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Domos Geodésicos de Bambu do Laboratório de


Investigação em Livre Desenho – PUC-Rio:
Origens, Referências e...

Conference Paper · January 2014

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Joao Victor Correia de Melo Lucas Ripper


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Domos Geodésicos de Bambu do Laboratório de Investigação em
Livre Desenho – PUC-Rio: Origens, Referências e Inovações em
estruturas Autoportantes Não Convencionais

RIPPER José Luiz1, MOREIRA Luis Eustáquio2a, SILVA Marcelo


Fonseca e1b, CORREIA DE MELO Joao Victor1c, RIPPER Lucas1d
1: Laboratório de Investigação em Livre Desenho, Departamento de Artes e Design
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea, Rio de Janeiro, Brasil.
2: Laboratório Sistemas Estruturais – Departamento de Engenharia Estrutural
Universidade Federal de Minas Gerais
Av. Antônio Carlos, 6627, Bloco I, 4º andar, Belo Horizonte, MG, Brasil
a b c d
luis@dees.ufmg.br, marbambu@gmail.com, jvictor@puc-rio.br, lucasripper@yahoo.com.br

Palavras-chave: domo geodésico, bambu, giro, autoportância, núcleo estrutural.

Resumo. Partindo dos estudos das estruturas das cúpulas, ou domos, geodésicos desenvolvidos por
Richard Buckminster Fuller, assim como as pesquisas sobre bambu iniciadas a cerca de trinta anos
na universidade, desenvolvimentos do Laboratório de Investigação em Livre Desenho da PUC-Rio
possibilitaram a aplicação de colmos de bambu à geometria geodésica de uma forma intuitiva e
econômica. A novidade apresentada foi a solução de juntas. Diferente da junta pontual empregada
por Fuller, essa nova técnica de amarrar as pontas dos bambus duas a duas, solidariza toda a
estrutura e elimina a necessidade de peças especiais. Além disso, essa junta, também chamada de
“Giro”, adapta-se muito bem à mecânica particular do bambu. Essa inovação permitiu a
popularização do objeto chamado “Domus”, e suas variantes, nas mais diversas aplicações de uso
na realidade social/geográfica Brasileira. Por fim, é mostrado o atual estágio de desenvolvimento
das estruturas geodésicas no laboratório que visam um melhor aproveitamento das qualidades
estruturais dos colmos de bambu.

Introdução
Nos seus cerca de trinta anos o LILD – Laboratório de Investigação em Livre Desenho –
PUC-Rio, antigo LOTDP, e seu novo parceiro o LASE – Laboratório de Sistemas Estruturais –
EEUFMG, vem desenvolvendo técnicas adaptadas ao bambu e a terra crua em construções úteis,
populares e de baixo impacto. Esses materiais naturais, de uso corrente no mundo desde tempos
remotos, vêm sendo aplicados nas mais diversas culturas seguindo objetivos e modalidades
variadas. Nota-se no ocidente uma tendência a incorpora-los às técnicas industriais vigentes e
beneficiá-los como os materiais padronizados presentes na lógica de produção seriada. Com isso as
potências particulares desses materiais da natureza, que se apresentam praticamente prontos para o
uso, são subutilizadas. Assim esses materiais, uma vez padronizados, passam a ser vistos/entendidos
sempre da mesma maneira, não se oferecem mais ao desvelamento de suas potências infindáveis.
No entanto encontramos alguns nichos de aplicação e pesquisa que, do ponto de vista ecológico e
da ciência, trata com “bons modos” esses materiais.

A Pesquisa
O Laboratório vem desenvolvendo técnicas apropriadas para construções leves móveis e de
baixo custo energético. As construções resultam da combinação de elementos chamados de
unidades de jogo [1], feitos de colmos ou fitas de bambu, fibras naturais e terra, e busca desenvolver
formas com altos índices de resistência devido à conjugação forma/material. Em suma, sistemas que
1
permitam montagem, desmontagem e remontagem, com o reaproveitamento total dos elementos
utilizados e factíveis do ponto de vista econômico. São práticas convivenciais (Illich, 1976) que
impõe que o objeto no estado de laboratório (meio situacional), com os princípios mecânicos
prontos para ser utilizado, não está, no entanto, em condições de ser entendido e avaliado sobre suas
potencialidades relacionadas às suas interações com o meio físico e social ao qual foi destinado
(meio cultural). Isso só acontece quando o objeto entra em interações com esse meio. Tais
interações são imprevisíveis e também surpreendentes. As pessoas do lugar interessadas no
funcionamento do objeto o veem de outro ponto de vista, sendo capazes de fazer interferências
positivas no mesmo ao copiá-lo no processo de passagem da técnica [2] [3].
Outro ponto importante refere-se à obtenção das formas que se utiliza na pesquisa do LILD:
procura-se sempre observar o continum informacional que nos é dado pela natureza [4]. Em
conjunto com o pesquisador, ou à revelia deste, a natureza faz suas formas. O que o homem tenta é
parametrizar essas formações de modo a tentar reproduzi-las dentro de suas capacidades técnicas.
No entanto, na maior parte dos casos, após encontrar, mesmo que parcialmente, alguns
desses parâmetros, o homem volta-se a eles como verdades irrefutáveis. Isso engessa a técnica,
limitando as possibilidades do trabalho conjunto com a natureza.
Por isso, no laboratório, procura-se ao máximo que o pesquisador seja despido dos pré-
conceitos - devido às imagens impregnadas pelo meio informacional e técnicas fossilizadas -
através da experimentação prática em objetos colocados em nossa realidade concreta – modelos
reduzidos, modelos em escala real e objetos experimentais em estado de uso [5] [2] [4] [6]. Essa
prática é ainda mais impulsionada quando a experimentação se dá com elementos que apresentam
formação natural, como é o caso das bolhas de sabão e modelos funiculares [7].
Vale lembrar que essa metodologia é fruto do processo de trabalho – sujeito ao
desenvolvimento técnico e ao constante aprendizado com as formações naturais – e como tal, está
em continua transformação. Ela vem se mostrando bastante efetiva, e, além do LILD, está sendo
aplicado com sucesso no LASE – Laboratório de Sistemas Estruturais – do Departamento de
Engenharia de Estruturas da EEUFMG [8].

Autoportância e Autotensionamento
No LILD, os trabalhos sobre estruturas autoportantes de bambu têm sua origem nos
equipamentos destinados a portadores de dificuldades motoras [Fig.1]. Esses equipamentos são
veículos de bambu, leves, movidos pela força humana, feitos artesanalmente sob medida,
concretizados e em contínuo aperfeiçoamento com técnicas especialmente voltadas para as
condições estruturais do bambu.
Os andadores de bambu servem a crianças sem equilíbrio para andar, portadoras de paralisia
cerebral. Eles têm sido feitos de vários tipos e com varias técnicas. As juntas dos tipos mostrados
são baseadas na junta que Santos Dumont utilizava para a cestinha de seu balões, e foi esta solução
de junta, em conjunto com o tensegrity, que viabilizou, mais tarde, bicicletas de bambu [fig.1],
produzidas hoje na Dinamarca. Essas juntas possuem cabos tracionados ao longo do interior do
colmo. Outro tipo de veiculo mostrado é o deslizador anfíbio, que permite a cadeirantes ou outros
portadores de dificuldades motoras, o deslocamento em locais onde a roda não funciona.
A observação do funcionamento desses equipamentos afere, não somente o potencial geral
das técnicas utilizadas, mas também aperfeiçoam a condição de autoportância estrutural decorrentes
dos deslocamentos, por vezes, violentos dos veículos.
O conhecimento adquirido com esses experimentos – ocorridos no meio social real – abre
caminho para novas formulações de tipologias estruturais favoráveis a autoportância, que estão
sendo ultimamente aplicadas em objetos de maiores dimensões. São estruturas para edificações que
vêm sendo realizadas seguindo as mesmas condições de autoportância estrutural dos equipamentos
citados, o que remete a fundações superficiais, ou seja, apenas pousadas na superfície do terreno
[9].

2
Figura 1 – Objetos autoportantes e/ou autotensionados: andadores, veículos anfíbios e bicicleta tensegrity.

O Domus do Sumaré
As experiências do LILD no campo das estruturas de bambu, e posteriormente nas cascas de
terra crua, contidas em superfícies de dupla curvatura, tiveram seu referencial numa pequena
construção destinada a ser uma casa domiciliar, desenvolvida e construída, em meados da década de
1960, pelo escultor Edgar Duvivier e contribuição do Prof. Ripper, fundador e coordenador do
LILD, bem antes da fundação do laboratório.
A construção é semelhante a um “Chapéu de Sol”, um tipo comum de cogumelo existente
no Brasil. O fuste da base é cilíndrico e o chapéu é uma casca estrutural hemisférica de 7,5 metros
de diâmetro. Essa casca, parte essencial da construção, é composta pela conjugação de unidades
pré-fabricadas artesanalmente. Tanto as unidades quanto os moldes foram feitos de resina poliéster
reforçada com fibra de vidro, material recém-chegado ao país na época.
Essa estrutura foi projetada e construída sem informação sobre os índices numéricos
utilizados por Fuller na confecção das grandes geodésicas por ele concretizadas. No entanto, o
sistema desenvolvido para a obtenção das medidas e posicionamentos foi intuitivo e prático.
Sabendo-se que o sólido com mais pontos projetados em uma esfera é o icosaedro, as arestas do
mesmo foram sendo desenhadas sobre uma calota esférica com o auxilio de um compasso,
posteriormente, os demais pontos foram também marcados, e assim obteve-se a retícula geodésica,
da qual se pode retirar as medidas e posições dos dois triângulos esféricos formadores da estrutura.
O objeto está hoje em bom estado, no mesmo local onde foi construído, demostrando a
resistência, durabilidade e leveza resultados advindos da interação entre a forma e os materiais
empregados na construção.

Figura 2 - Domus do Sumaré quando de sua construção (década de 1960) e atualmente

3
Domo de Bambu com Junta Pontual

A experiência adquirida com as adaptações feitas em bambu, e o planejamento e construção


do Domus do Sumaré, resultaram no direcionamento dos estudos para o desenvolvimento e
confecção de um domo geodésico composto por barras de colmos bambu [10].
Para tal, buscou-se uma junta que pudesse ser adaptada as particularidades mecânicas e
irregularidades geométricas dos bambus que se pretendia empregar. Anteriormente a aplicação dos
colmos em estruturas geodésicas, uma solução de junta, chamada “Ponteira Estrutural”, foi
desenvolvida, para uma solução de treliça espacial feita com bambus. Essa junta, apesar de cumprir
perfeitamente seu objetivo, não era econômica, nem mesmo, simples de ser feita [11]. Dessa forma,
chegou-se a outra solução de ponteira unida à ponta do colmo de bambu por meio de parafusos e
bandagem feita de fibras naturais e resina.

Figura 3 - Junta pontual: confecção, montada e ponteira.

Esse domo foi montado e desmontado inúmeras vezes, o que permitiu um maior
entendimento, não só sobre a geometria, mas também sobre o “objeto domus” em sua concretude e
uso pelo meio cultural onde foi acionado. Essas montagens e desmontagem também permitiram a
observação do comportamento da junta [fig.4].
Apesar de tonar possível a confecção, e uso, constante do objeto, essa junta mostrava-se
muito complicada em sua confecção, devido à necessidade de precisão no processo, o que a tornava
muito custosa e trabalhosa. Outro fator observado é que o bambu, além de apresentar uma
geometria ligeiramente cônica, por ser um material natural, apresenta pequenas curvas e desvios em
seu eixo, o que dificultava o fechamento geral da estrutura que exige uma precisão muito grande,
transferindo uma tensão muito alta ao colmo, que por muitas vezes colapsam.
Na ocasião ninguém havia percebido a possibilidade de desviar as direções dos elementos
convergentes aos pontos matemáticos que tocam na esfera: a forma do domo geodésico é ainda hoje
emblemática nada deve manchar sua idéia de precisão.

4
Figura 4 - Domo de bambu com junta pontual.

Domo de Bambu Tensegrity

Testes de ruptura ao cisalhamento paralelo às fibras apresentam normalmente grande


dispersão, [12], devido à ausência de tecidos que conduzam seiva no sentido radial, como acontece
com as madeiras coníferas e dicotiledôneas. Isso faz com que as conexões que utilizem pinos
transversais ao eixo, para a transmissão de esforços entre os elementos, exijam coeficiente de
segurança muito elevado, valor que precisa ser mais bem estabelecido experimentalmente, [13].
Outras conexões mais resistentes e seguras que as conexões com pinos, foram investigadas
com resultados bastante favoráveis, [14] e [15]. Porém, a adoção de soluções em treliças, altera
completamente o fluxo das ações humanas sobre o objeto, exigindo materiais e equipamentos
industrializados: - chapas de aço, soldas, eletricidade, parafusos, etc., não solucionando o problema
de regiões ou situações de baixa densidade tecnológica, que Milton Santos designa como zonas
opacas, em oposição às zonas luminosas, ou espaços da exatidão. Essas constatações fizeram com
que se entendesse melhor o uso de amarrações pelos povos primitivos, que vêm demonstrando
inclusive, serem soluções mais adequadas para estes elementos estruturais naturais,
independentemente de serem utilizados em zonas luminosas ou opacas [16].
O autorizar-se saltar para novos tipos de relações estruturais, ainda não adequadamente
formalizadas, requer uma atitude lúdica, e foi encontrada no trabalho do escultor Keneth Snelson,
posteriormente aplicado por Buckminster Fuller, considerado o formalizador das estruturas
geodésicas. A adoção e implementação às estruturas de bambu, deste sistema, intitulado Tensegrity,
[17], rompe com a necessidade do nó e flexibiliza a fabricação e montagem da estrutura. Os bambus
não convergem mais para um ponto.

Figura 5 - Diferenciação da organização das barras em uma treliça geodésica e uma estrutura tensegrity

O elemento finito que se repete para a formação da estrutura consiste de uma barra rígida
associada a um cabo. A extremidade da barra rígida possui um entalhe que deverá receber o cabo de
outro elemento Tensegrity, e assim sucessivamente, até que toda a estrutura seja montada. A forma
abobadada permite que esses elementos se conectem convenientemente, ficando cada elemento
5
sujeito ao sistema de forças não coplanares em equilíbrio, indicadas nesta figura, quando a estrutura
estiver, por exemplo, sob ação de cargas gravitacionais.
Este sistema de forças em equilíbrio solicita o bambu em flexo-compressão e os cabos em
tração, de forma que na estrutura com Tensigrity, funcionando adequadamente, há um campo de
tensões de tração contínuo nos cabos, em equilíbrio com um campo de compressão de elementos
rígidos descontínuo. Por outro lado, os pares de força que atuam na extremidade das barras, também
geram tensões de tração normais ao entalhe, tensões estas de valor elevado, principalmente durante
a montagem da estrutura [16].

Figura 6 - Detalhe do nó tensegrity e objeto montado

Figura 7 - Testes de carga na estrutura tensegrity

Diferentemente das demais estruturas convencionais, em que existe uma materialização do


nó, que recebe as demais barras, como parafusos, chapas metálicas, dentre outros elementos, o
Domo de Bambu Tensigrity não tem este terceiro elemento. As barras se encontram conforme
mostrado na Figura 6 e obtêm-se na realidade, um sistema flexível no encontro das barras, ou um nó
flexível, que tende a fechar-se sob ações que tenham resultante no sentido radial, de fora para dentro
da estrutura e tende a abrir-se caso o sentido da resultante se inverta. Deve-se, portanto, dependendo
do tipo de utilização prevista para a estrutura, limitar essas aberturas ou fechamentos dos nós,
garantindo a funcionalidade desejada. De qualquer modo, quanto mais abertos os nós, mais flexível
se torna a estrutura, o que tem por conseqüência, a diminuição da sua freqüência natural de
vibração.
Por volta do ano 2000, um trabalho de mestrado em Artes & Design (PUC-Rio) realizou
uma estrutura dômica, feita de bambu do tipo Philostachys aurea e inscrita em um hemisfério
aproximado de 8 metros de diâmetro por 3,8 metros de altura. O objetivo foi criar uma sala
totalmente escura que deveria ser montada e estacionada em varias localidades do Rio de Janeiro,
para realizar certos experimentos públicos.
Graças a essa oportunidade pôde-se conhecer as possibilidades práticas desse tipo de
estrutura: rapidez e facilidade de montagem (cerca de 3 horas), desmontagem e estocagem;

6
transporte em veículos simples (carro popular) com rack. A membrana de cobertura é pendurada e
esticada na estrutura dômica [18].

Figura 8 - Domo Tensegrity em uso como sala escura para exposição


Domo de Bambu com Junta Amarrada em Giro

Na concretização das estruturas tensegrity, percebeu-se a simplicidade na zona de união das


cinco e seis barras correspondentes aos vértices do poliedro. Estas se encontravam duas a duas
formando um giro e um vazio em torno desse vértice matemático. Surge então a idéia de se
amarrarem os elementos entre si. Nesses experimentos os elementos são amarrados com torniquetes
ao convergirem para os nós vazados, imateriais, arestas de áreas poligonais, hexagonos e
pentágonos, dependendo se se tratam de seis ou cinco barras convergentes. Esse nó estrutural é
chamado de giro.

Figura 9 - Detalhe da junta em giro e amarração em torniquete

Mecanicamente, como os bambus se tocam lateralmente, os pontos de contato ficam sujeitos


a forças de compressão, que tenderiam a esmagar os tubos e colapsar a estrutura. Isto porque a
estrutura passa a ter, com o sistema adotado, um funcionamento de casca, e momentos fletores
desenvolvem-se nas uniões amarradas. Contudo, a flexibilidade das ligações amarradas é bastante
favorável ao comportamento local do bambu.
Ligações rígidas, como as que utilizam pinos metálicos, são sempre pontos de grandes
concentrações de tensões, que propiciam a formação de trincas, que podem se propagar e levar a
ligação ao colapso. Portanto, as ligações amarradas são soluções interessantes, permitindo um
deslocamento relativo favorável entre os elementos de estruturas que devem estar sujeitas a
vibrações. Alguns pássaros são especialistas na trançagem de barras para fazerem seus ninhos.
7
Essas ligações são extremamente flexíveis, e estes ninhos se situam normalmente em extremos de
galhos, onde há grande movimentação. Um grande número de barras garante, neste caso extremo, a
rigidez e massa do conjunto, evitando que ele ressone com o vento [16].
Um primeiro teste estático, de caráter qualitativo, visando observar o modo predominante de
colapso da estrutura consistiu em dependurar-se alguns sacos de areia nos nós da estrutura. Pode-se
observar que a flexão localizada foi responsável pelo esmagamento nestes pontos de encontro [16].

Figura 10 - Domo amarrado montado e carregado com sacos de areia para teste estático de colapso da estrutura. Detalhe
na ruptura por esmagamento do tubo devido aos momentos fletores

Atualmente, vem-se experimentando outra variante da estrutura com esse tipo de junta em
giro, substituindo os elementos retos por elementos curvados na superfície da esfera em questão.
Diferentemente das anteriores, a variante construída, se utiliza de fitas retiradas dos colmos [fig.15].
A descoberta desse tipo de junta, ao simplificar a construção da geodésica de bambu -
material de fácil acesso à população – está tornando essa modalidade técnica popular no Brasil e em
outros países como México, Itália, Rússia, entre outros. Sua difusão atingiu os mais variados setores
da sociedade, tais como: educacional, predial, performático e cenográfico.

Figura 11 - Domo Curvo

Figura 12 - Diversas montagens e aplicações do domo geodésico de bambu amarrado: passagem da técnica, uso como
dispositivo para teatro acrobático, e tenda.

8
Capela de Andrelândia

O que concretiza os procedimentos de geração de possibilidades construtivas, na


metodologia do laboratório, consiste na assimilação das potências locais na constituição do objeto,
bem como da assimilação da proposta por parte dos construtores: - aceitação, estímulo e
participação criativa. Na realidade, não se trata de uma última etapa, visto que os procedimentos de
laboratório ocorrem paralelamente à construção, mas momento fundamental do ciclo de
constituição, que atua recursivamente, integrando o objeto no meio, onde deverá gerar autonomia e
sustentabilidade [16].
A construção de um espaço para rituais e eventos cerimoniais cristãos, no município de
Andrelândia, MG, na Pousada dos Querubins, exemplifica o completamento do objeto, nas suas
relações diretas com o meio. A intenção da Fundação Guairá, era exatamente poder aproveitar os
recursos naturais locais. Do contato com um dos hábeis construtores locais iniciou-se a interação
que concluiria os objetivos com que os sistemas estruturais vêm sendo pensados no LILD, em sua
longa trajetória, dos bastidores da Universidade até o serviço social.
Esse objeto foi a primeira aplicação no meio cultural de um domo de bambu amarrado com
juntas em “giro” sendo usado como um núcleo estrutural [19]. A partir da geodésica são apoiados
nos nós estruturais acréscimos laterais que geram beirais em forma de paraboloides hiperbólicos
cobertos com terra crua pela técnica de taipa de mão. Sete anos após sua primeira montagem, foi
necessária uma manutenção na cobertura de sapê. Optou-se, então, por uma substituição total da
estrutura de bambu e as novas amarrações utilizam com fibras sintéticas.

Figura 13 - Capela de Andrelândia


Domo de Base Quadrada

Dando continuidade ao estudo e aplicação das superfícies esféricas, passou-se a examinar as


superfícies infladas feitas pela natureza. Buscou-se para esses estudos os trabalhos de Frei Otto [20]
[21], que utiliza a deformação parametrizada de bolhas de sabão para o desenvolvimento de
estruturas leves. Esse estudo pode ser feito de maneira artesanal, e, atualmente, através de softwares
específicos. As bolhas de sabão seguem os mesmos princípios de formação dos infláveis
9
encontrados na natureza. Elas são feitas, basicamente, de uma mistura de agua e sabão, que uma vez
infladas formam superfícies finíssimas – da ordem de1/1000 de milímetros. As superfícies formadas
são esféricas quando soltas no ar. Quando nascem apoiadas em superfícies, tendem às calotas
esféricas. Essa superfície formada pela bolha é sempre uma superfície mínima - a de menor custo
energético.

Figura 14 - Bolha de sabão manipulada

As formas das bolhas foram trianguladas por pequenas barras de bambu, seguindo um
processo chamado de parametrização por retícula triangular [22]. Tal triangulação segue parâmetros
geométricos definidos, para reduzir a quantidade de comprimentos diferentes das barras, o que nos
remete ao processo geodésico de Fuller. Em um primeiro momento é obtida uma geometria
reticulada de juntas pontuais, que mais tarde, seguindo o que fora aprendido com o domo amarrado
de bambu, aplica-se a junta em “giro”. Esses experimentos desdobraram-se, até o momento, em dois
modelos em estado de uso: um é a cobertura de uma oficina experimental em Florianópolis-SC [2];
e o outro é a cobertura do novo prédio do laboratório, que a própria equipe montou e o está
utilizando [6].

Figura 15 - Objetos resultantes da pesquisa em deformação do Domus para uma base quadrada: Domus de Yvy Porã e
Cobertura do novo LILD

Icosaedro como estrutura integral

Durante vários anos a pesquisa esteve focada no domo geodésico de frequência dois. Tal
domo é uma derivação de um sólido platônico – o icosaedro – proposta por Fuller, de modo que
mais pontos sejam projetados na esfera, aproximando a geometria da treliça à desta. Para cada
domo 2V (como é chamado o icosaedro de frequência dois) são necessárias 55 barras de dois
tamanhos diferentes. No entanto, nos últimos anos, vem se percebendo que as potencialidades
estruturais do bambu, como material que nos é dado pela natureza praticamente pronto, são
reduzidas na medida em que se cortam os colmos: o ideal é usá-los o mais comprido possível. Desse
modo, as atenções voltam-se ao icosaedro, que para montá-lo próximo da semiesfera, necessita de
apenas 25 barras de tamanhos iguais.

10
Portanto, nesse momento, pretende-se confeccionar um icosaedro com o maior tamanho de
barra de bambu possível. No entanto, quanto maior a barra, maior a flexão, e um modo de resolver
essa desvantagem é a transformação das mesmas em mastros autotensionados [23]. Observando
esses mastros percebe-se que a cruzeta usada para armá-los projeta alguns pontos fora da estrutura.
Dessa forma, percebe-se que esses pontos da cruzeta podem ser os pontos da geodésica 2V que são
projetados na esfera. Assim, monta-se uma estrutura de icosaedro (1V) com a cobertura referente a
um domo 2V [19].
Essa geometria permite a confecção de uma cobertura de dupla camada, onde a de fora é
composta por um laminado impermeável, e a de dentro por uma fina casca de fibrobarro,
permitindo um maior conforto ambiental.
O próximo passo é a aplicação dessa geometria no meio cultural, visando à passagem da
técnica para grupos locais, assim como, a construção (em conjunto) de certos espaços de
convivência para tais grupos.

Figura 16 - Domo de Mastros

Considerações Finais

Mostra-se aqui um diferente olhar sobre a concepção e construção dos objetos, como pôde
ser visto nos exemplos apresentados. Diferente dos métodos vigentes, que trazem a lógica da grande
construção para os pequenos objetos, no LILD, subverte-se essa ordem: foca-se no pequeno
buscando soluções para o grande.
As especificidades do bambu, e os objetivos da pesquisa sobre estruturas feitas com colmos
inteiros ou cortados dessa planta vêm, espontaneamente definindo caminhos e afluentes trilhados
ininterruptamente pelo grupo.
Na pesquisa não se considera um objeto como finalizado após seu resumo matemático, ou
seja, suas medidas, relações geométricas e soluções construtivas. Esse meio, o situacional, é apenas
o inicio da pesquisa, pois enquanto o mesmo não for usado pela sociedade, meio cultural, ele é
apenas matéria disposta, e não objeto humano em desenvolvimento.
Com as adaptações devidas às particularidades locais vê-se hoje, aqui e ali, a repercussão e
aplicação desses resultados. No entanto, diante do volume de dados e resultados concretos, sempre
revisados, o que se faz necessário é uma maior aplicação no âmbito socioambiental, aproveitando,
assim, o potencial energético e sustentável dessa planta.

Referências

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Janeiro: Nau Editora (2014).
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construtivas de bambu e fibrobarro para comunidade de baixa renda, em Terra Brasil 2012 -
IV Congresso de Arquitetura e Construção com Terra no Brasil, Fortaleza (2012).
[4] CORREIA DE MELO, J. V., RIPPER, J. L. M. e YAMAKI, R. T., Formfinding Process for
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e cabos Aplicadas a Coberturas Aéreas, Revista Gestão Universitária ed.305, p. 19, 18 Março
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[9] RIPPER, J. L. M., CORREIA DE MELO, J. V., e RIPPER, L., Estruturas Autoportantes de
Bambu para Arquitetura Textil, em Tensantiago, Santiago, (2012).
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Encontro Brasileiro em Madeiras e em Estruturas de Madeira - Anais, Belo Horizonte, 1995.
[11] HIDALGO-LOPEZ, O. Bamboo: The gift of gods, Bogotá: D'VINNI, (2003).
[12] MOREIRA, L. E., Aspectos Singulares das Treliças de Bambu – Flambagem e Conexões, Rio
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[14] MOREIRA, L. E., RIPPER, J. L. M. e GHAVAMI, K., Estudo Analítico de uma nova ligação
para tubos de bambu solicitados axialmente, em V EBRAMEM - Encontro Brasileiro em
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[15] MOREIRA, L. E., Wood Reinforced Joint for General Bamboo Structures, em International
Conference on Non-Conventional Construction Materials, Bhubaneswar, (1997).
[16] RIPPER, J. L. M., MOREIRA, L. E., CASTRO, U. R. e LEITE, C. P., Design De Estruturas
Mínimas De Bambu, em IX EBRAMEM - Encontro Brasileiro em Madeiras e em Estruturas de
Madeira, Cuiabá, (2004).
[17] RIPPER, J. L. M., MOREIRA, L. E. e SILVA, M. F., Técnicas de Constituição de Objetos
Tecnológicos e sua aplicação à geração de um Domus de bambu Tensigrity, em IAC-
NOCMAT2003 – Inter American Conference on Non-Conventional Materials and
Technologies, João Pessoa, (2003).
[18] LEITE, C. P., Estética Sensorial Não Visual: Percepção do Belo Háptico, Rio de Janeiro:
Dissertação de Mestrado - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, (2003).
[19] RIPPER, J. L. M., CORREIA DE MELO, J. V. e RIPPER, L., A Leveza das Habitações
Modulares Feitas de Bambus e Terra Crua: Técnicas e Métodos, em 13º SIACOT - Seminário
Iberoamericano de Construccíon con Tierra , Valparaíso, (2013).
[20] OTTO, F., Tensile Structures, Volume One, Massachusetts: The M.I.T. Press, (1967).
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