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11/03/2018 Os números sagrados na tradição pitagórica maçônica | REVISTA BIBLIOT3CA

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Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Os números sagrados na tradição pitagórica maçônica


Por: Arturo Reghini

Liberdade vai buscando, que é tão querida


Como sabe quem por ela rechaça a vida.
Dante, Purgatório. I, 71-72[i].

Tradução: S.K. Jerez

Segundo os antigos rituais e as antigas Constituições maçônicas, a finalidade da franco-maçonaria é o


aperfeiçoamento do homem.

Os antigos mistérios clássicos não tinham outro objeto e conferiam a télétê, perfeição iniciática. Este termo
técnico estava vinculado etimologicamente aos três sentidos de fim, morte e perfeição, como já observa o
pitagórico Plutarco. Jesus utiliza também a palavra téleios quando exorta seus discípulos a serem “perfeitos
como vosso Pai que está nos céus”, inclusive se, por uma dessas frequentes incongruências das Santas
Escrituras, afirma que “ninguém é perfeito exceto meu Pai que está nos céus”.

Essa definição poderia parecer explícita e precisa; e, não obstante, uma ligeira mudança formal alterou
fundamentalmente o conceito. Tomemos como exemplo o dicionário de Pianigiani que afirma que a
finalidade da franco-maçonaria é o aperfeiçoamento da humanidade; grande quantidade de profanos, assim
como numerosos maçons, aceitam essa definição. A primeira vista pode parecer que aperfeiçoamento do
homem e aperfeiçoamento da humanidade significam a mesma coisa. Na realidade, se referem a dois
conceitos profundamente distintos, e sua aparente sinonímia gera um equívoco e oculta uma incompreensão.
Outros utilizam a expressão aperfeiçoamento dos homens, igualmente equivocada. Evidentemente, é quase
impossível decretar qual é a expressão correta, porque qualquer franco-maçom pode declarar correta a que
está mais de acordo com suas preferências, e ainda comprazer-se, talvez, no equívoco. Mas quando se trata
de determinar, histórica e tradicionalmente, a interpretação correta e conforme com o simbolismo maçônico,
a questão muda de aspecto e já não se trata de preferências particulares.

O manuscrito encontrado por Locke (1696) na Bodleian Library – e que não foi publicado até 1748 – é
atribuído a Henrique VI, da Inglaterra: define a franco-maçonaria como “o conhecimento da natureza e a
compreensão das forças que há nela”; enuncia expressamente a existência de um vínculo entre a Maçonaria e
a Escola Itálica, pois afirma que Pitágoras, um grego, viajou para instruir-se, ao Egito, à Síria e a todos os
países onde os Venezianos [leia-se os Fenícios] haviam introduzido a Maçonaria. Admitido em todas as lojas
dos Maçons, adquiriu um grande saber, voltou à Magna Grécia… e fundou uma importante loja em Crotona.
[ii]

Para dizer verdade, o manuscrito fala de Peter Gower; e, como o nome Gower existe na Inglaterra, Locke
ficou bastante perplexo ante a identificação de Gower com Pitágoras. Mas outros manuscritos e as
Constituições de Anderson mencionam explicitamente Pitágoras. O manuscrito de Cooke diz que a
Maçonaria é a parte principal da Geometria, e que foi Euclides, sábio e sutil inventor, quem deu as regras
desta arte e a chamou de Maçonaria. Há outros traços de reminiscências pitagóricas tanto nos “Old Charges”
como no mais antigo dos rituais impressos[iii] (1724) que atribui uma importância particular aos números
ímpares, de acordo, neste caso, com a tradição pitagórica.[iv]

Todos os antigos manuscritos maçônicos concordam ao assinalar o aperfeiçoamento do homem, ou do


simples indivíduo, como único objetivo da franco-maçonaria. As provas iniciáticas, as viagens simbólicas, o
trabalho do aprendiz e do companheiro têm um caráter manifestamente individual e não coletivo.

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Segundo a mais antiga concepção maçônica, a “grande obra” do aperfeiçoamento é realizada trabalhando
sobre a “pedra bruta”, ou seja, sobre o indivíduo, desbastando, polindo e esquadrinhando a pedra bruta até
transformá-la em “pedra cúbica da Maestria”, graças às regras tradicionais da “Arte Real” maçônica de
edificação espiritual. Existe uma perfeita analogia com uma tradição paralela, a tradição hermética, que, pelo
menos desde 1600, se encontra enxertada nela e ensina que a “grande obra” é realizada trabalhando sobre a
“matéria prima”, transformando-a em “pedra filosofal” segundo as regras da “Arte Real hermética”.
Operação que resume a máxima de Basílio Valentino: V.I.T.R.I.O.L. (Visita Interiora Terrae retificando
Invenies Occultum Lapidem = Visita o interior da Terra, por retificação encontrarás a pedra oculta) ou a
Tábua de Esmeralda, que modernos arabistas atribuem ao pitagórico Apolônio de Tiana. Pelo contrário,
segundo a concepção maçônica profana e mais moderna, o trabalho de aperfeiçoamento deve ser realizado
sobre a coletividade humana. É a humanidade ou a sociedade a que ela há que transformar e aperfeiçoar; e,
desse modo, substitui-se a ascese espiritual do indivíduo pela política coletiva. Os trabalhos maçônicos
acabam por ter então uma meta e um caráter primeiramente social, às vezes unicamente social. O verdadeiro
fim da franco-maçonaria – o aperfeiçoamento do indivíduo – passa a segundo plano quando não é
francamente descuidado, esquecido e ignorado.

Tradicionalmente a primeira concepção é sem dúvida a correta e na literatura maçônica do século XVIII
estiveram muito em moda as comparações e identificações exageradas e fantasiosas entre os mistérios de
Elêusis e a franco-maçonaria. É indiscutível que o patrimônio ritual e simbólico da ordem maçônica somente
se harmoniza com a concepção mais antiga da finalidade da maçonaria; efetivamente, o testamento do
candidato à iniciação, as viagens simbólicas, as terríveis provas, o nascimento para a Luz iniciática, a morte e
a ressurreição de Hiram, não podem ser compreendidos em sua relação com os trabalhos maçônicos e com a
finalidade da franco-maçonaria caso tudo deva ser reduzido a fazer apenas política.

Historicamente, o interesse e a intervenção da franco-maçonaria nas questões políticas e sociais se manifesta


apenas por volta de 1730, e unicamente em algumas regiões europeias, com a introdução da franco-
maçonaria inglesa no continente. O pouco que se sabe das antigas lojas de antes do século XVII mostra a
presença e o uso nos trabalhos maçônicos de um simbolismo de ofício, arquitetônico, geométrico, numérico,
que, tendo por sua natureza um caráter universal, não se encontra ligado nem a uma civilização determinada
nem a uma língua em particular e permanece independente de todo credo de ordem política e religiosa; é por
essa razão que o maçom, de acordo com o ritual, não sabe ler nem escrever.

Com a lenda de Hiram e a construção do Templo faz sua aparição um elemento hebraico; e as palavras
sagradas do aprendiz e do companheiro (as únicas graduações ou graus então existentes) que se referem a
esta lenda são hebraicas. Mas esta lenda não pertence ao patrimônio tradicional da Ordem; a morte de Hiram
não figura nos antigos manuscritos maçônicos, e as Constituições de Anderson ignoram o terceiro grau. De
todas as maneiras, não há nada de extraordinário na presença de elementos e palavras hebraicas em uma
época em que o hebreu era considerado como uma língua sagrada, a língua sagrada, aquela que Deus havia
utilizado para falar ao homem no Paraíso Terrestre; trata-se de um fato cuja importância e significado não há
que ser exagerado e que de nenhuma maneira é suficiente para se justificar a afirmação do caráter hebreu da
franco-maçonaria. A letra G do alfabeto greco-latino, inicial de geometria e de Deus (God) em inglês, que
aparece na Estrela Flamígera ou no Delta maçônico, parece ser apenas uma inovação (sem utilidade para
quem não sabe ler nem escrever), enquanto que os dois símbolos fundamentais da ordem são os dois mais
importantes do pitagorismo: o pentalfa ou pentagrama e a tetraktys pitagórica. A arte maçônica ou arte real,
termos utilizados pelo neoplatônico Máximo de Tiro,[v] era identificada com a geometria, uma das ciências
do quadrivium pitagórico, e é difícil compreender como um Oswald Wirth, maçom erudito e hermetista,
pode escrever que os maçons do século XVII[vi] se proclamavam adeptos do Arte Real porque em outro
tempo houve reis que se interessaram pela obra das privilegiadas corporações dos construtores da Idade
Média. Os elementos de puro caráter maçônico constituem, junto com o simbolismo numérico e geométrico,
o patrimônio simbólico e ritual arcaico e autêntico da fraternidade. Não dizemos seu patrimônio
característico, porque estes elementos aparecem também, pelo menos parcialmente, no Companheirismo
(compagnonnage), que de resto é muito próximo da franco-maçonaria.

Posteriormente, entre os séculos XVII e XVIII, quando as lojas inglesas começaram a receber como irmãos
os accepted masons (pessoas que não exerciam a profissão de arquiteto ou o ofício de pedreiro), fazem sua
aparição elementos herméticos e rosacrucianos como, por exemplo, Elias Ashmole (1617-1692), tal como
assinala Gould em sua história da franco-maçonaria. O contato entre a tradição hermética e a maçônica fora
da Inglaterra se produziu igualmente quase à mesma época, o que, evidentemente, implica a existência no
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continente de lojas maçônicas independentes da Grande Loja Inglesa. O frontispício de um texto hermético
importante, editado em 1618[vii], reproduz junto aos símbolos herméticos (o Rebis) os símbolos estritamente
maçônicos do esquadro e do compasso; ocorre o mesmo em um opúsculo italiano de alquimia[viii], impresso
em lâminas de chumbo e que remonta praticamente a essa época.

Neste opúsculo se vê, entre outras coisas, Tubalcaim com um esquadro e um compasso em suas mãos. No
entanto, na Bíblia, Tubalcaim é considerado como o primeiro ferreiro. Um erro de etimologia, naquela época
muito praticado, e que o erudito Vossius repetiu, o identificou com Vulcano, o ferreiro dos Deuses e Deus do
fogo, o qual, segundo os alquimistas e os hermetistas, presidia o fogo hermético (ou ardor espiritual), fogo
que realizava a grande obra da transmutação. Em uma de nossas obras da juventude[ix] demos uma
interpretação errada da palavra de passe Tubalcaim, pois ignorávamos a equivocada identificação de Vulcano
com Tubalcaim que era aceita pelos hermetistas e eruditos dos séculos XVII e XVIII. Hoje, nos parece
evidente que esta palavra de passe e algumas outras vêm do hermetismo, e que provavelmente foram
introduzidas na franco-maçonaria e acrescentadas às palavras sagradas, constituindo provas do contato que
havia se estabelecido entre a tradição hermética e a maçônica. As palavras de passe do 2o. e 3o. graus não
existem no ritual de Prichard (1730). Hermetismo e Maçonaria têm como fim a “grande obra da
transmutação” e ambas as tradições transmitem o segredo de uma arte, à qual designam com o termo Arte
Real já utilizado por Máximo de Tiro. É, pois, natural que tenham se sentido muito próximas uma da outra.
Observemos que a adoção do simbolismo hermético não é efetuada em detrimento da universalidade
maçônica nem de sua independência frente à religião e à política, pois o simbolismo hermético ou alquímico
é, também, estranho, por sua natureza, a todo credo religioso ou político. A arte maçônica e a arte hermética,
ou simplesmente a arte, é um arte e não uma doutrina ou uma confissão.

Até 1717 cada loja, de fato, era livre e autônoma. Os irmãos de uma oficina eram recebidos como visitantes
nas demais oficinas, com a condição de satisfazer o telhamento (uma espécie de exame que permitia
reconhecer que alguém era, na verdade, um irmão); mas somente o Venerável de uma oficina detinha a
autoridade única e suprema entre os irmãos da mesma.

Em 1717, foi produzida uma mudança com a constituição da primeira Grande Loja, a Grande Loja de
Londres, e pouco depois o pastor protestante Anderson redigia as Constituições maçônicas para as lojas sob a
Obediência da Grande Loja de Londres; e, se bem que teoricamente uma oficina podia e pode conservar sua
autonomia ou filiar-se à Obediência de uma grande loja, [x]na prática só se consideram hoje lojas regulares
aquelas que, direta ou indiretamente, são emanações ou derivações da Grande Loja de Londres, na suposição
de que esta derivação, e somente ela, possa conferir a “regularidade”.

Isso posto, é muito importante observar que as Constituições de Anderson afirmam explicitamente que, para
ser iniciado e pertencer à franco-maçonaria, a única condição é ser um homem livre de costumes
irrepreensíveis, e exaltam (ao contrário das diversas seitas cristãs) o princípio da tolerância de cada qual
pelos credos dos demais, ressalvando somente que um maçom não será nunca um “ateu estúpido”. Poder-se-
ia pensar que Anderson admite que o franco-maçom pode ser um ateu inteligente, mas é mais verossímil que,
como bom cristão, pensasse que um ateu é obrigatoriamente um imbecil, segundo a máxima que diz: Dixit
stultus in corde suo: Non est Deus, (O estúpido diz em seu coração: Deus não existe). Aqui, seria necessário
fazer uma digressão e observar que nesta disputa tanto o que afirma como o que nega não possui em geral
nenhuma noção se aquilo que afirma existe ou não e que a palavra Deus é empregada habitualmente em um
sentido tão vago que toda discussão é inútil. Seja como for, as Constituições da franco-maçonaria são
explicitamente teístas; e os profanos, que acusam a franco-maçonaria de ateísmo, ou o fazem de má fé ou
ignoram que ela trabalha para a glória do Grande Arquiteto do Universo. Observemos ainda que esta
designação, que se harmoniza com o caráter do simbolismo maçônico, tem, igualmente, um sentido preciso e
inteligível, ao contrário que certas designações vagas ou carentes de sentido como as “Nosso Senhor”, “Pai
de todos os homens”, etc.

A qualidade de homem livre, exigida ao profano para iniciá-lo ou ao maçom para considerá-lo como irmão, é
de grande interesse. Anderson não deixa de chamar de franco-maçons aos Free Masons, restando então
examinar em que consiste essa freedom (liberdade) dos Freemasons. Trata-se somente da franquia econômica
e social que exclui aos escravos e servos, e das franquias e privilégios que a corporação dos franc-maçons
desfrutava frente aos governos dos estados e das distintas regiões onde exercia sua atividade? Ou essa
denominação de maçons francos ou liberados deve ser tomada em outro sentido, referindo-se a pessoas que
não são escravas dos preconceitos nem dos credos, liberdade que seria inútil trazer à luz? Se fosse assim,
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resultaria vão querer buscar as provas documentais e a pergunta ficaria pendente. Não obstante, pode aportar-
se um esclarecimento graças a um documento de 1509 cuja existência ou cuja importância não foi, ao que
parece, destacada até o presente.

Trata-se de uma carta escrita em 4 de fevereiro de 1509 a Cornelius Agrippa por seu amigo italiano,
Landolfo, para recomendar-lhe um iniciado. Landolfo lhe escreve[xi]: “É alemão como tú, originário de
Nuremberg, mas que vive em Lyon. Investigador curioso nos arcanos da natureza, é um homem livre,
completamente independente dos demais, que deseja, por causa da reputação que já possuis, explorar
também teu abismo… Lança-o, pois, para prová-lo ao espaço; e levado nas asas de Mercúrio voa das regiões
do Austro às do Aquilão, toma também o cetro de Júpiter; e se nosso neófito quer jurar nossos estatutos,
associa-o à nossa fraternidade”. Tratava-se de uma associação secreta hermética criada por Agrippa, e há
uma evidente analogia entre a prova do espaço que o iniciado deve enfrentar e as terríveis provas e viagens
simbólicas da iniciação maçônica, inclusive quando a prova, aqui, se faz nas asas de Hermes. Hermes
Psicopompo, o pai dos filósofos segundo a tradição hermética, é o guia das almas no além clássico e nos
mistérios iniciáticos. Nesta carta também, se destaca a qualidade de homem livre, suficiente para abrir ao
profano a porta do templo ao qual aspira; também aqui se manifesta substancialmente o princípio da
liberdade de consciência e, ao seu lado, a tolerância. Ambas as tradições paralelas, hermética e maçônica,
impõem idêntica condição para iniciar o profano: a de ser um homem livre, de onde se pode presumir que ela
não se referia às franquias particulares das corporações de ofício, e por outro lado não faria sentido pedir isso
aos accepted Masons que não eram pedreiros de profissão mas sim franco-maçons.

O caráter fundamental das Constituições de Anderson reside, pois, no princípio da liberdade de consciência e
de tolerância, que permite também aos não cristãos pertencer à Ordem. Nas Constituições de Anderson a
franco-maçonaria conserva seu caráter universal, não está subordinada a nenhum credo filosófico particular
nem a qualquer seita religiosa, e não manifesta nenhuma inclinação por trabalhos de ordem social ou
político. Pode ser que este caráter aconfessional e livre tenha inspirado igualmente à Maçonaria anterior a
1717 e que Anderson apenas o retificou nas Constituições.

Ao ser implantada na América e no continente europeu, a franco-maçonaria conservou em geral seu caráter
universal de tolerância religiosa e filosófica e permaneceu à parte de todo movimento político e social,
inclusive acentuando às vezes, como na Alemanha, seu interesse pelo hermetismo. Ao redor de 1740,
começaram a multiplicar-se os novos ritos e os altos graus, mas conservando cuidadosamente os rituais e o
rito dos três primeiros graus, os da verdadeira franco-maçonaria, chamada igualmente Maçonaria simbólica
ou azul.

Os rituais destes altos graus são por vezes um desenvolvimento da lenda de Hiram, ou se relacionam com os
rosacruzes, o hermetismo, os templários, o gnosticismo, os cátaros…, e já não têm um autêntico caráter
maçônico. Do ponto de vista da iniciação maçônica, são absolutamente supérfluos. A franco-maçonaria está
completa nos três primeiros graus, reconhecidos por todos os ritos, e nos quais se baseiam os altos graus e as
lojas superiores dos diferentes ritos. O companheiro franco-maçom, uma vez que tenha chegado a mestre,
acabou simbolicamente sua grande obra. Os altos graus só poderiam ter uma função verdadeiramente
maçônica se contribuíssem para uma interpretação correta da tradição maçônica e para uma compreensão e
aplicação mais inteligente do rito, ou seja, da arte real.

Isto não significa que se tenha que abolir os altos graus, já que os irmãos que foram agraciados com eles são
livres, e que quem gosta de reunir-se em ritos e corpos para efetuar trabalhos que não se opõem às obras
maçônicas devem ter a liberdade de fazê-lo. Não obstante, do ponto de vista estritamente maçônico, sua
pertinência a outros ritos e a outras lojas superiores não os põe acima dos mestres que querem apenas efetuar
o trabalho da Maçonaria universal dos três primeiros graus. Além disso, é evidente que ritos distintos como o
de Swedenborg, os Escoceses, os da Estrita Observância, de Memphis…, ao serem diferentes, já não são
universais, ou o são apenas na medida em que se baseiam sobre os três primeiros graus. Esquecer ou tentar
desnaturalizar o caráter universal, livre e tolerante da franco-maçonaria, para impor aos irmãos das lojas
pontos de vista ou objetivos particulares, seria ir contra o espírito da tradição maçônica e contra os termos
das Constituições da Fraternidade.

É na França onde aparece a primeira alteração, ao mesmo tempo em que afloram os altos graus. A
efervescência das ideias nessa época, o movimento da Enciclopédia, repercutem na franco-maçonaria que se
difunde ampla e rapidamente. E, pela primeira vez, o interesse da ordem se dirige para as questões políticas e

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sociais e nelas se concentra. Afirmar que a revolução francesa seja obra da franco-maçonaria nos parece pelo
menos exagerado. Por outro lado, é inegável que a franco-maçonaria sofreu na França – e seria difícil que
isso não tivesse ocorrido – a influência do grande movimento profano que levou à revolução e culminou no
império. A franco-maçonaria francesa tornou-se então e seguiu sendo desde esse momento, uma Maçonaria
comprometida e interessada nas questões políticas e sociais. Alguns quiseram considerá-la como
“tradicional” quando no máximo representa a tradição maçônica francesa, bem distinta da antiga tradição.
Este desvio e este compromisso é a causa principal, se não a única, da oposição que seguidamente nasceu
entre a Maçonaria anglo-saxônica e a francesa; na Itália, criou as divergências destes últimos cinquenta anos,
que tiveram como consequência sua desunião e a debilitação ante os ataques e a perseguição dos jesuítas e os
fascistas. Seja como for, inclusive os irmãos que seguem a tradição maçônica francesa não esqueceram o
princípio de tolerância, e nas lojas maçônicas italianas, muito antes da perseguição fascista, havia irmãos de
todas as crenças religiosas e de todos os partidos políticos, inclusive católicos e monárquicos.

Há que se recordar também, que no período que antecedeu a revolução francesa, nem todos os maçons
esqueceram a verdadeira natureza da franco-maçonaria, mesmo quando ficaram desorientados pela plêiade
de ritos diversos e opostos. No Convento dos Philalèthes reuniram-se maçons de todos os ritos, animados
todos eles pelo mesmo desejo de restabelecer a unidade. Só Cagliostro, que havia fundado o rito da
Maçonaria Egípcia, que unicamente constava de três graus e era exclusivamente dedicado à obra de
edificação espiritual, se negou a comparecer a este Convento por razões que seriam muito extensas para
explicar.

A influência maçônica francesa ocorreu também na Itália, depois da revolução e durante o império. Ainda
hoje, a presença de certos termos técnicos nos “trabalhos” maçônicos, como o “malhete” do Venerável
(traduzido, no italiano, literalmente, por “maglietto”) assim como outros termos (louveton, tradução
fonético-semântica de Lufton, filho de Gabaon, nome genérico do maçom segundo os primeiros rituais
ingleses e franceses) são prova de isso. A franco-maçonaria francesa e a italiana mantiveram estreitas
relações durante todo o último século, e por vezes uma atitude revolucionária, republicana, mas também
materialista e positivista que seguia a moda filosófica da época. Não obstante, não se pode dizer que a
franco-maçonaria italiana se converteu numa franco-maçonaria materialista, pois ainda que tenha sido
tolerante diante de todas as opiniões, nem por isso deixou de venerar, e muito particularmente, um grande
espírito como Giuseppe Mazzini e grandes franco-maçons como Garibaldi, Bovio, Carducci, Filopanti,
Pascoli, Domizio Torrigiani e Giovanni Amendola, todos idealistas e espiritualistas.[xii] Foi a selvageria
furiosa e o vandalismo dos incultos fascistas que devastou os nossos templos, as nossas bibliotecas e quebrou
os bustos de Mazzini e Garibaldi que decoravam as nossas sedes.

Por outro lado, há de se reconhecer que se a franco-maçonaria inglesa conservou sempre um caráter
espiritualista e nunca lhe ocorreu negar a existência do Grande Arquiteto do Universo, frequentemente esteve
tentada, e ainda está, a conferir um certo tom cristão ao seu espiritualismo, afastando-se dessa forma do
espírito de imparcialidade absoluta e não confessional das Constituições de Anderson. Não se pode negar
que o fato de obrigar a prestar juramento sobre o Evangelho de São João não é uma prova de tolerância
perante profanos e irmãos agnósticos ou pagãos, judeus ou livre pensadores, que não têm uma especial
simpatia pelo Evangelho de São João e ignoram tudo da tradição joanista. A intolerância acentua-se com o
mau costume de impingir a leitura e o comentário dos versículos do Evangelho durante os trabalhos da Loja.
Se este hábito criticável adquirir importância, terminará por reduzir os trabalhos da Loja a um simples
serviço religioso corriqueiro ou puritano, uma espécie de “rosário” ou de “vésperas” fastidiosas, inúteis e
insuportáveis para a livre consciência de tantos irmãos que, na Inglaterra e na América, não vão à missa, não
aceitam a infalibilidade do papa, nem tampouco a autoridade da Bíblia. É necessário criar mal-estar e
irritação nas nossas colunas sem uma contrapartida apreciável? Pode acreditar-se que, por esses meios, se
converterá os outros às próprias crenças e que dessa forma se conterá o agnosticismo inglês e americano?

Estas considerações exortam a conservar o caráter universal da franco-maçonaria acima dos credos religiosos
e filosóficos e dos compromissos políticos. Isto não significa que se deva ignorar a política. Com efeito,
devemos nos proteger dela. A intolerância não pode tirar o espaço da tolerância e a tolerância pode tolerar
tudo exceto a intolerância deliberadamente hostil. Desde o momento em que apareceram as Constituições de
Anderson com o seu princípio de liberdade e de tolerância, a Igreja católica excomungou a franco-
maçonaria, culpável precisamente de tolerância; e o encarniçamento contra a franco-maçonaria nunca seria
desmentido. Na Itália, a perseguição à franco-maçonaria durante estes últimos vinte anos foi iniciada e
mantida pelos jesuítas e pelos nacionalistas[xiii]; enquanto os fascistas, para ganharem a simpatia destes
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senhores, não vacilaram em provocar a aversão do mundo civilizado, no que diz respeito à Itália, com o seu
vandalismo contra a franco-maçonaria. Os jesuítas perderam esta guerra, mas a lepra da intolerância
propaga-se sempre, reveste-se de novas formas e é necessário que nos protejamos dela. Por outro lado,
chegou a hora, se não nos enganamos, de difundir a franco-maçonaria por toda a Terra e estabelecer uma
fraternidade entre os homens de todas as raças, civilizações e religiões. Para levar a bom termo esta tarefa é
necessário que a franco-maçonaria não assuma uma fisionomia e um tom pertencente a uma minoria perante
a qual as grandes civilizações orientais, China, Índia, Japão, Malásia, o mundo do Islã, têm se mostrado
refratárias. Isso é possível desde que a franco-maçonaria não se circunscreva a uma crença qualquer e
permaneça fiel ao seu patrimônio espiritual, que não consiste nem de uma fé codificada, um credo religioso
ou filosófico, um conjunto de postulados ou de preconceitos ideológicos e moralistas, nem de uma bagagem
doutrinal considerada detentora e portadora da verdade, à qual os não crentes devam ser convertidos. Há que
se pensar que, ainda que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia existam, é uma ilusão crer que pode
conquistá-las ou comunicá-las mediante uma conversão, uma confissão ou o recitar de certas fórmulas,
porque cada qual entende as palavras destes credos e fórmulas à sua maneira, de acordo com a sua
civilização e a sua inteligência; e no fundo, não são, como dizia Hamlet, mais que “words, words,
words“[xiv].

Enquanto não se reflete sobre isto, tem-se a ilusão de que essas palavras são compreendidas de igual
maneira; tão rápido como se começa a raciocinar, surgem seitas e heresias, cada uma convencida de que
detém a verdade. A sabedoria não pode ser compreendida racionalmente, nem expressada, nem comunicada.
É uma visão, uma vidya, essencial e necessariamente indeterminada, incerta. E quando os olhos se abrem à
luz com o nascimento na nova vida, aproximamo-nos dessa visão. A arte maçônica ou arte real é a arte de
trabalhar a pedra bruta para tornar possível a transmutação humana e a percepção gradual da luz iniciática. O
que não significa, naturalmente, que a franco-maçonaria tenha o monopólio da arte real.

No decurso dos dois últimos séculos a maior parte dos inimigos da franco-maçonaria recorreram sistemática
e unicamente à injúria e à calúnia, apoiando-se em sentimentos moralistas e patrióticos. Afirmaram, assim,
que os trabalhos maçônicos consistiam de orgias abomináveis, e com isso se tem manipulado os rituais, se
tem desvelado as cerimônias maçônicas expondo-as ao ridículo, se tem acusado os maçons de trair a sua
pátria pelo caráter internacional da Ordem, se tem afirmado que a franco-maçonaria é apenas o instrumento
dos judeus, sempre para enganar e levantar os crentes e o público em geral contra a “Sociedade Secreta”. Os
franco-maçons, naturalmente, sabiam muito bem que se tratava apenas de calúnias. E, como nada conseguia
convencê-los, pensou-se em suprimi-los ou em retirar-lhes a possibilidade de se reunirem para trabalhar ou
de responder e defender-se. Recentemente, um escritor católico[xv] publicou um estudo histórico sobre
“Tradição Secreta”, conduzido com competência e habilidade. As habituais e costumeiras calúnias,
destinadas a impressionar os profanos, foram habilmente substituídas nele por uma crítica insidiosa,
destinada a impressionar o leitor culto e o espírito dos nossos irmãos.

Esta crítica afirma que, no fundo, a tradição secreta não contém senão o vazio absoluto (pág. 139) e conclui
afirmando que “na Escola Iniciática ou por meio dela a Tradição Secreta não tem ensinado
absolutamente nada à humanidade” (pág.155). Não se compreende muito bem então como se pode afirmar
igualmente que este vazio absoluto, “esta tradição secreta coincide (pág. 141), ainda que frequentemente
de uma forma corrompida, com as doutrinas gnósticas“. Mas não pretendamos demasiado. A franco-
maçonaria é, pois, segundo o autor, uma esfinge sem segredo, dado que não ensina nenhuma doutrina. Desse
modo o leitor se vê levado a concluir que, ao estar desprovida de conteúdo, a Maçonaria não tem nenhum
valor.

Nas páginas precedentes mostramos que a franco-maçonaria não ensina nenhuma doutrina e nem deve
ensiná-la, destacando que esta atitude é um de seus méritos. Isso posto, para chegar a concluir que a Tradição
Secreta contém o vazio ao não conter uma doutrina, deve-se crer que somente uma doutrina pode ocupar o
vazio. Na página 153, o autor afirma ainda: “o sistema iniciático supõe que o homem possa chegar a
compreender, por um esforço da inteligência, os problemas inexplicados do cosmos e do além”. Na página
152 escreve: “a Igreja católica opõe às vãs elucubrações dos que se autodenominam iniciados, a força
intangível de seu dogma que deve ser único porque não podem existir duas verdades” e que o sistema
iniciático é incompatível com o cristianismo. A estas afirmações respondemos que ignoramos a existência de
um sistema iniciático, que não conhecemos iniciados que façam suposições, e ainda menos que criem ilusões
sobre a possibilidade de resolver por meio de sua inteligência ou de elucubrações os problemas inexplicados.
Mas nos é impossível admitir que a fé em um dogma possa constituir um conhecimento, pois saber não é
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crer. De fato compreendemos que a verdade é necessariamente inefável e indizível. Deixamos aos profanos a
consoladora e ingênua ilusão de crer que é possível formular de alguma maneira esta verdade e este
conhecimento em credos, fórmulas, doutrinas, sistemas e teorias. Além disso, até Jesus sabia que suas
parábolas eram apenas parábolas. Mas dizia também a seus discípulos que a eles “lhes era dado entender o
mistério do reino dos céus”. Evidentemente só fides sufficit ad firmandum cor sincerum[xvi], mas non
sufficit[xvii] para entender os mistérios. O que é igualmente válido para o simples raciocínio. Com isso não
queremos diminuir de nenhuma maneira o valor da fé e do raciocínio. A fé isoladamente conduz ao
desespero filosófico. E ambos são um pouco como o tabaco e o café: dois venenos que se compensam, mas
certamente não basta fumar cachimbo e degustar um café para alcançar-se o conhecimento. Ao
conhecimento multi vocati sunt[xviii], mas não todos e, entre estes muitos, pauci electi sunt[xix]. Segundo a
Igreja católica, pelo contrário, é suficiente com ter fé no Dogma, e o conhecimento e o paraíso estão ao
alcance de todos os bolsos a preços realmente insuperáveis.

Resumindo: não existe uma doutrina maçônica secreta[xx]; mas existe uma arte secreta, chamada arte real
ou mais simplesmente Arte. É a arte da edificação espiritual à qual corresponde a arquitetura sagrada. Os
instrumentos maçônicos têm, pois, um sentido figurado na obra da transmutação, e ao segredo da arte real
corresponde o segredo arquitetônico dos construtores das grandes catedrais medievais. É natural que os
franco-maçons venerem o Grande Arquiteto do Universo, mesmo que não se defina o que se deve entender
por esta fórmula.

Na arquitetura antiga, especialmente na arquitetura sagrada, as questões de relação e proporção tinham uma
importância capital. A arquitetura clássica estabelecia a proporção das diferentes partes de um edifício, e em
particular dos templos, baseando-se em um módulo secreto ao qual alude Vitrúvio. Existe toda uma literatura
referente à arquitetura egípcia e sobretudo à pirâmide de Queops, que ilustra seu caráter matemático. E,
inclusive, procedendo com a maior circunspeção, é certo, por exemplo, que esta pirâmide se encontra
exatamente a 30o de latitude para formar com o centro da Terra e o Polo Norte um triângulo equilátero. É
certo que está perfeitamente orientada e que a face volta para o setentrião é exatamente perpendicular ao eixo
de rotação terrestre, em função da posição que este tinha na época de sua construção. Quanto aos
construtores da Idade Média, não eram guiados somente por alguns critérios estéticos. Preocupavam-se com
a orientação da igreja, com o número de naves, etc. A arte dos construtores estava relacionada à ciência da
geometria. O esquadro e o compasso são os dois símbolos de ofício fundamentais na arte maçônica; e a régua
e o compasso os dois instrumentos fundamentais na geometria elementar. A Bíblia afirma que Deus fez
omnia in numero, pondere et mensura[xxi]. Os pitagóricos criaram a palavra cosmos para indicar a beleza do
universo no qual reconheciam uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma proporção. E entre as quatro
ciências liberais do quadrivium pitagórico, a aritmética, a geometria, a música e a astronomia, a primeira
estava na base de todas as demais. Dante comparava o céu do Sol com a aritmética porque “como da luz do
Sol todas as estrelas se iluminam, assim da luz da aritmética se iluminam todas as ciências” e da mesma
forma “que o olho não pode olhar ao sol, assim o olho do intelecto não pode olhar o número que é
infinito”[xxii].

Sem entrar na crítica desta passagem, não deixa de ficar estabelecida a posição que a Aritmética ocupa
segundo Dante. Por outro lado, tanto a Bíblia como a arquitetura aconselhavam considerar os números. Hoje
em dia, ainda que se negue a reconhecer no cosmos uma unidade, uma ordem, uma harmonia, uma lei, e
aceitando apenas o determinismo limitado pela lei das probabilidades, a física moderna continua
considerando os números e as relações numéricas. De fato, não ficam senão eles, e tanto Einstein como
Bertrand Russell constataram e reconheceram que a ciência moderna retornava ao pitagorismo.

Assim, pois, não há nada de surpreendente no fato de que os franco-maçons tenham identificado a arte
arquitetônica com a geometria e tenham dado ao conhecimento dos números uma importância tal que ela
(geometria) justifica sua tradicional pretensão de serem os únicos a conhecer os “números sagrados”.

Mas ainda temos de fazer algumas observações. A geometria, em seu aspecto métrico, ou seja, nas medidas,
exige o conhecimento da aritmética. Isso posto, antigamente a acepção da palavra geometria era menos
específica que hoje, e geometria significava genericamente toda a matemática. Assim a identificação da arte
real com a geometria, tradicional na franco-maçonaria, não se refere à geometria tomada em seu sentido
moderno, mas também à aritmética. Além disso, devemos observar que a relação entre geometria, arte real
da arquitetura e edificação espiritual é a mesma que inspira a máxima platônica: “Que ninguém entre aqui
se não é geômetra”. Máxima cuja atribuição é algo duvidosa, pois apenas é mencionada por um
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comentarista bastante tardio. Mas em obras que indiscutivelmente são de Platão podemos ler: “…a
geometria é um método para dirigir a alma para o ser eterno, uma escola preparatória para um espírito
científico, capaz de voltar as atividades da alma para as coisas supra-humanas”, […] “inclusive é
impossível chegar a uma verdadeira fé em Deus caso não se conheça a matemática, a astronomia e a
íntima união desta última com a música”[xxiii].

Estas concepções e atitudes de Platão devem ser as da Escola Itálica ou pitagórica, que exerceu sobre ele
uma grande influência, o que permite dizer quando se quer sustentar que a Maçonaria se inspirou em Platão,
que, em última análise, se volta sempre à geometria e à aritmética dos pitagóricos. O vínculo entre a franco-
maçonaria e a ordem pitagórica, sem que se trate de uma derivação histórica ininterrupta, mas somente de
uma filiação espiritual, é seguro e manifesto. O arcipreste Domenico Angherà no prefácio que escreveu para
a reedição dos Estatutos Gerais da Sociedade dos Franco-maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito (1874),
que já haviam sido publicados em Nápoles em 1820, afirma categoricamente que a ordem Maçônica é
idêntica à ordem pitagórica. Mas mesmo sem ir tão longe, a afinidade entre ambas as ordens é certa. A arte
geométrica da franco-maçonaria, em particular, provém direta ou indiretamente da geometria e da aritmética
pitagóricas. E não é anterior, porque os pitagóricos foram os criadores destas ciências liberais, segundo o que
se pode deduzir historicamente e a partir dos testemunhos de Proclo. “Aparte de algumas propriedades
geométricas atribuídas, sem dúvida equivocadamente, a Tales, a geometria – diz Paul Tanery – brotou
completa do cérebro de Pitágoras da mesma forma que Minerva saltou inteiramente armada do de
Júpiter. E os Pitagóricos foram os primeiros a estudar a aritmética e os números”.

Para estudar as propriedades dos números sagrados dos franco-maçons e sua função na franco-maçonaria, a
via que se oferece por ela mesma é, pois, a do estudo da antiga aritmética pitagórica. E o estudá-la tanto do
ponto de vista aritmético ordinário como do ponto de vista da aritmética simbólica ou formal, como a chama
Pico da Mirandola, correspondente à tarefa filosófica e espiritual que Platão atribui à geometria. Ambos os
sentidos se encontram estreitamente ligados no desenvolvimento da aritmética pitagórica. A compreensão
dos números pitagóricos facilitará a dos números sagrados da Maçonaria.

Arturo Reghini (1878-1946), matemático e filólogo, ocupou um alto cargo na Maçonaria italiana (Supremo
Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito, e membro honorário de Supremos Conselhos de outros países).
Manteve correspondência com René Guénon, fundou e dirigiu as revistas Atanor – onde este último publicou
em primeira versão o Esoterismo de Dante e o Rei do Mundo – e Ignis (1924-25) e contribuiu com a Ur
(1927-28); escreveu numerosos artigos, e foi também chefe de redação da Rassegna Massonica. Entre suas
obras, Cagliostro, documents et études; Notes brèves sur le Cosmopolite; Considérations sur le Rituel de
l’Apprenti Franc-Maçon; les Mots sacrés et de passe des trois premiers grades et le plus grand mystère
maçonique; Aritmosofia; les Nomes Sacrés dans la Tradition Pythagoriciene Maçonique, todos editados hoje
por Archè, Milano, e uma obra inédita em sete tomos: Dei Numeri Pitagorici.

[i] Libertà va cercando ch’è si cara


Come sa chi per lei vita rifiuta. (Dante, Purgatorio. I, 71-72.)
[ii] Hutchinson, Spirit of Masonry; Preston, Illustrations of Masonry; G. De Castro, Mondo segreto, IV,
91; A. Reghini, Noterelle iniziatiche, Sull’origine del simbolismo, en Rassegna Massonica, junio-julio 1923.
[iii] The Grand Mystery of Freemasons discovered wherein are the several questions put to them at their
Meetings and installation, Londres 1724.
[iv] Virgilio, Bucólicas, Égloga VIII
[v] Máximo de Tiro, Discours philosophiques, tradução Formey, Leyden, 1764: Discurso XI, pág. 173.
[vi] Cf. Oswald Wirth, Le Livre du Maître, 1923, pág. 7.
[vii] Johannes Daniel Mylius, Basilica Philosophica, Francfort, 1618.
[viii] Cf. Pietro Negri [= A. Reghini], Un codice plumbeo alchemico italiano, en UR, números 9 e 10, 1927
[ix] Cf. A. Reghini, Le parole sacre e di passo ed il massimo mistero massonico, Todi 1922.
[x] O. Wirth expressa categoricamente esta opinião, cf. Le Livre du Maître, pág. 189.
[xi] Cornelius Agrippa, Cartas. Cf. também a monografía de A. Reghini, prefacio da versão italiana da
Filosofía Oculta de Agrippa

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[xii] Giuseppe Mazzini (1805-1872), fundador da “Jovem Itália” (sociedade secreta que trabalhava para o
estabelecimento da república na Itália). Giuseppe Garibaldi (1807-1882), patriota italiano que luchó para
libertar a Itália do domínio austríaco, dos Bourbons (reino das Duas Sicílias) e, finalmente, do papado.
Giovanni Bovio (1841-1903) filósofo e político radical de esquerda. Giosue Carducci (1835-1907) poeta.
Quirico Filopanti (1812-1894) patriota e universitário. Giovanni Pascoli (1855-1912) poeta. Domizio
Torrigiani (1879-1932). Giovanni Amendola (1882-1926) político, filósofo, fundador do Movimento União
Democrática Nacional.[xiii] Cf. os artigos de Emilio Bodrero em Civiltà cattolica, orgão da Companhia de Jesus, e em
Roma Fascista, periódico; cf. também Ignis y Rassegna Massonica, ano de 1925.
[xiv] palavras, palavras, palavras (N.T.)
[xv] Cf. Raffaele Del Castillo, La tradizione segreta, Milão 1941
[xvi] a fé é sincera o suficiente para compreender (N.T.)
[xvii] não suficiente (N.T.)
[xviii] muitos são chamados (N.T.)
[xix] poucos foram escolhidos (N.T.)
[xx] O. Wirth já havia dito a mesma coisa em 1941: “Como o método iniciático se nega a inculcar o que quer que seja,
apenas é admissível que se tenha ensinado uma doutrina positiva no seio dos Mistérios”, no Livre du Maître, pág. 119.
Del Castillo sustenta, ao contrário – e sem nenhuma prova – que a Maçonaria pretendeu ensinar uma
doutrina secreta, e constata que não se encontra traço desta doutrina positiva. Ao invés de reconhecer que seu
ponto de vista não é defensável, acusa a Maçonaria de ser redundante e incapaz. O vos qui cum Jesu itis, non
ite cum Jesuitis.[xxi] Todas as coisas em número, peso e medida (N.T.)
[xxii] “come del lume del Sole tutte le stelle si alluminano, così del lume dell’aritmetica tutte le scienze si alluminano
[…] che l’occhio dell’intelletto non può mirare […] il numero […] è infinito”. Dante, O Banquete, II, XIII, 15 e 19.
[xxiii] Gino Loria, Le scienze esatte nell’antica Grecia, 2ª edição, Milão 1914, pág. 110.

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Publicado on janeiro 22, 2014 at 2:59 pm Comments (1)

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1. On janeiro 22, 2014 at 3:03 pm Os números sagrados na tradição pitagórica maçônica |


BIBLIOT3CA said:

[…] Continuar lendo…https://bibliot3ca.wordpress.com/os-numeros-sagrados-na-tradicao-pitagorica-


maconica/ […]

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