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A EMEAGIENCIA DAS LITERATURAS AFRICANAS DE

EXPRE~O PORTUGUESA E A LITERATURA BRASILEIRA

S.lwato Trwc>
Un h,'lrt dade do Porto

Mais do que tal r das influências da Literatura Brasileira nas


Li eraturas Africanas de Expressão Portuguesa - questão já &bor·
dada por vários ensaístas e estudiosos africanófilos - importa re-
fletír um pouoo sobre o fenômeno da emergência da africanida·
de, enquanto reivindicação da consctência cu l ural e nacional dos
povos colonizados por Portugal, para aquilatarmos das s1mllitu·
des e das diferenças existentes en re esse tato e o que ocorreu no
Brasil oom o lançamento do grito de lpiraoga, estético-füerário,
com a Semana de Arte Moderna de 1922 Antes, porém, não s rá
díspiciendo discorrer brevemente sobre a modemidade de Itngua
portuguesa, a fim de surpreendermos o sentido existencial que
ela procurou atingir.
Assim, se existe um ponto comum na modernidade estáti·
oo-literária portuguesa, brasileira e africana, qual á a a;sunção
duma ruptura com os códigos estéticos tradicionais, o método
foi, todavia, diferente, destacando-se os pro~s brasilelro e
africano relativamente ao português no que di2 respeito ao obje,.
tlvo profundo dessa ruptura. Com efeito, enQuanto em Ponugal
o 1P Modernismo procurava romper com "lusitanidade" iso- Portugal quer romper com a lusitanidade
lante e partir para no\10s horizontes astétlcos que garantissem o
cosmopolitismo, o europe{smo, digamos, da nos.se literatura. no
Brasil, o Movimento Modernista, e na A rica e expressão portu-
guesa, os vários movimentos de auten , idade, buscavam justa-
mente o caminho inverso; isto é, a "brasHidade'' e a "africanlll·
Busca da "brasilidade" e "africanidade" dade" são momentos de particularização, de ínteriorízação, de
exclusão parcial do oosmopohtlsmo para se possibilitar a emer-
Lotru dt, Hoje, 17 (1), 123 • 140

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gênaa das raízes que servlmrn de matriz à alma OJlturaJmerrte batiam com os hórrores da Grande Guerra, dizia hJciclamen e 80Sc
mesuça das gerações desassossegadas sa {das da c:oronizacão seus concidc1dãos, falando das Lendas e tradições br , eíras: "Só
portuguesa. uma coisa sohrenadii no cataclismo; só uma arte d fia os icono-
a rdade, oo eríamos, desde já. avançar com a conclusão Identidade clas1as, só um tesouro não teme o Sél:lue - o fundo de radlções,
de que o Modernismo português, propriamente dito, se caracte- cultural de ideal, de p~ia, que são a lma de uma raça e o documento úni
rizou por um apagamento da tradição (da traditlo). enquanto que, co de sua identidade entre os seus- companheiros de planeta. A
discursiva
no Brasil e Afnca, era da trooição que se andava â procura, desventura lheia nos aconchega uns aos outro . Aprowitemos
Porta to. o modernismo estético teve em Portugal e nas áreas desse mo ente para nos conhecermos. Durant um ~ lo esti·
de expressão portuguesa diferentes motivações, apesar ds allcer- vemos a olhar para fora. para o estrangeiro : olhemos agora 1:rnra
r-se numa base comum - a revolutlo. nós mesmos" 1
a história do povos. reunidos por circunstâncias vária; O apelo de Afonso Arinos reflete já a al'lSiedade da descob r-
m mesmo territõrio, há semp e um momento em que o es· ta em que a geração dos anos 20 v,via Reflete, pri cipalmen e,
p1mo coletivo e nação 1parece e procura afirmar•se a partir de o desejo do Brasil da se.r brasíleiro, de lutar ecldidam nte contra
cenas referéncias culturais que passam a constituir, por assim identidades o perlferismo cultural e rlosóf ico em que parecia encerrado.

maneira depensar
diZPr, o modelo básico para realçar a difere~a que ímpulsiona Este fenômeno do períierismo cultural poder-se-á concep ua-
os seus comportamentos políticos. Foi 8S91m na fundação da na- lizar como um modus \/ivencH e um mo U$ cogitandi periféricos a
cionalídade portuguesa, assim teria de ser na construção da bra- qualquer das culturas e referência que possam localizar h1storíca-
s1lldade e da africanidade. enhum povo consegue saber exata- mente um povo Quer dizer que o brasilelfo, como o africano, en-
mente para onde wi, ou eve ir. sem que desct1bra, primeiro, don- quanto nã"o assume a sua difemnça, no seio das cultur de refe-
de wm. Isto é, quais são as suas ,arzes. Não vamos entrar em ex- RAÍZES rência a que esteja I gado, será sempre culUJralmente um perifé-
plicações nietzscheanas da antropologia filosófica da célebre eo- rica. Foi isto que A onso Arinos, e com ele urn plêiade de Jovens
rla do mito do "eterno retomo", porqu disso não necessitamos cBValelros graálicos da brasilídade, en endeu. Graça Aranha, entre·
pa-a compreender os motivos po( que os povos colonizados, em tanto, erigido em mes re, no sentido etimológico do termo. da
determin o mo nto, desP.jam autodetermlner-se e conduzir uma geração de 22, parece não ter compreendido que a brasilidade
existência wltur especitrca Isso acontece, normalmente, quando jamais emergiria se se continuasse a insis r nos modelo~ estéticos
eles se dão conta das contradições em que ementa o sistema deva- e filosóficos genuinamen e europeus. De fato, a sua 'Estética da
lo res ético st, trco-políticos que lhes impõem, de maneira mais ou vida, forjada em França e trazida para o Brasíl em 1921, ltura
menos agressiva. E. sobretudo, quando concluem que esse sistema em que o escritor regressa ~ sua t rra, não era filooofl a que pudes
de v lores nõo sa 1sfez minimamente as suas necessidades ínterio- Acordar das se interpretar o Brasil e fornecer-lhe os ntosofemas aproprioclos
res, obrigando~hes a alma a verter as suas emoções em metros e identidades à assunção da brasilidade latent , porque o ideal de Graça Ara

neocolonização
ri mos totalmente exógenos. nha confessa-o ele nm seguintes palavras . "O nosso encanto estarta
Se assumirmo c!GUi o conceito de colonização numa acepção em ser uma naçào americana com esp1nwalidade latina" 2 1:.sta
mais cultural o Que propriamente política, isto é, se nos lembrar- al1rmação reveta, sem dúvida, a mentalida e culturalmente perl-
mos de que um povo pode ser culturalmente cofonizacto m que o êrica do s~u autor, fazendo do aranhlsmo uma corrente de pensa-
seja poh 1camente, em sentido estrito, compreenderemos facilm8'1· mento Incapaz de respol'lder à an!i1roade dum pa{s que t8fia
te todas as conseqüências éticas e estéticas que um acontecimento reivindicar o seu es atuto mes iço par ,1cen uar a sua unidad~
da dimensão da Primeira Guerra Mundial arrastou consigo. Para resultante da c:trversidad de elementos que concorr m pa,a e ar
nos cingirmos ~enas, de momento, aos efeitos que provocou no o Brasil pôs-quinhentista. Falar da expressão "Bastardo"
Bras,1. citemos a palavra esclarecida de Afonso Arinos que, em Os jovMs da Semana de Arte Moderna, respeítando embofa
f ver iro de 1915, er,quanto a Europa e afinal o Mundo se de- tilosof,a do seu mais velho, sabiam, todavia, que não era possív 1
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construír a b illdade BSt íca apenas sobre o elemento europeu
.
História do Brasil. Após recordar alguns dos textos mais celebríza-
que a c;olonização tr8r1$plantara para o Cruzeiro do Sul. Os outros dos pelo Movimento Modernista Brasileiro, como a Evocaçlo do
elementos, que Graça Aranha considerava primitivos, fazi m par- Recife, de Manuel Bandeira, o Acalento do wlngueiro, de Mdrio
te integrante da realidade brasilica e, por isso, não podiam, nem de Andrade, o Pau Brasfl, de Oswald de Andrade, Um homem na
deviam, ser marginalizados dum projeto destinado a conferir um muftidlo, de Ribeiro Couto, o Inverno, de Jorge de Uma, Osório
esta uto verdadeiramente nacional ao pensamento fflosóf1co e as· de Oliveira conclui: "Porque se libertaram de todo e Qualquer pre-
tético brasileiro. conceito europeu e, em especial, do preconceito intelectualista re-
A cornm1e "primitivis(a" da Semana de Ane Moderna afir- presentado por Graça Aranha, é que os modernistas puderam ne-
ma-se, tão, como a mais indicada para brasllei r o Brasil. Ela cionallzar a poesia brasileira",
inha, alíás, prerursores em Que podia ai cerçar-se, na senda do ape- "Nacionalízar a poesia brasileira" é, sem dúvida, a expressão
lo do paisagista Afonso Arinos. C-om eferto, em Catímb6, de As- sinedóquica que mais convêm para traduzir os objeti~s profun-
censo Ferreira. na Toada do negro no banzo, de Murilo Araújo. ler! dos da Semana de Arte Moderna. Essa "nacionalização" inha, afi-
em Uru~ngo ou em Cobra Norato, de Aaul Bopp, e ainda na nal, o sentido duma descoberta. Da descoberta dopa I desempe-
melhor poesia de Jorge de Líma, de raii profundamente elt.iri- nhado pelo ind lgena. mas sobretudo pelo negro, na formação da
ca, encontravam os jovens modernistas motivos sobejos para f~ alma e do caráter brasílicos. Elat a descobena. implicava, portanto,
zerem da Tnspiração folclórica o elemeruo essencial da brasiti- que e líteratura e a arte, em geral, deixassem de estanciar pelos sa-
dade estética. A con 1rmá-lo surgiu Macunsíma, de Mário de An~ lões e bairros das cidades, onde a pureza desses dois elementos
drade, acerca do qual escreveu José Osório de Olivoíra : "Mas o antropclógicos já 11ão existia, para enveredarem pela rota bandei-
mais completo e Importante resultado da inspiração folclórica rante à demanda do senão e da civillzac;ão rural donde n~u ver-
foi o l lvro de Mário de Andrade, Macunaima o herói sem n nhum dadeiramente o homem brasileiro. Era um pouco o regresso â tra-
canlter, escrito numa prosa em que entram, propositadamento, dição inavgyrada dum modo partiw lar~nta feliz por Euclides da
todo os modismos, todas as particularidades lingüís1icas regionais, Cunha com O; senlSes. Era, se quisermos. reconhecer que a "na-
todos os idiotismos populares - lívro que, pelo próprio estilo, pre- cíonaliza;âo" da literatura brasileira exigia. primeiro, a sua regio-
tende ser uma rapsódia do falar brasileiro, e que, pela matéria que Vidas secas nalização, uma vez que o sertã'o e o sertanejo são substancialmente
contém, é uma antologia do folclore variado e heterogêneo do diferentes de regiio para região. O romana. nordestino, sem dúvi-
lmenso Brasil"3 • da, a vertente mais rica e importa te a(da do Movimento Moder-
Mecuna{ma pretende, pois. mostrar. de algum modo, o cami- nista, confirma-o à sociedade.
nho possível para a Lite atura Brasileira, enquanto, consciente- I= esse "romance nordestino" o mais citado fator extrínseco
mente. realiza a unidade da escrita a partl r da heterogeneidade dos da formação das consciências literárias modernas da Africa de ex-
elementos culturais e lingüístrcos que a suportam. E mostra tam- pressão portuguesa, a par da poesia telúrica e de empenhamento
bém que o elemento "primitivo" é indtspel'\Savel â br~ilidade, por- social dum Jorge de Lima ou dum Drummond de Andrade ou, aln-
que esta nâ'o se concebe sem a participação dos vários fatores his· Autores brasileiros
da, mais recentemente, da prosa poética mais original que o Brasil
tórlco-cul uraís que podem f&'L~la extsitr. Não se trata, portanto, "influência" nos
autores africanos conhecw até hoje como o é e de João Guimarães Rosa, sem es-
de decorar os textos brasileiros com mo lvos exó icos captados na quecer 1Smbém Manuel Bandeira e Rlbeiro Couto, entre outros.
.,,,mente indígena ou na africana, mas de reconhecec que a bras11t A lfsts poderia. efetivamente, ser alargada, mas os nomes citados
dooe é uma realidade complexa. ruto de, pelo menos, rrês com- emparceirando oom José Uns do Rego, Armando Fontes, Graci-
ponentes his 6rico-ct.ilturais de base . a européia, a ind fgena e a afn· liano Ramos e J0<9e Amado são os bastantes para falarmos de ln-
cana. Invoquemos, de novo, Jo~ Osório d Oliveira para colher- fluênciffi diretas da Literatura BrasHeira no emergir das literaturas
mos nele mais uma abahiada opinião a propósito da importância nacionais na África colonizada por Portugal. Confirmemo-lo com
que é preciso conceder aos elementos culturais não-europeus da Fernando Costa Andrade, poeta angolano, que, na circunstância,
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bem pode representar toda a Literatura Africana de Expressão sando também em revista a importância que o elemento negro te-
Ponuguesa. quando afirma: "Entre a nossa I eratura e a -.ossa, ve na Literatura Brasileira romêntica e slmboHsta, a fim de ten'lar-
amigos brasileiros, os elos são muito fortes. Experiências semelhan- mos perspàciivar até que ponto a Literatura bras ílica anterior ã Se-
tes e lnfluênc1as s,multãneas se verificaram. É fácil. ao ob rvador mana de Arte Moderna pode ter ajudado ao trajeto da emergência
corrente, encornrar Jorge Amado e os seus Capitães de are a nos da africanidade literária.
nossos melhores escritores. Drummond de Andrade, Gracll ial'lo. Jor- Parece que o primeiro escritor brasileiro a íncorporar elemen-
ge de Lima, Cruz e Sousa, Mário de Andrade e Solano Trindade, tos nstivistas nas suas produções foi o poeta Gregório de Matos
Gui marães Rosa, têm uma presença grata e amiga, uma presença de Guerra de quem S(lvio Romero e João Aibeíro, no seu Compên-
mestres das jovens gerações de escritores angolanos''". dio de história de literatura brasileira, disseram: "Se e alguém no
O romance nordestino e a ,poesia telúrica continham, na ver- Brasil se pudesse conferi-r o título de fundador da nossa literatura,
ade, os elementos míticos e ideológicos necessários para atraírem esse devena ser Gregório de Matos Guerra"'. Araripe Júnior, po-
a geração de coloniz~os afrrcmos que, no início da década de 40, rém, não foi da mesma opinião e achava mesmo que Gregório de
entra definitivamen e em desasso$ego e em si uação de ruptura Matos era ainda um brasilelro~uropeu, Para o fim que temos em
oom o sistema de valores que lhes e,am lmpos os. Além de respon- vista ná'o nos interessa discutir, aqui e agora, o maior ou menor
derem âs suas preocupações sociais, pelo cariz neo-realista do seu grau de aut8flticidade bras,1ica de Gregório de Matos. Pretendemos
discurso, esse romance e essa poesia tocavam-nos ambém m (tica apenas refutar aqueles que, estudando 8 influência da Lrteratura
e culturalmente, na medida em que ai poderiam reconhecer a lin- Brasileira sobre as Literaturas Africanas de Expressão Portugues3i
guagem da sua música ou da sua religião. É ainda Costa Andrade considerélll já Importante o contributo daquele poeta baiano nesse
que citamos: "Os Angolél'los, os lorubas, Nagôs, Achantis, Haus- relacionamento, procurando justíflca -se com o fato de o escritor
sas, Mandlngas, Fulas da Guiné e Sudão negri>maometano, os ea- ter sido deportado para Angola, no séc. XVI 1, em conseqüência do
lubas do Congo, deram uma raiz plural à vossa m(lsica, a que se SB°U envolvimento numa ação de protesto "contra a dominação es·
juntou alguma coisa da Europa que a todos dominou despotica- trangeira'' levada a cabo na Bahia e af. em Angola, ter participado,
mente". E aínda: ''Se os Santos e Sudaneses vos trouxeram os 0rl- como dizem, em ''sublevações anticolonialistas, antes de retornar
~s, 0lorum, Xangõ, Ogum e a incomparável lemanjá, os nomes a PemambtJ(:O, onde morrei.J'',
vários do COndomblé, ou Catlmb6, Macumba, os Angolanos trou,- e óbvio que esta I igação episódica de G reg6rio de Matos a
xeram-vos entre outros Ka!unga" 5 • Angola, numa época em Que neste território africa:,o não havia o
Perante tamanha 'cientidade hístórico-c:ultural, aliada ã filoso- minimo de condições para que a poestasatírlca do brasiteiro fosse
fia estética que subjaz:ia, sobretudo, ao romance nordes lno e que aproveitada, devido à ausência duma Intelectualidade angolense
9:!rvia inteiramente aos objetivos pollticos da emergência das lite- preocupcda com o fenômeno da autenticidade ooltural, não deve
ra uras nacionais na África lusófona, não é de estranhar que a Lite- autorizar a concJusão de que as relaçõ~ entre a tlterariedade afri-
ratura Brasileira modernista e pós,,mordénista passasse a ser o mo- cana e a brasilelra começaram lá atrás, no séc. XVII. Era demasia-
delo de referêncfa extrínseca mais importante para as gerações em- do cedo para que a sem nte da brasilidade pudesse ser ransplan-
penhadas no surgimento da afrfcanidade litefária. Africanidade tada para Africa, por várias razões, ma& principalmente porque
que, tal como a brasHidade, resultaria de um longo processo de ma- vivia-se, nesse empo, o apogeu do tráfico escravagisui, não sendo,
turaçao cultural qlJ8, por circtmstâncias várias que não adíanta es- portanto, o Brasil dessa era um exemplo ~ec(vel para os poucos
pecifica, só emergiria autenticamente na mencionada década de africanos culturalmente esclarecidos. Será fácil de compreender
40. l: por isso que n§o friei muito atrás no tempo buscar as rei~ que o Brasil, que atraiu a intelectualidade africana da expres.,ão
ções entre s atricanidade e a co~stn.,ção da brasilidade. Limitar- portugUesa, toi o que salu do grito de lpiranga de 1822. Foi o Bra·
me-eí a alguns apontamentos breves sobre a abertura que a Lltera· sll do Abolicionismo; não o escravocrata, Isto significà que não inte-
tura Colonial do Brasil fez ao tratamento de emas netívistas, pes- ressa recuar aquém do sé . XI X, quando se pretenda estudar as
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Influências da Literatura Braslleir nas Literaturas Africanas de 1810 é. llã'O foí a poesia relvindlcatlva dum estatuto Cúltural prôprio
Expressão Portuguesa, também porque estas sõ começam a dar os que exerceu in'fluência sobre africanos °:'ltos, e nom~adamente
primeiros passos Justamente e partir da segunda metade desse sá- angolEW\OS, que, então, procuravam garantir o reconhecimento da
w lO. sua diferença como "filhos do país", mas, sim, a poesia amorosa
Situemo nos, então, no séc. XI X e procuremos realçar os no· e a lírica sentimental, como acontecera no Brasil. Na verdade, no
mes mais signlficattvos da teratura Brasileira diretamente relacio· Pfímeíro hvm de poesia publicooo em Angola - Espontaneidades
na:los rom a ljteratura do Abolicionismo e da reivindicação dum da minha alma. As senhonl4t africanas (1849), da autoria do mes-
estatuto social digno para os aborígenes e para os negms. iço bEJ19ue1ense, Josá da Silva Maia Ferreira, que viveu no Rio de
Comecemos po falar do indianismo. Este movimento estéti- Janeiro, durante algum tempo, faz-se uma evocação a Gon~l-ves
co iniciado pela plêiade mineira foi. no dizer de Capristano de Dias na ep ígrafa, durante algum tempo, faz-se uma evocaçao a
Abreu, um "dos primeiros prodromos vísfveis do movimento que Gonçalves Días na epígrafe do poema "A Saudade" com versos ex·
enfim culmlnou na independência: o sentimento de superioridade traídos do poema "Queixumes", do brasllei ro. E nâo se diga que a
a Portugal'' 7 • Afirmar as virtudes do índio, nas suas múltipfas poesia indianista de Gonçalves Dias não Influenciou a geração dos
acep~es. poderia ser, de fato, um processo de sacudir um pouco "filhos do país'', porque ela lhes era desconheci_da, un;a ~ que
o enorme peso que a tradição e a mitologia poética portuguesas ti· eles apenas travavam conhecimento com a poesia br~1lelfa atra-
nham na maneira de ser e de estar no mundo do bra$ileiro. O (n - de Alexandre vés do Almanach de lembranç.M, a partir de 1872 chamado Al-
d:io poderia, assim, ser, e foí-o, o primeiro mito poético nacional Magno de manach de lembranças luso-brasilelro. O argumento não colhe,
do Brasil. Para isso muito contribuiu o poeta Gonçalves Dias qu Castilho porque, no caso particular de Maia Ferreira, o conhecimento da
aJptantou de largo o indianismo da plêiade mineira. Dos seus poe- poesia do indianista era direto. O que temos de concluir é que a
mas indianistas com Y.Jua..Plram.a disse Alcântara Machado: "Po- geraç.ão dos "filhos do país", por influência dlreta do ultr&-roman·
dem ser falsos os índios de Y.Juca-Pirama. Pouco importa: os tismo po uguês, não divis8\lõ a dimensão social Que a poesia e.ª
sentimentos que exprimem são nossos, e bem nossa, rom o seu literatura, ,em geral, podem ter Poetava, portan o, SéQUl_ldo os ca-
gosto violento de fruta do mato, com o seu cheiro de floresta vir· Exótico nones da época, u ílizando consabidos teit-motlven, deixando ao
gem, com a sua música bárbara de maracás e de borés, a 1/ngLrB jornalismo nascente o papel de intervenção sociopolítica, sobretlJ-
que faJ11m'' 1 • do através do editorial, da crônica e do folhetim.
Vai no mesmo sentido de pôr em relevo o caráter nacionalista Esta conclusão ganha tanta mais consistência quanto é certo
da poesia (ndia de Gofçalves Dias o que dele afirmaRonald de Car- que o que aconteceu com o ir'ldianrsmo ororreria também com o
valho: ''foi ele sem dúvida a primeira voz definftiva da nossa poe- condoreirismo. Antes, porâm, de falarmos do çondoreirTsmo, tem·
sia, aquele que nos Integrou na pr6pria consciência nacional, que Escola de poesia bl'emos de passagem que mesmo o Gonçalves Dias da Canção do
nos deu a oportunidade venturosa de olharmos, rosto a rosto, nos- 3 fase exmo o do patriotismo sentímental, não foi muito glosado, em
sos cenários f fsicos e morais"'. Romantismo África: senão tardiamente como comprova a Canção ambaqulsta,
Mas, embora dum ponto de vista nacional, de afirmação da de João Baptlsta Pereira, um colono ngolaoo poeta da década de
brasilídade, a poesia Indianista de Gonçalves Dias fosse ímportant&, 40,
a \/8 dade é que o público cu I o braslleiro apreciou-lhe mais a su.i Nas parmêra do Brasil
poesia amorosa e a sua li rica patdótica sentlmenta1, Que ele expri- ''Na plllffll,.do B,-11, Canta, canta o sabiá;
me na celebrada Canção do exmo, o que significa que as classes c.i111. ~ o lllb1':
s.,. em Men:,a ou em Abl'N Seja em Março ou em Abril
wltas elnda não tinham sen ido a necessidade interior de deixaram , _ a.dl••c.,tl. Passa os dia a cantá.
de ser europdias para se assumirem como brasileiras.
No que ooncerne aos ecos que, em Africa, teve a p0e.5ia de O m qu• Cílil1II • mfdMle
- eoblvlt:t• como o II o - Dizem que canta a soidade
Gonçalves Dias o fenômeno, par es,tranho que pareça, é idêntico, - Coisa triste como o luto -
130 131
Desta branco da cedade
O.ta trw,co • ca•de Que não mais voltou ao Puto. n!o desejavam criar, pela via poética situações de p rturbação do
Que nla rNU IIORQU eo Puto,
staws quo em que se encontravam, acicatando esp(ritos coloni s
E 01 ;ent• aonh• 110 ouvi! E os gentes sonha ao ouvil que só esperavam uma boa oportunidade pata abrirem hostílida·
Otllb tio B,_il!n
O sabiá do Brasil! des, Autoríza·l)OS esta conclusão o fato de os t xtos africanos de
Por este início do poe a de Baptista Pereira se reconhece fa- expressão portuguesa de cariz mais socia terem começado a apa-
cilmente o poema matrli de Gonçalves Dias: recer, nomeadamente em Angola. qua do a agressividade ver~I
dos colonos contra os ''filhos do pais" entra em cooa para os fins
"Mlnh tffl'II rn pllmel,.
OndtÇl!l1a o Abl6:,
do séc. XIX e princfp os do século atual. Recordaremos, de passa-
N .-- qut .:fui gorV'Jl!Tl, Condoreirismo: ideias igualitárias
gem, o Incidente que motivou o protesto coletivo da "Voz de An-
Nlo gorgti1m como"·" gola Clamando no Oeseno" e a poesia social dum lou~e~o do
Carmo Ferreira ou dum Jorge Rosa que precedem a escrita inter
Analisando, agora, o que se ~ u com a poesia condoreira de wntlv-a de Pedro da Paixão Franco em que terá fei o sentir-se a
que Castro Alves. o célebre "poeta dos escravos", foi o apogeu, verifi- influência do negro brasileiro Luis Go11Zaga de Pinto GéWlla, autor
caremos que, ~esar de o poeta ser amplamente conhecido, em de poemas importantes como "A Catiw" e "O Coleírinho", nos
Afnca, atravês do Almanach, a sua poesia que mais tocou os seus qua,s evidencia o orgulho da cor e dos cit,elos crespos, ao mesmo
contemporâneos africanos não foi a social, mas a sensual am que. tempo que se mostra doso de ctve o mundo o conslde,e "o Orfeu
do mesmo modo, era mestre. E aqul, mais do que com o lndianit- de e belo enca~inhado", numa atitude que diríamos precursora
mo de Gonçalves Dias que era historícamente dtstante da África, do amoso anifesto de Niágara que despoletaria, a partir de
além de ser requintado fingímento poético, havia fortes motjvos 1905 o chamado Renascimento Negro.
para que os poetas colonizados de expre.~o portuguesa acompa- Este Luís Gama, "filho de uma escrava QlJe não se converteu
nhas-sem o "poeta condor" na sua p~a socia. Primeiro, porque ao catei cismo e chegou a ser denunciada por ronspiração re\lOIU-
a causa dessa poesia lhes dizia historicamente respeito, uma vez cionâria a favor dos negros" 1 º antecede, de algum modo, o poe~
que se baseava no Abolicionismo; oogundo, p0rque a afirmação moça bicano José Crawirlnha no que este tem de orgulhoso rei-
dos valores africanos, subjacentes ã brasilidade, era a valorlzação vindicar da sua ancestralidade negra, sem negar embora a sua pa-
da própria rultura afrlcana de que os ''filhos do país" se diziam tern idade européia à boa maneira do cubano Nícolàs Guillén.
legítimos herdeiros e defensores. Estranha-se. por isso. que essa Se apreciarm~s. entretanto, as produções poéticas africanas
geração de intelec uais africanos não enha seguido o poeta revo- e expressão portuguesa do decllnar do século passado. com refe-
lucionário que, pondo em prática o seu lema mobilizador - rência especial para aquel que são da responsabilidade de a~go~a-
".. a praça é do povo como o céu é do condor" -. compôs poe- nos e de san omenses. uma vez que em Moçambique elas nao sao
mas tão belos quão fmponantes como "Vo"l13S d'Africa". "A significativas, nessa tase, constataremos, oomo já f!cou dito: Q\J a
Canção do Africano" e o "Navio Negreiro", qual deles o mais dimensão social dos textos cede o lugar a um exo ismo hng1Jístl~o
conhecido. e temático, com reqw bros sentlm ntatS, característico do ~,lo
Também aqu1 não deixa de ser curioso que tenhamos ele dos poetas que os inspirariam e que. no caso presente, seriam
esperar até a década de 40 para, em Viriato da Cruz. o mais ge- essencialmt!nte Gonçalves Crespo, Casimiro de A reu e Crui
nuíno poeta angolano, enrontrarmos os ecos da poesía soeiat de Sousa E:.-te último com maior influência do que os outros. sobr~
Castro Alves, ali~s recebidos via Jorge de Lima que o jovem an- tudo em Caetano da Costa Alegre, o poeta santomense de que f_? 1
golense glosa no seu épico poema - ''Mamã Neg ra - Cântico de ler oontemporân o e a quem mot1vou a grande preocupação. que n.ao
Esperança''. Que explicação encontrar para este estelheamento era aper,as poética, com a temática da cor da pele, que é prepon·
dos poetas africanos oi ocen 1stas da poesia social vinda do Brasil? derante na sua poesia,,
A resposta mais provável poderá ser a de que os "filhos do país"
132 133
Cruz e Sousa, negro nascido aínda escravo. fo, o continuador l'wfc) hlt dlllAda qw 1>1~Jt1 uma vutr1111plka;&J pow,.,_: 1 ln u6ncl
do maio. Ccux • SoUIAI n11Kau 91'!1 Sanui c.t1rine, omlt e lnllu6ncla
necessário, sem ser epfgono, da poesia social de Castro Alves, ainda "11111111'-' naturtl-• rnuho ,.,._ f0111:11ntn "'...,, matr lflCOn·
Que a sua poética, feita dum m (stico artificialismo, seja essencial- tta•• uro lll•rníô como Fritz M.l llar, • •" tofnu fort«nen e I ln
men_te romftntlco-simbolista, afetada, por isso. a um tempo. pelo uu,ncit do J*llmiirno filOIIÓflco vmlnloo, pa,:iculsnnent, de
Sc:hopanhai1r. PodtMe,11, portanto, pana- que o gano pttl1 poe11l11
pea,mismo de Schopenhauer e, como multo bem observou Ja- nótdlca I ne o 111ul!Jldo da !lflucllÇIS'o. Ma,q 11M i.mbl'1ffl'IOlld
nhef~z Jahn, pelo n;smo de Baudelaire. Cons derooo por Roger qut no 0111,0 t){1rlfflC do 8 ,-,1 , o utrO t,o"*" dt cor, T01> I• 81r•
Bast1de um precursor da Negritude, enquanto Claire Cáa via nele o reto, fo 1 procuru tambtm I a,a ln,pi raçlo no pllilaammtD ~münl·
prógono do Renasc mente Negro, Cruz e Sousa. debatendo-se eo. ~ permitido cl nr qu1 1,cltt• um len4meno, cuja •lllPI lcaçlo
'6 pod'c •T encontrá ruma iH do inc;cu,,-;f,ni1 rrlll, nt
entre o racismo e a escravidão, temáticas dominantes também na von11d1 de mudar ffllf'ltalmmt1 de cur:4 praci50 cl-&rto m.lhor
sua o~ra, ent:eaa-se, como o fez o santomense Costa Alegre. ao "*º • proourar • po,etla(Hj I fllolofit dOI 1ndh1(dm1 ~· dm e pele
matino poético da cor da pele. deixando-se. por assim dizer inva- rrM!lulfn, iffl , , 01 pol!U do Nortt ." 11

dir pela filosofia do spleen baudelaireano que ma rcaria atgu~ dos


próprios simbolistas-decadentistas IJ()rtugueses, como Amônia Cost:a Alegre, ao cultivar poeticamente essa "no.st ·lgía do
Ptrtrfcto ou António Feijó, por exemplo. branco'', de que fala Basttde. assume, por um lado, a identidad
A temática da oor da pele. entretanto; aparece em Angola estética com Cru-z e Sousa, e, por outro lcKlo, re-vela,.se-nos como
oomo um leit-motiv da que poder{amos t:hamar "geração do Al- um dos nossos simbolistas, todavia m ginal, não lho endo sido
mtw"lach de Lembranças", que se antecipa, portamo, peJo menos prestada, por isso, a devida atenção. Com efeito, só pos um men-
em alguns caos, a Crut e Sousa e a Costa Alegre. Basta citar Joã'ó te e graças à devoção de um u amigo portu nse, Crui agalhães,
Gandldo Furtado de Mendonça d' Amas, Ernesto Marecos. João da foi possível conhecer a produção poética importante deste san o-
Cruz Toulson, Alvares Paes, Cor-cieiro da Matta e Eduardo Neves, mense.
entre ~urros, onde. se nota a preocupação de esbate eventuais prn- A conclusão .provisôria, mas resuntiva, a que podemos chegar,
conce,tos epldérm1cos. realçando a beleza das figuras de ébano - para já, erca d s relações e ín 'luências da Litera ura Brasileíra na
sugestiva meláfora com que essa poesia designava a mulher negra. Literatura feita na África de expressão portuguesa é a de que,
Esclareça-se porém, que esta geração de poetas apenas realça este· nesta fa-re. os africanos cultores das musas eram mais atraldos pelo
t!camente o negro, não se achando em nenhum deles o desejo poé- exostismo lingü(stico e Imagético do saus companheiros e mento-
tico do negro aspirar ao branco, como acontece em Cruz e Souza e res brasileiros do que pela mensagem social dos seu textos. Neste
em Costa Alegre. sentido, os modismos estéticos domina-em a literatura prodUZJda
A lnexistêncl~ da "nostalgia do braoco" nos citados poetas pelos ''filhos do país" na África colonizada por Portugal durante o
angolanos poderá mdica~-nos que ales se mantivera nos parâme- período oitocentista, enquanto no Brasil emergia uma conscifncia
tros estét icos do romantismo, onde o exótico tinha lugar, enquan- li erária, a um tempo, primitivistêl, nacional e social.
to que a e~istência dessa nos_talgia em Cruz e Sousa se explica pela Mas, se, nesta fase. o Brasíl não ave um papel de grande
sua definitiva ~rtença estétrca ao slmbotismo cfe que, no Brasfl, reaJce no impulsionar de uma literatura africana de expressão por-
foi talvez o mais alto representame ao lado de Alphonsus Guima- luguesa como a que preconiiavam, de algum modo. os angolenses
raens e M~río Pederneiras. Esta questão. todavf a. entender'58-á m "filhos do país" instigados pelo missionário suíço ao serviço dos
lhor, citando aqui, de novo, Rogar B-íde: Estados Unídos. Héll Chatela,n, auLor da mportante ,ec:olha "Folk
Tales of Angola", a geração dos jovens afr1cai,os demandantes da
''Como • podM tl(pllcv ..-tfo que o 111110, rwpn:an n111 da elL:IO 11 Atríca-parefso poétloo. da África-nação, da Áff'ic~Terra, essa
ârtibollna no 8rail • um daa1nd.m. dia ll~a.. um filho•
acr1Woe, um ttt90 Que encontrou ~ · P1f,o caminho, peradltt-
geração Iria buscar na Llleratura Brasileira justamente a sua dimen-
lo, o PAICCXICeito da cor1 H6 tf um vt1'dodthv ,pal'ICfom, q1;1116 .. são socia, ao mesmo tempo que aproveitava da busilidade estéti-
pod1 8111 lc.n pelo c-riet- 'da.lficador' do l'N:IOll•mo. ca aque es elernemos q e, por razões hist6rtcas e psicot6glcas, po-
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deram servir à configuração da efricanidade llter ria Que constitui- temática. Terceiro fator, e decerto o não menos ímportante, a pro-
ria a base para a emergência de l•tereturas autenticamente nacio- fusão duma iteraturacolonial apologética que alertou os coloniza-
nais. Tal busca surge-nos constantemente confirmooa nos escritos dos conscientes pare o perJgo que ela representava em termos de
desses jovens. por vezes até duma -forma tooreticamenteexagerada, alienação dos menos esclarecidos servido do regime. Afinal, essa
como é o caso de Geraldo Bessa Victor que, num tom algo _,ruxo-- Literatura, como, alíás, lhe competla, procurava nas registrar
n!K:lo, profetizava: "Angola, especialmente, por razões de ordem em páginas de exótico ambiente a epopéia do homem brenco e do
ps10016gica. hist6 ica e soclaf, de~ dirigir os olho para a Poesia colono, em Afnca; marginalizando reduclon·s1icamente o homem
bras,leira, para receber a lição sem aqual (creio-o bem) não haverá negro e o colonizado. Desenvolvida num perlodo em ue a cons·
entre nós uma verdadeira poesia africana". ciência moral da Europa apresentava Já amplos sintam de rul'na,
ão sejamos tio rooicais nem apaixonooos acerca da Impor~ essa literatura anacrtlnlca tinha de.suscitar r costas neutralizantes
tãncia da Literatura Brasileira para a emergência das literaturas da parte dos colonizado· cultos que não podiam 1stir 1mpav1da-
Afrfcanas de Expressão PortugU9S3, apesar de termos de reconhe- mente ao QPagamento dos traços wlturais e civ11izaciona1s ue
cer, como jê dissemos, que ela foi considerável, sobretudo a partir eles e am pona-estandartes e arantes.
cios finais da década de 30 princíplos da década de 40, altura em Julgo que estes três fatores terão sido os mais iec1sívos para
que por razões dJretamente relacionadas com a evolução do pro- catapultar as literaturas africanas nacionais de axpressão perwgue-
cesso colonial era forçoso ao colonizado afirmar a sua diferença sa:. Eles ancontram-se, aliás, oa base da filosofia de a uação dos or·
perante o sistema étioo-estétíco-pol ftico que o dominava. PIJ'a ganismos culturais que os colonlzados vão fundando par&germina-
essa reação do colonizado por Portugal terão contribuído, entre rem a semente da africanidade !iteraria e política. Exemplifique-
outros, os seguintes atores. Primeiro, o aumento graiual de colo· mo-lo somente com a Liga Africana e a Anar,gola, em Angola, com
nos ctJ tturalmente impreparados mas dispostos a fazerem fortuna o Grêmio Africano, em Moçambique, e com a Casa dos Estudantes
rápida sem olha em aos meios por que haveriam de conseguHa, o do Império. em Lisboa, verdadeira sede da resistência wltural dos
que fez acicatar os ânimos de toda uma geração que, de repente, colonlzados e, símultaneamente, estufa de cul ivo do que de mais
viu desrepeitados os seus poucos direitos e desfigu ado o seu h generoso e nobre e1elstia no projeto da africanidade de expr-essão
bltat. Confirmemo-lo. por exemplo, em dois textos célebres de Vi- portuguesa.
riato da Cruz: Sb Sao1D e Makizú. Segundo. o crescimento econ6- Não avancemos, porém, sem re erir, neste momento. que.
mico controlado pelos colonos obrigou a procura de mão-de-obra antes mesmo da emergência das autênticas literatura; africanes de
entre os oolonizooos, especialmente para as grandes explorações expressão portugvesa (cujo privilégio coube a São Tomé e Prínci-
agrícolo-lndustriais e pesqueiras, em Angola, São Tomé e Moçam- pe, se não oom Marcelo Veiga, pelo menos com Franclsco José
bique. criando-se aqui o caso especial do magaíz.a, rabalhador emi- Tenreiro), vão aparecer alguns textos particularmente significativos
grado para as minas do ouro da África do Sul. SUrglu assim uma quer em Angola quer em Moçambique (para nio fa smos do caso
forma requintada de trabalho forçado a Que genericamente se cha- especlal lsslmo de cabo Verde} que contrastam com ~ liter&tl.N'a
mava o contrato. O conmtado, nas suas variadas acepções, orna-se, colonial ai>Ol~ica, ronaadendo ao colon, a o o papel funda-
portanto, um poderoso motívador da reação que estamos a anali- mental na saga da história da colonização branca da África. Referi-
sar. Lembremos, de passagem, o poema Partida para o Con,trato, rei apenas. oomo exemplo, o caso de Fernaido de Castro Soro·
de Agostinho Ne o, o Monangamba, de Am6nio Jacinto. o M&- menho, um angolano de coração nascido em Moçambique. que o
gaíza, da moçambicana Noémia de Sousa, ou o Mamparra Mi.aaíu, Brasil acolhoo até lhe gua dar as o as, quando o romancista
de José Craveirlnha, na Poesia. e e Vide e Morte de João CabafU- teve de ~xflar-se de Portugal.
me, do caboverdiano Gabriel Ma,lano, ou o Nós matamos o cio Castro Sornmenho foi, sem dúvida, o maior escritor seruine-
tinho90 .. . , do moçamblcano Luís Bernardo Honwana, na Prosa, jo da África de rotonlzação portuguesa. Toda e sua obra mais va-
para s6 citarmos alguns dos rextos que se filiam diretamente nessa liosa se motiva no sertão, especlalmente do nord(!Sle a1gol o,
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eu. en1re outros, o romanoe - Terra morta ou Came-
lo - qu o er:á prolern o mais 1ntemacionalmeme. A chaga que "'0111 lltCu .i, 1'111111 lnním:
o x(llo br ,lelrolh permrtluescreveréJtíumaobradedesilusão, Aqullle Sol no poenm,
Vefflllllhociomo mo bt
n 1ue m e ndo qualida es que levarem o ensaísta Adolfo • Sol .,,.,..,t•.
Nío
Casa r ont ro. um outro ponuguês exilado no Brasil até à mor· Ecotguto d• aangut
te, a considerar Soromenho um nome importante do romance neo- Veltldo por tngOlll'IOI
Ou• iffllffl o ~il ! ..,
re li e I ln , ponuguesa .
. tro Soromenho. sobretudo na segunda fase da sua obra, ou no seu poem "Exortação":
1 ,c1 1 co ,omance Viragem, de hulo, aliás, sugestivo, foi um
~Rblfm CoulD • 11f11.1411 B~ ra,
ponto de r ferência para a narrativa africana de expressão portu-
f11MD1do811' ,
gu a que deceno viu nele a rsao mais aproveitável do que o ro- do B,wll ,nOIIO limão,
md · bras1 iro do sertao p eria fornecer-lhe. Aoma.nce brasl- d1*nln:
iro. que não terá dei a o de m11uenci r Soromenho, especfal· '-'= pnchow epoell•b-• 1111,
de 141IIOS ~ • · fort•,como o 8raíl,
m r tlO romance no rdestino, na primeira fase does- '*' a I mure lu1ada" -,
léllo. Na verdade. Josá de Alencar, Euclides da Cunha,
ac e Assis, P1n e ro de Guimarães rom o ~u Comenda· a( sente-se bem até que ponto osafr"canos reconh i m no Moder·
dor (1856), Manu I Antônio e Almeida com as suas Memórias nismo brasileiro o caminho que eles tinham de construír parn r
um ento de milícias ( 852). Bernardo Guimarães, o conhe- guerem a !itera ura africana que pudesse traduzi r odo o calor e
cido autor de A esc \la lsaure, u Alo!sio de Azewdo, entre ou- toda a emoção que se co11fundi.-t1, nas suas almr:s, com a dor o
tros, n o erão ie excluir das leituras daquele autor africano. Das ~frimemo revoltado de homens à procura do seu mundo que ou -
intluéncJas do romance n r estino, propriamente dito, em Soro- tros tentaram fazer~hes perder pera empre
menho, não falaremo mas se pre recordamos que os seus roman- Por Ribeiro Couto ou Maoo l Ban ieira, como aurfcio Go-
ces são também nau• ' lum J()(deste. o angolaoo, que mantém mes pretendia, ou por Jorge de Uma, por onde passou, entre ou-
0011" o brasileiro ouras semelhanças para além da identídade geo- tros, Francisco José Tenrelro, vulgarmente ..,ontado como o intro-
gráfica. dutor da Negritude nas Lí ereturas Africana. n Expressão Portu-
Feito la obra dum romancista-marco guesa, com o que não estamos de acordo, sobretudo com os us
no process rJa e lução para as literaturas african de expressão poemas "Negro de todo o mundo" e "Epopéia", ou por Jorge
po uguesa, pod mo r ressa- quase ao nosso pomo de partida Amado, onde MAno Amónio bebeu mspíração pa-a alguns dos seus
e, ass,m. roxlmar-nos o fim desta breve e despretensiosa rese- poemas (Quando lI Jubiabá /me cri António B :.Ju íno .. J ~ sua
ha sobrP as laÇÕeS en re o Br 11 lt terárlo e cultural e a Áfrtca fase africana autêntica, ou por Qualquer outro autor brasileiro, o
que fala P11rt g • A conclusão que emerge ti a de qtJe as relaçx)eS que importa assinalar é que as Llteraturas A ric_anes de ~x~r~o
rav as dté a semana de Arte Moderna, embora não devam igno- Portuguesa passaram pelo Brasil não por nocess1d Je de 1mnaçao,
rar-se, não tl r m 1..m I d• lsivo para a consc1entlzação literá· mas por sentirem que ponderosas razões de ordem ético-estética e
ri os colon os tricanos. S6 a panlr desse marcante acont~i- psiCOS'SOCial ons. 1 ava a vir a esta erra m lt ímoda, desenvol-
mento na vida cultural brasileira oue a África de expressão portu- vida e feniHzada com muito sangue africano, é procur de peda~s
guesa procurou u • no Br11':il, o maior número de referências para de suas raízes par - ui tre plootadas. Pedélços esses de que hoJe
engír os seus monumentos literários pr prfos. Essa procura resulta~ Jâ se conhece bastante, mas que urge conhecer melhor proceden_do-
v uma necessid de interior e afirmação e identidade cultural se a estudos de Literatura Comparooa dos grandes temes QU8 cnam
ue as ciroun.: nci au'ás mencfona:las forçaram a manifestar1ie a ruptura. e por ,sso mesmo a diferença, ent e literaturas que se
no início dos s 40. E, quando o poe a angolano, Maur(cio de exprimem numa Ilnwa comum.
Almeida Gomes, escreve no seu poema "Estrela Pequenina" -
138 139
Estudar as Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa é,
de algum modo, estudar também a Literatura Bra;ilelra Quem de-
ra que o ínverso fosse igualmente verdadeiro .•.

NOTAS
1 - 0$Õf1IO DE OLIVE:IRA, J. - Klin4N branda nw.r.ura ......... Li1boa, Edito-
rial lnqq•rlto, 1939. p. 1OS.
2-lbld .. p. 111.
3 - lbid~ p.107.
• -COSTA ANDRADE, F.-u.n,ra..,1an1 (()plnl6-). l.iíbcMt, Ediç(5el 70. p. 28.
6 - lbkS.,p . 27.
8-0SORIO oe OLIVEIRA,J, -op.clt.,p.30.
7 - lbld., p. 40.
8 - lbid., p . cz.
9-1 ld., p . ~ .
1O - M.-.TOS, Graml.N> de. - lnifulnda da llttif11tvff twail•ra tobr. • Otw-- llfri,.
_,.deli pomqu-. p .95, rnlmeognrf• do ,.,10,-.
11 - BASTI DE, R~.- 1:làHIM lftobrailairoL 5"o Paulo, Pwrspecth.a, 973. p.6'2-3.

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