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A ANTIGA MISSÃO REDENTORISTA EM ÁUDIO

Transcrição: Pe. Claudiberto Fagundes, CSsR


http://www.santalfonsoedintorni.it/antica-missione-
redentorista.html

Excepcional documento em áudio sobre a maneira como os


antigos missionários napolitanos faziam a Prédica Grande durante
a Missão ao povo, segundo o método do Pe. Celestino M. Berruti
(1804-1872).
Nos primeiros anos da década de sessenta, dois missionários
redentoristas napolitanos, Pe. Domenico Pirozzi (1921-2007) e Pe.
Samuele Torre (1913-1981), a pedido do Revmo. Padre Geral,
Guilherme Gaudreau, realizaram gravações sobre a maneira de
fazer a Prédica Grande durante a Missão ao povo, acompanhada de
oportunas explicações.
O instrumento usado foi um gravador da marca “Geloso”; e
o resultado, uma fita em rolo. Por volta do ano de 1980, o Pe.
Salvatore Brugnano, a partir do rolo que estava no Arquivo
Provincial dos Redentoristas de Nápoles, com o auxílio de técnicos
amigos, transformou a gravação para o formato de fitas cassetes,
das quais foram divulgadas algumas cópias. Em 2001, a fita cassete
foi transformada em formato digital: precisamente o que agora se
escuta.
A excepcionalidade do documento sonoro consiste no fato
de que, já há muito tempo, não havia mais lembrança de como era
realizada a “Prédica Grande”: quase uma verdadeira e própria
encenação teatral, que até hoje os modernos historiadores (inclusive
redentoristas) só podiam imaginar.
1. Introdução à Missão. O Padre Domenico Pirozzi introduz o
trabalho solicitado pelo Revmo Padre Geral, Guilherme
Gaudreau. O Pe. Samuele Torre é o missionário que prega.
[Antigas pregações históricas dos padres missionários redentoristas
da província napolitana feitas até poucos anos atrás. Por vontade e
desejo do reverendíssimo Padre Geral, Guilherme Gaudreau, o Pe.
Samuele Torre, experiente missionário, que teve a sorte de
participar das Missões de antigos missionários preocupados em
reproduzir fielmente o que tinham herdado de outros antigos
missionários, esforçou-se para registrar algumas delas].

2. Primeira pregação: A misericórdia. A Misericórdia de Deus


era a pregação de abertura da Missão: Deus aguarda e acolhe
todos os seus filhos.
[Essa gravação consiste em uma reprodução fiel daquelas antigas
funções. Começa com a pregação sobre a misericórdia de Deus, na
qual estão compreendidas todas as características dessa pregação
especial. Nela se distingue o tonetto, o terceiro tom, e o tom de
peroração.
Para que o povo se recolha, cada pregação é precedida por uma
canção. Na primeira noite são cantadas duas ou três estrofes de
“Filho, retorna, ó filho”. Essa pregação da misericórdia, além do
exórdio e da peroração final, compreende três partes: 1) Deus
espera com paciência; 2) Deus chama com amor; 3) Deus acolhe
com alegria o pecador].

3. Pregação sobre a Misericórdia: o canto. O canto dramatizado


do filho pródigo e do pai misericordioso. [Canto de Santo
Afonso].

“Filho, retorna, ó filho,


Retorna ao teu pai que te ama,
Ó quantas, quantas vezes,
Eu suspirei por ti”.

Agora, cantemos juntos essa canção, repetindo todos juntos, verso


por verso, depois de mim...
[canta com o povo a primeira estrofe acima].

[Recita e depois canta com o povo repetindo:]


“Pensa que filho tu és,
Pensa que pai eu sou.
Volta que eu te perdoo,
não duvides de mim”.

Canto primeiro eu...

4. Pregação sobre a misericórdia. Exórdio. O exórdio da


pregação sobre o a misericórdia de Deus é a apresentação dos
motivos bíblicos para a conversão.

[Terminado o canto, se saúda o Santíssimo Sacramento e Nossa


Senhora com uma Ave-Maria, três Glória ao Pai, e as jaculatórias].

V: Seja louvado e agradecido a todo o momento o Santíssimo e


Diviníssimo Sacramento.
R: Hoje e sempre.
V: Seja bendita a santa, puríssima, imaculada conceição da
Beatíssima Virgem Maria, Mãe de Deus.
R: Hoje e sempre.
[Imediatamente, começa o exórdio da pregação com o tonetto, que
consiste em um recitativo em reto tom que se vai pausando no final
de cada frase].
5. Pregação sobre a misericórdia: o uso do tonetto. O pregador
se exprime com o tonetto, para ajudar os fiéis a memorizar o
conteúdo da pregação.

“Levanta-te, desventurada Jerusalém! Deixa as tuas cadeias que


carregas e prendem o teu antigo poderio, e retorna ao esplendor da
tua glória! Sacode enfim o pó das tuas iniquidades, e levanta-te da
tua ignominiosa escravidão, Cidade de Deus!”

Assim falava um dia o profeta Isaías à desventurada Jerusalém,


oprimida pelo estrangeiro, escrava dos assírios e dos caldeus. E
essas palavras do profeta eu dirijo a ti, povo caríssimo, nesta
primeira vez que tenho o prazer de anunciar-te a divina palavra.
Levanta do lamaçal dos teus pecados, lança fora as cadeias das tuas
iniquidades, que te tornam miserável escravo do demônio! Foge das
trevas nas quais viveste até agora, abre os olhos às verdades eternas,
e deixa os teus pecados!

Eu venho para te dar uma notícia consoladora, escuta: Aquele Deus


que criou o céu e a terra, e tem tanto cuidado por ti, te abraça e te
enche todos os dias com os seus benefícios. Aquele Deus ao qual
tu, ingrato, voltaste as costas, suspira pela tua conversão, te oferece
o seu perdão, deseja se encontrar contigo e te convida a retornar
para os seus braços de Pai.

Levanta-te então, ó homem, ó mulher! Levanta-te do lamaçal das


tuas culpas, lança fora as cadeias que o demônio colocou no teu
pescoço para te levar à ruína. Volta, com a confiança no coração,
aos braços deste Deus, quia benignus et misericors est – Ele é cheio
de misericórdia e de bondade.
E para que tu não tenhas nenhuma dúvida de tudo o que eu te digo,
quero fazer-te considerar quanto seja grande a misericórdia de Deus
para com os pobres pecadores. Ele os espera com paciência, os
chama com amor, os acolhe com alegria.

Doce pregação, amável embaixada! E quem dará força à minha


fraca voz? Quem me ajudará? Ó meu Deus, não sabeis vós que a
minha impura língua não sabe dizer palavra? E, por que me
mandastes pregar a este povo? Mas vós, que sois a Palavra
substancial do Eterno Pai, e que com a vossa Palavra criastes e
conservastes o mundo, vós, Senhor, sugeri-me palavras de vida
eterna, para acender o vosso amor nas almas justas. Especialmente
para encontrar como dizê-lo às pobres almas dos pecadores.
E vós, Virgem Dolorosa, ó querida minha mãe, todas as vezes que
me virdes sobre esta cátedra da verdade, vinde em meu socorro, e
dai-me força e coragem. Eis: quantas almas aos vossos pés! Fazei
que estes pobres pecadores retornem ao vosso Filho. Abri o vosso
belo manto, e acolhei-os todos sob a vossa proteção.

6. Pregação sobre a misericórdia: o terceiro tom. O missionário


pregador usa aqui o terceiro tom com uma particular
modulação da voz. Os especialistas dizem que ela tem origem
na oratória antiga.
[Depois de uma breve pausa, o pregador inicia o corpo da pregação
compreendendo três pontos já anunciados no exórdio].

Consideremos esta infinita misericórdia do Senhor, não em si


mesma, mas em seus admiráveis efeitos. E vejamos, antes de mais
nada, quanto é grande chamar os pecadores à penitência. Quando
um homem, uma mulher, comete um pecado mortal, se torna
inimigo de Deus. Volta-lhe imediatamente as costas, se afasta dele,
tornando-se réu de todos os castigos e merecedor da terrível
sentença da eterna condenação. E nós sabemos pela fé, que os anjos
rebeldes, apesar de serem criaturas belíssimas, assim que
cometeram um pensamento de soberba, de orgulho... em um
instante, sem misericórdia, foram precipitados no inferno.
Assim deveria ter acontecido contigo, homem; contigo, mulher, que
me escutas. Quando proferiste aquela blasfêmia, cometeste aquela
ação desonesta, ultrajaste o teu próximo na pessoa e na honra, te
tornaste réu da justiça de Deus. E mereceste as penas do inferno.
Mas vem em teu socorro a misericórdia.

E Deus teve compaixão de ti, suspendeu os seus justos castigos.


Esperou-te e te espera ainda à penitência: propterea expectat
Dominus ut misereatur vestri.

Mas, sem tantos argumentos, diz-me pecador, pecadora, que me


escutas, não serias tu, por acaso, um monumento visível, um troféu
ululante da misericórdia do Senhor?

[O pregador se aproxima da conclusão do primeiro ponto. E


terminará com o terceiro tom...]

Ah, recorda a tua vida passada, reconhecerás ali a infinita


misericórdia que Deus até aqui usou contigo. E quando eras
pequeno, quando eras pequena, não ainda tinhas aprendido bem a
falar, e já se viam as palavras más, e pronunciavas aquelas
blasfêmias. Eras, como diz Santo Agostinho, uma pequena criança,
mas um grande pecador... tantillus homo et magnus peccator. Na
malícia do teu coração superavas os anos da tua idade. E Deus, no
entanto,

Deus te tolerava, Deus tinha paciência.

Cresceste nos anos e chegaste à juventude, e maior ainda se tornou


a tua malícia. Ó Deus, quantos pecados cometeste, com os
pensamentos e com as palavras, com os desejos e com as obras,
com os olhos e com as orelhas, com as mãos e com os pés, sozinho
e acompanhado, de dia e de noite, em casa e no campo, mesmo na
igreja, diante de Jesus Sacramentado. Ó que montanha de pecados,
que abismo de iniquidades. E Deus, no entanto,

Deus te tolerava, Deus teve paciência.

Tornaste-te um homem adulto, homem de juízo, escolheste uma


mulher para amá-la como tua companheira, e a tomaste por mulher,
mas os pecados não cessaram. E esquecido da aliança jurada aos
pés do altar, te abandonaste às práticas perigosas. Na tua mulher
não viste mais a companheira dos teus anos e profanaste o teu
sacramento, com grande ofensa a Deus que tinha abençoado a tua
união. E Deus, no entanto,

Deus te tolerava, Deus teve paciência.

Finalmente, te tornaste velho, curvado sobre o peso dos teus anos.


Continuas a odiar o teu próximo e a cometer pecados, onde não
podes chegar com as tuas débeis forças, chegas com os teus
malvados... [eis o terceiro tono]: E Deus, no entanto,

E Deus, ainda te tolera, ainda usa de paciência contigo,


E, ó infinita a paciência de Deus,
Quanto és grande com os pecadores...
7. Pregação sobre a misericórdia: o desenvolvimento. O
missionário pregador desenvolve longamente os aspectos da
misericórdia de Deus: a pregação inteira durava mais de 1 hora.

[Analogamente ao primeiro ponto, o pregador desenvolverá o


segundo (Deus chama com amor) e o terceiro (Deus acolhe com
alegria o pecador). Neste último ponto, ele recordará vários
exemplos de clamorosos perdões da parte de Deus a célebres
pecadores: Davi, a Madalena, a Samaritana, o Ladrão no Calvário.
E depois, chega à peroração, parte culminante de toda a Prédica
Grande. Escutemo-la nos seus característicos tons].

8. Prédica da misericórdia: a peroração. A peroração, a parte


mais estratégica do ponto afetivo: buscava abrir e enternecer os
corações dos ouvintes.

E o que mais te haverei de dizer, meu irmão, abençoada irmã, para


te dar confiança em esperar na misericórdia de Deus? Ah, meu
filho, escuta o que te quero dizer. Mas escuta-o ajoelhado aos pés
de Jesus Cristo:

“Um velho pai, nobre e rico, tinha dois filhos, que amava
ternamente. Um dia, o menor se apresentou, pedindo-lhe o seu
patrimônio, para ir a uma terra distante e viver a conforme a sua
vontade. Com a dor mais intensa, com as lágrimas nos olhos, aquele
pai deu ao filho a parte dos bens que lhe diziam respeito. E o infeliz
saiu da casa paterna, e se foi para uma região distante. Aí, vítima
das paixões sensuais, ao invés de enriquecer como ele havia
pensado e aumentar as possibilidades de seus prazeres, consumiu
tudo. Contra a vontade, gastou ele as mais belas energias da vida e,
ao invés, sob a sua fronte, o estigma vergonhoso da culpa. Para
viver, encontrou finalmente um patrão, que o colocou na guarda dos
porcos, de animais imundos. Sem um pedaço de pão, o miserável
se reduziu a se alimentar com a lavagem, até que, entristecido pela
desgraça, voltou novamente a si, compreendeu e chorou o seu
deplorável estado. Recordou a abundância que gozavam os
servidores da sua casa e disse: Eu vou me levantar, e vou voltar ao
meu Pai - surgam et ibo ad patrem meum. Vou lhe dizer que me
aceite como um dos seus empregados. Direi que o ofendi, que não
sou mais digno de me chamar seu filho. Levantou-se e se pôs a
caminho. No entanto, o pobre pai, desde o dia em que o filho tinha
partido, não tinha mais encontrado repouso. Tinha-o chorado
inconsolavelmente. Dia e noite. Perguntando a todos, notícias do
seu pobre filho. Quando, eis, apoiado na sua janela, vê vir em sua
direção um pobre mendigo, um pobre jovem. O coração palpita
forte, quem sabe seria o filho que retorna... Com os olhos fixos por
um momento, finalmente o reconhece. Realmente é o filho que
retorna, corre ao seu encontro e estende-lhe os languidos braços,
beija-o várias vezes, e com lágrimas de comoção lhe diz: Filho meu,
eu te acreditava morto, que dia de consolação é este para mim. Eu
te vejo retornar à minha casa, para os braços de teu pai que te ama.
Agora, sim, morro contente”.

De quem mais poderia ser figura esse pai amoroso? É figura de


Jesus Cristo!
Quem mais poderia ser esse filho ingrato que a ele retorna? Esse
filho ingrato és tu ó pecador!
Com o maldito pecado tantas vezes te afastaste deste caro teu pai, e
lhe voltaste as costas para dar vazão às tuas paixões. Dissipaste o
tesouro da sua graça, desprezaste o seu sangue precioso. Mas, ao
invés de encontrares prazer e satisfação, encontraste apenas
amargura e desilusão. Infeliz, então tiveste coração para ofender a
um Deus de tanta bondade! Tiveste coração para vier longe do teu
pai. Ah, retorna pecador, pecadora! Retorna esta noite a Jesus
Cristo. Vem até os seus pés, e diz-lhe com lágrimas nos olhos: Meu
Jesus Cristo, pai da minha alma, eu sou aquele filho ingrato, que
tantas vezes vos ofendeu. Não sou mais digno de me chamar vosso
filho. Não mereço, caro pai, os vossos abraços. Só vos peço beijar
os vossos santos pés, e deles não mais me afastar. E assim então,
pecador, pecadora, de joelhos diante dos pés de Jesus Cristo, ergue
a voz e diz-lhe chorando: Meu Jesus Cristo, piedade, perdão,
misericórdia.

9. Prédica da Misericórdia: as motivações. O missionário


pregador oferece as motivações para uma boa e duradoura
conversão.
[E agora, segundo o método afonsiano, o recurso à Nossa Senhora,
cuja imagem está exposta ao lado da cátedra, próxima ao pregador,
por todo o período da Missão].

Diz Roberto abade que, se o filho pródigo tivesse tido sua mãe, ou
não se teria afastado da casa paterna, ou para ela teria retornado
mais depressa. Mas tu, pecador, tu pecadora, tens a mãe... Ei-la:
Maria Santíssima. Vinde aos seus pés nesta noite, ergue a voz e
dizei com lágrimas nos olhos: Virgem Santíssima, Mãe de
Misericórdia e dos pecadores, quantas vezes com os meus pecados
andei longe do teu Filho, mas, eis-me aqui, eu retorno arrependido,
e tu, implora para mim, piedade, perdão, misericórdia.

[E agora, o motivo para o crucifixo que, ante o convite do pregador,


é trazido com solenidade por um outro padre, em meio ao povo. E
então, entregue nas suas mãos].

Ó homem, meu fiel! Mulher, irmã bendita! Tu não tens coragem de


comparecer diante de Jesus Cristo nesta noite! Mas vê como é bom
este Deus! Ele vem pessoalmente ao teu encontro, para enxugar as
tuas lágrimas, para te dar o seu perdão!
Vem, ó Senhor! Vem ao meio deste povo que te quer ver, te quer
beijar. Ei-lo, na sua sofredora pessoa, inspira ternura e confiança.
Ah, esta cabeça está inclinada... para dar-te o beijo do perdão. Estes
braços estão abertos para te acolher e te abraçar fortemente. Este
peito aberto para encerrar-te dentro do seu coração. Vem, ó homem,
ó mulher, pede-lhe perdão dos teus pecados com a promessa de
nunca mais o ofender: Senhor, Jesus Cristo meu, me arrependo de
haver te ofendido, e prometo que virei todas as noites para escutar
a tua palavra. E tu, confirma o meu propósito com a tua bênção.

10. Prédica da misericórdia: a bênção. O missionário pregador,


ao final da prédica oferece a Bênção com o crucifixo: um ato
que confirma o bem suscitado pela prédica.

A prédica se conclui, assim, com a bênção com o crucifixo, que


desce sobre o comovido auditório, para confirmar o propósito dos
filhos que, afastados de Deus, sentem a ardente saudade do retorno
à casa do pai da misericórdia.

11. Prédica sobre o pecado. Prédica muito importante durante


a Missão. O missionário descreve a deformidade, os perigos e
as consequências do pecado.

[As prédicas mais importantes das antigas missões eram a do


pecado mortal e a do inferno. Aqui registramos o terceiro tono
conclusivo das várias partes. Eis, portanto, o terceiro tono
conclusivo da pregação sobre o pecado].

Eis que coisa tu fizeste pecando: buscaste em ti tudo aquilo que


Deus te deu, o ser, a vida, as forças, para te pores abertamente
contra ele, para encontrar nesses dons da sua infinita bondade, o
meio para executar a tua vazia independência e rebelião contra ele.

Ó maldito pecado mortal, tu és um sumo mal! Ó quanto é grande


a tua malícia!

Pecador, meu irmão, pecadora irmã bendita, tu não poderias ter


tratado pior o teu Deus. Mas, diz-me, como pudeste fazer tão grande
mal? Trocando Deus teu bem infinito pelas míseras criaturas da
terra. E tiveste a coragem: E que mal ele te fez...

[E agora, eis o tonetto e a peroração]


Ó escuta, escuta, o que Jesus Cristo te diz desde aquele ostensório,
mas escuta com as lágrimas nos olhos, ajoelhado aos seus santos
pés: Popule meus, Popule meus, quid feci tibi. Meu povo, povo
ingrato, que mal eu te fiz para me ofenderes assim. Que desprazer
te deu o teu pai para que o trates assim barbaramente. Eu não te fiz
nenhum mal, antes, eu sempre te amei, te estimei como a pupila dos
meus olhos, sempre te tive no meu coração como teu pai. Ah, tu
ingrato, que fizeste, tu parasti crucem salvatori tuo, me flagelaste,
coroaste de espinhos, preparaste a cruz para o teu Salvador.

Jovem, meu filho, Jesus Cristo te diz: que mal eu fiz para que assim
me ofendas? Minha jovem, responde a Jesus Cristo, que te pergunta
esta noite: Minha filha, que desprazer tiveste de mim para me
amares assim tão pouco? Eu abri para ti o caminho do céu, ó tu,
bárbara, me abres com a dura lança o coração. E tiveste coragem de
fazê-lo... e como não se rompe o coração no peito! Ah, consola-me
esta noite com as tuas lágrimas e com teu arrependimento. Vem,
sim, ó homem, vem aos pés de Jesus Cristo, e chorando, diz-lhe
com todo o coração: Senhor, misericórdia, Senhor, perdão e
piedade!
12. Prédica sobre o Inferno. O missionário pregador procurava
sacudir a alma dos ouvintes com visões terríveis, que
esconjurava convidando a fazer penitência através da
DISCIPLINA (uma espécie de flagelo): ele mesmo se flagelava
diante dos fiéis.

[Agora, o terceiro tono da prédica sobre o inferno].

... as cartas dos primeiros cristãos que eram jogados nus e inermes
como pasto para os leões famintos que rasgavam suas carnes,
trituravam seus ossos, bebiam o seu sangue. Mas, se vamos crer no
apóstolo São Paulo, é muito mais terrível cair nas mãos do Deus
vivo. O qual, como um leão faminto, se lançará sobre os miseráveis
condenados, para punir sem nenhuma misericórdia, as suas
iniquidades.

Ó inferno, inferno, são infinitos os teus tormentos.


Louco de quem não crê em ti.
Mas, muito mais louco, quem crê pouco em ti.

[No final dessa prédica, se introduz o motivo da disciplina, isto é, a


demonstração pública da penitência do pregador, para implorar de
Deus a bênção para os pecados mais renitentes].

Povo caríssimo, Jesus Cristo não vos abençoou esta noite. Ele
segurou o meu braço. Mas, Senhor, porque não quiseste abençoar
este povo? Não foram almas que te custaram o sangue? Não vês
como choram e te pedem perdão?
Sim, responde Jesus Cristo. Vejo que chora aquela menina
inocente, aquela velhinha que sempre me amou. Mas vós
pecadores, duros e obstinados, não! Não posso vos perdoar, não
posso vos abençoar!
Ó, não, Senhor! Tu deves perdoa-los, tu deves abençoa-los. Eis, eu
me ofereço nesta noite. Eu quero chorar por estes pecadores
obstinados. Eu quero fazer penitência por eles. E tu, ó minha Nossa
Senhora, abençoa esta minha penitência...

[Aqui toma a corda com a qual se flagelará]...

todos os teus filhos, pecadores obstinados. E tu, ó povo, enquanto


eu choro e faço penitência por ti, ajuda-me com a tua oração. Ergue
a tua voz, e repete comigo: Senhor, misericórdia, perdão, piedade!
Nunca mais, nunca mais pecados!

13. Pregação sobre a morte. O missionário pregador despertava


o auditório da indiferença apresentando uma caveira que –
conforme diz – muito bem poderia ter sido de qualquer pessoa
que os fiéis houvessem conhecido.

[Pregação sobre a morte.


Em um determinado momento, o pregador dizia que estava
insatisfeito com o fruto colhido com sua pregação e, na esperança
de poder obter maior progresso com os ouvintes, apresentava uma
caveira, a respeito da qual fazia esta impressionante meditação].

- Estou me dando conta de que essa pregação sobre a morte não vos
deixou impressionados. Talvez tenha sido, quem sabe, pela minha
incapacidade. Não soube pregar-vos sobre a morte a ponto de
comover-vos. O que, então, farei agora?

Quero chamar a esta cátedra da verdade um outro pregador. Um


pregador que não vem de púlpitos célebres. Um pregador que
caminhou pelas estradas e praças desta vossa cidade. Que morou
nas vossas casas. Um pregador que esteve nesta vossa igreja, perto
deste altar. Um pregador que se sentou sobre estes bancos sob os
quais vós agora sentais. Um pregador, vosso conhecido. Que vem
do outro mundo. Erguei os olhos. Olhai-o.

Eis o pregador. Não sei se é uma caveira de homem ou de mulher,


mas, seja de quem for:

- Ó caveira de morto, prega a estes teus conhecidos!


- Conhecidos, ó meus conhecidos. Aquilo que eu fui, vós sois. E
aquilo que eu sou, vós sereis. Ó quanto se passa mal, diante do
tribunal de Deus.
- Pregas bem, continua. Diz-me, caveira de morto, o que aconteceu
com aquele rosto que tanto idolatraste?
- Os vermes o comeram. Os ratos o devoraram. Louco, louco, quem
não ama a Deus!
- [...] que lançavam tantos olhares obscenos. E, quem sabe, levaram
para o mal tanta incauta juventude. O que aconteceu com eles?
- Os vermes o comeram. Os ratos o devoraram. Louco, louco, quem
não ama a Deus!
- E com a língua, que pronunciou tantas blasfêmias, murmurações
e palavras obscenas. O que aconteceu com ela?
- Os vermes a comeram. Os ratos a devoraram. Louco, louco, quem
não ama a Deus!
- E os cabelos, de que tanto cuidaste, e dos quais tanto te
vangloriaste. O que aconteceu com eles?
- Se tornaram ninhos para os ratos... Louco, louco, que não ama a
Deus. Louco, louco, quem não se faz santo.

Não há necessidade de repetir esta pregação.


Caveira de morto, eu não sei se a tua alma está salva ou está
condenada. Se está salva, roga por mim. Roga por todo este povo.
Se está condenada e Deus te amaldiçoou, também eu te deixo.

- Eis quem encontrarás no mundo dos mortos, ó homem, ó mulher,


encontrarás apenas a Jesus Crucificado: todos te abandonarão -
conhecidos, amigos, parentes. Feliz de ti se puderes beijar e abraçar
este Deus de misericórdia e de perdão. Se não queres que na hora
tremenda da morte ele te seja juiz severo, busca o perdão dos teus
pecados. Ergue a voz e diz-lhe com todo o coração: Meu Jesus
Cristo, me arrependo, me desagrada, reconheço o grande mal que
eu fiz pecando. Senhor, piedade! Perdão, Misericórdia!

[No final dessa pregação sobre a morte, depois de ter recorrido à


Nossa Senhora, o pregador exorta à paz nas famílias para conseguir
de Deus o seu perdão na hora da nossa morte].

14. Pregação sobre o Julgamento. O missionário pregador


apresenta a bênção de Deus que acolhe quem se converte... mas
que afasta por toda a eternidade quem não quer se converter.

[Depois do recurso à Nossa Senhora e ao Crucificado, chega-se ao


momento mais impressionante. O pregador faz sinal de querer
abençoar, mas imediatamente, abaixando o crucifixo sob o
parapeito, continua]:

Povo caríssimo, Jesus Cristo não vos abençoou. Ele segurou o meu
braço. Escutai o que vos diz Jesus Cristo nesta noite:

Como nesta igreja existem tantos homens e tantas mulheres que se


arrependem verdadeiramente em seu coração dos seus pecados, e
querem mudar de vida, e Deus os haverá de abençoar no dia do
juízo, eu vos abençoo desde esta noite. [E aqui abençoa. Depois
prossegue:]

Mas como também nesta igreja, também existem tantos homens


obstinados, tantas mulheres que têm o coração duro, e não querem
deixar o pecado... E Deus, diz Jesus Cristo, no dia do Juízo, os
haverá de amaldiçoar... Eu vos amaldiçoou desde esta noite. E
porque existem estes homens e estas mulheres obstinados, diz Jesus
Cristo, no dia do Juízo, deverei voltar-lhes as costas... Eu vos viro
as costas desde esta noite.

[E mostra ao povo o crucifixo virado de costas. Depois, o depõe. E


faz sinal de recorrer à Nossa Senhora].

- Mas, se Jesus Cristo vos virou as costas, resta ainda Nossa


Senhora, ela é mãe, e poderá interceder junto ao seu Divino Filho,
- Mas, escuta, ó homem, ó mulher, o que vos diz Nossa Senhora
nesta noite: “Já que o meu filho no dia do Juízo, vos deverá
amaldiçoar e voltar-vos as costas, eu então não vos poderei mais
ajudar, não serei mais a vossa mãe, não serei mais a vossa rainha,
eu retiro minha coroa da cabeça”. O pregador tira a coroa e a mostra
ao povo entre duas velas, cobre o rosto de Nossa Senhora com um
véu negro, mostra o crucifixo virado, mostra as velas, e sai...
deixando o povo aterrorizado e em um convulsivo pranto.

15. Pregação sobre o Juízo. Relato da PERORAÇÃO, que fazia


o apelo aos afetos do coração dos fiéis, com o objetivo de
permanecerem unidos na eternidade com os que lhe são caros.

[Registra-se agora, algumas partes da Prédica sobre o Juízo, que é


uma descrição terrificante do epílogo final do mundo. Depois da
sentença irrevogável do Juiz, seguem a peroração e a função.
Ambas, características das nossas antigas missões].

- ... afastai-vos de mim, ó malditos. O que ainda estais fazendo


diante da minha presença? Sempre falando, sempre confabulando,
ou sempre fazendo silêncio, ou sempre calados. Eu abençoando-
vos, e vós me ultrajando. Afastai-vos de mim, ide para longe de
mim. Vós incrédulos, corações malvados e corruptos, ímpios e
perversos. Ide para longe de mim vós todos, ó malditos. Maledicti!
Malditos por todos os males, malditos pelo céu e pela terra. Ide
embora, ó malditos.
- E para onde irão, ó Senhor?
- In ignem... para o inferno de fogo. Fogo voraz e sem fim, que
encerra todos os tormentos e espasmos...
- E por quanto tempo, ó Senhor, estão os ímpios no inferno?
- In aeternum... No fogo eterno que arderá para sempre sem jamais
se consumir ou consumi-los. Fogo vingador, que eu tinha acendido
apenas para o demônio e os seus anjos rebeldes, mas que vós, no
entanto, merecestes. Afastai-vos de mim, maledicti, in ignem
aeternum.

- E enquanto os justos serão levados com grande exultação e


entrarão no céu, os condenados, de abismo em abismo, se
precipitarão, chorando, no fogo devorador do inferno. Mas, antes
de serem precipitados, deverão ser separados de seus anjos, dos
santos, dos amigos, dos parentes.

- Escutai como serão desesperadores os seus adeuses, escutai todos,


ó ouvintes, e ajoelhai-vos aos pés de Jesus Cristo. Tu, pai de
família, escuta, escuta... se não chorares teus pecados, verás o teu
filho indo para o céu, e desfalecendo, lhe gritarás: Filho meu, tu me
deixas? Tu vais gozar no céu, e eu, teu pobre pai, me vou para
sempre, condenado no inferno. Não, não nos veremos, nunca, nunca
mais. Tu, mãe de família, escuta, escuta... se não deixas o pecado,
verás, naquele dia, aquela tua filha, voar para o céu e, desmaiando
gritarás: Filha minha, tu me deixas? Tu vais gozar no céu, e eu,
pobre mãe tua, vou para sempre condenada ao inferno. Não, não
nos veremos, nunca, nunca mais. [...] tua irmã que orava a Deus,
verás que ela se salvou, e tu, chorando, gritarás: Minha irmã, tu me
deixas? Tu vais gozar no céu, e eu, tua pobre irmã, me vou para
sempre condenada ao inferno. Não, não nos veremos, nunca, nunca
mais. Tu, filha, verás aquela tua mãe, que se salvou, e chorando,
gritarás: Minha mãe, tu me deixas? Tu te vais a gozar no céu, e eu,
pobre filha tua, me vou para sempre condenada ao inferno. Não,
não nos veremos nunca mais. Tu deverás deixar de contar com o
teu anjo da guarda, e dirás chorando com lágrimas de desesperado:
Adeus, adeus, anjos e santos, meu anjo da guarda, adeus. Vós não
sereis mais os meus protetores, vós ireis a gozar no paraíso, e eu,
desgraçado, a sofrer eternamente... Ó, amarga separação! Pecador!
Pecadora! E como pudeste te condenar a tamanha ruína, vinde esta
noite, aos pés de Jesus Cristo, chora os teus pecados, ergue a voz e
repete comigo: Senhor, misericórdia! Senhor, perdão e piedade!

16. A vida devota 1.


Introdução: A vida devota era a resolução de caminhar no bem
alcançado com a missão e utilizar os instrumentos oportunos.
[Uma das finalidades das missões napolitanas, segundo o método
de Santo Afonso, era aquele de tornar estável o fruto recolhido nas
Santas Missões. Por isso, em várias noites o pregador instruía o
povo sobre a oração e a vida devota. As suas prédicas terminavam
com essa ternuríssima meditação:]
- Coloca-te, alma cristã, na presença de Jesus Cristo nesta noite.
Pensa que Jesus te olha desde aquele ostensório, e está com as mãos
abertas para te dar as suas graças. Procura o máximo possível, pede-
lhe que te ilumine a mente nesta meditação. Sim, Jesus te olha. Mas,
quanto é diferente o olhar de Jesus, ele te olha, ó homem, ó mulher,
que te confessaste e te aproximaste dos santos sacramentos. E te
olha com olhar de pai. Mas Jesus te está olhando, homem obstinado,
tu, mulher que não choras os teus pecados. E te olha com cólera e
indignação. Ah, não faças mais isso, vem também tu, pecador,
pecadora, humilhar-te e pedir perdão. Ergue a voz, e repete comigo:
Senhor, me arrependo, me desagrada. Dá-me luzes nesta noite, e
faz que consiga proveito destas meditações.

17. A vida devota – 2. Aspectos gerais: meditação sobre a paixão


de Cristo, devoção à Nossa Senhora, frequência aos
sacramentos da Reconciliação e Eucaristia.

[Terminando a primeira parte da prédica, tem início aqui a primeira


parte da meditação prática. O pregador permanece recolhido e
inclinado sobre a cátedra, enquanto um padre canta a canção de
Santo Afonso: Meu Jesus com duras cordas. Como o canto se refere
às várias partes do corpo de Jesus crucificado: a cabeça coroada de
espinhos, as mãos e os pés transpassados pelos pregos, o rosto
desfigurado, o coração transpassado pela lança... o pregador se
levanta e coloca cada parte em evidência, iluminando-a com uma
vela.

Dessa maneira, pedimos as luzes a Deus. Passemos à segunda parte.


Pensai em uma coisa santa. Que argumento mais santo que a paixão
e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo? Então, quero pedir a um
outro padre missionário que vos cante uma pequena canção. Mas
vós, se conheceis a melodia, não deveis cantar, mas apenas escutá-
la com devoção. Pensando em quanto sofreu por nós Jesus Cristo,
e detestando todo o mal que fizestes com os vossos pecados.
“Meu Jesus, com duras cordas
Como um réu, quem te amarrou?
Fui precisamente eu, ingrato.
Meu Jesus, perdão, piedade.

Meu Jesus, a bela face,


quem, cruel, agrediu?”

- Ó rosto sacrossanto do meu Jesus, eu te vejo irreconhecível,


coberto de escarros... quem foi o ousado? Quem tanto te ultrajou?
... escuta, ó povo, que foste tu o cruel, e chora os teus pecados.

“Foi precisamente tu, ó homem ingrato.


Busca Deus, perdão, piedade!”.

- Escutaste. Foste tu, homem ingrato, o cruel, que com aquelas


blasfêmias, com aquelas conversas infames, agrediste Jesus Cristo.
Volta, pede-lhe perdão. Jesus Cristo meu, piedade, perdão,
misericórdia.

“Meu Jesus, as belas carnes,


Quem desapiedado, te fragelou?”

- Ah, meu Jesus, este teu belo corpo, flor do paraíso, quem deixou
em tão mísero estado? Quem o desconjuntou? Escuta meu irmão,
irmã minha bendita, quem foi o bárbaro, e prepara-lhe tuas lágrimas
de arrependimento.

“Foi precisamente tu, tu mulher ingrata,


Busca Deus, perdão, piedade”.

Mulher, olha, olha que coisa fizeste, com os teus pecados, como
tornaste o corpo de Jesus, quem chuva de açoites lhe custou as tuas
desonestidades, as tuas infidelidades. E então, pede-lhe perdão, diz-
lhe com todo o coração: Jesus Cristo meu, piedade, perdão,
misericórdia.

“Meu Jesus, a nobre fronte,


Quem, de espinhos, te coroou?”

Ó cabeça nobilíssima do meu Jesus, eu te vejo transpassada de


pungentíssimos espinhos, quem foi o bárbaro que te colocou essa
coroa? Escuta ó homem, escuta ó mulher, e chora os teus pecados.

“Foi precisamente tu, jovem ingrato,


Busca Deus, perdão, piedade”.

Ó jovem cruel, com aqueles maus pensamentos, com aquelas


fantasias, ou recordações insanas, causaste tanto sofrimento a Jesus.
Vem chorar a tua ingratidão, implorando dele, piedade, perdão,
misericórdia.

“Meu Jesus, o coração amoroso,


Com a lança, quem te vazou?”

Ó coração amabilíssimo de Jesus, coração de misericórdia, coração


de pai, com te transpassou com tanta iniquidade? Escuta, ó homem,
escuta ó mulher, e arrepende-te dos teus pecados.

“Foi precisamente, tu jovem ingrata,


Busca Deus, perdão, piedade”.

Olha, olha, ó jovem, que coisa fizeste com aqueles amores


profanos, com aqueles perversos pensamentos, maus desejos e
vaidade. Transpassaste o belo coração de Jesus. E como, à vista de
tal coisa, não te comoves e choras? Então, chora, e repete comigo:
Jesus Cristo meu, piedade, perdão, misericórdia.

“Ó Maria, aquele teu belo filho,


Quem o mata, quem te roubou?”

Ah, Mãe Dolorosa, quem foi que matou este teu Filho? Ele era o
teu tesouro, a tua alegria, a tua consolação, quem foi o cruel que
tanto ultrajou o teu coração de mãe? Escuta ó homem, escuta ó
mulher, quem foi que causou tanta dor a esta mãe dolorosa...

“Foi precisamente, tu, povo ingrato,


Ó Maria, perdão, piedade”.

Escutaste, ó povo, foste tu o ingrato, tu o cruel, que arrancaste o


Filho dos braços dessa mãe, e o fizeste morrer barbaramente sob
esta cruz. Vem aos pés desta Mãe, e com as lágrimas nos olhos,
implora-lhe perdão, piedade e misericórdia.

18. A vida devota – 3.


A vida devota fixava o caminho depois da Missão com as
práticas salutares: meditação, visita ao santíssimo sacramento,
prática dos sacramentos e recitação do santo rosário.

Prossegue a terceira parte da meditação, na qual se exortava o povo


em um propósito firme de fidelidade a Deus, confirmado pela
costumeira benção final com o crucifixo.

Viva a Cruz, Viva a Cruz!


Viva a Cruz, e quem a carregou!
Outros materiais:

8. Várias outras observações: (In: LIGÓRIO, Afonso de. Os


exercícios da Missão. Petrópolis: Vozes, 1944. p. 157-159. Trad.:
Pe. Nestor Tomás de Sousa).

a) Cerimônias no fim de alguns sermões.

Flagelação. - Terminado o ato de contrição, o pregador bater-se-á


duas ou três vezes com uma corda, não com a cadeia, porque, se a
cadeia for de anéis maciços prejudicará ao pregador, que, no ardor
do zelo, se flagelará sem discrição; porém, se ela for de anéis
frágeis, hão de notar todos que faz muito barulho, mas causará
pouca dor... Nos últimos dois ou três dias tomando da corda se
flagelará por bom espaço de tempo, para que não pareça aquilo
apenas simulação. Evitará, entretanto, amarrar a corda ao pescoço
como que querendo estrangular-se, como o fazem alguns, pois que
percebem todos que aquilo não passa de pura simulação. Terá o
pregador o cuidado de avisar antes de se flagelar que se não impõe
aquela penitência por causa de seus pecados, assim o dizem alguns,
mas para obter de Deus o perdão para algum obstinado que ali se
encontre na igreja.

A caveira. - No sermão da morte, antes do ato de contrição, o


pregador costuma apresentar ao povo uma caveira. Interpela-a
nestes termos: Caveira, dize-me, onde pára hoje a alma que te
animou? Está no paraíso ou no inferno? Dize-me, no dia do
julgamento hei de te ver coroada de estrelas, ou terás em volta
chamas e serpentes? ... Diz-me, foste uma cabeça de homem ou de
mulher? Se és a caveira de um homem, fala-me agora: que foi feito
dos teus projetos de fortuna, de ambição? ... Onde o teu orgulho, tu
que nunca pretendias ceder passo a ninguém? Se és a caveira de
uma mulher, onde tua beleza, que foi feito dos teus lindos cabelos?
Oh! os vermes os consumiram! E teus olhos fascinantes? serviram
de pasto aos vermes! ... Onde tua língua com que modulaste tão
belas e voluptuosas melodias? Os mesmos vermes a devoraram.
Envaidecias-te de tua formosura, eis-te aí agora horrenda a fazer
medo! . . . - E o pregador, dirigindo-se então ao povo, dirá: Meus
irmãos, o que aconteceu a esta caveira, a nós nos sucederá também
um dia. Não poderemos fugir, morreremos, morreremos! – Faça-se
a seguir a introdução para o ato de contrição.

A figura do condenado. - No sermão do inferno apresenta-se a


figura de uma pessoa condenada. Acontece na Missão que
pecadores empedernidos, insensíveis a todas as pregações, ficam de
tal modo comovidos à vista desse quadro, que se convertem. Esta
cerimônia faz-se assim: o pregador, após recitado o ato de
contrição, ajunta: Eu vos falei hoje sobre o inferno, mas que foi que
vos fiz conhecer do inferno? Nada. Somente o conhece de fato
quem experimenta seus tormentos. Oh! se uma daquelas almas
condenadas pudesse vir para vos falar o que seja o inferno! ... Pelo
menos, pecadores, permiti que vos mostre a representação de um
condenado para que ele vos fale por minha boca. Ei-la: Pecador,
contempla este quadro e vê aqui o que deverias ser, por causa de
teus pecados! . . . O quadro será levado por um Missionário,
mantido alto, uns três metros, e precedido por dois outros
Missionários, que carregam dois grandes tocheiros e terão cuidado
para os manter baixos e distantes do quadro, a fim de que a fumaça
não impeça uma visão clara do mesmo. O Missionário porta-quadro
caminhará por entre o povo desde o altar-mor até à porta de saída,
parando várias vezes, rodará lentamente o quadro para todas as
direções e por fim o levará ao pregador que o exibirá do alto do
púlpito. Ficará aqui exposto o quadro até à tarde seguinte. Toma o
pregador o Crucifixo e dá a bênção.

Estátua da SS. Virgem. - Uma das cerimônias mais tocantes é a


que se realiza, levando processionalmente à igreja uma estátua da
SS. Virgem, no fim do sermão. Faz-se assim: A estátua fica exposta
todas as noites; porém nesse dia ela sai da igreja. Logo a seguir-se
ao ato de contrição (já deve estar tudo preparado), abre-se a porta
da igreja e os sacerdotes vestidos de sobrepeliz carregam num andor
a estátua da Virgem; passando por entre os fiéis, vão colocá-la no
lugar acostumado, junto do púlpito.

Alguns elementos sobre a Prédica Grande nas Missões.

O Pe. Celestino M. Berruti, no seu livro “Método prático dos


exercícios da missão para o uso da Congregação do Santíssimo
Redentor” (Napoli, Tipografico A. Festa, 1856) recorda a
importância da Prédica Grande e as suas partes principais e, ainda,
o elenco das prédicas rituais (obrigatórias) e daquelas à livre
escolha do Pregador.

A Prédica Grande.

É verdade ensinada pelos maiores mestres da eloquência que


a obra de pregação mais difícil é a Prédica Grande dirigida ao povo
durante as Missões. A razão é clara: na eloquência em geral, o estilo
é expresso com palavras que nascem do intelecto e se dirigem a
tocar os ouvidos; mas a eloquência da Prédica da Missão deve
consistir de palavras ditadas pelo coração, dirigidas a tocar o
coração dos ouvintes, tendo como objetivo a compunção.
As partes da Prédica.

Proêmio: O tom do proêmio é essencialmente meditativo, como se


fosse uma leitura cantada, tal como costumamos fazer no coro
durante a meditação.

Corpo da Prédica: A experiência ensina (para não dar espaço a


conversas) que é melhor não sentar durante a Introdução, mas
inicia-la imediatamente depois da oração.
Deve ser pregada conforme o tom (mas não com o tom de
peroração) no encerramento dos argumentos e nas sentenças. Então
o povo fica esperando imediatamente o terceiro tom; não é bom
desapontá-lo, e às vezes não fazê-lo sempre, com a finalidade de
que renove mais a atenção. O terceiro tom, então, seja feito raras
vezes; por exemplo, na prédica sobre a misericórdia cerca de seis
vezes, da mesma forma como em outra prédica semelhante. Nas
prédicas sobre o Juízo Universal, sobre o Inferno, e sobre a
Eternidade condenada haverá mais espaço para os terceiros tons:
mas sempre nas sentenças.

Peroração: não há Prédica Grande sem peroração, ou seja, sem


mover aos afetos. – A peroração é como a música, ou seja, que o
motivo dominante sejam um só; quando se muda o motivo, não se
move mais o povo, e o pregador se cansa inutilmente. Esta unidade
de motivo contribui para não deixar muito longa a peroração, e
excita imediatamente ao planto: pedimos que os pregadores leiam
o final da primeira parte das prédicas do grande orador italiano
Jerônimo Toniello, imitado pelos nossos bons pregadores.
O tono da peroração deve ter um trêmolo oculto, não afetado, mas
natural, e próprio de quem chora por ter o coração comovido.
Elenco das prédicas rituais (obrigatórias) e de livre escolha.

1. Misericórdia de Deus, ritual: 1° Ponto: Deus espera com


paciência. 2. Chama com amor. 3. Acolhe com alegria.
2. Procrastinação, ritual: aconselhável fazer por assunto, isto é,
quem procrastina jamais se converte...
3. Pecado mortal, ritual: como injúria contra Deus: Deus fica
ofendido porque vê no pecador: 1. Um ato de temeridade; 2. De
rebelião; 3. Porque se vê preterido em relação às criaturas.
4. Efeitos espirituais, ritual; os pontos desta prédica são conhecidos
de todos.
5. Efeitos temporais, ritual. Os pontos desta prédica também são
conhecidos.
6. Escândalo, ritual: esta prédica deve ser feita sempre antes da
comunhão dos jovens. Quem é escandaloso é inimigo de Deus,
do próximo e de si mesmo.
7. Importância da salvação, ritual: esta prédica pode ser feita antes
ou depois da prédica sobre o escândalo.
8. Morte prática do pecador, ritual. Deve ser absolutamente prática.
9. Juízo Universal, ritual. Não se deve perder inutilmente o tempo
com descrições e sinais que precederão o Juízo Universal.
10. Inferno dos sentidos, ritual. Nesta prédica deve-se falar com
dignidade, enquanto são apresentadas claramente as passagens
do texto sagrado.
11. Eternidade condenada, ritual. Esta máxima deve ser muito
meditada, e o tom da voz tenha sempre aspecto terrível. Nas
missões nunca se faz a prédica sobre o paraíso: mas pode ser
feita nos exercícios da Quaresma.
12. O fim do homem, à escolha.
13. Excelência da alma, à escolha.
14. Blasfêmia; onde houver necessidade. Mas é proibido
amaldiçoar os blasfemos; os bons pregadores têm o costume de
fazer bendizer a Jesus Cristo, Maria Santíssima e os Santos.
15. Desonestidade; útil nessa nossa época; mas a apresentação seja
castíssima.
16. Número das graças; ritual: e aqui se inclui o número dos
pecados.
17. Quais são os que se salvam, à escolha.
18. Reincidente; se a Missão for longa.
19. Sacrilégio na comunhão; também quando há tempo.
20. Morte dos justos; também quando a Missão é longa.
21. Obstinação no pecado, e abandono de Deus, ritual; esta deve ser
sempre a última das prédicas grandes, e usando o tom.
22. Maria Santíssima, ritual: os pontos próprios e antigos são: 1. O
poder de Maria Santíssima. 2. Amor. O nosso Santo Fundador
com esta prédica fazia a maior pesca de pecadores. Costumava
dizer: Quem não se converte com a pregação sobre Maria
Santíssima dificilmente se converte nas outras pregações. Deve
ser feita com tom familiar, não deve ser muito curta.
23. Santíssimo Sacramento, ritual: O tom de voz usado é o familiar,
como na prédica sobre Maria Santíssima, mas os pontos sejam
substancialmente sobre o Sacramento: por exemplo: 1.
Grandeza do dom; 2. Maneiras amáveis ao se doar; 3. Objetivo
do dom, que é a união.
24.25.26. Vida devota.
27. Perseverança.