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nSodotoda

do Brasil Urbano

Rnthony Leeds e Elizabeth Leeds

/iflTROPOLOGifc S O C IA L
Hnthony Leeds e Elizabeth Leeds

ogia

Tradução de

M a r ia L a u r a V iv e iro s de C a s tr o

Revisão Técnica de

M á rc ia B a n d e ira de M e llo L e ite N u n es

Apresentação de

T h a l e s de A zevedo

ZAHAR EDITORES

R IO D E JA N EIRO
Copyright © 1977 by Anthony Leeds and Elizabeth Leeds

capa de
J ane

N enhum a parte deste livro poderá ser reproduzida


sejam quais fo rem os m eios em pregados {mirneografi&,
x erox » datilografia, gravação, reprodu ção em disco ou
em fita ), sem a perm issão por escrito da editora. A os
infratores se aplicam as sanções previstas nos artigos 122
e 130 da L ei 5.938 de 14 de dezem bro de 1973

1978

Direitos para esta edição contratados com


ZAH AR ED ITO R ES
Caixa Postal 207, ZOOO, Rio

Im presso n o Brasil
índice

Apresentação — T h a les de A zevedo 7


I. Introdução — A n t h o .n y L e e d s 11
II. Poder Local em Relação com Instituições de Poder Supralocal
r'v ú — A n th o n y L eeds 26
Introdução, 26; A Comunidade, 29; A Localidade, 31; Caracte­
rísticas da Localidade, 33; As Estruturas e os Recursos de Po­
der, 36; Localidade e Fontes de Poder, 38; Instituições e Estru­
turas Supralocais, 38; O Estada e as Localidades, 39; Estado e
Localidade — O Caso da Favela, 42; Favelas como Localidades
“versus” Instituições e Estruturas Supralocais, 45; Generali­
zações e Conclusões1 47; Bibliografia, 49.
II I, Carreiras Brasileiras e Estrutura Social: Uma História de
Caso e um Modelo — A n t h o n y L e e d s ........................................... 55
Bibliografia .............................................................................................. 84
IV . O Brasil e o Mito da Ruralidade Urbana: Experiência Urba­
na, Trabalho e Valores nas “Áreas Invadidas” do Rio de
Janeiro e de Lima — A n t h o n y e E l iz a b e t h L e e d s ................... 86

Introdução, 86; A Experiência Urbana dos Moradores das


Áreas Invadidas, 92; O Nascido na Cidade, 95; Caminhos de
Entrada na Cidade, 98; Experiência Ocupacional Anterior,
102; Fatores Que Operam na Seleção para a Vida na Favela,
105; Experiência Urbana no Interior da Área Invadida, 113;
Valores Urbanos, 119; Comentários Informais do Autor, 130;
Bibliografia, 136.
V. Tipos de Moradia, Arranjos de Vida. Proletarização e a Estru­
tura Social da Cidade — A n t h o n y L e e d s .................................... 144
A Especialização da Moradia no Rio, 145; Arranjos de Vida
Alternativos, 156; Conseqüências das Escolhas entre Arran­
jos de Vida, 162; Restrições sobre a Escolha, 168; Clivagem
de Elite e Coalisões com Grupos Proletários, 172; Implica­
ções para o Planejamento, 180; Bibliografia, 182.
6 A SocroLOGiA do B r a sil U rbano

V I. Favelas e Comunidade Política: A Continuidade da Estrutu­


ra de Conirole Social — A n t h o n y L e e d s e E l iz a b e t h L e e d s 186

Introdução, 186; Comunidade Histórica na Estrutura do Pro­


blema Habitacional, 189; O “Problema da Favela” Vira Moda,
191; A "Democracia” Pós-Vargas, 198; O Segundo Período
de Vargas e os Anos 50, 204; O Papel do Administrador Polí­
tico, 206; A Era do Controle Renovado, Erradicação e Repres­
são, 214; Conclusões, 245; Apêndice I, 248; Apêndice II,
251; Apêndice III, 254; Bibliografia, 257.

V II. Considerações sobre Diferenças Comportamentais: Três Siste­


mas Políticos e as Respostas das Áreas Invadidas por Possei­
ros no Brasil, Peru e Chile — A n t h o n y L e e d s e E l i z a b e t h
L e ed s .......................................................................................................................... 264

Uma Metodologia e um Modelo Holísticos, 266; A Literatura


sobre a Politização, 272; As Três Comunidades Políticas, 276;
Brasil, 278; Peru, 288; As Respostas Políticas dos Moradores
das Áreas Invadidas no Peru, 298; Chile, 301; Á Resposta de
Moradores das Áreas Invadidas e “Pobladores”, 312; Conclu­
sões, 319; Bibliografia, 320.
Apresentação

A difícil tarefa de prefaciar um livro torna-se um desafio


em casos como o deste conjunto de estudos de Anthony e Liz
Leeds. Um desses desafios está em que os braziliamsts — assim
denominados principalmente os norte-americanos e ingleses que es­
crevem sobre o Brasil — quase sempre se nos apresentam com
monografias no estrito sentido, analisando determinado e bem de­
finido objeto. Aprofundam e esmiuçam, isto é, detalham e decom­
põem em mil elementos para, depois e mediante tal tipo de exame,
concluírem — a estrutura, o dinamismo, as funções, os efeitos e
as causas de tais ou quais instituições ou fenômenos sociais, políti­
cos ou históricos. Delimitam nitidamente suas temáticas e seus
ângulos de visão ainda quando, por tal método — e não isto que
estamos discutindo — lançam luz sobre a totalidade da cultura e
da, sociedade. Recusam-se, por bem dizer, às análises globais, aos
apanhados compreensivos, as generalizações que possam parecer
subjetivas, e impressionistas^ em _virtude, as mais das vezes, do
rigor empmcista _ do seu indutivismq. Outros especialistas em
Brasil — predominantemente europeus e raros norte-americanos —
buscam apreender glehalmeii£e a realidade ou totalizar com outros
elementos dados relativos a específicos fenômenos ou conjunturas:
estes são autores mais intuitivos e inclinados à empatia e à inte­
gração com o país e a sua gente, por uma longa vivência ou por
outros compromissos pessoais. Os primeiros^ ajuntam parcelas, não
raro preciosas, às sínteses que são as metas finais jjas ciências do
homem e da sociedade. Mas podem valer mais pela massa de dados
que colhem, pela sistematização de componentes, pela ordenação
do conhecimento de particularidades do que como respostas_aos.
problemas focalizados. São, as duas, vocações intelectuais e episte-
mológicas — racionais, científicas e críticas em modos diferentes
— que, sem dúvida alguma, prestam serviços à apreensão da com;
plexa fenomenologia humana brasileira.
8 A S o c io lo g ia do B r a s il U rb a n o

E ste livro não cabe inteiramente em nenhuma das duas ca­


tegorias ideais a que aludimos, embora seja tributário_ de ambas.
Não é uma monografia quanto à sua temática, pois abrange uma
diversidade de questões dçrivada da ávida curiosidade científica
djps autores e da sua experiência da vida brasileira. Basta percor­
rer o sumário para verificá-lo, e até o seu taefòdb: este é algumas
vezes descritivo e interprelativo, outras vezes questiona nte e polê­
mico, do que resulta o caráter provocativo do conjunto em bene­
ficio de todo o seu variado conteydo. Com isso lucram as ciências
humanas envolvidas — particularmente a Antropologia Social —
e a inteligência das coisas brasileiras, mais uma vez evidenciando,
como no dito popular, que “ da discussão nasce a luz.” Assim
ocorre, por exemplo, com as conceituaçÕes de urbano, de rural,
de rurbano e de íavelra^ no Brasil. AbÕrdándõ"'! os mecanismos de\
controle social em perspectivas diaerpnica e sincrônica, cada uma,/
/a seu tempo, ou ía ^ n d o .jncidbf essas,_duas^ oticag_concorrentemeu-f
|te sobre a cultura e a organização social nas mencionadas situa-;
I ções, qfteScõBrem) continuidades temporais- e existenciais que os im-i
. pelem, 'à_eríticà, talvez a contestação, tde conceitos" fixados oiVjia/
. aplicação de determinados métodos. — o marxista, por exemplo — i
I em certos momentos da formação da teoria e da análise antropo-i
lógica entre cientistas brasileiros. Se é certo que várias dessas crí- j
ticas^ em tese como em referência ~ao Brasil, já forãm feii§s~e
respondidas, os dados sobre _os quais operam çõnstituem outras 1
tantas contribuições- dos dois autores à constriição de cõrpos teóri-
çqs que possivelmente estimularão algumas “reavaliações das pro­
blemáticas respectivas, como a das relações de poder em referên­
cia aos modos de ser em situações ecológicas ou de ubicação só-
cio-territorial diferentes, porém correlacionadas e faseológicas. A
análise conjparativá, que fazem com elementos colhidos no Peru
e no Chile,“ a reconsideração do método dos estudos de comuni­
dades — de há muito posto em debate, mas trazido de novo a
exame sob uma ótica original — , os contrastes factuais, com suas
conseqüências teóricas, entre poder local e poder supralocal no
tocante às favelas, a retomadà’ do problema dos conflitos de clas­
ses no Brasil/constituem interesse para esta coletânea, — a qual,
numa ponderação final, vem am o strar-se mais_ coerente do que
poderá indicar o índice do livro. E será, este, mais uma instiga­
ção à reformulação, entre nós, de. políticas demográficas e habi­
tacionais.
Obra inevitavelmente polêmica pela natureza de sua temática
e pelas posições que os autores adotam criticamente, esta coletânea
de artigos, alguns publicados há alguns anos, realiza sua coerên­
cia ou sua coesão, em plano teórico e epistemológico, a partir da
A presen taçã o 9

Introdução. Por certo que a autoridade dos autores não decorre


apenas do seu tirocínio de pesquisadores preocupados com formu­
lações teóricas, mas também da sua experiência com problemas
brasileiros. Anthony Leeds ocupa-se de Brasil a partir de um pro­
longado e repetido contato com nossa sociedade, da mesma ma­
neira que com o P eru e o Chile. Sua carreira acadêmica iniciou-se
mesmo com o trabalho de campo, de mais de um ano de duração,
que empreendeu na região cacaueira da Bahia em 1951-52, como
participante do Program a de Pesquisas Sociais do Estado da Bahia
— Columbia University, sob a direção do Prof. Charles Wagley.
Sua tese para o doutoramento em Antropologia teve como objeto-
os padrões de formação fundiária da agricultura do cacau e as
relações do sistema de fazendas com a sociedade regional e na­
cional sob as políticas do comércio internacional que comandaram
o desenvolvimento daquela lavoura. Depois daquela permanência,
várias vezes e por períodos longos voltou ao país em ^itividades
'de pesquisa e de participação acadêmica, trabalhando na compa-
jnhin e com a colaboração de cientistas sociais brasileiros. À marca^
'do seu espírito inquieto e penetrante é saliente nesta coletânea,
de estudos.

T h a l e s de A zev ed o
Introdução

A n t h o n y L eed s

Toda a minha vida profissional girou em torno de vários


problemas básicos — alguns originais, outros não. Tentei reuni-
los, ao longo dos anos, num único quadro teórico. 0 primeiro
deles, mas que talvez ainda persista, é o de dar substância aí) con­
ceito de classe — sobretudo num sentido marxista. Marx, ou M arx
e Engels juntos (referir-me-ei a ambos, daqui por diante, simples­
mente como “M arx” , para maior simplicidade), não inventou o
conceito, e nem mesmo algumas das interpretações básicas que fa­
zem parte de sua visão. 0 conceito já está estabelecido em seu
significado econômico e estrutural em Adam Smith ( 1 7 7 6 ) , num
exemplo altamente significativo — significativo porque Smith é,
no mesmo trabalho, também ancestral dos economistas clássicos,
formalistas, que M arx repetidamente atacou, embora seu próprio
pensamento econômico seja intimamente derivado daí e suas supo­
sições desempenhem um papel muito importante na estrutura das
explicações marxistas sobre a economia. Todavia, Marx elevou a
discussão de classe a uma tentativa sistemática de criar uma teoria
de classes e apresentar uma análise de classe substantiva derivada
dessa teoria. Em essência, estas análises constituem teorias espe­
ciais de sociedades pós-capitalistas particulares.
sO esforço, como o sabemos hoje, foi apenas em parte bem
sucedido. Deixou-nos muitos problemas não resolvidos que todo
teórico maior do século X X — Weber, Tauney, Lenjn, Luxem-
burg, Lukács, Millet, Bottomore, Mills, Dahrçndorf, Althiissgr,
Poulantzas, para mencionar apenas alguns — enfrentou. Por que
o esforço persistente para resolver estes problemas? A resposta não
12 A S o cio lo g ia do B r a s il U rb a n o

é imediatamente auto-evidente, de vez que deve ser dada pergun­


tando-se: “Não será possível que não sejam absolutamente pro­
blemas, mas simplesmente quebra-cabeças criados pela própria teo­
r ia ? ” A julgar pelas suas produções, os teóricos americanos, da
estratificação como Kingsley Davis e W . L. Warner, adotaram es­
sencialmente esta visão,
A resposta parece estar na sensação que os homens têm_ de
que as populações humanas parecem agir como se existissem enti­
dades supra-individuais como atores na sociedade. Vontades, cogni-
ções, açÕes e atores individuais são amplamente, se não universal­
mente, vistos como relativamente secundários ou mesmo insignifi­
cantes diante dessas entidades, para as quais existe uma vasta co­
leção de termos — “nós” e “ eles”, o Estado, as classes, os grupos,
estados, associações, órgãos, corporações, instituições. Asenjjxladês
como atores são sentidas operando segundo padrões estandardiza-
, dos e modos estruturais que chamamos “instituições” e, na ver­
dade, padrões supra-individuais podem realmente ser diretamente
percebidos, como em cerimônias e disposições de lugares. Além
disso, em nossas apreensões de como a vida e a experiência se con­
figuram, do conflito, da mudança, sentimos a centralidade dessas
entidades.
Enfatizo sentir para indicar que as bases epistemológicas de
todos esses conceitos e suas supostas referências ontológicas são am­
bíguos, não porque o sentir — nosso único caminho direto para o
conhecimento — seja ambíguo, mas porque a maioria de nossas
traduções científicas do sentir para proposições empiricamente com­
prováveis, articuladas por formas estandardizadas de lógica verbal,
necessitam tornar-se metodologicamente explícitas. Especificamen­
te , isso significa desenvover uma teoria da natureza das ordens
supra-individuais que especifique características únicas àquela or­
dem, per se — isto é, não redutíveis aos indivíduos (ver Samuel-
json, sobre a falácia reducionista, Koestler e Smythies, 1 9 6 9 )
— mas que também explique quais são os processos geradores e
mantenedores das ordens supra-individuais. Ela deve explicar co­
mo os indivíduos se articulam com a ordem. Mais ainda, tal teoria
deve tornar explícitas suas bases epistemológicas, especialmente as
regras ~5e correspondência que ligam o sentir original a seus con­
ceitos e construções subseqüentes, e estes últimos à refinada obser­
vação metodológica. Dito de outro modo, aceito como axiomática
a correção daquela apreensão quase que universalmente sentida
do mundo, mas aceitando-a, é necessário que eu, então, como cien­
tista, clarifique a metafísica. Devo descobrir seus aspectos pura­
mente especulativos ou filosóficos, recolocando-os com sólidas ba­
ses empíricas, com método e lógica apropriados. Aceito que os pro-
I n tr o d u ç ã o 13

blemas com os quais M arx lidou sejam realmente problemas, uma


vez que tanto nossa experiência ocidental como virtualmente toda
experiência humana parece apresentar um sentir comum da natu­
reza do mundo humano.
Marx. realizou um empreendimento estupendo ao clarificar o
que estava em questão na análise de classe, erradicando muita
metafísica especulativa na cíêncI£~sõcíaT que desenvolveu, e ela­
borando muitos aspectos de uma metodologia empiricamente ori­
entada, incluindo conceitos cujas regras de elaboração estão impli­
cadas em suas definições. Ele foi, apesar disso, apanhado — ■ como
não podia deixar de ser na sua época da evolução Ua história das
idéias — por certas dificuldades J^todológicas que ele, em parte,
não viu, e\ em parte, vendo, não pôde resolver.
Uma dessas é um dualismo desenfreado que se reflete em
sua egeolha de unia lógica — a forma hegeliana de dialética (im pli­
cando mesmo etimologicamente dualismo) — , uipn lógica, cujo
empréstimo de Hegcl não^foi compelido por nenhuma necessi3ãijê^
nem mesmo pelo caráter das ideologias existentes na época. Por
que Marx optou por uma lógica tão intimamente vinculada à me-
ta ísíc a ocidental, dualista e especificamente cristã? Como estu­
dante de filosofia durante seus anos de universidade, ele conheceu
bastante bem as alternativas. J*or que cie optou por uma meta-
lógica que, na verdade, ontologiza a lógica ao fazê-la isomorfa’ aos
processos sociais reais (com o em H egcl), como exemplificado na
espúria identificação da “contradição” (um a concepção lógica co­
mo seu locus na linguagem) e “conflito” (u m conjunto de rela­
ções humanas) que atormenta todo o pensamento neom arxista?_0
que é visto coWQ_lo%icamciite contraditório, segundo algum axioma
subjacente à lógica, poãe ou não envolver_ conflito, e o conflito
pode ou não envolver contradição, a menos que sc parta do aprio•,
nsmo_ de que eles são identidades. Esta decisão foi puramente
axiomática, de forma alguma justificada por critérios independen­
tes. Marx era obviamente conhecedor de muito do que estava en­
volvido metaficamente em Hegcl, tornou-o manifesto em suas
atitudes relativas a, e na “inversão” daquele grande filósofo-histo-
riador, mas o compromisso subjacente mais profundo com o dua­
lismo parece ter-lhe escapado — e a tantos de seus descendentes
intelectuais.
Esta não é uma questão trivial, já que não é absolutamente
auto-evidente que as coisas ocorram no universo aos pares, menos
ainda em pares cm oposição ou “contradição” (com uma síntese
trinitária como resultado). A noção de “ contradição” e, mesmo
pior, sua identificação com o conflito é, à luz da metafísica, pro-_.
14 A S o cio lo g ia d o B r a s il U rb a n o

fundamente dualista. Estou totalmente convencido de que__gode-


jniQS quase sempre demonstrar que as dualidades, especialmente
as oposiçÕes, às quais áemos tão freqüentemente status ontológico,
isão um produto de nossos axiomas, categorias e lógica, quando §e
vai diretamente ao encontro da experiência. Além disso, o compro­
misso de M arx com a dualidade infundada permeia seus escritos:
qualquer leitura intensiva, por exemplo de O Capital, mostra dua­
lidades desnecessárias injustificadas virtualmente em cada pá­
gina.
Onde isso criou o maiorjnúmero de problemas para a ciênçia
fcociaI~Ioi na análise de classes, pois os critérios de classe na teoria
geral dé- classes-' ^ " criadores versus apropriadores de mais valia
o a organização interna de cada um desses agregados assim dife­
rençados — leva necessariamente a uma análise de duas classes.
Pode-se interpretar muitos dos recentes escritos neomarxistas como
- íima tentativa para resolver esse dilema quando confrontado com
ordens sociais que “resistem” (isto é, “entram em contradição
com a teoria” ), sendo intelectualmente encaixadas num molde
dual de classes (v er a tentativa fracassada de Millet, 19)* Muitos
. de meus trabalhos tTataram deste problema (especialmente 1964a
Cap. 2, neste livro; 1 9 6 7 , 1 9 7 3 ).
Um problema relacionado a isso é que a lógica dualista, dia­
lética fez com que se tratasse a presença da classe como axiomá­
tica ao invés de exigir, pelas próprias regras de correspondência
originais de Marx, a demonstração. Este apriorismo, que infesta
virtualmente toda análise social corrente na tradição marxista e
neomarxista, em vez de redefinir e reordenar a análise de classes
clarificando problemas epistêmicos e metodológicos, obscureceu a
análise tanto da estrutura quanto da dinâmica p o rq u e^ axioma j
jtende à análise dos mecanismos criadores de limites e dos processos]
ide automanutenção, bem como respostas conflituosas a ambos por
outras classes (ver Leeds, 1 9 6 4 b ). Sem nos desfazermos disso, não
poderemos entender processos “reais”, materiais, a interação polí­
tica e social real, a motivação real individual e de grupo, as varia­
ções de ideologia reais, menos ainda as mudanças em qualquer
uma dessas coisas ao longo do tempo.
Meu próprio trabalho envolveu de modo crescente a tentativa
explícita de desenvolver, no interior de um quadro de referência do
materialismo histórico marxista e da lógica das multiplicidades de
“forças sociais” (o termo é de Durlcheim, com seu modelo implícito,
indesejável, newtoniano de interação física, mas servirá de momen­
to ), abordagens substantivas e teóricas inais refinadas_e detalhadas
I n tr o d u ç ã o 15

desses problemas. Como indico abaixo, alguns dos trabalhos neste


volume fornecem exemplos desses contínuos esforços.
Herdamos outra, dificuldade^ de M arx: sua idenjjficação de
bases materiais da sociedade especificamente e apenas na produ­
ção, e, ainda mais, com uma concepção relativamente, estreita, da
produção e do produtivo — ambos virtualmente isomorfos àquelas
concepções em que aparecem tanto na economia clássica como na
neoclássica. Esta é uma identificação axiomaticamente dada, e não
empírica. Pode-se questionar por que M arx a adotou. Onde esta difi­
culdade aparece mais fortemente — pela primeira vez nos próprios
escritos de M arx — é na aplicação da teoria marxista geral a casos
específicos de análise da estrutura de poder. É muito difícil ajus­
tar a teoria geral de poder (amplamente baseada na análise teó­
rica genérica e necessariamente de duas classes de qualquer socie­
dade com propriedade privada) a uma teoria específica da distri­
buição de poder numa dada sociedade, num momento e lugar da­
tis, ou seja, a um conjunto concreto de condições históricas, como
diria Marx — por exemplo, a França do 18 Brumário de Luís Bo-
naparte. Apesar do alerta de Marx nos Grundrisse (c a . 1 8 5 7 ) con­
tra abstrações reifiçadas (c f pp 1 8 ) , e de sua intimação de que
baseássemos toda análise em realidades concretas, a teoria geral
está cheia de abstrações cuja aplicação na análise de caso jé, na
melhor das hipóteses, ambiguamente consistente e, na pior, marca-
damente inconsistente, com o uso na teoria geral, por exemplo, do
conceito de “ modo de produção” . Por vezes ele parece caracterizar
toda uma sociedade. No 18 Brumário, ele caracteriza as bases de
várias “classes” e “frações de classes” (nao é nem mesmo claro se
havia classes com a amplitude da sociedade cuja apropriação dife­
rencial de mais-valia pareceria necessariamente im plicar) — às
vezes parecendo mais grupos de interesse de base ecológica. Essa-
ambigüidade permeia toda a análise marxista subseqüente e ê par-;
ticularmente visível no recente ressurgimento de abordagens m ar­
xistas, onde, em instâncias extremas, qualquer variação na organi-;
zação da produção torna-se ipso facto “um modo de produção” (c f .
Paul Singer, 1 9 7 6 ). Isso me paree<a uma forma de reduçionismoje*
um fracasso em ver ordens mais amplas, mais inclusivas, e mais
constrangedoras, para não mencionar a dinâmica interna de uma
tal ordem. Por exemplo, a^agricultura de subsistência, um suposto'
“modo de produção”, não existe no Brasil como um modo de pro-
jdução separado, mais do que a agricultura marginal dos Àpala-í
ches existe como um modo de produção separado nos Estados Unii
dos, mas_antes como um sistema de produção gerado pelo próprio (
modo de produção capitalista, sob condições ecológicas especificá-
16 A S o c i o lo g ia d o B r a s i l U r b a n o

veis. A agricultura de subsistência é um aspecto da produção, ca-


capitalista quando ocorre no sistema dc economia capitalista,
c não numa economia tribal. Não apenas é uma forma de
margínalização relacionada a mecanismos de lucro capitalista, como
;.c também um pjeçanipmo para criar reservas dc trabalho mais ou
jiqcüos aütoViíicícntcs fofa dos \pentros * políticos efetivos, 'aa ci
1dades,.
'Voltemos ao problema do poder. A maior parte da ciência so­
cial, inclusive a marxista, não comprometida com um marxismo
ideológico estreito ou vulgar ( uíc h danke der lieber H err Gott
dass ich kein Marxism bin9\ disse M arx), reconheceu que há outros
recursos de poder além_daquele^ que residem na produção, ou seja,
outras fontes que podem ser usadas no controle de outros atores
contra a sua vontade. Qualquer, forma de organização pode scr
usada como recurso de poder" mésmo_ ria ausência de controle sobre
òu de acesso aos meios de produção; controle sobre ou acesso à
(informação, controle sobre pontos-chavc de tomada de decisão num
sistema social, mobilização de massa com ou sem organização for-
maí^”êtc.”sãó todo« fontes de poder (ver Cap. I I ) . Marx está cons­
ciente disso — como é óbvio em suas análises de casos e, implicita­
mente, em suas teorias relativas à revolução proletária que deve
ocorrer em virtude da organização, em grande parte ou totalmente
,>na ausência de controle sobre, ou de accsso aos meios de produção.
,5Mas ps axiomas dc sua teoria dialética de classe, com seu modelo
substantivo de classes dual e sua lógica teórica de dois valoras,
além da suposição de sua isomorfia, não lhe permite lidar com
esta consciência sistemática e teoricamente. Ela permanece, na
maior parte da teoria marxista, como um produto bastante epife­
nomenal, derivativo e não uma causa: a metafísica da “ estrutura”
e “superestrutura” (outra expressão do dualismo subjacente),
t* Ao longo dos anos, tentei romper esse impasse para desen­
volver uma análise mais ampla do poder, “ suas” (observe-sc a rei-
.ficação padrão!) fontes tal como se distribuem na sociedade, e a
^dinâmica da mudança inerente a tais distribuições. Minha primei*
; ra. formulação desta abordagem está no Cap- II. Desde então, eu
fa refinei e clarifiquei consideravelmente, mã^Tiíaô numa forma sis­
temática publicada. (V er, todavia, Caps. IV , V I e VII* reunidos).
Todo o restojdos ensaios (exceto o Cap. I I I , que o precedeu e do
qual é, em parte, uma formalização) se desenvolveu a partir dele.
»[Deve-se observar que jã o logo alguém especifica ou tras_ fontes de
,fpqder_é possível escapar do beco sem saída da análise dc classes
ildual e produzir uma análise multiclasse, semelhante'ao 18 Bru­
mário, que faz exatamente isso. Poderia ser argumentado que o
I n tr o d u ç ã o 17

Cap. II é uma afirmação clara (la teoria geral para a qual o


Brumário fornece uma história^de caso, na qual os meios de pro­
dução e a mais-valia sâo apenas dois dos vários recursos de poder.
Compatível com uma abordagem materialista é o subcampo
de investigação biosocial conhecido como ecologia humana. Esta e
uma área na qual fiz muitas pesquisas (v er Leeds, 1961, 1964c,
Í965a, 1965b , 1 9 7 lM s) e que parece rqfegrado com uma descri­
ção elaborada da organização social e ideologia da produção de
cacau na Bahia e outras monoculturas do Brasil através de "seus
450 anos de história em minha dissertação (Leeds, 1 9 5 7 ). Embora
nenhum dos trabalhos aqui incluídos seja sistematicamente ecoló­
gico na abordagem» a abordagem ecológica está subjacente a mui-
itos jdeles (especialmente Caps. I I e IV ) no embasamento de suas
çmálises sociais em condições materiais^ de localização, topográfi?
cas, físicas e climáticas. Deve-se notar que grande parte da teoria
ecológica contemporânea vê um feedback causal direto a partir dos
objetivos, alvos, necessidades e desejos definidos, mesmo da estética
— em suma, da ideologia — das condições materiais que, por sua
vez, têm efeitos causais sobre as condições de vida, e conse?
qiientemente sobre a ideologia.
Numa forma mais abstrata e formal, a compreensão desse tipo
de causas múltiplas em interação é incluída numa abordagem cha­
mada Teoria Geral de Sistemas, que se desenvolveu nos últimos
30-40 anos, a partir de problemas complexos na biologia, engenha­
ria, meteorologia, neurologia, e outros domínios. Sem entrar em
detalhes, a Teoria Geral de Sistemas geralmente evita lógicas
duais, causalidade linear, epistemologias unitárias impostas sobre
experiências fenomenalmente variadas, categorias fixadas ou reifi-
cadas tratadas como entidades ontológicas, enquanto que o grau
de variação e conexão desempenha um papel muito maior em abor­
dagens sistêmicas do que na maior parte dos outros paradigmas
da ciência social. Surpreendentemente — ou talvez nem tanto —
isto é em geral totalmente compatível com a aplicação que Marx
faz de sua própria teoria a analise" de casos; a Jógica de dois valo­
res desaparece em grande medida, a causalidade emana de muitos
loci diferentes no sistema sócio-cultural, incluindo a ideologia, e
desenvolve-se em diferentes direções; a ideologia torna-se uma cau­
sa ativa, não um derivativo T e la tiv a m e n te passivo; as pessoas
reais pensando são também ativamente causais; as categorias são,
numa medida considerável, convenções ou conveniências mera­
mente lingüísticas.
Como se sabe, muito do que apareceu sob a rubrica de Teoria
Geral de Sistemas foi meramente programático (exceto em suas
18 A S o c io lo g ia d o B r a s il U rb a n o

subformas da teoria cibernética e da informação). Além disso, ten­


deu a ser amplamente atemporal e a-histórico. A não-historicidade
não apenas não é intrínseca, como, num certo sentido, é contrária'
'aos preceitos mesmos da Teoria Geral de Sistemas. Uma vez que*
ala concebe os sistemas compostos de variáveisl revelando diferen-
les^cstadoH em diferentes épocas e ocasionalmente, soli condições es­
pecificáveis, mudando para novas gamas de estados (um a “mudan­
ça de quantidade para qualidade” ) , a seqüência temporal — ou
a história ^éjnerente e _ e s s e n c ia l_ à a jmálises sistêmiçaç, especial­
mente nas chamadas situações 3é feedback positivo ou de “ampli­
ficação do sistema” . Muitos dos trabalhos publicados neste volume
são informados por uma abordagem sistêmica geral materialista
histórica (especialmente os Capítulos II, V e V II, ver também
Leeds, 1965b, 19 6 3 , 197 3 , 1974b, 1975, 1971m a, 1975m s). A
Teoria Geral dc Sistemas também fornece alguns paradigmas ex­
tremamente úteis para a análise de sistemas em hierarquias que
utilizamos em particular nos Capítulos II, VI e V II, bem como
em alguns trabalhos não reproduzidos aqui (ver Leeds, 1 9 6 9 , 1 9 7 5 ,
1976a, 1976b, e 197lM s, 1975m s). Os textos marxistas não são
tão claros sobre os diferentes níveis do sistema em hierarquias até
o início do último terço deste século, especialmente com o apare­
cimento de André Gunder Frank (por exemplo, 1 9 6 7 ). Seu pen­
samento foi fundamental para toda uma geração de teóricos, in­
cluindo a mim mesmo, e foi precursor no desenvolvimento da
Teoria da Dependência que usei algumas vezes (por exemplo,
196 9 , 1975, 1971 M s-a), embora não mais do que implicitamente
nos trabalhos aqui apresentados.
Em suma, todos os trabalhos deste volume, embora, quase sem
exceção, sobre alguma questão substantiva tratàda em termos de ma-
tçriais etnográfico-sociológicos específicos do trabalho de campo
conjunto feito por Elizabeth Leeds e por mim num total de 6 anos
no Brasil (ou meu próprio trabalho de campo anterior de um
ano e m eio), são também trabalhos teórioos tentando clarificar re­
sultados epistemológicos e metodológicos na análise de classe e ten­
tando estabelecer modalidades específicas ev genéricas da formação
e manutenção dos limites de classe. Eles tentam encarar o conflito
num quadro de referencia mais amplo do que meramente o do
r.oonflito de classes, que é apenas uma categoria do conflito social.
Eles tentam desenvolver uma teoria de recursos de poder c conse­
quente comportamento político — uma teoria que, por um lado,
inclui o controle dos meios dc produção e mais-valia num conjunto
mais amplo de recursos e, por outro, inclui a teoria das restrições
(v er Leeds, 1970 M s) de qualquer ator sobre qualquer outro ator.
I n tr o d u ç ã o 19
Finalmente, eles tentam desenvolver uma teoria que permite que
se lide com toda uma gama de atores, de indivíduos a entidades
internacionais, num único quadro de referencia. Estas várias preo­
cupações teóricas se foram gradualmente fundindo num sistema
teórico mais e mais intimamente articulado, talvez mais bem exem­
plificado, neste livro, pelo trabalho final. Em geral, os trabalhos
tentam dar sólidas definições de conceitos-chave, definições que
contêm suas regras de correspondência; eles quase sempre indicam
onde a quantificação — como um procedimento epistêmico — é
desejável ou mesmo está disponível, muito embora quantidades de­
talhadas não sejam dadas freqüentemente. As situações descritas
situam-se em “contextos” históricos que não são cenários passados
reificados, mas processos estruturados contínuos cujo corte trans­
versal corrente é o presente observado. As análises estão comprome­
tidas tanto com uma compreensão materialista do universo como
com uma compreensão dialética nao dualista do mundo material
na história.
O Capítulo II rejeita o isolamento conceituai ou substantivo da
“ comunidade11, vendo em vez disso recursos de poder possuídos
por uma variedade de nós organizacionais sociais, alguns localiza­
dos, outros não. A natureza diferencial dos próprios recursos é tal
que nao podem todos ser possuídos por qualquer nó — qUâlquer
tipo de ordenação de pessoas — , mas devem ser diferencialmente
distribuídos através da sociedade. Logicamente, segue-se que_ ne­
nhum deles é desprovido de poder, mas, uma vez que os recursos
são materiais e, em princípio, quantificáveis, pode ser mostrado que
jbs quantidades^ de recursos que dão poder_a qualquer ator social,
podem variar muito. A acumulação e manutenção de recursos de
poder tornam-se fatos centrais da sociedade e de sua expressão po­
lítica. Os recursos de poder já distribuídos nas mãos dos atores so­
ciais formam um sistema de restrições sobre quaisquer atores, es­
pecialmente aqueles com pequena ou pouca quantidade de recursos,
que tentam mudar a sua distribuição. Metodologicamente, o argu­
mento do trabalho torna necessário específ ícar^todos os recursos
poder de uma dada sociedade ou do subsegmento de uma socie-j
cfade e mapear todos os atores que formam nós detentores de po3er«;
Este trabalho argumenta que os recursos centrados nas localidades
tendem a estar associados aos atores que se encontram em conflito
com atores cujos recursos não são localizados, e as localidades, em
virtude de suas inserções ecológicas, fornecem certos recursos de
poder nao disponíveis aos detentores de poder supralocal ( e vice-
versa). O Capítulo II (escrito cm 1 9 6 4 ) é a exposição geral do
modelo de organização descrito no Capítulo III (escrito cm 1 9 6 2 )
e torna-se o trabalho teórico básico para todos os outros. O último,
20 A S o c io lo g ia do B r a s il U rb a n o

na verdade, trata dos vários atores, seus recursos, suas jogadas po­
líticas para obtenção de maiores recursos ou para restringirem uns
nos outros o acesso aos recursos. A utilidade do modelo é vista nos
últimos trabalhos.
O Capítulo III faz muitas coisas: articula nós sociais (ver
Leeds 1 9 6 7 ), que vão de indivíduos a sistemas de classes num
único quadro de análise; estabelece como os limites de classe são
gerados e mantidos numa dada sociedade e uma categoria de socie­
dades e como as próprias classes são constituídas de unidades so­
ciais menores; argumenta que os traços característicos encontrados
no Brasil são genéricos de um tipo de sociedade que representa
uma fase na evolução social geral —- posição que não mais sustento.
O aparato central de tomada de decisão e de organização do
sistema de classe e seus constituintes localizn-se nas cidades — o
locus concentrado da maioria dos recursos de poder. Assim, o tra­
balho é também um estudo da natureza da sociedade urbana (ver
Leeds, 1 9 6 7 a ), Algumas considerações do Capítulo ÍII — parti­
cularmente o caráter das panelinhas- e suas. funções.— junto com as
considerações do Capítulo II, levaram ao extenso trabalho de campo
sobre populações proletárias, especialmente aqueles segmentos lo­
calizados nas favelas, com os quais o restante dos trabalhos se preo­
cupa.
0 Capítulo IV é talvez o mais etnográfico dos trabalhos, mas
levanta ainda alguns problemas teóricos colocando em questão in­
terpretações, modelos e teorias, especialmente a rejeição do concei­
to e da existência de uma “cultura da pobreza” (m ais forte e siste­
maticamente rejeitada em Leeds, 1 9 7 1 ); sua rejeição da conçep-
íção de “ imaturidade”, “passividade” , “ fatalismo”, “continuidade
tdos valores rurais” e coisas semelhantes que, como se argumenta,
jsSo interpretações amplamente etnocêntricas dos cientistas sociais
(de classe média urbana (especialmente norte-americanos) que nun-
ca participaram das estratégias e tomadas de decisão reais dos pro­
letários nem avaliaram suas bases reais de julgamento nas situa­
ções políticas e outras (v er E , Leeds, 1 9 7 2 ).
Capítulo V generaliza os achados do Capítulo IV relativos
às favelas c moradores das favelas para o proletariado urbano em
geral, mostrando como um processo de organização e ideologia de
fiasse é" formado em função das estratégias de vida e decisões to-
;mndas aob^os conjuntos de restrições estabelecidos contra eles pela
j“ classe superior” . Esta última também é discutida, remetendo ao
Capítulo II I em termos tanto de sua organização como de seu fra-
cionamcnto competitivo interno. As conseqüências em termos de
comportamento político para ambas as classes — em suas tentativas
I n tr o d u ç ã o 21

de ganhar aliadQs em_§uasJutas^fracionadas para, acumular recursos


— são apresentadas. 0 processo de formação de classe, conflilo c
coalisão através das classes esta intimamente vinculado às bases eco­
lógicas da vida urbana.
O Capítulo VI^apresenta um contínuo processo de tentar man­
ter e controlar recursos por parte da “classe superior” nacional urba­
na através de leis, associações, coalisões, e assim por diante •— o
oposto dialético, se quiserem, dos Capítulos IV e V II. É também um
trabalho etnográfico, complementando o Capítulo IV , que mapeia os
recursos, atores e ações dos detentores de poder supralocais. A afir­
mação teórica principal talvez seja a de que fovmas manifestas de
controle 'e suas bases de recursos podem variar amplamente, em­
bora visando o mesmo objetivo — não-oculto, “ profundo”, ou mis­
terioso, mas bastante consciente entre os detentores dc poder, mes­
mo se não expresso publicamente a maior parte do tempo.
0 Capítulo V II tenta fazer algumas coisas. Em primeiro lu­
gar discute alguns temas metodológicos das Ciências Sociais cm
termos de suas bases filosóficas, rejeitando muitos dos paradigmas
hoje correntes. Em segundo lugar, rejeita especificamente algumas
(das posturas adotadas na literatura sobre o comportamento político
jda “ classe trabalhadora” ou das “massas” . Em terceiro lugar, ^apre-1
senta plenamente, pela primeira vez neste livro, o paradigma e a uti­
lidade da abordagem geral de Sistema, Finalmente, explica o com­
portamento político em bases estruturais, cm vez de atribuir tal
comportamento a características imanentes ou a categorias residuais,
em si não explicadas, tais como “cultura”. É dada mais força à ex­
plicação estrutural em virtude da comparação relativamente con­
trolada dc três sistemas políticos independentes, a qual fortifica a
interpretação em qualquer um dos casos. Desenvolve mais além
as concepções de restrições estratégicas e detenção de recursos, da
oposição entre formas de poder da localidade e formas supralocais.
De um modo significativo, é uma sínteso de todos os trabalhos an­
teriores.
Esta massa de trabalhos não é merameute uma obra minha e de
Elizabeth, mas um trabalho em conjunto com inúmeras outras pes­
soas que contribuíram com idéias, críticas e apoio. É impossível
listá-las todas e o que nos deram de diferentes formas, mas gosta­
ríamos, ao menos, sem negligenciar alguém não nomeado, de citar
os seguintes: Richard N. Adams, Joseplmaa Albano, Thales de Aze­
vedo, Maria de Azevedo Brandão, Carolina Martuscelli Bori, Ra mi­
ro Cnrdona, Theo Crevenna, Vitória Cruz, Antônio Carlos dos San­
tos, Carlos Nelson Ferreira dos Santos, Manuel Diegues J r ., Jaime
Cianella, William Glade, Benedito Guilherme, Peter Nakim, John
22 A S o cio lo g ia do B r a s il U rb a n o

P , Harrison, Bertram Hutchinson, Helan Jaworski, Juarez R u-


bens Brandão Lopes, Luís Antônio Machado da Silva, Wjlliam
Mangin, Hélio Modesto (e sua fam ília), David Morocco, Angel Pa-
lerm, Roberto Pinead, Márcia Koth de Pareder, Maria e Orestes
Pinto Paiva, Davi Queiroz, José Artbur Rios, Diego Robles, Alfre­
do Rodriguez. (o fálecjdo Flávío Romano, qrle morreu demasiado jo-
jvem e cuja grande habilidade nunca foi utilizada devido a estrutíi-
Êja de classes no Brasil, Cecília Rupert, Lawrence Salmen, Ina Du­
tra Savage, Kay Sutherland (então Toness), Odin Toness, Anísio
Teixeira, John F.C . Turner, Gilberto Velho, Yvonne Maggie Alves
Velho, e Sylvia Wanderley (hoje Caserio de Almeida). Outros que
deveriam ser citados nao o serão por várias razoes. Além disso, há
muitos milhares de brasileiros e de peruanos que chegamos a co­
nhecer, às vezes transitoriamente, às vezes em algumas de nossas
mais intensas relações, que enriqueceram nossas vidas de modo per­
manente. Agradecemos também às várias fontes de fundos para
nossos estudos, entre outras o Instituto Nacional de Estudos Peda­
gógicos, A Fundação Ford, a Comissão Fulbright, a Organização
dos Estados Americanos (Departamento de Negócios Sociais) e
a Fundação Wenner-Gren. Esperamos que o produto tenha valido
a vasta quantia que foi despendida no trabalho. Finalmente, agra­
decimentos especiais a Gilberto Velho, que me convenceu a organi­
zar este livro — um abraço para um velho amigo e colega.
Embora a maior parte deste livro seja oriunda de trabalho de
<campo conjunto, redação conjunta e reflexão conjunta meus e de
Elizabeth Leeds, escrevi a introdução à coleção porque os temas teó­
ricos centrais que a permeiam são mais primordialmente preocupa­
ções minhas, pois venho trabalhando neles há já aproximadamente
15 anos, antes daquele dia feliz em que nos encontramos no Rio,
onde nosso trabalho comum começou, e porque o trabalho teórico
chave, o Capítulo II, que é subjacente a todo o resto, foi formulado
por mim. Novas compreensões, novos problemas subordinados, e
uma riqueza extraordinária de dados etnográficos — de fluxo de
vida e de vivência sentida, percebida, experimentada e gozada no
Brasil — proveio deste caro trabalho conjunto que criou vários mun­
dos de significado para nós ambos e um renascimento pessoal para
mim, que vai além dos pálidos agradecimentos em palavras.

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li

Poder Local em Relação com Instituições


de Poder Supralocal

A n t e ô n y L eed s

In tro d u çã o

Este trabalho é um esforço para desenvolver alguns conceitos


e um modelo para tratar de: ( a ) as instituições do estado territo­
rial, ( b ) a unidade social — a comunidade, e ( c ) a unidade geo-

* Publicado originalmente em XJrban A nthropology, org. por Aidan Sou-


thall e E. Bruner — Aloine, Chicago.
1 Este trabalho permanece essencialmente como foi escrito em 1964,
embora com a ampliação de considerações teóricas, clarificação e precisão
de definições, etc. O texto, elaborado dedutivamente como um modelo,
tentou ser de nível teórico e uma espécie de trabalho de posição, par­
tindo do trabalho teórico acerca da natureza de cidades, que eu vinha
fazendo há alguns anos. Preocupa-se também, embora isto não tenha sido
enfatizado, com problemas espitemológicos, particularmente o status de
nossas unidades de estudo. Não pretendeu ser um trabalho de dados ou
monografia abieviada. O material da favela serve apenas como exemplo;
não contém portanto» exatamente dados de campo em absoluto, tendo se
baseado em três visitas muito breves a favelas, combinadas com alguma
leitura. O trabalho de campo subseqüente, de cerca de 20 meses, não
apenas confirmou o que eu dedutivamente supunha a partir de recortes
de dados, como indicou que o argumento fora pouco enfatizado. Dados
do trabalho de campo começam a aparecer como está indicado na biblio­
grafia, mas não são apropriados, no todo, aos objetivos deste trabalho.
É minha a responsabilidade de manter a forma originaJ, apesar das crí­
ticas no seminário e das muitas sugestões para a construção da teoria a
partir dos dados. Este procedimento indutivo foi deliberadamente evitado
porque eu achei — e acho — que ele tende sistematicamente a bloquear
uma visão teórica frutífera.
P o d er L o c a l e P o d er S u pr a l o c a l 27

.gráfica — a localidade, num único quadro de referência e como


uma totalidade única, sistêmica.
Em seus inícios, a Antropologia tratou quase que exclusiva­
mente de entidades sócio-culturais vagamente chamadas de “ tri­
bos” . Estas eram unidades “ naturais”, no sentido de que geralmen­
te possuíam uma língua ou dialeto diversos; compreendiam sistemas
ou subsistemas sócio-econômicos; tinham uma série de costumes
característicos; e, finalmente, reconheciam-se a si mesmas e eram
reconhecidas como distintas pelo uso de algum nome. Tais tribos
eram marcadamente constituídas por grupos de localidade autôno­
mos (bandos, aldeias, e tc .), paralelos quanto à ecologia, instituições,
conteúdo cultural, etc. O paralelismo permitia o estudo intensivo
de um como uma amostra representativa de... todos__os que perten:
ciam à_ mesma tribo (o u assim se pensava) porque eles eram su­
postamente comunidades completas.? A partir de amostras deste tipo
era possível, ou assim geralmente se pensava, descrever uma “ cul­
tura total” ou sociedade total.
Os antropólogos transferiram este “ método” para o estudo de
sociedades complexas quando foram levados a estudá-las pelas exi­
gências da ciência e dos tempos. EIes_continuaram a estudar loca­
lidades que eram tomadas como comunidades e que eram pensad""
como amostras representativas 3a cultura ou sociedade total3 p
exemplo, Dollárd, 1 9 3 7 ; Embree, 1939; Lynd e Lynd, 1 9 2 9 ; Obe:
T.960;,íPíerson» 1949?; Powdermaker, 1 9 3 9 ; (Wagley, 1953;; Wari
e Lunt, 1 9 4 1 ; W est, 1 9 4 5 ; íWillems, 1 9 4 7 í e muitos outros).
Quando começou a ficar claro que tais “unidades” de esti
em sociedades complexas nsio são análogas às unidades tribais
cais e não fornecem um quadro da totalidade^'os antropólogos

2 Os dados sobre os índios Yaruro, coletados por Falia (comunic


pessoa]), Le Besnerais (1954), Leeds (1964), Petrulle (1939) e R
(comunicação pessoal), demonstram claramente o que pareceram se
riações micro-ecológícas de algum significado de aldeia para aldeia
vés de vários declives geográficos da área; além disso, os Yaruro xm
relações com outros grupos lingüísticos ou "tribos**, cada um dos quais
tem relações ecológicas especializadas deatro do sistema ecológico maior
dos Uanos onde todos estão. Este gênero de_ dados, do qual pode-se encon­
trar paralelos em algum outro_ liigar do mundo, sugere que a represen-
tatividade de comunidades únicas na sociedade “primitiva” c os procedi­
mentos de amostragem utilizados para controlar o tipo de variação aqui
mencionado deveriam ter sido qnestionados já há muito.
3 Para o conceito de “cultura total”, ver Kroeber, 1948: 316,-318, e
também Leeds, no prelo, “Conclusões”,
í.4 ) Cf. Steward, 1950; Steward, org,, 1956; e a séríe_ de_estydos realizados
' pelo projeto da Universidade Columbia-Estado da Bahia em 1950-52,. cf,
\Harris, 1956; Hutchinson, 1957; Wagley, org., 1952. Em relação a isso,
;
A S o c io lo g ia do B rasil U rban o

meçaram a tentar tratar totalidades sócio-culturais com métodos que


falhavam em fornecer descrições da dinâmica funcional da mudan­
ça e da resistência à mudança.
Para tais problemas de dinâmica de mXdança, resistência, etc.
as velhas concepções, modelos e métodos eram inadequados porque
feles na verdade, não lidavam de forma alguma com a “unidade” ,
sócio-cultural da sociedade complexa como tal, ou seja, com a uni­
dade mais ou menos claramente delimitável denominada estado ter­
ritorial ou país, o análogo apropriado à localidade-comunidade tri­
bal.
Assim, nem^os. antropólogos nem ninguém apresentou mode­
los de uma entidade — por exemplo, os Estados Unidos — na qual
os estudos dèTcòmunidade fossem tomados como representantes so-
cietais ou reproduções microscópicas desta. Menos ainda apresen­
taram o que poderiam ser as relações entre as comunidades estu­
dadas. Por exemplo, que tipo de relações estruturais, dinâmicas,
pode-se dizer que existem entre Plainville, e Yankee City, ou Mid-
dletown, ou Elmtown, ou mesmo Hollywood? Onde está o locus
de tais relações? Elas devem ser estudadas nas localidades respecti­
vas? Elas são realmente exemplificadas nas relações internas das
pretensas “ comunidades” ? Se o são, como? As condições ecológicas
locais e os valores e opçoesculturais aiitoperpetuadores interiiossão.
os únicos parâmetros limitadores que governam a organização e as
características dessas “ comunidades”, ou os parâmetros limitadores/
|provêm de uma ordem mais abrangente, de fato, a ordem que in-
■! clui a localidade A — Plainville — e a localidade B ■ — Yankee j'
'.City — num único sistema? Se a úljima possjbijidade é verdadeira;'
como este trabalho supõe, então? nós, como antropólogos, não temos
jpraticamente qualquer instrumento metodológico para lidar com as!
/relações entre Plainville e Yankee City, porque não tratamos antro- !
] pologicamcnte a estrutura social empírica do estado e outras or­
d ens de grande escala nas nações complexas modernas. Este estudo
trata de certos aspectos das questões aqui levantadas.5

as observações que se seguem» de T . Lynn Smith (1947:587), são extra­


ordinárias: " . . . a comunidade rural brasileira não é imediatamente vi­
sualizada e definida... a aldeia não é de forma alguma idêntica à comu­
n id ad e.,. o camponês brasileiro poderia ter sido chamado de o ‘homem
sem uma comunidade ". Cf., também, Leeds, no prelo.
5 Tratei de outros aspectos em outros trabalhos. Meu trabalho de 1964
fornece um estudo de caso de como os elementos constitutivos da estru­
tura social articulam as localidades de níveis coordenados e hierárquicos
em sistemas nacionais e mesmo internacionais, e constroem nós sociais de
diferentes graus que atravessam todos os tipos de localidade. O de 1964 b
relata a ecologia local, acontecimentos políticos locais e acontecimentos
P o d er L o c a l e P o d er S u p k a l o c a l ^ 29
f
-•
; . •
,: I
A Comunidade ' .

Pela maioria das definições ou usos comuns,0 a comunidade,


especialmente como um objeto de estudo, é tomada como uma uni­
dade sócio-estrutural de algum tipo. Em geral, ela tem sido consi­
derada como uma forma de m icrocosm o de ujqaa espécie de macro­
cosmo chamado sociedade total, ou algo equivalente. Sendo assim,
os que se dedicam a estudos de comunidade supuseram que estes,
por si mesmos, informariam sobre a sociedade total.
Grandes falácias, estão envolvidas nessas suposições. Prim ei­
ramente, não é auto-evidente que o macrocosmo é estruturado como./;
o microcosmo. Na verdade, fossem os antropólogos menos ignoran-f
tes em outras ciências sociais, especialmente a ciência política, eco­
nomia e geografia, bem como a formidável economia política do
século X I X , seria imediatamente evidente, em bases empíricas, e
compulsivamente claro, em bases lógicas, que de forma alguma
poderia ser assim. Também, em bases axiomáticas gerais, haveria
toda razão para se supor o ^ontrário, ao menos para as sociedades
complexas, organizadas em estado.7 Pareceria mais provável axioma-
ticamente, que os estudos de localidade nos chamados estudos de
comunidade constituíssem entidades especializadas, diferenciadas
e diversamente inter-relacionadas de uma sociedade total possuido­
r a de mecanismos institucionalizados para uni-las. A partir de tal
;a.xioma, fica claro que a organização do microcosmo não pode ser
homólsga à do macrocosmo.
Daí se seguiria que o “estudo de comunidade” certamente não
j pode, em qualquer definição útil de comunidade, dar-nos uma des-
|crição do macrocosmo, e conseqüentemente que os limites aparen­
tes dos estudos de comunidade estavam sempre deslocados. Âqui

políticos nacionais num sistema interativo. O de 1967 b dá conta do qua­


dro teórico subjacente a ambos. Em Leeds, no prelo, a relação entre sis­
temas legais nacionais e estrutura social local é extensamente discutida.
6 Observe-se, por exemplo, a afirmação de Murdock (1949: 79) “ (A co
munidade) tem sido definida como o ‘grupo máximo de pessoas que nor­
malmente mora junto numa associação próxima3 ”. Firth (1951:27-28) diz
que “O termo comunidade enfatiza o componente tempo-espaço, o as­
pecto de se morar junto. Ele envolve um reconhecimento proveniente da
experiência e da observação de que devem existir condições mínimas de
consenso acerca de objetivos comuns, e inevitavelmente algumas manei­
ras comuns de se comportar, pensar e sentir. Sociedade, Cultura, Co­
munidade implicam-se m u tuam en te...” É interessante que Bredener e
Stephenson (1964) nem mesmo tratem da comunidade!
7 Mas também, acredito, para as sociedades tribais, exceto talvez os
mais simples tipos de bandos organizados cujas unidades locais são, em
sua maior parte, bastante autônomas.
30 A S o cio lo g ia do B ra sil U rban o

reside a segunda grande falácia do método de estudo de comunida-


de.
Seguir-se-ia, indo mais além, que, mesmo que tivéssemos estu­
dos de cada tipo de comunidade, de todo o inventário de tipos numa
sociedade total ou macrocosmo, ainda assim não teríamos tal des­
crição. Uma^amostragem de tipos de comunidade de uma nação,
como temos hoje para o Brasil,8 ainda não nos daria um quadro das
inter-relações destas localidades, ou seja, das estruturas macrocós-
micas e sua dinâmica. Tudo que^se pode derivar deles sao traços co­
muns. Estes podem, então," ser listados como um inventário total­
mente estático de traços caracterizando toda a unidade territorial do
macrocosmo. Tendo como base tal inventário, nenhuma predição
quanto a condições futuras tanto do macroscosmo como do micro­
cosmo pode ser feita. 0 inventário mostra-se tão estéril quanto a
maioria das listagens de traços^ análises dé áreas culturais tao co­
muns nos anos vinte e trinta deste século, como o mostrou o final
da década de 4 0 , quando desapareceram como interesse principal
da antropologia moderna.
i ' E m suma, o chamado método de estudo de comunidade, é to­
talmente inadequado ao estudo de sociedades organizadas em esta-?
do, nações, sociedades complexas, países ou como quer que se queií-
•ra chamá-los.
i Devemos, então, descobrir e analisar as formas diretas P indi­
retas das inter-relações entre as chamadas comunidades ou localida­
des. lilste campo não ê inteiramente virgem: a economia política,
a ciência política, a jurisprudência histórica e a economia têm tra­
tado de várias destas instituições por alguns séculos, embora os an­
tropólogos, particularmente devido à estrutura totalizante que tanto
caracteriza sua abordagem da ciência humana, geralmente não co­
nheçam adequadamente a literatura a esse respeito,
u!' Todavia., essas disciplinas, em sua maior parte, trataram ape­
nas da£ formas de inter-relação como_tal — com aquilo que aqui
designarei como “instituições supraloc^is” ■— e então apenas com
algumas escolhidas. E m sua maior parte, estas foram consideradas
sem levar em conta seus vínculos nas “comunidades” e localidades,
■e sem levar em conta, por sua vez, a influência destas últimas nas
instituições. Dito de outro modo, essas disciplinas trataram de um
número restrito de instituições que haviam sido selecionadas dentre
*■todas as instituições sociais e tratadas como se operassem de modo

8 Cf. Harris, 1956; Hutchinson, 1957; Leeds, no prelo; cÖberg, 1960;


Pjerson. 1949; Waglev, 1953; Wagley, org., 1952; 'Willems, 1947; Willems
é Mussolini, 1957>; etc., e de um ponto de vista histórico, Morse, 1951,
1958; Poppino, 1953; Stein, 1957.
P o der L o c a l e P o d er S u p r a l o c a l 31

totalmente independente das bases locais. Por exemplo, economistas,


tratam do imposto, mas eu não sei áe ocasião alguma em que a mo­
bilização da organização social local para lidar com problemas de
imposto, engendrados por uma dada política nacional de taxação,,
tenha sido explorada. Apresento o caso extremo, mas no essencial
a afirmação é verdadeira.
Desde que parece ser axiomático entre os antropólogos que eles
devem tratai' de sociedades totais ou sistemas inteiros, eles têm te ra­
tado e conseguiram realmente, descrições do macrocosmo.9 Mas não,
foram capazes de tratar adequadamente das instituições supra lo­
cais em si mesmas. Menos adequadamente ainda, se não de forma
totalmente inadequada, foraiãi eles capazes de tratar das inter-rela-
ções entre essas instituições e as comunidades ou localidades especí­
ficas com as quais elas se articulam. Existem poucas descrições de*
tais relações na literatura, com a possível exceção do material Si~
nológico (c f , também Lopes, 1964, 1 9 6 8 ), e praticamente nenhu­
ma proposição geral, hipóteses, ou modelos acerca da natureza de
tais inter-relaçÕes (c f , todavia, Adams, 1 9 6 7 ). A seguir, proponho
um modelo geral.

A Localidade

Para os objetivos presentes, prefiro o termo localidade a comu­


nidade, devido às confusões existentes cpm .relação a oste último,
usado para designar as etnografias de lugares específicos. Aceitan-
do-se a definição de Arensberg (l96T)""oü aquela bastante diferente
dada por Murdock ( 1 9 4 9 :7 9 ) fica claro, então, que, na maior par­
te, os chamados estudos de comunidade são na verdade, dubia-
mente, ou não são de forma alguma, estudos de comunidades, mas
sim de localidades. O status do locus de estudo nesse campo de pes­
quisas como unidade real da ordem social é mais ambíguo no
sentido da definição de Arensberg de comunidade. Seja como for*
ele define no máximo uma_unidade analítica, não_uma unidade que
se relaciona com outras num sistema total.
O termo “localidade”, todavia, refere-se, no contexto das dis­
tribuições geográficas humanas, aos loci de organização visivehnen-,
te distintos, caracterizados por_coisas tais como um agregado de pes^
spas mais ou menos permanente ou um agregado de casas, geral­
mente incluindo e cercadas por espaços relativamente vazios, em­
bora não necessariamente sem utilização. Conseqüentemente, o <jue-

9 Cf. Adams, et cã.s 1960; Benedict, 1946; Embree, 1945; Lowie, 1945;.
Mead, 1942, 1955; Steward, org., 1956; Wagley, 1949; e muitos outros..
52 Ä S o cio lo g ia do B rasil U rba n o

normalmente denominamos grande cidade, aldeia ou também um,


jjonto de mineração ou algo parecido são Jocalidades. Subáreas vi*
sualmente distintas de uma cidade, nitidamente delimitadas como
uma área invadida por posseiros,* o conjbnto de uma catedral e
seus anexos também se enquadram nesta definição, Não importa
quão simples seja o locus, isso ainda continua sendo verdadeiro.
Mesmo uma fazenda, provavelmente o mais simples de todos os
tipos de locus, é também uma localidade segundo a definição dada.
Pode ser demonstrado em bases teóricas que as localidades
constituem pontos nodais de interação (c f . Leeds, 1 9 6 8 ), os pontos
de maior densidade e mais ampla variedade de categorias de compor­
tamento na área, mas não possuem necessariamente um conjunto
exaustivo .de tais categorias de comportamento, como õ requer a
definição de comunidade de Arensberg. Esta observação aplica-se
não apenas a cidades e aldeias, mas mesmo ao conjunto de uma
catedral e seus anexos, e à fazenda acima mencionados. É um lu­
gar da maior densidade e mais ampla variedade de categorias de
comportamento humano, entre ele e a localidade seguinte. Transa­
ções e comportamentos econômicos, sociais, religiosos, etc. estao
todos lá concentrados.
As interações duradouras e cotidianas e as relações personaliza­
das de todos os tipos são predominante mas não exclusivamen­
te interações de localidade. Deve ser observado, todavia, que a de­
finição não sugere que todas as relações em localidades são desse
tipo, mas podem ser de tipo impessoal e secundário. Na verdade, ai
»definição tenta ser neutra a este respeito, para que a natureza das'
relações se torne mais uma questão empírica do que de definição:}
pode ocorrer, idealmente, que não exista qualquer relação persona­
lizada na localidade, apenas relações secundárias e impessoais sem
sentimento ou características comunitárias.
Assim, o uso do termo “localidade” não nos obriga a postular
uma unidade mínima ou máxima de organização como a “comu­
nidade1’ (c f . M aclver e Page, 1939, Gh. 12, pp* 2 8 1 -3 0 9 ) nem á
•discutir seu status ontológico. Precisamos apenas desenvolver insi
trumentos adequados e relevantes para lidar com sua descrição emt
pírica.
Ele não nos obriga a supor que a localidade em que vivemos e
em que, como antropólogos, pesquisamos seja também uma comu­

* No original, squatter settlem ents. Ao longo de todos os textos, optou*


se pela tradução de squatter settlem ents e squatments como, indistinta­
mente, “áreas invadidas por posseiros e áreas invadidas”, traduzindo-se
■o termo “squatters”, indistintamente, por “posseiros” ou “moradores, de
.áreas invadidas”. (N. da R .T .)
P o d er L o c a l e P oder S u p r a l o c a l 33

nidade. Geralmente ela não o é. 0 fato de as localidades estudadas


por antropólogos e sociólogos, geralmente não serem comunidades,
ou no máximo o serem apenas parcialmente, é, certamente outra
grande ambigüidade do chamado método de estudo de comunidade
ao Jratar d_a_ sociedade macrocósmica de que_são parte.

Características da Localidade

As localidades como pontos nodais de interação, como se ob­


servou acima, caracterizam-se, mesmo as mais simples, ppr uma
rede altamente complexa de diversos tipos de_ relações. Qs laços de
parentesco mais ativos — aqueles da família nuclear, e, freqüente­
mente, aqueles com parentes próximos — serão amplamente encon­
trados na localidade, especialmente nas pequenas. As amizades mais
próximas, numerosas e vivas (se não as mais profundas) tendem a
existir na localidade. A~maiõr parte da parentela ritual de alguém
tende a existir na localidade, onde pode ser mobilizada mais ou
menos instantaneamente. Os vizinhos, que podem ser chamados
para várias finalidades, existem por definição na localidade. A.
ambiência, tal como definida por Caplow ( 1 9 5 5 ) , é_em grande par­
te necessariamente um fenômeno de localidade. Uma pletora de
grupos informais tais como cliques, gangs7 grupos de trabalho e
outros semelhantes, bem como pequenas organizações cujos inte­
resses e amplitude de ação são necessariamente bastante limitados
(u m a banda de cidade ou uma escola de sam ba), são fenômenos
dê localidade.
Em contraste com o parentesco, o parentesco ritual, a amizade,
ambiência, vizinhança, grupo informal e relações personalizadas
próximas, dentro de pequenas associações, inúmeras relações face-a-
fase secundárias e impessoais podem também caracterizar localida­
des como pontos nodais de transação e interação (Leeds, 1967 b,
1 9 6 8 ). O vasto conjunto inclui serviços de massa (como os pres­
tados por trocadores de metrô e caixas de restaurante), ^serviços
temporários (com o os dos vendedores de uma liquidação de um
grande m àgazin), compra e venda no mercado impessoal, associa:
ção cm grupos secundários (tal como instituições corporativas como
nma universidade, ou, mais marcantemente, “ clubes” de livro e dis­
cos por corresuondência), apoio de instituições beneficentes, etc.
Tais relações, como aquelas apenas simplesmente listadas, não se
enquadram na definição de. comunidade de Murdock e não se rela­
cionam claramente à de Arensberg. Os moradores de uma localida­
de relacionam-se uns com os outros através de vínculos que se en­
quadram em muitas ou em todas estas categorias, e os têm grontos*
para enfrentar as contingências e exigências da vida diária. Os in­
34 A S o cio lo g ia do B r a sil U rba n o

divíduos movem-se por entre estes laços, mobilizando ora um ora


outro, conforme o exigem a ocasião e a utilidade. É da maior signi­
ficação que, para a maioria das ocasiões e finalidades, dois ou mais
tipos de relação possam muito bem ser úteis e mobilizáveis.
Por um lado, para ajudar em um momento de crise financeira,
os amigos, vizinhos, parentes e parentes rituais podem ser solicita­
dos. Para dar apoio em caso de morte súbita, os mesmos tipos de
pessoas podem ser solicitadas. Para resistir ao imposto ou outras
imposições externas, esses tipos,’* bem como grupos de trabalho ç,
cliques, talvez possam ser chamados à cena para servir como rede
distributiva indectável, retirando a riqueza das mãos do coletor dè
imposto. Todas essas formas de organização também podem facili-i
tar a preservação ativa de tradições e orientações culturais valoriza«
das contra interferências externas.
Por outro lado, as localidades, dependendo do tamanho, apre­
sentam laços institucionais e estruturais em maior ou menor número
que também podem ser usados para lidar com problemas tais como
uma crise financeira, morte siibita ou outros. Novamente, a ques­
tão é empírica, não devendo ser tratada por conjecturas que in­
cluem ou excluem de consideração esses laços.
Os mesmos tipos de relação podem ser acionados para lidar
com as exigências extraordinárias da vida, especialmente aquelas
qão provenientes da rotina diária, próprias das, ou impostas pelas,
características econômicas, políticas ou sociais maiores da localida­
de. As exigências mais típicas deste gênero sao externas, impos­
tas de . fora da localidade por organismos supralocais. O imposto,
acima mencionado, o recrutamento, o recenseamento, a coerção mi­
litar e outros podem ser mencionados e serão discutidos abaixo.
Dentre os tipos mais efetivos de relação para enfrentar tais exigên­
cias, estão aqueles informais e pessoais, facilitados pela proximida­
de na localidade.
Em suma, a organização social da localidade pode ser vista
como um sistema altamente flexível de adaptação humana. Sua ex­
trema flexibilidade e fluidez de organização, sua complexidade não-
mapeada e nao-especificada (ou , poder-se-ia dizer, não racionalizada
e não burocratizada) permite-lhe uma ampla gama de respostas
para uma variedade de acontecimentos, contextos e exigências qua­
se infinita. Sua flexibilidade permite a rápida mobilização de seus
recursos econômicos e sociais para diferentes fins e de formas di­
versas, muitas vezes sob a pressão mais extrema, de uma maneira
não alcançável por nenhum outro sistema de organização. Ela é li­
mitada apenas pela extensão dc total disponível de recursos de
terra, material, pessoal e finanças. Estes, certamente, variam mui­
P o d er L o c a l e P o d er S u pr a l o c a l 35

to em termos de tipo e quantidade em diferentes espécies de lo­


calidades, como9 por exemplo, entre uma cidade universitária e um
bairro proletário do Rio. 0 grau das limitações é, em si, um dos
importantes fatores que dão forma ao poder e às inter-relações ins­
titucionais da localidade e das instituições supralocais.
Nesta relação, é da maior importância observar que todas as
localidades são também, de alguma maneira, entidades ecológicas.
Isto é, são popuJagões relaciotiadas a alguma extensão de território,
possuindo alguns recursos, embora mínimos, inclusive o trabalbo
humano. Elas são diversamente ordenadas era áreas e atividades
especializadas; freqüentemente, estão, ao menos em parte, relacio­
nadas às diferenças territoriais e ao lugar de imposição de influên­
cias externas por exemplo, estações de gás nas entradas rodoviárias
da cidade, pontos de abastecimento de energia elétrica).
Além disso, uma vez que o sistema de organização é tão flexí­
vel, deveríamos esperar observar não apenas continuidades físicas
de longo alcance de tais localidades, mas também continuidades das
regras características dos vários tipos de laços, tanto internamente
como com relação às estruturas supralocais em mudança que inter­
ferem de fora. Assim, embora o governo ou mesmo o estado possa
mudar, a localidade coníínua. Aldeias do Nordeste, como observou
Braidwood, comunidades bolivianas ou outras comunidades corpo­
rativas, o m ir russo, a “ comunidade” aldeã indiana e muitas ou­
tras formas de localidade enquadram-se neste caso.
Duas outras características das localidades devem ser observa-
das. Prim eira: os indívíduos são identificados por sua residência
nelas e/ou_origem de alguma localidade — um edimburguês mo­
rando em Kensington, Londres, ou um recifense morando na favela
Tuiutí, no Rio de Janeiro. A identificação residencial não envolve
qualquer especificação quanto à pertinência a uma comunidade ou
grupo, embora esta possa realmente existir. Novamente a questão é
empírica e não de definição.
Segunda: a definição de localidade admite diferentes níveis,
um incluindo o outro como uma espécie deÇhierarqriia concêntrica"
— por exemplo, no Rio de Janeiro: Favela da Babilônia, dentro
da área chamada Lido, dentro da área chamada Copacabana, den­
tro da Administração Regional de Copacabana, dentro da área cha­
mada Zona Sul, dentro da cidade do Rio de Janeiro, dentro do
Grande Rio, etc. Cada um desses níveis. diz. respeito a um çpnjun-
to de instituições supralocais, o__que também se dá como uma hie­
rarquia concêntrica, ou vários níveis da primeira podem estar em
relação com vários níveis da última ao mesmo tempo.
A S o c i o l o g i a d o B k a s ll U r b a n o

A a m o r f i a , multiplicidade c qualidade caleidoscópica da orga­


nização das localidades, que engendram a flexibilidade que men­
cionei, são muito difíceis de serem compreendidas intelectualmente,
mesmo por especialistas. Pela^ mesma razão,^ impossível legislar a
s e u favor (o u contra) ou contfólá-las por um conjunto uniforme de
sanções. O único controle efetivo total sobre as localidades, que
afetaria todas as formas de organização, seria a coerção total, sobre­
tudo através da aplicação da força. Devido a essas condições, as
localidades são quase sempre caracterizadas por uma certa autono­
mia em relação aos organismos e instituições externas, por uma
certa habilidade em se relacionar com estes como corpos indepen­
dentes. Essa independência é mantida p:ilo “estofamento” for­
necido pelo complexo de relações sociais da localidade contra o im­
pacto dessas entidades supralocais. Nesta independência e em suas
bases sociais e ecológicas, encontra-se um locus de poder para a coo­
peração com e, especialmente, para a resistência contra interferên­
cias das instituições supralocais, como será visto adiante.

A Estrutura e os Recursos de Poder

Antes de continuar a desenvolver o argumento, devemos vol*


tar-nos brevemente nara o tema do poder. A literatura acerca do
poder é monumental, mas uma coisa parece cada vez mais eviden­
te: uma definição de poder que se Limite estritamente, por um lado,
às prerrogativas especiais do Estado e seu pessoal ou às instituições
do Estado, ou, por outro lado, ao controle de recursos estratégicos
(q u e também pode, total ou parcialmente, ser prerrogativa esta­
ta l) totalmente inadequada. As dimensões ou significados essen­
ciais da noção de poder parecem ser o exercício de algum controle
iobre a situação própria de alguém como indivíduo ou grupo e a
influência na situação de outros- Falar do potencial para exercer
tais controles me parece inútil, porque este não é observável nem
mensurável. O único sentido inteligível em que se pode falar de
poder como. potencial é quando se consideram as dimensões acima
indicadas simplesmente como a expressão na ação de um subcon­
junto de'atributos empiricamente descritiveis’, dentre os muitos atri­
butos possíveis“que status, papéis ou redes de status e papéis podem
possuir (c f . Leeds, 1967 b: 3 3 5-336, nota para a definição destes
term os). Os atributos em questão parecem ser de dois tipos prin­
cipais: ( a ) um privilégio ou direito explícito que pertence ao sía-
íus, papel ou rede por sua definição cultural, e, ( b ) uma posição
tática conseguida em virtude da posição de alguém numa rede de
status ou papel (sem que nenhum direito seja definido). Tanto o
direito quanto a posição tática são usados para proteger interesses
P o d er L o c a l e P o der S u p r a l o c a l 37

e prerrogativas dos status, papéis, suas redes e seus beneficiários,


pela aplicação de sanções, não importa como estas tenham sido
formuladas.
À observação e a mensuração do poder envolvem, então, por
um lado, a„descrição de situações nas quais controles estejam sendo
exercidos e para as quais os recursos envolvidos possam ser especi­
ficados, e por "outro, os^síãíus,~jmpeis e redes de status e papéis
cujos atributos são direitos e privilégios ou aposições taticas (ver
Mills," 1 9 5 6 ). ...............
Quando tais direitos são diferencialmente distribuídos entre
dois (ou m ais) grupos, cada um deles concordando com o direito de
um dos grupos de exercer sanções, existe um arranjo estável, pací­
fico. Onde cada grupo define seu próprio direito de sanções, é pro­
vável que exista conflito e oposição, e que exista constante tensão e
oscilação de poder entre eles, Se posições táticas são diferencialmcn-
te distribuídas entre dois (o u m ais) grupos, as relações podem ser
pacíficas ou antagônicas, conforme o grupo que controla as posições
e o grupo que não controla reconheçam ou nao a posse da posição
tática. Onde o último não reconhece e sua existência, as relações ten­
dem a ser pacíficas. Onde ele a reconhece, as relações tendem a ser an­
tagônicas, a não ser que não sejam possíveis direitos ou posições tá­
ticas eqt^valentes.
Com relação aos recursos dejpoder, como ponto de partida,
podemos nos referir aqui a~Bierstedt ( 1 9 6 7 ) , que argumenta que o
poder Tem_três fontes principais: ( a ) o controle de recursos ma­
teriais ( b ) o uso de organização e ( c ) massas de pessoas mobilizá­
veis, Ele argumenta que essas três fontes de poder ^geralmente cor­
respondem a três grandes classes, respectivamente: uma alta, a clas­
se controladora dos recursos; uma classe média, caracterizada por
infindáveis conjuntos de associações de grande e pequena escala;
uma classe baixa, representada simplesmente pela quantidade de
pessoal — as massas.
Não é preciso refutar aqui esta argumentação para dizer que
estas três fontes de poder existiam muito antes que o sistema de três
classes emergisse na sociedade, e também que é óbvio que cada
classe, num sistema de classes, possui algum grau de controle sobre
cada fonte, embora uma delas possa predominar. Assim, os grupos
de pessoas que controlam recursos estratégicos são também altamen­
te organizados (p or exemplo, a Associação Nacional de Manufatu-
reiros; a Câmara de Comércio, o Ministério da Fazenda), provavel­
mente o são necessariamente. As “classes” médias, organizadas pelo
menos, nos Estados Unidos, são também extremamente numerosas,
talvez ultrapassando as próprias “massas”, isto é, aqueles níveis 60-
33 A S o cio lo g ia do B r a sil U r ba n o

ciais supostamente caracterizados principalmente por serem numero­


sos • „
Todavia, e extremamente util examinar a distribuição das fon­
tes de poder de Bierstedt na população como um todo para poder­
mos localizar relações de poder. Aqui, exaininaremos a distribuição
de tais fontes nas localidades e nas instituições externas ou supra-
locais com as quais aquelas se confrontam.

L o c a l i d a d e s e Fontes d e Poder

0 conteúdo do que procedeu foi que as R ealidades são, na


^verdade, segmentos altamente organizados da ..população....LÕlaTe são
^caracterizadas por Uiversos graus de controle sobre certos recursos,
íiespecialmente recursos tem toriaisje de pessoal, bem como um cer-j
íto montante de capital, mesmo pequeno (Fried , 1 9 6 2 ). Mais im­
portante, todavia, é o fato de que elas são organizadas, na verdade
altamente organizadas, porém segundo a manejxa„muito_especial que
d çscrev i, ou seja, numa estrutura multiforme, flexível, complexa.'
EnT virtude de sua posse desses recursos de poder, por mais limita­
dos que eles sejam, as localidades podem ser consideradas como loci
d çjíod er na sociedade como um todo, variando conforme suas his­
tórias próprias, suas bases geográficas, sua posição na hierarquia
de localidades, e assim por diante.
Como loci de poder, elas podam, por conseguinte, estabelecer
vários tipos de _inter-relações com outros, loci de pojjer, caracteriza­
dos por diferentes_conjunturas de lontes de poder. Essas relações
podem ser muito dinâmicas e de vários tipos — cooperativas, hos­
tis, competitivas, autônomas ou várias destas ao mesmo tempo.
As inter-relaçÕes reais observadas entre uma localidade e ins­
tituições supralocais sao geralmente de vários tipos ao mesmo tem­
po. As modalidades de interação reinantes num dado momento de­
penderão dos vários interesses de ambas as partes quanto à relação
e à estrutura da relação mesma. Onde várias localidades diferentes,
especialmente de tipos diferentes, estão interagindo com vários tipos
diferentes de estruturas supralocais de várias maneiras diferentes, a
situação real pode tornar-se complexa e sua descrição, extremamente
difícil.

Instituições e Estruturas Supralocais

Podemos, então, voltar-nos para as instituições e estruturas


supralocais. A expressão “ estruturas^ supralocais” refere-se a orga­
nismos sociais para cujos princípios organizacionais qualquer con­
junto dado de condições locais e ecológicas é irrelevante- ou seja,
P o d er L o c a l e P o d er S u p r a l o c a l 39

em seus princípios fundamentais de ação, as estruturas supralocais


confrontam qualquer localidade, qualquer "suKünidaclé~ sócto-geo-
gráficã do sisíemâ “"total ou suas subdivisões, com normas ou ins­
trumentos [uniformes e generalizados, organizacionais e operacio­
n ais]. À expressão “ Instituições Supralocais” refere-se a princí­
pios e modos d -2 operação de estruturas supralocais. Qualquer estru-j
tura_cuja formacão^ não seja governada pcrr, ou relacionada a, uma
d$da localLdade^que confrbiità "várias localidades de maneira idên­
tica,,) é uma ^estrutura supralocal, operando com instituições supra-
locaís. * ~ _____ ____ _
Dentre tais (estruturas e instituições (supralocaises.tao as orga­
nizações de negócios^ cm escala nacional, o sistema bancário, o mer­
cado de preços ou mesmo a própria economia nacional, organiza­
ções políticas nacionais (notadamente os partidos), sindicatos, am ­
plas associações profissionais e de interesse privado (a Associação
Médica Americana, a Associação Antropológica A m ericana), asso­
ciações para-governamentais (como a associação dos governadores de
estado dos Estados Unidos, ou a dos secretários da agricultura) e o
próprio Estado, incluindo partes do sistema eleitoral, do judiciário',
do sistema educacional, organismos monetários, burocracias admi­
nistrativas, etc.
E m conjunto, o pessoal dirigente dessas estruturas, direta ou
indiretamente, engloba os principais controladores dos recursos .es­
tratégicos, isto é, de uma das significativas fontes de poder,. Eles
são» eles próprios, altamente organizados, utilizando portanto outra
fonte de poder, embora provendo-se apenas de uma estreita gama
de formas de organização, Muitas delas envolvem um número sig­
nificativo de pessoas, por exemplo, os grandes sindicatos.
Deveria ser observado, em termos de um modelo geral, que
as estruturas supralocais, taia como as organizações nacionais de ne­
gócios, sindicatos ou partidos políticos, são fenômenos evolutivos
recentes. Durante toda a história evolutiva recente, a estrutura su­
pralocal mais difundida foi o estado (como contrário ao parentesco
ou classe de idade, por exemplo, que muitas vezes seriam melhor
designados como “ translocais” ). Por_ora considerarei apenas o Esta­
do e suas relações^ genéricas com as localidades, especialmente em
suas interações hostis, voltando mais adiante a outras instituições
supralocais, como as organizações de negócios e os partidos nacio­
nais.

0 Estado e as Localidades

0 Estado e seus organismos, como sistemas ou corpos sociais,


exercem formas de controle sobre sua própria situação e especifica­
A S o cio lo g ia do B r a sil U rban o

mente, é claro, sobre as situações de outros através de uma varieda­


de de instituições. Os objetivos do Estado são dois: primeiro, a co­
ordenação pública, administração e manutenção da ordem em toda
a sociedade, e segundo, sua própria manutenção como um grupo de
interesse especial, geralmente uma classe dominante e seus repre­
sentantes.
O primeiro, objetivo público do Estado, isto é, a supervisão
dos interesses da sociedade, é em si mesmo ambivalente, porque fre­
qüentemente o interesse da sociedade pode corresponder, por diver­
sas razoes, ao interesse privado do Estado em He manter. Esta é a
situação no México contemporâneo, onde cada setor da nação ■—
negócio, trabalho, campesinato, Igreja, etc., cada um por seus pró­
prios motivos, mas especialmente também o Estado como tal, atra­
vés do aumento de seu próprio poder, objetivos e controle — traba­
lha pelo interesse geral da nação para promover o crescimento, au­
mentar o consumo, ampliar a distribuição e manter a ordem.
Esta dupla jlualidade das finalidades do Estado imprime em
suas relações com as localidades uma dualidade, oú talvez até me­
lhor, uma polaridade correspondente. Às duas fmalidades da po­
laridade englobam, por um lado, relações cooperativas precisas sur­
gidas de ^interesses comuns, e por outrg, antagonismos precisos e
Juta! Estágios intermediários envolvem cooperações mais ambíguas
provenientes de interessesses diferentes que podem ser alcançados
por meios comuns; relações bastante neutras de coexistência ambi­
valente ou autonomia generalizada; resistência sem antagonismo
aberto, e assim por diante.
Esses vários tipos de relações podem ser vistos como uma es­
pécie de escala. Quando as pressões das instituições supralocais
sobre as localidades aumentam, as relações tendem a se^nç£rüiubar
para a polaridade. Conforme as pressões das instituições supralocais
tornam-se menos. vigorosas ou menos numerosas, a cooperação e a
1autonomia tendem a aumentar. Às aldeias ou comunidades semi-au-
tônomas da Guatemala de vinte, trinta anos atrás, a comunidade al­
deã indiana, o m ir russo sao talvez exemplos do último caso. Embo­
ra, em cada um destes casos, as pressões fossem sem diívida consi­
deráveis, ainda assim, em sua maior parte, elas se restringiam a uma
gama muito estreita de instituições, especialmente o imposto em
dinheiro, espécie, ou trabalho. E m outros aspectos, a tendência era
deixar as localidades entregues a si mesmas para resolver seus pró­
prios problemas internamente. Apenas em circunstâncias especiais
ou em momentos de crise do Estado ou da localidade, o primeiro
exercia muitas e fortes pressões, inclusive sanções militares, sobre
esta última.
P o d er L o c a l e P o d er S u p r a l o c a l 41

Sempre há, então, uma tendência dual. Por um lado, há o


impulso para um acordo comum com as finalidades políticas do Es­
tado e operações associadas a estas, simplesmente porque elas con­
tribuem para a viabilidade da prosperidade da localidade em ter­
mos de ordem pública, bem estar, auxilio, instrumento para relações
externas, etc. Por outro lado, há o impulso em direção ao antago­
nismo contra os fins privados do Estado e operações a eles associa­
das (que podem ser meramente intensificações das mesmas opera­
ções que são usadas para os fins políticos públicos, mas a um grau
além do suportável) porque estes negam, ou restringem os interes­
ses, bem-estar, prosperidade, etc. da localidade.
Deve-se dizer algo acerca da emergência de estruturas de ne­
gócios e políticas nacionais como entidades supraloeais. Ambos,
por motivos estruturais intrínsecos, requerem acesso a grande núme­
ro de pessoas para trabalho de massa, associações, votos e casa se­
melhante, uma condição não necessariamente característica das es­
truturas do Estado. Torna-se crucial para as estruturas de negócio
e políticas nacionais, embora cada uma a seu modo, ter acesso di­
reto a, controle sobre e uso de uma massa de pessoas. Conforme as
estruturas evoluem, elas requerem novas formas de articulação en­
tre elas próprias, especialmente seus organismos de decisão supra­
loeais, e a massa de pessoas cuja vida cotidiana é amplamente orien­
tada para a localidade no trabalho, nas casas, nas escolas e assim
por diante. E m outras palavras, conforme a sociedade evolui, no­
vos tipos de relações complementares e duais entre as localidades e
as instituições supraloeais emergem e as antigas desaparecem.^
Qualquer situação histórica dada apresenta combinações de novos
e velhos tipos, mas, certamente, os tipos de combinações possíveis
numa dada sociedade variarão seqüencialmente com a progressão de
seu desenvolvimento.
Além disso, os dirigentes supraloeais de cada um desses tipos
de estruturas nacionais são, por um lado, distintos, da .massa de
pessoal de suas próprias organizações, e, por outro, vinculam-se en­
tre si. 0 vínculo é necessário porque o acesso ao poderjdedecisao é
em si mesmo um recurso, e* por motivos operacionais e de valor,
deve ser mantido entre grupos restritos de pessoas.
Eles não apenas se vinculam uns aos outros, mesmo quando
são concorrentes, mas devem também, ao menos num grau míni­
mo, articular-se ao Estado em seu papel de coordenador da sociedade..
Esse vínculos podem girar em torno de fins comuns ou de objetivos
discretos — geralmente alcançáveis cooperativa^nente. Ambas as
condições são atualmente observáveis no México nas relações entre;
o Estado e os partidos, negócios e trabalho, cada um dos quais ten-
42 A S o cio lo g ia do B ra sil U rba n o

dendo a tornar-se estrutura supralocal, mantendo diversas relações


complementares, multivalentes^ de oposição, cooperação, e neutra­
lidade com as localidades.
O Estado, por conseguinte, ocupa -^m papel cliave enquanto
conjunto de instituições supralocais, primeiro porque ele é um ca­
nal para e coordenador do restante das instituições supralocais da
sociedade como um todo e, segundo, porque ele não depende ne­
cessariamente das massas para seus recursos, mas pode exercer con­
trole sobre os recursos, números e organizações em virtude de seus
propósitos públicos, no âmbito de comunidade política, de uma ma­
neira relativamente autônoma e indireta.
Em geral, a evolução da sociedade envolve ajustamentos e rea­
justamentos contínuos entre a localidade e as instituições de poder
supralocal. Qualquer alteração nos recursos ou nas instituições de
controle traz alterações nas relações de poder, alterações essas que
podem ser respondidas com mais ajustamentos ainda para compen­
sar as alterações. Os sistemas de Poder, como concebidos aqui, po­
dem portanto ser vistos como um equilíbrio móvel, passando oca­
sionalmente ao desequilíbrio ou, por saltos quânticos, de um estado
de equilíbrio a outro.

Estado e Localidade — 0 Caso da Favela

As relações duais ou múltiplas entre a localidade, por um lado,


■e as instituições supralocais estatais e não-estatais, por outro, podem
ser clarificadas pelas interações entre um tipo especial de localida­
de e um número de estruturas supralocais. Falo das áreas pobres4
urbanas, e referir-me-ei aqui especialmente a dados de favelas br^
sileiras10 e órgãos do Estado.

* Em inglês, slum. (N. do T .)


10 Num sentido estrito, as favelas não são áreas pobres (slums) , mas
são aqui discutidas como tal porque geralmente assim são concebidas e
tratadas. Se definimos uma área pobre como uma área de uma cidade
com casas decadentes, aluguéis relativamente elevados (em relação ao
salário dos moradores), praticamente nenhuma propriedade de casa, ser­
viços abaixo do padrão médio e alta densidade populacional, onde as
construções são em geral oficialmente relacionadas no registro apro­
priado de ttulos, então uma favela não é uma área pobre (slum ). As fave­
las, em sua maioria, são áreas em valorização existindo por meio do in­
vestimento privado geralmente de proprietários de casas pobres, mas in­
dependentes, que são posseiros em terras de outros, nas quais, com o
correr do tempo, os serviços tendem a melhorar, embora tendam também
a estar abaixo do padrão médio. A densidade populacional, como nas
áreas pobres (slums) é bastante alta, mas isso é também verdade para
^algumas sólidas áreas de classe “média” e “média-alta” no R io de Ja-
P o d er L o c a l e P o d er S u p r a l o c a l 43

Resumindo, a favela é uma unidade sócio-geográfica facilmen­


te observável* possuindo todas as formas de organização acima men­
cionadas como íãractCTSticas de localidades. A favela tem uma
ecologia, ou sejfi, uma distribuição social de atividades através do
território_da_favela„conforme"atopogralia. ;3oíos e outras eòíidiçoes
geográficas, Essa distribuição é geralmente governada, por exem­
plo, pelas florestas feeíiadas nas encostas dos morros que dividem o
Rio de Jãnêirõ~em segmentos as cpxais constituem esconderijos para
criminosos, enquanto que as_ruas" na base dos morros_são locais
para lojas e outras atividades econômicas e para o abastecimento de
água e energia elétrica. Assim, a favela, territorialmente, se subdi­
vide em zonas socialmente especializadas que moldam suas ativi­
dades diárias,
No conjunto, as favelas mantêm suas própria ordem, um ver­
dadeiro empenho semelhante ao comunitário. Chamar a polícia —
uma organização supralocal — é rigorosamente evitado. Todavia,
o crime não grassa na favela e mesmo, n a ausência-dos agentes do
Estado — ■ a polícia — a .OEíí.epL publica é geralmentejbem estabele­
cida.
A favela é complexarxiepte. organizada.pelo parentesco, pseudo-
parentesco, ambiência, amizade, grupo de trabalho, cliquè, vizinhan­
ça, vínculos associativos e outros tipos de laços. 0 comportamento
social da favela compreende um fluxo constante entre estes, pelo
menos na medida em que a interação se desenrola dentro da locali­
dade, ponto ao qual volto adiante. A importância da vida associa­
tiva não deve ser subestimada, ao menos no Brasil. Evidência re­
cente indica que muitas favelas têm uma estrutura extraordinaria­
mente elaborada girando em torno de Clubes de Carnaval. Atual­
mente, muitas favelas, ao menos no Rio, têm também associações
cívicas que fornecem pontos de organização centralizadores. Da
mesma forma, todas as favelas possuem vários tipos de associações
religiosas.
Todavia, deveria ser asinalado.que as relações sociais que ocor­
rem numa íavela são predominantemente de tipo pessoal, próximo,
fato que levou, muitos autores.a falarem das “áreas pobres11 (n o sen­
tido de áreas ocupadas por posseiros) da América Latina como “ru­
rais11 na estrutura social e de valor (c f , Bonilla, 1 9 6 1 , 1 9 6 2 ; Pear-
se, 1 9 5 7 ; e tc ). 0 atributo de ruralidade é conferido muito embora

neiro, como partes da área Sul de Copacabana, com cerca d e 3000 habi­
tantes por hectare ( c e d u g , 1965:152, 153). O que s e aplica às favelas do
R io aplica-se também às barriadas de Lima (ver Mangin, 1967; Turner e
Mangin, 1963) e áreas ocupadas por posseiros em outras regiões da Amé­
rica Latina.
44 A S o cio lo g ia do B ra sil U rban o

os moradores de bairros pobres tenhamimigrado não de áreas ruraisT


mas' de^idades, onde, presumivelmente, os imigrantes deveriam ter I
aprendido formas de vida urbanas. A vatribuição é conferida até1
quando os habitantes da favela e a própriíTtaveia estiveram in situ
por duas, três, quatro ou mais gerações. Descrições de áreas pobres
ou cortiços cariocas da última metade do século X I X (c f. Azevedo,
1891 ) n são notavelmente semelhante às de meados do século X X .
Observadores de favelas parecem ter ficado muito impressio­
nados pelas semelhanças entre a (.suposta) organização rural e a or­
ganização da favela, e daí em diante falaram das favelas como sen­
do rurais em estrutura, ou como sendo enclaves rurais na cidade
(Bonflla, 1 9 6 1 , 1 9 6 2 ; Pearse, 1 9 5 7 , 1958, 1 9 6 1 ), apesar de mui­
tos dados siginificativos que tom avam tais descrições enganosas ou
totalmente errôneas.
Quanto a este aspecto, já falei da existência de yií}a_associati-
va na favela,, o que é um traço nao amplamente característico das
áreas camponesas ou rurais do Brasil. Mencionei um alto grau de
especialização ecológica e social. Há também, todavia, outras evi­
dências contrárias a esta ruralidade. Por exemplo, parece que den­
tre aqueles moradores que vieram realmente diretamente de áreas
rurais, ocorre geralmente uma rápida modificação no sentido da
adoção 'de valores urbanos (c f . Cate, 1962, 1 9 6 3 , 1967, e outros).
È m segundo lugar, há bastante çvidencia de que a estrutura fami­
liar se altera (c f . Hammel, 1961, 1 9 6 4 ) por exemplo, no sentido do
casamento consuetudinário periódico, de grupos familiares matri-
çentrados, de um estreitamento do âmbito operacional para duas
em vez de três ou quatro gerações, como no campo. Outra forma
de dizer isso é que a distribuição demográfica segundo a idade e o
sexo encontra-se muito alterada em relação aos padrões rurais. Ou­
tras evidências serão discutidas [ligadas adiante às relações externas
da favela].

11 O cortiço já não existe no Rio, com poucas exceções. Era uma casa
de cômodos, construída por especuladores imobiliários para aluguéis de
baixo rendimento» numa dupla fileira com um conjunto banheiros em um
dos extremos ou no centro do pátio onde se encontravam também tor­
neiras e tanques de lavar que serviam a todo o conjunto de quartos.
Grande parte da vida comunitária centrava-se nesses locais comuns da
casa de cômodos e em torno das torneiras e tanques. Os moradores do
cortiço parecem ter sido um dos focos a partir do qual as populações das
favelas começaram a se formar, por volta da passagem do século e pos­
teriormente, na medida em que os cortiços decadentes eram gradualmen­
te destruídos, sendo a maioria substituída por habitações de aluguel mais
elevado. Com relação à questão da urbanidade dos moradores da favela,
ver Leeds e Leeds, no prelo.
P o d er L o c a l e P o d er S ü p r a l o c a l 45

De todas essas circunstâncias, surge a pergunta: por que as


relações próximas — aparentemente “rurais” — existem, ou, se­
gundo o pensamento corrente, persistem na favela. Parece-me que
parte_da resposta está não ein suas origens (ou seja, persistência),
mas no fato de que estas relações, dadas a ecologia e a demografia
da favela, devem forçosamente ser próximas. A outra parte da res­
posta^ a mais_importante, está nas relações da fãveía com o contex­
to süpralocal. Argumento, portanto, que a continuidade a longo
prazo daqueles aspectos das favelas que os observadores chamam
de “rurais” é uma questão funcional, e apenas incidentalmente
uma questão de origens (ou história), especialmente quando a fa­
vela é considerada no contexto das estruturas e instituições supvalo-
cais, como tentarei mostrar.

Favelas como Localidades “versus” Instituições


e Estruturas Supralocais

Como veremos essas características ecológicas, sociais e legais


de favelas ou de áreas pobres que estivemos discutindo? As concep­
ções de poder íocal, instituições de poder süpralocal e suas relações,
são úteis aqui.
As favelas, faem como as áreas pobres, no Brasil e sem dú­
vida igualmente na América Latina e em outras partes do mundo,
confrontam-se com um conjunto de estruturas altamente organiza­
das que controlam os recursos estratégicos, toingm decisões, e ope­
ram com relação à comunidade política como um todo, isto é, supra-
localmente. As estruturas operam tanto isoladamente, por direito
nato, quanto articuladas entre si, especialmente através do Estado.
As exigências supralocais sobre a favela tomam a forma de ta­
xas, aluguéis sobre o solo, taxas sobre serviços, recrutamento, pres­
são ou interferência policial, e, certamente, solicitação eleitoral e
recrutamento pára o trabalho. Taxas, aluguéis e impostos^ sobre ser­
viços e instituições similares são instituições supralocais que^drenam
de forma notável, os parcos recursos da localidade, seja ela favela
ou bairro pobre. Como regra, a organização social da favela apa­
rentemente mitiga, ou melhor, exerce certo poder de resistência con­
tra essas drenagens, a não ser que as exigências sejam impostas de­
masiado opressivamente. Sem o conhecimento dos órgãos supralo-
f cais, 3 organização social pode servir para redistribuir os njagros
j recursos entre os moradores da favela ou de áreas pobres por meio
J jde mecanismos de ajuda mútua, ou algo parecido, de forma a di-
iminuir a parcela apropriada pelos órgãos. Ela pode opera_c_ fazendo
uso “ilícito” dos serviços. Poae ajudar a reduzir ou desviar o pa-
46 A S o c io lo g ia d o B r a s i l U rb a n o

gamento de aluguéis mantendo toda a informação acerca de constru­


ções não autorizadas rigorosamente dentro da comunidade da fa­
vela, onde a entrada de fiscais com objetivos de inspeção é difícil
ou pouco salutar.
A organização social da favela ou área pobre funciona como
um sistema de comunicações altamente complexo mas eficaz que,
apesar das condições limitadoras sob as quais opera, ajuda a maxi­
mizar as vantagens a serem extraídas dos órgãos externos e seu pes­
soal, e a reduzir a tensão (c f. pp acim a). Estes e vários outros pro­
cedimentos só podem ser desenvolvidos por formas de organização
que operam especificamente nas unidades locais, ecológicas.
Todavia, a resistência da favela e do bairro pobre pode ser
mais ativa, como hoje no Brasil, onde favelas, geralmente por meio
de associações cívicas, têm enfrentado judicialmente práticas de
aluguel injustificadas. A lei também foi usada com outros propósi­
tos ultimamente. Ou seja, a favela, como uma localidade, age como
uma pessoa jurídica contra a pressão externa. Para fazê-lo, ela se
utiliza de instituições associadas aos fins do Estado, quanto à co­
munidade política, tanto contra interesses supralocais não estatais,
como contra interesses do Estado como pessoa privada.
*& Todavia, de um ponto de vista externo, o recurso mais impor­
tante da favela ou do baiTro pobre é, certamente, a massa de gente:
num lugar como o Rio, onde talvez 2 0 -2 5 % da população da cidade
Vive em favelas “não-visíveis”, estas constituem parcelas signifi­
cativas do eleitorado e da força de trabalho. Constituem também,
em potencial, amplas forças de greve e rebelião. Como uma força
eleitoral e de trabalho, do ponto de vista das estruturas supralocais,
.elas devem ser mobilizadas como meios para alcançar os fins do.
pessoal supralocal; como uma força potencial de greve e desordemJ
[elas devem ser contidas ou ativamente reprimidas — tarefas con­
traditórias das instituições supralocais entre as quais estas necessa­
riamente oscilam. Essas relações são características de certos tipos
de sociedade nas quais a exploração das massas é importante para
a economia e a política, ou seja, sociedades capitalistas e possivel­
mente outras baseadas no lucro privado sobre o controle de recur­
sos.
Essas tarefas jsontraditórias_ prescrevem uma série de relações j
com a localidade que a localidade, por sua vez, explora tanto quanto
possível ou das quais escapa por meio de suas formas próprias de or­
ganizações e pelo uso de seus recursos de poder disponível, extre­
mamente limitados como pode ser a maioria deles. Assim, por
exemplo, os partidos, por um lado, e o Estado em seu papeF social,
por outro, são levados a fazer favores, realizando trabalhos públicos,
P o d e r ' L ocai, e P o der S u p r a l o c a l 47
i

provendo o bem-estar e conforto aos moradores_das favelas. Isto é.


ocorre uma distribuição de. recursos das estruturas supralocais para
as localidades, a çjual* ainda que limitada, ajuda a .assegurar a_yia-
Klidpdc da localidade, cujas sanções são a greve, a desordem, a não*
cooperaçao, ou mesmo a oposição direta,por meio da eleição, de
recursos legais, e assim por diante. Ou seja, uma resposta tanto
aos atributos de^síaíus quanto às posições táticas — em outras pa­
lavras, ao poder — é_ produzida.
Por outro lado, quando os organismos supralocais tentam ati­
vamente reprimir, a pressão pode ser minimizada através da orga­
nização flexível da favela ou do bairro pobre. A localidade pode,,
por exemplo, usar sua estrutura social para dar sumiço a pessoa~ou|
pessoas procuradas pela polícia, fazer com que bens e materiais desa­
pareçam, recusar informação, enganar e iludir com grande consis-i
tcncia, e assim por diante. Ninguém e nada pode ser encontrado. A^
única solução para o órgão supralocal é a eliminação da própria lo-
calidade. No Brasil, ocorreram exemplos disso, como quando uma
favela_do Rio foi queimada com a justificativa' de que estava^ãbri-
gando criminosos. —
Em suma, com_relação à organização local da favela, pode.se
dizer que a viabilidade e a continuidade a longo prazo das fpvelas
como fenômeno pode, de forma considerável, ser garantida por sua
efetividade enquanto loci dc poderr para opor-se, desviar-se ou utili­
zar-se das pressões das instituições supralocais no interesse da lo­
calidade, especialmente sob condições altamente tensas. Pode-se di­
zer também que seus chamados atributos rurais não sao dc forma
alguma necessariamente, rurais, m as adaptações organizacionais funW
cionãlmente mais efetivas nojçontexto urbano, em vista de seus re­
cursos "econômicos^ sociais e institucionais. Qualquer outra alterna­
tiva de organização para a ampla massa de moradores da favela ten­
de a colocá-la numa condição pior, dadas as bases exploradoras da
sociedade, acima referidas, do que naquelas nas quais são constran­
gidos a viver na favela — um fato que deve ser levado em conta
em todo planejamento de desenvolvimento, habitação ou remoção
urbana.

Generalizações e Conclusões

Generalizando a partir do material da favela, eu proporia..para.


consideração que,muitas, se nao todas, ag continuidades duradouras
de lacalidades (tais como as comunidades corporativas bolivianas, as
localidades (tais como as comunidades corporativas bolivianas, as
aldeias do Oriente Próximo que Brandwood cita como estando em
continuidade com os tempos antigos, ou as comunidades aldeãs da
49 A S o ciologia do B ra sil U rbano

ín d ia ), em oposição ^ relativa mutabilidade -dos Estados que foram


e yier.atp* íürmaram-se e reformaram-se, através da história, podem*
ser compreendidas nos termos da concepção de poder local aqui
apresentada. A explanação parece-me mais poderosa na medida em
que recursos territoriais para a produção de alimentos e ação mili­
tar estão envolvidos na situação da localidade (cf. Leeds, 1 9 6 2 ).
Quanto ao ultimo aspecto, como um exemplo, parece simples
compreender a lentidão do desenvolvimento agrícola soviético, ape­
sar de, ou melhor, por causa das constantes, vigorosas e por vezes
violentas pressões supralocais. Às populações agrícolas que se desen­
volveram tão lentamente sao agrupamentos de localidades sob pres­
são, resistindo de maneira diversa às atenções supralocais enquanto
preservaram seus próprios interesses (ainda não descritos).12
Uma revolução real na agricultura envolve a demolição de for­
mas antigas de poder local e sua substituição por novas formas ou
pelo total controle supralocaL13 A implantação das comunas chine­
sas pelos órgãos supralocais da China Vermelha significa exatamen­
te esta demolição dc antigas formas e sua substituição por novas,
exatamente como sua implantação pela Revolução Cultural foi des­
truidora dos traços locais c extensões translocais da família arcaica,
patriarcal, extensa, detentora de capital. As implicações deste tipo
de análise para a reforma agrária e o desenvolvimento comunitário
parecem-me numerosas, mas não podem ser desenvolvidas aqui.
Em suma, as localidades podem ser vistas como loci de certas for­
mas de poder, geralmente numa condição bastante atenuada; as es­
truturas supra-locais, como loci de outras formas de poder, cuja
intensidade de concentração e aplicação pode variar muito no de­
correr do tempo. Localidades e estruturas supralocais, com suas
respectivas formas de poder, estabelecem uma variedade de relações
opostas, cooperativas, complementares e de outros lipos que consti­

12 Os cientistas sociais soviéticos apenas nos últimos anos começaram a


reconhecer que há realmente uma necessidade aqui, e que aspectos dc
“valor” e “psicológicos" desempenham um papel mais ativo na sociedade
do que eles teriam gostado de admitir. A hda cedo rcconhcceu isso e
permitiu que mais interesses locais operassem abertamente na agricultura,
tendendo a preservar, ao menos em parte, as organizações sociais locais
do trabalho» apesar de a propriedade se ter tomado amplamente coletiva
(entrevista com o comitê administrativo dc uma fazenda coletiva pró­
xima a Leipzig, w>a, agosto de 1964).
J3 Muitos projetos de reforma agrária não são dc lodo revolucionários
neste sentido, mas tendem antes a promover a ossificação de formas an­
tigas da organização Iccal. Muitos dos projetos parccem-me então fadados
ao fracasso desde o começo. Urna vez que eles são quase que totalmente
formuladas pelo pessoal dos órgãos supralocais, pode-se muito bem in­
dagar acerca da função de tais fracassos.
P o d er L o c a l e P o d er S ü p r a l o c a l 49

tuem uma das mais importantes estruturas da sociedade total, em*


bora tenham sido amplamente negligenciadas na literatura. Elas
requerem muita pesquisa de base. Fazer tal pesquisa requer a espe­
cificação daquelas formas de estruturas e instituições nacionais que
quase sempre são, na melhor das hipóteses, tratadas perifericamen-
te nos estudos antropológicos, embora seja especificamente o cará­
ter süpralocal ou nacional destas entidades que vincula as comuni­
dades ou localidades a um único sistema. Precisa-se, então, de
descrições antropológicas conceitualmente bem formuladas das ins­
tituições nacionais, das localidades e comunidades e dos arranjos de
suas relações. Apenas então seremos capazes de desenvolver teorias
adequadas acerca da mudança e resistência à mudança.

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III
Carreiras Brasileiras e Estrutura Social:
Uma História de Caso e um Modelo

A n t h o n y L e ed s

(Versão revista do trabalho lido para a Sociedade Antropológica


de Washington, D .C ., 16 de outubro, 1962)

A pesquisa que relatei é interessante para mim, não tanto pe­


los dados em si mesmos, embora eles jamais tenham sido apresenta­
dos e tenham uma certa fascinação intrínseca, mas antes porque ela
é sobretudo uma confirmação detalhada do que eu já conhecia am­
plamente a partir de reflexões teóricas e algumas observações es­
parsas. Com efeito, eu já havia descrito meus resultados de campo
antes de ter ido ao campo: será interessante rever brevemente como
isso ocorreu e considerar posteriormente suas implicações mais am­
plas.
Durante algum tempo, estive buscando uma tipologia de so-
çiedades organizadas em Estado que se basearia numa visão sinópti­
ca da ..função, da estrutura total, e da trajetória das sociedades, mais
do que, como em certas tipologias anteriores, em um ou alguns tra­
ços ou sintomas.1 O objetivo de tal tipologia é fornecer uma base
para comparação com o intuito de investigar as seqüências de de­
senvolvimento, suas regula ridades e buscar leis gerais do desenvol­
vimento sócio-culturaí. 0 exame de casos únicos sem uma tipologia

1 C f. Steward, 1949; Bennett, et al; Meggers.


56 A SocïOLOGiA d o B r a sil U r b a n o

nega a possibilidade de generalização acerca 'dos processos ou meca­


nismos descritos para cada caso e exclui qualquer precisão que
não em bases intuitivas. Tais bases são, de qualquer forma, em ge­
ral implicitamente tipológicas, envolvendo afirmações como “ meu
povo é semelhante a algum outro povo. . . conseqüentemente, , . n
Dois tipos de sociedades organizadas em Estado, parecem ca­
racterizar as últimas fases conhecidas da ( çvoJu^ílo jçuítüráD Cha­
mei-as de "sociedade estático-agrária” e “ sociedade expansivo-in-
dustrial” . A primeira é representada pela Europa feudal, a ín d ia
pré-colonial, os grandes despotismos orientais, o Haiti, e outros paí­
ses latino-americanos, muitos países do Oriente Próximo e assim
por diante; a última pela Alemanha, u r s s ? exja, Inglaterra e ou­
tros a eles semelhantes. Precedendo o_tipo estático-agrário de socie­
dade encontra-se a "sociedade expansivo-agrária” , cujos exemplos,
como os primeiros impérios mesopotâmicos, estão extintos. Pode-se
sugerir oue um tipo “ estático-industrial” de sociedade sucederá aos
expansivo-industriais existentes‘ atualmente, e pode-se tentar deli­
near as características de tais sociedades e o mundo em que elas
serão predominantes.2
Sem entrar em detalhes aqui, a sociedade jsstático-agrária pode
ser descrita como tendo todos os recursos e riquezas fundamentais,
e alocando seus recursos básicos de trabalhos, equipamento técnico
e os demais em torno da agricultura. Conseqüentemente, as princi­
pais características sociais — a divisão do trabalho, administração e
supervisão, estrutura comunitária, comunicações, estrutura social de
guerra e poder, o próprio Estado — moldam-se pela extensa rela­
ção tecnológica com a terra utilizada para plantações. A íntima re­
lação da ordem social total com as localidades e estruturas comuni­
tárias localizadas produz relações próximas de parentesco e pseudo-
parentesco como mecanismos organizacionais.
A sociedade expansivo-industrial obtém sua riqueza e recursos
fundamentais e aloea todos os seus recursos básicos em torno da in­
dústria. A agricultura torna-se, primeiro, em certo sentido, gubor-
dinada_ à indústria, econômica, política e ideologicamente, e depois
tòrna-se ela mesma industrializada em tecnologia e organização
Todas as principais características sociais são moldadas pelas exten­
sas relações tecnológicas com os múltiplos recursos relevantes para^J>
consumo industrial (dentre os quais as plantações são importantes
como material nao-alimentício). 0 padrão_ ecológico fundamental
é multirregional, tendendo ao global, e, conseqüentemente, as so­
ciedades tendem a ser exocêntricas política e economicamente, ten­

2 Cf. Guardini, 1956.


C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 57

dem a maximizar relações translocais às expensas das relações locais


e comunitárias, e tendem a operar através de instituições e associa­
ções supra-locais altamente organizadas. Tais características ten­
dem a fazer com que estas sociedades se expandam econômica — o
chamado crescimento segundo o modelo do take-off — , demográfica
e politicamente. Na expansão elas revelam instituições de imple­
mentação de política características tais como o colonialismo, o in­
vestimento estrangeiro, a hegemonia política internacional e assim
por diante.
A aparência pura da sociedade expansivo-industrial é a dc um
crescimento evolucionista a partir do feudalismo ocidental, através
de várias fases, sendo as fases intermediárias, em si mesmas, formas
de sociedade substancialmente integradas e coerentes. Todavia,
uma vez tendo ocorrido o desenvolvimento puro, todo tipo de justa­
posições de formas societais pode ocorrer em situações de acultura­
ção. Assim, sociedades expansivo-industriais total ou parcialmente
desenvolvidas podem encontrar-se em várias formas de contatos de
aculturação com sociedade estático-agrárias em diferentes estágios
de desenvolvimento, ou em fases iniciais pós estático-agrárias, pro­
duzidas por evolução independente.
Podemos, com base nestas ohservaçÕes, considerar várias hipó­
teses.8 À primeira é que onde as culturas destes dois tipos polares
estão mais ou menos em contato duradouro e vigoroso, as institui­
ções de amhas operam numa rede de entrelaçamento característica.
Poder-se-ia esperar encontrar aspectos característicos da organiza­
ção expansivo-industrial ligados a instituições feudais típicas ou es­
tático-agrárias. Poder-se-ia esperar que aquelas entidades sociais da
organização industrial — tais como corporações, instituições públi­
cas ou privadas, sindicatos, sistemas administrativos, escolas voca-

3 Estas hipóteses foram em parte induzidas pela observação da existên­


cia do autodidata e do ocupante de múltiplas posições no Brasil. Elas são
apresentadas aqui com o deduzidas de princípios evolucionistas gerais, uma
vez que pretendem ser modelos mais gerais para este tipo de sociedade
“ em transição” . Isto é, com base na teoria e nas hipóteses derivadas,
deveríamos esperar encontrar fenômenos similares ou relacionados em
outras sociedades em transição da estático-agrária para a expansivo-indus­
trial, ambas em situação de aculturação, e também na própria seqüência
evolutiva. A s hipóteses acima apresentadas deveriam ser com prováveis na
história européia, digamos, nos séculos X V I-X IX . Se os dados confirm am
as hipóteses, o argumento teórico se fortalece; se não, pode-se primeiro in­
vestigar as conseqüências da afirm ação de que a evolução de um sistema
puro e a aculturação entre dois níveis evolutivos não são a mesma coisa, de
form a que diferentes resultados devem ser esperados de cada um. Todavia,
personagens com o Michelangelo, Rubens e G oethe sugerem a confirm a­
ção da hipótese.
58 A S o c io l o g ia d o B rasil U r b a n o

cionais e profissionais, etc., que são fundamentalmente relacionadas


à tecnologia —- quando introduzidas na sociedade estático-agrária,
fossem interpenetradas ou articuladas por laços caracteristicamente
“ feudais” como o parentesco consanguíneo ou afim, parentesco ri­
tual, amizade, relações de apadrinhamento e uma variedade de con­
tatos próximos interpessoais não-formalizados, qualitativa e quanti­
tativamente diferentes das relações encontradas na sociedade indus­
trial.
Uma segunda hipótese diz respeito à expansão transformacio-
nal das oportunidades sócio-econômicas. Sob o tipo de relações in-
terculturais aqui descritas, a justaposição de dois (ou mais) amplos
complexos de culturas de nível mais elevado e mais baixo produzirá
uma rápida e contínua multiplicação de novos setores econômicos,
novas ocupações, no vos ^status, na sociedade de nível mais baixo.
Esta é, com efeito, a condição da grande maioria dos chamãdosTJãíi>
1(ses subdesenvolvido^) hoje. Segue-se que, em tais condições, esperar-
se-ia uma constante falta de jpessoal para preencher as posições
emergentes da estrutura de oportunidades em expansão, porque as
instituições educacionais inexistiriam ou seriam inadequadas para
o treinamento. Diferentes soluções para este problema podem ser
sugeridas:

1. importação de pessoal;
2. criação interna de pessoal novo mais ou menos ao acaso,
especialmente por auto-instrução ou “ autodidatismo” , até
que o treinamento seja curricularizado;
3. a multiplicação das posições ocupadas por qualquer dado
indivíduo.

A importação de pessoal é intrinsecamente limitada pela ofer­


ta disponível e pelo custo^da importação, apesar de servir a um
número relativamente pequeno de novas posições. Também é ape­
nas uma solução temporária e incerta, uma vez que não é institu-
cionalmente criada no interior do próprio sistema social. Mais fre­
qüentemente, poder-se-ia esperar tanto a ocupação de posições _por
pessoas total ou parcialmente autotreinadas, como a ocupação de
um número de posições muito diferentes por um único indivíduo,
freqüentemente autodidata.
Como corolário desta hipótese, esperar-se-ia que .a ocupação de
múltiplas posições e o autodidat^mo fossem complementares, uma
vez que um homem na posição A, em alguma organização, vendo
uma nova oportunidade disponível, B, para a qual não existem
1 ocupantes, pode-se dispor a adquirir certa dose de treinamento que
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 59

o capacitará para preencher a posição B. Em vista da natureza dos


vínculos sociais mencionados na primeira hipótese, é de seu interes­
se manter conexões com a primeira organização através de seu car­
go na posição A, ao mesmo tempo em que estabelece novas conexões
através da posição B. Além disso, podem existir realmente pressões
para o não-abandono de A, uma vez que não há ocupantes disponí­
veis para preencher a posição que ele deixaria.
Um segundo corolário é que a entrada para a posição A pode
ser vista como preliminar para a entrada na posição B, ou pode
preparar tal conexão mesmo quando não prevista. Isto é, A pode
servir de trampolim para B. A entrada na posição A pode mesmo
envolver a criação da posição A como um prelúdio para o pulo para
B. Quando este é o caso, a mudança do ocupante para B faria de­
saparecer seu interesse na posição ou organização A , que morre ou
permanece institucionalmente moribunda. Esperaríamos encontrar,
no presente ou passado recente, certo número de tais posições ou
organizações mortas ou moribundas.
' .4 pesquisarealizada no Brasil durante junho e julho de 1961
pretendeu não apenas mostrar que as instituições descritas nas Hi­
póteses existiam, mas também obter histórias de casos para ilustrar
como estas^ instituições funcionam, e como opera a dinâmica inter­
na da organização.

II

Podemos agora voltar-nos para a pesquisa propriamente dita.


No decorrer de uma estada de duas semanas no Brasil em novem-
bro último, algumas observãçõe^bãstante dissociadas me marcaram.
À palavra “ autodidata” começou a registrar-se em meus ouvidos
após ser ouvida várias vezes. 0 autodidata começou a aparecer para
mim como um importante fenômeno no Brasil, como mostrou sc-lo
em muitos outros países~3a América Latina que visitei. Indagando
acerca do autodidata e de sua origem, o fenômeno do exercício de
múltiplosjcargQs, para o qual os brasileiros têm um termo, o cabide
de^ emprego, começou a assumir uma importância teórica cada vez
maior.
•c
Os dois fenômenos pareciam, por intuição, estar significativa­
mente ligados e ambos relacionados a uma estrutura de oportuni­
dades em rápida expansão induzida por aculturação. Em tais con­
dições, tende a haver, em geral, mais posições vagas do que pessoas
para ocupá-las. Ambos os fenômenos, o do autodidata e o do cabide,
pareciam ser funções desta situação, altamente adaptadas a ela, e
A S o c i o l o g i a d o B r a s il U r b a n o

de grande utilidade para as operações interi^ts da sociedade, não


importa como as pessoas se sentissem acerca de seus excessos.
Hipoteticamente, argumentei^ gue o cabide deveria representar
um vínculo social numa sociedade em que, devido a sua rápida
transição, os vínculos contratuais padronizados de uma sociedade
industrial totalmente organizada ainda não se desenvolveram ou
foram organizados. O cabide se tornaria possível pela ausência do
que podemos chamar de trajetórias curricularizadas para os status
como as que, em sua maioria, caracterizam a sociedad.e expansivo-
industrial avançada. 0^ fenômeno do autodidata pareceria ser fun­
ção desta falta de curriculaxizagão.
Üma vez que, hipoteticamente, o cabide parecia ser um vínculo
social importante, e a curricularização parecia estar amplamente ay-
sente? levantou-se a questão de quais eram os mecanismos íntimos
pelos quais o cabide surgia e como, uma vez surgido, ele operava
no sentido de interligar várias entidades organizadas na sociedade
brasileira, em grande parte frutos de aculturaça0)ou difusão das so­
ciedades altamente industrializadas, entidades tais como institui-
coes burocráticas, novos setores de universidades, estruturas admi­
nistrativas, serviços públicos, etc. Foi para rejeitar ou confirmar
as hipóteses e para responder a essa questão que a pesquisa foi em­
preendida.
Todavia, uma vez que várias esferas convencionais da socie­
dade, como a burocracia, o Exército, a Igreja, o mundo de negócios,
etc. permaneceram praticamente não descritos em sua organização
interna ou em suas inter-relaçÕes, foi. necessárioJesenvolver algum
tipo_de_ modelo^ operativo para avaliar as atividades do autodidata e
3o cabide. Para este íim, julguei útil o^modelo apresentado pelo Ur.
Anísio Teixeini,4 embora na época achasse que ele não correspon­
dia ao que eu conhecia do Brasil a partir de meu trabalho de cam­
po prévio. Apesar disso, já havia, há muito, aprendido que as per­
cepções de Teixeira geralmente davam muitas dicas úteis para
qualquer fenômeno em discussão. Além disso, o modelo, por sua
própria desarticulação, era estruturalmente compatível com o fenô­
meno do cabide. Assemelhava-se ao diagrama apresentado no
Quadro 1. (Concebi os cabides, todo o tempo, como ligando estas
oligarquias*, fornecendo sua organização interna e entrelaçando
as várias esferas da sociedade acima mencionadas. Ao mesmo tem-

4 Teixeira, 1962 e conversas.


* Na concepção de A nísio Teixeira, as entidades a que ele se refere
com o oligarquias e grupos de interesse incluem não apenas "o s poucos” ,
mas aqueles “ muitos” que estão organizacionalmente ligados aos primei­
ros, Teixeira usou também a expressão “ grupos de pressão” para estas enti-
* dades (Teixeira, 1962, Revolução e Educação, m im eo.).
Quadro 1

M odelo do Dr. Anísio Teixeira


da Estrutura de Poder Brasileira:
Relativa a Grupos Políticos de Pressão

N ota: Deve ser assinalado que cada coluna representa um grupo de


pressão ou oligarquia que é descrita com o operando na cúpula acima dela.
Devia também ser observado que os indivíduos, qua indivíduos, que com«
põem as oligarquias não estão necessariamente em níveis de salários, pres­
tígio e poder comparáveis: estes critérios de estratificação com uns são
social-estruturalmente irrelevantes aqui. A s linhas pontilhadas representara
os níveis de “ classe” dentro das oligarquias.
62 A S o c i o l o g i a d o B r a s il U r b a n o

po, eles fornecem os nós sociais cujas interconexpes complexas criam


a divisão entre o que, por conveniência, podemos chamar de “ clas­
ses” e “massas” .
No_ Brasil, esta divisão entregas “ massas e _as. “ classes1^—foi
chamada de “'colonização interna já jjue? em sua essência^ ela
está muito próxima da relação entre a naçao colõnizãdora e o jgovo
colonizado, ambas ocupando todavia o mesmo território. É uma si­
tuação encontrada em todos os países americanos, inclusive os Es­
tados Unidos, onde grandes populações nativas foram conquistadas,
ou nos quais grandes populações escravas forain introduzidas na po­
sição social equivalente àquela das populações conquistadas. _Já
que as “ massas” são a base e toda a fonte da economia interna das
^classes” , os sistemas totais são muito mais resistentes a mudança
do que no caso das colônias, que constituem uma economia com­
plementar a economia doméstica do país colonizador. Nas condições
latino-americanas, o “ colonizado” e os ^colonizadores” não podem
separar-se fisicamente um do outro, com a possibilidade subsequen­
te do estabelecimento de inter-relações independentes, simplesmen­
te porque as classes existem no mesmo território que as jnassas e
sem outro acesso aos_recursos fundamentais..0
Aqui, estamos preocupados sobretudo _çom_a estrutura interna
' e com a dinâmica das classes, e mais jispecijícamente com a entrada
para as2 e com as operações das mais altas posições jao_intcrior dãs
classes. As massas estão suficientemente separadas das classes, de
modo que sua organização- interna e sua dinâmica são irrelevantes
.para a descrição das classes. Elas requerem uma descrição separada,
descrição essa que valeria a pena ser feita, uma vez que as massas
vsão praticamente desconhecidas no Brasil e em outros países. Nem
mesmo sabemos se há diferenciações hierárquicas estruturais no in-
teriõF das jnassas.

III

Uma vez que as hipóteses gerais afirmam que as conexões en­


tre organizações, as ligações entre oligarquias e a organização in­
terna das classes mantêm-se através de vários tipos de conexões pes-

5 Teixeira» 1953, 1957, I960, 1962; também conversas, 3951-2, 1961,


1962. Cf* também Leeds, 1957. O term o “ massas” é tom ado de Teixeira,
mas o de “ classes” é meu. "Classe” talvez descrevesse melhor a situação,
pois não há clara separação em subdivisões.
6 Os Estados Unidos têm ambas as situações, contribuindo para extre­
mas tensões dos dois sistemas que se atravessam um ao outro, em con-
• flito.
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 63

soais, e também que se esperaria o movimento de posição para po­


sição e a ocupação de muitas posições por uma única pessoa, seguiu-
se que a maneira mais incisiva de descobrir os mecanismos inter­
nos do sistema era acompanhar as carreiras dos indivíduos enquan­
to se movem através de suas histórias de vida, estabelecendo cone­
xões e movendo-se de entidade social para entidade social. Conse­
qüentemente, a primeira técnica de pesquisa consistiu em entrevis­
tas com informantes selecionados possuindo as características do
cabide e freqüentemente autodidatas. Era nosso plano selecionar
casos de todas as esferas importantes ou de todas as oligarquias im­
portantes.
Desejávamos também selecionar representantes de cada_ gera­
ção, de formada, mostrar o aumento da clirricularizaçao em qualquer
esfera a partir do momento em que tal esfera se tenha estabelecido.
A hipótese pode ser aqui apresentada através do diagrama do Qua­
dro 2, Tomando representantes, digamos, de três gerações de carrei­
ras com relação a qualquer tipo de atividade, deveríamos ser capazes
de documentar o processo real de mudança da sociedade no sentido
de uma maior organização, do qual o treinamento curricularizado
para posições sociais é um sintoma., conforme aumenta a dedicação-
aos fins intrínsecos à carreira.
Em terceiro lugar, dado que até muito recentemente o Brasil
possuía províncias e estados relativamente autônomos, ecológica, eco­
nômica e historicamente muito diferentes, segue-se que as estruturas
sociais em si mesmas e como contextos para carreiras deveriam dife­
rir amplamente. Na verdade, elas podem ser colocadas numa escala
hipotética de desenvolvimento e atraso. Poder-se-ia esperar que
uma ordenação dos estados brasileiros fornecesse uma representa­
ção espacial do desenvolvimento da organização social brasileira, en­
quanto que as carreiras estudadas numa seleção de tais estados re­
fletiriam esta ordenaçao.
Escolhemos as cidades de Sao Paulo, Rio de Janeiro, Belo Ho­
rizonte, Recife e Salvador como representando supostamente uma
série de estados decrescentemente desenvolvidos em termos indus­
triais, financeiros e políticos, ou crescentemente arcaicos em compor­
tamentos, costumes, e ideologias. Incluímos também Brasília em
nossa amostra, uma vez que é a sede do poder do qual fluem todas
as boas coisas brasileiras, e nenhuma realidade brasileira pode ser
entendida sem um exame da “ cúpula” , tal como passou a ser chama­
da popularmente no Brasil de hoje.
Em cada cidade, estabelecemos contatos com um ou mais cida­
dãos bem informados de posição proeminente que foram persuadi­
dos a dar-nos listas dos cabides locais importantes, com tanta infor-
Quadro 2

A Evolução do Treinamento e dos


Objetivos das Carreiras

\ /
**

*
Y/
* '

Éfc
s
s
*

A K
A
jutixlidata
sT
mÊÊÍk T

sT = semttrcinado
T = crcinado
T * utilização de treinamento para objetivos extrínsecos ao treinamento
] ~ ufjlização de rreinamento para objetivos intrínsecos ao treinamento
mudança idealizada, através do tempo, de distribuição
'apartir do autodidatismo com objetivos extrínsecos
em relação ao.treinamento com objetivos intrínsecos
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 65

mação quanto possível acerca de cada um com relação às suas cone­


xões — uma descrição sumária dc sua carreira, passada e presente,
e de sun genealogia social. Sempr^ qugpoMÍyej, tentávamos obter
uma introdtii;ã0 wpes5i>aL ou ao menos escrita, ou marcar encontros
através 'de-intermediários 'que nos conheciam tanto cpianto aos jn -
formantes. Onde este procedimento foi seguido, a cooperação nun­
ca falhou; onde não foi — onde, por exemplo, tínhamos que nos
apresentar nós mesmos — éramos geralmente evitadas. A_ influên-
fciadas apresentações pessoaia_e.de. intermediários foi uma das me-
(Ihores evidências da significação dos. laças_ pessoais na sociedade
(brasileira, pois que foi forte e suficiente pura abrir portas que le­
varam a considerável intimidade mesmo entre estrauhos totais.
Cada entrevista sc iniciava pela minha explicação do que está­
vamos tentando descobrir e pelo pedido de cooperação dos infor­
mantes. Em algum ponto desta ,troca~introdutórijf, o informante in­
troduzia invariavelmente algum aspccto de sua própria experiên­
cia. Usávamos isso como uma brecha para penetrar na história da
vida inteira. Uma entrevista ideal consistia de muitas sessões, com
o intervalo de alguns dias para termos tempo de rever nossas notas
e de formular questões que queríamos respondidas. Algumas en­
trevistas tiveram que ser feitas em uma unica sessão. Estas estao,
invariavelmente, cheias de lacunas.
Q grupo^e pesquis^ composto por dois psicólogos brasileiro^) c
.por_mim, conseguiu em seis semanas reunir quinze entrevistas com­
pletas, muitas entrevistas mais curtas, e um ou dois relatos de car­
reiras bastante detalhados acerca de certas pessoas a partir de seus
conhecidos. Sempre que possível, tentávamos conferir os dados dos
informantes a partir de outros informantes que os conheciam c de
quem geralmente possuíam também dados adicionais substanciais..
Três outras fontes de dados deveriam ser mencionadas, cada
uma das quais forneceu uma verificação de todas as outras e das
entrevistas. Eu_recoito_ya-sistematicamente jornais, por um lado
para dados relacionados às oligarquias e esferas sociais,^ por ou­
tro lado, para dados acerca das carreiras e carreiristas e suas ope­
rações. Curiosamente, os jornais eram geralmente muito generosos
em seu suprimento de material sobre carreiras. Todo domingo, du-
rante um ano, o Jornal do Comércio de Recife publicou algumas
biografias de carreiras. O principal jornal de ürasilía~tmha uma
coluna diária que dava biografias curtas de carreiras. A puhlicação
de histórias de carreiras ocorria com algumas freqüência na maioria
dos jornais brasileiros.
Em segundo lugar, tentamos encontrar informantes que pa­
recessem muito bem relacionados corn a organização econômica, so-
u
66 A S o c io l o g ia d o B rasil U r b a n o

ciai e política local e com aqueles que ocupassem posições nesta or­
ganização. Destas pessoas, tentamos obter o ipaior número possível
de informações acerca das operações, sociais locais, através de casos
e relatos sobre o comportamento do pessoal em questão. Este tipo 4e
informação mostrou-se, com efeito, geralmente muito mais^rico, já
que, por motivos explicados mais adianle^muitas das operações e
ãto$_ pessoais tornavam-se conhecidos através dos vínculos mais ^al-
! tos, apesar de sua aparente privacidade — uma privacidade que é,
na verdade,_sempre potencialmente e propositalmente pública. 1
ATterçeira fonte^de informação foi o materialjgublicajp. Aqui
podem ser incluidos, certamente, estudos da organização econômica
e social brasileira. Todavia, mais úteis são itens como õs anais do
Congresso, em cujas discussões publicadas podem ser discernidos os
principais grupos de interesse do país; análises da organização bu­
rocrática e política do país; estudos do comportamento eleitoral, e
assim por diante. De grande interesse também são livros com moti­
vos inconfessos, como o elogio de Niemeyer a Juscelino Kubitschek
sob o pretexto de discussão de suas experíências~em Brasília, 7^_e rç^
vistas cujos artigos principais_são pagos por grupos de interesse.
1 r.: i~.~~ '

IV

A seguir, tentarei apresentar uma sinópse dos nossos achados e


discutir suas implicações.
Em primeiro lugar, devia ser observado que o conceito e a
palavra cabide existem apenas na comunicação informal. No de­
correr da pesquisa, além disso, dçscobri que havia_toda^ j.uua lin*
guagem existente apenas na com unicado JnformaL da carreira o
de seus aspectos estruturais. Todavia, a carreira e o cabide não
eram as únicas unidades estruturais a serem descritas no discurso
informal, familiar a qualquer um. Descobri. Jambém_a j)arielinha>
çijja relajao com as carreiras c os cabides ninguém observara an-
'teriormen|e._Por_ora, a panelinha pode ser definida como um gru­
po relativamente fechado, çmnplelamentc informal, reunido por la­
ços de amizade, contato pessoal ou interesse comum, agindo para
fins comuns e incluindo uma relação de todas as posições sócio-po-
(lítico-econômicas chaves,.
" " Õ fato deéjsas unidades sócio-estruturaiã) que são tão vitais
no Brasil, serem conhecidas apenas pelo discurso informal é em si
mesmo um reflexo da faj.t§^4®- purricu]ãrízaçao e fprrna]izaçap_<la
tessitura social
% V r *- '1
brasileira. Dito de outro modo, esta organização in-
* *• * I
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 67

formal só pode ser descoberta através do trabalho de campo, e não


através de qualquer fonte publicada. Porém, sem conhecer essa or­
ganização, não se pode entender como o Brasil funciona econômica
ou politicamente.
Esquematicamente, a carreira consiste numa constante amplia­
ção de novas atividades — às vezes multiplicações de antiga, às
vezes em novas esferas. O problema^principal. é . estabelecer o pri­
meiro passo, criar um ■tfampotirify como dizem. A variedade de
téajic§£ para isto é grande e essas, às vezes, são usadas isoladamen­
te ou em combinação. Menciono apenas algumas, como a jitivid^de
marcante nas associações universitárias esjtudantis. especialmente
nas Escolas deTJireito; partíçipaç§P__Çia .grupos, fas,çistas ou. comu­
nistas quando muito jovem; declarações públicas em favor de polí­
ticas não encampadas pelos poderes constituídos; ceam os [Ç^cqna
jovens ricas; _ajuda da própria família ou da família da esposa;
ajuda de padrinhos; jornalismo; ser famoso no esporte; ingresso na
política em posições políticas mais baixas; ingiesso^ nuçn_pequeno
escritório burccrático_ a partir do qual_laços_ para cima e para fora
podem ser estabelecidos.
O que e significativo quanto a estas conexões, como o carrei­
rista as utiliza, de forma ideal-típica, é que nenhuma_c intrínseca
aop.fins da carreira como tal, mas antes_! criação de u m vnome,
ao começo de uma promoção (uma autopromoção), à construção da
projeção. Por exemplo, um jovem que se tornou um político de car­
reira de “ esquerda” começou por unir-se à ala relativamente de di­
reita da organização da juventude católica em sua escola de direito.
Ele usou a influência e energia desta como trampolim (por meio
de uma eleição) para o ofício político, logo a abandonando. Este e
futuros estágios de sua carreira foram em muito ajudados pelo
prestígio e apoio de um burocrata nacionalmente eminente e res­
peitado, que se tornou seu sogro ao longo desse caminho.
Como regra, muitos de tais degraus para novas conexões são
alcançados por meio de conexões consanguíneas diretas ou de pa­
rentesco afim. Qualquer um de uma multidão de parentes pode
estar num status que lhe permita arranjar uma posição para seu
cliente-parente ou persuadir outros, através de redes de obrigações
mútuas (ver adiante), a arranjarem ou a ajudarem a arranjar tais
posições. A forma mais imediata disso consiste, por exemplo, na fir­
ma familiar na qual o pai arranja loci para a realização inicial da
carreira de seus filhos; com efeito, traça mais ou menos os princi­
pais contornos da carreira em seu início. As conexões podem ser es­
tabelecidas através de relações de parentesco menos imediatas com
parentes nepótícos de graus mais distantes. Os parentes articuladores
68 A S o c i o l o g i a d o B r a s il U r b a n o

mais característicos são pais e cônjuges, geralmente esposas, sendo


então o parente protetor principalmente tios e sogros e, às vezes, por
extensão, um primo. Tais relações apareciam em muitos de nossos
casos em campos bastante diversos, como um político, um indus­
trial e homem de negócios, um político e proprietário de imóveis, e
um educador.
Conexões de parentesco ainda ínais amplas podem ser ocasio­
nalmente acionadas, mas estas não aparecem geralmente com as li­
gações principais da trajetória da carreira. Apesar disso, mesmo um
parente distante pode fornecer uma ligação necessária, pode ajudar
a abrir uma porta, e de qualquer forma servir de base para a en­
trada imediata numa relação que nao seria acessível de outro modo.
Um correlato disso é a importância do mapeamento dos laços genea­
lógicos tão rápido quanto possível, e sempre que possível. Um bra­
sileiro, chegando numa comunidade nova para ele, tem em pouco
tempo uma extensa genealogia de todos os personagens significati­
vos da cidade cujo número pode ser muito grande, e também de
seus parentes significativos em outras localidades do país. Enquan­
to traçava esta genealogia, ele também explorou pontos aos quais ele
mesmo poderia estar ligado, por laços de consangüinidade, afinidade
ou de amizade com uma das pessoas do mapa genealógico. Mesmo
esta conexão a partir de um não-parente é um passo à frente no
avanço de interesses ou no estabelecimento de novas relações.
É de grande importância que os movimentos iniciais da carreira
se tornem conhecidos nos lugares certos, uma vez que o jovem car­
reirista pode ser solicitado a apoiar, auxiliar ou formar alianças
com outros de sua mesma idade ou mais avançados em suas car­
reiras do que ele. Tornar os movimentos conhecidos tem o efeito
de dar informações quanto às capacidades do jovem carreirista e de
suas conexões. Ao mesmo tempo, essa divulgação não pode ser de-
masiado aberta porque, por um lado deseja-se uma resposta seleti­
va, e, por outro, algumas manobras são talvez um tanto vergonho­
sas. Em suma, do início da carreira em diante, há uma constante
emissão de “ deixas” que pretendem transmitir informações acerca
do estado da carreira de alguém - isto é, acerca das posições que
ele ocupa, con seq ü en tem e n te a relação de suas conexões, os tipos
de influência que possui, os tipos prováveis de manobras que pode
realizar, e também as pessoas que podem ser alcançadas através
dele. Acredito que, em todo esse processo, há uma intensa seleção
em favor daquelas pessoas com percepção mais aguda, com habili­
dades mais aguçadas para ver mais significados atrás das deixas, e
com energia e determinação para acompanhar e utilizar a informa­
ção assim adquirida.
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 69

Esta convicção tende a ser confirmada pela extraordinária ha­


bilidade, inteligência e diversificação de atividades da maioria de
nossos informantes que não haviam, sido selecionados na base destes
critérios, mas apenas por ocuparem várias posições.
Qs mecanismos para a emissão de deixas são altamente insti­
tucionalizados, não obstante serem amplamente informais. Talvez
o mais importante seja o uso do jornalismo. A variedade de técni­
cas envolvidas é enorme. O reitor da Universidade X mantém uma
equipe de repórteres empregados em tempo parcial na Universida­
de. Através deles — sem dúvida devido a sua gratidão — ele pode
apresentar diariamente uma magnífica reitoria ao publico, especial­
mente aos políticos com quem ele realiza grandes manobras. Mui­
tas pessoas de posição considerável podem publicar matérias pagas
num jornal; podem contactar repórteres que conhecem e que pu­
blicarão notas a seu favor ou sobre elas; podem realizar algum ato
público para o qual terá sido arranjado ou empregado um repórter.
Relações de obrigação e dependência recíprocas entre um carreiris­
ta e um repórter são comuns, uma vez que o repórter também pode
estar investindo na sua própria carreira através do contato.
Examinando os trabalhos, encontra-se uma extraordinária va­
riedade de contextos nos quais as deixas se apresentam: notícias de
municípios no interior, inclusive dos mais miseráveis; colunas so­
ciais; colunas de informes de negócios; colunas políticas; anúncios
privados. Todos apresentam conexões. Todos, como era o caso, es­
tão pedindo novas conexões ou anunciando as potencialidades e a
disposição de seus autores ou das pessoas referidas para estabelecer
novos laços. É do maior interesse o fato de que em algum momen­
to de uma carreira aparecesse uma conexão importante com um jor­
nal, exatamente como em praticamente toda carreira uma conexão
importante com a vida política ou com algum cargo público forne­
cia uma chave. O jornalismo e a vida pública são_ claramente insti­
tuições centraisjoa .sociedade brasileira.
0 passeio a pé _é_uma_ técnica de bnportância no fluxo_e trans-
g&issão de„ informação* O passeio_a pé proporciona a oportunidade
|4e encontros exploratórios a partir dos quais as conexões podem
^crescer. Essses encontros ocorrem em lanchonetes, nas portas dtTli-
VEEtriap, e assim por diante, e se constituem de conversas mlõrtnais
acerca de cenário social da cidade, dp modo. a emitir veladamente
opiniões e demonstrações de conhecimento e conexão.
Hoje, a televjs§.q e o rádio constituem também canais para a
transmissão de jdeixâs para aquela pequena parcela da população
da sociedade que tem acesso a eles.
70 A S o c io l o g ia d o B rasil U rb a n o

I A fofoca é outro mccanisrpo_vitaI. Os brasileiros prestam aten-


j tão í fofoca^ e a armazenam, ao_ contrário dos americanos, cujo ob-
fejtívo principal é aumentá-la, passa-la adiautee então esquecê-laj
É^cõníiecido o caso de um brasileiro que chega c mautcr um ficliá-
^rio de tópicos de fofocas e outras informações da vida pública e pri­
vada dc grande número de pessoas.
1 Reuniões em clubes sociais também proporcionam meios para
a difusão de “ deixas’*, que mo de especial significação devido à sua
exclusividade. U círculo no qual as *;dèbuisMdevem ser disseminadas
é nitidamente definido e restrito.

A principal função da transmisgap e manipulação de*áeixas_é


a manutenção cias fronjeiras entre grupos informais mutuamente
exclusivos de pessoas £U_a apropriação das prerrogativas e concessões
por algum desses grupos, negando-as aos demais. Pode-se*entender
o conjunto do sistema de comunicações como ttm meio de difusão
de determinados tipos de informações em determinados códigos
para apenas determinadas, calpgorias de pessoas. D conhecimento
d or códigos e dos tipos relevantes de iuformação é ensinado, por
aqueles que os sabem, a seus congêneres e sucessores* À aprendiza­
gem ocorre primordialmente no círculo familiar, mas também nos
“ legítimos” contatos entre famílias não aparentadas, mas de men­
talidade semelhante, como em clubes sociais* cliques e grupos de
amigos. 0 acesso,_à_infprmação_ transmitida nos jornais e revistas,
rjno ridio_e_na televisão,.na fofoca de lanchonete^ requer um mínimo l
fde recursos por parte dos participantes. Eles têm que ter tido aces-y
[so à educação. Eles têm que ppder cojnprar jornais sistematicamen-
- te ou possuir um rádio_ou televisãg, uma vez que sua utilização deve
ser contínua. Devem poder freqüentar lanchonetes, assim pordian-
te.
A exclusão total da, ou mesmo um acesso meramente parcial
ou altamente esporádico à informação transmitida por essas institui­
ções torna o pessoal envolvido praticamente ineficiente em todas as
operações com relação às quais a transmissão de deixas é importante,
isto é, para todo controle, planejamento e tomada de decisão econô­
mica e política significativa e organizada. Este ponto ficará mais
claro na minha discussão abaixo acerca da panelinka.
E claro que a pobreza institucionalizada seria altamente fun­
cional na manutenção de tal sistema, uma vez que ela automática
e eficazmente exclui o pobre, seja totalmente ou num grau signifi­
cativo, do acesso às deixas e informações e jle sua transmissão. A
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 71

institiiriionalÍTaçãn ria pobreza no Brasil compreende uma inflação


que, especialmente nos níveis mais baixos, consome praticamente
todo aumento salarial c o n c e d id o , mas que é ao m esm o tempo utili­
zada pelos ricos para aumentar sua própria renda. Compreende um
sistema e s c o la ^ c g n s tr u íd o de forma a fomentar o privilégio e ex­
pulsar o”pobre tão ced o quanto possível; por exemplo, pela d ifie u l-
da3e Vcusto~3o atendimento, por exigir uniformes que devem ser
pagos, pela ausência de transportes e, freqüentemente, quando são
alcançados os graus elementares superiores, pela exigência de ensi­
no especial e pago para o prosseguimento.8 ^in^Uuci<ma.UzaçíIo da
pobreza também compreende uma extraordinária gama de institui­
ções informais,^das^quais o controle da transmissão de deixas que
discuti é apenas uma.
A pobreza também traz seus próprios símbolos externos, roupa-
jgem, fala e maneiras especiais, de modo que a "sua Tnstitucionaliza-
jção informal incluí um tratamento diferencial por todos, tanto ricos
jeomo pobres^ As técnicas sao inúmeras e as consequênciãsT^inevi-
tãveis. Aqui, pode-se observar, como exemplo único, o tratamen­
to diferencial dado a um homem pobre e a um homem de posses
numa repartição pública, quando ambos estão fazendo reclamações.
0 empregado encarregado pode, certamente, identificar imediata­
mente ambos os protagonistas, seus prováveis associados, os interes­
ses que representam, simplesmente pelos símbolos visíveis de seus
status. Ele baseia sua linha de conduta nesta informação, expul­
sando talvez o homem pobre, mandando-o voltar no dia seguinte,
ou não encontrando solução para o seu problema, ao passo que cha­
ma o homem rico a seu escritório, considera imediatamente seu pro­
blema, resolve o caso na hora, e estabelece um vínculo de obrigação
mútua às expensas do homem pobre.
Ainda mais, as comunicações, no sentido mais amplot fazçrg
parte do controle dos pobres. Com efeito,, o mal fimcipqamento ins­
titucionalizado de praticamente toda a rede telefônica urbana e do
chamado sistema telegráfico “ nacional” assegura grandes dificul­
dades à organização tanto em termos de habilidade em sugerar os
problemas da distribuição espacial de pessoas como em termos do
tempo necessário à organização. Apenas aqueles que têm acesso a
transmissores de rádio privados ou estatais (como o pessoal do Es­
tado, um certo número de políticos e alguns dos cidadãos privados
mais ricos e bem relacionados), ao caro telégrafo e sistemas telefô­
nicos “ Nacional” ou “ Western” , ou ao rápido transporte pessoal,
sobretudo por aviões, escapam ao lento ritmo da organização telefô­

# Leeds, 1957, cf. Capítulo V ; Leeds, n o prelo; Teixeira, 1957, 1958,


1960.
72 A S o c io l o g ia d o B rasil U r b a n o

nica. Deve ser observado que o caro sistema telegráfico “ Western


as redes telefônicas de longa distância (ao menos no Sul), os arran­
jos para a transmissão no rádio e o transporte aéreo, operam de ma­
neira realmente eficaz numa base nacional ampla. As comunica­
ções ferroviárias e telefônicas relativamente localizadas e o telé­
grafo “ nacional” , em sua maioria, funcionam bem apenas na re­
gião mais urbanizada, industrializada, corporativamente organizada,
e marcadamente rica em torno de São Paulo. De passagem, v a le j
pena assinalar^ que o mau funcionamento institucionãlizaH^dí sis­
tema de comunicações afeta totalmente os pobres, mas também afe-
. ta por extensão todos os status e níveis salariais médios, e atua so­
bre. çles, iambéiu, como um sistema de controle social exercido pelos
detentores "das ppsiçoes centrais da sociedade.
Em suma, sem entrar em maiores detal&es aqui, pode-se dizer
que a transmissão de deixas em si mesma, seu controle, o fluxo am­
plo de outras forma de informação, o controle desse fluxo e todas
as instituições formais e informais provenientes destes controles
criaram e mantêm limites altamente impermeáveis entre os dois gru­
pos fundamentais — que chamei de classes e massas — e frontei­
ras apenas relativamente permeáveis entre os subgrupos hierárqui­
cos das classes.
Deve-se observar que as massas e as classes de sistemas sociais
como o do Brasil encontram-se numa relação funcional bastante viá­
vel para ambas. As massas nao sao sintomas de “ desorganização”
ou “ disfunção” , ou de uma sociedade “ doente” . Como a riqueza,
o prestígio e o poder de decisão permanecem todos nas classes, que
visivelmente não têm nenhum desejo forte de disseminá-los pela
população como um todo, mas que tiram deles grandes vantagens,
o sistema tende a se perpetuar. Além disso, o alto grau de controle
exercido sobre as massas tende a forçá-las a procurar nas classes
apoio e ajuda, reforçando assim estrutural e ideologicamente o sis­
tema ,

VI

Voltando à estrutura interna das classes, podemos examinar o


papel das comunicações em levar o carreirista principiante a rela­
ções significativas com pessoas de síafus de igual importância, e o
tipo de grupo informalmente socializado e societalmente focal no
qual ele entra. 0 resultado da transmissão e manipulação de dei­
xas é nma série sempre crescente de conexões, associações e ocupa­
ção de posições. Desta forma, um informante de 26 anos, que con­
trola um colunista social prestando-lhe favores ocasionais como o
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 73

saldo de dívidas de jogo ou de dívidas contraídas por causa de mu­


lheres, já entrou numa panelinha, tem conexões no Rio, e já se
tornou até membro de vários conselhos de diretores mesmo sem ter
sido consultado. O fato de que ele possui também treinamento espe­
cial num campo não acadêmico é geralmente sabido e desempenha
um papel na sua seleção.
Os estágios iniciais e médios da carreira, que podem durar cer­
ca de 10-11 anos, caracterizam-se pela multiplicação das fontes de
apoio, de modo que, antes de mais nada, não haja recuos; em se­
gundo lugar, de modo a existir um permanente conjunto de tram­
polins; em terceiro lugar, de modo a que existam diversos conjun­
tos de conexões, por entre as quais, por motivos estratégicos, o car­
reirista pode movimentar-se para avançar em sua carreira posterior.
Talvez nosso melhor exemplo seja um homem que construiu
simultaneamente uma carreira como acjvogado, acadêmico, político
e jornalista. Quando fracassou nji política, possuía três outros con­
juntos _de Jnteresses^ e conexões^ em ativo andamento para prosseguir
sua projeção, como dizem os brasileiros. Ele havia dividido sua vida
acadêmica entre o país natal e o estrangeiro. Quando se envolveu
escandalosamente com uma outra mulher que não sua esposa, en­
controu conveniente refúgio temporário na Europa, de onde prosse­
guiu no jornalismo. Recentemente, retornou para reativar a base
política e reassumir seu papel acadêmico.
Qaando um homem alcançou certo ponto em sua carreira, ca­
racterizado por contatos desejáveis, um certo “ nome em sua área
ou áreas, ele pode ser convidado a participar de uma panelinha.
O convite pode ser explícito ou ser feito através de um teste verbal
não explícito. As panelinhas existem em todos os tipos de atividade.
mas,_.para_ nosso objetivo, as panelinhas políticp-economicas., mais
do que, digamos, as literárias ou acadêmicas, são de interesses j>ri-
mordjal, embora deva ser lembrado que todas as paagliphas- nn me­
nos em p^rte^ possuem fins. pplítiços^
A vanelinha poLticQ-£poaQiaica consiste caracteristicamente de
um inspetor da alfândega, um homem de seguros, um ou_dois ad­
vogados, homens de negócios, um contador, um vere^dox, deputado
estadual ou federal, e um banqueiro com seu banco. Nao se esta­
belece nenhum compromisso formal entre essas partes; nenhuma
reunião formal é mantida. Elas são identificáveis apenas por rela-
tos de informantes ou jpela_pbservação de esforços cooperativos dura-
douros entre as pessoas envolvidas. Freqüentemente, essa coopera­
ção nao é facilmente visível.
Cada panelinha mantém suas relações internas a nível local
por meio de certas sanções potenciais muito simples. Aquele que
74 A S o c io lo g ia d o B rasil U r b a n o

abandona uma 'panela perde automaticamente suas conexões no lo­


cal. Uma vez que a panela na localidade é também uma sociedade
de groteção mútua — seus membros sao praticamente imunes à lei
em função da pressão que pode ser exercida através das conexões da
panela — , o .apóstata jperde suas proteções» a menos, é claro^gue
já se tenha alinhado nuina^outra panela. Em outras palavras, como
membro de uma panela clc tonto d ii. como recebe.
0 banqueiro que sai perde os negócios e depósitos dos membros
de sua panela — e às vezes o total de bens de uma panela pode
chegar a dez ou mais bilhões de cruzeiros. Ele teria dificuldades
em encontrar substitutos, pois a maioria das pessoas de interesse já
se encontra ligada a seus próprios bancos. Por causa da dependên­
cia do banco, eles nao tendem a ser a força predominante das pa­
nelas cujos membros têm poder e status mais ou menos equivalen­
tes.
T3e modo semelhante, o deputado depende da panela para a'
sua eleição (e seu bom salário) — ele é o seu homem. Todavia,
por sua vez, ela depende dele porque ele fornece os vínculos com
o governo tão necessários para a solução de inúmeros problemas
definidos pelos membros da panela. |
Isso é particularmente verdadeiro quando se trata de vín­
culos que alcançam a cúpula político-administrativa, visto que cada
: panela tem seus laços com a hierarquia juvídico-política até o pre-
í sidente, que é a pedra fundamental de toda a estrutura. Esses la­
ços atravessam o Rio de Janeiro, especialmente os escritórios de
direito do Rio, os altos burocratas do Rio, funcionários de minis-
: térios, deputados federais e senadores, e assim por diante, a partir/
\dos quais os ministros podem ser alcançados.
Os ministros fazem os contatos com o presidente quando ne­
cessário, especialmente em problemas como os que podem envolver
a indicação de funcionários ou a tomada de decisões importantes
quanto à alocação de fundos. Nos últimos anos, as decisões de
cúpula finais que dizem respeito às panelas em níveis político-
íidministrativos menores mudaram-se para Brasília e doravante se­
rão cada vez mais rápidas.
As panelinhas, todavia, não são totalmente dependentes do
presidente e de outras altas autoridades, já que, por sua vez, estes
precisam das panelinhas que favoreceram para a retribuição de fa­
vores. Isso é especialmente verdadeiro no que diz respeito ao apoio
político a nível local^seja em eleições ou em decisões que afetans.
as hierarquias políticas municipais ou estaduais* J3 abandono de
uma panelinha não é boa política. A relação entre ãs panelinhas
■de nível maior e menor ê recíproca, exatamente como as relações
C arreiras B rasileiras è E s t r u t u r a S o cial 75

no interior da panelinha, embora de tipo diverso, são recíprocas, e


as conexões individuais com grupos e organizações por parte do
cabide são também recíprocas em suas obrigações e utilizações —
uma vasta rede de obrigações mútuas.
A panelinha também alcança os níveis políticos, os mais bai­
xos, estabelecendo contato com panelas municipais da mesma for­
ma como o faz com as panelas a nível federal.
Relações recíprocas semelhantes são estabelecidas aqui. Às pes­
soas que podem mover-se em ambas levam vantagem, mas tendem
a mover-se permanentemente no interior do nível mais alto e não
a operar em ambos, substituindo as relações recíprocas 46igualitá­
rias” de um participante do nível mais baixo pelas relações recí­
procas hierárquicas de um participante do nível mais alto com
relação a um do mais baixo.
O número de panelas em uma cidade ou estado é proporcio­
nal ao seu grau de avanço econômico, político ou social. Assim,
estados como o Piauí e o Maranhão possuem provavelmente uma
ou duas; a Bahia, muitas; Minas Gerais, algumas; São Paulo, inú­
meras. É interessante observar que, numa estrutura de oportuni­
dades em expansão, as panelinhas geralmente nao brigam entre si,
especialmente a nível local. Não se adere a uma briga que pode­
ria ser destrutiva para uma panelinha, preferindo a panelinha per­
dedora unir-se à vencedora. Apenas para grandes contratos ocorrem
genuínas batalhas competitivas, porém essas batalhas tendem a pas­
sar para a cadeia de comando da panela, de modo que a batalha é tra­
vada no nível burocrático e mesmo ministerial mais elevado.
Pode-se ver que a panela ê um grupo que se automantém com
algumas funções. Em primeiro lugar, ela funciona para selecionar
talentos de certo tipo, embora possa também proteger a inépcia
por motivos políticos internos, especialmente quando um grupo de
auxiliares e patrocinadores, uma espécie de claque chamada no
Brasil de Rotary, é mantida como dispositivo tático, como no caso
dos repórteres do i-eitor da universidade acima mencionado. Todavia,
em geral, os membros dominantes sao pessoas de grande habili­
dade, o que se reflete em termos de admiração, quase que de ado­
ração, como furador, cavador, absorvente, pára-quedista, etc. A in­
clusão por convite dá certa garantia de que uma pessoa desse tipo
será trazida para dentro da panela.
A contrapartida disso é que carreiristas medíocres tendem a
ser excluídos e que todas as pessoas possíveis que querem subir,
ascender socialmente, são, na verdade, controladas a partir, de çima5
mesmo se elas já estao nas “ classes” . 0 controle da mo^üídad^'ás^
, cehsiojial jdçs ^/^pia^aas” é heqi inais_sey.ero^ e será, descrito em
A S o c io l o g ia d o B rasil U r b a n o

/butra oportunidade. Em ium a,_a panelinha e o cabide são unida-


Wes-est£tituraÍ5 ^que^-yinçuladas ou a ã o ^ ia m uma divisão de clas­
s e no Brasil. Uma divisão praticamente total: aquela entre as
'classes e as massas. As outras divisões, no interior das classes, apre­
sentam graus variados de impermeabilidade, especialmente marca­
dos nas proximidades da parte mais baixa e do topo. Estas consti­
tuem estratos no interior das classes mais do que grupos claramente
integrados, menos ainda conscientes de si, paxa os quais o termo
“ classe” seria apropriado. Em outras palavras, o Brasil possui um
sistema de duas classes com estratificação interna em ao menos
uma delas. A outra é praticamente desconhecida.
Em segundo lugar, a panelinha possui certas funções econômi­
cas. É um grupo de controle e constituição de capital, que mantém
grande parte de seu dinheiro em forma líquida. Isso permite a seus
membros ter à mão grandes somas de dinheiro de maneira extre­
mamente fácil pela redução da maior parte das restrições e exi­
gências legais, e permite que eles estabeleçam rapidamente conta­
tos, realizem grandes compras ou várias especulações com grande
facilidade.
De diversas maneiras, a panelinha atua de modo a ajudar seus
membros a resistirem à taxação através, por exemplo, da transfe­
rência de bens de um para o outro, sem o pagamento das taxas
de transferência correspondentes, ou pela introdução de bens por
contrabando ou com taxas de importação muito reduzidas por meio
de seus membros na alfândega. Através de seus membros políticos
e banqueiros, a panelinha tenta tirar vantagem das taxas de câm­
bio controladas pelo governo para enfrentar, agir contra, opor-se
à inflação e tirar vantagem dela para o aumento do capital e li­
quidez — e, é evidente, da riqueza pessoal. Ao mesmo tempo,
através das atividades e interesses variados de seus membros, a pa­
nelinha tende a controlar uma proporção muito ampla de bens eco­
nômicos no interior da unidade política na qual opera, uma vez
que o controle pode ter importantes repercussões políticas, podendo
ser inclusive um plano político, como na recente contenção de ali­
mentos básicos dos mercados urbanos com correspondentes mano­
bras políticas a todos os níveis9.

* Em junho e julho de 1962, ocorreu no Centro-Sul do Brasil, especial*


mente na área do R io , uma escassez aguda de todos os principais gêneros
d c primeira necessidade. Promessas eram feitas constantemente e nenhu­
m a ação efetiva era realizada para aliviar a situação, até que, primeiro,
5.000.000 de sacas de arroz foram “ descobertas” “ escondidas” n o R io
Grande d o Sul, e os saque de alimentos em Duque de Caxias, n o Estado
do R io de Janeiro, produziram um quase instantâneo reaparecimento de
quase todos os gêneros em suprimento adequado nas lojas. Durante o
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o cial 77

Isso ocorre tanto com a panelinha quanto com seus componen­


tes de cabide. Observando-se do ponto de vista da carreira, pode-ee
ver que a carreira passa, idealmente, por uma série de níveis de pa­
nelinhasi, identificadas principalmente com os níveis políticos muni­
cipais, estaduais e federais. Conforme se ampliam as conexões, ati­
vidades, experiência e riqueza de um homem e se contraem mais
relações verticais ascensionais, sua carreira tende a alcançar a pa­
nelinha de nível imediatamente mais alto. Do ponto de vista da
carreira, ela gradualmente se universaliza e se nacionaliza, no sen­
tido em que seu nome, sua influência e suas atividades tornam-se
geograficamente nacionais em alcance. Isto é, sua projeção torna-
se cada vez mais ampla no raio de ação sócio-geográfico. Essa pro­
jeção torna-se estruturalmente firme por meio de laços descenden­
tes com várias panelinhas estaduais e municipais, por seus laços de
cabide em vários diferentes tipos de esforços, e por seus interesses
e atividades geograficamente dispersos. Por exemplo, um de nossos
casos tem sua força política num estado do Nordeste; seus laços
associativos mais influentes e grande número de suas conexões de
negócios estão no Rio; suas atividades centrais de negócios, em Bra­
sília; e um conjunto de conhecimentos no Congresso Nacional e
em legislativos estaduais e municipais.
O estágio final da carreira é a projeção internacional, mas as
posições da sociedade para tal sao extremamente limitadas em nú­
mero como o são as mais elevadas posições político-burocráticas na­
cionais.
É neste nível mais elevado, onde a estrutura de oportunida­
des, sob outros aspectos expansiva, se contrai abruptamente, que se
observa o conflito mais feroz no Brasil. Tanto a projeção nacional
como a internacional são auxiliadas muito significativamente pelo
acesso aos, ou pelo controle dos meios de comunicação e de trans­
porte, uma vez que o primeiro auxilia o estabelecimento de conta­
tos, /i manutenção de um fluxo de informação adequado, e assim
por diante, enquanto o último permite a constante manutenção de
importantes relações. Ambos, em conjunto, permitem um controle
relativamente instantâneo sobre os problemas a serem resolvidos,
o que não é acessível às massas ou aos níveis mais baixos das clas­
ses. Na verdade, o controle de ambas essas tecnologias pelos níveis
mais elevados é um dos mecanismos fundamentais, especialmente
da manutenção da divisão de classe entre as classes e as massas,
mas também da divisão entre os estratos mais elevados e mais
baixos das classes.

saque, todas as casas foram avariadas ou invadidas, exceto a de um


deputado. A turba de grevistas deixou, em consideração, sua casa intacta!
?8 A S o c io l o g ia d o B rasil U rban o

V II

Há ainda alguns pontos relativos a esta sinopse de resultados


Em primeiro lugar, a divisão da economia política brasileira em
subesferas tais como as de negócios, educação, indústria, institui­
ções burocráticas, serviços públicos, etc. tem, na melhor das hipó­
teses, valor analítico, mas na verdade não faz muito sentido estru­
turalmente nos níveis mais elevados, uma vez que estão todas inti­
mamente articuladas, especialmente nas fases finais do desenvolvi­
mento de uma carreira, ou em outras palavras, nos mais elevados
níveis da tomada de decisão efetiva. As divisões sociais se dão,
na verdade, mais ao longo das linhas oligárquicas descritas por
Teixeira, cujas evidências constantemente apareceram nos mate­
riais de história de vida. As oligarquias tendem a atravessar os se­
tores e esferas analíticas mais convencionais. Elas parecem mais
avançadas nos estados de São Paulo e Minas do que na Bahia e
no Recife. Nos níveis mais elevados dentro de cada oligarquia, os
limites começam a se enfraquecer por causa da quantidade e inten­
sidade dos laços cruzados entre o pessoal que ocupa as posições
mais elevadas ou por causa de pessoas, especialmente políticos al­
tamente situados, que se relacionam com muitas oligarquias ao
mesmo tempo.
Em sua maioria, nestes níveis mais elevados, os fins últimos
de todos aqueles em questão sao relativamente uniformes, de,
modo que não há clivagens políticas genéricas fundamentais na
cúpula no Brasil. As clivagens parecem girar em tomo de polí­
ticas específicas como a implementação dos objetivos políticos ge­
néricos e do acesso ao controle de todo o sistema e suas recompen­
sas no ponto mais elevado — a presidência e suas dependências.
Eu poderia representar a situação da organização social total bra­
sileira como o diagrama encontrado no Quadro 3.
Em segundo lugar, algumas observações quanto à téc­
nica de pesquisa. A técnica utilizada neste estudo pode ser pron­
tamente estendida a todos os outros grupos significativos da socie­
dade, inclusive às “ massas” e às camadas de síatus e nível sala­
rial médio. A técnica é essencialmente um dos procedimentos, e
uma adaptação especial, do chamado método de estudo de comu­
nidade. Diferente deste último, esta adaptação não é, em seus as­
pectos essenciais, restrita a qualquer localidade dada, uma vez
que a “ comunidade” das “ classes” brasileiras tende sempre, pela
natureza mesma da carreira, a um alcance nacional ou mesmo su­
pranacional, ao passo que, segundo evidências recentes, mesmo a
comunidade das “ massas” , apesar de alguma ligação a localidades
Quadro 3

N ota: A s linhas verticais inclinadas representam a expansão e contração


da estrutura de oportunidade. A s setas representam a mobilidade ascen­
sional, A s linhas pontilhadas representam limites indefinidos ou pouco
definidos. As camadas pontilhadas representam divisões de estratos. Os
triângulos em linha tracejada representam grupos de interesse bastante
am orfos ou categorias não significativamente vinculadas a grupos de in­
teresse importantes, as “ oligarquias” . O sím bolo / = / representa canais
através dos quais é feita a conexão com as grandes oligarquias. Estes
grupos ou categorias, do meu ponto de vista atual, incluem as igrejas,
professores primários e secundários, profissionais autônomos, alguns sin­
dicatos, alguns tipos de associações, etc.
80 A S o c io l o g ia do B rasil U r b a n o

ou regiões por motivos ecológicos e de controle social, tende a ex­


tensos laços organizacionais interurbanos e interestaduais. Certa­
mente, os “ níveis mais baixos” das classes possuem com freqüên­
cia amplas conexões de tipo institucional supracomunitário trans-
local.
Em vista dessas redes institucionais supralocais a todos os ní­
veis, a técnica de carreira pode ser usada com as massas e “ níveis
mais baixos” das classes, entre os quais incluo presidentes de sin­
dicato, trabalhadores especializados e equivalentes. Em vista dos
indicadores da existência de uma organização semelhante à paneli­
nha nas massas e níveis mais baixos das classes, e em vista de con­
versas exploratórias com pessoas das massas, com líderes sindicais,
e assim por diante, é praticamente certo que as entrevitag sobre
carreiras seriam praticamente tao produtivas com eles como com
os carreiristas em posição de controle. Uma pesquisa deste tipo,
a julgar por um rápido olhar inicial, seria muito reveladora no
que diz respeito à estrutura social, barreiras sociais, mobilidade so­
cial, e no que diz respeito aos mecanismos da organização social
de, e além de, qualquer tipo de localidade.
Com efeito, a técnica pode, para muitas características impor­
tantes, ser_utilizada na descrição qualitativa dos sistemas sociais
das cidades de qualquer tamanho — as operações internas da eco­
nomia e da política da cidade, bem como seu sistema de estratifi­
cação correspondente, e asgim por diante. De fato, o resultado da
técnica é o de traçar uma espécie de genealogia de todos os gru­
pos de parentesco, significativos ou nao, da população da cidade,
bem como de muitos dos indivíduos em questão. Descobre-se quem
se relaciona com quem (por laços de parentesco e de qualquer
outro tipo importante) na tessitura social. E, ainda mais, no de­
correr desse mapeamento descreve-se também como tais “ genealo­
gias” nascem, isto é, a dinâmica da organização social. Ë impor­
tante observar que ele revela estruturas em geral visíveis aberta­
mente e não acessíveis à observação, que utiliza as categorias co­
muns de coleta de informações, como a demográfica, a estatística, a
ocupacional e outras rubricas de estratificação.
C abreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 81

VIII

Concluindo, gostaria de assinalar, inicialmente, que ao longo


da dcscrição da estrutura de carreiras no Brasil foi possível des­
crever muitos dos aspectos fundamentais da estrutura social na­
cional brasileira, dos instituições sociais brasileiras conduzidas pelos
grupos nacionais e locais. À descrição não se atem aos limites arti­
ficiais criados pelo chamado método de estudo de comunidade, ou
pior* pela pletora de estudos de localidades que não são nem mes­
mo comunidades, mas que estão encravadas nas estruturas sociais
nacionais. /
O método de estudo de comunidade ou de localidade, em
parte um empréstimo de inétodos de estudo atri6aís” , ^tendeu
sempre a impedir a apreensão das conexões que integram a eomu-
nidade a ordem social maior pela qual elã ê profundamente aba­
lada" em suas articulações mais básicas. Na medida em que as co­
munidades. _em soçjedades nacionais são, fundamentalmente unida-
des^swiaisj elas _existcm_ nurna constantc ç jtiva_relação coin as
instituições^ nacionais que são, na melhor das Jiipótesç§,_ nada mais
do que apontadas e nunca descritas pelos antropólogos. As comu-
nidades podem estar em conflito com as instituições nacionais;
elas podem, como o fazíãmT coexistir com elas; elas poclem ter
uma^_ativa participação nelas; e, com relação aos diferentes con­
textos da vida comunitária, elas podem fazer tudo isso ao. mesmo
tempo, em diferentes graus e em diferentes momentos. Poucas,
se é que alguma, descrições das relações entre sociedade nacional
e sociedade comunitária são encontradas na literatura, e a comuni­
dade tem sido apresentada, por causa do método, como _uma jjs-
pécie de unidadejnônada cuja dinâmica interna e trajetória pQflein
ser apenas obscuramente percebidas^ 0 método aqui sugerido per-,
mite ao menos uma aproximação da análise tanto do todo como
da parte ao mesmo tempo, porque eles sao vistos como constituídos
basicamente pelas mesmas unidades sociais.
Em segundo lugar, os mecanismos de carreira descritos para
o Brasil ajudam a explicar por que tal sistema tende a permane­
cer como está, isto é, ajudam a explicar a dinâmica do equilíbrio.
Embora eu o tenha apenas esboçado aqui, pode-se ver como fun­
ção da pobreza o reforço constante do privilégio e das vantagens
das classes detentoras de poder. A pobreza concentra a riqueza e o
poder, maximiza lucros c permite o reinvestimento, enquanto os
lucros crescem sob condições inflacionárias. Também todos os me­
canismos para a transmissão de “ deixas” tendem a favorecer as
82 A S o c io l o g ia d o B rasil U r b a n o

classes atuais assim como estão, e, em geral, as classes procuram,


por meios organizacionais, deixar que as coisas permaneçam como
estão.
Em terceiro lugar, pode-se ver que os tipos inegavelmente mais
importantes de organização informal que descrevi para o Brasil
são bastante flexíveis nas circunstâncias de rápida mudança técni-
co-econômica experimentada atualmente, mais ainda nas condições
em que a tecnologia de transportes e comunicação existente e o
industrialismo bastante rudimentar criam grandes dificuldades pa­
ra organizações a longo prazo através de longas distâncias. Em tais
condições, a autonomia relativa e o atomismo geográfico e social
das unidades sociais de todos os tipos são funcionais porque permi­
tem às unidades, qua unidades, ter muitas séries de respostas,
0 tjpo ,de_ jmnjãinha. aqui -descrito..autarquia_se^Ü pÚ b]jça.
semiprivada; . o lig a r q u ia , s e m i^ o ja d a ; ps_estados o _ mcsino, hs
vezes, os municípios consideravelmente autônomos, e até órgãos
como as universidades, escolas e algumas, igrejas^— têm notável fle­
xibilidade por causa de sua autonomia e atomismo,
Elas podem ser contrastadas com a ossificada e monolítica bu­
rocracia. As unidades sociais flexíveis que descrevi aqui podem mo-
ver-se rapidamente, aproveitar oportunidades, reformular políticas,
mudar estratégias e assim por diante, sem que elas mesmas mudem
muito. Em suma, este tipo bastante atomizado, livre de organiza­
ção, sem um fundamento jurídico, é altamente adaptativo para so­
ciedades onde está ocorrendo uma justaposição de seu próprio pas­
sado estático-agrário e de um futuro expansivo-industrial.
Em quarto lugar, hipoteticamente, o caso aqui descrito for­
nece um modelo para todas as sociedades semelhantes. Assim, de
modo geral, esperar-se-ia que países do Oriente Médio, Sudeste
Asiático, alguns africanos e outros latino-americanos fossem confor­
mes ao modelo, exceto na medida em que os fatores variáveis se­
jam mais ou menos influentes em cada caso. Assim, a justaposição
da sociedade expansivo-industrial ao estático-agrário Haiti foi mí­
nima, situação mantida pela virtual ausência de recursos a serem
desenvolvidos segundo modelos industriais naquele país. Seria de
se esperar, entao, uma sociedade muito mais próxima do ideal-tipo
de uma sociedade estático-agrária*
Esperar-se-ia também uma competição mais aguda pelos pou­
cos recursos, mas uma competição que se limita às posições mais
altas de poder. A ausência de uma estrutura de oportunidades em
expansão, a extrema pobreza de recursos, a limitada absorção de
novos status levariam a esperar uma intensa luta pelos poucos
status existentes que têm poder, riqueza e ganhos de prestígio.
C arreiras B rasileiras e E s t r u t u r a S o c ia l 83

Este é o modelo de uma sociedade que possui um pequeno conjunto


a ristocrático de cliques e elites constantemente substituindo-se
umas às outras, freqüentemente pela violência. O Haiti, evidente­
m en te, corresponde de forma bastante nítida a este modelo.
Por outro lado, esperar-se-ia um maior desenvolvimento das
características expansivo-industriais na Argentina e no Chile do
que no Brasil, porque eles são, ou eram, mais industrializados.
Todavia, eles não possuem atualmente, e não o possuem há já al­
gumas décadas, estruturas de oportunidade em expansão, de modo
que se esperaria que as estruturas e elites do tipo panelinha a nível
governamental nacional entrassem em competição direta e violenta
umas com as outras — o que, de fato, fazem.
Dito de outra maneira, o modelo hipotético e o tipo de expec­
tativas discutidas aqui são, na verdade, previsões. O uso de um
modelo permite previsões de dois tipos. Primeiro, a previsão das
situações de campo, isto é, a descrição anterior, como ocorreu, de
que tipo de condições sócio-culturais serão encontradas numa enti­
dade sócio-cultural desconhecida como, digamos, o Iemen ou
Bhutan. O afastamento das condições esperadas levaria à modifi­
cação dos princípios teóricos sobre os quais a construção do modelo
se baseou, bem como à modificação das variáveis, enquanto o en­
contro das condições esperadas tenderia a confirmar tanto os prin­
cípios como as variáveis.
Em segundo lugar, o uso do modelo permite que se façam
previsões razoáveis sobre os estados futuros da sociedade em consi­
deração e, mesmo, de acontecimentos específicos. Do modelo e de
seus elementos variáveis se pode derivar logicamente modelos va­
riantes conseqüentes, pela descrição de relações diferentes das va­
riáveis. Tais modelos constituiriam uma série de trajetórias e con­
seqüências possíveis para uma sociedade sob diversas condições.
Onde uma dada conseqüência não correspondesse às expectativas
do modelo construído na base de variáveis cujos valores para a
sociedade sao conhecidos, estaríamos obrigados a, e em condições
apropriadas para, extrair novas variáveis significativas dos dados,
assim redefinindo e tornando mais poderosa a teoria.
Finalmente, pode ser assinalado que o modelo que estive dis­
cutindo foi moldado principalmente nos termos de uma justaposi­
ção de uma já existente estrutura expansivo-industrial a uma estru­
tura estático-agrária. Cabe a nós perguntar que tipo de modelo de­
veríamos construir para estruturas intermediárias entre as duas,
quando uma estrutura expansivo-industrial ainda não existe. Isso
diz respeito, é claro, ao desenvolvimento puro da sociedade expan­
sivo-industrial a partir da estático-agrária. Seria o modelo muito di-
A S o c i o l o g i a d o B r a s il U r b a n o

ferente? Seria substancialmente o mesmo? Seriam algumas variá­


veis extensivamente afetadas? Certamente, a variável ritmo seria
significativamente diferente, uma vez que a pressão para conden­
sar o tempo total de transformação de um estado para o outro está
ausente na seqüência pura* Evidentemente, também, a variável de
coerção direta ou indireta presente na justaposição não deve existir.
Claramente, a variável de direcionamento na transformação do or­
ganismo em aculturação estaria faltando. Como tais diferenças
afetam o modelo? Elas sugerem, por exemplo, que o desenvolvi­
mento puro pode ter sido mais diverso ao passo que as conseqüên­
cias da aculturação tendem a ser relativamente semelhantes umas
às outras?
Tais questões permanecem para pesquisa futura. Respostas a
elas podem envolver previsão retrospectiva das condições que se
esperaria encontrar no desenvolvimento puro (Europa Ocidental),
ou seja, se poderia predizer a ocorrência de algo parecido com o
fenômeno do autodidata especialmente no século X V III. O afas­
tamento dos modelos retrospectivos exigiria a modificação dos prin­
cípios, modelos e variáveis, ao passo que o encontro das condições
previstas os confirmaria.

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O Brasil e o Mito da Ruralidade Urbana: Experiência
Urbana, Trabalho e Valores rias “ Áreas Invadidas’*
do Rio de Janeiro e de Lima * 1

Anthony L eeds e E l is a b e t h L jgeds

Introdução

Gs_mitos que prevalecem entre os cidadãos das capitaiã e


outras cidades tanto do Brasil como do Peru acerca das áreas inva­
didas por_jpftssejrõs )— favelas e barriadas2 — sustentam, por um
lado, que os moradores têm uma organização social e valores alta­
mente rurãis e são desajeitados em relação a e não familiarizados
com os modos de vida da cidade, muito embora sejam essencial-j
mente voltados para o futuro e desejosos de progredir ou, por outro
lado, pessoasque não desejam trabalhar, são assassinos,

♦ Publicado originalmente em Citcy and Country in the Third World,


1970.
1 Os dados deste trabalho para o R io de Janeiro provêm de oito meses
de trabalho de cam po nas favelas e, para Lim a, de artigos por e extensas
conversas com Mangiji. e. Xurner, duas longas enirevistas com José Matoa
M ar, várias visitas às barriadas, dois meses de pesquisa de Elizabeth
Leeds para Turner Jidando com com parações entre as duas cidades. Os
termos “ favela” » “ barriada” e “ favelado” (m orador de favela) serão usa­
dos com o as demais palavras, sem grifo.
2 Tipos de Moradia semelhantes são chamados callatnpas no Chile, tur-
gurios na Colôm bia, ranchos na Venezuela etc. Dados desses países
sugerem que o que encontramos no Brasil e n o Peru encontra paralelo
lá. Nota: Por pedido dos autores, o manuscrito loi publicado exatamente
com o foi apresentado, sem mais do que o mínimo necessário para a
edição. AJF.
O B r asil e o M ito da R uralidade U r ban a 87

la d ro e s, m a rg in a is c p ro stitu ta s, c sã o im e d ia tista s. com p oucjT


p r e o c u p a ç ã o c o m o . fu t u r o . A m b o s c o n s id e r a m a s J a v e ia s separadas
e isola d a s da s o cie d a d e m a is a m p la , “ e n cla v e s d e n lr o dn c id a d e ” ,
u m a e sp é cie d e jr iü .s to ru r a l d e crim in o so s^ n o c o r p o p o l u ir™ m e­
tr ó p o le . J u stifica tiv a s “ c ie n t ífic a s ” destes p o n to s d e vista fo ra m
m e s m o d e sco b e rta s re ce n te m e n te n o s textos d e in u ito s cien tista s
s o cia is , d o s q u a is a lg u n s d o s tra b a lh o s m a is im p o r ta n te s , c o m o T h e
C hildren o f Sanchcz, estã o c ir c u la n d o e m tra d u çõ e s p o rtu g u e sa s e
e sp a n h ola s n o s re s p e ctiv o s p aíses3. O passado ru ra l e a im p r e v id ê n ­
c ia d o p o b r e d a fa v e la sã o su p o sta m e n te m o stra d o s, ta m b ern , TTo"

3 Infelizmente, Oscar Lewis não nos deu praticamente qualquer sociolo­


gia urbana das entidades de que está tratando na cidade do M éxicc. N ão
parecem ser equivalentes às favelas e barriadas, mas antes os callejones
e cortiços (ver abaixo), sobre os quais praticamente nada é conhecido.
Todavia* Lewis parece estar dizendo coisas semelhantes às que disse sobre
as vecindades e também sobre as entidades de Porto R ic o que parecem
ser equivalentes às favelas ( c f Lewis, 1966a) Bonilla (1961) é também
citado regularmente. Os trabalhos muito mais cuidadosos e perspicazes de
Pearse praticamente nunca sâo citados na discussão geral. M esm o Pearse
. 1958, 62), todavia, com ete erros de ênfase, co m o por exemplo,
acerca da importância da família, porque ele não consegue ter em mente
(a ) que à família é importante em toda a sociedade brasileira, não ex­
clusivamente nas favelas, e (b ) que a família desempenha um papel muito
mais restrito na proporção do número total e variedade de formas de
interações do que ele representa.
Observe-se a passagem que se segue de G oldrich (1965:368), baseada
fundamentalmente em O. Lewis e Carolina de Jesus (1962): “ A orienta­
çã o para a margem (sic) se deve à tendência do pobre urbano da A m éri­
c a Latina de n ã o manter nenhum trabalho regular, mas sim um conjunto
de trabalhos irregulares, ou de mudar de trabalho para trabalho, com o
um ‘nômade do trabalho*. Se uma pessoa não se consegue se identificar
com um papel ocupacional bastante integrado, então será menor a proba­
bilidade de se desenvolver uma orientação estável para a política com
base em seu status ocupacional, fator que retardaria o desenvolvimento
de um sentido de grupo ou consciência de classe, e um conjunto de in­
teresses relacionados.” Ou de novo: “ F oi observado por Lewis e outros
que trataram da cultura da pobreza que sob Qigssão da privação, os
moradores das áreas pobres têm pouca capacidade de adiar a gratificação
e exigem um senso de fatalismo e resignação. Assim, relata-se que os
favelados jresp on d em à s campanhas políticas com esperança e relativo en­
tusiasmo porque os candidatos vêm à favela distribuindo comida,., roupa
ou dinheiro — é talvez a única época em que os políticos demonstram
qualquer interesse por essas pessoas. Mas, exceto nessas raras ocasiões, a
vida é tão próxima do. limite do desastre que não é provável que se de­
senvolva uma perspectiva com relação ao futuro. O processo eleitoral
não parece ter significado para os pobres porque sua própria natureza é
.gradual e abstrata e . . . é pouco provável que os pobres percebam o
constitucionalismo com o um todo com o tendo relação com as suas vidas”
(p. 369).
SS A S o c io l o g ia d o B rasil U r b a n o

li+ro presumivelmente autobiográfico de Carolina Maria de Jeaus


(19 62 ), que foi ávida, mas não criticamente, lido pelos brasilei­
ros4.
Examinando estes elementos míticos, A. Leeds já tratou exten­
samente do imediatismo (1966b). O trabalho de E. Leeds (1 9 6 6 )
gobre integração política e o de Moroceo sobre grupo de carnaval
(1 0 6 6 ) lidaram efetivamente com o mito do enclave isolado. Mo­
desto (19 66 ) trata incisivamente da múltipla rede de causas* da
qual as favelas são uma expressão. Até Pearse (cf. 1957: 245,
1962) indica claramente, de um modo geral, o erro de uma noção
como a de “ marginalidade” e de isolamento em sua discussão da
relação dos moradores das favelas com o mercado de trabalho,
embora afirme, como suposição, que as instituições urbanas são
estranhas e externas aos moradores da favela e, assim, que esta
última deve ser essencialmente rural. Ela busca descrever as “ re­
lações estabelecidas pelas famílias com pessoas e instituições estra­
nhas ao grupo de parentesco (n a ) sua integração efetiva na socie­
dade urbana” (1957: 245; o grifo é nosso)* Mangin (1967a) e
Turner (1 9 6 7 ) listaram precisamente elementos paralelos deste
mito para as barriadas de Lima e, praticamente nos mesmos ter­
mos que apresentaremos aqui, têm indicado seu erro fundamen­
tal. Parece-nos que dados para Porto Rico, Chile e Venezuela tam­
bém demonstram seu erro5.

4 Vários cuidados deveriam ser tomados na leitura de Carolina M aria de


Jesus: a) o livro foi de maneira clara, amplamente organizado por seu
descobridor, um jornalista; b ) consideramos bastante possível que na
verdade, o livro não tenha sido totalmente escrito p o r Carolina; c ) o
livro serviu claramente às operações da carreira do jornalista (cf. Leeds,
1964a); d) Carolina não é certamente uma representante característica
dos dois mil moradores de favelas n o R io que conhecem os, com o m os­
tramos aqui, embora seja concebível que a população das favelas de
São Paulo seja diferente. Ê verdade que as favelas de São Paulo são m e­
nores e mais pobres que as do R io.
5 Cf. Caplow et alt (1964) e G . Lewis (1967). A migração dos portor-
riquenhos para N ova Y o rk indica em si uma preocupação com o futuro,
o trabalho, melhores padrões de vida* uma busca de oportunidades, m o­
bilidade de vários tipos, bem co m o um grau de inform ações sobre as
condições além da ilha. Preocupações semelhantes — não características
da cultura atribuída à pobreza — estão refletidas num artigo na San
Juan Star> 4 de novem bro de 1967, que, sob o titulo de “ La Perla G roup
Starts Repairs” diz: “ Seis ansiosos castores da seção de São M iguel de
Ia Perla criaram um galpão para reparos imediatos de casas destinado a
ajudar sua co m u n id a d e ... ‘construímos o galpão na semana passada por­
que há muitas casas precisando de reparos’ . Baretto disse:' ‘N osso tra­
balho é fazer reparos provisórios de emergência até que as autoridade*
governamentais propriamente ditas possam chegar aqui*. O com itê tam­
bém decidiu ajudar as idosas, viúvas e doentes não apenas a consertarem
O B ra sil e o M it o da R uralidade U r b a n a 89

I Nosso o b je t iv o n este tra b a lh o é m o s tra r o ca rá te r e sse n cia l­


m ente" u r b a n o d a e x p e r iê n c ia e dos v a lo re s d o s m ora ctores d as í a -
x e lã s ^ é hãicriadas. F a z e r isto s ig n ific a c o n tr a d iz e r lit r in s í c a m ê S íe
o ~ m it o da ru r a lid a d e e d o im e d ia tis m o , e c o n v e r te as s u p o s iç õ e s
im p líc ít a s ~ 5 e P e a rse e m p r o p o s iç õ e s e x p lic it a m e n te v e r ific á v e is —
p a ra a m b o s os p a íse s — q u e e sp e ra m o s m o s tra r se re m e sse n cia l­
m e n te fa lsa s0. É im p o r ta n te o b se rv a r q u e a s u p o s iç ã o tra n sfo r­
m a d a e m p r o p o s iç ã o c o n t é m a fir m a ç õ e s v e r ific á v e is d e m o d o in d e ­
p e n d e n te : a) q u e as p essoa s e in s titu içõ e s u rb a n a s sã o ex te rn a s às
p o p u la ç õ e s em q ú e s tã o ; b ) q iíe estas p o p u la ç õ e s n ã o fo r a m , d e
m odo a lg u m , e fe tiv a m e n te in te g ra d a s n a s o c ie d a d e u rb a n a .

suas casas, mas a ‘fazerem quaisquer construções adicionais necessárias*...


O reencanamento de um esgoto que estava vazando em baixo da casa de
um vizinho foi feito para evitar possíveis infecções. ‘Havíamos chamado
o governo para isso*, disse Baretto, 4mas nada aconteceu, de m odo quo
decidimos que nós resolveríamos’ . ” La Perla é um arrabel (favela).
C f. O . Lewis, La Vida.
€ Para fazer justiça, deve ser assinalado que uma pequena parte dos
dados d o artigo de Pearse (1958) se baseaia numa fonte não citada para
1948, outra parte nos dados do censo de 1950 (sendo duvidoso que os
critérios de procedim entos de cam po para os dois conjuntos de dados, que
*ão com parados n o artigo, fossem com paráveis). A parte mais importan­
te baseia-se num survey realizado por uma freira em 1955, mas os m éto­
dos de seleção, os procedimentos de cam po e as questões colocadas às
19 famílias utilizadas para entrevistas mais intensivas não são fornecidos.
A o contrário, jq primeiro contato de Leeds jçorn_ag favelas fo i apenas .em
Í95HTquando José A rtur R ios estava implementando _as primeiras form u­
lações das políticas d o < j 0vern 0 ~de T ãcerda relativas à f avela;* õíi~seja,
já havia um ano e m eio ou mais que ocorria um n ovo tipo de^fintervenção,
que n ão existia quando Pearse esteve lá ._ A m aior parte de nossos dados
qyaliíativos é de 1965-66, dez anos de intervalo em relação a õ ” cõntã’tÕ"ííe
Pearse» durante o qual, provavelmente, grandes mudanças podem ter
ocorrido. Tentamos controlar as mudanças que podem ter ocorrido, obten­
d o as melhores descrições históricas possíveis — especialmente das re­
lações políticas das favelas com seus interesses por tod o o período.^ Tam -
jjbém nos esforçam os p o r o b ter um quadro das m udan^^_na_£alítica^3as
ílinstitniçSes. pübnças^ p o r g u e estas estabelecem limites para a& oossibilida-
jltfê?T~cfe~Tntegração ejn. qualquer èpóca dada (ver abaixo). Para as barria-
das, há m elhor material histórico disponível porque Mangin, Turner e
M atos M ar estiveram em contínuo contato com elas por pelo menos
uma década, e o desenvolvimento ecológico urbano das barriadas, que
se iniciou mais recentemente que nas favelas, é relativamente bem co ­
nhecido. Para ambos os casos, concluím os que houve menos uma evolu­
çã o de experiência e ideologia dos moradores da favela e da barriada do
que uma evolução de sua articulação com a sociedade contextuai (cf.
Peatti, 1968, Cap. 2 ). Esta articulação é governada por desvios na polí­
tica ou em necessidades políticas e de outros tipos daquelas agências da
sociedade e, crescentemente, pela evolução da estrutura social interna das
próprias favelas.
90 A S o c io lo g ia d o B r a sil U r b a n o

Antes de nos voltarmos para os nossos dados, desejamos fazer


duas observações metodológicas e teóricas. Primeiro, uma palavra
sobre o termo ^integração11. Ele vem sendo correntemente usado
numa vasta literatura sobre sociedades em desenvolvimento de uma
maneira determinada por valores, significando em sua essência “ o_
nosso” , isto é3 um tipo de integração americana, “ ocidental” , .“ de­
mocrática” , baseada no “ mercado”^ (cf. Pearse, 1957, também cla­
ramente exposto em Nadler, 1967, e Cliaplin, 1966, sem o em­
prego da palavra)* Daí decorre_que., as outras sociedades sao não-
ilitegradas ou desintegradas. Em bases teóricas, metodológicas e dc
'observações, esta visão mantida de forma tao comum, mas incons­
cientemente, é,desprovida de sentido porque implica necessária e
logicamente que a sociedá3e medieval, as sociedades de irrigação,
os despotismos orientais, as sociedades “ tradicionais” , as sociedades
arcaicas, as sociedades “ subdesenvolvidas” e^. mesmo as sociedades
primitivas, tão caras aos antropólogos, são não-integradas ou desin­
tegradas. Tais visões são despropositadas em Jermos de qualquer
teoria, societal generalizada viável. Torna-se evidente que devemos
começar a pensar em fojcgias de integração qualitativamente jfjife-
rentes, seja como Jipos-ideais, como modelos estruturais empirica­
mente orientados,/ como formas evolutiva^ ou qualquer combinc-
ção disso (ver Leeds, 1964-a^. Os_cj£jitIst ás.__sotyais d eycyí^m diri­
gir esforços intensivos para a compreensão dessas_formas de_ inte­
gração, em seus próprios termosy _comq_formas viáveis, independen­
tes dos modelos “ americano” ou “ ocidental” .
Uma conclusão a ser tirada dessas observações é que se deve­
ria buscar empiricamente ou prever teoricamente a forma de inte­
gração das favelas e barriadas no resto da sociedade e não fazer
suposições teóricas inaceitáveis da não-integração ou desintegração
dessas entidades.
Em segundo lugar, como decorrência do que foi dito, as
“ áreas invadidas” não podem ser compreendidas empírica ou teo­
ricamente a não ser que sejam examinadas em detalhe como partes
de um sistema maior e como produtos da operação do sistema. Es­
pecificamente, nós — assim como aqueles que realizaram trabalhos
de campo nas barriadas — aprendemos, mais com a experiência
empírica do que com a teoria7, que nem_as .fqvelas nem ^s barria­
das podem ser adequadamente compxççndidas sem a compreensão
de uma ampla gama de* outfõs tipos sóciojesidenciais concorrentes,
uma vezjçjue os movimentos para, entre e de favelas ou barriadas.

7 O que se segue teria sido previsível a partir da teoria antes d o estudo


de cam po se os cientistas sociais estivessem acostumados a produzir hipó­
teses pensando teoricamente a partir dos materiais empíricos.
O B rasil e o M ito da R uralidade U r b a n a 91

constituem parte do processo de desenvolvimento favela-b^rrlada.


migrações nirãl-urbanas e_ urbanização de ^pessoas não- urbanas, e
assim por diante^ Segundo Matos Mar (entrevista de 4* de setem­
bro, 1967) e segundo nossa revisão de praticamente toda a litera­
tura sobre habitação no Rio (ou outro lugar do Brasil), nao exis­
tem estudos para Lima ou para o Rio acerca desses tipos residen­
ciais, exceto o de Patch (1 9 6 1 ). Em geral, eles são desconhecidos,
a não ser pelo trabalho de Oscar Lewis sobre vecindades no México;
o melhor material que temos para o Rio e para Lima é superficial
porque se baseia apenas em breves incursões nesses outros tipos de
habitação9. Conseqüentemente, todos os quadros da estrutura social
e do processo social envolvidos sao, até hoje, incompletos, seja para
a Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Guatemala, México, Nica­
rágua ou Peru, os países latino-americanos em que estudos mais
exaustivos foram realizados9.

8 N o R io , estes consistem dos tipos listados à esquerda abaixo, ao passo


que os equivalentes para Lim a estão listados à direita. D efinições apro­
ximadas são dadas abaixo (cf. Harris e Hosse).

a. conjunto conjunto
b. vila urbanizoción popular
c. cortiços caHejones
d. parques proletários vilas de emergencia
e. avenidas viviendas continuas
f. cabeças de p o rco , casas de
côm odos casa de vecindad
g. favelas de quintal corralones
h. favelas barriadas
i. áreas pobres propriamente
ditas (nenhum term o que
conheçam os) turgurios, barrios insalubres
a. N o Brasil, um “ projeto habitacional” independente do nível de renda
ou de estratificação; a maioria é ocupacionalmente especializada, justifi­
cando-se portanto falar de conjuntos da “ classe trabalhadora1*, b. vilas da
classe trabalhadora, c . essencialmente, uma única construção de um ou
dois andares divididos em fileiras de apartamentos horizontalmente, em
volta de um pátio com prido que contém uma ou duas bicas, tanques para
lavar roupa e banheiros. Em São Paulo, o termo foi aplicado a casas
de côm odos, d. habitação governamental temporária para a classe traba­
lhadora, feita de madeira; no R io, na verdade, habitação permanente.
Ainda não descobrimos termo equivalente para Lima. e. filas de casas.
/ . . . g. construções tipo favela autorizadas pefo proprietário no quintal ou
na frente da casa, para elevar sua renda. h. áreas invadidas por posseiros
i. N ão descobrimos nenhum termo para o R io — a área extensa de casas
outrora razoáveis que decaiu, existente em ruas oficiais e tendo oficialm ente
facilidades urbanas com o água, luz e esgotos.
? Para biografia sobre os vários países, ver Mangin (1967, p. 90, nota 2;
e T um er (1966e) Além disso, para a Colômbia, ver R euchel-D olm atoff
92 A S o c i o l o g i a d o B r a s il U r b a n o

A Experiência Urbana dos Moradores das Áreas Invadidas

Voltamo-nos, em primeiro lugar, à concepção de “ urbano**


na discussão. Um compoagnte do fepômenQ _urbano, que pode ser
designado “ o^etEos urbano” foi tratado em detalhe por Harris
(1956) e A. Leeds (1957; Capítulos 6 e 7 ) para cidades de 1.500
e 3,500 habitantes, respectivamente, no interior do Brasil. Ambos
os autores estão rigorosamente de acordo quanto à ideologia essen­
cial e fortemente urbana mesmo das pequenas cidades no Brasil,
especialmente se elas são centros administrativos. Ambos os auto­
res baseiam seus argumentos em noçoes geralmente aceitas acerca
do fenômeno urbano sustentadas por autoridades como Mumford,
jWirth e outros. A. Leeds, além disso, argumenta ques. mesmo os
'latifúndios tão comuns tanto no Brasil como no Peru são urbano^
na sua organização e orientação, ou seja, sistemas essencialmente
Jndustriais orientados para os mercados, atividades e interesses da
ciçlade.
Um segundo componente é a inter-relação complexa, locali­
zada, de grande número de especializações técnicas, sociais, admi­
nistrativas, poJíticas e de outros tipos, qualitativamente diferentes
(cf, Leeds 1965), Um terceiro _çomjipueote que queremos incluir
é o simples aparato físico da cidade: utilidades públicas, sistemas
de comunicação, transportes, amontoados de diferentes tipos de
c®nstrução, etc.
É com relação a características urbanas como essas que os
moradores das favelas e barriadas devem ser examinados se se pre­
tende uma avaliação válida da natureza de sua experiência social e
de seus valores. Antes que a questão da ruralidade de sua urba­
nidade possa ser discutida profundamente, é essencial ter disponí­
vel alguma sociologia mínima doJugar de-origem-dos moradores.
/Muitos surveys simplesmentç indagaram o nome do lugar__de ori-
jgem, que foi então arbitrariamente classificado como urbano ou
jrural segundo critérios mais ou menos pessoais do investigador —
sempre de um grande centro urbano e geralmente com pouca ou
nenhuma experiência do “ interior” , como se diz no Brasil, com.
menosprezo implícito, mesmo por parte de cientistas sociais. No
Brasil, indagar pelo nome do lugar de origem é totalmente inade-

(1953). Para o Brasil: Cate (1961, 1962, 1967), Estado de Minas Gerais
(3966), Goulart (1957), Magalhães (1939)., Medina (1964), Pendrell
(1967) e Silva (I9 6 0 ). Para El Salvador, existem materiais manuscritos
pelo Sr. Alistair W hite, da Cambridge University; para a Guatemala, R o ­
berts (1966, 1967); Para a Nicarágua, ver O. Toness (1967) e K. Toness.
O B rasil e o M ito da R uralidade U r b a n a 93

<quado porque, diferentemente dos Estados Unidos, o nome da sede


‘ administrativa municipal (que é juridicamente a cidade, sem levar
em conta o tamanho, fornecendo todos os organismos básicos de
governo e administração) e das seções rurais do município são
idênticos. Não se pode dizer, ji partir da resposta, sendo d&do ape­
nas o nome do lugar, qual é a experiência cio informante, que tipos
de contextos instfrucíõnais ele conheceu, ou a que tipos de valo­
res esteve exposto.
Üm segundo, problema foi lucidamente exposto por Browning
e seus associados (1967, também Browning e Feindt, 1967): os
fmigrantes que vêm para a cidade ainda bebês, ou mesmo crianças, r,
iforam, em estudos anteriores, tomados como nativos de seu lugar/-
jde “nascimento, mais do que de seu lugar de sociaíizaçãq. Esta úl*
tima, do ponto de vista de muitos cientistas sociais, é a informação^
mais significativa. Browning et al. (1 9 6 7 ) distinguiram desta for­
ma esses dados ém seus questionários em Monterey, México. Espe­
ramos poder fazer o mesmo, mas como os nossos dados de survey
ainda não estão calculados, impressões com relação às favelas do
Rio são, por ora, suficientes.
Logicamente, do ponto de vista de uma metrópole como o Rio,
sem considerar a migração de cidades para áreas rurais (insignifi­
cante no Brasil), a migração de retorno e migrações de metrópole
para metrópole ou intrametrópoles, sao_concebíveis J5 tipos de mi­
gração rumo à cidade« onde são possíveis os seguintes pontos de par­
tida ou de chegada: o interior rural ( R ) , o povoado ( P ) , a cidade
pequena (C P ), a cidade ( C ) , a metrópole (M ). Somopte as migra-
ções R — M permitem 8 combinações, se todas, algumas, ou nenhu­
ma parada intermediária é calculada. P— M permite 4 combinações.
Se, seguindo as características do “ urbano” dadas acima, ou a defi­
nição jurídica brasileira, define-se a cidade como o nível mínimo ur­
bano, entao, das 15 combinações possíveis, apenas 3 (R — P — M;
R — M ; P — M ) não têm qualquer cidade pequena ou cidade como
degraus intermediários.
De fato, todos os 15 tipos, e, somados a esses, os tipos de migra­
ção inter e intrametropolitanas, mais as combinações das ulíimas
com as 15 acima, são encontrados como modelos de migração dos
moradores tanto das favelas como das barriadas. Àssim^nio__é s^r-
prendente que os migrantes verdadeiramente rurais nas favelas _do
Rio sejam poucos. O que é_surpreendente_é_o__seu número mm to
apequeno* Nosso palpite é de <jue eles constituem não_ mais do que
5 % da população das favelas.
Mas estes números não dizem tudo porque ainda não dão qual­
quer indicação da sociologia dos locais de_ origem. Assim, pode-se
94 A S o c io l o g ia d o B r a sil U r b a n o

perguntar a um homem; “ De onde você é ?” Resposta: “ De Santo


Antônio de Pádua.” P : “ Mas, da própria cidade?” R: “ Não, da
roça.” P: “ Mas você estava trabalhando na enxada?” R: “ Estava.,v
P: “ 0 que você plantava?” R : “ Plantava, arroz, milho, feijão, café,i
tinha ovos e fazia farinha de mandioca.” P : “ Vocês comiam tudo?”
■R:“ Bem, não, nós vendíamos na cidade.” P: “ Quantas vezes vocês
iam lá ?” R: “ Toda semana. Vivemos na cidade por um tempo an­
tes de ir morar na roça” , ou outra R : “ Levávamos a coisas para lá
todo tempo. Eu também sei cortar cabelo, então eu tinha uma bar­
bearia no limite da cidade — ganhamos fregueses que iam e vi*
nham para a cidade.”
Conversas como essa são típicas. O informante trabalhava
( numa fazenda, vendia no mercado, tinha familiaridade com'as tran­
sações comerciais, com a ambiência e com as instituições üríjanaS
— polícia, burocratas, autorizações, comércio, troca, fluxcTdè^fráftH
go e transporte. Ele não veio despreparado e ignorante gara a vida!
|da_ cidade. "
Mas mesmo essas conversas são, de certo modo, espúrias. Im­
plicitamente, elas assumem a persistência e relativa imutabilidade
dos chamados valores rurais. Na literatura, esta suposição permeia
o tratamento nao apenas dos migrantes rurais para a cidade,, mas de
praticamente todos os problemas relativos ao campo. Os observa­
dores oitadinos parecem todos convencidos da “ idiotia da vida ru­
ral” . Uma expressão mais sofisticada e generalizada da mesma no­
ção é que os_ aspectos ideológicos mudam mais devagar ou “ estão
atrasados” com relação à mudança no comportamento tecnológico
ou social.
Entrevistas com as poucas pessoas que identificamos como
tendo vindo especificamente de áreas de povoados rurais do Brasil
e de Portugal contradizem diretamente tais suposições mais fre­
qüentemente do que as confirmam. Em alguns casos, a pessoa em
questão parece ter-se adaptado muito rapidamente à ambiência
urbana e da favela, e ter-se agarrado violentamente ao que ela ofe­
recia. Assim, por exemplo, o presidente “ rural” de uma associação
de favela, que tivera treinamento em eletricidade, encanamento e
outras habilidades de construção, deu certa vez um inteligente des­
falque num escritório e investiu em terras no Estado do Rio, onde
os valores das terras estão subindo rapidamente.
Somos levados a suspeitar que os chamados “ valores rurais”
incluem muitos valores e savoirs-faires, tais como a “ esperteza cam­
ponesa” (c f. Biersted, 1967, p. 8 9), que são altamente adaptativos
em cenários urbanos, especialmente quando lidando com cidadãos
urbanos que nao são familiares a estes valores ou modo “ campo­
O B r a sil e o M ito da R uralidade U rban a 95

nês” de fazer as coisas. Mesmo o chamado modo paternalista jde


rélaç^o, tido como característico do rurícola brasileiro, pode^ser
usado de formas altamente adaptativas para a contra-exploração do
sistema na área urbana — aproveitando-se de um patrão, de uma
instituição de Serviço Social, de um órgão de bem-estar social, de
uma Igreja ou grupo de mulheres, de um Corpo da Paz, de uma
USAID, de antropólogos americanos, etc.
Alternativamente, parece evidente que os novos imigrantes
para a cidade mudam algumas coisas muito rapidamente, de fato,
e embora não o mais profundo cerne cie seus valores, as tarefas, os
padrões, os interesses, os_ objetivos, os prazeres, especialmente dos
homens,_ transformam-se rapidamente em urbanos. Quase que sem
exceção, se se pergunta a eles se qiierem voltar a seu lugar de ori­
gem, a resposta é nao. Ás razoes dadas variam do vago “ lá é bom,
mas aqui é melhor” a respostas bem específicas acerca de condições
mais desejáveis de frabalho, vida e coisas a ver e fazer na cidade
(ver adiante). Apenas algumas das mulheres, mais intimamente
ligadas ao lar, lutando na labuta diária, e sem as compensçÕes das
brilhantes luzes ou de reboliço da cidade, falam às vezes de querer
voltar ao lugar tranqüilo e familiar de onde vieratD.

0 l\aseido na Cidade

Assim acontece ocm as ruralidades; voltemo-nos para o extre­


mo oposto: os residentes em favelas ou barriadas que nasceram na
cidade. No Rio, estes constituem elevada percentagem da popula­
ção da favela. A fonte não citada de Pearse para 1948 ( L958) dá
2 0% da população-amostra como nascidos no Rio. Ele observa, to­
davia, que o Esqueleto, a favela em questão, era recente, ao passo
que favelas mais antigas tinham em média 38% de cariocas, Não
sabemos certamente, quantos vieram para o Esqueleto como crian­
ça,« e foram desta forma socializados no Rio, seu “ lugar de sociali­
zação” , a segunda categoria de Browning e Feindt (1 9 6 7 ). Deve-se
lembrar que os informantes eram adultos. Se fosse feito um cálculo
por cabeça das pessoas nascidas no Rio, a percentagem provavel­
mente seria maior, porque muitas das crianças seriam cariocas. O
trabalho Estudos Cariocas (Estado da Guanabara., 1965, Vol. 5 ) 10
permite o cálculo das seguintes percentagens:

Os dados para esta tabela foram calculados a partir dos dados forne­
cidos nos Estudos Cariocas (Estado da Guanabara, 1965) N .Q 5, sobre
•"População por Naturalidade e Grupos de Idade” nas tabelas para a p o­
pulação da favela e para o Estado da Guanabara com o um todo. N ão
há paginação.
96 A S o c i o l o g i a d o B e a s il U r b a n o

Idade Percentagem nascida na Guanabara


Favela .. Não-Favela
todas 51,4 59,1
0-19 81,4 84,5
20-49 23,8 45,6
mais de 50 14,3 31,7

Esses números referem-se, evidentemente, a pessoas nascidas,


não aculturadas, no Rio de Janeiro. É marcante que as diferenças
percentuais entre favela e não-favela entre os jovens da cidade se­
jam negligenciáveis. O grupo 20-49, que contém grande número
das pessoas da amostra de Pearse, é ainda apenas 23,8% carioca,
comparado com os 20% de Pearse. A categoria 0-19 anos encobre
49?3% e 40% respectivamente do total da população da favela e
não-favela, fato que se reflete nas percentagens entre 50 e 60, para
pessoas tanto da favela como não, nascidas na Guanabara.
Numa favela mais antiga que estudamos no verão de 1967,
Tuiuti, conversando apenas com adultos, talvez 40% ou maiá fos­
sem cariocas, ou seja, uma percentagem mais elevada do que a
média das favelas em geral. Um bom número destes, talvez 5 a
1 0 % da população total, era da segunda ou terceira geração nascida
jna própria favela, situação que não encontra correspondente nas
barriadas de Lima, que em sua maioria surgiram a partir da II
Guerra Mundial. Todos os restantes 40% haviam migrado para a
ia vela vindos de várias partes da cidade > no que eles ou sua cidade
encontram um paralelo em Lima. Lá tamhém, muitos dos migran­
tes de outras partes da cidade haviam nascido na cidade (entrevis­
tas com moradores da barriada Letícia, Wpl 1967, cf. Mangin,
1967a).
Esse fato é da maior importância porque, primeiro, estes são
urbanitas cuja entrada para as áreas invadidas é um ajustamento
ã vida num cenário urbano e é distintivamente uma escolha urba­
na. Em geral, isso indica, mais uma vez, que a favela ou a barria­
da é um fenômeno de áreas estritamente urbanas, e não rurais,
onde, de qualquer modo, não se encontram paralelos (cf. Mangin
1967b, p. 80).
Em segundo lugar este fato exige que as pressões que empurram
as pessoas para fora das partes da cidade autorizadas em direção às
áreas de moradia não autorizadas sejam estudadas de modo a com­
preender corretamente o desenvolvimento da favela (Modesto,
1966).
Em terceiro lugar, isso significa que há um núcleo perma­
nente de urbanitas nativos, de há muito moradores das favelas*
O B rasil e o M ito da R uralidade U rban a 97

em torno dos quais migrantes posteriores se agregam. Os dadoj


sugerem que muitos daqueles que migram de áreas autorizadas
para favelas ou barriadas são os mais empreendedores, mais consci­
entes dos fatos econômicos, sociaisf políticos e administrativos e
das políticas urbanas (cf. Turner, 1966b); alguns daqueles que
migram e fazem para preservar ou melhorar sua situação econômi­
ca e pocial sob as dificuldades reinantes na economia e no sistema
social brasileiro.
Na maioria das entrevistas de nosso surt?ey de_ 1967. e em
todas aquelas realizadas em fevemro e no verão de_ 1968, obtive-
mos os locais de origem dos moradores. Já havíamos observado que
i considerável percentagem de adultosnascera na própria Tuiuti, ao(
' passo que outra percentagem considerável nascera na cidadc do Rio,[
\fora das favelas, tendo se mudado para elas. Falamos com pessoas
que haviam vindo dc^capitais de estados, São Paulo (muito pou­
cos), Vitória, Salvador, Recife, João Pessoa e Fortaleza, bem como
das grandes cidades suburbanas independentes do Estado d o R io de
Janeiro, imediatamente contíguas a e, de fato, sociologicamente
parte da cidade do Rio de Janeiro, embora administrativamente
fora do Estado da Guanabara. Estes centros suburbanos sao. Duque
de Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti e, do outro lado da
baía, Niterói, capital do Estado do Rio, e São Gonçalo (ver Qua-
dro I, anexo). Além disso, uma percentagem muito grande vinha
de municípios dos Estados d o . Rio de Janeiro, Minas Gerais e_Es-
pírito Santo. Uma percentagem aparentemente .menor vinha_de_ci­
dades pequenas e povoados no interior dos municípios e, como assi­
nalamos acima, uma percentagem muito pequena vinha diretamen­
te,de áeras plenamente rurais (ver Peattie, p. 13).
Com relação a estas observações, deveria ser assinalado que to­
das essas cidades, cidades pequenas e povoadas estao elas mesmas,
crescendo, às vezes, muito rapidamente (ver Quadro I ) e se tornan­
do mensuravelmente mais urbanas, a julgar pelos indicadores de ur­
banismo listados anteriormente. Em outras palavras, migrantes de
todos os lugares, exceto dos povoados e áreas rurais mais estagna­
das, experimentaram continuamente o processo de urbanização an­
tes que tivessem deixado seu lugares de origem.
Com_ relação essência urbana dos moradores da favela, três
outros pontos relacionados ao problema do lugar de origem e lugar
de aculturação devem ser considerados (a ) as variedades de entrada
para e estabelecimento na cidade, e a questão dos centros recepto^
res; (fe) a história ocupacional do morador da favela anterior a sua
moradia na favela; ( c ) os fatores que operam para selecionar pes­
98 A S o c io l o g ia d o B r asil U r b a n o

soas. para entrar nas favelas, estando já dentro da cidade. Voltar


nos-emos primeiramente para os caminhos de entrada na cidade.

Caminhos de Entrada na Cidade


A questão da entrada na cidade, pelo que sabemos, nao tem sido
estudada no que diz respeito ao Rio. Nossos comentários, conse­
qüentemente, baseiam-se principalmente em impressões captadas
em milhares de conversas com centenas de pessoas em muitas fave­
las. Para Lima, a questão dos centros recepetores foi discutida com
alguma profundidade (Mangin, 1967a, b, c; Turner, 1963). Os
dados para ambas as cidades estão de acordo mas a forma de en­
trada no Rio é muito menos nitidamente definido do que em Lima.
Em ambas as ridades, tim dos principais caminhos de entrada
do migranle pobre^ é através das_áreas de casas velhas, decaden­
tes ou habitações aparentemente construídas para residência pro­
letária, ou seja (vér fig 8 ), os cortiços, cabeças de porco. as aveni­
das construídas em lotes proletários e residências decadentes no
Rio, e os callejones, os çorralones e as vivendasjzontinuas. e as^ de­
cadentes mansões de Lima. No Rio, parece haver considerável mo­
vimentação de um para outro desses tipos de residência por parte
dé”grãnde proporção dos migrantes, até qúe eles se estabeleçam, as­
cendam ou se mudem para_ as favelas, porquê- muito poucos pare­
cem voltar, ou ao menos voltar definitivamente, para a área “ ru­
ral” ou mesmo para seu ponto de origem não rural fora da metro-

No Rio, conhecemos muitas dessas pessoas. Miguel Gênio, por


exemplo, veio do Rio Grande do Norte, jovem, filho de um advo­
gado de uma cidade do interior. Ele aprendeu o ofício de relo­
joeiro enquanto ainda vivia, primeiro, numa parte mais decadente
de Copacabana, o playground da elite; depois, num outro bairro
da cidade. Finalmente mudou-se para a favela do Jacarezinho.
Ele nao gostava de Copacabana ou da Tijuca (em grande parte áreas
residenciais da classe média alta), mas disse: “ Eu adoro o Jacare­
zinho.” E gosta mesmo! Ele mora lá ganhando sua vida como re-

31 H á também, evidentemente, uma m igração considerável para a cida­


de com o um todo de pessoas de nível de renda m édio ou m esm o ricas,
bem com o de estrangeiros de vários níveis econôm icos. A maioria dele»
não vai para a favela, exceto alguns estrangeiros pobres, na maior parte
portugueses. O restante nunca está presente na discussão da m igração
rum o à cidade porque, por suposição, sendo ricos, não podem ser rurais,
e em função do artifício de se separar as favelas do resto da cidade.
P ou co sabemos desses migrantes, exceto, talvez, dos estrangeiros. A per­
centagem para as favelas do R io é de cerca de 0 ,9 % e, para o R io com o
um todo, de 6 % , surpreendentemente baixa.
O B rasil e o M ito da R uralidade U rban a 99

lojoeiro, freqüenta uma escola noturna para estudar Direito, envol­


veu-se na principal corrente da política da favela, é proprietário
de sua casa. Outros que conhecemos entraram na cidade através de
áreas mais proletárias como Olaria e Ramos, mas posteriormente
mudaram-se para a favela.
Todavia, nas favelas do Rio, também encontramos um bom
número de pessoas c[ue vieram diretamente de algum ponto de ori­
gem fora da cidade. Isso é particularmente verdadeiro para os nor­
destinos do Estado da Paraíba,12 cujos últimos migrantes geralmen­
te parecem ser segmentos de família ou amigos de grupos de mi­
grantes anteriores e que se teriam mudado para a mesma casa
ou habitação destes últimos. Assim, há uma enorme quantidade de
paraibanos ( “ cabeças chatas” ) em várias favelas, como por exem­
plo em uma das subdivisões de Tuiuti chamada, de modo muito
interessante, “ Mineiro” , por causa do grande número de pessoas
nascidas em Minas Gerais, vivendo em uma outra parte desta mes­
ma subdivisão.
Todavia, devia ser observado que parece não haver centros
receptores altamente focais e persistentes como foi relatado para
imigrantes tribais em cidades africanas (c f. Epstein, 1967, p. 280).
O padrao do Rio, e aparentemente o de Lima, éj3 de dispersão das
pessoas nos çentros que, através do tempo, variam em núpiero e
localização na cidade, dependendo de migrantes anteriores, fontes
de migragoes atuais, habitação e outras condições nas áreas recep­
toras, condições do mercado de trabalho local, políticas administra­
tivas relativas à habitação, trabalho ou transporte.
Nada conhecemos, praticamente, acerca das paradas migrató-
ris de uma categoria especial, os habitantes estrangeiros da favela,
nascidos quase que exclusivamente em Portugal, porque não con­
seguimos, em geral, informação suficiente sobre seus locais de ori­
gem. Muitos dos portugueses de Tuiuti haviam crescido no Rio, ou
haviam vivido no Rio desde a chegada ao Brasil. Muitos eram ati­

12 N ão encontramos ninguém das seguintes áreas do Brasil; Pará, Piauí,


Alagoas, Sergipe, n o Nordeste; M ato Grosso, Goiás, n o Oeste; Santa
Catarina, n o Sul; nem dos territórios nacionais do A cre e R io Branco.
Um ou dois são dos seguintes estados: Am azonas n o N orte; R io Grande
do N ortr, n o Nordeste; São Paulo, Paraná e R io Grande d o Sul, no
Sul. N úm ero considerável (mas uma pequena percentagem) é da Bahia e
Ceará; núm ero muito maior da Paraíba e de Pernambuco. A grande
maioria é do Espírito Santo, Minas Gerais, Estado d o R io de Janeiro e
Guanabara, da R egião Centro-Sul. Um grupo pequeno, mas altamente
significativo, é estrangeira, especialmente portugueses. Praticamente, os
únicos camponeses genuínos que encontramos nas favelas eram portu­
gueses.
100 A S o c i o l o g i a d o B r a s il U r b a n o

vos no comércio nas favelas, alguns tendo constituído recentemen­


te um bom negócio. Alguns (sobretudo homens) são artesãos.
Aqueles que têm plantações no topo da favela Salgueiro eram cam­
poneses antes de vir para o Rio meio século atrás. Outros sonham
vagamente com a volta, inas seu realismo lhes diz que não há muito
para o que voltar; é melhor no Brasil, embora, alguns dirão, “ nSc
esperássemos isto” , ou seja, viver nas favelas.
Breve jnenção deveria ser feita a alguns interessantes casos de
migração. Um é o caso do proprietário 3e uma loja e oito aparta­
mentos na favela Tuiuti, Por volta de 1946, seu avô comprou e
registrou a terra na qual se erguem as construções. Ele tinha difi­
culdades financeiras, e então decidiu experimentar sua sorte no
cultivo. Assim, comprou uma plantação no Estado do Rio, para
onde se mudou, Apesar de nascido na cidade, de pais urbanos, o
atual proprietário da propriedade na favela foi criado na fazenda
desde um ano de idade, só voltando para a cidade como um jovem,
depois da morte de seu avô. Tomou, então, conta da propriedade e a
desenvolveu. Este é jjm caso extremo de migração de ida e volta, que
seria provavelmente classificado como migrante rural na simples
enumeração estatística. Temos alguns casos de pessoas nascidas,
digamos, em Cabo Frio, que passaram sua infância no Rio ou foram
para lá como jovens por alguns anos, voltando entao a Cabo Frio
por um período, quer para uma visita prolongada, quer para buscar
uma possível alternativa à vida no Rio. Eventualmente voltavam
para o Rio, achando a vida em Cabo Frio muito confinada, econo­
micamente pobre ou insatisfatória. Alguns destes, também, embo­
ra amplamente aculturados como moradores de grandes cidades,
podem ser classificados pelos cálculos simplistas dos censos como
migrantes rurais. Finalmente, descobrimos uma senhora nascida
em Tuiuti que com dois anos de idade se mudara para a Espanha
com seus pais espanhóis e morara lá até 17 anos. Voltou, então,
para o Rio, morou fora da favela por alguns anos, retomando fi­
nalmente a Tuiuti para o lote que os pais tinham comprado e regis­
trado mais de meio século antes (por volta de 1912), do qual ela
é hoje proprietária. Todos esses casos ilustram simplesmente o
fato de que a gama de experiência dos moradores de favelas é bas-
tânte..mápl^ (ver menção de Peattie aos chineses, libaneses, e ára-
~Ms mòfalííio no seu bairro, pp. 12,13), por vezes incluindo muitos
tijjos de moradia, de povoados e metrópoles, muitos tipos de habita­
ção e~unidades residenciais, todos os tipos de papéis legais13 e mes­
mo considerável experiência internacional.

13 Depois de algum tempo de trabalho de cam po com moradores de fa<


velas, com eça-se a compreender quantos papéis oficiais eles têm: recibo
O B rasil e o M it o da R uralidade U r ban a 101

Nesta última conexão, deve ser observado que a área que com­
preende os Estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande
do Sul e Guanabara área que supre mais de 8,5% dos moradores
das favelas do Rio,14 é amplamente coextensiva à área do Primeiro
Exército brasileiro, cujo centro para treinamento militar é o Rio
de Janeiro. Todos os homens de 18 anos de idade estão sujeitos a
um ano de serviço militar, que, sendo no Rio, significa muitas coi­
sas. Contribui para a migração para a metrópole; acultura numa
estrutura institucional maior cujo loeus central é não apenas a ci­
dade, mas neste caso o cosmopolita e urbano Rio de Janeiro; des-
trdi o localismo e o regionalismo; geralmente ajuda a dar treina­
mento especial para pessoas que depois voltam à vida civil e se tor­
nam especialistas; e, ocasionalmente, dá a alguns, experiência in­
ternacional.
Assim, nosso amigo Sócrates passara alguns meses em São Do­
mingos no contingente do Exército brasileiro e algumas semanas
com um grupo do Exército no Vietnã, examinando as possibilidades
de participação brasileira. Sócrates era de uma pequena cidade do
Ceará onde sua família possuía um rancho de gado e tinha um ne­
gócio (ilegal) de venda de água mineral. O próprio Sócrates havia
trabalhado no Jornal do Brasil como tipógrafo antes de voltar a ser
quitandeiro e vendedor de galinhas na favela porque podia ganhar
mais dinheiro com essa operação tanto lícita como ilícita ( ver Schultz,
1966).
Também encontramos pessoas que serviram na Marinha e na
Marinha Mercante. Alguns destes haviam visitado muitas partes
do mundo, e uma surpreendente proporção dos mais velhos estivera
na Itália com a Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mun-

de aluguel, recibos de água, recibos de luz, recibos de pagamento de


esgotos, carteiras de identidade, títulos de eleitor, certificado de reser­
vista, carteiras de posto de saúde, cartões de seguro social, cartões de
clubes, igrejas, etc., escritura de venda, notas de pagamento de casas, cer­
tidões de nascimento, certidões de casamento, testamentos, títuíos de terra
e outros papéis relativos à propriedade, Diários Oficiais dos quais cons­
tam anúncios oficiais impressos, e assim por diante, ad infinitum. Quase
todas as casas têm uma gaveta ou caixa onde essas gigantescas coleções
de papel são guardadas. Os moradores sentem-se completamente à von­
tade para puxá-los e mostrar a o pesquisador seu status legal acerca de não
importa que questões. Esta marcante preocupação com o jurídico, o
oficial, é nitidamente uma ênfase cultural geral no Brasil, o “ Estado Car-
torial” com o alguém o cham ou, ênfase intensificada na favela p or causa
d o status ilegal da favela com o tal. Presumivelmente, este é um esforço
dos moradores para se protegerem contra todas as forças que podem (e
o fazem ) usar qualquer minúcia ou irregularidade contra eles. Essa ênfase
"cartorial” é também claramente urbana.
14 Ver, anteriormente, nota 10.
102 A S o c io l o g ia d o B rasil U r b a n o

dial. Tais experiências são visivelmente lembradas (ver Guilher-


mo, Ms, Gap. 4 ). Outros viajaram para Nova York, Filadélfia, e
outros pontos americanos, onde aprenderam um. pouco de inglês
e às vezes muito sobre discriminação racial. Essas experiências tam­
bém são vividamente lembradas.
Em suma, muitos serviços militares e, no Brasil, paramilita-
res (como a Polícia e o Corpo de Bombeiros), contribuem para pa­
drões de migração, para a intensificação de experiências urbanas e
interculturais e para a aculturação de pessoas, algumas das quais
foram morar mais ou menos permanentemente nas favelas.

Experiência Ocupacional Anterior


Voltamo-nos agora para a questão da experiência ocupacional an­
terior à entrada na favela. Novamente, não existem dados sistemá­
ticos acerca disso para o Rio; por ora, podemos apenas contar nos­
sas impressões. Primeiro, deve ser assinalado que a gama de ocupa­
ções encontrada entre os moradores da favela como um todo abran­
ge toda a gama de níveis de status ou categorias de avaliação (tão
comumente chamadas “ classe” na literatura) traçadas por Hutchin-
son e seus colegas (1960, pp. 30ss) para o sistema de estratificação
ocupacional brasileiro. Todavia, a gama varia com o tamanho da
favela. Apenas em favelas grandes e complexas como o Jacarezi-
nho, com 70 a 80.000 pessoas, ou a Rocinha, com cerca de 30 a
40.000, encontram-se advogados, médicos, dentistas, padres, enge­
nheiros, funcionários públicos de responsabilidade, ou semelhantes,
que estão na categoria A e B de Hutchinson, no topo da escala.
Em Tuiuti, com talvez 7.000 pessoas, estes dois níveis do topo
— profissionais — estão ausentes, embora um contador (nível B )
more lá (ver abaixo). Escrivaos, secretários, hábeis costureiros, fun­
cionários de mais baixo nível, incluindo bombeiros, PMs, detetives,
policiais civis e afins são representantes dos níveis C e D, que não
estão nitidamente diferenciados nas favelas (ver variante do esque­
ma de Hutchinson, ibid, p. 7 7 ). Artesãos altamente qualificados
como ourives, funcionários públicos do nível mais baixo — incluin­
do alguns bombeiros, guardas civis e afins — e artífices como mar­
ceneiros e carpinteiros constituem o nível E (com alguma super­
posição com o D de Hutchinson). Aqui, também, há trabalhadores
qualificados — em fábricas têxteis, de fio de lã, corda, lata, livros
de bolso, rum, elevadores, reboco e corte de mármore na área indus­
trial circundante» Também, havia choferes, motoristas de táxi, ca­
minhão e ônibus, mecânicos, trabalhadores de construção qualifi­
cados, garçons, etc. No nível F, o mais baixo, estão trabalhadores
não qualificados e semiqualificados: estivadores, trabalhadores de
O B rasil e o M it o da R uralidade U r b a n a 103

estaleiros, porteiros, guardas-noturnos, lavadores de louça, empre­


gados domésticos e semelhantes. Na base da escala, mas não pro­
priamente numa categoria separada, estao os desempregados, os
marginais e irregularmente empregados e os elementos criminosos
(os criminosos mais refinados deveriam provavelmente ser locali­
zados em diferentes níveis avaliativos segundo suas habilidades, seu
Jtreinamento em atividades criminosas e,civis e seysjrínculos sociais;
infelizmente, as técnicas sociológicas-padrão não se prestam ao es-1
|tudo da estratificação neste segmento da sociedade, que é sua “ ima­
gem espelhada1’ ou “ inversa” , nem para relacionar seu sistema deJ
pstratificação àquele do segmento “ anverso” ).
! Em favelas pequenas como Xepa ou a Ruth Ferreira, a ten­
dência é a de se encontrar apenas representantes dos níveis F, na
base, e E. A Xepa tem mesmo poucos dos elementos superiores de
F, enquanto que a Ruth Ferreira tem muitos do nível E (ver Peat-
tie p. 12).
Pelo que sabemos até hoje, nao há clara correlação entre mi­
gração, duração de residência na favela e nível_alcançado na estrati­
ficação ocupaeional: isto é, tanto os imigrantes como as nativos pa­
recem ser mais ou menos igualmente^distribuídos na escala. Natu­
ralmente; àqueles nascidos na favela obtiveram suas ocupações, en­
quanto residentes na favela. Alguns ourives de Tuiuti, por exem­
plo, nasceram lá. Em outras palavras, a entrada nesse nível ocupa-
cional, num ofício urbano qualificado, não foi barrada pela moradia
lia favela. Ao mesmo tempo, alguns dos imigrantes também entra­
ram em ocupações desse tipo. O contador que mora em Tuiuti
chegou de uma pequena cidade do interior quando tinha 17 anos
e dominou suficientemente as instituições urbanas “ estranhas”
para manter dois empregos, tornar-se detetive em tempo parcial,
obtendo desta forma acesso a todos os jogos do Maracanã, resolver
problemas legais como a autorização de negócios para pessoas da
favela, e manter quatro lares, três dos quais com suas três mulhe­
res que coletivamente, por volta de 1967, o haviam abençoado com
11 crianças. Ele pode ser visto passeando com os filhos, de carro,
num domingo, no seu Mercedes-Benz verde-mar*
Ao mesmo tempo, alguns dos nascidos na cidade, na favela
ou em vários tipos de lugares fora do Rio ocupam os mais baixos
postos na escala de estratificação ocupaeional: trabalhadores nao-
qualificados, crimonosos não-qualifiçados, empregados domésticos e
os demais.
Com relação à localização no sistema de estratificação ocupacio-
nal urbano, parece que um determinante importante ê a experiên­
cia de trabalho anterior do indivíduo. Muitos informantes haviam
104 A S o c io l o g ia d o B r asil U r b a n o

tido uma variedade de experiências de trabalho e ocupacionais an­


tes de vir para a cidade, sem falar nas favelas. Pessoas de áreas
agrárias do campo tinham, mesmo quando trabalhavam anterior­
mente era fazendas, ocupações secundárias, como barbeiros, peque­
nos lojistas, e vendedores no mercado. Outros haviam trabalhado
tfnteriormente nas cidades, sem nenhuma experiência no trabalho
do campo, como escrivãos, pedreiros, eletricistas, motoristas de ca­
minhão, secretários ou empregados domésticos. Ambos os contex­
tos de trabalho envolvem experiência com dinheiro, taxas e impos­
tos, licença, pequena burocracia, papéis oficiais de todos os tipos,
comunicações, transporte, ferramentas mais ou menos sofisticadas,
e assim por diante.
Duas coisas devem ser ditas acerca de tais experiências de tra­
balhos anteriores. Primeiro, os contextos dessas experiências en­
volvem a exposição a toda xtma série de posições, instituições e com­
portamentos que são urbanos em conteúdo e ethos. Segundo, muitas
das ocupações e atividades encontradas em pequenas cidades e mes­
mo em algumas áreas “ rurais” são comuns ao mercado de trabalho
mais amplo das cidades dos chamados países subdesenvolvidos;
grande parte daquele mercado consiste de trabalho para o qual o
treinamento curricularizado (ver A. Leeds, 1964a, pp. 1345ss.) é
mínimo ou inexiste, mas especialidades para as quais a experiên­
cia é relevante numa situação de mercado competitiva. A articula­
ção do mercado de trabalho com a força de trabalho é em si mesma
não curricularizada e constante,15 embora altamente institucionali­

15 Observe-se, por favor, que não consideramos isso desejável. É com um »


entre os chamados economistas e sociólogos do desenvolvimento, pensar
que este tipo de articulação d o M ercado de Trabalho é uma coisa má,
um verdadeiro sinal de subdesenvolvimento e ineficiência (por sua vez um
verdadeiro sinal de subdesenvolvim ento), e indesejável porque é impro­
dutivo (com parado com a condição ideal caracterizada pelos Estados
Unidos ou pela teoria de m ercado). N a verdade» tal articulação — no­
te-se bem, uma forma altamente característica de integração (ver intro­
dução ao trabalho) específica de toda uma classe de sociedades — é al­
tamente adaptativa de várias maneiras. É provável que m uito mais pessoas
sejam “ mantidas empregadas” por m eio de biscates, auto-emprego, tra­
balho com o vendedores de carrocinhas de hortaliças, mascate, etc. na
cidade, do que num m ercado de trabalho mais severamente curriculari­
zado e canalizado. Em segundo lugar, isso provavelmente significa maior
aplicação dos benefícios de previdência social, por mais exíguos que estes
sejam. Em terceiro lugar onde a direção, sistemas de crédito, sistemas
de transferência monetária, procedimentos de contabilidade e o próprio
m ercado de consum o estão todos em constante fluxo, em altos e baixos,
e caracteristicamente n ão canalizados e não curricularizados, é óbvio que
a situação do em prego está em flu xo constante (em última análise, em
resposta às condições e políticas econôm icas nacionais, e em parte às
O B ra sil e o M ito da R uralidade U r b a n a 105

zada. Em suma, para praticamente todos os que migram para a


cidade e que terminam nas favelas, a experiência de trabalho ante­
rior lhes dá experiência das formas i»rbanas e os pré-adapta à ex­
pressão intensificada dessas formas na metrópole.

Fatores Que Operam na Seleção para a Vida na Favela

Finalmente consideramos os fatores que operam para selecio­


nar pessoas da população urbana para a vida nas favelas. As razões
podem ser conceitualmente examinadas em termos de uma espécie
de continuum.
verdadeira marginalidade pressão fazer econom ia vontade

Por “ verdadeira marginalidade” referimo-nos a situações em


que as pessoas não operam efetivamente nem na economia legal
nem na extralegal (criminosa) da cidade, mas são empurradas para
fora de todas elas. Por exemplo, durante a severa depressão do mer­
cado de trabalho que ocorreu no Brasil a partir de 1964, as formas
mais esporádicas e não curricularizadas de trabalho foram as mais
duramente atingidas; ou seja, a reserva de trabalho mais marginal,
que em tempos razoáveis passa de raspão pela marginalidade foi jo­
gada a contragosto na verdadeira marginalidade. Houve aumento
das taxas de crime por todo o Rio para todos os tipos de crime, es­
pecialmente aqueles que são caracteristicamente cometidos por
indivíduos agindo sozinhos e sob pressão: roubos, assaltos, espan­
camentos, roubos com assassinato. Outros mendigam, vivem de ca­
ridade, vegetam de algum modo.
“ Pressão” refere-se, por um lado, a situações que podem asse­
melhar-se àquelas_q ue_ produzem_a uver^dadeira^jmàjrginãl idade ” ,

condições econôm icas internacionais com o as flutuações dos preços de


im portação e exportações nos m ercados mundiais, dos quais o Brasil, o
Peru e países semelhantes são entidades dependentes e com pouco co n ­
trole). U m pequeno exem plo será suficiente: o cheque. Apenas nos últi­
m os três ou quatro anos é que a Lei do Cheque foi criada. Isto fez avan­
çar enormemente o uso de cheques, de m odo que se pode ter cheques em
seu próprio banco e dá-los a outros em pagamento. Estes devem, todavia,
ir para o meu banco, geralmente mesmo a agência específica com que
negocio (o serviço telefônico no R io é tão ruim que é difícil conferir
de agência para agência), pava que o cheque seja descontado. N em o«
banco deles, nem qualquer outro descontará meu cheque. N ão há serviço
de com pensação de cheques. Novamente para descontar um cheque de
viagem num banco no Brasil, mesmo em uma filial de banco americano
que o emitiu, por exemplo, o National City Bank n o R io, deve ser pre­
enchido um form ulário com 10 cópias. Os sistemas de pagamentos, então,,
devem também estar em fluxo e ser adaptáveis a qualquer tem po, pa a
contornar uma rigidez deste tipo.
tos Ä S o c io lo g ia d o B r a s il U rb a n o

mas nas guais—as pessoas ^envolvidas estão em melhores condigões


paraíidax com elas ou, por outro lado, a situações e acontecimentos
que são repentinos e imprevisíveis — por exemplo, a morte, a per­
da do emprego, doença, acidente e assim por diante — ou que, em­
bora previsíveis, eiivolvem uma mudança importante das circuns^
tâncias de vida, como, por exemplo, o casamento, ou nascimento de
um bebê. •
Por “ £azer economia” referimo-nos a situações em que as pes­
soas têm recursos mais ou menos estáyeis., mas ilimitados, que devem
ser distribuídos^entre vários fins, conforme as escolhas baseadas na
hierarquia de valores (ver último capítulo). Obviamente, qual­
quer pressão produzirá uma aguda necessidade de economizar no
sentido aqui definido, mas preferimos tratar tais situações como
“ pressão” .
Por "vontade” referimo-nos a casos como o do relojoeiro men­
cionado acima que vivia na favela porque gostava, e não por qual­
quer necessidade.
É esclarecedor observar habitantes de áreas pobres, moradores
das áreas habitacionais da “ baixa classe média” e moradores das fa­
velas mudarem de posição ao longo desta escala sob condições varia­
das. Em tais mudanças, as favelas têm um papel muito importante.
Para muitos, _as_ favelas podem representar uma área de refúgio em
dõís sentidos: por serem lugares oiide se pode_ escapar de, aliviar ou
minimizar a pressão — desta forma, o padrão de vida volta ao esta­
do de “ fazer economia” normal — e por ser um lugar onde se
gode sobreviver através de vários procedimentos marginais, inclu­
sive, jyãr^alguns casos, viver da terra, executar crimes menores
ser sustentado e outras formas de prostituição ou semiprosti-
tuição e, em geral, minimizando a pressão e ameaça externa,
P^ra_outros, a.favela pode ser parte da poupança da pessoa ou da
família, entre inúmeros valores, especialmente onde os objetivos a
longo prazo são perseguidos, enquanto se mantém o sistema domés­
tico numa condição tão estável quanto possível, ou mesmo se a me-*
lhora. Estes comentários aplicam-se também às barriadas de Lima
(c f. Mangin, 1967b). Finalmente, como foi dito, algumas pessoas
gostam de viver nas favelas. O movimento pode ser em ambos os
sentidos da escala: o movimento para as favelas não é idêntico ao
jnovimento para baixo na escala. Muitos casos provam o contrário.

A. Vontade

Vejamos alguns casos típicos. Aqueles do relojoeiro e do con-


tí.dnr já foram citados. Ambos preferem viver nas favelas. Eles
gostam de lá. Há_uma_atmosfera de liberdade (ver último capítulo)
O B r á sil é o M ito da R uralidade U r b a n a 107

dos estorvos do mundo de negócios da “ classe média” ., e da^elite


que existe lã embaixo, ou lá fora, atmosfera da qual essas, pessoas
gostam. Elas acham que podem ter as boas coisas, que a cidade tem
para oferecer, e ainda liberdade e conforto também, Eles podem
igualmente ter muita influência entre seus co-moradores, partici­
par do crescimento político da favela, ter um grau de reconheci­
mento e prestígio social, Podem participar de todos os tipos de
atividades fora da favela como nos negócios, política, religião, esco­
la, recreação e futebol.
O velho Orlando Ferreira também mora na favela por prefe­
rência. Tem um diploma em desenho arquitetônico e dá aula numa
escola. Em sua maturidade interessou-se pela quimbanda (uma das
formas dos cultos afro-brasileiros) e, assim, morar na favela lhe deu
mais liberdade e uma atmosfera mais favorável para tal. Ele pode
também desfrutar do seu casamento consuetudinário com sua se­
gunda mulher em paz e sem censura social.
Casos como esses podem ser multiplicados. Eles envolvem pes­
soas com percepção das condições e qualidades da vida urbana e de
süãs possibilidades que podem, em alguma medida, ser ajustadas
a seus desejos. Sao pessoas que têm um certo controle tanto sobre
suas próprias vidas como sobre o que existe à sua volta, exercitam
escolhas, são explícitas em sua apreciação de um certo grau de li­
berdade, e ainda estão lidando plenamente com instituições urbanas
que não lhes são estranhas.
O gosto pela vida na favela nao restringe aos mais sucedidos,
mas é mais claramente percebido entre eles porque eles não são
obrigados a viver lá. Outros também gostam de viver lá e parecem
amplamente fazê-lo por escolha, embora o fato de não viver na fa­
vela pudesse, em alguns casos, lhes ser fonte de pressão. Eles tam­
bém gostam da favela, ainda que possam queixar-se da péssima
habitação, do preço da comida e assim por diante. Geralmente, a
vida da favela faz com que vivam próximos a enclaves ou extensas
redes da família, a pessoas da cidade natal, ou pelo menos, dõ seu
estado natal (um comportamento não necessariamente rural, como
taptos autores parecem crer, mas muito característico, por exemplo,
dos rústicos bostonianos e novaiorquinos — os nordestinos na me­
tropolitana Austin, no Texas).
n Também marcante entre muitas das pessoas é uma forte 4 pre^_
(nação, estética da. paisagem como em Tuiuti, que tem algumas ^das.
[vistas mais belas de todo q Rio. Os moradores falam dos aspectos
naturais e feitos pelo homem, da paisagem, com uma certa admira-
çao, A lavadeira D, Iaiá era um desses casos. Ela já era da segun­
da geração no morro do Tuiuti; seu marido tinha sido um trabalha-
108 A S o c io lo g ia d o B r a s il U rb a n o

3 or semiqualificado numa fábrica de móveis antes que ela fosse à


falência alguns anos antes. Ele ainda estava tentando ser indeni­
zado por sua demissão e, enquanto isso, ganhava menos que o salá­
rio mínimo num emprego, enquanto ela ganhava dinheiro extra em
trabalho de meio expediente como doméstica e “ lavando para fora” ,
Eles são vizinhos da mãe de D. Iaiá numa pequena vizinhança
onde ocorre uma considerável quantidade de atividades.10 Iaiá c
seu marido passam muito tempo contemplando a paisagem, quando
não estao ocupados com outras coisas, e Iaiá falava de sua beleza, e
de como a usufruía, o que era possível graças à sua vida na encos­
ta de Tuiuti.

B. Fazer Economia

A utilização da favela como um lugar para morar de modo a


economizar é exemplificada em inúmeros casos. Em geral, os mo­
radores das favelas, por serem posseiros, são “ proprietários” que
construíram suas próprias casas — sejam elas barracos, chalés ou
palacetes — ou locadores que pagam aluguéis relativamente bai­
xos (embora este padrao tenha começado a se alterar com a cres-

16 O M ito da Ruralidade levou os observadores à n ã o-p ercep çã o. seleti­


va. A vizihKança de D. Iaiá fornece um exem plo típico. É verdade que
se* vê um grupo de mulheres batendo papo, em geral lavando roupa
“ juntas” , ajudando-se nisto ou naquilo, e se descobre qüe alguma delas
são parentes e algumas da mesma região (neste caso, muitas eram na­
turais daqui). Tende-se a dizer “ A h ! eis aí a_ vizinhança rtira) na cidade!
U m a sobrevivência^dã^Turálidadeí” ” - - ' a suposição que se auto-evidencia.
D e fatÕ7 com o se descobre, essas famílias na vizinhança de D. Iaiá pagam
aluguel à tia e à mãe de D . Iaiá, tendo a primeira controle sobre a terra
e casas, enquanto que a última depende dela. A tia mora fora da favela
numa pequena casa de “ classe média” que ela mesma com prou com os
aluguéis dos barracos da favela. O “ lavar as_ roupas” na verdade n ão se
dá “ junto” ,.,mas_em paralelo; não é^um a.tarefa cooperativa, mas eminen-
tenfíêrite individual. Alguns usuários da bica da mãe de D , Iáiá pagam
pela água, e assim por diante* Em outras palavras, a vizinhança ocorre
em certos contextos apenas, ao passo que comportamentos bastante urba­
nos com relação a aluguéis, taxas, extorsões e coisas semelhantes devem
ser encontrados em outros contextos. Os brasileiros são m uito mais ca­
pazes de misturar a vizinhança amigável com a extorsão “ razoável” , es­
pecialmente em situações de coerção, do que os americanos, de m odo
qüè7 geralmente, os americanos não conseguem ver ambas nas mesmas
pessoas. Na Am érica, o proprietário e o locador m uito raramente são
íntimos) Tam bém os americanos, inclusive os cientistas sociais, tendem
a ver o mundo em dicotom ia branco e preto, de m odo que é difícil para
eles ver múltiplas relações concorrentes ou conjuntos de papéis desem­
penhados por um grupo de pessoas com relação a outro, quando não a
muitos outros.
O B r a s il e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 109

isente escassez de espaço nas favelas mais antigas, mais densas e


mais desejáveis). Em_ um grande número de favelas, especialmen­
te aquelas nas encostas de montanhas e nos morros, é possível plan-
tar frutas, vegetais, criar porcos e galinhas, numa espécie de culti­
vo urhano especializado que^,permite a criação de valores economi-
<íos que podem ser consumidos diretamente, trocados, vendidos, ou ,
■como os porcos, usados como uma forma de depósito, que, enquanto
crescem, fazem uso dos recursos locais: sobras de lixo, grama, raí­
zes, fezes humanas, etc,17
Um exemplo específico de “ fazer economia” ; Orlando Mu­
nhoz quis viver no Jacarezinho, para onde tinha vindo quando me­
nino, da cidade, onde sua mãe vivia na época em que o conhece­
mos. Ele fez esta escolha porque o aluguel era barato e mínimo
o custo para o café e o jantar fornecidos pela proprietária no pri­
meiro andar. Vivendo desta maneira, alcançou muitos objetivos. O
-objetivo da economia era poupar boa parte do salário de seu em­
prego como chefe da divisão de contabilidade da Bolsa de Valores
do Rio. Se não vivesse na favela, teria gasto a maior parte de seu
salário. Em vez disso, ele o investiu, na época do seu -casamento,
que ocorreu quando estávamos lá, numa casa que construiu perto
de seus futuros sogros na cidade propriamente dita, Ele e sua noiva
fizeram grande parte do trabalho nesta casa, eminentemente de
“ classe média” , dessa forma poupando, e investindo essa poupança
no lar e em outros bens. Os outros objetivos eram sua participa­
ção política na favela e a direção de um clube de futebol e social
do Jacarezinho, ambos tendo contribuído em muito para seu pres­
tígio e para seu futuro (c f. Galifart, 1964), Ele era a pessoa mais
influente no conselho de representantes de ruas no Jacarezinho.
João, por um grande período, enquanto trabalhava numa em­
presa americana, não morou na favela. Embora seu pagamento de
três salários mínimos fosse maior do que o da grande maioria da
força de trabalho brasileira, era ainda apertado quando comparado
com as caras alternativas de aluguéis na cidade, uma boa
boa educação para seus quatro filhos, a manutenção de certo padrão
de vida e outras coisas. Ele optou pela boa educação de seus filhos,

17 Cf. Vayda, Leeds e Smith3 1961. Uma série de complicados arranjos


existe com relação aos porcos nas favelas: criar os porcos para matança,
vender animais adultos, comprar leitõezinhos no mercado para criar, criar
para dividir; compradores ambulantes, matadores especializados de porcos
que trabalham por percentagem de carne ou por pagamento, e assim por
diante. A criação de porcos pode ser realizada por consignação para as
pessoas que vivem lá embaixo e não têm acesso à terra. O cálculo da cria­
ção de porcos é muito complexo e deve ser deixado para outra oportu­
nidade.
110 A S o c io l o g ia do B r a sil U rbano

vendo, a longo prazo, mais segurança para eles e para ele na edu­
cação. Então, mudou-se para uma favela para poder economizai
nos custos de aluguel, e alocar seus recursos no que ele julgava
mais importante. Será observado que nesta escolha há ao menos
uma análise e uma compreensão implícitas de como a sociedade da
cidade funciona, e nela, ele está tentando maximizar os ganhos para
sua família transgeneracionalmenle.

C. Pressão

Hélio nasceu na cidade propriamente dita. Tornou-se um


trabalhador de fábrica qualificado, mas foi involuntária e defini­
tivamente aposentado pelo Instituto de Serviço Social dos Traba­
lhadores Industriais (IA P I) quando, com 31 anos, um acidente
lhe quebrou as pernas. Ele recebeu uma quantia para compensa­
ção. Calculando seus recursos e custos a curto e longo prazo, deci­
diu que o melhor que tinha a fazer era comprar uma casa barata,
um barraco, na favela do Jacarezinho, um vez que, mesmo sem
melhorias, ela se valorizaria e ao mesmo tempo lhe forneceria um
lugar para morar livre de taxas e aluguel, e esta valorização seria
proporcional às sempre presentes taxas de inflação brasileiras.
Além disso, era concebível que, com o tempo, ele fosse capaz de
melhorar a casa, e o que a valorizaria ou a tornaria negociável em
troca de outra casa de melhor localização (mais valiosa). Poste­
riormente, sua família — mãe, irmãs e respectivos esposos — mu­
dou-se para a favela, criando entre eles séries de propriedades en­
trelaçadas em sistemas de água, esgoto e nas próprias casas. Uma
das irmas, que havia casado há pouco e se mudado da favela, ven­
deu seus interesses ao resto da família. Todos esses cálculos e ope­
rações mostram uma forte familiaridade com as instituições da ci­
dade — na verdade, nacionais — e uma clara habilidade em lidar
com elas. 0 caso também ilustra a relação, no nosso continuum,
entre uma situação de pressão aguda e de fazer economia para
manter um certo padrão de vida, e mesmo, a longo prazo, maximi­
zar os ganhos. Ele adquiriu, depois disso, através de uma comple­
xa série de barganhas e favores, uma casa quase que luxuosa.

D Marginalização

O espaço permite-nos apenas um exemplo, um caso ein que


uma família tentou economizar, mas foi empurrada para o limite
da marginalização por uma série de pressões. 0 marido imigrara,
aparentemente, de um interior verdadeiramente rural rural — uma
pequena cidade do Espírito Santo — algum tempo antes de sua mu*
O B r a sil e o M it o da R ur al id ad e U rbana XII

Iher. Encontrou trabalho não-quali ficado na área industrial de Ra­


mos, um bairro do Rio, tendo estabelecido uma casa de pau a pique
e argamassa na favela Nova Brasília. Uma vez no trabalho, mandou
buscar mulher e filhos. Por algum tempo, a mulher trabalhou como
doméstica, de modo que eles tinham duas rendas. Com as minguadas
somas que recebiam eles podiam juntar algum dinheiro com difi­
culdade, soma que foi investida em algumas garrafas de cachaça,
vinho, bebidas não alcoólicas, e alguns condimentos, tentando mon­
tar um botequim. Eles esperavam que esse pequeno botequim pro­
gredisse, em parte para obter lucros, mas em parte também porque
a mulher achava que não podia mais ficar longe dos filhos que es­
tavam crescendo sem orientação, sozinhos. Seu capital, todavia,
não foi suficiente para montar o negócio. Assim, qualquer renda
que ele desse era absorvida pela família como um substituto da
renda anterior da mulher no trabalho doméstico. Esta era a situa­
ção quando a primeira de uma série de pressões ocorreu. O marido
caiu doente. Embora melhorasse, nunca se recobrou plenamente
(como é tão comumente o caso entre os trabalhadores pobres no
Brasil), e então ficou doente de uma coisa, depois de outra, por
meses. Cada vez ele tinha mais dificuldade em encontrar trabalho
(o mercado de trabalho também estava em contração), de modo
que, pela última vez que os vimos, ele estava fora do trabalho há
quase dois meses, deitado em casa, doente, quase permanentemen­
te, incapacitado. A mulher teve que vender todo o pequeno esto­
que que possuíam e procurar emprego doméstico num mercado de
trabalho já saturado por causa da depressão econômica geral. A
casa estava decadente, as crianças esfarrapadas e doentes, e o cui­
dado com o lar praticamente inexistia.
b As causas da marginalização, neste exemplo, não_ parecem ser
a ruralidade e ja nSo-IamíIiaridade com os modos iirbanos, mas uma
I combinação de traços estruturais e _aci_dentais ( pressão) agindo em
conjimto. Õs traços estruturais incluem a baixa posição homem
nas escalas de educação e treinamento (uma característica pan-bra-
sileira), seu isolamento, como recém-chegado, da rede -de—coloca­
ção de trabalho, o mau funcionamento das InstitiiiçÕes_ de Previ­
dência Social, a depressão econômica, resultado das condições na­
cionais, a falta — novamente porque eram recém-chegados e sua
região da favela tinha sido estabelecida há pouco tempo — do que
se poderia chamar de grupos de “ apoio na crise” , que fornecem
uma espécie de mecanismo de segurança informal etp.^ tempos de
crise, especialmente a família extensa, vizinhos, a^rapaziada]1)- a
dupla patrao-cliente, ou os éom padre^ Em tais circunstancias es-
T Í2 A S o c io l o g ia do B rasel U rbano

trúttiràis, as situações tornam-se insolúveis para os indivíduos sob


pressão, levando à marginalização e, algumas vezes, à morte.
Os casos são inúmeros. Mas são histórias não apenas dos de ori­
gem rural, mas também dos de origem urbana, tanto sofisticados
como não-sofisticados. Em todos os casos, traços estruturais e aciden­
tais combinam-se mais ou menos da mesma maneira como nosso pro­
tótipo acaba de ilustrar. Os traços institucionais ou estruturais sao
aqueles comuns a todo o Brasil e característicos da estrutura da eco­
nomia, política e organização administrativa brasileira, ou, de for
ma abrangente, da estrutura da sociedade da qual estas instituições
são facetas (cf, Frank, 1967; Leeds, 1964).18 Estas incapacidades
estruturais parecem ter seus análogos no Peru, se a nossa leitura
do artigo de Patch (1 9 6 1 ) é correta. O tremendo esforço feito pelo
informante de Patch — que, depois de anos de luta, talvez tenha
sucesso — e por outras de seu callejón que fracassaram, além de
outros detalhes da luta, sugerem quase os mesmos tipos de impedi­
mentos estruturais para o trabalhador pobre, rural ou urbanof no
Peru.
Deve ser enfatizado que o tipo oposto de caso também ocorre
muito freqüentemente; pessoas tão rurais como o rnando e a mulher
descritos sao bem sucedidos no meio metropolitano. É, de fato. o
•caso de uma família para a qual temos a maior documentação.
É suficiente dizer aqui que, no decorrer do tempo, eles cons­
truíram uma casa no Jacarezinho que vale hoje Cr$ 10.000 (en­
quanto o dólar valia Cr$ 2,70 e o salário mínimo era de Cr$ 105,00
por m ês); têm um rádio, televisão, máquina de costura elétrica, gela­
deira, vitrola, luz elétrica, muitos banheiros, água corrente; ajuda­
ram, por meio de empréstimo, troca de trabalho e outros serviços, a
estabelecer a terra, a casa e a loja de seu genro, bens valendo
Cr$ 40.000,00; estao ajudando outro genro a aumentar sua rique­
za do mesmo modo, fornecendo uma casa livre de aluguel enquanto
sua loja é reconstruída, cuidando das crianças, construindo peças
de móveis para a loja, e assim por diante.

18 Implícito nas discussões sobre a pressão está a suposição de que ela


é uma coisa ruim. D o ponto de vista dos indivíduos com percepção, tais
com o as pessoas no nosso exemplo, isto provavelmente não ocorre. Uma
análise funcional de feedback de tais pressões seus efeitos sobre os indi­
víduos, as respostas dos indivíduos e seu impacto neles (tal com o ser
empurrado para fora do mercado de trabalho e das listas de previdência)
sugere que, sob condições variáveis da sociedade e sua economia, tal pres­
são é adaptativa ao sistema, por mais triste que alguém possa sentir-se
com isso.
O B r a sil e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 113

Experiência Urbana no Interior da Área Invadida


Para concluir este capítulo, queremos discutir brevemente a
experiência dos moradores da própria favela ou barriada. O xniíe
sustenta (c f. Mangin, 1967a) em sua forma extrema, que a área
invadida por posseiros é a “ área pobre, rural, dentro da cidade15
ou o “ decadente bairro rural na cidade” (respectivamente Bonilla,
1961, 1962 ).ie Em nossa opinião, com base em alguns anos de vida

19 Não conhecemos nenhum padrão de moradia rural no Brasil que


corresponda a algo com o uma favela. Achamos que muita discussão deve
ser feita acerca de com o investigações supostamente científicas podem che­
gar a tais conclusões. Muitas coisas parecem envolvidas, todas relaciona­
das aos problemas metodológicos fundamentais, mais especialmente à es­
colha das hipóteses e ao uso de questionários. A questão das hipóteses é
discutida através de todo este trabalho.
Nenhum questionário apropriado pode ser feito sem a participação
e observação extensa e intensa anterior. Não se pode saber que categorias
são relevantes; não se pode saber as formas lingüísticas apropriadas; não .>e
pode saber com o interpretar as respostas, uma vez que o contexto de
significação dos itens não foi investigado. Além do mais, o método de
aplicação de questionários é em si totalmente estranho à experiência de
vida dos informantes (especialmente fora dos Estados Unidos), de modo
que respostas não-naturais, convencionadas ou mal interpretadas — pen­
sadas pelos informantes com o apropriadas à pergunta feita — são emiti­
das, mas não a informação sobre a situação real que o item do questio­
nário deve estar buscando. Este problema torna-se particularmente agudo
quando estão envolvidas diferenças culturais dos conceitos implícitos nas
questões, quadros de referência e mesmo instrumentos do investigador.
Quando este é um acadêmico americano de classe média, enfrenta uma
dupla diferença cultural -— a primeira de compreensão e tradução para a
língua de seus pares peruanos ou brasileiros e, então, a de compreensão e
tradução para a língua do proletário brasileiro ou peruano. Bonilla, com ­
pletamente, Pearse, parcialmente, e muitos outros não conseguem fazer
essas traduções ™ não conseguem compreender os significados centrais dos
comportamentos, instituições e idéias das “ classes mais baixas” confrontan­
do-se com as outras “ classes” , nos seus próprios termos e perspectivas cf.
fracassos semelhantes, em outros contextos, de Chaplin (1967), Goldrich
(1965), Goldrich, Pratt e Schuller (1966), Kahl (1965), Needler (1967),
Rosen (1962, 1964) etc., etc. Nenhum deles consegue perceber, em parte
ou no todo, que mesmo as mesmas palavras na mesma língua significam
coisas bastante diferentes em contextos diferentes mesmo para as mesmas
pessoas, ou podem ter ainda significados mais claramente variados quan­
do estão envolvidas diferenças maiores na posição de classe, regional,
ou outras situações1 na sociedade. Um exemplo: Malandro, para as “ clas­
ses” brasileiras, significa “ delinqüente” , um “ criminoso” ; para as “ massas'*
a quem o termo se aplica, significa “ sujeito esperto” , “ camarada inteli­
gente” . Para as “ classes” , é uma forte condenação; para as “ massas” , é
um termo de admiração. O observador não-participante que poderia usar o
termo sobre uma- pessoa da favela pode também dar por finda sua investi­
gação neste ponto, ao passo que o observador-participante, usando-o de
modo correto, faz parte do grupo.
114 Ä S o c io l o g t a do B r a s il U r b a n o

nas favelas, íntimo conhecimento tanto através da etnografia quan­


to do survey de meia dúzia de favelas, visitas (que vão de algumas
horas a idas repetidas a 45 favelas, e estudos de Mangin, Maios? Mar
e Turner das barriadas peruanas e de Peattie de um barrio vene­
zuelano, especialmente com relação a suas histórias de moradia, vida
• associativa, padrões ocupacionais e visões políticas, estes pontos de
vistas são, em geral, fundamentalmente falsos. T anto as favelas
como as barriadaSj çemo regrav sâkioeais altamente políticos (como
incidentalmente o são as cidades do interior do Brasil; cf. Harris,
1956; Leeds, 1957, Cap. 5 ). Elas sao duplamente políticas no
sentido de que têm, em geral, relações políticas muito elaboradas
com políticos e instituições,extern.as à favela.20 Quanto maior a íã-
vela, mais isso parece ocorrer. No Rio, um exemplo extremo é,
evidentemente, o Jacarezinho, com cerca de 70.000-80.000 hab,
Como JE. Leeds (1966) assinalou, essas pessoas estão intimamente
envolvidas com as políticas estaduais, enquanto as instituições ad­
ministrativas esfao envolvidas com toda uma série de partidos, fac-
'ções õu outros grupos da favela, tanto em benefício de várias* pes­
soas da administração do Estado como em seu próprio benefício
pela extração de ganhos destas últimas. Os administradores e ins­
tituições estatais, que estão envolvidos em toda uma série de parti­
dos, facções, ou outros grupos da favela, utilizam todos eles os
empregos tecnocrático-burocráticos como frentes “ neutras” pára
seus interesses partidários na3a neutros. Os moradores da favela
egtão conscientes disso e jogam com isso. Afinal, o Jacarezinho tem
um eleitorado de 30.000-40.000 pessoas (embora o cálculo exage­
rado de partidos e instituições o estime em 50.000-80.000 )21, e

20 Cf. Leeds, 1966. É da maior importância observar que quando um es­


tranho incauto ou não-iniciado observa o último tipo de relação, ele o
vê através dos olhos da instituição ou níveis de statusj embora de uma
forma desapaixonada. Dada sua posição, a instituição opera de modo pa­
ternalista — “ uma perpetualização do ruralismo” . Ele não consegue ver
as manobras e contramanobras sutis e exploradoras feitas pelas pessoas
que se encontram na posição complementar da relação, que muito intelv
gentemente e com grande sofisticação utilizam o m odo paternalista im­
posto em seu próprio favor — até que não haja mais nada a ser ganho
com isso. Então eles desaparecem. O pessoal da agência ou do nível de
status mais elevado conta então ao observador quão “ ingratos” , quão in­
dignos de confiança, quão traiçoeiros são os favelados, ou operários ou
quem quer que seja. Astúcia camponesa, sem dúvida, mas quando vista
a partir do lado deles, não paternalista, apenas uma forma oportunista
de tirar o melhor do pior.
21 Num survey, a o o h a b (ver p. 27) estimativa (Estado da Guanabara,
1963) para a favela de Jacarezinho 176.000 habitantes. Isso teria signifi­
cado um eleitorado de cerca de 70.000. Acrescentando ao Jacarezinho
7.000 casas que consumiam eletricidade da c e e . e , cerca de 3.000 que a
O B r a s il e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 115

isso é bastante para balançar toda a Administração Regional ou dis­


trito eleitoral.
Além disso, o Jacarezinho hoje propicia internamente ganhos
suficientes para tornar intensa a vida política. 0 controle do sistema
de luz elétrica fornece grandes possibilidades de suborno, cerca de
uma dúzia de empregos de patronagem e uma posição poderosa para
prestar favores aos fregueses de energia elétrica, favores estes a se­
rem retribuídos quando solicitado. 0 controle sobre o sistema de
luz também coloca o indivíduo estruturalmente em contato com
uma série de instituições administrativas externas, como a Light;
a Comissão Estadual de Energia (C E E ), a Administração Regional,
não oficialmente com os militares, com os vários partidos políticos
agora legalmente extintos, os novos partidos políticos criados por
decreto pelo governo militar brasileiro, e assim por diante. Pode ser
assinalado que, além dessa bagagem de experiências urbanas, a
fmera_instalação_e administração de um sistema de luz tão intenso
(e eomplicado como o_do Jacarezinho — cerca de 10.000 casas —
|<Tèm si uma experiência de gerência urbana, significativa.
Argumentar-se-á que esse tipo de coisa é muito recente. De
fato, os tipos de organização como a c e e são recentes, mas, como
foi demonstrado em outro lugar (A . Leeds, E. Leeds, e D. Mo-
rocco), os sistemas de energia da c e e são apenas as formas mais
recentes de um longo desenvolvimento dos sistemas de luz, cujas
formas anteriores eram redes dirigidas de forma privada por em­
preendedores da favela que buscavam lucros individuais, enquanto
algumas formas posteriores, legalizadas pelo decreto chamado Por­
taria n.° 2, por volta de 1956, em geral compreendiam formas
cooperativas bem como lucros individuais. Casualmente, os siste­
mas de água cooperativos como no Borel e no Jacarezinho, remon­
tam a muitos anos (ver Wygand, 1966).
Algumas favelas organizadas, como Guararapes, têm mudado
recentemente no sentido de se tornarem propriedades comunais.
Guararapes comprou a terra em que se situa de um proprietário
privado. Ela desenvolvera uma cooperativa não apenas para com­
prar a terra, mas para urbanizá-la (ou seja, “ instalar nela peque­
nos serviços urbanos” ), criar centros de treinamento para elevar a

consumiam de outras linhas privadas, um máximo de cerca de 10.000 é


encontrado lá. A s casas da favela, em muitos surveys, tinham em média
4,6 a 4,8 pessoas. Hoje, muitas dessas casas abrigam várias famílias,, tal­
vez numa média de 1,24 por casa. Conseqüentemente, um total de
cerca de 60.000 é razoável, com uma margem de 50.000 a 90.^00 (se se
calcula numa média máxima de 6 por casa, 1,4 famílias por casa, e cerca
de 14.000 famílias).
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

renda através da especialização do trabalho jovem, para que a


cooperativa pudesse ser mantida, para prover habitação suficiente
para seus membros, e assim por diante. Planos semelhantes estão
em andamento na favela da Corok e outras. Os líderes do Jaca-
rezinho sempre falaram da idéia de comprar a terra em que ela
está, mas ela é atualmente do governo, e, desta forma, existe um
problema quase insolúvel, de vez que o governo vê a solução ape­
nas em termos da venda de lotes individuais para propriedade
privada aos moradores, o que requer o fracionamento de toda a
favela. A aparente razão para isso é a adequação à lei nacional
e estatal que regula o tamanho do lote. Uma razão menos aberta­
mente declarada é que a co H A B (Companhia de Habitação Popu­
lar) vai ficar com o dinheiro das vendas (para financiar outros
projetos), uma fortuna considerável, embora só tenha pago por
volta de US$8.000 pela imensa extensão (cerca de 125 acres) de
terra potencialmente utilizável, prioritariamente, de forma re­
sidencial e industrial no centro da cidade.
No Peru, tal planejamento e direção em larga-escala foram
parte da experiência da barriada desde o início. As próprias inva­
sões eram freqüentemente planejadas, e, uma vez invadidas, tais
áreas recebiam ruas e praças e era planejado o fornecimento de
água, esgoto e luz; áreas para escolas e outros serviços eram deli­
mitadas. As barriadas, como entidades sociais, eram freqüente­
mente corpos gerenciais corporativos em grande escala, criando
vizinhanças claramente urbanas, algumas das quais foram recen­
temente oficializadas como partes da cidade de Lima (cf. Turner,
1963; Mangin, 1967a; Turner 1967; entrevistas, setembro, 1968).
Além disso, as favelas do Rio tiveram uma longa história de
atividade associativa. A União dos Trabalhadores Favelados ( u t f )
foi originariamente estabelecida por um advogado (Mangarino
Torres) do antigo p t b (Partido Trabalhista Brasileiro) do então
Distrito Federal (hoje Guanabara), em cooperação com lideres da
favela entre 1946 e 1948. Apenas o ramo da favela do Borel da u t f
original permanece até hoje, mas é um órgão altamente político
(c f. Schultz, 1966) que conduziu com sucesso os moradores a der­
rotarem duas tentativas e uma ameaça (por volta de 194<8, 1954
e 1966, respectivamente) de extinção da favela; utilizou-se de —
e sobreviveu a — pelo menos uma importante agência de desen­
volvimento comunitário (c f. Leeds, 1966a); fundou um posto de
saúde com muitos associados; estabeleceu um fundo cooperativo
para funerais e construiu uma caixa d’água para toda a favela,
pela qual as quatro subdivisões administrativas ( “ sociedades” ) da
favela, cada uma com estatutos mimeografados, são responsáveis.
O B r a s il e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 117

Dos funcionários da associação, todos moradores do Borel, faz


parte um homem ® membro de um Sindicato, outro que tem
açougues tanto dentro como fora da favela, outro que é sargento
da Polícia M ilitar, outro que é oficial da reserva do Exército —
todos intimamente vinculados a instituições externas à favela, in­
clusive os sindicatos, altamente urbanos.
À maior parte das associações de favela boje existentes é de
data mais recente, não porque todos os moradores das favelas te­
nham subitamente se urbanizado em 1961 e 1962, mas porque as
pressões políticas e administrativas contra os moradores da favel?
não apenas aumentaram, mas a ação governamental foi proposi-
talmente levada a cabo para criar associações e plena cidadania
para todos os moradores do Rio. Isso começou em 1964 (quando
o Governo de Carlos Lacerda iniciou o Novo Estado da Guana­
bara) pela Secretaria de Serviços Sociais, sob a direção de José
Arthur Rios. Este esforço compreendia o fornecimento de infor­
mação legal e advogados, de outro modo de acesso extremamente
difícil ao trabalhador pobre, uma vez que, em geral, os advoga­
dos identificam seus próprios interesses com os das elites sociais e
políticas do país (c f. Naro, 1966), e não com os problemas da
classe baixa. É muito difícil obter, nós o soubemos, informação
legal, mesmo por advogados. Em outras palavras, quando algu­
mas barreiras de manutenção de classes são quebradas ou contor­
nadas", os moradores da favela de imediato desenvolvem todas as
características urbanas que os investigadores com o estereótipo
jMÍralL — que nunca examinaram a situação estrutural na qual a
favela existe — não encontram entre os “ rústicos do interior” que
compõem a população da favela22.

22 A evidência para essas declarações tem que ser colhida a partir de


dados com o aqueles apresentados em Naro (1966), e E. Leeds, (1966),
que mostram com o as barreiras discriminatórias são mantidas hoje, e tam­
bém a partir de reconstruções históricas, especialmente através de entre­
vistas com moradores de algumas faveías e com o pessoal atual e passado
dos organismos administrativos. Isso é necessário porque praticamente
todos os dados publicados baseiam-se no mito da ruralidade, de modo que
eles (a) repetem as alegações de ruralidade, e (b) também não conse­
guem ver o contexto e a estrutura nas quais a favela existe. Particular­
mente quando se examinam as histórias políticas das favelas com um
olhar cuidadoso para perceber com o ambas (ou mais) partes fazem o
jogo — com que estratégias, táticas, regras, intenções, truques, retóricas,
etc. — é que se compreende a natureza essencialmente urbana tanto da
favela com o de seus moradores. Começa-se a compreender com o as ca­
racterísticas supostamente rurais — família extensa, etc. — são, na ver­
dade, instituições altamente adaptáveis numa situação opressiva e re­
pressiva. (cf. Leeds, 1964).
118 A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

As barriadas de Lima são talvez caiais evoluídas neste aspecto.


Elas começaram sob a forma de atividade associativa, coordenada
cm larga escala, em geral ligadas a algum político. Muitos mem­
bros tiveram considerável experiência anterior em associações nas
cidades natais (c f. Mangin, 1964, 1965), mudando para a parti­
cipação nas associações das barriadas conforme estas surgiram. A
função das associações nas cidades natais é, em parte, aculturar e ur­
banizar os camponeses dos altiplanos peruanos (cf. Cate, 1962.
1963, 1967 para paralelo com o Brasil), que diferem em sua lín­
gua e cultura daquela parte da sociedade peruana na qual está
ocorrendo o processo de urbanização» As associações de barriada
são não apenas organismos administrativos para as barriadas (a
maioria das quais tem hoje cerca de 50.000 pessoas), mas tam­
bém organizações para barganhar com o governo federal e muni­
cipal, pontos-chave nas relações políticas com a sociedade circun­
dante e sistemas políticos internos que, de forma atípica para o
Peru, realizaram eleições anuais entre toda a população da bar­
riada para escolher funcionários (Mangin, 1967c).
O que dissemos sobre as favelas e barriadas como, em si mes­
mas, loci de experiência urbana e de atividade associativa, admi­
nistrativa e política, pode também ser dito para a vida social, re­
ligiosa, recreativa e econômica. Não podemos aqui entrar nesses
aspectos, mas remetemos o leitor a Leeds (1 9 6 6 ), Leeds e Leeds
e Morocco (1 9 6 6 ), Schultz (1 9 6 6 ), Cate (1962, 1963 )23.
Ainda não foi dado tratamento adequado a organização social
da favela. O que foi escrito refere-se exclusivamente à família.
Pouca ou nenhuma atenção foi atribuída aos seguintes aspectos da
ordem social (e aos laços ou identidade com os mesmos elementos
fora da favela), todos encontrados no interior das favelas: estrati­
ficação, elites, cliques, grupos (turmas, rapaziadas, garotadas, me­
ninadas, panelinhas), grupos de vizinhança, ambiência, clubes so­
ciais e outras associações (por exemplo, comòos), díades patrao-
cliente de muitos tipos, mecanismos de carreira (ver Leeds 1964a)
etc., e aqueles fatores sociais que contribuem para o sentido parcial
de comunidade observado nas favelas.
Km suma, as favelas são atravessadas por todas as formas de
organização comuns à sociedade inclusiva; a maioria das operações
destes tipos de organizações é análoga àquelas de fora, a não ser

23 Foi realizada uma pesquisa no verão de 1966 sobre a complexa es­


trutura dos cultos afro-brasileiros com relação à estratificação social dentro
e fora das favelas e com o empresas econômicas. O trabalho, que está
em continuação atualmente (1969), foi feito por Brown, do Departamen­
to de Antropologia da Universidade Columbia. Agradecemos muito sua
cooperação.
O B r a s il e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 119

que alguma coisa relativa à situação estrutural da favela com re­


lação à sociedade-matriz impeça que isso ocorra. Se a sociedade-
matriz, inclusiva, é urbana, então, também a favela é urbana e,
em muitos aspectos importantes, contínua a ela. Por ora, podemos
apenas estabelecer estas conclusões; a documentação completa apa­
recerá mais tarde. Enquanto isso, seria proveitoso para o leitor o
estudo do trabalho de Hélio Modesto (1966).

Valores Urbanos

Nesta parte final do trabalho, voltamo-nos para os valores ur­


banos dos moradores da favela. Muitos destes foram mencionados
nas partes precedentes, mas convém aqui nos referirmos a eles
novamente, no contexto de uma discussão geral de valores.
Primeiro, entre a maioria dos moradores da favela, especial­
mente os homens, é expressa uma preferência generalizada pela
cidade. O campo é atrasado, triste, paralisado, sem nenhuma atra­
ção especial como lugar para morar. Exceto algumas mulheres,
muitas pessoas dizem, quando perguntadas, que não querem voltar.
Por quê? Porque é melhor aqui. A vida é melhor, a pessoa se sente
melhor, economicamente é melhor, não é atrasado ou parado, etc.
Em outras palavras, a atmosfera e o ambiente da cidade são, de
uma maneira incipiente, quase que sensorial, sentidas como dese­
jáveis e, para aqueles que têm familiaridade com as áreas rurais,
mais desejáveis ainda.
Traços específicos da situação urbana são valorizados. O am­
plo e variado mercado de trabalho é valorizado em termos de
“ oportunidade” , as possibilidades de ganhar dinheiro através do
trabalho para viver melhor. Para aqueles que vêm do interior, a
vida da roça, a vida na Mãe-Terra, não era tão adorada a ponto
i de superar seus sentimentos negativos com relação aos seus sem­
pre crescentes rigores econômicos ou com relação ao fato de serem
parceiros, trabalhadores assalariados ou mesmo pequenos proprie­
tários endividados. Não valia mais a pena, mesmo que ainda
fosse possível. Entao eles vieram para a cidade que, mesmo com
a difícil situação econômica atual, é melhor do que o campo. Há.
sempre, tanto para o migrante quanto para o trabalhador pobre ci­
tadino, alguma oportunidade, alguma possibilidade de sobreviver
economicamente, na pior das hipóteses, na melhor, pode-se ganhar
bem e aprender a ganhar ainda mais. Muitos podem obter treina­
mento especial no trabalho, no s e n a c ou no s e n a i , em escolas
profissionais e, mesmo, em pequenas lojas. Algumas das organiza­
ções de Previdência e programas de desenvolvimento comunitário
têm também, ocasionalmente, projetos de treinamento.
A S o c io l o g ia do B r a sil U rbano

Mesmo para os homens que estiveram fora do trabalho por


muito tempo, que obtiveram licença para tratamento dc saúde era
órgãos de previdência, por exemplo, a cidade é ainda um lugar
dc oportunidade, de possibilidades. A falta de trabalho, a inabili­
dade em curar-se para poder trabalhar 6 atribuída (em geral cor­
retamente) ao “ mal funcionamento” do governo federal, dos Ins­
titutos de Serviço Social e outras instituições. Em outras palavras,
as contradições entre seus valores relativos à cidade como um lu­
gar de oportunidade econômica e sua situação real não os empur­
ram “ de volta” aos valores rurais, mas antes a análises bastante
sofisticadas e astutas (urhnnas) da estrutura social de sua socieda­
de nacional e urbana.
Relacionados a este conjunto de valores estão os valores tanto
quanto à educação em si mesma como quanto as oportunidades
educacionais específicas acessíveis nas pequenas c grandes cida­
des24. Para praticamente todos os brasileiros, a educação — tal­
vez mais bem representada no título de udoutor” , usado por qual­
quer graduado em universidade — é um bem intrínseco e máxi­
mo. John Turner, num questionário aplicado aos moradores de
uma barriada em Lima, descobriu que a posição de professor (de
escola) tinha mais prestígio, na maioria dos casos, do que outras
categorias ocupacionais, como médico, padre, policial, homem de
negócios, etc. (dados nao publicados). Este valor é, em si, um
produto da civilização urbana da península ibérica, e foi sempre
parle do ethoa urbano do Brasil, hoje generalizado para todas as
“ classes” e setores da população, e considerado importante por to­
dos os meios de comunicação predominantes.
As oportunidades educacionais específicas compreendem insti­
tuições de ensino públicas e paroquiais, primária, secundária e de
nível superior, escolas profissionais, treinamentos públicos especia­
lizados como o SENAi e o sen á c acima mencionados, uma pletora
de pequenas escolas privadas e outros. Ninguém fez ainda um
censo das escolas em favelas, mas alguns moradores reconheceram
a necessidade de mercado para escolas privadas no interior das
favelas. Assim, no Jacarezinho, conhecemos no mínimo meia-dii-
zia de escolas, duas ou três delas razoavelmente boas, embora com
pouco equipamento e livros. Uma das maioves tem uma proCesso-

24 Cate (1962, 1963, e cm comunicação pessoal) assinalou que os mi­


grantes analfabetos dc aparência verdadeiramente rural que chegam ao
R ccifc vindos do interior do Estado de Pernambuco são introduzidos na
vida urbana nas favelas ou mocambos da cidadc através de algumas es­
colas financiadas e compostas pela extraordinária rede dos grupos de
carnaval, dos quais muitos dos membros diretores hoje alfabetizados eram
migrantes analfabetos de um período anterior.
O B rasil e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 121

ra preparada. Ela ensina a cerca de 100 crianças por dia, em trèi»


turnos. Assim, muitos moradores que, por uma variedade de ra
zoes, têm dificuldades (tais como custos de uniformes, ruas movi­
mentadas para atravessar, distância, etc.) para mandar as crian­
ças para escolas estaduais e paroquiais valorizam em muito as esco­
las dentro da favela. Cada vez mais, à medida que as pressões dis­
criminatórias vindas de fora diminuíram, os moradores da favela
enviaram suas crianças a escola secundária e mesmo à universi­
dade, de modo que, dentro de uma década mais ou menos, um
considerável estrato de profissionais será encontrado nas favelas
maiores e mais ricas.
Os moradores da favela também valorizam outros tipos de
oportunidades institucionais da cidade. É irrelevante se eles nas­
ceram nelas, como era o caso, como pessoas de origem urbana, ou
as conheceram depois de migrar para o Rio ou para outras cidades.
De ambos os modos, elas eram valorizadas, mesmo quando aspe­
ramente criticadas, como ocorre freqüentemente. Referimo-nos es­
pecialmente aos “ Institutos” , os institutos federais de previdência
social que devem fornecer pagamentos na doença, aposentadoria,
salários-família, apoio a viúvas, cuidados médicos, cuidados com
a maternidade, e assim por diante. O porquê de seu mal funciona­
mento não deve ser analisado aqui. Todavia, mesmo dado o real
mal funcionamento, eles ainda fornecem a promessa e a realidade
de uma medida de segurança contra pressões e crises imprevisí­
veis, ii m certo controle adicional sobre um meio ambiente difícil
e problemático. De fato, os pagamentos globais do Instituto com­
preendem uma percentagem considerável do total da renda de
toda a classe trabalhadora de uma cidade como o Rio. Em hora tal
sistema possa parecer “ não-econômico” para economistas que pen­
sam em função da produtividade, sob as condições da economia
nacional brasileira e de sua etapa de desenvolvimento, este gasto
total de pagamentos é econômico para o trabalhador pobre que
deve lidar com esta forma particular de economia capitalista.
No total, também, os sindicatos trabalhistas sao valorizados,
embora por um número de habitantes muito mais limitado; não
ouvimos queixas dos moradores das favelas sobre eles. Estrutural­
mente fracos, como sempre foram e, depois de 1964, mais do que
nunca, os sindicatos, o longo prazo, têm-se fortalecido, melhorando
sua posição de barganha com relação à indústria no jogo tripar-
tite sindicato-indivíduo-governo federal, o qual, por lei, está sem­
pre envolvido na situação de barganha. A crescente força dos sin­
dicatos significou melhores condições de trabalho, melhores salá­
rios, maior segurança e crescentes benefícios secundários, e tem
122 A S o c io l o g ia do B iÉasil U rbano

havido alguns esforços para ligar os interesses da favela a órgãos


sindicais. Por exemplo: os funcionários sindicais moradores da fa­
vela que concorreram na eleição para a associação da favela na
Rocinha, em 1966; o presidente da UT f do Borel, que era um
funcionário sindical; e o esforço para ligar o programa de ação de
urbanização da f a f e g (Federação das Associações de Favela do Es­
tado da Guanabara) — ela mesma um fenômeno notavelmente
urbano! — como o sindicato dos trabalhadores metalúrgicos, de­
pois das impressionantes chuvas de janeiro, de 1966.
Estes últimos pontos chamam a atenção para valores alta­
mente urbanos de participação política por parte dos moradores
da favela. Os brasileiros, em geral, e quase que a maioria dos ha­
bitantes de cidades pequenas, cidades grandes e metrópoles, são
inerentemente interessados em política, suas operações, e as maqui­
nações das pessoas envolvidas. A maior parte dos moradores de fa­
vela com quem falamos — de todos os níveis econômicos e tipos
de formação — é profundamente ciente do que está acontecendo
no interior da favela e, especialmente desde o advento do rádio
transistorizado, em geral extraordinariamente bem informados so­
bre, e precisos em suas análises do que está ocorrendo na matriz
política. De fato, afirmaríamos, sem nenhuma dúvida, que sueis
visões das estruturas políticas e dos processos do Brasil fornecem
basicamente melhores modelos para as realidades políticas brasi­
leiras do que aqueles que são obtidos da maioria dos observadores
nativos sofisticados, e certamente de quase qualquer estrangeiro.
Sua ação política e social se dá nos termos dessas perspectivas.
Muitos moradores da favela não apenas estão interessados,
mas valorizam a real participação em problemas políticos de todo
tipo. Juntamente com os políticos profissionais e administradores
da política brasileira, os moradores da favela são os mais sutis e
políticos que já encontramos, muito mais políticos em todos os
sentidos, do que a população americana como um todo, e dificiJ-
mente comparáveis a quaisquer categorias de pessoas equivalentes
nela. Á política é um jogo, uma recreação, um sistema de recom­
pensas, um gozo do poder, uma estrada para a mobilidade eco­
nômica, um caminho para a mobilidade social e um compromisso
com alguns conjuntos de interesses. O jogo da política é extrema­
mente complexo, movendo-se em muitos níveis, por múltiplos mo­
dos de expressão ( cf* Leeds, 1964b), por múltiplos caminhos de
relação interpessoal. Apenas aqueles que foram jogados nos turbi­
lhões da superfície do oceano político da favela ou nele mergu­
lharam profundamente podem ter uma noção de como essas pes­
soas são verdadeiramente políticas e de como o sistema opera. Co­
O B r a s il e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 123

mo um estranho, mesmo participando, observando e morando na


favela por um período de um ou dois anos, pode-se ter vislumbres
mais ou menos plenos de segmentos isolados do sistema e de seus
acontecimentos. Alguns indícios mais importantes sempre pare'
cem conduzir a ocultos mistérios.
Já mencionamos acima os valores positivos relativos ao tra­
balho. Em geral, descobrimos que as pessoas da favela valorizara
o trabalho como um fim em si mesmo — presumivelmente, como
parte do valor geral cristão do trabalho (cf. Tilgher, 1930). O
trabalho é um estado apropriado, ao passo que a ociosidade e a
inatividade, especialmente se impostas e, particularmente sob cir­
cunstâncias prementes, produzem expressões de desconforto, difa­
mação, impaciência ou raiva. O trabalho — a atividade de fazer
alguma coisa produtiva — é em geral usado para avaliar o valor
dos outros (ele é muito trabalhador, ela trabalha muito). Deve-se
gostar, como regra, do trabalho (gosto de trabalhar), produzir
bens e valores, ser criativo. O trabalho é, evidentemente, também
valorizado como meio para obtenção de valores e objetivos maiores
— para a Boa Vida, a posição social desejada. No conjunto, o
conteúdo desses valores é urbano em seu caráter, como viemos
enfatizando.
A cidade é valorizada como o lugar do trabalho par excellen-
ee. O trabalho do campo é inerentemente estreito e constrangedor
para o brasileiro. Mais pragmaticamente, o trabalho no campo náo
serve bem como um meio para os fins que ele, como habitante da
cidade ou mesmo do campo (c f. Leeds, 1957, Capítulo 7 ) deseja
muito. A cidade propicia uma variedade de trabalho, oportunidades
de trabalho e recompensas de trabalho; propicia os caminhos para
seus valores máximos.
Deve-se observar que estamos falando de valores dos morado­
res da favela, e nao de suas observações factuais e análises da si­
tuação de trabalho, embora eles vejam esta última bastante clara­
mente, em geral com extrema amargura e de forma intensamente
crítica. Eles sao eminentemente realistas na valoraçao de suas con­
dições de vida.
A cidade é valorizada porque ela oferece uma ampla gama de
possibilidades de mobilidade econômica ascensional. Os valores cen­
trais são os de melhores padrões de vida, regularidade de supri­
mento alimentício e médico, capacidade de usufruir de serviços
recreativos, e assim por diante. O valor não é necessariamente o
de ascender a algum outro nível, ou estrato (c f. Mayntz, 1967 e
A. Leeds, 1967b) da sociedade, mas freqüentemente o de chegar
a uma vida plena e confortável no interior do quadro existente.
12 4 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

De passagem, deve ser observado que o antropólogo está na:


posição peculiar de ser de alguma forma um participante, e sem­
pre um observador de corpos nodais e transnodais estruturalmente
bastante diferenciados (cf. Leeds, 1967) sejam estes ordenados
horizontalmente, verticalmente ou não apresentando nenhum ar­
canjo particular. Assim, ele tem múltiplos pontos de vantagem e
variadas interpretações, ou experiência cuidadosamente relativiza-
da da estrutura social como um todo, que pode chegar a perceber
como ninguém. Assim, por exemplo, A. Leeds exp^imentou a vida
de uma pequena cidade brasileira, a vida da plantação, u m a limi­
tada quantidade de vida camponesa (Leeds, 1957), as cliques ur­
banas (1964a), e participou da vida da “ classe baixa” urbana
(1966b; com E. Leeds e Morocco, 1966) e teve longo contato
com vários ramos da elite intelectual. Teve pouco ou nenhum con­
tato com os militares e a Igreja (exceto a Escola de Serviço Social
no R io) no Brasil. Por ter acesso a essas diferentes posições da
sociedade, ele conheceu as visões pequeno-burguesa, intelectual “ de
esquerda” , intelectual de “ centro” e a visão que os administrado­
res públicos têm das “ classes baixas” , do trabalhador pobre, e do
favelado. Sobre os três últimos, conhecemos os pontos de vista das
camadas “ superiores” . Não é nosso propósito aqui descrever todos
esses pontos de vista, mas simplesmente apresentar várias consi­
derações.
Primeiro, os moradores da favela, em geral, não têm idéia do
que é a vida da alta burguesia, das elites intelectuais, do escalão
militar, superior ou da Igreja, ou mesmo da._pequena. burguesia
e da maior parte da burocracia. Eles nao têm como conhecer esses
padrÕes de vida, os valoresinternos essenciais que diferenciam cada
categoria das outras, as tarefas e significados ^nvolvidos em seus
empregos e nos empregos de seus amigos, o conteúdo e os seus ca­
nais de comunicação (c f. Leeds, 1964a). A maior aproximação
entre_experiência dos .moradores da favela e_ estes grupos ê o tra­
balho femininq_çpmo doméstiça_em suas casas, mas isso representa
apenas um pegueno segmento das vidas daquelas categorias (le
pessoas, e j^ aquele segmento mais parecido com o àa" própria vida
dps jnoradores da favela — cozinhar, comer, lavar pratos, limpar,
e assim por diante. 0 que a doméstica aprende disso são “ melho­
res” padrões de vida e não canais de mobilidade ascensional. O
que é verbalmente expresso como valor é geralmente o primeiro, e
nao o último; essencialmente, a “ mobilidade” concebida, para a
maioria, é uma expansão contínua do que eles têm hoje, e não
uma mudança de estado.
O B r a s il e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 125

Alguns moradores da favela sonham em mudar-se para a ci­


dade propriamente dita, onde podem usufruir, como o fazem as
pessoas da classe média, do tipo de haKitação e serviços da cidadg-
Em alguma medida, isto é_uma rejeição da favela e dos seus co-mo^
radores de lá, uma vaga olhada para fora dela e “ para cimar’,
mas o conteúdo deste “ para cima” consiste principalmente de ador­
nos externos do que é avaliado como uma posição mais elevada
na sociedade. Por outro lado, também se encontra alguma depre­
ciação dos “ granimos” , dos ricos ou, como pessoas altamente so­
fisticadas, da própria “ classe média” .
O desejo de “ mobilidade, ascensional” tende a existir mais em
esferas particulares. Um desejo comum é o de subir na hierarquia
de cargos políticos, sendo o valor subjacente o da mobilidade para
posições de poder pessoal e influência e, talvez de alguns amigos
e coortes, mas não o de mobilidade a uma classe, nível de status
ou estrato diferente. É basicamente um desejo de mobilidade ao
longo de uma cadeia de posições que é vista, desejada e valori­
zada. Qxitra aspiração é_a_ de treinamento profissional como médi­
co, advogado .ou . talvez _çom m enor freqüência, como engenheiro.
Tais ambições não se dão tanto em termos de classe ou coisa se­
melhante, mas em termos de uma posição, seu prestígio, o traba­
lho que pode ser feito naquele tipo de profissão, o serviço que pode
ser prestado a sua própria gente, por exemplo, os moradores da
favela.
Essas aspirações, são, sem dúvida, valores altamente urbanos.
São ca_da_yez mais realizáveis, nem tanto porque haja mais posi­
ções, abertas, ou porque as facilidades educacionais tenham aumen­
tado oú sido democratizadas, mas antes porque ..a discriminação
contra os moradores da favela diminuiu e porque os moradores da fa­
vela evoluíram, encontrando mais formas de contornar as bar­
reiras...
Os moradores da favela têm um forte valor positivo pela or­
ganização em si, apesar dos lugares-comuns de que os brasileiros
não gostam de organização, preferindo relações individual-persona-
lizadas, e de que eles não se organizam bem. O valor de organiza­
ção parece refletido, ao menos de modo teórico, formalista, na<
preocupação com a lei, com o estatuto e o regulamento, com o pro­
cedimento. Numa favela, assim que uma associação se constituía,
preocupava-se muito com que o instrumental fosse adequado às
condições específicas da favela em questão, de modo a que os ca­
nais organizacionais formais estivessem presentes e fossem apro-
priados às condições de vida reais.
126 A S o c i o lo g i a r>ó B r a s i l U r b a n o

Há, além disso alguns interesses que são servidos pela orga­
nização, especialmente por organizações voluntárias. Assim, o fu­
tebol, uma preocupação central de todos os brasileiros, gera muita
organização na favela. Uma favela do tamanho de Tuiuti tem trio
ou quatro clubes de futebol, cada um com seu equipamento pró­
prio, seu uniforme único, geralmente cora uma sede, e com seu
calendário de jogos com times da mesma ou de outras favelas,
ou externos. Alguns dos clubes pertencem a federações de clubes.
Os membros são orgulhosos, não apenas do seu futebol, ma3 da
próprio qualidade de organização e direção.
O samba é um interesse tão difundido como o futebol c tem
uma gama e uma complexidade de organização que provavelmente
excedem em muito às do futebol. Moroceo relata isto (1966; cf.
Cate, 1962, 1963, 1964). Os interesses no samba tornaram-se for­
malizados em escolas de samba, blocos e cordões, bem como em
clubes sociais, festas e assim por diante. As _egcolas_e blocos estão
complexamente ligados a importantes indústrias têxteis, de cerveja
e de bebidas não alcóolicas, ao amplo negócio do jogo do bicho, ao
comércio "turístico, ao Departamento de Turismo do Governo esta­
dual, inêsmo a instituições de bem-estar social e escolas estaduais e
privadas, possivelmente também a rodas de prostituição, interesses
imobiliários e cultos afro-brasileiros. Para compreender as ramifi­
cações dos grupos de samba, é preciso ter assistido às inúmeras
reuniões da diretoria de uma escola de samba, observado as brigas
internas pelo poder, observado os coups d’état que ocorrem, apren­
dido as trapaças, observado a organização dos ensaios, o desfile
aiiual e as festas. É preciso ter, observado a escola desam ba re­
presentada na Federação^ de Escolas de_ Samba e na suposta confe­
deração, bem como suas manobras com os representantes do Es­
tado. É preciso ter visto o súbito aparecimento e saída de candi­
datos, deputados, funcionários estatais (corno Lutero Vargas, filho
de Getúlio, no Jacarezinho e na Mangueira, e o Governador Ne*
grão de Lima e a secretária da Secretaria de Serviços Sociais do
Estado da Guanabara, Hortência Abranches, também na Manguei­
ra) em ensaios, cerimônias e festas das escolas de samba.
tíãcT é apenas o samba e a sua execução propriamente dita
que são _vflknâzfldos, jnas _a própria organização é, ao menos ver­
balmente, concebida como uma coisa boa, algo que trará benefí­
cios à favela eomo um todo, que da (através do samba, é verdade)
uma orientação moral para a juventude, fornece um lugar adequa­
do para recreação, um ambiente familiar. Que isso não correspon­
da exatamente à realidade é_ outra coisa. Estes são_ os valores aber­
tamente expressos. Mesmo para interesses ocultos, tais como su­
O B r a sil e o M rro da R u r a l id a d e U rbana 127

borno e carreirismo político, a organização em si mesma é uma


coisa boa,
A organização pode ajudar a dar moralidade — o que é en­
fatizado ainda mais marcadamente entre as fortes seitas protestan­
tes nas favelas — , ajuda a dar segurança, ajuda a fornecer canais
para uma variedade de fins. Uma das mais severas críticas que-
pode ser feita à favela é “falta união aqui” m
Toda a preocupação com a organização e tanto o valor como
o conteúdo factual da organização nas favelas do Rio nos impres­
sionam por serem eminentemente urbanos e diretamente contradi­
tórios em relação ao quadro que se faz das favelas como organi­
zadas, quase que exclusivamente, na base de laços familiares (Bo-
nilla, Pearse, et al) e por serem marcadamente diferentes do
quadro dos callejones no Peru (ver Patch) e das vecindades no
México (ver Lewis) a nós fornecido. Deve ser notado, a propó­
sito, que as escolas de samba, que datam de 40 ou 50 anos em sua
forma atual e que foram precedidas por outras formas de grupos
de carnaval, estiveram, até recentemente, quase que totalmente
associadas às favelas. É apenas com a evolução das próprias fave­
las e de seus arredores urbanos que algumas das escolas se mu­
daram para as fronteiras das favelas e então, algumas, para a ci­
dade propriamente dita. Outras foram fundadas mais recentemen­
te fora das favelas, mas retiram basicamente da favela o seu pes­
soal, como por exemplo o bloco Cacique de Ramos.
Outro conjunto de valores claramente orientados no sentido
urbano refere-se às possibilidades culturais mais amplas da cidade*
F.m geral, ter muitas coisas para fazer é uma boa situação (cf.
Morris, 1956; Leeds, 1957). O movimento da cidade pequena e
especialmente da cidade compreende cinemas, clubes, todos os tipos
de recreação; na maioria das cidades mais importantes, praias,
jogos de futebol, programas religiosos, circos, até teatro para al­
guns. Dentre as muitas coisas a fazer e entre as possibilidades cultu­
rais mais amplas, podem ser incluídos também o rádio com sua
miríade de programas, a TV, os vários jornais e revistas, materiais,
de leitura, os vários tipos de treinamento mencionados anterior­
mente, mesmo o aprendizado de línguas, especialmente o inglês.
Talvez uma expressão característica desse conjunto de valores seja'
a festa particular dada na casa de alguém por um jovem para
outros jovens. Bebidas alcóolicas, — vodca, rum, cachaça, mesmo»
o scotch nacional — e nao-alcóoücas sao servidas e a festa prosse­
gue até o amanhecer. As pessoas vestem-se na última moda da?
minissaia, do tomara que caia e tipos de decotes familiares atra-
128 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

■ves de programas da TV assistidos nos aparelhos que possuem, ou


vistos em revistas de moda que compram (ver Peattie, p. 24*).
Não duvidamos de que, para algumas pessoas, o valor do cr’’
m e e suas recompensas seja alto. Para alguns, ele é visto como
uma alternativa, mais desejável que a luta para encontrar, manter
e sobreviver em um trabalho regular na cidade, sob as difíceis
condições de um mercado cheio de vicissitudes e da ausência de
qualificação. O crime na cidade é um conjunto complexo de ati­
vidades, com seus especialistas, seus trabalhadores treinados c não-
treinados, seu pessoal da direção, seus manda-chuvas, seus siste­
mas de sanção e seu mercado de trabalho. Pouco conhecemos do
crime no Rio, exceto de entrevistas com muitos “ trapaceiros” e com
amigos de criminosos25.
Um destes, o carioca Emílio, era, a seu modo calmo, uma for­
ça da ordem e organização em Tuiuti. Ele queria que a favela
fosse bem organizada e funcionasse bem. Estava sempre muito
preocupado com o samba e o bem-estar organizacional do Grêmio
Recreativo Escola de Samba Paraíso de Tuiuti. Além desses inte­
resses, mantinha um jogo de cartas e era, indubitavelmente, trafi­
cante de maconha. Para ele, essas atividades eram legítimas —
havia consumidores e participantes interessados, nada, suspeitamos,
que fosse visto como mais ou menos moral que as outras atividades
do mundo de negócios. Ele sabia é claro, que a sociedade definia
tais atividades — e, certamente, matar um homem — como cri­
mes, e conhecia os tribunais, o código penal e o decreto 59 relati­
vo à vadiagem (aplicável se alguém não está com sua carteira
de identidade). Mas isso era exterior a ele e ao mundo que ele
amava e valorizava: seu jogo de cartas, seu negócio de maconha, a
maconha, a defesa — até a morte (e houve mortes enquanto vive­
mos lá ) — daqueles interesses, sua família, amigos e vizinhos.
O conteúdo de seus valores e o seu conhecimento nos impressio­
navam como essencialmente urbanos.
Finalmente, um valor que permeia a favela é a liberdade —
liberdade tanto de como para. Os moradores da favela estão bas­
tante conscientes das restrições sociais da sociedade burguesa e bu­
rocrática exterior à favela — eles a vêem no vestuário, aparência,
formalidades de endereço, linguagem, poses e assim por diante — ,
uma infinidade de indícios que identificam os outros, os estra­

25 Provavelmente, Cristina Schweter, uma assistente Social da Escola de


Serviço Social da Universidade Católica do R io , conhece co m o ninguém
o crim e nas favelas. Ela contactou algumas gangs de diferentes especiali­
zações e seus líderes, alguns dos quais ela chegou a conhecer bem. Com
muitos deles, teve repelidas entrevistas, cujo conteúdo básico ela nos
comunicou. Somos m uito gratos por esta informação.
O B r a sil e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 129

nhos, as “ classes” (c f. Leeds, 1964a). A favela propicia um refú­


gio da retórica e do vazio, das formalidades e coações das pouco
compreendidas “ classe média'* e “ elites” , lá embaixo. Este refúgio
reforça a ausência de desejo de mobilidade ascendente para status
de classe “ média” ou “ superior”, embora não das vantagens mate*
riais a eles ligados.
Os valores relativos à liberdade das restrições da classe “ mé­
dia” aparecem em muitos contextos. Um dia, quando já moráva­
mos no Tuiuti há algum tempo, fomos chamados a um pequeno
bar por pessoas que nao conhecíamos, embora elas depois se tor­
nassem nossos melhores amigos em Tuiuti. Quase que imediata­
mente a conversa se voltou para a gíria. “ 0 senhor conhece a
nossa gíria?” Não, eu não conhecia. Seguiu-se meia hora de ins­
trução sobre termos da gíria da favela. Perguntei se eles usavam
estas palavras lã embaixo. Maria Àntônia disse que não. Pergun­
tei por quê. Ela disse: “ Por vexame!” Ela não queria dizer que
eles ficariam embaraçados, mas antes que esta linguagem nao tem
lugar lá e que eles também, conseqüentemente, não teriam lugar
“ lá embaixo” . A linguagem da gíria da favela é uma improprie­
dade para a maçante e apática classe média que define aqueles
que a utilizam como brutos, assassinos, ladrões, maconheiros, ma­
landro,s.
No morro, eles sao livres para usar essa linguagem rica, en­
graçada, irônica, alusiva e totalmente incompreensível para estra­
nhos. Com ela, eles podem gozar o sistema que traz tantas encren­
cas e privações. Alguma coisa aparece vez por outra nos sambas
que os moradores das favelas escrevem (baseados, observe-se, em
em temas pesquisados em bibliotecas!) e que o resto da cidade es­
cuta e dança. Eles gostam da linguagem, gostam de usá-la, e po­
dem apreciá-la como observadores da linguagem, com sofisticação.
No morro, há também liberdade muito grande para escolher
e manter relações com muito menos atenção para as formalida­
des. Para muitos, o ato legal do casamento não é tao terrivelmente
importante, especialmente se a pessoa experimentou um casa­
mento e achou-o desejável. A liberdade para casar-se na “ igreja
verde” (ou seja, estabelecer um casamento consuetudinário), a lua
de mel no “ hotel das estrelas” (isto é, na rua) estabelecer ou ao
menos tentar uma vida decente sem os cuidados e requintes — e
custos e dificuldades — das bodas e casamentos formais são de­
finitivamente valorizados. Valorizados como humanos numa socie­
dade que ainda não tem o divórcio. Em geral, sentimos que os
moradores da favela vêem e valorizam uma grande liberdade para
estabelecer relações e liberdade na qualidade daquelas relações —
130 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

abortas, diretas, não instrumentais — mais do que vêem nas re»


lações externas à favela.
A preocupação predominante com a liberdade, com a escolha
das relações, em contornar as obrigações tradicionais, em encon­
trar situações estruturais e enclaves sociais onde se pode gozar de
tal liberdade nos soa como a essência da vida urbana.
Para concluir, citamos uma canção cantada por várias meni­
nas que pulavam corda em Tuiuti, um dia depois das eleições para
governador de 1966. A Situação -— que havia extinto favelas e
mandado seus moradores para fora da cidade, nas Vilas da Alian­
ça para o Progresso, longe dos mercados de trabalho, das facili­
dades e pouco custo em transporte e tempo de acesso à cidade ■—
havia colocado Flexa Ribeiro como candidato. Ele era contraparen-
te* de Carlos Lacerda, o então governador do Estado da Guanaba­
ra, líder da Situação no Estado e participante proeminente do
movimento militar de 1964, que trouxe para o poder o impopular
governo de Castelo Branco e suas políticas economicamente devas­
tadoras. Negrão de Lima era seu opositor. Negrão, ex-embaixador
em Portugal, prefeito anterior do Distrito Federal, depois Guana­
bara, foi favorecido pelos moradores da favela porque ele era opo-
siçao, embora esperassem pouco dele, conhecendo seu palavreado.
O verso indica a acuidade política daquelas meninas — a gozação,;
um pouco do uso da linguagem, a liberdade de opinião no morro
de Tuiuti.
Lacerda morreu
Precisa de um caixão
Flexa tá de luto
Negrão é campeão

Comentários Informais do Autor

O problema tratado no nosso trabalho é, na verdade, parte de


um muito maior, a compreensão da sociedade totàI“ no‘ Brasil. Meu
primeiro campo de estudo foi uma plantation> uma área de lati­
fúndio da zona monocultora no Sul da Bahia; o segundo estudo
envolveu o trabalho em uma série de cidades, o estudo de elites,
e o terceiro foi nas áreas da classe trabalhadora urbana. Em outras
palavras, trabalhei em vários setores da sociedade tentando obter
diferentes perspectivas da estrutura institucional total, escolhendo
vários pontos do sistema^total. “— —

* A fílha de Flexa Ribeiro é casada com um dos filhos de Carlos Lacer­


da. (N . da R . )
O B r a sil e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 131

® que tento fazer nos comentários que se seguem é dizer al-


fum a fioisa sobre o quadro geral que empreguei, que é também
n á ef& ie^ à ra a questão da relação entre as áreàs agrícolas e ur-
h&m& S(L$jaç;ente a muito do meü pensámento neste tópico está
de que as distinções geralmente feitas entre os
• sfifnrw, e urbanos da sociedade sao errôneas.
m . "Ê m e i-ê e mais nada, sugiro que o grande mercado de traba-
É o metrpjpplitapo da cidade é um mercado de trabalho nacional,
ítfu seja* Se configura a partir da política total e por vezes de além
ideia A utilizaçao por Andrew Pearse do termo “ vendendo traba­
lh o à distância” reflete muUo bem o que tenho em mente. Creio
que i muito característico das cidades o fato do que, na verdade,
èlas séjam mercado de trabalho ao menos para todo um segmento
do estado, ou de todo o próprio estado; a migração internacional
estã associada ao fato de sereni elas mercados de trabalho para
áreas ainda maiores.
Meu segundo ponto é <pie, quanto maior a massa absoluta da
cidade e quanto maior a massa relativa da cidade no estado, maior
ê a penetração da cidade em áreas nao-urbanas como um locus
de mercado de trabalho. Em outras palavras, quanto maiores as ci­
dades, maior será a penetração externa em áreas não urbanas, que
Pearse descreve neste volume em sua dupla análise da penetração
— institucional e econômica — comercial.
Terceiro: sugiro que a massa da cidade ou das cidades ê pro­
porcional ao número de especializações nas operações tecnológicas,
sociais e econômicas da sociedade como um todo. Quanto maior o
número de especializações, maior a densidade e o tamanho, das ci­
dades. Isto é visto a partir da perspectiva evolutiva geral para a
qual tendem os antropólogos. 0 aumento na densidade e no tama­
nho da cidade e de suas especializações gira em torno de uma se-
leçao evolutiva, a longo prazo, de comunicações e operações efeti­
vas ou minimizadoras de custos no sentido mais amplo possível.
O que introduzo aqui é um princípio eficiente que compreende a
efetividade dà comunicação entre os vários tipos de especializações
— técnica, social e econômica.
Em termos da efetividade de reunir essas coisas, o custo total
decrescerá se as unidades de especialização estiverem concentra­
das num único lugar. A cidade pode ser vista, socialmente, como
o ponto de interação mais denso entre especialistas que devem,
pela natureza da especialização, estar em constante contato. A no­
ção de um especialista implica a idéia de outro especialista e da
interação entre eles. A cidade é também, tecnologicamente, o ponto
de coordenação mais denso de instrumentos, tarefas e recursos es-
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peeializados que devem estar numa contiguidade imediata entre


si. Economicamente, a cidade é o ponto mais denso de transação
«ntre especialistas. Na verdade, evidentemente, a cidade compre­
ende a interação de todas essas especializações, de modo que há
interações sociais, tecnológicas e econômicas ocorrendo ao mesmo
tempo.
Minha tese é de que elas são mais efetivamente valorizadas
no menor espaço possível; em geral, este, então, é um argumento
que se refere ao que se pode chamar de intensividade espacial de
atividade. A cidade, ecologicamente e em termos de localização,
encontra-se em algum ponto geograficamente muito adequado a
certos conjuntos ou a um conjunto preeminente de especializações.
Por exemplo, com a substituição do transporte por terra pelo trans­
porte por mar, um porto se desenvolve, com um conjunto de es­
pecializações girando em tomo de atividades de navegação e pro­
cessamento, e com as especializações econômicas e sociais corres­
pondentes ligadas a elas, possivelmente com o serviço de recursos
de embarque e outras atividades comerciais a ele vinculadas.
Então, há o ponto (mais ou menos óbvio, mas que é útil co­
locar) de que o aparato físico de todas essas especializações — os
edifícios, sistemas de transportes e instrumentos importantes • —
são os elementos visualmente marcantes que prontamente reco­
nhecemos como uma cidade, e por vezes mesmo definimos como
uma cidade, erroneamente, creio, porque são apenas propriedades
físicas e não as meras características essenciais “ do que é” uma
cidade.
Em suma, uma importante característica da sociedade em
geral e a de que ela é feita de especializações. Através de proces­
sos evolutivos, mais e mais especializações se desenvolvem e, con­
seqüentemente, há mais e mais concentrações de especializações de
modo espacial-intensivo. Quanto mais especializações existem, maior
a concentração espacial-intensiva, maior a massa e maior a pene­
tração em áreas não espacial-intensivas.
Volto-me agora para as áreas que sao espacial-extensivas.
Existem poucas especializações importantes, no interior da gama
total de especializações culturais, que não podem, sob qualquer
tecnologia atualmente conhecida, ser limitadas a áreas pequenas
nem localizadas tendo como referência os determinantes ecológi­
cos de localização urbana. Há basicamente três delas — agri­
cultura, mineração e pesca. Sob as atuais condições, elas são ne­
cessariamente espacial-extensivas. Todavia, eu argumentaria que
as transações mais importantes que envolvem essas atividades não
estão nas áreas físicas de especialização, nas áreas rurais e agrá-
O B rasil e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 135

rias, mas nas cidades. A maioria das decisões políticas e as ins­


tituições de coordenação mais importantes da agricultura estão
concentradas nas cidades; tais instituições são urbanas (assumin­
do momentaneamente que a dicotomia rural-urbano tenha algum
valor) e de forma alguma instituições propriamente rurais.
Segue-se que os traços essenciais — os controles, as decisões,
as políticas básicas, as instituições monetárias centrais, o sistema
de créditos e mercados para a produção agrícola — devem ser
buscados nas cidades, e nao nas áreas de especialização espacial-ex-
tensivas. Esta última não pode ser entendida sem uma rigorosa
descrição da primeira. Isto é, nunca se compreenderá plenamente
um sistema agrícola se não se observar o que está ocorrendo com
relação àquele sistema nas áreas de coordenação que sao as cida­
des. Mesmo o sistema de posse da terra não pode ser plenamen­
te entendido sem referência às transações fundamentais e de con­
trole nas cidades.
Através da evolução do tempo, torna-se “ útil“ desenvolver
instituições de coordenação a que chamamos “ governo” e “ admi­
nistração” . Mesmo entre estas, há elevados níveis de instituições
de coordenação, a que chamamos “ governo” e “ administração” .
Ora, estes órgãos de coordenação central estão também refletidos
nas estruturas da cidade, de modo que encontramos, por exemplo,
cidades administrativas que podem estar ou não ligadas ao siste­
ma de transação total da sociedade. Por exemplo, Brasília é uma
cidade muito peculiar no sentido de que as especializações admi­
nistrativas e de coordenação estão mais ou menos separadas do
resto das especializações da sociedade. Lá não existe praticamente
nem uma indústria e nenhum comércio, exceto pequenos negó­
cios e lojas para consumo. Camberra é outro exemplo, e Was­
hington, DC, um terceiro. Novamente, sem a compreensão de onde
e como as funções administrativas se concentram, é impossível,
dar uma explicação coerente da situação da agricultura em qual­
quer época ou espaço particular.
Assim, em vez de ver a agricultura como um setor separa­
do, idéia que nosTói- fõrmilmènlê impingida pela dicotomia entre
Sociologia Rural e Sociologia Urbana (embora tenha mudado con­
sideravelmente nos últimos anos), vejo uma única estrutura na
.qual a agricultura é simplesmente outro elemento do sistema to-
í/ tal de especializações da sociedade. Conforme a sociedade^ se torna
jmãis urbanizada a agricultura também se torna mais urbanizada^
1Creio que é correto falar de agricultura urbanizada, por exemplo,
com relação à agricultura americana, na medida em que institui­
ções tais como o Departamento de Agricultura e todas as institui­
m A S o c io l o g ia do B r a sil U rbano

çÕes importantes do governo nacional, as universidades, mercados


e outras instituições centradas na cidade penetram no campo.
Resumindo, creio que toda a noçao de “ urbano” foi histori­
camente jconcçfcida. basicamente, em termos do aparato físico da
cidade, mais do que da estrutura institucional da sociedade. Par.
rece mais próximo da_verdade dizer que muitos subsistemas espe­
cializados de uma sociedade nao são nem urbanos nem , rurais.,
mas societais, e que conforme a sociedade se urbaniza, o mesmo
acontece com os subsistemas.

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O B r a s il e o M it o da R u r a l id a d e U rbana 143

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V
Tipos de Moradia, Arranjos de Vida, Proletarização,
e a Estrutura Social da Cidade 1

A nthony L ee d s

Conforme se examina a literatura de várias disciplinas sobre


as cidades* observa-se que elas tendem a ser concebidas, como na
arquitetura ou no planejamento urbano, como entidades físicas e
aparatos (edifícios, espaços abertos, sistemas de esgoto, redes de
comunicação, etc.) ou, nas ciências sociais, como o pano de fundo
diante do qual várias categorias de interesse para as respectivas
disciplinas (parentesco, migração, comportamento político, vida
associativa, etc.) devem ser observadas, ou ainda, nas disciplinas
estéticas, como expressões na forma e no desenho de tendências
ideológicas maiores de uma sociedade.
Minha própria visao orientou-se de modo crescente no sen­
tido de ver aquilo que chamamos de “ uma cidade” , a localidade
mais ou menos discretamente delimitada, pequena ou grande,
como uma combinação de estruturas sócio-político-econômicas e do
aparato físico (acima citado) utilizado no seu funcionamento. O
aparato físico reflete a ordem social e ideológica, se bem que sem­
pre de modo lento, porque sua mera concretização física se presta
à perpetuação, enquanto a ordem social está mudando a sua volta.
Conseqüentemente, o interesse primordial no estudo das cidades,
exceto talvez paxa a estética, é não tanto o aparato físico, mas a es­
trutura social da cidade e a estrutura societal que, como um todo,
lhe é subjacente.

1 Publicado originalmente in Lotin America Vrban Research, vol. IV,


1974, Wayne Cornelius e Felicity Tineblood, orgs.
M o r a d ia , A rranjos de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 145

Um tema deste trabalho, então, é mostrar, ao menos para al­


guns casos, que o aparato físico é, num grau abrangente, um re­
flexo ou cristalização da ordem societal e de seu subsistema cida­
de.
Um segundo tema é seguir que as ordens societais de socie­
dades construídas de acordo com o capitalismo e suas manifesta­
ções sócio-estruturais nas cidades envolvem necessariamente a
proletarização, embora a proletarização seja, em si mesma, um pro­
cesso dual por ser amplamente um resultado da luta pela auto-
manutençao das elites d a (s) classe(s) capitalista(s) e da compe­
tição capitalista pela propriedade privada como meios de auto-en-
grandecimento pessoal e de controle social. Algumas conseqüên­
cias secundárias desse processo total serão enfatizadas no decorrer
da discussão.
Um terceiro tema é sugerir, como conseqüência do argumen­
to precedente, que as políticas e planos para cidades criados por
seus próprios órgãos políticos ou por aqueles de nível mais eleva­
do são necessariamente não-efetivos, irrelevantes, ou mesmo de­
sastrosos, e que o planejamento urbano pode, na melhor das hipó­
teses, ter apenas uma eficácia muito limitada se, por um lado, não
lida explicitamente com as estruturas sociais globais da cidade na
primeira linha de ataque, e, por outro, com as condições nacional-
societais que afetam o sistema da cidade, como pressões, restrições
e exigências.
Volto-me, primeiramente, para alguns aspectos físicos, espe­
cialmente a habitação, do Rio de Janeiro e outras cidades, e, en­
tão, para alguns dos aspectos sócio-estruturais envolvidos na mora­
dia e sua localização diferencial na cidade.

A Especialização da Moradia no Rio

Uma das coisas marcantes no Rio, da mesma forma que em


grande número de cidades da América Latina, como Lima, Cara­
cas, Bogotá, e Santiago,2 é a especialização dos tipos de moradia.
Para a maioria dos leitores, os tipos familiares compreendem
as “ melhores áreas residenciais” , os bairros sabidamente de “ clas­

2 Estas estão citadas na ordem da minha intimidade de conhecimento,


seja em virtude do trabalho de campo, ou da revisão intensiva da litera­
tura. Também visitei algumas outras cidades como Salvador, San Juan,
Ciudad Guyana, Bela Horizonte, São Paulo, Curitiba, R ecife, o suficiente
para ter um quadro mais ou menos detalhado, embora algo superficial,
de cada uma.
146 A S o c io l o g ia do B r a sil U rbano

se média e média-alta” de Copacabana, Flamengo, e algumas ou­


tras partes da Zona Sul do Rio, à margem do Atlântico, bem como
a Tijuca c o Grajaú, na Zona Norte; e as “ favelas” ou áreas inva­
didas por posseiros.3 Diferenciações paralelas devem ser encontra­
das em cada uma das cidades acima mencionadas, embora repou­
sem em categorias e terminologias de folk que variam de lugar
para lugar,
A favela no Brasil e, mais geralmente, as áreas invadidas
por posseiros em qualquer lugar do inundo são mencionadas como
rnn “ problema” de modo análogo aos “ problemas” dos “ guetos
urbanos” das áreas pobres, dos “ imigrantes rurais” , da “ margi-
nalização” , das minorias étnicas, e da “ cultura da pobreza” , tão
freqüentemente encontrados nas mentes e falas dos povos em ques­
tão por todo o mundo. Essencialmente, tudo isso se refere a as­
pectos diferentes do mesmo problema — a proletarização discuti­
da neste trabalho.
As favelas são concebidas como um problema •— como o fo­
ram as bairiadas de Lima, os arrabales de San Juan, os ranchos
ou barrios de Caracas, as callampas de Santiago, as villas misérias
de Buenos Aires, etc. — porque, presume-se, suas populações se
constituem, num dos extremos do mal, de assassinos, ladrões, as­
saltantes, maconheiros e viciados em drogas; em um outro extre­
mo do mal, de comunistas e outros tipos de ameaças em termos
políticos e sociais; num terceiro e mais brando extremo, de pobres
ignorantes, não-educados, mal-adaptados, imigrantes rurais caipi­
ras; ou, no melhor dos extremos, de seres humanos razoáveis, mas
tristes e pobres, morando em cabanas, criando promiscuidade um
câncer social e urbanístico na cidade.4
Mostrei alhures5 que quase todas estas concepções são falsas
ou distorções drásticas das realidades, mas quero realmente enfa­
tizar que as favelas, “shanty-towns”, “ áreas invadidas” , áreas ur­
banas de moradia não autorizada, chamem-nas como quiserem, são
geralmente a forma visível mais marcante de moradia a ser obser­
vada.

3 Cada um dos termos locais está grafado em itálico em sua primeira


utilização; se usado mais vezes no trabalho, é tratado subseqüentemente
com o uma palavra comum. Definição e discussão extensivas sobre favelas
podem ser encontradas em Leeds (9 6 9 ), e não serão repetidos aqui.
4 Para documentação de tais visões, ver Leeds e Leeds (1972), especial­
mente os apêndices.
5 lbid,, também em Leeds (1969, 1970 — com E. Leeds — , 1971, 1873b).
M o r a d ia , A rranjos de V ida , P r o l e t a r iz a ç ã o 1 47

Não tão visível e geralmente visualmente difícil de ser des­


coberta e distinguida é uma série de outros tipos de construção de
baixa renda ou de bairros residenciais que permanecem — como se
não existissem — quase que totalmente nao-descritos, não apenas
na literatura relativa ao Rio, mas naquela relativa a outras cidades
latino-americanas, onde habitações equivalentes existem.6
Em primeiro lugar, dentre estes tipos de moradia, comprcepden-
do cerca de um quarto a meio milhão de pessoas, ou por volta de
5 % da população do Rio e uma percentagem muito maior em Lima,
estão as casas de cômodos ou cabeças de porco, no Brasil, e casas
subdivididas, em Lima. Estes termos referem-se a uma única cons­
trução grande, de vinte, oitenta, ou mesmo cem apartamento de
um ou dois quartos. São geralmente ocupados por lares compostos
de famílias nucleares, subnucleares ou levemente nuclear-extensas* e
raramente por indivíduos ou pelo que no Rio se chamam “ repúbli­
cas” — grupos de pessoas solteiras do mesmo sexo dividindo o alu­
guel ou todas as despesas do lar. A maior parte deste tipo de cons­
trução, no Rio, originou-se no século passado, mas algumas se trans­
formaram a partir de outros tipos de construção ou ampliaram-se vá­
rias vezes neste século até o presente. Sao construções destinadas
quer originalmente, quer em sua conversão, a habitação de renda
muito baixa, especialmente para explorar pessoas ou grupos de pes­
soas que precisam estar próximas do mercado de trabalho, mas não
podem pagar por outros tipos de acomodação, ou não tinham, como
se argumentará abaixo, capital para acomodações em áreas invadi­
das, e, deste modo, eram forçadas a pagar aluguel. Seja no Rio,
lJma ou alhures, essas casas apenas recentemente começaram a ser
estudadas, de modo que não sabemos praticamente nada a seu res­
peito, embora a impressão indique que internamente têm alguns
Iraços comunitários.7
Um segundo tipo de construção no Rio, talvez constituindo ou­
tros 5 % , é a chamada avenida ou vila, com vários adjetivos qualifi­
cativos tais como proletária, de lavadeiras, etc.8 Em Lima, o equiva­

6 Ver Lewis (1959 e outros); Patch (1961); Selmen (1971); Azevedo


(cerca de 1891); Ecksteín (1972); Banco Obrero (1959).
7 Isto parece claro a partir de alguns escritos de Oscar Lewis — por
exemplo, Lewis (1969).
8 Um tipo relacionado a este é o cortiço, hoje quase extinto, discutido
mais adiante no texto. Outro ainda encontrado tanto no R io, com o em
Lima, é a quinta, casas muito pequenas ou grandes apartamentos ligados
em torno de um jardim ou pátio central.
I

148 A S o c io l o g ia do B r a s il U r b a n o

lente é o callejón; no México, a vecindad;9 no Chile, o conventillo;


em Santo Antonio, o corrál (e em Midlands da Inglaterra, onde
talvez se originou, o “ back-lo-back''), etc. Consiste numa série hori­
zontal de unidades de um ou dois quartos alugáveis, servidos todos
por três ou quatro banheiros e um número semelhante de bicas e
tanques de lavar. Há o que deve ser uma área comum — o pátio
central, alongado, e as entradas. No Rio, esse tipo é quase que to­
talmente não estudado, e falta informação acerca dos poucos estudos,
tais como o de Patch para Lima e o de Lewis para a cidade do Méxi­
co, uo que se refere a aspectos como a área de uso comum, distribui­
ção interna, e assim por diante.10 No Rio, a mais antiga variante co­
nhecida, chamada de cortiços , herança do século passado, tinha uma
proporção bastante elevada de ocupantes solteiros em muitos dos
apartamentos, especialmente no segundo andar. O tamanho médio
das famílias é de 3 pessoas, em contraste com 4,6-4,7% das favelas,
e um tamanho quase sinjilar para as casas de cômodo.11 Aqui, como
nas casas de cômodos, pagam-se aluguéis.
Um terceiro tipo no Rio é o parque proletário , ou, no Chile e
em outros países, a vila de em ergência — habitação governamental
temporária (com maior freqüência “ temporária” ), cujo objetivo é
proporcionar tetos e paredes a pessoas sem abrigo devido aos reno­
vados ou drásticos acidentes urbanos que ocorrem com as áreas
invadidas, como enchentes e incêndios. Há pouco ou nenhum dado

ô O termo vecindad significa “ bairro", mas é usado nos trabalhos de


Lewis referindo-se a muitos tipos diferentes de moradia. Aquele do qual
ele dá de longe a maior quantidade de dados é o tipo descrito no texto.
Ver Lewis (1959, 1969).
10 Minhas fotografias dos callejones em Lima, e visitas a casas de côm o­
dos e avenidas no R io, pobremente documentadas em termos fotográfi­
cos» indicam muita atividade econômica nesses locais: lojas» casas de
consertos, serviços, pequenas indústrias, com o sapateiros e tipógrafos, e
assim por diante. Creio que a descrição de Patch (1961) ou foi distorcida
ou era de um callejón atípico. As descrições de Lewis tendem a superesti­
mar o dramático, o digno de piedade e compaixão, e subestimar a eco­
nomia e as estruturas sociais dos lugares que ele descreve, mas mesmo em
suas referências rascunhadas e no material do texto encontram-se indi­
cações de tais economias internas, embora não o bastante para avaliar
sua importância qualitativamente.
11 Para detalhes sobre as casas de cômodos, ver Salmen (1971); o tama­
nho médio da unidade familiar para os cortiços foi retirado das estatístU*
cas obtidas em um survey de cortiços feito por dois estudantes do Museu
Nacional, Departamento de Antropologia, R io. Praticamente toda esta­
tística demográfica de favela apresenta os númeroe 4,6 — 4,7. Os dados
das casas de cômodos foram extraídos de um survey feito por dois outroi
estudantes da Antropolgia do Museu, e de Salmem (1971:156).
M o r a d ia , A rranjos de V ida , P r o l e t a r iz a ç ã o 149

paia o Rio referente a este tipo,12 e não sei de nenhum para outros
países. Nem mesmo estou certo de que se pague aluguel, embora te­
nha a impressão de que, oficialmente, o aluguel deve ser pago, mes­
mo que, na prática, freqüentemente não o seja. Não vi nenhuma
estimativa do número de pessoas nos parques proletários. As unida­
des habitacionais, como nas favelas, são ocupadas principalmente por
grupos familiares, mas entrar nelas é um problema complexo que
envolve a solicitação a burocratas ou instituições para a cessão de
uma unidade habitacional — um procedimento muito mais cons­
trangedor do que entrar para uma favela, embora não se exija cnpi-
taL
Um quarto tipo chama-se, no Rio, conjunto, com termos equi­
valentes em outros países. Há vários tipos de arranjos habitacionais
chamados conjuntos, mas o termo sempre se refere a um estabeleci­
mento multiunitário de algum tipo. Restringi-lo-ei aqui a um único
edifício de muitos andares ou um conjunto de edifícios compostos de
múltiplas unidades alugáveis como as unidades vacinales de Lima
ou os famosos (ou infames) superhloques de Caracas — o equiva­
lente dos altos projetos habitacionais urbanos norte-americanos cons­
truídos pelas companhias de seguro. Ao outro sentido do termo con­
junto —- tipo de habitação multiunitária, cada unidade ocupada por
uma única família — voltarei mais adiante (ver vila).
Os conjuntos no Rio, Lima, Caracas e outras cidades têm algu­
mas características que os tornam particularmente interessantes e,
freqüentemente, levam à fusão como categoria para análise, embora
aqui, novamente, exista muito pouca literatura além do estudo finan­
ciado pelo Banco Obrero de Venezuela (1 9 5 9 ). A primeira é que o
termo conjunto é sociologicamente bastante enganoso, porque o pes­
soal morador é muito diverso no que se refere a qualquer categoria
sociológica padrão, como classe, estrato, grupo étnico, ou salário,
quando se observa o universo dos conjuntos. Os conjuntos, como tal,
podem abrigar qualquer tipo de categoria social e o termo factual­
mente nada denota em termos sociológicos. Um estudo dos conjuntos
teria que diferenciá-los segundo categorias sociologicamente relevan­
tes. Interessam aos objetivos deste estudo os conjuntos de baixo
nível dc renda do Rio, espalhados aqui e ali, basicamente na Zona
Norte, industrial, da cidade.
Uma característica importante dos conjuntos habitados por pes­
soas de baixo nível de renda no Rio e, como eu vejo, em outros lu­
gares, é a sua especialização ocupacional, porque cada um foi cons­
truído separadamente por um órgão, sindicato, associação ou outro

12 Caldas de Moura (1969); ela também era estudante de Antropologia


do Museu.
A S o c io l o g ia do B ra sil U rbano

grupo corporativo atendendo a seus membros. Desta forma, há o


conjunto dos bancários, dos marinheiros, da Marinha, do iapi (o
Boje extinto Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários),
do iapc (o hoje extinto Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Co-
merciários), do Pedregulho ( ftmcionários públicos), e assim por di-
,, ante. Assim, por todo o Rio e outras cidades, espalham-se enclaves
ocupacionais residenciais. Este fato ganha significação especial em
vista dos salários estabelecidos para a força de trabalho brasileira,
que tendem a impor parâmetros bastante claros para a renda fami­
liar ou recursos de capital familiar, dos quais quantias igualmente
estabelecidas são subtraídas através de aluguéis ou amortizações. Em
contraste, não se encontra nem especialização ocupacional, nem uma
faixa de renda nas favelas e outros tipos de moradia, um ponto ao
qual voltarei adiante. Não existe qualquer estimativa de quantas
pessoas vivem nos conjuntos, de um modo geral, menos ainda na­
queles de baixo nível de renda. Minha impressão é de que isso é da
ordem de 10% da população do Rio.
Um quinto tipo é constituído por vastas vilas populares — ou
seja, proletários (no Rio chamam-se também conjuntos, mas mais
comumente vilas), resplandecendo em nomes como Vila Aliança,
Vila Kennedy, Vila Esperança, Cidade de Deus, e*mais recente e
muito ironicamente, Vila Paciência e outras, no Rio; Ciudad Ken-
nedy em Bogotá; Caja de Água e Ventanilla em Lima, e assim por
(diante. As populações dessas vilas foram removidas de outras par­
tes da cidade por ato do homem ou de Deus — pela remoção da
favela, renovação urbana, enchente, deslizamento de encosta, ou
outro desastre. Nessas vilas, as chamadas casas “ embrião” são ven­
didas aos moradores, selecionados em virtude de sua suposta “ capa­
cidade para pagar” — as taxas calculadas de amortização baseiam-se
nos custos de construção governamental — mas que são incapazes
de obter melhor moradia para substituir aquela que perderam. As­
sim, os influxos de capital familiar dos moradores têm limites bas­
tante estreitos e além deles, há, aparentemente, os pagamentos» de
amortização. Digo “ aparentemente” porque nas vilas do Rio cerca
de 60 a 80% não o fizeram até o momento. Todas as vilas, ou um
total de cerca de 250.000 pessoas ou mais, constituem cerca de 5 a
7 % da população do Rio. Deve-se observar que as principais vilas
do Rio estão a 50, 60 km do centro da cidade e dos principais lo­
cais de trabalho, exigindo duas ou três conexões de ônibus ou trem
e, geralmente, de uma hora e meia, a três horas de viagem de ida
e volta. Praticamente nenhum mercado de trabalho, qualquer quç
seja, desenvolveu-se próximo a elas. Em Lima, a distância, o custo
e o cansaço do transporte são bem menos severos, mas ó mercado
M o r a d ia , A rranjos de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 151

de trabalho perto de Caja de Água e Ventanilla ê praticamente


inexistente. A mesma queixa era feita com relação a Ciudad Ken-
nedy, há alguns anos, embora ela se situe a apenas 8 km do centro
da cidade.
Um sexto tipo compreende o que é localmente referido no Rio
como “ subúrbios” , caracterizados em geral por vasto número de
casas privadas separadas, bastante humildes, situadas em ruas ofi­
ciais que têm pouca ou nenhuma pavimentação, onde freqüente­
mente não há luz, o suprimento de água é pobre, há pouco ou ne­
nhum serviço de esgoto ou outros serviços urbanos. Situam-se em
grande parte em regiões da cidade mais distantes do centro, mas
não são propriamente subúrbios no sentido norte-americano do ter­
mo, uma vez que estão totalmente dentro dos limites jurídicos da
cidade central, o Rio de Janeiro, Cada casa, geralmente, tem seu
quintal ou jardim com espaço para árvores frutíferas, vegetais, ga­
linhas, porcos, e assim por diante, possibilitado pelo loteamento
mais ou menos oficializado, realizado por especuladores de terra,
com maior ou menor grau de observância das normas jurídicas se­
gundo sua honestidade. As áreas de subúrbio assemelham-se aos
pequenos povoados municipais do interior do Brasil que se con­
fundem com as áreas agrárias circundantes, mas, no Rio, os su­
búrbios são, evidentemente, cercados pela cidade. As estimativas
populacionais podem apenas ser conjeturadas, uma vez que as esta­
tísticas não são inferidas de acordo com a categoria. Eu arriscaria
10 a 15% da população do Rio.
Um sétimo tipo consiste das áreas pobres propriamente ditas
(tugúrios) — áreas de habitação e serviços urbanos outrora bons,
hoje decadentes; quartos alugados, apartamentos, e casas; pensões,
quartos e refeições sobretudo para homens, hotéis baratos para via­
jantes, bordéis, e assim por diante. Há vastas áreas assim em to­
das as maiores cidades latino-americanas, grandes extensões no Rio
e talvez maiores ainda em Lima, e todas, pelo que sei, rigorosamen­
te não estudadas. Nenhuma estimativa do número de pessoas em
tais habitações existe, ao que me consta: meu cálculo seria de 10%
da população do Rio e talvez consideravelmente mais em Lima.13
O oitavo tipo compreende as áreas invadidas por posseiros, das
quais darei aqui apenas uma descrição sumária ( ver referências
acima). O único critério uniforme que distingue as áreas invadi­
das dos outros tipos de moradias na cidade é o fato de constituí-

*3 Há estatísticas para tugúrios em geral, mas elas não distinguem outros


tipos além das áreas invadidas com o opostos ao resto, A menos que se
reconheça que há uma significação para os tipos — ou seja, estratégias
diferenciais de vida — > não liá razão para lhes dar estatísticas diferenciais.
152 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

rem uma ocupação “ ilegal” da terra, já que sua ocupação não sc


baseia nem na propriedade da terra nem em seu aluguel aos pro­
prietários legais.
Todos os outros critérios freqüentemente usados para distin­
guir as áreas invadidas dos outros tipos de moradia apenas aplicam-
se parcialmente ou não-freqiientemenle. Além da ocupação, elas
geralmente também não são planejadas. Isto ê quase que unifor­
memente o que ocorre no Rio, em São Paulo, e outras cidades brasi­
leiras, embora em Salvador alguns dos alagados ou invasões de la­
gos pareçam ter tido um traçado pré-concebido. Os barrios de Ca­
racas também parecem não planejados. Bogotá as tem tanto plane­
jadas como não-planejadas. Lima, todavia, é notável pelo número
e tamanho de barriadas “ ilegais” que foram planejadas antes da in­
vasão, e algumas que parecem ter sido “ reguladas” antes de im­
plantação ocorrer.
Devido ao padrão de desenvolvimento de melhorias habitacio­
nais encontrado nelas, é errôneo, seja no Rio, Lima, Caracas ou
Bogotá, por exemplo, chamar as áreas invadidas de shantytowns,*
embora muitas o sejam e outras, que nao o sao primordialmente,
tenham vizinhanças que o sejam. Em alguns casos, as áreas inva­
didas, com o decorrer do tempo, transformam-se em partes regula­
res da cidade com construção padrão, através de seus próprios mo­
radores.14
Raramente é verdadeiro que suas populações sejam primordi­
almente migrantes “ verdadeiramente rurais” , apesar de muitas
pessoas terem vindo de áreas mais ou menos rurais, ria maioria
através de migração gradativa. Não se trata também de populações
uniformemente compostas de trabalhadores marginais, lumpen-
proletários ou meros proletários mas, antes, tais populações apre­
sentam uma gama de estratificação que alcança até os níveis pro*
fissionais, burocráticos e de negócios médios-superiores em algumas
das maiores e mais evoluídas áreas invadidas, como o Jacarezinhò
no Rio e San Martin de Porras (com seus bancos e instituições go­
vernamentais em Lima. Não se trata também de comunidades uni~
formes e unidas, mesmo naquelas áreas que têm associações de mo­
radores mais estruturadas.
Em suma, embora as áreas invadidas por posseiros compreen­
dem um único tipo de moradia, em virtude de sua origem e da

* O termo shantytcwns refere-se a áreas urbanas deterioradas, como,


por exemplo, áreas onde o tipo de moradia predominante é composto de
cortiços. (N. da R .T .)
14 Ver, nesta conexão, Mangin (1963); Turner (1963, 1968, 1969, 1970);
Uzzel (1972).
M o r a d ia , A rranjos de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 153

característica comum da ocupação ilegal da terra, e, conseqüente­


mente de seu estatuto jurídico especial diante da lei e da autorida­
de pública, como um universo, elas apresentam uma gama muito
mais variada para todas as categorias de interesse sociológico do
que qualquer outro dos tipos de moradia, e, individualmente, a
maior parte delas é composta de áreas sociais e habitacionais bas­
tante heterogênas. Talvez 20% da cidade jurídica do Rio e 22 a
25% da comirbação do Rio (R io, Niterói, São Gonçalo, Caxias.
Nilópolis, São João de Meriti, etc. — todos, exceto a primeira, que
tem cerca de 4.00 0 .00 0 de pessoas, têm por volta de 400.000-
600.000 habitantes — um total hoje de cerca de 8.000.000) mo­
ram atualmente em áreas invadidas. Em Lima, hoje, mais de 40%
da população total de cerca de 3.00 0 .00 0 vivem nas barriadas, en­
quanto que aproximadamente 50% dos 1.200.000 habitantes de
Caracas vivem nos barrios.15
Finalmente, existem no Rio muitos tipos menores, como o
cortiço de que falei acima e a estalagem (equivalente ao solar li-
meno — uma espécie de casa de cômodos) que existem apena»
como remanescentes do passado; a favela de quintal, equivalente ao
corralón em Lima. Os dois últimos termos referem-se a constru­
ções do tipo do barraco e outras abaixo do padrão e não autoriza­
das, erguidos com a permissão dos proprietários das casas oficial­
mente registradas na rua, geralmente como meio de obter renda
através da imposição de aluguéis pela terra. Outro tipo ainda é a
azotea? construída no topo de uma casa oficialmente registrada
em Lima, e que não tem análogo no Rio. Nenhuma estimativa exis­
te de quantas pessoas moram em tais construções especializadas,
mas provavelmente nao mais do que 1% no Rio, e u l d pouco mais
em Lima.

15 Estes dados podem parecer altos. Todavia, além do fato de que as


áreas invadidas na maioria das cidades crescem num ritmo tão rápido
com o o da cidade com o um todo, e multo mais rápido do que as outras
partes da cidade, os dados do censo quase sempre subestimam o número
de moradores nas áreas invadidas, talvez porque o censo de unidade do­
méstica a unidade doméstica seja mais difícil para pessoas que não sejam
antropólogos obsessivos, talvez porque mapear tais locais para fazer um
censo de unidades doméstica a unidade doméstica ou de amostragens seja
com freqüência excessivamente difícil, talvez porque seja por vezes po­
liticamente desejável subestimar o tamanho dessas populações. Todavia,
se acrescentamos as estimativas tiradas de várias fontes, se as conferi­
mos com o nosso próprio julgamento visual, os dados mais elevados pa­
recem mais do que razoáveis.. Acreditamos mais neste tipo de estimativa
por sua correspondncia com dados derivados de áreas invadidas, a
partir de um survey de unidade a unidade doméstica, cuidadosamente rea­
lizado.
* A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

testa forma, aproximadamente 70% da população da cidade


_jó de Janeiro e uma percentagem comparável em Lima e Cara-
nioram em habitações que, com exceção de algumas áreas mais
uídas, sã° quase <Iue exclusivamente proletárias.
Quero enfatizar que cada um dos padrões habitacionais aqui
iBsqutidog tem um aparato físico característico facilmente reconhe-
eível pela vista exercitada. Estes aparatos, mais os aparatos físicos
facilmente reconhecíveis da estrutura de trabalho da indústria, ser­
viços, transportes, etc — ou seja, fábricas, máquinas, ônibus, va­
gões, e semelhante — e a organização administrativa (edifícios de
escritórios públicos, aeroportos, instalações militares, etc.) consti­
tuem juntos os adornos físicos da cidade, que lhe sao tão peculiares,
e que, em nosso pensamento, tendem a ser identificados c compre­
endidos como a cidade. No que se segue, desvendarei as relações
sociais que acompanham e que sao subjacentes a estes aparatos e
sua distribuição espacial. 4
P o ponto de vista da forma urbana e, particularmente, da es­
trutura social urbana a ser extensamente discutida abaixo, a distri­
buição “ desordenada” de todos esses tipos de moradias deveria ser
observada. Embora, de fato, haja amplos trechos de tugúrios, eles
são descontínuos, entremeados nao apenas por favelas, avenidas,
conjuntos de baixo nível de renda, parques proletários, etc, mas
também por conjuntos de nível médio, áreas residenciais de alto ní­
vel, áreas de negócios, indústrias e assim por diante. Hoje, há ape­
nas uma área inteiramente de alto nível no Rio — Ipanema-Le-
blon, na parte mais nova da Zona Sul — e mesmo ela tinha, até
1968-1969, quando remoções em larga escala, foram iniciadas pelo
governo, um número significativo de favelas. A mundialmente
famosa Copacabana — um playground internacional de elite e um
centro do comércio chique de boutiques? galerias de arte, modernas
lojas de móveis, e coisas semelhantes — mesmo depois das remo­
ções iniciadas em 1968, permanece uma área de tipos de moradia
diversificados, incluindo duas importantes favelas, dois ou três edi­
fícios de apartamentos conjugados de má reputação,16 prédios su­

fi?1 Estes são conhecidos no R io com o Jks. Trata-se de um trocadilho:


JK. são as iniciais de Juscelino Kubitschek, que estava tentando construir
o Brasil às pressas com resultados por vezes grandiosos, mas pouco sóli­
dos; também significam “Janela e Kitchinette ’*, expressão que descreve
ironicamente o tamanho e vantagens dos apartamentos. O mais famoso
(ou mal-afamado) é conhecido com o Barata Ribeira, 200 — o endereço
de um edifício que abriga muitas centenas de tais apartamentos, com
extrema densidade de ocupação, um constante fluxo de prostitutas, al­
coviteiros, “ cabeleireiras” , jogadores, e policiais à procura cie um ou
outro. O lugar estava sob vigilância constante da polícia. Os dados pro*
M o r a d ia , A rr anjos de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 155

perlotados, edifícios palacianos, e assim por diante, todos entremea­


dos. Botafogo, próximo a Copacabana, mas na Baía de Guanabara,
adentrando pelo Pão de Açúcar, montanha que a separa do Atlânti­
co, que tem igualmente áreas de elite, intercaladas com favelas re­
manescentes, algumas surpreendentes casas de cômodos, avenidas,
uma variedade de habitações de baixa renda, alguns conjuntos e
coisas semelhantes. A próxima subdivisão da cidade, Flamengo, é
ainda mais dispersa, tendo algumas das mais notáveis avenidas, fa­
velas, conjuntos, habitação de “ classe média” e rica. Entre esse
bairro e a Zona Norte estão duas importantes áreas e o maciço mon­
tanhoso central — o centro bancário e de administração pública da
cidade c do Estado da Guanabara (e, em parte, do Brasil), e a
montanhosa área residencial quase que exclusivamente de classe
alta de Santa Teresa, que abriga, num de seus extremos duas gran­
des favelas, no outro, duas ou três pequenas, e em cujas encostas
mais baixas situa-se uma selvagem variedade de casas uni ou multi-
unitárias, tanto legais como ilegais em sua ocupação da terra e
padrões de construção.
A Zona Norte é a principal região industrial e artesanal da ci­
dade, mas possui também duas importantes áreas residenciais do
estrato superior, circundadas por e contendo favelas, e fazendo fron­
teira com conjuntos, subúrbios, avenidas. Para o Norte e o Leste,
não se encontra nada além de habitações de nível médio, mas mes­
mo estas são totalmente entremeadas por uma extraordinária cole­
ção de parques proletários e habitações de emergência, favelas dos
mais variados tipos, conjuntos, vilas construídas anos atrás pela
Fundação da Casa Popular, avenidas, favelas de quintal, instala­
ções industriais, pequenas e grandes, lotes agrícolas, e assim indefi­
nidamente.
Dei tantos detalhes para transmitir ao leitor o caráter calei­
doscópico da cidade do ponto de vista não apenas dos tipos de mo­
radia, mas também de características sociais, como renda, classe e
mesmo etnia (não importante no Rio, embora mais em Lima), pro­
veniência, ocupação, que estão ligadas e são subjacentes a elas. 0
aspecto caleidoscópico ê claramente visível em fotografias aéreas e
tiradas do alto dos morros, mas não é facilmente reconhecível pelos
não iniciados como socialmente caleidoscópico, em termos da distri­
buição de pessoal no espaço segundo características sociológicas.
Voltarei ao que significa esta dispersão caleidoscópica e desconti-
nuidade em termos da organização social da cidade no último capí­
tulo.
vêm de um estudo realizado por dois estundantes de Antropologia do Museu
Nacional, 1969,
A S o c io l o g ia do B rasil U rbano

Lima é menos multifacetada, mas também apresenta conside­


rável dispersão. Por exemplo, em Miraflores, sempre pensada como
uma das áreas residenciais e de centros recreativos de elite por ex­
celência, há ao menos uma barriada e muitos corralones considerá­
veis, bem como alguns callejones. La Victoria, área em grande
parte de média-baixa para média, é iun bom rebuliço de projetos
habitacionais, pequenas barríadas, callejones, corralones, casas sub­
divididas e semelhante. Rimac é ainda mais complexa, incluindo
algumas habitações de sólida classe média, grande número de calle­
jones, algumas grandes barriadas (hoje chamadas pueblos jóvenes)
solares, casas de cômodos, corralones, unidades vecinales, instala­
ções militares, as praças de touros da cidade, jardins públicos, etc.
A única área uniformemente superior é San Isidro.

Arranjos de Vida Alternativos

Começando com certos modelos a partir dos quais a situação


de campo foi abordada, foi apenas através de dolorosos passos, am­
pliando e modificando o modelo, forçado pelos próprios dados do
campo — por vezes provocado por grandes dificuldades, por vezes
acertando quase que por acidente — que se descobriu finalmente
uma ordem que articula todos os tipos de moradia acima discuti­
dos.17
Talvez os dados de campo mais significativos a este respeito
sejam aqueles relativos à circulação de pessoas entre os tipos de
moradia, as razões de sua escolha, a estrutura das situações nas quais
as decisões de mudança sao tomadas e as restrições à sua mudança.
Dado o fato de que os dados para muitos tipos de casos ainda estão
apenas esboçados, posso apenas delinear as conclusões e fornecer
tentativas de hipóteses.
Em essência, cada tipo de moradia compreende arranjos caracte­
rísticos de vida, eujos elementos foram identificados acima de pas­
sagem. Envolvem números e proporções variáveis de algumas for­
mas características de lar (uma unidade econômica, corporativa, or­

17 O modelo original é plenamente apresentado em Leeds (1973a escrito


em 19Ó4). Ainda pressupõe que as favelas são habitadas por "favelados”
— sentido de um estado permanente — antes do que por moradores da
favela — ou seja* pessoas que, em sua maioria, moram nas favelas por
escolha, no desenvolvimento de estratégias de vida (ver Leeds 1973).
Quando o aspecto da escolha e estratégia é por fim reconhecido, deve-se
indagar de onde os moradores vieram ao mudar-se para a favela. A
resposta é; majoritariamente de outros tipos de moradia na cidade. Isso
é verdade tanto para Lima com o para o R io, embora em ambos os
locais o padrão evolua com o desenvolvimento da estrutura residencial
total da cidade (yer os trabalhos de Turner acima citados).
M o r a d ia , A rranjos de V ida , P r o l e t a r iz a ç ã o 157

çam entária; ver Leeds 1973b), geralmente, mas nem sempre, um


segm ento familiar (nuclear outro), combinando o fim econômico
com todos os outros fins da unidade doméstica. A unidade familiar
com o unidade orçamentária, tem a tarefa de alocar seus recursos
__ evidentemente parcos em todos os tipos de moradia que estou
discutindo — a uma série de fins em diferentes proporções, dan­
do prioridade a alguns, rebaixando outros, e ainda protelando ou­
tros, se possível. Assumindo que as pessoas querem viver, alguns
desses fins são inelutáveis — alimentação, algum abrigo, saúde;
outros, devido à sociedade contemporânea, quase inevitáveis —
educação , vestuário, etc; e outros ainda, mais periféricos, mesmo
se sentidos como necessários, como a recreação.
Em geral, o padrão de pesos e conteúdos dados a estes fins
corresponde a um determinado tipo de moradia, como o veículo
apropriado para maximizar o padrão de fins selecionado. Não sabe­
mos ainda em detalhes que variáveis determinam a escolha que
uma unidade familiar faz de um padrão de fins, e não outro, mas
as linhas gerais são claras.
0 padrão de fins, em si mesmo, relaciona-se a percepções, cog-
niçoes, interpretações e experiências por parte dos membros da uni­
dade doméstica com relação ao mundo maior em que vivem, espe­
cialmente com relação ao mercado de trabalho, à burocracia, ao sis­
tema político, ao sistema de saúde, à estrutura de serviços e do mer­
cado, e talvez, especialmente, com relação aos sistemas de posi­
ções hierárquicas que os atravessa, e que tanto os ordena como ar­
ticula. Por este último, refiro-me tanto à hierarquia interna for­
mal de cargos nas instituições burocráticas, partidos políticos, hos­
pitais, órgãos de previdência, organizações de distribuição, etc,
quanto às redes informais de parentesco, amizade, relações de troca
de favores e patronagem que atravessam os limites dos vários seto­
res, contribuindo para o elitismo e para a criação das fronteiras de
classe*
0 padrão de fins também se relaciona a, é coagido por, dois
outros fatores importantes. Primeiro: diferentes estados da unida­
de familiar, movendo-se através do ciclo doméstico determinam ne­
cessariamente diferentes avaliações dos fins. Segundo: diferentes
níveis absolutos de renda e capital disponível, relativos ao custo de
vida num dado momento, tendem a determinar diferencialmente
padrões de fins — por exemplo, quanto mais baixo o nível absoluto,
maior a percentagem atribuída à alimentação e ao custo do traba­
lho.18 Ambos, além dos mecanismos externos de manutenção de

18 Numa amostra bastante grande de entrevistas para entrada no Plano


doa Pais Adotivos em Niterói, descobrimos que, na época das primeiras
A S o c io l o g ia do B r a sil U r b a n o
m

classe, operam com restrições sobre as escolhas e como limitadores:


de possibilidades estratégicas.
Delineamos sinopticamente como estes vários fatores operam
na seleção dos arranjos de vida e, conseqüentemente, na circula^
çao das pessoas de baixo nível de renda por entre os tipos de padrões
habitacionais.
Uxna unidade familiar pode escolher viver nos subúrbios por­
que pode possuir sua própria casa, o que maximiza sua segurança
de posse, permitindo que melhore as condições físicas de vida; por­
que pode plantar frutas, vegetais e criar animais, reduzindo assim
os custos de alimentação; porque o meio é calmo e familiar para a
educação adequada das crianças. Todavia, viver nos subúrbios re­
duz a acessibilidade ao trabalho, elevando conseqüentemente as des­
pesas com o custo do trabalho; decresce a acessibilidade ao tra­
balho por conta própria, especialmente biscates (que são mais fre­
qüentes nas áreas de mercados de trabalho mais densos e nas áreas
residenciais de elite) e aqueles mais bem pagos; fica-se distante das
facilidades de saúde, escola e recreação; custa mais em termos de
serviços e bens a varejo; e sacrifica serviços urbanos, como água,
luz, esgotos, ruas pavimentadas e policiamento. A unidade familiar
deve também ter algum capital original para pagaT pela terra ou
para ser capaz de fazer pagamentos de aluguel, amortização, ou de
hipotecas, a menos que possa encontrar um lote não vigiado que
possa ser invadido. Em geral, os subúrbios são vantajosos para lares
em melhor situação ou mais avançados no ciclo doméstico, quando
as crianças já se foram ou sao bastante grandes para trabalhar.
Novamente, uma unidade familiar pode escolher morar numa
favela. Fazer isso maximiza a poupança sobre os aluguéis e amorti­
zações; permite grande liberdade em adaptar a estrutura física da
casa às mutáveis necessidades domiciliares; permite maior ou me­
nor aumento da produção, especialmente frutas e animais; acima
de tudo, reduz os custos de transporte para o trabalho freqüente­
mente a zero e maximiza o acesso ao mercado de trabalho em geral
— especialmente aos trabalhos mais bem pagos e aos biscates ■ —
bem como coloca os moradores próximos a hospitais, escolas, e facili-

entrevistas desses casos de muito baixo nível de renda, a percentagem


média de renda doméstica gasta com alimentação era de cerca de 70%.
Os outros 30% tinham que ser gastos com roupas, transportes e remédios.
O plano deu alguma ajuda tanto em espécie como em dinheiro para
uma fração moderada da renda doméstica na época da primeira entre­
vista. A segunda entrevista dos mesmos informantes mostrava que o
gasto com alimentação havia-se elevado a 75%, ou seja, toda a renda
adicional fora para a alimentação que estava antes num mínimo absoluto.
Nenhum gasto adicional foi feito para as outras necessidades.
M o r a d ia , A rr anjos de V ida , P r o l e t a r iz a ç ã o 159

dades de recreação.19 As favelas também tendem a permitir a proxi­


midade física de extensões de redes sociais, contribuindo portanto no
sentido de um sistema de segurança social mais eficiente para mo­
bilização imediata do que em áreas de baixo nível de renda e mais
fragmentadas da cidade. Elas também permitem o desenvolvimento
de grande solidariedade social, ponto ao qual voltarei adiante. As
desvantagens compreendem os reduzidos ou inexistentes serviços
urbanos com possíveis riscos para a saúde; restrições sobre as cons­
truções em função de ameaças de represálias divinas, como incên­
dios ou chuvas torrenciais; insegurança de posse; a necessidade, ab­
soluta para mudar-se para lá, de capital, seja para comprar uma
casa já existente ou construir algum abrigo mínimo inicial, a pri­
meira geralmente em favelas superlotadas ou supervisadas. Esta
última observação indica que o estado em que a unidade familiar
se encontra, em qualquer dado momento de sua historia, é uma im­
portante restrição sobre a escolha feita realmente, ponto ao qual
voltarei adiante. A falta de um endereço oficial pode, também, ser
uma importante desvantagem em termos de acesso à comunicação
de um morador, e em termos de discriminação no trabalho contra
os moradores de favela, devido aos mitos existentes (ver acima,
pp. 10-11) com relação às favelas.
Uma circulação típica de uma unidade familiar entre tipos de
moradia pode ser de uma casa de cômodos para uma favela, para
um subúrbio, para uma vila e de volta para a favela, ou de um
quarto ou casa alugadas de uma área pobre para uma favela, su­
búrbio ou conjunto habitacional. Todavia, ainda nao tenho esta­
tísticas para indicar se há padrões de circulação, embora as hipó­
teses indiquem que deveria haver.
As escolhas de tipos de moradia são analiticamente equivalen­
tes, mas não o são como possibilidades reais. 0 que as torna não-
equivalentes são as condições ou estados de unidade familiar, ou da
empresa doméstica. Uma variável importante é o capital disponível
ou mobilizável, que determina, por exemplo, se se pode pretender
uma easa numa favela que, como procedimento padrão, é obtida
através de um único pagamento (uma vez que não há forma jurí-

*9 A discussão aqui refere-se à situação no R io antes que começasse a


remoção maciça das favelas, em 1968. Até essa época, as favelas apresen­
tavam o que se poderia chamar de uma distribuição “ natural” — ou
seja, uma distribuição que refletia as necessidades de localização dos
moradores originais e imigrantes subseqüentes. As remoções forçadas, evi­
dentemente, perturbaram drasticamente este sistema, vomitando as pessoas
para os limites distantes da cidade, longe do trabalho, hospitais, escolas,,
áreas de recreação, parentes e amigos, e assim por diante.
A S o c io l o g ia do B r a sil U rbano

fâfâí Me utilização de vendas a prazo na favela ilegal); se se pode


níaneiar séries de prestações ou pagamentos de 15, 20 anos por
uma chamada “ casa da cooperativa” . A quantidade de capital mo-
fôilizável ou disponível depende, ela mesma, de uma série de va­
riáveis:
(а ) As extensões da rede social para mobilização de serviços
grátis para reduzir os custos.
( б ) Habilidades de membros da família que podem ser usa­
das para obter salários ou outras formas de pagamento, como pre­
sentes ou serviços prestados;
( c ) Trabalhos mantidos pelos membros do domicílio;
( d ) Salários recebidos pelos membros da unidade familiar.
( e ) Capacidade de indenização por membro do domicílio;
( / ) Proporção dos salários que vai para os membros não tra-
Ibalhadores da unidade familiar.
( g ) Condições de saúde dos membros da unidade familiar;
( k ) Custos do trabalho para os trabalhadores da unidade fa­
miliar — transporte, taxas, etc.

Como único exemplo,20 aqui, uma mãe abandonada e seus fi­


lhos morando numa casa de cômodos de aluguel “ barato” . Por ser
ela lavadeira ou doméstica, tem pouca ou nenhuma chance de mu-
dar-se, porque não pode obter os recursos para construir uma casa,
menos aiuda para fazer os pagamentos da amortização ou pagar alu­
guéis, nem pode mobilizar serviços para construir uma casa porque
está isolada das redes que poderiam fazer o trabalho para ela, e ela
mesma nao pode fazê-lo, uma vez que não pode estar in situ, e deve
ocupar o seu tempo trabalhando. Ela é pobre demais para escapar
ao pagamento de aluguel e pode apenas alugar locais em que os alu­
guéis exigidos são exorbitantes em relação às vantagens por mais
“ baixos” que possam ser em termos absolutos. Os aluguéis hoje vão
de 15 a 90% do salário mínimo (que é fixado pelo Governo Na­
cional e era, em meados de 1973, Cr$ 312,00 ou cerca de US$50/
mês). Se a pressão se torna bastante grande, ela pode não conseguir
pagar o aluguel e ser despejada, ou pode conseguir obter dinheiro
extra vendendo seu corpo a um homem ocasional; ou pode tentar
contrair um arranjo consuetudinário mais permanente. A limitação
desta última solução é que ela tem pouco a oferecer a um homem
em termos de serviços ou capital, de modo que, provavelmente, ela

CO Embora este exemplo seja hipotético, foi construído a partir de al­


guns casos conhecidos.
M o r a d ia , A rranjos de V ida , P r o l e t a r iz a ç ã o 161

só atrairá um homem que tenha pouco para dar e, freqüentemente,


muito para tomar. Eventualmente, um de seus filhos, se viver,
torna-se bastante grande para trabalhar, se está em condições de
saúde adequadas, situação que pode adicionar ganhos de capital
suficientes para permitir à unidade familiar fazer um arranjo do­
méstico mais vantajoso, como comprar um segmento de uma cons­
trução ou alugar um quarto ou apartamento numa favela. Fazen­
do isso, ela poupa recursos que podem ser usados para educar o fi­
lho mais moço, talvez aumentando, desta forma, suas futuras pos­
sibilidades de trabalho.
Histórias de casos, hipotéticas ou reais, poderiam ser multi­
plicadas indefinidamente, mas basta, aqui, indicar a situação ini­
cial do estado da economia da unidade familiar. Seu estado é em
sL mesmo dependente de modo crítico da relação da unidade fami­
liar e com o mercado de trabalho e das características deste, ambos
controlados, sociologicamente e com relação às suas manifestações
estatísticas, pelas classes e suas elites, externas ao proletariado, onde
se localizam as unidades familiares que consideramos.
Em suma, as unidades familiares, cujas economias dependem
do mercado de trabalho-salário das economias de trabalho intensivo,
tais como aquelas dos países neo-colonialistas da América Latina e
outras áreas “ subdesenvolvidas” do mundo, confrontam-se todas
com um sistema de restrições financeiras e institucionais (parte
da estrutura de proletarização) que estabelece os parâmetros das es­
colhas que eles podem fazer, dentre os arranjos de vida. Essas es­
colhas são diferentes daquelas abertas às unidades familiares cujas
economias dependem dos mercados de trabalho intensivos, salarial,
profissional ou empresarial. Volto às restrições sobre o primeiro
mais adiante, mas antes quero acrescentar mais alguns comentá­
rios sobre as escolhas e suas conseqüências. Como um grupo, as
escolhas devem ser vistas como alternativas que permitem diferen­
tes vantagens estratégicas e táticas com relação aos objetivos de
vida, mas todas no interior do quadro de um modo de vida prole-
tarizado, criado e mantido essencialmente pelos detentores dos re­
cursos estratégicos de capital da sociedade.
As escolhas, como foi observado, refletem os estados mutáveis
das unidades familiares, mas podem também refletir condições ex­
ternas, como mudanças nas ofertas de trabalho locais ou totais na
cidade, às quais, por sua vez, refletem elas próprias mudanças na
disponibilidade de habitações; mudanças na política relativa à fa­
vela (ver Leeds e Leeds, 1972) ou outros tipos de habitação, e mui­
tas outras modificações no meio.
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

Monseqüência das Escolhas entre Arranjos de Vida;


Solidariedade e Divisão
As conseqüências das escolhas feitas, todavia, não são mera­
mente as mudanças nos arranjos de vida da unidade familiar, mas
' também na relação daquela unidade familiar com seu meio circun­
dante, no sentido de criar relações solidárias entre pessoas de status
soeietal semelhante — isto é, entre os membros do proletariado*
Nos casos de todos os tipos de moradia discutidos aqui (exceto, pos­
sivelmente, algumas favelas de quintal), a relação se dá com a
meio imediato, no qual penetra ou do qual parte, constituído de
unidades familiares significativamente semelhantes, que se encon­
tram no mesmo conjunto de condições ou que fizeram as mesmas
escolhas. Essas unidades familiares não são meramente semelhan­
tes como categorias, mas também em virtude dos padrões sociais,
condições legais, elementos de comportamento e identidade seme­
lhantes ao comunitário, que os acompanham, áreas de moradia
como o meu termo indica. Dentre grupos ou agregados totais de
tais unidades familiares, há o reconhecimento do “ nós” como opos­
to ao “ eles” , os de fora — ou dos “ nossos interesses” como contrá­
rios aos “ interesses externos” , da nossa gíria como oposta à dos
estranhos em outras aglomerações ou classes. As cristalizações de
tais redes de relação, sentimentos, auto-identificaçÕes e interesses
são vistas, por exemplo, na emergência de grupos de carnaval, ou
clubes de futebol associados a um conjunto, a um subúrbio, favela*
parque proletário — todos grupos solidários, freqüentemente com
uma articulação muito forte de sua relação com a comunidade —
moradia à que pertencem.21
De extrema importância para este trabalho ê o fato de que mu­
danças nos arranjos de vida — na verdade, migrações intra-urba-
nas — tecem redes intraproletárias de todos os tipos através da ci­

21 Os nomes dos grupos de Carnaval indicam isso claramente: Grêmio


Recreativo Paraíso de Tuiuti, com o qual tive contato contínuo durante
minha estadia lá; Unidos (referindo-se a dois ou três grupos anteriores
menores, bom com o a seu próprio pessoal) do Jacaré, do qual fui sócio
e no qual desfilavam dois colegas próximos; Acadêmicos do Salgueiro;
Império Serrano; Mangueira. Com exceção das duas primeiras, essas
agremiações competem pela fama, reconhecimento, honras nacionais, ex­
cursões, etc, em cada Carnaval. Suas sortes, sucessos e fracassos suà po­
liticagem dentro e fora das favelas» sua relação com outros grupos sociais
e políticos dentro e fora das áreas de moradia são seguidas de perto por
grande número de populações locais. Grupos semelhantes, embora menos
famosos, são encontrados nos parques, vilas, conjuntos e alhures, e evi­
dentemente em ouíras cidades, sendo a mais famosa R ecife, um centro de
difusão de danças nacionalmente populares com o o baião e o frevo.
M o r a d ia , A r r a n j o s d e V id a , P r o l e t a r iz a ç a o 163

dade. O que impressiona depois de um trabalho etnográfico pro­


longado é o número, variedade, multílocalização, freqüência de mo­
bilização e utilidade dessas redes. Elas sao estendidas através do
parentesco, compadrio, amizade, papéis de ajuda mútua, laços pa­
tronais intraclasse, relações dc vizinhança, relações de troca de favo-
res, e também por meio da interação de grupos solidários, tais como
escolas de samba, blocos de samba? clubes de futebol, clubes sociais,
congregações religiosas, sociedades de ajuda mútua, e assim^ por
diante, que trocam visitas ou encontram-se fora das áreas de mora­
dia em convenções de federação.22 Essas redes servem para uma
multiplicidade de funções, embora a maior parte do tempo de modo
esporádico — por exemplo, segurança soeial, ajuda mútua, apoio
político mútuo em atividade eleitoral, legal ou realização de pedi­
dos, etc.
O q u e é mais significativo com relação a isso é a base poten­
cial para a solidariedade da classe proletária e mesmo, em c e r t o 3
contextos, uma tendência observada para a criação de tal solidarie­
dade, Cito dois exemplos.
Depois do movimento militar de 196.4, as eleições de outubro
de 1965 foram mantidas nas modalidades anteriores, em nome da
imagem política nacional. Nesse mês, foram realizadas eleições para
governadores em alguns Estados-chaves, o mais importante dos
quais era a Guanabara, que fora anteriormente o Distrito Federal,
a capital nacional, e permanecia, em 1965, apesar da existência de
Brasília, como o principal centro da administração nacional, Um dos
candidatos era Flexa Ribeiro, o fantoche (e parente afim) do gover­
nador da época, Carlos Lacerda, que fora o agente imediato do colap­
so do segundo governo de Yargas, do Governo de Quadros, e do
Governo de Goulart, em 1964, e era uma figura central no golpe
de 1964, esperando mesmo tornar-se presidente. O Partido deles,
um importante sustentáculo do movimçnto militar, era a conserva­
dora e reacionária u d n (Uniao Democrática Nacional), Q outro
candidato ( além de alguns negligenciáveis de partidos menores)
era Francisco Negrão de Lima, outrora prefeito do Distrito Federal
(1956-1959), embaixador em Portugal, que era quebra-galho do ex-
presidente Juscelino Kubitschek, um típico mercenário político do
centrista, pragmático, ideologicamente pouco fundamentado p s d
(Partido Social Democrático). 0 p s d apresentou sua candidatura

22 Os vários tipos de grupos de Carnaval, clubes de futebol, coíigrega-


ções religiosas de diferentes seitas, e outros, pertencem todos a, federa­
ções a nível estadual e confederações nacionais (embora, estás tendarp a
ser fictícias), todas conform es à lei de organização sindical civil' ^rásL*
leira.
m A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

•fem coalisão com a ala “ direitista” do p t b ( Partido Trabalhista


Brasileiro), o partido populista, baseado no trabalho de Getulio
Vargas__ tuna coalisão de longa duração.
Em todas as favelas (e possivelmente outros tipos de moradia
do pessoa de baixa renda aos quais até agora não me referi), com a
exceção de muito poucos moradores, a resposta a essa situação era
sistemática, e pode ser parafraseada desta forma: “ Negrão é um
mal que conhecemos — ele pouco ou nada fez como prefeito, mas
não é um deles” (significando os militares e suas forças de apoio
representadas por Lacerda). 0 voto foi maciço em favor de Negrão,
mais claramente em áreas de ocupação proletária.23 0 esmagador
voto proletário contra Lacerda e seu candidato não significou uma
perda para os militares que, naquela mesma noite e como conse­
qüência direta do voto , eliminaram todo o sistema partidário, e cria­
ram por decreto o atual sistema de um partido do governo (em
grande parte a velha u d n , elementos mais direitistas do PSD e ou­
tros pequenos partidos) e um partido de “ oposição” rigorosamente
castrado (absorvendo o resto do PSD, o velho p t b e outros) que so­
çobrou num lamaçal de impotência, em grande parte imposto “ le­
galmente” . Este movimento por parte dos dirigentes militares não
significou, por sua vez uma derrota do proletariado que, nas últi­
mas eleições, expressou seu protesto por meio de um maciço voto
em branco (sendo legalmente obrigados, ou forçados, a votar, eles
depositam votos nao assinalados para indicar a nulidade da eleição,
fato que foi censurado nos meios de comunicação pelo governo mi­
litar).
0 caso relaciona-se às redes de comunicação e de discussão —
de interpretação e compreensão — que articulam as favelas e ou­
tras instalações proletárias. A mera posição categórica, como pro­
letário, não pode explicar o voto de oposição, uma vez que, atomiza-
dos como o são, em termos de localização, eles também se confron­
tavam com os meios de comunicação favoráveis ao governo, com as
representações populistas de Lacerda e com outros fatores que ten­
diam a obscurecer seu interesse. 0 que foi surprendenfe para um
observador estranho foram as visitas de área a área proletária —
a mobilização de redes de comunicação — e a discussão constante
das questões políticas.

33 V e r Leeds e Leeds (1970). Apesar das dificuldades em avaliar o voto»


devido às peculiaridades de seu registro, n ão há qualquer dúvida quanto
à sua natureza; ver texto acima. V er também em ibid. o poema cantado
por algumas meninas pulando corda na favela, citado no final daquele
texto,
M o r a d ia , A r r a n j o s d e V íd a , P r o l e t a r iz a ç ã o 165

0 segundo caso, discutido alhures em detalhe (Leeds e Leeds;


1972; Leeds, 1973b), precisa apenas ser brevemente revisto aqui.
Em 1964, foi fundada uma organização defensiva e representativa
chamada f à f e g (Federação das Associações das Favelas da Guana­
bara). Ela promoveu um “ Primeiro Congresso” naquele ano. Em,
1968, promoveu seu segundo Congresso e foi prontamente esmaga­
da pelas forças policiais. No Congresso de 1964, os participantes;
discutiram problemas bastante específicos das favelas — água, “ ur­
banização11, eletricidade, etc. Em 1965, quando assisti pela primei­
ra vez às reuniões da f à f e g e à hora no rádio do presidente da'
f a f e g , era ainda esta a orientação. Depois das catastróficas chuvas

de fevereiro de 1966, seguidas imediatamente dos apelos de vários1


órgãos “ técnicos” de elite (ver Leeds e Leeds, 1972), para remover
as favelas, a f a f e g começou a ser mais explícita em seus ataques à
indústria de construção civil e outros interesses políticos e econô­
micos envolvidos na Indústria das Favelas (significando “ a Indús­
tria de exploração da favela” , como paralelo à “ indústria das se­
cas7’ do Nordeste brasileiro explorando as vítimas das secas). To­
davia, o ponto de vista ainda se limitava às favelas. Depois dos anos
repressivos de 1967 e 1968, a f a f e g mudou drasticamente. Os do­
cumentos e discursos expressaram-se em termos de classe e em ter­
mos de problemas nacionais e outros problemas gerados pela classe,
tais como estrutura salarial, inflação, o sistema de lucros, explora­
ção e coisas semelhantes. Emergira uma clara concepção de solida­
riedade da classe, indo muito mais além dos interesses das fragmen-
lárias áreas de moradia, que são, na verdade, segmentos físico so-;
ciais do proletariado, divididos parcialmente pelo processo mesmo
de lidar com o meio urbano, por sua busca de ai*ticulação mais viá^
vel com as exigências e ofertas da vida na cidade, e, particialmente.
pela ação deliberada da classe “ superior” .
De modo semelhante, é de extrema importância para os temas
deste trabalho o fato de que tais áreas de moradia também apre­
sentam atitudes antagônicas entre si. Se nos relembrarmos dos as­
pectos caleidoscópicos acima mencionados de localização da mora­
dia na cidade, compreenderemos também a fragmentação das soli-
dariedades proletárias ou da classe trabalhadora em virtude dessas
atitudes. A especialização ocupacional do conjunto, a separação da
localização das vilas, a patronagem que vigora nos parques proletá-’
rios, a ilegalidade, a criminalidade e a marginalidade míticas da fa­
vela, e assim por diante, todas funcionam, cada uma a seu modo,
de forma a estabelecer identidades celulares, ligadas à área de mo-1
radia, às expensas da identidade de classe como proletariado assala-;
riado ou sub-remunerado. A construção do conjunto, a localização'
A S o c io l o g ia d o B r a sil U r b a n o

j-iliís vilas, a patronagem dos parques, a ilegalidade das favelas, e


coisas desse tipo são aspectos controlados pelas estratégias de elite
Ha sociedade.
Por demais características são as atitudes contra as favelas, al-
^gumas das quais eu citei acima, que permeiam todas as classes e
"áreas da cidade. Ao mesmo tempo, muitos dos moradores das fave­
las, especialmente de algumas mais confortáveis e evoluídas, des­
prezam os parques, os conjuntos mais pobres e, especialmente, as
casas de cômodos, abominadas por todos os que nao moram nelas.
Os moradores de casas de cômodos, por outro lado, dizem que não
morariam nas favelas porque o ambiente é pesado e os habitantes
são maus elementos.
Em outras palavras, as áreas de moradia de baixa renda, exa­
minadas coletivamente, são, numa medida notável, organizacional-
mente centrífugas e estão separadas e divididas umas das outras.
Esse divisionismo é fortemente reforçado pela discriminação do tra­
balho praticado pelos empregadores contra os moradores da favela
e pelas discriminações em serviços e preços; pelo tratamento pejo
rativo que a imprensa dá às favelas, como se viu anteriormente;
pela caracterização das condições na favela pelo rádio e televisão, e
assim por diante, ifma vez que 20 a 25% da população total, ou
talvez mais de 40% do proletariado, vivem em favelas, uma divi­
são maior do proletariado se cria com base apenas na moradia, di­
visão e divisionismo fomentados pelas classes não proletárias em ge­
ral e pelas elites que controlam o sistema de comunicação e, em
particular, o mercado de trabalho.
Há evidência substancial e algumas próvas inequívocas de que
a divisão física do proletariado e dos baixos-assalariados é, em par­
te, intencional, e freqüentemente reforçada de forma deliberada
pelo fomento às atitudes antagônicas divisionistas como, por exem­
plo, pela manipulação dos meios de comunicação de massa. Mas
muito da ação divisionista da elite parece não ser «onsciente, ocor­
rendo antes como conseqüência não pretendida de seus atos. Por
exemplo, uma ação de desenvolvimento comunitário tal como aque­
la desenvolvida pela Aceión na Venezuela e em Lima, ou sua rami­
ficação brasileira, Ação, no Rio e Sao Paulo; pelo Corpo de Paz
ou, no Rio, pelo b e m d o c ( Brasil-Estados Unidos Movimento de De­
senvolvimento e Organização de Comunidade, um programa de de­
senvolvimento comunitário patrocinado pela A ID , realizado através do
Departamento de Serviço Social do Estado da Guanabara, ver Leeds
e Leeds, 1972), tende a colocar as favelas, barriadas ou ran­
chos em competição entre si pelos recursos que o órgao de desenvol­
vimento comunitário detém: eles trabalham em seu próprio inte-
M o r a d ia , A r r a n j o s d e V id a , P r o l e t a r i z a ç ã o 167

xesse, e nao no interesse coletivo. Ainda assim, o órgão trata da me­


lhoria tanto da área de moradia individualmente como, a longo pra­
zo, da coletividade das áreas de moradia.24 Como outro exemplo, a
-conversão de um velho edifício de um wbom" bairro em casa de cô­
modos enquista seus moradores socialmente, seja ou nao pretendi­
da tal atomização. Assim, as duas imensas casas de cômodos no fa­
moso Morro do Pasmado, no Rio, cercadas pelo Iate Clube, clube
da elite carioca, pela Universidade Nacional, por uma boate im­
portante e por um cinema, além de algumas casas de classe média
alta, estão fisicamente bastante isoladas de qualquer outra popula­
ção proletária. Juntas, constituem um enclave de talvez 500 pes­
soas, que cresce rapidamente com o passar dos anos, conforme os
proprietários acrescentam novas unidades alugáveis à construção e
suas extensões que sobem o morro. De passagem, é interessante no­
tar que aparecem anúncios nos jornais pedindo capital para empre­
gar em empreendimentos do tipo casas de cômodos. Embora, ofi­
cialmente, esse tipo de empreendimento seja hoje ilegal, ele pros­
segue sub rosa, criando, pelos atos dos detentores de capital, novos
agrupamentos isolados do proletariado.
Outro exemplo de tal divisão é a construção das vilas. O obje­
tivo da divisão era, pelo menos em parte, deliberado e articulado,
«mbora apenas em particular o de, por um lado, colocar os proletá­
rios geograficamente fora do alcance das elites e, por outro, remo­
ver grandes enclaves deles para fora da cidade, separá-los de suas
redes de relações, vizinhanças e comunidades anteriores, que fo-
24 A qui, deveria ser observado com justiça que alguns dos membros da
elite, em bases que parecem ser puramente ideológicas, contribuíram real­
mente para a organização coletiva do proletariado através da ligação com
favelas ou seus líderes. Um caso é o de José A rfhur Rios, discutido ple­
namente em Leeds e Leeds (1972), que reuniu os líderes das favelas na
cham ada “ Operação M utirão” — para melhorarem coletivamente sua
condição, receberem inform ação legal e ajuda, auxílio material, orienta­
çã o na organização. N ão há evidências, na mitíha opinião, de que R ios
estivesse tentando ganhar um eleitorado para si e menos ainda para o
G overnador Lacerda, que na época precisava de bases populares e que,
quando teve acesso a grandes somas de dinheiro através do A co rd o do
Fundo d o Trigo Aiu-Estado da Guanabara, em 1962, não mais precisando
de uma massa organizada populista, demitiu Rios. O trabalho de R ios
pode ter dado a base para o desenvolvimento posterior da f a f e o , embora
não haja conexão direta entre os dois, tendo a última aparecido dois
anos depois do término abrupto do programa de Rios (ver Schimitter,
1971: 208, para o contrário). Estou certo de que Schimitter está errado,
uma vez que eu estive nas reuniões tanto da Operação Mutirão, em
1961 e 1962, com o da f à f e g , em 1965-1966. R ios continuou a fazer o
tipo de trabalho que havia feito em 1961-1962 e 1968-1969 na Bahia,
onde também foi eventualmente expulso pelas elites que não queriam
ceder poder e controle para os moradores da favela.
Pi S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

jiráS tfBbuptamente desarticuladas pelas remoções, A favela qur


eJtfétia no Morro do Pasmado foi arrancada independentemente de
t£ ira isq u er laços sociais, políticos ou econômicos que tinha com a
Siea circundante da cidade, e colocada a muitos quilômetros do
Dentro. Todas as remoções — de íavelas, casas de cômodos, ou o
'Çüe fosse — por motivos punitivos, por renovação urbana, para uti-
lídade pública, por segurança (real ou alegada) — desarticula re­
des sociais e outros laços construídos entre as populações proletárias
contribuindo para a atomizaçao e o divisionismo do proletariado.
Adiante, voltarei aos traços institucionais do divisionismo.

Hestrições sobré a Escolha

A restrição chave sobre a escolha de qualquer dado tipo de


moradia é financeira, seja qual for o estado do ciclo doméstico.
Ela não é apenas a restrição sobre escolhas individuais específicas,
mas uma que não permite que se escape de todo um conjunto de
escolhas dos arranjos proletários para viver.25 No Brasil, hoje,
grande proporção da força de trabalho recebe oficialmente o salá­
rio mínimo. A renda mínima necessária a uma unidade familiar,
para pagar aluguel, suprimentos alimentícios básicos, roupas, trans­
porte e cuidados médicos fica entre 900 e 1,200 cruzeiros (3-4 sa­
lários mínimos). Talvez um máximo de 5 a 10% das unidades fa­
miliares proletárias alcance este nível de renda, a maioria obtendo
de 300 a 500 cruzeiros por meio de salários e outras fontes.26
Os resultados são claros. Tal sistema de salários, com a estru­
tura de renda que engendra, estabelece parâmetros para o conjun­
to de escolhas com um todo ( “ o conjunto de escolha” ). Embora
haja um pequeno número de pessoas ou unidades familiares que es-
25 Esta situação é quase tão verdadeira para os Estados Unidos com o
o é para o Brasil ou qualquer outra sociedade capitalista. Todavia, nos
Estados Unidos» é mais marcada co m o um fenôm eno total» e torna-se
mais com plexa p or uma elaborada estratificação interna d o proletariado
baseado nas faixas de qualificação exigidas n o mercado de trabalho norte-
americano, o nivelamento do pagamento conform e a qualificação» a vin-
culaçao do critério racial à taxa qualificação e o custo geral de vida
relativamente mais elevado. Os dois primeiros não se ligam ao Brasil ou
ao Peru em grau tão significativo.
20 Etstes dados baseiam-se nos salários e preços de 1968* mas foram cor­
rigidos para os aumentos que ocorreram em ambos desde então e confron­
tados com os dados de Salmon (1971) e Rush (1974) que, em 1973, fize­
ram um trabalho de cam po de verão num survey de uma amostragem de
pessoas removidas de favelas. Deve ser lembrado, no último caso, que as
pessoas de mais baixa renda não são de m odo algum enviadas para os
conjuntos, de m odo que os dados de R ush são bem mais elevados que
os meus.
M o r a d ia , A r r a n j o s de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 169

capem do conjunto de escolhas, penetrando num conjunto de esco­


lhas estabelecido por parâmetros diferentes, ainda assim, provavel­
mente, um número maior entra em circulação no interior do con­
junto de escolhas proletárias, talvez o mais baixo da escala de con­
juntos da cidade, seja porque os salários reais baixam, uma vez que
os aumentos nos salários absolutos não guardam proporção com os
aumentos no custo de vida, ou porque pressões ou desastres os em­
purram para fora do estrato mais baixo da pequena burguesia, os
autônomos, pequenos burocratas e equivalentes,27 O número de
novas unidades familiares que têm que encarar o conjunto de es­
colhas é também engrossado por imigrantes chegados de fora da
cidade em busca de oportunidades de emprego no mercado de tra­
balho — salário, uma situação mais marcante em Lima do que no
Rio, já que Lima concentra uma proporção muito maior do merca­
do de trabalho nacional do que o Rio, e seu crescimento em gran­
de escala foi mais recente. Deveria ser observado que esses imi­
grantes tornam-se competidores no mercado de trabalho, especial­
mente, supõe-se,28 por trabalhos nao-qualifiçados e de baixa qua-
27 Para uma discussão da pressão, ver Leeds e Leeds (1970:243-248),
com relação às populações proletárias; os mesmoa princípios aplicam-se
aos estratos citados n o texto.
BS D ig o “ supõe-se” porque em vista de evidências etnográficas de vários
tipos, incluindo algumas entrevistas com pessoal administrativo de fábri­
cas que realizei em 1968, não fica absolutamente claro que m uito do
m ercado de trabalho tipo trabalho-intensivo precise de elevadas qualifi­
cações; n ão está claro que as qualificações aprendidas nas pequenas ci­
dades, povoados e em fazendas, as quais os imigrantes trazem consigo,
não sejam as qualificações mais comumente necessárias (por exemplo,
habilidades de construção e serviços); conseqüentemente, não está claro
que os empregadores queiram realmente trabalhadores qualificados por­
que, dada a unicidade técnica de cada fábrica, a falta de outras fábricas
semelhantes e a ausência de padronização entre as instalações industriais
brasileiras, eles devem treinar e retreinar seus trabalhadores para as exi­
gências técnicas únicas e específicas dos empregos específicos, adequan­
do-se aos arranjos usualmente únicos das características de cada fábrica.
A evidência sugere, pelo contrário, que a “ não-qualificação” é um estra­
tagema retórico, útil para a desvalorização dos salários, para a manuten­
çã o de um elevado nível de com petição entre os trabalhadores, para a
coop tação de alguns trabalhadores para obrigações de clientela através d o
assentimento “ generoso*’ em dar-lhes treinamento interno. M uita evidên­
cia indica que esta é a form a em que o sistema trabalha, não que seja
conscientemente organizada e manipulada desta form a pelas elites. D e
qualquer m odo, o procedim ento é de distanciamento — contribuindo para
a proletarização e m anutenção dos limites de classe. Incidentalmente,
ocorre nos Estados Unidos — contrariando m uito da discussão entre aca­
dêmicos quanto ao credencialismo, a necessidade de educação para ò
treinamento de uma habilidade e alguns tópicos relaeionados — que
grande parte do treinamento para trabalhos qualificados é feita n o pró­
A S o c io l o g ia d o B r a s il U r b a n o

Slfícacão. Esta competição, em parte deliberadamente fomentada


pelos controladores dos recursos estratégicos e do mercado de tra­
balho, e em parte estruturalmente induzida, contribui para a frag­
mentação do proletariado acima discutida,
A estrutura salarial é mantida pela política nacional, atos ad-
"ininistrativos nacionais e instituições nacionais, todos controlados
pelas elites estratégicas nacionais. A maioria das instituições tem
suas representações locais — funcionários, administradores, conse­
lheiros, equipe e equipamento — , ao menos nas grandes cidades e
sedes de municípios, todos os cargos de decisão e toda política e pos­
tos administrativos significativos controlados pelos membros da eli­
te e da classe superior30 que estão ligados pelo sangue, laços de afi­
nidade, co-parentesco, amizade e outras redes pessoais reunidas, que
criam as fronteiras de classe, excluindo todos os membros do prole­
tariado (ver Leeds, 1957, Caps. IV e V; 1964, 1967, 1973c).
Subjacente à política salarial altamente desigual de países
como o Brasil e o Peru — as dependências capitalistas, semicolo-
niais dos grandes países capitalistas metropolitanos — eslao os sis­
temas de lucro capitalista privado e de propriedade privada. Este
não é o lugar para examinar esse tópico em detalhe; o argumento,
foi exposto por outros autores.00
O que pretendo enfatizar, aqui, todavia, é que este tipo de sis­
tema capitalista dependente determina uma estrutura salarial quej

prio trabalho. Qualquer um que tenha trabalhado numa fábrica e tenha


entrevistado trabalhadores qualificados, coisas que eu fiz, o sabe. O de­
sacordo quanto a com o o sistema trabalha e com o ele deve trabalhar —
também uma diferença de visões de classe do sistema — levanta ques­
tões e perspectivas interessantes — p or exem plo, co m o questão: qual,
ideológica e socialmente, é a fu n ção das concepções errôneas dos acadê­
m icos?; com o perspectiva: ainda que os negros e outras minorias étnicas
obtenham credenciais para empregos, o sistema opera de m odo a anulá-las
m esm o onde elas estão sendo real ou supostamente estimuladas pela su­
pervisão federal contra a discriminação n o m ercado de trabalho.
29 N ã o tentei aqui distinguir problemas terminológicos, e usei livremen­
te os termos “ classe alta” , “ Classe capitalista” ou “ elites” . Discuti, nos
locais citados no texto, as bases da fronteira de classe n o Brasil, e re-
firo^me aqui aos grupos lá descritos. Creio que o significado n o presente
contexto é suficientemente claro, “ Elites” n o plural refere-se coletiva­
mente às fileiras superiores, controladoras d o poder, da “ classe alta” ou
a uma série de grupos amplamente informais n o interior daquela classe,
os quais controlam os principais recursos de poder; o contexto deixa
claro de que utilização se trata.
30 H á uma grande literatura sobre a dependência, a maioria dela com e­
çando a partir de Frank (1967 ou versões anteriores desse trabalho). Ou­
tros autores importantes são Aníbal Quijano, Fernando Henrique Car­
doso, Oswaldo Sunkel, Stanley e Barbara Stein. e muitos outros. V er
também meus próprios textos (1969; 1972b; M s b ).
M o r a d ia , A r r a n j o s de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 171

envolve necessariamente a proletarização, ou é, na verdade, idêntico


a ela. A proletarização 6 construída no interior do sistema capitalis­
ta, como já foi indicado há um século, mas nos países “ subdesenvol­
vidos” dependentes ela é ainda mais fortemente delineada, menos
suavizada pela “ afluência” , menos melhorada por grandes massas
mais bem pagas, assalariados altamente qualificados, menos abran^
dada pelas oportunidades de mobilidade ascendente, menos recepti­
va ao protesto político e à expressão eleitoral, e geralmente mais im­
pressiva do que nas metrópoles como a Grã-Bretanha e os Estados
Unidos.
Na medida em que a proletarização se vincula ao capitalismo
e ao industrialismo, e na medida em que é intensificada pela açao
do Estado, tendendo, todos os três, a estar centrados institucional e
operacionalmente nas cidades, ela é peculiarmente um fenômeno
da cidade7 mesmo que sua extensão possa também ser encontrada
nos setores agrários. No seu aspecto da habitação em massa c mora­
dia, ela ê intrinsicamente parte da cidade em sociedades estrutura­
das de forma capitalista. Na medida em que a habitação, o traba­
lho, os cuidados com a casa e o desenvolvimento das atividades diá­
rias estão ligados, a proletarização também envolve a emergência de
um sistema social ou subsistema numa dada cidade, complemen­
tando seu papel na estrutura societal.
Uma vez que a proletarização resulta da relação com os pro­
prietários e controladores de recursos estratégicos, o capital e o Es­
tado, ela é, na verdade, um processo único que envolve necessaria­
mente o desenvolvimento de papéis complementares — um desen­
volvimento dialético. 0 aspecto complementar do processo pode ser
chamado de “ elitização” , ou a contínua construção do poder da
classe superior, da auto-identificação, das condições de fronteira
para excluir o proletariado, e do proletariado necessário para sua
própria manutenção e progresso.
Dito de outro modo, o sistema de propriedade privada e lucro
privado envolve necessariamente um processo de desenvolvimento
de um conjunto de papéis complementares — a evolução do prole­
tariado e das elites; e a cidade, como uma organização para a pro­
dução, com todos seus aparatos produtivos, é o locus primordial
desse processo.
D sustentáculo estrutural do processo é a exclusividade eco­
nômica, social e política das elites. As elites, em todas essas esferas,
desenvolvem meios para sua própria manutenção, dos quais o sis­
tema salarial já mencionado é talvez o mais efetivo. Todavia, há
um grande número de meios ancilares que operam junto com o
sistema salarial para manter as fronteiras* Com efeito, eles estabele-
A S o c io l o g i a do B r a s il U rbano

ipf|ÍÉrâmètros no interior cios quais os arranjos proletários para a


escolha de vida podem ser feitos.
No Rio, em Lima e, de uma ou de outra forma, em outras ci­
dades, tais meios ancilares incluem sistemas de contratação
e demissão; manobras de contratação especiais; demissão exa­
tamente antes da época em que a manutenção no trabalho se tor­
na obrigatória, resultando na perda de aposentadoria acumulada e
benefícios de pensão; repressão legalizada a pessoas (se proletárias)
que não portam carteiras de trabalho oficiais, ou que são recolhidas
na rua sem identificação (mesmo que a tenham em casa); aluguéi&
e extorsão de aluguéis; baixa acessibilidade ao treinamento qualifi­
cado; alto custo da educação para todos os níveis, especialmente pa­
gamento de uniformes, livros, suprimentos escolares; custo geral­
mente alto da educação secundária; redução legal dos salários na
forma de pagamentos por doença de 70% do salário mínimo; não-
pagamento de benefícios como pensão familiar, hora extra e paga­
mento por trabalho insalubre; pagamento adiado dos aumentos sa­
lariais fixados; divisão de moradia; quebra das redes sociais prole­
tárias pela mudança física de partes das áreas de moradia; relações
patrão-cliente numa rede de obrigação e cooptaçao secundada por
ameaças de sanção como a não ajuda do patrão em tempo de crise:
e assim indefinidamente.
O efeito conjunto de tudo isso é a fronteira de classe que en­
fatizei, a qual opera ela mesma como uma restrição sobre o prole­
tariado. Com relação ao proletariado, visualizo uma representação
possível dessa estrutura como envolvendo um vasto número de
partículas — indivíduos e unidades familiares — em movimento
enormemente variado, cujo estado, a qualquer dado momento, pode
ser apenas estatisticamente medido, e cujas características sao, em
parte, estabelecidas pelas açÕes da elite que criam a fronteira de
classe e, em parte, pela adaptação dos proletários aos parâmetros
no interior dos quais devem operar — estabelecido para eles de
fora, pelas elites. Deste sistema, umas poucas partículas escapam
pela fronteira. Outras, que praticamente abandonam o sistema, ou
momentaneamente o fazem, são trazidas de volta pelas forças que
estabelecem os parâmetros, ao passo que as partículas da massa
raramente chegam ao menos peito da fronteira.

Clivagem de Elite e Coalisões com Grupos Proletários

Mas, como sempre ocorre com sistemas sociais, a descrição não


é tão fácil e não termina aqui. Dado o sistema capitalista de pro­
priedade privada, lucro e auto-interesse, segue-se também que não
há interesse único, comum, corporativo para a classe alta como
M o r a d ia , A rra n jo s de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 173

um todo e para qualquer parte importante dela. A tendência é a


•divisão em sempre menores divisões de interesse, que chega até o
indivíduo, representado pelo conceito de individualismo no Brasil
e nos Estados Unidos, e a idéia do “ indivíduo grosseiro” neste úl­
timo. Estas divisões de interesse são competitivas de maneiras ego-
centradas e auto-engrandecedoras.31
Pode-se mapear redes e grupamentos estendidos por indiví­
duos em seu próprio interesse, ou por um membro ou membros
de um grupo mais ou menos estável quando os interesses são seme­
lhantes ou comuns (ver Maclver e Page, 1949:32). Os próprios
grupos freqüentemente não têm, eles mesmos, absolutamente ne­
nhuma base corporativa intrínseca, ou, na melhor das hipóteses,
têm uma base bastante tênue, como laços de parentesco egocêntri­
cos característicos de sistemas de parentesco bilaterais como os do
Brasil, Peru e Estados Unidos. Freqüentemente, a estas redes de
parentesco semifechadas, ou mesmo a redes pessoais que não a de
parentesco, é atribuída certa formalização corporativa pela criação
de uma carta de garantia informal ou formal — no primeiro caso,
laços de compadrio e, no último, uma corporação. Redes de rela­
ções de parentesco tomadas corporativas ou redes de relações pes­
soais de parentesco e não parentesco sao ubíquas entre as elites
brasileiras, na forma de bancos familiares, companhias de constru­
ção familiares, empresas individuais familiares, partidos políticos
familiares, etc. 32
Tanto as redes como os grupos competem em sua luta pelos
recursos e ganhos da sociedade que podem ser mobilizados pelo
sistema econômico ou por outros sistemas que detêm dinheiro e
poder, especialmente vários ramos do governo. Como será mos­
trado, eles também competem através do sistema social por recursos
cujo locus se encontra no proletariado, mas que são taticamente
31 É notável o fa to de que cientistas sociais, trabalhando em várias ins­
tituições, e m esm o pessoal das universidades — todos das “ classes” su­
periores” no sentido discutido na nota 28 — constantemente repetissem a
frase ” H á falta de coleguism o aqui” , referindo-se a sua instituição ou
sua situação de trabalho, Era sempre pronunciada n o sentido de que eles
achavam que devia haver um sentimento coletivo em função d o que
estavam fazendo e dos objetivos da instituição, mas que a realidade era
a com petição e a maledicência entre colegas.
32 V er Leeds (1964). A s entrevistas com membros detentores de múlti­
plos empregos feitas para este trabalho deixaram esses fenôm enos bas­
tante claros. Um a entrevista foi com um políítico-industrial-especulador
de terras de um pequeno estado do Nordeste. Um exem plo clássico de
coronetísm o (ver Leal, 1948), incluindo um sistema bi “ partidário” , que
consistia de duas grandes redes familiares com petindo entre si e trocando
bens políticos.
A S o c io l o g i a do B r a s il U r b a n o

^ffcdis em sua competição intestitia — por exemplo, votos da massa


ou (especialmente em Lima) poupanças acumuladas em coopera­
tivas de construção popular. Na medida em que os prêmios variam
em termos de fonte, localização e tamanho, e porque há tanta com­
petição constante e aguda pelas redes e grupos das elites, a duração
;desses grupamentos é indeterminada e flexível. A persistência do
grupo deve ser medida antes pela persistência da estrutura de inte­
resse ou, mais fundamentalmente, pela duração do recurso, poder
e situação política que está por trás dos interesses. Onde tais situa­
ções são bem consolidadas, como no Brasil e nos Estados Unidos
hoje, os grupos tendem a se manter por períodos relativamente'
mais longos, e os modos, tendências, conteúdo e estrutura de com­
petição persistem com eles.
Os próprios recursos, ou as informações a seu respeito, loca­
lizam-se e são coordenados nas cidades, especialmente as maiores.
Todos os aparatos para a detenção de recursos, sua coordenação,;
comunicações, e também a parafernália da competição pelos re­
cursos e o controle da coordenação e comunicações, tende, na socie­
dade capitalista, a se concentrar mais e mais na cidade, de modo
a diminuir os custos, maximizar os benefícios e o poder de con­
centração. Em termos do aspecto físico da cidade, toda essa estru­
tura social é disposta na distribuição dos aparatos que acabei de
mencionar, nos edifícios que os abrigam, e na maquinaria (como
o equipamento do porto, equipamento de construção de rodovias,
etc.) e infra-estrutura, como ruas, metrôs, aeroportos, torres de rá­
dio e televisão, que facilitam seu uso.
Outra força que contribui para a clivagem entre as elites é
a imigração, especialmente de profissionais estrangeiros, ou elites
rurais e profissionais brasileiros, que entram na arena de opera­
ções das elites urbanas já presentes. Obviamente, esses grupos che­
gam em desvantagem, uma vez que ainda não são ligados às úl­
timas de modo algum, ou têm com elas muito poucos laços. Devem,
portanto, competir duramente para reter o seu stalus ou gaühar
novos status e novos recursos. Eles contribuem para dividir a classe
superior em elites fragmentárias.
Ohviamente, qualquer grupo de elite terá vantagem na pro­
moção de seus interesses se encontrar apoio tanto financeiro c<?mo
social fora dos domínios de recursos já comumente acessíveis. Isso
é feito pela entrada em vários tipos de “ coalisÕes” com vários seg­
mentos solidários do proletariado, que estão também trabalhando
em seu próprio interesse ao entrar na coalisão. Essas coalisÕes sao,
evidentemente, ainda mais evanescentes do que as coalisÕes entre
grupamentos de elite, porque não têm características de interesse
M o r a d ia , A k ran jo s de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 175

semelhantes às de elite para mantê-las juntas. Sua duração é total­


mente governada pela medida do que há a ganhar para ambas
as partes, especialmente a elite: se um dos lados não tem mais ne­
nhum recurso ou bem para dar, pára de dar ou faz propostas a
outras partes além daquela com a qual está em conluio, a coalisão
se desfaz. O que é fascinante, tendo descoberto este aspecto da es­
trutura social urbana, é revelar as várias situações nas quais a$
coalisões entre segmentos de ambas as classes ocorrem, freqüente­
mente sem nenhuma deixa com relação à interação da coalisão em
sua forma externa. Dois exemplos do que quero dizer serão sufi­
cientes.
0 Carnaval não é apenas a festa anual da alegria, mas sim
uma estrutura social altamente complexa, perene, que foi descrita
alhures (Morocco, 1966). Basta aqui dizer que no Rio existe
uma relação mais elaborada entre instituições do Estado, especial­
mente o Departamento de Turismo da Guanabara, grandes negó­
cios, especialmente a Companhia Cervejaria Brahma e algumas das
Companhias têxteis, departamentos maiores do Estado, como a Se­
cretaria de Serviço Social, ou até mesmo o governador; redes de
rádio e televisão; importantes casas noturnas; a indústria de dis­
cos; os grandes “ banqueiros” do jogo do bicho, muitos dos quais
são importantes proprietários de bens; e os próprios grupos de car­
naval (ver nota 21), especialmente as grandes escolas de samba
como Salgueiro, Portela, Mangueira, Império Serrano (as “ Quatro
Grandes” ), que são mais ou menos ligadas a favelas ou a áreas
proletárias específicas, geralmente próximas a importantes favelas.
Um sistema de prêmios dado pelo Departamento de Turismo está
ligado a essa relação e a competição entre as escolas na época de
Carnaval, Os prêmios envolvem somas bastante consideráveis de
dinheiro. Outros prêmios adicionais importantes que fluem para os
grupos proletários através das escolas de samba vêm de contatos
com emissoras de televisão, gravadoras ou casas noturnas, e outros
tipos de apresentações.
Uma resposta a tudo isso é a crescente comercialização (ou
seja, apego a e comportamento semelhante aos valores comprados
e vendidos no mercado capitalista) dos grupos de Carnaval, uma
forma de cooperação com o Departamento de Turismo, as compa­
nhias de cerveja e têxteis, e assim por diante, no interesse da pro­
moção do turismo, vendas, consumo, ou, geralmente, atendendo à
saúde dos negócios de elite e do governo, controlados pela elite que
serve aos negócios.
Do ponto de vista da classe superior como um todo, além do
negócio e ganhos em termos de renda, ela pode usufruir coletiva­
176 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

mente dos grupos de Carnaval. Qualquer grupo de elite pode julgar


útil trabalhar com um grupo específico de carnaval ou com parte
dele para realizar manobras do interesse de ambos. A Brahma, por
exemplo, estabeleceu um monopólio virtual do fornecimento entre
as grandes escolas através do fornecimento de milhares de cadeiras
e mesas para suas quadras de ensaios, o que ajuda a atrair turistas
tanto nativos como estrangeiros, bem coxuo membros da comuni­
dade, e ajuda a vender mais bebidas em proveito da Brahma e da
escola de samba, esta chega, no seu auge, a atrair de 30 a 50.000
pessoas por noite»
Todavia, muito mais importante, do nosso ponto de vista, é
que os grandes grupos de carnaval fornecem amplos nódulos orga­
nizacionais para a atividade política; para a conquista de um elei­
torado por um político ou candidato, ambos representativos de al­
gum fragmento de elite; para a aquisição de recursos financeiros
acumulados pelo grupo de carnaval ou por algum de seus líderes
através do grupo e através do jogo do bicho> do qual participa pelo
menos cerca da metade da população da cidade, para grande van­
tagem financeira dos banqueiros. Os banqueiros do jogo do bicho
e os líderes dos grupos de samba freqüentemente parecem refor­
çar-se reciprocamente com manobras financeiras nas épocas apro­
priadas. Alguns desses fundos podem ser canalizados para as elites.
Deve-se observar que os grupos maiores podem ter sócios ou uma
clientela regular de cerca de 5.000 pessoas, consistindo (a ) daque­
les que assistem aos “ ensaios'’ quase que diariamente, à noite, na
quadra, nas semanas anteriores ao Carnaval, e (6 ) de pessoas or­
ganizadas pelo grupo para a coreografia da apresentação de rua no
Carnaval.
Para os grupos proletários de samba, o interesse na coalisão
são os pagamentos — obtenção de uma escola, um sistema de água
ou espaço de recreação para a escola de samba, mas utilizável pela
comunidade; obtenção de um patrão no governo que pode tentar
canalizar bens, serviços, empregos ou dinheiro para a favela; ob­
tenção de alguns itens da legislação conduzidos através da assem­
bléia do estado (quando funciona) com o objetivo de, por exem­
plo, declarar uma rua, edifício ou área de “ utilidade pública” ,
protegendo-a desta forma da remoção por lei, e assim por diante.
Os grupos de samba continuam a ajudar e a dar votos enquanto
seu homem continua a favorecê-las33. Tais coalisÕes podem manter-
se com sucesso durante anos contra a oposição.

33 Este era o caso de G eraldo M oreira, que detinha vários cargos no


Distrito Federal, especialmente o de vereador; ver Leeds (1972:50-52).
M o r a d ia , A r ra n jo s de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 177

Os esforços para mobilizar apoio e estabelecer laços para uma


coalisão podem ser vistos em qualquer ensaio importante. Por exem­
plo, observamos, numa noite o Governador Negrão de Lima e seu
Secretário de Serviço Social na Mangueira; outra noite, um depu­
tado, um cientista social e um embaixador na Unidos do Jacaré;
em outra, várias pessoas conhecidas de elite no Salgueiro.34
0 segundo exemplo é o das associações de favelas. Nem mes­
mo a presença da f a f e g (ver pp. 27-28) impedia as associações
das favelas de tenderem a ligar-se aos órgãos administrativos exis­
tentes, abertamente ou às escondidas, a alinhar-se com um ou outro
dos hoje legalmente “ não-existentes” (ou “ ex” , como o& brasilei­
ros diriam) partidos políticos militarmente suprimidos, os quais
operam clandestinamente (especialmente o p t b , o p s d e a u d n ) ,
ou suas antigas coalisões (ver E. Leeds, 1972). Os velhos partidos
políticos, suas divisões e coalisões, e as “ sublegendas” de 1968 em
diante,85 representam eles mesmos facções, talvez mesmo paneli­
nhas (cliques de elite, ver Leeds, 1964), no interior da classe alta.
Facções do e x -P T B operam em coalisão com algumas associações de
favelas com o objetivo de criar eleitorados e seguidores que podem
ser usados de várias maneiras, particularmente nas eleições (se
e quando houver alguma), para obter o máximo de vantagem para
o partido, especialmente sob as restrições impostas pelo Governo
militar desde 1965, ou olhando para o futuro, quando eleições re­
lativamente “livres” forem restabelecidas. Podem também ser usa­
dos como grupos para uma representação pública perante o governo,
para apoio deste ou daquele burocrata com quem estejam em coali­
são. O burocrata retribui esse apoio dando proteção, segurança de
posse, bens, serviços, dinheiro, empregos. A politicagem dessas coa­
lisões, umas contra as outras, nas favelas, pode ser bastante com­
plexa, ferrenha, envolvendo esforços para a obtenção do controle
34 T o d o ano a escola de samba deve escolher qual de vários sambas es­
critos p or sua “ ala de com positores” será o samba-enredo, descendo a
avenida. A seleção é realizada p o r um quadro próprio para este pro­
pósito, que se reúne uma noite, cerca de seis semanas antes d o carnaval,
e julga a apresentação das várias canções. N o caso das grandes escolas,
pessoas de fama nacional são convidadas, e de fato com parecem — por
exemplo, o novelista mundialmente fam oso Jorge A m ado, que controla (ou
controlava antes de 1964) uma linha de patronagem nas artes, a qüal
se liga a postos de embaixadores e adidos culturais e coisas semelhantes.
Pessoas de importância equivalente em outras área são também procura­
das.
35 Os velhos partidos tentarem fazer com que o governo militar re co ­
nhecesse os grupos de interesse no interior do sistema bi-partidário sob
a rubrica de “ sub-legendas” ; estas eram essencialmente os velhos parti­
dos tentando se reagrupar,
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano
im

das associações de favelas, das comissões de eletricidade; para in­


fluenciar os clubes sociais e de futebol, as igrejas e as sociedades
recreativas. As técnicas vão da flagrante manipulação do voto a
complexas manobras entre vários grupos e a promessas de favores
'"bor parte de candidatos eleitos.36 Arranjos paralelos existem pro­
vavelmente nas vilas, conjuntos, parques, e assim por diante, em­
bora poucos dados existam sobre isso.
0 resultado deste tipo de coalisão é a distribuição por toda
cidade de uma série de coalisões mais ou menos paralelas, mano­
brando por proeminência, controle, liderança e influência, mas que
atravessam a fronteira elite-proletariado. Discuti alhures outras
formas dessa travessia com referência específica às oligarquias bra­
sileiras (ver Leeds, 1964). Estas simplesmente intensificam o fe­
nômeno das divisões tanto no interior da elite como do proleta­
riado e a competição entre as coalisoes.
Condições semelhantes são encontradas em Lima, embora ela
não pareça ter paralelo com os grupos de carnaval do Rio, Os
principais grupos proletários solidários envolvidos em tais coalisões
são (a ) as associações de barriadas e/ou associações de blocos no
interior das barriadas; (fr) as associações de construção cooperati­
vas compostas inteiramente de pessoal proletário; (c ) as associa­
ções de construção mútua, mais predominantemente de classe mé­
dia, mas com algumas pessoas da classe trabalhadora, e, possivel­
mente ( d ) associações regionais. Grupos específicos de cada uma
dessas categorias são envolvidos em negociações complexas com vá­

36 D ou três exemplos, todos de uma favela suficientemente grande (2%


da população do R io )» para afetar criticamente os resultados das elei­
ções em seu distrito eleitoral, e m esmo n o estado co m o um todo. Pri­
meiro: de 1965 em diante, havia uma Comissão da Luz (cr.), na referida
favela, vinculada a, e oficialmente reconhecida pela Comissão Estadual
de Energia ( c e e ) s a qual criou as c l s em algumas favelas, com eçando por
volta de 1964-1965, A c l era responsável por organizar um sistema de
distribuição de eletricidade para toda a favela, freqüentemente às expen­
sas dos proprietários privados dos sistemas de fornecim ento elétrico usados
de form a exploradora para engrandecimento pessoal. Numa favela de mais
de 10.000 pessoas, com o essa, grandes somas de dinheiro estão envolvidas
n o conjunto das contas dos consumidores; o contato com os consum ido­
res também permite a extensão de redes cie patronagem pelos comissários
da Luz, através de favores ao consumidor (p or exem plo, reduzindo os
custos da instalação). A c l estava originariamente sob o controle de um
m orador da favela intimamente ligado ao padre, que estabelecera uma
grande igreja e um centro social na favela, e ambos estavam ligados à
u d n através de uma hierarquia de laços. O c e e ta m h é m estava, origina­
riamente, nas mãos da u d n , a té que a eleição de outubro de 1965 trouxe
a coalizão psd-ptb aos cargos que controlavam a patronagem estadual. O
controle d o c e e , m uito embora certas pessoas de administração anterior
M o r a d ia , A r r a n j o s de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 179

rios órgãos representantes das elites da classe alia, como bancos,


instituições do governo, detentores de cargos políticos ligados a
partidos políticos (quando estes eram ainda abertamente ativos,
particularmente a APRA, que tinha ampla base de massa nos pro­
letariados industrial e agrário, mas não era forte nas barriadas)v
competindo com outros detentores de cargos políticos em outros
partidos, escritórios burocráticos e, possivelmente, firmas de negó­
cios, como companhias de material de construção. 0 poder de bar­
ganha das barriadas tornou-se muito claro imediatamente após a
tomada do governo pelos militares, em 1968, porque este não tinha
eleitorado ou apoio claro. Ele começou imediatamente a adular
fossem mantidas ainda no escritório central, passou para o p t b , mas a CL
da favela estava ainda nas mãos da facção u d n . A s regrs da c e e exigiam
eleições periódicas, e ocorreu uma na favela poucos meses depois da
eleição estadual. O c e e enviou supervisores para a eleição, dos quais uma
das obrigações era a de instruir os eleitores inseguros — a maioria deles —
nos procedimentos do voto. Foram dadas instruções de m odo tal a indicar
ao eleitor co m o votar nos candidatos do p t b , que, não surpreendentemen~
te, ganhou.
Segundo: os novos comissários da c l eram intimamente ligados ou
idênticos à clique do p ib na favela, que por vezes tivera o controle de,
ou uma forte influência em, várias associações dos moradores (nunca
muito viáveis nessa favela e, pelas regras do c e e , exclusivas da c l , e vice-
versa — uma técnica deliberada de dividir e governar por parte do c e e
com o um m eio de dividir a organização proletária potencial). Esses ho­
mens apareceram na noite da seleção (ver nota 33) da escola de samba,
que era bem grande, mas não do primeiro grupo, em companhia de Lu-
tero Vargas, filho de Getúlio Vargas e um dos líderes da ala esquerda
do PTjt, que esperava tornar-se candidato a deputado federal (antes que
o governo militar o desqualificasse). Ele se dirigiu à grande assembléia,
que consistia da comissão de seleção (de alguma importância local) o
cerca de 400 a 500 moradores reunidos paar essa importante ocasião, e
faíou, na retórica populista padrão, das necessidades do p ovo da favela,
do direito à autodeterminação da favela, que não era mais uma favela,
mas um bairro (um tema familiar aos m oradores), de seu desejo de aju­
dar o bairro e suas associações na melhoria de suas condições, etc., obvia­
mente tentando ganhar a lealdade da escola.
Terceiro, uma pequena escola na parte dos fundos da mesma favela
ofereceu um jantar cerimonial para o qual várias pessoas de alguma
importância na favela foram convidadas, em parte para ajudar a recuperar
a sua imagem, e aumentar novamente a sua fortuna. A escola estivera em
declínio, seu presidente era idoso, e estava obscurecida pela ascensão
daquela discutida acima — as únicas pessoas que compareceram foram o
fiel antropólogo e um voluntário do Corpo de Paz. Todavia, o deputado
— esperando uma multidão de pessoas inFluentes da favela — também
apareceu com um cabo-eleitoral extrafavela (ver E. Leeds, 1972:24-26)
na esperança de fazer negócios políticos em alguma form a de coalisão e
de encontrar um curral eleitoral através de membros inFluentes da co ­
munidade.
A So c i o l o g i a do B r a s il U r b a n o

as B a r r ia d a s (prontamente rebatizadas como pueblos jóvenes, para


apagar a pejorativa “ barriada” ) dando-lhes serviços melhorados,
ampliando esIradas e transportes, legalizando a posse e dando se­
gurança de ocupação, distribuindo títulos, ajudando a melhorar a
infra-estrutura no interior das barriadas, etc. Esperava, em troca,
s e r capaz de uni-las ao Sistema Nacional d e Mobilização Social
f s i N A M O S ) , mas as barriadas participaram apenas na medida em
que lhes convinha e que continuavam a obter recompensas — e
então resistiram.
Em suma, tanto no Rio como em Lima, que considero repre­
sentativos do modelo genérico de uma classe de cidade, e suas or­
dens sociais, encontramos um processo que separa as elites do pro­
letariado, reforça continuamente as fronteiras entre eles, e tende
a gerar em cada um uma organização de classe plena. Ao mesmo
tempo, a estrutura da economia nacional e o mercado de trabalho
urbano, além da ação deliberada por parte das elites, tendem a
fragmentar o proletariado organizacionalmente, fato que se reflete
nos arranjos habitacionais e na necessidade que tem o proletariado
de circular entre um conjunto de tipos de moradia, de modo a ma­
ximizar sua habilidade em alcançar seus objetivos no interior dos
estreitos parâmetros permitidos pelas elites, A fragmentação é in­
tensificada pela imigração. A classe superior também tende a frag­
mentar-se devido à natureza da própria empresa capitalista e de­
vido à imigração. Seus membros estão constantemente em competi-
ção entre si, criando assim fragmentos de classes. Em sua luta com­
petitiva, buscam apoio fora de suas fontes de recursos usuais, vol-
Iando-se para aqueles fragmentos do proletariado que podem dar-
lhes recursos utilizáveis ná luta pelo poder, riqueza e prestígio. Os
fragmentos proletários — especialmente sua liderança — acharam
vantajoso e conveniente entrar em coalisão com os fragmentos de
elite de modo a deles extrair recursos com os quais podem (a )
melhorar a vida da comunidade e (&) solidificar suas próprias po­
sições ocmo líderes. Em troca, fornecem votos, eleitorado, dinheiro
e possivelmente outros valores às elites. 0 resultado é a articula­
ção de grupos sociais, áreas geográficas e instituições da cidade nu­
ma ordem social complexa que, num grau marcante, é coextensiva
à própria cidade em termos físicos, e representa uma série de nós,
relações entre eles, e múltiplas trocas baseadas nos recursos exis­
tentes na cidade e impossíveis sem eles.

Implicações para o Planejamento

Em outras palavras, a cidade física é, em grande medida, uma


cristalização temporal da ordem social total da cidade — das in­
M o r a d ia , A rra n jo s de V id a , P r o l e t a r iz a ç ã o 181

teraçÕes e interesses das elites e proletariados. A cidade física, como


vista na realidade, e não na prancheta dos planejadores, é ininte­
ligível sem a compreensão do processo de proletarização e da ação
proletária. Em geral, certamente em sociedades capitalistas, se não
mais amplamente, o processo e ação proletária sao ambos negli­
genciados, pensados com relação a características específicas —
como as áreas invadidas por posseiros — , como aberrações, ou pen­
sados com relação a características específicas — como, por exem­
plo, com relação às favelas, mas não a outros tipos de habitação-
Certamente, no Rio, a maior parte do pensamento sobre a cidade
física situou-se entre a primeira e a segunda dessas formas, en­
quanto em Lima, até os últimos anos, quando foi bem mais além
(ver Leeds, 1973b), vinha se situando entre a segunda e a terceira.
Em conseqüência, os planejadores, que praticamente sem ex­
ceção são recrutados nas elites, vêem a cidade física apenas de modo
parcial, Como membros da elite, vêem-na como um processo de
elite. Vêem a cidade futura para a qual o planejamento deve ser
feito em termos do futuro extrapolado da classe alta, ou, mais pro­
vavelmente, daqueles subsegmentos mais intimamente ligados às
profissões e ao governo. Uma vez que a maioria deles vê a cidade
apenas parcialmente, eles sempre a planejam parcialmente.
Planejar parcialmente significa que o planejamento é feito
apenas para alguns dos papéis sociais da cidade. Uma vez que a
ordem social da cidade envolve inerentemente a interação com, e a
ação da(s), parte(s) para as quais não se planejou, sempre ocorre
que processos, acontecimentos e situações imediatamente ligadas a
cidade como um processo social não são levados em conta nos pla­
nos. Na pior das hipóteses, a parte considerada e a não considerada
estão em contradição conflituosa direta e conduzem à luta social
intensifiead aeja cenários urbanos em deterioração — como no
ca&o do Rio hoje (ver Leeds, 1973b) e possivelmente importantes
cidades norte-americanas, como Washington e Nova York. Na me­
lhor das hipóteses, pode haver uma coincidência acidental de inte­
resses por um curto prazo, como talvez no caso de Lima, onde
ainda hoje, depois de contínua pregação desde que foi assumido
o encargo da realização de uma reforma urbana, nada existe ainda.
Em geral, então, qualquer planejamento urbano que não leva
em conta toda a ordem social da cidade está fadado ao fracasso,
como os planos urbanos que, em parte ou como um todo, fracas­
saram continuamente. Nas sociedades marcadamente divididas por
linhas de classe, onde posições oficiais tais como aquelas dos pla­
nejadores são preenchidas apenas por membros de uma classe, os
fracassos tendem a ser de grandeza ainda maior — por exemplo,
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

“p caso de Brasília (Epstein, 1973). A implicação pareceria ser a


ãe que o planejamento urbano bem sucedido requer a eliminação
Ha classe. Eu tendo a achar que esta, também, seria uma visão de­
masiado otimista. O problema é que um plano prevc apenas uma
gama de possibilidades, levando em consideração a forma da orga-
’-nizaçao social que existia na época do planejamento ou imediata­
mente depois deste. Mas a dialética da mudança não segue neces­
sariamente a visão do planejador, e o não-antecipado e o imprevisto
-ocorrem — “ o super” crescimento de Moscou, numa sociedade su-
ipostameníc sem classes, é um caso em questão (Hall, 1966, ca­
pítulo sobre Moscou). Possivelmente, teremos que chegar ao pon­
to de vista de que o processo social é, ele mesmo, o processo de
planejamento.

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1963 “ Dwelling resources in South America: urbanization case
study in Peru” , Architectural Design (agosto): 360-393.
Uzzell, J.D.
1972 “ Bound for places I’m not known to: adaptation of migrants
and residence in four irregular settlements in Lima, Peru” .
Tese de doutorado. University of Texas, Austin,
VI

Favelas e Comuisidade Política; À Continuidade da


Estrutura de Controle Social *

A n th o n y L eeds e E l iza b e t h L eeds

Introdução

Pode-se perfeitamente dizer que, nas últimas décadas, houve


um crescente reconhecimento na América Latina, se não no mun­
do, de uma intensificada crise de urbanização. A crise consiste no
imenso crescimento populacional das cidades, por um lado, e, por
outro, na falta de recursos, especialmente na habitação e infra-
estrutura urbana a ela relacionadas, para ocomodar os urbanitas
nativos recém-chegados, particularmente aqueles de baixa renda.
O grau dessa falta e, como conseqüência, a intensidade da crise
dependem um pouco dos padrões de habitação e infra-estrutura es­
tabelecidos como normas. Estas normas e, com elas, as definições
do problema da “ habitação social” ou “ habitação de interesse so­
cial” — eufemismos freqüentemente usados para a habitação ba­
rata de baixa renda — são estabelecidas em larga medida pelos
membros das classes de renda superior que controlam também a
construção e as políticas e instituições urbanas.
0 Brasil não foi exceção tanto no que diz respeito à onda de
urbanização como no que se refere ao reconhecimento da crise

* O trabalho baseia-se, em parte, em dois anos de trabalho de cam po


n o R io , e, em parte, em fontes documentais e publicadas (ver Leeds e
Leeds, em elaboração). O trabalho de cam po e o estudo foram feitos,
em todos os sentidos, em colaboração. Mas E. Leeds tem a responsabili­
dade m aior pela síntese das pontes documentais publicadas no estudo.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 187

crescente. O reconhecimento é encontrado em um número imenso


de relatos sobre “ o déficit habitacional” e em uma vasta literatura
de declarações publicas, estudos sociológicos e pronunciamentos su­
perficiais especialmente com relação ao “ problema da favela” . Os
temas da habitação e da favela aparecem já por volta de 1880,
mas, em termos de alcance e volume, tornam-se significativos ape­
nas na década de 1940 e urgentes apenas na de 1950 *— refle­
tindo o rápido crescimento das favelas e a elaboração de resposta
institucional, os quais devem ser, ambos, examinados, caso se quei­
xa compreender a década de 1960.
A década de 1960, embora um corte artificial e mesmo im­
próprio do fluxo histórico, tem certa significação para o Brasil e
para o estudo das favelas. O ano de 1960 é um divisor de águas,
no qual o Rio de Janeiro, o lugar de maior concentração de fave­
las no Brasil, deixou de ser a capital nacional, enquanto Brasília,
então ainda quase um povoado, tornava-se da noite para o dia
uma capital e uma cidade com a sua própria _coleção de favelas.
Como um Estado, o Rio tornou-se verdadeiramente independente
politicamente — mais do que como Distrito Federal, um elemento
meramente administrativo da sociedade nacional — fato da maior
importância tanto internamente para o novo Estado da Guanabara
(em suas políticas habitacional e urbana, por exemplo) quanto
para o governo nacional, em relação ao qual ele permanecia ainda
numa certa oposição dialética, agora quase que totalmente ani­
quilada.
À década de 60_se caracteriza também, pela crescente disso­
nância das linhas eoqtrapontístiças de desenvolvimento no interior
da sociedade, de modo que a textura da composição em algum
ponto precisava quebrar-se para se estabelecer como uma nova for­
ma de desenvolvimento* Essa quebra foi,o movimento militar de
1964, com todas as mudanças institucionais significativas que ele
produziu. Estas, em suma, gelaram mudanças no curso na poli-
tica de desenvolvimento de abordagens institucionalistas para abor­
dagens monetaristas, mudança esta que se refletiu na política ha­
bitacional e urbana, no controle salarial, nas estratégias de impor-
tação-exportaçao e. em desenvolvimentos in£ra-estruturais. Talvez
ainda mais importante, elas envolveram uma expansão drástica de
uma extensa inovação em uma feroz aplicação de controles sócio-
políticos.
Apesar das mudanças na política e na ação, as novas formas
de desenvolvimento perpetuaram velhos elementos e temas, seja
porque estes velhos elementos não podiam ser erradicados, seja
porque se julgava desejável mantê-los. Essa continuidade através
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

âos anos 60, com suas raízes no século passado, pode ser encon-
trãda átravés do exame de um certo conjunto de políticas, linhas
He pensamento e instituições através das quais essas políticas foram
implementadas ao longo dos últimos 80/90 anos.
Subjacente a essa continuidade nos anos 60 encontra-se uma
"estrutura societal brasileira cuja ordem básica foi mantida e irre­
gularmente reforçada ao longo desse período, desde que a primeira
favela surge, por uma série de instituições variando em formas*
mas semelhantes em objetivos e efeitos.
Um de tais conjuntos de políticas é o que se refere à popu­
lação urbana de baixo nível de renda, em grande parte, mas não
totalmente proletária, e especialmente, mas não exclusivamente,
àquele seu segmento que reside em áreas invadidas por posseiros»
ou favelas1. As favelas do Rio fornecem uma amostra especialmen­
te interessante da população urbana de baixo nível de renda, não
apenas por causa de seu grande número, ampla variedade e grande
população, mas particularmente pelo fato de que elas se localizam
no que é, ainda hoje, o centro significativo da tomada de decisões
no Brasil, o Rio de Janeiro.
Neste estudo, mostramos que, nos anos 60, a política relativa
à favela, apesar de marcada por variações externas na forma, é
j essencialmente a continuação de uma política de controle, que re-|
monta, pelo menos, aos anos 30. Pqe_ vezes, esse controle reveste-
se de adornos mais populistas — por exemplo, na forma de. “ urba­
nização”2 in loco das favelas, mas em outros momentos aparece
sob uma forma mais repressiva, como, por exemplo* a remoção to­
stai das favelas e rigorosa supervisão administrativa das unidades
habitacionais governamentais de “ emergência” , chamadas “ parques
Jproletários” . À natureza da solução política particular varia direta­
mente com relação à ideologia nacional reinante e à ordem polí­
tica. Assim, quando um regime mais populista controla a comuni­
dade política, então tende a surgir uma política relativa à favela
mais comprometida com soluções “ sociais” e “ humanas” , ao passo
que o regime militar e outros regimes elitistas tenderam a pro­
duzir políticas mecânicas, administrativas e repressivas. Ambos os
conjuntos de política, todavia, podem ser vistos como objetivando
um controle governamental sobre as massas. Ainda_ mais,_ a polí­

1 Favela é a palavra usada para áreas invadidas por posseiros n o R io


de Janeiro e outras cidades d o Brasil, Para uma discussão detalhada, ver
A . Leeds, 1969.
2 O term o “ urbanização” , a não ser quando indicado, será usado neste
trabalho n o sentido espanhol e português de fornecim ento de serviços
urbanos e infra-estrutura para uma área da cidade.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 189

tica relativa à favela torna evidente, argumentamos, a natureza


essencialmente elitista da comunidade política brasileira que, mes­
mo nas fases mais populistas da história do Brasil, significou sem­
pre um firme controle sobre as classes mais baixas através de um
governo basicamente representativo das classes de elite proprietá­
rias e ricas da sociedade.

Continuidade Histórica na Estrutura do Problema Habitacional

Os problemas de habitação do pobre urbano têm preocupado


os brasileiros pelo menos desde a última metade do século XIX. Em
1886, o Conselho de Saúde do Distrito Federal escreveu alguns re­
latórios, todos deplorando as condições dos cortiços3 e concordando
em que as habitações eram higienicamente perigosas e que os mo­
radores deveriam ser removidos “ para os arredores da cidade em
pontos por onde passem trens e bondes” . Os relatórios pressiona­
vam o governo a expropriar os cortiços, destruí-los, e construir casas
individuais para o pobre (Br., Conselho Superior 1886: 15-16).
Foi sugerido que as taxas de água e de limpeza sobre as “ casas hi­
giênicas” fossem diminuídas para incentivar a elevação do padrão
de saneamento (p. 21). Pode-se verificar que pouco progresso foi
obtido, como nossa revisão das discussões e políticas correntes de­
monstrará mais adiante.
0 reconhecimento de que o problema da habitação era de com­
petência nacional é visto primeiramente nos trabalhos de Everardo
Backheuser, um engenheiro da Administração do Presidente Ro­
drigues Alves, logo depois da passagem do século. Num relato bas­
tante informativo ao Ministro da Justiça e Negócios Interiores cha­
mado Habitações Populares (1906), Backheuser descreve os tipos
de habitação proletária urbana numa época em que o Rio, sob a
administração de Pereira Passos, sofria uma “ limpeza” e recons­
trução maciças. A abertura das ruas e avenidas centrais da cidade

3 O term o "cortiço” no R io refere-se a uma construção de vários cô m o ­


dos, em form ato de ferradura, em L , ou retangular, geralmente uma
construção de dois andares com um pátio interno com um , com banheiros
e serviços de lavanderia. O cortiço era um tipo com um de habitação na
passagem do século, em bora poucos existam até hoje. O termo é ainda
usado em São Paulo para designar casas de côm odos de vários tipos e,
geralmente, casas decadentes de áreas pobres. U m clássico retrato d o
tipo de cortiço de área pobre no R io é dado por A zevedo, cerca de 1891,
no início de uma época em que houve preocupação pública com as ha­
bitações de baixa renda (ver Backheuser, 1906, e as referências n o texto),
tendo sido dada também cobertura por uma outra eminente figura lite­
rária além de A zevedo, com o M achado de Assis. O rom ance de A zeve­
d o é ainda a única fonte publicada abordando um estudo de cortiços.
m A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

e a demolição e extinção dos inumeráveis cortiços, sem a substitui­


ção por outra habitação de baixo custo, deixaram os setores mais
pobres da população sem habitação e £orçaram-nos a morar com
outra família em outra habitação na cidade ou a mudar-se para os
“ subúrbios” .4 Só a abertura da Avenida Central (hoje Avenida Rio
Branco) exigiu a demolição de duas ou três mil casas, muitas com
famílias numerosas, deslocando com isso milhares de pessoas (Gou­
lart 1957: 13 ).5 Novas habitações não substituíram as velhas num
ritmo suficiente para impedir a escassez, e como conseqüência os
aluguéis subiram como subiram de maneira geral os valores imo­
biliários no centro da cidade. Dados os níveis de renda, o pobre pa­
gava relativamente muito mais por sua moradia do que os ‘'mais re­
mediados” » A situação tornou-se mais difícil com a lei municipal
de 10 de fevereiro de 1903, proibindo todos os reparos em corti­
ços (Baekheuser; 1906, 1907). Somando-se à intensidade do pro­
blema estava a imigração, que Baekheuser descreve para esse pe­
ríodo de modo bastante semelhante às descrições dos anos 60^ época
em que se supunha que o problema fosse um fenômeno peculiar ca­
racterístico:
“ A situação da classe pobre era, pois, muito precária, apesar da
existência de trabalhos bem remunerados no Rio atualmente. Mas
por isso mesmo chegavam diariamente, de todos os lugares circun­
vizinhos, camponeses, que trocavam seu serviço na roça por ocupa-

4 O termo “ subúrbio” , no R io e em outras cidades brasileiras, refere-se


a áreas n o interior dos limites jurídicos das cidades em questão, consti­
tuídas basicamente por estabelecimentos residenciais de pessoas de classe
baixa ou média; uma área geralmente pouco desenvolvida em termos
de serviços urbanos, rnas mais ou m enos regularmente loteada e estabe-
cclida segundo um plano de ruas, embora estas, na m elhor das hipóteses,
sejam muitas vezes de terra. Contrastam com os subúrbios americanos»
que são áreas geralmente de pessoas de classe média e alta, fora dos li-1
mites jurídicos das cidades centrais. N o R io , os subúrbios situam a 10
ou 30 km do centro da cidade. D o ponto de vista dos m oradores deste
centro, as grandes cidades vizinhas, com o Caxias e Niterói (cada uma
com 500.000 pessoas), incluem-se n o amplo term o "subúrbio” , mas do
ponto de vista dos m oradores destas duas últimas cidades, apenas o
tipo dc área acima definido é propriamente um subúrbio; eles n ão são
moradores de subúrbio — diferentemente dos moradores de Scarsdale com
relação a N ova Y ork ou dos moradores de Newton em relação a Boston.
Assim , a articulação de interesses dos moradores de subúrbios diz respei­
to ao governo da cidade central, e não ao governo da cidade satélite.
5 V er também i b g e , 1953. C om o conseqüência do movimento de massas
para os subúrbios, um aumento de 1.876.325 passageiros por ano foi obser­
vado na Estrada de Ferro Central d o Brasil, linha que serve as áreas su­
burbanas (Goulart, ibid).
F avelas e C o m u n i d a d e P o l í t ic a 191

çoes de operário, . . A população pobre aumentou sem que aumen­


tasse o número de casas” (Backheuser — 1906/7).
A partir deste exemplo, fica claro que algumas características
básicas, como o crescimento urbano, a reconstrução urbana, migra­
ção, a habitação decadente, a escassez de habitação, aluguéis rela­
tivamente elevados para pessoas de baixa renda, superpopulação, e
propostas político-administrativas para soluções do problema habi­
tacional, bem como alguns dos tipos físicos de habitação, têm sido
componentes da situação no Rio desde a década de 1880.

O “Problema da Favela” Vira Moda

Na década de 1880, a favela ainda não existia como um desses


componentes; é apenas por volta de 1895 que a primeira favela
— Favela Providência (ver fotos in Backheuser, 1906) — aparece,
e o “ problema da favela” começa a evoluir, embora despertando
pouca atenção durante as duas primeiras décadas deste século.
Discussões extensas sobre as favelas per se como elementos im­
portantes do padrão habitacional do Rio aparecem pela primeira vez
em 1930, quando o Rio sofria novamente as dores de importantes
projetos de reconstrução urbana,0 quando crises agrícolas nos Estados
vizinhos estimulavam nova e intensa migração para o Rio,7 quando
o acelerado crescimento industrial atraía novas levas de imigrantes
e quando a política econômica essencialmente institucionalista de
Vargas visava a construção de mercados internos para criar um grau
de independência política e econômica para o Brasil. Ao mesmo tem­
po, Vargas deu muita atenção ao proletariado urbano. Essa atenção,
como encontramos em nossos questionários de surveys e entrevistas,
é ainda muito valorizada por pessoas de 30-35 anos ou mais. A
atenção não era desprovida de seus controles, expressos por um po-
pulismo corporativo (ver abaixo) e através de instrumentos legais
tais como o Código de Obras (Diário Oficial Federal, 7 de janeiro
de 1937), em sua tentativa de limitar a expansão e melhoria da fa­
vela.
O código continha (segundo Modesto, 1960) o primeiro reco­
nhecimento legal das favelas c o primeiro de muito apelos, tanto
6 O primeiro planejamento sistemático de conjunto para o R io foi feito
por A lfred o A gache em 1928-1930, na Administração de Prado Júnior. O
plano foi apenas parcialmente realizado, sendo depois abandonado p or
motivos políticos (M odesto, 1960:39, col. 5 ).
7 Durante a década de 1920, um grande com ércio de exportação de café
e a subida dos preços desse produto atraíram grande número de imi­
grantes para trabalhar nas áreas cafeeiras. A abrupta queda dos preços
d o café na época da Crise de 1929 levou muitos desses homens para
áreas urbanas em busca de outros m eios de trabalho.
A S o c io l o g ia do B r a s il U r b a n o
192

oficiais como nao-oficiais, para sua eliminação das favelas e subs-


tuição por “ núcleos de habitação de tipo mínimo” (Artigo 347),
Vendo o problema basicamente como de ordem habitacional, esse
artigo pede a construção de habitações populares ou “ habitações
proletárias” a serem vendidas a pessoas reconhecidas como pobres,
" enquanto o Artigo 349 "proibia” a expansão das favelas: nas fave­
las existentes ficava absolutamente proibida a construção de novas
casas ou a realização de qualquer melhoria nas casas existentes. . .
Assim, na primeira política governamental formal relativa a fa­
velas, os temas de erradicação, de uma “ doença social” e da tentati­
va de solução do problema habitacional por medidas puramente ad­
ministrativas são apresentados — temas que se repetirão periodica­
mente no decorrer dos 30 anos seguintes.
O interesse populista do período de Vargas e a abordagem ha­
bitacional administrativa ao “ problema da favela” cristalizou-se logo
depois do começo do Estado Novo, em 1937. O Governo de Hen­
rique Dodswortb, Prefeito do Distrito Federal no início da década
de 1940, foi o primeiro de 11 mandatos, de 1940 até hoje, a lidar
administrativamente com as favelas.8 A era de Dodsworth deve
ser vista no contexto da ideologia do Estado Novo de Vargas, mo­
delado segundo o fascismo europeu do Estado corporativo. Essa
ideologia ditava suas relações populistas, paternalistas e essencial­
mente controladoras do proletariado através de meios corporativis-
tas. Como diz Skidmore (1967 — 30-31):
“ Os objetivos do bem-estar social e do nacionalismo econômi­
co. . . deveriam ser agora buscados sob uma tutela autoritária. O
resultado foi um aprofundamento da dicotomia entre um estreito
constitucionalismo que havia negligenciado questões sociais econô­
micas e um bem-estar social nacionalista que se tornava inequivoca­
mente antidemocrático.”
As políticas relativas à favela desenvolvidas sob a Adminis­
tração Dodsworth combinam os elementos aparentemente contradi­
tórios de um profundo interesse pela situação angustiante do prole­
tariado e um rígido controle autoritário.
Dodsworth ( A Noite, 17 de outubro de 1945) via sua política
relativa à favela como uma continuação das tentativas do Prefeito
Pereira Passos, 40 anos antes:
“ Depois de um intervalo de mais de 40 anos, coube ao gover­
no do Presidente Vargas reiniciar, por intermédio da Prefeitura, as
providências de ordem prática para a solução do problema das fa­

■8 Para discussão mais extensa da Administração Dodsworth, ver Parisse,


1969.
F avelas e C o m u n id a d e P o l í t i c a 193

velas. Mais de quarenta anos decorridos, permanece o problema,


agravados os seus aspectos urbanos e médico-sociais, contribuindo
de forma nociva para complicar outros problemas. . . Porque assim
é, a Prefeitura na administração atual encarou a urgência e gravi­
dade do caso, procedendo ao estudo sistemático das favelas.”
Na Administração Dodsworth, o indivíduo que teve a maior
responsabilidade para lidar com as favelas e que levou adiante o
estudo mencionado foi um médico, Victor Tavares de Moura, Di­
retor do Albergue da Boa-Vontade e chefc do Serviço Social do Rio
de Janeiro, sob a direção de Jesuíno Carlos de Albuquerque, Dire­
tor do Departamento de Assistência Social na Adiministração Dods­
worth. Moura fala também do interesse de Pereira Passos por fa­
velas, 40 anos antes, fazendo longa citação de um artigo de Back-
heuser em Renascença (ca. 1902), prosseguindo para dizer (1943:
260);
“ Isso ocorria exatamente há 40 anos. Nessa época, Alcindo
Guanabara, no País, Machado de Assis no Jornal do Brasil, Medei­
ros e Albuquerque e Olavo Bilac na Gazeta de Notícias secundaram
Backheuser em sua campanha contra o corliço, a estalagem [uma es­
pécie de casa de cômodos hoje extinta] e a favela. Bilac, tratando
deste assunto, disse: este é o principal problema agora; adiar sua
solução é cometer um crime de desumanidade.”
E surpreendente que pessoas tão eminentes como o novelista
de renome internacional Machado de Assis se preocupassem com o
problema nos inícios deste século!
Por iniciativa de Victor Tavares de Moura, estabeleceu-se uma
comissão para o estudo de saúde e saneamento nas favelas baseado
num censo sistemático. Apesar do enfoque mais limitado definido
pela comissão, as perspectivas de Moura acerca da favela eram b e m
mais amplas e certamente mais extensas do que as da maioria de
seus contemporâneos.
Diversamente de muitas de tais comissões e planos propostos
desde então, depois dos quais nenhuma ação se efetiva, o estudo de
Moura realizou censos em 14 favelas chegando a conclusões raras
para a época. Elas divergiam radicalmente dos mitos — então
como agora — comumente sustentados de criminalidade, marginali­
dade e desorganização social que são ainda usados para caracterizar
as áreas invadidas por posseiros.9 Como exemplos, (a ) foi encon­

9 A permanência de tais mitos pode ser comprovada nas seguintes ci­


tações: ;
a. “ A s péssimas condições de vida que caracterizam as favelas são
apenas em parte conseqüência d o m eio geográfico e das circunstâncias
históricas de sua construção. Eles refletem, sobretudo, a mentalidade &
194 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

trada elevada percentagem de “ favelas organizadas” ; (b ) uma “ ten­


dência pronunciada” para uma ativa vida associativa incluindo clu­
bes de futebol que participam em campeonatos com times locais
estaduais e de outros estados foi também encontrada; (c ) Moura
observou a existência de um sentimento distinto de interação social
e um sentimento de “ nós” ; (d ) os pais cuidavam de seus filhos tão
bem quanto possível, exercendo sua influência educacional (1943:
264-265),
A conseqüência mais visível e duradoura da política de Dods-
worth relativa à favela foi a construção de parques proletários como
substitutos dos barracos de madeira sabidamente insalubres, carac­
terísticos das favelas. As casas de madeira enfileiradas deveriam ser

os hábitos cte uma população que trouxe para as favelas um m odo de


vida pré-form ado e que o ambiente podia apenas agravar.
A anormalidade não ocorre apenas nas vizinhanças; ela se reflete
também na irregularidade de mais da metade das famílias, uma irregu­
laridade, na maioria dos casos, anterior a sua chegada ao R io. Ela se
expressa na ociosidade de grande parte dos homens, embora eles sejam
aptos para o trabalho. Ela se torna evidente no estado de abandono em
que as crianças se encontram. Essa situação se agrava mais ainda pelo
fa to de que as favelas constituem um refúgio ideal para a camada in­
ferior dos marginais, cariocas ou imigrantes, o que produz o contágio de
uma fração dos moradores, especialmente os jovens.” ( i p e m b , 1957: 36)
b . '‘Com relação aos favelados e especialmente às pessoas de cor
que predominam entre eles, tem havido um preconceito amplamente difun*
dido e profundamente enraizado de que se tratava de uma população primi­
tiva, não dotada de qualquer estrutura mental, seja por natureza ou por
conseqüência do deslocamento a que esta população se submeteu.
Nada mais errôneo! O favelado, com o o sabemos agora, não tem
uma mente virgem. Pelo contrário, seu subconsciente carrega não ape­
nas as tendências provenientes de seu substrato étnico, mas também aque­
las nascidas através dos séculos e milênios de uma vida ancestral rica em
form as psíquicas, sempre muito peculiares e> freqüentemente contraditó­
rias. E em sua débil consciência criativa preponderam tradições e hábi­
tos herdados de um passado familiar e freqüentemente pessoal n o cam po.
Desta form a, o favelado tem uma mente anquilosada por automatismos,
poucos, mas muito poderosos. É evidente que não por acaso, mas por
razões raciais, os nordestinos são mais beíicistas que os outros; não é
por acaso, mas por causa da pressão subconsciente do animismo ances­
tral que os negros produzem duas vezes mais macumbeiros que os bran­
cos ou mulatos; e não é devido às contingências sociais o fato de que
uma a p r e c i á v e l p e r c e n t a g e m de f a v e l a d o s , a n t e r i o r m e n t e c a m p o n e s e s ou
filhos de camponeses, conseguiram, apesar de sua miséria, converter-se
em pequenos proprietários.
Assim, a vida mental d o favelado é dominada alternativamente por
um subconsciente anquilosado e por uma consciência maleável. Em ambos
os casos, ele é um inadaptado” . ( i p e m e , 1958: 31)
c . “ A s fa v e la s ... apresentam as mais precárias condições de habi­
tação e higiene, expondo seus moradores a situações de promiscuidade e
F avelas e C o m u n id a d e P o l í t i c a 195

temporárias como habitação e transitórias como local de moradia,


até que casas mais permanentes pudessem ser construídas para os
ocupantes. Na verdade, muitos dos parques permanecem até hoje,
“ a f a v e l a r a m - s e ” e são hoje popularmente chamados de “ favelas da
chapu branca” (os carros do governo têm chapas brancas).
O primeiro parque construído (N.° 1 da Gávea) era origina^
r i a m e n t e em lugar agradável para morar. Tinha uma escola, uma
clínica médica, uma creche, um mercado, uma escola técnica, uma
cantina para desempregados, um posto de bombeiros e áreas recrea­
tivas. Velhos moradores lembram hoje com prazer o primeiro ano
do parque (entrevistas, outubro, 1969).
0 primeiro administrador do Parque Proletário foi, em súa
atitude e modo de organização, um verdadeiro exemplar da ideolo-

delinqüência. Deve ser enfatizado que valores humanos co m o a êóesão


familiar, a solidariedde e o amor pela terra natal, característicos dessás
populações migrantes, são destruídos com o conseqüência de tais condições
de vida.” (1963, Congresso d o M ovim ento Universitário de Desfavela-
mento no Nordeste citado em ip e s , 1966:8) ■
d . “ Nas favelas se constituem aglomerações humanas extremamen­
te populosas à margem da lei e da civilização. Verdadeiros cadinhos de
criminosos, selvagens e inadaptados, as favelas cohstituem um dos aspectos
mais negativos de nossa civilização” (seminário, 1967:64, para um tra­
tamento igualmente revelador, ver Seminário, 1967:76-77, traduzido, em-
A . Leeds, 1968:40, nota).
e. “ Se, para o favelado, tudo é ruim, se ele mora no m eio d€t
emanações sulfídricas dos mangues ou numa encosta prestes a desabar,,
para a cidade as encostas de favelas são as mais nocivas porque afetam­
os aspectos estéticos, afrontando o incomparável panorama do R iò de Ja­
neiro; produzem o desflorestamento que afeta toda a higiene da cidade,
despejando suas imundícies e seus esgotos nas ruas das zonas urbanizadas
da c i d a d e ...” (Seminário 1967:77)
f. Da p. 2: “ Instabilidade de grupos, baixo padrão de vida, alto
índice de analfabetismo, messianismo, promiscuidade,, hábito de andar des­
calço superstição e baixo espiritismo, falta de recreação sadia [ ! ! ] , re­
fúgio de marginais, Raríssímos são os filtros para água potável. Nos
barracos, fechados durante a noite com o defesa contra ladrões, o ar é
confinado. A falta de asseio corporal e do barraco, as em anações dos
alcoólatras tornam o ar n a u seoso.. . as condições precárias do barraco
prolongam as tosses, as b ro n q u ite s... B aí nascem e crescem as crian­
ças e chegam à idade adulta, quando chegam. A maioria dos barracos
obtém sua eletricidade de uma cabine” [um explorador privado de um
relógio de lu z].
Da p. 3: “ Os jovens iniciam sua vida profissional sem um m ínim o dè
educação básica; eles aceitam qualquer trabalho, sem seleção vocacional
ou treinamento, aprendendo no trabalho, tornando-se trabalhadores prár-
ticos, mas nunca técnicos em algum o fício que não correspofida á
suas tendências, para eles, não há ideal em receber mais do que o m e­
nor salário m ín im o ... famílias chegam d o interior puras e unidas sejác
legaftnefifcf. ou par união natural, porém estável. O processo de desinte-
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

gía estadonovista.10 A autoridade da Administração sobre os mora-


dores era total. Todos os moradores tinham carteiras de identifica­
ção, que apresentavam à noite nos portões guardados que eram fe­
chados às 22 horas. Toda noite, às nove, o administrador dava um
“ chá” ( “ chá das nove” ) quando ele falava num microfone aos mo­
radores sobre acontecimentos do dia e aproveitava a oportunidade

gráção ocorre na favela com o resultado da habitação promíscua, maus


exemplos e dificuldades financeiras,
A promiscuidade é aceita com o condição natural.
A s jovens são seduzidas e abandonadas, engravidam, mas não se
envergonham com isso. É a seguinte a m oral nas favelas: a mulher ho­
nesta tem de ter um hom em que a defenda, se possível que sefa marido;
è suspeita a mulher que não tem um hom em , pois isso significa que fica
livre para ser de muitos.
Os rapazes se corrom pem m enos por serem obrigados a trabalhar
309 14 anos para ajudar n o apoio à família.
Em algumas favelas, os adultos traficantes de m aconha procuram
associar o jovem às suas atividades e o obrigam a ser portador da “ erva
maldita” .
A s noites pertencem aos marginais que se acoitam nas favelas. Os
m oradores pacatos recolhem-se após 0 trabalho diário e não mais sé
aventuram pelas vielas. Se em altas horas da noite ouvem-se gritos de
socorros, os ouvidos permanecem surdos: “ Sou chefe de família, tenho de
ganhar o pão dos meus filhos. Se sair em socorro de alguém que esteja
sendo agredido, amanhã serei eu o sacrificado.” E assim perpetram-se oí»
erimes.
Na calada da noite, só aos pares os policiais penetram nas favelas.”
Da p. 4: “ A gente favelada é boa; gente humilde, sofredora, dedicada,”
Deve-se observar que esse docum ento oficial de 1969 não m enciona
a Comissão Estadual de Luz, que, desde 1965, vinha se introduzindo na
favela, especialmente nas favelas sob 0 controle da Fundação. D eve ser
observado também que muitas dessas mesmas favelas são as mais envol­
vidas na cidade, e, co m o nos casos d o Jacarezinho e Barreira d o V asco,
suas casas são entre 90-95% de tijolos e reforçadas de concreto, havendo
talvez 30-40% de casas de dois andares. A lém disso, deve-se observar que
praticamente todos os m oradores da favela, com o todos os brasileiros, to­
mam obrigatoriamente um banho diário (ver acim a); que os moradores
das favelas participam profundamente do futebol (co m o o resto da po­
pulação brasileira) com inúmeros clubes, inúmeros grupos de carnaval (ver -
M orocco, 1966), e outras recreações. Finalmente, cerca de 20-30% das
populações das favelas, em nossa experiência, são protestantes e grande
parte do restante relativamente devota à religião católica. Que tal quadro
dos m oradores da favela seja pintado em 1969 por um órgão dessa es­
pécie pode se dever apenas à m á-fé, a motivos políticos, ou a ambos. N ão
p od e ser ignorância (Fundação, 1969).
10 Gostaríamos de agradecer a M aria Coeli de M oura, R io, por sua
cooperação em ceder-nos os arquivos de seu pai sobre favelas, os quais
incluem correspondência, artigos de jornais,, fotos, memórias e con fe­
rências dadas por V ictor M oura.
F avelas e C o m u n id a d e P o l í t i c a 197

para as lições “ morais” que eram necessárias” 11 (M. F. de Moura;


1969:4).
Os parques eram em grande parte uma criação do período do
Estado Novo de Vargas, que combinava controles administrativos,
“ consciência” social governamental, retórica eorporativista, e a re­
verência da parte do proletariado por “ pai Gegê” tido quase como
um santo.12 Jornais favoráveis a seu governo descreviam a visita
de Vargas ao Parque Proletário da Gávea, a 17 de julho de 1943:
“ Homenagens calorosas” , “ vivas” a Vargas e marchas agitadas to­
cadas para o presidente caracterizam a ocasião (vários jornais de 18
de julho de 1943; arquivo Moura). Num relato sumário de Moura
sobre uma favela desejosa de ser transferida para um parque, ele
fazia a seguinte declaração ideológica (Moura, por volta de 1942):
“ Confio na fibra dos que, a frente de tão grande empreendi­
mento — o Estado Novo — , procuram tudo fazer em benefício dos
que necessitam, e, estou certo, muito em breve lhes patentearão os
habitantes do Centro proletário n.° 1 a maior das gratidões, em ss
consciência de seus deveres no cumprimento de um Ideal .E este
Ideal é o devotamento, o labor perene e construtivo pala Pátria,
cuja mística nos cala fundo, na avalanche progressista do Estado
Novo.”
0 destino dos parques proleLários depois de 1945, quando Var­
gas deixou o cargo, é indicativo tanto da falta de continuidade oom
relação à política da favela entre as administrações individuais como
da rápida mudança no complexo da política brasileira após a pri­
meira Administração de Vargas. Como as eleições foram reinsti­
tuídas na Administração Dutra, os rígidos controles da primeira
era de Vargas cederam lugar a uma série de relações livres nas
quais políticos e administradores de fora dos parques tentavam
conseguir eleitores e seguidores dentro deles. A partir daí, “ as re-

11 Outra declaração do administrador numa entrevista com M .F . Cal­


das de M oura: “ D evo ir à Europa em m aio do próxim o ano, n ão posso
deixar de ir à Alemanha. Aqueles são os super-homens” (M F Caldas de
M oura, 1969:4).
12 N o verão de 1968, os Leeds fizeram um survey em três favelas do
R io. C om o resposta à pergunta sobre que personagens políticos os indiví­
duos mais admiravam, Vargas fo i m encionado em 60% dos casos. Deste
grupo de entrevistas, quase todos tinham mais de 35 anos. Aqueles abai*-'
x o de 35 mencionavam mais freqüentemente Kubitscheck. Muitas casas
têm quadros de Vargas na parede, junto com santos com o São Sebastião,
São Jorge, Iemanjá. Na favela Tuiuti, n o Rio* há um busto de Vargas
sob a bica dágua, e um busto na casa de um de nossos informantes mais
pobres.
A S o c i o l o g ia do B r a s il U rbano

entre forças externas e populações locais seriam sempre cons-


iituídaa de acordo com interesses eleitorais” (MF de Moura,
1969:6). A instituição do sistema eleitoral foi acompanhada de
mudanças nos instrumentos de controle no interior do parque. En­
quanto que, antes, a escola, a creche, e a igreja eram partes da es-
tjçutura administrativa de controle, depois de 1945, a escola de sam­
ba ( ver Morocco, 1966) e as biroscas (ver Machado, 1969), bem
como as associações de favelas e igrejas, ganharam importância
como veículos organizacionais para a manipulação por parte de po­
líticos de fora (ver, também, E. Leeds, 1966). Por meio dos paga­
mentos políticos aos cabos eleitorais locais no interior dos parques,
03 políticos asseguravam a “ permissão” (geralmente não oficial) a
seüs capangas para a construção de casas em terras vagas dentro e
atrás do Parque. Muito da regularidade que o Parque tivera an­
tes foi perdida na construção desordenada e ao acaso.

A “ Democracia” Pós-Vargas

O final da primeira era de Vargas e a entrada do General Du­


tra çomo presidente marcavam uma grande descontinuidade na po­
lítica relativa à favela do Distrito Federal. Tais deseontinuidades
são um Iraço comum na história da política social do Brasil, como
assinalamos acima. A maioria dos programas iniciados sob Dods-
worth foi negligenciada, enquanto que as tentativas feitas para “ so­
lucionar o problema da favela” não introduziam nada de novo, re­
petindo desnecessariamente trabalhos anteriores já realizados.
A Administração de curta duração de Hildebrando de Góis
{janeiro a junho de 1946) iniciou o que mais tarde se tornaria um
-elemento significativo do dramático contraponto das relações fave-
3a-governo. A criação da Fundação Leão XIII foi, além dc seus
-aspectos de bem-estar social um barômetro preciso das pressões po-
lílícas do Brasil do pós-guerra. A idéia de sua criação nasceu dc um
acordo entre Hildebrando de Góís e o conservador Cardeal D. Jai-
irc de Barros Câmara para tentar “ recuperar os favelados” . Explí­
cito nesse pensamento inicial estava o controle da “ infiltração co­
munista” , que era vista por muitos como uma enorme ameaça numa
época em que o Partido Comunista tinha seu maior apoio popular;
embora o Partido estivesse em quarto lugar dentre os partidos em
número de votos, ainda assim o número absoluto de votos que ele
obteve nesta eleição de 1947 foi tão grande que parecia representar
um verdadeiro perigo eleitoral para o futuro. O p c foi posto fora da
lei no mesmo ano. Um slogan popular da época era “ É necessário su-
F avelas h C o m u n id a d e P o l ít ic a 199

bir o morro antes que os cpmunisías desçam” (dados e citações de


s a g m c s , Pt. I, 1 9 6 0 ; 2 8 ) í ^ y
O plano da Fundação era o de criar, em cada favela, centros
sociais, escolas e clínicas de modo a dar orientação prévia para a
urbanização. A noção de “ orientação” permeia o pensamento do
bem-estar social e especialmente das escolas de Serviço Social no
Brasil; ela significa “ estabelecer normas para, dar incentivos à, e
estimular a motivação naqueles habitantes do distrito eleitoral que
sfbidamente não têm o ponto de vista correto, tal como definido
pela instituição” . “ Urbanização” refere-se à instalação de serviçus
urbanos numa área de terra acompanhada por construção apropria­
da, conforme os códigos de construção urbana*
É significativo que as primeiras favelas selecionadas pela Fun­
dação para a manutenção de centros sociais fossem as maiores do
Rio, abrangendo 1/3 a 1/2 de sua população favelada.11 Estas
eram também as favelas-chaves no sentido de que a maioria delas
-era bem conhecida por toda a cidade, e uma ou duas, como a do
Jacarezinho, tinham reputação folclórica a nível nacional (ver Car­
doso, 1935). Assim, na época, talvez 100.000 pessoas estivessem
sendo “ salvas” dos “ perigos do comunismo” , e um número muito
maior era influenciado pela Fundação.

/ O estudo do s a g m a c s é ainda h oje o melhor e mais precioso relatório


I publicado sobre favelas n o R io. Nele nos baseamos em muito para certos j
aspectos da história administrativa, uma vez que seu material factual pare- !
ice digno de confiança. Consideramos que ele também pode ser analisado j
.1co m o uma declaração política no contexto brasileiro, já que (a) pressu- !
i |
põe uma certa visão de qual deveria ser a relação entre estado e povo,
11especialmente o proletário, implícita em várias críticas feitas a ações e
,|políticas anteriores, que permeiam o docum ento; ( b) foi elaborado numa
I\época em que a participação política mais ampla das massas urbanas esta^
va, de um m odo geral, sendo encorajada e teve paralelo na criação e ati- !
| vídade de órgãos tais co m o o s e r f h a u e instrumentos legais com o a Porta- 1
| ria n.° 2 de 1965 do Distrito Federal, que abria cam inho para a eletrici­
dade oficial nas favelas; (c ) ele é subjacente à nova abordagem das fave­
las, realizada nos anos 1960-62 por José Artur R ios (ver discussão do
tex to), que tambcm tinha nela os meios de controle e cooptação ( veri j
A pêndice I — a subordinação das favelas, através de suas associações, a \j
um organismo estatal, e o controíe deste sobre finanças e program as)./
14 Entre 1947 e 1954 a Fundação trabalhou em 34 e manteve centros
sociais em 8 das maiores favelas d o R io , entre as quais Jacarezinho, R o ci­
nha, Telégrafos, Barreira do Vasco, M orro de São Carlos, Salgueiro,
Praia d o Pinto e Cantagalo (as seis primeiras estão entre as mais desen­
volvidas da cidade) (Fundação Leão X III, 1955). Embora a Fundação per­
manecesse formalmente nessas fnvelas, ela esteve relativamente moribunda
até por volta de 1962, quando foi reativada pelo Governador Lacerda (ver
texto adiante').
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

A instituição foi criada pelo Decreto presidencial n.° 22.498,


de 22 de janeiro de 1947, com estatutos e recursos independentes e
coltí a cláusula de que, se dissolvida, os fundos reverteriam para a
prefeitura do Distrito Federal. Basta dizer aqui que a Fundação*
criada pelo governo federal e pelo governo do Distrito Federal,
existia como uma pessoa jurídica privada, estreitamente vincuiada
à diocese católica do Rio, até 1962, quando, por uma série de ma­
nobras políticas do Governador Carlos Lacerda, tornou-se parte da
Secretaria de Serviços Sociais do recém-criado Estado da Guana­
bara.
A Administração de Mendes de Morais, posterior à de Hil-
debrando de Góis, se caracteriza não apenas pela descontinuidade,
mas também pela falta de comunicação entre os membros de uma
única Administração. For exemplo, sob a estrutura da Secretaria
de Viação e Obras, foi criado, em 1946, o Departamento de Habita­
ção Popular, pelo Decreto n,° 9124, para atender às necessidades
da habitação proletária. Os projetos do Departamento foram apro­
vados pelo Departamento de Construção Municipal, mas não pelo
Departamento de Urbanismo (Modesto, 1960; 43). Este é apenas
um exemplo do que Modesto chama de desorientação na solu­
ção do problema habitacional, manifestando a falta de mentali­
dade planejadora entre aqueles responsáveis pela administração mu­
nicipal. As medidas tomadas por muitas instituições municipais
eram não apenas descoordenadas, mas demonstravam pouca refle­
xão sobre as conseqüências futuras da ação. “ As medidas tomadas
são generalizadas, isoladas, nao consideram adequadamente os fa­
tores do problema e não têm relação com o resto do desenvolvi­
mento da cidade” (Modesto, 1960: 43).16.
Pode-se observar que nesta relação nenhum dos órgãos ou co­
missões discutidos adiante estabelecia qualquer modo formal de ar­
ticulação de interesses para as populações da favela; estas eram con­
cebidas como receptoras da ordem administrativa, mais do que como
participantes no processo de tomada de decisões concernentes a suas
vidas — isso apesar do ressurgimento da “ democracia eleitoral” no
regime de Dutra e nos seguintes.
O estabelecimento de comissões é uma maneira muito brasi­
leira de “ estudar o problema” ,10 sem na verdade se tomar nenhuma
^ H élio M odesto fo i arquiteto na C oordenação de Planos e Orçamentos
d o Estado da Guanabara por alguns anos, sendo defensor constante da
necessidade de se encarar a favela num contexto bem mais amplo (nacio­
nal) do q u e o Estado pretendia. Foi também diretor do c e d u g (ver abre­
viações) .
16 A típica frase brasileira “ Vam os estudar o assunto” é uma resposta
freqüente dada numa situação particular para adiar e eventualmente evi­
tar completamente agir ou assumir um compromisso.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 201

medida definitiva para tratar dele diretamente. A Administração


Mendes de Morais não foi exceção a essa prática. Em 1946, uma
Comissão Interministerial foi criada pelo Presidente Dutra para
realizar um “ estudo extensivo das causas de formação das favelas
e de suas condições atuais,”17 As medidas específicas propostas
pelo relatório da Comissão retomam os elementos de controle do
Código de Obras de nove anos antes. As medidas incluíam (a ) a
proibição de construção de novas casas nas favelas; (b ) a super­
visão severa nas favelas para impedir o aluguel ou venda de casas
abandonadas; ( c j uma lista daquelas pessoas que exploram o&
residentes da favela pelo aluguel de c[uartos ou casas ou que co­
bram taxas exorbitantes pela eletricidade; ( d ) o rápido término dos
projetos de urbanização em terras da Prefeitura do Distrito Federal
para evitar a invasão dessas terras e sua transformação em favelas;
(e) recomendações às instituições federais tais como os Institutos de
Previdência Social para prevenirem-se contra a formação de fave­
las em suas terras; ( / ) reforço das medidas legais já existentes re­
querendo esforços para o fornecimento de casas de trabalhadores.18
As propostas da Comissão tratam as favelas apenas em termos
de controle e repressão. Nenhum meio para a melhoria das casas
e de outras condições nas favelas é sugerido, nem a substituição da
habitação da favela é sugerida, nem mesmo se alude às causas mais
superficiais da formação das favelas.
O tema da repressão é reforçado pela criação, em 1947, de
uma comissão para a extinção das favelas por Mendes de Morais*,
Essa Comissão, ao menos, deu a contribuição positiva de iniciar o
censo das favelas de 1947-48. A iniciativa do censo deve ser enten­
dida nos termos da política geral relativa às favelas de Mendes de
Morais. Numa entrevista (O Globo, de 26 de janeiro de 1966) 10
Mendes de Morais, na época legislador, descreveu melhor seu plano
anterior para a extinção das favelas, abrangendo o retorno dos mo­
radores das favelas a seus estados de origem, submetendo os mora­
dores acima de 60 anos à tutela de instituições do Estado, e expul­
sando das favelas famílias cujo salário excedesse um mínimo esti­
pulado. O ex-prefeito disse que seu plano não funcionara devido à
falta de apoio dos governadores dos Estados de origem dos mora­
dores das favelas, dos diretores da Cia. Lloyd de Navegação e d<v
^ A Manhã, 1946, sem data, p. 2 (do arquivo M oura).
10 Press release governamental m im eografado encontrado nas colunas d a
jornal Tribuna da Imprensa, R io , sem data (1946, depois de fevereiro).
O tema da extinção é expresso novamente em 1949 num projeto
federal proposto para a rem oção de todos os moradores das favelas para
colônias agrícolas nos seus estados de origem. Projeto n,° 633, Diário do-
Congresso, agosto de 1949: 7149.
A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

Chefe de Polícia do Distrito Federal. “ Mendes de Morais não aca-


iíoa com aâ favelas porque não teve apoio” ( ibid ). Falando das ati­
vidades dessa comissão nos fins da década de 1840 e inicio da de
1950, o estudo do s a g m a c s comentava (Pt. I, 1960:38, col 2-3):
“ Existia na Prefeitura uma comissão de favelas que não deixou
.jienhum vestígio ou traço de documentação de suas ações. Ela con­
sistia de políticos que, durante oito anos, se reuniram sem realizar
nada,”
Em maio de 1948, o explosivo jornalista Carlos Lacerda desen­
cadeou uma campanha nos jornais e no rádio objetivando forçar a
burocareia nacional e local a encarar as favelas como um comple­
xo conjunto de problemas nacionais mais do que como um problema
localizado e unilateral (apenas habitacional, apenas de saúde, ape­
nas educacional, apenas psiquiátrico). Essa campanha foi chama­
da “ À Batalha do Rio” .
Lacerda, cujas tendências e conexões políticas sempre haviam
sido ambíguas, mas cuja participação política anterior se dera no
Partido Comunista, permanecia ainda, nesse ano, aparentemente na
^esquerda” , embora nao mais vinculado ao Partido e talvez já li­
gado a elementos conservadores e reacionários da direita anti-Var­
gas, aos quais alguns anos mais tarde se encontraria abertamente
ligado. A ^Batalha” talvez possa ser vista como um esforço ambí­
guo, mobilizando as massas urbanas em favor dos interesses políti­
cos representados por Lacerda e minando o apoio às forças getulis-
tas e de Dutra, talvez antecipando a próxima retomada da Presi­
dência por Vargas. Vargas, enquanto apoiava a candidatura de
Dutra, também começou a reconstruir sua própria base política
pelo recrutamento das massas urbanas para o p t b , embora fosse elei­
to senador (1945, pelo Rio Grande do Sul e Sao Paulo) no mesmo
partido (o p s d ) que Dutra (Skidmore, 1967: 73).
Os ataques de Lacerda, detalhados abaixo, podem apenas ser
«ntendidos como ataques indiretos ao então presidente Dutra e a seu
homem na Prefeitura do Distrito Federal, General Mendes de Mo­
rais. É certamente significativo que esse mesmo Mendes de Morais
estivesse profundamente implicado na trama de assassinato —
como um de seus instigadores — contra Lacerda, em 1954, que
levaria Vargas ao suícídio. É também significativo que essas mas­
sas urbanas tenham desempenhado um papel central na política
brasileira desde os últimos anos do primeiros regime de Vargas, um
papel que culminou nos acontecimentos de 1954, quando Varges
assegurou a continuidade do getulismo por outra década pelo seu
suicídio, e nos de 1961-1964, quando o protegido de Vargas, João
Goulart, tentou sem sucesso desenvolver uma massa proletária ur-
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 203

foana de apoio. O próprio relacionamento de Lacerda com essa mas­


sa urbana nos inícios dos anos 60 será discutido adiante.
Quaisquer que sejam os motivos políticos que Lacerda tenha
tido na época, o fato era que alguma coisa muito fundamental e
muito próxima ao cerne do problema da favela havia sido dita e
imediatamente captada pelos legisladores e meios de comunicação.
Durante todo o mês, os jornais Coireio da Manhã e O Globo tenta­
ram excitar a opinião pública e tirar as autoridades de sua inércia.
Os artigos de Lacerda eram publicados no Correio da Manhã, mas
o Globo (parte dos bens da conservadora família Marinho, vincula­
do aos interesses Time-Life) deu imediatamente cobertura a Lacer­
da. Ambos os jornais estavam ligados à ala direita da u d n (União
Democrática Nacional) anti-Vargas (Skidmore, 1967: 69, 88, 125).
A “ batalha” fazia as seguintes afirmações:
1. O problema da favela não era uma praga local, mas na*
cional, embora pudesse ser controlado localmente.
2. Era um problema complexo que não admitia soluções
simplistas nem podia ser atacado em apenas um aspecto.
3. Era resultado de um profundo desequilíbrio na vida do
país e da cidade, resultado, acima de tudo, de Administração escan­
dalosamente inepta.
4. Requeria a coordenação de órgãos federais e municipais,
públicos e privados, sob um único comando.
Em seu começo, a “ Batalha” pareceu conquistar a simpatia
dos líderes dos três maiores partidos políticos, figuras-chaves do Le­
gislativo, e do Prefeito Mendes de Morais. Uma nota foi apresen­
tada à Câmara Nacional dos Deputados pedindo apoio federal.20
Isso resultou na criação de mais outra comissão e 7 subcomissões por
Mendes de Morais, Todavia, segundo um modelo consistente, o
tema, a resposta, e os planos emergentes da “ Batalha” logo se ex­
tinguiram, sugerindo: (a ) gue qualquer movimento ameaçando
perturbar fundamentalmente o status quo tinha pouca chance de
sucesso, e/ou (6 ) que a “ Batalha” era uma atitude retórica e polí­
tica que nunca pretendeu produzir mudança significativa. O estu­
do do grupo s a g m a c s corrobora a noção de que aqueles que se en­
contravam no poder eram basicamente hostis à realização de qual­
quer mudança deste tipo:

£0 O Deputado Segadas Viana apresentou à Câmara dos Deputados uma


lei solicitando apoio federal para a “ Batalha” : “ O prefeito da capital Já
manifestou seu apoio, convém que o G overno Federal colabore porque o
problema das favelas não é um problema local, Grande parte dos mora­
dores das favelas é composta de trabalhadores que vêm para esta capital
em busca de melhores condições de vida” (Correio da Manha),
'2 0 4
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

u{Dl plano (a “ Batalha” ) era radical, e modificações de tão lon­


go alcance seriam introduzidas na Administração e no Governo que
implicariam uma verdadeira revolução. Para executar (o plano)
era necessária uma nova mentalidade no povo e nas elites. . , Mais.
mna vez, a inépcia, a mediocridade e a rotina burocrática venceram.
Venceram também aqueles interesses inconfessáveis que têm seu
destino ligado às favelas, como outros são ligados à seca no Nordes­
te e outros ainda ao analfabetismo, . . todos conspirando contra o
levantamento das massas brasileiras...” ( s a g m à c s , Pt. I, 1960;
38, col 2).
JNuma retrospectiva, a política relativa à favela, ou a sua au­
sência durante os anos Dutra, 1945-1949, não é surpreendente
quando vista no contexto da repressão geral deste período de cinco*
anos da história brasileira. Pensava-se ser o PC u m a ameaça tão
grande, depois das eleições de 194>7, que ele foi posto totalmente
fora da lei pelo Governo Dutra, Os sindicatos, especialmente o grupo-
dos metalúrgicos e dos estivadores, foram também severamente atin­
gidos. No primeiro ano desse Governo, os organizadores trabalhis­
tas comunistas e de esquerda haviam ganho considerável poder nos
sindicatos até o ponto em que Dutra interveio, em 1947, demitindo
muitos dos elementos de esquerda.
Na estrutura do trabalho construída por Vargas no Estado
Novo, os sindicatos estavam sob controle direto do Ministério do.
Trabalho que, por exemplo, controlava a alocação dos direitos com-
pulsórios dos membros dos sindicatos. A estrutura permaneceu a
mesma sob Dutra, que “apenas explorou o controle do Ministério*
do Trabalho sobre as corporações sindicais para evitar a inquieta­
ção do trabalho” (Skidmore, 1967: 114). Assim, as políticas de
controle geral e repressão podem ser vistas como o contexto insti­
tucional para o controle e repressão encontrados nas políticas relati­
vas à favela durante o período de “ democracia eleitoral” de Dutra.

O Segundo Período de Vargas e os Anos 50

O “ democrático” Vargas do início dos anos 50 estabeleceu uma


tendência ideológica, que, embora não favorecesse explicitamente a
causa do proletariado urbano, provia ao menos uma atmosfera na
qual as favelas e o proletariado em geral poderiam encontrar canais
para articular seus interesses. A suspeita da classe média e a opo­
sição d e elementos da conservadora U D N não deixaram outra esco­
lha a Vargas senão a de buscar o apoio em grande escala da classe
trabalhadora. Inicialmente, houve um afrouxamento substancial
das restrições sobre os Sindicatos estabelecidas por Dutra, permi­
tindo que os líderes sindicais mais radicais retornassem ao poder.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít i c a 205

Uma segunda tendência de maior alcance íoi o estímulo a uma polí­


tica de desenvolvimento econômico nacionalista que, pessoas da
•classe trabalhadora o perceberam, seria benéfica a elas (ver Skid-
anore, 1967: 109).21
A abertura de canais para a classe trabalhadora parecia ser
tuna deixa para que as instituições legislativas e administrativas
começassem novamente a tratar mais diretamente das favelas. O
Serviço de Recuperação das Favelas, criado em 1952 pelo novo pre­
feito João Carlos Vital, ficara, pela primeira vez em muitos anos,
sob a jurisdição da Secretaria de Saúde e Assistência, mais do que
sob a do Departamento de Segurança Pública, como, desde a épo-
-ca de Dodsworth, as instituições referentes à favela haviam ficado
(Berson, 1964-: 15). O novo chefe do Serviço, Guilherme Roma­
no, declarou numa entrevista de jornal:
“ Nós não destruiremos as favelas sem construirmos algo me­
lhor que as substitua. A pior das favelas é melhor que nada. Tra­
taremos de assegurar aos favelados uma habitação próxima do local
*de trabalho. {Tribuna da Imprensa, 3 de inarço de 1952, citado em
Parisee, 1969: 124).
Pela primeira vez, a idéia de urbanização in loco começou a
aparecer na discussão pública sobre as favelas. Essas idéias e decla­
rações refletem um reconhecimeno genuíno das diferentes funções
sociais e econômicas das areas invadidas por posseiros, aqui especi­
ficamente favelas.
O ano de 1952 viu também a maior atenção, a nível minis­
terial, dada à habitação e às favelas em particular. Pela primeira
vez, o fenômeno das favelas eya vinculado a estabelecimentos seme­
lhantes em outras partes do país — mocambos no Recife e vilas de
malocas em Porto Alegre, A Comissão Nacional de Bem-Estar So­
cial, nessa época parte do Ministério do Trabalho, Indústria e Co­
mércio, realizou uma série de conferências de âmbito nacional
cujas conclusões gerais eram de que as favelas constituíam um
problema nacional, e deveriam ser vistas a partir de seu aspecto so­
cial, econômico e legal; estudos deveriam ser feitos no contexto de

21 Skidmore diz: UA classe na qual é mais certo que o apelo nacionalista


encontre resposta positiva é a classe trabalhadora urbana. O entusiasmo
gerado pela íetüíobrás foi, com certeza, entre os assalariados urbanos. A
linguagem do nacionalismo econômico parecia ser de mais fácil entendi­
mento para eles do que a idéia do conflito de classes doméstico.” Também
em oposição à maioria dos relatos sobre a ignorância da classe baixa em
relação aos objetivos nacionais, encontramos moradores de favelas muito
conscientes dos efeitos da política econômica e da política nacional em
suas próprias vidas diárias. Inúmeras entrevistas mostraram um agudo
senso analítico.
206 A SOCIOLOGIA DO tíRASIL URBANO

mn planejamento de escala nacional. Em afirmações semelhantes


àquelas de Victor Moura no início do período de Vargas, os relató­
rios afastaram-se do modelo mítico. Um relatório descrevia as fa­
velas como possuindo “ populações heterogêneas variando de crimi­
nosos procurados pela polícia a famílias legalmente constituídas
que, devido a uma série de razões, são forçadas a arranjar um abri­
go na favela utilizando aqueles recursos de que dispõem” , (ver
Brasil, Ministério... 1952: 5, 6, 20).

O Papel do Administrador Político

Há um importante elemento na relação burocracia-favela bre­


vemente mencionado acima, que merece maior discussão neste pon­
to. Os desenvolvimentos pós-1945 da relação entre o legislador-po-
lítico e a favela é um fenômeno bem documentado.22 Os legislado­
res de então, vereadores, ou candidatos a cargos por eleição ou no­
meação, comumente cortejavam o eleitorado da favela ou seu si­
milar proletário, fazendo promessas de todos os tipos (geralmente
de serviços urbanos), regularmente não, ou apenas parcialmente,,
cumpridas. A prática comum era, e ainda é, apesar da suspensão
atual de eleições genuínas no Brasil, selecionar um ou vários cabos
eleitorais dentro da favela para colher votos para a eleição do can­
didato. O cabo eleitoral, se bem sucedido, seria pago de diversas
maneiras, com uma nomeação, uma casa na favela ou num conjun­
to habitacional, terra para construir uma casa (como no caso do.Par­
que Proletário), uma vaga numa escola pública para um filho, ou
presentes menores, como roupas e utensílios. Em suma, a relação é
de uma “ troca de interesses” (na terminologia local) que benefi­
cia ambas as partes.
Outra forma de relação é o vínculo entre a favela e o agente
administrativo que, em virtude de suas conexões oficiais, é capaz,
de formular ou influenciar a política relativa à favela e tornar essa
influência conhecida dos favelados, criando dessa forma seu próprio
“ ambiente” (no uso local) antes mesmo de anunciar sua candida­
tura a um cargo eleitoral; para criar o “ ambiente” , ele utiliza um
poleiro que opera clandestinamente. O fato de que o administra­
dor oficial esteja utilizando o cargo para o qual foi nomeado para
ser eleito não significa necessariamente que seus esforços durante o
exercício do cargo não sejam sinceros e fundamentalmente benéfo
cos às favelas. Alguns o são, outros não.

22 Para a discussão da relação entre políticos e favelas, ver E . Leeds.


1966; Machado, 1967; Rios, 1960; e s a g m a c s , 1960,
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 207

O Administrador do Parque Proletário da Gávea, no primei­


ro Governo de Vargas, que dava o “ chá das nove” (ver acima) é
nm exemplo de tal caso. M. Arruda era candidato ao cargo de ve­
reador (pelo Distrito Federal) em 1950, cerca de 14? anos após sua
atuação no Parque. Em um de seus discursos da campanha no
Parque, Arruda tentou capitalizar sua posição administrativa ante­
rior:
“ Proletários, amigos, chefes de família, trabalhadores e ho­
mens de respeito; venho mais uma vez buscar o seu apoio político
e moral para a vereança em 1958. Não sou político profissional e
não faço demagogia, pois tenho programa realizado. Dentre ou­
tras coisas, realizei o Parque Proletário, Deus sabe com quanto
sacrifício, de modo a que famílias boas c honestas pudessem viver
com seus filhos numa atmosfera de respeito, conforto, higiene e in­
dependência familiar. . , Quando eu oferecia o ‘eliá das nove’, era
como uma troca de idéias e conselho àqueles pais menos afortunados,
era como um conselho às crianças, ensinando o caminho do bem, e o-
resultado aí está. Com o meu ‘chá das nove1, ajudei a formar ho­
mens e excelentes operários, o que não acontece nestes dias onde
impera desordem, a indisciplina e a falta de respeito. . . ”
( s a g m a c s , Pt, II, 1960: 45),
A posição do administrador regional (depois de 1960, chefe
de uma subdivisão do Estado da Guanabara) é outro exemplo. De­
pois da criação de Brasília, o Rio de Janeiro tornou-se o Estado da
Guanabara, dividido em cerca de 23 distritos administrativos, cada
qual com o seu administrador nomeado que possuía certa autorida­
de para tratar das favelas na sua área. Supervisionar as eleições da
favela e resolver as disputas entre os moradores da favela deram a
um de tais administradores ampla oportunidade para tornar-se a
patrão da favela e para tentar, subseqüentemente, tornar essa rela­
ção politicamente lucrativa.
Um secretariado no gabinete do governador é uma posição
igualmente vantajosa, Um ex-secretário da administração de I^a-
cerda descreveu numa entrevista como, em seu papel de promotor da
Comissão Estadual de Energia, foi capaz de selecionar um eficien­
te time de cabos eleitorais na maior favela do Rio. Posteriormente*
ele venceu uma eleição para deputado federal.23
A recente restrição às eleições genuínas no Brasil e a institui­
ção de um controle virtualmente total pelo Governo quanto a cniem
23 E xceto nos casos em que fontes publicadas (tais com o sagm acs) já
tenham usado nomes reais, os nomes e cargos dos informantes fora m em
geral ocultados ou om itidos para protegê-los de possíveis recriminações,
políticas, tão drásticas no Brasil dc hoje. O indivíduo em questão* tam­
bém um general d o Exército» teve os seus direitos políticos suspensos.
208 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

pode aer candidato não pareceram fazer diminuir o jogo mútuo.


Em novembro de 1969, os seguintes acontecimentos ocorreram
numa das favelas poltiticamente mais desenvolvidas do Rio, que
seus moradores acreditavam estar ameaçada de remoção pelo que
chamaremos de Instituto de Construção de Casas do Estado da
Guanabara ( i c a c ) . Uma mulher, líder da favela, foi com a sua
delegação do Departamento feminino da associação da favela visitar
o Diretor do Instituto de Posses e Propriedade, um político jovem,
ambicioso, que também tinha uma coluna em dois jornais do Rio,
cujo eleitorado era em grande parte da classe trabalhadora. Depois
de obrigar o diretor a promover uma visita à favela, dizendo que ele
nada sabia das favelas (ele nunca tinha visitado este local parti­
cular, tendo-o apenas visto em viagens aéreas ou de helicóptero), o
Departamento Feminino preparou elaboradas recepções para ele em
duas ocasiões distintas, sendo uma delas a comemoração de seu ani­
versário. A seguinte canção foi composta para uma das recepções
e cantada pelas meninas do Departamento Feminino:

D r. Dumont, as crianças deste Parque


Juntamente com seus pais
R econhecem o seu valor,
E por isso nós lhe estimamos
E hoje te consagramos
C om o nosso benfeitor
t

N o icac e nos Parques Proletários


Nas favelas e nos morros
O seu trabalho é sem igual
Ajudando e a todos incentivando
T odos cantam e comentam
C om o o amigo ideal

C oro; Salve O Dia e A Notícia


O i c a c e o Parque Federal
Parabéns Estado da Guanabara
Por esse grande assessor,
N osso orgulho e paixão!

Pouco depois da ocasião, o homem em questão f o i eleito um


dos delegados da Guanabara para o comitê nacional do m d b (Mo­
vimento Democrático Brasileiro), o menos conservador, menos de­
finitivamente subordinado ao atual Governo dos dois partidos polí­
ticos atuais do Brasil. Evidentemente, os motivos para que cada
lima das partes cortejasse a outra eram políticos. As vantagens
calculadas pelas respectivas partes eram a possível eliminação da
ameaça de remoção para a favela e o possível futuro apoio eleitoral
para o administrador.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 209
Um exemplo final dessa relação nos traz de volta aos meados
dos anos cinqüenta, e ao nosso relato seqüencial das relações favela-
burocracias, sendo o próximo período significativo o do regime de
Kubitschek. 0 indivíduo em questão é uma das poucas figuras nes­
sa história que tentou abrir canais para o desenvolvimento das fa­
velas e cedeu algum poder de decisão aos favelados. O falecido
Geraldo Moreira, Secretário de Agricultura na primeira adminis­
tração de Negrão de Lima, em 1956-57, depois vereador no Distri­
to Federal, e ainda mais tarde deputado estadual na legislatura da
Guanabara, foi um dos mais bem falados políticos nas favelas da
Zona Norte do Rio (uma área densamente industrial, com exten­
sas zonas de habitação proletária e muitas favelas enormes). Essas
favelas da Zona Norte abrangiam uma percentagem significativa do
total da população favelada da cidade.24 Havia uma certa identifi­
cação com Geraldo Moreira porque ele era do Partido de Getúlio
Vargas, o p t b , mas também porque cie realizara as promessas de
sua campanha antes das eleições — um fenômeno raro. Não há
dúvida de que ele seria capaz de utilizar sua posição administrativa
para obter vantagens políticas. Todavia, na mesma época, ele es­
tava preocupado de maneira geral com o problema das favelas e
expressara pontos de vista agudos e realistas acerca dele. Ele ma­
nifestara mais fé nas capacidades dos próprios moradores das fa­
velas para urbanizar e utilizar recursos do que nas instituições do
Governo. No estudo do s à g m a c s (Pt. I. 1960; 38, col, 3-4), ele é
apresentado como tendo dito:
“ A grande maioria da população da favela é auto-suficiente,
carecendo tão somente de orientação, apoio e boa-vontade das auto­
ridades (e ) há solução para as favelas, mas não são as autoridades
que resolverão o problema — nem a Fundação Leão XIII nem a
Cruzada São Sebastião, nem qualquer outro órgão de serviço social.
A solução deve ser procurada pelo próprio favelado.’1
O primeiro passo na promoção do desenvolvimento da favela,
segundo Geraldo Moreira, era dar terras aos moradores. A suges­
tão é feita pela primeira vez em 1952 à mencionada Comissão Na-

24 Informantes de todas as 8 favelas da Zona Norte visitadas falaram


de G eraldo M oreira co m o um dos poucos políticos sinceros e bem-inten­
cionados dos últimos anos. Suas atitudes com relação a outras insti­
tuições operando nas favelas nos parece também perspicaz, s a g m a c s
(Pt. II; 38, col. 4) conta que M oreira acha que tanto a Fundação Leão
X I I I com o a Cruzada São Sebastião (um órgão privado de serviço social
organizado pela ala esquerda da Igreja católica no R io, sob a direção de
D . Hélder Câmara) contribuem para aumentar a “ miséria deliberada17
(das favelas) e gastam dinheiro público sem produzir soluções para ó
problema. ; * .. . .
210 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

cíonal de Favelas para “ expropriar aquelas terras nas quais as fa­


velas se localizam, instalar água, luz e esgotos, loteá-los e distribuir
esses lotes, gratuitamente e de escritura passada, aos favelados que
possam construir suas próprias casas num período de 5 anos, de
acordo com as posturas municipais e os padrões de construção pro­
letária ( s a g m à c s , Pt- I, 1960:38 col. 4).
Geraldo Moreira, então, serve duplamente como exemplo: pri­
meiro, como um elo importante nas relações favela/administração
que mais tarde é capaz de beneficiar-se de suas atividades no cargo
administrativo oficial para ganhar apoio eleitoral substancial, e en­
tão continua a cortejar, embora genuinamente, seu eleitorado atra­
vés dos meios abertos aos legisladores eleitos — alocação de fun­
dos legislativos paia serviços urbanos limitados em favelas selecio­
nadas, assistência para conseguir registrar legalmente as associações
da favela. Segundo, a popularidade e relativa (embora limitada)
eficácia de um Geraldo Moreira nos últimos anos da década de
1950 e primeiros da de 1960 expressaram um certo tom dos tempos
de Kubitschek que prosseguiu nos anos de Goulart. A ideologia
de desenvolvimento nacionalista do período implementada nos mais
elevados níveis do Governo trouxe consigo a receptividade geral a
apelos populares que haviam marcado o segundo período de Var­
gas.515 Isso refletiu-se ao longo dos anos de Kubitschek numa ex­
pansão do voto proletário urbano, em parte devido à alfabetização
ampliada, à melhoria no sistema eleitoral, à abertura de canais para
a participação política relativa das massas urbanas, e à sua participa­
ção através do trabalho e consumo no grande surto econômico na­
cional e nacionalista daqueles anos. Este voto ampliado deve ser
lembrado no exame dos acontecimentos dos anos 1960.
Em 1956, foi aprovada uma lei autorizando o Ministério da
Justiça e do Interior a alocar fundos a órgãos que lidassem com
favelas em 4 cidades brasileiras — Rio, São Paulo, Recife, e Vitó­
ria —^ para a melhoria das condições habitacionais nas favelas da­
quelas cidades. Mais específicos para o Rio eram dois dos artigos
( 5 e 6 ) que davam proteção aos moradores das favelas contra explo­
radores (favelantes) que os ameaçavam com expulsão dara extor­
quir dinheiro.20 Nos dois anos que se seguiram a data de publica­
ção da Lei, todas as expulsões de favelas do Distrito Federal esta­
vam proibidas. Aos favelados, era garantida a continuidade da
25 C om o mencionamos na nota 12, a maioria das pessoas abaixo de 36
anos citou o nom e de Kubitschek.
26 L ei n.o 2875, 19 de setembro, 1956» publicada n o Diário Oficial (F e d ),
seção 1, ano X C V . n o 220, 24 de setembro de 1956. Para uma discussão
da seção d» lei específica do R io , ver Meuren (então advogado do s e r -
p h a ) , 1959.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 211

moradia em suas casas enquanto nao recebessem uma casa construí­


da com os fundos que essa lei provia. Meuren (1959) viu a lei
como uma forma efetiva de combater o problema da favela, porque
aqueles que estavam anteriormente interessados em explorar os fa­
velados não mais achariam tais interesses lucrativos; a ameaça de ex­
pulsão não seria mais efetiva.
Uma vez que o cargo de prefeito do Distrito Federal era uma
nomeação federal, a política e as ações desse cargo sempre refle­
tiam a postura ideológica do Governo nacional, A criação do
S E R F H A (Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações
Anti-Higiênicas)27 na primeira Administração do nomeado de
Kubitschek, Francisco Negrão de Lima (1956-57) era um exem­
plo. 0 s e r f h a era um novo ponto de partida em muitos aspectos.
Primeiro como seu nome indica, tratava não apenas dos “ can­
cros” visíveis (Seminário, 1967: 76) na paisagem, as favelas, mas
também daqueles característicos das áreas pobres menos visíveis e
geralmente muito piores — cortiços, casas de cômodos ou cabeças de
porco, vila e avenidas^ e, de um modo geral, áreas decadentes da
cidade legalmente constituída.
Segundo, ele buscava coordenar vários órgãos municipais
numa tentativa de reduzir o paralelismo de esforços e a falta de
comunicação entre eles, tão característicos das administrações an­
teriores, como mencionado anteriormente. Foram unificados ór­
gãos tais como o Departamento de Higiene, a Fundação da Casa
Popular, a Polícia de Vigilância, o Departamento Sanitário e a
Fundação Leão XIII.
Terceiro, ele tinha a filosofia de não ofender a dignidade dos
favelados. “ 0 fator básico, do nosso ponto de vista, é que os mora­
dores das favelas concordem em trabalhar espontaneamente [com
o s e r f h a ] sem nenhuma imposição da parte de técnicos ou do po­
der público” (Perucci, 1962:40).28 O decreto que estabelecia o
s e r f h a exigia a criação de cooperativas de habitação para morado­

res das favelas a produção de materiais de construção que ajuda­


riam na redução dos custos habitacionais, e o estabelecimento de es­
colas profissionais para moradores da favela não qualificados.

27 Decreto n.° 13.304, 28 de agosto, 1956, publicado no Diário Oficial


( D . F . ) , seção II, ano X I X , n.° 197, 29 de agosto, 1956, pp. 7655-7656.
28 Perucci, 1962, relata sua colaboração com a equipe do s e r fh a quando
este desapareceu na recém-estabelecida Secretaria de Serviços Sociais d o
Estado da Guanabara, que também absorveu a Fundação L eão X I I !, a
qual, todavia, manteve seu nom e e atividades. Para um com pleto traçado
de todos os programas sugeridos pelo conselho técnico d o s e r f h a , ver
Duprat, 3958.
m A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o
L*

Os primeiros anos de existência do s e r f h a soh a administra­


ção do Distrito Federal distinguiram-se por apenas uma tentativa
de suprimir novas construções na favela através do Serviço de Re­
pressão de Construção. Nesses anos, o s e r f h a sofria de típica falta
de fundos. Em 1958, uma alocação capacitou-o para começar a es­
tabelecer postos nas favelas em que a Fundação Leão XIII não es­
tivesse operando. A obra mais positiva do s e r f h a — sua filosofia
de ajuda aos moradores da favela nas formas que os próprios mora­
dores julgassem mais válidas — só começou a se materializar depois
que o Distrito Federal tornou-se Estado da Guanabara e o s e r f h a
tornou-se parte da Coordenação de Serviços Sociais do Estado, che­
fiado, por José Arthur Rios. Um primeiro objetivo desta última
versão do s e r f h a era capacitar o morador como tal a ganhar certa
independência para tratar com as autoridades estatais em vez de ter
de depender de favores de políticos que eram efetivos apenas oca­
sionalmente, e de forma não sistemática. Foi precisamente esse obje­
tivo que acarretou o fim do s e k f h a (Leeds, entrevista com Rios,
25 de agosto, 1969).
0 apelo e o tema do s e r f h a , expressos na frase “ Operaçao Mu­
tirão” , eram de cooperação entre o órgão e as favelas. Nesse tra­
balho conjunto, as favelas deveriam organizar associações cujos re­
presentantes se encontrariam regularmente com o pessoal do
s e r f h ^ , o qual, por sua vez, deveria dar orientação quanto à orga­

nização, informação legal, assistência financeira, social, e outras


formas de ajuda técniçai^ Com a ajuda de Rios e de outros mem­
bros da equipe do S E R F H A , foram organizadas asssociaçÕes em 75
favelas. Cada associação assinava um acordo com o órgao ( ver
Apêncice I). Por um período de muitos meses, em 1961, Rios e
sua equipe mantiveram encontros semanais com_o^ representantes
de nove favelas diferentes a cada semana, ajudando a resolver pro­
blemas legais ou dando assistência técnica na instalação ^ .luz,
água, redes de esgoto, pavimentação de ruas, etc. ou na alocação —
dos Jixnitados recursos disponíveis.30

( 20J R ios, 1961, A palavra “ mutirão” , de acordo com R ios, vem do Brasil
rural e significa solidariedade de vizinhança e ajuda mútua. E. Leeds assis­
tiu a dois desses encontros em 1961. A ansiedade dos representantes (pre­
sidentes) das associações das favelas em participar da organização de suas
próprias vidas e adquirir conhecim ento útil pra fazê-lo era notável. F oi,
obviamente, graças à dedicação de R ios e de alguns membros de sua
equipe que Leeds fez suas primeiras visitas às favelas, assistindo a reuniões
d& jim a associação de favela e ao mutirão em funcionamento.
30 C om o exem plo de tipos de problemas resolvidos, ver Ò Mutirão (B ole­
tim Inform ativo do s e r fh a , n.° 1-4 de outubro, 1961. Era um boletim
informativo distribuído em todas as favelas para ampliar as comunicações.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 213

Deveria ser observado que os esforços de Rios eram genuina­


mente aceitos e altamente considerados pelos líderes da favela envol­
vidos com o s e r f h a . Os líderes que entrevistamos, nas favelas em
que o S E R F H A havia sido ativo, foram unânimes em elogiar as ten­
tativas de Rios para a abertura de canais entre as favelas e o Esta­
do; em tratar os moradores da favela com dignidade, reconhecen­
do suas capacidades, habilidades e humanidade; e em criar soluções
locais viáveis para a habitação e problemas da favela relativos a ela.
Essa comunicação efetiva teve um fim abrupto cm maio de
1962, quando Rios foi demitido por Carlos Lacerda, em meio a uma
onda de protestos públicos (todos os jornais do Rio, 17-24 de maio
de 1962), O contraponto político que envolveu o incidente é indi­
cativo da visão essencialmente elitista dos legisladores da Guana­
bara e do Governador Carlos Lacerda, apesar de suas declarações
anteriores na “ Batalha do Rio” de 1948, e marca o fim de um pe­
ríodo de diálogo relativamente aberto entre favelas e Governo. Tra­
tava-se de um final que, embora súbito, deve ter sido plauejado por
Lacerda e pelos interesses aos quais se ligava, porque, como será
descrito adiante com mais detalhes, o Estado empreendeu uma ex­
tensa reorganização administrativa que começou precisamente na
época em que Rios foi demitido, o ressurgimento da Fundação Leão
XIII. Qualquer tentativa de dar um órgão corporativo às favelas
na forma de uma pessoa jurídica e, desse modo, garantir-lhes a in­
dependência política era, é evidente, mais ameaçadora e prejudi­
cial aos legisladores que dependiam das favelas para apoio nas elei­
ções e que, na verdade, usavam as favelas como um “ curral eleito-
ral5\31 Isto foi de certa forma semelhante ao efeito da introdução
do bem-estar social no sistema de empreguismo políticos nos Esta­
dos Unidos. À altura de maio de 1962, alguns legisladores poderosos
sentiram-se ameaçados o suficiente pára pedir a demissão de Rios,
e Lacerda obedeceu.
Dessa forma, foi suspenso o início de um intenso e prolonga­
do esforço para quebrar os modos tradicionais de controle das mas­
31 R ios conta o caso de um conhecido deputado da Guanabara que
dependia d o Parque Proletário da Gávea para grande número de votos.
Numa tentativa de tirar o Parque da Gávea de seu rígido controle pelo
sistema de patronagem, R ios deslocou o administrador do Parque, que
era seu cabo eleitoral local, ou seja, trocava favores especiais com os mora­
dores por votos para seu patrão. O deputado, cuja mulher era uma assis­
tente social da Goordenação de Serviços Sociais, o próprio órgão de Rios,
visitou o Parque num domingo e disse a seus moradores que nada havia
mudado, que eles não levassem em conta a mudança n o pessoal, e ainda
prometeu favores relevantes para a vida do Parque. E m bora o Governa­
dor Lacerda tivesse sido notificado rios acontecimentos, ele achou que
não podia mexer no deputado e, em vez disso, demitiu a mulher»
214 A S o c io l o g i a do B r a s il U bbano

sas urbanas pelas elites, que as tratavam como dependentes, clien­


tes e crianças cabeçudas precisando de “ orientação” e “ condução
moral” . Rios, com sua equipe, baseando seu trabalho com os fave­
lados na rigorosa descrição sociológica por ele dirigida — o relató­
rio do s a g m a c s — tentou criar condições nas quais grande parte
da população urbana, há muito sujeitada e submergida pelos ins­
trumentos políticos e administrativos da elite, poderiam agir com
responsabilidade e independência econômica, social e política, e ao
mesmo tempo melliorar a infra-estrutura física de áreas significa­
tivas da cidade pela melhoria da habitação e instalação de sistemas
de água, esgotos e luz por conta própria, em cooperação com o Es­
tado. Essa forma de trabalho não propiciava muitas vantagens para
a construção; não se apropriava da terra ocupada por favelas situa­
das em áreas valorizadas da cidade para usos mais lucrativos e es-
pecultivos; nao trazia para os cofres do Estado grandes subsídios
ou empréstimos para programas de construção de órgão tais como
a Agência Internacional de Desenvolvimento ( a i d ) ou o Banco
Interamericano de Desenvolvimento ( b i d ) , que tendiam a fomentar
tais programas apoiando dessa forma grupos de interesses ligados
aos mercados de construção habitacional e de capital; desencoraja­
va “ currais eleitorais” . Todavia, ele abriu as portas para um elei­
torado independente, munido de importantes informações legais e
organizado em seu interesse próprio, além de numeroso, sobre o qual
o controle de qualquer político partidário ou grupo político seria
muito difícil. Em termos de continuidade do controle de elite e de
classe — do qual, argumentamos, Lacerda era um agente — Rios
e seu programa tinham q u e sair de campo, e assim o fizeram.

A. Era do Controle Renovado, Erradicação e Repressão

Os meses restantes de 1962 assistiram a tuna completa reorga­


nização dos serviços sociais do Estado. O s e r f h a foi desfeito e, em
agosto, suas funções passaram ao Serviço Social das Favelas e suas
atividades físicas para o Departamento de Recuperação de Favelas
( d r f ) . 0 Serviço Social, por sua vez, autorizou cada administra­
ção regional a tratar de suas próprias favelas, exceto em caso de
presença da Fundação Leão XIII32, que Lacerda, por uma série de
manobras, havia transformado em dezembro de 1962 de seu status
pré-1960 como pessoa jurídica privada operando sob o controle e
financiamento do Estado numa subordinada inoperante da c o h a b

32 D ecreto n.° 1.162, 30 de agosto, 1962, publicado n o Diário Ofíclal


( qb) , 3 de setembro, 1962, pp. 19,627-19,628.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít i c a 21 5

(C o m p a n h iade Habitação Popular,3;í e em 1964, em um órgão


estatal semi-autônomo subordinado à Secretaria de Serviços Sociais
(entrevista com Josefina Albano, 1966). Também foram incluídos
s o b a Secretaria, na extensa reorganização posterior da administra­
ção do Estado f e i t a por Lacerda,4 em dezembro d e 1962, a c o h a b ,
o d r f e o antigo Serviço Social.
A criação da C O H A B inicia uma era de erradicação na política
relativa à favela tanto estadual quanto nacional, apesar dos objeti­
vos expressos da c o h a b de assistência às favelas para melhorar,
construir casas e, com a ajuda da subordinada Fundação Leão XIII,
urbanizar. A criação de uma autoridade de construção habitacio­
nal de baixo custo podia apenas significar uma intenção de cons­
truir casas de baixo custo em grande escala. Sugeriu-se que a
c o h a b foi criada, em parte, para arrecadar uma soma considerável

de dinheiro através do Acordo do Fundo de Trigo Estados Unidos-


Brasil, dando assim ao orçamento do Estado da Guanabara um au­
xílio significativo em dinheiro isento de taxas. Essa observação é
de especial interesse em vista da criação do Conselho Federal de
Habitação, em 25 de junho de 1962, pelo Governo Goulart (De­
creto Federal n.° 1, 281, 1962).
As cláusulas do decreto parecem orientar-se, em primeiro lu­
gar para a ahertura de canais ao pobre (Art. 2, I e X, Art. 3,
Parag. 4 ), provavelmente uma continuação do populismo getulista
33 A Companhia de H abitação Popular do Estado da Guanabara, nome
com pleto do órgão, é tomada aqui co m o a Autoridade em H abitação do
baixo custo porque a palavra “popular” significa corretamente “ das mas­
sas” ou “ classe baixa” , “ A utoridade” é utilizada porque é o que ela é —
um órgão estadual (e após 1964 nacional, mas organizado a nível esta­
dual) com a m aior autoridade para construir casas e autoridade secundá­
ria para fazer uma série de outras coisas, inclusive, por vezes, o trabalho
social julgado necessário na rem oção das favelas para preparar sua popu­
l a ç ã o inculta para a residência nas casas da c o h a b . O term o “ companhia”
refere-se a um a form a jurídica de organização — um estratagema chamado
“ com panhia mista” ;, isto é, com paTticipação tanto privada (em 1962 e daí
em diante, fortemente controlada pelo grupo de Lacerda) quanto pública — ,
o que, pela lei brasileira, permite ao órgão fazer coisas que um órgão do
Estado formalmente não pode fazer — por exem plo, expropriar, comprar
e possuir terras, uma função, assim o cremos, de status de seu setor pri­
vado. Esse estatuto jurídico foi necessário porque sempre fo i o objetivo da
cohab desenvolver extensos projetos, exigindo grandes parcelas de terra
de propriedade privada, que ela mais tarde parcelaria em lotes. A maioria
das construções e financiamentos da c o h a b , mas não toda, fo i de casas
de baixo custo; ela também construiu casas de classe média, bem com o
edifícios no bairro da G lória que haviam sido destruídos pelas chuvas
de 1966.
34 Lei n.° 263, 24 de dezembro de 1962, publicada no Diário Oficial (gb)
a 24 de dezembro de 1962, pp. 26,907-26,914.
A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

Bem como parte da tentativa multifacetada do Presidente Goulart


He lançar uma base política firme no seio do proletariado urbano,
especialmente durante o período em que foi bloqueado pela impo­
sição do parlamentarismo. Segundo, parece orientar-se no sentido
do estabelecimento do controle federal sobre o dinheiro vindo do
"’'exterior, uma característica importante nas jogadas de poder polí­
tico no Brasil, quando era possível aos governadores estaduais —
como Lacerda e Aluísio Alves — agir como chefes de países sobe­
ranos para a obtenção de empréstimos de outras nações soberanas
(os Estados ünidos) (ver At. 2-III, XIII, Parágrafo único). O
Conselho Federal de Habitação deveria também encorajar a pesqui­
sa habitacional (Art. 2-VII, VIII) e criar pessoal técnico.
A criação da C O H A B pode ser vista como uma resposta à cria­
ção do Conselho Federal de Habitação e suas cláusulas porque, num
sentido formal, foi organizada para fazer exatamente as coisas esta­
belecidas pelo decreto federal. Ao mesmo tempo, ela criava, num
sentido informal, um corpo independente sob o controle de Lacer­
da (cujo vice-governador, Rafael de Almeida Magalhães, e o genro,
Flexa Ribeiro, controlavam 49% da percentagem permitida a acio­
nistas privados) com acesso direto às massas proletárias urbanas que
ele tentava mobilizar desde a “ Batalha do Rio” , em 1948. À c o h a b ,
que, por seus estatutos, podia receber subsídios, forneceu uma base
organizacional para a constituição de uma oposição às forças de
Goulart. Essa base foi fortalecida e expandida pela captura e in­
corporação da Fundação Leão XIII ao aparato do Estado nos vá­
rios movimentos de 1960, 1962, e 1964. O s e r f h a , como expres­
são dos regimes de Kubitschek e de Quadros (sendo que com o par­
tido do último, a u d n , Lacerda havia também chegado ao poder
como governador) representava uma base remanescente da amea­
ça das massas urbanas ao controle político de Lacerda. Ele foi des­
feito, uma vez que sua política significava uma crescente indepen­
dência e participação do proletariado nas decisões políticas e sócio-
administrativas, um desenvolvimento antagônico aos interesses re­
presentados por Lacerda: partido, Igreja, negócios e os seus pró­
prios.
Voltemos ao acordo do Fundo do Trigo. Os termos do acordo
entre Lacerda e a Agência norte-americana para o Desenvolvimen­
to Internacional especificavam que, sob o título 1 da Lei 480 da
República dos Estados Unidos, da América, um bilhão de cruzeiros
(US$ 2.857.000) obtidos pela venda de produtos agrícolas ao
Brasil seriam usados para a urbanização parcial de algumas favelas,
para a urbanização completa de uma grande favela, para a constru­
ção de 2.250 casas de baixo custo, para a “ reacomodaçao” dos mo­
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 217

radores das favelas, e para a construção de um grande posto de


Saúde numa distante região do Estado. 0 Estado da Guanabara
também contribuiria com 3 % de sua renda anual (usis, 1962).
Deve-se observar que um pedido anterior de dinheiro ao Banco Tn-
teramtsricano de Desenvolvimento, feito em maio, 1961, não havia
sido aceito na época do acordo com a A ID (Fundação Leão X IIIt
1962: s /d ).
A. jogada de Lacerda para a obtenção de apoio internacional
e a tentativa, à qual se deu grande publicidade, de construção em
grande escala das favelas e sua posterior remoção devem ser vistas
no contexto da política nacional brasileira de pré-golpe, nos inícios
dos anos 60. Interessado na presidência, Lacerda, o ex-jovem jor­
nalista radical, julgou oportuno seguir uma linha mais conserva­
dora nos anos 60. Rios (1964:168) observa:
“ A candidatura de Carlos Lacerda para a presidência da Re­
pública, num contexto claramente anti-reformista e de direita, mo­
bilizando grandes recursos, parece anunciar. . . a fusão de parti­
dos do centro em torno de seu nome, numa reformulação das po­
sições conservadoras que tendem a ir para os extremos de modo a
facilitar o ataque aos adversários,”
A coincidência parece sugerir que Lacerda já buscava a presi­
dência desde os fins de 1961, ou em 1962 (ver Skidmore, 1967:
274, et passim).
Apesar de seu encargo, através do Acordo do Fundo do Trigo
da AID (ver Apêndice I I ), de reconstruir e urbanizar bem como de
erradicar as favelas, declarações em documentos da c o h a b criticam
as administrações anteriores por não terem pensado em termos de
erradicação, sugerindo que a erradicação era a única política rea­
lista.
“ Depois de 1955, o Estado voltou seus olhos mais uma vez
para o problema. Criou vários órgãos e instituições que tentaram
por várias formas e meios minimizar os efeitos das pressões sócio-
econômicas que atuaram sobre a população favelada. Nenhum de­
les tinha como objetivo a erradicação dessas aglomerações. O atual
governo (Lacerda) foi o primeiro a enfrentar o problema em ter­
mos de erradicação” ( g b , c o h a b , 1963 - 65:4).
Foi dado amplo apoio econômico e institucional à política de
erradicação com a criação, em 1964, após o golpe militar, do Ban­
co Nacional da Habitação ( b n h ) , com Sandra Cavalcanti, primei­
ra secretária de Serviços Sociais de Lacerda, e primeira presidente
do b n h (Lei 4 .38 0 , 21 de agosto de 1964). A orientação do b n h
era decididamente a da escola monetarista do Ministro da Fazenda
Roberto Campos (que, em conexão com o i p e a — Instituto de
218 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

Econômicas e Aplicadas, e conselheiros americanos propôs


P e s q u is a s

a idéia de um esforço habitacional maciço como forma de dar im­


pulso a economia e que foi instrumento da criação de um banco da
habitação); os monetaristas baseavam o planejamento e a ação pre­
dominante em políticas fiscais mais do que nas institucionais, ca-
'"racterístieas dos anos de Kubitscliek e de economistas como o Mi­
nistro do Planejamento Celso Furtado, diretor anterior da Superin­
tendência de Desenvolvimento do Nordeste e economista temporá­
rio do grupo e c l a .
0 Banco, operando no interior desse quadro, argumentava que
colocando grandes somas de dinheiro, como política fiscal de inves­
timento, na habitação iria ( a ) criar muitos empregos; ( b ) contri­
buir para elevar os níveis de qualificação dos trabalhadores, e conse­
qüentemente a produtividade; ( c ) estimular a indústria nacional35;
( d ) estimular a indústria do aço; (e ) reativar o mercado de capi­
tais, que durante^ um longo período de tempo antes de 1964 estive­
ra notadamente em depressão, por causa da manutenção das leis de
controle de aluguel pela Administração Federal — ambas medidas
populistas e tentativas de manter suficientemente baixos os custos da
habitação disponível para acomodar a contínua migração para as ci­
dades. 0 efeito havia sido, todavia, o de desencorajar novas constru^
ções — uma combinação de circunstâncias 0 B N H , desta forma, ar­
gumentava que a construção de habitações em massa resolveria o
“ problema da favela” além de contribuir poderosamente para o re­
nascimento da economia — em má situação, segundo o b n h , desde
as desastrosas políticas de Joao Goulart (e mesmo em razão delas),
mas segundo economistas como Werner Baer, desde os fins dos anos
50, por causa dos processos a longo-prazo de superexpansão das ca­
pacidades de produção em relação aos mercados consumidores. Para
alcançar esses objetivos, percebia-se também como essencial a elimi­
nação da duradoura inflação — o monstro monetarista — cuja
abrupta subida em 1963 foi também atribuída a Goulart e tem sido
enganosa e sistematicamente utilizada como base para a comparação
de cada administração desde 1964. Enquanto a inflação estava sen­
do controlada, instituições especiais, tais como a “ correção monetá­
ria” , que mantinha o valor dos capitais investidos, foram utiliza­
das pelo B N H .
Pouca reflexão e ainda menos pesquisa foram dedicadas à ca­
pacidade dos moradores da favela para pagamento do “ embrião” cons­
truído pela c o h a b , ou das casas mínimas nos projetos habitacionais
como a Vila Kennedy. A capacidade de pagar era, e ainda é, con­

35 Para discussão dessa linha de pensamento, ver “ Construção Civil absor­


ve 30% da mão-de-obra do país” . Agente 2(6):22-29I1968.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 219

cebida como uma simples função percentual da renda familiar, e


não como uma complexa política de alocação a longo prazo levada
adiante pela família. Assim, por exemplo, a inclusão da “ correção
monetária” — uma contínua correção na soma paga sobre amortiza­
ções das casas inacabadas e em apartamentos, baseada na taxa de
desvalorização do dinheiro — nos pagamentos de amortização pro­
duziu mais ou menos um acréscimo de 60% nos pagamentos dessas
casas mínimas, porque as políticas de financiamento a longo-prazo
para pessoas de baixo nível de renda sempre consideraram a queda
absoluta, bem como relativa, do custo dos pagamentos onde não
houvesse “ correção” num sistema de pagamento por prestação. O
problema tornou-se mais grave em virtude do fato de que, desde
1964, os aumentos salariais não foram concedidos nem na mesma
época, nem na mesma medida em que o custo de vida aumentava.
Essa situação deriva diretamente do salário nacional, do con­
trole da inflação e das políticas de investimento dos governos mili­
tares da forma como são realizadas, no caso em questão, através do
órgão estatal da c o h a b e, mais tarde, através dele e da c h i s a m
(ver adiante), ambas capazes de usar a política ou a força militar
quando necessário. Os interesses imediatamente ligados a essas po­
líticas eram os da indústria de construção e dos mercados de capi­
tal, ambos tendo apoiado vigorosamente Lacerda e as políticas na­
cionais.
Além disso, nem a c o h a b , nem Lacerda refletiram sobre o fato
de que remover famílias faveladas para enclaves proletários isola­
dos, distantes dos mercados de trabalho da cidade, criaria uma forte
pressão econômica sobre famílias cujos orçamentos já eram estica­
dos até o limite máximo. Produziriam também fortes pressões so­
ciais devido ao tempo de transporte necessário para chegar ao tra­
balho, de modo que os homens geralmente permaneceriam na cida­
de durante a semana. Muitas famílias removidas de favelas para
vilas desfizeram-se, tendo os homens encontrado novas famílias, vol­
tando a inchar outras favelas, permanecendo suas mulheres isola­
das, sem trabalho e com crianças, ou tendo voltado para favelas na
cidade.
Nesta última etapa da história da relação favela-administração,
as favelas são novamente vistas como aberrações sociais nocivas, de­
vendo ser removidas do playground de elite da “ gente fina” (ver
nota 11, ( d ) ( e ) e ( / ) e a discussão de texto da Fundação Leão
X III adiante)* As poucas tentativas de oposição a essa política en­
contraram reação vigorosa e efetiva por parte dos órgãos governa­
mentais tanto a nível estadual como federal, como descreveremos
abaixo.
220 A S o c io l o g i a do B r a s il U rbano

As realizações mais notáveis da c o h a b encontram-se na área


da remoção e transferência das populações faveladas e da constru­
ção das vilas Kennedy, Aliança, Esperança e Cidade de Deus ( ! ! ) ,
embora tenha havido algumas tentativas ao longo de 1 9 6 5 de ur­
banização in loco de algumas poucas favelas.30 Uma das duas pri­
meiras favelas a serem removidas pela c o h a b foi a do Morro do
Pasmado, localizado numa área turística por excelência com vista
para a Baía da Guanabara. Correu amplamente o rumor de que essa
favela extraordinariamente visível foi removida para dar lugar a
um Hotel Hilton, e, com efeito, o Relatório Geral da c o i i a b lista*
entre seus projetos, “ Morro do Pasmado — construção do Hotel”
( g b , c o h a b , 1963-65:27).

A reação da população favelada às remoções iniciais e a amea­


ça de novas remoções foi muito negativa. O estudo de Salmen, fei­
to em 1966, relata um grau significativo de insatisfação por parte
dos moradores da favela removidos para as Vilas Kennedy e Alian­
ça (Salmen, 1969). 0 fracasso do candidato de Lacerda na elei­
ção governamental de 1965, Flexa Ribeiro, seu contraparente*
parece ser, em grande parte, atribuível a essa reação negativa.

36 Na maior favela do Rio, com cerca de 80.000 habitantes, a lacare-


zinho, planos para urbanização em larga escala foram implantados (ver
GB, c o h a b , 1963-65:78), incluindo a instalação de redes de água, esgotos
e galerias de águas pluviais. Na época em que a c o h a b deixara a favela,
parte de uma das ruas principais havia sido ampliada às expensas de algu­
mas casas ao longo da rua, cujos proprietários viram o nível da rua tor­
nar-se mais alto do que as suas portas de entrada e janelas, impedindo a
entrada, a ventilação e a luz. Milhares de metros de canos de água, arma­
zenados em 1965, esperando para serem instalados, usados com o play-
grounds pelas crianças, ainda estavam nas ruas da favela em dezembro
de 1969, quatro anos e meio depois de nossa última visita lá. A urbani­
zação da Favela Vila da Penha foi amplamente completada em 1965 {ibidT
p. 12). Na mesma época, as remoções das favelas prosseguiram apressa­
damente com o se segue (até junho, 1965; remoção total: T ; parcial: P;
família: F; uma família, cerca de 5 pessoas): Vila da Penha (P, 180F);
Bom Jesus (T , 510F); Vila do Vintém (P ); Álvaro Ramos (T, 25F);
Ponta do Caju (T, 30F); c c p l (T, 118F); Timbó (P, 104F); M orro São
Carlos (P, 253F); Avenida Brasil (P, 15F); Moreninha (T, 35F); Que­
rosene (P, 210F); M orro dos Prazeres (P, 10F); todas as precedentes em
1961. Pasmado (T, 911F); Getúlio Vargas (T, 113F); Maria Angu (T t
460F); João Cândido (T, 665F); Maneta (T, 41F); Conjunto São José
(P, 20F); Vila do s à s e (T, 11F); M acedo Sobrinho (P, 14F); Del Casti­
lho (P, 9F ); Marquês de São Vicente (P, 32F); Ladeira dos Funcionários
(P, 8F ), todas em 1964. Brás de Pina (P, 366F); Turano (P, 34F); R io
Joana (T 23F); M orro do Quieto (P, 46F); Praia do Pinto (P, 20F);
Favela do Esqueleto (2027F, 800 dos quais em 1961). Total 6290F ou
cerca de 31.000 pessoas ( g b , o o h a b , 1963-65, pp. 12-18).
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 221

O maior número de votos contra Flexa Ribeiro foi sistematica­


mente das áreas proletárias que incluíam o maior número de fave­
las. A distribuição estatística reforça as impressões que tivemos em
algumas favelas a partir de entrevistas, sendo praticamente todas
explicitamente anti-Lacerda, contra o governo nacional militar a
quem ele e as dificuldades econômicas estavam associados, a seu
ver, e, evidentemente, contra o “ pupilo” de Lacerda, Flexa Ribeiro.
0 resultado da eleição de 1965 na Guanabara foi o de trazer
ao governo Negrão de Lima, um governo cujo apadrinhamento
p t b - p s d tornou-se oposição ao Governo federal e, por implicação, a

suas políticas expressas a nível estatal. Este reagiu imediatamente,


em crise, suprimindo todos os velhos partidos políticos e criando a
miragem do aparente sistema bipartidário atual.
As privações, que atingiram não apenas os entrevistados no es­
tudo de Selmen, mas também os milhares de removidos desde 1966,
são de natureza econômica, social e emocional. Um breve estudo
de caáo de dois tipos de problemas tipicamente encontrados ilustra­
rão essas dificuldades. A família que descrevemos está talvez em
melhor situação do que muitas retiradas à força das favelas, mas
seus problemas são típicos. Sua favela situava-se numa área de eli­
te do Rio, mas com um pequeno enclave de indústrias com salá­
rios comparativamente bons e algumas embaixadas requerendo tra­
balho doméstico. Eduardo, 29 anos, ia a pé para o seu trabalho
numa fábrica têxtil; trabalhava de 16h. à meia-noite, ganhando
três salários mínimos na fábrica. Esse horário lhe permitia ter uma
série de trabalhos secundários ( biscates, ver Silberstein, 1969) como
pintor de casas em suas horas vagas pela manhã, Vilma, sua mu­
lher, 26 anos, ia também a pé para seu trabalho matinal como em­
pregada numa embaixada, o que deixava livres as suas tardes para
dar almoço a seu marido e tomar conta de seu filho de 4 anos e de
sua sogra idosa e doente que morava com eles. Nao pagavam alu­
guel, tendo construído a casa, e, com o salário de ambos e uma pe­
quena pensão de sua mae, podiam se virar, sendo os gastos princi­
palmente para alimentação, abastecimento doméstico, remédios,
peças de vestuário ocasionais, e alguma ajuda à mãe de Vilma. Em
março de 1966, a favela foi removida e a população colocada num
conjunto habitacional num distante distrito do Rio, exigindo duas
Horas de viagem de ônibus, cada ida e volta, oito passagens de ôni-
bus^diárias (cerca de 50-60% de um salário mínimo), assistência
paga para o filho, o pagamento de uma amortização mais cara do
que eles podiam arcar, a redução dos biscates de Eduardo devido às
dificuldades de horário e o aumento da tensão emocional entre ma­
rido e mulher porque seus horários sõ coincidiam aos domingos.
A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

Para muitas outras famílias, tal mudança significou também a


perda de uma parte ou de todo o salário da mulher, uma vez que
03 empregos domésticos mais bem pagos encontram-se apenas na
distante Zona Sul, longe dos novos conjuntos habitacionais. Além
disso, significou a perda do dinheiro de reserva obtido pelas cri­
anças como carregadores para as matronas de classe média nas fei­
ras da Zona Sul, ou como engraxates ou garotos de recados nas áreas
comerciais da cidade.
A era de erradicação, controle e repressão é também bem exem­
plificada pela história e atividades da Fundação Leão X III nos anos
60 e por suas subsidiárias de pouca duração, o b e m d o c (Brasil-Es-
tados Unidos — Movimento para o Desenvolvimento e Organização
de Comunidade ).
Nos fins da década de 1950 e inícios dos anos 60, a Fundação
estava moribunda, tendo as suas atividades e muitas outras sido en­
globadas pelo S E R F H A e pela Coordenação de Serviços Sociais dirigi­
da por Rios. Toda pequena atividade que a Fundação desenvolveu
havia sido, em sua maior parte, financiada pelo Estado (Berson,
1964:28). Assim, na verdade, ela já era instrumento do Estado?
Embora ainda existisse como pessoa jurídica privada sob a influên­
cia conservadora de D. Jaime de Barros Câmara e possuísse ainda
oficialmente centros em um grande número de importantes favelas
eomo assinalamos anteriormente.
Esse status permaneceu durante os primeiros dois anos do Go­
verno Lacerda na Guanabara ►Ainda não desemaranhamos total­
mente a teia política de sua obtenção dessa agência em 1960, po­
rém ela envolve entre outros os seguintes elementos. Lacerda já
havia sido intimamente ligado a Igreja e ao seu chefe da ala direi­
ta no Rio, o Cardeal Câmara, em muitas questões políticas, especi­
almente com relação às batalhas em apoio das escolas paroquiais
sob a nova lei nacional de educação (Maciel Barros, 1960:442,
504-522), enquanto ele era ainda deputado federal (ver, também
Skidmore, 1967:200, 299, com seus pontos de vista próprio s).
Em segundo lugar, Lacerda assegurou a candidatura de Qua­
dros à presidência da República, em 1959, pela legenda da u d n .
O próprio Lacerda — talvez, em parte, às custas de Quadros — ob­
teve a vitória sob a legenda da u d n , embora essa aliança, como tan­
tas de Lacerda, fosse provisória. Assim, Lacerda foi pioneiro numa
arena política nova — a cidade-estado do Rio de Janeiro, nao mais
um apêndice nacional como o Distrito Federal, mas um Estado au­
tónomo, maduro, política e administrativamente igual aos outros
Estados.
F avelas e C o m u n id a d e P o l í t i c a 2 23

Desta forma, Lacerda chegou ao poder com o múltiplo apoio


da ala direita da Igreja e dos interesses corporativos de grandes ne­
gócios, privados por um lado e, por outro, de um certo populismo,
derivado das posturas de Quadros no Governo e na campanha, e
das próprias declarações anteriores de Lacerda que pediam reforma
administrativa, bom Governo, e maiores benefícios para o povo. A
história dos cinco anos do seu Governo pode ser entendida noa ter­
mos da predileção bastante clara de Lacerda pelo primeiro conjun­
to de interesses, conexões e influências, a crescente e dissonante
oposição entre os dois conjuntos de interesses a nível federal duran»
te os regimes de Quadros e Goulart, o explícito e abrupto movimen­
to em direção ao primeiro conjunto, começando com o golpe de 1964«
(no qual — como na queda de Quadros — Lacerda, esperando al­
cançar a presidência, desempenhou um papel ativo), e sua tentativa,
entre 1964 e a posse de Negrão no cargo, em 1966, de lançar raí­
zes permanentes de poder na ampla população urbana, e especial­
mente proletária, da Gunabara. A Fundação Leão X III tem uma
história interessante com relação a esta seqüência. Como dissemos,
ela foi originalmente, e permaneceu até 1962 (ver Decreto [ g b ]
N.° 1041, 7 de junho de 1962) como uma instituição privada, esco­
rada pela Igreja, para o bem-estar social. Como o Apêndice II in­
dica, por volta de 1961 ela havia se tornado — em virtude do am­
plo apoio financeiro estatal e da “ compreensão17 do Cardeal Câmara
— uin órgão estatal de facto. Lacerda escolheu este órgão ambigua­
mente situado para representar o Estado e para ser o funil para a
verda da AID fornecida pelo Acordo. Foi também designado como ór­
gão para desenvolver atividades de urbanização. Assim, a organiza­
ção privada, religiosa, de bem-estar social, estabelecida originalmente
com o objetivo principal de combater a influência comunista e ain­
da supervisionar 34 favelas importantes, tornou-se, por curto espa­
ço de tempo, o instrumento oficial de urbanização, e o receptor dos*
fundos internacionais concedidos ao Estado.
Na reforma administrativa geral de agosto/dezembro de 1962*
depois da demissão da Coordenação e da criação da Secretaria de
Serviços Sociais, a Fundação Leão X III foi absorvida pela então re­
cente Companhia Estadual de Habitação Popular da Guanabara, ou
G OHAB. Documentos da época são rotulados “ coHAB-Fundaçao Leão
X III” ou, ocasionalmente, vice-versa. No intervalo entre a assina­
tura do Acordo do Fundo do Trigo e sua absorção pela c o h a b , a
Fundação havia começado a trabalhar na primeira das cidades pro­
letárias — Vila Aliança — cujo estabelecimento, sob a direção da
c o h a b , já começara no início de 1963. Outros “ projetos” de “ vilas1’*
224 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

e o de urbanização da favela da Penha, listados no Acordo, foram


desenvolvidos sob a direção da c o h a b .
A c o h a b permanece, boje, como um organismo basicamente
habitacional. Sua relação específica com o Estado e, após 1964 —
com a fundação do B N H e sua divisão a nível federal (também
chamada c o h a b ) como autoridades em habitações de baixo custo —
com os governos federais, mudou muitas vezes. O que variou nessas
mudanças foram suas atividades subsidiárias, como serviço de bem-
estar social. A Fundação permaneceu adormecida por cerca de ano
c meio, mantendo em esqueleto serviços médicos e sociais em al­
gumas favelas tradicionalmente sob seu controle, como uma espé­
cie de ramificação de bem-estar social da c o h a b .
A renovação das atividades da Fundação Leão X III começa­
ram com a proposta da AID para um projeto de demonstração de de­
senvolvimento comunitário baseado em pesquisa supondo que ( o )
as favelas continuariam a existir por muito tempo, {b ) a necessi­
dade de fundos era inesgotável, ( c ) programas de desenvolvimento
comunitário poderiam ser feitos para a diminuição dos custos em
áreas pobres, e ( d ) com novas abordagens e práticas demonstrati­
vas eles poderiam ter um efeito multiplicador significativo (Leavitt,
em Leeds, 1966:1). A proposta foi, eventualmente, apresentada
ao Estado da Guanabara através do então Secretário de Serviços
Sociais de Lacerda, Sandra Cavalcanti, que lhe deu sua “ entusiásti­
ca aprovação e subseqüente apoio” — com o aval de Lacerda, ao que
se supõe {ibid).
É interessante observar que a primeira formulação da propos­
ta foi feita em outubro de 1963 — em meio às intensas atividades
populistas do Presidente Goulart e do Deputado Federal Leonel
Brizola, eleito pela Guanabara em 1962, embora tivesse poucas li­
gações nesta, por um recorde de votos, na mesma eleição que trou­
xe ao poder Elói Dutra, “ um franco opositor de Lacerda” (Skid­
more, 1967:230) como vice-governador da Guanabara. Brizola es­
tava presumivelmente desenvolvendo seu “ grupo dos onze” , exi­
gindo mudança radical e atividades de esquerda no Brasil. Assim,
do ponto de vista de Lacerda, de seus objetivos políticos de sua po­
lítica estatal, ele se confrontava com um vice-governador antago­
nista, um deputado federal radical, da Guanabara, aparentemente
muito poderoso, ativo entre a população, e um presidente esquer­
dista tentando radicalizar as massas urbanas. O “ entusiasmo” de
Sandra Cavalcanti, então, é mais do que compreensível, uma vez
que a ela, como agente de Lacerda, se apresentava uma proposta de
dirigir o dinheiro dos cofres do Estado, de criar um organismo
•cujas realizações redundariam em credito para o governador, en­
F avelas e C o m u n íd a d e P o l ít ic a 225

quanto neutralizariam o ônus das remoções de favelas já iniciadas


e forneceriam um canal adicional de influência nas favelas, mui­
tas das quais eram sabidamente ligadas às atividades inspiradas por
Brizola e Goulart.
0 presidente da Fundação Leão X III, que, já há algum tem­
po, era de algum modo subsidiária da Secretaria de Serviços So­
ciais (sss), induziu a a i d a se colocar sob a égide da Fundação de­
vido à sua flexibilidade e autonomia administrativa e financeira;
porque ela executava “ importantes planos da Secretaria de Bem-
Estar Social” ; e devido a seus longos anos de ligação com o proble­
ma das áreas pobres (carta à A i d , 1 6 /3 /1 9 6 4 , citado em Leavitt
e em Leeds, 1966:2). A Fundação era também a escolha de San­
dra Cavalcanti.
Os fundos iniciais a partir da Lei 480 de fundos do trigo co­
locava Crf! 424.000.000 disponíveis com a promessa de uma soma
posterior maior, dependendo de uma avaliação ao final de dois
anos; um subsídio adicional de Cr$ 270,000.000 era concedido
(um total bruto de cerca de 450.000 dólares na época). O Projeto
chamou-se b e m d o c e iniciou suas operações por volta de outubro
de 1964.
À altura de dezembro de 1966, o b e m d o c estava morto. Uma
análise desse desaparecimento, bem como dos últimos meses do regi­
me de Lacerda e do primeiro ano do de Negrão de Lima, clarifica
a continuidade e as alterações na forma do controle que é o tema
do nosso trabalho. Esse último começou de modo nao auspicioso
sob a ira do derrotado Lacerda, chuvas catastróficas, crise militar,37
repressão dos partidos políticos, tentativas de se iniciar uma inves­

37 Durante toda a noite da eleição de 1965, o edifScio do Ministério da


Guerra esteve iluminado. D o que se depreende a partir de notícias de jor­
nal, rumores e acontecimentos subseqüentes o seguinte: os militares
linha-dura, temerosos com a eleição de um candidato ptb-:psd e com a
rejeição popular maciça em relação ao governo militar, seus representan­
tes e colaboradores, forçaram o Presidente Castelo Branco, anteriormente
um “ legalista” entre os militares, a abolir a totalidade dos partidos exis­
tentes e, por decreto, a criar um aparente sistema bipartidário (sendo hoje
reduzido a um sistema unitário). Aparentemente, fez-se uma troca por
meio da qual foi permitido a Negrão permanecer no cargo, mantendo desta
forma a aparência de uma escolha democrtica — e também, segundo
algumas interpretações, permitindo ao Presidente Castelo Branco manter
com o sua oposição um conjunto de homens mais fraco do que se 0 “ mario­
nete’* de Lacerda, Flexa Ribeiro, houvesse ganho, minando desta forma
o poder de Lacerda, que fora uma ameaça real para Castelo Branco na
época em que este foi escolhido com o presidente — em troca da criação
de uma fachada de uma estrutura partidária democrática que era na
verdade rigorosamente controlada pelo Governo Militar. Um outro aspec­
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

tigação policial militar contra ele, e acusações de corrupção e de


brandura para com o comunismo.
O b e m d o c nunca recebeu uin estatuto jurídico como institui­
ção, exatamente como a Fundação, que permanecera por muito
tempo, equivocadamente, um órgão do Estado — e o era ainda
quando a AID fundou o b e m d o c , sob sua supervisão. A Fundação
devia fornecer sede para o projeto, incluindo pessoal de secretaria e
padres, manutenção de veículos e equipamentos, controle fiscal, in­
cluindo a manutenção de contas abertas à a i d de todas ag operações
do projeto. Assim, na suprema questão de finanças, embora a
a i d alocasse fundos especificamente ao b e m d o c , foram abertos ca­

nais para a utilização por parte da Fundação de tais fundos para


objetivos que não os do b e m d o c . O fracasso em tornar o b e m d o c
juridicamente independente deixou-o, na verdade, simplesmente
como um programa desprotegido, muito rico, da Fundação.
A história do projeto é a história da utilização do b e m d o c
pela Fundação como um veículo para se autopromover e promover os
interesses do Estado relativos às populações faveladas. O b e m d o c
publicava um boletim informativo para divulgar suas atividades;
a Fundação insistiu em lançar notícias das atividades da Fundação»
O b e m d o c , usando apropriadamente os fundos da a i d , conforme
o acordo, fez vários tipos de melhorias nas favelas. A Fundação
fez com que estas lhe fossem creditadas por meio de sua presença
nas cerimônias de inauguração e colocando placas com a ênfase no
seu nome. Os exemplos eram inúmeros*
Além de se promover, a Fundação, especialmente em 1966?
começou a pressionar tanto o b e m d o c como a a i d para que o pri­
meiro operasse em todas as suas favelas — contrariamente à inten­
ção e ã carta dos objetivos originários do projeto ( açao-pesquisa pi­
loto em duas a quatro favelas). Sendo a única parte da Fundação-
que, na época, funcionava efetivamente, e a única seção rica, essa
pressão pode ser vista como um esforço importante para estender
os laços do b e m d o c e sua influência substantiva (embora limitada,
como realmente o era) nas favelas àquela proporção muito impor­
tante da população favelada da Guanabara que sempre estivera sob
o domínio da Fundação.
Isso foi especialmente importante em 1966, quando Negrão
precisou consolidar sua posição política na Guanabara pela erradica­
ção do pessoal de Lacerda das posições de liderança, cultivando

to da barganha, diz-se, foi a manutenção de Castelo Branco com o pre­


sidente — do que os militares linha-dura ainda precisavam naqueles dias
mais brandos, quando se pensava ainda que lisonjas verbais criariam o
consenso para apoiar o novo Governo e suas políticas.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít íc a 227
apoio real no seio da população favelada, e tudo isso ao mesmo tem­
po em que evitava constantemente qualquer antagonismo com es
segmentos médios e superiores, e acima de tudo não provocando ne­
nhuma resposta do Governo central e seus homens de confiança
(especialmente o Secretário de Segurança Pública) no Governo do
Estado,
Assim, em 1966 e por algum tempo’ mais, a c o h a b declinou
em importância e se restringiu no alcance de suas atividades, ao pas­
so que a Fundação expandiu suas atividades e renovou sua ação
nas favelas através de todo o Rio, inicialmente tentando usar o
b e m b o c e, depois do desaparecimento deste, por sua própria conta.

Começou a ter crescente controle sobre a autorização de melhorias


Habitacionais e outroã problemas, reativou seits centros médicoã e
educacionais, e tentou exercer um controle sobre as organizaçóes
das favelas (ver Medina e Valadares, 1968:204-5).
À extinção do b e m d o c teve como causa imediata a intransi­
gência, por um lado, do pessoal do b e m d o c e da A r o em insistir
em que ele devia permanecer como um projeto-pilotò de pesquisa
de comunidade operando em três ou quatro favelas, ou seja, úma
operação limitada, experimental, técnica. Por outro ládò, deveu-se
à intransigência da Fundação, ou, mais provavelmente de séu co­
mando extraordinário, em insistir em que o b e m d o c expandisse
suas atividades para muitas favelas* alterando a forma de suás ati­
vidades —- ou seja, que ele se tornasse uma ampla operação políti­
ca. Esse objetivo é coerente não apenas com as necessidades do
governador de ampliar seu controle na época, mas também,com os
interesses de controle populista da facção Tf ara Vargas no p t p ,
cujo representante no Governo dè Negrão era Hortênsia Dunçhee
de Abranches, então Secretária de Serviços Sociais. A intransigên­
cia da Fundação manifestou-se em uma série de conversações insti­
gadoras com a AID, criando facções dentrò dó b e m d o c * retendo fun­
dos para o pagamento de pessoal, e assim por diante. A a i d final­
mente deu fim ao projeto ém dezembro de 1966.
Num sentido amplo, a extinção resultou da dissonância de um
novo contraponto que emergiu com â eleição de 1965: aquele enfre
o governo militar cada vez mais controlador e repressivo e o go­
verno de oposição de base populista de Negrão de Lima, que bayia
sido eleito pela coalisao p t b - p s d . Por volta do final dos.anos 6-0,
este era o único governo nominal de oposição restante ilo Brasil,
uma relação dissonante a que voltaremos abaixo. A extinção do
b e m d o c foi função do contraponto político que, na época governa­

va a política relativa à favela. -


228 A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

É interessante observar uma tentativa paralela de utilização do


B E M D O C por outro organismo estatal. A Comissão Estadual de
Energia ( c e e ) foi estabelecida por volta de 1963 durante o re­
gime de Lacerda, oficialmente para fornecer eletricidade às favelas
e para tratar de outras necessidades de energia do Estado da Gua­
nabara que não se enquadrassem nas obrigações legais da compa­
nhia privada, a Light canadense. A c e e deveria também tentar aca­
bar _com a exploração dos moradores da favela ( “ a indústria das fa­
velas” ) por aquelas pessoas privadas que possuíam relógios e redes,
vivendo dentro ou fora da favela, e cobrando taxas exorbitantes
pelo uso dessa eletricidade.
Usando como base muitas das favelas organizadas cujas asso­
ciações haviam sido estabelecidas durante o período de Rios no
S E R F H A , a c e e promoveu a organização nas favelas de Comis­
sões de Eletricidade que deviam ser separadas das associações de fa­
vela existentes. Ela optou explicitamente por esse procedimento e
também pelo controle das finanças das Comissões através de rela­
tórios financeiros quinzenais a CEE? de forma a evitar a corrupção
que era sabidamente freqüente nas associações dos moradores de
favelas (entrevista com o Coronel Leitão, Diretor da c e e , 18 de
novembro de 1969).
A implantação das Comissões de Luz foi entendida por mui­
tos moradores e líderes de favelas como uma tentativa de enfraque­
cer ou acabar com as associações existentes, de modo a estender o
controle estatal às favelas pela criação de dissidências e facções no
interior das favelas. (Primeiro Congresso de Favelas, 1964« )ss
Pode-se notar também que, além de pagar pela instalação do
equipamento de eletricidade estatal (transformadores, pólos, reló­
gios, etc.) com seu próprio dinheiro, os moradores das favelas ti­
nham que pagar uma taxa extra de 20% sobre o total de conta de
luz de cada favela (da Companhia lig h t), a ser depositada na con­
ta de cada Comissão de Luz aparentemente para serviços de manu­
tenção). As eontas deveriam ser mantidas no Banco da Guanabara.
As eontas do Banco do Estado não precisam ser processadas no Tri­
bunal de Contas da União. Ao exigir que os fundos de manuten­
ção fossem depositados no Banco do Estado, o Estado tinha o uso

38 Os moradores e a Associação da Favela Macedo Sobrinho rejeitaram


as proposta da c e e de construção de um sistema elétrico, com base no
fato de que isso dividiria a comunidade e quebraria a autonomia da asso­
ciação. Esta última, eles o disseram, já tinha tido muitos problemas de
facções sem que acrescentasse à arena política da favela outra base de
poder independente e competitiva, controlada de fora. Eles julgaram pre­
ferível manter as linhas de eletricidade privadas freqüentemente explo­
radoras a perder a autonomia arduamente conquistada.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 229

dos 2 0 % acumulados da c e e e de outras fontes, como uma verba


secreta a ser mobilizada para os objetivos políticos e públicos do Es­
tado não divulgados. Uma parcela significativa desses fundos esta­
va sendo obtida pela exploração da necessidade de eletricidade dos
moradores das favelas e pela sua necessidade de pagar mais por
isso do que as pessoas de fora de favela.
Embora a c e e já houvesse estabelecido algumas Comissões de
Luz por volta do final de 1964 (Primeiro Congresso de Favelas,
1964), a mudança na administração do Estado, no início de 1966,
iniciou um período de rápida irradiação da c e e nas favelas, pro­
cesso paralelo à revificação da Fundação Leão X III.
Por volta de meados de 1966, a c e e dirigiu-se ao b e m d o c re­
querendo sua assistência para ajudá-la a persuadir dezessete fave­
las a aceitarem e cooperarem com a c e e . A Administração do
b e m d o c viu o pedido eomo um desafio tanto às suas capacidades de

trabalho social como aos seus objetivos de desenvolvimento comuni­


tário. O fato de esse órgão jamais ter trabalhado na verdade com a
c e e deve-se talvez à rápida deterioração de sua posição e à sua mor­

te iminente. Todavia, o episódio é mais uma vez ilustrativo da


tentativa essencialmente provocadora de usar a base técnica, o fun­
do e os objetivos sociais do b e m d o c para fins de controle político.
O esforço de Negrão para tomar em mãos todas as rédeas no
início de 1966 pode ser também percebido na reconcentração do
controle sobre as administrações regionais, pela reatribuição às re­
partições públicas centrais do Governo do Estado de tarefas que
haviam sido transferidas às repartições regionais por Lacerda. Ape­
nas mais tarde naquele ano, e em 1967, houve novamente uma des­
centralização, acompanhada por uma reorganização, tendo já Ne­
grão estabelecido suas linhas de comando.
Essas linhas de comando com relação às favelas são de especial
interesse para nosso tema do contínuo controle sobre essas popula­
ções. Os elos de comando através da Fundação Leão X III e da CEE
já foram discutidos. Um outro elo — a tentativa de vigiar a ativi*
dade política na favela — vinha da sss, através de suas subdivisões
semi-autôuomas em cada uma das repartições regionais, para as fa­
velas. Os serviços regionais de bem-estar social deviam ajudar a or­
ganizar as associações de favelas, supervisionar suas eleições, apro­
var seus estatutos, aprovar reparos nas construções, enquanto as as­
sociações deviam ser responsáveis diante deles por levantamentos
cadastrais das favelas, pelo controle de reparos nos “ barracos” , a
prevenção de novas construções ( ! ! ) e assim por diante (Decreto
“ N ” , N.° 870, 15 de junho, 1967, Diário Oficial [7 2 ], 19 de junho
de 1967, ver Apêndice II I ).
230 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

Além disso, de acordo com essa medida, o Estado reconhece


apenas uma associação como o corpo representativo oficial da fa­
vela, Essa associação deveria representar mais do que cinqüenta
por cento da população da favela. Se a associação existente age de
xná-fé (por exemplo não se submetendo quinzenalmente ao relató­
rio financeiro do Estado, ou não depositando os fundos da favela
especificamente no Banco do Estado da Guanabara), a Secretaria
pode designar uma junta da favela de sua própria escolha. O Esta­
do, então, tentou exercer controle substancial sobre as atividades
das associações de favelas, bem como sobre suas populações. A reali­
zação da medida, como em muitos dos planos relativos a favelas,
foi ineficiente e inconsistente, mas a medida em si mesma é indi­
cativa do ponto de vista de que as favelas devem ser controladas.
Os administradores regionais, além disso, deviam criar um con­
selho de representantes de diferentes categorias sociais ( organiza-
fÕes de classe) — uma de cada negócio, favela ou grupos de inte­
resse. Esses conselhos deviam ajudar a formular e a executar a po­
lítica administrativa regional. Apenas dois ou três, como na re­
gião de Copacabana, chegaram a funcionar. Certamente, um repre­
sentante de todas as favelas de uma administração regional era mui­
to pouco representativo da diversidade de problemas, interesses,
necessidades e objetivos das favelas em muito diferenciadas e de
suas populações igualmente diversificadas (ver A. Leeds, 1969).
Esse solitário representante parece ter sido completamente apagado
pelos outros grupos representativos nos conselhos ■ — nos poucos
que funcionaram. Aqui, novamente, somos levados à conclusão de
que o objetivo era o controle, de que o pretendido era a cooptaçao;
e de que a difusão dos interesses políticos do Estado para as favelas
através desses conselhos era desejado pelo governador e seus conse­
lheiros.
Nos últimos anos da década de 60 e nos primeiros da década
de 70, sobrepaira a ameaça e a possibilidade de remoção e reloca-
lização forçada, em massa, contrária ao desejo enfaticamente voci­
ferado e prementemente expresso dos próprios moradores das fave­
las e da Federação das Associações das Favelas da Guanabara
( f a f e g ) , h qual voltaremos mais adiante.
O que é curioso, nessa atmosfera de coerção governamental e
de violência desenvolvida na base da política nacional estabelecida
pelo B N H com a — digamos, coagida — cooperação do Governo
Estadual, é a contínua tentativa, ein pequena escala, de oferecer
uma solução alternativa à remoção pelo organismo experimental do
Estado, a c o d e s c o (Companhia de Desenvolvimento Comunitário),
criada no início de 1968.
F avelas e C o m u n i d a d e P o l ít ic a 231

A c o d e s c o foi, ein parte, uma continuação ou uma modifica*


ção da experiência da AID com o b e m d o c . Em meados de 1966,
três especialistas em habitação {ver Wagner, McVov e Edwards,
1966; daqui por diante, chamados “ Plano Wagner” ) vindos de
Washington através da AID, tendo visitado favelas e revisto os pro­
gramas urbanos e de favelas, propuseram suas ações principais, con­
cebidas como um linico plano: o governo deveria (a ) promover
vm programa de ajuda própria de desenvolvimento habitacional-
comunitário e ( b ) criar uma autoridade da área metropolitana para
tratar de todos (e não apenas da favela) os problemas do Rio de
Janeiro e suas cidades satélites mais ou menos importantes (Nova
Iguaçu, Nilópolis, São Joao de Meriti, Duque de Caxias, Niterói,
São Gonçalo, cada uma com 400.000-500,000 habitantes, e algu­
mas cidades menores como Queimados, Belford Roxo, etc) com
uma população, no total, de cerca de 3 .000.000 de habitantes es­
palhada por ambos os lados da Baía de Guanabara.
A AID levou ao Governo do Estado essas propostas. Depois de
uma demora e de manobras consideráveis — que podemos enten­
der como relacionadas às manobras políticas do governador no
tratamento das propostas em vista de todo o contexto político
qiíe circunscrevia o seu acesso ao cargo — , Negrão designou os
presidentes da c o h a b , s u r s a n (Superintendência de Urbanização
e Saneamento) e do c p o (Coordenação de Planos e Orçamentos do
Estado da Guanabara, a comissão estadual de planejamento como
uma comissão para considerar essas propostas e ponderar um estudo
de viabilidade do Programa de Ajuda Própria de Desenvolvimen­
to Comunitário.
Em suma, os três primeiros organismos, como era de se espe­
rar pelo que dissemos antes de um deles, não mostraram interesse.
A c O H A B ? nessa época, estava sob o controle político do d n h , ape­
sar do fato de seu presidente ser designado pelo Governador do Es­
tado. Nem a s u r s a n , nem o c p o eram de forma alguma órgãos
adequados para realizar a tarefa proposta, embora fossem relevantes
para alguns de seus aspeetos, Foi a c o p e g , da qual uma das fun­
ções principais era estimular o setor privado — indústria, finanças,
construção e semelhantes — que encampou o projeto com interesse.
Isso é particularmente interessante em vista dos contrapontos
que vimos discutindo, porque o pensamento econômico orientador
da liderança da c o p e g era ínstitucionalista, apesar das formas mo-
netaristas e dos tipos de operação; seu cbefe de entao havia tido im­
portantes ligações com ambos os campos do pensamento econômico
nas épocas em que estiveram no poder do Governo federal. É tam­
232 A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

bém significativo que tenha sido a c o p e g quem tomou a si essa


tarefa porque ( « ) a c o p e g era mais livre do que outros órgãos es­
tatais que tinham uma ligação anterior com as forças agora contro­
ladoras do Governo federal e ( 6 ) ela tinha o governador e muitos
secretários-chaves favoráveis de seu gabinete no quadro de diretores
(alguns dos quais posteriormente forçados a se retirar pelo Gover­
no federal).
Esses pontos parecem-nos importantes porque todos os procedi­
mentos de Negrão quanto a essa questão são carentes com seus es­
forços de 1956 e 1957, e de seu governo de 1966-1970, para fazer
alguma coisa útil para as favelas, mas no último período todas as
possibilidades foram cada vez mais restringidas pelo Governo fe­
deral. Por exemplo, pelo seu controle direto sobre o Secretário de
Segurança de Negrão, Frauça, que freqüentemente contradizia dire­
tamente as ordens e compromissos de Negrão, agindo cada vez mais
de forma independente; ou as remoções de outros secretários por
pressão do Governo central; ou a substituição sob pressão do chefe
da casa civil de Negrão, Luís Alberto Bahia, antigo populista de
tradição mais ou menos getulista, por Carlos Costa, primo do então
presidente do Brasil, Marechal Costa e Silva. Sob as condições po­
líticas de então, fazer alguma coisa pelas favelas significava tam­
bém a extensão do controle sobre elas — compreende-se assim a uti­
lização de Negrão, como argumentamos, da Fundação Leão X III e
da CEE, seu Decreto n.° 870 e sua presença na inauguração da Ação
do Brasil.39
A c o d e s c o foi estabelecida como uma subsidiária autônoma da
c o p e g , com membros do quadro desta última ocupando funções de
presidente e membros do seu quadro. Baseada no estudo de viabili­
dade de três favelas da Zona Norte (Brás de Pina, Mata Machado
e Morro União), a c o d e s c o , com alguns jovens e imaginativos so­
ciólogos e arquitetos, começou a completar planos de urbanização
para duas das três favelas estudadas, e outra acrescentada posterior­
mente.40 A urbanização incluía regularização, pavimentação e ilu­

39 Uma subsidiária da A cción International criada com o objetivo pri­


vado mais explicitamente declarado de lutar contra a influência comunista
nas favelas e com o objetivo público de desenvolvimento comunitário para
a melhoria das mesmas. A A ção Comunitária do Brasil, organizada tanto
no R io como em São Paulo, sob a égide do ipes, era um órgão cujos
membros, com o o General Golbery, estavam intimamente ligados ao pes­
soal e às ações do movimento militar de 1964.
40 Das três originalmente estudadas, Brás de Pina é hoje urbanizada,
enquanto que M orro União e Vigário Geral, uma terceira escolha poste­
rior, ambas na Zona Norte industrial do R io, com o o é Brás de Pina,
tiveram as operações para esse fim apenas iniciadas. Não conhecemos o
presente staíus de Mata Machado, a terceira das três originais.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 233
minação das ruas, instalação de redes de água, esgotos e eletricida­
de, auxílio financeiro e mínima supervisão da reconstrução de casas
(geralmente com ajuda própria), além da administração da venda
de terras que tinham sido expropriadas pelo Estado.
Do ponto de vista dos moradores da favela, o programa da
codesco tem rigoroso sentido econômico. Eles permanecem na
área, ou com fácil acesso a seu mercado de trabalho, minimizando
assim os custos de transporte. Podem construir casas sólidas mais
apropriadas a seus orçamentos domésticos, no seu próprio ritmo eco­
nômico viáueh podem projetá-las de modo adaptado às suas neces-
áidades domésticas e ao seu estilo de vida. Um estudo das atitudes
dos moradores com relação à tentativa da c o d e s c o de urbanização
mostrou uma reação geralmente favorável ao programa.41
Uma equipe constituída de um arquiteto e um sociólogo, ob­
servando que a AID no Brasil estima cada casa (unité urbanizée)
reabilitada in loco em 500 dólares e cada unidade construída num
novo projeto urbano para alojar favelados expulsos de suas favelas
err 1.000 dólares (Machado e Santos, 1969:55), forneceu elemen­
tos para um estudo da c o d e s c o , mostrando o custo relativo de casas

Quadro 1. CUSTOS COM PARATIVOS (ESTIMADOS) DE A JU D A


P R Ó PR IA E SOLUÇÕES GO VERN AM EN TAIS P A R A
O “ PR O B LE M A D A F A V E L A ” 42

(em dólares de 1968)

Vila Kennedy Morro UniãojBrás


de Pina

Item Dólares % do total Dólares % do total'

Terra 19,6 1,2 148,45 18,1


Nivelamento da terra 105,62 6,5 2,75 0,3
Sistemas elétricos 110,36 6,7 29,80 3,6
Serviços (ruas, redes
pluviais e de esgoto) 88,94 5,4 201,42 24,5

Construção da Casa 1.310,38 80,2 458,35 53,5

Totais 1.634,92 100,0 820,77 100,0

41 A avaliação afirmava mais adiante que os moradores julgavam-se ele­


vados em siatus e se pensavam com o parte de uma comunidade. Ver gb ,
oodesoo , 1969.
42 Machado e Santos, 1969:55-56. Os dados para M orro União e Brás
de Pina são confessadamente estimados, embora quando a última fot»
im A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

construída« pela c o h a b na Vila Kennedy e daquelas a serem cons­


truídas em favelas urbanizadas para ajuda própria sob supervisão
<la CODESCO.
Um de nós argumentou (À . Leeds, 1970) que, também do
ponto de vista da economia política, o tipo de abordagem da
CODESCO, onde fisicamente viável, tem sentido econômico. Os cál­
culos de órgãos como a c o h a b , o b n h e seu órgão metropolitano
mais recente (discutido abaixo) são feitos quase que exclusivamen­
te em termos dos custos de construção mais do que em termos de es­
tratégias de vida geral entre os usuários das casas de baixo custo.
Dessa forma, uma série de custos dos usuários é caracteristicamente
não calculada na decisão de projetos habitacionais em larga escala
com casas anteriormente construídas para ocupação e sem a contri­
buição do trabalho, projeto ou material do comprador-proprietário.
Tais custos incluem os custos — sobre e acima da amortização -—
de serviços; de transporte para o trabalho, difícil e comulativa-
mente caro; de tensão física e mental proveniente da pressão dos
horários e condições salariais, conseqüentemente crescentes índices
de doença e, a partir daí, de pagamentos de Previdência Social; de
aumentos nos índices de criminalidade, como ocorreu notavelmente
na segunda metade da década de 60; da deterioração do novo esto­
que habitacional, pois os custos incluídos não permitem a manuten­
ção ou despesas de condom ínio/5 e assim por diante.
O plano da c o d e s c o está intrinsecamente em contradição com
as suposições subjacentes e com os interesses imanentes nos tipos de
cálculos envolvidos nas abordagens monetaristas do Governo fe­
deral, como representado pelas políticas e ações do b n h , com rela­
ção à “ habitação” ou ao “ problema da favela” . Tal plano, basean­
do-se em grande medida nos recursos e julgamentos dos moradores
das favelas, nao é um programa que favoreça os interesses da in­
dústria de construção civil, nem do b n h , embora este último tenha
financiado em parte a c o d e s c o , nem das companhias de finanças,
^poupanças e créditos.

urbanizada (o que terminou em 1970) esses dados tenham sido rigorosa­


mente confirmados. A razão pela qual o custo da terra é tão mais ele­
vado para as favelas da c o d e s c o é que estas são muito próximas do cen­
tro da cidade, competindo com os valores de terras vizinhas, especialmen­
te , no caso de Brás de Pina, com aquelas de uso industrial. O custo mais
elevado dos serviços não se explica. N ão é claro a partir dos números for­
necidos, ou a partir da discussão no texto, se os dados para casas da
o o h a b incluem o custo do dinheiro e o custo da administração. SupÕe-se

que sim; se este não é o caso, então a disparidade de custos na razão de


mais ou menos 2:1 seria ainda maior.
43 Ver Correio da Manhã, 1.° de janeiro de 1971.
F avelas e C o m u n id a d e P o l í t i c a 235

Inerente a essa contradição, nos contrapontos do Estado fe­


deral e nas dissonâncias monetaristas-institucionalistas que temos
traçado, estava o surgimento de um órgão administrativo federal
em oposição à c o d e s c o . £ uma curiosa ironia que a c h i s a m ■— a
Coordenação de Habitação de Interesse Social* da Ãrea Metropoli­
tana do Grande Rio de Janeiro — se tenha desenvolvido a partir
de, ou conforme à, segunda recomendação do “ Relatório Wagner” ,
aquela relativa a uma autoridade metropolitana para tratar conjun­
tamente de alguns problemas em escala regional, inclusive favelas
e suas causas. É claro que a tentatitva do “ Relatório Wagner” era
de um plano incluindo dois níveis de ação baseados num ponto de
vista comum, objetivos comuns, estratégias e implementações. É
claro também que o programa de favelas foi proposto não apenas
como uma experiência de reabilitação, mas como modelo-base, ge­
neralizável, para o tratamento da maior parte das favelas dentro de
um quadro de referência de planejamento metropolitano racional e
reorganização regional.
A c h i s a m , criada pelo Decreto federal n.° 62, 654, 3-5-68
quatro meses depois da criação da c o d e s c o , tinha como diretor-
cbefe nessa época o então Ministro do Interior, General Afonso de
Albuquerque Lima, sob cuja égide também ficou o b n h . Foi cria­
da, ao que se disse ( c h i s a m , 1967:78), em função do reconheci­
mento de que o problema da favela — que é encontrado pratica­
mente em toda cidade do Brasil, não apenas no Rio — é um pro­
blema nacional, requerendo ação nacional para resolver problemas
criados pela falta de recursos, diversidade de órgãos, políticas habi­
tacionais inadequadas, e outros fatores que contribuem para o sur­
gimento de favelas. Reconhecia-se, finalmente, que esses problemas
não podiam ser resolvidos a nível local, municipal ou estadual, mas
apenas a nível nacional, em cooperação com entidades estaduais ou
municipais. Em parte, as soluçoes eram vistas como envolvendo
o controle dos fluxos migratórios, o que não podia ser resolvido
a nível dos governos estaduais. Não ficou claro por que apenas a
c h i s a m foi criada, nao tendo sido criados organismos análogos em

outras importantes áreas urbanas, ao que nos consta. As razões pa­


recem ser principalmente políticas, como indicamos, uma vez que
outras cidades, como Recife e Salvador, tem conjuntos de áreas in­
vadidas por posseiros de tamanho comparável às do Rio e geralmen­
te em piores condições. A criação do b n h e de seu “ Sistema Finan­

* Eiste curioso termo é amplamente usado na América Latina. “ Habi­


tação de Interesse Social” significa sempre habitação da classe de baixo
nível salarial, ou especificamente baixa ou proletária.
236 A S o c i o l o g ia do B r a s il U rbano

ceiro da Habitação” (ibid., p. 7 ) abriu novas possibilidades, inclusi­


ve a da C H I S A M .
Todas as declarações políticas feitas pela c h i s a m o u pelo seu
Diretor-Supervisor, o engenheiro Gilberto Coufal (também um dos
diretores do b n h ) , falam de “ eliminação” e “ desfavelamento” , ne-
gando-se a “ erradicação” das favelas como objetivo. A distinção
parece ( Agente, 1968 2 [6 ]:8 5 -8 6 ) indicar que “ eliminação”
pode referir-se ao desaparecimento de favelas pela urbanização in
locoj pela substituição dos “ barracos” (a única espécie de habita­
ção que a c h i s a m reconhece como existindo nas favelas, seja por
informação imprecisa ou por representação imprecisa deliberada
por casas sólidas, bem como pela remoção e relocalização; “ erradi­
cação” parece significar apenas o último aspecto. As declarações,
políticas da C H I S A M também incluem a possibilidade de urbaniza­
ção in situ e, realmente, o órgão declara (ibid., p. 85, citando Cou­
fal) que o b n h estava examinando tal projeto em três favelas, estra­
nhamente, aquelas cujo estudo de viabilidade (ver c o p e g , 1967) 34
fora desenvolvido pela c o p e g , tendo o trabalho em uma delas já co­
meçado, por iniciativa da c o d e s c o , antes da criação da c h i s a m , em­
bora nenhum dos dois órgãos anteriores seja mencionado nessa co­
nexão.
Com efeito, o b n h , como asinalamos anteriormente, deu na
verdade algum dinheiro para a c o d e s c o , para a urbanização no lo­
cal daquelas três favelas, mas a c h i s a m não iniciou qualquer novo
plano de urbanização após sua criaçao.45

44 A copeg tomou a liderança do estudo, mas deu várias partes para o


cenpha e para a Pontifícia Universidade Católica do R io, e também para
uma ou duas pessoas privadas, contratadas através de uma das instituições.
45 O antagonismo à urbanização demonstrado pelo b n h e seu órgão
c h i s a m tornou-se claro quando a o o d e s o o procurou fundos para o seu tra­

balho na favela Brás de Pina, e depois na M orro União. Embora planos


meticulosos baseados em estudos detalhados, incluindo custos de todos os
tipos, já existissem e o trabalho já estivesse começado, ainda assim o Banco
sempre devolvia o pedido, primeiro com pequenas críticas, depois com
outras, pedindo revisões, de m odo que os meses se passaram até que a
soma fosse finalmente liberada. O Banco usou a mesma tática (também
em 1968) com o Instituto de M eio Ambiente Urbano da Universidade
Columbia, que fora convidado e contratado (através do c e n p h a ) . Fez isso
quando descobriu que o Instituto pretendia agir autonomamente na rea­
lização das avaliações que o Banco pedira acerca dos efeitos de suas polí­
ticas habitacionais na economia nacional, e que o Instituto podia até criti­
cá-los, sobretudo no que diz respeito à política relativa à favela. O Pro­
jeto do Instituto nunca recebeu a maior parte dos fundos prometidos, e
a avaliação nunca foi feita. Um aspecto interessante da situação foi o
papel da u s a i d . O acordo original do estudo de viabilidade fornecia algu­
mas centenas de milhares de dólares para o estudo, a serem seguidos p o r
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 237

Essas declarações políticas devem ser vistas tanto em termos


das ênfases e atitudes nas declarações públicas como em termos dag
ações desenvolvidas pela C H i S A M . Assim, por exemplo, a c h i s á m
declara ( c h i s a m , 1969:6):
“ Apenas de 1962 em diante é que o problema da favela come­
çou a ser abordado com maior profundidade.”
Em outras palavras, as abordagens e soluções do período de
Rios, 1964-62, ou aquelas que foram adotadas com sucesso em ou­
tros países, como o Peru, são implicitamente rejeitadas, presumivel­
mente sob alegações de (ver i b i d p. 7 ) falta de coordenação, fra­
casso em consolidar a política, e “ pulverização” de recursos. O ano
de 1962 também marca o começo das políticas de remoção de La­
cerda e da construção de vilas proletárias, das quais as política?; do
B N H e da C h i s a m são continuações.
A c h i s a m baseia sua política nos seguintes princípios (ibid,.
p. 1 4 ):
a. “ Os favelados são seres humanos integrados na comunida­
de, mas vistos por esta última como alienados por causa de sua ha­
bitação.
b. Os aglomerados de favela, construídos de maneira irregu­
lar, ilegal e anormal (eom relação ao panorama urbano) ( . . . )
não fazem parte do complexo habitacional normal da cidade, uma
vez que, não participando dos impostos, taxas e outras taxações ine­
rentes às propriedades legalmente constituídas, não deveriam fazer
jus aos benefícios públicos decorrentes dessas taxações.
c. Os favelados, todavia, têm iniciativa e vontade de melhorar
seu stalus, mas lhes faltam recursos.
d. Os favelados constroem “ barracos” próximos a seus em­
pregos; qualquer remoção abrupta afetaria sua renda. Com isso em
mente, a c h i s a m propõe ( ibid., p. 15) como objetivos a longo pra­
zo:
a. A reabilitação econômica, social, moral e sanitária das fa­
mílias faveladas.
fc. A integração total dessas famílias à comunidade, princi­
palmente com relação às formas de habitar, pensar e viver-

uma quantia de 10.000.000 de dólares, se a viabilidades da urbanização


fosse demonstrada. A transferência dessa quantia para a c o d e s c o estava
em discussão durante a época entre sua fundação e a da c e c s a m , quatro
meses depois. Neste último período, a a i d não podia decidir o que fazer
— se dar o dinheiro à sua própria criação, a c o d e s c o , que seguia as ênfa­
ses de desenvolvimento da a i d , ou se à c j h s a m , que contradizia a tentativa
da autoridade metropolitana do "relatório Wagner” , embora semelhante
na forma. Ela deu o dinheiro à ch isa m .
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

c. A alteração do panorama urbano atualmente deformado


por núcleos de sub-habil ações7 por meio da substituição dos barra­
cos por habitações, obras públicas ou pela própria natureza violen­
tada.”
Os objetivos a curto-prazo ( ibid, pp. 18ss) incluíam a utiliza­
ção de 1559 casas da c o h a b e apartamentos em breve disponíveis-
para a absorção dos favelados, a serem removidos das áreas priori­
tárias e dos Centros Habitacionais de Bem-Estar Social, especifica-
dos nas pp. 22 ss, todas na turística e elitizada Zona Sul, e também
a construção de dezenas de milhares de novas unidades habitacio­
nais nos próximos dois anos (ver adiante). Agente (1963, 2 [6 ]:8 5 )
relata que Coufal já falava, em agosto de 1968^ três meses após a
fundação da c h i s a m , da “ eliminação” de 66 favelas no Rio.
Vemos claramente muitas coisas no <jue foi dito. Primeiro, as
falsas representações mitológicas das favelas e dos moradores das
favelas que validam certos tipos de políticas e objetivos políticos.46

4G Em suas publicações, a c h i s a m distorce sistematicamente os fatos, só


se podendo supor que o faz deliberadamente. Por exemplo, o número de
moradores de favelas ou de casas fornecido é sempre demasiado elevado
— consideravelmente mais elevado do que o fidedigno censo realizado por
outros órgãos (por exemplo, a Escola de Serviço Social da p u c , as contas
completas de casas do c e d u g a partir de fotografias áreas, que correspon­
deram de perto aos nossos cálculos de base, etc.). Hã uma longa história
dos cálculos de população das favelas, mais para mais do que para menos.
Cada caso parece envolver algum interesse particular em fazê-lo — maxi­
mizar o problema de modo a mobilizar mais fundos para os órgãos que
tratam do problema, ou de modo a racionalizar o uso ainda maior das
atividades de construção civil; minimizar o problema de modo a desviar
fundos usados em serviços sociais e habitação para outros fins, etc.
A c h i s a m , como a Fundação Leão X III e a sss, deformaram siste'
maticamente a situação habitacional da favela. Esses órgãos referem-se
invariavelmente a “ barracos” , e nunca a “ casas” . Mesmo o cerisò féito
pela c o h a b e m 1963 ( g b , c o h a b , 1963), que exagera gritantemente a
população das favelas, fornece apesar disso percentagens bastante precisas
dos tipos de construções de casas — por exemplo, o Jacarezinho com uma
população dada (absurda) de 176.000 habitantes, e 90% de casas refor­
çadas com tijolo e concreto. Os 90% aproximam-se do correto» embora
a população fosse então de 66.000 pessoas.
Esses organismos uniformemente distorcem o trabalho e o status
ocupacional dos favelados, apresentados com o não qualificados, itineran­
tes, traficantes, biscateiros, etc. A maioria, em nossos materiais de censo
tanto na Zona Norte como na Zona Sul, bem com o em nossos censos
nacionais e nos realizados pelas escolas de Serviço Social, indica uma ampla
gama de ocupações, que chega a profissionais e um nível de emprego
relativamente alto.
Finalmente, a c h is a m distorce sistematicamente a sua utilização de
fotos. Como exemplo, de seus 18 quadros panorâmicos de favèlas: (chi~
s a m , 1969), 6 ou 7 são da Catacumba, 7 parecem ser do conjunto Praia
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 239

Segundo, a reorganização forçada dos modos de vida por pressão


coercitiva sobre os moradores das favelas acompanhada de remoção.
Terceiro, uma indicação das concepções elitistas subjacentes que
informam as orientações políticas. Estes pontos, e especialmente a
último, são evidentes no notável trecho que se segue (apresentando
um artigo de Coufal a um de Délio dos Santos, Presidente da Fun­
dação Leão X III, elogiando o programa da c h i s a m ) , extraído de
Agente ( 1969,3 [9 ] :17 ) : 47
“ No Rio de Janeiro, existem 283 favelas, a maioria delas —
36 (sic!) — localizada na 6.a Região Administrativa (isso está er­
rado; havia apenas 16 nessa região — (ver c e d u g , 1963, Apêndice
4«, p. 60), que abrange os bairros de Ipanema, Leblon, Lagoa* Jar­
dim Botânico e Gávea, precisamente a região mais aristocrática da
Guanabara, onde se situam as casas mais luxuosas, as terras mais
valorizadas e os clubes mais finos ( . . . )
Mais adiante apresentamos um artigo de Gilberto Coufal, di­
retor do B N H e coordenador da c h i s a m , no qual são estudadas as
discussões sobre urbanização e remoção, e que conclui afirmando
que a política seguida pelo Governo tornará possível a modificação-
do programa físico e estético das áreas faveladas, integrando terras-
por elas ocupadas aos bairros em que se situam, e transformando a

do Pinto-llha das Dragas, incluindo o Centro Social Habitacional de lá,


2 são da Macedo Sobrinho. Todas essas favelas (a) eram na Zona Sul,
(&) estavam sob ameaça de remoção, de modo que os moradores evita­
vam investir nas casas. Conseqüentemente, a vista aparente é a de barra­
cos. Não é mostrado nenhum quadro dos interiores (com móveis, refri­
geradores, etc.). Nenhuma foto de favela da Zona Norte, nem também
daquelas da Zona Sul com casas melhoradas (com o o Parque da Cidade
ou a Barreira do Vasco, respectivamente). Finalmente, há uma foto de
parte da favela da Babilônia que se situa sobre a entrada do Túnel N ovo,
que liga Botafogo a Copacabana. Os túneis, 30-40 pés abaixo, são corta­
dos da foto de modo que se vê apenas um pedaço do muro, mas não o
túnel. A legenda diz: “ Vi&ta parcial da linha ou muro imaginário que
impede a expansão territorial da favela.”
Embora ,d a mesma forma que o braço de pesquisa do b n h , o C e n -
p h a , aparentemente um órgão independente, Agente ê de fato um órgão

do Banco. A maioria de seus artigos significativos é de um dos cinco


diretores do Banco, do seu pessoal técnico, ou do pessoal intimamente
ligado aos interesses e pontos de vista do Banco. Pontos de vista contrá­
rios nunca aparecem. Agente , o meio proselitista do Banco, descrevè-se
na primeira página da seguinte maneira:
“Agente: um jornal que visa dar orientação técnica e difundir méto­
dos e processos do Plano Nacional de Habitação, é enviado aos agentes
iniciadores e financeiros do b n h , a representantes dos Três Poderes da
República (Executivo, Legislativo, Judiciário), à indústria de constrüção
civil, a instituições financeiras, à Bolsa de Valores e aos líderes finarlceiros
mais significativos dó mundo econôm ico e financeiro do País.” J
A S o c io l o g ia do B r a s il U rbano

mentalidade de seus moradores que, não se considerando mais como


favelados, serão também vistos pela comunidade como cidadãos nor­
mais.”
Um outro ponto que vale a pena assinar é q u e a c h i s a m es­
tabeleceu como política, em suas primeiras reuniões, que ela seria
um corpo coordenador, porém não executivo dos trabalhos. Á
c h is a m orientaria:
u . . . o trabalho conjunto de setores do Estado de tal forma
que suas tarefas complementem-se umas às outras. Para a execução
dessas tarefas específicas deverão ser creditados por nomeação dos
governos dos dois Estados aqueles órgãos especializados em cada se­
tor de atividade necessária para o desenvolvimento de cada tipo de
programa a ser desenvolvido” ( c h i s a m , 1969:13).
Para esta política foram autorizados os seguintes organismos
a agir na esfera social: a sss da g b ? a Fundação Leão X III, a Se­
cretaria de Trabalho e Serviços Sociais do Rio de Janeiro, e Ação Co­
munitária do Brasil. Para agir na criação de novas habitações: as
c o h a b s de ambos os Estados. Para atuar na produção de casas nas

favelas para a substituição dos barracos: c o d e s c o (apenas na Gua­


nabara; nenhum órgão foi designado para o Estado do Rio, o que
indica que a c h i s a m não tinha intenção de prosseguir a urbaniza­
ção lá).
Deve ser observado que a c h i s a m — um órgão federal sob
controle do B N H , este último talvez o órgão do governo mais pode­
roso no Brasil,48 então sob a direção do General Albuquerque Lima,
que foi por um período uma possibilidade presidencial (1969) — ,
através desse sistema de atribuição e coordenação, na verdade to­
mou o controle dos órgãos do Estado, e, no caso da Ação, deu a tim
órgão privado status público e executivo (ver nota 39) ao passo que,
colocando-o sob seu controle, as políticas da c h i s a m tornaram-se
necessariamente suas políticas. A partir de 1968, esse conjunto de
políticas domina as ações desempenhadas com relação às favelas no
Rio.

48 O B NH tem à sua disposição o uso do Fundo de Garantia por Tempo


de Serviço, o Fundo Nacional de Seguro Social, consistindo de 16% de
todos os salários oficiais pagos e constituindo uma quantia da ordem de
700.000,000 de dólares anualmente. Além das atividades maciças em esca­
l a nacional na área da habitação, o b n h tem desenvolvido a "urbanização
rural” , além de operações financeiras em grande escala, e mantido íntimos
vínculos com as indústrias de cimento e aço. Ver também artigo citado
na nota 35 que afirma que a construção civil absorve 30% da força de
trabalho de todo país! A construção civil é controlada pelo b n h , que,
por sua vez, está diretamente ligado à Presidência e aos Ministérios de
Planejamento e Finanças.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 241

Essas ações podem ser resumidas rapidamente, Elas consis­


tem na remoção total de pelo menos as seguintes favelas — (todas
na Zona Sul): Jóquei Clube (cerca de 200 pessoas)., Rio Rainha
(zh 200), Alto Solar ( ± 600) Ilha das Dragas ( ± 1 ,8 0 0 ), Babi-
lônia-Chapéu-Mangueira ( ± 3 .5 0 0 ), Macedo Sobrinho ( zt 4 .0 0 0 ),
Praia do Pinto ( 7.000), Catacumba ( ± 12.000), e partes do
Parque Proletário N.° 1 da Gávea — um total de cerca de 30.000
pessoas. Estas foram relocalizadas em projetos como a Cidade de
Deus, no longínquo e inacessível distrito de Jacarepaguá; na Cidade
Alta, no distante Cordovil; no conjunto do Guaporé, e outros. Aque­
les que não tinham capacidade para pagar por essas unidades habi­
tacionais eram mandados “ temporariamente15 para os Centros Ha­
bitacionais de Bem-Estar Social e para os mal equipados albergues,
Os efeitos dessas remoções e relocalizações — em todos os casos
forçadas, contrárias à vontade dos moradores e em alguns casos
acompanhadas de açao policial, tratores, fogo (que se dizia aciden­
tal), e outras formas de pressão, incluindo ameaças de não paga­
mento das indenizações pelas casas (isto é, propriedade privada dos
moradores da favela) destruídas — foi a profunda desestruturação,
para »vn grande número de pessoas de sua organização de vida e um
desequilíbrio nas estratégias domésticas para lidar com a difícil
estrutura econômica que os moradores das favelas tiveram que en­
frentar (ver A. Leeds, 1970:243-48). Particularmente agudo foi
o declínio na renda, acompanhado de uma desconcertante subida
nos custos, especialmente amortizações e transportes.40 Os ex-mora­

49 Coufal, falando da filosofia da c h i s a m (citado em Agente, 1968, 2 (6 ):


85), diz; A situação geográfica das parcelas de teria permite uma pro­
gramação que toma possível uma oferta de habitações num local perto
de quase todo o mercado de trabalho existente na Guanabara e no Efíta-
do do R io, oferecendo desta forma aos beneficiários uma redução consi­
derável nos gastos com transportes, bem com o no total do tempo gasto
nas viagens.
( . . . ) o s moradores das favelas da Zona Sul já demonstraram inte­
resse real em adquirir casas na Cidade de Deus e apartamentos em Cor­
dovil, áreas bem distantes da atual localização de suas casas, mas próxi­
mas aos locais de trabalho.”
Essas representações são distorcidas. Estudos após estudos demons­
traram que os moradores tentam morar próximos ao locai de trabalho,
daí a sua escolha de uma determinada favela — ou tentam encontrar
trabalho próximo à favela se foram obrigados a mudar-se para uma. A
racionalidade da localização da moradia é predominantemente em termos
da proximidade do trabalho, de modo a evitar o pagamento do transporte.
Assim, por exemplo, a maioria dos moradores, digamos, do Alto Solar, na
Gávea, trabalhava nas proximidades em fábricas, embaixadas, na fabrica
da Coca-Cola ou em serviços. Agora foram removidos para Cordovil, estão
a duas viagens de ônibus, ou 1 hora e meia de seu local de trabalho. As
2*12 A S o c io lo g ia d o B ra s c, U rb a n o

dores das favelas são engolfados por uma interminável onde de no­
vos gastos, contra a qual a política salarial do Governo Federal,
junto com a correção monetária sobre as amortizações, torna impos­
sível qualquer reação para uma grande parcela deles. Sua única
solução é o retorno a, ou a criação de, novas favelas em outro lu­
gar. A situação é vividamente descrita num longo e detalhado ar­
tigo do Correio da Manhã60 (2 1 /1 /1 9 7 1 ), que transcrevemos em
parte:
“ Nem mesmo na Catacumba tinham eles tantos problemas
Eram 2.230 famüias ocupando 98.000 metros quadrados do Morro
da Catacumba. Não pagavam aluguel, nem condomínio, nem taxas
(inúmeras taxas impostas pelo uso da terra e por serviços urba­
nos), nem a água que carregavam em grandes latas (desde 1961,
havia sistemas de bombeamento no alto do morro — A .L.) nas cabe­
ças. Também não pagavam condução. Muitos tinham três emprego&
e ainda estudavam à noite para poder melhorar de vida. Então surgiu
a g u i s a m e acabou com a favela, prometendo casas próprias para
aqueles que pudessem pagar mensalmente, cerca de 100 cruzeiros
durante 18 anos. E nos primeiros três meses, as .taxas seriam por
conta do Estado. Agora * passados quatro meses, a maioria nao con­

“ parcelas" e suas habitações são próximas ao mercado de trabalho ape­


nas no sentido em que qualquer coisa na Guanabara ou no Estado do Ria
é alcançável ■— com tempo e dinheiro suficientes, por ônibus ou trem.
A remoção das favelas da Zona Sul, quando completa, significará a remo­
ção de talvez 100.000 pessoas das vizinhanças de seus trabalhos, Isso sig­
nifica um dia mais comprido por causa do desgastante transporte, mais uma
grande pressão num sistema de ônibus já sobrecarregado. Observem-se as
contradições entre as declarações d o Diretor da c h i s a m , Coufal, citadas
acima, e os quatro princípios sobre os quais a c h t s a m diz basear gua polí­
tica e os efeito? reais das expulsões.
50 o Correio da Manhã, até o ano de 1966, permaneceu o único jornal
em genuína oposição ao Governo militar. Sua contundente crítica acar­
retou repressão vigorosa, embora indireta, por parte do Governo, de
m odo que este pôde» mais uma vez, apresentar uma fachada de manuten­
ção das formas democráticas (ver nota 37), não tendo fechado aberta­
mente um jornal. As repressões consistiram de ameaças de ação punitiva
pelo Governo Federal a anunciantes no Correio, que em conseqüência
perdeu praticamente todas as suas rendas de anúncio, mantendo-se por
muitos meses apenas com as vendas e contribuições de homens, de boa
vontade. N o final, 1969, a editora, Sra. Bittencourt, acabou por demitir-1
se com uma amarga explosão contra o Governo. O jornal reapareceu
somente depois de algum tempo, com novo formato, um intenso impulso
de venda e uma nova e branda retórica. Em vista disso, é interessante
que o artigo 21 de janeiro de 1973 faça mais uma vez um violento ata­
que a uma instituição federal, sobretudo a uma instituição qpe opera
através dos órgãos do Estado, que estão relativamente a salvo de ataque
nas condições políticas atuais.
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 2 43

seguiu pagar: a prestação mensal de 60 cruzeiros para luz, 95


cruzeiros para taxas, 10 cruzeiros para o condomínio, conta de
água, e rateio para o conserto de instalações defeituosas, mais um
sem número de outras despesas, para não falar nos custos do trans­
porte para o trabalho. Tudo somado, fica mais caro do que o alu-
güel de um apartamento médio localizado em Ipanema, próximo
à praia. Aquele que não pode pagar terá que sair, E ninguém sabe
dizer para onde. Para aqueles que conseguem permanecer, será um
péssimo negócio: os apartamentos não valem nada, não há acaba­
mento nem áreas para as crianças brincarem. O prédio no conjunto
Guaporé foi construído às pressas e está rachado. Para os morado­
res, a única diferença entre o novo edifício e os velhos barrâcos é
que eles não mais precisam carregar água. AgoTa eles têm; água
até de sobra, quando chove, tudo é inundado, e se eles làvám o
chão, o teto do apartamento de baixo vira chuveiro.”
Em suma, a c h i s a m , quando criada — seja deliberadamen­
te com este fim ou não — representou de fato uma proposta opos­
ta à ênfase de Negrão e do Estado na urbanização: a da constru­
ção habitacional em massa para permitir a relocalização dós mo­
radores da favela.61 À oposição das abordagens foi claramente re>
conhecida pelo pessoal da c o d e s c o (Machado e Santos, 1969:55).
Os dois órgãos responsáveis pela política habitacional das fa­
velas na Guanabara têm poderes básicos e princípios diametral­
mente opostos. Essa situação indica não uma flexibilidade é adap­
tação à realidade por parte do Poder Público ( le Pouvoir), mas
sobretudo, sua ambigüidade, E, para complicar ainda mais os da­
dos do problema, a plataforma da campanha do atual governador
(eleito em 1965) desenvolveu-se em tomo da defesa da urbanização,
ao passo que a chisam , órgao do Governo central, opta pela expid-
são, muito embora de modo mais flexível do que os primeiros esfor­
ços da c o h a b ,
A criação de dois organismos, com um intervalo de poucos
meses entre um e outro, tratando dos mesmos problemas, ainda que
com orientações radicalmente diferentes e bases de apoio tão nitida­

51 A escala é indicada pelo comentário do Grupo Executivo da c h i s a m


(entre outros, Coufal, um parente do Ministro do Interior, General Albu­
querque Lima, e Oswaldo Sampaio, um dos altos funcionários do c p o )
de que, em pouco mais de dois anos, 33.000 casa9 estariam construídas,
tendo 10.000 sido iniciadas naquele ano {Agente, 1968,2(6):34). Estima-
se que por volía de outubro (escrevendo em agosto) as concorrências
tenham sido realizadas, permitindo iniciar, ainda este ano, a construçfio
de 10.000 habitações, às quais se acrescentarão 1.500 a serem terminadas
pela c o h a b -g b num conjunto de apartamentos em Cordovil e um projeto
de casas na Cidade de Deus {ibid., p. 85).
A S o c io lo g ia d o B r a s il U r b a n o

mente diferentes, é um fenômeno muito revelador não apenas com


TtÊçSê à favela, ou num âmbito mais geral, com relação à política
social e econômica, mas do conflito nas políticas nacionais brasilei­
ras. A criação da c h i s a m , um braço do b n h e do Ministério do
Interior, reflete a institucionalização a nível nacional das políticas
econômicas e sociais e uma ideologia funcionando para intensifi­
car o controle exercido pela elites, servir a seus interesses políticos
e econômicos, concentrar a riqueza em poucas mãos e para contro­
lar e reprimir qualquer pessoa que busque impedir esses desenvol­
vimentos. A política relativa à favela é um espelho de todas essas
institucionalizações, operações, controles e repressões; na área do
Rio, a C H I S A M é o agente da hierarquia nacional, como o BIVH
o é para o país como um todo.
Como um retoque final deste processo de controle e repressão,
crescente e centralizado, e a correspondente política relativa à favela
a nível nacional e estadual, podemos voltar rapidamente à f a f e g .
A FAFJEG reagiu asperamente às políticas da c h i s a m como reagira
às do CEE e do Decreto N.° 870, A Federação das Associações das Fa­
velas do Estado da Guanabara, a única confederação de favelas exis­
tente em âmbito estadual, foi fundada em 1964. Por volta de 1968,
depois de alguns altos e baixos, ela se tornara um corpo cada vez
mais articulado e de peso, representando ao menos 100 favelas do
Rio.
Enquanto suas declarações em seus primeiros anos giravam em
tomo de objetivos locais e práticos de urbanização de favelas, ser­
viços urbanos, apoio financeiro para reabilitação, etc., seu Congres­
so Geral de 1968 tratou de temas nacionais fundamentais de longo
alcance, como a inflação, a contribuição dos moradores da favela
para a economia nacional e seus direitos como contribuintes, níveis
salariais nacionais, as falácias das políticas habitacionais, o proble­
ma da imagem do “ coitado do favelado” sustentada pelo Governo.
O relatório final do Congresso Geral, critica especificamente as in­
terpretações permitidas pelo Decreto 870 e pela c e e ( f a f e g ,
1968:4-5). Com relação a esta última, o relatório afirma que as
comissões do c e e em favelas não deveriam ser um “ 'instrumento
de desintegração da comunidade e que as comissões existentes já
haviam criado conflitos e facções dentro das associações de favela” .
A crítica explícita a política governamental de remoção, pre­
sumivelmente endereçada à c h i s a m (cuja eriaeao precedeu o Con­
gresso de 8 meses), foi um ponto importante nas reuniões. “ Rejei­
ção de qualquer remoção, condenação do desperdício humano e fi­
nanceiro resultante dos problemas da remoção” forem especifica­
mente discutidos no documento oficial do Congresso. Ao mesmo
F avelas e C o m u n id a d e P o l ít ic a 245

lempo, a urbanização era firmemente exigida como a única solução


viável para as favelas.52
Coerente com as posições tomadas no Congresso, a f a f e g
tratou imediatamente de impedir a ação contra a primeira favela
(Ilha das Dragas, próxima a um clube social de elite na Lagoa Ro­
drigo de Freitas, na Zona Sul a ser ameaçada de remoção pela
c h is a m , agindo através de seus órgãos subordinados executivos.
Quase que imediatamente, todos os diretores foram presos numa
ação policial que incluiu sua localização nas favelas e grande coor­
denação para que a pressão anterior de um não permitisse aos ou­
tros escapar. Estava bastante claro que a polícia estava muito bem
informada com relação às identidades dos líderes (nunca oculta­
das), suas atividades e localização em momentos específicos. Ob­
viamente, os líderes foram mantidos incomunicáveis por alguns
dias, sendo ameaçados de severas conseqüências caso a oposição
continuasse.53 Os homens foram soltos por causa da pressão da ala
mais liberal da Igreja Católica no Rio que, com outros setores ori­
entados para a ação social da Igreja por todo o Brasil, só começaram
a ser severamente reprimidos pelo Governo Federal em 1969.
Desde a prisão em massa, as atividades públicas da f a f e g
praticamente cessaram e nenhuma tentativa foi feita para impedir
as remoções em andamento das favelas da Zona Sul. Se tal esforço
tivesse sido feito, aque