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BIBLIOTECA DE CIENCIAS SOCIAIS

Sociologia
Tom. Bottom.ore

..
SOCIOLOGIA
POLÍTICA
J. 6oe,o/4e)a f>oh-hca.

'l'lldlaflo:
Pnulloo de Alui Pereira
,.

ZAHAR EDITORES
RIO DE JANEIRO
1 1 1 111111 1111 1111111 1 1 1 111\11 llll
06148/97

Título original: Política/ Sociology fNDICE

Traduzido da primeira edição inglesa


publicada por Hutchinson & Co. (Publishers) Ltd.
de Londres, 1 nglaterra
r-
© 1979by Tom Bottomore Z
uJ
AI/ rights reserved 1 ntrodução 7
<
Direitos reservados.
A reprodução não autorizada
1. Democracia e Classes Sociais 19 u
desta publicação, no todo ou em parte, 2. Movimentos Sociais, Partidos e Ação Política 38
constitui violação do copyright. (Lei n<? 5.988) 3. Tipos de Sistema Político 55
4. Mudança Política e Conflito Político 74
5. A Formação de Novas Nações:
Capa: Marta Strauch Nacionalismo e Desenvolvimento 92
Composição: Zahar Editores S.A. 6. Política Global no Século XX 107

Bibliografia 123

1981
Direitos para a I íngua portuguesa adquiridos por
ZAHAR EDITORES
Caixa Postal 207 (ZC-00) Rio
que se reservam a propriedade desta versão
Impresso no Brasil
INTRODUÇÃO

A sociologia política interessa-se pelo IJ.Qder em seu contexto social. "Po­


der", aqui, significa a. capacidade que tem um indivíduo QU um grupo
social de seguir um curso de ação (de tomar decisões e executá-las e, de
maneira mais ·ampla, de determinar a agenda para a tomada de decisões),
se preciso contra os interesses e mesmo contra a oposição de outros indiví­
duos e grupos. Com essa afirmação não pretendo dar uma definição com­
pleta e adequada do conceito de poder, mas apenas delinear preliminar­
mente um campo de investigação. Há diversas conceituações de poder, 1
encontradas em cada uma das várias teorias políticas; e no decorrer deste
livro algumas das principais dificuldades conceituais na construção dessas
teorias são examinadas de modo mais completo. Além das questões que
podem surgir com relação à noção central de "poder", há outras referentes
a noções cognatas tais como "autoridade", "influência" e "força" ou
"violência", que deverão também ser exa_minadas no contexto dos esque­
mas teóricos particulares.
1: evidente que poder, no sentido amplo que indiquei, constitui um
elemento na maioria das relações soc1a1s, se não em todas - na familia,
nas associações rei igiosas, nas universidades, nos sindicatos etc.; é im­
portante ter em mente essa visão mais ampla do domínio da investigação
política. No entanto, o objeto principal da sociologia política to,, e deveria
ser, O_ fenômeno do poder ao-;; ÍÇ°�I de��rna SOCledadeÍibrang-�te (seja uma
tribo, �m ·Estado-nação, um império ou qualquer outro tipo), as relações
entre tais sociedades, e os movimentos, organizações e instituições sociais ..

Ver, por exemplo, a discussão em Steven Lukes. Power:a Radical View (Macmil­
lan, 1974).

7
8 sociologia poh'tica introdução 9

ingleses e franceses do século XVI li, na expressão sociedade civil,


que estão diretamente envolvidos na determinação de tal poder. Pois é e que a anatomia da sociedade civil deve ser procurada na economia
nessa esfera que o poder aparece em sua forma mais pura, mais caracterís­ pol(tica. 3
tica, e é apenas a partir dessa posição vantajosa que suas manifestações
em outras esferas e sob outras formas podem ser apropriadamente com­ Essa nova concep_ çãode política se deserwo_lveu q1.1.ar:ido do_�!:l!.f!!T�íl:
preendidas. t
to de u�:i.ii''!:tes Je s9cfodad.�. o ca.�itàJis.rno 11]9çiemo, no _qual o siste­
Na minha opinião, é impossível es-::abelecer qualquer distinçã,q tt!Ó·.
ma de produção adquiriu força e independência muito maior que em
r_[ça importante, entrê'1§:çl9Tõ,9iiC,e.olíi@L��ÊT[��?,!a.,J>,8Et}�!1_· No máximo, outras sociedades. Daí, a equação parcial de "sociedade civil" com "socie­
podem existir diferenças resultantes de preocupaçoes trad1c1ona1s ou de dade burguesa", o reconhecimento da importância fundamental da econo­
urna divisão conveniente do trabalho; por exemplo, o interesse particular mia política corno uma ciência "política" e a formulação, corno um pro­
que os cientistas .Q.QJítiEQS têm demonstrado com relação àquilo que pode
blema central dessa época, da relação entre, de um lado, a esfera da produ­
ser chamado de "as engrenagens do governo" - o aparelho e os processos ção, propriedade e trabalho e, do outro, o poder político organizado - o
de legislação, administração e regulamentação legal -, consideradas, até Estado. Essas preocupações, e o contexto no qual elas surgiram, foram
certo ponto, isoladaQlente do contexto social e tratadas de maneira prin­
expressas de forma explícita por Hegel em Filosofia do Direito, quando
cipalmente descritiv1' Por outro lado, pode-se argumentar que a moderna
argumentou que "a� da:socieEade civil é a realização do mundo mo­
ciência política (isto é, algo indistinguível da sociologia política) deve seu _
derno" e definiu sociedade civil em termos do modelo dos econornrstas
desenvolvimento característico, a partir do século XVIII, ao estabelecimen­
do mercado livre, no qual a associação de seus membros "é provocada por
to de urna distinção clara entre o "político" e o "social", à constituição
suas necessidades, pelo sistema legal - os meios para segurança da pessoa
da "sociedade" corno um objeto de investigação sistemática e à conseqüen­
e da propriedade - e pela organização externa para concretizar seus inte­
te reflexão sobre as relações entre a vida política e a vida social. 2 í
resses particulares e cõrnuns".4 Segundo Hegel, a sociedade civil coloca
Essa distinção foi originalmente formulada ao se contrastar a "socie­ urna série de problemas para o Estado resolver; acima de tudo, o problema
dade civil" com o "Estado" e exposta de diversas maneiras nas obras dos
do crescimento inter-relacionado da riqueza e da pobreza, e a polarização
enciclopedistas e de Saint-Simon, nos estudos de filósofos e historiadores
e os conflitos sociais que isso produz.
escoceses (sobretudo no Essav on the H_istory of Civil Society, de Adam
Ferguson) e nos escritos de Hegel sobre a filosofia do Direito e do Estado. - Não é difícil perceber a importância dessas concepções para o desen­
Subseqüentemente, encontrou urna expressão clássica na afirmação de volvimento da teoria de Marx. A transformação que Marx fez do pensa­
Marx do princípio subjacente de sua teoria social: mento de Hegel envolve principalmente urna rejeição da idéia do Estado
como um universal superior no qual as contradições da sociedade civil
Fui levado por meus estudos à conclusão de que tanto as relações podem s�r superadas, e urna affr.rnação da dependência do Estado preêisa­
legais quanto as formas de Estado não podem ser compreendidas mente com relação à contradição entre riqueza e pobreza, inerente ao
em s1 mesmas nem explicadas pelo chamado progresso geral d� mente modo de produção capitalista, e, portanto, com relação ao conflito entre
humana, mas que estão enraizadas nas condições materiais de vida, as duas classes - burguesia e_ proletari�do - que personificam esses aspectos
que foram resumidas por Hegel, segundo o costume dos escritores
contraditórios da sociedade. O Estado é, então, concebido corno um ele­
mento dependente de um processo social total em que as principais forças
2 Ver W.G. Runciman, Social Science and Political Theory, 2'1 ed. (Cambridge motrizes são aquelas decorrentes de um determinado modo de produção.
University Press, 1959), cap. 1 [Ed. bras.: Ciência Social e Teoria Po//tica, Rio, Zahar, Há ainda o estilo de pensamento político que trata de outro modo
1967I. Esse argumento tem um significado mais «isto. Se afirmarmos que uma nova a relacão entre sociedade civil e Estado, contribuindo para urna versão
ciência da pol(tica foi gerada pela definição de um campo de investigação que se re­ difere�te da sociologia política. Urna expressão inicial dessa visão alter­
fere à relação entre "pol(tica" e "sociedade", então devemos reconhecer que isso
ocorreu durante certo tempo em várias disciplinas acadêmicas, de modo que a nova nativa encontra-se na "nova ciência política" de Tocqueville, "neces-
ciência veio a compreender não ·só o pensamento pol(tico tradicional, mas também
jurisprudência, sociologia do direito, economia poli'tica e antropologia pol(tica. A
_ 3 Karl Marx, Uma Contribuição à Critica da Economia Politica (1859), Prefácio.
sociologia polt'tica, portanto, baseia-se nos métodos e resultados de várias d1sc1pltnas,
e é apenas um tt'tulo descritivo conveniente para um domi'nio especifico de investiga­ 4 Há uma excelente análi1;e da concepção de Hegel sobre a sociedade civil e sua rela­
ção, um conjunto de problemas teóricos, que poderia perfeitamente ser chamado por ção com O Estado em S. Avineri, Hege/'s Theory of the Modem State (Cambridge
outro nome. University Press, 1972), especialmente p. 141-54.
10 sociologia poli'tica
,f introdução

te o movimento socialista - sobre a política nacional. Como Robert Nisbet


sária para um mundo novo",5 uma ciência que se interessa pelo desenvol­
observou, Weber apresenta "um temperamento muito semelhante ao de
vimento da democracia e a formação de uma sociedade "moderna" (em 7
Tocqueville", sobretudo um pessimismo semelhante (porém, talvez, mais
contraste com o ancien régime) na França, Inglaterra e América. Para
pronunciado) em sua avaliação do futuro da liberdade individual em socie­
s� perceber a natureza característica da concepção de Tocqueville basta
dades dominadas menos pela paixão da igualdade (embora ela desempenhe
dizer que, ao observar as duas correntes revolucionárias do século XVIII
um papel) do que pelas forças da racionalização.
- a revolução democrática e a revolução industrial - que estavam criando
A importância das forças políticas independentes foi afirmada de
o ·:mundo novo", ele, ao contrário de Marx, prestou mais atenção à pri­
_ outra forma, incorporando um confronto mais direto com o marxismo, na
meira e atribu1u-lhe maior importância na formação das sociedades mo­
_ teoria das elites formulada por Mosca e, de maneira mais intransigente, por
dernas. Pois sejam quais forem as fontes do movimento democrático
Pareto. Segundo Mosca:
s�as conseqüências, para Tocqueville, eram claras: sua tendência I'
�1 ai era_rJroduzir_ i I balindo as Entre os fatos e tendências constantes que se encontran, em todos
os organismos pol(ticos, um é tão evidente que o olnar mais casual
dl! 0s1 a an o todas ões r
o percebe. Em todas as sociedades - desde as sociedades pouco
a cada membro da sacie ade. Segundo ocqueville, essa tendência po�suía desenvolvidas que mal atingiram a aurora da civilização até as so­
aspectos pos1t1vos e negativos. Um governo democrático provavelmente ciedades mais adiantadas e poderosas - aparecem duas classes de
dedicaria suas atividades ao bem-estar do maior número de pessoas e pode­ pessoas: uma classe que domina e uma classe que é dominada. A
,;
_
ria estabelecer uma sociedade liberal, moderada e organizada. Por outro primeira, sempre �9§.. numerosa, desempenha todas as funções
pol(ticas, monopoliza o poder e desfruta das vantagens proporciona­
lado, a busca da igualdade social, "uma paixão insaciável" das comunida­ das pelo poder, enquanto a outra,a classe mais numerosa,é dirigida
�es democráticas, segundo Tocqueville, pode entrar em conflito com a e controlada pela primeira, de um modo que agora é mais ou menos
liberdade dos indivíduos, e nessa disputa a primeira tende a prevalecer, legal,mais ou menos arbitrário e violento.8
levando em caso extremo à "igualdade na escravidão"
Pareto desenvolveu uma versão dessá teoria na qual o domínio das elites
Tocque�ille não ignora o contexto do capitalismo industrial em que
. . era apresentado como um fato universal, imutável e inalterável da vida
ex1st1a o movimento democrático, como se pode ver especialmente em sua
s�� :...xistência dependia das diferenças psicológicas entre os indiví-
análise das revoluções de 1848;6 contudo ele atribuía a um regime politico -
-� Mosca entretanto modificou sua concepçao m1c1al reconhecendo
democrático, influenciado pela geografia, pelas leis e tradições - e por isso
que as mudanças históricas na composição da elite e na relação entre 1
seguindo uma trajetória de desenvolvimento diferente em sociedades dife­
rentes (interessava-se acima de tudo numa comparação entre América e dominantes e dominados poderiam ocorrer sob a influência de várias · ··
"forças socia/s" que representavam os numeroso� e diferentes interesses na /\
França) -, _ uma e�etividade independente na determinação das condições 10
sociedade.
gerais da vida social. Es_s_a i_déi� d,ij..a1..1tooom,ia_ dij. política foi elaborada
Cada um dos dois esquemas de pensamento que esbocei pode ser
po�t�.rjprr;ne.rt� p<Jr vá�ios pen�adores, numa oposicã;;��:s· éônscténYl âô
t

.velg"
mar� ig11q,, .,!! je.oil.ii :r2íJ,(ic�
�:é.cini;(fjyir i:I�, :�o�: priríêi�âis. pôfos da apresentado numa forma extrema - como muitos críticos se preocup
uma autonom ia mais ou menos total da
no.f[r::ia,l,�p ��-�_l,l_lo)<.IX_._ Sob certa forma é um aspecto característico êfa ram em mostrar - para afirmar
política ou sua dependência mais ou menos completa das outras forças
sociologia pai ítica de Max Weber, evidente em sua explicação da concen­
sociais, particularmente aquelas que surgem na esfera ecaoâroica Assim,
tração dos meios de administração - que ele considera como paralela à ,.-
concentração dos meios de produção e tão importante quanto esta· e de
modo mais geral, em sua preocupação com o papel do Estado-nação 'e �om 7 Robert A. Nisbet, The Sociologica/ Tradition (Basic Books, Nova York, 1966),
a influência independente das diversas tendências políticas - especialmen- p. 292.
R Gaetano Mosca, The Ruling Class (revista e ampliada, 1923; tradução inglesa,
McGraw-Hill, Nova York, 1939),p. 50.
5 Alexis de Tocqueville, Democracy in America (1835-40; tradução inglesa, Oxford
_ 9 Vilfredo Pareto, Treatise on General Sociology ( 1916; tradução inglesa,2 volumes,
Un1vers1ty Press, 1946).
Dover Publications,Nova York,1963).
6 Ver J P Mayer (org.), The Recollectmns of Alex,s de Tocqueville (Harvil! PrP.ss
10 Para um exame mais pormenorizado das teorias de elite, ver o Capi'tulo 3 deste
19481, e a comparação entre as visões de Tocquevil_le e Marx em Irving M. Zeitlin,
_ livro e T. Bottomore, Elites and Society (C.A. Watts, 1964). [Ed. bras.: As Elites e a
L,berty, Equality and RevolutJOn in Alexis de Tocqueville ( Little, Brown & Co.
Sociedade, 2ª ed., Rio,Zahar, 1974.)
Boston,1971),p.97-120.
..
/2 sociólogia poh'tica introduçlo

Karl Popper, em The Open Society and its Enemies, argumenta que a Order in Changing Societies, de Samuel P. Huntington, que parte da propo­
t�arxista da sociedade impli�'irn2._�tê_nciLd.�_ tof!� ..I?ol(tica", sição de que "a mais importante distinção política entre países se refere ...
pois o sistema político de uma determinada sociedade, em qualquer mo-· ao seu nível de governo" para, então, distinguir países "cujas políticas
menta, e sua transformação são igualmente determinados por forças não­ expressam ��_nso, CQ_ITlld'lL�e. legitimação, �ganização, e�tabilida·
políticas; sendo essa visão reiterada, de diversas maneiras, nas obras poste­ d�'d;-queles que não apresentam essas qualidades, mas exíoem caracter(s­
riores. Por outro lado, as teorias referente� têm sido freqüentemente ticàs tais como um intenso conflito.�nico e deJ��es, tumultos e agitação
interpretadas como afirmações de que há uma semelhança fundamental de massa, fragmenta..c.ão doS-{)actidos_. Assim, a estabilidade é venerada como
ent� sistemas políticos de todas as sociedades - sem ser afetada pela o·vaic>rpolítico mais elevado, o que se mostra plenamente nas políticas das
e
diversidade das circunstancias econômicas soci�is - que resulta da ocor­ sociedades in�ustriais democráticas.
rência universal de disparidade entre as posições de uma minoria orga­ Essas idéias perderam grande parte -de sua força de persuasão desde
nizada e a maioria não-organizada, ou de uma certa uniformidade geral na o ressurgimento de graves conflitos políticos nas sociedades industriais
natureza humana e 11ª-J:j_istribui ão desigual dos talentos. durante os anos 60 e o aparecimento de condições de crise econômica e
p�ue ainda estãô longe de esboçar um fim. Em conseqüência; houve

f
Em grande parte, porém, as idéias de ambos os lados têm sido expos­
tas com muitas modificações, e o problema fundamental da relacão entre uma acentuada renovação de interesse no modelo alternativo, de inspira­
o "12_olítico" e o "i:qcial" acabou sendo concebido de modo �ais com­ ção francamente marxista, que toma como ponto de partida a existência
plexo, considerando as influências recíprocas e as variações históricas. de pressões, contradições e conflitos em todos os sistemas sociais e consi­
Mesmo assim, essa relação continua sendo"um ponto focal de controvérsia, dera a manutenção da ordem e da estabilidade apenas como uma resolução
no qual a te_g_ria ta (sem levar em consideração sua diversidade inter­ parcial e temporária (embora, em termos históricos, não necesséjriamente
��
na e as reavaliações o papel do Estado efetuadas por alguns pensadores de vida breve) dos vários antagonismos. _Q..utra car cterística do modelo
recentemente) se opõe abertamente à �
las teorias que se preocu am de é o fato de ele reservar .maior destaque ao uso da orça, em lugar de um
m'?do ma· 1 ·vo com os efeitos independentes as ins 1tu1ções políti­ acÕrdo geral sobre "valores comuns ', na produção e réprodução de uma
1

cas - com sistemas partidários 1pos de gove - ou det;rminacia forma de sociedade; embora os próprios valores e todo o

r
q�eanalisam a vida política em termos de comunidades nacionais.e não de sistema cultural que eles informam possam ser encarados como consti­
classes sociais. · ' ---�
tuídos sobretudo pelo exertício' da "violência simbólica", 11 e não por
Isso não constitui a única �_stãn re!evant� que deu origem a esque­ algum processo não-coercivo de acordo intelectual. Contudo, isso não
mas teóricos conflitantes. Na sociologia política das últimas décadas quer dizer que em tal modelo, e mais especificamente na teoria marxista,
hou�e uma oposição gerâl entre aqueles que se Jjreocupam principalment� a dominação política tenha de ser concebida como baseada de forma ex­
com o funcionamento das instituições políticas existentes - concebidas clusiva, ou mesmo· principalmente, na maioria dos casos, sobre o uso da
como um elernema...num sistema social que tende a u·m estado de equilí­ força; sua eficácia em garantir a continuidade de um sistema social estabe­
-� - e os 9!J.f s11 GeA.Centram sobrel.l.K!o nas forças que tendem a produzir lecido advém de um complexo conjunto de condições que podem incluir
instabilidade e potencialidades para a mudança., A .primeira dessas con­ a dbn-iinação econô�ica, o controle sobre a reprodução dos valores cultu­
cepções se asssocia de forma ínti!Tl"l,.S::Om a teoria funcionalista,que teve rais e a organizacãó superior das minorias. Em resumo, o modelo propõe,
grande influência sobre a sociologia <}.!Jl.fil!_te os anos 5�. Representava a pelo menos numa de suas versões, uma éoncepção da dominação política

*
sociedade como um sistema integrado cuja existência émantida por rela­ como tendo sua base num " 12Qder social" mais geral.
ções complementares entre seus vá;ios ·elemêntos, ·ou subsistemas, e que Conjugando essas duas tendências de concepções opostas -
r 0 pousa, em � ltima irnálise, sobre um co.AfWl!.Q_ dê valores comuns. Foi em --��;_e�tabilidad�, �ntegração e deter­
ter�o� ?essa ima em ou modelo que s propôs a noção de · minação através dos valores versus mutaçao, contrad1çao e uso da força
, � _ � �
� (que sera examinada com _mais detalhe no capítulo seguinte); o corno características preeminentes dÕs sistemas sociais - obtemos quatro
mesmo modelo geral forjou grande parte da discussão sobre "desenvolvi­ modelos possíveis, e as teorias e investigações de qúe me ocuparei ne�te
mento'I • e "modernização", que eram concebidos principalmente como um livro podem ser mais ou menos adequadamente incorporadas a um ou
processo pelo qual as sociedades agrárias gradualmente se adaptavam às
condições de vida, aos valores e instituições das atuais sociedades indus­ 11 Ver, em especial, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, Reproduction: in
�- Essa.vl��()�-�modo enérgico, por exemplo, em PoliJ.j_cal Education, Society and Culture (Sage Publications, 1977).

1, •• '
1-l sociologia pohtica
introdução 1 .5
outro desses modelos. Isso, porém, não esgota a diversidade de concepções
que prevalecem na sociologia poli"tica. As divergências metodológicas entre c1enc1a política nas últimas décadas, tende, sem dúvida, para uma visão
cientistas sociais encontram expressão também nos estudos políticos; e de ciência natural, mas sem se comprometer com tal posição; pois sua
uma vez que o compromisso com uma visão particular de método tem con­ prescrição geral de que deveríamos prestar mais !Jtenção ao comportamen­
seqüências importantes para a seleção de problemas, a condução da investi­ to político real do que à estrutura formal das instituições pode ser seguida
gação e o modo de raciocinar.seria conveniente examinarmos aqui (embora ãe diversas maneiras segundo se conceba "comportamento" como ativi­
brevemente) as principais questões envolvidas, especialmente porque têm dade física diretamente observável que pode ser explicada causalmente,
sido apresentadas com freqüência de modo limitado e supersimplificado. ou como ação intencional, cujo significado deve ser interpretado. Nesse
Um.:i importante discordância, existente há ·muito, S'epara aqueles sentido uma análise fenomenológica da vida política cotidiana pareceria
que pensam que não há diferenças essenciais entre as ciências naturais e ser tão aceitável quanto uma explicação behaviorista estrita ao longo das
as ciêncii:ls sociais - e, portanto, esforçam-se por fornecer uma expli­ linhas sugeridas em Beyond Freedom and Dign'ity, de B. F . Skinner.
caç�? causal dos eventos sociais -, daqueles que rejeitam a idéia de Um segundo debate metodológicQ, no qual as principais contribui­
uma ciênci:;i social nesse sentido e afirmam que o estudo da sociedade ções têm vindo de recentes pensadores marxistas e estruturalistas, se refere
h!;Jmana consiste em -compreender o significado da ação intencional, i, ao empirismo. Esses pensadores, sem abordar todas as complexidades do
.. "d a por regras..1:i---;.
d. 1ng1 A controvérsia apresentou-se sob diversas formas: na

problema, lq têm formulado várias objeções ao empirismo - definido como


1

i crítica do "positivismo" do ponto de vista de·um método "interpretéitivo"


(verstehende), de maneira considerável no debate entre sociólogos e histo­
a visão segundo a qual o conhecimento sé baseia na observação e ÇQ!iúa
de fatos "dados" podendo ser por elas-testado - que julgam predomi•
riadores alemães que se iniciou em fins.do século XI X e foi resumido num nar nas ciências sociais. Eles argumentam, primeirn, que uma ciência não
contexto mais amplo durante a década de 1960; na recente crítica generali­ sê"""desenvolve pela coleta de íatas diretamente observáveis, mas pela ela­
zad das ciên ias sociais de uma perspectiva len_o�. durante um bw:a.çio de conceitos que definem as fatos que constituem seu domínio: e,
� �
periodo considerável de tempo, nos debates entre pensadores marxistas: segundo, que essa át'ividade teórica implica a descoberta e a análise de uma
entre aqueles que se inclinam para a visão de uma ciência natural - formu­ realidade além do que é imediatfmente percebido. Como assinala Godelier,
lada de modos bastante diferentes pelos marxistas austri'acos no início
contrastando as concepções �mpirista e estrutur�lista da estrutura social:
deste século e, mais recentemente, por Althusser - e aqueles que conce­
bem o marxismo mais como uma interpretação filosófica da história, à Tanto para Marx quanto para Lévi-Strauss a estrutura não é uma
maneira de Lukács, de Gramsci, da Escola de Frankfurt-e, com várias quali­ realidade diretamente visivel e, portanto, diretam_:nte _ o_bservável,
_
,{ mas um n/vel da realidade que existe além das relacoes vIsIveIs entre
ficações, de "teóricos críticos" ·como Habermas.13 Embora na própria teo­ os homens, e cujo funcionamento constitui a lógica subjacente do
ria política esse debate metodológico não tenha' sido tão extensa e sistema­ sisteíl\8, a ordem subjacente pela qual a ordem aparente deve ser
ticamente conduzido quanto na sociologia ou na filosofia da ciência, explicada.IS
grande parte da discussão mais ampla exerce influência sobre problemas
Tais idéias, que hoje em dia são bastante familiares e amplamente aceitas
no estudo da política, como, por exemplo, na obra de Poulantzas e outros
sobre o Estado e no exame da legitimação realizado por Habermas. De
t' na filosofia da ciência, parecem relevantes em especial para as formas in­
modo mais específico, o "movimento comportamental", que é freqüente­ gênuas de empirismo e indutivismo, não são de grande valia na abordagem
mente considerado como tendo introduzido uma reorientação radical da de questões de verificação ou falsificação, a contribuição de teorias rivais
ou a demarcacão entre ciência e não-ciência. Daí as diversas tentativas
(algumas das q�ais são examinadas em Criticism and the Growth of Knowl­
12 Há uma proveitosa exposição dessas visões opostas em G.H. von Wright, Explana­ edge,. org. por Lakatos e Musgrave) para formular versões mais sofisticadas
tion and Understanding (Routledge & Kegan Paul, 1971 ). de noção de verificação empírica.
13 Para um exame bem minucioso do método "interpretativo", seu desenvolvimento
posterior e o contexto geral da controvérsia, ver William Outhwaite, Understanding
Social Life (Allen & Unwin, 1975). Sobre o positivismo. ver Anthony Giddens, "Posi­ 14 Essas complexidades estão bem apresentadas nos artigos de 1. Lakatos e A. Mui•
tivism and its Critics". in T. Bottomore e R. Nisbet (org.), A History of Sociological grave (org.). Criticism and the Growth of Knowledge (Cambridge University Pr�,
Analysis (Bas1c Books, Nova York, 1978). [Ed. bras.: História da Análise Sociológica, J 1970).
R 10, Zahar, 1980.] 1 s Maurice Godelier, Rationality and lrrationality in Economics (New Left ...... e
" ,;:·
1974), "Prefácio", p. XIX.
16 sociologia po/(tica introdução 17
X O estruturalismo coloca-se em oposição não só às forn'.a� mais inci-
pientes de empirismo, como assinalei, mas também ao histQpc•smo, rena-
teóricos; isso porém não resolve inteiramente a dificuldade, pois teoria
e método são interligad9s, e as concepções marxistas divergentes expres­
vando assim as controvérsias referentes ao método histórico nas ci!ncias sam• diferenças tonceituais e metodológicas. Talvez seja mais instrutivo
l _. _ .
sociais. A questão aqui não se refere ao contraste entre uma c1enc1a gene­ considerar as diversas versões do marxismo como paradigmas concorren­
ralizante" e uma ciência "individualizante" (como Rickert o expressou) tes, 17 é então interrogar se as semelhanças entre eles são tão grandes que
que concerne antes ao debate sobre ciência natural e ciência social, mas ao em um nível mais geral podem ser razoavelmente contrastados em conjun­
próprio caráter de uma ciência da sociedade generalizante: se seu objetivo to com outros paradigmas que são caracteristicamente não-marxistas. Na
deveria ser formular declarações uoivecsais sabre as estruturas sociais e minha opinião, é isso que ocorre na maioria dos casos, ainda que devamos
seus elementos (por exemplo, a respeito ãa estrutura subjàçente do paren­ reconhecer a existência de outras semelhanças que atravessam essa divisão
tesco, das relações políticas, e assim por diante). ou sobre códigos culturais particular e que a fronteira entre teoria social marxista e não-marxista em
(através de uma análise estrutural do mito, por exemplo); ou, ao contrário, todo "caso não se demarca de modo claro nem permanente. O marxismo
formular lejs históricas, como 'flmbicionaram os �volucionistas sociais. não é um esquema fechado de pensamento impermeável a influências ex­
Essas visões rivais aparecem numa forma particulaf'mente interessante no ternas, podendo acontecer, por exemplo, que um fenomenologista marxista
pensamento marxista, onde a representação do marxismo como uma filo­ tenha afinidades intelectuais mais íntimas com outros fenomenologistas
sofia da história ou u·ma "teoria do processo histórico" (Lukács). é rejei­ do que com outros marxistas.,
tada por pensad�res estruturalÍStas, que cbncebein o marxism;;ê;omo uma
Na medida em que o marxismo pode ser distinguido mais ou menos
teocia da saciecwde, "uma hipótese relativa à articulação de seus níveis
claramente, corno um paradigma geral, de outros paradigmas, isso parece
internos e à causalidade hierárquica específica de cada um desses níveis", 16
envolver dois outros aspectos que em' princípio não são teóricos nem meto·
mas que, no entanto, têm de enfrentar a.questão - colocada ·por Marx em
dológicos. Um deles é a relação da .tfil!ria marxista com a tJida sosial -Prá,­
seu esboço de uma seqüência definida de formas de sociedade - da possi­
tica; o outro �- SY.a acieatação ideológica� Quanto ao primeiro, a diferença
bilidade, ou não, de uma ciência dâ his;ória, isto é, de uma explicação
entre o marxismo e outras escolas de pensamento social não é que em um
causal da transformação de uma estrutura em outra em algum processo
caso a conexão entre teoria e prática seja conscientemente reconhecida
necessário e governado por leis. /
e declarada, e no outro caso não - pois essa conexão surge em todo e qual­
Essa oposição levanta a última das questões metodológicas que
quer pensamento SOGial, embora 'com diversos graus de clareza - mas que
pretendo considerar aqui: a saber, se existe de fato, como se afirma com se concebe a prática, na expressão de Marx, como "atividade revolucioná-
freqüência, um método �pecjfjçamente marxista, e, se existir, como deve ria, prática-ccítica.". Corno Lukács mais tarde argumentou, a teoria marxis-
ser caracterizado. A discussão precedente pode sugerir uma resposta nega­
ta "em sua essência nada mais é do que a expressão em pensamento do
tiva. Não existe uma única '!e!íãn da rnacx.ismo. mas várias; e cada versão
próprio processo revolucionário". Essa visão da teoria e da prática exprime,
- cujos elementos sem dúvida se encontram ria própria obra de M�rx -
_ conquanto implicitamente, � ideologia definida. Um cientista social )(
apresenta uma visão de método que concorda de certa forma com as 1dé1as marxista além de estar · intelectualmente convencido da superioridade / \
de pensadores não-marxistas e é influenciàda por movimentos gerais de
teórica e' metodológica do marxismo, também adota - não importa quão
pensamento na filosofia �iência. Em termos gerais, é possível distinguir
"t ao menos tr�s estilos principais _da te�;.ia social �ar�}sta: o hegeliano, que
_
apresenta afinidades com o método interpretativo e com uma abqrda­
variada e imprecisa a maneira de realizar isso - uma visão de mundo mais
geral na qual idéias como "revolução", "sçciedade sem classes" , o "fim
da alienação", "socialismo"� nova "civilização integré;!I" (para as
'� gem feno�lógica; o positivist�-empirista, influenciado �e �iversas ma­
quais, segundo Gramsci, o marxismo proporciona os elementos fundamen-
íf\ neiras pela epistemologia neokantrana:.. pelos modelos-2_� c1�n�1a natural e tais) expressam julgamentos cJe valor sobre formas existentes de sociedade,
pelo materialismo; e o estruturalista, que tem suas prmc1pa1s fontes na
lingu1stica e na antropologia estruturais e nas doutrinas epistemológicas
francesas (especialmente a obra de Bache1ard). 17 No sentido proposto por Thomas Kuhn em seu "Posfácio" a The Structure of
Frente a essa diversidade de métodÓs podemos afirmar que o mar­ Scientific Revolutions, 2\1 ed. ampliada (Chicago University Press, Chicago, 1970),
xismo é caracterizado por um núcleo central de conceitos e proposições

em que um paradigma compreende generalizações simbólicas, modelos (desde heurís­
ticos até ontológicos), valores e soluções exemplares de problemas, compartilhados
por uma comunidade de especialistas - os produtores e avaliadores do conhecimento
16 científico num determinado campo - ou por um subgrupo dessa comunidade.
/d.• ibid., p. xxviii.
18 sociologia pohtica

acreditando na possibilidade e na aspiração de um novo tipo de socie­


dade e, portanto, estimulam e orientam a atividade política. De modo
semelharite, embora não tão obviamente, outras teorias ou paradigmas
sociais expressam outros valores e crenças, dirigem a teoria e a prática para
outros canais, através de suas concepções de "democracia", "nação" ou
"so�erã?:--Essasquêstões cruciais da relacão entre ciência polí­
tica ê ação poiítica surgirão inevitavelmente no decorrer deste livro e serão
examinadas com mais detalhe no último capitulo.
A multiplicidade de paradigmas (brevemente indicada na discussão
precedente) que caracteriza as ciências sociais de hoje excluem qualquer
possibilidade de conjugar de modo direto e incontroverso os "elementos"
ou "princípios" da sociologia política. O que é essa disciplina, os proble­
mas e soluções que a constituem como um campo de investigação cient i­
fica, seu desenvolvimento através da acumulação de conhecimento e técni­
cas, ou através das revoluções científicas, só podem ser estabelecidos pelo
confronto dos diferentes paradigmas entre si e vendo-os no contexto de
um processo histórico que abrange não só o progresso da própria ciência,
defendido por diversos grupos de pensadores e pesquisadores, mas também
a incessante transformação de seu meio ambiente externo como um resul­
tado das mudanças econômicas, políticas e culturais. Assim, nos capítulos
seguintes vou apresentar paradigmas concorrentes e considerá-los em seus
contextos social e cultural. Questionarei o que divide os vários grupos de
pesquisadores e escolas de pensamento: as visões caracteri' sticas, alterna­
tivas ou incomensuráveis do mundo político; os julgamentos sobre seus
elementos fundamentais e suas inter-relações; as questões cruciais que
deveriam ser levantadas e os métodos de investigação que deveriam ser
utilizados.