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IMAGENS

DO

PA M PA

POEMAS E CÂNTICOS

Moacir D'Ávila severo


ÍNDICE:
01 - A FLOR
02 - A MAGIA DO FOGO
03 - APELO RURAL
04 - A PÉTALA
05 - A REFORMA
06 - A SAUDADE
07 - A VIAGEM
08 - BANDA POBRE
09 - CADEIRA VAZIA
10 - CAMBICHO DE PIÁ
11 - CANTO NATIVO
12 - CATEDRAL SUBTERRÂNEA
13 - CHACAREIRA AO CHACAREIRO
14 - COPLAS A UM POETA
15 - DE FRONTEIRA
16 - DURASNAL
17 - ENQUANTO CHIA A CAMBONA
18 - ENTARDECER PAMPEANO
19 - ESSÊNCIAS PRA VIDA
20 - TU E EU
21 - GURI H0MEM
22 - HOMEM BOI
23 - IMAGENS DO PAMPA
24 - LENDA DA VANEIRA
25 - MANOEL VIANA
26 - MENINA MOÇA
27 - MEU ALEGRETE
28 - MILONGA
29 - MILONGA A MEU JEITO
30 - NUM CAFUNDÓ
31 - OCASO
32 - O TROVADOR
33 - PAMPA A CORES
34 - PEDRO POBRE
35 - SENHORES PENSANTES
36 - PRIMEIRA SOVA
37 - TROPEIRO FELICIANO
38 - UM TOSTADO DE LEI
39 - URUGUAIANA
40 - A MORTE DO CAMALEÃO
41 - BAILÃO DO JACARAÍ
42 - BATE COXA DE CAMPANHA
43 - FUXICOS DE BAILE
44 - ME SOCORRE MANINHA
45 - NAMORO CAMPEIRO
46 - PASSEIO NO TIO
47 - SURUNGO GALPONEIRO
48 - VANEIRA DE SURUNGO
49 - XIXO DE RELANCINA
50 - ZORRILANÇA
51 - A MORTE
52 - ASSOMBRAÇÃO
53 - DESAFIO DE CHULA
54 - O COMPADRE DELEGADO
55 - OS MENTIRAS
56- SONHO FRATERNO
57 - UM GUERREIRO GUARANY
A FLOR

Perdoa-me tirar-te a vida


para que enfeites a morte.
Que esse meu gesto forte,
perante a tua ternura,
seja a expressão mais pura
de uma saudade infinda,
ferida doída que, ainda,
o sal dos olhos não cura.

És o mais lindo regalo


emparceirando minha prece.
Todo o mortal reconhece:
És sinônimo de amor.
Na alegria ou na dor,
perfumada ou inodora,
o importante, na hora,
é tua postura de flor.

Tanto faz se fores rosa,


adália, cravo ou jasmim,
estás na campa, pra mim,
prestando vasta homenagem
à inevitável passagem
da vida pra eternidade,
deixando, à nós, a saudade
por municio na bagagem.

E quando o vento levar


tuas pétalas, já mortas,
verás que não mais confortas
este "rude" sedutor.
Mas a outra que irei por
pra amenizar a mortalha,
ou cravo, ou rosa, ou adália,
o importante: será uma flor !!!
A MAGIA DO FOGO

O fogo faz parte


do meu dia a dia.
Já na madrugada
suas chamas me chamam
a fazer parceria.

Me aquece a cambona
e os ossos no inverno.
E o calor que expressa
tem a luz que traduz
um sentimento fraterno.

Suas lindas melenas,


o vento a esvoaçá-las.
Mesmo rubras e ardentes
me embalam lembranças
sem, ao menos, tostá-las.

Me encanta os trejeitos
onde exibe matizes.
E ao lamber a cambona,
qual fera desenha
negras cicatrizes.

O fogo, mago amigo,


mescla de Odim e Satã.
Uma alerta à barreira
que ozônio ostenta
em prol do amanhã.
APELO RURAL

Quero que a paz dos céus chegue ao campo,


homens sem armas venham a protegê-la;
que nas coxilhas, além dos pirilampos,
brilhem rebanhos imitando as estrelas.

Na terra fértil quero perfilhos de planta


pra mesa farta do alimento mais nobre,
pra que cumpra dar de comer ao filho,
pra que se possa dar dignidade ao pobre.

O campo agoniza, daí vem pedir guarida


aos de gravata, pra que tenham consciência:
o homem da terra dá estrutura pra vida,
robôs da indústria não elegem excelências.

Não dêem as costas a estas mãos calejadas


que, por humildes, aparentam sem valor.
Delas dependem tantas levas faveladas,
bocas famintas não sabem falar de amor.

Olhai o campo grã - senhores das canetas,


tem diferença entre a terra e os tapetes.
Não dará frutos semear papéis em gavetas
nem geram grãos adornos de gabinetes.
A PÉTALA

Primavera, o campo em flor,


fui brincar com o mal- me- quer,
sem saber que ali estava
uma pétala que amava
com feitiços de mulher.

A mal-me-quer foi-se ao vento,


a bem-me-quer não quis voar.
Quando a liberei no espaço
alojou-se no meu braço
como a pedir pra ficar.

Era linda e delicada,


a meiguice de uma fada,
a musa da inspiração;
achegou-se constrangida
como a desejar guarida
dentro do meu coração.

A ela, enamorado,
eu jurei amor eterno.
Pra firmar tão nobre escolha
eu a pus entre as folhas
no interior do meu caderno.

Hoje é o caderno da vida


o qual folhamos a dois.
Nele, a história da paixão
a dar asas pra canção
que busquei compor depois.

Uma pétala e chega...


nem mesmo a história grega
imbuiu tanto esplendor.
Lá no campo são centenas
mas uma pétala, apenas,
tem uma Atenas de amor.

A REFORMA
Vou reformar a estância
ao entregá-la aos herdeiros
para que o campo não perca
sua função de celeiro.

O amor será o caseiro


varrendo o ódio do chão
pra esperar de mate pronto
toda a nova geração.

Liberdade a cozinheira
- com sua leve culinária -
pra que a gana de oprimir
não se faça hereditária.

A paz o peão campeiro


recorrendo as sesmarias
pra que a mosca da guerra
não vareje as novas crias.

A esperança irá nas tropas


por ser vaqueana da estrada
pra ilusão não ser ponto
de pouso ou de sestiada.

O respeito o capataz
com equilíbrio de patrão
pra por freio no abigeato
e na farra da invasão.
A SAUDADE

A saudade é turva
como a tarde, as vezes,
que entrega-se rubra
para a noite que cai.
Apesar dos pesares
é um turvo que nutre
assim como as águas
do rio Uruguai.

A saudade machuca,
a ferida é profunda,
a matéria não sente,
é a alma que dói.
Apesar dos pesares,
é a certeza do amor
que a distância não gasta
nem o tempo corrói.

Graças a Deus
que existe a saudade
e feliz daqueles
que sofrem sua dor.
Apesar dos pesares,
são sensíveis a vida
e, assim, vulneráveis
aos encantos do amor.

A Viagem
A vida é uma viagem,
por isso não é eterna.
Quando eu alçar a perna
para o último aceno,
quero estar bem sereno
pra agradecer a vivência
que me fez Ter consciência
do quanto se é pequeno.

O tempo que nos transporta


retrata em cada paisagem
que não cabem na bagagem
orgulhos e preconceitos.
Qualquer destes conceitos
é meramente mesquinho
pois lá no fim do caminho
nos restam iguais direitos.

O percurso não é fácil


ao desprovido dos '' cobres ".
São tentadoras, aos pobres,
paisagens de má aparência.
Buscá-las pela violência
diz que encurta a distância.
São causas da circunstância
da vida de má gerência.

Nesta viagem da vida


nós enfrentamos de tudo.
Nos mostra, em seu conteúdo,
coisas más, boas e amenas.
Boas até são pequenas
para tão vasto universo,
como o espaço no verso
é pra quem canta suas penas.

Estou na viagem da vida


cumprindo o meu percurso.
As vezes falta recurso
para gozar suas virtudes.
Já vivi na plenitude,
agradeço a oportunidade
e pra compensar a bondade
só não fiz o que não pude.
BANDA POBRE
Que cidades tão pobres me mostram senhores
que nada lhes deram, só delas viveram;
juventude partindo com trouxas nas costas
a buscar noutros pagos o que aqui perderam.
Tiraram o futuro dos filhos da gente,
mataram os sonhos que a família traz,
a violência tirou o sossego das ruas,
onde existe fome não pode haver paz.

Abaixo as idéias mofadas e arcaicas


que se fazem omissas perante ao social.
Um povo que tem um passado de glórias
merece o direito ao seu próprio ideal.
Quero nesta banda um povo guerreiro
tirando de cena os viciados senhores.
Quem ostenta nas veias o sangue farrapo
não nasceu pra pedir nem viver de favores.

Que banda tão pobre esta metade sul


dum Rio Grande celeiro que teve o país.
Por incompetência dos velhos gestores
agoniza tentando salvar sua raiz.
Esse povo não sabe a força que tem
pra tirar do poder os tais coronéis,
Enquanto for tropa tocada por diante
dará os seus dedos em troca de anéis.
CADEIRA VAZIA

A lide entretêm a mente


E o dia passa a lo largo,
Mas a saudade, insistente,
Aproveita o tempo vago
Quando a tarde, silente,
Nos convida para o amargo.

O longe fica encardido,


sebruna, a tarde enfumaça.
Em cada trago sorvido
Uma lembrança se passa,
É que a vida, sem sentido,
Quase nos perde a graça.

O mate não mata a sede saudade,


Amargo no amargo a lembrança que vem,
A tarde não tarda a sua nostalgia,
Acalanto é pranto na falta de alguém.

No mate do dia a dia


É uma constância saudosa;
É uma falta que arredia
Torna a lembrança teimosa;
É uma cadeira vazia,
Um palpite a menos na prosa.

Como a saudade maltrata


O coração de um pai.
É um elo que se desata
e para sempre se vai.
A água que sai da prata
Em pranto no rosto cai.

CAMBICHO DE PIÁ
Hora do café da tarde,
eu adentrava a cozinha,
um pão caseiro bem feito
Siá Maria sempre tinha,
já roubava uma olhadela
pra sua filha, minha rainha.

Enquanto o tempo passava


me alimentava a esperança
de um dia casar com ela
e irmos pra outra estância.
Era um sonho de futuro
na mente de uma criança.

Nosso primeiro cambicho


é o que mais machuca o peito.
É da falta de experiência
que a dor tira proveito.

Numa tarde fria e griz


partiu-se meu coração,
Siá Maria não estava,
vi o filho do patrão
realizando os desejos
que tive a palma da mão.

Eu não sei por que diabos


fui adentrar na cozinha
numa hora tão imprópria,
o pão nem gosto tinha,
assim como a brincadeira
que fazia minha rainha.

Nosso primeiro cambicho


fere fundo o coração.
Só quem não amou na infância
não sofreu desilusão.

CANTO NATIVO

Um dia nasceu na costa do Uruguai


Este canto que tanto me gusta cantar,
Uniu gente e talento de todos os cantos
Dum estado que sabe ser pátria e ser lar;
É o canto nativo que o povo gaúcho,
Por sábio, elegeu como seu mensageiro
Pra contar ao mundo usos e costumes
Da raça que habita o sul brasileiro.

Vai, meu canto, vai,


Leva ao mundo teu refrão.
És acústica da alma,
Porta-voz do coração.

É canto que tem o tempero das lutas,


Coragem que um dia moldou esse chão,
É um canto que vem do tropel do cavalo
Da certeza do braço ao laçar o canhão;
É canto que raia como as madrugadas
De prosa e de mate na beira do fogo;
É ganho de cueiro no truco carteado
Que envida e retruca pra empurrar o jogo.

É canto que veio do som da buzina


Da lenta carreta que o tempo levou;
É murmúrio das águas nos tempos de cheias
Que o passo atacando a saudade dobrou;
São notas tiradas de abôios tropeiros,
Do estralo do milho no dente do pingo;
Do sussurro dos lábios da prenda bonita
Nas juras de amor ao peão no Domingo.

É original como o canto das aves;


É amor do poeta ao chão em que pisa;
É consolo das perdas no jogo da vida;
É alento sonoro que a mente precisa.
As vezes é xucro qual potro pampeano,
Outras vezes se arrima a ternura da flor.
Por Ter a essência do amado Rio Grande
Me inspira, componho e me faço cantor.

Catedral Subterrânea
Catedral subterrânea
que o tempo construiu.
Se fez templo religioso
quando o homem a descobriu
e até uma Nova Esperança
pertinho dela surgiu.

São duas Nossas Senhoras:


Fátima e Aparecida,
imagens que com a gruta
revezam paz e guarida
para que fiéis intercedam
por melhor sorte na vida.

A água esculpiu na rocha


um túnel longo e sombrio,
quem sabe foi casamata
ou de esconderijo serviu
nas tantas escaramuças
que esse Rio Grande exibiu.

Em forma de véu de noiva,


num enlace imaginário,
enfim, a grande cascata
dá luz e brilho ao santuário.
Queda de água cristalina
Que se transforma em balneário.

CHACAREIRA AO CHACAREIRO
Chacareiro te levanta
Irá romper o novo dia,
Tira leite da malhada
Enquanto a chaleira chia.

N a cruzada do paiol
Bota milho pras galinhas,
Seva o cocho da porcada
Que impeçou a ladainha.

Racha lenha, puxa água


E já de mate tomado
Amola o fio da enxada
Pra carpir lá no cercado.

Chacareiro a chacareira
Que te dou pra parceria
Vai te abrandar o corpo
Das lides do dia-a-dia

Chacareiro quebra o milho


-Trabalho de sol a sol-
Na carroça traz espigas,
Ouro em grão para o paiol.

Chacareiro põe na terra


As sementes mais variadas.
Quem planta um pouco de tudo
Nunca irá colher o nada.

Chacareiro ao fim da tarde


Chimarreia com a china
E canta ao som da viola
Prazeres da tua sina.

COPLAS A UM POETA
Angico, Mariano Pinto,
Picada onde se criou,
Segundo conta uma obra
Que este poeta deixou.
Nasceu para amar a pampa
Que a vida inteira o inspirou!

Onde tem rondas de cantos


Eu sinto que te aproximas,
Pois entendi em teus versos
Que o patrão velho de sima
Te legou todo o universo
Pra que o transformasse em rimas.

Meu pago chora esta perda


Por buenacho que foi tu,
Mas teu verso que é cabresto
Trançado de couro cru,
Sustentará mil tertúlias
Na voz de muito xiru.

A vida é um laço feito


Pelo destino bagual
Que põe a morte na armada
E cerra o pealo fatal,
Mas quem canta o chão que ama
No canto fica imortal.

Estarás sempre presente


Nesta pampa, velho João,
Pois teu verso é sangue quente
Nas veias da tradição.

DE FRONTEIRA
É coisa linda quando
já se despede a boieira,
peões de mate tomado,
forma pronta na mangueira,
é só enfrenar os beiçudos
pra impeçá a lide campeira.

Um gateado cabos negros,


roncador e cusquilhoso,
conta as peças dos arreios
insinuando "baixá" o toso.
Um redomão de borracho
tem sempre um tique baldoso.

Quem não conhece não monta


num matungo deste jeito,
o lombo é uma cachumba
até sair do para-peito,
depois frouxa e se transforma
num cavalo de respeito.

E os campeiros se somem
nos confins das invernadas,
a "pecuária" vai nos tentos
pro churrasco da sesteada,
só quando o sol se aninha
voltarão da campereada.

Essa é a lida diária


numa estância pampeana,
onde meu Rio Grande linda
a duas bandas castelhanas.
Me orgulho de ser do ventre
desta pátria campechana.

DURASNAL
A gente, as vezes, quando sorve um amargo,
vê uma lembrança, na mente, ocupar espaço.
Vai buscá-la na ânsia de recordá-la
e sem demora, saudade nos dá um abraço.
Foi bem assim que um dia peguei estrada
rumando ao chão onde dei meus primeiros passos.

Quando a gente passa o arroio Malevas


sente que existe uma diferença no ar.
Lá tem a força de uma leva idealista
que fez um dia Breno Silva perguntar:
" Não te lembras se pendias pra direita
quando estavas aprendendo a caminhar ?"

Venda surtida bem na beira da estrada,


tem desde os vícios até o de mais precisão; Larga a boca, motorista,
um bolicheiro, buenacho, fala mansa, nesta estrada federal;
prende o cliente pelo bolso e o coração; dá passagem cobrador,
de quando em vez uma inverdade açucarada, por favor, não leva à mal,
intercalada por goles de chimarrão. vou pra parada Dorneles,
coração do Durasnal.
Em cada rancho, na sombra do arvoredo,
parelheiros se adelgaçam, no buçal;
em volta dormem cuscos galgos e lebreiros,
até importados lá da banda oriental.
Pra correr lebre ou botar cavalo em cancha
peçam licença ao morador do Durasnal.

Hospitaleira é a gente daquele pago,


lá tem de tudo para um povo bem viver:
o colégio onde minha mãe lecionou
hoje é um polo pra região toda aprender.
Tem terra fértil para a fartura na mesa
e pra uma festa o mais completo C.T.G.

Sempre que posso eu vou no Oswaldo Aranha


pra assistir seu grande rodeio anual,
ou quando passo, em viagem pra Rosário,
mato a saudade do meu velho Durasnal.
Na primavera cada pessegueiro em flor
promete o fruto que é sua marca e sinal.

ENQUANTO CHIA A CAMBONA


Enquanto chia a cambona
Repasso trechos da vida;
São safras duma vivência
Da qual se tem a consciência
De uma tarefa cumprida.

Enquanto chia a cambona


Eu vou fechando um palheiro;
Junto ao fumo desfiado
Vai um tanto de passado
Para cremar-se ao braseiro.

Enquanto pito o palheiro


Noto que seu paladar
Tem o difícil ofício
De saciar o meu vício
De bons recuerdos tragar

Enquanto chia a cambona


Cevo a preceito um amargo.
O calor do mate quente
Lembra ao solito e carente
As carícias de um afago.

Enquanto chia a cambona


Pego lápis e caderno,
Nasce um verso do passado
Que, cantado ou recitado,
Tem pretensões de moderno.

ENTARDECER PAMPEANO
Quando o sol se esconde no horizonte
No arvoredo a passarada impõe seu canto.
Ao fim das lides um amargo bem sorvido,
Não demora a noite estenderá seu manto.

O gado berra da aguada ao paradouro,


A saracura sai na várzea pra cantar.
A algazarra dos piás gritando em couro
Vem lá da sanga onde foram se banhar.

É nesta hora que a saudade se aproxima


E adentra o peito na procura de seu ninho
E o coração abichornado se arrima
Ditando notas pra parceria do pinho.

Saudade e pinho, antigos enamorados,


Que na campanha, à tardinha, formam par
Pranteando a ida de quem voltará um dia
Ou lamentando quem se foi pra não voltar.

O entardecer pampeano
É bom teste ao coração,
Se não pára por saudade
Bate por inspiração.

ESSÊNCIAS PRA VIDA

Tudo que existe tem sua essência


pra dar consistência naquilo que é,
até mesmo a gente, pra crer no que faz,
precisa buscar a essência da fé.

O campo nos mostra a essência no chão


e a primavera num perfume de flor;
a alma nutre o nosso coração
com a virtude da essência do amor.

Busquemos nas águas a alma de rio


que carrega a essência que ele nos traz
nos dando consciência de vida num fio
quando, insensíveis, roubamos sua paz.

Se tudo que existe tem a sua essência


sabermos buscá-la é inteligente.
Não pode um homem ter limpa a consciência
se não vem de raiz a lição de ser gente.

Essência: energia que a vida nos traz.


É arte do amor no convívio com a paz.

TU E EU
Se correres qual potro buscando o horizonte
- embora sabendo que o mesmo é sem fim -
e parares na cerca que existe lá adiante
estarás, neste instante, se apartando de mim.

Se no dorso da balsa desceres o rio


- embora sabendo que longe está o mar -
e na primeira cascata buscares a margem,
no abandono da viagem irás me divorciar.

Se subires aos céus com asas de aves


- a buscar no infinito os segredos seus -
e voltares ao chão temendo a tempestade
estarás, na verdade, me dizendo adeus.

Daquele que busca poder o que quer


eu serei parceria para a eternidade.
Quem renega a coragem se veste de escravo.
Por amor aos bravos me fiz liberdade.
GURI HOMEM

Me chamam de guri-homem
lá na estância da chapada
porque nas lides campeiras
acompanho a peonada,
até nas pegas de potro
me gusta pedir bolada.

Nas artes da hora de sesta


quebro na testa o chapéu,
ponho os guachos na mangueira
e dou de mão no sovéu,
quem passa por mim correndo
deixo rezando pro céu.

Tenho um cusco ovelheiro


e um petiço azulego,
nos domingos vou pra vila
e em cada rancho que chego
deixo uma prenda sonhando
em sentar no meu pelego.

Mas pra tê-las na garupa


eu não faço compromisso,
primeiro eu vou buscar
me aprimorar num ofício,
aí, de guaiaca cheia,
vou sustentar esses vícios.

Meu coração é pequeno


mas não despreza ninguém,
um dia eu vou crescer
e ele crescerá também,
será um galpão com fogo
àqueles que eu quero bem.

HOMEM BOI
Quando ele nasce é muito afagado,
uma nova esperança entre os mortais.
E assim como ele nascem outros tantos,
embora patrícios, nem todos iguais.

Mais taludo ele passa a terneiro guri,


a sociedade, em festa, faz a marcação.
Logo lhe castra a fartura da mesa
e queima-lhe o couro com a marca exclusão.

O ensino estatal é um campo mui fraco,


o mestre é pasto maltratado, também.
Se nesta fase não ganha estrutura
não vai ser vistoso aos olhos de "alguém".

Não preenche exigências de um "matadouro"


- o corte de elite é uma faculdade -
com poucas gorduras, em todos sentidos,
ao moderno mercado, não tem qualidade.

Este homem boi, por refugo no campo,


a gente prevê qual será seu destino:
"Morrerá esvaído num antro de bairro
por gente que abate no viés clandestino."

Este poema foi feito por indignação às pessoas que insistem em falar mal do saudoso e
grande Mário Quintana, pela sua frase de efeito, onde disse: "Na minha cidade quem
não é fazendeiro é boi! ".

IMAGENS DO PAMPA
A pampa xucra, pelas suas pradarias,
nos faz regalos com imagens desiguais,
o céu, o campo e o rio de águas mansas
formam contrastes por parceiros naturais.

No ocaso o astro rei deixa seu rastro


matizando um bom pedaço de céu
e no campo a silhueta de uma imagem:
cavalo, arreio, o gaúcho e seu chapéu.

Na aurora o cusco quarteia o campeiro,


o gado berra do paradouro a aguada,
o touro escarva atirando terra no lombo
desafiando o rival doutra invernada.

O rio exibe imagens inesquecíveis


se encabulado o sol vem pra se banhar,
forma o vento as escamas cor de piava
prateando as águas para a lua se espelhar.

No remanso uma canoa, um pescador


e o martim negaciando um lambari,
mais adiante uma cachoeira faz cantiga,
paixão antiga entre eu e o Ibicuí.

LENDA DA VANEIRA
Havia aqui um gaiteiro abichornado,
pegava a gaita e sumia a inspiração.
Certa feita em seu aposento fechado
ele teve a mais feliz aparição.

Morena linda, cabelos negros compridos,


sarandeando, sorridente lhe falou:
"Eu sou cubana de Havana, meu amigo,
sou a vaneira que teu povo apelidou.

De hoje em diante quando abrires a cordeona


sentirás que a inspiração irá fluir
e me terás animada e querendona
pra que possamos o teu povo divertir."

Habaneira, habaneira,
é assim morena que o espanhol te chama.
Minha vaneira, mi'á vaneirinha,
é deste jeito que o Rio Grande te ama.

Hoje quando uma gaita faz vaneira


já é sabido qual será o seu sintoma.
abre e fecha, se brandeia por inteira,
corcoveando como quem perdeu a doma.

Mas a vaneira sai maneira, bem mansinha


e atiça o moço ao ouvido do seu par.
Pois ela traz a ternura da andorinha
alçando às nuvens todo o que deseja amar.

ela tem as ondulações da coxilha


e a cor morena da cuia de chimarrão.
É picante como a ponta da flechilha
que, aguçada, machuca meu coração.
MANOEL VIANA

Botei as mochilas na minha chalana


e contrariando as águas o rio eu subi,
sempre que folgo num fim de semana
vou rever a terra de onde parti.
Mato a saudade de Manoel Viana
princesa das margens do rio Ibicuí.

Vou rever o gringo vindo de além-mar


que ao pelo duro de lá se mesclou;
vendo a terra fértil se pôs a plantar
e o trigo a mesa como pão chegou;
mostrou a vila, ao cidade passar,
que a união das raças se consolidou.

Vou ver a ponte, linda arquitetura,


essência pura da integração;
os arcos, mãos dadas, unindo as parceiras
missões e fronteira num só coração.

Vou ver a várzea parindo arrozais


e as coxilhas com o soja em flor;
ouvir o eco que a canhada traz
do berro do gado em seu "parador".
Manoel Viana eu te quero demais,
me inspirastes e eu me fiz cantor.

Rainha do Sol é a praia mais bela


das de água doce que eu conheci,
lindas garotas põe na passarela
-mescla de europa e sangue guarany-
eu te batizo, de forma singela,
Porto das Sereias do rio Ibicuí.
MENINA MOÇA

Menina tão linda, vestida de prenda,


que junto a seu pai adentra o salão.
A ontem criança hoje é menina moça
a quem a sociedade abre seu coração.

Ao som sublime da valsa canção


roda o vestido dançando com o par.
Bonecas guardadas, lembranças da infância,
seus sonhos de moça irá concretizar.

Menina moça num dia da vida


que desde criança ansiava alcançar.
Sua felicidade se mostra incontida
no lindo sorriso que exprime ao dançar.

Um dia nasceu assim como a vertente


e em água corrente se transformou.
Na infância da sanga brincou contente
até que ao rio hoje ela chegou.

Agora a moça num leito de rio


em mil correntezas irá sarandear,
vivendo seu tempo, buscando o seu sonho
de um dia, adulta, encontrar o seu mar.

MEU ALEGRETE
Meu Alegrete no coração da fronteira
foi no início resumido a picumã,
no Inhanduí deixou a capela queimada
e renasceu às margens do Ibirapuitã.

Meu Alegrete que foi capital farrapa,


dele o Rio Grande tem um orgulho profundo,
filhos ilustres fazem parte da história,
Oswaldo Aranha foi o cidadão do mundo.

Quando eu vejo as paisagens do Alegrete


dá uma vontade de não sair mais de lá.
Tomar um banho na água alva da cachoeira
da Fazenda Nova do rincão do Jacaquá.

O maior encontro de cavaleiros do mundo


o dia vinte de setembro nos comprova,
é a cidade mais campeira do Rio Grande
simbolizada pelo piá da Praça Nova.

Ponte de pedra, monumento natural,


como a lendária lagoa do Parové,
do João da Silva venerado por antigos
pelas proezas de pelear com jacaré.

Em extensão é o maior município,


tem rios, açudes, matas, várzeas e coxilhas,
produz arroz, soja, couro, lã e carne
que dão divisas ao Rio Grande farroupilha.

Eu sinto orgulho quando falo no Alegrete,


marco da história, exemplo de tradição,
com a grandeza e a coragem deste povo
fez do Rio Grande o alicerce da nação.

MILONGA A MEU JEITO.

Esta milonga que canto


Se aninhou em meu peito
E nas cores do Rio Grande
Foi se moldando a meu jeito.
Parceira pra fazer o novo,
Guardiã do que já foi feito.

É uma milonga que sabe


Que embora o porte bagual
Tenho a razão como estrada
E a justiça por ideal.
Gosto de ver coerência
Nas lutas pelo social.

As vezes esta milonga


Amadrinhando a guitarra
- Talvez por ser pampeana-
Em seu xucrismo se agarra
E cheira a pó de mangueira
Em um pealo de cucharra.

As vezes ela se amansa


Qual remanso de pesqueiro
E me é tão importante
Quanto o ganho do changueiro
Saciando a fome de versos
Da alma de milongueiro.

Esta milonga, as vezes,


De coisas tristes transborda;
Meu pranto rola no pinho,
Se faz sereno nas cordas.
-Reabre feridas mortas
Quem seu passado recorda !

Se as lides me fazem tenso


A milonga me acalanta;
Como vício ela se achega,
Nem se nota que se canta.
- Não vivo sem as carícias
Da milonga na garganta !

NUM CAFUNDÓ

A tarde descamba, vai anoitecer,


aperta a saudade neste cafundó.
Me agarro ao pinho pra transparecer,
na garganta um canto, por triste, dá dó.
Campanha, distância e o entardecer
são algozes para o fadado a ser só.

A lágrima longa vem impertinente,


se faz solidária à penosa canção.
Homem não chora é dito por gente
que não faz uso do seu coração.
Pranto é conforto daquele que sente
o amor que a saudade tornou solidão.

Se a pampa chora numa chuva mansa


a quietude se faz lamento profundo,
reabrem feridas as velhas lembranças,
o peito arde, a ilusão corta fundo:
agruras nos ranchos que, pela distância,
se fazem lindeiros com o fim do mundo.

São sete penas e as sete notas


a se mesclarem num pranto só:
pinho, milonga, tarde e saudade,
chuva, distância e um cafundó.

OCASO
Levanta-se a tarde pra dizer adeus
E não demora o sol irá se por,
A primavera que bordou os campos
Exala aroma de poema em flor.

O mato estende a sombra na várzea,


Empina-se a lebre espreitando o lugar,
No espaço as aves no rumo dos ninhos
Exibem perícias em seu voejar.

No oitão do rancho tem mate cevado,


Pelego nas bancas ao peão e a china,
Um horizonte rubro matizando o verde
Que o pincel do pampa pinta na retina.

O gado mugindo procura o rodeio,


Já escaramuça a manada em cio;
Vai um pescador de mochila pronta
Pra tentear um peixe na beira do rio.

Na coxilha apontam campeiros de volta


- nesta lida bruta mais um dia gasto -
Rédeas escumadas pelo suor dos fletes,
Cuscos assoleados nem farejam rastros.

Esses momentos que nós vivenciamos


Na pradaria que a pampa oferece
Nos dão certeza de que o criador
É o maior poeta que a gente conhece.

O TROVADOR
''Eu nasci lá na fronteira
E não vim pra fazer feio.
Pra mulher eu dou carinho
Mas nunca a perna do freio
E touro doutra invernada
Não berra no meu rodeio.

Não berra no meu rodeio


É a verdade nua e crua,
Embora mude a querência
Meu reinado continua.
Os galos da redondeza
Têm a marca da minha pua.''

Q'uimporta se o tom da gaita


Ao dele anda disperso
O que vale é o talento
Que lhe dá um universo
De fartas rimas lonqueadas
Para que trance seu verso.

Na estampa, a rudez da pampa,


Livre de marca ou sinal,
No verso o idioma campeiro
Sem galope colegial.
O repente é um privilégio
Chamado ''dom natural''

São esses versejadores


Que buscam inspiração
Pra, num repente, cantarem
Temas que outros lhes dão.
Preservem os trovadores,
São elos da tradição.

Trovador é como o galo


- se desafiado já canta -
Tem o talento da rima,
O improviso que encanta.
É o telurismo pampeano
Que brota de uma garganta.

PAMPA A CORES
No verde encanto, manto das coxilhas,
um ensejo brilha em cada coração.
Vem pro meu pago que eu te afago
com o doce amargo, mate-chimarrão.

O vermelho vem do pôr do sol,


que é farol ou luz de candeeiro;
é sangue da veia ou da carne oreada
que vai espetada sobre o braseiro.

O amarelo é sol de primaveras,


jogo de quimeras de um bem-me-quer.
Assim o gaúcho traduz nesta cor
todo seu amor pela flor mulher.

São assim as cores desta nossa pampa


- mais bela estampa que o mundo traz -
onde, no inverno, a geada fria
faz das sesmarias seu lençol de paz.

PEDRO POBRE
Na Segunda é Pedro Mato
lenhando com seu machado;
na Terça é Pedro Pua
furando num alambrado;
na Quarta é Pedro Enxada
na capina de um cercado;
na Quinta é Pedro Campeiro
quarteando o vizinho ao lado.

Na Sexta é Pedro Forja,


malha o ferro no galpão;
no Sábado é Pedro Faca
pro açougueiro da região;
no Domingo é Pedro Canha
e ninguém lhe estende a mão.
Se à semana foi de todos
na folga é da solidão.

E assim o Pedro passa


co'a sina de servidor,
na semana é Pedro Tudo,
Pedro Bom, trabalhador.
Mas quando mais precisa
ser quarteado o quarteador,
passa a ser o Pedro Pedra
que não tem alma nem dor.

Pedro pobre, pobre Pedro,


Pedro suor, Pedro enxada,
Pedro perto se preciso,
Pedro senhor de quarteada.
Pedro bom do dia útil
domingo não vale nada,
um copo afoga a imagem
em sua mão calejada.

SENHORES PENSANTES
Senhores que pensam
que sabem pensar
e ao barganhar
concitando a guerra,
pensem que poder
e vaidade demais
não farão, nós mortais,
mais eternos que a terra.

Senhores que pensam


que sabem pensar
e buscam "usar"
o amigo leal.
Pensem no dia
de pagar os custos
no aparte dos justos
ao juizo final.

Senhores que pensam


que podem oprimir
só para exibir
seu pseudo poder,
armas são feitas
pra nossa defesa,
não pra proeza
do prevalecer.

Senhores que pensam


que sabem rezar
e buscam lucrar
usando seu Deus.
Não explorem o aflito
que frágil se entrega,
os males que carrega
serão todos seus.

REENCONTRO
Por Ter a infância campeira
me encontrei quando guri
e amar as coisas do pampa
com muito gosto aprendi.
Até em maula me viro
pelo chão em que nasci.

Mas eu vi, lá pelo povo,


algo que me aborreceu,
guri buscando encontrar-se
onde nunca se perdeu,
enaltecendo o estrangeiro
pensando que era seu.

Guitarras mal afinadas


em "rocks" mal traduzidos.
Tantos leigos aplaudindo
sem haver se apercebido
que a pampa espalha notas
pra não machucar ouvidos.

Mas estas notas nativas


vingaram nos festivais
e entre o rufar dos bumbos,
violões e gaitas, baguais,
cincharam para o futuro
o que ficara pra trás.

Letra musicada por Luiz Felipe Delgado - 5º FICAP - l985.


TROPEIRO FELICIANO

A tarde se vai sebruna


pois o sol já vai se por,
no céu uns rabos de galo
pras bandas do chovedor,
aponta Dom Feliciano
na boca do corredor ...

Montado num zaino negro


vem repontando a manada;
o cincerro da madrinha
marcando a marcha troteada;
no peito dele a saudade
da Chiquinha e gurizada.

Como capataz de tropas


viveu fazendo o que quis.
Dizem antigos que o nome
com a pessoa não condiz;
teve lar e muitos filhos,
Feliciano foi feliz.

Eram tropas de bois gordos


que levava pra Sant'Ana;
em cada ronda mil causos
de sua andança mundana.
Não fala tudo de tropa
quem não cita Barragana.

A chuva fria de inverno,


o rude sopro minuano,
os mormaços de janeiro,
o vento norte haragano,
parceiros inseparáveis
do tropeiro Feliciano.
UM TOSTADO DE LEI
Um tostado lombo largo,
mui ligeiro e troteador.
Nas cheias se faz ventena,
espantado e roncador.

Facilita já se espalha,
esparrama o garreriu.
Se no campo, invade a várzea,
Se no povo, o rancheriu.

No verão ele se acalma,


se adelgaça e se amansa,
mas, por nervoso e ligeiro,
não é do andar de criança.

Bem conhece o pescador,


cujos barcos são lombilhos.
E até cincha suas redes
por trazerem bóia aos filhos.

É mui parceiro na noite


desses que, de quando em quando,
engarupados carregam
mochilas de contrabando.

Quem vai dizer que o tostado,


tão manhoso e caborteiro,
mata a sede destes povos
como se fosse pipeiro.

Meu tostado é na pampa


a paz, o pão e um pai,
portanto amo este flete
de nome Rio Uruguai.

VER DAD E S
Sei que um dia irei irar platéias
e a mil apupos estarei propenso,
tudo pelo gosto de externar idéias
e o doce apreço de falar o que penso.

Minha garganta, que não tem tramelas,


exerce livre o direito que traz.
Posso opinar sobre as mazelas
que, infelizmente, o influente faz.

Não vejo louros em discursos ermos


fingindo pasmos diante quem não come.
São palavreados que ilustram termos,
saladas cultas que não matam fome.

Tantos eminentes lotam parlamentos


com leis obscuras e nenhuma ação.
Gasto em campanha é vasto orçamento
pago pelos cofres da contravenção.

Se num assalto tomba morto um homem,


seus familiares são desprotegidos,
Direitos Humanos ignoram a fome
e vão nas cadeias proteger bandidos.

Quem diz num canto não caber protestos


pensa que cantor é sempre um alienado.
Quem fica omisso aos covardes gestos
tem cumplicidade neste agir errado.
VERSO LIVRE

Meu verso é grito liberto da alma,


Só faço protesto se a dor me invade.
Minha inspiração não se curva pra regras
pois para a expressão tem de haver liberdade.
Quem se incomoda é por conseqüência
da dor de consciência perante a verdade.

Verso xucro é parto da alma,


Embrião de uma era remota,
Rastro de mil cicatrizes,
Sede de achar suas raízes
Onde um passado rebrota.

Deixem meu verso pra que siga livre,


Ele não é feito aos conservadores.
Se a tradição tem seus regulamentos
o bom nativista dispensa impostores,
traz arte nas veias, talento na mente
pra ser indiferente aos falsos valores.

Livre é o que sabe ser só,


Independente de alas sociais,
Vocifera de limpa consciência,
Rebate a opressão à tendência
Exprimindo os seus ideais.
A MORTE DO CAMALEÃO

Quem não conhece o camaleão,


lagartinho furta cor,
morador entre as pedras,
" venenoso" e saltador ?

Até dizem os antigos


que se a mordida ocorre,
o que tomar água primeiro
se salva e o outro morre.

Numa feita eu alambrava,


senti um pique no garrão,
olhei pra trás, lá estava,
preparado o camaleão.

A cem metros tinha sanga,


fui largando as alpargatas,
gritei já e se arrancamos
os dois mandando muita pata.

Tirei uma luz bem grande


mas não cheguei até o fim,
tropecei num tacuru
e o bicho passou por mim.

Mas minha idéia não falha


se há perigo no caminho
e fingindo beber água
eu gritei para o bichinho:

" Vais morrer, camaleão bobo,


aqui tem água de montão ! "
O bicho saltou, estranho,
e caiu morto no chão.
Quem viu disse que a morte
foi por auto-sugestão.
Bailão do Jacaraí

Um surungo enfezado
me digam onde é que tem?
- Tem lá no jacaraí
fim da semana que vem,
só de moça da cidade
irão dois vagões de trem!

CANTADO:

Bailes da dona Morena,


que pela sua amizade,
juntava o povo da volta
mais um eito da cidade
e o som, prata da casa,
bueno uma barbaridade.

Seu Marinho, o nego Júlio,


nego Cidi e Dom Maurílio,
famoso pelo caroço
que tinha no supercílio,
talentos da gaita ponto
passando de pai pra filho.

O Rominho no pandeiro,
o Jairinho no violão,
um chocalho improvisado
numa lata com feijão
e o Nicomedes lá fora
esbanjando confusão.

O machiriu dançava atento,


um pé na sala outro na porta,
cuidando o grito de alerta
que soltavam a boca torta:
- lá vai o couro que empola
e o aço que prancha e corta.

Talvez foi lá que a milícia


deu valor ao cacetete,
até pra eles sobrava
buscar o rumo do brete.
é mais um canto saudoso
d'um cantochão do Alegrete.

BATE-COXA DE CAMPANHA

A botoneira vai chorando de mansinho,


Conquistando o carinho de quem veio pra dançar:
No seu tranco vai o surungo animado
Convocando ''os barbado''pra que todos tirem par
E a vaneira que consola e que machuca
Na madrugada cutuca pro chinaredo acordar.

Abre a gaita seu gaiteiro


Que já tô no entreveiro ,
Tô bem louco pra dançá.
Refrão: Com a china entre os braços
Depois de eu pegá o compasso
Só de dia prá pará.

Vai gaita velha choramingando tuas notas,


O solado das minhas botas falta muito prá gastá.
Vai panderista , surra forte esse pandeiro
Que o tranco fandangueiro tá contigo pra marcá
E o bate - coxa tem importância tamanha ,
É a tradição de campanha que não pode se acabá.
FUXICOS DE BAILE

É costume das comadres


que gostam dum conversê,
se juntarem após um baile
prum mexerico fazê
recordando a noite inteira
num tamanho tre-le-lê:

A Neuzinha por sacana


se fez par do Elesbão,
passou a noite num amasso
em todo canto do salão,
no fim do baile se foi
deixando o Elê na mão.

Na polca de relação,
por incrível que pareça,
o Joca esqueceu o verso
que ia cantá pra Vanessa
e brabo prendeu o grito:
"Mas que bosta de cabeça !!!"

O Polaco passou a tarde


- pra se exibi pra Cristina -
comendo rapadura, queijo,
coalhada com tangerina
e durante o baile inteiro
fez plantão numa latrina.

O Zé perguntou pra noiva:


"Onde andavas minha rosa ?"
"conversando com tua égua,
ela fala e como é prosa.
" toma cuidado Rosinha,
ela é muito mentirosa."
ME SOCORRE, MANINHA !

Maninha salta da cama


que a cerração está baixa,
não há sábado sem sol,
inté pel de porco racha,
aproveita e vai pra sanga,
lava bem minha bombacha,
que à noite, este pé de valsa,
pra um surungo se despacha.

Engoma a gola da camisa


e passa meu paletó
que aos dotados de feiura
já aconselhava a vovó:
" não adianta passá manteiga
em fucinho de "burrinchó"
tando limpo e com dinheiro
um feio não anda só.

ESTRIBILHO:

Me socorre minha maninha


passa a escova em meu chapéu
que o pai véio é meu amigo
e tá te bombeando do céu;
se não me dé uma quarteada
não tem igreja nem véu.

Já passei sebo de ovelha


pras botas se amolecê
e pendurei na ramada
pros cachorro não lambê.
Maninha,meu pala véio
tem um rasgo pra cozê
e os carpim furô nos dedo
vê o que dá pra fazê.
NAMORO CAMPEIRO

Refrão
Se o que rola é não dá bola,
Só enrola e dá pra trás,
Com esse canto eu te garanto
Que te encanto muito mais.

Minha prenda se acaso


Pra casá te aprecata,
Caço, pesco, atiro tava,
Bebo, fumo e jogo carta,
Pra chegá não tenho lado
Pois sô mesmo que alpragata .

Minha prenda tenho campo


Que se perde no horizonte.
Comprei uma pipa nova
Pra buscá água na fonte,
Dá pra nóis dois tomá banho
A cada quatro trezontonte.

Minha prenda meu cavalo


De garupa é bem mansinho,
Vô te levá, nos domingo
Pra nóis visitá os vizinho,
Em cada portera que apiemo
Se lambusemo em carinho.

Minha prenda meu cachorro


Tem cruza com pitibú,
Ele some chão à dentro
Fuçando atráis dum tatu.
Temo carne garantida
Caso eu case com tu.
PASSEIO NO TIO

Quando eu era piá novo,


inda de rédea e bocal,
atraído pelo povo,
orgia, etc. e tal;
botei o pé na estrada
e fui parar na capital,
só nas férias, quando em vez,
vinha à cidade natal.

Numa dessas que meu tio


me levou pra sua estância.
Me largou uma égua véia
das pipeira, pura pança,
pra fazê sai das casa
uma verdadeira lambança.
"Mas te assussega home véio
que eu não sou mais criança ! "

Estribilho:
Não relaxa meu tio véio,
vamo pará com essas canha.
Tu não vê que teu sobrinho
foi criado nas campanha.

Tem gente que pra agradá


ofende e não se manca.
Uma égua branca melada,
lerda, cilhona e lonanca,
tinha tubuna no lombo
desde as cruz até a anca
e o titio inda elogiava:
- É campeira a égua branca !

Um xergão e um pelego
e era só pra encilhá.
Égua magra o fio do lombo
aperta os guevo no saltá.
Eu fui pra tirar dez dias
mas fiquei só quatro lá
e de volta, uma semana
eu não pude me sentá.

SURUNGO GALPONEIRO

Espicha o fole da cordeona, gaiteiro ,


Numa vaneira bem marcada só pra mim ,
Que o lusco-fusco da luz do velho candeeiro
Mal serve para que eu desvie algum cupim.
E é desde jeito , tranco de embalo campeiro ,
Que um surungo galponeiro
Vai do começo até o fim .

E a morena que no início tava arisca


Já baba o ombro , me aperta e me belisca.

No chão batido passa o solado da bota ,


Se ergue a poeira tomando conta da sala ,
Um moço arrota lingüiça com bergamota
E abre clareira quando o perfume exala
E a china linda que o machiriu tava em volta
Consegue par e a revolta
Quase que acaba na bala.

Vai a vaneira qual frieira de milico


Comendo a noite e a energia dos dançantes.
E o gaiteiro num ''faço que vou e fico''
Não frouxa nunca , nem tampouco nos lançantes .
E assim a pampa cultuou mais um surunguito
Do folclore mais bonito
Deste Rio Grande gigante.
XIXO DE RELANCINA

Taca fogo na canjica


Que as fia da tia Chica
Ficaram de vim aqui.
Vô na sanga dá um mergúio
Que as cascarra dos bagúio
Tão de espantá lambari.

Já mandei buscá o gaitero


E o Zezinho cum pandero
Pra fazê um arrastapé.
Vô aguá o chão da sala
Pra que a poera baguala
Não entoxique as muié.

Estribilho:

Bão vê o que dá
Sovaquera e brilhantina
Se misturá
A picumã de lamparina.
Se planejasse
Não teria tanta china,
Porisso gosto
Dum xixo de relancina.

Guri, sarta no picasso,


Vai na venda do Inácio
Num pé lá e outro cá.
Traz bolacha e carozém
E chupeta pros neném
Que a noite vai se espichá.

Diz pro Chico-boca-torta


Prá avisá os moço da vorta
Que moça não vai fartá.
Vem as doze da tia Chica
E o lote da Tunica
Só que embrete pra contá.

ZORRILANÇA
Que a campanha evoluiu
A gente não pode negá.
Vi um peão muito doido
Nas bandas do Jacacuá
Que no campo descobriu
A droga pra ''viajá''.

Na sua mala de garupa,


Que é feita de cotonina,
Põe um zorrilho e sacode
Até que o bicho se urina
Aí ele aspira fundo
Apertando uma narina.

E piradão, muito louco,


O peão muda de estampa
E inventa que ele é
O super-homem do pampa,
Sopra em traseiro de vaca
Pra desentortá as guampa.

Chama o seu zorrilança


De flete desbravador,
Pega avestruz de tamanco,
Faz do corvo um planador
E pede vitrola espacial
Pra tocá disco voador.

Qué raibã pra olho d'água


E esvaziar a lua cheia,
Em furar a mata virgem
Ele pensa volta e meia
E diz que enxerga o vento fresco
Com brinquinho nas orêia.

É um legal magro rural


Que do povo quer distância.
O seu rock é um bom chote,
A sua báia é a estância
E diz que a polícia montada
Qué prendê seu zorrilança.
Broqueou uma lixiguana
Pra fazê seu capacete,
Diz que o cavalo é motoca
Pra fechá curvas no brete
E se gava orgulhoso:
-Eu sou magro do Alegrete!

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