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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE-UERN

FACULDADE DE ENFERMAGEM-FAEN
DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM-DEN
CURSO DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM

EDIONE RODRIGUES BATISTA

REZADEIRAS, SUA HISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO, SABERES E PRÁTICAS:


Práticas populares do cuidado e sua influência na formação em Saúde.

MOSSORÓ
2014
EDIONE RODRIGUES BATISTA

REZADEIRAS, SUA HISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO, SABERES E PRÁTICAS:


Práticas populares do cuidado e sua influência na formação em Saúde.

Monografia de Graduação em Enfermagem


apresentada à Coordenação de Monografia da
Faculdade de Enfermagem – FAEN da
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte
– UERN, como requisito obrigatório para a
obtenção do título de Bacharelado e Licenciatura
em Enfermagem.

Orientadora: Profª Ms. Amélia Carolina Lopes


Fernandes.

MOSSORÓ
2014
EDIONE RODRIGUES BATISTA

REZADEIRAS, SUA HISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO, SABERES E PRÁTICAS:


Práticas populares do cuidado e sua influência na formação em Saúde.

Monografia aprovada segundo requisitos do Departamento de Enfermagem – DEN, da


Faculdade de Enfermagem – FAEN, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte –
UERN, como requisito obrigatório para a obtenção do título de Bacharelado e Licenciatura
em Enfermagem.

Data de Aprovação: ____/____/____

BANCA EXAMINADORA:

_____________________________________
Profª. Ms. Amélia Carolina Lopes Fernandes
Orientadora - UERN

_____________________________________
Profº. Ms. Lucidio Clebeson de Oliveira
Membro - UERN

_____________________________________
Profª. Ms. Graça Rocha Pessoa
Membro - UERN
Dedico este trabalho a
todas as rezadeiras.
Símbolos de fé,
humildade e ajuda ao
próximo.
AGRADECIMENTOS

Considero a gratidão uma das mais belas virtudes do ser humano. Agradecer é saber
reconhecer que sozinho ninguém chega a lugar algum. Os caminhos da graduação por vezes
foram tortuosos e angustiantes, mas também tive o privilégio de contar com pessoas
iluminadas, que afagaram meu coração, acreditaram em mim e compartilharam seus melhores
sorrisos.
Agradeço primeiramente a Deus, fonte de amor inesgotável, pelo dom da vida, por me
conceder sabedoria e discernimento, por iluminar meu caminho e guiar meus passos, me
amparar, conduzir, proteger e me dar forças quando eu achava que tudo iria desabar.
Agradeço a Nossa Senhora, por me envolver com seu manto sagrado, enxugar minhas
lágrimas e fazer eu me enxergar melhor que julgava ser.
Gostaria de agradecer imensamente aos meus pais, Maria Salete e José Pedro,
exemplos de humildade para mim. Sem vocês eu não teria chegado tão longe, por vocês eu
estou aqui e continuarei firme na caminhada. Obrigada pelo apoio, incentivo, dedicação e
amor. Aos meus irmãos Edilma, Edivânia e Edivan, cada qual, a seu modo, contribuiu de
forma significativa para o meu crescimento, vocês foram/são indispensáveis em minha vida,
obrigada por tudo. Aos meus sobrinhos Alzirinha e Juninho (coisa linda), pela pureza e
inocência de infância que me salvaram em tantos momentos. Amo muito todos vocês.
Agradecer aos demais familiares que contribuíram de forma direta e indireta durante
essa caminhada. As minhas amigas de Antônio Martins, por compreenderem os momentos de
ausência nos aniversários, nas festas, nos finais de semanas e nas conversas jogadas fora. Que
apesar da distância e falta de tempo não se afastaram e continuaram com o mesmo carinho
comigo.
De forma especial, agradeço a minha companheira Luzia Cibele, presente em todos os
momentos. Lembro que um professor uma vez disse: “nunca vejo uma sem ver a outra, estão
sempre juntas”. Foi muito bom compartilhar esse tempo com você. O segredo de nossa
amizade ter dado certo foi principalmente a cumplicidade, o carinho, saber conviver e
respeitar as diferenças uma da outra. Obrigada por tudo, pelos sorrisos, pelas brincadeiras,
pelo apoio, por me emprestar seu ouvido, seu ombro amigo, sua casa e seus pais (risos), és
muito especial e a levarei em meu coração.
A você, Sarah Mikaelly (Sarinha), quero agradecer pela amizade e pela pessoa
especial que és. Apesar de ter me dado muito trabalho (kkk), hoje posso dizer que tenho muito
orgulho do quanto você vem amadurecendo. E mesmo eu não estando mais tão perto para
acompanhar o restante do seu processo de formação e puxar sua orelha, saiba que pode contar
comigo. Se cuide e siga com fé e coragem, amo você.
Anderson, lembro a primeira vez que conversamos, no curso de veterinária, entendi
uns 30% do que você dizia, pois você falava muito rápido e eu ficava constrangida em
perguntar pela terceira vez o que você estava dizendo e fingia que havia entendido (kkk).
Você foi um dos poucos que não mudaram comigo, que permaneceu o mesmo com o passar
do tempo e que sei que posso contar. Agradeço de coração pela amizade, pelas risadas por
motivos mínimos, pelas visitas (in) esperadas – parece que adivinhava quando mais eu
precisava destas. Já sinto muita saudade, amo você, meu ‘fi’.
Morar longe de casa não é nada fácil hein? Vocês conhecem bem essa realidade não é
Elisangela e Tayrine? Duas pessoas que eu gosto de graça, pessoas de bem e que me fazem
bem. Cativaram-me de forma especial e particular, chegaram e ficarão em meu coração.
Obrigada por me acolherem, por me ouvirem e pela amizade sincera. Tayrine, continue com
essa vontade toda sua de vencer, com humildade, com esse sorriso e esse astral contagiante.
Elisangela, Deus vem mostrando a cada dia o quanto você é iluminada, você é uma guerreira
e maravilhas Ele tem em sua vida.
Acho que a pessoa que eu mais ‘briguei’ nessa faculdade foi Maíle (kkkk), e no final a
gente sempre acabou se entendendo. Agradeço pela amizade, por todos os momentos
compartilhados e por tão gentilmente fazer de sua casa um espaço de aconchego para mim,
lembrarei com muito carinho e saudades. Tem um lugarzinho no meu coração destinado a
você. Agradeço também a Bianca, que junto comigo forma ‘as duas neguinhas’, (kkk). Uma
hora ela é a calma em pessoa, outra é um furacão, difícil é achar um meio termo, mas aprendi
a conviver e principalmente respeitar o seu jeito de ser. Que Deus abençoe suas escolhas e
projetos.
Quero agradecer de forma geral a toda minha turma. A turma da superação.
Enfrentamos muitas coisas, algumas delas nos fortaleceram, outras acabaram nos afastando,
mas nos piores momentos, nos quais estávamos mais fragilizados, a união prevaleceu e
conseguimos nos manter firmes – com algumas cicatrizes, mas de pé. O convívio não foi
fácil, muita gente diferente, mas procuramos saber lidar com essas diferenças da melhor
forma e, sobretudo, respeitá-las. Agradeço a cada um de vocês, que mesmo sem perceber me
ensinaram um pouco mais sobre a dor e delícia da arte da convivência. Sucesso a todos nessa
nova fase de nossas vidas.
Agradeço também a Keylla, Priscila e Elizandra. Não foi preciso muito tempo para
que vocês conseguissem me cativar, cada uma, de um jeito especial, tornou a caminhada um
pouco mais prazerosa. Obrigada pela amizade e carinho, meninas. Desejo muita força e
sucesso nessa parte final da faculdade, fácil não será, nunca ninguém disse que seria, mas eu
acredito no potencial de cada uma e sei que a recompensa virá na mesma medida. Vocês estão
no meu coração.
Como agradecer a Amélia hein? Confesso que palavras não são suficientes.
Orientadora, professora e, sobretudo, amiga. Você plantou muitas sementinhas em mim, mas
fez muito mais que isso, ajudou a regar, cuidou, cultivou e não deixou de confiar que sairiam
bons frutos. Muito do que sou hoje sem dúvidas foi também graças a você. Sua humildade,
sensibilidade e disposição em ajudar a tornam um ser incrível. Obrigada por cada momento,
pelos ensinamentos, lições de vida, por me acolher nas incertezas e aflições, pela proteção,
pelas orações, paciência, preocupação e por acreditar em mim quando eu mesma não
acreditava. A você toda minha gratidão, respeito e saudade. Amo você, ‘minha fia’.
Agradeço também aos membros da banca, Lucidio Clebeson e Graça Rocha, que tão
gentilmente aceitaram participar e trouxeram ótimas contribuições para o trabalho. Lucidio,
além de membro da banca também gostaria de agradecer pelo professor exemplar que você é,
pela dedicação e disponibilidade em ajudar em vários momentos. Você contribui muito para o
meu processo de formação. Muito obrigada.
A todo o corpo docente da FAEN, meus sinceros agradecimentos. Vocês fazem parte
dessa conquista. Todos, ao seu modo, me ensinaram muitas lições e tiveram significativa
importância durante o processo de formação. Alguns me cativaram de um modo especial, pois
souberam me enxergar com mais cuidado e carinho... Como não se contagiar com o astral e a
risada de Luka? Impossível. A presença dela traz mais leveza e luz para a FAEN. Gosto
demais de você sua ‘Loukinha’. E os abraços apertados de Erica, quase quebrando meus
ossinhos, como agradecer? Aprendi muito com você, muito obrigada. Rafael, obrigada pelo
apoio e incentivo, por me ensinar com palavras, atitudes e até mesmo com o olhar. Sua ajuda
nos fortaleceu para continuar a caminhada nos momentos mais difíceis. Patrícia, apesar de
sofrer bullying, gosto demais de você ‘maga véia’, essa máscara de durona não me
impossibilitou de enxergar o ser sensível que és, obrigada por tudo. Agradeço também a Líria,
Suzana, Johny, Kelyanne, Carmélia, Raquel, Katamara e a todos os outros professores, tanto
os da FAEN quanto aqueles que vieram de outros departamentos. Obrigada Mestres, por
ajudarem a construir e tornar esse sonho real.
Agradeço também a todos os funcionários da FAEN, Zeiza, Ritinha, Munhoz,
Veridiano, Eliete e cada um que passou e está atualmente lá, a caminhada não teria sido a
mesma sem a ajuda de vocês. Agradeço de modo especial a Seu Almir, que me acolheu tão
bem desde o início da faculdade. Uma pessoa humilde, prestativa, de humor incomparável e
que me fez enxergar as coisas simples da vida com mais cuidado. Sentirei saudades da
companhia, das conversas, das risadas e de tomar aquele cafezinho com pão doce nos finais
de tarde. Levarei no meu coração todos os momentos.
Não poderia deixar de agradece a todos os pacientes que tive a oportunidade de
acompanhar e ajudar. Aprendi muito com vocês, não apenas a cuidar de determinadas
patologias, mas também pelas ricas histórias de vida que tive oportunidade de ouvir. Cada
pessoa é um universo. Vocês me possibilitaram experiências que não se encontra em livro
nenhum. Agradeço também a todos os profissionais que compartilharam suas experiências e
ensinamentos comigo, que tiveram paciência e souberam me conduzir da melhor forma na
construção do conhecimento.
Por fim, e não menos importante, agradeço as rezadeiras participantes da pesquisa pela
acolhida, humildade e disponibilidade em compartilhar suas histórias de vida. Histórias estas
repletas de significados, ajuda ao próximo, amor a Deus e ao ofício, sensibilidade, superação
e continuidade do saber. Mulheres de fé, que fazem o bem as pessoas por meio das
benzeções, reestabelecendo a saúde e criando vínculos de confiança, respeito e cuidado. A
vocês gradeço de todo meu coração. E a todas as rezadeiras, Deus está com vocês em cada
momento.
Porque cada um, independente das habilitações
que tenha, ao menos uma vez na vida
fez ou disse coisas muito acima da sua natureza e
condição, e se a essas pessoas
pudéssemos retirar do quotidiano pardo em que
vão perdendo os contornos, ou elas a si
próprias se retirassem de malhas e prisões,
quantas mais maravilhas seriam capazes de
obrar, que pedaços de conhecimento profundo
poderiam comunicar, porque cada um de
nós sabe infinitamente mais do que julga e cada
um dos outros infinitamente mais do
que neles aceitamos reconhecer.

(José Saramago)
RESUMO

O empenho em desenvolver esse trabalho, relacionado ao conhecimento de práticas populares


do cuidado enfatizando as práticas das rezadeiras, surgiu da necessidade de se conhecer
melhor esse saber tão presente nos tempos de infância, práticas estas que mesmo suplantadas
pelo cientificismo vem resistindo ao tempo, mantendo suas tradições culturais através das
gerações por meio das fontes orais, pois não se encontram em registros históricos.
Procuramos entender o que antes não compreendíamos, dar voz e vez a essas mulheres
escondidas atrás das cortinas do modelo biomédico, relacionar à enfermagem ferramentas que
possibilitem compreender o usuário de forma a considerar seus próprios saberes e os da
comunidade, considerando-os como complementares na busca da cura. Nessa perspectiva,
esta pesquisa objetivou conhecer a história de vida de rezadeiras no município de Mossoró –
RN, problematizar a construção do conhecimento dos saberes e práticas que permeiam o
ofício de rezadeira, ressignificar a inclusão social desse grupo em relação à educação informal
e os espaços sociais que o acolhem ou integram. Tivemos como público-alvo 02 (duas)
rezadeiras do município de Mossoró – RN. A pesquisa é natureza qualitativa, e, para
alcançarmos os objetivos utilizamos a história de vida como abordagem metodológica. Para a
construção dos dados utilizamos a entrevista semiestruturada. A análise dos dados se deu
através da teoria das Representações Sociais, bem como apresentação da história de cada uma
para em seguida discuti-las, atingindo nossos objetivos. A partir do estudo percebemos a
importância e representação que o ofício de rezadeira exerce na sociedade, no quanto o
compartilhamento e troca de saberes entre as rezadeiras e as instituições formais de saúde
trazem benefícios no melhoramento do processo saúde-doença. Percebemos também a forte
influência simbólica dos elementos religiosos/espirituais presentes no ofício da reza, podendo
estes aspectos ser considerados na assistência ao usuário em todas as suas dimensões.

Palavras-chave: Práticas Populares do Cuidado. Enfermagem. Espiritualidade. Rezadeiras.


ABSTRACT

The effort to develop this research, related to the knowledge of popular practices of care
emphasizing the practices of prayers, arose from the need to better understand this knowledge
present in our childhood, that given the fact that these practices have been supplanted by
scientism, they have resisted through time, keeping their cultural traditions through the
generations through oral sources, once they are not in historical records. We seek to
understand what we did not understand before, and instead give voice to these women hidden
behind the curtains of the biomedical model, relate to nursing tools that enable the user to
understand in order to consider their own knowledge and the community, considering them as
complementary in the search for cure. In this perspective, this study aimed to know the life
story of folk healers in the town of Mossoró - RN, discuss the construction of knowledge and
practices that permeate the craft of folk healers, reframe the social inclusion of this group in
relation to informal education and social spaces that host or integrate them. We had as target
audience two (02) folk healers of the municipality Mossoró - RN. The research is qualitative
in nature and to achieve the goals we used the life history as a methodological approach. To
construct the data we used the semi-structured interview. Data analysis was made through the
theory of social representations, as well as presentation of the history of each to then discuss
the thematics reaching our goals. From the study we realized the importance and
representation that the office of folk healer plays in society, and that the sharing and exchange
of knowledge between those women and the formal health institutions provide benefits in
improving the health-disease process. Also realize the strong symbolic influence of
religious/spiritual elements present in the office of prayer, these aspects can be considered in
assisting the user in all its dimensions.

Keywords: Popular Care Practices. Nursing. Spirituality. Folk Prayers.


SUMÁRIO

1 SOBRE O INTERESSE EM SE ESTUDAR ACERCA DAS REZADEIRAS .................... 12


2 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICO-SOCIAL DO OFÍCIO DE REZADEIRA ............ 19
2.1 MODELOS TECNOASSISTENCIAIS EM SAÚDE E SUA RELAÇÃO COM AS
REZADEIRAS. ................................................................................................................................. 23
2.2 RELIGIOSIDADE/ESPIRITUALIDADE COMO NECESSIDADE HUMANA BÁSICA. ..... 28
2.3 AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS NO CONTEXTO DAS BENZEÇÕES ............................ 30
3 HISTÓRIA DE VIDA DAS REZADEIRAS: MULHERES DE FÉ ..................................... 34
3.1 EM CENA, DONA MARIA DA CONCEIÇÃO: TRAJETÓRIA DE VIDA E EXPERIÊNCIAS
COMPARTILHADAS. ..................................................................................................................... 35
3.2 EM CENA DONA INÊS: TRAJETÓRIA DE VIDA E EXPERIÊNCIAS
COMPARTILHADAS. ..................................................................................................................... 40
3.3 ASSOCIAÇÃO DAS REZAS COM OS SERVIÇOS DE SAÚDE ............................................ 44
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................ 49
REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 51
APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO .................. 57
APÊNDICE B – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS .............................................. 58
ANEXO – PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP ....................................................... 59
12

1 SOBRE O INTERESSE EM SE ESTUDAR ACERCA DAS REZADEIRAS

O empenho em desenvolver esse trabalho, relacionado ao conhecimento de práticas


populares do cuidado enfatizando as práticas das rezadeiras, surgiu da necessidade de se
conhecer melhor esse saber tão presente nos tempos de infância, quando não sabíamos muito
bem o sentido dos ramos em movimento, dos sussurros, das lágrimas que afloravam e corriam
pela face, das medidas da cordinha utilizada e dos bocejos, porém sabíamos que aquilo
ajudava de alguma forma.
Buscamos, então, revisitar esses laços, procurar entender o que antes não
compreendíamos, fosse pela imaturidade da formação social, fosse pela educação positivista a
que nos submetíamos nos bancos das escolas e do que se é enfatizado nos contextos
acadêmicos nas formações em saúde, no que tange ao biologicismo e modelo
medicalocêntrico do cuidado atual. Dar voz e vez a essas mulheres escondidas atrás das
cortinas do modelo biomédico, relacionar à enfermagem ferramentas que possibilitem
compreender o usuário de forma a considerar seus próprios saberes e os da comunidade,
considerando-os como complementares na atenção ao processo saúde/doença ora se
transforma em primordial a suprir a carência do caráter humano da nossa formação.
Atualmente, frente ao avanço tecnológico na área da saúde, ainda é possível se
observar saberes e práticas populares do cuidado que resistiram ao tempo e que não foram
completamente suplantados pelo cientificismo. Essa continuidade dos saberes se deu
principalmente pela oralidade, visto que “a fonte oral é capaz de ampliar a compreensão do
contexto, de revelar os silêncios e as omissões da documentação escrita, de produzir outras
evidências, captar, registrar e preservar a memória-viva” (SAMUEL, 1989, p. 223). Segundo
Conceição (2011, p. 19),

as fontes orais constituem a principal maneira de reflexão em torno das práticas


culturais de Rezadeiras e Rezadores, pois se trata de indivíduos integrantes das
camadas afro -brasileiras empobrecidas, em grande escala, não alfabetizados. É
justamente na memória desses sujeitos que se encontram experiências acumuladas
de suas vidas.

Assim, de acordo com Halbwachs (1990, p.87), a preservação através da memória é


muito importante, visto que “o grupo, no momento em que considera o seu passado, sente
acertadamente que permaneceu o mesmo e toma consciência de sua identidade através do
13

tempo”. Apesar de resistir com o tempo, essas práticas vêm sendo de certo modo reprimidas e
desvalorizadas pelo contexto moderno, correndo o risco de perder suas origens e perder-se
enquanto referencial cultural.
Quando um determinado grupo social toma consciência da importância de sua
identidade, o mesmo torna-se mais resistente às imposições das elites, bem como ofensivas de
grupos estranhos (SILVA, 2009). A identidade é assim preservada e sobrevive através de
saberes e formas de reprodução e transformação social até os dias atuais graças à memória das
comunidades.
Dito isto, a cultura popular se expressa por vários personagens, dentre eles estão as
rezadeiras, figuras importantíssimas na busca de um equilíbrio na saúde no contexto das
práticas espirituais, levando em consideração corpo e mente como sendo indissociáveis no
restabelecimento das condições de saúde-doença. A cultura popular é definida por Chauí
(1986, p.25), como “um conjunto disperso de práticas, representações e formas de consciência
que possuem lógica própria, distinguindo-se da cultura dominante exatamente por essa lógica
de práticas, representações e formas de consciência”.
Os hábitos e comportamentos dependerão do lugar, da sociedade e do contexto no qual
os indivíduos estão inseridos, sendo assim, há uma variação na identidade cultural de acordo
com o dinamismo social e consequentemente as respostas dadas a cada demanda social serão
diferentes. De acordo com Cavalcante (2006, p. 34),

... a cultura e as concepções sobre saúde e doença condicionam o modo de vida dos
seres humanos, condicionam, mas não determinam, pois é também verdade, que as
pessoas modificam esses padrões, reconstruindo valores e concepções. De modo
correspondente à abordagem dialógica da saúde, a cultura é entendida como um
processo de interprodução ou de co-produção. Identifica-se assim, uma relação
desigual de forças nessa co-produção, porém é dessa desigualdade e das implicações
dos movimentos de dominação que é gerada a base para a transgressão e para a
produção de novos padrões.

Segundo Tompson (1998), cultura é sinônimo de costume, abordando o costume não


apenas como a permanência das tradições, mas entendendo as práticas culturais como cenário
de transformações, espaço de diversidade e fruto das (re) significações e conflitos.
Nesse espaço de conflitos, a visão academicista torna mais difícil a compreensão da
continuidade desta prática em nossa sociedade cada vez mais laica (MECENAS & SANTOS,
2009). O que se observa, em muitos casos, é a falta de credibilidade por parte de alguns
médicos para com as práticas empíricas e espirituais do cuidado, consideram-se superiores e
que apenas os seus conhecimentos são válidos. Nesse sentido, para Cavalcante (2006, p.12) “a
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medicina, por se constituir num paradigma hegemônico, vai funcionar como uma ‘máquina de
captura’, cooptando tudo o que está a sua volta, controlando e sistematizando outras práticas”.
Diante disto, para entendermos como se dá essa prática precisamos conhecer um
pouco melhor como essas mulheres exercem o ofício de rezadeiras. De acordo com Theotonio
(2010, p.34), “rezar é garantir a continuidade da harmonia com o próprio corpo, é debelar o
mal que incomoda, é restabelecer a saúde”.
O ofício de rezadeira foi por muito tempo relegadas ao sexo feminino, devido à
interpretação do cuidado, culturalmente e historicamente tida como elemento feminino, de
cunho maternal, todavia assexuado. Figuras masculinas na categoria de curandeiros existiram
– e existem, em momentos e realidades espaçados. A mulher no papel de rezadeira remonta às
questões medievais das perseguições aos elementos sociais que não estivessem diretamente
ligados à hegemonia da Igreja – as conhecedoras de orações, chás, cuidados espiritualizados,
isoladas dos aglomerados sociais e estigmatizadas pelas perseguições da Inquisição.
A presença das rezadeiras nas ruas, integrantes das camadas populares, sempre
estiveram mais abertas ao convívio com os grupos sociais, estabelecendo uma relação mais
autônoma diante da sociedade, construindo verdadeiras redes de socialização, contribuindo
assim para a edificação de uma teia de significados (CONCEIÇÃO, 2010).
Neste sentido, “as rezadeiras também são fortes líderes em suas comunidades, por isso
não deveríamos combatê-las, mas aliarmos a força de liderança que essas pessoas exercem
junto aos programas governamentais de saúde preventiva” (PIMENTEL, 2007, p. 278).
No que tange à liderança, percebemos a importância da pessoa da rezadeira nas
comunidades. Deste modo, sua atuação se relaciona principalmente aos resultados que
compreendem o bem-estar, percepção da melhoria em quadros de elevado estresse e à
vivência de momentos de espiritualidade. Assim, concebemos a relevância da temática
quando se repensa a possibilidade de discutir a saúde na perspectiva da ciência, abordando a
religiosidade/espiritualidade como necessidade básica humana.
Nesse contexto, as práticas populares do cuidado - no caso das rezadeiras, vem
mostrar que uma atenção às várias dimensões do ser humano, uma investigação sobre os
problemas de saúde e algumas orientações produzem, em alguns casos, mais efeito que uma
prescrição medicamentosa. Que na realidade, no momento de fragilidade diante da doença
existe uma pessoa que necessita ser compreendida, que requer uma atenção voltada não
apenas para aquela parte do corpo afetada pela doença.
Discutir a importância das rezadeiras nos grupos sociais a que pertencem assoma-se ao
objeto de estudo no sentido de que, uma vez que entendemos o indivíduo como parte da
15

sociedade em que se insere e seu papel desempenhado nesta determinada sociedade,


compreendemos que o desenvolvimento deste ofício nasce do seio daquela comunidade e para
aquela comunidade. Não desvinculamos, portanto, a formação da rezadeira da agregação de
valores nos grupos sociais.
Sendo assim, diante do exposto, problematiza-se como se dá a construção dos
conhecimentos populares do cuidado por rezadeiras; que elementos permeiam e influenciam a
prática; como a história de vida se configura enquanto construção de saberes e na preservação
das práticas populares do cuidado; de que forma os espaços sociais contribuem ou dificultam
para a inclusão social desses grupos; e qual a compreensão das rezadeiras a respeito da sua
prática perante a sociedade?
A construção dos conhecimentos populares do cuidado das rezadeiras se dá
principalmente pela transmissão cultural dos saberes de geração para geração pela oralidade,
através de familiares (avós, tias, mães etc), mas há também quem adquira a capacidade de
rezar através de um dom concebido por Deus.
Isto posto, o ofício da reza é permeado por uma rica simbologia. As rezadeiras
constituem principalmente as camadas sociais menos favorecidas, ficando à margem da
sociedade. Suas moradias caracterizam-se pela simplicidade e a grande maioria delas provém
do catolicismo. A prática realizada pelas rezadeiras não tem fins lucrativos, elas não cobram
pelo ritual. É de fundamental importância a História de Vida dessas mulheres para o
conhecimento, historiação e preservação do saber popular, o que desempenha no seio da
sociedade, o papel de conhecimento de perfis de saúde que se relacionem diretamente a
fatores espirituais.
A formação em saúde de abordagem exclusivamente biologicista sob a égide da
epistemologia positivista valoriza o corpo doente, fragmenta o indivíduo e não o considera
como parte integrante e atuante, capaz de contribuir e interferir no seu processo de cura ou
com as relações sociais e interpessoais que o permeiam. No caso das rezadeira, estas levam
em consideração todo o contexto do paciente, entendendo que a doença pode estar relacionada
a diversos fatores. No entanto, não pretendemos, aqui, sobrepor um saber ao outro, e sim,
trazer aspectos que diferenciam a forma como o cuidado vem sendo empregado.
Dada a simplicidade do modo de vida das rezadeiras e suas formas de atuação, apesar
do pouco acesso à educação formal e de serem, em muitos casos, desvalorizadas pelo
contexto moderno, são representantes fortes em suas comunidades, tendo o reconhecimento
daqueles que acreditam e têm confiança na atividade da reza como fator que contribui
positivamente para seu estado de saúde-doença.
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Nessa perspectiva, esta pesquisa objetivou conhecer práticas populares do cuidado no


ofício das rezadeiras e a construção do conhecimento no âmbito da educação informal deste
grupo, no município de Mossoró – RN. Bem como conhecer a história de vida de rezadeiras
no município de Mossoró; problematizar a construção do conhecimento dos saberes e práticas
que permeiam o ofício de rezadeira; ressignificar a inclusão social desse grupo em relação à
educação informal e os espaços sociais que o acolhem ou integram.
Com o fim de atendermos a tais objetivos, adotamos a pesquisa qualitativa,
considerando esta capaz de nos oferecer instrumentos para a melhor compreensão do nosso
objeto, assim como para responder as nossas questões norteadoras. Como técnica de análise
qualitativa, optamos pela História de Vida que, de acordo com Minayo, é um “poderoso
instrumento para a descoberta, a exploração e a avalição de como as pessoas compreendem
seu passado, vinculam sua experiência individual a seu contexto social, interpretam-na e dão-
lhes significado, a partir do momento presente”. (MINAYO, 2007. P. 158).
Como método de coleta de dados, fizemos uso da entrevista semiestruturada,
utilizando um roteiro norteador, que, segundo Minayo (2007, p. 191), “deve ser construído de
forma que permita a flexibilidade nas conversas e a absorver novos temas e questões trazidas
pelo interlocutor como sendo de estrutura e relevância”, sendo assim, os sujeitos da pesquisa
não obedecem a uma sequência fechada de questionamentos, são movidos pelo modo como as
questões surgem, as preocupações, relevâncias e contribuições para o aprofundamento do
assunto abordado. A interferência do entrevistador foi mínima possível, cabendo a este
introduzir o tema, bem como as questões do roteiro, deixando os entrevistados livres para
discorrer sobre sua visão e experiência de vida.
A coleta de dados foi realizada mediante a apresentação do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido (TCLE) e a pesquisa foi enviada para o Comitê de Ética em Pesquisa da
UERN (CEP-UERN) em consonância com a resolução n° 466/12 do Conselho Nacional de
Saúde e suas complementares, emanadas do conselho Nacional de Saúde relativas à Ética em
Pesquisa envolvendo seres humanos. A pesquisa em campo foi autofinanciada e teve
aprovação e permissão de continuidade pelo CEP-UERN.
O público alvo foi de 02 (duas) rezadeiras do município de Mossoró – RN. A pequena
quantidade da amostra justifica-se pela abundância de informações colhidas com a História de
Vida, visto que a opção de trabalhar com muitos indivíduos dificultaria a análise e
interpretação dos dados coletados, na construção da história e na constituição dos saberes e
práticas a serem investigados.
17

As entrevistas constituem-se num rico e denso material com contribuições


significativas para um entendimento aprofundado de como o saber popular das rezadeiras
resistiu até hoje, bem com suas contribuições para a sociedade. Foram gravadas em aparelho
celular e depois transcritas para uma melhor interpretação e análise. As informações serão
armazenadas por um prazo mínimo de 05 anos e poderão ser solicitadas pelas participantes a
qualquer momento nesse período.
Com vistas à análise do material coletado, o referencial teórico-metodológico que
embasa a construção de conhecimentos a partir da história de vida e formação é Josso e
Passeggi (2008). O tratamento e análise dos dados coletados nas entrevistas são
desenvolvidos a partir das narrativas do público-alvo, no sentido de não modificar suas falas,
mas associar à construção de conhecimentos nessa conjuntura.
Na perspectiva da abordagem a partir da histórica de vida, Lani-Bayle (2008) fala
sobre a história de vida geracional, ou genealógica, enfatizando a importância da pesquisa
norteada metodologicamente pela história de vida na compreensão das organizações sociais e
na construção de saberes: “nem todos têm, entretanto, a oportunidade de descobrir, sozinhos,
nesgas de saberes contidos em si mesmos, mas latentes, ainda desconhecidos, inscientes”.
Este é o termo definidor para o que não é sabido, conhecido, por isso se deve ser apresentado,
conhecido e documentado, e explica que o que vivemos ou transmitimos oralmente pode ser o
estoque potencial, pois se trata do que não é conhecido – ainda.
Para tanto, a análise se arvora na teoria das Representações Sociais, que, segundo
Minayo (2007, p. 238), “podem ser consideradas matéria-prima para a análise do social e
também para a ação pedagógica e política de transformação, pois retratam e refratam a
realidade”, categorizando as práticas conforme a história narrada, fases de vida, aspectos
dessas práticas, como rezas e mezinhas considerando que as práticas populares do cuidado
tem estreita relação com processos orgânicos e se coadunam às necessidades humanas
básicas, dentre elas, a espiritualidade.
Isto posto, no entrelaçamento dos elementos da narrativa se integram os fatos,
expressos pelo relator, portanto, construção interior; o que o processo causou ao relator, ou a
interpretação do relator, ou reflexão do mesmo sobre os fatos; e o que o narrador pode fazer
com essa interpretação. Há também a discussão acerca do paradigma do singular-plural, em
que se preconiza a vivência experiencial na perspectiva da abordagem biográfica, na
compreensão do sujeito e na transformação disto para um saber de uso cotidiano e tendo
sentidos para o cidadão comum. Nela, se valorizam os relatos de vida na perspectiva de
18

experiências formadoras, no sentido de que eles, os relatos, têm essa particularidade de ser
territórios, por vezes tangíveis e invisíveis (JOSSO, 2008).
Nesse ínterim, a escolha das rezadeiras levou em consideração o tempo de ofício e a
representação destas ante a sociedade, dando-se preferência àquelas mais conhecidas e mais
procuradas pela população, bem como aquelas que estiveram desempenhando o papel de
rezadeiras por, no mínimo, 20 (vinte) anos, independente do grau de instrução ou educação
formal a que tenham tido acesso. Como critérios de exclusão, estão rezadeiras que
apresentavam algum problema de saúde que inviabilizassem o ofício bem como que não
estivessem desenvolvendo a prática no momento.
Dando prosseguimento, quando do momento da coleta de dados, as entrevistas foram
realizadas nas próprias residências das rezadeiras, pelo fato destes espaços constituírem-se
como campo onde se operam suas práticas, por conter os símbolos e onde as manifestações
espirituais acontecem, deixando-as o mais a vontade possível para discorrer sobre sua história
de vida.
Deste modo, pudemos elaborar um formato geral para a organização do trabalho, de
forma que a presente pesquisa está disposta com base em três capítulos, os quais foram
fundamentados com o propósito de atingirmos os objetivos traçados. No primeiro capítulo
abordamos “Sobre o Interesse em se Estudar Acerca das Rezadeiras”, contendo esta breve
introdução da temática e também a metodologia utilizada na pesquisa.
O segundo capítulo consiste na “Contextualização Histórico-Social do Oficio de
Rezadeira”, no qual buscamos trazer um resgate de como o ofício de rezadeira foi sendo
estabelecido e sobrevive até os dias atuais, bem como os fatores que se relacionam e
influenciam esta prática como: os modelos tecnoassistenciais em saúde e sua relação com as
rezadeiras; a questão da religião/espiritualidade como necessidade humana básica e as
representações sociais no contexto das benzeções.
O terceiro capítulo consiste na “História de Vida das Rezadeiras: Mulheres de Fé”,
tendo como eixo principal a história de vida de duas rezadeiras, seus saberes, práticas e
experiências de vida compartilhadas dispostos em duas categorias, uma para cada rezadeira.
Em uma terceira categoria discorremos sobre a influência da reza no fazer saúde. Por fim,
trazemos as considerações finais da pesquisa.
19

2 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICO-SOCIAL DO OFÍCIO DE REZADEIRA

Discorrer sobre a história das rezadeiras não se constitui uma tarefa simples, devido
tanto à rica simbologia presente no ofício da reza, quanto no fato de que estas foram ao longo
do tempo sofrendo com a desvalorização, negação e deslegitimação de seus saberes, não
aparecendo em registros históricos e dificultando assim um maior reconhecimento da
atividade. Porém, tentar-se-á fazer um resgate de como essas práticas foram – e vem sendo
realizadas – e resistem até os dias atuais, considerando as benzeções como sendo uma das
práticas mais antigas de cura de que se tem conhecimento. Vale salientar que, não se pretende
aqui, mostrar como surgiu a reza e sim trazer aspectos importantes que se relacionam,
permeiam e que influenciaram tal saber.
A relação do homem com a natureza se dá desde tempos imemoriais, sempre buscando
utilizar os recursos naturais para subsistência e tentando explicar e interpretar os fenômenos
que acometiam e dizimavam populações, estes fatos eram considerados antigamente como
castigo dos deuses. Os acontecimentos relacionados ao processo saúde e doença também eram
tidos como intervenção divina. Sendo assim, buscava-se tratar as doenças através de rituais
mágicos, oferendas, poções mágicas, sacrifícios, amuletos, dentre outras práticas permeadas
de misticismo. Os responsáveis para identificar e afugentar os maus espíritos eram os
chamados pajés, feiticeiros e sacerdotes que desenvolviam os rituais de cura (PIRES, 1989).
Os feiticeiros uniam a magia e a religião aos conhecimentos empíricos sobre raízes,
ervas e frutos. Diziam que algumas ervas amargas, quando usadas repugnavam a si próprios e
também repugnariam os espíritos e com isso poderiam afugentá-los. Esses feiticeiros
representavam os médicos daquela época, na qual se constituía uma medicina que se
destacavam os elementos mágico-religiosos (SILVA, 1989).
Denise Pires (1989) considera os feiticeiros e pajés como sendo não apenas os
primeiros médicos, e sim, prefere denominar estes intermediários especiais das sociedades
tribais como primeiros profissionais da saúde no Brasil, pois as ações de saúde envolviam
tanto atividades básicas hoje desenvolvidas por médicos, como também aquelas de
responsabilidade dos enfermeiros e farmacêuticos.
Segundo Soares (2011, p. 5) “a cultura das rezadeiras tem uma formação híbrida. De
um lado influência de elementos religiosos africanos e indígenas e do outro a do português,
conduzido por traços de práticas mágicas da cultura europeia”.
20

Sendo assim, é notória a dificuldade em se estabelecer uma raiz que explique


exatamente como surgiu a prática da reza, visto existirem vários fatores que influenciaram
nesse processo, e a existência de vários elementos culturais associados.
Desde a Idade Média se tem relatos do trabalho das rezadeiras, porém estes se
destacam na época moderna, principalmente nos séculos XVI e XVII na Inglaterra. Os
indivíduos que desempenhavam o papel de cura recebiam inúmeras denominações, dentre elas
destacam-se as de curandeiro, benzedeiras, feiticeiros ou bruxos (SOARES, 2011).
No entanto, neste trabalho, não temos como finalidade especificar e explicar a
diferença entre tais denominações, visto não existirem padrões nem ofícios totalmente
delimitados. As nuances que permeiam essas práticas são muitas e irão depender tanto do
contexto, como da forma pela qual o ofício foi aprendido/transmitido, bem como da cultura e
das características próprias e peculiares que cada indivíduo tem ao exercer sua função.
Segundo Martins (2000. p.42),

num primeiro momento do século XVI até os fins do século XVIII, na Europa, a
representação institucional da medicina ainda estava bastante vinculada a (...) uma
biociência médica incipiente, no interior da qual era inevitável a mistura da dinâmica
científica com elementos religiosos, revelando o quanto o biocartesiano estava
impregnado pela metafísica.

Por volta do século XIX ocorreu de fato uma alteração efetiva desse quadro, tendo
como fatores influenciadores o positivismo biológico e uma exaltação da racionalização
técnica, que tencionou indiretamente abolir as práticas curativas mágico-religiosas. Sendo
assim, foi legado aos médicos o monopólio e exclusividade na prática de cura, fazendo com
que as outras formas de práticas desse ofício caíssem na ilegalidade e clandestinidade, que em
geral eram mulheres, acusadas de serem charlatãs (ALEXANDRE, 2006).
Keith Thomas (1991), em seu livro “Religião e Declínio da Magia”, traz que a
medicina popular tradicional, era composta por um misto de medicamentos do senso comum,
adquiridos da vivência acumulada da assistência a doenças e partos, bem como
conhecimentos transmitidos a respeito das propriedades terapêuticas de plantas e minerais.
Somados a isto, incluía-se também certos tipos de cura ritual e formas mágicas, que eram
usadas juntamente com medicamentos (plantas) ou até mesmo sozinhas compunham a forma
exclusiva de tratamento.
Esse mesmo autor nos diz que muitos curandeiros alcançavam grande êxito no
tratamento de pacientes que apresentavam sintomas somáticos, sem nenhuma patologia
21

orgânica. Sendo assim curavam seus pacientes mais pela mente do que pelo corpo, em virtude
disto suas técnicas antecipavam estudiosos dos males psicossomáticos.
“O maior trunfo do curandeiro era a imaginação de seu cliente e, em vista do que se
sabe hoje sobre as potencialidades de qualquer tratamento que conte com a absoluta fé, tanto
do médico quanto do paciente, a força desse trunfo não deve ser subestimada” (THOMAS,
1991, p. 180).
O exercício de curar era efetuado especialmente por mulheres, que eram chamadas de
sábias pela população e de bruxas por parte dos médicos, da Igreja e dos poderosos. Essas
mulheres além de promover os rituais de cura também se dedicavam à atividade como
trabalho na realização de partos e primeiros cuidados aos recém-nascidos. Era considerado um
trabalho, com características de ofício, essencialmente de cunho feminino, sendo duramente
perseguindo entre os séculos XIV e XIX em toda a Europa, numa ação conjunta da
corporação médica e das Igrejas Católicas e Protestantes (PIRES, 1989).
Tanto os protestantes quantos os católicos de meados do século XVI eram veementes
em sua oposição no que se referia à magia popular e ambos denunciavam essas práticas em
termos que teriam sido aprovados por seus descendentes medievais. “As injunções reais de
1547 fulminavam contra encantadores, feiticeiros, sortilégios, bruxos e adivinhos”
(THOMAS, 1991, p. 218).
Tal oposição às práticas religiosas populares, culminou no conhecido período em que
se instalou a Santa Inquisição. Não podemos falar sobre esta sem levar em consideração seu
contexto histórico, pois muitos a conhecem apenas como sendo uma “perseguição aos
hereges”, sem atentar para a finalidade e para os interesses envolvidos no processo, interesses
estes fortemente ligados à condição política vigente. O contexto Inquisitorial pode ser
analisado sob várias vertentes e por se tratar de um período muito longo de atuação, é
necessário ter um olhar mais atento aos aspectos históricos, sociais, políticos e religiosos que
estavam acontecendo concomitantemente à Inquisição.
Para melhor compreender esse contexto no que se refere ao ofício de rezadeira nos
reportaremos à figura feminina da época, figura esta advinda geralmente de origem humilde e
sem o saber científico imbuído do espírito acadêmico das universidades então em expansão na
Europa da Idade Média. Estas mulheres eram vistas como uma ameaça para a classe médica
que estava em ascensão. A Igreja Católica era então representante da hegemonia política,
sobretudo na Europa Ocidental; juntamente a alguns membros das classes mais altas da
sociedade – desde reis, senhores feudais a viscondes a outros títulos medianos de nobreza,
receosos com a crescente influência desses grupos de mulheres sobre as populações
22

camponesas com menos posses, acabaram utilizando a Inquisição como forma de neutralizar
mudanças sociais e políticas em potencial.
Já no contexto do Brasil colonial, as rezadeiras não podiam realizar seus rituais em
público, pois a Igreja Católica trazida pelos colonizadores com o intuito de controle e de
manutenção do domínio exercia cerimônias e rituais públicos, como por exemplo, missas aos
domingos e dias santos como forma de obrigar todos a seguirem o que era imposto pela
cultura europeia. Porém, mesmo sendo proibidas quaisquer formas de manifestação religiosa,
as rezadeiras – sendo elas católicas ou de outras crenças, utilizavam como meio de não serem
punidas, os ambientes fechados de suas próprias residências para desenvolverem suas crenças
(SOARES, 2011).
A esta forma de realizar a prática das curas, se seguiram alguns ramos da prática da
reza, como a realização desta em ambientes fechados, com limitação do número de pessoas
presentes, o que depende, por exemplo, de fatores espirituais do momento da reza.
Segundo Monteiro (2011, p. 15), “a perseguição aos hereges – com o confisco de bens,
prisões, torturas e, finalmente, com as condenações – foi a principal arma inquisitorial para
atingir seus objetivos”. A atuação da Inquisição tinha seu momento crucial através dos
processos inquisitoriais, nos quais o acusado era preso e depois questionado de seus desvios
heréticos. Durante o processo ocorria a verificação das denúncias, bem como testemunhas
eram ouvidas, e se o acusado não confessasse suas culpas o método da tortura seria utilizado.
Passada essa tramitação, ficaria a cargo do inquisidor decidir pela condenação ou não do
acusado, determinando também uma penitência a ser aplicada em casos de condenação.
Os acusados não tinham conhecimento de quem os acusava, era tudo realizado de
forma sigilosa para preservar o denunciante de represálias. As torturas utilizadas eram de uma
crueldade absurda, os meios eram os mais diversos possíveis e usados até que os culpados
confessassem as culpas - mesmo sendo inocentes em alguns casos, pois não suportavam mais
as torturas e buscavam um ponto final no sofrimento.
Sendo assim, qualquer um que seguisse diferentes formas de manifestação religiosa
corriam o risco de serem condenadas por meio da Igreja através do Tribunal da Inquisição,
sendo acusados de bruxaria e feitiçaria. (SOARES, 2011).
No Brasil nunca foi instaurado um tribunal do Santo Ofício, a atuação era realizada
por meio de visitas inquisitoriais, nas quais ocorriam investigações e vigilância a respeito de
práticas religiosas divergentes da tida como oficial, com intuito de repreendê-las e difundir o
Cristianismo, os casos julgados mais graves eram encaminhados para o Conselho Geral da
Inquisição em Portugal (OLIVEIRA, 2012).
23

Segundo Luz Mott “malgrado a preocupação da Inquisição e da própria legislação


real, proibindo a prática das feiticeiras e superstições, no Brasil antigo, em toda rua, povoado,
bairro rural ou freguesia, lá estavam as rezadeiras, benzedeiras e adivinhos prestando tão
valorizados serviços à vizinhança” (1997. p. 194).
A força destas práticas consiste em uma “suplementação psicológica e social, na
medida em que eles aceitam ouvir o inacreditável e responder aos clientes com a garantia da
cura. Pois estar doente é querer ser amado, ser protegido” (LAPLANTINE E RABEYRON,
1989, p.62).
Apesar de todas as represálias, de serem desvalorizadas e punidas pelas instituições
oficiais, as rezadeiras conseguiram resistir e perpetuar seus saberes, pois ainda existiam
pessoas que acreditavam nelas, pessoas estas que não tinham acesso a nenhum tipo de serviço
de saúde e que viam nas rezadeiras uma solução para seus problemas de saúde-doença,
conselheiras que ouvem, acolhem e ajudam em suas necessidades.

2.1 MODELOS TECNOASSISTENCIAIS EM SAÚDE E SUA RELAÇÃO COM AS


REZADEIRAS.

O modo como são organizadas as ações de atenção à saúde, relacionadas tanto aos
aspectos tecnológicos quanto assistenciais, em uma determinada sociedade, diz respeito ao
modelo assistencial que está sendo empregado. Sendo assim, modelo assistencial configura-se
como um instrumento de articulação e organização, abrangendo tanto recursos físicos,
tecnológicos e humanos que estejam disponíveis para buscar resolubilidade para os problemas
de saúde das coletividades (JÚNIOR E ALVES, 2007). De acordo com Merhy (2000, p.1),

o tema de qualquer modelo de atenção à saúde, faz referência não a programas, mas
ao modo de se construir a gestão de processos políticos, organizacionais e de
trabalho que estejam comprometidos com a produção dos atos de cuidar do
indivíduo, do coletivo, do social, dos meios, das coisas e dos lugares. E isto sempre
será uma tarefa tecnológica, comprometida com necessidades enquanto valores de
uso, enquanto utilidades para indivíduos ou grupos.

Para Paim (2008), levando em consideração a conformação histórica dos serviços de


saúde no Brasil, é possível a identificação de modelos de atenção hegemônicos, bem como
algumas propostas alternativas, podendo estes, atender tanto a lógica das demandas quanto a
24

das necessidades. Sendo assim, ao longo da história, dois modelos coexistem de modo
contraditório ou complementar, são eles o modelo médico hegemônico e o modelo sanitarista.

Esses modelos que predominam no país não tem comtemplado nos seus
fundamentos o princípio da integralidade: ou estão voltados para a demanda
espontânea ou buscam atender necessidades que nem sempre se expressam
em demanda. Diante dessas limitações, desde a 8ª CNS discutem-se
problemas identificados na prestação da atenção, entre as quais as
desigualdades no acesso aos serviços de saúde, a inadequação face às
necessidades, a qualidade insatisfatória e a ausência da integralidade das
ações (PAIM, 2008, p. 555).

O modelo médico assistencial privatista, hegemônico a partir da década de 1930,


representava a versão mais conhecida do modelo médico hegemônico e fundamentava-se na
chamada medicina flexneriana. Segundo Aguiar (2003), a medicina flexneriana, proposta por
Abraham Flexner, publicado em 1910, calcou-se em elementos como o mecanicismo, o
biologicismo, o individualismo, a especialização, a tecnificação do ato médico, a ênfase na
medicina curativa, a concentração de recursos e a exclusão de práticas alternativas. Esses
elementos, “tecnificaram a assistência médica e reduziram o universo dos problemas de saúde
– daí por diante considerados problemas médicos – através do mecanicismo, do biologicismo
e da ênfase na cura individual” (p. 20).
O relatório Flexner, bem como o modelo médico-assistencial privatista exercem
influência até hoje sobre as formações e os modelos de assistência à saúde, enfatizando
práticas que engendram o biologicismo e os procedimentos médicos centrados na tecnificação
e maquinização do homem, refletidos na desumanização no atendimento prestado, bem como
na deslegitimação de outras práticas alternativas.
Já com relação ao modelo sanitarista, podemos citar como exemplo os programas
especiais, incluindo o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e o Programa de
Saúde da Família (PSF) – que em março de 2006, com a publicação da Portaria Nº 648/GM,
passa a ser denominado Estratégia Saúde da Família (ESF), (BRASIL, 2010). E também as
campanhas sanitárias e a vigilância sanitária e epidemiológica.
São inegáveis as contribuições advindas da implantação e implementação desse
modelo de saúde, porém faz-se necessário repensar a forma como vem sendo desenvolvido,
fazendo adaptações e buscando melhorias, visto que um dos grandes desafios para o setor
saúde consiste na oferta de serviços que atendam aos usuários de acordo com os princípios e
diretrizes do SUS. Sendo assim, é notória a urgência em produzir novas alternativas e
25

instrumentos, uma vez que os atuais não estão resolvendo as necessidades de saúde da
população.
Apesar do aumento no número de serviços de saúde – se comparado a outrora, muitos
cidadãos ainda tem o acesso dificultado e muitas vezes quando o tem, este é deficitário, não
contemplando suas reais necessidades e não atendendo de forma integral e humanizada e nem
considerando o modo de vida dos usuários. Com isso, muitos dos problemas que poderiam ser
contemplados conforme a contribuição dos próprios usuários são mascarados pela falta de
diálogo e pela desconsideração do sujeito como ator capaz de ajudar no seu processo de cura.
De acordo com Feuerwerker (2005, p. 496),

sem a produção de novas tecnologias para o cuidado em saúde e sem colocar a


construção de linhas de cuidado na agenda da gestão do sistema (rompendo com o
isolamento da atenção básica e com a hierarquização burocrática), dificilmente será
possível produzir atenção à saúde de qualidade, atendendo às expectativas dos
usuários - todos esses elementos indispensáveis para a consolidação política do SUS.

Para responder a esta situação é imprescindível a existência de um modelo assistencial


que gere modalidades tecnológicas de assistência, conduzidas pelo universo das tecnologias
leves e que incluam elementos individuais e coletivos, o que implica em disposição política
clara por parte da gestão em saúde, de modo a garantir investimentos na qualificação clínica
das redes básicas, ao passo que intervenha na produção com base nos fatores de risco
coletivos do adoecer. “Só assim, é possível construir um modelo assistencial com mais
qualidade e mais barato, que respeita os direitos dos cidadãos na saúde, e que tenha a
abrangência das ações individuais e coletivas” (MERHY, 1998, 12.).
Nesse modelo assistencial almejado faz-se mister um lugar para o exercício de práticas
de atenção à saúde alternativas, as quais somadas aos saberes científicos instituídos,
contribuam para o fortalecimento da atenção ao processo saúde-doença das comunidades.
Mas é necessário registrar, que não obstante a inexistência desse espaço de articulação
entre o saber científico e as práticas de cunho espirituais/religiosas, as pessoas continuaram
buscando os serviços do saber popular das rezadeiras, visto que estas se disponibilizavam para
ouvi-los, tendo confiança, respeito, criando vínculos e “uma nova realidade, fazendo com que
a cura seja entendida como uma nova condição e uma nova compreensão do seu modo de
vida" (SCHWEICKARDT, 2000, p. 194).
Nesta conjuntura de observação entre cultura popular e saúde, existem pontos que o
cientificismo hesita em contemplar, na alma, na subjetividade, nas emoções dos indivíduos e
26

nos aspectos do viver que não podem ser mensurados, dada a polissemia do ser e a
complexidade das relações que o integram. São nesses pontos onde se encontram, muitas
vezes, as respostas para o processo de adoecimento que se torna manifesto no corpo físico.
“Se não houvesse homens no mundo, se o mundo fosse constituído apenas de objetos, então a
linguagem da ciência seria completa. Acontece que os seres humanos amam, riem, têm medo,
esperanças, sentem a beleza, apaixonam-se por ideais” (ALVES, 1999, p. 144).
Vale salientar que, não se pretende aqui, desvalorizar a importância do saber
científico, pois é inegável sua significativa contribuição na área da saúde. Queremos, ao
contrário, enfatizar a existência de outros saberes – no caso o saber popular da rezadeira, que
não devem ser desprezados e deslegitimados, pois ao analisarmos mais precisamente,
percebemos que muitas coisas antes de se tornarem objetos de pesquisa científica, já faziam
parte do cotidiano de pessoas simples, desprovidas do saber acadêmico, mas repletas de
sensibilidade, com olhar diferenciado e capaz de solucionar alguns problemas de saúde-
doença – seja por meio de benzeções e/ou na utilização de ervas e plantas.
Não desprezamos o saber científico. Mas defendemos a importância de aliar outros
saberes a ele. Visto a compreensão de que o mesmo não constitui a única forma legítima de
compreensão ou intervenção sobre a realidade de saúde. A compreensão sobre a saúde e a
doença pertence não somente à história superficial dos progressos científicos e tecnológicos,
mas também, à história profunda dos saberes e das práticas ligadas às estruturas sociais, às
instituições, às representações, às mentalidades (LE GOFF, 1991).
Assim, a doença é caracterizada pela desordem, já a cura irá buscar uma reordenação,
uma ressignificação que não poderá ser alcançada considerando a doença apenas como uma
causa determinada. É necessário então, articular os sintomas a um todo, a uma teia de
significações. Sendo assim o paciente depara-se com vários sintomas aos quais não consegue
atribuir sentido, é preciso ajuda de outro alguém na construção de uma linguagem socialmente
aceita, que lhe possibilite pensar e compreender esses sintomas (QUINTANA, 1999).
Isto posto, na visão científica, a cura está sempre ligada à superação dos problemas
funcionais do organismo e ao reestabelecimento da normalidade por meio de tratamento
biomédico. Já na percepção das rezadeiras, o reestabelecimento da ordem orgânica é possível
através da fé que modifica tanto a mente, quanto o corpo e a conduta do paciente. “Sem
dúvida, a cura no sentido simbólico da saúde é considerada um fenômeno de alta
significação” (ALEXANDRE, 2006, p. 28).
Não existem razões para se duvidar da eficácia de certas práticas oriundas de contextos
místicos. Mas observa-se que a eficácia da magia é implicada pela crença na magia,
27

apresentando-se sob os seguintes aspectos que se complementam, são eles primeiramente “a


crença do feiticeiro na eficácia de suas técnicas, em seguida, a crença do doente que ele cura
(...). Finalmente, a confiança e exigência da opinião coletiva”. (LÉVÍ-STRAUSS, 1975, p.
194).
Corroborando essa questão, Quintana (1999) afirma que o paciente pode reconhecer
um bom feiticeiro, porém quem irá consagrá-lo como bom ou não é o grupo de pessoas, a
comunidade de forma geral. Esse atestado de reconhecimento em um consultório médico é
representado por um diploma na parede. Já no caso de representantes populares da cura, como
a rezadeira, as formas de se expressar o reconhecimento podem se dar através do total de
pessoas que aguardam em frente à casa para se benzer, bem como pelo relato das bênçãos que
foram realizadas com êxito, ou até mesmo por aqueles providos de alguma autoridade que
procuram pelos seus serviços.
A prática da reza é destituída de interesses e interessada ao mesmo tempo, no
momento que se criam entre os atores laços e vínculos de gratidão, unindo-os e estabelecendo
relações pessoais. Diferentemente do interesse contido no capitalismo médico, a retribuição
contida na dádiva não tem fins lucrativos, como ocorre no mercado que se conhece
tradicionalmente. O interesse contido na dádiva tem um sentido essencialmente simbólico
(MARTINS, 2002).
Diante disto, não podemos pensar na cultura popular e cultura da elite como sendo
dicotômicas, pois, ao fazê-lo não conseguiremos responder a complexidade das relações e
estaremos reduzindo-as e deixando esquecidas as nuances que as permeiam. Sendo assim,
deve-se criar um elo e não um muro, entendê-las como sendo complementares, cada qual com
suas particularidades e suas contribuições para uma finalidade comum que é a cura
(THEOTONIO, 2010).
Uma forma de complementariedade de saberes pode ser desenvolvida no âmbito das
Unidades Básicas de Saúde, as quais podem incorporar o saber popular como forma de
melhoria nas condições de saúde ofertadas a população, seja disponibilizando uma sala para
as rezadeiras ou pela consideração da importância do saber e da aprendizagem que pode ser
adquirida pela experiência e história de vida dessas mulheres.
Espaços como as Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSF) se configuram como
de relevante importância na inclusão social das rezadeiras. Como exemplo podemos citar o
caso da cidade de Maranguape, no Ceará, onde ocorreu a implantação e implementação do
programa “Soro, Raízes e Rezas”, no ano de 1998. As rezadeiras dispunham de uma sala
denominada “Recanto da Fé”. Sendo assim, os usuários passavam tanto pelos profissionais
28

médicos e de enfermagem quanto na sala da rezadeira. Como consequência dessa


complementariedade dos saberes, houve uma queda significativa na mortalidade infantil na
região (CAVALCANTE, 2006).
As diferentes formas de saberes não devem, portanto, funcionar de forma a se
excluírem, diminuírem, ou se considerarem superiores umas às outras. Ambas possuem suas
próprias características, são únicas, e a seu modo conseguem produzir efeito na vida das
pessoas que acreditam que aquilo irá ajudá-las de alguma forma – para tanto, é imprescindível
levar em consideração suas crenças e valores e não apenas a questão biológica.

2.2 RELIGIOSIDADE/ESPIRITUALIDADE COMO NECESSIDADE HUMANA BÁSICA.

De acordo com Horta (1979, p. 39), as necessidades humanas básicas “são estados de
tensões, conscientes ou inconscientes, resultantes dos desequilíbrios hemodinâmicos dos
fenômenos vitais”. Este conceito pode ser esclarecido conforme forem sendo estudadas as
próprias características das necessidades, as quais não se manifestam enquanto houver um
equilíbrio dinâmico, a intensidade como irão se manifestar dependerá do grau de desequilíbrio
instalado. “São aquelas condições ou situações que o indivíduo, família e comunidade
apresentam decorrentes do desequilíbrio de suas necessidades básicas que exijam uma
resolução, podendo ser aparentes, conscientes, verbalizadas ou não” (p. 39).
Este conceito elaborado por Horta se fundamenta na Teoria da Motivação Humana
proposta por Maslow, que é baseada de acordo com as necessidades humanas básicas, e,
sendo por ele hierarquizadas em cinco níveis, a saber: necessidades fisiológicas; de segurança;
de amor; de estima e de auto realização. De acordo com Maslow nunca existe uma completa
satisfação ou que seja permanente de uma necessidade, pois, se isso acontecesse não existiria
mais motivação individual (HORTA, 1979).
O primeiro nível é representado pelas necessidades fisiológicas como alimentação,
água, oxigênio. No segundo nível estão as necessidades de segurança e proteção,
compreendendo tanto a segurança física quanto psicológica. O terceiro nível consiste nas
necessidades de amor e gregarismo, contendo as relações sociais, as amizades e o amor
sexual. O quarto nível abrange as necessidades de autoestima, incluindo a autoconfiança, a
autovalorização e o propósito. O quinto nível é representado pela necessidade de auto
realização, o alcance total do potencial e da capacidade de solucionar problemas e lidar de
29

forma realista com determinadas situações no decorrer da vida. “A pessoa cujas necessidades
estão totalmente atendidas é sadia e a pessoa com uma ou mais necessidades não atendidas
está em risco para doença ou pode não ser sadia em uma ou mais dimensões humanas”
(NEVES, 2006).
No livro “Processo de Enfermagem”, Wanda Horta prefere colocar as necessidades em
três níveis, o psicobiológico e o psicossocial – comuns a todos os seres vivos nos múltiplos
aspectos de sua complexidade orgânica -, e o psicoespiritual - característica única do homem.
Algumas necessidades humanas estão diretamente ligadas à dimensão espiritual,
dentre elas estão: necessidade de significado para a vida, onde este significado se dá através
da análise de situações vivenciais e na busca por uma melhor forma de entendê-las;
necessidade de amor e relacionamento, na qual a vida do indivíduo é influenciada tanto por
seus valores superiores quanto pelas relações psicossociais; necessidade de perdão e
necessidade de ter esperança (ALVES, 2011).
Sendo assim, um atendimento que leve em consideração a dimensão espiritual do ser
humano, deve essencialmente, saciar da melhor maneira possível sua fome metafísica;
procurar atender e analisar o problema; estar atento para ouvir os questionamentos, dúvidas e
angústias; ter conhecimento do campo espiritual a fim de não fugir quando for preciso ou
quando o problema for detectado; dialogar a respeito do assunto; demonstrar interesse e
compreensão pelo problema no outro; fornecer meios para prestar assistência; não transferir
problemas de cunho espiritual; ficar atento as possíveis manifestações do problema
(GELAIN, 19774).
De acordo com Alves (1979), a saúde configura-se como um bem espiritual. Não
consiste basicamente em uma dor no estômago, uma tosse que não cessa ou uma palidez
impressionante. Juntamente com os sintomas que se tornam manifestos no corpo físico está a
incerteza, o medo, a ansiedade. “É possível incorporar necessidades espirituais à lógica dos
valores de troca" (p.115).
Vale aqui esclarecer que a espiritualidade não tem o mesmo significado de religião,
pois representam conceitos diferenciados, possuindo suas próprias características. Um
exemplo disso consiste na existência de manifestações espirituais em indivíduos sem que haja
necessariamente uma ligação com algum tipo de religião. De acordo com Monteiro (2006, p.
15),
30

a espiritualidade é a dimensão que corresponde à abertura da consciência ao


significado e à totalidade de vida, possibilitando uma recapitulação qualitativa de
seu processo vital. Portanto envolve a busca pelo sentido ou significado para a
existência e está articulada a uma necessidade mitificante, ao imaginário e ao
simbólico.

Atuando na alma, no núcleo humano, no propósito de vida e na ligação com o todo, a


espiritualidade assume uma natureza holística, reconhecendo que a busca pela cura não
consiste apenas na busca pelo tratamento de um sintoma, e sim procurando atuar exatamente
nas causas geradoras do desequilíbrio homeostático (SÁ, 2009).
Segundo Boff (2006), a espiritualidade vive da gratuidade, disponibilidade,
enternecimento, compaixão, honradez diante da realidade e da escuta permanente da
mensagem desta realidade. A relação de posse das coisas é rompida para se constituir uma
relação de comunhão com as coisas.
“A espiritualidade é inerente ao homem, ela é inseparável da condição humana”
(ALVES, 2011, p. 15). Apesar de ser característica de todo ser humano a espiritualidade pode
ser ou não cultivada. Uma das maneiras pelas quais a espiritualidade pode ser cultivada é por
meio da religião – não sendo esta a única. Sendo assim, a religião é considerada posterior a
espiritualidade, representando uma manifestação desta (PINTO, 2006). De acordo com Geertz
(1989. p. 67),

uma religião é um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas,


penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da
formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas
concepções com tal aura de factualidade que as disposições e motivações parecem
singularmente realistas.

A religiosidade está substancialmente relacionada com um sistema de crenças formais,


de práticas, tradições, rituais e estruturas organizadas (PARGAMENT, 1997). Neste sentido,
o ofício da rezadeira está muito associado à religiosidade, sendo por meio desta que as
necessidades psicoespirituais são atendidas, pelas crenças de todos os envolvidos no processo
de cura.

2.3 AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS NO CONTEXTO DAS BENZEÇÕES


31

A origem do conceito de representação social advém do termo “representação


coletiva”, proposto pelo sociólogo Durkheim. Ele teorizou que categorias fundamentais do
pensamento humano teriam sua origem na sociedade, e que o conhecimento só poderia ser
descoberto através da experiência social, “ou seja, a vida social seria a condição de todo
pensamento organizado e vice-versa” (ALEXANDRE, 2004, p. 130-131).

O conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma


sociedade forma um sistema determinado, que tem sua vida própria; pode-se chamá-
lo de consciência coletiva ou comum. Sem dúvida, ela não tem por substrato um
órgão único; ela está, por definição, difusa em toda extensão da sociedade. [...] Com
efeito, ela é independente das condições particulares onde os indivíduos se
encontram; eles passam e ela continua. [...] Ela é o tipo psíquico da sociedade, tipo
que tem suas propriedades, suas condições de existência, seu modo de
desenvolvimento, assim como os tipos individuais ainda que de outra maneira
(DURKHEIM, 1893, p. 81).

“Uma função primordial da “representação coletiva” seria a transmissão da herança


coletiva dos antepassados, que acrescentariam às experiências individuais tudo que a
sociedade acumulou de sabedoria e ciência ao passar dos anos” (ALEXANDRE, 2004 apud
CHATIER, 1990).
Moscovici divergiu dessa questão e acrescentou outros elementos à formulação do
conceito de representação social. Para ele, não se trata apenas de uma herança coletiva dos
antepassados transmitida de forma determinista e estática. O individuo desempenha um papel
ativo e autônomo na construção da sociedade, do mesmo modo que por ela é criado, ele
também tem participação na sua construção.

Se, no sentido clássico, as representações coletivas se constituem em um


instrumento explanatório e se referem a uma classe geral de ideias e crenças
(ciência, mito, religião, etc.), para nós, são fenômenos que necessitam ser descritos e
explicados. São fenômenos específicos que estão relacionados com um modo
particular de compreender e de se comunicar - um modo que aia (SIC) tanto a
realidade como o senso comum. É para enfatizar essa distinção que eu uso o termo
“social” em vez de “coletivo” (MOSCOVICI, 2007, p. 49).

Sendo assim, consideramos indispensável o estudo das representações sociais no


contexto das benzeções enquanto elemento teórico-metodológico, pois este fornece
importantes subsídios para uma melhor compreensão de como esse grupo veio construindo
seus saberes individuais e coletivos, como interpretam e dão significados aos problemas de
saúde que acometem todas as dimensões do ser humano, e como são geradoras de
transformações sociais por meio da fé, cultura e simbolismo.
32

É de fundamental importância que essa abordagem seja mais utilizada em trabalhos,


pois é necessário “buscar modelos e métodos que permitam compreender a conduta humana,
em sua complexidade, apreendendo-a em sua dimensão cognitiva, afetiva, simbólica e
imaginária” (JODELET E MADEIRA, 1998. p. 7). Segundo Moscovici (2007, p. 16), as
representações sociais,

emergem a partir de pontos duradouros de conflito, dentro das estruturas


representacionais da própria cultura, por exemplo, na tensão entre o reconhecimento
formal da universalidade dos “direitos do homem”, e sua negação a grupos
específicos dentro da sociedade. As lutas que tais fatos acarretaram foram também
lutas para novas formas de representações.

Mesmo enfrentando conflitos, serem negadas, não serem reconhecidas e não terem
seus conhecimentos adquiridos formalmente, a cultura das rezadeiras ainda tem forte
representação na sociedade atual, principalmente nas camadas populares menos favorecidas
onde o acesso à saúde é precário. Elas vêm, pois, resistindo e perpetuando seus saberes,
renovando suas forças e mantendo suas origens na finalidade da cura.
As representações sociais não pretendem dizer se os conhecimentos sobre determinado
objeto são certos ou errados. Independente disto, os conhecimentos construídos pelo senso
comum se constituem num processo capaz de gerar ações sociais com base em visões de
mundo, concepções ideológicas e culturais que se fazem presentes nas relações sociais da vida
cotidiana. “Fazem parte da construção das representações sociais tanto o indivíduo, com todo
o seu arsenal de experiências, como também sua relação com o meio social. Incluem
afetividade, conhecimento científico, ideologia e cultura” (ALEXANDRE, 2000, p. 166).
Sendo assim, as representações não são simples reflexos mecânicos, cópias das
impressões dos indivíduos sobre a realidade, mas resultados da interação homem-sociedade e
vice-versa, num constante reinventar de situações, onde estão presentes os signos e os
símbolos, a acomodação, a reprodução e os conflitos. A representação não pode ser reduzida a
uma realidade externa ao sujeito.
As representações sociais são saberes construídos socialmente, compartilhados e
inseparáveis da atividade simbólica do sujeito, dessa forma, “tornam-se linguagem,
orientando comunicações e condutas” (MADEIRA, 1998, p. 11).
Dessa forma, para se conhecer a representação social que as rezadeiras têm perante a
sociedade faz-se necessário ter clareza de como se deu a construção dos saberes, a
importância do seu ofício, as características que lhes são peculiares e que definem sua
personalidade, com base nos valores, crenças e nos conflitos existentes que permeiam e
33

influenciam a prática. Entendendo que essa representação é fruto de uma história de luta,
conquistas e conservação do saber através do tempo, tendo sua continuidade cultural garantida
através das fontes orais.
34

3 HISTÓRIA DE VIDA DAS REZADEIRAS: MULHERES DE FÉ

A História de Vida é uma abordagem metodológica que vem evoluindo de forma


contínua. Foi introduzida no meio acadêmico no ano de 1920, pela Escola de Chicago e
desenvolvida por Znaniescki, na Polônia. Desde a década de 60, este tipo de pesquisa buscou
estabelecer estratégias de análise do vivido, se organizando num método de coleta de dados
do homem inserido no contexto das relações sociais (CHIZOTTI, 1991).
Para escrever utilizando a história de vida, torna-se imprescindível dispor de uma
sensibilidade mais apurada, um olhar diferenciado para o que está sendo relatado, levando em
consideração os gestos, os momentos de emoções e aquilo que não sai em forma de palavras e
que não aparece nas transcrições. Segundo DENZIN (1989, p. 81),

as estórias que membros de grupos passam de um para outro são reflexos de


entendimentos e práticas que estão operando no sistema mais amplo de
entendimentos culturais mediante os quais membros grupais agem. Estes
entendimentos contêm concepções de vidas pessoais, experiência subjetiva,
significativa, e noções de como pessoas e suas experiências devem ser
representadas.

Neste sentido, a construção das histórias das rezadeiras e este processo de


documentação vem a contribuir para a formação em saúde no sentido de que se trata de uma
forma de trazer à luz do conhecimento acadêmico saberes que ainda são desconsiderados pelo
cientificismo. Estes entendimentos culturais, no caso o ofício da rezadeira, muitas vezes
transmitido de geração a geração de forma oral, não são discutidos em consonância com
saberes formais e, portanto, tem sido desconsiderados nas formações em saúde e na
operacionalização do cuidado.
De acordo com GLAT (1994, p. 29), “no relato de vida o que interessa ao pesquisador
é o ponto de vista do sujeito. O objetivo desse tipo de estudo é justamente apreender e
compreender a vida conforme ela é relatada e interpretada pelo próprio ator”.
Por meio das narrativas de vida, o sujeito se preenche de si mesmo, desta forma se
obriga a organizar as lembranças de modo coerente e suas percepções imediatas. Este
exercício de refletir sobre si próprio faz surgir em sua narrativa pequenos acontecimentos que
pontuam a vida cotidiana, da mesma forma que as durações, provavelmente comuns aos
grupos sociais, mas que dentro da experiência individual colaboram para a construção social
da realidade (CIPRIANI et al, 1983).
35

a história de vida procura superar o subjetivismo impressionista e formular o


estatuto epistemológico, estabelecer as estratégias de análise do vivido e constituir-
se em método de coleta de dados do homem concreto. No contexto da pesquisa,
tende a romper com a ideologia da biografia modelar de outras vidas para trabalhar
os trajetos pessoais no contexto das relações pessoais e definir-se como relatos
práticos das relações sociais. (CHIZZOTTI, 1991, p. 96).

As histórias de vida por mais particulares que sejam, são sempre relatos de práticas
sociais: tanto na forma de atuação quanto sua inserção no mundo e no grupo ao qual fazem
parte (BERTAUX, 1980). Sendo assim, o indivíduo tem sua própria carga individual, mas
também faz parte de um contexto e de uma dinâmica social que irá caracterizar a forma como
ele está inserido.
A representação de aspectos gerais e únicos de forma simultânea consiste em um dos
grandes desafios da história de vida, visto ser necessária uma conexão das estórias individuais
ao contexto mais abrangente da sociedade (HATCH; WISNIEWSKI, 1995).
As histórias de vida das rezadeiras sempre nos despertou um interesse especial,
trazendo lembranças da infância e despertando curiosidade em conhecer um pouco mais sobre
o ofício, quem são e como vivem essas mulheres, suas experiências de vida, seus saberes e a
forma como desempenham a reza, buscando assim uma melhor compreensão dessa prática
popular que já vem há varias gerações curando as pessoas através da fé. Apresento, pois, essas
mulheres de fé, que desempenham um papel de fundamental importância em nossa sociedade.

3.1 EM CENA, DONA MARIA DA CONCEIÇÃO: TRAJETÓRIA DE VIDA E


EXPERIÊNCIAS COMPARTILHADAS.

Dona Maria da Conceição, mais conhecida como D. Ceição, 71 anos, natural e


residente em Mossoró-RN, é casada há 51 anos, tem 07 filhos, 15 netos e 04 bisnetos. D.
Ceição, de origem humilde, fala sobre sua infância de forma alegre, relembrando uma fase
que apesar da pobreza em que vivia se considerava uma criança feliz, “era muito bom, eu era
pobre mas era tão feliz”. A mãe trabalhava lavando roupas, o pai na confecção de malas para
vender, no dia que as vendas eram boas a alimentação era garantida, caso contrário tornava-se
precária. Para ajudar na renda familiar, D. Ceição realizava atividades domésticas, bem como
lavava roupas no rio. Porém, apesar de desempenhar essas tarefas, não deixava de frequentar a
escola.
36

Já adolescente, mudou-se com o pai para a zona rural do Jucurí, permaneceu cinco
anos lá e ao retornar, dois anos após, casou-se. Trabalhou durante trinta anos no Ambulatório
José Pereira de Lima, o mesmo no qual estudou até o 4º ano. “Eu terminei cedo, eu tinha uns
14 anos, no instante eu terminei tudo, porque eu só tirava nota boa, aprendi logo a ler tudo,
tudo, tudo”.
Ao indagarmos a respeito da aprendizagem do ofício de rezadeira, D. Maria nos relata
que aprendeu com D. Nêga que era a rezadeira, a qual recorria com o seu filho mais velho
quando necessário e a partir daí surgiu o interesse e motivação em praticar a reza. O marido
de D. Nêga, Seu Dotozin, também era rezador, ele era cego e mesmo assim ia à casa das
pessoas para rezar.

Eu aprendi com Dona Nêga, ela disse ‘tá bom de você aprender porque você tem
esse neném, aí quando você quiser rezar você reza’. E eu digo ‘e eu sei rezar?’, ela
disse ‘sabe’, aí ela dizendo as palavras e eu fiz num papel, escrevi tudin (SIC) e
trouxe pra cá. Aí eu disse de hoje em diante eu vou ser rezadeira, mas se Deus me
der esse dom eu nunca quero nada de ninguém, quero não, quero nada, nada, nada.

Com relação à religião, D. Ceição se diz católica apostólica romana, frequenta


algumas igrejas, dentre elas a de Nossa Senhora da Conceição, São Francisco e Santa Clara.
Nos fala com orgulho e mostra as imagens de Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora
Desatadora de nós, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora das
Graças, Nossa Senhora do Desterro e dos santos os quais é devota, como Santo Expedito,
Santa Luzia, Santo Antônio, Santa Rita de Cássia e São José. Ela é também devota de Padre
Cícero.
D. Ceição nos convida, empolgada, para ver as várias imagens guardadas no quarto,
onde encontramos uma prateleira completa de imagens e também uma parte no guarda-roupa.
As imagens não são expostas em lugar mais visível, como na sala, por exemplo, por causa de
episódios nos quais seus netos já haviam quebrado algumas peças, e ela quis preservar esses
estimados símbolos que representam sua fé e devoção aos santos.
Segundo ela, desde pequena foi sempre religiosa, diz gostar e demonstra respeito às
outras religiões e lembra-se de um caso que alguns evangélicos estavam juntando alimentos e
ela os ajudou de todo coração, “por que a religião é uma só, porque não tem dois Deuses né
mulher? Só tem um Deus, aí ninguém pode tomar ele, vamos ser amigo de todos né”.
D. Ceição exerce o ofício de rezadeira há mais de 20 anos, não recorda a exatidão na
data, mas nos relata que na época em que trabalhava na escola, ao sair de lá, ia direto para as
37

casas das pessoas rezar nas crianças, e também ia nos momentos que não estava trabalhando.
Em um desses casos, ela relata que ao chegar à casa de uma família, ouve a mãe contar que já
havia feito de tudo e a criança não melhorava. Então ela disse: “mulher, tu reze ela, que ela
tá precisando de uma reza, vocês não rezam, vocês não pedem nada a Deus, Deus quer ouvir
a voz da gente mulher”.
Durante todo discurso, D. Ceição demonstra ter muito orgulho de seu ofício, fala com
empolgação dos acontecimentos de sua vida, desde a infância, refletindo sobre sua história e
colocando em forma de palavras situações do seu viver que estão gravados/guardados em sua
memória. Em nenhum momento demostrou constrangimento com a presença das
pesquisadoras, e não houve interferência de nenhum membro da família ou de outras pessoas.
Ao adentrarmos no universo simbólico representado pelas rezas, percebemos a
riqueza contida no discurso de D. Ceição. A primeira reza que nos revela é de ‘carne triada’,
que é realizada, por exemplo, quando uma pessoa exerce um movimento desarticulado e
machuca o pé, sendo necessário, portanto, costurar o nervo “triado”, a carne “triada” e até o
osso prejudicado. Para efetuar a reza. D. Ceição

utiliza uma agulha com uma linha, a agulha virgem e o pano também virgem, um
pedaço de retalho virgem, aí a gente onde tiver doendo, você bota o pé aqui aí eu
vou dizer “o que é que eu cozo” aí você diz “carne triada” aí cada vez que eu enfio
a linha no pano eu digo “carne triada, osso rendido, nervo torto desconjuntado”. Aí
essa reza é assim, tem que rezar três vezes.

No relato de D. Ceição, torna-se evidente a importância na realização da reza três


vezes, tanto no sentido do número de vezes para rezar, como na repetição das palavras de cura
utilizadas em cada reza. “Não vindo as três vezes seguidas, nem venha mais que não presta,
num serve mais não”. Segundo ela, se esse processo for interrompido é necessário que se
inicie novamente o ritual, pois, caso isto não ocorra a cura fica aberta, e o problema não é
resolvido.
Outra reza presente no cotidiano de D. Ceição é a da ‘espinhela caída’, que ocorre
para curar dos efeitos causados, por exemplo, de quando uma pessoa se submete a um esforço
acentuado, ao levantar um excesso de peso, o que acaba ocasionando dores pelo corpo. No
processo da reza usa-se um cordão que serve para medir a distância entre os ombros, entre
ombro e cotovelo e entre ombro e umbigo. Se as medias não forem iguais, utiliza-se as
seguintes palavras, “Jesus quando andou no mundo tudo Ele curou, Jesus quando andava no
mundo tudo Ele curava, assim como curou fulano cura eu também”. Depois de rezar, faz
38

novamente as medidas, e as mesmas se igualam, “aí dá certinho, de ombro a ombro, parece


assim uma coisa mermo de Jesus mermo, porque tem muito poder, e eu acredito muito, muito,
muito”.
Segundo D. Ceição, quando uma pessoa vem em busca de reza e está muito
‘carregada’, ela diz não se sentir bem, boceja muito e transpira bastante. “Quando a gente tá
rezando numa pessoa que a pessoa tá bem assim, carregada, sabe, porque tem muita gente
mal, tem muita gente com inveja da vida das outras, aí aquilo parece que chama né, a pessoa
fica mole, aí a gente sente”.
A mesma continua narrando outros episódios em que se aplicam rezas específicas ou
as sensações que acompanham os momentos das rezas:

Um dia desse eu rezei numa mulher, ela veio aqui, aí disse “mulher, eu soube que
você rezava, reze em mim”, ai eu disse “você tá sentindo o que?” Ela disse “já faz
uns pouco de dia tão mole Ceição, assim, aquela coisa ruim, aquela falta de
paciência bichinha, num sei por que”. Aí eu fui rezar bichinha, quando eu terminei
de rezar chega eu tava assim, com aquela coisa ruim sabe.... Nossa Senhora do
Desterro desterre já. Aí, peguei e acendi logo uma vela na intenção dessa pessoa
pra ver se “coisa”, né. Tem muita gente que tem muita inveja da vida das outras,
pois eu não tenho não bichinha.

O melhor horário para rezar segundo D. Ceição é o ao final da tarde, porque junto
com o pôr do sol vão também todos os males que tem naquela pessoa, “o sol é quem carrega
a doença”. A localização que ela escolhe para rezar também está relacionada com o sol. Pela
manhã, ela reza para o lado do nascente, a tarde para o lado do poente, sempre nessa
perspectiva de acompanhar o movimento do sol, para que este leve as sensações ruins. Outro
fator que se relaciona com a eficácia da reza é o dia da semana, segundo D. Ceição, esse dia é
a sexta-feira, “porque é o dia melhor, descarrega tudo. É bom”.
D. Ceição nos dá um exemplo de reza quando uma pessoa chega queixando-se de dor
na garganta. Ela prefere rezar com folhas de pinhão, então pega as três folhas e reza, “Jesus
quando andou no mundo tudo Ele curou, Jesus quando andava no mundo tudo Ele curava.
Jesus quando nasceu cura todos, assim cura Edione com os poderes de Deus Pai, Deus filho
e Deus Espírito Santo, assim seja, com a graça de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito
Santo”. Aí repete três vezes e diz,

‘você tá com dor?’ Dor tu és ferro fulano é aço, e a vida dela você não embaraça,
‘por quê?’ Porque você nem tem força e nem tem poder, quem tem força e poder é
Deus, é Deus e é Deus. Em nome do Senhor se arretire, por favor, das costas, da
cabeça, das orelhas, de onde tiver, do corpo dela, desapareça com a graça de Deus.
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Aí a gente bota assim a mão na cabeça e diz: Edione, eu te curo em nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo, amém. Edione, eu te curo em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, amém. Edione, eu te curo em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo, amém. Aí diz: curai aqui Senhor onde eu não posso ir, com a graça de Deus
Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, Deus abençoe, curas ela onde ela tá
precisando de cura, cabeça, ombro, braço, perna, bucho, aonde tiver, do corpo
todo.

Em seu discurso, D. Ceição recorda um acontecimento de sua vida no qual teve a


ajuda de uma rezadeira, foi quando sofreu queda da própria altura ao escorregar enquanto
regava as plantas no quintal, a queda ocasionou fratura da pelve. O fato fez com que ficasse
alguns dias internada e ao voltar para casa ficou três meses sem andar, se locomovia de
cadeira de rodas e de muletas, mas a maior parte do tempo permanecia deitada na cama. A
irmã de D. Ceição trouxe para a casa dela uma rezadeira para ajudar, “ela pegou um galho de
ramo, era até um galho de lírio, lírio também é bom, lírio branco. Aí quando foi no outro dia
ela pegou uma garrafa, parece que era pau ferro, aí ela lavou essa parte minha aqui todinha,
ela botou assim e rezou, Maria eu te curo”, nesse momento a fala é interrompida e a emoção
vem em forma de lágrimas, e ela diz que foi um período que sofreu muito, mas lembra o bem
que fez e o quanto ela se sentiu melhor depois da reza.
Com relação aos serviços de saúde, D. Ceição tem plano de saúde e diz ter uma
relação muito boa com os médicos e ser bem atendida quando necessita de cuidados de saúde.
Ao falar sobre isto, relembra uma cantiga que fez para homenagear o médico,

“eu viajei muito doente e o doutor mandei chamar, perguntou o que eu queria,
comecei a me queixar, dói aqui, dói ali, me dói por todo lugar, primeiro ele riu de
mim pra depois me receitar. O doutor disse pra mim, sua doença está linda, só não
existe farmácia remédio pra essa maldita”.

Indagamos se os médicos sabiam que ela era rezadeira, ela nos confirmou que sim e
que eles falavam para ela continuar rezando, “continue rezando. Reze pra senhora não cair
(risos)”.
A fala de D. Ceição é bastante interessante no sentido de ocorrer esse diálogo entre os
saberes, entre as diferentes formas de cuidado, não havendo negação nem desvalorização um
do outro. Percebemos aí o respeito envolvido entre ambas as partes. D. Ceição também nos
diz que a reza e a espiritualidade tem a ver com a saúde, pois a finalidade da reza é a saúde.
Relaciona isto também a presença da imagem de santos e da virgem Maria em alguns
hospitais e maternidades.
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3.2 EM CENA DONA INÊS: TRAJETÓRIA DE VIDA E EXPERIÊNCIAS


COMPARTILHADAS.

Dona Inês Araújo, 71 anos, natural de Jardim do Seridó, residia em uma fazenda deste
município, na qual conheceu aquele que é seu esposo até hoje. Os dois moraram 37 anos na
cidade de Currais Novos. Tiveram seis filhos, porém uma de suas filhas faleceu de leucemia
aos 19 anos, deixando uma criança que D. Inês cria como sendo sua filha. Atualmente reside
na cidade de Mossoró, na qual já permanece há 23 anos.
Com relação à infância nos relata que frequentou a escola e, apesar das dificuldades no
acesso ao estudo da época conseguiu estudar bastante. Segundo ela os pais não queriam que
as filhas aprendessem para não escrever cartas aos rapazes, porém seu pai reconhecia a
importância do estudo e colocou os filhos para estudar. “Eu estudei pago, a gente precisava
de professor nas fazendas né, só que todo mundo era pago, cada qual que pagava o seu, a
gente estudou. Eu mesma estudei muito cedo, porque pai trouxe os professores”.
Ao contrário de D. Ceição, D. Inês não aprendeu o ofício da reza com outra pessoa,
segundo ela ninguém a ensinou, desenvolve a reza através de um dom concebido por Deus.
Esse dom veio muito cedo, quando ainda era criança, aos 7 anos de idade ela já rezava em
outras crianças, “ eu só rezava criança, mas ao longo do tempo na minha vida, 16 ou 17
anos, eu vi que os adultos também precisavam né. Então daí por diante eu comecei e não
parei mais”.
D. Inês se diz católica apostólica romana, frequenta a igreja do Divino Espírito Santo e
também faz parte da renovação carismática há aproximadamente 28 anos. Na renovação
existem dias específicos destinados a pessoas doentes que buscam por oração, este processo
acontece com duas pessoas rezando em uma só.
Filha mais velha da família, D. Inês ajudou a criar os irmãos mais novos, sua mãe teve
três crianças gêmeas: Tereza, Francisco e Lúcia. Ela nos diz que Lúcia e Francisco faleceram
ainda pequenos, “eram muito doentes [...] mãe rezava também, mas só que mãe rezava como
rezava todos os católicos né, se valendo de Deus, promessas, só que eu me ajoelhava ali e
começava a rezar, só que eu sentia Tereza melhorando né, e os outros dois não”. Rezava em
várias crianças, em alguns casos dava certo, em outros não. Então ela foi pedindo cada vez
mais sabedoria a Deus e que Ele a orientasse da melhor forma.
D. Inês relata que aos 8 anos de idade, começou a ter várias “visualizações”, mas ela
não queria aquilo e procurou ajuda de Frei Damião,
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eu fui pedir a Padre Frei Damião pra que ele rezasse em mim que eu não queria
aquilo ali pra mim não, pra não, digamos que o povo chamava de benzedeira,
curandeira, é..., espiritismo, bruxaria, e eu não gostava, e verdadeiramente hoje eu
não gosto dessa palavra, totalmente diferente como ele me explicou né, disse que
essas coisas, as pessoas sobrevive, e eu pedisse a Deus sabedoria dali pra frente, e
graças a Deus, Deus me deu muita sabedoria. E sempre rezo em tudo e todos.

Frei Damião rezou os três dias, D. Inês diz ter ficado muito feliz, pois no segundo dia
de reza ela não tinha mais as visualizações, “ele disse que não tinha nada demais, eu era uma
pessoa normal, como qualquer outra criança, só que eu buscava os dons nas orações”. Ao
indagarmos a respeito dessas visualizações, ela nos diz que ocorrem através de sonhos, que
não é apenas fechar os olhos e ver. “Na época, da maneira que eu sonhava ai eu via se
passar, certo? Mas depois que ele rezou em mim ai graças a Deus não vi mais”. Apesar de
não ter mais as visualizações, ela consegue sentir, sente a mesma dor que a pessoa está
sentindo quando a procura, como por exemplo, dor de cabeça.
Aos questionarmos sobre as rezas, ela nos diz que gosta muito do pai nosso e os anjos
São Gabriel, São Rafael, São Miguel Arcanjo e o Anjo da Guarda, estas são suas orações
favoritas, “você diz instantaneamente as coisas que tá sentindo e pedindo a eles, que eles vão,
porque nós não podemos chegar até Deus, eu acredito assim, a gente pedindo a intercessão
dos anjos, do jeito que eles caminharam com Maria, caminham com nós também”. Dona Inês
complementa sua fala dando exemplo de uma reza em uma criança,

a gente vai rezar numa criança, ai então a gente começa pelos anjos, pedindo a
intercessão dos anjos para que os anjos São Gabriel, São Rafael, São Miguel
Arcanjo e o Anjo da Guarda daquela criança. Se for a vontade de Deus, o amanhã
ou depois aquela criança vai estar bem.

Questionamos também sobre a realização de algumas rezas específicas como, por


exemplo, quebranto e espinhela caída, mas D. Inês nos disse que não rezava dessa maneira
específica. “Eu sou mais rezar os terços, agora tem muitas pessoas que Deus bota a
sabedoria pra cada uma das pessoas rezar, mas eu acredito assim, se vocês rezarem com fé o
terço é a melhor oração”. Fala também sobre as novenas aos santos

Eu gosto de fazer as novenas também, novenas de Santa Rita ou de Santa Terezinha,


cada qual nas suas épocas né? Eu sempre ensino a todo mundo, sempre dou as
orações, sou devota também de São Bento, eu rezo muito a cruz sagrada, eu gosto,
eu gosto do terço da misericórdia. Eu sempre encomendo as pessoas que se elas
42

rezarem quando estão aperreadas, rezar creio em Deus pai, pra gente acalmar né?
Digamos assim, a sua amiga tá passando por um aperreio muito grande, aí você
pede a Deus a sabedoria de como rezar, porque Deus dando eu rezo creio em Deus
pai e mata a força da brutalidade, da má criação né, é nisso aí.

O ritual da reza de D. Inês acontece da seguinte forma: a pessoa que a procura com
algum problema de saúde é recebida em um cômodo localizado logo no início da casa, que é
utilizado tanto para reza quanto para a realização da atividade de costureira. No quarto
encontram-se várias imagens e quadros de santos de que ela é devota. Então ela recebe a
pessoa e pede para que esta segure a bíblia enquanto reza, não sendo necessário relatar qual o
problema que está acontecendo, pois D. Inês ao rezar já sente o que a pessoa tem. Ao final da
reza ela pede para abrir a Bíblia aleatoriamente e ler uma passagem da página que foi exposta,
e, com base na palavra de Deus dá orientações para a pessoa. Quando são crianças, as mães é
que fazem a leitura e quando não sabem ler ela mesma lê.
D. Inês acredita que mantendo a espiritualidade viva, rezando constantemente também
irá influenciar no bem estar e na saúde da pessoa. “Se você confia, se você tem fé em Deus,
mesmo que você esteja num grau da doença bem forte, mas se você rezar, se você confiar
você fica boa, certo, pode ser ela (doença) lá qual for”.
Revisitando sua memória, D. Inês relembra um situação de livramento através da reza
que aconteceu em sua vida, segundo ela,

tem uma coisa que eu me livrei com a fé, com amor e rezando, que é onde sempre eu
disse a você que eu confio na oração de São Bento.... Foi em Parelhas no beco
estreito quando eu tinha duas crianças, que eu entrei, eu ia pra casa da minha tia,
irmã do meu pai, e quando eu entrei no beco estreito que chegou no meio ai tinha
três criaturas brigando de faca, e não tinha pra onde eu correr mais. Eu comecei a
rezar a cruz sagrada e clamando a Deus, aí eles me avistaram com dois meninos, aí
em vez de virem pro meu lado eles voltaram correndo pra trás e foram embora. E eu
acredito demais que foi a oração, isso eu sempre digo, porque nunca saiu do meu
sentido, eles podiam ter feito um arte em mim, porque três pessoas com gênio ruim
na qualidade que eles tavam (SIC), eles lá iam enxergar ninguém, que fosse mulher,
criança nem nada. Então eu acredito muito que com os poder de Deus a oração de
São Bento me livrou. Eu ensino a todo mundo essa oração.

D. Inês é casada há 53 anos, ela nos diz que o marido não gosta e já tentou impedir
várias vezes que ela rezasse, mas ela adoece e fica com febre. “Eu não posso passar uma
semana sem rezar [...] Esse aí é que é o segredo que eu não sei o que é, pronto. A coisa que
jamais perguntaram a mim, não sei explicar”. Ela diz que quando sabe que não é uma febre
decorrente de alguma doença, começa a rezar nas pessoas, podendo ser até mesmo aquelas
que estiverem boas e não necessitem da reza no momento, e, quando reza ela melhora da
43

febre. Então, conta que em certa ocasião dirigiu-se ao marido e encerrou: “Ai eu disse pra ele,
se você me quiser, agora é assim, rezando nas pessoas, todo mundo agora”. Perguntamos
quando foi a última vez que ela se sentiu assim e nos respondeu que

faz muitos anos. Acho que eu tinha 28 anos. Eu quase que ‘vou’. Eu não entendia
nada, aí como eu descobri o que era. Aí eu doente demais, tinha ido ao hospital não
sei quantas vezes, a febre muito alta, aí minha filha chegou e disse que tava com
muita dor de cabeça, chorando com dor de cabeça, eu tava deitada na rede
tremendo que a febre era alta demais, aí ela foi e se encostou em mim, aí eu botei a
mão na cabeça dela, quando eu botei as duas mãos na cabeça dela eu senti, aí eu
comecei a rezar com um pedacinho ela se levantou que tava bem, ai eu disse pra ela
que chamasse os outros meninos pra mim rezar, os meus mermo né? Ai chegou as
meninas das vizinhas aí eu comecei a rezar, ai eu comecei a suar. Você sabe quando
uma pessoa, é... despeja o suor que você vê que a roupa tá toda molhada, molhada,
molhada mermo e a rede e o lençol? Pois essa foi a Inês. Quando eu terminei de
rezar uns cinco ou seis meninos ai eu tava boa, só fiz me levantar e cuidar das
coisas.

A maioria das crianças que aparecem para rezar apresentam dor de cabeça,
vômitos, diarreia e febre. “A maneira que eles tão vomitando eu fico vomitando também, mas
gente grande não, porque pode a oração chegar até eles, mas também voltar né, de mim pra
eles e deles pra mim, certo? Mas a criança não tem como, eles são bebês, não tem força
não”. Os adultos a procuram mais com angústia e depressão, neste caso ela reza durante
vários dias, pois os coloca para ler a Bíblia, “porque são doença que é você quem adquire,
você bota na sua cabeça que tá doente. Então pra você tirar você tem que todos os dias ler
bastante salmos, eu gosto de ler os salmos de 1 a 7, no outro dia 7 a 14 até terminar os 150”.
Com relação à questão da saúde, D. Inês frequenta o posto localizado no mesmo bairro
que reside, segundo ela todos a conhecem, tanto no posto quanto na igreja, aonde chega todos
já sabem quem ela é. “Até mesmo as enfermeiras, elas também procuram, é todo mundo [...]
também eu rezo nas médicas”, Relata-nos ainda que além das enfermeiras e médicas do posto
a procuram para rezar também a indicam para outras pessoas. Diz também que tem um bom
reconhecimento, que algumas pessoas voltam para agradecer e ajudar, mas ela não cobra nada
pela reza, “eu não rezo por nada, mas nessa maneira aí (reconhecimento) sempre Deus
manda”. Com relação a crença dos profissionais de saúde, D. Inês diz que

antigamente era mais difícil, o povo não acreditava, mas hoje muita gente já
acredita, porque tem muitas pessoas que vão dar palestra né, nos hospitais eles
rezam, todos vão muito, fazer as orações, e muita gente recebe. A gente tem assim, a
confiança em Deus que daqui a uns anos, nós temos que todo mundo saber se unir
pra receber a paz né, como o Papa disse, nós precisamos da paz. E o que mais vale
44

pra nós, é confiar, é pedir a Deus a sabedoria, pra que Deus dê sabedoria a nós,
como nós sobreviver com os outros, não é isso?

D. Inês considera importante a associação do cuidado desenvolvido pelos profissionais


de saúde e o ofertado pelas rezadeiras, diz que “é só ter fé e confiar em Deus [...] porque a fé
é quem nos encaminha, mas é como eu disse a você, nós temos que pedir a Deus sabedoria,
porque com a sabedoria, os anjos vem e lhe ajuda (SIC) a você resolver, certo?”. É
perceptível também no discurso de D. Inês o orgulho e empolgação ao falar sobre o seu
ofício. “Eu amo o que eu faço, rezar e costurar, pode ter certeza disso”.

3.3 ASSOCIAÇÃO DAS REZAS COM OS SERVIÇOS DE SAÚDE

Descortinadas as histórias de vida das rezadeiras, sujeitos de nossa pesquisa, podemos


perceber a forte influência da espiritualidade em sua educação fora dos muros das escolas,
bem como do entendimento que as mesmas têm de que o exercício dessa espiritualidade irá
interferir na condição da pessoa que as procura. Dentre as diferentes formas de desempenhar o
ofício, ambas relatam reconhecer situações específicas e ter sensações conforme o que a outra
pessoa está sentindo. No caso de D. Ceição, ela enuncia rezas específicas para condições ou
sintomas diferentes. Já com D. Inês, há uma forma de se rezar e de fazer o indivíduo
participar da reza fazendo uma leitura da Bíblia de forma aleatória, ao que ela continua, em
associação ao sintoma, direcionando aos santos anjos.
A consideração da espiritualidade como necessidade humana básica vem ao encontro
dos princípios basilares do Sistema Único de Saúde, considerado as dimensões que fazem do
humano também um ser social, podendo ser percebido e compreendido sob diversas
perspectivas. Com isso, entendemos que o modelo biologicista de pensar apenas a doença
como o que acomete o corpo e a assistência pautada na díade queixa-conduta visando à
terapêutica medicamentosa não dão resposta aos anseios da população e ao que
compreendemos do processo saúde-doença.
Deste modo, concebemos o fazer saúde não partindo de axiomas ou paradigmas
imutáveis baseados apenas no que é palpável, manipulável e quantificável, mas buscando
discussões para perguntas do ser humano e sobre o ser humano que transcendem o
cientificismo.
45

Deste modo, os paradigmas que proíbem o fluxo da produção de conhecimento e


imperam como formas hegemônicas de fazer ciência constroem assim os estereótipos
cognitivos, gerando o que Morin (2005) concebe como conformismos cognitivos e
intelectuais. Documentar os saberes da tradição, das práticas populares do cuidado nos faz
atentar para a possibilidade da aproximação da dimensão espiritual do ser humano à produção
do cuidado nos serviços de saúde, bem como a concepção desta necessidade humana básica
no âmbito da educação formal para a saúde.

a visão dualista inerente ao paradigama newtoniano e cartesiano de ciência, que


separa o mundo da matéria do mundo do espírito, tornou ilegítima a consideração
das dimensões religiosas da vida humana na investigação da gênese das doenças e
na busca de medidas terapêuticas. Por causa da suspeita do modelo newtoniano-
cartesiano de ciência em relação à religião, profissionais, professores e
pesquisadores do setor saúde se envergonham de trazer, para o debate científico e
para a discussão aberta nos espaços de formação dos recursos humanos em saúde, os
saberes e vivências religiosas tão importantes em suas vidas privadas. Desta forma,
as práticas religiosas têm estado presentes no trabalho de saúde de forma pouco
crítica e elaborada, na medida em que nele se infiltram de modo silencioso e não
debatido (VASCONCELOS, 2009, p. 324).

Neste escopo, a incorporação de rezadeiras, bem como de outras categorias das


práticas populares do cuidado tem sido viabilizada no âmbito do SUS na Estratégia de Saúde
da Família (ESF) como membros de equipes, conforme já mencionado. Há publicações que
apontam para essa iniciativa, sobretudo na Região Nordeste, onde a figura da rezadeira ainda
tem forte representatividade e onde as crenças são forte componente da cultura, onde a
tradição se mostra mais forte e é transmitida de geração em geração.
A exemplo do reconhecimento da relação entre o saber médico (aqui falamos sobre as
formações para a saúde) e o saber das rezadeiras, há pesquisa de Santos (2007) em Cruzeta,
no estado do Rio Grande do Norte, em que o pesquisador descreve, através da história de vida
de rezadeiras, relacionando aos símbolos do corpo e da espiritualidade, bem como também
registramos em nossa pesquisa, rezas específicas para determinados males que as mesmas
citam.
Conforme já mencionamos anteriormente, cidades como Maranguape, no estado do
Ceará, promoveram a incorporação do saber da rezadeira à Estratégia de Saúde da Família,
através da criação e implementação do Programa Soros, Raízes e Rezas a partir de análise do
alto índice de mortalidade infantil por doenças diarreicas agudas, em até 40% de mortes por
esse motivo dentre o índice de óbitos infantis de 30 para cada mil nascidos vivos entre os anos
de 1999 e 2000. Quando da ampliação do número de médicos do então Programa de Saúde da
46

Família para dezenove profissionais, mesmo assim não houve a diminuição desses números.
A partir disto, o trabalho conjunto entre a Secretaria de Saúde do município junto a uma
assistente social e duas enfermeiras, desenvolveram um estudo de investigação sobre as
condições socioeconômicas das famílias e da assistência dos serviços de saúde. Com isso,
perceberam a importância das rezadeiras junto à comunidade, pois a partir dos relatos de mães
que recorriam às rezas antes mesmo de conduzi-los às Unidades de Saúde, que foi possível
conceber a cultura como elemento constitutivo do processo saúde-doença e assim trazer a
espiritualidade para a intervenção dos casos de óbitos infantis por doenças diarreicas agudas.
(CAVALCANTE, 2006).
Deste modo, o reconhecimento da comunidade e a compreensão por parte dos grupos
de profissionais da saúde, como enfermeiros, médicos, técnicos de enfermagem, assistentes
sociais, agentes comunitários de saúde e da própria comunidade significaria para as rezadeiras
como um privilégio, considerando a origem humilde das mesmas e o respeito que nutrem por
seu contexto social. Esta iniciativa trouxe não apenas redução nos índices de mortalidade
infantil, mas também melhorou a procura espontânea pelas Equipes de Saúde da Família e
estreitamento dos vínculos entre profissionais e famílias.
Mesmo compreendendo que a procura da comunidade pelos serviços de saúde integra
ações de promoção da saúde e prevenção de agravos, como orientação sobre o consumo de
água filtrada – e a partir deste Programa haver a substituição de potes por filtros, com a
concessão de bolsas e orientações sobre hábitos alimentares, como lavar os alimentos a serem
consumidos; sabemos ser importantíssimo não desconsiderar os fatores que, para a
comunidade, influenciam sobremaneira nos sinais e sintomas manifestos e que contribuem
para efetuação de uma terapêutica que atenda suas reais necessidades.
Destarte, no Programa, a inclusão de profissionais passa por esse entendimento – o de
considerar que outros saberes fazem parte das intervenções de saúde, bem como o
reconhecimento da equipe interdisciplinar da importância para a comunidade da incorporação
desses saberes:

Importante realçar que para a entrevistada, o profissional médico deve ter “um
determinado perfil”, caso contrário ele não se “enquadra” no Programa, ou seja, ele
deve ser capaz de relativizar sua prática. A relativização desse profissional médico
refere-se ao fato de que ele deve ser capaz de perceber o significado que esta
comunidade concede à “reza” na efetivação da cura. Para aceitar que a equipe do
Programa, antes constituída por profissionais de saúde, agora integre um novo
elemento - a rezadeira. Esta que, não sendo um profissional de saúde nos moldes
47

institucionais, tem sido a responsável pela ida dos moradores ao Posto, pois parte da
clientela do médico é indicação da rezadeira. (CAVALCANTE, 2006, p. 97).

Um dos fatores que dificultaram o desenvolvimento do projeto foi justamente essa


aceitação por parte dos profissionais biomédicos, esse quadro só melhorava, quando, de fato,
eles percebiam que associação entre os saberes estavam trazendo benefícios na atuação frente
à problemática da mortalidade infantil, que com a forte representação que as rezadeiras
possuíam e, através delas, as mães buscavam mais o serviço de saúde. Porém, a continuidade
nesse processo fragiliza-se devido a grande rotatividade dos profissionais, principalmente os
médicos, sendo necessário reconstruir a relação de confiança entre a rezadeira e profissionais
que chegavam posteriormente.
O programa teve um aspecto inovador no que se refere à garantia do acesso a saúde,
sendo este, bem mais do que assegurar uma assistência profissional e materiais disponíveis
para atender a população, esta garantia ao acesso vai depender também da confiança entre
ambas as partes envolvidas, e esta relação de confiança “é fruto do respeito aos saberes e
visões de mundo de uma população que sempre esteve excluída tanto do acesso quanto do
reconhecimento da sua capacidade de produzir conhecimento” (PAULICS & PIANI, 2005, p.
50).
O exemplo desse programa é bastante importante no sentido de ser possível a
visualização dos benefícios advindos da união de saberes distintos para uma finalidade
comum que é a cura. Trazendo significativas contribuições na forma em se pensar a saúde, na
forma como vem sendo desenvolvida a assistência, o que precisa e como pode ser melhorado,
na valorização e reconhecimento do papel de outras práticas – que apesar de não terem
conhecimento científico, dispõe de uma experiência de vida que não encontramos em livros
nem manuais e que contribuem de forma significativa na melhoria dos quadros de saúde.
A consideração de outras práticas vem mostrar o quão os sujeitos que buscam os
serviços de saúde precisam ser considerados em todas as suas dimensões, sendo assim, o
ofício da reza torna-se imprescindível no entendimento de como o processo saúde-doença
torna-se manifesto e em como prestar uma melhor assistência. Esse ofício tem aspectos que se
assemelham muito com o que devemos ofertar aos usuários de acordo com os princípios do
SUS, precisamos, pois, incorporar alguns desse saberes das rezadeiras, um deles seria, por
exemplo, a forma humanizada em lidar com o outro.
A espiritualidade na saúde também deve ser considerada, uma vez que esta figura na
construção de diagnósticos de enfermagem da North American Nursing Diagnosis
48

Association (NANDA), um exemplo desse diagnóstico seria: Disposição para bem-estar


espiritual aumentado definido pela participação de atividades religiosas, experiências místicas
e rezas, pelo desejo de aumentar o significado da vida, o enfrentamento, a coragem e a
esperança. Sendo assim, a enfermagem deve atuar no sentido de apoiar as praticas espirituais
dos indivíduos, jamais às desconsiderando.
Quando as necessidades espirituais não são atendidas, o resultado pode ser uma
angustia espiritual, comprometendo a capacidade que o paciente tem em combater a doença e,
em muitos momentos acaba por intensificar tanto os sintomas físicos quanto emocionais.
Porém, as experiências negativas decorrentes da angustia espiritual, muitas vezes não são
ditas, pois geralmente esses pacientes não tem abertura para falar sobre, devido à falta de
interesse da equipe de saúde, ou também por receio em serem estigmatizados por falarem em
espiritualidade (LOH, 2004).
Além de interesse, falta também aos profissionais de saúde um maior conhecimento e
competência sobre o assunto, pois estes não dispõem em seu processo de formação subsídios
que permitam conhecer, discutir e aplicar a espiritualidade no processo de cuidar. Trata-se,
pois, de uma abordagem necessária para a atuação profissional, devendo ser levado em
consideração no plano de cuidados ao paciente.
49

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como discutido ao longo deste estudo, o saber popular da rezadeira desempenha um


papel fundamental em nossa sociedade – principalmente com relação à população menos
favorecida, onde o acesso à saúde ainda é precário, e que necessita recorrer a outras formas
alternativas de cuidados em saúde. Mesmo sofrendo represálias e serem desconsideradas pelo
contexto moderno, as rezadeiras conseguiram resistir e manter sua memória preservada
através das gerações pelas fontes orais, e pela valorização da prática pela comunidade,
sustentando-se assim enquanto referencial cultural no processo de cura. Buscou-se, então,
apresentar/representar a história de vida de duas rezadeiras do município de Mossoró/RN,
descortinar os silêncios das rezas e valorizar a importância desse saber que leva em
consideração a espiritualidade como sendo primordial no estado de saúde-doença dos
indivíduos, considerando as manifestações de todas as dimensões do ser humano.
O estudo possibilitou uma melhor compreensão da temática abordada, trazendo
reflexões e ampliando sobremaneira a concepção acerca de como a reza é desempenhada, os
fatores que permeiam, interferem e influenciam, em como se dão as manifestações
religiosas/espirituais, o simbolismo presente no ofício, e como a associação entre o
conhecimento popular da rezadeira e o conhecimento científico é capaz de gerar significativas
mudanças no perfil de saúde-doença que acomete a população. As rezadeiras sentem muito
orgulho do seu ofício e reconhecidas pelas pessoas que as procuram e que confiam no seu
saber, estabelecendo-se um vínculo de apoio e confiança entre ambas as partes. Podemos,
com isso, inferir que a problemática da pesquisa conseguiu de fato ser respondida.
Com relação aos objetivos, julgamos terem sido alcançados, visto ocorrer um maior
conhecimento das práticas populares do cuidado das rezadeiras e sobre a construção desses
saberes, levando em consideração o tipo de educação formal a que foram submetidas e em
como se deu esse processo. Também como os saberes informais foram sendo construídos,
quais as experiências e trajetórias de vida e como se deu a aprendizagem do ofício da reza. As
duas atrizes da pesquisa tiveram aprendizagens diferenciadas, fazendo-nos perceber que
apesar de ter elementos que são comuns a todas rezadeiras, cada uma possui particularidades
que as fazem únicas na forma de desempenhar suas atividades.
Foi possível também, através do compartilhamento das histórias de vida, conhecer de
fato o que está por trás do ato de rezar, que vai bem mais além de sussurros inaudíveis, dos
movimentos dos ramos, dos bocejos e das lágrimas, compreender o que no tempo de infância
50

não foi possível, pois não se tinha ideia da dimensão que essa prática representava.
Conversando, pois, com essas senhoras rezantes, pudemos perceber nuances que antes nossa
limitação não nos deixava enxergar com clareza, perceber a fé contida no ritual, a devoção aos
anjos, santos, Deus e Nossa Senhora como forma de intercessão pela saúde da pessoa que
busca e acredita no potencial da reza para a melhoria da saúde, e como isto gera reais
modificações na forma como o organismo reage a determinados tipos de doenças.
Isto posto, uma forma de associação e inclusão do saber da rezadeira pode ser
realizada através da incorporação desta na Atenção Básica à Saúde, a qual já mostrou
resultados positivos em experiências realizadas com esse método. Porém, mesmo nos casos
onde não for possível desempenhar tal estratégia, as instituições formadoras de profissionais
em saúde, e os próprios serviços de saúde, não devem desconsiderar o saber das rezadeiras,
pois estas representam forte liderança em suas comunidades, e, como já discutido neste
trabalho, atualmente, somente o conhecimento científico não está conseguindo responder as
necessidades de saúde do ser humano. É necessário, pois, buscar novas estratégias de atuação
– e uma destas sem dúvidas é a utilização de saberes complementares no cuidado.
No que tange à consecução dos objetivos, a metodologia utilizada na pesquisa
conseguiu corresponder às expectativas e foi suficiente para alcançarmos nossas metas. No
que se refere às referências bibliográficas houve certa dificuldade em encontrar materiais
disponíveis sobre o assunto, ressaltando assim que este ainda é pouco discutido no meio
científico, necessitando, então, de mais pesquisas que abordem essa questão considerando o
fato de se tratar de um saber de grande importância e relevância social. Outra dificuldade
encontrada foi a própria localização das rezadeiras para o desenvolvimento da pesquisa.
Devemos, pois, repensar a forma como vem sendo desempenhada a questão da
assistência à saúde da população, que ferramentas dispomos, o que precisa ser melhorado e
como pode ser melhorado, para isto, é indispensável ocorrer um diálogo entre os saberes,
fazer um resgate destes a fim de garantir que os princípios e diretrizes do SUS sejam de fato
vivenciados na prática e que as reais necessidades do usuário possam ser atendidas conforme
seu contexto e todas as suas dimensões.
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57

APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E


ESCLARECIDO
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE - UERN
DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM - DEN
FACULDADE DE ENFERMAGEM - FAEN

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Esclarecimentos
Você foi selecionada e está sendo convidada para participar da pesquisa intitulada: REZADEIRAS,
SUA HISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO, SABERES E PRÁTICAS: Práticas populares do cuidado e sua
influência na formação em Saúde, que tem como objetivos: Conhecer a história de vida de rezadeiras no
município de Mossoró; Problematizar a construção do conhecimento dos saberes e práticas que permeiam o
ofício de rezadeira; Ressignificar a inclusão social desse grupo em relação à educação informal e os espaços
sociais que o acolhem ou integram. Este é um estudo baseado em uma abordagem qualitativa com base na
História de Vida, utilizando como método de coleta de dados a aplicação de entrevista semiestruturada, e
análise de conteúdo de Bardin e representação social, para a análise dos dados.
A pesquisa terá o acompanhamento de Edione Rodrigues Batista, acadêmica do curso de enfermagem
da UERN, e da professora coordenadora da pesquisa Amélia Carolina Lopes Fernandes e segue as
recomendações da resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e suas complementares. Terá duração de
um ano e meio, com o término previsto para julho de 2014.
Suas respostas serão tratadas de forma anônima e confidencial, isto é, em nenhum momento será
divulgado o seu nome em qualquer fase do estudo. Quando for necessário exemplificar determinada situação, sua
privacidade será assegurada uma vez que seu nome será substituído por nome fictício. Os dados coletados serão
utilizados apenas NESTA pesquisa e os resultados divulgados em eventos e/ou revistas científicas.
Sua participação é voluntária, isto é, a qualquer momento você pode recusar-se a responder qualquer
pergunta ou desistir de participar e retirar seu consentimento. Sua recusa não trará nenhum prejuízo em sua
relação com o pesquisador ou com a instituição que forneceu os seus dados, como também na que trabalha.
Sua participação nesta pesquisa consistirá em responder as perguntas a serem realizadas sob a forma de
entrevista semiestruturada, tecendo a história de sua vida e os saberes e práticas que aplica no seu ofício de
rezadeira. A entrevista será realizada caso a senhora apresente queixas pertinentes à problemática da pesquisa e
gravada em aparelho mp4 para posterior transcrição – que será guardado por cinco (05) anos, em computador de
uso exclusivo das pesquisadoras, e deletada após esse período.
Você não terá nenhum custo ou quaisquer compensações financeiras. Os riscos da pesquisa
consistem em possíveis constrangimentos, pelo fato de responder a perguntas pessoais ou rememorar momentos
que despertem frustrações ou outras sensações desconfortáveis. Esses riscos serão minimizados, pois a entrevista
será individual, em um local reservado e só as pesquisadoras terão acesso às gravações. Os benefícios
relacionados à sua participação referem-se às reflexões que contribuirão para a construção de novas práticas e
saberes na formação em Enfermagem, bem como para ampliar a discussão acerca práticas populares do cuidado,
a importância das rezadeiras e sua representação nas comunidades em que se inserem, bem como a importância
desse conhecimento à formação em Enfermagem.
Você receberá uma cópia deste termo e toda a dúvida que você tiver a respeito desta pesquisa, poderá
perguntar diretamente para Amélia Carolina Lopes Fernandes no endereço: Rua Dionísio Filgueira, 383 ou pelo
telefone (84) 3315-2154, email. Desde já agradecemos!

Consentimento Livre e Esclarecido


Declaro que compreendi os objetivos desta pesquisa, como será realizada, os riscos e benefícios envolvidos e
concordo em participar voluntariamente da pesquisa REZADEIRAS, SUA HISTÓRIA DE VIDA E
FORMAÇÃO, SABERES E PRÁTICAS: Práticas populares do cuidado e sua influência na formação em Saúde.

Participante da pesquisa ou responsável legal:


Nome: _____________________________________________________
Assinatura: __________________________________________________
Pesquisador responsável:
Nome: Amélia Carolina Lopes Fernandes
Assinatura: __________________________________________________
Endereço profissional: Faculdade de Enfermagem – FAEN, sediada na
58

Impressão dactiloscópica
Rua Dionísio Filgueira, 383, Centro, CEP: 59610-090 – Mossoró-RN, Fone: (84) 3315-2154.

APÊNDICE B – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS

GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE – UERN

DEPARTAMENTO DE ENFERMAGEM – DEN

FACULDADE DE ENFERMAGEM – FAEN

Pesquisadoras: Amélia Carolina Lopes Fernandes e Edione Rodrigues Batista

Entrevista Semi-estruturada

REZADEIRAS, SUA HISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO, SABERES E PRÁTICAS: Práticas populares do


cuidado e sua influência na formação em Saúde.

1. Nome:_________________________________________________________
2. Data de Nascimento: ____________
3. Local de Nascimento: _____________________________________________
4. Há quanto tempo reside em Mossoró: _________
5. Há quanto tempo exerce o ofício de Rezadeira: ___________________________
6. Filhos(as): _______________
7. Qual a igreja que a senhora frequenta?
8. A senhora pode falar um pouco sobre sua infância?
9. Como a senhora teve contato com a prática da reza para os problemas de saúde?
10. A senhora frequentou escola? Até que série?
11. A senhora aprendeu o ofício de rezadeira através de quem?
12. O ofício de rezadeira despertou seu interesse por quê?
13. Como foi o processo de aprendizado das rezas e receitas para problemas de saúde?
14. Como a senhora se sente nos momentos em que realiza as rezas?
15. A senhora pode explicar algumas orações para as questões a que elas correspondem?
16. Qual a Unidade Básica de Saúde (UBS, ou posto de saúde) que a senhora frequenta?
17. As pessoas da comunidade procuram muito pela senhora? Em que situações específicas?
18. Qual o seu entendimento da associação do ofício de rezadeira aos serviços de saúde?

OBSERVAÇÕES: As perguntas deverão ser acompanhadas com o máximo de atenção. Uma vez que se trata de
narrativa da História de Vida das Rezadeiras, é interessante que se encoraje ao máximo que as mesmas teçam sua
história com o mínimo de interrupções possível. As perguntas deverão ser feitas tencionando direcionar o
assunto. Caso já se siga essa linha de raciocínio, as perguntas não precisarão ser realizadas na mesma ordem. Em
se tratando de instrumento semi-estruturado, a depender das demandas no processo de gravação, outras
perguntas poderão ser lançadas às participantes. A depender do tempo de gravação, as coletas de dados para cada
participante poderão ser fracionadas e dada continuidade em outros dias.
59

ANEXO – PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE - UERN

DADOS DO PROJETO DE PESQUISA

Título da Pesquisa: REZADEIRAS, SUA HISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO,


SABERES E PRÁTICAS: Práticas populares do cuidado e sua influência na formação em
Saúde.

Pesquisador: Amélia Carolina Lopes Fernandes

Área Temática: Versão: 1


CAAE: 14598513.6.0000.5294

Instituição Proponente: Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN

Patrocinador Principal: Financiamento Próprio

DADOS DO PARECER

Número do Parecer: 241.056

Data da Relatoria: 02/04/2013

Apresentação do Projeto:

Pesquisa de natureza qualitativa, de caráter descrito e exploratório, utilizando a história de


vida como método e eixo central. Trata-se da proposta de TCC do Curso de graduação em
Enfermagem. O desfecho primário se arvora na produção do conhecimento na conjuntura da
Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, no corpus das
práticas populares do cuidado: entre a formação destas rezadeiras e os saberes e práticas por
elas construídos que incorporam o fazer em saúde das mesmas, no entendimento de que a
formação do enfermeiro deva compreender não apenas o âmbito puramente científico, mas no
entendimento de que o ser humano é influenciado sobremaneira pela subjetividade,
espiritualidade, entorno social, educação, dentre outros aspectos.

Objetivo da Pesquisa:

Objetivo Primário

- Conhecer práticas populares do cuidado no ofício das rezadeiras e a construção do


conhecimento no âmbito da educação informal deste grupo, no município de Mossoró - RN.

Objetivo Secundário:
60

- Conhecer a história de vida de rezadeiras no município de Mossoró;- Problematizar a


construção do conhecimento dos saberes e práticas que permeiam o ofício de rezadeira;-
Ressignificar a inclusão social desse grupo em relação à educação informal e os espaços
sociais que o acolhem ou integram.

Avaliação dos Riscos e Benefícios:

Os riscos da pesquisa, envolvem tão somente a participação e narrativa de vida por parte das
participantes, experienciações emocionais por parte das participantes, no contexto da
rememoração de passagens de suas próprias vidas, ou o próprio cansaço evidenciado por
longos períodos de atividade de uso da voz e de exercício mental na pesquisa.

Os benefícios envolvem o estabelecimento de vínculo entre as pesquisadoras e as


participantes da pesquisa, realização de exercícios de memória que possam despertar nas
participantes sensações de bem-estar, de dever cumprido no exercício do ofício de rezadeiras,
no entendimento das formas de construir conhecimento e contribuir com a formação de
outrem.

Comentários e Considerações sobre a Pesquisa:

Ter-se-á como método de coleta de dados a entrevista semiestruturada, utilizando um roteiro


norteador e um dispositivo de gravação de áudio, mediante assinatura do termo de
consentimento livre e esclarecido. O tratamento e análise dos dados coletados nas entrevistas
será desenvolvido a partir da Análise de Conteúdo associada às narrativas do público alvo, no
sentido de não modificar suas falas, mas associar à construção de conhecimentos nessa
conjuntura. Nesse ínterim, a escolha das rezadeiras levará em consideração o tempo de ofício
e a representação destas ante a sociedade, dando-se preferência àquelas mais conhecidas e
mais procuradas pela população, bem como aquelas que estejam desempenhando o papel de
rezadeiras por, no mínimo 20 anos, independente do grau de instrução ou educação formal a
que tenham tido acesso. Como critérios de exclusão, estarão rezadeiras que estejam
manifestando no momento problemas de saúde que inviabilizem o ofício e que não estejam
desenvolvendo a prática no momento da coleta dos dados. O público alvo será de 02 (duas)
rezadeiras do município de Mossoró ¿ RN, a pequena quantidade da amostra justifica-se pela
abundância de informações colhidas com a História de Vida, visto que a opção de trabalhar
com muitos indivíduos dificultaria a análise e interpretação dos dados coletados, na
construção da história e na constituição dos saberes e práticas a serem investigados. A coleta
de dados será realizada mediante a apresentação do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE) e a pesquisa será respaldada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UERN
(CEP-UERN) em consonância com a resolução n° 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e
suas complementares, emanadas do conselho Nacional de Saúde relativas à Ética em Pesquisa
envolvendo seres humanos. Os nomes dos participantes serão trocados por nomes fictícios, a
fim de preservar a identidade dos mesmos. A pesquisa em campo será autofinanciada e se
dará mediante aprovação e permissão de continuidade pelo CEP-UERN.

Considerações sobre os Termos de apresentação obrigatória:


61

A proposta apresenta Folha de rosto, projeto de pesquisa, Declaração de uso dos dados e
publicação dos resultados, roteiro da Entrevista, TCLE.

Recomendações:

Substituir termo você receberá "uma cópia do TCLE" por segunda via do TCLE.

Conclusões ou Pendências e Lista de Inadequações:


Não há pendencias que inviabilizem a proposta.

Situação do Parecer:

Aprovado

Necessita Apreciação da CONEP:

Não

Considerações Finais a critério do CEP:

A pesquisa é relevante à medida que busca Conhecer práticas populares do cuidado no ofício
das rezadeiras e a construção do conhecimento no âmbito da educação informal deste grupo,
no município de Mossoró - RN. O protocolo apresentado atende às recomendações da
Resolução do Conselho Nacional de Saúde n.º 196/96, podendo ser executado a partir da
liberação deste parecer. Após o período de realização da pesquisa, o pesquisador deverá
preparar um relatório final, conforme modelo contido na home page deste Comitê e em
seguida encaminhá-lo a este CEP.

09 de Abril de 2013

___________________________

Assinador por:
LUCIANA ALVES BEZERRA DANTAS ITTO
(Coordenador)

Endereço: Rua Almino Afonso n°. 478


Bairro: Centro CEP: 59.607-360
UF: RN Município:
Telefone: (843)315—2145 Fax: (843)315--2108 E-mail: cep@uern.br; reitoria@uern.br
62