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Apoio

PÓS-LIT
CAPES
PROEX
DA-LETRAS

belo horizonte ISSN: 1982-0739

V. 20 1 E FUTEBOL
JAN.-ABR. 2014
N.
LITERATURA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS EDITORES EM TESE
Reitor: Prof. Jaime Arturo Ramirez Cleber Araújo Cabral
Vice-Reitora: Profa. Sandra Regina Goulart Almeida Felipe Oliveira de Paula
Gustavo Cerqueira Guimarães
FACULDADE DE LETRAS DA UFMG João Alves Rocha Neto
Diretor: Prof. Luiz Francisco Dias Josué Borges de Araújo Godinho
Vice-Diretora: Profa. Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet
EDITORES DE SEÇÃO
PÓS-LIT – PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LITERÁRIOS DOSSIÊ – LITERATURA E FUTEBOL
Coordenadora: Profa. Graciela Inés Ravetti de Gómez Gustavo Cerqueira Guimarães
Subcoordenadora: Profa. Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa
ENSINO E TEORIA
COLEGIADO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LITERÁRIOS Cleber Araújo Cabral
Docentes Titulares: Julio César Jeha, Lyslei de Souza Nascimento, Maria Cecília
Bruzzi Boëchat, Matheus Trevizam, Myriam Corrêa de Araújo Ávila CRÍTICA LITERÁRIA, OUTRAS ARTES E MÍDIAS
João Alves Rocha Neto
Docentes Suplentes: Constância Lima Duarte, Elisa Maria Amorim Vieira, TRADUÇÃO E EDIÇÃO
José de Paiva dos Santos, Maria Juliana Gambogi Teixeira, Teodoro Rennó Felipe Oliveira de Paula
Assunção
EM TESE
Discentes Titulares: Alex Alves Fogal e Paulo Roberto Barreto Caetano Josué Borges de Araújo Godinho
ENTREVISTAS
Discentes Suplentes: Alex Sander Luiz Campos e Gustavo Henrique Montes Frade Felipe Oliveira de Paula

Secretária: Letícia Magalhães Munaier Teixeira RESENHAS


Josué Borges de Araújo Godinho
POÉTICAS
Gustavo Cerqueira Guimarães
CONSELHO EDITORIAL Vânia Maria Baeta Andrade - UFMG
Adélcio Sousa Cruz - UFV
Ana Paula Arnaut - Universidade de Coimbra PARECERISTAS AD HOC DESTE VOLUME
Andréa Sirihal Werkema - UERJ Cleber Araújo Cabral - UFMG
Antônio Marcos Pereira - UFBA Edônio Alves Nascimento - UFPB
Antonio Marcos Vieira Sanseverino - UFRGS Francisco Pinheiro - Universidade de Coimbra
Cynthia Santos Barra - UNIR Raul Amaro de Oliveira Lanari - UFMG
Elcio Loureiro Cornelsen - UFMG Victor da Rosa - UFSC
Emerson da Cruz Inácio - USP
Emílio Carlos Roscoe Maciel - UFOP PROJETO GRÁFICO
Ernani de Castro Maletta - UFMG Priscila Justina
Graciela Ravetti - UFMG | Pi Laboratório Editorial
Eduardo Soares
Georg Wink - Freie Universität Berlin
Heike Muranyi - Deutscher Akademischer Austauschdienst
PROGRAMAÇÃO WEB
Jacyntho Lins Brandão - UFMG
João Nilson Pereira de Alencar - UFSC Reginaldo Gomes
Joelma Santana Siqueira - UFV
Julio Jeha - UFMG IMAGENS DESTE NÚMERO
Leda Maria Martins - UFMG Nuno Ramos
Lucia Castello Branco - UFMG
Luiz Morando - UFMG/Uni-BH DIAGRAMAÇÃO
Luiz Nazário - UFMG Priscila Justina
Marcelino Rodrigues da Silva - UFMG
Marcos Antônio Alexandre - UFMG REVISÃO
Marcos Rogério Cordeiro Fernandes - UFMG
A revisão dos textos deste número foi de inteira responsabilidade de seus
Maria Cristina Batalha - UERJ
respectivos autores.
Mônica Medeiros Ribeiro - UFMG
Nina Caetano - UFOP
Ozíris Borges Filho - UFTM
Paulo Fonseca Andrade - UFU
Pedro Dolabela Chagas - UESB
Roberto Corrêa dos Santos - UERJ
Sandra Regina Goulart Almeida - UFMG
Sandro Ornellas - UFBA
Tatiana da Silva Pequeno - UFF
Tereza Virginia Ribeiro Barbosa - UFMG
SUMÁRIO APRESENTAÇÃO
A BARBÁRIE EM CAMPO
Breno Pauxis Muinhos

ALDIR BLANC, O GOLEIRO BARBOSA E MARX, ENGELS E OS ESCRITORES


O ARRASA-CURIÓ: UMA LEITURA DO ROMÂNTICOS

Apresentação FUTEBOL NA CRÔNICA “SINA”


Luis Eduardo Veloso Garcia
Robert Sayre
Michael Löwy
Maria Juliana Gambogi Teixeira (trad.)
A REPÚBLICA DO FUTEBOL: IMAGENS
LITERÁRIAS DOS PRIMEIROS TEMPOS AS DISJUNÇÕES COMO CHAVE PARA
Dossiê Tatiana Sena UMA INTERPRETAÇÃO DIALÉTICA DE
ANGÚSTIA
AS LETRAS AO RITMO DA BOLA: UMA Felipe Oliveira de Paula
HISTÓRIA DA IMPRENSA ARTÍSTICO-
Ensino e Teoria DESPORTIVA EM PORTUGAL O FUTEBOL VISTO DA ACADEMIA:
Francisco Pinheiro ENTREVISTA COM ELCIO CORNELSEN E
SILVIO RICARDO
Crítica Literária, outras Artes e Mídias A TABELINHA ENTRE O FUTEBOL E A
POESIA
Marcelino Rodrigues da Silva

Gustavo Cerqueira Guimarães AO REDOR DO FUTEBOL: ENTREVISTA

Tradução e Edição DA CRÔNICA JORNALÍSTICA AO CONTO


COM NUNO RAMOS
Victor da Rosa
DE FICÇÃO: O FUTEBOL COMO FORMA Gustavo Cerqueira Guimarães
LITERÁRIA
Em Tese Edônio Alves Nascimento ONZE MAIS UM: INSTALAÇÃO POÉTICA
NO MUSEU DO MINEIRÃO, 2014
GARRINCHA: O (ANTI-)HERÓI PELO Victor da Rosa
Entrevistas OLHAR DOS CRONISTAS
Gustavo Araújo de Freitas IMAGEM
PLACAR FINAL
HINOS DE FUTEBOL EM PORTUGAL:
Resenhas DOS HINOS MARCIAIS AOS POPULARES Nuno Ramos
Elcio Loureiro Cornelsen
UM A ZERO

Poéticas Pablo Lobato


SUMÁRIO ÁUDIO
POESIA SONORA & FUTEBOL
Fabiano Fonseca

VÍDEO

Apresentação COPA ALEIXO


João Moreira

TEXTO
APRENDIZADO DO JOGO
Dossiê Marcílio França Castro

CRÔNICA DE UM HOMEM DE FUTEBOL


Ensino e Teoria Rafael Fares

LUDOPOESIAS

Crítica Literária, outras Artes e Mídias Elcio Cornelsen

Tradução e Edição

Em Tese

Entrevistas

Resenhas

Poéticas
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APRESENTAÇÃO

A revista Em Tese, em sua 20ª edição, traz como tema para Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Paulo
o dossiê: “LITERATURA E FUTEBOL”. Com o intuito de Mendes Campos, Armando Nogueira, Fernando Veríssimo,
problematizar o assunto no âmbito dos Estudos Literários, e, Aldir Blanc, dentre outros.
em parte também, pela perspectiva da realização da XX Copa
As possibilidades de exploração do futebol no campo das
do Mundo, no Brasil, trazemos pesquisadores e artistas a re-
artes se tornam ainda mais vastas se as associarmos à MPB,
fletir sobre a relação da Literatura com o Futebol, bem como
ao cinema, à fotografia, à mitologia, aos HQs, às charges,
a forte presença deste nas outras artes e em nosso cotidiano.
à biografia e à memória, etc. Por outro lado, se ponderar-
Nessa relação, destacam-se as contribuições da crônica mos estritamente os Estudos Literários advindos dessa rela-
esportiva para a edificação do futebol em nosso imaginário ção, constata-se que as pesquisas tomam impulso somente a
coletivo e em nossa literatura, e também a portuguesa de partir dos anos 1980, acrescidas de maneira mais ampla ao
modo mais amplo, desde o início do século XX. Sobretudo, campo das Ciências Humanas (história, sociologia, antro-
por meio das crônicas do jornalista Mário Rodrigues Filho pologia, jornalismo, psicanálise, ciência política, estudos do
nos anos 1920 e 1930, e, posteriormente, nas crônicas de lazer, etc.).
8

Nessa perspectiva, o Dossiê traz o artigo “Aldir Blanc, o uma relação especial entre cultura, desporto, literatura e fu-
goleiro Barbosa e o arrasa-curió”, de Luis Eduardo Veloso tebol. Gustavo Cerqueira Guimarães, no artigo “A tabelinha
Garcia, no qual analisa o modo que o futebol pode ser inter- entre o futebol e a poesia”, ao perspectivar o movimento da
pretado na crônica “Sina”, de Aldir Blanc, destacando a fi- relação entre poesia e futebol no Brasil, traça um promissor
gura trágica do goleiro Barbosa, e sua representatividade no campo de estudo entre eles. No ensaio “Da crônica jornalís-
futebol e no cotidiano brasileiros. O artigo “A república do tica ao conto de ficção”, Edônio Alves Nascimento tenta ex-
futebol”, de Tatiana Sena, investiga imagens e memórias do plicar como a representação linguística do jogo de futebol no
futebol em sua fase de difusão, durante as primeiras décadas Brasil evoluiu do seu campo meramente referencial, jorna-
do governo republicano. Em “As letras ao ritmo da bola”, o lístico, para o espaço estético, lúdico, da literatura. Gustavo
pesquisador lusitano Francisco Pinheiro se debruça sobre o Araújo de Freitas, em “Garrincha: o (anti-)herói pelo olhar
jornalismo desportivo em Portugal entre 1875 e 2000, e re- dos cronistas”, busca desvendar um pouco mais essa perso-
vela a publicação de 940 periódicos desportivos, englobando nagem e seu estatuto de herói ou “anti-herói” nacional em

Apresentação
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algumas crônicas de escritores brasileiros. Por último, te- literatura e barbárie, para isso, vale-se da obra Futebol ao sol
mos o trabalho de Elcio Cornelsen, “Hinos de futebol em e à sombra, de Eduardo Galeano, e de algumas crônicas do
Portugal”, que analisa comparativamente as letras de hinos mesmo autor.
de clubes portugueses à luz da fase de transição dos hinos
Para a seção Tradução e Edição, a professora Maria
marciais das primeiras décadas do século XX para os hinos
Juliana Gambogi Teixeira traduziu o artigo de Robert Sayre
populares a partir da década de 1950, tomando por base seus
e Michael Löwy, intitulado “Marx, Engels e os escritores ro-
elementos líricos, épicos e dramáticos.
mânticos”, no qual mostra a relação de Karl Marx e Friedrich
Extraordinariamente, a seção Ensino e Teoria não conta Engels com grandes escritores do Romantismo.
com artigos neste número.
Na seção Em Tese, Felipe Oliveira de Paula apresenta
Na seção Crítica Literária, outras Artes e Mídias, uma leitura de Graciliano Ramos em “A disjunção como cha-
Breno Pauxis Muinhos debruça-se sobre a relação entre ve de leitura para uma interpretação de Angústia”, tendo a

Apresentação
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disjunção como princípio organizador da obra e da formação futebolísticos de autores mineiros, que podem ser lidos e
da individualidade de Luís da Silva, o narrador-protagonista. escutados pelos visitantes no Museu Brasileiro do Futebol.
Em Entrevistas, o artista Nuno Ramos fala sobre a rela- A seção Poéticas expõe trabalhos de Imagem, Vídeo, Som
ção entre futebol, arte, e política, bem como sobre seu pró- e Texto, que exploram o diálogo da literatura e outras artes
prio envolvimento com o futebol. Por outro lado, os profes- com o futebol, em consonância com o tema do Dossiê.
sores da UFMG Elcio Cornelsen, da Faculdade de Letras, e
Nuno Ramos, escritor e artista plástico paulistano, expõe a
Silvio Ricardo, da Escola de Educação Física, Fisioterapia e
inquietante série fotográfica “Placar final” (2007), que retra-
Terapia Ocupacional, falam sobre as pesquisas acadêmicas a
ta sua “performance” realizada no estádio Virgílio Ferreira
respeito do futebol no Brasil e em Minas Gerais atualmente.
Jorge, em Orlândia-SP. O artista visual Pablo Lobato apre-
Em Resenhas, Victor da Rosa apresenta a Instalação poéti- senta a série “Um a zero”, composta por cinco fotografias,
ca no Museu do Mineirão (2014), composta por doze poemas pela quais nos mostra o instante do gol.

Apresentação
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João Moreira, de Coimbra, criador de um dos mais in- poética “Ludopoesia”, de Elcio Cornelsen, todos versando
teressantes personagens da videoanimação portuguesa, o sobre o futebol e a memória no cotidiano.
Bruno Aleixo, mostra-nos um dos vídeos da série “Copa
Aleixo”, destacando a seleção portuguesa.
Boa leitura!
O multiartista Fabiano Fonseca apresenta quatro poemas
sonorizados que tematizam o futebol, interpretados pe- Cleber Araújo Cabral
los próprios autores Adriana Versiani, Adriano Menezes, Felipe Oliveira de Paula
Carlos Barroso e Jovino Machado.
Gustavo Cerqueira Guimarães
Por fim, contamos com os textos literários “Aprendizado
do jogo”, do contista belorizontino Marcílio França Castro, João Alves Rocha Neto
“Crônica de um homem de futebol”, de Rafael Fares, e a série Josué Borges de Araújo Godinho

Apresentação
ALDIR BLANC, O GOLEIRO BARBOSA E
O ARRASA-CURIÓ: UMA LEITURA DO
FUTEBOL NA CRÔNICA “SINA”

Luis Eduardo Veloso Garcia* * dinhopiraju@gmail.com


Doutorando em Estudos Literários pela UNESP/
Araraquara, Mestre em Estudos Literários pela UEL, e
Especialista em Estudos Linguísticos e Literários pela
UENP.

RESUMO: Procuraremos neste artigo analisar o modo ABSTRACT: This paper aims to analyze how the football
que o futebol pode ser interpretado dentro da crônica can be interpreted in the chronicle “Sina”, of the book
“Sina”, presente no livro Brasil Passado a Sujo – A Traje- Brasil Passado a Sujo – A Trajetória de uma Porrada de
tória de uma Porrada de Farsantes (1993), de Aldir Blanc. Farsantes (1993), by Aldir Blanc. Through of this chron-
Através da crônica escolhida, explicitaremos como este icle selected, we will investigate as this sport is por-
esporte é retratado na obra do autor pela inserção de trayed in work of the author by inserting their mythic
seus elementos míticos, mais precisamente neste texto elements, more precisely in this text by the tragic figure
pela trágica figura do goleiro Barbosa, e pela represen- of goalkeeper Barbosa, and by the representativeness of
tatividade do futebol dentro de nosso cotidiano, a tal football in our daily like of being propulsor of the several
ponto de ser propulsor de diversos discursos referentes discourses concerning the local from which the author
ao espaço do qual o autor faz parte, a Zona Norte do Rio is part, the Zona Norte of Rio de Janeiro demarcated by
de Janeiro demarcada pela Vila Isabel. Vila Isabel.

PALAVRAS-CHAVE: Aldir Blanc; Futebol; Crônica; Cotidiano. KEYWORDS: Aldir Blanc; Footballl; Chronicle; Daily.
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O artigo em questão objetiva traçar uma leitura do fute- – que será pormenorizado em nossa análise – que, ao levar
bol dentro da crônica “Sina”, do livro Brasil Passado a Sujo os dois gols na maior tragédia do futebol brasileiro, a final da
– A Trajetória de uma Porrada de Farsantes (1993), do escri- Copa do Mundo de 1950 no Maracanã, não só se tornou o
tor, compositor, poeta, romancista, historiador e até médico responsável pela derrota, como diretamente virou o símbolo
Aldir Blanc. da tragédia.
Através da interpretação da crônica, analisaremos o modo Tal exemplo é constantemente lembrado quando um jo-
como este esporte é retratado na obra do autor pela inserção gador da atualidade comete um erro tão trágico que pode
de seus elementos míticos e pela representatividade do fute- colocar em risco sua carreira. É pela significação, então, no
bol dentro de nosso cotidiano. passado da “falha” e o peso que Barbosa carrega por culpa
dela que a interpretação desse valor pode ser construída no
Interpretando as situações passadas pelo protagonista que
presente.
ganhará a alcunha de Arrasa-Curió dentro do texto, iremos
levantar um paralelo de sua figura com a representação trá- Outro caráter do mito que participa desta ponte com o fu-
gica da qual o goleiro Barbosa está diretamente ligado por tebol é seu indiscutível valor como organizador de relações
causa da função mítica construída em torno de seu nome. sociais, pois carrega e legitima alguns pensamentos gerais
que formam uma unidade palpável na sociedade. Noções
Em relação aos elementos míticos, levaremos em conside-
como a culpa podem ser mais bem entendidas pela referên-
ração a maneira que o futebol concebe em sua visão popular
cia a um mito como o de Édipo, assim como a noção de per-
uma significação para alguns jogadores, times ou jogadas que
sistência por um Hércules e seus 12 trabalhos, entre tantas
vão além do espaço restrito deste esporte, aceitando para si
outras. O valor da tragédia e o sofrimento são entendidos
algumas noções que fazem parte da criação do mito.
perfeitamente por uma sociedade como a brasileira ao reme-
Funções importantes do mito como a ressignificação no ter à lembrança do já citado Barbosa.
presente, sendo sempre explicado por uma ação que aconte-
O principal significado de um mito é, portanto, como nos
ceu no passado, mas que se desloca ganhando sentido tam-
diz Marilena Chauí no livro Convite a Filosofia (2004), con-
bém no presente, são bastante perceptíveis no esporte em
ceber um modo de organizar a realidade por meio da atri-
questão, como poderemos ver no caso do goleiro Barbosa
buição de um sentido metafórico aos fatos e as coisas que nos

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cercam. Pelo mito também é possível criar relações das quais Entre as falas que colaboram para a reflexão sobre o valor
a sociabilidade se fortalece, com vínculos que facilitam a aco- que este esporte adquire em nosso país, temos a apresenta-
modação com o meio que vivemos, tornando o que poderia ção do conhecido Dossiê sobre o futebol feito pela Revista
soar de difícil compreensão algo palpável por sua relação USP, na qual o professor do departamento de sociologia da
formalizada pela ordem do mito. USP José Carlos Bruni reclama que o futebol, na simplifica-
ção de valores que aplicam a ele,
Por isso, questões como a permanência e ressignificações
de um símbolo que confronta com a atemporalidade são as mal deixa entrever o universo de significações simbólicas,
principais chaves de entendimento do mito, que nos discur- psíquicas, sociais, culturais, históricas, políticas e econômi-
sos e espaços relacionados ao futebol encontram a vazão ne- cas inesgotáveis que envolvem multidões, encontradas no
cessária em nossa sociedade, pois mais do que um esporte público em geral, nas torcidas organizadas, nos jogadores e
por aqui, é uma forma de identidade e compreensão nacional equipes técnicas e burocráticas, concentradas em torno de
como veremos no decorrer do trabalho. um espetáculo que empolga sociedades, nações, países, es-
tados, em esfera planetária, mobilizando milhões de dólares
Tais elementos míticos presentes no cotidiano se apresen-
conquistando a adesão cada vez maior de pessoas de todas as
tam na descrição do dia a dia do espaço urbano que a obra de
camadas sociais.1
Aldir Blanc se ocupa, demarcada pela linguagem, pelos hábi- 1. BRUNI. Revista USP: dossiê
futebol, p. 7.
tos, e, principalmente, pelas cenas que vão desde uma briga
Nessa impressionante gama de significações e espaços que o
de casal até o mais abusado dos papos de boteco, respeitando
futebol atinge diretamente, com um peso ainda mais relevan-
sempre as especificidades daquele cotidiano retratado.
te no Brasil que tem suas bases de identidade e nacionalidade
Por se preocupar com o retrato do cotidiano nacional, construídas em paralelo com uma porcentagem do ideal fute-
com o recorte específico para o espaço urbano do subúrbio bolístico, a intensa produção de discursos que ele gera com-
carioca da Zona Norte, obviamente a obra de Aldir Blanc preende um alcance inimaginável na função de “complexo
versará sobre o futebol, que é um elemento constituinte não fenômeno de comunicação de massa”, como aponta o autor
só daquele espaço, mas de qualquer referência cotidiana den- Marcelino Rodrigues da Silva, em sua dissertação intitulada “O
tro do nosso país. Mundo do Futebol nas Crônicas de Nelson Rodrigues” (1997):

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os cantos e gritos de guerra das torcidas, as “conversas Na elaboração deste pensamento, o autor busca na in-
de botequim”, o discurso verbal do jornalismo impresso, ra- trodução do livro Elementos de Semiologia (1993), de Roland
diofônico e televisivo, a iconografia impressa dos jornais e Barthes, a sustentação da ideia de que “perceber o que signi-
revistas, o discurso imagético da televisão e do cinema, etc. fica uma substância é, fatalmente, recorrer ao recorte da lín-
Discursos que são produzidos e consumidos diariamente por gua” e que “sentido só existe quando denominado, e o mun-
um grande número de pessoas e que ocupam um espaço bas- do dos significados não é outro senão o da linguagem”.4 No
4. BARTHES. Elementos de
tante significativo em nossa cultura.2 caso do “recorte da língua” feito por Marcelino Rodrigues semiologia, p. 12.
2. SILVA. O mundo do futebol nas
crônicas de Nelson Rodrigues, da Silva, o processo que ele abrange – “a análise do funcio-
p. 8. Para Marcelino (1997), esses discursos consumidos tão inten- namento do futebol como sistema de significação” – recorre
samente dentro do cotidiano nacional refletem num caráter aos “discursos que a sociedade produz a partir do jogo de
semiótico que o futebol pode estabelecer, capaz de produzir futebol”, especificamente na imprensa esportiva, que é “um
sentidos variados “aos personagens, instituições e aconteci- lugar privilegiado para a produção e a cristalização dos sen-
mentos do universo futebolístico brasileiro”, tornando-o um tidos que o imaginário social brasileiro atribui aos aconteci-
“sistema de significação extremamente dinâmico e especial- mentos, personagens e instituições do mundo do futebol”.5
5. SILVA. O mundo do futebol nas
mente relevante dentro do universo cultural brasileiro”, entre crônicas de Nelson Rodrigues,
Em relação ao nosso trabalho, apontaremos este “recorte
os quais se pode destacar algumas representações como estas: p. 40.
da língua” para o subúrbio carioca de Vila Isabel para com-
preender dentro de seus discursos tão bem alocados nos tex-
Os jogadores tornam-se grandes ídolos populares, encarnando tos de Aldir Blanc o modo que o peso mítico de Barbosa é
desejos e aspirações da coletividade; os clubes se identificam interpretado na crônica escolhida para a análise.
com certas parcelas da população e passam a representá-las (os
“times da elite”, os “times da massa”, os clubes ligados a colônias Por ser uma obra calcada no cotidiano urbano, especifi-
de imigrantes, etc); os jogos e campeonatos são tomados como camente de uma cidade de um país do qual o futebol é um
representação de conflitos sociais; as histórias das vitórias nas elemento constituinte do dia a dia, os textos de Aldir Blanc
competições internacionais se transformam em grandes épicas trabalham com o futebol de diversas maneiras, desde seu uso
3. SILVA. O mundo do futebol nas de exaltação da nação; etc.3 como temática direta, ou de construção de frases que fazem
crônicas de Nelson Rodrigues,
p. 9.
parte deste universo futebolístico mas colocadas em outras

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contextualizações, até as citações constantes de grandes per- Cara Bacana na 19ª (1996) e Rua dos Artistas e Transversais
sonagens, jogadas e times que pertencem à mítica construída (2006), todos formados exclusivamente pela sua produção
do imaginário futebolístico brasileiro. de cronista.
Portanto, a produção de Aldir Blanc faz do futebol não só Entre as principais características do autor dentro do gê-
um tema recorrente capaz de convergir com o retrato do co- nero, destacam-se a força eminente de um grande talento
tidiano urbano nacional, mas, acima de tudo, um elemento para retratar os tipos e a linguagem do subúrbio carioca,
inerente do espaço que define sua obra. mais especificamente a Zona Norte do Rio de Janeiro, espa-
ço no qual ele cresceu e ainda vive até hoje.
No caso da crônica especificamente, então, temos um es-
paço capaz de refletir o cotidiano urbano de forma leve e na- De texto coloquial e enxuto, a fala das ruas torna-se o
tural, mas em nenhum momento supérfluo, como apontam elemento fundamental para a compreensão do trabalho de
todos os teóricos que escreveram sobre a crônica, definindo- Aldir Blanc nas crônicas, cujas comparações com outros au-
-a como o caminho da “cidade feita letra” – nas palavras de tores – entre eles Nelson Rodrigues, Sérgio Porto, Rubem
Eduardo Portella no ensaio “A Cidade e a Letra” (1958) – Braga, e até João do Rio – acabam tornando-se naturais para
como a chave do entendimento deste gênero. alguns estudiosos.
A produção de Aldir Blanc em crônica, embora pouco es- Ao posicionarmos a crônica como a representação literá-
tudada, é extensa, com mais de 30 anos de colaborações em ria de nosso cotidiano, obviamente o futebol aparece com
diversos jornais do país, entre eles, o marcante início dentro grande força, sendo ele um dos elementos constituintes do
do Pasquim, em 1975, as publicações nos veículos A Hora dia a dia brasileiro, seja nas conversas, nos meios de comu-
do Povo, Última Hora, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil, O nicação, ou mesmo na prática deste esporte.
Estado de São Paulo, O Dia, O Pasquim21 e O Globo, onde ainda
Nas crônicas de Aldir Blanc, portanto, o futebol aparece
escreve mensalmente; somando as contribuições para as re-
com uma função primordial: representar, através dos seus
vistas Bundas e Playboy; além de seus livros Rua dos Artistas
elementos míticos – jogadores, jogadas ou jogos marcantes
e Arredores (1978), Porta de Tinturaria (1981), Brasil Passado
– e da linguagem pertencente a este esporte, outros níveis
a Sujo – A Trajetória de uma Porrada de Farsantes (1993), Um

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interpretativos dentro destas crônicas, nas quais o futebol se acontecer, isolando-se então em sua própria solidão, pois
torna um interessante caminho para a compreensão. “tinha medo que descobrissem sua falta de assunto, seu per-
manente mal-estar diante das pessoas, seus gestos descon-
Após esta explanação, entramos agora na análise por-
trolados que derrubavam jarros, derramavam copos e atin-
menorizada da crônica “Sina”, relativizando o modo que o
giam crianças”.6
elemento mítico referente ao goleiro Barbosa é explorado 6. BLANC. Brasil passado a sujo:
a trajetória de uma porrada de
dentro do texto. No pensamento deste personagem, ele nunca alcançaria farsantes, p. 59.
o status daqueles homens dos bares dos quais considerava,
“Sina”
literalmente, seus heróis – verdadeiros ex-pracinhas sempre
Na crônica “Sina”, presente no livro Brasil Passado a Sujo com alguma história das batalhas passadas prontas para se-
– A Trajetória de uma Porrada de Farsantes (1993), o futebol rem contadas:
cumpre um papel importante de socialização, sendo o meio
que aproxima um personagem solitário que se sente desloca- Pra ele, aqueles homens de cigarro no canto da boca sem quei-
do, e que sonha ser aceito pelo espaço em que o futebol reina: mar, de programa de corrida de cavalos nas mãos ágeis, dedos
as conversas de dentro dos butecos. Além disso, a compreen- sujos de giz de sinuca, bigodes cuidadosamente aparados, de
são de um sujeito trágico como o goleiro Barbosa – o único olhares ávidos e experientes pra bunda das mulheres – aqueles
que até hoje é insistentemente lembrado pela derrota contra homens eram heróis. Sentia diante deles a mesma timidez, o
o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, uma das mesmo constrangimento, a mesmo dor indecifrável que ex-
datas mais tristes da história do nosso futebol – é um inte- perimentara em sua cidade natal, ao ouvir as histórias do Seu
ressante paralelo com a construção do personagem do texto. Rocha, o ex-pracinha.

Na narração, temos então a história de um “sujeito gran- Nos butecos do Estácio todos eram, com certeza, ex-praci-
dalhão, desajeitado e com um nome desses que, embora sim- nhas. Só ele ainda não havia lutado sua grande guerra, só ele
ples, ninguém decora”, rapaz este que vivia melindrado no não tinha nada pra contar sobre as batalhas, só ele não havia
bairro do Estácio onde morava, pois seu sonho era ser igual feito as quase eternas camaradagens.7
7. BLANC. Brasil passado a sujo:
aos frequentadores dos butecos de lá, porém, totalmente in- Outro grande medo do personagem, “muito pior do que se
a trajetória de uma porrada de
farsantes, p. 59.
seguro e atrapalhado, achava isso uma tarefa impossível de achar um merda” na frente dos heróis dos butecos, era “o ter-

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ror do apelido” que ele poderia receber deles, “porque aqueles disse que tava certo e perguntou se ele lembrava a linha de
caras espertos, cheios de chinfra, mais cedo ou mais tarde 56”. A resposta foi “na lata”:
iam botar nele um apelido devastador, asfixiante, mortal”.8
8. BLANC. Brasil passado a sujo:
a trajetória de uma porrada de - Sabará, Livinho, Vavá, Válter e Pinga numa das últimas par-
farsantes, p. 59. Por tanta admiração, misturada com seu característico pâ-
tidas, se não me engano. Sabará foi substituído por Lierte, com
nico, ele vivia nos “recantos escuros dos bares vazios, onde
i. Não confundir com Laerte, que jogava no meio e era, por sua
bebericava uma cerveja, a espreita de alguma sacanagem, ou-
vez, substituído por Écio. Se não me engano.10
vidos atentos às evasivas de duplo sentido, torturado pelos 10. BLANC. Brasil passado a sujo:
a trajetória de uma porrada de
risos às suas costas” (Idem, ibidem, p. 60). Porém, um dia, Pronto. Com uma resposta com tanta classe assim, o que farsantes, p. 60.
depois da “sexta cerva”, ao ouvir uma frase sobre futebol, parecia impossível aconteceu, recebendo “as homenagens a
criou coragem e dirigiu a palavra àquela turma que tanto que boa memória tem direito: tira de queijinho, essa eu pago,
idolatrava, com ainda mais astúcia, pois foi através da cor- também aprecia um rabo empinado?” (BLANC, 1993, p. 60).
reção de uma bobagem dita por um dos frequentadores do Tanto sucesso fez na mesa do buteco por causa da paixão – e
espaço: memória – futebolística que acabou sendo convidado para
uma seresta na casa do Paulo Amarelo, uma honra gigantes-
- Valter Marciano foi dos nossos primeiros jogadores a brilhar ca para ele: “O Amarelo é um mito. Amigo do Amadeu, Tião
na Itália. da Garagem, Ceceu Rico, Hélio Barbeiro, Beijo Louco...”.11
11. BLANC. Brasil passado a sujo:
Mancada é sempre comovente, ainda mais se o sujeito é vas- Na seresta, quando achou que o medo ia atrapalhá-lo, enga- a trajetória de uma porrada de
caíno. Surpreso com a própria coragem, corrigiu o baixinho nou-se, e fez muito sucesso: farsantes, p. 60.
que chutara pra fora:
- Valter Marciano foi, de fato, um ídolo. Só que na Espanha. Tentou ficar atrás de uma goiabeira no quintal do pagode, mas
Morreu lá, num acidente de automóvel.9 foi saudado com grandes berros de “chega prá cá e junta-te aos
9. BLANC. Brasil passado a sujo:
a trajetória de uma porrada de
bons”. Quase chorou. Os primeiros copos deram uma força.
farsantes, p. 60. Tamanho despautério de corrigir um daqueles heróis causou Acabou cantando aquela, “Dentro d’alma dolorida trago um
espanto entre eles, por isso, “um mulato de óculos escuros riso teu...”. A moça de olhos claros deixou cair o lenço. Um
coroa resmungou: “Esse grandão é dos meus”.

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12. BLANC. Brasil passado a sujo:


A noite era uma criança e ele reinava.12 discursos compartilhados no dia a dia, encontra no espaço
a trajetória de uma porrada de
Porém, a seresta guardava um momento especial e deci- do bar um dos locais para a disseminação desses discursos.
farsantes, p. 60.
sivo para o personagem central desta crônica: o batismo, a O bar acaba representando um recorte interessante para
escolha de seu apelido definitivo. compreender a dinâmica de interação que se estrutura no
cotidiano, pois é perceptível na construção do personagem
O baixinho do buteco pediu: da crônica noções como a aceitação pelo grupo, o medo da
- Conta aquela defesa do Barbosa! rejeição naquele local, e, principalmente, a redenção cons-
truída pelo compartilhamento de um discurso em comum
A catástrofe. Em plena ponte dos grandes braços pro canto
perante os indivíduos daquele determinado espaço.
esquerdo da meta, o safanão na gaiola do curió. O passarinho
morto. A consternação do dono da casa. A referência ao Barbosa pode ser interpretada na crônica
Amadeu tacou-lhe um generoso cacete nas costas: como a concretização de um elemento mítico de nosso fute-
bol, pois o drama de aceitação que o personagem atravessa
- Fica assim não. Isso acontece. Aí, minha gente, tristezas não
constitui um paralelo interessante com a história do próprio
pagam dívidas! Passemos à próxima atração! A seguir, ouvi-
goleiro, do qual Aldir Blanc sempre foi um dos maiores de-
remos “Chão de Estrelas” na voz do nosso Arrasa-Curió.13
13. BLANC. Brasil passado a sujo: fensores e fãs.
a trajetória de uma porrada de
farsantes, p. 61. Depois da imitação do trágico goleiro Barbosa com o final Como já foi citado anteriormente, Barbosa é o goleiro da
trágico do pobre curió, o rapaz finalmente ganhava o temi- Seleção Brasileira que perde a final da Copa do Mundo de
do – e divertido, neste caso – apelido. “O apelido. Para sem- 1950 aqui no Brasil, no famoso Maracanazo,15 e o segundo
pre”.14 O Arrasa-Curió. 15. Para entender melhor essa
14. BLANC. Brasil passado a sujo: gol em que o time do Uruguai vira a partida nos últimos mi- situação, recomenda-se a leitura
a trajetória de uma porrada de
Como pode-se perceber neste resumo da crônica, o futebol nutos acaba por ser considerado uma grande falha sua, pois de Maracanazo – Tragédias e
farsantes, p. 61. epopeias de um estádio com
acaba sendo o caminho possível para aproximar o Arrasa- este deixa a bola passar através de um espaço mínimo entre alma (2010), de Teixeira Heizer.
Curió dos seus heróis de buteco, e entre as causas possíveis ele a trave, estigmatizando a figura do goleiro, que sofrerá o
para tal ocorrência, podemos elencar o alcance deste esporte peso de carregar toda a culpa daquela derrota eternamente.
em nosso cotidiano, que além de ser capaz de gerar inúmeros

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A rejeição que Barbosa sofre é tão grande, que acabou ele escreve sobre a história do seu time do coração no livro
se tornando um ótimo tema para os cronistas esportivos, Vasco – a cruz do bacalhau (2009), que é intitulado de “Ícaro
pois a sua história sempre reaparece quando descrevem uma – Barbosa”, com a devida aproximação da trágica situação
grande tragédia futebolística. Até mesmo Nelson Rodrigues que o grande goleiro encarou a vida inteira com a mitológica
deixou inúmeras crônicas sobre o goleiro16, e assim como história de Ícaro:
16. Além da crônica citada,
encontram-se também faz Aldir, defende a importância do goleiro e define a real
referências a outras no artigo “A dimensão deste mito do nosso esporte como eterno: A história trabalha num espaço curvo de uma falta cobrada
Memória do Trauma de 1950 no
Testemunho do Goleiro Barbosa”, com estilo. Se o leitor perguntar, na mesa de “coroas” na qual
de Elcio Loureiro Cornelsen. Vejam 50. Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso meu pai bebe, do alto de seus 86 anos de vascaíno remido,
geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa, no Momo, qual foi o maior goleiro que viram atuar, com as
o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, raríssimas exceções que cagam a regra, ouvirão em uníssono:
compacta, da derrota. Barbosa.

O gol de Gigghia ficou gravado, como um frango eterno. O Barbosa, ao lado de Zico, foi a mais trágica figura do fute-
brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obriga- bol brasileiro. Perderam um título em segundos. No caso de
tória, da Espanhola, do assassinato de Pinheiro Machado. Barbosa, numa escapada de Ghiggia, que muitos atribuem
Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado frango de à falha da defesa, Barbosa tomou o tal frango e viu todas
Barbosa. as suas defesas miraculosas virarem pó. Revendo o lance, é
muito difícil dizer que houve falha naquele chute cruzado.
Qualquer um outro estaria morto, enterrado, com o seguinte Antes ser conhecido por um pretenso frango imortal diante
epitáfio: - “Aqui jaz fulano, assassinado por um frango”. Ora, de 173.850 pessoas (público oficial) a marcar toca na várzea
eu comecei a desconfiar da eternidade de Barbosa, quando a vida inteira.
ele sobreviveu a 50. Então, concluí de mim para mim: - “Esse
camarada não morre mais!”. Não morreu e pelo contrário: - Em dois segundos vertiginosos, Barbosa experimentou a
está cada vez mais vivo.17 queda mitológica de Ícaro. Só que o goleiro, discreto e com-
17. RODRIGUES. A pátria em petente, não teve a vaidade de se aproximar do sol e sim de
chuteiras, p. 71-72. A admiração que Aldir Blanc tem por Barbosa é tão gran- uma simples bola de couro que lhe queimou o voo. Mas há
de que o goleiro é inclusive matéria de um dos textos que paradoxos nas lendas: à medida que o tempo passa, as asas

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queimadas de Barbosa adquirem a pátina dourada da histó-


ria. Em outra versão do mito, Ícaro afogou-se quando busca- o gol que não houve, a bola na trave
va o pai e seu barco afundou. Parece coisa de português. Aqui ou presa entre as asas do seu vôo de ave
também vemos o contrário funcionando: se aquela tarde fa- são pontos a mais no seu placar tonto
tídica pode ser considerada a data do naufrágio de Barbosa,
a cada dia que passa, ele, atlântico, sai cada vez mais das pro- seu companheiro, o goleiro adversário
fundezas para o sol generoso da posteridade.18 com quem trama o escore ideal:
18. BLANC. Vasco: a cruz do
bacalhau, p. 143. zero a zero do começo ao final19
Com tanta tragédia acompanhando o nome do grande go- 19. SILVESTRIN. Quase eu, s/ p.

leiro vascaíno, nada é mais significativo do que a imitação A figura do goleiro, como podemos perceber então no
de uma defesa sua selar o que tanto temia o personagem da poema de Ricardo Silvestrin, sempre esteve ligada intima-
crônica, ganhando o apelido de Arrasa-Curió. É também na mente ao peso da tragédia, tanto pela solidão que faz parte
cena dessa tragédia que temos um dos pontos característicos da posição, quanto pela não aceitação de seus erros, pois um
do humor de Blanc dentro da crônica, que sempre beira o erro dele pode ser fatal para o time, diferentemente de um
politicamente incorreto, pois este subverte a escolha do ape- gol perdido por um atacante. Tão trágica é sua representa-
lido que poderia soar como grande sofrimento em matéria ção no futebol que até ouve-se em qualquer campo do país a
de riso coletivo. famosa máxima que “onde o goleiro pisa não nasce grama”.
Ainda em relação ao elemento mítico referente ao futebol, Temos nesta crônica um personagem que nunca jogou no
a própria representação do goleiro dentro deste esporte aca- gol, mas que simboliza as principais características míticas
ba por representar um importante papel. Ricardo Silvestrin desta posição, como a enorme solidão que demonstra, além
tem um poema que facilita compreender este valor mítico de seu apelido vir do mais trágico de todos os goleiros, o
do goleiro: injustiçado Barbosa.
Na questão do isolamento, por exemplo, o passo dado pelo
o goleiro vê o jogo ao contrário personagem através dos comentários feitos como profundo
o número um que ele carrega conhecedor deste esporte, além de tornar-se a vazão para
não é de primeiro, mas de solitário

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que ele superasse a insegurança e timidez dentro do espaço Destaca-se também a construção da linguagem no texto
do buteco ao lado de seus heróis, foi também responsável pelo autor, sabendo colocar em prática o modo de falar da-
pela real aceitação dele como figura pertencente ao bairro quele local, tanto dos homens do bar quanto do pessoal que
em que se passa a crônica – a Vila Isabel. participa da seresta do Paulo Amarelo. A própria descrição
destes espaços pelo narrador em primeira pessoa leva em
É no convite para a seresta na casa do Paulo Amarelo que
consideração a voz de alguém que domina o modo de falar
a aceitação perante o bairro se concretiza, pois a sociabili-
da Vila Isabel e seus arredores.
zação com figuras que não fazem parte somente do buteco
e, até mesmo, o apelido ganho após o acidente, tornam-se Outro ponto importante da crônica é a forma com que
um modo dele reafirmar sua identidade junto com os outros Aldir Blanc trabalha o peso do trágico inerente do cotidia-
moradores daquele ambiente. no transformando desde uma descrição do pessoal do bar –
“aqueles homens de cigarro no canto da boca sem queimar,
Sobre o humor tão característico do autor dentro do gê-
de programa de corrida de cavalos nas mãos ágeis, dedos
nero, é interessante ressaltar como Aldir Blanc consegue
sujos de giz de sinuca, bigodes cuidadosamente aparados, de
transformar a situação do “batismo” de Arrasa-Curió, em
olhares ávidos e experientes pra bunda das mulheres – aque-
que poderia soar extremamente trágica por causa do medo
les homens eram heróis”20 – até o medo de receber um apeli-
20. BLANC. Brasil passado a sujo: do personagem, numa divertida passagem da qual o apelido
a trajetória de uma porrada de do – “devastador, asfixiante, mortal”21 – em tramas intensas
temido não aparece de forma ofensiva, mas sim como uma 21. BLANC. Brasil passado a sujo:
farsantes, p. 59. das quais os conflitos do dia a dia ganham dimensões ainda a trajetória de uma porrada de
brincadeira leve que muda o peso da significação.
maiores do que imaginadas. farsantes, p. 59.
O apelido Arrasa-Curió, na verdade, faz com que a apa-
Dentro desta crônica, portanto, o futebol assume dois pa-
rente tragédia do personagem torne-se uma história da qual
péis distintos, mas importantes para seu entendimento: no
o bairro sempre irá se divertir ao lembrar-se dela. É também
primeiro, a função de quebrar o isolamento do personagem,
o passo definitivo da aceitação da figura antes isolada, além
tornando-se um meio acolhedor através do compartilha-
de ser o desfecho humorístico ideal que tanto preza este mo-
mento de seus discursos em um dos espaços que mais os dis-
delo de texto que é a crônica.
semina que é o bar; no segundo, através da imitação da defe-
sa de Barbosa que sela o apelido Arrasa-Curió, a referência a

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um dos elementos míticos que melhor representa a rejeição modo que um gênero tão presente em nosso dia a dia como
em nosso país, e o caminho da saída humorística tão neces- a crônica é capaz de retratar este espaço.
sária para este gênero capaz de transformar a temida rejeição
No miúdo do cotidiano brasileiro que o futebol se mostra
em acolhimento do bairro.
forte e presente, a tal ponto de não capitalizarmos a quantia
de discursos gerados por esta prática. Aldir Blanc, mesmo
CONCLUSÃO
que até de certo modo inconsciente, soube retratar essa prá-
Interpretar o futebol através do relato de Blanc é com- tica e sua linguagem dentro da própria obra permeada pelo
preender um pouco mais da dinâmica da Zona Norte do Rio principal intuito de retratar a Zona Norte do Rio de Janeiro.
de Janeiro da qual ele cresceu, pois tais elementos míticos
inerentes deste esporte e todos os discursos gerados por
REFERÊNCIAS
sua linguagem ocorriam de modo natural naquele espaço
BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix,
retratado no texto, e, obviamente, ocorrem ainda hoje em 1993.
qualquer recorte feito no cotidiano nacional, afinal, estamos
falando do esporte de presença mais imponente em nossa BLANC, Aldir. “Sina”. In:_________. Brasil passado a sujo: a
cultura. trajetória de uma porrada de farsantes. São Paulo: Geração,
1993, p. 59-61
Na crônica escolhida, vimos o futebol completando a lei-
BLANC, Aldir. Vasco: a cruz do bacalhau. Rio de Janeiro: Ediouro,
tura do paralelo entre o trágico goleiro Barbosa com o per- 2009.
sonagem Arrasa Curió, leitura esta que colaborou também
para se criar uma interpretação do modo como essa posição BRUNI, José Carlos. “Apresentação” In: Revista USP: Dossiê
é compreendida em campo. futebol. Número 22, 1994, p. 6-9.

Portanto, ao considerarmos as interpretações geradas pelo CHAUÍ, Marilena. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 2004.
mundo futebolístico dentro da crônica analisada de Aldir CORNELSEN, Elcio Loureiro. A memória do trauma de 1950 no
Blanc conseguimos não só reafirmar a proximidade deste testemunho do goleiro Barbosa. In: UFRJ, XI Encontro Nacional
esporte com nosso cotidiano, mas compreender também o de História Oral, 2012, Rio de Janeiro. Memória, Democracia e
Justiça. Simpósio: UFRJ, 2012.

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HEIZER, Teixeira. Maracanazo (tragédias e epopeias de um


estádio com alma). Rio de Janeiro: Mauad, 2010.

PORTELLA, Eduardo. “A cidade e a letra”. In: Dimensões I. Rio de


Janeiro: José Olympio, 1958.

RODRIGUES, Nelson. A pátria em chuteiras. São Paulo:


Companhia das Letras, 1994.

SILVA, Marcelino Rodrigues da. O mundo do futebol nas


crônicas de Nelson Rodrigues. Dissertação (Mestrado em
Letras), UFMG, Belo Horizonte, 1997.

SILVESTRIN, Ricardo. Quase eu. Porto Alegre: Coleção Peti Poa,


SMC/Poa, 1992.

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Dossiês
A REPÚBLICA DO FUTEBOL: IMAGENS
LITERÁRIAS DOS PRIMEIROS TEMPOS

Tatiana Sena* * tatianasena@ufmg.br


Doutoranda em Teoria da Literatura e Literatura
Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em
Estudos Literários (FALE/UFMG). Bolsista CNPq.

RESUMO: Este ensaio analisa algumas imagens e me- ABSTRACT: This paper analyses some images and mem-
mórias do futebol em sua fase de difusão, durante as ories of football in their diffusion phase, during the first
primeiras décadas do governo republicano, inscritas em decades of the republican government, inscribed in chron-
crônicas e contos do escritor Lima Barreto, momento em icles and short stories of the writer Lima Barreto, when
que não era possível discernir a relevância cultural que a it was not possible to discern the cultural relevance that
prática futebolística viria adquirir ao se consolidar como the football practice later will acquire when it consolidate
o esporte da nação. As marcas instituintes desse valor as the sport of the nation. The founding marks of this na-
nacional evidenciam impasses que ainda reverberam, tional value show impasses that still reverberate, so that
de forma que as críticas de Lima Barreto à excessiva va- the criticism of Lima Barreto on the excessive political
lorização política e social do futebol permanecem atuais, and social value of football remain current, contributing
colaborando para uma reflexão sobre as prioridades go- to a reflection on government priorities that the republic
vernamentais que a república deveria assumir naquele should take in that context and in subsequent situations.
contexto e em situações posteriores.
KEYWORDS: Football, literature, Lima Barreto, republic.
PALAVRAS-CHAVE: Futebol, literatura, Lima Barreto, república.
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1. PRELIMINARES Integrado ao complexo dos esportes, a formação do fute-


O futebol está presente na vida de milhões de pessoas ao bol na Inglaterra esteve diretamente associada aos proces-
redor do mundo, suscitando envolvimento e contínua ade- sos modernizantes, no século XIX, que engendraram novos
são afetiva e imaginária às narrativas, às cores e aos emble- processos de subjetivação através de diversos instrumentos
mas que dão lastro a grandes ou pequenas “comunidades de poder, notadamente centrados na disciplina e na regula-
imaginadas”,1 nacionais ou locais, ao mesmo tempo em que ção do corpo.2 A popularização da prática futebolística nas
1. ANDERSON. Comunidades 2. FOUCAULT. Em defesa da
imaginadas: reflexões sobre movimenta o lucrativo “mercado da bola”. Em diferentes cidades britânicas e sua posterior disseminação pelo conti- sociedade: curso no Collège
a origem e a difusão do áreas do conhecimento, sob variadas abordagens, muitos nente europeu foram apropriadas pelo discurso nacionalis- de France (1975-1976), p. 285-
nacionalismo. 315; DAMATTA. Antropologia
criadores artísticos e estudiosos, diletantes e acadêmicos, ta, para o reforço de fronteiras simbólicas. As imagens que do Óbvio: notas em torno do
investigaram o fascínio e a atração que o futebol exerce so- compõem o imaginário nacional não estão apenas dentro significado social do futebol
brasileiro, p. 10-17.
bre tantos indivíduos, além de tentar compreender sua sig- dos limites da nação. É preciso justificar a delimitação iden-
nificação cultural. Como “objeto” de criação e de análise, o titária, inventando imagens externas que diferenciem e na-
futebol resiste a uma tradução intersemiótica unívoca ou a turalizem o pertencimento.
uma categorização simplificadora. No Brasil, o “esporte bretão” começou a ser praticado em
Em torno do vasto “mundo da bola”, orbitam jogadores, tor- meados da década de 1890, durante o governo republicano,
cedores, técnicos, árbitros, dirigentes, jornalistas esportivos, trazido pelos filhos das elites locais, que retornavam de seu
olheiros, entre outros amantes, aficionados ou profissionais. período de formação educacional na Europa, como era cos-
As múltiplas formas de percepção e de construção do futebol tume na época. As narrativas historiográficas atribuem essa
– jogo, esporte, arte, entretenimento, linguagem – exemplifi- ação pioneira de transposição a Charles Muller, em 1894. O
cam as experiências multidimensionais e os diferentes pontos advento do futebol no país possuiu um viés marcadamente
de vista que são vivenciados sob sua rubrica. Cada uma des- elitista e excludente, o qual não poderia prefigurar o enrai-
sas maneiras de elaborar o futebol contribui com uma noção zamento popular que esse esporte adquiriria ao longo do
importante para os efeitos de sentidos que conformaram essa século XX, a ponto de ser nacionalizado como expressão e
prática, desde seu contexto de surgimento no século XIX, as- fundamento da própria “identidade brasileira”.
sim como em seus desdobramentos ulteriores. O futebol faz parte do complexo imagético-discursivo 3. MOTA. Cultura brasileira ou
que nomeamos por “cultura brasileira”,3 formatado entre os cultura republicana?, p. 37.

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anos de 1920 e 1930. Dentre os valores tidos por brasileiros, 2. PRIMEIRO TEMPO: A TRADUÇÃO EM JOGO –
talvez o futebol tenha adquirido a posição de valor maior LITERATURA E FUTEBOL
e mais “autêntico”. De certa forma, a escolha do país para É predominantemente pelo prisma da relação com a iden-
sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 tidade nacional que o futebol tem sido abordado em traba-
concorreu tanto para disseminar o sentimento de “orgulho” lhos acadêmicos em algumas áreas das ciências humanas. No
e reavivar o discurso nacionalista, a “pátria em chuteiras”, campo da literatura, a despeito de sua inegável onipresença
como para trazer à tona uma visão mais negativa sobre os e relevância sociocultural, o futebol não se configurou como
signos e as contradições do “progresso” e da “modernidade” um motivo literário fecundo, capaz de construir uma tradi-
brasileiros. É divulgado que, enfim, o Brasil está sendo re- ção criativa e crítica expressiva, nem mesmo no âmbito das
conhecido internacionalmente. Nas propagandas estatais, o narrativas que plasmaram imagens da nacionalidade. 4. Em nota da edição crítica, Telê
clima de ufanismo é perceptível. Porto Ancona Lopez esclarece
Quando alguma alusão ou referência é feita, o futebol é que o qualificativo de “praga”
O objetivo deste ensaio é investigar, em crônicas e con- visto como uma característica negativa da “identidade brasi- foi acrescentado pelo autor à
primeira edição da obra, em
tos do escritor Lima Barreto, algumas imagens e memórias leira”. Em Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário comparação com o manuscrito
do período de implantação, disseminação e apropriação do de Andrade, publicado em 1928, por exemplo, há três breves considerado definitivo. Na leitura
da pesquisadora, esse acréscimo
futebol, no decorrer das primeiras décadas do governo repu- alusões à prática futebolística. O “herói da nossa gente” é, “faz a crítica do entusiasmo
blicano, por diferentes setores da população brasileira, quan- inclusive, apontado como o inventor do jogo, sendo o fu- popular pelo futebol” LOPEZ. In:
do ainda não estava dado que a prática futebolística seria um tebol caracterizado como uma das “três pragas”,4 ao lado do ANDRADE. Macunaíma, o herói
sem nenhum caráter, p. 48.
fenômeno tão impregnado na cultura, quando a república bicho-do-café e da lagarta-rosada.5 Por outro lado, o roman-
ainda buscava um esporte para a ordem e o progresso da ce Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, apresenta 5. ANDRADE. Macunaíma, o herói
nação. No primeiro tempo do texto, discuto a relação en- a visão das elites econômicas sobre o futebol, na década de sem nenhum caráter, p. 48.

tre literatura e futebol no país, detendo-me um pouco na 1970, expressa na cena em que a personagem Lavínio inclui
interpretação formulada pelo crítico literário José Miguel o futebol em sua síntese negativa sobre o caráter do bra-
Wisnik. No segundo tempo, são analisadas algumas repre- sileiro: “O brasileiro é mulher, cachaça, futebol, carnaval e
sentações do futebol na produção literária de Lima Barreto, molecagem, esta é que é a verdade”.6
6. RIBEIRO. Viva o povo brasileiro,
através das quais se buscou evidenciar a disputa em torno p. 624.
Muitas hipóteses foram formuladas sobre a eloquente au-
dos sentidos culturais da nação.
sência, ou presença majoritariamente negativa, do futebol nas

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7. Segundo Pedrosa, as causas produções literárias brasileiras. O jornalista Milton Pedrosa, nessas análises. Para essa autora, “por vezes povo é tomado
prováveis seriam: “A reputação
do futebol na sociedade por exemplo, sugeriu seis razões7 para a escassa tematização como sinônimo de nação [...]; outras vezes povo é um coleti-
brasileira”; “As origens da do futebol pelos escritores. Dentre as explicações sugeridas, vo já recortado, do qual se excluem os grupos dotados de uma
intelectualidade brasileira”;
“Falta de mercado”; “A distinção
a formação intelectual da elite letrada destaca-se como a ra- cultura sem adjetivação”.9 Nesse uso, torna-se perceptível o 9. FRANÇA. Narrativas televisivas:
entre ocupação intelectual e zão mais proeminente, já que termina por intersecionar a desgosto cultural pelo “povo” que resiste às prerrogativas das programas populares na TV, p.
20-21.
trabalho manual”; “A divisão maioria das demais explicações. Para Silviano Santiago, o normas civilizatórias ocidentais. Como salientou Pedrosa,10
da sociedade” e “O problema
da alienação”. PEDROSA. Gol drama ético da intelectualidade no Brasil consistiria em lidar os questionamentos sobre a relação entre intelectualidade 10. PEDROSA. Gol de letra: o futebol
de letra: o futebol na literatura com as diferenças culturais internas, dos estratos populares, e futebol não podem ser reduzidos à questão de “escrever na literatura brasileira, p. 24.
brasileira, p. 16-34.
porque a classe intelectual hegemônica esteve (e ainda em contra o futebol ou a seu favor. Trata-se, antes de tudo, de
grande medida está) voltada para a Europa como referência fixar um fato da vida intelectual brasileira”.
civilizatória e epistemológica, importando, seletivamente,
Outras abordagens literárias e críticas tentaram escapar
formas modulares de imaginações culturais e políticas.8
8. SANTIAGO. Vale quanto pesa, dessa polarização improdutiva, apostando numa leitura am-
p. 18.
Significativamente, a reputação do futebol declinou a par- bivalente do futebol no Brasil. José Miguel Wisnik adotou
tir da “invasão” das camadas populares, que mudou não ape- a noção de “ambivalência indecidível” para lidar com os ele-
nas o perfil financeiro inicial, mas também o perfil étnico mentos contraditórios do futebol no Brasil.11 Para o autor,
11. WISNIK. Veneno remédio: o
e cultural dos jogadores e das torcidas. Em vista disso, as o futebol seria “um dos elementos nucleares” da sociedade futebol e o Brasil, p. 245.
visões dicotômicas de muitas abordagens literárias e críticas brasileira, integrado ao processo de formação nacional.12 O
12. WISNIK. Veneno remédio: o
não são surpreendentes, não indo além de julgamentos nor- autor produz uma sofisticada leitura sobre os elementos ex- futebol e o Brasil, p. 244.
matizantes, baseados no binarismo, os quais tratam o fute- pressivos da linguagem futebolística.
bol como “alienação” e “ópio do povo” ou como “paixão do
Dessa forma, a interpretação de Wisnik sobre o futebol
povo”, “voz do povo”, sem propriamente refletir sobre os
alinha-se a uma tradição de pensamento que objetivou/ob-
seus sentidos expressivos e políticos.
jetiva dizer o que é o Brasil, contribuindo para a produção
Nesses casos, podem ser úteis as ponderações da pesquisa- discursiva da nacionalidade. Na proposição axial do livro, o
dora Vera França sobre os sentidos contraditórios que podem futebol mostraria o “veneno remédio” da cultura brasileira,13
13. WISNIK. Veneno remédio: o
ser atribuídos ao vocábulo “povo”, utilizado frequentemente apontando que o “Brasil é uma droga”, na medida em que “se futebol e o Brasil, p. 40.

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14. WISNIK. Veneno remédio: o caracteriza por ser ao mesmo tempo mortífera e salvadora, A partir de Freyre, esses discursos se tornaram hegemô- 17. >>> Ora, se o mulatismo é
futebol e o Brasil, p. 245. apresentado como uma expressão
redentora e destrutiva, dividindo-se e repondo-se, sem se nicos na construção do “povo brasileiro” como uma “etnici- psico-social na sociedade
15. SONTAG. Doença como
decidir entre essas faces opostas”.14 dade fictícia”, nos termos de Etienne Balibar, para quem as brasileira, por que um jogador
brasileiro branco não poderia
metáfora, AIDS e suas metáforas, formações sociais se nacionalizam na medida em que pos-
p. 68. A imagem produzida por Wisnik possui uma significa- jogar um futebol mulato? Ser bem
sam se representar “como se formassem uma comunidade ou ainda mais brasileiros demarca
tiva articulação com o uso metafórico da noção de doença.
natural”,18 com cultura e interesses preexistentes, forjando a permanência de pressupostos
16. WISNIK. Veneno remédio: o Quais seriam as “doenças” da cultura brasileira? Como aler- racialistas, ainda que Freyre,
futebol e o Brasil, p. 231. um sentido de pertencimento, a partir do qual seria possível de maneira louvável, denuncie
tou Susan Sontag, “na grande tradição da filosofia política, a
interpelar o indivíduo “em nome da coletividade”.19 a segregação imposta pelo
analogia entre a doença e a desordem civil é proposta a fim Itamarati aos jogadores marcados
17. No artigo “Foot-ball mulato”, de estimular os governantes a pôr em prática uma política A “etnicidade fictícia” seria fabricada a partir das catego- negativamente pela categoria
publicado em 1938 e disponível racial, que foram anteriormente
mais racional”.15 rias de língua e raça. No caso brasileiro, a ideia de fusão das impedidos de representar o Brasil
em versão eletrônica na
internet, Freyre afirmou que, “três raças” como fundamento para a construção do “povo no estrangeiro. FREYRE. Foot-ball
Pelo prisma do futebol, Wisnik retoma e atualiza algumas mulato.
no seu texto, “mulatismo e brasileiro” só pôde ser efetivada quando as visões negativas
arianismo são considerados proposições de Gilberto Freyre, quando ele elegeu a figura
em torno da mestiçagem foram rechaçadas ou ressignifica-
não como expressões étnicas do “mulato” como “intérprete privilegiado da sociabilidade 18. BALIBAR. Raza, Nación y Clase, p.
mas como expressões psico- das na década de 1930.
sociais condicionadas por ambivalente”, “o agente metacultural por excelência da pron- 149 (tradução nossa).
influências de tempo e de espaço tidão e da bossa”,16 ecoando a tese de Freyre acerca de um “fu- Nesse contexto, o “mito das três raças” se constituiu, segun- 19. BALIBAR. Raza, Nación y Clase, p.
sociais”. Entretanto, o autor
exemplifica o futebol mulato tebol mulato”,17 setenta anos após sua formulação. A despeito do Roberto DaMatta, como a “mais poderosa força cultural, 150 (tradução nossa).
através da leitura do corpo das inegáveis contribuições de Freyre para uma reavaliação permitindo pensar o país, integrar idealmente sua sociedade
dos atletas, notadamente da 20. DAMATTA. Relativizando: uma
cor da pele, como o seguinte
das teorias raciais no século XX, colaborando para o pro- e individualizar sua cultura”.20 Para DaMatta, o mito das três
introdução à Antropologia Social,
excerto evidencia: “[...] uma das cesso de mudança paramétrica do conceito de miscigenação raças “permite juntar as pontas do popular e do elaborado p. 69.
condições dos nossos triunfos, (elementos que eram tidos como negativos foram realçados (ou erudito)”.21 Essa compreensão triangular sobre o povo
este ano, me parecia a coragem, 21. DAMATTA. Relativizando: uma
que afinal tivéramos completa, como traços positivos de identidade brasileira), o autor do brasileiro “interpenetra a maioria dos domínios explicativos introdução à Antropologia Social,
de mandar à Europa um team célebre Casa Grande & Senzala, publicado em 1930, pautou- da cultura”.22 Como também ressaltou Lilia Schwarcz, desde p. 62.
fortemente afro-brasileiro.
Brancos, alguns, é certo; mas um
-se no discurso mítico das “três raças” na sua leitura sobre a as visões extremamente negativas em relação à mestiçagem 22. DAMATTA. Relativizando: uma
grande número de pretalhões formação brasileira, cuja linhagem imaginativa incluía Von até se “chegar ao elogio à democracia racial com Gilberto introdução à Antropologia Social,
bem brasileiros e mulatos ainda p. 69.
mais brasileiros”. >>>
Martius, Silvio Romero, Ronald de Carvalho, Olavo Bilac.

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23. SCHWARCZ. O espetáculo das
raças: cientista, instituições e
questão racial no Brasil 1870-
1930, p. 247. Não deixa de ser
sugestivo que, ainda nesse livro
Freyre, percebe-se como é arraigado o argumento de que o aprendiz um domínio dinâmico do corpo.29 Como assinalou 25. WISNIK. Veneno remédio: o
futebol e o Brasil, p. 226.
(p. 239), Schwarcz aponte como ‘Brasil se define pela raça’”.23 Eusébio Lôbo da Silva, “não se pode ensinar a gingar”, mas
as interpretações construídas aprender bem a ginga é princípio da aprendizagem na capoei- 26. WISNIK. Veneno remédio: o
sobre a “questão racial” oscilaram É justamente por essa fixação em premissas racialistas24 que futebol e o Brasil, p. 226.
ra, que exige atenção à materialidade com a qual o corpo do
“entre o veneno e o antídoto”. se pode questionar a interpretação de José Miguel Wisnik, 27. O teórico Stuart Hall já havia
aprendiz se relaciona. Nesse percurso, o capoeirista iniciante
quando ele sugere a “propensão congenial” dos negros para a chamado a atenção para as
24. Neste ensaio, a partir das aprende a “dialogar com o espaço”,30 num aprendizado indivi- “modalidades, as experiências
contribuições teóricas “prontidão”.25 Embora o autor se esforce em mandá-los para históricas e as memórias que
dual e intransferível. Essa disposição adquirida produz a técni-
de Foucault, o racismo é escanteio, os pressupostos racialistas retornam: mais do que codificam” as tradições da
compreendido como um ca na execução dos movimentos. Para Silva, “a técnica, pois, é diáspora africana, discutindo
dispositivo biopolítico, que “tabu”,26 a “questão racial” parece ser um eloquente fetiche
o instrumento da poética e a poética, o objetivo da técnica”.31 como “a apropriação, cooptação
permitiu ao Estado moderno nas análises da elite letrada brasileira. e rearticulação seletivas de
exercer a função de morte. ideologias, culturas e instituições
Os repertórios técnicos e poéticos da ginga, como também
Conforme Foucault, na teoria Nesse tipo de leitura, atribui-se ao corpo negro uma dis- européias, junto a um patrimônio
clássica da soberania, o direito das danças e de outros jogos corporais afro-indígenas, insti- africano – cito novamente Cornel
de vida e de morte sobre o súdito posição inata para a agilidade, traduzida muitas vezes na
tuíram uma memória do movimento, da performance e das West – conduziram a inovações
pertencia ao soberano. Entretanto imagem da ginga. Por conta disso, perde-se de vista a dimen- lingüísticas na estilização retórica
a soberania como modalidade gestualidades, a qual foi reencenada na prática do futebol,
são histórica da criação humana, sua (re)invenção social, as- do corpo, a formas de ocupar
de poder seria ineficiente quando o esporte foi apropriado pelos setores populares no um espaço social alheio, a
para reger uma sociedade sim como é subestimada a potência (re)criadora da memória expressões potencializadas, a
Brasil, assumindo um desdobramento próprio. Há uma pas-
em via de industrialização. cultural e do imaginário. O propalado discurso da “natural” estilos de cabelo, a posturas,
Dessa forma, fizeram-se sagem emblemática dessa história de recriações na crônica gingados e maneiras de falar,
necessárias duas acomodações ginga brasileira encobre a história das formas de estilização bem como a meios de constituir
“Bailes e divertimentos suburbanos”, de Lima Barreto, pu-
dos mecanismos de poder: do corpo e de si forjadas pelos negros no Brasil, através da e sustentar o companheirismo e a
a primeira disciplinadora blicada em fevereiro de 1922, numa das poucas alusões sim- comunidade”. HALL. Da diáspora:
recomposição e recombinação de elementos e saberes cultu-
(tecnologia disciplinar) e a páticas do escritor ao fenômeno cultural então emergente: identidades e mediações
segunda reguladora (tecnologia rais variados provenientes das matrizes culturais africanas, culturais, p. 324-325.
biopolítica), ambas centradas no
como também de formas indígenas e europeias.27
corpo. Esse processo concorreu O futebol flagela também aquelas paragens como faz ao Rio 28. SILVA. O corpo na capoeira, p. 17.
para a formação de um discurso
“científico” racialista, cuja
O conceito de ginga, por exemplo, emergiu da prática da de Janeiro inteiro. Os clubes pululam e os há em cada terreno
29. Sobre o conceito de ginga,
linguagem codificou moralmente capoeira, arte de luta criada por africanos no Brasil como for- baldio de certa extensão. ver também SOVIK. A ginga
os traços fenotípicos diferenciais, ma de resistência e de sobrevivência ao terror escravocrata. Nunca lhes vi uma partida, mas sei que as suas regras de bom-tom brasileira e o marketing global.
a fim de regulamentar um
efeito político. FOUCAULT. Em Na capoeira, a ginga é o “movimento básico”,28 que exige do em nada ficam a dever às dos congêneres dos bairros elegantes. 30. SILVA. O corpo na capoeira, p. 20.
defesa da sociedade: curso no
Collège de France (1975-1976); 31. SILVA. O corpo na capoeira, p. 16.
Segurança, território, população:
curso dado no Collège de France
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(1977-1978).

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A única novidade que notei, e essa mesma não me parece ser de políticas sociais e culturais que visaram uma ampla mo-
grave, foi a de festejarem a vitória sobre um rival, cantando dernização do país. Diversificados empreendimentos estatais
os vencedores pelas ruas, com gambitos nus, a sua proeza ho- foram implementados, a exemplo das remodelações urbanís-
mérica com letra e música da escola dos cordões carnavales- ticas das principais capitais e das campanhas sanitárias, cujas
cos. Vi isto só uma vez e não garanto que essa hibridação do ações higienizadoras incidiram de maneira violenta sobre os
samba, mais ou menos africano com o futebol anglo-saxônio, estratos populares.
se haja hoje generalizado nos subúrbios. Pode ser, mas não
tenho documentos para tanto afiançar.32
Lima Barreto foi um observador atento dos acontecimen-
32. BARRETO. Toda crônica, p. 503- tos políticos nos primeiros anos da consolidação do governo
504.
Em vista disso, a ginga é um “lugar de memória”, no senti- republicano, publicando textos literários em diversos jor-
do formulado por Pierre Nora,33 mesmo que a narrativa na- nais, expondo suas ideias e argumentos sobre os principais
33. NORA. Entre memória e história:
a problemática dos lugares. cional recalque a memória forçosamente dolorosa produzida assuntos do período. Polêmico, angariou vários desafetos
pela instituição escravocrata. Revisitar algumas imagens do por conta de suas críticas francas e suas sátiras corrosivas.
futebol em seus primeiros tempos no Brasil pode contribuir Dentre os inimigos, destacou-se o escritor Coelho Neto,
para desmistificar algumas premissas essencialistas sobre na- com quem Lima Barreto entabulou uma discussão de longa
ção e “raça”, sejam elas positivas ou negativas, conferindo data, especialmente sobre as vantagens ou os malefícios do
visibilidade aos dilemas inscritos na memória cultural bra- futebol para o país. Além de visões políticas contrastantes,
sileira. A retranca exercida pelo escritor Lima Barreto for- Barreto execrava o helenismo de Coelho Neto.35
35. ROSSO. Lima Barreto versus
mou, deveras, um “arquivo precioso”, para nosso “encanto Os trânsitos discursivos entre as crônicas jornalísticas, a Coelho Neto: um fla-flu literário.
e satisfação”,34 dessas primeiras imagens sobre o futebol no produção romanesca e os escritos memorialistas de Lima
34. BARRETO. Toda crônica, p. 195.
Brasil. Barreto permitem uma abordagem complexa sobre como
a presença do real é identificável no texto ficcional, como
3. SEGUNDO TEMPO: UM LITERATO NA RETRANCA –
postulou Wolfgang Iser, embora este não se esgote nesta
LIMA BARRETO CONTRA O FUTEBOL
referência. Para Iser, essa realidade replicada pode ser com-
A instauração do governo republicano no Brasil alterou a preendida como “atos de fingir”, cuja operação estabeleceria
organização política e as formas de imaginar a nação, através relações recíprocas entre o real, o fictício e o imaginário,

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através da “transgressão de limites”, que o texto literário Foot-ball em 1907. O avanço do futebol também era perceptí-
promove.36 vel no espaço concedido pela imprensa nos principais jornais
36. ISER. O fictício e o imaginário:
perspectiva de uma antropologia do Rio de Janeiro. Em 1905, a Gazeta de Notícias criou uma
Essa articulação entre texto ficcional e contexto jornalís-
literária, p. 14. seção diária de duas colunas dedicadas aos esportes em geral,
tico se torna ainda mais produtiva se retomarmos a posição
com grande destaque para o futebol.40
teórica de Benedict Anderson, que analisou, em Comunidades 40. PEREIRA. Footballmania: uma
história social do futebol no Rio
imaginadas, como o romance e o jornal, surgidos na Europa Dessa forma, quando Lima Barreto escreveu a crônica de Janeiro (1902-1938).
do século XVIII, foram duas instâncias de imaginação cru- “Sobre o football”, publicada em 15 de agosto de 1918, na
ciais para formação da nação, ao compreender que a estru- qual deixou clara sua objeção ao esporte em geral, e à prática
37. ANDERSON. Comunidades tura básica “dessas formas proporcionaram meios técnicos futebolística em particular, o contra-ataque é tardio, o fute-
imaginadas: reflexões sobre
a origem e a difusão do
para ‘re-presentar’ o tipo de comunidade imaginada corres- bol já havia atraído o interesse dos jovens locais de maneira
nacionalismo, p. 55. pondente à nação”.37 absorvente. Como assinalou Nicolau Sevcenko, em 1919,
houve “um grande boom esportivo [...], quando o futebol se
Para Anderson, o jornal não passaria de “uma ‘forma ex-
38. ANDERSON. Comunidades tornou uma mania que galvanizou toda a juventude” do Rio
imaginadas: reflexões sobre trema’ do livro, um livro vendido em escala colossal, mas de
de Janeiro.41
a origem e a difusão do popularidade efêmera”.38 A leitura do jornal seria como um 41. SEVCENKO. Futebol, metrópoles
nacionalismo, p. 67. e desatinos, p. 32.
“romance cujo autor tenha desistido de qualquer intenção de A partir dessa crônica de 1918, Barreto travou um ver-
escrever um enredo coerente”.39 dadeiro duelo contra o futebol, traduzido muitas vezes pela
39. ANDERSON. Comunidades
imaginadas: reflexões sobre implicância com que o escritor nomeava o jogo. Várias de-
Dentre as polêmicas de Lima Barreto em suas crônicas,
a origem e a difusão do signações foram criadas para tratar do futebol e dos jogado-
nacionalismo, p. 65. destacou-se a diatribe contra o futebol. O ano de 1918 parece
res: “pé-bolado”, “jogo de pontapés”, “ponta-pedistas”, “fute-
ser um ponto de viragem de uma postura mais desatenta do
bolesco”, “junta pés”, entre outros neologismos.42
autor para um acompanhamento cerrado e crítico do proces- 42. BARRETO. Toda crônica, p. 429;
273; 552; 433.
so de disseminação e institucionalização desse esporte. Nessa Tendo como mote a publicação do livro O sport está de-
época, o futebol já havia adquirido uma notável visibilidade, seducando a mocidade brasileira, de Carlos Süssekind, Lima
através da fundação de clubes, associações e ligas, para além Barreto fez uma espécie de memorial dessa longa batalha
do circuito das elites locais, expandindo-se para os subúr- travada contra o “esporte bretão”, na crônica “Como respos-
bios da cidade, como atesta a criação da Liga Suburbana de ta”, de 08 de abril de 1922, mesmo ano de sua morte. O autor

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relembrou os episódios que concorreram para o anúncio de escrevi também que eles cultivavam preconceitos de toda a
fundação da Liga contra o football, em 1919. Embora a citação sorte; foi então, que me insurgi.43
43. BARRETO. Toda crônica, p. 515-
seja longa, vale pelas ricas imagens sobre o período aludido: 516.
Através da rememoração, Lima Barreto delineou as mu-
O que me moveu, a mim e ao falecido doutor Mário Valverde, danças comportamentais em todos os estratos da população
a fundar a liga foi o espetáculo de brutalidade, de absorção de por conta do futebol. Apenas quatro anos separam essas duas
todas atividades que o football vinha trazendo à quase totalida- crônicas, mas o uso mesclado entre pretérito perfeito e im-
de dos espíritos nesta cidade. perfeito evidencia os diferentes modos de relacionamento
do sujeito enunciador com a matéria narrada. Em relação às
Os jornais não falavam em outra cousa. Páginas e colunas
próprias ações, predomina o pretérito perfeito do indicativo
deles eram ocupadas com história de matches, de intrigas de
(moveu, percebi, verifiquei, escrevi), marcando um distan-
sociedade, etc., etc. Nos bondes, nos cafés, nos trens não se
ciamento das ações, como se recordasse esforços malogrados
discutia senão football. Nas famílias, em suas conversas ín-
e dos quais resguardasse certa frustração. Contudo, quando
timas, só se tratava dos jogos de pontapés. As moças eram
as ações se referem aos efeitos do futebol na sociedade, existe
conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube. Nas
a predominância do pretérito imperfeito do indicativo (vi-
segundas-feiras, os jornais, no noticiário policial, traziam
nha trazendo, falavam, tratava, entre outros), os quais des-
notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo;
crevem um passado habitual e que ainda permanece como
mas, nas seções especiais, afiavam a pena, procuravam epíte-
tos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios.
hábito.

[...] Em um trecho do Diário Íntimo, datado de 13 de março de


1919, Lima Barreto transcreveu uma entrevista publicada
Comecei a observar e tomar notas. Percebi logo existir um
no Rio-Jornal sobre a fundação da Liga contra o football, a qual
grande mal que a atividade mental de toda uma população de
ajuda a recompor o contexto e as motivações que o impeli-
uma grande cidade fosse absorvida para assunto tão fútil e se
ram à formação dessa controversa organização, no mesmo
absorvesse nele; percebi também que não concorria tal jogo
momento em que pulularam ligas esportivas. O jornalista
para o desenvolvimento físico dos rapazes, porque verifiquei
do Rio-Jornal escreveu um texto marcado pela informalida-
que, até numa sociedade, eram sempre os mesmos a jogar;
de, o que indica uma familiaridade entre o entrevistador e

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o escritor. Nessa entrevista, Lima Barreto esclareceu que a da mera educação física, transformando-se em verdadeira
ideia da liga havia surgido ainda em 1918, mas que somente mania. Ainda nessa entrevista, Lima Barreto apresentou a
no início de 1919 foi retomada, conforme o seguinte excerto: conclusão de suas meditações sobre o football, como preferia
chamar, assinalando a adoção acrítica do esporte no país e o
Passaram-se dias e meses e não mais falamos nisto; ultima- modismo em que se transformara. Na visão do escritor, “[...]
mente, porém... longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma
– Com a decisão da congregação do Pedro II, proibindo o mais forte coesão moral entre as divisões políticas da União,
football? separava-as”.45
45. BARRETO. Prosa seleta, p. 1327.
– Não; antes. Eu explico a você. Nos últimos meses do ano Além de apresentar seus severos julgamentos, Lima
passado, estive no Hospital Central do Exército, tratando- Barreto também fez uma denúncia sobre as subvenções do
-me. Lá, sem ter que fazer, nem distrações, eu, por desfastio, governo ao esporte, explicitando algumas conexões entre a
lia todas as seções dos jornais, inclusive as esportivas que são Confederação e o Itamarati, no que tange à representação
as únicas enfatuadas e enfáticas. Verifiquei que havia uma do selecionado nacional em competições internacionais. Na
irritação inconveniente entre os players.44 crônica “Bendito football”, de outubro de 1921, o autor re-
44. BARRETO. Prosa seleta, p. 1327.
torna a esse assunto, após a decisão do presidente Epitácio
Lima Barreto registrou no diário que esteve internado
Pessoa em excluir jogadores “negros e mulatos” das delega-
entre 04 de novembro de 1918 e 05 de janeiro de 1919. A
ções esportivas brasileiras.
publicação da crônica “Sobre o football”, em agosto do ano
anterior, aponta para 1918 como um ano de leitura e medi- Foi sua resolução [do presidente Epitácio Pessoa] de que gente
tação sobre as seções esportivas dos jornais. Nesse período, o tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas expor-
escritor estava afastado do trabalho, por conta de problemas táveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se preci-
de saúde. sava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano
A informação de que o renomado Colégio Pedro II proibi- [...]
ra a prática do futebol no estabelecimento de ensino é mais
A providência, conquanto perspicazmente eugênica e cientí-
um índice de como o jogo extrapolou o controle do discurso fica, traz no seu bojo ofensa a uma fração muito importante,

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quase a metade, da população do Brasil; deve naturalmente Barreto usou a crônica de 08 de abril como verdadeira des-
causar desgosto, mágoa e revolta; mas – o que se há de fa- forra contra aqueles que o insultaram. No desfecho dessa
zer? O papel do football, repito, é causar dissensões no seio crônica, Barreto empenhou, quixotescamente, a própria
da nossa vida nacional. É a sua alta função social. O que me vida na luta contra o futebol: “O meu caro doutor Süssekind
admira é que os impostos, de cujo produto se tiram as gordas pode ficar certo de que, se a minha liga morreu, eu não morri
subvenções com que são aquinhoadas as sociedades futebo- ainda. Combaterei sempre o tal football”.49
49. BARRETO. Toda crônica, p. 516;
lescas e seus tesoureiros infiéis, não tragam também a tisna,
o estigma de origem, pois uma grande parte deles é paga pela
Numa crônica em de 06 de maio de 1922, intitulada
gente de cor. Os futeboleiros não deviam aceitar dinheiro
“Ainda e sempre”, Lima Barreto novamente utilizou o dis-
que tivesse tão malsinada origem.46 curso médico, dessa feita do doutor Nicolau Ciancio, que
46. BARRETO. Toda crônica, p. 433- resumiu estudos do pesquisador alemão Herxheimer sobre
434.
Lima Barreto encerra essa crônica com um provocativo a inter-relação entre esportes violentos e doença cardíaca,
post-scriptum: “A nossa vingança é que os argentinos não dis- como recado contra seus detratores, os “sábios cronistas taça
tinguem, em nós, as cores; todos nós, para eles, somos maca- Seabra”, realizada naquele ano, e que se referiram ao escritor
quitos”,47 evidenciando os hiatos entre as imagens internas e “do modo mais insólito”.50 Essa breve crônica é concluída
47. BARRETO. Toda crônica, p. 434. 50. BARRETO. Toda crônica, p. 520.
as visões externas sobre o país. com um adágio popular, “Rira mieux qui rira le dernier”, que
acentua ainda mais o desejo de desforra nas crônicas sobre o
Entre 1918 e 1922, a intensidade do combate travado con-
futebol nesse ano que seria o último da vida de Barreto.
tra o futebol, em que o escritor foi violentamente rechaçado,
somado a sua própria debilidade física, parece ter exaurido Embora pretenda mostrar vigor, é óbvio o cansaço de
o ímpeto ofensivo de Lima Barreto. A crônica “Como res- Lima Barreto nesse jogo crítico em que o autor vinha acu-
posta”, de 08 de abril de 1822, citada anteriormente, possui mulando derrotas. Na crônica “Não queria, mas...”, de 03 de
um tom memorialista muito expressivo. Barreto recordou junho de 1922, o autor mostrou-se novamente combalido,
que, quando da fundação da Liga contra o football, foi “alveja- embora renitente: “Já tinha disposto a não falar mais em se-
do com os mais soezes insultos e indelicadas referências”.48 melhante coisa de football; entretanto não me é possível dei-
48. BARRETO. Toda crônica, p. 516.
Apoiando-se nos argumentos médicos do livro O sport está xar de fazê-lo, porquanto isto é uma campanha de honra a
deseducando a mocidade brasileira, de Carlos Süssekind, Lima que me entreguei e não abandono”.51 51. BARRETO. Toda crônica, p. 526.

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Para sintetizar alguns (im)passes desses quatro anos de do final da Grande Guerra (1914-1918), como também fun-
acirrado combate contra o futebol, é conveniente atentar ciona como uma crítica ao imaginário republicano marcada-
para os argumentos utilizados por Barreto. Num primeiro mente militarizado.
plano, o autor critica a valorização nacional do futebol e
Desses três eixos críticos, pelo menos dois permanecem
de outros desportos em detrimento da vida intelectual e da
bastante atuais. O debate sobre o anti-intelectualismo do
atuação política. Na sua ótica, “tudo tem um limite e o foot-
futebol está superado, sobretudo após a crítica pós-estru-
ball não goza do privilégio de cousa inteligente”.52
52. BARRETO. Toda crônica, p. 531. turalista da metafísica platônica. Os saberes produzidos na
Em segundo lugar, Lima Barreto considera o futebol como vivência do futebol não podem ser considerados inferiores.
causador de dissensões no país, ao excluir “negros e mulatos” Entretanto, ainda que a questão da representação nacional
da possibilidade de representar o Brasil em competições no por negros e mestiços na seleção brasileira não tenha mais
estrangeiro, denunciando as discriminações de cunho “ra- sentido, em outros setores do “mercado da bola” é notória a
cial” e social. Nesses dois argumentos, houve uma verdadeira hierarquização codificada racialmente. Para além da posição
disputa, na qual os discursos ditos científicos eram utiliza- do jogador, os cargos de comando, de prestígio ou de visibi-
dos pelos dois lados da contenda, seja a favor do futebol ou lidade social (a exemplo de dirigentes, técnicos de futebol em
contra. equipes de ponta, empresários, comentaristas esportivos em
emissoras televisivas) não possuem uma ocupação que seja
O terceiro argumento utilizado por Lima Barreto contra
representativa da diversidade cultural do esporte. No con-
o futebol voltou a se repetir na crônica “Não queria, mas...”,
texto mundial, cresceram as manifestações de discrimina-
de 03 de junho de 1922, em que sentenciou: “O football é
ção racial contra jogadores negros e mestiços, muitas vezes
uma escola de violência e brutalidade e não merece nenhuma
provenientes de ex-colônias europeias. Quanto ao acento
proteção dos poderes públicos, a menos que estes nos quei-
marcial do futebol, nos conflitos entre os times, as pequenas
ram ensinar o assassinato”.53 Para o escritor, o futebol era um
53. BARRETO. Toda crônica, p. 526. “comunidades imaginadas”, aumentaram os índices de assas-
tipo de divertimento que estava “tão profundamente unido
sinatos e outros crimes, envolvendo torcidas organizadas.
à nossa mocidade por meio de barulhos e conflitos”.54 Lima
54. BARRETO. Toda crônica, p. 163.
Barreto interliga a violência do futebol ao acirramento das A “derrota” dos argumentos de Lima Barreto ironicamen-
disputas nacionais. Essa leitura está marcada pelo contexto te permanece inscrita na memória cultural não como um

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fracasso pessoal do autor, mas como um fracasso da socie- exemplo. Recriando a célebre frase de Dario, são muitas pro-
dade brasileira, pois a discussão crítica e coletiva sobre quais blemáticas colocadas em jogo, sem “solucionáticas” evidentes
prioridades culturais e políticas devem nortear a construção ou definitivas.
social permanece irrealizada e deslocada pelo culto nacional
A análise das imagens inscritas nos textos literários de
ao “vencedor”, que acaba sendo o futebol.
Lima Barreto contribui para desnaturalizar o futebol. A par-
tir disso, é possível problematizar seu caráter compulsório
4. PRORROGAÇÃO: SOBRE PROBLEMÁTICAS SEM
de nacionalidade, assim como problematizar o essencialismo
SOLUCIONÁTICAS
de que negros e mestiços seriam mais aptos para o jogo fute-
A dimensão criativa do futebol no Brasil necessita de rea- bolístico, como proposto por Wisnik.
limentação cultural, que pode advir de uma perlaboração da
memória do futebol no país, pelo conhecimento da história, A prática do futebol no Brasil é heterogênea e complexa,
das inovações de linguagem e soluções estruturais. O futebol marcada por repertórios culturais distintos e resistentes ao
ocupa várias horas do noticiário diário, além dos programas controle disciplinar do corpo na modernidade. Longe de ser
exclusivamente dedicados ao universo futebolístico. A maio- um “relativizador das raças”,55 o “mulato” forjou maneiras de
55. WISNIK. Veneno remédio: o
futebol e o Brasil, p. 231. ria desses discursos possui um tom apologético, construindo driblar os obstáculos de práticas e discursos racializantes, que
uma narrativa teleológica do futebol, cujo ponto de partida é postulavam sua degeneração. A mera inversão do estigma ra-
o mesmo da chegada, a exaltação do pentacampeonato mun- cial, expresso em discursos de exaltação dos “mulatos” desde o
dial de futebol. A crença generalizada é que o Brasil sempre século XX, não faz jus à história de recriações culturais.
foi o melhor do mundo e sempre o será. Como se a intensifi- Repensar a inter-relação entre literatura e futebol, através
cação hiperbólica sustentasse o culto de uma imagem passa- da análise das imagens literárias plasmadas, abre um campo
da que, muitas vezes, não encontra sustentação no presente. de problematização diferencial para as discussões em torno
Com a proximidade da Copa do Mundo de 2014, as ex- da memória cultural brasileira e, principalmente, acerca da
pectativas e os dilemas se avolumaram. A remodelação dos própria literatura, de seus nexos e/ou atritos com as expres-
estádios e das circunvizinhanças desses não se coaduna com sões populares e com os discursos que constroem a nação na
as imagens de indígenas vivendo na Aldeia Maracanã, por contemporaneidade.

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Dossiês
AS LETRAS AO RITMO DA BOLA: UMA
HISTÓRIA DA IMPRENSA ARTÍSTICO-
DESPORTIVA EM PORTUGAL

Francisco Pinheiro* * franciscopinheiro72@gmail.com


Doutor em História.

RESUMO: O jornalismo desportivo surgiu em Portugal no ABSTRACT: The Portuguese sport press began in the
último quartel do século XIX, numa dinâmica que levaria last quarter of the XIX Century. Its dynamic was very
à publicação de 940 periódicos desportivos entre 1875 e high and between 1875 and 2000 were published 940
2000. Este género de imprensa especializada englobou sport newspapers in Portugal. This specialized press
também uma relação especial entre cultura e desporto, involved also the relation between culture and sport,
assim como entre literatura e futebol. Entre o final do specially literature and football. Between the final of the
século XIX e os anos 40 do século XX publicou-se um XIX Century and the 40’s of the XX Century were pub-
vasto conjunto de jornais artístico-desportivos, por todo lished several “artistic-sportive” newspapers throughout
o País. A sua linha editorial englobava o mundo artístico Portugal. His editorial line mixed up the artistic and the
e o desportivo, sendo um tipo de periódico destinado sports spheres. It was a typical newspaper devoted to
à leitura em família e à promoção de uma ideia de lazer the family and to the promotion of an idea of leisure in
na sociedade portuguesa. the Portuguese society.

PALAVRAS-CHAVE: Imprensa; Artes; Desporto; Jornalismo; KEYWORDS: Press; Arts; Sport; Journalism; Popularization.
Popularização.
41

A imprensa desportiva surgiu em Portugal no último na nossa língua, e cuja significação em inglês é muito vasta,
quartel do século XIX,1 acompanhando o aparecimento do designa-se uma numerosa série de divertimentos e exercí-
1. Cf. PINHEIRO. História da
imprensa desportiva em Portugal, desporto moderno, através de modalidades como a caça, tau- cios, que ocupa hoje em dia um grande número de indiví-
p. 21-32 romaquia, ginástica, ciclismo e o tiro. Neste período, o des- duos de ambos os sexos”.4 O mesmo artigo destacava:
4. J.M. Sport. In Revista Fayalense,
porto entrou na vida das elites de Lisboa e Porto, as únicas 1 de fevereiro 1893, p. 7.
É tal o desenvolvimento do gosto pelo sport que em toda
cidades com laivos urbanos em Portugal. O futebol apareceu
a parte se publicam jornais onde se lêem as descrições das
em outubro de 1888,2 importado dos colégios britânicos pe-
2. Cf. COELHO & PINHEIRO. A regatas, das corridas, dos assaltos, das marchas de resistência,
paixão do povo – História do las jovens elites aristocráticas e burguesas das duas princi-
a pé ou em velocípede, etc., e em muitos que não pertencem
futebol em Portugal, p. 49-53. pais cidades portuguesas, que estudavam nesses colégios. No
ao sport, em especial nos periódicos ingleses, não deixa de se
regresso a Portugal, trouxeram consigo as regras e algumas
ver em secção especial a sporting intelligence.5
bolas de futebol,3 lançando as sementes daquela que seria a 5. Idem, ibidem.
3. DIAS. História do futebol em
Lisboa, p. 22. modalidade mais popular do século XX português. No mes-
No campo da literatura, a revista publicou excertos de uma
mo ano em que surgiu o futebol publicou-se Os Maias, de Eça
obra de Edgar Poë, além de poesia de Osório Goulart e Rober-
de Queiroz, obra de referência da literatura e cultura portu-
to Mesquita, e uma crítica literária à obra Murmúrios de Osó-
guesas. Estes dois mundos, desporto e cultura, que ao longo
rio Goulart, escritor e poeta local. Publicou também o excerto
do século XX acabaram por seguir caminhos literalmente
“A Fraqueza Feminil”, do livro inédito A Educação Physica, de
opostos no seio da sociedade portuguesa, tiveram também
Marcelino Lima, onde promovia o desporto feminino. Ape-
um período de proximidade através da imprensa. sar da sua atribulada existência, terminando em 2 de março
Um dos primeiros periódicos a juntar o binómio despor- de 1895, a Revista Fayalense assumiu-se como uma publica-
to e cultura, em especial a literatura, foi a Revista Fayalense, ção pioneira em dois sectores: foi um dos primeiros órgãos de
publicação quinzenal lançada em 1 de fevereiro de 1893, na clube em Portugal e foi a primeira publicação a centrar o seu
Ilha do Fayal, nos Açores. Sob direção do Gymnasio Club conteúdo noticioso nas áreas do desporto e da cultura.
Fayalense, a revista apostou numa forte secção de desporto,
6. Sobre este conceito, no final responsabilidade de um colaborador que assinava com as si- PARA UMA LEITURA EM FAMÍLIA
do século XIX, cf. HASSE. O glas J.M. No artigo de abertura da secção, J.M. começou por O conceito de “sport”6 estava em construção na sociedade
divertimento do corpo, p. 305-
314.
lembrar que “pela palavra sport, de que não existe equivalente portuguesa em finais do século XIX, encarado como “um

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novo elemento de cultura”,7 dotado de uma estrutura que A fórmula editorial desporto-cultura seria também adota-
permitia aos jornalistas enquadrá-lo no âmbito da própria da no Porto pelo periódico A Mariposa, lançado no domingo,
7. HASSE. O divertimento do corpo, arte. Alguns periódicos de cariz literário-teatral passaram a 6 de agosto de 1899, com o subtítulo “Semanário Litterario
p. 308. incluir o desporto na sua linha editorial, como sucedeu com e de Sport”. No editorial, publicado na capa, a redação es-
A Estreia (Lisboa, 1896)8 e o Campeão Popular (Lisboa, 1898).9 clarecia que o seu objetivo era “tornar este jornal um órgão
8. Com o subtítulo de “semanário
independente, litterario, theatral, de sport, ao mesmo tempo que também possa ser lido por
Entre 1894 e 1900 surgiram jornais que exploraram cla-
tauromachico, etc.”, publicou o uma família na sua secção literária”.11 O ciclismo mereceu
primeiro número a 6 de janeiro ramente esta nova linha editorial, centrando-se exclusiva- 11. A Redacção. Aos nossos leitores.
desde logo maior atenção, passando os números seguintes In A Mariposa, 6 de agosto 1899,
de 1896. mente num campo cultural (habitualmente na literatura e/
a incluir notícias de caça, tauromaquia, atletismo, ténis e p. 1.
9. Saiu a 5 de junho de 1898, ou no teatro) e no desporto em geral (com relevância para
futebol. Uma das secções que granjearia bastante prestígio,
com o subtítulo de “revista o futebol). No domingo, 4 de abril de 1897, publicou-se em
litteraria, theatral, tauromachica e nos 13 números publicados, foi a “Chronica”, coluna sema- 12. Izidro, B. Chronica. In A Mariposa,
sportiva”. Lisboa o primeiro número de O Campeão, que tinha como
nal assinada por Bento Izidro. Era uma espécie de editorial, 17 de setembro 1899, p. 1.
subtítulo “Revista Theatral e de Sport”. A redação era for- 13. O caso Dreyfus – erro judiciário
em que o cronista portuense discorria essencialmente so-
mada por quatro jornalistas e no artigo de apresentação e grave manipulação da justiça,
bre assuntos desportivos, mas também de interesse geral e com o objetivo de acusar o
deixavam claro ser um jornal “cujo fim único e exclusivo
político, como foi o caso Dreyfus,12 que ganhara dimensão único oficial francês judeu de
é tratar dos assuntos referentes à arte dramática e ao sport. espionagem a favor da Alemanha
internacional em 14 de janeiro de 1898, quando Émile Zola
Desapaixonadamente, livre de quaisquer compromissos, – foi um dos primeiros exemplos
publicou o artigo “J’accuse” no jornal L’Aurore, denunciando da eclosão de manifestações
outra mira não tem que não seja a apreciação destas duas de irracionalismos até então
os oficiais do Estado-maior francês e os juízes que haviam
artes, tão diversas na sua origem, meios e fins”.10 O número desconhecidos. O problema
10. A Redacção. O Campeão. In O incriminado injustamente o capitão Dreyfus.13 do anti-semitismo crescia na
Campeão, 4 de abril 1897, p. 2. inaugural de O Campeão, que viria a ser o único, apresenta- sociedade francesa e europeia,
va quatro páginas, repartidas entre a “Secção de Sport” e a Este cariz doutrinário e intervencionista da imprensa articulando-se, na perfeição, com
“Secção Theatral”, sendo a capa dedicada ao mais importante desportiva seria igualmente apanágio de O Campeão (Porto, o nacionalismo exacerbado que
se vivia na Europa.
ciclista português, José Bento Pessoa. A secção desportiva foi 1899), “semanário de litteratura, critica e de sport”14 que su-
14. Este era o subtítulo que O
preenchida pelo ciclismo e por notícias do Racing Club de cedeu ao periódico A Mariposa. Na capa do número inau- Campeão apresentava no número
Portugal e do Sport Club de Lisboa. gural de 5 de novembro de 1899, o novo jornal publicou a inaugural de 5 de novembro de
1899.
fotografia da portuense Hercilia Múaze a andar de bicicleta,

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15. A Redacção. Notas de Sport. In O acompanhada de um artigo em que um dos diretores, Mário editorial de O Campeão, transformando-o num “jornal que se
Campeão, 5 de novembro 1899,
p. 1. Rey, promovia a prática desportiva. As mudanças de O dedicasse, única e exclusivamente ao desenvolvimento e cul-
Campeão em relação A Mariposa, além de abrangerem o título tura de todos os géneros de sport”.19 A alteração consumou-
16. Esta ligação causou alguns 19. A Redacção. Duas palavras aos
conflitos entre O Campeão e e a direção, foram também gráficas, com o novo periódico -se a partir do número 40, de 9 de dezembro de 1900, com o nossos leitores. In O Campeão, 9
O Cyclista (Lisboa, 1900-1902), a ter uma apresentação mais cuidada, passando a publicar subtítulo a passar para “Revista quinzenal de sport”. Nos nú- de dezembro 1900, p. 2.
como sucedeu nos primeiros
meses de 1901. regularmente, na primeira página, uma fotografia de uma meros seguintes, as opiniões favoráveis e de oposição à mu-
personalidade importante do mundo do desporto ou da lite- dança editorial sucederam-se. O correspondente em Lisboa,
ratura, acompanhada da biografia. A secção “Notas de Sport” que assinava com o pseudónimo T. M., foi um dos que se
concentrava o noticiário desportivo e tinha por objetivo a congratulou, afirmando na sua coluna habitual, com o título
publicação de “artigos doutrinários a par doutras notícias so- “Lisboa de relance”, que “muito bem andou a redacção do
20. T.M. Lisboa de relance. In O
17. Foi um exímio desportista, bre sport em que se realçarão as suas vantagens para o levan- Campeão, terminando com a literatura”,20 uma vez que com- Campeão, 8 de janeiro 1901, p. 4.
vencendo 12 medalhas em provas tamento da educação física entre nós”.15 A velocipedia foi a petia à imprensa “fazer a propaganda em relação às inúmeras
ciclistas, sendo também um dos
principais promotores da patinagem modalidade com mais cobertura noticiosa, o que se deveu ao vantagens que o sport em geral nos apresenta”,21 conseguindo
no Porto. Nascido no Porto a 21 de facto de O Campeão ser o órgão do Real Velo Club do Porto16 dessa forma “desenvolver o sport em toda a sua magnitude”.22
junho de 1877, Múaze trabalhou
toda a vida na empresa Ferreira (RVCP) e, pouco depois, da União Velocipédica Portuguesa Porém, alguns assinantes não partilhavam dessa opinião,
21. Idem, ibidem.
Múaze & C.ª. Ocupou a direção do (UVP). Gradualmente, o periódico alargou a sua linha edito- chegando a devolver o jornal como represália pela mudança 22. Idem, ibidem.
RVCP durante vários anos, sendo
cônsul do Turing Club Cyclista
rial a mais modalidades, como tiro, ténis e futebol, abrindo editorial, o que obrigou a direção de O Campeão a repensar a
Italiano e delegado do Sport definitivamente as suas páginas, a partir de novembro de estratégia. Com o objetivo de apaziguar os ânimos dos assi-
Club do Pará (Brasil). Foi ainda 1900, a modalidades de menor expressão popular, como a nantes e leitores descontentes, o periódico lançou, em março
agraciado com o título de Cavalleiro 23. Esta edição teve o título de
Hospitalario de S. João Baptista de patinagem, o cricket, o atletismo e os desportos náuticos. de 1901, uma edição mensal23 totalmente dedicada à litera- “Supplemento Litterario do
Hespanha. O Campeão prestou-lhe Em finais de 1900, as notícias de desporto, em especial de tura, que passou a sair no dia 15 de cada mês, mantendo-se Campeão”, sendo a ideia
uma homenagem a 25 de junho apresentada em O Campeão de 5
de 1901, publicando uma extensa futebol, dominavam claramente sobre as de literatura, o que as duas edições desportivas nos dias 5 e 25. A mudança edi- de março de 1901.
biografia. aliado ao facto de não existir no Porto nenhum jornal to- torial de O Campeão fez com que certas secções ganhassem
18. Era o principal redator desportivo talmente desportivo levou a que os proprietários, Joaquim nova projeção e mais espaço noticioso, como sucedeu com a
de O Campeão, tendo integrado Ventura Júnior e Olyntho Múaze,17 com o apoio do presti- “Carta de Lisboa” (assinada pelo prestigiado jornalista lisboe-
o jornal a pedido de Olyntho
Múaze.
giado jornalista Pedro Bandeira18, decidissem mudar a linha ta Carlos Callixto) e “O Campeão nas Províncias” (coluna com

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breves notícias desportivas, extraídas de jornais regionais). A FÓRMULA DESPORTO-LITERATURA-TEATRO


Passaram a ser regulares os artigos de apologia ao desporto, Em 31 de julho de 1904 apareceu nas bancas o semanário
de forma a “introduzir o gosto e o desenvolvimento sportivo lisboeta O Aventureiro, dirigido por Joaquim de Landerset,
no seio das famílias, onde o degeneramento da raça caminha e cujo programa agregava desporto, teatro e literatura. No
a passos agigantados”.24 A promoção do desporto feminino número inaugural, na secção “Sport”,26 aparecia uma crítica 26. A Redacção. Sport. In O
24. A Redacção. Chronica. In O
manteve-se como uma das facetas editoriais de O Campeão, Aventureiro, 31 de julho 1904, p. 3.
Campeão, 8 de janeiro 1901, p. 1. contundente à forma como se encarava a atividade despor-
como demonstrou a edição de 23 de janeiro de 1901, com o tiva em Portugal, afirmando que se tinha “medo do sport”,27
artigo “A bicyclete nas senhoras”, em que se defendiam os por isso “não se pega num florete porque pode desembolar- 27. Idem, ibidem.
benefícios da velocipedia feminina como forma de “prevenir -se, não se atira porque nos podemos ferir, não se monta
a obesidade”.25 uma motocycletta porque pode explodir, etc., etc.”.28 E fa-
25. A Redacção. A bicyclete nas 28. Idem, ibidem.
senhoras. In O Campeão, 23 de
Numa época em que o desporto ainda não era um fenó- zia-se um apelo: “Deixem-se de criancices, meus senhores.
janeiro 1901, p. 6. Cultivem com ardor o sport, porque ele é bom para tudo,
meno popular, encontrando-se na sua fase inicial, as vendas
e as assinaturas dos jornais desportivos escasseavam, o que para a saúde, para o desenvolvimento e para o ânimo”.29
29. Idem, ibidem.
gradualmente debilitava as suas finanças. Neste panorama, Além de O Aventureiro, de existência efémera, aparece-
as dívidas de O Campeão foram-se acumulando e em finais de ram outras publicações a conjugar a fórmula desporto-lite-
1901 estariam na origem de desentendimentos entre o então ratura-teatro. A atividade desportiva era assim encarada ao
proprietário e único administrador, Pinto Júnior, e o diretor nível das artes e da cultura, sendo uma área jornalística im-
Olyntho Múaze, levando à saída deste último. Com Múaze portante para qualquer novo periódico que fosse lançado por
saiu também o principal responsável pela redação, o jorna- um corpo redatorial jovem e ávido de uma transformação
lista Pedro Bandeira, que ingressara em O Campeão a pedido social. Foi precisamente nesta linha de pensamento que os
de Múaze. As saídas consumaram-se em 25 de setembro de periódicos literário-desportivos O Aristocrata (Porto, 1902),
1901, com Pinto Júnior a assumir a responsabilidade de dar A Madrugada (Lisboa, 1906) e Azul e Branco (Lisboa, 1907)
continuidade ao periódico. No entanto, as saídas de Múaze enquadraram o desporto no seu programa editorial.
e Bandeira ditariam o fim da publicação, que ressurgiria em
Durante os primeiros anos do século XX, o gradual contá-
abril de 1901, com o título de Sportivo, mas sem conseguir
gio social do desporto, cada vez mais integrado no mundo do
consolidar-se no mercado jornalístico portuense.

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lazer e dos tempos livres dos portugueses, fez com que certos quatro páginas predominou a literatura e o desporto, em
boletins, pertencentes a associações culturais, o integrassem especial o futebol e o ciclismo.
como um elemento informativo, como sucedeu com o bole-
Nos primeiros anos da década de 1910, os periódicos as-
tim da Associação Coimbra-Club, lançado em 16 de abril de
sentes na fórmula editorial designada como “artístico-des-
1907, em Coimbra. Com o subtítulo de “Revista quinzenal
portiva”30 ganharam um novo fôlego, surgindo cinco novos
illustrada”, o periódico Coimbra-Club assumia-se como uma 30. PINHEIRO. História da imprensa
títulos num intervalo de dois anos. Em 7 de abril de 1912, desportiva em Portugal, p. 79.
publicação “Scientifica, Litteraria, Sportiva e Charadística”,
em Lisboa, saiu para as bancas o quinzenário O Caraça, com
contando na sua secção desportiva com a colaboração do
o subtítulo de “Revista Ilustrada, Tauromáquica, Teatral,
prestigiado ginasta Paulo Lauret, que viria mais tarde a emi-
Cinema, Sportiva e Humorística”. Ao custo de 10 réis, a
grar para o Brasil.
primeira página foi dedicada à arte do toureio, publicando
No final da primeira década do novo século, a publicação um retrato, em pose, do famoso cavaleiro José Casimiro
que melhor conjugou a literatura e o desporto foi o perió- d’Almeida. Era predominante a tauromaquia no seu noticiá-
dico Lettras e Sport, que se definia, em subtítulo, como uma rio, assim como na capa – no último número, de 18 de agosto
“Revista Litteraria, Sportiva e Theatral”. Lançada no Porto, de 1902, a primeira página foi dedicada ao 20.º aniversário
em 1 de março de 1910, a Lettras e Sport publicou no número da Praça de Touros do Campo Pequeno.
inaugural diversos artigos desportivos, dedicados ao futebol,
A arte do toureio integrou também a linha edito-
ténis, ginástica, hóquei e patinagem, assim como notícias
rial do periódico Alma Nova, lançado em Lisboa durante
sobre as atividades do Futebol Clube Porto. Literatura, tea-
a primeira quinzena de abril de 1913, com o subtítulo de
tro e poesia formavam o trio cultural desta revista, que não
“Revista Illustrada Litteraria, Sportiva, Taurina, Theatral e
passou do número quatro, publicado em 1 de maio de 1910.
Anunciadora”. A “Secção Sportiva” era assinada sob o pseu-
Em finais desse mesmo ano saiu em Lisboa o periódico dónimo de Raquette, que logo no primeiro número fez
A Ribalta, com o subtítulo de “Revista Quinzenal, Sportiva, questão de lembrar que “uma das coisas que mais tem pro-
31. Raquette. Secção Sportiva. In
Theatral e Litteraria”, dirigido por Artur dos Santos (assina- gredido em Portugal é o Sport”,31 existindo cada vez “mais Alma Nova, abril 1913, p. 8.
va com o pseudónimo de D. Chicote), um dos grandes espe- sportmens”.32 No entanto, esta publicação não daria grande
32. Idem, ibidem.
cialistas em futebol. Vendido por 10 réis, nas suas habituais

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46

relevo ao desporto, prevalecendo nas suas páginas o mundo em 25 de junho de 1914, a sua secção “O Sport Nacional”
artístico e político. caracterizou-se pela publicação regular de artigos a favor da
prática desportiva, principalmente na região alentejana.
O noticiário desportivo teria sim projeção no Actualidades,
cujo primeiro número saiu em 5 de outubro de 1913, em Igualmente com o objetivo de “servir de meio ao desen-
Lisboa. Apresentada em subtítulo como uma “Revista volvimento do sport”,35 procurando “incutir no espírito de
35. A Redacção. O nosso jornal. In O
Litteraria, Artística, de Modas e Sport”, demonstraria ao todos a necessidade de cultivar o sport”,36 apareceu nas bancas Recreativo, 27 de abril 1912, p. 1.
longo da sua existência (durou até 1 de maio de 1915) uma de Coimbra, em 27 de abril de 1912, o pequeno periódico O
forte propensão para a promoção do desporto, em especial Recreativo – Quinzenário noticioso literário e desportivo, criado 36. Idem, ibidem.

de uma modalidade que começava a granjear cada vez mais por um grupo de sócios do Clube Recreativo Conimbricense.
popularidade: o futebol. No terceiro número, de 19 de outu- Apesar de ser um mero órgão informativo de um clube local,
bro de 1913, a capa do Actualidades foi inteiramente dedicada apresentava regularmente, nas suas habituais quatro páginas,
à abertura da nova temporada do Campeonato de Lisboa de uma alargada cobertura noticiosa da atividade desportiva de
33. A Redacção. A inauguração da Futebol, recordando que “ainda há bem poucos anos o início outros clubes conimbricenses. Promovia também desportos
temporada de “foot-ball”. In
Actualidades, 19 de outubro de uma época desportiva pouco ou nenhum interesse des- pouco conhecidos do público português, como sucedeu na
1913, p. 1. pertava no nosso público. Hoje, porém, as coisas mudaram capa do número 2, de 14 de maio de 1912, com a arte marcial
muito de figura e a inauguração da presente temporada de japonesa do Jiu-Jitsu.
34. A partir de 1914, o seu nome foot-ball constituiu um acontecimento sensacional”.33 Face
passou a figurar no cabeçalho
do jornal como “colaborador a este fenómeno de crescente popularidade, passaram a ser A BOLA E AS LETRAS EM TEMPO DE GUERRA
photographico”. Arnaldo Garcez habituais as primeiras páginas dedicadas ao futebol lisboe- A imprensa artístico-desportiva manteve-se ativa durante
Rodrigues tornou-se num dos
mais reputados fotógrafos ta, publicando regularmente fotografias de António M. de o período da I Guerra Mundial (1914-1918), assente fun-
portugueses durante a década Moura e Arnaldo Garcez.34 damentalmente no binómio desporto-teatro. Os dois prin-
de 10, sendo o único repórter
fotográfico que acompanhou o Também muito ativo na divulgação do desporto e da lite- cipais periódicos a integrarem editorialmente este binómio
Corpo Expedicionário Português
ratura foi o periódico O Académico – Semanário litterario, cien- foram o quinzenário Recreio e Sport, lançado em 26 de julho
na Primeira Guerra Mundial. No
início dos anos 20 destacou-se ao tífico, humorístico e sportivo, apresentado em Évora a 6 de de- de 1914, em Lisboa, pela Academia Recreativa ‘A Caridade’,
serviço de O Século e Diário de
zembro de 1913. Nos 14 números publicados, o último deles e o semanário Teatro e Sport, criado em 17 de novembro de
Lisboa.

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47

1917, no Porto, pelo Grupo Teatro e Sport. Ambas publi- NÚMERO DE


37. A Redacção. O nosso jornal. In TÍTULOS
Recreio e Sport, 26 de julho 1914, cações tinham a intenção de “contribuir para o engrandeci- EDIÇÕES
p. 1. mento”37 do teatro e do desporto em Portugal, ajudando-os A Labareda – Quinzenário bairrista de literatura,
22
crítica e sport (Porto, 1917)
a ultrapassar a fase “decadente”38 que atravessavam. No en-
38. Lys, A. Razão de ser. In Teatro e
Sport, 17 de novembro 1917, p. 1. tanto, o seu contributo seria reduzido, uma vez que tiveram O Lusíada – Publicação quinzenal de literatura,
10
sport e humorismo (Porto, 1917)
ambas um fim prematuro. Mas a atividade deste género de
O Alcôa – Semanário noticioso, desportivo, crítico e
imprensa não se restringiu a estes dois periódicos, surgindo literário (Nazaré, 1917)
12
TABELA 1
uma série de outros títulos (ver Tabela 1), um pouco por O Ideal – Quinzenário de crítica social, arte, Periódicos Artístico-desportivos
5
todo o País, a conjugar literatura, teatro e desporto, em espe- literatura, desportos e teatro (Porto, 1918) entre 1914 e 1918
cial o futebol, que continuava a sua fase de ascensão popular. TABELA 1

TÍTULOS
NÚMERO DE Nos anos seguintes ao pós-guerra, a imprensa artístico-
EDIÇÕES -desportiva desempenharia igualmente um papel importan-
O Cipó – Semanário literário, crítico, teatral e
11 te na divulgação do desporto e da cultura a nível regional,39
sportivo (Tomar, 1914) 39. E na Capital também,
sobressaindo nesse aspeto o periódico Alma Nova – Jornal dos destacando-se o periódico Alma
O Anunciador Ilustrado – Revista literária, teatral,
sportiva, tauromáquica e anunciadora (Lisboa, 12
Novos, Literatura, Charadismo e Desporto, lançado em Espinho, da Mocidade – Quinzenário
Humorístico, Literário, Teatral e
1914) em 18 de maio de 1919. O jornal contava com jovens reda- Sportivo, lançado em Lisboa, em
Vida Teatral – Quinzenário literário e desportivo tores desportivos que deram um forte impulso à secção des- fevereiro de 1919, mantendo-se
3 um ano em atividade.
(Lisboa, 1914) portiva do Alma Nova, ao longo dos seus mais de três anos de
Glycinias – Revista de letras, artes e sports (Porto,
1 publicação (até 20 de agosto de 1922). Centrou a cobertura
1915)
noticiosa no desporto em Espinho e no Porto, sobretudo do
Tesouradas – Quinzenário de teatro e sport (Porto,
1916)
5 futebol, cada vez mais popular.
O Badalo – Bi-mensário de literatura, crítica, sport e O futebol portuense seria igualmente um dos temas em
educação 12 destaque na secção desportiva do Alma Livre – Bi-mensário de
(Vila Nova de Gaia, 1916)
Literatura, Desportos e Humorismo, criado em 17 de maio de
1919, no Porto. A secção “Desportos” era da responsabilidade

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45. O Borgista – Semanário literário,


humorístico, noticioso e sportivo
de Xisto Lima, que logo no primeiro número deixou em evi- interromper a publicação a 3 de setembro de 1921 e mudar saiu a 12 de março de 1922,
apresentando o noticiário
dência a dificuldade de se ser jornalista desportivo “numa o título para Invicta Sport, assumindo-se como um periódico desportivo na secção “Crónica
40. Lima, X. Desportos – Abertura. In
Alma Livre, 17 de maio 1919, p. 3. terra que nada, ou quase nada, de sport trata”,40 faltando ao totalmente desportivo a partir de 10 de setembro de 1921. Sportiva”. Publicou-se até 9 de
Porto “a base duma educação alheia a preconceitos”,41 que abril de 1922.
41. Idem, ibidem.
permitisse difundir a prática desportiva. O futebol, o water- AUGE E DECLÍNIO 46. “Quinzenário de Artes, Letras
e Desporto”, o Gente Moça foi
-polo e a natação teriam espaço de relevo no Alma Livre, No início da década de 20, uma das secções que ganhou lançado a 15 de abril de 1922,
que terminaria em 15 de setembro de 1921, numa edição alguma projeção no jornal Janeiro Desportivo foi a “Beliscos”, exibindo uma “Secção Desportiva”
dedicada à travessia do Porto a nado, organizada pelo Clube habitualmente preenchida com poesia satírica dedicada ao eclética e doutrinal, promovendo
o desporto como forma de
Fluvial Portuense. desporto e à vida nacional. A inclusão deste género de sec- revigoramento da raça. Saíram
mais cinco números, extinguindo-
Nesse mesmo mês, em inícios de setembro de 1921, as- ções, ligadas à literatura, teatro e poesia, alargando-se neste se a 15 de julho de 1922.
sistiu-se no Porto à primeira transformação de um jornal período ao cinema, seria uma prática comum nas páginas
42. A Blague – Quinzenário 47. O Ferrão – Semanário crítico,
Humorístico, Literário, Artístico, artístico-desportivo num periódico totalmente desportivo. dos novos jornais desportivos generalistas, a exemplo do que humorístico, literário e sportivo
Desportivo, Teatral saiu duas A Mocidade – Quinzenário Literário, lançado em 1 de agosto sucedera nas décadas anteriores. Deste modo, a manuten- saiu a 26 de novembro de
vezes, a 20 de novembro e 15 de 1922, apresentando uma boa
dezembro de 1921, sob a direção de 1920, foi-se transformando gradualmente num periódico ção desta proximidade entre o mundo artístico e o despor- secção “Sports”, assinada
de J. de Matos Braz, apresentando cada vez mais desportivo, a tal ponto que em 24 de outubro tivo teria como efeito o surgimento de um vasto leque de pelo pseudónimo “Penalty”. O
uma boa secção de “Desportos”.
de 1920, após uma remodelação, passou a apresentar, em novas publicações periódicas de cariz artístico-desportivo, desporto seria tema regular da
primeira página, como sucedeu
43. Apesar de dedicado ao teatro, subtítulo, a frase: “Os Sportmen do Norte de Portugal vêem principalmente na primeira metade da década. Entre 1921 na última edição de 20 de maio
este semanário, lançado a 9 de
hoje realizada uma das suas maiores aspirações: ter um órgão e 1922 apareceu um vasto número de publicações que con- de 1923.
novembro de 1921, teria uma
excelente secção de “Desportos”, na imprensa”. A secção desportiva contava com três jovens jugava editorialmente o binómio artes-desporto. A maior 48. “Quinzenário Ilustrado,
assinada por José Serrano. Saiu
redatores (Araújo Xavier, Bento Ferreira Guimarães e Carlos parte delas teve uma duração breve, como foram os casos Literário, Teatral, Desportivo e
em quatro ocasiões, a última em Anunciador”, apresentava no
30 de novembro de 1921. Pilrão), entusiastas do desporto portuense, o que contribuiu de A Blague42 (Coimbra, 1921), Comédia43 (Lisboa, 1921), A número um, de 17 de dezembro
fortemente para que o desporto passasse a ser o tema prin- Brisa44 (Porto, 1922), O Borgista45 (Viana do Castelo, 1922), de 1922, a coluna “Desportos”,
44. A Brisa – Quinzenário Sportivo, onde fazia votos para que os
Literário e Humorístico, sob a cipal nas páginas de A Mocidade, chegando a ocupar 90 por Gente Moça46 (Lisboa, 1922), O Ferrão47 (Braga, 1922) e A Luz clubes continuassem a “pugnar
direção de Eugénio Soeiro, foi cento do jornal. Face ao aumento da atividade desportiva no da Ribalta48 (Lisboa, 1922). pelo revigoramento da raça pela
lançado a 1 de novembro de 1922, prática dos exercícios físicos”.
tendo durado cinco números, até Porto no início dos anos 20, o periódico A Mocidade decidiu Saíram mais dois números, até 16
1 de janeiro de 1923. de janeiro de 1923.

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Dossiês
49. Lançado em 25 de Outubro 56. Órgão do Sporting Club S.
de 1923, O Mocho passou a Cosmado, sediado em S.
dar relevo ao desporto a partir Cosmado (freguesia de Armamar,
da remodelação operada no 49 distrito de Viseu), esta publicação
número 13, adotando o subtítulo quinzenal publicou-se entre
de “Revista Académica e meados de 1925 e 1 de fevereiro
Desportiva”. A secção “Página de 1928 (n.º 31). O desporto local
e regional estaria em destaque.
Desportiva” estaria em destaque No entanto, alguns periódicos artístico-desportivos con- de setembro de 1922, daria bastante cobertura ao desporto
até ao fim da publicação, em 10
de junho de 1925. seguiram contrariar esta tendência e manter-se em atividade regional, em especial ao futebol, cada vez mais popular.
durante mais tempo. Um desses casos foi o Alma Lusa – Órgão
Entre 1923 e 1924, o surgimento de novos periódicos no
Quinzenal Literário-Sportivo e Informador, editado no Porto
campo artístico-desportivo manteve-se, embora sem o ful-
entre 1 de dezembro de 1920 e 1 de dezembro de 1921. Ao
gor dos dois anos anteriores, sublinhando-se a publicação 57. Assinada por “Penalty e Off-
50. O Alma Nova – Semanário literário, longo de 25 números, a “Secção de Sport” foi uma presença Side”, a coluna “Educação Física
noticioso, desportivo, regionalista de O Mocho49 (Beja, 1923), Alma Nova50 (Viana do Castelo,
habitual, reforçada a partir de 12 de novembro de 1921 com e Desportos” apareceria logo no
saiu a 1 de dezembro de 1923, com 1923), Alba51 (Lisboa, 1924), Vida Académica52 (Lisboa, número 1, de 1 de outubro de
uma boa secção de “Desportos”. a inclusão, na capa, da secção “Galeria Sportiva”, dedicada a 1926. Publicou-se até ao número
Publicou dez números, até 3 de 1924) e Lux53 (Porto, 1924). O jornal de maior projeção foi o
homenagear desportistas portugueses e estrangeiros. 14, de 26 de fevereiro de 1927.
fevereiro de 1924. Correio Teatral – Semanário de Teatro, Cinema, Música, Sport,
58. Dirigido por Jayme Nunes, com o
51. O quinzenário Alba – Arte, Outro periódico editado durante um período razoável Literatura, Crítico e Noticioso, publicado entre 1 de março de subtítulo de “Publicação Literária
Literatura, Teatros, Desportos e (mais de dois anos, entre 8 de maio de 1921 e 10 de junho de 1923 e 19 de junho de 1924 (n.º 51), em Faro. A sua secção de Teatro, Cinema, Sport e
Cinema foi lançado a 15 de junho
de 1924, apresentando duas 1923) foi O Crítico – Semanário Teatral, Sportivo, Humorístico, de “Sport” foi crescendo de importância em termos edito- Tauromaquia”, apresentaria uma
importante secção “Desportos”
secções ligadas ao desporto: Noticioso e Artístico, cuja “Secção Desportiva” foi ganhando riais, conseguindo ser assunto de primeira página em muitas no primeiro número, de 8 de abril
“Cultura Física” e “Tauromaquia”.
protagonismo, chegando o jornal a mudar o subtítulo para ocasiões,54 quase sempre com o futebol como tema de fundo. de 1928. Futebol e boxe seriam as
52. A Vida Académica foi lançada em modalidades em destaque nesta
“Semanário Teatral e Sportivo”, em janeiro de 1922, sob
janeiro de 1924, destacando na A partir de 1925, o volume de novos periódicos artísti- revista quinzenal, que duraria até 6
secção “‘O Sport’ na Academia” a direção de Abel Jorge Rodrigues (proprietário e editor). de maio de 1928.
co-desportivos diminuiu, embora tivessem continuado a
o papel doutrinário do jornalismo Editado em Lisboa, O Crítico publicaria 99 números, tendo a
desportivo. Saiu de forma surgir até meados da década de 40, altura em que se assis- 59. Com o subtítulo de “Revista
irregular, até maio de 1926. linha editorial assente na conjugação noticiosa do trio for- Magazine Mensal de Arte,
tiu à definitiva rutura da fórmula jornalística formada pelo Literatura, Desporto, Elegâncias”,
mado pelo teatro, cinema e desporto, sobretudo futebol.
53. A revista mensal Lux – Literatura, mundo artístico e o desportivo. No entanto, até essa cisão saiu em maio de 1929,
Desportos, Cinema, Palcos saiu pela dedicando duas páginas à
primeira vez em 15 de fevereiro de Com uma boa secção de “Sport” apareceu também, em 15 se consumar, o jornalismo artístico-desportivo continuaria secção “Desporto”, assinada por
1924, dedicando aos “Desportos” de janeiro de 1922, o jornal Á Sombra da Capa – Semanário a produzir novas publicações de qualidade, principalmente “Imperator” e dedicada ao futebol
54. três das suasde
Cf. edições 12 21
páginas. Publicou-
de junho, 19 literário, sportivo, humorístico e noticioso, ligado à Academia durante a segunda metade dos anos 20, como sucedeu com O e automobilismo.
se mais duas vezes, a última
de julho, 2, 9 e 30 de agosto em 1
e 20
de abril de 1924.
de dezembro de 1923; e 27 de de Viana do Castelo, mais propriamente ao Liceu Central Avenidas55 (Lisboa, 1925), A Nova Aurora56 (Armamar, 1925), 60. Este quinzenário alentejano foi
março e 12 de junho de 1924. de Gonçalo Velho. A sua coluna desportiva ficou a cargo do A Mocidade57 (Angra do Heroísmo, 1926), A Ribalta58 (Lisboa, lançado a 1 de agosto de 1929,
dedicando a secção “O Sport em
55. O número inaugural, de 17 de redator Alfredo Oliveira, que ao longo de 24 números, até 21 1928), Lisboa Galante59 (Lisboa, 1929), Alma Nova60 (Redondo, Redondo” ao desporto regional.
maio de 1925, foi dedicado ao
jogo de futebol entre Portugal
e Espanha, em Lisboa. Com
o subtítulo de “Periódico EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 PINHEIRO. As letras ao ritmo da bola p. 40-50
desportivo, literário e noticioso”,
O Avenidas era propriedade do
Sport Club Avenidas.

Dossiês
50
61. O Espectáculos – Jornal de teatro
e cine com reportagem de todos
os sports do domingo saiu a 16
de dezembro de 1929, por 50
centavos, dando a indicação que
1929), Espectáculos61 (Coimbra, 1929) e O Domingo62 (Figueira HASSE, Manuela. O divertimento do corpo. Lisboa: Editora Temática,
1999.
iria sair todas as segundas-feiras à da Foz, 1930).
tarde, com relatos dos principais HUIZINGA, Johan. Homo Ludens (3.ª Ed.). Madrid: Alianza Editorial,
jogos de futebol de Coimbra. Ao longo das duas décadas seguintes, a linha editorial 2012.
artístico-desportiva foi lentamente perdendo interesse no MATTOSO, J. (coord.). História de Portugal (vol. 6). Lisboa: Editorial
62. O Domingo – Semanário
Literário, Desportivo e meio jornalístico português, levando a uma redução do nú- Estampa, 2001.
Cinematográfico foi lançado na mero de novas publicações. Nos anos 30 e 40, os únicos pe- PINHEIRO, Francisco. A Europa e Portugal na imprensa desportiva,
Figueira da Foz, a 5 de janeiro de
1930, publicando-se regularmente
riódicos com algum interesse nesta área jornalística foram o 1893-1945. Coimbra: MinervaCoimbra, 2006.
durante 24 números, até 20 de Alma Lusitana63 (Covilhã, 1932), Alma Nova64 (Braga, 1935), PINHEIRO, Francisco. História da imprensa desportiva em Portugal.
julho de 1930. Fogo!65 (Lisboa, 1936) e Mosaico66 (Lisboa, 1946), mas todos Porto: Afrontamento, 2011.
63. Com o subtítulo de “Semanário eles de vida efémera e pouca dimensão popular. PINHEIRO, Francisco & MELO, Victor Andrade. A bola ao ritmo de fado
de Literatura, Notícias, Sports e e samba – 100 anos de relações luso-brasileiras no futebol.
Cinema”, saiu a 2 de junho de O ocaso desta linha editorial estaria intimamente ligado Porto: Afrontamento, 2013.
1932, com a secção “Desportos” à cisão que gradualmente foi sendo criada entre o mundo
(centrada no desporto local) SERRA, Pedro. & SERRADO, Ricardo. História do futebol português (2
entregue ao pseudónimo “X”. literário-intelectual e o desportivo, durante os anos 30 e 40. vols.). Lisboa: Prime Books, 2010.

64. Este “Quinzenário Académico,


As elites intelectuais desse período, ligadas ao Estado Novo, SOUSA, Manuel. História do futebol. Mem-Martins: Sporpress, 1997.
Literário e Desportivo” foi lançado distanciaram-se de tudo o que fosse popular e massificado,
TERRET, Thierry. Histoire des sports. Paris: L’Harmattan, 1996.
a 26 de outubro de 1935, tendo-se como começava a ser o caso do futebol, ligado ao povo e ao
publicado até 26 de janeiro de 1936.
campo dos sentimentos à volta dos clubes de futebol, univer-
65. O seu número espécime saiu so de difícil compreensão para uma parte da intelectualidade
a 17 de janeiro de 1936, com o
subtítulo de “Grande semanário portuguesa.
da vida contemporânea – Cinema,
Literatura, Desporto”. Dedicaria
regularmente a contracapa REFERÊNCIAS
ao desporto, promovendo COELHO, João Nuno & PINHEIRO, Francisco. A paixão do povo, História
campanhas a favor do desporto do futebol em Portugal. Porto: Afrontamento, 2002.
feminino ou da aproximação
entre o Estado e o desporto. DIAS, Marina Tavares. História do futebol em Lisboa. Lisboa: Quimera
Editores, 2002.
66. Saíram apenas três números, em
dezembro de 1946, apresentando
o subtítulo “Documentário
Semanal das Artes, Letras e EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 PINHEIRO. As letras ao ritmo da bola p. 40-50
Desportos”.

Dossiês
A TABELINHA ENTRE O FUTEBOL E A
POESIA
Gustavo Cerqueira * gustavocguimaraes@hotmail.com
Guimarães* Doutorado e mestrado em Estudos Literários pela UFMG,
com pesquisas acerca do “sujeito” e do “espaço” nas
poéticas de João Gilberto Noll e Al Berto. Graduado
em Letras e Psicologia pela PUC-Minas. É membro-
pesquisador do FULIA – Núcleo de Estudos sobre Futebol,
Linguagem e Artes da FALE/UFMG –, onde, atualmente,
desenvolve pesquisa de Pós-Doutorado intitulada “A
tabelinha entre o futebol e outras práticas poéticas no
Brasil” (Pós-Lit/PNPD/CAPES). É também autor dos livros
de poesia Língua (Selo Editorial, 2004) e Guerra (inédito).

RESUMO: Este estudo visa a realização de um breve RÉSUMÉ: Cette étude vise à effectuer un bref parcours
percurso histórico entre a literatura e o futebol, com historique entre la littérature et le football, en particulier
destaque para a poesia e os estudos pioneiros de Pier la poésie et les travaux pionniers de Pier Paolo Pasolini et
Paolo Pasolini e Milton Pedrosa. Em seguida, pretende-se Milton Pedrosa. Ensuite, nous avons l’intention de procéder
realizar uma análise comparativa de alguns poemas da à une analyse comparative de certains poèmes de la
literatura brasileira que versam sobre o futebol, ressaltan- littérature brésilienne qui traitent avec le football, soulignant
do, sobretudo, seus aspectos formais e suas analogias surtout ses aspects formels et leurs analogies structurelles.
estruturais. Para tanto, elege-se as antologias poéticas: Pour ce faire, choisir les anthologies poétiques: Gol de letra
Gol de letra (1967), de Milton Pedrosa, Quando é dia (1967), Milton Pedrosa, Quando é dia de futebol (2002),
de futebol (2002), de Carlos Drummond de Andrade, e Carlos Drummond de Andrade, et Pelada poética, Mário
Pelada poética, de Mário Alex Rosa. Rosa Alex Rosa.

PALAVRAS-CHAVE: Futebol e poesia; teoria da literatu- MOTS-CLÉS: Football et de la poésie; théorie de la littérature;
ra; literatura brasileira; espacialidade; Pier Paolo Pasolini. littérature brésilienne; spatialité; Pier Paolo Pasolini.
52

1. PRELIMINARES paralelamente, o campo dos estudos crítico e teórico a esse


respeito. O termo tabelinha, já enunciado no título deste estu-
do, designa a jogada futebolística feita geralmente entre dois
CHUTES DE POETA atacantes: um deles passa a bola para o companheiro e a rece-
NÃO LEVAM PERIGO À META
be à frente, ultrapassando o adversário (Fig. 1). A realização
Paulo Leminski dessa jogada de velocidade requer certo entrosamento entre os
partícipes, porque exige bastante precisão no tempo de bola
O interesse pela prática futebolística e o seu impacto no
e no deslocamento pelo espaço. Essa imagem da tabelinha foi
Brasil tem sido crescente desde a chegada do esporte bretão
motivadora para a proposição de se pensar o diálogo estabe-
no fim do século XIX em terras brasileiras. O futebol tem
lecido entre outras artes e o futebol, ele próprio uma delas,
movimentado bilhões em dinheiro no mercado financeiro
por meio de suas homólogas estruturas. Ou seja, a relação
e gerado uma imensa produção discursiva, em destaque na
estabelecida entre os aspectos formais do poema e os espaços
pauta diária de todos os meios de comunicação, tornando-
“desenhados” no campo de jogo, seu sistema de significação,
-se um dos principais temas da cultura popular brasileira.
já apontados pelo cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, na
Alguns intelectuais e artistas, ao longo desse tempo, também
esteira da semiologia francesa de Roland Barthes, como bem
se ocuparam do futebol, expressando de maneiras variadas o
nos mostrou o pesquisador José Miguel Wisnik:
seu rico campo semiológico. As artes brasileiras, sobretudo
as literárias – por intermédio, até os anos 1980, da influente
Pasolini dizia que o futebol é uma linguagem, e comparava
crônica carioca –, colaboraram muito para a consolidação do
jogadores italianos com escritores seus contemporâneos, ven-
futebol enquanto prática esportiva no país, ajudando a edifi-
do analogias entre os estilos e as atitudes inerentes aos seus
car a sua imagem mítica desde o modernismo e contribuindo
1. Cf.: SILVA, Marcelino Rodrigues “discursos”. Mais do que isso, falava, escrevendo em 1971, de
para a composição da identidade do brasileiro.1
da. Mil e uma noites de futebol um futebol jogado em prosa, predominante na Europa, e de
(2006). Livro que aborda o
surgimento da crônica esportiva
Assim, a seguir, traça-se um breve panorama das pro- um futebol jogado como poesia, referindo-se ao futebol sul-
carioca, destacando a atuação duções literárias em diálogo com o futebol, destacando- -americano, e, em particular, ao brasileiro. Essas ideias, que se
do jornalista Mário Rodrigues -se sobremaneira a tabelinha entre o futebol e a produção tornaram mais conhecidas recentemente, foram muitas vezes
Filho, cujo nome foi empregado
na denominação do estádio do poética feita em Minas Gerais, bem como evidenciando, banalizadas e reduzidas à superfície, sem que se atentasse para
Maracanã.

EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 GUIMARÃES. A tabelinha entre o futebol e a poesia p. 51-62

Dossiês
53

o alcance inédito das suas sugestões. Apesar de seu caráter ape- 2. O CAMPO DO ASSUNTO
nas indicativo, Pasolini não falava de poesia no sentido vago Em 2012, o periódico Aletria – revista do Programa de
e costumeiro de uma “aura” lírica qualquer a cercar o futebol. Pós-graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras
Também não estava projetando “conteúdos” narrativos para da UFMG –, um dos principais dos estudos de literatu-
dentro do campo. Em vez disso, influenciado, e não sem hu- ra no Brasil, dedicou-se exclusivamente ao tema “Esporte,
mor, pela voga semiológica da época [barthesiana], identifi- Literatura e Cultura”. Na apresentação desse dossiê, os or-
cava processos comuns aos campos da literatura e do futebol.2 ganizadores destacam o atual crescimento do interesse aca-
2. WISNIK. Veneno remédio, p. 13.
dêmico pelo futebol, gerado “em parte pela perspectiva da
realização da Copa do Mundo de 2014 no país. Todavia, na
área de Linguística, Letras e Artes há ainda um vasto cam-
po a trilhar no sentido do desenvolvimento de pesquisas de
caráter transdisciplinar que contemplem também o tema do
futebol”.3
3. CORNELSEN; FERREIRA;
SILVA. Apresentação. Aletria,
Essas possibilidades de intersecção se tornam ainda mais p. 9. Edição organizada por
vastas se as associarmos à Música Popular Brasileira, à bio- pesquisadores do Fulia – Núcleo
grafia e à memória, ao cinema, à fotografia, à mitologia, aos de Estudos sobre Futebol,
Linguagem e Artes da Faculdade
HQs, às charges, dentre outras formas de expressão artísti- de Letras da UFMG –, núcleo
ca. Por outro lado, se ponderarmos sobre o campo restrito criado em 2010, estabelecendo-
se como o único da área inscrito
dos Estudos Literários advindos dessa relação, constata-se no âmbito do CNPq, do qual sou
que esses estudos vêm adquirindo mais adeptos na academia membro pesquisador desde o
início de 2012.
nos últimos anos, acrescidos de maneira mais ampla ao cam-
po das Ciências Humanas, no qual se destacam a História, a
FIGURA 1
Tabelinha Sociologia, a Ciência Política, a Antropologia, o Jornalismo
e a Psicologia.
Fonte: <http://1doisdotcom.files.
wordpress.com/2012/03/cabecalho.jpg> FIGURA 1

EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 GUIMARÃES. A tabelinha entre o futebol e a poesia p. 51-62

Dossiês
54 6. PASOLINI. “Il calcio ‘è’ un
linguaggio con i suoi poeti e
prosatori”, Il Giorno, s/ pág..
Disponível em: http://www.
interruzioni.com/calciopasolini.
No artigo “A escrita com os pés”, publicado nesse mesmo de significação próprio, cunhando o “conceito” de “podema”, htm. Cf. trad. de Maurício
Santana Dias: “De fato as
periódico, o pesquisador Cássio Hissa, além de corroborar a unidade mínima do futebol: o homem com a bola no pé. “palavras” da linguagem do
ideia de muitos estudiosos de que o futebol é uma das mais futebol são formadas exatamente
expressivas representações de nossa sociedade, afirma ainda Infatti le “parole” del linguaggio del calcio si formano esat- como as palavras da linguagem
escrita-falada. Ora, como se
que ele é “um estimulante modo de dizer o mundo”.4 É nesse tamente come le parole del linguaggio scritto-parlato. Ora, formam estas últimas? Formam-
4. HISSA. Aletria, p. 45.
caminho que parecem situar-se alguns dos mais importan- come si formano queste ultime? Esse si formano attraverso se por meio da chamada
tes pesquisadores brasileiros, que se dedicaram aos estudos la cosiddetta “doppia articolazione” ossia attraverso le infi- “dupla articulação”, isto é,
por infinitas combinações dos
sobre o assunto: o jornalista Mário Leite Rodrigues Filho, nite combinazioni dei “fonemi”: che sono, in italiano, le 21 “fonemas” – que, em italiano,
irmão mais velho do escritor Nelson Rodrigues – outro lettere dell’alfabeto. são as 21 letras do alfabeto.
Os “fonemas” são, pois, as
marco para a literatura e o futebol –, e José Miguel Wisnik, I “fonemi” sono dunque le “unità minime” della lingua scritto- “unidades mínimas” da língua
professor da USP e músico. Mário Filho, por intermédio de -parlata. Vogliamo divertirci a definire l’unità minima della escrita-falada. Se quisermos
nos divertir definindo a unidade
crônicas no jornal impresso, contribuiu muito para a cons- lingua del calcio? Ecco: “Un uomo che usa i piedi per calciare mínima da língua do futebol,
trução do imaginário do futebol no país, promovendo um un pallone” è tale unità minima: tale “podema” (se vogliamo podemos dizer: “Um homem
que usa os pés para chutar uma
importante espaço para a produção discursiva em torno do continuare a divertirci). Le infinite possibilità di combina- bola”. Aí está a unidade mínima,
tema; além, é claro, de ter publicado o pioneiro livro O negro zione dei “podemi” formano le “parole calcistiche”: e l’insieme o “podema” (se quisermos
no futebol brasileiro (1947; 1964), no qual o esporte bretão delle “parole calcistiche” forma un discorso, regolato da vere continuar a brincadeira). As
infinitas possibilidades de
é articulado a outras áreas do saber, como a Sociologia e a e proprie norme sintattiche. combinação dos “podemas”
Antropologia. Wisnik, por sua vez, contribuiu de maneira I “podemi” sono ventidue (circa, dunque, come i fonemi): le
formam as “palavras
futebolísticas”; e o conjunto
não menos vanguardista com o livro Veneno remédio: fute- “parole calcistiche” sono potenzialmente infinite, perché in- das “palavras futebolísticas”
bol e o Brasil (2008), que incide de maneira mais decisiva finite sono le possibilità di combinazione dei “podemi” (ossia, constitui um discurso, regulado
por normas sintáticas precisas.
no campo dos Estudos Literários, logo estético, ao resga- in pratica, dei passaggi del pallone tra giocatore e giocatore); Os “podemas” são 22 (mais ou
tar o ensaio do cineasta Pier Paolo Pasolini, de 1971, escrito la sintassi si esprime nella “partita”, che è un vero e proprio menos como os fonemas): as
após o fracasso da Itália diante do Brasil na final da Copa do discorso drammatico.6
“palavras futebolísticas” são
5. Cf.: PASOLINI. “Il calcio ‘è’ un potencialmente infinitas, porque
linguaggio con i suoi poeti e México.5 O pensador italiano contribuiu especialmente na infinitas são as possibilidades de
prosatori”, Il Giorno, s/ pág.. constituição do futebol como linguagem, como um sistema Pasolini também sugere, sobremaneira, como anunciado combinação dos “podemas” (o
Disponível em: http://www. preliminarmente, a associação do futebol europeu à prosa que, em termos práticos, equivale
interruzioni.com/calciopasolini.htm. às passagens da bola entre os
jogadores); a sintaxe se exprime
na “partida”, que é um verdadeiro
discurso dramático”.
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literária e do brasileiro à poesia. Uma análise crítica e teórica ainda possível, devido à permeabilidade das linguagens ar-
pormenorizada dessas reflexões feitas por Pasolini é encon- tísticas –, a crônica, pelos motivos já explicitados, mostra-se
trada no artigo “A ‘linguagem do futebol’ segundo Pasolini: o gênero que mais se destacou no país e continua atraindo
‘futebol de prosa’ e ‘futebol de poesia’”, de Elcio Cornelsen seus adeptos leitores. Com exceção da destacada e impor-
(2006). Nele, o pesquisador aponta para as mesmas relações tante atuação dos cronistas para a edificação do futebol em
utilizadas pelo cineasta para “estabelecer uma distinção en- nossa literatura e em nosso imaginário coletivo, a exemplo
tre ‘cinema de prosa’ e ‘cinema de poesia’”.7 Conquanto, se dos trabalhos de Mário Filho, Coelho Netto, Lima Barreto,
7. CORNELSEN. Caligrama, p. 177.
essas equações Europa-prosa e Brasil-poesia não estão, hoje, Alcântara Machado, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond
completamente invertidas, é certo que não são uma unani- de Andrade, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira,
midade. O futebol brasileiro prosificou-se e o europeu poe- Luis Fernando Veríssimo, dentre outros, a produção literá-
tizou-se, de algum modo. Talvez, a lógica para pensar esse ria em distintos gêneros é pouca e pontual.
esporte associado ao gênero literário seja mesmo de maneira
Milton Pedrosa, no ensaio “O futebol na literatura brasi-
híbrida; isto é, tanto poético quanto prosaico, como a litera-
leira”, publicado em Gol de letra (1967), livro pioneiro sobre
tura é vem sendo pensada por certa teoria e por ela própria.8
8. Cf.: GUIMARÃES. Preâmbulo. as raízes da relação entre o futebol e a literatura, afirma que
A espacialização do sujeito em Veja-se o que Wisnik pondera a respeito dessa questão:
João Gilberto Noll e Al Berto, p.
em quase um século,
23-37. Estudo anterior de minha
autoria, cuja proposta é mostrar a Eu acho que no futebol os gêneros literários estão todos intrin-
desde que a primeira bola saltou no chão carioca, nasceram,
hibridação dos gêneros literários cados. Dos esportes todos, o futebol é o que mais deu margem
e o diálogo com outras artes em viveram e produziram incontáveis escritores de prosa e verso,
a um espectro narrativo em que se mesclam o fino e o grosso,
João Gilberto Noll e Al Berto. múltiplas obras foram criadas nos mais diversos gêneros. No
o épico, o trágico e o paródico; e ao mesmo tempo, uma di-
entanto, excluídas aquelas de caráter técnico, relativamente
mensão lírica, a expressão da subjetividade inscrita num certo
poucas são ainda as obras de ficção em que o futebol assume
modo de ser de um jogador. Que é como o Chico Buarque vê o
papel primordial. Entremostra-se apenas incidentalmente.
Pagão, por exemplo: aquilo é identificação lírica, com um joga-
Temos então que este esporte, hoje nacional, ainda não foi
dor que, na infância, ele vê dar chapéus, assim, de calcanhar.9
9. WISNIK apud CORNELSEN. capaz de interessar os autores brasileiros na medida corres-
Caligrama, p. 180.
Partindo-se dessa perspectiva, os trabalhos restritos ao pondente ao prestígio e à penetração que alcança nas camadas
campo das artes literárias brasileiras – se essa delimitação for da população brasileira.10 10. PEDROSA. Gol de letra, p. 15-6.

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13. Cf.: “Match de foot-ball” (1916),
de Apporelly; “Bungalow das
rosas e dos pontapés” (1924),
de Oswald de Andrade; “O
11. PEDROSA. Gol de letra, p. 28-9. E continua em outro momento: Veja-se, a exemplo, o poema “O anjo de pernas tortas”, de salto” (1926), de Anna Amélia C.
Vinícius de Moraes: de Mendonça; “Aos heróis do
12. Vejam-se alguns livros de
Hoje ainda, ante o manifesto entusiasmo da quase totalidade futebol brasileiro” (1938), de Gilka
contos que tematizam o futebol:
Machado; “Maracanã” (1959),
Maracanã, adeus: onze histórias da população brasileira pelo futebol, o tema persiste de certo A um passe de Didi, Garrincha avança de Antônio Olinto; “O anjo de
de futebol (1982) e Amor na boca
do túnel (1992), de Edilberto modo à margem das concepções literárias. Meia dúzia de ro- Colado o couro aos pés, o olhar atento pernas tortas” (1962), de Vinícius
de Moraes; “A copa: vídeo-tape
Coutinho, tendo este último mances, pouco mais de três dezenas de contos e de poemas, Dribla um, dribla dois, depois descansa para Raymundo Nogueira” (1962),
contado com a coorganização
três ou quatro peças de teatro, maior insistência na crônica, Como a medir o lance do momento.  de Homero Homem; “A bola de
de Silviano Santiago; Contos de
[…] são pouco para quase um século de futebol e a paixão de meia” (1965), de Luiz Paiva de
futebol (1997), de Aldyr Garcia
Castro; “Aos atletas” (1966), de
Schlee; Onze em campo e um vai-para-uma-centena de milhão de pessoas.11 Vem-lhe o pressentimento; ele se lança Carlos Drummond de Andrade;
banco de primeira (1998) e 22
contistas em campo (2006), de Mais rápido que o próprio pensamento “Soneto do futebol” (s/d), de
Flávio Moreira da Costa (org.);
No entanto, atualmente, ainda que de certa forma insatis- Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Artur Eduardo Benevides. In:
PEDROSA. Gol de letra.
Os cabeças-de-bagre também fatória, constata-se um crescimento da Literatura Brasileira Feliz, entre seus pés - um pé-de-vento! 
merecem o paraíso (2001), de José em interface com o tema do Futebol, sobretudo na escrita 14. Cf.: GOLDSTEIN. Versos, sons,
Roberto Torero e Marcus Aurelius
Pimenta; Contos brasileiros de de contos e romances.12 O primeiro impulso veio através das Num só transporte a multidão contrita
ritmos, p. 34.
futebol (2005), de Cyro de Mattos; pequenas narrativas e, nas últimas décadas, alguns romances Em ato de morte se levanta e grita 15. MORAES apud PEDROSA. Gol de
11 histórias de futebol (2006), de letra, p. 124.
Juca Kfouri e Antonio Olivieri; também assumiram a tendência de colocar o futebol como Seu uníssono canto de esperança. 
Histórias de futebol (2006), de plano central de seu enredo. 16. Segundo Elcio Cornelsen, o
Luiz Vilela e Adilson Maria Viana. poema de Vinícius de Moraes
Alguns romances que colocam o Com relação ao gênero lírico, é de fato espantosa a consta- Garrincha, o anjo, escuta e atende: - Goooool! “apresenta forma fixa como
futebol como centro da narrativa: soneto italiano, ou seja, contendo
Os jogos de junho (1981), de
tação de uma significativa baixa produção. Pedrosa, em Gol de É pura imagem: um G que chuta um O 14 versos distribuídos por 04
Eustáquio Gomes; Memórias de letra, além do ensaio referido acima, também apresenta uma Dentro da meta, um L. É pura dança!15 estrofes, sendo 02 quartetos e
uma bola de futebol (2002), de antologia de contos e de poemas sobre o assunto, até aquele 02 tercetos. Predominam rimas
Renato Pompeu; Segunda divisão
momento no Brasil. São apenas dez poemas,13 dos quais seis Em relação à forma deste poema, pretende-se pensá-la cruzadas nas duas primeiras
(2005), de Clara Arreguy; O paraíso estrofes, com a estrutura abab-
é bem bacana (2006), de André são construídos a partir de “versos regulares”, obedecendo além das regras estabelecidas pelo campo teórico da poesia, abab, enquanto os tercetos
Sant’Anna; O campeonato (2009),
as regras clássicas estabelecidas pela métrica, determinados como assegurar, por exemplo, que ele é um soneto composto apresentam o esquema ccadda
de Flávio Carneiro; Páginas sem […]. Os versos do poema em
glória (2012), de Sérgio Sant’Anna; pela posição das sílabas acentuadas em cada tipo de verso.14 por versos regulares,16 e especular que ele e alguns outros homenagem a Garrincha são
Escravos do jogo (2012), de Marlos poemas futebolísticos avançam nas analogias estruturais isométricos, predominando
Bittencourt; O último minuto decassílabos nos quartetos e
(2013), de Marcelo Backes; O drible hendecassílabos nos tercetos”.
(2013), de Sérgio Rodrigues; A Conf.: CORNELSEN. Vinícius
grande marcha (2014), de Ewerton EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 GUIMARÃES. A tabelinha entre o futebol e a poesia p. 51-62 e o Futebol: um soneto para
Martins Ribeiro. Garrincha. Todas as musas, p. 6.

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entre futebol e poesia, porque trazem para o interior do tex- análise, segundo a proposição sugerida pelo pesquisador
to imagens, formas, espacialidades, sons e ritmos derivados Edônio Alves Nascimento, em seu breve ensaio “A letra e
do campo futebolístico. Isso é acentuado, por exemplo, no a bola: futebol e literatura no Brasil”. Por um lado, o nível
antipenúltimo verso do poema de Vinícius de Moraes, quan- estrutural, momento em que a literatura tomaria “o futebol
do ocorre o prolongamento da letra “o”, cuja métrica apesar enquanto matéria significante”, como destacados no último
de não ser plenamente transgredida, pois ainda obedece ao terceto do poema acima. Por outro lado, o nível motivacio-
padrão poético estabelecido pelo “jogo literário”, ela irrom- nal, maneira pela qual “o futebol entraria na literatura como
pe, vaza, por meio do gesto-grito exuberante do “goooool”, uma extraordinária fonte de preocupações temáticas”.19 Isso
19. NASCIMENTO. A letra e a bola:
destacando-se dos demais versos do texto. Assim, é singula- é patente e de fácil observação quando nos deparamos, por futebol e literatura no Brasil.
rizado o momento primordial do futebol: a poeticidade do exemplo, com a antologia Quando é dia de futebol, de Carlos Ludopédio (site). Este sítio é
uma das principais fontes de
17. PASOLINI. “Il calcio ‘è’ un gol. Ou seja, à maneira pasoliniana, equivaleria a dizer que o Drummond de Andrade, organizada pelos seus netos, em referência de acervo bibliográfico
linguaggio con i suoi poeti e gol é uma instância poética, pois ele transgride o código e a 2002, Luis Maurício Graña Drummond e Pedro Augusto acerca dos estudos futebolísticos
prosatori”, Il Giorno, s/ pág.. em nosso país.
Disponível em: http://www. maneira prosaica de como o futebol também é praticado. “Ci Graña Drummond. Nela, está reunida de forma cronológica
interruzioni.com/calciopasolini. sono nel calcio dei momenti esclusivamente poetici: si tratta grande parte do que, ao longo de trinta e dois anos, o poe-
htm. Cf. trad. de Maurício Santana
Dias: “Há no futebol momentos dei momenti del “goal”. Ogni goal è sempre un’invenzione, ta itabirano escreveu sobre o futebol brasileiro. Segue-se o
que são exclusivamente poéticos: è sempre una sovversione del codice: ogni goal è inelutta- que expõem os organizadores: “ordenamos tudo cronologi-
trata-se dos momentos de gol.
Cada gol é sempre uma invenção,
bilità, folgorazione, stupore, irreversibilità. Proprio come la camente, com a exceção do poema ‘Futebol’, no começo do
uma subversão do código: cada parola poetica. […] Il calcio che esprime più goal è il calcio livro, e de certos pequenos textos que, em geral, separam
gol é fatalidade, fulguração, più poetico.17 seções; estas basicamente são as próprias Copas do Mundo,
espanto, irreversibilidade.
desde 1954 até 1986”.20 É interessante observar por esse pris-
Precisamente como a palavra Em relação ao conteúdo do texto poético, observa-se, por 20. Cf.: GRAÑA DRUMMOND.
poética. […] O futebol que ma cronológico como o futebol passa paulatinamente a de- Introdução. In: ANDRADE.
exprime mais gols é o mais exemplo, que em sua maioria os poemas da antologia Gol
sempenhar um papel de protagonista junto à cultura brasi- Quando é dia de futebol, p. 13.
poético”. de letra são eufóricos e homenageiam os jogadores, colo-
leira. Os primeiros textos de Quando é dia de futebol marcam
18. A respeito da compreensão do cando-os em uma posição de idolatria, como o de Vinícius
um período em que o Brasil sequer ainda era detentor do
fenômeno da idolatria na cultura de Moraes ao evocar o “anjo” Garrincha.18 Deste modo, a
brasileira, cf.: HELA, Ronaldo. A título de campeão mundial. E seus últimos textos, pelo con-
construção de narrativas de idolatria no relação da poesia com o futebol se daria em dois níveis de
futebol brasileiro, Alceu, p. 19-36.
trário, a exemplo de “Entre o céu e terra, a bola”, de 1982, já

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edificavam o Brasil como “o país da bola”: “o futebol tomou microfones, charangas, ovações,
conta do mês de julho, a menos que, com a provável vitória e de repente, sem que eu mesmo saiba
da Seleção Brasileira na Espanha, ele ocupe a atenção e a como ficou assim, ele se exalta
emoção dos brasileiros até o final de dezembro, se não pre- e vira coração de torcedor,
ferir fazê-lo durante os próximos quatro anos ou mesmo até torce, retorce e se distorce todo,
a consumação do século”.21 grita: Brasil! Com fúria e com amor.23
21. ANDRADE. Quando é dia de 23. ANDRADE. Quando é dia de
futebol, p.176. futebol, p.109.
Os poemas encontrados nessa antologia, bem como em Ao analisar os poemas das antologias Gol de letra, de
Gol de letra, sobremaneira homenageiam os ídolos do esporte Pedrosa, e Quando é dia de futebol, de Drummond, o tom eu-
e são acompanhados de um tom mais eufórico, embora em fórico e a homenagem ao ídolo parecem atravessar todo o
alguns momentos a disforia esteja presente associada à der- século XX, desde as primeiras composições de poesia, e per-
rota do selecionado brasileiro. O poema “Copa do Mundo de manecer como temática em grande parte da produção poéti-
70”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no espaço ca contemporânea, como se pode verificar na primeira parte
de sua crônica no Jornal do Brasil, no dia nove de junho de do poema “O olho, a bola”, de Vera Casa Nova, presente na
1970, após as duas primeiras vitórias do escrete canarinho na antologia Pelada poética (2013):24
24. Cf.: ROSA, Mário Alex; ABREU,
Copa do Mundo do México, bem exalta a euforia e a afinida- Júlio (orgs.). Pelada poética.
de identitária do brasileiro com o futebol (“a pátria em chu- O sujeito: Belo Horizonte: Scriptum, 2013,
120 pgs. Essa obra contém 61
teiras”, como apontou certa vez Nelson Rodrigues).22 Veja- Pelé, Garrincha, Zizinho, poemas resultantes da fusão
22. Cf.: RODRIGUES, Nelson. A pátria
em chuteiras. se o trecho final do poema “I / Meu coração no México”: Gilmar, Castilho, Dida, de duas plaquetes lançadas
anteriormente pela mesma
Junior, Didi, Zico, editora, em 2006 e 2010, em
[…] Reinaldo, Ronaldo, virtude das copas do mundo. O
Hoje, porém, acordo, e eis que me estranho: Ronaldinho Gaúcho, livro conta com a participação
Afonso Ávila, Sebastião Nunes,
Que é de meu coração? Está no México, Zózimo, Pepe, Bellini, Marcelo Dolabela, Ana Martins
voou certeiro, sem me consultar, Gerson, Rivelino, Tostão, Marques, Fabrício Marques,
Carlos de Brito e Mello, dentre
instalou-se, discreto, num cantinho Cerezo, Luisinho, Ademir, outros.
qualquer, entre bandeiras tremulantes, Ademir da Guia, Zagalo,

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25. ROSA; ABREU (orgs.). Pelada Roberto Carlos, Cafu, Em decorrência dessas considerações apontadas, ainda em
poética, p. 98. Vera Casa
Nova publicou, dentre outros,
Kaká, De Sordi, Mengalvio, relação à esfera temática, sugere-se pensar os poemas a par-
Horizontes de passagem (Poesia Coutinho, Vavá, Moacir, tir de um paradigma temporal preciso, um divisor de águas
Orbital, 1997), Desertos (2003), Alex, Fred, Juninho,
Rastros (2006) e Mistura fina
futebolístico: a mítica seleção brasileira de 1982, e o perío-
(2012). Este último foi indicado, Fredeco, Waduca, Dario, do que se estende até a Copa do Mundo de 1986, quando
em 2013, ao Prêmio Portugal Telê, Fio Maravilha...25 acaba a geração, dirigida por Telê Santana, composta por
Telecom.
craques como Luisinho, Cerezo, Falcão, Sócrates, Leandro,
Nesta estrofe somente com nomes de ídolos do futebol,
Zico e Éder, período que coincide com grandes transforma- 29. Esse período, a partir dos anos
Casa Nova, afeita às poéticas da voz, ao participar da insta-
ções socioculturais em todo o mundo, como as quedas das 1980, coincide com a queda
lação “Literatura e Futebol”, exposta no Museu do Mineirão, da ditadura militar e também
ditaduras militares e do muro de Berlim. Coincidentemente, com algumas importantes
interpretou com maestria o seu texto à maneira dos locuto-
Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre futebol até variáveis da globalização, que
res de rádio anunciando a escalação do time. Dessa forma, fizeram do futebol um fenômeno
esse período, que também coincide com a era da globalização
26. ROSA; ABREU (orgs.). Pelada intensificou-se o status de grandeza dos jogadores em nossa cultural, quais sejam: a profusão
poética, p. 99. política e econômica, em que os jogadores começam a deixar discursiva em torno do assunto
cultura, resgatando simultaneamente a oralidade da “era do por meio do aumento dos
o país.29
27. Para aprofundar neste assunto, rádio”, tempo em que a seleção brasileira se misturava com um parques editoriais no país; a
popularização da TV, espaço
vejam-se as diretrizes de José projeto político governamental, espelhando os anseios da po- Dessa forma, a antologia contemporânea belo-horizonti- privilegiado para a difusão do
Miguel Wisnik, em Veneno
remédio (2008), e Hilário Franco pulação de ser reconhecida internacionalmente – “A bola está na nos serve de contraponto para analisar comparativamen- jogo em seu horário nobre às
te a produção poética disposta nas duas outras antologias, de quartas-feiras e aos domingos;
Júnior, em A dança dos deuses: para o jogador / como o jogador está para o time – a nação”.26 o advento da internet já neste
futebol, sociedade e cultura
Pedrosa e Drummond, e perceber mudanças significativas no milênio, etc. Segundo Hilário
(2007). Embora seja inegável a forte presença do futebol em nossa
modo como o futebol é representado pela poesia. Voltando Franco Júnior: “a Copa do Mundo
cultura, a partir dos anos 1980 houve um enfraquecimento revela-se negócio extraordinário,
ao ponto de vista formal, percebe-se que esse diálogo, bem
28. ROSA; ABREU (orgs.). Pelada muito grande desse lugar do futebol como “ópio do povo”,27 com audiência que dava
poética, p. 29-30. Ana Martins como do futebol com as outras artes, torna-se mais estreito saltos constantes: 5 bilhões
Marques publicou A vida deixando igualmente para trás os ideais utópicos modernis- acumulados de telespectadores
e mais diversificado após os anos 1980, pois igualmente há
submarina (2009), ganhador do tas de exaltação da nação e as homenagens aos ídolos, como em 1982, 8 bilhões em 1986, 32
Prêmio Nacional de Literatura reflexos em sua estrutura. Os pontos de contato se tornam bilhões em 1990” (A dança dos
expresso no trecho do poema “À beira-mar”, de Ana Martins
Cidade Belo Horizonte, e A arte mais correspondentes por meio de elementos estéticos per- deuses, p. 117). Por este ponto
das armadilhas (2011), indicado Marques: “ao menos neste poema / seria preciso evitar / tor- de vista, constata-se que foi
ao Prêmio Portugal Telecom em ceptíveis na organização global da lírica, ainda que não sejam depois de 1986 o grande salto da
2012.
nar o futebol / metáfora de tudo”.28 globalização no futebol.

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utilizados os mesmos mecanismos. Veja-se, por exemplo, o tático 4-2-3-1: defesa (Roque Júnior, Piazza, Dario e Tostão);
poema “Reis de Copas”, de Jovino Machado: volantes (Rivelino e Reinaldo); meio-campo (Garrincha,
Maradona e Ronaldinho Gaúcho) e ataque (Pelé). Observa-
taffarel céu se também que o “poeta-treinador”, ao escalar o seu time de
Roque rock piazza asa Dario rio tostão bolão predileção, subverte o posicionamento original dos jogado-
Rivelino hino Reinaldo rei res para atender, indiretamente, a um “futebol de poesia”,
Garrincha incha Maradona doma gaúcho luxo pois se trata de uma escalação irreverente, propensa ao dri-
Pelé balé30 ble, ao gol, à maneira pasoliniana anunciada inicialmente.
30. ROSA; ABREU (orgs.). Pelada
poética, p. 60. Jovino Machado
publicou, entre outros trabalhos, Pode-se inferir que esse poema, para além de suas asso- Por último, ressalta-se brevemente outro interessantíssimo
os livros de poemas Só poesia nâncias e aliterações, identifica-se com a linhagem do con- poema passível de análise em relação à sua rica homologia com
(1981), Trint’anos proust’anos
(1995), Samba (1999), Fratura
cretismo e obedece ao que chamamos aqui de homologia es- o universo futebolístico. O texto-rede, sem título, do belo-ho-
exposta (2005), Amar é abanar o trutural entre futebol e poesia. E, segundo Glauco Mattoso, rizontino Carlos Barroso, presente na antologia Pelada poética,
rabo (2009). em seu Tratado de versificação (2010), um dos mais importan- também traz, explicitamente, através de uma única imagem-
tes e atuais livros sobre metrificação, ritmos e sons na poe- -tessitura, o momento máximo do futebol (o gol), igualmente
sia, há poemas que para sua “exata espacialização” precisam concebido a partir da linhagem concretista da literatura brasi-
ser pensados também a partir de seus espaços vazios: leira, advinda dos irmãos Campos (Haroldo e Augusto):

/////////////////////// taffarel céu /////////////////////// goldgodgooolgoldgodgogoooolgoldgodgoolgoodgoolgodgologood


goodgoldgooolgoldgoolgoldgodgoldgooolgodgolgogodgoooolgool
Roque rock piazza asa Dario rio tostão bolão gooolgodgoldgooolgoldgodgooolgoldgodgooolgodgoldgodgooooo
//////////////// Rivelino hino Reinaldo rei //////////////// goldgodgoolgoldgodgooolgoldgogogooolgoolgodgooolgodgoodgo FIGURA 2
Garrincha incha Maradona doma gaúcho luxo gologoldgoooolgodgoldgoooolgoldgodgologoldgodgooolgodgolog
godgodgooolgoldgooolgoldgodgooolgodgooolgodgooooolgoldgod Sem título.
//////////////////////// Pelé balé ////////////////////////
gogogoldgooolgoldgodgooolgoldgodgooolgodgoldgooolgoldgoool
ROSA; ABREU (orgs.). Pelada
Visto com o auxílio dessa perspectiva teórica, pode-se in- gogodgooolgodgooldgoolgoldgoodgooolgodgooolgolodgoooolgod poética, p. 61. Carlos Barroso
ferir mais facilmente o time de futebol composto por onze goldgooolgodgoldgooolgoldgodgooolgodgooolgodgooooolgoldego publicou Poetrecos (Poesia Orbital,
gooolgodgoldgoldgodgooooolgoldgodgooolgodgooolgodgooolgoo 1997), e os livros-objetos pela
jogadores ocupando a metade de um campo, como disposto Edições CemFlores: Carimbalas
em uma situação inicial de jogo, obedecendo ao esquema FIGURA 2 (2008) e Sãos (2010).

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Para melhor ver esse poema, Glauco Mattoso novamente compilação e difusão de fontes primárias a respeito da rela-
pode nos auxiliar, pois segundo ele “ainda que pareça es- ção, tabelinha, entre o futebol, a poesia e outras poéticas no
tranho, também um poema concreto pode ser parametrado Brasil, além de colaborar, paralelamente, para o avanço do
como se composto fosse em versos discursivos. A analogia se ensino de poesia em sala de aula.
explica porque, mesmo que o poeta tenha pretendido abolir
o verso e utilizar a página como espaço aberto à experimen- REFERÊNCIAS
tação gráfica, é impossível escapar ao caráter bidimensional A. A. V. V. Pelada poética (plaquete). Belo Horizonte: Scriptum, 2010.
da poesia visual, e portanto permanecem as noções de hori-
zontalidade e verticalidade”.31 Nesse sentido, percebe-se que A. A. V. V. Pelada poética (plaquete). Belo Horizonte: Scriptum, 2006.
31. MATTOSO. Tratado de
versificação, p. 224. o poema acima comporta tanto uma leitura horizontalizada ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol.
quanto verticalizada. E para além de sua composição lexical Pesquisa e seleção de textos de Luis Maurício Graña Drummond e
– três palavras: gol, gold e god (todas derivadas do inglês) –, Pedro Augusto Graña Drummond. Rio de Janeiro: Record, 2002.
pode-se ver a partir das letras em negrito um jogo de luz e
CAMPOS, Augusto; CAMPOS, Haroldo; PIGNATARI, Décio.
sombra que nos remete ao próprio alvo da partida: a rede de Teoria da poesia concreta: textos críticos 1950-1960. Cotia:
futebol. Daí advém a bem tramada homologia entre os cam- Ateliê Editorial, 2006.
pos. Assim, “congelando” o momento do gol, estabelece-se
uma das mais bem realizadas ressonâncias entre o futebol e CORNELSEN, Elcio Loureiro. Vinícius e o Futebol: um soneto para
Garrincha. Todas as musas, ano 5, n. 1, jul.-dez. 2013. Disponível
a poesia em nossa literatura brasileira. em: http://www.todasasmusas.org/09Elcio_Loureiro.pdf.
Por fim, acredita-se que o caminho crítico e teórico apon- CORNELSEN, Elcio Loureiro; Ferreira, Luciane Corrêa; Silva,
tado neste estudo, substancialmente por meio dos primór- Marcelino Rodrigues da (org.). Aletria – revista de estudos de
dios da relação entre literatura e futebol e da observação e literatura: Esporte, literatura e cultura. Belo Horizonte: Pós-Lit;
análise das homologias estruturais entre o campo de jogo Faculdade de Letras da Ufmg, v. 22, n. 2, mai.-ago., 2012, p. 7-9.
e o campo literário, ainda nos revelará promissores cam- CORNELSEN, Elcio Loureiro. A “linguagem do futebol” segundo
pos de investigação teórica, em crescente exploração na área Pasolini: “futebol de prosa” e “futebol de poesia”. Caligrama
dos Estudos Literários no Brasil, além de contribuir para a – revista de estudos românicos. Belo Horizonte: Faculdade de
Letras da Ufmg, v. 11, 2006, p. 171-99.

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FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: NASCIMENTO, Edônio Alves. A letra e a bola: futebol e literatura
Mauad, 2003. no Brasil. Ludopédio (site). Disponível em http://www.ludopedio.
com.br/rc/index.php/arquibancada/artigo/485 acesso em 20 ago.
Lima, João Gabriel de (org.). Livro Bravo! – literatura e futebol. 2013.
São Paulo: Ed. Abril, 2010.
PASOLINI, Pier Paolo. “Il calcio ‘è’ un linguaggio con i suoi poeti
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons e ritmos. São Paulo: Editora e prosatori”. Il Giorno, 1971, s/ pág.. Disponível em: http://www.
Ática, 2001. interruzioni.com/calciopasolini.htm.

GUIMARÃES, Gustavo Cerqueira. Preâmbulo. A espacialização PASOLINI, Pier Paolo. O gol fatal. Trad. Maurício Santana Dias.
do sujeito em João Gilberto Noll e Al Berto. 300 f. Tese Folha de São Paulo (Caderno Mais!), 06 mar. 2005, p. 4-5.
(Doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada). Disponível em: http://www.italiaoggi.com.br/not01_0305/ital_
Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade not20050306a.htm. Acesso em: 20 mar 2014.
de Letras da UFMG, Belo Horizonte, 2013, p. 23-37.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
HELA, Ronaldo. A construção de narrativas de idolatria no futebol
brasileiro. Alceu. Rio de Janeiro: Departamento de Comunicação PEDROSA, Milton. Gol de letra – o futebol na literatura brasileira.
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HISSA, Cássio Eduardo Viana. A escrita com os pés. Aletria – RODRIGUES, Nelson. A pátria em chuteiras: novas crônicas de
revista de estudos de literatura: Esporte, literatura e cultura. Belo futebol. São Paulo: Cia das Letras, 1994.
Horizonte: Pós-Lit; Faculdade de Letras da Ufmg, v. 22, n. 2, mai.-
ago., 2012, p. 45-57. ROSA, Mário Alex; ABREU, Júlio (orgs.). Pelada poética. Belo
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JÚNIOR, Franco Hilário. A dança dos deuses: futebol, sociedade
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LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Cia das Letras, 2013.
WISNIK, José Miguel. Preliminares. Veneno remédio: o futebol e
MATTOSO, Glauco. Tratado de versificação. São Paulo: o Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
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Dossiês
DA CRÔNICA JORNALÍSTICA AO CONTO
DE FICÇÃO: O FUTEBOL COMO FORMA
LITERÁRIA

Edônio Alves Nascimento* * edonioalves@gmail.com


Doutor em Literatura Comparada pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte e professor do curso
de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba.

RESUMO: O futebol e a literatura, para além de sua cons- ABSTRACT: Soccer and literature, far beyond their own
tituição ontológica própria, podem ser entendidos como ontological constitutions, can be understood as commu-
fenômenos de comunicação e de linguagem que tem nication and language phenomenons that share their con-
como ponto em comum a sua configuração enquanto um figuration as a game. So, the representation of a field by
jogo. Sendo assim, a representação de um campo pelo ou- another (in this case, soccer by literature) has historically
tro, no caso do futebol pela literatura, tem historicamente expanded to an apparent homology between their con-
se desenvolvido na direção de uma homologia aparente figuration framework. This essay tries to understand and
entre suas estruturas de configuração. Esse ensaio tenta explain how Brazilian linguistic representation of soccer
entender e explicar como a representação linguística do game evolved from a merely referential, journalistic field
jogo de futebol no Brasil evoluiu do seu campo meramen- to the esthetical, ludic space of literature. Accordingly, it
te referencial, jornalístico, para o espaço estético, lúdico, takes the fictional tale genre as the suitable literary form to
da literatura. Nesse sentido, toma o gênero do conto de formalize a esthetical homology between a soccer game
ficção como forma literária adequada para formalização structure and the gameplay of words on literature. Lastly, it
da homologia estética entre a estrutura do jogo de bola tries to demonstrate it, through the analysis of texts from
do futebol e o jogo de palavras da literatura. Por fim, tenta Brazilian writers.
demonstrar isso, através da análise de textos de escritores
brasileiros. KEYWORDS: Soccer and Literature. Aesthetic communi-
cation. Fictional tales of football. Narratives and discursive
PALAVRAS-CHAVE: Futebol e Literatura; Comunicação practices.
estética; Contos ficcionais de futebol; Narrativas e práti-
cas discursivas.
64

Foram os literatos junto com os jornalistas (numa conjun- manchetes de primeira página sobre eventos esportivos, em-
ção de intervenções sobre o tema em que se tornava difícil bora estes sempre fossem registrados nas páginas internas
saber exatamente quem fazia o quê, num meio intelectual dos jornais.
em que jornalismo e literatura se misturavam em papéis e
Sabe-se que a atuação do jornalista Mário Filho nos basti-
funções sem fronteiras nítidas) os homens de letras que pri-
dores do futebol brasileiro, como veremos, foi de certo modo
meiro se debruçaram sobre a tarefa de apresentar e discu-
decisiva para que o profissionalismo vingasse no início dos
tir publicamente a inserção do futebol na vida brasileira. A
anos 1930 no campo esportivo. Assumindo o caráter de ocu-
ponto de paralela à história do jogo propriamente dito ir-se
pação remunerada, o futebol, por exemplo, passava a encarar
criando uma verdadeira história, digamos, literária (e ou jor-
de outra maneira a relação entre jogadores, clubes e plateia.
nalística), da apreensão e fruição desse esporte por parte dos
Da mesma forma, a defrontar com uma nova ocupação pro-
brasileiros nos seus mais diferentes espaços sociais de ação.
fissional, qual seja: a do jornalista esportivo profissional.
Foi, portanto, inicialmente através do jornalismo (e, de-
Tanto era assim que no entender de Nelson Rodrigues,
pois, da literatura) que os amantes do futebol começaram a
outro jornalista cuja contribuição ao campo do jornalismo
ler, debater, discutir, enfim, se inteirar mais extensamente
esportivo também foi marcante, foi o próprio Mário Filho
sobre aquele esporte bretão que começava a ser praticado
o “criador” da crônica esportiva brasileira.
no Brasil, no início do século XX.1 Inaugurava-se aí, então,
1. Segundo a historiografia oficial, o
futebol é introduzido no Brasil […] a chamada crônica esportiva brasileira em sentido lato. Foi a
Pode-se datar o nascimento da crônica esportiva. Foi quando
Clique para ir à página da nota. partir desse momento que os periódicos importantes do Rio
ele publicou uma imensa entrevista com Marcos de Mendon-
e de São Paulo começaram a empregar repórteres de futebol
ça. O famoso goleiro anunciava a sua volta. O patético, porém,
em período integral, tendo os jornais diários de cobertura
não era o fato em si, mas a sua escandalosa valorização jorna-
específica sobre o tema aparecido lá pelo fim da década.2
lística. A matéria inundava um espaço jamais concedido ao 2. LEVINE. Sport and Society, p.
futebol: – meia página! Era uma época em que o esporte vivia 236. Robert Levine afirma a este
Assim, os primeiros diários esportivos a fazer sucesso no propósito que, já em 1913, as
Brasil surgiram na década de 1930, por exemplo, num pro- empurrado, escorraçado para um canto da página. O melhor reportagens sobre uma partida de
cesso concomitante com a chegada do profissionalismo no jogo do mundo não merecia mais de três linhas. E o pior era futebol frequentemente cobriam
uma página inteira de jornal.
campo do próprio futebol. Antes disso, porém, não havia a linguagem estarrecedora. Mário Filho usava a palavra viva,

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úmida, suada. [...] A entrevista de Mário Filho foi um duro im- quanto na maneira de representá-lo, tiveram aí seu momen-
pacto, sobretudo pela linguagem. Ela saiu aí por volta de 1926, to seminal no que concerne a nossa hipótese de que aparen-
ou 27. Dir-se-ia um novo idioma atirado na cara do leitor.3 ta haver uma homologia, ao longo dessa relação do futebol
3. RODRIGUES FILHO. Prefácio. O
sapo de Arubinha, p. 8. com a nossa literatura, entre a maneira como a prática do fu-
Se o jornalista profissional, agora travestido de cronista,
tebol entre nós vai historicamente ganhando características
contribuiu verdadeiramente para a elaboração de uma lin-
próprias, a ponto de formarmos uma escola brasileira de jogar
guagem própria sobre esportes nos jornais, essa linguagem
futebol, e a maneira como os nossos escritores-jornalistas vão
passa também pela assimilação de um estilo, podemos dizer,
tratando o tema, o que incidiria também na criação de uma
“esportivo” no fazer jornalístico. Foi também Mário Filho
“maneira brasileira” de narrar literariamente o jogo.
que, nas palavras do antropólogo José Sérgio Leite Lopes,
introduziu mudanças definitivas no modus operandi do jor- Neste contexto, por exemplo, escritores como José Lins
nalismo esportivo brasileiro a partir de então. E isso não só do Rego, entre outros, perceberam naquele momento (num
na forma de apurar, mas, fundamentalmente, na linguagem período em que a crônica objetiva, fria e impessoal das pri-
em que se expressavam as notícias do mundo esportivo. meiras décadas do século,5 limitada à informação, passava
5. É possível perceber nesse
a ser gradativamente substituída, ao longo das décadas de período a vigência de uma
A linguagem da crônica esportiva também mudou com Mário 1930, 1940 e 1950, por uma crônica esportiva de cunho pes- crônica […] Clique para ir à
página da nota.
Filho: em vez de apelação por demais respeitosa, corrente na soal, fincada nos processos de narração e que abre espaço
imprensa, do nome dos clubes – por exemplo “Fluminense para a manifestação da subjetividade do cronista, assim como
Football Club”, “O Clube de Regatas do Flamengo”, ou ainda para a formação de um estilo marcadamente autoral de cada
“The Bangu Atlhetic Club” – ele começa a chamá-los simples- um deles, emprestando ao gênero uma feição mais estética e
mente Fluminense, Flamengo, Bangu, como os torcedores nos menos referencial ou noticiosa), a independência narrativa
estádios e nas ruas.4 e o poder de ligação com o leitor que a crônica comportava.
4. LOPES, Revista USP, p. 68.

Estas inflexões na linguagem, contudo, aparentemente Zélins, como carinhosamente era chamado por alguns
banais quando vistas de hoje, mas fortemente definidoras amigos, tornou-se, por conseguinte, nas páginas do Jornal
– enquanto fenômenos linguísticos – de processos mais pro- dos Sports, onde chegou a escrever 1.571 crônicas sobre o
fundos que ocorreriam culturalmente tanto no jogo em si tema, durante cerca de doze anos, um cronista apaixonado

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e vibrante. Escreveu muito e, como poucos, soube dar a di- textos produzidos nos gêneros conto, romance, teatro, poe-
mensão, pela crônica, do que representava – e ainda repre- sia, artigos, crônicas e excertos.
senta – a força do esporte entre nós.
Iniciativa semelhante foi novamente posta no mercado
Tendo conquistado, mais de quarenta anos depois de sua editorial brasileiro apenas em 1994 e 1998, anos respectivos
chegada ao Brasil, os espaços do jornal, através de uma lin- das duas edições de Onze em campo e um banco de primeira,
guagem específica que o representava para o leitor-torcedor, obra em que o também jornalista e escritor Flávio Moreira
o futebol enfrentou também muitas dificuldades para aden- da Costa, a par de uma seleção de contos de vários autores
trar o espaço nobre da literatura. brasileiros por ele mesmo efetuada, todos com livros publi-
cados e com reconhecimento da crítica, intenta dar conti-
O crítico literário Álvaro Lins, por exemplo, acusa a pre-
nuidade ao inventário da representação do futebol no âmbi-
sença do futebol na literatura brasileira de ficção através do
to das letras brasileiras embora, no seu caso, restringindo-se
romance de José Lins do Rego, Água-mãe, cuja primeira edi-
apenas à produção na área das histórias curtas.
ção de 1941, apresenta um jogador de futebol como uma
das suas principais figuras. Porém, é só depois de 1940 que Atualmente, é bom salientar, esse panorama se encontra
o futebol começa a atrair a atenção de maior número de au- consideravelmente modificado com uma publicação já ex-
tores brasileiros, os trabalhos predominantes pertencendo à tensiva de obras literárias que tomam o futebol como tema e
categoria da crônica e sendo raros os no romance, no conto, que estão formalizadas nos mais diferentes gêneros da litera-
na poesia, no teatro e no cinema. tura: da poesia ao romance, do ensaio ao teatro, por exemplo.
A primeira tentativa de inventariar a produção literária E por que, então, decidimos situar literariamente aqui o
brasileira sobre o tema do futebol, contudo, só foi levada futebol no gênero conto se a presença do tema já pode ser
a efeito em 1967, quando, em resposta a uma observação considerada contemporaneamente relativamente extensa e
do escritor e tradutor Paulo Rónai sobre a inexistência de fortemente representativa em todas as modalidades de repre-
qualquer “antologia do futebol nas letras brasileiras”, o jor- sentação em que se expressa a produção literária brasileira?
nalista Milton Pedrosa, após a realização de uma extensa e
A resposta a esta pergunta nos leva obrigatoriamente a
minuciosa pesquisa, publicou o livro Gol de letra, que reúne
outra questão que, por sua vez, compreende dois aspectos

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importantes da relação do futebol com a arte literária: a es- com a literatura que ele mesmo produz: os instrumentos for-
colha de uma ou outra metodologia que a oriente e o sentido mais (herdados do passado ou criados no presente) de que
prático que esta relação possa ter. Daí acharmos ser de capi- dispõe para formatar o seu discurso literário, e os diferentes
tal importância explicitarmos, aqui, a relação do nosso tema modos possíveis pelos quais esse discurso quando tornado
em debate com a questão geral dos gêneros literários, uma obra capta a realidade social sobre a qual opera. Ou, dizendo
vez que, em última análise, é através deles que historicamen- noutros termos: os gêneros sempre incluem (plasmam en-
te as coisas do futebol têm chegado ao nosso público leitor. quanto forma e conteúdo literários) um conjunto de expec-
tativas e seleção de elementos da realidade tanto na esfera da
Dizemos isso porque vamos considerar o futebol no con-
produção (âmbito de atuação dos escritores) quanto na linha
texto em questão como uma forma ampla de comunicação;
da sua recepção (âmbito da ação e expectativas dos leitores).
uma narrativa (um jogo) que se elabora em si e em ato, mas
que, também, elaboramos nós, os espectadores e amantes Por outro lado, o futebol – conforme já antecipamos -, por
desse jogo, como torcedores e leitores que somos. ser um complexo código de comunicação cultural, envolve
a realização de dois discursos simultâneos – e acreditamos
Embora reconheçamos que a questão dos gêneros, no cam-
que complementares – na sua prática efetiva: o discurso não
po da literatura, deva ser vista apenas como “um meio auxiliar
verbal mas corporal-gestual do próprio jogo e o discurso lin-
que, entre outros, nos leva ao conhecimento do fenômeno
guístico representativo desse mesmo jogo, compondo uma
literário” e que nunca ela deva ser usada para a valorização e
narrativa complexa e de caráter eminentemente simbólico.
julgamento das obras produzidas por esta arte, reafirmamos
Talvez por isso seja a forma conto, a nosso ver, o gênero
a importância do seu conhecimento e validade para qualquer
narrativo mais eficaz para apanhá-lo enquanto objeto de tra-
ideia que vise articular a especificidade da representação lite-
tamento literário.
rária, por um lado, e outras formas de representação social da
cultura, por outro, como parece ser este o nosso caso. Arriscaremos algumas explicações para isso.
Isso porque os gêneros literários, quaisquer que sejam as O jogo de futebol, portanto, quando compreendido como
opções teóricas sob as quais os consideremos, dizem respeito um fenômeno que vai além daquele esporte praticado em
inevitavelmente a dois fatores básicos da relação do homem quatro linhas de um espaço retangular; quando enxergado

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6. Para o pensador francês como um acontecimento sociocultural de amplo alcance O futebol tem em comum com a literatura, portanto, nes-
Bernard Jeu, o esporte, antes
de tudo, possui um sentido (veja-se o fato de ser aceito por quase todas as culturas do sa perspectiva estrutural e ontológica já aludida, ao menos
trágico porque nele há sempre mundo), é também uma supra-linguagem só redutível a si o seguinte, conforme poderemos constatar ao longo desse
uma contradição inevitável
dos oponentes, que resulta no
mesma, mas apta, todavia, a recolher e espraiar os múltiplos nosso arrazoado sobre o tema:
aparecimento de uma “violência” sentidos culturais que se impregnam na sua operação sim-
Ambos constituem um tipo de jogo (um de bola, outro de
de caráter ritual. Portanto, trata-se bólica básica, que é a de – através de um rito primordial, o
de uma violência que obedece palavras) e como tal possuem suas regras;
a regras preestabelecidas ao homem enfrentar o outro (e, por decorrência especular, a si
contrário da violência comum, mesmo) através de uma guerra simbólica em que o funda- Tanto o escritor quanto o jogador de futebol inventa den-
no literal sentido do termo. Apud
MARQUES, José Carlos. Op. Cit. mento não é a morte, o aniquilamento do outro, mas a so- tro de certos limites, sendo a subversão radical desses limites
p. 35. brevivência de todos, numa perspectiva festiva e prazerosa.6 a arte dos gênios nos dois casos;
Algo que só a arte pode dar ao realizar, na prática, a utopia Essas regras, nos dois campos, a despeito do seu teor pres-
7. É dentro deste escopo de existencial fundamental do ser humano: a sobrevivência pa- critivo e ordenador, existem para permitir a entrada do im-
interpretação do futebol que, cífica – embora que conflituosa, o que o esporte ritualiza – e ponderável, do inesperado, do toque do aleatório (vide um
analisando-o […] Clique para ir à
página da nota.
livre entre os diferentes seres e povos, que são, em última final inesperado de um conto, por exemplo, ou uma jogada
instância, seus semelhantes. Tudo isso mediado pelo tempo genial de um Garrincha, aquela que resolve a partida (Em
e pelo poder de criar. E criar, fundamentalmente, sentidos tempo: Garrincha só driblava para um lado, e quase sempre
para o mundo.7 o mesmo drible, mas zagueiro nenhum o detinha; era o ines-
Nessa direção, e apenas a título de exemplificação do que já perado dentro do esperado, assim como na boa literatura);
dissemos, assinalemos aqui algumas afinidades constitutivas Ainda quanto às regras, nos dois casos, elas dependem da
que ligam, conceitualmente, a literatura com o futebol tanto interpretação (do árbitro e do jogador, no futebol; e do lei-
no seu âmbito estrutural quanto temático. E lembremos, ao tor, na literatura) e isso deixa aos dois campos um espaço de
ensejo, que o liame comum a ambos os campos de linguagem criação de sentidos em aberto;
é o fato de serem acima de tudo meios de expressão estética.
Ou seja: linguagem e arte puras, em todos os sentidos, ângu- Esse espaço de sentidos em aberto cria um mundo à parte,
lo sobre o qual os abordaremos nesse nosso pequeno ensaio. fora da lógica da vida comum e do cotidiano vivencial das
pessoas: um mundo com começo, meio e fim presumível,

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mas, contudo, imprevisível (compare-se um romance e uma Assim considerados, entretanto (agora voltando aos as-
partida de futebol, nesse contexto: ambos começam, se de- pectos históricos da relação desse jogo com as nossas letras),
senvolvem, criam climas, suspenses e se concluem para um se o fenômeno do futebol como tema passível de transposi-
novo começo, deixando ainda uma área de especulações in- ção literária com viés ficcional ainda não tinha, até o começo
terpretativas para o que poderia ter sido e que não foi); da primeira década do século XX, entrado para a literatura
brasileira, nossa literatura, por sua vez, como repositório
Aqui, entra outra dimensão importantíssima dos dois
natural, e privilegiado, de questões atinentes ao universo de
campos: a intervenção das artimanhas do acaso, que gera
uma nação republicana em transformação por este período,
fantasia: veja-se a importância do chamado “montinho arti-
entra para o futebol forçando a porta. Literalmente, inva-
lheiro”, no futebol, aquela saliência que às vezes há no campo
dindo o campo. Esse momento tem até um marco factual e
de jogo e que, sem ninguém esperar, põe a bola pra dentro
simbólico (o ano de 1915) através das figuras dos escritores e
do gol, sem intervenção humana alguma. Ou, na literatu-
jornalistas a exemplo de Coelho Neto, que liderou a primeira 9. Ao menos foi a esta conclusão
ra, um homem-personagem irromper e de repente virar um que chegamos com a nossa
invasão de campo do futebol carioca, inconformado com um leitura de contos sobre futebol
inseto, uma barata, como caso de Gregor Sanza, no conto A
juiz que marcara um pênalti a favor do Flamengo num mo- produzidos no Brasil. O conto
metamorfose, de Franz Kafka; intitula-se, A biblioteca, e foi
vimentado Fla-Flu, no campo da Rua Paissandu, e que aca- publicado originalmente na
Os dois campos se constituem de elementos estruturais bou provocando a anulação do jogo8 – e Lima Barreto, que revista Careta, no ano de 1915,
em comum: há sempre uma narração, e, portanto, um nar- neste mesmo ano publicou, na revista Careta, o que pode ser e depois incluído na primeira
edição da coletânea Histórias e
rador (ou vários narradores-autores); há sempre um tempo o primeiro conto de ficção tematizando o futebol no Brasil,9 sonhos, editada por Schettino em
a ser decorrido e, portanto, é um domínio em que o tempo embora pareça ter sido mesmo João do Rio o jornalista que 1920, a única reunião de contos
de Lima Barreto publicada em
precisa ser dominado, embora isso seja impossível técnica e primeiro tratou do tema na imprensa brasileira, através de vida.
conceitualmente falando. Se há narração, existem persona- uma abordagem cronístico-literária.10
10. Refiro-me aqui ao tipo de registro
gens e, a partir deles, ações que se desenvolvem no tempo literário de temas da […] Clique
Decorrente do contexto do nosso pré-modernismo literá-
e no espaço; e, por último, tudo isso forma um enredo, que para ir à página da nota.
rio em que se situam tanto João do Rio quanto Lima Barreto,
constituem uma partida de futebol em si mesma, ou uma
contudo, é um pouco antes da primeira Copa do Mundo, no
8. O fato é referido em pelos menos peça literária, seja ela um conto, um romance ou um poema,
duas fontes da […] Clique para ir Uruguai (precisamente três anos antes), no entanto – que o
à página da nota.
enfim.

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futebol é apropriadamente tematizado em termos estético-li- de viva discussão pública de questões atinentes às singulari-
terários por um outro escritor modernista de destaque. Trata- dades da nacionalidade brasileira ainda em formação, tendo
12. A ideia geral da discussão pública
se de António de Alcântara Machado, que em 1927 publica a pena de escritores e jornalistas como instrumentos privile- do modo de ser do Brasil tem
11. HOLLANDA. O descobrimento o conto “Corinthians (2) VS Palestra (1)” em que o jogo se giados de emulação e formalização verbal, é necessário vol- seu gérmen inicial na criação dos
do futebol, p. 57-58. Já dissemos primeiros jornais brasileiros após
que o primeiro conto tematizando impõe literariamente não apenas pela sua inserção no dia-a- tarmos um pouco essa história para outro momento em que a chegada da Impressão Régia,
o futebol no Brasil, intitulado, A -dia da cidade de São Paulo, mas, fundamentalmente – e eis a paisagem parecida, no mundo das nossas letras, formatava, em 13 de maio de 1808, e toma
Biblioteca, foi escrito por Lima forma primordial e definitiva,
Barreto em 1915. Queremos
virada de mudança de enfoque do tema na prosa de ficção –, bem no início do movimento romântico, as formas várias do no sentido de ser guiada pelos
ressaltar quanto a este fato, como motivo dramático, narrativo e performático próprios. nascente registro ficcional dos nossos problemas. Era o mo- princípios gerais da liberdade de
em adendo às observações mento do nascimento do gênero conto na ainda incipiente pensamento dos brasileiros sobre
de Bernardo Buarque de À feitura de um verdadeiro conto de situação, entram em o Brasil – ainda que inicialmente
Holanda, que indica o conto de literatura nacional sobre o quê vale a pena elaborarmos al- cerceada pela censura como
cena, nesta narrativa, as reações coletivas das duas grandes
Antonio de Alcântara Machado, gumas notas, já que é nesta forma literária que vamos situar, instrumento de coerção do poder
“Corinthians (2) VS Palestra (1)”, torcidas de São Paulo em embate futebolístico, mas, tam- estatal então vigente – com a
posteriormente, a presença do futebol enquanto temática es-
só publicado em 1927, como bém, as ações, intervenções e observações individuais do publicação daquele que pode ser
sendo uma narrativa em que o pecífica, já ajustada a essa ideia geral da discussão pública do considerado o primeiro jornal
jogo pela primeira vez ocupa elemento humano, que, no jogo, interage para dar a ele o verdadeiramente brasileiro, o
modo de ser do Brasil.12
o centro da história, que há caráter de espaço ritual onde o lúdico e o rigorosamente sé- Correio Brasiliense ou Armazém
entre as duas obras diferenças literário, publicado em Londres
de procedimentos estéticos
rio da condição humana se misturam. Com um conto em Nesse sentido, justificaríamos tal assertiva apoiando-nos por Hipólito José da Costa entre
fundamentais a orientar o forma de crônica, observa o pesquisador Bernardo Buarque, nas ideias do filólogo André Jolles, que ao estabelecer os seus junho de 1808 e dezembro
processo de suas composições. o escritor Alcântara Machado efetua nele as experiências lin- pressupostos conceituais, inclui o conto justamente no que de 1822. Foi no contexto da
Enquanto Lima Barreto toma o existência dessa folha que
tema do futebol como motivo guísticas que tanto fascinavam os modernistas, pois lá estão denomina de formas simples (ou formas naturais) da litera- segundo o historiador da literatura
político para defender suas ideias presentes a oralidade dos torcedores e as circunvoluções dos tura em oposição às suas formas artísticas, que pressupõem a brasileira, Afrânio Coutinho,
sobre o jogo, Alcântara Machado “logo surgem, na multidão dos
o enfoca como elemento cultural atletas em torno da bola, assim como provavelmente pela elaboração da forma literária pela presença marcante de uma escritores, algumas figuras que se
já incorporado às formas de primeira vez na narrativa de ficção sobre o tema – ao menos personalidade criadora. havia de ligar não só á indústria da
ser e de agir de uma parcela divulgação da notícia, mais ainda
considerável do meio urbano de
na forma conto – “o jogo ocupa o centro de uma história e a ao jornalismo como revelação
São Paulo e a ele dá força e forma sua linguagem se instila no fluxo do próprio texto”.11 Forma artística ou forma simples, poder-se-á sempre falar de de um sentimento literário”. Cf.
literária correspondente, bem à “palavras próprias”; nas Formas artísticas, todavia, trata-se das COUTINHO, Afrânio. A literatura
maneira do que propugnava para A despeito de situarmos por essa época o encontro das no Brasil. v.6. 3. ed. Rio de
a tarefa da arte, dali por diante, os palavras próprias do poeta, que são a execução única e defini- Janeiro: José Olympio Editora;
modernistas de 1922.
coisas do futebol com as coisas da literatura, num contexto Niterói: EDUFF, 1986, p. 64.

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tiva da forma, ao passo que na Forma Simples, trata-se das pa- Diríamos, portanto, por este aspecto, que escolhemos o
lavras próprias da forma, que de cada vez e da mesma maneira conto como forma literária privilegiada para estudarmos a
se dá a si mesma uma nova execução.13 representação artística do futebol nas nossas letras justamen-
13. JOLLES. Formas simples, p. 195
(grifos do autor). te por isso; por haver uma espécie de paralelismo estrutural
Essa conceituação das histórias curtas feita por André Jolles
entre forma e conteúdo da forma, entre – por assim dizer – a
nos é útil aqui também por outras questões, conforme ainda
expressão do objeto e o objeto da expressão.
veremos. Em primeiro lugar porque ela aproxima o conto
de uma manifestação natural da linguagem; da ideia de uma Pois não há no futebol uma “ética do acontecimento” a re-
criação espontânea, que, por sua vez, aproxima o gênero con- fletir-se na sua apreensão por uma espécie de “moral ingênua”
to do próprio fenômeno do futebol enquanto elemento de do seu público expectador que, não raro, como já observou
comunicação estética. Em segundo lugar, porque essa sua de- a antropologia social, o experimenta enquanto sentimento
finição do conto inclui também elementos estruturais cons- do trágico? Não é justamente o elemento do maravilhoso, do
titutivos do próprio jogo de futebol que poderíamos deno- extraordinário, do único e ‘irrepetível’ (vejam-se as jogadas-
minar aqui, conforme suas próprias teorizações, de “ética do -prodígio de Pelé e Garrincha), enfim, do fantástico, que ama-
acontecimento” ou “moral ingênua e sentimento do trágico”. mos no futebol? E não é isso a expressão autêntica do amor
que temos pelo natural ou pelo verdadeiro? Acreditamos que
Expliquemos isso com as palavras mesmas do filólogo: “a
sim, o que mostraremos mais pormenorizadamente com a de-
ideia de que tudo deva passar-se no universo de acordo com a
monstração de leitura de textos que faremos ainda neste en-
nossa expectativa é fundamental, em nossa opinião, para a for-
saio, ficando assim legitimada a nossa justificativa da escolha
ma do conto; ela é a disposição mental específica do conto”.14
14. JOLLES. Formas simples, p. 199. do conto como forma de expressão do nosso tema.
E Jolles continua a sua teorização histórica sobre o gênero
Com efeito, a narrativa do conto como Forma Simples,
(como o apreendeu, por exemplo, todo o século XVIII) com
pré-literária – ao menos sob a ótica de sua constituição por
a observação de que o conto é uma forma de arte em que se
caracteres morfo-estruturais que sua prática cultural por di-
reúnem e podem ser satisfeitas em conjunto duas tendências
ferentes povos lhe fez incorporar ao longo dos tempos –,
opostas e inatas da natureza humana, que são a tendência
ganhou, na conceituação de André Jolles, o sentido de forma
para o maravilhoso e o amor ao verdadeiro e ao natural.
de expressão literária específica depois que os irmãos Grimm

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(Jacob e Wilhelm) reuniram numa coletânea e publicaram, o que entendo por poesia artística sai da alma individual”. [...]
sob o título geral de Contos para crianças e famílias, em 1812, Ou seja, uma sendo “criação espontânea”, coletiva, e a outra
um ajuntamento de narrativas de tradição oral oriundas de sendo uma “elaboração” que leva a marca de uma individuali-
diferentes povos, que, em termos propedêuticos, conver- dade criadora (). 16
16. GRIMM apud JOLLES. Formas
giam para um mesmo conceito da prática ancestral do ho- simples, p. 183.
mem se reunir para contar estórias. Como se vê, é nessa polaridade dos atos individuais e coletivos
aplicada à potencialidade humana de produzir arte (aqui, a arte
[...] foi a coletânea dos irmãos Grimm que reuniu toda essa de contar estórias) que pretendemos inserir o fenômeno do
diversidade num conceito unificado e passou a ser, como tal, futebol ao mesmo tempo como tema, motivo, e também como
a base de todas as coletâneas ulteriores do século XIX; final- ele mesmo uma estrutura narrativa típica de comunicação. O
mente, sublinhe-se ser sempre à maneira dos irmãos Grimm conto, neste nosso contexto, portanto, será entendido por nós
que as verdadeiras pesquisas sobre o conto continuam sendo (concordando com a conceituação que dele fez André Jolles)
realizadas, apesar da diversidade de concepções científicas.15 como uma espécie de acontecimento (linguístico, literário, fic-
15. JOLLES. Formas simples, p. 181-
182. cional) que absorve a nossa moral ingênua, movida ou não,
Para o que nos interessa aqui, todavia, é oportuno salien-
esta, pelo princípio do trágico, e que progride no sentido da
tar que os irmãos Grimm procederam o trabalho de coli- realização da justiça, através de um desfecho de fundo ético.
gir essas narrativas apoiados numa distinção que faziam no
tocante ao fenômeno artístico-literário: a ideia de que há Retomando, pois, a teorização de Jolles sobre a forma li-
fundamentalmente duas formas de poesia: a poesia natural terária expressiva do conto que aplicaremos ao futebol – en-
e a poesia artística. Sob esse aspecto, assim se dirigia Jacob tendido este, repita-se, como também uma forma narrativa
Grimm a um amigo, apresentando-lhe suas ideias: de expressão humana que se fundamenta no lúdico –, temos
a explicar que o que nos servirá como objeto de análise ao
A poesia é aquilo que passa em estado de pureza e sem altera- longo desse breve ensaio será o chamado “conto artístico”
ções do coração para as palavras; por conseguinte, é algo que em oposição ao conto simples, a forma genética simples do
brota incessantemente de um impulso natural e é captado por conto, conforme teorizada por este autor. Mais ou menos
uma faculdade inata; a poesia popular sai do coração do Todo; nos termos em que o fundamenta o escritor argentino (e

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também contista), Julio Cortázar, nos três ensaios sobre o trágica ou poética. Quando os ouvimos da boca de um velho
gênero, incluídos na sua obra intitulada Valise de cronópio.17 gaúcho, entre um mate e outro, sen­timos como que uma anu-
17. Compulsar a extensão e
propriedade da teorização lação do tempo, e pensamos que também os aedos gregos con-
No ensaio intitulado Alguns aspectos do conto, em que a
destes dois autores sobre o tavam assim as façanhas de Aquiles para maravilha de pastores
conto, respectivamente, em: despeito de falar sobre a sua prática como contista, o escri-
e viajantes. [...] Entretanto, refiro-me também à Argentina
Jolles, André. Formas simples. tor teoriza sobre “certas constantes, certos valores que se
São Paulo: Cultrix, 1973 (todo o – tivemos escritores como um Roberto J. Payró, um Ricar-
volume); e Cortázar, Júlio. Valise aplicam a todos os contos”, está, a nosso ver, explicitada a
do Güiraldes, um Horacio Quiroga e um Benito Lynch que,
de cronópio. Trad. Davi Arriguci concepção que adotamos aqui dessa forma de expressão li-
Jr. e João Alexandre Barbosa. partindo também de temas mui­tas vezes tradicionais, ouvidos
Org. Haroldo de Campos e terária denominada conto, que abrange ao mesmo tempo a da boca de velhos gaúchos como um Dom Segundo Sombra,
Davi Arriguci Jr. – São Paulo: sua forma simples, primeva, baseada na tradição oral, e a sua souberam potenciar esse material e torná-lo obra de arte. Mas
Perspectiva, 2004. p. 147-163.
forma artística dela decorrente. Depois de sintetizar em três Quiroga, Güi­raldes e Lynch conheciam a fundo o ofício de
elementos essenciais (significação, intensidade e tensão) os escritor, isto é, só aceitavam temas significativos, enriquece-
procedimentos formais necessários à estruturação estética dores, assim como Homero teve de pôr de lado uma porção de
da forma-conto, Cortázar assim conclui sua teorização em episódios bélicos e mágicos para não deixar senão aqueles que
tudo condizente com a aplicação que dele faremos nesse nos- chegaram até nós graças à enorme força mítica, à ressonância
so pequeno estudo. de arquétipos mentais, de hormônios psíquicos como Orgea
y Gasset chamava os mitos. Quiroga, Güiraldes e Lynch eram
Um exemplo argentino esclarecerá melhor isto. Em nossas escritores de dimensão universal, sem preconceitos localistas
províncias centrais e do Norte existe uma longa tradição de ou étnicos ou populistas; por isso, além de escolherem cuida-
contos orais, que os gaúchos se trans­mitem de noite à roda do dosamente os temas de suas narrativas, submetiam-nas a uma
fogo, que os pais continuam contando aos filhos, e que de re- forma literária, a única capaz de transmitir ao leitor todos os
pente passam pela pena de um escritor regionalista e, na esma- valores, todo o fermento, toda a projeção em profundidade e
gadora maioria dos casos, se convertem em péssimos contos. em altura desses temas. Escreviam tensamente, mostravam in-
O que su­cedeu? As narrativas em si são saborosas, traduzem tensamente. Não há outro modo para que um conto seja eficaz,
e resumem a experiência, o sentido do humor e o fata­lismo faça alvo no leitor e crave em sua memória.18
18. CORTÁZAR. Valise de cronópio,
do homem do campo; alguns se elevam mesmo à dimensão p. 158-159.

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Ressalvando que o elemento de significação do conto está tendente ao mistério das coisas só razoavelmente resolvi-
sempre ligado ao seu tema (adaptando ao nosso caso, ao fute- das mesmo que peremptas, porém franca e enigmaticamente
bol), mas lembrando que não só a ele, “porque a ideia de signi- inconclusas.
ficação não pode ter sentido se não a relacionarmos com as de
Pois bem! O futebol é sabidamente um jogo entranhado
intensidade e de tensão, que já não se referem apenas ao tema,
na vida brasileira. Isso foi precisamente o que constatamos
mas ao tratamento literário desse tema, à técnica empregada
mais efetivamente após uma leitura extensiva e intensiva
para desenvolvê-lo”,19 Cortázar conclui que é precisamente
19. CORTÁZAR. Valise de cronópio, que fizemos de toda a produção literária brasileira que bus-
p. 153. esta relação apropriadamente feita dos três elementos que é
cou glosar esse esporte como tema na sua modalidade espe-
o fator responsável pela sua qualidade estética.
cífica do conto de ficção. Tal fato cultural apresentou-se aos
E, para o ponto em que nos interessa diretamente aqui nossos olhos, então, de maneira cristalina e insofismável.
a explanação de Cortázar, tudo pode ser arrematado com
Queremos dizer com isso que o jogo de bola aos pés, cuja
a sua definição de conto, que integralmente acolheremos
trajetória em nossa história cultural procuramos explicitar
neste ensaio, não apenas em termos teóricos, mas também
um pouco atrás, a partir de sua efetivação por meio do con-
pragmaticamente operacionais:
curso mútuo do campo do jornalismo com o da literatura, já
se firmou como mote especulativo de abrangência e legitimi-
[...] um conto, em última análise, se move nesse plano do ho-
dade tais que os autores brasileiros de ficção têm facilmente
mem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma
como justificar, com a eficácia própria dos seus trabalhos
batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado
literários, o investimento direcional que essa produção tem
dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo
feito no assunto. Tal motivo literário é hoje – podemos dizer
tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor
junto com o que dizem os próprios textos lidos – um meio
de água dentro de um cristal, uma fugacidade na permanência.20
20. CORTÁZAR. Valise de cronópio, riquíssimo (dentre outros já canônicos e estabelecidos) atra-
p. 151.
Como, aliás, para arrematar – acrescente-se a essa defini- vés do qual a nossa arte literária vem eficazmente discutindo
ção de Julio Cortázar –, é também uma boa partida de fute- a condição humana específica do homem brasileiro, conside-
bol. Quase sempre composta da mesma substância fractal, rado na sua vinculação a uma cultura e ambiente próprios.
digamos assim; simultaneamente fluida, sólida, líquida e Assim é que, isolado o homem por trás da bola, como queria

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conceber Nelson Rodrigues, ou percebido na sua relação representação estética a ela concernente, considerada a gama
visceral com esta, como tentam apanhá-lo na condição de facetada dos seus mais diferentes aspectos. Aspectos estes
jogador outros tantos autores, a motivação especulativa do que constituíram e vem constituindo, por seu turno – devido
futebol tem gradativamente se firmado em nossa literatura ao amplo horizonte e diversidade de incidência cultural tan-
como uma demanda geral a que não escapa nenhum olhar to no âmbito individual quanto coletivo do espectro social
atento de escritor verdadeiramente imbuído de propósitos –, os parâmetros de leitura das narrativas de histórias curtas
vocacionais. sobre as quais aplicamos algumas categorias de análises es-
pecífica e especialmente criadas por nós para o caso do conto
Assim é que também, considerando o narrador como ins-
de ficção. Observado o que já foi dito, nos parece teorica-
tância estrutural organizadora por excelência das narrati-
mente válida, portanto, a distribuição destes contos literá-
vas e, portanto, responsável por articular modos de captar
rios brasileiros sobre futebol, coligidos em pesquisa própria
o ambiente e propor a ação dos fatos narrados de forma a
para este ensaio, por entre as seguintes categorias tipológicas
configurar a sua significação estética, [e, neste mesmo mo-
de configuração, que a seguir explicaremos.
vimento, pressupondo a existência de uma homologia entre
o fenômeno do jogo (tomado como tema) e a sua forma de Contos de demanda intrínseca. Pertencem a esta categoria
representação (a modalidade do conto de futebol), que se aqueles textos que encerram um tipo de investimento ficcio-
realiza quase sempre através de uma tensão entre a função nal em que se tenta debater, analisar, demonstrar ou mera-
lúdica (do próprio jogo) e a função instrumental – de organi- mente flagrar a condição humana, no seu todo ou em algum
zação e funcionamento da sociedade] –, propomos uma hi- aspecto dela, por meio de suas narrativas, a partir da função
pótese explicativa da constituição, operação, funcionamento que o homem exerce dentro do próprio campo temático do
e estruturação narrativa do conto de futebol, no Brasil, na texto, neste caso, o campo21 do futebol.
21. Novamente, a expressão
sua relação com o assunto objeto do seu próprio tema assim aqui deve ser entendida na
Contos de demanda extrínseca. Essa categoria tipológica
como com a totalidade social que lhe serve de fonte. acepção em que é utilizada
reúne contos em que se resumem os investimentos ficcio- pela conceituação de campo
Nossa ideia foi compreendermos este esporte como fe- nais por onde se tenta flagrar, debater, analisar, demonstrar social,feita por Pierre Bourdieu.
Cf. BOURDIEU, Pierre. O poder
nômeno constitutivo dessa mesma totalidade social e, ao ou meramente constatar a condição humana, no seu todo simbólico. Rio de Janeiro:
mesmo tempo, também, como objeto e meio eficazes de ou por algum aspecto dela ou a ela relacionado, a partir da Bertrand Brasil, 2001. p. 59-74.

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função que o homem exerce fora do campo temático do tex- genético-estrutural do romance moderno, segundo a classi-
to e que, por alguma razão – quase sempre configurando o ficação do crítico Alfredo Bosi (1990), a existência de certas
próprio argumento do seu entrecho – a ele se refere para homologias entre a estrutura da obra literária e a estrutura
servir como elemento da exposição narrativa. Aqui, o fute- social, e até mesmo grupal, em que se inserem os seus auto-
bol entra como pretexto e não como tema direto do texto res. O fundamento dessa proposta é a existência inevitável
ficcional. de uma tensão estrutural entre o escritor e a sociedade da
qual faz parte.
Contos de demanda linguística híbrida. Compõem essa
categoria as narrativas que se estruturam a partir do con- Em termos literários, com efeito, tal oposição entre essas
curso de linguagens ligadas às formas de representação da duas instâncias se efetiva graças ao recurso da criação da fi-
história e constituição do próprio jogo de futebol: o rádio, o gura do “herói problemático” por meio do qual o romancista
jornalismo, a televisão, a literatura, a publicidade etc. Nestes mimetiza algo que é, segundo Goldman, o fundo comum de
casos, essas linguagens – que se articulam sob o domínio toda a literatura ocidental nos últimos dois séculos: a exis-
retórico da linguagem literária, formando com ela uma es- tência radical de uma tensão entre o indivíduo e as estru-
pécie de hibridização linguística – entram como elemento turas “degradadas” vigentes na sociedade em que atua, isto
da narrativa por uma necessidade intrínseca (estrutural) ao é, estruturas incapazes de fazer atuar os valores que a pró-
próprio tema e são essenciais ao entendimento do conteúdo pria sociedade prega: liberdade, justiça, amor, fraternidade,
profundo do texto. igualdade geral de direitos etc.
Para fundamentar nossa hipótese interpretativa dos textos Portanto, a escolha do fator tensão para orientar essa nossa
analisados – acima exposta na forma dessas três categorias de proposição de leitura dos contos de futebol na literatura bra-
leitura – nos apoiamos na formulação que o critico e estu- sileira se autojustifica por ser esse elemento um dado existen-
dioso da literatura, Lucien Goldamann, propôs para a gênese cial primário e que, segundo Alfredo Bosi – crítico que tam-
da obra narrativa, no seu livro Sociologia do romance (1976), bém o utilizou, por exemplo, como critério fundamentador
em que, baseado em proposições dos teóricos da literatura, da sua leitura sobre a produção ficcional romanesca dos anos
Georg Lukács (Teoria do romance) e René Girard (Mensonge de 1930 e 1940 no Brasil –, tem a vantagem de se apresen-
romantique et vérité Romanesque), propõe, numa abordagem tar também como dado fundamental do “relacionamento” do

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autor com o mundo objetivo, “de que depende, e com o mun- da palavra, a imbricação do jogo da vida com o jogo da bola.
do estético, que lhe é dado construir”,22 as quais entendemos Afinal, o personagem principal da narrativa é mais que um
22. BOSI. História concisa da
literatura brasileira, p. 441. como uma inferência de sua parte quanto à repercussão desse jogador de futebol, é um homem que intenta a todo custo es-
fato também na instância do narrador, como inevitavelmente capar da opressão insidiosa de um oponente vigorosamente
uma figura derivada da configuração autoral. mais forte e que, dada a sua limitação técnica no campo de
jogo, procura se impor não por meio da força do argumento,
Sendo assim, como o gênero do conto, no geral, não se
o que equivaleria à sua melhor técnica e habilidade, mas sim
diferencia do romance em relação a este aspecto da sua es-
pelo argumento da força: o vigor físico em si em conjunto
truturação enquanto forma de representação das questões do
com as artimanhas e malandragens para esconder da arbitra-
homem em sociedade, julgamos pertinente aplicar também
gem as suas deslealdades e desrespeitos às regras do jogo. A
tal proposição de leitura à análise dos textos que escolhemos
violência, enfim; assim no campo, assim como na vida.
aqui para demonstração analítica, apenas com a ressalva de
lembrarmos que tal proposta foi por nós redimensionada E se o futebol, como advoga o poeta Ferreira Gullar, não é
para centrarmos foco na instância do narrador ao invés da a vida mesma e, sim, uma idealização desta: “Melhor dizen-
do personagem (seja ele herói ou anti-herói), acrescentan- do, um modo de lutar e derrotar o adversário, sem liquidá-
do-lhe apenas o dado novo do tema do jogo como elemento -lo fisicamente e dentro de normas pré-estabelecidas”,23 esta
23. Cf. Artigo de Ferreira Gullar
também a ela intrínseco e estruturante. narrativa parece ter sido criada para desdizer o poeta não na publicado na Folha de São Paulo -
sua concepção ideal do futebol, mas sim, e em última ins- domingo, 15 de março de 2009.
Vamos a alguns exemplos simples.
tância, na potencialidade que ele tem também, enquanto um
O primeiro deles é um conto intitulado, A sombra, de auto- jogo que é – ademais como na vida, aliás – de trazer para o
ria do escritor Caio Porfírio Carneiro. Narrativa de deman- seu campo prático as imperfeições e mazelas da existência
da intrínseca, a história põe em cena aquele conflito clássico humana tais como a sordidez, a injustiça, a inveja, enfim, o
(bíblico até!) em que a força do mais forte procura se impor lixo demasiado humano produzido no campo das relações
à humildade do mais fraco. sociais.
Aqui, os reveses da condição humana adentram as quatro De posse de uma técnica narrativa simples e, no entanto,
linhas para costurar mais uma vez, através dos finos tecidos bastante eficaz, em que uma terceira pessoa do singular é

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utilizada para expressar uma visão do narrador em uníssono dos jogos da Copa de 1970, no País, para abordá-lo através
com a visão do personagem principal do conto, um meia- de um narrador cujo ponto de vista desliza (com os tipos de
-armador habilidoso que passa um jogo inteiro pensando focos narrativos empregados) conforme as conveniências a
numa forma de se livrar definitivamente de uma sombra ele favoráveis no ambiente em que se desenvolve a história.
(o adversário brutamontes que o acompanha milímetro a Este é um ambiente de exclusão do diálogo (e, por extensão,
milímetro dentro do campo e quer anulá-lo mesmo com a da convivência sadia) em que uma avó se sente à parte dos
violência), Caio Porfírio Carneiro arquiteta a história de sua acontecimentos que se desenrola na casa dos netos (daí, o
vingança (a do personagem, claro) em que a abertura da sua escanteio do título) tendo o futebol como link de uma con-
história já diz tudo. Para a comprovação mais próxima da juntura político-social que ao mesmo tempo o encara como
eficácia narrativa da estratégia composicional da demanda fator de alienação e de oportunidade para efetivação do deba-
intrínseca, é só ler a narrativa na íntegra, publicada na co- te político. Neste sentido, veja-se o ensejo que a reunião para
letânea, Histórias de futebol, organizada por Maria Viana e ver os jogos da Copa do Mundo oferecia à abordagem – sem-
Adilson Miguel, com ilustrações de Rubem Filho, editada pre difícil em outras circunstâncias – do problema da tortura
pela Editora Scipione, de São Paulo, em 2006. então em voga no Brasil, sob os auspícios da ditadura militar.
Já a narrativa de demanda extrínseca é bem representa- Mas é com o enquadramento temático das demandas lin-
da, por exemplo, pelo conto Escanteio, escrito pela contista guísticas híbridas que se chega, na formalização do conto de
paulista Ana Maria Martins, e que consta da coletânea, 22 futebol literário brasileiro, ao domínio pleno das formas de
Contistas em Campo, organizada por Flávio Moreira da Costa narrar em ficção em que os aspectos relevantes do futebol po-
e publicada pela Ediouro, do Rio de Janeiro, em 2006. dem ser compreendidos como metáfora linguística da vida em
alguns dos seus aspectos mais essenciais. E é o escritor carioca
Este é um texto ficcional em que a sutileza de composi-
Sérgio Sant´anna, com seu conto intitulado, No último minuto,
ção, tanto da forma quanto do conteúdo, é um dos recursos
o responsável pela proeza narrativa em questão.
de formalização literária melhor empregados na difícil bus-
ca da adequada tonalidade para o enfoque temático. O tema Nessa sua narrativa de futebol, o elemento do imponde-
em questão é a tortura de presos políticos durante a ditadura rável, presente tanto na vida quanto no jogo; a força das
militar no Brasil em que se aproveita a atmosfera de euforia circunstâncias na definição de situações que parecem revelar

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certa autonomia dos objetos sobre os seres; a impotência por este recurso narrativo, compreendê-lo no que ele tem de
destes diante de fatos consumados que informam a existên- mais incompreensível e de imponderável.
cia; a sensação de um tempo decisivo na configuração de
Enfim, com uma temática simples, um evento relativa-
estados sem volta na permanente mudança dos entes e das
mente comum em jogos de futebol (o lance em que o goleiro
coisas são, enfim, alguns desses aspectos colocados em pauta
é traído pela bola, deixando passar um gol que todos – inclu-
pela história.
sive ele – asseguravam defendido: o chamado “gol frango”),
A linguagem televisiva, por exemplo, é requisitada como o grande lance desse conto de Sérgio Sant´anna é a forma
elemento formal de conteúdo e o que sobressai nessa narra- de narrá-lo. Um caso típico em que a forma ilumina o con-
tiva, por conseguinte, é a capacidade que o veículo tem de teúdo. Conteúdo esse - o leitor pode notar -, tecido aqui por
potencializar os efeitos dos fatos decorridos sobre a cons- uma fabulação que é ela mesma rica em significados extras,
ciência e o psiquismo dos que deles participam. Seja dire- e que por consequência disso salta da categoria de um mero
tamente, ampliando a repercussão desses efeitos no íntimo evento de jogo para a dimensão de um daqueles pequenos
dos seus protagonistas; seja indiretamente, reapresentando dramas humanos que, mais do que as câmaras de TV, só as
para nós espectadores (e, agora, leitores) dimensões múlti- lentes da boa literatura sabem captar.
plas desses fatos em função da sua recorrente e sistemática
repetição através das imagens que os configuram – passam e NOTAS DE FIM
repassam - nesses tempos de modernidade.
1. Segundo a historiografia oficial, o futebol é introduzido no
O caso aqui é o de um goleiro que conta a história de um Brasil a partir da figura de Charles Muller, brasileiro filho de
lance imprevisto que o envolveu numa partida de final de europeus, que vindo justamente de estudos na Europa, trou-
campeonato e que, justamente por ser previsível o seu de- xe as regras e os apetrechos para a prática desse esporte
senrolar, torna imprevisíveis e duros os impactos do seu no Brasil. Isso se deu por volta de 1895, ano da realização
desfecho no âmbito humano desse jogador de futebol. A do primeiro jogo de futebol oficializado em terras brasileiras,
história nada mais é do que o reviver, por parte do golei- fato ocorrido em São Paulo e envolvendo, além do próprio
ro personagem e narrador, o drama em que tomou parte e Muller, outros europeus que residiam aqui e trabalhavam na
que, dadas as circunstâncias do seu momento decisivo, tenta, construção de estradas de ferro País afora. Na história dos

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primórdios da introdução do futebol no Brasil, entretanto, é nascimento genético do jornalismo esportivo brasileiro te-
importante destacar também a figura de outro brasileiro filho ria se dado em 1856, com a criação do periódico O Atleta,
de europeu: Oscar Cox, que está para a história da introdução que publicava receitas para o aprimoramento físico dos ha-
do futebol no Rio de Janeiro assim como Charles Miller está bitantes do Rio de Janeiro. Dentro dessa mesma plataforma
para a de São Paulo, figurando os dois, por conseguinte, como informativa, surgiam, pouco depois, em 1885, O Sport e O
grandes pioneiros da difusão do esporte bretão no Brasil. Sportsman. Já em São Paulo, aparecia, em 1891, A Platea
Sobre a importância de Oscar Cox nesse processo consultar: Sportiva, um suplemento de A Platea, criado em 1888. Só
PEREIRA (Footballmania, Cap. 1, p. 21-86). E sobre a versão dez anos depois, em 1898, é que surgia também em São Paulo,
que destaca a figura pioneira de Charles Miller, embora já ad- a revista O Sport e o jornal Gazeta Sportiva, periódico de distri-
mitindo a presença também de instituições educacionais ca- buição gratuita que circulava somente aos domingos e que não
tólicas de Petrópolis, no Rio de Janeiro, consultar também O tem nada a ver com o futuro jornal homônimo criado pelo jorna-
futebol no Brasil. Rosenfeld, Anatol. Revista Argumento, Paz lista Casper Líbero. Registre-se, entretanto, que em nenhuma
e Terra, 1973, Rio de Janeiro, p. 62-66. Ainda sob este aspec- dessas publicações o assunto futebol era prioridade, recebendo
to do pioneirismo dos jesuítas na difusão do futebol no Brasil, destaque maior o turfe, as regatas e o ciclismo. Os grandes jor-
consultar ainda DUARTE (História dos esportes, p. 219-220). nais da época eram O Estado de S. Paulo, Correio Paulistano e A
Platea, em São Paulo; no Rio de janeiro, Jornal do Commercio,
5. É possível perceber nesse período a vigência de uma crô-
O Paiz, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil e Correio da Manhã.
nica sobre os esportes e não uma crônica dos esportes con-
Começavam a surgir também, as grandes revistas semanais
forme concebemos hoje. A aversão modernista à fala em-
como Revista da Semana, O Malho e Kosmos. Cobrindo o es-
polada e ornamental, bem como aos recursos retóricos dos
porte, a Semana Sportiva, no Rio de Janeiro, e Vida Sportiva, em
parnasianos, afinava-se com as mudanças promovidas na
São Paulo. Enfatize-se mais uma vez que, “futebol nesse espaço
crônica esportiva, cuja narrativa encontrava-se igualmente
nobre, muito, pouco, quase nada”, como frisa Adré Ribeiro. A tí-
presa até a década de 1920 aos cânones greco-romanos e
tulo de contribuição ainda a esta questão histórica do nascimento
especialmente ao estilo elevado da retórica sublime clássica.
da crônica esportiva no país, é oportuno aqui darmos a palavra a
Mário Filho vai neste sentido, como vimos, mobilizar seus
um dos seus primeiros historiadores, o jornalista Paulo Várzea.
esforços para a reformulação dos paradigmas do jornalismo
Não sem antes, contudo, inserirmos uma introdução oportuna a
esportivo brasileiro. Segundo o jornalista André Ribeiro, o
respeito do tema, feita pelo também jornalista, Milton Pedrosa,

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no prefácio do seu livro O olho da bola, publicado em 1969, sob muitos como o texto iniciador da cronística sobre esportes no
o pertinente título, “A crônica esportiva e o cronista de futebol”. País. Cf. BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de.
Depois de assegurar que a crônica esportiva de futebol nasceu Org. O Rio de Janeiro em prosa e verso. v. 5. Rio de Janeiro:
junto com o século XX, diz ele: “Antes disso – e durante muito Livraria José Olympio Editora, 1965, p. 209-210.
tempo com ela – o que dominou foi outro tipo de crônica: a crô-
7. É dentro deste escopo de interpretação do futebol que,
nica de outros esportes então prestigiados como o turfe, a pelo-
analisando-o como um fenômeno cultural típico da agenda
ta basca, o ciclismo, a patinação. Os autores que têm tratado do
ideológico-programática do movimento modernista brasileiro
tema têm frisado sempre que as referências ao futebol nos anos
(entendendo-o como uma querela eminentemente modernis-
anteriores a1900 foram quase nenhuma”. Em seguida dá, atra-
ta, enfatize-se) o pesquisador Bernardo Buarque de Hollanda
vés de uma nota, a palavra ao jornalista-historiador Paulo Várzea:
refere-se a uma palestra proferida por Oswald de Andrade
“A crônica esportiva paulistana nasceu em 1900, à margem dos
em 1938, em São Paulo, onde o escritor procurara situar este
torneios atléticos promovidos pelo S. C. Internacional, de colabo-
jogo no quadro das expressões coletivas do homem, que
ração com as sociedades alemãs de ginástica, S. C. Germânia,
tem como base um fundo estético. Segundo o pesquisador,
Turnschaff, Associação de Ginástica 1988 e C. A. Paulistano. No
o poeta modernista vai recorrer aos grandes espetáculos
Rio, por exemplo, a crônica nasceu nas colunas do Correio da
da história para falar do futebol. >>> Neste contexto, diz
Manhã, na verdade o primeiro diário a pioneirar o jornalismo fute-
Bernardo Buarque, em abono às inferências oswaldianas, “ao
boleiro carioca”. Respectivamente, Cf. RIBEIRO, André. Os donos
lado do cinema e das paradas militares, o futebol absorvia
do espetáculo: histórias da imprensa esportiva no Brasil. 1. ed.
as formas dramáticas do teatro, da dança e da missa, evi-
São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2007, p. 25 a 27, e PEDROSA,
denciando a íntima ligação estética entre os espetáculos da
Milton. O olho na bola. Rio de Janeiro: Livraria Editora Gol, 1968,
época moderna e os rituais milenares da humanidade”. Tudo
p. 5 e 6. Para consultar a versão direta e integral de Paulo Várzea,
isso, conforme o pesquisador, muito em consonância com
Cf. VÁRZEA, Paulo. A sociedade que criou e desenvolveu o fute-
a concepção de jogo defendida pelo historiador holandês,
bol em São Paulo. In: FEDERAÇÃO Paulista de Futebol. 60 anos
Johan Huizinga, e explicada pelo pensador italiano Umberto
de futebol no Brasil. São Paulo: Federação Paulista de Futebol,
Eco para quem “Huizinga maneja sua ideia de jogo a partir
1954, p. 259. É importante registrar também, no mesmo sentido
de uma noção de ‘cultura’ como complexo de fenômenos
supramencionado, a publicação, em 1854, da crônica intitulada,
sociais do qual faz parte, em condições iguais, tanto a arte
“Primeira corrida no Jóquei”, do escritor José de Alencar, tida por

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como o esporte, tanto o direito como os rituais funerais”. Cf. José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional,
HOLLANDA, B. B. B. O descobrimento do futebol: modernis- 2004, p. 188, respectivamente. É oportuno lembrar aqui a atua-
mo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. lização mais recente desses episódios envolvendo escritores
Rio de Janeiro: Edições Biblioteca nacional, 2004. p. 100, 101 entusiastas do futebol. Dois relatos de contemporâneos seus –
e 103. Para ler a conferência de Oswald de Andrade na ínte- do escritor Paulo Mendes Campos e do jornalista Luciano Trigo
gra, Cf. ANDRADE, O. “O burguês infeliz criador de pintura”. – dão conta de que o romancista e cronista esportivo nas dé-
In: Estética e política. São Paulo: Globo, 1994, p. 155. E para cadas de 1940 e 1950, José Lins do Rego, torcedor fervoroso
ler o ensaio de Umberto Eco sobre as concepções de jogo do Flamengo, também teria se envolvido em fatos de natureza
esposadas por Johan Huizinga, Cf. ECO, Umberto. Sobre os idêntica em jogo do seu clube. Cf. CAMPOS, Paulo Mendes. O
espelhos e outros ensaios. Tradução de Beatriz Borges, Rio gol é necessário. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p.
de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p. 269-285. 92, e TRIGO, Luciano. Engenho e memória: o nordeste do açú-
car na ficção de José Lins do Rego. Rio de Janeiro: Topbooks,
8. O fato é referido em pelos menos duas fontes da literatura
2002, p. 143.
histórico-memorialística do futebol brasileiro: segundo endosso
historiográfico do pesquisador Leonardo Pereira, em passagem 10. Refiro-me aqui ao tipo de registro literário de temas da
à página 81 do livro do filho do próprio Coelho Neto, o tam- realidade brasileira feito por escritores e jornalistas do século
bém escritor Paulo Coelho Neto, O Fluminense na intimidade, XIX e início do XX, as chamadas crônicas de costumes, que,
Volume 2, Rio de Janeiro: s.n., publicado em 1969; e também nas palavras do crítico literário Afrânio Coutinho, funcionaram
pelo jornalista Sandro Moreyra, no prefácio que fez ao livro A como uma espécie de “fator de transição” da crônica para o
loucura do futebol (ver bibliografia) da socióloga americana, conto e que, também conforme o estudioso Alfredo Pujol, no
Janet Lever, à página 9 desta obra, conforme também endosso seu livro sobre Machado de Assis, exemplificando com os fo-
do pesquisador Bernardo Borges Buarque de Hollanda. Para lhetins de Francisco Otaviano, Joaquim Manoel de Macedo,
estas referências, Cf. PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. José de Alencar e Ferreira de Menezes, entre outros, “eram
Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro as vezes obras de ficção e de dourada fantasia, buriladas ao
– 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 207, e acaso da imaginação e da sensibilidade”. Cf. COUTINHO,
HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. O descobrimento Afrânio. A literatura no Brasil. v.6. – 3. Ed. – Rio de Janeiro:
do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Olympio Editora; Niterói: UFF-Universidade Federal

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Fluminense, 1986, p. 48. Diz ele: “De fato, nessas crônicas fez do esporte. Cf. MEIHY, José Carlos Sebe Bom e WITTER,
ou folhetins, a que se devem acrescentar ainda os de França José Sebastião. Org. Futebol e Cultura: coletânea de estudos.
Jjúnior e os do próprio Machado, na sua forma de relatos de São Paulo: Imprensa Oficial – Arquivo do Estado, 1982, p.
acontecimentos atuais, muita vez simples fait-divers, a que o 105-111.
autor dava o toque da sua arte literária, é que ia tomando corpo
e forma definitiva o genuíno conto brasileiro”. Idem. Ibidem,
REFERÊNCIAS
p. 49. Embora os textos de João do Rio fossem pautados por
ANDRADE, O. “O burguês infeliz criador de pintura”. In: Estética
critérios jornalísticos, no sentido de visarem primeiramente
e política. São Paulo: Globo, 1994, p. 155.
a comunicação de veracidades factuais, objetivamente com-
prováveis na realidade de sua observação cotidiana, cremos BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Org. O
que no tocante ao seu estilo de escrita podemos dizer que Rio de Janeiro em prosa e verso. v. 5. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1965, p. 209-210.
havia, na sua obra jornalística, uma orientação tendente ao re-
gistro cronístico-literário dos costumes cariocas do seu tem- BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 3. ed.
po. O futebol entra pela primeira vez nas suas preocupações São Paulo: Cultrix, 1990.
temáticas em um texto sem título, publicado na coluna “Os
Sports/O futebol”, página 1, da Gazeta de Notícias, em 26 de BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2001.
julho de 1905, onde se comenta uma visita feita ao estádio
do Fluminense Foot-Ball Club e o novo esporte da moda. Cf. CAMPOS, Paulo Mendes. O gol é necessário. Rio de Janeiro:
João do Rio: catálogo bibliográfico – 1899-1921. João Carlos Civilização Brasileira, 2000.
Rodrigues. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura –
Cortázar, Júlio. Valise de cronópio. Trad. Davi Arriguci Jr. e João
Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural,
Alexandre Barbosa. Org. Haroldo de Campos e Davi Arriguci Jr. –
Divisão de Editoração, 1994. p. 40. É importante destacar São Paulo: Perspectiva, 2004.
também aqui o caso pioneiro de Monteiro Lobato, que nos
dias 10 e 17 de junho de 1905, no jornal O Povo, de Caçapava, COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. v.6. – 3. Ed. – Rio de
São Paulo, publica um artigo intitulado “Futebol” e que segun- Janeiro: José Olympio Editora; Niterói: UFF-Universidade Federal
Fluminense, 1986.
do os historiadores Cláudio Bertolli Filho e José Carlos Sebe
Bom Meihy, foi a única menção consequente que o escritor

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DUARTE, Orlando. História dos esportes. 3. ed. rev. e ampl. São MEIHY, José Carlos Sebe Bom e WITTER, José Sebastião. Org.
Paulo: Senac, 2004. Futebol e Cultura: coletânea de estudos. São Paulo: Imprensa
Oficial – Arquivo do Estado, 1982.
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Tradução
de Beatriz Borges. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. Pedrosa, Milton. Gol de letra. Rio de Janeiro: Gol, 1967.

FEDERAÇÃO Paulista de Futebol. 60 anos de futebol no Brasil. PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma
São Paulo: Federação Paulista de Futebol, 1954. história social do futebol no Rio de Janeiro – 1902-1938. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
GOLDMANN, Lucien. Sociologia do romance. 2. ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1976. REGO, José Lins do. Água-mãe. 11. ed. (estudos de Álvaro Lins
e Antônio Carlos Villaça). Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.
HOLLANDA, B. B. B. O descobrimento do futebol: modernismo,
regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego. Rio de RIBEIRO, André. Os donos do espetáculo: histórias da imprensa
Janeiro: Edições Biblioteca nacional, 2004. esportiva no Brasil. 1. ed. São Paulo: Editora Terceiro Nome,
2007.
JOÃO DO RIO: catálogo bibliográfico – 1899-1921. João Carlos
Rodrigues. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura – RODRIGUES FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. 4. ed.
Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Rio de Janeiro: Mauad, 2003.
Divisão de Editoração, 1994.
RODRIGUES FILHO, Mário. O sapo de Arubinha: os anos de
Jolles, André. Formas simples. São Paulo: Cultrix, 1973. sonho do futebol brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras,
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85

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TRIGO, Luciano. Engenho e memória: o nordeste do açúcar na


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EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 NASCIMENTO. Da crônica jornalística ao conto de ficção [...] p. 63-85

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GARRINCHA: O (ANTI-)HERÓI PELO OLHAR O presente trabalho foi realizado
com apoio do CNPq, Conselho
Nacional de Desenvolvimento
DOS CRONISTAS Científico e Tecnológico – Brasil.

Gustavo Araújo de Freitas* * garafreitas@hotmail.com


Doutorando do Programa de Pós-graduação em
Estudos Literários da UFMG.

RESUMO: Garrincha foi uma dessas personagens tão mar- RÉSUMÉ : Garrincha est un personnage de la mémoire
cantes na memória coletiva brasileira, que é praticamente collective brésilienne très important et c’est en fait difficile
irrealizável apreendê-lo em toda sua dimensão. Contudo, de comprendre toute la dimension de sa représentation.
isso não nos impede de vislumbrar alguns dos traços mais Toutefois, il est possible de remarquer quelques traits de
característicos que o identificam com a nação, sobretudo, son caractère qui l’attachent à la nation, surtout, selon une
a partir de um determinado recorte; e, nesse sentido, nada certaine perspective. Et, dans ce cas, la chronique sportive
melhor do que nos valermos da crônica, que, afinal, foi um est un bon paramètre pour notre analyse ; il s’agit d’un genre
gênero que se especializou no Brasil, dentre outras coisas, qui, entre autres choses, s’est spécialisé, au Brésil, dans le
no tema do futebol, e onde se encontram também os princi- domaine du football, et, en effet, plusieurs chroniqueurs ont
pais registros literários sobre Garrincha. Logo, a partir desses écrit sur Garrincha, par exemple : Mário Filho, João Saldanha,
registros, é possível buscar desvendar um pouco mais dessa Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos, Armando
personagem que chegou mesmo a alcançar o estatuto de Nogueira et Nelson Rodrigues. A vrai dire, la chronique a très
um herói, ou, diríamos até, de um “anti-herói” nacional, e souvent mis en relief l’image de ce personnage qui a atteint
isso por intermédio de cronistas de grande prestígio como: un statut d’un héros ou, plutôt, d’un antihéros national.
Mário Filho, João Saldanha, Stanislaw Ponte Preta, Paulo
Mendes Campos, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues. MOTS-CLÉS: Garrincha ; football ; chronique sportive.

PALAVRAS-CHAVE: Garrincha; futebol; crônica esportiva.


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Adentrar os meandros todos que levam à construção de E, a propósito, se, na literatura brasileira, por diversas ve-
uma imagem como a de Garrincha na memória coletiva do zes, a esse gênero foi atribuído um status de “menor” – de-
brasileiro é sem dúvida algo irrealizável; isso não nos impe- vido, em grande parte, a seu posto liminar entre o literário
de, porém, de tentar vislumbrar melhor diversos aspectos e o jornalístico –, é justamente pelas características que lhe
desse constructo, em particular, à luz de uma perspectiva coferiram tal status que podemos entender também melhor a
determinada, mesmo que, ainda assim, possamos nos depa- íntima relação que veio a estabelecer com o tema do futebol;
rar com a impossibilidade de mapear todas as informações. aliás, é digno de nota que esse veio a cair nas graças de nossos
Com efeito, propomos em nossa análise um recorte – as cronistas a ponto de encontrarmos na crônica futebolística,
crônicas de futebol no Brasil – conquanto essa delimitação como bem atentou Silva, praticamente todas aquelas carac-
também nos coloque defronte uma quantidade de infor- terísticas que definem o gênero cronístico.1 1. SILVA. O mundo do futebol nas
mações inapreensível, mas que, de fato, não nos priva de crônicas de Nelson Rodrigues, p. 35.
Ademais, não negligenciemos o fato de que tal relação
tentar abranger o máximo possível delas e esboçar assim
fundamenta-se sobre raízes profundas de nossa cultura, o
uma visão mínima de conjunto que, embora panorâmica,
que, muitas vezes, passa despercebido, seja pelo próprio uso
possa revelar também um pouco mais dessa personagem
da linguagem coloquial, aparentemente descompromissada,
que, afinal, sob os olhares atentos de nossos cronistas, veio
da crônica; seja pelo caráter transitório de seu veículo pre-
a atingir o estatuto de um herói, ou, melhor, de um “anti-
ferencial, a mídia impressa; ou até por sua própria perspec-
-herói” nacional.
tiva que, afinal, não é a daqueles “que escrevem do alto da
Ainda com relação a esse recorte, é oportuno destacar montanha”, como teria sugerido Antônio Cândido, “mas do
que o mesmo não é meramente fortuito. A crônica – pu- simples rés do chão”.2
2. CÂNDIDO. A vida ao rés do chão,
blicada, sobretudo, na mídia impressa –, foi no Brasil um p. 14.
Sendo assim, parece também apropriado que, antes de nos
gênero que há muito se especializou, dentre outras coisas,
atermos com maior acuidade a algumas passagens exempla-
em falar sobre futebol. De modo que também os principais
res de nossos cronistas, passemos em revista as peculiarida-
registros literários sobre Garrincha encontram-se, o mais
des que fizeram desse um gênero tão propício à temática do
das vezes, nesse tipo de texto, onde, diga-se de passagem,
futebol e no qual vieram a se ambientar tão bem persona-
são inumeráveis.
gens como Garrincha.

EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 FREITAS. Garrincha: o (anti-)herói pelo olhar dos cronistas p. 86-105

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FUTEBOL E GARRINCHA NA TRADIÇÃO CRONÍSTICA e assim, “largando cada vez mais a intenção de informar e
BRASILEIRA comentar […] para ficar, sobretudo, com a de divertir”. 5
5. CÂNDIDO. A vida ao rés do chão,
Antes de tudo, não devemos perder de vista os aspectos que E assim, a crônica ganhou contornos tão peculiares em p. 15.
o meio privilegiado de circulação da crônica lhe imprimiu, tais nosso país, que aos poucos foi deixando de ser um “apêndice
como: a extensão mais curta, a tendência em abordar acon- do jornal”, para usar os termos de Arrigucci Júnior, e passou
tecimentos que foram notícia e, enfim, a própria linguagem. a adquirir “uma dimensão estética e relativa autonomia, a
Não há, pois, nenhuma dúvida de que essa inclinação para o ponto de constituir um gênero propriamente literário, mui-
relato breve e coloquial de fatos observáveis no dia-a-dia, fa- to próximo de certas modalidades da épica e às vezes tam-
miliares ao leitor, propiciou que se acomodasse tão conforta- bém da lírica, mas com uma história específica e bastante
velmente na tradição da crônica brasileira também esse tema expressiva no conjunto da produção literária brasileira”. 6
tão cotidiano, tão rico em casos e anedotas, que é o futebol, tão
6. ARRIGUCCI JR. Fragmentos
“desligado das esferas ‘sérias’ da vida”, diria Silva. 3 Nesse sentido, um dos seus aspectos distintivos mais notá- sobre a crônica, p. 53. Acerca
3. SILVA. O mundo do futebol nas
crônicas de Nelson Rodrigues, p.
veis, e também lembrado por Silva, é que ela vai de encontro das origens e desenvolvimento
35.
Contudo, também não podemos nos esquecer de que a à pretensa aparência de neutralidade do noticiário de cunho do gênero. Cf. ainda: SILVA. O
referida tensão gerada pela linguagem – limítrofe, a um só informativo e também à lógica de argumentação, pautada na
mundo do futebol nas crônicas
de Nelson Rodrigues, p. 33-36;
tempo, da jornalística e da literária –, e que possibilitou a racionalidade e objetividade, das partes de opinião, como os SÁ. A crônica, p. 9-10.
consequente consolidação do gênero, fez com que, a par das editoriais; e o mesmo vale para as seções dedicadas ao espor-
semelhanças, a crônica viesse a se distanciar tão radicalmen- te e, por conseguinte, ao futebol.7
te daqueles textos de seu principal meio de divulgação que 7. Acerca dessa discussão entre
a crônica e os demais textos
podemos, até mesmo, tratá-la como uma insuspeita “ovelha Além disso, acrescentaríamos que, também diferentemen- encontrados nos periódicos
negra”, a exemplo do que propôs Silva.4 te dos demais textos da imprensa cujo narrador – lançando jornalísticos, cf. SILVA, O mundo
4. SILVA. O mundo do futebol nas
crônicas de Nelson Rodrigues, p. 35. mão das categorias de Genette – tenderia para o heterodie- do futebol nas crônicas de Nelson
E, de fato, isso nos remete à própria história do gênero no gético, o mais das vezes, temos na crônica um narrador em
Rodrigues, p. 28-30.

Brasil, que tem origem, sob influência francesa, no chama- primeira pessoa comportando-se como homodiegético; ou
do “folhetim”, onde se discorria, em nota de rodapé, sobre mais, como a crônica tem esse caráter testemunhal, próximo
os mais variados assuntos do dia, mas que, aos poucos, foi da reportagem, pode-se dizer que esse narrador muitas vezes
“ganhando certa gratuidade”, conforme ressaltou Cândido, se aproxima daquele das próprias narrativas de testemunho

EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 FREITAS. Garrincha: o (anti-)herói pelo olhar dos cronistas p. 86-105

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e, inclusive, podendo ser partícipe do próprio fato relatado, serem leves e accessíveis”, “talvez elas [as crônicas] comuni-
como em um discurso autobiográfico, aproximando-se, en- quem, mais do que um estudo intencional, a visão humana
tão, de um narrador autodiegético.8 do homem na sua vida de todo o dia”.11
8. GENNETE. Fiction et diction; cf. 11. CÂNDIDO. A vida ao rés do chão,
GALLE. Elementos para uma p. 19.
nova abordagem da escritura
E, desse modo, os fatos são apresentados como que viven- E não há dúvida de que é justamente essa “visão humana”
autobiográfica, p. 85. ciados e/ou testemunhados pelo próprio cronista, que, além de “todo o dia” que veio a desencadear a própria relação sui
de tudo, se vale de um coloquialismo nada solene, reforçando generis da crônica com o tempo. Como destacaria o crítico,
ainda mais a sua proximidade com o leitor.9 Diga-se de passa- pelo fato de a crônica ser escrita para uma publicação efê-
9. Cf. SÁ. A crônica, p. 9: “Quem
narra uma crônica é o seu gem, esse tom amigável entre leitor e cronista propiciou, nas mera, transitória, o seu intuito, pelo menos a princípio, não
autor mesmo, e tudo o que crônicas de futebol, a criação de algumas expressões que, ao seria propriamente o de durar para a posteridade, mas tam-
ele diz parece ter acontecido
de fato, como se nós, leitores, caírem no gosto do público, tornaram-se verdadeiras marcas bém por isso mesmo é que ela “consegue, quase sem querer,
estivéssemos diante de uma registradas do autor. O jornalista Sérgio Porto, por exem- transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida
reportagem”.
plo, nos seus relatos durante os jogos da Copa de 62, che- de cada um, e quando passa do jornal ao livro, nós verifica-
ga a abrir mão da palavra “bola”, para tratá-la simplesmente mos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior
por “Leonor”. E várias também foram aquelas cunhadas por do que ela própria pensava”.12
12. CÂNDIDO. A vida ao rés do chão,
Nelson Rodrigues, certamente, o que mais se celebrizou nes- p. 14.
Em outras palavras, se aqueles outros textos publicados
se quesito: “o complexo de vira-latas”, “a pátria em chuteiras”,
na imprensa estão, por assim dizer, encerrados em um de-
“os idiotas da objetividade”, “o sobrenatural de Almeida”.
terminado acontecimento, indissociados de sua época e de
E, de fato, esse tom aparentemente casual conferido ao seu meio, por outro, conforme salientou Silva, a crônica é
testemunho do narrador da crônica teve também uma gran- “uma tentativa de fixar em palavras aquilo que se perde com
de relevância para o gênero, e Cândido chamou a atenção o tempo, o circunstancial, a simples contingência”.13 Com
13. SILVA. O mundo do futebol nas
crônicas de Nelson Rodrigues, para isso: “Por meio dos assuntos, da composição aparen- efeito, como observou Arrigucci, “a uma só vez, ela parece
p.31. temente solta, do ar de coisa sem necessidade […], ela [a penetrar agudamente na substância íntima de seu tempo e
crônica] se ajusta à sensibilidade do dia a dia. Principalmente esquivar-se da corrosão dos anos”.14
14. ARRIGUCCI JR. Fragmentos
sobre a crônica, p. 53. porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nos-
E isso ocorre porque, na crônica, a relação entre o factual
so modo mais natural”;10 e, adiante, complementando: “por 10. CÂNDIDO. A vida ao rés do chão,
e a história é de outra natureza. De maneira que, embora à p. 13-14.

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primeira vista estivesse “destinada à pura contingência”, ain- um lado, os demais textos do jornal deram inegavelmente um
da palavras de Arrigucci, não raro ela adquire “a espessura de enorme contributo para sua transformação em ídolo nacio-
um texto literário” vindo, então, a se tornar “pela elaboração nal, por outro, a crônica parece ser um lugar em que pode-
da linguagem, pela complexidade interna, pela penetração mos contemplar melhor os horizontes dessa representação.
psicológica e social, pela força poética ou pelo humor, um
Ademais, se a crônica “sob vários aspectos é um gênero
conhecimento de meandros sutis de nossa realidade e de
brasileiro” – não que aqui tenha nascido, mas, pela “natura- 18. CÂNDIDO. A vida ao rés do chão,
nossa história”.15
15. ARRIGUCCI JR. Fragmentos lidade com que se aclimatou aqui e a originalidade com que p. 15. Similar citação foi feita
sobre a crônica, p. 53. Acerca também por ARRIGUCCI JR.
da questão, cf. ainda SILVA, O
E assim, do mesmo modo no que concerne às crônicas de aqui se desenvolveu”, como ressaltou Cândido 18–, e, especi- Fragmentos sobre a crônica, p. 51.
mundo do futebol nas crônicas futebol, e aí vale remetermo-nos mais uma vez a Silva, justa- ficamente, a crônica de futebol, como destacou Silva, é um
de Nelson Rodrigues, p.36 mente, por sua liberdade “literária”, a crônica afasta-se da ob- “gênero tipicamente nosso”,19 nada melhor do que a própria
19. SILVA. O mundo do futebol nas
jetividade e da factualidade do jornalismo e, ao assumir subje- para pensarmos na construção de um herói tão à ‘nossa’ ma- crônicas de Nelson Rodrigues,
tivamente os temas, transforma-se “no lugar em que é possível neira como Garrincha. p.33.

uma interpretação mais produtiva do jogo de futebol”, retiran-


E indo mais além, como lembrou Silva, o próprio surgi-
do-o “da moldura objetiva da notícia, que só vê seus aspectos
mento da crônica de futebol coincide com a implantação do
estritamente esportivos, para dar-lhe um ‘enquadramento de
esporte no país, e à medida que ele se populariza, ela ganha
significação’”; conforme conclui o teórico, “através dela o fute-
mais destaque e espaço no jornal; até que, no período das
bol deixa de ser apenas um esporte e adquire uma dimensão de
décadas de 50 a 70, encontramos a maior parte da produção
representação, uma ‘ressonância alegórica’, tornando-se uma
por parte dos mais celebrados de nossos cronistas de fute-
‘metáfora de situações universais’”.16 Não por acaso Armando
16. SILVA. O mundo do futebol nas bol.20 Ora, é também neste ínterim que se passa justamente
crônicas de Nelson Rodrigues, Nogueira compara as crônicas de futebol de Nelson Rodrigues 20. SILVA. O mundo do futebol nas
a carreira de Garrincha, cujo auge, grosso modo, deu-se no crônicas de Nelson Rodrigues, p.
p. 38. a “um teatro que envolve todas as paixões humanas”, “um pre-
período envolvendo as duas Copas, de 58 e 62. 33-34.
texto para mergulhar em suas obsessões: o heroísmo e o medo,
a multidão e o indivíduo, a vida e a morte”.17 Logo, não poderia ser diferente; a crônica por inúmeras
17. Armando Nogueira, (orelha),
vezes apontou também seus holofotes na direção do jogador, in: RODRIGUES. À sombra das
Com efeito, retornando à questão envolvendo mais pre-
e com nomes de grande prestígio como Mário Filho, João chuteiras imortais.
cisamente a figura de Garrincha, depreendemos que, se, por

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Saldanha, Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos, ria individualmente o maior orgulho, pela extinção de antigos
Armando Nogueira, Nelson Rodrigues. Conforme podemos complexos nacionais?21
21. ANDRADE. Quando é dia de
ainda notar, a par de todas as características aqui levantadas futebol, p. 217.
As palavras de “Mané o sonho” são oportunas para que fa-
e que reúnem os autores em torno de um mesmo gênero, te-
çamos um breve parêntese, antes de adentrarmos a discussão
mos também diferenças estilísticas e/ou de perspectiva, mas
mais específica sobre a personagem de Garrincha na crôni-
que, longe de constituírem um empecilho a nossa análise,
ca brasileira, para um fenômeno muito comum quando se
vêm, ao contrário, matizar ainda mais este quadro em que
aborda o tema do futebol e que é também fundamental para
se pinta a imagem multifacetada desse ícone nacional e em
pensarmos um personagem como esse da memória coletiva
que se podem também contemplar alguns de seus contornos
brasileira. Em um primeiro momento, o autor alude, pois,
mais curiosos.
a este rótulo tão elementar quando se comenta o futebol, a
“alienação”, porém, no passo seguinte, é destacado algo que
GARRINCHA: O (ANTI-)HERÓI PELO OLHAR DOS
vai além do simples rótulo, e o que se depreende da citação,
CRONISTAS
ao final, é uma espécie de “tensão” entre dois polos: de um
Na ocasião da morte do ídolo brasileiro, Carlos Drummond lado, a fuga diante dos problemas; de outro, a representação
de Andrade teria escrito: de toda uma coletividade, inclusive, com suas “limitações e
A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do deficiências”.
país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com Ao certo, também nas crônicas de futebol, em muitos mo-
uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol mentos, verificamos uma exaltação dessa “paixão nacional”
se tornasse a alegria do povo. Pobres e ricos param de pensar que poderia levar a supor um esquecimento dos problemas
para se encantar com ele […]. Mané Garrincha foi um desses sociais mais prementes, e, nesse sentido, a própria linguagem,
ídolos providenciais com que o acaso veio ao encontro das com o ar descompromissado de gênero “menor”, a que nos re-
massas populares e até dos figurões. Não seria mesmo uma ferimos antes, pode também sugeri-lo fortemente. Contudo,
indicação de que o país, despreparado para o destino glorioso conforme também ressaltamos, e sem que tenhamos a pre-
que ambicionamos, também conseguiria vencer suas limita- tensão de dissociar uma coisa da outra, é inegável a presença
ções e deficiências e chegar ao ponto de grandeza que nos da-

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de um substrato cultural em que esses textos se fundam, e é, Com esse nome cordial e alegre de anedota, ele tomou conta
sobretudo, nele que devemos pautar a nossa análise. da cidade, do Brasil e, mais do que isso, da Europa. […] Eu
imagino o espanto imenso dos russos diante desse garoto de
Dito isso, então, e uma vez redirecionando o foco mais
pernas tortas, que vinha subverter todas as concepções do fu-
precisamente para a imagem de Garrincha nas crônicas de
tebol europeu. Como marcar o imarcável? Como apalpar o
futebol, tomemos logo uma assertiva de Nelson Rodrigues:
impalpável? Na sua indignação impotente, o adversário olhava
“Hoje, sabemos que o problema de cada um de nós é ser ou
Garrincha, as pernas tortas de Garrincha e concluía: — “Isso
não ser Garrincha. Deslumbrante país seria este, maior que não existe! […] Num simples lance isolado, está todo o Gar-
a Rússia, maior que os Estados Unidos, se fôssemos 75 mi- rincha, está todo o brasileiro, está todo o Brasil. 23
lhões de Garrincha”.22 Ora, a afirmação ilustra bem como,
22. RODRIGUES. A pátria em
especialmente nas mãos do cronista, essa personagem veio De fato, sobre a deficiência de Garrincha, há várias his- 23. RODRIGUES. À sombra das
chuteiras, p. 78.
chuteiras imortais, p. 64.
a se tornar um autêntico representante dos anseios da nação tórias como aquela de sua chegada ao Botafogo comentada,
– e que, de algum modo, ecoa na passagem supracitada de dentre outros, por Armando Nogueira24 e, de forma mais 24. NOGUEIRA; ARAÚJO NETO.
Drama e glória dos bicampeões,
Drummond. Mas, além disso, a par de seu tom marcadamen- detalhada, por Paulo Mendes Campos: “Uma tarde apareceu p. 76.
te ufanista, devemos inferir alguns elementos que porven- para treinar um menino de pernas tortas. Já no vestiário o
tura vêm a fundamentá-la e que estão, aliás, enraizados em técnico Gentil Cardoso, rindo-se, chamara a atenção de to-
nossa própria cultura. dos para o candidato: aquele sujeito poderia ser tudo na vida,
menos jogador de futebol”; e, mais a frente: “Há coisas que
Logo, salta aos olhos, ao nos depararmos com as crôni-
só acontecem com Botafogo, resmungaram nas sociais; um
cas de Nelson Rodrigues, que, a par de todo esse ufanismo
jogador de pernas tortas, essa não.” 25 Ainda a esse respeito,
aflorado com que costumeiramente exalta as vitórias do 25. CAMPOS. O gol é necessário, p.
Wisnik recorda como essa deficiência foi vista, paradoxal- 24.
nosso escrete, o autor se utiliza do futebol, dentre outras
mente, como uma vantagem naquela inusitada comparação
coisas, para nos alertar, a seu modo, sobre a necessidade de
proposta por Alex Bellos, entre Garrincha, saci e curupira.
superar nossas imperfeições, e é notório que, para tanto,
Assim como esses “dois monstrinhos”:
ele se valha também da imagem de um “garoto de pernas
tortas”, capaz de ignorar, até mesmo, a sua deficiência mais Garrincha “tinha um perfil incomum abaixo da cintura”,
evidente: como eles “era astuto ágil [...] impossível de pegar” e, “por

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causa de seu alinhamento, [...] capaz de se mover em di- Em outras palavras, trata-se de rever o que tradicional-
reções imprevisíveis […]. Em resumo […] esse “antiatleta”, mente o brasileiro reconhece como algo que o inferiori-
esse “desafio à medicina esportiva” era “um fio de prumo, um za – não seria os seus “antigos complexos” de que nos fala
homem que só caía quando derrubado. E, que pelo contrá- Drummond?30 –, e, mais ainda, que saiba utilizar isso mes-
30. Cf. supra.
rio, desequilibrava os outros”. 26 mo, que, à primeira vista, parece uma desvantagem, a seu
26. WISNIK. Veneno remédio. O
futebol e o Brasil, p. 276. favor. E, nesse ponto, oportunamente, nos valhamos mais
E é fato que, para além de um caráter mítico ou verossímil,
uma vez das palavras de Wisnik:
essas inúmeras afirmações refletem o quanto a deficiência
do jogador ficou marcada na memória coletiva, sobretudo,
Sua curta carreira, que esplende entre 58 e 62, sua decadên-
como algo que muito provavelmente tolheria a qualquer ou-
cia trágica, suas famosas pernas tortas, fazendo do déficit uma
tro a possibilidade de se tornar um jogador profissional. Mas
vantagem, contêm esse momento de afirmação gloriosa e ful-
Nelson Rodrigues vai além, ao projetar essa imagem na pró-
gurante da face positiva desse complexo, dando um toque pro-
pria realidade de um país que almeja uma maior visibilidade
fundo e popular às formulações cosmopolitas da bossa nova e
no cenário mundial – nesse caso, a referência a um “garoto”
da arquitetura de Brasília.31
não parece casual – e que precisa, antes de tudo, resolver o 31. WISNIK. Veneno remédio. O
futebol e o Brasil, p. 273.
seu “complexo de vira-latas”, essa “inferioridade em que o E é, pois, nesse contexto, que “seu Mané” passa a assumir, so-
brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do bretudo, nas crônicas de Nelson Rodrigues, um papel de grande
mundo. Isto em todos os setores, sobretudo, no futebol”.27 relevância para um povo que começa a “desconfiar que é bom,
27. RODRIGUES. À sombra das
chuteiras imortais, p. 62.
Pois, como destacou Wisnik a propósito do cronista: “Na que é gostoso ser brasileiro” – conforme se lê em seu texto com
sua análise, o brasileiro é – ou tornou-se – um ‘narciso às o sugestivo título “Descoberta de Garrincha” 32– afinal de con-
32. RODRIGUES. À sombra das
avessas que cospe na própria imagem’ por uma orgulhosa e tas, o elemento primordial da vitória não é outro senão o “tra- chuteiras imortais, p. 65.

pusilânime precaução contra o medo de sofrer.”28 E, é assim ço decisivo do caráter brasileiro”, isto é, “a molecagem”,33 “um
33. RODRIGUES. À sombra das
28. WISNIK. Veneno remédio. O
que contra isso reagiria o cronista: “A santa a pura verdade é elemento inédito, revolucionário e criador.” 34 E a tal ponto que chuteiras imortais, p. 80.
futebol e o Brasil, p. 268. 34. RODRIGUES. À sombra das
a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra Nelson Rodrigues chega a dizer, em “O escrete de loucos”: chuteiras imortais, p. 81.
29. RODRIGUES. À sombra das
chuteiras imortais, p. 65. Cf. de suas ambições e se põe em estado de graça, é algo único Ele [o europeu] viria a apurar que o forte do Brasil não é
WISNIK. Veneno remédio. O
futebol e o Brasil, p. 268.
em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção”.29 tanto o futebol, mas o homem. Jogado por outro homem o

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mesmíssimo futebol seria o desastre […]. Jamais, em toda a sempre antes, sempre na frente, porque jamais o raciocínio do
experiência do Chile, o tcheco, ou inglês, entendeu os nossos adversário terá a velocidade genial de seu instinto.37
37. RODRIGUES. À sombra das
patrícios. Para nos vencer, o alemão ou suíço teria de passar chuteiras imortais, p. 74.
O que se nota, pois, é que esses traços de “molecagem”,
várias encarnações aqui. Teria que nascer em Vila Isabel,
ligados à “brasilidade” e a uma “espontaneidade” ímpar, con-
ou Vaz Lobo. Precisaria ser camelô no Largo da Carioca.
vergem para uma imagem, por diversas vezes, menos ligada
Precisaria de toda uma vivência de boteco, de gafieira, ca-
à de um grande vencedor, propriamente dito, do que à de
chaça, de malandragem geral.35
35. RODRIGUES. A pátria em um “peladeiro”, que encara os jogos profissionais da mesma
chuteiras, p. 80.
Também, sob essa ótica, é que devemos compreender a forma que aquelas ‘peladas’ em sua cidade natal, a pacata Pau
sua asserção: “citei a brincadeira de Garrincha num final dra- Grande, nas ensolaradas tardes de domingo. Mário Filho
mático de jogo. Era a molecagem. Aqueles quatro ou cinco comenta que “Garrincha não se preocupa com os jogos que
tchecos parados diante de Mané, magnetizados, representa- vai disputar, por mais importantes que sejam. E uma pro-
vam a Europa”; 36 e, sem dúvida, é por esse viés que come- va disso está em que chama todos os adversários de João”;
36. RODRIGUES. A pátria em
chuteiras, p. 81. çamos a entender melhor “o nosso problema” de “ser ou não 38
e se “um russo, mesmo que seja o próprio Kruschev, se
38. MÁRIO FILHO. O sapo de
ser Garrincha”, referido acima, nessa exposição. E também entrar em campo e jogar contra ele, é um João como outro arubinha, p. 210.
é digno de nota o fato de que a “molecagem” de Garrincha é qualquer. Ele não distingue um russo dum inglês, um inglês
ainda imbuída de uma “espontaneidade” única, a qual Nelson dum panamenho, tudo é João”.39 E Mário Filho acrescenta
39. MÁRIO FILHO. O sapo de
Rodrigues comentaria, em “Garrincha não pensa”: ainda, a propósito de sua ausência na Copa de 54: “jogaria arubinha, p. 235.
contra os húngaros de 54 como se estivesse jogando contra o
Comparem o homem normal, tão lerdo, quase bovino nos seus Madureira. Se um húngaro caísse sentado no chão depois de
reflexos, com a instantaneidade triunfal de Garrincha. Todos um drible dele […] perguntaria […] quem era aquele João”. 40
40. MÁRIO FILHO. O sapo de
nós dependemos do raciocínio. Não atravessamos a rua, ou arubinha, p. 211-212.
Tudo isso culmina no fato de que as questões mais prag-
chupamos Chica-bon, sem todo um lento e intricado proces-
máticas do futebol, como a tática, ou, até mesmo, o gol ou a
so mental. Ao passo que Garrincha nunca precisou pensar.
Garrincha não pensa. Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo
própria vitória, chegam a ficar em segundo plano diante dos
jato puro e irresistível do instinto. E, por isso mesmo, chega dribles de Mané, conforme se pode ver naqueles minutos

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derradeiros da partida final do Mundial de 62, tais quais des- associaria esse “futebol puramente instintivo”43, como des-
43. NOGUEIRA; ARAÚJO NETO.
critos por Nelson Rodrigues: tacou Armando Nogueira, com o próprio amadorismo que Drama e glória dos bicampeões,
o jogador carrega para a vida profissional: p. 79.

A partida está no fim. O juiz russo espia a relógio. E o Brasil não


precisa vencer um vencido. A Tcheco-Eslováquia está derrotada O futebol de Garrincha tem uma base social intimamente liga-
[…]. Mas Garrincha levou até a última gota o seu olé solitário da ao mundo do amadorismo. Como instinto, Garrincha leva
e formidável. Para o adversário, pior e mais humilhante do que para sua experiência profissional (à qual chegou, aliás, relati-
a derrota, é a batalha desigual de um homem só contra onze. vamente tarde e sem nenhuma pressa, um ano depois de ter
A derrota deixa de ser sóbria, severa, dura como um claustro. sido descoberto por um “olheiro” em Pau Grande) as caracte-
Garrincha ateava gargalhadas por todo o estádio.41 rísticas próprias do futebol amador, que ele amadureceu sem
41. RODRIGUES. A pátria em
chuteiras, p. 79. nenhum esforço específico no sentido de “superá-las”.44
Ainda quanto a essa questão, lembremos como, sub- 44. WISNIK. Veneno remédio: O
futebol e o Brasil, p. 271.
vertendo a estratégia do próprio técnico Aimoré Moreira, Aliás, a própria imprensa, em muitas oportunidades, con-
Garrincha triunfou contra os ingleses, pela Copa de 62, na tribuiu com essa imagem. Lembremos aquela entrevista em
“pura picardia”, conforme relata Armando Nogueira: que, após indagado por Sérgio Porto acerca de seus adversá-
rios ingleses, Garrincha simplesmente responde: “Igualzinho
Na hora do fogo, Garrincha subverteu fundamentalmente a ao São Cristóvão”, com base, obviamente, na semelhança en-
estratégia: só ia à lateral para driblar e divertir-se com os in- tre os uniformes dos times.45 Flávio Porto nos lembra tam-
45. PRETA. Bola na rede: a batalha
gleses colocados diante dele em fila indiana ou em leque, bem bém da resposta dada por “Seu Mané, sempre alheio a tudo” do bi, p. 75.
juntinhos, quase de mãos dadas. Parecia brincadeira de roda, quando perguntado sobre qual seria o grande adversário do
ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar. De repente, Gar- Brasil na Taça do Mundo de 62: “ ‘Eu acho que é a Áustria,
rincha furava o cerco, a bola agarrada nos pés e metia-se pelo né?’. O jornalista que fez a pergunta sorriu, e explicou que a
meio. Assim ganhou a partida, indo à ponta para brincar e Áustria não jogava. Garrincha arregalou os olhos e lascou:
voltando ao meio para fazer gols.42 ‘Chi...é? Por quê?’” 46
42. NOGUEIRA; ARAÚJO NETO. 46. PRETA. Bola na rede: a batalha
Drama e glória dos bicampeões, do bi, p. 81.
p. 74. Ainda a respeito dessa questão, Wisnik nos repor- E, em consonância, Garrincha é amiúde retratado como
ta a um artigo de José Leite Lopes e Sylvain Maresca que alguém que, a par de toda a aura de herói nacional, é, em

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sentido oposto, desprovido de qualquer soberba. Segundo sequência, nos oferece a famosa “tirada” sobre o “luto” da
Paulo Mendes Campos: “Somente Mané e uns poucos un- Copa de 50:
gidos nasceram e cresceram com essa pureza, com essa es-
pontaneidade inalterável […] – e isso é ainda mais raro de Ué, vocês querem saber duma coisa? No último jogo daquela
se achar – ao receber alegremente a glória e o carinho do Copa que teve aqui no Rio, eu não dei bola. Não ouvi nem rá-
povo”.47 Aliás, seja nas crônicas, seja na imprensa, não cons- dio. Fui caçar passarinho. Rapaz, quando cheguei de tardinha
47. CAMPOS. O gol é necessário,
p. 32. tatamos sequer uma mínima preocupação por parte do ídolo lá em Pau Grande, levei um susto danado: tava todo mundo
com a obtenção e/ou manutenção de qualquer status. chorando. Pensei logo que fosse desastre de trem. Quando me
contaram que o Brasil tinha perdido é que fiquei calmo e falei
Mário Filho se indaga: “Ou estamos muito enganados ou
pro pessoal que era bobagem chorar por causa de futebol.51
Garrincha não tem vaidade. Se a tivesse não se esconderia em 51. CAMPOS. O gol é necessário,
p. 26.
Pau Grande, andaria em Copacabana, se exibindo […]. Ele E, além de tudo, ressaltemos que essa imagem é respaldada
vai para Pau Grande. É lá que Garrincha se sente melhor, à na própria origem humilde do jogador, revelando-se, inclu-
vontade.”48 Paulo Mendes Campos ainda afirma que: “Nunca sive, em sua escolaridade precária, que também não escapou
48. MÁRIO FILHO. O sapo de
arubinha, p. 211. houve homem famoso menos mascarado, menos cônscio de à imprensa, tampouco aos cronistas. Flávio Porto comenta,
sua importância. Algumas pessoas, à custa de autodomínio, por exemplo, de quando Garrincha advertiu Amarildo pelo
conseguem isso. Mas a Garrincha não custava nada.”49 E o nervosismo do companheiro nestes termos: “Deixa de boba-
49. CAMPOS. O gol é necessário,
p. 32. mesmo autor retoma ainda momentos da infância do ídolo gi, Amarildo: esses intaliano não são de nada”, sendo que os
em que “na fábrica de tecidos, em Pau Grande, Garrincha “intalianos” eram ingleses.52 E também, muitas vezes, essa
52. CAMPOS. O gol é necessário,
não vivia sonhando com a glória. Sonhava com as horas de característica é tomada com um ar de descompromisso, ou, p. 76.
folga, quando podia caçar passarinho ou jogar pelada. Era mesmo, de anedota, como em sua indagação aos dos jor-
por natureza alegre e brincalhão.”50 nalistas, segundo nos conta Armando Nogueira: “É um tal
50. CAMPOS. O gol é necessário, p.
32.
E, diga-se de passagem, o próprio Garrincha teria se apre- Frau que vai me marcar?”, referindo-se ao jogador Flower
sentado também assim, em várias ocasiões. Paulo Mendes do selecionado inglês, “eu vou enrolar esse sacana”.53
53. NOGUEIRA; ARAÚJO NETO.
Campos recorda aquela célebre entrevista em que o joga- E é óbvio que esse é mais um forte traço de identificação Drama e glória dos bicampeões,
p. 74.
dor teria dito: “Eu nunca fui muito de futebol, não!” e, na do herói com a nação que representa, em cima do que Paulo

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Mendes Campos encontra uma justificativa para esse modo diria que “Garrincha nasceu para conviver com a bola, brin-
“errado” de falar, associando-o paradoxalmente com a “qua- cando com ela em qualquer canto do campo”.58
58. NOGUEIRA; ARAÚJO NETO.
lidade ardilosa” da inteligência do “homem do interior”: Drama e glória dos bicampeões,
Mas, como lembraria o mesmo Drummond, em outra p. 79.
oportunidade, trata-se de “uma inocência que não excluía
Dentro e fora do campo. A qualidade ardilosa de sua inte- 59. ANDRADE. Quando é dia de
espertezas”59, e Paulo Mendes Campos salienta: “Cândido futebol, p. 217.
ligência – tão comum, aliás, em nosso homem do interior
mas não ingênuo. Pelo contrário, Mané é, antes de tudo um
– pode ser imediatamente notada em um detalhe: Mané fala
astuto.” 60 Também Wisnik destacaria assim, essa virtude do
errado, à maneira do homem da roça, de propósito, por as- 60. CAMPOS. O gol é necessário,
herói, remetendo-se a Nelson Rodrigues: “As mazelas vulga- p. 32.
túcia, porque se tentasse falar corretamente cometeria erros
res não lhe são alheias, do tipo do oportunismo rasteiro, da
involuntários.54
54. CAMPOS. O gol é necessário, violência velada ou explícita […] A sua maldade é infantil,
p. 32.
E é também nesse sentido, que essa imagem de sujeito hu- inocente de consequências, não premeditada.”61 E o teórico,
61. WISNIK. Veneno remédio: O
milde, vitimado pelas mazelas mais comuns entre os brasi- ao certo, se refere mais especificamente àquela passagem de futebol e o Brasil, p. 284.
leiros – embora não, em absoluto, consciente disso –, veio, “Descoberta de Garrincha”:
por diversas vezes, a adquirir um ar de puerilidade. Nelson
Rodrigues proclamou quando de sua expulsão no jogo con- Cada vez que Garrincha passava por um, o público vinha abai-
tra o Chile que: “Não há no Brasil, não há no mundo, nin- xo. Mas não creiam que ele fizesse isso por mal. De modo al-
guém tão terno, ninguém tão passarinho quanto o Mané. gum. Garrincha estava ali com a mesma boa-fé inefável com
O sujeito que se aproxima dele tem vontade de oferecer-lhe que, em Pau Grande, vai chumbando as cambaxirras, os par-
alpiste na mão”.55 Carlos Drummond de Andrade também dais. Via nos russos a inocência dos passarinhos. Sim: os ad-
55. RODRIGUES. A pátria em
teria comentado a respeito de “um pobre e pequeno mortal versários eram outros tantos passarinhos, desterrados de Pau chuteiras, p. 78.
que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas”,56 de Grande.62
62. RODRIGUES. À sombra das 56. ANDRADE. Quando é dia de
chuteiras imortais, p. 63. um “moço simples […] à beira da estrada, vendo passari- futebol, p.219.
Logo, se há alguma qualidade à qual poderia estar associa-
nho voar. Passou o destino, bateu-lhe no ombro e disse: “Vai
da a “inocência” desse “garoto diabólico das pernas tortas” 63–
63. CAMPOS. O gol é necessário, brincar. Sua cabeça, como seu coração, era simples. Ele não
p. 86. lançando mão aqui da expressão de Paulo Mendes Campos
tinha que responder, senão brincar.”57 Armando Nogueira 57. ANDRADE. Quando é dia de
–, essa não poderia ser outra senão a própria “molecagem” futebol, p.219.

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mencionada por Nelson Rodrigues. E, da mesma forma que Vai perder. Por que ele não centrou logo? Claro que vai per-
a essa “molecagem” devemos acrescentar também aquele der. Gol de Garrincha.66
66. CAMPOS. O gol é necessário,
atributo do nosso craque pelo qual se tornaria ainda mais p. 43.
João Saldanha atribui a própria invenção do “olé” a um “olé
notabilizado: o seu drible.
pessoal. De Garrincha em Vairo”, em um jogo do Botafogo
Aliás, vale destacar o quanto essa sua característica seria no México,67 e Nelson Rodrigues, em “O escrete de loucos”,
67. SALDANHA. Os subterrâneos do
aclamada pelos mais variados cronistas. Stanislaw Ponte apresenta-nos uma cena onde os marcadores do “feio e tor- futebol, p. 137.
Preta o comprova em um lance do jogo contra a Espanha to”, por um instante, desistiram de tentar tomar-lhe a bola,
pela Copa de 62: “Lá vai Garrincha. Parou. O pessoal berra, em uma cena onde, novamente, o “imarcável”68 Mané, mais
68. RODRIGUES. À sombra das
pedindo que chute. Mas Garrincha amarra. Vai devagarzi- parece estar em uma de suas “peladas” de fim de semana do chuteiras imortais, p. 64.
nho... de repente vira foguete e vai driblando. É João para que propriamente em final de Copa do Mundo:
todo o lado.” 64 Já Paulo Mendes Campos retomaria os ensi-
64. PRETA. Bola na rede: a batalha E, então, os tchecos não perseguiram mais a bola. Na sua
do bi, p. 43. namentos de outro grande ídolo de nosso futebol: “‘Todos
desesperadora impotência, estão quietos. Tão imóveis que
os jogadores do mundo’, ensina o professor Nilton Santos,
pareceram empalhados. Garrincha também não se mexe. É
‘são marcáveis, menos seu Mané. Mané em dia de Mané só
de arrepiar a cena. De um lado, uns quatro ou cinco euro-
com revólver.’”65 E também não poderíamos perder a opor-
65. CAMPOS. O gol é necessário, peus, de pele rósea como nádega de anjo; de outro, feio e
p. 23. tunidade de reproduzir aquela cômica passagem contada
torto, o Mané. Por fim, o marcador brasileiro, como única
pelo cronista, a respeito da implicância de Ari Barroso com
reação, põe as mãos nos quadris como briosa lavadeira. O
o jogador:
juiz não precisava apitar. O jogo acabava ali. Garrincha ar-
Dum episódio característico me lembro muito bem. Ari rasa a Tchecoslováquia, não deixando pedra sobre pedra.69
69. RODRIGUES. Pátria em chuteiras,
transmitia na tevê um jogo do Botafogo e dizia pausado: p. 79.
Conforme se pode notar, mais do que qualquer outra coi-
“Garrincha com a bola. Vai driblar. É claro. Vai driblar de
sa, é o aspecto lúdico do drible de Garrincha que importa. E
novo. Vai perder a bola. Olha ali, um saçarico pra cá, outro
é assim que Nelson Rodrigues conta que quando o jogador
pra lá. Garrincha passa pelo adversário. Assim também não é
“apanhava a bola, a multidão ria, simplesmente isto: – ria
possível. Vocês estão vendo? Garrincha vai driblar de novo.
70. RODRIGUES. À sombra das e com uma saúde, uma felicidade sem igual”70, mas com a
chuteiras imortais, p. 74.

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ressalva de Mário Filho, de que não é Garrincha quem ri, “os intimidade do jogador com passarinhos e pacas, com bichos
outros, os que estão vendo, é que tem a função de rir”, afinal, do mato, cuja rapidez multidirecional ele teria incorporado
“longe de Garrincha querer desmoralizar alguém. Aquele é o em sua longa convivência de caçador, mimetizando a caça.”73
73. WISNIK. Veneno remédio: O
jogo dele, o drible dele, não há outro jeito […] Garrincha, no futebol e o Brasil, p. 283.
E é na linha desse raciocínio que devemos ainda salientar
fundo, é um simples. Quem debocha não é ele, é a torcida”.71
71. MÁRIO FILHO. O sapo de que o seu drible é absolutamente intuitivo, como o confir-
arubinha, p. 232. E, em consonância com essa ‘simplicidade’, Mário Filho
ma o próprio jogador, segundo nos conta Flávio Porto, na
nos lembra de um de seus gols antológicos, aquele contra
ocasião da reportagem da France Football, em que é apontado
a Fiorentina, em que, após um drible desconcertante que
como o melhor jogador da Copa: o jornalista francês após
desloca o beque adversário, o mesmo ainda chega a bater
perguntar-lhe, “se sua finta é instintiva ou se tem procurado
com o próprio nariz na trave, numa última, e vã, tentativa
aperfeiçoá-la com treino especial”, o craque simplesmente
de evitar o gol:
responde que “não acredita ter modificado seu modo de pas-
sar pelos adversários desde que começou a jogar.”74
Quem o visse apenas voltando de bola na mão […] não teria a 74. PRETA. Bola na rede: a batalha
do bi, p. 77.
menor ideia de que houvera um gol que só se vê uma vez na E, de fato, essa “finta instintiva” caiu no gosto dos cronis-
vida e outra na morte. Garrincha não era o vencedor arrogan- tas, a ponto de Paulo Mendes Campos evocar a “pura ins-
te […]. Era apenas, e naquele momento, mais do que nunca, o piração” para expressá-la; além do mais, é de se notar que
“seu” Manuel de Pau Grande, lá da Raiz da Serra, um lugarejo seus dribles dispensam treinos, táticas, sendo, absolutamen-
com umas casinhas espalhadas, uma igreja e uma pelada.72 te naturais:
72. MÁRIO FILHO. O sapo de
arubinha, p. 232.
E, ora, não é difícil notar que é justamente esse aspecto A alegria do futebol de Garrincha está nisso: dentro do campo
lúdico dos dribles de Garrincha que faz com que eles tam- […] Garrincha joga futebol por pura inspiração, por magia,
bém venham a pertencer àquele conjunto de elementos, sem sofrimento, sem reservas, sem planos […]. É como se
mencionados aqui, e tradicionalmente ligados à nossa for- fosse um boneco a que se desse corda: não reflete mais […].
mação cultural, na composição dessa imagem multifacetada Se um técnico desprovido de sensibilidade decide funcionar
do herói. A propósito, Wisnik chamaria atenção para como como cérebro de Mané, tentando ser a consciência que lhe falta,
Mário Filho relaciona os dribles de Garrincha com “a longa isto é, transmitindo-lhe instruções concretas, lógicas, coerciti-

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vas, pronto – é o fim. O grande mago perde a espontaneidade, jogada, do equilíbrio precário na perna de apoio, a direita,
o espaço, o instinto, a força […]. João Saldanha sabia que não que além de mais torta, é mais comprida que a outra mais ou
há instrução possível para Garrincha. Se a virtude do Mané menos dois centímetros”.78 Mas, de fato, a a sua teoria para
nada tem a ver com a lógica, não será através da lógica que lhe o drible de Garrincha como a “própria negação do drible”,
corrigiremos os possíveis defeitos. E defeitos e virtudes não descrita, ao certo, por Paulo Mendes Campos, é que mais
são partes que se possam isolar em Garrincha, que escreve cer- chama a atenção:
to por linhas tortas. Suas pernas são os símbolos desconexos 78. NOGUEIRA; ARAÚJO NETO.
dessa ilogicidade criadora.75 O jornalista Armando Nogueira tem uma teoria muito boa Drama e glória dos bicampeões,
75. CAMPOS. O gol é necessário, p. p. 79.
28-29. sobre o drible de seu Mané […]. “O drible”, diz Armandinho,
E, como se constata, uma vez tomado como a sua principal
“É, em essência, fingir que se vai fazer uma coisa e fazer outra.
característica, o drible assimila aqui aquelas qualidades todas
Fingir, por exemplo, que se vai sair pela esquerda, e sair pela
do herói, alheio, em absoluto, à dimensão de sua represen-
direita. Pois o Garrincha”, concluiu o comentarista, “é a nega-
tatividade, e, em especial, imbuído de uma espontaneidade
ção do drible. Ele pega a bola e pára; o marcador sabe que vai
sem paralelo. E, além disso, essa espontaneidade de seu dri-
sair pela direita; seu Mané mostra que ele vai sair pela direita;
ble, ao fugir de qualquer padrão tático, ao ignorar qualquer
quando finge que vai sair pela esquerda, ninguém acredita: ele
treinamento, relaciona-se com dada “ilogicidade”, a ponto
vai sair pela direita; o público todo sabe que ele vai sair para a
de Paulo Mendes Campos dizer a respeito de Garrincha que: 77. Segundo os estudiosos, diz
direita; seu Mané mostra mais uma vez que vai sair pela direi- Armando Nogueira: “Além
“pode não ser o maior, mas se singulariza por ter demonstra-
ta; a essa altura, a convicção do marcador é garantida: ele vai do defeito nos dois joelhos,
do que a mágica pode ganhar da lógica.” 76 sair pela direita; Garrincha parte e sai pela direita. Um mur- Garrincha tem também, um
76. CAMPOS. O gol é necessário, p.
sensível desvio na espinha dorsal
72. múrio de espanto percorre o estádio: o esperado aconteceu, o
E, aliás, é no âmbito dessa “ilogicidade” que surgiram tam- e um deslocamento na bacia
bém aquelas hipóteses que buscavam uma relação entre a antônimo do drible aconteceu”. Descobri há tempos uma graça […] numa espécie de truque da
natureza para ajudá-lo a equilibrar
deficiência física e sua tendência ao “terrível drible para a espantosa nessa finta de Garrincha: às vezes, o adversário re- o corpo tão mal servido de
direita”, conforme nos conta Armando Nogueira,77 quem, tarda o mais possível a entrada em cima dele, na improvável pernas […]. Valia-se ele de um
esperança duma oportunidade melhor. Garrincha avança pou- ligeiro deslocamento no centro
aliás, também chegara a afirmar que, ao ter de driblar pela de gravidade em comparação
esquerda, diante da impossibilidade de fazê-lo pela direita, co, o adversário recua. Que faz então? Tenta o suficiente para com o adversário” (NOGUEIRA;
o atleta também consegue êxito, “embora se ressinta, nessa encher de cobiça o pobre João. João parte para a bola de acordo ARAÚJO NETO. Drama e glória
dos bicampeões, p. 80).

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com o princípio de Nenê Prancha: como quem parte para um com que Drummond propusesse uma comparação de nosso
prato de comida. Seu Mané então sai pela direita.79 ídolo com aquele herói “sem nenhum caráter”, bem conhe-
79. CAMPOS. O gol necessário, p. 28.
cido de nossa literatura:
E, afinal, se, como ressaltaria Mário Filho, “o drible é
como uma emanação dele. Nasce nele espontâneo, irresistí-
Garrincha, em sua responsabilidade amável, poderia, quem
vel”80, ao certo, podemos dizer que os dribles de Garrincha
80. MÁRIO FILHO. O sapo de sabe?, fornecer-nos a chave de um segredo de que era pos-
arubinha, p. 232. estão entre as suas maiores “espertezas instintivas”, de que
suidor e que ele mesmo não decifrava, inocente que era da
nos fala Drummond, integrando-se, então, muito conve-
origem do poder mágico e de seus músculos e pés. Divertido,
nientemente àquela “molecagem”, de que viemos tratando,
espontâneo, inconsequente, com uma inocência que não ex-
e cujos constituintes, como vimos, fincam raízes profundas cluía espertezas instintivas de Macunaíma – nenhum modelo
em nosso passado; uma conjunção de elementos, que pode, seria mais adequado do que esse, para seduzir um povo que,
aliás, ser comprovada exemplarmente naqueles “maiores três olhando em redor, não encontrava os sérios heróis.82
minutos” da história, assim resumidos por Wisnik: 82. ANDRADE. Quando é dia de
futebol, 217-218.
Também Wisnik reconheceu as “virtudes ambivalentes de
O espanto e o riso, a gratuidade e a eficácia, a suspensão da
Macunaíma” em Garrincha:
oposição entre produtividade e improdutividade, trabalho
e brinquedo, finalidade e ócio, que se estampam aí, eram o Sonso, enganosamente retardado e precoce, imprevisi-
equacionamento ao mesmo tempo esperado e inusitado das velmente ligado e desligado do tempo do jogo, dono de um
questões formativas cifradas no futebol brasileiro.81 drible que podia ser tanto a solução quanto a perdição por
81. WISNIK. Veneno remédio, O
futebol e o Brasil, p. 272. excesso, Garrincha era uma espécie de incógnita do dilema
E, de fato, podemos notar que, juntamente com o drible,
brasileiro, colocado entre as mazelas do atraso e as promes-
os mais variados elementos vêm a compor uma imagem de
sas de sua originalidade no modo de inserir-se na realidade
muitas faces e, sem dúvida, difícil de apreender em todos os
dos tempos modernos.83
83. WISNIK. Veneno remédio, O seus aspectos; mas que também revelam uma estreita relação
futebol e o Brasil, p. 272.
entre si, ramificando-se nos estratos mais fundos de nossa E, nesse sentido, o próprio relato da vida de Garrincha
formação cultural, a ponto de refletirem o nosso próprio ca- pelo biógrafo Ruy Castro sugere uma forte identificação de
ráter ou, poderíamos dizer, até mesmo, a falta dele; o que fez

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Manoel Francisco dos Santos com o afamado anti-herói de assuntos relacionados à vida do biografado, enquanto a crô-
nossa literatura,84 como o mesmo Wisnik observou: nica, como vimos, trata o evento de uma forma mais pon-
84. CASTRO. Estrela solitária: um
brasileiro chamado Garrincha. tual. E se nota que, de fato, a narrativa de Ruy Castro aborda
É notável o fato de que os fragmentos biográficos colhidos
de forma mais acurada algumas questões para as quais as crô-
por Ruy Castro para Estrela Solitária, baseados em testemu-
nicas deram um tratamento mais vago ou menos detalhado,
nhos, “colam” perfeitamente na narrativa mítica do “herói
tais como a origem do jogador, seus ancestrais, a ausência do
de nossa gente”, a começar do seu nascimento excepcional e
pai em sua educação – o que, aliás, como Wisnik lembra, o
crescimento anormal, onde se juntam marcas ambíguas de
coloca na galeria daqueles “heróis sem pai, ou para os quais
precocidade e retardamento.85 […] Essa marca de nascença
85. WISNIK. Veneno remédio, O não comparece um pai que os constitua pelo limite”, como
futebol e o Brasil, p. 275 lembra também um traço cultural reconhecido e assinalado
Macunaíma 87 –, os problemas conjugais e extraconjugais, a
por Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala, quando fala 87. WISNIK. Veneno remédio, O
precocidade para o sexo. futebol e o Brasil, p. 285.
das tantas crianças com pernas entortadas pela posição em
que ficavam carregadas nas costas da mãe […]. Fato que con- Mas, certamente, embora as crônicas tenham dado um
ferem a esse mestiço das três raças aquela marca de limina- maior destaque aos eventos da vida de Garrincha enquanto
ridade a que se refere Antezana própria dos seres míticos e jogador, reportando-se, o mais das vezes, aos memoráveis
nunca domesticados […]. As peculiaridades do acesso inicial lances e jogos, isso não significa que todas aquelas questões,
à fala, combinadas com o transtorno das noções temporais, algumas tão difundidas pela própria imprensa, não serviram
a intimidade selvagem com os rios e os bichos, a mistura de pano de fundo também para os cronistas. Basta lembrar
de reverência respeitosa aos mais velhos com ingovernabi- aquelas menções à sua infância livre, despreocupada, inclu-
lidade incorrigível, a capacidade de desconcertar e seduzir, sive, com os estudos, e que reflete naquela sua imagem de
tudo isso pode ser reconhecido sem dificuldade, também, matuto, de que tratamos aqui.
nas primeiras páginas da saga do ‘herói sem nenhum cará-
Além disso, temos aqueles tantos causos contados por João
ter’. Além dessas características, pode-se identificar neles a
Saldanha, que nos descreve, em meio às tantas peripécias de
precoce disposição para o sexo.86
Mané, algumas de suas escapadas amorosas. “Nunca vi tanta
Sem dúvida, a biografia permite, segundo uma visão fertilidade”, o cronista teria confessado, nos revelando o ape-
86. WISNIK. Veneno remédio, O
retrospectiva, uma abordagem mais detalhada de certos tite irrefreável de Garrincha, sem hora, nem lugar, seja por futebol e o Brasil, p. 275-278.

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uma “camareira desprevenida”, “baixinha, sardenta, muito do futebol está em perfeita intimidade com o malandro retrata-
vermelhinha e bem feinha”88, na Suécia, seja, em um hotel do, e nela o major Vidigal de Almeida não é necessariamente
88. SALDANHA. Futebol e outras
histórias, p. 27. de Goiás, por uma “dona lá da rouparia”, “baixinha e muito menos astuto que seus objetos de vigilância. O técnico-jor-
gasta, que já tinha passado dos cinquenta, folgado.”89 nalista e escritor, inserido no “intertexto” da malandragem,
89. SALDANHA. Os subterrâneos do
futebol, p. 171. está recriando, certamente, o caldo de cultura que ele conhece
Em outros termos, os traços biográficos de Garrincha que
profundamente e do qual faz parte.91
o tornam essa figura macunaímica, e que foram bem retrata- 91. WISNIK. Veneno remédio, O
futebol e o Brasil, p. 279-280.
dos por Ruy Castro, resurgem amiúde e de variadas formas, E é assim que chegamos a essa mostra derradeira de nosso
ainda que de forma mais pontual, também nas crônicas. Mas herói ou, melhor dizendo, de nosso “anti-heroi”, multiface-
Wisnik vai ainda além, ampliando a comparação a outro tado Mané, que irá driblar qualquer um que venha a tolher
personagem, de um tempo mais recuado de nossa literatura, suas vontades fora de campo, com a mesma facilidade com
e que também tem raízes profundas na cultura brasileira: que dribla seus adversários dentro dele. Wisnik nos lembra
Leonardinho, de Memórias de um sargento de milícias, o ro- das palavras do “cronista-treinador” João Saldanha a res-
mance de Manuel Antônio de Almeida, de 1853, “em cuja peito de seu comandado: “o driblador dentro do campo e
estrutura interna Antônio Cândido identificou o princípio o driblador fora do campo são o mesmo”; ou ainda: “jamais
da ‘dialética da malandragem’ como marca da sociabilidade vi alguém tão desconcertante, tão driblador. É impossível
brasileira, escorregando sempre entre a ordem e a desor- adivinhar-se o lado por onde Mané vai sair da enrascada.”92
92. WISNIK. Veneno remédio, O
dem”.90 O que Wisnik propõe, afinal, é uma comparação en- E assim, afinal, vislumbrando uma última faceta desse Mané futebol e o Brasil, p. 281.
90. WISNIK. Veneno remédio, O
futebol e o Brasil, p. 279. tre Leonardinho e o “Mané” das crônicas de Saldanha, nas que, como resume Wisnik, adquire
quais este último se transforma no próprio major Vidigal:
o status de um trickster de antologia, um prodígio da astúcia
No papel de técnico da equipe, Saldanha faz de certo modo, universal, um macaco-jabuti Pedro Malasartes, saci-curupira
a figura, ironicamente consciente, de uma espécie de major e Leonardinho, todos juntos num só. Inspirado por seu apetite
Vidigal que, além de dirigir o time em campo, deve pastorear irrefreável de brincar, no campo de jogo e fora dele, no sentido
e reprimir as pulsões malandras desse conjunto de futebolistas carnavalesco e no sentido macunaímico.93
93. WISNIK. Veneno remédio, O
futebol e o Brasil, p. 279. […]. A escrita de João Saldanha nas crônicas de Os subterrâneos

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crônicas de Nelson Rodrigues. 122f. Dissertação (mestrado).
Belo Horizonte: FALE/UFMG, 1997.

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São


Paulo: Companhia das Letras, 2008.

FILMOGRAFIA

ANDRADE, Joaquim Pedro de. Garrincha, alegria do povo.


Brasil, preto & branco, 1962, 60 min.

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Dossiês
HINOS DE FUTEBOL EM PORTUGAL: DOS O presente artigo resulta de
pesquisa apresentada em forma de
pôster durante o XIV. Congresso
HINOS MARCIAIS AOS POPULARES Internacional Ciências do Desporto
e Educação Física dos Países de
Língua Portuguesa, realizado de
02 a 04 de abril de 2012, no Minas
Elcio Loureiro Cornelsen* * cornelsen@letras.ufmg.br
Doutor em Estudos Germânicos pela Freie Universität Centro, em Belo Horizonte, e,
Berlin/Alemanha, Professor Associado II e credenciado respectivamente, em 05 de abril de
junto ao Programa de Pós-Graduação em Estudos 2012 na UFOP, em Ouro Preto.
Literários da FALE/UFMG, credenciado do Programa
Interdisciplinar de Pós-Graduação em Estudos do
Lazer, da EEFFTO/UFMG. Bolsista de Produtividade
em Pesquisa – nível 2 do CNPq e do Programa
Pesquisador Mineiro da FAPEMIG. Co-fundador e
coordenador do FULIA – Núcleo de Estudos sobre
Futebol, Linguagem e Artes da FALE/UFMG.

RESUMO: Nossa contribuição visa à análise comparativa ABSTRACT: Our contribution aims at a comparative
das letras de hinos de clubes de futebol de Portugal à luz da analysis of the lyrics of anthems of football clubs in Por-
fase de transição dos hinos marciais das primeiras décadas tugal in light of the transition from martial anthems of
do século XX para os hinos populares a partir da década the first decades of the twentieth century to the popular
de 1950. Para isso, elegemos as letras dos hinos do Sport anthems from the 1950s. For this, we chose the lyrics of
Lisboa e Benfica e, respectivamente, do Futebol Clube do the anthems of Sport Lisboa e Benfica and, respective-
Porto, de Portugal, para comporem o corpus de análise. Em ly, of Futebol Clube do Porto of Portugal to compose
termos metodológicos, a partir de um olhar transdiscipli- the corpus analysis. In terms of methodology, from a
nar, pensamos a relação entre literatura, música e futebol transdisciplinary look, we think the relationship between
através da análise das letras de hinos, tomando por base literature, music and football by analyzing the lyrics of the
seus elementos líricos, épicos e dramáticos. anthems, based on its lyric, epic and dramatic elements.

PALAVRAS-CHAVE: futebol e poesia; futebol e música; KEYWORDS: football and poetry; football and music;
hinos de clubes; futebol e discurso. club anthems; football and speech.
107

1. INTRODUÇÃO formado por categorias correspondentes para cada um dos


Este breve estudo tem por meta a análise comparativa das respectivos elementos:
letras de hinos de clubes de futebol de Portugal, levando-se a. elementos líricos
em conta a fase de transição dos hinos marciais das primeiras
décadas do século XX para os hinos populares, ocorrida a Primeiramente, todo texto poético pode ser analisado em
partir da década de 1950. seus aspectos formais, desde a forma rígida do poema (não
tão comum em letras de hinos de clubes de futebol), a estro-
A partir de um olhar transdisciplinar, pensamos a relação fação, a metrificação, e o tipo de rima empregado.
entre literatura, música e futebol através da análise das letras
de hinos, tomando por base seus elementos líricos (forma; b. elementos épicos
estrofação; metrificação; rima), épicos (cena enunciativa; Trata-se do grupo de elementos que estruturam a narra-
espacialização; feitos heróicos e conquistas e/ou virtudes; tiva (o modo de se enunciar) e possibilitam a construção de
identidade simbólica) e dramáticos (afetividade; apelo à fi- uma imagem heroica do clube, seja a partir de aspectos sim-
delidade; emoção; louvor). bólicos (menção às cores, ao distintivo, às designações etc.),
Para isso, elegemos as letras dos hinos do Sport Lisboa e seja a partir de referências espaciais (caráter local, nacional,
Benfica (1929 e 1953) e, respectivamente, do Futebol Clube internacional), ou mesmo por menções a feitos heroicos e
do Porto (1922 e década de 1950), de Portugal para compo- conquistas ou virtudes que se atribui ao clube.
rem o corpus de análise. c. elementos dramáticos
Em termos teóricos, fundamentamos nossa análise a par- Por fim, o terceiro grupo é mais comumente encontrado
tir das reflexões propostas por Anatol Rosenfeld ao discutir em letras de hinos populares, pois diz respeito ao emprego
os gêneros literários de acordo com sua adjetivação, ou seja, de terminologia que marca a afetividade, o apelo à fidelidade,
como elementos épicos, líricos e dramáticos que podem es- a emoção e o louvor em relação ao clube.
tar presentes, simultaneamente, numa dada obra ou texto.1
1. ROSENFELD. O teatro épico, p. A seguir, detalharemos esses aspectos, baseando-nos na
3-26.
Por sua vez, baseados nos resultados de outro estudo relação entre literatura, música e futebol.
2. CORNELSEN. Hinos de futebol –
realizado em 2009,2 desenvolvemos um modelo de análise
aspectos épicos e dramáticos, s/p.

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2. LITERATURA, MÚSICA E FUTEBOL: OS HINOS coetâneos, após a realização dos imprescindíveis sacrifícios
DESPORTIVOS aos deuses, cantava, acompanhado pelo som da flauta e da
Desde o início, a composição de hinos para as agremiações lira, o epinício (a canção da vitória), escrito e musicado por
de futebol ampliaram, significativamente, o encontro entre um poeta famoso”.4 E não se tratava de uma mera canção de
4. KAKRIDIS; ANDRÓNIKUS.
música e futebol, integrando a literatura, mais especifica- ocasião. Em geral, ela era divulgada pelo mundo helênico, Atletismo na poesia e na arte, p.
mente a arte poética. Pois o hino é uma criação mista, pro- como ocorrera, por exemplo, com a ode dedicada pelo poeta 159.

duzida por um discurso lítero-musical e, como tal, marcada Píndaro a Píteas, jovem atleta de Egina que conquistara a
pela inclusão simultânea do elemento musical e do verbal. vitória no pancrácio – misto de luta e pugilismo –, nos jogos
de Neméia, em 485 a.E.C.5
Por definição, hino (do grego: ὕμνος hymnos, “estrutura 5. Idem, ibidem.
sonora”) é uma composição poético-musical de louvor ou Por sua vez, na Idade Média o hino tornou-se uma forma
exaltação. O hino é expressão de entusiasmo elevado, ori- de canção religiosa coesa e composta de várias estrofes. Tal
ginalmente, um poema ou cântico de veneração ou louvor forma é empregada até hoje no Canto Gregoriano e em can-
à divindade, portanto, de cunho religioso, escrito especifi- ções da liturgia cristã.
camente para louvor ou adoração tipicamente endereçado a Já na Idade Moderna, o hino deixou de ser uma forma de
deuses e heróis.3 composição musical exclusiva do âmbito religioso. Surge,
3. BILAC; PASSOS. Tratado de
versificação, p. 110.
Na Antiguidade, o hino era uma canção de enaltecimento, então, o hino nacional (de devoção à nação ou à pátria), o
cantada em cerimônias ao som de cítara ou de outros ins- hino partidário (de devoção a um partido político), o hino
trumentos musicais, e se destinava à veneração de deuses, de organizações em geral e o hino desportivo (de devoção
de heróis ou da própria natureza. Era encontrado em várias a um clube ou agremiação). De acordo com Olavo Bilac e
culturas, como a egípcia, a romana e a grega, nos hinos de Guimaraens Passos, num sentido contemporâneo, “[r]igo-
devoção a Dionysos. Na Bíblia também se encontram hinos, rosamente, dá-se hoje o nome de hymno a uma composição
como, por exemplo, no Livro dos Salmos. Uma modalidade poética, acompanhada ou não de música, em que se exalta
de hino presente na Antiguidade era o “epinício”, dedica- alguém, ou se celebra algum acontecimento, e com que se
do ao vencedor de disputas atléticas, como, por exemplo, excitam os ânimos por uma entoação forte e elevada”,6 e o
6. BILAC; PASSOS. Tratado de
os Jogos Olímpicos: “um coro, composto por seus amigos e hino seria uma forma da poesia lírica que, muitas vezes, se versificação, p. 111.

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confundiria com outras duas formas, mais precisamente os interpoladas, rima completa, rima incompleta, rima perfeita,
cânticos e os salmos.7 versos brancos etc.).
7. Idem, p. 110.
Todavia, é nas letras dos hinos dos clubes que a literatura Por sua vez, o estudo literário das letras de hinos de fute-
se aliará em essência ao futebol e à música, como ocorrera bol nos possibilita a avaliação de seus componentes épicos.
na aliança entre esporte e arte, na Antiguidade. Pois as letras Num estudo prévio que elaboramos em 2009, por ocasião
de hinos, muitas vezes, apresentam um grau de sofistica- de uma entrevista dentro do programa esportivo Meio de
ção em termos de elaboração, não obstante o fato do caráter Campo, da Rede Minas,9 constatamos que o aspecto épico dos
9. CORNELSEN. Hinos de futebol
popular que marca o futebol enquanto fenômeno cultural hinos de futebol se constitui, basicamente, a partir de qua- – aspectos épicos e dramáticos,
de massa. Para efeito de análise, adotamos o sentido “adje- tro componentes: (1) a cena narrativa; (2) a espacialização; s/p. Trata-se do estudo intitulado
“Hinos de futebol – aspectos
tivo” dos gêneros de acordo com traços estilísticos líricos, (3) feitos heróicos e conquistas e/ou virtudes; (4) identidade épicos e dramáticos”, elaborado
épicos e dramáticos.8 Em termos de forma em letras de hi- simbólica. A cena narrativa diz respeito ao modo como a a partir da análise das letras de
8. ROSENFELD. O teatro épico, p. hinos de 13 clubes brasileiros:
7-8. nos de futebol, embora raros, podemos encontrar sonetos e instância lírica se apresenta, ora como um “eu” que eviden- América, Botafogo, Flamengo,
rondós, e a estrofação pode apresentar também variações, cia um caráter individual, ora como um “nós” que apela ao Fluminense, Vasco da Gama,
como quartetos, tercetos e dísticos, e sempre um refrão. A coletivo da torcida no sentido de pertencimento, ou mesmo Corinthians, Palmeiras, Santos,
São Paulo, Atlético Mineiro,
versificação varia entre isométrica (todos os versos de uma como um “tu”, dirigido ao clube como objeto de devoção e Cruzeiro, Grêmio e Internacional.
estrofe seguem uma regularidade métrica), parcialmente louvor, o que gera um efeito de proximidade e intimidade. A partir da análise das letras,
pudemos delimitar as categorias
isométrica (alguns versos de uma estrofe seguem uma regu- Já a espacialização, marcada textualmente, e pensada aqui na que constituem o aspecto épico
laridade métrica), e heterométrica (os versos de uma mesma junção entre espaço e ação no devir, dimensiona o caráter (cena narrativa; espacialização;
feitos heróicos e conquistas e/ou
estrofe não seguem uma regularidade métrica). Os versos identitário de um determinado clube em relação ao espaço virtudes; identidade simbólica) e
podem se constituir metricamente de modo uniforme como e pode variar desde o âmbito local, passando pelo nacional o aspecto dramático (afetividade;
redondilhas menores, redondilhas maiores, eneassílabos, e, mais raramente, chegando ao internacional, uma vez que, apelo à fidelidade; emoção;
louvor), recorrentes na maioria
decassílabos etc., ou mesmo serem marcados por uma va- como apontado anteriormente, os hinos de clubes foram dos casos.
riação métrica irregular com versos polimétricos, fato que compostos, sobretudo, num período em que o futebol ainda
pode ocorrer também com a disposição e o grau de regula- não conhecia o grau de globalização dos nossos dias. Feitos
ridade de rimas (rimas cruzadas, rimas emparelhadas, rimas heróicos e conquistas e/ou virtudes também se constituem

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como traços característicos das letras dos hinos de clubes O verbo “torcer” significa “virar, dobrar, encaracolar, entortar”
de futebol, evidenciando o seu caráter épico, e são pauta- etc. O substantivo “torcedor” designa, portanto, a condição
dos, principalmente, pelo emprego de superlativos, como daquele que, fazendo figa por um time, torce quase todos os
“o maior”, “o melhor”, “o mais ...” etc. Por fim, a identidade membros, na apaixonada esperança de sua vitória. Com isso
simbólica se constrói nas letras de hinos de futebol através reproduz-se muito plasticamente a participação do especta-
de diversas marcações textuais, seja as cores de determinada dor que “co-atua” motoramente, de forma intensa, como se
agremiação, seja o seu distintivo, bandeira ou mascote, que pudesse contribuir, com sua conduta aflita, para o sucesso de
juntamente com o hino formam o conjunto principal dos sua equipe, o que ele, enquanto “torcida” – como massa de
símbolos de um clube. fanáticos que berram –, realmente faz.11
11. ROSENFELD. O futebol no Brasil,
p. 94.
Em termos transdisciplinares, no intuito de delimitar com De modo semelhante ao aspecto épico, o aspecto dramáti-
maior propriedade essas categorias que compõem o elemen- co dos hinos de futebol se constitui, basicamente, a partir de
to épico, devemos atentar para “o funcionamento simbólico quatro componentes: (1) a afetividade; (2) o apelo à fidelida-
e ritualístico do futebol”, “a natureza mítica do futebol”, a de; (3) a emoção; (4) o louvor. Todos esses componentes se
“dramatização mítica”, a “linguagem simbólica”, “o futebol expressam textualmente. A afetividade é marcada por termos
como liturgia do universo”, e, enfim, “o futebol como epo- como “coração”, “amado”, “querido”, “amor” etc. Já o apelo à
péia do humano”, aspectos esses destacados por António da fidelidade remete à ligação inconteste entre torcedor e clu-
Silva Costa em seu estudo intitulado “Do futebol a uma nova be, marcada textualmente por expressões como “sempre” ou
imagem do homem e da sociedade”,10 fundamentado por no- “até morrer”. Por sua vez, a emoção se pauta justamente por
10. COSTA. Do futebol a uma
nova imagem do homem e da ções oriundas da Sociologia e da Antropologia. palavras que evidenciam textualmente o seu caráter, como
sociedade, p. 13-26. é o caso dos termos “emoções”, “prazer”, “feliz”, “vibrar” etc.
Além do enfoque do caráter épico, eminentemente nar-
Finalmente, expressões de louvor emprestam ao hino um
rativo, o estudo literário das letras de hinos de futebol nos
caráter dramático de devoção, como se o clube assumisse o
permite também avaliar seus componentes dramáticos, que
lugar de objeto de veneração e culto, como, por exemplo,
visam à mobilização do torcedor, tornando-se atuante no
“salve”, “glória”, “exaltar” etc.
ato próprio do jogo, como bem ressalta Anatol Rosenfeld:

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Portanto, de modo visceral, a colaboração da literatu- Pode ter fé no seu futuro.


ra para o âmbito do futebol passa também pelo caráter ri- Pois conservou imaculado
tualístico que este adquire ao longo de sua história. Pois os Um ideal sincero e puro.
poemas musicados em forma de hinos de louvor e exaltação
são partes constituintes dos rituais, cujas raízes, como apon- REFRÃO
ta António da Silva Costa, estão atreladas “ao universo dos Avante, avante p’lo Benfica,
mitos e à religião”,12 e que podem ser encontrados desde a Que uma aura triunfante Glorifica!
12. COSTA. Do futebol a uma
nova imagem do homem e da Antiguidade. E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
sociedade, p. 14. Honrai agora os ases
A seguir, efetuaremos a analise das letras de hinos de clu-
Que nos honraram o passado!
bes de futebol de Portugal, aplicando, para isso, os conceitos
Olhemos fitos essa Águia altiva,
e ferramentas de análise expostos anteriormente.
Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
3. HINOS DE CLUBES DE FUTEBOL DE PORTUGAL
Erguendo ao alto o nosso emblema!
3.1. O SPORT LISBOA E BENFICA E SEUS HINOS Com sacrifício e devoção
Com decisão serena e calma,
Fundado em 1904, o Sport Lisboa e Benfica, um dos clu-
Dêmos-lhe o nosso coração!
bes mais tradicionais do futebol português, possui dois hi-
Dêmos-lhe a fé, a alma!13
nos. O primeiro hino oficial, com letra de Félix Bermudes e 13. Disponível em: http://
música de Alves Coelho, data de 1929: universobenfiquista.blogspot.
O compositor dessa letra, Félix Bermudês, foi presidente
com/2010/03/o-hino-do-benfica-
do Sport Lisboa e Benfica nos períodos de 1916 a 1917, 1930 censurado-pelo-regime.html.
Todos por um! Eis a divisa, a 1931 e, respectivamente, 1945. Ao analisá-la, constatamos Acesso em 20 de novembro de
Do velho Clube Campeão, 2011.
que, quanto aos elementos líricos, a letra se compõe de cinco
Que um nobre esforço imortaliza, estrofes, sendo quatro quadras e uma quintilha, justamente o
Em gloriosa tradição. refrão, com predomínio de versos octossílabos isométricos
Olhando altivo o seu passado, ou parcialmente isométricos. Além disso, predominam as

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rimas cruzadas nas quatro quadras. Embora a forma da letra diante do clube. Esse é um aspecto comum nos primeiros
não seja marcada (se não fosse pela quintilha, ela teria uma hinos de caráter marcial, pois a ênfase recai sobre a comba-
forma de rondó), constata-se certa rigidez na composição tividade e não à afetividade.
formal da letra, traço característico dos primeiros hinos de
Além disso, com relação aos demais elementos épicos, cons-
clubes de futebol, em geral, de caráter marcial.
tata-se a ausência de espacialização, sem referência ao âmbito
Por sua vez, ao analisarmos a letra, considerando seus em que o clube atua, mas as virtudes do clube são enaltecidas:
elementos épicos, constatamos que a construção da cena nobreza, imortalidade, tradição, altivez, triunfo, honradez, su-
narrativa varia da 3ª pessoa do singular – “Do velho Clube premacia. Não há marcação explícita de conquistas, e apenas
Campeão, / Que um nobre esforço imortaliza,”; “Pois con- o verso “Do velho Clube Campeão”. Em geral, os primeiros
servou imaculado / Um ideal sincero e puro.” – para a 1ª pes- hinos exploram justamente as virtudes, sempre atemporais,
soa do plural – “Olhemos fitos essa Águia altiva,”; “Dêmos- e não eventos específicos. Mas a identidade simbólica se faz
lhe o nosso coração! / Dêmos-lhe a fé, a alma!”; como índice presente na letra do hino composto por Félix Bermudês atra-
pronominal: “Que nos honraram o passado!”; “Erguendo ao vés dos versos “Olhemos fitos essa Águia altiva, / Essa Águia
alto o nosso emblema!”, e também na 2ª pessoal do plural – heráldica e suprema”, numa menção ao escudo do Benfica.
“E vós, ó rapazes, com fogo sagrado, / Honrai agora os ases”
Além disso, os elementos dramáticos, cuja função é apelar
– e, finalmente, na 3ª pessoa do plural – “Honrai agora os
para a mobilização do torcedor, são marcados textualmente
ases / Que nos honraram o passado!”. Enquanto a 1ª pessoa
quanto à afetividade – “Dêmos-lhe o nosso coração! / Dêmos-
do singular destaca o clube, 1ª pessoa do plural enfatiza o
lhe a fé, a alma!” – e à emoção “Com sacrifício e devoção /
pertencimento e o sentido de comunidade dos Benfiquistas.
Com decisão serena e calma”. Embora se trate da projeção de
Já a 2ª pessoa do plural possibilita a conclamação da torcida
um sujeito coletivo, há a construção de uma relação de afeto e
enquanto interlocutor, e a 3ª pessoa do plural releva o papel
devoção ao clube do coração. Porém, a letra não contém ele-
dos craques do passado.
mentos dramáticos de apelo à fidelidade ou mesmo de louvor.
Na construção da cena narrativa, constata-se a ausência
Todavia, o primeiro hino oficial do Sport Lisboa e Benfica
do emprego de 1ª pessoa do singular. Com isso, não há o
foi proibido em 1942, durante a ditadura de Salazar, segundo
investimento num eu-lírico, que transmita sua subjetividade

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consta, pela conotação comunista da palavra “avante” no pri- Em termos formais, quanto aos aspectos líricos, constata-
meiro verso do refrão do hino.14 Levou algum tempo, até que, -se que essa letra não possui forma marcada, sendo com-
14. Disponível em: http://
universobenfiquista.blogspot. em 1953, foi criado o segundo hino oficial com o tema “Ser posta por duas estrofes, uma oitava com versos parcialmen-
com/2010/03/o-hino-do-benfica- Benfiquista”, com letra e música de Paulino Gomes Junior: te isométricos e uma décima (refrão), também com versos
censurado-pelo-regime.html. parcialmente isométricos, que variam entre o tetrassílabo, o
Acesso em 20 de novembro de
2011; afirmação semelhante é Sou do Benfica hexassílabo e a redondilha maior. além disso, predominam
apresentada também em: http:// E isso me envaidece as rimas cruzadas (versos 1-4 da 1ª estrofe e 1-4 e 8-10 da 2ª
ontemvi-tenoestadiodaluz.
blogspot.com.br/2012/12/avante-
Tenho a genica estrofe) e de paralelas (versos 5-8 da 1ª estrofe). Portanto, se
avante-plo-benfica.html. Acesso Que a qualquer engrandece comparado com o primeiro hino oficial, o segundo hino ain-
em: 01 de maio de 2014, assim Sou de um clube lutador da apresenta alguns traços formais, porém em menor grau
como em: http://raivaescondida.
wordpress.com/2010/03/15/o- Que na luta com fervor do que o hino anterior.
1%C2%BA-hino-do-sport-lisboa- Nunca encontrou rival
e-benfica-banido-pelo-estado- Antes de prosseguirmos com a análise do segundo hino
Neste nosso Portugal.
novo/. Acesso em: 01 de maio de oficial do Benfica, devemos ressaltar que sua criação deveu-
2014.
-se à proibição do primeiro hino pelo regime ditatorial e,
(Refrão)
portanto, não tem a ver diretamente com um gesto de po-
pularização dos antigos hinos marciais, como geralmente se
Ser Benfiquista
É ter na alma a chama imensa
constata. Entretanto, constata-se que há uma mudança sig-
Que nos conquista nificativa em termos de menor apego a questões formais, o
E leva à palma a luz intensa que é comum também em letras de hinos de caráter popular.
Do sol que lá no céu Retomando a análise da letra do segundo hino oficial do
Risonho vem beijar Benfica, especificamente em seus elementos épicos, cons-
15. Disponível em: http:// Com orgulho muito seu
universobenfiquista.blogspot.
tatamos uma variação da 1ª pessoa do singular – “Sou do
com/2010/03/o-hino-do-benfica-
As camisolas berrantes Benfica / E isso me envaidece”; “Tenho a genica”; “Sou de
censurado-pelo-regime.html. Que nos campos a vibrar um clube lutador” –, passando para a 3ª pessoa do singular –
Acesso em 20 de novembro de São papoilas saltitantes.15 “Nunca encontrou rival” (o clube) –, e apresentando também
2011.

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versos na 3ª pessoa do plural – “As camisolas berrantes / faz com que a emoção também seja marcada nos versos “E
Que nos campos a vibrar / São papoilas saltitantes.” – e na isso me envaidece”; “Que na luta com fervor”; “É ter na alma
1ª pessoa do plural enquanto índice pronominal – “Neste a chama imensa”.
nosso Portugal”; “Que nos conquista”. Se a letra do primeiro
Há, portanto, mudanças significativas no segundo hino,
hino oficial apresentava a 1ª pessoa do plural como predo-
que tende mais para o caráter popular: a ênfase na 1ª pessoa
minante, a letra do segundo hino oficial enfatiza a 1ª pessoa
do singular, a marcação da espacialização, e um maior nú-
do singular, numa mudança significativa, pois o enfoque é o
mero de aspectos que marcam a identidade simbólica, além
torcedor enquanto indivíduo e sua relação com o clube.
de marcações textuais emotivas.
Quanto aos demais elementos épicos, a referida letra
apresenta índices de espacialização, seja do âmbito nacio- 3.2. O FUTEBOL CLUBE DO PORTO E SEUS HINOS
nal (Portugal), seja do âmbito local (campos), aspecto esse Fundado em 1893, o Futebol Clube do Porto, outro clube
ausente na letra do hino anterior. Além disso, não são mar- dos mais tradicionais no futebol português, também possui
cados feitos heroicos na letra do hino, e sim apenas as virtu- um hino e uma marcha. O hino oficial, com letra do escritor
des: luta, fervor, orgulho, vibração. Já a identidade simbólica e dramaturgo Heitor Campos Monteiro e música de António
ganha peso maior com referência a designações, ao unifor- Figueiredo e Melo, foi composto em 1922:
me e à alcunha atribuída ao clube: “Eu sou do Benfica”; “Ser
Benfiquista” (nome; designação); “As camisolas berrantes / Oh meu Porto onde a eterna mocidade
[...] São papoilas saltitantes” (uniforme; alcunha). Diz à gente o que é ser nobre e leal
Por sua vez, constata-se também uma mudança com re- Teu pendão leva o escudo da cidade
lação aos aspectos dramáticos em relação ao primeiro hino Que na história deu o nome a Portugal
oficial. A afetividade é marcada pelo verso “Risonho vem
beijar”, havendo também apelo à fidelidade do torcedor nos Oh campeão, o teu passado
versos “Sou do Benfica”; “Ser Benfiquista”. Embora o louvor, É um livro de honra de vitórias sem igual
enquanto marca textual, esteja ausente na letra, o fato de a O teu brasão abençoado
ênfase da cena narrativa recair sobre a 1ª pessoa do singular Tem no teu Porto mais um arco triunfal

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Porto, Porto, Porto, Porto índice pronominal – “Oh, meu Porto, onde a eterna mocida-
Porto, Porto, Porto, Porto de” –, passando para a 2ª pessoa do singular também enquan-
Porto, Porto to índice pronominal – “Teu pendão leva o escudo da cidade”;
“O teu brasão abençoado / Tem no teu Porto mais um arco
Quando alguém se atrever a sufocar triunfal”; “O grito audaz da tua ardente voz” –, e culminando
O grito audaz da tua ardente voz com a 3ª pessoa do singular – “Teu pendão leva o escudo da
Oh, Oh, Porto, então verás vibrar cidade” – e com a 1ª pessoa do plural enquanto índice pro-
A multidão num grito só de todos nós nominal – “A multidão num grito só de todos nós”. Se a 1ª
pessoa do singular instaura o torcedor como indivíduo, e a
Oh campeão, o teu passado 2ª pessoa do singular instaura um índice dialógico entre tor-
É um livro de honra de vitórias sem igual cedor e clube, a 3ª pessoa do singular possibilita a narração
O teu brasão abençoado sobre o clube, e a 1ª pessoa do plural enfatiza o caráter de
Tem no teu Porto mais um arco triunfal pertencimento à comunidade de torcedores do Porto.
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto Com relação aos demais elementos épicos, constata-se
Porto, Porto 16 que a letra contém índices de espacialização nos versos “Teu
16. Disponível em: http://www. pendão leva o escudo da cidade / Que na história deu o nome
primeiraliga.com/pl/archive/
Em termos formais, a letra do hino oficial do Futebol a Portugal”, estabelecendo uma relação entre o âmbito local
index.php?t-5638.html. Acesso
em 20 de novembro de 2011. Clube do Porto não apresenta forma marcada e contem três (cidade) e nacional (Portugal). Embora os feitos heroicos e
estrofes, sendo dois quartetos e uma septilha. Os quartetos as conquistas não sejam textualmente marcados, a letra apre-
possuem versos parcialmente isométricos, enquanto a septi- senta um leque de virtudes: juventude, nobreza, lealdade,
lha se compõe de versos isométricos. Em termos de metrifi- honradez, triunfo, audácia, vibração. E a identidade simbó-
cação, predomina o hendecassílabo, e as rimas são cruzadas. lica é amplamente explorada em termos textuais: desde o
Constata-se, portanto, certa rigidez em questões formais. escudo – “Teu pendão leva o escudo da cidade / Que na his-
Por sua vez, a cena narrativa constitui-se a partir de di- tória deu o nome a Portugal.” e “O teu brasão abençoado /
versas vozes, a começar pela 1ª pessoa do singular enquanto Tem no teu Porto mais um arco triunfal” –, até a designação

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– “Oh, meu Porto, onde a eterna mocidade”; “Porto, Porto, Todavia, essa não é a única canção dedicada ao clube. Há
Porto, Porto / Porto, Porto, Porto, Porto / Porto, Porto”; também a marcha do Futebol Clube do Porto, que também
“Oh, Oh, Porto, então verás vibrar”. desfruta do status de segundo hino:
Com relação aos aspectos dramáticos, constata-se a au-
Cantemos com voz sonora a toda a hora
sência de termos que marcam o apelo à fidelidade. Todavia,
Pois somos Portistas e sempre bairristas
os demais elementos dramáticos são evidentes no texto,
Pelo nosso Porto
como a afetividade – “Oh, meu Porto, onde a eterna moci-
Gritamos com todo o ardor o nosso amor
dade” –, a emoção – “Quando alguém se atrever a sufocar
Levamos o estandarte e em qualquer parte
/ O grito audaz da tua ardente voz / Oh, Oh, Porto, en-
Do nosso Porto
tão verás vibrar / A multidão num grito só de todos nós”
– e o louvor – “Oh, meu Porto, onde a eterna mocidade”;
Porto, Porto, Porto
“Oh, campeão, o teu passado”; “Porto, Porto, Porto, Porto /
És a nossa glória
Porto, Porto, Porto, Porto / Porto, Porto”; “Oh, Oh, Porto,
Dá-nos neste dia
então verás vibrar”.
Mais uma alegria
Portanto, o hino oficial do Futebol Clube do Porto con- Mais uma vitória
tém alguns aspectos que não são típicos dos hinos marciais, Porto, Porto, Porto
como, por exemplo, a enunciação da 1ª pessoa do singular És a nossa glória
enquanto índice pronominal, ou mesmo a afetividade e a Dá-nos neste dia
emoção em termos dramáticos. Além disso, a letra revelou Mais uma alegria
sua riqueza quanto a seus elementos épicos. Mais uma vitória

Ainda hoje, o hino oficial do Futebol Clube do Porto, É tão nobre a tua história a tua memória
como não poderia deixar de ser, é tocado em eventos espe- Gritemos sem cessar p’ra te ajudar
ciais do clube, ou mesmo quando a equipe entra em campo Ai ao nosso Porto
nas partidas disputadas em sua casa, no Estádio do Dragão. O teu passado brilhante nunca distante

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Dossiês
117

Em nós está presente e eternamente de tipos de versos, havendo paridade de estrutura de rimas
Ao nosso Porto entre a 2ª e a 3ª estrofes. Há, portanto, certa formalidade
quanto aos aspectos poéticos que compõem a letra da marcha.
Porto, Porto, Porto
Por sua vez, com relação aos aspectos épicos, a letra da
És a nossa glória
marcha do Futebol Clube do Porto apresenta diversidade
Dá-nos neste dia
de enunciação, passando da 2ª pessoa do singular – “Porto,
Mais uma alegria
Porto, Porto / És a nossa glória / Dá-nos neste dia / Mais uma
Mais uma vitória
Porto, Porto, Porto
alegria”, e também como índice pronominal: “É tão nobre a
És a nossa glória tua história a tua memória”; “O teu passado brilhante nunca
Dá-nos neste dia distante” – para a 3ª pessoa do singular – “É tão nobre a tua
Mais uma alegria história a tua memória”; “O teu passado brilhante nunca dis-
Mais uma vitória 17 tante” –, e culminando com a 1ª pessoa do plural – “Cantemos
com voz sonora a toda a hora / Pois somos Portistas e sempre 17. Disponível em: http://www.
primeiraliga.com/pl/archive/
Em nossa pesquisa, infelizmente, não nos foi possível bairristas / Pelo nosso Porto / Gritamos com todo o ardor o index.php?t-5638.html. Acesso
identificar a autoria da Marcha do Futebol Clube do Porto. nosso amor / Levamos o estandarte e em qualquer parte / em 20 de novembro de 2011.
Deduz-se, entretanto, que se trata de música dos anos 1950, Do nosso Porto”. Enquanto a 2ª pessoa do singular estabele-
que, assim como o hino, em sua versão gravada conta com ce um índice dialógico entre torcida e clube, a 3ª pessoa do
a interpretação magistral da cantora Maria Amélia Canossa. singular possibilita o relato sobre o clube, e a 1ª pessoa do
Aparentemente, a necessidade de criação da marcha foi ge- plural enfatiza o sentimento de pertencimento à coletivida-
rada por mera mudança de ordem estética. de de torcedores do Porto. Portanto, há aspectos na letra da
Com relação a aspectos formais, a letra da marcha não marcha que são típicos dos hinos marciais quando se trata da
apresenta forma marcada e contém três estrofes, sendo duas cena narrativa, pois não há, por exemplo, o investimento na
sextilhas com versos parcialmente isométricos e 01 décima 1ª pessoa do singular, típica das letras de hinos populares.
(refrão) composta por versos isométricos. Há o predomínio Com relação aos demais elementos épicos, constata-se a
de versos hendecassílabos, e as rimas não seguem um formato presença de um índice de espacialização local (Porto), além do

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Dossiês
118

elenco de virtudes: glória, nobreza, tradição, bem como de ver- dessa rigidez, e um dos aspectos que pode contribuir para
sos que marcam a identidade simbólica através da designação: isso é de ordem melódica, ao se passar do hino marcial para
“Pois somos Portistas e sempre bairristas / Pelo nosso Porto”. a marcha popular, aspecto esse, aliás, não contemplado no
presente estudo, uma vez que nosso enfoque recai apenas
Já em termos dramáticos, apenas o louvor não é marcado
sobre a letra da música.
textualmente. Constata-se a marca de afetividade no verso
“Gritamos com todo o ardor o nosso amor”, e o apelo à afe- Com relação aos aspectos épicos, especificamente na
tividade se faz presente no verso “Levamos o estandarte e em constituição da cena narrativa, constata-se um predomínio
qualquer parte”. A emoção também encontra expressão nos da 1ª pessoa do plural nas letras dos hinos analisados. Isso
versos “Cantemos com voz sonora a toda a hora”; “Mais uma se deve ao fato de a individualidade ser preterida em prol do
alegria”; “Gritemos sem cessar p’ra te ajudar”. sentimento de coletividade e de pertencimento ao grupo de
torcedores de uma dada agremiação.
A partir de nossa análise, podemos deduzir que a letra da
marcha do Futebol Clube do Porto apresenta tanto elemen- Ainda com relação à constituição da cena narrativa, cons-
tos marciais (emprego de 1ª pessoa do plural) quanto de ele- tata-se o emprego da 1ª pessoa do singular no segundo hino
mentos populares (a marcação de afetividade e de emoção). oficial do Benfica. No caso do hino do Porto, ocorre uma
inversão: enquanto a 1ª pessoa do singular aparece no pri-
4. DOS HINOS MARCIAIS AOS POPULARES: UM meiro hino, ela está ausente na letra da marcha.
ESTUDO COMPARADO
Além disso, constata-se também que a 2ª pessoa do sin-
Iniciaremos nosso estudo comparado, partindo dos as- gular, em geral, utilizada para construir uma cena dialógi-
pectos líricos. Dentre as letras analisadas, nenhuma possui ca entre torcedor e clube, está presente na letra do hino do
forma marcada (rondó, rondel, soneto etc.). Porém, as letras Porto, que explora mais o aspecto de idolatria. E a 3ª pessoa
dos primeiros hinos oficiais do Benfica e, respectivamente, do singular, empregada para enunciar sobre os feitos e vir-
do Porto apresentam maior rigidez quanto à estrofação, à tudes do clube, também se faz presente nas letras analisadas.
versificação e à estrutura das rimas. Isso não significa que
nos segundos hinos oficiais os aspectos formais recebam me- De todos esses traços, diríamos que a passagem da 1ª pessoa
nor atenção. O que ocorre é uma espécie de “abrandamento” do plural para a 1ª pessoa do singular é a marca mais significativa

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Dossiês
119

da transição do hino de caráter marcial para o hino popular, pois Já a identidade simbólica aparece tanto nos primeiros
explicita a subjetividade do torcedor enquanto indivíduo, dan- quanto nos segundos hinos do Benfica e do Porto. Em geral,
do margem a outros aspectos, anteriormente ausentes, como a identidade simbólica é textualmente construída a partir de
índices de afetividade, emoção e louvor. determinado tipo de expressão, como é o caso das cores do
clube, do escudo, ou mesmo das designações e alcunhas.
Por sua vez, com relação aos índices de espacialização,
constata-se a ausência de termos espaciais apenas no pri- Por fim, com relação aos aspectos dramáticos, constata-
meiro hino do Benfica, e as incidências dos demais hinos mos que os hinos do Benfica e, respectivamente, do Porto
derivam dos âmbitos local e nacional, não havendo nenhum apresentam termos que aludem à afetividade, embora não
caso de termo que aludisse ao âmbito internacional. Sem dú- predomine a 1ª pessoa do singular, mas sim a 1ª pessoa do
vida, isso tem a ver com o contexto em que tais hinos foram plural. Identifica-se, também, uma variação com relação ao
criados. Os hinos do Porto e do Benfica datam das décadas de apelo à fidelidade, que está ausente nos primeiros hinos do
1920 e, respectivamente, de 1950, épocas em que o futebol Benfica e do Porto, ao contrário da emoção enquanto índice
não conhecia um grau de internacionalização e globaliza- discursivo, marcada textualmente nos hinos analisados. Já o
ção dos dias atuais. Não é por acaso que, em vários cantos louvor está ausente nos dois hinos do Benfica e no segun-
das torcidas nas arquibancadas, há alusão a triunfos recentes do hino do Porto. Portanto, afetividade, apelo à fidelidade e
conquistados em nível mundial, num processo de atualiza- louvor são os aspectos dramáticos que se expressam através
ção da imagem de determinado clube. da mudança dos hinos marciais para os populares no âmbito
do futebol português.
Com relação aos índices textuais que aludem a feitos heroi-
cos e conquistas ou virtudes, constatamos que eles são recor-
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
rentes em ambas as letras analisadas. A diferença, nesse caso,
está no fato de que predominam as virtudes, sempre atempo- Constatamos que os hinos, enquanto parte do arsenal de
rais, enquanto os feitos heroicos e conquistas estão ausentes. símbolos de toda agremiação, contribuem para a construção
Nos hinos de clubes portugueses, não é comum a indicação da imagem do clube, mas também estão sujeitos a atualizações.
de conquistas específicas, mesmo naqueles hinos que já não Tais atualizações podem ser de ordem política (Benfica) ou
apresentam mais a mesma rigidez formal dos hinos marciais. estética (Porto). Embora nosso estudo não tenha enfocado

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120

o canto das torcidas entoado nos estádios, constata-se que, BILAC, Olavo; PASSOS, Guimaraens. Tratado de versificação. 6.
cada vez mais, tais cantos também são formas de atualização ed., São Paulo; Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1930.

(p. ex., de feitos heroicos e conquistas) em relação aos textos CORNELSEN, Elcio Loureiro. Hinos de futebol – aspectos épicos
dos hinos oficiais. e dramáticos (entrevista concedida à Rede Minas). Programa
Meio de Campo. Belo Horizonte, 2009.
Além disso, pensamos as tradições e os imaginários dos clu-
bes como resultados de processos discursivos de construção COSTA, António da Silva. Do futebol a uma nova imagem do
a partir de contextos de emergência específicos, cujas marcas homem e da sociedade. In: LOVISARO, Martha; NEVES, Lecy
Consuelo (org.). Futebol e sociedade: um olhar transdisciplinar.
ficam registradas no próprio texto da letra de seus respectivos Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2005, p. 13-26.
hinos. Seriam, pois, construções que estão na base das “co-
munidades imaginadas”, como aponta Benedict Anderson.18 KAKRIDIS, J.; ANDRÓNIKUS, M. Atletismo na poesia e na arte. In:
18. ANDERSON. Imagined TSIRAKIS, Stylianos (org.). Os jogos olímpicos na Grécia antiga.
Communities, p. 7.
Por fim, ressaltamos que dificuldades se impõem em estu- Trad. de Luiz Alberto Machado Cabral, São Paulo: Odysseus,
dos dessa natureza, sobretudo com relação à falta de infor- 2004, p. 159-171.
mações e de fontes confiáveis, através das quais possamos ROSENFELD, Anatol. O futebol no Brasil. In: ROSENFELD,
não só ter acesso às letras, como também obter maiores in- Anatol. Negro, macumba e futebol. org. Jacó Guinsburg, São
formações sobre autoria e contexto em que foram compos- Paulo: Perspectiva, 2007, p. 73-106. (Debates; v. 258)
tas. Mesmo os sites oficiais de clubes, em geral, muitas vezes,
ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. São Paulo: Desa, 1965.
dão mais espaço para o marketing, relegando a história das (Buritis; 5)
agremiações ao segundo plano. Sendo assim, esperamos que
estudos dessa natureza contribuam para resgatar a memória
SITES CONSULTADOS
e a história desses clubes, bem como a história do futebol em
Hinos do Futebol Clube do Porto. Disponível em: http://www.
Portugal.
primeiraliga.com/pl/archive/index.php?t-5638.html. Acesso em 20
de novembro de 2011.
REFERÊNCIAS
Hinos do Sport Lisboa e Benfica. Disponível em: http://
ANDERSON, Benedict. Imagined Communities. London: New universobenfiquista.blogspot.com/2010/03/o-hino-do-benfica-
Left Books, 2006. censurado-pelo-regime.html. Acesso em 20 de novembro de 2011.

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Dossiês
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História da censura do primeiro hino oficial do Sport Club


Lisboa e Benfica. Disponível em: http://universobenfiquista.
blogspot.com/2010/03/o-hino-do-benfica-censurado-pelo-
regime.html. Acesso em 20 de novembro de 2011; http://
ontemvi-tenoestadiodaluz.blogspot.com.br/2012/12/avante-
avante-plo-benfica.html. Acesso em: 01 de maio de 2014; http://
raivaescondida.wordpress.com/2010/03/15/o-1%C2%BA-hino-do-
sport-lisboa-e-benfica-banido-pelo-estado-novo/. Acesso em: 01
de maio de 2014.

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Dossiês
A BARBÁRIE EM CAMPO

Breno Pauxis Muinhos* * brenomuinhos@yahoo.com


Mestrando de Estudos Literários do Programa de Pós-
Graduação em Letras da UFPA.

RESUMO: O jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano ABSTRACT: The Uruguayan journalist and writer Eduardo
utiliza como cenário a América Latina em muitos de seus Galeano uses Latin America as setting in many of his
textos. Os assuntos traçam desde a política (fortemente texts. The subjects are about the colonial period politic
discutida em As Veias Abertas da América Latina) do período (especially in As Veias Abertas da América Latina), the Lat-
colonial, passando pela devoção religiosa latino-americana, in-American religious devotion, the heroes and the villains
traçando heróis e vilões de nossa cultura, até reflexões crí- from our culture, and the critics reflections and passionate
ticas e apaixonadas sobre o futebol. E é sobre Literatura about football. It’s about religious, Literature and football
e barbárie, como categoria estética, que este trabalho se what this work will discuss. In Futebol ao sol e à sombra,
debruçará. Em Futebol ao sol e à sombra, tradução de Eric Eric Nepomuceno translation, the awarded Uruguayan
Nepomuceno, o premiado escritor uruguaio desvela as ma- writer reveals the wonders of the game and its characters,
ravilhas do jogo e suas personagens, e as amarguras e the bitterness and commercial-politics machinations what
maquinações políticas e comerciais que cercam a “festa are around the “pagan festival”. In this article, the chroni-
pagã”. No presente artigo, as crônicas As lágrimas não vêm cles As lágrimas não vêm do lenço, Os sacrifícios da festa
do lenço, Os sacrifícios da festa pagã, Os cânticos do des- pagã, Os cânticos do desprezo and O pecado de perder will
prezo e O pecado de perder serão os objetos de enfoque, be the focus object, where will observe and analyze the
nos quais irá se observar e analisar os elementos da barbárie elements of barbarism and the chronic.
e da crônica.
KEYWORDS: Eduardo Galeano; Literature & Football; Lit-
PALAVRAS-CHAVE: Eduardo Galeano; Literatura & Futebol; erature & Barbarism.
Literatura & Barbárie
123

1. INTRODUÇÃO ofensas étnicas, classistas, religiosas, políticas e regionais,


Não são poucos os cronistas, comentaristas, narradores, todas estas formas de barbárie são sonoramente relembra-
estudiosos em geral que trabalham sobre a “metáfora da das em campo – trazendo à tona rancores entre adversários
guerra” que se transfigura no futebol. Sejam os brados tra- que ultrapassam os limites do gramado, e estendem-se para
dicionais das torcidas, os cânticos oficiais ou não de clubes e torcida e além. Como aponta José Miguel Wisnik: “O futebol
seleções, os emblemas, as flâmulas, as alcunhas de jogadores, torna visível, de uma maneira que lhe é congenial, a entre-
as cores, os estádios, a história etc. Não obstante, algumas meada matéria (de que somos feitos) de estilos altos e baixos,
vezes a arte aborda as feridas e flagelos causados pelas bata- reversíveis, contíguos e misturados.”2 A inerência exposta
2. WISNIK. Veneno remédio: o
lhas, e, por vezes, consequentes triunfos advindos da assimi- será discutida com maiores detalhes nos tópicos posteriores futebol e o Brasil, p. 103.
lação do momento sôfrego. Como aponta Elcio Loureiro ao ao abordar as crônicas propriamente.
tratar de cinema: Alguns registros de barbárie, de muitos outros, estão nas
O filme O milagre de Berna, dirigido pelo cineasta alemão crônicas esportivas. Eduardo Galeano, escritor e jornalista
Sönke Wortmann, estabelece a relação entre o triunfo da uruguaio, em Futebol ao sol e à sombra (2009), tradução de Eric
Seleção Alemã no Campeonato Mundial de Futebol de 1954, Nepomuceno, nos apresenta alguns registros da violência pra-
disputado na Suíça, e a reconstrução do país e da sociedade, ticada no futebol. Foram selecionadas as crônicas As lágrimas
arrasados tanto pelos doze anos de desmandos promovidos não vêm do lenço, Os sacrifícios da festa pagã, Os cânticos do despre-
pelo regime nazista quanto pela destruição e consequente zo e O pecado de perder. Nas quatro crônicas, Eduardo Galeano
derrota na guerra, bem como pela política de ocupação e aborda formas da barbárie que se expõe no futebol.
divisão do país frente aos impasses da chamada Guerra Fria.1
1. CORNELSEN. Imagem e
memória, p. 429. 2. A CRÔNICA LITERÁRIA
A violência física, quase sempre, é o foco principal da aten-
ção proposta; não somente a violência em campo, não se res- Partindo de Antonio Candido (1992), a crônica seria um
tringindo às duras jogadas ou lances desleais, mas também “gênero menor”. Para chegar a tal conclusão, afirma que o
ao que se expõe nos embates entre os entusiastas do esporte: gênero está pouco presente, quando não está ausente de
brigas de torcida, violência fora de campo; mortes. Porém, fato, dos compêndios de História da Literatura, com enor-
outro tipo de violência também se esmiúça no esporte: mes listas de romancistas, dramaturgos e poetas canônicos.

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Crítica
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e outras
Artesartes
e Mídias
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Entretanto, se de um lado a crônica é desprovida do elitis- artísticos (o próprio leitor nota diferença do ato de iniciar a
mo do ponto de vista da “alta literatura”, por outro, ao estar leitura de um romance e de uma crônica), o que nem sempre
afastada das “leituras canônicas”, a crônica está mais próxima compõe o propósito do cronista. A crônica, normalmente,
do leitor; se aproxima de nós. Fato que ocorre, do ponto de considera as relevâncias das “coisas miúdas” e as expressa
vista do crítico literário, em virtude do gênero tratar comu- sem as pompas da linguagem artística. Contudo, isto não a
mente de assuntos cotidianos, corriqueiros numa estrutura distancia da poesia e da verdade:
formal de aparência livre, ao utilizar uma linguagem seme-
lhante àquela do leitor: Ora, a crônica está sempre ajudando a estabelecer e restabe-
lecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de ofere-
Por meio dos assuntos, da composição aparentemente solta, cer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos
do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma
ajusta à sensibilidade de todo o dia. Principalmente porque beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da ver-
elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de dade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas
ser mais natural.3 suas formas mais fantásticas, - sobretudo porque quase sempre
3. CANDIDO. A crônica, p. 13.
utiliza o humor.4
Essa dita “simplicidade” da crônica acaba por justificar que 4. CANDIDO. A crônica, p. 14.

a abordagem dos assuntos construa-se de maneira familiar A aproximação para com o público leitor, e seu cotidiano,
à realidade do leitor, visto que esses assuntos são tratados não ocorre somente pela linguagem ou temática utilizadas,
com uma linguagem de diálogo - amistoso ao destinatário -, entretanto, também ao suporte que, comumente, viabilizou
portanto há uma tentativa de convencer aquele que leu; ao por muito tempo e continua a fazer a difusão do gênero, o
assimilar a matéria tratada pelo escritor. jornal. Tal suporte dialoga, inevitavelmente, com a premissa
assumida pelo autor. A partir de tais pressupostos, o cronista
Nas palavras de Antonio Candido (1992), há a ressalva de
assume uma perspectiva diferente de outros literatos dispos-
que os outros gêneros não são “superiores” à crônica, ou tão
tos em gêneros propriamente artísticos. Logo, a crônica, a
afastados da realidade do leitor, apenas os assuntos aborda-
princípio, não tem pretensão de durar, uma vez que é veicu-
dos por estes, a maneira como são construídos e a lingua-
lada em um suporte geralmente destinado ao descarte. Isso,
gem normalmente apresentadas são típicas de pressupostos

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Crítica
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de certa maneira, tira-lhe a preocupação e a familiariza com concretude lhes assegura, e lembra aos leitores que a realida-
os leitores. É notório expor que a crônica passará a outros de – conforme a conhecemos, ou como é recriada pela arte
suportes, chegando ao suporte livro, dentre diversos moti- – é feita de pequenos lances”.5
5. SÁ. A crônica, p. 6.
vos, seja por vontade de seus criadores, seja por iniciativas
Tal afirmação encontra semelhança ao que Angélica
de editores.
Soares (2006) explica que a crônica é um gênero inevita-
Jorge de Sá (1987) propõe ser necessário perceber a di- velmente ligado ao tempo, ou, melhor, ao seu tempo; como
ferenciação que a crônica aos poucos assume se compara- sugere as origens de seu próprio nome: crônica deriva de
da aos outros gêneros literários. Para o estudioso, a crônica chrónos, do grego, que significa tempo. Seria um registro que
vai ganhando, no decorrer do século XX, uma identidade está marcado pelo tom circunstancial do gênero que registra
mais cada vez mais literária. Todavia, por mais que asseme- o imaginário coletivo nas suas mais diversas manifestações
lhe a crônica de outros gêneros literários de fato, Jorge de cotidianas.Portanto, apesar das limitações já mencionadas, o
Sá (1987) assinala que em outros gêneros, como o conto, o cronista tem certa liberdade ao lidar com seu texto, principal-
autor elabora personagens, cenário, tempo e atmosfera para mente quando dá ênfase a sua capacidade literária: “polimór-
sua composição, diferente do que ocorre com a crônica, pois fica, ela se utiliza afetivamente do diálogo, do monólogo, da
esta se apresenta de forma mais solta, haja vista que o fato alegoria, da confissão, da entrevista, do verso, da resenha, de
apresentado não é exposto por um narrador, que algumas personagens reais, de personagens ficcionais..., afastando-se
vezes é uma personagem, e sim por um repórter. Tal fato faz sempre da mera reprodução de fatos. E enquanto literatura,
o crítico considerar a crônica como um gênero jornalístico ela capta poeticamente o instante, perenizando-o”.6
6. SOARES. Gêneros literários,
que pode ser recoberto de características literárias. Enfatiza p. 64.
Logo sua versatilidade acaba por ser a primazia do gê-
que a crônica deve relatar de forma detalhada e mais pró-
nero, sem perder de vista que, ainda se tratando de frag-
xima de como ocorreram os ventos descritos nesta, ou ser
mentos de opiniões, a crônica nunca se propõe a registrar a
fiel ao momento circunstancial de sua produção: “seu relato
totalidade do ocorrido, mas sim a dar qualidade e facilidade
é, assim, fiel às circunstâncias, onde todos os elementos se
na exposição de determinada opinião emitida pelo cronista
tornam decisivos para que o texto transforme a pluralidade
que a constrói: utilizando o discurso jornalístico e as formas
dos retalhos em uma unidade bastante significativa. [...] Essa
literárias.

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3. O SOL E A SOMBRA DA BOLA como proposto por Johan Huizinga (2010), por si carrega
O livro Futebol ao sol e à sombra (2009) celebra e denuncia. uma diversidade de elementos que foram entrelaçados aos
Publicado na metade dos anos 90, a obra de Eduardo Galeano mais variados aspectos culturais, dentre eles o símbolo sacro:
fez uso de um vasto material das mais diversas fontes. Desde
testemunhos de jogadores a recortes de jornais que tratavam A representação sagrada é mais do que uma simples realização
dos eventos esportivos. A crítica às mazelas presentes no fu- de uma aparência é até mais do que uma realização simbólica:
tebol é tão crucial na composição do livro quanto a elevação é uma realização mística. Algo de invisível e inefável adqui-
de feitos promovidos pelo esporte: resistência e decadência, re nela uma forma bela, real e sagrada. Os participantes do
heroísmo e barbárie. Eduardo Galeano trata de personagens ritual estão certos de que o ato concretiza e efetua uma certa
essenciais ao futebol: a bola, o estádio, o árbitro, o jogador, beatificação, faz surgir uma ordem de coisas mais elevada do
o torcedor. Constantemente há paralelos com outras mani- que aquela em que habitualmente vivem. [...] É executada no
festações culturais: interior de um espaço circunscrito sob a forma de festa, isto
é, dentro de um espírito de alegria e liberdade. Em sua inten-
Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da ção é delimitado um universo próprio de valor temporário.
arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que Mas seus efeitos não cessam depois de acabado o jogo; seu
surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram esplendor continua sendo projetado sobre o mundo de todos
outra vez, juiz ladrão. E então, o sol vai embora, e o torcedor os dias, influência benéfica que garante a segurança, a ordem e
se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos a prosperidade de todo o grupo até à próxima época dos rituais
degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de sagrados.8
8. HUIZINGA. Homo ludens, p. 17.
fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O
estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, As paixões não se encerram nas “quatro linhas” do campo.
em um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se A “festa pagã” seria muito mais que o jogo e suas as regras,
perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de mas também todo o ritual, a “missa da bola,” que se desen-
cinzas depois da morte do carnaval.7 rola durante uma partida de futebol: “o jogo e a festa ofere-
7. GALEANO. Futebol ao sol e à
sombra, p. 15. cem uma excelente oportunidade de se experimentar novas
A disputa e o fervor compõem elementos essenciais nas
possibilidades de ser e agir que dificilmente poderiam ser
produções artísticas sobre o esporte. O jogo, “a festa pagã”,

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expressas em condições “normais” da vida. Daí o fato de o narrativo-memorialístico (que muitas vezes lembra uma
jogo e a festa poderem ser apropriados como um rito que em crônica) É isso um homem?, de Primo Levi, a barbárie, unida
determinado momento faz a passagem do mundo real para ao grotesco e à decadência, transborda o cerne da temática
o mundo imaginário”.9 e atinge a linguagem – permeando a Literatura da categoria
9. RETONDAR. Futebol e sociedade,
p. 111. citada.
Apresentados os aspectos do formato do gênero e do ri-
tual que o futebol insinua, observa-se também o saudosismo Ao refletir sobre o despojo, também como categoria esté-
presente nas crônicas que abordam jogadores e eventos an- tica, é inevitável que não o relacione com os troféus arreba-
teriores ao nascimento do cronista, bem como também sua tados em competições esportivas e à violência manifestada
infância. Sempre ocorre a relação entre o que poderia ter tantas vezes nas arquibancadas, onde faixas de torcidas con-
sido e o como fora. trárias são arrancadas e torcedores rivais mortos são conta-
tos como trunfos.
Jogadores como Pelé e Maradona são apresentados como
personagens emblemáticas na construção do sublime no fu- Nas crônicas selecionadas para reflexão, Eduardo Galeano
tebol latino-americano, a resistência de jogadores advindos nos expõe como tal categoria foi assimilada no futebol e
de minorias, os clubes e seleções que eram, e são, represen- como se difunde dentro e fora dos estádios. Comecemos por
tações de resistência, os espaços de disputa, são focos do As lágrimas não vêm do lenço:
simbolismo das luzes, ou sol do futebol. As sombras ficam
por conta da elitização, da exclusão, da manipulação de re- O futebol, metáfora da guerra, pode transformar-se, às vezes,
sultados, das trapaças que o esporte também foi condenado em guerra de verdade. [...] Em nosso tempo, o fanatismo do
a ter. A violência e, por conseguinte, a barbárie, serão alvos futebol invadiu o lugar que antes estava reservado somente
no tópico posterior. ao fervor religioso, ao ardor patriótico e à paixão política. [...]
Há quem creia que os homens possuídos pelo demônio da
4. REGISTROS DA BARBÁRIE bola soltam espuma entre os dentes, e deve-se reconhecer
A barbárie como categoria estética se esmiúça em mui- que desta forma retratam bastante bem a vários torcedores
tas obras que tratam de massacres históricos e indivi- enlouquecidos; mas até os críticos mais indignados teriam
duais. Desde o romance Germinal, de Zola, ao trabalho que admitir que, na maioria dos casos, a violência que desem-

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boca no futebol não vem do futebol, assim como as lágrimas Na crônica, a “guerra campal”, evidenciada tantas vezes, é
não vêm do lenço. relacionada a um evento histórico. Galeano aponta os even-
Em 1969, explodiu a guerra entre Honduras e El Salvador, tos da “guerra do futebol”, como ficou conhecido, o con-
dois países centro-americanos pequenos e muito pobres que fronto entre os exércitos de dois países economicamente
há mais de um século vinham acumulando rancores mútuos. pobres e geograficamente “diminutos” da América Latina:
[...] Os hondurenhos não tinham trabalho? Porque os salva- El Salvador e Honduras. Sem perder de vista a utilização do
dorenhos vinham tirá-lo. Os salvadorenhos passavam fome? futebol como pretexto para barbáries cometidas por meio
Porque os hondurenhos os maltratavam. Cada povo acredi- deste. Aparente motivo para a violência reitera-se, pois o
tava que seu inimigo era o vizinho, e as incessantes ditaduras cronista também levanta as mazelas históricas às quais as na-
militares de um e outro país faziam o possível para perpetuar ções eram submetidas, assim minimamente defende, ainda
o equívoco. que critique o esporte. Portanto, ao não deixar sair de foco,
o uso deste se verifica como pressuposto de maquinações de
[...] Durante as eliminatórias para o Mundial de 70, começa-
estados ditatoriais.
ram as confusões. Houve brigas, alguns mortos, uns quantos
feridos. Na semana seguinte, os dois países romperam rela- Em Os sacrifícios da festa pagã, a crônica expõe a “organi-
ções. Honduras expulsou cem mil camponeses salvadorenhos, zação” de torcidas que geram pânico, semeiam a violência e
que trabalhavam desde sempre nos plantios e colheitas daquele celebram a barbárie:
país, e os tanques salvadorenhos atravessaram a fronteira.
A guerra durou uma semana e matou quatro mil pessoas. [...] Em 1985, os hooligans, fanáticos ingleses de triste fama, ma-
Em Tegucigalpa, a palavra de ordem era: Hondurenho: toma taram trinta e nove torcedores italianos nas grades do velho
um lenho, mata um salvadorenho. Em San Salvador: É preciso estádio Heysel, em Bruxelas. O Liverpool estava disputando
dar uma lição nesses bárbaros. a final da Copa da Europa com o Juventus, da Itália, quando
os hooligans atacaram. Os italianos, encurralados contra um
Os senhores da terra e da guerra não derramaram uma gota muro, caíram esmagando-se uns aos outros ou foram lançados
de sangue, enquanto os dois povos descalços, idênticos em ao vazio. A televisão transmitiu ao vivo a carnificina e também
sua desdita, vingavam-se ao contrário matando-se entre si transmitiu a partida, que não foi suspensa.
10. GALEANO. Futebol ao sol e à com patriótico entusiasmo.10
sombra, p. 129.

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[...] Em 1993, Jorge Valdano calculava que nos últimos quinze


Um século antes, em 1890, advertia o jornal londrino The anos tinham morrido mais de cem pessoas, vítimas da vio-
Times: “Nossos hooligans vão de mal a pior, e o pior é que se lência, nos estádios argentinos. [...] As galeras pesadas se nu-
multiplicam. Eles são uma excrescência monstruosa de nos- trem, em todas as partes, de jovens atormentados pela falta
sa civilização”. Em nossos dias, essa excrescência continua de trabalho e de esperança. Uns meses depois dessas decla-
dedicando-se ao crime, usando o futebol como pretexto. rações o Boca Juniors, de Buenos Aires, foi derrotado por
2 a 0 pelo River Plate, seu adversário tradicional. Na saída
Onde os hooligans aparecem, semeiam o pânico. Levam o do estádio, dois torcedores do River caíram mortos a tiro.
corpo tatuado por fora e cheio de álcool por dentro, diver- “Empatamos por dois a dois”, comentou um rapaz, torcedor
sos trastes patrióticos pendurados no pescoço e nas orelhas, do Boca Juniors, que a televisão entrevistou.
usam manoplas e cacetes e transpiram violência a jorros en-
quanto uivam Rule Britannia e outros rancores do Império [...]
perdido. Na Inglaterra e em outros países, os brigões também Nos estádios de futebol, a tragédia que atingiu mais vítimas
ostentam, com freqüência, símbolos nazistas, e proclamam foi a de 1964, na capital do Peru. Quando o árbitro anulou
seu ódio aos negros, aos árabes, aos turcos, aos paquistaneses um gol, nos minutos finais de uma partida contra a Argenti-
ou aos judeus. na, choveram laranjas, latas de cerveja e outros projéteis das
- Vão para a África! - rugia um ultra do Real Madri, que se arquibancadas ardentes de fúria. As bombas de gás e os tiros
divertia espancando negros “porque vieram tomar o meu dos policiais provocaram, então, uma fuga desesperada. A
trabalho”. carga policial esmagou a multidão contra os portões de saí-
da, que estavam fechados. Houve mais de trezentos mortos.
Com o pretexto do futebol, os naziskins italianos vaiam os jo- Naquela noite, uma multidão protestou nas ruas de Lima: a
gadores negros e chamam os torcedores inimigos de judeus: manifestação protestou contra o juiz, não contra a polícia.11
11. GALEANO. Futebol ao sol e à
- Ebrei! - gritam. sombra, p. 159.
É notório que hoje ainda tenhamos fatos assim, e na crô-
Mas as turmas da pesada, que ofendem o futebol como o bê- nica está claro que tais fatos não estão somente frequentes
bedo ofende o vinho, não são um triste privilégio europeu.
na vida de nações pobres. O racismo e o preconceito são
[...]
ferramentas essenciais na difusão da barbárie e do ódio.
Ainda que descreva fatos das nações europeias, sempre há

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um espaço considerável para tratar de eventos latino-ame- E com mais força do que nunca ressoaram os cânticos filhos
ricanos. As barbaridades relatadas no Peru e na Argentina do medo e netos do racismo:
têm igual consistência com a reação alienada da torcida: que
urge contra o árbitro e não contra a brutalidade policial, ou Que mal cheiro,
a falta de preparo do estado. até os cães fogem,
os napolitanos estão chegando.
Em Os cânticos do desprezo é evidenciada, mais uma vez, a Oh coléricos, terremotados,
barbárie que parte das arquibancadas: com sabão nunca lavados.
Nápoles merda, Nápoles cólera,
Não figura nos mapas, mas existe. É invisível, mas existe. Há
és a vergonha de toda a Itália.
uma parede que ridiculariza a memória do Muro de Berlim:
levantada para separar os que têm dos que necessitam, ela divi- Na Argentina, acontece o mesmo com o Boca Juniors. O
de o mundo inteiro em norte e sul, e também traça fronteiras Boca é o time preferido pela pobreza de cabelo eriçado e pele
dentro de cada país e dentro de cada cidade. Quando o sul do morena que invadiu a senhorial cidade de Buenos Aires, em
mundo comete a ousadia de saltar esse muro e se mete onde rajadas vindas dos macegais do interior e dos países vizinhos.
não deve, o norte lhe recorda, a pauladas, qual é o seu lugar. As torcidas inimigas exorcizam o temido demônio:
E o mesmo acontece com as invasões de cada país e de cada
cidade a partir das zonas malditas. Já todos sabem que o Boca está de luto,
O futebol, espelho de tudo, reflete esta realidade. Em meados são todos negros, são todos putos.
dos anos oitenta, quando o Nápoles começou a jogar o me- Deve-se matar os bostas,
lhor futebol da Itália, graças ao influxo mágico de Maradona, são todos putos, todos caipiras,
o público do norte do país reagiu desembainhando as velhas que precisam ser jogados no Riachuelo.12
12. GALEANO. Futebol ao sol e à
armas do desprezo. [...] Das arquibancadas dos estádios de Os cânticos das torcidas ressoam como hinos populares. Na
sombra, p. 170.

Milão ou de Turim, os cartazes insultavam: Napolitanos, bem- Itália, como visto na crônica, o preconceito regional e clas-
-vindos à Itália, ou exerciam a crueldade: Vesúvio, contamos sista expõe-se no estádio, onde o clube Nápoles fora insulta-
contigo. do pelos torcedores dos times das elites, e tinha um jogador

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argentino como principal protagonista. Na Argentina, o rido num dos países mais violentos do planeta. A violência
preconceito é exposto contra o Boca Juniors, time conside- não está nos genes do povo colombiano, povo que festeja a
rado popular. Em ambos os casos nota-se a barbárie no apelo vida, louco por alegrias musicais e futebolísticas, que sofre a
à morte – clamando por terríveis eventos: o vulcão na Itália violência como doença, mas não a leva como marca indelével
e a ditadura argentina. na testa. O sistema de poder, ao contrário, é sim um fator de
violência: como em toda a América Latina, suas injustiças e
Fora do campo e do estádio, a crônica O pecado de perder
humilhações envenenam a alma das pessoas, sua escala de
nos traz comparações de eventos brutais no futebol e a esfera
valores recompensa quem não tem escrúpulos e sua tradicio-
social: nal impunidade estimula o crime e ajuda a perpetuá-lo como
costume nacional.
[...] Com a pelota no pé e as cores pátrias no peito, o jogador
que encarna a nação marcha para conquistar glórias em lon- Uns meses antes de começar o Mundial de 94, difundiu-se o
gínquos campos de batalha. Na volta, o guerreiro vencido é relatório anual da Anistia Internacional. Segundo a Anistia,
um anjo caído. [...] na Colômbia “centenas de pessoas foram executadas extrao-
ficialmente pelas forças armadas e seus aliados paramilitares
Somos porque ganhamos. Se perdemos, deixamos de ser. [...]
em 1993. A maioria das vítimas das execuções extrajudiciais
No futebol, como em tudo o mais, é proibido perder. Neste eram pessoas sem relações políticas conhecidas”.
fim de século, o fracasso é o único pecado que não tem re-
O relatório da Anistia Internacional também denunciou a
denção. Durante o Mundial de 94, um punhado de fanáticos
responsabilidade da polícia colombiana nas operações de
queimou a casa de Joseph Bell, o goleiro derrotado de Cama-
limpeza social, eufemismo que encobre o extermínio siste-
rões, e o jogador colombiano Andrés Escobar caiu crivado
mático de homossexuais, prostitutas, drogados, mendigos,
de balas em Medellín. Escobar tinha tido o azar de fazer um
doentes mentais e meninos de rua. A sociedade os chama de
gol contra, tinha cometido um imperdoável ato de traição à
descartáveis, que é como dizer: lixo humano que merece a
pátria.
morte.
Culpa do futebol, ou culpa da cultura do sucesso e de todo o
Neste mundo que castiga o fracasso, eles são os perdedores
sistema de poder que o futebol profissional reflete e integra?
de sempre.13 13. GALEANO. Futebol ao sol e à
[...] Não é por acaso que o assassinato de Escobar tenha ocor- sombra, p. 192.

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O mundial de 94, realizado nos EUA, foi de grande di- tantas que merecem atenção também -, com o forte intuito
fusão internacional. Os eventos relatados foram noticiados de ressaltar, não somente em defesa do futebol, as mazelas
em larga escala; a fatalidade que acometeu o jogador Andrés político-sociais que no esporte se proliferam, principalmente
Escobar foi um dos maiores. em espaços ricos de produção cultural. É notório que ações
diversas, de meios governamentais a artísticos, surjam para
No Brasil, a necessidade de vencer o campeonato mundial
coibir que tristes fatos assim se repitam, contudo, o texto do
era flagrante, ao ponto de não necessitar-se mais de um estilo
cronista parece-nos bem atual, quando eventos lamentáveis
brasileiro de jogo, como afirmar Marcos Guterman (2010):
assim se repetem; e a barbárie se concretiza. Em tempos como
“Não havia nada de ‘brasileiro’ nisso, mas as preocupações
estes, reivindicar notoriedade para o que se esconde, não é
com ‘brasilidade’, como se sabe já haviam se tornado coisa
percebido ou é ocultado, assume um pináculo fundamen-
do passado. [...] Àquela altura, o importante parecia somente
tal nas discussões de obras que trazem tais temáticas afins.
ganhar o tetracampeonato”14. A “cultura do sucesso” já havia
14. GUTERMAN. O futebol explica o Sempre sem perder o foco da complexidade que o futebol
Brasil, p. 243. se imposto fortemente no futebol.
junto à cultura e, portanto, à Literatura carrega.
O cronista relata os fatos e posteriormente relaciona o jo-
gador ao herói nacional, mas que se torna um vergonhoso REFERÊNCIAS
estandarte se voltar derrotado. Em seguida, Galeano defende CANDIDO, Antonio. A Vida ao Rés-do-Chão. A crônica: o
o povo colombiano, a violência, e portanto a barbárie, não gênero,sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas/
seria própria de sua cultura, mas todo tormento ancestral Rio de Janeiro: Editora Unicamp, 1992.
passado e a opressão ainda vivida. Então, aponta outro dado,
CORNELSEN, Elcio Loureiro. Imagem e Memória em torno de
ocorrido, pouco antes da copa de 94: o assassínio de pessoas Futebol e Política no Cinema. In VIEIRA, Elisa Moreira Amorim,
consideradas “descartáveis”. Em um contexto excludente, os SELIGMANN-SILVA, Márcio e CORNELSEN, Elcio Loureiro.
párias não teriam vez alguma aos direitos fundamentais. Imagem e memória. Belo Horizonte: Editora FALE/UFMG, 2012,
p. 429-442.
A obra Futebol ao sol e à sombra (2009) aborda ídolos, vilões,
párias e fatos que permeiam o espetáculo esportivo, contudo, GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Eric
Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. 3ª edição. Porto Alegre:
neste trabalho, parte de sua “sombra” foi privilegiada – dentre
Editora L&PM Pocket, 2009.

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GUTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: Uma história


da maior expressão popular do país. São Paulo: Editora Contexto,
2010.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens. João Paulo Monteiro. 6ª edição.


São Paulo: Editora Perspectiva, 2010.

RETONDAR, Jeferson José Moebus. A dimensão sagrada do


jogo e da festa: o corpo na dimensão sagrada do numinoso.
In: LOVISARO, Martha, e NEVES, Lecy Consuelo. Futebol e
sociedade: um olhar transdisciplinar. Rio de Janeiro: Eduerj,
2005, p. 105-115.

SÁ, Jorge de. A crônica. 3ª edição, São Paulo: Ática, 1987 [Série
Princípios, 5].

SOARES, Angélica. Gêneros literários. 6ª edição, São Paulo:


Ática, 2006 [Série Princípios, 166].

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São


Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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MARX, ENGELS E OS ESCRITORES
ROMÂNTICOS

Robert Sayre* * Professor de Literaturas anglófonas na Universdade


Michael Löwy** de Paris-Est Marne-la-Vallé.
** Diretor de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa
Maria Juliana Gambogi Científica - CNRS.
*** juliana.gambogi22@gmail.com
Teixeira (trad.)***
Doutora, professora de língua e literatura francesa na
Faculdade de Letras – UFMG.

MARX E ENGELS CONTRA O ROMANTISMO? contra a arte clássica, mas “o protesto desesperado contra o
Há toda uma literatura, em particular de inspiração sta- capitalismo, entoado tanto pela nobreza empobrecida quan-
linista, que tende a apresentar os autores do Manifesto to pela pequena burguesia radical”.2 Apesar disso, o capítu-
2. MARX, ENGELS. Sur la littérature
Comunista como adversários do Romantismo, rejeitando lo consagrado ao Romantismo nessa coletânea é intitulado, et l’art. Introduction, p. 10.
em bloco essa corrente cultural, entendida como “reacioná- muito simplesmente, “Contra o Romantismo”! Na realidade,
ria”. Um exemplo típico é o livro publicado em 1936 por muitos dos textos citados – por exemplo, os de Engels sobre
1. MARX, ENGLES. Sur la
littérature et l’art. FRÉVILLE, Jean Fréville pela Editions Sociales Internationales, o qual re- Carlyle – estão longe de cair numa rejeição tão simplista.
Jean (org). Paris: ESI, 1936. presenta, ainda hoje, a única coletânea em língua francesa Um outro capítulo, intitulado por Fréville “Os perigos do
Uma coletânea em inglês, de
inspiração bastante diversa, foi dos textos de Marx e Engels sobre literatura e arte.1 Em sua Romantismo”, não trata nem de literatura nem de arte, mas
publicada recentemente: Marx introdução, Fréville, citando com entusiasmo a definição, de alguns deputados conservadores da Dieta Renana. Um
and Engels on Literature and Art.
proposta por Stalin, dos escritores como “engenheiros da trecho de um artigo de Engels critica os “raivosos comedo-
L. Baxandall, S. Morawski (org).
Saint Louis and Milwaukee: Telos alma”, reconhece ser o Romantismo não apenas uma reação res de franceses”, mas a palavra “Romantismo” não aparece
Press, 1973.
135

ali. Enfim, um outro conjunto de extratos, intitulado por romântico”, durante o qual se desenvolveram correntes e
Fréville “O Romantismo reacionário”, introduz uma carta de escolas comumente tratadas como românticas. A nosso ver,
Marx para Engels que analisaremos a seguir, mas na qual não tais movimentos se inserem em uma tendência cultural mui-
há menção ao termo “reacionário”: o que a carta menciona to mais vasta, inerente a uma mutação sócio-histórica fun-
é, simplesmente, a existência de duas “reações” às Luzes, a damental e de grande alcance: a ascensão – progressivamen-
romântica e a socialista. te mundial – de uma sociedade completamente regida pelo
mercado e na qual os diversos valores qualitativos encon-
Na realidade, a posição de Marx e Engels acerca do
trados em sociedades “tradicionais” precedentes serão subs-
Romantismo é bem mais cheia de nuances e, sobretudo,
tituídos exclusivamente pelo valor quantitativo do dinheiro.
mais dialética do que o proposto por essa versão caricatural,
sem dúvida inspirada pela ideologia do progresso de origem É essa sociedade capitalista – um tipo sem precedentes –
positivista, que deixou marcas em grande parte da cultura de que suscitará reações de protesto ou de recusa, expressos em
esquerda francesa. distintos domínios culturais – a filosofia política, o direito,
a história, etc, bem como a literatura e a arte -, em nome de
O QUE É O ROMANTISMO? valores qualitativos perdidos do passado. É esta revolta cultu-
Antes de abordar a questão do posicionamento de Marx ral e multifacetada – marcada pela nostalgia de alguns ideais
e Engels acerca do Romantismo e, num segundo momen- do passado, sem, necessariamente, desejar a restauração de
to, acerca dos escritores românticos, é importante definir formações sociais de outros tempos – que constitui, a nosso
como o entendemos. Tomamos como ponto de referência ver, o Romantismo. Nascido por volta de meados do século
aqui uma concepção substantiva do fenômeno romântico, XVIII, no mesmo momento em que o capitalismo se institui
oriunda de certas sugestões de Marx e Engels, sem, necessa- e se impõe na Inglaterra e na Europa, essa revolta perdura
riamente, adotar sua terminologia para descrever tal ou qual ainda hoje, já que, malgrado importantes transformações em
3. Ver, em particular, o nosso
Révolte et mélancolie: le autor. De acordo com essa concepção – já esboçada em ou- suas modalidades, o sistema socioeconômico contra o qual
romantisme à contre-courant tros momentos3 -, o Romantismo não se limita nem a movi- ela se institui ainda persiste e faz sentir suas consequências
de la modernité. Paris : Payot,
mentos literários e artísticos, tampouco ao período do início de maneira cada vez mais universal.
1992, assim como o número da
revista Europe, consagrado ao do século XIX, frequentemente considerado como “período
“Romantisme révolutionnaire.”

EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 SAYRE; LÖWY; TEIXEIRA. Marx, Engels e os escritores românticos p. 134-148

Tradução e Edição
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Durante essa longa duração da Modernidade capitalista, legitimistas franceses – como uma corrente na qual se mis-
claro está que nem de longe todos os intelectuais, artistas e turam “ecos do passado” e “ameaça o futuro”; malgrado sua
escritores aderiram a tal concepção de Romantismo. De um “total incapacidade para compreender a marcha da história
lado, há os que aceitam globalmente o status quo da socieda- moderna”, esses pensadores tiveram o mérito de “atacar o
de moderna; mas também existem alguns, em meio aos que coração mesmo da burguesia, através de uma crítica amar-
contestam a ordem capitalista, que o fazem em nome da pró- ga e espiritualmente mordaz”. Ainda mais importante, ao
pria Modernidade ou de alguns dos valores hegemônicos da ver de Marx e Engels, é o “socialismo pequeno-burguês” de
Modernidade – a razão, a ciência, o indivíduo. Para que pos- Sismondi – o mais eminente dos economistas que, no século
samos falar de visão ou de perspectiva romântica, é necessá- XIX, poderia ser qualificado de romântico – cuja contribui-
rio que a crítica anticapitalista seja feita sob a inspiração de ção eles enfatizam: “Ele analisou com a maior sagacidade as
uma certa ideia de passado, em nome de algo encarnado por contradições inerentes às relações de produção modernas.
esse passado, mesmo que não se deseje sua reconstituição. Desmascarou as falácias embelezadoras dos economistas”. 4
4. MARX, ENGELS. Manifeste
du parti communiste. Paris:
Um dos mais significativos textos de Marx sobre o Flammarion, trad. Emile Bottigelli,
MARX, ENGELS E O ROMANTISMO
Romantismo é uma passagem dos Grundrisse, os Fundamentos revista por Gerard Raulet. p.
Claro está que Marx e Engels, herdeiros críticos do da Crítica da Economia Política (1857-1858): “Nos períodos an- 103-106 e, para as notas dos
Iluminismo, não foram exatamente românticos no sentido tradutores, p. 174-175.
teriores da evolução, o indivíduo gozava de uma maior ple-
dessa definição. No entanto, a crítica romântica da civiliza- nitude justamente porque, não dispondo ainda de condições
ção capitalista – desenvolvida por pensadores políticos, eco- materiais plenamente desenvolvidas, encara-lhes como for-
nomistas, antropólogos, socialistas – resta sendo uma fonte ças e relações sociais independentes de si. Aspirar a essa ple-
extremamente importante e, no geral, negligenciada, para as nitude do passado é tão ridículo quanto desejar a manuten-
suas reflexões. Alguns textos-chave permitem compreender ção do estado atual de penúria. A concepção burguesa jamais 5. MARX. Fondements de la critique
sua atitude global face à perspectiva romântica, tal como a de l’économie politique. Paris :
conseguirá ir além da oposição ao ponto de vista romântico Anthropos, 1967, trad. Roger
definimos. (Über den Gegensatz gegen jene romantische Ansicht ist die bürger- Dangeville, p. 99. Corrigimos a
tradução francesa, imprecisa,
No Manifesto Comunista (1848), Marx e Engels se refe- liche nie Herausgekommen) e, portanto, ele vai acompanhá-la, ao confrontá-la com o original
rem ao “socialismo feudal” – provavelmente uma alusão ao como sua legítima antítese (berechtigeter Gegensatz), até o bem alemão: Grundisse der Kritik der
Politischen Ökonomie. Berlim:
movimento “Jovem Inglaterra” (Disraeli, Carlyle) e a certos aventurado fim da burguesia”.5 Essa passagem é interessante Dietz Verlag, 1953, p. 80.

EM  TESE BELO HORIZONTE v. 20 n. 1 jan.-abr. 2014 SAYRE; LÖWY; TEIXEIRA. Marx, Engels e os escritores românticos p. 134-148

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em vários aspectos: num primeiro momento, ela retoma o foi, naturalmente, a de tudo divisar sob o ângulo medieval,
argumento romântico acerca da “plenitude” do passado pré- romântico, da qual mesmo nomes como Grimm não esca-
-capitalista e, num segundo instante, opõe simetricamente a param. A segunda reação – e ela corresponde à orientação
ilusão romântica do retorno ao passado à apologia burguesa socialista […], consiste num mergulho para além da Idade
do presente. Por fim, considera legítima a crítica romântica Média, alcançando a época primitiva de cada povo. E as pes-
ao mundo burguês, tomada como um contraponto negativo soas ainda se surpreendem ao encontrarem no mais antigo
do mesmo e que deverá acompanhá-lo até o fim, ou seja, até o mais moderno e ao descobrirem igualitários num tal grau
o fim da sociedade burguesa. De acordo com os editores da que fariam tremer Proudhon”.6 O que Marx não parece levar
6. MARX. Carta a Engels de 25
Grundrisse, os românticos aos quais Marx se referiria nes- em conta é que o Romantismo não necessariamente se vin- de março de 1858. In: MARX,
sa passagem são o economista conservador Adam Müller e cula a esse “ângulo medievalizante”: a referência a um pas- ENGLES. Ausgewählte Briefe.
Berlim: Dietz Verlag, 1953, p. 231
Thomas Carlyle, sobre quem nos deteremos mais adiante. sado “primitivo” igualitário é, também, uma das formas que (a tradução de Fréville, op. cit,
pode tomar a crítica romântica à civilização, e isso já desde p. 126, é bastante falha). Marx
Seria falso limitar o interesse positivo demonstrado por não utiliza o termo Aufklärung
Rousseau e seu Discurso sobre as origens da desigualdade até
Marx e Engels pelo Romantismo a seus anos de juventu- (Luzes), mas Aufklärertum, uma
alcançar os antropólogos por ele mencionados. expressão bastante pejorativa,
de, quando, sem dúvida, estiveram mais próximos dessa que traduzimos por “ideologia
sensibilidade cultural (voltaremos a esse ponto). Afinal, os O escritor romântico, fascinado pela Idade Média, citado das Luzes” (Fréville a traduziu
como “progresso”).
escritos tardios testemunham uma grande atenção ao tra- nessa carta é Jacob Grimm, que publicara, em colaboração
balho de antropólogos e historiadores, de inspiração român- com seu irmão Wilhelm, assim como com Von Arnim e
tica, sobre as comunidades “primitivas”: Maurer, Niebuhr, com Brentano, a célebre coletânea de contos populares ger-
Morgan, Bachofen. A razão de tal interesse é claramente mânicos. Mas Grimm também fora filólogo e historiador
política, conforme o afirma Marx em uma carta a Engels do direito, e é provável que esse seja o contexto da segunda
de 25 março de 1858, no qual trata do historiador alemão referência a ele, na mesma carta a Engels: “Além disso, mes-
Georg Ludwig Maurer – documento altamente significativo mo Grimm, entre outros, tem em mente, graças a César, que
que deslinda, ao mesmo tempo, sua afinidade e sua distân- os alemães se instalavam sempre a partir de comunidades
cia para com o Romantismo: “A primeira reação contra a familiares e não como indivíduos: ‘gentibus cognationibusque
Revolução Francesa e a ideologia das Luzes a ela associada que uno coiereant’”.7 Em outros termos: mesmo em Grimm, 7. MARX. Ausgewählte Briefe.
Berlim: Dietz Verlag, 1953, p. 234.

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suposta encarnação das ilusões medievalistas românticas, – com um passado pré-capitalista, onde tal corrupção das
descobre-se, assim como em Maurer, o interesse por for- relações sociais ainda não tinha lugar.
mas comunitárias “primitivas” da Germânia antiga, tais quais
É claro que alguns temas de extração românticos frequen-
Júlio César as havia descrito.
temente retornam nos escritos de Marx e Engels, tanto em
Em geral, encontramos nos escritos de Marx e Engels sua juventude quanto na “maturidade”. Em particular: 1) a
muitos temas inspirados na crítica romântica à civilização degradação do trabalho humano pelos malefícios do ma-
capitalista. É o caso, particularmente, da denúncia do caráter quinismo e da divisão do trabalho, 2) a perda, no processo
brutalmente quantificador do ethos burguês, a dissolução de civilizatório, das qualidades humanas características das co-
todos os valores qualitativos – sociais, morais ou culturais munidades ditas “primitivas”, desde as sociedades gentílicas
– em favor de um único valor quantitativo, medido pelo di- do passado até as tribos indígenas ou as comunidades rurais
nheiro. Amplamente desenvolvida nos Manuscritos de 1844, russas, entendidas como sociedades livres, igualitárias e co-
essa problemática também pode ser encontrada numa sur- munitaristas. Se esses elementos temáticos não são mais do
preendente passagem de Miséria da Filosofia (1847): “Este que uma faceta do pensamento dos fundadores do marxismo
é o tempo em que as coisas que antes eram […] ofertadas, e se não se instituem como uma perspectiva global, não é
mas jamais vendidas, adquiridas, porém nunca compradas menos verdadeiro que essa dimensão romântica é tão crucial
– virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc -, em que quanto desconhecida.
tudo, enfim, se transforma em comércio. Este é o tempo da
corrupção geral, da venalidade universal […]”.8 Ou, ainda, MARX E ENGELS: SOBRE OS ESCRITORES
8. MARX. Misère de la Philosophie.
Paris: Ed. Sociales, 1947, p. 33. as famosas linhas do Manifesto Comunista, denunciando uma ROMÂNTICOS
sociedade invadida pelas “águas geladas do cálculo egoísta”, Contrariamente a uma imagem largamente difundida,
na qual o único laço subsistente entre os seres humanos é o para Marx e Engels a literatura de imaginação sempre teve
“pagamento em espécie”, o cash nexus; em suma, uma socie- importância fundamental. Em sua juventude, Marx compôs
dade cuja classe dominante, a burguesia, “dissolveu dignida- algumas peças literárias – principalmente poemas – e che-
de pessoal no valor de troca”.9 O que caracteriza tais críticas gou mesmo a sonhar com a vida de escritor. Depois disso,
9. MARX, ENGELS. Manifeste du
parti communiste, p. 76. como românticas é a comparação – implícita ou explícita e ao longo de toda a sua colaboração com Engels, ambos
se mostraram fortemente interessados em literatura, tanto

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a clássica quanto a moderna, continuamente imersos nesse designados. No caso de alguns autores “realistas” – como
tipo de leitura e sempre incluindo em seus escritos – inclu- Balzac e Dickens – não é certo que nossos autores os te-
sive suas correspondências – referências literárias.10 Além riam classificado como românticos. Ainda assim, tampouco
10. A extensão da cultura literária de
Marx e sua presença na obra são disso, longe de ser um mero passatempo, esse interesse por é menos verdadeiro que os comentários acerca desses dois
magistralmente analisadas em obras estéticas, ao implicar uma certa maneira de se con- romancistas encaixam-se bem na concepção de Romantismo
PRAWER. Karl Marx and World
Literature. Oxford: Oxford U P. ceber a arte, está integralmente associado ao conjunto de indicada acima – concepção essa não muito distante da que o
1976. seus trabalhos.11 Não obstante a importância da literatura e próprio Marx sugere nos Grundrisse. Quanto às noções que
11. Conforme o observa Terry da arte para os fundadores do marxismo, são relativamente lhes foram próprias, de início, referiam-se, sobretudo, à “es-
Eagleton em prefácio à tradução poucos os textos nos quais desenvolvem, com algum deta- cola romântica” da época. Como afirma Stefan Morawski,
inglesa, uma das principais
contribuições do estudo de
lhe, suas ideias acerca dos movimentos, autores e obras. Em “Marx e Engels foram, ambos, e de forma independente,
Mikhail Lifshitz, La philosophie muitos casos, deixaram apenas observações fragmentárias, partidários desse movimento, o qual, sob a influência de
de l’art de Karl Marx (edição o mais das vezes misturadas a comentários sobre temas po- Hegel, passarão a rejeitar […]. No contexto das correntes
russa de 1933) é a de “analisar os
julgamentos estéticos de Marx líticos, históricos, entre outros. Mas a abordagem das rela- intelectuais da primeira metade da década de 1840, eles se
como um elemento interno ao ções de Marx e Engels com obras literárias pode contar com situavam, sem dúvida, como antirromânticos. No entan-
seu desenvolvimento teórico
geral”, além de mostrar como,
outra fonte de informações, bastante rica: o testemunho de to, em um sentido mais amplo, Marx e Engels beberam
em Marx, “é forte e contínuo pessoas de seu círculo íntimo e familiar. Tal como ocorre no Romantismo...”12 Na sequência, se continuaram a pare-
o diálogo com os produtos de 12. MORAWSKI. Marx and Engels on
imaginação”. LIFSHITZ. The
com todas as memórias pessoais – frequentemente narradas cer, no geral, hostis a essa escola e sua ideologia, tal como Literature and Art. Introduction,
Philosophy of Art of Karl Marx. muito depois dos fatos ocorridos e, por vezes, pouco fiáveis a entendiam, e se Marx, em diversas ocasiões, fustigou os p. 44.
Trad. R. B. Winn. Londres: Pluto -, esse recurso pede cautela. Dito isto, através do cotejo entre românticos franceses Chateaubriand e Lamartine,13 ele e
P, 1973, p. 7. 13. No caso de Lamartine, os
diferentes textos e testemunhos, torna-se possível identifi- Engels manifestaram sua admiração por um grande núme- ataques de Marx voltam-se
car, com bastante segurança, um certo número de pontos ros de escritores que participariam da tendência romântica, exclusivamente para o seu papel
político. Sobre a atitude de Marx
de vista ou, em outros casos, constituir hipóteses plausíveis. tal como a definimos. No restante deste texto, abordaremos relativa aos dois autores, ver
alguns de seus autores principais, após tratar das leituras, PRAWER. Karl Marx and World
Como já dissemos antes, em nossa investigação sobre a Literature, p. 162-64, 165, 169,
gostos e produções românticas de Marx em sua juventude e
abordagem de Marx e Engels relativa a escritores e obras 205-06, 257, 271, 420.
em sua vida e meio familiar mais tardios.
românticas, não nos limitamos apenas aos que assim foram

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A ÉPOCA DE JUVENTUDE DE MARX Nesses primeiros escritos, o único remédio para os males
Durante seus estudos universitários (1835-1841), inicial- do presente é permanecer afastado, refugiando-se no uni-
mente em Bonn e, depois, em Berlim, Marx esteve próximo verso poético, e é essa recusa em se envolver com o mundo,
das correntes românticas alemãs e chegou a escrever obras tomada como uma característica definidora da escola ro-
literárias de tipo romântico, para, em seguida, tornar-se cada mântica, que Marx acabará por rejeitar. Mas isso não signi-
vez mais crítico em relação a tal corrente e às suas próprias fica que ele renegue, necessariamente, todos os elementos da
criações no gênero. Em 1835, em Bonn, Marx frequentou os visão romântica que, antes, o haviam atraído. A persistência
cursos de A. W. Schlegel, um dos fundadores do movimen- de aspectos do Romantismo é, aliás, sugerida na famosa car-
to alemão, enquanto, em Berlim, conheceu pessoalmente ta que Marx escreveu a seu pai em 1837, na qual anuncia o
Bettina von Arnim, membro proeminente do círculo ro- advento de um novo ponto de vista, mais imerso no real e já
mântico da época.14 Os diversos poemas, o primeiro ato de manifesto em poemas recentes: “... esses últimos poemas são
14. Ver ibid, p. 9
um drama, assim como os primeiros capítulos de um roman- os únicos que me fizeram entrever, de repente, e como por
ce satírico escrito por Marx na fase inicial de seus estudos efeito de uma varinha de condão […], o reino, semelhante a
encerram evidentes características românticas. Seu esboço um longínquo palácio feérico, da poesia verdadeira, face ao
romanesco adota a veia fantástica e cômica de um E. T. A. qual todas as minhas criações viraram pó.” 17 O jovem Marx
17. MARX, ENGELS. Sur la littérature
Hoffmann, e os poemas não apenas recuperam um conjun- descreve, aqui, através de metáforas fantásticas – a “varinha et l’art. p. 113.
to de imagens típicas da escola romântica alemã – harpas e de condão” e o “palácio feérico” – seu retorno à realidade. De
barcos encantados, cantos de sereias, delírios noturnos, etc.15 fato, mesmo em sua “maturidade”, ele não perderá o gosto
15. Ver BLUMERBER, Werner.
Portrait of Marx, trad. D. Scott. – mas também certos temas essências ao Romantismo: a de- pelo fantástico – livre jogo da imaginação – bem como por
New York: Herder and Herder, sumanização experimentada pelo poeta na cidade moderna, alguns escritores românticos que o cultivavam.
1972 (primeira edição alemã:
1962), p. 22. a falta de grandeza da realidade presente, a nostalgia de um
verdadeiro lar (Sehnsucht). Num desses poemas, o mundo MARX EM FAMÍLIA
burguês atual é comparado a um “teatro de macacos” que É na intimidade do círculo familiar (que incluía muitos
evacua emoções e fantasias, reduzindo a existência a “fórmu- amigos, dos quais Engels é o principal) que essa continuida-
las matemáticas” e puramente corporais.16 de melhor se deixa ver. Pois se, a partir da década de 1840,
16. LIFSHITZ. The Philosophy of Art
of Karl Marx, p. 16. Marx não persistiu na escrita de obras literárias, segundo

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diversos testemunhos ele continua a exercitar, oralmente, mundial não oferece símbolo mais justo da alienação do que
sua imaginação – de forte matiz romântico – em contos que esse conto, narrando a história de um anão deformado a
inventava para suas filhas. De acordo com Paul Lafargue, quem, graças a um poderoso feitiço, se atribui tudo o que
futuro marido de Laura, uma das filhas de Marx, “quando outros fizeram e disseram de bom e louvável”.19
19. PRAWER. Karl Marx and World
[elas] eram pequenas, ele costumava distraí-las durante os Literature, p. 373.
Marx era, portanto, um apreciador do fantástico românti-
passeios narrando-lhes intermináveis contos de fadas, con-
co de Hoffmann. Ainda segundo Paul Lafargue, ele também
tos que inventava no percurso e que prolongava em função
apreciava muitíssimo a poesia do romântico escocês Robert
de sua extensão...” Já Eleanor, caçula das filhas, dá mais de-
Burns – poesia embebida nas lendas e folclores do país -,
talhes sobre um desses contos em particular: “Para mim, de
cujos versos gostava de ouvir declamados por suas filhas.20
todas essas incontáveis e maravilhosas histórias, a preferida 20. MARX, ENGELS. Sur la littérature
De modo geral, era costume da família ler em voz alta e dis- et l’art, p. 176.
era a de Hans Rockle. Ela durava meses e meses e se compu-
cutir obras literárias. Nessas conversas e leituras familiares,
nha de um conjunto de narrativas […] Hans Rockle era um
um lugar especial era reservado a certos autores românticos
mágico à moda de Hoffmann, dono de uma loja de brinque-
que, doravante, examinaremos de modo mais detido, a partir
dos e sem um centavo no bolso. Sua loja abrigava os objetos
de escritos e testemunhos pessoais de Marx e Engels.
mais extraordinários: homens e mulheres feitos de madeira,
gigantes e anões, reis e rainhas , mestres e aprendizes […]
THOMAS CARLYLE
Embora fosse um mágico, Hans nunca conseguia pagar as
suas dívidas […]; assim, foi contra sua vontade que vendeu Ensaísta político, correspondente de Goethe, a meio cami-
todas as suas belas coisas para o diabo”.18 nho entre a filosofia e a literatura, Thomas Carlyle é um dos
18. Ibid, p. 179, 181-82. escritores românticos mais apreciados por Marx e Engels. É
A inspiração que Marx encontrava em E. T. A. Hoffmann de seu ensaio sobre o Cartismo (1843), cuidadosamente lido e
é atestada também por outras fontes. No final da década anotado por Marx em 1845 e amplamente citado no livro de
de 1860, enviou uma cópia de um dos contos do mesmo – Engels sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra
“Pequeno Zaches” (Klein Zaches genannt Zinnober) – não só a (1845), que eles irão extrair a crítica ao “cash nexus”, desen-
amigos da família (os Kugelmann), mas também a Engels. volvida em Manifesto do partido comunista. Se não mencio-
Ora, como acertadamente observou S. S. Prawer: “a literatura nam o autor no texto de 1848, Marx o cita em parágrafo de

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um ensaio, publicado em Grundrisse. Quanto a Engels, pu- de outro, reconhece que, em certos casos, essa crítica pode
blica, em 1844, uma calorosa resenha sobre Past and Present adquirir uma dimensão verdadeiramente revolucionária.
(1843), de Carlyle, do qual cita, com aprovação, as virulentas
filípicas contra o “Mamonismo”, a religião do deus do di- BALZAC
nheiro. Claro que reconhece ser “Thomas Carlyle […] origi- Assim como para muitos críticos literários clássicos, para
nalmente um Tory”, mas essa opção conservadora não deixa Jean Fréville, Balzac não é romântico já que é um realista.
de ter laços com as qualidades de seu livro: “É certo que um Ora, existem diversos autores marxistas – dentre os quais
Whig jamais poderia escrever um livro que foi, em parte, tão J. O. Fischer, Pierre Barbéris e, em alguns escritos, Georg
humano quanto Past and Present”.21 Alguns anos mais tarde, Lukács – que dão conta com perfeição do fato de que o au-
21. ENGELS. “Die Lage Englands”
1844. In: MARX, ENGELS. Werke, Engels volta à carga, em artigo sobre Carlyle, publicado em tor d’A Comédia Humana foi, ao mesmo tempo, romântico
Berlim : Dietz Verlag, 1961, vol. 1, 1850. Embora criticando severamente a virada reacionária e realista. Se o Romantismo é, como Marx reconheceu nos
p. 538;542. O partido tory reunia
os conservadores, enquanto desse autor após a revolução de 1848, ele mantém sua estima Grundrisse, a crítica à sociedade burguesa em nome de uma
o whig federava os liberais por seus ensaios anteriores: “Thomas Carlyle tem o mérito plenitude passado, Balzac é, evidentemente, um romântico.
burgueses.
de ter se posicionado, em seus escritos, contra a burguesia,
numa época na qual as concepções, gostos e ideias burgueses Marx nutria verdadeira veneração por Balzac. O Capital
dominavam por completo a literatura inglesa oficial, e isso está repleto de referências às intuições profundas desse ro-
de maneira por vezes propriamente revolucionária. […] Mas, mancista, assim como sua correspondência com Engels.
em todos os seus escritos, a crítica ao presente está estreita- Sobre o tema, dispomos de um testemunho revelador de Paul
mente associada a uma extraordinariamente pouco histórica Lafargue: “Seus romancistas preferidos foram Cervantes e
apoteose da Idade Média, muito frequente, ademais, entre os Balzac. […] Ele tinha uma tal admiração por Balzac que se
revolucionários ingleses, como, por exemplo, Cobbett e uma propôs a escrever um livro de crítica sobre a Comédia Humana
parte dos cartistas”. 22 Essa passagem é fundamental para que tão logo terminasse sua obra econômica.”23 Paixão compar-
23. LAFARGUE, Paul. “Les goûts
22. ENGELS. “Thomas Carlyle”,
se compreenda o entendimento eminentemente dialético de tilhada por Engels, o qual, numa famosa carta à escritora in- littéraires de Marx”. In : MARX,
1850. In: ibid, vol. 7, p. 255. (grifo
nosso) Engels acerca do Romantismo. De um lado, ele percebe que a glesa Margaret Harkness, de abril de 1888, propõe a seguinte ENGELS. Sur la littérature et l’art.
p. 177.
crítica romântica do presente está “estreitamente associada” análise: “Balzac, que acredito ser um mestre do realismo in-
à nostalgia – e, o mais das vezes, à idealização – do passado; finitamente superior a todo e qualquer Zola, do passado, do

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presente ou do futuro, oferece-nos, em sua Comédia Humana, CHARLES DICKENS


a mais maravilhosamente realista história da sociedade fran- Marx também admirava os escritores realistas ingleses,
cesa, descrevendo […] a pressão cada vez maior que a bur- dentre os quais alguns poderiam ser classificados, assim
guesia ascendente exerceu sobre a nobreza restaurada em como Balzac, como românticos. Em um artigo sobre a bur-
1815 […]. Ele descreve como os últimos resquícios dessa so- guesia inglesa, datado de agosto de 1854, escreveu:
ciedade, a seu ver, exemplar, sucumbiram, pouco a pouco,
diante da intrusão do parvenu vulgar da finança, ou foram A brilhante escola moderna de romancistas ingleses, cujas pá-
por ele corrompidos […]. Aprendi mais [com Balzac], mes- ginas eloquentes revelaram ao mundo mais verdades do que
mo no tocante a detalhes econômicos (por exemplo, a redis- todos os políticos profissionais, polemistas e moralistas em
tribuição da propriedade real e pessoal após a revolução), do conjunto, descrevendo todas as camadas da classe média, do
que em todos os livros de historiadores, economistas e esta- rentista “altamente respeitável”, detentor dos valores de Esta-
tísticos profissionais da época, tomados em conjunto. Sem do e que olha com desprezo para os negócios, até o pequeno
dúvida, em política, Balzac foi um legitimista; sua grande comerciante e o escrevente. E como Dickens e Thackeray, a
25. MARX. La classe moyenne
obra é uma perpétua elegia a deplorar a irremediável de- Srta Brontë e a Sra. Gaskell os retrataram? Repletos de vaidade, anglaise. New York Tribune, 1 de
composição da alta sociedade; suas simpatias se dirigem para afetação, tirania mesquinha e de ignorância; o mundo civiliza- agosto de 1954. In : ibid, p. 134.
o lado da classe condenada a morrer. Mas, apesar disso, sua do confirmou esse julgamento através de um epigrama que os
26. S.S. Prawer indica (op. Cit, p
sátira nunca é mais mordaz e sua ironia mais amarga do que flagela e persegue e que afirma ‘se tratar de uma classe subser- 237) que, segundo os editores
quando põe em cena esses aristocratas […].”. Engels atribui viente diante dos superiores e tirânica com os inferiores. 25 das Oeuvres completes de Marx
e Engels (MEW), o artigo que
tal lucidez de Balzac ao que chama de “triunfo do realismo” acabamos de citar teria sido
Essa passagem – cujo argumento seria retomado por
sobre seus “preconceitos políticos”, mas podemos também consideravelmente modificado
Engels em formulação similar sobre Balzac, citado anterior- pelos redatores do Jornal em
nos perguntar se, como ocorre com Carlyle, tal lucidez não
mente neste texto26 – revela a grande fonte de conhecimen- questão. Porém, a similaridade de
estaria “estreitamente associada” a essa nostalgia do passado. formulação entre nossa citação
to que fora, para Marx, um certo tipo de literatura realista,
Sua ironia amarga no que toca à aristocracia de sua época e a que a precede, assinada
cuja crítica, ao mesmo tempo social e moral e, muitas vezes, por Engels, poderia ser um
não seria, assim, inspirada exatamente pela evidência de sua indício, entre outros, de que o
de inspiração romântica, é lúcida e impiedosa . O termo in-
corrupção pelo dinheiro burguês?24. texto final do artigo não altera
24. Engels. “Lettre à Miss Harkness”, glês “middle class” significa mais “burguesia” do que “classe substancialmente o pensamento
abril de 1888. In : ibid, p. 148-49. de Marx (e de Engels).

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média”. Sem ser um legitimista, como Balzac, Dickens não e admiradas pela família Marx. A escritora Marian Comyn,
deixava de ser um escritor romântico, profundamente in- amiga de infância de Eleanor Marx, lembra ter ficado im-
fluenciado por Carlyle, de quem retoma numerosos temas pressionada com o número de obras literárias inglesas da bi-
– notadamente a crítica ao maquinismo e à quantificação blioteca do pai da amiga, mas narra, com mais detalhes, “uma
mercantil. A que obras de Dickens Marx se refere aqui? Ele conversa na hora do almoço sobre autores vitorianos e a
conhecia bem Oliver Twist, cujo primeiro capítulo oferece admiração expressa por toda a família por Charlotte e Emily
uma inesquecível imagem do sofrimento das crianças po- Brontë, ambos consideradas muito superiores a George
bres internadas em orfanatos e vítimas da cruel “filantropia” Eliot”.28
28. COMYN, Marian. “My
burguesa. Marx cita uma passagem em O Capital, sobre o Recollections of Karl Marx”, The
A alusão de Marx no artigo de jornal de 1854 pode se refe-
uso capitalista das máquinas, mas se trata de uma frase do Nineteenth Century and After,
rir ao único – não obstante imponente – romance de Emily vol. 91, janeiro de 1922. Esse
bandido Bill Sikes, relativa à impossibilidade de se criticar
Brontë, Wuthering Heights (O morro dos ventos uivantes), pu- texto se encontra disponível em:
o uso da faca para a degola das vítimas sem a abolição des- http://www.marxist.org/subject/
blicado em 1847. Essa obra, que retrata uma paixão amoro-
se instrumento precioso e, consequentemente, o retorno à women/authors/comyn/marx.
sa atormentada, associada à natureza selvagem do extremo htm. Ver p. 6-7.
barbárie.27 O mais provável é que a frase do artigo de 1854
27. MARX. Das Kapital, vol. 4, p. norte da Inglaterra e ao seu folclore “primitivo”, também
465, citado em MARX, ENGELS. remeta a Hard Times, que acabara de ser publicada em folhe-
coloca em cena, numa representação ao mesmo tempo sutil e
Über Kunst und Literatur. Berlim: tim (a partir de abril 1854) e que denunciava, com uma iro- 29. Para uma excelente análise
Verlag Bruno Henschel und Sohn, violenta, a desumanização e a reificação dos laços humanos a marxista desse romance, ver o
nia feroz, a “tirania mesquinha” dos burgueses, seu espírito capítulo a ele consagrado em
1948, p. 59. partir das modernas relações de classe.29 Contudo, conforme
frio e quantificador, seu utilitarismo medíocre e as nefastas EAGLETON. Myths of Power:
observado por S. S. Prawer, não encontramos nenhuma re- A Marxist Study of the Brontës.
consequências do maquinismo industrial.
ferência explícita a Emily Brontë ou ao seu romance na obra Londres: Macmillan, 1975.

escrita de Marx.30 Prawer assinala, porém, uma significativa


AS IRMÃS BRONTË 30. PRAWER. Karl Marx and World
alusão a Charlotte, numa carta de Marx à sua filha, Jenny, Literature, p. 396.
Na lista de romancistas ingleses acima mencionada, tam- datada de 1869, por ocasião de uma visita a Yorkshire, região
bém encontramos a “Senhorita Brontë”. Não está claro qual onde as irmãs Brontë viveram. Em um trecho, descreve uma
das três irmãs – Emily, Charlotte e Anne – todas elas roman- paisagem composta “de belas árvores e [de] um grupo de
cistas, é visada aqui. Um testemunho oriundo do meio fami- montanhas em forma de anfiteatro, cada uma mais alta do
liar atesta que ao menos as duas primeiras eram conhecidas

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que a outra e todas envoltas no véu azul que sempre encan- teria sido difícil colocar uma citação como essa na seção in-
tou tanto Currer Bell [pseudônimo de Charlotte Brontë]”.31 titulada “contra o Romantismo”!
31. Ibid, p. 377.
Embora não tenha sido nomeado, o romance em que aparece
A única outra menção a Shelley e Byron presente na co-
esse encantador “véu azul” não é Jane Eyre, mas Shirley (1849).
letânea de Fréville diz respeito a um distinguo relativo aos 34. A história dessa relação é
Ora, esse “romance industrial” encena o conflito de classe a bem conhecida: vivendo em
dois poetas, supostamente feito por Marx, mas repertoriado concubinato com Eleanor Marx
opor operários têxteis, desempregados após a introdução de
apenas através de terceiros. Trata-se de uma passagem do durante anos, Aveling manteve
novas máquinas, e o patrão, arrogante, tirânico e insensível múltiplas outras ligações
panfleto “Shelley socialista”, publicado em 1888 por Edward
a tudo, afora aos lucros de sua usina. Como ocorre em outros amorosas e terminou por trocar
Aveling, em colaboração com Eleanor Marx, sua infeliz a companheira por uma jovem
textos românticos do mesmo tipo, é através da ação de uma
companheira34: “Marx […] adorava repetir que ‘a verdadeira atriz; porém, vítima de uma grave
mulher que esse último será levado a uma tomada (parcial) doença, voltou para Eleanor
diferença entre Byron e Shelley está no seguinte: todos os para se tratar; parcialmente
de consciência de seus erros. Não é impossível, portanto, que
que o amam e o compreendem consideram uma felicidade curado, confiou-lhe ter se casado
Marx pensasse muito particularmente em Shirley ao incluir secretamente com a atriz e sua
o fato de Byron ter morrido aos trinta e seis anos, pois teria intenção de voltar para ela. Se tal
a “Senhorita Brontë” em sua lista acerca da “brilhante escola”
se tornado um burguês reacionário caso tivesse vivido mais comportamento sem dúvida não
inglesa. 32 foi a única causa do suicídio de
32. Para uma análise do conflito de tempo; por outro lado, eles lamentam a morte de Shelley aos Eleanor Marx, ocorrido um pouco
classes em Shirley, ver Patricia
INGHAM. The Brontës. Oxford:
vinte e nove anos, pois se tratava de um completo revolu- depois, não há grandes dúvidas
SHELLEY E BYRON
Oxford U P, 2006, p. 110-121. cionário, que teria sempre pertencido à vanguarda do socia- de que contribuiu para isso.
A natureza tendenciosa e falaz da apresentação de Fréville lismo”.35 Para S. S. Prawer, porém, tal afirmação é um caso
35. MARX, ENGELS. Sur la littérature
sobre as ideias de Marx e Engels se exibe no fato de ter in- claro de testemunho não confiável. Pois, como ele insiste, et l’art, p. 180.
cluído, na seção “para uma literatura revolucionária”, um quando Marx refere-se a Byron em seus escritos, é sempre
comentário muito elogioso de Engels acerca de dois poetas em tom “de aprovação evidente. […] O que sabemos sobre a
ultrarromânticos: “Shelley, o brilhante e profético Shelley, sensibilidade literária e discernimento político de Marx não
e Byron, em seu ardor sensual e sua amarga sátira à socie- sugere que ele pudesse ser suficientemente obtuso a ponto
dade existente, são lidos, o mais das vezes, pelos operários; de ver um ‘reacionário burguês’ potencial no autor de Don
33. ENGELS. La situation de la classe os burgueses só possuem edições censuradas, family editions, Juan. Por outro lado, conhecemos muito sobre a ‘propensão 36. PRAWER. Karl Marx and World
laborieuse en Angleterre. Œuvres, Literature, p. 397. A frase citada
t. IV ; citado em MARX, ENGELS.
arrumadas ao gosto da moral hipócrita do dia.” 33 Com efeito, para falsificar fatos’ de Edward Aveling”. 36 Ao contrário de é de Yvonne Kapp, biógrafa de
Sur la littérature et l’art, p. 159-60. Eleanor Marx.

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Fréville, que adora distribuir mais ou menos pontos em fun- Pode-se perguntar o que mais atraiu e fascinou Marx na
ção da ideologia, Prawer reconhece em Marx a capacidade de obra desse escocês, conservador tory, apaixonado pelo pas-
ir além desse tipo de juízo, o que teria lhe possibilitado tantas sado de seu país e, em especial, pelas comunidades primitivas
vezes reconhecer qualidades em autores românticos pouco dos clãs das regiões mais recuadas e selvagens. Talvez o que
conformes à sua própria perspectiva. Parece-nos provável, mais apreciasse, assim como Lukács em O romance histórico,
portanto, que Marx, assim como Engels, apreciasse, sem dis- fosse a representação extraordinariamente vívida – e, à época,
tinções, o aporte literário de ambos os escritores. nova – do próprio processo histórico. Porém, com base no
que sabemos sobre o interesse de Marx e de Engels por socie-
WALTER SCOTT dades gentílicas pré-capitalistas e pelos estudos antropológi-
É também em testemunhos pessoais – mas que são, nesse cos acercas de tais sociedades, parece-nos plausível que uma
caso, bem mais confiáveis – que descobrimos a grande es- parte dessa atração venha das descrições de tais sociedades e
tima de Marx pelo romancista histórico Walter Scott. Paul dos valores que poderiam encarnar. Atração, pois, cujas raízes
Lafargue, que durante anos esteve com ele quotidianamente, estariam na dimensão romântica da sensibilidade de Marx. 38
38. É importante notar que em O
conversando sobre os temas mais diversos, afirma, em suas Em conclusão, é claro que Marx e Engels, apesar da antipa- Romance histórico, Lukács,
empregando uma definição mais
Memórias, que Marx “assim como Darwin, era um grande tia por alguns escritores românticos, estavam longe de uma limitada do termo e redigindo
leitor de romances. […] Os escritores modernos que mais rejeição integral da visada romântica e, ao contrário, nela se sua obra num momento
o atraíram foram Paul de Kock, Charles Lever, Alexandre antirromântico, não considera
inspiravam em seu apreço às importantes contribuições de Walter Scott como um escritor
Dumas e Walter Scott. Ele considerava Old Mortality, do certos escritores de peso. Quanto à atração que sentiam por romântico. Ver o primeiro
último, uma obra magistral”. Além disso, nas memórias de certas facetas da literatura romântica mais características –
capítulo de Le Roman Historique.
Paris: Payot, 1965.
infância de Eleanor Marx, já mencionadas, ela atesta que, como o fantástico e o onírico, o sentimento da natureza ou
dentre as leituras favoritas que Marx fazia às filhas, figurava a valorização das grandezas do passado – ela existe, mas deve
Scott. Ela fala da “exaltação por Walter Scott” que compar- ser lida em filigrana, através das lembranças dos que lhes
tilhava com o pai durante essas leituras e indica, de forma eram próximos. Em seus escritos de “maturidade”, os elogios
mais ampla: “Devo acrescentar que Marx relia sem cessar de Marx e Engels vão mais para obras realistas, cujas críti-
37. MARX, ENGLES. Sur la littérature
Walter Scott; ele o admirava e conhecia quase tão bem quan- cas ferozes à civilização burguesa, de inspiração romântica,
et l’art, p. 177, 182-83. to Balzac ou Fielding”.37

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lhes parece repleta de ensinamentos. Com esses romances, ENGELS, Friedrich. “Thomas Carlyle”, 1850. In: MARX, Karl.
eles aprenderam mais, segundo seus testemunhos, do que ENGELS, Friedrich. Werke, Berlim: Dietz Verlag, 1961, vol. 7, p.
255- 265.
em todos os escritos de historiadores, economistas, estatís-
ticos, políticos e polemistas contemporâneos, tomados em INGHAM, Patricia. The Brontës. Oxford: Oxford U P, 2006, p. 110-
conjunto: o que não é pouco! É necessário, então, considerar 121
tais escritores como uma das fontes maiores dessa obra ou, LAFARGUE, Paul. “Les goûts littéraires de Marx”. In : MARX,
se quiser, como matérias a partir das quais eles construíram ENGELS. Sur la littérature et l’art. FRÉVILLE, Jean (org). Paris:
um diagnóstico próprio acerca da facies hippocratica do mun- ESI, 1936, p. 177-189.
do capitalista.
LIFSHITZ, Mikhail. The Philosophy of Art of Karl Marx. Trad.: R.
B. Winn. Londres: Pluto P, 1973.
REFERÊNCIAS39
39. Com o objetivo de facilitar as LÖWY, Michael. SAYRE, Robert. Révolte et mélancolie: le
discussões sobre o assunto aqui BLUMERBER, Werner. Portrait of Marx. Trad.: D. Scott. New
romantisme à contre-courant de la modernité. Paris : Payot,
tratado, os editores tomaram York: Herder and Herder, 1972.
a liberdade de normatizar as 1992.
referências bibliográficas desta COMYN, Marian. “My Recollections of Karl Marx”, The
tradução. Todas seguem fieis às LÖWY, Michael. Le romantisme révolutionnaire. Europe, número
Nineteenth Century and After, vol. 91, janeiro de 1922, p. 6-7.
notas do texto original, publicado 900 – Avril 2004.
na revista Em Tese, v. 19, n. 2, Disponível em: http://www.marxist.org/subject/women/authors/
ano 2013. comyn/marx.htm
LUKÁCS, Geörgy. Le Roman Historique. Paris: Payot, 1965.
EAGLETON, Terry. Myths of Power: A Marxist Study of the
MARX, Karl. La classe moyenne anglaise. New York Tribune, 1 de
Brontës. Londres: Macmillan, 1975.
agosto de 1954. In : MARX, ENGELS. Sur la littérature et l’art.
FRÉVILLE, Jean (org). Paris: ESI, 1936, p. 134.
ENGELS, Friedrich. “Lettre à Miss Harkness”, abril de 1888. In :
MARX, ENGELS. Sur la littérature et l’art. FRÉVILLE, Jean (org).
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ENGELS, Friedrich. “Die Lage Englands” 1844. In: MARX, Karl.
MARX, Karl. Misère de la Philosophie. Paris: Ed. Sociales, 1947.
ENGELS, Friedrich. Werke, Berlim: Dietz Verlag, 1961, vol. 1, p.
538-542.

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1976.

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AS DISJUNÇÕES COMO CHAVE PARA UMA
INTERPRETAÇÃO DIALÉTICA DE ANGÚSTIA

Felipe Oliveira de Paula* * fopaula@yahoo.com.br


Doutorando em Estudos Literários pela UFMG, e
mestre pela mesma instituição.

RESUMO: Com o objetivo de interpretar a formação da ABSTRACT: In order to interpret the formation of Luis da
individualidade de Luís da Silva, narrador-personagem do Silva individuality, narrator-character of the novel Angústia
romance Angústia (1936), analisei como ele se relaciona (1936), analyzed as it relates to the main characters and
com os principais personagens e como eles se integram how they integrate in objective reality. This allows us to
na realidade objetiva. Isso permitiu compreender como understand how the protagonist was developing its own,
o protagonista foi desenvolvendo uma maneira própria, disjunctive, way to grasp the contradictions generated
disjuntiva, de apreender as contradições geradas pela by social dynamics. The disjunction characteristic of his
dinâmica social. A disjunção, característica de sua perso- personality, not, however, restricts its worldview, but is
nalidade, não se restringe, contudo, a sua visão de mundo, implemented in the way of narrating and also works as a
mas é transposta na sua maneira de narrar e funciona principle in the work of internal organization.
também como princípio de organização interna na obra.
KEYWORDS: Narrator; character; narrative.
PALAVRAS-CHAVE: Narrador; personagem; narrativa.
150

O significado da palavra disjunção é “separar o que ini- Percebe-se que há na narrativa de Luís da Silva uma espé-
cialmente está unido”, e, nesse sentido, pode-se pensar uma cie de encontro e desencontro permanente entre o persona-
leitura que leva em conta a existência de duas funções estru- gem e o narrador, mas sua compreensão efetiva só é possível
turais distintas quando se fala em Luís da Silva, protagonista caso eles sejam pensados na sua unidade. Não é recomendável
do romance Angústia (1936): a do narrador e a do persona- interpretar o narrador sem o personagem, nem o contrário. É
gem. É possível analisar a mudança dos seus pontos de vista preciso, antes, o entendimento do personagem para se chegar
e, também, muito do que se manteve na sua personalidade ao narrador, e o do narrador para melhor conhecimento do
desde sua fase infantil até a adulta como decorrentes dessa personagem, isto é, o personagem e o narrador podem ser
disjunção estrutural. Assim, estabelece-se certo tipo de des- destacados um do outro para serem analisados, mas o enten-
locamento contínuo da visão de mundo do narrador em dire- dimento de Luís da Silva e da narrativa de Angústia só se reali-
ção à do personagem, e vice-versa, o que provoca uma tensão za de modo satisfatório caso vistos na sua totalidade. Dizendo
constante entre os diferentes tempos e faz com que a função de outra maneira, não é possível analisar o personagem e o
estrutural (narrador e personagem) esteja indissoluvelmente narrador apenas como tais, isto é, apenas em sua configu-
ligada à disjunção temporal (presente e passado). Ao mesmo ração como personagem ou narrador. No caso de Angústia,
tempo, a tentativa de utilizar o termo “disjunção” como uma a voz que expõe o personagem sofreu intimamente toda a
possível chave interpretativa de Angústia não se restringe à sua transformação existencial. Com efeito, em muitos casos,
aplicação do significado literal da palavra, pois, se assim o quando está lembrando e relatando sobre como era sua vida
fosse, a análise não daria conta de acompanhar a dinâmica no passado, é possível distinguir o narrador do personagem,
própria da narrativa, impedindo as flexões da matéria narra- mas essa distinção é interna, dá-se no próprio Luís da Silva,
da. Por não se tratar de um romance chapado, não é possível o que diferenciaria, e muito, da exposição de um narrador
utilizar um conceito fechado, mas exige-se um que brota a em terceira pessoa, mesmo se ele fosse onisciente e/ou oni-
partir da leitura da obra. Pensando nisso, aplica-se “disjun- presente, pois não teria vivido tais experiências e não seria
ção” não só como a separação do que está unido, mas, do afetado por elas, tal como foi Luís da Silva.
mesmo modo, no seu movimento contrário e complementar,
A preocupação não está em descrever algo de fora, com
a junção do que se apresenta apartado. É nessa relação dialéti-
um olhar neutro em relação ao objeto, mas em instaurar
ca entre desunir e integrar que o conceito é aqui empregado.

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Em Tese
151

uma perspectiva que nasce do objeto e se descola dele para O SISTEMA DE RELAÇÕES DE LUÍS DA SILVA
tentar entendê-lo melhor. Ao contrário do romance em que Para Luís da Silva, a realidade sempre se constitui numa
o narrador está fora dos eventos narrados, existe aqui um ambivalência, e para que ele a compreendesse foi necessá-
narrador que está dentro e se coloca como personagem o rio desenvolver uma maneira própria de englobar os opos-
tempo todo para, então, analisar sua condição. Institui-se, tos, de modo que as diferentes atitudes e imagens de uma
assim, uma perspectiva crítica do objeto, de tal modo que, mesma pessoa não se anulassem ou se excluíssem, mas se
ao retornar ao passado, Luís da Silva põe em prática um complementassem, formando uma totalidade. Nesse senti-
tipo de distanciamento com relação a ele mesmo, sem dei- do, a disjunção foi se tornando uma característica própria
xar de sê-lo. Isso não é específico do terceiro romance de da personalidade de Luís da Silva. Para entender como ela
Graciliano Ramos, mas a maneira de lidar sim, pois através foi sendo internalizada, é preciso compreender como os
da disjunção é possível, por exemplo, entender como Luís efeitos do desenvolvimento desigual de vários complexos
da Silva internaliza a passagem de uma sociedade tradicional sociais atuaram na subjetividade do personagem. Pois um
e agrícola, sustentada pelo latifúndio, para uma sociedade conhecimento preciso de Luís da Silva pressupõe a noção
moderna, na qual se percebem várias modificações culturais tanto da propriedade específica do seu modo de ser como de
e sociais aliadas à formação de uma burguesia industrial, mas suas ligações sociais. O desconhecimento da relação, de que
que conserva o dinheiro como principal catalisador ético e a unidade do ser humano existe na diversidade, pode levar
moral. Com as disjunções narrador-personagem e presen- a uma falsa conclusão. Nesse raciocínio, a disjunção é uma
te-passado, captam-se os movimentos íntimos e históricos caracterização que deve ser historicamente situada, não vista
decorrentes da passagem da sociedade rural para a urbana, como algo abstrato ou isolado, já que ela só pode ser conce-
propiciando implementar na mesma realidade a coexistência bida através daquilo que ele se tornou no seio das relações
de dois índices de tempo e de foco narrativo. mantidas ao longo de sua vida.
A partir disso, no primeiro momento, serão recuperadas Com efeito, privilegiar o estudo da essência humana em
as principais relações do personagem que podem ter desen- detrimento da social, ou o contrário, significa uma clivagem
cadeado um modo disjuntivo na sua visão de mundo, para, do ser em espírito e corpo, o que promove uma observa-
logo depois, entender como a disjunção está incorporada na ção da individualidade numa constituição bipartida do ser
forma narrativa de Angústia. humano. Para evitar esse tipo de raciocínio, Luís da Silva é

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pensado numa formação simultânea como um ser social e Silva se comportar socialmente, já que, depois das modifica-
como um ser único. Usando livremente as ideias de Georg ções sócio-históricas, sobretudo após a lei áurea (1888), tudo
Lukács1, podemos dizer que Luís da Silva existe ao mesmo aquilo que era admirado por seu avô e por seu pai deixou de
1. LUKÁCS, Prolegômenos para
uma ontologia do ser social, p 80. tempo como um exemplar do seu “gênero” e como uma sub- fazer parte da organização familiar; restaram apenas ruínas.
jetividade “singular”. O personagem Luís da Silva pode ser Foi um período de grandes dificuldades e, junto, vieram pro-
visualizado como um exemplar do seu gênero ao se consi- blemas de adaptação ao novo estilo de vida, o que pode ser
derar que ele é neto de um aristocrata que no final do século comprovado no fato de o avô não ter se acostumado com
XIX perdeu todo seu poder, e que, em decorrência disso, sua decadência e continuar se comportando como grande
aconteceu uma mudança radical na estrutura de sua família. senhor; o que se comprova nas ocasiões em que ele ficava
Essa transformação, advinda do fator econômico, pode ser bêbado na Vila e só voltava para casa com a ajuda de seu
reconhecida não só em Luís da Silva, mas em pessoas que ex-escravo, mestre Domingos. Camilo Pereira também agia
viveram numa época de transição e não conseguiram con- como se a família continuasse fazendo parte da oligarquia
tinuar desfrutando dos privilégios até então concedidos à rural e passava os dias curtindo sua preguiça na rede. Por
oligarquia rural. tudo isso, o personagem principal vai se desenvolver num
ambiente ambivalente de decadência e de orgulho por ter
Quanto a sua singularidade, é preciso pensar como ele in-
feito parte da classe abastada no passado. Não se pode negar
ternalizou essas modificações e lidou com toda essa reestru-
que esse contexto vai ser um fator importante na formação
turação. Para isso, mostra-se importante a imagem do seu
da sua personalidade. Primeiro, porque a falência da famí-
avô Trajano Pereira e a do seu pai, Camilo Pereira. Nascido
lia vai implicar diretamente nas suas condutas do cotidiano,
e crescido num momento de transição histórica e familiar,
visto que ele e o pai são obrigados a sair da fazenda à procura
Luís da Silva costumava ouvir histórias de grandes feitos do
de melhores condições de sobrevivência na Vila. Segundo,
velho Trajano e, ao mesmo tempo, convivia com ele desti-
porque todo esse ressentimento em relação à mudança de
tuído física e economicamente, o que despertou no persona-
classe social vai ser uma constante na personalidade do pro-
gem um sentimento paradoxal de pena e admiração. Luís da
tagonista, acompanhando-o durante a sua trajetória e pro-
Silva viveu toda a sua infância e o início de sua adolescência
duzindo nele recalques que culminarão no enforcamento de
presenciando uma maneira nova e conflituosa de a família
Julião Tavares.

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Assim, o que há de mais singular em Luís da Silva só heterogêneas quer pelo conteúdo quer pela forma, como ele-
pode ser identificado quando concretizado, em práticas ou mentos dinâmicos da própria personalidade, só o poderemos
em pensamento. Sua maneira própria de apreender o mo- fazer lembrando que nesse complexo sempre móvel, sempre
mento de mudança do regime monárquico para o republi- processual, cada momento nasce de problemas sociais reais
cano e a decadência da família, existindo ao mesmo tempo da respectiva fase da generidade, e, qualquer que seja a práxis
como “exemplar do gênero” e como “subjetividade singu- em que se traduz, em última análise, da mesma forma nela
lar”, só pode vir à tona e ser realçada quando suas quali- desemboca. Portanto, é ontologicamente impossível apenas
dades forem percebidas num processo de desenvolvimento imaginar uma individualidade sem essa origem e esse desfe-
essencialmente histórico. Em outras palavras, Luís da Silva cho, e muito menos ver, em seu ser isoladamente pensado,
não existia como se fosse um balão vazio que de repente se em seu – sob esta óptica: pretenso – movimento próprio, o
encheu, obtendo uma forma. Com movimentos próprios, princípio unificante, que realmente orienta a individualidade.
a sua consciência e, por conseguinte, a sua individualidade (LUKÁCS, 2010, p. 100).
foram paulatinamente sendo constituídas nas suas relações Diante disso, para captar uma característica própria do
sociais, o que impede de pensá-las como desconexas da rea- personagem Luís da Silva, mostra-se necessário ter em men-
lidade em que vive. A modificação geral do mundo e sua te suas relações como elementos dinâmicos que atuam na sua
própria modificação é que formam a subjetividade de Luís personalidade (também dinâmica). Cada movimento geral
da Silva. Pensando no objetivo desta parte do trabalho, a é processado e incorporado a sua personalidade de maneira
assimilação da disjunção à sua visão de mundo também deve específica, promovendo uma percepção subjetiva dos acon-
ser enxergada na dinâmica existente entre os complexos que tecimentos. Novamente, para entender a complexidade des-
compõem a sua totalidade, uma vez que toda modificação ou se sistema de relações, é preciso fazê-lo diante de problemas
constituição é desencadeada por inter-relações reais. concretos, e, por se tratar de uma narrativa ficcional, privi-
legiou-se a configuração dos personagens mais significativos
Se, portanto, quisermos compreender de modo mais multi- da trama.
lateral e objetivo possível o tornar-se indivíduo do homem,
quisermos entender suas tentativas vitalmente necessárias de O processo histórico é múltiplo e está em constante mo-
levar à unidade em si mesmo, as decisões isoladas altamente dificação, o que impulsiona os indivíduos a agirem de modo

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plural dentro de um mesmo contexto social. Segundo essa que sua função exige a divisão de sua vida em pelos menos
lógica, é inverossímil exigir dos personagens, que na narra- duas partes: pública e privada 2. A primeira relaciona-se ao seu
2. GOLDMANN, A reificação, p. 107.
tiva estão todos situados historicamente, as mesmas atitudes papel dentro do sistema patriarcal brasileiro, sendo impelido
diante de situações diversas. Assim, por exemplo, é inviável a incrementar sua destreza e sua astúcia de cangaceiro para
ao velho Trajano reagir nos seus últimos anos de vida tal continuar exercendo com eficiência seu trabalho; e manter
como nos seus anos de glória. As situações se apresentam sua relação de cordialidade com Trajano. Disso resultou o
para ele sob ângulos diferentes: antes, podia resolver rapida- respeito misturado a medo de todos a sua volta. Na segunda,
mente seus problemas tendo como base seu poder de mando; ele exerce suas características extraídas do caráter subjetivo
depois de sua falência, tudo passou a ter outro significado e nas relações de amizade com Luís da Silva e com os morado-
outra repercussão, já que o dinheiro não era mais sua base; res e frequentadores da fazenda. Novamente, percebe-se que
acrescentem-se a isso suas dificuldades físicas e mentais, as a configuração desse personagem dentro da narrativa acom-
quais, por sua vez, o impossibilitaram de ter as mesmas per- panha uma movimentação íntima e geral, sendo eliminada,
cepções que tinha no tempo em que era grande senhor. Em por sua vez, sua interpretação como algo abstrato, visto que
suma, o movimento próprio da sociedade e a dinâmica do não se trata de uma criação imaginária de Luís da Silva.
personagem fazem com que ele se configure na narrativa de
Revela-se, assim, a importância e a influência do mundo
maneira ambígua.
senhorial na construção da individualidade do protagonista,
José Baía também é apresentado na narrativa com atitudes pois, dentro dessa sociedade em transição, as duas pessoas
aparentemente contraditórias. Assim como o velho Trajano, mais próximas não se apresentavam de modo uniforme.
não se pode entender sua caracterização desvinculada do pro- Desde criança, Luís da Silva vai aos poucos constituindo um
cesso de desenvolvimento do Nordeste brasileiro. José Baía é olhar capaz de apreender as contradições geradas pelo con-
um cangaceiro hábil e oferece sua força de trabalho em troca vívio social.
de alimentação, moradia e proteção do avô do protagonista.
Na sua fase adulta, num ambiente citadino, a realidade
Aos poucos, o agregado foi se tornando grande amigo de Luís
não deixa de ser ambivalente, e, junto a essa dinâmica, as
da Silva e nos intervalos do seu trabalho ficava proseando e
pessoas continuam agindo de forma plural e, muitas vezes,
contando histórias para o menino. Com efeito, percebe-se
contraditória. Julião Tavares, por exemplo, como integrante

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Em Tese
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da nova classe média, aproveita os privilégios de sua posição importância e validade para a literatura local ou brasileira,
para desenvolver uma habilidade de se comunicar, para pu- o que ele quer é apenas recolher os elogios provenientes de
blicar seu livro e difundi-lo por todo o estado de Alagoas, e sua publicação, para, assim, sustentar seu ego. Da mesma
também para frequentar ambientes distintos. No entanto, maneira, ele participa dos eventos culturais importando-se
a facilidade de se expressar se resume e se estagna numa com o que eles podem trazer de satisfação pessoal. Isso se
loquacidade bacharelesca, formalizada num livro de poesia aplica às idas ao teatro, pois Julião Tavares pouco se im-
que exalta a “cor local” sem grande expressão e sem contri- porta com a peça, a dramatização, os atores, etc.; o que ele
buir para o momento literário. Para o narrador, ele só con- quer é ostentar sua presença no camarote da família. As idas
segue essa publicação devido à influência da família Tavares à casa de Marina e o estreitamento das relações, também
no meio jornalístico. O passaporte que tem para acessar di- com Dona Adélia, não passavam de uma artimanha para
ferentes espaços é aproveitado para se exibir e sustentar seu seduzi-la. Tudo sempre tem um objetivo particular, e, para
status social. O primeiro caso pode ser reconhecido no dia atingi-lo, ele não mede esforços.
em que Luís da Silva o encontrou no Instituto Histórico co-
A mesma lógica que rege essas práticas de Julião Tavares
locando em prática sua linguagem verborrágica. No segun-
pode ser relacionada à que rege o sistema capitalista no pla-
do, ele leva Marina para conhecer o teatro, uma maneira de
no econômico, visto que a preocupação maior do comer-
demonstrar sua posição para ela e, em contrapartida, osten-
ciante, como a da família Tavares, está em lucrar com tudo,
tar sua nova conquista para a sociedade. Ainda no segundo,
independentemente dos meios aplicados para tanto. Para
percebe-se que ele frequenta a casa de Marina levando pre-
Eduardo Giannetti 3, esse tipo de pensamento é uma cons-
sentes luxuosos, deixando bem clara sua condição financei- 3. GIANNETTI, Vícios privados,
tante no capitalismo moderno e é visto por alguns economis- benefícios públicos?, p. 160.
ra e, logicamente, encurtando o caminho para conquistá-la.
tas como “caminho da prosperidade”, já que partem da ideia
Percebe-se também que sua inserção social é mediada por
de que quanto mais um indivíduo lucrar, melhor será para o
sua condição material, e todas as vantagens são utilizadas
sistema, pois, assim, ele estaria instigando uma competição,
(com é típico de sua classe) apenas para o próprio bem-
que, por sua vez, traria grandes proveitos para a sociedade.
-estar; tudo se restringe ao aproveitamento pessoal. Não faz
Esse tipo de conduta é classificado como “egoísmo ético”,
parte de sua personalidade uma ética coletiva, isto é, ele não
conceito que auxilia a entender Julião de Tavares, visto que
está preocupado em lançar um livro que realmente tenha

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Em Tese
156

suas práticas só acontecem quando há um objetivo pessoal caracterológico-individuais definidos e rígidos, como ima-
a ser alcançado, como é típico do cidadão burguês no iní- gem determinada, formada de traços monossignificativos
cio do século XX. Assim, a configuração da ambiguidade do e objetivos que, no seu conjunto, respondem à pergunta:
personagem Julião Tavares na narrativa é interpretada com ‘quem é ele?’”4. Diferentemente, o que importa é como cada
4. BAKHTIN, Problemas da poética
clareza à medida que ele é pensado dentro de um sistema de personagem se apresenta tendo vários pontos de vista sobre de Dostoiévski, p. 52.
relações concretas. o mundo e sobre ele mesmo, como se posicionam em relação
à realidade circundante. Nesse sentido, dizer que determina-
Do mesmo modo, a personagem Marina pode ser com-
do personagem tem autonomia significa dizer que existem
preendida por diferente perspectiva quando posta dentro de
mecanismos e meios próprios para a sua configuração, mas
um processo de desenvolvimento social. Proveniente de uma
integrados a uma totalidade cuja essência é múltipla.
família muito pobre, ela sempre teve a ambição de se tornar
uma pessoa com os privilégios da classe burguesa. Nesse sen- A inserção de Luís da Silva nessa sociedade também é con-
tido, ela inicialmente estreita sua relação com Luís da Silva traditória. Impossibilitado de se ajustar à classe endinheira-
pensando ser esse o melhor caminho. Contudo, quando co- da, ele realiza um trabalho improdutivo para ele mesmo, mas
nhece Julião Tavares, vê que Luís da Silva não passava de um produtivo para a manutenção do modo de produção capita-
“pobre coitado”. Suas atitudes contrárias, de aceitar a pro- lista, já que ele é impelido a produzir e difundir uma ideolo-
posta de casamento do seu vizinho e logo depois recusá-la, gia que tem como objetivo conservar a exploração de que ele
fazem parte da lógica da personagem, que está socialmente próprio é vítima. Isso fica claro no seu dilema em escrever
situada; o que impede de pensá-la com algo dependente de artigos sobre livros literários de péssima qualidade, ou, no
Luís da Silva. Ela é integrante de uma sociedade que abarca seu desempenho dentro da repartição, onde sua habilidade
e promove vários tipos de contradições sociais, de maneira de escritor é restrita a escritos burocráticos e predefinidos.
que a verdade da personagem depende das complexas inter- Este é, para Letícia Malard 5, o fundamento da consciência
5. MALARD, Ensaio de literatura
-relações sociais mantidas por ela ao longo de sua trajetória. contraditória de Luís da Silva como intelectual, visto que é brasileira, p. 22.
burguês pela sua função ideológica, pequeno-burguês se se
Diante do exposto, observa-se que os personagens
pensar sua posição social e, por fim, trabalhador assalariado
não se mostram interessantes como um fenômeno so-
pela sua situação econômica.
cial, não se procura neles somente “traços típico-sociais e

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Diante de tudo isso, a lógica de Luís da Silva-personagem biografia do autor, privilegiando uma leitura que permitis-
não pode ser interpretada separadamente das outras reali- se compreender a infância de Graciliano Ramos a partir da
dades que lhe dão vida e forma, pois a sua personalidade se de Luís da Silva, e vice-versa; e também por pesquisadores
constitui no sistema de relações. A subjetividade de Luís da que procuraram identificar até que ponto a revolta e o des-
Silva nasce exatamente do relacionar-se, de modo que é no contentamento do protagonista tinham relação com a per-
contato com indivíduos distintos que sua particularidade vai sonalidade do escritor. Muitos estudiosos constataram essa
sendo constituída. A partir de suas relações sociais, em contí- correlação e, em algum grau, conseguiram compreender
nuo desenvolvimento, ele cria sua própria maneira de viver. certas atitudes de Luís da Silva ou de Graciliano Ramos. No
“Esse processo, que se desenrola objetiva e subjetivamente, entanto, diferentemente daqueles que utilizaram o presente
em constante interação entre objetividade e subjetividade, e o passado do protagonista para aprofundar uma análise
faz surgir as bases ontológicas, das quais a singularidade do da vida de quem assina a obra, esta parte do trabalho visa a
ser humano, ainda em muitos aspectos meramente natural, analisar a disjunção na forma narrativa, sem levar em conta
pode adquirir aos poucos caráter de individualidade (social, características da vida empírica do velho Graça.
possível apenas na sociabilidade)”6. Tal pensamento corro-
6. LUKÁCS, Prolegômenos para A disjunção é uma constituinte na subjetividade de Luís
uma ontologia do ser, p. 82. bora a ideia de que a disjunção não é algo imposto, mas sim
da Silva-personagem cuja configuração se deu na sua relação
um elemento que foi se fazendo próprio na maneira de Luís
entre mundo interior e exterior. Esse processo de construção
da Silva ver o mundo. Iniciada na sua infância, ao poucos
da personalidade é concebido não só na visão de mundo que
foi sendo depurada, numa constante interação entre mundo
apresenta, mas também no seu modo de narrar. Quando Luís
interior e exterior, até se tornar uma característica de Luís da
da Silva-narrador expõe sua trajetória de vida, instaura-se
Silva adulto. Por conseguinte, um modo próprio de entender
uma forma disjuntiva na estrutura narrativa acompanhan-
o mundo e a si próprio.
do uma dinâmica própria da sua consciência. A disjunção
representa uma separação técnica entre personagem e nar-
FORMA NARRATIVA
rador na mesma persona ficta, recurso que se mostra comum
O processo de formação da subjetividade do personagem- em romances escritos em primeira pessoa, como demonstra
-narrador de Angústia é deixado de lado por uma parte da Franz Stanzel (1971). Nesses tipos de narrativa existe uma
crítica que se preocupou mais em relacionar o livro com a

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distância temporal e espacial que separa o fato ocorrido do o permite cotejar a realidade em que vive, e como a vive.
momento da enunciação, provocando uma modificação no O resultado desses embates é o seu autoconhecimento, dei-
ponto de vista do protagonista, isto é, ocorre uma meta- xando mais evidente o que está obscuro na sua intimidade.
morfose existencial que lhe possibilita reorganizar e refletir Assim, a disjunção, oriunda da sua realidade, é expressa no
sobre o acontecido, de modo tal que o narrador em primei- seu modo de narrar e projeta um significado estrutural que
ra pessoa vê a si mesmo como personagem de sua própria propicia visualizar sua ilusão de unicidade. A ambiguidade
história, sem, contudo, deixar de ser a mesma pessoa. Esse é tem correspondência na representação formal ao transferir
um procedimento natural que pode ser percebido quando se para o interior da própria estrutura aquilo que efetivamente
coloca em prática a autorreflexão. ocorre na ontologia do ser social. A situação narrativa se
torna ambivalente quando Luís da Silva assume e privilegia
No caso de Angústia, a divisão estrutural está intimamente
a posição de narrador de sua própria vida, ao mesmo tempo
relacionada com o tempo da infância e da fase adulta. Não se-
que visualiza o eu-personagem como ele mesmo.
ria possível pensar Luís da Silva como personagem se o tem-
po se restringisse ao momento da enunciação. A narrativa, Nesse raciocínio, a narrativa de Luís da Silva é fragmen-
por acompanhar o drama íntimo do narrador, estabelece um tada exatamente para dar conta de expressar e representar
entrelaçamento dos dois tempos. Assim, a típica mudança uma realidade interior e uma exterior, cada uma delas, em si
de função estrutural que ocorre nas narrativas em primeira mesma, multifacetada. Caso o narrador tentasse contar sua
pessoa é configurada, aqui, de forma particular, por gerar história de maneira linear e cronológica, não seria possível
um confronto entre os dois “eus”, com nítida preferência ao identificar uma relação isomórfica com a heterogeneidade
eu de outrora. Esse processo de constante tensão constitui do sujeito dentro de uma sociedade em que tudo sucede de
“um tempo novelístico muito mais rico e, diríamos, tríplice, forma fracionada. Segundo essa lógica, pode-se entender por
pois cada fato apresenta ao menos três faces distintas: a sua que o livro não é dividido em capítulos, mas em “segmentos”
realidade objetiva, a sua referência à experiência passada, a sem uma ordem sequencial. Dentro de um mesmo segmen-
sua deformação por uma crispada visão subjetiva” 7. Com to, o narrador estabelece perspectivas desiguais e comple-
7. CANDIDO, Ficção e Confissão,
p. 113. efeito, Luís da Silva passa a colidir um mundo fantasioso e mentares sobre um único objeto, como fica claro na parte
perfeito com um imediato e desajustado, o que, por sua vez, em que Luís da Silva tenta ter relação sexual com Marina,

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mas, por ela não aceitar, decide apressar a data do casamen- Como notou Álvaro Lins10, toda a desordem aparente
10. LINS, Conteúdo e forma
to. Logo depois do fato, ele reflete sobre a figura da vizinha acontece porque Angústia é “consequência lógica e perfei- enriqueceram a literatura
e, ainda no mesmo segmento, a vê como leviana e como ta do estado de espírito do personagem-narrador”. Nesse brasileira, p. 324.

pessoa sensível, ligada às cerimônias de casamento. ponto, vale utilizar as palavras de Graciliano Ramos, como
crítico de sua própria obra, para contrapor ao pensamen-
Decorre que cada segmento representa o modo de Luís da
to aqui desenvolvido; trata-se de uma carta direcionada a
Silva enxergar o mundo e de se expressar; no entanto, a parte
Antonio Candido como agradecimento pelos artigos sobre
só tem sentido quando vista na arquitetura romanesca como
seus livros:
integrante de um todo, ou seja, a totalidade da narrativa se faz
no movimento das partes em tensão e conflitos muitas vezes
Angústia é um livro mal escrito. Foi isto que o desgraçou. Ao
contraditórios. Nessa dialética, a forma incorpora a desconti-
reeditá-lo, fiz uma leitura atenta e percebi os defeitos horríveis:
nuidade presente na consciência do narrador, da mesma ma-
muita repetição desnecessária, um divagar maluco em torno
neira que o processo social é indicado em sua incompletude,
de coisinhas bestas, desequilíbrio, excessiva gordura enfim, as
devido às descontínuas relações, subjetivas e objetivas. Por
partes corruptíveis tão bem examinadas no seu terceiro artigo.
sua vez, tudo isso só acontece porque está em consonância
É preciso dizermos isto e até exagerarmos as falhas: de outro
com sua maneira de se expressar, pois suas opiniões, como
modo o nosso trabalho seria inútil (CANDIDO, 2006, p. 10).
ele próprio diz, “são fragmentadas, instáveis e numerosas”8. E,
8. RAMOS, Angústia, p. 57.
noutro momento, se caracteriza da seguinte maneira: É justamente onde o escritor enxerga defeitos que o ro-
mance se mostra grandioso e bem engendrado. O que ele
Lembro-me de um fato, de outro fato anterior ou posterior chama de “repetição desnecessária” e “gordura excessiva”,
ao primeiro, mas os dois vêm juntos. E os tipos que evoco provenientes das constantes voltas de Luís da Silva ao pas-
não têm relevo. Tudo empastado, confuso. Em seguida os sado, às vezes demorando-se mais, às vezes menos, pode ser
dois acontecimentos se distanciam e entre eles nascem outros visto como a representação de uma peculiaridade de Luís da
acontecimentos que vão crescendo até me darem sofrível no- Silva. Assim, o movimento da narrativa é uma exigência da
ção de realidade. As feições das pessoas ganham nitidez. De matéria e permite transformar essas idas e vindas no tem-
toda aquela vida havia no meu espírito vagos indícios.9 po em elemento formal. Ao ingressar na forma, a disjunção
9. RAMOS, Angústia, p.19.

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perde sua feição de realidade exclusivamente individual para Decorrem disso dois aspectos interligados. Primeiro, a
se converter em elemento estruturante do livro. Caso ela se disjunção temporal entre o personagem e o narrador per-
limitasse a Luís da Silva-personagem, seu reconhecimento mite que se instaure um olhar afastado do caso e faz com
se restringiria ao foco narrativo e ao plano temático, mas, a que seja eliminada parte da emoção do momento. Quando
partir do momento em que se configura na narração, a dis- uma pessoa narra um acontecimento do qual fez parte logo
junção pode ser visualizada também na forma. Isso acontece após ele ter ocorrido, agregam-se à sua fala todos os senti-
porque Luís da Silva-narrador transpõe sua visão de mundo mentos provocados pela situação, e, por questão lógica, a
na sua maneira de narrar, o que pode ser comprovado na descrição estará comprometida por um ponto de vista mais
interpretação dos personagens mais significativos da trama, parcial. Isso não quer dizer que a imparcialidade seja alcan-
pois eles são expostos como pessoas de atitudes plurais e, às çada caso o relato seja feito após alguns anos, mas, com cer-
vezes, contraditórias. Não há uma preocupação em mostrar teza, o passar do tempo promove um olhar mais distanciado.
um lado de determinado personagem e depois outro, já que No espaço de tempo que separa o personagem do narrador,
isso poderia acarretar num achatamento de uma realidade percebem-se um amadurecimento e um olhar mais “de fora”,
ambivalente, tornando a trama inverossímil. Essa relação que o ajudam a entender as atitudes do pai e as suas próprias,
entre forma e conteúdo faz com que cada coisa viva e atue principalmente quando Camilo Pereira morre.
sobre a outra.
Segundo, se, por um lado, a metamorfose existencial pos-
A dinâmica própria da narrativa propicia conhecer muito sibilita uma visão mais afastada e mais racional da sua infân-
de Luís da Silva e de suas relações, como a que teve com o cia, por outro, Luís da Silva-narrador, ao pôr em prática a
pai. A imagem de Camilo Pereira só foi entendida com cla- autorrepresentação, não consegue ir além de uma recriação
reza depois de vários anos, quando Luís da Silva se propõe do que realmente sucedeu. Sua visão de mundo é própria
a refletir sobre sua vida, em razão do assassinato cometido. de sua consciência do momento, de tal maneira que os fa-
Ele nunca soube muito bem como lidar com o jeito do pai, e tos resgatados do passado dependem, sobretudo, do que está
só depois de muitos anos, quando está no presente remoen- acontecendo no presente. Com efeito, ao recuperar a figura
do toda a sua trajetória, é que consegue visualizar melhor a do pai e a do filho Luís da Silva, o que se obtém é o conheci-
figura de Camilo Pereira e o que sentia na época. mento (e não o reconhecimento) do objeto pensado, pois o

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sujeito pensante está em constante modificação e autogesta- Procurava fixar a atenção nas crianças que dançavam e cor-
ção no que diz respeito ao seu passado11. riam, como dançavam e corriam, na areia do Cavalo-Morto,
11. SOUZA, Fichte e as questões
de arte: a filosofia de Fichte e a os meus companheiros, alunos de mestre Antônio Justinho. Lá
Assim, a disjunção temporal existente na narrativa de Luís
poesia moderna, p. 144. estava novamente entrando no passado, torcendo-me como
da Silva permite um olhar mais distanciado do que aconte-
parafuso. – “Rei meu senhor mandou dizer que fossem ao ce-
ceu, propiciando ao narrador uma tomada de consciência
mitério e trouxessem um osso de defunto”. Quem tinha cora-
em relação a suas atitudes praticadas na época passada, e, ao
gem? Os mais atrevidos chegavam até o muro de seu Honório,
mesmo tempo, esse olhar afastado é comprometido pelo que
no fim da rua. Adiante o lugar era mal-assombrado e ninguém
ele está vivendo no momento atual. Pensando nisso, a figura se aventurava por lá. Eu queria gritar e espojar-me na areia
do pai aparece na economia da narrativa para demonstrar o como os outros. Mas meu pai estava na esquina, conversando
impacto negativo que teve na vida de Luís da Silva nos âm- com Teotoninho Sabiá, e não consentia que me aproximasse
bitos financeiro e pessoal. Primeiro por causa de sua inércia das crianças, certamente receando que me corrompesse. Sem-
diante da ruína que se instaurava na família Silva, revelando, pre brinquei só. Por isso cresci assim besta e mofino.12
assim, ser uma pessoa que nasceu como um típico aristo- 12. RAMOS, Angústia, p.143-144.

crata rural, mas que, devido à sua falta de habilidade para Com a conclusão de que se tornara um adulto enfezado
se organizar e se fortalecer diante das transformações his- socialmente por causa das imposições do pai, é possível en-
tóricas, morreu como pequeno-burguês, sem qualquer re- tender como a disjunção estrutural (personagem e narrador)
presentatividade social e sem poder econômico. Isso afetou e temporal (passado e presente) se mostra como uma forma
diretamente o modo de vida de Luís da Silva-personagem e, de configuração que auxilia Luís da Silva a compreender me-
por consequência, Luís da Silva-narrador. Segundo porque lhor o seu modo de vida e a importância da figura de Camilo
a relação conflituosa entre o pai e o filho estimulou este a se Pereira da Silva para a constituição de sua personalidade e,
habituar a um modo de vida retraído e isolado de tudo o que consequentemente, para sua visão de mundo.
acontecia em sua volta. Ele não era autorizado a interagir O recurso técnico denominado disjunção também pro-
com outros meninos da sua idade e sempre teve de viver em move o entendimento do indivíduo Luís da Silva como
um mundo paralelo. O mundo das outras crianças só poderia um ser irremediavelmente arruinado pelas transformações
ser conhecido pelo olhar, de longe: sócio-históricas. Sua narrativa expõe seu “subconsciente

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danificado pelo mundo, pelas relações sociais degradadas. esse trabalho tenha lhe dado certa estabilidade financeira,
O fundamento deste subconsciente é a ordem econômica”13. ele continua sendo limitado no que se refere a sua aptidão
13. FACIOLI, Dettera: ilusão e
verdade sobre a (im)possibilidade Luís da Silva sempre teve de lidar com a falta de dinheiro e, literária, visto que seu serviço se encerra na elaboração e
em alguns narradores de por causa disso, se refugiou, continuamente, nas recordações na correção de ofícios técnico-burocráticos. Para não ficar
Graciliano Ramos, p. 59.
de um passado-não-vivido para tentar esquecer sua condi- restrito ao ordenado que ganha na repartição, Luís da Silva,
ção de pobre-diabo: “a minha pátria era a vila perdida no sob encomendas, continua escrevendo para jornais. Por tudo
alto da serra, onde a chuva caía numa neblina que escondia isso, existe uma revolta consciente em Luís da Silva com sua
tudo”14. Desde novo, ele sempre sonhou com um estilo de situação de “níquel social”, proveniente de sua capacidade de
14. RAMOS, Angústia, p.210.
vida próximo daquele que tinha o avô antes de sua decadên- reflexão crítica sobre a realidade e da sua frustração por não
cia. No entanto, com a morte do pai, teve de sair da zona conseguir realizar uma grande obra literária, tendo de uti-
rural para a zona urbana com a esperança de “ser alguém na lizar suas habilidades de escritor para vangloriar romances
vida”. Ao se mudar para a cidade do Rio de Janeiro, ele nada com pouco valor artístico.
consegue e tem de pedir esmolas para poder se alimentar.
Desse modo, ele não consegue se sentir satisfeito com o es-
Na sua juventude, quando retorna para a cidade de Maceió,
tilo de vida que tem e, através de seus mergulhos no passado,
vive como pensionista na casa de dona Aurora e começa a
percebe na sua personalidade uma impregnação de fracassos
vender seus escritos para aumentar sua renda e arranjar um
acumulados na sua trajetória de vida. No passado: da infân-
jeito de sair daquele lugar. Depois disso, ele se submete a
cia rural decadente. No presente: de burocrata e jornalista
trabalhos alienadores que privam sua capacidade de escritor
subserviente; de ex-noivo traído e abandonado; de matador
de literatura, já que ele tem de elaborar textos encomenda-
malsucedido. Diante da impossibilidade de uma reação or-
dos para jornais com opiniões contrárias às suas. Por causa
ganizada e efetiva, e frente a um sentimento de impotência
do grande surto de desemprego, derivado do alto número
perante o contexto sociocultural e histórico em que vive, o
de pessoas que migraram do campo para as cidades grandes,
mundo que se apresenta como ideal para o narrador é o do
o governo tentou amenizar a situação abrindo novas vagas
avô, construído por ele mesmo ao longo de sua vida. Esse
em cargos públicos (GALVÃO, 1972). Tudo indica que foi
retorno de Luís da Silva para dentro de si demonstra algo
nessa leva que Luís da Silva conseguiu empregar-se como
significativo, pois se trata de um descontentamento com a
funcionário na repartição do município de Maceió. Embora

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realidade em que vive e de uma insatisfação com o que vê. Tavares. Na segunda, quando mata seu rival, ele pratica um
Ele não consegue ver sentido na atualidade, consequente- ato isolado, que só tem repercussão momentânea no seu
mente não nutre qualquer expectativa em relação ao coleti- próprio interior.
vo. Diante dessa descrença e da falta de apoio na realidade
Todo esse descontentamento e essa inadaptação de Luís
exterior, ele tenta encontrar uma solução, ou mesmo um
da Silva com o mundo em que vive, pode explicar, por sua
esconderijo, nos seus pensamentos, nas suas memórias, pas-
vez, o ilhamento do sujeito em suas próprias experiências,
sando a se esquivar de qualquer luta. Cada vez mais, o prota-
representando esteticamente uma característica do roman-
gonista se isola em si mesmo, atitude que pode ser entendida
ce moderno, conforme Walter Benjamim: “A matriz do ro-
através da explicação de Georg Lukács sobre a relação entre
mance é o indivíduo em sua solidão, [...] Escrever um ro-
forma romanesca e realidade social:
mance significa descrever a existência humana, levando o
incomensurável ao paroxismo” 16.
Isso porque a elevação da interioridade a um mundo total- 16. BENJAMIM, A crise do romance,
p. 54.
mente independente não é um mero fato psicológico, mas um Para expressar e representar esteticamente Luís da Silva
juízo de valor decisivo sobre a realidade: essa auto-suficiência na sua subjetividade e numa fragmentação crescente den-
da subjetividade é o seu mais desesperado gesto de defesa, a tro da sociedade brasileira, Graciliano Ramos utilizou-se de
renúncia de toda a luta por sua realização no mundo exterior recursos próprios da literatura moderna, como o fluxo de
– uma luta encarada já a priori como inútil e somente como consciência estruturado através do monólogo interior e da
humilhação. 15 livre associação de ideias, em que as palavras não visam a um
15. LUKÁCS, Teoria do romance,
p.119. interlocutor e decorrem de uma necessidade própria. Vale
Isso acontece com Luís da Silva por ele se sentir fracas- enfatizar que o escritor não se apropriou das conquistas mo-
sado em tudo o que faz, o que o impulsiona a procurar cer- dernas por questões externas à narrativa. Se, por um lado,
to tipo de realização na sua subjetividade. E quando ele se essas técnicas do romance procuram mostrar a desintegração
propõe a sair de sua condição de ilhado e tenta, por duas total do conceito tradicional de individualidade com o mun-
vezes, encarar seu problema pragmaticamente, nada conse- do, por outro, de uma maneira sutil e engenhosa, as soluções
gue. Na primeira vez, porque Marina – que era uma maneira literárias de vanguarda serviram, em Angústia, para esclarecer
de se alinhar a normalidade social – prefere ficar com Julião e tornar inteligível o efeito do processo de desenvolvimento

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histórico na personalidade de Luís da Silva, autorizando a vas, “auto-reguladoras”. E são essas funções que servem para
pensar o “eu” numa contínua modificação sem deixar de ser transmitir à própria pessoa e ao leitor o fato de que um certo
o mesmo, a despeito da multiplicidade mais surpreendente conjunto de experiências “diferentes” exibe a qualidade de es-
e caótica da experiência imediata. trutura e unidade que nos capacita a afirmar pertencerem elas
à mesma pessoa. Similarmente, a consciência da continuidade
Percebe-se que dois aspectos do eu são especialmente re-
como um ingrediente essencial da identidade é, invariavel-
levantes para esse tratamento literário. Primeiro, além da
mente, parte do retrato literário. 17
sucessão de impressões e ideias diferentes, o eu parece exibir 17. MEYERHOFF, O tempo na
literatura, p. 31-32.
uma tendência para a organização da dinâmica e da econo- Nessa lógica interpretativa, a correlação entre esses as-
mia da trama, pois ele não se comporta apenas como um pa- pectos do tempo e do eu pode surgir em dois contextos.
pagaio passivo que repete tudo, mas como um participante Primeiro, dentro do fluxo temporal do presente especioso,
ativo. O narrador estrutura e interpreta o que vivenciou, mas no qual a aparência é ilusória e não corresponde à essência,
ainda o faz de um ponto de vista da economia da narração, exatamente por se restringir ao momento do presente. Isso
já que essa é uma característica de sua individualidade. No poderia ocorrer, por exemplo, quando uma leitura que pre-
segundo aspecto, o eu é experimentado como ele e evidencia tenda analisar a revolta e a indignação de Luís da Silva ficasse
certa qualidade de continuidade. Dizendo de outra maneira, restrita a sua fase adulta, quando tudo isso acontece. Esse
apesar da rápida sucessão dos distintos momentos temporais tipo de análise poderia chegar a conclusões errôneas, como
e mesmo com todas as transformações existenciais, o eu não a de que ele é uma pessoa que deseja e acredita numa revolu-
é meramente um rótulo conveniente acrescentado a esses ção socialista, que ele é um anarquista ou um esquizofrênico.
elementos temporais, mas uma “espécie de estrutura” que O segundo contexto diz respeito às relações que formam a
exibe continuidade e totalidade, das quais o narrador é dire- estrutura da memória, ou o passado pessoal, de Luís da Silva.
tamente consciente, ao se considerar a mesma pessoa duran- Se o estudo se limitasse ao passado e às memórias do perso-
te toda a sua vida. Dessa maneira, Luís da Silva é mostrado nagem, não seria espantosa uma afirmação que o apontasse
como um homem puramente nostálgico, sem entender que
não apenas como um repositório de percepções e memórias, o motivo de suas demasiadas recordações deve ser explicado,
mas predominantemente como um centro de funções ati- sobretudo, pela sua condição concreta atual. Sem escolher

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um ou outro contexto, é preciso, a partir do eu, trabalhar a dava. Julião Tavares era uma sombra, sem olhos, sem boca,
interdependência dos dois contextos para visualizar a cons- sem roupa, sombra que se dissipava na poeira da água. A mi-
tituição de uma totalidade. Assim, tão importante quanto nha raiva crescia, raiva de cangaceiro emboscado [...] José Baía
uma análise dos recursos técnicos empregados na narrativa vinha contar-me histórias no copiar, cantava mostrando os
é interpretar a sua dependência funcional com as duas uni- dentes tortos e muito brancos. Era bom e ria sempre. 18
18. RAMOS, Angústia, p.234.
dades de tempos (passado e presente) e a relação de Luís da
Nesse episódio, Luís da Silva está seguindo Julião Tavares,
Silva com eles, isto é, como estão sendo utilizado e qual o seu
mas ainda não tomou coragem suficiente para executá-lo. Ele
significado para a narrativa.
sabe que o assassinato não será suficiente para modificar sua
Em toda a narrativa de Angústia, pode-se perceber a expo- vida, pois o ato não passará de uma atitude subjetiva, mas ele
sição da consciência de Luís da Silva através de práticas roma- se sente obrigado a fazê-lo. “Estava ali forçado pela situação”,
nescas cujo uso fora intensificado pela literatura moderna, e como se existisse uma força interior o levando aquilo, mas,
o momento em que isso acontece com maior nitidez, alcan- no fundo, ele não gostaria de chegar a aquele ponto. Através
çando seu grau máximo de complexidade, é nos segmentos do fluxo de consciência, o conflito de Luís da Silva entre ma-
que vão da perseguição ao estrangulamento de Julião Tavares. tar ou não o seu rival fica exposto, representando o que se
Nesse intervalo de tempo, o narrador descarrega as frustrações passa na sua consciência naquele instante. No trecho citado,
e humilhações sofridas ao longo de sua vida, realçando todo o embate interior fica claro quando ele cria uma situação hi-
o sofrimento gerado pela falta de dinheiro e uma necessidade potética de como seria o encontro caso acontecesse durante
de eliminar seu rival e tudo o que ele representa. Para tanto, o dia, com toda a movimentação e as luzes que uma cidade
suas recordações lhe vêm à mente como fontes de inspiração, grande possui. Para a estruturação desse monólogo, os ver-
principalmente a figura de José Baía: bos foram empregados no futuro do pretérito do indicativo,
sinalizando que tudo não saíra de sua consciência. Quando
Sentir-me-ia miúdo e perturbado, os músculos se relaxariam, Luís da Silva não se prende ao plano da mera suposição e
a coluna vertebral se inclinaria para a frente, ocupar-me-ia em volta a pensar no momento de sua perseguição, ele reconhe-
meter nas calças a camisa entufada na barriga. Afastar-me-ia ce ali uma grande oportunidade de se vingar de tudo o que
precipitadamente, como um bicho interior. Agora tudo mu- simboliza Julião Tavares e sua classe; inclusive da capacidade

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do rival de conquistar mulheres por causa do lugar que ocupa. recebidos “nas redações, na repartição, no bonde”. Diante
Mais a frente, no mesmo segmento, esse impasse novamente disso, é possível afirmar que todo esse desequilíbrio tem
vem à tona através de outro monólogo interior, deixando em como base a inferioridade econômica e social de Luís da
evidência uma tensão constante entre duas opções de saída: Silva, de modo que as técnicas modernas são utilizadas, aqui,
assassinar o seu rival e se sobrepor a ele ou continuar tentan- para dar vida e expressão a um conflito sobretudo psicoló-
do se adequar às normas e, novamente, se comportar como gico, gerado pelas frustrações e pela sua incapacidade de se
um subordinado, permitindo a Julião Tavares escapar. integrar à ordem vigente.
Nesse sentido, são pertinentes as palavras de Nelson
Habituei a falar baixinho na presença dos chefes. Era preciso
Coutinho (1978) ao dizer que Luís da Silva não pode, em
que alguma coisa prevenisse Julião Tavares e o afastasse dali.
Ao mesmo tempo encolerizei-me por ele estar pejando o ca-
momento algum, ser desligado da sua concreta realidade so-
minho, a desafiar-me. Então eu não era nada? Não bastavam cial, o que eleva o desespero e a impotência à condição de
as humilhações recebidas em público? No relógio oficial, nas “realidades ônticas”, ou seja, coloca em questão a natureza
ruas, nos cafés, virava-me as costas. Eu era um cachorro, um social do ser humano. Em Angústia, “não há uma mera re-
ninguém. – “É conveniente escrever um artigo, seu Luís.” E eu produção naturalista de uma associação de ideias, dos me-
escrevi. E pronto, nem muito obrigado. Um Julião Tavares me canismos psíquicos de um homem onticamente isolado,
voltava as costas e me ignorava. Nas redações, na repartição, sem nenhuma relação orgânica com a realidade objetiva” 20.
20. COUTINHO, Graciliano Ramos,
no bonde, eu era um trouxa, um infeliz, amarrado. Mas ali, na Tampouco há uma busca, através do monólogo interior, da p. 100.
estrada deserta, voltar-me as costas como a um cachorro sem manifestação de alegorias abstratas e só aparentemente pro-
dentes! Não. Donde vinha aquela grandeza? Por que aquela fundas. O tratamento literário procura deixar exposta uma
segurança? Eu era um homem. Ali era um homem. disjunção em Luís da Silva e, por conseguinte, em sua nar-
ração, ao mesmo tempo que demonstra o desequilíbrio e a
– Um homem, percebe? Um homem. 19
19. RAMOS, Angústia, p. 236. dissolução psíquica do personagem situados historicamente.
Nota-se que a necessidade de eliminar seu rival surge não A solidão e a derrota não são transformadas em metafísica
só por causa da indiferença e dos rebaixamentos feitos por condição humana, pois elas decorrem de condições subjeti-
Julião Tavares, mas também pelos tratamentos comumente vas e objetivas, que, para o crítico materialista, derivam da

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Em Tese
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posição de classe dos tipos representados e da estrutura alie- BENJAMIN, Walter. A crise do romance. In: ______. Magia e
nante do mundo em que vivem. As técnicas de “vanguarda” técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

não são utilizadas com um fim em si mesmo. Ao contrário, CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão. Rio de Janeiro: Ouro
elas são veículos importantes para tornar evidente a realida- sobre Azul, 2006a.
de interior e exterior de Luís da Silva numa relação dialética.
COUTINHO, Carlos Nelson. Graciliano Ramos. In: BRAYNER,
Os recursos literários comumente utilizados para expressar Sônia (Org.). Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Civilização
e representar a subjetividade do narrador servem também Brasileira, 1978. p. 73-122.
como maneira de dramatizar como o desenvolvimento dos
processos objetivos ocorridos no Brasil na virada do século FACIOLI, Valentim. Dettera: ilusão e verdade sobre a (im)
possibilidade em alguns narradores de Graciliano Ramos. Revista
XIX é internalizado no indivíduo. do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo: IEB/USP, n. 35,
Por tudo isso, utilizar a ideia “disjunção” como chave in- p.43-68, 1993.

terpretativa não significa aplicá-la como um elemento for- GALVÃO, Walnice Nogueira. As formas do falso: um estudo
mal que soma as partes, mas uma tentativa de abranger um sobre a ambiguidade no Grande Sertão: veredas. São Paulo:
processo de tensão constante entre os vários complexos que Perspectiva, 1972.
compõem a totalidade de Luís da Silva, assim como, por GIANNETTI, Eduardo. Vícios privados, benefícios públicos? A ética
extensão, a sua narrativa. Com outras palavras, a visão de na riqueza das nações. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
mundo de Luís da Silva, a função estrutural narrador-perso-
nagem, o imbricamento do passado-presente, a forma nar- GOLDMANN, Lucien. A reificação. In: ______. Dialética e cultura.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 105-152.
rativa e a percepção estética do livro podem ser analisadas
numa relação dialética quando se cria uma chave interpre- LINS, Álvaro. Conteúdo e forma enriqueceram a literatura
tativa que englobe a dinâmica própria da narrativa, que se brasileira. In: RAMOS, Graciliano. Angústia. (75 anos). Incluso
estabelece muitas vezes contraditoriamente. Fortuna Crítica, organizada por Elizabeth Ramos. Rio de Janeiro;
São Paulo: Record, 2011. p. 322-325.

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filosófico sobre as formas da grande épica. São Paulo: Duas
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Janeiro: Forense Universitária, 2010a.

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Em Tese
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questões de princípios para uma ontologia hoje tornada possível.
São Paulo: Boitempo, 2010.

MALARD, Letícia. Ensaio de literatura brasileira: ideologia e


realidade em Graciliano Ramos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1976.

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filosofia de Fichte e a poesia moderna. In: CASTRO, Manuel
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Em Tese
O FUTEBOL VISTO DA ACADEMIA
ENTREVISTA COM ELCIO CORNELSEN E
SILVIO RICARDO
Marcelino Rodrigues da * lino-rodrigues@uol.com.br
Silva* Doutor em Estudos Literários pela UFMG (2003) e pós-doutor
em Estudos Culturais pelo PACC/UFRJ (2009). Professor
Associado II da FALE/UFMG, atuando na área de Teoria da
Literatura, diretor do Centro de Estudos Literários e Culturais/
Acervos de Escritores Mineiros e pesquisador do FULIA e
do NEAEM (Núcleo de Estudos dos Acervos de Escritores
Mineiros). Autor, entre outros, do livro Mil e uma noites de
futebol: o Brasil moderno de Mário Filho (Ed. UFMG, 2006).

SILVIO RICARDO DA SILVA E ELCIO CORNELSEN SÃO, RESPECTI- NO BRASIL. VAMOS, ENTÃO, BATER UM PAPO COM OS DOIS PRO-
VAMENTE, OS COORDENADORES DO GRUPO DE ESTUDOS SOBRE FESSORES, PARA SABERMOS A QUANTAS ANDA A PESQUISA ACA-
FUTEBOL E TORCIDAS (GEFUT) E DO NÚCLEO DE ESTUDOS SOBRE DÊMICA SOBRE O FUTEBOL NO BRASIL E EM MINAS GERAIS.
FUTEBOL, LINGUAGEM E ARTES (FULIA), DOIS GRUPOS DE PESQUI-
SA SEDIADOS NA UFMG, PROVAVELMENTE OS ÚNICOS VOLTADOS
*
PARA O FUTEBOL EM MINAS GERAIS NOS DIAS ATUAIS. ESTÃO
NA LINHA DE FRENTE DA PRODUÇÃO ACADÊMICA MINEIRA SOBRE
ESSE TEMA QUE, NAS ÚLTIMAS DÉCADAS, PASSOU A SER MAIS COMO É O TRABALHO DOS GRUPOS DE PESQUISA QUE VOCÊS LIDE-
VALORIZADO PELOS INTELECTUAIS E PELA UNIVERSIDADE. EMBO- RAM? SÃO OS ÚNICOS GRUPOS DE PESQUISA ACADÊMICA SOBRE
RA ESTEJAM LIGADOS A DUAS ÁREAS APARENTEMENTE MUITO O FUTEBOL EM MINAS GERAIS? E NO BRASIL, QUAIS SÃO OS GRU-
DISTINTAS (O GEFUT VEM DA ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA, FI- POS MAIS RELEVANTES?
SIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL, ENQUANTO O FULIA FOI
FORMADO NA FACULDADE DE LETRAS), OS DOIS GRUPOS ATUAM Elcio: A atuação do FULIA é bem ampla e adequada ao per-
FREQUENTEMENTE EM PARCERIA, REEDITANDO UMA TABELINHA fil do universo acadêmico, uma vez que atende às três tare-
ENTRE O FUTEBOL E AS LETRAS QUE JÁ TEM UMA BOA HISTÓRIA fas primordiais: ensino, pesquisa e extensão. Os professores
170

do FULIA têm proporcionado uma oferta regular de dis- Grupo de Estudos e Pesquisa de Futebol, na Unicamp, o
ciplinas para a Graduação e para a Pós-Graduação. Além GIEF – Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol,
disso, conta com pesquisadores nos mais diversos níveis, na USP, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociologia do
que atuam nas áreas de Linguística e Literatura. O resulta- Futebol, na UFPE, e o grupo de pesquisa História e Memória
do dessas atividades é um número significativo de publica- do Futebol, na UFC. Cabe, também, um destaque especial
ções.  O âmbito da extensão é contemplado nos trabalhos ao LUDENS – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre
do FULIA através da organização de congressos, palestras Futebol e Modalidades Lúdicas, criado em 2010 na USP, que
e mostras de cinema, que procuram levar o conhecimen- reúne pesquisadores de diversas instituições nacionais e in-
to sobre o futebol na área de Letras e Artes para além dos ternacionais, além do trabalho conjunto com o Museu do
muros da universidade. Até onde é de meu conhecimento, Futebol, de São Paulo. Os núcleos de pesquisa que trabalham
o GEFuT e o FULIA são os únicos grupos de pesquisa que de maneira transdisciplinar, em geral, contemplam as áreas
lidam com a temática do futebol em universidades minei- de Antropologia, Sociologia, Educação Física, Geografia,
ras. Especificamente falando do FULIA, o grupo perma- História e Comunicação Social. Cabe um destaque também
nece sendo o único na área de Linguística, Letras e Artes, à atuação do NEPESS - Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre
registrado no CNPq. No âmbito brasileiro, há vários gru- Esporte e Sociedade, criado em 2005 na UFF - Universidade
pos de pesquisa a serem destacados. Um trabalho pioneiro Federal Fluminense, em Niterói.
foi desempenhado pelo Núcleo de Estudos de Sociologia do
Futebol, do Departamento de Ciências Sociais do Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ. Fundado em 1990, Silvio: O GEFuT surgiu em 2006. Houve uma demanda
esse grupo tornou-se um verdadeiro celeiro de estudos rele- do Ministério do Esporte para que algumas universidades
vantes que envolvem as áreas de Sociologia, Antropologia, fizessem a aplicação de um formulário e algumas averigua-
Letras, Comunicação Social, Educação Física e Psicologia. ções nos estádios de suas cidades, com objetivo de acompa-
Além disso, nota-se que há um número considerável de nhar como estava acontecendo o cumprimento do Estatuto
núcleos e grupos de pesquisa que estudam aspectos ligados de Defesa do Torcedor. Pela minha ligação com o futebol, fui
ao futebol, a maioria atuando na área de Educação Física. contatado pelos colegas que faziam parte da REDE CEDES
No campo das Ciências Humanas e Sociais, destacam-se o e assumi a tarefa. Convidei dois estudantes para serem

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Entrevistas
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bolsistas e a partir daí vimos a necessidade de agregarmos exclusivos sobre futebol. É o caso de um grupo da matemá-
outras pessoas ao grupo e de encontros semanais para es- tica que faz prognósticos estatísticos sobre o Campeonato
tudos. O que iniciou apenas como um grupo cumpridor de Brasileiro. Há também um grupo na PUC, que tem trabalhos
uma demanda específica passou paulatinamente a assumir sobre futebol, mas não é específico. Em âmbito nacional, há
outras tarefas. Entre elas estão dois projetos de extensão. O um grande número de grupos, conforme foi levantado pelo
primeiro, intitulado Educação para/pelo futebol enquanto uma Elcio, mas tenho notícias de que não são muitos os que se
manifestação do lazer: o torcer em Belo Horizonte. Realizamos mantêm atuando.
em escolas públicas e privadas do ensino fundamental e mé-
dio de BH uma série de intervenções focadas na formação PODEMOS VER, ENTÃO, QUE EXISTE HOJE NO BRASIL UM BOM NÚ-
de alunos e professores na educação para e pelo futebol. MERO DE PESQUISADORES TRABALHANDO COM O FUTEBOL. MAS
Temos também o programa de rádio “Óbvio Ululante” na PARECE QUE, NO PASSADO, NÃO FOI BEM ASSIM.

Rádio UFMG Educativa. Partimos do pressuposto que não Elcio: De fato, a pesquisa acadêmica sobre o futebol no
há verdade absoluta em nada no futebol. Assim, esse progra- Brasil contou com poucas, mas significativas contribuições
ma tem o intuito de discutir os acontecimentos do mundo da antes de 1970. Não podemos nos esquecer de nomes como
bola de forma crítica e questionadora. Além disso, partici- Thomas Mazzoni no final dos anos 1930 e 1940, ou mesmo
pamos de eventos acadêmicos e também organizamos even- de Mário Filho entre as décadas de 1940 e 1960, assim como
tos que tratam da temática do futebol. As pesquisas acon- de Milton Petrosa no final da década de 1960. Todavia, a
tecem coletivamente e individualmente, nos trabalhos de década de 1970 é decisiva para a chamada “virada cultural”, à
Graduação e Pós-Graduação. Na medida do possível busca- qual nem o futebol, nem a academia puderam ficar imunes.
mos socializar esses conhecimentos através de  publicações. Mesmo no contexto ditatorial, onde o futebol praticamente
Desenvolvemos também ações de ensino, através do ofere- ficou preso a duas camisas de força – uma que o atrelava ao
cimento de disciplinas na Graduação no curso de Educação nacionalismo barato, e outra que o encerrava na pecha de
Física e no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em “ópio do povo”, aos poucos, foi sendo descoberto por aqueles
Estudos do Lazer da UFMG. Sobre os Grupos de Pesquisa, que, a partir de um viés sociocultural e histórico, se inte-
entendo que o Elcio respondeu muito bem. Aqui em Minas ressaram por esse que é tido como o esporte preferido do
existem outros grupos que estudam o futebol, mas não são brasileiro. Desde então, tem havido significativos avanços

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Entrevistas
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nos mais diversos campos do conhecimento: Antropologia, e trouxe vários pesquisadores de um importante centro de
Sociologia, Educação Física, História. Recentemente, reali- pesquisa, o Museu Nacional. Podemos ver até hoje uma he-
zei uma pesquisa no âmbito dos Estudos Organizacionais, gemonia nos estudos sobre futebol por parte das ciências
uma das áreas da Administração, e constatei que o futebol, sociais e humanas. Mais especificamente na Educação Física,
cada vez mais, tem se tornado objeto de estudo, sobretu- a resistência sempre foi muito grande. Sua histórica relação
do quanto à gestão empresarial de clubes, ou mesmo sobre com as ciências biológicas e com um determinado modo de
marketing esportivo. Outras áreas também começam a des- fazer pesquisa inibiu a produção de pesquisas qualitativas so-
pontar como espaços privilegiados para se estudar o futebol. bre futebol. Temos pouco espaço para produção de pesquisa
Aqui, me refiro às pesquisas nas áreas de Letras, Linguística sobre futebol na perspectiva sociocultural e histórica. Para
e Artes, que ainda não atingiram o mesmo patamar das de- se ter uma ideia, são poucos os pesquisadores da Educação
mais em termos de produtividade, mas, pelo menos, cada Física que estruturam grupos de pesquisa sobre futebol. Para
vez mais, reconhece o futebol, por sua importância como ser sincero, além do GEFuT eu me lembro do grupo de Luiz
fenômeno cultural, como um objeto digno de ser estudado. Carlos Rigo, que é também formado em Educação Física e
atua em um curso de Pós-Graduação da área, na UFPel. Na
maioria dos casos em que temos a participação de pessoas
Silvio: Verdade, a academia brasileira resistiu muito em da Educação Física, são em grupos interdisciplinares, cuja
trabalhar com temáticas “menos sérias”. Vemos até hoje liderança pertence a pessoas das ciências sociais. Espero
um certo preconceito. Eu, que sou ligado a um Programa que a interdisciplinaridade esteja cada vez mais presente na
de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, Universidade Brasileira e consequentemente nos estudos so-
ainda percebo uma dose de chacota sobre nosso objeto de bre futebol.
estudo. São poucos os estudos antes dos anos 70, conforme
apontado pelo Elcio. O primeiro trabalho de pesquisa que
NOS DIAS DE HOJE, QUAIS SÃO OS ASPECTOS QUE, DO PONTO DE
eu tive contato foi no final de 80. O autor era o Benedito VISTA DE VOCÊS, MERECEM MAIOR ATENÇÃO DOS PESQUISADO-
Tadeu Cesar, que fez um belo estudo sobre a Gaviões da Fiel. RES DO FUTEBOL? VOCÊS ACHAM QUE AS MANIFESTAÇÕES QUE
A obra Universo do Futebol, publicada em 1982, foi mui- VIMOS NA ÉPOCA DA COPA DAS CONFEDERAÇÕES ALTERAM ESSA
to importante, pois foi organizada pelo Roberto DaMatta PAUTA?

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Elcio: Desde 2011, quando comecei a ministrar discipli- Silvio: Penso que as pesquisas sobre o futebol vêm se qua-
nas que contemplam o tema do futebol nos mais diversos lificando ao longo dos tempos. As pesquisas têm aparecido
enfoques – associado ao cinema, à música, à literatura e à de forma multidisciplinar. Todavia, temos que avançar para
linguagem em geral –, tenho notado que há certa demanda a interdisciplinaridade. O relacionamento entre os diversos
de interesse pelos alunos que pode ser explorada em termos campos da ciência  é fundamental. Trabalhos históricos, so-
de pesquisa. Particularmente, me agrada uma abordagem ciológicos, antropológicos, biológicos, econômicos, urbanís-
sociológica do futebol – e também da literatura. Cada vez ticos, literários etc. devem dialogar. Não devemos cair no
mais me convenço de que falar de futebol é falar da sociedade equívoco de nos fecharmos nas nossas teorias de domínio e
brasileira, tanto no que ela tem de criativa, quanto naquilo fazermos pesquisas isoladas de relações outras, que nos aju-
que compromete uma conformação social justa. No nosso dam a ver melhor as questões que pesquisamos. Outro aspec-
campo específico, eu penso que as pesquisas deveriam, jus- to a se pensar é a descentralização geográfica e temática dos
tamente, colaborar para que o futebol deixasse de ser um ob- estudos sobre o futebol. É importante termos pesquisas em
jeto “estranho” às Letras, e conquistasse o seu espaço dentro regiões menos tradicionais na pesquisa sobre futebol, como
do leque de elementos da chamada “cultura popular”, como o Norte, o Nordeste, o Centro-oeste. No que se refere aos
o carnaval, o rap, o hip-hop, o cordel etc. Certa vez, você temas, há de se pensar em estudos diversos, para além dos
mencionou, de modo apropriado, que ocorre a multiplica- tradicionalmente  pesquisados, como exemplo o futebol de
ção de determinados lugares comuns na história do fute- várzea, o futebol eletrônico, entre outros. No que diz respei-
bol no Brasil, sem que os pesquisadores se dirijam às fontes to às manifestações, penso que, como qualquer fato social,
para verificar se, de fato, essas informações procedem. Nesse elas podem influenciar na pauta, mas não dar diretriz. O fu-
sentido, seria importante uma volta às fontes, que demanda tebol é muito maior do que um momento político específico.
o trabalho de arquivo. Quanto à possível mudança de pau-
ta em virtude das manifestações de junho de 2013, é difícil NO ANO PASSADO, O GEFUT E O FULIA ORGANIZARAM UM EVEN-
arriscar um prognóstico. Só o tempo dirá que proporções TO BEM INTERESSANTE. VOCÊS PODEM FALAR UM POUCO SOBRE
novas manifestações poderão tomar, que venham a alterar a COMO FOI ESSE TRABALHO?

pauta relacionada com o futebol. Elcio: O I Simpósio Internacional sobre Futebol,


Linguagem, Artes, Cultura e Lazer reuniu pesquisadores,

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Entrevistas
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professores e estudantes em torno da reflexão e do deba- este que nos últimos anos tem se concretizado em ativida-
te sobre uma abordagem transdisciplinar do tema do fu- des como eventos, publicações e palestras. Além disso, a
tebol nas mais diversas áreas do conhecimento: Letras, interlocução que ambos têm estabelecido com estudiosos
Linguística, Artes, Educação Física, História, Sociologia, de universidades brasileiras e estrangeiras contribui para a
Antropologia, e Comunicação; recorrendo, para isso, a consolidação desse campo de estudos em nossas universida-
especialistas de reconhecido saber, entre outros, Richard des, para o projeto de internacionalização das instituições de
Giulianotti (Loughborough Univ., Inglaterra), Detlev ensino superior brasileiras e para a ampliação da visibilidade
Claussen (Univ. Hannover, Alemanha), Pablo Alabarces do FULIA e do GEFuT.
(Univ. de Buenos Aires, Argentina), e Samuel Martínez
(Universidad Iberoamercana, Ciudad de México). Além dis- ESTAMOS NA ERA DO FUTEBOL GLOBALIZADO, DOS SUPER TIMES
so, o Simpósio contou também com as palestras de docentes E DAS GRANDES ESTRELAS INTERNACIONAIS. ENQUANTO ISSO, O
e pesquisadores de várias partes do Brasil. Entre outros, tive- BRASIL VIVE DE FORMA CONTRADITÓRIA A EXPECTATIVA DA COPA
DO MUNDO, MISTURANDO CRÍTICA POLÍTICA E SOCIAL COM O DE-
mos a presença de Arlei Damo, Flávio de Campos, Bernardo
SEJO DE REVIVER AS EMOÇÕES QUE FIZERAM DE NÓS O “PAÍS DO
Buarque de Hollanda, Luiz Carlos Rigo e Victor Andrade FUTEBOL”. COMO VOCÊS ENXERGAM O FUTURO DO FUTEBOL, NO
de Melo. Contamos também com a participação do jorna- BRASIL E NO MUNDO? SERÁ QUE ESTAMOS CAMINHANDO PARA
lista e escritor Renato Pompeu, um dos principais nomes UM TEMPO EM QUE O FUTEBOL ESPETÁCULO VAI SE DIVORCIAR
da literatura brasileira que contemplaram o futebol em suas COMPLETAMENTE DO UNIVERSO DAS PEQUENAS LIGAS E CLUBES,
obras, com destaque para o romance A saída do primeiro DOS CAMPOS DE VÁRZEA E DAS PELADAS E DAS IDENTIFICAÇÕES
LOCAIS, REGIONAIS E NACIONAIS?
tempo (Alfa-omega, 1978), o conto “Memórias de uma bola
de futebol” (Escrituras, 2002) e a biografia Canhoteiro: o ho- Silvio: Primeiramente quero fazer menção à pergunta an-
mem que driblou a glória (Ediouro, 2003). Falecido recen- terior, muito bem respondida pelo Elcio. O único adendo
temente, o escritor, que se dizia “filósofo do futebol”, deixou que eu gostaria de fazer refere-se ao fato de que esse evento
muita saudade para aqueles que ainda aguardam mais obras reforça a ideia de que se faz pesquisa sobre futebol em Minas
literárias que destaquem o futebol. A organização conjunta Gerais e que estamos em condições de dialogar com qualquer
do Simpósio foi fruto do profícuo diálogo existente entre outro centro de estudo sobre futebol. Quanto à última per-
pesquisadores vinculados ao GEFuT e ao FULIA, diálogo gunta, é difícil o exercício de futurologia. Mas, realmente, os

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Entrevistas
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fatos nos mostram que há, por parte daqueles que adminis- não me diz nada. Todavia, não deixo de assistir ao velho e
tram o futebol, uma ideia de espetacularizá-lo cada vez mais, bom campeonato carioca. Ele me diz respeito, fala da minha
tornando-o nada mais do que um produto, onde um dia um cultura, da minha história. Ali eu pertenço. Essa postura é
jogador joga com uma camisa e no outro veste a do arquiri- também uma posição política, pois vejo com desagrado esse
val, onde a torcida de futebol deve se comportar como outro paparico ao futebol globalizado. Aqueles que têm ganhado
qualquer consumidor de outro espetáculo artístico, onde a dinheiro com futebol, os empresários, os dirigentes, a mídia
paixão cede lugar para a razão e para o poder de consumo. etc., não respeitam a paixão do torcedor e os códigos de con-
Já temos, inclusive, o absurdo de clubes mudarem de nome duta que se estabelecem historicamente na cultura do torcer.
e cidade, como foi o caso do Ipatinga, deixando a sua torcida O presidente do meu clube desfilou em uma escola de samba
órfã. Eu espero que o torcedor brasileiro perceba que não que homenageava o maior ídolo do arquirrival. Foi muito
pode se dissociar do universo das pequenas ligas e clubes, dos criticado nas redes sociais e nos jornais. Escrevi que ele não
campos de várzea e das peladas e das identificações locais, poderia nunca ser presidente de um clube de futebol, pois
regionais e nacionais. Esse universo popularizou o futebol, não entendia o sentimento do torcedor. Romper com esses
deu a ele o diferencial dos outros esportes, trouxe a paixão. códigos de pertencimento é uma violência, é uma traição
O futebol globalizado não nos pertence, não tem a ver com para aqueles que fizeram e fazem o futebol ser o que é, ainda.
a nossa cultura. Temos usado o futebol globalizado como E mais, se tivermos uma grande crise financeira global, o que
referência para nossa administração futebolística e isso a sobrará em termos de futebol? A paixão. O resto passará.
meu ver é um equívoco. As pesquisas do GEFuT indicam
que o torcedor, pós reforma do Mineirão, passou a ir aos
estádios de maneira mais esporádica. Isso não cria vínculos, Elcio: Concordo plenamente com o Silvio. É difícil pre-
não forma o novo torcedor. O que traz a paixão, o vinculo, cisar os rumos que o futebol tomará nas próximas décadas.
o pertencimento é a presença constante no estádio. Hoje é Entretanto, uma coisa é certa: enquanto fenômeno cultu-
muito caro o pai levar seu filho ou filha em todos os jogos. ral, o futebol, assim como outras manifestações, não ficou
Existem muitas opções de lazer para um jovem e ele só fará alheio aos interesses econômicos. Isso se situa na própria
a opção pelo futebol se tiver paixão, vínculo, pertencimento. natureza do capitalismo: feito uma Medusa, que tudo petri-
Eu não assisto a nenhum jogo internacional. Não vejo graça, fica com seu olhar, o capitalismo petrifica as manifestações

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