uma vez que nele todo o desenvolvimento histórico do pensamento dogmático
teve o seu desfecho no O riente. Sob a proteção do poder islâmico, ele conduziu a
controvérsia contra os imperadores iconoclastas de Bizâncio e compôs com uma
típica combinação de sagacidade e estupidez a grandiosa e dogmática coleção intitulada
A Fonte da Sabedoria, que tornou-se o modelo para inúmeros manuais posteriores,
mesmo no Ocidente. A obra inclui, antes de entrar na teologia propriamente dita,
uma introdução sobre a história dos conceitos filosóficos, uma “Dialética”, e uma
heresiologia compilada de inúmeros autores primitivos. Cada questão factível é
colocada sob seu aspecto “legítimo”, e em seu devido lugar.
A teologia grega foi gradualmente sufocada por seu próprio tradicionalismo.
N enhum a admiração justificada em m aior ou m enor grau por seus refinamentos
conceituais, por sua profundidade e sublimidade são capazes de alterar este fato.
Os patriarcas tornaram -se tão santos, que ao final já não podiam mais ter algum
substituto que fosse semelhante a eles em vitalidade. A teologia vivia sua própria
vida em constante referência ao passado, e perdeu todo o contato direto com a
Bíblia e com a vida exterior ou com o que fosse diferente dela.
N o ano 529, Justiniano fechou a escola que havia em Atenas, e assim os
últimos filósofos pagãos deixaram o im pério. Os missionários cristãos penetra­
ram somente em áreas onde eram bem -vindos em term os políticos, e onde a
superioridade cultural do im pério havia abrandado o cam inho para eles. A Igreja
era desprovida de poder frente ao Islã, e as enorm es perdas que sofreu nas mãos
deste não foram com pletam ente devidas a causas exteriores e militares. É ainda
mais surpreendente que a nova vida teológica que veio a existir no O cidente
nos séculos IV e V, não tenha tido qualquer influência no O riente, tendo em
vista que o O riente esteve sempre aberto à influência da teologia grega. Talvez
tenha sido o próprio sentim ento de distância de suas origens, ou a necessidade
de ouvir e crescer tendo o cuidado de preservar as genuínas diferenças históricas,
que tenha dado à teologia latina o seu poder de vida independente, embora, para
começar, devesse tudo aos gregos.
Porém estes últimos haviam há m uito se considerado com o já tendo atingi­
do a sua meta final. Presos em seu próprio confinam ento territorial e cultural, a
igreja deles repousava sobre a sua própria suposta perfeição. Confiavam em uma
imutável e indestrutível continuidade aos apóstolos e pais do passado, cujas rea­
lizações admiravam a ponto de fracassarem por não observar as mudanças na
natureza dos problemas enfrentados pela teologia. Preservaram a sua herança
intelectual, sem tom ar qualquer atitude para renová-la.

/s ?
T abela C r o n o l ó g ic a

Acontecimentos no império Acontecimentos ligados à Igreja


Ano / evento Ano / evento
138-161 Im perador A ntonino Pio 144 M arcião rom pe relações com
R om a
161-180 Im perador M arco Aurélio Cerca de 165 M orte de Justino
177-178 Ireneu torna-se bispo de Lião
202 Séptimo Severo proíbe a 202-203 C lem ente deixa Alexandria;
conversão ao cristianismo Orígenes torna-se diretor
da escola catequética em
Alexandria
230-231 Orígenes muda-se para
Cesaréia, na Palestina
235 M orte de H ipólito de R o m a
250-251 Perseguição aos cristãos
sob o governo de D écio
253-254 M orte de Orígenes
255-259 Perseguição aos cristãos sob
o governo deValeriano
Cerca de 270 M orte de Gregório
Taumaturgo
303 Início da grande perseguição
aos cristãos sob o governo
de Diocleciano
309? M orte de Panfílio

324 Constantino torna-se


o único im perador
325 Concílio de Nicéia
328 Atanásio torna-se bispo de
Alexandria
337 M orte de Constantino
339 M orte de Eusébio de Cesaréia
356 M orte de A ntônio com
105 anos de idade
361-363 G overno do im perador
Juliano
373 M orte de Atanásio
379-395 G overno do Im perador
Teodósio 379 M orte de Basílio de Cesaréia

381 Concílio de Constantinopla 389-390 M orte de Gregório


Nazianzeno
394 M orte de G regório de Nissa
395-408 G overno do 398 C risóstom o torna-se bispo de
im perador Arcádio Constantinopla
403 Sínodo do Carvalho 407 M orte de Crisóstom o
408-450 Im perador Teodósio II
410 Sinésio torna-se bispo
de Ptolemaida
412 C irilo torna-se bispo
de Alexandria
415 M orte de Hipatia
431 Concílio de Éfeso
444 M orte de C irilo de Alexandria
451 Concílio de Calcedônia
B ibliografia

In t r o d u ç ã o

Praticam ente todas as obras remanescentes dos Pais gregos da Igreja podem
ser encontradas nas edições críticas de Die griechischen christlichen Schriftsteller der
ersten drei Jahrhunderte, publicada pela Academia de Berlim a partir de 1897. Em
relação aos pais posteriores, as freqüentes reimpressões preparadas por J. P. M igne
são ainda indispensáveis: Patrologiae cursus completus, Series Graeca (com traduções
latinas), Paris, 1857 ff. U m a grande seleção de traduções em inglês é fornecida
em R oberts e Donaldson, The Ante-Nicene Christian Library (Edimburgo, 1867-
71); Schaff e Wace, Uma Biblioteca Seleta dos Pais da Igreja Cristã Nicenos e Pós-
Nicenos (O xford e Nova Iorque, 1886-1900); Q uasten e Plum pe (posteriorm en­
te Q uasten e Burghardt), Escritores Cristãos Antigos (Westminster, M d. e Londres,
1946 ff.); Schopp, Os Pais da Igreja (Nova Iorque, 1947 ff.); Baillie, McNeill,Van
Dusen, A Biblioteca dos Clássicos Cristãos (Londres e Filadélfia, 1953 ff.).
O que se segue é um a seleção dos guias patrísticos mais im portantes que
ajudarão os leitores interessados a explorar o assunto mais profundam ente. O
Geschichte der altchristlichen Literatur bis Eusebius, de A. v. H arnack, não foi além
das partes preliminares I (Überlieferung und Bestand, 1893) e II (Chronologie, 1897-
1904). O assíduo Geschichte der altkirchlichen Literatur de O. Bardenhewer, I-V
(1913-1932), é a mais com pleta das compilações mais antigas. H á uma Patrologia
concisa, mas excelente, de Altaner (E.T., Edimburgo, 1958). Ainda em inglês há,
sobretudo, a Patrologia em vários volumes p o r J. Q uasten (U trecht, 1950 ff.) e a
obra de E.J. Goodspeed, Uma História da Literatura Cristã Antiga (Chicago, 1942)
e, para os gregos,J. M . Cam pbell, Os Pais Gregos (Londres e Nova Iorque, 1929).
Os relatos mais completos e mais im portantes da história dogmática da an­
tigüidade grega são: A. v. Harnack, História do Dogma, I-VII (1894-99); R . Seeberg,
Lehrbuch der Dogmengeschichte (Leipzig, 1920 ff.); Fr. Loofs, Leitfaden zum Studium
der Dogmengeschichte, I-II, 5’ ed., editado p o r K. Aland (1950-53); J. Tixeront,
Histoire des dogmes (1930 [II], tradução em inglês, St. Louis e Londres, 1930 ff).
Deve ser feita referência às seguintes histórias gerais da Igreja: L. Duchesne,
História Antiga da Igreja Cristã (Londres, 1909-24); K. Müller, Kirchengeschichte, 1,1
(3‘ ed., 1941, em colaboração com H . v. C am penhausen);B.J. Kidd, Uma História
da Igreja até 461 d. C. (Oxford, 1922);J. Lebreton e J. Zeiller, A História da Igreja
Primitiva (tr. do francês) (Nova Iorque, 1949); H . Lietzmann, Geschichte der alten
Kirche, tradução em inglês por B. L.W olff (Nova Iorque, 1937 ff); e os quatro
prim eiros volumes da compilação católica Histoire de VÉglise, editado p o r Fliehe
e M artin (Paris, 1935 ff).

C a p ít u l o 1 - J u s t in o

W Schmid está preparando um a nova edição da Apologia de Justino. As m ui­


tas edições existentes de seus escritos são inadequadas. As pesquisas sobre Justino
têm sido geralmente associadas com estudos mais extensos dos apologistas em
geral ou limitadas a artigos. Pode ser feita referência a J. Geffcken, Zwei griechische
Apologeten (1907), e A. von U ngern-Sternberg, Der traditionelle Schriftbeweis “de
Christo” und “de evangelio” in der alten Kirche (1913). Relatos completos da teolo­
gia de Justino têm sido dados p o r M . v. Engelhardt, Das Christentum Justins des
Märtyrers (1878), e E. R . G oodenough, A Teologia do MártirJustino (Jena, 1923).W.
Schmid, “D ie Textüberlieferung der A pologie des Justin” , Zeitschr. f. neutest.
Wissensch., 40 (1941), 87 f f, e “ Frühe A pologetik und Platonismus” , Festschrift
Otto Regenbogen (1952), 163 ff , são im portantes para a luz que eles focalizam
sobre a posição histórica de Justino.

C a p ít u l o 2 - Ir e n e u

As edições da Refutação e Deposição da Falsamente Chamada Gnose (citada como


adversus haereses), de A. Stieren (1848-53) e W.W. Harvey (Cambridge, 1857), que
eram excelentes em sua época, ainda são úteis. F. Sagnard empreendeu uma nova
edição com uma tradução em francês (Paris, 1952). A Demonstração da Pregação
Apostólica foi publicada por K. Ter-M ekerttschian e E.Ter-Minassiantz em 1907
em armênio, a partir de uma tradução alemã. Ela também apareceu em traduções
inglesas e francesas na Patrologia Orientalis, 12,5 (Paris, 1919).
D e im portância fundam ental para o problem a de sua fonte é a (não
incontestada) análise em Fr. Loofs, Theophilus von Antiochien und die anderen
theologischen Quellen bei Irenaus (1930). Para seu pensam ento histórico e eclesiás­
tico cf. F. R . M. H itchcock, Ireneu de Lugdunum, Um Estudo de seu Ensinamento
(Cambridge, 1914),J. Lawson, A Teologia Bíblica de Santo Ireneu (Londres, 1948), e
H . v. Cam penhausen, Kirchliches A m t und geistliche Vollmacht in den ersten drei
Jahrhunderten (1953), pp. 185 ff.

C a p í t u l o 3 - C l e m e n t e d e A l e x a n d r ia
As obras de Clem ente foram publicadas p o r O. Stählin em um a edição ex­
celente na Griechische christliche Kirchenväter, 1905-09; veja tam bém o índex p u ­
blicado em 1936 e a tradução alemã na Bibliothek der Kirchenväter (1934-38) com
um a Introdução e um a nova revisão do texto.Vários volumes da coleção Sources
chrétiennes (Paris, 1949 ff.) fornecem u m texto revisado com uma tradução fran-
cesa.Veja tam bém a tradução em inglês p o r W. W ilson nos Patriarcas Anti-Nicenos
(1887). Há edições em inglês de Stromateis VII p o r H o rt e M ayor (Londres,
1903) e Protrepticus e Quis Dives Salvetur p o r B utterw orth (Londres e Cam bridge,
Mass., 1919).
A literatura sobre Clem ente é imensa e sempre crescente. As contribuições
mais im portantes são as seguintes: Bigg, Os Platônicos Cristãos de Alexandria (ed.
Brightman, Londres, 1913);W. Bousset,Jüdisch-christlicher Schulbetrieb in Alexandria
und Rom. Literarische Untersuchungen zu Philo und Clemens von Alexandria (1915);
J. M unck, Untersuchungen über Clemens von Alexandria (1933); G. Lazzati, Introduzione
allo Studio di Clemente Alessandrino (Milão, 1939).
Sobre os problemas de sua teologia e p o nto de vista intelectual veja: F. R . M .
H itchcock, Clemente de Alexandria (Londres, 1899); E. M olland, A Concepção do
Evangelho na Teologia Alexandrina (Oslo, 1938); W. Volker, Der wahre Gnostiker nach
Clemens Alexandrinus (1952); H . v. Cam penhausen, Kirchliches A m t und geistliche
Vollmacht in den ersten drei Jahrhunderten (1953), pp. 215 ff.

C a p ít u l o 4 - O r íg e n e s
As edições antigas de de la R u e (1733-59) e Lommatzsch (1831-48) não são
mais adequadas e foram progressivamente substituídas desde 1899 pelas edições
da Academia de Berlim no Griechische christliche Schriftsteller. O registro recém -
descoberto de um a conversa, Entretien d ’Origène avec Héraclide, editada por Jean
Scherer (Paris, 1949), é im portante.
A literatura sobre Orígenes é enorm e; mas não tem havido nenhum relato
com pleto satisfatório dele desde a exposição anterior de E. R . R edepenning
(1841-46), que contém m uito material, e o estudo mais recente, um pouco ele­
gante demais, p or E. de Faye (3 vols., Paris, 1923-28).
Para o período inicial veja: R . Cadiou (traduzido por J. A. Southwell), Orígenes.
Sua Vida em Alexandria (St. Louis e Londres, 1944).
D e im portância fundamental para seu relacionam ento com a filosofia con­
temporânea: Hai Koch, Pronoia und Paideusis, Studien über Orígenes und sein Verhältnis

/$ £
zum Platonismus (1932). A. M iura-Stange, Celsus und Origenes, das Gemeinsame
ihrer Weltanschauung (1926), é tam bém útil. W. Völker, Das Vollkommenheitsideal
des Origenes (1931), tenta interpretar O rigenes do ponto de vista de sua piedade
e do alegado misticismo. Cf. H . Jonas, “D ie origenistische Spekulation und die
M ystik” , Theol. Zeitschr., 5 (1949), 24 ff.
A pesquisa francesa sobre Origenes foi particularm ente frutífera: R . Cadiou,
La Jeunesse d’Origène (Paris, 1935);J.Daniélou, Origène (Paris, 1950); H . de Lubac,
Histoire et esprit. LTntelligence de Vécriture d ’après Origène (Paris, 1950); Fr.Bertrand,
Mystique de Jésus chez Origène (Paris, 1951); H . Crouzel, Théologie de 1’image de
Dieu chez Origène (Paris, 1956).
O perigo reside em muita ênfase sendo posta sobre os aspectos “ católicos”
especificamente eclesiásticos e sacramentais. A m elhor introdução objetiva é
fornecida por Hai Koch, art. “ O rigenes” em Realencyklopädie, XVIII, 1 (1939),
1036 ff., de Pauly-Wissowa-Kroll.

C a p í t u l o 5 - E u s é b io d e C e s a r é ia

A edição crítica na Griechische christliche Schriftsteller ainda não foi concluída.


Sobretudo, a edição da História da Igreja (1903-09), p o r Ed. Schwartz (com a
tradução latina de R ufino editada p o r T h. M om m sen), da qual um a “curta edi­
ção” tam bém apareceu (3a. edição, 1922; reimpressa, 1952), é de im portância
fundamental. Schwartz tam bém foi responsável pelo prim oroso artigo com pleto
sobre Eusébio em Realencyklopädie,V I, 1 (1907), 1370 ff. de Pauly-Wissowa-
Kroll. Há traduções em inglês por A. C. M cG iffert (Londres, 1890), Lago (Lon­
dres, 1927-28) e um artigo im portante p o r H eadlam em J. T.S. IV (1903), 93,“As
edições e MSS de Eusébio” .
A obra Die Theologie des Eusebius von Caesarea (1939), de H . Berkhof, fornece
uma excelente exposição. N o cenário político e teológico cf. tam bém H . Eger,
“Kaiser und Kirche in der Geschichtstheologie Eusebs von Caesarea” , Zeitschr.f.
neutest. Wissensch., 38 (1939), 97 ff; Joh. Straub, Vom Herrscherideal der Spätantike
(1939), e o estudo brilhante mas teologicam ente questionável de E. Peterson,
Der Monotheismus als politisches Problem. Ein Beitrag zur Geschichte der politischen
Theologie im Imperium Romanum (1935). As melhores obras inglesas são Lawlor,
Eusebiana (Oxford, 1912) e Stevenson, Estudos sobre Eusébio (Cambridge, 1929).

C a p í t u l o 6 - A t a n á s io
H .-G . O pitz iniciou um a nova edição das obras de Atanásio em 1934; deve­
rá ser continuada por W. Schneemelcher. U m guia im portante para o estudo de
Atanásio é o Lexicon Athanasianum (1952), de G uido Müller, que tam bém serve
com o uma concordância.

/< ? /
N ão há até agora nenhum a biografia exaustiva de Atanásio. F. L. Cross, O
Estudo de Atanásio (Oxford, 1945), fornece um a boa introdução.
Os esboços de Ed. Schwartz,“ Z u r Geschichte desAthanasios” ,em Göttinger
gelehrte Anzeigen (1904-11; cf. tam bém Kaiser Konstantin und die christliche Kirche,
1936 [2]), ainda são im portantes.
U m a pesquisa sobre as complicadas lutas políticas eclesiásticas é fornecida
por H . Lietzmann em sua exposição fascinante no terceiro volum e de Geschichte
der alten Kirche (1953 [2]) (tradução em inglês, 1937-1951).
O desenvolvimento das opiniões de Atanásio sobre a lei eclesiástica é estu­
dada na dissertação Giessen p o r K. F. Hagel, Kirche und Kaisertum in Lehre und
Leben des Athanasius (1933), e K. M . Setton, A Atitude Crista com Respeito ao
Imperador no Quarto Século (Nova Iorque, 1941).
Para o m uito discutido Vita Antonii é suficiente fazer referência ao estudo
mais recente de H .D õ rries,“D ieV ita A ntonii als Geschichtsquelle” (no Göttinger
gelehrte Anzeigen, 1949).

C a p í t u l o 7 - B a s íl io
N ão há nenhum a edição crítica com pleta a respeito dos escritos de Basílio,
nem há um a biografia digna. U m a profunda e conveniente avaliação do atual
estado de pesquisa é fornecida pela dissertação teológica de L.Vischer, Basilius
der Grosse, Untersuchungen zu einem Kirchenvater des 4. Jahrhunderts (1953). Há
tam bém um grande núm ero de estudos valiosos de valor mediano, e de aspectos
específicos de sua teologia e obra, especialmente de sua atitude quanto à cultura
clássica. N a teoria ascética de Basílio, cf. D. Amand, L ’Ascèse monastique de S.
Basile (1949) e Clarke, São Basílio, o Grande, U m Estudo sobre o monasticismo
(Cambridge, 1913); sobre a sua opinião a respeito do Estado, G. F. Reilly, Império
e Sacerdócio de Acordo com São Basílio, o Grande (teol. diss., Washington, 1945);
sobre o cisma antioquiano, F. Cavallera, Le Schisme d’Antioche (Paris, 1905); e por
sua posição sobre o dogma, K. H oll, Amphilochius von Ikonium in seinem Verhältnis
zu dengrossen Kappadoziern (1904), e mais recentem ente, B. Schewe, Basilius der
Grosse als Theologe (diss., N ym w egen, 1943) e, particularm ente im portante,
D örries, De spiritu sancto, der Beitrag des Basilius zum Abschluss des trinitarischen
Dogmas (1956). Mais geral é Fox em , A Vida e Epoca de São Basílio, o Grande, como
Revelada em suas Obras (Washington, 1939). A maneira correta de soletrar o
nom e em grego é Basileios; porém era pronunciada naquela época Vasílios.

C a p ít u l o 8 - G r e g ó r i o N a z ia n z e n o
N o caso de G regório Nazianzeno, somos ainda dependentes da reimpressão
de suas obras em Patrologia graeco-latina, de M igne. A antiga biografia, não mais

/â S
adequada, de C. Ullm ann, Gregorius von N azianz, der Theologe (1867 [2]), foi
juntada por exposições mais recentes, especialmente em francês, que se concen­
tra em um ou outro aspecto de seu caráter: M . G uignet, S. Grégoire de Nazianze
orateur et épistolier (Paris, 1911); P. Gallay, La vie de S. Grégoire (Paris, 1943), e o
estudo m uito sistemático por J. Plaignieux, S. Grégoire de Nazianze, théologien
(Paris, 1952).
D os inúm eros estudos da postura de G regório em relação à literatura e
cultura antigas, uma m enção especial deve ser feita da edição ricam ente anotada
de H. M .W erhahn de SiryKpiaiSßicov, de G regório (1953). B.Wyss,“ Gregor von
Nazianz. Ein griechisch-christlicher D ichter des 4. Jahrhunderts” (Mus. Helvet.,
6,1949), fornece a mais viva descrição da personalidade de Gregório, bem com o
informações úteis de pontos específicos. E m m inha opinião, o m elhor tributo
teológico pode ser encontrado em K. H oll, Amphilochius von Ikonium in seinem
Verhältnis zu dengrossen Kappadoziern (1904), exceto que até mesmo Holl, talvez,
nem sempre preste suficiente atenção para o caráter intensam ente retórico das
formulações dogmáticas de Gregório, e portanto tom e algumas coisas de m odo
excessivamente literal e sério.

C a p í t u l o 9 - G r e g ó r i o d e N issa

A edição crítica de W erner Jaeger das obras de Gregório (as cartas editadas
por G.Pasquali) com eçou em 1921, substituindo os textos bastante inadequados
que aparecem em M igne.Até certo ponto, porém , tenho citado M igne, visto que
suas colunas tam bém são referidas na m argem da edição de Jaeger.
H ouve muitos estudos do misticismo e do pensamento religioso de Gregório
em épocas recentes. N a maioria dos casos, um a ênfase especial foi dada ao con­
teúdo “cristão” de seu pensamento, quando comparado com os elementos obvia­
m ente neoplatônicos. U m a m enção especial deve ser feita de: H . F. Cherniss, O
Platonismo de Gregório de Nissa (Berkeley, 1930); H . U. von Balthasar, Présence et
Pensée. Essai sur la philosophie religieuse de Grégoire de Nysse (Paris, 1942); A. Lieske,
“D ie Theologie der Christusmystik Gregors von Nyssa” , em Zeitschr. f. kath.
Theologie, 70 (1948), 49 ff.; 129 ff.; 315 ff. e, particularm ente, a obra com pleta de
J. D aniélou, Platonisme et théologie mystique. Essai sur la doctrine spirituelle de Saint
Grégoire de Nysse (Paris, 1954 [2]); e tam bém seu artigo, “La R ésurrection des
corps chez Grégoire de Nysse” , Vigil. Christ., 1 (1953), 154 ff. U m a obra recente
é a de W.Völker, Gregor von Nyssa als Mystiker (1955).
O brilhante estudo elaborado p o r J. Gaïth, La Conception de la liberté chez
Grégoire de Nysse (Paris, 1953), sofre um pouco da abordagem filosófica e siste­
mática unilateral. U m tema limitado, porém central no pensamento de Gregório,
é tratado por R . Leys, L ’Image de Dieu chez Saint Grégoire de Nysse. Esquisse d’une

/â â
doctrine (Bruxelas,Paris, 1951),e H .M erki/O M O IQ ZIS' 0EQ I. Von derplatonischen
Angleichung an Gott zur Gottàhnlichkeit bei Gregor von Nyssa (Freiburgo, Suíça,
1952), que é um estudo particularm ente frutífero dos pontos de vista filológico
e histórico.

C a p í t u l o 1 0 - S in é s io d e C i r e n e

As antigas edições de Sinésio foram substituídas pelas cartas de R . H ercher,


Epistolographi Graeci (Paris, 1873), 638-739; pelos hinos e outros escritos da edi­
ção romana iniciada em 1939 p o r N.Terzaghi, Synesii Cyrenensis hymni et opuscula.
Tradução inglesa por A. Fitzgerald de Cartas (Londres, 1926), Esboços e Hinos (2
vols., Londres, 1930).
G. G rützm acher forneceu um a biografia sólida em seu Synesios von Kyrene -
ein Charakterbild aus dem Untergang des Hellenentums (1913) e,mais recentemente,
a obra de Chr. Lacombrade, Synesios de Cyrène, Hellène et chrétien (Paris, 1951), na
qual toda a literatura antiga está listada. Estudos ingleses de sua vida e obras por
Alice Gardner, na série Os Pais para Leitores Ingleses (Londres, 1886);J. C. Nicol,
Sinésio de Cirene. Sua Vida e seus Escritos (Cambridge, 1887); e W. S. Crawford,
Sinésio, o Heleno (Londres, 1901).
O trabalho de J. C. Pando,“/! Vida e a Época de Sinésio de Cirene” (Universi­
dade Católica da América, Estudos Patrísticos, Vol. 63, Washington, 1940), é mais
uma compilação.

C a p í t u l o 11 - J o ã o C r i s ó s t o m o
N enhum a edição com pleta foi tentada desde a edição feita por M ontfaucon
(1718-38), que foi reimpressa, com adições, p o r Migne. As edições de obras
específicas são tam bém escassas e insignificantes. Por causa do texto, a m elhor
edição ainda é a de Savile (8 vols. E ton, 1612).
U m a biografia prolixa em dois volumes na qual toda a literatura está listada
foi fornecida por Chr. Baur na obra Der heilige Johannes Chrysostomus und seine
Zeit (1929-30).Especialmente im portante é deT illem ont por sua cronologia em
Mémoires pour servir à Vhistoire ecclésiastique des six premiers siècles, Vol. IX (Paris,
1706). Tam bém deve ser m encionada a exposição de V. Schultze no terceiro
volum e de sua obra Antigas Cidades Cristãs e Paisagens (1930), que trata da
Antioquia. U m a fonte im portante para a biografia de Crisóstom o é Dialogus de
Vita S.Joannis Chrysostomi, de Palladio, que apareceu em uma excelente edição
preparada por P. R . C o le m an -N o rto n em C am bridge, em 1928. A versão in­
glesa de Stephens, São João Crisóstomo, sua Vida e Época (Londres, 1880 [2]), e uma
mais popular de Bush, A Vida e Época de Crisóstomo (Londres, 1885).

fâ ?
N ão há muitos estudos teológicos de sua obra; um dos melhores é “D er
B egriff des M ysteriums bei Johannes Chrysostom os” (Theophaneia, IX, Bonn,
1953), de G. Fittkau.

C a p í t u l o 1 2 - C i r i l o d e A l e x a n d r ia
A única edição com pleta das obras de Cirilo, de Joh. A ubertus (1638), foi
reimpressa por M igne em Patr.graeca, 68-77.
Seus escritos antinestorianos podem agora ser encontrados quase completos
no prim eiro volum e da Acta conciliorum oecumenicorum (AC O ), de Ed. Schwartz.
As introduções e os tratados difundidos deste últim o deram a m elhor con­
tribuição ao explicar os procedim entos políticos na Igreja. Veja especialmente
Cyrill und der Mönch Viktor (1928).
N ão há nenhum a biografia m oderna adequada de Cirilo.
O que se segue é im portante para a luz que ela lança sobre a sua posição
teológica dentro da tradição alexandrina: J. Liébaert, La Doctrine christologique de
Saint Cyrille d’Alexandrie avant la querelle nestorienne (Lille, 1951). A. Kerrigan,
São Cirilo de Alexandria, Intérprete do Antigo Testamento (R om a, 1952), lida com
seus m étodos de exegese. Tam bém há m uito material na obra de H . du M anoir
de Juaye, Dogme et spiritualité chez Saint Cyrille d’Alexandrie (Paris, 1944).
O s P a is L a t i n o s
N o t a d o T r a d u t o r da V e r sã o Ing lesa

O professor von Cam penhausen é bastante conhecido no m undo acadêmi­


co com o um líder e especialista nos assuntos patrísticos, bem com o um dos mais
destacados estudiosos protestantes na Alemanha, porém suas mais im portantes
obras somente passaram a estar disponíveis no idioma inglês recentem ente. U m
esforço inicial foi feito para rem ediar esta situação por meio da publicação da
tradução de dois de seus livros que tratam dos Pais gregos e latinos da Igreja.
Ambos são considerados com o obras do mais alto valor, tanto por estudiosos do
assunto com o por leigos possuidores da m elhor formação. Em bora o autor re­
nuncie expressamente às “citações padronizadas, notas, explicações, citações mar­
ginais, notas de rodapé,bem com o todos os tipos de apêndice” , o leitor especialista
reconhecerá por trás destes esquemas biográficos o exato conhecim ento do tra­
balho literário dos Pais da Igreja, de sua colocação histórica e de seu impacto
teológico.
C o m o tradutor, e ex -alu n o do autor, fam iliarizado à sua abordagem
m etodológica e teológica, esforcei-me p o r preservar fielmente o espírito desta
obra, bem com o a individualidade do autor. C onsidero-m e com o devedor aos
meus colegas e amigos, ao professor Jo h n Lawson, de Atlanta, e ao Dr. Jack H.
W ilson, de Atenas, Tennessee, b em com o ao Rev. L. A. Garrard, de O xford, por
seu trabalho editorial. Acima de tudo, expresso a m inha gratidão ao próprio
autor por sua inspiração intelectual, e tam bém por seu entusiasmado interesse
por m eu trabalho.

M anfred H offinann

Em ory Universidade
Adanta, Geórgia
Os Pais Latinos

Introdução ...................................................................................................................175
Tertuliano ....................................................................................................................179
C ip ria n o ...................................................................................................................... 205
Lactâncio...................................................................................................................... 227
A m b ró sio .....................................................................................................................249
J e rô n im o ...................................................................................................................... 283
Agostinho ................................................................................................................... 327
B o é c io ..........................................................................................................................403
Tabela C ro n o ló g ic a ...................................................................................................431
Lista de A breviaturas................................................................................................. 433
Bibliografia.................................................................................................................. 435
In t r o d u ç ã o

O s P ais G r e g o s e L atino s da I greja

A série anterior deste livro foi dedicada aos Pais gregos da Igreja. O que ali
foi dito a respeito das expressões “Pais da Igreja” e “patrística” não será repetido
aqui. Este volum e deve ser lido de m odo independente, em bora em relação ao
tema seja um a continuação do anterior. A literatura patrística latina consolidou-
se quase cem anos após a grega. O s pais latinos eram os filhos mais jovens dos
gregos, que foram os seus prim eiros ensinadores na fé e no pensam ento cristão,
e, na verdade, em toda a sua teologia. Este relacionam ento não é feito de m odo
suficientemente distinto pelo usual e simples arranjo cronológico dos Pais gre­
gos e latinos da Igreja.
N a Igreja Primitiva, assim com o no m undo cultural antigo, fluiu uma cons­
tante corrente de estímulo intelectual do O rien te para o O cidente. N ão havia
um refluxo comparável do O cidente para o O riente que correspondesse à gran­
de quantidade de literatura que era traduzida para o latim. C ontudo, no m undo
ocidental foi rapidam ente desenvolvida um a nova, vigorosa e independente for­
ma de vida eclesiástica e de teologia cristã, que definitivamente provou não ser
inferior à grega, e possivelmente sobrepujou o seu efeito na história mundial. A
ascensão deste fenôm eno eclesiástico latino merece destaque, porque marca o
início da prim eira transformação para um novo m undo intelectual de que a
cristandade com o um todo foi participante.
Em bora Jesus e seus prim eiros discípulos não tenham discursado em grego,
mas tivessem o aramaico com o idiom a usual, o cristianismo não é uma “religião
judaica” . A Igreja era form ada p o r judeus e gregos; e os pais gregos com preen­
deram sua fé, de m odo legítimo e correto, com o um a nova verdade que trans­
cendia tanto o judaísm o quanto o helenismo. O N ovo Testamento foi escrito em
grego e, com o sempre, o idiom a é mais do que uma simples roupagem exterior.
O espírito grego tocou e até certo ponto caracterizou o cristianismo em seu
princípio. Este fator influenciou de m odo crescente e unilateral o desenvolvi­
m ento seguinte, em detrim ento dos alicerces hebraicos do A ntigo Testamento.
M esm o onde a Igreja antiga avançou em sua atividade missionária, além das
fronteiras do im pério em direção ao O riente, e aparentem ente reorientou-se, as
pressuposições gregas do texto da Bíblia, os credos, e o pensam ento teológico,
geralmente perm aneceram e provaram ser impossíveis de se erradicar. Pode-se
afirmar com certeza que a Igreja tam bém teve pais orientais; contudo, estiveram
em posição inferior dos pais latinos no que diz respeito ao poder e à im portância
independente.
O O cidente “latino”, que precisa realmente ser considerado de m odo isola­
do por causa da história da Igreja antiga, foi p o r m uito tem po influenciado e
perm eado pela cultura grega e pelo pensam ento helenista quando o cristianismo
entrou em cena. D e fato, esta foi a única razão que tornou possível o rápido
desenvolvimento intelectual da Igreja ocidental.
C ontudo, se o espírito rom ano não se dissolveu simplesmente no helenismo,
mas preservou a sua identidade através de seu constante intercâm bio com este, e
som ente desta form a alcançou sua própria personalidade intelectual, o mesmo é
verdadeiro para a Igreja latina, e sua independência teológica.
C om o já foi dito, os Pais latinos da Igreja foram instruídos e educados por
mestres gregos; porém possuíam desde o com eço o seu próprio acesso à Bíblia,
especialmente ao N ovo Testamento. E m oposição à tendência filosófica, e às
tendências metafísicas e especulativas do helenismo, exibem uma limitação e
uma reserva que som ente pôde ser vencida no final do século IV. Este fato levou
ao “Período de O u ro ” da teologia dos pais latinos, com o foi exemplificado aci­
ma de tudo em Agostinho.
M esm o esta nova teologia “filosófica” , contudo, não perdeu os seus alicerces
no pensamento latino. N ão foi p o r acaso que esteve ligada a um redescobrim ento
de Paulo, e ao levantamento da questão, tão característico em Paulo, relacionada
à oposição da fé cristã à lei mosaica. Este é u m aspecto que raram ente foi consi­
derado pela teologia grega, e que em seu significado original, de todo modo,
perm aneceu com pletam ente estranho a esta. A afinidade peculiar que existia
entre o caráter rom ano e o judaísm o capacitou a Igreja latina, p o r causa de sua
sobriedade e legalismo prático, a com preender o significado do Evangelho.
C ontudo, não nos referiremos a estes assuntos em detalhes neste volume,
que som ente apresenta um a série de descrições biográficas resumidas, e que não
tem a intenção de ser um substituto da história da teologia e da doutrina. A
seleção das personalidades descritas é mais um a vez estritam ente limitada, e não
vai além dos limites da literatura clássica antiga, cujo declínio tam bém marca
uma época na história da Igreja. N o entanto, p o r trás de meus esforços está a
convicção de que um a vida histórica é prim eiram ente concretizada através de
personalidades humanas, ou ao m enos nelas isto pode ser alcançado de m odo
mais direto e com preendido de m odo mais distinto.

tr ?
T e r t u l ia n o

á existia em R o m a, nos tempos do apóstolo Paulo, um a con­


gregação cristã, porém não era ainda um a congregação ro­
mana. A m etrópole abrigava imigrantes de todas as partes do
m undo, e aqueles que vinham do O riente, de fala grega, não eram exceção. Foi
através destes que vieram os prim eiros missionários e aqueles que aderiram à
nova fé. O idiom a dos cristãos p o r todo o m undo ocidental era exclusivamente
o grego, e esta situação perm aneceu por cerca de cem anos. Este fato não ocor­
reu apenas porque Igreja teve sua origem no O riente, mas refletiu igualmente as
condições gerais do im pério, que havia se tornado um im pério unido desde a
área do M editerrâneo, incluindo a sua cultura.
O idiom a grego não era som ente a língua da inteligência (assim com o o
francês o foi durante certo período na Alemanha), sendo igualmente o idioma
que prevalecia nos assuntos relacionados ao com ércio e às viagens. E m cada
grande cidade do O riente, o grego era não somente com preendido mas falado,
provavelmente com o a linguagem com um do povo. Para uma religião praticada
em metrópoles, uma fé que logo de início dissociava o indivíduo dos laços nacio­
nais, colocando-o em um a nova com unidade, com o era o costum e no cristianis­
mo, o grego era obviamente a linguagem religiosa e eclesiástica.
Q uando esta situação lentam ente com eçou a m udar por volta do final do
século II, podem os observar a ampliação desta base intelectual e social, e a cres­
cente popularidade e estabilidade da Igreja ocidental. Os membros das congre­
gações com eçaram a falar o latim entre eles, e o grego, na m aior parte das ocasi­
ões, era falado som ente no alto clero. Os sermões com eçaram a ser pregados pela
prim eira vez em latim; e, então, podem os encontrar o princípio de uma modesta
literatura latino-cristã para utilização prática na Igreja: traduções da Bíblia, rela­
tos de martírios e um catálogo do cânone que foi preservado.
C ontudo, quando e onde teve início o desenvolvimento intelectual inde­
pendente? O prim eiro docum ento em latim considerado im portante por alguns
estudiosos é o diálogo “O távio” , que é de form a significativa um a “apologia”
escrita visando leitores não cristãos. O seu autor é um advogado rom ano chama­
do M úcio Felix. N a antiga disputa acerca da prioridade cronológica, ao menos
parece que a balança pende a seu favor, e contra a precedência de seu colega
advogado, Tertuliano. Apesar disso, iniciam os p o r Tertuliano, e sem qualquer
apreensão, podem os colocar de lado o desconhecido M úcio.
Tertuliano foi o prim eiro teólogo latino que realmente conhecem os no
O cidente com o uma personalidade distinta. Este elucida de forma com pleta o
m undo em que vivia e trabalhava, através da abundância de seus escritos vigoro­
sos e originais. Neste âmbito, está posicionado no princípio de toda a história da
Igreja latina.
Tertuliano era um africano, isto é, um cidadão da África, de um a província
colonizada pelos romanos, que hoje é a Tunísia. N a capital, Cartago, Q u into
Séptimo Florens Tertuliano nasceu logo após a m etade do século II. O seu pai
era um subalterno no exército. Sua obra está de acordo com a perspectiva rom a­
na, em bora tenha um a form a africana característica quanto ao espírito romano,
que tende a com binar disciplina com censura, e um senso de organização com
escárnio e paixão, e que prefere a auto-suficiência a ponto de chegar à rebelião,
ao invés da cegueira no seguir e no obedecer.
O jovem Tertuliano, tendo recebido um a extensa educação em retórica e
leis, viveu durante certo período em R om a, e deve ter iniciado sua vida profis­
sional com o procurador. E improvável que seja o mesmo Tertuliano m enciona­
do nas compilações com o um famoso jurista. Ele não era um erudito profundo,
em bora tenha lido m uito e tenha tido um grande conhecim ento, e apreciasse
surpreender os seus leitores p o r m eio de alguns fatos obscuros. Ele foi definido
por H arnack com o um “advogado que filosofava” , em cuja boca a linguagem
precisa de um jurista havia se tornado um m eio de retórica. O seu aguçado
intelecto estava constantem ente em m ovim ento; contudo, não se adequava a
uma vida contemplativa.Tudo aquilo em que Tertuliano pensou, disse e realizou
foi direcionado ao m undo real e exigia decisões práticas. Este era u m fator
determ inante tanto em sua vida intelectual com o na espiritual.
Ele era im petuoso, ávido e em muitas ocasiões mostrava-se, de m odo propo­
sital, invencível; ele mesmo reclamava que jamais seria capaz de aprender a pre­
ciosa virtude da paciência. Jerônim o, que em muitos aspectos possuía um a natu­
reza semelhante, classificou-o certa vez com o o hom em que estava sempre em
chamas (vir ardens). C ontudo, os seus modos não eram primitivos; jamais perdeu
o controle de seu tem peram ento. Pelo contrário, quanto mais irado falava, e
quanto mais veem ente e pessoalmente lançava todo o seu peso em relação a

/J O
tudo aquilo que pensava ser o correto, mais polidos se tornavam os seus pensa­
mentos e o seu estilo, mais sutis as suas táticas e mais aguda a sua cruel sagacidade
de argumentação. A m oderação romana, a transparência legal e a disciplina mili­
tar foram transmutadas em um a força moral e intelectual no coração e na m ente
de Tertuliano, os quais eram ardentes e ambiciosos.
N ão conhecem os as circunstâncias que levaram Tertuliano ao cristianismo.
G eralm ente pensa-se que o efeito causado pelos mártires foi, de acordo com o
seu próprio testem unho, a força persuasiva mais im portante, bem com o o im ­
pacto da com unidade cristã em geral, im perturbável e unida em m eio a um
m undo licencioso. E m adição a isso, contudo, o im pacto espiritual do ensino
cristão não deve ser negligenciado. A mensagem do único Deus, C riador e So­
berano —que não é apenas um a m era idéia, mas que dirige o curso do m undo
com o um todo —que derrotou os dem ônios através de Cristo, e chama todos os
hom ens a um a decisão final, foi a fonte da experiência decisiva na vida de
Tertuliano.
Em contraste a isso, as teorias construídas artificialmente e a sabedoria dos
filósofos foram expostas com o conversações vãs e ineficazes. A verdade de Deus
não pode ser negada em princípio p o r n enhum ser inteligente, e é óbvio que é
verdadeiramente revelada e dada a conhecer somente aos cristãos. Eles conhe­
cem o Filho de D eus e através dEle, de seu ensino, e de sua Palavra, passam a
conhecer sua com pleta vontade, natureza, bem com o a lei de Deus.
Tertuliano conheceu a Bíblia m uito cedo, e aderiu a esta por toda a sua vida.
Ele a conhecia profundam ente, e referia-se a ela em cada situação que fosse
possível, não hesitando em interpretá-la de m odo independente, conform e fosse
necessário, de acordo com o texto original grego. E m ouvir a voz de Deus de
form a direta —na palavra dos profetas, do próprio Salvador e dos seus discípulos
- Tertuliano não era, sem dúvida, original. Partilhava a sua crença “nas Escritu­
ras” com os demais cristãos que lhe eram contem porâneos. Porém m uito mais
do que qualquer um deles, possuía tam bém u m im ediato senso do caráter
inigualável da Bíblia.
Ele sabia, e declarava de tem pos em tempos, que este caráter é absolutamen­
te diferente do espírito e da sabedoria do m undo, por mais nobres que estes
possam ser. A sua moderação, o seu realismo direto e aberto, revelado p o r uma
afinidade natural com o fervor e a sobriedade básica das Santas Escrituras, e o
caráter concreto e paradoxal destas, não pode ser abordado p o r qualquer ideolo­
gia aparentem ente religiosa. E aceitando-as nesta particularidade, e amando-as
naquilo que nos poderia parecer estranho, Tertuliano tornou-se o mais original
e, em muitos aspectos, o mais perspicaz exegeta de toda a Igreja Primitiva, cuja
precisão de detalhes e entendim ento não foi excedido p o r n enhum dos teólogos
que viveram depois dele. As limitações que finalmente o venceram foram os
limites de sua própria compreensão da fé, a saber, os limites de seu orgulho e de
sua natureza rígida e implacável.
Q uando ficamos sabendo da existência de Tertuliano, ele já era um respeitá­
vel m em bro da congregação cristã cartaginesa. Estava no auge da vida, tinha um
feliz m atrim ônio, e mesmo parecendo não ser rico, tinha um a situação econô­
mica independente e segura. Deste m odo, dispôs-se à instrução dada aos candi­
datos ao batismo e aos novos convertidos. Além do mais, deve ter “pregado”
ocasionalmente, isto é, deve ter proferido discursos espiritualm ente instrutivos
diante da congregação. Acima de tudo, entretanto, Tertuliano era ativo com o
escritor independente, atuando com o advogado a favor dos cristãos em relação
aos pagãos, defendendo os melhores aspectos do cristianismo.
Ele compôs parte de seu trabalho literário no idioma grego —“E m considera­
ção aos nossos estetas teatrais”, como ele ironicamente comentava (De Cor. 6) —
porém é estranho que nenhum destes escritos em grego foi preservado. A tradução
para o latim era mais apropriada para um autor que, como Tertuliano, visava um
confronto de efeito direto e, por meio de apelos e preleções, procurava alcançar
prioritariamente os seus irmãos mais próximos e os seus concidadãos. Mas que latim
ele repentinamente atreveu-se a escrever! Foi sem precedentes no campo literário.
N os escritos de Tertuliano caminhamos pela linguagem viva dos cristãos
daquela época, o latim da Igreja latina em fase de crescimento, um idioma que
de m odo apropriado é repleto de term os emprestados e de novos vocábulos para
descrever os novos fatos e idéias da vida cristã cotidiana. Esta, ao mesmo tem po
observa e adota, mesmo nos detalhes gramaticais, a linguagem que é falada pela
sociedade cartaginesa, e pelas pessoas que Tertuliano conhecia, observava e pro­
curava. Porém , acima de tudo, é a própria linguagem de Tertuliano, um a expres­
são de seu fortíssimo poder criativo, que de nada se absteve no sentido de alcan­
çar as metas que estabeleceu para si mesmo.
Tertuliano conhecia bem aquilo que estava fazendo. N ão renunciou a ne­
nhum dos artifícios da retórica aprovada, que ele bem sabia com o com binar com
os argumentos mais surpreendentes, com os trocadilhos, rimas, aliterações, frases
rítmicas e todas as peculiaridades e idiossincrasias da escola de escritores da época.
A este respeito ele parece mostrar uma relação familiar com os seus contem porâ­
neos mais velhos e com um africano amigo e concidadão chamado Apuleio. D e
qualquer forma, Tertuliano nada tinha que ver com a elegância clássica de M úcio
Félix, que escreveu sua apologia conform e o estilo de Cícero. Ele desejava golpear
e desmascarar a realidade de seu tempo; queria acima de tudo apertar, prender e
cativar os seus ouvintes. Daí o fato de expressar-se de uma maneira viva e extrema­
mente ativa, que freqüente e fortemente excedia os limites do bom gosto.
C ontudo, o seu m odo coloquial nunca é simplesmente rude, mas depende
da matéria abordada —isto é, o m odo com o Tertuliano a vê é delimitado pela
própria verdade. Isto confere à sua rudeza e à aparente vulgaridade de sua lin­
guagem a dignidade de um a missão m aior e a consagração de uma verdadeira
sinceridade. Esta impressão de u m realismo inflexível e heróico até mesmo in­
tensifica o estilo de frases objetivas que é pretendido, juntam ente com as erup­
ções vulcânicas de suas sentenças. D e acordo com um a declaração feita p o r um
crítico na Igreja antiga, quase todas as palavras deTertuliano tornam -se máximas.
E estas sentenças proverbiais, esta exatidão rude, ocasionalmente lem bram Táci­
to. Porém, “ o fervor que Tácito m antém em xeque por m eio de uma indignação
aristocraticamente refreada torna-se nele [em Tertuliano] um a forte onda que
leva, rodopiando e em turbilhão, tudo o que estiver em seu cam inho” .
N enhum outro autor antigo, diz Eduard N orden, violou de m odo tão in­
cessante a “mais alta lei da antiga concepção da arte, a subordinação da individu­
alidade àquilo que é tradicional” com o Tertuliano o fez, a quem C risto se reve­
lou, com o ele disse certa vez, precisamente “não com o uma tradição, mas com o
a verdade” (de Virg. Vel. I, 1). M esm o nos tempos antigos haviam reclamações
quanto à dificuldade de seus escritos. E outra conseqüência de seu estilo é que as
sentenças empregadas p o r Tertuliano não podem ser diretam ente traduzidas para
a linguagem m oderna, nem mesm o para o inglês. Som ente o original em latim
preserva os fortes golpes, bem com o o ressoar do metal, as centelhas voando à
medida que ele as foija.
R aram ente havia na Igreja daquela época algum problem a sobre o que
Tertuliano deveria ou não expressar a sua visão, ou de alguma form a oferecer a
sua opinião. Os cerca de trinta diferentes escritos que possuímos hoje são tão
variados quanto se possa imaginar. Tertuliano gostava de organizar um tópico de
m odo temático, e tratá-lo de m odo exaustivo sem tornar-se prolixo. Ele não
adotou a form a literária de um com entário bíblico contínuo, que originava-se
naquela época. As suas publicações abrangem desde panfletos curtos, concisos e
inteligentes, até volumosos tratados teológicos que são “livros” , mesmo em um
sentido m oderno, e são inteiram ente voltados aos estudos. São todos bem orga­
nizados, sempre m antendo o seu propósito em foco.
Estas obras, de m odo m uito hábil, colocam o leitor p o r dentro da situação e
antecipam suas possíveis objeções; conduzem sua atenção ao significado e à im ­
portância de certas idéias, e, de m odo irresistível, carregam-no consigo.Tertuliano
possuía um a rara habilidade dentre os teólogos: era incapaz de ser enfadonho.
Este fato tam bém é verdadeiro em relação aos seus tratados escritos, ou àqueles
que têm propósitos puram ente edificantes e instrutivos e que representam o
resultado de seus ensinos leigos. D este m odo, escreveu o famoso tratado sobre a
oração —“o qual sozinho revela os propósitos de Deus sobre este tem a” —e que
contém um a bela e impressionante exposição da oração ensinada pelo Senhor.
Ele instrui os seus leitores a respeito do significado e da correta utilização do
batismo e do arrependim ento. Descreve o que deve ser u m m atrim ônio cristão;
e em um breve tratado louva a paciência - da qual ele mesmo infelizmente
carecia. Aquilo que ele explica não é sempre algo novo; porém é sempre con­
siderado de m odo independente, tratado de um a nova maneira, e assim apresen­
tado a todos aqueles que são capazes de com preender a im portância do proble­
ma. M esm o quando utilizando outros autores, jamais foi u m m ero plagiador,
mas adaptou-se ao leitor atual. Isto faz de seus escritos um a incomparável fonte
de material para a vida da Igreja desta época.
A m aior parte de seus escritos tem , contudo, um a natureza diferente. É
polêm ica quanto à abordagem , e com bativa contra os inim igos e perseguido­
res, os hereges e os enganadores da Igreja. E é nisto que os seus dons e talentos
superiores revelam-se integralm ente. Tertuliano sabia com o u m sábio orador
seria capaz de convencer os seus ouvintes, ganhá-los para si, e incitá-los contra
os outros. E m todas as situações m ostra-se com o sendo aquele que realm ente
possui o conhecim ento, enquanto os seus oponentes são todos maliciosos, obs­
tinados e ignorantes, que raram ente precisam de refutação perante um auditó­
rio com petente.
Porém , ele gostava tam bém de agir com o u m nobre que levanta contro­
vérsias, que retém os seus golpes p o r não querer condenar alguém sem uma
cuidadosa investigação, e que prim eiram ente dá a cada op o n en te aquilo que
lhe é devido, e até m esm o mais do que lhe é devido. Ele apresenta sua evidên­
cia de m odo gradual; sabe com o lhe agregar valor, de m odo a im pressionar
profundam ente, enquanto deixa a impressão de que está oferecendo som ente
um a seleção daquilo que está disponível. Freqüentem ente liberta u m adversá­
rio já derrotado, concedendo-lhe um a nova chance, quando ainda aceita com
reservas um a tese que já foi com provada com o falsa, com o objetivo de esma­
gar esta posição um a segunda, terceira e quarta vez, sob esta ou outra pressu­
posição im aginária, e finalm ente expô-lo ao desdém e ao com pleto ridículo,
enquanto a verdade vitoriosa resplandece sem que tenha sido maculada, com o
a fenix que se levanta das cinzas.
N ão é de surpreender que tal técnica de argum entação algumas vezes vá
longe demais. U m a vez que Tertuliano estava sem pre realizando um a disposi­
ção diferente em suas declarações, que eram profundam ente agudas e suposta­
m ente incontestáveis, o leitor que procura princípios lógicos, herm enêuticos e
teológicos que sejam realm ente determ inantes torna-se facilm ente confuso.
Sua brilhante sutileza é capaz de tentar os leitores a considerá-lo com o alguém
m uito mais im portante e com o u m pensador m uito mais profundo do que ele
realm ente é.
Entretanto, isto não significa que Tertuliano não fosse sério em relação àquilo
que defendia. C om o regra, a retórica antiga considerava legítimo em polêmicas
aquilo que hoje poderia parecer desleal ou m eram ente estar lutando contra um
inimigo imaginário. Tertuliano fez uso radical das oportunidades que lhe foram
concedidas, por m eio de sua educação e incomparável talento. Ele não era cíni­
co; porém era um mestre na mais alta astúcia da dialética e no uso da ironia. Cada
vez que, após tais engenhos, ele retorna ao tema sobre o qual estava discorrendo
com um a paixão freqüentem ente arrebatadora, mas nunca bombástica, até mes­
m o o leitor m oderno tem o sentim ento de que o hom em está sustentando o seu
testem unho com todo o seu coração e alma. O leitor tam bém constata p o r que
Tertuliano sustenta a sua convicção de m odo tão severo e fervoroso, com uma
veemência tão selvagem.
Os mais antigos escritos de Tertuliano que possuímos têm o propósito de
defender o cristianismo contra a superstição pagã, contra a difamação e a perse­
guição sanguinária. Esta era a tarefa clássica, p o r assim dizer, de um escritor
cristão naquele período.
A partir da m etade do século II, os “apologistas” gregos com puseram as suas
volumosas “apologias” endereçadas aos imperadores. Estas eram, na realidade,
com o qualquer outra literatura, mas naturalm ente m uito mais lidas pelos cristãos
dos que pelos pagãos, para quem eram originalm ente escritas. O próprio M úcio
Félix uniu-se a este grupo. E óbvio que Tertuliano havia estudado os trabalhos
de seus antecessores de m odo intenso, e im ediatam ente descobriu a razão do
fracasso deles: não se dirigiam realmente aos seus oponentes.Todos eles procura­
vam alcançar muitos resultados de um a só vez, e não se concentravam nos pon­
tos que eram factuais e psicologicam ente decisivos. Além do mais, não atingiam
o nível literário e intelectual que era necessário em u m debate com o este. Pode-
se observar os estágios que Tertuliano passou para desempenhar sua tarefa por
m eio de um novo estilo. Vemos um a prim eira tentativa deste trabalho em duas
partes: Contra os Gentios, que mais tarde abandonou. Segue-se, então, o grande
Apologético em um prim eiro esboço, seguido p o r outro, provavelmente revisado
por ele, e não mais endereçado a u m im perador inacessível, mas a seus ignorantes
governadores e oficiais de governo. Existem finalmente variações originais sobre
tópicos específicos que datam de um a ocasião posterior.
O grande Apologético é considerado justam ente a obra-prim a da apologia
cristã antiga, que jamais foi superada. Ele foi até mesmo traduzido certa vez para
o grego, um a distinção que m esm o em épocas posteriores foi concedida a
pouquíssimos escritos dos Pais latinos da Igreja. Tertuliano, de m odo justificado,
escolheu para a apologia a form a de um discurso perante o tribunal, algo que
seria impossível que os cristãos fizessem de m odo efetivo. Esta própria situação,
ele sugere, mostra quão passíveis de objeção eram todos os procedimentos adotados
contra os cristãos. “A verdade não faz qualquer apelo em favor de si mesma, pois
não se im porta com a sua condição presente. Sabe que desempenha o papel de

/< ? £
um forasteiro na terra, e que em m eio aos estrangeiros ela realmente descobre
inimigos, porém tem a sua origem , morada, esperança, recompensa e honra no
céu. Enquanto isto, há algo pelo que ela luta: para que não seja condenada sem
que sequer seja ouvida em interrogatório” . Isto certam ente não ameaça o siste­
ma legal vigente, acrescenta Tertuliano de m odo sarcástico, pois as autoridades
poderiam ser capazes de ter uma opinião ainda mais elevada de si mesmas se
pudessem ouvir a verdade e, não obstante, condená-la (Apol. 1,2 f.; FC, 10,7).
Assim tem início a sua defesa. Tertuliano, à sua própria maneira, coloca de
lado todos os procedim entos legais, e dem onstra que é um a atitude insana perse­
guir os cidadãos mais confiáveis do im pério, em nom e de uma religião fundada
em falsidade e engano, e que já não é mais seguida ou levada a sério em nenhum
lugar. Jamais se cansa de denunciar que todas as atrocidades e crimes falsamente
atribuídos aos cristãos têm sido perpetrados e tolerados pelos pagãos há m uito
tempo. C ontudo, abstém-se agora da difícil tentativa de ligar estas polêmicas a
uma propaganda positiva a favor do cristianismo e da conversão. Esta conclusão
pode ser tirada pelo próprio leitor quando tiver aprendido a respeito do ensino,
das regras da moralidade e do com portam ento dos cristãos com o eles são de
verdade. A evidência e as provas necessárias para um a tal conclusão devem ser
oferecidas dentro de sua própria perspectiva.
Tertuliano não abandonou nenhum dos elementos tradicionais da apologia
antiga; ele até mesmo ampliou-a. Contudo, apegando-se ao máximo ao modelo de
um discurso simulado, tudo agora parece m uito mais conciso, mais claramente
organizado, excitante e distinto. Prendendo sua respiração, o leitor segue as surpre­
endentes demonstrações e descobertas e, antes que perceba, alcança o clímax com
o qual Tertuliano, aparentemente m uito cedo, derrota o discurso adversário com
sua defesa, como se considerasse inúteis todos os esforços posteriores: “Porém se­
gui avante, bons oficiais; vos tornareis m uito melhores aos olhos do povo caso
sacrifiqueis os cristãos por eles. Crucificai-nos —torturai-nos - condenai-nos - des­
truí-nos! A vossa iniqüidade é a prova de nossa inocência. Por esta razão, Deus per­
mite que soframos estas coisas... Contudo, as vossas torturas não significam nada,
mesmo que cada uma seja mais refinada do que a anterior; antes, instigam a nossa
religião. Crescemos em número cada vez que somos abatidos por vós: o sangue dos
cristãos é semeado (semen est sanguis Christianorum)!’ Nós lhes estamos muito gratos
por terdes terminado o inquérito judicial tão rapidamente. Parece ser como se duas
cortes se confrontassem na luta entre Deus e os homens, e “quando somos condena­
dos por vós, somos absolvidos por Deus” (Apol. 50,12 ff.; FC, 10,126).
O pensam ento decisivo com o qual Tertuliano “vira de ponta-cabeça” os
procedim entos do Estado não é conseqüentem ente de ordem judicial, mas teo­
lógica. E a convicção de que o politeísmo é vão, e da realidade daquilo que é
revelado por Deus. Aquilo que as autoridades e as multidões loucas veneram é
baseado em um a m entira, é baseado naquilo que é feito pelas mãos dos homens
e em tolices vãs; por trás disso, contudo, perm anecem os perigosos dem ônios
com o sendo as forças que realmente operam, seduzem e corrom pem . Estes são
os inimigos naturais da verdade e que têm p o r esta razão incitado as ações insanas
contra os cristãos. C om isto, m ediante um simples golpe, a com binação de reli­
gião e política, o então presente estado de religião até aquele m om ento não
questionado, cai por terra. C om o é que alguém ainda pode dem andar sacrifícios
perniciosos a ídolos e dem ônios por parte daqueles que vieram ao conhecim en­
to do verdadeiro Deus Todo-poderoso? C om o alguém pode reprová-los sob a
acusação de que lhes falta a lealdade e a fidelidade, aqueles que somente desejam
evitar a sua participação na falsidade perpetrada pelo Estado, e, ao invés de pre­
judicar o im perador com um a adoração demoníaca, preferem, por am or a ele,
invocar o D eus verdadeiro, sendo verdadeiramente devotos a Ele em cada deta­
lhe e assunto?
Esta é a razão pela qual os bons juizes têm sido sempre bem dispostos para
com os cristãos, e somente os maus os têm perseguido. Esta antiga e tendenciosa
lenda, que procura fazer com que u m desejo não cum prido dos cristãos to rn e-
se real, alcança, conform e declarado por Tertuliano, um a pequena probabilidade
e im portância. Pois a partir de um sentim ento nobre, ele é capaz de passar por
cima das autoridades locais, apelando aos bons imperadores que não foram in­
formados a respeito das ações de seu poder executivo e das más práticas que
foram feitas utilizando os seus nomes.
Todas estas declamações táticas, contudo, carregam adicionalmente consigo
um significado de m aior alcance. A qui encontram o-nos no princípio de uma
nova compreensão acerca do Estado, e de obediência a este, que não existia no
m undo anterior ao cristianismo e que aponta para um futuro distante, naquela
ocasião com pletam ente inatingível.
Os legisladores e o Estado perdem o seu poder religioso direto. Em lugar
disto, ergue-se o conceito de um a obediência concreta ao Estado, conform e as
regras deste m undo, e que torna-se, em um novo sentido, atado e inevitável
porque é conduzido em nom e do D eus verdadeiro. “ O que m elhora o hom em
é a adoração a D eus” (de Paen. 2,7). Apesar de na prática ter uma interpretação
liberal, o Estado ainda era no princípio considerado com o sagrado. O entendi­
m ento religioso essencial do Estado, que havia existido até então, mostra-se ago­
ra simplesmente com o falsidade e hipocrisia. Este derrama os seus elementos
demoníacos à luz da nova fé radical e da obediência que dela procede. Q uem ,
pergunta Tertuliano, realmente considera o im perador de m odo sério com o um
Deus, isto é, no sentido estrito do cristianismo? E quem é ainda leal a este além
dos cristãos? Os cristãos não se un em àqueles que incitam constantes revoluções
e assassinatos que acontecem no palácio, e sugerem que se os peitos dos cidadãos

ff?
e dos políticos fossem feitos de vidro transparente, por m eio destes seriam vistas
algumas coisas que são sem dúvida indesejáveis! E não é afinal de contas um
absurdo ditar convicções religiosas p o r ordem do Estado? A fé não é livre por sua
própria natureza? A tentativa de exigir a adoração p o r m eio da força é uma
atitude contrária tanto à lei hum ana quanto à lei natural. “E tam bém não é nada
religioso desejar im por uma religião” (ad Scap. 2,2). Sentimos aqui o contato com
idéias de inspiração filosófica. Contudo, a nova fé em um Deus que se revela
agindo neste m undo não somente libera o indivíduo da autoridade exterior do
“tirano” ; ela tam bém ameaça levantar dúvidas a respeito da combinação da reli­
gião e da política com o um todo, e mudá-la radicalmente de uma maneira tal que
o ensino filosófico na política e as críticas não poderão ter procura e nem efeito.
Além do mais,Tertuliano apresenta o fato de tal maneira, com o para indicar
que o reconhecim ento dos cristãos em relação ao im pério não im poria nenhum
problema prático. Eles não são —com o se sugere —“ Os inimigos da hum anida­
de” , mas são os inimigos do “ erro” (Apol. 37,10). Portanto, não existem réus que
sejam melhores do que estes. Os cristãos não praticam crimes, nem mesmo aqueles
que não são punidos po r lei. O bedecem a todas as ordens justas, pagam impostos
sem fraudes e não se ju n tam a atividades subversivas. Os perigos relacionados à
sua maneira de viver são pueris, tanto em term os sociais com o econôm icos. Os
cristãos participam de todas as atividades cívicas da vida comercial e econômica
como todas as demais pessoas. Podem ser encontrados em todas as partes —exceto
no templo pagão! “N ão somos nem brâmanes nem gnosofistas hindus, nem ermitões
das florestas, nem alheios que fogem da vida” . Aquele que crê no Criador não
menospreza as suas dádivas, mas somente despreza o abuso e a depravação.“ Supõe-
se que estejamos destruindo o vosso comércio, embora vivamos convosco e de­
pendamos de vós, o que alguém mais deverá com preender” (Apol. 42,1 f.).
Estas sentenças são interessantes do p o nto de vista teológico; contudo, na
situação política concreta, revelam Tertuliano com o sendo um apologista. N a
realidade, ele sabe m uito bem que esta convivência com a sociedade pagã da
qual ele fala não é de m odo algum fácil. N a verdade, falando de m odo estrito, é
algo impossível para os cristãos. A vida pagã consiste no dom ínio dos demônios;
não se pode participar desta sem ter que enfrentar a sua influência, seu ritual
religioso e seus símbolos p o r toda parte.
Q uando Tertuliano dirigiu-se aos cristãos foi o prim eiro a despertar suas
consciências contra todo com prom etim ento, infelizm ente tão freqüente, e o não
recuo em relação a suas conseqüências. Ele som ente faz um a exceção no caso da
educação pagã. “A em ergência serve aqui com o um a escusa” . Os cristãos não
podem evitar a instrução secular, porque nem mesm o a cultura religiosa pode
ser administrada sem esta, e tam bém porque refutarão o veneno pagão de m a­
neira m uito melhor, um a vez que ao mesmo tem po estejam sendo instruídos a
respeito do Deus verdadeiro. C ontudo, esta escusa somente é válida para as cri­
anças, não para os professores, que provavelmente não poderiam lidar com a
m itologia religiosa pagã e com tudo aquilo que está ligado a ela (de Idol. 10). Os
limites para aquilo que deve ser perm itido são definidos da maneira mais estrita
possível.
U m artífice ou um hom em de negócios cristão não deve fabricar e nem
comercializar qualquer coisa que, de um a form a ou de outra, possa ser utilizada
com o uma possível vantagem para a idolatria, ofertas ligadas a votos religiosos,
ou mesmo ao m odo de vida im oral e dado à luxúria que os pagãos possuem. Em
nenhum a circunstância, qualquer que seja, alguém estava autorizado a aceitar
um cargo público; pois com o alguém poderia em tal posição escapar das ceri­
mônias ordenadas e das festividades, das libações e da fumaça do incenso que
estavam sempre ligadas a estas? A lém do mais, com o um soldado poderia evitar
honrar a bandeira idólatra? U m juiz, além disso, deveria infligir torturas e decre­
tar penas capitais.
Tertuliano não quer dizer que estes ofícios sejam simplesmente injustos e
que devessem ser reformados ou abolidos. O m undo deve ser com o é, e “os
romanos, isto é, os não cristãos” (Apol. 35,9), naturalmente, precisam ter a sua
administração, seus oficiais civis e os seus imperadores. Porém, o que isto tem a
ver com cristãos que não se tornam césares, assim com o os césares que não são
cristãos? (Apol. 21,24). A lguém pode continuar a persegui-los e a martirizá-los;
porém no dia do Juízo Final tornar-se-á evidente quem é que tem tom ado a
decisão mais prudente, e jurado sua lealdade à m elhor bandeira!
Esta era a visão antiga dos cristãos: consideravam-se com o estrangeiros aqui,
e tinham com o necessárias as aflições que enfrentavam neste mundo, confiando
que Deus seria capaz de determ inar o seu futuro. Estes conceitos saltam para a
vida com um novo vigor por m eio de Tertuliano - mas agora alcançam um tom
unilateral, polêmico, austero, irreconciliável, e um tom que não pode ser perdido
por ser quase politicam ente ameaçador.
Isto é parcialmente pretendido —Tertuliano gostaria de deter os perseguido­
res por suas advertências, se pudesse fazê-lo; contudo esta situação ao mesmo
tem po conforta a sua natureza in terio r que luta ao invés de amar, que destroça
ao invés de envergar, e que com alegria aceitou o “serviço” , a milícia cristã. Ele
ama a conjuração de metáforas militares, somente porque não se trata de acor­
dos, mas de decisões. Para Tertuliano o paganismo não é uma tolice que deve ser
esclarecida, não é um prejuízo ou um erro que precisa ser banido ou trazido à
razão. E o “m undo” e, com o tal, é um a grande unidade dem oníaca que deve ser
reconhecida em sua totalidade, rejeitada e condenada.
Portanto, não é um m ero acidente que nos últimos capítulos deste livro
Tertuliano passe a falar expressamente de filosofia, a mais alta e a própria perso-

/< &
nificação idealizada do espírito e da vida antiga. M esm o neste ponto, no qual os
apologistas gregos, quase sem exceção, sofreram dores para indicar certo apreço
e disposição para revelar um a base com um e positiva para o critério ético e para
o reconhecim ento da verdade, ele enxerga apenas diferenças e o crescente peri­
go de um a decepção e confusão quanto ao assunto essencial.
ParaTertuliano, os filósofos eram “sofistas” que não estavam buscando a ver­
dade mas, ao invés desta, a sua própria glória e sucesso. Os truques de retórica e
dialética deles são vãos e resultam continuam ente em contradições e inconsis­
tências. O conhecim ento deles é enganoso e a sua conduta de vida é defeituosa.
M esmo o mais santo símbolo de independência filosófica e liberdade, a m orte de
Sócrates, não elevou a admiração deTertuliano.A serenidade desta suposta sabe­
doria era artificial e não era proveniente da certeza de se possuir a verdade de
uma form a verdadeira (d e A n .l, 2 ff.). N ão existe um a base com um “entre um
filósofo e um cristão, entre um discípulo do inferno e um discípulo do céu”
(Apol. 46,18; FC. 10,114) ou, historicam ente falando, entre “Atenas e Jerusalém,
entre a Academia e a Igreja” (de Praescr. 7,9).
É claro que Tertuliano não despreza a correspondência que cada cristão
educado em seus dias parece detectar entre as suas convicções e m uitos ensina­
m entos tradicionais, particularm ente o ensino platônico. Ele não tem a intenção
de negá-los (de A n. 2,1) e seria m uito difícil que um apologista ocasionalmente
não se referisse a eles. C ontudo, ele então os explica de conform idade com uma
teoria mais antiga, originalm ente judaica, a utilização do A ntigo Testamento pe­
los filósofos; o “roubo” da sabedoria de Deus pelos gregos. D e m odo alternativo,
com o os estóicos, segue o passado até os sensus communes, aos elementos da ins­
piração que está com preendida nos limites da razão, da qual todos participam
por natureza. O resultado em todos os casos é um a nova confirm ação da revela­
ção cristã, e de m odo algum um a recom endação dos filósofos ou da filosofia.
Os filósofos sempre mesclaram a verdade às suas faltas e erros. C ertam ente
seria um errôneo e perigoso desvio procurar encontrar o correto entendim ento
a partir das conjecturas deles, ao invés de aceitá-lo onde a verdade é fornecida de
m odo com pleto e puro. Aquele que deseja falar a respeito de Deus deve ser
instruído por Deus. U m cristão, portanto, deve edificar a sua fé “não sobre um
alicerce estranho, mas sobre o seu próprio alicerce” (d eA n .2 6 ,1).
O que deixa os leitores m odernos perplexos quando lêem as obras de
Tertuliano é o fato de que, a despeito de sua rejeição radical à filosofia, repetida­
m ente ainda faz uso de sua própria educação filosófica, mesmo quando avança
através de temas puram ente teológicos. R efere-se à “razão” e à “natureza” ; fala
da essência, dos acidentes e da “situação” das coisas. Estabelece princípios
metodológicos e faz distinções dialéticas —sem m encionar os incontáveis exem­
plos nos quais leva em consideração as pressuposições de suas provas, de m odo

w o
consciente ou inconsciente, a partir de pontos filosóficos, especialmente estói­
cos, tradições de sua época, considerando-as mais ou m enos evidentes.Toma,por
exemplo, o ensino estóico da natureza física de toda a realidade, não excluindo a
“pessoa” de Deus.
Esta aparente contradição, contudo, está baseada em um mal-entendido quanto
àquilo queTertuliano entende por filosofia. A fé e a filosofia designam aTertuliano
a posse de um conhecim ento fundam entalm ente análogo, que distingue-se pri­
m ariam ente no que está relacionado ao seu conteúdo, que é buscado e adotado
de maneiras diferentes. A fé se apega àquilo que Deus tem revelado, enquanto o
filósofo vive sob a ilusão de que é capaz de resolver por si mesmo até mesmo
aqueles problemas que situam-se além do horizonte humano. O que Tertuliano
dem anda não é realmente u m sacrificium intellectus, mas uma limitação apropriada
do hubris intelectual de um hom em de acordo com o critério da Palavra de
Deus. C ertam ente que Deus jamais age de um m odo que não esteja dentro da
razão (de Paen. 1,2); porém Ele criou o hom em para que ouvisse e obedecesse
(ibid. 4 ,4 ff.).A questão é do relacionam ento da revelação à filosofia,porém não
ainda aquela da distinção formal posterior entre a fé e a razão, ou a questão de
“crer e pensar” .
R econhecendo a divina revelação, o crente não pensa de m odo m enos lógi­
co, m enos racional e m enos “cientificam ente” do que um filósofo; somente, de
fato, ele alcança a meta à sua própria maneira. Nesta extensão, o cristianismo
pode ser chamado de a verdadeira ou “a m elhor filosofia” (de Pall. 6,2), em bora
Tertuliano geralmente evite esta concepção, que é tão com um nos escritos dos
apologistas. D e m odo algum, contudo, u m filósofo que não está disposto a acei­
tar a sabedoria de Deus poderá ser equiparado à “razão natural” ; porque a natu­
reza incólume concorda integralm ente com o cristianismo reconhecendo a Deus.
Tertuliano procura ilustrar este fato através de um pequeno ensaio apologético
chamado Testemunho da Alma, que é a mais bela obra escrita p o r ele. É possível,
ele pensa, dem onstrar prontam ente a partir destas coisas que são “evidentes por
si mesmas” para o bom senso hum ano, e tam bém a partir das exclamações e
expressões espontâneas, que a “alma” verdadeiramente conhece somente um
Deus, e que esta tem e o seu julgam ento e procura encontrar refúgio nEle contra
o poder dos demônios. Por esta razão, ela testifica de m odo mais efetivo à fé do
que a qualquer erudito apologético. Deveria ser, contudo, notado: este fato é
verdadeiro somente em relação à alma “em seu estado natural, pleno, não culti­
vado e simples” . U m a alma ensinada e educada, que passa a dem onstrar sabedo­
ria acadêmica, já não é mais cristã, e não há nada que possa ser feito para torná-
la aceitável (Test.An. 1,6 ff.).
Para com preender estas visões é útil que nos lembremos que Tertuliano era
ocidental; a filosofia jamais alcançou no O cidente latino a posição publicamente

ffff
aprovada, bem com o a atividade independente, que teve no m undo grego. Aqui,
ela poderia facilmente aparentar ser de fato com o um aprendizado teórico m or­
to e m era retórica, com o uma cultura superficial sem conteúdo, e com o uma
mera e pequena conversa para entretenim ento. Porém , para com preenderm os
plenam ente a ira de Tertuliano, não devemos parar aqui. Devemos considerar os
adversários teológicos da época, em quem ele pensa de m odo instintivo assim
que se refere à inutilidade e ao pouco valor da filosofia. Estes são os hereges, os
pomposos líderes de escolas que acreditam na fantasia de um a “educada” e, su­
postamente, mais alta sabedoria e conhecim ento, que leva até mesmo os cristãos
a desviarem-se e que corrom pe toda a verdadeira crença. Os filósofos são “os pais
dos hereges” (de A n. 3,1); somente quando alguém reconhece que esta é a com ­
pleta abominação do contra-senso filosófico, revelada de um a vez p o r todas.
N o que se refere à questão de volume, a luta contra as heresias ocupa a maior
parte dos trabalhos deixados por Tertuliano. Estas constituem ao mesmo tem po os
escritos que mais claramente apresentam a sua determinação e interesse objetivo, a
despeito da polêmica disputa e dos agravos. E claro que o leitor m oderno facil­
mente encara a polêmica sem moderação com o desagradável.Tertuliano não sofre
para com preender os seus oponentes a partir do ponto de vista das próprias pres­
suposições deles, ou para fazer justiça às suas “preocupações” no m om ento; procu­
ra expô-los, e repetidamente derrama o seu agudo sarcasmo contra eles. C ontudo
ele dificilmente veria algo culpável neste fato. Precisamente por preocupar-se a
respeito da causa, da verdade e da existência da fé cristã é que procura lutar e
destruir as heresias com todas as armas disponíveis. A única questão que lhe im ­
porta nestas circunstâncias é se a caricatura das heresias que ele sem dúvida lhes
atribui está “correta” com o tal, isto é, se esta revela e golpeia os pontos fracos
essenciais da posição hostil, e deste m odo atinge um significado mais profundo e
básico. A resposta deve ser obrigatoriamente “sim” .Tertuliano não é um caluniador,
alguém que divulga reprovações baratas que foram inventadas. Ele compreendeu
os elementos comuns e essenciais da posição herética, apresentou-as e com bateu-
as em seus aspectos gerais, m uito tem po antes de os escolásticos modernos terem
abordado de m odo conjunto os incontáveis grupos e correntes das heresias do
período, sob a simples designação de “gnosticismo” .
O que é o gnosticismo para Tertuliano? E um sincretismo destrutivo que
apela à inata natureza espiritual do hom em , à sua inclinação para superestimar a
sua própria natureza espiritual e idealista e suprim ir as fronteiras fixadas entre a
criatura e a Divindade. E, ao mesm o tem po, um a hostilidade “niilista” , ou
“aniquilacionista” ao Deus da verdade que criou o m undo e que revelou-se de
m odo concreto na carne.
Assim como aconteceu com os seus predecessores gregos, o que ocorre é a
forte ênfase na instabilidade eclesiástica e doutrinária, a perm anente inconstância e
flutuação das congregações gnósticas e da especulação deles. Os hereges somente
confiam em suas próprias fantasias, e não na Palavra de Deus. O fator básico de
insaciável curiosidade e presunção, curiositas, estabelece a relação e a conexão inte­
rior com a filosofia. Já tendo uma boa causa, Paulo preveniu os cristãos de modo
antecipado contra a filosofia (Cl 2.8). Eles deveriam “buscar ao Senhor com since­
ridade de coração” , assim com o havia sido ensinado por Salomão (Pv 1.1), e não
inventar um novo cristianismo “estóico, platônico ou dialético” (de Praescr. 7,11).
As fantasias que se seguem são piores do que toda a filosofia. Pode ser doloro­
so, porém proveitoso, ver com o Platão é forçado a “amadurecer” cada prato da
cozinha herege por meio de seus pensamentos (deAn. 23,5).Por causa daquilo que
ele diz de m odo razoável, Sêneca tam bém não pertence a eles mas, antes, com o tão
freqüentemente, “a nós” (de An. 20, 1). N ão existe nenhum a passagem no Novo
Testamento que os hereges sejam tão aficionados a citar quanto o conselho que foi
dado por Cristo: “Buscai, e encontrareis” (de Praescr. 8,2). Contudo, eles apenas se
referem a isto para difundir as suas “fabulas e genealogias intermináveis” (1 T m
1.4), as suas questões improdutivas, e a sua conversa que rasteja com o o passo do
caranguejo para confundir ouvintes inocentes (de Praescr. 1,1).
Os hereges não ouvirão e nem com preenderão que uma pesquisa somente
é sensível quando alguém não conhece a verdade, e que por Cristo e seu Evangelho
alcançamos a finalidade e o alvo de nossa busca. A verdadeira fé é sempre simples
(adv. Marc. V, 20) .Tertuliano se indigna quanto à base especulativa e problemática
da heresia, que é incapaz de aderir-se àquilo que realmente im porta. “ Q ualquer
trabalhador cristão”conhece precisamente aquilo que está demarcado, e do que
realmente depende cada ponto que está ligado à sua vida. “Ele encontra Deus,
fa-lo conhecido, e então, p o r m eio de sua atitude, coloca um selo prático em
todas as questões teóricas relacionadas a D eus” (Apol. 46,9). Os hereges dizem: É
óbvio que Cristo estava seriam ente equivocado quando “comissionou simples
pescadores ao invés de sofistas para proclamar o seu Evangelho” (de An. 3, 3).
O herege não sabe o que significa crer. O rgulha-se do entendim ento. Prefe­
re saber, ao invés de deixar-se ser ensinado por Deus, e preferiria seguir mestres
humanos do que sentir-se satisfeito quando Deus não deseja mais falar e quando
está em silêncio. Sempre pensa que já conhece antecipadamente quem é Deus, o
que Deus faz, pode e deveria fazer, e o que é apropriado para Deus, e o que não
o é. Portanto, o herege tam bém fracassa quanto a com preender o significado do
Filho de D eus tornar-se hom em .
Tertuliano atinge o ponto decisivo do debate contemporâneo: o espiritualismo
gnóstico nega a encarnação. Por esta razão torna-se desnecessário e indigno de
D eus. O gno sticism o p o d e c o n c e d e r so m en te um a aceitação aparente
(“docetism o”) da carne hum ana p o r m eio de Jesus; porque pressupõe apenas um
“Deus dos filósofos” , imaginário, irreal —esta expressão tem origem em Tertuliano
(adv. Marc. II, 27, 6) — que não m uda e não salva, mas perm anece distante e
transcendente. O gnosticismo considera com o ofensa a falta de formosura, a
humilhação, a figura inglória do Salvador; considera este tipo de revelação e
imagem um insulto à majestade divina. N ão entende que não havia outro cami­
nho pelo qual Deus realmente poderia ter nos alcançado, e que a sua dignidade
é de um tipo diferente da honra humana. “N ada é tão digno para Deus com o a
salvação do hom em ” (adv. Marc. II, 27,1).
A encarnação e a crucificação, conceitos que trazem embaraço aos teólogos
“docéticos” , são os verdadeiros mistérios da nossa salvação. C o m referência a
estas doutrinas, e não, com o ele explica, à proclamação geral de D eus e de seus
mandamentos, Tertuliano é bastante justo ao apelar às expressões paulinas que
declaram que até mesmo “tolices” por parte de Deus, se estas existissem, frustra­
riam a “ sabedoria” humana. A sua famosa declaração “credo, quia absurdum est”
não é geralmente citada de m odo preciso, e ainda m enos com preendida no
contexto que ele considerava: “ O Filho de D eus foi crucificado —esta não é uma
situação vergonhosa, mas trata-se de uma desgraça; e o Filho de Deus m orreu -
isto é digno de crédito, porque é um a insensatez; e Ele foi sepultado e ressuscitou
- isto é algo de que podem os ter toda a certeza, porque é impossível” (de Carn.
Chr. 5, 4). Estes fortes paradoxos são propositadam ente formulados para que
sejam provocantes; os cristãos conhecem e querem o seu Deus desta maneira - e
este Deus jamais os desampara, m uito m enos quando são obrigados a confessá-lo
em uma situação de aparente desamparo, e quando o “hom em exterior” parece
estar sob torturas.
Para Tertuliano, a religião não é algo diferente da vida na esfera da realidade.
Para os hereges, por outro lado, é o reino da especulação, da satisfação pessoal e
dos sonhos piedosos. A fé não trabalha desta m aneira. A quele que seguir a
Cristo, tanto na vida quanto na m orte, buscará o Deus que é real e que pode ser
encontrado ao longo da história; um D eus que m orreu e que vive para sempre.
A existência humana, a com pleta realidade da “carne” de Cristo, é a garantia da
atualidade e da seriedade da nossa redenção, assim com o a nossa existência física
ao mesmo tem po determ ina a imprescindível necessidade de nossa responsabili­
dade pessoal neste mundo. Q uanto ao hom em que nega a realidade da “carne”
de Cristo, e que deseja pensar sobre si mesm o com o não sendo carne, porém
com o se existisse em um estado que não lhe impusesse nenhum a restrição de
um outro m undo espiritual, é forçado por causa de sua própria natureza, a com ­
prom eter-se com este m undo na atual situação de tentação e aflição —a com pro­
meter-se com a sabedoria hum ana e com a imoralidade, que são as divindades e
dem ônios deste mundo.
A relutância mostrada por tantas seitas quanto a sofrer o m artírio é o teste
crucial. Tertuliano compôs um a obra intitulada O Antídoto contra a Picada do

/# /
Escorpião, na qual refuta as várias escusas com as quais alguns procuram m enos­
prezar o martírio, a favor de u m testem unho transcendente ou interior do espí­
rito! Para ele, cada gnóstico é um negador em potencial, um frouxo negligente,
e um arrogante desdenhador da autoridade da Igreja. Isto é considerado por
alguns com o um exagero, e um a generalização injusta. C ontudo, a história do
gnosticismo mostra que a contenda de Tertuliano, afinal de contas, não estava
errada. Praticam ente todos os seus grupos desapareceram com o passar do tem ­
po, em um vago sincretismo que correspondeu ao seu conceito relacionado à
revelação, que era obscuro e ilimitado, impessoal e contrário à história.
A Igreja cristã tam bém recebeu a revelação de um m odo exteriorm ente
claro e seguro. Ela procura viver p o r m eio do único, certo e verdadeiro princípio
que foi ordenado por Cristo e que está contido nas Sagradas Escrituras. Ela tem
à sua disposição a espada de dois gumes que é a Palavra de Deus, com o lei e
Evangelho, a divina sabedoria, “a inimiga do dem ônio, nossa armadura contra os
inimigos espirituais, contra toda a maldade, contra a concupiscência carnal, a
espada que é capaz de apartar de nós, p o r am or ao N om e de Deus, até mesmo
aqueles a quem mais amamos” (adv. Marc. III, 14, 3). N ão se deve discutir com
aquele que não deseja com preender a verdade.
A Igreja conhece a Palavra de D eus e não precisa lutar contra os marcionitas,
os valencianos e outros gnósticos sobre seu significado, o qual eles distorcem.
Tertuliano tentou form ular este pensam ento em u m m olde estritamente
jurídico num a monografia intitulada Prescrição contra os Hereges. Esta obra teve
um efeito de longa duração no desenvolvimento posterior do cristianismo. A
Igreja, de acordo com a obra, recebeu seus ensinamentos, bem com o suas Escri­
turas, diretam ente dos apóstolos, em um a época anterior ao surgim ento de todas
as heresias então presentes. Ela preservou a verdade original fielmente, e ainda é
capaz de sustentá-las contra posteriores aberrações; porque apóia-se ainda hoje
na com unhão im perturbável com as antigas igrejas fundadas pelos apóstolos na
Ásia M enor, Grécia, etc.
D e onde se originaria a harm onia de todos os cristãos do mundo, se ela não
fosse dada originalm ente? C ontra isto, de nada vale a insinuação gnóstica favori­
ta em relação aos apóstolos, que dizia que Cristo não lhes havia confiado tudo,
ou que haviam entendido mal ou falsificado os seus ensinamentos. Todos eles
não poderiam ter confundido a verdade da mesma maneira. “ O que em tantas
congregações é sempre reconhecido da mesma maneira não pode estar errado:
deve ser tradição” (de Praescr. 28, 3). Dessa forma, isto é suficiente se nos m anti­
vermos fiéis ao ensinam ento eclesiástico e entenderm os a Bíblia em um sentido
que corresponde ao Credo. (Em Tertuliano, o C redo dos apóstolos passa a ter
pela prim eira vez um sentido normativo, com o uma “regra de fé” unindo as
congregações.) Os hereges, por outro lado, não têm lugar algum na Igreja, e
n enhum direito de recorrer às Escrituras.“ Q u em é você, quando e de onde você
vem? O que você está fazendo em m inha propriedade sem pertencer a mim?
Q u em lhe dá o direito, Marcião, de cortar a m inha madeira? Q u em lhe dá per­
missão de desviar m inha nascente, Valentino? D e onde vem sua reivindicação,
Apeles, para remover minhas demarcações?...A propriedade pertence a mim; eu
sempre a possuí, eu a possuí antes de vocês e tenho as escrituras fidedignas dos
proprietários reais a quem a propriedade pertenceu. Eu sou o herdeiro dos após­
tolos” (de Praescr. 3 7 ,3 ff.).
Isto é típico do m odo com o Tertuliano defende suas teses; prova sua opinião
de todos os pontos de vista possíveis. Ele prim eiro reivindica todo o direito
somente para si mesmo e nega todas as coisas para seus adversários. C ontudo,
não deveríamos ficar preocupados com Tertuliano com o se ele tivesse ficado
satisfeito com um a garantia exterior e formal. Então, conclui o já “sucinto” apelo
com a convicção de que iria, se Deus assim o quisesse, retornar novam ente às
doutrinas heréticas, e durante o curso de sua vida cum priu energicam ente esta
promessa. Acima de tudo, sua grande obra em cinco volumes, Contra Marcião,
deve ser mencionada. Tertuliano concentrou aqui toda a sua força e habilidade,
porque encontrou em M arcião seu mais perigoso inimigo. E admirável com o
ele com bina nesta polêmica obra-prim a a lógica e a dialética mais ardente, todas
as artes da retórica e da ironia, a paixão mais intensa e exacerbada, a exatidão
mais prim orosa e a com pleta perfeição em lidar com o assunto principal.
Para Tertuliano, M arcião é o arqui-herege. D e fato, em meados do século II,
este havia fundado sua p ró p ria igreja, que havia se espalhado p o r toda parte.
A natureza de M arcião era semelhante à de Tertuliano, pois igualmente conside­
rava as soluções mais radicais e as posições mais severas com o as melhores e as
mais genuinam ente cristãs. C om o os cristãos, ele desprezava a livre indisciplina e
a fantasia dos gnósticos comuns, e de sua parte aspirava ser nada mais que um
discípulo fiel de Jesus e um aluno de seu m aior apóstolo, Paulo. C ontudo, Marcião
e os marcionitas negavam qualquer relação entre a mensagem cristã e a revelação
anterior aos judeus no A ntigo Testamento, p o r trás da qual viam um outro Deus,
severo e hostil, o Deus “ju sto ” e moralista deste m undo, com quem , por este
motivo, o verdadeiro evangelho, pela sua própria natureza, nada tem absoluta­
m ente a ver.
D e acordo com estes princípios, form ou sua própria Bíblia, que consistia
som ente dos textos do evangelho de Lucas, deform ado de acordo com seus
princípios, e das cartas paulinas. E m oposição a esse pensam ento,Tertuliano de­
monstra a impossibilidade desta edição com uma clareza que seria motivo de
orgulho para qualquer teólogo m oderno. E m seu estilo habitual, ele declara em
seguida seu desejo de mostrar que mesmo o testam ento m arcionita ainda con­
tradiz Marcião e testifica a favor da verdade cristã. Tam bém consolida sistemati­

z a
cam ente sua própria posição e confissão da unidade de Deus, provando que a
retidão e a graça de Deus, a transcendência soberana do C riador e sua m isericor­
diosa vinda ao m undo, não devem ser separadas dentro do entendim ento cristão
de Deus.
N ão podem os exam inar detalhadam ente os escritos antignósticos de
Tertuliano. A questão com a qual eles lidam tornou-se não familiar a nós, à
medida que o pensam ento gnóstico assume e responde o problem a da realidade
e da revelação divina, do lado oposto àquele em que estamos acostumados, por
assim dizer. Os gnósticos, com o u m grupo, não negam a transcendência e a
realidade do espírito divino, mas a realidade e o significado do m undo material
e terreno. N ão questionam a necessidade da redenção, mas a origem divina da
criação, e, semelhantemente, não negam a natureza divina, mas a natureza hum a­
na do Salvador, e o fato de Ele possuir um corpo de carne com o o nosso. Esta
maneira tam bém conduz finalmente à conseqüência ética de um certo “niilismo” ,
e podem os facilmente com preender que o gnosticismo dificilmente poderia ter
encontrado um inim igo mais amargo do que Tertuliano.
Para ele, qualquer idéia m eram ente intelectual e teórica, poética e estética,
isto é, qualquer idéia a que ele não possa dedicar-se de form a direta, prática e
m oralm ente, é com o um a abominação. C om o já vimos, ele é u m pensador m a­
terialista e, com o cristão, predom inantem ente um hom em da lei, dedicado ao
m andam ento divino, e de obediência incondicional. O que ele defende é a Igre­
ja cristã e a exigência cristã de fé em sua realidade inflexível; contudo, podem os
facilmente com preender que o rigor de tal personalidade, por causa de sua supe­
rioridade intelectual, não era sempre confortável e fácil de aceitar, mesmo para
os seus seguidores. Esta característica tornava a situação fadada, a longo prazo, a
um atrito; especialm ente nas questões práticas da disciplina da Igreja e da
moralidade cotidiana.
Já nos deparamos com as atitudes difíceis de Tertuliano, onde ele lida com o
relacionamento do cristão com o m undo e os seus pecados.“Todos são negadores
que não se m ostram abertam ente em toda a ocasião, e que se deixam tom ar
com o pagãos” (de Idol. 22,4), e, igualmente, todos aqueles que se aproveitam, de
qualquer maneira, da adoração e da imoralidade pagãs. Somos obrigados a per­
guntar que profissão de fé um pobre cristão poderia assumir sem ser reprovado
por Tertuliano, com o auxílio indireto da idolatria, que é a fonte de todo o vício.
Ele se enfurece da mesma maneira contra todos os prazeres pagãos, a luta cívica,
os circos e o teatro, os quais não somente foram criados em honra às falsas
divindades, com o ele demostra com conhecim ento arqueológico, mas que em
sua época ainda perm aneciam com o o lugar reprodutor de toda imoralidade e
excesso. U m cristão deveria igualmente renunciar a todo luxo, cosméticos, orna­
mentos e adornos de alto valor. Se Deus tivesse prazer em trajes coloridos, por

w r
que não criou ovelhas roxas e azul-celestes? Os cristãos freqüentadores de tea­
tros parecem ter sido especialmente teimosos em sua resistência. Até mesmo
tentaram encontrar suporte bíblico: onde está escrito que D eus condena peças
teatrais, visto que Ele as tolera e perm ite que continuem ? O próprio Davi não
dançou em frente à Arca da Aliança? E Elias não foi conduzido ao céu em uma
carruagem de fogo?
Mas não há com o convencer Tertuliano com tal exegese ad /zoe.Tertuliano os
arrasa com uma ironia sarcástica e aprova no final apenas um a peça teatral, que
irá gratificar os cristãos p o r toda a abstinência terrena. Este é o espetáculo do
ju ízo final! “ Q u e panoram a espetacular naquele dia! Q u e visão irá despertar
m inha admiração? Q ual delas despertará o m eu riso? O nde irei m e regozijar,
quando irei exultar? Q uando vir tantos reis e tão poderosos, cuja ascensão ao céu
costumava ser apresentada p o r anúncio público, agora juntam ente com o pró-
prio Júpiter, e com as próprias testemunhas de suas ascensões, gem endo nas
profundezas das trevas? Governadores de províncias, tam bém , que perseguiram o
nom e do Senhor, derretendo em chamas mais ardentes do que aquelas que eles
mesmos acenderam em sua fúria contra os cristãos, desafiando-os com desprezo?
Q u em mais irei contemplar? Aqueles sábios filósofos ruborizando-se diante de
seus seguidores enquanto queim am juntos; os seguidores a quem ensinaram que
o m undo não faz parte das preocupações de Deus; a quem asseguravam que, ou
não possuíam nenhum a alma, ou, que se tivessem um a alma jamais retornariam
a seus antigos corpos?... Então valerá a pena ouvir os atores trágicos, mais sono­
ros em suas próprias catástrofes; então valerá a pena assistir aos atores cômicos,
m uito mais flexíveis que o ramo no fogo; então valerá a pena ver o cocheiro,
com pletam ente verm elho em sua roda de fogo.” E então o Senhor aparece em
sua glória em m eio aos anjos e os santos nas alturas, diante dos falsos judeus e
outros perseguidores; o Senhor que foi escarnecido, espancado, cuspido, a quem
deram fel e vinagre para beber! Tal espetáculo não pode ser produzido por ne­
nhum pretor, cônsul ou sacerdote no m undo; e hoje já o temos em um certo
sentido diante de nossos olhos, mesmo sendo “o que o olho nunca viu nem o
ouvido ouviu” (1 C o 2.9) e que com eça no reino eterno de Deus, “coisas de
grande deleite, creio, m aior do que o circo, os dois tipos de teatro e de qualquer
estádio” (de Spect. 3 0 ,3 ff.; FC, 40,106 f.).
Som ente Tertuliano escreve desta maneira. N en h u m grego, nem mesmo um
cristão medieval, alguma vez colocou no papel tal descrição, dura a ponto do
sadismo, ao mesmo tem po pavorosa e grandiosa. N ada pode chocar Tertuliano.
Ele igualmente despreza as preocupações econômicas daqueles cujo sustento
está em perigo pelas suas exigências rigorosas. “ O que você diz:‘eu estou sendo
reduzido à miséria?’ Mas o Senhor louva os pobres com o bem -aventurados... os
discípulos que Ele cham ou nunca declararam:‘Mas eu não tenho com o ganhar a
vida!’A fé não tem e a fome; ela sabe que pelo am or a Deus deve desprezar a
m orte pela fome, ou mesmo qualquer outro tipo de m o rte” (de Idol. 1 2 ,2 ,4).Tais
respostas penetrantes reduzem os ouvintes ao silêncio; mas sua resistência apáti­
ca, no entanto, não pode desse m odo ser superada. O próprio Tertuliano sente
isso. Reclam a irônica e amargamente do destino “peculiar a ele” , ao qual tor­
nou-se acostumado; que não tem sucesso algum com seus livros. C ontudo, luta
por algo que aparentem ente não é nada, a que a própria verdade não dá força; e
contra o testem unho da verdade, nenhum a diferença nas épocas, nenhum a auto­
ridade hum ana e nenhum costume local têm qualquer sanção! (de Virg. Vel. 1,1)
N o entanto, nem ele mesmo é capaz de expressar o pior; o próprio Tertuliano
é um dialético bom demais para não ver as lacunas em suas provas, para não
antecipar as objeções que podem ser levantadas contra seus argumentos, se nin­
guém estiver indisposto a aceitar o ensinam ento correto por causa de preguiça,
covardia ou falta de entendim ento. Tertuliano está tentando algo fundam ental­
m ente impossível; quer decidir com base em um padrão legalista as questões
extremas da obrigação do credo e da obediência espiritual. E m conseqüência
disto, torna-se continuam ente mais rigoroso em suas exigências, e finalmente
gostaria de declarar com o proibido tudo aquilo que as Escrituras não perm item
explicitamente (de Coron. 2, 4). Mas ele mesmo sente que nem mesmo a inter­
pretação mais severa das Escrituras, nem a devoção ao credo e à tradição da
Igreja, m uito m enos ainda o conhecim ento da “lei natural” ainda não esclarecida
por revelação (de Spect. 2, 5), pode alcançar o ponto daquela certeza completa
que o cristão necessita, se ele irá tom ar e m anter um a posição firme em m eio às
novas dificuldades da vida cotidiana que surgem a cada hora. Esta experiência
agonizante “ que lhe era peculiar” form a o panoram a da última mudança po rten ­
tosa na vida de Tertuliano.
N a segunda m etade do século II rom peu na Frigia, no interior da Ásia
M enor, um m ovim ento de reavivamento, entusiástico e apocalíptico. Seus profe­
tas, M ontano e as mulheres que o acompanhavam, consideravam-se instrum en­
tos de um novo derram am ento do Espírito Santo, o “Paracleto” prom etido no
evangelho de João, e pregavam a rápida vinda do R ein o de Deus nas montanhas
de suas terras natais. Exigiam arrependim ento, renovação e a superação da
moralidade vigente. Distinguiram -se particularm ente p o r sua ávida presteza em
ser martirizados. O m ovim ento se espalhou para fora do país rapidamente e
alcançou a África até o com eço do século III.Tertuliano se ju n to u a ele e logo se
tornou o pioneiro mais ardente da “nova profecia” .
C om o muitos, cuja natureza tende ao racionalismo e os conduz à ação,
desde o início possuía um gosto especial pelos fenômenos parapsicológicos, vi­
sionários e extáticos da vida religiosa. Nas revelações, nos exorcismos e outros
sinais miraculosos dos montanistas, ele agora cria que havia encontrado nova-
m ente o espírito vivo do cristianismo primitivo. E aqui, nos círculos montanistas,
chegou finalmente a uma completa determinação para defender a causa de Deus
sem reservas. Declarou rigor implacável contra todos os pecadores e membros
indulgentes na congregação, novas regras para a conduta ética da vida, e, sobretudo,
uma autoridade espiritual extrema, capaz de garantir tudo isto por seu testemunho
inspirado. Os oráculos de M ontano e das profetisas eram então compilados, e
tinham uma validade ilimitada e virtualm ente canônica para seus seguidores.
Q uando Tertuliano ju n to u -se aos montanistas, a posição eclesiástica destes
ainda não estava claramente definida. A Igreja ocidental ainda hesitou, até que
prim eiram ente o bispo de R o m a e, depois, o bispo de Cartago e os demais
bispos da Africa seguiram o exemplo de seus colegas da Ásia M enor e declara­
ram os “catafrígios” com o sendo um a seita. Isto decidiu o destino deles para o
futuro. O m ovim ento não possuía conteúdo religioso e originalidade suficientes
para prevalecer por sua própria força. Seria doravante um a igreja sectária reunin­
do membros de círculos reacionários m oralm ente intransigentes - o prim eiro
episódio deste fenôm eno, que iria acom panhar daí em diante o desenvolvimen­
to popular da Igreja cristã. Tertuliano naturalm ente perm aneceu fiel ao m ovi­
m ento. O fracasso exterior não importava para ele, e logo fez da reunião secreta
montanista a base de um novo e ainda mais definido ataque contra os seus anti­
gos inimigos. Som ente através dele e de seus escritos o m ontanism o ganhou algo
com o uma teologia e um “perfil intelectual” .
C om o montanista, Tertuliano não se to rn o u nada além do que sempre foi.
Podemos ver isto pelos temas agora abordados, e igualmente pelas conclusões às
quais chega. Deste segundo período de sua atividade vem, por exemplo, seu
famoso tratado polêm ico Contra Praxéias. C o m o um “modalista” , Praxéias che­
gou m uito longe ao enfatizar a unidade divina em sua refutação à especulação
gnóstica, na qual negou totalm ente a diferença entre Deus Pai e D eus Filho. Em
oposição a isso, Tertuliano avança nas provas escriturais e, sobretudo, desarma
efetivamente seu adversário com referência ao seu apelo às passagens que soam
monarquianas” no evangelho de João. E m relação a isso, ele agora tenta, com
mais precisão, esclarecer as concepções sistemáticas da teologia trinitariana em
d esenvolvim ento, e dá fo rm a aos sím bolos e às idéias que se to rn aram
determ inantes para as posteriores controvérsias cristológicas e trinitarianas, es­
pecialm ente no O cidente.
Suas fórmulas vieram a se tornar m uito úteis e convenientes porque perm a­
necem inteiram ente formais na precisão legal e lógica de suas definições e dis­
tinções. C ontudo, nunca chegam à verdadeira raiz dos problemas teológicos e
metafísicos destinados a surgir aqui.Tertuliano lida exclusivamente com a unida­
de da Trindade, mas não com o problem a posterior da igualdade de posição
entre as pessoas divinas; e, até certo ponto, seu esboço é ainda deficiente, com pa­
rado ao dogma final. N o entanto, seu ensinam ento sobre a Trindade representa
para sua época um a conquista para a ortodoxia. A com binação eventual tentada
por Tertuliano, da polêmica anti m onarquiana com a polêmica montanista, per­
manece com pletam ente superficial, e não foi obstáculo para a divulgação de seus
pensamentos.
Além do mais, é tam bém a convicção pessoal de Tertuliano, a qual ele repete
várias vezes, que o Paracleto nunca m uda as antigas doutrinas da Igreja, mas
apenas as endossa e, desse m odo, apresenta provas de sua legitimidade. U m ver­
dadeiro progresso é alcançado — m esm o com o o anterior, do Antigo para o
N ovo Testamento —somente em relação à ética, visto que a nova revelação agora
finalmente exige a extrema santidade e o cum prim ento integral de todos os
mandamentos. Esta é um a condição que os apóstolos ainda não podiam exigir
no início da Igreja.
Tertuliano delineia nesta base u m novo plano de salvação em três fases e não
em duas. C om o a revelação do N ovo Testamento é profetizada na antiga aliança,
e, dessa forma, a confirm a e a transcende simultaneamente, “a nova profecia
estabelece o auge” da ordem mais antiga e, ao mesm o tempo, a conduz ao seu
objetivo. Assim chegamos à idéia típica de um a terceira revelação e um a “tercei­
ra dispensação” da Igreja, tal com o foi apresentada novam ente na Alta Idade
M édia por Joaquim de Flora, e, desde então, tem sido freqüentem ente repetida.
Isto é sempre possível som ente quando se imagina com o um ponto essencial,
uma elevada e “espiritual” ordem ou conhecim ento da vida, e quando a crença
na própria ação salvadora de Cristo p o r si só parece não ser mais suficiente. Este
obviamente é tam bém o caso de Tertuliano.
O lhando seus escritos montanistas, freqüentem ente nos deparamos com o
louvor às revelações e aos milagres produzidos pelo novo espírito - “aos infiéis,
um testem unho; aos crentes, a salvação” (Pass. Perp. 1). E m um tratado perdido,
intitulado Em Êxtase,Tertuliano tom a expressamente sob sua proteção o espírito
da “nova profecia” contra os oponentes da Ásia M enor (por conseguinte, o tra­
tado foi escrito em grego). Q u an to ao mais, porém , ainda é um a questão de
decisão m oral. Agora, p o r fim, Tertuliano tem certeza de que um segundo
casamento, contra o qual ele sempre havia aconselhado, é term inantem ente proi­
bido para o cristão, e deve ser identificado com o adultério. As novas ordens
montanistas de jejum devem ser observadas, visto que elas coíbem o apetite exces­
sivo, que até mesmo no Jardim do Éden foi a causa da queda e do primeiro pecado.
Tertuliano havia previam ente aprovado a fuga à perseguição; contudo,“ nin­
guém deve sentir-se envergonhado p o r fazê-lo” (de Pudic. 1,12).Agora, tal atitu­
de significa som ente uma negação covarde e uma fuga. Todas estas afirmações
foram declaradas com a grande em oção gerada p o r sua constante indignação
moral. Tertuliano escreveu —com o certa vez reivindicou de Paulo —“não mais
com tinta, mas com fel” (de Pudic. 14, 4). O papel para o novo ideal “espiritual”
era um a caricatura quase sórdida e sarcástica de um a vida cristã decadente, onde
o am or parece fervilhar unicam ente em um a panela, onde a fé e a esperança
pretensam ente fazem parte do cardápio, onde os indolentes se deixam ser acari­
ciados e engordados com o se fossem mártires; e irmãos e irmãs passam a noite
ju ntos após suas festas amorosas. C ontudo, um a coisa era a pior de todas, e deci­
siva. A o deixar a disciplina original, a Igreja cristã não mais levou a sério a
administração do “m inistério das chaves” . O últim o escrito de Tertuliano que
possuímos foi dirigido contra este abuso. A causa aparente foi u m certo relaxa­
m ento na Igreja cristã da disciplina penitencial p o r pecados carnais. Os detalhes
são discutidos e estão relacionados ao difícil problem a do desenvolvimento das
penitências em geral. Estamos aqui som ente preocupados com a atitude funda­
mental de Tertuliano, que, com o um m ontanista, foi contra a possibilidade de
perdão dos pecados mais graves quando com etidos por cristãos. O entendim en­
to mais íntim o do cristianismo e da “santidade” realizada p o r Cristo são sempre
revelados de uma maneira na qual a questão do verdadeiro perdão é tratada.
“ O que mais Deus quer, exceto que vivamos de acordo com a sua discipli­
na?” (de Orat. 4,2) Por am or a este propósito da disciplina, a Igreja deve, se neces­
sário, ser severa quanto a recusar a absolvição. Porque “onde o perdão começa, o
tem or cessa” (de Pudic. 16,14), e “ onde não há temor, não há igualmente conver­
são” (de Paen. 2,2; A C W , 28,15). Esta lógica era compulsiva para Tertuliano, mas
é oposta ao tratam ento de Jesus Cristo aos publicanos e pecadores. Mas, respon­
de Tertuliano, porventura já eram essas pessoas cristãs? Elas já haviam, com o nós,
se com prom etido ao discipulado e aceitado no batismo o Espírito Santo com o
seu poderoso ajudador? E se alguém erroneam ente imagina que os apóstolos
sabiam de um perdão para os pecados mortais, a resposta para isto é que eles
possuíam uma autoridade um pouco diferente daquela de qualquer cristão con­
temporâneo. Se um apelo é feito, porém , à autoridade do Espírito Santo, este
mesmo Espírito nos ensinou na nova profecia que Ele nunca usa mal sua autori­
dade em favor do pecador, porque Ele é santo.
U m oficial da Igreja cristã espiritualm ente desamparada decidindo diferen­
tem ente é culpado de usurpação do ofício, e está interferindo na obra de Deus,
que expediu os mandamentos mais rigorosos. Esta exposição era dirigida parti­
cularm ente contra um certo bispo de quem Tertuliano zomba com o “o vigário
pagão” (pontifex maximus), com o o “bispo de bispos” , e o padre verdadeiramente
abençoado (papa) por causa de sua indulgência e presunção frívolas. Ele não
estava aqui se dirigindo, com o freqüentem ente se tem pensado, ao distante “papa”
em R om a, mas ao bispo de sua própria cidade natal, Cartago. C ontra ele,Tertuliano
recorre à liberdade de sua congregação; eles, e não um grupo de bispos, consti­
tuem a igreja que vive em espírito e em obediência à Palavra de Deus.
E m T ertuliano nos deparam os pela p rim eira vez co m um a polêm ica
anticlerical, que tem um som quase protestante, com sua referência ao sacerdó­
cio universal, mas não é, no entanto, absolutamente “evangélica” em sua inten­
ção. O que Tertuliano almejava alcançar com seu apelo à laicidade era apenas
uma união inquebrantável para a “lei” supostamente bíblica. Para ter certeza, até
mesmo Tertuliano conheceu lado a lado a “justiça” de Deus, sua misericórdia ou
“graça” ; uma vez, ao entrarm os na igreja, ela nos tirou da esfera de influência
dem oníaca e cancelou todos os pecados anteriores. Ele tam bém sabia que, por
causa de sua fraqueza, o cristão infelizmente não pode ser bem -sucedido sem o
perdão diário dos seus pecados veniais. Porém , em prim eiro lugar, “a completa
existência da salvação está fundam entada sobre a sólida rocha da disciplina” (de
Paen. 9,8). A bondade de Deus se mostra prim eiram ente em que Ele revela a sua
vontade, nos inspira com o seu Espírito e nos chama à responsabilidade pessoal.
O hom em , enquanto cristão, vive m enos da misericórdia e do perdão de Deus,
que tem seus limites, do que dos m andam entos de D eus e da obediência hum a­
na, que aceita a disciplina.
O final da vida de Tertuliano está perdido em obscuridade. M enciona-se
que ele viveu m uito tem po e que m orreu em “idade avançada” . Mas ele encon­
trou repouso e tranqüilidade? E difícil dizer. A veemência e a impaciência de sua
vontade eram características de sua natureza e não expressões transitórias de uma
paixão controlável. Parece que Tertuliano finalmente rompeu com os montanistas,
e fundou sua própria seita. Agostinho, de qualquer maneira, um século e meio
m ais tarde, se d ep aro u em C a rta g o co m u m g ru p o in d e p e n d e n te de
“tertulianistas” , que ele conquistou para a Igreja cristã. As observações de Agos­
tinho sobre o “herege” Tertuliano não soam amigáveis, eV icente de Lerins for­
m ulou, um pouco mais tarde (434), o veredicto geral segundo o qual Tertuliano
havia sido uma séria tribulação para a Igreja, e seu erro posterior havia destruído
qualquer confiança que alguém poderia ter nos seus antigos escritos aprovados.
C ontudo, Tertuliano perm aneceu o único teólogo independente cuja he­
rança não foi perdida, mas chegou até nós quase completa. Ele certam ente o
mereceu. R ealm ente perm aneceu com o um dissidente; no entanto, a antiga Igreja
latina não teve um defensor mais educado, mais infatigável e mais honesto -
apesar de todos os exageros —contra seus inimigos do que ele. N em teve alguém
que pertencesse mais a ela por natureza. “N ele, o espírito ocidental se expressa
claramente pela prim eira vez” (Holl).
Tertuliano foi tam bém cham ado de o últim o dos apologistas gregos; mas
isto somente é verdadeiro em relação a seu assunto principal e a alguns proble­
mas tradicionais de sua obra dogmática e apologética. E m sua teologia não-
especulativa e prática, Tertuliano aparece, sem qualquer discussão, com o o p ri­
meiro patriarca latino da Igreja. O mesmo se aplica ao estilo realista, legalista e

BO i
psicológico de seu intelecto, à sua inclinação para as questões sociais, e em dire­
ção à congregação e à Igreja com o um a firm e sociedade política; e tam bém às
suas ênfases sobre a vontade, padrões e disciplina. Tam bém m erece o título por
sua afirmação da autoridade das Escrituras e seu am or pelo apóstolo Paulo. D u ­
rante toda a sua vida, Tertuliano “am ou a retidão e odiou a im piedade” - de
m odo mais altruísta e mais puro do que G regórioV II. C ontudo, em tudo isto,
perm anece mais com o um cristão do A ntigo Testamento do que do Novo. Jul­
gado teologicamente, quase pode ser considerado com o um judeu.
ClPRIANO

través de Tertuliano, a África cristã conquistou voz na cristan­


dade e despertou para uma vida nova e pujante. A Igreja afri­
cana havia, durante séculos, conduzido intelectualm ente o
O cidente e som ente com seu declínio, em conseqüência dos distúrbios causados
pela dominação árabe, para sempre em udeceu. A geração que sucedeu Tertuliano
produziu outra personalidade de extraordinário significado, Cecílio Cipriano,
cuja influência estendeu-se m uito além da região africana. Ele era bispo de Cartago
e nunca chamava o dissidente Tertuliano pelo nom e; contudo, o seu relaciona­
m ento interior com ele pode ser percebido em seus escritos. Mais tarde, seu
secretário relatou que não havia sequer u m dia em que C ipriano deixasse de ler
o seu ‘Tertuliano’; simplesmente chamava-o de ‘o m estre’.
A comparação entre os dois é, sob muitos aspectos, m uito instrutiva. As
inquietações, o radicalismo e a irracional inconformidade dos escritos de Tertuliano
foram trazidos por C ipriano a um a disciplina equilibrada e eclesiástica. O u n i­
verso de seus pensamentos era dotado de um a tranqüila dignidade, perseverança
e moderação que Tertuliano não havia possuído nem desejado. N a análise desse
líder eclesiástico, os mesmos problemas surgem sob um a luz diferente daquela
que era procedente do sectarismo vigoroso de u m hom em letrado, individualis­
ta, intolerante e temerário. O cenário tam bém havia sofrido mudanças. A Igreja
havia crescido rapidam ente p o r to d o o continente africano, e sua estrutura
organizacional havia se consolidado; em toda parte se encontrava a evidência de
um a inconfundível tradição que agregava e vinculava os bispos e as congrega­
ções. N o que concerne a Cipriano, a esta diferença de situação e de posição
pessoal correspondia, também, u m caráter inteiram ente distinto em sua consti­
tuição e em seus motivos que eram, conform e sua própria maneira, não menos
definidos e resolutos, rom ano e africano.
N ão possuímos informações fidedignas a respeito do desenvolvimento de
C ipriano no período que antecedeu a sua eleição com o bispo. N o entanto, está
bastante claro que, ao contrário do talentoso Tertuliano, filho de soldado, este
pertencia aos círculos da mais alta sociedade; desde o início, havia se habituado a
viver dentro das mais amenas circunstâncias e m antinha relações pessoais com as
autoridades. Sabemos que possuía propriedades e jardins nas vizinhanças de
Cartago, além de ser mestre nas convenções da alta sociedade, papel que desem­
penhava com natural autoconfiança. Sem dúvida, havia recebido um a excelente
e abrangente educação. Seu estilo indica - sem a originalidade e a obstinação de
Tertuliano - uma certa familiaridade com todos os requisitos da ‘escola’. Seus
escritos nos fazem novam ente recordar um a particularidade de seu com patriota
africano Apuleio; no entanto, C ipriano tam bém conhecia a obra de Sêneca e as
posições tradicionais da filosofia dos estóicos. Abstinha-se, porém , de atacar ex­
pressamente os autores pagãos. ‘Existe uma grande diferença entre os cristãos e
os filósofos’ (Ep. 16,55). O novo e orgulhoso clérigo considerava com o algo
inferior à sua dignidade envolver-se em controvérsias diretas com o aquelas em
que Tertuliano havia se arrojado com tam anho ardor intelectual. Além das cita­
ções bíblicas, nenhum a ‘literatura’ mais abrangente teve qualquer destaque.
Em bora Jerônim o acreditasse que C ipriano iniciou sua vida com o professor
de retórica, talvez pudéssemos supor que, contrariam ente, ele tivesse em m ente a
carreira de alto funcionário do governo. Ele se mostra bastante familiarizado
com todas as leis constitucionais e com as idéias políticas e, mais tarde e com
toda a naturalidade, faz a transferência de seus conhecim entos para a esfera das
atividades eclesiásticas. C o m Cipriano tem início uma linha de bispos ‘curiais’
que pretendiam desem penhar suas funções eclesiásticas de acordo com o estilo
autoritário próprio dos cônsules e pró-consules, com os quais eles não se recu­
savam a ser diretam ente comparados (Ep. 37,2).
Com parado ao grego oriental, este era u m estilo novo e especificamente
ocidental de exercer o sacerdócio. E m todo o caso, C ipriano não poderia ter
chegado m uito longe na carreira secular. Sua conversão colocou um ponto final
em todos esses esforços, direcionando inteiram ente seus anseios e competências
ao novo cam inho eclesiástico.
Acredita-se ter sido um presbítero de nom e ‘Caecílio’ (ou ‘Caeciliano’) que
ganhou C ipriano para a igreja: dizia-se, na verdade, que esse últim o havia adota­
do o cognome Caecílio som ente p o r causa dessa relação pessoal e espiritual (em­
bora a procedência do sobrenom e ‘Tacio’ tenha perm anecido com pletam ente
obscura). Ainda assim, e se essa tivesse sido a razão, sua escolha pelo cristianismo
indicava uma íntim a relação com os círculos eclesiásticos mais im portantes.
Logo depois, esse recém-convertido m embro da congregação publicou o pri­
meiro ensaio literário, dedicado a um amigo de nom e Donato, a respeito do qual
)

nada mais sabemos. Através de um a formatação convencional e retórica, e com


muita pomposidade artificial, expunha as razões de sua conversão. O mundo, dila­
cerado pelas guerras, estava sob terríveis condições; as abomináveis lutas dos
gladiadores, o teatro imoral e os excessos na vida pública e privada indicavam
claramente a Cipriano, que a tudo assistia, a verdadeira realidade das coisas. Os
soberanos eram libertinos e até a adm inistração da lei era co rru p ta; to d o
ordenam ento social estava acéfalo e indisciplinado. Existia apenas um porto de paz,
a vida que estava por vir; e apenas u m caminho que levasse a ele, a virtude simples
dos cristãos tal com o revelada por Deus. O hom em que recebia o batismo seria,
através de um único gesto, resgatado de todas as abominações pagãs. Sentia o fluxo da
influência da graça divina ser derramado sobre ele e podia, se estivesse disposto,
preservá-la e aumentá-la para enfrentar o último julgamento plenamente equipado.
Até certo ponto, o conteúdo dessa retórica lembra M úcio Félix, e com pre­
ende apologias banais, em bora aplicadas, se assim podem os dizer, de forma indi­
vidual e biográfica. A partir delas, poucos fatos concretos podem ser deduzidos a
respeito das experiências interiores e das intenções de Cipriano. N o entanto,
deve-se notar a determ inação com que foram colocadas, em prim eiro plano,
algumas considerações sobre fatores políticos e morais; estritamente falando, porém,
questões teológicas não foram introduzidas.
U m outro tratado, provavelmente escrito logo depois, é teologicam ente mais
significativo: os prim eiros dois livros endereçados a ‘Q u irin o ’, que foram poste­
riorm ente intitulados Livros de Testemunhos (ou testimonia). Esses livros são uma
coletânea de citações bíblicas, um a espécie de ‘antologia’ organizada em tópicos,
sob breves títulos resumidos em sentenças curtas, com a finalidade de serem
utilizadas de m odo prático. Podem os observar que para C ipriano a teologia con­
sistia basicamente na exposição das Escrituras. Por causa desta atitude, nenhum
problem a específico ou qualquer dificuldade poderiam lhe acontecer. Mais tar­
de, por exemplo, ele simplesmente preencheu a última página de um tratado
com textos bíblicos. Bastava que a Palavra de Deus fosse sempre ouvida, conhe­
cida e aprendida.
C ipriano agora já se considerava pronto para desempenhar o papel de mes­
tre superior, profundo conhecedor da Bíblia e expressamente preocupado em
desempenhar suas tarefas, não apenas para si, mas tam bém para os demais. N o
prim eiro livro existe uma coletânea de material dedicado à sempre presente
controvérsia com os judeus, e o segundo trouxe, inclusive, textos de im portante
significado em relação ao estudo da pessoa de Cristo. Essa espécie de ‘pons asinorum ’
preencheu, evidentem ente, um a necessidade am plam ente sentida. Mais tarde,
Cipriano acrescentou um a terceira parte a esse com pêndio, relacionada com o
aspecto prático da ética na Igreja. U m outro manual bíblico foi produzido após
a eclosão das perseguições. D a mesma form a que os anteriores, esse manual
continha citações relativas à futilidade da idolatria, à necessidade de dar testem u­
nhos e às promessas para os mártires.
A partir do período pós-C ipriano, foram distribuídos inúm eros outros livros
de referência com esse mesmo teor. A literatura jurídica contem porânea parece
incluir trabalhos semelhantes. Os prim órdios dos testemunhos eclesiásticos pare­
cem rem ontar a um período tão antigo quanto o século II; eles deram seqüência
às tradições dos mais antigos defensores cristãos contra o judaísm o intelectual
dos rabinos. C om Cipriano, porém , os antigos m étodos sofreram um a expansão
fundamental e foram, com esse form ato e pela prim eira vez, apresentados ao
público cristão.
Em bora Cipriano, com o ele mesm o m encionou em seu prim eiro prefacio,
simplesmente desejasse facilitar a pregação e a preparação hom ilética dos demais,
certam ente já havia sido ordenado presbítero, se não bispo. D iziam que ele era
quase um neófito quando foi ordenado bispo; e mesmo se isso tivesse sido um
exagero na época, sua rápida prom oção a bispo da m aior e mais im portante
congregação africana perm anece, no entanto, extrem am ente surpreendente e
fora do com um .
Será que, desde o início, C ipriano contava com a nom eação para esse cargo
em vista de sua posição e superioridade intelectual ou será que talvez até o
almejasse para si? N ós não sabemos; porém , é certo que sua escolha causou
apreensão entre os membros mais antigos do clero de Cartago, que haviam sido
preteridos com a prom oção dele. E, infelizmente, o jovem clérigo não dispunha
de tem po suficiente para fortalecer sua posição nem para, pacificamente, provar
a sua capacidade. Havia apenas completado um ano de sua ordenação quando teve
início a prim eira grande e organizada perseguição que, violentamente, abalou toda
a ordem religiosa. A autoridade de Cipriano foi submetida à prova de fogo, antes
mesmo que tivesse tido tem po de realmente se estabelecer em definitivo.
A perseguição, posta em andam ento pelo novo im perador D écio no ano
249, a princípio parecia ser apenas um grande festival, durante o qual seriam
feitos sacrifícios e orações em honra do im perador e do im pério e do qual todos
os cidadãos eram obrigados a participar. Q ualquer um que se recusasse, em qual­
quer circunstância, seria obrigado a obedecer com o uso da força, com medidas
violentas, degradações, confiscos e torturas. Após a consagração das ofertas os
participantes recebiam certificados. Desde o início, evidentem ente, esse decreto
estava dirigido contra os cristãos.
D écio esperava expor tal apostasia e destruir a Igreja. Porém , dois motivos
principais im pediram -no de alcançar o almejado sucesso. D e um lado, os milita­
res e o sistema burocrático de ‘pesquisa’ eram inevitavelmente defeituosos e,
encerrada um ano depois p o r causa da m orte do im perador, a perseguição não
chegou a alcançar pleno sucesso para a com pleta destruição das congregações.
Por outro lado, nos m om entos críticos a Igreja revelou um a adaptação tão flexí­
vel à nova situação, que jamais havia sido imaginada.Todo o planejam ento estava
baseado na premissa de que qualquer cristão que fosse levado a renunciar estaria
para sempre excluído da Igreja. N a realidade, porém , os que eram forçados ao
sacrifício im ediatam ente afluíam de volta às suas antigas congregações, onde
formas e procedim entos para recebê-los foram rapidamente elaborados, prim ei­
ro com o penitentes, e depois com o membros com todos os privilégios.
E m retrospecto, esse desenvolvimento parece claramente ter sido relativa­
m ente simples e quase necessário. Somente através da leitura das cartas de Cipriano
que foram escritas nesta época pode-se ter conhecim ento das reais dificuldades,
dos dilemas hum anos, das perturbações e da incerteza aparentem ente im pene­
trável das trevas que estavam mescladas com a situação que aqueles que a
vivenciaram tiveram de enfrentar. D urante essa crise, o jovem bispo e retórico
finalmente am adureceu com o hom em , e tornou-se o líder da Igreja e o superior
capaz de administrar todas as suas tristezas e misérias.
Após a repentina eclosão da perseguição, a apostasia em Cartago havia to ­
mado proporções assustadoramente grandes, assim com o em todos os outros
lugares. ‘Às primeiras palavras ameaçadoras do inimigo, u m núm ero expressivo
de irmãos traiu sua fé; não se deixaram abater pela violência da perseguição, mas
pela sua própria e livre vontade’ (de Laps. 7; A C W , 25,18). Alguns foram direta­
m ente para a prisão, enquanto outros tentavam escapar para lugares remotos. Os
presbíteros, que ainda estavam livres, tinham as mãos ocupadas com o trabalho
de m anter reunidos seus aterrorizados cordeirinhos, pacificando-os e protegen­
do-os o quanto possível. C ipriano não estava mais em seu meio. Obviam ente, ele
havia sido avisado em tem po sobre os perigosos acontecim entos e se retirado
para o cam po com alguns com panheiros escolhidos, de onde tentava reter em
suas mãos as rédeas da administração. Em bora as pessoas gritassem exigindo
‘C ipriano para os leões’, as autoridades tiveram que se satisfazer com um a inefi­
caz interdição de sua pessoa e em dar início ao confisco de suas propriedades
através de um a proclamação pública. Porém , ele estava a salvo. N o entanto, essa
decisão de escapar à violenta tempestade trouxe-lhe sérias conseqüências — a
m aioria das dificuldades que C ipriano precisou enfrentar durante o tem po re­
m anescente de seu cargo estavam de um a form a ou de outra ligadas a esse acon­
tecim ento. C om o poderíamos julgar essa decisão?
Cipriano, sem dúvida, corria mais perigo que os outros. E m toda parte, a
polícia procurava prim eiram ente capturar os bispos para fazê-los abjurar e deixar
as congregações acéfalas de seus líderes. Foi assim que os bispos em R om a,
A ntioquia,Jerusalém e Cesáreia foram martirizados logo no início das persegui­
ções. Som ente em Alexandria, o bispo D ionísio escapou milagrosamente de ser
preso. Se C ipriano tivesse perm anecido em Cartago, sem dúvida teria sofrido o
mesmo destino. Porém, o seu dever não seria da mesma maneira aceitar o mar­
tírio? Geralmente, a fuga era considerada com o recurso aceitável em tempos de
perseguição, pois o ponto de vista contrário e mais rígido de Tertuliano e dos
montanistas não havia até então prevalecido.
Ainda assim, poderia um pastor, que tivesse a seu cargo as almas de sua
congregação, abandonar o rebanho ao desamparo? Particularm ente nos períodos
de grande tribulação, e se não houvesse outro motivo, ele não teria que perm a­
necer a seu lado e, através da m orte, deixar após si o exemplo do espírito e
fidelidade de um confessor? Essa era evidentem ente a opinião não só de alguns
dos mais exaltados, com o tam bém dos adversários pessoais de Cipriano. Pode­
mos observar seu constrangim ento em um a carta enviada a Cartago pelo colé­
gio romano de diáconos, após a m orte de seu próprio bispo. O nom e de Cipriano
não constava no endereçam ento. A carta mencionava, apenas em um a observa­
ção preliminar, que Cipriano, com o oficial, deve ter tido suas razões para essa
conduta; no entanto, o clero rom ano iria se sentir com pelido a suportar até o
fim, de acordo com as palavras e os m andam entos de Jesus (Ep. 8, 1). Portanto,
seus membros estavam dispostos a m anter em suspenso qualquer julgam ento a
respeito de um bispo de outra congregação; mas podem os perceber que as pes­
soas tinham reservas e duvidavam da pureza de suas razões.
A reação de C ipriano não foi m enos dolorosa. C onfirm ando o recebim ento
da carta, ele congratulava os romanos ‘com jú b ilo ’ pela esplêndida e gloriosa
‘consum ação’ de seu bispo, cuja vida e reinado haviam sido verdadeiramente
impecáveis. Observava, porém , que a form a e o conteúdo da carta dos romanos
haviam-lhe causado tamanha estranheza que chegou a duvidar de sua autentici­
dade e, portanto, estava devolvendo a missiva aos em itentes para que a examinas­
sem. (Ep. 9,2). Só m uito tem po depois enviou outra carta na qual, com maiores
detalhes, explicava por que havia julgado correto retirar-se, não pela sua segu­
rança, mas pela tranqüilidade e o bem -estar de sua congregação. O bviam ente, os
romanos haviam sido inform ados (através de u m diácono de Cartago!), porém
não de form a ‘totalm ente acurada e correta’ (Ep. 20, 1).
C ipriano não tolerava que, mesmo a distância, sua autoridade fosse questio­
nada —na verdade, qualquer defesa explícita de suas ações poderia ser interpre­
tada com um sinal de insegurança - e, categoricamente, sustentava que estava
absolutamente certo. A essa segunda carta foi acrescentado, com o prova de sus­
tentação, u m maço de treze cartas de sua correspondência com Cartago confir­
m ando que C ipriano não havia desejado, através de sua fuga, salvar a própria
vida e que, ao contrário, estava perfeitam ente capaz de cum prir as obrigações de
seu cargo ‘estando ausente apenas em corpo e não em espírito’.
N a verdade, tudo estava agora na dependência dos laços que o ligavam à
distante congregação. Nesse m om ento, encontram os mensageiros indo e voltan­
do entre Cartago e o esconderijo de Cipriano. As cartas que transportavam, da
parte de Cipriano, não se limitavam a piedosas admoestações ou a u m fluxo
abundante de louvores à perseverança dos cristãos; era preciso tam bém tom ar
decisões práticas e executar medidas urgentem ente necessárias. A ntes de sua
partida, C ipriano havia feito uma contribuição em dinheiro de sua própria for­
tuna. Agora, estava enviando, do ‘p o u co ’ que tinha disponível, consideráveis so­
mas com as quais os mais necessitados fiéis da congregação —e som ente eles —
deveriam ser amparados. N ão deveriam deixar-se dom inar pelo desespero, pois
aquilo que talvez não fosse conquistado pelo ataque direto dos perseguidores
poderia ser, finalmente, provocado pela fome. Os irmãos aprisionados deveriam
ser regularm ente visitados pelos diáconos —porém cuidadosamente e em turnos
alternados, a fim de não cham ar atenção. Os que fossem libertados iriam neces­
sitar de roupas, alimento e trabalho. Os corpos dos mártires deveriam ser coloca­
dos em lugar seguro e todas as datas das execuções deveriam ser anotadas para
futuras com em orações litúrgicas.
Parece que, a princípio, a m áquina eclesiástica funcionou satisfatoriamente e
correspondeu aos múltiplos problemas. As dificuldades reais com eçaram com a
atitude a tom ar em relação àqueles membros da congregação que haviam se
rendido ao terror e ao m edo e, de um je ito ou de outro, haviam obedecido às
ordens do Estado. A esse respeito, as prim eiras práticas da Igreja haviam sido, em
sua maioria, m uito rigorosas. Porém, será que a débil, irracional e isolada apostasia
dos tempos anteriores poderia ser comparada às tentações que estavam agora
sendo oferecidas a todos os cristãos através das artimanhas do Estado? C om o
sempre acontece, a tão difundida natureza da apostasia contribuía para que sua
noção de pecado ficasse aliviada. Enquanto isso, em toda parte os infelizes trai­
dores desejavam ardorosamente ser perdoados e readmitidos à congregação.
O clero responsável mostrava-se inseguro e a situação tornou-se ainda mais
confusa com o papel que logo com eçou a ser desem penhado pelos perseverantes
confessores, geralmente considerados com o santos, que inspirados pelo próprio
Espírito Santo, julgavam-se capazes de resistir tão gloriosamente. Suas decisões,
portanto, eram aclamadas com o testem unhos milagrosos da inspiração do Espí­
rito de D eus e, ju n to a eles, os penitentes sequiosos de ajuda im ediatamente
conseguiam um a compassiva atenção. C o m o era de se esperar, os fatos eram com
freqüência conduzidos de form a extrem am ente humana. Os novos santos, e en­
tre eles alguns personagens duvidosos, prontam ente acolhiam o papel que lhes
era oferecido de juizes infalíveis e a oportunidade de se fazerem populares, distri­
b u in d o um a com placente indulgência sem posteriores investigações. A ver­
dadeira presteza evangélica de perdoar combinava-se com piedosa credulidade a
u m desejo ingênuo e oficioso de dom inar e, às vezes, a coisas ainda piores. As
‘cartas de paz’, distribuídas nas prisões para a readmissão na igreja, eram obtidas
através de amigos e parentes, mesmo que fossem para outras congregações; ape­
los eram feitos para a absolvição oral de um m ártir já ‘consum ado’ e, da mesma
forma, eram pronunciadas declarações indiscriminadas para os pecadores e suas
famílias.Toda a supervisão e controle haviam desaparecido e a situação ameaçava
tornar-se incontrolável.
C o m certeza, C ipriano com preendia a seriedade do que estava ocorrendo.
Sabia que um certo grau de acom odação era inevitável, ainda assim, com o as
coisas estavam naquele m om ento, parecia-lhe impossível com prom eter-se defi­
nitivamente. Portanto, procurou adiar a decisão sobre o problem a das penitências
para um m om ento seguinte, após o térm ino das perseguições. O rdenou que os
apóstatas deveriam ser m antidos sob vigilância, tratados provisoriam ente com o
penitentes e, sob nenhum a circunstância, readmitidos. Decisões semelhantes ha­
viam sido postas em prática em R om a, com cujo clero C ipriano havia restabele­
cido as melhores relações; e, a fim de seguir em linha com as ordens de R om a,
ele ofereceu com o sinal aparente de sua boa vontade a desejada readmissão ecle­
siástica aos penitentes pecadores quando em seu leito de morte.
Acima de tudo, e o quanto lhe era possível, C ipriano tentou tratar os santos
confessores com indulgência. Pedia-lhes, simplesmente, que mostrassem um pouco
mais de consideração e de cautela e, em princípio, aceitava suas decisões sobre as
não readmissões; porém , somente as piedosas recom endações para um a futura
readmissão seriam deixadas ao líder religioso responsável, isto é, ao bispo. C erta­
m ente, era m uito arriscado ter que tom ar tais decisões, de longe e p o r carta.
Q uanto mais duradouras fossem as perseguições, mais difícil seria para C ipriano
m anter em suas mãos as rédeas da liderança. N o entanto, a prática de suas ordens
poderia ter sido possível se ele pudesse confiar inteiram ente na lealdade de seu
clero. Porém, mesmo nesses m om entos de extrem a tensão ainda persistiam as
antigas rivalidades. U m setor do clero abjurou de sua obediência e fez causa
com um com os confessores. Os próprios apóstatas ousaram enviar um a carta a
Cipriano, em nom e da Igreja, contendo suas reivindicações, a qual foi categórica
e im ediatam ente repudiada p o r ele. Os bispos, afirmava, e exclusivamente eles,
eram chamados de acordo com a palavra do Senhor para agir em nom e da Igreja.
Os bispos representavam a Igreja juntam ente com o clero e os cristãos que per­
severaram.
C ipriano se surpreendia com sua arrogante insolência, enquanto um a atitu­
de humilde, tranqüila e envergonhada teria sido m uito mais apropriada (Ep. 26,
1).A situação havia se tornado crítica e,sem que o próprio C ipriano concordas­
se, não poderia reconhecer um a readmissão executada p o r eles contra suas or­
dens explícitas. Foi feita um a tentativa de enviar dois bispos amigos a Cartago
para intervir, pacificar e, em particular, para organizar a distribuição dos subsídios
de acordo com seus desejos. O resultado, no entanto, foi justam ente o contrário.
U m certo Felicíssimo, que havia sido ordenado diácono contra a vontade de
Cipriano, e havia se encarregado das finanças da congregação, ousou contrariá-
lo publicamente; após ter sido excom ungado, cinco outros presbíteros o acom ­
panharam em sua oposição. C ipriano devia nom ear novos juizes eclesiásticos e
conclamar a congregação a recusar obediência aos seus próprios ministros rebel­
des. Nessas circunstâncias, muitas vezes recorria à função de bispo com o único e
decisivo m inistério para sustentar a Igreja. Aquele que abandona o santo altar do
bispado e transfere sua lealdade ao pecaminoso partido de Felicíssimo estará para
sempre perdido para o povo de Cristo e nunca mais poderá se reunir a ele.
N o entanto, não era mais possível evitar que ocorresse um a ruptura na con­
gregação. O grupo dos rebeldes manteve-se inabalável e, p o r fim, realizou até a
eleição formal de um antibispo. Porém , isso aconteceu com o um passo final e
desesperado após o térm ino da perseguição e quando, após um a ausência de um
ano e três meses, C ipriano já retornara e estava em condições de reunir e de
construir um a nova congregação.
U m sínodo de bispos, convocado por ele provavelmente na primavera de
251, foi decisivo para sua vitória. Além do apoio pessoal recebido, foram estabe­
lecidos princípios a respeito dos apóstatas que haviam perseverado em sua atitu­
de de rebeldia. C ontra a visível oposição da ‘esquerda’, que havia perm itido a
admissão de todos os apóstatas, e apesar das apreensões da ‘direita’, que eram
compartilhadas por Cipriano, chegou-se a um acordo sobre um a orientação
conciliadora. O objetivo era classificar os castigos da penitência de acordo com a
gravidade da falta. Os cristãos que não haviam sido sacrificados, mas que, através
de suborno, haviam recebido o necessário certificado, foram considerados sufici­
entem ente purificados pelo sofrim ento passado e foram novam ente admitidos.
Por outro lado, aqueles que realm ente haviam oferecido sacrifícios aos de­
m ônios deveriam continuar em penitência; e as ‘cartas de paz’ dos mártires não
deveriam mais ser reconhecidas. Para os penitentes, no entanto, a absolvição
tam bém deveria ser concedida quando estivessem em perigo de m orte, as quais
não seriam retiradas caso recuperassem a saúde. O aspecto doutrinário dessas
decisões perm aneceu essencialmente obscuro. Os bispos, obviamente, desejavam
m anter um a certa Uberdade de m ovim entos e, quando uma nova perseguição se
aproxim ou, dois anos mais tarde, resolveram im ediatam ente aceitar dentro da
com unidade todos os penitentes que haviam m antido sua fidelidade. Dessa for­
ma, seriam capazes de enfrentar o perigo ameaçador com uma frente unida.
Cipriano, particularm ente, afirmava que os penitentes não deveriam mais
ser privados da Eucaristia e do Espírito que vive na Igreja, caso tivessem que ser
submetidos a novas aflições. Para um a segurança adicional, quando se tratava de
tom ar tais decisões, C ipriano fazia referência a sinais celestes ou iluminações que
havia recebido, com o freqüentem ente havia feito em outras ocasiões.
O principal resultado desses tempos turbulentos foi reconstruído em duas
im portantes obras de Cipriano: A R espeito dos Apóstatas (Concerning the Lapsed)
e A Unidade da Igreja (The Unity of the Church). Esse últim o trabalho foi, prova­
velmente, iniciado quando C ipriano ainda estava em seu esconderijo, enquanto
o tratado sobre os apóstatas deve ter sido escrito logo após seu retorno a Cartago.
Esse tratado representa um a justificação bastante abrangente do p o nto de vista
repetidam ente defendido por C ipriano sobre essa questão, porém agora de for­
ma mais distinta e decidida do que antes. C ipriano não se encontrava entre
aqueles membros da congregação possuidores de natureza compassiva que, por
serem indulgentes ou inseguros, estavam dispostos, um a vez alcançados o sucesso
e a vitória, a deixar para trás e a esquecer uma posição mantida com tanto
sofrimento. Porém, deveria ser um a vitória da causa e não um triunfo pessoal.
U m verdadeiro pastor‘chora ao lado dos que se lastimam’ e se sente diretamente
afetado e hum ilhado pela derrota de sua própria congregação. ‘Acreditem, meus
irmãos, eu partilho de seu desespero e não encontro conforto em m inha fuga e
na m inha segurança’ (de Laps. 4; ACW , 25,16).
A glória dos membros da congregação que perseveraram m antém -se intacta
e Cipriano, mais um a vez, não negligenciou em prestar as homenagens e os
louvores devidos a todos os irmãos e confessores que perseveraram; no entanto,
a atitude de um considerável grupo o havia desapontado amargamente. A pior
parte, contudo, era que alguns não estavam ainda totalm ente convencidos de sua
culpa; na verdade, existiam tentadores que os encorajavam e os enganavam a
respeito de sua verdadeira salvação através de falsas promessas e lisonjas.A esses,
som ente o imediato arrependim ento e conversão poderiam salvar. Presbíteros e
confessores insubmissos significavam para os apóstatas ‘o que o granizo significa
para as colheitas, a tempestade para as árvores, a catastrófica peste para os reba­
nhos e o violento tem poral para as embarcações’ (de Laps. í 6).
A salvação somente poderá ser alcançada através da orientação dos bispos, e
não dos espúrios que levianamente assumiram o privilégio de perdoar os peca­
dos, atribuição que Deus reservou exclusivamente para si mesmo. Até mesmo
crianças, que tentaram enganar seu bispo e procuraram participar da Ceia do
Senhor sem estarem reconciliadas, foram terrivelmente castigadas por Deus. Outros
ainda, quando foram à procura dos com ponentes da ceia, receberam apenas cin­
zas em suas mãos (de Laps. 26). C ipriano em pregou todos os meios de que dispu­
nha para tornar o mais negro possível o perigo que ameaçava os im penitentes
pecadores, e para despertar acolhida e obediência aos seus apelos para a submis­
são e responsabilidade espirituais. E, na m aioria das vezes, seu esforço foi bem -
sucedido. >
H istoricam ente, bem mais significativos foram seus escritos sobre a unidade
da Igreja, os quais utilizou para colocar um ponto final nas divergências com
aqueles que haviam aderido à divisão. Aqui não foram necessárias quaisquer
considerações táticas, n em restaram dúvidas ou incertezas. A segurança
institucional da Igreja significava para C ipriano a garantia da salvação e da pró­
pria fé cristã, pelas quais viveu, sofreu e lutou. A Igreja é a N oiva de Cristo, a
‘M ãe’ para todos os fiéis: ‘não se pode ter Deus com o pai a não ser que se tenha
a Igreja com o m ãe’ (de Un. 6). Fora da Igreja não existe salvação. Porém , há
apenas um a Igreja fundada p o r C risto e que foi por Ele confiada aos apóstolos
com o seus líderes. Ela perm anece única, mesmo tendo se espalhado pelo m undo
- ‘da mesma form a com o existem muitos raios de sol, porém a luz é um a só, e
muitos ramos num a árvore, porém a força que emana de suas raízes é apenas
uma, assim tam bém os regatos fluem de um a única fonte’ (de Un. 5; AC W , 25,
48). Essas são ilustrações usadas p o r Tertuliano para apresentar o m istério inteli­
gível da Trindade de D eus e que agora foram transferidas para a Igreja, eterna­
m ente um a em sua simplicidade, a fim de através delas, dem onstrar a impossibi­
lidade de um a igreja ‘cismática’. N ão podem os apartar o raio da luz, um ram o da
árvore, nem o regato da fonte, sem que estes desvaneçam, definhem ou sequem.
N o entanto, essa unidade da Igreja existe apenas em função do trabalho do
bispo.A Igreja é para o bispo o que o bispo é para a Igreja (Ep. 66,8).Ai daqueles
que não reconhecerem isto! Eles se tornarão os seguidores do levita C oré e irão
despedaçar o manto do Senhor. Os cismas são invenções de Satanás e os ‘cismáticos’
perm anecem sob seu poder. C ipriano não hesitava em, im ediatamente, estigma­
tizar todos aqueles que deixassem a com unidade ‘cristã’ com o pessoas moral­
m ente depravadas que deveriam responder p o r inumeráveis pecados. Portanto,
somente coberto de desgosto um cristão poderia dar-lhe as costas.
A função do bispo, aquela que conserva a unidade, era para C ipriano mais
do que um simples conceito ou idéia religiosa. N aquela situação confusa que
permeava todas as congregações após a perseguição e a apostasia era de im por­
tância vital que, pelo menos, os bispos resistissem ju n to s e permanecessem liga­
dos uns aos outros, obedecendo aos mesmos princípios práticos. C ipriano reu­
niu seus com panheiros em vários sínodos e lhes enviava cartas e encíclicas atra­
vés de seus mensageiros. Esforçava-se em obter troca de opiniões e declarações
conjuntas, além de m útua confiança. N ão foram apenas seus com panheiros da
África que se congregaram ao seu redor, dessa form a protegendo-se m utuam en­
te através de suas decisões; C ipriano da mesma forma se correspondia com o
recém -eleito bispo de R om a, Cornélio, que lhe havia pedido que se mantivesse
firm e contra a rigorosa oposição (da ‘direita’) liderada por um im portante teólo­
go, o antigo presbítero Novaciano. E m nom e do colégio sacerdotal, o próprio
Novaciano havia anteriorm ente enviado cartas a C ipriano e recebido respostas
concordando com suas teorias. Agora, porém , a situação havia m udado e Cipriano
perm aneceu inabalável ao lado daquele bispo p o r quem a maioria havia se de-
cidido e procurou recom endá-lo, em todas as ocasiões, com o o único bispo de
R o m a reconhecido. Assim sendo, a unidade da Igreja tornava-se tangível e
sólida e um a realidade canônica dentro da política eclesiástica que determ ina­
va o ordenam ento da Igreja ocidental até a Espanha e a Gália.
A força de vontade e a energia de C ipriano não haviam se esgotado com os
problemas de administração eclesiástica. D urante esses anos, e com m aior suces­
so, voltou-se novam ente aos trabalhos literários, tendo se tornado um fecundo
escritor de literatura devocional, u m m odelo de ensinador e pregador episcopal.
Os assuntos e mesmo os conceitos de seus escritos eram freqüentem ente o riu n ­
dos deTertuliano. Porém, o ardente e im paciente entusiasmo, o radicalismo moral
e a vivacidade do ‘m estre’ haviam desaparecido e as questões de significado
temático ou dogmático deixaram de ser apresentadas. O que havia restado estava
repleto de um racionalismo, e de um moralismo inflexíveis e de um a razoável
argumentação prática, bastante popular, simples e facil de ser com preendida. O
tom dom inante era o de um a instrutiva persuasão, de u m conselho hábil e de um
jovial entusiasmo, com ovente e cheio de dignidade. Seu estilo nunca foi sarcásti­
co ou severo, mas, solene e grave; segundo as palavras de u m escritor que lhe
sucedeu, ele sempre fluía suavemente com o um óleo agradável (Cassiodoro).
C ipriano apreciava descrever a mesma coisa duas ou três vezes, empregando
o uso de sinônimos, e de repetir certas expressões, ilustrações e pensamentos. Em
suma, usava a linguagem de um pregador experiente, o que ele exatam ente era.
C om o acontece com Tertuliano, sua inclinação retórica não parece vazia ou
artificial. Sua estrutura, que havia tom ado form a através da prática diária da vida
eclesiástica, havia agora adquirido um novo estilo religioso latino, com as límpidas
expressões de um experiente oficial eclesiástico e a simplicidade de uma Bíblia
africana, cujo eco pode ser freqüentem ente ouvido desde então, e pelos séculos
seguintes.
Ao lado das exigências eclesiásticas empíricas e das decisões que deviam ser
explicadas aos m em bros da Igreja, C ipriano preferiu lidar em suas cartas pasto­
rais e tratados com os problemas da vida prática relacionados à educação religiosa
e às virtudes individuais. Nesse sentido, a Bíblia sempre lhe serviu com o um
tesouro de ilustrações inexaurível. Os problemas são apresentados de form a clara
e simples, sem qualquer individualização ou refinamento. C ipriano presta espe­
cial hom enagem à devoção ascética das virgens consagradas na congregação, ao
louvor à abstinência com o tal, e ao glorioso exemplo dos santos mártires. Sere­
nidade, hum ildade e modéstia são virtudes especialmente consideradas, pois
m antêm a paz na congregação.Também o ‘am or’, quando visto sob esse prisma,
adquire o caráter de um a im portante virtude social e religiös^, muitas vezes
p ro fu n d am en te ofendida pela arrogância, disputas e in su b o rd in ação dos
‘cismáticos’. Em toda parte, os benefícios das boas ações são enfatizados com
surpreendente ingenuidade. D eus ‘concedeu ao hom em a Uberdade e o fez de­
pendente de sua própria vontade; portanto, depende dele em penhar-se por sua
m orte ou salvação’ (Ep. 59, 7).
Para alcançar esse propósito será necessário desempenhar, com jeju m e ora­
ções,‘trabalhos virtuosos’, que proporcionam a salvação dos castigos do inferno.
As esmolas, especialmente, apagam as chamas dos pecados dos cristãos, da mesma
form a que o batismo lavou as prim eiras ofensas de um a vida pagã; e seus conse­
lhos eram sempre atendidos. Q uando a N um ídia foi devastada pela invasão, seus
bispos pediram ajuda de C ipriano para suas congregações; um a coleta foi feita e
100.000 ‘sestércios’ foram angariados para ser enviados para o resgate dos prisio­
neiros. N os períodos de escassez de alimentos ou nas grandes epidemias de peste,
a congregação estava pronta para fazer sacrifício da mesma form a maravilhosa. O
‘cristianismo prático’ era, certam ente, uma frase de m uito significado na igreja
de Cipriano.
Nesses tempos de turbulência, Cipriano tam bém escreveu obras apologéticas.
As antigas acusações contra os cristãos haviam sido renovadas e, para fortalecê-
los era necessário dar-lhes instrução e encorajamento. ‘Devemos, queridos ir­
mãos, refletir bem e ponderar sobre o fato de que já renunciamos a este m undo
e, com o estrangeiros e peregrinos, viveremos aqui apenas p o r pouco tempo.
R ecebam os com alegria o dia que nos levará ao lar, que nos levará para longe
desses arredores, que irá nos libertar das amarras deste m undo e nos restituir o
paraíso e o reino de Deus. Para nós, o paraíso é a nossa terra natal; de alguma
forma, com eçam os a ter agora os patriarcas com o nossos pais. Por que, então, não
nos apressamos e correm os para que possamos chegar ao nosso país e saudar
nossos pais?’ (de Mort, 26). A form a com o é colocado esse desejo ardente e
escatológico é verdadeiram ente típica de C ipriano. A antiga e prim eira ex­
pectativa dos cristãos sobre a vinda do R ein o de Deus estava associada à consci­
ência de que enfrentamos um m undo perdido e senil e que está além de qual­
quer recuperação. A natureza tam bém envelheceu; a chuva e o sol não com pare­
cem mais, a terra está exausta, a população dim inuiu, as pessoas m orrem mais
cedo, os negócios e o com ércio estagnaram, o Estado e a sociedade, as artes e a
ciência estão declinando (ad Demetr. 3 f.) Todos estes são sinais da ira divina
contra os descrentes, enquanto os cristãos, que estão sendo acusados desses even­
tos, são os m enos culpados. Para eles, os tempos de tribulação devem ser recebi­
dos com o tempos de provas.
A posição eclesiástica de C ipriano ficou ainda mais fortalecida durante esses
anos difíceis. Ele se torn o u um a autoridade até fora das fronteiras da Igreja afri­
cana. Suas cartas e livros eram lidos em toda parte do O cidente latino; pessoas de
lugares longínquos dirigiam -se a ele procurando informações e conselhos. As
respostas que dava eram sempre de form a amigável, educada, porém firme, e
através delas pode-se observar que C ipriano havia se acostumado a ver seus
conselhos sempre obedecidos. N ão faltaria m uito para que, entre as várias pro­
víncias, a diferença entre os princípios eclesiásticos fosse introduzida em sua
correspondência. Em tais casos, C ipriano evitava exigir o que fosse impossível.
Confiava no ‘cim ento da concórdia’ que, apesar de tudo, unia todos os bispos em
uma Igreja global e os fazia perm anecer unidos contra todos os inimigos exter­
nos e internos da Igreja.
Temos à nossa frente, então, todo o cenário dos sérios conflitos religiosos
que outra vez haviam se desencadeado e amargurado os últimos anos da vida de
Cipriano. Seu oponente era o único bispo do Ocidente, o recém-eleito Estevão I
de R om a, que, em vista da tradicional im portância e poder conferidos p o r sua
diocese, tinha ainda poderes para ousar desafiar o ‘bispo’ de Cartago.
C om o vimos anteriorm ente, até então os líderes religiosos de Cartago e
R om a haviam gozado de um a excelente cooperação mútua. Q uando necessário,
Cipriano podia fazer referência a um procedim ento rom ano na ordenação de
penitências; além do mais, C o rn élio tinha um a grande dívida pessoal com
Cipriano, em vista de sua posição de contestação, e parece ter reconhecido, sem
qualquer questionam ento, a superioridade intelectual de seu colega mais velho.
Estevão, que agora retinha nas mãos o lem e de sua igreja, havia, entretanto,
se tornado um hom em com pletam ente diferente. Passara a considerar os conse­
lhos de C ipriano com o um a tutela indesejada e achava, evidentem ente, que era
chegada a hora de fazer com que a antiga superioridade e independência da
Igreja romana se tornassem outra vez efetivas e poderosas. Além disso havia uma
considerável e im portante diferença de opiniões. E m várias ocasiões, a eficácia
do batismo, quando administrado fora daquela que era considerada a verdadeira
Igreja, já havia sido anteriorm ente discutida.
As divergências e as confusões que surgiram em conseqüência das perseguições
haviam feito renascer o problema sobre a atitude mais apropriada a ser tomada em
relação ao ‘batismo por hereges’. Para Cipriano, a solução para esse problema já
havia sido claramente exposta, de acordo com sua própria concepção integral da
Igreja.Todos os atos sacramentais realizados fora da única comunidade de salvação
seriam, em sua opinião, nulos e sem valor. C om o poderiam os apóstatas, possuídos
pelo demônio, outorgar os dons do Espírito Santo, que eles próprios haviam per­
dido? A esse respeito, ele estava de acordo com as antigas tradições de sua terra
natal.Tertuliano já havia exigido que os hereges fossem novamente batizados. Em
um a geração anterior, A gripino, seu predecessor eclesiástico, havia tom ado a
mesma decisão em um concílio em Cartago, formado por setenta bispos africanos.
E m R om a, por outro lado, haviam se inclinado para o lado oposto e afirma­
do em princípio a validade do batismo herético. Agora, no entanto, estavam se
declarando dispostos a ir além e até a reconhecer a ordenação ‘novaciana’ nos

j y /
casos de conversão. Isso trazia a grande vantagem de tornar o retorno do clero
‘cismático’ consideravelmente mais fácil. Estevão, com grande determinação, havia
colocado toda a força de sua influência sobre a prática de R om a, que ele tran­
qüilamente declarava ser um ‘antigo’ costume (na m elhor das hipóteses, poderia
significar o ‘costum e de R o m a ’). ‘Sem inovações - perm anecer com a tradição’
era o eficiente brado de guerra que proclam ou às suas fileiras.
Acima de tudo, o aspecto alarmante dessa questão era não estar exclusiva­
m ente confinada a R o m a ou à Itália. Existiam tam bém bispos africanos que
estavam dispostos, sob a pressão das necessidades, a conciliar os ‘cismáticos’ ou
aqueles que já haviam se decidido favoravelmente a essa nova direção. Pelo m e­
nos indiretam ente, eram apoiados p o r Estevão contra Cipriano, que ainda espe­
rava chegar a um acordo prático sem ter, em últim o caso, que desistir de sua
própria e definida opinião. C onclam ou seus adeptos para uma reunião em um
conselho em Cartago, que endossou a prática africana e enviou uma carta a
Estevão inform ando-o, com o de costume, a respeito das decisões que haviam
sido tomadas. Essas decisões revelavam suas esperanças de que Estevão, conheci­
do com o hom em piedoso e sincero, fosse igualmente concordar com o que
havia se mostrado com o santo e verdadeiro no sínodo de bispos.
Cipriano, no entanto, que naturalm ente havia elaborado a carta, sem dem o­
ra acrescentou que todos reconheciam m uito bem que alguns irmãos de ofício
consideravam m uito difícil modificar um a decisão uma vez tom ada e que, em
tais casos, eles preferiam aderir à ordem reinante ‘para a preservação, com o cole­
gas, dos laços de paz e de concórdia’. ‘N ão queremos, de nossa parte, pressionar
ninguém ou dar qualquer orientação. Cada um dos líderes das congregações tem
o direito de decidir, po r si mesmo e com total liberdade, de acordo com seu
próprio discernim ento; som ente ao Senhor ele terá que responder pelos seus
atos’ (Ep. 12, 3). C ipriano estava consciente, desde o início, de que não dispunha
do direito, nem da habilidade, de conduzir seu ponto de vista à vitória completa
e, aqui, caso assim se possa acreditar, existe uma fraqueza dogmática em sua
posição. N a verdade, da maneira que a situação se encontrava, não havia outra
form a de sustentar a paz e a unidade da Igreja.
Estevão tinha uma opinião diferente, e pode-se duvidar até que ponto era
possuidor de um a compreensão teológica mais esclarecida do que a de Cipriano
sobre o com pleto significado das decisões. Parece que, ao contrário, estava mais
preocupado em descobrir falhas nos argumentos de seu colega. Portanto, ocasio­
nou logo de início um ataque frontal. N aturalm ente, conhecem os os seus pro­
nunciam entos apenas pela repercussão que tiveram através da correspondência
de Cipriano; no entanto, é evidente que entre o s‘assuntos arrogantes, irrelevantes,
contraditórios’por ele ‘rabiscados de form a ignorante e impensada...’ (Ep. 74,1),
Estevão tam bém pleiteava que, na conduta com os heréticos da África deveria
haver submissão aos ‘tradicionais’ procedim entos romanos. E com o prova, Este­
vão se referia à sua ‘prim azia’ (primatus), ou dignidade de primaz, de fazer essa
exigência com o detentor do trono de Pedro. Dessa forma, os demais bispos
foram colocados em um a posição subalterna, subordinados ao bispo de R o m a e
obrigados a lhe prestar obediência.
Essa era uma exigência da qual, até então, nunca tinham ouvido falar e é
compreensível que C ipriano tenha se indignado perante a atitude ‘arrogante e
insolente’ de seu colega mais novo. Percebeu que, nesse caso, a im pudente reivin­
dicação à ‘tradição’ não passava de um a im pertinência. N unca irá adiantar, asse­
verou com uma tácita referência aTertuliano, que sejam emanadas ordens apenas
segundo a vontade própria e com referência a um a mera ‘tradição’; elas precisa­
vam, ao contrário, estar apoiadas em argum entos razoáveis. Acima de tudo, sen­
tiu-se insultado pela im própria referência a Pedro, que nunca havia reivindicado
‘prim azia’ nem exigido obediência dos seus jovens com panheiros que se ju n ta­
ram a ele mais tarde (Ep. 71,3). E m com um com a totalidade da igreja, Cipriano
considerava Pedro com o o prim eiro detentor e representante da função episco­
pal em geral, e de cuja autoridade todos os bispos, cada um em sua própria
região, participava‘solidariam ente’ (de Un. 5). Entendiam que o Senhor fundou
o ministério episcopal som ente sobre ‘a pedra’ que era Pedro, e que o único
propósito do Senhor, então, foi o de enfatizar simbolicamente a necessária uni­
dade e concordância de todos os seus membros. N o entanto, os outros discípulos
não eram inferiores a Pedro e possuíam a mesma autoridade e dignidade que ele
(de Un. 4). O conceito de uma ‘prim azia’ legal para que o ‘sucessor’ de Pedro
fosse rom ano não se encaixa nessa Unha de pensamento. Se, no entanto, isso
parece estar ocorrendo agora, segundo um a estarrecedora edição especial do
livro de Cipriano sobre a Unidade da Igreja, ela dificilmente poderia corresponder
ao texto escrito por C ipriano e seria, tão-som ente, um a tendenciosa alteração
introduzida posteriorm ente, segundo a idéia romana.
Entretanto, não precisamos nos preocupar demasiadamente com esse pro­
blema controverso e único, pois, em todas as circunstâncias, o quadro daquilo
que C ipriano queria dizer é em seu todo bastante claro. Pela prim eira vez, existe
entre C ipriano e Estevão um a situação de oposição a respeito de dois conceitos
fundam entalm ente diferentes sobre a natureza da hierarquia cristã e a Igreja.
Estevão seria, por assim dizer, o prim eiro ‘papa’ com sua concepção ‘m onárquica’
de toda a Igreja. Cipriano, p o r outro lado, através de sua opinião de que a firme,
porém livre, união dos bispos pelo amor, tendo autoridade semelhante, seria a
representação clássica do ‘episcopado’. Podemos ver agora com que facilidade a
unidade de um a Igreja assim organizada poderia ser realmente perturbada por
conflitos entre os clérigos. Porém , a grandeza peculiar desse conceito não deve
ser omitida. Para Cipriano, a unidade da Igreja não representava um a realidade
simples e segura; ao contrário, ostentava o aspecto de um cham ado espiritual e,
ao mesm o tempo, de um a tarefa ética de seus líderes, que em qualquer em ergên­
cia deveriam ser demonstrados, assim com o sua fé na Igreja, através da decisão
pessoal de cada líder.
C ipriano provou estar à altura da seriedade da situação. E m I o de setembro
de 256, em um novo concílio reunido em Cartago, com a presença de oitenta e
sete bispos, ocorreu um protesto, em grande escala, contra o batismo p o r heréti­
cos. N inguém m encionou o bispo de R om a; suas declarações foram recebidas
com o se ele não existisse, porém , ficou evidente contra quem essa dem onstração
havia sido politicam ente endereçada. Ainda existem as minutas com os votos de
cada um dos participantes. D epois que os últimos textos de Cipriano haviam
sido lidos, ele, com o presidente, conclam ou os participantes a proceder à votação
final.Todos deveriam declarar abertam ente sua opinião e ninguém estaria sujeito
a qualquer dissabor com o conseqüência. ‘Pois nenhum de nós se fez o bispo dos
bispos por si só ou tentou, através da violência, forçar seus irmãos de ministério
a um a obediência absoluta através de qualquer pressão despótica. Cada u m dos
bispos é definitivamente possuidor da liberdade e do direito de m anter sua pró­
pria opinião com o bem desejar e poderá ser acusado p o r outrem , por pouco que
seja, da mesma form a que pode acusar. Ao contrário, todos nós aguardamos o
julgam ento de nosso Senhor Jesus Cristo, pois som ente Ele tem o poder de nos
tornar líderes da Igreja e de julgar as nossas obras’. Todos os bispos presentes
revelaram sua concordância com os pontos de vista de Cipriano, através de pro­
nunciam entos breves ou longos, e ele - m encionando suas declarações anterio­
res —foi o últim o a dar o seu voto.
A delegação incum bida de levar a decisão do concílio a R o m a não foi se­
quer recebida por Estevão e nem m esm o recebeu alojamento. Estevão conside­
rou rompida a com unhão com a Igreja africana e não se furtou a ofender a
pessoa de C ipriano com o sendo u m falso Cristo, um falso profeta e um ‘obreiro’
fraudulento (2 C o 11.13). C ipriano deixou de estar na defensiva e organizou
uma campanha de propaganda extensa e veem ente em defesa de seu ponto de
vista, e contra a atitude indigna de u m irm ão que havia sido adotada pelo tem e­
rário colega romano. Até a Páscoa cristã foi envolvida nessa controvérsia e, tendo
em vista que os cristãos em R o m a freqüentem ente repudiavam o batismo feito
por pagãos, e que nem todos reconheciam o centralismo eclesiástico de acordo
com o estilo romano, C ipriano encontrou neles algum apoio.
U m a carta enviada pelo bispo Firmiliano de Cesaréia, na Capadócia, foi
encontrada em m eio à sua correspondência, sem dúvida traduzida e divulgada
pelo próprio Cipriano, na qual ele oferecia sua total concordância e, a esse res­
peito, ainda expressava, em um a linguagem forte, sua indignação em vista da
‘tolice óbvia e declarada’ de Estevão ao se vangloriar dos privilégios de seu trono
episcopal e se considerar possuidor do direito à sucessão de Pedro (Ep. 75, 17).
Finalmente, o influente bispo de Alexandria, Dionísio, tentou ser o mediador,
mas foram em vão suas exortações a Estevão em favor da paz. Fatores externos,
porém , colocaram um ponto final à controvérsia. N o verão de 257, as persegui­
ções feitas pelo Estado foram reiniciadas e Estevão m orreu com o mártir. N o ano
seguinte, o mesmo destino coube a seu sucessor Xisto.
Nessa ocasião, Cipriano havia perdido sua liberdade e a situação desesperadora
da Igreja havia deixado de lado as divergências das partes, fazendo delas um
assunto de im portância secundária. Assim, parece que as relações entre R o m a e
Cartago foram restabelecidas p o r si mesmas; as diferenças da prática do batismo
deixaram de ser mencionadas. Essa matéria foi um a vitória completa para Cipriano
que, em verdade, nunca havia desejado algo diferente. Som ente m uito mais tarde,
e num a época em que as circunstâncias haviam se modificado, a Igreja romana
obteve sucesso, com ajuda governam ental, em tornar efetiva a lei, mesmo na
África, dos princípios relativos ao batismo feito por pagãos. Porém , esse assunto
novam ente voltou a provocar um a divisão na Igreja. A questão, nas posteriores
controvérsias dos donatistas, era o legado de Cipriano; porém , isso não mais
afetou o próprio C ipriano nem a sua autoridade eclesiástica.
D e um m odo geral, C ipriano serviu com o bispo por no m áxim o dez anos -
dez anos cheios de preocupações, de conflitos quase ininterruptos e de dificul­
dades internas e externas. N o entanto, não era dotado desse tipo de natureza que
se desgasta e se esgota em tais provações. Ao contrário, sentia que estava no lugar
certo e a responsabilidade de vencer a todas as dificuldades to rn o u -o ainda mais
resoluto. Cipriano sabia que, através de suas atividades, havia se tornado um
cooperador de D eus no sustento de sua Igreja. O bispo não duvidava de seus
direitos e, mesmo nas situações mais obscuras, tinha sempre o pleno conheci­
m ento das coisas e daquilo que deveria ser feito. C o m isso, perm aneceu senhor
das situações e manteve firm e sua posição. N o início, era apenas um principiante
sentado sobre um trono episcopal ao qual m uito rapidamente fizera jus, com o
apoio indiferente e insuficiente de seus assistentes e escondido das perseguições
em um exílio voluntário, enquanto os ‘rebeldes’ lutavam pela liderança de sua
congregação. N o entanto, em ergiu dessas vicissitudes com o líder espiritual de
toda a Igreja africana, gozando da confiança de colegas distantes, u m mestre de
todo o O cidente, respeitado e honrado até mesm o no O riente. U m bispo da
N um ídia escreveu a C ipriano que, através de suas cartas, os maus se arrependiam
e os piedosos se fortaleciam. Seus escritos aumentavam a fé, convertiam infiéis e
reproduziam o exemplo de seu caráter perante os olhos do leitor sem que ele o
percebesse. ‘Para todos, sem distinção, você é u m grande pregador e um mestre
da oratória, sensato em seus conselhos e simples em sua sabedoria, generoso em
suas obras e santo em sua abstinência, hum ilde em sua obediência e pronto, em
seu altruísmo, para qualquer em preitada do b em ’ (Ep. 77,1) Apenas um a coisa
estava faltando: a glória e a coroa da mais alta perfeição, que ele mesmo conside­
rava com o sendo o martírio. Este, tam bém , seria o seu destino.
C ipriano foi preso no dia 30 de agosto de 257 e decidiram ser necessário
retirá-lo de Cartago. Foi banido para Curubis, um lugarejo não m uito distante.
Parece ter sido capaz de enviar u m apelo pedindo clem ência ao im perador
algum tem po depois, o qual foi b em recebido. Através de um a carta pessoal,
C ipriano recebeu permissão para reto rn ar a Cartago e ficar detido em sua casa,
sem permissão para se ausentar. Esse m oderado confinam ento durou u m lo n ­
go tem po. Porém a situação m udou. U m novo edito do im perador Valeriano
ordenava que fossem adotadas medidas rigorosas em toda parte e, em p articu­
lar, que a vida dos clérigos não deveria mais ser poupada. C o m o decorrer do
tem po, C ipriano foi inform ado do que podia esperar dos mensageiros que
foram a R o m a em seu nom e, talvez até antes do que o pró p rio recém -n o m e-
ado procônsul.
Agora percebia m uito claramente a sua situação, e de maneira rápida e tran­
qüila tom ou as suas últimas providências. N ão só seu clero deveria ser inform a­
do, mas tam bém todos os seus colegas de episcopado ‘para que, em toda parte,
através de sua exortação, a irm andade possa ser fortificada e preparada para o
conflito espiritual, para que cada u m de nós possa pensar menos na m orte do
que na imortalidade; e, dedicados ao Senhor com toda a fé e coragem, possam
rejubilar-se e não se atem orizar nessa confissão...’ (Ep. 80,2; LPNF, V, 4 0 8 / N ão
havia mais qualquer possibilidade de fuga. Sem dúvida, isso teria sido possível,
porém dessa vez ele tinha confiança em sua congregação. Estava decidido a dar-
lhes o exemplo de com o alguém podia sofrer o martírio, com o bispo e como
cristão, e confiava plenam ente no apoio misericordioso de seu Senhor.
Aparentem ente, o novo procônsul desejava evitar quaisquer distúrbios e pre­
feria transferi-lo para U tica para ser executado. Ao tom ar conhecim ento dessa
decisão, C ipriano abandonou secretam ente seus alojamentos, tendo, porém ,
retornado mais tarde. ‘Pois é próprio que um bispo faça sua confissão ao Senhor
no mesmo local onde lidera sua Igreja e que toda a congregação seja glorificada
através da confissão do líder que existe em seu m eio’. Essas palavras, proferidas
pelo bispo-confessor, po r ocasião de seu testem unho, eram consideradas com o
tendo a inspiração de Deus ‘em nom e de todos’ e com o se fossem ‘através da
boca de todos’. Assim com o haviam sido orientados inúmeras vezes, foi solicita­
do ao clero que a paz deveria ser integralm ente observada ‘e que n enhum dos
irmãos deveria incitar qualquer tum ulto ou render-se voluntariam ente aos idó­
latras (Ep. 81).
C ipriano foi preso segundo os procedim entos apropriados e levado em cus­
tódia p or dois oficiais de alta patente. Foi seguido pela congregação e a casa onde
foi alojado para passar a noite foi rodeada p o r um a imensa multidão que desejava
‘m orrer com ele’. O interrogatório feito no dia seguinte foi curto e formal: e a
sentença deveria ser executada im ediatam ente. Ao chegar ao local da execução,
C ipriano despiu-se de seu m anto e ajoelhou sobre ele para um a última oração.
Q uando estava com pletam ente despido, perm aneceu em silêncio, com os olhos
voltados para o céu, até que o carrasco ocupasse seu lugar. C o m u m gesto final
de fidalga superioridade, C ipriano ordenou que lhe fossem pagos vinte e cinco
peças de ouro pelo seu castigo. Teve então os olhos vendados por dois dos cléri­
gos enquanto o povo estendia mantas de linho para recolher o precioso sangue
do mártir. Seu corpo foi prim eiram ente enterrado no próprio local da execução
‘para rem ovê-lo da curiosidade dos pagãos’; porém , naquela mesma noite, foi
levado pelo povo que carregava velas e tochas, e solenem ente enterrado ‘acom ­
panhado pelas orações e estrondoso júbilo de muitos dos irm ãos’.
N en h u m patriarca da Igreja latina pode ser com parado a C ipriano em po­
pularidade até o surgim ento de Agostinho. O relato de sua m orte rapidamente
circulou em inúmeras e diferentes transcrições e edições. U m panegírico de sua
vida e m orte, supostamente escrito p o r seu diácono Pôncio, é a mais antiga
biografia cristã existente. Seus escritos e cartas estão todos preservados em várias
compilações e classificações - as compilações romanas, naturalm ente, vez por
outra om item aquelas situações constrangedoras que tratam do batismo feito
pelos pagãos. U m antigo m em orial relaciona os trabalhos de Cipriano, im ediata­
m ente após as anotações das Escrituras.
Ainda mais significativo é o grande núm ero de livros falsamente atribuídos
ao seu nom e que, entretanto, inúmeras vezes traduzem seu espírito e são as
manifestações claras de sua influência. A solene utilização da Bíblia e o m ora-
lismo prático com binado à sólida inclinação religiosa, tal com o foram revelados
em seus escritos, correspondem ao que o cristianismo latino da época conside­
rava com o em inentem ente cristão e edificante. N a integridade de sua fé, Cipriano
aparece com o a personificação da disciplina eclesiástica. E m sua fidelidade e fir­
meza de clérigo, ele representa o verdadeiro m odelo de u m bispo independente
do antigo período cristão. Sua dedicação à nova realidade da vida cristã está
repleta de entusiasmo: ela é genuína e de um a admirável im portância prática.
Poder-se-ia dizer que foi a sinceridade de um funcionário romano, tornado
cristão, que afirmou e aceitou a fé salvadora, simplesmente e sem questionamentos,
com a finalidade de a partir daí cum prir seu dever com o hom em , de m odo justo
e compromissado com a com unidade cristã.
Ficamos surpresos quando nos deparamos com o refinado pensam ento ecle­
siástico de Cipriano, num a época em que, nas mais antigas e evoluídas congrega­
ções do O riente, tanta coisa ainda existia de obscura, controvertida e em contí­
nua transformação. N o entanto, é precisamente essa bem arraigada moderação
que explica a rápida formação e a solidez desse m undo eclesiástico. N a verdade,
C ipriano não foi um representante da m aturidade do cristianismo latino, mas
tão-som ente do início de seu desenvolvimento, quando ainda não havia alcança­
do suas possibilidades reais e plenas.

M S
L a c t â n c io

os prim órdios do cristianismo, ser cristão significava p erten ­


cer à Igreja, e o fato de pertencer à Igreja significava p erten ­
cer a um a determ inada congregação ou província eclesiástica.
Faltavam à cristandade latina os representantes daquela classe no O riente, que
havia sempre preservado uma certa independência e Uberdade eclesiástica para,
em razão de sua profissão, viver onde lhes aprouvesse, com o os “filósofos” cris­
tãos e os sábios Justino e C lem ente de Alexandria, ou até mesmo Júlio Africano
e M etódio. Isso se devia a um a certa im portância moral que a filosofia e a erudi­
ção desfrutavam no m undo latino. N o lugar dos filósofos, apareciam nesse con­
texto as figuras públicas dos escritores e dos retóricos que, com o de regra, ti­
nham apenas um conhecim ento m uito superficial da filosofia. Ao se converte­
rem ao cristianismo, abandonavam qualquer referência anterior que pudessem
ter tido em relação às suas antigas profissões. Entravam no serviço da Igreja
com o instrutores dos catecúm enos, ou com o clérigos e, pelo menos em seu
íntimo, tornavam-se, assim com o Tertuliano, integralm ente vinculados às novas
tarefas impostas pela com unidade cristã. E sobre essa postura que se baseia a
rígida simplicidade das tradições teológicas ocidentais.
D o período pré-C o n stan tin o , sabemos de apenas um a única exceção,
Lactâncio, e não é por acaso que ele se encontra na transição ao novo período.
Assim com o Tertuliano e C ipriano, Lactâncio era tam bém de origem africana e,
enquanto ainda pagão, havia sido im pelido ao O rien te e testemunhado, após sua
conversão, o despertar da revolução “constantina” . A nova posição alcançada
pelo cristianismo oferecia inúmeras possibilidades, especialmente para um de­
fensor da fé e um retórico. Pelo que sabemos, Lactâncio foi o prim eiro teólogo
a tirar o m áxim o proveito dessa oportunidade. Havia recebido, através de
Constantino, uma posição excelente e independente, além de um novo campo
de trabalho. Tendo se convertido ao cristianismo durante o período das perse­
guições desfrutava, pela prim eira vez em sua velhice e com o um favorito do
imperador, os privilégios da união do Estado com a Igreja nos prim órdios do
cristianismo e da cultura dominante.
A parentemente, no entanto, Lactâncio continuava a ser o que sempre fora,
um professor, um docente, um esteta e um escritor cristão, desprovido de laços
eclesiásticos ou de qualquer cargo público. Essa posição, que desem penhou du­
rante toda a vida, perm itiu, na evolução gradual de sua personalidade, um grande
interesse pela história da Igreja, bem com o p o r suas idéias. Por outro lado, a
despeito de possuir um talento literário incom um e de um caráter imaculado e
apreciável, ele não pode ser colocado entre os grandes.
Sentim o-nos em débito pelo pouco que sabemos a respeito de seus dados
biográficos e quase que exclusivamente através dos breves relatos e das observa­
ções ocasionais feitos p o r Jerônim o. A partir de seu nom e - Lúcio Cecílio
Firmiano, ou Lactâncio, segundo seu nom e cristão - pouco se pode concluir. Foi
em SiccaVeneria, um a im portante cidade do interior, nas vizinhanças de Cartago,
que Lactâncio recebeu sua educação, prim eiram ente de A rnóbio, um renom ado
professor de seu tem po que, mais tarde, tam bém se converteu ao cristianismo.
Tinha, inclusive, bons conhecim entos jurídicos; no entanto, segundo seu pró­
prio testem unho, nunca apareceu em público com o advogado praticante ou
orador. Seu interesse pela retórica era exclusivamente particular, isto é, com a
intenção de se tornar, p o r assim dizer, um professor acadêmico de retórica, e
nisso ele foi bem -sucedido.
Já no final do século, o im perador Diocleciano convidou-o a ir à sua resi­
dência situada em N icom edia, que foi a antiga capital im perial antes de
Constantinopla, no m ar de M ármara, a fim de dar sua contribuição para a glória
da nova capital com o rhetor latinus. Foi dessa maneira que Lactâncio transferiu-se
para um am biente puram ente grego. Sua presença, no entanto, fazia-se necessá­
ria porque o latim ainda era a língua oficial do im pério e de suas leis. Q ualquer
um que desejasse seguir um a carreira pública teria que, pelo menos, aprender
algumas noções dessa língua.
Podemos apenas supor o que Lactâncio pensava sobre a religião nesse período.
Seus prim eiros escritos se perderam e som ente os títulos chegaram até nós. O
Symposium pode ter discutido alguns assuntos sobre educação, segundo a m anei­
ra usual; um livro sobre viagens, Da Africa para a Nicomedia, foi escrito em versos
hexâm etros - pois, naquele tempo, a poesia era m uito apropriada a um represen­
tante de elevada educação retórica. Sem dúvida, nenhum a influência cristã pôde
ser observada nesses trabalhos. N o entanto, é possível e até provável que já tivesse
adquirido as primeiras impressões sobre a Igreja quando esteve na África. D u­
rante um longo período, os cristãos que viviam nessa região não podiam deixar
de ser notados, pois a polêmica e o ridículo, contidos no paganismo, contribuí­
am para fazê-los sobressair. E possível que Lactâncio nunca tenha ficado, real­
mente, em oposição ao paganismo, pois, em bora cristão, ainda conservava os
princípios de sua visão do m undo, segundo a religião pagã. Vivia sob as tradi­
ções de um “platonism o” , entendido mais devota do que filosoficamente, que
procurava basear toda a verdade em um a revelação e iluminação superiores, e
que m antinha o reconhecim ento e a veneração de D eus com o verdadeiros ob­
jetivos da vida humana.
O Divino Hermes, supostamente considerada com o sua obra mais antiga, foi
traduzida do grego e adotada, em certa medida, por Apuleio e tam bém por
A rnóbio. Esses escritos representam o testem unho mais im portante de sua reli­
giosidade. C ertam ente não foi p o r obra do acaso que A rnóbio, Lactâncio e,
depois dele, Flávio, o gramático, que com o ele fora chamado à N icom edia, tor­
naram-se cristãos. Esses hom ens representavam um a cultura com tendência filo-
sófico-religiosa, ao lado de um a educação ainda incom pleta e que estava à pro­
cura de um sentido religioso. Som ente através da Igreja, com sua doutrina clara­
m ente revelada e de sua com unidade verdadeiramente ética que, ao mesmo tem ­
po em que im punha deveres auxiliava no seu cum prim ento, o anseio religioso
poderia ser satisfeito quando levado suficientem ente a sério. Provavelmente, essa
derivação teológica tam bém explica a abordagem gradual e crescente que, pre­
sumimos, levaram Lactâncio à conversão. E m sua opinião, som ente o batismo,
que deve ter recebido em N icom edia, era concebido com o o evento decisivo de
sua vida, pois perm itia a salvação.
A princípio, o recém -prom ovido retórico poderia ter se sentido sozinho e
isolado em Nicomedia. Parece que, na verdade, ele nunca conseguiu aprender o
grego. Seus estudos se limitavam aos “nossos”, isto é, aos autores latinos, e dessa
forma, quando com eçou mais tarde a ter contato com a literatura cristã, apenas se
preocupou com os Pais da Igreja que escreviam em latim. Lactâncio conhecia até
mesmo a filosofia clássica somente através do latim; conhecia o mais “inteligente
de todos os estóicos” (Inst. II, 8,23), Sêneca, e,profunda e completamente, o maior
de todos, Cícero,“o príncipe da filosofia romana” (Inst. 1,17,3). Procurou,prim ei­
ramente, copiar o exemplo de Cícero para que seus escritos, de acordo com Jerônimo,
pudessem ser considerados com o um “resumo” dos diálogos “ciceronianos” ; tam­
bém quanto ao estilo, Cícero perm aneceu com o um ideal durante toda a sua vida.
E bem possível que A rnóbio tivesse recomendado Cícero como modelo; porém , a
rebelde veemência desse último sempre permaneceu um pouco estranha a Lactâncio,
que continuam ente se empenhava em alcançar um estilo que fosse jovial, generoso
e, ao mesmo tempo, tradicionalmente elevado. Foi, na verdade, um clássico que, a
esse respeito, não tinha nada de realmente “africano” .
Repudiava, conscientem ente, a inform alidade descuidada e a veemência de
Tertuliano, cujo estilo literário lhe parecia difícil, obscuro e inculto. Também
criticava a eloqüência brilhante de C ipriano p o r não ter mostrado consideração
suficiente pelos leitores não-cristãos, na escolha das palavras que ia empregar.
Sempre se lembrava que tempos atrás um notável retórico pagão havia escarne­
cido de seu prim eiro mestre, cham ando-o de copriano, isto é, de pessoa mal asse­
ada (Inst.V, 11, 27). C o m certeza, não podia evitar com pletam ente o uso das
palavras bárbaras e estrangeiras que haviam sido introduzidas em seu vernáculo,
assim com o os neologismos, nas ocasiões em que falava sobre a concepção cristã
das coisas. Porém, procurava empregá-las o m enos possível, tentando explicá-las
ou interpretá-las ao perceber sua singularidade. Podemos ver aqui o acadêmico
e o apologista perspicaz que deplorava, abertam ente, perante sua culta audiência,
o pouco que a qualidade literária transparecia na propaganda cristã.
N o entanto, Lactâncio não tinha o propósito de fazer disso apenas uma
mera tática artificial, ou a força de expressão de seus pensamentos, pois o estilo
culto e bem equilibrado de seus escritos era para ele bastante natural. Além do
mais, era o reflexo de sua natureza, genuína, reservada, tranqüila e retraída; seus
escritos, portanto, são possuidores de um caráter agradável e apropriado.
Porém , estamos nos antecipando com todas essas observações. Segundo suas
próprias palavras, proferidas em N icom edia, ele prim eiram ente treinava os j o ­
vens, com o já havia feito anteriorm ente na África, “não para a virtude, ao con­
trário, em ardilosa m aldade” (Inst. 1,1,8), isto é, transmitia-lhes um a cultura pagã
e os habituais artifícios e ardis de um a apresentação retórica, plenam ente em
concordância com seus deveres de professor. N o entanto, as perseguições,
que foram desencadeadas p o r D iocleciano, deram causa para algumas m udan­
ças. O prim eiro edito contra os cristãos, proclamado em fevereiro de 301, proi­
bia-lhes a dignidade de ocupar qualquer cargo público, o que obrigou Lactâncio
a tom ar uma decisão. Caso desejasse fugir, isso se tornara m uito mais difícil, pois
a campanha de propaganda anticristã havia se espalhado até as proximidades de
seus dom ínios. A lém de Sossiano Hierocles, governador da Bitínia, tam bém um
outro filósofo, cujo nom e se perdeu —e que parece ter sido seu colega m uito
próxim o - colocaram-se à disposição do governo em sua investida, oferecendo-
lhe apoio através de panfletos rapidam ente elaborados contra a seita dos cristãos
que, a partir de então, se tornaram publicam ente proscritos.
Essa foi uma atitude que, sob o aspecto das desumanas medidas governa­
mentais adotadas, foi até certo ponto recebida com o desprezível, mesmo nos
círculos pagãos. Apesar disso, Lactâncio pode ter tido ainda, e durante algum
tempo, certa hesitação, mas logo tirou suas conclusões. U m a renúncia formal às
suas convicções estava fora de cogitação; porém , não desejava ser considerado
explicitamente com o um “ escravo de seu tem p o ” (Inst. V, 2, 10) e, portanto,
renunciou à nom eação que havia recebido para o cargo de professor. As observa­
ções feitas de forma geral p o r Jerônim o, a respeito do infortúnio financeiro de
Lactâncio e da falta dos proventos relativos a seu cargo, devem ser aparentemente
relacionadas com os anos que se seguiram. Segundo ele, a despeito de u m b ri­
lhante talento para a retórica, Lactâncio havia perm anecido tão pobre no decor­
rer da vida terrena que, muitas vezes, sentia falta das necessidades básicas da vida.
A isso poderíamos acrescentar suas próprias palavras, proferidas a respeito dos
perigos da riqueza: hom ens que servem de instrum ento à concupiscência, às
ambições e à avareza, e que jamais haviam experim entado necessidades, nunca
iriam encontrar o cam inho da verdade. “E assim acontece que os pobres e os
humildes com mais presteza são levados a acreditar em D eus” (Inst.WII, 1, 19),
pois não precisam carregar a bagagem que pesa sobre os ricos e os deixa incapa­
zes de caminhar. Percebe-se, a partir dessas afirmações, não apenas a experiência
por ele adquirida durante o período da perseguição, mas tam bém a convicção
geral de alguém que está mais preocupado com os valores morais do que com os
materiais e que, portanto, está pronto para ouvir a mensagem do cristianismo.
D e qualquer forma, para ele a presteza em ajudar e sofrer perm aneceram com o
requisitos fundamentais do cristianismo durante toda sua vida. Se realmente de­
sejarmos fazer a vontade de Deus, dizia, devemos “desprezar o dinheiro e depositá-
lo ju n to aos tesouros celestes, de onde nenhum ladrão poderá remover, onde
nenhum a ferrugem poderá destruir e nenhum tirano poderá roubar; e sob a
proteção de Deus perm anecerá reservado para nós com o um tesouro etern o ”
(Epit. 60, 9).
N ão devemos im aginar que desejasse dar m otivo a um a ruidosa manifesta­
ção quando partisse. C ontra esse conceito temos a realidade de que ainda pode­
ria perm anecer tranqüilo na capital, pois além de ser conhecido era, até certo
ponto, uma figura proem inente. Lactâncio explicitamente confirmava o regula­
m ento eclesiástico pelo qual, em época de perseguição, a ninguém era perm itido
oferecer-se para a prisão ou pressionar para que fosse martirizado. Era suficiente
que se mantivesse fiel à sua crença, “sem evadir-se ao que, então, tivesse que
sofrer e suportar” (Inst. IV, 18,2). Até parece que estava se referindo a si mesmo
quando falava em relação àquele filósofo que tornou-se escravo do Estado e à
avareza dos cristãos que, em vista das presentes circunstâncias, haviam se conten­
tado em “zom bar dele” internam ente de tal form a que, real e externam ente, não
haviam ainda se separado do m undo (Inst.V, 2, 9).
N o entanto, pode ser que agora, livre do encargo de professor, Lactâncio
tivesse mais tem po para suas atividades literárias, e foi somente nessa época que
seu trabalho literário cristão se iniciou. O prim eiro tratado que nos deixou,
Sobre a Obra de Deus, trata da providência divina na criação do mundo. Foi
dedicado a um aluno chamado D em etriano que, através dele, poderia descobrir

B i/
a profissão com a qual seu antigo mestre estava agora ocupado nesses tempos
agitados e, portanto, não ficaria totalm ente desprovido de educação. N o entanto,
essa educação cobre agora “u m assunto mais precioso” do que antes, “e de acor­
do com um sistema m elhor” (Opif. 1,1). Obviam ente, D em etriano havia tam ­
bém se tornado cristão; porém , ao contrário de Lactâncio, continuou com suas
ocupações. Acima de tudo, D em etriano é urgentem ente aconselhado a não su­
cum bir aos artifícios da tentação em troca dos bens terrenos que, em toda parte,
o D iabo havia colocado em operação.
Pelo seu formato, esse tratado parece ser u m m ero prolongam ento dos escri­
tos de Cícero sobre o Estado e, quanto ao assunto em pauta, contém simples­
m ente um a extensa descrição do corpo hum ano em relação à sua alma imortal.
Os cuidados e a providência de Deus, em bora evidentem ente negados com in­
sensatez e blasfêmia pelos epicureus, são discutidos a partir da glória das criatu­
ras. Isto não é original, pois provavelmente Lactâncio obteve o material para suas
afirmações a partir de livros da época sobre m edicina e filosofia. Pode-se até
pensar que ele não tivesse em m ente u m propósito especificamente cristão com
esse seu pequeno estudo sobre antropologia. N o entanto, isso seria um a inter­
pretação errônea. Para ele, em todos os m om entos, a providência havia perm a­
necido com o o tem a central de seus ensinamentos cristãos e, nesse sentido, re­
presentava um conceito teológico. N a verdade, pretendia defender a crença cris­
tã sobre a criação do m undo e colocar sob sua proteção o desprezado “filósofo
(Cristo) de nossa escola” (Opif. 1, 2) contra todos os outros, inclusive “Marcos
T ú lio ” (Cícero), a quem m enciona, naturalmente, com o m áxim o respeito, pois
até Cícero “já havia sido p o r inúmeras vezes derrotado” (Opif. 20, 5) p o r certas
pessoas desprovidas de cultura e de eloqüência, mas que, no entanto, sabiam
com o lutar pela verdade, como, p o r exemplo, os cristãos.
C om o ele próprio admite, foi apenas em consideração àqueles tempos peri­
gosos que ele, o autor, sentiu-se obrigado a expressar muitas coisas de forma
mais concisa e obscura “do que seria realmente mais adequado” , (Opif. 20, 1).
Lactâncio estava certo de ter agora encontrado sua vocação e o trabalho de sua
vida. A eloqüência não mais importava, porém algo mais sério, isto é, a verdade e
a própria vida. Sabia que não teria vivido e trabalhado em vão se conseguisse
“libertar alguns hom ens dos erros e direcioná-los para o cam inho que leva ao
céu’’ (Opif. 20,9).
Enquanto isso, o ho rro r da perseguição continuava sua trajetória. Lactâncio
tam bém viveu fora de N icom edia p o r u m longo tem po —em algum lugar que
desconhecemos. Logo após o ano 310 vamos encontrá-lo novamente e m “Bitínia” ,
com o testem unha das últimas medidas da opressão. D urante esses anos escreveu
seu livro principal, já imaginado a partir de seu prim eiro tratado. Parece até que
alguns desses ensaios, tem aticam ente limitados, foram colocados lado a lado, che-
gando, dessa form a, a constituir u m todo bem organizado. As Instituições Divinas
form am um im ponente volum e com várias centenas de páginas. É a apologia
mais abrangente produzida pelo cristianismo antes do final do período das per­
seguições. C om o um manual religioso, seguiu até no título o modelo das Instituías
de Ulpiano, ou de outros manuais semelhantes usados pelos advogados.
Nessa obra, o tema central tam bém é a “justiça” e as leis cristãs. Pagãos
eruditos eram considerados com o futuros leitores e representantes naturais da­
queles círculos aos quais Lactâncio havia pertencido e que, em sua superioridade
orgulhosa, ficavam satisfeitos em considerar o cristianismo com o algo desprezí­
vel. Foi a eles que os escritos foram explicitam ente endereçados. Lactâncio sabia
que não seria fácil conseguir um a audiência nessa sociedade. Ele “ conhecia a
teimosia dos hom ens” que preferiam provar que estavam certos a aprender a
verdade e que “se divertiam com o fluxo de sangue em lugar do fluxo das pala­
vras dos virtuosos” (Inst.V, 1,18). A verdade, no entanto, é ainda mais forte que
todas as mentiras e ninguém deve, covardemente, entregar-se ao desespero. Ao
menos alguns, ou até o m elhor daqueles entre seus leitores, deveriam consentir
em ser conquistados.
N o entanto, e com o sempre acontece, o defensor do cristianismo acreditava
que seus próprios com panheiros de credo, hesitantes e inseguros, poderiam ne­
cessitar de auxílio espiritual. E quando com eçam a se elevar até os círculos mais
eruditos, e quando adquirem o gosto pela leitura dos filósofos pagãos, dos retóricos
e dos poetas, o m om en to em que estão mais expostos aos perigos. D evem
aprender que o verdadeiro conhecim ento não destrói necessariamente u m h o ­
m em com o a antiga e falsa educação; pelo contrário, to rn a-o mais sábio e justo.
A idéia é com binar a boa e antiga form a com o novo e bom conteúdo, é fazer
com que os hom ens se tornem devotos através da com preensão e instruídos pela
verdadeira devoção.
C om o de hábito, Lactâncio com eçou contestando a falsa religião pagã. Para
ele, o m onoteísm o era a única form a verdadeira e razoável de se acreditar em
Deus; a concepção geral da perfeição exclui, em si mesma, a necessidade da idéia
de inúm eros seres divinos. Para isso o hom em possui a razão e para isso foi
criado por Deus distinto dos animais, com sua face voltada para o céu para
conhecer seu poderoso Criador, orar som ente a Ele e confiar e obedecer à sua
providência e orientação. C om o já observamos, a fé na providência representa
um a verdade básica para Lactâncio, e que som ente Epicuro e sua escola ousaram
desafiar.Todas as vezes que fala sobre esse assunto —e para isso a oportunidade se
apresenta bem no início do livro - afasta-se indignado deste religioso “arquipirata
e ladrão-chefe” (Inst. III, 17, 41).
O m onoteísm o tam bém deveria ser algo natural para o hom em ; muitas e
muitas vezes, as sibilas e os profetas haviam testem unhado sobre isso. Apesar
disso, o politeísmo se tornou um mal com um. À maneira da crítica iluminada de
Euem ero (cerca de 300 a.C.), Lactâncio procura explicar o politeísmo através da
divinização de líderes e soberanos já desaparecidos e, então, a partir da m alícia dos
demônios cuja natureza é suficientemente revelada na abominação das seitas antigas.
Aqui ele acompanha, até nos detalhes de sua descrição, a tradição de defender o
cristianismo. Ao fazer isso, no entanto, empenha-se mais que seus predecessores em
com preender o poder do mal com o uma unidade, com o um único e grande
princípio de perversão “sempre hostil à verdade e que conhece apenas um objeti­
vo, isto é, obscurecer a m ente dos homens para que não possam, finalmente,‘olhar
para o céu’ e almejar viver de acordo com sua natureza” (Inst. II, 1,13).
O terceiro livro, sobre “A Falsa Sabedoria” conduz ao centro da discussão e
contém a refutação da filosofia. Lactâncio faz uma distinção entre a pesquisa
filosófica séria e a m era retórica. A últim a é destinada à beleza externa e ao
sucesso terreno, não representando, portanto, um adversário digno de ser enfren­
tado. A filosofia, outrossim, não contém o que promete. Até na Bíblia, seus con­
ceitos foram corretam ente rejeitados com o tolices. A im petuosidade com que
alguns filósofos se em penharam para alcançar a verdade não deve certam ente
m erecer qualquer crítica. Além disso, devemos tam bém levar em conta que al­
guns deles certam ente fizeram verdadeiros sacrifícios em prol da virtude, através
da renúncia às riquezas e à luxúria. N o entanto, não conseguiram encontrar a
verdade; na m elhor das hipóteses, apenas fragmentos dela, os quais, na ausência
de um critério digno de confiança, nunca poderiam ser reunidos em um a uni­
dade (Inst. VII, 7 ,4 f.).Tal objetivo tornou-se ainda mais frustrado pela perpétua
discussão entre as escolas filosóficas. A razão para esse fracasso é simples; desde o
início os esforços humanos não podem chegar ao sucesso, pois “a verdade e o
mistério do Deus Superior, que criou todas as coisas, não podem ser entendidos
somente através da razão e do espírito de cada u m ” (Inst. I, 1, 5). Portanto, os
filósofos “podiam, com o hom ens cheios de sabedoria, fazer discursos inteligen­
tes, mas que não eram verdadeiros, pois não haviam aprendido a verdade daquele
que é, sozinho, o M estre da verdade” (Inst. III, 1,14).
Essa resposta é firm em ente apoiada e constantem ente repetida sob outras
formas. Lactâncio é o teólogo da revelação. M esm o quando refere-se à natureza
e à racionalidade do hom em , é sempre D eus que torna acessível o cam inho para
a verdadeira cognição. O hom em é u m ser religioso que som ente alcança a
verdade através do encontro e da veneração a Deus. Sem o próprio conheci­
m ento de Deus tam bém será impossível, pois “ a ignorância de si p ró p rio ” per­
manece com o a fonte de todo o mal (Inst. I, 1, 25). C om o já vimos, essa inclina­
ção à verdade revelada já havia sido previam ente imaginada através de sua com ­
preensão pagã da religião. Agora, no entanto, ele tom a conhecim ento da única
resposta cristã.
Todos os filósofos haviam se enganado p o r terem perm anecido ligados à
terra em suas perguntas, em seus ensinamentos e em sua vontade. Até Platão
aparece ocasionalmente com o u m com pleto ateu (Inst. II, 4, 26), e Sócrates,
admitido com o o mais sábio de todos, term inou contudo com a “desesperadora”
confissão de que não conheceu nada além de sua própria ignorância (Inst. 111,28,
17). O cristianismo agora não é mais entendido - com o parece ter sido em seu
trabalho anterior —com o uma nova e perfeita filosofia. Ao contrário, está com ­
prom etido em distanciar-se de todas as filosofias e ocupar seu lugar com o sendo
a própria verdade.
D eus não abandonou a hum anidade a um a m erecida penúria. Ele revelou
o cam inho da vida, e o fez de tal form a que esse cam inho está agora realm ente
aberto para cada um , sem distinção de idade, educação ou sexo. “Existe apenas
um a esperança de vida para os hom ens, u m p o rto de salvação e um castelo de
liberdade” . D evem os abrir os olhos e olhar para D eus, “ que é o único lar da
verdade” ; devemos desprezar o que é terreno e considerar a filosofia com o
inútil —dessa form a alcançaremos a verdade e, pela verdade, isto é, através da
devoção, a própria im ortalidade” (Epit. 4 7 ,1). E m toda parte, a im ortalidade é
vista p o r Lactâncio com o o verdadeiro significado da salvação ou, filosofica­
m ente falando, com o o b em suprem o (summum bonum; Inst. III, 12,18), conce­
dida p o r D eus aos hom ens piedosos com o a recompensa e a realização de sua
vida. Ao mesmo tempo, a im ortalidade é tam bém um atributo de cada alma que
foi criada, não perecível em virtude de sua natureza espiritual. C om o muitas
vezes aconteceu, Lactâncio não foi bem -sucedido nesse aspecto de procurar re­
conciliar, em sua totalidade, essas duas ordens de idéias; a bíblico-cristã e a tradi­
ção filosófico-religiosa.
O livro seguinte:, A Verdadeira Sabedoria e Devoção, revela, de form a ainda
mais singular, a com binação do debate filosófico acadêmico, em sua form a tradi­
cional, com uma, em parte, fantasticamente ampliada soteriologia e m itologia
cristã. As diferenças foram dissimuladas e levadas a um a aparente harm onia atra­
vés do fluxo constante de um a sempre correta eloqüência “ ciceroniana” . Ele faz
a descrição da origem celestial e dos trabalhos de redenção de Cristo e, através
de várias formas, refuta as objeções pagãs contra o significado e a possibilidade
da encarnação e, especialmente, da crucificação. D e form a geral, C risto aparece
em Lactâncio com o sendo, acima de tudo, o M estre da verdadeira virtude e da
religião. Podemos confiar nEle com toda a segurança, pois nos tem convencido
ao mesmo tem po pelo seu m odelo e p o r seu exemplo.
O quinto e o sexto livro tratam da “justiça” cristã e da verdadeira adoração.
O “século de ouro” , descrito pelos poetas, realmente existiu, assim com o as
pessoas que veneravam ao único Deus. A justiça havia desaparecido p o r causa do
politeísmo e som ente os verdadeiramente justos, isto é, os cristãos, haviam sido

M S
perseguidos com incrível fanatismo. N o entanto, os cristãos, com heróica paci­
ência, provam o contrário de todas as acusações. C o m o estóico emocionalismo
de um Sêneca, Lactâncio fala sobre os martírios, realçando, ao mesm o tempo,
que som ente com o auxílio de Deus seria possível prevalecer sobre tais agonias.
A ação dos perseguidores, em quaisquer circunstâncias, era exatamente o oposto
da verdadeira veneração a Deus. Deus deseja o am or fraterno e a bondade entre
os homens, e que conservem u m espírito piedoso e um a conduta moral adequa­
da durante a vida. N o campo religioso, isso correspondia à renúncia a cada ato de
adoração realizado com relutância e, portanto, a uma atitude prática de tolerância.
Lactâncio encontra, mais um a vez, a oportunidade de atacar o culto m era­
m ente exterior dos pagãos, a futilidade da idolatria e dos sacrifícios, p o r meio
dos quais supunham que Deus estivesse recebendo um favor de extraordinário
significado quando os altares estivessem gotejando sangue. O verdadeiro auxílio
“não vem da bolsa, mas do coração; não é oferecido pelas mãos, mas pelo espíri­
to; e o sacrifício verdadeiramente agradável só existe quando é concedido pela
alma com o parte de seus próprios bens” (Epit. 53,3). Essa é a verdadeira adoração
conhecida pelos cristãos. Lactâncio praticam ente nunca m enciona o lado social
e sacramental da vida da Igreja.
O últim o livro trata da “Vida Feliz” que, um a vez mais, aborda sistematica­
m ente o problema da imortalidade. N o final do livro é feita a interpretação do
ensinam ento cristão sobre as “Ultimas Coisas” . O leitor percebe, admirado, com
que entusiasmo nosso aparentem ente ilustrado autor se atem aos detalhes da
escatologia do drama cósmico. Ele está longe de interpretar espiritualm ente as
afirmações contidas no Apocalipse de João, chegando até a acrescentar algum
material sobre esse assunto. D e acordo com ele, no máximo em duzentos anos o
m ilênio do reino de Cristo na terra terá início e Ele descerá do céu com seus
anjos e estabelecerá seu trono na terra. Ele dará novos corpos aos justos que
ressuscitarão e o A nticristo será preso com grilhões. Porém, quando chegar o
sétimo milênio, o A nticristo recuperará sua liberdade e um a luta terrível terá
lugar na cidade de D eus até que a “últim a ira” do Senhor seja violentam ente
desencadeada e todas as coisas serão destruídas, ocasião em que chegará o fim. O
céu será recolhido, a terra será subvertida e os injustos serão condenados ao
torm ento eterno, enquanto os justos serão revestidos da natureza dos anjos, to r­
nando-se “resplandecentes com o a neve (Inst. VII, 26,5 ) Vamos, portanto, lutar
pela justiça, pois som ente ela, com o fiel com panheira, poderá nos guiar a Deus.
Vamos, portanto, prestar u m incansável serviço a Deus, com disciplina militar,
“enquanto o Espírito governa estes m em bros” (Aeneid. IV, 336).Vamos m ontar
guarda e observar e, corajosamente, assumir a luta contra nosso conhecido ini­
migo, a fim de que, com o vitoriosos e heróis, possamos então obter do Senhor a
recompensa da virtude que nos foi p o r Ele mesm o prom etida” (Inst. VII, 27,16).
Ao contem plar todo esse conjunto, percebemos claramente o m odelo de
hom em que foi capaz de elaborar u m trabalho tão abrangente. Deve ter sido um
velho e experiente sábio totalm ente à vontade na literatura latina e que está
agora transferindo todos os recursos de sua bem fundada experiência retórica a
serviço da “verdade” cristã (Inst. 1 ,1,10). O Espírito de Deus, diz Lactâncio, está
ao m eu lado, pois sem Ele a verdade não pode ser totalm ente com preendida ou
descrita (Inst.V1 ,1,1). N o entanto, a m aioria do material com que trabalha não
tem origem cristã, mas pagã, e isto fica particularm ente evidenciado através de
provas obtidas a partir das profecias, às quais confere demasiada importância.
Além disso, esse material está quase que exclusivamente elaborado sobre verda­
deiros ou supostos testemunhos pagãos e, sobretudo, sobre as “sibilações” (de
interpolação cristã ou judaica), sobre as revelações de “H erm es” e sobre passa­
gens originárias de poetas ou oráculos de qualquer procedência.
Mais tarde, Lactâncio chegou a considerar Virgílio tam bém com o um pro­
feta por ter prenunciado e visto as últimas perseguições aos cristãos. Aqui ele se
coloca no início da interpretação cristã de Virgílio. Som ente onde fosse total­
m ente indispensável, po r exemplo, nas passagens cristológicas de seu quarto li­
vro, ele cita com considerável abrangência o Antigo Testamento e segue a m aior
parte da compilação de testem unhos de Cipriano. Mas não podem os, sem m uito
afã, concluir que tivesse tido um semelhante conhecim ento superficial das San­
tas Escrituras. U m hom em com o Lactâncio, que com tanta determ inação reco­
nhece a divina autoridade das Santas Escrituras, não pode com certeza ter deixa­
do de ler e estudar os livros sagrados. Porém , ele está agora em penhado, através
de seus escritos, em angariar a audiência dos pagãos e percebe, especialmente
ju n to às “personalidades sábias, eruditas e com petentes” , a aversão provocada
pela linguagem “ com um e popular” da Bíblia. Portanto, procura fazer referência
a textos anteriorm ente aceitos e reconhecidos e que, pelo fato de estarem em
concordância com a Bíblia, são igualm ente verdadeiros. A verdade finalmente
tornou-se capaz de “ilum inar em virtude de sua própria luz, mesmo quando não
pode ser comprovada através de testem unho divino” (Inst. VIII, 7,5).
O que ele alcançou p o r m eio desse cam inho foi mais do que uma simples
apologia. Seu trabalho, com o ele m esm o enfatiza, não tem a intenção de m era­
m ente contestar, mas tam bém a de educar (Inst. V, 4,3). Para tanto, era necessário
apresentar todo o conteúdo da fé e da vida cristã; assim com o era necessário
tratar da “ esperança, vida, salvação e im ortalidade de D eus” (Inst. I, 1, 12). A
Igreja, até então, não dispunha de u m estudo bastante com pleto que fosse escrito
em latim; além do mais, o trabalho sistemático da Igreja grega, bastante com pa­
rável aos “ Institutos”, e escritos em seus prim órdios p o r Orígenes, tinha uma
orientação diferente e perm anecia “dogm ático” dentro de um sentido mais es­
tritam ente filosófico e místico.
Podemos pensar que Clem ente de Alexandria havia tentado algo semelhan­
te em sua grande trilogia, porém sem concluí-la. U m a comparação a ele seria
tam bém instrutiva sob outros aspectos, pois Lactâncio revela um a natureza total­
m ente diferente da atitude teológica latina —m esm o quando ambas estão ligadas
pelas tradições “gnóstico-platônicas” .É significativo que C lem ente tivesse reco­
nhecido seus predecessores pagãos com o tais, que tivesse se interessado p o r eles,
e até certo ponto concedido-lhes sua aprovação. Por outro lado, Lactâncio con­
tenta-se em enfatizar, de tempos em tempos, a frustração e o insucesso final de
todos os filósofos. O tom que emprega para dirigir-se a eles é raram ente respei­
toso, nunca amistoso e, em várias partes, definitivamente hostil, pelo m enos em
conteúdo. Igualmente diferentes são os cam inhos que ambos procuram para
conquistar os hom ens para os ensinos cristãos. C o m certa hesitação, Clem ente
ousa abordar a misteriosa realidade de D eus e isso ele o faz através do uso de
diferentes caminhos e sob a form a de um a acanhada dialética. Procura acentuar
que para com preendê-la será verdadeiramente necessário possuir um a m aturi­
dade interior e um entendim ento especial. Tais dificuldades e rodeios são total­
m ente estranhos para Lactâncio, por seu realismo e p o r sua compreensão racio­
nal da revelação.
O cristianismo é a verdade, ou seja, deve ser im ediatam ente inteligível a
qualquer pessoa desprovida de preconceitos. Ele é u m presente de Deus; apenas
é preciso aprendê-lo para então defendê-lo pelos meios racionais. A prova deci­
siva pode ser encontrada nas conseqüências morais que produz. Por outro lado,
para que serve a filosofia se, com o revelam as vidas dos filósofos, nada faz para
torná-los melhores? (Inst. IV, 3,2). Esta é a questão pela qual a suposta sabedoria
do m undo deve ser submetida a julgam ento e onde o cristianismo finalmente
mostra a sua superioridade. Este pensam ento é, tam bém , bastante fam ilia r a C le­
mente, e mais ou m enos conhecido p o r cada u m dos defensores do cristianismo;
para Lactâncio, porém , ele representa o ápice de seu em penho teológico. C le­
m ente com preende a livre e glorificadora gnosis e a com unhão com Deus, que
perm ite amá-lo e vê-lo transcendendo e aperfeiçoando todo o conhecim ento
humano, enquanto Lactâncio realça a nítida dem anda pela “retidão” que, certa­
m ente, “representa a m aior virtude, ou a fonte da própria virtude” (Inst.V, 5,1).
Essa retidão não deixa de ser um conceito m oral e social.
Os ideais religiosos do platonismo recente encontram -se desse m odo inter­
ligados às emoções práticas dos estóicos e, em particular, à tradição estóico-
romana; e as antigas exigências da ética eclesiástica cristã podem ser facilmente
incorporadas a estas. Os cinco principais m andam entos da verdadeira bondade
estão agora dessa forma transcritos: hospitalidade, assistência aos prisioneiros,
cuidados com as viúvas e os órfãos, assistência aos enfermos e sepultamento dos
pobres e estrangeiros. A virtude da justiça inclui a “hum anidade” acima de tudo
e com Lactâncio ela é, às vezes, quase idêntica à “m isericórdia” . O cristianismo
estava, evidentem ente, se ajustando às tristes mudanças que ocorriam em uma
antiga sociedade, em pobrecida e debilitada, que agora enfrentava seu declínio.
N ão é por acaso que os novos ensinamentos sobre as virtudes estão enraizados
na esfera religiosa; “ quase todos os laços da hum anidade” que nos unem , diz
Lactâncio, na verdade originaram -se do “tem or e da consciência de nossa pró­
pria fragilidade” (Opif. 4,18).
Se, por outro lado, inquirirm os a respeito de suas opiniões teológicas, em
seu sentido mais estrito, o resultado poderá ser desapontador.Tudo queTertuliano
e Novaciano haviam conseguido para o ensino sistemático sobre a Trindade foi
esquecido p or Lactâncio. O que ele tem a oferecer em seu lugar é um a compacta
genealogia m itológica de divindades. Lemos que D eus —m esm o antes de criar a
multiplicidade de anjos —produziu um “Segundo” , seu Filho m uito amado. Isto
poderia querer dizer que os cristãos adoram a “dois deuses” : porém , dizem que
isto não deve causar perturbação a ninguém , porque um “Pai” e um “ Filho”
sempre perm anecem unidos através de sua natureza e sempre existirá entre eles
um a com pleta harm onia. A té Platão, ensinado p o r H erm es, fala “ quase com o
um profeta” a respeito de um prim eiro e de um “segundo D eus” (Epit. 37,4). N o
entanto, acreditava que Deus criou ainda um terceiro espírito, no qual a “ nature­
za de seu divino gênero” deixou continuam ente de prevalecer (Inst. II, 8, 4).
A com panhado por um a parte dos anjos, rebelou-se p o r ciúm e contra o segundo,
tornando-se, portanto, um iníquo antideus, o antiheus (Inst. II, 9,13).
Essa disputa, dentro da família divina, é interpretada p o r Lactâncio em ter­
mos da filosofia da religião e com o auxílio dos ensinamentos dos estóicos sobre
os elementos. A condenação desse espírito maligno não é conseqüência que o
destino trouxe sobre ele; pelo contrário, desde o início havia sido prevista e
planejada por Deus. C om o Deus desejasse criar e realizar todas as coisas boas
através de seu Filho, da mesma form a destinou que, desde o início, Ele tivesse um
oponente.“ O prim eiro espírito é a sua m ão direita e o outro é a sua mão esquer­
da” (Inst. II, 8,6; L A , 2). Pois nenhum a vida existe sem oposição: dois princípios
governam o m undo e o mal tem o bem com o sua indispensável pressuposição.
N ão existe calor sem o frio, nenhum a luz sem a escuridão e, tam bém na vida
ética, nenhum a vitória sem u m adversário e um a luta anterior. Q uão tolas são as
pessoas que acusam o m undo divino de im perfeito e injusto!
D urante toda a sua vida o hom em é confrontado com a necessidade de
tom ar decisões segundo as melhores razões. Seu corpo é terreno e nele reside o
mal. Sua alma é celestial, porém deve provar a si mesma através de sua liberdade.
O mal leva realmente muitos hom ens a cair, mas por outro lado, tam bém é
derrotado por muitos que o lançam p o r terra (Opif. 19,8; L A , 5). N a verdade, o
m undo todo é desunido em sua própria essência, e foi criado apenas para o bem
do hom em , a fim de que aquele hom em , que não será um a criança para sempre,
possa aprender a virtude através da luta e “ que sua virtude possa recom pensá-lo
com a im ortalidade” (Inst. VII, 5,27; L A , 17). C o m o podem os ver, Lactâncio não
sente qualquer dificuldade em com binar dessa forma sua teologia monástica
com um a perspicaz ética dualista, e essa teodicéia serve agora com o justificativa
para um a especulação tradicional, mais judaica do que cristã, a respeito da luta e
da queda dos anjos! É possível que, mais tarde, tenha tido pressentimentos teoló­
gicos a respeito dessas arrojadas afirmações, pois sem qualquer modificação em
sua concepção geral as passagens mais ousadas abordando esse tópico foram apa­
gadas na maioria dos manuscritos.
E m sua obra, Lactâncio deixa de m encionar o Espírito Santo com o tal. O
“terceiro” era, na verdade, o dem ônio! Supõe-se que mais tarde, e através de uma
carta, ele tenha negado expressamente a “essência” do Espírito, e o tenha consi­
derado com o uma simples referência à pessoa do Pai ou à do Filho, cuja “santi­
dade” era, às vezes, designada p o r esse “n o m e” (Jerônimo, Ep. 84, 7). N atural­
mente, esses deslizes de Lactâncio foram mais tarde considerados com o uma
conceituação errônea. U m índice do início do século VI relaciona seus livros
explicitamente entre as obras apócrifas, isto é, entre a literatura mais ou menos
desacreditada e desprovida de aprovação eclesiástica. N o entanto, esta é, com
certeza, a fraqueza do autodidata, que obtém suas idéias teológicas de onde m e­
lhor lhe convier, ou mesmo que lhes dá origem com o um apologista moralista e
prático, sem estar preocupado a respeito dos detalhes de seu “sistema” .
Longe de sua terra natal, e isolado em seus dom ínios gregos, ele se sente, em
todos os acontecimentos, com o uma pessoa totalm ente ortodoxa. C om o um
b o m cristão, fica desgostoso ao saber que a “unidade do santo co rp o ” (da Igreja)
tenha sido rompida por facções, p o r negligentes ou p o r ambiciosos ou, simples­
mente, por insensatos privados de b o m senso. As vezes, planejava escrever um
livro que pudesse contestá-los (Inst. IV, 30,14). Felizmente, e para o bem de sua
reputação, isso não aconteceu! Até mesmo Jerônim o, que estava sempre ao seu
lado, não pôde suprimir sua lástima de que um guerreiro tão bem -sucedido na luta
contra o pecado do paganismo pudesse ter mostrado tão pouca habilidade ao
descrever sua própria crença (Ep. 58,10). Sua teologia, superficial e mais retórica
do que filosófica, definitivamente não estava à altura de uma tarefa tão delicada.
Apesar disso, não podem os subestimar o conteúdo cristão de suas convic­
ções. Notam os ocasionalmente em seus pensamentos interessantes transições entre
os elementos antigos e os elementos cristãos, e isso pode ser claramente observa­
do em um a pequena monografia intitulada A Ira de Deus, escrita após as Institui­
ções, que mostra claramente este p o nto particular. Esta obra novam ente trata de
u m problem a apologético. Nas pregações eclesiásticas, as ações de D eus,
temperamentais, pessoais e impetuosas, tal com o foram particularm ente descri-
tas no Antigo Testamento, sempre pareciam odiosas à sensibilidade do pensa­
m ento grego. N ão seria justam ente consonante com a natureza de um a D ivin­
dade a ausência de quaisquer “ em oções” com o no hom em ? Em oposição a isso,
Tertuliano havia corretam ente enfatizado o propósito de D eus a respeito da
salvação e daí, portanto, o necessário cuidado para com o m undo e suas “afli­
ções” . Para Tertuliano, a ira, com o tal, significava apenas o lado reverso da cle­
mência divina.
Lactâncio conhecia as explicações de Tertuliano, porém abordou o proble­
ma de um m odo caracteristicamente diverso. Ele via na ira de Deus, acima de
tudo, a expressão da justiça punitiva, da iustitia, tão veem entem ente exaltada em
todos os seus trabalhos. E m sua opinião, portanto, Deus é o “Pai” , exatamente
porque é, simultaneamente dominus, o Senhor, e com o tal deve exercer o imperium.
O seu governo justo e m isericordioso tam bém deve infligir o mal onde for
necessário; portanto, deixemos que sua soberana ira prevaleça. Essa é a interpre­
tação da idéia bíblica de D eus que precisamente corresponde à sensibilidade
romana. N a verdade, ela poderia até ser expressa de form a mais veemente; en­
contramos aqui a extensa e verdadeira “proporcionalidade” dos pensamentos
bíblicos e romanos (Kraft). O entendim ento rom ano sobre a legitimidade do
senhorio e da soberania, tam bém característica do paterfamílias, é concebido em
sua totalidade, e até o final, quando aplicado ao soberano Deus do cristianismo.
A Bíblia, sobre a qual Lactâncio agora se apoia, é principalm ente o A ntigo Testa­
m ento, reduzido na verdade ao seu aspecto mais moralista.
As negociações favoráveis aos cristãos, feitas pelos im peradores C onstantino
e Licínio, e o declínio de M axim iniano, o últim o perseguidor, term inaram
com a opressão no ano de 313. Nessa ocasião, Lactâncio já devia ser u m ancião,
ou segundo Jerônim o, u m ho m em m u ito idoso. C o m o todos os cristãos, ele
recebeu a vitória de C onstantino com alegria e se encheu de regozijo.Via no
im perador — e a princípio em com um com Licínio — o eleito de D eus, o
salvador da ordem e da justiça, o p ro teto r e libertador dos cristãos injustam en­
te oprim idos durante m uito tem po, e pessoalm ente o exaltava com o adorador
do verdadeiro Deus. Provavelm ente, Lactâncio já o conhecia de longa data.
Antes do início da grande perseguição, C onstantino havia certam ente passado
algum tem po no palácio de D iocleciano, em N icom edia, com o um a espécie
de refém para seu pai. Existe um a possível suposição de que o jovem príncipe
estrangeiro já tivesse, pelo menos, encontrado o igualmente estrangeiro e retórico
famoso. N om eado tu to r de Crispo, seu filho mais velho, Lactâncio aceitou
com prazer esse tão honroso convite que o trazia novam ente ao O cidente
latino, isto é, à Gália. O escritor, que durante anos esteve proscrito, e sem
qualquer suporte financeiro, via-se agora deten to r de um a posição tão esplên­
dida com o jam ais poderia ter im aginado.
Constantino sentiu que teria grande significado se Lactâncio fosse conside­
rado com o patrono dos cristãos e patrocinador da educação e da cultura religiosa.
Podemos então im aginar com o deve ter sido sua recepção com o celebridade no
palácio de Trèves, ou com o fazia preleções ao seu aluno im perial em um a das
lindas casas de campo do vale do Moselle. Trèves deve ter sido sua residência
habitual; porém , não é impossível que tenha ocasionalm ente acom panhado
Constantino em suas viagens. N ão temos com o fornecer esses detalhes, porque
Lactâncio não tinha o hábito de escrever sobre sua pessoa nos livros e não dispo­
mos de outras fontes de dados.
E m sua nova posição dispunha de tem po suficiente para os trabalhos literá-
rios.Talvez tenha sido som ente nessa época que term inou os “Institutos” ou que
os tenha reeditado com uma entusiástica dedicatória ao im perador. Mais tarde,
uma versão abreviada desse livro foi publicada em um único volum e e foi con­
siderada com o um trabalho realizado durante sua velhice. Este extrat (epítome) era
um resumo de seus principais pensamentos, onde eliminava todos os detalhes
rebuscados e as repetições, e representou um a conquista especialmente bem -
sucedida que revelava, sob um aspecto particularm ente agradável, o indubitável
talento de Lactâncio e sua natureza tranqüila. Esse pequeno trabalho foi dedica­
do ao “irm ão Pentádio” , que adquiriu grande im portância p o r ter sido dessa
forma m encionado por um hom em tão famoso. Outrossim, um a parte do traba­
lho literário de Lactâncio, o retórico, que é, p o r assim dizer, profissional e não
realmente cristão, é na verdade u m produto de sua época. Ele foi o prim eiro
“escritor de cartas” cristão que publicou várias coletâneas de cartas, certam ente
não apenas pelo que seu conteúdo representava, mas tam bém com o padrão de
um bom estilo epistolar.
Jerônim o conservava esses volumes em seu poder, assim como a obra Gramaticus
e os primeiros escritos já mencionados. Nessas cartas, os problemas teológicos
certamente foram abordados, embora “raram ente” , e combinados a uma grande e
diversificada variedade de itens de interesse geral, acompanhando o estilo aprova­
do pela cultura antiga. D e qualquer forma, Damásio, que pedira emprestado os
volumes de Jerônimo, achava que eram prolixos e enfadonhos e, na m elhor das
hipóteses, de interesse apenas para os mestres, com suas anedotas sobre os filósofos
e suas informações sobre métrica e geografia. Lactâncio aventurou-se novamente a
escrever poesias, trabalhando a seu m odo com o material tradicional sobre a fênix,
que provavelmente significava para ele uma alegoria cristã, porém , m uito pouco
compreensível para qualquer outro que desconhecesse essa relação. Incidentalmente,
uma suposição feita porVirgílio e transcrita sob o nom e “Firm iano” parece, tam­
bém, conduzir de volta ao nosso Firmiano Lactâncio.
N o entanto, suas atividades no novo am biente, agora favorável aos cristãos e
com pletam ente tranqüilo, não se esgotaram com o cultivo dos antigos interesses.
N a verdade, seu horizonte havia se ampliado com a nova situação e as novas
circunstâncias. O teólogo cristão com eçou a ter interesse pelo destino do im pé­
rio, e o velho e sábio apólogo ainda era capaz de dem onstrar uma surpreendente
compreensão e um a versatilidade interior. D e certo modo, Lactâncio sempre foi
um rom ano consciente e prático. Q uando, em sua principal obra, censura o
passado de R o m a e a sua proibição aos cristãos de exercer cargos militares ou
jurídicos (Inst. VI, 20, 16), está, ao mesmo tempo, deixando transparecer seus
motivos especificamente teológicos e tradicionais que, na verdade, não seriam a
expressão de qualquer atitude particular de hostilidade ao Estado ou de renúncia
às coisas mundanas.
Por outro lado, revela seu interesse a respeito de problemas sociais e políti­
cos, e considera bastante justo que Cícero “dê preferência, acima dos mestres de
filosofia, aos hom ens empregados na vida pública” (Inst. III, 16,2; ANF, VII, 85).
Ele desconfia da form a superficial e bisbilhoteira dos filósofos gregos que sem­
pre “ consideraram as coisas mais insignificantes com o de grande im portância”
(Inst. 1,1 8 ,7 ;/IN F , VII, 31) e continua a insistir na ordem e na justiça. N ão é por
acidente que esse aspecto de sua natureza parece ter se intensificado no posterior
“resum o” de seu manual. A justiça, em sua plenitude, está sendo agora concedi­
da à coragem que protege a terra natal (Epit. 58,4) e os ensinamentos de mais de
um filósofo são agora criticados politicamente. “ C om o poderia existir o Estado”,
perguntam , se, por exemplo, os princípios dos cínicos encontrassem aceitação
geral?” (Epit. 34, 5) Lactâncio vivia então na corte de um im perador amigo dos
cristãos, onde as tarefas políticas eram autom aticam ente apresentadas sob uma
nova luz e os assuntos não mais dependiam de tais discussões teóricas.
A través do ensaio sobre “A M o rte dos P erseg u id o res” (de Mortibus
Persecutorum), pela prim eira vez Lactâncio dá os passos iniciais em direção à lite­
ratura política da época. Enquanto os cristãos estivessem excluídos da vida p ú ­
blica, este tipo de estudo não poderia ser levado em consideração. N o entanto,
mesmo agora, ele ainda escreve com o u m teólogo —e se assim o preferirm os
considerar - com o o prim eiro representante de um a teologia cristã da história.
Q uanto ao conteúdo, seu livro apresenta um fragmento da “história contem po­
rânea” ; após um a pequena introdução, relativa aos antigos perseguidores, ele
descreve as medidas adotadas p o r todos os imperadores, a partir de Deocleciano,
contra os cristãos, e retrata os terríveis castigos que por esse motivo, e sem exce­
ção, acarretaram contra si mesmos. Geralm ente, a boa sorte abandona os sobera­
nos sempre que estes deixam que “ suas mãos sejam manchadas com o sangue
dos justos” (9.11). Até suas esposas e filhas foram atingidas pela desonra. Som en­
te os governantes piedosos e inspirados p o r D eus puderam defender sua posição
e desfrutar de um a paz serena e de um a resplandecente felicidade. As lições que
resultaram disso foram óbvias e enfatizadas. E dever específico do historiador
transmitir a verdade à posteridade para que as futuras gerações possam se preca­
ver. D eus preserva a justiça e, sem omissão, conduz os perseguidores e os ateus ao
m erecido castigo. Essa é um a verdade tão teológica quanto política.
Lactâncio dedicou seu livro a u m confessor sobrevivente, que conheceu
pessoalmente, mas é certo que tinha em m ente tam bém outros leitores não-
cristãos.Ele estava pensando até no próprio im perador Licínio, que estava, então,
com eçando a se voltar para um partido hostil ao cristianismo. Infelizmente, não
podem os determ inar com precisão a data desses escritos. D e qualquer forma,
eles pertencem aos anos da alienação entre C onstantino e Licínio, que é retrata­
do com uma evidente desaprovação, isto é, o período do início da “guerra fria”
entre as metades ocidentais e orientais do im pério, que se to rn o u alguns anos
mais tarde um a “guerra quente” , term inada em 324, com a soberania integral de
Constantino. Podemos supor que Lactâncio tenha publicado seu livro com a
aprovação de C onstantino ou, pelo menos, após um contato indireto com ele.
Vista dessa maneira, a característica apologética adquire o aspecto de um panfle­
to político com um objetivo específico.
E m seu todo, as revelações históricas desse pequeno volum e são totalm ente
confiáveis. C om o é costum eiro acontecer nesses casos, ele está escrevendo um
trabalho polêm ico e faccioso, porém cuida para, em nenhum m om ento, distorcer
conscientem ente a verdade. Q uanto à forma, o ensaio foi um sucesso completo.
Seu acentuado envolvimento pessoal nos acontecim entos faz com que o rígido
estilo acadêmico se torne excepcionalm ente repleto de vida. Às vezes, a descri­
ção se torna quase dramática. N o entanto, certas passagens são quase insuportá­
veis para o leitor m oderno. A glorificação dos sangrentos martírios produz um
efeito repulsivo e o triunfo impiedoso sobre os inimigos do cristianismo, cruel­
m ente derrotados, é bastante desagradável e faz-nos lem brar da interpretação de
Nietzsche sobre o “com plexo de inferioridade” dos cristãos.
N o passado, foram feitas freqüentes tentativas para negar a Lactâncio a auto­
ria deste livro, a fim de atribuí-la a u m de seus discípulos desconhecidos, de
acordo com a conhecida form a utilizada pelos filólogos de fugir das situações
embaraçosas. O “fanatismo” e o tom hostil não parecem estar à altura da fidalga
bondade, da cultura e do am or ao inim igo que Lactâncio dem onstra em outras
ocasiões. Porém , ele não é o últim o humanista cristão a m udar seu ponto de vista
ou a perdê-lo quando se transporta para o terreno da política e da verdadeira
controvérsia. C om sua moralidade natural e lógica, e sua correspondente teolo­
gia política, ele inconscientem ente se posiciona no patamar do novo período de
uma Igreja “dom inante” , na qual as exigências de tolerância e respeito intelectu­
al pelo inimigo não terão, verdadeiramente, nenhum a im portância prática.
Seu livro torna-se m uito interessante se entendido com o u m docum ento
sobre a crescente consciência política de um a igreja destinada a governar. Em
certo grau, a idéia básica já havia sido elaborada nas apologias mais antigas: “Aquele
que oprim e a justiça só pode ser um a pessoa vil” (de Mort. 4,1). A tese d eT ertu-
liano, de que os imperadores tolerantes sempre tiveram reinados venturosos, en­
quanto todos os perseguidores foram amaldiçoados com o hom ens e com o sobe­
ranos, foi assumida por Lactâncio, e, pela prim eira vez, baseada em uma corres­
pondente narração histórica. A partir de u m argumento, exemplificado de forma
tática na polêmica de um conflito apologético, nasceu o princípio da teologia da
história, ao qual os cristãos de agora em diante irão se referir e no qual confiarão
para sua edificação!
N a verdade, serão eles os representantes da justiça na terra e aqueles que os
com baterem adotarão o próprio D eus com o inim igo e, portanto, deverão supor­
tar as conseqüências. Nessa estrutura temporal, a idéia cristã de julgam ento, no
entanto, está agora associada à antiga ideologia política romana. D e acordo com
ela, desde os tempos mais remotos, as vitórias de R o m a foram o resultado da
virtude e da justiça romana. Todavia, é o único e verdadeiro Deus dos cristãos
que agora tom a essa justiça, moral, religiosa e política sob sua proteção, na pessoa
do piedoso imperador. A mão de D eus abriga Constantino (de Mort. 24, 5),
enquanto os imperadores iníquos e perseguidores aparecem através de toda a
obra com o “tiranos” incom petentes que, ao mesmo tempo, reprim em a justiça
cristã e introduzem um a moral “bárbara” . São “bestas” cruéis que toleram a
verdade de Deus tão pouco quanto a antiga liberdade, virtude e disciplina de
R om a. O exagero dessas afirmações não deve ser criticado com o sendo resulta­
do de um a adulação ou hipocrisia; mas podem ser suficientem ente com preendi­
das quando proferidas p o r u m cristão que vivenciou as mudanças que ocorre­
ram sob o governo de Constantino. N o entanto, Lactâncio se posiciona igual­
m ente sob a sombra da primitiva tradição pagã, contra a qual seu cristianismo
não tem, realmente, nenhum a alternativa a oferecer.
A revolução ainda não havia chegado ao fim, e a antiga ideologia da Igreja
dos martírios e das perseguições já havia desaparecido e, quase que totalm ente, se
transferido para o lado oposto. O s cristãos haviam deixado agora de parecer
estranhos em seu m undo e não mais sofriam p o r sustentar um a verdade essenci­
almente diferente daquela até então conhecida e reclamada pelo mundo. A única
conexão com o passado, que esperavam jamais se repetir, era a lembrança gloriosa
dos antigos guerreiros e de seus sofrimentos. N ão devemos negligenciar os ele­
m entos positivos desse ponto de vista, pois, ao lado do otim ism o pressuroso e do
moralismo contidos nessa perspectiva, existe uma inquestionável prontidão, dentro
do cenário de um a nova “justiça” m uito claramente com preendida, para a coo­
peração política e a confirmação da vida pública.
Tudo isso representa apenas o início do que veio a ser delineado no último
trabalho disponível de Lactâncio. A ameaça dos “perseguidores” , assim com o o
triunfo sobre os mesmos, está presente de form a ainda mais convincente do que
a promessa e os louvores feitos pelo devoto im perador quando faz referência aos
cristãos; e o tradicional sentim ento político rom ano está mais evidente do que o
ideal cristão do im pério. C ontudo, a nova linha de pensam ento político havia
sido anunciada. Parece que foi encontrado u m denom inador com um , tanto para
o Estado com o para a Igreja, sobre a idéia de “justiça” , tal com o Lactâncio já
havia desenvolvido em seus “Institutos”.
C onstantino tinha ouvidos abertos para tais afirmações; além disso, as idéias
teológicas fundamentais de Lactâncio, em seu sentido mais estrito, estavam em
grande parte de acordo com suas próprias idéias político-religiosas. A ênfase
sobre a crença m onoteísta da providência, sobre a educação ética, sobre a de­
manda por tolerância religiosa e p o r um a m aior moralidade, bem com o sobre a
antiga grandeza da tradição romana, cabiam m uito bem dentro de sua política de
renovação do im pério e em sua pretensão de estender a proteção aos cristãos,
sem acarretar qualquer ofensa à maioria pagã.
Os decretos e os discursos de Constantino, em princípio, estão tão próximos
das concepções de Lactâncio e, muitas vezes, inclusive da sua formulação, que
isso dificilmente poderia ter acontecido p o r acaso. Para todos os efeitos, ele teria
ocasionalmente recorrido ao tu to r de seu filho para sua própria instrução. Se as
pregações missionárias de Lactâncio, encontradas na versão de Constantino, pa­
recerem às vezes um tanto indefinidas, vagas e não específicas, isto é bastante
compreensível dentro daquelas circunstâncias e não devem ser interpretadas com o
falta de um a harm onia interior. Talvez C onstantino fosse mais um teólogo em
suas idéias políticas, do que Lactâncio tenha se tornado um político.
Talvez devêssemos saber mais a respeito desses fatos, se o seu desenvolvi­
m ento não tivesse levado tão rapidamente destes prim órdios ocidentais a uma
nova política que estava, contudo, em desacordo com o sentido posterior da
política de um a Igreja estatal. Lactâncio não acom panhou o im perador ao O ri­
ente e outros conselheiros, com novos problemas eclesiásticos e teológicos, logo
tom aram seu lugar. Foi apenas Eusébio quem criou a minuciosa teologia do
im pério cristão e que, aos olhos da posteridade, quase ofuscou com pletam ente o
seu antigo predecessor nesta área.
N ão sabemos com o Lactâncio teria reagido frente às controvérsias arianas e às
decisões eclesiásticas e políticas que delas resultaram. Certamente, não teria se
tornado um Atanásio, pois não dispunha dos requisitos necessários para isto. Po­
rém, poderia talvez ter se negado a capitular tão irrefletidamente às “ oportunistas”
necessidades, como fez Eusébio, com quem, por outro lado, se assemelha em sua
básica postura política e apologética. A própria natureza de Lactâncio não era a de
um político religioso, pelo fato de pertencer a uma geração anterior; além disso,
não temos conhecim ento da data exata e das circunstâncias minuciosas de sua
morte. Provavelmente não testem unhou o horrível fim de seu discípulo, que foi
condenado à m orte pelo próprio pai (326). Caso contrário, poderíamos relacionar
a exclusão de suas entusiasmadas alocuções a Constantino com este incidente, que
era extremamente semelhante às eliminações dogmáticas já mencionadas. Porém,
essas são suposições imprecisas que seria m elhor não mencionar. O que sabemos é
que, certamente, não houve uma ruptura pública com Constantino.
Lactâncio não era um cortesão, nem um carreirista; porém , sempre mais
prudente do que ousado, calmo e ponderado em sua atitude, provavelmente
preferia term inar seus dias em tranqüila aposentadoria. N o início, a repercussão
de sua m orte foi m uito pequena. Som ente Jerônim o, com o já vimos, ocasional­
m ente m enciona seu nom e com simpatia. Agostinho provavelmente o conhe­
ceu m uito bem e fez uso de seus escritos.
A grande admiração p o r Lactâncio surgiu somente com o H um anism o do
século XV. E m 1465, a editioprinceps de seus trabalhos, em Salerno,foi o prim eiro
livro impresso na Itália e, nesse mesm o século, foram publicadas dezenas de ou­
tras edições. Pico elogiava a perfeita estrutura literária do “ Cícero C ristão” e
tanto Erasmo quanto Zw ínglio o admiravam porque viam em seus escritos a
realização da união ideal entre o cristianismo e a cultura antiga.
Até a chegada do Iluminismo, Lactâncio perm aneceu com o um autor lido
com certa freqüência. Suas tentativas de se livrar do peso das tradições teológicas,
através do apelo à antiga benevolência, são certam ente agora m uito diferentes de
sua tentativa de acom odar-se à antiga sociedade, à qual ele mesmo pertencia, a
fim de convertê-la à nova “maneira cristã” . N a verdade, não tinha a m enor idéia
das dificuldades que essa tarefa iria lhe trazer. N ão levava m uito a sério o poder
intelectual da filosofia e julgava poder controlar a revolução histórica, que havia
testem unhado teologicam en te, através de um a educação g enérica com o
contrapartida.
Portanto, encontra-se refletido apenas nas primeiras e ingênuas reações com
as quais os eruditos círculos cristãos da época enfrentaram a nova era. Eram tão
superficiais e irrefletidas quanto honestas e sérias em suas intenções. Foram ne­
cessárias quase duas gerações, com novas experiências e um a teologia mais pro­
funda que a de Lactâncio, para fazer justiça à nova situação.
A m b r ó s io

om a fundação de Constantinopla, e tendo Constantino com o


seu único im perador (324), o peso das decisões eclesiásticas
foi com pletam ente transferido para o O riente. Lá, no decor­
rer dos anos seguintes, a aliança entre o im pério e a Igreja seria firm em ente
estabelecida. Porém, foi tam bém onde a controvérsia ariana teria início com seus
violentos distúrbios e onde se iniciaria o crescimento generalizado da vida ecle­
siástica e teológica. O O cidente não tinha ali qualquer participação e nada fez
que pudesse ser com parado a isso. Sempre atrasado no tempo, e intelectualm ente
retrógrado quando com parado ao O riente, o desenvolvimento da Igreja latina
parecia ter estagnado durante quase um a geração após a m orte de Lactâncio e foi
somente depois da m etade do século IV que vagarosamente com eçou a ressur­
gir. O impulso, dado por circunstâncias eclesiásticas externas, conduziu o O ci­
dente mais um a vez à união com a Igreja grega.
Após a m orte de Constantino (337), a administração do im pério foi dividida
entre seus filhos. A relativa independência política do O cidente intensificou seu
isolamento intelectual dos acontecimentos no O riente, o que certamente teria
decidido em favor de Atanásio; porém , mesmo décadas mais tarde, os cristãos eru­
ditos nunca tinham ouvido qualquer coisa sobre Nicéia (325) ou sobre seu credo.
Essa situação se modificou somente quando Constantino, o imperador do O rien­
te, foi também capaz de assumir o controle do Ocidente, em 353, e de estabelecer
nessa região sua administração eclesiástica dirigida contra Atanásio e o Credo de
Nicéia. Seu sucesso foi só aparente; apenas alguns cristãos mais tenazes tiveram que
ser deportados para o exílio. N o entanto, a maior parte da Igreja latina desejava
manter-se “ortodoxa” e a pressão que sofreria em ambos os lugares nas mãos dos
novos bispos imperiais contribuiria para seu posterior desenvolvimento.
A controvérsia ariana —ninguém tinha, realmente, conhecim ento suficiente
sobre suas pressuposições teológicas —desde o início pareceu ao O cidente uma
contestação relacionada com a independência da Igreja e com sua liberdade de
tom ar decisões sobre assuntos de fé cristã. Sob Juliano, o apóstata (361-363),
todas as escolas de opinião eram toleradas e o partido de N icéia rapidamente
assumiu o controle. Apesar disso, seu sucessor, Valentiniano I, que em sua crença
particular era bastante ortodoxo, não foi bem -sucedido ao tentar restabelecer a
completa unidade da Igreja. Os bispos arianos de Constantino perm aneceram
em seus postos e as decisões tomadas contra eles nos sínodos não foram execu­
tadas. O governo havia se cansado das brigas eclesiásticas e achava que o mais
simples seria ignorá-las e “congelá-las” .
Esta confusão nas relações eclesiásticas era acompanhada por uma continuada
ambigüidade da situação intelectual. A controvérsia ariana estava baseada em
dados da teologia grega, particularm ente os desenvolvidos p o r O rígenes cem
anos antes. A questão era com binar a idéia da divindade de C risto com o
m onoteísm o e de, racionalm ente, ajustá-la dentro do cenário de um a visão
metafísica do mundo. Essa era um a tarefa sistemática da qual o O cidente, até
então, quase não havia participado. Ainda agora perm anecia um a inclinação bas­
tante difundida de se satisfazer com o simples reconhecim ento da unidade da
natureza do Pai e do Filho e de antecipar todas as futuras questões que certa­
m ente surgiriam, simplesmente fazendo referência ao credo de Nicéia. A re­
núncia a uma solução teologicam ente confiável das questões ameaçava separar o
O cidente daqueles círculos do O riente que partilhavam da mesma opinião de
N icéia e que ainda estavam envolvidos em lutas ferozes e em controvérsias com
o dom inante partido ariano.
Antigas diferenças e equívocos do passado, aliados a um sem -núm ero de
dificuldades teológicas e práticas, perm eavam todo o cam inho para um encerra­
m ento generalizado das lutas no seio da Igreja e im pediam o progresso em dire­
ção a uma paz tão desejada. Porém , som ente um a coisa estava clara: um acordo
final tinha que ser alcançado e fundado sobre uma sólida base dogmática. E esse
acordo não teria possibilidade de alcançar sucesso sem um a relação positiva com
o poder político, ou sem um a reordenação da instituição estatal da Igreja.
Ambrósio foi o hom em que, intelectual e politicamente, cum priu essa tare­
fa. Antes dele, apenas um outro hom em pode ser m encionado que, pelo menos,
com preendeu e almejou o mesmo objetivo e de form a semelhante: o bispo
H ilário de Poitiers. E m muitos aspectos, ele foi um precursor, cujo trabalho foi
mais tarde concluído po r Ambrósio.
H ilário pertencia aos inflexíveis “nicenos” , que haviam sido banidos por
C onstantino para o O riente. Fora do círculo repleto de preconceitos do O ci­
dente, a total implicação e a com plexidade teológica da disputa tornaram -se para
ele gradualmente mais compreensíveis. A partir daí, tentou esclarecer seus cole­
gas do O cidente através de vários tratados, de panfletos sobre as conexões ecle­
siásticas e teológicas existentes e de um a mediação levada a efeito entre eles e os
“novos nicenos” líderes do O riente. Ao retornar ao lar, com eçou a estabelecer
um a união prática dos assuntos eclesiásticos e forçou, mais e mais, os arianos
remanescentes a tom ar a defensiva.
N o entanto, até H ilário fracassou no final, em vista da resistência e da indi­
ferença dos órgãos governamentais. Sua tentativa de derrubar o influente bispo
Auxentio de M ilão term inou em sua expulsão da Itália, seguida, logo depois,
pela sua m orte. A nova organização do Estado-igreja, com um a base “nicena” ,
foi prim eiram ente estabelecida p o r Ambrósio, que conseguiu colocar u m ponto
final na controvérsia intelectual com os arianos. Porém, só gradualmente conse­
guiu atingir seu objetivo e, ainda assim, com a assistência do Estado; além disso,
era obrigado a sempre defendê-lo em discussões cansativas e renovadas até que,
finalmente, a nova ordem foi solidamente estabelecida de uma vez por todas.
A mbrósio foi o prim eiro Pai da Igreja latina a nascer, crescer e ser educado
com o cristão e não com o pagão. Foi, também, o prim eiro descendente da alta
aristocracia romana a apoiar a Igreja publicamente, e a encontrar nela a ocupa­
ção de sua vida. Ambos os elementos foram im portantes, não só pelo seu signi­
ficado histórico com o p o r suas atividades. Havia em Ambrósio um a confiança
interior e um a natureza im perturbável que somente se manifestavam claramente
durante as crises e as tempestades de sua vida exterior. C o m sua inteligência
superior, energia e inata diplomacia, e, quando necessário, sua tática extrema­
m ente sagaz, parece nunca ter vacilado em seu verdadeiro propósito e nas con­
vicções éticas e religiosas.
Era profundam ente autêntico em suas pretensões e, apesar de toda a firmeza
de sua conduta, nunca foi de tem peram ento rígido, desumano ou inescrupuloso.
Em bora possamos abom inar os objetivos e os m étodos de suas ações, sua perso­
nalidade continua a im por respeito, da mesma form a que seus adversários não
puderam negar-lhe respeito e reconhecim ento durante a sua vida. A mesma
integridade e clareza de estilo tornaram Ambrósio u m em érito mestre de teolo­
gia. Seus numerosos escritos, práticos, devocionais e dogmáticos não são nem
particularm ente originais nem brilhantes, no entanto revelam através de sua
objetividade e retidão u m misto de determ inação e confiabilidade capazes de
levar à persuasão.
C om o todos os Pais da Igreja latina, Ambrósio tinha excelente conheci­
m ento de retórica. E m todas as ocasiões que lhe pareciam oportunas, não hesita­
va em empregar os artifícios próprios de uma exagerada impetuosidade, de uma
evidente em otividade e de um a linguagem repleta de imagens extremam ente
coloridas. N o entanto, n enhum deles foi, basicamente, menos retórico que ele.

M /
Percebe-se que sobre Ambrósio pesava a dupla responsabilidade de ser, ao mes­
m o tempo, mestre e líder político de sua congregação. Seus discursos eram sem­
pre dirigidos ao que era essencial e determ inante para a vida prática; eram sim­
ples e realistas em vez de eruditos, mas sem perder de vista a plena integridade
do hom em . Seu ardor tinha o poder de persuadir as consciências, mas sem reve­
lar qualquer traço de vaidade ou desejo de aplausos, em bora estivesse apoiado
em um a bem fundada autoconfiança que se desenvolveu no decorrer dos anos.
A m brósio nasceu no ano 339 em Trèves, onde residia seu pai, Aurélio
Ambrósio, detentor do elevado posto de prefeito da Gália. A m orte precoce pôs
um ponto final em sua carreira e a viúva transferiu-se para R om a, juntam ente
com seus três filhos. M esm o muitos anos depois, Ambrósio ainda tinha amigos
e parentes entre as primeiras famílias dessa cidade e, talvez, tivesse realmente
pertencido, com o seu nom e de família indica, à famosa casa dos Aurelianos.
Nesses círculos da aristocracia romana ainda persistiam a educação e a cultura,
em bora em todos os lugares do O cidente elas tivessem se tornado m uito raras.
Isso explica com o Ambrósio chegou a aprender a língua grega profundam ente e
não apenas com o matéria escolar - uma vantagem que se m ostrou m uito útil em
sua vida.
C om o era natural para um hom em de sua ascendência seguiu, prim eira­
m ente, a carreira de funcionário público. A té o final de seus sessenta anos vamos
encontrá-lo trabalhando com seu irm ão Satiro, com o advocatus no tribunal cen­
tral de Sirmio, que era na ocasião a cidade mais im portante da região dos Bálcãs.
Por volta do ano 370, com aproxim adam ente 30 anos, foi nom eado governador
das províncias do norte da Itália, isto é, Ligúria e Emília. Sua residência estava em
Milão, a capital do norte da Itália, que já havia servido, muitas vezes, com o
residência aos imperadores do O cidente.
Eclesiasticamente, M ilão ainda era governada pelo bispo Auxentio, natural
da Capadócia, e que havia sido nom eado para esse posto p o r Constantino, após
ter exonerado seu predecessor ortodoxo, Dionísio. Auxentio, assim com o todos
de seu partido, repudiavam energicam ente o nom e de “ariano” , recusava-se a
reconhecer o C redo de N icéia e a prom over qualquer um que o aceitasse em
Milão. Procurava, p or outro lado, abster-se de qualquer controvérsia dogmática
e, assim, conservar seu poder eclesiástico: porém , seus adversários já o considera­
vam com o uma pessoa retrógrada. N ão sabemos qual foi a atitude de Ambrósio
a seu respeito, pois o cargo de funcionário público proibia que, inadvertidam en­
te, revelasse suas convicções pessoais.
Por outro lado, sua arraigada ortodoxia “ nicena” certam ente não iria perm a­
necer com pletam ente despercebida durante os anos que passou em Milão. C om
a m orte de Auxentio, em 374, os “nicenos” acreditaram que sua hora havia che­
gado; finalmente, a heresia seria banida para sempre. N o entanto, tiveram que
enfrentar a luta não m enos entusiasmada dos partidários de A uxentio p o r sua
existência eclesiástica. A campanha eleitoral ameaçava degenerar-se em tum ulto
e Ambrósio apressou-se em ir até a igreja para restabelecer a ordem necessária.
Lá - segundo os relatos para surpresa geral, um a criança levantou a voz e
convocou o “bispo A m brósio” para a sala; em seguida, e com o p o r milagre,
aqueles que estavam presentes, de form a unânim e e espontânea, concordaram
com sua candidatura (Vita, 60).
A voz profética dessa criança pode ter sido apenas o acréscimo de um a
lenda; p or outro lado, parece ser bastante possível que as partes litigantes tives­
sem entendido ser a m elhor solução, para esse m o m en to crítico, a de investir
com o bispo um reconhecido “ n icen o ” , possuidor, até certo ponto, de um a
personalidade “ neutra” , isenta de qualquer preconceito em relação às co n tro ­
vérsias anteriores.
Ambrósio nos assegura que ficou com pletam ente surpreso e que, de início,
procurou evitar sua eleição. Até então, e pelo desenrolar de sua carreira, ele não
poderia ser considerado suficientem ente preparado para esse elevado cargo ecle­
siástico - nem batizado era nessa ocasião - e nunca poderia ter aceitado essa
nom eação sem o consentim ento imperial. Pediu que sua ordenação fosse, pelo
menos, adiada; porém , quando chegou de Trèves a aprovação incondicional de
Valentiniano I, ele não mais resistiu. Antes do final do ano de 374, o governador
oficial de 35 anos foi consagrado bispo de Milão.
Se, acima de tudo, o que o governo e o povo esperavam dele era a preserva­
ção da paz na Igreja, Ambrósio não os desapontou. N aturalm ente, insistiu em
receber antes o batismo e, depois, a ordenação feita p o r um “ niceno” . U m de
seus prim eiros atos oficiais foi o retorno solene e o sepultamento dos restos
mortais de seu predecessor, bispo Dionísio, que havia m orrido no exílio. Dessa
form a, foi feita um a demonstração pública da mudança em favor do C redo de
Nicéia. Por outro lado, A mbrósio mostrava-se disposto a trazer de volta a seu
serviço todo o quadro de clérigos de Auxentio, evitando, assim, dar origem a
conflitos ou levar m uito adiante as diferenças. O período que se seguiu justificou
seu generoso procedim ento, pois daquela data em diante o clero de Milão, firme
e devotadamente, passou a apoiar seu líder episcopal em todas as questões.
Essa m udança abrupta “ dos palanques deste m undo de vaidades e do alarido
das aclamações públicas aos cantos do salmista” (de Paen. II, 8,72) foi, de alguma
forma, semelhante à rápida chegada de C ipriano ao apogeu; porém , os tempos
haviam m udado desde então. Além disso, no agora im pério rom ano cristão, ela
significou m uito m enos para Ambrósio do que para Cipriano, sob o aspecto da
rejeição aos antigos interesses. Certam ente, o cargo de bispo de M ilão não era
inferior ao de governador de província, em term os de influência pública, autori­
dade e responsabilidade. N a verdade, nos dom ínios da Igreja, ele podia agora
encontrar uma nova esfera de atividades inteiram ente apropriadas às suas aristo­
cráticas tradições romanas.
Por outro lado, não se pode duvidar que Ambrósio tivesse sido um cristão
determ inado e convicto, mesmo antes de sua eleição. A ortodoxia fazia parte da
tradição de sua família. Havia um m ártir entre seus ancestrais e, antes de sua
elevação ao episcopado, sua única irm ã, M arcelina, havia feito voto de manter-se
virgem por toda sua vida. N ão era p o r acaso que nem ele nem seu irm ão haviam
ainda se casado. Para Ambrósio, o celibato foi sempre considerado com o uma
forma superior de vida e particularm ente apropriado ao ideal cristão, e o fato de
conservá-lo nunca lhe trouxe qualquer dificuldade.
O fato de Ambrósio ainda não ter sido batizado não era u m fato incom um ,
e demonstra a seriedade de suas convicções. M uitas vezes um funcionário do
governo era obrigado a em itir decretos que envolviam o derram am ento de san­
gue, e tam bém a tolerar opiniões e hábitos em seu ambiente de trabalho que lhe
pareciam irreconciliáveis com a idéia de uma perfeita vida cristã. Ambrósio, pro­
vavelmente, já havia antes se preocupado com assuntos teológicos, ou pelo menos
quase teológicos, antes da mudança de seu oficio. Pode-se m encionar a opinião de
que ele tenha sido o autor de uma edição do livro de Josefo, Guerra dosJudeus, e de
uma paráfrase dos Livros dos Reis, mencionada nessa edição e que não mais existe.
Este fato deve ter acontecido em sua juventude. A escolha de um assunto históri-
co-político caberia bem em Ambrósio e um a precoce atividade literária poderia
explicar, ao mesmo tempo, com o o jovem bispo alcançou tanto sucesso ao se
tornar um im portante escritor em tão pouco tem po após a sua eleição.
Para ele, a tarefa mais essencial de um bispo era pregar e ensinar a Bíblia. N o
entanto, muitos deveres foram impostos pelo seu cargo no decurso dos anos
seguintes, deveres da administração, do cuidado pastoral, da formação de seu
clero, além dos deveres políticos e eclesiásticos. Ambrósio nunca negligenciou
ou deixou de cum prir suas obrigações com o pregador, um a atividade onde,
acima de tudo, via o verdadeiro significado de sua chamada espiritual. Em bora
sua voz fosse suave, era considerado em toda parte com o um notável pregador.
C om o sabemos através de Agostinho, era acatado com prazer não só pelos fiéis
membros de sua congregação, com o tam bém pelos demais ouvintes.
Essa admiração se aplicava, inclusive, aos assuntos de seus sermões, o que
poderia causar surpresa aos leitores m odernos; porém , as interpretações alegóri­
cas utilizadas por Ambrósio, acima de qualquer suspeita fruto de um a crédula
omissão de qualquer significado literal, representavam naquela época um estilo
novo para o O cidente. Alguns chegavam até a respirar aliviados quando im edia­
tam ente percebiam que, em especial o A ntigo Testamento, havia sido liberado de
toda aparente incompreensão exterior com o, por exemplo, as angustiosas fra­
quezas humanas, que de outra form a estariam além de sua compreensão, além de
muitas concepções de D eus e de sua divina natureza, as quais poderiam afigurar-
se com o impróprias ao estilo erudito de raciocínio.
Em bora esse m étodo de reinterpretar o espiritual não tenha sido inventado
por Ambrósio, foi por ele adotado em seu todo a partir de modelos gregos e,
especialmente, dos teólogos de Alexandria. Essas obras sempre serviram não só
com o fonte para seus sermões, com o para os escritos que delas resultaram. N ão
possuía a ambição de parecer original e se apossava do material que necessitava
a partir de qualquer origem e onde o pudesse encontrar. Livros inteiros da Bíblia
eram explicados, no todo ou em partes, através de com entários feitos em grego.
Ele preferia série de sermões, com eçando, segundo parece, com o prim eiro livro
da Bíblia, pelo qual teve grande predileção durante a vida. Depois publicou
tratados sobre o Paraíso, Caim e Abel, N o é e sua arca, etc.
Além de Orígenes, sua fonte principal era o teólogo ju d eu Fílon, em bora os
gregos mais recentes tam bém fossem requisitados. Sua última exposição do Tra­
balho dos Seis Dias, um a obra volumosa e popular, foi compilada principalm ente
através dos escritos de Basílio. Nesse trabalho, a parcialidade de sua inclinação à
espiritualização ficou subjugada p o r m eio de uma inconteste afirmação da cria­
ção de Deus e de sua visível beleza. Para tanto, as antigas tradições estóicas clás­
sicas devem obviamente ter dado sua contribuição. Da mesma forma, a opção
pelo material nunca era feita indiscrim inadam ente e, no decorrer do tempo,
Ambrósio revelou um a ascendente independência tam bém em relação aos m o­
delos teológicos gregos. Exortações práticas e éticas à sua congregação ocupa­
vam um espaço cada vez m aior e as belas explicações sobre os Salmos e sobre o
Evangelho de Lucas, que datam dos últimos dez anos de sua vida e que ensina­
vam sobre a redenção e particularm ente sobre a devota proclamação de Cristo,
apareciam sob um novo e brilhante estilo pessoal. N o entanto, durante toda a sua
vida, Ambrósio manteve uma certa inclinação dirigida à explicações especulativas
e a descobertas misteriosas, baseadas na palavra divina. Para ele, as alegorias pare­
ciam ser a form a teológica mais elevada e apropriada da exegese das Escrituras e,
com especial seriedade, tirava suas conclusões. Isso poderia revelar, talvez, uma
espécie de necessidade de sua natureza prática e realista a uma certa expansão
espiritual, com sua inclinação a um a fé óbvia e à moralidade.
C om essas observações sobre o estilo de pregação de Ambrósio, antecipamos
seus futuros desenvolvimentos; portanto, devemos retornar ao começo. O s p ri­
meiros escritos publicados pelo jovem bispo foram dois memoriais dirigidos ao
seu irmão. Satiro tam bém havia deixado o serviço público e assumido a adminis­
tração dos bens de Ambrósio após a sua eleição, mas veio a falecer alguns meses
depois. A elaborada descrição de suas virtudes e de seu caráter, do inseparável
am or fraterno, da dor de sua perda e do júbilo perante a certeza da duradoura
m em ória do falecido, tudo isso estava de acordo com a prim itiva tradição aristo­
crática romana. N o entanto, toda essa dissertação havia agora se transformado
em um sermão que, em bora assentado sobre uma estrutura religiosa, era, ao
mesmo tempo, relacionado com um correspondente propósito de educar. Havia
um a exaltação ao zelo ortodoxo do falecido e toda a reflexão se encerra com
um a proclamação à certeza da ressurreição, através da qual a obra chega a se
elevar além do caráter puram ente pessoal.
As tradicionais razões para o consolo espiritual adquirem dessa forma um
segundo plano m uito mais enérgico. N a verdade, ambos os discursos foram pro­
feridos antes de sua publicação e são de interesse com o u m estilo de m em orial
cristão para os mortos. Logo depois, Ambrósio tom ou a liberdade de prestar
um a hom enagem semelhante à sua irm ã e term inou o trabalho sobre as virgens
com um discurso enviado pelo bispo Libério p o r ocasião da iniciação dela com o
freira religiosa.
Ambrósio havia, da mesma form a e repetidam ente, se expressado sobre o
assunto das virgens, não só p o r escrito com o oralmente, durante os primeiros
anos. Esse era um aspecto da vida prática da congregação com o qual se preocu­
pava muito. Suas recomendações ascéticas eram quase que exclusivamente dirigidas
ao sexo feminino, às virgens e às “viúvas” consagradas a Deus, que ainda não
estavam recolhidas em conventos, mas que já tinham sua própria posição na
igreja. Ele ainda se mostrava im perturbável perante os novos impulsos que a vida
monástica trazia aos antigos ideais. Nesse contexto, suas pregações ascéticas rara­
m ente iam além do que Cipriano já havia ensinado sobre o assunto.
Existem basicamente três estágios de castidade na Igreja: casamento, e sem­
pre que possível um a única vez, viuvez e a santa virgindade das “noivas de Cris­
to ” . A virgindade voluntária é um a virtude que, pela prim eira vez, foi trazida ao
m undo pelo cristianismo; seu valor e seus m éritos especiais são considerados
inquestionáveis. N o entanto, Ambrósio não era a favor de uma com petição exa­
gerada e nem a favor de um a vida ascética exagerada. As virgens deveriam levar
uma vida tranqüila e reclusa e dedicar-se, dentro de sua família, sobretudo à
oração, ao jeju m e à santificação: a inclinação interior à hum ildade e à dedicação
eram atitudes decisivas. N o entanto, suas pregações sobre o ascetismo levantaram
algumas dúvidas e produziram certo tum ulto. M ulheres vinham de longe a M i­
lão para receber o véu de suas mãos.
Por outro lado, ele tam bém encontrava resistência, especialmente dentro de
sua própria congregação. M uitos pais preferiam ver suas filhas bem estabelecidas
com o esposas e, portanto, procuravam dissuadi-las de seu entusiasmo pela vida
ascética. Mas essa era uma preferência sobre a qual Ambrósio não tinha a m enor
compreensão e, em tais casos, ele firm em ente tomava as crianças mais piedosas
sob sua proteção contra a opinião de seus pais. Em tudo isso ele foi o represen­
tante autorizado de uma tendência do século IV que tam bém se desenvolvia sob
outras formas. Ambrósio foi u m típico defensor do m odo de vida cristão daque­
les tempos e do posterior ideal clássico de vida que reconhece a seriedade espi­
ritual e a disciplina ética em term os de sexo, quase que exclusivamente sob a
form a de renúncia.
N o longo prazo, o novo bispo não poderia se contentar exclusivamente
com tarefas teológicas práticas. C o m o já vimos, no norte da Itália e nas regiões
vizinhas, a situação dos dogmas exigia um a decisão e Ambrósio não era hom em
de se exim ir por m uito tem po das expectativas que sobre ele foram depositadas
pelos “nicenos” de todas as partes e cujas posições perm aneciam longe de estar
solidamente estabelecidas, principalm ente nas províncias vizinhas da Ilíria, onde
os adversários de Ambrósio prevaleceram inúmeras vezes e de onde estavam,
tam bém , ampliando sua influência até a Itália.
C om o um a vitória inicial, ele e seus companheiros de credo conseguiram
prom over a eleição de um bispo ortodoxo para Sirmio. Além disso, a validade
do C redo de N icéia foi solenem ente endossada mais uma vez em um concílio
que teve lugar nessa localidade. Nessas controvérsias, que levaram o partido dos
“nicenos” à conquista da vitória final, seria im próprio considerar Ambrósio ape­
nas com o um religioso político, pois a fé e a política eclesiástica tinham nele uma
plena coincidência. O reconhecim ento da divindade irrestrita e consubstanciai
de Cristo estava de acordo com a natureza de sua sotereologia pessoal, e era para
ele o único alicerce possível para um a verdadeira Igreja cristã.
A gravidade dessa assertiva transform ou-o em um teólogo dogmático nos
anos que se seguiram. Ambrósio não descansou até que tivesse concluído todo o
âm bito da questão da Trindade, seção p o r seção, e o tivesse estabelecido publica­
m ente. Posicionando-se além de Hilário, aqui ele segue a m oderna teologia
“neo-nicena” do O cidente, porém , sem renunciar às antigas tradições de sua
terra natal latina, agora reunidas em um novo sistema, e de form a independente
e prolífica, aos resultados da mais avançada teologia grega. C o m isso, Ambrósio
colocou tam bém um ponto final na controvérsia ariana do O cidente.
O estudo dos escritos mais im portantes, que fazia com zelo e dedicação, não
lhe trazia qualquer dificuldade, em vista, com o sabemos, de seu conhecim ento
do grego. Além disso, ele esteve pessoalmente em contato com Basílio de Cesaréia.
A antiga desconfiança sobre a teologia “acadêmica” estava fora de questão para
um hom em de seu naipe e a suspeita freqüente dos gregos de que os ocidentais
eram totalm ente incapazes de distinguir entre o Pai e o Filho, nesse caso, estava
com pletam ente infundada.
A distinção entre a única e indivisível “ essência” de Deus, sobre a qual re­
pousa a unidade divina, e as três “Pessoas” da divindade que não podem ser
confundidas um a com a outra, era um a questão de rotina para Ambrósio que,
desde o início, tornava impossível qualquer confusão. Todos estes conceitos fo­
ram formulados por Tertuliano m uito tem po atrás. O problema, também, era
agora justificar ju n to aos arianos a igualdade das Pessoas e, finalmente, excluir a
doutrina subordinativa da procedência do Filho em relação ao Pai, e do Espírito
em relação ao Filho, o que, de alguma form a, dim inuía sua dignidade. Todas as
três Pessoas são iguais em sua eternidade e origem e, em sua respectiva e especial
natureza, indissoluvelmente unidas umas às outras.
A partir desse ponto de vista, não houve mais qualquer dificuldade na ado­
ção de idéias essencialmente “atanasianas” e “ neonicenas” . Ambrósio desenvol­
veu seus ensinamentos sobre a Trindade —sempre no m eio dos sermões —p ri­
meiro em um trabalho volum oso denom inado Sobre a Fé, publicado em duas
partes, seguido de um tratado em três volumes intitulado Sobre o Espírito Santo,
pois a posição da terceira Pessoa até então não havia sido adequadam ente consi­
derada nesse contexto. O círculo se fechou, ao final, com a grande pesquisa de
Ambrósio sobre O Mistério da Encarnação do Senhor, na qual as conseqüências da
teologia da Trindade são extraídas em relação à Pessoa do D eus-hom em . Nesse
im portante livro, Ambrósio foi certam ente m uito além de seus predecessores do
O riente e foi através dele que iniciou o estudo de novos problemas.
São dignas de admiração a determinação e a confiança com que durante al­
guns poucos anos (378-382) ele tratou desses problemas tão complexos. Seria
incompreensível se, em consideração à filosofia, sua m ente tivesse feito tábula rasa,
como foi o caso da maioria dos teólogos latinos daquele tempo. Desde o início de
sua carreira eclesiástica, Ambrósio deve ter estado em contato com aquela filosofia
platônica e neoplatônica que dificilmente poderia ser negligenciada para um en­
tendim ento profundo e sistem ático da d o u trin a da Trindade. O sacerdote
Simpliciano, que foi o discipulador de Ambrósio, viveu de acordo com estas tradi­
ções. Todavia, se o autor condenasse os filósofos da maneira habitual, estaria pen­
sando nos epicureus e nos estóicos e, acima de todos eles, em Aristóteles. Os adep­
tos do platonismo seriam tacitamente omitidos, pelo menos em nenhum lugar
esses filósofos foram explicitamente combatidos e, de Platão, mais de uma vez foi
dito que obteve seus conhecimentos teológicos a partir do Antigo Testamento.
Esse conceito da filosofia não representava nada de novo para o O riente,
mas no O cidente significava uma mudança que apontava para o futuro e que
seria decisiva para a conversão de Agostinho. Q u an to ao próprio Ambrósio, essa
afirmação ainda necessitava de um com plem ento. N a verdade, foi justam ente a
limitação de seus interesses filosóficos, e tam bém de sua habilidade filosófica, que
torna compreensível a rapidez e o sucesso generalizado de seu trabalho dogmático,
em bora dificilmente pudessem ter sido alcançados sem um a educação filosófica.
Ambrósio estava disposto a aprender a partir dos neoplatônicos, tanto assim
que adotou por exemplo a sua concepção de essência, em bora o que procurasse
não era exatamente uma nova metafísica, porquanto não se preocupava com
problemas desse tipo. Tudo que lhe interessava era definir a verdade cristã revela­
da, de form a intelectualm ente nítida e consistente, para dessa form a torná-la
incontestável. Seu conhecim ento de Deus, com o tal, não é o resultado de um
raciocínio sistemático. Ele tem com o base as Santas Escrituras, cujo testem unho,
para Ambrósio, deixa de ser uma coisa adventícia para tornar-se uma necessidade
absoluta e, portanto, recebe a m aior atenção em seus escritos dogmáticos. Visto
que está relacionada com Deus, para ele toda teologia é exclusivamente uma
teologia da revelação e não deve procurar ser algo diferente disto.
A ênfase radical e, se você preferir, neoplatônica, sobre a distância que separa
o divino de cada um dos seres criados, tem o propósito de tornar impossível
qualquer ponte especulativa ou analógica construída a partir do lado das criatu­
ras. Som ente o próprio trabalho de Deus e sua palavra poderão preencher essa
lacuna. Esse dualismo ontológico representa, tam bém , a pressuposição necessária
para a essencial compreensão da divindade de Cristo e para a correspondente
construção de sua doutrina sobre a Pessoa do D eus-hom em . N ão existe um
eflúvio ou um a associação gradual do divino com o humano, ou do m undo
sobrenatural com o natural.
Desde que isto fique estabelecido, será comparativamente fácil que a fé seja
satisfeita através de algumas fórmulas concisas, dem onstrando o quanto existe de
fervor quando, do ponto de vista religioso, prefere tem er a com preender a pro­
fundidade da divindade (de Fid.V, 18, 221). Nesta renúncia a toda especulação
racional e ênfase na fé, ao lado da obediência pela fé, com o elementos essenciais
da religião, Ambrósio se manifesta com o u m verdadeiro ocidental. Nesse ponto
suas reflexões lem bram a posição religiosa de Tertuliano, assim com o o íntim o
relacionam ento entre a teologia baseada na revelação e um racionalismo deter­
minado e quase inabalável, que tam bém recordam o autor africano. N inguém
antes expressou de form a tão direta, tão inflexível e tão vigorosa o poder da
estrutura lógica e da form a da Trindade quanto o próprio Ambrósio. Existe,
portanto, alguma coisa a ser dita a respeito da opinião de que foi, tam bém , o
autor do assim chamado “ Credo de Atanásio” .
Este credo, que foi a típica profissão de fé do O cidente na Santíssima Trinda­
de, procura preencher, de uma vez p o r todas, qualquer possível lacuna na elabo­
ração da doutrina, por meio de quarenta parágrafos formulados em linguagem
estereotipada e cadenciada. E característico, também, que tendo desenvolvido
sua doutrina sobre Deus, durante os anos controvertidos de sua juventude,
Ambrósio não tenha posteriorm ente voltado a essa área dogmática da teologia.
C om o a verdade foi considerada por ele com o já encontrada e finalmente
estabelecida, daí por diante a única preocupação seria preservá-la e defendê-la
sem tréguas, ao lado dos imediatos cuidados com os múltiplos problemas espiri­
tuais e práticos da vida diária da Igreja e com as suas respectivas soluções.
C om o já m encionam os, a atitude de Ambrósio frente às políticas da Igreja
estava com pletam ente de acordo com suas convicções teológicas. Seu propósito
era o reconhecim ento público da verdadeira e única Igreja universal, solidamen­
te estabelecida sobre as fundações de um único credo ortodoxo e, portanto,
tam bém legítimo. Este ideal representou o marco de um a inovação na medida
que, até então, a Igreja nunca foi realmente “confessional” , por sua característica
de Igreja imperial. N a verdade, diferentes credos, e entre eles tam bém o de Nicéia,
foram formulados e proclamados durante a controvérsia ariana e, p o r razões
táticas, a política do Estado havia ignorado ou modificado estes credos até que,
ao final e com o propósito de salvar a unidade da Igreja, elim inou todas as
questões relativas aos credos. U m novo período agora se iniciava. C om o o resul­
tado da controvérsia ariana do “ C redo de N icéia” foi entendido com o uma
solução dogmática e “ confessional” do problem a do Estado-igreja, não seria mais
tolerada nenhum a hesitação ou exceção.
O significado religioso do ideal de universalidade da Igreja im perial pode
ser mal interpretado se, sob essa forma, o colocarmos em direta oposição à idéia
de liberdade de consciência e se tentarm os com preendê-lo m eram ente com o
resultado de um am or sacerdotal ao poder e à intolerância. O fato crucial é a fé
que existia na objetiv id ad e tran sp aren te e na acessibilidade geral da fé
dogm aticam ente formulada. Portanto, devem perm anecer “ecum enicam ente”
em vigor para todo o mundo.
O próprio Ambrósio era na realidade u m exemplo convincente da liberdade
de crer e que proporcionou um irrestrito escopo na prática do relacionam ento
interpessoal. Caso defendesse, incondicionalm ente, os fundamentos “nicenos”
da Igreja universal não estaria considerando cada um dos crentes individualm en­
te. Sua preocupação aqui era proteger a independência da Igreja, com o um todo,
contra as ilícitas interferências dos poderes políticos, cuja falta de escrúpulos
dogmáticos havia sido suficientem ente experim entada durante as primeiras con­
trovérsias ocorridas sob o governo de Constantino. Essa era uma preocupação
bastante compreensível em vista do despotismo e da inconstância da política
religiosa im perial e onde o O cidente exercia um a m aioria “nicena” absoluta.
Levando todos os fatos em consideração, os conflitos nos quais Ambrósio
defendia com nitidez suas convicções eram, além do mais, uma prova de sua
superioridade moral. N a verdade, a luta pela “liberdade” e pelos “ direitos” de sua
igreja, que ele assumiu em nom e da “fé” , era, natural e simultaneamente, uma
luta pela supremacia eclesiástica. Isto quer dizer que era uma luta pelo poder
que, com o tal, ele se esforçava p o r vencer através da cooperação com o Estado, e
com o uso de medidas governamentais, contra todos os “heréticos” cujas convic­
ções eram diferentes das suas. Ele não tinha consciência das contradições que
podiam se originar a partir deste ponto, e ainda conservava os antigos ideais do
período das perseguições e gostava de enfatizar que a fé devia perm anecer inde­
pendente e cuja aceitação só podia ser alcançada com total liberdade, p o r isso
condenava toda e qualquer pressão externa. C om o exemplo disso, ele rom peu
sua amizade com os bispos da Gália porque, pela prim eira vez e com o apoio dos
tribunais do Estado, conseguiram que seus oponentes eclesiásticos fossem exe­
cutados. N o entanto, como político eclesiástico que era, procurou assegurar, sempre
que possível, a predom inância de sua Igreja. Porém , mesmo em suas ações, nem
sempre conseguiu fugir à ambigüidade da política do poder eclesiástico.
N ão pretendem os acom panhar detalhadam ente os complicados incidentes
causados pela política da Igreja no decorrer desses anos tão importantes e que, em
um considerável e perpétuo grau de fluxo e refluxo, foram determinados pela
situação política geral. E m 378, os godos impuseram uma derrota decisiva sobre o
exército romano e, em seguida, se espalharam por toda a região dos Bálcãs. Foi
somente com m uito esforço que foram gradualmente apaziguados e instalados nos
novos territórios conquistados. Em sua grande maioria, os godos ainda eram pa­
gãos; no entanto, mesmo aqueles que se converteram —através de Ulfilas —não se
tornaram ortodoxos, mas (na opinião dos “nicenos”) cristãos “arianos” .
Q ualquer que fosse a procedência, o arianismo levantava outra vez sua cabe­
ça. Ambrósio reconhecia a gravidade do perigo que ameaçava a Igreja e, não
sem razão, estava convicto de que a fidelidade política dos heréticos romanos,
agora aliados religiosos dos godos, tam bém não era m erecedora de confiança.
Levando esse aspecto em consideração, e que os godos eram descendentes de
Gogue e foram profetizados p o r Ezequiel (Ez 38), tentou alertar os governantes
e levantá-los para um a resistência política e eclesiástica. Q u em quisesse enfrentá-
los deveria m anter-se firm e na fé verdadeira e estaria seguro de alcançar a vitó­
ria. Por outro lado, “a crença no Im pério R o m an o foi prim eiro subvertida onde
a fé em Deus perm itiu-se ser derrotada” (de Fid. II, 16, \39;A N F , 10,241).
Ambrósio descreve, cheio de desgosto, um bispo ariano que ousou aparecer “à
frente do exército romano revestido de incredulidade gótica e adornado com um
colar e braceletes, com o um pagão” . Segundo ele, tal conduta não é apenas sacrí­
lega para um sacerdote, mas tam bém deve ser considerada com o inteiramente
anticristã, pois é “contrária aos costumes de R o m a” (Ep. 10,9). M esmo sendo um
bispo, Ambrósio se conservou totalm ente romano; “germ ânico” e “ariano” , ao
lado de “rom ano” e “cristão” , quase se tornaram expressões sinônimas. A fidelida­
de ao im pério era uma obrigação cristã e é por ele elogiada não só para os cidadãos
romanos, mas inclusive para os bárbaros que viviam fora do império (Vita, 36).
N o entanto, pressionado pela emergência, o governo era p o r vezes obrigado
a se com prom eter eclesiasticamente com os godos dos Bálcãs e com aqueles que
partilhavam de suas opiniões. Ambrósio tinha evidentem ente que tolerar a re­
quisição de um a igreja, mesmo em Milão, para que, caso fosse necessário, pudes­
se ser oferecida aos arianos; mas a estabilização política tam bém restaurara a
antiga ordem eclesiástica. O jovem im perador Graciano, a quem Ambrósio dedi­
cara seu livro sobre a fé, fixou residência em M ilão e consentiu em ser aconse­
lhado sobre questões de religião e de política da Igreja. Seu mais im portante
vice-governador, o general espanhol Teodósio, fez com que, ao mesmo tempo, o
C redo de N icéia fosse reconhecido tam bém no O riente.
O fim desses anos turbulentos chegou em 381: no O riente, com o grande
C oncílio de C onstantinopla e, no O cidente, com o C oncílio de Aquiléia, o
qual perm aneceu totalm ente sob a liderança de Ambrósio. Agora, os últimos
adeptos do antigo sistema de Estado-igreja, que se recusavam a reconhecer o
C redo de N icéia, foram, nos devidos term os, denunciados e dispensados de
seus cargos episcopais pelos órgãos do governo e as m inutas dessas sessões
foram preservadas. E óbvio que os m étodos usados nessa convenção religiosa
causaram bastante tum ulto, pois os bispos condenados, recém -chegados de Ilíria,
foram enganados sobre o verdadeiro propósito e caráter do sínodo. Ao contrá­
rio de um a prom etida discussão livre e generalizada, o que os aguardava era
um interrogatório unilateral feito p o r seus inimigos declarados que, precipita­
da e violentam ente, levaram as negociações até o fim sem atender aos seus
protestos. E m seu relatório oficial ao governo, A m brósio estabeleceu esses
procedim entos sob um a luz consideravelm ente mais branda. Em todo caso, a
vitória foi conquistada e a ortodoxia finalm ente obteve o controle exclusivo
sobre toda a Itália e, tam bém , sobre a Ilíria.
Nos anos seguintes, Ambrósio tornou-se uma personalidade líder no Conse­
lho Privado do tribunal de Milão, e vamos encontrá-lo em várias ocasiões respon­
sável por tarefas políticas. Q uando Graciano foi vencido, e depois assassinado, em
383, por um vice-imperador da Gália, Ambrósio, em conjunto com oficiais do
exército, assumiu a proteção de seu irmão, Valentiniano II, que tinha a idade de
doze anos nessa época. O bispo foi enviado duas vezes a Trèves para negociações
diplomáticas, onde foi bem-sucedido em pelo menos salvar a Itália para o jovem
imperador. Mais tarde, o usurpador viu em Ambrósio seu real oponente, aquele
que fez parar as águias e suas legiões nas fronteiras dos Alpes (Ep. 24,7). Era ainda,
então, bastante incom um que o clero se envolvesse em missões políticas e Ambrósio
não era nenhum pontífice medieval; ele preferia considerar seus serviços políticos
do ponto de vista do privilégio tradicional dos bispos de interceder em favor dos
mais fracos (Ep. 24,5) e a mãe do imperador, levando o jovem Valentiniano II pela
mão, implorara pessoalmente pelo seu auxílio (Obit. Vai. 28).
C om o poderia, então, ter recusado? N o entanto, seu desejo era atuar apenas
dentro do cenário dos deveres de seu posto (Ep. 57,12) para a proteção da fé e da
sua Igreja. Até seus últimos anos procurou m anter-se em linha com esse objetivo.
Gostava de enfatizar que sua tarefa não era intervir em assuntos da com petência
do Estado. N o entanto, por causa de sua posição e de sua habilidade, as decisões
políticas chegavam-lhe quase que autom aticam ente e quanto mais sua reputação
crescia com o decorrer dos anos, m enos conseguia Ambrósio se livrar da respon­
sabilidade quando as coisas se tornavam mais sérias (O bit. Vai. 24). Em sua opi­
nião, onde a paz, a bondade e a justiça estão em jogo, nem mesmo um bispo
pode, em última análise, m anter sua neutralidade. N aturalm ente, a linha entre a
com petência espiritual e a política não pode ser facilmente traçada e um a boa
dose de tato hum ano, além de perspicácia e de responsabilidade política, e de
toda inteligência e prudência, foram necessárias para que Ambrósio pronuncias­
se o m elhor veredicto eclesiástico nos m om entos críticos, isto é, para torná-lo
não só m oralm ente convincente, mas, tam bém , politicam ente efetivo. D e qual­
quer forma, tais ações nada tinham que ver com o oportunism o em seu sentido
habitual. Ele nunca se esqueceu a quem e o que tinha que representar como
bispo e foi por isso que adquiriu a grandeza e a dignidade de um hom em da
Igreja que estava, realmente, im buído de autoridade.
N ão será possível discutir aqui todos os eventos políticos e eclesiástico-polí-
ticos em que Ambrósio se conduziu dessa maneira e, ocasionalmente, naqueles
em que parecia representar o papel de um “ Chanceler” ou de um clérigo M inis­
tro de Estado.Vamos nos restringir aos exemplos mais famosos. A insegura situação
política em que o governo de M ilão se encontrava após a queda de Graciano
logo revelou suas implicações religiosas e políticas. U m após outro, o paganismo
prim eiro, e depois tam bém o arianismo, procuraram m elhorar sua situação e
recuperar posições já abandonadas. N a verdade, a antiga religião romana não
estava nem proibida nem havia desaparecido sob os imperadores cristãos; ao
contrário, estava mais e mais dirigida a um a posição defensiva e, sob o incentivo
de Teodósio, talvez Graciano tenha estado a ponto de lançar um novo golpe, um
pouco antes de sua morte.
Os sacerdotes pagãos romanos haviam sido privados de seus subsídios e pri­
vilégios governamentais, o altar e a estátua de V itória foram removidos da casa
do senado e a designação Pontífice Máximo, o posto mais alto do sacerdócio pa­
gão, foi retirada dentre os títulos imperiais. Estes decretos tinham um significado
simbólico m uito amplo, pois o novo regim e imperial, reconhecidam ente com ­
prom etido, agora renunciava de um a vez por todas à sua ainda “imparcial” posi­
ção frente à antiga religião, e nada mais restava ao povo a não ser aceitá-los. Na
verdade, o senado, onde os cristãos ainda não tinham a maioria, quis protestar
im ediatam ente contra essas leis que afetavam, especificamente, R om a; porém ,
sua delegação não foi nem mesmo recebida em Milão. Agora, após as mudanças
no governo, parecia ter chegado o m om ento de aventurar um a nova tentativa.
Em 384, o líder da delegação rejeitada, Q u in to Aurélio Simaco, acabara de
tom ar posse da prefeitura, o mais alto posto im perial da cidade de R om a, e
estava autorizado a redigir a petição. A lém de ser o escritor e o retórico mais
im portante que R o m a tinha na época, fora educado de acordo com a filosofia
neoplatônica. Ele era um senador descendente de antiga fam ília aristocrática e,
além do mais, era parente de Ambrósio. A inda hoje, não podem os ler essa
petição sem que nos comovamos: era o canto de cisne da antiga e orgulhosa
religião romana. Simaco defende a m em ória e as instituições sob as quais a vene­
rável R o m a foi tão grande no passado. Ele insiste que, mesmo sob os im perado­
res cristãos,Vitória foi protegida e útil para suas leis. Fala do serviço desinteressa­
do prestado pelos sacerdotes ao povo, sem distinção, e particularm ente das castas
virgens. Acredita que a recompensa para tudo isso havia há m uito se transforma­
do, de uma livre demonstração de generosidade, em um a histórica reivindicação
legal. Por último, ele ousa até relembrar a penúria do povo e o terrível fim de
Graciano que, provavelmente, nunca teve conhecim ento de todas as sinistras
ordens emitidas em seu nome.
N em um a única palavra desrespeitosa foi incluída. Simaco tensiona cada
nervo a fim de tornar o mais facil possível a desistência do im perador, mas basi­
cam ente sente que está lutando p o r um a ordem cujo m om ento histórico já
havia passado. Ele se contenta em im plorar p o r nada mais que tolerância pela
religião ancestral e, com o filósofo, refere-se à herança com um de todas as religi­
ões: “ Q u e diferença faz através de quais sofrimentos cada um procura a verdade?
N ão podem os alcançar tão grande segredo p o r um a única estrada; porém essa
discussão é para pessoas sem preocupações, agora oferecemos orações e não con­
flitos” (Rei. Symm. 10; A N F , 10,415).
Parece que esse avanço realmente aconteceu. M em bros pagãos e cristãos do
Conselho Privado votaram igualmente a favor dessa solicitação, pela qual espera­
vam colocar em dívida os círculos que lideravam a cidade que era considerada
eterna. Nessa ocasião, porém , Ambrósio tom ou conhecim ento das negociações
e sua intervenção forçou a decisão para outra direção. E m tais casos, declarou, o
bispo é diretam ente responsável, pois esse é u m assunto da com petência de Deus
e uma questão religiosa. Sem encam inhar-se pelos “ canais oficiais” , ou esperar
por autorização especial, escreveu um a carta ao im perador, na qualidade de seu
conselheiro espiritual: “Todas as pessoas que vivem sob o governo de R o m a
servem a ti, aos imperadores e aos príncipes do mundo. N o entanto, serves ao
Deus Todo-poderoso e à santa fé” (Ep. 17, 1). N ada mais havia para ser dito.
“Estou surpreso com o chegou à m ente de certas pessoas pensar que estavas
obrigado a renovar o altar dos deuses pagãos” (Ep. 17,3).
O im perador era cristão - e independentem ente do que seus conselheiros
políticos poderiam desejar - com o tal tinha que representar a causa da fé tam ­
bém em todo o império. Portanto, nunca deveria tentar, em tais casos, retroceder
de um a única medida que tivesse tomado. D epois de ter recebido, p o r sua solici­
tação, um a cópia da petição, Am brósio respondeu-a mais uma vez em detalhes e
dirigida diretam ente ao grande público. C o m isso, e até certo ponto, ele assumiu
a posição neutra de seus adversários —em bora não pudesse haver, com certeza,
qualquer questão quanto ao princípio de igualdade de direitos religiosos. Mas
foi dessa form a que ele, precisamente, to rn o u possível repudiar mais eficiente­
m ente as queixas dos pagãos.
A Igreja não tem que tem er um a comparação entre seus direitos e os de seus
oponentes. Q uando eles se queixam da rem oção do altar —o que os senadores
cristãos irão dizer quando forem novam ente forçados a participar de um sacrifí­
cio idólatra? Q uando lam entarem sobre a falta de subsídios para seus novos sa­
cerdotes e para as virgens vestais —o que dizer sobre as inúmeras freiras cristãs e
sobre o clero que não recebem nem um centavo dos cofres públicos e que não
podem nem receber heranças? N a verdade, a Igreja, que se to rn o u grande com
as perseguições, estava nessa época ainda vivendo essencialmente de suas própri­
as forças, enquanto a antiga seita, que desde o início havia estado ligada ao corpo
político iria, pela sua própria natureza, se fazer em pedaços sem o apoio público.
N aturalm ente, Ambrósio protestou tam bém contra a im agem supersticiosa
de um a suposta ira dos deuses e declarou, contrariam ente à sua maneira habitual,
que as vitórias políticas ou os desastres são com pletam ente independentes da
questão religiosa. E m um a interessante incursão histórico-teológica, ele descre­
ve o progresso com o sendo o poder real que m ovim enta a natureza e a história
e ridiculariza as queixas nostálgicas do senado romano. N a realidade, R o m a não
está nem senil e nem , com toda a certeza, envergonhada de fazer um a mudança
para melhor. “ Som ente isso eu antigam ente tinha em com um com os bárbaros:
que ainda não tinha chegado a conhecer a D eus” (Ep. 18, 7).
Ambrósio havia elaborado um a resposta que, sendo ao mesmo tem po uma
obra-prim a, era tam bém mais popular e vigorosa, em bora m enos apreciada e
polida em seus detalhes que o tão refinado trabalho de arte de seu oponente,
cuja emoção, oculta debaixo de tanta nobreza, deixava transparecer um encanto
especial. Sua resposta, porém , é mais poderosa e original no que deve ser dito, e
o que é realmente dito tem o apoio da força das convicções de um a fé deter­
minada que está totalm ente segura não som ente de si com o do poder vitorioso
de suas razões. Mais tarde, ele a representou com o sendo puram ente o fruto das
razões espirituais que haviam decidido o debate sobre essa questão. O jovem
im perador havia se levantado “ com o u m D aniel” contra seus conselheiros e
tom ado sua decisão sob o poder do Espírito Santo (Obit. Vai. 19). N o entanto,
pode-se sem dúvida atribuir essa atitude a um a idealização.
N a verdade, os membros do Conselho Privado devem ter decidido pela
aquiescência, pois não havia com o ignorar a ênfase com que Ambrósio se referia,
entre outras coisas, tam bém ao antigo vice-im perador Teodósio, cuja atitude
hostil para com os pagãos era suficientem ente conhecida (Ep. 17,12). Mas ele foi
ainda mais longe:“D e qualquer form a” , diz em sua prim eira carta aValentiniano,
“se uma outra decisão for tomada, nós bispos não podem os aceitá-la calmamen­
te ou mesmo ignorá-la. Você pode ir a um a igreja - mas não encontrará um
bispo dentro dela,ou se encontrá-lo, este irá rejeitá-lo” (Ep. 17,13).“N ão estamos
em posição de partilhar dos erros dos outros” (Ep. 17, 14). Isto significava uma
ameaça direta de excom unhão e, nesse m om ento, o governo não podia arriscar-
se a um a luta contra a Igreja e, menos ainda, a um a humilhação dos pagãos. N o
final, Ambrósio prevaleceu; porém a atitude das autoridades em relação a ele
tornou-se menos amistosa e, no ano seguinte, essa manifestação tornou-se ainda
mais evidente.
A última resistência contra a qual Ambrósio teve que lutar, isto é, a do
arianismo que havia se infiltrado ju n tam en te com os godos, foi virtualm ente
insignificante com respeito ao desenvolvimento eclesiástico com o um todo, pois
não tinha o suporte de qualquer im portante m ovim ento religioso e não possuía
nenhum a força popular. Os adeptos estrangeiros da malograda heresia dos“ilíacos” ,
que haviam se agrupado à sombra da pequena corte de Milão, não mais procu­
ravam, tal com o no passado, a liderança da Igreja; desejavam m eram ente alcançar
o direito de existência de seu grupo eclesiástico separatista, e para isto confiavam
inteiram ente no apoio do poder secular. Porém , é exatamente esse desejo que,
por outras razões, fez com que esse conflito tivesse se tornado im portante.
A luta da Igreja, durante os anos 385-386, representou um teste crucial para
sua estabilidade e para a perm anência do novo sistema que não mais tolerava
qualquer relaxamento ou rom pim ento de suas ordens dogmáticas. Aqui, portan­
to, encontram os o poder secular frente a um limite que na verdade, um a vez
estabelecido através de sua própria autoridade, não poderia mais ser ultrapassado.
Ambrósio era a personificação desse novo ordenam ento e o defendia perante a
coroa, levando-o im ediatamente aos supremos princípios teológicos e canônicos.
Eis, portanto, onde reside a sua perm anente importância.
Sem dúvida, os prim órdios do conflito não se originaram de um cenário
generalizado das políticas da Igreja, mas tão-som ente da ambição pessoal de uma
única personalidade, tem peram ental e acostumada ao dom ínio: Justina, a mãe do
imperador. Teológica e politicamente, a esposa deValentiniano I ainda vivia sob
o ponto de vista de um período anterior. Graciano, sob quem as mudanças havi­
am ocorrido, conservava intencionalm ente sua mãe afastada dos assuntos do
governo. Por ocasião da eleição do bispo de Sirmio já havia surgido um conflito,
e naquela ocasião Ambrósio saiu vitorioso. N o prim eiro período do reinado de
Valentiniano II, sua mãe teve necessidade de se conter, pois não era outro senão
o próprio Ambrósio, a quem teve de im plorar apoio em uma cena humilhante.
Agora, finalmente, Justina se sentia novam ente livre para fomentar, pelo menos
no am biente de seu próprio palácio, aquelas idéias eclesiásticas que lhe pareciam
mais corretas. M ercurino, seu capelão oficial de Ilíria, foi escolhido com o bispo
“antiniceno” de Milão, onde assumiu o im portante título de “A uxentio” .
O imperador, que era ainda um a criança, submeteu-se aos desejos da mãe e
a corte, tão indignada na época com o com portam ento ditatorial de Ambrósio,
preferia vê-lo humilhado. O pedido inicialm ente dirigido a ele, na primavera de
385, poderia ser considerado com o razoável; determinava apenas que uma pe­
quena igreja, situada fora dos muros da cidade, deveria ser colocada à disposição
de Auxentio. Lembramos que, alguns anos antes, Ambrósio teve que tolerar uma
atitude semelhante do im perador Graciano. N o entanto, os tempos desde então
haviam m udado e ele asperamente negou a solicitação. Ele sabia que a opinião
pública, isto é, toda a população cristã de Milão, partilhava de suas convicções e
perm aneceria firm em ente ao seu lado. Agora, pergunta, poderia ele com o sa­
cerdote de D eus entregar o seu tem plo aos lobos heréticos? Ele mesmo nos
descreve a cena dramática durante a qual a controvérsia se desenvolveu. Havia
recebido ordens para ir, pessoalmente, ao Conselho Privado negociar a transfe­
rência onde, no entanto, face a face com as autoridades, não se deixou confundir
e insistiu sobre a retidão de sua causa “com a firmeza de um sacerdote” .
D e repente, aconteceu u m tum ulto do lado de fora; o povo, ao ser inform a­
do dos procedim entos, invadiu o palácio e os guardas foram incapazes de detê-
lo! Todos estavam prontos para “ deixar-se matar pela fé em C risto” . A m edron­
tado, o im perador renunciou a sua ordem e o próprio Ambrósio, solicitado a
acalmar a multidão, concordou im ediatam ente e o fez com sucesso. Dessa forma,
o assunto parecia estar resolvido satisfatoriamente. Porém, Ambrósio se queixou
de que a desaprovação contra ele havia agora ressurgido mais forte que nunca
(Serm.Aux. 29). N em a im peratriz e nem o governo estavam dispostos a suportar
tal derrota, e a corte ausentou-se de M ilão p o r um longo tempo. O objetivo
principal era o de preparar um novo e m elhor ataque e, acima de tudo, de aparelhá-
lo com um a base legal e formal.
E m janeiro de 386 foi publicado u m edito im perial de rotina que conce­
dia o direito a todos os adeptos da fé de se reunir em assembléias públicas, tal
com o anteriorm ente foi decretado “ sob C onstantino, de abençoada m em ó ­
ria” , isto é, aos “antinicenos” . Aqueles, no entanto, que presum iam “ter o p o ­
der exclusivo de tal assembléia” foram , ao m esm o tem po, ameaçados de m orte
com o instigadores de revolta, com o destruidores da paz da Igreja e com o ul­
trajantes da majestade do im perador (Cód. Theod. X V I, 1 ,4). D e acordo com
isso, o governo parecia estar disposto a renunciar à unidade do Estado-igreja e
acrescentar a essa regulam entação inteiram ente nova sanções de cuja severida­
de nunca haviam ouvido falar quando comparadas a qualquer outra que tives­
se estado previam ente em vigor.
Foi bastante significativo que o funcionário devidam ente encarregado te­
nha se recusado a redigir a lei e, portanto, tenha sido despedido. N o entanto, esse
estranho decreto não deve ser considerado pelo seu valor de face. N a realidade,
ele havia sido publicado apenas para assegurar o desejado reconhecim ento p ú ­
blico de M ercurino-A uxentio e as ameaças exageradas da segunda etapa tam­
bém foram dirigidas a u m único hom em , isto é, Ambrósio, a quem pretendiam ,
com isso, intimidar. Mas ninguém poderia saber, então, até que ponto esse ataque
tão direto poderia realmente chegar. A m brósio sabia que, nessa situação, som en­
te a coragem e uma inflexível consistência poderiam salvar tanto a ele mesmo
quanto a sua causa. E m seguida, deu início aos preparativos apropriados.
A fim de não ter que se expor à tempestade causada sob sua única responsa­
bilidade, rapidamente reuniu alguns poucos bispos das regiões vizinhas, que com
admirável coragem ficaram a seu lado e solidariamente o encorajaram a perseve­
rar. Q uando um pouco antes da Páscoa a delegação im perial exigiu novam ente
a entrega, não mais da igreja afastada, p orém da nova e m aior basílica, Ambrósio
fez com que esta fosse ocupada pela m ultidão de fiéis, enquanto ele mesmo
refugiou-se na igreja que estava localizada do lado de fora dos muros. O entusi­
asmo da congregação foi m antido com sermões, discursos e hinos. Ambrósio
havia distribuído moedas de ouro entre os participantes que o apoiavam e depois
que - m uito contra sua vontade e suas ordens - um presbítero ariano foi sono­
ram ente espancado na via pública, rapidam ente nen h u m dos partidários de
A uxentio ousou novam ente aparecer em público.
A cidade toda, até as “gangues” de jovens, ficou ao lado de Ambrósio e
m esm o em presença dos soldados a m ultidão afluía em massa para a igreja. Esses
foram tempos experim entados p o r todos e cheios de um a alegria entusiasmada
e de um a prontidão generalizada para a luta e para o sofrim ento - inclusive,
dentre outros, por Agostinho - e que perm aneceram inesquecíveis para aqueles
que deles participaram. N o entanto, foram acontecim entos dos quais nunca se
falou durante os anos de declínio da antiga sociedade. C om o estão distantes
aqueles tempos em que a população de um a cidade podia ser convocada para
agir sob sua própria responsabilidade política!
O próprio Ambrósio era, naturalm ente, a alma e o centro da resistência, mas
absteve-se de exercer qualquer atuação pública. Ao contrário, fez com que o ato
“da congregação” fosse algo espontâneo. Declarou: “N ão fui eu quem levantou
a multidão. Acalmá-los, caso Ele assim o queira, é um assunto de D eus e não
m eu” (Ep. 20,10). N inguém estava disposto a resistir às medidas do governo caso
estivessem em vigor; porém , m enor ainda seria a possibilidade de considerar sua
aceitação ou de aprovar a injustiça.Várias vezes, Ambrósio havia lhes assegurado
sua disposição para qualquer form a de m artírio. Cristo deseja o sofrim ento de
seus discípulos e “ eu sei que qualquer coisa que eu tiver que sofrer, sofrerei por
am or a C risto” (Serm .Aux. 8). O im perador poderá fazer “ qualquer coisa que o
poder im perial estiver habituado a fazer, e estou disposto a aceitar tudo aquilo
que há m uito tem sido o destino dos sacerdotes” (Serm.Aux. 1).
Ambrósio entendia claramente que em sua situação tudo dependia de m an­
ter a luta dentro de um nível espiritual, pois, um a rebelião violenta traria resul­
tados desastrosos. Ao contrário, sua total disposição ao sofrim ento representava a
arma mais poderosa que tinha em seu poder. Eles nos censuram, dizia, com uma
atitude “tirânica” . M uito bem , “ então temos o nosso despotismo; a tirania do
sacerdote é sua fraqueza;“ Q uando sou fraco” diz o apóstolo (2 C o 12.10),“ en­
tão sou forte” (Ep. 20, 23). Ambrósio havia feito aqui um a descoberta quando
ele, com certeza erroneam ente, refere-se a Paulo. A resistência passiva, exercida
nessa ocasião em grande estilo e pela prim eira vez, irá de agora em diante per­
m anecer com o a arma mais im portante da Igreja em todas as controvérsias com
o poder secular. Era, na verdade, um a arm a que Ambrósio iria manusear com o
m uita prudência e que lhe abriria a possibilidade de um a propaganda pública,
mesmo na esfera do despotismo que mais tarde se desenvolveu em R om a. Po­
rém, essa arm a exigia da congregação que iria empregá-la um elevado grau de
energia moral e de disposição para fazer sacrifícios e dele, que desejava administrá-
la, um a fria determ inação e extraordinária coragem.
Além disso, Ambrósio não hesitava em pronunciar violentos ataques contra
os heréticos “que lutam de m odo com um contra o poder im perial” (Exp. Luc.
VIII, 17). A uxentio aparece com o u m bárbaro e cruel habitante de Cítia, seden­
to pelo derram am ento de sangue, desejoso de deslocar a igreja de um lugar para
outro com o se fosse um a caravana de ciganos (Ep. 20, 12); e aquela m ulher
violenta, a im peratriz, assumindo o papel de um a Eva tentadora, de uma Herodias
ou de um ajezabel.
Nessas circunstâncias, um ataque direto às igrejas ocupadas pelo povo era
totalm ente impraticável para o governo que, portanto, tentou um outro cami­
nho. Logo depois do D om ingo de R am os, o tribuno im perial Dalmatio veio até
Ambrósio e manifestou prim eiram ente sua surpresa de ainda encontrá-lo por
ali, já que há m uito desejavam bani-lo. E m seguida, convidou-o em nom e do
im perador para negociações a ser realizadas no palácio. O conflito com o antibispo
tinha que ser resolvido e A uxentio já havia escolhido seus juizes (evidentemente,
pessoas im portantes da corte e, entre elas, até mesm o alguns pagãos) e Ambrósio
tinha o mesmo direito. N o entanto, caso desejasse evitar tal tribunal de arbitra­
gem, teria permissão de abandonar a luta p o r sua própria decisão. A carruagem
estava pronta, poderia viajar com u m salvo-conduto e nem u m fio sequer de seu
cabelo seria tocado.
O governo estava agora determ inado e havia, obviamente, renunciado a
quaisquer medidas parciais. Tudo havia se tornado m uito claro: A mbrósio não
podia concordar com a oferta de sujeitar-se a um tribunal no palácio sem con­
siderar a sua causa com o perdida, assim com o tudo pelo que havia lutado desde
o início; e a própria proposta alternativa de um a retirada voluntária tornava este
fato bastante evidente. Mas, com o poderia evitar o aspecto de intransigência e de
desobediência declarada se não concordasse em fazer um acordo que parecesse
ser um justo compromisso?
Ele mais um a vez tom ou a sua pena e respondeu com uma de suas maiores
cartas políticas, diretam ente endereçada à pessoa do “m uito gracioso e abençoa­
do im perador Augusto Valentiniano” . Prim eiram ente, a situação e a ordem ju rí­
dica até então existentes são descritas em poucas e concisas linhas e para isso
Ambrósio se refere aValentiniano I com simplicidade e habilidade. Esse im pera­
dor, diz ele, sempre se recusou a ultrapassar os limites de sua autoridade política.
“E m assuntos sobre a fé, e sobre quaisquer problemas relativos à constituição
eclesiástica, o veredicto somente pode ser pronunciado por um a pessoa que seja
para isso nom eada em razão de seu próprio cargo, e que tenha legalmente a
mesma posição, isto é, som ente bispos poderão julgar bispos” (Ep. 2 1 ,2). N in ­
guém estava sendo obrigado a apoiá-lo - eles mesmos haviam se decidido a
favor de Ambrósio, com o seu legítimo bispo e por causa de sua fé (Ep. 2 1 ,6 fí).
N o entanto, Ambrósio não poderia em qualquer hipótese com parecer pe­
rante um tribunal de arbitragem que fosse estranho e político. Sob a sombra da
nova lei “antinicena” isso pareceria nesse m om ento um a farsa. A uxentio poderá
atuar com o bispo em um a cidade onde seja considerado com o tal, além disso, se
o im perador não fosse tão jovem , ele mesm o perceberia “que espécie de bispo
A uxentio poderia ser, que deixa aos leigos a decisão sobre a legitimidade de seu
sacerdócio” (Ep. 2 1 ,5 ).Tudo isso foi dito com a máxima reverência e o máximo
respeito pela majestade imperial. C onclui a carta com uma rápida recordação de
sua antiga atividade com o embaixador, dizendo: “N ão aprendi a representar no
C onselho Privado algo que não fosse de seu interesse. N ão sou u m cortesão e
não posso participar das intrigas políticas da corte” (Ep. 21,20).
C om o vemos, a inviolabilidade dos dogmas da Igreja estava agora estabelecida
e até suplementada com mais essa afirmação sobre a indispensável independên­
cia do clero e obtida a partir de sua estrutura jurídica. Esse foi o resultado essen­
cial da luta que a princípio havia se iniciado com o um conflito a respeito da
propriedade do prédio de uma simples igreja. O princípio não estava dirigido
contra a congregação com o tal, pois dentro daquelas circunstâncias seria possí­
vel, sem m uito trabalho, obter sua anuência à posição contrária. Portanto, não
haveria necessidade de um a lei divina especial com o prova, ou qualquer particu­
lar referência ao Antigo Testamento. O bispo deve ser simplesmente considerado
com o um a autoridade eleita e com petente que representa a sua Igreja. Caso, em
uma situação de emergência, seu direito à independência não seja respeitado,
então a “liberdade” da Igreja não passa de uma palavra enganosa e de um a ilusão.
Vista sob essa luz, a queixa eclesiástica contra o poder secular era não só neces­
sária com o consistente.
N o entanto, isso implica que a autoridade im perial tam bém havia sido
restringida pelo direito da Igreja. Essa é a segunda conseqüência da controvérsia e
que foi, com todo o vigor, estabelecida por Ambrósio. Ao imperador, ele diz, com
certeza pertencem os palácios, mas não as igrejas (Ep. 20, 19). C om o cristão, o
im perador perm anece dentro da Igreja, e não acima dela. N a Igreja os bispos
estão acostumados a governar sobre o im perador e nunca o im perador sobre os
bispos (Ep. 21,4). Portanto, se o im perador for designado com o “filho da Igreja”
—aqui Ambrósio inventa um a nova expressão que nunca mais será esquecida —
isso não será um insulto, mas um a honra (Serm.Aux. 36). Dessa forma, antes de
todos, Ambrósio ensinou e defendeu uma nítida e ocidental distinção dos “pode­
res” e ele o fez com plena consciência de sua fundamental importância.
Para ele, essas idéias eram projetadas sobre u m cenário ainda mais amplo.
Ambrósio não se contentava apenas em assegurar a independência da Igreja e
preferia, antes, um com pleto e generalizado controle moral e jurídico de tudo,
até do poder imperial. Foi-lhe dito, na verdade, “que tudo é perm itido ao im pe­
rador e que tudo perm anece ao seu dispor” (Ep. 20, 19) e, no entanto, essa
insidiosa afirmação é falsa. A própria pessoa do im perador está obrigada a m an­
ter a lei e nunca deverá, a não ser ilegalmente, trazer para debaixo de seu poder
até mesmo a mais hum ilde choupana. E o povo, se necessário, deverá suportar a
injustiça em tais casos, em bora não possa aprová-los (Serm.Aux. 33), enquanto os
direitos de D eus perm anecem com pletam ente inatacáveis e a obediência à fé
tem absoluta validade.
Basicamente, A m brósio ainda pensava com o u m republicano; enquanto
com preendia e defendia sua própria posição e responsabilidade na Igreja, de
acordo com a mentalidade de um antigo funcionário romano, da mesma forma
concebia a autoridade da m onarquia - em bora a m era existência desta já seja, até
certo ponto, um sinal de decadência política (Exam. V, 52) - seja ela despótica ou
“bizantina” ; de outro m odo se tornaria um a “tirania” . Alguém poderá dizer que
tam bém encontram os pontos de vista semelhantes em determinados lugares das
reminiscências clássicas e da tradição retórica; porém , desde o início eles foram
naturais em Ambrósio, com o um a conseqüência de sua aristocrática educação
romana e de sua ascendência. C ontudo, o fator decisivo representado pela serie­
dade de sua dem anda é que esse p o nto de vista foi agora apresentado em nom e
de D eus e com o suporte de seus mandamentos. N ão é sem razão que a história
da vinha de N abote (1 R s 21) consta na Bíblia.
Para o hom em da Igreja, a Palavra de Deus transpõe o ideal que não pode
estar ligado a um a verdadeira obrigação. “A lei de Deus ensinou-nos o que
devemos fazer; a lei dos hom ens não é capaz de ensiná-lo. Estas fazem com que
almas tímidas m udem o seu com portam ento p o r m eio da força; porém não são
capazes de fazê-lo para inspirar a fé” (Ep. 21.10). “ Confiando em Deus, não
tenho receio de dizer a vocês, imperadores, o que em m inha opinião é o certo”
(Ep. 57, 1). E, por detrás de tais afirmações, encontram os não só um a simples
convicção individual e particular, mas a realidade viva e social da Igreja.
N a quinta-feira santa do ano de 386, o governo decidiu abruptam ente ter­
m inar com esse conflito sem propósito. Calm am ente, e sem derram am ento de
sangue, as cores imperiais foram removidas da basílica inutilm ente sitiada, as
punições já decretadas foram canceladas e os prisioneiros foram libertados. N a
verdade, não havia mesmo outra saída. N o fim, mesmo os soldados a quem
A mbrósio havia apelado diretam ente em seus discursos deixaram seus postos e
se juntaram aos fiéis. Isso parecia o fim de um a em ocionante contenda, quando
algumas semanas mais tarde, durante a dedicação de um a recém -construída igre­
ja, foram encontradas as relíquias de dois “mártires” , dois gigantes decapitados,
“tais com o existiam nos tempos antigos” (Ep. 22,2).
Os restos mortais de Gervásio e Protásio foram transportados triunfalm ente
até a basílica, logo chamada de “Ambrosiana” , e lá foram solenem ente sepulta­
dos. E m seguida, os milagres e as curas, esperados p o r tantos, com eçaram a acon­
tecer. Ambrósio dirigia o culto, e seu sermão para esta ocasião conduziu o entu­
siasmo com um no sentido desejado:“Agora, todos podem ver: esses são os com ­
panheiros que escolhi... C onquistei estes hom ens para vocês, m eu santo povo,
para os ajudar, hom ens que são úteis a todos e não fazem mal a ninguém!...
Senhor Jesus, graças a Ti, que nesse tem po novam ente levantou o espírito pode­
roso dos santos mártires; hoje, mais do que nunca, a Igreja necessita de tua pro­
teção” (Ep. 22,10). Esta situação tão tensa não iria dem orar p o r m uito mais
tempo. U m a guerra civil entre os governantes do O cidente, e que Ambrósio
tentou em vão evitar, levou Valentiniano II a fugir. Após a derrota do usurpador,
o vitorioso Teodósio assumiu o controle de todo o im pério praticam ente sozi­
nho. D urante os anos que se seguiram, e após um período de extenuante coope­
ração com ele, o trabalho da vida de Ambrósio chegou ao fim.
Teodósio não era apenas um excelente general, mas tam bém soberano e
independente, e não possuía de m odo algum um a personalidade insignificante.
Foi o prim eiro im perad o r a adotar o ideal de Estado-igreja estabelecido
dogmaticamente, tal com o já havia sido introduzido no O riente. Essa política
estava, ao mesmo tempo, em conform idade com sua sólida piedade cristã. Po­
rém, as múltiplas necessidades do dia-a-dia obrigaram -no a proceder, também,
com flexibilidade e, quando preciso, a dem onstrar consideração para com os
grupos da oposição. Pessoalmente, Am brósio tinha um entendim ento próprio
de tais dificuldades. Apesar disso, no entanto, era inevitável que os interesses
políticos do im perador e os interesses eclesiásticos representados por Ambrósio
ocasionalmente entrassem em conflito, perturbando seu bom relacionamento.
C om o todos os seus contem porâneos, Ambrósio não reconhecia qualquer
separação entre a responsabilidade política e os deveres religiosos pessoais do
governante e, em todas as circunstâncias, considerava a proteção e o avanço da
Igreja com o uma obrigação da fé. Nos anos de 388 a 391,Teodósio residiu
principalm ente em M ilão e é fascinante acom panhar em detalhes o fluxo e
refluxo do relacionam ento entre esses dois hom ens durante o decorrer desses
anos. N o entanto, vamos nos restringir aos incidentes mais conhecidos e mais
im portantes.
Teodósio, com o novo senhor de R om a, foi logo confrontado com a questão
se deveria, novamente, conceder à cidade os proventos religiosos que haviam
sido cancelados, pois o senado, outra vez, encam inhara a antiga petição. “E u não
hesitei” , disse A m brósio,“ em expor m eu p o nto de vista, pública e im ediatam en­
te, perante o m ui gracioso im perador” (Ep. 57,4). Por causa de sua longa história,
o assunto se transformara em uma questão de prestígio eclesiástico, no qual a
aquiescência havia se tornado impossível. Ambrósio fez com que o im perador
compreendesse que, se necessário, estava resolvido a fazer tudo que fosse possível
e, ostensivamente, perm aneceu ausente do palácio durante alguns dias até que o
problem a fosse resolvido à sua maneira.
Ainda mais dramático foi o curso tom ado por outro conflito. N o Extrem o
O riente do im pério, o bispo de Calinico havia instigado u m tum ulto e perm iti­
do que bandos de monges ateassem fogo às sinagogas daquele lugar. Teodósio,
extrem am ente irado, prom eteu castigar devidam ente essa violação da paz públi­
ca e decretou a reconstrução dos edifícios às custas dos culpados. Porém, Ambrósio
manifestou novam ente seu protesto declarando que seria uma blasfêmia perm i­
tir esse triunfo aos judeus abandonados p o r Deus. “ O que é mais im portante, o
conceito da lei e da ordem ou a causa da religião?” A lei penal deve ocupar um
segundo lugar em relação aos m andam entos da fé (Ep. 40, 11; L C C , V, 233).
Vendo que Teodósio ainda estava hesitante, Ambrósio dirigiu-se a ele durante a
cerim ônia da adoração e perante toda a congregação ali reunida, dizendo que se
recusava a celebrar a reunião até que o im perador prometesse revogar sua ordem.
Teodósio, irritado, tom ou providências para que dali em diante Ambrósio não mais
recebesse qualquer informação sobre os trâmites do Conselho Privado (Ep. 51,2).
Porém , a presença de Ambrósio nem sempre esteve relacionada a u m papel
tão controvertido. H ouve casos, tam bém , em que exerceu o seu ministério mais
com o um verdadeiro pastor, e m enos com o u m político da Igreja, solicitando
formalmente ao im perador que governasse com o um “filho da Igreja” . A famosa
“penitência de Ambrósio” pertence a esta contexto. A fim de castigar o sangrento
levante ocorrido na cidade de Tessalônica, na M acedônia, Teodósio conseguiu
atrair ao teatro milhares de habitantes que de nada desconfiavam e ordenou aos
soldados que matassem a todos (390). M esm o em um período habituado a cas­
tigos extrem am ente cruéis, esta carnificina provocou um horror generalizado.
Embora tivesse se arrependido de sua ordem,Teodósio não conseguiu mais revogá-
la; era tarde demais. O fato já estava consumado.
Teodósio pertencia à congregação de Ambrósio - e qual seria sua atitude
frente a essa questão? Pois Ambrósio era bem conhecido p o r obedecer estrita­
m ente à obrigação de exigir penitência p o r causa de qualquer crim e cometido.
Será que um horrível assassinato em massa poderia ser perdoado p o r ter sido
com etido no exercício do poder imperial? N aquela época, a penitência era inva­
riavelmente um ato público e, no caso de u m assassinato, durava toda a vida, ou
pelo menos alguns anos. Inicialmente, Am brósio deixou passar alguns dias du­
rante os quais deixou M ilão e se assegurou da aprovação de seus colegas da
região. Em seguida, escreveu um a carta a Teodósio, de seu próprio punho, com o
fez questão de enfatizar, para que nenhum a outra pessoa pudesse tom ar conhe­
cim ento de seu teor. C om o sempre, esse escrito está constituído p o r detalhadas
considerações, cuidadosamente dirigidas à pessoa em pauta e é, caso se prefira,
um docum ento “político” . Porém , acima de tudo, existia a intenção de exibir o
significado religioso da própria ordem penitencial e de tornar teologicam ente
clara a impossibilidade de alguém se exim ir do m andam ento divino.
C o m profunda determinação, o rigor da “lei” e o consolo do Evangelho são
introduzidos de acordo com seu preciso relacionamento. Deus é misericordioso
e não abandona nenhum pecador; porém , Ele perdoa os pecados som ente quan­
do o pecador está realmente arrependido e disposto a suportar as conseqüências.
“ O pecado é retirado de nós somente por m eio das lágrimas e do arrependi­
m en to ” (Ep. 51, 11). N ada pode ser m udado nesta ordem divina. N ão era uma
questão sobre o que Ambrósio queria ou deixava de querer. “C o m certeza, eu
gostaria de gozar do favor imperial, e agir de acordo com seus desejos. Porém o
assunto não o perm ite” (Ep. 51, 15). “ Se o sacerdote não falar a verdade àquele
que está se desviando do caminho, este m orrerá em pecado e o sacerdote será
culpado por sua punição, por não ter admoestado aquele que errou” (Ez 3.8)
[Ep. 51,3]. N ão era uma questão de destruir a reputação imperial, pois o im pe­
rador tam bém é um ser hum ano e pode m uito bem cair em tentação. Agora ele
não deveria fazer nada mais do que aquilo que já havia sido feito há m uito
tem po antes dele pelo rei Davi, ou pelo poderoso e piedoso Jó. E se assim o
fizesse, iria elevar-se ao mesmo nível dos grandes santos da antigüidade, exata­
m ente com o Ambrósio se coloca entre os antigos profetas (Ep. 51,16). “Aquele
que se acusa quando peca é verdadeiramente justo, e não aquele que procura se
exaltar” . Se o im perador for um cristão, não irá tentar inutilm ente justificar seu
pecado (Ep. 51,15), e deverá decidir p o r si mesm o o que é m elhor para ele. N o
entanto, se recusar, daí em diante Ambrósio nunca mais poderá oferecer-lhe uma
dedicação na igreja.“ Siga-me, se você acreditar em mim! Eu digo; se você acre­
ditar, reconheça o que eu digo! Se não acreditar, perdoe-m e pelo que vou fazer
- pois devo dar toda a honra a Deus!” (Ep. 51,17)
As palavras usadas por Ambrósio eram perfeitamente claras. Ele estava amea­
çando o im perador de excom unhão, mas procurou fazê-lo sem transgredir a
obediência de um súdito, o que to rn o u m uito mais fácil ao im perador assumir o
passo mais amargo. Teodósio achava-se, agora, em uma situação desesperadora e,
portanto, capitulou. Mas parece não ter agido somente por obrigação; ao contrá­
rio, ofereceu tam bém um consentim ento interior à penitência e de boa vontade
assumiu-a sobre si com verdadeiro arrependim ento. E certo que, pelo menos
uma vez, ele apareceu sem as insígnias imperiais, com o um verdadeiro penitente
na igreja e, com o os costumes assim exigiam, confessou seu pecado perante toda
a assembléia da congregação.
Seus contem porâneos consideraram esse evento de forma diferente do que
mais tarde descreveu a lenda medieval, que distorceu o verdadeiro significado
para atender aos seus propósitos. N a verdade não houve qualquer submissão do
poder secular, nenhum triunfo do sacerdote sobre o governo, mas um incidente
espiritual e uma decisão de consciência p o r parte do imperador, que honrou a si
mesmo ao reconhecer a inviolabilidade dos mandamentos de Deus. Vista sob
esse aspecto, a penitência eclesiástica a Teodósio representa o estágio final do
processo de cristianização do poder imperial, iniciado com Constantino. Agora
a Igreja havia cessado de ser m eram ente o instrum ento, ou o beneficiário do
poder governante, pois, estando internam ente de posse desse poder, não podia
mais tolerar o desrespeito público aos seus princípios éticos, p o r m enor que fosse
a negação de suas ordens dogmáticas.
Esta penitência eclesiástica serviu, inclusive, para reunir novam ente as pesso­
as de Ambrósio e Teodósio. Q uando o im perador m udou-se, outra vez, para o
O riente, em 391, Ambrósio perm aneceu na Itália com o seu mais confiável de­
fensor e não o desapontou, pois logo em seguida surgiu na Gália um usurpador,
um desconhecido para Teodósio, que im ediatam ente procurou m anter contato
com Ambrósio e conquistá-lo para si. E m uito interessante observar a maneira
como, calmamente e sem levantar suspeita, Ambrósio foi capaz de se evadir de
todas as tentativas de aproximação e somente apresentou uma rejeição declarada
quando teve condições de dar-lhe suporte eclesiástico. Mais tarde, Ambrósio
refugiou-se em Florença para fugir a um encontro pessoal com o usurpador, que
havia então marchado contra Teodósio, e durante u m ano inteiro ficou ausente
de sua congregação em Milão.
Foi um hom em cheio de felicidade que se apressou a encontrar Teodósio,
que havia saído vitorioso, e foi com suas súplicas que procurou obter clemência
para o vencido. Além do mais, o im perador declarou publicam ente que foi salvo
“pelos méritos e pelas orações” de seu bispo ( Vita, 31). Q uando logo depois
faleceu, foi Ambrósio quem realizou a cerim ônia fúnebre. Nesse ponto ele, mais
uma vez, celebra a im agem do falecido governante com o m odelo de u m prínci­
pe verdadeiramente grande e piedoso e, nessa ocasião, não perde a oportunidade
de transferir a lealdade dos soldados a seus filhos. Algumas semanas depois foi
publicado um edito pelo qual os novos regentes explicitamente asseguravam sua
determ inação de não retirar qualquer direito da Igreja e de, no futuro, aum entar
ainda mais seu respeito p o r ela e da m elhor form a que lhes fosse possível.
Ambrósio poderia finalmente achar que tinha atingido o objetivo em dire­
ção ao qual, com o um político da Igreja, havia se em penhado durante todo o
decorrer de sua vida. A partir desse m om ento vamos encontrá-lo em atividade
contínua e infatigável com o pregador e professor, com o escritor teológico e
com o conselheiro escrupuloso a quem todos procuravam, até os que v i n h a m de
longe para vê-lo. Seu secretário Paulino, que mais tarde pressionado p o r Agosti­
nho escreveu sua biografia, nos assegura que cinco bispos não seriam suficientes
para administrar todas as instruções sobre o batismo com o fez Ambrósio, sozi­
nho, no decorrer de sua vida. E m retorno à sua casa, depois de ter ido ao exterior
para consagrar um bispo, contraiu uma doença fatal. Aconselhado a orar p o r sua
recuperação, Ambrósio recusou: “N ão vivi entre vocês de tal form a que tivesse
que m e envergonhar po r viver mais tem po; e tam bém não tenho m edo da m or­
te porque temos um bom Senhor” (Vita, 45).
C o m uma voz quase inaudível fez as últimas recomendações. O “bom ve­
lh o ” Simpliciano, que o havia ensinado antes de ser batizado, deveria ser o seu
sucessor. Ambrósio viveu suas últimas horas em oração silenciosa e com os bra­
ços estendidos em forma de cruz; faleceu logo após ter, pela última vez, recebido
a Ceia do Senhor, no dia 4 de abril de 397, e foi sepultado na basílica de Ambrósio.
Acredita-se que, nessa ocasião, o poderoso Stilichio tenha dito que a m orte desse
grande hom em marcaria o início do declínio da Itália. Ambrósio foi poupado
de vivenciar a queda do im pério, que desde os prim eiros anos havia sido o seu
m undo e ao qual, com o bispo, havia servido à sua própria maneira. Som ente a
Igreja do im pério, com o havia sido estruturada e construída p o r ele, ainda per­
maneceria em um m undo tão cheio de transformações.
Q ualquer um que pretenda com preender e julgar Ambrósio não deve negli­
genciar a básica inclinação, prática e política, de sua natureza. Ele sabia que havia
sido chamado por Deus para cuidar dos direitos e dos interesses de sua Igreja; ele
cum priu essa obrigação com naturalidade, exatam ente com o qualquer estadista
ou funcionário faria em relação ao Estado e, na verdade, não encontrou nenhum
problema. Por outro lado, seria um erro considerá-lo com o político que era,
com o às vezes acontece, acidentalm ente arrastado das coisas do Estado para a
Igreja. Os objetivos que realmente ambicionava alcançar, e que internam ente o
definiram, não se encontravam nos im périos deste mundo. Ao contrário, foram-
lhe concedidos moral e espiritualmente. Todas as vezes que louvava a glória da
Igreja —e isso aconteceu com m uita freqüência—Ambrósio não estava pensando
em sua estrutura visível ou na sua constituição, mas em sua misteriosa natureza
espiritual. A Igreja é a noiva de Cristo, a cidade santa de D eus e o tesouro dos
povos que vive, ao mesm o tem po, na alma de cada hom em piedoso. Sua organi­
zação nunca poderá ser com parada à do Estado, pois os povos da igreja não
form am um a nação, tal com o os egípcios, os judeus e os árabes, e sua natureza
som ente poderá ser entendida através de sua adoração.
Sob Ambrósio, a Igreja de M ilão alcançou um a vida litúrgica ainda mais
rica. E m seus sermões e em seus escritos ele se alegrava em explicar o significado
dos diferentes costumes; além disso, era um teólogo fecundo dos sacramentos e
das coisas sagradas. Foi o prim eiro sustentáculo definitivo de u m ensinam ento
misterioso relacionado à Santa C om unhão, o qual nunca desenvolveu perante
aqueles que considerava com o tendo ouvidos profanos.
N o entanto, a Igreja não existe m eram ente em função dos “m istérios” . Aci­
ma de tudo, ela deve proclamar a fé e ensinar ao povo a conhecer a santa vontade
de Deus. Deus nos redim iu através de Cristo e perdoa nossos pecados. Ele requer
que perdoem os da mesma form a que Ele nos perdoa, e, com o cristãos, conduza-
mos nossa vida dentro de um a rígida disciplina e santificação. A Igreja e os
cristãos têm , tam bém , um a tarefa social; devem ajudar a todos os oprim idos do
m undo a obter seus direitos e a aliviar o infortúnio dos pobres da m elhor m anei­
ra possível. Os ricos são continuam ente aconselhados a exercer a caridade, e o
próprio Ambrósio foi um bom exem plo desta prática. N os tempos difíceis da
invasão gótica, e sem qualquer hesitação, ele m andou fundir os preciosos vasos
da igreja, sem se im portar com quaisquer críticas maldosas (de Off. II, 28, 136).
Os pobres representam o verdadeiro tesouro da Igreja, e não é necessário que ela
mesma seja rica. D e acordo com as palavras de Jesus, o prim eiro dever de um
cristão é ajudar seus próprios pais; e o segundo, os pobres. Somente depois, em
terceiro lugar, o sacerdote poderá receber seu quinhão. Pede-se misericórdia e
não sacrifício (Exp. Luc. VIII, 79).
E m relação aos cânones da lei, Ambrósio era episcopal, com o todos os antigos
Pais da Igreja; ou seja, o bispo eleito pelo povo é o supremo pastor de sua congre­
gação e com o tal coopera com os bispos de sua área e reconhece, sem questionar,
as decisões comuns dos sínodos. E m princípio, não tem nenhum prelado ou pa­
triarca acima dele com o senhor. Até Ambrósio, com o bispo da prim eira cidade do
norte da Itália, exercia autoridade moral sobre os demais bispos e deliberava com o
bispo de R om a em termos de completa igualdade. A Igreja romana foi, certamen­
te, o foco central de toda a unidade e com unhão eclesiástica em todo o mundo,
porém, isso não implica uma primazia jurídica. “Eu desejo”, dizia Ambrósio refe­
rindo-se à cerimônia do lava-pés, bastante com um em Milão, “seguir a Igreja
romana em todos os pontos. Nós também temos um sólido bom senso, e o que
outros lugares fizeram bem por manter, tam bém o faremos” (de Sacr. III, 1,5). Em
última análise, Pedro somente fez a prim eira confissão a Cristo (Mt 16.16) e, apesar
de seu poder, nunca reivindicou qualquer supremacia: “Ele exerceu a primazia da
fé e não a primazia da ordem jurídica” (de Incarn. 4, 32).
O docum ento clássico da concepção de Ambrósio sobre o ministério é o
seu trabalho Sobre os Deveres dos Servos da Igreja ou, simplesmente, Sobre os Deveres,
originado dos discursos feitos a seus “filhos” espirituais, isto é, o clero de Milão,
e está mais intim am ente ligado, em sua construção e linha de pensamento, aos
trabalhos feitos por Cícero com o mesm o nom e e dos quais copiou, quase que
literalmente, resumos de páginas inteiras. C o m o a ética filosófica de Cícero esta­
va dirigida aos estadistas e aos cidadãos romanos, da mesma form a a “ética” dos
cristãos, representada pela prim eira vez neste livro, tem o propósito de servir, de
forma semelhante, com o uma ética vocacional, com o um a educação para a vir­
tude e com o um manual para o ofício dos clérigos. U m hom em da Igreja deve,
em todos os aspectos, fazer o que é decoroso, útil e justo e ter um a aparência
séria e digna. O hom em de D eus não pode ter um com portam ento “popular” ;
“pois, com o poderá ele m anter o respeito do povo se não possui nada que o
possa distinguir da multidão?” (Ep. 28,2)
Exemplos históricos antigos foram substituídos por outros, cristãos e bíbli­
cos, especialmente do Antigo Testamento, mas ainda perm anece surpreendente
com o esse livro é agora apresentado com o “cristão” , diferenciando-o de seu
m odelo filosófico. Ambrósio estava tão profundam ente envolvido na tradição
clássica que não percebeu seu próprio relacionam ento com ela. Apesar disso,
podem os sentir, nas pequenas variações e nas adições aqui e ali o surgim ento de
um novo espírito, que internam ente m uda a sua herança. O D eus Supremo não
é mais considerado com o um a virtude, mas com o um a bênção eterna, que en­
contraremos no futuro e com quem estaremos em com unhão. Suas promessas se
encontram no início dos ensinamentos sobre o dever, da mesma form a com o as
“Beatitudes” introduzem os mandamentos do Sermão da M ontanha.
A alma, que é a sede da vida real do hom em , está mais e mais diferenciada do
corpo e do m undo das coisas visíveis. U m a dissertação especial, que vai além de
Cícero, está envolvida com o valor do silêncio. Até onde sabemos, Ambrósio foi
a prim eira figura da antigüidade que não lia mais os livros em voz alta, mas em
silêncio e meditação. N a verdade, tinha um a voz fraca que protegia p o r meio
dessa prática; no entanto, sob este novo exercício que havia inaugurado estava
escondida uma profunda m udança na compreensão literária e um prazer inte­
lectual generalizado.
Essas diferenças, consideradas com o “não clássicas” , de percepção e de estilo
intelectual, e que apontam para a Idade M édia, não devem ser im ediatamente
entendidas com o cristãs e apenas representam um sintoma generalizado da épo­
ca; no caso de A m brósio, seriam p rovavelm ente devidas às influências
“neoplatônicas” . Porém o pensam ento religioso não fica satisfeito com uma
“ espiritualização” generalizada da vida e do mundo. A força do desejo de uma
salvação pessoal transcende o nível filosófico da consciência e lança mão das
declarações da Bíblia sobre Cristo com o a realidade viva e verdadeira que redi­
me e salva o hom em . E precisamente o questionam ento tradicional, psicológico
e antropológico da antiga teologia latina, que aqui se levanta sobre a solidez de
seu moralismo e de sua legalidade.
Ambrósio assimila alguma coisa do que realmente significa liberdade de espí­
rito, fé, graça e a morada de Cristo naqueles que são fiéis. A vinda de Cristo ao
m undo seria inútil se Ele não viesse, também, para dentro dos corações “e vivesse
em mim, e falasse em m im ” (Exp. Luc. X, 7). Cristo deve habitar nos sentidos
humanos, para que não somente os pecados desapareçam deles, mas também o
desejo de pecar (Exp. Ps. cxviii, IV, 26). Deus torna a vontade receptiva e pronta
para o bem (Exp. Luc. 1 ,10). Portanto, “N ão vou me vangloriar por ser justo, mas
sim porque estou salvo. N ão vou m e vangloriar porque estou livre dos pecados,
mas porque meus pecados foram perdoados” . Cristo, que m orreu por mim, é
também o m eu intercessor. “A culpa trouxe mais bênçãos do que a inocência; a
inocência me fez orgulhoso, porém a culpa me subjugou novam ente” (Jac. vi, 21).
Basta apenas comparar essas palavras com quaisquer das afirmações de Cipriano
para perceber imediatamente quantas descobertas espirituais foram feitas desde seu
tem po e quais novos e poderosos desenvolvimentos foram colocados em ação.
Ambrósio havia realmente lido os escritos de Paulo, e já nos colocamos
próxim os a Agostinho, apesar de term os aqui apenas algumas elocuções isoladas.
O novo conceito não apresenta u m programa teológico para Ambrósio; anun­
cia-se apenas involuntariam ente e perm ite que todas as concepções tradicionais
possam com ele coexistir. N o entanto, através destes próprios meios, percebe­
mos que representa um caso de genuína experiência cujo poder reside dentro da
alma para tocar e m udar a verdadeira vida religiosa.
Ainda hoje nos aproximamos de Ambrósio através de seus hinos. Em bora a
melodia original dificilmente possa ser reconstruída, esses versos ainda falam
distintam ente da natureza e da piedade desse hom em . Pois Ambrósio foi um
poeta, certam ente não um poeta na mais m oderna e significativa acepção da
palavra; e nem escreveu poesia no sentido da arte formal de sua época. Porém,
ainda assim era um poeta genuíno, com uma originalidade quase clássica na
m aneira com o harm oniza a tarefa e a sua realização, a form a e o conteúdo de sua
mensagem. Os hinos são as canções da congregação.
Aqui, pela prim eira vez, o sentim ento espiritual da antiga Igreja latina ad­
q u iriu um a expressão adequada, grandiosa e forte. D e agora em diante,
“am brosiano” significa um a nova form a de estilo poético que inaugurou o estu­
do dos hinos eclesiásticos da Idade M édia. Supõe-se que os prim eiros hinos
tiveram sua origem nos dias de opressão, durante as lutas da Igreja no ano de 386,
quando a tarefa era reunir o povo nas igrejas sitiadas e fortalecê-lo espiritual­
m ente através destas “melodias mágicas” . O m odelo para essa inovação foi, pro­
vavelmente, o canto congregacional das igrejas gregas e sírias, e que já existiam
há m uito tempo.
Ambrósio, no entanto, foi bem -sucedido naquilo que Hilário, um hom em
de notável talento poético, havia tentado em vão antes dele. Ambrósio conse­
guiu reproduzir, dentro do caráter do povo e do espírito da linguagem eclesiás­
tica latina, o pensam ento simples e genuíno das pessoas e o gênio com pletam en­
te diferente do O riente. Q uanto à forma, os hinos são constituídos p o r perfeitos
versos clássicos, distribuídos em estrofes de quatro linhas para evitar qualquer
complicação, e assim a força natural da palavra coincide regularm ente com a
acentuação do verso. C om o os pilares de um a espaçosa e ensolarada basílica, as
simples estrofes se associam em um ritm o contínuo e expressam aquilo em que
a congregação acreditava e o que sentia. O reconhecim ento da Trindade de
D eus está com binado com diferentes temas bíblicos e harm oniza-se com a ex­
periência da hora do dia e da correspondente mudança de sua iluminação.
U m a força e um a simplicidade maravilhosa estão presentes nesses hinos. E
foi u m hom em , com a envergadura de Agostinho, que nos descreveu com o a
simplicidade destes versos foi capaz de infundir, após o batismo, um a nova e doce
felicidade aos corações inquietos (Conf. IX, 6). Após a m orte de sua mãe, a dor
intensa encontrou alívio ao liberar as lágrimas p o r m eio da harm onia do hino
vespertino de Ambrósio:

Artífice de todas as coisas, altíssimo Deus,


Grande soberano do céu estrelado,
Q ue veste o dia com luz de formosura,
E trajou a noite com suave repouso.

Q ue o sono possa recuperar meus membros cansados,


E deixá-los prontos outra vez para a labuta,
E possa gentilm ente acalmar o seio aflito,
E embalar nossas mágoas aflitas no repouso.

Te agradecemos pelo dia que se foi;


Oram os a T i agora que a noite chega;
Ajude-nos; somos pecadores que levantam
A T i nosso hino votivo de louvor.

Para T i nossos corações trazem sua música;


A Ti, nossos louvores cantam em uníssono;
A T i se eleva a nossa arrebatada afeição,
E a Ti nossas almas purificadas adoram.

Assim, quando partem os raios de luz do dia,


E nas sombras da noite desaparecem,
N ão perm ita que a fé conheça o extravio da escuridão
E que possa com a noite brilhar resplandecente.

Os inquietos, tenham sempre em mente,


Q ue o pecado os conserva em sono perene!
D eixem a fé renovar sua pureza
E mitigar o orvalho letárgico do sono

Livres de toda paixão carnal


Possam nossos corações repousar em Ti!
N em os invejosos inimigos, com laços do mal,
C om partilhem o nosso repouso com o terror do pecado

Cristo, sempre um com o Pai,


Espírito! O Pai e o Filho,
Deus sobre todos, o poderoso dom ínio,
Proteja-nos, grande Trindade, nós te suplicamos.

D e m odo incidental, Ambrósio é o único Pai da Igreja de quem ainda pos­


suímos um retrato. Ele é extrem am ente expressivo e não idealizado e pode, com
toda a razão, ser considerado com o “ autêntico” . É um mosaico com seu nom e
na capela da basílica Ambrosiana dedicada a seu irm ão Satiro, que foi feito no
início do século V; portanto, apenas alguns anos após sua morte.
D iante de nós se encontra um a figura delgada e esbelta, vestida com uma
longa túnica e um m anto simples mas elegante, de um hom em distinto (ainda
não havia um traje especial para clérigos). O rosto,ligeiram ente inclinado,longo
e não com pletam ente simétrico (um exame de suas relíquias confirm ou um
pequeno deslocamento do olho esquerdo), está em oldurado p o r um cabelo cor­
tado rente, enquanto acima de lábios túrgidos e de um queixo quase invisível
pode-se perceber um pequeno bigode. A expressão caracteristicamente distante
e quase melancólica de seu rosto pode ser totalm ente identificada nos olhos
bastante abertos; o seu olhar penetrante parece estar fixo na assembléia de sua
congregação. N o entanto, esse olhar profundam ente calmo e severo está dirigido
através da congregação para o além e para o infinito.
N aturalm ente, não podem os agora descobrir o quanto a vida interior desse
quadro é capaz de reproduzir a genuína lembrança histórica e o quanto foi,
talvez, baseado num a interpretação artística posterior. D e qualquer forma, este
quadro reproduz Ambrósio mais fielmente do que as inúmeras imagens sensacio­
nais dos últimos tempos, que glorificam o orgulhoso príncipe da Igreja em M i­
lão, ou o seu erudito bispo.
J e r ô n im o

f gravura de Dürer, intitulada “Jerônim o e seus estudos”, é bas-


\ I tante conhecida. N ela podemos observar um aposento confor­
tável e bem mobiliado, próprio de um sábio, e a figura de um
velho, que em atitude de silêncio e total concentração escreve em um livro à luz de
sua lamparina, sem se deixar perturbar por um ofegante cãozinho e pelo ronronar
de um leão, aquecido pelo sol tépido que vem de uma clarabóia logo acima dele.
Todo esse conjunto deixa transparecer a imagem de uma paz interior e exterior e
de uma perfeita harm onia entre o trabalho do sábio e sua verdadeira tranqüilidade
espiritual. Porém, esse não é o retrato histórico de Jerônimo. Ele foi realmente um
sábio e um teólogo, mas as imagens barrocas, agitadas e turbulentas que reprodu­
zem esse velho “penitente” postado à entrada de uma gruta nos oferecem, nesse
caso, uma idéia m elhor do verdadeiro temperam ento desse hom em , embora o
cenário externo seja aqui também bastante típico de sua personalidade.
Som ente durante um período m uito curto de sua juventude Jerônim o ten­
tou viver com o um eremita, mas logo desistiu, pois, a despeito de seu zelo ascético
e de seus interesses eruditos, nunca foi realmente capaz de virar as costas ao
m undo que o rodeava. Im petuoso e ansioso por granjear reconhecim ento pro­
curou a estima, os aplausos e a reação dos demais, ainda mesmo quando pensava
desprezá-los, e derramava sobre eles sua reprovação. Jerônim o estava sempre ocu­
pado consigo mesmo; não conhecia paz interior e fazia inimigos em toda parte,
aos quais perseguia com furiosa indignação e ódio pessoal. N o entanto, as fra­
quezas de seu caráter sempre se manifestavam ao lado de suas magníficas quali­
dades. Esse detalhe já havia sido observado pelos seus contem porâneos e, até
hoje, seus biógrafos encontram m uita dificuldade ao descrever sua vida sem in­
troduzir qualquer apelo polem ico ou apologético. Se for nosso intuito compre-
ender o interesse e a im portância histórica desse hom em , assim com o a influên­
cia que exerceu, devemos suspender qualquer juízo teológico ou moral.
Jerônim o foi um a criança com o qualquer outra que viveu em seu tem po e
em seu país. N a segunda m etade do século IV uma nova vida intelectual com e­
çava a se agitar em todo o norte da Itália. N ão foi som ente por causa da influên­
cia de Ambrósio que, em toda parte, pregadores, teólogos e escritores retom aram
de suas penas em áreas onde o cristianismo havia até então deixado de revelar
qualquer significado intelectual, ou cujo significado era aparentem ente bastante
reduzido. Podemos observar com o a situação se alterou após a conversão de
Constantino, pois novas possibilidades eclesiásticas e culturais estavam agora
favorecidas pelo Estado, dentro de um ordenam ento cristão.
Jerônim o nasceu por volta de 347, na até então desconhecida e pequena
cidade de Strido (n), nos remotos confins da Itália que faziam limite com a
Dalmácia ou, m elhor dizendo, ainda mais para o sudoeste, isto é, na própria
Dalmácia. A população desse local não estava interessada em assuntos intelectu­
ais, e m enos ainda em espirituais. C om o o próprio Jerônim o explica: “seus deu­
ses estão em seus estômagos” . Q ualquer um que fosse rico era tam bém considera­
do com o piedoso e o bispo era “exatamente a tampa que alguém poderia esperar
para esse pote” (Ep. 7, 5). Seus pais pertenciam a este m undo e, de acordo com
todas as aparências, eram pessoas absolutamente comuns, prósperas e bons cristãos;
no entanto, não proporcionaram a seu filho nenhum estímulo mais sério.
Depois de aprender a ler e escrever e de adquirir conhecim entos de aritm é­
tica, decidiram enviá-lo a R o m a para obter um a educação superior e fazer car­
reira em um a ou outra profissão secular. Aparentem ente, Jerônim o estava total­
m ente de acordo com essa decisão e, ju n to com um colega de escola, foi a
R om a, onde recebeu os costumeiros ensinamentos. M esmo depois de adulto, a
época de estudante voltava à sua m em ória em pesadelos, pois tinha que postar-se
vestido com uma toga diante do professor e, com o parte de seus exercícios de
retórica, proferir um discurso. C hegou a ouvir nesse período o grande gramático
D onato e os advogados dos tribunais públicos e, despreocupadamente, tomava
parte nas brincadeiras e diversões de seus colegas.
N o entanto, foi nesse tem po que deu início à formação de sua tão estimada
biblioteca de autores clássicos latinos. Podemos supor que, desde tenra idade,
Jerônim o foi um leitor diligente e incansável, possuidor de uma m em ória adm i­
rável; mesmo na velhice podia citar sem qualquer esforço Virgílio, H orácio e
muitos outros poetas. Tam bém lia Q uintiliano, Sêneca e vários outros historia­
dores; mas para ele, assim com o para Lactâncio, o incomparável Cícero foi o
verdadeiro professor e m odelo do m elhor estilo.
N os últimos anos de sua vida, às vezes lamentava a form a com o freqüente­
m ente deixou-se levar pelos enganosos caminhos de uma juventude vã e peca-
dora; porém , essa observação não nos surpreende vindo de um ascético conver­
tido! Jerônim o tinha um a m ente receptiva e ansiosa para tirar o m elhor proveito
de sua existência e seus escritos mais tarde nos dão uma suficiente indicação de
que estava bem familiarizado com as tentações do lado sensual da vida. N o
entanto, não existe uma verdadeira razão para levar m uito a sério esse lado re­
trospectivo de suas generalizadas afirmações. Ao mesmo tempo, a vida eclesiás­
tica de R o m a o havia deixado grandem ente impressionado. A rica congregação
não mais ocupava uma posição de obscuridade, e im ponentes edifícios e palácios
davam testem unho do início de um a R o m a cristã. Jerônim o participava com
satisfação dos magníficos e b em freqüentados cultos, e tam bém visitava as
catacumbas fora dos portões da cidade que, em bora ricas em memórias, estavam
naquela época um pouco negligenciadas. Parece que todos os amigos com os
quais se associava, Pamáquio, R u fin o e outros, inclinaram-se depois para uma
vida profundam ente cristã e ascética.
Ao final de seus estudos, quando tinha aproximadamente 19 anos, Jerônimo
decidiu receber o batismo juntam ente com o seu amigo de escola chamado Bonoso.
C om o vimos no caso de Ambrósio, isso não era com um para um jovem com ambi­
ções na esfera da vida pública. E m 367, o estudante de vinte anos de idade iniciou
uma longa viagem à Gália e acredita-se que tenha tido a intenção de solicitar uma
bem remunerada posição em Trèves, a capital imperial. N o entanto, ele estava
então interessado na literatura clássica, teológica e eclesiástica, e experim entou em
Trèves sua primeira conversão, quando renunciou à carreira secular decidindo
dedicar-se inteiramente à meditação religiosa e ao trabalho espiritual; induziu tam­
bém o fiel Bonoso a consagrar-se da mesma maneira ao serviço de Cristo.
Seria um engano, porém , se víssemos em tal decisão o ideal monástico, se­
gundo a acepção posterior desta palavra, ou mesmo se presumíssemos um a crise
interior. Jerônim o, com o cristão, estava então se com prom etendo com um a nova
form a de vida intelectual e, até certo ponto, tam bém espiritual, que para ele não
significava “pobreza” nem “ obediência” ou até uma estrita subordinação. Ao
contrário, iria apenas proporcionar-lhe uma independência pessoal e tranqüila
de seus estudos e diversões intelectuais, além da alegria da amizade e o intercâm ­
bio de interesses comuns. D e qualquer forma, isso é o que parece ter acontecido
em razão do m odo com o as coisas aconteceram posteriorm ente. Foi uma típica
m udança de carreira, freqüentem ente observada em outros casos no decorrer
daquelas décadas, pois para u m hom em com tamanha atividade intelectual, a
atividade política havia se tornado algo com pletam ente sem interesse.
Da mesma forma, as atividades norm ais das escolas e academias tam bém
pareciam formais e desprovidas de atrativos, pois não mostravam sinal de qual­
quer impulso vital para novos ideais. Tudo era diferente no reino da igreja e de
sua religião, pois tendo repentinam ente alcançado reconhecim ento e influência,
o novo credo iria agora necessitar, em toda parte, de hom ens dispostos a assumir
as novas funções que lhe haviam sido impostas, a preservar seus recursos internos
e levar adiante e dar uma nova vida às tradições espirituais que possuía. Alguns,
com o Ambrósio, iriam dedicar-se inteiram ente ao serviço da administração ecle­
siástica. Para outros, novas possibilidades e tarefas “interiores” haviam se revelado
e aguardavam apenas ser compreendidas, a fim de conduzirem a uma vida mais
elevada e plena de liberdade e de significado perante D eus e os homens. Nessa
época, as ofensas, as frustrações e o desprezo que anteriorm ente haviam ameaça­
do os cristãos haviam desaparecido para sempre. Jerônim o, com o escritor cristão,
santo e sábio, não precisava perm anecer solitário ou im produtivo; ao contrário,
poderia contar com o reconhecim ento generalizado e a admiração se, de agora
em diante e orgulhosamente, proclamasse que somente servia a Cristo e que
desejava seriam ente assumir a sua verdade. Ao tom ar essa decisão ele se tornou
um amparo e um exemplo para a Igreja e para o mundo.
Após uma estadia m uito curta em sua cidade natal J e rô n im o descobriu em
Aquiléia a sociedade e o am biente que procurava. N a casa do sacerdote Crom átio
encontrou novam ente seu velho amigo R ufino, e tam bém um grande núm ero
de clérigos interessados no ascetismo, com os quais iria em breve conviver em
um am biente de animada amizade espiritual. Anos mais tarde, casualmente, ela­
borou um m em orial para seus amigos em sua crônica, através de um a anotação
feita no ano de 373, na qual dizia que os clérigos de Aquiléia pareciam um coro
de anjos. Tam bém estabeleceu relações com a cidade vizinha de C oncórdia e
com um a com unidade de devotas e ascéticas mulheres de Laibaque. Infelizmen­
te, não temos conhecim ento detalhado desses anos, mas podem os supor que
todos os elementos, que mais tarde encontraremos novamente na vida de Jerônimo,
já haviam sido reunidos, isto é, o cultivo com um de interesses ascéticos e teoló­
gicos, o intercâm bio com amigos com idênticas convicções e a piedosa admira­
ção dedicada às mulheres de inclinação espiritual - tudo talvez ainda dentro de
uma im aturidade juvenil, mais prim itiva e provinciana do que mais tarde.
Essa fase da sua existência term inou, tal com o muitas vezes sucedeu nos
períodos que se seguiram, de form a não m uito pacífica e com disputas e contro­
vérsias pessoais. N ão sabemos de onde veio o “furacão repentino” que destruiu
quase todo o seu círculo de amigos; pode ser que seu consciente zelo ascético
tenha perturbado os membros de um a igreja ainda não totalm ente acostumada a
este com portam ento, ou talvez tam bém os clérigos superiores. N a realidade,
Jerônim o não foi o único a ser afetado, porém sentiu-se ainda mais vergonhosa­
m ente difamado do que os outros. Até em Laibaque os devotos haviam se afas­
tado dele; e o bom relacionam ento que tinha com seus pais e parentes, que talvez
não tivessem ficado bem impressionados com a mudança de carreira de seu filho,
estava então inteiram ente arruinado. O fato de Jerônim o ter sido bem -sucedido
em despertar na sua irm ã mais nova o entusiasmo pela vida ascética, e de tê-la
conduzido sob a influência de um am igo diácono, pode ter sido u m fator que
contribuiu para esta reação adversa. Ainda temos em nosso poder um a carta
repleta de citações da Bíblia com a qual procurou apaziguar uma tia indignada -
evidentem ente em vão. Depois desse episódio,Jerônim o nunca mais m encionou
seus pais e jamais os viu outra vez.
O jovem gênio ascético, para quem o solo nativo havia se tornado demasi­
adam ente perigoso, decidiu então viajar para o O riente (373-374).Jerusalém e a
Terra Santa haviam se tornado o objetivo de inúmeras peregrinações, e qualquer
um que desejasse distinguir-se na prática da santidade poderia encontrar nos
desertos da Síria ou do Egito exemplos de vida monástica que o O cidente so­
m ente conhecia por ter ouvido falar. Além disso, o O rien te grego ainda era a
terra da cultura e do mais elevado conhecim ento teológico. Jerônim o conside­
rava-se um peregrino e um futuro eremita; porém , não se pode duvidar que
tam bém tivesse sido atraído pelo estímulo dos tesouros intelectuais que talvez
esperasse encontrar. Ao chegar a A ntioquia de O rontes, desistiu de dirigir-se
im ediatam ente ao deserto: sentia-se doente e sobrecarregado - uma queixa que
vez p or outra aparece em suas cartas, não só nessa época com o tam bém nos anos
seguintes. Seu “pobre co rp o ” , que na realidade perm aneceu insolitamente resis­
tente ao longo da vida, parecia estar sofrendo “mesmo quando em plena saúde”
(.Ep. 3 , 1). Jerônim o já acreditava estar próxim o à m orte (Ep. 6,2).
Foi recebido com muita hospitalidade pelos habitantes da cidade, inclusive
na propriedade de seu amigo Evágrio, e logo deleitou-se com todo o estímulo
oferecido pela vida intelectual da m etrópole. D edicou-se inteiram ente ao estu­
do do grego, participando de conferências e m ergulhando em toda a literatura
teológica disponível; provavelmente seus estudos da dialética de Aristóteles per­
tençam a esse período. N ão dem orou m uito para que seus primeiros esboços
literários viessem a ser produzidos: a pedido do amigo Inocêncio, que estava a
seu lado, descreveu um recente e impressionante acontecim ento crim inoso no
qual um a mulher, falsamente acusada de adultério e condenada à m orte, foi
finalmente salva graças à intercessão de Evágrio. A pequena narrativa, composta
tal qual o relato de um martírio, foi concluída com um elogio àquele que o
hospedou em Antioquia. N ão era nenhum a obra-prim a - apesar, ou talvez por
causa, do esplendor retórico e bombástico que Jerônim o derram ou sobre ela. O
mesmo se pode dizer de uma exposição feita sobre o profeta Obadias, que infe­
lizm ente não foi preservada. Segundo ele mesmo relata, mesmo depois de vinte
anos, quando tecia com entários sobre esse texto, sentia-se constrangido quando
leitores imaturos tentavam elogiá-lo pessoalmente pela suposta profundidade
deste elaborado exemplo de trabalho. Além do mais, via neste pequeno escrito
apenas um a tolice da juventude que simplesmente não podia mais reconhecer.
A carta mais antiga que foi preservada nos dá informações diretas, e muitas
até indiretas, sobre o estado de espírito em que se encontrava naquela época.
Estava endereçada ao chefe da com unidade dos eremitas, com o qual havia esta­
do durante suas viagens, e possivelmente trata-se de um a carta de agradecimento
após ter chegado são e salvo, mas que tom ou, no entanto, mais a form a de uma
confissão e um brado por sua intercessão salvadora. A ternura com a qual Jerônim o
faz o contraste do estado angustiante em que se encontra, p o r estar naquele
m undo pecaminoso, com a feliz solidão do destinatário, produz um efeito extre­
m am ente artificial Jerô n im o “não quer recuar e não pode avançar” . C o m certe­
za, deve ter havido um a discussão sobre seus planos ascéticos durante sua visita e
ele, portanto, assegura “incessantem ente” ao seu correspondente que naquele
m om ento, com o sempre, seu coração está possuído pelo desejo ardente de seguir
o cam inho indicado. Porém faltam-lhe ainda forças para decidir, e som ente a
intercessão do eremita poderá garantir que talvez um dia sua aspiração seja acom ­
panhada pela sua realização (Ep. 2).
O jovem retórico queria ser u m cristão santo e essa decisão, um a vez tom a­
da, não seria abandonada; mas ele ainda não havia encontrado u m cam inho pelo
qual pudesse chegar ao local de seus ambiciosos sonhos, onde sua inclinação e
capacidade literárias coubessem dentro do cenário de um a form a monástica de
vida. Hesitava e sofria por causa de sua própria hesitação, em bora deixasse, ao
mesmo tempo, que a vida rica e animada que levava, com o tam bém os amigos e
as inesperadas possibilidades de trabalho e de estudo em A ntioquia, exercessem
os seus efeitos sobre ele.
Enquanto isso, o conflito não se limitava apenas às razões externas:Jerônim o
era capaz de senti-lo até no campo intelectual de seu atual trabalho e de seus
interesses. Seu coração ainda estava preso aos antigos amores e não tinha qual­
quer desejo de se com prom eter apenas com as Sagradas Escrituras e pesquisas
teológicas às quais sua vida estava prestes a ser exclusivamente dedicada. Esta in­
quietação que o torturava está refletida em seu famoso sonho que, provavelmente,
aconteceu nessa época, mas que certamente só foi registrado dez anos depois.
O relato desse sonho foi encontrado em um a carta de educação ascética e é
óbvio que Jerônim o a havia escrito sob um a form a estilizada a fim de servir aos
propósitos daquele tratado. Tam bém a conclusão milagrosa deverá ser avaliada
desta forma, e é claro que não deve ser considerada de acordo com o seu sentido
literal, em bora fosse esta a intenção de Jerônim o. D e qualquer forma, não existe
qualquer razão definitiva para negar com pletam ente a realidade do sonho.
Jerônim o escreveu (Ep. 22, 30): “M uitos anos atrás renunciei à m inha casa,
meus pais, m inha irm ã e meus parentes e, o que foi m uito mais difícil, à boa
cozinha da família tam bém ” (essa afirmação, feita exatamente no início, repre­
senta um a surpreendente confissão, mas ela é característica de Jerônim o!); “pois

&<f<f
eu tinha me tornado um eunuco pelo am or do reino do céu (Mt 19.12) e queria
me m udar para Jerusalém a fim de prestar o serviço militar do espírito. N o
entanto, não pude m e apartar de m inha biblioteca, que havia trazido de R o m a
com tanto trabalho e tanto cuidado. Eu estava m e sentindo m uito infeliz: jejuei
- para ler Cícero depois! Passei muitas noites em claro, pranteei do fundo do
m eu coração; pensava em meus antigos pecados - então tom ei Platão em minhas
mãos, mas m e arrependi e com ecei a ler u m profeta. Depois achei detestável sua
linguagem inculta e, po r não poder ver a luz com meus olhos cegos, pensei que
o sol fosse o culpado e não os meus olhos. Enquanto a velha serpente lançava
suas artimanhas sobre mim, um a febre incessante invadiu m eu corpo, exausto
pelo jejum , e tanto exauriu meus desafortunados membros que - até parece
incrível —fiquei reduzido a ossos. C om eçaram , então, a fazer os preparativos para
m eu sepultamento; m eu corpo estava com pletam ente frio e som ente em m eu
congelado coração havia um pequeno lampejo do calor natural da vida. Foi
então que, de repente, em espírito fui dom inado e levado a um tribunal. U m a
luz impressionante brilhava sobre m im e aqueles que se postavam em volta dela
tam bém em itiam clarões de luz; atirei-m e ao solo sem ousar levantar os olhos.
Então perguntaram sobre m eu nom e e respondi: sou cristão.Você está m entin­
do! Disse aquEle que estava sentado no trono. Você é um ciceroniano, não um
cristão! (Ciceronianus es, non Christianus): onde estiver o vosso tesouro, aí estará
tam bém o vosso coração (M t 6.21)” .
Jerônim o descreveu ainda com o continuou a im plorar por misericórdia
enquanto um terrível vendaval soprava sobre ele. Os espectadores tam bém inter­
cederam em seu favor, que um juízo clem ente fosse feito em relação aos erros de
sua juventude e que lhe fosse concedida um a nova oportunidade de melhoria.
Então ju ro u nunca mais desejar possuir livros seculares e que se novam ente os
lesse que isso fosse considerado com o um a rejeição. Foi assim que o libertaram e
ele, para surpresa geral, retornou à vida. Jerônim o nos assegura que esses não
foram m eram ente sonhos, pois quando acordou ainda sentia as rajadas de vento
sobre seus ombros que estavam cobertos de manchas azuis. Daí em diante, vol­
tou-se para os escritos divinos com u m zelo que nunca havia antes dedicado aos
autores “m ortais” .
Juntam ente com o nom e C ícero, Jerônim o incluía toda a herança cultural
“clássica” . Ao contrário de Lactâncio, não considerava Cícero com o sendo
principalm ente um filósofo, pois nunca havia tido qualquer interesse pela filo­
sofia em si e achava fácil sim plesm ente arremessar de lado seus representantes
com o ignorantes e tagarelas. Jerô n im o pensava em Cícero com o o orador, o
mestre de um a língua cultivada e de nobre estilo, o professor da educação geral
e da cultura, Cícero que foi a seqüência de Platão,Virgílio, H orácio, Sêneca e
dos historiadores.
O ensino escolar da antigüidade, sobre o qual Jerônim o está pensando, tinha
um forte preconceito contra o estudo da linguagem. Foram as vantagens de sua
expressão formal —além de sua extrema necessidade de diálogo —que acima de
tudo tornaram -no um entusiasta pelos antigos autores. N ão há necessidade de
raciocinarmos sobre os valores hum anos mais profundos e estéticos: apesar de
toda a sensibilidade e versatilidade de seu tem peram ento, Jerônim o tinha basica­
m ente um a natureza totalm ente não poética, ou na m elhor das hipóteses, prosai­
cam ente poética. E por isso que as vantagens exteriores de um a linguagem per­
feitamente culta desempenharam um papel soberano e a Bíblia, em contraste,
parecia-lhe rude, insípida e quase insuportável. Sabia, porém , que com essa atitu­
de estava trilhando um cam inho totalm ente errado e, portanto, estava determ i­
nado a m udar de direção. Daí em diante, seu trabalho literário e toda a sua
disposição estariam concentrados exclusivamente na Bíblia, sobre a exposição da
Bíblia e sobre os estudos teológicos que lhe diziam respeito.
Seria essa assertiva correta? Mais tarde, quando a amizade deles havia se
rom pido e se transformado em um a hostilidade mordaz, não foi outro senão seu
amigo R ufino que abertamente levantou a acusação de que, na realidade,Jerônimo
havia sido infiel ao voto feito no sonho e constantem ente quebrado o juram ento
de não ler autores profanos. Apresentava as evidências: referia-se não só às inú­
meras citações, mas tam bém às cópias de tais livros proscritos, que Jerônim o,
com o um entusiasta colecionador de livros, havia mais de uma vez encom enda­
do e pago, obras de elevados custos.
A maneira insincera e subalterna com a qual Jerônim o se defendeu contra
essa reprovação não contribuiu para m elhorar sua situação. A longo prazo, o
“voto” não foi obviamente mantido em seu significado literal. N o entanto, R ufino
com eteu uma injustiça contra Jerônim o que, com propósito consciente e inten­
cional, nunca retornou aos estudos profanos, no velho sentido. Daí em diante,
usava autores pagãos som ente com o um auxílio à exegese bíblica e não mais os
lia pela sua im portância, mas por simples prazer. Até os historiadores pagãos que
citava, “não por capricho, mas somente por um a forçosa necessidade” , tinham a
finalidade de dem onstrar que as profecias bíblicas são verdadeiras e realmente
tornaram -se realidade (Comm. Dan. prol.).
Isso não queria dizer que, por falsa modéstia, Jerônim o escondesse seus pro­
fundos conhecim entos ou que pretendesse renunciar à elegante retórica de seu
estilo. Pelo contrário, sempre apreciou m uito exibi-los e frases ocasionais que
porventura assegurem o contrário não devem ser levadas a sério p o r serem sim­
plesmente parte de um a retórica convenção. Sempre teve a secreta ambição de
com petir com seus modelos pagãos e, sempre que possível, sobrepujá-los; porém ,
isso apenas seria feito de acordo com os interesses de Deus e de um a cultura mais
santa e elevada. C onform e os preceitos da Bíblia (Dt 21.2), deve-se prim eiro
cortar o cabelo e as unhas da escrava im pura e, em seguida, todo o seu corpo
deverá ser lim po de toda idolatria e sensualidade antes que possa ser admitida em
Israel (Ep. 70, 2); isto é, as boas coisas da cultura pagã não deverão ser aceitas
diretamente, mas assimiladas dentro de um novo contexto.
“ O que H orácio tem a ver com o salmista, M aro com os Evangelhos ou
Cícero com os apóstolos?... E certo que ‘para o puro, tudo é pu ro ’ (Tt 1.15) e
nada pode ser censurado se for desfrutado com ação de graças (1 T m 4.4). N o
entanto, não podem os ao mesmo tem po “beber do cálice de Cristo e do cálice
dos dem ônios” (1 C o 10.21 —Ep. 22,29).Jerônim o preferia descrever a situação
com o se a cultura cristã já tivesse alcançado a própria perfeição e não necessitas­
se absolutamente de tais empréstimos. “ O rei Davi representa os nossos Simonides,
Píndaro e Alcaio, ou Flaco, Catulo e Sereno” (Ep. 53, 8). U m hom em com o
Teófilo, bispo de Alexandria, reúne em si mesmo as virtudes de um Platão e de
um D em óstenes (Ep. 99,2). Nossa Atenas, isto é,a universidade de ensino cristão,
é Jerusalém (Ep. 46,9). Essa breve descrição da história da literatura, escrita por
Jerônim o conform e o m odelo de Suetônio, na obra Homens Ilustres, isto é, os
escritores da Igreja, servem bem ao propósito único de explicar a qualidade e a
im portância dos gigantes intelectuais do cristianismo, de forma a deixar enver­
gonhados os difamadores pagãos que, ao invés de insistir no caráter “filisteu” dos
cristãos, possam tom ar conhecim ento de sua própria ignorância (Vir. III., prol.).
N aturalm ente, é claro que Jerônim o está bem ciente de que esta atitude de
orgulho é prem atura e que os cristãos nunca poderiam dispensar a cultura pagã
e, em defesa de tudo que havia emprestado dos mestres pagãos, refere-se nova­
m ente aos hom ens da Bíblia que, de Moisés a Paulo, acredita-se terem agido da
mesma form a (Ep. 70, 2). Essa é precisamente a sua tarefa, assim com o a dos
demais cristãos que tenham o mesmo propósito, isto é, de finalmente compensar
o retrocesso da Igreja e de justificar publicam ente a glória que alcançou através
de suas correspondentes conquistas intelectuais.
A nteriorm ente, Tertuliano e C lem ente de Alexandria já haviam se preocu­
pado com o problem a da cultura antiga, isto é, se a indispensável cultura pagã
seria perm itida aos cristãos e não foi por acaso que então, no século IV, essa
questão tivesse assumido uma im portância ainda maior. Jerônim o pode ser con­
siderado um exemplo sem paralelo pela intensidade com que suportou tal con­
flito com o seu destino pessoal e nesse sentido seu sonho adquire um profundo
simbolismo. A solução que encontrou foi comparativamente externa e pouco
refinada, porque apenas avaliava as vantagens da cultura antiga externam ente e
através da riqueza de seus conhecim entos, e acima de tudo pela beleza de sua
linguagem. Sua decisão de renunciar a este prazer foi forçada; foi tipicam ente
ascética e levou a uma limitação puram ente temática e externa de seu trabalho e
de sua leitura, medidos de acordo com o conteúdo cristão ou pagão. N ão foi
sem sofrim ento mas com um a amargura m uito grande e quase que com despre­
zo, que os cristãos convertidos repudiaram os autores pagãos, exatamente porque
ainda os amavam e nunca poderiam realmente viver sem eles.
E m todas as ocasiões possíveis, e muitas vezes mais im petuosa do que since­
ramente, ele assegurou aos demais que havia estudado todos os mestres pagãos e
os conhecia m uito bem - e exatam ente p o r essa razão não necessitava mais deles
e declarava-se interessado apenas na Palavra de Deus. E a serviço dessa verdade
esperava tornar-se um Cícero cristão e, com o ele, um abrangente professor da
cultura cristã e, tam bém , um m onge e um santo. As contradições desse ideal
chegaram a atingir as raízes de seu ser e exerceram um a decisiva influência du­
rante toda a sua vida, levando-o a u m trabalho ininterrupto que, em seu todo,
granjeou-lhe admiráveis conquistas. Ao mesm o tempo, explicam suas fraquezas
humanas, sua vaidade excessiva e seus freqüentes insucessos na esfera das relações
éticas e pessoais. N ão havia qualquer sinal teológico p o r trás deste ideal cultural
repleto de ascetismo, pelo qual lutava com tamanha convicção, pois permanecia
preso às tradições contra as quais lutava para suprim ir e conquistar.
Jerônim o sempre perm aneceu tanto com o um m onge com o um humanista.
Se projetarm os este ideal na história do m undo, veremos que toda a tradição
cultural da Idade M édia ocidental procedeu dele - na medida em que não tives­
se sido extraído de outras fontes, ou tivesse alcançado, através da mediação de
Agostinho, um entendim ento mais profundo do real significado da humildade
cristã, da vida espiritual e da verdade e da cultura bíblica.
Cerca de um ano e meio depois,Jerônim o chegou ao ponto no qual pode­
ria dizer adeus ao seu hospedeiro e partir para o deserto com o eremita. A área
escolhida, o deserto de Cálcis, não era m uito distante e estava situada a sudoeste
de A ntioquia e fora dos muros da cidade de Cálcis, em Belo, a última cidade mais
im portante da zona fértil da Síria. D urante m uito tem po as cavernas existentes
nas rochas dos vales do deserto foram habitadas por eremitas, que viviam separa­
dos uns dos outros e entre os quais o recém -chegado não atraiu m uita atenção.
Provavelmente, Jerônim o se instalou em um a que estava vaga, bastante espaçosa
e “confortável” para um deserto, pois nela podia abrigar toda a sua biblioteca,
copiar livros e ocasionalmente receber visitantes. Os eremitas não viviam total­
m ente segregados uns dos outros ou do m undo exterior:Jerônim o regularm en­
te recebia e enviava as suas cartas. D atam desse período algumas das primeiras
cartas preservadas e que haviam sido enviadas a seus amigos em todo o m undo;
quase todas contêm exortações para que lhe escrevessem várias vezes e não im ­
portava o assunto —simplesmente não deviam deixar de escrever!
Jerônim o louva a tranqüilidade e a santidade da vida que encontrou - po­
rém o silêncio não o to rn o u silencioso. C o m um a natureza profundam ente so­
cial, ele aceitava a solidão apenas para organizar seus pensamentos e ordená-los
conform e m elhor lhe parecia. Q uando esta tarefa já estava concluída, consum ia-
se com a im paciência de com unicá-los aos outros, de ter com eles um intercâm ­
bio intelectual e de ao m enos m anter correspondência com pessoas que pensas­
sem com o ele.
Ele, sem dúvida, assumiu os exercícios ascéticos próprios da vida de um
verdadeiro eremita, porém temos a impressão de que não o fizeram sentir-se
particularm ente mais feliz. N ão era hom em a quem a renúncia poderia signifi­
car prazer ou o gozo de novas emoções. M esm o nos anos posteriores de sua vida,
quase nada sabemos a respeito das exaltações, iluminações ou êxtases de sua vida
interior e o que ficou de realmente notável foi a sua difícil personificação. O
ascetismo para ele era uma form a de disciplina e de santificação, e nesse contex­
to, tam bém m eritória e indispensável, porém sempre um esforço cansativo e
desagradável. Portanto, descrevia o início de sua luta monástica através de term os
bastante realistas e ricos em imagens, com o era de seu feitio: “Ah, quantas vezes
em pensam ento transportei-m e a R o m a e a todos os esplendores dos quais par­
ticipei durante aqueles dias no deserto triste e solitário que, crestado pelo sol
inclemente, havia se transformado em um am biente tão assustador para os m o n ­
ges! Lá eu m e sentava sozinho, com m eu coração imerso em desespero, minhas
pernas cobertas por panos de saco, m inha pele com o a de um negro e cobertas
de sujeira. Chorava dia após dia e suspirava, e um a vez quando adorm eci inespe­
radamente, meus ossos magros ficaram expostos sobre o solo nu. N ão quero
sequer com entar sobre com er ou beber! Até mesmo os eremitas doentes bebem
somente água fresca, e um a refeição quente é considerada um excesso. E eu que,
com tem or do inferno, me exilei nessa prisão e com o companheiros tenho ape­
nas escorpiões e animais selvagens —ainda assim me encontro tantas vezes ju n to
às dançarinas! M eu rosto tinha a palidez da fome e as paixões de m inha consci­
ência íntim a ainda continuavam a brilhar em m eu corpo frio. Esse ser hum ano
estava mais m orto do que vivo; porém , o fogo de sua concupiscência continuava
a queim ar” (Ep. 22,7).
Os instintos secretos deste ambicioso entusiasta não haviam m udado sua
inclinação e, portanto, Jerônim o continuava a trabalhar infatigavelmente. Pediu
que outros livros lhe fossem enviados e logo encontrou novos amigos para copiá-
los. Sentia-se orgulhoso não só por ter aum entado a sua biblioteca através desse
“trabalho m anual” , mas tam bém p o r ter sido capaz de viver com o um verdadei­
ro monge. Nessa época com eçou a estudar hebraico com u m ju d eu convertido,
pois, segundo nos revela, de outra form a não poderia m anter seus pensamentos
sob controle. Tam bém precisava com binar a abstinência do corpo com o traba­
lho intelectual. “Eu conhecia o estilo brilhante de Q uintiliano, a eloqüência de
Cícero, a arrogância de Fronto e o suave encanto de Plínio e agora estou outra
vez aprendendo o abecê e m em orizando palavras ásperas e sibilantes. Q uanto
trabalho! Quantas dificuldades! M uitas vezes estive a ponto de m e desesperar e,
então, com ecei tudo de novo levado pela ambição de aprender! Passei p o r tudo
isso e posso prová-lo com m inha experiência, e aqueles que tom aram parte em
m inha vida tam bém o sabem” (Ep. 125,12).
N o entanto, não devemos nos deixar levar p o r essas lamentações, pois
Jerônim o tam bém estava convencido das vantagens de levar um a vida reclusa.
Poderia considerá-la à luz de um aperfeiçoam ento espiritual e tal qual um des­
conhecido escrever com entusiasmo sobre a poesia e a serenidade da solidão
monástica. O resultado mais encantador dessa sua disposição pode ser encontra­
do no pequeno volum e intitulado A Vida de São Paulo, o Primeiro Eremita, que foi
escrito durante esses anos. Até então, a vocação de eremita havia sido levada mais
detalhadamente ao conhecim ento público geral apenas através da famosa bio­
grafia de A ntônio, escrita p o r Atanásio.
Evágrio, amigo de Jerônim o, havia traduzido a obra para o latim visando os
leitores do O cidente; trata-se de um livro fervoroso que descreve as tentações
demoníacas e a heróica provação e purificação daquele que foi por alguns con­
siderado com o um maravilhoso santo que, segundo acredita-se, fundou uma
nova form a de vida monástica. E m seu livro, Jerônim o até certo ponto com pete
com esse modelo. O eremita Paulo, com o afirma explicitamente, é mais velho e
mais perfeito do que Antônio, que havia sido até então, de m odo justo, o precur­
sor. Excetuando-se este detalhe, no entanto, essa pequena obra é bastante diferente.
Seu principal objetivo é o de entreter e recontar a história de maneira edificante.
Para alcançar esse propósito, o livro se restringe aos primeiros e últimos dias da
estadia do eremita no deserto, que se prolongou por cento e treze anos.
Através desse livro ficamos sabendo que, perseguido e abandonado pelo
mundo, encontrou no deserto um refúgio solitário e encantador. U m a palmeira
lhe forneceu alimento e roupa e todos os dias um corvo lhe trazia o pão de que
necessitava. Todo esse cenário tem um aspecto idílico e Jerônim o não se furta às
clássicas formalidades; um amigo centauro e um sátiro convertido mostram o
cam inho a A ntônio que, em sonhos, havia recebido ordens de procurar Paulo.
Ao se encontrarem , os homens conversam hum ildem ente sob um a palmeira ao
lado de um regato borbulhante. Ao final do livro, quando Paulo falece, é coberto
por um casaco que A ntônio havia recebido de Atanásio e seu sepultamento é
feito por dois leões piedosos que im ploram a A ntônio por sua bênção cristã
com o recompensa pela execução da tarefa.
O conteúdo religioso desse pequeno rom ance é bastante modesto, porém
ninguém pode deixar de reconhecer o seu encanto. Jerônim o se revela um b ri­
lhante e popular contador de histórias que, de acordo com a necessidade ou a
ocasião, sabe com o narrar sua história de maneira edificante, em polgante e bem -
humorada, e até mesmo bastante forte, sem transgredir, porém , os limites do
bom gosto. Seria perda de tem po inquirir sobre o núcleo “histórico” de sua
narrativa e o que realmente im porta é o nom e do herói.
Anos mais tarde Jerô n im o escreveu a biografia de dois outros monges e que
são, de certa forma, mais confiáveis em relação ao seu conteúdo. Afinal de con­
tas, ele partiu de fontes parcialmente reconhecidas e até conheceu pessoalmente
um dos santos. Apesar disso, o inocente diálogo do Vita Pauli ainda permanece
com o seu trabalho mais perfeito do ponto de vista literário. N o decorrer do tem­
po, Jerônim o tornou-se mais erudito e comovente, provavelmente mais sério na
abordagem teológica e, à sua maneira, mais importante. N o entanto, seu talento
com o escritor finalmente se desenvolveu quando chegou aos trinta anos e nunca
mais voltou a atingir a gentil graciosidade deste pequeno livro de sua juventude.
Esta obra se encerra quase que acom panhando o estilo da literatura monás­
tica da Idade M édia, isto é, com um a súplica ao leitor para que se lem bre do
“pobre pecador Jerônim o” e com a certeza de que a túnica de Paulo será para ele
mais preciosa do que toda a púrpura da realeza que provoca o castigo divino. N a
realidade, com o já vimos, sua vida de m onge não transcorreu realmente com o
um idílio tranqüilo e, com o passar do tempo, as divergências com eçaram a
aumentar. As controvérsias dogmáticas, das quais mesmo dentro da serena co­
m unidade dos monges não conseguia p o r m uito tem po se furtar, causaram-lhe
muitos problemas em particular.
Todo o O riente, então nos estágios finais da disputa ariana, havia se frag­
m entado em diferentes grupos que estavam atacando-se m utuam ente. Todas as
personalidades intelectualm ente im portantes da Igreja grega, e tam bém algumas
ocidentais, com o Ambrósio, haviam se envolvido nessas controvérsias e estavam
profundam ente interessadas em seu resultado final. Jerônim o, no entanto, consi-
derava-as com o uma perturbação de sua paz pessoal, e que, pelo fato de ser
romano, toda essa contenda dos gregos fundam entalm ente não lhe dizia respeito.
Tornava-se indignado pela falta de tato que mostravam, pois recusavam a deixá-
lo em paz ao esperar receber dele sua opinião teológica e tam bém seu apoio.
Por que haveria ele de se preocupar com novos sofismas relativos a um a ou
três hipóstases? Jerônim o não estava absolutamente interessado em todas essas
questões sobre metafísica e teologia especulativa; se necessário, estava até mesmo
disposto a aceitar qualquer solução que não fosse contrária às decisões anterior­
m ente tomadas. Q uando percebeu que não havia escapatória, resolveu adotar
uma medida bastante incom um : escreveu uma carta ao novo bispo romano,
Damásio, que lhe era desconhecido pessoalmente, e pediu algumas informações
sobre qual fé deveria professar, qual doutrina teria que abraçar e qual bispo,
dentre os de Antioquia, deveria seguir. Fez questão de acentuar que era um
“rom ano” , em virtude do batismo recebido de seu predecessor, e com o tal dese­
java permanecer. Portanto, nesse caso o bispo de R o m a teria que tom ar a deci­
são em seu lugar - e em bora pudesse parecer ariano - Jerônim o iria aceitá-la
com o se fosse um a instrução ortodoxa.
N aquele m om ento, o sol da justiça não mais nascia no O riente, mas no O ci­
dente. “Neste m om ento eu apenas afirmo que: ‘Aquele que está instalado em
R o m a é o m eu superior’” (Ep. 16, 2). Ao ver que não recebia resposta alguma,
escreveu uma segunda carta implorando ao grande pastor, através das frases mais
lisonjeiras, que não deixasse sua “ovelha negra” ao desamparo. Damásio, porém,
não tinha qualquer intenção de comprometer-se de forma tão ingênua com a situa­
ção político-eclesiástica mais difícil na época - e menos ainda por causa de um
escritor e eremita virtualmente desconhecido e de tão insignificante influência.
U m pouco mais tarde, Jerônim o deixou Cálcis para sempre, após ter supor­
tado a vida monástica em sua gruta durante cerca de dois anos e meio. Ele
mesmo tentou transm itir a impressão de que foram as disputas dogmáticas, ao
lado da obstrução feita p o r seus com panheiros, que haviam im pedido um a per­
m anência mais longa no deserto; porém , essa não é um a desculpa m uito convin­
cente. N a verdade, Jerônim o já havia experim entado o bastante dessa form a de
exercício de santificação e nada mais havia que pudesse im pedi-lo de ir à procu­
ra de outro refúgio mais tranqüilo, em algum lugar do O rien te ou do O cidente.
A verdade é que sentia realmente a falta do m undo, das pessoas, do diálogo
e do estímulo intelectual. E m uma análise mais profunda, ele estava provavel­
m ente correto em interrom per sua carreira de monge, em bora à prim eira vista
isso pudesse parecer um tanto constrangedor, pois não tinha ainda com pletado
seu desenvolvimento e as possibilidades de adquirir a erudição, pela qual tanto
almejava, em bora não o admitisse, não poderiam ser encontradas no deserto.
Som ente depois de m uitos anos, foi capaz de encontrar a com binação apropria­
da do trabalho intelectual com o ascetismo, e com a com unidade, à qual perm a­
neceu fiel. Agora, as grandes cidades de A ntioquia e C onstantinopla haviam se
tornado o objeto de seus desejos.
Em Antioquia, Jerônim o teria que finalmente escolher o seu partido eclesi­
ástico e preferiu aderir à facção dos teólogos de extrema “ ortodoxia” , represen­
tados pelo antigo “niceno” Paulino, de aparência ocidental, e a quem Evágrio
posteriorm ente tam bém seguiu. D urante toda sua vida considerou que seria
mais seguro e conveniente obedecer ao que parecia ser o mais forte dentre os
“lemas” teológicos - exatamente porque não representavam nada além de sim­
ples “lemas” da ortodoxia eclesiástica. Para preencher seus interesses de erudição,
no entanto, recorria a quaisquer livros que encontrasse, mesmo que suspeitos,
onde podia aprender ou praticar algo de concreto e, em certos casos, não se
abstinha até mesmo de estabelecer relacionamentos duvidosos.
Assim foi que em A ntioquia, p o r exemplo, tom ou conhecim ento das pales­
tras sobre exegese proferidas p o r Apolinário, bispo de Laodicéia, cujos ensina­

i s
mentos sobre cristologia haviam sido condenados com o heréticos, apesar de ser
um reconhecido niceno. Para proteger-se contra qualquer suspeita, Jerônim o
estava disposto a assinar, se necessário, isto é, assim que alguém solicitasse, qual­
quer sentença dogmática sobre anátemas, mas não perm itia que ninguém o su­
perasse em ortodoxia ou devoção eclesiástica. Foi durante esse período que
Jerônim o foi ordenado sacerdote p o r Paulino, com o sinal de gratidão pelo apoio
recebido. Mais do que nunca ele se sentia então com o um monge, mas insistia
expressamente que a sua liberdade não seria de form a alguma restringida. E
nestes term os, que esta posição de form a alguma o inibisse, pois significava ape­
nas uma “prom oção honorária” , e era-lhe m uito bem -vinda.
M esm o em relação ao seu ministério, Jerônim o sempre pensava e ensinava
dentro do estilo de um a piedade “ cristã” sem complicação. “ Os sacerdotes ‘for­
m am ’ o corpo do Senhor, guardam a noiva de Cristo em castidade e somente
através deles poderem os ser com pletam ente cristãos” (Ep. 14, 8). N o entanto,
estava longe de ignorar suas fraquezas e, a despeito de assegurar o contrário, não
era capaz de controlar sua língua afiada nos casos que lhes diziam respeito. Sem­
pre que qualquer manifestação de afronta ou insulto o deixava contrariado, ou
provocado em sua vaidade, qualquer um a delas era digna de perdão, mesmo em
relação aos seus inimigos espirituais, isto é, apenas os inimigos aparentemente
“espirituais” .Tudo isso precisa ser levado em conta se quisermos com preender
sua atitude teológica e hum ana nas lutas que, mais tarde, teve de enfrentar.
Jerônim o perm aneceu em Constantinopla de 379 a 382, anos im portantes
na história mundial, pois, a grande m udança que ocorreu sob o governo de
Teodósio estava alterando o aspecto de toda a Igreja do O rien te a favor do
Credo de Nicéia. Provavelmente ele teve a oportunidade de testem unhar os
famosos “discursos teológicos” de G regório Nazianzeno, de observar de perto o
turbulento C oncílio de 381, mais tarde cham ado de “ ecum ênico” , e de perm a­
necer nessa cidade ainda por mais alguns meses. Apesar disso, nunca m encionou
esses acontecim entos, o que era um a de suas características.
C om certeza, com o ocidental e adepto de Paulino, Jerônim o não poderia
ter ficado m uito satisfeito com o resultado desse C oncílio; p o r outro lado, ele
tinha um relacionam ento m uito próxim o com os líderes do vitorioso partido
“neoniceno” e, repetidam ente, designava G regório N azianzeno com o o “profes­
sor” que havia revelado para ele o conhecim ento das Santas Escrituras. D urante
os dias do Concílio, G regório de Nissa e Anfilóquio de Icônio, assim com o
vários outros, passaram a fazer parte de seu círculo de amizades, porém Jerônim o
não estava interessado nas controvérsias da política eclesiástica. O que mais dese­
java era ampliar seus estudos teológicos: o que queria dizer acima de tudo, e
mesmo nesses dias, o aprendizado sobre a correta interpretação das Escrituras,
além de um sólido conhecim ento sobre a exegese da Bíblia e da filologia.
Sob a irresistível impressão da superioridade da educação teológica grega,
pela prim eira vez tom ou conhecim ento de sua vocação e da verdadeira missão
de sua vida, a qual nunca mais iria perder de vista. “Eu queria” - confessou no
fim de sua vida —“dedicar-m e totalm ente ao ensino das Escrituras e com parti­
lhar os meus conhecim entos de hebraico e grego com as pessoas que falam a
m inha língua-mãe, mas o dem ônio não o perm itiu ” , com pletou amargamente
“e muitas vezes interrom peu e perturbou m inha paz tão intensam ente desejada”
(Hierem. III, 1,2). Esse dem ônio nada mais era que a manifestação de sua própria
e perm anente inquietação, de sua disposição para discutir e de sua vaidade. Po­
rém, mais tarde falaremos sobre as conquistas escolásticas de Jerônim o.
A princípio, Jerônim o se ocupou com o modesto ofício de tradutor - uma
atividade a que retornava durante sua vida e que vinha logo após os seus próprios
escritos inspirados pela teologia grega. Tentou traduzir para o latim a crônica
histórica de Eusébio, especificamente a segunda parte, com sua tábua de datas
paralelas, e assim criar um manual, com o um a sólida fonte de informações, par­
ticularm ente para a história bíblica. D e acordo com suas próprias palavras, essa
seria um a simples tradução desde a queda de Tróia; para os séculos vindouros,
procurou ampliar e corrigir esse trabalho com a ajuda dos historiadores latinos e,
finalmente, desenvolveu-o de m odo independente até o final de sua vida. D eci­
diu encerrá-lo no ano da terrível batalha com os godos em Adrianópolis (378):
“agora, hordas de bárbaros assolam nossas terras e tudo é incerto” (Chron. prol.).
Jerônim o sempre se com portou com o u m ingênuo patriota romano. U m de
seus créditos foi ter imediatamente aplicado toda sua paixão erudita a esse assunto
tão difícil e delicado. Infelizmente, a característica fraqueza que aparece em quase
todos os seus empreendimentos eruditos está aqui revelada. Ele próprio descreve
sua obra com o um trabalho “tum ultuado” e não completamente organizado, em
razão de sua própria afobação e pede desculpas em vista das especiais dificuldades
encontradas na matéria em estudo. N a verdade, ele se prende a uma abundância de
dados eruditos, apressados e cheios de erros. Nas últimas partes, torna-se imediata­
m ente óbvio o subjetivo sectarismo do autor quando, ao mesmo tempo, tece lou­
vores e faz acusações. A sua afirmação de que, se necessário, não teria medo de
contar a verdade a respeito de personalidades ainda vivas, poderia ter sido omitida.
Jerônim o tam bém desejava escrever um a história a respeito de sua época -
mas esse foi um dos m uitos objetivos de sua vida que nunca se realizaram. A pro­
xim adam ente na mesma época, e p o r influência de seu “professor” Gregório,
iniciou a tradução de certas homilias de Orígenes. Para Jerônim o, O rígenes per­
sonificava o mesmo que para Ambrósio, ou, na verdade, até mais do que para este
último, isto é, simplesmente o grande estudioso da Bíblia, o único que com o ele
próprio era mestre da língua hebraica e que sempre obedecia cuidadosamente às
diferenças existentes na tradução textual. Jerônim o o acompanhava sem hesita­

i s /
ção, inclusive no m étodo alegórico de interpretação, que era para ele, especial­
m ente no A ntigo Testamento, a ponte reconhecida para o profundo conheci­
m ento e “edificação” . Por outro lado, as pressuposições metódicas e sistemáticas
da herm enêutica de Orígenes pouco lhe interessavam e, mesmo sendo um de
seus seguidores, Jerônim o estava principalm ente preocupado com o essencial.
Para seu raciocínio filosófico, as questões de exegese representavam os verdadei­
ros problemas teológicos.
Depois que Gregório Nazianzeno e os demais membros do Concílio havi­
am deixado Constantinopla, a cidade perdeu sua atração para Jerônim o, que
decidiu, então, acom panhar os dois bispos cujas simpatias estavam dirigidas ao
O cidente e que, por essa razão, não haviam tido sucesso quando da apresentação
de sua causa ao Concílio. Ele viajou com Paulino e Epifânio desde Salamina até
R om a, onde um novo Concílio os esperava para retribuir aquilo que lhes faria
justiça. N a verdade, seu conhecim ento de línguas deve ter-lhe granjeado alguma
im portância, pois havia deixado de ser aquele eremita desconhecido dos dias
passados e se transformado em uma personalidade de renome literário, e cujas
ligações com o O riente devem ter servido para recomendá-lo com o conselheiro.
C om um olhar convencido, o bispo Damásio adm itiu a im portância do
hom em a quem não havia respondido anos atrás e nom eou-o seu secretário
particular, incum bido de escrever cartas difíceis e, ao mesmo tempo, de cuidar
dos docum entos do bispado e de sua biblioteca. A posição eclesiástica nada tinha
que ver com este serviço e havia um a lenda medieval que exaltava Jerônim o
com o um cardeal da Igreja rom ana e o adornava com um chapéu verm elho de
abas largas. Iniciava, então, os anos mais felizes e, aparentem ente os mais esplên­
didos e ricos de sua vida.
Damásio apreciava a presença e o grande estilo de Jerônim o. Foi u m notável
construtor e, sob a direção dele, o domicílio do bispado assumiu pela prim eira
vez uma aparência “principesca” . N ão foi um mecenas de espírito tacanho e
colocava o conselheiro e guardião de seus docum entos em uma posição adequa­
da e com um a remuneração condizente. Foi assim que Jerônim o, pela prim eira
vez, participou do luxo e da vida social do grande mundo. Em bora tivesse uma
natureza extremam ente despótica e bastante cruel com seus adversários, Damásio,
no entanto, prezava os relacionamentos hum anos e não era absolutamente des­
provido de interesses intelectuais. Apreciava a associação com um hom em com o
Jerônim o, que logo se to rn o u u m com pleto mestre das maneiras da cúria.
Ainda temos algumas das cartas breves e longas que foram trocadas entre eles.
O bispo exigia livros ou informações teológicas precisas: perguntava com afável
hum or por que Jerônim o estava há tanto tem po sem dar notícias, se estava “ador­
m ecido” ou abraçando seus livros. Jerônim o procurava satisfazer o máximo possí­
vel ao seu impaciente senhor e prometia dedicar-lhe sua última tradução.
Mas Damásio sabia m uito bem com o designar tarefas ao seu “protegido”
que fossem apropriadas às suas habilidades. Devemos agradecer a ele pelo p ri­
m eiro impulso em direção à empreitada que to rn o u im ortal o nom e de Jerônim o
na Igreja ocidental: a renovação da Bíblia latina, o texto da filologicamente
confiável Vulgata, que pôs u m ponto final no caos das antigas traduções. É verda­
de que nesses dias em R o m a Jerônim o foi pouco além da prim eira revisão dos
Evangelhos e incluiu em seus trabalhos um a tradução dos Cânones de Eusébio,
isto é, tábuas sinôticas que tornavam m uito mais fácil encontrar os resumos se­
melhantes.
Jerônim o logo engajou-se tam bém nas lutas políticas da Igreja contra as
seitas e os partidos teológicos, e neste contexto sua pena habilidosa, ao lado de
um profundo conhecim ento, mostraram-se particularm ente úteis. Provavelmen­
te tenha escrito nessa época u m panfleto contra os luciferianos, um a pequena
seita form ada por sectários extrem am ente “antiarianos” e cuja obstinação trouxe
muitos transtornos aos cristãos em R om a. D escobriu de m odo sagaz um feliz
m eio-term o entre o tom repleto de jovial popularidade e a tranqüila superiori­
dade de um argum ento ao mesmo tem po objetivo e erudito. Esse pequeno
Diálogo, entre um luciferiano e u m ortodoxo, foi escrito sob a form a de um
relatório oficial que descreve um a disputa que realmente aconteceu.Toda a ên­
fase foi colocada sobre o aspecto “objetivo” do sacerdócio cristão, que não só
proíbe um cisma deliberado como, também, e quando entendido corretam ente,
o considera sem propósito e desnecessário. O s sacramentos da Igreja, seu minis­
tério e sua tradição apostólica são igualm ente eficazes mesm o se, com o a arca de
N oé, contiver animais impuros em seu seio. Isso deveria ser entendido até pela
“eloqüência confusa” dos luciferianos, em bora a experiência tenha mostrado
que “é mais facil refutá-los do que convencê-los” (Dial. c. Lucif. 28). U m assunto
m uito mais profundo foi sua controvérsia com Helvídio, que tinha com o objeto
a virgindade perpétua de M aria. Este outro panfleto provavelmente tenha sido
solicitado por Damásio ou até mesmo explicitam ente aprovado p o r ele, com o
foi enfatizado por Jerônim o.
H elvídio era um leigo que, através de referências nas Escrituras reconhecen­
do e m encionando os “irmãos de Jesus” , contestava a teoria de que M aria tivesse
perm anecido virgem até mesmo “ depois do nascim ento” de seu prim eiro Filho.
Jerônim o estava ciente de estar, ao mesmo tem po, defendendo a antiga tradição
ocidental, que certam ente havia declinado em popularidade desde Ambrósio, e
protestando contra um mais recente e parcial elogio do celibato em detrim ento
do m atrim ônio. Aqui ele se baseava em seus fundamentos. O seu com pleto
doutorado bíblico conquistado veio em seu auxílio a fim de, em sua opinião,
salvar a honra de M aria contra todas as falsificações e supostas alegações do texto
feitas pelo oponente.

SO O
Os argumentos que sustentou, oriundos de sua exegese, são essencialmente
os mesmos que a Igreja Católica conserva até hoje. Foram efetivamente revigo­
rados por meio de uma drástica caricatura do ponto de vista contrário. N a ver­
dade, por trás disso encontrava-se u m interesse real e particular, isto é: a convic­
ção da superioridade moral e religiosa da virgindade, além de ser justificada por
toda tradição e prática da Igreja, segundo a concepção do próprio Jerônim o.
A virgem M aria e o “C risto virginal” já haviam lançado os fundamentos da
virgindade para ambos os sexos. Assumia que os apóstolos eram celibatários ou,
caso fossem casados, abstinham-se em seu m atrim ônio. Bispos, presbíteros e
diáconos são escolhidos entre os celibatários ou entre os viúvos ou, pelo menos,
vivem em castidade perpétua após terem se tornado sacerdotes (Ep. 4 9 ,21).Todo o
ideal da recompensa repousa sobre a distinção ascética entre os dois estilos de vida
em conformidade com sua posição e realizações. Seria um deus m uito estranho
aquele que punisse os pecados e não gratificasse as boas obras! (adv. Jov. II, 13)
Jerônim o tom ou cuidado para não proibir o m atrim ônio com o tal, porém ,
para ele esse era assunto de m en o r valor e, conseqüentem ente, apto a receber
uma m enor recompensa. O casamento está para a virgindade, assim com o o
m ero ato de evitar o pecado está para a prática do bem ; ou “para expressá-lo mais
suavemente: assim com o o bom está para o m elhor” (adv. Jov. I, 13). “Por que
deveríamos m entir para nós mesmos e com isso ficarmos zangados? Se estamos
continuam ente ávidos pelos abraços das mulheres, a recompensa pela castidade
naturalm ente deverá ser-nos negada” (Ep. 49, 21). Essa é a resposta que deu ao
últim o crítico de seu inflexível ideal e que durante toda a sua vida pareceu-lhe
extrem am ente conclusivo em sua lógica. N o entanto, faltava-lhe alguma aptidão
em relação aos problemas mais sérios sobre o conceito da santificação dos m on­
ges e que, todavia, outros teólogos do O cidente naquela época reconheceram.
Jerônim o foi o mais zeloso, mas tam bém o mais limitado e ascético teólogo que
a Igreja antiga jamais produziu; no entanto, em tudo que afirm ou nessas con­
trovérsias, estava sendo com pletam ente sincero.
Além disso, com sua pena, Jerônim o não se restringia a fazer propaganda
som ente a favor da vida ascética. Através dela assumia, inclusive, uma posição
particular em relação a seus ideais. Logo vamos encontrá-lo com o o núcleo
intelectual de um círculo de senhoras ricas e aristocráticas de quem se tornou
professor e conselheiro. Sua predileção especial p o r audiências formadas por
mulheres que, por sua vez, o admiravam e com preendiam e a quem podia ins­
truir, educar e aconselhar, era, com o já m encionam os, uma característica perm a­
nente de sua natureza. Depois da proteção do bispo de R om a, esse círculo de
senhoras aristocráticas de R o m a constituía, evidentem ente, o seu suporte mais
forte, pois, de outra forma, sua cultura e pregações ascéticas praticam ente não
teriam encontrado nenhum eco.

io t
O palácio sobre o m onte Aventino, no qual viviam a viúva Marcela, com sua
mãe e a filha Asella, havia se tornado o centro de u m novo m ovim ento ascético
e a elas se reuniam inúmeras outras jovens senhoras e viúvas, insatisfeitas com a
vida social de R om a. A seriedade das questões ascéticas trouxe um novo signi­
ficado para suas vidas e faziam-nas sentir-se mais ou menos com o freiras que se
cobriam com o véu e renunciavam aos adornos e à vaidade do “m undo” . R ara­
mente apareciam em público,jejuavam muito, faziam orações e eram m uito gene­
rosas em seus atos de caridade, para o desagrado de seus parentes e herdeiros.
M esm o antes da chegada de Jerônim o, algumas haviam decidido fazer pere­
grinação à Terra Santa e as novas idéias p o r ele difundidas a esse círculo com pre­
endiam, além do conhecim ento mais profundo sobre os rígidos exercícios do
O riente, a prática regular da leitura e do estudo da Bíblia. Logo depois de sua
chegada, Jerônim o teve a oportunidade de proferir algumas palestras perante
uma audiência seleta de senhoras, e que foram recebidas de m odo entusiástico.
Algumas começaram, p o r conta própria, a aprender o grego e o hebraico, e
depois a cobri-lo com questões mais ou m enos eruditas sobre teologia e exegese.
Pediam -lhe que lhes emprestasse livros e traduções, e com tal insistência o fazi­
am que às vezes tinha dificuldades em satisfazer a todos os pedidos de m odo
justo. Som ente para Marcela escreveu pelo m enos dezesseis cartas que, pelo seu
conteúdo, eram com certeza dirigidas tam bém ao grande público. Ele as editou
em um volum e que considerou com o sendo u m “livro” com pleto. D e sua parte,
essa mulher, evidentem ente im portante, ousou tentar educar um pouco esse
hom em inquieto e desviá-lo de seu prazer em difamar ou polemizar. Paula esta­
va interessada principalm ente em uma interpretação “mística” , isto é, alegórica e
devocional das Escrituras. À sua filha Eustáquia, Jerônim o dedicou sua famosa
carta sobre a correta maneira de levar uma vida ascética.
Segundo afirma, no início quase não tinha coragem de levantar os olhos em
sua presença, tal era o respeito que sentia por essas senhoras de alta linhagem (.Ep.
127, 7). Mas com o tem po, seu relacionam ento to rn o u -se mais cordial e
descontraído e Jerônim o sentiu-se cada vez mais à vontade na “casa-congrega-
ção” de suas alunas que estavam “verdadeiramente felizes com sua virgindade
física e espiritual” . “As aulas faziam-nos perm anecer ju ntos continuam ente; e o
fato de estarmos sempre juntos to rn o u -m e m enos consciente de m im mesmo, e
isso m e tornou mais confiante” (Ep. 45,2).
N o dia de São Pedro, Eustáquia enviou-lhe, ju n to com um a carta “picante” ,
braceletes e pombas que ele não rejeitou, além de uma pequena cesta “ cheia de
cerejas, enrubescidas com modéstia virginal” ; Lúculo não poderia ter feito m e­
lhor (Ep. 31, 1, 3). Em outra ocasião, M arcela deu-lhe u m novo manto, uma
poltrona, velas e cálices. E bastante divertido observar como, em todas as ocasi­
ões, Jerônim o combinava em sua resposta (de cuja elegância ele obviamente se
orgulhava), agradecimentos pessoais e sociais com reflexões edificantes. Segundo
ele, a veste de silício significa o jejum ; a poltrona indica o decoro do lar; as velas,
a luz com a qual aguardamos o noivo; e o cálice, a mortificação e o martírio. N o
seu caso, no entanto, esta interpretação é bastante favorável —pois a poltrona é
mais um sinal de preguiça, e o cálice significa festanças, etc.! Ao passo que em
relação aos doadores ele se considera com o alguém que revelou-lhes os “ misté­
rios” do que estava antes encoberto (Ep. 44).
Vemos que o m étodo alegórico, um a vez aprendido, pode tornar-se útil para
qualquer finalidade e com Jerônim o iniciou-se a história dúbia da “piada profis­
sional” dos teólogos. O que podem os dizer, por exemplo, quando ele galantemente
cum prim enta Paula, cuja filha havia optado por ser fieira e que agora havia se
tornado “não a esposa de u m soldado, mas de um rei” , com o a “sogra de D eus”?
(Ep. 22,20)
Jerônim o aparece com o o prim eiro exemplo de conselheiro e confidente
espiritual, quase com o os capelães domésticos dos nobres e da sociedade aristo­
crática, que vieram mais tarde. Este foi tam bém um sinal dos tempos, e serve para
que as suas ingênuas descrições passem a despertar um m aior interesse. D urante
toda a sua vida, Jerônim o evitou preocupar-se com pessoas de origem humilde,
pois, sendo ele próprio de descendência com um , sempre procurou em seus rela­
cionamentos sociais estabelecer alguma ligação com pessoas que estivessem em
posição acima da sua. Porém, não devemos tentar adaptar m uito esse quadro às
analogias do m undo m oderno, p o r exemplo, aos salões franceses do Antigo R e ­
gime. A atmosfera de renúncia m undana era demasiadamente profunda para isto,
e a melancolia de um verdadeiro ascetismo estético pairava sobre tudo. Acredi­
tava-se ser a virgindade a expressão de um especial am or a Cristo; porém , o seu
lado físico era principalm ente realçado o que, de certo modo, seria bastante
embaraçoso para os sentimentos m odernos.
Jerônim o, com certeza, tinha à sua disposição toda a flexibilidade e seguran­
ça da antiga retórica e da pregação pedagógica; porém , sua severa receita para a
cura ascética das almas ainda não havia feito progressos em direção às regiões
mais sensíveis dos sentimentos. “Se qualquer m ulher de R o m a quiser conquistar
m eu coração, esse será o único caminho! Ela terá que prantear e jejuar, deverá
cobrir-se com o pó e estar quase cega p o r causa de suas lágrimas. Seu canto será
feito de salmos, sua palavra será o Evangelho, seu fardo a abstinência e a ocupa­
ção de sua vida será jejuar” (Ep. 45, 3).
N o entanto, era inevitável que, no decurso do tempo, boatos e desconfianças
se originassem dessas reuniões e de sua correspondência, provocados p o r uma
onda de opositores que a nova propaganda ascética estava levantando em toda
parte. Podemos percebê-la simultaneamente em Milão, na Gália e em todo o
O cidente. Os romanos estavam irritados com o “insuportável pensamento dos

SO S
m onges” , que os tornava presunçosos em suas exigências ascéticas, os “im posto­
res e gregos” que seduziam as ricas matronas, mas que nunca estavam satisfeitos
com nada e com ninguém . Jerônim o era bastante incauto ao enfrentar seus opo­
nentes com hum orism o insolente e sarcástico e dizer que os críticos de seu texto
bíblico eram “asnos de duas pernas” . Q ualquer um que “lançasse pedras” sobre
os seus tratados ascéticos deveria ser um a pessoa dissoluta, m undana e hipócrita,
e havia muitos destes, com o nos assegura, m esm o entre os monges e o clero. Se
alguém se sentisse pessoalmente atingido, as coisas se lhe tornariam ainda piores.
Ainda temos um a carta onde Jerônim o ridiculariza um sacerdote que tem o
ridículo nom e de “ O násio” : ele m enciona seu mal-cheiroso nariz e diz que
pode unicam ente dar-lhe o conselho de não se deixar mais ver, se quiser m anter
sua reputação de hom em belo e eloqüente (Ep. 40). M esm o essa pequena sátira,
assim com o tudo que Jerônim o produziu, está adornada com uma imensa quan­
tidade de citações clássicas e bíblicas.
Parece que Jerônim o quase não tinha amigos verdadeiros entre os homens
de R om a, além do senador Pamáquio, genro de Paula, e do próprio Damásio,
“que tem os ouvidos de m inha senhora” , com o diziam seus inimigos. Jerônim o
recebia diariam ente m uitos visitantes em seus aposentos que, publicamente, bei-
javam -lhe a mão e esforçavam-se para obter favores de u m hom em que era
considerado o braço direito e o porta-voz do bispo. Todavia, não o perdoavam
“por ter exposto com suas críticas imundas toda a sociedade cristã, em todas as
posições e classes, em suma, toda a igreja” . Dessa forma, tudo parecia ser ainda
pior do que aquilo que seus opositores pagãos afirmavam (Rufin.,y4po/. II, 5).
Por fim, quando Damásio faleceu, no dia 11 de dezembro de 384, desenca-
deou-se a catástrofe, e de todos os lados a hostilidade tornou-se aparente. Essa
mudança foi m uito amarga para Jerônim o que, com o parece, havia sido suficien­
tem ente ingênuo para ter suas próprias esperanças de sucessão. O novo bispo,
Sirício, desconhecia todo seu trabalho de mestre e até parece que o “ Senado dos
Fariseus” - com o Jerônim o chamava os presbíteros de R o m a - havia explicita­
m ente se manifestado contra ele. D e qualquer forma, ele havia perdido sua tão
proveitosa posição. Além disso, a jovem Blaesila, que Jerônim o havia convertido
a uma rígida vida ascética, m orreu naquelas semanas, e todos diziam que o jejum
havia sido a causa de sua m orte. Paula, sua própria mãe, quase entrou em colapso.
A carta de condolências que Jerônim o lhe enviou exaltava a falecida aos céus e,
ao mesm o tempo, respondia à imensa dor da mãe com cruel severidade.
Este fato só é provavelmente compreensível à luz da difícil situação em que
o próprio Jerônim o se encontrava. Blaesila, ele diz, está agora abençoada e feliz
na com panhia de M aria e de Ana! C o m o ficaria triste se soubesse que sua mãe
está desafiando a Cristo p o r não saber controlar sua tristeza! Paula não deveria,
sob qualquer circunstância, m ostrar-se frágil. Lágrimas perante a m orte não são
permitidas a um cristão, e m enos ainda por causa de uma santa freira. As Escri­
turas nos ensinam com o devemos nos com portar. Além disso, segundo u m tema
tradicional, a lembrança de quem partiu irá continuar viva e nisto reside tam bém
o consolo terreno. E m todas as linhas que Jerônim o escrever no futuro, o espírito
de Blaesila estará perante seus olhos e em seus livros, seu nom e viajará p o r todo
o m undo e jamais m orrerá (Ep. 39, 8).
Por vezes, Jerônim o pensava estar navegando em águas calmas com seu “na­
vio furado” , enquanto aguardava a tempestade desabar sobre os campos vizi­
nhos. Por que deveria se preocupar, escreveu, com R om a, seu luxo e seus teatros
e até mesmo com seu piedoso círculo de nobres amigos? Apegar-se a D eus era o
suficiente. E novam ente um quadro se desenrolou perante seus olhos, brilhante
com o as cores de Virgílio, de um a feliz vida no campo. Lá iria se contentar em
com er repolho, que ele mesmo plantaria, com pão caseiro e leite fresco, e tornar-
se frugalm ente feliz à sombra das árvores e ju n to aos prados pontilhados de flores
(Ep. 43, 3). N o entanto, ao mesm o tem po reconhecia que essa fuga não lhe
convinha e, pela segunda vez, tom ou a decisão de partir para o O riente - e pela
última vez: “voltou da Babilônia para Jerusalém ” .
Sua carta de adeus a Asela (Ep. 45) reflete fielmente o que sentia na época.
Evidentem ente, ele estava determ inado a silenciar seus invejosos inimigos, os
“sacerdotes e os levitas” daquela cidade ingrata e, especialmente, a refutar as
calúnias lançadas sobre suas companheiras; contudo, ao mesmo tempo, toda a sua
exasperação e irritação pessoal mais um a vez forçaram -no a dar-lhes passagem.
Pensavam que fosse um libertino, u m intrigante ou um desprezível covarde! E
até as pessoas que anteriorm ente tratavam -no com tanto am or e respeito esta­
vam m urm urando contra ele! Mas os hipócritas e as senhoras mundanas da soci­
edade podem ridicularizar sua vida santa! Pensava-se que ele havia aprendido a
entrar no reino dos céus “p o r honra e p o r desonra” (2 C o 6.8). U m dia será
revelado, perante o tribunal de Cristo, quem pensava corretamente.
M esmo estando repleta dessa ingênua impulsividade, sua carta se revela como
um admirável docum ento e o O cidente nunca havia antes conhecido qualquer
coisa semelhante. Era com o se a expressão cultural de Cícero tivesse se associado
ao apaixonado desprezo de Paulo em relação ao mundo. N ela ouvim os a voz de
u m precipitado ascético que, em sua amargura, não foi livre nem grande; porém ,
de qualquer form a um hom em que realmente perm aneceu enérgico através dos
tempos.
A princípio, Jerônim o foi a A ntioquia, onde novam ente fixou residência
com Evágrio e Paulino, mas não p o r m uito tempo. Provavelmente, desde o iní­
cio havia sido com binado que Paula e Eustáquia logo depois iriam segui-lo por
outro caminho. Pediu que fossem à casa de Epifânio, bispo de Salamina, e depois
viajassem juntos através da Palestina —uma piedosa peregrinação bastante co-

io s
m um naqueles dias. Além do mais, essa era um a oportunidade para ampliar seus
conhecim entos sobre a Bíblia e nessa sua investigação particular Jerônim o foi o
prim eiro teólogo a enfatizar a im portância científica da arqueologia. “Aquele
que viu Atenas pode com preender m elhor a história grega, e aquele que nave­
gou a partir de Tróia, através de Leucas e Acrocerânia até a Sicília e, ainda mais
além, até a foz do rio Tibre, poderá com preender m elhor o terceiro livro de
Virgílio (isto é, a Eneida). Da mesma form a que as pessoas lerão as Santas Escri­
turas com outros olhos se tiverem visitado a Judéia e conhecido seus antigos
lugares e paisagens, mesmo se seus antigos nomes tiverem sido conservados ou
mudados” (Paralip. prol.).
Devemos a Jerônim o a revisão de um antigo dicionário hebraico de nomes
próprios e, acima de tudo, todo o Onomasticon de Eusébio, sobre a geografia
bíblica que, ampliado com suas próprias observações, ainda hoje representa uma
indispensável fonte de inform ações. A lém da Palestina, os núcleos monásticos
do Egito tam bém eram um destino popular de muitas viagens com finalidade
educativa ou espiritual, e este erudito guia, prazerosamente, acom panhou as da­
mas a esses lugares, “ e assim aprenderam m uito do que até então era desconhe­
cido para eles” (Apol. III, 22). Acima de tudo, veio a conhecer Alexandria, o
últim o centro m etropolitano de educação teológica que faltava a Jerônim o visi­
tar e onde fez amizade com o cego origenista Dídim o, seu “ clarividente” profes­
sor, a quem “podia perguntar a respeito de tudo que lhe parecesse duvidoso nas
Escrituras” (Ephes. prol.). A obra de D ídim o sobre o Espírito Santo foi o único
trabalho dogmático que Jerônim o traduziu do grego para o latim; no entanto,
parece que ele tam bém o questionou sobre problemas de exegese.
As viagens term inaram no verão de 386 e, finalmente, decidiram se fixar,
não em Jerusalém, mas num local mais tranqüilo: Belém. Jerônim o dispunha de
meios próprios e, mais tarde, transform ou em dinheiro a propriedade que havia
herdado de seus pais, a fim de ajudar a financiar a colônia que planejava e “não
ser motivo de chacota para seus invejosos caluniadores” se o em preendim ento
falhasse (Ep. 66,14). N o entanto, sem dúvida a m aior parte das despesas foi paga
com a imensa fortuna que suas amigas colocaram à sua disposição. N o decurso
dos anos foi construído um grande convento sob a liderança de Paula, dividido
em três departamentos, nos quais as freiras foram acomodadas de acordo com
sua posição social.
Jerônim o era o diretor do mosteiro, que era m enor do que o convento, mas
que ao longo do tem po chegou a ter cerca de cinqüenta internos. Além disso,
havia uma hospedagem para peregrinos e um a escola, na qual Jerônim o leciona­
va educação secular em retórica aos alunos. O utra vez, recusava-se a assumir os
deveres religiosos regulares e, em bora o claustro tivesse um a capela, os monges
tinham que ir até a igreja na cidade para fazer suas orações. Jerônim o se satisfazia
em pregar só ocasionalmente aos seus monges, p o r vezes até em grego, pois a
maioria deles era de origem ocidental.
D o O cidente vinham cada vez mais visitantes e peregrinos, tam bém recru­
tas para o claustro e, às vezes, alguns retornavam a seus países de origem a negó­
cios ou para visitas. A residência perm anente (stabilitas loci) ainda não era consi­
derada um a obrigação indispensável aos monges da época e, também, não havia
ainda qualquer obrigação de isolamento ou silêncio.
D urante trinta e quatro anos, isto é, quase a m etade de sua vida, Jerônim o
viveu nesse local que, até sua m orte, nunca abandonava a não ser para curtas
visitas aos arredores. Além de novos tratados polêmicos, todos os seus longos
escritos bíblicos e traduções foram feitos ali, pois essa foi a verdadeira ocupação
de sua vida. Q uando comparadas com esse trabalho, suas primeiras realizações
literárias parecem insignificantes em extensão e conteúdo. Sem dúvida, as favo­
ráveis condições externas contribuíram m uito para esta notável produção, em ­
bora, quase com o um sábio m oderno, ele se queixasse pelas inúmeras perturba­
ções e que a multidão de visitantes não lhe deixava outra escolha a não ser fechar
seus livros ou sua porta. Ele diz que não deseja alardear sua hospitalidade - mas
que precisa se desculpar para que seu trabalho possa m elhor progredir.
Som ente em “horas roubadas” das longas noites de inverno, quando o óleo
estava queimando, é que encontrava tem po para seus com entários (Comm. Ezech.
VII prol.). Além do mais, queixa-se sempre da fraqueza de seus olhos que, espe­
cialmente após ler os manuscritos hebreus, se recusam a trabalhar e que, em
princípio, só é possível form ular os pensamentos corretam ente se as palavras
forem anotadas pela própria pessoa (Ep. 21, 42). Por outro lado, em Belém ele
tinha tudo à sua disposição: seus inúm eros livros, leitores, secretários e assistentes,
alunos ansiosos por aprender e, não m enos im portante, o interesse e a simpatia
de suas devotas amigas que não o deixavam e que cuidavam dele com uma
constante devoção.
Q u em o visitasse levava consigo a indelével impressão da agitada energia de
seu trabalho: “ele está sempre estudando, com pletam ente absorto em seus livros;
nem de dia ou de noite perm ite-se qualquer repouso; está constantem ente em ­
penhado em ler ou escrever” (Sulp. Sev., Dial. 1,9,5). O fato de Jerônim o nunca
encontrar um m om ento para descansar não se deve tanto às pequenas perturba­
ções ou discórdias, que mesmo em u m mosteiro não deixavam de surgir, ou aos
caluniadores e à inveja de seus inimigos, a quem imaginava estar sempre em ação
em toda parte, mas acima de tudo à inquietude de seu próprio e incorrigível
tem peram ento, sempre pronto a ser provocado em defesa de suas controvérsias.
A m aior realização de Jerônim o durante estes tempos, e que perm anece até
hoje, foi sua tradução do A ntigo Testamento originalm ente escrito em hebraico.
Esse trabalho provavelmente se iniciou no ano de 390 e ficou totalm ente con-

so ?
cluído por volta de 406. Além disso, estava com prom etido com outro trabalho,
parcialmente relacionado com o prim eiro. A nteriorm ente, havia iniciado uma
nova tradução ou revisão do texto usado pela Septuaginta, isto é, a antiga Bíblia
greco-judaica que havia substituído o texto original na Igreja e cuja reputação e
virtude eram m uito elevadas. N a biblioteca de Cesaréia, na Palestina, Jerônim o
encontrou uma cópia original da Hexapla, na qual O rígenes tinha em seu tem po
reunido o texto da Septuaginta com outras traduções e com o texto original
hebraico.
Jerônim o com eçou pelos Salmos; esta sua prim eira tradução da Septuaginta
em grego é ainda hoje utilizada, ocasionalmente, de m odo litúrgico. O utros
livros se seguiram; porém , tornou-se claro para Jerônim o que, com o havia plane­
jado para seu trabalho, som ente a “verdade” original do texto em hebraico p o ­
deria ser totalm ente determ inante. C o m energia admirável dispôs-se a renovar e
aprofundar seu notável conhecim ento de hebraico que, realmente, não se mos­
trava à altura de tal projeto. C ontratou - com o sempre gostava de lembrar, com
seu bom e escasso dinheiro - u m erudito rabino ju d eu que som ente ousava
visitá-lo durante a noite, com receio de seus correligionários. Além de um co­
nhecim ento puram ente gramatical da língua, Jerônim o devia-lhe tam bém m ui­
tas e im portantes sugestões para interpretação.
A nova tradução realizada era - com o tudo que ele criava - reveladora. Em
se tratando de grandes livros sobre história, ele geralmente saía-se m uito bem e
seu trabalho era preciso e excelente; no entanto, em outras obras, o resultado era
bastante superficial. Confessava ter levado apenas um dia em certa tradução, e
noutra gastou apenas uma noite; além do mais, ambas foram traduzidas do
aramaico. U m a proveitosa inovação, que até então nunca havia sido usada para a
tradução em prosa dos textos bíblicos em latim, foi dispor o texto em linhas
correspondendo ao sentido, o que de certo m odo representava um substituto
para a nossa pontuação m oderna. Tendo possivelmente encontrado essa sugestão
na Hexapla, Jerônim o referia-se às edições correspondentes de Demóstenes e
Cícero e realçava que nessas obras a palavra “ cola” não deveria ser entendida
com o “versos” .
N aturalm ente, não podia deixar de contar, em grande parte, com as antigas
traduções latinas das quais se utilizava proposital e conscientem ente; o fiel leitor
da Bíblia não devia ficar ofendido com um a inovação tão radical. Existem, na
verdade, inúmeras falhas e erros nesse trabalho com o um todo - isso dificilmente
poderia ser evitado num a tarefa tão inovadora e complexa. Mas, em todos os
aspectos, a tradução de Jerônim o significou u m trem endo avanço quando com ­
parada ao estado de coisas daquela época e perm anece até hoje com o um a res­
peitável e única realização, em vista das contínuas referências ao hebraico. Em
relação ao estilo, Jerônim o conseguiu suprim ir as inúmeras expressões vulgares e

so < ?
os horríveis neologismos da antiga Bíblia latina, sem que isso sacrificasse ou
transformasse a sua popularidade e as suas veementes expressões em um insípido
puritanismo. C onseqüentem ente, a Vulgata perm aneceu de m odo justo até os
nossos dias com o a clássica Bíblia latina. Quase não existem traduções posterio­
res que não tivessem sido, pelo m enos indiretam ente, influenciadas e moldadas
po r essa obra —inclusive a tradução de Lutero.
N o início esta tradução estava longe de tornar-se a Vulgata, isto é, a edição
eclesiástica com um ente utilizada pela igreja de língua latina; isso som ente veio a
acontecer no início da época Carolíngia, quando gradualmente conseguiu se
posicionar contra todas as suspeitas e tipos de oposição. Seus contem porâneos
não se mostravam especialmente gratos pela m aior obra da vida de Jerônim o e
até Agostinho, que ainda se queixava da desordem reinante nas antigas traduções
e procurava administrá-la da m elhor forma possível, lastimava que Jerônim o não
houvesse aderido de form a mais perseverante à Septuaginta, em cuja origem
inspirada e milagrosa ele acreditava firm em ente. Isso, naturalm ente, era m uito
doloroso para Jerônim o, que havia anteriorm ente crido nessa lenda; além do
mais, outros foram ainda mais longe em suas críticas. C om o de costume, o novo
e desconhecido foi p or eles simplesmente considerado com o pervertido. Porém,
tendo um a vez ficado convencido sobre a Hebraica veritas, isto é, das afirmações
superiores do texto original, Jerônim o não poderia ceder sobre esse ponto.
Finalmente, tentou tam bém definir os limites do cânon do Antigo Testa­
m ento, tom ando a língua hebraica com o base. Esses livros, e partes do Antigo
Testamento, originalm ente escritos em outra língua, em grego ou “caldaico”
(isto é, aramaico), não têm o direito de ser considerados com o sendo a Palavra de
Deus, em seu sentido mais estrito. Eles são “apócrifos” e foram colocados à
m argem com o sendo mais ou m enos “lendários” - um a posição adotada mais
tarde pelas igrejas protestantes, e que finalmente foi rejeitada pela Igreja Católica
romana no C oncílio de Trento.
O que causou mais problemas a Jerônim o foi o pensamento tacanho daqueles
que encontravam falhas em suas traduções porque, com o ele mesmo disse, em sua
falta de cultura não tinham qualquer idéia do que uma tradução realmente signi­
fica. N ão se pode, simplesmente, transportar uma sentença, palavra por palavra, de
uma língua para outra. Cada língua tem seu próprio sentido e —sem estar, portan­
to, mais pobre ou mais rígida —tem suas próprias leis e possibilidades. As “mons­
truosidades verbais” das primeiras traduções são simplesmente ridículas e o proble­
ma não era substituir cada palavra pela palavra correspondente, mas, reescrever a
sentença de acordo com o seu significado. N o entanto, Jerônim o era suficiente­
m ente cauteloso para somente defender a liberdade que assumiu em outras de suas
traduções do grego para o latim, e não para a tradução da Bíblia, embora, como
bem o sabia, a língua latina fosse m uito mais próxima do grego que do hebraico.
Nas Santas Escrituras, ele diz, a precisa seqüência das palavras tem , em certos
casos, um significado mais profundo que deve ser preservado (Ep. 57,5). Essa foi
uma das salvaguardas que novamente apresentou para proteger sua impecabilidade
eclesiástica. N o entanto, e felizmente, nem sempre agiu de acordo com o que
mandava sua tradução da Bíblia. Jerônim o tam bém se referia à liberdade que os
próprios autores do N ovo Testamento dem onstram quando citam passagens do
Antigo Testamento, e em relação aos princípios gerais da tradução, ele se apoiava
justam ente em Horácio, acima de tudo em Cícero, e na verdade era de fato bem
mais cauteloso do que qualquer um deles. Se considerarmos suas traduções com o
um todo, veremos que ele se revela u m estudioso experiente e cuidadoso, que
conhece seu ofício e evita fazer qualquer experiência radical. Os problemas filo­
sóficos mais profundos da linguagem nunca lhe ocorreram e o assunto do qual
tratava era somente “teológico” e não relacionado ao espírito sobre o qual se
apropriava para seu estudo. Seríamos injustos se a esse respeito o comparássemos
a um pensador com o Agostinho, quando este próprio prontam ente reconhecia a
superioridade do talento lingüístico de Jerônim o.
A m aior parte da herança de Jerônim o abrange explicações sobre as Sagra­
das Escrituras. Algumas delas são representadas por com entários detalhados nos
quais tentava apresentar cada um a das questões, outras são com entários mais
concisos ou glossários que se restringem apenas a breves informações sobre as
passagens mais difíceis (Comm. Dan. prol.). Além disso, temos cartas dedicadas a
problemas específicos, longos trechos sobre exegese em seus escritos dogmáticos
e sermões que, em bora tenham sido proferidos perante os monges, apresentam
u m caráter erudito semelhante.
Jerônim o, por exemplo, não podia deixar de lançar mão das várias interpre­
tações das traduções gregas dos Salmos. M esm o com o pregador, expressamente
recusava-se a apresentar meras declamações; pelo contrário, procurava oferecer
“exposições” reais. A m aior parte de seus com entários refere-se ao A ntigo Testa­
mento. As explicações justificam, e ao mesm o tem po confirm am, a tradução
subjacente. H á um a predom inância dos profetas, e Jerônim o tece considerações
sucessivas sobre eles. Por outro lado, ele não se ocupa com u m único livro histó­
rico, mas somente com as Questões Hebraicas sobre o Gênesis (isto é, sua tradução)
através de um tratado especial. A princípio isso poderia parecer singular, mas,
Jerônim o não é um historiador, apenas u m “exegeta histórico-filológico” que
regularm ente utiliza informações históricas apenas para elucidar o cenário, e as
ocultas alusões da história da época para naturalm ente, e acima de tudo, verificar
o “ cum prim ento” das promessas.
D o N ovo Testamento, além de uma breve explicação sobre o Evangelho de
M ateus, escrito em duas semanas e reconhecidam ente restrito apenas a assuntos
“históricos” , ele se lim itou a com entar apenas quatro das epístolas mais curtas de

Í/O
Paulo. Nestas Jerônim o reproduz o interesse ocidental contem porâneo sobre a
teologia paulina. N o entanto, comparativamente, esse foi um trabalho feito às
pressas e bastante modesto e que se limita a ser essencialmente uma seqüência de
passagens dos mais antigos exegetas gregos. A obra que havia idealizado, reunin­
do os com entários completos de todas as epístolas de Paulo, nunca foi escrita; ao
contrário, os trabalhos de Jerônim o sobre “os Profetas” mantiveram -no ocupado
durante trinta anos de sua vida.
Jerônim o foi um escritor ágil, ou pelo m enos ditava rapidamente. Ele des­
creve com o um a vez um secretário ficou m uito nervoso, com eçou a brincar
com os dedos e a franzir a testa quando Jerônim o interrom peu o ditado e parou
para refletir.“Eu dito o que vem à m inha boca” (Comm. Gal. III prol.).“A m inha
fala corre juntam ente com a mão do escritor” (Comm. Is.V prol.). Quase não
havia tem po para revisar o ditado e era com bastante orgulho que se desculpava
dizendo que havia term inado esse ou aquele trabalho em tantos dias ou mesmo
durante a vigília noturna, sob enorm e pressão das circunstâncias.
Nesses casos, as circunstâncias eram responsáveis pelo fato de não ter se
concentrado m elhor ou por esse ou aquele aspecto do assunto não ter sido mais
extensivamente ou m elhor trabalhado. C om o já mencionam os, Jerônim o preci­
sava dessas desculpas, pois cada um de seus trabalhos é, de alguma forma, u m opus
tumultuarium, que ostenta as marcas de sua form a de trabalhar —não exatamente
indiscriminada, não m uito escrupulosa e diligente à sua maneira. N ão é facil
julgar adequadam ente Jerônim o sob o aspecto de um estudioso, e todas as vezes
que suas declarações são avaliadas, muitas e muitas vezes nos deparamos com
descuidos e negligências. Em bora os m odernos exegetas tenham se queixado
legítima e sonoram ente dessas peculiaridades —ainda assim não conseguem se
m anter longe dele! O material que nos legou é tão rico e diversificado que
ninguém poderia deixar de usá-lo; além do mais, sem suas inúmeras anotações,
casuais e eruditas, um a considerável quantidade de informações, alusões e expli­
cações filológicas estariam para nós perdidas para sempre.
N o entanto, há uma coisa sobre a qual não se pode duvidar: o admirável
conhecim ento de Jerônim o foi produzido de segunda mão. Vários dos antigos
autores gregos representavam uma fonte das informações sobre suas épocas, parti­
cularmente Eusébio, pelo seu material histórico e, acima de tudo, Orígenes, onde
foi buscar a sua ressonância e que repete, quase palavra por palavra, em páginas
inteiras. Algumas vezes Jerônim o chegou a admitir francamente a sua dependên­
cia: “Eles dizem que faço resumos dos trabalhos de Orígenes, e que não é válido
usar os antigos mestres dessa forma. As pessoas pensam que eu me sinto ofendido
por isto; no entanto, vejo nesta situação uma forma elevada de exaltação, e é meu
expresso desejo seguir o exemplo daquilo que estou convencido que irá agradar a
todos os homens de discernimento e a vocês tam bém ” (Comm. Mich. II prol.).
E m outros casos, ele cuidadosamente oculta sua dependência e —talvez com o
resultado de uma simples urgência - procura, p o r exemplo, apresentar coisas que
Orígenes aprendeu de seus antigos mestres hebreus com o se ele próprio as tives­
se descoberto. Pior ainda é o exagero óbvio que faz de seu conhecim ento das
fontes de informação; sem dúvida, Jerônim o dispõe de elevado conhecim ento;
no entanto, quase nunca leu ou sequer m anuseou a m etade dos livros aos quais se
refere em tom orgulhoso, com o um ho m em que tem um profundo conheci­
mento. Ele pode ser desculpado em alguns casos individuais, pois havia na época
um hábito literário de não citar explicitam ente os nomes das autoridades mais
recentes, das quais as informações eram obtidas. C ontudo, o quadro geral da
personalidade de Jerônim o torna-se prejudicado p o r um a com pleta desconfian­
ça, aliada à sua m encionada arrogância. M esm o na literatura erudita, o “ estilo” de
um hom em revela o seu caráter.
O m étodo de exegese utilizado p o r Jerônim o não é uniform e. Em bora de
form a bastante inconsistente, ele adotou tanto o sistema alegórico da escola de
Orígenes em Alexandria, com o o realismo da filologia de Antioquia. Em seu
todo, é evidente que no decorrer do tem po a interpretação “mística” dos textos
foi bastante ampliada com explicações históricas e filológicas que se harm oniza­
vam m uito bem com o seu m odo de ser e suas inclinações. Ele estava principal­
m ente interessado no significado concreto das afirmações e m uito pouco no seu
significado tem poral e alegórico. Preocupava-se em assimilar o sentido “literal”
natural e em com preender o propósito específico do texto “ na form a em que foi
entendida pelo próprio autor que o escreveu” (Ep. 37,3). O que mais lhe im por­
tava era o chamado sentido “histórico” ou “literal” , cujo conteúdo definia corre­
tam ente de forma tão ampla que o significado m etafórico ou figurativo tam bém
estava incluído, desde que estivesse ainda dirigido ao contexto original e histó­
rico. Isso não significa, contudo, que Jerônim o tivesse rejeitado a “superior” in­
terpretação alegórica ou mesmo que a considerasse com o supérflua. C om o to ­
dos os exegetas da Igreja Primitiva, e do m esm o m odo que seu mestre Orígenes,
Jerônim o ratificava o duplo ou triplo significado das Escrituras e repudiava sua
interpretação exclusivamente histórica com o sendo “judaica” , pois segundo ele
a simples letra “m ata” . O que exigia, com ênfase crescente, era apenas que a
exegese literal e histórica não fosse considerada inferior à especulação alegórica
e que, em princípio, deveria até mesmo precedê-la.
N ão devemos interpretar de form a alegórica um a obra se não tivermos
qualquer conhecim ento sobre seu conteúdo histórico, com o ele próprio havia
feito em sua juventude (Com .Abd. prol.). É tam bém bastante significativo que,
em seu estrito senso, as explicações “místicas” de autoria de Jerônim o sejam
m uito mais tipológicas que alegóricas, isto é, não procuram deduzir o conheci­
m ento religioso geral a partir das palavras e acontecim entos do Antigo Testa­

i/i*
m ento mas, ao contrário, são utilizadas apenas com o indicadores e “tipos” da
futura história do N ovo Testamento que basicamente os “cum priram ” . Para
Jerônim o, o m étodo “histórico” era essencialmente a forma real e erudita de
interpretação, enquanto o m étodo alegórico, ao contrário, preenchia apenas as
necessidades devocionais, práticas e eclesiásticas e deveria ser adaptado para tal
finalidade. “A História é precisa (isto é, a interpretação histórica) e não perm ite
divergências arbitrárias. A tropologia, p o r outro lado (isto é, a interpretação
“m oral” superior), é livre e sujeita apenas à única lei que diz que ela deve ter em
vista um significado piedoso” (Comm.Abac. 1 .11). Além disso, ela perm ite dife­
rentes formas de interpretação para o mesmo texto.
Q uando Jerônim o cam inhou “historicam ente” , ele acom panhou o texto
original e sem hesitação baseou o superior entendim ento alegórico sobre a
Septuaginta, em bora às vezes um pouco “contra sua consciência” (Comm. Nah. i.
14). Porém, o que mais poderia fazer em vista daqueles que consideram qual­
quer interpretação feita sem referência à tradução usual (isto é, à Septuaginta)
com o sendo simplesmente defeituosa e incompleta? (Comm. Is. xxx. 33) “ Nós
tem os” , sugere,“a obrigação de explicar as Escrituras tal com o são lidas na igreja
e,p o r outro lado, não devemos abandonar a verdade do texto hebraico” (Comm.
Mich. i. 16). Este é o verdadeiro Jerônim o, que não gostava de sustentar argum en­
tações, principalm ente em suas conclusões lógicas, e sempre procurando perm a­
necer em contato com o pensam ento e a tradição eclesiástica.
Decisões teológicas independentes eram raras em seus com entários e seu
juízo sobre elas foi praticam ente sufocado pelas muitas opiniões contraditórias
que emitia e são, portanto, deixadas mais ou m enos a critério da conclusão dos
leitores. Seus ensinamentos e explicações sobre os heréticos, ou pagãos com o
Porfírio, na verdade sempre foram severamente repudiados (pois os livros da
Bíblia Sagrada são com certeza ditados pelo Espírito Santo, e aquele que não
tem o Espírito Santo não é, naturalm ente, capaz de com preendê-los correta­
m ente). Porém , o entendim ento cham ado de “ correto” estava equiparado aos
ensinamentos da Igreja e um a análise crítica só é encontrada em relação aos seus
detalhes. As questões básicas nunca são verdadeiramente perguntadas ou respon­
didas, com o por exemplo o que realmente significa a inspiração das Escrituras
em relação ao conhecim ento crítico filosófico; se esta concepção deveria ser
entendida literalmente ou dentro de um sentido mais genérico.
Jerônim o contentava-se com o generalizado reconhecim ento de que as Es­
crituras não continham contradições e eram infalíveis, mas não foi capaz de
desenvolver sua própria herm enêutica bíblica. Assim sendo, suas explicações so­
bre a Bíblia flutuavam entre uma enfadonha filologia e um benefício espiritual
incom pleto que poderiam ser m uito úteis, mas que eram desprovidos de con­
teúdo teológico. Som ente nas explicações morais, e especialmente ascéticas, seu
tem peram ento pessoal conseguia ser reconhecido e isso corresponde ao quadro
já revelado através de suas últimas cartas, desde que contenham um caráter ins­
trutivo. Questões específicas da exegese bíblica eram freqüentem ente discutidas
sob a form a de pequenos ensaios, ou sob a form a de conselhos (ou obituários)
que glorificam e ilustram, acima de tudo, o ideal ascético da “virgindade” .
D e tempos em tempos, Jerônim o ainda intervinha com seus próprios trata­
dos sobre as controvérsias teológicas do O cidente, particularm ente quando eram
de im portância eclesiástica prática. Em seus últimos anos, perm aneceu tam bém
consistentemente silencioso em relação aos problemas da Trindade e da cristologia,
em face da qual já havia, no início de sua carreira, mostrado tanta perplexidade
com o vimos antes. Era com o se estas questões, que m antinham todo o O riente
à sua volta em constante agitação, não existissem para ele, e provavelmente nunca
havia lido os novos e inúm eros trabalhos sobre o assunto. N o entanto, tudo que
acontecia em R om a, na Gália ou na Africa, imediatamente provocava sua imediata
reação e não era m uito difícil que enviasse cartas ou ensaios a seus amigos desses
lugares, o que não deixava de provocar uma resposta adequada. “Eu apenas tenho
que escrever alguma coisa” , diz ele queixando-se de m odo presunçoso, “e em
seguida meus amigos e inimigos estarão prontos a fazer circular meus escritos
entre as m ultidões” .
C o m certeza, as intenções são diferentes, porém o zelo de ambos os grupos
é idêntico e ambos exageram ou no louvor ou na censura (Ep. 48, 2). Por outro
lado, sentiam no O cidente que Jerônim o estava freqüentem ente faltando com a
devida moderação em suas polêmicas, que distorcia a opinião de seus adversários
e discutia com irritação pessoal —objeções que sempre repudiava com indignação.
Q uando as opiniões de Helvídio encontraram um certo reavivamento em “li­
vros vomitados devido à em briaguez” , pelo m onge epicuriano Joviniano (adv.
Jov. 1,1), a refutação contida em dois volumes tornou-se tão violenta que amea­
çou ter um efeito contrário ao pretendido. E m sua exaltação à virgindade,
Jerônim o havia abalado m uitos círculos sociais, transm itindo a idéia de difama­
ção do m atrim ônio. Pamáquio tentou em vão tirar de circulação todas as cópias
publicadas.
Mas as coisas tam bém não correram m elhor no caso do sacerdoteVigilâncio,
que era “O Vigilante” , que estava em com panhia de Joviniano. Em suas investidas,
Jerônim o dirigia-se a ele com o “ Cabeça D o rm inh o ca” ou Dormitantius. Após
Joviniano ter “ eructado seu espírito entre faisões e porco assado” (adv. Vig. I),
V igilâncio representava não so m en te a rep etição de sua im o ralid ad e e
intemperança, mas tam bém procurava atingir os santos mártires; na verdade,
Vigilâncio havia criticado as novas formas de culto aos mártires e os abusos
relacionados a estas, as quais nem mesmo Jerônim o podia negar por inteiro sem
fazer alguma justiça à seriedade subjacente à preocupação de seu opositor. Além
disso, Jerônim o sentia-se particularm ente magoado com Vigilâncio porque o
havia hospedado anteriorm ente em Belém, e agora julgava que tivesse ligações
secretas com seus inimigos em R om a.
Esta violenta investida prejudicou m uito a reputação de Jerônim o perante
os olhos de um a posteridade mais sensível. E não se pode negar que, tal qual suas
ásperas declarações sobre assuntos sexuais, foi própria da personalidade deste
hom em . Q uando dom inado pela cólera, Jerônim o estava pronto para exibir uma
atitude vulgar e m al-intencionada que contrastava singularmente com a cultura
e a elegância de seus escritos. N o entanto, seria injusto considerar seus métodos
de controvérsia com o uma im pura e pouco refinada expressão de hábito mental
e ignorar as contemporâneas pressuposições de seu estilo polêmico. Nisso, tam­
bém , Jerônim o foi o bem -sucedido produto do treinam ento acadêmico que
havia recebido. As várias formas de escárnio e de insinuação belicosa, inclusive
os exageros, a deturpação dos nom es e a variada quantidade de term os zoológi­
cos ofensivos que usava, estão de acordo com as regras da antiga forma de polê­
mica, particularm ente ciceroniana, tanto no campo jurídico com o no literário,
da qual Tertuliano tam bém serve com o exemplo.
A Jerônim o não faltava imaginação quando usava tais armas e possuía um
talento inato para notáveis caracterizações e reveladoras caricaturas. Suas descri­
ções dos vícios da sociedade, dos maus hábitos dos monges e das inúmeras pro­
fanações da Terra Santa são m uito perspicazes e convincentem ente reais. O fator
de perturbação é que simplesmente usava seu olhar aguçado, seu divertido sar­
casmo e suas habilidades polêmicas não mais com o um retórico pagão, mas na
profissão de um cristão que, diferentem ente de Tertuliano, não procurava associ­
ar, com todo o lado hum ano de seu m étodo, um a concepção profunda e verda­
deiramente original com um entusiasmo genuíno e objetivo. Suas controvérsias
perm aneceram no nível do trivial, do extrínseco e do pessoal. A despeito de sua
culta aparência, de seu zelo ascético e de seu ocasional fervor espiritual, estas
características perm aneceram basicamente inadequadas e pouco satisfatórias, ser­
vindo apenas para o aperfeiçoam ento moral de seus partidários.
Jerônim o não estava à altura dos requisitos do tema escolhido e era demasi­
adamente presunçoso para reconhecer os limites de sua natureza. Por exemplo,
quando já idoso, deixou-se convencer a com por o Diálogo contra os pelagianos,
a partir do qual o leitor m oderno pode concluir, com perplexidade, com o
Jerônim o não possuía o m ínim o entendim ento sobre a real questão da contro­
vérsia e, neste aspecto, colocou-se m uito mais próxim o de Pelágio do que de seu
suposto aliado, Agostinho!
N o decorrer de suas perm anentes guerras e disputas particulares, as constan­
tes confusões sobre problemas factuais e pessoais tiveram um resultado bastante
constrangedor até para seus contem porâneos. Jerônim o era incapaz de olhar
para além de si próprio e sua veracidade fracassava sempre que a sua reputação
parecia estar em risco. Ele não podia suportar qualquer pessoa de posição ao seu
lado. Por exemplo, nunca reconheceu Basílio, a quem não conheceu pessoal­
mente, por causa de sua perniciosa “arrogância” . E m relação a Ambrósio, que o
precedeu na apreciação dos teólogos gregos, declarava que, p o r essa mesma ra­
zão, era um escritor sem gosto e sem veem ência e o comparava a um corvo feio
que procurava adornar-se com plumas emprestadas. D urante algum tempo, per­
seguiu até mesmo Agostinho, que havia se aproximado dele com um a carta, sem
qualquer adulação, mas cheia de respeitosa cortesia. Jerônim o fez-lhe insinua­
ções prejudiciais e tratou-o com o um jovem im pertinente.
Além de um pequeno círculo de mulheres ascéticas e de adeptos cegamente
devotos, dificilmente alguém conseguiu viver em paz com Jerônim o p o r m uito
tempo. U m a vez tendo a disputa se iniciado, era quase impossível reconciliar esse
desconfiado, colérico e, ao mesm o tempo, inescrupuloso oponente. Ele acredita­
va que todos os meios eram justificados se o ajudassem a alcançar a aniquilação
moral do “invejoso” . E m u m dos casos, essa desafortunada atitude não só o
atingiu pessoalmente com o teve, tam bém , sérias implicações danosas para toda a
Igreja —na assim chamada “prim eira controvérsia origenista” .
N a verdade, essas disputas, que duraram vários anos e cujos detalhes perm a­
necem difíceis de entender, em absoluto representam um a unidade de temas.
Diferenças pessoais e políticas incidentais passaram a ser artificialmente transferidas
por Jerônim o para uma base dogmática, onde suas reais conexões foram distorcidas,
simplesmente para que pudesse defender-se m elhor no papel de um a testem u­
nha perseguida por estar à procura da verdade. Dessa forma, houve uma ruptura
de antigas amizades, tradições e convicções que deviam realmente ser m uito
caras a ele e que, em circunstâncias diversas, poderiam continuar a contar com a
sua proteção.Vamos aqui nos dar por satisfeitos com um pequeno resumo desses
ignominiosos incidentes.
D urante sua vida, Orígenes, o grande teólogo de Alexandria, não ficou im u­
ne aos ataques dos adversários, e durante o século e meio que transcorreu depois
de sua m orte a oposição, mais de um a vez, se manifestou contra certas doutrinas
individuais de seu sistema que era, estritam ente falando, mais helénico e filosófi­
co do que bíblico. N a verdade, sua opinião em relação à origem e fim do mundo,
os seus ensinamentos sobre a alma e a sua teoria da salvação e redenção universal
dificilmente poderiam estar em harm onia com as primeiras tradições cristãs.
Somando-se a isso, encontram os o uso que os teólogos “arianos” fizeram de seus
escritos, a suspeita quase generalizada levantada contra as tendências extrema­
m ente espiritualizantes de sua exegese, e a especulação feita em relação às suas
várias camadas, que tendiam a sublimar e dissipar cada um dos concretos e visí­
veis elementos históricos.
Por outro lado, entretanto, O rígenes foi o grande criador da teologia “cien­
tífica” , além de um grande perito e intérprete sistemático da Bíblia, sob cujo
imenso trabalho desenvolvido durante toda a sua vida viveram as gerações se­
guintes. N o século IV, no O riente, o estudo de seus escritos e de sua teologia
tiveram um reavivamento e, sendo assim, em seus anos de juventude, Jerônim o
foi conquistado por este grande mestre. Via nele o doutor da Igreja por excelência,
a quem ninguém havia se igualado desde os dias dos apóstolos. Sonhava fazer
uma tradução quase com pleta de seus trabalhos para o latim, e com eçou esse
trabalho pelas Homilias. D urante sua perm anência em R om a,Jerônim o elogiava
e recomendava O rígenes com palavras entusiasmadas, e baseava nele quase todos
os seus próprios escritos, pois considerava-o com o a m aior autoridade literária e
filosófica. N ão havia qualquer palavra de restrição à sua autoridade teológica; ao
contrário, as hostilidades que O rígenes suportou dos hom ens da Igreja eram,
para Jerônim o, exatamente o exemplo da ingratidão do m undo que sempre per­
segue ao m elhor por inveja (Ep. 33, 5).
Enquanto O rígenes era virtualm ente desconhecido no O cidente, a opinião
de Jerônim o coincidia com a convicção da maioria dos teólogos gregos de po­
sição. Somente o tacanho inimigo de todos os ensinamentos duvidosos, Epifânio,
bispo de Salamina, havia declarado O rígenes com o um herege que devia ser
condenado —e Jerônim o havia colaborado com ele. A princípio, no entanto, essa
declaração não produziu qualquer repercussão em seu relacionam ento com
Orígenes e, além deste, os únicos círculos hostis a ele estavam localizados em
certas colônias de monges no Egito. Esses monges sentiam-se perturbados em
suas incipientes noções religiosas p o r essa interpretação espiritual das Escrituras,
porém essa “antropom orfia” era na época desprezada com o uma prim itiva su­
perstição e os próprios patriarcas de Alexandria julgavam im portante que seus
adeptos não se tornassem demasiadamente poderosos.
A m udança de posição que Jerônim o assumiu em 393, baseada apenas em
um incidente de m enor im portância, aparece nesse caso de m odo ainda mais
embaraçoso. C ertam ente desconhecemos o motivo que levou um certo Atárbio,
até então desconhecido, a apresentar-se na Palestina e iniciar uma propaganda
contra Orígenes. Em bora tenha sido com pletam ente rejeitado p o r João, bispo de
Jerusalém, e por seus amigos, foi bem -sucedido com Jerônim o, em Belém, pois
esse últim o estava disposto, sem m uito alvoroço, a anatematizar todos os erros de
Orígenes. Pode ser que, sendo seus interesses principalm ente ascéticos e voltados
à exegese, ele ainda não tivesse até então pensado ser necessário examinar com
mais atenção os discutidos ensinam entos do mestre, e de ponderar seus acertos e
erros teológicos e, certam ente, nunca dera seu consentim ento a qualquer destes
ensinos que fossem falsos. Essa condenação indiscriminada, desde o m om ento
em que foi feita por alguém de fora, era totalm ente irresponsável. Jerônim o
estava certam ente sempre ansioso p