Barbara Cartland
Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos, de fãs para fãs.
Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida.
Cultura: um bem universal.
Digitalização:
Revisão: Aliane
— Tenho a impressão de que está me provocando de propósito, Lucretia.
Não sei se devo beijá-la ou lhe dar uma surra! — O marquês de Merlyn
olhou para a esposa, preocupado. Afinal, o que tinha em comum com uma
garota de dezoito anos? Logo ele, acostumado às mais sofisticadas beldades
da corte? Mas aquele casamento tinha sido necessário para salvar as
propriedades da família. É bem verdade que Lucretia não era a tolinha
caipira que esperava. Até o surpreendia com atitudes de mulher experiente.
E isso o desconcertava ainda mais: nunca podia prever o que ela faria. No
entanto, era tão simples! Lucretia o amava desde menina e, para conquistá-
lo, queria se tornar, em tudo, igual às suas amantes!
2
CAPÍTULO I
1804
3
— Acredito, mas este país luta desesperadamente para sobreviver, e
ainda passarão muitos anos, antes que venha de novo a paz.
Ela encolheu os ombros, com indiferença. Desde o ano anterior,
quando acabou o armistício com Napoleão, a Inglaterra tinha declarado
guerra à França, e lady Hester achou inconcebível que os homens que até
então a adoravam de joelhos, de repente, ficassem muito mais interessados
em servir o país.
O armistício de 1801, que tinha dado tempo a Napoleão para rearmar
seu exército e planejar a invasão, foi interpretado pelos ingleses como uma
oportunidade para desativar metade do exército e diminuir o número de
navios da armada.
O recomeço das hostilidades, no entanto, fez com que toda a nação
fervilhasse de atividade. Mais de trezentos mil homens se ofereceram para o
corpo de voluntários. Desde o duque de Clarence, que comandava uma
corporação em Bushey, até o mais humilde lavrador, todos estavam
determinados a expulsar os franceses, se eles desembarcassem na costa sul.
Embora o marquês tivesse pedido autorização para se alistar
novamente no regimento do qual havia saído quando o pai morreu, logo
depois da assinatura do armistício, o príncipe de Gales não autorizou.
Contudo, havia outras formas de ele participar do esforço de guerra, e
ela não entendia por que, com tudo que possuía, ele ansiava tanto pelo
Exército.
— Você nunca está satisfeito, Aléxis?
— Satisfeito com o quê?
— Comigo, por exemplo.
O marquês, virou-se para olhá-la. Era difícil imaginar que outra
mulher pudesse ser mais desejável ou mais sedutora.
— Venha me dar um beijo — sussurrou ela.
Ele sacudiu a cabeça, pegou o casaco e vestiu.
— Eu quero que você me beije, Aléxis.
— Já fui apanhado nessa ratoeira antes — respondeu, com um sorriso
divertido.
Sabia, por experiência própria, que, quando um homem se debruça
sobre uma mulher deitada, ela o envolve nos braços e é muito difícil fugir!
— Até logo, Hester.
Ela deu um gritinho.
— Por que tem que me deixar? George ficará em Watiers a tarde
inteira. Quando foi embora na hora do almoço, ia com os dedos ansiosos para
4
pegar as cartas. — Fez uma pausa e acrescentou, suplicante: — Quero que
você fique.
— É muito persuasiva, mas tenho um compromisso.
— Um compromisso? E com quem? Se é com outra mulher, juro que
lhe arranco os olhos!
— Não precisa ter ciúme, porque é com a minha irmã que vou me
encontrar.
— E o que Caroline quer, que não possa esperar um pouco?
— Isso é o que pretendo descobrir. Portanto, tenho que me despedir de
você, Hester, e obrigado por sua gentileza.
Dirigiu-se para a porta. Lady Hester levantou depressa e foi ter com
ele. Os raios de sol que entravam pelas janelas que davam para Berkeley
Square, formavam manchas douradas em seu corpo branco e realçavam
ainda mais a cor de ouro dos cabelos. Estava deslumbrante.
— Eu o amo Aléxis! Eu o amo tanto, e você parece que nem se
importa. Será que não sente nenhuma ternura por mim?
— Já lhe disse que você é a mulher mais atraente que conheço.
Não era essa a resposta que ela queria ouvir, mas, como sabia que não
adiantava forçá-lo a fazer declarações de amor, tinha de se contentar com o
que estava disposto a dar.
Seus lábios estavam quase encostando nos dele, desejosos.
— Beije-me… beije-me.
O marquês beijou-a, sem paixão. Depois, pegou-a no colo e levou-a
para a cama. Colocou sua cabeça com cuidado nos travesseiros, dizendo, com
um sorriso zombeteiro:
— Tente se comportar com juízo, Hester! Se não falar com você
amanhã à tarde, prometo que virei quinta-feira, a não ser que George esteja
em casa.
— Acho que não vou conseguir sobreviver tanto tempo sem você.
O marquês limitou-se a sorrir novamente e saiu, fechando a porta.
Lady Hester fez um muxoxo em direção da porta e, furiosa, enfiou a cabeça no
travesseiro.
Era sempre a mesma coisa: quando o marquês ia embora, tinha receio
de que não voltasse mais. Nunca podia ter certeza de nada com ele. Não
conseguia perceber se a achava suficientemente sedutora.
Lady Hester, no entanto, teria ficado mais tranqüila, se pudesse ler os
pensamentos do marquês, enquanto dirigia seu faetonte de Berkeley Square
até Merlyn House, em Park Lane. Ia pensando nela, pensando que era
5
divertida e que o fato de ter deixado todos os outros amantes por causa dele o
envaidecia. Hester Standish enganava o marido desde o terceiro ano de
casamento.
Casou praticamente ao sair da escola, com um par do reino, de boa
índole, mas que cedo descobriu que as emoções do jogo eram muito mais
agradáveis que os caprichos da esposa.
Hester tinha se tornado uma beldade a partir dos vinte e cinco anos, e
agora, aos vinte e oito era realmente sensacional e insaciável. Tinha
provocado inúmeros escândalos, até perceber que não ganhava nada em
exibir seus amantes. Na sociedade em que vivia, era um erro ser
marginalizada pelas outras mulheres.
Foi sem dúvida esta nova atitude de decoro em público que lhe
permitiu conquistar o marquês, que ela desejava há mais de três anos. Desde
que acabou a guerra e ele deixou o Exército, participando intensamente da
vida social. Não só era um dos homens mais bonitos da alta sociedade, mas
tinha também um dos títulos mais importantes e muitas propriedades, apesar
das dívidas do pai.
O antigo marquês era um jogador. Freqüentava os clubes de St. James
na companhia de Charles James Fox e outros jogadores inveterados, fazendo
com que a família, às vezes, temesse por sua fortuna. Sua morte prematura
deu o título ao filho e salvou a maioria dos tesouros.
Mas, mesmo que não tivesse dinheiro, o marquês continuaria sendo
perseguido pelas mulheres bonitas, e seria um louco se não aproveitasse.
Percebeu muito bem o cerco que Hester Standish tentava fechar a sua volta,
mas conseguia fugir a qualquer compromisso, com uma astúcia que a
deixava louca. Finalmente, sucumbiu aos encantos dela, porque se sentia
verdadeiramente atraído e também porque queria verificar se todas as
maravilhas que diziam a seu respeito eram verdadeiras.
Agora, sabia que Hester era talvez a mulher mais ardente que já tinha
encontrado. Quase tão insaciável como ele.
Mas não estava apaixonado. Sentia-se atraído, desejava-a. Porém,
tinha certeza de que, por mais ardentes que fossem seus encontros, não tinha
nada a ver com amor.
O que será que estou procurando?, perguntou a si próprio.
Lembrou que outra mulher quase tão bonita como lady Hester já lhe
havia feito a mesma pergunta. Estava deitada em seus braços, num quarto
misteriosamente iluminado pelo fogo da lareira, a cabeça no ombro dele.
— O que está procurando, Aléxis?
6
— O que quer dizer com isso? — perguntou, surpreso.
— Sei que, por mais que o ame, vai haver sempre uma parte de você
onde não consigo penetrar. Sinto que não sou o ideal, se é isso que você
procura em seu coração.
— Mas que absurdo! Você é tudo que quero, tem tudo que eu poderia
querer encontrar numa mulher.
Sabia muito bem que estava mentindo. Amorosa, simpática, desejável,
perfeita ao fazer amor, mas tinha razão: faltava qualquer coisa.
Com Hester Standish passava-se a mesma coisa. Nenhuma mulher
podia dar mais de si mesma do que ela, e ele sabia que a excitava mais do que
qualquer outro homem. Bastava que seus olhares se encontrassem num salão
cheio de gente, para que sentisse um desejo enorme. Esse desejo aumentava
mais ainda quando se tocavam, fazendo com que ambos se comunicassem
numa paixão descontrolada. E como era bonita!
O marquês sorriu ao recordar as artimanhas que ela usava para
chamar a atenção para seu corpo. Pérolas negras contrastando com a pele
muito branca, as ligas azuis com suas iniciais bordadas em diamantes. A
maneira como às vezes o recebia, usando apenas uns chinelos muito bonitos,
de cor viva, ou dois enormes brincos de brilhantes que caíam até os ombros.
Não havia nada que lady Hester não fizesse para despertar o desejo de
um homem e não havia dúvida de que, com a obsessão que sentia por ele,
tudo isso era muito agradável. Mesmo assim, decidiu, ao chegar em casa, em
Park Lane, que não a procuraria no dia seguinte!
Entrou no hall de mármore, reparando, satisfeito, como os Van Dyck,
que tinha conseguido recuperar depois da morte do pai, ficavam lindos à luz
do entardecer.
— Sua Senhoria está? — perguntou ao mordomo.
— Sim, senhor. Sua Senhoria está esperando pelo senhor no Salão
Azul.
O marquês subiu ao primeiro andar. O Salão Azul era impressionante,
um cenário perfeito para a coleção de obras-primas de pintores franceses.
Faltavam alguns, o que o entristecia sempre que olhava para os espaços
vazios, mas naquele momento olhava apenas para sua irmã, em pé junto da
janela.
— Aléxis! Pensei que tinha esquecido de mim.
— Desculpe se estou atrasado, Caroline, mas houve um imprevisto e
não consegui chegar mais cedo.
— Posso imaginar o que o atrasou — disse a condessa de Brora, com
7
um sorriso.
Era cinco anos mais velha do que o irmão, e, embora fosse bonita, não
tinha o charme do marquês.
— Estava pensando — disse, enquanto se dirigia para o sofá — que os
defodils devem estar florescendo em Merlyncourt. Sabe como ficam lindos na
primavera, e está fazendo tanto calor para esta época do ano, que devem
estar formando um maravilhoso tapete dourado ao lado da alameda.
O irmão olhou para ela com uma expressão divertida. Embora
parecesse sempre distraído, era tremendamente perspicaz.
— Tenho a impressão, Caroline, de que você quer me falar de
Merlyncourt.
— Realmente, como é que adivinhou?
— Você é transparente, minha querida. E eu que pensei que estava
com saudade de mim!
— O assunto que quero tratar com você também lhe diz respeito. Tem
alguma idéia do que está acontecendo, Aléxis?
— Como assim?
— Do que Jeremy está fazendo.
— Jeremy! — Havia um tom de surpresa na voz do marquês. —
Paguei suas dívidas há apenas um mês. Não me diga que já gastou tudo que
lhe dei! Se gastou, desta vez não pago mais nada.
— Não é dinheiro. Pelo menos, diretamente.
— Pare de falar por enigmas, Caroline, e vá direto ao assunto. O que
Jeremy fez que a perturbou?
A condessa de Brora deu um suspiro.
— Ele está com mania de grandeza, e talvez com uma certa razão,
porque tenciona casar com Lucretia Hedley.
O marquês tentando lembrar quem era.
— Hedley? Você quer dizer…
— Quero dizer a moça que mora com o pai em Dower House, que
agora é dona não só da casa que nos pertenceu por muitas gerações, como
também de quinhentos acres de terra no centro da propriedade. — Fez uma
pausa, respirou fundo e continuou: — Entende o que isso quer dizer, Aléxis?
Você vai ter Jeremy à porta de casa. Vai se gabar que é proprietário de uma
parte de Merlyncourt. Ele já pensa que é! Se casa com essa moça, então, se
tornará um espinho permanente em sua carne, não tenha a menor dúvida.
— Tem razão. Por que não me disseram nada antes?
— Porque você nunca se interessa por nada que se passa no condado e
8
eu tenho estado no norte, com William. — Olhou para ele, com ar suplicante.
— Aléxis, não pode deixar que isso aconteça! Já foi um desastre papai ter
permitido que esse Hedley comprasse Dower House. Isso já foi péssimo! Mas
ainda por cima termos que aturar Jeremy, é demais!
O marquês não estava nada surpreso com o horror da irmã. Nenhum
dos dois gostava do primo Jeremy Rooke, que era herdeiro presuntivo do
título, e vivia permanentemente cheio de dívidas.
O marquês já o havia salvo da cadeia várias vezes. A depravação de
Jeremy não tinha limite e não havia falcatrua financeira que não cometesse.
Sua ida para Merlyncourt seria realmente muito desagradável.
— Conte-me exatamente o que aconteceu, Caroline.
— Foi a duquesa de Devonshire que me contou, assim que cheguei a
Londres. Resolvi perguntar a outros amigos nossos, e todos confirmaram a
história. Jeremy anda se gabando de que será dono de quinhentos acres de
Merlyncourt e um homem extremamente rico.
— Sei que sir Joshua Hedley está bem de vida — disse o marquês
calmamente.
— Ele é riquíssimo, não há dúvida nenhuma a esse respeito! A moça é
jovem, não deve saber como Jeremy é, ou talvez queiram arranjar laços mais
fortes com Merlyncourt. Como é que papai pôde fazer uma coisa tão estúpida
como vender Dower House? Nunca hei de entender!
— Acho que o preço que pagaram e os problemas que foram
resolvidos com esse dinheiro justificaram a atitude dele — respondeu o
irmão.
— Lembro como fiquei aborrecida na época e até escrevi para você.
Embora a resposta não tivesse sido muito eloqüente, tenho certeza de que
sentia o mesmo que eu.
O marquês foi até a janela, pensando que Caroline tinha razão.
— Diabos! Não vou admitir que Jeremy me espie atrás de cada árvore
ou que ande por lá como se tudo lhe pertencesse.
— Ele vai ser proprietário de uma parte — lembrou a irmã.
— Como é que essa garota, seja lá como for, pode querer casar com um
homem como Jeremy?
— Acho que não é ela quem quer. Deve ter sido o pai que arranjou
tudo. Afinal, foi ele que conseguiu convencer papai a fazer aquela loucura.
Além disso, não conhece Jeremy como nós conhecemos, e se você não casar,
elegerá o quinto marquês de Merlyn.
Ficaram em silêncio por um instante.
9
— Garanto, Caroline, que não tenho a menor intenção de deixar
Jeremy herdar nada.
A condessa deu um gritinho de alegria e levantou do sofá.
— Oh, Aléxis, era exatamente isso que esperava ouvi-lo dizer! É a
única solução, mas eu tinha medo que você não concordasse.
— Concordar com o quê?
— Em casar com a tal moça! Não vê que é uma solução perfeita?
— Casar com quem? — perguntou o marquês, sabendo de antemão a
resposta.
— Lucretia Hedley! Já andei sondando e me disseram que é muito
atraente. E seja lá o que for que a gente pense sobre o comportamento de sir
Joshua, a moça é bem-nascida. Afinal, a mãe era uma Rathlin.
— Não foi certamente um casamento adequado para a filha de um
duque.
— Disparate! Tenho certeza de que o duque ficou encantado em ter
um genro com uma sólida situação financeira. Os Rathlin, como a maioria das
famílias nobres, sempre estiveram à beira da falência. Além disso, ouvi dizer
que lady Mary Hedley adorava o marido. Seja como for, está morta, e o que
importa é que a garota tem sangue azul.
Diante do silêncio do irmão, a condessa continuou:
— Os Hedley são plebeus do norte, mas, quando sir Joshua herdou
várias plantações na Jamaica, já se esperava que casasse com alguma nobre.
O marquês saiu da janela e veio para junto da irmã.
— Está realmente sugerindo que a única maneira que temos de evitar
que Jeremy se instale em Dower House é eu casar com essa moça? Que idéia
maluca!
— Por que maluca? Você tem que casar com alguém, algum dia. Tem
que ter um herdeiro, a não ser que queira ver Jeremy de posse de tudo! De
qualquer maneira, é a única solução para termos de volta Dower House e os
quinhentos acres.
— Em troca da minha liberdade.
— Em troca de nos livrarmos de Jeremy — corrigiu Caroline. —
Quando penso como esse homem se tem comportado, as coisas que diz e faz,
não posso me conformar com a idéia de ver seu horrível rosto olhando para
nós através dos arbustos de Merlyncourt!
O marquês deu uma gargalhada completamente desprovida de
humor.
— Você o odeia, Caroline.
10
— Ele me repugna e eu o detesto, mas tenho que admitir que desta vez
está sendo esperto.
— Em que sentido?
— Pelo menos, arranjando uma herdeira. Não esqueça que Lucretia
Hedley é apenas uma mocinha, e sei de fonte segura que sir Joshua fica mais
rico a cada ano que passa. Contaram-me que o dote será de
aproximadamente quinhentas mil libras.
— Santo Deus!
Até mesmo o marquês pareceu por um momento sair de sua
indiferença habitual.
— É uma fortuna, não é, Aléxis? E uma fortuna que você poderia
perfeitamente administrar. Nesta sala continuam faltando alguns quadros. A
salva de prata ainda está à venda em Bond Street. — Fez um trejeito de
irritação. — Acho que o joalheiro continua a mantê-la na vitrine só para me
aborrecer. Atravesso sempre a rua, antes de chegar à loja!
Olhando para o irmão, disse, com mais calma:
— No que lhe diz respeito, Aléxis, os estábulos estão praticamente
vazios, seu pavilhão de caça em Leicestershire está abandonado há três anos,
e posso enumerar mais uma dúzia de coisas para as quais você precisa de
dinheiro. Certamente que quinhentas mil libras cairiam muito bem em seus
bolsos.
— Fala como se eu fosse à tentação personificada.
— O que mais posso dizer para convencê-lo de que é esta sua
obrigação, não só por você mesmo, mas também por nós, a família que ama
Merlyncourt e que não pode suportar a idéia de Jeremy possuir um palmo
sequer daquela terra.
— Tenho que pensar.
— Não há tempo para isso! — gritou a irmã. — Jeremy gaba-se por
toda a cidade de Londres que seu noivado está para ser anunciado a qualquer
momento.
— Mas sempre existe a possibilidade de o meu encanto falhar. A
garota pode estar apaixonada por ele.
— Francamente, Aléxis! Como pode dizer semelhante absurdo! Sabe
tão bem como eu que uma garota, qualquer garota, preferirá um marquês,
qualquer um, a Jeremy Rooke. E se seu famoso encanto não conseguir
conquistar uma boba e ignorante colegial, então, eu desisto!
Sorriu e acrescentou:
— Afinal, você tem obtido ótimos resultados em corações muito mais
11
experientes!
— Muito mais! Santo Deus, Caroline, pode me imaginar preso a uma
colegial? O que vou conversar com ela?
— Para dizer a verdade, acho que ela não é tão criança assim. Passou o
último inverno em Rath e estava em Londres por pouco tempo durante a
temporada.
— Pelo que vejo, você tem argumento para tudo. Vá, conte o que sabe
sobre ela.
— É muito atraente, mas, infelizmente para você, é morena. — Deu
um olhar travesso para o irmão e acrescentou: — Sua queda por louras é bem
conhecida. Deixe-me ver… será que consigo me recordar de seus amores nos
últimos dez anos? Houve lady Jersy, a duquesa de Devonshire…
— Chega, Caroline. — Falou de maneira tão autoritária que a irmã não
ousou dizer mais nada. — A moça é morena, o que mais?
— Você com certeza lembra que a duquesa de Rathlin, a mãe de lady
Mary, era francesa. Por isso é que ela tem cabelos pretos. Acredito que seja
uma moça muito interessante. Foi muito bem educada. Sir Joshua teve muito
cuidado com isso, e, no fundo, também deve ter herdado um pouco da massa
cinzenta do pai. Pode não gostar dele, Aléxis, eu também…
— Parece que esquece que eu nunca o encontrei — interrompeu o
marquês. — Nós decidimos… ou você decidiu… quando nosso pai morreu,
que não teríamos relações com os Hedley, porque estávamos convencidos de
que foram eles que influenciaram papai a tomar certas atitudes com as quais
não concordávamos.
— Claro que não esqueci, mas conheci sir Joshua enquanto papai era
vivo. É um homem culto e muito bem parecido. Na realidade, se eu tivesse
que escolher, preferia que fosse ele a continuar morando em Dower House,
em vez de Jeremy.
— Isso é evidente. Desde que foram morar lá, nunca nos deram
problemas, a não ser pelo fato de que Hedley paga salários mais altos e
emprega muito mais homens em suas terras do que eu.
— Tudo isso mudará, quando você casar com Lucretia.
— Parece mesmo convencida de que vou concordar com esse plano
louco.
A irmã levantou as mãos, num desespero exagerado.
— E existe outra alternativa? Exceto, deixar Jeremy continuar a invadir
Merlyncourt!
— Diabos o levem! Nunca concordaria com isso!
12
— Não há tempo a perder. Tem que procurar a garota imediatamente.
De outra forma, não tenha dúvida de que Jeremy vai agarrá-la antes que você
possa evitar.
O marquês apertou os lábios, e a irmã percebeu, com satisfação, que
ele não ia permitir que o plano astucioso do primo tivesse sucesso.
Colocou a mão em seu braço, dizendo:
— Aléxis, lamento que tenha que casar com alguém que não ama.
— Sempre estive consciente de que teria que casar algum dia, mas
posso lhe garantir, Caroline, que neste momento a idéia me aborrece
tremendamente!
13
CAPÍTULO II
14
— De qualquer modo, ele vai ter que casar algum dia. Senão, aquele
odioso Jeremy Rooke herdará Merlyncourt!
Mal acabou de falar, Elizabeth tapou a boca com a mão.
— Oh, desculpe, esqueci que é amigo de vocês.
— Não é meu amigo. Papai é que passa a vida pedindo para ele ficar lá
em casa. Não entendo por quê. Para dizer a verdade, eu o acho asqueroso.
— Acha mesmo, Lucretia?
— Claro que acho. Por que haveria de mentir para você?
Elizabeth hesitou um pouco, antes de dizer:
— Pensei que soubesse que todo mundo está falando de você e de
Jeremy Rooke.
— De mim? Por que, se o simples fato de falar com ele me dá
alergia? Elizabeth deu uma gargalhada.
— Lucretia, você diz coisas incríveis! Mas, desta vez, tenho que
concordar com você. Com certeza, tem admiradores mais atraentes do que
esse nauseabundo Jeremy Rooke.
A outra não respondeu. Passando um momento, Elizabeth perguntou,
meio encabulada:
— Você não gosta deles, Lucretia?
— Se está falando desses garotos corados e dos dom juan de meia-
idade que andam com um olho em mim e outro na minha fortuna, a resposta
é NÃO!
Elizabeth olhou para ela, interrogativamente.
— Acha mesmo que estão mais interessados no seu dinheiro do que
em você? Mas isso é ridículo! Você é linda e muito inteligente! Tenho certeza
absoluta de que qualquer homem que a conheça vai amá-la pelo que é.
— Você é muito amável e muito lisonjeira, mas creio que herdei o
senso prático de meu pai. Posso lhe garantir, Elizabeth, que, se não tivesse
um tostão, não sobraria nenhum admirador.
— Claro que sobrariam dúzias e dúzias deles. Mas não Jeremy Rooke!
As duas desataram a rir.
— Pelo menos de uma coisa posso ter certeza — disse Elizabeth. —
Ninguém vai casar comigo por interesse. Com três irmãos, duas irmãs e o
pobre do papai sempre fugindo dos credores, esse perigo eu não corro!
— Mesmo assim, seu pai pode lhe oferecer um baile para quinhentas
pessoas!
— Isso é jogar a isca para apanhar o peixe. E eu sou a isca! Afinal,
Anne casou com lorde Bolton logo na primeira temporada que passou em
15
Londres, e meus pais depositam grandes esperanças em mim.
— E não se importa com a idéia de casar com alguém que mal
conhece, só porque seus pais arranjaram esse casamento?
Elizabeth encolheu os ombros.
— Não há outra alternativa, a não ser ficar em casa e me tornar uma
solteirona, há? Daqui a um ano, quando Belinda tiver dezessete, também terá
seu baile. Se casar antes de mim, juro que morrerei de vergonha.
Lucretia ia começar a dizer alguma coisa, mas mudou de idéia. Em vez
de falar, despediu-se da amiga e, deixando à imponente, mas decrépita,
residência do conde de Munster, dirigiu seu elegante coche para casa.
Ia pensativa através das vielas ladeadas de arbustos recobertos das
primeiras folhinhas verdes da primavera. Tinha poucas amigas de sua idade
e gostava de Elizabeth, embora soubesse que tinham pouca coisa em comum.
A idéia de qualquer mulher ser atirada no competitivo mercado do
casamento era-lhe insuportável e não compreendia como Elizabeth a aceitava
tão tranqüilamente.
Ainda pensava em Elizabeth, na elegante e dispendiosa festa que o
conde e a condessa de Munster iam lhe oferecer, embora dificilmente
tivessem condições financeiras para isso, quando passou pelos portões de
ferro forjado de Merlyncourt.
Olhou para dentro, para a mansão grande e bonita, com pequenos
lagos em volta, que pareciam formar um colar estranho com a luz do sol.
Reparou que havia uma bandeira hasteada. Isso significava que o marquês
estava em casa.
Por que será que ele voltou?, pensou Lucretia. Talvez fosse dar uma de
suas alegres festas, que causavam invariavelmente os mais maldosos
mexericos no condado. Principalmente, porque ninguém de lá era convidado.
Andou mais uns duzentos metros e entrou na pequena estrada que
levava a Dower House.
Dower House tinha sido construída durante o reinado de Carlos II e,
embora não fosse tão imponente como Merlyncourt, era também uma bonita
mansão. No alto dos portões estavam gravados leões heráldicos e, na parede
da casa, podia-se ver o mesmo brasão de Merlyn.
As reformas e melhorias que o pai de Lucretia tinha feito dobraram o
tamanho da casa e a tornaram muito confortável e excepcionalmente luxuosa.
A moça desceu do coche em frente da porta principal e deu as rédeas
para um dos criados.
— Obrigada, Gerrie.
16
— Vai montar a cavalo esta tarde, senhorita?
— Acho que sim. Traga os cavalos por volta das duas horas.
— Muito bem.
O criado fez uma pequena reverência e outro apareceu para ajudar
Lucretia a subir os degraus. Entrou no hall onde uma magnífica escada de
carvalho contrastava com uma lareira em mármore.
— Sir Joshua está na biblioteca, senhorita — disse o mordomo.
Lucretia encontrou o pai sentado à escrivaninha.
Levantou assim que a viu entrar e Lucretia deu-lhe um beijo
carinhoso.
— Comprou o cavalo que queria? — perguntou ela.
— Comprei três. Acho que você vai gostar. Um deles é um campeão.
— Se você ganhar mais corridas, o Jockey Club vai acabar convidando-
o a se retirar do turfe. Você tem tanto sucesso, papai!
— Costumo dizer que o sucesso que obtenho em tudo que faço é
unicamente fruto do cuidado com que planejo e organizo as coisas.
Enquanto falava, foi para junto da janela. Era um homem muito
atraente e cheio de personalidade. O cabelo que começava a ficar grisalho
dava-lhe um ar distinto que nunca teve na juventude. Vestia-se muito bem, e
tudo nele transpirava sucesso e prosperidade, embora não fizesse alarde
disso e só tentasse mostrar seu bom gosto.
— Quero falar com você, Lucretia.
— Aconteceu alguma coisa? O que foi?
Era tão ligada ao pai desde a morte da mãe, que conhecia a menor
entoação de sua voz e todas as expressões de seu rosto.
Tirou o casaco e colocou-o cuidadosamente em cima de uma cadeira,
soltou as fitas de seda que seguravam o pequeno chapéu e foi para junto do
pai.
— Você é muito bonita, Lucretia, e, como sabe muito bem, sempre quis
para você tudo que há de melhor.
— Você sempre me deu tudo.
— Pelo menos, tentei. E agora, acredito que algo que planejei para
você há muito tempo está prestes a se concretizar.
— Planejou para mim? O que é?
— Seu casamento!
Lucretia ficou quieta, olhando para ele. Depois repetiu, incrédula:
— Disse… meu casamento?
— Sim, disse. Sente, Lucretia, quero lhe falar sobre isso.
17
Ela obedeceu, automaticamente, e ficou olhando para o pai, intrigada.
Seus olhos estavam muito abertos e surpresos, como se ele tivesse acabado de
pronunciar as últimas palavras que esperava ouvir.
Sir Joshua pareceu hesitar um pouco.
— Lembra que, quando comprei esta casa, há quatro anos, você e sua
mãe ficaram muito admiradas por eu ter escolhido um pequeno lugar como
este no campo, quando podia muito bem comprar alguma coisa bem maior e
mais imponente?
— Sim, lembro de mamãe ter comentado esse assunto. Lembro
também que você disse que gostaria muito de morar aqui, mas nunca nos
disse por quê.
— Escolhi esta casa porque ela pertencia a Merlyncourt.
— E o antigo marquês gostava muito de você papai?
— Ele gostava muito daquilo que eu podia lhe dar. Era um jogador,
Lucretia, e todos os jogadores precisam de amigos ricos.
— Quer dizer que você lhe dava dinheiro?
— Emprestava — corrigiu sir Joshua.
— Então, foi assim que o convenceu a vender esta casa e a terra que
durante tantas gerações pertenceu à família dele?
— Sim, foi assim que consegui. Também inclui no trato dois cavalos
meus que o marquês queria muito. Um deles, você deve lembrar, ganhou o
Derby e o outro teve ótimo desempenho em Newmarket. Teriam feito ainda
mais, se o dono não os tivesse vendido.
— Mas por que fez tudo isso, papai?
— Porque, minha querida, eu queria que você se tornasse a marquesa
de Merlyn.
— Quer que eu case com o atual marquês?
— É um jovem muito agradável. Tem muita classe e posição que eu
queria para a minha filha. Além disso, todos gostam dele, o que também é
muito importante.
Lucretia desviou o olhar para o jardim.
— Não posso acreditar, papai, que você planejou tudo isso quando eu
tinha apenas catorze anos.
— Catorze anos, sim, mas sempre a minha única filha. A pessoa que,
depois de sua mãe, eu mais amo neste mundo.
— Mas como é possível que se escolha um marido para alguém, pelo
muito que se ame essa pessoa? Primeiro, eu posso não gostar do marquês,
que nunca sequer vi; depois, estou convencida, papai, de que ele não tem a
18
menor vontade de casar comigo
— É aí que se engana. Tenho sido esperto, muito esperto, Lucretia!
Falou com uma satisfação infantil que ela conhecia muito bem. Uma
das coisas que mais a enterneciam no pai era que não conseguia resistir a se
gabar um pouco daquilo que conseguia. Ficava ansioso pela aprovação da
filha, sempre que fechava um bom negócio, descobria uma antigüidade para
a casa ou que um dos planos que arquitetava meticulosamente dava certo!
Lucretia não conseguiu deixar de sorrir, ao dizer:
— O que foi que você andou fazendo, papai?
— Quando resolvi que você devia casar com o marquês, sabia muito
bem que seria difícil. Ele tem reputação de conquistador e freqüenta a
sofisticada sociedade que gravita em torno de Carlton House. Uma sociedade
que não receberia de bom grado uma garotinha de sua idade!
— Já me disseram isso — murmurou Lucretia, lembrando da conversa
que acabava de ter com Elizabeth.
— Sabia muito bem que, se quisesse que o marquês andasse atrás de
você, teria que jogar as cartas com muito cuidado.
— Que cartas?
— Eu tinha dois trunfos — respondeu sir Joshua, com um olhar
maroto. — O primeiro era dinheiro e o segundo era Jeremy Rooke!
— Jeremy Rooke? O que ele tem a ver com tudo isso?
Sir Joshua riu. Foi uma risada de garoto travesso.
— Fiz com que a sociedade e o próprio marquês acreditassem que
você está prestes a anunciar seu noivado com ele.
— Elizabeth me disse, esta manhã, que as pessoas estão falando sobre
nós! Papai, como pôde fazer uma coisa tão inacreditável? Sabe que eu
preferiria morrer a casar com Jeremy Rooke!
— E eu preferiria vê-la dentro de um caixão do que casada com aquele
porco!
Lucretia olhava para o pai, completamente desconcertada. Ele
continuou:
— Mas o que você e eu sentimos a respeito de Rooke não é nada,
comparado com o que sente a própria família dele. Sei que o marquês já
pagou as dívidas do primo dúzias de vezes! E sei também que a condessa de
Brora não quer nem ouvir falar o nome dele! Nenhum parente tem uma
palavra agradável a seu respeito. — Fez uma pausa e terminou, triunfante: —
É por isso, minha querida, que a idéia de ele vir a ser o senhor de Dower
House é insuportável para todos eles!
19
— Então, acredita que, para salvar a propriedade de Jeremy Rooke, o
marquês vai me pedir em casamento? — gritou Lucretia. — Papai, essa é a
idéia mais absurda que já ouvi em toda a minha vida
— Não é tão absurda assim, porque, há apenas meia hora, recebi uma
carta do marquês. Pede para nos encontrarmos para tratar de um assunto que
interessa profundamente a nós dois.
— Ele disse isso?
— Escreveu. Já pensou, Lucretia, que é a primeira vez que ele dá sinal
de saber da minha existência? — Riu. — Ora, eu sabia muito bem o que
estava fazendo, quando tentava convencer o velho marquês. Ele me devia
muito dinheiro e, como haveria de precisar de ainda mais, o único jeito de
pagar era me deixar ficar com a casa e os quinhentos acres! Para a família
Rooke, isto tudo é sagrado, e devem ter ficado furiosos.
— E você não se importou com isso?
— Sabia que não teria nenhuma conseqüência. Eu estava aqui, era o
dono, estava praticamente com um pé na porta! Por mais que o atual
marquês possa ter feito para me evitar, não conseguia esquecer que eu existia.
Assim, quando conheci Jeremy Rooke, percebi que o destino o havia colocado
em minhas mãos.
— Imagino que ele também quis dinheiro — comentou Lucretia
sarcástica.
— Não só queria, como estava desesperadamente precisando! Mas eu
não me excedi em generosidade. Um pouco aqui, um pouco ali, mas a isca
principal com que eu lhe acenava era a hipótese de casar com minha única
filha, que receberia um esplêndido dote ao casar e toda a minha fortuna,
quando eu morresse.
— Continue — disse Lucretia, bem devagar e muito pálida.
— Sabia que essa idéia ia horrorizar o marquês e a família. Como vê,
Lucretia, eu estava avaliando corretamente a situação. O marques veio me
procurar! Vou estar com ele esta tarde, e aposto o que você quiser como
pedirá sua mão em casamento.
Lucretia levantou e foi até a lareira, ficando de costas para o pai. Não
disse nada. Passado um momento, ele perguntou:
— Está zangada comigo, filha?
— Odeio pensar que estou sendo usada. Manipulada talvez seja a
palavra mais correta. Repugna-me a idéia de casar com um homem que quer
o meu dinheiro, a minha casa, mas que não está nem um pouco interessado
em mim.
20
— E acredita que algum homem pode realmente separar você de tudo
quanto possui?
Respondeu, triste:
— Acha mesmo, papai, que nenhum homem poderia… me amar…
apenas por mim mesma?
— Acho que muitos homens vão amá-la, minha querida. Mas tem que
lembrar que, mesmo sendo rico como sou e sua mãe sendo nobre por
nascimento, nós ainda não conseguimos entrar na sociedade onde a quero ver
brilhar! Você ainda é muito jovem, e o passaporte da maioria das mulheres
para a sociedade é, inevitavelmente, o casamento.
— Eu… gostaria… de me apaixonar — disse Lucretia, baixinho.
— Isso é o que todos os seres humanos querem. Mas acha que poderá
amar algum dos homens que conhece? Já reparei que você recusa muitos
pretendentes. Alguns deles vieram pedir minha interferência e sei que
nenhum deles estava realmente preocupado com você.
— E o marquês? Pensa que ele cairá na armadilha que você armou?
— Já caiu! Ou ele aceita que o primo que odeia e despreza venha
morar aqui e possua parte de Merlyncourt, ou evita isso, o que só consegue
casando com você.
— Mas ele… nunca me viu.
— E nunca tentaria ver, se eu não tomasse a iniciativa. Esperava que o
acaso nos pusesse em contato com o marquês, ou talvez com a irmã,
enquanto moravam aqui. Mas, assim que o velho marquês morreu, percebi
que eles me evitavam. Consideravam uma ofensa eu ter dado o dinheiro de
que o pai precisava tanto, e o fato de ter obtido a propriedade em troca disso
ainda aumentou mais o meu crime.
— Foi uma atitude muito pouco elegante da parte deles — disse
Lucretia, irritada.
— Não, não foi. Compreendo perfeitamente o ponto de vista deles.
Aprendi a não esperar gratidão de ninguém, e você sabe muito bem que as
pessoas não gostam dos muito ricos. Apenas os invejam ou bajulam.
— Que cinismo, papai.
— É a maneira mais sensata de encarar os fatos. É por isso que lhe
peço, como uma moça inteligente que é, que os aceite. Pode continuar como
é, sendo assediada pela plebe do condado, esperando que a qualquer
momento apareça o príncipe encantado que a convença de que está apenas
interessado em seu rosto bonito, e não na fortuna que possui! — A voz de sir
Joshua endureceu: — Mas espero que seja bastante esperta para analisar sua
21
situação imparcialmente e perceber que merece coisa melhor!
— E acha que vou admirar e considerar o marquês?
— Estou certo disso! Primeiro, porque foi um aluno brilhante em
Oxford; segundo, porque ouvi os elogios que o comandante do seu regimento
e lorde Wellington lhe fizeram. O príncipe de Gales, que não é nenhum bobo
no que se refere a arte e cultura, tem o marquês no maior apreço; tanto
quanto a Charles James Fox. Isso é muito significativo, Lucretia! Os homens
inteligentes procuram a companhia de iguais!
— Você está pintando um quadro muito atraente, papai — disse
Lucretia, com um tom de ironia.
— Quando vir o marquês esta tarde, saberá que não estou exagerando.
— Você está convencido de que vou aceitar esse plano ultrajante! E se
ele não quiser casar comigo?
— Nesse caso, não forçarei mais nada, prometo. Mas ele vai querer,
sim.
Lucretia olhou para o jardim. O sol de abril estava encoberto
momentaneamente por nuvens. Parecia que ia chover, e um vento forte
espalhava por todo lado flores das amendoeiras que circundavam o gramado.
No céu cinzento apareceu subitamente uma revoada de pombas
brancas que pousaram no telhado da casa. Formaram um quadro de uma
beleza estranha, que Lucretia interpretou como um mensagem simbólica.
Lentamente como se fossem forçadas, as palavras saíram de seus
lábios:
— Muito bem papai, concordo com o que… sugeriu. Mas não estarei
aqui esta tarde. Vou para Londres.
— Para Londres?
— Sim, papai. Quero comprar algumas roupas para ficar o melhor
possível, antes de encontrar o marquês. Você entende?
O pai olhou para ela, um pouco intrigado.
— Acha que é sensato, Lucretia?
— Acho que o que vou fazer é muito sensato. Vai confiar em mim,
papai, como eu… confio em você?
Ele sorriu, com os olhos cheios de ternura.
— Você é tudo que tenho para amar no mundo inteiro. E estou grato
por confiar em mim no momento mais importante de sua vida.
Lucretia deu um profundo suspiro.
— Diga ao… marquês que estou muito honrada por ele ter me
escolhido. Combine o casamento para a última semana de maio e assegure-se
22
de que ele não tente me ver antes de eu voltar.
Sir Joshua levantou.
— O que está pretendendo fazer, Lucretia?
— Não deve fazer perguntas, papai! Mais tarde, conto-lhe o meu
segredo. Na verdade, só você poderá ficar sabendo. Mas não tenho a menor
intenção de deixar que o marquês me veja como sou agora.
— Por quê? O que significa tudo isso? Lucretia deu um beijo no rosto
do pai.
— Vai saber, quando chegar a hora. Por favor, faça o que eu disse.
Antes que o pai pudesse dizer alguma coisa, ela saiu da biblioteca e ele
ouviu sua voz pedindo que trouxessem a carruagem para a porta da frente.
Uma vez no quarto, Lucretia não chamou a criada imediatamente.
Ficou se olhando no espelho como se fosse para uma estranha, reparando
primeiro nos grandes olhos que pareciam brilhar mais do que de costume,
traduzindo uma excitação especial. Eram uns olhos muito bonitos. Um par de
olhos azuis irlandeses. Não um azul-pálido e transparente, mas escuro e
tempestuoso, como o mar, antes de um temporal.
O cabelo de Lucretia era negro, emoldurando o rosto oval, muito
bonito, com um nariz pequeno e uma boca doce e carnuda. Mesmo assim, ela
olhava para o espelho, aflita, pensando na preferência do marquês por
mulheres sofisticadas como a duquesa de Devonshire e lady Hester Standish.
Era compreensível que, vivendo ao lado de Merlyncourt, tivesse
ouvido todos os mexericos sobre o mais falado, bonito e disputado jovem da
alta sociedade. E agora sabia, instintivamente, quase inconscientemente, que
sempre havia suspeitado das maquinações do pai.
Lembrava de ter sentido uma enorme curiosidade sobre o marquês,
desde o primeiro momento em que pisou em Dower House e viu os telhados
de Merlyncourt despontando através das árvores.
Tinha ido sozinha muitas vezes para o bosque que ficava atrás da casa,
onde, de seu posto de “vigia”, como chamava, podia ver Merlyncourt em
todo seu esplendor. Toda aquela beleza a deixava encantada e sentia que, de
uma maneira qualquer que não sabia definir, iria significar muito em sua
vida.
O marquês tinha saído de casa para se alistar em seu regimento, o que
não impedia as pessoas de pararem de falar dele. Os empregados da casa, os
trabalhadores do campo, todos comentavam o jovem patrão, até que, com a
morte do pai, passaram a tratá-lo apenas por patrão.
Lucretia tinha ouvido contar suas travessuras quando criança, suas
23
escapadas de adolescente e seus casos de amor. Como era muito curiosa,
incentivava sempre os mexeriqueiros para lhe contarem mais. Soube que a
Sra. Munns, a governanta de Merlyncourt, estava praticamente inválida com
reumatismo e conseguiu que a mãe lhe desse autorização para levar lá
algumas ervas especiais.
Depois que lady Mary morreu, a Sra. Munns achou que era uma obra
de caridade deixar que a órfã viesse freqüentemente conversar em
Merlyncourt. Nunca saberia as vezes sem conta que Lucretia tinha inventado
uma desculpa qualquer para ir lá pedir-lhe conselhos, e assim poder
conversar sobre o marquês e saber as últimas novidades sobre ele.
Havia também outras pessoas que serviam de fonte de informação.
Alguns jovens tinham-se encontrado com ele em Londres, e faziam
comentários velados sobre seus casos de amor. Lucretia ficou sabendo que
lady Hester Standish andava atrás do marquês, praticamente ao mesmo
tempo que ele. Assim que se tornaram amantes, a notícia se espalhou
rapidamente pelo condado.
Lady Hester era há muito tempo assunto de críticas e desaprovações.
Mas ninguém questionava sua beleza.
— A criatura mais adorável que os meus olhos jamais viram! —
Lucretia tinha ouvido o conde de Munster comentar um dia, ao almoço.
— Seu comportamento é uma vergonha — rebateu a condessa,
imediatamente.
— O que você esperava, com todos os homens de St. James correndo
atrás dela e a adulando?
A esposa torceu o nariz, e ele continuou:
— Mesmo na minha idade, não consigo deixar de invejar o jovem
Merlyn!
— Francamente, Robert, falar assim em frente das meninas!
— Desculpe, minha cara, desculpe!
Lucretia tinha presenciado tudo com os olhos baixos, mas agora,
olhando-se no espelho, constatava que era exatamente o oposto da tão falada
lady Hester.
Como é que iria competir com o louro platinado e a alva perfeição da
maioria das beldades inglesas, se seus cabelos eram negros e seus olhos
tinham a escuridão de uma tempestade?
— Não terei a menor chance — murmurou, desanimada.
De repente, orgulho e determinação fizeram com que levantasse o
queixo e resolvesse não desistir facilmente. Não ia sucumbir sem luta.
24
Foi até a janela. Ao longe, podia ver as chaminés de Merlyncourt por
cima das árvores.
Ele estava lá! Tinha voltado para casa e, se seu pai tinha razão, viria
pedir sua mão em casamento!
Tenho que conquistá-lo!, disse a si mesma. Posso não ser o tipo de
beleza que ele gosta, posso não ser sofisticada, mas tenho uma coisa que
talvez falte a todas as outras: inteligência!
Afastou-se da janela e tocou a campainha, chamando a criada.
— Ponha na mala meia dúzia de vestidos. Não preciso de muitos,
porque vou fazer compras; só o suficiente para os primeiros dias que estiver
em Londres. Vamos embora já! Imediatamente!
— Agora, senhorita? Mas eu preciso de um certo tempo!
— Não há tempo para discussões. Peça a alguém que a ajude e vá fazer
suas malas. Vamos para Londres, Rose, e será uma viagem muito importante!
Talvez, a mais importante que já fiz.
25
CAPÍTULO III
Assim que chegou a Londres, Lucretia foi para casa de sir Joshua, em
Curzon Street. Embora não fosse esperada, tudo estava em ordem, havendo
sempre na casa, tal como no campo, o número de criados necessários.
Sir Joshua havia providenciado para que uma prima mais velha de
lady Mary morasse lá; assim, Lucretia teria companhia, sempre que fosse
necessário.
Lady Byng era viúva e passava o tempo jogando cartas e conversando
com as amigas. Três dessas amigas estavam com ela, quando a moça entrou
na sala.
— Lucretia! Não esperava você. Seu pai me disse que você ficaria no
campo, pelo menos mais uma semana.
— Não se incomode, prima Alice. Tenho que sair já, logo à tarde.
Quando voltar, conto-lhe todas as novidades.
— Será ótimo, minha querida.
A velha era uma dama de companhia muito amável e raramente fazia
perguntas; só ficava curiosa, quando suspeitava de algum escândalo.
Lucretia cumprimentou de maneira gentil as outras senhoras que
estavam jogando, sabendo de antemão que, assim que virasse as costas,
falariam dela como “essa jovem tão bem educada”.
— Já é hora de casar, Lucretia — disse uma delas, na brincadeira. —
Estou esperando ouvir os sinos tocarem a qualquer momento.
Ela sorriu, mas, antes que pudesse responder, lady Byng, interrompeu:
— O problema de Lucretia é que a maioria de seus admiradores é
desse tipo de rapazes bonitos e vazios. Ela é uma moça que vai se apaixonar
de repente por alguém que a impressione realmente.
— Isso é verdade — comentou outra senhora. — Quando eu era nova,
tinha uma dúzia de pretendentes a meus pés; infelizmente, acabei escolhendo
o pior de todos.
Todos riram muito, e Lucretia aproveitou para escapar.
Rose ajudou-a a vestir um traje elegante, penteou-lhe os cabelos, e
Lucretia colocou mais jóias do que fazia habitualmente. Finalmente,
colocando nos ombros uma capa de veludo debruada de arminho, desceu a
escada e pegou a carruagem do pai, que já esperava por ela.
26
Antes de entrar, dirigiu-se ao cocheiro.
— Conseguiu a informação que pedi, Marlow?
— Sim, senhorita. Disseram-me que os atores estão em Haymerket
Theatre.
— Obrigada. Leve-me até a porta da entrada dos atores.
Entrou na carruagem, e o cocheiro, que trabalhava para a família há
vários anos, olhou intrigado para o mordomo. Nunca tinha recebido uma
ordem tão estranha. Os empregados, no entanto, não questionavam as
atitudes de seus patrões, por mais excêntricas que fossem. O criado fechou a
porta e subiu para trás da carruagem.
Lucretia tinha ido com o pai ver muitas peças no teatro real, o mais
antigo e importante de Londres.
Contudo, nenhum espetáculo, mesmo fazendo sucesso, ficava muito
tempo em cartaz, e não se admirava de que agora, durante o intervalo da
montagem da nova peça, o teatro estivesse alugado para The St. Petersburg
Players. Era nessa companhia que estava particularmente interessada.
Ela e o pai tinham ido a Bath no inverno anterior. Ficaram pouco
tempo, porque sir Joshua não tinha muita paciência para estações de águas e
além disso não gostara de alguns jovens que tentaram fazer a corte à filha. Foi
lá que ela conheceu The St. Petersburg Players.
A peça não era nada de especial, embora tivesse momentos
dramáticos, mas o desempenho dos atores tinha sido fantástico. Ouviu
comentários principalmente sobre o produtor, um homem extraordinário,
mas um tanto misterioso, chamado Ivor Odrowski.
Lucretia nunca esqueceu de uma das atrizes. Fazia o papel de uma
sedutora que incitava o herói a se destruir. Agia sutilmente, convencendo-o
não só pelas palavras, mas pelo olhar, pelos movimentos, por um pequeno
gesto de ombros ou de mãos. Lucretia achou que ela era a arte personificada.
A carruagem parou junto do teatro. Seguida pelo criado, a moça foi a
pé até o beco onde ficava a entrada dos atores. Dirigiu-se a um velho porteiro,
sentado do lado de dentro:
— Queria falar com o Sr. Ivor Odrowski.
— Não pode vê-lo senhorita — respondeu o homem, carrancudo. —
Ele não recebe visitas antes da peça começar. Tem que esperar até que acabe.
Lucretia olhou para o criado, que percebeu que ela queria que desse
algum dinheiro ao velho.
— Bem, vou ver o que posso fazer — disse o velho, com má vontade,
desaparecendo na escuridão do estreito corredor.
27
Tudo ali parecia lúgubre e muito diferente da brilhante opulência da
platéia.
Havia um cheiro de umidade e pó, tinta a óleo e cerveja, que Lucretia
achou que devia estar impregnado naquelas paredes desde a construção do
teatro.
Uma mulher vestida de modo espalhafatoso, de cabelos platinados e
muito pintada, chegou da rua, perguntando:
— Onde está Ben?
Como não havia ali mais ninguém, Lucretia ia responder, quando o
velho voltou, arrastando-se pelo corredor.
— Aqui. O que quer?
— Você sabe o que eu quero — respondeu a mulher. — Ele vai me
receber?
— Vai haver uma audição amanhã às dez em ponto.
— Bem, espero que dessa vez eu tenha sorte, se não houver muitas
tentando ficar com o papel.
Olhou para Lucretia de modo insolente, deu um sorrisinho para o
criado e saiu.
— Ele vai recebê-la, senhorita — disse Ben.
— Muito obrigada.
Seguiu o velho pelo corredor. Estava escuro e Lucretia sentiu que o
assoalho era pegajoso de cera e sujeira. Subiram para o primeiro andar por
uma escada estreita e, depois de terem passado por várias portas, o velho
bateu numa delas: três golpes curtos, como uma senha.
— Aqui está a senhora.
Lucretia entrou num pequeno quarto quadrado.
Nunca tinha estado num camarim, mas era exatamente como
imaginava. Cortinas de feltro, um pesado diva de veludo vermelho, um
toucador coberto de maquiagem, loções, cremes, flores, amuletos, copos
usados e pontas de cigarros.
Um guarda-roupa que ocupava todo o comprimento de uma das
paredes estava com a porta aberta, mostrando uma quantidade enorme de
roupas de cena.
— Ben disse que queria me ver. Ele insistiu tanto para eu a receber,
que quebrei o princípio de não receber ninguém antes de entrar em cena.
— Fico muito grata. Meu nome é Lucretia Hedley e gostaria de tratar
de negócios com o senhor.
Odrowski era um homem interessante, e agora ela lembrava que ele
28
também tinha atuado na peça em Bath. Só que, na época, não sabia quem ele
era.
Tinha um ar atraente, os cabelos pretos penteados para trás e uma
testa quadrada. As feições eram bem desenhadas, embora a boca cheia e
sensual contrastasse com a dura expressão de seus olhos.
Falava com sotaque carregado, e Lucretia ficou imaginando como seria
possível desempenhar outros papéis que não fossem de estrangeiro.
Percebeu, divertida, que o Sr. Odrowski a observava cuidadosamente.
Sabia muito bem que o arminho do manto e as jóias que usava tinham
impressionado Ben e feito com que ele insistisse para que fosse recebida.
— Não quer sentar, Srta. Hedley? Posso lhe oferecer um refresco?
Lucretia sacudiu a cabeça.
— Muito obrigada, mas creio que temos pouco tempo antes de
começar o espetáculo. Por isso, gostaria de ir direto ao assunto.
— Para mim também é melhor. Em que posso lhe ser útil? Não
acredito que queira tomar parte nas minhas peças.
— Não, exatamente. Vi sua peça quando estive em Bath, no inverno
passado. Fiquei muito impressionada, não tanto pela peça em si, mas pelo
desempenho dos atores.
— Deve ter sido A Esposa Errada, não?
— Acho que era esse o nome. Mas o que mais gostei foi do trabalho da
atriz que fazia o papel de sedutora.
— A Srta. Kelly! Ela é uma excelente atriz.
— Disseram-me que deve isso ao senhor. Que é a maneira como dirige
e conduz os atores que faz com que trabalhem tão bem.
— Isso me lisonjeia.
— É lisonja dizer a verdade? O que eu vim lhe pedir — continuou
Lucretia — é que me ensine a representar da mesma maneira que a Srta.
Kelly.
Ele olhou para ela, intrigado.
— Lamento, minha cara jovem, mas no momento não tenho nenhuma
vaga disponível para alguém como a senhorita. Na pequena temporada que
estamos fazendo aqui, levamos uma peça bem diferente de A Esposa Errada.
— Não quero fazer parte do elenco. O que estou pedindo, Sr.
Odrowski, é que me dê aulas particulares. Não quero ser atriz profissional,
mas gostaria de aprender a representar.
Ele sorriu.
— Já me fizeram muitos pedidos estranhos na vida, mas nunca
29
nenhum como o seu. Desculpe, Srta. Hedley, mas tenho que recusar. É
encantadora e seria um prazer ensiná-la, mas, francamente, não tenho tempo.
— A gente sempre acaba encontrando tempo para fazer uma coisa,
quando quer. Sei que seu tempo é caro é também sei que às vezes encontra
dificuldade para financiar as novas produções.
Viu um relance súbito de interesse nos olhos negros do ator e
continuou:
— Vou ser muito franca e lhe dizer que, em troca de seus serviços,
estou disposta a financiar sua próxima aventura teatral, seja ela qual for.
Por um momento, Odrowski ficou olhando para ela, incrédulo.
— Tem alguma idéia de quanto isso vai lhe custar?
— Não tem a mínima importância. Meu pai é um homem rico e não
faz nenhuma objeção a que eu gaste dinheiro no que gosto. Sugiro lhe dar
agora metade da quantia de que vai precisar e a outra metade quando
completar as lições.
Odrowski começou a andar de um lado para o outro.
— É uma proposta extraordinária. Tão extraordinária que, neste
momento, não sei o que dizer. Não vou fingir que não precisamos de
dinheiro. Quem, no mundo teatral, alguma vez teve dinheiro que chegasse?
— Fez um gesto expressivo com as mãos antes de continuar: — Mas o que me
pede pode não dar certo. A senhorita é uma amadora e também uma pessoa
da alta sociedade. Não sei se vou conseguir ensinar o necessário. Mesmo que
consiga, o que estará me pagando, é demais.
— Isso sou eu que decido. Estou disposta a pagar por seu trabalho, Sr.
Odrowski, porque acredito que o que pode me ensinar será incrivelmente
valioso para mim. Preciso de sua habilidade para me transformar de jovem
em mulher sofisticada.
Odrowski abriu os braços de maneira afetada.
— Mas por que me pede semelhante coisa? A senhorita é jovem,
encantadora; é adorável como é! Qual o homem que poderia resistir a
tamanha beleza, a tanta elegância? Para mim, a senhorita é tão suave como a
própria primavera, uma moça na flor da idade. Existe alguma coisa mais
maravilhosa?
— Os homens têm gostos diferentes, Sr. Odrowski.
O ator comentou, rapidamente.
— Então, trata-se de um problema do coração.
— Se com isso quer perguntar se o meu coração está envolvido, a
resposta é sim. Talvez assim eu consiga representar melhor, não sei. A única
30
coisa de que tenho certeza é que é muito importante para mim aparentar
sofisticação. Para isso, coloco-me inteiramente em suas mãos. Quero que me
ensine como andar, falar, sorrir e, acima de tudo, como devo me vestir.
O ator voltou o olhar para ela, como se não conseguisse acreditar no
que ouvia.
— Será verdade? Porque, se é, garanto-lhe que acho o desafio
fascinante. Não só estou interessado no dinheiro, mas, como produtor,
dramaturgo, um homem que ama ser ator pelo simples fato de representar,
não consigo imaginar nada mais emocionante do que transformar a imagem
viva de primavera numa voluptuosa flor de verão.
Ficou olhando para ela durante uns momentos.
— Tire o manto.
Lucretia obedeceu, desabotoando o colchete, e deixando o manto
escorregar pelos ombros e cair no chão.
O vestido era muito elegante. De gaze branca, bordado com pequenas
pérolas, com um babado na barra e em volta do decote, onde um laço
arrematava o conjunto.
Embora muito bem feito e caro, próprio para uma jovem. Tinha sido
comprado numa das melhores lojas de Bond Street, com a ajuda da prima
Alice, para um baile.
Percebeu pelo olhar do ator que, mesmo com o colar e os brincos de
diamantes, não conseguia enganar ninguém. Continuava a ser uma mocinha
imatura…
Passado um instante de silêncio, perguntou, ansiosamente:
— Será que vai conseguir?
— Dê uma volta pelo camarim.
Fez o que ele mandou, mas sem muita convicção.
— Gosto de seu jeito de andar, mas é muito
britânico! Lucretia riu.
— Receava que fizesse esse comentário, embora eu tenha sangue
francês também.
— Mon Dieu, mas isso é uma maravilha! Vou ser honesto, mademoiselle:
meu pai era francês e minha mãe russa. Mas como os franceses não são…
como hei de dizer… muito populares neste momento, achei melhor ignorar
essa minha ascendência.
— Foi muito sensato!
— O grupo The St. Petersburg Players também tem um nome
deliciosamente exótico, não tem?
31
— Romanticamente misterioso.
— Vou lhe dar as aulas em francês — continuou o ator. — Sou mais
fluente nessa língua do que em inglês, além de ser uma língua mais
sofisticada. — Deu uma risadinha afetada e continuou: — Só os ingleses para
enaltecerem tanto a juventude! Os franceses preferem experiência. Uma
mulher na França será cortejada praticamente até o túmulo. Mas, na
Inglaterra, não. Óh, não! Assim que chegar aos quarenta, já dizem que está
velha! Mon Dieu, que mundo horrível!
Lucretia riu.
— Ficarei muito satisfeita de me tornar sofisticada em qualquer língua.
O único problema é que temos muito pouco tempo, senhor.
— Quanto?
— Três semanas.
Ele levantou os braços.
— É impossível!
— Nada é impossível. Nada, quando se tem uma aluna que está
disposta a trabalhar duro, como eu estou.
— Muito bem, o trato está feito! Mas terá que trabalhar
exaustivamente. Meus atores vão lhe dizer que sou um verdadeiro capataz,
mesmo nos ensaios finais, quando eles já sabem o papel de cor e salteado.
— Não tenho medo. — Lucretia atravessou o camarim e sentou no
toucador cheio de cosméticos. — Trouxe uma ordem de pagamento. Pode me
dizer de quanto vai precisar?
Odrowski hesitou um pouco. Depois disse uma quantia que, embora
alta, Lucretia sabia ser razoável para a produção de uma nova peça.
Escreveu rapidamente e assinou.
Voltou-se sorrindo para o homem que a observava e perguntou:
— Quando podemos começar?
— E o que é que estamos fazendo?
— Não tenho nenhum compromisso esta tarde e gostaria de assistir a
peça. Depois, gostaria muito, se estiver disponível, que aceitasse meu convite
para jantar.
O ator sorriu.
— E sua reputação, senhorita?
— Posso levar alguém conosco. Ou, melhor ainda, podemos jantar
onde ninguém nos veja. Mas, nesse caso, tenho que me colocar novamente
em suas mãos.
— A senhorita é muito confiante. Como sabe que não vou tentar
32
seduzi-la? É uma jovem muito atraente.
— Primeiro, sei muito bem tomar conta de mim. Depois, não acredito
que, sendo um ator e produtor ambicioso, ache que alguma mulher valha
mais do que a quantia que acabou de receber.
Odrowski atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.
— Gosto de você e a admiro! Garanto-lhe que vai ser um prazer
ensiná-la, Srta. Hedley, e pressinto que não será uma tarefa muito difícil. Na
realidade, posso estar ganhando o dinheiro mais fácil de minha vida.
— Deixe-me avisá-lo, senhor, de que, se é exigente, também sou. Só
ficarei satisfeita com perfeição. Não posso achar que estou perfeita: “tenho”
que estar. Ninguém pode suspeitar de mim; preciso convencer todo mundo.
— Talvez seja mais correto dizer que tem que convencer alguém em
especial.
— Aceito a correção — disse Lucretia, sorrindo.
— Tenho que cumprimentá-la, mademoiselle!
Pegou na mão dela e levou-a aos lábios. Em vez do beija-mão habitual,
seus lábios ficaram por instantes na mão de Lucretia, que percebeu
imediatamente que estava sendo testada.
Sorriu para ele de um modo que esperava ser envolvente. Pela
maneira como Odrowski a olhou, viu que não estava errada.
— Olhe para mim através dos cílios. Abaixe um pouco as pálpebras e
olhe para cima. Assim fica melhor. Agora, sorria de leve. Não um sorriso
aberto, mas apenas um levantar dos cantos da boca. Está melhor! Muito
melhor! Agora, devagar, bem devagar, como se relutasse em fazer isso, tire a
mão da minha.
Ela obedeceu.
— Ótimo! Vou ver se há algum lugar vago na platéia. Mas a senhorita
sabe que não pode ir para lá sozinha.
— Espero que encontre alguém que possa ficar comigo.
— É claro. Eu mesmo ficarei, no primeiro ato. Como tomo parte no
segundo, vou lhe mandar um dos meus rapazes, com instruções para se
comportar como um cavalheiro. Se assim não for, peço-lhe que me diga
depois.
Apanhou o manto de Lucretia e colocou-o em seus ombros.
Instintivamente, ela se preparou para fechar o colchete.
— Não! — ele disse, imediatamente. — Você deve voltar sua cabeça
um pouco para mim. Sem pressa, como se esperasse que minhas mãos
tocassem seus ombros. Agora, vire a cabeça, mostrando bem o pescoço. Olhe
33
nos meus olhos, batendo de leve os cílios. Isso mesmo. Ainda não está
perfeito, mas está bem melhor. Agora, vá andando até a porta, ondulando o
corpo.
Lucretia obedeceu.
— Olhe para trás e sorria. Um sorriso suave não muito insinuante. O
tipo do sorriso secreto que uma mulher dá a um homem, quando existe uma
cumplicidade entre os dois. Assim! Quase perfeito!
Fez um gesto com a cabeça, manifestando sua aprovação, e continuou:
— Agora, espere que eu lhe abra a porta. Quando sair para o corredor,
lembre-se que estarei atrás. Quer que eu pense em você? Então, tem que se
conscientizar da minha presença, entende? Não é só o que faz que importa,
mademoiselle: é o que pensa e o que sente. — Fez uma pausa para que ela
pudesse apreender bem suas palavras e acrescentou, calmamente: — Talvez o
que você sentir seja a parte mais fácil de todas.
***
35
— E sua filha?
— Ela concordará com a decisão que eu tomar. É uma jovem
inteligente e somos muito ligados. Penso que, casando com Lucretia, o senhor
será um homem de sorte.
— Tenho certeza. Será que terei o prazer de encontrar sua filha esta
tarde?
— Lamento, mas Lucretia está em Londres e não deve voltar antes de
uma semana. Contudo, deixou dito que, se o senhor quiser, está disposta a
que o casamento se realize no fim de maio.
Sir Joshua fez uma pausa, antes de continuar:
— Depois disso, a temporada estará acabando e a maioria dos nossos
amigos deixará Londres para ir para o campo. Creio que também o príncipe
de Gales irá para Brighthelmstone.
— Para mim, também, o fim de maio é uma ótima data. Sua filha vai
querer casar em Londres?
— Penso que seria o mais conveniente para todos nós.
— Nesse caso, não me surpreenderia se o príncipe nos oferecesse
Carlton House para a cerimônia. Ele sempre foi muito meu amigo. A não ser
que o senhor não concorde. Se Sua Alteza Real fizer essa proposta, eu
gostaria muito de a aceitar.
— Ficarei extremamente honrado.
— Posso então pedir ao meu advogado para entrar em contato com o
senhor para preparar os termos do casamento?
— Pela parte que lhe toca, não há necessidade de um encontro nupcial.
Como deve saber, Lucretia vai herdar uma grande fortuna. Já estabeleci o
dote, e seu marido terá a administração desse dinheiro. Quando eu morrer,
ela herdará toda a minha fortuna. Entretanto, gostaria de lhe mostrar algo
que vai achar interessante. Será meu presente pessoal para o senhor — disse
sir Joshua.
Levantou enquanto falava e, seguido pelo marquês, saiu da biblioteca.
Passaram pelo hall, atravessaram um longo corredor, ricamente mobiliado.
Aquele corredor, pensou o marquês, fazia parte da ala nova da casa,
construída por sir Joshua.
A obra tinha sido tão bem feita que mesmo que conhecesse bem
Dower House no passado teria dificuldade em saber onde acabava o antigo
edifício e onde começava o novo.
Tudo estava perfeito, as paredes decoradas com painéis antigos, os
tetos pintados da mesma maneira, que tornava os originais de Merlyncourt
36
tão magníficos.
O marquês reparou também nos quadros, móveis e ornamentos, que
seus olhos experientes reconheciam como verdadeiras obras-primas.
Finalmente, depois de terem andado bastante, chegaram a uma
enorme porta de mogno, que abria para uma comprida sala que dava para o
jardim.
— Esta sala nunca foi usada — disse sir Joshua — porque sempre a
reservei para guardar os presentes de casamento que quero lhe dar.
— A mim? — perguntou o marquês, incrédulo.
— Ninguém mais os apreciaria tanto.
O marquês olhou em volta. As paredes estavam cobertas de quadros
até ao teto, e os móveis, no centro da sala. Surpreso, reconheceu Peça por
peça.
Havia a arca de madeira embutida e ferragens que seu pai tinha
vendido há dez anos, quando não pôde pagar uma dívida das corridas de
cavalos em Nermarket. Os bronzes vendidos no Natal seguinte, depois de
uma noite de jogo em Watiers, na qual perdeu mais de vinte mil libras. Os
quadros franceses do salão de Merlyn House e o Raphael que sempre tinha
pertencido à capela da propriedade. O Rubens que faltava no hall principal e
também um retrato de Henrique VII, pintado por Holbein.
O marquês voltou-se e olhou para a outra parede. Sim, conhecia tudo
desde a infância. Até mesmo as cadeiras pintadas de dourado que tinham
sido feitas para Merlyncourt quando a rainha Anne ficou lá e que
desapareceram misteriosamente.
— O senhor comprou tudo — conseguiu dizer, finalmente.
— Tudo, exceto os Van Dyke que sei que já conseguiu recuperar. Sabia
que seu pai estava a ponto de dilapidar Merlyncourt e não podia permitir que
isso acontecesse.
— Não podia permitir? O que quer dizer com isso?
— Viajei muito depois de ter herdado uma fortuna enorme do meu tio
na Jamaica, e por todos os lugares onde andei encontrei coisas de grande
beleza que me encantaram e que ficaram na minha memória muito tempo.
Até que um dia, logo depois de casar, vi Merlyncourt.
Fez uma pausa, antes de explicar!
— Um dos cavalos de minha carruagem perdeu a ferradura na estrada
de Dower. Como tive que esperar por um ferreiro, mandei um criado selar
um dos cavalos e saí para dar um passeio e fazer exercício durante uma meia
hora. Foi por mero acaso que vi Merlyncourt. Naquele momento, soube que
37
nunca tinha visto nada tão bonito em qualquer outro lugar do mundo.
— Concordo com o senhor — disse o marquês. — Mas estou sem parte
da propriedade.
— Para mim, Merlyncourt representava tudo que era perfeito na
Inglaterra — continuou sir Joshua. — Como sempre fui audacioso, fui até a
porta da frente e pedi para ver o bibliotecário.
— O bibliotecário?
— Inventei uma história qualquer sobre um livro que tinha em minha
biblioteca e que achava que pertencia ao dono da propriedade. O
bibliotecário, evidentemente, não estava interessado. Mas conversamos
algum tempo, descobrimos interesses comuns e ele me mostrou a casa.
Encantou-me como nada antes tinha me encantado.
Sir Joshua olhou para o marquês e disse, calmamente:
— Quando voltei para Londres, soube que seu pai estava
desbaratando um patrimônio raro, reunido por muitas gerações.
— Pode imaginar o que nós sentimos — falou o marquês, amargurado.
— E o senhor me odiou, quando soube que eu estava comprando
tesouros de sua família — comentou sir Joshua, sorrindo. — O que não sabe é
que convenci seu pai, assim que o conheci através de um amigo do clube, a
me vender tudo, sempre que precisasse de dinheiro.
— Gostaria de ter sabido.
— Ele não quis lhe contar. O senhor ainda era muito jovem, ia se sentir
ferido em seu orgulho. Mas seu pai tinha pouco orgulho. Sempre que queria
dinheiro, eu emprestava! Só quando teve vergonha de me pedir mais e estava
determinado a vender tudo, foi que o forcei a me entregar seus tesouros, para
que não fossem parar na mão de estranhos.
— Temos uma dívida muito grande para com o senhor — murmurou
o marquês
— Não quero que sinta gratidão. Não pensava no senhor, ao fazer isso.
Beleza é algo que nenhum de nós pode comprar e pela qual nenhum dos dois
pode pagar. Quando a coleção que está nesta sala voltar as suas mãos, no dia
em que casar, aceite-a, não como um presente para o senhor, mas para as
gerações que virão a seguir: seus filhos, seus netos e os filhos deles, que irão
amar e apreciar Merlyncourt, como eu, um estranho, amei.
Havia emoção na voz tranqüila de sir Joshua.
O marquês olhou para a sala mais uma vez e, sem esperar pelo
anfitrião voltou em silêncio para a biblioteca.
Quando sir Joshua entrou, o olhar dos dois homens se encontrou e o
38
marquês segurou sua mão.
— Sinto-me muito honrado, senhor, com a união das nossas famílias.
— Eu também. Em troca, quero lhe pedir uma coisa: seja bom com
Lucretia.
— Terei por ela o respeito que lhe devo, ao torná-la minha esposa.
Era uma resposta fria, mas não conseguiu dizer mais nada. Sir Joshua
pareceu satisfeito.
Quando o marquês foi embora, dirigindo seus cavalos pelo caminho
até Merlyncourt, pensava em sir Joshua com um carinho que certamente não
existia há poucas horas atrás.
Gostou dele. Não tinha a menor dúvida: gostava do futuro sogro e lhe
era profundamente grato, o que nunca tinha imaginado que pudesse
acontecer.
Lembrou de Lucretia e teve receio e ansiedade quanto ao futuro. Sir
Joshua era uma coisa; a filha, outra!
— Deus do céu, o que tenho em comum com uma garota de dezoito
anos?
Estava convencido de ter tomado a decisão certa, mas não conseguia
deixar de sentir uma profunda depressão ao pensar que ia casar com uma
menina.
Pensou em todas as mulheres que tinha conhecido; todas da mesma
idade que ele ou apenas poucos anos mais novas. Embora tentasse se
convencer de que aquele casamento era a única solução para resolver o
problema com Jeremy Rooke, todo seu ser se revoltava com a idéia.
Teve consciência de que quando falava com Sir Joshua, Jeremy estava
entre eles como uma sombra. Seu nome não foi sequer mencionado, mas os
dois homens sabiam que a razão que levava o marquês a fazer o pedido de
casamento não era tão supérflua como tinha parecido, e ambos aceitaram a
solução diplomática, quase comercial, para resolver uma situação
embaraçosa.
O marquês guiou os cavalos pelo caminho de Merlyncourt. A casa
estava linda com as janelas brilhando como jóias aos últimos raios de sol.
Sir Joshua tem razão! Este é o lugar mais bonito do mundo!, pensou,
dizendo a si mesmo que tudo aquilo valia qualquer sacrifício, mesmo sua
liberdade.
Ao mesmo tempo sentia uma vontade enorme de desistir do
casamento. Repugnava-o a idéia de se ligar a uma jovem que nunca tinha
visto, com quem não tinha nenhum interesse em comum e que, por mais
39
atraente que fosse, nunca seria suficientemente bonita para tomar o lugar de
sua mãe.
Cisnes moviam-se majestosamente pelo lago, com as cabeças altivas,
os pescoços arqueados e as penas brancas refletindo-se na água prateada.
A graça e beleza daqueles animais faziam com que se lembrasse das
mulheres que tinha tido. O modo com que a duquesa de Devonshire entrava
no salão, com os cabelos dourados coroados por uma tiara, tinha uma graça
indescritível. Georgina Devonshire! E agora, precisava se contentar com uma
criancinha de cabelos pretos chamada Lucretia.
Hester! Pensou em Hester e imediatamente viu seu corpo perfeito nos
lençóis de seda azul. Hester, com seus lábios vermelhos cheios de desejo, seus
braços apertando-o, o corpo colado ao dele!
O marquês sentiu um desejo súbito de estar com ela e abraçá-la até
sentirem aquela paixão se tornar irresistível e insaciável.
Hester! Era ela que queria!
Dirigiu o faetonte até a entrada principal.
— Troque os cavalos — disse ao criado. — Vou partir para Londres
imediatamente.
Subiu a escadaria e entrou no imponente hall de Merlyncourt
Precisava de Hester e naquela noite não queria pensar em nada.
40
CAPÍTULO IV
41
Tentava dizer a si mesma que precisava ficar calma; senão, toda a
agitação que sentia transpareceria no rosto. Mas era muito difícil, sabendo
que no andar de baixo, esperando por ela, estava o homem que admirava há
cinco anos, o homem em quem pensava e com o qual sonhava. Alguém que
tinha se tornado uma parte inseparável de sua vida.
E era a primeira vez que iam se ver!
Junto com o pai, Lucretia tinha escolhido os convidados para o jantar,
com todo o cuidado. Era imprescindível que não fosse ninguém tão familiar a
ponto de fazer qualquer comentário sobre sua mudança.
Sir Joshua convidou homens inteligentes e importantes, que, embora
não pertencessem ao alegre grupo do príncipe de Gales, tinham uma posição
de destaque na sociedade.
Havia mais homens do que mulheres, e Lucretia achou isso sensato,
porque queria que o marquês tivesse uma noite intelectualmente gratificante.
Realmente, assim que ele entrou no salão, surpreendeu-se ao encontrar
homens de que tinha lido discursos que admirava e outros cujos livros foram
sucesso literário no ano anterior.
No íntimo, o marquês esperava que o jantar fosse muito
constrangedor. Mas agora, depois do champanhe servido pelos criados,
participava da conversa, cheio de interesse.
Só depois de estar falando com os outros convidados há mais de
quinze minutos, se deu conta de que Lucretia ainda não tinha aparecido.
Nesse momento, o mordomo anunciou, num tom circunspecto:
— O jantar está servido, senhor, e a Srta. Lucretia pede para não
esperar por ela.
— Tenho que pedir desculpas por minha filha — disse sir Joshua aos
convidados — mas ela chegou atrasada de Londres. Creio que houve um
acidente na estrada.
O marquês juntou-se a outros quatro cavalheiros que também estavam
desacompanhados. Conversando com um coronel da cavalaria que no
momento estava de licença, chegou ao hall. Nesse momento, ouviu o
mordomo dizer:
— A Srta. Lucretia está chegando, senhor.
O marquês seguiu o olhar do empregado até o topo da escada. Dois
pequenos negros, vestidos com túnicas douradas e de turbantes, seguravam
um belíssimo candelabro com seis velas acesas, cada um.
No meio estava uma mulher!
Bem devagar, com uma graça e uma dignidade incomparáveis, ela
42
começou a descer os degraus, com os negros de cada lado.
Lucretia usava um vestido vermelho-sangue que realçava
magnificamente a alvura de sua pele. Era um pouco transparente e via-se
claramente o contorno do corpo. A cada degrau que descia, o tecido brilhava
e dançava como labaredas. Usava também um maravilhoso colar de rubis,
que tinha pertencido a sua mãe, mas que lady raramente colocava, pois
achava que chamava muita atenção.
Os cabelos penteados para cima e presos com uma pequena coroa e a
pulseira também de rubis complementavam o conjunto.
Era diferente de tudo o que o marquês tinha idealizado, e ao mesmo
tempo, muito mais bonita e aparentando mais idade.
Foi esperá-la no fim da escada. Sem pressa, ela desceu e fez uma
ligeira cortesia, dizendo, com voz doce:
— Devo lhe pedir desculpas, senhor, pelo meu atraso em vir
cumprimentá-lo.
O marquês fez uma reverência e beijou-lhe a mão.
— Finalmente nos encontramos, Srta. Hedley. Começava a pensar que
você fazia parte de uma lenda e que não existia realmente.
— As lendas costumam ser melodramáticas ou então de um
romantismo exagerado. Espero que a realidade não o desaponte.
— Como pode dizer uma coisa dessas?
Os outros já tinham ido para a sala de jantar e os dois seguiram pelo
corredor, acompanhados pelos dois negrinhos.
— Seu cenário é espetacular! — comentou o marquês, e Lucretia
percebeu um certo divertimento em sua voz.
— Fico satisfeita que pense assim. E o senhor é muito mais atraente
pessoalmente do que através de um telescópio.
— Através de um telescópio!
Tinham chegado a sala de jantar, e Lucretia sentou a uma das
cabeceiras da mesa, numa cadeira de espaldar alto forrada de veludo verde-
esmeralda, que fazia com que ela sobressaísse como uma verdadeira jóia.
O marquês achou que, embora a aparência dela fosse sensacional, tudo
mais naquela sala era sóbrio e de indiscutível bom gosto. A mesa estava
muito bem decorada, não havia excesso de ornamentação, e a baixela, de
valor incalculável, fazia prever que a comida e os vinhos que Sir Joshua iria
servir aos convidados seriam da mesma qualidade.
Estava muito curioso e, assim que todos se sentaram, disse a Lucretia :
— Será que me pode explicar, Srta. Hedley, o que quis dizer com
43
minha diferença através do telescópio?
— Como poderia eu desfrutar as belezas de Merlyncourt e a
magnificência de seu proprietário, a não ser num assim?
O marquês franziu um pouco as sobrancelhas, intrigado por um
momento.
— Mas é claro! O mirante de Coombe Hill! Eu costumava ir lá, quando
era garoto!
— Então, deve lembrar que de lá se tem uma excelente vista
panorâmica de Merlyncourt — disse Lucretia, com um olhar lânguido.
— Tenho que admitir que fiquei muito sentido, pois desde que
Coombe Hill passou a pertencer a seu pai, nunca mais pude ir até lá a cavalo.
— É muito bonito na primavera.
— Espero que me leve novamente aos meus velhos lugares de
infância.
— E o senhor também tem muito para me mostrar. Vai ser
emocionante ter acesso a Merlyncourt, depois de tantos anos tendo que me
limitar a espreitar como uma pedinte através de seus magníficos portões de
ferro.
O marquês sorriu.
— Uma pedinte luxuosa e elegantemente vestida.
— Estava me referindo aos meus sentimentos, senhor!
Novamente o marquês reparou no olhar dela, ao mesmo tempo
travesso e provocante.
— Então, você me observava pelo telescópio? Se eu soubesse, teria
ficado muito embaraçado!
— Não calcula como ansiava por conhecê-lo. Em vez disso, tinha que
me contentar imaginando situações em que nos encontrássemos por acaso.
— Que tipo de situações? — perguntou o marquês, com um sorriso
divertido.
— Aos catorze anos, eu tinha uma imaginação fértil. Às vezes,
imaginava a casa pegando fogo e o senhor me salvando no último momento,
antes que as chamas destruíssem tudo completamente!
— Estou feliz por isso não ter acontecido — comentou o marquês,
olhando os quadros e os móveis preciosos a sua volta.
— Outras vezes, era eu que o salvava do fogo e da peste, mas mais
freqüentemente de um dragão.
O marquês sorriu.
— Cada vez mais me convenço que deveria ter procurado seu pai,
44
assim que herdei Merlyncourt. Já lhe pedi desculpas por isso.
— Estou certa de que teria achado esses meus dramas infantis
tremendamente maçantes — disse ela mudando o tom de voz.
— Pelo visto, hoje em dia já não se permite ter esses devaneios.
— Simplesmente, descobri que, se não conseguimos conquistar nosso
príncipe encantado, há mais homens no mundo. Para mim, foi uma grande
descoberta.
O marquês olhou para ela, meio inseguro, mas antes que pudesse fazer
mais perguntas, Lucretia tinha começado a conversar com o cavalheiro
sentado no outro lado.
Assim que o jantar acabou, ela levou as senhoras para outra sala. Já
tinha pedido a Sir Joshua que não apressasse os convidados. Queria que o
marquês participasse da conversa que seria, sem dúvida, muito interessante.
Estava já ficando muito tarde, quando finalmente os homens entraram
na sala.
Algumas senhoras acharam que era hora de se retirarem, e Lucretia
decidiu não sugerir um jogo de cartas.
Reparou que o marquês, depois de trocar palavras amáveis com uma
ou duas senhoras, tinha retomado a conversa com um cavalheiro com quem
veio conversando da sala de jantar.
Alguns casais se despediram, e só quando restavam muito pouco
convidados, o marquês veio para junto de Lucretia.
— Posso lhe falar em particular, por um instante?
— Mas é claro, senhor.
Lucretia saiu da sala e, passando por uma antecâmara, foi para a sala
de visitas particular.
Havia um delicioso aroma de lilases, que estavam em jarras e também
em vasos de cada lado da lareira.
Nessa época do ano, as noites eram muito frias. A lareira estava
sempre acesa e poucas velas em toucheiros de prata iluminavam a sala
Com um rápido olhar, o marquês percebeu que ali havia antigüidades
mais raras do que em qualquer lugar da casa. Os móveis embutidos eram da
época de Carlos II, assim como as molduras dos espelhos com anjos e
corações entalhados e os quadros maravilhosos.
— Que sala encantadora! Será que poderei acrescentar que tudo isso é
um perfeito cenário para você?
Lucretia tinha ido até a lareira. Olhava para as labaredas e, por um
momento, ele achou que ela lhe lembrava alguém, mas não conseguia
45
lembrar quem. Era qualquer coisa em suas feições, na expressão, talvez a
maneira como virava a cabeça! Não tinha certeza.
Reparou que as chamas não só realçavam o vestido dela, mas também
deixavam ver o contorno do corpo esguio.
Ficou imaginando se ela se dava conta disso.
— Pedi para ficarmos a sós, Lucretia… espero poder tratá-la assim...
porque tenho um presente para você.
— Um presente?
O marquês tirou do casaco uma caixa forrada de veludo. Abriu-a, e
Lucretia viu um enorme diamante, cercado de pequenos brilhantes. Um anel
de incrível beleza e com um desenho raro.
— Faz parte de um conjunto — explicou ele — que espero que você
aceite no dia de nosso casamento. Este é o anel de noivado de todas as noivas
de Merlyncourt.
— É maravilhoso!
Tirou o anel do estojo, Lucretia deu-lhe a mão esquerda e ele colocou o
anel em seu dedo. Então, levou a mão aos lábios.
— Estou muito honrado que tenha consentido em ser minha esposa e
farei tudo o que puder, Lucretia, para torná-la feliz.
Por um segundo, Lucretia olhou bem dentro dos olhos dele, sentindo-
se excitada com o toque de sua mão e a profundidade de sua voz. Algo
indefinível os envolveu, fazendo com que se sentissem presos num
encantamento estranho.
Então, receosa da intensidade dos próprios sentimentos, Lucretia fez
um esforço e disse.
— Ao senhor cabe a tarefa mais fácil!
— O que é que quer dizer com isso? — perguntou o marquês, soltando
sua mão.
— A sua intenção é me fazer feliz, mas eu terei a obrigação mais difícil:
impedir que o senhor se entedie!
— Entedie?
— Não sabe que é conhecido aqui no campo como o marquês
entediado?
— Não tinha a mínima idéia desse apelido.
— Então, já pode ver como vai ser difícil a minha missão. Não só
impedir que boceje, como garantir que os outros não percebam isso.
Falava para irritá-lo, e passado um momento, o marquês disse:
— Estou com o pressentimento, Lucretia, de que você está me
46
provocando de propósito. Estou em dúvida se a beijo ou bato.
Lucretia afastou-se um pouco. Depois, ainda de costas, virou a cabeça
para ele.
— Lamento informar, senhor, que esse tipo de procedimento, por mais
divertido que seja, está reservado para meus amigos íntimos! — Fez uma
pausa e continuou, dessa vez, provocando abertamente: — Talvez, quando
nos conhecermos melhor, possa escolher qual das duas hipóteses prefiro!
O marquês deu um passo em sua direção, mas ela já tinha ido para a
porta. Abriu-a e voltou para o salão, antes que ele pudesse detê-la.
Mostrou o anel ao pai e aos convidados que tinham ficado. No meio
das exclamações de admiração, que também tinham um pouco de inveja, o
marquês se despediu.
— Posso procurá-la amanhã? — perguntou a Lucretia, em voz baixa.
— Espero que não pense que estou me fazendo de rogada, mas tenho
que voltar a Londres. Receio que não possamos nos encontrar antes do nosso
casamento.
— Também estarei em Londres depois de amanhã e espero que me
permita vê-la.
Lucretia hesitou de propósito antes de dizer:
— O senhor certamente apreciará ter esse tempo disponível.
Certamente, há pessoas de quem gostará de se despedir. Acho que não se
deve magoar… aqueles que nos… são caros.
Não havia dúvida nenhuma sobre o significado implícito dessas
palavras, principalmente pela maneira como foram ditas. O marquês olhou-a,
severo. Nesse momento, Sir Joshua juntou-se a eles e não houve possibilidade
de continuarem a conversa.
Só quando o último dos convidados saiu, Lucretia se sentou sozinha
com o pai. Sir Joshua olhava para a filha, cheio de ternura. Como ela não
dissesse nada, perguntou:
— Ele correspondeu ao que você esperava?
— É ainda mais bonito, mais atraente e mais encantador.
Olhou para o pai e ele percebeu a pergunta em seus olhos.
— A não ser que não saiba avaliar os homens — disse ele, calmamente
—, o que você sabe que não é verdade, ele está completamente confuso! Você
não é o que ele esperava!
— Não, isso é óbvio.
— Nada tem valor, quando é conseguido muito facilmente.
— Lembro que me disse isso quando eu era pequena e caí de um
47
pônei. Disse-lhe que queria ser a maior amazona do mundo e voei, respondeu
que levaria tempo. — Lucretia riu. — Nunca fui capaz de ter paciência!
— Mas agora tem que ter.
— Eu sei, mas será muito difícil.
Seu coração sussurrava que, sem dúvida, seria muito difícil, porque
amava o marquês e com um amor muito grande!
Sir Joshua tinha razão: o marquês estava confuso. Enquanto voltava
para Merlyncourt, ia pensando no olhar provocante de Lucretia e como,
durante toda a noite, apenas com palavras, ela o tinha colocado em seu
devido lugar.
É bonita, pensou, imaginando como ficaria bem a sua mesa e
valorizaria as jóias de Merlyncourt. Nunca imaginou que tivesse tanta graça.
Pensou também que o príncipe de Gales e seus amigos, extraordinariamente
exigentes a respeito de mulheres, iriam, sem dúvida, admirar Lucretia.
Para sua própria surpresa, o marquês se perguntava que tipo de
esposa ela daria. No princípio, teve certeza de que Lucretia seria uma moça
calma, educada, que faria o que ele dissesse, que ficaria em Merlyncourt
sempre que ele desejasse ir a Londres sozinho e que não faria perguntas
indiscretas.
Enquanto os cavalos entravam nos portões, lembrou como Lucretia
tinha se definido como uma pobre pedinte!
Não era nada disso, e ele soube que todas suas dúvidas em relação ao
futuro não tinham razão de ser.
Os cavalos dirigiam-se para casa e ele recordava toda a conversa com
Lucretia. Tinha sido um duelo arguto, que ele adoraria ter com qualquer das
sofisticadas mulheres casadas com quem flertava, mas que nunca imaginou
que pudesse acontecer com uma menina de dezoito anos a quem ele,
relutantemente, tinha pedido em casamento!
Sua sensação era de que, ao contrário do que esperava, estava preso
dentro de um labirinto, sem saber onde ficava a saída!
Mas era ridículo! Santo Deus, se em sua idade e com sua experiência
não conseguia fazer com que uma criança se comportasse da maneira que ele
queria, alguma coisa devia estar errada!
Foi deitar pensando em Lucretia e acordou diversas vezes, ainda
pensando nela. Acordou mais cedo do que o habitual e mandou o criado
arrear um cavalo.
Estava uma linda manhã. Nunca tinha visto uma primavera tão calma,
tão agradável. O verão viria cedo naquele ano. Era como se o tempo
48
zombasse de Napoleão, que tinha esperado em vão no verão anterior pelos
ventos e marés certas para tirar a armada dos portos da França.
Como ainda era muito cedo, havia uma brisa fria, que o marquês
achou estimulante. O cavalo estava agitado, mas ele gostava daquela luta
entre homem e animal, até que o último fosse dominado.
Galopando, atravessou o parque e se dirigiu ao The Mile. Era um
longo passeio através do campo. Seu pai sempre treinava ali os cavalos, mas
como essas terras confinavam com as que tinham sido vendidas a Sir Joshua,
o marquês sempre as evitava.
Foi com um prazer enorme que viu a cerca de madeira que Sir Joshua
mandara fazer para marcar os limites da propriedade e pensou que, dentro
em breve, aquela separação deixaria de existir. Merlyncourt voltaria ao que
era e o fato de ter havido estranhos lá, logo seria esquecido.
Subitamente, ouviu o barulho do galope de um cavalo, que passou
voando no momento em que virou a cabeça para ver quem se aproximava.
Reconheceu a amazona!
Viu de relance dois olhos azuis zombeteiros e o desenho de uma boca
vermelha.
Lucretia ia muito a sua frente, quando partiu a galope atrás dela.
Percebeu duas coisas imediatamente: primeira, que a moça montava
maravilhosamente bem e, segunda, que o cavalo era tão bom ou melhor que o
dele.
O marquês era conhecido pelos bons cavalos que possuía, e o
garanhão que montava era extremamente veloz; mesmo assim, descendo The
Mile, notou que ia ser difícil alcançar Lucretia.
O traje de montar, em veludo verde-esmeralda, realçava sua cintura
fina e o véu do seu chapéu ondulava ao vento como uma bandeira em
desafio.
Galopava o mais depressa que podia, mas não conseguia se aproximar
dela.
Assim que viu o fim de The Mile à vista, instintivamente parou o
cavalo, esperando que ela fizesse o mesmo, mas Lucretia deu uma guinada
para a direita e, fazendo o cavalo saltar a cerca de madeira, desapareceu entre
as árvores. Antes olhou para trás, e o marquês pôde ver um sorriso em seus
lábios.
Por instantes, teve vontade de segui-la. Depois viu que não valia à
pena, porque ela já devia estar chegando a Dower House.
— Diabos! Ela é realmente imprevisível!
49
Esse sentimento seria uma constante na semana seguinte. De início, o
marquês não queria acreditar que Lucretia não tinha mesmo nenhuma
intenção de se encontrar com ele antes do dia do casamento. Imaginou que
ela teria muitas coisas de última hora para tratar e também que se despedir
dos amigos. Sabia que queria que ele pensasse que tinha muitos admiradores
a quem teria que dizer adeus, mas supunha que era tão reticente, apenas para
despertar sua curiosidade.
Mas depois de ter ido pelo menos três vezes à casa de Sir Joshua em
Curzon Street e não encontrá-la, começou a acreditar que não tinha mesmo
vontade de vê-lo, até que tivesse a aliança no dedo.
O marquês não era um homem particularmente convencido, embora
tivesse consciência do sucesso que fazia com as mulheres. Não se podia
esperar que ignorasse o fato de ser muito requisitado pela sociedade. Não
havia nenhum anfitrião que não ficasse feliz em tê-lo como convidado e
nenhuma mulher que não o aceitasse como amante, mesmo ocasional. E
aquela garota com quem ia casar, aquela criançola sem importância social,
evitava-o deliberadamente!
Um dia, o marquês recebeu uma carta de Sir Joshua, perguntando se
gostaria de ver os presentes de casamento, antes que fossem mandados para
Carlton House para serem expostos durante a recepção do casamento.
Pensando que, naturalmente, Lucretia estaria presente, o marquês foi até
Curzon Street. Ficou cego pelas pratarias, maravilhado com as jóias, divertido
com o ridículo de certos presentes, e tudo para constatar que Lucretia não
estava lá!
— Esperei que sua filha me desse à honra de se encontrar comigo esta
tarde — disse a Sir Joshua.
O tom era frio, e o futuro sogro percebeu a censura.
— Ela lhe pede muitas desculpas, mas, como deve calcular, há muito
pouco tempo para preparar tudo o necessário para o casamento.
— Achei que Lucretia gostaria de conhecer alguns dos meus amigos!
— disse o marquês, friamente. — A duquesa de Richmond nos convidou para
jantar esta noite. Convite esse, que, pelo visto, Lucretia recusou.
— Peço-lhe que perdoe minha filha, mas acho que ela deve ter uma
boa razão para não ter aceito o amável convite de Sua Graça.
— Tenho certeza disso.
Quando saiu de Curzon Street, o marquês ia furioso, achando que o
comportamento de Lucretia era exasperante.
Finalmente, enquanto esperava pela noiva nos degraus da capela-mor
50
da igreja de St. George em Hanover Square, não conseguia acreditar que só
tinha visto Lucretia duas vezes na vida e, mesmo assim, só havia conseguido
falar com ela uma vez!
A igreja estava repleta. Em cima, nas galerias, o pessoal de
Merlyncourt, Merlyn House e das residências de Sir Joshua, debruçava-se
cheio de curiosidade, com a excitação estampada no rosto, ao ver todas as
personalidades sobre as quais tinha lido ou ouvido falar, sendo levadas a
seus lugares pelos amigos íntimos do noivo.
O marquês tinha plena consciência de que lady Hester, que estava
maravilhosa, olhava fixamente para ele, com uma tal expressão de desgosto,
que todos percebiam.
A duquesa de Devonshire, por outro lado, tinha abençoado a união.
— Está sendo sensato em casar, Aléxis. Hester e mulheres como ela
certamente o envolveriam num escândalo, se não tomasse cuidado! Uma
gentil moça do interior vai lhe dar a estabilidade e o herdeiro de que você e
Merlyncourt precisam.
O marquês imaginou se, depois de ver Lucretia, a duquesa continuaria
a considerá-la uma gentil moça do interior!
Enquanto recordava a conversa e evitava os olhares de reprovação de
lady Hester, fizeram um sinal da porta e a música do órgão ecoou pela igreja.
O som estava alto, mas mesmo assim conseguiu ouvir o murmúrio dos
convidados. Não virou a cabeça, até que Lucretia chegou praticamente a seu
lado.
Quando olhou para a futura mulher, percebeu o porque do murmúrio
dos convidados: tinha sido como que um aplauso a sua aparência.
Pela maneira como estava vestida na noite do jantar em Dower House,
o marquês estava certo de que ela não era dada a convencionalismo, e tinha
razão. O vestido de noiva não era branco, mas prateado.
Era de um prateado quase irreal, bordado com vidrilhos, e o véu,
preso por uma riquíssima tiara de diamantes, também era bordado, mas com
pequenas lágrimas de vidro que se tornavam iridescentes à luz das velas.
O buquê era de lilases; não os lilases comuns que enfeitavam, sua sala
de estar, mas um tipo exótico, com as flores grandes e raiadas, que tinha sido
introduzido naquele ano na Inglaterra. Eram douradas escuro e faziam um
efeito de sol contra a luz prateada do vestido.
Seu porte era altivo como o de uma rainha, sem timidez ou
acanhamento, como seria de esperar de uma jovem noiva. Era toda mulher,
uma deusa esperando e comandando a adoração daqueles que entravam em
51
seu santuário.
Os olhos de Lucretia encontraram os do marquês e, naquele olhar, ele
novamente se certificou de que estava diante da mulher mais imprevisível
que já tinha encontrado. Havia qualquer coisa enigmática, algo diferente, que
ele não conseguia entender.
O serviço religioso começou.
Mais tarde, Lucretia não se lembraria nem das orações nem das
respostas. Ouviu a voz do marquês, profunda, firme e resoluta e o tom doce e
musical de sua própria voz, como se nem uma nem outra tivessem nada a ver
com ela.
Tinha a impressão de que tudo aquilo era teatro, uma cerimônia da
qual era mera expectadora.
Foram à sacristia assinar o livro de casamento e, quando voltavam
pela nave principal, Lucretia vinha de braço dado com o marquês.
Viu um mar de rostos, mas só teve consciência de um: uma mulher
cujos olhos azuis brilhavam de ódio. Não conhecia lady Hester, mas tinha
ouvido falar tantas vezes de sua beleza, que não teve dificuldade em
identificá-la.
Por um instante, teve vontade de gritar, porque Hester Standish era
belíssima, mais linda ainda do que diziam.
Na saída da igreja, entraram na carruagem aberta que os levaria a
Carlton House. Durante todo o percurso, de cada lado da rua, uma multidão
acenava lenços brancos, gritando e desejando-lhes felicidades. Não podia
fazer mais nada, a não ser acenar ao povo e sorrir em agradecimento.
Qualquer conversa era totalmente impossível.
O príncipe de Gales recebeu-os no Salão Chinês.
— Está uma noiva muito bonita, minha cara. Merlyn é um homem de
sorte. Não me disse que tinha encontrado alguém tão encantadora, tão
especial. Ele tem que mandar pintar o seu retrato!
— É essa a minha intenção — respondeu o marquês — e gostaria de
lhe pedir, senhor, que recomendasse o artista que melhor lhe faça justiça.
Como sempre, o príncipe ficou muito satisfeito por terem pedido sua
opinião.
— Temos que pensar nisso cuidadosamente, mas parece-me que
Lawrence fará melhor do que qualquer outro.
Lucretia achou o príncipe muito gordo, mas ao mesmo tempo tinha
um encanto todo especial que o tornava irresistível. E a expressão dos olhos
traduzia a sinceridade de suas palavras ao dizer que a admirava.
52
Ele ficou segurando a mão dela, até que os outros convidados que
chegavam da igreja começaram a ser anunciados.
Fazendo uma reverência, Lucretia se afastou.
— Há tantas coisas que quero ver — disse ao marquês. — Papai vai
ficar emocionado! Ele está sempre falando nas preciosidades de Carlton
House. — Falou espontaneamente, sem premeditação, e acrescentou: —
Tenho certeza de que não é isso que se deve dizer ao marido, imediatamente
após o casamento!
— Não acredito que haja palavras estipuladas para essa ocasião.
Talvez eu devesse perguntar se você está bem, mas posso ver a resposta com
meus próprios olhos.
Lucretia olhou para ele e sorriu.
— Deixe-me ser igualmente gentil, uma vez que este é o meu dia mais
especial, e dizer-lhe que estou absolutamente certa de que você é o noivo
mais bonito do mundo.
— Está falando por experiência, creio eu! — disse o marquês, para
provocá-la.
— Muito pelo contrário. Baseio minha opinião em fatos históricos.
Porque, no que diz respeito à realeza, com exceção do nosso anfitrião, não é lá
esse cumprimento!
O marquês riu, e foram tomar seus lugares junto a uns enormes vasos
de flores para receberem as felicitações dos convidados.
Fazia um calor sufocante, porque o príncipe, com medo das correntes
de ar, tinha a casa sempre muito aquecida.
— Lady Hester Standish.
Lucretia viu a bela mulher em quem havia reparado ao sair da igreja
cumprimentar o príncipe. No momento seguinte, estava diante dos dois. Era
linda como um anjo!
Em seus olhos dançavam lágrimas de ressentimento e seus lábios
tremiam, quando tomou a mão do marquês e disse, num sussurro:
— Oh, Aléxis, estou com o coração sangrando!
Lucretia olhou de soslaio para o marido, que parecia constrangido.
Nenhum homem gosta de cenas, especialmente logo a seguir ao próprio
casamento. Ele não disse nada, e lady Hester, ignorando Lucretia
completamente, afastou-se.
Houve uns segundos de intervalo, antes que o próximo convidado se
aproximasse, e o marquês disse, tranqüilamente:
— Desculpe.
53
Lucretia virou-se para ele, sorridente.
— Por quê? Posso lhe garantir, senhor, que nesta semana que passou
sofri muito mais! Corações sangrando sempre me deram indigestão.
Os lábios do marquês se contorceram e, como não conseguisse
impedir, desatou a rir.
54
CAPÍTULO V
55
acende o fogo lá embaixo. Espero que não sinta frio.
— Só quero me lavar — disse Lucretia, sorrindo.
— Se precisar de mais alguma coisa, senhora, é só tocar a campainha.
— Farei isso.
A mulher fez uma reverência e saiu. Lucretia tirou o chapéu e foi até o
lavatório, quando ouviu a voz do marquês, espantado:
— Hester, que diabo está fazendo aqui?
— Eu tinha que ver você, Aléxis.
Parecia que as vozes vinham por um cano, e então Lucretia lembrou
que a mulher tinha dito que a chaminé estava sendo consertada. Por isso,
podia ouvir o que se dizia lá embaixo.
— Como pôde fazer semelhante coisa? — perguntou o marquês,
severo. — Sabe muito bem, Hester, que não devia estar aqui.
— Saí da recepção mais cedo e vim para cá. Queria vê-lo e sabia que
iria trocar de cavalos aqui.
— Tem que ir embora imediatamente.
— Você me enganou, Aléxis, e tem que me dar uma explicação.
— Como é que a enganei?
— Dizendo que ia casar com uma simples e conservadora moça do
interior. Ela não é simples, muito menos conservadora! E, certamente, não
parece uma provinciana.
— Não estou disposto a falar de minha mulher.
— Oh, Aléxis, como pôde ser tão cruel comigo? Sabe que o amo e
prometeu que sua mulher ficaria em Merlyncourt, tendo crianças! Como
posso ter certeza de que aquela serpente sofisticada vai fazer uma coisa
dessas?
— Estou em lua-de-mel, Hester. Você já me aborreceu hoje. Não quero
nem imaginar no que Lucretia vai pensar, se descer e encontrar você aqui. Vá
para casa e tenha juízo.
— E o que vou fazer em casa, a não ser pensar em você? Quero você,
Aléxis, e você me quer! Já seria horrível pensar em você passando a lua-de-
mel com qualquer mulher, mas é muito pior agora que escolheu uma pessoa
totalmente diferente do que disse que seria.
Houve um silêncio e depois lady Hester, disse suavemente:
— Como é que vai me impedir de vê-lo e estar com você? Não acredito
que queira me cortar de sua vida! Seja como for, recuso-me a permitir que
faça isso!
— Vá, Hester, vá embora, imediatamente!
56
— Muito bem. Vou, porque você está pedindo. Mas esta noite, quando
tiver aquela criatura em seus braços, estará pensando em mim. Vai ficar
lembrando os momentos de paixão selvagem que passamos juntos. Vai sentir
minha boca… meus braços em volta de seu pescoço… meu corpo junto do
seu!
A voz de lady Hester tornou-se praticamente inaudível e Lucretia
imaginou que devia estar se aproximando do marquês. Houve um longo
silêncio. De repente, ouviu a voz triunfante da outra:
— Esqueça isso, se for capaz! Adeus, Aléxis. Estarei esperando por
você na noite em que voltar para Londres.
Ouviu-se o barulho de uma porta batendo, e Lucretia prendeu a
respiração. A vontade que tinha era de gritar, descer a escada e dar vazão a
toda a raiva.
Então, percebendo a loucura que semelhante atitude representaria,
começou a sentir uma calma fria e controlada, que lhe devolveu não só o
orgulho e o autocontrole, mas também uma vontade de ferro de ganhar o
marquês… por mais contrariedades que tivesse.
Exatamente às seis e meia, chegaram a uma casa deliciosa, que o conde
e a condessa de Brora tinham alugado.
— Deve estar cansada, senhora — disse a governanta, quando levou
Lucretia para um magnífico quarto no andar de cima, de onde se desfrutava
uma vista maravilhosa das dunas. Ao longe, via-se o azul acinzentado do
canal da Mancha.
— Não, não estou cansada. Achei delicioso viajar depressa.
— Depressa demais, se me permite a opinião, senhora. Estou sempre
ouvindo histórias de acidentes perigosos na estrada, e isso acontece quando
as pessoas andam mais depressa do que Deus quer.
Lucretia não respondeu. Estava contente de encontrar Rose, que tinha
ido na frente com a bagagem e os criados do marquês esperando por ela.
— A senhora estava uma noiva muito linda — disse Rose. — Todos na
igreja estavam comentando que não podia haver casal mais bonito, no mundo
inteiro.
— Que pensamento delicioso.
Apesar de ter protestado com a governanta, ficou satisfeita em
mergulhar num banho quente que tinha sido preparado para ela. Sentiu-se
relaxar do cansaço e de ter estado tanto tempo sentada.
O faetonte sacudia bastante e isso às vezes a assustava, embora tivesse
gostado muito da viagem.
57
Rose ajudou-a a vestir um dos vestidos que tinham sido desenhados
especialmente e ela desceu para o salão.
A casa não era de todo imponente como Merlyncourt, nem continha
nenhuma peça rara. Mas estava decorada com muito bom gosto e não havia
dúvida de que a condessa de Brora tinha cuidado de tudo nos mínimos
detalhes, para que não lhes faltasse nenhum conforto.
O jantar estava delicioso. Lucretia e o marquês ficaram sentados à
mesa conversando ainda por muito tempo, depois da refeição.
Lucretia sabia que ele era muito culto sobre vários assuntos que ela
própria também sabia bastante.
Cavalos era um assunto fácil. Seu pai sempre possuíra os melhores
cavalos de corrida. Também tinha estudado arte desde pequena e lido muito,
por isso, podia conversar tranqüilamente sobre o assunto, mantendo o
marquês interessado, divertido e, como ele gostava tanto, secretamente
intrigado.
Usou todos os artifícios que Odrowski lhe havia ensinado para parecer
deslumbrante, mas foram seu natural bom senso e cultura que prevaleceram
naquele primeiro jantar a sós.
Assim que voltaram para o salão, Lucretia olhou para o relógio de
parede e disse:
— Foi um dia longo, senhor, e certamente compreenderá que estou
pronta para me recolher.
— Claro.
Subiram juntos a escada e ele pegou sua mão e a beijou.
— Já lhe disse que estava linda hoje?
— Ficaria desapontada, se não tornasse a dizer — respondeu, sorrindo
meigamente.
Sem esperar que ele voltasse a falar, acabou de subir a escada e foi
para o quarto.
Meia hora depois, o marquês bateu à porta, abriu-a e entrou.
Lucretia não estava deitada, como esperava, mas sentada no coxim da
janela, com as cortinas abertas, iluminada pelo luar. Não usava nenhuma
camisola transparente como havia pensado, e que seria coerente com as
roupas espetaculares de que gostava. Em vez disso, vestia uma camisola de
seda pura com mangas, bem simples. Os cabelos pretos caiam pelas costas
quase até a cintura. Quando se virou para ele, estava muito séria.
De repente, o marquês compreendeu como se parecia com a imagem
que tinha guardado dela, olhando para as chamas da lareira de sua sala de
58
estar, na noite do noivado. Tinha o rosto das jovens madonas tão apreciadas
pelos mestres italianos.
Fechou a porta e atravessou o quarto, devagar. Seu roupão de brocado
brilhava tenuamente à luz das velas.
— Ainda não deitou, Lucretia?
— Não. Queria falar com o senhor.
— Pensei que era um pouco tarde para conversar — respondeu, com
uma certa ironia na voz. Mas quando viu a expressão dos olhos dela,
perguntou, sem brincadeiras: — Qual é o problema?
— Ouvi o que foi dito entre o senhor… e lady Hester, esta tarde.
O marquês franziu ligeiramente as sobrancelhas.
— Esteve escutando na porta?
— Não. A lareira estava sendo consertada. Dava para ouvir as vozes
perfeitamente, lá de cima.
— Eu tenho…
— Por favor, não se desculpe — interrompeu Lucretia imediatamente.
— Estou bem certa de que não procurou esse encontro, foi-lhe imposto. Por
outro lado, senhor, quero deixar bem claro que não tenho intenção de ser
uma “simples e conformada esposa” que vai fabricar filhos sob suas ordens.
O marquês fez um gesto de impaciência e foi até a lareira.
— Tudo isso é extremamente constrangedor. Lady Hester é impulsiva e
freqüentemente se comporta de modo inconveniente. Sei que isso não serve
de desculpa para o que ouviu e só lhe posso pedir para ser suficientemente
generosa para esquecer o assunto e não deixar que estrague o dia do nosso
casamento.
— Por mim, não está estragado. Tudo que quero é lhe dizer que não
vou desempenhar o papel que agora sei que estava esperando de mim. Sou
sua mulher, senhor, mas até que isso me convenha, quero continuar a ser
apenas no… nome.
— Nas circunstâncias atuais, não é de estranhar que você tome essa
decisão. Mas não acho muito sensato. Somos casados, Lucretia, e, como já lhe
disse, espero ser capaz de fazê-la feliz. Viver este casamento como você
pretende não vai ajudar nada.
— Mas, senhor, acho que também não é válido ter relações com um
homem que está pensando em outra mulher.
Ficaram em silêncio, até que o marquês falou:
— Posso lhe garantir que isso não vai acontecer.
— E espera, realmente, que eu acredite?
59
Havia um certo sarcasmo no tom em que a pergunta foi feita, o que fez
com que o marquês comentasse, imediatamente:
— Não vamos fazer um drama de tudo isso, Lucretia. Garanto-lhe que
lady Hester pertence ao passado. Creio que podemos viver muito bem um
com o outro, se você esquecer esse incidente desagradável.
— Vou fazer o possível para esquecer.
— Então, deixe-me mostrar-lhe como será agradável ser minha
mulher.
Aproximou-se dela, com um sorriso confiante.
Lucretia levantou.
— Tenho certeza de que vou gostar muito de ser sua mulher, mas
nunca permiti que homem algum fizesse amor comigo, sem me amar.
O marquês ficou imóvel, como que petrificado.
— Está querendo me dizer que já teve um amante?
— Não estou querendo dizer nada e não creio que algum de nós dois
queira fazer confissões sobre o passado, embora essas revelações pudessem
ser bastante divertidas, a julgar pela que acabei de ouvir!
Olhou para ele de maneira provocante e o marquês respondeu, num
tom glacial:
— Nada disso faz sentido. É minha esposa, Lucretia, e quanto mais
rápido desaparecerem essas barreiras entre nós, melhor.
Aproximou-se mais uma vez, mas ela respondeu, com firmeza:
— Não acho, senhor.
Nesse momento, Lucretia tirou a mão detrás das costas, e o marquês,
vendo-a segurar um revólver, parou, espantado.
— Ficou louca?
— Estou no meu juízo perfeito, porque não tenho a menor intenção de
ser deixada triste e com um filho em Merlyncourt, enquanto o senhor se
diverte em Londres.
Ficaram em silêncio; o marquês, com os olhos fixos nos dela, que disse:
— Sou ótima atiradora, senhor. Não vou matá-lo, mas acho que, se
levar um tiro de raspão no braço, vai se sentir muito desconfortável nas
próximas semanas.
O marquês deu uma gargalhada.
— Eu me rendo! Você tem sido uma incógnita para mim desde o
início, Lucretia, mas nunca tanto quanto neste momento! Permita-me que lhe
dê boa-noite.
Estendeu-lhe a mão e, sem pensar, Lucretia deu-lhe a sua também.
60
Com um movimento rápido que a fez dar um grito de susto, ele a
apertou contra si e com a outra mão tirou-lhe o revólver.
Depois de ter gritado, não fez mais nenhum movimento para se
libertar, ficou quieta em seus braços, o corpo colado ao dele.
— Isto é só para lhe mostrar, Lucretia, que você não consegue ficar na
defensiva o tempo todo! Além do mais, não gosto que me apontem uma
arma. Especialmente, uma mulher! — Guardou o revolver no bolso. — Nunca
me impus a uma mulher que não me desejasse. Pode fazer como entender.
Dou-lhe minha palavra de honra que só tocarei em você no dia que quiser.
Boa-noite, Lucretia.
Enquanto ele levava a mão de Lucretia aos lábios, ela ficou imóvel,
fitando-o. Antes que conseguisse dizer uma palavra, ele saiu, fechando a
porta, devagar.
***
62
— O que sabe de guerra? — perguntou o marquês, com um sorriso
divertido.
— Eu estava em Paris no ano retrasado.
— Estava? Então, tenho certeza de que, como os outros visitantes
ingleses, achou as Tulherias magníficas e que Bonaparte, naquele uniforme
de seda azul, fez seu coração bater mais depressa.
— Eu o vi, sim. Papai e eu fomos às Tulherias, e é claro que ficamos
impressionados. Havia centenas de soldados com uniformes verdes e
dourados e oficiais garbosamente uniformizados. Também ficamos
abismados com os uniformes dos ajudantes-de-campo. Cheguei mesmo a ser
apresentada a Napoleão Bonaparte.
— E o que pensa do novo imperador dos franceses?
— Eu o odiei.
O marquês levantou as sobrancelhas, admirado, e ela explicou:
— Tenho uma amiga que era enfermeira no hospital das irmãs de
Jesus. Fui lá vê-la. — Suspirou. — O hospital estava cheio de soldados
mutilados na guerra. Havia homens sem pernas e sem braços. Homens que
tinham ficado cegos. Homens que perderam a condição de humanos, porque
seus cérebros não agüentaram os horrores que viveram.
— Não devia ter visto essas atrocidades.
— Trabalhei no hospital enquanto estive em Paris.
— Você… o quê?
— Não foi durante todo o tempo, por que isso teria aborrecido papai.
Mas, das sete da manhã até o meio-dia, eu ajudava minha amiga e as outras
freiras a tomar conta dos doentes. Assim, soube toda a verdade sobre
Napoleão Bonaparte. É um monstro e um bárbaro.
Passado um momento, o marquês perguntou:
— Está dizendo a verdade? Trabalhou realmente no hospital?
— Por que iria mentir?
— Mas uma senhora não faz essas coisas!
Lucretia sorriu.
— Você esquece que até ontem, quando casamos, eu não pertencia à
alta sociedade. Além disso, acredito que o papel da mulher é tentar aliviar o
sofrimento dos outros.
— Você é uma jovem extraordinária, Lucretia. E, como já lhe disse
antes, completamente imprevisível.
Seus olhos se encontraram por uns segundos, e novamente ela sentiu
que eram envolvidos por algo estranho. Alguma espécie de magnetismo que
63
a fazia estremecer. Constrangida, levantou.
— Talvez seja melhor voltarmos para casa.
— Não quero que se canse, porque fomos convidados para jantar fora
esta noite.
— Por quem?
— Pelo primeiro-ministro. Soube que ele está no Castelo Walmer, onde
morou durante o tempo que se manteve afastado.
— Acho que a volta do Sr. Pitt como primeiro-ministro, há três
semanas, foi muito importante para a Inglaterra — comentou Lucretia.
— Tem que lhe dizer isso hoje à noite. É uma coincidência estranha: foi
no mesmo dia, 7 de maio, que Napoleão se declarou imperador da França.
— A volta do Sr. Pitt ao governo é nossa maior defesa contra o
imperador.
— Mais uma vez, estamos de pleno acordo.
Enquanto se vestia para o jantar, Lucretia sentia-se apreensiva por ir
encontrar os amigos mais intelectuais e distintos do marquês. Essa perspectiva
deixava-a mais inquieta do que ter conhecido o príncipe de Gales.
Esta noite, precisava mais da inteligência do que do rosto bonito. Ao
mesmo tempo, perguntava a si mesma, se o marquês estivesse em lua-de-mel
com alguém que realmente amasse e desejasse muito, iria jantar com amigos
— mesmo sendo o primeiro-ministro.
Vestiu-se cuidadosamente. Escolheu um vestido amarelo-claro e
colocou um colar de topázios e diamantes.
Assim que entrou no salão, fez uma pequena reverência ao marquês.
— Espero que não se envergonhe de sua esposa provinciana — disse,
com falsa modéstia.
— Você parece ter saído das mil e uma noites!
Mas ele não compreendeu se era um cumprimento sincero ou um
comentário irônico.
O Castelo Walmer era uma construção normanda, convertida pelos
sucessivos lordes Warden e pelo Sr. Pitt numa residência extremamente
agradável. Tinha uma vista fantástica para o canal, e Lucretia achou tudo
muito bonito.
Era difícil prestar atenção a mais alguém que não fosse o brilhante
estadista que se via forçado a renunciar ao cargo e a quem a nação inteira
tinha pedido ajuda, agora que a guerra havia recomeçado.
O Sr. Pitt tinha cabelos castanhos, nariz pontiagudo, olhos brilhantes e
porte digno. À primeira vista, Lucretia o achou compenetrado e sarcástico.
64
Sabia que a eloqüência do primeiro-ministro na Câmara dos Comuns
tinha sempre um toque de genialidade e, como comentou o marquês quando
se dirigiam para o castelo, sentia-se muito mais emocionada por conhecer
esse homem do que qualquer outro em toda a Inglaterra.
Havia apenas um pequeno número de convidados: o almirante Sir
William Cornwallis, comandante-chefe da frota do canal; o general
comandante das tropas de Dower e um jovem comandante naval, muito
atraente, que ficou ao lado de Lucretia durante o jantar. Ela sentou à direita
do primeiro-ministro, mas logo percebeu que, embora estivesse sendo
extremamente gentil, ele parecia ansioso para falar com o marquês e com o
almirante.
Então, resolveu flertar abertamente com o atraente oficial que não
conseguia disfarçar seu interesse.
Já estavam no meio do jantar, quando a porta se abriu e o mordomo
anunciou:
— Major Charles Willoughby, senhor.
Fez-se um silêncio de espanto. Quando o cavalheiro entrou no salão, o
primeiro-ministro lançou-se em seus braços, com uma exclamação de alegria.
— Willoughby, meu querido amigo! Por Deus do céu, de onde você
apareceu?
— Da França — disse o recém-chegado, abrindo os braços. — E a
melhor notícia que recebi foi que o senhor tem outra vez as rédeas do país
nas mãos.
Olhou para a mesa.
— Merlyn, o homem que eu queria ver! Que sorte incrível!
— Quando conseguiu fugir? — perguntou o marquês.
— Há três semanas. Levei todo esse tempo para sair de Paris a pé. Não
é uma maneira de viajar que eu recomende, garanto!
— Mesmo assim, você conseguiu.
— Sente-se Willoughby, e conte-nos tudo — pediu o primeiro-
ministro. — Sabe que estamos morrendo de curiosidade.
— Tenho muito que contar, primeiro-ministro. Foi por isso que vim
para cá, assim que cheguei a Dower.
— Como é que atravessou o canal? — perguntou o almirante.
O major Willoughby deu uma risadinha.
— Pensei que tinha que esperar que Merlyn ou a Marinha me
salvassem, mas uma quadrilha de contrabandistas foi muito amável comigo e
me desembarcou esta manhã a uns dez quilômetros daqui!
65
— Meu Deus, ainda não foram desbaratados? — espantou-se o
almirante.
— Eu, pelo menos, estou muito grato pelo que me fizeram —
respondeu o major, brincando.
— Que história é essa? — perguntou Lucretia, confusa, ao
comandante.
— Deve lembrar que, quando acabou o armistício, em maio passado, a
Marinha capturou dois navios franceses, o que deixou Napoleão furioso.
— Lembro da captura dos navios.
— Imediatamente, ele ordenou a prisão de todos os ingleses que
estivessem na França e cerca de dez mil civis foram capturados. Alguns,
como o filho de Sir Ralph Abercrombis, assim que embarcavam em Calais:
outros, quando tocaram o solo francês.
— Agora me lembro! — exclamou Lucretia. — Foi uma atitude
terrível.
— Foi mesmo — concordou seu companheiro. — Campbell, que eu
conhecia desde criança e que será o futuro dono de Argyll, conseguiu fugir
através da fronteira suíça, disfarçado de criada. Milhares de outros ainda
estão presos, a não ser que, como Willoughby, tenham sido suficientemente
espertos para fugir.
— Que desgraça!
— A prisão de civis contraria qualquer princípio civilizado, e isso nos
mostrou que estamos lidando com um selvagem sem princípios.
— É isso exatamente o que ele é — disse Lucretia, categórica.
— É por isso que seu marido…
O primeiro-ministro levantou, interrompendo:
— Como é a única senhora presente, lady Merlyn, não vou lhe pedir
para ir para a sala sozinha, mas talvez não me leve a mal, se lhe sugerir que o
comandante Neseby lhe faça companhia por uns momentos, porque tenho
assuntos importantes para discutir com o major Willoughby e com os outros
cavalheiros.
— Mas é claro, primeiro-ministro.
Foi para a sala de jantar, e o comandante a seguiu.
— Fico imaginando que segredos irão discutir — disse ela, cheia de
curiosidade.
— É óbvio que o major Willoughby tem notícias de outros prisioneiros
que fugiram e que terão que ser resgatados pelo marquês.
Lucretia olhou para ele, interrogativamente.
66
— Creio que sabe, como ia dizendo durante o jantar, como seu marido
foi extraordinário no ano passado. Deve ter trazido centenas de pessoas da
França em seu iate.
— Conte-me tudo. É muito difícil fazê-lo falar de si mesmo.
O comandante evidentemente tinha uma admiração infantil pelo
marquês e iniciou uma história inacreditável. Contou a Lucretia a maneira
brilhante como o marquês tinha se infiltrado em grutas e esconderijos por
toda a costa francesa e resgatado ingleses, mesmo debaixo das barbas dos
franceses.
— Ele os trouxe para casa, não se importando com o fato de haver um
sem número de navios inimigos nas imediações. É mais astuto do que uma
águia — concluiu o comandante, todo entusiasmado.
Aquela era uma faceta do caráter do marido de que ela nunca havia
suspeitado. Pediu ao comandante para contar mais, e as histórias tornaram-se
mais e mais inverossímeis. O marquês tinha usado disfarces sem conta,
confundindo e iludindo os soldados franceses, o que levou Napoleão a
oferecer um prêmio de vinte mil moedas de ouro por sua cabeça.
Eram nove horas, mas, como o primeiro-ministro e os amigos não
apareciam, Lucretia sugeriu que fossem até ao jardim.
Estava escuro, apesar do céu estrelado. Debruçaram-se no muro para
ver o mar.
— Acha que Napoleão vai invadir agora? — perguntou ela.
— De maneira nenhuma. Ele perdeu a única possibilidade que tinha
no ano passado. Agora, a armada britânica mantém o que resta da frota
francesa bloqueada em seus portos. Sendo uma ilha, estamos isolados, mas
comandamos os mares. E isso é que é importante.
— Espero que tenha razão, mas somos uma ilha tão pequena,
comparada com o tamanho da França e de todos os outros países que
Napoleão conquistou.
— Um só inglês vale mais do que seis estrangeiros! — declarou o
oficial.
Lucretia riu.
— Enquanto acreditarmos nisso, a vitória será sempre nossa!
— Mas é evidente.
Ficaram ainda falando um pouco de guerra, até que o comandante não
resistiu mais e comentou:
— O marquês é o homem de mais sorte no mundo!
— Por quê?
67
— Porque conquistou a mulher mais bela!
— Obrigada.
— Vou sonhar com a senhora, quando estiver no mar. Não pode me
impedir de fazer isso.
— Nem gostaria de impedir.
— Reúne tudo quanto um homem deseja numa mulher: rosto, corpo e
inteligência — disse ele, com voz rouca.
Lucretia prendeu a respiração. Se ao menos o marquês lhe falasse
assim!
— Creio que devemos voltar. Obrigada pelas coisas gentis que me
disse. Vou lembrar sempre.
O comandante pegou sua mão e levou-a aos lábios. Quando iam
entrar, Lucretia pôde ver pela janela iluminada o marquês, incrivelmente
elegante, ao lado do major Willoughby. Os dois riam e, nesse momento, ela
sentiu um grande ressentimento. Esta devia ser uma noite importante em sua
vida, mas, em vez disso, o marquês estava distraído, conversando com o
amigo, quem sabe preparando uma aventura épica na qual ela não
participaria.
Vou fazer com que me dê atenção, pensou, e, com um gritinho, caiu no
chão.
— O que foi, o que aconteceu, lady Merlyn? — gritou o comandante.
— Torci o tornozelo. Se não lhe desse muito trabalho, gostaria que me
levasse para dentro de casa.
Ele pegou-a no colo, e Lucretia percebeu que estava radiante com a
oportunidade.
Como havia calculado, os cavalheiros já tinham voltado para a sala de
estar e ficaram olhando, cheios de surpresa, quando o comandante entrou
com ela nos braços.
Estava muito feminina, explicando pateticamente o que tinha
acontecido.
— Fui tão descuidada! Deve haver um buraco no chão.
— Amanhã vou falar com meu jardineiro — disse o primeiro-ministro.
— Acho que é melhor levá-la para casa — sugeriu o marquês.
— Talvez o comandante possa fazer a gentileza de me levar até a
carruagem.
— Eu a levo — falou o marido, brusco.
Tirou-a dos braços do comandante e Lucretia deu boa-noite ao
primeiro-ministro, antes que o marquês saísse com ela pela porta principal.
68
Satisfeita, sentiu o vigor dos braços dele e a gentileza com que a
colocou no assento da carruagem, cobrindo-lhe as pernas com uma manta.
O marquês parecia absorto em seus pensamentos, mas, passado um
pouco, perguntou:
— Você não gosta do mar?
— Gosto muito. Nunca enjôo, nem mesmo durante as tempestades
mais violentas.
— Já viajou de navio? Pensei que só tinha atravessado o canal.
— Papai e eu fomos à Grécia. Estava muito mau tempo na baía de
Biscais, mas consegui sobreviver.
— Estava imaginando se gostaria de conhecer o meu iate. Está no
porto de Dover. Talvez você gostasse de velejar um pouco pela costa.
Os olhos de Lucretia faiscaram. Pelo que o comandante tinha contado
sobre as intrépidas aventuras do marquês, podia imaginar no que acabaria a
viagem no iate. Mas, se seu marido não estava preparado para lhe fazer
confidencias, não podia forçá-lo.
— Acho uma idéia deliciosa, vou gostar muito.
— Ótimo! — disse ele, com um certo alívio na voz. — Sairemos
amanhã de manhã.
— Estou ansiosa.
A distância de uma casa à outra era muito pequena. Assim que
chegaram, Lucretia, esquecendo de que supostamente tinha torcido o
tornozelo, desceu da carruagem sem esperar que o marquês a ajudasse.
Subiu a escada e entrou no hall, até que percebeu, pela expressão dele,
que tinha cometido um erro. Comentou, sorrindo:
— Esqueci que você devia me trazer no colo… e gosto muito de ser
carregada por homens fortes.
Por instantes, ele fez um ar severo, mas limitou-se a dizer:
— Você e incorrigível.
Subindo a escada na frente dele, Lucretia teve a última palavra:
— Não é muito mais interessante do que se ser uma pessoa
conformada?
69
CAPÍTULO VI
70
deitar, ela ficou pensando nele ali tão perto, apenas com uma fina parede de
madeira a separá-los.
O desejo que sentia por ele fazia seu corpo doer e o amor queimava-a
como uma fogueira cada vez mais ardente.
O marquês tinha planejado que passariam as noites num porto ou
ancorados em alguma enseada tranqüila, para dormirem sossegados.
Não havia muito tempo para conversar. Quando velejavam, ele estava
sempre ocupado no convés e, embora tomassem as refeições sozinhos, havia
sempre dois criados presentes. Desde a noite do casamento, nunca mais
ficaram a sós depois do jantar.
Ele a levava sempre a passear no convés, onde ficavam vendo o mar.
Lucretia achava a escuridão do navio muito romântica, mas os marinheiros
andavam permanentemente de um lado para o outro.
Nunca estavam verdadeiramente sozinhos e era impossível dirigir a
conversa para assuntos mais íntimos.
Lucretia não esquecia os ensinamentos de Odrowski:
— Não relaxe nunca, tem que estar sempre atenta. Tem que
representar, até que deixe de ser teatro e passe a ser você.
No entanto, nenhuma representação no mundo conseguia evitar que
seu coração batesse mais forte quando o marquês aparecia, ou que às vezes se
sentisse muito jovem, muito perdida e muito vulnerável.
— Em que está pensando? — perguntou o marquês, uma noite.
Estavam no convés e era tarde. Ela olhava para as estrelas, distraída.
Não tinha consciência de que essa posição dava uma tal graça a seu pescoço,
que fazia com que o marquês lembrasse dos cisnes de Merlyncourt.
Tinha-os comparado com a duquesa de Devonshire e talvez até com
lady Hester, mas agora via que era Lucretia que parecia mais com os cisnes
negros que havia comprado ultimamente, muito mais bonitos e altivos que os
brancos
— Estava pensando em nós — respondeu, sonhadora.
— E o que pensava?
— Em como somos insignificantes. Aqui, debaixo deste céu infinito,
somos apenas dois entre milhões de pessoas no mundo inteiro, lutando,
batalhando, sentindo, pensando. E talvez esse nosso empenho não signifique
nada e estejamos apenas vagando ao sabor da vida.
— Acho que temos que lutar para crescer, para melhorar. E, embora
não saibamos qual é o verdadeiro objetivo, sabemos que existe um. — Fez
uma pausa, antes de continuar: — Talvez esteja além do horizonte.
71
Lucretia nunca o tinha ouvido falar dessa maneira. Disse impulsiva:
— É claro que tem razão. Agora já não me sinto só e com medo.
— Com medo? De quê?
— Acho que do futuro. A vida às vezes é tão confusa.
— Não, se acreditar e tiver fé em si mesma.
Olhou para ele e perguntou:
— É isso que sente?
— Espero que sim.
— É esse sentimento que o faz tão confiante, tão seguro aos olhos dos
outros?
— Tem medo de mim, Lucretia?
Ela sentiu que a pergunta era importante. Hesitou um momento.
— Fisicamente, não, se é isso que quer saber, mas de outra forma.
Talvez seja porque você, sendo tão seguro de si, faz com que me sinta
insegura.
— Está aí uma coisa que terei que mudar.
À luz das estrelas, ele parecia muito alto e poderoso. Sentiu que podia
se apoiar nele; que, se a envolvesse nos braços, não teria medo de mais nada.
Ao mesmo tempo, sabia que era ainda muito cedo. Tinham que
continuar lutando um com o outro, gladiando um duelo de palavras e
emoções que nenhum dos dois era capaz de definir.
Tenho que ter paciência, disse Lucretia a seu coração.
No terceiro dia, ela percebeu que o iate mudava o rumo. Tinham
ficado em Poole na noite anterior, mas agora não precisava olhar para a
bússola para ver que iam para o sul.
O marquês ainda não tinha dito nada sobre irem à França, mas a
vigilância do navio tinha sido redobrada: marinheiros com telescópios
observavam o horizonte a todo momento, à procura de outro navio.
Estavam entrando em águas perigosas, mas o marquês continuava se
comportando exatamente da mesma maneira como quando percorriam a
costa da Inglaterra. Não havia nada em seu rosto, nada era dito que pudesse
traduzir outro interesse que não fosse desfrutar o sol e a brisa do mar:
— Mesmo para junho, está bem quente — disse Lucretia. — Será que a
água está muito fria para tomar banho?
Olhou para ela, surpreso.
— Já tomou banho de mar?
— Muitas vezes. Quando estávamos na Grécia, antes de começar a
guerra, papai alugou um iate. Velejávamos pelas ilhas gregas, fazíamos
72
piqueniques na praia e costumávamos tomar banho nas águas transparentes.
Era uma delícia. Aprendi a nadar como um peixe.
— Acredito que vai achar a água do canal gelada. Mas logo devemos
achar uma praia onde você possa me mostrar seus dotes aquáticos.
— Gostaria muito. Estava com medo de que ficasse chocado, se eu
aparecesse com tão pouca roupa.
— Raramente fico chocado.
Vendo que Lucretia sorria, acrescentou: — Isso não é nenhum desafio,
embora eu esteja perfeitamente consciente de que você vai usar minhas
palavras como uma nova arma para me provocar.
— Vou ter muito cuidado enquanto estivermos a bordo, senhor. Senão,
pode me jogar ao mar e esquecer de mim lá.
— Há sempre essa possibilidade — respondeu ele, gracejando.
Ela riu e disse, misteriosa.
— Mas eu também posso enganá-lo e nadar até a terra para revelar
seus segredos ao imperador dos franceses
— Será que tenho algum?
— Estou certa de que poderei descobrir alguma coisa a seu respeito
que interesse a Bonaparte.
A expressão do marquês não se alterou, mas ela percebeu que estava
na dúvida se devia lhe contar seus planos. Para seu desapontamento, não o
fez.
Deixaram Poole de manhã bem cedo. Ao cair da tarde, Lucretia viu
um pálido recorte no horizonte. Era a costa da França.
Sir Joshua tinha insistido para que ela aprendesse bem geografia; por
isso, sabia que se aproximavam da península de Cherbourg.
Se iam buscar prisioneiros fugitivos, devia ser o lugar mais
improvável do ponto de vista dos franceses. Ninguém pensaria em resgatar
pessoas das baías e grutas mais conhecidas e, ainda por cima, em frente do
estreito de Dover.
Como o marquês não queria que Lucretia percebesse bem onde
estavam, arranjou uma desculpa para que fosse para a cabine, antes que fosse
possível ver a costa claramente
Depois do jantar, ele disse, casualmente:
— Está um vento frio. Acho melhor não ir até ao convés esta noite.
— Posso desafiá-lo para uma partida de gamão?
— Será muito agradável. Desculpe-me só por um instante, tenho que
falar com o capitão.
73
Saiu da cabine com a intenção de subir ao convés, mas o capitão devia
ter vindo a seu encontro, porque Lucretia ouviu vozes no corredor. Levantou
e colou o ouvido à porta.
— Estamos prontos para ancorar ao largo de St. Pierre d'Eglise, daqui
a meia hora, senhor.
— É melhor ficarmos escondidos pelos rochedos. Não podemos ser
vistos durante o crepúsculo. E mande aprontar o bote para eu desembarcar,
assim que baixarmos a âncora.
— Muito bem, senhor. Está esperando dois cavalheiros?
— Lorde Beaumont e o filho. Estarão esperando por mim num local
combinado. Vou trazê-los para bordo. Se alguma coisa sair errada, capitão,
siga as ordens que já lhe dei.
— Muito bem, senhor. — O capitão hesitou e perguntou: — Desculpe,
senhor, mas contou a Sua Senhoria?
— Não há razão para que ela saiba de tudo isso. No entanto, se eu não
voltar, não a alarme. Diga simplesmente que o local de encontro foi mudado
e que estarei em segurança.
— Como tem estado sempre, senhor.
O marquês deu uma risada.
— Como tenho estado! Embora tenha havido muitas denúncias, como
sabe.
— E como, senhor! Devo lhe dizer que só fico tranqüilo quando o
senhor volta para bordo.
— Obrigado, capitão, mas sou capaz de cuidar de mim mesmo. O
principal problema é se lorde Beaumont e o filho estarão esperando por nós
como combinado.
— Só nos resta esperar que sim, senhor.
— O major Willoughby me disse que eles estavam bem disfarçados e
que Lorde Beaumont fala francês
— Se não estiverem lá, senhor, não será sensato procurar por muito
tempo.
— Não, claro que não. Embora o primeiro-ministro esteja muito
ansioso para que eles cheguem à Inglaterra depressa e em segurança.
— Faremos o melhor que pudermos, senhor.
Lucretia percebeu que a conversa estava no fim. Quando o marquês
entrou, já estava sentada junto ao tabuleiro de gamão, arrumando as peças.
Ela ganhou duas partidas. Percebendo que ele não estava nada
concentrado no jogo, levantou, com um pequeno bocejo.
74
— Vou me retirar, senhor.
— É uma boa idéia — disse, aliviado.
— Boa noite e obrigada pelo dia. Foi muito agradável.
— Muito agradável — repetiu ele, beijando-lhe a mão.
Lucretia foi devagar para sua cabine, e, assim que entrou, começou a
se despir rapidamente para colocar um vestido e uma capa preta.
Foi até a porta, ver se o marquês estava na cabine dele, sem dúvida,
trocando de roupa também.
Esgueirou-se até ao convés. Estavam jogando a âncora e colocando o
bote no mar.
Esperou que ele estivesse na água e então, para surpresa dos homens,
desceu por uma escada de corda e entrou no bote.
— Vem conosco, senhora? — perguntou o oficial em dúvida.
— Só até a margem. Estou com dor de cabeça e sinto que uma
mudança de ambiente vai me fazer bem. Não diga a Sua Senhoria que estou a
bordo, até nos afastarmos do iate. Ele pode ter receio de que alguma coisa me
aconteça!
Deu um sorriso simpático ao oficial.
— Não direi nada, senhora.
O bote estava à sombra do iate. Uns novecentos metros à frente, havia
uns rochedos e uma enseada. Presumiu que seria ali que o barco iria atracar.
Os marinheiros estavam nos remos e o oficial no leme, quando
Lucretia viu o marquês aparecer no convés. Descendo rapidamente a escada
de corda, ele saltou para o bote. Imediatamente, o oficial deu uma ordem e os
homens começaram a remar para a costa.
Quando o marquês foi sentar na popa, encontrou Lucretia a seu lado.
Por instantes, não disse nada, olhando para ela, espantado. Não a
tinha visto logo, porque estava de preto e com a capa cobrindo o rosto.
— Lucretia! O que faz aqui?
— Vou até a costa. Minha dor de cabeça aumentou e preciso tomar ar.
— Não pensou em me perguntar se podia fazer isso?
— Por que deveria? Há alguma coisa errada em sua ida à terra?
— Quem disse que eu ia à terra?
— É evidente!
Percebeu que ele estava preocupado e perturbado com sua presença.
— Entendo perfeitamente que queira andar um pouco, depois de
tantos dias no mar. Um iate é sempre um espaço muito confinado.
— Sim, foi isso mesmo que pensei — concordou o marquês, aliviado.
75
— Esta é uma parte do país desabitada e perigosa, e eu não gostaria de ser
visto.
— Não, lógico que não. Principalmente, a esta hora da noite.
Assim que chegaram à praia, o marquês disse, com firmeza:
— Lucretia, você vai direto para o iate, compreendeu bem?
— Mas é claro, embora creia que o barco vai voltar para buscá-lo.
Quanto tempo deve demorar seu passeio?
— Apenas uma meia hora.
— Então, divirta-se, senhor. Espero estar acordada, quando voltar.
— Espero que sim.
Dois marinheiros tinha saltado para a água e puxavam o bote para as
pedras. O marquês desceu e, sem dizer nada desapareceu nas rochas.
Os marinheiros, evidentemente obedecendo suas ordens, começavam
a empurrar o barco de volta para a água, quando Lucretia pediu ao oficial:
— Espere um momento.
— Temos que voltar para o iate, senhora.
— Sim, eu sei… mas espere.
Fez de conta que procurava alguma coisa na capa.
— O marquês deve ter esquecido. Ele me pediu para guardar esta
bússola e eu lamentavelmente esqueci de lhe dar. Tenho que lhe entregar, é
muito importante.
— Mas, senhora…
— É essencial para Sua Senhoria. — Virou-se para um dos marinheiros
que seguravam o barco: — Pode fazer o favor de me levar para terra? Não
quero molhar os pés.
— Deixe que vou entregar — suplicou o oficial.
— Não, de maneira nenhuma! Sua Senhoria não iria gostar. Disse-me
taxativamente que ninguém além de mim devia mexer nesta bússola.
O marinheiro levou-a para terra firme.
— Volte já, como Sua Senhoria mandou. Vou com ele depois.
— Mas, senhora… — quis argumentar o oficial, desistindo, ao ver que
Lucretia já havia desaparecido nas trevas.
Ele ainda era muito jovem e inexperiente para saber controlar uma
situação daquelas e decidiu que o mais sensato era obedecer as ordens
recebidas.
Lucretia descobriu um atalho que subia as rochas, que não eram muito
altas, e quase imediatamente descia para uma trilha de carroça que ia para
leste, ao longo de uma praia de pedras.
76
Sentiu que aquela era a direção que o marquês tinha tomado. Correu,
até que o viu. Ele tinha tirado o casaco e vestia agora uma roupa preta que lhe
dava uma aparência estranha.
A trilha acabava numa estrada estreita e poeirenta, que ia dar numa
aldeia. Um pouco distante, Lucretia podia ver uma torre que devia ser de St.
Pierre d'Eglise. Tinha que correr para conseguir acompanhar o passo do
marquês.
Estavam quase chegando à aldeia, e Lucretia já avistava a casa e a
igreja, quando, numa curva da estrada, perdeu o marquês de vista.
Subitamente, ele surgiu detrás de uma cerca e agarrou-a pelo braço.
— Por que está me seguindo? — perguntou em francês.
Ao ouvir seu grito abafado de surpresa, disse, incrédulo:
— Lucretia! Pelo amor de Deus! Por que veio atrás de mim?
Olhou para ele e viu que estava muito aborrecido.
— Pensei que… poderia… ajudá-lo.
— Ajudar-me? Como?
— Falo francês muito bem.
— Você vai voltar imediatamente. Não lhe contei, Lucretia, mas estou
sendo procurado e pode ser perigoso.
— Eu sei. Vai buscar lorde Beaumont e o filho, que fugiram da prisão.
— Como é que sabe?
— Eu ouvi. Mas o major Naseby me contou que o senhor resgatou
muita gente no ano passado.
— Naseby devia aprender a ficar calado! Você tem que voltar. Ouviu?
Imediatamente!
— O bote já foi para o iate.
O marquês continuava furioso, mas Lucretia percebeu que hesitava
entre levá-la de volta e continuar.
— Não vou causar problemas — prometeu docemente.
— Você é um problema! Tem sido um problema, desde que a conheci!
— Acho melhor aceitar o inevitável e me deixar ir.
— Muito bem — disse ele, como se tivesse mudado de idéia
repentinamente. — Esperemos que tudo corra bem. Se não acontecer assim e
você for parar numa prisão francesa, não me culpe.
Não esperou para ouvir a resposta dele e recomeçou a andar. Seguiu
ao lado dele, consciente de sua fúria e ao mesmo tempo satisfeita por estarem
juntos.
Não poderia ter ficado no iate, imaginando o que lhe aconteceria, cheia
77
de medo de que corresse perigo.
Amava o marquês. Amava-o mais a cada dia e não era tola para não
perceber o risco daquela missão.
Napoleão tinha um ódio fanático pelos ingleses. Tinha sido uma honra
para ele manter prisioneiro tão distinto como lorde Beaumont. A notícia de
sua fuga devia ter posto em alerta toda a guarda da costa norte da França.
Era evidente que ele ia tentar voltar para a Inglaterra. Devia haver
milhares de soldados à procura de qualquer homem com as características de
lorde Beaumont e do filho, por melhor que estivessem disfarçados.
Chegaram à aldeia, e o marquês parou junto de uma árvore,
examinando as redondezas. O lugar era pequeno, com poucas casas de
pescadores ao redor de uma igreja de pedra cinzenta e uma estalagem. Nada
mais de interesse.
— Aonde é que vai encontrá-los? — sussurrou Lucretia.
— No átrio da igreja. — Percebeu pelo tom de sua voz que ainda
estava furioso com ela.
Andando devagar e junto às casas, seguiram pela rua deserta, até
chegarem ao átrio da igreja, que estava em péssimo estado de conservação.
As pedras dos túmulos tinham sido quebradas e profanadas durante a
revolução. Não havia vidros nas janelas, e o cata-vento da torre estava
partido. Os muros eram ruínas e os pilares do átrio jaziam no chão, como um
castelo de cartas desmoronado.
O marquês entrou, seguido por Lucretia. Ainda havia sepulturas
intactas, e ela ficou imaginando se os dois fugitivos estariam escondidos atrás
delas ou dentro da igreja.
A porta estava presa com tábuas. Pelo visto ninguém em St. Pierre
d'Eglise era capaz de trabalhar.
De repente, enquanto o marquês os procurava, ouviram passos.
Eram soldados se aproximando.
O marquês olhou em volta, rapidamente, mas não havia nenhum lugar
onde se esconderem. No momento em que os soldados chegavam à igreja,
virou-se para Lucretia e a abraçou.
— Ponha o capuz para trás — disse, tão baixo que só ela podia ouvir.
— Vamos fingir ser um casal de namorados. Pode ser que assim nos deixem
em paz.
Apertou-a muito contra o corpo e encostou o rosto no dela. Pela
rigidez de seu corpo, Lucretia percebeu como estava apreensivo e nervoso.
Ouviram uma voz perguntando:
78
— Quem são vocês? O que estão fazendo aqui?
Lucretia e o marquês voltaram-se para o soldado.
Como tinham calculado, era um sargento, acompanhado de quatro
soldados.
— Estou namorando minha garota, senhor.
O sargento aproximou-se e olhou para o marquês.
— Qual é seu nome e de onde veio?
— Meu nome é Pierre Bouvais, senhor. Sou escriturário em
Cherbough. E, como já disse, vim ver esta moça.
O sargento olhou para ele, em dúvida.
— Por que veio para tão longe?
— Porque estamos proibidos de nos encontrar — interrompeu
Lucretia, falando um francês vulgar, como tinha feito o marquês
Ele estava nervoso, como se tivesse medo dos soldados.
— Voyons, voyons, vão ter que explicar isso direito ao capitão — disse o
sargento.
— Ao capitão! — exclamou Lucretia.
— Qualquer pessoa encontrada no átrio da igreja ou nas proximidades
tem que ser interrogada — explicou o sargento, com ar de quem não estava
muito interessado no assunto, mas tinha que cumprir ordens. — Vamos
embora, não tenho tempo para conversas.
— Mas nós sempre nos encontramos aqui — protestou o marquês,
elevando a voz. — Aqui no átrio ou na baía de St. Pierre, pelo menos uma ou
duas vezes por semana. Que mal há nisso?
— O capitão vai dizer se há mal ou não. Vamos, não posso ficar aqui a
noite toda.
Dois soldados pegaram o marquês pelo braço, enquanto os outros dois
seguiram de cada lado de Lucretia.
— Não vejo mal nenhum em nos encontrarmos aqui ou na baía. Se é
proibido, deviam ter dito.
Mostrava ressentimento na voz e, de repente, Lucretia percebeu que
ele falara na baía de St. Pierre duas vezes.
Devia ter sido ali que desembarcaram e era para onde lorde Beaumont,
se estava perto e pudesse ouvir, deveria ir encontrar o bote que levaria a ele e
ao filho para o iate
O pior agora era sair daquela situação difícil.
Ficou pensando se lorde Beaumont tinha sido preso novamente e
forçado a contar quem viria buscá-lo. Depois achou que os franceses eram
79
mais cuidadosos do que os ingleses pensavam e simplesmente interrogavam
todos os suspeitos ao longo da costa.
Eles andavam muito depressa e Lucretia quase tinha que correr para
acompanhá-los. Já estava sem fôlego, quando chegaram à casa de uma
fazenda.
Era óbvio, pelo número de soldados no pátio e dentro da porteira, que
a fazenda tinha sido requisitada pelos militares.
Seguindo o sargento, entraram na casa. Ele bateu em uma porta que
dava para um corredor estreito. Como ninguém respondeu, entraram.
Era uma sala pequena que dava para a frente da fazenda. A mesa de
trabalho tinha sido improvisada numa pesada mesa de carvalho, cheia de
papéis, um tinteiro e várias canetas.
O sargento atravessou a sala e foi bater em outra porta. Uma voz
respondeu. Ele entrou, fechando a porta atrás de si.
Lucretia olhou para o marquês. Finalmente, à luz das duas lanternas
que iluminavam a sala, pôde ver por que ele parecia diferente, mesmo à
distância. Usava um casaco preto, justo e todo abotoado, tal como um
respeitável escriturário devia ter para os domingos. Sapatos com solas
pesadas e meias de lã. Os cabelos estavam penteados de maneira diferente e
enquanto esperava pelo sargento, tirou do bolso um par de óculos e colocou.
Se não soubesse bem o perigo que corriam, Lucretia teria dado uma
gargalhada. O disfarce era genial, e ela sabia que Odrowski teria aprovado a
maneira como havia mudado de personalidade. Não eram só suas roupas,
mas o modo de se comportar também. Seus olhos denunciavam um pouco o
nervosismo que sentia e, por incrível que pudesse parecer, os óculos
mudavam-lhe o ar aristocrático.
A porta dos fundos da sala se abriu e o sargento apareceu com o
capitão. Era um jovem de cerca de vinte e cinco anos, um pequeno burguês
que estava aborrecido com aquilo tudo.
— Quem são vocês? E o que estavam fazendo no átrio da igreja a esta
hora da noite?
— Não fazia a menor idéia, senhor, de que era errado encontrar minha
noiva lá — disse o marquês, humildemente. — Já fizemos muitas vezes antes
e nunca houve problema.
— E você, de onde veio? — perguntou a Lucretia .
Fez a pergunta num tom rude a princípio, mas depois mais
amavelmente. Ela estava encantadora à luz das lanternas. Fazendo um
esforço enorme para afastar o medo que sentia, olhou para ele languidamente
80
e disse:
— Sabe, senhor, eu vim de Paris. Mas estou morrendo de tédio aqui.
Então, divirto-me um pouco com o cavalheiro aqui. Se houvesse alguém mais
atraente, gostaria de me encontrar com ele também.
Ao dizer isso, deu ao capitão um olhar que não deixava dúvidas.
— Você me interessa, mademoiselle — disse ele, com um brilho novo no
olhar. — Que tal me acompanhar e contar exatamente o que estava fazendo
esta noite. Tenho certeza de que vou gostar da informação.
— Certamente, monsieur, e talvez possa me contar o que se passa aqui.
Preferia um convento a este lugar enfadonho!
O francês deu uma risada.
— Temos que descobrir alguma coisa mais divertida para você. Venha
para a outra sala, estava acabando de jantar e não quero que a comida esfrie.
— Claro, monsieur.
Enquanto seguia o francês, deu uma olhada para o marquês. Pela
expressão dele, teve certeza de que não só estava furioso, como
extremamente apreensivo.
— Pobre Pierre, está com ciúme! — disse ela ao francês.
— O que é que deseja que eu faça, senhor? — perguntou o sargento.
— Encontre o inglês e o filho! Deixe um soldado aqui tomando conta
deste homem. Talvez seja melhor amarrá-lo à cadeira para não fugir, embora
não me pareça que esteja com vontade disso.
— Duvido que ele vá sem sua querida amiga — disse o sargento,
debochado.
— De qualquer forma, amarre-o e vá cumprir suas obrigações. Esses
porcos dos ingleses devem estar pela vizinhança.
— Vou encontrá-los, senhor, não se preocupe.
— Tem que encontrá-los antes que o major le Cloud chegue. Não
esqueça isso!
Levou Lucretia para a outra sala. Ela ouvia e observava tudo
atentamente. Assim que o oficial se sentou, uma mulher de idade, coberta de
rugas e com uma expressão de sofrimento e revolta, entrou por outra porta e
colocou uma xícara de café na mesa.
Devia ser a mulher do fazendeiro, que não estava nada satisfeita com a
invasão de sua casa.
— Outra xícara — ordenou o capitão.
A mulher não respondeu, mas voltou minutos depois com o café.
— Sente mademoiselle. Prefere café, ou talvez um copo de vinho?
81
— Gostaria muito de tomar vinho, monsieur, — respondeu Lucretia,
flertando com ele.
Encheu um copo vazio que estava em cima da mesa e o dele também,
com vinho tinto.
Lucretia reparou que a garrafa ficara vazia.
— Conte-me sobre você — pediu o francês.
— Tenho pouco que contar. Estou simplesmente aborrecida. Garanto-
lhe, monsieur, que nunca encontrei ninguém tão jovem e tão encantador como
o senhor, desde que vim para este monótono lugar.
— Então, por que está aqui?
— Meu pai trabalha na construção de navios para o imperador.
— Então, é isso. Mesmo criaturas adoráveis como você têm que sofrer
em tempo de guerra.
— Garanto-lhe que tenho sofrido muito, monsieur. Mas agora não. —
Pegou o vinho. — Posso beber ao seu sucesso? Tenho certeza de que vai ser
general, muito antes de termos paz.
— Estaríamos em paz amanhã, se não fossem esses malditos ingleses.
— É verdade — concordou Lucretia com um sorriso. — Mas
certamente esses imbecis têm que perceber que vão perder.
O francês encolheu os ombros.
— Quem sabe o que eles pensam? Mas deixe-me dizer o que penso de
você. É muito bonita, mademoiselle. Temos que tornar sua estadia mais
interessante do que tem sido até agora.
— Como fará isso? — perguntou Lucretia, com um olhar sedutor.
— Quer realmente que eu lhe diga? — Aproximou o rosto do dela.
— Mas… e Pierre? Não pode mantê-lo aqui! Vai perder o emprego! O
patrão dele exige que comece a trabalhar às sete da manhã.
Pensava febrilmente, enquanto falava. O francês parecia ser um fraco.
— Por que ele não está no Exército? Tem um belo físico, exatamente o
tipo de homem que procuramos.
— Os olhos — disse Lucretia, com voz triste. — Não enxergaria o
inimigo a um palmo do nariz. É quase cego.
— Penso que acharão alguma coisa mais útil para ele fazer, porque
estamos precisando desesperadamente de homens.
Depois, como se o assunto não interessasse, disse:
— Vamos continuar a falar de você.
— Então, por que não deixa o Pierre ir embora? Fico nervosa,
pensando que ele pode ouvir o que estamos, falando.
82
— Não vai ouvir nada através dessas paredes e não posso soltá-lo até
que o major le Cloud chegue. Todos os suspeitos têm que ser devidamente
interrogados pelo major e talvez mesmo comparecer perante o tribunal em
Paris.
— Mon Dieu! Não sabia que éramos tão importantes!
— Você é muito importante, mademoiselle, isso posso garantir. Acabou
o vinho enquanto falava e estendeu a mão para Lucretia.
Quando os dedos tocaram a maciez de seu pescoço, ela levantou,
sorrindo, sedutora. Tinha acabado de ter uma idéia.
— Vou buscar mais vinho, senhor. Não, não se mova!
— É um prazer… garanto!
Tinha visto outra garrafa ao lado da mesa e, antes que ele a pudesse
impedir, foi buscá-la, segurando-a pelo gargalo. Ao sair da mesa, pegou uma
colher de café.
— Temos que brindar juntos. Vai ser minha primeira vez — disse,
num tom sedutor.
— Conte-me — pediu o francês, tentando tocá-la. No momento em
que a abraçava pela cintura, ela deixou cair a colher que segurava.
Instintivamente, ele baixou para apanhar. Nesse momento, ela
quebrou a garrafa em sua cabeça.
O capitão cambaleou à primeira pancada e Lucretia bateu de novo.
Assim que o viu esparramado debaixo da mesa, pegou o copo de vinho e foi
para a porta, levando também a garrafa na outra mão.
Teve dificuldade em abrir a porta, mas finalmente conseguiu. Quando
chegou à outra sala, viu o marquês sentado, com as mãos amarradas atrás das
costas, e o soldado que tomava conta dele junto da outra porta.
Lucretia foi até lá, dando graças a Deus por ele não ter levantado.
— O capitão me pediu para trazer um copo de vinho. Parece que vai
ter que esperar muito, até o major le Cloud chegar.
O soldado olhou para ela, sem perceber nada. Com um sorriso
mostrando a boca cheia de dentes podres e partidos, estendeu a mão para o
copo. Quando ia pegar, Lucretia deixou-o cair em mil pedaços no chão. O
soldado desequilibrou-se e ela o acertou com a garrafa na cabeça, com toda
força.
A primeira pancada não foi suficiente para fazê-lo desmaiar, por causa
do boné, mas Lucretia continuou batendo, até que ficou no chão, sem
sentidos.
— Linda garota! — ouviu do marquês — Desamarre-me.
83
Largou a garrafa e correu para junto dele. Os nós da corda estavam
apertados e ela pensou que não ia conseguir soltá-los.
Bastou afrouxar a corda para o marquês tirar as mãos. Depois, com
uma rapidez que ela não sonhava possível, apagou as duas lanternas
Abriu a janela e, cuidadosamente, espreitou lá fora. Sem dizer uma
palavra, pegou Lucretia e ajudou-a a sair pela janela, saltando em seguida.
Parecia não haver ninguém, mas ele não queria arriscar. Colados às
paredes, chegaram em frente de um grande celeiro. O marquês parou, olhou
em volta e, segurando Lucretia pelo braço, correu para dentro do celeiro, tão
depressa que a deixou sem fôlego.
Estava escuro lá dentro, mas, passado um momento, pôde ver
vagamente, junto das baias dos animais, duas escadas que levavam ao sótão.
O marquês subiu alguns degraus de uma delas, desceu e
experimentou a outra.
— Esta — disse baixinho.
Lucretia foi na frente. O sótão era tão baixo que, Lucretia mal
conseguia ficar em pé e o marquês tinha que ficar curvado. Puxou a escada
para cima e, nesse momento, ela constatou, apavorada, que não havia feno
ali, enquanto que o outro estava repleto.
— Não devíamos ter ido para o outro lado?
— Não! Deite-se junto às telhas.
Juntou o feno que restava e fez um pequeno monte, suficiente apenas
para cobri-la. Nesse momento, ouviram vozes.
— Eles estão vindo — disse, aterrorizada.
Sem pressa, o marquês rastejou até deitar junto dela, cobrindo-se
também com o feno.
Lucretia não acreditava que tosse suficiente para cobri-los! Ele estava
praticamente em cima dela. Apesar de assustada, sentia-se excitada com a
proximidade dele.
Embaixo, ouviam os soldados entrando no celeiro.
— Eles não podem estar longe, seus idiotas! — Gritava um dos
homens. — Como é que não os viram fugir?
— E se verificássemos nos sótãos, cabo?
— Suba essa escada e veja o que há lá em cima.
Lucretia ouviu o soldado subir a escada.
— Está cheia de feno!
— Não perca tempo! Vá espetando a baioneta. Não deixe de verificar
todos os lugares onde possam ter se escondido.
84
Agora Lucretia percebia por que o marquês tinha escolhido o sótão
vazio. Ouvia o homem procurando no outro lado do celeiro e, com um
arrepio, pensou como seria terrível ficar esperando que uma baioneta
entrasse em seu corpo ou perfurasse o marquês.
— Não há ninguém aqui! — gritou o soldado.
— Vamos, não percam tempo. Devem ter fugido para a praia. Aposto
meu último franco como são ingleses.
Assim que os homens saíram do celeiro, Lucretia abriu a boca para
falar. Mas, antes que o fizesse o marquês a beijou.
Ficou tão espantada que, por instantes, sentiu que não conseguia
respirar. Depois, um êxtase percorreu todo seu corpo, como se um raio de
prata os envolvesse.
Então, ouviu alguém tossir. Ficou tensa. Havia um homem la embaixo,
um homem que agora se encaminhava para o pátio.
Por pouco não havia sido apanhada pelo truque mais velho do
mundo. Todos os soldados saíram, menos um, que ficou justamente para se
certificar se havia alguém escondido.
O marquês só a tinha beijado para impedir que falasse, não, como
Lucretia pensou num momento maravilhoso, porque queria beijá-la.
85
CAPÍTULO VII
86
finalmente o marquês parou e olhou para trás. Não se via nada, além da
escuridão da noite.
— Acha que virão atrás de nós? — perguntou ela.
— Devem calcular que vamos para o mar.
— Será que lorde Beaumont encontrou o bote?
— Como é que posso saber? — Ainda estava furioso por ela ter
resolvido tomar parte na aventura.
Foram andando em silêncio. Lucretia ia pensando se iam devagar por
causa dela ou se ele faria o mesmo se estivesse sozinho.
Caminharam durante muito tempo. Lucretia tinha decidido não dizer
mais nada até que o marquês resolvesse falar, e principalmente, acontecesse o
que acontecesse, não se queixar. Aliás devia ser isso mesmo que ele esperava.
Afinal, não queria sua companhia e talvez achasse as mulheres um
empecilho, fora das situações e lugares próprios para elas.
O que quer dizer, na cama!, pensou, furiosa, lembrando da voz doce e
sedutora de lady Hester e do significativo silêncio na sala da estalagem,
quando ela beijou o marquês.
O único consolo que tinha era que, por mais zangado que estivesse,
por mais incômoda que sua presença fosse naquela situação perigosa, era a
ela, Lucretia, que ele devia por terem escapado dos soldados franceses.
Isso já era um ponto a seu favor. Por outro lado, sabia que o marquês
podia argumentar que, se não fosse por causa dela, não teriam sido presos no
átrio da igreja.
Tudo que havia acontecido passava vezes sem conta na mente dela.
enquanto andavam. Era impossível perceber para onde iam, e logo começou
a sentir os pés úmidos, as meias em farrapo, e as pernas doendo
horrivelmente.
Finalmente, quando já tinha perdido a noção do tempo, chegaram ao
que parecia um grande bosque e o marquês falou:
— Acho que não podemos ir mais além, a não ser quando começar a
clarear.
— Achei que era impossível alguém nos ver neste momento.
— Nunca se pode ter certeza. Por isso, é melhor acharmos um lugar
para descansar dentro do bosque. Siga-me.
Embrenhou-se na mata, que era tão cerrada, que dificilmente se
conseguia ver o céu através da copa das árvores.
Foi atrás dele rapidamente, com medo de se perder e ficar sozinha.
— O solo é arenoso, parece que será mais confortável nos sentarmos
87
aqui do que em qualquer outro lugar.
Apalpou o terreno e disse, satisfeito:
— Há uma árvore caída para apoiarmos as costas.
— Não poderíamos querer mais luxo — comentou Lucretia, dando
uma risada.
Era divertido pensar no marquês, com todas suas propriedades, dono
de Merlyncourt, e ela, dona de uma enorme fortuna, tendo que se contentar
com um bosque francês para repousar!
Ele começou a tirar o casaco.
— O que é que está fazendo?
— Ponha nos ombros. Vai fazer frio.
— Não vou usar seu casaco!
— Por que não?
— Não quero que fique resfriado.
— Está falando sério? Uma verdadeira senhora, Lucretia, exigiria o
casaco!
— Não sou uma verdadeira senhora. Além disso, este vestido é
bastante quente.
— Não estou com vontade de discutir. Qualquer mulher, senhora ou
não, teria o bom senso de perceber que, quanto mais juntos nos sentarmos,
menos frio sentiremos.
— Não vou discutir isso.
Pôs o casaco nas costas e sentaram. Estavam praticamente colados um
ao outro. Não podia ver o rosto dele, mas sentia sua respiração e, se virasse a
cabeça, encostaria o queixo em seu ombro.
Passado um momento, ela perguntou:
— Conseguiremos escapar?
— Faremos o impossível. Mas, como tudo na vida, depende do fator
sorte…
— E sua sorte é lendária!
— Nas outras ocasiões, só tive que me preocupar comigo.
— Ainda está… zangado comigo?
— Realmente, estava furioso. Mas é difícil continuar zangado com
uma mulher que teve a esperteza de nos livrar de um interrogatório perigoso.
Lucretia deu um suspiro de alívio.
— E acha que o major le Cloud teria suspeitado de nós?
— Acho que ele não ia se arriscar a nos soltar. Os franceses vivem
obcecados com a idéia de os ingleses terem espiões por todo lado. As chances
88
de escaparmos de ir para Paris eram muito pequenas.
— E o que vamos fazer agora?
— Tentar chegar ao iate. O capitão irá para outro lado da península,
para um lugar onde já tínhamos combinado, se as coisas não corressem bem.
Lucretia estremeceu de medo.
— Está com frio?
Passou o braço em volta dela, que encostou a cabeça em seu peito,
Vestia apenas uma fina camisa de linho e ela podia ouvir o pulsar de seu
coração. Aquele som parecia dizer que ela não precisava ter medo. Como
antes, o marquês se sairia bem da aventura.
Se eu olhar para cima, minha boca vai ficar junto da dele, pensou. A
lembrança do beijo no celeiro fez com que um estremecimento percorresse
todo seu corpo.
— Devo expressar minha gratidão? — perguntou o marquês,
docemente.
— Por quê9
— Pela maneira profissional e inteligente como pôs os dois franceses
fora de combate.
— Quando entrei na sala com o capitão, pensei que teria que esfaqueá-
lo. Mas as facas não prestavam para nada e achei que não teria força para
espetar o uniforme.
— O método que escolheu foi, de longe, mais eficaz. Não consegui
acreditar no que estava acontecendo. Nunca tive o privilégio de ver uma
amazona em ação.
— Eu… estava assustada.
— Qualquer um tem medo nessas ocasiões. Ao mesmo tempo, é
fascinante desafiar o impossível.
— Pelo menos agora… estamos livres.
Estreitou-a contra si e, naquele instante, ela pensou que o perigo, o
desconforto, a possibilidade de serem presos como espiões no dia seguinte,
nada tinha importância. O principal era que estavam juntos, e ele se mostrava
doce e gentil com ela.
Amo você! Amo você!, Lucretia tinha vontade de gritar.
Mas sabia que, se fizesse isso, estragaria aquela camaradagem, o
sentimento de cumplicidade que nunca tinha existido antes. Aquele não era o
momento para amar: eram instantes para dividirem o perigo de serem dois
num país estrangeiro, lutando contra o inimigo comum.
— Tente dormir — ouviu o marquês dizer, com ternura. — Temos um
89
dia difícil à nossa frente.
Lucretia pensou que seria difícil dormir, mas devia ter cochilado
porque, antes que ela esperasse, começou a clarear e viu o contorno das
árvores acima deles.
Finalmente, o marquês ajudou-a a levantar.
— Temos que ir. Você está bem?
— É claro. Por favor, vista seu casaco; é muito pesado para eu andar
com ele. Mas obrigada, de qualquer maneira.
O marquês tirou o casaco das costas dela, e Lucretia ficou pensando se
ele iria notar o calor dela no tecido.
— Você cheira a violetas — disse ele, inesperadamente.
Lembrou que, quando trocou de roupa correndo, não pôs o exótico
perfume francês que tinha comprado para usar com os sofisticados vestidos
novos. Em vez disso, usou uma fragrância de que gostava muito, feita
especialmente para ela numa perfumaria de Jermyn Street.
— Gosta?
— Ontem fiquei sentindo o cheiro a noite inteira, tentando descobrir o
que era.
Lucretia queria ver a expressão dele para tentar adivinhar o que estava
pensando, mas, de repente, ele disse:
— Vamos, não podemos perder tempo!
Saíram do bosque e caminharam junto às árvores, enxergando muito
pouco por causa da neblina da madrugada.
Deviam ter andado quase uma hora, quando chegaram a outro
bosque. O marquês entrou nele e, seguindo uma trilha que serpenteava por
entre as árvores, chegaram a um campo aberto, sem nenhuma árvore à vista.
— Sabia que não me tinha enganado — disse, como se falasse consigo
mesmo. — Agora é que vai ser perigoso.
— Por quê?
— Porque teremos que andar no descampado, não há nada para nos
proteger.
Ficou olhando para o vale. Agora que estava cada vez mais claro com
os primeiros raios de sol, Lucretia avistou, mais abaixo, mesmo à frente deles,
a casa de uma fazenda.
Era uma casa humilde, com fumaça saindo pela chaminé. Três pessoas
saíram pela porta. Eram duas camponesas e um homem, carregando
ferramentas. Uma das mulheres já estava curvada pela idade e a outra era
nitidamente mais jovem. O homem caminhava devagar porque mancava.
90
O marquês também os observava. Disse, subitamente:
— Fique aqui. Mantenha-se protegida pelas árvores e, se vir alguém se
aproximando, esconda-se.
— Aonde vai? Não vai me deixar aqui, vai?
— Vou fazer um reconhecimento do terreno e, principalmente,
descobrir alguma coisa para comermos.
Lucretia olhou para as três pessoas que saíram da casa. À medida que
iam andando, desapareciam na bruma matinal.
— Será que não há perigo? — perguntou, ansiosa.
— Terei cuidado.
Não disse mais nada e caminhou mais abaixo até a fazenda. Lucretia
ficou entre as árvores, observando-o.
Não fazia a mínima idéia do que ele ia fazer ou esperava encontrar.
Estava com fome e ele também devia estar; por isso, qualquer coisa que
conseguisse para comer seria muito bem-vinda.
Viu-o chegar à casa e entrar sem hesitação.
Sentiu um verdadeiro terror. E se houvesse alguém lá dentro para
prendê-lo? E se nunca mais voltasse?
Estou sendo idiota, disse a si mesma, sabendo muito bem que o terror
que sentia era pelo grande amor que tinha por ele. Refletindo com mais
calma, achou que não era provável que houvesse alguém na casa, a não ser
uma pessoa de idade tão avançada que já não podia trabalhar no campo. Os
camponeses eram muito trabalhadores; nessa época do ano, saíam da casa
logo de madrugada. Até as crianças ajudavam.
Por mais sensato e lógico que fosse pensar que ele estava numa casa
deserta, seu amor fazia com que se sentisse apreensiva. Não conseguia evitar
de ficar imaginando soldados deitados no chão, à espera do marquês, ou ele
levando um golpe na cabeça.
— Proteja-o, por favor, meu Deus! Proteja-o!
Viu que estava voltando. Trazia um grande pacote nos braços.
— O que é isso? — perguntou, nem acreditando que falava com ele.
O marquês sorriu.
— Trouxe os nossos disfarces. Quanto mais cedo os vestirmos, melhor.
— De quê?
— Um vestido razoavelmente bonito para você. Receio que seja a
roupa de domingo da madame!
Enquanto falava, ia-lhe dando uma série de roupas e depois olhou
para o que restou.
91
— E para mim, o uniforme de um dos mais leais soldados do
imperador.
Lucretia olhou, espantada, e viu o casaco azul e branco de um
regimento francês.
— Não pode vestir isso!
O marquês deu uma risada.
— Seria capaz de usar os chifres e o rabo do próprio diabo, se isso nos
levasse de volta sãos e salvos ao iate. Troque-se depressa, Lucretia. Quanto
mais cedo sairmos daqui, melhor. Se for uma boa menina, vou lhe dar
alguma coisa para comer.
Falou como se lidasse com uma criança, mas Lucretia sabia que a
ordem era para ser cumprida. Sem argumentar, entrou no bosque e começou
a se despir.
Ele estava certo em dizer que devia ser o vestido de domingo de
madame: tinha a jaqueta vermelha que todas as camponesas usavam, a
combinação de algodão e um grande avental branco.
O marquês havia lembrado de trazer até a touca branca engomada
com babados esvoaçantes.
A roupa estava bastante usada, mas limpa, e Lucretia supôs que o
marquês a devia ter achado cuidadosamente dobrada numa gaveta. Era
muito grande para ela, especialmente na cintura, mas, com o laço do avental,
conseguiu dar um jeito. Colocou o cabelo dentro da touca, como tinha visto
que as francesas faziam.
Escondeu seu vestido dentro de uma toca de coelho e voltou para
junto do marido. Ele estava sentado, cortando a biqueira da bota com uma
faca.
— O que está fazendo?
— Em momentos como este, é uma desvantagem ser tão grande.
Felizmente, ninguém vai ficar espantado que um soldado francês esteja com
os dedos à mostra, porque todos sabem que Napoleão não tem dinheiro para
gastar em uniformes sob medida.
— Mas isso vai ficar incômodo.
— Tenho algo muito mais incômodo para você. — Mostrou um par de
tamancos de madeira.
— Vou ter que usar isso?
— Só se virmos alguém. São um martírio para andar. Sugiro que você
os segure e os calce, se tivermos que atravessar alguma aldeia ou tivermos a
infelicidade de encontrar alguns curiosos cidadãos franceses.
92
Acabou de cortar a parte da frente das botas, calçou-as e levantou.
— Tirou sua camisa interior?
— Não — respondeu Lucretia, surpresa. — Devia ter tirado?
— Acho que, se formos interrogados,' vão achar muito estranho uma
camponesa francesa usando seda pura. Por outro lado, se você for enforcada,
eu serei também e quero usar minha própria camisa! O dono desta roupa
deve ser um saudável camponês.
— Se quiser, vou tirar minha camisa.
— Não se incomode. Só precisamos ter cuidado para não sermos
apanhados.
Vestiu a túnica. Era muito pequena para ele e ficava estreita demais
nos ombros. Estava tão remendada que descosturou um pouco nas costas.
— E agora, como trabalhou num hospital, faça uma atadura com
aquela toalha e amarre na minha cabeça.
Enquanto o marquês foi ao bosque esconder a roupa, ela rasgou o
pano em tiras do tamanho apropriado. A toalha era de algodão ordinário e
também estava toda remendada.
— Já tem tudo pronto? — perguntou ele, saindo das árvores.
— Sente.
Como uma verdadeira profissional, ela colocou a atadura em volta da
testa e amarrou atrás.
— O que é que eu pareço? — perguntou ele, piscando.
— Exatamente o que imagino de um elegante francês. E espero,
monsieur, que eu esteja suficientemente chique para acompanhá-lo.
Ele olhou para ela. A touca branca ficava muito bem nos cabelos pretos e
os expressivos olhos azuis-escuros pareciam grandes demais para o rosto.
— Três elegante! Mas vamos embora. Quando tivermos nos afastado
daqui, prometo lhe dar uma rodela de pão e uma lingüiça.
— Sua amabilidade me confunde! — respondeu Lucretia, rindo. Pegou
os tamancos. O marquês os tinha preso com um cordão de
sapato para serem mais fáceis de transportar. Mesmo assim, eram bastante
pesados e estava com receio de chegar ao fim do dia cansada de carregar
aquele peso. Sabia, no entanto, que os detalhes eram muito importantes na
situação em que estavam.
Em tempo de guerra, nenhuma camponesa francesa, podia comprar
sapatos: os tamancos eram uma peça imprescindível do disfarce.
Atravessaram a fazenda e foram andando pelo campo aberto.
— Se encontrarmos alguém que venha falar conosco, vou fingir que
93
estou meio idiota por causa do ferimento na cabeça. Você deve explicar que
dei baixa do exército e que está me levando para a casa de meus pais, que
moram em Les Pieux.
— É para lá que estamos indo?
— Perto.
— É longe daqui?
— Teremos que andar hoje o dia inteiro e talvez um pouco amanhã,
mas não podemos nos arriscar a nos aproximarmos da costa, a não ser no
último minuto.
— Vamos dar uma volta enorme! — Passado um pouco continuou: —
Sinto-me tão mal por ter tirado as roupas daquela gente. São tão pobres e têm
que trabalhar tanto!
Ficaram em silêncio. O marquês contou, relutante:
— Deixei algum dinheiro para eles.
— Fez isso? Mas será que não vai levantar suspeitas?
— Também achei que sim. Por isso, usei o velho truque de quebrar um
bule chinês e deixei alguns francos lá dentro.
— Assim, quando encontrarem, vão pensar que o dinheiro estava
escondido lá há muito tempo… talvez anos!
Continuaram andando. Passando algum tempo, Lucretia disse,
docemente:
— Seu problema é que tem um coração muito grande.
— Disparate! Vai ver, se me aprontar mais alguma, como sou duro e
severo.
— Tão duro, que dá dinheiro aos inimigos e oferece seu casaco a uma
mulher cansada.
— Vai dizer que sou um herói? — perguntou, divertido.
— Por que não? Pelo menos, enquanto eu puder ser a heroína! Embora
haja muitas candidatas para o lugar!
— Vamos parar um pouco e comer. Meu poder de réplica fica muito
diminuído a está hora da manhã.
Ele tinha trazido da fazenda um pão preto quase inteiro. Embora
insosso e sem gosto, era muito nutritivo.
A lingüiça estava cheia de alho, e ela torceu o nariz.
— Ainda bem que vamos comer os dois. Senão, não conseguiríamos
dormir um perto do outro esta noite.
— Está sugerindo que vamos dormir juntos?
Lucretia lançou-lhe um olhar de dúvida.
94
— Já está cansado da minha companhia. Não sabia que era tão
volúvel, embora eu já devesse esperar por isso.
— Está me provocando novamente, Lucretia?
— Que outro divertimento podemos ter neste momento? Tenho que
concordar, senhor, que, pelo menos, arranjou uma lua-de-mel bem original!
— Que tipo de lua-de-mel você gostaria? — perguntou ele, de
surpresa.
Deu-lhe uma olhada rápida, tentando pensar numa resposta
apropriada e divertida. Em vez disso, falou a verdade:
— Estar com alguém… que eu amasse e que… me amasse.
Ficaram em silêncio, até o marquês dizer:
— Se já acabou esta deliciosa refeição, acho que devemos ir andando.
— Claro, senhor, a carruagem está esperando.
Enquanto caminhavam, ela ia imaginando o que teria achado da
resposta sobre a lua-de-mel. Depois sentiu um aperto no coração, ao lembrar
que também ele deveria gostar de estar com alguém que o amasse. Será que
se sentiria mais feliz, se tivesse lady Hester a seu lado?
De uma coisa tinha certeza: se ela estivesse com ele na noite anterior
teriam feito amor na escuridão do bosque!
Involuntariamente, Lucretia deu um suspiro.
— Você está bem? — perguntou o marquês. Reparou que parecia
preocupado.
— Claro que sim. Estava só pensando quanto tempo levará para que
essas botas comecem a machucar seus pés.
— Meus pés são muito fortes, mas tenho que confessar que preferia
estar com minhas botas. Mas o que mais me incomoda no momento é a sede.
Espero que encontremos uma fonte. Não é muito seguro beber água
estagnada.
Só duas horas depois é que encontraram uma fonte. Lucretia começava
a achar que seus lábios iriam rachar de tão secos, e ficava cada vez mais
rouca.
A água caía num pequeno lago. Fazendo uma concha com as mãos,
beberam sofregamente.
— Nunca bebi nada tão delicioso! — disse Lucretia.
— Concordo. Não trocaria essa água por uma pipa do melhor vinho
do porto.
Lucretia mergulhou os braços na água fria e depois lavou o rosto,
lembrando que não tinha nenhum cosmético para ficar mais bonita, nada que
95
acentuasse o mistério de seus olhos. Encolheu os ombros, sem dar
importância ao assunto. De qualquer forma, o marquês estaria muito mais
interessado em chegar ao iate do que em lhe dar atenção.
Ele também lavou o rosto e jogou água nos cabelos. Ela ajeitou a
atadura e continuaram a andar. O peso dos tamancos começou a cansar
Lucretia. Não comentou nada, mas o marquês à certa altura aliviou-a da
carga.
— Perdoe-me, Lucretia, já devia ter feito isso antes.
— Não pode levá-los. E se alguém vir?
— Temos que tomar cuidado para que isso não aconteça.
O dia estava quente e a atadura devia esquentar muito porque
Lucretia reparou que ele estava com a camisa encharcada de suor.
Ao chegarem a um campo de cevada, viram uma pequena aldeia e
uma estrada de terra à frente.
— Temos que seguir pelo norte da aldeia — disse o marquês, parando
antes da estrada.
Isso significava que tinham que andar novamente através de campos
recém-semeados, o que era muito mais cansativo do que caminhar sobre as
ervas.
— Será que podemos descansar um pouco?
Era a primeira vez que pedia para repousar e ele respondeu,
consternado:
— Eu já devia ter perguntado se você queria parar um pouco.
Desculpe, estou sendo incrivelmente egoísta.
— Sei que as mulheres são um estorvo nessas circunstâncias e tenho
tentado evitar que se lembre que também sou mulher.
— Isso seria impossível.
Ela ficou sem saber se era um cumprimento ou não. Sentou à beira da
estrada, sentindo que os pés se recusavam a carregá-la por mais tempo.
O marquês colocou os tamancos ao lado dela e sentou de pernas
esticadas.
— E se eu tirasse essa maldita atadura?
— Deixe-me afrouxá-la um pouco.
— Não. Assim, não parece verdadeira.
— Não devia se preocupar tanto com sua aparência — disse ela, para
provocá-lo. — Felizmente, não temos encontrado muitas mulheres. Sabe
perfeitamente que um soldado ferido desperta sempre carinho num coração
feminino.
96
Quando o marquês ia responder, ouviram vozes.
Lucretia tirou os sapatos imediatamente e colocou os tamancos. Mal
tinha feito isso, apareceram dois soldados na curva da estrada que vinha da
aldeia.
Os uniformes deles estavam em tão mau estado como o do marquês,
mas ambos usavam quepes e um vinha com o braço no ombro do outro.
— Bom dia, camarada.
O marquês não respondeu. Cabisbaixo, com os ombros caídos,
mantinha o olhar perdido na estrada.
— Ele foi ferido na cabeça — explicou Lucretia. — Não pode falar.
— Que azar! Mas tem sorte em ter você para tratar dele — comentou
um dos soldados, fazendo um esforço para focalizar Lucretia, de tão bêbado
que estava.
— Sim, muita. Mas não se atrasem por nossa causa.
— Vamos, Jacques — disse o outro.
— Já vou. Pobre diabo! A guerra é assim: destrói um homem, de uma
forma ou de outra.
— Vamos — insistiu o amigo.
— Mas ele tem sorte de ter você — repetiu o bêbado Jacques. — Sorte,
muita sorte!
O amigo deu-lhe um empurrão e ele seguiu cambaleando pela estrada.
Lucretia olhava os dois, apreensiva.
— Desertores — disse o marquês entre dentes.
— Como sabe?
— Há milhares deles pelo país inteiro.
Os dois soldados já tinham se afastado, mas Lucretia ficou imaginando
o que estaria acontecendo, quando viu que voltavam em sua direção.
Pela expressão deles, via-se que haviam tomado alguma decisão.
Jacques parecia mais sóbrio.
— O que é? — perguntou Lucretia.
— Ele não presta para você — disse Jacques, apontando para o
marquês. — Não, com um buraco na cabeça. Você vem com a gente,
tomaremos conta de você.
— Não, muito obrigada. Ele é o meu… homem… meu marido. Vou
levá-lo para casa dos pais, em Les Pieux. Vai ficar melhor lá
— Ou morrer — disse Jacques. — Não vai querer perder tempo com
ele. Você é uma moça bonita, e gostamos de moças bonitas, não é, Paul?
— É. Gostamos de moças bonitas, e você é muito bonita, querida.
97
Enquanto falava, estendeu a mão para Lucretia, que se encolheu toda junto
do marquês.
— Vão embora! Não quero nada de vocês! Ele é meu marido e vou
ficar com ele! Sumam!
— Você vem com a gente — grunhiu Paul.
Era um homem de meia-idade, feio, com uns lábios muito finos, e
havia qualquer coisa em seu olhar que dizia a Lucretia que era mais perigoso
do que Jacques.
— Vamos embora — disse, agarrando-a por um braço. — Não temos
mulher há mais de uma semana e nunca pensamos encontrar uma tão bonita
como você.
— Não, não!
Então, o marquês resolveu agir. Por instantes, Lucretia não conseguiu
perceber o que estava acontecendo e os dois franceses, menos ainda.
O marquês esmurrou primeiro Jacques, que estava mais perto. O
murro que levou no queixo foi tão forte, que ficou estirado na estrada, sem
sentidos.
Paul largou Lucretia e ia bater no marquês, mas como era muito lento,
levou dois murros e caiu inconsciente.
Lucretia julgou ver um sorriso de satisfação no rosto do marido,
quando olhou para os adversários. Pegou-a pela mão, como se fosse uma
criança, e levou-a para o campo que contornava a aldeia.
Andavam depressa, mas não correram, até saírem da vista da estrada e
dos dois soldados desmaiados.
98
CAPÍTULO VIII
99
— Isso é que é o amor verdadeiro, Lucretia, que todos os homens
procuram e anseiam encontrar.
Ela estremeceu. Com um súbito aperto no coração, pensou que todo
aquele calor na voz do marquês traduzia o que ele sentia por lady Hester.
Devia amá-la e só não casou com ela porque não podia.
Sabia que ele esperava por algum comentário e disse, um pouco
hesitante:
— Obrigada… por me esclarecer
— Olhe para mim, Lucretia! — disse ele, inesperadamente.
Obediente, ela levantou o rosto.
Ele olhou bem dentro de seus olhos. Estavam confusos e inocentes: os
olhos de uma criança.
— Você estava certa no que me disse na noite do nosso casamento.
Nunca deve fazer amor com um homem, a não ser que ele a ame
inteiramente.
Uma vez mais, a voz dele fez com que sentisse um estremecimento,
mais intenso do que nunca, percorrer todo seu corpo.
Como era tímida e o marquês nunca lhe havia falado daquele jeito,
baixou os olhos. Então, reparou que a mão dele sangrava. Tinha ferido os
dedos ao bater em Jacques e Paul.
— Sua mão!
— Não é nada.
Ia começar a limpar o sangue com um lenço, mas Lucretia não deixou.
— Seu lenço está sujo, pode infectar a ferida. Vou procurar uma coisa
limpa para cobrir sua mão.
— Você está me mimando. Não é nada importante.
— Não podemos correr riscos. E se ficar com febre?
Ficou olhando para a mão dele, pensando no que devia fazer, até que,
de repente, pediu:
— Dê-me sua faca.
O marquês deu-lhe a faca e ela disse, baixinho:
— Não tenho outro remédio.
Virou-se, levantou a saia e cortou a própria combinação.
— Está mais limpa do que qualquer outra coisa.
Ele olhou para a tira de seda pura branca e para o rosto sério de
Lucretia, não disse nada e estendeu-lhe a mão para que fizesse a atadura.
— Se encontrarmos outra fonte, vou lavar o tecido.
— Rendo-me inteiramente a seus conhecimentos clínicos, senhora.
100
— Pode achar que não tem importância, mas a maioria dos ferimentos
que vi no hospital em Paris foi agravada pela sujeira e pelas moscas.
— Sua experiência está sendo muito útil agora.
Lucretia pensou que ele estava zombando e, assim que recomeçaram a
andar, disse:
— Não quero que pense que estava me gabando, quando lhe contei
que trabalhei no hospital. É claro que não me deixavam tratar dos doentes
sozinha; apenas ajudar as freiras a limpar as feridas e fazer ataduras. Minha
tarefa era ficar com a freira que cuidava dos cegos e dos que tinham
ferimentos na cabeça.
— Acho que está sendo escrupulosamente honesta e muito humilde.
— Não gostaria que houvesse fingimentos entre nós, senhor.
Ao dizer isso, lembrou de quanto fingimento já existia entre os dois:
tinha fingido que era sofisticada, que outro homem a havia amado, que era
uma autêntica mulher da sociedade, pronta a provocá-lo permanentemente
para duelos verbais.
Sem querer, veio-lhe à cabeça o olhar de desejo de Paul, e teve medo.
O que sabia sobre os homens? O que sabia do marquês, a não ser que o
amava? Era tão ignorante sobre tudo que ele devia saber e achar interessante
e fascinante numa mulher sofisticada.
Sentiu-se outra vez como quando ficava do lado de fora dos portões de
Merlyncourt, desejando entrar e não podendo. Uma estranha!
Como é que poderia competir com lady Hester? Com aquela beleza
incomparável, aqueles lábios sensuais que o marquês ansiava beijar?
Teria ele sentido com lady Hester o êxtase que acabava de descrever?
Se sentiu, que chance tinha ela de algum dia conseguir seu amor?
Continuavam andando e parecia que o marquês também ia absorto em
seus pensamentos. Atravessaram campos e campos, evitando qualquer
contato com camponeses que trabalhavam nas colheitas.
Lucretia começava a sentir fome, mas não queria de forma alguma se
queixar. Pela maneira como o marquês caminhava, percebeu que as botas
dele deviam estar machucando. Seus pés também ficavam feridos a cada
quilômetro que percorriam.
Pelo menos os sapatos eram mais confortáveis do que os tamancos.
Gostaria de saber quanto mais teria que andar até chegar ao outro lado
da península.
Até ali, tinham tido sorte em não encontrar soldados. Seguiam por
uma região estritamente agrícola, e, fora alguns celeiros isolados, poucas
101
casas e várias aldeias, não viam nada, além de campos de milho, tubérculos e
mostarda.
— Está com fome? — perguntou o marquês, depois de terem andado
em silêncio por mais de meia hora.
— Estava acabando de me perguntar se o ronco que ouvi era sua
barriga, a minha ou um trovão ao longe — respondeu, sorrindo.
Ele deu uma gargalhada.
— Tenho que admitir que meu pensamento estava voando até a mesa
da sala de jantar de Carlton House. Vinte e cinco entradas a cada jantar, fora
os outros pratos, nas recepções do príncipe. Tanta comida, que a gente pensa
que vai desmaiar a cada novo prato.
— Pensar em comida faz com que a gente sinta mais fome!
— Sei disso, mas é uma coisa extraordinária: nunca se consegue pensar
em outra coisa, quando se tem um buraco no estômago
— Que expressão indelicada, senhor!
— Se ao menos estivéssemos no fim da estação, haveria alguma
fruta. Lucretia olhou para ele, com um brilho nos olhos.
— Acabou de me dar uma idéia. Vamos até a beira do próximo campo
que tivermos que atravessar.
O marquês aceitou a sugestão e, passado um pouco, encontraram
amoras silvestres.
— Néctar dos deuses! — exclamou ele.
— Mas parece que os deuses se incumbiram de comer quase tudo!
Teria continuado procurando mais frutos, se o marquês não dissesse
que não podiam perder tempo.
— Ainda temos um longo caminho a percorrer e precisamos encontrar
um lugar para dormir.
— Ao ar livre?
— Nunca vi terra com tão pouco telhado — comentou, sarcástico.
Continuaram andando sem parar e Lucretia já tinha dificuldade em falar.
Percebia que ele retardava o passo para ela não se esforçar tanto.
Estou sendo um estorvo para ele, pensou, desesperada. Se estivesse
sozinho, poderia andar duas vezes mais depressa.
Encontraram finalmente uma fonte, onde puderam matar a sede, e
Lucretia insistiu para que o marquês lavasse a mão.
A ferida estava com bom aspecto. Mas, como se sentia feliz em tratar
dele, cuidou do ferimento com todo carinho.
— E a atadura da cabeça, está confortável?
102
— Tudo bem. Custa-me insistir tanto, Lucretia, mas não podemos nos
demorar. A essa altura, os franceses já devem ter percebido que não fomos
pela costa. Quanto mais depressa chegarmos ao iate, em Les Pieux, melhor.
— Claro, compreendo.
Recomeçaram a caminhar, e ela andava o mais depressa que podia,
mas, quando o sol se pôs e começou a refrescar, sentia-se terrivelmente
cansada. Olhando para seu rosto pálido, o marquês disse:
— Tomei uma decisão. Na primeira fazenda isolada que
encontrarmos, vou bater e pedir abrigo para esta noite.
— Será seguro?
— Tanto quanto dormir ao relento. Você vai ter que explicar que fui
ferido, e é melhor que eu fique calado. O campo está cheio de desertores que
roubam comida dos camponeses. Nenhum fazendeiro nos dará abrigo, se
pensar que sou um deles.
— Pode deixar que eu falo. Acha que minha pronúncia é convincente?
— Ainda se nota um pouco que é muito bem educada, mas confio em
seu francês.
— Fiquei surpresa. Como fala bem!
— Ensinaram-me muito bem desde pequeno e aprendi muito nos
últimos dois anos, com os refugiados que atravessaram o canal depois da
revolução.
— Foi muito sensato, já que está sempre correndo perigo, ajudando
tantos ingleses a fugir da França.
— Acho que foi uma atitude inconsciente de autodefesa.
— Quando alguém está disfarçado, uma palavra usada incorretamente
ou mal pronunciada pode representar a diferença entre a vida e a morte, a
liberdade e o cativeiro. — Lucretia estremeceu. — Não gosto de pensar nos
riscos que corre.
O marquês sorriu.
— E você sabe os riscos que está correndo neste momento?
— Tinha que encontrar alguém que o protegesse — disse para
provocá-lo. — Senão, a esta hora o major le Cloud já o teria levado para o
tribunal.
— Mas é evidente. Talvez um dia eu possa lhe agradecer.
— Resta-nos esperar que muito em breve possamos agradecer um ao
outro, porque neste momento tenho o horrível pressentimento de que estou
prestes a morrer de fome à beira da estrada.
O marquês parou e olhou em volta.
103
— Ali há uma fazenda. Vamos até lá, Lucretia. Se não conseguirmos
mais nada, pelo menos será um alívio tirar essas malditas botas.
Lucretia andou até a fazenda com uma energia redobrada, pensando
que talvez conseguisse comer alguma coisa.
A casa era maior do que parecia ao longe e tipicamente francesa, com
um celeiro, um estábulo, um pátio aberto.
— Coragem e cruze os dedos! — disse o marquês, ao se aproximarem
da porta.
— Já cruzei!
Bateram. Passado um pouco, ouviram passos. A porta se abriu e uma
camponesa idosa apareceu. Tinha pele curtida pelo sol e pelo vento. Os
cabelos eram grisalhos e seu olhar, embora um pouco receoso, gentil.
— Perdon, madame — começou Lucretia. — Será que a senhora poderia
ser generosa e acolher a mim e meu marido esta noite? Estamos andando há
muito tempo. Se não puder nos abrigar em casa, ficaremos no celeiro.
A francesa observou o marquês, olhou a atadura na cabeça, os ombros
caídos e as botas cortadas.
— Céus! Seu homem está ferido!
— Na cabeça, madame. Ele tem estado muito doente e ainda ficou
idiota. Não entende nada. Estamos tentando chegar à casa dos pais dele, que
moram em Les Pieux. Lá, ele ficará bem.
— Ainda é muito longe. Entrem, entrem os dois. Podem ficar junto do
fogo; está começando a esfriar.
Entraram para uma cozinha com traves de carvalho e uma lareira
acesa. Havia uma mesa de madeira pesada, algumas cadeiras e um aparador.
O teto era muito baixo e Lucretia achou que, se o marquês se endireitasse, ia
certamente bater com a cabeça nas traves.
— Parece cansado. Vieram de longe? — perguntou a mulher.
— De muito longe madame. Meu marido deu baixa e, como sempre, o
exército não se importa com o que possa acontecer com os soldados depois.
— Isso é verdade. Nossos homens são carne para o canhão.
Falou de modo tão amargo, que Lucretia perguntou:
— Perdeu algum ente querido, madame?
— Meu marido e dois dos meus filhos. Só resta um, mas não sei dele
há mais de seis meses.
— Lamento muito. E agora, como é que vive?
— Tenho um sobrinho que mora numa aldeia perto daqui. Quando
tem tempo, vem ajudar na colheita. Mas é difícil viver sem um homem Para
104
cuidar.
A voz da mulher se embargou com a emoção e, fazendo um esforço,
perguntou:
— Mas vocês devem estar com fome. Quando é que comeram pela
última vez?
— Esta manhã, madame. Podemos pagar pelo que nos oferecer.
— Isso não tem importância. Vou ver o que posso arranjar. Gostariam
de uma omelete?
— Muito — respondeu Lucretia não conseguindo disfarçar o
entusiasmo.
— Vou ver o que as galinhas puseram — disse a mulher, saindo da
cozinha.
Lucretia teve medo de que ela pudesse ouvir, por isso, não falou com o
marquês. Pegou a mão dele entre as suas e sentiu o otimismo voltar. Aquilo
era camaradagem e cumplicidade! Estavam naquela aventura juntos; juntos,
dividiriam cada vitória.
A francesa voltou logo. Lucretia, que tinha colocado os tamancos ao
chegar à fazenda, pensou, ao ouvir a mulher se aproximando, que pelo
menos eles tinham a grande vantagem de serem ouvidos ao longe.
— Estão com sorte: encontrei cinco ovos. Minhas galinhas parecem
que adivinharam que vocês viriam.
— Mas não podemos comer tudo que tem, madame.
A mulher sorriu.
— É bom ter companhia. Estou tão sozinha! Às vezes, passo uma
semana inteira sem falar com ninguém. Vejo meu sobrinho no campo, mas ele
raramente vem aqui em casa.
Colocou os ovos na mesa e foi pegar uma frigideira e uma tigela.
— Deixe-me ajudá-la — disse Lucretia.
— Acho que tem um pouco de pão na dispensa, e queijo também, que
costumo fazer com o leite de cabra. Talvez encontre um pouco de manteiga.
Eu tinha fama no mercado pela minha manteiga e o meu queijo, mas é longe
para mim agora. Assim que a guerra começou, levaram o meu cavalo.
— Ficou difícil, não?
— Difícil? Tudo com a guerra é difícil! Pensei que ia viver aqui sempre
em paz com meu marido, até a morte. Ele era muito velho para lutar, mas eles
insistiram que ainda era útil. Meus filhos foram um atrás do outro. O mais
novo, que ainda está vivo, não tem dezessete anos.
Era assim que a guerra afetava as pessoas simples: elas não
105
compreendiam por que eram obrigadas a lutar; só entendiam que suas vidas
tranqüilas eram modificadas e destruídas, restando nada mais do que um
vazio e as lembranças.
— Qual é o seu nome, madame? — perguntou a mulher, de repente, e
Lucretia percebeu que ela e o marquês tinham esquecido desse pormenor.
Lembrou então do nome que ele havia dado aos soldados.
— Bouvais é o nome da família de meu marido em Les Pieux.
— É um nome conhecido — disse a mulher, para ser gentil. — O meu é
Croix.
— Então, madame Croix, temos que lhe agradecer por ser tão gentil.
Lucretia pôs o pão, a manteiga e o queijo na mesa. Ficou toda contente,
quando viu que havia um pão quase inteiro e que o queijo era grande. Estava
com água na boca, só em pensar na omelete, e não resistiu em tirar uma
côdea e comer escondido.
— Meu café é ruim — dizia madame Croix. — Agora, não conseguimos
café bom.
Lucretia gostaria de dizer que para ela estaria bem de qualquer jeito,
mas achou melhor ficar quieta e perguntar onde estavam os pratos e talheres
para pôr na mesa.
— Vai comer conosco, madame?
— Não, obrigada. Já comi ao meio-dia. Se comer à noite, não consigo
dormir.
Deu a frigideira a Lucretia e foi fazer o café.
Ela cortou a omelete, pôs pelo menos três quartos no prato do marquês
e, escondendo a frigideira no fogão para ele não ver o pouco que tinha
sobrado, foi lhe entregar o prato.
— Coma tudo, Pierre. Vai lhe fazer bem. Ainda temos muito que
andar.
Obediente, o marquês comeu tudo.
Lucretia foi até o fogão e serviu-se do que tinha sobrado. Quando
voltou para a mesa e ele viu o pedacinho de omelete, ela pensou que ele ia
fazer algum comentário.
Como num passe de mágica, as energias iam voltando a cada pedaço
que comia. Cortou o pão, dando ao marquês a fatia mais macia, e passou-lhe
a manteiga e o queijo.
— Receio que estamos comendo demais — disse Lucretia,
desculpando-se.
— Podem comer tudo que quiserem — respondeu a francesa. —
106
Amanhã o mascate passa, e assim posso comprar novas provisões.
— Estamos muito agradecidos pelo que nos deu.
O café e o leite de cabra não eram muito agradáveis, mas estavam
quentes, e beberam, satisfeitos.
— Agora, vão para a cama. Felizmente, o melhor quarto está
arrumado, porque provavelmente minha prima deve vir de St. Maio — A
francesa sorriu e continuou: — Pode usar a cama dela. Os lençóis estão
limpos e, como costumo dizer, não há colchão mais confortável em toda a
Bretanha.
Madame Croix foi para a escada e Lucretia perguntou, hesitante:
— Desculpe, mas será que há uma bacia no quarto? Gostaria muito de
me lavar.
— Mas é claro. Levaremos um jarro com água para cima.
— Vou encher o jarro — disse Lucretia.
Foi lá fora e, enquanto enchia o jarro, pensando se seria capaz de
carregar depois de cheio, viu que o marquês estava a seu lado.
— Cuidado — avisou, baixinho.
Voltaram para a cozinha.
— Pierre está melhorando.
— Os médicos acham que ele pode recuperar o juízo?
— Médicos! O que eles não sabem dava para encher milhares de
livros. Umas vezes, dizem que ele vai melhorar; outras, que não. Como é que
se pode acreditar neles?
— Isso é verdade.
O quarto tinha o teto baixo e, mesmo na penumbra, via-se uma cama
encostada na parede e uma velha mesa com uma bacia de cerâmica e um
jarro embaixo.
— Muito obrigada, madame. Estamos muito agradecidos por sua
gentileza.
— Por nada. É um ato de caridade ajudar os que precisam. Podemos
fazer tão pouco por aqueles que foram feridos nessas guerras terríveis.
— É mesmo. Lamento muito os que perdeu.
— Três — murmurou madame Croix, e saiu do quarto.
Ouviram seus passos descendo as escadas. O marquês endireitou as
costas.
— Será que vai sugerir que, se eu fosse um cavalheiro, dormiria no
chão esta noite?
— Não, é claro que não. Vamos por o travesseiro entre nós.
107
— Já sabia que você descobriria uma solução para um problema tão
difícil.
— Não vejo dificuldade nenhuma — respondeu Lucretia. — Se sentar
na cadeira de costas, vou me despir e me lavar.
Teve a sensação de que os olhos do marquês brilhavam, mas achou
melhor pensar que os dois tinham se comportado como pessoas civilizadas.
Ele pegou o jarro.
— Posso pôr água na bacia para você?
— Sim, por favor.
Nesse momento, ouviram os passos de madame Croix subindo a
escada. Bateu na porta.
— Entre — disse Lucretia.
— Trouxe uma vela. Daqui a pouco, estará escuro. Como não
trouxeram bagagem, talvez precise de uma camisola.
— Mas que amor que a senhora é!
— Boa noite, madame.
— Boa noite, e muito obrigada.
Lucretia colocou a camisola em cima da mesa. Só então, reparou no
tecido e, dando uma gargalhada, pegou outra vez a camisola.
— Olhe! Usando isto, estaria a salvo, mesmo dormindo com Casa-
nova!
Era de flanela grossa, desbotada por muitas lavagens, com mangas
compridas e abotoada até o pescoço. Lucretia colocou-a na frente do corpo
— Pensei que estava tão cansado que, mesmo que colocassem a Vênus
de Milo na minha frente, não ia adiantar nada. Mas agora, não tenho tanta
certeza.
Os dois tiveram um ataque de riso. Por um momento, parecia que o
marquês não conseguia parar de rir e Lucretia, receosa, tapou-lhe a boca com
a mão.
Ao fazer isso, sentiu os lábios dele beijando a palma de sua mão
insistentemente. Ficaram quietos e ela se afastou.
— Vire-se de costas. Quanto mais cedo formos descansar, melhor.
Lavou-se, vestiu a grossa camisola de flanela e foi para a cama.
— Vou dormir junto da parede! — disse ela.
Sentiu as cobertas envolvendo-a como nuvens, pegou um dos
travesseiros e colocou-o no meio da cama.
— Vou me lavar completamente — ouviu o marquês dizer. — Por isso,
sugiro que feche os olhos, para que sua vergonha de donzela não se sinta
108
ofendida.
— Vou fechar.
Ouviu-o despejar a bacia e enchê-la novamente. Depois, sentiu-se
mergulhar num langor delicioso.
Foi mergulhando… mergulhando numa escuridão que era a coisa mais
agradável que tinha sentido até aquele momento.
Lucretia começou pouco a pouco a acordar do sono profundo. Ouvia o
coração do marquês batendo e pensou que estivessem no bosque. Ele a
abraçava e ela estava com o rosto contra o coração dele. Não havia travesseiro
nenhum entre os dois.
O sono era tanto, que não se importou com isso. Estava quente,
confortável, e o amava.
— Amo você — tentou dizer com o coração. Então, voltou a
adormecer.
Lucretia acordou com alguém sacudindo seu ombro.
— Acorde, temos que ir embora!
Abriu os olhos. O marquês estava de pé ao lado da cama pronto em
seu uniforme bizarro.
— Estou… com… tanto… sono.
— Eu sei, mas são cinco horas e temos que começar a andar já se
quisermos chegar ao iate antes do anoitecer.
Lucretia deu um suspiro. Era um martírio não poder fechar os olhos e
dormir outra vez.
— Lucretia! — disse o marquês, severo, e ela levantou imediatamente.
Ele sorriu.
— Vou descer e ver se podemos tomar café. Vista-se logo.
— Está bem.
Não tinha tempo para mais nada, além de lavar as mãos e o rosto.
Quando arrumava a touca branca em frente do espelho, achou que parecia
mesmo um francesa.
Desceu a escada e encontrou o marquês sentado à mesa, comendo um
ovo quente.
— Há um ovo para cada um esta manhã! — disse madame Croix toda
satisfeita. — Lembrei que ontem não tinha procurado em um dos ninhos.
— A senhora é muito amável, madame.
— Estou torrando um pouco de pão para seu homem. Acho que
também vai querer, não?
— Vou, mesmo!
109
A comida estava deliciosa. Beberam o café correndo, e estavam
prontos para partir.
Madame Croix olhou para o marquês e disse:
— Espere um momento. Tive uma idéia.
Foi ao outro quarto e trouxe um grande par de botas. Estavam muito
gastas, mas eram maiores do que as que ele usava.
— Eram de meu marido. Ele não vai precisar mais e servem para seu
homem.
— Tem certeza de que não vai precisar delas?
— Quem, além de meu filho, poderia usá-las? Mas são muito grandes
para ele. Além disso, ainda há as dos outros.
Mais uma vez, havia amargura na voz da mulher. Pegando as botas,
Lucretia disse:
— Obrigada. Não posso dizer mais nada, a não ser muito e muito
obrigada.
Colocou as botas no chão, ao lado do marquês, que estava sentado
numa cadeira. Vendo que ele fazia um esforço deliberado para não conseguir
desapertar os cordões, ela se ajoelhou a sua frente:
— Deixe que eu faço isso.
Desfez os laços e tirou a bota esquerda. Quando tocou nele olhou para
cima e seus olhares se encontraram.
Por alguns segundos que pareceram a Lucretia uma eternidade, os
olhos de ambos disseram coisas maravilhosas. Então, murmurando algo
ininteligível, ela calçou as botas novas e atou um dos cordões. Ele conseguiu
atar o outro. Lucretia sentia-se estranhamente fraca, como se tivesse acabado
de passar por uma estranha experiência emocional que não compreendia
bem.
Levantou.
— Por favor, madame, deixe-me lhe dar algum dinheiro, em retribuição
por sua gentileza, por nos ter abrigado, pela comida tão boa e por estas botas
que vão ajudar tanto o meu marido na viagem.
— Não quero nada. Tive muito prazer em tê-los aqui, madame, garanto.
Vou rezar por seu marido.
— Mas. madame… — começou Lucretia, quando o marquês tocou em
sua mão, disfarçadamente. Percebeu que ele já devia ter dado um jeito de
deixar dinheiro em qualquer lugar para que madame Croix descobrisse
depois.
— Por favor, reze por nós. Precisamos muito de suas preces — disse
110
Lucretia.
— Pode ficar sossegada.
Como se obedecesse a um impulso. Lucretia inclinou-se e deu um
beijo no rosto da velha.
— Eu lhe agradeço muito .
O marquês baixou a cabeça e, arrastando os pés afastou-se. Só depois
de algum tempo é que puderam andar normalmente. Lucretia perguntou:
— Deixou dinheiro para ela?
— Debaixo do travesseiro. Como se tivesse guardado lá e depois
esquecido.
— Fico contente. Ela foi muito gentil.
Tinha a estranha sensação de que os pensamentos dele estavam muito
distantes da conversa. Sabia que, naquela noite quando chegassem perto do
mar estariam correndo um risco enorme de serem apanhados.
111
CAPÍTULO IX
112
glória, Lucretia, mas não se engane. O fim é sempre o mesmo: devastidão e
tristeza para os inocentes.
— Agora entende o que senti no hospital de Paris? Não consegui odiar
os feridos, só pelo fato de serem franceses. Senti que não tinha nacionalidade,
eram apenas marionetes nas mãos dos que puxavam os cordéis.
— Uma marionete francesa pode matar um inglês.
O marquês aumentava o passo e Lucretia encontrava dificuldade em
acompanhá-lo. No momento em que iam atravessar uma estrada pequena,
passando de um campo para outro, apareceu na curva uma carroça que vinha
muito depressa, guiada por um jovem vestindo o tradicional avental dos
camponeses, com o chapéu de lado e uma papoula presa na fita.
Não tiveram tempo de se esconder nem de atravessar a estrada. O
marquês curvou-se e ficaram esperando que a carroça passasse. O jovem
fazendeiro parou o cavalo.
— Para onde estão indo? Seu homem não parece estar muito bem —
disse, olhando para a atadura na cabeça do marquês.
— Meu marido foi ferido, monsieur. Estamos indo para Les Pieux.
O rapaz deu um assobio.
— É bem longe, mas posso levá-los durante uma parte do caminho.
Vou para o mercado em Le Vetrot.
— É muito amável, mas…
Olhou duvidosa para o marquês, mas, vendo que ele fazia que sim
com a cabeça, quase imperceptivelmente, acrescentou:
— Se não der muito trabalho, muito obrigada, monsieur. Lucretia
ajudou o marquês a subir na parte de trás da carroça que estava vazia.
Depois, calçando os tamancos e escondendo os sapatos no bolso do avental,
sentou ao lado do rapaz.
Reparou que, em vez da perna esquerda, tinha um toco de madeira.
— Você ficou aleijado!
— Uma bala de canhão me apanhou. Foi uma sorte, porque assim
pude voltar para a minha fazenda. — O francês deu uma mirada para trás. —
Ainda é longe até Les Pieux. Acha que seu marido vai agüentar?
— Ele está muito cansado, porque levou um tiro na cabeça e esteve
doente por muito tempo, mas vamos chegar lá. Especialmente, porque
encontramos alguém tão amável como você para nos ajudar.
— Meu nome é Henri Lechamp. Meu pai é dono de muitas terras aqui.
Lucretia sorriu.
— Você tem uma aparência próspera e um bom cavalo.
113
— Temos melhores na fazenda. Gostaria de mostrá-los a você.
— Pode ser que um dia eu tenha a oportunidade de visitá-lo, embora
não gostasse de fazer esta viagem outra vez. — Percebeu o interesse no olhar
dele e mudou de assunto: — Creio que deve ter muito trabalho para fazer,
monsieur, pois como os outros fazendeiros, deve estar com pouca mão-de-
obra.
— Estamos, mesmo. Mas sou filho do patrão e tenho livre o tempo que
quero. Gostaria muito de vê-la novamente… madame. — Baixando a voz,
perguntou: — Gosta de seu marido?
— Muito, e estou bastante preocupada com ele como deve imaginar.
— Um tiro na cabeça é mau. Vi homens ficarem loucos depois de
levarem um tiro. E se ele não ficar bom?
— Oh, vai ficar! Os médicos dizem que é um problema temporário.
Tudo que ele precisa é de repouso.
— Parece tonto.
— Atualmente, não consegue falar, mas compreende tudo.
— Será que ele vai compreender, se nós dois nos divertirmos um
pouco juntos?
— Claro que vai! Outro dia, um homem tentou tocar em mim e ele
quase o matou. Tem muita força e fica furioso quando o provocam.
— Temos que dar um jeito, você e eu.
— Receio que vá ser muito difícil — disse ela, com firmeza.
— Espero fazê-la mudar de idéia. De que parte do país você veio? É
bonita demais para ter nascido na Bretanha. Nós aqui somos atraentes,
segundo dizem as garotas, mas elas não são nada de especial, como descobri
quando estive em Paris.
— Quando é que esteve em Paris? — perguntou Lucretia, tentando
desviar a atenção dele.
O rapaz começou a contar uma longa história sobre sua estadia de sete
meses em Paris, quando se alistou no regimento.
Enquanto falava, Lucretia ia observando a estrada e concluindo que
deviam estar perto da aldeia onde devia haver o tal mercado.
— É muito amável por nos trazer — disse ela interrompendo um
discurso sobre como conquistar o sexo fraco. — Mas se não fosse abusar de
sua gentileza, gostaria de lhe pedir para nos comprar algum pão e talvez um
desses deliciosos Camembert, quando chegarmos ao mercado. — Olhou para
ele e acrescentou, rapidamente: — Nos podemos pagar.
— Claro que comprarei tudo o que precisar. E gostaria de lhe dar
114
muitas coisas mais, se me der uma oportunidade.
Como a aldeia já estava à vista, Lucretia resolveu sorrir de maneira
simpática.
— Temos que chegar a Les Pieux. Talvez um dia eu volte, quem sabe
— Vou ficar esperando, se não for procurá-la primeiro. Não precisa me
dar o endereço; basta perguntar pela garota mais bonita da redondeza.
— Uma senhora casada — corrigiu Lucretia
— Está perdendo seu tempo com ele.
— Já é tempo de você arranjar uma esposa. Deve haver um monte de
garotas querendo casar com você.
— Pode apostar. E com as terras de meu pai.
Tinham chegado à aldeia e o mercado estava cheio de gente. Havia
ovos, manteiga, queijos, galinhas e legumes para vender, trazidos pelas
mulheres das redondezas desde manhã cedo.
— Por que você não traz nada para vender? — perguntou Lucretia,
enquanto Henri diminuía a marcha do cavalo para passar entre a multidão.
— Vim para comprar! E com muito dinheiro no bolso.
— Fico satisfeita em ouvir isso. Tenho visto tanta pobreza na França.
— Os tontos continuam pobres e os espertos ficam ricos. E um deles
sou eu:
— Tenho certeza de que é muito esperto.
Ele levou a carroça até a entrada do mercado.
— Será que pode segurar as rédeas, enquanto vou ver o que posso lhe
arranjar.
— Claro que posso.
— Já guiou uma carroça? — perguntou Henri.
— Muitas vezes, não precisa se preocupar.
— Não vou demorar. Trarei o que você quer.
Saltou com bastante agilidade; aparentemente, a perna de pau não
atrapalhava muito.
No mercado só havia velhos e crianças que corriam de um lado para o
outro, continuamente repreendidos pelos adultos.
Era tudo barulhento e muito típico. Lucretia observava as pessoas,
cheia de interesse, quando ouviu a voz do marquês atrás dela:
— Vamos embora com essa carroça.
Virou a cabeça, pensando que tivesse ouvido mal, e ele repetiu, com
firmeza:
— Faça o que estou dizendo. Depressa!
115
Abriu a boca para argumentar, quando reparou no que o marquês
tinha visto: vários soldados andavam pela multidão, procurando alguém.
Bateu com as rédeas no cavalo e imediatamente ele começou a correr.
Lucretia julgou ouvir a voz de Henri, mas não olhou para trás.
— Continue — ordenou o marquês.
A aldeia era pequena, e em poucos segundos passaram pela última
casa e ficaram fora da vista do mercado. O marquês então saltou para a frente
e tomou as rédeas. Chicoteando o cavalo, que começou a galopar, correram
aos solavancos.
— Foi por causa dos soldados? — perguntou ela.
— Eles estavam procurando desertores. Eu devia ter lembrado que
eles estariam em qualquer mercado.
— Mas pensariam que você estava ferido.
— Mesmo assim, iam fazer perguntas. E não tenho documentos.
— Pobre monsieur Lechamp! Fomos muito mal-agradecidos, roubando-
lhe o cavalo e a carroça.
— Porco libidinoso! Mereceu o que lhe fizemos! Ouvi o que
conversaram. Numa situação dessas, seu rosto não ajuda nada.
— Não está sendo muito cortês — disse Lucretia, dando uma
gargalhada.
O marquês continuava olhando para trás. Embora fosse difícil ver
através da poeira que levantavam. Parecia que ninguém os seguia.
— Temos que agradecer a Deus pelos militares não andarem a cavalo
nesta parte do país. E, principalmente, por haver poucos cavalos por aí.
Bonaparte requisita todos para a guerra.
Seguiram por mais uns três quilômetros, até a estrada fazer uma curva
acentuada para o sul. Ele parou a carroça.
— Quero que você desça, sem deixar nenhuma pegada no chão. Acha
que consegue, Lucretia?
— Claro. — Reparou num tufo de grama na beira da estrada.
— Muito bem. Assim que estiver pronta, salte.
Fez o que ele mandava. Depois de amarrar as rédeas na carroça, o
marquês saltou também. Deu uma chicotada no animal, que saiu a galope.
Lucretia olhou para as marcas das rodas e percebeu o plano do
marquês.
— Eles vão perseguir a carroça.
— Foi o que pensei. Agora, temos que voltar a andar. Ponha seus
sapatos e me dê os tamancos.
116
— É uma pena não termos fugido só depois do almoço — disse
Lucretia. — Não é muito conveniente, mas estou com fome novamente.
— Lamento por você, mas fui um louco em ter entrado na aldeia.
Devia ter pensado que seria perigoso.
— Não podia adivinhar que os soldados estavam lá.
Como o marquês andava muito depressa, ela achou melhor não
conversar; ele devia querer se afastar o mais depressa possível de Le Vetrot.
O céu estava cada vez mais carregado e de repente caiu uma pancada
de chuva, trazida pelo vento, que Lucretia achou que vinha do mar. Tinha a
impressão de que havia um gosto de sal no ar, mas não estava certa. Não
queria perguntar, com medo de que o marquês ficasse aborrecido.
A terra agora estava mais pesada, a chuva caía sem cessar e começava
a enlamear o terreno.
— Eu podia lhe dar o meu casaco, mas creio que, se alguém me visse
em mangas de camisa, acharia estranho — disse ele.
— Não seja ridículo! Se a chuva piorar, vai molhar tanto seu casaco
quanto o meu.
Atravessaram um bosque na encosta de uma colina. Ao chegarem ao
topo, andando com dificuldade através de ramos baixos, viram que as
árvores desciam até um vale.
Estavam praticamente saindo do bosque, quando o marquês avistou
alguns soldados se aproximando pela estrada. Puxou rapidamente Lucretia e
se esconderam atrás das árvores. Eram quatro homens, comandados por um
cabo. Ela começou a tremer e segurou a mão dele. Sentiu que também
apertava muito seus dedos. Ficaram assim, até os soldados se afastarem.
— Foram embora — disse ela.
— Mas haverá mais. Avisei que, quando estivéssemos perto da costa,
seria pior, porque os franceses aqui redobram a vigilância.
Andaram mais dois quilômetros, subiram uma pequena elevação e
viram o mar ao longe.
— Conseguimos! Chegamos! — gritou ela.
— Ainda não. — Mas Lucretia percebeu por sua expressão que
também estava satisfeito.
Como não havia muitas árvores, tiveram que ir ziguezagueando pelo
terreno. Era difícil ali. Primeiro, o caminho era arenoso, e os pés se
enterravam, fazendo com que cada passo fosse um esforço; depois, tornou-se
rochoso, e, como a sola dos sapatos era fina machucava muito os pés. Além
disso, as rajadas de vento eram fortes que quase os arrastavam.
117
Lucretia começou a ficar para trás. Tropeçou numa pedra e com um
grito, caiu no chão, sem forças para levantar. Ficou no chão gelada, sem
conseguir falar nem pensar, e o marques pegou-a ao colo. Encostou a cabeça
no ombro dele.
— Des… culpe. Já… vou… melhorar.
Passou o braço em volta do pescoço do marido e foi perdendo a
consciência aos poucos, como se entrasse num túnel muito comprido. Ainda
tentou dizer que queria ir embora, mas não conseguiu.
Lucretia abriu os olhos devagar. A princípio não percebeu onde
estava. O teto era baixo e as paredes brancas com painéis familiares, embora
não conseguisse identificá-las.
Estava numa cama, e de repente percebeu que era o iate.
Fechou os olhos, pensando que sonhava. Voltou a abri-los e virando a
cabeça, viu o relógio: era meio-dia.
Não era possível! Não podia ter dormido tanto!
As cortinas das vigias estavam fechadas, mas o sol clareava a cabine.
Viu duas toalhas brancas no chão perto da cama e, num canto, a jaqueta
vermelha e a combinação de algodão.
Estava salva. Tinham vencido! Conseguiram chegar ao iate. Estava
cansada demais para pensar, mesmo para se sentir feliz. Abriu novamente os
olhos para se certificar de que não havia engano. Não, não havia. Ali estava
todo o equipamento caro e confortável do iate do marquês. Ele a tinha trazido
em segurança.
Tentou lembrar o que acontecera, mas só recordava da chuva batendo
no rosto, do momento em que caiu e do momento em que ele a pegou nos
braços! Depois não havia mais nada. Tentou reconstituir os fatos. Ele devia
ter subido e descido a colina com ela, até o lugar combinado.
Como é que passou tudo isso inconsciente? Como e que foi perdei o
grande momento da vitória, de conseguirem escapar da França depois de
tantos perigos?
Agora, deviam estar perto, porque o navio estava quieto e não ouvia o
barulho das ondas.
Ainda meio adormecida, as lembranças foram voltando aos poucos: a
maneira como tinham fugido do mercado com a carroça, o momento em que
se esconderam dos soldados no bosque, os últimos quilômetros, terríveis e
cansativos, com a chuva caindo torrencialmente. Talvez a chuva os tivesse
ajudado, obrigando os franceses que guardavam o litoral a se abrigarem e
facilitando assim a fuga do marques
118
— Estou em casa! Salva e de volta à Inglaterra.
Subitamente, Lucretia lembrou que era o fim da aventura. Sentindo a
necessidade urgente de saber o que tinha acontecido, atirou os cobertores e
então reparou que estava nua!
Ficou quieta. Só havia uma pessoa capaz de tê-la despido, enxuga-e
colocado na cama!
Levantou e abriu as cortinas. Estavam mesmo no porto. Imaginou que
seria Poole. Continuou olhando durante uns momentos, depois fechou
novamente as cortinas.
Pegou um roupão da arca que ficava no canto da cabine e vestiu,
colocou uma estola nos ombros e voltou para a cama.
Tocou a campainha, e imediatamente alguém bateu à porta.
Lucretia esgueirou-se para debaixo das cobertas e respondeu, um
pouco nervosa:
— Entre.
Esperava que fosse o marido, mas era o chefe dos camareiros, um
homem chamado Jarvis que estava a serviço do marquês há muitos anos.
— Bom dia, senhora. Ouvi a senhora levantar e tinha instruções de Sua
Senhoria para lhe trazer alguma coisa para comer, assim que acordasse.
— Ele está bem?
— Feliz como uma criança, se me permite a expressão, senhora! A
Senhoria dormiu como um justo durante doze horas. — Colocou bandeja ao
lado da cama. — Uma sopa muito nutritiva, como costuma tomar depois
dessas aventuras dele. E uma omelete de galinha. O marquês mandou fazer
especialmente para a senhora, e ele também gostaria que bebesse um copo de
vinho.
— Onde está ele?
— Está em terra, com lorde Beaumont e o filho. Querem voltar
rapidamente para Londres para ver o príncipe de Gales e Sua Senhoria foi
com eles para tratar da viagem.
— Eles pegaram o bote em St. Pierre?
— Pegaram e nos contaram que os senhores tinham sido apanhados
pelos soldados. Ficamos muito ansiosos e preocupados! Mas não devíamos
nos afligir, porque o patrão sempre consegue enganar os franceses! Não há
dúvida de que é muito mais esperto do que eles.
Lucretia estava escutando com os olhos semicerrados. O camareiro
falou, com a ternura que uma babá usa com uma criança pequena:
— Vamos, senhora, tome a sopa enquanto está quente.
119
Lucretia tomou a sopa e sentiu-se mais forte. Enquanto comia a
omelete e bebia o vinho, o criado juntava a roupa molhada que estava no
chão.
— Agora, descanse um pouco. Sua Senhoria pediu para ficar deitada
até a tarde e espera ter o prazer de sua companhia para o jantar.
— Ele não vem me ver antes?
— Acho que não. Assim que voltar, temos que fazer uma pequena
incursão pela costa. Sua Senhoria quer lhe contar porque, pessoalmente. —
Jarvis pegou a bandeja. — Se posso lhe dar um conselho, senhora, descanse o
máximo possível. O patrão é forte como um touro. Chegou morrendo e
depois de dormir estava pronto para outra. Mas a senhora não é tão forte
como ele. Nem poderia ser, não é?
Deu um sorriso paternal e saiu da cabine, fechando a porta. Lucretia
escondeu o rosto no travesseiro e começou a chorar!
120
CAPÍTULO X
121
Chorou, os soluços estremecendo todo seu corpo, até que, exausta,
adormeceu.
Foi acordada por Jarvis, que entrou na cabine para preparar seu
banho.
— Desculpe-me acordá-la, senhora, mas são sete horas.
Lucretia sentou na cama.
— Sete horas! Não pode ser tão tarde!
— É, sim, mas Sua Senhoria não quis que fosse incomodada.
Lucretia olhou para o relógio, pensando que Jarvis não estava dizendo
a verdade. Devia ter dormido quase sete horas e, embora se sentisse
deprimida, já não estava tão cansada.
Assim que o criado saiu do quarto, levantou da cama e foi se olhar no
espelho. Ao ver seu rosto, deu um gritinho de horror! Estava cheia de
olheiras e com uma horrível expressão de tristeza.
Lavou o rosto primeiro em água quente, depois com água fria, pôs
compressas nos olhos e só depois entrou no banho perfumado, sentindo que
os últimos vestígios de cansaço começavam a desaparecer.
Achava que não ia valer a pena usar os cosméticos que Odrowski
tinha escolhido. O marquês nem vai reparar, pensou, com tristeza.
Como Jarvis tinha dito, ele estava pronto para se divertir outra vez, o
que queria dizer que devia estar pensando em encontrar lady Hester. Seria a
maior das humilhações!
Mesmo assim, não permitiria que percebesse sua infelicidade.
Resolveu se arrumar.
Pintou os olhos para parecerem misteriosos, embora tivessem perdido
todo o brilho, tal como tinha perdido a esperança.
Assim que a maquiagem ficou pronta, abriu o guarda-roupa e olhou
para os vestidos sofisticados, desenhados especialmente para sua nova
aparência de mulher de sociedade. Não estava com nenhuma disposição para
esse tipo de roupa. Os vestidos, assim como sua pretensa sofisticação, eram
armas que não tinham conseguido evitar a derrota. Escolheu então um traje
comprido, azul-escuro de gaze, que combinava com a cor de seus olhos.
Era um modelo grego, desenhado para ser usado com as magníficas
safiras que pertenceram a sua mãe. Mas Lucretia não abriu a caixa das jóias.
Não sentia vontade nenhuma de se enfeitar, nem usar nada que chamasse
atenção.
Nem mesmo penteou os cabelos como Odrowski tinha ensinado, para
parecer mais velha e provocante. Dividiu os cabelos ao meio e prendeu para
122
atrás. Pegou um xale azul mais claro, colocou-o nos ombros e foi para a sala.
O marquês esperava por ela. Assim que entrou, mesmo sem querer,
sentiu o coração bater descompassadamente. Tinha esquecido como ele era
bonito e elegante. Vestia um traje de noite, com gravata branca, uma camisa
de babados, que lhe ficavam maravilhosamente bem. Estava muito diferente
do homem que na véspera havia andado com ela, com um velho uniforme de
soldado francês.
Seus olhos se encontraram e, por momentos, nenhum dos dois falou.
Lucretia não sabia que, com aquele vestido azul, os cabelos presos realçando
o oval do rosto, parecia mais do que nunca uma madona italiana, como o
marquês tinha achado, quando entrou no quarto na noite do casamento.
— Está descansada?
A voz dele era profunda e a fez estremecer.
— Estou… envergonhada por ter dormido… tanto tempo.
Ele sorriu, e Lucretia sentiu que o sol brilhava outra vez!
— Se está com tanta fome quanto eu, é melhor irmos para terra.
— Para terra?
— Venha ver.
Seguiu na frente até o convés.
Quando levantou para tomar banho, Lucretia tinha reparado que o
iate estava parado, mas se sentia tão infeliz que nem ligou. Agora via que
estavam num ancoradouro tão pequeno que mais parecia um abrigo. Por
todo o lado da colina viam-se azáleas e flores amarelas, vermelhas, brancas,
cor-de-rosa, que espalhavam uma fragrância deliciosa, misturada com o
cheiro do mar.
Um pouco acima, havia uma casa, como um templo grego, com os
pilares brancos iluminados pelos últimos raios de sol.
— Quem mora ali?
— Eu — respondeu o marquês.
Olhou para ele, surpresa.
— É meu esconderijo secreto.
Lucretia percebeu que era ali que ele ficava quando ia para as
perigosas missões na França.
Ali, tinha um ancoradouro seguro para o iate, de onde podia sair para
o canal em segurança, uma vez que os navios fiscalizavam as rotas normais.
O marquês levou-a por um caminho de pedras, ladeado de flores onde
borboletas e abelhas esvoaçavam alegremente.
À medida que subia, ela percebia que a casa era muito maior e mais
123
bonita do que parecia lá de baixo. Embaixo dos pilares, num mirante
enfeitado com grandes jarrões repletos de jasmins e lilases. desfrutava-se uma
maravilhosa vista do mar.
O marquês levou-a por uma entrada muito bem mobiliada, até uma
sala de jantar oval, onde a mesa já estava posta com velas acesas.
— Jarvis me disse que comeu pouco no almoço. Mandei fazer muita
comida… para nos compensar.
Os pratos sucediam-se, servidos por Jarvis e pelos outros camareiros
do iate.
No princípio, estava esfomeada, mas depois já conseguia saborear os
molhos deliciosos e apreciar a maneira requintada como as travessas vinham
enfeitadas
— Tem um cozinheiro magnífico. O marquês deu uma gargalhada.
— Não vai acreditar, se lhe disser que é uma mulher, e francesa!
— Francesa?
— Casada com um inglês. Trouxe Newman e a mulher nas primeiras
viagens que fiz à França. Eles tiveram sorte em fugir, porque Newman estava
para ser preso. Tomam conta da casa, quando não estou aqui, e, quando
venho, me estragam com uma comida que normalmente só se encontra do
outro lado do canal.
O marquês piscou o olho, acrescentando:
— Para ser honesto, tenho que contar que também trouxe do lado de lá
o vinho que você está bebendo, sem pagar impostos. Tem que admitir que é
uma delícia.
— Acho que, se não tiver cuidado, qualquer dia vai ser preso como
contrabandista — avisou Lucretia, brincando.
— Nesse caso, tenho certeza de que você vai me salvar da forca em
Tyburn.
Lucretia não disse nada e, como o marquês continuasse a conversar,
percebeu que ele tentava diverti-la. Contou-lhe mil e uma peripécias que
tinha passado na França e como conseguiu tirar de lá dezenas de ingleses,
homens e mulheres. Descreveu todos seus disfarces. Lucretia nem podia
acreditar na maneira como falava dialetos franceses ou quando mudava
simplesmente a expressão do rosto, transformando-se num respeitável
sacerdote, num importante industrial ou num simples burguês.
Nunca o tinha visto tão animado, tão jovem e tão alegre.
Quando finalmente os criados tiraram a mesa, deixando apenas os
candelabros acesos, o marquês se recostou na cadeira com um copo de brandy
124
na mão. Insistiu para que Lucretia bebesse um pouco de um licor francês,
feito por monges, e que tinha trazido no iate.
— Lorde Beaumont deve ter ficado muito feliz por chegar à Inglaterra
são e salvo — disse Lucretia.
— Não parava de mostrar sua gratidão. O primeiro-ministro vai ficar
muito satisfeito; queria muito que ele voltasse.
Ficaram em silêncio e então, ela perguntou, um pouco receosa.
— Vai… voltar para buscar… mais pessoas?
Sabia que não suportaria que ele corresse perigo sozinho e sabia que,
por mais que pedisse, não a levaria. Não agüentaria ficar em casa, sabendo
que, a cada segundo, ele podia ser capturado e levado a Paris, talvez para
ser… fuzilado!
O marquês bebeu um pouco de brandy, antes de responder.
— Acho que não é provável que me peçam para ir resgatar mais
prisioneiros. Lorde Beaumont contou que agora é quase impossível fugir. Os
franceses não gostam de fazer papel de idiotas e tenho que reconhecer que no
ano passado fizeram uma triste figura.
— Quer dizer que não vão conseguir fugir mais?
— Não, coitados! Vão ter que ficar nas mãos do inimigo até terminar a
guerra. Lorde Beaumont também disse que os prisioneiros mais importantes
estão sendo transferidos de Paris para Avignon ou Lião.
— Ainda bem — disse ela, sem querer.
O marquês olhou-a, como se fosse dizer alguma coisa, mas em vez
disso levantou.
— Quero mostrar a você o pôr-do-sol, é muito bonito.
Saíram da sala de jantar e subiram para o primeiro andar.
Ele abriu a porta de uma sala de onde se desfrutava uma vista
fantástica. O sol já estava desaparecendo e os últimos raios dourados
refletiam na mansidão da água.
— Que sala maravilhosa!
— Fico feliz por você gostar. Fui eu que a desenhei. Quando estou
aqui, deitado, sinto como se estivesse dentro de uma grande geleira, no mar.
Lucretia olhou em volta e reparou que não era uma sala, mas sim um
quarto de dormir, todo decorado com motivos marítimos. Olhou para a cama,
espantada, porque era completamente fora do comum, mas, mesmo assim,
uma das mais belas que tinha visto.
— Meu avô comprou esta cama na Itália — explicou o marquês. —
Pensei que ficaria muito bem nesta casa. Então, trouxe-a de Merlyncourt para
125
cá.
— É fantástica — murmurou Lucretia, olhando para os painéis de seda
bordados com as armas de Merlyn que pendiam do dossel. Só então reparou
em uma de suas camisolas em cima da cama.
— Se vamos dormir aqui esta noite, não quero que saia de sua cama
por minha causa — disse, rapidamente.
Olhou para o marquês, e algo no rosto dele fez com que seu coração
batesse com toda força. Sem perceber o que fazia, virou-se e foi até a janela.
Não via nada a sua frente, só tinha consciência de que ele se aproximava e
parava a seu lado.
— Por que esteve chorando, Lucretia?
Ficou surpresa por ele ter percebido vestígios de lágrimas em seu
rosto. Não sabia o que dizer, mas, vendo que esperava uma resposta,
inventou:
— Eu… estava… cansada.
— Entendo. Ou será que se sente um pouco triste por a nossa aventura
ter acabado? Lamenta o fim da excitação e da emoção?
— É… isso — murmurou.
— Não preciso lhe dizer como foi extraordinária! Não sabia que uma
mulher podia ser tão corajosa, tão valente e abnegada, tão terrivelmente
maravilhosa.
Lucretia estremeceu ao ouvir aquelas palavras.
— A… cha… mes…mo?
— Acho. E muito mais também
— Senti-me tão humilhada por ter desmaiado no fim.
— E eu me censuro por ter sido tão egoísta, exigindo tanto de você. Na
ânsia de salvá-la, nem lembrei como é pequenina e frágil. Fui brutal com
você.
Lucretia não conseguia responder. As lágrimas corriam pelo rosto, ao
ouvi-lo falar com tanto carinho.
— Vai ser uma aventura emocionante para contarmos aos nossos
filhos, aos nossos netos! — continuou o marquês. — Mas tenho certeza de que
eles vão fazer uma pergunta que eu quero fazer a você primeiro.
— O… que… é?
— Quero saber o verdadeiro motivo que a levou a ir atrás de mim. Por
que ficou tão preocupada que eu me resfriasse naquela primeira noite no
bosque? Por que estava aflita com a minha mão? E porque, quando
estávamos os dois morrendo de fome me deu a maior parte do omelete?
126
A voz dele morreu e Lucretia, percebendo que ele nunca lhe tinha
falado daquela maneira, começou a tremer. Sentiu que ia desmanchar em
lágrimas. Apoiando-se na janela, lutava para se controlar.
— Olhe para mim, Lucretia
Ela sabia que não ia conseguir. Passados uns segundos, como ela não
se virasse, ele disse:
— Tão desobediente! E há poucos dias, você prometeu me obedecer!
Amar, honrar e obedecer, foram essas as palavras que disse quando casamos.
Mas agora não quer me obedecer e não tem razão para me honrar. Só resta a
última: amar!
A palavra pareceu vibrar entre os dois.
— Você casou comigo pelo meu título, Lucretia?
A pergunta foi tão inesperada, que ela respondeu, imediatamente, sem
pensar, nem hesitar.
— Não, claro que não! Acha que eu casaria com qualquer homem, se
não...
Parou, percebendo que tinha, caído naquela armadilha tão inocente,
que o marquês armara. Fechou os olhos. Agora não lhe restava mais nada,
nem mesmo o orgulho, pensou.
— … se não me amasse — completou o marquês com doçura.
Ficaram em silêncio.
— Olhe para mim, Lucretia. Tenho uma coisa para lhe dizer.
As palavras eram como uma ordem. Lucretia sentiu que não adiantava
lutar mais. Tinha perdido a batalha e até a força de vontade. O marquês
olhava para seu rosto pálido e infeliz, os olhos rasos de lágrimas e os lábios
trêmulos.
— Quero lhe dizer uma coisa, Lucretia, que juro perante Deus que
nunca disse a outra mulher em toda a minha vida. Amo você!
Por instantes, ela não acreditou no que acabava de ouvir. Então, aos
poucos, ele viu seu rostinho adquirir vida novamente, os olhos brilharem de
felicidade. Murmurando algo ininteligível, ela encostou á cabeça no peito do
marido.
O marquês abraçou-a com toda força.
— É… mesmo… verdade?
Só conseguia sussurrar as palavras, pensando que estava vivendo um
sonho.
— É verdade, sim: amo você!
— Mas… você odeia… moças… inexperientes.
127
Ele deu uma gargalhada cheia de ternura.
— Então, foi essa a causa de sua brilhante, inteligente, quase perfeita
demonstração, que me deixou tão curioso e intrigado!
— Você percebeu que era… encenação? — perguntou Lucretia,
escondendo o rosto.
— No início, não, mas como sou perito em disfarces, tenho que lhe
dizer que esqueceu de um pormenor importantíssimo.
— O que foi?
— Esqueceu de disfarçar os olhos. Não conseguiu evitar que eles
fossem naturais, muito inocentes e muito jovens! E houve ainda outra coisa
que me surpreendeu, minha querida.
— O quê?
— Quando estávamos no celeiro e calei sua boca com um beijo, tive
certeza absoluta de que fui o primeiro homem que a beijou.
Sentiu o corpo de Lucretia estremecer junto ao seu. Segurando o
queixo, levantou-lhe o rosto.
— Posso verificar se tinha razão? — perguntou, com desejo na voz.
As lágrimas escorriam pelo rosto dela. Com todo o carinho, ele beijou-
lhe os olhos, os cantos dos lábios e, finalmente, quando ela já não agüentava
mais, beijou-lhe a boca.
Lucretia sentiu novamente aquele êxtase selvagem. Mas agora era
mais intenso, mais maravilhoso. A pressão dos lábios do marquês nos seus
fazia com que uma chama percorresse todo seu corpo.
— Meu amor adorado, minha corajosa, doce e perfeita esposa!
Envergonhada, Lucretia escondeu o rosto.
— Foi… melhor… dessa vez?
Ele sorriu, beijando-lhe os cabelos.
— Foi o beijo mais maravilhoso que já me deram. Mas tenho que lhe
explicar, meu amor, se um homem gosta de mulheres sofisticadas para se
divertir, em compensação quer que a esposa seja pura e simples. — Apertou-
a com mais força. — Mataria qualquer homem que tivesse tocado em você e
juro que vou assassinar quem tentar fazer isso, de agora em diante. Além
disso, meu amor, você é minha e, se eu a vir olhando languidamente para
alguém que não seja eu… você vai apanhar!
Ela riu.
— Antes de voltar a beijar você, minha querida, tenho que lhe contar
os nossos planos. Se concordar, ficaremos uns dias aqui e depois iremos pela
costa até Dover. O primeiro-ministro me pediu para investigar as atividades
128
dos contrabandistas que estão assumindo proporções alarmantes, o que
significa que Napoleão está recebendo nosso ouro para prosseguir na guerra.
Lucretia tirou rapidamente a cabeça do ombro do marquês.
— Não é perigoso?
— Não. Só irei investigar. Não vou impedir nem prender ninguém.
Isso ficará por conta dos militares. — Viu o medo estampado no rosto dela e
acrescentou: — Mas, se eu estiver em perigo, terei você para me proteger!
Depois disso, creio que podemos passar o verão em Merlyncourt.
Os olhos dela brilharam de satisfação.
— Você não vai precisar mais ficar do lado de fora dos portões de
Merlyncourt, meu amor. Estará lá dentro, comigo. Vamos ter tantas coisas
para fazer. Especialmente, colocar de volta todos os tesouros que seu pai
guardou para mim.
— Vou adorar fazer isso. E estar em Merlyncourt, se… não… o
aborrecer.
— Pensa realmente que posso ficar aborrecido ao seu lado? Estou
apaixonado, e, enquanto estivermos juntos, nunca mais receie ter um noivo
entediado. — Beijou seu rosto. — Juntos! Essa é a palavra mais importante,
porque estaremos juntos à noite também. Não vai ficar mais sozinha, nem
precisar de um telescópio! Nem colocar o travesseiro entre nós.
— Você o tirou — disse Lucretia, acusadora.
— É verdade. Tirei, sim. Você estava tão quente, tão doce e adorável,
que não resisti.
— Por que não me disse? Eu pensei que você não me quisesse. Nunca
demonstrou que me desejava, enquanto estivemos na França. Nunca me
beijou. Esta manhã, quando acordei, pensei que o tinha perdido para sempre.
— Não devia ter pensado isso, meu amor. Mas olhe que foi muito
difícil não dizer que você é a pessoa mais linda que conheci.
— Acha mesmo?
— É mais bonita do que qualquer outra mulher no mundo. Quando a
vi pela primeira vez, achei-a parecida com as madonas que os mestres
italianos pintavam e pensei que tinha descoberto a pessoa por quem procurei
toda a minha vida. Mas quando você me provocava, tinha medo.
— Medo?
— Que outro homem a tivesse amado antes de mim.
— Isso teria muita importância?
Apertou-a tanto que ela mal conseguia respirar.
— Para mim, sim. Queria que me pertencesse, que fosse só minha.
129
Quando aqueles brutos a insultaram e você não entendeu o que queriam,
percebi que era uma criança e, ao mesmo tempo, a mulher que eu tinha
idealizado.
— Foi mesmo? Quer dizer que você… já me amava?
Parecia uma criança necessitando de certezas.
— Amo você com todo o meu coração e toda a minha alma. Lembra do
que lhe disse para perguntar ao homem que quisesse fazer amor com você?
Pois é tudo isso que tenho para lhe dar. Quando estávamos deitados juntos,
na fazenda, e ontem, quando a despi, constatei que você é a mulher mais
maravilhosa que já vi. Mas, como lhe havia prometido, me portei como um
cavalheiro!
Fez uma pausa e continuou docemente:
— Mas, Lucretia, já estou farto de me comportar como um cavalheiro.
Sentindo o rosto arder de timidez, ela disse, num murmúrio:
— Não quero que se farte mais… senhor.
Ela tirou os grampos que prendiam seus cabelos e o abraçou.
— Você é tão encantadora, meu amor. Quero beijá-la desde os cabelos
cheirando a violetas até esses pequeninos pezinhos. Mas, por enquanto, fico
em seus lábios, que me despertam um desejo louco, como nunca aconteceu
antes!
Acariciando seus seios, ele beijou-lhe a boca, fazendo com que Lucretia
sentisse uma paixão insaciável.
— Amo você. Deus, como eu amo você, querida!
Lucretia olhou para os olhos dele e viu a mesma expressão que a tinha
emocionado tanto, quando estava ajoelhada a seus pés, tirando as botas.
Era amor!
Um amor encantado e possessivo, tão ardente que ela se sentiu
consumida pela paixão.
Não era a emoção calma que tinha esperado. Era violenta, poderosa,
tempestuosa. Era o que devia sentir, quando fizesse amor com um homem
que amava e que a amava também.
— Você é minha! Minha, e eu a adoro. Você é meu único amor, minha
mulher e minha vida.
— Amo você também — sussurrou, contra os lábios do marquês. E
não houve necessidade de dizerem mais nada.
FIM
130
QUEM É BARBARA CARTLAND?
131
Não perca a próxima edição!
FEITIÇO CIGANO
Ao sair de casa, o marquês de Ruckley por pouco não é atingido por um bloco de
alvenaria que cai do telhado. Naquela noite, descobre, por acaso, que seu primo e
herdeiro havia apostado que receberia o título antes de o ano terminar. Isso significa
que o acidente era uma tentativa de assassinato, e que o marquês está marcado para
morrer. Mas uma linda cigana atravessa diante de sua carruagem e muda seu
destino. A misteriosa Saviya é capaz de ver o futuro e de encantar serpentes com a
voz. E de enfeitiçar os homens com seus olhos exóticos e sua dança arrebatadora.
Usando esses dons, salva a vida do marquês duas vezes. Mas de que adianta para
ele continuar vivendo, se nunca poderá ter o amor de Saviya?
132