You are on page 1of 940

1

A Posteriori / A Priori

A Posteriori. Aquilo que é estabelecido e afirmado em virtude da experiência. (1)

A priori. Expressão latina: anterior à experiência. 1. Que é logicamente anterior à


experiência e dela independe.

2. Em Kant, são a priori, quer dizer, universais e necessárias, as formas ou intuições


puras da sensibilidade (espaço e tempo), as categorias do entendimento e as ideias da
razão.

3. Ideia a priori: ideia preconcebida (e preconceituosa) ou hipótese anterior a toda e


qualquer verificação experimental: “É uma ideia que se apresenta sob a forma de uma
hipótese cujas consequências devem ser submetidas ao critério experimental”. (Claude
Bernard)

4. Arbitrário, gratuito, não fundado em nada de positivo. (2)

Apriorismo. Doutrina ou princípio que atribui papel central a experiências ou


raciocínios a priori (2)

(1) REZENDE, A. (Org.). Curso de Filosofia: para Professores e Alunos dos Cursos de
Segundo Grau e de Graduação. 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Absoluto, Absolutismo
Absoluto. Do latim absolutum, solto de, desligado de. O que não comporta nenhuma
limitação, restrição ou dependência. O contrário de relativo.
3

É o ser que não depende de outro, que se basta a si mesmo. É o ser completamente livre
de relações reais, que tem em si a própria razão de ser, o ser por essência, o ipsum esse
dos escolásticos, Deus. Ver ipseidade (1)

Absolutismo. Do latim absolutus, de absolvere, destacar, separar de. Regime político


no qual o soberano (encarnando a autoridade do Estado) detém um poder sem limites.
(2)

(1) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Abstração/Abstrato
Abstração. É uma operação pela qual o espírito, depois de haver distinguido os
diferentes caracteres de um objeto, separa dos outros um desses caracteres e o considera
isoladamente como uma coisa. (1)

Abstrato. Do latim abstractus. 1. Diz-se daquilo que é considerado como separado,


independente de suas determinações concretas e acidentais. Uma ideia abstrata é aquela
que se aplica à essência considerada em si mesma e que é retirada, por abstração, dos
diversos sujeitos que a possuem. Ex.: a brancura, a sabedoria, o orgulho etc. Ela é tanto
mais abstrata quanto maior for sua extensão: o vivente é mais abstrato que o animal,
pois compreende também o vegetal.

2. Produto da abstração que consiste em analisar o real mas considerando


separadamente aquilo que não é separado ou separável. Oposto a concreto. (2)

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Absurdo
Absurdo. Do latim absurdus, discordante, incongruente. Aquilo que viola as leis da
lógica por ser totalmente contraditório. É distinto de falso, que pode não ser
contraditório. Ex.: a existência do movimento perpétuo. A demonstração por absurdo é
aquela que demonstra uma proposição tentando provar que sua contraditória conduz a
uma consequência manifestante falsa; ora, de duas proposições contraditórias, se uma é
verdadeira, a outra será necessariamente falsa, e vice-versa. Ver Zenão de Eleia. (1)
4

No sentido estrito, qualifica o que é contrário à lógica. (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993

A Ação
A ação

O ser humano não tem apenas uma dimensão contemplativa, por meio da qual busca o
conhecimento teórico do Universo e da própria sociedade. Tem também uma dimensão
prática que o leva a agir no mundo, a realizar diversos tipos de ações.

Ação é a maneira específica da atividade humana, resultado de sua condição de ser livre
— e nisso é diferente dos demais seres vivos, que nascem programados por sua herança
genética. O animal responde ao seu mundo de acordo com esse programa genético; o
ser humano age, e dessa maneira transforma o seu mundo, mas sobretudo o cria e
inventa.

Elementos da ação

O processo de uma ação

A racionalidade da ação

Caixa: O saber sobre a ação

Aristóteles distinguiu dois tipos de saber na Ética a Nicômaco. Um deles é o teórico,


próprio da razão contemplativa ou científica, cujo objeto são os seres que não podem ser
de outra maneira; desse tipo de saber, fazem parte a metafísica, as matemáticas e a
física. O outro tipo de saber é mais prático, próprio da razão deliberativa e seu objeto
são os seres que podem ser de outra maneira; seu objeto é, portanto, a ação.
5

Aristóteles distingue ainda dois tipos de saber prático: o ético, que corresponde à ação
propriamente dita (práxis); e o técnico, que tem por objeto um tipo de ação denominada
produção (poiésis). Esses dois tipos de ação se distinguem fundamentalmente porque o
fim da produção é algo diferente dela mesma, mas o fim da práxis é a própria práxis. Ou
seja, a produção acaba numa obra, mas a prática acaba em si mesma.

&&&&

A ação moral

O filósofo alemão Immanuel Kant formulou em três perguntas tudo o que constitui o
horizonte de preocupações e interesses vitais do ser humano: O que posso conhecer? O
que devo fazer? O que tenho direito de esperar? A segunda delas se refere à ação
humana em seu sentido mais restrito, mas ao mesmo tempo mais específico: a ação
moral.

Como seres livres, todos os seres humanos enfrentam continuamente inevitável de ter de
agir, de ter de escolher entre várias possibilidades — de ter de decidir a respeito do bom
e do ruim. Dessa maneira, vamos construindo nossa própria vida, e dando-lhe um
sentido.

Certamente, os conceitos de "bom" e "ruim" são problemáticos, porque admitem várias


maneiras de serem entendidos. Por isso a filosofia fez deles um objeto constante de sua
reflexão.

Moral e ética

Embora os termos moral e ética tenham procedências diferentes (a palavra "moral"


provém do vocábulo latino mos, e "ética" do grego ethos), os dois compartilham o
mesmo significado — o que faz com que às vezes seja utilizados de forma
indiferenciada. Seu significado apresenta dois aspectos: de um lado, "hábito" e
"costume"; de outro, "modo de ser" ou "caráter". Os dois aspectos se complementam e
permitem caracterizar a ética e a moral como essa maneira de ser que vai sendo
adquirida na prática por meio de uma série de hábitos e costumes. A prática desses
hábitos e costumes permite dar forma e figura à própria existência; com elas, vamos
forjando o caráter, até fazer dele uma segunda natureza, superposta à primeira, que é
6

aquela com que nascemos (por exemplo, uma determinada constituição física ou
psíquica, ou um determinado temperamento). Essa segunda natureza tem todo o valor
daquilo que é adquirido por nós mesmos, graças à nossa vontade e nossa determinação.
Não nascemos de posse de vícios e virtudes; não nascemos justos ou injustos. Assim, a
vida de cada ser humano pode ser concebida como uma obra de arte, na medida em que
é a criação de cada um. Nesse ponto, estão de acordo filósofos tão afastados no tempo
como o estoico Sêneca e o existencialismo de Sartre.

Apesar desse significado compartilhado, e possível distinguiu entre ética e moral. Numa
primeira abordagem, pode-se entender por "moral" o conjunto de normas e
comportamentos que nós, seres humanos, aceitamos como válidos do ponto de vista do
que é bom, e por "ética" a reflexão sobre por que aceitamos como válidas tais normas de
comportamento. A ética é, por isso, uma parte da filosofia — e, como tal, reflete sobre o
que é moralmente valioso, sobre o que é bom. Analisa, examina e a avalia diferentes
normas ou princípios morais, procurando sua justificação e legitimação racional. A
moral ocorre no plano da conduta prática; a ética, no plano da teoria.

A dimensão moral do ser humana

Valores e normas

A consciência moral

A norma moral impõe uma conduta obrigatória: o sujeito da ação moral se vê obrigado
a comportar-se de acordo com uma regra ou norma de ação, e a excluir ou a evitar os
atos proibidos por ela. A obrigatoriedade moral impõe, portanto, deveres ao sujeito.
Toda norma funda um dever.

A conduta moral é ao mesmo tempo livre e obrigatória. A liberdade é a condição da


moral: o sujeito goza, normalmente, de liberdade para aceitar ou não a norma moral que
lhe dita o que deve fazer. A aceitação, racional e livre, é responsabilidade do sujeito.
Mas, ao mesmo tempo, o sujeito o assume como uma obrigação, que tem caráter moral
precisamente porque foi fixada pelo próprio, e não determinada pela necessidade.
Quando alguém se vê determinado a agir, seja por coação externa ou por impulso
interno, não tem sentido perguntar se agiu bem ou agiu mal, porque não agiu
livremente, mas por necessidade. Somente quando se age por escolha existe verdadeira
obrigatoriedade moral, porque o sujeito se decidiu e assumiu sua ação. A obrigação
moral pressupõe, portanto, necessariamente, uma livre escolha.
7

O problema da obrigatoriedade moral se relaciona estritamente com o da natureza e da


função da consciência. É a consciência moral que estabelece a obrigatoriedade das
normas, é ela que adere intimamente às normas e as torna suas.

O termo "consciência" pode ser utilizado em dois sentidos: um geral, o da consciência


propriamente dita, e outro específico, o da consciência moral. No sentido geral,
"consciência" "dar-se conta de alguma coisa". Por exemplo: "Pedro não tinha
consciência de que a coisa era grave." O segundo sentido do termo, o de consciência
moral, diz respeito a expressões como "minha consciência me diz" ou "a voz da
consciência".

A consciência moral pressupõe a consciência no primeiro sentido: é uma forma


específica daquela. Traz implícita a compreensão de nossos atos, mas a partir de um
ponto de vista moral; implica, além disso, uma valoração e julgamento de nossa conduta
de acordo com determinadas normas que ele conhece e reconhece como obrigatórias. As
normas morais sempre são gerais: valem para um conjunto de atos; as ações, pelo
contrário, sempre são singulares. É a consciência quem toma as decisões adequadas em
relação a essas normas e, interiormente, julga seus próprios atos. A consciência é o
"supremo tribunal" que nos diz se agimos bem ou mal, ou se devemos agir ou não.

A consciência parece ser o critério último da ação moral (não dispomos de outro): quem
age de acordo com que a consciência lhe dita age corretamente, ainda que mais tarde se
veja obrigado a reconhecer que avaliou mal e que sua conduta deveria ter sido outra.
Mas o fato (e a opinião é de Kant) é que estamos obrigados a cultivar a própria
consciência moral — a fazer todo o possível para que a consciência seja "reta".

Caixa: Moral e propriedade

"Passemos à propriedade, grande ocasião das ruínas humanas; porque, se fazemos a


comparação das outras coisas que nos afligem, como a morte, as doenças, os temores,
os desejos e o padecimento de dores e trabalhos, com os outros danos que o dinheiro
nos causa, verás que a propriedade é o que nos pesa mais; por isso devemos ponderar
sobre o fato de como não tê-la é uma das mais leve do que a das de perdê-la depois de
possuída. E com isso sabemos que, enquanto a pobreza, é matéria de menos aflição,
também o é matéria de dano: porque te enganas se achas que os ricos sofrem suas
perdas mais animosamente. A dor das feridas é igual para os pigmeus e os gigantes.
Estava certo quem disse com elegância que os calvos e os cabeludos sentiam a mesma
dor quando lhes arrancavam algum cabelo. Deves entender o mesmo a respeito dos
pobres e dos ricos que sentiam uma mesma aflição: porque, estando tanto uns quanto os
outros presos ao dinheiro, não se pode arrancá-lo sem dor. Mas, como venho dizendo, é
8

mais tolerável não ganhar do que perder; assim, verás que vivem mais contentes aqueles
em que a fortuna jamais pôs os olhos do que aqueles de quem ela se separou. Diógenes,
varão de grande espírito, conheceu bem essa verdade e se dispôs a não possuir coisa
alguma que lhe pudesse ser tirada. A isto, que eu chamo de tranquilidade, tu chamas
pobreza, necessidade ou miséria, ou ponhas o nome ignominioso que quiseres: quando
achares alguém livre de traições, julgarei que Diógenes não foi feliz. Porque, ou eu me
engano, ou só o reino da pobreza não pode ser ofendido pelos avarentos, enganadores,
ladrões e gatunos. E, se alguém duvida da felicidade de Diógenes, poderá também
duvidar da dos deuses imortais, parecendo-lhe que não vivem felizes porque não têm
jardins enfeitados nem quintas preciosas cultivadas por caseiros, e porque não têm
grandes juros nos erários."

Lúcio Aneu Sêneca, Tratados morais

Caixa: Diferenças entre moral, direito e religião

Caixa: Morais autônomas e morais heterônomas

A diferença de concepção sobre a origem da norma moral dá lugar às chamadas morais


autônomas e morais heterônomas. As morais autônomas, cujo representante mais
notável é Kant, afirmam que o ser humano não só interioriza a norma, mas a encontra
em si mesmo: a razão humana dá a si mesma (autos, em grego) as normas (nomos, em
grego) que regulam seu comportamento. As morais heterônomas, ao contrário,
consideram que a norma moral, ainda que o ser humano a encontre em sua razão ou
consciência, provém em última instância de uma fonte externa a ele, diferente dele
(heteros, em grego), na qual tem sua base e seu fundamento: a natureza, a religião, os
códigos sociais etc.

Caixa: O sentimento de culpa

&&&&

A liberdade

O ser humano não pode negar em si mesmo a experiência imediata da liberdade: ele
desfruta da capacidade de querer ou não querer, de fazer ou não fazer algo. No entanto,
há ocasiões em que, quando procura refletir sobre os motivos que o levaram a agir de
determinada maneira, essa suposta liberdade não aparece com tanta clareza: surge a
9

dúvida de alguma possível coação da qual não se está consciente, a intervenção de


algum impulso descontrolado.

A liberdade pessoal também se choca frequentemente com a estrutura social, política ou


econômica em que vivemos — e ela parece, se não a impedir totalmente (o que às vezes
sem dúvida ocorre), ao menos dificultá-lo. Outro problema em relação à liberdade é o
que fazer com ela. Por isso, em certas ocasiões, ela pode ser vivida como uma
condenação à qual procuramos escapar.

Tipos de liberdade

Concepção de liberdade na história

O determinismo

Caixa: Proclamação sobre a liberdade dos escravos

Caixa: Liberdade e responsabilidade moral

Caixa: Sociedade e moral

Caixa: A liberdade de crer

&&&&

Sobre a probabilidade de critérios morais universais

A constatação das diferenças que existem entre os códigos morais — de acordo com as
épocas, as culturas e os grupos sociais ou de acordo com os próprios indivíduos —
levou o ser humano a refletir sobre a possibilidade ou não de alguns critérios universais,
para além das indubitáveis diferenças de fato.

O relativismo moral sustenta que todas as normas morais são igualmente justificáveis e
válidas, mesmo aquelas que são opostas. O universalismo, pelo contrário, nega isto. O
problema é especialmente agudo na época contemporânea, em que o encontro e a
convivência de culturas diferentes obrigam a uma contínua e profunda reflexão que vai
muito além do simples interesse especulativo, já que tem a ver com atitudes ou crenças
com as quais nos deparamos habitualmente.

A existência de fatos morais objetivos também está sujeita a controvérsia. As duas


concepções antiéticas recebem os nomes de subjetivismo e objetivismo moral.

O relativismo moral

O tema do relativismo moral foi levantado pela primeira vez no século V a.C., na
Grécia. O contato com outras culturas por meio do comércio manifestou a evidência de
práticas morais totalmente diferentes. Os sofistas lhe deram formulação técnica e
defenderam que não era possível falar de uma moral universal, que as normas morais
10

eram relativas a cada povo ou comunidade e até a cada indivíduo ou a cada situação em
que ele se encontre. A réplica ficou a cargo de Sócrates, Platão e Aristóteles, que viam
assim colocados em risco não apenas a virtude e o bem individuais, mas também a
virtude e a ordem sociais.

O tema reaparece no século XVIII com o iluminismo: junto com a descoberta da


dependência social dos princípios e regras morais, formulou-se — e Kant foi seu artífice
— a exigência da universalidade como característica fundamental de uma ética racional.
Na época atual, o problema deve ser demarcado pela aceitação por parte da maioria dos
antropólogos do relativismo cultural: não existem práticas culturais universais, nem é
possível considerar que umas sejam superiores a outras.

No plano estritamente moral, o relativismo sustenta que as crenças morais (o que é bom
ou ruim, o justo e o injusto) sempre são relativistas ao sujeito que as afirma — seja um
indivíduo, um grupo ou uma cultura. ...

O universalismo moral

Diferentemente do relativismo, o universalismo moral afirma que existem princípios


morais universais aos quais qualquer reflexão racional pode chegar inequivocamente e
aos quais de forma alguma o ser humano deve renunciar, já que é sua conquista mais
elevada. O universalismo não é incompatível com a aceitação de normas morais
diferentes, pois o que tem estatuto de universalidade são os princípios que fundamentam
essas normas. Por exemplo: o amor e o respeito aos idosos pode ser um desses
princípios fundamentais, embora a forma como cada cultura acredita que eles devam ser
praticados possa ser diferente.

Somente com a aceitação de tais princípios é possível condenar atos como o genocídio,
a tortura, a escravidão, a discriminação racial etc. Sem eles, a própria Declaração
universal dos direitos humanos ficaria sem fundamento e seria uma declaração
puramente convencional.

O subjetivismo moral

A ideia central do subjetivismo é que as questões morais, à diferença das científicas, são
subjetivas e expressam sentimentos e desejos. Os juízos da ciência descrevem fatos, e
por meio de experiências é possível verificar esses juízos — o que faz com que o
conhecimento científico seja objetivo. No caso dos juízos morais, não existe nenhuma
possibilidade de verificação e, portanto, não é possível o acordo por meio de razões. Os
subjetivistas não negam a existência de fatos objetivos: o que eles negam é a existência
de fatos morais objetivos. Por exemplo: "Pedro ajudou seu amigo" é um juízo que
expressa um fato, que pode ser verificado e pode promover o acordo universal. Mas o
juízo "É bom ajudar os amigos" só expressa a atitude do sujeito que avalia, ou seja, do
sujeito que atribui a certo ato humano uma propriedade que considera valiosa.

... As pessoas costumam relacionar o subjetivismo ao relativismo. Em todo o caso, eles


coincidem na impossibilidade de aplicar alguns critérios universais à conduta moral. Da
mesma maneira, o universalismo está ligado ao objetivismo, concepção contrária ao
subjetivismo.
11

O objetivismo afirma que, se o emotivismo fosse uma teoria verdadeira, seria


impossível argumentar moralmente e que, quando avaliamos como perversa a atitude de
um torturador, estamos expressando algo mais do que nosso aborrecimento ou raiva
subjetivos: achamos que nos estamos referindo a algo que pode refutar de pleno direito
comportamentos semelhantes.

Caixa: Os direitos humanos

&&&&

Teorias éticas

A ética é a reflexão sobre a moral. Isto significa que a moral é anterior à ética, e que a
reflexão é posterior à existência de normas e ações morais. O filósofo não cria normas
morais — apenas justifica e fundamenta as normas morais do comportamento efetivo. O
que é de fato verdade é que algumas teorias éticas propõem e recomendam algum
princípio concreto como preferível, depois de analisá-lo e justificá-lo criticamente.

Por outro lado, as doutrinas éticas fundamentais surgem e se desenvolvem em diferentes


épocas e sociedades como respostas aos problemas básicos criados pelas relações entre
os homens e, em particular, por seu comportamento moral. Existe, por isso, uma estreita
ligação entre os conceitos morais e a realidade social e histórica a que pertencem.

Ética e história

O nascimento e desenvolvimento do pensamento e da prática da ética ocidental surgem


na Grécia, em ligação estreita com a democratização da vida política. Em geral, a ética
parece subordinada à gestão dos assuntos coletivos (quer dizer, à política) e requer a
discussão racional entre iguais. As ideias de Sócrates, Platão e Aristóteles estão
orientadas nesse sentido. Com a desintegração das cidades democráticas (polis),
apareceram escolas éticas (por exemplo, o epicurismo e o estoicismo), centrados quase
exclusivamente na preocupação consigo mesmo e à margem da vida política.

Na época medieval, tanto a moral concreta quanto a reflexão ética se acham


impregnadas de um caráter religioso, presente também em todas as outras facetas da
vida medieval (política, arte etc.). A ética cristã parte de um conjunto de verdades
reveladas que estabelecem o que o fiel deve aceitar a respeito de Deus, da relação do
homem com o seu criador e do modo prático de vida que deve seguir para alcançar a
salvação no outro mundo. Deus, criador do mundo e do homem, é concebido como um
ser pessoal bom, onisciente e todo-poderoso. Por todas essas razões, constitui o bem
supremo do ser humano, de quem exige obediência e submissão a seus mandamentos,
que têm para ele o caráter de imperativos supremos. Assim, portanto, na religião cristã,
o que o ser humano é e o comportamento que deve seguir são definidos, não em relação
a uma comunidade humana (como era a polis para a ética grega), mas, acima de tudo,
em relação a Deus; o amor humano fica subordinado ao divino; a ordem sobrenatural
tem prioridade sobre a ordem natural e humana.

O cristianismo introduziu uma ideia que teve grande transcendência na ética e na moral
ocidentais: a da igualdade de todos os homens. Todos os homens são iguais perante
Deus e são chamados a alcançar a perfeição e a justiça no mundo sobrenatural. Num
12

mundo em que reina uma profunda desigualdade social, oferece-se pela primeira vez o
ideal e a esperança da igualdade a todos os homens, inclusive aos mais oprimidos e
explorados, ainda que seja num futuro.

Na ética moderna, e como expressão das profundas transformações ocorridas, o ser


humano passa a ser o outro do mundo, em substituição a Deus. O ser humano adquire
valor próprio, não apenas como ser espiritual, mas também como ser corpóreo, e não
apenas como ente da razão, mas também de vontade. Apoia-se com grande força o ideal
da ação, e não apenas o da contemplação, tal como tinha ocorrido ao longo de toda a
Idade Média. O ser humano vê a si mesmo como o criador ou legislador em diferentes
domínios, entre eles o da moral. A Idade Moderna tem na formulação cartesiana do
sujeito uma meta que trará importantes implicações práticas, e cujo apogeu é, sem
dúvida, a ética de Kant.

A ética contemporânea reflete as contradições de um mundo em que se perdeu a


confiança e o otimismo do período anterior — no qual o ser humano valorizava acima
de tudo as possibilidades da razão para instaurar uma realidade moral e política melhor.
A reflexão ética contemporânea assume uma tripla tarefa: a reação contra o formalismo
e universalismo absoluto, sobretudo o da ética kantiana, em favor do homem concreto
(o indivíduo, para Kierkegaard e o existencialismo atual; o homem social, para Marx); a
reação contra o racionalismo absoluto em favor do reconhecimento do irracional no
comportamento humano (Kierkegaard, o existencialismo, o pragmatismo e a
psicanálise); e a crítica da fundamentação transcendente da ética, em favor da
fundamentação no próprio ser humano.

Éticas materiais

Tornou-se clássica na filosofia moderna, a diferença entre dois tipos de ética — éticas
materiais e éticas formais —, embora, certamente, sejam possíveis outras classificações.

As éticas materiais acreditam que a tarefa da ética é fornecer conteúdos morais a


respeito do que é o "bem" como o objetivo para o qual o ser humano se inclina em suas
ações. Essas teorias atendem, portanto, ao conteúdo ou "matéria" da norma. O termo
"material" aplicado à ética não tem nada a ver com o que habitualmente se entende por
essa palavra; também não se deve confundir uma ética material com uma ética
materialista. De acordo com essas éticas, trata-se de propor determinadas normas de
comportamento para a obtenção do que se tenha estimado como bem (seja o prazer, a
felicidade, a utilidade etc.), sendo moral a ação que esteja de acordo com esse bem —
quer dizer, a ação que nos aproxime da obtenção de tal bem supremo oferecem um ideal
de vida boa e a sabedoria consiste na sua conquista. Em geral, as éticas materiais se
relacionam com o antigo mundo greco-romano (com exceção do chamado utilitarismo)
e todas elas possuem uma característica comum: aspiram à felicidade. Sábio é quem
sabe ser feliz, e para a conquista desse estado é indispensável treinar e cultivar um
conjunto de virtudes, das quais a mais importante é a prudência. Prudente é quem sabe
agir de acordo com o que lhe convém — mas não o que lhe convém num momento
pontual, e sim no conjunto de sua vida.

As diferenças entre as éticas materiais provêm das diversas maneiras de entender o que
é o bem do ser humano. As mais importantes são o eudemonismo, o hedonismo e o
utilitarismo.
13

As éticas eudemonistas

O termo "eudemonismo" tem origem numa das palavras que em grego significam
"felicidade" (eudaimonia). Num sentido amplo, são eudemonistas os sistemas
filosóficos que resumem o bem na felicidade; num sentido mais restrito, são
eudemonistas os sistemas que fazem com que a felicidade consista em algo diferente do
mero prazer. A ética aristotélica é a mais representativa desse tipo de ética. Aristóteles
define a felicidade como "atividade da alma conforme a virtude perfeita". Sendo o ser
humano um animal racional, a felicidade consistirá na perfeição daquilo que
especificamente o constitui, isto é, a inteligência ou razão. A atividade contemplativa é,
portanto, a forma mais perfeita de felicidade. Para que seja boa,a atividade deve estar
adequada à virtude: um hábito que nos permite adquirir como segunda natureza uma
disposição permanente para escolher o mais adequado, em cada caso, à nossa felicidade.
Por outro lado, nem toda a nossa felicidade depende exclusivamente de nós mesmos.
Daí que Aristóteles considere também o papel da sorte e a importância de outros bens
para a obtenção da felicidade — tais como a saúde do corpo ou certos bens econômicos.

As éticas hedonistas situam o bem supremo dos homens, e com isso a felicidade, no
prazer (hedoné, em grego). A teoria hedonista mais importante é o epicurismo. Quando
Epicuro fala de prazer está se referindo sem dúvida aos prazeres do corpo, mas não
exclusiva nem indiscriminadamente: é preciso escolher, dentre a pluralidade de prazeres
aqueles que permitam viver de acordo com a natureza, e os prazeres da alma — a
amizade, por exemplo — são uma forma permanente de satisfação.

O utilitarismo

As teorias do prazer, que haviam desaparecido da filosofia ocidental durante muitos


séculos, reapareceram com os filósofos ingleses do final do século XVIII e da primeira
metade do século XIX: o fundador do utilitarismo é Jeremias Bentham (1748-1832),
mas seu principal representante é John Stuart Mill (1773-1836). O utilitarismo defende
que o bom é o útil para a felicidade: bom é tudo aquilo que aumenta o bem-estar da
humanidade em geral — a máxima felicidade possível para o maior número possível de
pessoas. O utilitarismo tem, portanto, um acentuado sentido universalista e não é de
estranhar sua influência no chamado "estado de bem-estar".

Éticas formais

Diferentemente das éticas materiais, as éticas formais prescindem do conteúdo e se


ocupam exclusivamente da forma de nossas ações ou de nossas normas morais.
Segundo ela, é moral a ação que tiver determinada estrutura, independentemente de qual
seja seu conteúdo. Todas as éticas formais são típicas da época moderna e a mais
importante de todas é a ética kantiana.

Segundo Kant, as normas morais devem ter validade universal, quer dizer, devem ser
válidas para todo ser racional. As éticas materiais só têm validade subjetiva e particular:
valem exclusivamente para o sujeito que aceita esse determinado bem supremo, mas
não para quem conceba que o bem seja outra coisa. Kant não recusa a busca da
felicidade: o que ele afirma é que essa busca não pode ser o fundamento das normas
universais. As éticas materiais são, além disso, heterônomas: o sujeito recebe a lei de
fora, de alguma coisa diferente dele mesmo. Nelas, a norma é determinada pela
14

inclinação ou pelo desejo e, portanto, não se trata apenas de que esses sejam subjetivos,
mas que, além disso, a vontade não é livre — não é autônoma. A ética só pode
estabelecer como deve ser a vontade — não o que se deve querer. A ética formal, em
resumo, não estabelece o que devemos fazer: limita-se a apontar como devemos agir
sempre, qualquer que seja a ação concreta.

Kant confessava seu espanto diante de dois fenômenos: o céu repleto de uma infinidade
de estrelas e a moral gravada no coração dos homens. Ele sustenta, como bom
iluminista, que a lei moral não chega ao ser humano de fora, mas se encontra na própria
razão, e por isso cumpre a exigência de universalidade. Todo ser racional deveria aceitar
a validade da lei que afirma : "Aja somente segundo uma regra que você possa querer
ao mesmo tempo que se transforme em lei universal." Kant chama essa lei de
imperativo categórico e sua formulação mostra claramente seu caráter formal. De fato,
esse imperativo não estabelece nenhuma norma concreta, mas a forma que qualquer
norma concreta precisa ter. Em resumo, o formalismo kantiano não é uma ética da
felicidade, mas do dever: as ações devem ser executadas por puro respeito ao dever,
quer dizer, ao imperativo que todo ser racional traz gravado na alma.

O existencialismo de Sartre também pode ser enquadrado dentro das éticas formais. A
tese fundamental é a de que o ser humano é um ser livre. Sartre expressa isso dizendo
que a existência precede a essência: o ser humano não tem essência, e seu
comportamento não está prefixado por nada — ele se faz, em sua existência. Seu
ateísmo radical o leva a afirmar que não existe um modelo de comportamento,
sancionado por Deus, ao qual o ser humano deva se guiar: ele está condenado a ser livre
e não lhe resta nenhuma outra fonte de justificação de suas ações além de sua própria
vontade. Suas ações são únicas e irrepetíveis, uma vez que não segue nenhum padrão ou
imperativo. Ser moral é ser livre: ele deve criar seus próprios valores, que não são bons
em função de nenhum conteúdo prévio, mas pelo exercício da liberdade formal da ética
existencialista.

Caixa: A felicidade

Caixa: O primeiro passo do existencialismo

&&&&

Alguns problemas éticos atuais

As mudanças desencadeadas pelo grande desenvolvimento científico e tecnológico dos


últimos cinquenta anos criaram novos problemas que exigem uma nova reflexão ética,
ainda que já observada durante as últimas décadas.

Pensamentos como o de Heidegger e da escola de Frankfurt — em particular o de


Horkheimer e Marcuse — insistem em que o homem tecnicizado e unidimensional da
sociedade de consumo é, não dono e senhor, mas escravo daquilo que havia criado
como instrumento a seu serviço.
15

Nem as legislações nem as diversas éticas estavam preparadas para legislar e orientar
nesse novo cenário. Por tudo isso, é inadiável a reflexão moral sobre essa situação.

Os novos cenários

Problemas ecológicos

Problemas derivados da medicina e da biologia

Outros problemas

Caixa: O genoma humano

&&&&

O trabalho

O trabalho é uma ação produtiva (a poiesis grega) cuja finalidade é a obtenção de uma
obra destinada a satisfazer necessidades humanas. Com frequência, no entanto,
associamos a ideia de trabalho a uma atividade realizada com esforço e fadiga, que
implica, portanto, uma carga pesada para quem a realiza. Com a industrialização, o
trabalho sofreu transformações radicais e, pela primeira vez na história dos modos de
produção, passou a ser visto como valor e não como um mal a ser evitado.

Natureza do trabalho

O trabalho é uma atividade produtiva destinada à satisfação de necessidades, tanto das


naturais (como comer ou se proteger das inclemências do tempo), que o ser humano
compartilha com os outros animais, quanto das estritamente humanas, "inventadas" por
ele e destinadas a lhe permitir não apenas sobreviver, como no caso dos animais, mas
viver bem. O trabalho consiste na ação dos seres humanos sobre a matéria para
transformá-la e criar um produto, que é o que permite a satisfação de suas necessidades.

Na atividade do trabalho, o ser humano estabelece relações — com a natureza e com os


demais seres humanos. Com a natureza, o ser humano entra numa relação que Marx
qualifica de dialética: com sua ação produtiva, transforma a natureza e com isso a
humaniza; mas também humaniza a si mesmo, porque ele "é" o que conseguiu por meio
de seu trabalho. Mas, por meio do trabalho, também se estabelecem relações entre os
seres humanos como sujeitos produtivos: em primeiro lugar, o trabalho precisa produzir
algo socialmente útil, e não útil apenas para a própria pessoa; em segundo lugar, a
organização do trabalho determina de forma decisiva a estrutura da sociedade. Ele se
estratifica em torno dos processos de produção, quer dizer, os seres humanos se situam
em diferentes posições em função da produção e da distribuição de bens e serviços.

Concepção do trabalho ao longo da história

O trabalho nas sociedades industrializadas

Caixa: O conceito profissional


16

&&&&

A tecnologia

Hoje em dia, não se concebe a ciência sem sua aplicação prática. A ciência moderna não
corresponde à concepção antiga, que entende o conhecimento como uma atividade
contemplativa. Ela persegue uma finalidade prática: encontrar explicações que
permitem predizer os acontecimentos, mas também ampliar a capacidade prática de
transformar a natureza.

A técnica, como produtora de instrumentos e procedimentos para intervir na


transformação da natureza, também não corresponde à concepção artesanal (ars
mechanica) de épocas anteriores.

A relação estabelecida entre a ciência e a técnica, a produção de novos instrumentos


técnicos baseados não mais na experiência, mas no conhecimento científico, são o que
se entende como "tecnologia". Nesse sentido, a tecnologia seria a ciência da técnica.

Técnica e ciência

Ciência e tecnologia

Tecnologia e sociedade

Caixa: O homem e a técnica

Temática Barsa - Filosofia. Rio de Janeiro: Barsa Planeta, 2005. (Cópia do capítulo 16)

Pela ação, o homem atualiza as próprias capacidades, relaciona-se com os outros e com
eles transforma o Mundo e cria história, moldando progressivamente a própria figura
definitiva face ao Absoluto. (v. práxis)

Com os clássicos gregos podemos, numa primeira aproximação, distinguir três tipos
fundamentais de ações humanas: fazer (poiein), agir (práttein) e conhecer (theôrein).
Enquanto o agir e o conhecer se desenrolam no interior do sujeito agente, pelo fazer o
homem influi na realidade exterior, modificando-a; é por isso denominada ação
transitiva, enquanto as outras duas recebem a designação de imanentes (v. imanência).
(2)
17

(2) POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São Paulo:


Verbo, 1986.

Mais informações em: http://www.sergiobiagigregorio.com.br/palestra/acao-e-


reacao.htm

http://www.sergiobiagigregorio.com.br/palestra/que-fazeis-de-especial.htm

Acidente
Acidente. Tradução de um termo aristotélico, muito utilizado pela escolástica, que
designa o que pode, indiferentemente, estar presente ou desaparecer sem modificar o
sujeito ao qual pertence. Por exemplo, é por acidente que um homem dorme ou um
tecido é verde (o primeiro permanece homem quando não está dormindo, o segundo,
tingido de vermelho, continua sendo tecido). (V. essência) (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Adiáfora / Indiferença
Adiáfora. Cínicos (v. cinismo) e estoicos (v. estoicismo) chamam de adiáfora, isto é, de
indiferentes, todas as coisas que não contribuem nem para a virtude e nem para a
maldade. Por exemplo, a riqueza, a saúde podem ser utilizadas tanto para o bem quanto
para o mal; são, portanto, indiferentes para a felicidade dos homens, não porque deixam
os homens indiferentes (na realidade suscitam o seu desejo), mas porque a felicidade
consiste somente no comportamento racional, isto é, na virtude. (Dióg. L. VII, 103-104)
(1)

Indiferença. Neutralidade afetiva que se opera por negação da preferência por


supressão da hierarquia dos valores. As diferenças podem ser percebidas, mas são
desprovidas de significado, de modo que a indiferença está para o valor o ceticismo está
para o conhecimento. Ora, como ela abrange o domínio do vivido, pode conduzir ao
tédio ou até - no limite - tirar o sentido da vida e de nós mesmos. Daí a profundidade
metafísica (eventual) da indiferença quando ela se torna patológica por carência do
desejo.

Porém quando se consegue superar o desejo, a indiferença aparece então como o


resultado de uma ascese quando é cultivada com o intuito de se chegar à sabedoria,
como é o caso da adiáfora - ou indiferença estoica - que consiste em se desprender
voluntariamente de tudo o que não depende de nós. No plano religioso, citemos o
18

budismo, que busca o repouso no Nirvana pela extinção do desejo. Quanto à "Santa
indiferença", preconizada por São Francisco de Sales (1567-1622) - que renova a
espiritualidade cristã - traduz-se pelo abandono a vontade de Deus após se ter
renunciado a qualquer desejo, mesmo ao desejo da salvação. (2)

Indiferentismo. Rel. O termo (usado sobretudo no século XIX) implica a adoção mais
ou menos sistemática da indiferença no campo religioso. Será indiferentismo prático ou
teórico, segundo a indiferença revestir predominantemente a forma de atitude ou se
afirmar em doutrina. 1) O indiferentismo prático consiste num desinteresse,
insensibilidade ou preguiça perante as realidades religiosas; nem sempre implica a
adoção do indiferentismo teórico, mas facilmente levará a este, se se prolongar ("quem
não vive conforme pensa, acaba por pensar conforme vive", P. Bourget). 2) O
indiferentismo teórico ou doutrinal pode ser radical ou relativista. Ambos têm de
comum a nota expressa pela etimologia do termo, a saber: afirmam a não diferença
entre todas as formas religiosas. Distinguem-se um do outro em que o indiferentismo
radical coloca esta não diferença no fato de nenhuma religião ter valor, ao passo que o
indiferentismo relativista afirma que todas têm fundamentalmente o mesmo valor. O
indiferentismo radical equivale ao agnosticismo, o ateísmo e constitui atitude típica do
Deísmo. O indiferentismo relativista leva facilmente ao sincretismo religioso. (3)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(3) Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura.

Admiração
Admiração. Do latim admiratio, espanto, surpresa. Para Aristóteles, a filosofia começa
com a admiração. Para Descartes, a admiração "é a primeira de todas as paixões", dando
força a quase todas as coisas: ela "é uma súbita surpresa da alma levando-a a considerar
com atenção os objetos que lhe parecem raros e extraordinários"; ela "não possui o bem
ou o mal por objeto, mas somente o conhecimento da coisa que admiramos". (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
19

Adquirido / Inato
Adquirido/Inato. Na linguagem filosófica, o inato e o adquirido se restringem
estritamente ao domínio da teoria do conhecimento, nada tendo a ver com uma
diferença qualquer entre homens. Assim, as ideias inatas, defendidas por Descartes, são
as ideias de nosso espírito que não nos advêm pela experiência. Ex.: as ideias de Deus,
de causa, de pensamento. As ideias adquiridas, ao contrário, são as que são apreendidas
pela experiência: as ideias de cor, de consistência, de sabor etc. Trata-se de uma
distinção essencialmente lógica, não cronológica. Em termos modernos, psicólogos e e
biólogos preferem falar de disposições inatas; p. ex., o homem, a faculdade de falar. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Agatonismo
Agatonismo. Filosofia moral segundo a qual devemos buscar o bem para nós mesmos e
para os outros. Postulado máximo: “Desfrute a vida e ajude a viver uma vida
desfrutável”. Este princípio combina egoísmo e altruísmo. O agatonismo coloca ainda
que direitos e meios vêm aos pares; que as ações devem ser moralmente justificadas; e
que princípios morais deveriam ser avaliados por suas consequências. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Agnosticismo
Agnosticismo. a. Epistemologia. Negação da possibilidade de conhecer fatos tais como
eles realmente são ou mesmo se existem fatos fora do conhecedor. Uma versão do
ceticismo. Sexto Empírico, Francisco Sanchez, Hume, Kant, Mill e Spencer eram
epistemológicos agnósticos. b. Filosofia da religião – suspensão de toda crença
religiosa. Um agnóstico é provavelmente um ateu envergonhado com medo de estar
enganado, de ser acusado de dogmático, ou discriminado. O agnosticismo é parte do
ceticismo radical (ou epistemológico). É, em geral, defendido com base em um ou em
todos os pontos de vista seguintes: 1) qualquer coisa é possível; 2) a hipótese da
existência do sobrenatural não pode ser provada nem refutada por meios empíricos,
precisamente porque o sobrenatural é inacessível aos sentidos; 3) bons cientistas jamais
devem fazer afirmações categóricas: o máximo que podem afirmar de modo responsável
é que a hipótese em questão é, ou extremamente plausível, ou não plausível; 4) o
agnosticismo não faz diferença para a pesquisa científica, ao passo que o ateísmo
estreita seu alcance. (1)
20

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Algoritmo
Algoritmo. Derivado do nome do matemático islâmico Al-Khowarizmi. Um conjunto
de regras ou instruções que resultarão na solução de um problema. Um algoritmo
oferece um processo de decisão, ou um método computável para resolver um problema.
Apesar de um algoritmo solucionar um problema, pode não o fazer eficientemente; na
teoria da computação é possível avaliar a eficiência e o comportamento dos algoritmos
em várias circunstâncias, como, por exemplo, nos casos típicos e nos casos
desfavoráveis. (1)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Alienação
Alienação. Do latim alienatio,onis. 1. Ato ou efeito de alienar(-se); alheamento. 2. Dir.
Transferência a outrem de posse ou direito: alienação de bens. 3. Estado causado por
privação de qualquer direito. 4. P.ext. indiferença a problemas sociais, políticos etc. (1)

Alienação. Conceito fundamental nas obras filosóficas de Hegel, Feuerbach e Marx, e


também nos textos posteriores das tradições idealista e marxista. A alienação (do
alemão Entfremdung, também pode ser traduzido por afastamento) exprime sobretudo a
ideia de algo que está separado de outra coisa ou que é estranho a essa coisa: estou
alienado de mim na medida em que não posso compreender ou aceitar a mim mesmo; o
pensamento está alienado da realidade, pois a reflete de forma inadequada; estou
alienado de meus desejos uma vez que eles não são autenticamente meus, sendo antes
impostos a mim do exterior; estou alienado dos resultados dos meus trabalhos porque
estes se tornam mercadorias; e posso estar alienado de minha sociedade pois em vez de
fazer parte de uma unidade social que a constrói, me sinto controlado por ela. Em
Hegel, o progresso para o absoluto (ver idealismo absoluto) consiste num crescimento
da autoconsciência, que é um processo de "desalienação" por meio do qual aquilo que
está separado e falsamente objetivado recupera sua unidade através da autocriação e da
autoconsciência (embora as mentes finitas, agentes desse crescimento, alienem-se de si
mesmas na atividade e na "objetivação" de seus produtos materiais e sociais). Em
Feuerbach, pelo contrário, abandonam-se os aparatos absolutistas da alienação
hegeliana e o conceito é substituído pelo de autoalienação, uma condição a ser superada
pela autoconsciência que, por sua vez, é o resultado da relação apropriada com nossos
produtos e atividades. No uso que Marx dá ao conceito, separa-se por vezes o seu
primeiro período, hegeliano, do período dos textos posteriores, mas não restam grandes
21

dúvidas sobre sua adesão permanente à ideia de que a natureza humana será sempre
auto-alienada, a menos que haja uma transformação comunista da sociedade. Ver
também anomia; autenticidade; Dasein; falsa consciência. (2)

Alienação. Em Marx, a alienação é radicalmente econômica e social: é porque o


proletariado só tem como bem sua força de trabalho que seu labor cai sob o domínio do
outro; então ele é separado do seu produto e "o trabalho alienado (...) é mortificação".
Religião, moral e política não passarão de repetição dessa alienação fundamental que só
poderia desaparecer pela supressão da economia capitalista, se for verdade que "para
nós, em nossa sociedade, com as formas de intercâmbio e a divisão social nela reinam,
não existe relação social - relação com o outro - sem uma certa alienação" (H.
Lefebvre). (3)

Alienação Mental. 1. Psicop. Perda da razão em virtude de perturbações psíquicas. 2.


Psiq. Sintoma clínico em que situações ou pessoas conhecidas se tornam estranhas. (1)

(1) DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO ILUSTRADO LAROUSSE. São Paulo:


Larousse, 2007.

(2) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Ambiguidade
Ambiguidade. Do latim ambiguitas, duplo sentido. Duplo sentido de uma palavra ou de
uma expressão. Não deixar claro o sentido de uma palavra ou de uma frase que podem
ser interpretadas pelo menos de duas maneiras diferentes.

Uma expressão é ambígua, quando se encontra associada a mais de um significado. A


ambiguidade é, por conseguinte, o tipo de relação entre forma e significado recíproca da
relação de SINONÍMIA.

Os seguintes exemplos ilustram diferentes tipos de ambiguidade respectivamente,


ambiguidade lexical, estrutural e de âmbito. 1) “O Pedro escolheu o canto”; 2) “O Pedro
viu a Maria com os binóculos”; 3) “Todas as pessoas são amadas por alguém.

No exemplo 1 a ambiguidade resulta de a palavra “canto” poder ser interpretada como


designadora ou de determinado lugar em um espaço interior ou de certa atividade musical:
a frase 1 pode ser usada, p.ex., para informar acerca do lugar que o Pedro escolheu para
22

se sentar, pode informar acerca da demonstração de perícia que o Pedro escolheu em um


concurso televisivo.

Em 2 a ambiguidade resulta da posição relativa em que o sintagma “com binóculos”


ocorre na frase. Essa frase pode ser interpretada como se descrevesse a situação em que
Pedro usou os binóculos para ver a Maria ou como descrevendo a situação em que a Maria
levava os binóculos quando o Pedro a viu. Repare-se que, colocando o referido sintagma
em outra posição relativa, no início da frase, p. ex., a frase resultante deixa de apresentar
essa ambiguidade: “Com os binóculos, o Pedro viu a Maria”, descreve apenas a primeira
das duas situações referidas.

O exemplo 3 ilustra um caso de ambiguidade que resulta da co-ocorrência na mesma frase


de mais de um determinante quantificacional. A frase 3 pode ser interpretada como se
descrevesse a situação em que cada pessoa é amada pelo seu amante, ou como
descrevendo a situação em que existe um amante universal que ama todas as pessoas. (1)

(1) BRANQUINHO, João; MURCHO, Desidério; GOMES, Nélson Gonçalves.


Enciclopédia de Termos Lógico-filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Análise
Análise. Desligar, decompor um todo em suas partes. Divisão ou decomposição de um
todo ou de um objeto em suas partes, seja materialmente (análise química de um corpo),
seja mentalmente (análise de conceitos). Opõe-se a síntese, ato de composição que
consiste em unir em um todo diversos elementos dados separadamente. (1)

(1) JAPIASSU, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

Analogia
Analogia. Do grego analogia, proporção matemática, correspondência. 1. Paralelo entre
coisas diferentes levando-se em conta o seu aspecto geral.

2. Identidade de relação unindo dois a dois os termos de vários pares. É o caso da


proporção matemática A, B e C, D, que se escreve: “A:B::C:D” e se enuncia: “A está
para B como C está para D”. Donde a igualdade proporcional A/B = C/D.

3. Identidade de relações entre seres e fenômenos (analogia entre queda e gravitação,


entre o boi e a baleia).
23

4. Raciocínio por Analogia é uma inferência fundada na definição de características


comuns. Assim, um corpo que sofre na água o chamado impulso de Arquimedes deve
sofrer o mesmo impulso no ar, pois as características comuns à água (líquido) e ao ar
(gás) definem o fluido. As descobertas científicas frequentemente consistem na
percepção de uma analogia, ou seja, de uma identidade entre dois fenômenos sob a
diversidade de suas aparências. Ex.: a analogia do raio e da centelha elétrica descoberta
por Franklin. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Anamnese
Anamnese. Do grego anmnésis, ação de lembrar-se. Na filosofia platônica, a anamnese
consiste no esforço progressivo pelo qual a consciência individual remonta, da
experiência sensível, para o mundo das ideias. Ver reminiscência. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Anarquismo
Anarquismo. Em epistemologia, a visão cética radical segundo a qual todas as
hipóteses, teorias e disciplinas são equivalentes no sentido de que nenhuma delas tem
pretensões mais legítimas à verdade do que suas rivais. Assim, o criacionismo seria tão
legítimo quanto a biologia evolucionista, e a cura pela fé tanto quanto a medicina. A
doutrina simula tolerância mas efetivamente denigre a ciência e tolera a preguiça
intelectual e a impostura. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Anfibologia
Anfibologia. Etimologicamente, "dicção ambígua". O mesmo que ambiguidade. É o
que apresenta duas faces, dois sentidos. Emprega-se em gramática para designar os
equívocos de sentido provenientes de construção defeituosa da frase ou do uso de
24

termos impróprios. Aristóteles cita anfibologia como um dos seis vícios que podem
produzir a falsa aparência de um argumento. (1)

Anfibologia (amphibologie). Ambiguidade faltosa (porque poderia e deveria ser


evitada) ou engraçada (se for deliberada e picante) no discurso. Por exemplo, neste
diálogo imaginário, que nos divertia em criança:

"- Papai, não gosto de vovó!

- Fique quieto e coma o que está no seu prato!"

Kant chama de "anfibologia transcendental" o erro de raciocínio que consiste em


confundir o objeto puro do entendimento (o númeno) com o objeto da sensibilidade (o
fenômeno). É o erro comum e simétrico de Leibniz, que "intelectualiza os fenômenos",
e de Locke, que "sensualizara todos os conceitos de entendimento". Era confundir a
sensibilidade e o entendimento, em vez de utilizá-los juntos - o que supõe distingui-los -
no conhecimento.

A anfibologia é portanto uma ambiguidade erudita, ou o nome erudito de uma


ambiguidade. Duas razões para evitar, salvo para dar boas risadas, a palavra e a coisa.
(2)

Anfibolia. Do grego amphibolos, fala incerta. Uma frase cuja estrutura gramatical
permite diferentes interpretações, e.g., "Ela o viu com binóculos" (era ele que estava
com binóculos? Ou foi ela que usou binóculos para o ver?). Para Kant a confusão entre
um objeto do entendimento puro e a aparência é uma anfibolia transcendental. (3)

(1) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

(3) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Angústia
Angústia. Do latim angustia 1. Estreiteza, espaço reduzido. 2. Carência, falta. 3.
FILOS. Sentimento que paralisa a vida psíquica racional e consciente, diferente do
temor e do medo a algo real e concreto, procedente de uma sensação difusa de
insegurança. 4. PSICOL. Afeto desagradável de intensidade variável acompanhado de
25

manifestações somáticas de índole diversificada. Produz-se como reação a estímulos


externos ou internos, perante os quais o sujeito se sente indefeso e sem recursos. 5.
Estenose. 6. Aflição, sofrimento. PSICOL. Distingue da ansiedade pela presença
conspícua de sintomas somáticos. Estes implicam constrição esofágica, taquicardia,
tremores, pré-cordialgias, dispnéia ou hipersudoração, e podem levar até a sensação de
destruição iminente ou, nas crises agudas mais graves, a uma dissipação da consciência.
A angústia encontra-se presente em inúmeros quadros clínicos. Em psicanálise
distinguem-se duas formas de angústia: a angústia face a um perigo real (angústia real)
e a angústia perante uma pulsão interna vivida como ameaçadora (angústia pulsional).
(1)

É o medo sem objeto: sua fonte é imaginária, desconhecida, inconsciente, vem de dentro
de nós. Do ponto de vista psíquico, caracterizam a angústia a desagradável sensação de
tensa expectativa e o estreitamento da consciência: a palavra latina angústia significa
estreiteza. Isso quer dizer: a consciência é absorvida pelos temas e fenômenos ansiosos,
tornando-se cada vez menos capaz de perceber, elaborar ou atuar fora do que não esteja
direta e imediatamente relacionado com esses temas e fenômenos. Nas reações mais
violentas - o pânico -, a consciência turva-se e desintegra-se, as manifestações
psicomotoras tornam-se desordenadas ou automáticas (v. automatismo) (2)

Na filosofia existencialista, a palavra "angústia" tomou sentido de "inquietação


metafísica" em meio aos tormentos pessoais do homem. Seu uso parece ter surgido com
Kierkegaard, que em 1844 escreveu um trabalho sobre a Ideia de Angústia. Pela
angústia o ser humano toma consciência, ao mesmo tempo, do nada de onde ele veio e
do porvir no qual se engaja. A ambiguidade fundamental da existência humana, entre o
ser e o nada, apresenta-se então juntamente com a irracionalidade de sua situação
metafísica e o absurdo da vida. Para os existencialistas, a angústia não é lamentável nem
condenável, porém simbólica, bastando-se por vezes a si mesma, o que explica o
aspecto pessimista de muitas dessas correntes filosóficas, bem como a sua reputação de
filosofias puramente negativas e niilistas. O sentimento original do homem, para as
filosofias existencialistas, é o de falta, em Kiekergaard; o de insegurança, em
Heidegger; o do absurdo, em Camus; o da liberdade em Sartre. (3)

Angústia ética. Um sentimento de desespero originado pela necessidade de tomar


decisões éticas ou morais. A angústia ética é um atributo necessário à formação do
caráter moral na sociedade ética. Sören Kierkegaard afirmava que a angústia era uma
das marcas da verdadeira liberdade de escolha. (4)

Angústia existencial: "Temos de fazer escolha, mas não temos certeza de seus
resultados. A única certeza é a vida de culpa e de ansiedade". (Heidegger)

Do latim angor, passagem estreita e difícil e, por extensão: "situação crítica". Fenômeno
afetivo constituído de uma viva inquietação e de temor sem objeto determinado - ao
contrário do medo, que se refere sempre a um objeto mais ou menos preciso - e
acompanhado de modificações neurovegetativas, como sensações de opressão ou
sufocamento, transpiração, problemas digestivos. Essas perturbações fisiológicas não
26

existem, em compensação, na ansiedade - sentimento menos forte que a angústia -,


onde o pensamento intervém mais. A psicanálise observa na angústia uma ambivalência
feita ao mesmo tempo de desejo e temor. A filosofia existencial, desde Kierkegaard,
nela vê um sentimento ontológico capaz de nos revelar não apenas nossa liberdade, mas
também a insegurança diante do nada e o caráter absurdo da vida. (5)

(1) Enciclopédia Barsa Universal.

(2) ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro:


M.E.C., 1967.

(3) GRANDE ENCICLOPÉDIA DELTA LAROUSSE. Rio de Janeiro: Delta, 1979.

(4) GRENZ, Stanley J. e SMITH, Jay T. Dicionário de Ética: Mais de 300 Termos
Definidos de Forma Clara e Concisa. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. São
Paulo: Vida, 2005.

(5) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Antinomia
Antinomia. Contradição que se manifesta entre dois princípios ou leis quando se
pretende aplicá-los a um caso particular. (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Antropocentrismo
Antropocentrismo. Do grego anthropos, homem, e do latim centrum, centro.
Concepção que situa e explica o homem como o centro do universo e, ao mesmo tempo,
como o fim segundo o qual tudo o mais deve estar ordenado e a ele subordinado: "O
homem é a medida de todas as coisas" (Protágoras). (1)

Antropocentrismo (anthropocentrisme). É colocar o homem no centro, não dos


valores, como faz o humanismo, mas dos seres: porque o universo teria sido criado só
para nós ou giraria em torno de nós. É uma noção tão fácil de compreender, de um
ponto de vista psicológico (é como um narcisismo da espécie), quanto é difícil, de um
ponto de vista racional, de aceitar. Por que esse privilégio exorbitante da humanidade?
Ele requer o socorro da religião, que é um antropocentrismo paradoxal (o verdadeiro
27

centro continua sendo Deus), ou do criticismo, que é um antropocentrismo


gnoseológico. A "revolução copernicana" que Kant nos propõe, na verdade é uma
contra-revolução: trata-se de trazer o homem de volta ao centro, de onde os progressos
das ciências o haviam banido. No centro dos seus conhecimentos, claro, pelo
transcendental; mas também no centro da criação (como seu objetivo final), pela
liberdade. Era aceitar as luzes sem renunciar à fé. A questão "o que é homem", dizia
Kant, é a questão central da filosofia, à qual todas as outras se reduzem. Vejo nisso um
antropocentrismo filosófico e uma forte razão para não ser kantiano. (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Antropologia
Antropologia. Do grego anthropos, homem, e logos, teoria, ciência. 1. Ciência do
homem ou conjunto das disciplinas que estudam o homem.

2. Antropologia física: conjunto das ciências naturais que estudam o homem enquanto
animal.

3. Antropologia cultural: ciência humana que tem objeto de estudo as diferentes


culturas e que investiga mais especialmente as camadas sociedades primitivas.

4. Antropologia filosófica: “Conhecimento pragmático daquilo que o homem, enquanto


ser dotado de livre-arbítrio, faz, pode ou deve fazer dele mesmo” (Kant). (1)

PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO

A antropologia, que foi definida tradicionalmente como o estudo da natureza do


homem, é o último dos domínios importantes da filosofia que se torna ciência. O objeto
de estudo da antropologia, como saber positivo e, portanto, sob uma metodologia
científica, é o Homem (do grego anthropos, homem) e suas características anatômicas,
biológicas, culturais e sociais.

Conforme se destaque uma ou outra dimensão, costuma-se fazer a distinção entre


antropologia cultural e social, que estuda o homem e os hominídeos, atendendo a todas
as variações biológicas que eles experimentam no tempo e no espaço. A constituição da
antropologia como ciência é recente.

Ainda no fim do século XIX, suas fontes dependiam em boa parte do testemunho de
viajante, missionários e comerciantes. Essas fontes, embora imprecisas ou pouco
28

rigorosas, permitiram no entanto organizar um material informativo de primeira mão


sobre povos e culturas muito afastados do mundo ocidental e sobre esse material a
ciência antropológica pôde paulatinamente edificar-se.

A origem da antropologia como disciplina científica

No século XIX, unem-se dois fatos que permitem o estudo do homem – que até esse
momento era próprio da filosofia, separe-se dela como disciplina independente. Em
primeiro lugar, as descobertas arqueológicas e paleontológicas realizadas ao longo do
século XIX vieram confirmar a antiguidade do homem como espécie e as teorias da
evolução. Isso fez com que aumentasse o interesse natural que o ser humano sempre
teve para estudar a si mesmo e sua evolução desde épocas passadas, e a curiosidade de
conhecer os costumes, formas de vida e de linguagem dos povos e das culturas
diferentes da sua. Em segundo lugar, a hegemonia da ciência, e, portanto, da aplicação
de metodologias de investigações próprias das ciências da natureza no âmbito do social
e do cultural. Estes dois fatores contribuíram para o desenvolvimento de disciplinas que
configurariam o que é a antropologia: a arqueologia, a paleontologia, a etnografia, a
linguística histórica e a primatologia, entre outras.

A antropologia pretende, portanto, responder às perguntas sobre a origem, o


desenvolvimento e a estrutura das sociedades humanas. Mas a antropologia se distingue
pela aplicação de uma metodologia própria, pelo trabalho de campo – que consiste na
observação e registro da vida de uma comunidade, com a imersão do próprio
investigador nela – e pelo método comparativo – que permite generalizar as
regularidades do humano e explicar a diversidade.

Os precursores

Em seu primeiro período, a antropologia é ainda uma ciência erudita, em que não se
realizam trabalhos de campo e em que predominam estudiosos de gabinete. O mais
conhecido de todos eles é James Frazer (1854-1941), autor de uma vasta compilação
sobre o folclore universal e as religiões primitivas publicada entre 1890 e 1915 com o
nome de O ramo de ouro.

Ao mesmo tempo, no entanto, já aparecem autênticos antropólogos, como o etnógrafo


norte-americano Lewis H. Morgan (1818-1881), que estuda de perto a cultura dos
índios iroqueses. Os trabalhos de Morgan, junto com os do britânico Edward B. Tylor
(1832-1917) – autor de uma obra pioneira A cultura primitiva (1865) – e outros
investigadores, fazem com que a antropologia, em sua orientação inicial, estabeleça-se
como ciência comparada da cultura, que se desenvolve no quadro do evolucionismo
predominante na segunda metade do século XIX, insistindo na condição racional de
cultura humana. Morgan é o primeiro a estabelecer uma teoria geral da evolução
cultural, definindo três etapas: o estado selvagem, o estado bárbaro (no qual o homem
já tem uma atividade agrária e domesticou certos animais) e o estado de civilização (no
qual o homem inventou o alfabeto). Sua obra Sistemas de consanguinidade e afinidade
da família humana (1871) é a primeira tentativa de classificação de um sistema de
parentesco e sua relação com as diversas formas de organização social. Tylor, além de
sua contribuição na definição e classificação do termo cultura e da elaboração de uma
teoria da evolução baseada nas origens da religião e do animismo das sociedades
29

primitivas, ressalta a importância do método comparativo na explicação dos dados


etnográficos.

Esse evolucionismo dos pioneiros dá lugar muito rápido a um difusionismo que explica
formação das culturas baseada na propagação de ideias, técnica, instituições, formas de
vida etc., a partir de alguns centros de civilização denominados “círculos culturais”.

Apesar da importância de evolucionistas e difusionistas, a formação da antropologia


científica, no entanto, dependeu mais de um enfoque a-historicista, como o do
funcionalismo e do estruturalismo.

Os antropólogos americanos

O magistério de Franz Boas (1858-1942) está na base da antropologia cultural norte-


americana. Boas entende a antropologia de acordo com sua orientação original de
ciência comparada da cultura e ressalta a importância do trabalho de campo, insistindo
na necessidade de investigações empíricas e descritivas, desconfiando de
sistematizações e classificações arbitrárias. Afirma a importância do estudo das culturas
individuais a partir de todos os seus aspectos (religião, arte, história, língua,
características físicas da população etc.) e diz que a melhor maneira de explicar uma
fato cultural é encontrar seus antecedentes históricos. Esta orientação historicista faz
com que essa corrente seja conhecida pelo nome de escola de história cultural, ou
particularismo histórico.

Os enfoques que caracterizam essa escola são: a ênfase sobre o conceito de cultura e a
análise antropológica baseada na interação entre cultura e personalidade. Nas palavras
de Ralph Linton, "a cultura, em tudo que seja algo mais do que uma abstração criada
pelo investigador, existe apenas nas mentes dos indivíduos que compõem uma
sociedade". Dado esse ponto de vista, a antropologia estabeleceu relações firmes com a
psicologia e a psicanálise.

Edward Sapir (1884-1939), Ruth Fulton Benedict (1887-1948), Alfred Louis Kroeber
(1876-1960) e Margaret Mead (1901-1978) são outros antropólogos americanos que se
destacam.

O funcionalismo de Malinowski

antropólogo de origem polonesa fixado no Reino Unido, Bronislaw Malinowski (1884-


1942) estabelece um marco importante no processo de formação da moderna ciência
antropológica por seus trabalhos de campo exemplares no arquipélago melanésio das
ilhas Trobriand, onde viveu por um longo tempo aprendendo os costumes e a língua de
seus habitantes - já que Malinowski achava que as organizações humanas deviam ser
estudadas no seio de seu ambiente cultural. Influenciado pela sociologia de Durkheim,
Malinowski inaugura o funcionalismo antropológico e teoriza sobre suas bases
metodológicas em Uma teoria científica da cultura (1944).

A tese central desse antropólogo é a de que o estudo de uma cultura primitiva deve ser
feito dentro de um objetivo totalizador e sincrônico. A cultura é um todo funcional cujos
elementos não precisamos de nenhuma reconstrução histórica. A origem e a difusão de
tais elementos não importam, já que, segundo Malinowski, numa cultura não existem
30

"relíquias", isto é, traços culturais que sobrevivam do passado. Todo elemento cultural
tem uma função, é útil e possui um significado (que o antropólogo deve saber extrair);
se não fosse assim, teria desaparecido.

Uma vez que "na verdadeira ciência", diz Malinowski, "o fato é a relação, desde que
esta seja realmente determinada, universal e cientificamente definível". O que importa,
portanto, é investigar a ligação orgânica de todas as partes que integram uma cultura.
Assim, por exemplo, o sistema de parentesco de uma cultura não pode ser estudado se,
ao mesmo tempo, não se inter-relaciona com as bases econômicas dessa cultura, com
sua organização política e com suas instituições sociais. Ao mesmo tempo, todos esses
dados deixariam de ser compreendidos se não se investigasse a estrutura jurídica que
sustenta aquelas instituições, a religião que lhes dá coesão etc.

Radcliffe-Brown e a antropologia social

Outro entre os grandes antropólogos do século XX é o britânico Alfred Reginald


Radcliffe-Brown (1881-1955), cujas expedições etnológicas às ilhas Andaman (1906); à
Austrália Ocidental (1910), às ilhas Tonga (1916) e à África do Sul (1920) dão lugar a
importantes trabalhos como Os ilhéus andamaneses (1922), A organização social das
tribos australianas (1931) e Sistemas africanos de parentesco e casamento (1948).

É muito esclarecedora a diferenciação que Radcliffe-Brown estabeleceu entre as


diversas ciências antropológicas (pois a "antropologia" na atualidade já é um termo
genérico que abarca diferentes disciplinas). Assim, a reconstrução histórica do passado
dos povos primitivos é algo que compete à etnologia, que vai além da simples descrição
de que a etnografia se ocupa, e que se apoia em dois ramos: a arqueologia pré-histórica
e a linguística.

As outras duas ciências: antropologia física e antropologia social - a primeira pertence,


de fato, ao âmbito das ciências biológicas; a segunda se enquadra no padrão da
sociologia comparada.

Radcliffe-Brown define a antropologia social como "a investigação da natureza da


sociedade humana por meio da comparação sistemática de sociedades de tipo diverso,
prestando atenção particular às formas mais simples das sociedades dos povos
primitivos, selvagens ou sem alfabeto".

Lévi-Strauss e a antropologia estrutural

O funcionalismo de Durkheim, que está na base da metodologia de Malinowski e de


Radcliffe-Brown, constitui também o ponto de partida do antropólogo francês Claude
Lévi-Strauss (n.1908), que incorpora, além disso, conceitos desenvolvidos por Marcel
Mauss (1872-1950), membro proeminente de sociologia durkheimiana.

O mais importante é analisar primariamente os fenômenos e inventariar suas


determinações internas, mais do que perguntar sobre sua natureza e origem. As
investigações, portanto, devem desenvolver-se numa plano sincrônico com o objetivo
de abordar a estrutura ou forma como os indivíduos e os grupos estão ligados no interior
do corpo social.
31

Acontece, no entanto, que essa estrutura não pertence à ordem dos fatos, quer dizer, não
pode ser obtida empiricamente por meio da observação de uma sociedade dada e de sua
posterior comparação com outros modelos de sociedade. Uma estrutura na verdade não
é "visível", já que se mantém sempre além das relações sociais suscetíveis de
observação empírica e só pode chegar a ser descoberta por meio de um trabalho teórico
de formalização. (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) Temática Barsa - Filosofia.

Antropomorfismo
Antropomorfismo. Indica-se com este nome a tendência a interpretar todo tipo ou
espécie de realidade em termos de comportamento humano ou por semelhança e
analogia com esse comportamento. Uma crítica desse antropomorfismo já foi feita por
Xenófanes de Colofonte: "Os homens", disse ele, "creem que os deuses tiveram
nascimento e que têm voz e corpo semelhantes aos deles". (1)

Antropomorfismo. Atribuição a Deus das características e formas humanas. A


fraseologia bíblica é, às vezes, antropomórfica e se refere, por exemplo, à mão, aos
dedos de Deus etc. (2)

Antropomorfismo. Atribuição de características humanas a algo que não é humano -


por exemplo, a Deus ou ao clima. (3)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) SCHLESINGER, Dr. Hugo e PORTO, Humberto (Pe). As Religiões Ontem e Hoje.
São Paulo: Paulinas, 1982.

(3) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie


Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

Aparência
Aparência. Do latim apparentia. 1. Aspecto exterior de alguma coisa. 2. Coisa que
parece mas não é; ficção, mostra enganosa. 3. Verosimilhança, probabilidade. 4. Filos.
Conhecimento imediato de uma coisa através do que nos chega pelos sentidos, a que
atribuímos apenas um valor aproximado. (1)
32

1. O que aparece na superfície das coisas, por oposição ao que reside na profundidade.
2. Aspecto satisfatório ou agradável de se ver: só se preocupa com a aparência. 3. Pej.
Indício enganoso: só tinha olhos para a aparência dos fatos. 4. Engano, ilusão: seu
amor pela irmã era pura aparência. SALVAR AS APARÊNCIAS. Loc. Disfarçar
ações equivocadas ou suspeitas. (2)

O que se depara à primeira vista, o que aparece exteriormente, o que fere os sentidos. O
que o espírito imagina, sem que nem sempre lhe corresponda a realidade. Aparentava
trinta anos, mas tinha cinquenta. Disfarce: sob a aparência de mendigo, conseguiu
entrar na cidade sitiada. O casal estava desavindo, mas na sociedade salvam as
aparências. (3)

Na história da filosofia, esse termo teve dois significados diametralmente opostos. 1.o
ocultação da realidade; 2.o manifestação ou revelação da realidade. No 1.o significado a
aparência vela ou obscurece a realidade das coisas, de tal modo que esta só pode ser
conhecida quando se transpõe a aparência e se prescinde dela; no 2.o significado, ela se
mostra. No 1.o significado conhecer significa libertar-se das aparências; pelo 2.o
significado conhecer significa confiar na aparência, deixá-la aparecer. No primeiro caso,
a relação entre aparência e verdade é de contradição, oposição; no segundo, é de
semelhança ou identidade. Esses dois significados intrincam-se ao longo da história da
filosofia. (4)

Do ponto de vista ontológico, a denúncia das aparências como enganadoras remonta a


Sócrates e Platão, e ulteriormente colocou-se à ciência a questão de saber se existe de
fato um "afastamento" entre o que nos parece real e esse próprio real. Ao propor a
denominação de fenômeno ao que se manifesta do mundo para nós, Kant fez cair em
desuso o emprego metafórico do termo aparência - que conserva hoje em dia a
apresentação de um objeto admitido como diferente do que o último é na realidade. Cf.
ilusão. (5)

(1) Enciclopédia Barsa Universal.

(2) Dicionário Enciclopédico Ilustrado Larousse.

(3) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

(4) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(5) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Apodítica
Apodítica. Do latim apodictica. Parte da lógica que tem por objeto a demonstração.
Esse nome foi usado por alguns lógicos do século XVII, como por exemplo Jungius. (1)
33

Apodítico. Do grego apodeiktikós, demonstrativo. Modalidade do juízo que é


necessário de direito, exprimindo uma necessidade lógica, não um simples fato. "Os
juízos são problemáticos quando admitimos a afirmação ou a negação como
simplesmente possíveis (arbitrárias); são assertóricos quando os consideramos como
reais (verdadeiros); e apodíticos quando os consideramos como necessários" (Kant).
Assim, um juízo apodítico representa a característica de universalidade e de
necessidade. Ex.: um círculo é uma curva fechada de que todos os pontos são
equidistantes do centro. (2)

Apodítico (apodictique). Designa uma necessidade lógica, tal como encontramos nas
demonstrações (a palavra vem do grego apodeiktikós, demonstrativo). Também é uma
das modalidades do juízo: uma proposição qualquer pode ser assertórica (se enuncia um
fato). problemática ou hipotética (se enuncia uma possibilidade), enfim apodítica (se
enuncia uma necessidade). É importante distinguir esses dois sentidos, porque o
primeiro vale como certeza, e o segundo, de forma alguma. A certeza de uma
proposição não depende da modalidade do juízo que ela anuncia, mas da validade da
sua demonstração. Uma proposição assertórica ("Deus existe"), problemática ("Pode ser
que Deus exista") ou apodítica ("Deus existe necessariamente") só será certa se sua
demonstração for apodítica - em outras palavras, se for verdadeiramente uma
demonstração. É o que explica que seja possível duvidar de uma necessidade ou de um
fato, e ter certeza de uma possibilidade. (3)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(3) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Apologia
Apologia. Obra literária, que contém a defesa quer de uma pessoa quer de um sistema
filosófico ou religioso. A obra-prima desse gênero foi a Apologia de Sócrates, escrita
por Platão pouco depois da condenação à morte do seu mestre (399 a.C.), pelo tribunal
de Atenas. O autor imagina o mestre expondo a sua defesa perante os juízes. Com
simplicidade e dignidade e com o seu admirável método dialético. flexível e inexorável,
Sócrates repele as acusações que lhe haviam movido, de corromper a juventude, de não
crer nos deuses e de lhes substituir novas divindades. (1)

Apologia. É um discurso para justificar, defender ou louvar alguém ou alguma coisa.


Na bibliografia clássica é célebre a Apologia de Sócrates, obra de Platão composta por
este filósofo muitos anos depois da morte de seu mestre. É um discurso que o autor
atribui a Sócrates defendendo-o das acusações de Meletos, que o arguia de corromper a
mocidade e introduzir divindades estrangeiras. Esse discurso divide-se em três partes:
na 1.ª Sócrates refuta os seus acusadores; na 2.ª reconhecido culpado, estabelece a
34

penalidade em que julga deve ser condenado; na 3.ª condenado à morte, entrega os seus
juízes ao julgamento da posteridade. Há ainda uma Apologia de Sócrates atribuída a
Xerofonte. (2)

(1) POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São Paulo:


Verbo, 1986.

(2) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

Aporia
Aporia. É uma contradição insolúvel, ou uma dificuldade impossível, para o
pensamento. Por exemplo, a questão da origem do ser é uma aporia: porque toda origem
supõe o ser, e portanto, não poderia ser explicada. A aporia é uma espécie de enigma,
mas considerado de um ponto de vista mais lógico do que mágico ou espiritual. É um
problema que renunciamos a resolver, pelo menos provisoriamente, ou um mistério que
nos recusamos a adorar. (1)

(1) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Arbítrio
Arbítrio. Do latim arbitrium. O princípio da ação nos animais e no homem. Arbítrio é,
por isso, termo mais geral do que vontade, que só pode ser atribuída ao homem. (1)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Aretê
Aretê (gr., a perfeição ou excelência de uma coisa). Perfeição ou virtude de uma pessoa.
No pensamento de Platão e Aristóteles, a virtude está relacionada com a realização de
uma função (ergon), exatamente da mesma maneira que um olho é perfeito se realiza a
função que lhe é própria, a visão. Este é seu telos ou finalidade. A aretê é então
identificada com aquilo que permite uma pessoa viver bem ou de modo bem-sucedido,
embora seja controverso se a virtude é portanto apenas um meio para uma vida bem-
35

sucedida ou uma parte essencial da atividade de viver bem. De acordo com Aristóteles,
as várias virtudes consistem em saber como alcançar um meio-termo entre vícios
opostos do excesso do defeito. O pensamento grego também abriu caminho para o ideal
cristão segundo o qual o desenvolvimento pleno do aretê nos seres humanos consiste
numa vida autossuficiente feita de contemplação e sabedoria. A palavra em sânscrito,
kusala, é usada no budismo para representar a mesma associação entre a perfeição e a
arte de ser um bom ser humano. (1)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Argumento, Argumentação
Argumento. Raciocínio mais ou menos desenvolvido que tende a provar ou refutar uma
proposição ou uma tese. Chama-se mais precisamente argumento em forma aquele que
é conforme as regras da lógica formal, e argumento ad hominem o que incrimina o
indivíduo e não suas ideias. (1)

O argumento é ou um raciocínio destinado a provar ou a refutar uma proposição, ou


uma razão isolada apresentada a favor ou contra uma tese. Aargumentação é ao mesmo
tempo a maneira de expor uma série de argumentos e a série que decorre da exposição.
Contrariamente à demonstração, que é uma dedução de que se segue racionalmente uma
conclusão, enquanto conseqüência necessária, a partir do simples enunciado de
premissas abstratamente dadas, a argumentação quer convencer e persuadir recorrendo a
múltiplos argumentos que não são independentes do contexto em que se utilizam.
Enquanto uma demonstração apresenta provas necessitantes, uma argumentação
apresenta raciocínios a favor ou contra uma afirmação; não é, pois, uma prova que
produza racionalmente a adesão, é um conjunto de técnicas suscitando razoavelmente a
convicção. Em Aristóteles, às demonstrações correspondem as provas analíticas, que
estabelecem como de premissas verdadeiras decorre necessariamente uma conclusão
verdadeira; às argumentações correspondem as provas dialéticas, que intervêm nos
discursos destinados a persuadir um auditório mais ou menos extenso agindo sobre ele,
e que ele estudou na sua Retórica, nas suas Refutações Sofísticas e nos seus Tópicos. (2)

Argumentum ad... A classificação tradicional das falácias do raciocínio descreve muitas


delas como envolvendo um "argumentum ad...". Entre outras: a. ad ignorantiam:
argumentar que uma proposição é verdadeira porque não se mostrou que é falsa, ou
vice-versa; a. ad baculum (literalmente,argumentar com porrete): defender uma
conclusão destacando as terríveis consequências de não acreditar nela (supostamente
uma falácia, mas o pragmatismo insiste que considerações similares subjazem todos os
processos de formação de crenças); a. ad hominem: atacar uma pessoa para tentar
refutar o que ela defende (ou, menos comum, elogiar uma pessoa para apoiar o que ela
defende), ou, em geral, argumentar contra a posição particular de uma pessoa de uma
36

maneira que pode ou não ser convincente, mas que nada adianta para aqueles que não
têm a mesma combinação específica de crenças que a pessoa visada; a. ad
misericordiam (apelo à compaixão): um argumento que apela à comiseração das
pessoas; a. ad populum: que recorre aos preconceitos das pessoas; a. ad verecundiam:
valer-se de uma autoridade fora de sua área legítima; apelar ilicitamente à reverência e
ao respeito.

Apesar de os processos de argumentação poderem cair nestes e em outros erros, é difícil


separar os usos adequados e inadequados de argumentos que podem ser descritos dessas
formas. Por exemplo, o apelo à compaixão, às crenças populares ou à autoridade podem,
em certas circunstâncias, ter bastante legitimidade. Com exceção do argumentum ad
hominem, esses termos não costumam ser usados. (3)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(2) THINES, G., LEMPEREUR, A. Dicionário Geral das Ciências Humanas. Lisboa:
Edições 70, 1984.

(3) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Argumento: Mãos Sujas, Desígnio, Montão...


Argumento das Mãos Sujas. Justificativa usada com frequência para ações incorretas,
segundo a qual se não formos nós a fazê-las, alguém a fará (e ficará com a recompensa).
Por exemplo, se não vendermos armas a um regime perverso, ganhando a vida assim,
alguém o fará; portanto, é melhor que nós mesmos o façamos. (1)

Argumento do desígnio. Argumento segundo o qual o mundo (onde "mundo" significa


todo o universo) se assemelha o bastante a uma máquina ou a uma obra de arte ou de
arquitetura, para ser razoável supor a existência de um arquiteto cujo intelecto é
responsável por sua ordem e complexidade. Este é declaradamente um argumento por
analogia: sustenta-se que, já que o universo é semelhante em alguns aspectos a um
relógio, por exemplo, então o universo provavelmente também é, tal como o relógio, o
produto de um desígnio. O argumento foi usado pelos estoicos e teve uma grande
aceitação no século XVIII, mas foi atacado de forma esmagadora por Hume, nos
Diálogos sobre a religião natural, e por Kant, na Crítica da razão pura. O argumento
nos convida explicitamente a fazer uma regressão ao infinito, já que o universo e um
arquiteto parece ser um exemplo de organização ainda mais maravilhoso, o que deve
nos levar a postular um arquiteto de arquitetos. Se considerarmos natural que um
arquiteto possa "existir por si" (ver perseidade), devemos nos questionar por que o
universo também não pode "existir por si". O argumento do desígnio também suscita
37

problemas morais: já que a natureza da divindade é evidenciada pela sua criação, não
podemos atribuir a Deus mais interesse na bondade ou na justiça do que a que
encontramos no curso normal das coisas (ver também problema do mal). A teoria da
evolução pela seleção natural veio destruir a eficácia de um dos principais exemplos,
frequentemente apresentado, de desígnio da natureza: o da adaptação dos órgãos e
capacidades animais ao seio meio ambiente. (1)

Argumento de Montão. Com este nome faz-se referência a duas argumentações, uma
de Zenão de Eléia, outra de Eubúlides de Megera. O argumento de Zenão de Eléia
dirige-se contra a fidedignidade do conhecimento sensível e, em particular, do ouvido:
se um alqueire de trigo faz barulho ao cair, cada grão e cada partícula de grão deveria
produzir um som ao cair, o que não ocorre. O argumento de Eubúlides consiste em
perguntar quantos grãos de trigo são necessários para formar um monte; bastaria só um
grão? Bastariam dois? etc. Como é impossível determinar em que ponto começa um
monte, aduz-se esse argumento contra a pluralidade das coisas.

Argumentos da Ilusão. Os argumentos da ilusão tomam como premissa tanto a


existência, como a possibilidade das ilusões, e indicam a possibilidade da ilusão total,
ou então o ceticismo quanto ao próprio conhecimento. Assim, os sentidos às vezes nos
enganam e podem fazê-lo em todas as ocasiões; logo, argumenta-se, talvez os sentidos
nos enganem sempre ou, em qualquer caso, nunca devemos confiar implicitamente
neles. Em algumas de suas formas, os argumentos são sem dúvida inválidos: assim,
mesmo que os sentidos possam nos enganar em qualquer ocasião, não se segue que
possam nos enganar em todas as ocasiões. Qualquer moeda pode estar viciada, mas
daqui não podemos deduzir que é possível que todas as moedas estejam viciadas, uma
vez que a existência de moedas viciadas supõe a existência de moedas não-viciadas. (1)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1977.

Aristocracia
Aristocracia. Do grego aristos (melhor) e kratos (poder), "governo dos melhores". A
aristocracia — pelo menos em Platão — não implica a princípio a ideia de transmissão
hereditária de privilégios sociais que prevaleceu em seguida. Regime político no qual o
poder é exercido por uma minoria que se pretende a elite da sociedade, a aristocracia
baseava-se numa classe ou casta sacerdotal (com base na religião) ou militar
(nascimento). Na nossa época, desapareceu como forma de governo; convém então falar
de oligarquias (pequeno número de pessoas) que detêm o poder em virtude do seu poder
financeiro. (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.
38

Arquétipo
Arquétipo. Do grego arché (começo) e typo (modelo) significa modelo ideal, na filosofia
idealista (V.idealismo). (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Arte
Arte. "A arte", diz Bacon, "é o homem acrescido à natureza", ou seja, qualquer
procedimento - fruto da liberdade e da razão humanas - utilizado tendo em vista uma
produção que testemunha a habilidade do artesão ou mais especialmente do artista
quando, nesse último caso, as técnicas utilizadas visam satisfazer o sentimento estético
ou artístico.

A etimologia confirma essa noção de habilidade. O latim ars e o grego teknê estão na
origem do termo moderno. Esses termos designavam todas as atividades que resultam
de uma aptidão não inata, mas adquirida por um aprendizado apropriado de uma
ciência, de uma técnica ou de uma profissão.
39

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993

Árvore de Porfírio
Árvore de Porfírio. É uma representação sob a forma de uma árvore, feita pelo filósofo
grego Porfírio, destinada a ilustrar a subordinação dos conceitos, a partir do conceito
mais geral, que é o de substância, até chegar ao conceito homem, o de menor extensão,
mas o de maior compreensão.

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de
Janeiro: Zahar, 2008.

Ascese
Ascese. Do grego askesis, exercício. É o esforço para renunciar aos prazeres sensíveis
tendo em vista o aperfeiçoamento moral ou espiritual, ou ainda a realização de uma obra
que exija o domínio da vontade. Os estóicos submetiam-se a essa disciplina para
escapar ao domínio dos sentidos e da afetividade; os ascetas cristãos aplicavam-na a fim
de se desapegarem do mundo e aproximarem-se de Deus. P. Ext., chamamos de ascese o
40

método perseverante, gerador de sacrifícios, que o pesquisador, erudito ou filósofo, se


inflige (por exemplo, Descartes, quando duvida). (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Associação de Ideias
Associação de ideias. É o fato de uma ideia ou imagem evocar imediatamente outra. É
o fenômeno psíquico do arrebatamento espontâneo de uma representação por outras. O
associacionismo pretendeu construir toda a psicologia a partir dessa propriedade.

Ao considerar a associação livre como um meio de acesso ao inconsciente, a


psicanálise mostrou que esse fenômeno vale tanto para o psiquismo inconsciente
quanto para as representações conscientes: quando o psicanalista propõe ao paciente
uma série de termos indutores e pede-lhe para enunciar como resposta imediata, sem
controle ou omissão, aquilo no que eles lhe fazem pensar, está lidando precisamente
com a rede complexa de associações inconscientes por meio da qual se revelam os
desejos profundos do indivíduo.(1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Ataraxia
Ataraxia. Do grego ataraxia (ausência de perturbações). Introduzido por Demócrito e
empregado principalmente pelos epicuristas (v. epicurismo) e pelos estoicos (v.
estoicismo) o termo significa tranqüilidade da alma. Designando o ideal do sábio para a
maioria dos filósofos da Antiguidade, a ataraxia é identificada pelos estoicos à apatia,
ou seja, ao estado da alma que se tornou alheia à desordem da paixão e insensível à dor.
(1)

Ataraxia (ataraxie). A ausência de perturbação: a paz na alma. é o nome grego


(especialmente em Epicuro e nos estoicos da serenidade. É um estado puramente
negativo, como se costuma acreditar? De maneira nenhuma. Porque, nessa ausência de
perturbação, o que se oferece é a presença do corpo, da vida, de tudo, e essa é a única
possibilidade que vale. O a privativo não deve nos enganar: a ataraxia não é privação
mas plenitude. É o prazer em repouso da alma (Epicuro) ou a felicidade em ato
(Epicteto). É também uma experiência de eternidade: "Porque não parece em nada um
ser mortal o homem que vive em bens imortais", escreve Epicuro (Carta a Meneceu,
41

135). Daí que a ataraxia, como experiência espiritual, é o equivalente da beatitude, em


Espinosa, ou do nirvana, no budismo. (2)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Ateísmo
Ateísmo. Do gr. "sem Deus". Doutrina que nega a existência de Deus, ou mais
exatamente, que é contrária ao teísmo, é tão variada quanto as concepções de Deus a
que opõe. Por exemplo, o pensador que nega a existência de um Deus pessoal, mas
admite uma energia original, é ateu para quem confere a esta energia os atributos de
uma pessoa, e teísta para quem rechaça toda a ideia de transcendência. As religiões que
não reconhecem como Deus mais do que a um princípio impessoal, podem parecer
ateias aos olhos das outras. (1)

Ateísmo. Do gr. "sem Deus", significa literalmente, por oposição a teísmo, negação ou
ignorância de Deus. Em Filosofia, compreende todas as doutrinas que direta ou
indiretamente negam a existência ou cognoscibilidade de um ser absoluto, transcendente
e pessoal.

Negam diretamente a existência de Deus, além do materialismo ontológico, todas as


doutrinas ou sistemas que não reconhecem valor real e objetivo à ideia de Deus,
considerando-a contraditória em si mesma (A. lógico), uma simples ilusão da
consciência individual ou coletiva (A. psicológico), uma palavra sem sentido (A.
semântico), um obstáculo à liberdade e responsabilidade humanas (A. moral, A.
postulatório, ou humanismo ateu), etc. Negam indiretamente a existência de Deus todas
as doutrinas que não reconhecem capacidade à inteligência para afirmar a verdade em
geral (ceticismo, relativismo etc.), ou, em particular, para afirmar a existência de um ser
absoluto e infinito (Agnosticismo). O ateísmo filosófico serve de justificação doutrinal a
certos comportamentos assumidos sem qualquer inferência à ideia de Deus (A. prático).

Não faltam na Antiguidade greco-romana exemplos de A. teórico. Certos sofistas, por


exemplo, afirmam que os deuses são uma invenção do espírito humano, a isso levado
pela necessidade de garantir a observância das leis e a prática da justiça (A.
psicológico). Outros, pelo contrário, perante uma distribuição aparentemente cega e
arbitrária de bens e males entre os mortais, concluem que os deuses são ignorantes e
injustos (A. moral). Trata-se, no entanto, de expressões mais ou menos isoladas onde a
crença constitui a opinião geral. Como fenômeno cultural de amplas repercussões
sociais, o A. moderno e contemporâneo surge na viragem do século XVII no
desenvolvimento lógico de certos postulados libertários e emancipalistas do
Renascimento. Apesar da extrema complexidade das suas múltiplas e sucessivas
variações, podemos dizer que ele se inscreve, com a filosofia moderna, no esquema
42

geral da luta da subjetividade contra objetividade, da imanência contra a transcendência.


O Tractatus Theologico-politicus de Spinoza é paradigmático a este propósito enquanto
elimina da sua concepção de Deus atributos essenciais.

Inicialmente vivido como uma mentalidade, como um critério de apreciação de atitudes


e ideias, o princípio de libertação e de autonomia é posteriormente levado à prática pelo
iluminismo francês, o qual, na sua vontade indômita de radical extenuação da
alteridade, o vai estender a todas as esferas da vida moral, social, politica e religiosa. O
vazio aberto no coração da História e na consciência dos homens pela eliminação da
Igreja e da divindade de Cristo vai ser preenchido pela razão iluminista, deste modo
erigida em critério supremo de moralidade e de religião não é ainda o A., mas é já o
deísmo na versão kantiana da religião nos limites da simples razão. Mas bem depressa o
racionalismo iluminista irá convergir com os ideais libertários da Revolução Francesa
na configuração dos diversos ateísmo políticos que desde então não mais cessam de
proliferar. Os grande mentores da Revolução cedo identificaram na família e, dentro da
família, na figura do pai, o obstáculo maior dos seus desígnios de emancipação e
libertação. Por isso mesmo, a república saída da Revolução terá de ser uma sociedade de
seres iguais, i.é, uma fraternidade sem pai. Por sua vez, uma fraternidade sem pai é
também necessariamente uma fraternidade sem Deus. O deicídio é a conclusão lógica
do regicídio (Marques de Sade). Esta associação da morte de Deus à morte do rei não é
estranha, por um lado, ao temor do adulto, resultante de certas experiências dolorosas
perante uma autoridade excessiva ou excessivamente prolongada e, por outro, ao direito
dos reis proclamado pelos teóricos da monarquia absoluta ao qual Deus servia de
caução ideológica. Neste contexto não admira que a revolta contra o pai e o rei
arrastam-se consigo a revolta contra Deus (A. político). Estes temas e atitudes de forte
incidência afetiva terão a sua expressão mais radical e decidida nos ateísmos
revolucionários e políticos do séc. XIX. (2)

Ateísmo. Descrença em divindades. Não deve ser confundido com o agnosticismo, que
é uma simples supressão de crença. O ateísmo não pode ser provado, salvo
indiretamente. Entretanto, ele não demanda prova. Sem dúvida, o ônus da prova da
existência de qualquer X compete àqueles que pretendem que X existe. Todavia, a
refutação de qualquer versão de deísmo ou teísmo constitui uma prova indireta parcial
do ateísmo. Indireta porque, na lógica comum, refutar uma proposição p importa provar
não-p. E a refutação é parcial porque se refere apenas a uma espécie particular de
deísmo ou teísmo de cada vez. Por isso uma refutação dos princípios de uma religião
cristã não refuta os do hinduísmo ou inversamente. A refutação de qualquer crença em
divindades de uma certa espécie pode proceder de duas maneiras: empiricamente e
racionalmente. A primeira consiste em apontar para (a) a falta de evidência positiva
quanto à religião e (b) abundância de evidência contrária às predições dos fanáticos —
i.é, aquele raio atingira o blasfemo. O método racional consiste em notar contradições
entre os dogmas religiosos. Por exemplo, se Deus é ao mesmo tempo onipotente e bom,
por que tolera o câncer e a guerra? Se Deus é ao mesmo tempo onipotente e
misericordioso, por que criou espécies condenadas à extinção? O ateísmo é sustentado
pela ciência e tecnologia modernas de vários modos. Sem dúvida, a ciência moderna e a
tecnologia não envolvem entidades sobrenaturais e negam a possibilidade de milagres.
Como consequência, a pesquisa científica, que é, em larga medida, a busca de padrões
objetivos, é estorvada pelo deísmo e teísmo. Exemplos de pesquisa de problemas
ativamente desencorajados pela religião organizada: origens da vida, mente e religião.
(3)
43

(1) NOIRAY, André (Org.). La Filosofia: Las Ideas, Las Obras, Los Hombres. Bilbao:
Mensajero, 1974.

(2) LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de


Janeiro: Verbo, 1990.

(3) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Atenção
Atenção. O Espírito possui a capacidade de escolher, de selecionar os fatos que lhe
interessam, aplicando-se aos mesmos, com maior ou menor intensidade. Essa
capacidade chama-se atenção; não constitui uma função especial e sim uma maneira
geral de exercício de vida psicológica. (1)

Estado de vigilância do espírito. A atividade mental concentra-se sobre determinado


objeto. "O valor intelectual de um homem mede-se pela intensidade e continuidade de
sua atenção". (2)

Atenção (attention). É a presença do espírito à presença de outra coisa (atenção


transitiva) ou de si mesmo (atenção reflexiva). A segunda atitude, menos natural, é mais
cansativa e talvez impossível de se manter absolutamente. A introspecção nos ensina
menos sobre nós mesmos do que a ação ou a contemplação.

"A atenção absolutamente pura é prece", escreve Simone Weil. É que ela é pura
presença à presença, pura disponibilidade, pura acolhida.

Quando veio passar alguns meses na França, Svami Prajnanpad teve a oportunidade de
encontrar a superiora de um convento. "Não é verdade que é preciso orar sem cessar?",
ela lhe pergunta. E Svami responde responde: "Sim, claro. Mas o que isso
significa?Orar é permanecer presente ao que é." Atenção silenciosa, em vez de tagarela
ou suplicante.

A atenção absolutamente impura, acrescentarei, é voyeurismo: fascinação pelo obsceno


ou pelo obscuro. São os dois extremos da atenção, seu auge e seu abismo, ambos aliás
deleitáveis e, para a alma, como que duas maneiras de se esquecer. (3)

(1) SANTOS, T. M. Manual de Filosofia - Introdução à Filosofia Geral - História da


Filosofia - Dicionário de Filosofia. 10. ed. São Paulo: Nacional, 1958.

(2) GAUQUELIN, M., GAUQUELIN, F. Dicionário de Psicologia. Lisboa/São Paulo:


Verbo, 1987.
44

(3) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Ato
Ato. Do latim actum, fato realizado. 1. Todo exercício voluntário de poder material, ou
espiritual, por parte do homem. Ex.: ato de coragem, ato de violência etc.

2. Um ser em ato é um ser plenamente realizado, por oposição a um ser em potência de


devir ou em potencialidade (Aristóteles). Ex.: a planta é o ato da semente, que
permanece em potência enquanto não for plantada.

3. Ato puro é o Ser que não comporta nenhuma potencialidade e que se subtrai a todo e
qualquer devir: Deus.

4. Na linguagem filosófica, ato se distingue da ação: ação designa um processo que


pode comportar vários atos. "Passar ao ato" é fazer algo preciso. "Passar à ação" é
empreender algo mais amplo. Por sua vez, ato e ação se opõem a pensamento ou
palavra: pensar e falar não podem ter efeito sobre a matéria, ao passo que agir tem um
efeito. Claro que nas relações entre os homens, pensar e falar são modos de agir.
Finalmente, ato se opõe a potência: o ato designa aquilo que existe efetivamente; a
potência designa aquilo que pode ser ou que deve ser. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Atomismo
Atomismo. Doutrina filosófica elaborada por Leucipo e desenvolvida por Demócrito e
Epicuro, retomada depois pelo poeta latino Lucrécio, segundo a qual a matéria é
composta de átomos, isto é, de partículas elementares indivisíveis e tão pequenas que
não podem ser percebidas a olho nu. Os átomos são eternos e possuem todos a mesma
natureza, embora difiram por sua forma. (1)

As coisas podem ser entendidas quando são desmembradas por meio de análise em
componentes distintos e independentes. (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.
45

Aufkärung
Aufklärung. Os filósofos do séc. XVIII se concebiam a si mesmos como inimigos das
"trevas" da ignorância, da superstição e do despotismo. Por isso, procuravam situar-se
no registro das Luzes ou Razão (do Enlightenment, em inglês, da Lumières, em francês).
Kant define as Luzes ou Iluminismo dizendo que elas são aquilo que permite ao homem
sair de sua minoridade, ensinando-lhe a pensar por si mesmo e a não depender de
decisões do outro. "Sapere aude! tenha a coragem de usar a sua própria inteligência. Eis
a divisa das Luzes." Ver Iluminismo (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Autenticidade
Autenticidade. A vida é autêntica quando tem sentido e é emocionalmente apropriada.
A autenticidade é contrastada, sobretudo em Heidegger, com a inautencidade: um
estado em que a vida, destituída de objetivos e de responsabilidade, é despersonalizada
e desumanizada. Ver também alienação. (1)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Autoconsciência
Autoconsciência. Esse termo tem significado e história diferente de consciência. Na
realidade não significa "consciência de si", no sentido de cognição (intuição, percepção
etc.) que o homem tenha de seus atos ou de suas manifestações, percepções, ideias etc.,
tampouco significando retorno à realidade "interior", de natureza privilegiada; é a
consciência que tem de si um Princípio infinito, condição de toda realidade. Esse termo
também nada tem a ver com conhecimento de si, que designa o conhecimento mediato
que o homem tem de si como um ente finito entre outros. (1)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.


46

Autodidata
Autodidata. Do gr. autos, por si mesmo e didaktikós, de didaskô, ensinar. É o que se
instrui e educa a si mesmo, por si mesmo. A autodidática é uma arte, que tem tido um
papel muito relevante no desenvolvimento da humanidade. Quase sempre, na juventude,
os homens não sabem escolher a suas profissões, carreiras liberais etc., por essa razão,
na fase adulta, vão dedicar-se ao conhecimento de ciências mais de acordo com suas
tendências e propensões. O autodidata encontra dificuldades a vencer, e por dispor
apenas de suas forças, aquelas se apresentam como obstáculos, que desafiam a sua
vontade. E as pessoas de vontade e de decisão, quando desafiadas, aumentam o ímpeto
da sua resposta, realizando muito mais do que por meio normais poderiam fazer. (1)

(1) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo:
Matese, 1965.

Axioma
Axioma. Do grego axioma, consideração, estima, opinião, dogma.

Diz-se das verdades gerais, aceitas sem discussão ou consideradas evidentes por si
próprias, como na Filosofia e na Matemática.

Filos. Proposição necessária e evidente por si mesma que exprime uma relação geral e
constante entre grandezas indeterminadas e serve para demonstrar outras proposições
das ciências matemáticas. O axioma é uma proposição necessária porque o espírito é
incapaz de conceber a proposição contrária, e evidenteporquanto desde se enuncia, se
concebe como verdadeira. Exemplo: "duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre
si". Esta proposição, além de necessária e evidente, enuncia uma relação geral e
constante entre grandezas indeterminadas. (1)

Um outro exemplo de axioma, válido ainda hoje e remontado a Aristóteles, é o princípio


da contradição, segundo o qual uma coisa não pode, a um só tempo, ser e não ser.

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]
47

Bárbaro, Barbárie
Bárbaro, barbárie. A origem grega do termo (barbaros) refere-se à falta de
humanidade daquele que só usa uma linguagem de pássaro. Tradicionalmente, o bárbaro
é aquele que permanece alheio à civilização greco-romana e depois à cultura europeia
— e é por isso que tanto Platão quanto Aristóteles admitem que a escravidão é um
destino que lhe é favorável.

Esses termos testemunharam por muito tempo o etnocentrismo europeu e a segurança


com a qual a mentalidade ocidental considerava sua cultura como a única autêntica.
Nessa ética, a barbárie se oporia ao humanismo. Porém, a história moderna provou
amplamente que o Ocidente era capaz de comportamentos "desumanos" e portanto
"bárbaros" (campos de extermínio, genocídios etc.), no próprio mundo em que a
etnologia demonstrava a legitimidade de outras culturas. (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Behaviorismo
Behaviorismo. Do inglês behaviourism. Psic. Método de observação que tem por
objetivo o estudo das relações entre os estímulos e as respostas do sujeito. Encicl.
Surgido no começo do século XX nos E.U.A. (J. B. Watson), o behaviorismo permitiu
que a psicologia fosse elevada ao nível de ciência objetiva, institucionalizando-se como
disciplina universitária autônoma, graças principalmente a Clark Hull, Edward Tolman
e Burrhus Skinner. (1)

Behaviorismo. Do inglês behaviour, comportamento. Em psicologia, o behaviorismo,


associado a Watson e a pesquisadores como Ivan Pavlov (1849-1936), começou por ser
uma perspectiva metodológica que recomendava que se evitassem a introspecção e a
subjetividade (ver subjetivismo/objetivismo) em favor da medição científica do
comportamento e suas causas. Mais tarde, particularmente com B. F. Skinner (1904-90),
passou-se a identificar essa perspectiva com uma visão simplista das causas da ação
humana e com a tentativa de controlar a ação através da manipulação relativamente
simples de estímulos e padrões de reforço que atuam sobre os agentes. A ideia de
Skinner de que seria pouco científico explicar o comportamento através dos desejos,
48

crenças e intenções, e de que esse seria o domínio dos "mentalistas", tem perdido
terreno perante o avanço das ciências cognitivas.

Em termos filosóficos, a doutrina behaviorista defende que os estados mentais são


construções lógicas a partir de disposições comportamentais ou, em outras palavras, que
descrever os aspectos mentais de alguém é uma abreviatura de uma descrição das várias
disposições comportamentais que a pessoa possui. A obra mais influente a defender essa
perspectiva foi The Concept of Mind (1949), de Ryle, que apresentava o behaviorismo
como a melhor resposta ao mito cartesiano do "fantasma na máquina". É discutível até
que ponto Wittgenstein pretendia defender uma doutrina behaviorista com suas
Investigações Filosóficas, escritas na mesma época. Tal como outras doutrinas
reducionistas, o behaviorismo não conseguiu oferecer análises úteis, nomeadamente
devido ao holismo do mental, isto é, devido ao fato de o modo como uma pessoa se
comporta não ser uma função de uma crença ou de um desejo, mas antes de todo um
conjunto ou rede de crenças e de desejos. A modificação operada para dar conta desses
aspectos transforma o behaviorismo no seu sucessor moderno mais popular, o
funcionalismo. (2)

(1) DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO ILUSTRADO LAROUSSE. São Paulo:


Larousse, 2007.

(2) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Belo
Belo. Do latim bellus, bonito. 1. Diz-se de tudo aquilo que, como tal, suscita o prazer
desinteressado (uma emoção estética) produzido pela contemplação e pela admiração de
um objeto ou de um ser. Ex.: um belo castelo, uma mulher bela.

2. Diz-se de tudo aquilo que apresenta um valor moral digno de admiração. Ex.: uma
bela ação.

3. Conceito normativo fundamental da estética que se aplica ao juízo de apreciação


sobre as coisas ou sobre os seres que provocam a emoção ou o sentimento estético, seja
em seu estado natural (uma bela paisagem), seja como produto da arte (pintura, música,
arquitetura etc.) (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
49

Bem
Bem. Designa, em geral, o acordo do que uma coisa é com aquilo que ela deve ser.
Quando uma mesa, uma árvore, um animal realizam a sua própria essência, dizemos que
são coisas boas. Quando, pelo contrário, lhes falta alguma propriedade da sua essência
e, assim, a não realizam plenamente, dizemos que são más. (1)

Bem. No sentido moral ou ético designa o conjunto das virtudes. É o oposto de mal, ou,
pelo menos, assim nos parece à primeira vista. Sem muita cogitação metafísica, pode-se
dizer que o "bem" é o que produz a ausência do sofrimento, mas uma ausência
constante. No vício, não raro a pessoa acha um bem, porque se sente feliz; mas esta
felicidade não é constante: o aprofundamento do hábito nocivo acaba levando ao
sofrimento; mas no reverso deste ainda é o bem: não há mal que sempre dure, e ao final
deste está o bem. Então só existe o bem? Só. O mal é a ignorância, é o bem
incompreendido. Deus, que é o Sumo bem, não poderia ter criado o mal. À medida que
se desenvolve nossa razão, dilata-se-nos o percebimento; o mal cessa à medida que este
se amplia. (2)
50

= = =>>

*. Mais informações abaixo: [Palestra sobre o bem e o mal]

Sérgio Biagi Gregório


SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Origem do Bem e do Mal:
4.1. O Mal não Pode Ter Origem em Deus; 4.2. A Causa do Mal; 4.3. O Princípio do Bem e do
Mal. 5. Necessidades Humanas: 5.1. O Que é uma Necessidade?; 5.2. Vícios; 5.3. Dor. 6. Bem
versus Mal: 6.1. Estender o Bem; 6.2. Desertor do Bem; 6.3. Resistir ao Mal. 7. Conclusão.
1. INTRODUÇÃO
O que é o bem? E o mal? O mal é ausência do bem? Onde está a origem do
mal? Em Deus? Nos Homens? Utilizamos essas perguntas para a introdução
deste tema, que se subdividirá em: a origem do mal, as necessidades humanas
e o bem versus o mal.
2. CONCEITO
Bem – Designa, em geral, o acordo entre o que uma coisa é com o que ela
deve ser. É a atualização das virtualidades inscritas na natureza do ser.
Relaciona-se com perfeito e com perfectibilidade. Segundo o Espiritismo, tudo
o que está de acordo com a lei de Deus.
Mal – Para a moral, é o contrário de bem. Aceita-se, também, como mal, tudo
o que constitui obstáculo ou contradição à perfeição que o homem é capaz de
conceber, e, muitas vezes, de desejar. Divide-se em: mal metafísico
(imperfeição); mal físico (sofrimento); mal moral ("pecado"). Segundo o
Espiritismo, tudo o que não está de acordo com a lei de Deus.
3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A questão das mudanças de nossas avaliações é um dos pontos centrais para
o entendimento do bem e do mal. Malinovsky, etnólogo polonês, estudando a
moral sexual dos selvagens australianos, chegou à conclusão de que tudo o
que entre nós é considerado válido e até santo, lá é considerado mal. Embora
haja uma moral objetiva, traçada pelas leis divinas, só captamos o que nossa
visão interior consegue abarcar. O valor das coisas está constantemente
alterando-se, principalmente devido à educação cultural dos diversos povos. O
valor, por sua vez, pode ser entendido como: valor moral (refere-se à ação);
valor estético (refere-se ao dever-ser); valor religioso (refere-se ao
sentimento de temor ou de confiança na divindade). Sendo assim, um fato
pode ser analisado, respectivamente, como proveniente de uma ação má, feia
ou "pecaminosa".
De acordo com a Doutrina Espírita, o problema do bem e do mal está
relacionado com as leis de Deus e o progresso alcançado pelo Espírito ao
longo de suas várias encarnações. É o que veremos a seguir.
4. ORIGEM DO BEM E DO MAL
4.1. O MAL NÃO PODE TER ORIGEM EM DEUS
Muitos pensam que Deus, que é o criador do mundo e de tudo o que existe,
também é o criador do mal. Para tanto, as religiões dogmáticas elaboraram
uma série de raciocínios sobre a demonologia, ou seja, o tratado sobre o diabo.
Baseando-nos nessas imagens, seríamos forçados a crer que existem dois
deuses, digladiando-se reciprocamente. A lógica e os ensinamentos espíritas
apontam-nos, porém, para a existência de um único Deus, que é a inteligência
51

suprema, causa primária de todas as coisas. Como um de seus atributos é ser


infinitamente bom, Ele não poderia conter a mais insignificante parcela do mal.
Assim, Dele não pode provir a origem do mal. Mas o mal existe e deve ter uma
origem. Onde estaria? (Kardec, 1975, cap. III)
4.2. A CAUSA DO MAL
O mal existe e tem uma causa. Há, porém, males físicos e morais. Há os que
não se pode evitar (flagelos) e os que se podem evitar (vícios.) Porém, os
males mais numerosos são os que o homem cria pelos seus vícios, os que
provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambição, da sua cupidez, de
seus excessos em tudo. No que tange aos flagelos naturais, o homem recebeu
a inteligência e com ela consegue amenizar muito desses problemas.
No sentido moral, o mal só pode estar assentado numa determinação humana,
que se fundamenta no livre-arbítrio. Enquanto o livre-arbítrio não existia, o
homem não cometia o mal, porque não tinha responsabilidades pelas suas
ações. Conforme os amigos espirituais foram nos facultando tal liberdade,
tivemos que fazer escolhas e com isso errar e conseqüentemente praticar o
mal.
4.3. O PRINCÍPIO DO BEM E DO MAL
O bem e o mal como princípios podem ser encontrados no livro da natureza. O
conhecimento deles requer experiência. Tomemos as figuras de Adão e Eva.
Eles comeram o fruto proibido, instigados pela serpente. Para conhecerem o
bem e o mal, tiveram de prová-los. Mas Adão pode ter pensado: não vou ligar
para isso, pois foram a serpente e a Eva que me tentaram. Porém, nesse
momento, Deus passa-lhe a noção de responsabilidade. A "consciência
moral" começa com a responsabilidade.
Quando começarmos a dar valor à moral, nosso progresso começa a se
fundamentar. O Espírito André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos,
psicografado por Francisco Cândido Xavier, traça-nos a trajetória do princípio
inteligente através dos vários reinos da natureza. O princípio inteligente é
conduzido pelos "Operários Espirituais". A repetição dos atos cria a herança e
o automatismo. Ao adentrar na fase hominal, ele adquire o pensamento
contínuo, o livre-arbítrio e a razão. Aos poucos esses operários espirituais vão
entregando o aprendizado ao livre-arbítrio, sob a própria responsabilidade.
5. NECESSIDADES HUMANAS
5.1. O QUE É UMA NECESSIDADE?
Necessidade é a consciência de que nos falta algo. Por que nos falta algo?
Porque a necessidade, sendo um estado de espírito e um atributo do homem
subjetivo, impõe ao homem este ou aquele desejo. As necessidades podem
ser: a) prioritárias: comer, beber, dormir etc.; b) secundárias: vestir-se bem,
passear, cinema etc.
Em termos espirituais, as necessidades vão se depurando conforme vamos
galgando novos degraus de evolução espiritual. Há, assim, muita sabedoria no
provérbio: "Deus, livra-me das minhas necessidades". Deveríamos deixar de
lado os apetites da carne e nos direcionarmos para os anseios do Espírito.
5.2. VÍCIOS
Os vícios são as ações que tendem para mal. Allan Kardec diz: "Se o homem
se conformasse rigorosamente com as leis divinas, não há duvidar de que se
pouparia aos mais agudos males e viveria ditoso na Terra". O animal, por
exemplo, só come para preservar a sua vida; o homem, dotado de inteligência,
come mais com os olhos do que com a boca. O vício surge não pelo fato de
52

atender a necessidades, mas no excesso que com que se atende a


necessidades. Há um ditado que diz: "devemos comer para viver e não viver
para comer". Nesse sentido, a pessoa que se alimenta em demasia acaba se
tornando glutão, o que lhe impede de estar bem com o seu físico. O mesmo se
diz daquele que se excede nas bebidas alcoólicas, na sexualidade etc. É
preciso, pois, relembrar que todos sofreremos as conseqüências de nossas
ações, quer sejam boas ou más. (Kardec, 1975, cap. III)
5.3. DOR
A dor é teleológica e leva consigo um destino. É um alerta da natureza, que
anuncia algum mal que está nos atingindo e que precisamos enfrentar. Se não
fosse a dor, sucumbiríamos a muitas doenças sem sequer nos dar conta do
perigo. Por ela podemos saber o que fomos e, também, o que tencionamos ser.
Ela é sempre positiva; no sofrimento, estamos purgando algo ou preparando-
nos para o futuro. De acordo com Allan Kardec, "A dor é o aguilhão que impele
o Espírito para frente, na senda do progresso". Se o Espírito nada tivesse a
temer, nenhuma necessidade o induziria a procurar o melhor; ficaria inativo,
como entorpecido. Reportando-nos à alimentação, poder-se-ia dizer que ao
ingerirmos alimentos em excesso, teríamos um mal-estar físico, uma espécie
de sentinela do equilíbrio.
6. BEM VERSUS MAL
6.1. ESTENDER O BEM
"Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem".
— Paulo. (Romanos, 12, 21)
O Espírito Emmanuel lembra-nos de que a natureza é pródiga em nos oferecer
exemplos vivos para a nossa mudança comportamental. Depois de um
temporal (mal), em que parece ter destruído a paisagem, novas forças
congregam-se para a obra de refazimento: "O sol envia luz sobre o lamaçal,
curando as chagas do chão, o vento acaricia o arvoredo e enxuga lhe os
ramos, o cântico das aves substitui a voz do trovão... A árvore de frondes
quebradas ou feridas regenera-se, em silêncio, a fim de produzir novas flores e
novos frutos". Incita-nos, com isso, a aprender com a natureza, ou seja, mesmo
sofrendo os maiores dos males, deveríamos nos concentrar no bem,
estendendo-o ao infinito, porque o mal é passageiro e fruto da ignorância
humana. (Xavier, sdp, cap. 35)
6.2. DESERTOR DO BEM
Se soubéssemos, de antemão, o tributo de dor que a vida nos cobrará,
evitaríamos o homicídio, a calúnia, a ingratidão e o egoísmo. O mesmo sucede
com aquele que se esquiva do bem. O Espírito Emmanuel diz: "Se o desertor
do bem conseguisse enxergar as perigosas ciladas com que as trevas lhe
furtarão o contentamento de viver, deter-se-ia feliz, sob as algemas
santificantes dos mais pesados deveres". Lembremo-nos de que viemos a este
mundo para cumprir uma missão, um dever. Nesse sentido, a esposa de
Heidegger dizia que Deus tinha condenado o seu marido a ser filósofo. Para
nós outros, que nos compenetramos da necessidade de praticar o bem,
poderíamos dizer que Deus nos condenou a ser benevolente. (Xavier, sdp, cap.
38)
6.3. RESISTIR AO MAL
Jesus dizia que o joio deveria crescer junto com o trigo. Contudo, no momento
aprazado separaria um do outro. O trigo representa o bem; o joio, o mal. Os
dois devem crescer juntos, ou seja, não há dualismo entre um e outro, pois o
53

mal é sempre visualizado como a ausência do bem. Ele só surge quando o


bem não se fez presente. É como o ladrão que rouba. Ele só rouba porque não
houve antes uma prevenção.
Resistir ao mal significa suportar pacientemente a sua presença, mas sem
perder de vista o bem. Haverá tentações, desânimo, mal-entendidos e
incompreensões alheias. Nada disso deve tirar o ensejo de continuarmos
firmes em nossa jornada evolutiva, pois "a seu tempo ceifaremos se não
houvermos desfalecidos".
7. CONCLUSÃO
Não nos detenhamos apenas em praticar atos de caridade; sejamos também
caridosos. Auxiliemos o próximo, não por uma espécie de convenção social,
mas como um arroubo que parte do íntimo de nosso coração.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 1975.XAVIER, F. C. Fonte Viva, pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB,
[s.d.p.]
São Paulo, maio de 2005

<< = = =

(1) LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de Janeiro:


Verbo, 1990.

(2) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

Bem Comum
Bem comum. O bem comum busca a felicidade natural, sendo, portanto, o valor político
por excelência, sempre, porém, subordinado à moral. O bem comum se distingue do
bem individual e do bem público. Enquanto o bem público é um bem de todos por
estarem unidos, o bem comum é dos indivíduos por serem membros de um Estado;
trata-se de um valor comum que os indivíduos podem perseguir somente em conjunto,
na concórdia. Além disso, com relação ao bem individual, o Bem Comum não é um
simples somatório destes bens; não é tampouco a negação deles; ele coloca-se
unicamente como sua própria verdade ou síntese harmoniosa, tendo como ponto de
partida a distinção entre indivíduo, subordinado à comunidade, e a pessoa que
permanece o verdadeiro e último fim. (1)

(1) BOBBIO, N. et al. Dicionário de Política. 2. ed. Brasília: UNB, 1986.

Bom Senso
Bom Senso. Qualidade de nosso espírito que nos permite distinguir o verdadeiro do
falso, o certo do errado. "O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída"
54

(Descartes). Às vezes Descartes denomina o bom senso de "luz natural". Na maioria dos
casos, chama-o simplesmente de razão, instrumento geral do conhecimento que é capaz
de "julgar e distinguir bem o verdadeiro do falso". Essa faculdade da razão é natural e
comum em todos os homens. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Budismo
Budismo. Doutrina religiosa e filosófica que se originou dos ensinamentos de Gautama
Buda (563-480 a.C.) e que foi depois desenvolvida em grande número de diferentes
tendências na Índia, na China e no Japão.

O B. é o maior exemplo da religião perfeitamente ateia. Sua doutrina fundamental


resume-se nas quatro verdades nobres: 1.ª a vida é dor; 2.ª a causa da dor é o desejo; 3.ª
obtém-se a cessação da dor com a cessação do desejo; 4.ª existe um caminho óctuplo
que conduz à cessação da dor. O caminho óctuplo consiste: 1.º na justa visão; 2.º na
justa resolução; 3.º na justa linguagem; 4.º na justa conduta; 5.º no justo viver; 6.º no
justo esforço; 7.º na justa mentalidade; 8.º na justa concentração.

Segundo o B., o homem está sujeito à lei do incessante fluir da vida (dharma), que o
leva de desejo em desejo, de dor em dor, de encarnação em encarnação. Enquanto o
homem não se libertar do desejo, estará submetido ao ciclo de renascimento (samsara).
A libertação do desejo, obtida por meio das regras morais acima e da disciplina ascética
(que o B. compartilhava com o bramanismo e com a prática ioga), obtém-se somente
com a dissolução de ilusão produzida pelo desejo (e que é o karma), com a eliminação
do próprio desejo e a destruição do apego à vida, que é o nirvana. (1)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.


55

Cadeia Causal
Cadeia Causal. A sequência de acontecimentos que conduz a um certo efeito final,
onde cada membro da sequência causa a ocorrência do membro seguinte. Embora a
noção se aplique a casos identificáveis (o empurrão causa a queda, que causa a fratura,
que causa a ida ao hospital), não é claro que a causalidade, em geral, possa ser analisada
através de cadeias lineares de acontecimentos distintos. O tempo é um dos problemas
clássicos: se o acontecimento anterior precede o posterior, como pode ser causalmente
eficaz após ter deixado de existir? Mas se os dois acontecimentos forem
simultaneamente, como a cadeia pode se prolongar em direção ao passado? (1)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1977.

Caos
Caos. Do grego káos, do verbo khainen, abrir-se, entreabrir-se. 1. Termo utilizado
aparentemente pela primeira vez na Teogonia de Hesíodo (séc. VIII a.C.), designando o
vazio causado pela separação entre a Terra e o Céu a partir do momento de emergência
do Cosmo. Designa também para os gregos o estado inicial da matéria indiferenciada,
antes da imposição da ordem dos elementos.

2. Na física moderna, designa a imprevisibilidade de sistemas complexos, isto é, a


existência de fenômenos em relação aos quais não é possível fazer previsões ou cálculos
precisos dadas alterações, mesmo que pequenas, nas condições iniciais. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
56

Caráter
Caráter. Etimologicamente, caráter quer dizer coisa gravada; do grego "charactér" de
"charássein" = gravar. O termo pode ter dois sentidos diversos: 1.º) caráter, como
conjunto de disposições psicológicas e comportamentos habituais de uma pessoa, isto é,
a personalidade concreta; 2.º) caráter relacionado à vontade, e nesse caso conota as
ideias de energia, honestidade e coerência; é nessa acepção que falamos, em homem de
caráter. (1)

Caráter. É em primeiro lugar um cunho (kharactér, em grego, é o gravador de


medalhas ou de moeda), uma marca indelével, um sinal permanente ou distintivo. A
palavra designa por isso o conjunto das disposições permanentes ou habituais de um
indivíduo (seu éthos), em outras palavras, sua maneira de sentir e de se ressentir, de agir
e de reagir – sua maneira particular de ser si. “É o que a natureza gravou em nós”, dizia
Voltaire. Eu não iria tão longe. O caráter me parece mais individualizado e evolutivo do
que o temperamento, e menos do que a personalidade. Eu diria: o temperamento de um
indivíduo é o que a natureza fez dele: seu caráter é o que a história fez do seu
temperamento; sua responsabilidade é o que ele fez, e não cessa de fazer, com o que a
história da natureza fizeram dele. O caráter remete ao passado, logo a tudo o que, em
nós, já não depende de nós. Temos de conviver com isso, como se diz, e é por isso que,
de acordo com uma fórmula célebre de Heráclito, “o caráter de um homem é seu
demônio” ou seu destino: porque ele é aquilo que nele escolhe, e que ele não escolhe.
(2)

(1) ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro:


M.E.C., 1967.

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Carma / Karman
Carma / Karman. Termo sânscrito (literalmente, "ação") que na especulação hinduísta
alude ao conjunto das ações humanas e dos efeitos que delas decorrem necessariamente
no curso das sucessivas reencarnações (v. Samsara). Para o budismo e o jainismo , o C.
brota do desejo. Por isso, extinguindo-se este, extingue-se também o K. e o Samsara (v.
Budismo e Nirvana)

Samsara. Termo sânscrito (literalmente, "corrente, migração" que no hinduísmo e no


budismo indica o fluir incessante das coisas e o ciclo das reencarnações. (v. Budismo)
(1)
57

Karman. Filos. Significa ação. Nos tempos védicos as ações que recebiam
consideração especial eram ações sacrificiais e rituais pelas quais um fruto especial
(phala) é supostamente obtido. No Satapatha-Brãhmana e no Brhad-Aranyaka-
Upanishad, a relação ação-fruto estende-se a todas as espécies de ação e estabelece-se a
regra de que "um homem transforma-se naquilo que faz, no modo como se comporta;
sejam quais forem as obras que fizerem colherão o fruto delas; do outro mundo em que
vive, regressa a este mundo de obras e de trabalho". A lei do K. é depois tornada radical
por Buda, que proclama que todas as predisposições dos seres têm origem na sua falta
de começo K., sendo, portanto, K. o princípio da essência. Portanto, não aceita nenhum
atman e reduz a existência a um simples fluxo cuja única continuidade é a relação entre
K. e phala. A concepção de Jaina é ainda mais primitiva: concebe K. como uma mancha
de tinta que enfeita a alma (jiva ou atman)...

A crença em K. mantém-se muito espalhada na Índia, muito frequentemente com


aspecto de fatalidade, e continua a acreditar no princípio da reencarnação. É considerada
como lei última de natureza que não deixa abertura a acidente ou acaso e confina a
liberdade dentro dos seus limites. O único meio de escapar a este domínio é deixar de
agir (nivrtti) e refugiar-se na inação, o conhecimento puro, tal como Vedanta propõe, ou
abandonarmo-nos ao amor de Deus e confiar na sua graça como propõem os mestres de
bhakti. (2)

Karma. O termo karma significa "ação" ou "feito". Na filosofia hindu e budista, é o


princípio de causalidade universal, que afirma que toda ação é causada por uma ação
anterior e por sua vez provoca ações posteriores. Tudo acontece agora porque alguma
outra coisa foi feita antes e a sucessão de resultante de feitos criativos é karma.
Conceitos como oportunidade e sorte são incompatíveis com o karma, pois tudo é
determinado pela inflexível lei de causa e efeito.

No sentido mais geral, o karma se refere especificamente à ação individual e ao modo


como dessa ação surgem reações que determinam o destino de uma pessoa, senão nesta
vida, então na próxima encarnação. O bem e o mal que acontecem ao homem são o que
ele mereceu por feitos anteriores, suas ações constituem os elos na corrente que o
agrilhoa à roda de samsara, o ciclo sempre repetido de nascimento-morte-renascimento.

Algumas vezes se fala de karma como uma mácula, que a alma adquire na Terra, uma
mácula que tem de ser erradicada por feitos contrabalançantes na região terrena. A
Terra, ou o ambiente material em que vivemos, é portanto, conhecido como karma-
bhumi, a esfera-karma. Cumprimos nosso destino na Terra e temos de retornar a ela para
acertar nossas contas. Se tivermos sido bons, somos aquinhoados com uma alta posição
na vida e muitas vantagens físicas, intelectuais e sociais, e se fomos maus, nascemos em
baixa posição, e na crença hindu às vezes até em forma de animal. Portanto, nosso
karma, soma total de nossas atividades, determina, diretamente, como e em que
circunstâncias renascemos a cada vez.

A doutrina do karma foi submetida a muitas interpretações, para tentar-se definir a


natureza precisa da ação. A rígida opinião de que toda atividade física e mental gera
karma teve de ser suavizada e restringida até certo ponto, do contrário seria
praticamente impossível a alguém romper o inexorável círculo que o traz repetidas
vezes à esfera terrena. Analisando-se, pode-se resumir todas as ações em três partes: o
motivo da ação, a própria ação, e as consequências da ação. Os que enfatizam o motivo
58

da ação como portador da mácula do karma sugerem que, já que motivo é conhecido na
mente, a ação está como que realizada, seja ela realizada ou não. Segundo essa opinião,
são os motivos que determinam o karma. Outros acentuam a verdadeira execução da
ação, sejam quais forem seus motivos ou consequências. A terceira e última opinião é a
de que as consequências determinam a ação, e todas as ações têm de ser julgadas por
seus frutos.

Certas ações, no entanto, podem ser consideradas neutras, sem qualquer fruto. Pode-se
pensar que ficar sentado, por exemplo, sem fazer nada que interfira com as vidas dos
outros, não incorre no perigo de um karma adverso. Mas até isso traz o contágio, pois a
simples existência tem seu alcance de repercussões, e mesmo quando inativos deixamos
a impressão de nossa presença no ambiente. (3)

Karma. O termo karma significa "ação" em sânscrito e se refere à ideia de que toda
ação tem um conjunto específico de causas e efeitos. Eticamente, karma é um registro
metafísico do valor moral de uma pessoa. Quando alguém comete um ato mau, adquire
karma; quando alguém faz o bem, adquire mérito, que anula o karma. Karma está
vinculado ao samsara (o ciclo da reencarnação), pois, quando as pessoas morrem, o seu
karma determina o tipo de renascimento que terão na vida seguinte. No hinduísmo, está
mais vinculado com o sistema varna (de castas): uma vida virtuosa erradica o karma e
garante o renascimento em uma casta mais alta que tem mais possibilidade de atingir
moksha, um estado de união entre o atman (eu verdadeiro) da pessoa e Brahma (a
realidade última). No budismo, a vida é caracterizada por sofrimentos; a meta do cultivo
espiritual é erradicar o karma e alcançar o nirvana, um estado no qual todo o karma é
anulado e uma pessoa pode sair do ciclo de renascimento. No jainismo, eliminar o
karma leva a moksha, um bem-aventurado de liberação do samsara. No hinduísmo e no
budismo, as pessoas recebem karma apenas por atos intencionais, enquanto no jainismo
até mesmo atos não intencionais podem gerar karma. (4)

Karma. Entre as noções de religiões e filosofias orientais, a ideia do karma talvez seja a
que mais tenha encontrado resposta no mundo ocidental. O termo tem origem no
sânscrito karman e foi adotado pela filosofia hindu e budista para explicar a relação
entre a causa e o efeito de uma determinada ação sobre o sujeito que a pratica. Dessa
forma, chega-se à conclusão de que nada ocorre por acaso. Uma ação é provocada por
outra anterior e, por sua vez, provoca uma reação consequente. A sucessão de
acontecimentos, segundo esse pensamento, forma o karma.

A noção pressupõe um antecedente, que é a crença nas sucessivas existências da alma,


ou a reencarnação, de modo que a série de acontecimentos que um sujeito experimenta
em sua vida surge como consequência de atos e ações de sua vida anterior. Da mesma
forma, as ações nessa vida irão determinar o andamento da próxima vida do indivíduo.
A noção do karma coloca o ser humano, portanto, como o centro da ação, em relação
direta com o divino, é verdade, mas como o único responsável pelo que ocorre em sua
vida. Ele tem o poder de escolha. A Terra é chamada de karma-bhumi, a "esfera do
karma", para onde as pessoas retornam após a morte e onde irão viver melhor ou pior,
de acordo com a forma pela qual viveram antes.
59

Os atos dos seres humanos se tornam responsabilidade deles próprios e a existência


deixa de ser o resultado de uma concessão divina, de sacrifícios ou rituais mágicos e
religiosos. Existem diferentes interpretações quanto à relação entre karma e a ação
humana ou, em outras palavras, como se define o karma e a consequente vida do ser na
Terra. Dessa forma, alguns dizem que o simples ato de pensar já implica a realização.
Se um determinado ato surge no espírito da pessoa, é como se ele já estivesse cumprido,
mesmo que a pessoa não venha a torná-lo real. É o que se costuma chamar de "maus
pensamentos" ou a situação definida pela expressão "o que vale é a intenção". Essa
forma implica a necessidade do domínio espiritual e mental para se manter na conduta
correta, e é justamente por isso que outras pessoas entendem que é absolutamente
necessário o cumprimento do ato. Os pensamentos podem ser maus, mas podem não ser
transformados em atos ruins, o que significa que a pessoa, afinal, conseguiu se dominar
e evitou a ação má.

Outra linha de pensamento entende que um ato só pode ser julgado bom ou ruim a partir
de suas consequências, independentemente da intenção da pessoa no momento da ação,
o que não deixa de ser estranho. Uma pessoa pode realizar uma ação má, com intenções
más, e os resultados podem não ser ruins, devido a uma série de fatores que fogem ao
seu controle. (5)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

(3) CAVENDISH, Ricardo (org.). Enciclopédia do Sobrenatural. Tradução de Alda


Porto e Marcos Santarrita. Porto Alegre: L&PM, 1993.

(4) ARP, Robert (Editor). 1001 Ideias que Mudaram a Nossa Forma de Pensar.
Tradução Andre Fiker, Ivo Korytowski, Bruno Alexander, Paulo Polzonoff Jr e Pedro
Jorgensen. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

(5) SCHOEREDER, Gilberto. Dicionário do Mundo Misterioso: Esoterismo, Ocultismo,


Paranormalidade e Ufologia. Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 2002.

Carpe Diem
Carpe Diem (colha o dia, aproveite o instante). Expressão latina encontrada num verso
do poeta romano Horácio (65-8 a.C.) para celebrar o gozo do instante e resumir a moral
do prazer individual ou hedonismo. (1)

É uma fórmula de Horácio, em latim, que poderíamos traduzir por "colha o dia". Nossa
época hedonista e veleidosa vê nela o sumo da sabedoria. Deveríamos viver o instante,
aproveitar o momento presente, desfrutar dos prazeres conforme vão aparecendo...
Claro não contesto que existe nela como que uma sabedoria mínima. Mas daí a crer que
o farniente e a gastronomia poderiam fazer as vezes da filosofia há, apesar de tudo, um
passo que é melhor não dar. Epicurismo? De fato, há ecos dele em Horácio, nem sempre
tão sorridentes como se imagina, mas voltados, quase inevitavelmente, para os prazeres
60

mais próximos, mais fáceis e mais materiais. Viver no instante? Não é possível. Viver
no presente? É o único caminho, já que não há outro. Mas o presente não é um instante;
é uma duração, que não se pode habitar, mostrava Epicuro, sem uma ação deliberada
com o passado e o futuro. Gozar? O máximo possível. Mas isso não nos diz o que fazer
da nossa vida quando ela não é agradável, quando a dor ou a angústia nos vencem;
quando o prazer é diferido ou impossível... Colha o dia, portanto, mas não renuncie por
isso à ação, nem à duração, nem a esses prazeres espirituais que Epicuro, no fim da
Carta a Meneceu, chamava de "bens imortais". é que eles concernem ao verdadeiro, que
não morre. Carpe aeternitatem. (2)

Muitas vezes acrescida de carpe horam. Carpe diem/carpe horam (aproveite este dia,
aproveite esta hora).

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Casuística
Casuística. Análise e classificação dos "casos de consciência", isto é, dos problemas
que nascem da aplicação das normas morais ou religiosas à vida humana. Na
antiguidade, os cínicos (v. cínismo) e os estóicos (v. estoicismo) tiveram uma casuística.
Houve e há uma casuística cristã, que, a partir de Pascal, muitas vezes foi acusada de
moralidade relaxada e comodista. (1)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Alegoria da Caverna
Alegoria da Caverna. Também chamada de mito da caverna, é uma parábola escrita
pelo filósofo Platão, e encontra-se na obra intitulada A República (livro VII). Trata-se
da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos
aprisiona através da luz da verdade. Alguns ainda a chamam de Os prisioneiros da
caverna ou menos comumente de A parábola da caverna. (1)

Segundo J. Ferguson, Platão teria em mente uma caverna real. Homens sentados e
virados para a parede do fundo, acorrentados nos pescoços e nos braços e pernas, de
modo a nem se moverem ou saírem de sua estátua postura, apenas podendo ver
impressões sensíveis naquele fundo e ouvir a ressonância de vozes o que aconteceria se
61

um dos escravos fosse libertado das cadeias e pudesse "virar a cabeça para trás" - essa
torção ou "conversão" há de indicar a essência da educação (como metanóia).
[República, VII, 518d] (2)

= = = >>

(1) A parábola da caverna:

A alegoria da caverna, também conhecido como parábola da caverna, mito da caverna


ou prisioneiros da caverna, é uma alegoria de intenção filósofo-pedagógica, escrita
pelo filósofo grego Platão. Encontra-se na obra intitulada A República (Livro VII), e
pretende exemplificar como nós podemos libertar da condição de escuridão que nos
aprisiona através da luz da verdade, em que Platão discute sobre teoria do
conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal.

Mito da caverna
No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.
Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar
somente a parede do fundo da caverna, sem poder ver uns aos outros ou a si próprios.
Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, separada deles por uma parede baixa, por
detrás da qual passam pessoas carregando objetos que representam "homens e outras
coisas viventes". As pessoas caminham por detrás da parede de modo que os seus
corpos não projetam sombras, mas sim os objetos que carregam. Os prisioneiros não
podem ver o que se passa atrás deles e veem apenas as sombras que são projetadas
na parede em frente a eles. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm
de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras,
pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas
sombras sejam a realidade.

Imagine que um dos prisioneiros seja libertado e forçado a olhar o fogo e os objetos
que faziam as sombras (uma nova realidade, um conhecimento novo). A luz iria ferir os
seus olhos e ele não poderia ver bem. Se lhe disserem que o presente era real e que as
imagens que anteriormente via não o eram, ele não acreditaria. Na sua confusão, o
prisioneiro tentaria voltar para a caverna, para aquilo a que estava acostumado e
podia ver.
62

Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação
extremamente enganosa em que se encontram, os seus olhos, agora acostumados à
luz, ficariam cegos devido à escuridão, assim como tinham ficado cegos com a luz. Os
outros prisioneiros, ao ver isto, concluiriam que sair da caverna tinha causado graves
danos ao companheiro e, por isso, não deveriam sair dali nunca. Se o pudessem fazer,
matariam quem tentasse tirá-los da caverna.

Platão não buscava as verdadeiras essências na simples Phýsis, como buscavam


Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de Sócrates, ele buscava a essência das
coisas para além do mundo sensível. E o personagem da caverna, que por acaso se
liberte corre, como Sócrates, o risco de ser morto por expressar seu pensamento e
querer mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a nossa realidade, é
como se você acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo e,
então. Vem alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta lhe mostrar
novos conceitos, totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que
Sócrates foi morto pelos cidadãos de Atenas, inspirando Platão à escrita da Alegoria da
Caverna pela qual Platão nos convida a imaginar que as coisas se passassem, na
existência humana, comparavelmente à situação da caverna: ilusoriamente, com os
homens acorrentados a falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo,
inertes em suas poucas possibilidades.

A partir da leitura do Mito da Caverna, é possível fazer uma reflexão extremamente


proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso,
ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo exercício de interpretação de texto.

O diálogo de Sócrates e Glauco

Trata-se de um diálogo metafórico em que as falas na primeira pessoa são de Sócrates


e seus interlocutores, Glauco e Adimanto são os irmãos mais novos de Platão. No
diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do
ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.

Sócrates – Agora, imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza


relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea,
em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a
infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem
ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a
luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre
o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa
estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os
63

apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas
maravilhas.

Glauco– Estou vendo.

Sócrates– Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam
objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra,
madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns
falam e outros seguem em silêncio.

Glauco- Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição,
eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as
sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco — Sem dúvida.

Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que
tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco — É bem possível.

Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos


transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco — Sim, por Zeus!

Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos
objetos fabricados?

Glauco — Assim terá de ser.

Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem


libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses
prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a
caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o
deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que
achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas,
mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais
justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força
de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que
via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
64

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não
desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são
realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta


rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não
sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz,
poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora
denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região


superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens
dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios
objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar
mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o
dia, o Sol e sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas
ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá
ver e contemplar tal qual é.

Glauco - Concordo.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as
estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a
causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se


professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se
alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para


aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que
melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou
65

virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que
provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos?
Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e
sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.:

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu
antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da
luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não


se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista
confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão
exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam
que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar
subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o
mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem
ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na
caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região
superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da
alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha ideia, visto que
também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a
minha opinião é esta: no mundo inteligível, a ideia do bem é a última a ser apreendida,
e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de
tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a
luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e
é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão. A República. Livro VII)

Interpretação da alegoria

O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz
respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de
66

superação da ignorância, isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão


de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional,
sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade.

Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência, isto é, do


conhecimento abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e
o domínio das ideias (diánoia e nóesis). Para o filósofo, a realidade está no mundo das
ideias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da
ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, no grau da apreensão de
imagens (eikasia), as quais são mutáveis, não são perfeitas como as coisas no mundo
das ideias e, por isso, não são objetos suficientemente bons para gerar conhecimento
perfeitos. Inclusive, em 2016, neurocientistas chegaram a mesma conclusão de Platão
relativo a percepção humana.

Exemplos

Este tema - realidade ou aparência - foi retomado ao longo da história da cultura


ocidental por muitos filósofos e alguns escritores, embora com perspectivas distintas.
Um deles foi Calderón de la Barca na obra A vida é um sonho.

Exemplos mais modernos podem ser a série Persons Unknown, o livro Admirável
Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), o filme Matrix (Irmãs Wachowski, 1999) e
também o livro A Ilha (Aldous Huxley), dirigido no cinema por Michael Bay de 2005.
Outro autor que utilizou, parodicamente, essa parábola platônica foi o autor José
Saramago, em seu livro A Caverna.

O filme O Show de Truman também utiliza a parábola platônica em seu enredo.

Referências

João Francisco P. Cabral. «Mito da caverna de Platão». R7. Brasil Escola. Consultado
em 30 de novembro de 2012

2300 years later, Plato’s theory of consciousness is being backed up by neuroscience

Bibliografia

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Editora Ática, 2003;

SPINELLI, Miguel. Questões Fundamentais da Filosofia Grega. São Paulo. Loyola,


2006, p. 278ss.

<< = = =

(2) LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de Janeiro: Verbo, 1990.


67

Certeza / Dúvida
Certeza/Dúvida. A certeza é o estado da mente ou o processo mental que não envolve
vacilação. Como a dúvida, é uma categoria psicológica e não epistemológica: toda
certeza é certeza de alguém sobre alguma coisa. De fato, um sujeito pode estar certo
acerca da falsidade e incerto sobre a verdade. A certeza surge em graus. Entretanto, a
tentativa de igualar grau de certeza com probabilidade é desencaminhadora, porque
variações na certeza não são conhecidas como acontecimentos eventuais: a maioria
deles resulta do aprendizado. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Ceticismo
Ceticismo. Do grego skeptikós, aquele que investiga. 1. As doutrinas dos antigos
céticos gregos. 2. A doutrina filosófica em que a verdade de todo o conhecimento deve
ser sempre posta em questão e que a investigação deve ser um processo de duvidar. 3.
Atitude de dúvida ou cética ou estado de espírito. 4. Dúvida sobre as doutrinas
religiosas fundamentais.

Concepção segundo a qual o conhecimento do real é impossível à razão humana.


Portanto, o homem deve renunciar à certeza, suspender seu juízo sobre as coisas e
submeter toda afirmação a uma dúvida constante. Oposto a dogmatismo. Ver
relativismo. (1)

A família das doutrinas segundo as quais algum ou todo conhecimento é duvidoso ou


mesmo falso. Há duas variedades: sistemático e metódico. O ceticismo sistemático, total
ou radical, é o duvidar de tudo. O ceticismo metódico ou moderado utiliza a dúvida
como um modo de aferir ou propor novas ideias. O ceticismo sistemático, tal como o de
Sexto Empírico ou Francisco Sánches, é impossível porque toda ideia é avaliada ou
conferida contra outras ideias. O ceticismo metódico devia ser a norma em todas as
buscas racionais: a gente dúvida somente quando há alguma razão para duvidar. (2)
(Ver paradoxo do cético)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)
68

Cibernética
Cibernética. A ciência do controle e da comunicação do modo como se relaciona com
os mecanismos, indivíduos e sociedades. Ela deriva do termo grego kybernetes, que
significa “timoneiro”. A cibernética inclui os vários tipos de processos que dependem
da troca e do fluxo de informações. Um recurso cibernético é um mecanismo ou sistema
que processa informações, tais como um computador ou o sistema de telecomunicações.
O estudo da cibernética levanta um sem-número de questões éticas das quais a primeira
é o desenvolvimento da inteligência artificial e suas implicações para o que ela
considera um ser vivo. (1)

Cibernética. O estudo de sistemas dotados de dispositivos de controle (feedback


negativo, retroalimentação), quer natural ou artificial. A cibernética é do interesse da
filosofia pelas seguintes razões. Primeiro, proporciona uma explicação naturalista do
comportamento dirigido para uma meta, que era antes visto como prova de forças
espirituais. Segundo, a retroalimentação negativa explica a estabilidade (estado
estacionário) de certos sistemas ao passo que a posterioalimentação (feedforward)
explica o início da instabilidade em outros. Terceiro, uma vez que ela trata unicamente
de aspectos estruturais, a cibernética é em substrato neutra: aplica-se a sistemas físicos,
organismos, organizações e artefatos. Entretanto, o projeto, a construção ou a
manutenção de sistemas cibernéticos particulares requer um conhecimento do modo de
comportar-se dos materiais particulares de que os sistemas são constituídos.(2)

(1) GRENZ, Stanley J. e SMITH, Jay T. Dicionário de Ética: Mais de 300 Termos
Definidos de Forma Clara e Concisa. Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. São
Paulo: Vida, 2005.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Cientismo
Cientismo. A concepção de que a pesquisa científica é o melhor caminho para
assegurar conhecimento fatual acurado. É uma componente tanto do positivismo lógico
como do realismo científico. O cientismo tem estado atrás de toda tentativa de
transformar um capítulo das humanidades em um ramo da ciência: relembrar, isto é, as
origens da antropologia contemporânea, a psicologia, a linguística e as ciências sociais.
O termo foi usado pejorativamente por F. Hayek e outros a fim de designar as tentativas
de arremedar a ciência natural nos estudos sociais. Ele e outros membros do campo
“humanístico” (de gabinete) nas ciências sociais veem no cientismo, mais do que uma
anticiência ou uma pseudociência, seu principal inimigo. (1)
69

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Cinismo
Cinismo. Do latim cynicus, do grego kynikós, como um cão. 1. Escola filosófica de
Antístenes (444-365 a.C.), discípulo de Sócrates, assim chamada porque ele ensinava no
Cynosarge (mausoléu do cão) e se considerava a si mesmo um cão. Sua doutrina foi
retomada por Diógenes, que também se considerava um cão, em função de seu estilo de
vida: desprezava todas as convenções sociais e as leis existentes, sua filosofia pregando
um retorno à vida simples conforme à natureza.

2. Em seu sentido moral, o cinismo é uma atitude individual que consiste no desprezo,
por palavras e atos, das convenções, das conveniências, da opinião pública, da moral
admitida, ironizando todos aqueles que a elas se submetem e adotando, em relação a
eles, um certo amoralismo mais ou menos agressivo, mais ou menos debochado. (1)

O termo passou à posteridade como adjetivação pejorativa de pessoas sem pudor,


indiferentes ao sofrimento alheio.

Os cínicos afirmavam que o homem dispunha de tudo que necessitava para viver,
independente dos bens materiais. A isto chamavam de Autarcia (ou a variante, porém
com outra acepção mais difundida, Autarquia) - condição de auto-suficiência do sábio, a
quem basta ser virtuoso para ser feliz. O termo grego original é autárkeia - significando
auto-suficiência. Além dos cínicos, foi uma proposição também defendida pelos
estoicos.

Sua filosofia partia do princípio de que a felicidade não depende de nada externo à
própria pessoa, ou seja, coisas materiais, reconhecimento alheio e mesmo a preocupação
com a saúde, o sofrimento e a morte, nada disso pode trazer a felicidade. Segundo os
Cínicos, é justamente a libertação de todas essas coisas que pode trazer a felicidade que,
uma vez obtida, nunca mais poderia ser perdida.

Os cínicos, assim como Sócrates, nada de escrito deixaram. O que se sabe sobre eles foi
narrado por outros, em geral críticos de suas idéias. (2)

Cinismo. Doutrina de uma das escolas socráticas, mais precisamente da que foi criada
por Antístenes de Atenas (séc. IV a.C.) no Ginásio Cinosargos. É provável que o nome
da doutrina derive do nome do Ginásio, ou então, como dizem outros, do seu ideal de
vida nos moldes da simplicidade (e do descaramento) da vida canina. A tese
fundamental do cinismo é que o único fim do homem é a felicidade e a felicidade
consiste na virtude. Fora da virtude não existem bens, de modo que foi característica
dos cínicos o desprezo pela comodidade, pelas riquezas, pelos prazeres, bem como o
mais radical desprezo pelas convenções humanas e, em geral, por tudo o que afasta o
homem da simplicidade natural de que os animais dão exemplo. A palavra "cinismo"
permaneceu na linguagem comum para designar um certo descaramento. (3)
70

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Cinismo

= = = >>

(2) Wikipédia / Cinismo:


O cinismo (em grego antigo: κυνισμός kynismós, em latim cinicus) foi uma corrente
filosófica fundada por Antístenes, discípulo de Sócrates e como tal praticada pelos
cínicos (em grego antigo: Κυνικοί, latim: Cynici). Para os cínicos, o propósito da vida
era viver na virtude, de acordo com a natureza.

O primeiro filósofo a definir o cinismo foi Antístenes, ex-aluno de Sócrates no final do


século V a.C. Ele foi seguido por Diógenes de Sinope que levou o cinismo aos seus
extremos lógicos e passou a ser visto como o arquétipo de filósofo cínico, sua
autarkeia (auto-suficiência) e a apatheia perante as vicissitudes da vida eram os ideais
do cinismo.

O cinismo se espalhou durante a ascensão do Império Romano no século I quase se


tornando um movimento de massa, e assim, os cínicos eram encontrados pedindo e
pregando ao longo das cidades do império. A doutrina finalmente desapareceu no final
do século V, embora alguns afirmam que o cristianismo primitivo adotou muitas de
suas ideias ascéticas e retóricas. [nota 1]

Por volta do século XIX, a ênfase sobre os aspectos negativos da filosofia cínica levou
ao entendimento moderno de cinismo a significar uma disposição de descrença na
sinceridade ou bondade das motivações e ações humanas[5] e como caraterização de
pessoas que desprezam as convenções sociais. Para encorajar as pessoas a
renunciarem aos desejos criados pela civilização e convenções, os cínicos
empreenderam uma cruzada de escárnio anti-social e assim mostrar as frivolidades da
vida social.

Origem do termo

O nome "cínico" (em grego antigo: κυνικός kynikos, igual a um cão, κύων (kyôn)|cão
(genitivo: kynos). Uma explicação existente em tempos antigos de porque os cínicos
eram chamados de cães era porque o primeiro cínico, Antístenes, ensinava no ginásio
Cinosargo, um ginásio e templo para nothoi atenienses. "Nothoi" é um termo que
designa aquele que não possui a cidadania ateniense por ter nascido de uma escrava,
71

estrangeira, prostituta, de pais cidadãos, mas não legalmente casados, ou ainda,


bastardos de mulheres hilotas.

A palavra Cynosarges significa ou pode significar ainda "alimento de cão", "cão


branco", ou "cão rápido". Parece certo, contudo, que a palavra "cão" também foi
lançada aos primeiros cínicos como um insulto por sua rejeição descarada quanto às
convenções sociais e sua decisão de viver nas ruas.

Diógenes de Sinope, em particular, foi referido como o cão, ao ter afirmado que "os
outros cães mordem seus inimigos, eu mordo meus amigos para salvá-los". Mais tarde,
os cínicos também buscaram transformar a palavra a seu favor, como um comentarista
explicou:

Há quatro razões de por que os "cínicos" são assim chamados. Primeiro por causa da
indiferença de seu modo de vida, pois fazem um culto à indiferença e, assim como os
cães, comem e fazem amor em público, andam descalços e dormem em barris nas
encruzilhadas. A segunda razão é que o cão é um animal sem pudor, e os cínicos fazem
um culto à falta de pudor, não como sendo falta de modéstia, mas como sendo
superior a ela. A terceira razão é que o cão é um bom guarda e eles guardam os
princípios de sua filosofia. A quarta razão é que o cão é um animal exigente que pode
distinguir entre os seus amigos e inimigos. Portanto, eles reconhecem como amigos
aqueles que são adequados à filosofia, e os recebem gentilmente, enquanto os inaptos
são afugentados por ele, como os cães fazem, ladrando contra eles.

História

Os cínicos gregos e romanos clássicos consideravam a virtude como a única


necessidade para a eudaimonia (felicidade) e viam a virtude como inteiramente
suficiente para alcançar a felicidade. Os cínicos clássicos seguiram esta filosofia a
ponto de negligenciarem tudo que não promovesse a perfeição da virtude e alcance da
felicidade, assim, o título cínico, deriva da palavra em grego κύων (significando "cão")
porque supostamente negligenciavam a sociedade, a higiene, a família, o dinheiro, etc,
de uma forma que lembra os cães. Eles procuraram libertar-se de convenções;
tornando-se autossuficientes - possuindo autarquia - e vivendo apenas de acordo com
a natureza. Eles rejeitavam todas as noções convencionais de felicidade que
envolvessem dinheiro, poder, ou fama a fim de viverem de forma virtuosa e, portanto,
feliz.

Os cínicos antigos rejeitavam os valores sociais convencionais e criticavam alguns tipos


de comportamentos, como a ganância, que era vista como causadora de sofrimento.
Uma maior ênfase sobre este aspecto de seus ensinamentos levou, ao final do século
72

18 e início do 19, à compreensão moderna de cinismo como "uma atitude de desdém


negativo ou cansado, especialmente uma desconfiança geral quanto à integridade ou
motivos professos dos outros." Esta definição moderna de cinismo está em contraste
marcante com a filosofia antiga, que destacou "a virtude e a liberdade moral na
libertação do desejo."

Filosofia

O cinismo é uma das filosofias mais marcantes de toda a filosofia helenística. O


cinismo oferecia às pessoas a possibilidade de felicidade e liberdade do sofrimento em
uma época de incertezas. Embora nunca tenha havido uma doutrina cínica oficial, os
princípios fundamentais do cinismo podem ser resumidos da seguinte forma:

O objetivo da vida é a eudaimonia (felicidade) e clareza ou lucidez (ἁτυφια) -


libertação da τύφος (nebulosidade) que significava ignorância, inconsciência,
insensatez e presunção.

A eudaimonia é alcançada ao se viver de acordo com a Physis (a natureza) como


entendida pelo Logos do ser humano.

τύφος (a arrogância) é causada por falsos julgamentos de valor, que causam


emoções negativas, desejos não naturais e um caráter vicioso.

A eudaimonia ou o desenvolvimento humano, dependem de auto-suficiência


(αὐτάρκεια), apatheia, arete, filantropia, paresia e indiferença para com as vicissitudes
da vida (ἁδιαφορία).

Evolui-se através de práticas ascéticas (ἄσκησις) que ajudam o indivíduo a tornar-se


livre de influências - tais como riqueza, fama ou poder - que não têm valor na
natureza. Exemplos incluem Diógenes de Sínope que vivia em um barril e andava
descalço no inverno.

Um cínico pratica o descaramento ou a desfaçatez (Αναιδεια) e desfigura o nomos


da sociedade; as leis, os costumes e convenções sociais que as pessoas aceitam como o
correto.

A sabedoria maior consistia na ação, não apenas no pensar.

Assim, um cínico não tinha bens e rejeitava todos os valores convencionais de


dinheiro, fama, poder ou reputação. Viver de acordo com a natureza requer apenas as
necessidades básicas para a existência e qualquer um pode tornar-se livre ao libertar-
se de todas as necessidades resultadas da convenção. Os cínicos adotaram Héracles
73

como seu herói e epítome do cínico ideal. De acordo com Luciano de Samósata,
Cérbero e o cínico certamente estão relacionados através do cão.

O modo de vida cínico exigia formação contínua, não apenas no exercício de


julgamentos e das impressões mentais, mas também treinamento físico: [nota 2]

Ele costumava afirmar que o treinamento era de dois tipos, mental e corporal: o
último dizendo que com o exercício constante, as percepções são formadas, tal como
assegura a liberdade para as ações virtuosas; e metade deste treinamento é
incompleto sem o outro, boa saúde e força estão entre as coisas essenciais, seja para o
corpo ou para a alma. E ele apresentava provas irrefutáveis para mostrar facilmente
que com a prática de ginástica chega-se até a virtude. Nos trabalhos manuais e outras
artes se pode ver que os artesãos desenvolvem habilidade manual extraordinária
através da prática. Mais uma vez, o caso dos tocadores de flauta e dos atletas: que
habilidade eles adquirem por sua própria labuta incessante; e, se eles tivessem
transferido seus esforços para o treinamento da mente, como em seus trabalhos não
teriam sido em vão ou ineficaz.

Nada disso significava que o cínico se afastava da sociedade. Os cínicos viviam sob o
olhar público e eram completamente indiferentes em face de qualquer insulto que
possam resultar de seu comportamento pouco convencional. Os cínicos dizem ter
inventado a ideia do cosmopolita: quando lhe foi perguntado de onde veio, Diógenes
respondeu que era "um cidadão do mundo", (kosmopolitês).[nota 3]

O ideal cínico era evangelizar; como o cão de guarda da humanidade, era seu trabalho
perseguir as pessoas sobre o erro de suas maneiras. O exemplo de vida do cínico (e o
uso da sátira mordaz cínica) expunha as pretensões que se colocam na raiz das
convenções cotidianas.

Embora o cinismo concentrou-se exclusivamente em ética, a filosofia cínica, teve um


grande impacto no mundo helenístico. Em última análise, tornou-se uma importante
influência para o estoicismo. O estoico Apolodoro de Selêucia escrevendo no século II
a.C., afirmou que o cinismo é o caminho curto para a virtude.

Influências

Vários filósofos, como os pitagóricos, defenderam a ideia de vida simples nos séculos
anteriores aos cínicos. No início do sexto século a.C., Anacársis, um sábio cito exortou
o modo de vida simples dos Citas enquanto fez críticas aos costumes gregos a uma
maneira que se tornaria o padrão entre os cínicos. [Nota 4] Talvez de importância
foram contos de filósofos da Índia que eram conhecidos por gregos posteriores como
os gimnosofistas, que adotaram um asceticismo rigoroso juntamente com um
desrespeito às leis e costumes estabelecidos. [Nota 5] Por volta do século 5 a.C., os
74

sofistas tinham começado um processo de questionamento sobre muitos aspectos da


sociedade grega, como a religião, a lei e a ética. No entanto, a influência mais imediata
para a escola cínica foi de Sócrates. Embora não fosse um asceta, ele professou amor
pela Virtude, indiferença para com a riqueza, e um desdém pela opinião geral.

O Cinismo foi grande influenciador do estoicismo.

A virtude moral - autarquia

Ao contrário da acepção moderna e vulgar da palavra para o cinismo, o objetivo


essencial da vida era a conquista da virtude moral, que somente seria obtida
eliminando-se da vontade de todo o supérfluo, tudo aquilo que fosse exterior.
Defendiam um retorno à vida da natureza, errante e instintiva, como a dos cães.

Afirmavam que dispunha o homem de tudo que necessitava para viver, independente
dos bens materiais. A isto chamavam de autarcia (ou a variante, porém com outra
acepção mais difundida, autarquia) - condição de auto-suficiência do sábio, a quem
basta ser virtuoso para ser feliz. O termo grego original é autárkeia - significando
autossuficiência. Além dos cínicos, foi uma proposição também defendida pelos
estoicos.

Desacreditavam as conquistas da civilização e suas estruturas jurídicas, religiosas e


sociais - elas não trariam qualquer benefício ao homem. Sendo autossuficiente, tudo
aquilo que naturalmente não é dado ao homem pelo nascimento (como o instinto) não
pode servir de base para a conceituação da ética. Este pensamento pode ser
encontrado no mito do bom selvagem, de Rousseau.

Pensamento

Sua filosofia partia do princípio de que a felicidade não depende de nada externo à
própria pessoa, ou seja, coisas materiais, reconhecimento alheio e mesmo a
preocupação com a saúde, o sofrimento e a morte, nada disso pode trazer a felicidade.
Segundo os cínicos, é justamente a libertação de todas essas coisas que pode trazer a
felicidade que, uma vez obtida, nunca mais poderia ser perdida.

Aliado ao discurso, também o modo de vida do cínico deveria ser conforme as ideias
defendidas. Para eles a virtude reside, sobretudo, na conduta moral do homem,
naquilo que lhe é intrínseco - e não nas conquistas materiais, na aparência exterior.
75

Os cínicos, assim como Sócrates, nada de escrito deixaram. O que se sabe sobre eles
foi narrado por outros, em geral, críticos de suas ideias.

O mais importante representante dessa corrente foi um discípulo de Antístenes


chamado Diógenes. Ele vivia dentro de um barril e possuía apenas sua túnica, um
cajado e um embornal de pão. Conta-se que um dia Alexandre Magno parou em frente
ao filósofo e ofereceu-lhe, como uma prova do respeito que nutria por ele, a realização
de um desejo, qualquer que fosse, caso tivesse algum. Diógenes respondeu: Desejo
apenas que te afastes do meu Sol. Essa resposta ilustra bem o pensamento cínico:
Diógenes não desejava nada a mais do que tinha e estava feliz assim (apenas, no
momento, gostaria que seu sol fosse desbloqueado).

O Sol também pode ser entendido como a Sabedoria ou a fonte do Conhecimento.


Platão usou a metáfora do sol em seu mito da caverna, significando a presença do
Conhecimento e da Verdade que ilumina. Assim, Diógenes, quando pede para
Alexandre Magno não se interpor entre ele e o Sol, aponta para o fato de que o
filósofo não necessita de nenhum poder situado entre ele e o Conhecimento.

Assim como a preocupação com o próprio sofrimento, a saúde, a morte e o sofrimento


dos outros também era algo do qual os cínicos desejavam libertar-se. Por isso que a
palavra cinismo adquiriu a conotação que tem hoje em dia, de indiferença e
insensibilidade ao sentir e ao sofrer dos outros.

Notas

(...) o cinismo tem sido um elemento importante no cristianismo desde os primeiros


dias.

Os estoicos aprovaram o ideal cínico de fortalecer o corpo: uma boa pessoa aceita
treinar seu corpo, a fim de torná-lo forte. Os cínicos aumentavam sua resistência ao se
exercitarem fisicamente e adotando um estilo de vida ascético.

Perguntado de onde ele veio, Diógenes de Sínope: Eu sou um cidadão do mundo.

Várias cartas de Anacársis elogiam a vida austera dos citos (...) o elogio à vida simples
está limitado apenas aos cínicos na antiguidade,

De Estrabão apredemos que estes "sofistas da Índia" eram bem parecidos com os
cínicos: eles vestiam pouca ou nenhuma roupa, recusavam todas as formas de luxo e
colocavam a natureza cima de todas as leis dos homens.
76

<< = = =

(3) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Círculo de Viena
Círculo de Viena. Associação fundada na década de 20 por um grupo de lógicos e
filósofos da ciência, tendo por objetivo fundamental chegar a uma unificação do saber
científico pela eliminação dos conceitos vazios de sentido e dos pseudoproblemas da
metafísica e pelo emprego do famoso critério da verificabilidade que distingue a ciência
(cujas proposições são verificáveis) da metafísica (cujas proposições inverificáveis
devem ser supressas). Ao recusar a introdução dos elementos sintéticos a priori no
conhecimento, o Círculo, liderado por Rudolf Carnap, visando eliminar definitivamente
a metafísica, prega que todos os enunciados científicos devem ser sempre a posteriori,
pois não são outra coisa senão simples constatações, ou seja, enunciados protocolares,
só tendo significado pelo conjunto lógico, isto é, pelo sistema de transformações
analíticas no qual se integram. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Civilização
Civilização. civilis, cidadão, civil. Etimologicamente o termo significa ação de civilizar,
de transmitir padrões de vida, reputados civis, por oposição a bárbaros, selvagens. O
termo passou, em seguida, a significar o conjunto de características das sociedades
julgadas mais evoluídas, pela superioridade de seu desenvolvimento científico e
tecnológico, e pelo caráter supostamente mais racional de sua organização social,
política e econômica. (1)

Civilização. Para o pensamento clássico, é fundamentalmente o conjunto de fenômenos


religiosos, intelectuais, políticos etc. e dos valores que a ele correspondem,
caracterizando as populações que participam da herança grego-romana e do
77

cristianismo. A civilização então se opõe, de maneira muito etnocêntrica, ao selvagem


ou à barbárie.

O pensamento moderno a princípio generalizou o conceito para aplicá-lo a todas as


sociedades. Fala-se a partir de então de "civilização amazônica" ou chinesa, assim como
de "civilização espanhola"; porém, sob a influência da antropologia anglo-saxônica o
termo é substituído neste sentido, na maioria dos casos, por cultura. (2)

(1) ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro:


M.E.C., 1967.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Clareza
Clareza. Aquilo que tem significado preciso, que é minimamente vago ou difuso. Para
uma ideia ser clara basta ser bem definida, tanto explicitamente como por meio de um
conjunto de postulados. A clareza é o primeiro requisito do discurso racional e uma
condição necessária para o diálogo civilizado e fecundo. Algumas ideias como as da
Sagrada Trindade, absoluto, contradição dialética, id e Dasein (estar-aí, existir), são
intrinsecamente não claras (obscuras). Outras são de início um tanto não claras, mas
gradualmente são elucidadas por meio de exemplificação, análise ou incorporação a
uma teoria. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Coerência
Coerência. Do latim cohaerere, estar junto, estar unido. Compatibilidade entre
elementos de um sistema, constituindo um todo integrado. A teoria da verdade como
coerência, ou teoria coerentista da verdade, sustenta que uma crença, proposição ou
juízos são verdadeiros enquanto pertencem a um sistema de crenças, proposições,
juízos, compatíveis entre si, preservando, portanto, a consistência e integridade do
sistema. (1)

Qualidade de um raciocínio ou de um texto no qual não se pode descobrir contradição.


(2)

Ordem, conexão, harmonia de um sistema de conhecimentos. Nesse sentido, Kant atribuía


aos conhecimentos a priori a função de dar ordem e coerência às representações
78

sensíveis... implica não só a ausência de contradição, mas a presença de conexões


positivas que estabeleçam harmonia entre os elementos do sistema. (3)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(3) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Cogito
Cogito. Do latim cogitare, cogitar, pensar; cogito, penso. 1. Para Descartes, o cogito
ergo sum ("penso, logo existo") é o primeiro princípio da filosofia, inaugurando uma
revolução que consiste em partir da presença do pensamento e não da presença do
mundo. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Coisa
Coisa. Tanto no discurso comum quanto no filosófico, esse termo tem dois significados
fundamentais: 1.º genérico, designando qualquer objeto ou termo, real ou irreal, mental
ou físico etc., de que, de um modo qualquer, se possa tratar; 2.º específico, denotando os
objetos naturais enquanto tais.

1) No primeiro significado, a palavra é um dos termos mais frequentes da linguagem


comum e também é amplamente empregada pelos filósofos. Coisa pode ser o termo de
um ato de pensamento ou de conhecimento, de imaginação ou de vontade, de
construção etc. Pode-se falar de uma coisa que existe na realidade como também de
uma coisa que está na imaginação, no coração, nos sentidos etc. Assim, pode-se dizer
que, nesta acepção, coisa significa um termo qualquer de um ato humano qualquer ou,
mais exatamente, qualquer objeto com que, de qualquer modo, se deva tratar. É o
significado contido na palavra grega pragma.

2) No seu significado mais restrito, a coisa é o objeto natural também chamado de


"corpo" ou "substância corpórea". O uso do termo nesse segundo significado é até certo
ponto recente. (1)
79

*. Esquema gráfico

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Compreensão
Compreensão. Do latim comprehensio, de comprehendere, entender, perceber. 1. Na
lógica clássica, a compreensão de um conceito é o conjunto dos caracteres que
permitem sua definição. Ex.: homem, animal racional. A compreensão de um conceito
varia na razão inversa de sua extensão. Quanto mais numerosos forem os caracteres da
definição, mais reduzida será a classe dos fenômenos.

2. Com a fenomenologia, a compreensão passa a ser definida como um mundo de


conhecimento predominantemente interpretativo, por oposição ao modo propriamente
científico, que é o da explicação. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
80

Computacionalismo
Computacionalismo. A tese que considera a mente uma coleção de programas de
computador. De maneira equivalente: a tese segundo a qual todas as operações mentais
são computações de conformidade com algoritmos. Esta tese escora o entusiasmo
acrítico em favor da inteligência artificial. Justamente por isso ela empobreceu a
psicologia e desorientou a filosofia da mente. De fato, levou a negligenciar processos
não-algorítmicos, tais como os da colocação de novos problemas e formação de novos
conceitos, hipóteses e regras (como os algoritmos). Além disso, reforçou o mito
idealista de que o estofo da mente é neutro, de forma que pode ser estudada de um modo
isolado tanto da neurociência quanto da psicologia social. Finalmente, ela cortou de
maneira artificial os liames entre inteligência e emoção — a despeito do fato bem
conhecido de que os órgãos correspondentes estão anatomicamente ligados. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Conceito
Conceito. A simples apreensão, que é a primeira operação do espírito, é o ato pelo qual
se capta, noeticamente, alguma coisa. E o que mente capta (de capio, ceptum, daí cum -
ceptum) é o conteúdo do conceito, que é construído na mente e expresso pela mente. (1)

Conceito. A definição de conceito como apreensão ou representação intelectual e


abstrata da quidade (essência) de um objeto. Pelo seu caráter representativo e abstrato, o
conceito opõe-se à percepção ou intuição imediata; enquanto intelectual, distingue-se de
toda a representação, meramente sensível. Por outro lado, limitando-se à simples
apreensão de uma essência, sem nada afirmar ou negar, constitui a forma mais simples e
elementar do pensamento. É frequente a identificação do conceito com ideia,
empregando-se indiscriminadamente um termo pelo outro. No entanto, ideia possui
originariamente o sentido mais determinado de forma exemplar, por vezes intuitiva, na
mente do artista. Outras expressões condenadas sinônimas têm sido utilizadas, como:
noção, intenção, verbo mental, espécie expressa, termo mental, mas todas elas se
revelam mais ou menos inadequadas por acentuam de preferência um ou outro aspecto
do conceito.

Relativamente ao termo, o conceito é aquilo que confere sentido a um vocábulo ou


conjunto de vocábulos. Chama-se compreensão do conceito ao conjunto de caracteres
ou notas representativas nele expressas. Extensão do conceito é o maior ou menor
número de objetos ou realidades a que o conceito se pode aplicar. Da comparação entre
extensão e compreensão vale o princípio: quanto maior a compreensão, menor é a
extensão, e inversamente. Ajuntando, por exemplo, à compreensão animal a nota
doméstica, aumenta a compreensão, mas diminui, por isso mesmo, a extensão, pois é
menor o número de animais domésticos do que o número de animais simplesmente. (4)

*. (30). Esquema Gráfico:


81

Conceitualismo. Existem conceitos abstratos, mas apenas na mente. (4)

(1) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo:
Matese, 1965.

(2) Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia.

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(4) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

Concepção
Concepção. Do latim conceptio. 1. Operação pela qual o sujeito forma, a partir de uma
experiência física, moral, psicológica ou social, a representação de um objeto de
pensamento ou conceito. O resultado dessa operação também é chamado de concepção,
praticamente sinônimo de teoria (ex.: concepção platônica do Estado, concepção liberal
da economia etc.).

2. Operação intelectual pela qual o entendimento forma um conceito (ex.: o conceito de


triângulo). (1)

Concepção. Em sentido genérico, designa um conjunto de conceitos ou ideias abstratas


organizadas logicamente num corpo doutrinal (concepção do mundo, do homem ou da
vida etc.). Em sentido rigoroso, significa a operação abstrativa, mediante a qual se
elaboram os conceitos. Dentro do esquema Aristotélico-Escolástico, a inteligência ativa
(intellectus agens) ilumina a imagem sensível do objeto de modo que a inteligência
82

passiva (intellectus possibilis) nela aprenda a quidade ou essência e, isolando-a do todo


conceito em que se encontra, a eleve a conceito. (2)

Concepcionismo. Doutrina que considera como objeto imediato da percepção, não o


mundo sensível em si mesmo, mas a sua concepção ou representação intelectual. (2)

Conceptualismo. É uma das soluções clássicas do problema dos universais. Sob a


designação genérica de conceptualismo, entendem-se todas as concepções antigas e
modernas que, embora admitindo a existência de conceitos universais, negam ou
comprometem o valor objetivo dos mesmos. (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia.

Conformismo
Conformismo. Adesão, sem verdadeiro exame, a valores ou princípios admitidos pela
maioria. É do ponto de vista moral que essa atitude é mais criticável, e já Sócrates
indica os seus limites. Operando uma distinção nítida entre o ato feito "por dever" e o
ato simplesmente "conforme ao dever", Kant mostrou definitivamente que o indivíduo
só tem acesso à existência moral autêntica renunciando à facilidade do conformismo.
(1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

O Conhecimento
Em que consiste o conhecimento

O ser humano tem necessidade de conhecer. Há uma exigência "física" de conhecimento,


derivada do fato de viver: é preciso conhecer a realidade, para se orientar, decidir e agir.
Mas existe também no ser humano uma exigência que já não é meramente de
sobrevivência, e que podemos qualificar de "exigência de verdade". Segundo Aristóteles,
"todos os homens, por natureza, desejam saber". Essa é sua dimensão teórica (teoriaquer
dizer "contemplação"), que o leva não apenas a conhecer, mas também a refletir sobre o
próprio conhecimento: sua origem, seus limites ou os critérios sobre nossas certezas. A
83

parte da filosofia que aborda o problema do conhecimento recebeu ao longo da história


diferentes nomes: teoria do conhecimento, gnosiologia, epistemologia etc.

A teoria do conhecimento é dividida em duas partes: uma que trata do conhecimento em


geral e outra que trata do conhecimento científico em particular.

Nosso conhecimento a respeito do mundo tem seu ponto de partida na informação que
nos chega por meio dos órgãos sensoriais. Mas o sujeito não se limita a receber
passivamente as sensações. A mente humana é ativa: processa, interpreta e coordena, e o
resultado dessa atividade é o conhecimento.

Conhecimento racional

A primeira forma histórica de explicação da realidade foi o mito. A esta sucedeu a forma
racional, que explica as coisas por elas mesmas, procurando as causas e as leis e
expressando-as por meio de conceitos. Há um tipo de conhecimento, o comum ou vulgar,
cujos conteúdos são superficiais, desconexos, dificilmente generalizáveis, e que não
podem explicar por que as coisas acontecem como acontecem. Esse tipo de conhecimento
não pode justificar seus conteúdos, mas tem a vantagem de que pode ser o ponto de partida
para outras formas de conhecer mais rigorosas - como, por exemplo, a ciência.

Conhecer é uma atividade mental por meio da qual o ser humano se apropria do mundo
ao seu redor. Essa apropriação consiste numa captação intelectual. O filósofo Xabier
Zubiri atribui três funções ao conhecimento: discernir o que é daquilo que não é, distinguir
a essência da aparência, o real do ilusório; definir, determinar e especificar o que são as
coisas, captando suas diferenças em relação às outras; e entender por que as coisas são
como são.

Conhecer, saber, pensar

A palavra "conhecer" é usada em dois sentidos diferentes: para se referir ao conhecimento


direto ou imediato (experiência direta das coisas ou fatos) e para se referir ao
conhecimento indireto ou mediato (conhecimento de juízos e proposições). Para esse
último tipo de conhecimento, costuma-se utilizar a palavra "saber", que implica dispor de
algumas razões que justifiquem o que se sabe. Por exemplo: dizemos "conheço Paris", se
estivemos fisicamente lá, mas podemos dizer "sei que Paris é a capital da França", embora
nunca tenhamos estado nela. Há casos em que os dois termos podem ser usados
indistintamente: assim, podemos dizer "conheço a fórmula química da água". É preciso
distinguir também entre conhecimento e pensamento. "Pensar" é examinar as ideias na
mente; é possível, portanto, pensar em algo sem conhecê-lo. No século XVIII, Kant
distinguiu entre "pensar" e "conhecer": "conhecemos" quando aplicamos um conceito a
uma intuição ocorrida na experiência; "pensamos" quando temos o conceito, mas não a
intuição sensível correspondente. Ou seja, o pensamento carece de objeto empírico.

Poder distinguir entre "conhecimento" e "pensamento" não implica que esse último não
tenha valor. O pensamento tem a função de permitir o avanço do conhecimento, guiá-lo
84

e abrir para ele novos campos de investigação. Mas é totalmente imprescindível saber em
que casos existe verdadeiro conhecimento (que não é necessariamente conhecimento
verdadeiro), para diferenciá-lo do que sejam suas hipóteses ou expectativas.

Objeto e sujeito do conhecimento

O conhecimento é uma forma de relação entre um sujeito e um objeto: nele, sempre existe
um objeto conhecido ou por conhecer, e um sujeito que conhece ou quer conhecer. No
conhecimento, o objeto se encontra presente de alguma forma no sujeito, mas não se trata
de uma presença direta e sim de uma representação: um determinado conteúdo mental
(pode ser percepção, conceito etc.) representa o objeto na mente do sujeito. A
representação é, portanto, imaterial, embora o objeto conhecido seja material. Quando
nós conhecemos as coisas, nós as possuímos de forma imaterial, não sensível.

A representação é sempre a representação que tem um sujeito. É ele que realiza toda a
atividade cognoscitiva, mas o representado é o objeto. O conhecimento é intencional:
refere-se a um objeto exterior à própria representação e ao sujeito que a tem. O objeto do
conhecimento são as próprias coisas, e não sua representação, mas conhecemos coisas tal
como as representamos.

Na simples formulação dos dois fatores que intervêm em todo conhecimento - objeto e
sujeito -, já estão implícitos grandes problemas. Por exemplo: como o material-sensível
chega a ser possuído mentalmente de forma imaterial-não sensível? Ou: em que medida
as representações que o sujeito tem sobre as coisas se ajustam ao que as coisas realmente
são?

Temática Barsa - Filosofia (cópia)


a O Conhecimento
Em que consiste o conhecimento

O ser humano tem necessidade de conhecer. Há uma exigência "física" de conhecimento,


derivada do fato de viver: é preciso conhecer a realidade, para se orientar, decidir e agir.
Mas existe também no ser humano uma exigência que já não é meramente de
sobrevivência, e que podemos qualificar de "exigência de verdade". Segundo Aristóteles,
"todos os homens, por natureza, desejam saber". Essa é sua dimensão teórica (teoriaquer
dizer "contemplação"), que o leva não apenas a conhecer, mas também a refletir sobre o
próprio conhecimento: sua origem, seus limites ou os critérios sobre nossas certezas. A
parte da filosofia que aborda o problema do conhecimento recebeu ao longo da história
diferentes nomes: teoria do conhecimento, gnosiologia, epistemologia etc.

A teoria do conhecimento é dividida em duas partes: uma que trata do conhecimento em


geral e outra que trata do conhecimento científico em particular.

Nosso conhecimento a respeito do mundo tem seu ponto de partida na informação que
nos chega por meio dos órgãos sensoriais. Mas o sujeito não se limita a receber
passivamente as sensações. A mente humana é ativa: processa, interpreta e coordena, e o
resultado dessa atividade é o conhecimento.
85

Conhecimento racional

A primeira forma histórica de explicação da realidade foi o mito. A esta sucedeu a forma
racional, que explica as coisas por elas mesmas, procurando as causas e as leis e
expressando-as por meio de conceitos. Há um tipo de conhecimento, o comum ou vulgar,
cujos conteúdos são superficiais, desconexos, dificilmente generalizáveis, e que não
podem explicar por que as coisas acontecem como acontecem. Esse tipo de conhecimento
não pode justificar seus conteúdos, mas tem a vantagem de que pode ser o ponto de partida
para outras formas de conhecer mais rigorosas - como, por exemplo, a ciência.

Conhecer é uma atividade mental por meio da qual o ser humano se apropria do mundo
ao seu redor. Essa apropriação consiste numa captação intelectual. O filósofo Xabier
Zubiri atribui três funções ao conhecimento: discernir o que é daquilo que não é, distinguir
a essência da aparência, o real do ilusório; definir, determinar e especificar o que são as
coisas, captando suas diferenças em relação às outras; e entender por que as coisas são
como são.

Conhecer, saber, pensar

A palavra "conhecer" é usada em dois sentidos diferentes: para se referir ao conhecimento


direto ou imediato (experiência direta das coisas ou fatos) e para se referir ao
conhecimento indireto ou mediato (conhecimento de juízos e proposições). Para esse
último tipo de conhecimento, costuma-se utilizar a palavra "saber", que implica dispor de
algumas razões que justifiquem o que se sabe. Por exemplo: dizemos "conheço Paris", se
estivemos fisicamente lá, mas podemos dizer "sei que Paris é a capital da França", embora
nunca tenhamos estado nela. Há casos em que os dois termos podem ser usados
indistintamente: assim, podemos dizer "conheço a fórmula química da água". É preciso
distinguir também entre conhecimento e pensamento. "Pensar" é examinar as ideias na
mente; é possível, portanto, pensar em algo sem conhecê-lo. No século XVIII, Kant
distinguiu entre "pensar" e "conhecer": "conhecemos" quando aplicamos um conceito a
uma intuição ocorrida na experiência; "pensamos" quando temos o conceito, mas não a
intuição sensível correspondente. Ou seja, o pensamento carece de objeto empírico.

Poder distinguir entre "conhecimento" e "pensamento" não implica que esse último não
tenha valor. O pensamento tem a função de permitir o avanço do conhecimento, guiá-lo
e abrir para ele novos campos de investigação. Mas é totalmente imprescindível saber em
que casos existe verdadeiro conhecimento (que não é necessariamente conhecimento
verdadeiro), para diferenciá-lo do que sejam sua hipóteses ou expectativas.

Objeto e sujeito do conhecimento

O conhecimento é uma forma de relação entre um sujeito e um objeto: nele, sempre existe
um objeto conhecido ou por conhecer, e um sujeito que conhece ou quer conhecer. No
conhecimento, o objeto se encontra presente de alguma forma no sujeito, mas não se trata
86

de uma presença direta e sim de uma representação: um determinado conteúdo mental


(pode ser percepção, conceito etc.) representa o objeto na mente do sujeito. A
representação é, portanto, imaterial, embora o objeto conhecido seja material. Quando
nós conhecemos as coisas, nós as possuímos de forma imaterial, não sensível.

A representação é sempre a representação que tem um sujeito. É ele que realiza toda a
atividade cognoscitiva, mas o representado é o objeto. O conhecimento é intencional:
refere-se a um objeto exterior à própria representação e ao sujeito que a tem. O objeto do
conhecimento são as próprias coisas, e não sua representação, mas conhecemos coisas tal
como as representamos.

Na simples formulação dos dois fatores que intervêm em todo conhecimento - objeto e
sujeito -, já estão implícitos grandes problemas. Por exemplo: como o material-sensível
chega a ser possuído mentalmente de forma imaterial-não sensível? Ou: em que medida
as representações que o sujeito tem sobre as coisas se ajustam ao que as coisas realmente
são?

A experiência sensível - aquilo que captamos das coisas por meio dos nossos sentidos -
é o que está na origem de nossos conhecimentos. Nas palavras de Kant, "não há dúvida
de que todo o nosso conhecimento começa com a experiência". Mas, como o próprio
Kant acrescenta a seguir, "ainda que nosso conhecimento comece com a experiência,
nem por isso ele procede inteiramente da experiência". Conhecer algo não consiste
simplesmente em "vê-lo", captá-lo pelos sentidos. Só conhecemos quando o
identificamos como determinado objeto ou como determinado outro (como um "cão" ou
um "pôr-do-sol"). Essa identificação é possível graças ao conceito, que é o resultado de
outro tipo de operação, já não meramente sensível, mas intelectível.

Esse tipo de conhecimento se chama conhecimento empírico ou experiência. O termo


"experiência" deriva do latim experientia ("ensaio", "prova") e é o equivalente do grego
empeiria. A psicologia atual prefere usar o termo "percepção".

&&&&&&

Os Processos do Conhecimento

A experiência sensível - aquilo que captamos das coisas por meio dos nossos sentidos -
é o que está na origem de nossos conhecimentos. Nas palavras de Kant, "não há dúvida
de que todo o nosso conhecimento começa com a experiência". Mas, como o próprio
Kant acrescenta a seguir, "ainda que nosso conhecimento comece com a experiência,
nem por isso ele procede inteiramente da experiência". Conhecer algo não consiste
simplesmente em "vê-lo", captá-lo pelos sentidos. Só conhecemos quando o
identificamos como determinado objeto ou como determinado outro (como um "cão" ou
um "pôr-do-sol"). Essa identificação é possível graças ao conceito, que é o resultado de
outro tipo de operação, já não meramente sensível, mas intelectível.

Esse tipo de conhecimento se chama conhecimento empírico ou experiência. O termo


"experiência" deriva do latim experientia ("ensaio", "prova") e é o equivalente do grego
empeiria. A psicologia atual prefere usar o termo "percepção".

A sensação
87

Por intermédio de nossos órgãos dos sentidos, recebemos informação do mundo que nos
rodeia. Os estímulos que nos chegam do exterior incidem sobre os nossos sentidos e
provocam determinadas alterações de caráter físico ou químico. Os sentidos transmitem
uma corrente nervosa ao cérebro e provocam nela uma reação. O resultado são as
sensações, a captação de determinadas qualidades sensíveis ou dados sensoriais. Os
objetos físicos ou sensíveis vão sendo "transformados" em qualidades psíquicas, que já
não são físicas, pelo próprio sujeito que as recebe. Em virtude desse processo, vemos
cores, ouvimos sons, captamos diversos cheiros, sentimos frio ou calor, suavidade ou
dureza etc.

Cada espécie animal possui alguns órgãos constituídos de tal maneira que podem captar
determinadas qualidades sensíveis, enquanto permanecem totalmente insensíveis a
outras. A retina do olho só pode captar impressões luminosas cujo comprimento de
onda esteja numa determinada faixa, que no caso dos humanos representa 1/70 do total
do espectro da luz solar. Assim, não vemos os raios infravermelhos nem podemos ter
uma ideia de como representaríamos o mundo físico caso pudéssemos vê-los. Os
morcegos são capazes de perceber certos sons que para os ouvidos humanos são
inaudíveis. Cada espécie animal percebe um mundo diferente, do qual capta o
necessário para sobreviver. O mundo dos humanos é um deles.

Tradicionalmente, diferenciam-se cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato.


De todos, o tato mé o mais complexo, porque por ele recebemos as impressões de peso,
de pressão, de frio-calor, de dor etc. Mas o sentido mais considerado, devido a sua
possibilidades cognitivas, é a visão: sempre se supôs que ela é o sentido que permite
obter uma informação mais completa do objeto. Termos como, por exemplo, "teoria"
(contemplação) derivam do privilégio concedido à visão, ou à "ideia" platônica (em
grego eidos: o visível aos olhos da alma).

Percepção

As sensações constituem o material básico de nossa experiência dos objetos, mas é um


fato indubitável que não captamos qualidades isoladas. Quando pegamos uma maçã de
uma fruteira, não captamos apenas uma mancha de cores vermelha ou verde, um
determinado cheiro, e uma certa textura ou dureza. Captamos um objeto único: uma
maçã. É a isso que se chama propriamente de percepção. O que os órgãos sensoriais
captam é a sensação, enquanto que a percepção é uma atividade pela qual o sujeito capta
totalidades que têm um significado para ele.

A percepção não é uma simples soma de sensações. É o resultado de uma complexa


operação pela qual recebemos as sensações, selecionamos delas as que nos parecem
mais significativas, reunimos-las num conjunto, relacionamo-las com outras percepções
armazenadas em nossa memória, identificamo-las como formas perceptuais
determinadas e, finalmente, atribuímos-lhes um nome. O resultado desse processo é um
determinado conhecimento do mundo - como pode ser, por exemplo, o de que existe
uma maçã sobre a mesa.

Na percepção não intervêm, portanto, apenas os sentidos (o que já não é verdade nem
sequer nas sensações), nem tampouco se explica pela intervenção do sistema nervoso.
88

Trata-se de uma operação ativa, na qual o sujeito não se limita a registrar passivamente
os dados sensoriais. O sujeito "constrói" o objeto quando seleciona, organiza ou
interpreta os dados sensoriais. Isto ocorre em todos os casos, mas é mais evidente
quando somos capazes de identificar um objeto percebendo simplesmente um traço
pequeno e característico. A percepção é, portanto, uma atividade construtiva.

É preciso destacar algumas características da percepção. Por exemplo:

— A percepção é uma atividade mediatizada. Não percebemos as coisas diretamente,


mas mediatizadas por nosso aparelho sensorial e por nossas experiências anteriores.

— A percepção é uma atividade classificatória. Ao perceber uma maçã, nós a


percebemos como pertencente à classe das maçãs e a distinguimos de outros objetos que
pertencem a outras classes.

— A percepção é seletiva. Habitualmente, recebemos múltiplos estímulos, mas nem


todos solicitam nossa atenção da mesma forma. A atenção faz com que determinados
estímulos se destaquem sobre os demais, que ficam relegados a um segundo plano sem
chegar a se constituir em objetos de percepção. A atenção é, portanto, seletiva. O que
determina a atenção é, fundamentalmente, o interesse do sujeito. No caso dos animais,
trata-se de interesses puramente biológicos; mas no caso do homem trata-se, além disso,
de interesses culturais.

Os interesses individuais fazem com que o sujeito da percepção repare em determinados


detalhes que para outro sujeito podem passar despercebidos. Por exemplo, um amante
dos cavalos percebe mais detalhes de um cavalo do que a maioria das pessoas. As
diferenças entre culturas distintas trazem às vezes consigo diferenças de interesses que
também influenciam na maneira de perceber os objetos. Os esquimós, por exemplo,
percebem muitos matizes de branco, o que obedece evidentemente a um interesse de
sobrevivência na neve.

A percepção e o conceito

A percepção implica a identificação, o reconhecimento de um conjunto de sensações


como algo determinado:como uma maçã, como uma árvore etc. "Maçã" e "árvore" são
conceitos. Na percepção intervêm, portanto, conceitos, mas isso não significa que sejam
a mesma coisa. O conhecimento completo requer tanto a percepção quanto o conceito.

A percepção capta objetos singulares: esse cavalo, aquela maçã, com as características
particulares que as diferenciam de outros cavalos e outras maçãs. No entanto, quando
dizemos de cada um deles que é um cavalo ou uma maçã, estamos expressando algo que
vale para todo cavalo e toda maçã. O conteúdo do conceito é, portanto, uma
representação universal, aplicável a todos os objetos que possuam determinadas
características. Os objetos singulares que percebemos são um caso particular daquilo
representado no conceito.
89

Compreensão e extensão do conceito

Em todo conceito, podem-se distinguir dois aspectos: a compreensão (também chamada


de "conotação" ou "intenção"), que é o conjunto de indivíduos aos quais o conceito é
aplicável. Por exemplo, a compreensão do conceito "ser humano" seria "animal
racional"; a extensão seria o conjunto dos seres humanos. Nem todos os conceitos têm a
mesma extensão: existem os mais extensos e os menos extensos. O conceito "animal" é
mais extenso do que o conceito "ser humano", já que, além de se aplicar aos homens,
aplica-se a outros indivíduos.

Entre compreensão e extensão, ocorre uma regra de relação inversa: quanto maior é a
extensão, menor é a compreensão. Se aos elementos que constituem o conceito "animal"
acrescentamos um traço, o de "ser racional", a compreensão terá aumentado (até chegar
ao conceito de ser humano), mas a extensão terá diminuído, uma vez que o novo
conceito já não será aplicável a todos os animais, mas somente aos animais racionais.
Ao suprimir elementos de um conceito, sua extensão se amplia; ao lhe acrescentar
novos elementos, sua extensão se reduz. Quanto mais extenso é um conceito, mais
indeterminado; quanto menos extenso, menos indeterminado. De acordo com essa lei, é
possível organizar hierarquicamente os conceitos dentro de um gênero.

Podemos pensar que, se um conceito tivesse extensão igual a 1, quer dizer, se o conceito
só fosse aplicável a um indivíduo, a compreensão seria infinita. Isso quer dizer que, para
definir o conceito de um indivíduo, em sua total singularidade, deveríamos dar infinitos
elementos sobre ele, quer dizer, a compreensão do conceito deveria incluir todas as
características desse indivíduo — o que é de fato impossível. Isso coloca o problema da
relação entre o singular (o objeto concreto) e o universal (o conceito): embora o que
exista sejam indivíduos totalmente singulares, esses só podem ser conhecidos como
particularidades do universal, mas não podem ser conhecidos em sua plena
singularidade.

As palavras e os conceitos

Os conceitos se expressam na linguagem, nas palavras que compõem o vocabulário de


uma língua.

As palavras, como já vimos, são signos linguísticos, e representam a união de um


significante e um significado. Por meio deste, a palavra remete a um referente. Por outro
lado, sabemos que os conceitos têm compreensão e extensão. Pois bem: o significado da
palavra corresponde à compreensão, enquanto o referente corresponde à extensão do
conceito.

Utilização dos conceitos

Os conceitos permitem, em primeiro lugar e fundamentalmente, a compreensão da


realidade, e com isso a capacidade de se orientar nela. Os conceitos nos permitem
classificar os objetos, enquadrando-os em nossa experiência anterior do mundo. Graças
90

aos conceitos, podemos reconhecer os objetos que percebemos como uma coisa
determinada - como uma árvore, uma maçã etc. Por outro lado, a natureza inteligível
dos conceitos permite um conhecimento mais amplo e mais complexo do que o recebido
pelos sentidos. Por isso, é possível fazer ciência, já que os conceitos permitem abordar a
realidade com um elevado grau de abstração, e não simplesmente com o caráter
concreto com que ela se apresenta na percepção.

O conhecimento conceitual da realidade nos permite ter expectativas sobre ela, na


medida em que a compreendemos. Dessa maneira, as coisas já não são algo que escapa
totalmente a nosso controle: é possível estabelecer estratégias de comportamento.

&&&&&

Origens e limites do conhecimento

Como a questão é conhecer a realidade, parece que só a experiência pode nos permitir
chegar até ela. Segundo essa concepção, conhecida como "empirismo", a origem de
nosso conhecimento é a experiência. No entanto, esse conceito fundamental tão
irrefutável e próximo do senso comum foi muito discutido ao longo da história da
filosofia. O "racionalismo", a concepção oposta a esta, considera que a experiência por
si só não pode nos proporcionar algo de natureza tão complexa e diferente da simples
sensação como é o conhecimento racional.

O problema da origem do conhecimento está profundamente ligado ao problema de seus


limites, e é também a experiência que articula todas as respostas — não importa se
nossos conhecimentos procedem ou não dela. Será possível conhecer para além da
experiência?

Empirismo

Os empiristas acham que a mente do ser humano, quando ele nasce, é como uma lousa
onde não há nada escrito. Tudo aquilo que o ser humano for conhecendo será
proporcionado pela experiência. Essa é a formulação básica de toda concepção
empirista, e foi assinalada por numerosos filósofos ao longo da história (os sofistas,
Aristóteles, Santo Tomás de Aquino etc.). Porém a formulação mais radical fica por
conta do empirismo dos séculos XVII e XVIII: o conhecimento não só procede da
experiência, mas está limitada a ela. Não podemos ir além do que a experiência nos
mostra, e ficam fora dela realidades como Deus, mas também nosso próprio eu e o
princípio de causalidade, sobre o qual se apoia toda a ciência empírica. Nem sequer
podemos afirmar com total segurança que existam fora de nossa mente os objetos que
produzem nossas sensações; só temos experiência de nossas sensações (a chamada
"experiência exterior") ou de nosso próprios atos metais — como, por exemplo,
duvidar, pensar, desejar, temer, odiar etc. ("experiência interior").

Os empiristas defendem uma teoria conhecida como nominalismo. Segundo essa


teoria— que já tinha sido defendida por filósofos medievais, como Guilherme de
Occam — todas as nossas ideias ou conceitos são apenas percepções ou imagens
singulares. O único Universal são as palavras, os nomes (nomina, em latim, de onde
91

provém "nominalismo"), e representam na mente um conjunto de percepções ou


imagens particulares semelhantes. Por razões de economia, a mente acaba dispensando
as imagens singulares e por isso utilizam simplesmente a palavra que as designa.

Racionalismo

A formulação clássica do racionalismo é a dos filósofos do século XVII — sobretudo


Descartes e Leibniz —, embora Parmênides e Platão também possam ser considerados
racionalistas. O racionalismo não nega que a experiência proporcione um conhecimento
muito útil para a vida prática, mas denuncia a insuficiência e a ineficácia dos sentidos
para nos proporcionar um conhecimento autêntico, "científico". Por isso, a única origem
possível do conhecimento é a razão, não a experiência.

Para o racionalismo, a realidade é percebida confusamente na experiência, e, no entanto,


quando a compreendemos intelectualmente, temos então um conhecimento "claro e
distinto" segundo as palavras de Descartes. Além disso, os sentidos podem nos enganar,
proporcionando-nos um conhecimento meramente ilusório. Por outro lado, as sensações
e as percepções só proporcionam um conhecimento particular e contingente: dizem-nos
o que de fato ocorre para os casos particulares de que tivemos a experiência, mas não
nos dizem que não pode ser de outra maneira, que necessariamente tem de ser assim
para todos os casos. O conhecimento autêntico deve ter validade universal e necessária,
e isto somente a razão proporciona. A razão é dotada de ideias inatas, alguns princípios
evidentes não adquiridos que server de fundamento para o resto dos conhecimentos. O
inatismo dos conceitos é a forma de justificar a possibilidade do conhecimento: se os
sentidos não nos permitem conhecer, a possibilidade do conhecimento deve estar no
próprio sujeito, na medida em que esse possua esses conceitos de forma inata.

Todo o conhecimento da realidade consiste num desdobramento dos conteúdos da


própria razão, e se isso é possível é porque o racionalismo pressupõe que a estrutura da
razão é também a estrutura da própria realidade.

O racionalismo não reconhece limites para a razão. Esta pode ir mais além da
experiência — embora, certamente, seu poder não seja ilimitado, uma vez que o ser
humano é algo finito.

Apriorismo

Segundo Kant, filósofo alemão do século XVIII, a quem se deve essa concepção, o
conhecimento não pode prescindir da experiência. Ela lhe proporciona a "matéria": as
sensações. O conhecimento começa com a experiência, mas nem todo o conhecimento
provém dela: a razão, estimulada pelas impressões sensíveis, acrescenta algo, dá a
"forma" do conhecimento. O conhecimento é a união de matéria (proporcionada pela
experiência) e forma (trazida pela sensibilidade e pelo entendimento, as duas faculdades
que intervêm no processo cognoscitivo). A matéria é a posteriori e a forma é a priori. O
conhecimento é sempre construção, já que a razão organiza os dados da experiência.
92

O apriorismo não é inatismo, uma vez que a razão é a forma organizadora do conteúdo
que a experiência lhe proporciona, mas ela por si mesma não proporciona
conhecimento. Por outro lado, a ação dos elementos a priori é o que outorga ao
conhecimento seu caráter universal necessário, que a experiência por si só é incapaz de
proporcionar. Existe, portanto, uma conciliação das teses empiristas e racionalistas.
Assim, reconhece um papel fundamental à razão, tal como o racionalismo sustentava;
mas esta só tem valor cognoscitivo em relação àquilo que a experiência lhe proporciona.

No que diz respeito aos limites do conhecimento, para Kant é evidente que ele não pode
ir além da experiência, e com isso todo o conhecimento metafísico fica sem fundamento
e sem validade. (1)

&&&&&

Verdade e certeza

O interesse da filosofia não se concentra apenas no processo de conhecimento e no


papel que a percepção e o conceito desempenham nele. Um dos temas que mais a
preocupam é o de como podemos estar seguros de que conhecemos. Perguntas como "O
que é a verdade?", "É possível alcançar um conhecimento verdadeiro?", "Existe a
realidade à margem daquilo que conhecemos sobre ela?", "É possível conhecer algo?"
tem sido objeto de reflexão, mas não foi possível chegar a nenhuma resposta definitiva.
Verdade e certeza são dois conceitos-chave nesse contexto de problemas. A partir da
perspectiva do objeto que se pretende conhecer, falamos da verdade (de conhecimento
verdadeiro ou falso); a partir da perspectiva do sujeito que conhece, falamos dos
diferentes graus de certeza ou segurança que acompanham esse conhecimento.

Aparência e realidade

Uma das primeiras perguntas que a filosofia se faz é se as coisas são exatamente como
parecem. Perguntar-se sobre isto equivale a se perguntar se o aspecto das coisas
corresponde ao que elas efetivamente são. Essa formulação pressupõe a existência de
uma dualidade: a aparência das coisas e sua verdadeira realidade. A palavra "aparência"
está relacionada etimologicamente com o verbo aparecer, mas também é usada para
indicar que algo não é o que parece - nesse casso, a palavra "aparência" está relacionada
com o verbo "parecer". Nesse último sentido, pressupõe-se a existência de um engano
da aparência, de uma ocultação da realidade por trás da aparência. Frequentemente, os
dois sentidos da palavra se superpõem: o aparecer das coisas é percebido como
enganoso e procura-se descobrir sua verdadeira realidade. Nossa própria experiência
comum - e não exclusivamente a filosófica ou científica - conduz-nos a essa reflexão: o
bastão na água "parece" torto, o Sol "parece" bastante pequeno, a água e o gelo
"parecem" coisas diferentes etc. Em qualquer dos casos, falar de aparência implica
sempre remeter a algo diferente dela mesma - a realidade, aquilo de que é a aparência,
algo com o qual mantém uma relação que é preciso elucidar. Uma forma de abordar
essa relação é a partir do ponto de vista epistemológico (do grego episteme,
"conhecimento": a epistemologia é uma disciplina filosófica cujo objeto é o
conhecimento), e a esse respeito o problema seria sobretudo o do valor cognoscitivo da
percepção. A aparência é o aspecto das coisas quando as percebemos. Se supomos que
93

mais além da aparência existe a autêntica realidade, esta não poderá ser captada pelos
sentidos, mas conhecida apenas pelo entendimento ou pela razão. Justo com a diferença
entre aparência e realidade, surge portanto uma distinção entre duas maneiras de
conhecer: a sensível e a inteligível.

Existe outra maneira de abordar o problema que não é estritamente epistemológico, mas
também ontológico (do grego on, ontos, "aquilo que é": a ontologia é uma disciplina
filosófica cujo objeto é o ser, a realidade). Aqui a questão é saber se o que aparece (a
aparência) é a própria realidade ou se, pelo contrário, a realidade se oculta por trás dessa
aparência - sendo necessário, portanto, outro tipo de conhecimento. Os dois problemas -
o ontológico e o epistemológico - estão, portanto, estreitamente ligados.

A verdade

O problema da relação entre aparência e realidade traz atrelado um outro problema: o da


verdade. Distinguimos entre aparência e realidade porque pretendemos conhecer o que
as coisas efetivamente são, mais além de sua aparência; pretendemos, por isso mesmo,
que nosso conhecimento seja verdadeiro. Existe, portanto, uma verdade ontológica,
referente às próprias coisas, e uma verdade epistemológica, referente a nosso
conhecimento sobre elas.

Os primeiros filósofos conceberam o acesso à verdadeira realidade (verdade ontológica)


como um modo de "descobri-la": trata-se de tirar o véu das aparências para deixar que a
verdade emerja por si mesma. Isso é justamente o que significa a palavra grega alethéia
- verdade -, que provém de uma forma do verbo lanthano, que significa "permanecer
oculto", mais a partícula a de negação. "Verdade" quer dizer, portanto, "desocultação",
"desvelamento". No sentido ontológico, a verdade é entendida como autenticidade, e
seu contrário - inautenticidade - é a aparência.

No entanto, o significado mais habitual da palavra "verdade" é o que se refere a nosso


conhecimento: já que todo conhecimento se expressa em proposições, falar de
"verdade" é falar da verdade das proposições.

A verdade formal e a verdade fáctica

Uma proposição é uma ideia ou pensamento que afirma ou nega alguma coisa.
Dependendo dos tipos de proposições, podemos distinguir entre dois tipos de verdade: a
fáctica e a formal.

As verdades formais (Leibniz as chama de "verdades de razão" e Kant de "juízos


analíticos a priori") são proposições analíticas: necessariamente verdadeiras (é
impossível que sejam falsas) em virtude do significado outorgado a seus termos. É
contraditório, e não simplesmente falso negar uma proposição analítica verdadeira. A
verdade dessas proposições não depende da experiência. Sua estrutura é "A é A", ou
então podem ser deduzidas logicamente de proposições que têm essa estrutura. Um
exemplo desse tipo de proposição é: "O triângulo é uma figura que tem três lados". São
94

desse tipo as proposições da lógica e das matemáticas, as chamadas ciências formais. E


também proposições puramente verbais, como "todo solteiro é um não-casado".

As verdades de fato (Leibniz as chama de "verdades de fato" e Kant de "juízos


sintéticos a posteriori") são proposições sintéticas: são informativas, mas não
necessariamente verdadeiras e sua negação não implica uma contradição, já que a
relação entre sujeito e predicado não é necessária. Ou seja, analisando o sujeito não
obtemos necessariamente o predicado. Por exemplo: "os planetas giram ao redor do
Sol". A verdade dessas proposições depende da experiência, dos fatos - daí o seu nome
de fáticas. Uma vez que as verdades formais são necessariamente verdadeiras ou
contraditórias, o problema da verdade se coloca em relação às verdades fácticas: como
podemos saber se uma proposição é verdadeira?

Teorias sobre a verdade: a verdade como correspondência

A teoria clássica sobre a verdade é a teoria da correspondência: uma proposição é


verdadeira se corresponde ou se adapta à realidade — quer dizer, quando descreve um
estado de coisas que ocorre na realidade. A proposição "A neve é branca" é verdadeira
porque corresponde aos fatos; por outro lado, a proposição "A Lua não gira ao redor da
Terra" é falsa porque não corresponde aos fatos.

A teoria da correspondência parece ser uma exigência do senso comum, mas formula
problemas importantes. A proposição expressa um juízo ou conteúdo mental sobre a
realidade. Conforme vimos anteriormente, trata-se de uma representação sobre a
realidade — não sendo, portanto, a própria realidade. Para saber se o que está em nossa
mente "corresponde" ao que está fora dela, deveríamos sair de nós mesmos e comparar
nossa representação da coisa com a própria coisa, o que é totalmente impossível.

Dadas as dificuldades que essa teoria apresenta, criaram-se outras concepções sobre a
verdade. No entanto, na maioria dos casos, essas concepções alternativas não
questionam que a verdade consiste na correspondência com a realidade: o que elas
questionam de fato é o critério para se decidir quando uma proposição é verdadeira.

A verdade como coerência

Essa teoria sustenta que uma proposição é verdadeira se é coerente (ou consistente) com
o resto das proposições de que faz parte. "Coerência" significa que a proposição em
questão não se contradiz com o conjunto de proposições, quer dizer, que é logicamente
compatível com o sistema a que pertence. A verdade é o resultado de uma relação entre
proposições, e não de uma relação entre duas coisas de naturezas diferentes: as
proposições e a realidade.

Essa concepção da verdade pode ser aplicada tanto às proposições fácticas quanto às
proposições das ciências formais. Por exemplo: a afirmação "os duendes da floresta
cantam pela manhã", que na aparência se refere a fatos observáveis, não é coerente com
o resto das proposições científicas — e, portanto, podemos afirmar que é falso. A
95

proposição "dois mais dois são quatro", que é a expressão de uma operação matemática,
é verdadeira, pois faz parte do cálculo dos números naturais.

Um dos problemas que apresenta essa teoria é que ela permite saber se uma proposição
é verdadeira — se é coerente com o conjunto —, mas não permite decidir se o conjunto
a que pertence é verdadeiro ou não.

A verdade como evidência

A palavra "evidência" provém do latim evidentia, ae, que significa clareza,


transparência, visibilidade. Evidente, portanto, é aquilo que se vê claramente. Quando
alguma coisa nos parece evidente, nós a aceitamos como verdadeira. A evidência exige
a presença imediata do objeto, que pode ser uma coisa: "A evidência é a presença para a
consciência do objeto em pessoa. Uma evidência é uma presença", nas palavras de
Sartre. Mas também pode ser uma ideia — essa é, por exemplo, a concepção de
Descartes. Para esse pensador, as ideias evidentes, quer dizer, as ideias que minha razão
vê com clareza, as ideias que estão fora de qualquer dúvida, são ideias verdadeiras: a
evidência das ideias que provêm dos sentidos não tem o mesmo valor cognoscitivo.

A verdade como utilidade

Segundo essa teoria, uma proposição é verdadeira se é útil ou eficaz na prática. Essa
teoria não está em desacordo com a verdade como correspondência, mas entende a
adequação, não como a adequação entre a cópia ou representação e a realidade, mas
como adequação a um objetivo: uma proposição é verdadeira se é útil ou eficaz com
vista à obtenção de algum fim. Os defensores dessa teoria são os pragmatistas
principalmente William James (1842-1910) e Charles S. Peirce (1839-1914). No fundo
dessa concepção, está presente a ideia de que o ser humano é um ser que age e que,
portanto, tem fins e objetivos e meios ou métodos para poder atingi-los.

Os filósofos pragmatistas não querem afirmar que qualquer proposição que nos seja
benéfica é verdadeira — só o será caso se ajuste aos acontecimentos. A utilidade pode
apenas decidir sobre a verdade provisória de uma proposição; se, no futuro, encontra-se
uma explicação mais satisfatória, a proposição anterior terá deixado de ser útil e,
portanto, verdadeiro. Por outro lado, segundo essa teoria da utilidade, só podemos
estabelecer a verdade de uma proposição se verificarmos efetivamente os fatos,
exigência que não ocorre na teoria da correspondência, em que uma proposição pode ser
verdadeira ainda que não a tenhamos comprovado.

A verdade como consenso

Esta teoria sustenta que é verdadeira aquela proposição que reflete o consenso, o acordo
a que chegaram determinados interlocutores. Essa teoria é fundada sobre a reflexão de
que a verdade não pode ser um fato privado do sujeito que chegou a ela, mas que
96

precisa ser comunicada e compartilhada por todos — quer dizer, intersubjetiva. No caso
dos problemas da ciência, o consenso deve ser atingido pela comunidade científica.

Atualmente, a concepção da verdade como consenso é defendida por K. O. Appel e J.


Habermas, para quem o acordo a que os interlocutores devem chegar tem de ser
produzido em algumas condições ideais de diálogo: que cada um se expresse em
igualdade de condições com os outros, e com a mesma liberdade e independência de
critério. As objeções que podem ser feitas à teoria da verdade como consenso são as de
que, por um lado, existem condições ideais; e, por outro lado, que a verdade acaba
sendo uma questão de acordo e, portanto, convencional.

A crença e o saber

O resultado da atividade de conhecer pode ser a crença ou o saber. A crença é o


assentimento ou aceitação de uma proposição considerada verdadeira. O objeto de uma
crença é sempre uma proposição, quer dizer, a crença tem a seguinte fórmula lógica:
"Creio que 'p', onde 'p' é uma proposição". O problema é, certamente, em quais casos se
justifica a crença em determinada ideia ou proposição.

Justificar uma crença é poder estabelecer suas razões, o que a transforma numa crença
racional. A crença irracional é, pelo contrário, a crença não fundamentada em razões ou
fundamentada em razões não pertinentes, quer dizer, que não vêm ao caso. Ainda assim,
o fato de que a crença seja racional não significa que seja verdadeira — daí podermos
considerar que, embora o racional seja atribuir razões a nossas crenças, também é
racional aceitar que talvez só possamos aspirar a crenças prováveis, até muito prováveis,
mas não a crenças infalíveis.

A crença só se constitui em saber se estiver justificada e for verdadeira. Assim,


podemos dizer que sabemos que os planetas do sistema solar são nove, ou que a soma
dos ângulos de um triângulo é 180 graus. Essa modalidade de saber — que as denomina
"saber o que" — não admite graus (ou se sabe ou não se sabe) e pode ser aprendida.
Existe outra modalidade de saber — "saber como" — que se refere às estratégias e
instrumentos necessários para fazer coisas ou atingir um objetivo. Consiste, portanto,
em dominar certas habilidades: é um saber prático que se pode aprender e aprimorar e
que, além disso, admite graus.

A certeza

O saber é uma crença verdadeira a que podemos atribuir razões. Ele vem acompanhado
de um sentimento de segurança sobre a verdade daquilo em que cremos. Esse
sentimento de segurança é a certeza, que não é uma propriedade das ideias, mas um
estado do sujeito; nesse sentido, dizemos que a crença é subjetiva.

A certeza é causada normalmente pela evidência: esta outorga tamanha força à ideia que
faz com que nosso sentimento de segurança seja praticamente inevitável. Quando
97

alguma coisa nos parece evidente, não podemos deixar de concordar: estamos certos e
seguros de que hoje o Sol saiu ou de que dois mais dois são quatro.

O contrário de certeza é a dúvida. Nesse caso, flutuamos entre duas proposições, sem
sabermos por qual decidirmos — seja porque carecemos de razões para dar nosso
assentimento, seja porque as razões que apoiam as duas proposições estão equilibradas.
Em alguns casos a dúvida é uma atitude deliberada, um ato da vontade com a intenção
de ganhar, justamente por meio dela, alguma certeza racional. Esse é o caso de
Descartes, que faz da dúvida metódica a via de acesso à ideia da qual não é possível
duvidar: que sou uma coisa que pensa (cogito, ergo, sum). (1)

&&&&&

A estrutura lógica do conhecimento

Com a linguagem emitimos juízos, que são os atos da mente pelos quais afirmamos ou
negamos algo. Emitimos juízos por meio de um tipo de frase ou oração a que chamamos
de "enunciado", ou "proposição".

O encadeamento articulado de proposições constitui o discurso. A lógica é a disciplina


que estuda a forma do discurso argumentativo: o raciocínio. O raciocínio é a passagem
de algumas proposições (premissas) a outras (conclusão)

Podemos dizer das proposições que são verdadeiras ou falsas, caso aquilo que afirmem
seja ou não uma realidade. A verdade se aplica às proposições e se refere a seu
conteúdo. A validade se aplica ao raciocínio e se refere a sua forma, ou estrutura
abstrata.

Com a ajuda de uma linguagem formal, a lógica pretende captar os mecanismos que
fazem com que um raciocínio seja válido.

A lógica enquanto ciência formal

A lógica é uma das ciências que estudam os conhecimentos, ainda que de maneira
diferente da de outras disciplinas, como a epistemologia ou a psicologia. A lógica se
interessa pelo estudo das normas ou regras do pensamento que devem ser seguidos para
se efetuar um raciocínio correto, um raciocínio que nos proporcione um conhecimento
válido. O campo da lógica é a validade dos raciocínios - sua estrutura formal -, não a
verdade das proposições que os formam. A verdade faz referência ao conteúdo dos
enunciados, e cabe às ciências empíricas se ocuparem dela.

Como sinônimo de raciocinar, usa-se habitualmente a palavra "discorrer", aludindo com


isso ao caráter de movimento do raciocínio. O raciocínio é um "discurso", um
movimento que avança a partir de um lugar para chegar a outro. Raciocinar é apoiar ou
fundamentar uma afirmação - que, chamamos de conclusão - em outras - que chamamos
de premissas. Raciocinar é o "discurso" das premissas até a conclusão, como o curso
(discurso) de um rio, de suas fontes até o mar.
98

Esse avanço, no entanto, deve ser feito de maneira correta, com a garantia de que a
conclusão se deriva necessariamente das premissas.

Raciocinamos sempre na e por meio da linguagem. A lógica se interessa pelos


enunciados emitidos por meio da linguagem, mas apenas no aspecto de que da verdade
ou falsidade de uns pode se derivar da verdade ou falsidade de outros, de acordo com
sua própria estrutura. A lógica se interessa pela forma dos enunciados, não por seu
conteúdo, por isso a lógica é uma ciência formal (assim como as matemáticas): não leva
em conta os conteúdos, apenas a forma do raciocínio.

A lógica é uma ferramenta fundamental para a ciência, pois lhe permite analisar,
explicar e organizar as verdades já conhecidas. A partir da verdade de alguns
enunciados científicos, a lógica pode assegurar outras verdades que estão ligadas
logicamente às primeiras. Esse caráter instrumental já se manifesta desde os primeiros
tratados de lógica, escritos por Aristóteles, que receberam o nome de Organon
(instrumento).

A linguagem artificial da lógica

As linguagens naturais (as línguas faladas, criadas, recriadas e transmitidas pelos


homens ao longo de sua história) não são linguagens exatas. Sua lenta construção ao
longo de muitos anos, fruto da relação do homem com o mundo, torna-as muito ricas e
cheias de matizes, mas também vagas e cheias de ambiguidades e confusões. Os pontos
de vista a partir dos quais uma linguagem natural pode ser estudada são três: o sintático,
que analisa as relações das palavras entre si; o semântico, que investiga o significado
das palavras; e o pragmático, que se ocupa do uso feito pelos falantes da língua.

As ciências optam pelo uso de linguagens especializadas com o objetivo de evitar ao


máximo possível os equívocos e mal-entendidos. O rigor científico exige uma
linguagem formal clara, precisa, unívoca e objetiva.

A lógica, embora pretenda determinar a estrutura do raciocínio expressa nas linguagens


naturais, mas com o objetivo de evitar problemas, emprega uma linguagem artificial,
desligada de conteúdos concretos, capaz de formular com mais precisão, e em toda a sua
nudez, a sintaxe do raciocínio: sua forma. A esse tipo de linguagem dá-se o nome de
linguagem formal, construída com símbolos que eliminam qualquer consideração
semântica ou pragmática. No entanto, essa linguagem artificial construída com símbolos
permitirá depois interpretações semânticas, quando esses signos forem substituídos por
expressões linguísticas com significado. Dessa maneira, uma mesma fórmula simbólica
pode ser traduzida numa série indefinida de expressões semânticas.

Uma linguagem totalmente formalizada, reduzida a símbolos e a sua dimensão sintática,


é uma linguagem reduzida a um conjunto de regras que permitem operar com símbolos,
da mesma forma que um cálculo aritmético ou algébrico.

Chamamos de cálculo aquela estrutura composta dos seguintes elementos:


99

a) um conjunto de símbolos elementares, determinado de tal forma que podemos dizer


sem ambiguidade se um símbolo pertence ou não a ele.

b) um conjunto de regras de formação ou construção que estabeleça com clareza quais


são as combinações corretas entre esses símbolos elementares, de tal forma que
possamos dizer sem ambiguidade se uma expressão, ou construção de símbolos, é uma
"expressão bem construída do cálculo".

c) um conjunto de regras de transformação, que permita transformar uma expressão bem


construída em outra igualmente bem construída.

A lógica formal, simbólica ou matemática adota a estrutura de diferentes cálculos,


segundo o tipo de análise que faça das proposições:

A lógica de enunciados, ou proposicional é aquela que se ocupa das proposições


enquanto tais, e do modo como elas se relacionam entre si, prescindindo de sua
estrutura interna.

A lógica de predicados é a que se ocupa da validade do raciocínio, levando em conta a


estrutura interna das proposições - a relação entre o sujeito e o predicado.

A lógica de classes é aquela que se ocupa dos conjuntos de realidades individuais


designadas por um predicado (classes), e as relações entre indivíduos e classes.

Princípios lógicos elementares

Os princípios lógicos básicos sobre os quais se sustentam todas as operações lógicas


são:

- Princípio de identidade: se uma proposição é verdadeira, então é verdadeira. Toda


proposição se deduz logicamente de si mesma.

- Princípio de não-contradição: se uma proposição é verdadeira, não pode ser falsa ao


mesmo tempo.

- Princípio do terceiro excluído: dada uma proposição, ou ela é verdadeira ou sua negação
o é. Não pode haver outra possibilidade.

A escritura é essencial para divulgar o saber científico.

Assim como os símbolos e as regras são necessários para se calcular, compreender e


explicar todos os tipos de fenômenos físicos, químicos e matemáticos, a lógica também
se serve de uma linguagem que permite enunciar proposições que expliquem as normas
do pensamento para efetuar um raciocínio que nos proporcione o conhecimento. (1)

&&&&&

O Raciocínio e suas variantes


100

O raciocínio dedutivo é o tipo de raciocínio analisado pela lógica formal. Nele, as


conclusões derivam necessariamente das premissas. É um raciocínio forte.

Existem, no entanto, outros tipos de raciocínios nos quais a verdade não é necessária,
mas apenas provável. Esses tipos de raciocínio mais fracos são a generalização indutiva
e a analogia.

O raciocínio tem também suas armadilhas. Existem ocasiões em que raciocínios que
parecem corretos na verdade não são. São as falácias.

Raciocínio dedutivo

O tipo de raciocínio capaz de ser analisado pela lógica é o raciocínio dedutivo. O


raciocínio dedutivo é aquele em que a conclusão deriva necessariamente das premissas:
se as premissas são verdadeiras, a conclusão tem de ser necessariamente verdadeira. As
premissas implicam logicamente conclusão, e a conclusão é uma consequência lógica
das premissas. É um raciocínio forte ou sólido, que proporciona a máxima segurança,
por ser independente da experiência e inferido exclusivamente pelo raciocínio, desde
que haja os dois requisitos seguintes: que as premissas sejam verdadeiras (enquanto de
conteúdo real ou conteúdo de verdade) e que esse esquema de raciocínio seja válido
(requisito de conteúdo formal ou esquema válido).

No raciocínio dedutivo, conclusão já está contida nas premissas, explicitamente, de


modo que se poderia dizer que a conclusão não agrega novas informações ou novos
conhecimentos. Basta derivar por meio das leis da lógica a informação apresentada
pelas premissas para se chegar à conclusão. Embora isto não seja correto, de alguma
forma as novas proposições, derivadas das premissas parecem apresentar informação
nova, já que a capacidade de enxergar a conclusão só com as premissas não é
instantânea: depende, em muitos casos, da própria complexidade do raciocínio. O
raciocínio dedutivo, portanto, é uma das formas mais seguras de ampliar os
conhecimentos, e é empregado pela matemática e pela lógica.

A validade de um raciocínio dedutivo é independente da verdade ou falsidade das


proposições que o integram. A verdade ou falsidade é uma propriedade das proposições,
enquanto que a validade depende da relação lógica entre as premissas e a conclusão.
Num raciocínio válido, se as premissas são verdadeiras a conclusão também é; mas, se
as premissas são falsas, a verdade da conclusão é indeterminada (pode ser verdadeira
em alguns casos e não em outros). A correção ou incorreção de um raciocínio dedutivo
depende, portanto, da forma. Demonstrar a validade é tornar explícitos todos e cada um
dos passos que permitem deduzir de forma correta ou legítima (com o uso das leis ou
regras de inferência da lógica) a conclusão a partir das premissas. Num raciocínio não
válido, a conclusão é indiferente à verdade das premissas.

Raciocínio indutivo
101

O raciocínio indutivo é aquele por meio do qual, a partir do exame de um número


elevado de casos particulares (premissas), generalizam-se todos os indivíduos do
conjunto (conclusão). A conclusão, no raciocínio indutivo, é apenas provável - não se
depreende necessariamente das premissas. Não oferece segurança absoluta, já que a
verdade das premissas não assegura a verdade da conclusão: sempre poderia aparecer
um indivíduo (um novo caso) que não cumprisse a promessa ou propriedade.

No entanto, a generalização é aceita, já que o costume nos faz pensar que a natureza e as
coisas têm comportamentos regulares - que aquilo que aconteceu muita outras vezes
voltará a se repetir se as circunstâncias forem semelhantes - ou que, definitivamente,
existe um princípio de regularidade da natureza: o Sol sai a cada dia; se deixo um objeto
solto, ele cai no chão etc.

O raciocínio indutivo permite aumentar o conhecimento, mas sempre sob a condição de


que se admita a sua fragilidade. A conclusão não está implícita nas premissas, apoia-se
nelas, mas elas não a contêm. Produz-se o chamado salto indutivo: a partir de casos
conhecidos, generaliza-se todo o conjunto. Aplica-se a todo o conjunto a verdade
observada apenas numa parte dele. Quanto maior o número de observações, maior é a
probabilidade de que a conclusão seja verdadeira, mas sem a total segurança. Quanto
maior a perspicácia analítica de quem elabora o raciocínio, será possível concluir aquilo
que tem a maior probabilidade de ocorrer. Esse tipo de raciocínio não é empregado
pelas ciências experimentais.

A validade de um raciocínio indutivo não depende da forma como as premissas e a


conclusão se relacionam. Um raciocínio indutivo é válido se, e somente se, as premissas
apoiam suficientemente a conclusão, se a verdade das premissas torna provável (mais
provável do que menos) a verdade da conclusão. Num raciocínio indutivo válido,
podemos conhecer a verdade das premissas e nos equivocarmos na conclusão. A
conclusão nunca será necessariamente verdadeira, ainda que as premissas o sejam
(raciocínio dedutivo). Podemos afirmar as premissas e negar a conclusão sem entrar em
contradição. Diferentemente do raciocínio dedutivo, não há incoerência se as premissas
são verdadeiras e a conclusão é falsa.

A indução pode ser completa ou incompleta. Ela é completa quando se pode enunciar a
propriedade de cada um dos elementos que formam o conjunto, podendo-se ter a
enumeração completa. Serve apenas para conjuntos fechados e não é útil para conjuntos
mais abertos. O problema se coloca, quando no âmbito da realidade fica difícil de
enumerar - se não impossível - todos os casos particulares. A indução completa é a
usada habitualmente nas ciências.

Raciocínio analógico

A base do raciocínio analógico consiste em relacionar duas ou mais coisas nas quais
estabelecemos algum traço em comum e, em função da semelhança (analogia ou
similitude) entre essas características ou situações conhecidas, concluir que outra
característica que uma tenha a outra também terá.
102

O raciocínio analógico não tem o caráter necessário do raciocínio dedutivo, nem o


caráter provável do indutivo: seus resultados são apenas aproximados. A validade se
baseia na plausibilidade das razões que se oferecem para estabelecer tal analogia:
quanto mais características os âmbitos comparados tenham em comum, quanto menos
diferenças, quanto mais relevantes sejam as semelhanças, mais credibilidade o
raciocínio analógico inspirará.

A confiabilidade desse tipo de raciocínio é relativa e pode induzir a erros, mas é útil
para sugerir relações e encontrar soluções para diversos problemas, apesar de não
proporcionar uma credibilidade absoluta. Implica um elemento criador: é uma
construção que, de um lado joga com os limites dos elementos a serem relacionados,
mas por outro joga com a liberdade imaginativa de quem o produz. É usado nas ciências
empíricas, como a medicina, por exemplo - quando se espera que um medicamento se
comporte da mesma forma num ser humano depois de ter sido experimentado em
animais de laboratório.

Os raciocínios enganosos

A palavra falácia provém do verbo latino fallor, que significa "enganar-se". Uma falácia
é um raciocínio que aparenta ser válido, mas não o é, já que esconde algum erro, seja
por sua forma ou estrutura lógica (falácias formais), seja porque a informação que as
premissas proporcionam não é pertinente (confusa, escassa, errônea ou ambígua) para a
formação da conclusão (falácias não formais ou materiais). O estudo das falacias é
antigo, e por isso muitas delas são conhecidas por seu nome latino. Entre as mais
habituais, destacam:

Falácias formais

- Afirmação do consequente

- Negação do antecedente

- Falso silogismo disjuntivo

Falácias não formais

- Ad hominem (contra o homem)

- Ad verecundiam (ao respeito ou apelação à autoridade)

- Ad populum (às pessoas)

- ex populo (das pessoas)

- Tu quoque (você também)

- Generalização precipitada (1)


103

&&&&&

Conhecimento científico

Fazer ciência não é a mesma coisa que dizer o que a ciência faz. Essa última tarefa
pertence à filosofia. A filosofia da ciência pretende refletir sobre a forma de
conhecimento considerada científica e sobre seus conteúdos, os diferentes problemas
que ela enfrenta de acordo com o âmbito de cada ciência e suas metalologias
específicas. A ciência (do latim scientia, "saber") seria a forma de conhecimento que
aspira a formular, por meio de linguagens rigorosas e apropriadas, as leis que regem os
fenômenos. Mas não existe uma única ciência, e sim um conjunto de saberes
considerados científicos, conforme a parcela ou âmbito dos fenômenos que seja objeto
de seu estudo.

O objeto condiciona, por sua vez, o método próprio de cada uma das ciências. A
reflexão sobre o método científico coloca o problema da demarcação entre o
conhecimento científico e o pseudocientífico. Por sua vez, a reivindicação do estatuto
científico das ciências sociais (com suas metodologias diferentes do método
experimental das ciências da natureza, considerado como paradigma metodológico)
coloca o problema da compreensão dos fenômenos diante da explicação.

O saber científico

Alguns traços especificamente humanos são a ciência do saber e a vontade de


dominação sobre a natureza: compreendê-la para transformá-la segundo seu interesse,
embora a transformação corresponda a outro campo da atividade humana: o da técnica.
A ciência procura o conhecimento: é teoria. A técnica é a aplicação prática desse
conhecimento.

Não existe unanimidade na definição do que seja a ciência - há até quem defenda que
não é possível estabelecer essa definição (Chalmers). O que existe, sim, é uma série de
disciplinas cujos saberes consideramos científicos, e uma série de atividades de algumas
pessoas (os cientistas) que enunciam "teorias" que pretendem explicar o mundo da
experiência. Com a palavra "ciência", designamos tanto a atividade cognoscitiva voltada
para a aquisição de saberes quanto o produto dessa atividade, como corpo sistemático e
organizado de conhecimentos.

Para que possa haver conhecimento científico (descoberta e formulação de leis


naturais), deve-se pressupor o princípio de regularidade da natureza dos fenômenos
naturais, e no fato de que tais fenômenos estejam relacionados entre si de maneira
determinada e estável.

A classificação das ciências

A classificação das ciências comumente aceita é a que estabelece como critérios sua
ligação com os fatos. De acordo com esse critério, as ciências se dividem em dois
104

grandes grupos, claramente diferenciados: ciências não empíricas, ou formais, e ciências


empíricas, também chamadas de ciências fácticas.

As ciências formais são aquelas cujas proposições não afirmam nem negam nada sobre
os fatos que ocorrem no mundo - apenas "contêm fórmulas analíticas" (M. Bunge). Seu
objeto de conhecimento são entes ideais, com existência exclusiva na mente humana:
são formas suscetíveis de receber múltiplos conteúdos.

O método das ciências formais é a demonstração ou a prova: todo o seu conhecimento


fica delimitado pelo conjunto do sistema que formam, sendo sistemas autônomos,
fechados sobre si mesmo, cujas proposições são verdadeiras caso sejam deduzidas
corretamente de outras proposições já aceitas pelo sistema. A demonstração é uma
operação exclusivamente racional, totalmente alheia à confrontação com a experiência.

Existem apenas duas ciências formais: as matemáticas e a lógica.

As ciências empíricas, ou fácticas, são aquelas cujas proposições afirmam ou negam


algo sobre os fatos que ocorrem no mundo. A verdade de suas proposições depende da
confrontação com a realidade, por meio da experiência. As ciências experimentais
corroboram ou verificam: a partir de dados da observação ou da experiência, procuram
estabelecer leis e teorias que permitam predizer o futuro. Pretendem "explorar,
descrever, aplicar e predizer os acontecimentos que ocorrem no mundo em que
vivemos" (C. Hempel), o que determina seu campo de ação.

As ciências empíricas, por sua vez, são divididas, tradicionalmente, em ciências naturais
e ciências sociais. As ciências naturais são as que encontram seu objeto de estudo no
âmbito natural. São ciências naturais: a física, a química, a biologia e a geologia.

As ciências sociais ou humanas são as que concentram seu objeto de estudo no âmbito
social ou nos resultados das ações humanas. São ciências sociais ou humanas a
sociologia, a política, a antropologia, a economia e a história.

O critério dessa divisão é menos claro, e há autores que introduzem uma zona limítrofe
para algumas das ciências chamando-as de ciências socionaturais. Entre elas estariam
situadas a psicologia e a geografia.

Características das ciências fácticas

A forma de conhecimento própria da ciência aprofunda e amplia o conhecimento


ordinário que temos das coisas. Os cientistas vão mais além do que a simples
experiência (entendida aqui como o conhecimento que nos chega através dos sentidos)
nos mostra: relacionam os fatos mais relevantes e os observam por meio de um
instrumental adequado (por exemplo, o microscópio). O conhecimento científico vai
além da experiência sobretudo em outro sentido: não se limita a descrever a experiência,
mas pretende uma explicação dos fenômenos observados, mediante a formulação de
hipóteses, leis e sistemas de leis (teorias), que são produtos da razão, e não mero reflexo
da experiência. A atividade científica consiste em boa parte na invenção de conceitos
(como os de átomo, massa, energia, adaptação, seleção, classe social etc.), e esses não
105

correspondem a algo diretamente observável, ainda que possamos inferi-los a partir de


fatos experimentais.

O conhecimento científico é claro e preciso, frente ao conhecimento comum, que é


vago, impreciso e superficial. A precisão é alcançada por meio da definição dos
conceitos que utiliza e por meio da criação de linguagens artificiais, quer dizer,
linguagens específicas de cada ciência nas quais se fixa exatamente tanto o significado
dos símbolos que as constituem quanto as regras de combinação desses símbolos. A
matematização dos fenômenos também contribui notavelmente para a precisão e a
exatidão buscadas.

O conhecimento científico é verificável, o que quer dizer que todo o conhecimento que
se pretenda científico deve ser submetido à experiência. Esse é um dos requisitos
fundamentais da ciência. As técnicas de verificação são muito diversificadas, mas
sempre consistem em pôr à prova consequências particulares de hipóteses gerais, uma
vez que as hipóteses gerais não podem ser verificadas diretamente. A verificação
acontece mediante experiências. As experiências são experimentações controladas e
baseadas numa teoria. Esta é justamente a diferença entre a experimentação e a
experiência comum. A experiência comum não obedece a nenhum plano teórico e,
portanto, não sabe o que olhar, nem o que buscar: falta-lhe um projeto que a oriente e
lhe dê sentido.

O conhecimento científico é sistemático. A ciência é um sistema de ideias (teoria)


ligadas logicamente entre si. O fundamento de uma determinada teoria não é um
conjunto de fatos, e sim, mais exatamente, um conjunto de hipóteses com certo grau de
generalidade. Dessas hipóteses se extraem as conclusões, que recebem o nome de
teoremas.

O conhecimento científico pretende a enunciação de leis gerais. A ciência só pode ser


conhecimento geral: o fato singular só é cognoscível na medida em que é membro de
uma classe ou caso de uma lei, o que pressupõe que todo fato é classificável. As leis
gerais nos proporcionam uma explicação dos fatos. a explicação não é simplesmente
uma descrição dos fatos, já que nos diz não só como elas ocorrem, mas sobretudo por
que ocorrem.

As leis científicas permitem, além de explicar os fatos, predizê-los. A ciência é


predicativa. Na medida em que são gerais, as leis não só se aplicam a fatos passados,
mas descrevem futuros estados de coisas a partir de condições iniciais que se conhecem.

A ciência é metódica. O método é necessário para garantir a certeza e evitar que se


admita como verdadeiro algo que corresponda unicamente à apreciação subjetiva do
cientista. O método permite distinguir com clareza a verdade da mera opinião.

Finalmente, um dos traços mais notáveis do conhecimento científico é que ele é aberto.
De um lado, por que não reconhece barreiras a priori que limitem o conhecimento; de
outro, porque não é um sistema dogmático. A atitude verdadeiramente científica sabe
que toda teoria é refutável, e que, portanto, a ciência é capaz de progredir, não quanto ao
domínio técnico da natureza, mas no que se refere à superação das teorias científicas por
outras que expliquem os fatos de uma forma mais completa.
106

Métodos científicos

No contexto da descoberta, as estratégias dos cientistas são múltiplas e variadas —


desde o caso em que os dados empíricos são tão claros que facilmente permitem
elaborar uma hipótese, até o caso das hipóteses sobre a estrutura do átomo de Bohr,
sugerida por uma analogia com o sistema planetário). Na descoberta científica, influem
fatores como a intuição, a sagacidade do cientista e até a sorte ou casualidade.

No contexto da justificação, o método estabelece como será provada, validada ou


justificada uma teoria. Aqui, a questão acaba sendo muito mais complicada, porque o
cientista, além de provar a verdade da hipótese, deve justificar a validade de seu método
perante a comunidade científica. A questão é importante porque nem todos os métodos
permitem validar todas as hipóteses e, portanto, deve-se justificar o método escolhido.

Mário Bunge enuncia aquilo que talvez seja "a única regra de ouro para os cientistas:
audácia ao conjecturar, prudência ao submeter as conjecturas e confrontações".

O método dedutivo

O método dedutivo é o método utilizado pelas ciências formais. Consiste em mostrar a


verdade de uma proposição (a conclusão) a partir do conhecimento de outras
proposições (premissas), em virtude de sua forma lógica. Uma dedução só é válida
quando as premissas forem verdadeiras e a conclusão também o for necessariamente.

O método dedutivo exige a construção de um sistema axiomático, quer dizer, um


sistema formado por: axiomas, ou princípios fundamentais do sistema que não são
demonstráveis dentro dele; regras de formação e transformação, que permitem deduzir
novos enunciados válidos dentro do sistema; e teoremas, ou enunciados obtidos
dedutivamente a partir dos axiomas, seguindo-se as regras de transformação.

Um sistema axiomático bem construído precisa: ser consistente, sem contradições


internas, de modo que seja impossível a dedução de um teorema e de sua negação; ser
solucionável, incluindo um procedimento efetivo por meio do qual se possa estabelecer
se uma expressão bem formada é um teorema; ser completo, isto é, permitir que todas as
possíveis proposições verdadeiras sejam deduzidas a partir dos axiomas. E, finalmente,
todos os seus axiomas devem ser independentes, isto é, não podem ser deduzidos de
outros axiomas.

O método indutivo

O método indutivo consiste em extrair leis ou conclusões universalmente válidas a


partir da observação de casos particulares, tirados da experiência. Por conta disso, é um
método usado pelas ciências experimentais.
107

As etapas ou fases do método indutivo são:

- Observação e registro dos fatos significativos.

- Comparação e classificação. Generalização. Formação de leis.

- Dedução de consequências das leis. Predição.

O método indutivo traz numerosos problemas. Em primeiro lugar, seu valor científico é
discutível, já que as verdades que propõe são prováveis, baseadas num raciocínio frágil,
ainda que tanto mais prováveis quanto maior o número de casos particulares que a
avalizem.

Existe um problema ainda maior em relação à validade do método indutivo — problema


que já foi colocado no século XVIII pelo empirista David Hume. Toda generalização
pretende ser válida não apenas para fatos já passados, mas também para fatos futuros, e
por isso a generalização só é possível se pressupomos a regularidade da natureza. O
método indutivo se fundamenta, portanto, no princípio de regularidade da natureza, mas
a própria fundamentação desse princípio é impossível, dado que a regularidade da
natureza só pode ser afirmada pelo princípio da indução, quer dizer, por meio de uma
generalização a partir de fatos já passados. O argumento que pretende justificar é um
argumento circular, isto é, dá por demonstrado exatamente aquilo que o argumento
deveria provar. A regularidade dos fenômenos naturais só pode ser postulado, quer
dizer, estabelecido como crença, e tem valor pelo fato de ser útil, já que permite avançar
na formulação de hipóteses.

Por último, a observação e o registro dos fatos significativos são feitos sempre a partir
de uma teoria prévia, que não foi obtida por indução. Ou seja, os fatos só são
significativos na medida em que temos um padrão de referência a partir do qual eles
cobram significação.

O método hipotético-dedutivo

O método hipotético-dedutivo, ou método geral da ciência, segundo M. Bunge, é o


modelo metodológico seguido pelas ciências experimentais em geral, mas sobretudo
pelas ciências da natureza.

Para Galileu Galilei (1564-1642), que o chamou de método de resolução e composição,


a física devia partir da observação resolvendo a natureza de suas propriedades essenciais
e primárias, expressas matematicamente, para compor uma hipótese (literalmente,
"suposição"), unindo as propriedades essenciais escolhidas e expressas em linguagem
matemática. Basicamente, consiste na dedução — a partir de uma hipótese prévia — de
uma série de consequências confrontáveis por meio de uma experiência promovida para
confirmá-la.

São muitas as diferentes enumerações que já foram feitas das fases ou etapas desse
método. Enumeremos aqui as que M. Bunge chama de "pauta de investigação
científica":
108

a) Colocação do problema: reconhecimento, classificação e seleção de fatos relevantes;


descoberta do problema (lacuna ou incoerência no corpo do saber já existente);
formulação do problema (redução do problema a seu núcleo significativo.

b) Construção do modelo teórico: seleção dos fatores pertinentes; invenção das


hipóteses (enunciados de lei que se espera possam se adequar aos fatos observados);
tradução matemática, na medida do possível.

c) Dedução das consequências particulares: já verificadas no mesmo campo ou em


campos próximos; e/ou elaboração de previsões empíricas que possam ser verificadas.

d) Prova das hipóteses: esboço e execução da prova; elaboração e interpretação dos


dados da experimentação, à luz do modelo teórico.

e) Introdução das conclusões na teoria: comparação das conclusões com as previsões


para confirmar o modelo (confrontação).

As conclusões da ciência sempre são consideradas provisórias. Esse método não tem a
segurança do método dedutivo, mas é progressivo, já que se autocorrige: os resultados
são as fontes de novas perguntas.

O maior problema do método hipotético-dedutivo se enraíza na confrontação das


hipóteses. Sendo as hipóteses enunciados universais, nunca podem ser confrontadas
com todos os casos possíveis . A comprovação é feita pela dedução do hipótese de fatos
que possam ser observados por meio da experimentação — o que permite confirmar a
hipótese.

A falseabilidade

As deficiências do critério de verificação para confirmar uma hipótese (nunca é possível


uma verificação concludente, já que não se pode realizar uma verificação completa de
todos os casos possíveis) levaram Karl Popper (1902-1994) a propor em A lógica da
investigação científica (1934) uma reformulação do método hipotético-dedutivo. Trata-
se, não de buscar fatos que confirmem as consequências da hipótese, mas de buscar
fatos que as refutem, ou falseiam. O cientista deve fazer todo o possível para refutá-las,
arriscando-se a fazer previsões a partir de suas hipóteses, sob o risco de elas acabarem
por se mostrar falsas. O método proposto por Popper é o conhecido como
falseabilidade.

A falseabilidade se baseia na impossibilidade de uma inferência lógica que permite


passar de enunciados particulares a enunciados universais — porque a confrontação por
confirmação nunca corrobora suficientemente em enunciado universal, ao passo que um
único enunciado particular pode contradizer um enunciado geral e obrigar a abandoná-
lo, já que esse enunciado particular se baseia numa inferência lógica correta ou válida
(modus tollens).

Tal como no método hipotético-dedutivo, para a falseabilidade toda a hipótese é


considerada válida provisoriamente, enquanto não aparecer um caso que a refute ou
109

contradiga. Uma hipótese — e em consequência uma lei — nunca poderá ser


considerada definitivamente verdadeira.

A questão sobre a diferenciação entre os enunciados científicos e os não científicos —


resolvida pelos positivistas com o critério de verificabilidade e pela falseabilidade com
o critério de falsificação — é o conhecido como o problema da demarcação.

Os métodos das ciências humanas e sociais

As ciências humanas e sociais têm características próprias que fazem com que seu
modelo metodológico não seja o das ciências naturais.

— A complexidade do ser humano como objeto de investigação, tanto do ponto de vista


individual quanto do ponto de vista social; a dificuldade de captar o comportamento
humano devido à sua grande variedade, às motivações individuais e às circunstâncias
em que são produzidas; a variável "liberdade" que impede que se fale de
acontecimentos constantes — tudo isso dificulta enormemente a formulação de leis
gerais e enfraquece a capacidade de fazer previsões.

— A dificuldade de se utilizar métodos experimentais, razão pela qual se dever buscar a


confrontação das hipóteses por outras vias, como observação, a estatística ou a análise
de documentos

— O fato de que o próprio pesquisador é um ser humano: isto coloca o problema da


relação entre objeto de investigação e o sujeito que a realiza — o sujeito faz parte do
objeto de estudo.

— Não existe neutralidade valorativa: o pesquisador não se comporta com


imparcialidade, já que inconscientemente existe uma carga afetiva e algumas ideias
prévias (preconceitos, valores, tradições etc.) que não estão presentes quando o objeto
de estudo não é humano.

A tradição empirista ou positivista, que persegue a unidade da ciência, exige que se


aplique o método das ciências naturais às ciências sociais: eles devem explicar os
fenômenos. O desenvolvimento cada vez mais sofisticado dos métodos quantitativos
(estatísticos) é seu instrumento de análise da realidade social, sem que por conta disso
tenham alcançado a capacidade preditiva das ciências naturais.

A tradição hermenêutica fala de compreensão científica, além de explicação. A


explicação de um fenômeno é a elucidação de suas causas. A compreensão é a
capacidade de captar o sentido do acontecimento, sua singularidade, sua complexidade e
seu contexto: os fenômenos devem ser compreendidos, além de explicados e por isso
deve-se adotar uma metodologia própria. As técnicas qualitativas (entrevistas, grupos,
histórias de vida etc.) não buscam a generalização, mas a compreensão de casos
concretos baseando-se num conhecimento prévio da realidade, que se pretende
compreender. O círculo hermenêutico se baseia em duas reflexões específicas: que toda
a compreensão do ser humano é feita a partir de uma pré-compreensão, do ponto de
110

vista da cultura atual; e que, quando se compreende, atribui-se sentido àqueles dados
que estão sendo analisados.

Para a teoria crítica (a escola de Frankfurt), além disso, as ciências sociais não devem
apenas compreender os fenômenos sociais, mas criticá-los: não existem teorias neutras,
pois todas estão guiadas por algum interesse. As ciências sociais devem se orientar pelo
interesse emancipatório, buscando com critério a partir do qual efetuarão a crítica de
nossa sociedade naquilo em que ela é contrária a tal interesse.

Teoria e realidade

Um dos problemas epistemológicos mais interessantes é o da relação entre as teorias


científicas e o modo ao qual se pretende aplicá-las. As teorias científicas são
construções humanas, produto da razão humana; ao longo da história, estão sujeitas a
mudanças e, em muitas ocasiões, são até abandonadas em favor de outras teorias mais
potentes do ponto de vista da explicação que proporcionam. Essa evidência levanta uma
questão: qual a relação entre teoria e realidade.

Uma postura possível é a do realismo, que defende que as teorias científicas são
representações reais de como é a natureza. A concepção alternativa, o instrumentalismo,
considera as teorias científicas exclusivamente como instrumentos úteis para a
compreensão da realidade, mas sem a pretensão de serem expressão da própria
realidade. (1)

&&&&&&

Análise Lógica

Para determinar quais são os raciocínios corretos ou válidos, a lógica utiliza uma
linguagem artificial, formalizada, alheia às ambiguidades das linguagens naturais. Essa
linguagem formal, sem conteúdo semântico, poderá ser interpretada mais tarde pelas
proposições da linguagem natural.

A lógica, entretanto, efetua a análise das proposições da linguagem natural de diferentes


maneiras, levando ou não em conta sua estrutura interna. Por isso, deve-se entender a
lógica como um conjunto de cálculos (ou linguagens formalizadas), cada um deles
apropriado para aplicação no âmbito específico dos problemas formulados. Os mais
elementares, mas que constituem a base da resolução de problemas lógicos de maior
envergadura, são os da lógica de enunciados, ou proposicional, e a lógica de classes.

Lógica proposiocional

Simbologia da lógica proposicional

Regras de formação

Verdade e falsidade
111

Raciocínio e regras de inferência

Lógica de predicados

Lógica de classes

Simbologia da lógica de classes

Diagramas de Venn

Leis da lógica de classes (1)

Conhecimento Científico
Fazer ciência não é a mesma coisa que dizer o que a ciência faz. Essa última tarefa
pertence à filosofia. A filosofia da ciência pretende refletir sobre a forma de
conhecimento considerada científica e sobre seus conteúdos, os diferentes problemas
que ela enfrenta de acordo com o âmbito de cada ciência e suas metalologias
específicas. A ciência (do latim scientia, "saber") seria a forma de conhecimento que
aspira a formular, por meio de linguagens rigorosas e apropriadas, as leis que regem os
fenômenos. Mas não existe uma única ciência, e sim um conjunto de saberes
considerados científicos, conforme a parcela ou âmbito dos fenômenos que seja objeto
de seu estudo.

O objeto condiciona, por sua vez, o método próprio de cada uma das ciências. A
reflexão sobre o método científico coloca o problema da demarcação entre o
conhecimento científico e o pseudocientífico. Por sua vez, a reivindicação do estatuto
científico das ciências sociais (com suas metodologias diferentes do método
experimental das ciências da natureza, considerado como paradigma metodológico)
coloca o problema da compreensão dos fenômenos diante da explicação.

O saber científico

Alguns traços especificamente humanos são a ciência do saber e a vontade de


dominação sobre a natureza: compreendê-la para transformá-la segundo seu interesse,
embora a transformação corresponda a outro campo da atividade humana: o da técnica.
A ciência procura o conhecimento: é teoria. A técnica é a aplicação prática desse
conhecimento.

Não existe unanimidade na definição do que seja a ciência - há até quem defenda que
não é possível estabelecer essa definição (Chalmers). O que existe, sim, é uma série de
disciplinas cujos saberes consideramos científicos, e uma série de atividades de algumas
pessoas (os cientistas) que enunciam "teorias" que pretendem explicar o mundo da
experiência. Com a palavra "ciência", designamos tanto a atividade cognoscitiva voltada
112

para a aquisição de saberes quanto o produto dessa atividade, como corpo sistemático e
organizado de conhecimentos.

Para que possa haver conhecimento científico (descoberta e formulação de leis


naturais), deve-se pressupor o princípio de regularidade da natureza dos fenômenos
naturais, e no fato de que tais fenômenos estejam relacionados entre si de maneira
determinada e estável.

A classificação das ciências

A classificação das ciências comumente aceita é a que estabelece como critérios sua
ligação com os fatos. De acordo com esse critério, as ciências se dividem em dois
grandes grupos, claramente diferenciados: ciências não empíricas, ou formais, e ciências
empíricas, também chamadas de ciências fácticas.

As ciências formais são aquelas cujas proposições não afirmam nem negam nada sobre
os fatos que ocorrem no mundo - apenas "contêm fórmulas analíticas" (M. Bunge). Seu
objeto de conhecimento são entes ideais, com existência exclusiva na mente humana:
são formas suscetíveis de receber múltiplos conteúdos.

O método das ciências formais é a demonstração ou a prova: todo o seu conhecimento


fica delimitado pelo conjunto do sistema que formam, sendo sistemas autônomos,
fechados sobre si mesmo, cujas proposições são verdadeiras caso sejam deduzidas
corretamente de outras proposições já aceitas pelo sistema. A demonstração é uma
operação exclusivamente racional, totalmente alheia à confrontação com a experiência.

Existem apenas duas ciências formais: as matemáticas e a lógica.

As ciências empíricas, ou fácticas, são aquelas cujas proposições afirmam ou negam


algo sobre os fatos que ocorrem no mundo. A verdade de suas proposições depende da
confrontação com a realidade, por meio da experiência. As ciências experimentais
corroboram ou verificam: a partir de dados da observação ou da experiência, procuram
estabelecer leis e teorias que permitam predizer o futuro. Pretendem "explorar,
descrever, aplicar e predizer os acontecimentos que ocorrem no mundo em que
vivemos" (C. Hempel), o que determina seu campo de ação.

As ciências empíricas, por sua vez, são divididas, tradicionalmente, em ciências naturais
e ciências sociais. As ciências naturais são as que encontram seu objeto de estudo no
âmbito natural. São ciências naturais: a física, a química, a biologia e a geologia.

As ciências sociais ou humanas são as que concentram seu objeto de estudo no âmbito
social ou nos resultados das ações humanas. São ciências sociais ou humanas a
sociologia, a política, a antropologia, a economia e a história.

O critério dessa divisão é menos claro, e há autores que introduzem uma zona limítrofe
para algumas das ciências chamando-as de ciências socionaturais. Entre elas estariam
situadas a psicologia e a geografia.
113

Características das ciências fácticas

A forma de conhecimento própria da ciência aprofunda e amplia o conhecimento


ordinário que temos das coisas. Os cientistas vão mais além do que a simples
experiência (entendida aqui como o conhecimento que nos chega através dos sentidos)
nos mostra: relacionam os fatos mais relevantes e os observam por meio de um
instrumental adequado (por exemplo, o microscópio). O conhecimento científico vai
além da experiência sobretudo em outro sentido: não se limita a descrever a experiência,
mas pretende uma explicação dos fenômenos observados, mediante a formulação de
hipóteses, leis e sistemas de leis (teorias), que são produtos da razão, e não mero reflexo
da experiência. A atividade científica consiste em boa parte na invenção de conceitos
(como os de átomo, massa, energia, adaptação, seleção, classe social etc.), e esses não
correspondem a algo diretamente observável, ainda que possamos inferi-los a partir de
fatos experimentais.

O conhecimento científico é claro e preciso, frente ao conhecimento comum, que é


vago, impreciso e superficial. A precisão é alcançada por meio da definição dos
conceitos que utiliza e por meio da criação de linguagens artificiais, quer dizer,
linguagens específicas de cada ciência nas quais se fixa exatamente tanto o significado
dos símbolos que as constituem quanto as regras de combinação desses símbolos. A
matematização dos fenômenos também contribui notavelmente para a precisão e a
exatidão buscadas.

O conhecimento científico é verificável, o que quer dizer que todo o conhecimento que
se pretenda científico deve ser submetido à experiência. Esse é um dos requisitos
fundamentais da ciência. As técnicas de verificação são muito diversificadas, mas
sempre consistem em pôr à prova consequências particulares de hipóteses gerais, uma
vez que as hipóteses gerais não podem ser verificadas diretamente. A verificação
acontece mediante experiências. As experiências são experimentações controladas e
baseadas numa teoria. Esta é justamente a diferença entre a experimentação e a
experiência comum. A experiência comum não obedece a nenhum plano teórico e,
portanto, não sabe o que olhar, nem o que buscar: falta-lhe um projeto que a oriente e
lhe dê sentido.

O conhecimento científico é sistemático. A ciência é um sistema de ideias (teoria)


ligadas logicamente entre si. O fundamento de uma determinada teoria não é um
conjunto de fatos, e sim, mais exatamente, um conjunto de hipóteses com certo grau de
generalidade. Dessas hipóteses se extraem as conclusões, que recebem o nome de
teoremas.

O conhecimento científico pretende a enunciação de leis gerais. A ciência só pode ser


conhecimento geral: o fato singular só é cognoscível na medida em que é membro de
uma classe ou caso de uma lei, o que pressupõe que todo fato é classificável. As leis
gerais nos proporcionam uma explicação dos fatos. a explicação não é simplesmente
uma descrição dos fatos, já que nos diz não só como elas ocorrem, mas sobretudo por
que ocorrem.
114

As leis científicas permitem, além de explicar os fatos, predizê-los. A ciência é


predicativa. Na medida em que são gerais, as leis não só se aplicam a fatos passados,
mas descrevem futuros estados de coisas a partir de condições iniciais que se conhecem.

A ciência é metódica. O método é necessário para garantir a certeza e evitar que se


admita como verdadeiro algo que corresponda unicamente à apreciação subjetiva do
cientista. O método permite distinguir com clareza a verdade da mera opinião.

Finalmente, um dos traços mais notáveis do conhecimento científico é que ele é aberto.
De um lado, por que não reconhece barreiras a priori que limitem o conhecimento; de
outro, porque não é um sistema dogmático. A atitude verdadeiramente científica sabe
que toda teoria é refutável, e que, portanto, a ciência é capaz de progredir, não quanto ao
domínio técnico da natureza, mas no que se refere à superação das teorias científicas por
outras que expliquem os fatos de uma forma mais completa.

Métodos científicos

No contexto da descoberta, as estratégias dos cientistas são múltiplas e variadas —


desde o caso em que os dados empíricos são tão claros que facilmente permitem
elaborar uma hipótese, até o caso das hipóteses sobre a estrutura do átomo de Bohr,
sugerida por uma analogia com o sistema planetário). Na descoberta científica, influem
fatores como a intuição, a sagacidade do cientista e até a sorte ou casualidade.

No contexto da justificação, o método estabelece como será provada, validada ou


justificada uma teoria. Aqui, a questão acaba sendo muito mais complicada, porque o
cientista, além de provar a verdade da hipótese, deve justificar a validade de seu método
perante a comunidade científica. A questão é importante porque nem todos os métodos
permitem validar todas as hipóteses e, portanto, deve-se justificar o método escolhido.

Mário Bunge enuncia aquilo que talvez seja "a única regra de ouro para os cientistas:
audácia ao conjecturar, prudência ao submeter as conjecturas e confrontações".

O método dedutivo

O método dedutivo é o método utilizado pelas ciências formais. Consiste em mostrar a


verdade de uma proposição (a conclusão) a partir do conhecimento de outras
proposições (premissas), em virtude de sua forma lógica. Uma dedução só é válida
quando as premissas forem verdadeiras e a conclusão também o for necessariamente.

O método dedutivo exige a construção de um sistema axiomático, quer dizer, um


sistema formado por: axiomas, ou princípios fundamentais do sistema que não são
demonstráveis dentro dele; regras de formação e transformação, que permitem deduzir
novos enunciados válidos dentro do sistema; e teoremas, ou enunciados obtidos
dedutivamente a partir dos axiomas, seguindo-se as regras de transformação.
115

Um sistema axiomático bem construído precisa: ser consistente, sem contradições


internas, de modo que seja impossível a dedução de um teorema e de sua negação; ser
solucionável, incluindo um procedimento efetivo por meio do qual se possa estabelecer
se uma expressão bem formada é um teorema; ser completo, isto é, permitir que todas as
possíveis proposições verdadeiras sejam deduzidas a partir dos axiomas. E, finalmente,
todos os seus axiomas devem ser independentes, isto é, não podem ser deduzidos de
outros axiomas.

O método indutivo

O método indutivo consiste em extrair leis ou conclusões universalmente válidas a


partir da observação de casos particulares, tirados da experiência. Por conta disso, é um
método usado pelas ciências experimentais.

As etapas ou fases do método indutivo são:

- Observação e registro dos fatos significativos.

- Comparação e classificação. Generalização. Formação de leis.

- Dedução de consequências das leis. Predição.

O método indutivo traz numerosos problemas. Em primeiro lugar, seu valor científico é
discutível, já que as verdades que propõe são prováveis, baseadas num raciocínio frágil,
ainda que tanto mais prováveis quanto maior o número de casos particulares que a
avalizem.

Existe um problema ainda maior em relação à validade do método indutivo — problema


que já foi colocado no século XVIII pelo empirista David Hume. Toda generalização
pretende ser válida não apenas para fatos já passados, mas também para fatos futuros, e
por isso a generalização só é possível se pressupomos a regularidade da natureza. O
método indutivo se fundamenta, portanto, no princípio de regularidade da natureza, mas
a própria fundamentação desse princípio é impossível, dado que a regularidade da
natureza só pode ser afirmada pelo princípio da indução, quer dizer, por meio de uma
generalização a partir de fatos já passados. O argumento que pretende justificar é um
argumento circular, isto é, dá por demonstrado exatamente aquilo que o argumento
deveria provar. A regularidade dos fenômenos naturais só pode ser postulado, quer
dizer, estabelecido como crença, e tem valor pelo fato de ser útil, já que permite avançar
na formulação de hipóteses.

Por último, a observação e o registro dos fatos significativos são feitos sempre a partir
de uma teoria prévia, que não foi obtida por indução. Ou seja, os fatos só são
significativos na medida em que temos um padrão de referência a partir do qual eles
cobram significação.

O método hipotético-dedutivo
116

O método hipotético-dedutivo, ou método geral da ciência, segundo M. Bunge, é o


modelo metodológico seguido pelas ciências experimentais em geral, mas sobretudo
pelas ciências da natureza.

Para Galileu Galilei (1564-1642), que o chamou de método de resolução e composição,


a física devia partir da observação resolvendo a natureza de suas propriedades essenciais
e primárias, expressas matematicamente, para compor uma hipótese (literalmente,
"suposição"), unindo as propriedades essenciais escolhidas e expressas em linguagem
matemática. Basicamente, consiste na dedução — a partir de uma hipótese prévia — de
uma série de consequências confrontáveis por meio de uma experiência promovida para
confirmá-la.

São muitas as diferentes enumerações que já foram feitas das fases ou etapas desse
método. Enumeremos aqui as que M. Bunge chama de "pauta de investigação
científica":

a) Colocação do problema: reconhecimento, classificação e seleção de fatos relevantes;


descoberta do problema (lacuna ou incoerência no corpo do saber já existente);
formulação do problema (redução do problema a seu núcleo significativo.

b) Construção do modelo teórico: seleção dos fatores pertinentes; invenção das


hipóteses (enunciados de lei que se espera possam se adequar aos fatos observados);
tradução matemática, na medida do possível.

c) Dedução das consequências particulares: já verificadas no mesmo campo ou em


campos próximos; e/ou elaboração de previsões empíricas que possam ser verificadas.

d) Prova das hipóteses: esboço e execução da prova; elaboração e interpretação dos


dados da experimentação, à luz do modelo teórico.

e) Introdução das conclusões na teoria: comparação das conclusões com as previsões


para confirmar o modelo (confrontação).

As conclusões da ciência sempre são consideradas provisórias. Esse método não tem a
segurança do método dedutivo, mas é progressivo, já que se autocorrige: os resultados
são as fontes de novas perguntas.

O maior problema do método hipotético-dedutivo se enraíza na confrontação das


hipóteses. Sendo as hipóteses enunciados universais, nunca podem ser confrontadas
com todos os casos possíveis . A comprovação é feita pela dedução do hipótese de fatos
que possam ser observados por meio da experimentação — o que permite confirmar a
hipótese.

A falseabilidade

As deficiências do critério de verificação para confirmar uma hipótese (nunca é possível


uma verificação concludente, já que não se pode realizar uma verificação completa de
todos os casos possíveis) levaram Karl Popper (1902-1994) a propor em A lógica da
117

investigação científica (1934) uma reformulação do método hipotético-dedutivo. Trata-


se, não de buscar fatos que confirmem as consequências da hipótese, mas de buscar
fatos que as refutem, ou falseiam. O cientista deve fazer todo o possível para refutá-las,
arriscando-se a fazer previsões a partir de suas hipóteses, sob o risco de elas acabarem
por se mostrar falsas. O método proposto por Popper é o conhecido como
falseabilidade.

A falseabilidade se baseia na impossibilidade de uma inferência lógica que permite


passar de enunciados particulares a enunciados universais — porque a confrontação por
confirmação nunca corrobora suficientemente em enunciado universal, ao passo que um
único enunciado particular pode contradizer um enunciado geral e obrigar a abandoná-
lo, já que esse enunciado particular se baseia numa inferência lógica correta ou válida
(modus tollens).

Tal como no método hipotético-dedutivo, para a falseabilidade toda a hipótese é


considerada válida provisoriamente, enquanto não aparecer um caso que a refute ou
contradiga. Uma hipótese — e em consequência uma lei — nunca poderá ser
considerada definitivamente verdadeira.

A questão sobre a diferenciação entre os enunciados científicos e os não científicos —


resolvida pelos positivistas com o critério de verificabilidade e pela falseabilidade com
o critério de falsificação — é o conhecido como o problema da demarcação.

Os métodos das ciências humanas e sociais

As ciências humanas e sociais têm características próprias que fazem com que seu
modelo metodológico não seja o das ciências naturais.

— A complexidade do ser humano como objeto de investigação, tanto do ponto de vista


individual quanto do ponto de vista social; a dificuldade de captar o comportamento
humano devido à sua grande variedade, às motivações individuais e às circunstâncias
em que são produzidas; a variável "liberdade" que impede que se fale de
acontecimentos constantes — tudo isso dificulta enormemente a formulação de leis
gerais e enfraquece a capacidade de fazer previsões.

— A dificuldade de se utilizar métodos experimentais, razão pela qual se dever buscar a


confrontação das hipóteses por outras vias, como observação, a estatística ou a análise
de documentos

— O fato de que o próprio pesquisador é um ser humano: isto coloca o problema da


relação entre objeto de investigação e o sujeito que a realiza — o sujeito faz parte do
objeto de estudo.

— Não existe neutralidade valorativa: o pesquisador não se comporta com


imparcialidade, já que inconscientemente existe uma carga afetiva e algumas ideias
prévias (preconceitos, valores, tradições etc.) que não estão presentes quando o objeto
de estudo não é humano.
118

A tradição empirista ou positivista, que persegue a unidade da ciência, exige que se


aplique o método das ciências naturais às ciências sociais: eles devem explicar os
fenômenos. O desenvolvimento cada vez mais sofisticado dos métodos quantitativos
(estatísticos) é seu instrumento de análise da realidade social, sem que por conta disso
tenham alcançado a capacidade preditiva das ciências naturais.

A tradição hermenêutica fala de compreensão científica, além de explicação. A


explicação de um fenômeno é a elucidação de suas causas. A compreensão é a
capacidade de captar o sentido do acontecimento, sua singularidade, sua complexidade e
seu contexto: os fenômenos devem ser compreendidos, além de explicados e por isso
deve-se adotar uma metodologia própria. As técnicas qualitativas (entrevistas, grupos,
histórias de vida etc.) não buscam a generalização, mas a compreensão de casos
concretos baseando-se num conhecimento prévio da realidade, que se pretende
compreender. O círculo hermenêutico se baseia em duas reflexões específicas: que toda
a compreensão do ser humano é feita a partir de uma pré-compreensão, do ponto de
vista da cultura atual; e que, quando se compreende, atribui-se sentido àqueles dados
que estão sendo analisados.

Para a teoria crítica (a escola de Frankfurt), além disso, as ciências sociais não devem
apenas compreender os fenômenos sociais, mas criticá-los: não existem teorias neutras,
pois todas estão guiadas por algum interesse. As ciências sociais devem se orientar pelo
interesse emancipatório, buscando com critério a partir do qual efetuarão a crítica de
nossa sociedade naquilo em que ela é contrária a tal interesse.

Teoria e realidade

Um dos problemas epistemológicos mais interessantes é o da relação entre as teorias


científicas e o modo ao qual se pretende aplicá-las. As teorias científicas são
construções humanas, produto da razão humana; ao longo da história, estão sujeitas a
mudanças e, em muitas ocasiões, são até abandonadas em favor de outras teorias mais
potentes do ponto de vista da explicação que proporcionam. Essa evidência levanta uma
questão: qual a relação entre teoria e realidade.

Uma postura possível é a do realismo, que defende que as teorias científicas são
representações reais de como é a natureza. A concepção alternativa, o instrumentalismo,
considera as teorias científicas exclusivamente como instrumentos úteis para a
compreensão da realidade, mas sem a pretensão de serem expressão da própria
realidade. (1)

Estrutura Lógica do Conhecimento


Com a linguagem emitimos juízos, que são os atos da mente pelos quais afirmamos ou
negamos algo. Emitimos juízos por meio de um tipo de frase ou oração a que chamamos
de "enunciado", ou "proposição".
119

O encadeamento articulado de proposições constitui o discurso. A lógica é a disciplina


que estuda a forma do discurso argumentativo: o raciocínio. O raciocínio é a passagem
de algumas proposições (premissas) a outras (conclusão)

Podemos dizer das proposições que são verdadeiras ou falsas, caso aquilo que afirmem
seja ou não uma realidade. A verdade se aplica às proposições e se refere a seu
conteúdo. A validade se aplica ao raciocínio e se refere a sua forma, ou estrutura
abstrata.

Com a ajuda de uma linguagem formal, a lógica pretende captar os mecanismos que
fazem com que um raciocínio seja válido.

A lógica enquanto ciência formal

A lógica é uma das ciências que estudam os conhecimentos, ainda que de maneira
diferente da de outras disciplinas, como a epistemologia ou a psicologia. A lógica se
interessa pelo estudo das normas ou regras do pensamento que devem ser seguidos para
se efetuar um raciocínio correto, um raciocínio que nos proporcione um conhecimento
válido. O campo da lógica é a validade dos raciocínios - sua estrutura formal -, não a
verdade das proposições que os formam. A verdade faz referência aos conteúdos dos
enunciados, e cabe às ciências empíricas se ocuparem dela.

Como sinônimo de raciocinar, usa-se habitualmente a palavra "discorrer", aludindo com


isso ao caráter de movimento do raciocínio. O raciocínio é um "discurso", um
movimento que avança a partir de um lugar para chegar a outro. Raciocinar é apoiar ou
fundamentar uma afirmação - que, chamamos de conclusão - em outras - que chamamos
de premissas. Raciocinar é o "discurso" das premissas até a conclusão, como o curso
(discurso) de um rio, de suas fontes até o mar.

Esse avanço, no entanto, deve ser feitos de maneira correta, com a garantia de que a
conclusão se deriva necessariamente das premissas.

Raciocinamos sempre na e por meio da linguagem. A lógica se interessa pelos


enunciados emitidos por meio da linguagem, mas apenas no aspecto de que da verdade
ou falsidade de uns pode se derivar da verdade ou falsidade de outros, de acordo com
sua própria estrutura. A lógica se interessa pela forma dos enunciados, não por seu
conteúdo, por isso a lógica é uma ciência formal (assim como as matemáticas): não leva
em conta os conteúdos, apenas a forma do raciocínio.

A lógica é uma ferramenta fundamental para a ciência, pois lhe permite analisar,
explicar e organizar as verdades já conhecidas. A partir da verdade de alguns
enunciados científicos, a lógica pode assegurar outras verdades que estão ligadas
logicamente às primeiras. Esse caráter instrumental já se manifesta desde os primeiros
tratados de lógica, escritos por Aristóteles, que receberam o nome de Organon
(instrumento).
120

A linguagem artificial da lógica

As linguagens naturais (as línguas faladas, criadas, recriadas e transmitidas pelos


homens ao longo de sua história) não são linguagens exatas. Sua lenta construção ao
longo de muitos anos, fruto da relação do homem com o mundo, torna-as muito ricas e
cheias de matizes, mas também vagas e cheias de ambiguidades e confusões. Os pontos
de vista a partir dos quais uma linguagem natural pode ser estudada são três: o sintático,
que analisa as relações das palavras entre si; o semântico, que investiga o significado
das palavras; e o pragmático, que se ocupa do uso feito pelos falantes da língua.

As ciências optam pelo uso de linguagens especializadas com o objetivo de evitar ao


máximo possível os equívocos e mal-entendidos. O rigor científico exige uma
linguagem formal clara, precisa, unívoca e objetiva.

A lógica, embora pretenda determinar a estrutura do raciocínio expressa nas linguagens


naturais, mas com o objetivo de evitar problemas, emprega uma linguagem artificial,
desligada de conteúdos concretos, capaz de formular com mais precisão, e em toda a sua
nudez, a sintaxe do raciocínio: sua forma. A esse tipo de linguagem dá-se o nome de
linguagem formal, construída com símbolos que eliminam qualquer consideração
semântica ou pragmática. No entanto, essa linguagem artificial construída com símbolos
permitirá depois interpretações semânticas, quando esse signos forem substituídos por
expressões linguísticas com significado. Dessa maneira, uma mesma fórmula simbólica
pode ser traduzida numa série indefinida de expressões semânticas.

Uma linguagem totalmente formalizada, reduzida a símbolos e a sua dimensão sintática,


é uma linguagem reduzida a um conjunto de regras que permitem operar com símbolos,
da mesma forma que um cálculo aritmético ou algébrico.

Chamamos de cálculo aquela estrutura composta dos seguintes elementos:

a) um conjunto de símbolos elementares, determinado de tal forma que podemos dizer


sem ambiguidade se um símbolo pertence ou não a ele.

b) um conjunto de regras de formação ou construção que estabeleça com clareza quais


são as combinações corretas entre esses símbolos elementares, de tal forma que
possamos dizer sem ambiguidade se uma expressão, ou construção de símbolos, é uma
"expressão bem construída do cálculo".

c) um conjunto de regras de transformação, que permita transformar uma expressão bem


construída em outra igualmente bem construída.

A lógica formal, simbólica ou matemática adota a estrutura de diferentes cálculos,


segundo o tipo de análise que faça das proposições:

A lógica de enunciados, ou proposicional é aquela que se ocupa das proposições


enquanto tais, e do modo como elas se relacionam entre si, prescindindo de sua
estrutura interna.

A lógica de predicados é a que se ocupa da validade do raciocínio, levando em conta a


estrutura interna das proposições - a relação entre o sujeito e o predicado.
121

A lógica de classes é aquela que se ocupa dos conjuntos de realidades individuais


designadas por um predicado (classes), e as relações entre indivíduos e classes.

Princípios lógicos elementares

Os princípios lógicos básicos sobre os quais se sustentam todas as operações lógicas


são:

- Princípio de identidade: se uma proposição é verdadeira, então é verdadeira. Toda


proposição se deduz logicamente de si mesma.

- Princípio de não-contradição: se uma proposição é verdadeira, não pode ser falsa ao


mesmo tempo.

- Princípio do terceiro excluído: dada uma proposição, ou ela é verdadeira ou sua negação
o é. Não pode haver outra possibilidade.

A escritura é essencial para divulgar o saber científico.

Assim como os símbolos e as regras são necessários para se calcular, compreender e


explicar todos os tipos de fenômenos físicos, químicos e matemáticos, a lógica também
se serve de uma linguagem que permite enunciar proposições que expliquem as normas
do pensamento para efetuar um raciocínio que nos proporcione o conhecimento. (1)

Origens e Limites do Conhecimento


Como a questão é conhecer a realidade, parece que só a experiência pode nos permitir
chegar até ela. Segundo essa concepção, conhecida como "empirismo", a origem de
nosso conhecimento é a experiência. No entanto, esse conceito fundamental tão
irrefutável e próximo do senso comum foi muito discutido ao longo da história da
filosofia. O "racionalismo", a concepção oposta a esta, considera que a experiência por
si só não pode nos proporcionar algo de natureza tão complexa e diferente da simples
sensação como é o conhecimento racional.

O problema da origem do conhecimento está profundamente ligado ao problema de seus


limites, e é também a experiência que articula todas as respostas — não importa se
nossos conhecimentos procedem ou não dela. Será possível conhecer para além da
experiência?

Empirismo

Os empiristas acham que a mente do ser humano, quando ele nasce, é como uma lousa
onde não há nada escrito. Tudo aquilo que o ser humano for conhecendo será
122

proporcionado pela experiência. Essa é a formulação básica de toda concepção


empirista, e foi assinalada por numerosos filósofos ao longo da história (os sofistas,
Aristóteles, Santo Tomás de Aquino etc.). Porém a formulação mais radical fica por
conta do empirismo dos séculos XVII e XVIII: o conhecimento não só procede da
experiência, mas está limitada a ela. Não podemos ir além do que a experiência nos
mostra, e ficam fora dela realidades como Deus, mas também nosso próprio eu e o
princípio de causalidade, sobre o qual se apoia toda a ciência empírica. Nem sequer
podemos afirmar com total segurança que existam fora de nossa mente os objetos que
produzem nossas sensações; só temos experiência de nossas sensações (a chamada
"experiência exterior") ou de nosso próprios atos metais — como, por exemplo,
duvidar, pensar, desejar, temer, odiar etc. ("experiência interior").

Os empiristas defendem uma teoria conhecida como nominalismo. Segundo essa


teoria— que já tinha sido defendida por filósofos medievais, como Guilherme de
Occam — todas as nossas ideias ou conceitos são apenas percepções ou imagens
singulares. O único Universal são as palavras, os nomes (nomina, em latim, de onde
provém "nominalismo"), e representam na mente um conjunto de percepções ou
imagens particulares semelhantes. Por razões de economia, a mente acaba dispensando
as imagens singulares e por isso utilizam simplesmente a palavra que as designa.

Racionalismo

A formulação clássica do racionalismo é a dos filósofos do século XVII — sobretudo


Descartes e Leibniz —, embora Parmênides e Platão também possam ser considerados
racionalistas. O racionalismo não nega que a experiência proporcione um conhecimento
muito útil para a vida prática, mas denuncia a insuficiência e a ineficácia dos sentidos
para nos proporcionar um conhecimento autêntico, "científico". Por isso, a única origem
possível do conhecimento é a razão, não a experiência.

Para o racionalismo, a realidade é percebida confusamente na experiência, e, no entanto,


quando a compreendemos intelectualmente, temos então um conhecimento "claro e
distinto" segundo as palavras de Descartes. Além disso, os sentidos podem nos enganar,
proporcionando-nos um conhecimento meramente ilusório. Por outro lado, as sensações
e as percepções só proporcionam um conhecimento particular e contingente: dizem-nos
o que de fato ocorre para os casos particulares de que tivemos a experiência, mas não
nos dizem que não pode ser de outra maneira, que necessariamente tem de ser assim
para todos os casos. O conhecimento autêntico deve ter validade universal e necessária,
e isto somente a razão proporciona. A razão é dotada de ideias inatas, alguns princípios
evidentes não adquiridos que server de fundamento para o resto dos conhecimentos. O
inatismo dos conceitos é a forma de justificar a possibilidade do conhecimento: se os
sentidos não nos permitem conhecer, a possibilidade do conhecimento deve estar no
próprio sujeito, na medida em que esse possua esses conceitos de forma inata.

Todo o conhecimento da realidade consiste num desdobramento dos conteúdos da


própria razão, e se isso é possível é porque o racionalismo pressupõe que a estrutura da
razão é também a estrutura da própria realidade.
123

O racionalismo não reconhece limites para a razão. Esta pode ir mais além da
experiência — embora, certamente, seu poder não seja ilimitado, uma vez que o ser
humano é algo finito.

Apriorismo

Segundo Kant, filósofo alemão do século XVIII, a quem se deve essa concepção, o
conhecimento não pode prescindir da experiência. Ela lhe proporciona a "matéria": as
sensações. O conhecimento começa com a experiência, mas nem todo o conhecimento
provém dela: a razão, estimulada pelas impressões sensíveis, acrescenta algo, dá a
"forma" do conhecimento. O conhecimento é a união de matéria (proporcionada pela
experiência) e forma (trazida pela sensibilidade e pelo entendimento, as duas faculdades
que intervêm no processo cognoscitivo). A matéria é a posteriori e a forma é a priori. O
conhecimento é sempre construção, já que a razão organiza os dados da experiência.

O apriorismo não é inatismo, uma vez que a razão é a forma organizadora do conteúdo
que a experiência lhe proporciona, mas ela por si mesma não proporciona
conhecimento. Por outro lado, a ação dos elementos a priori é o que outorga ao
conhecimento seu caráter universal necessário, que a experiência por si só é incapaz de
proporcionar. Existe, portanto, uma conciliação das teses empiristas e racionalistas.
Assim, reconhece um papel fundamental à razão, tal como o racionalismo sustentava;
mas esta só tem valor cognoscitivo em relação àquilo que a experiência lhe proporciona.

No que diz respeito aos limites do conhecimento, para Kant é evidente que ele não pode
ir além da experiência, e com isso todo o conhecimento metafísico fica sem fundamento
e sem validade. (1)

Processos do Conhecimento
A experiência sensível - aquilo que captamos das coisas por meio dos nossos sentidos -
é o que está na origem de nossos conhecimentos. Nas palavras de Kant, "não há dúvida
de que todo o nosso conhecimento começa com a experiência". Mas, como o próprio
Kant acrescenta a seguir, "ainda que nosso conhecimento comece com a experiência,
nem por isso ele procede inteiramente da experiência". Conhecer algo não consiste
simplesmente em "vê-lo", captá-lo pelos sentidos. Só conhecemos quando o
identificamos como determinado objeto ou como determinado outro (como um "cão" ou
um "pôr-do-sol"). Essa identificação é possível graças ao conceito, que é o resultado de
outro tipo de operação, já não meramente sensível, mas intelectível.

Esse tipo de conhecimento se chama conhecimento empírico ou experiência. O termo


"experiência" deriva do latim experientia ("ensaio", "prova") e é o equivalente do grego
empeiria. A psicologia atual prefere usar o termo "percepção".

A sensação
124

Por intermédio de nossos órgãos dos sentidos, recebemos informação do mundo que nos
rodeia. Os estímulos que nos chegam do exterior incidem sobre os nossos sentidos e
provocam determinadas alterações de caráter físico ou químico. Os sentidos transmitem
uma corrente nervosa ao cérebro e provocam nela uma reação. O resultado são as
sensações, a captação de determinadas qualidades sensíveis ou dados sensoriais. Os
objetos físicos ou sensíveis vão sendo "transformados" em qualidades psíquicas, que já
não são físicas, pelo próprio sujeito que as recebe. Em virtude desse processo, vemos
cores, ouvimos sons, captamos diversos cheiros, sentimos frio ou calor, suavidade ou
dureza etc.

Cada espécie animal possui alguns órgãos constituídos de tal maneira que podem captar
determinadas qualidades sensíveis, enquanto permanecem totalmente insensíveis a
outras. A retina do olho só pode captar impressões luminosas cujo comprimento de
onda esteja numa determinada faixa, que no caso dos humanos representa 1/70 do total
do espectro da luz solar. Assim, não vemos os raios infravermelhos nem podemos ter
uma ideia de como representaríamos o mundo físico caso pudéssemos vê-los. Os
morcegos são capazes de perceber certos sons que para os ouvidos humanos são
inaudíveis. Cada espécie animal percebe um mundo diferente, do qual capta o
necessário para sobreviver. O mundo dos humanos é um deles.

Tradicionalmente, diferenciam-se cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato.


De todos, o tato mé o mais complexo, porque por ele recebemos as impressões de peso,
de pressão, de frio-calor, de dor etc. Mas o sentido mais considerado, devido a sua
possibilidades cognitivas, é a visão: sempre se supôs que ela é o sentido que permite
obter uma informação mais completa do objeto. Termos como, por exemplo, "teoria"
(contemplação) derivam do privilégio concedido à visão, ou à "ideia" platônica (em
grego eidos: o visível aos olhos da alma).

Percepção

As sensações constituem o material básico de nossa experiência dos objetos, mas é um


fato indubitável que não captamos qualidades isoladas. Quando pegamos uma maçã de
uma fruteira, não captamos apenas uma mancha de cores vermelha ou verde, um
determinado cheiro, e uma certa textura ou dureza. Captamos um objeto único: uma
maçã. É a isso que se chama propriamente de percepção. O que os órgãos sensoriais
captam é a sensação, enquanto que a percepção é uma atividade pela qual o sujeito capta
totalidades que têm um significado para ele.

A percepção não é uma simples soma de sensações. É o resultado de uma complexa


operação pela qual recebemos as sensações, selecionamos delas as que nos parecem
mais significativas, reunimos-las num conjunto, relacionamo-las com outras percepções
armazenadas em nossa memória, identificamo-las como formas perceptuais
determinadas e, finalmente, atribuímos-lhes um nome. O resultado desse processo é um
determinado conhecimento do mundo - como pode ser, por exemplo, o de que existe
uma maçã sobre a mesa.

Na percepção não intervêm, portanto, apenas os sentidos (o que já não é verdade nem
sequer nas sensações), nem tampouco se explica pela intervenção do sistema nervoso.
125

Trata-se de uma operação ativa, na qual o sujeito não se limita a registrar passivamente
os dados sensoriais. O sujeito "constrói" o objeto quando seleciona, organiza ou
interpreta os dados sensoriais. Isto ocorre em todos os casos, mas é mais evidente
quando somos capazes de identificar um objeto percebendo simplesmente um traço
pequeno e característico. A percepção é, portanto, uma atividade construtiva.

É preciso destacar algumas características da percepção. Por exemplo:

— A percepção é uma atividade mediatizada. Não percebemos as coisas diretamente,


mas mediatizadas por nosso aparelho sensorial e por nossas experiências anteriores.

— A percepção é uma atividade classificatória. Ao perceber uma maçã, nós a


percebemos como pertencente à classe das maçãs e a distinguimos de outros objetos que
pertencem a outras classes.

— A percepção é seletiva. Habitualmente, recebemos múltiplos estímulos, mas nem


todos solicitam nossa atenção da mesma forma. A atenção faz com que determinados
estímulos se destaquem sobre os demais, que ficam relegados a um segundo plano sem
chegar a se constituir em objetos de percepção. A atenção é, portanto, seletiva. O que
determina a atenção é, fundamentalmente, o interesse do sujeito. No caso dos animais,
trata-se de interesses puramente biológicos; mas no caso do homem trata-se, além disso,
de interesses culturais.

Os interesses individuais fazem com que o sujeito da percepção repare em determinados


detalhes que para outro sujeito podem passar despercebidos. Por exemplo, um amante
dos cavalos percebe mais detalhes de um cavalo do que a maioria das pessoas. As
diferenças entre culturas distintas trazem às vezes consigo diferenças de interesses que
também influenciam na maneira de perceber os objetos. Os esquimós, por exemplo,
percebem muitos matizes de branco, o que obedece evidentemente a um interesse de
sobrevivência na neve.

A percepção e o conceito

A percepção implica a identificação, o reconhecimento de um conjunto de sensações


como algo determinado:como uma maçã, como uma árvore etc. "Maçã" e "árvore" são
conceitos. Na percepção intervêm, portanto, conceitos, mas isso não significa que sejam
a mesma coisa. O conhecimento completo requer tanto a percepção quanto o conceito.

A percepção capta objetos singulares: esse cavalo, aquela maçã, com as características
particulares que as diferenciam de outros cavalos e outras maçãs. No entanto, quando
dizemos de cada um deles que é um cavalo ou uma maçã, estamos expressando algo que
vale para todo cavalo e toda maçã. O conteúdo do conceito é, portanto, uma
representação universal, aplicável a todos os objetos que possuam determinadas
características. Os objetos singulares que percebemos são um caso particular daquilo
representado no conceito.
126

Compreensão e extensão do conceito

Em todo conceito, podem-se distinguir dois aspectos: a compreensão (também chamada


de "conotação" ou "intenção"), que é o conjunto de indivíduos aos quais o conceito é
aplicável. Por exemplo, a compreensão do conceito "ser humano" seria "animal
racional"; a extensão seria o conjunto dos seres humanos. Nem todos os conceitos têm a
mesma extensão: existem os mais extensos e os menos extensos. O conceito "animal" é
mais extenso do que o conceito "ser humano", já que, além de se aplicar aos homens,
aplica-se a outros indivíduos.

Entre compreensão e extensão, ocorre uma regra de relação inversa: quanto maior é a
extensão, menor é a compreensão. Se aos elementos que constituem o conceito "animal"
acrescentamos um traço, o de "ser racional", a compreensão terá aumentado (até chegar
ao conceito de ser humano), mas a extensão terá diminuído, uma vez que o novo
conceito já não será aplicável a todos os animais, mas somente aos animais racionais.
Ao suprimir elementos de um conceito, sua extensão se amplia; ao lhe acrescentar
novos elementos, sua extensão se reduz. Quanto mais extenso é um conceito, mais
indeterminado; quanto menos extenso, menos indeterminado. De acordo com essa lei, é
possível organizar hierarquicamente os conceitos dentro de um gênero.

Podemos pensar que, se um conceito tivesse extensão igual a 1, quer dizer, se o conceito
só fosse aplicável a um indivíduo, a compreensão seria infinita. Isso quer dizer que, para
definir o conceito de um indivíduo, em sua total singularidade, deveríamos dar infinitos
elementos sobre ele, quer dizer, a compreensão do conceito deveria incluir todas as
características desse indivíduo — o que é de fato impossível. Isso coloca o problema da
relação entre o singular (o objeto concreto) e o universal (o conceito): embora o que
exista sejam indivíduos totalmente singulares, esses só podem ser conhecidos como
particularidades do universal, mas não podem ser conhecidos em sua plena
singularidade.

As palavras e os conceitos

Os conceitos se expressam na linguagem, nas palavras que compõem o vocabulário de


uma língua.

As palavras, como já vimos, são signos linguísticos, e representam a união de um


significante e um significado. Por meio deste, a palavra remete a um referente. Por outro
lado, sabemos que os conceitos têm compreensão e extensão. Pois bem: o significado da
palavra corresponde à compreensão, enquanto o referente corresponde à extensão do
conceito.

Utilização dos conceitos

Os conceitos permitem, em primeiro lugar e fundamentalmente, a compreensão da


realidade, e com isso a capacidade de se orientar nela. Os conceitos nos permitem
classificar os objetos, enquadrando-os em nossa experiência anterior do mundo. Graças
127

aos conceitos, podemos reconhecer os objetos que percebemos como uma coisa
determinada - como uma árvore, uma maçã etc. Por outro lado, a natureza inteligível
dos conceitos permite um conhecimento mais amplo e mais complexo do que o recebido
pelos sentidos. Por isso, é possível fazer ciência, já que os conceitos permitem abordar a
realidade com um elevado grau de abstração, e não simplesmente com o caráter
concreto com que ela se apresenta na percepção.

O conhecimento conceitual da realidade nos permite ter expectativas sobre ela, na


medida em que a compreendemos. Dessa maneira, as coisas já não são algo que escapa
totalmente a nosso controle: é possível estabelecer estratégias de comportamento.

Conceito, proposição e raciocínio

Os conceitos são fruto de nosso entendimento ou razão, mas a atividade da razão não se
limita a produzir conceitos. A razão também os relaciona em proposições: combinando,
relacionando ou contrastando conceitos, formamos proposições. Uma proposição é um
pensamento que afirma ou nega alguma coisa: tanto o que se afirma ou se nega como
aquele ou aquilo de quem se afirma ou se nega são conceitos. Por exemplo: "Todos os
cães são mamíferos". O conceito de "cão" foi posto em relação com o conceito de
"mamífero".

A razão, além disso, combina proposições e dessa maneira produz raciocínios. Neles, a
razão relaciona proposições de modo que umas derivam de outras e com essa atividade
nossos conhecimentos se fundamentam.

Raciocinar consiste em acrescentar as razões que justifiquem nossos conhecimentos, ou


seja, em dizer por que conhecemos ou sabemos algo. (1)

O conceito de maçã não é a mesma coisa que a percepção de uma maçã. O primeiro
pode referir-se a qualquer maçã ou à ideia mental que alguém faz dessa fruta ao nomeá-
la. Pelo contrário, a percepção se refere a uma determinada maçã concreta: vermelha,
amarela, lisa, encarquilhada etc.
128

As palavras são signos com os quais nos referimos a um conceito. Um clube de futebol
cria em seus torcedores expectativas que ultrapassam o conceito de um mero grupo de
jogadores.

Os morcegos possuem o sentido de audição muito desenvolvido, de maneira que podem


perceber sons que o homem é incapaz de ouvir. Essa capacidade lhes permite
orientarem-se no escuro, mas eles não têm a faculdade de registrar ativamente as
sensações para construir um objeto concreto, relacioná-lo, classificá-lo e identificá-lo -
ou seja: não possuem a aptidão para conhecer o que percebem.

(1) Temática Barsa - Filosofia (cópia)

Conhecimento: o Raciocínio e suas Variantes


O raciocínio dedutivo é o tipo de raciocínio analisado pela lógica formal. Nele, as
conclusões derivam necessariamente das premissas. É um raciocínio forte.

Existem, no entanto, outros tipos de raciocínios nos quais a verdade não é necessária,
mas apenas provável. Esses tipos de raciocínio mais fracos são a generalização indutiva
e a analogia.

O raciocínio tem também suas armadilhas. Existem ocasiões em que raciocínios que
parecem corretos na verdade não são. São as falácias.

Raciocínio dedutivo
129

O tipo de raciocínio capaz de ser analisado pela lógica é o raciocínio dedutivo. O


raciocínio dedutivo é aquele em que a conclusão deriva necessariamente das premissas:
se as premissas são verdadeiras, a conclusão tem de ser necessariamente verdadeira. As
premissas implicam logicamente conclusão, e a conclusão é uma consequência lógica
das premissas. É um raciocínio forte ou sólido, que proporciona a máxima segurança,
por ser independente da experiência e inferido exclusivamente pelo raciocínio, desde
que haja os dois requisitos seguintes: que as premissas sejam verdadeiras (enquanto de
conteúdo real ou conteúdo de verdade) e que esse esquema de raciocínio seja válido
(requisito de conteúdo formal ou esquema válido).

No raciocínio dedutivo, conclusão já está contida nas premissas, explicitamente, de


modo que se poderia dizer que a conclusão não agrega novas informações ou novos
conhecimentos. Basta derivar por meio das leis da lógica a informação apresentada
pelas premissas para se chegar à conclusão. Embora isto não seja correto, de alguma
forma as novas proposições, derivadas das premissas parecem apresentar informação
nova, já que a capacidade de enxergar a conclusão só com as premissas não é
instantânea: depende, em muitos casos, da própria complexidade do raciocínio. O
raciocínio dedutivo, portanto, é uma das formas mais seguras de ampliar os
conhecimentos, e é empregado pela matemática e pela lógica.

A validade de um raciocínio dedutivo é independente da verdade ou falsidade das


proposições que o integram. A verdade ou falsidade é uma propriedade das proposições,
enquanto que a validade depende da relação lógica entre as premissas e a conclusão.
Num raciocínio válido, se as premissas são verdadeiras a conclusão também é; mas, se
as premissas são falsas, a verdade da conclusão é indeterminada (pode ser verdadeira
em alguns casos e não em outros). A correção ou incorreção de um raciocínio dedutivo
depende, portanto, da forma. Demonstrar a validade é tornar explícitos todos e cada um
dos passos que permitem deduzir de forma correta ou legítima (com o uso das leis ou
regras de inferência da lógica) a conclusão a partir das premissas. Num raciocínio não
válido, a conclusão é indiferente à verdade das premissas.

Raciocínio indutivo

O raciocínio indutivo é aquele por meio do qual, a partir do exame de um número


elevado de casos particulares (premissas), generalizam-se todos os indivíduos do
conjunto (conclusão). A conclusão, no raciocínio indutivo, é apenas provável - não se
depreende necessariamente das premissas. Não oferece segurança absoluta, já que a
verdade das premissas não assegura a verdade da conclusão: sempre poderia aparecer
um indivíduo (um novo caso) que não cumprisse a promessa ou propriedade.

No entanto, a generalização é aceita, já que o costume nos faz pensar que a natureza e as
coisas têm comportamentos regulares - que aquilo que aconteceu muitas outras vezes
voltará a se repetir se as circunstâncias forem semelhantes - ou que, definitivamente,
existe um princípio de regularidade da natureza: o Sol sai a cada dia; se deixo um objeto
solto, ele cai no chão etc.

O raciocínio indutivo permite aumentar o conhecimento, mas sempre sob a condição de


que se admita a sua fragilidade. A conclusão não está implícita nas premissas, apoia-se
130

nelas, mas elas não a contêm. Produz-se o chamado salto indutivo: a partir de casos
conhecidos, generaliza-se todo o conjunto. Aplica-se a todo o conjunto a verdade
observada apenas numa parte dele. Quanto maior o número de observações, maior é a
probabilidade de que a conclusão seja verdadeira, mas sem a total segurança. Quanto
maior a perspicácia analítica de quem elabora o raciocínio, será possível concluir aquilo
que tem a maior probabilidade de ocorrer. Esse tipo de raciocínio não é empregado
pelas ciências experimentais.

A validade de um raciocínio indutivo não depende da forma como as premissas e a


conclusão se relacionam. Um raciocínio indutivo é válido se, e somente se, as premissas
apoiam suficientemente a conclusão, se a verdade das premissas torna provável (mais
provável do que menos) a verdade da conclusão. Num raciocínio indutivo válido,
podemos conhecer a verdade das premissas e nos equivocarmos na conclusão. A
conclusão nunca será necessariamente verdadeira, ainda que as premissas o sejam
(raciocínio dedutivo). Podemos afirmar as premissas e negar a conclusão sem entrar em
contradição. Diferentemente do raciocínio dedutivo, não há incoerência se as premissas
são verdadeiras e a conclusão é falsa.

A indução pode ser completa ou incompleta. Ela é completa quando se pode enunciar a
propriedade de cada um dos elementos que formam o conjunto, podendo-se ter a
enumeração completa. Serve apenas para conjuntos fechados e não é útil para conjuntos
mais abertos. O problema se coloca, quando no âmbito da realidade fica difícil de
enumerar - se não impossível - todos os casos particulares. A indução completa é a
usada habitualmente nas ciências.

Raciocínio analógico

A base do raciocínio analógico consiste em relacionar duas ou mais coisas nas quais
estabelecemos algum traço em comum e, em função da semelhança (analogia ou
similitude) entre essas características ou situações conhecidas, concluir que outra
característica que uma tenha a outra também terá.

O raciocínio analógico não tem o caráter necessário do raciocínio dedutivo, nem o


caráter provável do indutivo: seus resultados são apenas aproximados. A validade se
baseia na plausibilidade das razões que se oferecem para estabelecer tal analogia:
quanto mais características os âmbitos comparados tenham em comum, quanto menos
diferenças, quanto mais relevantes sejam as semelhanças, mais credibilidade o
raciocínio analógico inspirará.

A confiabilidade desse tipo de raciocínio é relativa e pode induzir a erros, mas é útil
para sugerir relações e encontrar soluções para diversos problemas, apesar de não
proporcionar uma credibilidade absoluta. Implica um elemento criador: é uma
construção que, de um lado joga com os limites dos elementos a serem relacionados,
mas por outro joga com a liberdade imaginativa de quem o produz. É usado nas ciências
empíricas, como a medicina, por exemplo - quando se espera que um medicamento se
comporte da mesma forma num ser humano depois de ter sido experimentado em
animais de laboratório.
131

Os raciocínios enganosos

A palavra falácia provém do verbo latino fallor, que significa "enganar-se". Uma falácia
é um raciocínio que aparenta ser válido mas não o é, já que esconde algum erro, seja por
sua forma ou estrutura lógica (falácias formais), seja porque a informação que as
premissas proporcionam não é pertinente (confusa, escassa, errônea ou ambígua) para a
formação da conclusão (falácias não formais ou materiais). O estudo das falacias é
antigo, e por isso muitas delas são conhecidas por seu nome latino. Entre as mais
habituais, destacam:

Falácias formais

- Afirmação do consequente

- Negação do antecedente

- Falso silogismo disjuntivo

Falácias não formais

- Ad hominem (contra o homem)

- Ad verecundiam (ao respeito ou apelação à autoridade)

- Ad populum (às pessoas)

- ex populo (das pessoas)

- Tu quoque (você também)

- Generalização precipitada (1)

(1) Temática Barsa - Filosofia (cópia)

Conhecimento: Certeza e Verdade


Verdade e certeza

O interesse da filosofia não se concentra apenas no processo de conhecimento e no


papel que a percepção e o conceito desempenham nele. Um dos temas que mais a
preocupam é o de como podemos estar seguros de que conhecemos. Perguntas como "O
que é a verdade?", "É possível alcançar um conhecimento verdadeiro?", "Existe a
realidade à margem daquilo que conhecemos sobre ela?", "É possível conhecer algo?"
132

tem sido objeto de reflexão, mas não foi possível chegar a nenhuma resposta definitiva.
Verdade e certeza são dois conceitos-chave nesse contexto de problemas. A partir da
perspectiva do objeto que se pretende conhecer, falamos da verdade (de conhecimento
verdadeiro ou falso); a partir da perspectiva do sujeito que conhece, falamos dos
diferentes graus de certeza ou segurança que acompanham esse conhecimento.

Aparência e realidade

Uma das primeiras perguntas que a filosofia se faz é se as coisas são exatamente como
parecem. Perguntar-se sobre isto equivale a se perguntar se o aspecto das coisas
corresponde ao que elas efetivamente são. Essa formulação pressupõe a existência de
uma dualidade: a aparência das coisas e sua verdadeira realidade. A palavra "aparência"
está relacionada etimologicamente com o verbo aparecer, mas também é usada para
indicar que algo não é o que parece - nesse casso, a palavra "aparência" está relacionada
com o verbo "parecer". Nesse último sentido, pressupõe-se a existência de um engano
da aparência, de uma ocultação da realidade por trás da aparência. Frequentemente, os
dois sentidos da palavra se superpõem: o aparecer das coisas é percebido como
enganoso e procura-se descobrir sua verdadeira realidade. Nossa própria experiência
comum - e não exclusivamente a filosófica ou científica - conduz-nos a essa reflexão: o
bastão na água "parece" torto, o Sol "parece" bastante pequeno, a água e o gelo
"parecem" coisas diferentes etc. Em qualquer dos casos, falar de aparência implica
sempre remeter a algo diferente dela mesma - a realidade, aquilo de que é a aparência,
algo com o qual mantém uma relação que é preciso elucidar. Uma forma de abordar
essa relação é a partir do ponto de vista epistemológico (do grego episteme,
"conhecimento": a epistemologia é uma disciplina filosófica cujo objeto é o
conhecimento), e a esse respeito o problema seria sobretudo o do valor cognoscitivo da
percepção. A aparência é o aspecto das coisas quando as percebemos. Se supomos que
mais além da aparência existe a autêntica realidade, esta não poderá ser captada pelos
sentidos, mas conhecida apenas pelo entendimento ou pela razão. Justo com a diferença
entre aparência e realidade, surge portanto uma distinção entre duas maneiras de
conhecer: a sensível e a inteligível.

Existe outra maneira de abordar o problema que não é estritamente epistemológico, mas
também ontológico (do grego on, ontos, "aquilo que é": a ontologia é uma disciplina
filosófica cujo objeto é o ser, a realidade). Aqui a questão é saber se o que aparece (a
aparência) é a própria realidade ou se, pelo contrário, a realidade se oculta por trás dessa
aparência - sendo necessário, portanto, outro tipo de conhecimento. Os dois problemas -
o ontológico e o epistemológico - estão, portanto, estreitamente ligados.

A verdade

O problema da relação entre aparência e realidade traz atrelado um outro problema: o da


verdade. Distinguimos entre aparência e realidade porque pretendemos conhecer o que
as coisas efetivamente são, mais além de sua aparência; pretendemos, por isso mesmo,
que nosso conhecimento seja verdadeiro. Existe, portanto, uma verdade ontológica,
133

referente às próprias coisas, e uma verdade epistemológica, referente a nosso


conhecimento sobre elas.

Os primeiros filósofos conceberam o acesso à verdadeira realidade (verdade ontológica)


como um modo de "descobri-la": trata-se de tirar o véu das aparências para deixar que a
verdade emerja por si mesma. Isso é justamente o que significa a palavra grega alethéia
- verdade -, que provém de uma forma do verbo lanthano, que significa "permanecer
oculto", mais a partícula a de negação. "Verdade" quer dizer, portanto, "desocultação",
"desvelamento". No sentido ontológico, a verdade é entendida como autenticidade, e
seu contrário - inautenticidade - é a aparência.

No entanto, o significado mais habitual da palavra "verdade" é o que se refere a nosso


conhecimento: já que todo conhecimento se expressa em proposições, falar de
"verdade" é falar da verdade das proposições.

A verdade formal e a verdade fáctica

Uma proposição é uma ideia ou pensamento que afirma ou nega alguma coisa.
Dependendo dos tipos de proposições, podemos distinguir entre dois tipos de verdade: a
fáctica e a formal.

As verdades formais (Leibniz as chama de "verdades de razão" e Kant de "juízos


analíticos a priori") são proposições analíticas: necessariamente verdadeiras (é
impossível que sejam falsas) em virtude do significado outorgado a seus termos. É
contraditório, e não simplesmente falso negar uma proposição analítica verdadeira. A
verdade dessas proposições não depende da experiência. Sua estrutura é "A é A", ou
então podem ser deduzidas logicamente de proposições que têm essa estrutura. Um
exemplo desse tipo de proposição é: "O triângulo é uma figura que tem três lados". São
desse tipo as proposições da lógica e das matemáticas, as chamadas ciências formais. E
também proposições puramente verbais, como "todo solteiro é um não-casado".

As verdades de fato (Leibniz as chama de "verdades de fato" e Kant de "juízos


sintéticos a posteriori") são proposições sintéticas: são informativas, mas não
necessariamente verdadeiras e sua negação não implica uma contradição, já que a
relação entre sujeito e predicado não é necessária. Ou seja, analisando o sujeito não
obtemos necessariamente o predicado. Por exemplo: "os planetas giram ao redor do
Sol". A verdade dessas proposições depende da experiência, dos fatos - daí o seu nome
de fáticas. Uma vez que as verdades formais são necessariamente verdadeiras ou
contraditórias, o problema da verdade se coloca em relação às verdades fácticas: como
podemos saber se uma proposição é verdadeira?

Teorias sobre a verdade: a verdade como correspondência

A teoria clássica sobre a verdade é a teoria da correspondência: uma proposição é


verdadeira se corresponde ou se adapta à realidade — quer dizer, quando descreve um
estado de coisas que ocorre na realidade. A proposição "A neve é branca" é verdadeira
134

porque corresponde aos fatos; por outro lado, a proposição "A Lua não gira ao redor da
Terra" é falsa porque não corresponde aos fatos.

A teoria da correspondência parece ser uma exigência do senso comum, mas formula
problemas importantes. A proposição expressa um juízo ou conteúdo mental sobre a
realidade. Conforme vimos anteriormente, trata-se de uma representação sobre a
realidade — não sendo, portanto, a própria realidade. Para saber se o que está em nossa
mente "corresponde" ao que está fora dela, deveríamos sair de nós mesmos e comparar
nossa representação da coisa com a própria coisa, o que é totalmente impossível.

Dadas as dificuldades que essa teoria apresenta, criaram-se outras concepções sobre a
verdade. No entanto, na maioria dos casos, essas concepções alternativas não
questionam que a verdade consiste na correspondência com a realidade: o que elas
questionam de fato é o critério para se decidir quando uma proposição é verdadeira.

A verdade como coerência

Essa teoria sustenta que uma proposição é verdadeira se é coerente (ou consistente) com
o resto das proposições de que faz parte. "Coerência" significa que a proposição em
questão não se contradiz com o conjunto de proposições, quer dizer, que é logicamente
compatível com o sistema a que pertence. A verdade é o resultado de uma relação entre
proposições, e não de uma relação entre duas coisas de naturezas diferentes: as
proposições e a realidade.

Essa concepção da verdade pode ser aplicada tanto às proposições fácticas quanto às
proposições das ciências formais. Por exemplo: a afirmação "os duendes da floresta
cantam pela manhã", que na aparência se refere a fatos observáveis, não é coerente com
o resto das proposições científicas — e, portanto, podemos afirmar que é falso. A
proposição "dois mais dois são quatro", que é a expressão de uma operação matemática,
é verdadeira, pois faz parte do cálculo dos números naturais.

Um dos problemas que apresenta essa teoria é que ela permite saber se uma proposição
é verdadeira — se é coerente com o conjunto —, mas não permite decidir se o conjunto
a que pertence é verdadeiro ou não.

A verdade como evidência

A palavra "evidência" provém do latim evidentia, ae, que significa clareza,


transparência, visibilidade. Evidente, portanto, é aquilo que se vê claramente. Quando
alguma coisa nos parece evidente, nós a aceitamos como verdadeira. A evidência exige
a presença imediata do objeto, que pode ser uma coisa: "A evidência é a presença para a
consciência do objeto em pessoa. Uma evidência é uma presença", nas palavras de
Sartre. Mas também pode ser uma ideia — essa é, por exemplo, a concepção de
Descartes. Para esse pensador, as ideias evidentes, quer dizer, as ideias que minha razão
vê com clareza, as ideias que estão fora de qualquer dúvida, são ideias verdadeiras: a
evidência das ideias que provêm dos sentidos não tem o mesmo valor cognoscitivo.
135

A verdade como utilidade

Segundo essa teoria, uma proposição é verdadeira se é útil ou eficaz na prática. Essa
teoria não está em desacordo com a verdade como correspondência, mas entende a
adequação, não como a adequação entre a cópia ou representação e a realidade, mas
como adequação a um objetivo: uma proposição é verdadeira se é útil ou eficaz com
vista à obtenção de algum fim. Os defensores dessa teoria são os pragmatistas
principalmente William James (1842-1910) e Charles S. Peirce (1839-1914). No fundo
dessa concepção, está presente a ideia de que o ser humano é um ser que age e que,
portanto, tem fins e objetivos e meios ou métodos para poder atingi-los.

Os filósofos pragmatistas não querem afirmar que qualquer proposição que nos seja
benéfica é verdadeira — só o será caso se ajuste aos acontecimentos. A utilidade pode
apenas decidir sobre a verdade provisória de uma proposição; se, no futuro, encontra-se
uma explicação mais satisfatória, a proposição anterior terá deixado de ser útil e,
portanto, verdadeiro. Por outro lado, segundo essa teoria da utilidade, só podemos
estabelecer a verdade de uma proposição se verificarmos efetivamente os fatos,
exigência que não ocorre na teoria da correspondência, em que uma proposição pode ser
verdadeira ainda que não a tenhamos comprovado.

A verdade como consenso

Esta teoria sustenta que é verdadeira aquela proposição que reflete o consenso, o acordo
a que chegaram determinados interlocutores. Essa teoria é fundada sobre a reflexão de
que a verdade não pode ser um fato privado do sujeito que chegou a ela, mas que
precisa ser comunicada e compartilhada por todos — quer dizer, intersubjetiva. No caso
dos problemas da ciência, o consenso deve ser atingido pela comunidade científica.

Atualmente, a concepção da verdade como consenso é defendida por K. O. Appel e J.


Habermas, para quem o acordo a que os interlocutores devem chegar tem de ser
produzido em algumas condições ideais de diálogo: que cada um se expresse em
igualdade de condições com os outros, e com a mesma liberdade e independência de
critério. As objeções que podem ser feitas à teoria da verdade como consenso são as de
que, por um lado, existem condições ideais; e, por outro lado, que a verdade acaba
sendo uma questão de acordo e, portanto, convencional.

A crença e o saber

O resultado da atividade de conhecer pode ser a crença ou o saber. A crença é o


assentimento ou aceitação de uma proposição considerada verdadeira. O objeto de uma
crença é sempre uma proposição, quer dizer, a crença tem a seguinte fórmula lógica:
"Creio que 'p', onde 'p' é uma proposição". O problema é, certamente, em quais casos se
justifica a crença em determinada ideia ou proposição.
136

Justificar uma crença é poder estabelecer suas razões, o que a transforma numa crença
racional. A crença irracional é, pelo contrário, a crença não fundamentada em razões ou
fundamentada em razões não pertinentes, quer dizer, que não vêm ao caso. Ainda assim,
o fato de que a crença seja racional não significa que seja verdadeira — daí podermos
considerar que, embora o racional seja atribuir razões a nossas crenças, também é
racional aceitar que talvez só possamos aspirar a crenças prováveis, até muito prováveis,
mas não a crenças infalíveis.

A crença só se constitui em saber se estiver justificada e for verdadeira. Assim,


podemos dizer que sabemos que os planetas do sistema solar são nove, ou que a soma
dos ângulos de um triângulo é 180 graus. Essa modalidade de saber — que as denomina
"saber o que" — não admite graus (ou se sabe ou não se sabe) e pode ser aprendida.
Existe outra modalidade de saber — "saber como" — que se refere às estratégias e
instrumentos necessários para fazer coisas ou atingir um objetivo. Consiste, portanto,
em dominar certas habilidades: é um saber prático que se pode aprender e aprimorar e
que, além disso, admite graus.

A certeza

O saber é uma crença verdadeira a que podemos atribuir razões. Ele vem acompanhado
de um sentimento de segurança sobre a verdade daquilo em que cremos. Esse
sentimento de segurança é a certeza, que não é uma propriedade das ideias, mas um
estado do sujeito; nesse sentido, dizemos que a crença é subjetiva.

A certeza é causada normalmente pela evidência: esta outorga tamanha força à ideia que
faz com que nosso sentimento de segurança seja praticamente inevitável. Quando
alguma coisa nos parece evidente, não podemos deixar de concordar: estamos certos e
seguros de que hoje o Sol saiu ou de que dois mais dois são quatro.

O contrário de certeza é a dúvida. Nesse caso, flutuamos entre duas proposições, sem
sabermos por qual decidirmos — seja porque carecemos de razões para dar nosso
assentimento, seja porque as razões que apoiam as duas proposições estão equilibradas.
Em alguns casos a dúvida é uma atitude deliberada, um ato da vontade com a intenção
de ganhar, justamente por meio dela, alguma certeza racional. Esse é o caso de
Descartes, que faz da dúvida metódica a via de acesso à ideia da qual não é possível
duvidar: que sou uma coisa que pensa (cogito, ergo, sum). (1)

(1) Temática Barsa Filosofia (cópia)

Conhecimento: Análise Lógica


Análise Lógica
137

Para determinar quais são os raciocínios corretos ou válidos, a lógica utiliza uma
linguagem artificial, formalizada, alheia às ambiguidades das linguagens naturais. Essa
linguagem formal, sem conteúdo semântico, poderá ser interpretada mais tarde pelas
proposições da linguagem natural.

A lógica, entretanto, efetua a análise das proposições da linguagem natural de diferentes


maneiras, levando ou não em conta sua estrutura interna. Por isso, deve-se entender a
lógica como um conjunto de cálculos (ou linguagens formalizadas), cada um deles
apropriado para aplicação no âmbito específico dos problemas formulados. Os mais
elementares, mas que constituem a base da resolução de problemas lógicos de maior
envergadura, são os da lógica de enunciados, ou proposicional, e a lógica de classes.

Lógica proposiocional

Simbologia da lógica proposicional

Regras de formação

Verdade e falsidade

Raciocínio e regras de inferência

Lógica de predicados

Lógica de classes

Simbologia da lógica de classes

Diagramas de Venn

Leis da lógica de classes (1)

(1) Temática Barsa Filosofia (cópia)

Consciência
Consciência. Etimologicamente, um saber testemunhado ou concomitante.
Simplesmente definida, a consciência é a função pela qual conhecemos a nossa vida
interior (v. inconsciência). (1)

Consciência. Do latim conscientia, conhecimento de algo partilhado com alguém. 1. A


percepção imediata mais ou menos clara, pelo sujeito, daquilo que se passa nele mesmo
ou fora dele (sinônimo de consciência psicológica). A consciência espontânea é a
impressão primeira que o sujeito tem de seus estados psíquicos. Difere da consciência
reflexiva, ou seja, do retorno do sujeito a sua impressão primeira, permitindo-lhe
distinguir o seu Eu de seus estados psíquicos. Campo de consciência é o conjunto dos
fatos psíquicos presentes na consciência do indivíduo.
138

2. Do ponto de vista moral, a consciência é o juízo prático pelos quais nós, como
sujeitos, podemos distinguir o bem e o mal e apreciar moralmente nossos atos e os atos
dos outros. Nesse sentido, falamos de consciência moral. Quando dizemos que alguém
tem boa consciência, queremos significar que possui um sentimento, fundado ou não,
de ser irrepreensível nesse ou naquele ato de sua conduta geral. A expressão má
consciência é utilizada para designar o sentimento de mal-estar ou de culpa moral, de
arrependimento ou de remorso, de um indivíduo que não conseguiu realizar bem, como
queria, ou não conseguiu realizar completamente o seu dever, aquilo pelo que se julgava
responsável. (2)

Consciência (moral). Em sentido amplo, entende-se por "consciência" a capacidade de


perceber as realidades internas e externas. É o fluxo interior em constante movimento,
que constitui nosso campo de conhecimentos, sensações, afetos e emoções. O que nos
interessa aqui é a consciência em seu sentido moral, isto é, como capacidade do homem
de avaliar interiormente o que há de bom ou de mau em suas ações. O sentido de
"consciência" não é o mesmo que o de "lei". A lei sempre expressa as normas gerais de
conduta. A consciência, ao contrário, é a luz concreta que ilumina o homem em seu
"aqui e agora" sobre o que há de bom ou de mau em uma ação. Costuma acompanhar-se
de uma deliberação, através da qual se estabelece um imperativo: "faça isto" ou "não o
faça". Também se entende por "consciência" o ditame posterior à ação, que aprova o
fato com complacência interior ou o reprova com intranquilidade e tristeza. A
consciência reveste-se de uma importância fundamental para toda a vida moral e para o
livre desenvolvimento do homem até o seu fim.

A consciência possui uma dimensão inata à medida que a luz da razão tende a apontar
as normas da ação, e impele-nos para o bem e afasta-nos do mal. Mas a educação
também exerce influência decisiva na criação dos modelos concretos de bem e no
desenvolvimento dos sentimentos de aprovação ou rejeição que acompanham nossas
139

ações. A educação interioriza no jovem uma imagem social que se torna normativa para
ele e que se faz acompanhar de sentimentos gratificantes quando sua conduta adapta-se
ao modelo. A influência do pai e da mãe nessa tarefa também é fundamental, mesmo
quando o indivíduo se torna capaz de formar-se e aperfeiçoar a própria consciência por
meio da sua ação livre. Uma tendência excessivamente racionalista acredita na
possibilidade da formação da consciência exclusivamente por meio das ideias, claras e
nobres. Mas a realidade nos mostra que se trata de um processo vital, no qual os
sentimentos e modelos seguidos exercem uma influência decisiva. A reta formação da
consciência constitui uma tarefa fundamental para a família e para a escola cristãs.

Na Bíblia, a consciência costuma ser designada como "coração". Ou seja, trata-se da


dimensão exterior da lei ou das realizações externas. No mito do paraíso já se revela o
drama da consciência humana, através da qual se realiza a liberdade. Adão e Eva
deliberam sobre a sua conduta futura. Por um lado, sentem a atração da fruta e o anseio
da autonomia que lhes é sugerido pela serpente. E agem livremente, mesmo contra
aquilo que sua consciência lhes aponta como justo. A presença posterior de Deus e as
acusações contra a conduta adotada constituem a encenação da voz da consciência, que
os acusa pela ação cometida (Gn. 3). O relato de Caim e Abel também também
dramatiza a deliberação e o sentimento da consciência intranquila após o crime: "Por
que estás irritado e por que o teu rosto está abatido? Se estás bem disposto, não
levantarias a cabeça?

Os profetas constituem uma consciência social viva na história de Israel. Diante da falta
de desenvolvimento da consciência interior do povo, a Lei se havia tornado a expressão
primeira da vontade de Deus, à qual todos tinham de se adaptar em cada situação
concreta. Mas a Lei era letra morta e, além disso, exterior. Assim, com sua palavra
ardorosa e eficaz, os profetas despertam a consciência dos homens, ricos e pobres,
sacerdotes e leigos, tendo em vista uma justa conduta aos olhos de Deus.

Antes da vinda de Cristo, os fariseus procuraram realizar a santidade da Lei através de


uma exatidão escrupulosa. Mas, desprezando a voz interior da consciência, que se
adapta à realidade concreta, aplicando o bem ou o mal às circunstâncias concretas,
quiseram ater-se à Lei de forma objetiva e calculada. O resultado foi a desumanização
da santidade e o abandono dos bens supremos do amor pelas insignificâncias mais
meticulosas da antiga Lei (Mt 12,1ss; 23, 13, 27-28*). Já Cristo combate a moral
exterior e codificada nos preceitos, e revela o valor íntimo da consciência aberta para o
olhar de Deus.

Paulo desenvolveu grandemente a doutrina sobre a consciência. A moralidade não pode


estar ligada à Lei, que é exterior e não é conhecida pelos gentios. Dentro do homem está
a sua consciência que lhe serve como lei.

Em virtude da normatividade da consciência, destaca-se a importância da reta formação


da consciência desde a infância. Ela deve ser colocada em harmonia com Deus e a
sociedade. Há, porém, algumas deficiências na formação da consciência: utilizar o medo
e o sentimento de culpa para inculcar uma moralidade que deixa de ser adulta à medida
que está condicionada pelo medo.

O individualismo é outra deficiência na formação da consciência cristã. Partindo-se do


sujeito, pretende-se orientá-lo para a sua própria perfeição e santidade. Mas a
140

consciência cristã só pode ter como norma o amor, preferencialmente pelos mais
abandonados.

Deve-se evitar a crescente influência no mundo moderno no sentido de desprezar os


valores morais. Sem uma atitude enérgica de moral nenhum povo poderá superar a
mediocridade nem o subdesenvolvimento. O Cristianismo pretende chegar a uma
moralidade adulta e consciente. Não deve se manter pelo medo ou pela imposição, mas
sim pela convicção pessoal do bem, amado no fundo do coração.

Conflito. Pode-se operar males reais e objetivos com boas intenções, assim como se
pode realizar boas obras com más intenções. Trata-se do conflito entre o pessoal e o
social, entre a realidade e o nosso modo de conhecê-la.

Hoje, insiste-se em que é necessário superar o casuísmo moral tendo em vista a


formação da consciência. O casuísmo se resume na exposição de casos diversos e na
adequada atitude que se deveria tomar diante deles. A solução de casos estereotipados
acaba por desprezar a pessoa.

Hoje, insiste-se na necessidade de uma dimensão comunitária para a solução dos


problemas morais graves. A tentativa de solucioná-los a partir de um enfoque
simplesmente particular e individualista implica sempre o risco de cair em uma solução
unilateral e falsa.

Dimensão espiritual de cada problema moral. A consciência moral deve formar-se na


relação direta com Deus e com a participação das luzes do espírito. Paulo diz que o
homem espiritual tem uma possibilidade nova de julgar todas as coisas com a força de
Deus (1 Cor 1, 14-16).

Problema referente ao Poder do Estado - Respeito à liberdade de consciência. A


consciência constitui um santuário pessoal, em que cada pessoa se expande, sem coação
nem repressão. O homem tem direito de ver sua consciência respeitada, mesmo quando
erra. Pode-se chamá-lo a abandonar essa atitude ou opinião. (4)

Mais informações:

= = = >>

Consciência e Conhecimento
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Sobre a Consciência: 4.1.
Como Ato Vivencial; 4.2. Consciência Mítica; 4.3. Consciência Racional. 5. Sobre o
Conhecimento: 5.1. Relação Sujeito e Objeto; 5.2. Funções do Conhecimento; 5.3.
Conhecimento e Consciência. 6. Consciência, Conhecimento e Espiritismo: 6.1. A Trajetória do
Princípio Inteligente; 6.2. Remorso e Satisfação; 6.3. Mais Instruções dos Espíritos. 7.
Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
141

No que consiste o conhecimento? Pode-se distinguir o conhecimento da


opinião? O que significa consciência? Há relação entre consciência e
conhecimento? Que tipo de subsídios o Espiritismo pode nos oferecer para
uma melhor compreensão do tema?
2. CONCEITO
Consciência significa etimologicamente um saber testemunhado ou
concomitante. Concomitante. Diz-se de coisa que acompanha outra sendo esta
principal que se produz ao mesmo tempo; simultâneo. Por analogia, dualidade
ou multiplicidade de saberes ou de aspectos num mesmo e único ato de
conhecimento. (Polis)
Conhecimento. Conhecer é uma atividade mental por meio da qual o ser
humano se apropria do mundo ao seu redor.
3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Este par de termos consciência e conhecimento acompanha o ser humano
desde longa data. Observe a proposta socrática do conhece-te a ti mesmo, em
que o indivíduo é convidado a tomar consciência de si mesmo, do seu próprio
conhecimento, da sua ignorância. Ao longo do tempo, não foram poucos os
problemas levantados pelos diversos filósofos. Situemos alguns deles: o que
pode ser conhecido? É possível um conhecimento absoluto? Como é possível
o conhecimento, se Sócrates disse que sabia que nada sabia? Por que os
homens desejam conhecer? Até onde pode chegar o conhecimento humano?
Pode-se analisar Deus em termos racionais? Sensação e conhecimento
implicam sempre consciência? Todo conhecimento provém da experiência? Há
conhecimento inato?
4. SOBRE A CONSCIÊNCIA
4.1. COMO ATO VIVENCIAL
A consciência deve ser compreendida como um ato vivencial. O ser humano é
um ser consciente em que o sujeito se opõe ao objeto. Há, assim, uma posição
dialética com relação ao objeto de conhecimento e assim faz-se a sua história.
Num primeiro instante, há uma abertura para a realidade. Em virtude da
relação dialética, ao mesmo tempo em que o sujeito afirma a consciência-de-
algo, afirma também a consciência de si. Como na dialética, pressupõe-se uma
síntese, esta é obtida pela confluência das duas posições: a do sujeito e a do
objeto. (Perine, 2007, cap. 2)
4.2. CONSCIÊNCIA MÍTICA
O ser humano, como indivíduo em face do mundo, começou o seu grau
evolutivo pelo conhecimento do mito. A filosofia, desde o seu aparecimento,
estabeleceu uma relação de amizade e de confronto com o mito. O mito, antes
de tudo, é uma palavra, ou melhor, uma das formas do discurso humano. O
mito assumia a palavra com caráter de sagrado. No mito, temos a metáfora,
que é a transferência de sentido. O logos filosófico não punha por terra o mito,
mas tentava dar-lhe uma forma demonstrativa, um fundamento baseado na
razão, daí a consciência racional. (Perine, 2007, cap. 2)
4.3. CONSCIÊNCIA RACIONAL
A consciência racional caracteriza-se pelo uso da razão na obtenção de
conhecimento e da oposição do sujeito ao universal. Na consciência mítica, há
uma oposição do sujeito com relação ao mundo; aqui, uma oposição com o
universal. A abstração dos conhecimentos está calcada no princípio da
liberdade, em que a luz do bem unifica a consciência. O bem dá liberdade ao
142

individuo de fazer as suas escolhas. Ao fazer as escolhas, torna-se, também,


responsável pelos seus próprios atos. (Perine, 2007, cap. 2)
5. SOBRE O CONHECIMENTO
5.1. RELAÇÃO SUJEITO E OBJETO
O conhecimento é a relação que existe entre o "observador" e a "coisa
observada". A realidade é o que é. Ela não é falsa nem verdadeira. Verdadeiros
ou falsos são os nossos juízos acerca da mesma. Se a imagem que fazemos
de um objeto coincide com o que ele é, estamos de posse da verdade; se, ao
contrário, houve um viés, estamos em erro. Assim sendo, é muito mais
importante a imagem que fazemos do objeto do que ele próprio.
5.2. FUNÇÕES DO CONHECIMENTO
O filósofo Xavier Zubiri atribui três funções ao conhecimento: 1) distinguir o que
é daquilo que não é, distinguir a essência da aparência, o real do ilusório;
definir, 2) determinar e especificar o que são as coisas, captando suas
diferenças em relação às outras; 3) entender por que as coisas são como são.
(Temática Barsa)
5.3. CONHECIMENTO E CONSCIÊNCIA
Conhecimento é um fenômeno consciente. Conhecer é ter consciência de
alguma coisa "ter consciência de qualquer coisa, ser dela consciente e
conhecê-la é identicamente a mesma coisa". Em todo ato de conhecimento, por
mais simples e elementar, é presente, ao menos implicitamente, a reflexão
(consciência do eu), que opõe um sujeito a um objeto. O sujeito deve
transcender no objeto mas não se perder a si mesmo. Adesão não
desaparecimento.
6. CONSCIÊNCIA, CONHECIMENTO E ESPIRITISMO
6.1. A TRAJETÓRIA DO PRINCÍPIO INTELIGENTE
O princípio inteligente, estagiando no reino mineral, adquiriu a atração; no reino
vegetal, a sensação; no reino animal, o instinto; no reino hominal, o livre-
arbítrio, o pensamento contínuo e a razão. Nosso passado histórico propiciou-
nos a automatização de hábitos e atitudes. Afirma-se que quanto mais
desligado da matéria for o sujeito (Espírito), tanto mais perfeito será o seu
conhecimento. A lei do progresso exige que o princípio inteligente vá-se
despojando dos liames da matéria. Para que tenhamos um olhar crítico,
devemos libertar-nos da obscuridade da matéria, consubstanciada no egoísmo,
no orgulho e no interesse próprio.
6.2. REMORSO E SATISFAÇÃO
Na página 245, da Revista Espírita de 1867, de Allan Kardec, os Espíritos
superiores instruem-nos acerca do remorso e da satisfação interior. Diz-nos
que o homem tem consciência que o adverte quando fez o bem ou fez o mal.
Quer abafá-la pelo esquecimento, mas nunca é completamente abafada. O
remorso, que penetra e tortura quando se praticou uma ação reprovada por
Deus, pelos homens, pela honra e pelo senso moral, é como uma serpente de
mil voltas, que exige reparação à pessoa a quem se fez o mal. Para pôr fim às
suas torturas, seu orgulho se dobra e ele confessa os seus crimes. O remorso
é um desenvolvimento do senso moral. Ele não existe onde o senso moral
ainda se acha em estado latente.
Suponha que queiramos romper união qualquer: pai e filho, marido e mulher.
Os Espíritos de luz advertem-nos de que devemos consultar a nossa
consciência. Caso permaneça alguma rusga, alguma nevoa, devemos esperar
um pouco mais.
143

6.3. MAIS INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS


"Deus criou todos os Espíritos iguais, simples, inocentes, sem vícios, e sem
virtudes, mas com o livre arbítrio de regular suas ações segundo um instinto
que se chama consciência, e que lhes dá o poder de distinguir o bem e o mal.
Cada Espírito está destinado à mais alta perfeição junto a Deus e do Cristo;
para ali chegar, deve adquirir todos os conhecimentos pelo estudo de todas as
ciências, se iniciar em todas as verdades, se depurar pela prática de todas as
virtudes; ora, como essas qualidades superiores não podem ser obtidas em
uma única vida, todos devem percorrer várias existências para adquirir os
diferentes graus de saber". (Kardec, 1862, p. 84)
7. CONCLUSÃO
Quanto mais conhecimento, mais consciência, mais responsabilidade e mais
liberdade. O conhecimento livra-nos da cegueira do coração e lança-nos à
imensidão do desconhecido, mas com a certeza de desvendá-lo pouco a
pouco.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Kardec, Allan. Revista Espírita de 1862.
Kardec, Allan. Revista Espírita de 1867.
PERINE, Marcelo. Ensaio de Iniciação ao Filosofar. São Paulo: Loyola, 2007.
POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São
Paulo: Verbo, 1986.
TEMÁTICA BARSA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.
São Paulo, dezembro de 2009

= = =>>

Lei e Consciência
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Histórico. 3. Lei e Lei Natural: 3.1. Definição de Lei; 3.2.
Considerações sobre a Lei: 3.2.1. Lei Física; 3.2.2. Lei Moral; 3.2.3. Lei Natural; 3.3.
Conhecimento da Lei Natural; 3.4. Divisão da Lei Natural. 4. Consciência: 4.1. Definição de
Consciência; 4.2. Graus da Consciência; 4.3. Consciência e Inconsciência; 4.4. A Casa Mental.
5. Bíblia, Jesus e Espiritismo: 5.1. Bíblia; 5.2. Jesus Cristo; 5.3. Espiritismo. 6. Conclusão. 7.
Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste estudo é mostrar a relevância da Lei Natural em todos os
nossos comportamentos: em casa, no escritório ou na sociedade. Os tópicos
para o desenvolvimento do tema são: pequeno escorço histórico, análise da Lei
em seus vários aspectos, a consciência (moral): o bem e o mal, o Velho e o
Novo Testamento, a aplicação prática da Lei e o Espiritismo.
2. HISTÓRICO
As Leis Naturais existem desde sempre: elas são tão velhas quanto o próprio
Deus. Na Antigüidade, embora os grandes filósofos não a expressassem
textualmente, podemos lê-las nas entrelinhas dos seus discursos. Sócrates e
Platão falavam que o homem devia agir de acordo com a sua consciência, ou
seja, praticar as virtudes que nada mais é do que escolher com justiça o bem e
se apartar do mal. No campo político, Platão falava de um estado ideal, em que
os mais sábios deviam governar por serem os mais conhecedores dessas leis
da natureza.
A defesa textual desta lei natural começa a tomar corpo, principalmente no
campo político, a partir de 1500. Commins no livro The Political Philosophers
144

faz uma síntese das obras políticas de vários autores. Entre tais pensadores,
citamos:
Thomas Hobbes (1588-1679) — A República, de acordo o próprio autor, nada
mais é do que a aplicação da lei natural, conhecida como lei áurea: "Não
fazermos aos outros o que não gostaríamos que fosse feito a nós". Em
essência é o contrato celebrado por todos os participantes, em que uns
delegam poderes aos outros, considerados mais sábios, a fim de poderem
administrar a coisa pública. As pessoas investidas de poder devem visar não
os seus interesses particulares, mas os da maioria, ou seja, da república
constituída.
John Locke (1632-1704) — Sobre o Governo Civil. Começa o seu discurso
reportando-se ao estado natural, em que viviam Adão e Eva. Naquela época, a
Lei Natural e a Razão eram os elementos necessários para direcionar os atos
de cada um. É, pois, sobre a hipótese da existência de uma lei natural, que
traça o roteiro do seu livro. Significa dizer que o objetivo central do ser humano
é conhecer melhor a Lei Divina, a qual o norteará no relacionamento consigo
mesmo e com os demais. A função do um governo civil é por em prática essa
lei, auxiliando cada membro a compreendê-la melhor.
John Stuart Mill (1806-1873) — O mais eminente do grupo de filósofos
britânicos do século XIX, propôs e desenvolveu a doutrina do utilitarismo. Ele
foi um reformador social, um defensor da liberdade tanto política quanto
pessoal e um filósofo e lógico de considerável importância. Seu trabalho On
Liberty, publicado em 1859, discute os sistemas legais e governamentais. Na
introdução do seu ensaio dizia que a única liberdade que merece o nome de
liberdade é aquela em que cada um procurando o seu próprio interesse não
prejudica o próximo a conquistar o dele. Acha ele que as pessoas devem ser
livres, mas muitas vezes acontece que os governos são constituídos de forma
arbitrária. É a partir daí que discute todo o problema envolvido entre a
autoridade e a liberdade.
Adam Smith (1723-1790) — A Riqueza das Nações não foi uma obra original
na acepção da palavra. Na verdade é o esforço que Adam Smith empreendera
para juntar num todo as teorias que os outros seus contemporâneos pinçavam
aqui e ali. Queria dar uma resposta mais coerente às indagações levantadas na
sua Teoria sobre os Sentimentos Morais, ou seja, como o interesse próprio
pode gerar o bem-estar da sociedade. Tenta, também, partindo de uma
confusão inicial visualizar o todo harmônico.
O nosso propósito é tratar mais especificamente da Lei e da consciência e
não do conteúdo político social.
3. LEI E LEI NATURAL
3.1. DEFINIÇÃO DE LEI
Lei — Aurélio, no seu Dicionário, anota vários sentidos, entre os quais: norma,
preceito, princípio, regra; obrigação imposta pela consciência e pela sociedade.
3.2. CONSIDERAÇÕES SOBRE A LEI
3.2.1. LEI FÍSICA
Há vários fenômenos que a ciência deve buscar respostas, pois tudo gira em
torno de pressupostos que emanam da mente humana. Assim, ao longo do
tempo, muitas ciências apareceram para dar respostas às mais diversas
indagações. Aos fenômenos físicos surgiu a física, aos astronômicos, a
astronomia, aos psicológicos, a psicologia e assim por diante.
145

Alguns pensadores, como Hume, mostraram que essa lei surge com o
COSTUME. Pergunta-se: Por que a construção da ponte de um jeito fica de pé
e de outro cai?
3.2.2. LEI MORAL
Paralelamente à lei física, que cabe às ciências particulares buscar as
explicações, temos as leis morais. Estas pertencem à alma e concernem às
noções do bem e do mal. Cabe ao Espiritismo desvendá-las.
3.2.3. LEI NATURAL
Refere-se tanto à lei física quanto à lei moral. Ela regula todos os
acontecimentos no universo. São leis eternas, imutáveis, não estão sujeitas ao
tempo, nem à circunstância, embora tenham em si o elemento do progresso.
Mas como o homem faz para conhecê-la? Há dois elementos básicos: unidade
e universalidade. A lei matemática em que dois mais dois são quatro existe
em todo o lugar do universo. Independe de tempo e espaço.
3.3. CONHECIMENTO DA LEI NATURAL
Na pergunta 621 de O Livro dos Espíritos - Onde está escrita a lei de Deus? Os
Espíritos respondem que está escrita na consciência do ser. E em seguida
dizem que há necessidade de sermos lembrados porque havíamos esquecidos.
Como entender que a lei está escrita em nossa consciência? De acordo com os
princípios doutrinários, codificados por Allan Kardec, fomos criados simples e
ignorantes, sujeitos ao progresso. Nesse sentido, o Espírito André Luiz, no livro
Evolução em Dois Mundos, explica-nos que no reino mineral recebemos a
atração; no reino vegetal a sensação; no reino animal o instinto; no reino
hominal o pensamento contínuo, o livre-arbítrio e a razão. São os
pródomos da lei moral, cujo objetivo é transformar os homens em "anjos",
"arcanjos" e "querubins". É a potencialização das virtualidades de cada ser.
3.4. DIVISÃO DA LEI NATURAL
PILASTRA_DC — Sigla para lembrarmos das dez Leis Naturais. P da Lei do
Progresso, I da Lei de Igualdade, L da Lei de Liberdade, A da Lei de Adoração,
S da Lei de Sociedade, T da Lei do Trabalho, R da Lei de Reprodução, A da
Lei de Justiça, Amor e Caridade, D da Lei de Destruição e C da Lei de
Conservação.
Na pergunta 648 de O Livro dos Espíritos — Que pensais da divisão da lei
natural em dez partes? — "Essa divisão da lei de Deus em dez partes é a de
Moisés e pode abranger todas as circunstâncias da vida, o que é essencial.
Podes segui-la, sem que ela tenha entretanto nada de absoluto, como não o
têm os demais sistemas de classificação, que dependem sempre do ponto de
vista sob o qual se considera um assunto. A Lei de Justiça, Amor e Caridade é
a mais importante; é por ela que o homem pode avançar mais na vida
espiritual, porque resume todas as outras".
4. CONSCIÊNCIA
4.1. DEFINIÇÃO DE CONSCIÊNCIA
Consciência - do lat. conscientia significa etimologicamente um saber
testemunhado ou concomitante. Por analogia, dualidade ou multiplicidade de
saberes ou de aspectos num mesmo e único ato de conhecimento.
Em sentido amplo, entende-se por "consciência" a capacidade de perceber as
realidades internas e externas.
Na teologia e ética, o termo refere-se ao senso interior do certo e do errado
quando de uma escolha moral. É o seu sentido moral.
146

Escreve A. Montalvão: "Em qualquer ato de conhecimento há sempre um


indivíduo que pretende conhecer, que é o "sujeito do conhecimento", e um
assunto que deve ficar conhecido, que é o "objeto do conhecimento".
O sentido de "consciência" não é o mesmo que o de "lei". A lei sempre
expressa as normas gerais de conduta. A consciência, ao contrário, é a luz
concreta que ilumina o homem em seu "aqui e agora" sobre o que há de bom
ou de mal em uma ação. (Santos, 1965)
4.2. GRAUS DA CONSCIÊNCIA
Na psicologia clássica, distinguem-se dois modos ou graus de consciência:
Consciência espontânea - é a consciência direta, imediata, primitiva, isto é,
não separada do objeto.
Consciência reflexiva (do latim reflexu + ivo = voltado para trás) - é a
consciência mediata, é o retorno do espírito sobre as idéias. Ela é dirigida para
as idéias.
As pessoas emotivas têm o campo da consciência mais estreito do que as não
emotivas. (Santos, 1965)
4.3. CONSCIÊNCIA E INCONSCIÊNCIA
Apesar de sua base etimológica precisa e clara, enquanto negação da
consciência, torna-se contudo extremamente difícil definir o inconsciente. Pode-
se, também, definir a inconsciência com relação ao ser: que não possui
qualquer consciência (átomo); que é pouco ou nada capaz de debruçar sobre si
próprio, e (relativamente) que não tem consciência de tal fato particular: "uma
alma inconsciente das suas verdadeiras crenças".
Muitos são os psicólogos que negam a existência de fenômenos psicológicos
inconscientes, pois alegam que, sendo a consciência própria do pensamento, o
que não é consciência, deixa de ser psicológico.
Crítica - Uma análise dos fatos da vida mostra-nos, patentemente, o quanto o
inconsciente penetra e intervém no que fazemos. O pianista, ao executar um
trecho da música não é consciente de todos os seus movimentos; o mesmo
acontece com o operário ou o artista. Mozart declara ter ouvido todo um
acorde, antes de compor uma melodia — o consciente, nesse caso, estaria
ligado ao trabalho de coordenação. (Santos, 1965)
4.4. A CASA MENTAL
O Espírito André Luiz, no livro No Mundo Maior, explica-nos que não podemos
dizer que possuímos três cérebros simultaneamente. Temos apenas um que se
divide em três regiões distintas. Tomemo-lo como se fosse um castelo de três
andares:
subconsciente: 1º andar, onde situamos a residência de nossos impulsos
automáticos, simbolizando o sumário vivo dos serviços realizados - hábitos e
automatismos;
consciente: 2º andar, localizamos o "domínio das conquistas atuais", onde se
erguem e se consolidam as qualidades nobres que estamos edificando -
esforço e vontade;
superconsciente: 3º andar, temos a "casa das noções superiores", indicando
as iminências que nos cumpre atingir - ideal e meta superiores. (Xavier, No
Mundo Maior, 1977, p. 47)
5. BÍBLIA, JESUS E ESPIRITISMO
5.1. BÍBLIA
Na Bíblia, a consciência costuma ser designada como "coração". Ou seja,
trata-se da dimensão interior do homem, em contraposição com a dimensão
147

exterior da lei ou das realizações externas. No mito do paraíso já se revela o


drama da consciência humana, através da qual se realiza a liberdade. Adão e
Eva deliberam sobre a sua conduta futura. Por um lado, sentem o peso da
ordem divina, mas, por outro lado, sentem a atração da fruta e o anseio da
autonomia que lhes é sugerido pela serpente. E agem livremente, mesmo
contra aquilo que sua consciência lhes aponta como justo.
Os profetas constituem uma consciência social viva na história de Israel.
Diante da falta de desenvolvimento de consciência interior do povo, a Lei se
havia tornado a expressão primeira da vontade de Deus, à qual todos tinham
de se adaptar em cada situação concreta. Mas a Lei era letra morta e, além
disso, exterior. Assim, com a sua palavra ardorosa e eficaz, os profetas
despertam a consciência dos homens, ricos e pobres, sacerdotes e leigos,
tendo em vista uma justa conduta aos olhos de Deus. (Idígoras, 1983)
5.2. JESUS CRISTO
Antes da vinda de Cristo, os fariseus procuraram realizar a santidade da Lei
através de uma exatidão escrupulosa. Desprezando a voz interior da
consciência, o resultado foi a desumanização da santidade e o abandono dos
bens supremos do amor pelas insignificâncias mais meticulosas da antiga Lei.
Já Cristo combate a moral exterior (codificada nos preceitos), e revela o valor
íntimo da consciência aberta para o olhar de Deus. É Deus quem julga as
intenções ocultas. Para Cristo, a lâmpada do corpo é o olho da intenção. Se
esse olho for puro, o será também todo o corpo. Mas, se a luz do homem
tornar-se trevas, ele só poderá caminhar rumo à perdição Paulo, o apóstolo dos
gentios, desenvolveu grandemente a doutrina sobre a consciência. A
moralidade não pode estar ligada à Lei, que é exterior e não é conhecida pelos
gentios. Dentro do homem está a sua consciência, que lhe serve como lei.
Quer dizer, se os gentios desconhecem a Lei, mas agem de acordo com a lei,
eles mesmos são a Lei. (Idígoras, 1983)
5.3. ESPIRITISMO
Lembremo-nos de que Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, nada
inventou. Apenas que, com a ajuda dos Espíritos superiores, fornece-nos
subsídios para melhor entender essa lei, que segundo os próprios Espíritos,
está escrita em nossa consciência. É meditando sobre as questões de número
614 até 892 de O Livro dos Espíritos, que realmente alicerçaremos a nossa
mente nos verdadeiros preceitos divinos sobre a nossa conduta interior e
exterior. Em síntese: a Lei está no livro da natureza.
6. CONCLUSÃO
Tomar consciência da Lei Natural é o melhor caminho que devemos seguir na
vida. Saber ouvir, saber falar e principalmente saber refletir, a fim de não
desprezarmos os deveres da consciência impostos por nós mesmos no íntimo
de nosso coração.
7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
COMMINS, S. e LINSCOTT, R. N. The World’s Great Thinkers - Man and the State: the Political
Philosophers. New York, EUA, Random House, 1947.
IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo, Edições Paulinas,
1983.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. São Paulo, FEESP, 1972.
SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese,
1965.
XAVIER, F. C. e VIEIRA, W. Evolução em Dois Mundos, pelo Espírito André Luiz, 4. ed., Rio de
Janeiro, FEB, 1977.
XAVIER, F. C. No Mundo Maior, pelo Espírito André Luiz. 7. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1977.
148

São Paulo, setembro de 1997.

= = =>>

CONCEITO DE CONSCIÊNCIA

Consciência (do latim conscientia) significa etimologicamente um saber


testemunhado ou concomitante. Por analogia, dualidade ou multiplicidade de saberes
ou de aspectos num mesmo e único ato de conhecimento (1).

Definida de forma simples, é através da consciência que conhecemos a nossa vida


interior.

Escreve A. Montalvão: “Em qualquer ato de conhecimento há sempre um indivíduo


que pretende conhecer, que é o “sujeito do conhecimento”, e um assunto que deve ficar
conhecido, que é o “objeto do conhecimento” (2).

 GRAUS DE CONSCIÊNCIA

Na psicologia clássica, distinguem-se dois modos ou graus de consciência:

Consciência espontânea - é a consciência direta, imediata, primitiva, isto é, não


separada do objeto.
Consciência reflexiva (do latim reflexu + ivo = voltado para trás) - é a consciência
mediata, é o retorno do espírito sobre as ideias. Ela é dirigida para as ideias.

As pessoas emotivas têm o campo da consciência mais estreito do que as não emotivas
(3).

DESCARTES E KANT

Sob a influência de Descartes, o pensamento moderno surge profundamente marcado


pela problemática da Consciência, devido ao seu caráter de evidência da verdade.

Dentro desse clima espiritual, situa-se a concepção kantiana da Consciência em geral


como condição transcendental da possibilidade do conhecimento (1).

 TIPOS DE CONSCIÊNCIA

Liberdade de consciência, consciência religiosa, consciência infeliz, exame de


consciência, comunicação da consciência, lei de tomada de consciência, consciência
moral, boa consciência, má consciência, voz da consciência e campo da consciência.

 CONCEITO DE INCONSCIÊNCIA

Apesar de sua base etimológica precisa e clara, enquanto negação da consciência,


torna-se contudo extremamente difícil definir o inconsciente.
149

Pode-se, também, definir a inconsciência com relação ao ser: que não possui qualquer
consciência (átomo); que é pouco ou nada capaz de debruçar sobre si próprio, e
(relativamente) que não tem consciência de tal fato particular: “uma alma inconsciente
das suas verdadeiras crenças” (4).

 NEGAÇÃO DA INCONSCIÊNCIA

Muitos são os psicólogos que negam a existência de fenômenos psicológicos


inconscientes, pois alegam que, sendo a consciência própria do pensamento, o que não
é consciência, deixa de ser psicológico.

Crítica - Uma análise dos fatos da vida mostra-nos, patentemente, o quanto o


inconsciente penetra e intervém no que fazemos. O pianista, ao executar um trecho da
música não é consciente de todos os seus movimentos; o mesmo acontece com o
operário ou o artista.

Mozart declara ter ouvido todo um acorde, antes de compor uma melodia - o
consciente, nesse caso, estaria ligado ao trabalho de coordenação (3).

<< = = =

(1) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(4) IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo:


Paulinas, 1983.

Consenso
Consenso. Do latim consensus, acordo, juízo unânime. Acordo estabelecido, entre
indivíduos ou grupos, sobre seus sentimentos, opiniões, vontades etc., como condição
para que haja uma concórdia social. Há consenso geral quando todos aderem a um
princípio, a uma asserção, a uma crença ou a uma tomada de decisão como critério do
melhor e do mais verdadeiro, a unanimidade sendo considerada como atitude mais
razoável para a realização de determinado objetivo. (1)
150

Consenso "geral". Redundância. Consenso assim se define: 1. Opinião ou posição


tomada por um grupo como um todo ou por desejo da maioria; unanimidade de opinião;
opinião geral; voz comum: O consenso dos eleitores era que as reformas poderiam ser
implementadas. 2. Acordo geral: Nenhum governo obtém consenso da população. Nem
mesmo Jesus Cristo obteve o consenso. 3. Modo de pensar da maioria; senso comum: A
redução do número de sindicatos é consenso na reforma sindical. O nazismo era
consenso na Alemanha, em 1941. 4. Autorização; consentimento; anuência: O diretor da
escola deu seu consenso para fazer as reformas na escola. Ninguém esperava o consenso
dos pais da moça nesse casamento. (2)

Consenso Universal. Em Ética a Nicômaco, Aristóteles diz explicitamente: "Aquilo em


que todos consentem, dizemos que assim é, já que rejeitar semelhante crença significa
renunciar ao que é mais digno de fé".

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) SACONNI, Luiz Antonio. Corrija-se de A a Z. 2. ed., São Paulo: Nova Geração,
2011.

Conservadorismo
Conservadorismo. Conjunto de correntes doutrinárias e de movimentos políticos que
assenta na consideração do caráter orgânico e natural da sociedade política, cujos
valores se devem apreender e determinar pela consagração da História e da experiência,
resultado essencialmente da descoberta e da organização e não da invenção e inovação.
O que caracteriza o conservador (do vocábulo latino conservare, guardar) é a defesa de
um mínimo ético de valores sociais estáveis, cuja vigência substancial deve ser
preservada através das modificações históricas, mesmo sacrificando aspectos formais da
sua consagração jurídico-institucional.

Os valores do conservadorismo só encontram respostas através da determinação e


análise histórica dos diversos "conservadorismos", já que o pensamento conservador,
por princípio, rejeita a universalidade e uniformização dos modelos político-sociais.

O pensamento conservador autodefine-se como "realista", por ser uma filosofia e um


pensamento do que é, baseado na observação, na indução e na experiência, que
contrapõe ao idealismo e utopismo dos seus adversários progressistas, ou reacionários.
Para o conservador, a mudança não é movimento ou lei histórica necessários e,
sobretudo, um pressuposto obrigatório de aperfeiçoamento dos indivíduos e da
sociedade, já que a força, a riqueza e a independência individual e coletiva não estão
ligadas a qualquer modelo racionalmente construído e intelectualmente predeterminado,
mas resultam do jogo equilibrado das próprias forças sociais, segundo as regras
provocadas pela experiência e pela tradição. A filosofia conservadora não busca um
ótimo político-social, mas sim um equilíbrio e um modus vivendi sem rupturas nem
conflitos agônicos no interior da comunidade.
151

O conservador encara a tradição não como um repositório estático e inalterável de


verdades definitivas, mas como uma súmula do que foi permanecendo através da
mudança. Assim, para o conservador a religião, a pátria, a família, a propriedade são
valores a defender e manter, mas cuja representação e realização são históricas, logo
sujeitas à mudança nas suas manifestações externas e formais.

A pluralidade de ideias e correntes em conflito numa sociedade não é uma conquista da


idade contemporânea, mas surge como uma característica de qualquer sociedade.
Exemplo: Em Roma, a "revolução dos Gracos".

O conservadorismo aparecerá mais como um estilo, uma forma, um modelo de encarar a


realidade social, do que com um conteúdo objetivo no plano dos valores, já que este
conteúdo variará em função da época e do lugar.

O conservadorismo nos países anglo-saxônicos — Inglaterra, EUA — é visto de forma


diferente do praticado no continente europeu.

Um representante típico do conservadorismo Continental é Alexis de Tocqueville


(1805-1959), que se proclama defensor de "liberdade moderada, regular, limitada pelas
crenças, os costumes e as leis" e confessa: "Sinto pelas instituições democráticas un
goût de tête, mas sou aristocrata por instinto, i. é, desprezo e temo a multidão. Amo com
paixão a liberdade, a legalidade, o respeito dos direitos, mas não a democracia."

Para Tocqueville as condições de defesa e preservação desta liberdade ordeira são a


descentralização e as liberdades locais, a proliferação de associações do Estado-
administração e a "paixão do bem público" como espírito dominante na classe política.

Estes temas e princípios do liberalismo antidemocrático — a denúncia da "democracia


totalitária" do Terror, a exaltação do modelo parlamentar inglês, a defesa do sufrágio
restrito, da propriedade, da ordem e lei — serão comuns aos conservadores europeus,
em modelos mais ou menos mitigados do constitucionalismo autoritário, ao longo de
todo o século XIX.

Este mesmo tema, da democracia como inimiga da liberdade através da tirania da


maioria, é caro ao conservadorismo liberal anglo-saxônico, onde se expressa em autores
como Stuart Mill, Hume e Burke, que mostram no campo da organização política a
preocupação de modelos legais de proteção da minoria, e que está mais modernamente
presente em Sir Henry Maine, que se alarma com o fato de cada vez maior número de
homens preferir a segurança à liberdade e na "ala direita" dos Founding Fathers
americanos. (1)

(1) POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São Paulo:


Verbo, 1986.

Un goût de tête. Tradução literal: um gosto de cabeça.


152

Controvérsia Filosófica
Controvérsia Filosófica. Trata-se de argumento acerca da adequação de diferentes
abordagens, princípios ou métodos. As controvérsias filosóficas são copiosas na ciência,
bem como na filosofia. Exemplos: idealismo contra o materialismo, o racionalismo
contra o empirismo, o subjetivismo contra o realismo, o individualismo contra o
coletivismo, o criacionismo contra o evolucionismo e o keynesianismo contra o
neoliberalismo, nas suas polêmicas. Ocorrem controvérsias em todo campo de pesquisa.
Se algumas cessam, ao menos por algum tempo, outras, novas, surgirão. Um domínio
sem controvérsia é aquele onde nenhum novo grande problema está sendo atacado, e
nenhuma nova abordagem está sendo tentada. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Convenção
Convenção. Do latim "conventio", do verbo "convenire", designando a ação pela qual
muitos, de pontos diferentes, convergem para o mesmo ponto. Significa, em primeiro
lugar, a assembléia dos membros de uma determinada organização ou de representantes
de organizações congêneres, reunidos para deliberar sobre assuntos de interesse comum.
Nunca se deve confundir convenções sociais e imperativos morais, os quais são
exigências permanentes que decorrem da própria natureza humana. Não roubar, não
matar são imperativos que nunca poderão ser reduzidos a meras convenções sociais. O
grande risco de nossa época é precisamente este: numa revisão radical das convenções
sociais, arrastar de roldão os imutáveis princípios morais, sem os quais a vida humana
em sociedade acaba por se tornar impossível. (1)

Convenção. Acordo explícito ou tácito para assumir, usar ou fazer algo. Exemplos:
contratos, convenções lingüísticas e regras de etiqueta. As convenções não são naturais
ou legais, no entanto, regulam o raciocínio e a ação. Além do mais, nem todas são
arbitrárias: alguma são adotadas por conveniência, e outras são respaldadas por
postulados. Por exemplo, o sistema métrico decimal é adotado quase universalmente por
conveniência. (2)

Convenção. Independemente de suas conotações às vezes pejorativas esse termo


designa qualquer acordo entre diversas pessoas ou grupos. É utilizado mais
particularmente por alguns teóricos do direito ou da moral (Hobbes, Rousseau) para
evocar os princípios deliberadamente escolhidos pela coletividade a fim de instituir uma
ordem que permita a coexistência humana. No mesmo sentido é possível sublinhar o
aspecto convencional da linguagem.
153

Em epistemologia, Henri Poincaré emprega o termo para designar princípios científicos


que não se baseiam nem na experiência, nem em a priori racionais: assim seriam os
axiomas matemáticos. (3)

Convencionalismo. O convencionalismo é uma concepção da ciência, elaborada por


alguns matemáticos, segundo a qual os princípios de nossos conhecimentos (em
matemática) não passam de puras convenções das quais podemos deduzir enunciados
(leis) que descrevem o mais economicamente possível a realidade. O importante é que a
teoria permitia “salvar os fenômenos”. Opondo-se ao empirismo, que faz de uma teoria
um simples elo lógico estabelecido entre fatos de observação ou de experiência, sem
que a teoria contenha nada mais do que os próprios fatos, o convencionalismo reduz a
teoria a uma simples construção útil e arbitrária da razão. Ver convenção. (4)

(1) ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro:


M.E.C., 1967.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(4) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Corrupção
Corrupção. Do latim corruptione. 1. Ação ou efeito de corromper; podridão,
putrefação, decomposição. 2. Devassidão, depravação, perversão. 3. Modificação,
mudança, alteração, adulteração. (1)

Na ordem psicológica e moral, a corrupção denota um estado desordenado e patológico


da consciência que leva o sujeito livre a exercer o mal ou pecado. Opõe-se à ordem da
perfeição e da graça. Na ordem física, a corrupção é um fenômeno de involução dos
entes materiais que possuem uma estrutura complexa e perfeita... Daí, o célebre adágio
de Aristóteles e dos escolásticos: "A geração de uma coisa é a corrupção de outra". (2)

Na filosofia de Aristóteles, contrariamente à geração, que é uma criação, a corrupção


designa a destruição ou degradação da substância. "A corrupção", diz Aristóteles, "é
uma mudança que vai de algo ao não-ser desse algo; é absoluta quando vai da
substância ao não-ser da substância, específica quando vai para a especificação oposta"
(Fís., V, 225 a 17). (3)

O sentido Metafórico é mais amplo do que o sentido restrito. Refere-se normalmente ao


afastamento de uma matriz tida por modelo de perfeição. Em termos políticos, é a falta
154

de honestidade que acompanha o desempenho de determinadas funções administrativas.


(4)

Há três tipos de corrupção: 1) a prática da peita ou uso da recompensa escondida para


mudar a seu favor o sentir de um funcionário público; 2) o nepotismo, ou concessão de
empregos ou contratos públicos baseada não no mérito, mas nas relações de parentela;
3) o peculato por desvio ou apropriação e destinação de fundos públicos ao uso privado.
A corrupção é considerada em termos de legalidade e ilegalidade e não de moralidade e
imoralidade. (5)

(1) Enciclopédia Barsa Universal.

(2) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.].

(3) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(4) POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São Paulo:


Verbo, 1986.

(5) BOBBIO, N. et al. Dicionário de Política. 2. ed. Brasília: UNB, 1986.

Cosmo, Cosmologia, Cosmogonia, Cosmovisão


Cosmo. Do grego kosmos. 1. Palavra grega que significa “ordem”, “universo”, “beleza”
e “harmonia” e que designa, em sua origem, o céu estrelado enquanto podemos nele
detectar certa ordem: as constelações astrais e a esfera das estrelas fixas. Por extensão,
designa, na linguagem filosófica, o mundo enquanto é ordenado e se opõe ao caos.

2. Na física aristotélica, domina o modelo de um cosmo finito, bem ordenado. Tanto a


concepção aristotélica quanto a escolástica do mundo valorizam o mundo “supralunar”
cujos objetos incorruptíveis (planetas, Sol e estrelas fixas) são organizados numa ordem
eterna e perfeita, por oposição ao nosso mundo “sublunar” desordenado, submetido à
corrupção e ao “fluxo do devir”. Os movimentos dos objetos do mundo supralunar são
uniformes, circulares (o círculo é a figura perfeita) e eternos. Mas os objetos do mundo
sublunar traduzem uma “intenção de ordem”, pois uma pedra lançada ao ar, por um
movimento “violento”, busca seu lugar “natural”.

3. Com a revolução científica e mecanicista do séc. XVII, já anunciada por Copérnico,


altera-se totalmente a imagem aristotélico-ptolomaica de um mundo fechado, eterno e
finito, que é substituída pela concepção de uma causalidade cega num espaço
geometrizado. Doravante, não é mais a Terra, mas o Sol, que se encontra no centro do
mundo.(1)
155

Cosmogonia. Teoria sobre a origem do universo geralmente fundada em lendas ou em


mitos e ligada a uma metafísica. Como não houve testemunhas, as teorias da formação
do mundo assentam-se na fé (cosmogonias religiosas) ou no cálculo (cosmogonias
astronômicas). (2)

Cosmologia. Do grego kosmos, mundo, e logos, ciência, teoria. Conjunto das teorias
científicas que tratam das leis ou das propriedades da matéria em geral ou do universo.
Toda cosmologia supõe a possibilidade de um conhecimento do mundo como sistema e
de sua expressão num discurso. Por isso, a imagem do sistema do mundo é determinante
para toda filosofia que se pretende sistemática. O postulado de uma totalização do
mundo, pelo saber, revela-se indispensável a uma eventual totalização do próprio saber.
(1)

Cosmo – do grego kosmos significa ordem, oposto ao Caos (kaos), desordem.

Cosmovisão (Visão Geral de Mundo). Da soma geral dos conhecimentos, os filósofos


organizaram, sistematicamente ou não, uma espécie de panorama geral de todo o
conhecimento, formando uma totalidade de visão, uma coordenação de opiniões
entrelaçadas entre si.

Com essa sistematização lhes é possível formular, não só uma opinião geral de todo o
acontecer, mas também compreender e relacionar um fato individual com a visão geral
formulada do todo. (3)

“Cosmovisão, além de significar uma visão ou concepção de mundo, expressa também


uma atitude frente ao mesmo. Portanto, não é uma mera abstração, já que a imagem que
o homem forma do mundo possui um fator de orientação e uma qualidade modeladora e
transformadora da própria conduta humana. Implícito em toda cosmovisão há um
caminho de ação e realização”. (4)

O Materialismo, o Espiritualismo e o Idealismo são cosmovisões. O que caracteriza


essas diversas cosmovisões? Primeiro, um anelo de saber integral; segundo, a apreensão
da totalidade; terceiro, a solução de problemas do sentido do mundo e da vida.

Além das cosmovisões fornecidas pela ciência e pela filosofia, podemos também
enumerar as determinadas pela psicologia, pela raça, pela classe social, pela cultura
histórica, bem como as fornecidas pela biologia, pela matemática, pela física. (3)

= = = >>

Cosmovisão e Espiritismo
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico. 4. Inversão Cósmica. 5. Missão do Espiritismo. 6. A
Parte, o Todo e o Espiritismo: 6.1. Fé e Razão; 6.2. Fé, Razão e Matéria; 6.3. Absolutização do Relativo;
6.4. O Indivíduo e a Sociedade. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
156

O objetivo deste estudo é mostrar a influência que a Doutrina Espírita pode exercer na formação
da Visão Geral de Mundo. Para que possamos desenvolver nossas idéias, elaboramos um
pequeno roteiro: conceito de cosmovisão, histórico, inversão cósmica e visão comparada do
Espiritismo.

2. CONCEITO

Cosmo – do grego kosmos significa ordem, oposto ao Caos (kaos), desordem.

Cosmovisão (Visão Geral de Mundo). Da soma geral dos conhecimentos, os filósofos


organizaram, sistematicamente ou não, uma espécie de panorama geral de todo o
conhecimento, formando uma totalidade de visão, uma coordenação de opiniões entrelaçadas
entre si.

Com essa sistematização lhes é possível formular, não só uma opinião geral de todo o acontecer,
mas também compreender e relacionar um fato individual com a visão geral formulada do todo.
(Santos, 1955, p. 123)

“Cosmovisão, além de significar uma visão ou concepção de mundo, expressa também uma
atitude frente ao mesmo. Portanto, não é uma mera abstração, já que a imagem que o homem
forma do mundo possui um fator de orientação e uma qualidade modeladora e transformadora
da própria conduta humana. Implícito em toda cosmovisão há um caminho de ação e
realização”. (Crema, 1989, p. 17)

O Materialismo, o Espiritualismo e o Idealismo são cosmovisões. O que caracteriza essas diversas


cosmovisões? Primeiro, um anelo de saber integral; segundo, a apreensão da totalidade;
terceiro, a solução de problemas do sentido do mundo e da vida.

Além das cosmovisões fornecidas pela ciência e pela filosofia, podemos também enumerar as
determinadas pela psicologia, pela raça, pela classe social, pela cultura histórica, bem como as
fornecidas pela biologia, pela matemática, pela física. (Santos, 1955, p. 124)

3. HISTÓRICO

J. Torres, em Totalidade e Sociologia, resume a visão geral de mundo nos seguintes termos:

1.ª FASE – ESPIRITUALISMO (a Fé)

Antigüidade: Caos Oriental – Grego – Romano.

Fim da Antigüidade: Empirismo Latino-Politéico.

Idade Média: Teologia Monoteísta (Escolástica).

Síntese: PAPAS (Cruz)  CATOLICISMO Triunfante (Tomismo).

2.ª FASE – RACIONALISMO (a Razão)

Fim da Idade Média: Humanismo Renascentista – Filosofia Herética (repúdio da Fé, repúdio da
Escolástica)  REFORMA.

Início da Idade Moderna: Naturalismo Ateológico – Filosofia da dúvida (Cartesianismo).

Idade Moderna: Ideologias Relativistas – Filosofia da Observação (empirismo), Filosofia Política


(Democratismo)  REVOLUÇÃO.
157

Síntese: REIS (Espada)  DEMOCRATISMO Triunfante (Catolicismo decadente


e capitalismo começante).

3ª FASE – MATERIALISMO (a Matéria)

Início da Contemporaneidade: Racionalismo Filosófico – Filosofia Transcendente (Panteísmo,


Criticismo).

Idade Contemporânea: Cientificismo Positivo – Filosofia Científica (Positivismo), Filosofia dos


Fatos (Pragmatismo)  GUERRA

Atualidade: Materialismo Cultural – Marxismo, Filosofia da Violência (Comunismo, Facismo etc.)

Síntese: POLÍTICOS (a Palavra)  CAPITALISMO Triunfante (Democracismo Vacilante e


Catolicismo Expirante). (1956, p. 270 e 271)

4. INVERSÃO CÓSMICA

A marcha excêntrica da degradação histórico-filosófica ocidental foi esta: Fé, Razão, Matéria.

A marcha normal dessa evolução teria sido: Fé, Raciocínio (nada de endeusamento da razão,
nada de racionalismo), Consciência. Da Fé ainda primitiva, do estado ainda caótico (geocêntrico)
da sociedade, atingiríamos um estado empírico normal (heliocêntrico), de reflexão madura, o
qual teria conduzido à noção sistemática (cosmocêntrica) do Todo, à Consciência da Totalidade,
à Verdade Cósmica. Em suma, no lugar hoje ocupado pela Matéria estaria simplesmente Deus
– isto é, a Causa. Mas, com a inversão de tudo, está a antítese, isto é, o Efeito (a Matéria). E que
é isto tudo, toda essa inversão arbitrária de coisas e valores? Demência – caracterizada
demência cultural e histórico-filosófica da Humanidade. Por isso, ao invés da Consciência, temos
a Violência. A humanidade está filosoficamente invertida! Raciocinou às avessas. Em vez de
atingir a Causa, atingiu o Efeito; em vez de chegar à Verdade, chegou à Ilusão; em vez de se
cosmocentralizar regeocentralizou-se. Devendo aproximar-se do Criador, enroscou-se em si
mesma e permaneceu egocêntrica, antiteocêntrica. (Torres, 1956, p. 272 e 273)

Esta é a situação do mundo na atualidade. Urge reinverter a ordem. Os postulados espíritas


auxiliar-nos-ão eficazmente.

5. MISSÃO DO ESPIRITISMO

Para a concepção de mundo idealista, o Espírito é o motor do Universo; para a concepção de


mundo materialista, o motor do Universo é a matéria. Cada qual defendendo o seu ponto de
vista, torna difícil e quase impossível a compreensão do Todo.

O Espiritismo veio no momento certo: reorganizar o edifício da FÉ, abalado pelo culto da RAZÃO
e da MATERIALIDADE. Procedendo à síntese das várias concepções de mundo, encaminha o
nosso pensamento para a Unidade do Todo. Por isso, dizemos que o Espiritismo é Ciência,
Filosofia e Religião, ou seja, temos material suficiente para sintetizar Deus, Espírito e Matéria,
sem pender para nenhum dos lados, mas analisando-os como uma trilogia inseparável.

Emmanuel no livro Roteiro diz-nos que a missão do Espiritismo, tanto quanto o ministério do
Cristianismo, não será destruir as escolas da fé, até agora existentes. A Doutrina dos Espíritos
apoia os princípios superiores de todos os sistemas religiosos. O Espiritismo não vem para
censurar esta ou aquela forma de crer em Deus. O Espiritismo é, acima de tudo, o processo
libertador de nossas consciências, a fim de que a visão do homem alcance horizontes mais altos.
(Xavier, 1980, cap. 38)
158

6. A PARTE, O TODO E O ESPIRITISMO

6.1. FÉ E RAZÃO

A Fé, sendo um sentimento inato de cada ser, pode manifestar-se de forma racional (razão) ou
dogmática (cega). Allan Kardec no capítulo XIX de O Evangelho Segundo o Espiritismo trata do
assunto com muita clareza, inclusive, acrescentando que a fé pode ser também humana e
divina. É nesse ponto que podemos fazer uma ligação da parte com o todo. Assim, a Fé, sendo
inata, liga-se a Deus (causa). A denominação humana — indivíduo — é a parte que deve estar
relacionada com o Todo (Deus).

6.2. FÉ, RAZÃO E MATÉRIA

Em O Livro dos Espíritos, Kardec fala-nos da ação dos Espíritos sobre a Matéria. Mas o que está
em jogo aqui, é a unidade que se pode intuir dessa relação: Fé (Deus), Razão (homem) e Matéria
(natureza).

Transformar a natureza para o progresso. Porém, se fizermos de acordo com a vontade de Deus,
é possível que não estejamos destruindo o nosso planeta e nem criando necessidades
superficiais.

6.3. ABSOLUTIZAÇÃO DO RELATIVO

Tendo conhecimento da parte, queremos generalizar para o Todo. É preciso tomar cuidado, pois
podemos estar raciocinando em erro. Observe a leitura de um romance mediúnico. Somos
facilmente levados a generalizar o caso relatado, quando, ao contrário, deveríamos verificar se
o caso relatado se enquadra dentro da Lei Natural, da Lei Geral, da Lei de Causa e Efeito.

Um exemplo: quando um país está em guerra, logo imaginamos que o país inteiro está em
guerra. Às vezes é pequena porção deste.

6.4. O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE

Aristóteles, na Antiguidade, já nos dizia que o homem é um animal, devendo viver em sociedade.
Será que todo ato que praticamos, pensamos no todo? Senão, vejamos: quando viajamos, o lixo
produzido dentro do carro é jogado na rua. Deixamos limpo o bem privado, mas poluímos o bem
público (todo); famílias que moram no alto impermeabilizam o solo. Consequência: quando
chove, alaga-se em baixo; ligamos o nosso som no último volume sem nos importarmos se
estamos prejudicando o nosso vizinho.

Estando em sociedade, é bom verificar que a intenção boa vê os interesses particulares; a boa
intenção, o interesse geral, com pena de sacrificar os próprios; que a tristeza, desânimo,
desespero do discípulo do Mestre equivale a bloquear o ânimo, as virtudes na almas que nos
compartilham a existência; que sempre precisamos de alguém menor do que nós; que a espiga
de milho quando sofre a trituração não tem consciência da “farinha” que irá se tornar; que na
semente minúscula reside o germe do tronco benfeitor; que educando transformaremos a
irracionalidade em inteligência, a inteligência em humanidade e a humanidade em angelitude.

7. CONCLUSÃO
O Espiritismo é, ao mesmo tempo, Filosofia, Ciência e Religião. Ele é a unidade sintética de todo
o conhecimento. A conscientização desse fato faz-nos observar melhor o mundo que nos rodeia.
Observando melhor, teremos a nossa visão acurada. Com nossa visão acurada, teremos mais
159

condições de compreender o nosso próximo. Compreendendo melhor o nosso próximo,


poderemos amá-lo, respeitá-lo e fazer-lhe tudo o que gostaríamos fosse feito a nós mesmos.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
CREMA, R. Introdução à Visão Holística. São Paulo, Summus, 1989.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. São Paulo, FEESP, 1972.
SANTOS, M. F. dos. Filosofia e Cosmovisão (Introdução à Filosofia e Visão Geral de Mundo). 2. ed., São
Paulo, Logos, 1955.
TORRES, J. Totalidade e Sociologia (Introdução. Exposição Geral e Sumária de Cosmonomia. Cosmovisão
Geral). Rio de Janeiro, s. e., 1953-1956.
XAVIER, F. C. Roteiro, pelo Espírito Emmanuel. 5.ed., Rio de Janeiro, FEB, 1980.

São Paulo, abril de 1996.

<< = = =

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

(3) SANTOS, M. F. dos. Filosofia e Cosmovisão (Introdução à Filosofia e Visão Geral


de Mundo). 2. ed., São Paulo, Logos, 1955, p. 123.

(4) CREMA, Roberto. Introdução à Visão Holística: Breve Relato de Viagem do Velho
ao Novo Paradigma. 2.ed., São Paulo: Summus, 1989, p. 17.

Crise
Crise. Do grego krisis, do mesmo étimo do verbo krino, separar, depurar, como se faz
com o ouro, do grego krysos, onde está presente a raiz do sânscrito kri ou kir, limpar,
cujos indícios estão também em crisol e acrisolar. O Dicionário Etimológico de
Antenor Nascentes dá também os significados de momento decisivo, separação e
julgamento. Há consenso entre diversos outros pesquisadores de que a crise leva à
ruptura com o estado anterior. O novo rumo pode ser de melhora ou piora, tanto em
medicina como em sociologia, onde o vocábulo é muito usado. (1)

Crise. O primeiro sentido oferecido pela etimologia grega (krisis) corresponde à fase
decisiva de uma doença. Mais geralmente, um momento de desequilíbrio sensível. Quer
se trate na história de uma ciência do questionamento de noções ou princípios que
parecem bem estabelecidos (assim falou-se de uma “crise do determinismo”), quer, nos
campos psicológico ou moral, um indivíduo ou um grupo constate que os valores
admitidos precisam ser modificados, ou, mais globalmente, o conjunto de uma cultura
ou de uma civilização questione sua história e seu futuro (evoca-se com frequência, sob
esse aspecto, uma “crise do Ocidente” no século XX).
160

Em Economia, pode ocorrer uma crise por insuficiência da produção ou, ao contrário,
por superprodução (crise de 1929). Marx admitia que o capitalismo seria por natureza
gerador de crises que acabariam por lhe ser fatais. Porém, a história recente também
pode ser interpretada no sentido contrário: para o capitalismo, a crise seria então “uma
condição de sua possibilidade de funcionamento” (Lyotard). (2)

Crise. Do grego krisis, significa "juízo", como decisão final sobre um processo e ainda,
generalizando, decisão de um acontecer num sentido ou noutro. Em medicina e em
ciência militar, crise exprime aquele momento de viragem, dificilmente situável, em que
tem lugar a decisão sobre a vida ou a morte, sobre a vitória ou sobre a derrota. De um
modo geral, crise designa uma fase ou uma situação perigosa, da qual pode resultar algo
benéfico ou algo pernicioso para o indivíduo ou para a comunidade que por ele passa
um estado transitório de incerteza e dificuldades, mas também cheio de possibilidades
de renovação. De múltiplas maneiras se pode manifestar a crise e, do ponto de vista
filosófico e sociológico, é particularmente importante a crise histórica, que se pode
traduzir em crise na vida espiritual de um povo, quando as formas de arte, literatura,
filosofia, moralidade etc entram em declínio, devido ao enfraquecimento das crenças em
que repousam e despontam novas formas correspondentes a aspirações e necessidades
que começam a fazer-se sentir.

A noção de crise encontra-se atualmente muito difundida nas linguagens filosófica e


sociológica e mesmo na linguagem comum. A sua origem parece remontar segundo
alguns estudiosos a Saint-Simon, que, em L'introduction aux travaux scientifiques du
XIXe siècle (1807), distingue entre épocas orgânicas e épocas críticas. As primeiras
repousam num sistema de crenças bem estabelecidas e desenvolvem-se de acordo com
esse sistema. Acontece, porém, que para além das variações particulares de crenças
dentro do contexto da crença fundamental organizadora de uma época orgânica, o
progresso desta última leva à alteração dessa crença central em que se apoia,
determinando o início de uma época crítica. A Reforma, por exemplo, e a nova ciência
da natureza puseram em crise a época medieval, dando início à época moderna, época
preponderantemente crítica. Essa ideia de épocas orgânicas e épocas críticas foi
recolhida por Augusto Comte (o estado metafísico como estado crítico e não orgânico,
transição do estado teológico para o positivo) e por outros positivistas que admitem não
ter ainda a época moderna alcançado a organização definitiva em torno de um princípio
extraído da ciência positiva, mas encontrando-se inevitavelmente em vias de a alcançar.

A crise renascentista é a passagem da época medieval para a época moderna.

A ideia de época orgânica transforma-se, por vezes, um ideal, num mito, numa espécie
de Idade de Ouro, onde as incertezas, as tensões, as injustiças serão eliminadas numa
utopia em que inevitavelmente se crê venha a se transformar em eutopia e que podendo
acompanhar a diagnose da crise, origina as mais variadas ideologias. (3)

Crise. Falamos de "crise" em relação a sujeitos, a uma vida ou a uma forma de vida, a
um sistema ou uma "esfera" de ação. As crises decidem se uma coisa perdura ou não. O
caso paradigmático de crise é a crise de vida, na qual, se levada ao extremo, está se
tratando de vida ou morte. Em toda crise os envolvidos confrontam-se com a questão
hamletiana: ser ou não ser. (4)
161

(1) SILVA, Deonísio da. De Onde Vêm as Palavras: Origens e Curiosidades da Língua
Portuguesa. 16.ed. rev. e ampl. Osasco, SP:Novo Século, 2009.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(3) LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de


Janeiro: Verbo, 1990.

(4) OUTHWAITE. W. e BOTTOMORE, T. Dicionário do Pensamento Social do


Século XX. Rio de Janeiro, Zahar, 1996.

"eutopia", Espaço exterior materializado, percepcionado como suscetível de realizar os


valores e aspirações locais.

O Advento do Cristianismo
O cristianismo e a concepção grega do mundo

A civilização ocidental é o resultado de uma dupla herança constituída, por um lado,


pelo pensamento grego e, por outro, pelo cristianismo. É importante compreender a
dimensão que o advento do cristianismo assumiu, perceber que nosso pensamento não
seria o mesmo sem essa herança, e que a civilização europeia se debateu e ainda se
debate nos limites estabelecidos por essa religião — mesmo quando, já na modernidade,
o tema da morte de Deus se tornou recorrente.

A relação do cristianismo com a cultura grega clássica inclui várias facetas: desde a
oposição, devido à sua natureza diferente — uma verdade revelada perante uma verdade
racional —, até sua aliança diante da necessidade de repensar a realidade no contexto do
pensamento cristão, sem esquecer as diferenças nunca superadas em sua concepção de
mundo ou da divindade.

Fé e razão

Religião e filosofia são duas formas diferentes, se não opostas, de se propor a


compreensão do mundo. O cristianismo é uma religião e, como tal, é um conjunto de
crenças reveladas que aceitamos por fé, por motivos extra-racionais. A filosofia, ao
contrário, tenta uma compreensão da realidade dentro dos limites da razão. As ideias
aceitas não são crenças, são pensamentos argumentados, raciocinados; quer dizer, ideias
para as quais podemos dar razões. Os âmbitos de cada uma delas, fé e razão, também
são diferentes: o da fé é o sobrenatural; o da razão, o natural.

Mas, embora de natureza diferente, razão e fé mantêm, desde os inícios do cristianismo,


uma profunda ligação, ainda que com muitas tensões. Desde o primeiro momento, uma
minoria de cristãos cultos tentou não apenas crer, o que já faziam na condição de
cristãos, mas também compreender o que tinha sido revelado pela fé.
162

Imagem de Deus

O cristianismo, como se sabe, baseia-se na interpretação dos textos canônicos do Antigo


e do Novo Testamento: a Bíblia. Incorpora, portanto, elementos centrais de uma
tradição religiosa, a do judaísmo, criada ao longo de dois milênios (desde 1850 a.C.,
aproximadamente). O resultado pressupõe uma concepção de mundo distanciada da
grega em aspectos fundamentais.

A cultura grega é uma cultura politeísta — a crença em múltiplos deuses; o


cristianismo, pelo contrário — e a herança judaica se faz novamente notar — é
monoteísta — a crença em um único deus. É verdade que na filosofia grega existem
certas tendências monoteístas, como por exemplo nas concepções de Platão e
Aristóteles, mas elas convivem com o politeísmo.

A imagem de Deus no cristianismo é a de um único Deus, criador, onipotente,


transcendente (está fora do mundo); um deus concebido como possuidor de qualidades
que expressam sua perfeição absoluta. Por sua perfeição e transcendência, o divino
forma uma realidade totalmente distinta da da criatura, e infinitamente superior. Os
antropomórficos deuses gregos não aspiravam a nada semelhante: eles fazem parte do
mundo, não estão fora dele, e embora constituam uma raça que desconhece as
imperfeições que caracterizam as criaturas mortais — fraqueza, cansaço, sofrimento,
doença, morte —, não encarnam o absoluto nem o infinito.

Uma nova experiência do tempo

Talvez a novidade mais importante seja a de uma nova experiência do tempo, que tem,
por sua vez, implicações na concepção sobre a origem da realidade e na concepção da
história. Para os gregos, o tempo é circular, o que supõe, entre outras coisas, a
eternidade do que existe e a negação da criação do mundo. O cristianismo, por meio da
herança do Antigo Testamento, apresenta uma concepção linear do tempo, uma
concepção que até hoje é a nossa.

Deus, ser onipotente, criou o mundo, e o criou a partir do nada, ex nihilo. Esse princípio
fundamental é profundamente alheio à maneira grega de pensar a origem do nosso
mundo. Para o pensamento grego, do nada, nada sai. Esse é um princípio racional
inquestionável. O mundo é um cosmos, um universo imutável e ordenado, de
movimento regular, no qual tudo se repete eternamente — concepção do eterno retorno.
Os dias e as estações do ano passam, mas depois voltam; a primavera sucede ao
inverno; o que morre torna a nascer. Platão defende que o tempo, determinado pela
rotação das esferas celestes, é circular porque apenas imita a eternidade imóvel. O
movimento e o devir são níveis inferiores de uma realidade que no fundo é permanente.
O ser autêntico é eterno e imutável.

No cristianismo, pelo contrário, não existe o cosmos, como estrutura eterna e imutável.
O que é é porque está no tempo. Deus cria o mundo e com ele o tempo. A natureza da
coisa criada é a de ser puro devir e contingência, cada acontecimento é único, nada se
163

repete, o que faz do tempo história no sentido estrito da palavra: um processo linear,
aberto; com um princípio (a criação), um final (o advento do reino de Deus) e um
acontecimento singular que lhe dá seu sentido pleno: a encarnação do filho de Deus.

&&&&&

Gnosticismo e neoplatonismo

Nos primeiros séculos de nossa era, coincidindo com o apogeu e declínio do Império
Romano, o pensamento filosófico tenta solucionar, seja dentro ou fora do cristianismo,
o problema do Bem e do Mal, que se polariza na antítese Deus e Mundo e que divide a
consciência do ser humano em opostos inconciliáveis.

O Mal, que se identifica com a matéria de que o mundo é formado, provém da


experiência da dor, da doença e da morte. Não se trata, portanto, de uma categoria
exclusivamente moral, mas de um mal metafísico, próprio da condição finita e
contingente do ser humano, e do qual derivam os outros males. Frente a esse problema,
alinham-se duas correntes de pensamento. Uma está ligada à tradição das religiões
orientais, aos mistérios órficos-pitagóricos e a conhecimento hermético: é o
agnosticismo. A outra reformula o pensamento de Platão com o objetivo de salvar esse
profundo dualismo aberto no espírito humano: é o neoplatonismo.

O Gnosticismo

O nome dessa corrente de pensamento, que surgiu a partir do século II de nossa era,
deriva do grego gnosis, que significa "conhecimento". Não se trata, porém, de um
conhecimento conceitual, mas antes de um saber absoluto adquirido pela via de uma
iluminação intuitiva, reservada unicamente a alguns iniciados.

O gnosticismo seria apenas mais uma heresia entre tantas que o cristianismo precisou
enfrentar em seus primeiros tempos, se não se tivesse conectado com uma força única
ao universo inconsciente e arquétipo do homem. Esse universo não se expressa por
meio de conceitos, mas de imagens simbólicas. A arte e a poesia sempre se alimentam
delas, assim como todas as tradições esotéricas.

Do ponto de vista filosófico, o que importa destacar é a dualidade com que se confronta
a consciência dessa época. A unidade grega entre o cosmos e Deus se rompeu, e o Bem
e o Mal se polarizaram em opostos inconciliáveis. De um lado, Deus, o Bem supremo;
do ouro, o Mundo que abriga a matéria, fonte de todo o Mal. E, no meio dessa
dualidade, o Homem. Todo o esforço dos gnósticos está voltado para preencher esse
abismo que separa o homem de Deus. A gnose é justamente o conhecimento capaz de
iluminar o caminho que leva à união desses dois extremos separados pela matéria.

Uma vez que Deus, o Bem supremo, não poderia ter criado o mundo em que existe o
Mal, os gnósticos tratam de encontrar um princípio supremo diferente de Deus que dê
conta da imperfeição e do mal que existem no mundo.
164

Basílides, um gnóstico que pregou em Alexandria entre os anos 120-140, oferece uma
resposta a esse extremo dualismo estabelecendo os princípios da luz, causa do Bem, e
das trevas, origem do Mal. As trevas não foram absorvidas pela luz, mas de seu contato
nasceu uma luz aparente que é a do mundo, mistura do bem e do mal. Para Valentino,
outro gnóstico do século II, o mundo é a consequência de um esforço incompleto,
porque não é obra de Deus — o princípio supremo ou Pleroma —, mas de algumas das
emanações produzidas pela divindade e que presidiram as sucessivas transformações do
Universo.

A doutrina das emanações: Plotino

A emanação é um dos conceitos-chave do começo da era cristã. Além dos gnósticos,


que também o emprega é Plotino (205-270), um pensador cuja obra, As Enéadas, figura
como a expressão mais elevada do neoplatonismo. Uma flor emana perfume, um corpo
luminoso emana luz. A emanação é, portanto, um processo pelo qual uma coisa é
causada por outra, que a determina ou a contém como princípio. Plotino explica assim a
criação do mundo, por meio de uma série de emanações de um princípio supremo, o Um
ou Deus, que exclui qualquer multiplicidade.

O Mundo se divide em Mundo inteligível e Mundo corpóreo. O primeiro é formado pelo


Um. Do Um emana o intelecto (nous) e, numa segunda emanação, do intelecto emana a
alma do mundo (anima mundi). O intelecto (que equivale ao Demiurgo platônico), ao
ser pensamento, apresenta uma cisão entre sujeito e objeto; abriga, portanto, o germe da
multiplicidade. Mas essa se encontra plenamente desenvolvida na mundo corpóreo
formado pela matéria. O Mal (ou seja, a privação de ser que origina o devir) reside aí.

No entanto, a anima mundi intervém também no mundo corpóreo como princípio de


unidade e indivisibilidade. A existência do homem, portanto, é um corpo de batalha
entre esse princípio unitário, que tende para o Bem (a união com o Um) e a
multiplicidade da matéria, que encaminha para o Mal (privação de ser). Retomando às
teses sobre o amor que Platão havia formulado no Fedro, Plotino aponta um caminho
interior, um retorno à mesmice, como via de ascensão da multiplicidade presente na
matéria à unidade que Deus encarna. É um caminho de êxtases místicos que conduzem
à fusão com o Um e que só é concedido aos eleitos.

Essa experiência interior, entretanto, na qual se abandonam a percepção sensível e o


pensamento discursivo, aparecerá com muito mais força em Santo Agostinho.

Caixa: O neoplatonismo de Plotino

Caixa: A tradição oculta

No início da era cristã, o aparecimento do gnosticismo é o resultado de um encontro


entre a alma oriental e a alma ocidental. Depois, essa se separará para seguir o seu
próprio curso, revestida pelo cristianismo e pelo pensamento racional (herança grega).
No entanto, no decorrer da história, nem todo o pensamento perambulou na Europa
165

pelas sendas do cristianismo e do racionalismo. Existe também uma tradição oculta


cujo ponto de partida deve se fixar justamente na gnose dos séculos II-III de nossa era.
Nesta tradição confluem, num primeiro momento, as doutrinas enigmáticas do Orfismo
(de Orfeu, poeta mítico do século VI a.C.), com sua crença nas transmigrações
sucessivas das almas. Ou na corrente esotérica do hermetismo (do deus Hermes
Trismegisto, que, por sua vez, provém de Tot, divindade lunar entre os egípcios), que
está relacionada com a astrologia e a alquimia.

Trata-se de formas ocultas, esotéricas, com um fundo que historicamente bebeu das
religiões orientais. No Ocidente, essas formas reaparecem ao longo da Idade Média, e
inclusive da Idade Moderna, incluídas no Corpus hermeticus dos alquimistas. Estão
presentes ainda no Renascimento, na medicina astrológica de Paracelso e podem ser
rastreadas em grandes obras literárias, como no Fausto, de Goethe. Já em nossa época,
aparecem nos domínios da teosofia, ou foram objeto de uma profunda exploração por
parte da psicologia analítica de C. G. Jung. Nessa tradição oculta, de raiz mística, busca-
se sempre o encontro com Deus, com o Um, de forma íntima - seja na solidão das
retortas alquímicas, onde se opera a transmutação dos metais, seja no contato com uma
seita ou grupo do qual se é adepto ou iniciado.

&&&&&

A patrística

Um dos fatos de maior transcendência ocorrido na história do pensamento ocidental é a


adoção que o cristianismo faz da filosofia grega, durante os primeiros séculos de nossa
era. Nossa cultura ocidental não poderia ser entendida sem essa síntese laboriosa que os
padres da igreja realizaram ao longo de setecentos anos. O resultado dessa obra, quer
dizer, a elaboração doutrinal que estabelece uma continuidade com o mundo antigo pela
via da razão e com o mundo cristão pela via da revelação é conhecida pelo nome de
patrística.

A helenização do cristianismo

Historicamente, o cristianismo, desde o seu aparecimento na Palestina, expandiu-se de


forma gradual pelo Mediterrâneo. Foi constatado que a queda de Jerusalém nas mãos
dos romanos (ano 70) deu maior peso àquelas regiões da Grécia e da Anatólia que
haviam sido evangelizadas por São Paulo. Mas esses fatos, apesar de importantes, não
explicam totalmente a envergadura do processo de helenização experimentado pelo
cristianismo desde suas origens.

A passagem sucessiva de Jerusalém a Atenas, e depois Roma como centros de expansão


cristã é fomentado, desde logo, por uma série de vicissitudes históricas, mas dá conta,
também, de uma espiritualização cada vez maior dos conteúdos cristãos. Pouco a pouco,
vão-se abandonando as concepções apocalípticas, mais típicas do judaísmo, que viam a
salvação como algo imediato, e passa-se a interpretá-la como uma forma de salvação
espiritual. Não se espera, portanto, uma redenção imediata do sofrimento e da morte,
existe, em lugar disso, uma necessidade de aprofundar os conteúdos da verdade
revelada, para manter viva aquela esperança originária da salvação.
166

É quando aparece no cristianismo, a necessidade de adotar os instrumentos conceituais


forjados na cultura grega, e assim tem início aquela elaboração doutrinal dos padres da
igreja conhecida como "patrística".

Tertuliano e Orígenes

Há nesta época (séculos I-III) dois pensadores cristãos de grande relevo que, com sua
obra, já indicam as possibilidades resultantes de uma síntese entre cristianismo e
filosofia.

Nascido por volta de 155 em Cartago, Tertuliano é o expoente de um cristianismo


baseado na fé, no fundo racional da alma, isto é, no puro sentimento, e que, justamente
por isso, quer prescindir da filosofia. Expressa, portanto, uma tendência contrária à da
patrística, e será posto à margem pela igreja, apesar de haver criado o latim eclesiástico
e haver combatido o gnosticismo.

A atitude de Tertuliano, contudo, é precursora de um cristianismo místico e vivencial


que encontrará sua máxima expressão na síntese agostiniana de razão e fé.

Um caso diferente é o de Orígenes, que nasceu por volta do ano 185 em Alexandria.
Autor de uma vasta obra composta de escólios, homílias e comentários, Orígenes é o
primeiro grande sistematizador da teologia cristã e, por isso mesmo, o primeiro criador
de um sistema filosófico cristão, ao qual incorpora elementos neoplatônicos e até
gnósticos. É ele quem define a orientação filosófica que os padres da igreja vão seguir, e
sua influência chega até a escolástica medieval, embora com muitas tensões.

No século VI, os partidários desse pensador, que alimentam a corrente do origenismo,


serão condenados pela igreja ao defenderem a crença na eternidade do mundo e na
doutrina da preexistência da alma.

A patrística

Com esses precedentes (progressiva helenização do cristianismo e os primeiros esforços


para conciliá-lo com a filosofia), a patrística surge a partir do século II, com são Justino.
Como doutrina dos padres da Igreja, procurou unir o pensamento grego (especialmente
o platônico e o neoplatônico) às Sagradas Escrituras. Ao mesmo tempo, a patrística é
uma doutrina que se forja na luta contra o paganismo e na depuração teorética exigida
pelo esforço de diferenciar-se de heresias como o gnosticismo, o arianismo, o
maniqueísmo, o monofisismo.

As questões que mais preocupam os padres da igreja são as mais importantes levantadas
pelo dogma. A criação, a revelação de Deus com o mundo, o mal, a alma, o destino da
existência e o sentido da redenção são problemas fundamentais da patrística. E também
questões estritamente teológicas, como as que se referem à essência de Deus, à trindade
das pessoas divinas etc. Por último, problemas morais que vão conduzir ao
estabelecimento de uma nova ética que, embora utiliza conceitos helênicos, se
167

fundamenta, na graça e na relação do homem com seu criador, e culmina na ideia da


salvação, estranha ao pensamento grego.

A patrística chega ao seu auge com o pensamento agostiniano. Clemente de Alexandria,


são Gregório Nazianzeno, são Basílio, são João Crisóstomo e são Jerônimo trouxeram
contribuições da máxima importância a essa corrente de pensamento que perdurará
(ainda que com menor força após a morte de santo Agostinho) até o século VIII.

O pensamento de Tertuliano

Para Tertuliano, Atenas e Jerusalém nada têm em comum: fé em Cristo e Sabedoria


humana se contradizem (daqui sua célebre afirmação: credo quia absurdum). Na
verdade, a alma é naturaliter christiana e é a cultura filosófica que a afasta da verdade.
Tertuliano assumiu, talvez de Sêneca, uma concepção corpórea da realidade e do
próprio Deus.

Tertuliano contrapõe os filósofos aos cristãos do seguinte modo: "Em seu conjunto, que
semelhança pode-se perceber entre o filósofo e o cristão, entre o discípulo da Grécia e o
candidato ao céu, entre o traficante de fama terrena e aquele que faz questão de vida,
entre o vendedor de palavras e o realizador de obras, entre quem constrói sobre a rocha
e quem destrói, entre quem altera e quem tutela a verdade, entre o ladrão e o guardião
da verdade?"

Platonismo e cristianismo

O platonismo é o sistema que proporciona ao cristianismo o esquema conceitual básico.


De um lado, a corrente platônica — definitivamente impulsionada pelo neoplatonismo
— era na época a mais vigorosa e dominante; além disso, era a que oferecia mais pontos
de contato com a doutrina cristão.

Os aspectos da concepção platônica que ofereciam mais possibilidades para a


formulação das ideias cristãs são os seguintes. Em primeiro lugar, a existência de dois
mundos, um sensível e imperfeito e outro inteligível e perfeito. O cristianismo situa as
ideias na mente de Deus: o mundo perfeito é o divino. Da mesma forma como para o
platonismo o mundo sensível foi feito à imagem e semelhança das ideias, para o
cristianismo a criação leva também a marca das ideias do Criador. Mas, apesar dessa
presença de Deus na criação, os filósofos cristãos não deixam de sublinhar a
contingência da coisa criada (a coisa criada é, mas pode não ser: não possui o ser por si
mesmo, mas o recebe de Deus) e, com a contingência, a dependência de seu ser em
relação ao Criador. Por outro lado, os cristãos acreditaram encontrar a própria ideia de
criação prefigurada no Demiurgo platônico. Por último, tanto Platão quanto o
neoplatonismo, ao situarem a ideia do Bem no topo da hierarquia, abriram grandes
possibilidades ao cristianismo para expressar o monoteísmo.

&&&&&
168

Santo Agostinho

Nos primeiros anos do século V, no momento em que Roma cai nas mãos dos bárbaros
de Alarico (410), santo Agostinho, um dos maiores pensadores de todos os tempos,
ainda não havia concluído sua vasta obra filosófica, teológica e exegética. O declínio e
extinção do Império Romano contrastam com o pensamento agostiniano, que aponta
para uma nova época.

O mérito de santo Agostinho consiste na viva incorporação que faz do platonismo e na


criação de um pensamento próprio e original, de raiz mística, que permitirá à igreja
enfrentar a "noite escura" que aconteceu na Europa a partir do século V com as
sucessivas invasões bárbaras.

A busca incessante de Deus

A incerteza

A iluminação agostiniana

Razão e fé

O ser temporal

A Cidade de Deus

Caixa: Vida e obras de Santo Agostinho

&&&&&

A mentalidade romana: o direito e o ecletismo

As contribuições dos romanos à história do pensamento ocidental são bem mais


escassas, se as considerarmos de um ponto de vista teorético. Roma, nesse sentido, deve
ser vista como uma transmissora do pensamento grego, e sua máxima contribuição
consiste na adaptação das ideias gregas ao mundo latino.

Nesse papel de transmissão e adaptação, os romanos são ecléticos. O ecletismo, cujo


representante mais ilustre é Cícero, é apenas uma seleção de verdades correspondentes a
diferentes sistemas filosóficos, tendo como critério o senso comum.

Não é nesse aspecto que se deve procurar a originalidade das contribuições romanas.
Estas se encontram no desenvolvimento peculiar do estoicismo de Sêneca, Epicteto e
Marco Aurélio e, especialmente, no direito romano.

O ecletismo: Cícero

A figura de Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) é fundamental para se compreender o


jogo mental característico dos romanos. Nessa mentalidade, o interesse se concentra nas
169

conclusões, mais do que nas premissas, e nas soluções práticas dos problemas, mais do
que em sua elucubração puramente teorética e abstrata.

A pedra angular do pensamento ciceroniano se baseia no consensus gentium, que dizer,


em um consenso da maioria para aquelas questões metafísicas que suscitam sérias
dúvidas. Se não existe esse consenso, é prudente abster-se (quer dizer, limitar
deliberadamente o voo do pensamento; o homem romano é prático e o que importa de
forma prioritária é a ação).

O que dizem — pergunta-se Cícero em sua obra Sobre a natureza dos deuses —
epicuristas e estoicos sobre a existência de Deus e a imortalidade da alma? Que as duas
coisas são indubitavelmente certas. E o comum dos mortais, o que pensa a respeito? A
mesma coisa. Logo, é correto. E sobre a natureza da divindade, o que sabemos? Nisto
existe discrepância em saber "se os deuses estão completamente ociosos e inativos, sem
tomar parte alguma na direção e nos governo do mundo, ou se, pelo contrário, todas as
coisas foram criadas e ordenadas por eles em um começo, e são controladas e
conservadas em movimento por eles ao longo de toda a eternidade". Assim, não
podemos julgar nesse terreno.

A linguagem filosófica

A contribuição mais importante de Cícero e da maioria dos pensadores romanos é a


criação de uma linguagem filosófica que constitui uma adaptação dos termos filosóficos
usados pelos gregos. Essa "versão romana" da filosofia grega assumiu tamanha
importância que, durante muitos séculos (praticamente até o renascimento e mesmo
depois), o pensamento do Ocidente a usou como fonte direta (o que suscitará, na época
contemporânea, a crítica de Heidegger, por entender que com isso se perdeu o substrato
original da experiência grega).

O estoicismo romano

Dentro do ecletismo geral da época, a filosofia estoica teve um especial destaque em


Roma. Os nomes de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, o imperador filosófico, estão
associados a uma forma de estoicismo de caráter ético que revaloriza mais uma vez o
ideal do sábio.

O cordovês Lúcio Aneu Sêneca (3-65), por exemplo, propõe a figura do sábio como
homem forte, imune às variações da sorte e que luta mesmo quando foi derrubado: um
código ético para as classes dirigentes do Império Romano, formulado por um filósofo
que durante o mandato de Nero assumiu as mais altas responsabilidades políticas e
acabou por suicidar-se.

O espiritualismo de Sêneca, no entanto, com seu canto à virtude e seu desprezo pelas
vaidades terrenas, teve uma profunda influência sobre o catolicismo espanhol, a ponto
de um historiador, Américo Castro, defender que suas raízes têm parentesco direto com
a idiossincrasia espanhola.
170

O epicurismo

A tradição materialista de Epicuro é recolhida em Roma por Lucrécio (94-55 a.C.),


autor de uma vasto poema, Sobre a natureza das coisas (De rerum natura), em que
procura dar uma explicação científica para os enigmas do Universo. Pensador isolado,
que na época da revolução científica (século XVII) será revalorizado por seu caráter
precursor, Lucrécio defende que a alma é material e o Universo nem é criado nem
destruído, já que sua matéria é infinita. É notável também sua teoria do conhecimento,
que se baseia nas sensações, assim como sua afirmação de que a religião é contrária à
ciência.

O direito romano

Aquilo que importa na mentalidade romana é, antes de mais nada, a organização da vida
social mediante regras e preceitos. No início, essas regras jurídicas se confundem com
as próprias tradições religiosas dos romanos. Depois (e trata-se de uma evolução que
abarca mais de mil anos, já que se inicia com a fundação de Roma, no século VIII a.C. e
termina nos séculos V-VI de nossa era), os plebeus conseguem que os princípios
jurídicos fundamentais recolhidos na lei das Doze Tábuas sejam declarados
publicamente. Isto estabelece um grande passo para a igualdade política. É nessa época
que aparecem os juristas e se abre um processo de secularização do direito (quer dizer,
uma emancipação do direito em relação aos preceitos puramente religiosos). Nessa
etapa a figura fundamental é a do pater familias.

A expansão de Roma para além dos confins da península Itálica e o contato com a
cultura grega ampliam os horizontes de um direito ainda comprimido nos limites de
uma estrutura social determinada pela existência de pequenos proprietários rurais. Em
primeiro lugar, assegura-se um direito baseado no costume: é o fundamento do direito
civil (jus civile); depois, estabelecem-se as bases de um direito internacional com o jus
gentium, o direito dos povos, que se aplica aos cidadãos. Um novo passo nessa evolução
diferenciadora das normas ocorre quando o direito civil e o direito dos povos se reúnem
no âmbito do jus publicum (direito público que se refere às relações com o estado) e se
distinguem do direito privado (jus privatum).

A história jurídica de Roma termina no século VI, quando o imperador de Bizâncio,


Justiniano I, compila as leis romanas no Corpus juris civiles. Então começa outra
história: a da aplicação do direito romano a todos os povos romanizados da Europa.

Temática Barsa - Filosofia. Rio de Janeiro: Barsa Planeta, 2005 (Cópia de capítulo
3).
171

Crítica
Crítica. No sentido antigo, é a parte da lógica que trata do julgamento. Hoje, exame de
um fato, de uma obra de arte, de um comportamento com o intento de fazer um
julgamento de apreciação, que pode ser lógico, estético, moral etc. Num sentido mais
restrito, o termo implica um julgamento desfavorável. O adjetivo apresenta o mesmo
sentido duplo: se é aconselhável exercer o seu espírito crítico (mesmo que seja apenas
para filosofar...) a fim de nada admitir sem exame, não é aconselhável desenvolvê-lo no
sentido de uma sensibilidade exclusiva aos defeitos. Mas qualifica também o que
constitui uma crise ou se refere a ela (estar num estado crítico. (1)

Crítica. Análise e avaliação desencadeadas por defeitos de alguma espécie. A crítica é


uma parte normal da pesquisa em todos os campos. Mas seu papel não deveria ser
exagerado, pois não é criativa: ela pode apenas melhorar ou eliminar. De fato, antes que
um item seja submetido a uma análise crítica é preciso que tenha sido trazido à
existência. E, se julgado defeituoso, deve ser reparado ou substituído em vez de ser
protegido por inverificáveis. (2) (Ver hipótese ad hoc)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Cultura
Cultura. “Conjunto de estilos, de métodos, de valores materiais que juntamente com os
valores morais caracterizam um povo ou sociedade”. (1)

Cultura. Tendo-se tornado praticamente sinônimo de civilização, o termo designa o


conjunto das tradições, técnicas e instituições que caracterizam um grupo humano: a
cultura compreendida dessa maneira é normativa e adquirida pelo indivíduo, desde a
infância, pelos processos de aculturação. (2)

Aculturação. Numa acepção neutra, designa o aprendizado graças ao qual um


indivíduo adquire gradualmente desde o nascimento os elementos constitutivos da
cultura de seu grupo. A aculturação, que propõe ao sujeito uma cultura como a única
legítima, senão "natural", encontra-se dessa forma na origem de um etnocentrismo
normal.

Numa ótica diferente, chama-se também aculturação o desequilíbrio sofrido por um


indivíduo ou por um grupo obrigado a modificar sua cultura ou a adotar uma nova como
consequência de uma imigração (africanos transferidos para os Estados Unidos) ou de
uma mudança de classe, ou ainda o advento a uma nova condição (caso das ex-colônias
europeias). (2)
172

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.
173

Daimon
Daimon. 1. A crença em espíritos sobrenaturais um pouco menos antropomorfizados do
que os Olímpicos é uma característica muito recuada da religião popular grega; um
certo daimon está ligado a uma pessoa ao nascer e determina, para o bem ou para o mal,
o seu destino (confrontar a palavra grega para felicidade, eudaimonia, que tem um bom
daimon). Heráclito protestou contra esta crença, mas sem grande feito. Na concepção
xamanística da psyche, daimon é um outro nome para a alma, refletindo provavelmente
as suas origens divinas e poderes extraordinários. Sócrates está, pelo menos
parcialmente, dentro da tradição religiosa arcaica quando fala do seu "algo divino"
(daimonion ti) que o aconselha a evitar certas ações; a sua operação é
consideravelmente mais vasta no relato de Xenofonte nas Mem. I, 1,4; notável é o uso
constante que Sócrates faz da forma impessoal da palavra ou do sinônimo "sinal
divino", talvez a ligeira correção do racionalista daquilo que era uma crença popular
contemporânea na adivinhação, mensagens de sonhos divinos, profecias etc., uma
crença que Sócrates compartilhava. É provavelmente um erro pensar que Sócrates ou os
seus contemporâneos distinguissem com muito cuidado daimon de theion, visto que a
defesa socrática contra o ateísmo no Apol. 27d, assenta num argumento de que acreditar
nos daimones é acreditar nos deuses.

2. A ideia do daimon como uma espécie de "anjo da guarda" ainda é visível em Platão
(Rep. 620d), embora uma tentativa de fuga ao fatalismo implícito na crença popular
pelo fato das almas individuais escolherem já o seu próprio daimon (Rep. 617e). Se este
daimon individual está ou não dentro de nós foi muito discutido na filosofia posterior.

3. Mas uma outra noção, a do daimon como uma figura intermédia entre os Olímpicos e
os mortais, está também presente em Platão. Os verdadeiros deuses habitavam o aither
enquanto os daimones menores habitavam o aer inferior e exerciam uma providência
direta sobre as ações dos homens.

4. Plutarco tem uma demonologia altamente desenvolvida, e com o seu típico


conservantismo religioso ele delineia o culto desses intermediários recuando até às
fontes oriental e grega primitiva. (1)

(1) PETERS, F. E. Termos Filosóficos Gregos: Um Léxico Histórico. Tradução


Beatriz Rodrigues Barbosa. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouse Gulbenkian, 1983.
174

Dasein
Dasein. Alemão: existência, ser-aí. Termo heideggeriano que significa realidade
humana, ente humano, a quem somente o ser pode abrir-se. Mas como é ambíguo,
correndo o risco de abrir uma brecha para o humanismo, Heidegger prefere usar o termo
ser-aí. Na linguagem corrente, Dasein quer dizer existência humana. Mas Heidegger
procura pensar o que separa o homem dos outros entes. Enquanto os entes são fechados
em seu universo circundante, o homem é, graças à linguagem, aí onde vem o ser.
Assim, o Dasein é o ser do existente humano enquanto existência singular e concreta:
“A essência do ser-aí (Dasein) reside em sua existência (Existenz), isto é, no fato de
ultrapassar, de transcender, de ser originariamente ser-no-mundo.” (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Dataísmo
Dataísmo. Doutrina empirista radical, segundo a qual todo conhecimento genuíno é ou
um dado (datum) empírico ou uma generalização indutiva a partir de dados (data). A
maior parte dos cientistas experimentais professa o dataísmo, ainda que eles raramente o
confessem. O dataísmo influencia o ensino da ciência experimental quando enfatiza a
técnica às expensas das ideias e a meticulosidade às expensas do entendimento. Ver
empirismo. Lembrete: o plural de 'datum' é 'data'. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Definição
Definição. Consiste em determinar a compreensão que caracteriza um conceito.
Segundo Aristóteles, a essência de uma coisa compõe-se do gênero e das diferenças. De
onde a regra escolástica segundo a qual a definição se faz "per genus proximum et
differentiam specificam” (pelo gênero próximo e diferença específica). Assim, Definir,
segundo a lógica formal, é dizer o que a coisa é, com base no gênero próximo e na
diferença específica. (1)

Uma definição não pode conter nada mais e nada menos do que deseja conceituar ou
significar. Sabemos se peca pelo excesso ou por deficiência quando a convertemos (na
inversão dos termos). Suponha uma pergunta sobre a definição do ser humano. E que
definíssemos assim: o homem é um animal mortal.

Ora, isso é verdade, mas nem por isso deverá ser aceito nestes termos. Basta acrescentar
a palavra todo e fazer a conversão para verificar se é verdadeira definição do ser
humano. Todo o animal mortal é homem - isso não é verdadeiro. A definição deverá ser
175

repelida por incluir algo estranho ao ser humano, pois nem somente o homem é animal
mortal, todo animal irracional também é.

Completa-se a definição, acrescentando a palavra racional. Todo homem é animal


mortal racional. Da mesma forma, todo animal mortal racional é homem. (2)

(1) LALANDE, A. Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia. Tradução por Fátima Sá


Correia et al. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

(2) AGOSTINHO, Santo. Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae).


Tradução de Aloysio Jansen de Faria. 2.ed., Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2005.

Demiurgo
Demiurgo. Nome que Platão e seus discípulos davam ao criador e ordenador do mundo,
diferente de Deus, pura Inteligência. Fil. Demiurgo é o termo pelo qual Platão, no
Timeu, designou o deus fabricante do Universo. Já a mesma palavra fora tomada como
termo de comparação por Sócrates ao falar da fabricação dos seres mortais. Plotino
emprega o vocábulo ao falar da Alma do Mundo. Os gnósticos deram o nome de
demiurgo ao criador do Mundo dos sentidos, concebendo-o de variadas maneiras, e
chegando alguns a considerar o seu ato como um erro. Em geral, foi por eles imaginado
como o chefe dos espíritos inferiores. Quando criou o homem, o Demiurgo só pode
conceder-lhe o seu princípio mais fraco, quer dizer, a alma sensitiva, ou psique, sendo o
Deus Supremo quem lhe conferiu a alma racional, ou pneuma. Porém, o poder do mal
no corpo material, e a influência hostil do Demiurgo, meramente sensitivo, puseram
obstáculo ao desenvolvimento desse fator mais elevado, não podendo o Demiurgo levar
as criaturas ao conhecimento da verdadeira divindade. (1)

Demiurgo. Assume na cultura helênica três conteúdos diversos:

1) o de operários públicos, de condição livre, entre os quais já Homero cita os


metalurgistas, os ceramistas, os pedreiros, os adivinhos, os médicos;

2) pode ser também um magistrado de tipo colegial: "aquele que trata das coisas do
povo";

3) Segundo uma terceira significação muito mais importante do ponto de vista histórico-
cultural, demiurgo designa "o artífice", "o pai", o "arquiteto do Universo". Essa
concepção, célebre principalmente na sua formulação platônica, no Timeu (28 e ss.),
tem raízes nas cosmogonias e antropogonias órficas, mais antigas, assim como nas
tentativas de espiritualização na explicação das relações entre a divindade e a gênese do
mundo, elaboradas por Xenófones de Cólofon e Anaxágoras de Clazômenas. O autor do
Timeu conclui um esforço de "transposição" de velhos mitos, esforço que vinha de
longe. Recorrendo, por sua vez, ao mito. Sentindo que a razão é impotente para atingir o
insondável das origens do homem e do Universo, a constituição dos elementos e as leis
que governam o todo, Platão procura, através de uma narrativa, carregado do máximo
de verossimilhança, insinuar, visar, atingir, se possível, a verdadeira realidade. Por isso,
o seu demiurgo se situa no limite os dois mundos: o intelectual e o sensível. O 1.º é
176

eterno, imutável, in-engendrado; o 2.º, pelo contrário, é temporal e mutável, nasce e


transforma-se. Ora, aquilo que se transforma tem, necessariamente, um autor dessa
transformação. Esse autor é o demiurgo, "o mais belo dos autores, a melhor das causas"
(Timeu, 29a). Fez o mundo porque era bom; fez o mundo introduzindo a ordem na
desordem inicial. Para tudo isto, o demiurgo sempre de olhos no inteligível, procedeu a
sapientíssimas misturas. Por isso "pela providência do deus" (ibid., 29b), o mundo saiu
das suas mãos tão perfeito, animado, inteligente, esférico (para melhor encerrar em si
todas as figuras e todos os seres vivos), movendo-se circularmente a fim de imitar o
movimento do próprio intelecto. (2)

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

(2) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

Democracia
Democracia. Do grego demos, "povo" e kratia, "poder", "autoridade", define-se,
segundo uma norma ideal, como "a organização social em que o controle político é
exercido pelo povo, o qual delega poderes e representantes periodicamente eleitos. (1)

Democracia. Na sua acepção mais vulgarizada forma de governo em que a soberania


deriva do povo e é exercida por ele: a democracia de Atenas.

Encicl. Tem-se dado à palavra "democracia" uma vasta e imprecisa significação,


compreendendo concepções tão diversas (se bem que relacionadas) como as seguintes:
a) uma sociedade fundada na igualdade; b) um Estado em que o poder de governar
reside no povo; c) uma forma de organização governativa em que o Estado é
diretamente administrado pelo povo ou por seus representantes eleitos. Em sentido
rigoroso, só merecerá o qualificativo de democrática a sociedade em que foi abolido
todo privilégio derivado do nascimento, da riqueza ou da função pública, e onde se
estabeleceu uma igualdade substancial de direitos e obrigações legais, bem como de
possibilidades sociais para todos os membros. A existência de castas, hereditárias ou
intelectuais, ou de classes econômico-sociais (capitalistas e não-capitalistas) é
incompatível com uma organização verdadeiramente democrática, a qual é ameaçada
pela acumulação da riqueza nas mãos de alguns indivíduos e pela pobreza extrema em
outros. A democracia como princípio social baseia-se na doutrina da igualdade essencial
dos homens e de seu igual valor, - ideia derivada de concepção cristã da igualdade de
todos os homens perante Deus, mas que deve a sua transferência da religião para a
política principalmente ao influxo exercido pelos escritos de Rousseau. (2)

Democracia. O uso do termo "democracia", poder do povo, adquiriu hoje uma


dimensão que ultrapassa o significado específico de "forma de governo" ("governo do
povo, pelo povo e para o povo") para indicar um modo de ser e de pensar. (3)
177

Democracia. Etimologicamente o termo designa assim um governo do povo.


Entretanto, na Grécia antiga onde o termo se origina, conota mais uma reivindicação
política, do que propriamente uma forma determinada de organização do Estado. A
reivindicação se orientava contra o fato da concentração do poder nas mãos de algumas
famílias aristocratas. A cidade grega pode mesmo, em certo sentido, realizar uma
democracia direta, com participação do povo nas decisões políticas, levando-se, porém,
em conta que do povo grego eram excluídos, dentre outros, os escravos e mesmo, os
estrangeiros residentes. Esta ideia democrática passou a Roma, onde conseguiu se
firmar após a queda da monarquia etrusca; reaparece nas cidades medievais onde os
interesses mercantis conseguiram afrontar as pretensões dos senhores feudais.
Entretanto, conquanto se chamassem de democracias urbanas, eram de fato dominadas
pelos burgueses mais poderosos, e a interferência do povo no poder era de fato pouco
expressiva. A ideia, porém, tinha a força irresistível da justiça. Foi repensada pelos
chamados filósofos do século XVIII, e mais tarde elaborada em termos de sistema
político. O que a caracteriza, dada a impossibilidade concreta das democracias diretas
num país de alto potencial demográfico, é o direito do povo de designar os seus
governantes e de controlar o modo pelo qual exercem o poder que lhes é delegado.
Assim, numa definição mais compreensiva, a democracia é o governo do povo, pelo
povo e para o povo. Para que ele possa designar os seus representantes no poder, foram
elaborados mecanismos eleitorais, a princípio ainda restritivos, limitando tanto o
número e as qualificações dos elegíveis, como dos eleitores. Em alguns países, por
exemplo, eram excluídas as mulheres do direito do voto; em outros, eram excluídos os
que não possuíam bens imóveis, ou não pagavam um determinado montante de
impostos anuais. Pouco a pouco, as limitações foram caindo, para se chegar ao chamado
sufrágio universal, do qual são excluídos os incapazes por idade, com menos de 21, em
alguns países, ou de 18 anos, em outros, ou aqueles que não têm condições para votar
com conhecimento de causa, como os analfabetos (hoje, quase inexistente). Para o
controle do exercício do poder, foram também excogitados mecanismos diversos, como
as eleições para um determinado período de tempo, com possibilidade de reeleição ou
sem, e o exercício do mandato dentro de regras fixadas por uma Constituição elaborada
também por representantes do povo. É evidente que tais mecanismos só podem ter
eficácia na hipótese da existência de vários candidatos entre os quais escolher,
apresentados por vários partidos, que defendam programas dotados de um conteúdo
próprio. É assim difícil de imaginar a compatibilidade da democracia com regimes de
partido único, como nos sistemas totalitários. Por outro lado, o funcionamento eficaz
dos mecanismos democráticos é inseparável do respeito de direito e de fato aos direitos
fundamentais da pessoa, como liberdade de pensamento, liberdade de expressão, de
imprensa e de outros meios de comunicação, liberdade de associação, de locomoção. O
reto exercício da democracia não é simples, nem fácil. É, muitas vezes, dificultado por
uma série de interesses opostos que lhe criam obstáculos: a exploração da ignorância
dos eleitores, o suborno, as fraudes eleitorais, as pressões políticas e econômicas
exercidas sobre o eleitorado. (4)

Democracia (démocratie). O regime em que o povo é soberano. Isso não significa que
ele governe, nem faça lei, mas que ninguém pode governar nem legislar sem seu
consentimento ou fora do seu controle. Opõe-se à monarquia (soberania de um só), à
aristocracia (soberania de alguns), enfim à anarquia ou ao ultraliberalismo (ausência de
soberano).
178

Não confundir a democracia com o respeito das liberdades individuais ou coletivas. Se


o povo é soberano, ele pode estabelecer soberanamente limites a essa ou aquela
liberdade, e o faz necessariamente, porém mais ou menos. É o que dá sentido à
expressão "democracia liberal" - porque nem todas o são.

Não confundir tampouco a democracia com a república, que seria sua forma pura ou
absoluta - una e indivisível, laica e mesmo igualitária, nacional e universalista... "A
Democracia é o que resta da República quando se apagam as Luzes", escreve Régis
Debray. Digamos que a democracia é um modo de funcionamento; a república, um
ideal. Isso confirma que a democracia, mesmo impura, é a condição de qualquer
república. (5)

(1) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

(2) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

(3) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(4) ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro:


M.E.C., 1967.

(5) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Desvelamento (Desvendamento)
Desvelamento. 1. Em Platão, a verdade (aletheia) significa desvelamento do ser, isto é,
descobrimento daquilo que estava oculto, retirada do véu. 2. Na metafísica de
Heidegger, o desvelamento significa a ideia segundo a qual o ser da coisa se desvela,
manifesta-se nas condições mesmas de seu aparecer, de seu "fenômeno", a verdade nada
mais sendo que a manifestação do ente, enquanto ele deixa de ser ocultado pelas
preocupações da vida cotidiana, e do caráter aberto do ser. (1)

Desvendamento. Na origem, em Platão – segundo a etimologia grega aletheia –


descoberta do ser primitivamente oculto. Na filosofia de Heidegger, o desvendamento
do ser é a manifestação da verdade do ente que consegue se desprender das
preocupações do cotidiano. (cf. revelação) (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.
179

Determinismo
Determinismo. 1. Como princípio segundo o qual os fenômenos da natureza são
regidos por leis, o determinismo é a condição de possibilidade da ciência: “A definição
do determinismo pela previsão rigorosa dos fenômenos parece a única que a física pode
aceitar, por ser a única realmente verificável (Louis de Broglie)

2. Doutrina filosófica que implica a negação do livre-arbítrio e segundo a qual tudo, no


universo, inclusive a vontade humana, está submetido à necessidade. Com Descartes, a
natureza é matemática em sua essência: uma natureza que não fosse matemática
contradiria a ideia de perfeição divina. Para Spinoza, “não há na alma nenhuma vontade
absoluta ou livre”. Em Kant, o determinismo deixa de ser metafísico para fazer parte da
legislação que o espírito impõe às coisas para conhecê-las. Não há oposição entre
determinismo e a liberdade, porque ele pertence à ordem dos fenômenos, enquanto a
liberdade pertence à ordem numenal. (1)

Determinismo. Todos os eventos e as ações são determinados no final das contas por
causas alheias à vontade. (2)

Determinismo. A visão de que nada pode acontecer exceto o que realmente acontece,
porque todo evento é o resultado necessário das causas que precedem - e elas próprias
foram o resultado necessário das causas que as precederam. (cf. indeterminismo) (3)

Determinismo. a) A doutrina ontológica de que tudo ocorre segundo leis ou por


desígnio. O determinismo tradicional admitia apenas determinação causa, teleológica
(dirigida para meta), e divina. O determinismo científico contemporâneo é em alguns
aspectos mais amplo e, em outros, mas estreito: é idêntico ao princípio da legalidade,
juntamente com o princípio ex nihilo nihil fit. b) Determinismo causal - Todo evento
tem uma causa. Isto é somente em parte verdade, porque há processos espontâneos,
como a desintegração radioativa espontânea e a descarga neurônica, bem como as leis
probabilísticas. c) Determinismo genético - Nós somos o que os nossos genomas
prescrevem. Isto é apenas parcialmente verdade, porque os fatores ambientais são tão
importantes quanto os dons genéticos e porque a criatividade (criação) é inegável. (4)

Princípio de legalidade (legitimidade). A hipótese de que todos os fatos estão sob a


égide de leis e, portanto, são legítimos. Esta hipótese ontológica corrobora a pesquisa
científica. (4)

Ex nihilo nihil fit. Do nada nada vem e no nada nada entra. Este princípio, devido a
Epicuro e Lucrécio, é a mais antiga e a mais geral enunciação do princípio de
conservação da matéria. (4)

Ex falso sequitur quodlibet - Da falsidade segue-se qualquer coisa. Princípio da


explosão. Prova: se p ==> q for verdade, e p for falso, então o arbitrário q será
verdadeiro porque p ==> q = df p v q. Moral: A falsidade não é apenas má em si
180

mesma, mas também porque gera arbitrariamente muitas proposições, verdadeiras ou


falsas, pertinentes ou irrelevantes. (4)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

(3) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie


Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

(4) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Deus
Deus. Um dos mais potentes e sábios dos seres sobrenaturais inventados por algumas
religiões. Há pelo menos tantas deidades quanto são as religiões. Algumas são
imaginadas como sendo materiais e perceptíveis, enquanto outras se afiguram não serem
nem uma coisa nem outra; algumas são postuladas como imortais ou mesmo eternas,
outras não; algumas são prestimosas e misericordiosas, outras não prestam nenhuma
ajuda e são cruéis; algumas são solteiras, outras possuem famílias e corte. A
possibilidade de existência de divindade coloca interessantes problemas filosóficos, tais
como os da evidência para a crença religiosa, o alcance da liberdade humana, a fonte
última do bem e do mal, e a possibilidade do livre-arbítrio e da responsabilidade. Por
exemplo, se Deus é onipotente, então o homem não pode ter livre-arbítrio, e ele peca
apenas por procuração, portanto ele não deveria ser punido. Se, por outro lado, o
homem possui livre-arbítrio, então ele pode pecar, e assim Deus, seu criador, é
indiferente ou mesmo perverso. (1)

BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Devir
Devir. Do latim devenire, chegar. 1. Vir a ser; tornar-se, transformar-se. 2. Fil.
Movimento permanente e progressivo pelo qual as coisas se transforma. (1)

Na filosofia aristotélico-escolástica, o devir nada mais é do que a passagem – por


geração, por destruição, por alteração, pelo aumento ou pelo movimento local – da
181

potência ao ato. Em Hegel, o devir constitui a síntese dialética do ser e do não ser, pois
tudo o que existe é contraditório estando, por isso mesmo, sujeito a desaparecer (o que
constitui um elemento constante de renovação). (2)

Devir. Coloca-se o problema do devir em filosofia desde os pré-socráticos. Enquanto


para Parmênides a existência do ser é incompatível com a mudança própria do devir -
que não passa de ilusão -, para Heráclito, em compensação, nada é estável, "tudo foge"
e encontra-se sujeito a um devir feito da metamorfose perpétua das coisas que evoluem,
aliás, não de modo linear, mas de acordo com um ciclo que realiza a coincidência dos
contrários. Entre os filósofos que reivindicam Heráclito, como Hegel que, encontrando
no devir o fundamento da História (e da do Ser em particular), o concebe como a síntese
dialética "que ultrapassará" as contradições. (3)

(1) DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO ILUSTRADO LAROUSSE. São Paulo:


Larousse, 2007.

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Dialética
Dialética. A dialética é, propriamente falando, a arte de discutir. A arte do diálogo.
Como, porém, não discutimos só com os outros, mas também conosco próprios, ela
acaba sendo considerada o método filosófico por excelência. Entre os gregos, chamava-
se ainda dialética à arte de separar, distinguir as coisas em gêneros e espécies, classificar
idéias para poder discuti-las melhor (cf. Platão, Sofística, 253c)

Para Platão, dialética seria o processo que, partindo do diálogo de opiniões contrárias,
iria separando a opinião (dóxa) do conhecimento ou ciência (epistéme), possibilitando à
alma se elevar do mundo sensível ao mundo das ideias. (1)

Com o passar do tempo o termo evolui para um sentido mais preciso, designando "uma
discussão de algum modo institucionalizada, organizando-se habitualmente em presença
de um público que acompanha o debate – como uma espécie de concurso entre dois
interlocutores que defendem duas teses contraditórias. A dialética eleva-se, então, ao
nível de uma arte, arte de triunfar sobre o adversário, de refutar as suas afirmações ou de
o convencer" (2)
182

Dialética. a. Na filosofia antiga e medieval é um sinônimo da lógica ou da arte de


argumentação. A dialética, no hegelianismo e no marxismo, é algumas vezes encarada
como um método e em outras, como uma filosofia. A primeira interpretação é
equivocada, porque nem Hegel nem Marx nem seus seguidores propuseram qualquer
método propriamente dito (ou procedimento padronizado) com gosto de dialética. A
dialética é uma filosofia e, mais precisamente, uma ontologia. A ética e a epistemologia
dialética não existem. b. Lógica dialética — Ela tem sido vendida como uma
generalização da lógica formal. Esta última seria uma espécie de aproximação em
câmara lenta da primeira: teria validade apenas para certas extensões, enquanto a lógica
dialética cobriria processos em sua inteireza. Para melhor ou para pior, a lógica dialética
permaneceu em estágio de projeto. De fato, ninguém jamais propôs quaisquer regras
dialéticas de formação ou de referência. Além disso, a ideia toda de uma lógica dialética
parece ser um mal-entendido proveniente da identificação feita por Hegel entre a lógica
e a ontologia — uma equação que tem sentido apenas dentro de seu próprio sistema
idealista. c. Ontologia dialética — Esta concentra as assim chamadas três leis da
dialética, estabelecidas por Hegel e reformuladas por Engels e Lênine. Elas são: (1)
cada coisa seria a união de opostos; (2) cada mudança origina-se em oposição (ou
"contradição"); (3) qualidade e quantidade mudam uma na outra. As partículas
elementais — os tijolos que constituem o mundo — são os contra-exemplos da primeira
"lei". Cada caso de cooperação na natureza ou na sociedade arruína a segunda. A
terceira "lei" é ininteligível na forma como se apresenta, mas pode ser caridosamente
reformulada assim: Em cada processo qualitativo, ocorrem (podem ocorrer) mudanças
e, uma vez realizadas, novos modos de crescimento ou declínio começam. É esta a
única "lei dialética" clara e verdadeira, mas ela não envolve o conceito de contradição,
183

que é marca registrada da dialética. Não é de surpreender que, ante uma doutrina tão
nebulosa, a dialética nunca tenha sido formalizada. (4)

Dialética. Originalmente, a "arte de conversação", mas foi usado por Platão para
designar o método filosófico correto. Na antiguidade, Zenão de Eleia foi considerado o
fundador da dialética, em virtude de suas provas indiretas de, por exemplo, a
impossibilidade de movimento, inferindo absurdos ou contradições da suposição de que
o movimento ocorre. A dialética de Sócrates, conforme retratada nos primeiros diálogos
de Platão, tende a assumir uma forma destrutiva: Sócrates interroga alguém sobre a
definição de algum conceito que empregou (por exemplo, "virtude") e extrai
contradições das sucessivas resposta dadas. Mas em diálogos posteriores, que devem
muito mais ao próprio Platão do que a Sócrates, a dialética é um método positivo,
formulado para produzir o conhecimento das FORMAS ou IDEIAS e das relações entre
elas. Nesses diálogos, a forma dialogal tende a tornar-se relativamente pouco importante
e a dialética perde o seu vínculo com a conversação (exceto na medida em que pensar é
tido como um diálogo da pessoa consigo própria). Para Hegel, a dialética não envolve
um diálogo entre dois pensadores ou entre um pensador e o seu objeto de estudo. É
concebida como a autocrítica autônoma e o autodesenvolvimento do objeto de estudo,
de, por exemplo, uma forma de CONSCIÊNCIA ou um conceito.

A "dialética" também adquiriu um sentido pejorativo em consequência de sua


associação com os chamados "sofistas" ou "professores profissionais de sabedoria" que,
embora combatidos por Sócrates, usavam frequentemente métodos parecidos com os de
Sócrates.

Lato sensu, a dialética de Hegel envolve três etapas: (1) Um ou mais conceitos ou
categorias são considerados fixos, nitidamente definidos e distintos dos outros. Esta é a
etapa do entendimento. (2) Quando refletimos sobre tais categorias, uma ou mais
contradições emergem nelas. Esta é a etapa propriamente dialética, ou da razão dialética
ou negativa. (3) O resultado dessa dialética é uma nova categoria superior, que engloba
as categorias anteriores e resolve as contradições nelas envolvidos. Esta é a etapa de
ESPECULAÇÃO ou razão positiva (Enc. I, && 79-82). Hegel sugere que essa nova
categoria é uma "unidade de OPOSTOS", que se ajusta ao DEVIR. (5)

Dialética. Esse termo, que deriva de diálogo, não foi empregado, na história da
filosofia, com significado unívoco, que possa ser determinado e esclarecido uma vez por
todas; recebeu significados diferentes, com diversas inter-relações, não sendo redutíveis
uns aos outros ou a um significado comum. Todavia, é possível distinguir quatro
significados fundamentais: 1.º D. como método da divisão; 2.º D. como lógica do
provável; 3.º D. como lógica; 4.º D. como síntese dos opostos. Referem-se,
respectivamente, à D. platônica, à D. aristotélica, à D. estoica e à D. hegeliana. Pode-se
dizer, por exemplo, que a D. é o processo em que há um adversário a ser combatido ou
uma tese a ser refutada, e que supõe, portanto, dois protagonistas ou duas teses em
conflito; ou então que é um processo resultante do conflito ou da oposição entre dois
princípios, dois momentos ou duas atividades quaisquer. (6)
184

= = = >>

Dialética
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico. 4. Platão e Hegel: 4.1. A Dialética Platônica; 4.2. A
Dialética Hegeliana; 4.3. Platão Versus Hegel. 5. A Elaboração do Pensamento: 5.1. As Perguntas do
Filósofo; 5.2. Explicar É Desdobrar; 5.3. Postura Científica. 6. O Diálogo: 6.1. Crítica e Oposição; 6.2. A
verdadeira Dialética Inclui a Tolerância; 6.3. Uns Complementam os Outros. 7. Conclusão. 8.
Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste estudo é refletir sobre a arte de discutir no sentido de melhorar
a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos.
2. CONCEITO
A dialética é, propriamente falando, a arte de discutir. A arte do diálogo. Como,
porém, não discutimos só com os outros, mas também conosco próprios, ela
acaba sendo considerada o método filosófico por excelência. Entre os gregos,
chamava-se ainda dialética à arte de separar, distinguir as coisas em gêneros e
espécies, classificar idéias para poder discuti-las melhor (cf. Platão, Sofística,
253c)
Com o passar do tempo o termo evolui para um sentido mais preciso,
designando "uma discussão de algum modo institucionalizada, organizando-se
habitualmente em presença de um público que acompanha o debate – como
uma espécie de concurso entre dois interlocutores que defendem duas teses
contraditórias. A dialética eleva-se, então, ao nível de uma arte, arte de triunfar
sobre o adversário, de refutar as suas afirmações ou de o convencer" (Blanché,
1985).
3. HISTÓRICO
O primeiro sentido da dialética pode ser encontrado em Zeno de Eléia, com os
argumentos dialogados, para afirmar a doutrina parmediciana da mobilidade do
Ser e das idéias, contra a doutrina do movimento e das experiências sensíveis,
assinalada desde os jônios.
Sócrates inaugura uma nova dialética, que compreende duas partes: a ironia e
a maiêutica. Na ironia ou refutação da pseudociência, Sócrates procurava
confundir o interlocutor acerca do conhecimento que este tinha das coisas.
Posteriormente, fazia-o penetrar em novas idéias. Dizia que seu método
consistia em parir idéias, à semelhança de sua mãe, que paria crianças.
Para Platão, a dialética é o movimento do espírito que marcha para a verdade,
movimento cujo símbolo ele deu na célebre alegoria da caverna.
Na classificação de Aristóteles, "a dialética pertence às ciências poéticas e não
à lógica".
Para os estóicos, faz parte da lógica: "ciência do verdadeiro e do falso ou nem
de um nem de outro".
Na Idade Média, a dialética constitui com a gramática e a retórica, o Trivium.
O Renascimento depreciou a dialética.
O sentido depreciativo permanece em Kant: lógica das aparências, reguladora
das idéias que não podem ser explanadas por via científica.
Foi primeiro com Hegel, depois com Marx e Engels, que a dialética apareceu
com função essencial na teoria do conhecimento.
Para o marxismo, a filosofia consiste em reconstruir, com a dialética da razão,
a dialética da realidade. (Soares, 1952)
185

4. PLATÃO E HEGEL
Em termos filosóficos, a comparação desses dois grandes pensadores da
humanidade dá-nos a dimensão do seja a dialética.
4.1. A DIALÉTICA PLATÔNICA
Platão, discípulo de Sócrates, desenvolve as suas idéias através do mito. O
mito da caverna ou da reminiscência das idéias dá embasamento à sua
dialética. Nesta alegoria, Platão coloca alguns homens voltados para o fundo
da caverna, de modo que só vêem suas próprias sombras. Depois, aponta para
um deles (chamando-o de filósofo), que se vira e vai ao encontro da luz, que é
o símbolo do conhecimento, da idéia. Esta simbologia mostra que o indivíduo
deve resistir à sugestão do sensível, para buscar as puras relações inteligíveis
(leis ou idéias) que se mantêm invariáveis através da variabilidade do sensível.
É essa a dialética ascendente. A dialética descendente consiste em descer dos
princípios, ou idéias, encontradas pela dialética ascendente, para a intelecção
dos fenômenos particulares. (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira)
4.2. A DIALÉTICA HEGELIANA
O ponto central da filosofia de Hegel (1770-1831) encontra-se na dialética da
idéia. Herda, para a construção de sua teoria, os pensamentos de Heráclito,
Aristóteles, Descartes, Kant, Espinosa, Fichte e Schelling. Parte da Tese - Ser,
pura potencialidade, o qual deve se manifestar na realidade através da
Antítese - Não-Ser. Na contradição entre tese e antítese surge a Síntese -
Vir-a-Ser. Esse raciocínio é aplicado tanto à aquisição de conhecimento quanto
à explicação dos processos históricos e políticos. Para ele, a verdadeira ciência
do pensamento coincide com a ciência do ser.
4.3. PLATÃO VERSUS HEGEL
Enquanto Platão nos fazia desviar os olhos do mundo das sombras para
concentrá-los na contemplação do invisível, Hegel nos ensinava a suportar a
morte, a separação. Dizia: "o espírito só conquista a sua verdade encontrando
a si próprio e na dilaceração absoluta". "Para Platão, quando o homem
compreende que o mundo das sombras não é ou é falso, procura desviar-se
deste mundo e colocar-se na via certa, orientar seus olhos para a visão da
idéia; ao passo que em Hegel não se trata simplesmente de substituir um
desvio pela via certa, e sim de suportar o desvio, porque só então se alcança
aquele ‘certo’ em toda a sua plenitude". (Bornheim, 1977)
5. A ELABORAÇÃO DO PENSAMENTO
5.1. AS PERGUNTAS DO FILÓSOFO
O filósofo, para se dizer filósofo, tem que se valer da pergunta. Toda pergunta
exige uma resposta. E a própria resposta dá origem a uma nova pergunta. Mas
a pergunta do filósofo não é qualquer pergunta. É uma pergunta que visa à
descoberta da verdade. Por isso, não se contenta com os pré-conceitos. Ele
busca o conceito, retirando o verniz que esconde a realidade das coisas. Se
perder este ímpeto, esta condição ou esta postura deixará de ser filósofo, para
se apassivar aos acontecimentos. Nesse sentido, ele não deve querer saber
muito, estar a par de tudo o que acontece, mas adquirir o poder de se
concentrar num dado problema e tirar dele todo o conhecimento que for
possível.
5.2. EXPLICAR É DESDOBRAR
Plica em latim significa dobra. Ex-plicare significa desdobrar, ou seja, abrir as
dobras. Toda explicação nada mais é do que o desdobramento de alguma
coisa; é o encadeamento das idéias no discurso falado ou escrito. A árvore veio
186

da semente; muitos animais vieram do ovo. Disto resulta que na semente ou no


ovo está contido todo o desenvolver daquela espécie de árvore ou de animal.
Dar uma explicação das coisas é reconstituir todo esse processo de
desdobramento. Nesse mister, uma explicação mais profunda, denominada
filosófica, exige uma explicação desde o começo: explicatio ab ovo (explicação
desde o primeiro ovo). (Cirne-Lima, 1997)
5.3. POSTURA CIENTÍFICA
O cientista, acostumado a elaborar o seu pensamento através de hipóteses,
provas e conclusões, está sempre fortalecendo o argumento fraco, a fim de
descobrir e formular uma nova teoria em sua ciência particular. Utiliza-se da
contra-indução, que é o processo de rejeitar aquilo que já foi provado. Nesse
sentido, destaca aqueles pontos em que não houve adequação exata entre a
realidade e a teoria. Estuda-os com o devido cuidado, a fim de chegar ao
verdadeiro conhecimento que os fatos revelam.
A defesa das causas perdidas é outra postura que auxilia o poder de
argumentação do cientista. Empenhando-se denodadamente na perquirição
dos fatos adversos, ele consegue penetrar no âmago da pureza científica.
6. O DIÁLOGO
Toda a vida do homem é um diálogo ininterrupto. Organicamente,
somos frutos do diálogo biológico dos nossos pais
terrestres. Ninguém consegue aprender sem o diálogo com os outros. E,
mesmo calados, estamos dialogando conosco mesmos.
6.1. CRÍTICA E OPOSIÇÃO
O verdadeiro diálogo inclui crítica e oposição. São os elementos diversos e
contraditórios que deverão convergir para uma síntese. Note-se o diálogo numa
reunião, em que as pessoas pensam de forma diferente. A função do
coordenador é ouvir atentamente cada uma delas, para depois tomar a sua
decisão. Esta decisão engloba uma síntese do discutido e do não discutido,
ou seja, daquilo que ficou dito nas entrelinhas dos discursos.
6.2. A VERDADEIRA DIALÉTICA INCLUI A TOLERÂNCIA
A dialética tem um pressuposto fundamental: a tolerância. É por ela que nos
exercitamos a ouvir a fala do nosso próximo. Somos tão limitados, que sempre
julgamos ter razão. Esforçando-nos em ouvir o outro, vamos educando os
nossos ouvidos para a contradição, pois sempre que há uma dicção, há, em
contrapartida, a contradição. Lembremo-nos da famosa frase de Voltaire: "Não
concordo com nada do que você diz, mas defenderei o seu direito de dizê-lo
até o fim".
6.3. UNS COMPLEMENTAM OS OUTROS
Ninguém é uma ilha. A civilização obriga-nos a nos relacionarmos uns com os
outros. Por isso, a Lei de Sociedade prescreve que cada indivíduo deve
complementar o seu próximo: ao forte cabe o amparo do fraco; ao inteligente, a
instrução do ignorante; ao rico, o auxílio do pobre. Todos viemos a este mundo
para desempenhar uma missão, grande ou pequena, mas que pesa na soma
geral. O desprezo que os grandes sentem para com os pequenos é muito mais
um reflexo do orgulho e da ignorância, pois estão sempre os utilizando para os
serviços grosseiros, no sentido de manter a ordem da vida social.
7. CONCLUSÃO
Estejamos abertos ao debate, seja de que tipo for. Se soubermos tirar proveito
das discussões, não haverá um único momento em que não possamos
187

acrescentar valores morais ao nosso patrimônio espiritual, enriquecendo-o


ainda mais.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BLANCHÉ, R. História da Lógica de Aristóteles a Bertrand Russel. Lisboa: Edições 70, 1985)
CIRNE-LIMA, C. Dialética para Principiantes. 2.ed., Porto Alegre: Edipucrs, 1979
GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial
Enciclopédia, [s.d. p.]
SOARES, Órris. Dicionário de Filosofia. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, INL,
1952.
São Paulo, junho de 2004

<< = = =

(1) BRAGA, M. (e outros). Breve História da Ciência Moderna. 3. ed., Rio de Janeiro:
Zahar, 2008. (Volume 1 Convergência de Saberes)

(2) BLANCHÉ, R. História da Lógica de Aristóteles a Bertrand Russel. Lisboa: Edições


70, 1985)

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(4) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(5) INWOOD, Michael. Dicionário Hegel. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

(6) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Diálogo
Diálogo. Para grande parte do pensamento antigo e até Aristóteles, o diálogo não é
somente uma das formas pelas quais se pode exprimir o discurso filosófico, mas a sua
forma própria e privilegiada, porque esse discurso não é feito pelo filósofo a si mesmo e
não o encerra em si mesmo, mas é um conversar, um discutir, um perguntar e responder
entre pessoas associadas pelo interesse comum da pesquisa. (1)

Diálogo. O fato de dois ou muitos falarem entre si para buscar uma mesma verdade. É
portanto um gênero de conversa, porém voltada mais o universal do que para o singular
(como na confidência) ou o particular (como na discussão). Considera-se, geralmente,
que o diálogo, pelo menos desde Sócrates, é uma das origens da filosofia. Muitos
falarem entre si, se for para buscar o verdadeiro, supõe em todos uma razão comum e a
insuficiência, em cada um, dessa razão. Todo diálogo supõe o espírito universal e nossa
incapacidade de nos instalar nele. Daí a troca de argumentos e, às vezes, a tentação do
silêncio. (2)
188

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Dilema de Eutífron
Dilema de Eutífron. Dilema examinado no Eutífron, um dos diálogos de Platão. As
coisas piedosas são piedosas porque os deuses as amam, ou os deuses as amam porque
são piedosas? O dilema suscita a questão da possibilidade de conceber os valores como
resultado da escolha de uma mente qualquer, mesmo que essa mente seja divina. Na
primeira opção, aquilo que é bom e tem valor é criado pela escolha dos deuses. Mesmo
que isso seja inteligível, parece tornar impossível o ato de louvar os deuses, já que assim
é vagamente verdadeiro que eles escolhem o que é bom. A segunda opção nos obriga a
supor uma fonte de valores situada aquém ou além da própria vontade dos deuses, pela
qual estes possam ser avaliados. A elegante solução de Tomás de Aquino consiste em
afirmar que o modelo do bem é a natureza de Deus, sendo por isso distinto de sua
vontade, embora não distinto de si mesmo.

O dilema surge seja qual for a fonte de autoridade que se aceite. Preocupamo-nos com o
que é bom porque é bom, ou nos limitamos a chamar de boas aquelas coisas com que
nos preocupamos? O dilema também pode generalizar-se de forma a afetar nossa
compreensão da autoridade de outras coisas, como a matemática, por exemplo, ou as
verdades necessárias. Essas verdades são necessárias porque decidimos que elas o são,
ou decidimos que elas o são porque são necessárias? (1)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Direito e Justiça
Direito. Faculdade legal, convencional, geralmente aceita, de fazer alguma coisa, de a
pretender, de a exigir. Podemos considerar o direito como regra ou norma, isto é,
objetivamente; como atribuição, poder ou faculdade, isto é, subjetivamente; como
ciência, filosofia, disciplina, arte e técnica; e como justiça. (1)

Um direito é aquilo que é conforme a uma regra precisa ou o que é permitido (nessa
acepção, o termo pode ser empregado no plural). No primeiro caso, abre para o
indivíduo a possibilidade de reivindicá-lo ou exigi-lo (direito de resposta, por exemplo).
No segundo, é autorizado por leis mais ou menos explícitas ou, no sentido mais forte, é
conforme ao dever moral.(2)
189

O direito

Em toda sociedade, existe um conjunto de normas que regulam o comportamento de


seus membros. Um dos tipos de normas é o das normas morais, que determinam o
comportamento correto em relação ao que é considerado bom ou ruim. As normas
morais - ainda que em boa parte variem de acordo com as épocas e as sociedades, e por
isso não se pode subestimar seu componente social - devem ser interiorizadas por cada
indivíduo, e seu descumprimento não implica sanção externa do grupo social. Outro
tipo de normas é o dos usos, convencionalismos relacionados com a boa educação - por
exemplo, as regras de vestuário, as normas de cortesia etc. Sua observância indica a
integração do indivíduo na sociedade, e - embora exista sem dúvida certa pressão social
- trata-se de normas que não têm caráter obrigatório nem coativo.

Existe também outro tipo de normas: as normas jurídicas, cujo conjunto constitui o
direito. São normas de caráter geral e de cumprimento obrigatório. Foram estabelecidas
pelo estado, que gera, além disso, as instituições necessárias para seu cumprimento -
diante das quais deve responder no caso de tais normas serem transgredidas. O direito é,
portanto, a organização jurídica do estado.

Justiça

Nossa concepção de justiça provém do grego diké, que significa "ajustamento das partes
ao todo". Na Grécia antiga, falava-se de uma "justiça cósmica universal", em virtude
das quais todas as coisas cumpriam sua função e, como resultado disso, o próprio
conjunto estava em equilíbrio e harmonia. Nesse sentido, justiça equivale a
"cumprimento da lei que governa todas as coisas".
190

Essa noção de ajustamento entre as partes se mantém de uma forma ou de outra, nos três
pontos de vista possíveis sobre a justiça: a justiça como moral individual, a justiça como
reguladora das relações sociais e a justiça em seu aspecto jurídico.

A justiça como virtude moral

A justiça como virtude moral individual se refere a um traço do caráter da pessoa que se
manifesta em suas ações. Na maioria dos casos, a justiça tem um componente social, na
medida em que acontece nas relações do ser humano com os outros seres humanos. No
caso de Platão, a justiça como virtude moral significa o ajustamento entre as três partes
da alma: a racional, a irascível e a concupiscível. O homem justo é aquele que consegue
a harmonia entre razão, força e apetites; ser justo equivale a ser dono de si mesmo,
dominando as paixões e orientando racionalmente o comportamento. Essa virtude moral
se projeta nas relações que o indivíduo tem em sociedade: existe justiça na sociedade
quando se atinge a harmonia das partes, que nesse caso são os tipos de cidadãos. Esse
aspecto se refere à justiça nas relações sociais. Aristóteles entende a justiça sobretudo
nesse sentido: nas relações que o indivíduo estabelece com os outros.

A justiça como reguladora da sociedade

Sob essa perspectiva, a justiça é uma qualidade da ordem social, destinada a tornar
possível e facilitar a convivência entre os seres humanos. Como virtude social, a justiça
consiste fundamentalmente em dar a cada um o que lhe corresponde, mas o que
corresponde a cada um pode ser estabelecido de acordo com dois critérios possíveis,
cada um deles deferindo um tipo de justiça. A justiça comutativa governa as relações
entre iguais segundo um critério de igualdade que exige que se dê a uma pessoa uma
valor igual ao que ela oferece; é a justiça das relações entre indivíduos como pessoas
privadas. A justiça distributiva é regida pelo critério da proposição geométrica, baseada
nas diferenças de categoria, mérito, funções etc.

A justiça como cumprimento da lei e da organização jurídica

Esse terceiro aspecto da justiça consiste naquilo que Aristóteles chamava de justiça
legal. O cumprimento da lei tem como objetivo o bem comum. Aqui, justiça significa
legalidade: o justo é aquilo que é legal, isto é, conforme à lei. Essa justiça depende dos
poderes públicos, que tratam de regular a ordem política por meio de algumas leis que
obriguem a todos, por igual.

Justiça e Direito

Para além da equivalência da justiça com o cumprimento da legalidade vigente, a justiça


pode ser entendida também em termos de legitimidade, que contempla a justiça em sua
191

função de princípio gerador do direito de um estado. O direito aparece, assim, como a


realização da justiça, e ela é o critério último a partir do qual se pode avaliar uma
organização jurídica concreta.

Os direitos humanos

Por direitos humanos, entendem-se aqueles direitos que que todo ser humano possui
pelo simples fato de existir, independentemente do fato de que sejam reconhecidos ou
não pelo direito positivo.

Podem-se distinguir três fases ou "gerações" no reconhecimento dos direitos.

Os direitos de primeira geração. São direitos basicamente políticos: a própria vida,


liberdade, igualdade...

Os direitos de segunda geração. São direitos econômicos, sociais e culturais: educação,


saúde, moradia, trabalho...

Os direitos da terceira geração: ecologia, pacifismo, feminismo, liberdade sexual... (3)

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(3) Temática Barsa - Filosofia.

Dissonância Cognitiva
Dissonância Cognitiva. Termo introduzido pelo psicólogo americano Leon Festinger
(1919-), cuja obra Theory of Cognitive Dissonance (1957) chamou a atenção para o
modo pelo qual o impulso para reduzir a "dissonância", ou a sensação de que algo está
errado num sistema de crenças, pode conduzir a estratégias inesperadas de formação ou
retenção de crenças. (1)

Dissonância. Termo de Festinger (A Theory of Cognitve Dissonance) para a


inconsistência entre as atitudes e o comportamento de uma mesma pessoa. (2)

Dissonância Cognitiva. Incoerência entre certas experiências, ideias, atitudes ou


sentimentos. Segundo a teoria da dissonância, ela cria um estado desagradável, que as
pessoas tentam reduzir interpretando uma parte das suas experiências para torná-las
mais coerentes com as outras. (3)
192

A teoria da dissonância cognitiva. Festinger e Carlsmith pediram para os sujeitos da


sua pesquisa fazerem coisas extremamente entediantes, como arrumar carreteis em uma
bandeja e depois desarrumá-los ou girar uma maçaneta após outra em um quarto de
volta. Quando terminavam, os sujeitos eram induzidos a dizer ao próximo sujeito que as
tarefas eram muito interessantes. A metade dos participantes foi paga generosamente
para mentir dessa forma (receberam 20 dólares), e os outros receberam apenas 1 dólar
para mentir. Posteriormente, todos os participantes deveriam dizer se as tarefas eram
realmente agradáveis. Os bem-remunerados e que sabiam muito bem que tinham
mentido para os outros participantes disseram que a tarefa era chata, mas os sujeitos
mal-remunerados disseram que as tarefas triviais e monótonas eram razoavelmente
interessante e, portanto, indicavam que, de fato, haviam dito a verdade aos outros
sujeitos.

O que gera esse padrão estranho? Segundo Festinger, os mentirosos bem-pagos sabiam
por que haviam falado de sentimentos que não sentiam: 20 dólares era a razão
suficiente. Contudo, os mentirosos mal-pagos haviam experimentado uma dissonância
cognitiva, graças ao fato de que haviam enganado outras pessoas sem uma boa razão
para tal. Em outras palavras, eles tinham justificativa insuficiente para seu ato e, se
analisados literalmente, isso os fazia parecer mentirosos eventuais e sem princípios,
uma visão que conflitava com a maneira como queriam se enxergar. Como, então,
poderiam conciliar seu comportamento com a sua autoimagem? Uma solução plausível
era reavaliar as tarefas chatas. Se pudessem mudar de ideia quanto às tarefas e decidir
que não eram tão ruins, não haveria mentira e não haveria dissonância.

Um exemplo:

Atitude de Lisa: O custo de nossa escola é alto demais.

Comportamento de Lisa: Apoie a equipe! A escola precisa de dinheiro.

Dissonância cognitiva: (Consciência de que a postura e o comportamento são


incongruentes).

Resolução da dissonância: Talvez a escola esteja certa. (3)

Resultados bastante semelhantes emergem de estudos com pessoas que devem fazer
sacrifícios consideráveis para alcançar um objetivo. Isso ajuda-nos a explicar por que
muitas organizações têm requisitos difíceis ou desagradáveis de seleção. Mesmo assim,
embora os rituais de seleção sejam objetáveis, eles têm uma função: levam os novos
membros da fraternidade a valorizar mais a sua participação do que fariam de outra
forma. Eles sabem que sofreram o suficiente para poderem participar, e acreditar que
sofreram sem razão criaria uma dissonância para eles. Porém, essa dissonância é
eliminada se eles se convencerem de que a sua participação realmente tem valor. Nesse
caso, seu sofrimento, segundo sua visão, "valeu a pena".

A dissonância cognitiva é um dos fenômenos mais estudados na psicologia social, e


supostamente apresenta um padrão universal para a nova espécie, em outras palavras,
todos os humanos consideram a dissonância desagradável e, assim, todos fazem o
possível para reduzi-la. Mas será que isso está certo? Estudos recentes sugerem que sim
193

mas com um senão, pois os fatores que produzem dissonância variam amplamente de
cultura para cultura. (3)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1977.

(2) DORIN, E. Dicionário de Psicologia.

(3) GLEITMAN, Henry, REISBERG, Daniel e GROSS, James. Psicologia. Tradução


Ronaldo Cataldo Costa. 7 ed., Porto Alegra: Artmed, 2009.

Dogma / Dogmatismo
Dogma. Rigorosamente considerado, fora da Igreja Católica, o dogma não existe. Em
filosofia, doutrina ou opinião filosófica transmitida de modo impositivo e sem
contestação por uma escola ou corrente filosófica. Em religião, doutrina religiosa
fundada numa verdade revelada e que exige o acatamento e a aceitação dos fiéis. No
catolicismo, o dogma possui duas fontes: as Escrituras e a autoridade da Igreja. (1)

Dogma. Uma crença que é tida como inexpugnável ao argumento e à experiência.


Exemplo: as assim chamadas verdades reveladas da religião. Diferença entre dogma e
tautologia: as tautologias são passivas de prova. Diferença entre dogma e postulado: os
postulados são passiveis de verificação por meio de suas consequências. Se estas forem
falsas, os postulados que as implicam logicamente ficam refutados. (2)

Dogmatismo. Doutrina dos que pretendem basear seus postulados apenas na


autoridade, sem admitir crítica nem discussão. (1)

Dogmatismo. 1. Toda doutrina ou toda atitude que professa a capacidade do homem


atingir a certeza absoluta; filosoficamente, por oposição ao ceticismo, o dogmatismo é a
atitude que consiste em admitir a possibilidade, para a razão humana, de chegar a
verdades absolutamente certas e seguras. 2. No sentido vulgar, atitude que consiste em
afirmar alguma coisa, de modo intransigente e contundente, sem provas nem
fundamento. (3)

Dogmatismo. No sentido corrente: um pendor para os dogmas, uma incapacidade de


duvidar daquilo em que acredita. É gostar mais da certeza do que da verdade, a ponto de
dar por certo tudo o que se julga verdadeiro.

No sentido filosófico: toda doutrina que afirma a existência de conhecimentos certos. É


o contrário de ceticismo. Os grandes filósofos, em sua maioria, são dogmáticos (o
ceticismo é a exceção), e têm boas razões para tal, a começar pela própria razão. Quem
pode duvidar da sua própria existência, da verdade de um teorema matemático (se
compreende a sua demonstração). Cumpre notar, porém, que uma incapacidade de
194

duvidar não prova nada. A certeza de que nada é certo seria tão duvidosa quanto as
outras, ou antes, seria mais – já que se contradiz. (4)

Mais informação:

= = = >>

Dogmatismo e Espiritismo
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Dogmas da Religião Católica. 4. Comportamento Dogmático. 5.
Filosofia da Negação. 6. Dogmatismo e Espiritismo. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O dogmatismo está presente em muitos atos de nossa vida. Nosso propósito é refletir sobre o
significado e a ocorrência do comportamento dogmático, a fim de nos afastarmos do erro, e
conduzirmos o nosso pensamento para uma atitude crítica da realidade em que estivermos
inseridos.

2. CONCEITO

Dogma – do grego dokein – significa opinião certa, decreto, axioma.

Dogma (religião) – É ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina religiosa. No


Cristianismo, chamam-se dogmas as verdades reveladas, propostas pela suprema autoridade da
Igreja como artigos de fé, que devem ser aceitos por todos os seus membros. (Santos, 1965)

Dogma (pejorativamente) – Chamam-se dogmas todas e quaisquer afirmações que apenas


expressam opinião, sem os necessários fundamentos, mas que são proclamados como verdades
indiscutíveis. (Santos, 1965)

Dogmatismo – Atitude do espírito que consiste em pensar e em se exprimir em função de


dogmas, ou seja, de verdades consideradas definitivas, e que não podem ser sujeitas a discussão.
(Legrand, 1982). Entre os gregos era a posição filosófica que se opunha ao ceticismo (exame,
dúvida).

Dogmática – Parte da teologia que tem por objeto a exposição dos dogmas.

3. DOGMAS DA RELIGIÃO CATÓLICA

O Concílio Ecumênico, Assembléia de Bispos e principais dignitários da Igreja, sob a presidência


papal, tem por objeto a formulação dos artigos de fé e moral (dogmas) com o caráter de
infalibilidade. O Dogma da Infalibilidade Papal, o Dogma da Imaculada Conceição, o Dogma das
Penas Eternas, o Dogma do Pecado Original etc. são alguns desses dogmas.

Dentre tais dogmas, o Dogma da Santíssima Trindade merece destaque especial. Segundo este
dogma, há três pessoas em Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. São distintas, iguais, e por
conseqüência coeternas, isto é, igualmente eternas e consubstanciadas numa só e indivisível
natureza. Cada uma destas três pessoas é realmente Deus. O Pai não tem princípio; o Filho é
originado pelo Pai desde toda a eternidade; procede assim dele por geração, ou, como se dizia
outrora, por gênese; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho como de um só princípio. Entre
195

estas três pessoas existe ordem de origem, mas não há nem subordinação nem dependência,
nem prioridade de tempo ou de excelência. A palavra Trindade não se encontra no Novo
Testamento, nem nos escritos dos padres apostólicos. Contudo, segundo os teólogos, o mistério
estava arraigado na primitiva comunidade cristã, “como o demonstra a fórmula do Batismo”.
Mais tarde, para combater a doutrina de Ário, que impugnava a divindade de Cristo, a Igreja
declarou a consubstancialidade do Pai e do Filho no Concílio de Nicéia (325) e a divindade do
Espírito Santo no Concílio de Constantinopla (381). (EDIPE, 1987)

Observação: não importa se a razão não consegue entender já que é um princípio aceito pela fé
– e seu fundamento é a revelação divina.

4. COMPORTAMENTO DOGMÁTICO
Bornheim, em Introdução ao Filosofar, estuda o comportamento dogmático. Quer saber como
o homem passa de um estado pré-crítico para uma atitude crítica. O problema do autor consiste
em analisar o que Husserl chama de “postura natural”, isto é, a concepção da realidade própria
a este viver natural, metafisicamente ingênuo, desprovido de um sentido mais profundo de
problematização. Husserl chama esta compreensão implícita do mundo de Generalthesis, de
“tese geral”.

Dentro da postura dogmática esta “tese geral” nunca é posta em dúvida, e é exatamente por
esta razão que pode ser denominada de dogmática. Nesse sentido, todas as atividades humanas,
com exceção da filosófica, partem de uma tese geral, que deve ser aceita como premissa.
Podemos por em dúvida alguns aspectos desta “tese geral” mas não a tese em si. De acordo com
Husserl, mesmo a atividade científica, seja da natureza ou do espírito, se processa dentro do
horizonte fundamentalmente ingênuo e dogmático da tese geral. O cientista pode duvidar de
um ou outro ponto de sua ciência, contudo nunca põe em dúvida a totalidade do real, razão pela
qual nenhuma ciência pode, com os seus próprios meios, justificar-se como ciência, e no
momento em que o fizer assume uma tarefa própria da filosofia.

Esta tese geral gera segurança, porque não se lhe abre a perspectiva de problematizar. Por isso,
a explosão da fé, em que basta apenas crer, sem saber muito porque se crê. É esta crença que
torna o homem dogmático, esquecido de que terá de edificar a sua própria existência. Essa
mesma crença gera também o preconceito e a falsa aparência da realidade. (1986, cap. III).

5. FILOSOFIA DA NEGAÇÃO

Como abandona o homem a postura dogmática para assumir a filosófica? Como passa de uma
posição não crítica para uma atitude crítica?

O Mito da Caverna de Platão auxilia a nossa explicação. Nesse mito, Platão coloca alguns homens
voltados para o fundo da caverna, de modo que só podem ver as suas próprias sombras. Eles
estão como que acorrentados. Esse mundo das sombras seria o comportamento dogmático, ou
seja, o mundo da aparente segurança, pois nada além daquilo pode vir a perturbar os
pensamentos do ser humano. Acontece que por forças das circunstâncias, o homem é obrigado
a buscar a luz (conhecimento). Mas buscar a luz não é tarefa fácil, pois terá de abandonar o
mundo das sombras — que acarreta dor e risco: a dor por abandonar o bem preferido; o risco
por se introduzir na incerteza.

Essa nova postura é entendida como um comportamento não dogmático. Mas, o que
caracteriza essa mudança? Podemos vê-la sob dois ângulos: 1.º) mudança espontânea, pelo fato
das crenças tradicionais se chocarem com as antagônicas e o indivíduo ser obrigado a fazer nova
196

escolha; 2.º) mudança provocada, pelo fato do indivíduo procurar conscientemente um novo
paradigma para a realidade em que está inserido. (Borheim, 1986, cap. IV e V)

6. DOGMATISMO E ESPIRITISMO

Nossa vivência, na maioria das vezes, é apoiada em crenças dogmáticas. Entrar no Espiritismo
não significa dizer que nos despojamos de todos os nossos automatismos formados ao longo de
inúmeras existências. Na veiculação da idéia espírita, observamos a transferência dessas
imagens, dando-se a impressão de que o Espiritismo é dogmático. Lembremo-nos de que é um
erro de nossa interpretação e não expressão verdadeira dos princípios codificados por Allan
Kardec.

Ilustremos esta temática com alguns exemplos:

O médium não deve comer carne no dia do trabalho. Allan Kardec, na pergunta 723 de O Livro
dos Espíritos – A alimentação animal, para o homem, é contrária à lei natural?, obteve dos
Espíritos, a seguinte resposta: - “Na vossa constituição física, a carne nutre a carne, pois do
contrário o homem perece. A lei de conservação impõe ao homem o dever de conservar as suas
energias e a sua saúde, para poder cumprir a lei do trabalho. Ele deve alimentar-se, portanto,
segundo o exige a sua organização”. A “proibição” da ingestão de carne no dia do trabalho não
estaria ligada à reminiscência do pecado original? Ou seja, comendo carne iríamos
conspurcados, manchados à sessão mediúnica.

O mentor falou, acatemos. Em muitos Centros Espíritas, os dirigentes obedecem cegamente às


diretrizes traçadas pelos seus mentores. Sem uma crítica serena, podem aceitar determinações
incongruentes com relação aos princípios codificados por Allan Kardec.
Sigo a orientação de Kardec. Muitos espíritas, para defenderem os seus pontos de vistas, dizem:
eu sigo a orientação de Kardec. Esquecem-se de que toda a palavra escrita deve ser processada,
atualizada e melhorada pelas constantes avaliações de nosso espírito crítico.

Leio somente romances espíritas. Alguns espíritas, que não estão dispostos a um
aprofundamento da Doutrina, acabam ficando apenas com a visão dos romances. Esta visão
parcial do fato espírita pode ocasionar raciocínio parciais e criar atitudes dogmáticas dentro do
movimento espírita.

7. CONCLUSÃO

“O Espiritismo é uma questão de fundo e não de forma”, diz J. Herculano Pires. Tenhamos
coragem e despendamos esforços para penetrar no âmago de suas questões. Somente assim
conseguiremos aprender os fundamentos da doutrina, evitar o preconceito e descobrir a
verdade que nos liberta.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BORNHEIM, G. A. Introdução ao Filosofar - O Pensamento em Bases Existenciais. 7. ed., Rio de Janeiro,
Globo, 1986.
EDIPE - Enciclopédia Didática de Informação e Pesquisa Educacional. 3. ed., São Paulo, Iracema, 1987.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. São Paulo, FEESP, 1972.
LEGRAND, G. Dicionário de Filosofia. Lisboa, Edições 70, 1982.
SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

São Paulo, maio de 1994

<< = = =
197

(1) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(3) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(4) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Doutrina, Doutrinário
Doutrina. O sentido mais antigo é o que deriva da sua etimologia latina doctrina que,
por sua vez, vem de doceo, "ensino". O sentido mais antigo, portanto, é de ensino ou
aprendizado do saber em geral, ou do ensino de uma disciplina particular. Ao longo do
tempo perdeu-se o sentido original e o termo firmou-se como o indicador de um
conjunto de teorias, noções e princípios coordenados entre eles organicamente que
constituem o fundamento de uma ciência, de uma filosofia, de uma religião etc. (1)

Doutrina. Ato de ensinar um conjunto de ideias ou teses. Daí deriva o sentido de


conteúdo desse ensino, aproximando-se do termo disciplina, que significa o mesmo
conteúdo visto do lado de quem recebe. Para Kant, D. seria a transmissão cultural
puramente positiva, enquanto a disciplina designaria o estudo negativo ou destrutivo. D.
emprega-se a propósito de filosofia, religião, política e várias ciências, excluindo as
exatas. Não indica, per si, um conjunto sistematizado (a D. de Cristo, p. ex.). Usa-se, às
vezes, na acepção de ensinamento prático, de orientação para a vida; outras, ao invés,
como acesso à prática (mormente o adjetivo "doutrinário"). A existência de qualquer D.
supõe o dogmatismo filosófico e a possibilidade de comunicação ou transmissão do
saber, o que é negado pelo ceticismo. (2)

Doutrina. Coleção de proposições ensinadas como verdadeiras por algumas escolas. As


doutrinas são menos bem organizadas do que as teorias, e não dispõem necessariamente
de suporte empírico. Podem ser seculares ou religiosas. (4)

Doutrina. Conceito. o vocábulo grego didáskalos, "professor, mestre", foi empregado


no Novo Testamento não só para designar os doutores (lat. doctors) do Templo (Lc
2,46), mas também, João Batista (Lc 3,12) e Jesus (ao longos dos Evangelhos), assim
como os cristãos que se dedicavam ao magistério eclesiástico (I Cor 12,28). Didáskalos
é cognato do gr. didaskalia, "ensino, lição, doutrina", e do gr. didakhê, "ensino,
instrução, aprendizagem" (doctrina, na Vulgata), forma esta aportuguesada por
influência dos seminários em didaquê.

Ao lado desse termo convém observar katekhesis, "instrução oral, doutrinação,


catequese" (Lc 1,4, At 18,25), intimamente relacionado com a didakhê. Significava
principalmente o processo de doutrinação oral destinado a preparar os recém-
convertidos à iniciação sacramental. Apesar de ser empregado apenas duas vezes por
198

São Paulo (I Cor 14,19 e Gal 6,6), exerceu forte influência na linguagem posterior da
Igreja.

No Novo Testamento são as epístolas pastorais as que oferecem exemplos abundantes


do uso da expressão didakhê e seus cognatos. Essas cartas apostólicas representam o
esforço da Igreja nascente para alimentar na fé as congregações que se iam formando
como resultado do intenso labor missionário. Nos capítulos 4 e 5 de 1 Tim aparecem
diversas vezes as diferentes formas do vocábulo. Encontra-se aí o conceito de boa
doutrina em oposição à heresia. A boa doutrina deveria ser cultivada através da leitura,
da meditação e da vigilância. O amor pelo ensino verdadeiro é considerado dever
imprescindível do verdadeiro missionário (5,17).

A doutrina que Jesus ensinava diferia dos sistemas religiosos e filosóficos de sua época,
na medida em que era secundária e serva em relação à sua pessoa e à sua vida. É por
isso que, na elaboração dos primeiros sistemas doutrinários cristãos, as palavras
atribuídas a Jesus nos Evangelhos ocupam lugar bastante reduzido. A doutrina cristã
desenvolveu-se principalmente em torno da pessoa de Jesus e não tanto de suas
palavras.

Houve, ao longo do tempo, discussão e contradição entre kerygma (doutrina) e didakhê


(pregação).

Entre muitos círculos cristãos modernos começa a surgir certa dúvida a respeito da
importância da fixação doutrinária. Em lugar de conceitos a respeito de Jesus, o Cristo,
busca-se uma nova vivência com ele. O cristianismo passa a ser encarado não tanto
como um sistema doutrinário, mas principalmente como um modo de vida. (5)

Doutrinário – O termo indica, em geral, quem obedece rigidamente aos princípios da


própria doutrina, prestando atenção à teoria no seu sentido abstrato, mais do que no
prático.

Doutrinário. Preso a uma doutrina de maneira extrema e dogmática. Exemplos:


fundamentalismos religiosos, microeconomia neoclássica, marxismo, neoliberalismo.
Ant. ter uma atitude crítica ou uma mente aberta. (4)

Doutrina Política. O conceito de doutrina, a nível do político, encontra-se em íntima


relação com os da ideia e ideologia. Ideias são representações simplificadas. Ideologia
são essas representações que ganham peso social.

Como se prende com ideia e ideologia, a doutrina conecta-se também com a noção de
teoria. De acordo com Marcel Prélot, "Cientificamente, ideia, teoria e doutrina não são
vocábulos equivalentes. Ideia e pensamento são termos neutros e gerais; inversamente,
doutrina e teoria são noções que, na terminologia dos economistas franceses, adquiriram
o sentido preciso. Sob a influência de um professor eminente da Faculdade de Direito de
Paris, a sua definição cristalizou-se na época decorrente entre as duas guerras: a doutrina
comporta um juízo de valor sobre os fatos e contém projetos de reforma daí derivados; a
199

teoria corresponde à sistematização objetiva das observações, à sua interpretação e, na


medida do possível, à sua explicação e generalização".

Ideia é mais vaga que a doutrina; a doutrina mais coerente e estruturada.

O sentido da doutrina, porém, irá cada vez mais se restringir à noção de teoria e prender-
se aos autores.

No decorrer do tempo, os dicionaristas disseram que a doutrina assume, inter alia, as


acepções de teoria de qualquer ciência e de opinião particular dos autores.

Cândido de Figueiredo, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa (I, Lisboa, 1899),


refere a doutrina como "conjunto de princípios, em que se baseia um sistema religioso,
político ou filosófico". (3)

Doutrina do Direito Natural. A concepção segundo a qual a moralidade e a lei são antes
naturais do que artificiais. Há duas versões principais: a secular e a religiosa. A primeira
é a concepção de que o homem nasceu bom, mas se tornou mau devido à sociedade. A
variante religiosa é a de que a vontade divina está incorporada na ordem natural das
coisas, com as quais as leis feitas pelo homem devem casar. (4)

(1) BOBBIO, N. et al. Dicionário de Política. 2. ed. Brasília: UNB, 1986.

(2) LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de Janeiro:


Verbo, 1990.

(3) POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São Paulo:


Verbo, 1986

(4) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(5) ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL. São Paulo: Encyclopaedia


Britannica, 1987.

Doutrina das Emanações


Doutrina das Emanações: Plotino. A emanação é um dos conceitos-chave do começo
da era cristã. Além dos gnósticos, que também o emprega é Plotino (205-270), um
pensador cuja obra, As Enéadas, figura como a expressão mais elevada do
neoplatonismo. Uma flor emana perfume, um corpo luminoso emana luz. A emanação
é, portanto, um processo pelo qual uma coisa é causada por outra, que a determina ou a
contém como princípio. Plotino explica assim a criação do mundo, por meio de uma
200

série de emanações de um princípio supremo, o Um ou Deus, que exclui qualquer


multiplicidade.

O Mundo se divide em Mundo inteligível e Mundo corpóreo. O primeiro é formado pelo


Um. Do Um emana o intelecto (nous) e, numa segunda emanação, do intelecto emana a
alma do mundo (anima mundi). O intelecto (que equivale ao Demiurgo platônico), ao
ser pensamento, apresenta uma cisão entre sujeito e objeto; abriga, portanto, o germe da
multiplicidade. Mas essa se encontra plenamente desenvolvida na mundo corpóreo
formado pela matéria. O Mal (ou seja, a privação de ser que origina o devir) reside aí.

No entanto, a anima mundi intervém também no mundo corpóreo como princípio de


unidade e indivisibilidade. A existência do homem, portanto, é um corpo de batalha
entre esse princípio unitário, que tende para o Bem (a união com o Um) e a
multiplicidade da matéria, que encaminha para o Mal (privação de ser). Retomando às
teses sobre o amor que Platão havia formulado no Fedro, Plotino aponta um caminho
interior, um retorno à mesmice, como via de ascensão da multiplicidade presente na
matéria à unidade que Deus encarna. É um caminho de êxtases místicos que conduzem
à fusão com o Um e que só é concedido aos eleitos.

Essa experiência interior, entretanto, na qual se abandonam a percepção sensível e o


pensamento discursivo, aparecerá com muito mais força em Santo Agostinho. (1)

(1) TEMÁTICA Barsa - Filosofia.

Duração
Duração (durée). Durar é continuar a ser. Assim, em Espinosa: "A duração é uma
continuação indefinida da existência", escreve ele na Ética (II, def. 5). Assim em
Bérgson: "O universo dura", e não haveria tempo se assim não fosse; "a duração
imanente ao todo do universo" deve existir primeiro, como nós nela, para que possamos,
recortando-a abstratamente, falar de tempo (A evolução criadora, I).

Note-se que toda duração efetiva é presente (pois que o passado já não é, pois que o
futuro ainda não é) e, portanto, indivisível (como dividir o presente?). A duração se
distingue, nisso:

- do tempo abstrato, que seria a soma, indefinidamente divisível, de um passado e de um


futuro;

- do tempo vivido ou da temporalidade, que supõem a memória e a antecipação;

- enfim, do instante, que seria um presente descontínuo e sem duração.

A duração é o próprio presente, na media em que continua. Ela é a perpétua


apresentação da natureza. É portanto o tempo real: o tempo do ser em via de ser, o
tempo do ente - o que chamo de ser-tempo. (1)
201

Duração. Do latim medieval duratio. 1. Em seu sentido genérico, parte finita do tempo:
duração de um raciocínio. Em filosofia, distinguimos o tempo e a duração. O tempo é a
medida da duração, diz Descartes. Por sua vez, Leibniz opõe o tempo à duração como o
espaço à extensão, a duração sendo a ordem de sucesso entre as percepções reais. 2.
Bérgson opõe a duração (durée) ao tempo. Para ele, o tempo é a ideia matemática que
fazemos da duração para raciocinar. A duração só pode ser apreendida por intuição, ao
passo que tempo é apreendido pela inteligência que divide e quantifica; válida para
aquilo que é da ordem da quantidade, a inteligência fracassa em apreender o
qualificativo (a duração): o tempo matematizado de nossos relógios não passa de uma
falsa representação (espacial) da duração real e concreta, que escapa à quantificação.
Portanto, a duração é uma realidade concreta, a trama mesma do devir da consciência,
que só pode existir como tal caso se lembre de seu passado, mas inventando a cada
instante para adaptar-se ao presente. (2)

(1) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Dúvida
Dúvida. É um estado de indeterminação da inteligência. Consiste na suspensão do
julgamento, dada a ausência de razões para a afirmação ou negação, ou em virtude de
um equilíbrio de razões. (1)

Dúvida. Estado da mente ou processo mental que consiste no fato de uma pessoa ser
incapaz ou não ter vontade de asseverar ou negar uma proposição (ou um conjunto de
proposições) por ignorar se ela é verdadeira ou falsa. A dúvida é a marca registrada do
ceticismo. Todavia, enquanto os céticos radicais duvidam de tudo, os moderados
duvidam apenas diante da evidência incompleta ou contraditória. É típico o fato de que
cientistas e tecnólogos, quando em trabalho, sejam céticos moderados. Mas até eles são
por vezes ingênuos ao se extraviarem em outros campos. (2)

Dúvida (doute). O contrário de certeza. Duvidar é pensar, mas sem tem certeza da
verdade do que se pensa. Os céticos fazem dela o estado último do pensamento. Os
dogmáticos, quase sempre, uma passagem obrigatória. Assim, em Descartes: sua dúvida
metódica e hiperbólica (isto é, exagerada: tem por falso tudo o que sabe ser duvidoso) é
apenas um momento provisório na busca da certeza. Descartes sai dele por meio do
cogito, que não é duvidoso, e de Deus, que não é enganoso. Mas seu Deus é duvidoso,
não obstante o que ele diga, e nada exclui que o cogito seja enganoso. Assim, a dúvida
renasce sempre. Dela só se sai pelo sono ou pela ação. (3)

Dúvida. É um estado de incerteza que, se opondo ao assentimento, se traduz por uma


recusa de afirmar ou negar. Explica-se em princípio pela ausência de conhecimentos
adequados.
202

A dúvida científica, inseparável da busca da verdade, é atitude do cientista que


apresenta suas hipóteses à prova submetendo-as ao controle experimental.

A dúvida cética, atribuída a certos filósofos gregos (Pirro) pretende-se definitiva e


radical e conclui a impossibilidade de se alcançar a menor verdade.

Em patologia, finalmente, a loucura da dúvida, de natureza obsessiva, manifesta-se por


um sentimento penoso de incerteza com relação aos fatos e gestos da vida cotidiana e
por fim pela incapacidade de se tomar uma decisão.

Inspirando-se em uma atitude que remonta a Platão, Descartes instaura a reflexão


filosófica fundamentando-a numa dúvida primordial, a dúvida metódica, procedimento
que consiste em duvidar de tudo o que se admitiu anteriormente com o intuito de
estabelecer a verdade em bases inabaláveis graças ao critério da evidência. Essa dúvida
metafísica, radical - embora provisória - é uma dúvida hiperbólica e que, em virtude de
sua etimologia grega, parece ultrapassar a medida; a higiene do pensamento, portanto,
exige que seja conscientemente considerado falso o que é apenas duvidoso e que seja
rejeitado como sempre enganador aquilo pelo qual se foi enganado às vezes. (4)

Dúvida. A dúvida é um estado de ânimo que caracteriza a indecisão entre duas ou mais
responsabilidades. É um estado de incerteza que impede que se permaneça com
segurança verdade para a qual nosso espírito tende dinamicamente. A dúvida pode ser
de dois tipos: a dúvida teórica, que é a indecisão diante dos acontecimentos ou diante da
verdade especulativa; a dúvida existencial, que é a impossibilidade de nos ligarmos com
confiança a uma pessoa. Embora as duas dúvidas estejam relacionadas, é a segunda que
afeta mais profundamente o homem e o deixa mais desamparado. Acontece que a
dúvida teórica impede a certeza, mas a existencial impede a fé, através da qual nos
relacionamos vivencialmente com os homens e com Deus e alcançamos o sentido mais
profundo da vida.

Pode-se dizer que a história do pensamento moderno é a história da dúvida. O


pensamento antigo confiava mais nas evidências imediatas que nos são oferecidas pelos
sentidos ou pela razão. A filosofia antiga começava a pensar a partir de sua admiração
diante de um cosmos harmônico. A filosofia moderna começa a partir da dúvida, que
leva em suas entranhas, uma suspeita sobre a verdade que nos é oferecida por nossos
meios de conhecimento. Por isso, o homem antigo tinha mais confiança e vivia mais
seguro de si mesmo. Apesar de seus grandes avanços, a ciência moderna é filha da
dúvida, que cria problemas, ao passo que na Antiguidade os dados eram aceitos com
uma ingênua confiança. Acontece que a dúvida apresenta um duplo aspecto, negativo e
positivo: negativo, à medida que deixa a alma em dúvida e indecisão, gerando desse
modo inseguranças e angústia; positiva, à medida que é o ponto de partida para todo
avanço científico ou filosófico. A dúvida é a perfuradora que rompe a evidência natural
e nos faz penetrar na mina de um saber recôndito. Sem a dúvida, o homem
permaneceria como uma criança ingênua, que aceita todas as coisas sem crítica.

E o método que é impulsionado pela dúvida constante chama-se precisamente método


crítico. Foi Descartes quem inaugurou a filosofia moderna com sua dúvida metódica,
que o levava a colocar entre parênteses todo o seu saber, inclusive a sua fé cristã até
encontrar bases sólidas sobre as quais assentá-lo. Em princípio, ele desconfiava de todas
as evidências imediatas e suspeitava de qualquer possível engano. Na mesma linha Kant
203

chegou a desconfiar de que nosso conhecimento seja capaz de captar a realidade como
ela é. Na dúvida, chegou a concluir que não conhecemos o mundo, a não ser à medida
que o representamos no computador de nossa mente que elabora os dados empíricos.
Mas nada conseguimos saber de Deus, da alma, do mundo como totalidade.
Teoricamente, ficamos condenados a um eterno duvidar ou não saber.

Dando continuidade à tarefa de suspeitar de nossos conhecimentos, Marx colocou em


dúvida o valor das ideologias dominantes nas diversas épocas. Disse ele que, embora
elas habitualmente sejam tomadas como verdades, outra coisa não são do que
manipulações mais ou menos conscientes para a conservação de privilégios sócio-
econômicos. Em muitos casos, as leis, as normas, mitos e costumes representam apenas
a imposição das conveniências de uma classe social, que as faz passar como verdades.
Nietzsche também suspeitava radicalmente das chamadas "verdades morais". Segundo
ele, por detrás de uma evidência, muitas vezes se esconde medo da vida, a inveja diante
dos mais sábios e poderosos, a impotência para competir com os mais corajosos. Na
mesma linha, Freud fez ver que muitas das verdades que a consciência nos apresenta
escondem outras motivações subconscientes, mais verídicas. Aquilo que
considerávamos como verdade interior muitas vezes não passava de um disfarce com
que nossos impulsos libidinosos apresentavam-se decorosamente em nossa consciência.
A verdade, porém, é a que está subjacente e se oculta.

Toda essa elaboração crítica rompeu com a segurança e a certeza em que se apoia o
homem simples da rua... Muitos homens, porém, não são capazes de viver nessa
corrente de crítica e dúvida. Por isso preferem basear-se em evidências fornecidas pelo
bom senso ou pelos hábitos culturais. A dúvida rouba-lhes o sossego e o amor à
realidade. Quando não é doentia, a dúvida constitui a base de toda a verdadeira ciência e
de todo o progresso.

A dúvida existencial, porém, nos interessa mais de perto. E isso porque, como dissemos,
ela se opõe à fé, que é a raiz de toda a posição cristã. A desconfiança é a dúvida sobre a
veracidade de uma pessoa. Nesse aspecto, também podemos dizer que o mundo
moderno é muito mais desconfiado do que o antigo. As relações humanas modernas,
que se dão nas grandes cidades, levam ao anonimato, à independência, à falta de
solidariedade com os outros. Cada qual confia no seu próprio dinheiro, na previdência
social, em suas próprias forças. Mais do que amizade ou confiança, o que se procura nos
outros é encontrar aliados para negócios e empreendimentos. Em vez de se desenvolver
em profundidade, as relações se desenvolvem de acordo as forças motrizes do lucro ou
do poder. Nesse clima frio que faz murchar a fé, é muito difícil desenvolver-se a
vivência cristã que se centra na fé nos homens e, através deles, na fé em Deus.

Sendo a história de fé dos homens, a Bíblia também é, ao mesmo tempo, a história da


sua desconfiança. Já nos primórdios da humanidade, o pecado original nos é
apresentado como fruto da desconfiança dos homens em relação a Deus. Mais do que o
amigo, Adão e Eva começam a ver em Deus um rival. Duvidam que seus preceitos
tenham sido estabelecidos com boa intenção, suspeitando que oculta algum logro. É
dessa dúvida existencial que brota o pecado (Gn 3,3-6). Do mesmo modo, o pecado
contra os homens surge da dúvida e da desconfiança. Caim duvida de seu irmão,
desconfia de sua amizade com Deus e vê nela um perigo...
204

O encontro dos apóstolos com Cristo também foi marcado por períodos de dúvida.
Inicialmente, surge neles uma dúvida positiva, que abre seus corações para buscar em
Cristo algo mais daquilo que aparentemente viam nele, um homem. Diante de suas
obras maravilhosas, não podem deixar de duvidar: "Que homem é este, que até os
ventos e o mar lhe obedecem?" (Mt 8,27). Mas, depois que a fé cristã já havia nascido
neles, quando ouvem o anúncio da cruz, novamente são assaltados pela dúvida e
sentem-se perturbados. Pedro duvida da palavra de Jesus e o convida a mudar de
caminho (Mc 8,31-33). Mas o momento em que a dúvida os assalta de modo especial é
na hora da paixão e da cruz. Já na última ceia, duvidaram de que um deles seria um
traidor (Mc 14,18-21). Depois, duvidaram ao ver a agonia de Jesus no horto e ao vê-lo
aprisionado pelos guardas. Por isso, fugiram daquele que era seu líder e a quem haviam
prometido seguir (Mc 14,50)...

A fé cristã sempre foi uma luta incessante contra a dúvida que brota do coração. E é
natural que a dúvida nos assalte. Primeiro, porque Deus é mistério, que ninguém viu
nem pode ver. Depois, porque sua revelação é misteriosa e se realiza através de
mensagens que são por vezes obscuras, distantes e difíceis. Ter fé não é deixar de ter
dúvidas, mas sim ter a força suficiente para superá-las. Para aquele que está unido
amorosamente ao Senhor, mil dúvidas não fazem uma negação, assim como, para
aquele que está afastado afetivamente, mil razões não fazem uma adesão.

Um anseio desesperado de certeza da fé trará uma profunda insegurança. Lutero sentia-


se atormentado por mil dúvidas. Precisamente por isso, chegou a afirmar que era
necessário ter uma fé fiducial em Deus, mesmo acima dos próprios pecados e acima das
evidências contrárias que a razão nos mostrasse. A insegurança o levava a uma
confiança absoluta e cega, na qual ele buscava a paz.

A fé em qualquer pessoa se move sempre em um clima de risco, pois a amizade não


depende somente de nós, mas também da outra pessoa.

Em geral, podemos dizer que a fé se reanima pelo contato vivo e comprometido com a
pessoa amada.

A força do meio é muito poderosa. O pragmatismo da sociedade, vivido como lei


suprema, afasta muitas pessoas de uma mensagem generosa e altruísta.

Há também a frieza e os maus exemplos de muitos cristãos que torna duvidosa para
muitos a verdade que o cristianismo anuncia. (5)

(1) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(3) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

(4) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.
205

(5) IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo:


Paulinas, 1983.

Elã Vital
Elã Vital. A expressão francesa élan vital (em português, "elã vital") é utilizada por
Bérgson para designar um impulso original de criação de onde provém a vida e que, no
desenrolar do processo evolutivo, inventa formas de complexidade crescente até chegar,
no animal, ao instinto e, no homem, à intuição, que é o próprio instinto tomando
consciência de si mesmo e de seu devir criador. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Emoção
Emoção. As emoções são sentimentos de pouca duração, reações afetivas, perturbações
violentas e passageiras da afetividade humana. (1)

Em geral, entende-se por esse nome qualquer estado, movimento ou condição que
provoque no animal ou no homem, a percepção do valor (alcance ou importância) que
determinada situação tem para sua vida, suas necessidades, seus interesses. Nesse
sentido, no dizer de Aristóteles (Et. Nic., II, 4 1105 b 21), a emoção é toda afeição da
alma, acompanhada pelo prazer ou pela dor: sendo o prazer e a dor a percepção do valor
que o fato ou a situação a que se refere a afeição tem para a vida ou para as
necessidades do animal. (2)

Emoção. Psic. Qualquer fato psíquico é constituído por dois elementos integrantes: o
intelectual e o afetivo. O 1.º dá-nos o conhecimento das situações; o 2.º exprime o valor
que essas situações significam, afetivamente para nós. A nossa reação às situações
depende, por conseguinte, desta valorização afetiva. Mas, se uma situação muda
206

bruscamente, provoca em nós uma reação emotiva. Se esta reação é intensa, com
repercussão forte nas funções orgânicas e psíquicas, vem repentinamente e desaparece
também rapidamente, chama E. Se esta reação se transforma num estado prolongado
diz-se sentimento. As principais manifestações da E. são a dor, a alegria, a tristeza, o
medo, o pavor, a cólera, o amor, o desgosto, a inquietação, a surpresa, a excitação da
vitória, a vergonha, etc. Existem várias teorias para explicar a natureza da E.: a 1.ª,
intelectualista (Herbart), pretende reduzir a E. à consciência. A E. seria a consciência de
acordo, ou desacordo do indivíduo com a situação estranha que se apresenta.
Consequentemente, o exercício mental seria sempre acompanhado de maior ou menor
repercussão emocional; a 2.ª, chamada fisiológica ou periférica (defendida por
Descartes, Lange, James), diz que a E. representa apenas a consciência das alterações
fisiológicas. Os fenômenos orgânicos não são efeitos mas causas das E. Não choramos
porque estamos tristes mas estamos tristes porque choramos. Finalmente, a biologia,
menos racionalista que as teorias anteriores, põe o caráter fundamental da E. no instinto.
A E. é tanto mais emoção quanto mais primitiva e instintiva. A E. não passaria de um
sinal da atuação do instinto. Trabalhos recentes de fisiopatologia sobre o diencéfalo
parecem confirmar estas ideias. (3)

Emocional. Psic. Termo de difícil delimitação e de sentido mal definido. (3)

Emotivismo. Juízos de valor, em especial juízos éticos, expressam emoções em vez de


representar fatos. (4)

= = = >>

Emoção e Espiritismo
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Emoção: 4.1. Emotividade; 4.2.
Alguns Tipos de Emoção; 4.3. Tensão entre Sentir e Expressar. 5. Emoção, Paixão e Razão: 5.1. Origem
da paixão; 5.2. Paixão: Boa ou Má?; 5.3. Emoção versus Razão. 6. Emoção e Doutrina Espírita: 6.1. A
Excitação Cerebral; 6.2. Cuidar do Corpo e do Espírito; 6.3. Ferramentas Espíritas. 7. Conclusão. 8.
Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
Um estado de desequilíbrio emocional poderá nos trazer dificuldades para a harmonia
familiar, a convivência no emprego e o relacionamento com o próximo. Pergunta-se: o
que se entende por emoção? Qual a sua natureza? Quais são os tipos de emoção? As
emoções são boas ou más? Que influência o Espiritismo exerce sobre as emoções?
2. CONCEITO
Emoção – Designa, na psicologia moderna, um estado da mesma natureza com o
sentimento, mas muito mais forte que ele, pois surge de improviso e, durante certo período
de tempo, impõe-se ao espírito, paralisando a associação livre e natural das
representações.
Canus acrescenta: “Creio que a emoção deve ser distinguida do sentimento pela sua maior
complexidade, no sentido que, enquanto no sentimento o homem é excitado por uma
simples percepção sensorial, na emoção é excitado por um complexo ideológico”.
(Monaco, 1967, p. 34)
É o reverbero cortical do fenômeno perceptivo que ocorre na subcorticalidade, em nível
subliminar, e só posteriormente se delineia na consciência – no córtex – assumindo a
forma de conhecimento propriamente dito. (Equipe da Feb, 1995)
Paixão – Do grego pathos, pena. Significa a disposição para receber alterações ou
comoções mais ou menos vivas e com elas corresponder. São reações às emoções,
207

produzidas por causas externas e internas. Inicialmente passiva, torna-se ativa quando
espontaneamente a elas adere e quase coopera com elas.
3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
As emoções são os determinantes de nossas ações, tanto para o bem quanto para o mal.
Às vezes elas nos incitam a produzir muito e outras vezes inibem todos os nossos campos
da vontade. Hoje, costuma-se apelar muito para os sentimentos emocionais das pessoas,
principalmente para a compra deste ou daquele produto.
A emoção faz parte do indivíduo, mas é fortemente influenciada pela sociedade, por suas
regras e seus costumes. Observe que muitos governos querem ditar normas de conduta
aos seus cidadãos.
Há também aquilo que sentimos particularmente, mas que não podemos expressá-lo em
público, pois morreríamos de vergonha.
Caso não tenhamos força de vontade, acabamos nos desviando do nosso projeto de vida,
porque não soubemos controlar os nossos estados emotivos. O que dá prazer nem sempre
é o que deve ser seguido. O importante para o consumo pode ser um péssimo negócio
para o nosso crescimento moral e espiritual.
4. EMOÇÃO
4.1. EMOTIVIDADE
Emotividade é a reação excessiva diante de um acontecimento, idéia ou sensação.
Podemos distingui-la: sentimento, emoção e paixão.
No sentimento, nossas reações permanecem organizadas, reguladas e controladas;
Na emoção, há descontrole; não conseguimos organizá-las ou regulá-las;
Na paixão, temos um sentimento superdesenvolvido a expensas de outros, exaltado, que
nos pode conduzir ou a grandes realizações ou a grandes quedas, segundo seu teor. (Curti,
1980, p. 44)
4.2. ALGUNS TIPOS DE EMOÇÃO
Raiva – Sentimento violento de ódio ou de rancor. Quando alguém se sente enraivecido
toma atitudes violentas. Por exemplo, atirar em alguém.
Termos correlatos: fúria, revolta, ressentimento, exasperação, indignação vexame,
animosidade, aborrecimento, irritabilidade e hostilidade.
Medo – Fenômeno psicológico marcado pela consciência de um perigo ou objeto
ameaçador determinado e identificável. Nessa situação, o sangue corre para todos os
músculos mais rapidamente permitindo a fuga e movimentos rápidos.
Termos correlatos: ansiedade, apreensão, nervosismo, preocupação, consternação,
cautela, escrúpulo, inquietação, pavor, susto, terror e, como psicopatologia, fobia e
pânico.
Amor – É a totalidade dos sentimentos e desejos que estruturam o pensamento para a
liberação de energia e de forças que guiam a ação na produção do bem e possibilitam a
aquisição de qualidades, constituintes do crescimento do Espírito. Provoca um estado
geral de calma e satisfação, facilitando a cooperação entre os seres humanos.
Termos correlatos: aceitação, amizade, confiança, afinidade, dedicação, adoração,
paixão, ágape (caridade).
Felicidade – Em geral, é um estado de satisfação devido à própria situação do mundo.
Inibe o aparecimento de sentimentos negativos e favorece o aumento da energia existente.
Termos correlatos: alegria, alívio, contentamento, deleite, diversão, orgulho, prazer
sensual, emoção, arrebatamento, gratificação, satisfação, bom humor, euforia, êxtase e,
no extremo, mania.
Tristeza – Estado afetivo duradouro em que a consciência se vê invadida por um doloroso
sentimento de insatisfação, sendo acompanhada de uma ideia de desvalorização da
existência e do real. A tristeza acarreta uma perda de energia e de entusiasmo pelas
208

atividades da vida, em particular por diversões e prazeres. Quando a tristeza é profunda


aproxima-se de depressão.
Termos correlatos: sofrimento, mágoa, desânimo, desalento, melancolia, autopiedade,
solidão, desamparo, desespero e, quando patológica, severa depressão.

4.3. TENSÃO ENTRE SENTIR E EXPRESSAR


Há, no indivíduo, uma acepção interna e particular, que se distingue da sua apresentação
pública. Suponha a corrupção: internamente, o sujeito é contra, pois o seu valor moral a
reprime veemente. Na vida pública, é obrigado a conviver com ela, o que lhe causa uma
grande tensão entre os seus sentimentos de pureza, de honestidade, de ético, com aqueles
que é obrigado a enfrentar no seu dia a dia.
5. EMOÇÃO, PAIXÃO E RAZÃO
5.1. ORIGEM DA PAIXÃO
As paixões têm origem na emoção. Pode-se dizer que a paixão é um sentimento mais
duradouro do que a própria emoção. É um movimento da alma que nos arrasta pra fora
do nosso estado normal, provocado ou pela atração de um bem que se ama, ou pela repulsa
de um mal do qual se foge. Paixão é um desejo que não permite outros. Rousseau dizia:
“Todas as nossas paixões são boas quando nos tornam senhores; todas são más quando
nos tornam escravos”. Descuret acrescenta: “necessidades desregradas que geralmente
começam por nos seduzir para acabar tiranizando-nos”. (Mônaco, 1967, p. 39)
5.2. PAIXÃO: BOA OU MÁ?
A paixão, se não for guiada para o bem, pode se descambar para mal. Os atos e os
movimentos das paixões são sempre acompanhados por um distúrbio físico no organismo.
A emoção é, inicialmente, orgânica, porque é a resposta a uma sensação. No caso da
paixão, é aquele ímpeto do nosso ser para realizar alguma coisa, que geralmente
emprestamos um valor extraordinário.
5.3. EMOÇÃO VERSUS RAZÃO
Agimos mais em função da emoção do que da razão. Observe um torcedor de futebol.
Mesmo que seu time seja mais fraco do que o do adversário, ele tem que ganhar de
qualquer jeito. Caso seu time não vença, o torcedor acaba xingando o juiz, correndo atrás
dos jogadores e punindo-os com as próprias mãos.
A fé é um sentimento do coração, portanto emocional. Ele precisa ser melhorado,
trabalhado segundo a razão, para que não se transforme em fé cega, que pode gerar o
fanatismo. Não é sem razão que Allan Kardec escreveu no início de O Evangelho Segundo
o Espiritismo:
“Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar frente a frente a razão, em todas
as épocas da humanidade”.
6. EMOÇÃO E DOUTRINA ESPÍRITA
6.1. A EXCITAÇÃO CEREBRAL
As decepções, os infortúnios e as afeições contrariadas excitam sobremaneira o nosso
cérebro, sendo as causas mais freqüentes de suicídio. “Ora, o verdadeiro espírita vê as
coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado; elas lhe parecem tão pequenas, tão
mesquinhas, a par do futuro que o aguarda; a vida se lhe mostra tão curta, tão fugaz, que,
aos seus olhos, as tribulações não passam de incidentes desagradáveis, no curso de uma
viagem. O que, em outro, produziria violenta emoção, mediocremente o afeta”. (Kardec,
1995, Introdução, item 15)
6.2. CUIDAR DO CORPO E DO ESPÍRITO
Devemos cuidar do corpo e do Espírito. Os dois estão de tal modo inter-relacionados que
não podemos nos dar ao luxo das fortes emoções sem as respectivas consequências para
o nosso estado espiritual. Observe a obsessão. Ela acontece porque nos desregramos com
209

alimentação, os prazeres e outras excitações da carne, com coisas que nos trazem a
influência desses Espíritos menos felizes.
6.3. FERRAMENTAS ESPÍRITAS
A Doutrina Espírita oferece-nos as ferramentas racionais para enfrentarmos qualquer tipo
de problema, inclusive os de cunho emocional, que nos fazem entrar em contato com
Espíritos inferiores. Estes se aproveitam de nossa fraqueza momentânea para nos incutir
o remorso, o medo, a raiva e outros tipos de emoções, que devemos defender com a prece
e os pensamentos voltados para o bem.
7. CONCLUSÃO
Saibamos dosar emoção, paixão e razão. Caso estejamos em dúvida, conclamemos a
presença dos benfeitores do espaço, para nos guiar no caminho do bem e da verdade.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
CURTI, R. Espiritismo e Evolução. São Paulo: Feesp, 1980.
EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro: FEB, 1995.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed. São Paulo: Feesp, 1995.
MONACO, Nicola. As Paixões e os Caracteres. Tradução de Miguel Zaupa. 2. ed. São
Paulo: Paulinas, 1967. (Psicologia Maior)
São Paulo, janeiro de 2011.

<< = = =

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

(2) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(3) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

(4) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

Empirismo
Empirismo. Diz-se de qualquer doutrina ou ciência que assenta as suas conclusões na
experiência, sem olhar ao raciocínio e à teoria. FILOS. Poder-se-ia definir empirismo
pela tendência a crer que o conhecimento se forma no nosso espírito em condições de
passividade para o mesmo espírito, não admitindo que este tenha uma atividade
espontânea regida por leis próprias. O empirista espera da experiência sensorial, da
percepção pelo tato, pela vista, pelo ouvido e pelos outros sentidos - percepção que ele
concebe como a recepção passiva de impressões - o conhecimento da realidade. (1)

O adjetivo empírico aplica-se ao que tem origem na experiência (por oposição ao


conhecimento racional ou a priori): como tal, sinônimo do a posteriorikantiano.
Qualifica igualmente qualquer conhecimento ou pessoa não sistemáticas, que confiam
na experiência imediata e até no pragmatismo.
210

O empirismo qualifica qualquer doutrina filosófica que admite que o conhecimento


humano deduz tanto seus princípios quanto seus objetos ou conteúdos, da experiência.
(2)

Corrente filosófica para o qual a experiência é critério ou norma de verdade,


considerando-se a palavra “experiência” no significado 2º. Em geral, essa corrente
caracteriza-se pelo seguinte: 1º) negação do caráter absoluto da verdade ou, ao menos
da verdade acessível ao homem; 2º) reconhecimento de que toda verdade pode e deve
ser posta à prova, logo eventualmente modificada, corrigida ou abandonada. Portanto, o
empirismo não se opõe à razão a não a cega, a não ser quando a razão pretende
estabelecer verdades necessárias, que valham em absoluto, de tal forma que seria inútil
ou contraditório submetê-la a controle. (3)

Todo conhecimento é baseado na experiência que provém dos sentidos. (4)

Mais informação: http://www.sergiobiagigregorio.com.br/palestra/empirismo-e-


espiritismo.htm

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993

(3) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(4) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

Empirismo, extraído da Temática Barsa Filosofia

Locke

O empirismo é uma filosofia característica das ilhas britânicas que tem sua primeira
formulação na obra de John Locke, mas sua origem é bem anterior. Já antes do
Renascimento, o nominalismo de Occam e o experimentalismo de Roger Bacon
preparam seu caminho. Depois, Francis Bacon e Thomas Hobbes constroem uma
filosofia que em muitos aspectos já é empirista. O que é característico na Europa do
século XVII é que o empirismo se afirma como uma tendência britânica, enquanto no
continente prevalece o racionalismo de origem cartesiana. Mais tarde, na época do
Iluminismo, o empirismo se radicalizará na filosofia de Berkeley e Hume, e acabará por
confluir com o racionalismo na filosofia kantiana.
211

Empirismo versus racionalismo

Um novo estilo de pensamento

A origem de nossas ideias

Classificação das ideias

Qualidades primárias e secundárias

As ideias complexas

O conceito de substância

Sobre a linguagem

O realismo gnosiológico

O pensamento político de Locke

Contra a monarquia absoluta

O direito à propriedade

Religião e pedagogia

Caixa: Das ideias verdadeiras e das falsas

Caixa: A tolerância de Locke

Caixa: Dos objetivos da sociedade política e do governo

&&&&

O empirismo britânico do século XVIII: Berkeley e Hume

A filosofia empirista de John Locke continua na época do Iluminismo com as obras de


Geoge Berkeley e David Hume, dois pensadores que também partem da experiência
como fonte de todo o conhecimento, mas que radicalizam as posições do empirismo
clássico enveredando por caminhos diferentes. Para Berkeley, o conhecimento empírico
não permite assegurar que fora de nossas percepções exista uma realidade material. Os
objetos existem na medida em que os percebemos, mas não possuem qualidades
independentes dessa percepção. O empirismo de Berkeley é assim idealista e se baseia
numa filosofia do imaterialismo.
212

Hume vai ainda mais longe, ao criticar o caráter objetivo das relações de causa e efeito.
Essas relações derivam do costume e o conhecimento empírico não pode garantir no
fundo a existência do mundo exterior, embora estejamos obrigados a acreditar nele.
Dessa maneira, o empirismo de Hume acaba por se aproximar do ceticismo.

O idealismo de Berkeley

O empirismo radical de Hume

Impressões e ideias

Os princípios associativos

Tipos de conhecimento

Crítica do princípio de causalidade

O ceticismo de Hume

Caixa: As ideias abstratas não são necessárias para nossa comunicação

Caixa: Dúvidas céticas sobre as operações do entendimento

Caixa: Sobre o sentimento moral

Caixa: A natureza humana

Caixa: A moral da simpatia

&&&&

O materialismo de Hobbes

A filosofia europeia do século XVII tem uma dupla orientação. De um lado, a corrente
do racionalismo, que se baseia nos grandes sistemas metafísicos de Descartes, Spinoza e
Leibniz; de outro, o pensamento empírico. A ideia de que o conhecimento tem sua
verdadeira fonte na experiência é manifesta no pensamento de Thomas Hobbes. Sua
teoria a respeito da origem do estado, embora monárquico, fundamenta-se num contrato
social e não no direito divino, exerceria profunda influência no pensamento posterior de
Rousseau, Kant e dos enciclopedistas, e contribuiu assim para preparar, no campo das
ideias, o advento da revolução francesa.
213

A herança de Bacon e Galileu

Thomas Hobbes (1588-1679) passou à história como o autor de Leviatã, uma das teorias
políticas mais importantes e influentes da Idade Moderna e que justifica o poder
absoluto do estado moderno. Seguindo os passos de Maquiavel, Hobbes defende a
necessidade de que o estado impere com poder absoluto sobre a igreja e sobre a
totalidade dos indivíduos.

Seu pensamento, entretanto, não é apenas político; tem também uma vertente lógica e
gnosiológica que contribuirá para assegurar as características da ciência moderna.
Hobbes é um herdeiro da filosofia de Francis Bacon, de quem foi colaborador, e da
metodologia científica de Galileu. Sobre essas bases, constrói uma filosofia que se
caracteriza por seu nominalismo e seu materialismo mecanicista.

O nominalismo de Hobbes

O materialismo mecanicista

Caixa: Sobre a condição natural do gênero humano

Caixa: Leviatã

A filosofia política de Hobbes tem sua expressão máxima na obra Leviatã, ou a matéria,
a forma e o poder de um estado eclesiástico e civil (1651). Na Bíblia, o Leviatã é um
monstro que convém não despertar. Na obra de Hobbes, o Leviatã é o estado, o "deus
mortal" que evita a guerra civil. Da mesma forma que Maquiavel, de quem é um
continuador, Hobbes parte de uma avaliação pessimista da natureza humana. "A
inclinação geral da humanidade inteira — diz — é uma incessante ânsia do poder, que
só cessa com a morte." Os apetites dos indivíduos desencadeiam um mundo de paixões
que engendra a guerra e a anarquia "O homem é o lobo do homem."

O egoísmo pessoal vem acompanhado pelo medo: medo da violência, que está nas
origens do estado. Hobbes pensa que no primitivo estado da natureza o homem vivia no
caos e no terror da guerra, e que o Leviatã surgiu justamente como uma superação de
tudo isso. Os homens então alienaram seus direitos individuais em favor do estado e por
meio dessa renúncia obtiveram em troca a garantia de sua autopreservação.

O poder do Leviatã se justifica, portanto, como um fiador da paz, como a instância que
em última análise obriga a que as leis que preservam a ordem social sejam compridas
por todos. Essas leis, segundo Hobbes, não são divinas; são leis civis, projetadas pelos
homens. O estado tem uma origem humana, não divina.

A forma ideal do Leviatã é a monarquia absolutista, que constitui a primeira e moderna


estruturação do estado moderno. Mas o conceito central que Hobbes manipula em seu
tratado é o do caráter absoluto da soberania. A soberania pode estar nas mãos de um
monarca ou de uma assembleia será sempre a soberania absoluta do Leviatã.
214

Temática Barsa - Filosofia. Rio de Janeiro: Barsa Planeta, 2005. (Cópia do capítulo 8)

Enigma
Enigma. Um problema que não é possível resolver, não porque ele excede nossos meios
de conhecimento (não é um mistério), nem por razões unicamente lógicas (não é uma
aporia), mas porque está mal colocado. É por isso que “o enigma não existe”, como
dizia Wittgenstein, ou existe apenas para os que se deixam enganar por ele: não é senão
um jogo ou uma ilusão. (1)

Enigmas. Na literatura filosófica dos últimos decênios do século XIX deu-se o nome de
enigmas do mundo aos problemas que, não tendo sido resolvidos pela ciência, eram
considerados insolúveis. Em 1880, o fisiologista alemão E. Du Bois-Reymond
enumerava Sete enigmas do mundo: 1.º origem da matéria e da força; 2.º origem do
movimento; 3.º surgimento da vida; 4.º ordem finalista da natureza; 5.º surgimento da
sensibilidade e da consciência; 6.º origem do pensamento racional e da linguagem; 7.º
liberdade da vontade. Diante desses enigmas, Du Bois-Reymond achava ser preciso
dizer não só ignoramus [ignoramos], mas também ignorabimus [ignoraremos]. Alguns
anos depois, o biólogo Ernst Haeckel, numa obra de enorme difusão, intitulada Os
Enigmas do Mundo (1899), proclamava que aqueles enigmas tinham sido resolvidos
pelo materialismo evolucionista. Embora essa palavra até hoje seja empregada com fins
retóricos, tornou-se imprópria para exprimir a atitude do homem moderno em face das
limitações ou da imperfeição do seu conhecimento do mundo. Enigmas significa
propriamente "adivinhação", e a expressão enigmas do mundo parece indicar que o
mundo, como um gigantesco jogo de adivinha, só tem uma solução que, uma vez
encontrada, eliminaria todos os problemas. O que, por certo, é uma visão bastante
pueril, pois o mundo não tem enigmas, nem no plural nem no singular, mas só
problemas para os quais existem soluções mais ou menos adequadas, nunca definitivas
e sempre sujeitas a revisões. (2)

(1) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

(2) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Epicurismo
Epicurismo. Doutrina de Epicuro e de seus seguidores segundo a qual, na moral o bem
é o prazer, isto é, a satisfação de nossos desejos e impulsos de forma moderada, levando
assim à tranquilidade. Por extensão, e de forma imprópria, este termo passou a aplicar-
se a todo aquele que faz do prazer ou do gozo o objetivo da vida, o assim denominado
"epicurista". Segundo Epicuro, o prazer é o começo e o fim da vida feliz e constitui o
Bem supremo, cujo modelo perfeito nos é fornecido pela vida de delícias levada pelos
215

deuses. Mas trata-se de um prazer obtido apenas no término de um discernimento


refletido. (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Episteme, Epistemologia
Episteme: 1. conhecimento verdadeiro e científico (oposto a doxa). 2. Um corpo
organizado de conhecimento, uma ciência. 3. Conhecimento teorético (oposto a praktike
e poietike). Latim: scientia. (1)

Epistemologia. Quer dizer, etimologicamente, "discurso sobre a ciência". Ainda que


usado para significar "teoria do conhecimento", "gnoseologia", o termo emprega-se
hoje, frequentemente, para designar o estudo crítico das ciências naturais e matemáticas.
As ciências podem ser estudadas segundo o conteúdo ou segundo a forma, entendendo-
se por conteúdo a matéria ou objeto que a ciência trata e por forma a estrutura racional
que confere o caráter científico. A epistemologia é o estudo crítico da forma (e não do
conteúdo) da ciência. Ao longo da história da filosofia, a epistemologia tem-se
traduzido num critério de avaliação da autonomia das várias ciências em relação à
filosofia e num critério de distinção dos vários ramos do saber.

Para Platão, o saber rigorosamente científico é concebido univocamente como filosofia;


todas as outras formas de conhecimento se lhe devem conformar, para serem válidas,
pois só a filosofia e a matemática (preparação para a filosofia) se reportam à esfera do
invisível, à "contemplação da natureza dos números", dos números em si e não dos
números nas coisas. Aristóteles, porém, defende que há verdadeira ciência de entes
físicos e materiais, não apenas dos imateriais, derivando a sua tese da crítica ao
dualismo platônico, da imanência da "ideia" como forma e ratio na coisa. A ciência ou
filosofia articula-se, pois, em si mesma, como física, matemática, metafísica
(Metaphysica, VI-I). Mas Aristóteles não despreza o rigor racional de Platão e faz do
silogismo o instrumento único da ciência: a imperfeição desta depende da imperfeição
da demonstração e a demonstração perfeita respeita sempre a ordem ontológica, que é a
priori, i. é, procede da causa para o efeito.

Na Idade Média, São Tomás viria a estabelecer uma classificação das ciências
baseando-se na concepção unívoca do Estagirita, com a doutrina dos três graus de
abstração (Summa Teologiae, I, q. 85, a. 1 ad 2). Estava-se ainda longe do moderno
conceito de ciência, pois que o conceito unívoco do saber — a filosofia — não se abria
ao conhecimento experimental. Galileu havia de conseguir a síntese necessária. Mas já
se esboçara uma primeira tentativa, desde a alta Idade Média, ao considerar-se a
natureza como símbolo de realidades espirituais ou sobrenaturais, o que significava uma
ciência alegorizante ou misticizante: ao valor científico da experiência sobrepunha-se
uma interpretação simbólica da mesma. Eis o que pode entender-se em Santo Agostinho
216

(De ordine; De musica); mais tarde, em Rábano Mauro (De universo); e, no séc. XIII,
em São Boaventura (Reductio artium ad theologiam).

No mesmo séc. XIII, alguns pensadores começaram a desfazer a ilusória síntese e a


libertar o elemento experimental: Santo Alberto Magno, com ressonâncias aristotélicas,
R. Bacon e R. Grossatesta, com ressonâncias augustinianas...

Nos sécs. XV e XVI, o saber científico parece ainda empecilhado nas pseudociências de
Paracelso, Agripa, Cardano: tentaram eles uma nova síntese em que a experiência tem
um significado demasiado sumário e pouco definido, numa visão animista da natureza...
Todo este entusiasmo e o esforço de séculos levam a Galileu, que definiu claramente a
ciência na sua autonomia em relação à filosofia. A ciência confina-se no campo dos
fenômenos, não busca o porquê nem a essência nem a natureza íntima; tão-só as leis. O
método científico é o método experimental, de que Galileu assinalou os momentos
essenciais: observação, hipótese, verificação. Nesta formulação abre-se a nova era da
epistemologia, já prenunciada nas teorias de Francis Bacon.

Nos sécs. XVII e XVIII, o conceito de ciência oscila perante o equilíbrio de experiência
e razão. Descartes concebia a Física como um ramo da filosofia, como dedução da res
extensa em que resumia a realidade dos cosmos físico, e Mersenne escrevia que "toda a
minha física não é mais do que geometria". Era a ameaça do aspecto experimental da
ciência pela valorização do aspecto matemático... Caberia aos cientistas e não aos
filósofos seguir e valorizar a síntese de Galileu. É, entre outros, o caso de Newton, que
reforça a sua posição epistemológica com indiscutível prestígio científico.

Kant parece ter recuperado, de algum modo, o equilíbrio de Galileu: autonomia da


ciência em relação à filosofia, síntese de experiência e razão, racionalização da
experiência.

Apegados à tese da univocidade do saber, os positivistas veem a filosofia como


momento do saber autêntico — quer dizer o saber científico entendido como
experimental, a posteriori. Neste caso, a epistemologia não passa do corolário da tese
gnosiológica que limita o cognoscível ao dado, ao fato, ao "positivo". Condenada como
investigação a priori e abstrata, a filosofia salva-se enquanto síntese das ciências e sua
metodologia; segundo afirmação de Spencer, "a ciência é o saber parcialmente
unificado, a filosofia o saber completamente unificado".

O empiriocriticismo (de E. March e R. Avenarius) desmascarou, no mecanicismo


determinista, a subestrutura metafísica da ciência positivista; Mach toma posição,
afirmando: "a ciência forma-se por um contínuo processo de adaptação do pensamento a
um determinado campo de experiências".

O século XX tem sido fecundo em reflexão epistemológica de várias tendências. Se


Bergson reconhece ainda o conhecimento científico do mundo factual como pura
materialidade, Le Roy diz que o mesmo fato ou dado não passa de criação arbitrária do
cientista. Duhem apresenta a ciência como um simbolismo matemático convencional e
econômico e Poincaré opta por um convencionalismo moderado, com distinção entre
leis (verificáveis) e princípios (não verificáveis). O mundo anglo-americano tem uma
concepção pragmática da ciência, que desenvolve em sistema filosófico...
217

Numa apreciação sumária das várias epistemologias contemporâneas, é legítimo afirmar


que, de um modo geral, elas convergem em alguns pontos: a) reconhecimento mais
amplo e aprofundado da iniciativa do sujeito na construção da ciência; b) discernimento
mais cuidado da diferente natureza dos vários elementos de qualquer sistematização
científica (metódicos, simbólicos, sistemáticos, ontológicos etc.); c) mais clara
consciência da peculiaridade do conhecimento científico; d) maior exigência crítica e
esforço mais lúcido para uma ciência inteiramente "científica". No fundo, continua-se a
aprofundar a conquista fundamental da epistemologia (glória de Galileu) — autonomia
da ciência pela sua demarcação clara da filosofia. (2)

Epistemologia. O estudo da cognição e do conhecimento. Teoria do conhecimento. a.


Científica — Psicologia cognitiva. A investigação dos processos cognitivos da
percepção à formação do conceito, conjecturas e inferir. Quando leva em conta o
cérebro e a sociedade, pode-se dizer que a psicologia cognitiva tem como efeito
naturalizar e socializar a epistemologia. b. Filosofia — o estudo de processos cognitivos
— particularmente a investigação — e seu produto (conhecimento) em termos gerais.
Amostra das problemáticas: relação entre conhecimento, verdade e crença;
conhecimento ordinário, científico e tecnológico; papel e limites da indução; estímulos
filosóficos, e os obstáculos à pesquisa; relações entre epistemologia, semântica e as
ciências sociais do conhecimento; relações entre teologia e ciência. A investigação de
alguns problemas epistemológicas exige matemática avançada, conhecimento científico
ou tecnológico. Exemplos: O que são objetos matemáticos e como é que existem? Qual
das interpretações de probabilidade é correta? Como pode a matemática, que é a priori,
desempenhar algum papel na ciência factual? Como são operacionalizadas as teorias,
isto é, preparadas para o confronto com os dados empíricos? (3)

Revolução Epistêmica. Diz-se de uma ruptura epistemológica (G. Bachelard) ou de


uma revolução científica (T. S. Kuhn) que efetua uma ruptura nítida com o
conhecimento existente. Tanto assim que a nova teoria pretende-se, seria
incomensurável (incomparável) com a velha. Essa ideia contém um grão de verdade:
uma descoberta radical e original ou invenção não tem antecedentes. Exemplos: física
dos campos, biologia molecular, economia matemática, filosofia exata. Entretanto,
mesmo tais rupturas têm raízes. Por exemplo, a física dos campos aprofundou e
estendeu teorias de ação à distância, e a biologia molecular foi o fruto das bioquímica e
da genética. Além disso, se uma ideia radicalmente nova é admitida, ela o é porque
prova ser mais verdadeira do que as anteriores acerca dos mesmos temas, ou porque
inicia um novo e fértil campo, como foram os casos da física dos campos e da física
nuclear. Mais ainda, a tradição é amiúde uma pedra de tropeço para a novidade
epistêmica. Isso vale em particular para os instrumentos formais empregados na ciência
e na tecnologia. Assim, a Revolução Científica foi consideravelmente auxiliada pelos
legados da matemática grega e da lógica medieval.

Discutivelmente diz-se que houve apenas duas revoluções científicas: o nascimento da


ciência na Antiguidade, e seu renascimento no século XVII. Em conclusão, as maiores
novidades epistêmicas tiveram mais o caráter de rupturas do que de revoluções. (3)

Ruptura. Uma descoberta ou invenção radicalmente novas. Exemplos: as invenções


das hipóteses atômicas e das provas matemáticas. Uma revolução epistêmica, como a
218

revolução científica do século XVII, é um feixe (sistema) de rupturas epistêmicas num


certo número de campos de pesquisa - nunca em todos. (3)

(1) PETERS, F. E. Termos Filosóficos Gregos: Um Léxico Histórico. Tradução Beatriz


Rodrigues Barbosa. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouse Gulbenkian, 1983.

(2) LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de


Janeiro: Verbo, 1990.

(3) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Erro
Erro. É o ato pelo qual o espírito julga verdadeiro o que é falso, e reciprocamente.

O problema da natureza do erro participa assim de todas as dificuldades da natureza da


verdade. Pergunta-se: quando conhecemos as coisas tão bem quanto o espírito humano
pode conhecê-las, as conhecemos tais como são na realidade? Uma coisa é
perguntarmos como podem saber se um juízo é falso ou verdadeiro, e outra é
perguntarmos que significa essa pergunta - a de se é falso ou verdadeiro um certo juízo.
Muitas vezes se fala em "erros dos sentidos". Mas essa maneira de dizer é defeituosa.
Os sentidos limitam-se a dar-nos aparências, e as aparências em si não são verdadeiras
nem falsas: simplesmenteexistem; o que pode ser verdadeiro ou falso é o juízo que elas
nos levaram a afirmar. (1)

= = = >>

Empirismo e Espiritismo
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. O Empirismo em Locke:
4.1. Metafísica Cartesiana; 4.2. Locke Concentra-se no Conhecimento; 4.3. Ideias Inatas. 5. O
Empirismo no Espiritismo: 5.1. Método Experimental; 5.2. A Prova da Existência dos Espíritos;
5.3. Um Exemplo. 6. Empirismo e espiritismo: 6.1. Reencarnação; 6.2. Corpo Espiritual; 6.3.
Imortalidade da Alma. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
Nosso objetivo é comparar o empirismo com os pressupostos
desenvolvidos por Allan Kardec. O ponto de partida é a filosofia
empirista de John Locke. Em seguida, alguns comentários sobre a
ciência espírita e os princípios da reencarnação e da imortalidade da
alma.
2. CONCEITO
O adjetivo empírico aplica-se ao que tem origem na experiência (por oposição
ao conhecimento racional ou a priori): como tal, sinônimo do a posteriori
kantiano. Qualifica igualmente qualquer conhecimento ou pessoa não
219

sistemáticas, que confiam na experiência imediata e até no pragmatismo. O


empirismo qualifica qualquer doutrina filosófica que admite que o
conhecimento humano deduz tanto seus princípios quanto seus objetos ou
conteúdos, da experiência. (Durozoi, 1993)
Corrente filosófica para o qual a experiência é critério ou norma de verdade,
considerando-se a palavra “experiência” no significado 2º. Em geral, essa
corrente caracteriza-se pelo seguinte: 1º) negação do caráter absoluto da
verdade ou, ao menos da verdade acessível ao homem; 2º) reconhecimento de
que toda verdade pode e deve ser posta à prova, logo eventualmente
modificada, corrigida ou abandonada. Portanto, o empirismo não se opõe à
razão a não a cega, a não ser quando a razão pretende estabelecer verdades
necessárias, que valham em absoluto, de tal forma que seria inútil ou
contraditório submetê-la a controle. (Abbagnano, 1970.)
3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Pensar o empirismo e o seu oposto (racionalismo, intelectualismo e
intuicionismo) é pensar na forma de obter conhecimento. O problema
da obtenção do conhecimento — pelos sentidos ou pelo espírito —
não é dos nossos dias; na antiguidade clássica grega ele era motivo
de debate entre os filósofos, principalmente Platão e Aristóteles.
O empirismo diz respeito à experiência. A experiência tem ligação com
o sensível. Por isso, a ciência física procura estudar as leis da matéria,
utilizando a percepção sensorial. No Espiritismo devemos fazer uso da
percepção extra-sensorial.
O Espiritismo, sendo o delta convergente de todo o estoque de
conhecimento, auxilia-nos sobremaneira a ampliar e aprofundar a
nossa visão de mundo, física, mental e espiritual.
Os princípios de reencarnação, perispírito e imortalidade da alma,
expostos pela Doutrina Espírita, facilitam a busca e a compreensão
desses conhecimentos.
4. O EMPIRISMO EM LOCKE
4.1. METAFÍSICA CARTESIANA
O empirismo inglês inicia-se com Locke. Em seu tempo, a filosofia
predominante é a cartesiana, cujo problema metafísico é resolvido
pela teoria substancialista de Descartes. Descartes expõe o seu
pensamento da seguinte forma: eu descubro o meu “eu” pelo exercício
da razão. Ao descobrir o “eu”, vejo a limitação em que me encontro.
Contudo, nessa limitação, vislumbro a ideia de Deus, que é infinita. Se
o finito chega ao infinito, não foi pelo próprio finito, mas pela influência
infinita de Deus. Daí, as três substâncias: a substância pensante
(alma), a substância extensa (o corpo) e Deus, a substância infinita
criadora. (Garcia Morente, 1970, p. 178)
4.2. LOCKE CONCENTRA-SE NO CONHECIMENTO
John Locke se depara com a triplicidade das substâncias cartesianas.
A sua metafísica, porém, concentra-se no conhecimento. Para isso,
faz as seguintes perguntas: qual é a essência, qual é a origem, qual é
220

o alcance do conhecimento humano? De acordo com o seu


pensamento, o conhecimento é composto de ideias. A partir daí
começa a definir o termo ideia, cujo significado nunca houve antes e
nem depois dele na filosofia. Para ele, cogitatio significa ideia. Para
descartes, porém, cogitatio é pensée, pensamento, e pensamento é
todo o fenômeno psíquico em geral. Nesse caso, uma sensação é
cogitatio; uma afirmação ou negação da vontade também o é. Em
suma: toda a vivência psíquica é chamada de cogitatio por Descartes.
(Garcia Morente, 1970, p. 178)
4.3. IDEIAS INATAS
Locke parte da filosofia de Descartes. Descartes falava de três tipos
de ideias: adventícias, fictícias e inatas. As ideias adventistas são as
que sobrevêm em nós postas pela presença da realidade externa; as
ideias fictícias são aquelas que por nós mesmos formamos em nossa
alma; as ideias inatas são as que constituem o acervo próprio do
espírito, da mente e da alma; são as que estão na alma sem que as
tenha posto nenhuma coisa real nem tenham sido formadas por nossa
imaginação. Seu ponto de partida foi negar essas ideias inatas.
Depois, tentou explicar como as restantes ideias se originam na
mente. Supôs, assim, que a alma fosse um papel em branco (tabula
rasa) onde tudo o mais deveria ser escrito pelas sensações da
experiência. A explicação de Locke funda-se essencialmente no
psicologismo. Para tanto, inclui a sensação e a reflexão. Locke
entende por sensação o estímulo mínimo para a modificação de algo
na mente; por reflexão, o perceber a alma aquilo que nela própria
acontece. (Garcia Morente, 1970, p. 179-180)
Observação: Berkeley e Hume dão prosseguimento às ideias sobre o
empirismo. Hume, por exemplo, dizia que toda idéia que não tiver um
correlacionado na existência real é falsa.
5. O EMPIRISMO NO ESPIRITISMO
5.1. MÉTODO EXPERIMENTAL
Allan Kardec, no capítulo I (Caráter da Revelação Espírita), de A
Gênese, discorre sobre a maneira de o Espiritismo obter
conhecimentos. Ele nos diz: “Fatos novos se apresentam, que não
podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara,
analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege:
depois, deduz-lhes as consequências e busca as aplicações úteis”. É
o procedimento das ciências naturais. A diferença: em vez de utilizar a
percepção sensorial, usa a percepção extra-sensorial. (Kardec, 1975,
cap. I, item 14)
5.2. A PROVA DA EXISTÊNCIA DOS ESPÍRITOS
O Espiritismo não teve uma teoria preconcebida sobre a existência e
comunicação dos espíritos. Foi pela observação, análise e estudo
rigoroso dos fatos que se construiu o edifício espírita. Veja o
fenômeno das mesas falantes: Qual foi a atitude de Allan Kardec?
221

Perguntou: como é que um objeto, que não tem cérebro, fala? Onde
está a causa da fala? É a aplicação da dúvida cartesiana. Somente
depois de muitas observações a esse respeito, pode elaborar uma
teoria sobre as mesas girantes. (Kardec, 1975, cap. I, item 14)
5.3. UM EXEMPLO
Passa-se no mundo dos Espíritos um fato singular: o de haver
Espíritos que se não consideram mortos. Os Espíritos superiores, que
conhecem esse fato, não vieram dizer antecipadamente: “Há espíritos
que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservam seus gostos,
costumes e instintos”. Provocaram a manifestação de Espíritos dessa
categoria para que os observássemos. Estudando as diversas
manifestações desses Espíritos, pode-se deduzir uma regra. (Kardec,
1975, cap. I, item 15)
6. EMPIRISMO E ESPIRITISMO
6.1. REENCARNAÇÃO
A lei de reencarnação, embora não seja criação espírita, é totalmente
aceita por Allan Kardec. Ela mostra-nos que o Espírito, eventualmente
num corpo carnal, já teve outras experiências, outras vivências. Daí
ser possível fazer ilações, que vão além daquelas feitas pelo
empirismo, que só aceita o aqui e o agora da experiência. Com a
reencarnação penetramos em outras memórias, as memórias
espirituais, o que nos dá ensejo de enfatizar a existência de ideias
inatas, negadas pelo empirismo.
6.2. CORPO ESPIRITUAL
No conhecimento do perispírito está a solução para inúmeros
problemas de nossa vida. Por quê? Porque o perispírito é o elo de
ligação entre o corpo físico e o Espírito propriamente dito. Ainda mais:
encarnado e desencarnado, ele sempre acompanha o Espírito. O
problema da obtenção do conhecimento — pelos sentidos ou pelo
espírito — tem aqui o seu esclarecimento: o Espírito é um todo, pois
engloba o espírito propriamente dito, o perispírito e o corpo físico.
6.3. IMORTALIDADE DA ALMA
O Espírito, criado simples e ignorante, teve um começo, mas não terá
fim. Assim, a expectativa da vida futura se resume em nos
prepararmos bem, no sentido de atingirmos a perfeição requerida. A
certeza de que há vida além da vida faz-nos ampliar o conceito de um
determinado fato (ele é presente, mas tem conexões com as vidas
passadas e as futuras). Presentemente, estamos passando por uma
experiência. Ela não está isolada, porque é reflexo de uma ação
passada, englobando as existências passadas. Pode ser também um
projétil para o futuro, e influenciando nossas futuras encarnações.
7. CONCLUSÃO
O Espiritismo, sendo a síntese do processo do conhecimento
filosófico, não só elucida o problema da origem das ideias, como
222

também nos fornece subsídios para entendermos a mecanismo das


ideias inatas, negado pelo empirismo.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de
Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.
GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4.
ed. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo.
17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1975.
São Paulo, agosto de 2010.
<< = = =

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial


Enciclopédia, [s.d. p.]

Escolasticismo
Escolasticismo. Comentário sobre alguns textos, sagrados ou profanos, importantes ou
insignificantes, antigos ou modernos, do qual não se espera a solução de qualquer
problema significativo, afora da manutenção de um emprego acadêmico — quer medieval
ou contemporâneo — estudará o que o autor X diz acerca dos pensamentos da autoridade
Y sobre o tema Z, em vez de dirigir-se diretamente a Z. O escolasticismo, que
supostamente feneceu com a emergência da filosofia moderna, domina a cena filosófica
contemporânea. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Esotérico, Exotérico
Esotérico e Exotérico. De esô, em grego dentro, daí esotérico significar o que pertence
a um círculo íntimo ou a iniciados. Nas antigas religiões e nas antigas seitas, fala-se em
conhecimentos esotéricos, que são os pertencentes apenas aos iniciados. E
conhecimentos exotéricos, que são proclamados em público. A Filosofia, na Grécia, é
exotérica, tendendo a se tornar pública. A imprensa facilitou, entre nós, que se tornasse
o conhecimento cada vez mais exotérico, e a característica da nossa cultura está em
grande parte nesse tornar público o conhecimento, isto é, em seu exoterismo, em
oposição à característica do saber egípcio e do grego, em seus primórdios que eram
acentuadamente esotéricos. (1)
223

Esotérico é o que é reservado aos iniciados ou especialistas. A palavra, tomada em si,


não é pejorativa. Mas passa a ser, legitimamente, se a iniciação mesma for reservada a
alguns, especialmente se supõe uma fé previa. É submeter o universal ao particular, a
escola à seita e o espírito ao guru. (2)

(1) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo:
Matese, 1965.

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Essência
Essência. No pensamento antigo, a essência define o fundo de uma coisa, ou seja, a sua
substância, conforme declarou Aristóteles e opunha-se a acidente, já que a essência era
imutável na identificação de um ser. Já o acidente poderia variar, conservando-se a
essência. (1)

Essência de algo é aquilo que lhe é característico e o torna o que é. Por exemplo, a
essência de um unicórnio é que ele é um cavalo com um único chifre na cabeça.
Unicórnios não existem, obviamente; então, essência não implica existência. Essa
distinção é importante na filosofia. (2)

(1) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

(2) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie


Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

Teoria dos Três Estados


Estados, Teoria dos Três. Teoria formulada por Augusto Comte (ele a chama de “lei”),
segundo a qual a humanidade teria passado, em seu processo histórico de
desenvolvimento, de uma etapa teológica (caracterizada por uma crença em poderes
sobrenaturais organizadores do universo) ao estado metafísico (no qual a crença
teológica teria sido substituída pela confiança em princípios abstratos, apreendidos
racional e aprioristicamente) para atingir, finalmente, o estado positivo ou científico, no
qual o conhecimento outra coisa não é senão a dedução da experiência. (1)

A lei dos três estados, estabelecida por Augusto Comte para explicar a evolução do
conhecimento humano, abarca três momentos:
224

1) no estado teológico, o ser humano explica os fenômenos por meio da intervenção


externa: deuses, raio, trovão... Daí o milagre, que implica o capricho dos deuses;

2) no estado metafisico, os fenômenos são explicados pelas forças abstratas da natureza;

3) no estado positivo, os fenômenos são explicados pela experimentação científica.

Na metafísica, utilizávamos o "por quê", que nos levava à busca das causas primeiras.

Na positiva, o "por quê" é substituído pelo "como", que permite constantes relações e
portanto estabelecer leis.

O estado teológico é a infância da humanidade, o estado metafisico e a adolescência e o


estado positivo é a maturidade.

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Estoicismo
Estoicismo. Apregoava a vida contemplativa acima das ocupações, das preocupações e
das emoções da vida comum. seu ideal, portanto, é de ataraxia ou apatia.

Corrente filosófica predominante na Antiguidade clássica durante mais de cinco séculos


(300 a.C. - 200 d.C.) e que sobreviveu, de vários modos, na cultura ocidental até aos
nossos dias. O nome deriva da Stoa paikile (pórtico ornado com as pinturas de
Polignoto) de Atenas, local em que Zenão, seu fundador, começou a ensinar. (1)

A doutrina estoica que retém do cinismo a ideia de que a felicidade reside na


independência com relação a qualquer circunstância exterior, é uma criação coletiva. O
antigo estoicismo tem origem com Zenão de Citium (325 - 264 a.C.), cipriota que veio a
Atenas, onde, após ter sido aluno de um filósofo cínico, ensinava sob um pórtico, daí o
nome de estoicismo ou Filosofia do pórtico.

Vivendo em harmonia com a razão, ou seja, com a natureza, o sábio estoico irá
encontrar a paz da alma (ataraxia) afastando dele tudo o que poderia perturbá-lo,
essencialmente as paixões consideradas como movimentos antinaturais, doenças da
alma. A verdade - que repousa precisamente na ausência de paixão, ou apatia - implica
um domínio comum da vontade e do julgamento para aceitar o destino mostrando-se
desapegado com relação às coisas e aos homem, como afirmou com presteza os estoicos
romanos.

A sabedoria estoica teve uma imensa influência através dos séculos: os temas saídos do
estoicismo inspiraram, além de grandes escritores - Montaigne, Corneille, A. de Vigny,
Maeterlinck -, filósofos entre os quais Descartes, Kant. Observemos finalmente que a
225

moral estoica teve uma repercussão considerável na ética cristã, inclinando-a, às vezes,
no sentido da severidade principalmente em matéria de sexualidade. (2)

Pórtico. Seita filosófica dos estoicos, cujo chefe, Zenão, ensinava debaixo de um
pórtico de Atenas. (Do lat. portico, fem. Mudou de gênero por causa da terminação). (3)

Estoicismo. Doutrina que aconselha a indiferença e o desprezo pelos males físicos e


morais, bem assim a insensibilidade perante as paixões. Para os estoicos, o mais
importante é o encontro da tranquilidade espiritual. "O primeiro imperativo ético é viver
de acordo com a natureza, isto é, conforme a razão, pois o natural é racional. A
felicidade consiste na aceitação do destino e no combate contra as forças da paixão, que
produzem intranquilidade. Resignando-se ao destino, o homem resigna-se também à
justiça, pois o mundo, sendo racional, é também justo. Mas, apesar da teoria da
resignação, muitos estoicos exerceram severa crítica social e política." (4)

(1) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993

(3) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

(4) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

Estruturalismo
Estruturalismo. O conhecimento humano, o comportamento, a cultura etc. podem ser
analisados por meio dos contrastes entre elementos inter-relacionados num sistema
conceitual. (1)

Na década de 1960, aparece uma corrente conhecida como "estruturalismo". Os autores


pertencentes a ela, mais do que propriamente compor uma escola, compartilham de um
mesmo enfoque metodológico em relação às ciências humanas" (linguística, etnologia,
história etc.). Mas isso tem também implicações filosóficas.

O modelo do estruturalismo é a linguística estrutural de Ferdinand de Saussure, que se


difundiu sobretudo na França: Claude Lévi-Strauss, que aplicou o método à
antropologia social; Jacques Lacan, à psicanálise; Louis Althusser, ao marxismo;
Roland Barthes, à crítica literária; finalmente, Michel Foucault, com interesses mais
especificamente filosóficos.

A partir dessa visão estruturalista da linguagem, foi tomando corpo a ideia de que todas
as ciências giram em torno da linguística, visto que tudo o que constitui o propriamente
226

humano ocorre dentro dos limites da linguagem. O estruturalismo se insere, portanto, na


consciência linguística que caracteriza o pensamento contemporâneo.

O conceito de estrutura

O estruturalismo realiza uma aplicação de princípios gerais da linguística, tal como


Ferdinand de Saussure (1857-1913) os tinha formulado. Ele distinguia entre língua e
fala. A fala se refere ao uso concreto que cada falante faz da língua. A língua é o
sistema de signos impessoal, anterior à fala e do qual ela constitui uma determinada
realização.

O sistema de signos da língua forma uma estrutura: os elementos do sistema só


adquirem sentido pelas relações que mantêm entre si - não pelo que são em si mesmos,
mas pela posição que ocupam em relação ao conjunto.

O conceito de "estrutura" se aplica à totalidade do conjunto de elementos e de suas


relações, de maneira que a mudança de qualquer um deles introduz uma transformação
em todos os outros. A estrutura não é uma realidade empiricamente observável, mas um
modelo teórico-explicativo, aplicável onde exista um conjunto, e que atende
fundamentalmente às relações das partes dentro do todo, uma vez que são elas que o
determinam.

Implicações filosóficas do estruturalismo

Embora se trata sobretudo de um método, o estruturalismo estabelece uma mudança em


certas concepções filosóficas vigentes na ocasião de seu aparecimento. Em primeiro
lugar, seu anti-humanismo epistemológico que, nas palavras de Foucault e numa alusão
à nietzschiana "morte de Deus", podemos expressar como "a morte do homem". Esta
ocorre diante da descoberta da prioridade universal (estrutura) sobre o individual (o
homem)

Em segundo lugar, o desaparecimento do sujeito. As regras que determinam a estrutura


são supra-individuais e inconscientes: não são regras do sujeito, regras que partam dele
ou nele se fixem, mas são regras nas quais os sujeitos se inserem. O sujeito humano
acaba dissolvido em favor de algumas estruturas, que são as que realmente explicam os
fenômenos culturais e sociais. Essas estruturas têm caráter linguístico, entendendo-se
por "linguagem" o código de comunicação. No estruturalismo, rompe-se, portanto, com
a tradição ocidental que Descartes inaugura em seu cogito: a tradição do sujeito,
entendido aqui como ponto de referência último. Finalmente, seu anti-historicismo. As
estruturas são a-históricas, sem sujeito, sentido ou finalidade. Não existem mudanças
nelas, mas a substituição de umas por outras num processo descontínuo. O
estruturalismo estuda mais o estado do sistema (perspectiva sincrônica) do que as
mudanças que nele se dão (perspectiva diacrônica).
227

O estruturalismo psicanalítico de Lacan

Lacan (1901-1981) aplica o método estruturalista à psicanálise com a intenção de dotá-


la de um estatuto científico. Sua tese fundamental é a de que o inconsciente está
estruturado como uma linguagem: a psicanálise deve analisar o inconsciente de acordo
com o modelo da linguística estrutural.

Lacan assume a famosa diferenciação saussuriana entre significado (o conceito) e


significante (sua imagem fonética), mas a reformula de uma nova maneira. Para
Saussure, significante e significado se correspondem, são duas faces da mesma moeda.
Em Lacan, e no estruturalismo em geral, o significante precede o significado: o código
precede a mensagem e a condiciona. Não existe linguagem para expressá-la: é a
linguagem que determina algumas possibilidades e demarca alguns limites para a
expressão da experiência . Não existe um sujeito ou um eu que se revele na linguagem,
que seja a origem absoluta do sentido daquilo que expressa.

O sujeito, segundo Lacan, encontra-se dividido em dois níveis: o consciente (a cultura)


e o inconsciente (o desejo). Cada um deles está organizado como uma linguagem, e
mantêm também entre si relações estruturais. O sujeito não se identifica simplesmente
com a consciência, pois o inconsciente também é sujeito: essa é a cisão ou
descentramento do sujeito. Na linha dos outros estruturalistas, isto representa um claro
ataque às velhas formas de subjetividade.

Foucault

A atividade filosófica de Foucault (1926-1984) pode ser considerada mais precisamente


como pós-estruturalista. Ao longo de sua obra, Foucault foi mudando o objeto de seu
interesse: primeiro foi o saber, mais tarde o poder e, por último, as formas de
subjetivação.

Em relação ao saber, ele afirma que em cada época aparecem algumas estruturas
epistêmicas (epistemes) que determinam, de forma oculta, o que pode ser pensado e o
que pode ser dito. A arqueologia do saber mostra uma sucessão descritiva de epistemes.
Nesses quadro, Foucault analisou diferentes discursos científicos de uma época para
descobrir neles as condições epistêmicas que os tornam possíveis. Em relação ao poder,
Foucault não se interessa por sua forma jurídica ou institucional, quer dizer, não vê o
poder como uma entidade que rejeita ou proíbe, mas como uma rede de relações nas
quais o homem se acha inserido. Na verdade, o poder funciona nas múltiplas instâncias
que articulam a sociedade: onde existe relação, existe poder. Mas as formas de exercer o
poder variam nas diferentes épocas.

O tema que o ocupou no fim da vida foi o do modo pelo qual nos constituímos como
sujeitos: que mecanismos intervêm na produção dos sujeitos. O sujeito não é algo dado,
mas o resultado de uma relação de forças. (2)
228

(1) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

(2) TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.

Eternidade
Eternidade. Define-se naturalmente a eternidade como a duração indefinida, um tempo
linear ou às vezes cíclico (Eterno Retorno) sem começo nem fim. Ora, essa definição
que se refere à "sempiternidade" do Universo, opõe-se àquela, mais filosófica, que
assimila a eternidade à intemporalidade, ao que é subtraído do devir. Nesse sentido,
Platão diz que o tempo não passa da "imagem móvel da eternidade imóvel" (Timeu).

Não existe experiência humana diante da eternidade, embora o sábio spinozista pretenda
nele experimentá-lo pela razão. A fenomenologia contemporânea tenta reencontrar a
imagem da eternidade pelo tempo vivido num "eterno presente" (Lavelle) cujas três
modalidades para a consciência seriam o "presente do passado, o presente do presente e
o presente do futuro". O estruturalismo, por sua vez, aborda a eternidade à sua maneira
privilegiando a sincronia ao invés da diacronia. (1)

Eternidade. a. Teologia - Intemporal, fora do tempo. b. Ciência e ontologia - Duração


indefinida. Um dos velhos problemas da cosmologia é averiguar se o universo é eterno
ou teve um começo e terá um fim. A física moderna, da qual a cosmologia é apenas um
capítulo, aponta para a eternidade do universo, se não por outro motivo, ao menos por
causa das muitas leis de conservação. (2)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Eterno Retorno
Eterno Retorno. Espécie de mito introduzido na filosofia por Nietzsche que descrevera
a "condição humana", revigorando uma ideia esboçada por certos pitagóricos, admitida
pelos estoicos e certos neoplatônicos, sob uma forma astrológica, para designar a
doutrina no movimento cíclico absoluto e infinitamente repetido de todas as coisas. Em
Assim Falou Zaratustra (1883-85), ele retoma a ideia de Heráclito do devir, segundo a
qual tudo flui, tudo muda, tudo retorna, e declara: tudo passa e tudo retorna,
eternamente gira a roda do ser. Em Ecce Homo (1888), tem sua primeira intuição, quase
mística, do eterno retorno: se o tempo não é linear, não faz sentido a distinção entre o
229

"antes" e o "depois". Se tudo retorna eternamente, o futuro já é um passado; e o presente


é tão passado quanto o futuro. (1)

Teoria pitagórica e estoica segundo a qual as coisas voltam exatamente semelhantes ao


que foram após um período de vários milhares de anos (o Grande Ano). Essa
periodicidade do estado do Mundo será admitida ulteriormente a título de mito poético
por vários autores, mas é com Nietzsche que encontra um novo vigor, principalmente
por sua dimensão moral e porque constituirá o equivalente de um salto na eternidade ou
na imortalidade compatível com, simultaneamente, o pessimismo com relação ao
mundo contemporâneo e a espera do super-homem. (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Ética
Ética. Do gr. ethos significa originalmente morada, seja o habitat dos animais, seja a
morada do homem, lugar onde ele se sente acolhido e abrigado. O segundo sentido,
proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista
metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se
habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é
dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído. (1)

= = = >>

Ética e Responsabilidade
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico: 3.1. Antigüidade; 3.2. Idade Média; 3.3. Idade
Moderna. 4. Ética e Moral. 5. Autodeterminação e Responsabilidade. 6. Comportamento Ético. 7.
Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é refletir sobre a ética e a responsabilidade, no sentido de


motivar as nossas ações para a prática do bem. Assim, analisaremos o problema do
comportamento ético-moral e a autodeterminação do indivíduo dentro da sociedade.

2. CONCEITO

Ética - do gr. ethos significa originalmente morada, seja o habitat dos animais, seja a
morada do homem, lugar onde ele se sente acolhido e abrigado. O segundo sentido,
proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista
230

metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se


habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é
dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído. (Nogueira,
1989)

Responsabilidade - do lat. responsabilitas, de respondere = responder, estar em


condições de responder pelos atos praticados, de justificar as razões das próprias ações.
De direito, todo o homem é responsável. Toda a sociedade é organizada numa
hierarquia de autoridade, na qual cada um é responsável perante uma autoridade
superior. Quando o homem infringe uma de suas responsabilidades cívicas, deve
responder pelo seu ato perante a justiça. (Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo)

Responsabilidade moral. Filos. 1. Situação de um agente consciente com relação aos


atos que ele pratica voluntariamente. 2. Obrigação de reparar o mal que se causou aos
outros. (Dicionário Aurélio)

3. HISTÓRICO

3.1. ANTIGUIDADE

Desde que o homem teve de viver em conjunto com outros homens, as normas de
comportamento moral têm sido necessárias para o bem estar do grupo. Muitas destas
normas eram extraídas das religiões existentes, que cheias de dogmas e tabus impunham
uma dose de irracionalidade ao valor moral. Mesmo entre os chineses, que não
possuíam uma religião organizada, havia muitas normas esotéricas de comportamento
ético.

A especulação exotérica começa somente com o pensamento grego. Sócrates, Platão e


Aristóteles são os seus principais representantes. Sócrates dizia que a virtude é
conhecimento; e o vício, é o resultado da ignorância. Então, de acordo com Sócrates,
somente a educação pode tornar o homem moralizado. Platão estabelece que a vida ética
é gradativamente mais elevada pela adequação desta às idéias (eide) superiores,
análogas à forma do bem. Aristóteles deu à ética bases seguras. Dizia que o fim do
homem é a felicidade temporal da vida de conformidade com a razão, e que a virtude é
o caminho dessa felicidade, e esta implica, fundamentalmente, a liberdade.

3.2. IDADE MÉDIA

Na Idade Média, os valores éticos são condicionados pela religião cristã,


especificamente o Catolicismo. A Patrística e a Escolástica são os seus representantes.
Nesse período, dá-se ênfase à revelação dos livros sagrados. O Pai, o Filho e o Espírito
Santo determinam as normas de conduta. Jesus, que é filho e Deus ao mesmo tempo,
torna-se o grande arauto de uma nova ética, a ética do amor ao próximo. Porém, essa
ética é conspurcada pelos juízos de valores de seus representantes, que distorcem a
pureza do cristianismo primitivo.

As exortações católicas mantiveram-se por longos anos. Contudo, no século XVI


começou a sofrer a pressão do Protestantismo, ou seja, a reação de algumas Igrejas às
determinações da Igreja de Roma. Para os protestantes, a ética não é baseada na
revelação, mas nos valores éticos, examinados e procurados de per si. A revelação
231

religiosa pertence à religião. O filósofo ético deve procurar os fundamentos ontológicos


dessa disciplina, tão longe quanto lhe seja possível alcançar.

3.3. IDADE MODERNA

Kant, o quebra tudo, surge nesse contexto. Para Kant a Ética é autônoma e não
heterônoma, isto é, a lei é ditada pela própria consciência moral e não por qualquer
instância alheia ao Eu. Como vemos, Kant dá prosseguimento à construção da própria
moral. Não espera algo de fora. Aquilo que o homem procura está dentro dele mesmo.
Muitos são os filósofos que seguiram Kant. Depois destes, surgem Scheller (1874-1928)
, Müller, Ortega y Gasset etc., que penetram na ética axiológica, ou seja, estuda a ética
do ângulo dos valores. (Santos, 1965)

4. ÉTICA E MORAL

Ética - do grego ethos significa comportamento; Moral - do latim mores, costumes.


Embora utilizamos os dois termos para expressarmos as noções do bem e do mal,
convém fazermos uma distinção: a Moral é normativa, enquanto a Ética é
especulativa. A Moral, referindo-se aos costumes dos povos nas diversas épocas, é
mais abrangente; a Ética, procurando o nexo entre os meios e os fins dos referidos
costumes, é mais específica. Pode-se dizer, que a Ética é a ciência da Moral.

Ética e Moral distinguem-se, essencialmente, pela especulação da Lei. A Ética, refere-se


à norma invariante; a Moral, à variante. Contudo, há uma relação entre ambas, pois a
sistematização da segunda tem íntima relação com a primeira.

O caráter invariante da Lei possibilita-nos questionar: de onde veio? Quem a ditou?


Por que? Com que fim? A resposta dos transcendentalistas é que ela é heterônoma,
isto é, veio de fora do "eu". Deus seria o autor da norma. Liga-se, assim, Filosofia e
Religião. Para os cristãos, as normas éticas estão centradas nos Dez Mandamentos; a
resposta dos imanentistas é que ela é autônoma, isto é, surge das tensões das
circunstâncias. (Santos, 1965)

5. AUTODETERMINAÇÃO E RESPONSABILIDADE

A autodeterminação expressa a essência do ser. É o poder que temos de atualizar nossas


virtualidades. O pensamento científico auxilia, mas são os aspectos psicológicos,
ideológicos, religiosos e filosóficos que emprestam o maior peso à nossa deliberação na
vida. As virtualidades podem ser ativas e passivas. Se ativas, já estão determinadas de
uma forma; se inativas, sabemos que estão em ato sob uma forma, mas que podem ser
assumidas de outra forma, isto é, que são especificamente diferentes do que podem ser.

A ação humana, embora restrita à responsabilidade pessoal, tem como objetivo o


interesse público. A vivência, semelhante à do eremita no deserto, é uma exceção. A
questão ética diz respeito ao auxílio que cada um possa exercer na transcendência do
outro. Em realidade, é a criação de condições para que o outro realize plenamente o seu
projeto de vida ao qual foi destinado.

O princípio da autodeterminação moral é a base do comportamento ético adulto. Deixar-


se guiar-se pelas máximas alheias é perder o eu em si mesmo. Segundo Sócrates, o
232

ethos verdadeiro é agir de acordo com a razão, que se eleva acima do consenso da
opinião da multidão, para atingir o nível da objetividade própria do saber
demonstrativo. A autonomia, assim, não se realiza na solidão, mas se consolida pelo
contato entre os seres humanos.

A lei é o farol da ética. Sua origem etimológica encontra-se no termo nomos de que o
vocábulo lei (lex) é a tradução latina. Nomos vem do verbo nemo que significa dividir,
repartir com outro, sugerindo a idéia de justiça. Dessa forma, as ações individuais no
cumprimento dos deveres, devem salvaguardar a liberdade própria e a do outro. Por
isso, Voltaire afirma com veemência: "Não concordo com o que você diz, mas
defenderei o direito de você dizê-lo até o fim". (Nogueira, 1989)

6. COMPORTAMENTO ÉTICO

A reflexão sobre o ethos leva-nos à prática do amor. O verdadeiro exercício do amor


longe está das proibições e interdições de que a moral propõe. É uma autodeterminação
que envolve a autonomia da vontade na busca da atualização do ser. Assim, não é agir
de qualquer jeito, mas de forma ordenada, generosa, que promova a pessoa e os direitos
do outro, sobretudo quando esses direitos são espezinhados.

O comportamento ético não consiste exclusivamente em fazer o bem a outrem, mas em


exemplificar em si mesmo o aprendizado recebido. É o exercício da paciência em todos
os momentos da vida, a tolerância para com as faltas alheias, a obediência aos
superiores em uma hierarquia, o silêncio ante uma ofensa recebida.

7. CONCLUSÃO

A Ética, a Moral e a Responsabilidade determinam a perfeição do ser. Acostumados a


confundir os meios com os fins, não conseguimos visualizar claramente o fim último da
existência humana. Por isso, o erro crasso de conceber a Moral como um mero e
fastidioso catálogo de proibições. O fim do homem é, pois, o de realizar, pelo exercício
de sua liberdade, a perfeição de sua natureza. Implica, muitas vezes, a obediência à
vontade de Deus, contrariando a própria, se assim delimitar, o dever, imposto pela sua
consciência.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro, M.E.C., 1967.
FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s/d/p.
NOGUEIRA, J. C. Ética e Responsabilidade Pessoal. In MORAIS, R. de. Filosofia, Educação e
Sociedade (Ensaios Filosóficos). Campinas, SP, Papirus, 1989.
SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.
São Paulo, maio de 1999
<< = = =

Ética analítica. É o ramo da ética filosófica ou geral que explora a natureza da


moralidade em si. (2)

Ética cristã. Estudo de como os homens devem viver do modo como foi informado
pela Bíblia, pela tradição cristã e pelas convicções religiosas. (2)
233

Ética da Reforma. Na fundação da ética da Reforma se acha o ensinamento de que os


homens são incapazes de agradar a Deus a não ser pela graça divina concedida em
Cristo, e de que a vida ética aflora do trabalho de regeneração do Espírito Santo. (2)

Ética deontológica. O método de raciocínio moral que afirma que a propriedade moral
de um ato reside tão-somente no ato, estando de algum modo ligado ao que é intrínseco
ao próprio ato, e não depende da intenção nem do motivo do que age. (2)

Ética dialética. Qualquer filosofia ética cujos princípios para a interpretação da vida
moral indicam os elementos conflitantes que devem ser mantidos em tensão. O núcleo
da ética dialética jaz no paradoxo entre a afirmação e a contra-afirmação. Exemplo:
determinismo e livre-arbítrio. (2)

Ética do Antigo Testamento.

Ética do fazer.

Ética do Novo Testamento.

Ética do ser.

Ética do trabalho.

Ética evangélica.

Ética existencialista.

Ética feminista. Reflexão ou teorização ética que situa suas suposições básicas no
pensamento feminista contemporâneo. (2)

Ética institucional. Exploração da compreensão normativa de como as instituições são


estruturas e dirigentes. (2)

Ética na informática.

Ética na propaganda.

Ética psicológica. O estudo de como as capacidades morais se desenvolvem na pessoa


e de como o conhecimento científico a respeito da psique humana informa juízos sobre
o correto e o bem. (2)

Ética tecnológica. O estudo das implicações da tecnologia em geral ou das tecnologias


específicas para o comportamento moral, bem como a aplicação dos princípios morais
ao uso da tecnologia. (2)

Ética teleológica. Uma abordagem do raciocínio moral, algumas vezes conhecido como
consequencialismo, que afirma que a correção ou a impropriedade de um ato é
determinada por seu resultado, isto é, pela qualidade de bem que produz ou pelo mal
que evita. Assim em qualquer situação o agente moral deve perguntar qual ação
produzirá o melhor equilíbrio possível do bem sobre o mal. (2)
234

Ética do Meio Ambiente. Em geral, a ética lida com os problemas suscitados pelos
desejos e necessidades humanos: a obtenção de felicidade ou a distribuição de bens.
Quando se pensa especificamente acerca do meio ambiente, o problema central consiste
na atribuição de valor independente a coisas como a preservação das espécies ou a
proteção da vida selvagem. Essa proteção pode ser defendida como um meio para
garantir as necessidades humanas básicas, encarando os animais, por exemplo, como
uma fonte futura de medicamentos ou de outros benefícios. No entanto, muitos filósofos
desejariam reivindicar um valor absoluto e não utilitarista para a existência de locais e
seres selvagens; seu valor é precisamente sua independência em relação à vida humana:
"eles nos reduzem à nossa importância relativa". Não conseguir apreciar isso não é
apenas uma incapacidade estética, mas também uma falta de humildade e respeito: é
uma incapacidade moral. O problema consiste em conseguir exprimir esse valor e usá-lo
contra os argumentos utilitaristas que defendem a urbanização de áreas naturais e a
exterminação das espécies de forma um tanto arbitrária. (3)

(1) NOGUEIRA, J. C. Ética e Responsabilidade Pessoal. In MORAIS, R. de. Filosofia,


Educação e Sociedade (Ensaios Filosóficos). Campinas, SP, Papirus, 1989.

(2) GRENZ, Stanley J. e Smith, Jay T. Dicionário de Ética: mais de 300 Termos e
Ideias Definidos de Forma Clara e Concisa. Tradução de Alípio Correio de Franca Neto,
Glasfira Antas, Sandra Maia Franca. São Paulo: Editora Vida, 2005

(3) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Eudemonismo
Eudemonismo. Do grego eudaimonia, felicidade. Doutrina moral segundo a qual o fim
das ações humanas (individuais e coletivas) consiste na busca da felicidade através do
exercício da virtude, a única a nos conduzir ao soberano bem, por conseguinte, à
felicidade. É essa identificação do soberano bem com a felicidade que faz da moral de
Aristóteles um eudemonismo; também a moral provisória de Descartes pode ser
entendida como um eudemonismo (que não se deve confundir com hedonismo). (1)

Eudemonismo. Qualquer doutrina que assuma a felicidade como princípio e


fundamento da vida moral. São eudemonistas, nesse sentido, a ética de Aristóteles, a
ética dos estoicos e dos neoplatônicos, a ética do empirismo inglês e do iluminismo.
Kant acredita que o eudemonismo seja o ponto de vista do egoísmo moral, ou seja, da
doutrina "de quem restringe todos os fins a si mesmo e nada vê de útil fora do que lhe
interessa" (Antr., I, § 2). Mas esse conceito de eudemonismo é demasiado restrito, pois
235

o mundo moderno, a partir de Hume, a noção de felicidade tem significado social, não
coincidindo portanto com egoísmo ou egocentrismo. (2)

Eudemonismo. Literalmente, 'eudemonismo' significa "posse de um bom demônio", ou


seja, gozo ou fruição de um modo de ser mediante o qual se alcançará a prosperidade e a
felicidade. Filosoficamente, entende-se por 'eudemonismo' toda tendência ética segundo
a qual a felicidade é o sumo bem.

A felicidade pode ser entendida de muitas maneiras: pode consistir em "bem-estar", em


"prazer", em "atividade contemplativa" etc. Em todo caso, trata-se de um "bem" e
frequentemente também de uma "finalidade". É costume, desde Kant, chamar esse tipo
de ética de "ética material", por oposição à "ética formal, elaborada e defendida por
Kant. Na medida em que identifica o bem com a felicidade ou, melhor, na medida em
que se considera o bem almejado, pode-se dizer que todas as éticas materiais são
eudemonistas.

Em vista disso podem ser considerados eudemonistas todos os "princípios materiais"


práticos a que se refere Kant na Critica da razão prática. Esses princípios são de duas
causas: subjetivos e objetivos. Os princípios subjetivos podem ser externos (da
educação, como em Montaigne; da constituição civil, como em Bernard de Mandeville),
ou internos (do sentimento de caráter físico, como em Epicuro; do sentimento moral,
como em Hutcheson). Os princípios objetivos também podem ser externos (da vontade
de Deus, como em Crusius e outras morais teológicas) ou internos (da perfeição, como
em Wolff e nos estoicos).

Característico do eudemonismo é considerar que não pode haver incompatibilidade


entre a felicidade e o bem. Os que se opõem ao eudemonismo, em contrapartida,
admitem que a felicidade e o bem podem coincidir, mas não coincidem
necessariamente. Para o eudemonismo, a felicidade é o prêmio da virtude e, em geral,
da ação moral. Para o antieudemonismo, por outro lado, a virtude vale por si mesma,
independentemente da felicidade que pode produzir. (3)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(3) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

Evangelho
Evangelho. Do latim eclesiástico evangelium,ii. 1. A boa-nova de Cristo, a doutrina
cristã (inicial maiúscula). 2. Cada um ou o conjunto dos quatro livros dos apóstolos
Mateus, Marcos, Lucas e João, incluídos no Novo Testamento, que narram
especialmente a vida, a doutrina e a morte de Cristo (inicial maiúscula). 3. Cada um dos
236

27 livros do Novo Testamento que anunciam o Reino de Deus. 4. Leitura proclamada


pelo padre na missa (inicial maiúscula). (1)

O uso freqüente de uma palavra pode provocar, com o tempo, a perda do seu significado
original. Isto aconteceu com muitos de nós que dizemos e ouvimos pronunciar tantas
vezes o termo "Evangelho". De acordo com Battaglia, em Introdução aos Evangelhos, o
primeiro significado lembrado pelo som desta palavra é o de um livro, um dos quatro
que foram legados pela era apostólica e que contém a vida e a doutrina de Jesus. A
palavra "Evangelho" suscita em muitos cristãos uma vaga idéia de respeito e solenidade
ligada à liturgia da Missa dominical, quando o som deste termo faz-nos ficar todos de
pé para ouvi-lo devota e respeitosamente. Mas normalmente, tudo pára aí. Evangelho é
a tradução portuguesa da palavra grega Euangelion que foi notavelmente enriquecida de
significados. Para os gregos mais antigos ela indicava a "gorjeta" que era dada a quem
trazia uma boa notícia. Mais tarde passou a significar uma "boa-nova", segundo a exata
etimologia do termo. Falava-se de "evangelho", nas cidades gregas, quando ecoava a
notícia de uma vitória militar, quando os arautos noticiavam o nascimento de um rei ou
de um imperador. Ao termo estava unida a ideia de festa com cânticos, luzes e
cerimônias festivas. Era, em suma, o anúncio da alegria, porque continha uma certeza
de bem-estar, de paz e salvação. (2)

Evangelho (évangile). Do grego euaggélion, bom mensageiro, o que traz uma boa
nova. Com maiúscula e eventualmente no plural, é o nome dado aos quatro livros que
narram a vida e o ensinamento de Jesus Cristo. Voltaire lembra que foram "fabricados
cerca de um século depois de Jesus Cristo" e que há vários outros, ditos apócrifos, que
mereceriam igual interesse. Isso confirma a singularidade dessa história. Mesmo que
não passasse de um romance, o que não creio, e embora às vezes seja um bocado chato,
esse romance nem assim deixaria de ser, de todos os livros da humanidade, um dos mais
esclarecedores. Porque nos fala de Deus? Não. Porque nos fala de nós mesmos. Por
causa da ressurreição do seu personagem principal? Também não. Por sua vida.

Se deixarmos de lado a incrível exploração que se fará deles, os Evangelhos são o relato
de uma existência e o retrato, ainda que aproximado, de um indivíduo. Seria um erro
abandoná-los às Igrejas. Jesus, para mim, não é um profeta - não creio nos profetas -,
ainda menos o Messias ou Deus. Era um homem, aliás ele próprio nunca pretendeu ser
outra coisa. É por isso que ele me interessa. É por isso que ele me comove. Pela
simplicidade. Pela fragilidade. Pela idade nua. Quem pode imaginar, lendo os
Evangelhos, que esse homem possa ter se tomado por Deus? Por seu filho? Todos nós
somos, já que esse Deus, de acordo com a própria prece que Jesus nos deixou, seria
Nosso Pai... Em outras palavras, Jesus, tal como o vejo, tal como creio compreendê-lo
ao ler os Evangelhos, nunca foi cristão. Por que seríamos? Era um judeu piedoso. Era
um homem cheio de sabedoria e de amor. A única maneira de lhe ver verdadeiramente
fiel, para os que não são nem judeus nem crentes, é ser um pouco mais sábios, um
pouco mais amantes, um pouco mais humanos e, para tanto, antes de mais nada,
respeitar a justiça e a caridade, que são toda a lei. É o que Espinosa chamava de
"espirito de Cristo", que é o espírito tout court e a principal mensagem dos Evangelhos.
(3)
237

Evangelho Eterno. Lat. Evangelium aeternum. Orígenes empregou essa expressão para
designar a revelação das verdades superiores que Deus faz aos sábios em todas as
épocas do mundo, capaz de integrar e corrigir a revelação contida no Evangelho
Histórico. (4)

= = = >>

Evangelho e Espiritismo
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO:1-Introdução. 2-Conceito. 3-Conotações do Termo Evangelho. 4- Contexto Histórico do
Evangelho: 4.1-Ambiente Político-Religioso; 4.2-O Judaísmo Palestinense no Tempo de Cristo; 4.3-De
Cristo a Kardec. 5- Kardec e o Evangelho Segundo o Espiritismo. 6-Evangelho e Educação. 7-Conclusão.
8-Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo central deste estudo é enaltecer os esforços constantes de evangelização das


criaturas. Para que possamos atingir tal desideratum, preparamos o seguinte roteiro:
conceito, conotações do termo "Evangelho", Evangelho no contexto histórico, o
Evangelho Segundo o Espiritismo e Evangelho e Educação.

2. CONCEITO

O uso freqüente de uma palavra pode provocar, com o tempo, a perda do seu significado
original. Isto aconteceu com muitos de nós que dizemos e ouvimos pronunciar tantas
vezes o termo "Evangelho".

De acordo com Battaglia em Introdução aos Evangelhos, o primeiro significado


lembrado pelo som desta palavra é o de um livro, um dos quatro que foram legados pela
era apostólica e que contém a vida e a doutrina de Jesus. A palavra "Evangelho" suscita
em muitos cristãos uma vaga idéia de respeito e solenidade ligada à liturgia da Missa
dominical, quando o som deste termo faz-nos ficar todos de pé para ouvi-lo devota e
respeitosamente. Mas normalmente, tudo pára aí.

Evangelho é a tradução portuguesa da palavra grega Euangelion que foi notavelmente


enriquecida de significados. Para os gregos mais antigos ela indicava a "gorjeta" que era
dada a quem trazia uma boa notícia. Mais tarde passou a significar uma "boa-nova",
segundo a exata etimologia do termo.

Falava-se de "evangelho", nas cidades gregas, quando ecoava a notícia de uma vitória
militar, quando os arautos noticiavam o nascimento de um rei ou de um imperador. Ao
termo estava unida a idéia de festa com cânticos, luzes e cerimônias festivas. Era, em
suma, o anúncio da alegria, porque continha uma certeza de bem-estar, de paz e
salvação. (1984, p. 19 e 20)

3. CONOTAÇÕES DO TERMO "EVANGELHO"

O Evangelho de Jesus - Deus, no Velho Testamento, havia comunicado os seus


anúncios de alegria aos patriarcas, a Moisés e aos profetas do seu povo; no Novo
238

Testamento, dá o maior dos "anúncios", o anúncio de Jesus. Jesus não é só conteúdo do


anúncio, mas é também o primeiro portador e arauto. Ele apresenta a si mesmo e a sua
obra como o "Evangelho de Deus", isto é, a "boa-nova" que Deus envia ao mundo que
espera. (Battaglia, 1984, p. 21 e 22)

O Evangelho dos Apóstolos - Desde o momento da ascensão de Jesus, a palavra


"Evangelho" designou a pregação oral dos apóstolos, pregação que tinha como
argumento a pessoa e atividade de seu Mestre divino. (Battaglia, 1984, p. 23)

Os Quatro Evangelhos - Desde os primeiros anos do cristianismo preferiu-se falar de


"Evangelho", no singular, também quando se referia aos livros. isto porque os escritos
dos apóstolos traziam todos o mesmo e idêntico "alegre anúncio" proclamado por Jesus
e difundido oralmente. Quando se desejou, porém, indicar de maneira específica cada
um dos quatro livros, encontrou-se uma fórmula particularmente eficaz e significativa:
"Evangelho Segundo Lucas", "Evangelho Segundo Mateus", "Evangelho Segundo
Marcos" e "Evangelho Segundo João". Desse momento em diante, o singular e o plural
se alternam para indicar, um a identidade do anúncio, o outro a diversidade de forma e
redação. Ficará, porém, sempre viva a convicção de que o Evangelho é um só: o alegre
anúncio de Jesus. (Battaglia, 1984, p. 25 e 26)

O Quinto Evangelho - Os Atos dos Apóstolos e as Cartas Apostólicas dispostos


cronologicamente formariam um quinto evangelho. O Nascimento de Jesus, por
exemplo, poderia ser encontrado em Gl 4,4; Rm 1,4; At 3, 18-24; At 1,14. Sua atividade
missionária em At 10,36; At 2,22; At 1,13; At 1, 21-22; 2 Pd 1, 16-18; 1 Jo 1, 1-3. Este
mesmo exercício poderia ser feito com relação às condições de sua vida, o início da vida
pública, a última ceia, a traição de Judas etc. (Battaglia, 1984, p. 32 a 36)

Evangelhos Apócrifos - Muitas informações acerca de Jesus estão arroladas nos


evangelhos apócrifos (escondidos) e nas ágrafas (ensino oral).

4. CONTEXTO HISTÓRICO DO EVANGELHO

4.1. AMBIENTE POLÍTICO-RELIGIOSO

O povo judeu, ao qual Jesus e os apóstolos pertenciam fazia parte do grande império
romano que estendia as asas das suas águias do Atlântico ao Índico. O jugo romano,
porém, pesava de modo especial sobre a Palestina ao contrário dos outros povos. O
poder político-religioso na Palestina, naquela época, era exercido pelo procurador
romano, pelo sumo sacerdote e pelo senado judeu.

O procurador romano era sobretudo um chefe militar, encarregado de vigiar, com


3.000 homens à sua disposição. Competia-lhe cobrar os tributos a serem enviados ao
erário imperial. Administrava a justiça só nos casos em que era prevista a pena de
morte, pena que o tribunal ordinário do sinédrio, ou os tribunais locais das várias
regiões e cidades não podiam executar. Por esse motivo Jesus, embora tivesse sido
condenado à morte pelo sinédrio, teve de comparecer diante de Pilatos para responder
por delito capital.

O sumo sacerdote era assistido, no governo político e religioso da nação, por uma
espécie de senado judeu, o sinédrio.
239

Pertenciam ao sinédrio três categorias de pessoas:


- "príncipes dos sacerdotes" (chefes das famílias e das classes sacerdotais e os sumos
sacerdotes depostos do cargo)
- "anciãos" (membros das famílias nobres e ricas de Jerusalém).
- "escribas" ou "doutores da lei" (mestres judeus peritos na Lei e na tradição). Todos
esses membros pertenciam às duas seitas principais do judaísmo: a dos saduceus e a dos
fariseus. (Battaglia, 1984, p. 105 a 107)

4.2. O JUDAÍSMO PALESTINENSE NO TEMPO DE CRISTO

O ambiente histórico-religioso em que o Evangelho nasceu é o do judaísmo formado e


alimentado pelos livros sacros do Antigo Testamento, condicionado pelos
acontecimentos históricos, pelas instituições nas quais se encontrou inserido e pelas
correntes religiosas que o especificaram.

Embora o cristianismo seja uma religião revelada, diferente da judaica, apareceu


historicamente como continuação e aperfeiçoamento da revelação dada por Deus ao
povo de Israel. Jesus era um judeu, que nasceu e viveu na Palestina. Os apóstolos eram
todos da sua gente e da sua religião.

Por isso, nos Evangelhos encontramos descrições, alusões e referências a pessoas,


instituições, idéias e práticas religiosas do ambiente judaico, frente às quais Jesus e os
apóstolos tomaram posição, aceitando-as ou rejeitando-as. (Battaglia, 1984, p. 118)

4.3. DE CRISTO A KARDEC

A divulgação do Evangelho, desde as suas primeiras manifestações, não foi tarefa fácil.
A começar pela construção desses conhecimentos - realizada sob um clima de opressão
-, pois o jugo romano, como vimos anteriormente, pesava de maneira especial sobre a
Palestina. As mortes dos primeiros cristãos, nos circos romanos, ainda ecoa de maneira
indelével em nossos ouvidos. Além disso, tivemos que assistir à ingerência política em
muitas questões de conteúdo estritamente religioso. Fomos desfigurando o Cristianismo
do Cristo para aceitarmos o Cristianismo dos vigários, como disse o Padre Alta. A fé, o
principal alimento da alma, torna-se dogmática nas mãos de políticos e religiosos
inescrupulosos. Para ganhar os céus, tínhamos que confessar as nossas culpas, pagar as
indulgências e obedecermos aos inúmeros dogmas criados pela Igreja. É dentro desse
quadro de fé dogmática que surge o Espiritismo, dando à fé uma direção racional, no
sentido de iluminar a vida espiritual de toda a humanidade.

5. KARDEC E O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

O Evangelho Segundo o Espiritismo é o 3.º Livro da Codificação. O Livro dos Espíritos


surgiu em 18/04/1857, seguido pelo O Livro dos Médiuns, em 1861. Somente em 1864
Kardec publicou O Evangelho Segundo o Espiritismo. Isso para não chocar a crença
católica das penas eternas.

Allan Kardec na Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo diz que as matérias


contidas nos Evangelhos podem ser divididas em cinco partes: os atos comuns da vida
de Cristo, os milagres, as profecias, as palavras que serviram para o estabelecimento
240

dos dogmas da Igreja e o ensinamento moral. Se as quatro primeiras partes foram


objeto de controvérsia, a última manteve-se inatacável. Este é o terreno onde todas as
crenças podem se reencontrar, porque não é motivo de disputas, mas sim regras de
conduta abrangendo todas as circunstâncias da vida, pública e privada.

Kardec, para evitar os inconvenientes da interpretação, reuniu nesta obra os artigos que
podem constituir, propriamente falando, um código de moral universal, sem distinção
de culto. Nas citações conservou tudo o que era útil ao desenvolvimento do pensamento,
não eliminando senão as coisas estranhas ao assunto. Como complemento de cada
preceito, ajuntou algumas instruções escolhidas entre as que foram ditadas pelos
Espíritos em diversos países, e por intermédio de diferentes médiuns.

Cabe lembrar que o Espiritismo não tem nacionalidade, está fora de todos os cultos
particulares e não foi imposto por nenhuma classe social, uma vez que cada um pode
receber instruções de seus parentes e de seus amigos de além-túmulo. Ele veio dar uma
nova luz à moral do Cristo. (1984, p. 8 a 12)

6. EVANGELHO E EDUCAÇÃO

No âmbito do Espiritismo, o Evangelho deixou de ser apenas a fonte de meditação e


oração para a ligação do homem com um Deus antropomórfico, no insulamento, para
transformar-se num instrumento de aperfeiçoamento do indivíduo, de renovação íntima
constante e continuada; de adequação, adaptação à vida, no torvelinho de suas
modalidades, na incessante variação de suas manifestações. Em síntese, o objetivo do
Espiritismo é transformar o Evangelho de crença em conhecimento - conhecimento das
leis que governam o Espírito.

Com o Evangelho, a idéia de Educação se transforma. Ela continua sendo a transmissão


de cultura de uma geração a outra, mas com a finalidade de estimular a criatividade, de
adaptar o indivíduo à vida, de conduzi-lo à integração na sociedade, através do trabalho
produtivo, das realizações conjuntas, de forma ordenada e pacífica. (Curti, 1983, p. 85 a
87)
A vinda do Mestre modificou o cenário do mundo. Emmanuel em Roteiro diz-nos que
antes de Cristo, a educação demorava-se em lamentável pobreza, o cativeiro era
consagrado por lei, a mulher aviltada qual alimária, os pais podiam vender os filhos etc.
Com Jesus, entretanto, começa uma era nova para o sentimento. Iluminados pela Divina
influência, os discípulos do Mestre consagram-se ao serviço dos semelhantes; Simão
Pedro e os companheiros dedicam-se aos doentes e infortunados; instituem-se casas de
socorro para os necessitados e escolas de evangelização para o espírito popular etc.
(Xavier, 1980, cap. 21)

Emmanuel diz ainda em Emmanuel que "O Evangelho do Divino Mestre ainda
encontrará, por algum tempo, a resistência das trevas. A má-fé, a ignorância, a simonia,
o império da força conspirarão contra ele, mas tempo virá em que a sua ascendência
será reconhecida. Nos dias de flagelo e de provações coletivas, é para a sua luz eterna
que a Humanidade se voltará, tomada de esperança". (Xavier, 1981, p. 28)

7. CONCLUSÃO

O Evangelho (segundo o Espiritismo) deixa de ser fonte de meditação e oração e passa a


241

ser um instrumento de aperfeiçoamento do indivíduo. É um guia insubstituível para a


adaptação do homem às crescentes formas de vida. Refletindo sobre os seus conteúdos
morais, o homem começa a evangelizar-se, ou seja, começa a criar novos hábitos e
atitudes, a tornar operante a sua fé, a exercitar mais e mais vezes a paciência.
Adquire, assim, uma nova postura com relação à vida e ao seu próximo, porque
aprendeu que o único evangelho vivo é aquele em que os outros o observam.

8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BATTAGLIA, 0. Introdução aos Evangelhos - Um Estudo Histórico-crítico. Rio de Janeiro, Vozes,


1984.
CURTI, R. Espiritismo e Questão Social (Problemas da Atualidade I). São Paulo, FEESP, 1983.
KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.
XAVIER, F. C. Emmanuel (Dissertações Mediúnicas), pelo Espírito Emmanuel. 9 ed., Rio de Janeiro,
FEB, 1981.
XAVIER, F. C. Roteiro, pelo Espírito Emmanuel. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1980.
São Paulo, 11/06/1995
<< = = =

Os Quatro Evangelhos
Sérgio Biagi Gregório
"Intelligebas heri modicum, intelligis
hodie amplius, intelligis cras multo
amplius; lúmen ipsum Dei crescit in te".
Ontem entendias um pouco, hoje
entendes algo mais, amanhã
entenderás muito mais. É a própria luz
de Deus que cresce em ti. (Santo
Agostinho)
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Cada Um dos Quatro
Evangelhos: 4.1. O Evangelho segundo Mateus; 4.2. O Evangelho segundo Marcos; 4.3. O
Evangelho segundo Lucas; 4.4. O Evangelho segundo João. 5. Os Evangelhos Sinóticos: 5.1.
O Evangelho é um Só, o Alegre Anúncio; 5.2. Semelhança de Conteúdo; 5.3. Algumas
Estatísticas; 5.4. A Contribuição do Espírito Emmanuel. 6. Convergências e Divergências dos
Evangelhos: 6.1. Teoria das Duas Fontes; 6.2. Disposição das Seções; 6.3. Exemplos. 7.
Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
Quem eram os evangelistas? Há lógica em seus escritos? Como foram
compostos esses livros? Com estas questões, introduzimos os quatro
Evangelhos – Mateus, Marcos, Lucas e João –, os primeiros livros do Novo
Testamento.
2. CONCEITO
Evangelho é a tradução portuguesa da palavra grega Euangelion que foi
notavelmente enriquecida de significados. Para os gregos mais antigos ela
indicava a "gorjeta" que era dada a quem trazia uma boa notícia. Mais tarde
passou a significar uma "boa-nova", segundo a exata etimologia do termo.
Os Quatro Evangelhos – Desde os primeiros anos do cristianismo preferiu-se
falar de "Evangelho", no singular, também quando se referia aos livros. Isto
porque os escritos dos apóstolos traziam todos o mesmo e idêntico "alegre
anúncio" proclamado por Jesus e difundido oralmente. Quando se desejou,
porém, indicar de maneira específica cada um dos quatro livros, encontrou-se
uma fórmula particularmente eficaz e significativa: "Evangelho Segundo Lucas",
"Evangelho Segundo Mateus", "Evangelho Segundo Marcos" e "Evangelho
242

Segundo João". Desse momento em diante, o singular e o plural se alternam


para indicar, um a identidade do anúncio, o outro a diversidade de forma e
redação. Ficará, porém, sempre viva a convicção de que o Evangelho é um só:
o alegre anúncio de Jesus. (Battaglia, 1984, p. 25 e 26)
Cânon é a palavra que, nas línguas orientais (dos quais se deriva) e em grego,
designa a regra, a medida e, por extensão, o catálogo. Em linguagem bíblica,
significa os catálogos dos livros sagrados.
Vulgata é o nome dado à tradução latina dos textos bíblicos devida a São
Jerônimo (420), o novo texto assim apresentado aos cristãos em breve se
tornou de uso comum; donde o nome de vulgata (forma) que tomou. Antes de
Jerônimo já existia outra tradução latina, comumente chamada Vetus latim ou
pre-jeronimiana. (Bettencourt, 1960)
3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Jesus, quando esteve encarnado entre nós, há dois mil anos, traçou-nos os
fundamentos morais para a nossa conduta ética. Ele não nos deixou nada
escrito. Todos os seus ensinamentos foram transmitidos oralmente. Na época,
e mesmo hoje, a palavra oral tinha muito mais força do que a palavra escrita.
No discurso oral, usamos gestos, os efeitos sonoros da voz, a repetição
persuasiva e muito mais. De certa forma, a escrita é estática, dependendo
muito mais do entendimento de quem lê.
Nas aulas, os mestres apelavam para a memória de seus discípulos e
procuravam facilitar-lhes a tarefa redigindo suas ideias em sentenças ritmadas
quase cantantes, aptas a se guardar na mente dos ouvintes. Este método de
ensino é denominado de catequese, palavra grega que significa "ressonância".
O mestre devia fazer ecoar amplamente as suas sentenças. Catequizado era
aquele a quem haviam feito ressoar os termos da doutrina.
As prédicas de Jesus foram ouvidas pelos seus seguidores, mas redigidas
muito tempo depois de sua morte. Dentre os diversos evangelhos existentes,
apenas quatro foram considerados canônicos, ou seja, considerados sagrados
e de inspiração divina. Os outros foram classificados como apócrifos. Os quatro
Evangelhos são: o Evangelho segundo Mateus, o Evangelho segundo Marcos,
o Evangelho segundo Lucas e o Evangelho segundo João.
4. CADA UM DOS QUATRO EVANGELHOS
4.1. O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
Mateus, o publicano ou o cobrador de impostos, recolheu a pregação
apostólica palestinense e escreveu para os judeus convertidos ao cristianismo.
O Evangelho de Mateus é o primeiro dos quatro. É também o mais estudado e
comentado, em vista da catequese global e eclesial que o caracteriza. Esta
catequese mostra que o escândalo da morte na cruz fazia parte do plano de
Deus para a salvação da humanidade. Mateus traça a vida histórica e
cronológica de Jesus, enaltecendo o trabalho de pregação (kerygma) do Reino
dos Céus. Dividiu-o em cinco partes: 1) fundação do Reino dos Céus; 2) o
Reino dos Céus em ação (os milagres); 3) o mistério do Reino dos Céus (figura
velada das parábolas); 4) Reino como comunidade visível e organizada (Pedro
é a pedra angular da "Igreja"); 5) aspecto escatológico do Reino dos Céus
(implantação deste na terra). (Battaglia, 1984)
4.2. O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
O Evangelho de Marcos vem em segundo lugar, embora haja dados
enciclopédicos que o colocam como o primeiro Evangelho. Não teve o mesmo
êxito dos outros, porque o seu material estaria mais desenvolvido em Mateus e
243

Lucas. Santo Agostinho fala que o Evangelho de Marcos é o resumo do de


Mateus. A sua autoridade está fundamentada na narração de Pedro,
testemunha ocular dos fatos. (Battaglia, 1984)
4.3. O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
O Evangelho de Lucas é o terceiro Evangelho. Foi o que explicitou a sua
intenção: escrever uma histórica de Jesus. É um Evangelho para os helenistas,
pois é o único escritor que veio do paganismo. Todos os outros são de origem
judaica. Sua cidade de origem é Antioquia e foi nessa cidade que surgiu o
termo "cristão" para designar os seguidores de Jesus. Este Evangelho como o
de Marcos, é de segundo plano, pois viveu à sombra do apóstolo dos gentios,
Paulo. A sua catequese fundamenta-se em Jesus como salvador, as lições da
cruz e o poder da ressurreição. (Battaglia, 1984)
4.4. O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO
O Evangelho de João, cunhado como o "Evangelho Espiritual", aparece em
quarto lugar. Ele queria penetrar na profundidade do verbo de Deus, o verbo
que se fez carne, ou seja, o verbo encarnado em Jesus. O apelido "Evangelho
Espiritual" deveu-se a Clemente de Alexandria, que disse: "João, o último de
todos, vendo que o aspecto material da vida de Jesus fora ilustrado por outros
Evangelhos, inspirado pelo Espírito Santo e ajudado pela oração dos seus,
compôs um Evangelho Espiritual". (Battaglia, 1984)
5. OS EVANGELHOS SINÓTICOS
5.1. O EVANGELHO É UM SÓ, O ALEGRE ANÚNCIO
Em realidade, o Evangelho é um só, o alegre anúncio. Como esse alegre
anúncio foi feito por diversas pessoas, para cada uma dessas pessoas torna-se
um Evangelho, que reunidos formam os Evangelhos. Entre eles, há alguns que
se assemelham (Mateus, Marcos e Lucas) e, por isso, são chamados de
sinóticos (do grego sýn, "junto" e opsis, "visão"). O Evangelho de João não
segue o padrão desses três. Isto permite que as concordâncias dos três
evangelistas sejam impressas em forma de synopsis (sinopse).
5.2. SEMELHANÇA DE CONTEÚDO
À diferença de João, os três sinóticos dispõem o currículo da vida pública de
Jesus segundo uma esquema muito simples, assim concebido: após o seu
batismo, o jejum de quarenta dias e as tentações no deserto, Cristo prega na
Galiléia, tendo como centro missionário a cidade de Cafarnaum; decorrido
quase um ano de ministério, o Senhor desce à Judéia, passando em Jerusalém
a sua última semana, no qual padeceu, morreu e ressuscitou (O Divino Mestre
teria pregado durante um ano apenas, conforme os sinóticos)
5.3. ALGUMAS ESTATÍSTICAS
O Evangelho de Mateus consta de 1.070 versículos aproximadamente, dos
quais 330 lhe são próprios, 170 comuns com Marcos apenas, 230 comuns com
Lucas somente e 340 comuns com Marcos e Lucas. Marcos escreveu 667
versículos, dos quais 68 lhe são próprios. Lucas, perto de 1.151 versículos, dos
quais 541 são característicos de seu livro.
Conclui-se:
a) Mateus tem como propriedade sua cerca de uma terça parte do respectivo
Evangelho; Marcos cerca de um décimo, Lucas aproximadamente metade.
b) dividindo-se o conteúdo dos três sinóticos em seções, verifica-se que
Mateus tem de próprio 42% desse material; Marcos, 7% e Lucas, 59%.
(Bettencourt, 1960)
5.4. A CONTRIBUIÇÃO DO ESPÍRITO EMMANUEL
244

"As peças nas narrações evangélicas identificam-se naturalmente, entre si,


como partes indispensáveis de um todo, mas somos compelidos a observar
que, se Mateus, Marcos e Lucas receberam a tarefa de apresentar, nos textos
sagrados, o Pastor de Israel na sua feição sublime, a João coube a tarefa de
revelar o Cristo Divino, na sua sagrada missão universalista". (Xavier, 1977,
pergunta 284)
6. CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS DOS EVANGELHOS
6.1. TEORIA DAS DUAS FONTES
Houve uma tradição oral, sendo a sua transcrição redigido de acordo com o
modo de cada evangelista. Estes parecem ultrapassar as possibilidades da
memória. Impõe-se admitir a tradição escrita, que melhor explique a
mencionada afinidade. Cada um dos evangelistas deve ter haurido dessa
documentação escrita o respectivo material. Por isso a interdependência direta
dos sinóticos.
A teoria das duas fontes é devida à: 1) um compêndio dos feitos de Jesus, que
seria a forma primitiva do Evangelho de Marcos; 2) uma coletânea de frases e
sermões de Cristo atribuída a Mateus. (Bettencourt, 1960)
6.2. DISPOSIÇÃO DAS SEÇÕES
Existem pequenos blocos literários já forjados anteriormente à redação dos
Evangelhos e inseridos como tais sem desmembramento, nas narrativas dos
três sinóticos. Verifica-se que os mesmos fatos são, por vezes, narrados com
as mesmas palavras nos três sinóticos.
6.3. EXEMPLOS
a) Na oração do "Pai Nosso", há 7 petições em Mateus; em Lucas, 5.
"Pai nosso que estais no céu, "Pai,
Santificado seja o vosso nome, Santificado seja o vosso nome,
Venha a nos o vosso reino Venha a nos o vosso reino
Seja feita a vossa vontade
Assim na terra como no céu
O pão que nos é necessário, nos daí hoje O pão nosso de cada dia nos daí hoje
Perdoai-nos as nossas dívidas assim como Perdoai-nos os nossos pecados, pois nós
Nós perdoamos os nosso devedores Mesmos perdoamos a quem nos deve
E não nos deixeis cair em tentação E não nos deixeis cair em tentação".
Mas livrai-nos do mal (ou do Maligno)"
b) Mateus fala em 8 bem-aventuranças; Lucas em quatro. (Bettencourt, 1960)
7. CONCLUSÃO
Procuramos fazer uma síntese dos quatro Evangelhos. Resta-nos, por fim
dizer, que um estudo mais aprofundado de cada um deles propiciar-nos-á um
melhor conhecimento do ministério de Cristo.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BATTAGLIA, Oscar. Introdução aos Evangelhos: um estudo histórico-crítico.
Tradução de Carlos A. de Costa Silva. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.
BETTENCOURT, E. Dom. Para Entender os Evangelhos. Rio de Janeiro: Agir,
1960.
XAVIER, F. C. O Consolador, pelo Espírito Emmanuel. 7. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 1977.
São Paulo, maio de 2009
245

= = = >>

(1) DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO ILUSTRADO LAROUSSE. São Paulo:


Larousse, 2007.

(2) BATTAGLIA, 0. Introdução aos Evangelhos — Um Estudo Histórico-crítico. Rio


de Janeiro: Vozes, 1984, p. 19 e 20.

(3) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

(4) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Evolução
Evolução. Etimologicamente, o termo evolução, significa desenvolvimento, volver para
fora o que já está contido em algo. Nesse sentido, evolução seria o desenvolvimento
pela atualização das possibilidades, das potências já inclusas virtualmente em algo.
Assim, o germe evolui até alcançar o indivíduo acabado. (1)

A essência do significado do termo evolução é a de desenvolver, desenrolar, ou


desdobrar, designando assim movimento de natureza metódica que gera novas espécies
de mudanças. Mais especificamente designa o processo de mudança através do qual
algo novo é produzido de tal modo contínuo, que a identidade ou individualidade do
objeto original não seja violada. (2)

Segundo o Espiritismo, evolução é impositivo da Lei de Deus, incessante,


inquestionável. Nessa Lei não existe o repouso, o letargo de forças, a inércia. Por toda
parte e sempre o impositivo da evolução, o imperativo do progresso. (3)

Evolução (évolution). A transformação, frequentemente lenta e, em todo caso,


progressiva, de um ser ou de um sistema: opõe-se à permanência (ausência de mudança)
e à revolução (uma mudança brusca e global). O vocábulo deve muito de seu sucesso, a
partir do século XIX, às diferentes teorias da evolução (especialmente a de Darwin,
ainda que este último utilize o termo com reticência), que visavam explicar a origem e o
desenvolvimento das espécies vivas. Esse exemplo privilegiado mostra que uma
evolução pode se dar de maneira descontínua e casual (as mutações); ela supõe, no
entanto, a continuidade, ainda que relativa e reconstruída posteriormente, de um
processo. "Ninguém chamará de etapas evolutivas as transformações observadas num
caleidoscópio", observa o Lalande. Não é, porém, que cada um desses movimentos seja
irracional ou sem causa; mas é que a série deles parece sem lógica, sem continuidade,
sem orientação. Equivale a dizer que as mutações, por si sós, não bastariam para falar de
evolução das espécies: são necessárias, além disso, a seleção natural e a aparente
finalidade que ela acarreta. Daí que a evolução, que avança rumo a etapas cada vez mais
complexas ou diferenciadas, se opõe à involução, que regride para o mais simples, o
246

mais homogêneo ou o mais pobre. O crescimento, para o indivíduo, é uma evolução; o


envelhecimento, uma involução. (4)

Evolução. Designa a ação e o efeito de desenrolar-se, desdobrar-se, desenvolver-se


algo. A ideia ou imagem que "evolução" suscita é a do desenrolar, do desenvolvimento
de algo que estava enrolado, dobrado ou envolvido. Uma vez desenvolvido ou
desenrolado, uma realidade pode reenvolver-se, redobrar-se. Além da citada ideia ou
imagem de desenvolvimento do envolvido, encontramos em "evolução" a ideia de um
processo ao mesmo tempo gradual e ordenado, diferentemente da revolução, que é um
processo de desenrolar súbito e possivelmente violento.

O processo em questão pode, em princípio, afetar qualquer realidade. Não são as ideias
ou os conceitos que propriamente evoluem: antes evoluem as atitudes e as opiniões
sobre tais ideias e conceitos. Uma ideia ou um conceito podem conter certos elementos
que se manifestam apenas sucessivamente. Porém é mais adequado dizer que a ideia ou
o conceito vão explicitando o que neles se encontrava implícito, e que nessa
explicitação o importante não é o processo temporal, mas a passagem do menos
específico para o mais específico, dos princípios para as consequências... Para alguns
misticos do final da Idade Média e do Renascimento, por exemplo, a palavra explicatio
designa a manifestação ou automanifestação de uma realidade: a explicatio Dei
(Nicolau de Cusa) é equivalente à teofonia. Por outro lado, alguns autores tomaram o
conceito de evolução em um sentido metafísico, como desenvolvimento de uma
realidade ou, melhor, da Realidade. Um exemplo dessa tendência é a filosofia de Hegel,
para o qual o real é des-envolvimento. (5)

Evolução. A evolução é a série de modificações graduais e contínuas suscetíveis de


reger o mundo físico (e cosmológico), o dos vivos ou, ainda a sociedade. O princípio da
evolução que se baseia - de acordo com as concepções -, quer no acaso, quer numa lei
que imprime uma certa direção, não implica necessariamente o julgamento de valor
positivo que se encontra na maioria das vezes na noção de progresso. Em virtude de
uma "progressão ininterrupta" (d'Holbach), o evolucionismo, ou lei da evolução, que
organiza o conjunto dos seres (matéria, espírito, sociedade) é sustentado sobretudo por
Spencer no século XIX. Deve, segundo esse autor, inspirar as condutas dos sábios em
todas as ciências. Recusando o evolucionismo mecanicista de Spencer, Bérgson o
substitui pela tese da evolução criadora e do impulso vital. A doutrina da evolução no
plano estritamente biológico procede do transformismo. (6)
247

= = =>>

Evolução e Espiritismo
Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Considerações Iniciais. 4. Evolução Biológica: 4.1.
Fixismo; 4.2. Transformismo; 4.3. Darwin e a Teoria da Evolução. 5. A Metafísica e a Evolução:
5.1. O Evolucionismo; 5.2. A Evolução Segundo Spencer e Bérgson; 5.3. A Vitória dos Mais
Aptos. 6. Espiritismo: 6.1. O Senso Moral; 6.2. Livre-Arbítrio; 6.3. O Progresso. 7. Conclusão. 8.
Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
O que se entende por evolução? Evolução e progresso são a mesma coisa?
Há alguma diferença entre evolução e evolucionismo? Como ver a evolução
sob a ótica do Espiritismo?
2. CONCEITO
Etimologicamente, o termo evolução significa desenvolvimento, volver para fora
o que já está contido em algo. Nesse sentido, evolução seria o
desenvolvimento, pela atualização das possibilidades, das potências já inclusas
virtualmente em algo. Deste modo, a evolução seria o processo das
atualizações das potências dos seres, e nesse sentido lato, todos estão de
pleno acordo. (Santos, 1965)
3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
248

A teoria da evolução pode ser vista sob dois pontos de vista: a) biológica: b)
metafísica. Do ponto de vista biológico, é a transformação das espécies vivas
umas nas outras, hipótese básica das ciências biológicas dos últimos tempos.
Do ponto de vista metafísico, é o progresso do universo, hipótese de muitas
filosofias e doutrinas religiosas. Em termos da sociologia e da antropologia, a
evolução está associada ao comportamento dos seres humanos e às
mudanças estruturais da sociedade como um todo. Há, também, uma diferença
fundamental entre evolução e revolução. A evolução é uma acumulação lenta,
gradual, de mudanças quantitativas; a revolução é uma mudança brusca,
radical, qualitativa. (Temática Barsa)
4. EVOLUÇÃO BIOLÓGICA
4.1. FIXISMO
Baseado na física aristotélica, esta teoria admite que as espécies não sofrem
mudanças, ou seja, surgiram sobre a Terra, cada qual já adaptada ao ambiente
onde foi criada, pelo que, uma vez que não havia necessidade de mudanças,
as espécies permaneciam imutáveis desde o momento em que surgiram. O
fixismo pressupõe: a) criacionismo – todos os seres vivos eram obras divinas e,
por isso, perfeitos; não precisavam de sofrer alterações; b) geração
espontânea – a vida surgia quando havia condições favoráveis para isso; c)
catastrofismo – se as catástrofes naturais destruíssem determinados seres
vivos, outras espécies existentes iriam povoar esses locais desabitados.
4.2. TRANSFORMISMO
Embora o fixismo fosse uma teoria de fácil aceitação, ela não prevaleceu ao
longo do tempo. Em seu lugar, surgiu a hipótese do transformismo, ou seja, a
ideia de que as espécies não permaneciam imutáveis, mas sofriam
modificações, isto é, evoluíam. Esta teoria só foi possível com o
desenvolvimento do método teórico-experimental, em que se criava uma
sistemática, para o estudo e nomenclatura das espécies atuais. Também
valioso foi o estudo dos fósseis, registros das espécies que existiram em
tempos antigos. O ápice do evolucionismo deu-se no século XIX,
principalmente depois da vinda da nova ciência, aquela que se baseava na
observação e coleta de dados, fazendo inferências e tirando as devidas
conclusões dos dados analisados.
4.3. DARWIN E A TEORIA DA EVOLUÇÃO
Charles Darwin (1809-1882), a bordo do Beagle, conseguiu documentar grande
quantidade de observações, que estão expostas em Sobre a Origem das
Espécies (1859).
A teoria de Darwin mostra-nos que as espécies evoluíram. A transformação,
porém, foi gradual, lenta e contínua. Por intermédio de uma seleção natural, os
indivíduos sofrem modificações espontâneas, mas sobrevivem apenas as mais
aptas. Além disso, são esses indivíduos que podem se reproduzir e transmitir
esses caracteres a seus descendentes. Nesse processo, que é literalmente
uma "luta pela vida", visto que existem mais seres vivos do que recursos, os
organismos vivos menos adaptados desaparecem.
A teoria da evolução ganhou um novo impulso com a teoria da herança
biológica formulada por Gregor Mendel (1822-1884), depois de suas
experiências com ervilhas. (Temática Barsa)
5. A METAFÍSICA E A EVOLUÇÃO
5.1. O EVOLUCIONISMO
249

É uma doutrina metafísica que se refere à realidade como um todo e que


embora se sirva das hipóteses e dos resultados da teoria biológica da
evolução, sua tese vai muito além de tudo o que qualquer possível teoria
científica possa legitimamente atestar. Nesse sentido, o evolucionismo foi
assumido como esquema fundamental de muitas metafísicas, tanto
materialistas quanto espiritualistas. A característica fundamental que essas
metafísicas distinguem na evolução é o progresso. Para elas, evolução
significa essencialmente progresso.
5.2. A EVOLUÇÃO SEGUNDO SPENCER E BÉRGSON
Spencer definia evolução como a passagem do homogêneo indiferenciado para
o heterogêneo diferenciado. É toda a trajetória da ameba aos organismos
superiores. Segundo Spencer, o sentido geral da evolução é otimista. No caso
do homem, só terminará com "a máxima perfeição e a mais completa
felicidade". Enquanto a evolução biológica desvinculou a ideia de evolução da
de progresso, a evolução materialista e espiritualista têm no progresso a sua
característica otimista fundamental.
Bérgson, por seu lado, viu na evolução o produto de um elã vital, que é a
consciência, liberdade e criação. (Abbagnano, 1970)
5.3. A VITÓRIA DOS MAIS APTOS
A teoria da evolução das espécies de Darwin passou a ser empregada nas
relações sociais com o termo "luta pela vida" e "vitória dos mais aptos". Esta
posição filosófica estimulou a competição desenfreada entre os seres
humanos, no sentido de que cada um deve vencer o seu próximo. Hobbes, por
exemplo, fala-nos de que o "homem é lobo do homem", em que uma pessoa
tem que estar sempre à frente da outra. Observe a ênfase que Maquiavel dá,
em O Príncipe, aos "fins justificarem os meios". Esse tipo de visão da evolução
levou o ser humano a uma posição dramática: queremos ser mais do que o
outro e não nós mesmos.
6. ESPIRITISMO
6.1. O SENSO MORAL
Allan Kardec, em A Gênese, André Luiz, em Evolução em Dois Mundos e
Emmanuel, em A Caminho da Luz, falam-nos do aparecimento do protoplasma
e de toda a cadeia evolutiva descrita pela ciência biológica. O Espiritismo
corrobora com a Ciência; a única diferença é que faz intervir a ação dos
Espíritos.
No processo de evolução do Espírito, o ponto alto é o aparecimento do senso
moral. Enquanto o princípio inteligente estagia no reino animal, o senso moral é
quase nulo. Somente quando adquire a razão, o pensamento contínuo e o livre-
arbítrio, na fase humana, é que começa a responder pelos seus atos. Daí, a
responsabilidade de cada um pelo seu próprio progresso.
6.2. LIVRE-ARBÍTRIO
O Espiritismo mostra-nos que, no inicio da sua caminhada evolutiva, o Espírito
não possui o livre-arbítrio, cuja escolha é deixada a cargo dos mensageiros do
espaço. Somente quando desenvolveu o senso moral, que é responder pelos
seus próprios atos, foi lhe dado a capacidade de escolher e seguir o seu
caminho.
O ser humano não é fatalmente conduzido ao mal; os atos que pratica não
estavam escritos, determinados por uma fatalidade. "Ele pode, como prova ou
expiação, escolher uma existência em que se sentirá arrastado para o crime,
seja pelo meio em que estiver situado, seja pelas circunstâncias
250

supervenientes. Mas será sempre livre de agir como quiser. Assim, o livre-
arbítrio existe no estado de Espírito, com a escolha da existência e das provas;
e no estado corpóreo, com a faculdade de ceder ou resistir aos arrastamentos
a que voluntariamente estamos submetidos". (Kardec, 1995, questão 872)
6.3. O PROGRESSO
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, mostra-nos que o progresso intelectual
nem sempre anda junto com o progresso moral. No longo prazo, porém,
deverão equilibrar-se para que haja maior coerência das ações praticadas pelo
ser humano.
Nesse sentido, o Espírito Emmanuel adverte-nos que a sabedoria e amor são
as duas asas que nos conduzirão ao progresso. Paralelamente, o Espírito
André Luiz diz-nos que o ciclo de reencarnações somente terminará quando
tivermos sedimentado as nossas ações nas máximas do Evangelho de Jesus.
7. CONCLUSÃO
O progresso é inexorável e a lei de causa e efeito é providencial. Assim,
tenhamos consciência dos nossos atos diários. Adiando para amanhã a prática
do bem, podemos retardar a nossa evolução material e espiritual.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed. São Paulo: Feesp, 1995.
SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São
Paulo: Matese, 1965.
TEMÁTICA BARSA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.
São Paulo, dezembro de 2009
<< = = =

(1) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo:
Matese, 1965.

(2) Dicionário de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, FGV, 1986.

(3) EQUIPE DA FEB. O Espiritismo de A a Z. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

(4) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

(5) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

(6) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Existencialismo
Existência. O fato de a coisa estar aí, sem necessidade, de modo contingente.
251

Existencialismo. Conjunto de doutrinas que se opõem ao racionalismo e ao idealismo e


que admitem que o objeto próprio da filosofia é a realidade existencial, isto é, existência
concreta e vivida, e que o único meio que possuímos para entrar em contato com ela
consiste no sentimento ou emoção.

Doutrina que acentua o aspecto existencial do ser, que se baseia nas raízes da existência
humana. Iniciado pelo filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), nela se
distinguem sobretudo Martin Heidegger, Karl Jaspers e Jean-Paul Sartre. Contrapondo-
se ao aspecto essencial próprio da filosofia tradicionalista, o existencialismo nega
qualquer essência abstrata e universal no homem: este é pura existência e, por isso,
construtor do seu próprio destino, arquiteto de sua própria vida. (1)

Existencialismo. Existência do indivíduo como agente livre e responsável que


determina o próprio desenvolvimento por meio de atos da vontade. (2)

= = = >>

Existencialismo Espírita
Existencialismo - Aplica-se esse nome às idéias filosóficas de Heidegger, Kierkegaard,
Sartre e outros. Caracteriza-se pela negação do abstracionismo racional de Hegel. Para
Kierkegaard, por exemplo, um sistema lógico de idéias não alcança a existência, o
individual. Faz abstração deste, tem por objetivo as essências, os possíveis, e não o
existente, o indivíduo, que não se explica, não se deduz, nem se demonstra.
As concepções de existência e de essência auxiliam-nos a compreender o tema. A
existência vem de ex-sistência (estar aí, ex, fora das causas), o que se acha na coisa, in
re. Existência é o fato de ser da essência. Difere da essência, pois, a existência consiste
no fato de ser da essência. A essência, por outro lado, é o “fundo” do ser, metafisicamente
considerado.
252

A base do existencialismo está na discussão do possível. Para Sartre: “A existência


precede a essência”. É a tese da impossibilidade do possível. Ele retoma a fórmula de
Lequier: “Fazer e, ao faze, fazer-se”. É a expressão metafísica da crença na liberdade
absoluta segundo a qual o ser vivo e pensante faz a si mesmo tanto quanto lho permitem
certas determinações já tomadas. Além do exposto, Abbagnano acrescenta o grupo da
necessidade do possível e o grupo da possibilidade do possível.
O existencialismo espírita aproxima-se da possibilidade do possível. De acordo com os
princípios codificados por Allan Kardec, a essência (possível) é o princípio inteligente
(Espírito na fase humana), que se atualiza em cada existência. O elo de ligação é a
reencarnação, em que se processa a união da essência ao corpo físico, através do
perispírito. O ir-e-vir dá consistência à essência, deixando-a cada vez mais purificada.
A mediunidade apresenta-se, também, como ponto de ligação entre a essência e a
existência. Por intermédio dela, as essências, fora da existência, podem se comunicar com
as essências, na existência. Prova-se, assim, que a essência não só precede a existência,
como continua depois de ter estagiado na existência. Nesse sentido, o verdadeiro mundo
é o mundo das essências, ou seja, o mundo espiritual.
O existencialismo espírita é como um projétil do ser, que passa por esta existência, rumo
à perfeição da essência.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
(1) PIRES, J. H. Introdução à Filosofia Espírita.
São Paulo, dezembro de 1996

= = =>>

Genealogia do Existencialismo
Essência e existência foram, e ainda são, motivos de reflexão dos filósofos.
Para Platão, a essência corresponde à "idéia", e para Aristóteles à "forma". A
essência corresponde ao universal e a existência ao particular. O ser é o que
é na medida em que tem uma essência, ou forma, conjunto de atributos ou
de propriedades que o caracterizam e distinguem dos demais seres. Assim,
por exemplo, a essência do homem é a humanidade, do animal a
animalidade.

O existencialismo é uma antropologia, ou seja, uma reflexão sobre o ser


humano enquanto existente. Embora todos os filósofos sejam
existencialistas, o termo tomou vulto no sentido de que é a existência que
precede a essência, a partir das análises de Sören Kiekegaard, considerado
o pai da filosofia existencial. Para que possamos visualizar o existencialismo
no tempo e no espaço, convém elaborarmos um pequeno histórico.

Sócrates (470-399) pode ser considerado o mais remoto ancestral do


existencialismo. A sua tese vivencial do conhece-te a ti mesmo é um
exemplo vivo da união entre a teoria e a prática. Santo Agostinho (354-
430), o último filósofo antigo e o primeiro moderno, assinala em sua obra o
advento da interioridade do espírito. Blaise Pascal (1623-1662) inscreve-
se nesse histórico, empenhando-se em mostrar a "miséria do homem sem
Deus". Analisa, através de aforismos e com extraordinária penetração, a
253

duplicidade e as contradições da "natureza humana", que é "nada em


relação ao infinito, tudo em relação ao nada, uma ponte entre o tudo e
nada".

Sören Kiekegaard (1813-1855) inicia, como vimos, o moderno


existencialismo ao afirmar que a fórmula cartesiana deve ser invertida: não
existo porque penso mas penso porque existo. Karl Jaspers (1833-1969)
insere-se nessa genealogia dizendo que o homem só toma consciência de si
próprio nas situações limites, tais como a morte, o sofrimento, a luta, a
culpa etc. Martin Heidegger (1899) contribui com sua observação de que a
essência consiste em existir, e que o Dasein (ser-aí) é sua possibilidade de
realização. Jean-Paul Sartre (1905-1981) entende por existencialismo uma
doutrina que torna a vida possível e sustenta que a verdade e a ação
implicam uma situação e uma objetividade humana. Gabriel Marcel (1889-
1973) desenvolve a afirmação central de que a existência é inesgotável e, a
rigor, inefável ou inexplicável.

Embora o existencialismo moderno tenha sido marcado pelo desespero,


pela angústia e pela falta de perspectiva com relação à vida futura,
assim mesmo deu sua contribuição à libertação do homem. Representando
um requisitório em favor do indivíduo e de sua autonomia, constituiu-se
numa ação positiva à defesa do homem contra as forças impessoais e
anônimas que ameaçam absorvê-lo e desfigurá-lo.

Paulo, nas suas epístolas, já nos dizia que deveríamos ler de tudo e
assimilarmos somente o que fosse útil. Fiquemos, pois, com esses aspectos
libertários que o existencialismo sugere.

Fonte de Consulta

CORBISIER, R. Enciclópédia Filosófica. 2. ed., Rio de Janeiro, Civilização


Brasileira, 1987.

= = = >>

O Existencialismo Sartreano
O francês Jean Paul Sartre (1905-1980) foi um dos filósofos mais populares
do século XX. Torna-se célebre depois de 1944, data em que passa a se
consagrar por inteiro à sua obra. Líder do existencialismo na França.
Recebeu influência da fenomenologia. Tinha afinidade pelas idéias marxistas
e pelo ativismo político. Romancista, dramaturgo, crítico literário e filósofo.
Em 1964, conquista o prêmio Nobel, mas recusa-o.

As suas obras principais são: A Imaginação (1936); A Transcendência do


Ego (1938); Esboço de uma Teoria das Emoções (1939); O Imaginário
(1940); O Ser e o Nada (1943); O Existencialismo é um Humanismo
(1945); Reflexões sobre Questão Judaica (1946); Crítica da Razão Dialética
(1960); vários volumes das Situações, entre os quais O Que É Literatura?
254

Além do “inferno são os outros” e da “náusea”, o fio condutor da sua


filosofia é que o homem está condenado à liberdade. Esta afirmação torna-
se um paradoxo, ou seja, se o indivíduo está condenado a ter liberdade, ele
está preso a ela. Para Sartre, a liberdade está na decisão, na escolha. Todos
têm que tomar decisões ao longo do seu dia e da sua vida. E mesmo que
não tomem decisão alguma, isso também é decisão. Alguém nos faz uma
proposta: se a aceitarmos, tomamos uma decisão; se não a aceitarmos,
também.

O tema subjetividade ou sujeito concreto está presente em sua filosofia.


Para Sartre, o sujeito concreto é o sujeito do dia-a-dia, aquele que está no
trabalho, no bar, no lar, na escola. Separa, assim, o sujeito abstrato do
sujeito concreto, ou seja, o sujeito conceito do sujeito real, palpável. Desta
forma, quando dizemos: "isto é uma árvore", não estamos nos referindo ao
conceito árvore, mas a uma árvore específica, aquela que se apresenta
diante dos nossos olhos. Deduz-se que o sujeito sartreano está sempre
envolto numa experiência.

O sujeito concreto é o ser-no-mundo. O mundo concreto não é o "universo",


o "planeta", "o cosmos". O ser-no-mundo é a consciência do sujeito
projetando-se para diante de si no mundo, para os seus afazeres. É o
sujeito que tem um corpo e busca os fins últimos de sua existência. É o
sujeito ativo. Não é o sujeito conceito, o sujeito forma, o sujeito abstrato.
Pode-se dizer que é o sujeito efetivo. Tudo isso só pode ser realizado dentro
de uma experiência, própria de cada sujeito.

A existência precede a essência é uma frase muito comentada em sua


filosofia. Com essa afirmação, quer nos fazer crer que o sujeito não é um
modelo criado por Deus ou por qualquer outra entidade. Esse sujeito nasce
como se fosse uma folha em branco, uma tabula rasa. Conforme vai
vivendo, vai experimentando, vai também preenchendo essa tábua, ou
seja, vai construindo a sua essência. Tese eminentemente materialista, em
que pressupõe nada existir antes e nada existir depois que o corpo se for
para a tumba. Para Sartre, o homem só vive o momento presente: ele não
tem nem passado e nem futuro.

O que o sujeito efetivamente percebe? Lembremo-nos de que o sujeito,


para Sartre, é aquele que experimenta o aqui e agora. Em outros termos,
ele vive de acordo com a sua percepção, a sua subjetividade. A percepção
tem, para Sartre, um sentido mais largo do que o simples ato de observar
uma cena. Um exemplo: há uma mesa à nossa frente. Nossa visão capta
apenas parte dela. Isso não atrapalha a teoria de Sartre, pois, segundo ele,
o indivíduo tem capacidade de ultrapassar os aspectos presentemente
dados. O sujeito capta não só a forma, mas o fundo também.

O existencialismo sartreano chama-nos à atenção para a liberdade do


sujeito concreto. A escolha é um imperativo desse sujeito, pois mesmo não
255

escolhendo ele já fez a sua escolha, ou seja, a de não escolher.

Fonte de Consulta

MOUTINHO, Luiz Damon. Sarte: A Liberdade sem Descupas. In.


FIGUEIREDO, Vinicius de. Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo:
Berlendis e Vertecchia, 2006

= = = >>

A Filosofia Espírita e o Existencialismo Moderno


Filosofia é a ciência geral dos princípios e das causas. A Filosofia Espírita
é a Filosofia vista sob o ponto de vista dos princípios codificados por Allan
Kardec. Em metafísica, é qualificável de existencial tudo o que, por oposição
ao essencial ou ao conceitual, concerne à afirmação de uma existência. O
existencialismo é qualquer doutrina que admite, por oposição aos filósofos
do conceito cujo modelo é o sistema hegeliano, a existência como centro de
sua reflexão.

O existencialismo moderno surgiu como decorrência das duas grandes


guerras mundiais: a Primeira Guerra (1914-1918); a Segunda Guerra (1939-
1945). Na guerra, um ser humano destrói o outro sem o menor
constrangimento. Daí, a percepção do sentido do absurdo juntamente com a
do sentimento trágico da vida: desespero, náusea, nada.

Dentre os existencialistas, talvez Sartre seja o mais conhecido. A sua filosofia


é a filosofia da consciência. Procura demonstrar que o Ego não está na
consciência mas no exterior, no mundo, onde encontra o seu lugar de
existência. No mundo, o ego aparece em “perigo”. Para ele, o cogito surge
ofuscado pela inquietude da “facticidade”, e pensa: mesmo “estilhaçado”, o
cogito se abre à liberdade, pois existir é superar a existência em direção à
impossível essência, mas esse movimento é também transcendência.

Para o existencialismo, conforme o ser humano vai vivendo, ele vai formando
a sua existência. Assemelha-se à tabula rasa de Locke. A essência é como
uma folha em branco, que vai sendo preenchida pelas nossas experiências.
No Espiritismo, não é assim que acontece, pois o Espírito, o princípio
inteligente do universo (essência), toma um corpo (existência), mas é
anterior ao corpo, porque já teve outras vivências passadas.

Segundo o existencialismo, se as pessoas agirem de conformidade com as


atitudes inautênticas, ou seja, de modo mecânico e superficial, elas não
sentirão nem medo, nem angústia. Quando, porém, optam pelo
comportamento autêntico, em que a verdade se desvela, sentirão a angústia,
256

que é a impossibilidade do possível. O Espiritismo não despreza o medo e a


angústia, sintomas de nossa ignorância com respeito à lei de Deus. Mas, uma
vez compenetrados dos ditames dessa lei, passamos a vê-los como um
estado de transição para a perfeição de nosso Espírito imortal.

A sociedade individualista e consumista leva-nos irremediavelmente ao


niilismo. Vendem-nos a ideia de que temos que ser ricos, poderosos,
famosos. Com isso, todos os nossos recursos pessoais são deslocados para
esse fim. A livre busca do saber e os sentimentos profundos da alma são
considerados maus e reprimidos. Voltemos os nossos olhos para o saber dos
antigos, principalmente o dos gregos.

O desespero, a falta de fé, a dor e sofrimento na atualidade são consequência


da falta de valores morais sólidos, os quais têm sido medrados em nosso
meio, principalmente no âmbito político. Quando relaxamos os valores
morais, outros entram em seu lugar. Necessitamos urgentemente de uma
mudança comportamental, para que possamos nos ater ao que é realmente
vital para o nosso progresso espiritual.

<< = = =

(1) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA


EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

(2) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Experiência
Experiência. Distinguimos na palavra "experiência", um sentido geral (experience, em
inglês) e um sentido técnico, próximo de experimentação (experiment, em inglês).

1. Em seu sentido geral, a experiência é um conhecimento espontâneo ou vivido,


adquirido pelo indivíduo ao longo da vida. Ela aparece em relação à vida corrente
(dizemos: "homem de experiência") ou em relação com a teoria do conhecimento. Para
o empirismo, todo o conhecimento deriva da experiência. Para o racionalismo, ao
contrário, a experiência nada nos ensina, pois é aquilo que precisa ser explicado, não
havendo experiência que não esteja impregnada de teoria.
257

2. Em seu sentido técnico, experiência é a ação de observar ou de experimentar com a


finalidade de formar ou de controlar uma hipótese. Assim, a experiência (no sentido de
experiment) é o fato de provocar, partindo de condições bem determinadas, uma
observação tal que o seu resultado seja apto a fazer conhecer a natureza do fenômeno
estudado.

3. Conceitos: "A experiência é um princípio que me instrui sobre as diversas conjunções


dos objetos no passado" (Hume). "Nenhum conhecimento a priori nos é possível senão
o de objetos de uma experiência possível"; "A experiência é um conhecimento
empírico, isto é, um conhecimento que determina objetos por percepções" (Kant) (1)

Experiência Religiosa. Qualquer experiência que tenha como conteúdo a presença de


algo divino ou transcendente. Os crentes religiosos podem relatar experiências como
estar na presença de Deus ou de Cristo, ou em que conseguem compreender a ordem
divina, imutável e eterna do universo. Muitas epistemologias têm sido hostis a essas
pretensões, argumentando que tais conteúdos têm de ser inferidos a partir de uma
experiência, em vez de serem admitidos a partir dela, e que as experiências desse gênero
estão pura e simplesmente sendo interpretadas de acordo com os desejos do próprio
sujeito; os relatos de experiências religiosas, não tendo qualquer valor cognitivo
independente, deveriam antes ser um assunto de análise psicológica ou sociológica. Na
filosofia contemporânea existe uma espécie de interesse renovado pela experiência
religiosa. Alguns filósofos sustentam que toda experiência é subordinada a teorias, caso
em que um relato de uma experiência com um conteúdo religioso pode, apesar de sua
natureza sobrenatural, ser tão justificado quanto um relato de qualquer outro tipo. Os
filósofos contrários a essa defesa chamam atenção para o fato de que as teorias que
surgem com as experiências religiosas parecem não ser passíveis de teste e possuir
apenas uma importância emocional duvidosa. (3)
258

(1) JAPIASSU, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 1996.

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(3) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Explicação
Explicação. Do latim explicatio. 1. Segundo a tradição empirista, a explicação consiste
no conhecimento das leis de coexistência ou de sucessão dos fenômenos, de seu
"como": se uma descrição diz o que é um objeto, uma explicação mostra como ele é
assim. Um fato particular é explicado quando fornecemos a lei da qual sua produção
constitui um caso.

2. Para os racionalistas (v. racionalismo), ao contrário, a explicação consiste na


determinação das causas dos fenômenos, de seu "por quê", ou seja, em descobrir o
consequente pré-formado em seus antecedentes, em deduzir os fatos à sua causa, a única
causalidade causalidade inteligível sendo a adequação da causa ao efeito.

3. O trabalho da explicação, tipicamente uma atividade da ciência, reduz a explicação à


descoberta das leis capazes de dar conta dos fenômenos. (1)

Explicação (explication). O fato de explicar, isto é, de dar a causa, o sentido ou a razão.


O princípio de razão e o princípio de causalidade acarretam que todo fato, qualquer que
seja, tem uma explicação: o inexplicável não existe. Note-se que essa explicação não
tem, em si, nenhuma pretensão normativa, portanto não poderia valer como aprovação
ou como justificação. O fato de ser possível explicar uma doença não a torna menos
patológica ou menos grave. O fato de ser possível explicar o nazismo não o torna menos
ignóbil, nem menos prenhe de consequências. Li várias vezes que a Shoah era, por
natureza, inexplicável, que se devia declará-la assim, que só seria possível tentar
explicá-la, sem nenhum proveito aliás, com a condição de negar primeiramente sua
irredutível e atroz singularidade. É dar razão ao irracionalismo nazista e à noite contra
as Luzes. Por que o nazismo seria inexplicável? E há algo mais explicável do que o
racismo se tornar assassino, quando atinge esse grau de fanatismo e de ódio? Racismo
de massa: crime de massa. É melhor tentar compreendê-lo, para combatê-lo. Mas
quando se compreende, dirão, já não se pode julgar! É um equívoco. Não é a
cancerologia que nos diz que o câncer é um mal; mas ele nos ajuda a combatê-lo. A
explicação nunca faz as vezes de juízo de valor; nem juízo de valor de explicação. (2)

Explicar é desdobrar. Plica em latim significa dobra. Ex-plicare significa desdobrar,


ou seja, abrir as dobras. Toda explicação nada mais é do que o desdobramento de
259

alguma coisa; é o encadeamento das ideias no discurso falado ou escrito. A árvore veio
da semente; muitos animais vieram do ovo. Disto resulta que na semente ou no ovo está
contido todo o desenvolver daquela espécie de árvore ou de animal. Dar uma explicação
das coisas é reconstituir todo esse processo de desdobramento. Nesse mister, uma
explicação mais profunda, denominada filosófica, exige uma explicação desde o
começo: explicatio ab ovo (explicação desde o primeiro ovo). (3)

Mais precisamente, explica-se um objeto de conhecimento mostrando que pode ser


deduzido de verdades já admitidas ou de princípios evidentes. Se ativermo-nos a essa
conduta dedutiva, chegaremos mais ou menos a longo prazo ao “inexplicado”, na
medida em que a regressão no pensamento depara com princípios primeiros admitidos
sem demonstração. Um exemplo dessa dificuldade é fornecido pelas provas clássicas de
Deus: “explica-se” o mundo pela criação divina, mas a última é inexplicável, de certa
forma por definição, e tem de ser admitida como “mistério”. Segundo alguns autores
(Dilthey, Weber, Jaspers), a explicação seria o método próprio às ciências da natureza,
por oposição à compreensão, que caracteriza as ciências humanas.(4)

Dado que grande parte de nossa vida, tanto na atividade intelectual como fora dela, está
relacionada à procura de explicações, seria desejável possuir um conceito do que deve
ser entendido como uma boa explicação e do que distingue esta de uma má explicação.
Sob a influência de perspectivas da estrutura da ciência na linha do positivismo lógico,
admitiu-se que esse critério deveria ser encontrado numa certa relação lógica entre o
explanans (o que dá a explicação) e o explanandum (o que está sendo explicado). Essa
perspectiva culminou no modelo da cobertura por leis, segundo o qual um
acontecimento é explicado quando está subordinado a uma lei da natureza, ou seja, sua
ocorrência é dedutível dessa lei e de um conjunto de condições iniciais. As próprias leis
seriam explicadas por serem deduzidas de leis de ordem mais elevada ou mais geral, da
mesma maneira que as leis de Kepler do movimento dos planetas são dedutíveis das leis
de Newton do movimento. O modelo da lei geral pode ser adaptado para dar conta do
conceito de explicação nos casos em que se mostra que algo é provável dada uma lei
estatística. Os problemas acerca das leis gerais incluem a questão de saber se as leis são
necessárias para a explicação (todos os dias explicamos acontecimentos sem citar de
forma explícita qualquer lei); se são suficientes (afirmar que é um exemplo de um tipo
de coisa que acontece sempre pode não bastar para explicar um acontecimento); e se
uma relação exclusivamente lógica é adequada para captar o que exigimos de uma
explicação. Essa exigência pode incluir, por exemplo, que seja possível "intuir" o que
está acontecendo, que a explicação se baseie em coisas que nos sejam familiares ou que
não nos surpreendam. ou que possamos fornecer um modelo do que está se passando;
mas nenhuma dessas noções é captada em termos de uma abordagem exclusivamente
lógica. Por conseguinte, a investigação recente tem destacado a importância dos
elementos contextuais e pragmáticos numa explicação, de tal forma que o que que pode
ser tomado como uma boa explicação num certo conjunto de circunstâncias, pode não
ser tomado como tal em outras.

O argumento a favor da melhor explicação é o ponto de vista segundo o qual, desde que
possamos selecionar a melhor explicação de um acontecimento a partir de um conjunto
de explicações alternativas, existe legitimidade para aceitar essa explicação, ou mesmo
para acreditar nela. Esse princípio precisa ser ajustado porque às vezes não é sensato
ignorar a improbabilidade antecedente de uma hipótese que explique os dados melhor
do que outras hipóteses concorrentes: e.g., no caso de uma moeda, a melhor explicação
260

para ter saído cara 530 vezes em mil lançamentos pode ser a de que ela estava viciada
de modo que a probabilidade de sair cara fosse 0,53, mas pode ser mais sensato supor
que não estava viciada, ou que é melhor suspender o juízo. (5)

Explicação Funcional. Explicação de um fenômeno que utiliza como exemplo as


propriedades funcionais dos elementos que o constituem, em vez de seus papeis físicos
e mecânicos. Uma explicação do comportamento de um computador que cite o suporte
lógico (software) que está sendo utilizado é uma explicação funcional. (5)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2011.

(3) CIRNE-LIMA, C. Dialética para Principiantes. 2.ed., Porto Alegre: Edipucrs, 1979.

(4) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(5) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.
261

Facticidade
Facticidade. Termo introduzido por Fichte para designar o caráter contingente do que é
e a responsabilidade de justificarmos por intermédio de uma dedução racional a
realidade do mundo. A fenomenologia contemporânea retomou o termo -
principalmente com Heidegger e Sartre - para exprimir a ideia de que nossa existência é
um fato constatável, mas sem fundamento, sem razão e até, a princípio, absurda. A
partir disso, Sartre chega à conclusão de que o homem, desvinculado de qualquer
obediência a uma necessidade que organizaria sua vida, é soberanamente livre. (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Falácia
Falácia. Qualquer erro de raciocínio. Um raciocínio pode falhar de muitas maneiras, e
uma grande variedade de falácias foram identificadas e nomeadas. A divisão principal é
entre falácias formais, nas quais algo pretende ser um raciocínio dedutivamente válido
quando não o é, e as falácias informais, nas quais se comete um outro erro qualquer.
Tais erros podem incluir a introdução de irrelevâncias, a incapacidade de distinguir
termos, a falta de clareza, a precisão mal colocada etc. (1)

Falácia das Várias Perguntas. Falácia dos advogados que consiste em inferir que uma
pessoa é culpada se não se conseguir dar uma resposta claramente afirmativa ou
negativa, quando, na verdade, a pergunta não permite tal tipo de resposta. O exemplo
clássico é “Já parou de bater na sua mulher?”, perante a qual uma pessoa inocente não
pode dar uma resposta com uma só palavra (sim ou não). Esta pergunta esconde na
verdade duas outras (Alguma vez bateu na sua mulher? Bate hoje em dia na sua
mulher?), e a inocência implica responder não a ambas. Infelizmente, uma vez que, em
geral, falamos de parar de fazer coisas que fizemos antes, responder apenas “não” à
primeira pergunta arrasta uma forte implicatura, segundo a qual a pessoa costumava
bater na sua mulher, não tendo agora parado de o fazer. Por isso, a pessoa não deseja
dizer (apenas) que não, mas também não dizer “sim”. (1)
262

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1977.

Fato, Fato/Valor e Factual


Fato. Ocorrência possível ou efetiva no mundo real. O estado de uma coisa concreta e
suas variações de estados são fatos. Exemplos: Queda de chuva (um processo) e o
resultado chão molhado (um estado). Advertência 1: Todos os fenômenos (aparências)
são fatos, mas o inverso é falso. Advertência 2: “Fato” não deverá ser confundido com
“verdade”, o que é frequente na linguagem comum. Assim, corpos que caem sempre
foram acelerados, mas foi Galileu quem estabeleceu primeiro a proposição verdadeira,
de que corpos em queda são acelerados. Advertência 3: Tampouco o “fato” pode ser
confundido com o “dado”: um dado é um relato sobre o um fato. Quando pedimos a
alguém que “nos dê fatos”, não queremos os próprios fatos, mas alguns dados acerca
deles. Advertência 4: Os fatos investigados pela ciência são amiúde denominados de
‘fatos científicos’. Esta expressão é de algum modo infeliz porque sugere que todos os
fatos em questão sejam criações científicas, enquanto, em verdade, apenas alguns o são
– isto é, produzidos nos experimentos. (1)

Fato/valor. Uma distinção chave na teoria do valor, na ética e na ciência social. “A


maior parte das mulheres é oprimida” é uma declaração fatual, enquanto “A opressão
das mulheres é injusta” é um juízo de valor. A distinção e a separação entre fato e valor
é justificada por quase todas as teorias do valor e filosofias morais. Ela é tão importante
que faz jus a uma denominação especial: apartheid axiológico. A bem-dizer, juízos de
valor – em particular, máximas morais – não se seguem logicamente de enunciados
fatuais. Todavia, a lacuna fato/valor não é um abismo, pois o transpomos toda vez que
conseguimos alterar fatos para adaptá-los às nossas normas. Além disso, nem todas as
declarações de valor são subjetivas: algumas podem ser justificadas. Por exemplo, a
extrema desigualdade social não é apenas má para o pobre: Também põe em perigo a
segurança do rico e estorva o crescimento do mercado. Em suma, fatos e valores são
distintos mas não estão separados. (1)

Fatual. Refere-se ao fato (s) que pode (m) ser ou não da experiência, como em
“verdade fatual”. Não se deve confundi-lo com “empírico” ou “verdadeiro”, pois uma
declaração fatual pode referir-se a fatos inacessíveis à experiência sensorial, ou pode ser
falsa. Na perspectiva do realismo científico, a coleção das experiências é um pequeno
subconjunto da coleção dos fatos, ou seja, daqueles nos quais algum cognoscente está
envolvido. (1)
263

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Felicidade
Felicidade. Em geral, é um estado de satisfação devido à própria situação do mundo.
Por esta relação com a situação do mundo, a noção de felicidade difere da de beatitude a
qual é o ideal de uma satisfação independente da relação do homem com o mundo e por
isso limitada à esfera contemplativa ou religiosa. O conceito de felicidade é humano e
mundano. (1)

Felicidade. No verbete eudemonismo, a felicidade se identifica com o supremo bem. A


felicidade consiste na posse desse bem, qualquer que seja ele.

Aristóteles declarou que a felicidade foi identificada com bens muito diversos: com a
virtude, com a sabedoria prática, com a sabedoria filosófica, ou com todas elas,
acompanhadas ou não por prazer, ou com a prosperidade (Eth. Nic., I, 8, 1098b 24-9). A
conclusão de Aristóteles é complexa: as melhores atividades são identificáveis com a
felicidade. Mas, como se trata de saber quais são essas "melhores atividades", o
conceito de felicidade é vazio a menos que se refira aos bens que a produzem. De
qualquer maneira, Aristóteles tende a identificar a felicidade com certas atividades de
caráter ao mesmo tempo intelectual e moderado (ou, melhor, racional e moderado).
Boécio também se deu conta da índole "composta" da felicidade; esta é "o estado em
que todos os bens se encontram juntos". A felicidade, portanto, não tem sentido sem os
bens que fazem feliz. Mas já a partir de Boécio, tendeu-se a distinguir várias classes de
felicidade (beatitudo); pode-se falar de uma "felicidade animal" (que, propriamente não
é felicidade, mas, no máximo, "felicidade aparente"), de uma "felicidade eterna" (que é
a vida contemplativa), de uma "felicidade final" ou "última" ou "perfeita", que é o que
se chamaria de "beatitude". Santo Agostinho falou da felicidade como o fim da
sabedoria; a felicidade é a posse do verdadeiro absoluto e, em última análise, a posse
(fruitio) de Deus. Todas as demais felicidades são subordinadas a ela. Assim também
João Boaventura, para a qual a felicidade é o ponto final da consumação do itinerário
que leva a alma a Deus. A felicidade não é então nem voluptuosidade nem poder, mas
conhecimento, amor e posse de Deus. Santo Tomás utilizou o termo beatitudo como
equivalente ao vocábulo felicitas e o definiu (S. Theol., I, q. LXVII a1) como "um bem
perfeito de natureza intelectual". A felicidade não é simplesmente um estado de alma,
mas algo que a alma recebe de fora, pois, caso contrário, a felicidade não estaria ligada
a um bem verdadeiro.

Embora os autores modernos tenham tratado da felicidade de uma forma distante da dos
filósofos antigos e medievais, há algo comum a todos eles: a felicidade nunca é
apresentada como um bem em si mesmo, já que para saber o que é felicidade deve-se
conhecer o bem ou os bens que a produzem.

A maior parte das obras sobre problemas éticos e sobre a questão da natureza da bem
trata da noção da felicidade. (2)
264

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

(3) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Fenômeno
Fenômeno. Aquilo que se oferece à observação intelectual, isto é, à observação pura.

Fenomenologia. No sentido geral, estudo descritivo de um conjunto de fenômenos. Em


filosofia moderna, movimento filosófico inaugurado por Husserl para fundamentar a
filosofia como ciência rigorosa, capaz de dar base, por sua vez, às próprias ciências em
suas condutas específicas. Trata-se de voltar "às próprias coisas" a fim de captar suas
essências ao final da redução eidética. (1)

Fenomenologia. Ciência dos fenômenos como distintos da natureza do ser; estudo da


consciência e de objetos da experiência direta. (2)
265

Fenomenalismo. O conhecimento humano restringe-se às aparências (fenômenos)


apresentados aos sentidos, ou as aparências são a base do conhecimento. (2)

Fenomenalismo. Doutrina segundo a qual o homem não pode conhecer as coisas em si,
somente os fenômenos (no sentido kantiano). Contrariamente ao fenomenismo, não
considera as coisas em si ou “númenos” como simples palavras vazias de sentido, mas
nelas reconhece uma realidade. A doutrina de Kant é um fenomenalismo. (3)

Fenomenismo. Concepção filosófica atribuída sobretudo a Hume, que não admite a


existência de nenhuma substância, considerando a realidade como composta
exclusivamente de fenômenos e das percepções e ideias que formamos destes. Ver
materialismo; objetivismo. Oposto a substancialismo. (1)

= = = >>

Fenomenologia e Espiritismo
1. CONCEITO DE FENOMENOLOGIA
Designação que remonta ao século XVIII, do estudo das “aparências” ou dos
“fenômenos” (em sentido kantiano): o seu emprego específico por Hegel deriva
daqui.
Nestas obras de dupla leitura, Hegel descreve historicamente e
psicologicamente as “aparições” pelas quais o espírito passa da sensação
individual até a idéia absoluta encarada pela razão universal.
Hoje diz-se apenas do método e do sistema (fenomenologia transcendental)
próprias de Husserl e dos seus sucessores.
Trata especificamente do problema da redução do “eu transcendental” (1).
2. A REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA
O significado autêntico da redução consiste em trazer à luz uma zona do ser
onde subjetividade e objetividade se envolvem uma na outra, e onde, no limite,
são indissociáveis.
Husserl apresenta-a como um simples por entre parêntesis do mundo.
Trata-se apenas de reservar o nosso juízo existencial: “o mundo continua a
aparecer-me como até então me surgia, mas, na atitude reflexiva que me é
própria enquanto filósofo, já não efetuo o ato de crença existencial da
experiência natural; deixo de admitir como válida esta crença, ao mesmo tempo,
ela se conserve” (2).
3. O ESPÍRITO
É aquela Unidade recortada do Princípio Inteligente que, através do processo
natural de interação dos dois elementos capitais do Universo, se desencadeia,
ganhando individualidade, cada vez mais marcante, e assim, liberto e
responsável, transita um tanto consciente, amparado pela Lei da Harmonia
Universal, no curso irredutível e inalterável da vida, em manifesta e infinita
atualização de suas potencialidades, sob a salvaguarda do Pensamento Criador
(3).
4. O PERISPÍRITO
266

A Ciência Espírita desentranha da fenomenologia do Espírito a noção de


Perispírito e todas as funções características da sua natureza, em intuição plena
da razão, e, assim, pode, com extrema realidade, apresentar ao Conhecimento
Geral o Homem em sua intrínseca individualidade ternária do Espírito,
Perispírito e Corpo Biológico.
A Energia Vital - Fluido - é a essência da matéria orgânica. A substância
constitutiva do Perispírito tem por fundamento a Energia Vital.
Assim, pois, a Vida se manifesta, conseqüentemente, pela interação da
substância vital sob a orientação do Princípio Inteligente, já agora manifesto em
expressão entelequial, como Espírito, o Ser Racional da Criação, a expressão
maior conhecida do homem (3).
5. FENOMENOLOGIA MEDIÚNICA
Na paranormalidade e na fenomenologia mediúnica, o Perispírito exerce a
função mediadora.
É ele que recebe os estímulos volitivos do Espírito comunicante, passando-os,
depois, em ordem, à mente do médium que os interpreta e transmite ao exterior,
por gestos, palavras ou sinais convencionais.
É ele que sai como pessoa de si mesmo ou de outrem, e se manifesta, à distância,
pela própria presença tangível ou não, no cumprimento de uma incumbência.
Uma participação autêntica, mas nem sempre identificável (3).
6. NOVO SOL FILOSÓFICO
Com o advento do Espiritismo, levanta-se, no horizonte, um novo Sol filosófico
para renovar a filosofia, mas é preciso que a filosofia o reconheça.
Chama-se Filosofia Espírita, cuja idéia se encontra entranhada na tradição a
partir da Grécia Antiga, no realismo, passou pelo idealismo e, agora, aparece
com uma nova concepção do homem e do Universo: uma cosmovisão que
envolve a Cosmossociologia (3).

FENOMENOLOGIA E ESPIRITISMO
Fenomenologia é definida como “um estado puramente descritivo dos fatos
vividos de pensamento e de conhecimento”. Hegel, na sua obra Fenomenologia
do Espírito (1807), expõe que o progresso da consciência se realiza de forma
dialética até atingir o saber absoluto; Kant, por outro lado, separa os juízos “a
priori” (essências) e os juízos “a posteriori”. Somente em Husserl, a
fenomenologia toma o sentido corrente e específico: “o fenômeno constitui,
pois, a manifestação do que é, aparência real e não aparência ilusória”.
A fenomenologia, portanto, para Husserl e seus seguidores, significa uma
redução do “eu transcendental”. Nela, supõe-se que os dados da consciência
relativos aos fenômenos, não podem estar separados da essência. O grande
desafio do ser humano é captar a essência que está embutida na existência.
Neste mister, cabe-nos renunciar aos dogmas a aos preconceitos, tala qual
fizeram Descartes, Hume e outros.
A fenomenologia, dentro da ótica espírita, pode ser visualizada pela análise do
Espírito, do Perispírito e da Mediunidade. O Espírito é a essência primeira, o
princípio inteligente, que na fase humana adquire o pensamento contínuo, a
267

razão e o livre-arbítrio. A cada nova existência, torna-se mais consciente das


verdades eternas, o que lhe capacita crescer, eficazmente, em sabedoria e
virtude.
O Perispírito, formado pelo fluido cósmico de cada globo, é o elo de ligação
entre o Espírito e o Corpo Físico. Nele, encontra-se a resolução de muitos
problemas da nossa atual existência. O seu campo mental está impregnado, não
só de nossas ações passadas, como também de nossas perspectivas futuras. Por
isso, embora haja o esquecimento do passado, temos as intuições e as
inspirações, que nos orientam acerca das decisões que devemos tomar.
A mediunidade, por último, mostra-nos que as essências do mundo espiritual
podem se comunicar com as essências do mundo material. O perispírito é o
principal intermediário do contato mediúnico. Através dele, nota-se a
interposição do Espírito desencarnado com o encarnado, dando-se a errônea
impressão, aos videntes, de que um “incorpora” no outro.
A reflexão, desprovida de interesses pessoais, faculta-nos analisar qualquer
tema sob a ótica espírita. Isto auxilia-nos a melhorar substancialmente a nossa
cosmovisão transcendental da vida.
QUESTÕES
1) Defina Fenomenologia.
2) O Que se entende por redução fenomenológica?
3) O que é Fenomenologia do Espírito?
4) Que função exerce o perispírito no fenômeno mediúnico?
TEMAS PARA DEBATE
1) Redução do “eu transcendental”.
2) Fenomenologia e Espiritismo.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
(1) ENCICLOPÉDIA.
(2) BONOMI, A. Fenomenologia e Estruturalismo.
(3) SÃO MARCOS, M. P. Filosofia Espírita e seus Temas.
São Paulo, dezembro de 1996
<< = = =

1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(2) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

(3) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
268

Filosofia
Filosofia. Ciência geral dos princípios e das causas. Podemos determinar o campo da
filosofia moderna subtraindo ao domínio do que os gregos chamaram filosofia todas
aquelas espécies de conhecimento que foram construindo como ciências positivas, isto
é, de caráter experimental e com aplicação da matemática. (1)

Filosofia é a busca compartilhada da verdade. É a busca do entendimento racional do


tipo mais fundamental.

Metafilosofia. Teoria sobre a natureza da filosofia. (2)

Filosofia é a aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade


natural e humana, da origem e causas do mundo e de suas transformações, da origem e
causas das ações humanas e do próprio pensamento, é um fato tipicamente grego (3)

Filosofia. a. A disciplina que estuda os conceitos mais gerais (tais como os de ser, vir-a-
ser, mente, conhecimento e normas) e as hipóteses mais gerais (tais como as de
existência autônoma e a cognoscibilidade do mundo externo). Ramos básicos: lógica
(partilhada com a matemática), semântica (parcialmente partilhada com a linguagem e a
matemática), ontologia e epistemologia. Ramos aplicados: metodologia, praxiologia,
ética e todas as filosofias de antônimos, gnosofobia. b. A filosofia exata é a filosofia
construída com a ajuda de ferramentas formais tais como a lógica, a teoria dos
conjuntos e a álgebra abstrata. As vantagens da filosofia exata são a clareza e a
faculdade de sistematização e dedução. (4)

Filosofia. Filosofia é o amor pela sabedoria e pela busca do conhecimento. "Só se pode
apreender filosofia filosofando." (Kant)

A filosofia nasce quando o homem desafia o insólito, aceita a dúvida, questiona suas
certezas e suas crenças ou quando é capaz de ver algo de outra perspectiva. A atitude
básica e fundamental para despertar para a filosofia é a curiosidade.

A filosofia é mais uma atividade do que um conjunto de saberes. "A filosofia não é
nenhuma doutrina, mas sim uma atividade." (Wittgenstein, Tractatus Logico-
Filosoficus) (5)

Figura: sinonímia

Mais informação: http://www.sergiobiagigregorio.com.br/palestra/filosofia-e-


espiritismo.htm

http://www.sergiobiagigregorio.com.br/filosofia/filosofia-e-filosofar.htm
269

http://www.sergiobiagigregorio.com.br/filosofia/sintese-historia-filosofia.htm

http://www.sergiobiagigregorio.com.br/apostila/introducao-filosofia-
espirita.htm#CONCEITO%20DE%20FILOSOFIA

(1) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

(2) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre
Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

(3) Adaptado de cefetgo.br

(4) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(5) Enciclopédia Barsa Universal

&&&&&&

Filosofia Analítica. No sentido amplo, a abordagem filosófica que envolve a análise


conceitual. Trata-se de uma abordagem e não de uma doutrina. No sentido restrito, o
exame do uso de locuções e palavras da linguagem comum bem como de alguns
problemas filosóficos à luz da sabedoria popular. Sin. filosofia linguística, filosofia da
linguagem comum, filosofia oxfordiana, filosofia wittgensteiniana. (1)

Filosofia Barroca. Forma retórica (vazia e enrolada) de filosofar que se especializa em


mini problemas e pseudoproblemas. (1)

Filosofia da Ciência. O estudo da natureza da ciência, suas diferenças de outros modos


de conhecimento, suas pressuposições filosóficas, e os problemas filosóficos que
levantam. Exemplos de sua problemática: O que é ciência e como é que ela difere do
conhecimento comum? Quais são os elementos comuns e as diferenças entre ciência e
tecnologia? Quais são as marcas da pseudociência? Como é que as teorias científicas
relacionam a realidade e a experiência? Pode a ciência ir além dos fenômenos e das
relações entre eles? É possível descrever as coisas reais nos mínimos detalhes e com
perfeita precisão? O que são leis científicas e explicações científicas? Há saídas para os
dilemas racionalismo-empirismo e individualismo-coletivismo? Pode a filosofia ter um
papel construtivo na pesquisa científica? Está a ciência moralmente comprometida? Há
limites para o avanço da ciência? (1)
270

Filosofia da Ciência Social. Investigação das problemáticas filosóficas levantadas pela


pesquisa social. Amostra: Que tipo de coisa é a sociedade: fictícia ou real, espiritual ou
material? Há uma saída para o dilema individualismo-holismo? Ha leis sociais ou
apenas tendências temporárias? Quais são os motores da história? A ciência social pode
ser moralmente neutra? Qual é a relação entre ciência social e tecnologia social? (1)

Filosofia da Física. O exame filosófico das categorias físicas (tais como as da matéria,
energia, espaço, tempo, causação e acaso); o das pressuposições filosóficas, como as de
que existem coisas reais atrás das aparências; o dos princípios gerais, como os de que
existem coisas básicas ou indecomponíveis; e o dos problemas gerais levantados pelo
conhecimento experimental e teórico do mundo físico, tais como se a física quântica é
aplicável a entidades microfísicas e perdoa o subjetivismo, e se a relatividade geral
substitui os objetos materiais pelos geométricos - ou se todos eles são enxertos
filosóficos. (1)

Filosofia da Matemática. É o estudo filosófico da pesquisa matemática e de seus


produtos. Exemplos ou suas problemáticas: natureza dos objetos da matemática e
verdade matemática; relação entre invenção e descoberta na pesquisa matemática;
relações entre matemática pura e aplicada. Ha quatro filosofias fundamentais da
matemática: platônica, nominalista, intuicionista e empirista. (1)

Filosofia de Escola. A filosofia de uma escola ou seita dogmática. A receita


comprovada para fundar uma filosofia de escola é a seguinte: "Tome uma meia verdade
(se for absolutamente necessário, tome até uma verdade plena) e a proclame como
sendo a única verdade". Exemplos: A partir do fato de o conhecimento requerer
experimento, conclua que toda experiência é o alfa e o ômega do conhecimento; a partir
do fato de que o avanço do conhecimento envolve a crítica, conclua que a crítica é o
motor do progresso científico; a partir do fato de a pesquisa ser socialmente
condicionada, conclua que cada item do conhecimento possui um conteúdo social.
Filosofias de escola são difíceis de morrer ou porque encerram um grão de verdade ou
porque são alimentadas por movimentos sociais. (1)

Filosofia Perene. Expressão que designa uma concepção da filosofia situando-a acima
das contingências humanas, das coerções sociais e das vicissitudes da história, posto
que teria por objeto estudar as verdades intemporais da metafísica. Esta concepção se
opõe à visão do filósofo engajado com seu tempo e reflexo de sua época. (1)

Filosofia Política. Um dos ramos da tecnologia filosófica. Uma filosofia política pode
ser secularista ou teocrática, realista ou utópica, científica ou não científica, justa ou
injusta, democrática ou autoritária, popular ou não popular. (1)
271

Filosofia Pop. Qualquer coletânea de questões mal colocadas, como "Qual é o


significado da vida?", e máximas que são ou triviais (como "Há dois lados para toda
questão") ou notoriamente falsas (como aquela segundo a qual "Tudo o que sobe tem de
descer"). (1)

Filosofia positiva. Expressão usada por Comte para designar o modo de filosofar não
metafísico ou científico, pretendendo fazer a síntese dos fenômenos observados e das
leis da ciência positiva. (2)

Filosofia primeira. Em latim, philosophia prima. Expressão que traduz a fórmula


aristotélica proté philosophia, encontrada na Metafísica (E,1). Consagrada pela
escolástica medieval, considera a problemática do Ser e dos primeiros princípios como
questão central da filosofia, da qual todas as demais dependem. Utilizada por vezes
como sinônimo da própria metafísica. (2)

Filosofia Probabilista. Emprego do cálculo de probabilidade para exemplificar


conceitos filosóficos. Cerca de vinte conceitos filosóficos diferentes incluindo os de
causação, verdade, simplicidade e significado, tem sido apresentados como definíveis
em termos de probabilidade. (1)

Filosofia Social. O ramo da filosofia que lida com as várias doutrinas sobre a ordem
social: seus traços gerais, seu fundamento epistêmico e sua justificação moral. Para ser
relevante, uma filosofia social deve estar próxima da ciência social e da tecnologia
social. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

&&&&&&
272

Filósofo. Termo cuja paternidade a tradição atribui a Pitágoras, que, por modéstia, teria
renunciado a se dizer "sábio" para se contentar em ser "amigo da sabedoria". Foi
insistindo no aspecto moral dessa "amizade" que o próprio Sócrates se declarava
filósofo.

Até o século XVIII, o termo era sinônimo de erudito no sentido muito geral. No século
XVIII, particulariza-se para designar aquele que só reconhece a autoridade da razão.
Porém no plural, "os filósofos" são o grupo de escritores (Voltaire, d'Alembert, Diderot
etc.) adeptos das luzes e mais ou menos hostis às instituições religiosas (na Idade
Média, a mesma expressão designava os alquimistas).

Sentido não especializado: aquele que tem paciência com a vida, ou considera a vida
pelo lado bom, ou que tem uma vaga ideia "pessoal" da existência.

Mais tecnicamente, sinônimo de metafísico, na medida em que este busca as razões


primeiras das coisas.

Sentido técnico mais frequente: o que pratica a filosofia - e que escreve sobre ela a
maior parte do tempo -, exercendo sua reflexão crítica sobre todos os problemas
concebíveis. (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993

Para futura pesquisa

Filosofia americana

Filosofia Analítica

Filosofia Árabe

Filosofia Bizantina

Filosofia Científica

Filosofia Contemporânea

Filosofia da Filosofia

Filosofia da Linguagem

Filosofia Exata

Filosofia Existencial
273

Filosofia Greco-Romana

Filosofia Grega

Filosofia Indiana

Filosofia Judaica

Filosofia Marxista na União Soviética

Filosofia Medieval

Filosofia Moderna

Filosofia Muçulmana

Filosofia Natural

Filosofia Oriental

Filosofia Política

Filosofia Popular

Filosofia Prática

Filosofia Primeira

Filosofia Radical

Filosofia Renascentista

Filosofia Social

(Extraído do Dicionário de Filosofia de JFerrater Mora)

A Filosofia Clássica e o Helenismo


Os sofistas

O triunfo da democracia em Atenas (século V a.C.), seu esplendor econômico e cultural,


juntamente com sua preponderância politica na Grécia, provocaram uma situação
inédita que levantou novos problemas e orientou para outros rumos a especulação
filosófica: do problema da physis ao problema antropológico. Problemas práticos -
política, moral, religião, educação, linguagem etc - ocuparam os novos personagens da
274

época, os sofistas. Sua atitude relativista em política, em moral, chegando mesmo a


questionar a possibilidade de um conhecimento verdadeiro e comum - era expressão do
espírito da época. A democracia supõe conceder valor à opinião e, portanto, à
diversidade de pontos de vista, o que é incompatível com a defesa de uma verdade
absoluta.

O movimento sofista

Dá-se o nome de sofistas a um conjunto de pensadores gregos que florescem na segunda


metade do século V a.C. e que têm em comum, ao menos, os fatos de terem sido os
primeiros educadores profissionais (organizavam cursos completos e cobravam grandes
quantias para ensinar) e de que entre seus ensinamentos a retórica e um conjunto de
disciplinas humanísticas (política, moral etc.) ocupavam lugar de destaque. O advento
da democracia trouxe consigo uma mudança notável na natureza da liderança: a
linhagem já não era suficiente, e a liderança política passava pela aceitação popular.
Numa sociedade onde a assembleia do povo tomava as decisões e onde a aspiração
máxima era a vitória, um político precisava dominar a arte de convencer, a arte de
persuadir as massas de que a sua era a melhor proposta. Precisava, além disso, ter certas
ideias a respeito da lei, a respeito do justo e do conveniente, e também a respeito do
Estado. Eram esses os ensinamentos que os sofistas proporcionavam

A palavra "sofista" foi, no princípio, um sinônimo de "sábio" (sophos). Depois, o termo


ganhou o sentido pejorativo de hábil enganador. Isso mostra até que ponto os sofistas
foram personagens controvertidos em sua própria época. Na atualidade, os sofistas
encontraram mais compreensão e estima: são considerados os criadores de um
movimento que mereceu o nome de "iluminismo grego".

Atitude comum dos sofistas: relativismo

Os sofistas não formaram escola nem defenderam uma doutrina comum, mas
apresentam algumas coincidências - fundamentalmente, sua atitude relativista e até
cética. Sua vontade pouco dada à especulação abstrata levou-os a aceitar os sentidos
como fonte válida do conhecimento, ao contrário do que sustentavam alguns pré-
socráticos, sobretudo a partir de Parmênides. Se os sentidos mostram coisas diferentes a
indivíduos diferentes, como decidir qual deles está de posse da verdade? A verdade é
relativa a cada um: não há verdade absoluta, cada coisa é o que parecer ser para cada
um. Seu relativismo os conduz com frequência ao ceticismo: se cada humano tem sua
verdade, faz sentido falar de conhecimento ou de verdade? Mas também nos problemas
do homem e da sociedade eles se mostram relativistas: tinham podido comprovar em
suas numerosas viagens que não há dois povos que tenham as mesmas leis nem os
mesmos costumes.

Convencionalismo da lei
275

A constatação de que outros povos têm culturas diferentes - com leis, normas, costumes
e valores morais totalmente diferentes das que eles, os gregos, pensavam ser as únicas
possíveis - trouxe para o centro da discussão filosófica o tema do convencionalismo das
leis (nomos). Até esse momento, as leis eram consideradas como algo inamovível,
absoluto e comum - eram por natureza; a partir de agora, as leis são vistas como uma
criação convencional, arbitrária e provisória, relativas, portanto, à comunidade ou até ao
próprio indivíduo.

Os sofistas defendiam o caráter convencional não apenas das instituições políticas, mas
também das normas morais: o que se considera bom e mau, justo e injusto, não é
universalmente válido e imutável.

Alguns sofistas importantes

Protágoras (480-410 a.C.) foi o sofista mais destacado do seu tempo. Sustentava que
existem tantas verdades quantas opiniões e tantas opiniões quantos homens. O único
critério para distinguir o verdadeiro do falso era a utilidade e também a opinião da
maioria. Assim, as leis da pólis eram apenas convenções sancionadas por uma opinião
majoritária. Pode-se resumir o fundamental de sua filosofia na sentença: "o homem é a
medida de todas as coisas, das que são, enquanto são, e das que não são, enquanto não
são". Também é muito característica de seu pensamento sua teoria dos "raciocínios
duplos": "Em toda questão, há dois raciocínios opostos entre si", quer dizer, de cada
coisa se pode dar sempre duas versões opostas, já que, se não há verdade, um juízo é tão
válido quanto seu contrário. Outro sofista importante, Górgias (484-375 a.C.),
sentenciava que tudo o que exite é pura aparência. Chegava a sustentar que, se alguma
coisa existisse verdadeiramente, das duas uma: ou não poderíamos conhecê-la bem, ou,
se a conhecêssemos, não poderíamos comunicar isso. Seu ceticismo era total. Menos
céticos eram Trasímaco e Calicles, que viam no direito do mais forte a expressão de
uma lei natural, não convencional. Hípias, em troca, sustentava que a autêntica lei
natural se expressa por meio do princípio de igualdade entre os homens.

Compreende-se que os sofistas fossem alvo de tantas críticas. Os grandes filósofos


gregos, como Sócrates, Platão e Aristóteles os consideravam perigosos e elaboraram
parte de suas próprias concepções como respostas destinadas a demonstrar o espírito da
sofística, tão arraigado, por outro lado, na época.

&&&&

Sócrates

Sócrates concebeu a filosofia como uma busca coletiva cujo instrumento é o diálogo e
cujo objetivo, a clareza sobre a própria existência, tanto em sua dimensão individual
quanto em suas relações com outros membros da comunidade. Sócrates exerceu sua
atividade filosófica em Atenas, sempre na rua, pondo os seus interlocutores contra a
parede com suas armas dialéticas. Seu propósito era combater os preconceitos,
questionar as falsidades, destruir o discurso demagógico dos poderosos, forçar seus
276

concidadãos à reflexão permanente. Tornou-se um personagem muito incômodo - ele


mesmo se autoqualificava de "mosca" - e foi acusado de haver profanado as crenças
religiosas da cidade e de corromper a juventude. Foi condenado á morte, e embora
considerasse a sentença uma injustiça, acatou-a com dignidade.

Conhece-te a ti mesmo

Ironia e maiêutica

A descoberta do conceito

Intelectualismo ético

Caixa: Sócrates, segundo Platão

Caixa: A morte de Sócrates

&&&&

Platão

A vocação filosófica de Platão acaba por ser determinada a partir do julgamento e


condenação à morte de Sócrates. Platão estava destinado, por linhagem, à política, mas
renunciou a participar de um sistema que havia sido o causador do assassinato do mais
sábio e justo dos homens - e, desiludido, dedicou-se a uma atividade puramente teórica:
a filosofa. Nela, tentou encontrar um fundamento objetivo para o interesse do homem
pelo conhecimento, assim como para a possibilidade de o alcançar. O conhecimento não
tem apenas uma dimensão teórica, mas também uma prática: o conhecimento da
verdade permite uma vida justa e eticamente correta, assim como uma organização
política que corrija os graves defeitos das já existentes.

A teoria das ideias

Mundo sensível e mundo inteligível

Características das ideias

O bem: ideia suprema

O demiurgo e o caos originário

Conhecimento sensível e conhecimento inteligível

Conhecer é recordar: teoria da reminiscência


277

A teoria da alma

A ética de Platão

O Estado utópico

A filosofia da arte

O Amor platônico

Caixa: O mito da caverna

Caixa: Imortalidade da alma

Caixa: Os ensinamentos filosóficos

Caixa: A mulher e o Estado

Caixa: Platonismo e a religião judaico-cristã

&&&&

Aristóteles

Se com Platão chega à maturidade uma constante do espírito ocidental, a idealista, que se
baseia sua superioridade na razão, com Aristóteles se afirma outra orientação de igual
importância: a que se baseia fundamentalmente na experiência, para construir a partir dela
um sistema rigoroso.

O gênio de Aristóteles é, acima de tudo, ordenador, lógico, enciclopédico. Uma de suas


grandes ideias é a classificação, que permite agrupar os seres de acordo com suas
semelhanças ou diferenças. Também se deve a ele a criação da lógica como disciplina
própria a filosofia, que no passado Jônico era uma reflexão global sobre a natureza,
diferencia-se com Aristóteles em uma série de disciplinas agrupadas por seu caráter
teorético (teologia, matemática, física), prático (ética, política) ou produtivo (retórica,
poética).

A metafísica aristotélica

O conceito de substância

Concepção hilemórfica do ser

Potência e Ato

A noção de causa
278

Deus: motor imóvel

A física

O movimento

A psicologia aristotélica

A lógica

As categorias

O julgamento

O silogismo

Os três princípios da lógica

A filosofia prática

A poética

Caixa: A metafísica aristotélica

Caixa: Amizade

Caixa: A virtude

Caixa: A arte poética

&&&&

Pensamento helenístico

Platão e Aristóteles constituem a tradição dominante do pensamento grego, mas não são
a única. Na época helenística, que começa quando Alexandre o Grande chega ao Poder
(336 a.C.), surgiu três novas escolas filosóficas que têm um lugar próprio na história do
pensamento: o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo. O ponto comum às três escolas é
a ênfase numa ética de caráter individualista na qual a busca da felicidade se torna
prioridade. Isto é consequência do fim da pólis e da formação do poderoso estado
alexandrino: o indivíduo perde sua capacidade de intervenção na vida política e se retrai
a uma esfera privada, na qual aspira apenas a cultivar a si mesmo.
279

O epicurismo: uma filosofia materialista

A filosofia de Epicuro (341-270 a.C.), fundador dessa doutrina materialista, situa-se no


extremo oposto das teorias de Platão e Aristóteles, e afirma ser continuador do
atomismo de Demócrito. Seu materialismo o leva a rechaçar, em primeiro lugar, todo
vestígio de transcendência — só existe um mundo, este é totalmente material — e, em
segundo lugar, coloca o conhecimento inteligível separado do sensível: a sensação é o
fundamento do conhecimento. Tudo o que existe é material inclusive a chamada "alma".
A morte de um indivíduo humano é o desaparecimento de corpo e alma. Não existe,
portanto, nem imortalidade nem um "mais além": não há outros mundos fora deste.
Apesar disso, um dos aspectos mais notáveis da moral epicurista é, precisamente, o
ensinamento de que a morte não é algo a se temer. Não se deve ter medo da morte
porque, sendo a morte a perda de todas as sensações depois dela não experimentamos
nada. Quando estamos vivos a morte não está presente, e quando ela se apresenta nós já
não somos — nada pode nos acontecer. Epicuro é um dos primeiros filósofos a afirmar
que o medo torna os humanos escravos e que é preciso refletir cuidadosamente sobre o
fundamento de nossos temores, com a clara intenção de dissipá-los.

A vida é tudo o que temos: é preciso vivê-la. A busca da felicidade é a busca do prazer.
Convém não confundir o epicurismo com o hedonismo, que busca o prazer a todo o
custo. Às vezes é inevitável certa cota de dor. A cada um cabe refletir sobre o que mais
lhe convém, tendo em conta que o ideal da vida é alcançar a ataraxia — a tranquilidade
do espírito que evita cair na dor decorrente da carência ou do excesso de prazeres — e a
autarquia — auto-suficiência, não depender de nada a não ser de si mesmo, encontrar
satisfação com pouco, uma vez que o desejo de abundância nos torna dependentes do
objeto. O sábio epicurista sabe que desejar o que está fora de seu alcance é loucura, e
também sabe que existem momentos na vida em que a dor se apresenta e o prazer se
ausenta. Sabe, portanto, combater a dor sem se queixar, relembrando os momentos
felizes; e sabe que os pequenos prazeres, os mais modestos, são os mais exequíveis e,
por isso, mais prazerosos.

O estoicismo

O estoicismo, cujo fundador foi Zenão de Cicia (335-264 a.C.), exerceu uma enorme
influência em épocas posteriores, sobretudo no que se refere à ética. O estoicismo terá
grande importância na época romana (com Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio). Nos
séculos XVI e XVII, ocorre na Europa um vigoroso renascimento das concepções
estoicas, que influenciarão Descartes, Kant e Hegel, entre outros autores. É importante
também a contribuição dos estoicos para a lógica aristotélica e o rigor que introduzem
na terminologia gramatical.

A física estoica concebe o mundo como um todo unitário e harmonioso, regido pela
necessidade inflexível de uma lei universal (logos, razão). O homem constitui uma parte
deste universo harmonioso e deve se submeter à ordem universal, deve aprender a viver
de acordo com a natureza, e isso equivale a viver orientando-se pela razão. A razão nos
280

permite conhecer essa ordem, mostra-nos a necessidade presente naquilo que acontece e
nos ensina que é uma quimera pretender alterá-lo.

A vida de acordo com a razão é a vida do sábio, conforme acabamos de ver, mas
também a do virtuoso. Mais uma vez, sabedoria e virtude se identificam. Dada essa lei
inexorável, o sábio só pode aspirar à ataraxia, à serenidade do espírito e à
imperturbabilidade. Para isso, é preciso não apenas aceitar a ordem do Universo — e o
estoicismo dá a isso uma enorme importância — mas também libertar-se das paixões
(pathos), pois essas nos escravizam. Nisto consiste a apatia. O sábio não deseja nunca o
que está fora de seu alcance e suporta as adversidades sem se alterar, já que, se elas não
dependem de nós, nada podemos fazer para evitá-las, a não ser procurar que nos
produzam o mínimo de dor possível. Um homem assim há de ser, inevitavelmente, feliz.

O ceticismo

O ceticismo vai encontrar essa tranquilidade de espírito, que constitui o ideal dos
epicuristas e dos estoicos, não numa doutrina própria, mas na recusa de qualquer
doutrina. Pirro de Élida (365-275 a.C.), iniciador dessa corrente que tem os sofistas
como predecessores, considera que a razão não pode penetrar na essência das coisas e
aconselha a suspensão do julgamento e o hábito da dúvida diante de todas as questões.

A partir dessa postura frente ao problema da verdade, Pirro desenvolve uma ética da
imperturbabilidade (ataraxia): já que nada sabemos com certeza sobre as coisas do
mundo, tudo deve nos deixar em absoluta indiferença — e que nada perturbe nosso
espírito.

Nas versões modernas do ceticismo, a suspensão do julgamento se transforma em uma


atitude de temor em relação à possibilidade de conhecimento, ou na afirmação de que
nosso conhecimento é limitado e não chega a aprofundar-se na realidade, ou na
convicção de que o conhecimento é apenas provável, sem jamais ter certeza total sobre
as coisas. (1)

&&&&

Pensamento trágico

Depois dos pré-socráticos, e ainda no século V a.C., o pensamento grego concentra sua
atenção no homem. Já não se trata de revelar, por meio da razão, os mistérios da
natureza, mas de se perguntar diretamente pelo sentido da vida humana, por aquele
destino dos homens que, naqueles momentos, aparece ainda nas mãos do destino, quer
dizer, governado pelos deuses e sem possibilidade alguma de escapar à sua
determinação fatalista.
281

Na Atenas desse período surgem os sofistas. Sua filosofia retórica e cética está
relacionada com o espírito trágico, uma mentalidade caracteristicamente grega forjada
diante da experiência universal da dos humanos. Essa visão trágica do mundo está
presente em todo o pensamento grego, mas nessa época ocupa o primeiro plano, devido
à cultura filosófica dos sofistas.

O espirito da tragédia

As raízes da tragédia, considerada como gênero dramático, encontram-se na Grécia


arcaica e estão ligadas desde a origem ao culto a Dionísio. Divindade complexa e
ambivalente, Dionísio é a expressão da vida como contradição e como agonia (que em
seu sentido primitivo significa "luta, combate"). Quando se afirma que os gregos tinham
uma mentalidade trágica, aponta-se de imediato para essa ideia de existência como luta
entre os opostos (entre a vida e a morte, o prazer e a dor, a evolução e a involução, a
unidade e a multiplicidade). A existência humana está cheia de contradição e, o que é
mais importante, reproduz-se em virtude delas.

O espírito trágico, portanto, não está associado unicamente a um gênero literário


específico - a tragédia -, mas impregna a própria raiz do pensamento grego. Pode-se
afirmar até que toda a filosofia grega constitui uma resposta a esse sentido trágico da
existência.

A experiência da dor

O pensamento trágico, no entanto, surge, antes de tudo, diante da experiência da dor,


uma dor que é universal. Não que existam indivíduos felizes e outros infelizes, e sim
que o sofrimento é o quinhão mais bem repartido da vida humana: atinge a todos, mais
cedo ou mais tarde. Ninguém escapa dele.

Os gregos começam a descobrir essa experiência na própria natureza: exuberante e


fertilíssima, doadora de vida, é também destruidora e mata aquilo que criou. É o
destino, seu caráter intelectual, seu fatalismo; é o fado.

A experiência da culpa

Na vida trágica, entendida como contradição, é difícil orientar-se. Diante de qualquer


conflito, a situação é em si ambígua. Isto sempre fica bem claro nos personagens das
tragédias: são culpados e inocentes ao mesmo tempo; agiram mal, mas talvez não
pudessem ter agido de outro modo; ou talvez tenham agido com a melhor das intenções
e provocaram consequências funestas.

Num mundo em que a escolha moral é tão problemática, a culpa está sempre presente
em toda ação. Aparece então como castigo dos deuses, como destino inelutável. É
revelador o fato de que a noção de causa - fundamental para o desenvolvimento de uma
filosofia posterior como a aristotélica - fosse em suas origens um termo jurídico que
282

entre os gregos designava precisamente ação de "acusar". Assim, o fundamento ou a


origem de algo remete em seus inícios à ideia de culpa.

O espírito trágico na filosofia

Na segunda metade do século V a.C., a mentalidade trágica penetra na filosofia por


intermédio dos sofistas. O desenvolvimento das trocas comerciais, o aumento da riqueza
e a maior participação na vida politica são fatores que agravam o jogo de interesses
opostos na vida da pólis.

A necessidade de se orientar entre as diferentes opções de vida e de poder distinguir


entre o verdadeiro e o falso passa então a ocupar o primeiro plano. Não é por acaso que
nessa época florescem os grandes trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípides.

Ainda mais importante, porém, do ponto de vista filosófico, é a resposta que o


pensamento dá ao sentido trágico da vida. Os sofistas, ao orientarem os
comportamentos públicos por meio da transmissão de conhecimentos sobre como se
deve agir, satisfazem uma necessidade mais decisiva: a de arrancar a vida do homem do
fatum, da inevitabilidade do destino nas mãos dos deuses. Essa tarefa atingirá o apogeu
com Sócrates e permitirá depois o amplo desdobramento do pensamento platônico
aristotélico

Caixa: As tragédias de Sófocles

Caixa: A tragédia

&&&&

A ciência no mundo clássico

A aplicação do conhecimento humano para satisfazer às necessidades do homem se


confunde com as origens da humanidade. Alguns milênios antes da nossa era, a
astronomia e as matemáticas atingiram um desenvolvimento considerável em algumas
civilizações do Oriente Médio. O conhecimento científico e técnico vem de muito
longe.

No entanto, o nascimento da ciência como tal (quer dizer, como conjunto de


conhecimentos objetivos e sistemáticos acerca da natureza e do homem) ocorre na
Grécia, a partir do ano 600 a.C. e é inseparável das origens e da evolução do próprio
pensamento filosófico.
283

Filosofia e ciência nascem juntas, formam uma unidade, e só a partir da época


helenística é que se pode estudar o conhecimento científico como resultado específico e,
até certo ponto, à margem do conhecimento filosófico.

A filosofia e a ciência na Grécia

Na época em que nasce o pensamento e científico (isto é, a partir de 600 a.C.), os gregos
dominavam um conjunto considerável de conhecimentos técnicos herdados, em parte,
de civilizações anteriores. Temos um testemunho direto desse alto nível tecnológico a
partir da arquitetura, da escultura e da cerâmica gregas que chegavam até nós. Ao
mesmo tempo, aparece documentado que os gregos possuíam amplos conhecimentos
nos mais diversos campos, como, por exemplo, a engenharia e a metalurgia, a
astronomia e a navegação, a agronomia e a mineralogia ou a anatomia e a fisiologia.

Uma característica do espírito grego, no entanto, é a divisão do saber em duas


ramificações: de um lado, o pensamento puro; de outro, o conhecimento que leva à
transformação da natureza, próprio da ciência aplicada. Para os gregos, o ideal consistia
no saber puro, não no fazer, e o bem supremo era compreender por meio de um caminho
contemplativo os enigmas do homem e do Universo.

Essa distinção talvez explique a ausência do termo "científico" no mundo grego.


Naturalmente, havia palavras para diferenciar a atividade dos que se dedicavam à
botânica, à medicina ou à arquitetura. No entanto, o que atualmente entendemos por
científico é algo que os gregos associavam pura e simplesmente com a condição de
filósofo. Da mesma forma, embora dispondo de uma palavra para designar a ciência, a
episteme, essa era vista como aquele conhecimento acima de qualquer dúvida,
incontroverso, totalizante, que se adquire com a filosofia. De modo que filósofo e
cientista, assim como filosofia e ciência, são, no início, uma mesma pessoa e uma
mesma coisa. Por isso, quando se fala que a ciência nasce na Grécia, alude-se
diretamente a essa capacidade de generalização e objetivação de que o conhecimento
puramente aplicado necessita para transformar-se em conhecimento científico. Essa
capacidade de abstrair e de formular, de converter em lei objetiva os fenômenos
observados na natureza, que é característica da ciência, provém da filosofia. A ciência
surge com a filosofia e da filosofia, e por isso se diz que nasce na Grécia, e não nas
civilizações do Oriente Médio, apesar do elevado grau de conhecimento técnico-
científico que essas possuíam.

A evolução da ciência no mundo clássico

Na época dos pré-socráticos, a identificação entre filosofia e ciência é total. Não é


possível separar uma da outra na obra de Tales de Mileto, Pitágoras ou Empédocles.
Depois, no período ateniense que vai de 480 a 300 a.C., as atividades científicas
começam a se diferenciar de filosofia. Sócrates, por exemplo, qualificava de inferiores
as ocupações no campo da medicina ou da astronomia. A grande figura é a do filósofo-
cientista, como Platão. Mas é sintomático que em sua época floresça a atividade
284

naturalista e científica da medicina hipocrática, assim como o fato de que a investigação


de base empírica seja uma das grandes preocupações de Aristóteles e de sua escola.

A ciência, em sua acepção própria, e diferenciada da filosofia, destaca-se plenamente


como tal durante o período helenístico. Essa é a época de Euclides, Arquimedes e
Hiparco, quer dizer, de homens que já são cientistas em toda a sua plenitude. Sua
atividade se desenvolve em Alexandria, que já tinha substituído Atenas como capital
científica e cultural do mundo grego e está associada à primeira grande instituição com
categoria científica da história: o Museu de Alexandria.

A ciência no mundo clássico evolui, por fim, no Império Romano, para uma nova fase
que, sem ser original, segue as diretrizes do período anterior e, em alguns casos,
aprimora-as. O aperfeiçoamento da técnica é bem característico dessa etapa, em que
Roma suplanta Alexandria.

A matemática

A astronomia

As ciências físicas

As ciências naturais

A medicina

A geografia

A técnica

Caixa: Os teoremas de Arquimedes

Caixa: Os mapas gregos

Caixa: O sistema de Aristarco

Caixa: O juramento de Hipócrates

Caixa: A herança das civilizações orientais

Temática Barsa - Filosofia. Rio de Janeiro: Barsa Planeta, 2005. (Cópia - Capítulo 2)
285

Filosofia Medieval
Filosofia Medieval. Na Idade Média não existia uma Filosofia, mas correntes de
opiniões, doutrinas e teorias, denominadas de Escolástica. Santo Tomás de Aquino e
Santo Agostinho são seus principais representantes. Buscava-se conciliar fé com razão.
O método utilizado é o da disputa: baseando-se no silogismo aristotélico, partiam de
uma intuição primária e, através da controvérsia, caminhavam até às últimas
conseqüências do tema proposto. A finalidade era o desenvolvimento do raciocínio
lógico.
286

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Extraído da Temática Barsa - Filosofia

O pensamento medieval

Desde a dissolução do Império Romano, no século V, até a época do renascimento, que


tem início no século XV, decorre a "Idade Média" da história ocidental, considerada
uma obscura e prolongada etapa de transição em que o pensamento se teria extraviado
perdido num fundo de primitivismo. Só o esforço da igreja teria mantido intacto o fio de
continuidade com o passado. Hoje, sem se pôr em dúvida a barbárie dos primeiros
séculos medievais, valoriza-se a Idade Média como uma época autônoma e original em
que se reinterpretou o legado do pensamento antigo a se forjarem respostas para a
relação do homem com Deus e com o Universo que a razão técnico-científica ainda não
tinha conseguido encontrar.

Razão e fé

Um dos grandes problemas da filosofia medieval é o da relação entre razão e fé — ou


entre filosofia e teologia — e seu respectivo papel na compreensão do mundo. Por certo,
a filosofia é considerada ancilla theologiae ("serva de teologia") e os medievais são
mais teólogos do que filósofos, mas se investiu grande esforço para encontrar uma
síntese entre as duas. O equilíbrio se rompe no final da Idade Média: fé e razão se
separam definitivamente e a filosofia conquista sua autonomia frente à revelação e à
teologia.

O problema dos universais

A reinterpretação que na Idade Média se faz do pensamento antigo segue a orientação


do chamado realismo. Nessa época, não se deve entender realismo no sentido
positivista, mas platônico, pois se trata daquele idealismo de Platão que concede
realidade às ideias, como arquétipos ou essências preexistentes. Na linguagem
medieval, isto é suscitado como discussão dos universais. As ideias, as noções abstratas
e gerais que temos das coisas, existem realmente, ou serão apenas nomes que servem
para designar os objetos?

Há uma corrente de base platônica e agostiniana que defende um realismo extremo (os
universais existem e são ante res, anteriores às coisas); outra corrente que se opõe à
anterior por meio do seu nominalismo (os universais não são reais e estão post rem,
depois das coisas); e finalmente, uma posição intermediária, a do realismo moderado
287

(os universais existem, mas apenas como formas das coisas particulares), que está na
base da síntese aristotélica-tomista.

O realismo foi, no entanto, a atitude geral que impregnou por inteiro o espírito do
pensamento medieval. Em qualquer pensador da Idade Média se observa logo uma
tendência para a abstração genérica e universalista. Além da apreensão individualizada e
concreta das coisas e do estudo de sua inter-relação causal, a mente medieval apresenta
uma predisposição para a hierarquização ordenada das grandes ideias e conceitos. Essa
tendência para a generalização é produto de uma atitude que outorga verdadeira
entidade real a todas as coisas abstratas. O homem medieval outorga existência a tudo
aquilo que nomeia como gênero, espécie e qualidade.

A conexão simbólica

No fundo, essa orientação realista do pensamento medieval, em que há sem dúvida uma
base e neoplatônica, obedece a uma visão de mundo em que todas as coisas estão
simbolicamente conectadas. O instrumento do pensamento medieval é o símbolo, ou
melhor, a capacidade de estabelecer correspondência entre todas as coisas, desde as
mais elevadas até as inferiores, descobrindo a analogia secreta que as une.

Uma vez que Deus é auto-revelação, como defende Dionísio Areopagita, também
chamado o Pseudo-Dionísio, então todos os objetos, em diferentes graus, constituem
manifestações do Criador. Para usar as palavras de João Escoto Erígena, nem a pedra
mais humilde pode ser entendida se não se percebe nela a presença de Deus. O
pensamento simbólico — que se deve valorizar como uma modalidade do pensamento
medieval — estabelece assim uma conexão de sentido sob a aparente multiplicidade do
mundo dos fenômenos. O símbolo permite descobrir uma unidade última do ser, o Unus
Mundus, em que desaparece a dualidade entre mente e matéria.

Caixa: Dionísio Areopagita e Boécio

&&&&&

A escolástica

O pensamento medieval se articula em torno da escolástica, movimento religioso e


teológico que surge no século IX e dura até o XV. O nome escolástica provém das
scolae monásticas e episcopais que nos primeiros séculos da Idade Média se
encarregaram de conservar e transmitir cultura. A característica essencial da escolástica
é seu método especulativo, que busca conciliação das verdades da fé e da razão,
subordinando a filosofia à teologia. Nesse sentido, é uma continuação da patrística —
mas, como é menos uma doutrina do que um método, engloba várias correntes do
pensamento bem diferenciadas.
288

Antecedentes e etapas da escolástica

As diferentes correntes escolásticas podem ser agrupadas, na verdade, em duas grandes


orientações. A primeira delas tem como antecedente santo Agostinho e corresponde à
orientação platônica do pensamento medieval. É uma corrente essencialmente espiritual
e mística que se reclama, no início, tributária das doutrinas de Dionísio Areopagita e
que impregna de sentido movimento como o cisterciense ou ordens como a dos
agostinianos e, mais tarde, a dos franciscanos. Já no outono da Idade Média, essa
corrente dará ainda seus frutos na mística germânica. A outra grande corrente é
aristotélica. Nos primeiros séculos medievais, essa orientação é muito fraca, devido em
parte ao fato de que a obra de Aristóteles é apenas superficialmente conhecida, por meio
dos textos de Boécio. A partir do século XII, entretanto, uma vez que o pensamento
aristotélico se difunde amplamente em virtude das filosofias muçulmana e judaica, essa
orientação alcançará um formidável desenvolvimento. A recepção, portanto, da filosofia
da Antiguidade marca em grau notável as diferentes etapas do pensamento escolástico.

A filosofia medieval começa propriamente no século IX. O pensamento anterior


significou, sobretudo, um trabalho de acumulação e conservação da cultura clássica. Na
escolástica, costumam-se distinguir quatro etapas: formação (séculos IX-XI),
desenvolvimento (século XII), apogeu (século XIII) e, finalmente, a crise (século XIV).

A pré-escolástica: João Escoto Erígen

Santo Anselmo

Abelardo

Caixa: A escola de Chartres

Caixa: A renovatio carolingia

&&&&&

Santo Tomás de Aquino: o apogeu da escolástica

O apogeu da escolástica se situa no século XIII. Essa é a época em que o papado desfruta
de maior autoridade política e é também o século em que os efeitos da "revolução
comercial" intensificam os circuitos da economia urbana. Nesse contexto, a instituição
primordial que transmite o saber já não é o mosteiro, mas a universidade. Nela, a
escolástica floresce como método de raciocínio e discussão, e sobre a base de um rico
patrimônio conceitual acumulado lentamente nos obscuros séculos precedentes. É então
que acontece a penetração do aristotelismo, paradoxalmente transmitido pelo pensamento
289

muçulmano e judaico, e que obriga a redefinir a estrutura teológica-filosófica do


escolasticismo. O autor dessa complexa operação é santo Tomás de Aquino, e o resultado
é o tomismo, que a igreja adotará oficialmente a partir de então.

O averroísmo

A controvérsia averroísta

A ontologia tomista

A questão dos universais

A teologia tomista

A demonstração da existência de Deus

A antropologia tomista

Caixa: Os treze artigos de fé de Maimônides

Caixa: A alma humana é alguma coisa permanente?

&&&&&

A escolástica tardia

Durante o século XIV — época de crise — o equilíbrio entre doutrinas e crenças se


alterou profundamente. O scotismo (sistema filosófico de Duns Scotus) desfaz então as
conexões entre razão e fé, dois âmbitos que ficam cindidos depois do nominalismo de
Guilherme de Occam. Para Occam e os nominalistas, os universais são simplesmente
termos que aludem aos objetos singulares. O domínio da razão está no campo da
experiência, o conhecimento das coisas individuais exclui o das verdades da fé que, por
serem indemonstráveis, devem ficar relegadas ao âmbito das crenças. Essa atitude de
Occam já prefigura o nascimento da ciência moderna e, ao mesmo tempo, assinala o
acaso da escolástica e do pensamento medieval.

O scotismo

O nominalismo de Occam

Caixa: Navalha de Occam


290

Caixa: O pensamento político medieval

&&&&

Raimundo Lúlio

A personalidade de Lúli

Os nomes de Deus

A cosmologia luliana

A Ars magna

Os princípios absolutos

Princípios relativos e correlativos

Outros níveis

A combinatória

A árvore da ciência

A filosofia do amor

O lulismo

Caixa: A vida de Lúlio

Caixa: Algumas obras de Lúlio

Caixa: A cabala

&&&&

Místicos e visionários

Além do racionalismo escolástico, há ao longo da Idade Média uma corrente de


pensamento místico que, apesar de suas interrupções e sua configuração variada, pode
ser estudada de forma unitária. Essa corrente, herdeira das doutrinas de Dionísio
Areopagita, recebe o impulso das ideias platônicas e do pensamento de santo
291

Agostinho, e se expressa com frequência, por meio de símbolos e visões. O misticismo


medieval é, mais do que a expressão de um pensamento, a confissão de uma experiência
religiosa que tem por objetivo limpar o caminho que conduz a Deus, elevando o homem
do profano ao sagrado.

O misticismo medieval

A mística germânica: Eckhart

Caixa: O retiro monástico

Caixa: Do caminho real da Santa Cruz

A ciência medieval

Durante os dez séculos transcorridos entre a queda do Império Romano e o


Renascimento, o pensamento científico se desenvolve com grande lentidão. A ciência
medieval, vista em seu conjunto, é mais uma adaptação do modelo helenístico do que
uma abertura original para novas formas de investigação e de domínio da natureza. Por
outro lado, inserida como está em uma cultura teológica, propõe-se apenas, na melhor
das hipóteses, a confirmar experimentalmente as verdades religiosas estabelecidas pela
igreja.

O surgimento da ciência experimental, emancipada das crenças da fé, é característica do


Renascimento. A época medieval, no entanto, prepara esse surgimento, recuperando por
meio dos muçulmanos os esquemas científicos da Antiguidade clássica e trazendo um
conjunto de técnicas que serão imprescindíveis para o movimento da ciência moderna.

As contribuições dos muçulmanos

A ciência na Europa medieval

A imagem do mundo

O pensamento científico

A técnica medieval

Caixa: O manuscrito voynich

Caixa: As rodas do tempo

Temática Barsa - Filosofia. Rio de Janeiro: Barsa Planeta, 2005. (Cópia do capítulo 4)
292

Filosofia Oriental
Filosofia Oriental. Por "filosofia oriental" entende-se, em sentido muito amplo, a
filosofia ou, melhor, o "pensamento" — antigo e moderno — de todos os países do
Oriente; portanto, o pensamento elaborado em várias regiões da Ásia Menor, na Síria,
na Fenícia, no Irã, na Índia, na China, no Japão e em outros países desta vasta zona
geográfica. Às vezes também se incluem na filosofia oriental o pensamento egípcio
antigo e ainda na filosofia árabe e judaica, embora o mais comum seja excluir estas
últimas (assim como a chamada "filosofia síria") por sua estreita vinculação com a
história da filosofia ocidental, da qual acabam fazendo parte. Mesmo com essa restrição,
a definição ostensiva de "filosofia oriental" apresenta vários inconvenientes. Um dos
maiores problemas é que quando se tenta desenvolver seu conteúdo é preciso abandonar
frequentemente o tipo de pensamento propriamente filosófico e se referir antes ao
pensamento religioso ou até mesmo às formas mais gerais da cultura correspondente.
Quando essa referência constitui o horizonte cultural, histórico ou espiritual dentro do
qual pode ser inserida a filosofia, a desvantagem a que aludimos não é considerável,
mais ainda, tal referência pode ajudar a compreender melhor o pensamento filosófico
que se trata de esclarecer. Porém, quando o horizonte em questão substitui a filosofia de
modo excessivamente radical corre-se o risco de perdê-la de vista completamente. Para
evitar isso, propôs-se um conceito mais restrito de "filosofia oriental". Essa proposta
consiste em circunscrevê-la às seguintes manifestações: cosmologia iraniana e diversos
elementos religiosos e religioso-filosófico vinculados a ela (particularmente o
zoroastrismo); filosofia indiana, filosofia chinesa e filosofia japonesa. De modo mais
estrito ainda pode-se restringir o mencionado conceito às maiores dessas filosofias: a
indiana e a chinesa. Essa é a posição por nós adotada aqui. Ao contrário do termo
"Oriente", que designa um conglomerado mais amplo e variado de elementos culturais e
espirituais (como quando dizemos, por exemplo: "Platão e o Oriente"), a expressão
"filosofia oriental" ainda designa um conjunto mais amplo, mas mais fácil de observar e
perfilar; não apenas geograficamente, mas também intelectualmente.

A característica que mais nos interessa é a determinada pelo tipo especial de saber. O
saber que se manifesta na filosofia oriental tende a ser um saber de salvação. Os outros
saberes — culto e técnico — não são esquecidos de modo algum, mas se desenvolvem e
prosperam em função daquele outro saber primário. Essa salvação pode ser entendida,
por sua vez, ou como salvação do indivíduo em um todo cósmico, ou como a integração
do indivíduo em um todo social: a primeira é típica da filosofia indiana; a segunda, da
filosofia chinesa. O individualismo, o intelectualismo e o voluntarismo da filosofia
ocidental não são esquecidos, mas reduzidos ao mínimo (abafados) na filosofia oriental.

Diferença entre a filosofia indiana e a filosofia chinesa. Enquanto esta última manifesta
uma frequente tendência prático-ética e prático-social, a outra tem um caráter mais
especulativo e, ao mesmo tempo, mais inclinado a elaborar todas as técnicas filosóficas
necessárias para levar seus propósitos especulativos a bom termo. Há, contudo, um
elemento comum, a forma humana no qual encarna o saber filosófico: trata-se do
"sábio" (não, portanto, do filósofo stricto sensu, do "raciocinador", do "intelectual" ou
do "técnico da inteligência"). Comparativamente ao ocidental, enquanto o intelectual do
Ocidente o faz por afã de objetividade, o sábio do Oriente o faz com o fim de reintegrar-
se mais completamente ao que considera ser a Realidade verdadeira.

Relação entre filosofia oriental e filosofia ocidental.


293

1) a presumida falta de relação entre a filosofia oriental e a filosofia ocidental baseia-se:


a) O pensamento oriental tem como bases principais a tradição religiosa, a concepção de
mundo, os problemas de comportamento social etc., mas não a pura razão teórica
surgida na Grécia. b) O pensamento ocidental tende — salvo em alguns representantes
— não tanto para o universal como para o superficial; ele se desenvolve na pura razão
raciocinante ou em um puro empirismo circunscrito ao mais imediato, tende para o
método e para o aperfeiçoamento das técnicas, com esquecimento crescente dos motivos
cósmicos e, sobretudo, da tradição. O pensamento oriental, por outro lado, dirige-se
para os últimos motivos. Daí a sua superioridade (Schopenhauer, Deussen, R. Guénon)
e até a possibilidade de que somente ele mereça verdadeiramente ser qualificado de
filosofia.

2) As diferenças existem. 2a) Somente quando não se concede a devida atenção à


comunidade de pressupostos ou 2b) somente quando não se leva em conta o efetivo
trabalho filosófico realizado pelos filósofos orientais.

3) Oriente e Ocidente não são nem iguais nem distintos. São como dois jorros
procedentes de um manancial único. A máxima diferença entre Oriente e Ocidente foi
produzida na época moderna a partir de Galileu e Descartes, mas o futuro pode reduzi-
la.

4) É difícil falar de uma filosofia Oriental e de uma filosofia Ocidental; é mais plausível
falar de filosofias orientais e de filosofias ocidentais. Além disso, o que pode ser
adequado nas comparações quando se toma como exemplo a Índia, pode não sê-lo ao se
tomar a China (ou Japão) (1)

(1) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

Finito e Infinito
Finito e Infinito. Por oposição ao infinito, o finito designa o que tem um limite e pode
portanto ser medido, enquanto a finitude caracteriza a condição humana, seja na
concepção cristã, por oposição à transcendência e à perfeição divina, seja no
existencialismo, como contingência radical e sentimento do dever-morrer. (1)

Sob a dupla influência da matemática e do pensamento cristão (no qual Deus é o ser
infinito em todos os seus atributos), o infinito vai ser filosoficamente pensado como
positivo – por oposição à finitude (humana), que é doravante compreendida como
negação (ou carência) do ser. Descartes irá admitir em particular que a noção de infinito
está presente no espírito anteriormente à de finito, que só pode ter sentido com relação a
seu horizonte – a mesma relação valendo para o perfeito e o imperfeito. (1)

No sentido teológico, aquilo que encontra limites ou obstáculos à sua possibilidade de


ser, à sua potência. Esse conceito de Finito remonta a Plotino, que foi o primeiro a
entender o infinito como não limitação da potência. Para Hegel, o infinito é a própria
realidade, enquanto potência ilimitada, de realização, enquanto Absoluto. Finito é aquilo
que não tem potência suficiente para realizar-se, o ideal, o dever-ser. Desse ponto de
vista, finito é “irreal” e encontra realidade só no infinito e como infinito. (2)
294

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(2) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

Fins e Meios
Fins/Meios. A propriedade distintiva da ação deliberada é que ela procura atingir fins
definidos (metas, propósitos) por meios definidos. Enquanto alguma filosofia veem
apenas os meios, outras só enxergam as metas. O formalismo, o metodismo e o
contratualismo exemplificam o primeiro, ao passo que o pragmatismo e o utilitarismo
indicam a última. Em particular, a máxima “os fins justificam os meios” é pragmática.
O agatonismo exige que ambos, meios e fins, sejam avaliados tanto moral quanto
praticamente. (1)

O fim de uma ação é aquilo em função do qual ela é realizada; o meio é a maneira
apropriada para atingir o fim. A distinção surge em conexão com diversos princípios
morais (não devemos fazer mal em função do bem; quem quer o fim quer os meios; as
pessoas devem ser sempre tratadas como fins e nunca unicamente como meios), mas sua
aplicação nem sempre é clara. Podemos nós, por exemplo, tratar uma pessoa como um
simples meio se esta quiser ser assim tratada, correspondendo assim à sua vontade? Ver
também princípio do efeito duplo; raciocínio instrumental. (2)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(2) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

Flecha do Tempo
Flecha do Tempo. A ideia errônea de que o tempo “flui” do passado para o futuro.
Amiúde sustenta-se que processos irreversíveis, tais como a transferência de calor, a
mistura de líquidos, o envelhecimento e a expansão do universo, exibem ou mesmo
definem a flecha do tempo. Esta é a uma metáfora infeliz, pois a “flecha” ou
direcionabilidade em questão é inerente aos processos irreversíveis, não ao tempo.
Tanto assim que nada, exceto a praticidade e a tradição, nos impede de contar o tempo
para trás. Se o tempo fluir, terá de mover-se com a velocidade de um segundo por
segundo – uma expressão sem sentido. Se o tempo tiver uma flecha, ele será
representado, como uma força, por um vector; mas, na realidade, o tempo é uma
variável escalar. A verdade é que o intervalo de tempo entre dois eventos, isto é, entre o
evento e e o evento e’, quando referido ao mesmo sistema de referência f, muda de sinal
295

quando os eventos são permutados. Isto é, T (e, e', f) = –T (e’, e, f). Entretanto, isto não
é uma lei, porém uma convenção útil par distinguir o “antes” do “depois”. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Frenologia
Frenologia. Teoria do médico alemão F. J. Gall (1758-1828), segundo a qual as funções
do cérebro e sua localização poderiam ser estudadas pelo exame das saliências ou
protuberâncias do crânio pelas quais elas se traduzem. Hoje abandonada, essa
concepção teve uma certa influência – principalmente sobre Auguste Comte, que via na
referência das localizações cerebrais uma das únicas vias oferecidas à psicologia (a
outra consistia em estudar a influência social sobre o pensamento) para se chegar a uma
condição científica. (1)

(1) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Fundamentalismo
Fundamentalismo. 1. Corrente teológica de origem protestante que, desenvolvida nos
E.U.A. durante a Primeira Guerra Mundial, admite apenas o sentido literal das
Escrituras. 2. P.ext. Qualquer corrente, movimento ou atitude de caráter integrista que
exige obediência rigorosa a um conjunto de princípios básicos; integrismo.
Fundamentismo islâmico loc. Movimento religioso muçulmano, do século XX, que
defende a volta da obediência estrita às leis do Corão. (1)

Fundamentalismo. Teol. Prot. Aceitação e defesa organizada de um certo número de


princípios religiosos em que se têm como verdades fundamentais indispensáveis, ou
necessárias a uma consciência cristã coletiva. (2)

Fundamentalismo. É a concepção epistemológica de que todo conhecimento fatual está


ancorado em uma base muito firme ou fundamento. Variedades: intuicionismo
(percepção intuitiva), racionalismo (lógico) e empirismo (base experimental). O
fundamentalismo pode ser seguido no passado até a confusão entre raiz ou fonte
psicológica ou histórica e fundamento propriamente dito. Assim, a fonte histórica da
geometria foi o levantamento topográfico (agrimensura), mas toda e qualquer geometria
tem um fundamento puramente conceitual, que inclui a lógica. De acordo com o rácio
empirismo, não há fundamentos últimos de conhecimento de fatos usuais, pois às vezes
a pesquisa parte da observação e outras vezes da teoria, e outras ainda da combinação de
hipóteses com dados, ou do questionamento de pressupostos filosóficos. Só quando um
corpo de conhecimento foi transformado em teoria (lógico-dedutivo) é que se pode
levantar o problema de sua organização ou fundamentos lógicos.(3)
296

(1) DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO ILUSTRADO LAROUSSE. São Paulo:


Larousse, 2007.

(2) GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de


Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.].

(3) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Fundamento
Fundamento. Comporta várias significações, tais como: origem, princípio, raiz ou
razão de ser, finalidade, sentido etc. (v. fundamentalismo) (1)

Princípio em que repousa de fato uma ordem de fenômenos. Princípio em que repousa
de direito um sistema de asserções ou de regras, i.é., que as torna legítimas do ponto de
vista lógico, moral ou jurídico. (2)

Causa no sentido de razão de ser. Aristóteles diz: “Acreditamos conhecer um objeto de


maneira absoluta – não acidentalmente ou de modo sofístico – quando acreditamos
conhecer a causa por que a coisa é e acreditamos conhecer que ela é causa da coisa e
que esta não pode ser de outra maneira”. Nesse sentido, causa é razão, logos, pois não
só permite compreender a ocorrência de fato da coisa, mas também o seu “não pode ser
de outra maneira”, sua necessidade racional. (3)

Termo a princípio utilizado em arquitetura: aquilo sobre o que repousa a construção.


Daí, em filosofia, aquilo sobre o que repousa uma certa ordem ou conjunto de
conhecimentos.

O que dá a algo sua razão de ser: nesse caso, o termo tem um forte valor de aprovação e,
por contraste, o que não tem fundamento parece ilegítimo.

Proposição mais geral ou mais simples; conjunto de proposições gerais e simples, de


onde se pode deduzir um campo de conhecimento. Nesse caso, é sinônimo de princípio:
fala-se desse modo em matemática, dos fundamentos ou princípios de um sistema
hipotético-dedutivo para nele designar o axiomático.

É nesse sentido que se deve igualmente compreender o titulo de Kant: Fundamentos da


Metafísica dos Hábitos (1785), esboço da Crítica da Razão Práticaque, partindo de
uma observação fenomenológica dos hábitos tais como existem, pretende “buscar e
estabelecer exatamente o princípio supremo da moralidade”. (4)

Em epistemologia, a fonte, raiz ou base de todo conhecimento. Embora cada projeto de


pesquisa comece a partir de algum corpo de conhecimento que não questiona, algumas
297

destas proposições podem ser contestadas em diferentes projetos. Assim, há


fundamentos, mas não são necessariamente finais. (5)

(1) CORBISIER, R. Enciclopédia Filosófica. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira, 1987.

(2) CUVILLIER, A. Pequeno Vocabulário da Língua Filosófica. São Paulo: Nacional,


1961.

(3) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(4) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina


Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

(5) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)
298

Gnoseologia
Gnoseologia. Do grego gnosis, conhecimento, e logos, teoria, ciência. Teoria do
conhecimento que tem por objetivo buscar a origem, a natureza, o valor e os limites da
faculdade de conhecer. Por vezes o termo "gnoseologia" é tomado como sinônimo de
epistemologia, embora seja mais amplo, pois abrange todo o tipo de conhecimento,
estudando o conhecimento em sentido mais genérico. (1)

= = = >>

DIVISÃO DA FILOSOFIA

Como ciência que estuda as leis mais gerais do ser, do conhecimento e da ação,
podemos distinguir na filosofia três partes fundamentais:
1ª) Ontologia ou teoria do ser: estuda a origem, a essência e a causa primeira do
cosmos, da vida e do pensamento; e a relação entre o ser e o pensamento;
2ª) Gnosiologia ou teoria do conhecimento: estuda a origem e a validade do
conhecimento;

3ª) Axiologia ou teoria dos valores: estuda a origem, a essência e a evolução dos
valores existenciais e indica os princípios da ação (1).

 O CONHECIMENTO

Diante da pergunta como conhecemos, a tradição filosófica mostra duas posições


clássicas: a platônica ou socrático-platônica, que envolve a questão da
reminiscência, das idéias inatas, e a sofística ou empírica que se refere apenas aos
nossos sentidos.
Surge a contradição: 1ª) “conhecemos pelo espírito”; 2ª) “conhecemos pelos sentidos”.
O primeiro a dar uma resposta conciliatória, ao que nos parece, foi Aristóteles, com
sua teoria dos dois espíritos do homem: o formativo e o receptivo.

Essa dualidade é resolvida pela Filosofia Espírita (2).


299

 ESPÍRITO E CORPO

Para a Filosofia Espírita, portanto, a dualidade de espíritos da teoria aristotélica não


existe. O homem é essencialmente um espírito.

O Espírito é a substância do homem e o corpo seu acidente.


A percepção é uma faculdade do espírito e não do corpo. É o escafandrista que vê
através dos vidros do escafandro e não este que vê pelos seus vidros.

Veja-se o ensaio teórico sobre as sensações dos espíritos, em O Livro dos Espíritos. O
Espírito não percebe através dos órgãos, não vê pelos olhos nem ouve pelos ouvidos.
Vê e ouve por todo o seu ser (2).

 PERCEPÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA

Há a percepção objetiva que estabelece a relação sujeito-objeto, e a percepção


subjetiva, que faz do sujeito o seu próprio objeto.
Isso quer dizer, em termos epistemológicos (na teoria das ciências) que há Ciência e
há Filosofia.
A Ciência investiga os objetos exteriores, a Filosofia investiga a si mesma, é o
pensamento debruçado sobre si mesmo.
Hoje, temos o mundo dividido em duas partes: numa, se desenvolve o pensamento
materialista como ideologia oficial dos Estados; noutra, o pensamento espiritualista na
mesma posição (2).

A Filosofia Espírita se coloca entre ambas e nos oferece a síntese, mostrando o


equívoco desse divisionismo artificial e anunciando o advento global da realidade.

 O PROCESSO GNOSEOLÓGICO

A lei dos três estados da evolução gnoseológica segundo Auguste Comte são:

1º) o estado teológico em que tudo se explica pela intervenção dos deuses;

2º) o estado metafísico das explicações abstratas (o ópio faz dormir porque tem a
virtude dormitiva);

3º) o estado positivo em que predominam as Ciências.


300

Kardec acrescentou a essa teoria, por sugestão de um leitor da “Revista Espírita”, o


estado psicológico iniciado pelo Espiritismo (2).

 HUMANIDADE CÓSMICA

A Teoria Espírita do Conhecimento amplia a nossa visão.

Não pensamos mais em termos geocêntricos, organocêntricos ou antropocêntricos e,


por isso mesmo, não vivemos mais apegados a temores e superstições.

O Espiritismo nos confere a emancipação espiritual de cidadãos do Cosmos (2).

CONHECIMENTO E ESPIRITISMO
A Filosofia, depois que se desprendeu do tronco geral do conhecimento ficou, na
atualidade, dividida em três partes fundamentais: a Ontologia ou teoria do ser, a
Gnosiologia ou teoria do conhecimento e a Axiologia ou teoria dos valores. A teoria
do conhecimento, objeto de nossa atenção, procura estudar a origem e a validade do
conhecimento, inclusive distinguindo a verdade e o erro.

O conhecimento é a relação que existe entre o “observador” e a “coisa observada”.


A realidade é o que é. Ela não é falsa nem verdadeira. Verdadeiros ou falsos são os
nossos juízos acerca da mesma. Se a imagem que fazemos de um objeto coincide com
o que ele é, estamos de posse da verdade; se, ao contrário, houve um viés, estamos em
erro. Assim sendo, é muito mais importante a imagem que fazemos do objeto do que
ele próprio.
Como é que o conhecedor conhece? Conhece pelo Espírito? Ou conhece pelo
sentido? Embora Aristóteles tenha dado sua contribuição a essa contradição, quando
elaborou a teoria dos dois espíritos do homem - formativo e receptivo - , ainda
persiste muitas dúvidas. Para os materialistas, conhecemos pelos sentidos; para os
idealistas, conhecemos pelo espírito.
Para o Espiritismo essa dualidade de Espírito e Matéria não existe. O homem é
essencialmente um Espírito. Nesse sentido, o Espírito é a substância do homem e o
corpo seu acidente. A percepção é uma faculdade do Espírito e não do corpo físico. O
Espírito não percebe através dos órgãos, não vê pelos olhos nem ouve pelos ouvidos.
Vê e ouve por todo o seu ser.
Como vemos há a percepção objetiva que estabelece a relação sujeito-objeto, e a
percepção subjetiva, que faz do sujeito o seu próprio objeto. Isto quer dizer que há
ciência e filosofia. Não há, assim, uma separação total entre ciência e Filosofia. É
justamente esse viés do pensamento que divide o mundo em duas partes: numa o
pensamento materialista como ideologia oficial dos Estados; noutra o pensamento
espiritualista na mesma posição. A Filosofia Espírita coloca-se entre ambas e oferece-
nos a síntese, no sentido de compreender a realidade como um

A convicção de que somos um todo formado por Espírito, Perispírito e Corpo


Físico, auxilia-nos sobremaneira na construção dos conhecimentos verdadeiros que
nem a traça e nem a ferrugem desgastam.
301

QUESTÕES

1) Quais as duas posições clássicas diante da pergunta como conhecemos?

2) Como o Espiritismo responde à pergunta como conhecemos?

3) O que é a Filosofia Espírita?

4) Quais são os estados da evolução gnoseológica?

TEMAS PARA DEBATE

1) O Espírito vê e ouve por todo o seu ser?

2) Percepção objetiva, percepção subjetiva e Espiritismo. Comente

3) O Espiritismo nos confere a emancipação espiritual de cidadãos do cosmos?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

(1) BAZARIAN, J. O Problema da Verdade.

(2) PIRES, J. H. Introdução à Filosofia Espírita.

<< = = =

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Gnosticismo
Gnosticismo. Doutrina partilhada por várias seitas que ganhou destaque por volta do
século II, na qual se combinam elementos cristãos e pagãos. Atribui-se uma importância
central à "gnose", um conhecimento revelado, mas secreto, sobre Deus e sua natureza,
que permite que aqueles que o possuem atinjam a salvação. O gnosticismo retira do
pensamento pagão o conceito de um demiurgo, ou um deus subordinado, que dirige o
mundo diretamente. O mundo material é associado, tal como no maniqueísmo, ao mal,
mas em alguns homens existe um elemento espiritual que, através do conhecimento e
dos rituais associados, pode ser salvo do mal e atingir um estado espiritual mais
elevado. Cristo nunca esteve de fato num corpo, nem morreu, estando em vez disso
remotamente relacionado com o que apareceu aos discípulos. No platonismo médio
302

estão presentes alguns elementos gnósticos, que ajudaram a alimentar a concepção de


que havia uma aurea catena secreta, ou seja, uma cadeia dourada de doutrinas
platônicas escondidas, que se estendia da cosmologia positiva de Platão aos iniciados da
época. Foram descobertos vários textos gnósticos dos primeiros quatro séculos no Egito,
e a crença persistiu, sob várias formas, ao longo da Idade Média. (1)

Gnosticismo. Foram assim designadas algumas correntes filosóficas que se difundiram


nos primeiros séculos depois de Cristo no Oriente e no Ocidente. A literatura que
produziram era rica e variada, mas perdeu-se, à exceção de poucos textos conservados
em traduções coptas, chegando até nós somente através dos trechos mencionados e ao
mesmo tempo refutados pelos Padres Apologistas. O gnosticismo é uma primeira
tentativa de filosofia cristã, feita sem rigor sistemático, com mistura de elementos
cristãos míticos, neoplatônicos e orientais. Em geral, para os gnósticos o conhecimento
era condição para a salvação; donde esse nome, que foi adotado pela primeira vez ofitas
ou Sociedade da Serpente, que mais tarde se dividiram em numerosas seitas. Estas
utilizavam textos religiosos atribuídos a personalidades bíblicas, tal como o Evangelho
de Judas, mencionado por Irineu. Outros textos dessa espécie foram encontrados em
traduções coptas; entre eles, o mais importante é Pistis Sophia (publicado em 1851), que
expõe em forma de diálogo entre o Salvador ressuscitado e seus discípulos
especialmente Maria Madalena, a queda e a redenção de Pistis Sophia, ser pertencente
ao mundo dos Éons, bem como o caminho de purificação do homem por meio da
penitência. Os principais gnósticos dos quais temos notícia são: Basílides, Carpócrates,
Valentim e Bardesane, cujas doutrinas são conhecidas pelas refutações feitas por
Clemente de Alexandria, Irineu e Hipólito. Uma das teorias mais típicas do gnosticismo
é o dualismo dos princípios supremos (admitido, por exemplo, por Basílides), ligado a
concepções orientais. A tentativas de união entre os dois princípios, bem e mal, tem
como resultado o mundo, no qual as trevas e a luz se unem, mas com predomínio das
trevas. (2)

Basílides, um gnóstico que pregou em Alexandria entre os anos 120-140, oferece uma
resposta a esse extremo dualismo estabelecendo os princípios da luz, causa do Bem, e
das trevas, origem do Mal. As trevas não foram absorvidas pela luz, mas de seu contato
nasceu uma luz aparente que é a do mundo, mistura do bem e do mal. Para Valentino,
outro gnóstico do século II, o mundo é a consequência de um esforço incompleto,
porque não é obra de Deus — o princípio supremo ou Pleroma —, mas de algumas das
emanações produzidas pela divindade e que presidiram as sucessivas transformações do
Universo. (3)

A Tradição Oculta. No início da era cristã, o aparecimento do gnosticismo é o


resultado de um encontro entre a alma oriental e a alma ocidental. Depois, essa se
separará para seguir o seu próprio curso, revestida pelo cristianismo e pelo pensamento
racional (herança grega). No entanto, no decorrer da história, nem todo o pensamento
perambulou na Europa pelas sendas do cristianismo e do racionalismo. Existe também
uma tradição oculta cujo ponto de partida deve se fixar justamente na gnose dos séculos
II-III de nossa era. Nesta tradição confluem, num primeiro momento, as doutrinas
enigmáticas do Orfismo (de Orfeu, poeta mítico do século VI a.C.), com sua crença nas
303

transmigrações sucessivas das almas. Ou na corrente esotérica do hermetismo (do deus


Hermes Trismegisto, que, por sua vez, provém de Tot, divindade lunar entre os
egípcios), que está relacionada com a astrologia e a alquimia.

Trata-se de formas ocultas, esotéricas, com um fundo que historicamente bebeu das
religiões orientais. No Ocidente, essas formas reaparecem ao longo da Idade Média, e
inclusive da Idade Moderna, incluídas no Corpus hermeticus dos alquimistas. Estão
presentes ainda no Renascimento, na medicina astrológica de Paracelso e podem ser
rastreadas em grandes obras literárias, como no Fausto, de Goethe. Já em nossa época,
aparecem nos domínios da teosofia, ou foram objeto de uma profunda exploração por
parte da psicologia analítica de C. G. Jung. Nessa tradição oculta, de raiz mística, busca-
se sempre o encontro com Deus, com o Um, de forma íntima - seja na solidão das
retortas alquímicas, onde se opera a transmutação dos metais, seja no contato com uma
seita ou grupo do qual se é adepto ou iniciado. (3)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

(2) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(3) TEMÁTICA Barsa - Filosofia.

Gnothi Seauton
Gnothi seauton. Do grego, "conhece-te a ti mesmo"; em latim, nosce te ipsum. Dístico
colocado na entrada do Templo do Apolo de Delfos, na Grécia antiga. É o principal
mandamento da nossa existência. É a pedra angular da filosofia de Sócrates.

Hedonismo
Hedonismo. Do grego hedoné, prazer. Nome genérico das diversas doutrinas que
situam o prazer como o soberano bem do homem ou que admitem a busca do prazer
como o primeiro princípio da moral: a doutrina dos cirenaicos. Num sentido mais
estrito, o hedonismo pode ser entendido como um pensamento egocêntrico e egoísta
304

(v.egoísmo), preocupado apenas com os prazeres. Não confundi-lo com o epicurismo,


para o qual a felicidade consiste na total ausência de perturbação (ataraxia). (1)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Hermenêutica
Hermenêutica. a. interpretação de texto na teologia, filologia e crítica literária. b.
filosofia - A doutrina idealista de que os fatos sociais (e talvez naturais, igualmente) são
subsolos ou textos a serem interpretados mais do que descritos ou explanados
objetivamente. A hermenêutica filosófica opõe-se ao estudo científico da sociedade; ela
denota particular desdém pela estatística social e pela modelagem matemática. E, por
encarar tudo o que é social como espiritual, subestima os fatores ambientais, biológicos
e econômicos, e recusa-se a enfrentar fatos macrossociais, como a pobreza e a guerra. A
hermenêutica constitui assim um obstáculo à busca das verdades acerca da sociedade e,
portanto, ao embasamento de políticas sociais. (1)

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Heurístico
Heurístico. Do grego heuriskein, encontrar. 1. Que se refere à descoberta e serve de
ideia diretriz numa pesquisa, de enunciação das condições da descoberta científica.

2. Diz-se que um método é heurístico quando leva o aluno a descobrir aquilo que se
pretende que ele aprenda: maiêutica socrática é, por excelência, um método heurístico.
Não devemos confundir heurística ou hipótese de trabalho com erística, do grego
eristikos, que anima a disputa, a controvérsia. A erística é a arte da discussão e de
manejar, no debate, sutilezas lógicas. (1)

Processo, como o da tentativa e erro, para resolver um problema para o qual não há
algoritmo. A heurística de um problema é um método ou regra pra tentar chegar a uma
conclusão. (2)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.
305

Hic et Nunc
Hic et Nunc (hic et nunc). Aqui e agora em latim. É a situação de todo ser, de todo
sujeito, de todo acontecimento: sua ancoragem singular no universal devir. Nem mesmo
a memória e a imaginação escapam (lembrar-se de um passado, imaginar um outro lugar
ou um porvir, é sempre lembrar-se deles ou imaginá-los aqui e agora). Nossas utopias
são dotadas, tanto quanto nossas emoções, e envelhecem pior. (1)

(1) COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Tradução de Eduardo


Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Hipóstase
Hipóstase. Do grego hypo, sub, debaixo, e stasis, o que está, o sub-posto; o suporte. É o
termo que se emprega para indicar a subsistência, a sistência que está sob. É um
conceito metafísico, que afirma que a substância é "possuidora de si mesma", cuja
presença tem um ubi intrínseco, que é subsistente em seu ser. (1)

Para os escolásticos, particularmente Tomás de Aquino, as hipóstases são as substâncias


individuais e primeiras: as três pessoas da Trindade são consideradas como
substancialmente distintas; a união hipostásica é aquela realizada por essas três pessoas
num só Deus. Por extensão, e num sentido bastante pejorativo, a hipóstase passou a
designar uma entidade fictícia falsamente considerada como uma realidade que existe
fora do pensamento. Exemplo: hipostasiar um conceito. (2)

(1) SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo:
Matese, 1965.

(2) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Hipótese, Hipótese Ad Hoc


Hipótese. Do grego hypothesis, de hypothenai, supor. Proposição mais ou menos
precisa que emitimo tendo em vista deduzir, eventualmente, outras proposições. Em
outras palavras, proposição ou conjunto de proposições que constituem o ponto de
partida de uma demonstração, ou então, uma explicação provisória de um fenômeno,
devendo ser provada pela experimentação. Enquanto os empiristas veem no ciclo
experimental uma sequência mecânica de operações, a epistemologia contemporânea
estabelece que a hipótese não é concluída a partir da observação, mas inventada. A
Rejeição da hipótese, para se ater unicamente aos fenômenos observáveis, foi
proclamada por Newton em sua polêmica contra Descartes: "hypothesis non fingo",
dizia, "não elaboro hipóteses" imaginárias. Hoje em dia, tanto em seu sentido
306

matemático de uma proposição que adotamos a fim de estudar as consequências lógicas


que dela devemos tirar quanto em seu sentido de suposição explicativa (nas ciências
experimentais), sua verificação permitindo-nos passar da simples percepção de um
fenômeno à sua explicação, a hipótese se revela necessária ao trabalho científico e à
reflexão filosófica. (1)

Hipótese Ad Hoc. É uma hipótese excogitada quer para “cobrir” um estreito conjunto
de dados quer para salvar outra hipótese de uma evidência adversa. Hipóteses ad hoc do
primeiro tipo têm um poder explanatório ou profético muito restrito, pois estão ligados a
um corpo fixado e pequeno de dados. A distinção entre hipóteses ad hoc e comuns é
paralela àquela entre duas espécies de atiradores. O atirador honesto afixa um alvo e
depois atira. O desonesto atira primeiro e depois desenha círculos concêntricos em torno
do orifício causado pelo projétil. Hipótese ad hoc da segunda espécie, isto é, aquelas
que têm em mira proteger outras hipóteses, são, por sua vez, de dois tipos: bona fide e
mala fide. Uma hipótese ad hoc de bona fide é testável de forma independente, a de
mala fide, por sua vez, não o é. Um exemplo clássico de uma hipótese ad hoc de bona
fide é a conjetura de William Harvey sobre a existência de um sistema circulatório
vascular visível a olho nu, ligando as artérias às veias. Os pequenos vasos foram
finalmente vistos através do microscópio. Um exemplo clássico de uma hipótese ad hoc
de mala fide é a hipótese de Sigmund Freud sobre a repressão destinada a proteger o
complexo de Édipo e outras fantasias. Por exemplo, se alguém não odeia
ostensivamente seu pai, ele unicamente reprimiu o seu ódio. E, se este sonho particular
não teve um conteúdo declaradamente sexual, ele deve ter um conteúdo encoberto
(“latente”). (2)

Hipótese adotada com a única finalidade de salvar uma teoria de dificuldades ou da


refutação, sem que haja qualquer motivo racional independente dessa finalidade. (3)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed.


Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

(3) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição


brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro:
Zahar, 1997.

História da Filosofia
Historia da Filosofia. É a recuperação, o repensar, a avaliação e a inserção no contexto
do pensamento dos filósofos desde a Antiguidade até o presente. Como em todos os
resgates, este está fadado a ser parcial e a ser projetado e reprojetado em termos
contemporâneos. Daí por que sua tarefa nunca é completada: não pode haver história
307

definitiva da filosofia — ou de qualquer outra coisa. Cada geração concebe seus


precursores a partir de uma nova perspectiva. Porém, nem todas as perspectivas são
igualmente adequadas e fecundas. Por exemplo, é errôneo fazer com que os pré-
socráticos passem por protoexistencialistas só porque eram sobretudo enigmáticos, ou
Aristóteles por um precursor de Wittgenstein só porque ambos estavam interessados nas
palavras.

A história da filosofia é a história da emergência, submergência e reemergência de


problemas filosóficos, e das tentativas de resolvê-los. Alguns destes problemas têm sido
efetivamente pseudoproblemas, e muitas das soluções que lhes foram propostas eram
errôneas, se não despidas de sentido. Portanto, história da filosofia é um aspecto da
história da insensatez, bem como da ingenuidade humanas. Uma história da filosofia
liberal-conservadora, whig, isto é, que se restringe a listar sucessos, seria antes
insuficiente. Por esta razão, em parte, nem todos os historiadores da filosofia são
guardiões escrupulosos da verdade. Alguns deles têm um interesse investido na
falsidade, no contra senso ou na ocultação.

Daí por que estudantes de filosofia raramente recebem lições acerca das ambiguidades
de Aristóteles sobre a alma, da cosmologia materialista de Descartes, dos materialistas
do Iluminismo francês, do agnosticismo de Kant, ou do socialismo de Mill. A história
da filosofia é algo divertido para ler e necessário para filosofar, mas secundário no
tocante ao filosofar original. Sem peixe não haveria pescadores, e muito menos
peixeiros. A tarefa dos historiadores da filosofia é pegar e distribuir peixes, não
destripá-los e menos ainda cozinhá-los segundo o seu próprio paladar.

Fazer história da filosofia implica não apenas familiaridade com a filosofia, mas
também domínio das habilidades especiais do historiador — e não ser alérgico à poeira
dos arquivos. Ironicamente, os mais altos padrões de estudo filosófico encontram-se em
dois extremos do espectro filosófico: lógica e história da filosofia. Os modernos padrões
de rigor lógico foram estabelecidos por matemáticos, e os de exatidão histórica por
historiadores. As razões situadas entre esses dois extremos, isto é, os campos
propriamente filosóficos, têm a característica de serem frouxas nos seus padrões.

Em suma, a história da filosofia é necessária, mas não se deveria permitir que se


deslocasse a filosofia. Além do mais, não deveria omitir os obstáculos e estímulos
sociais, bem como a exploração ideológica e a censura de algumas ideias filosóficas. (1)

= = = >>

História da Filosofia: Uma Síntese


Sérgio Biagi Gregório
SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Considerações Iniciais. 3. Filosofia Antiga: 3.1. Pré-Socráticos; . 3.2.
Período Clássico ou Grego Romano. 4. Filosofia Medieval. 5. Filosofia Moderna. 6. Filosofia
Contemporânea. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste trabalho é sintetizar a história da filosofia, salientando os aspectos
relevantes em cada um de seus períodos: filosofia antiga, filosofia medieval, filosofia
moderna e filosofia contemporânea.
2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A filosofia difere da ciência, porque necessita da história. Nenhum filósofo começa do
zero, mas acrescenta ao que o filósofo precedente já descobriu. Pode-se dizer que a
308

história da filosofia é a soma das contribuições que cada filósofo deu ao quebra-cabeça
que é a experiência humana. Vem um filósofo e dá uma solução, e todos aclamam como
a melhor; tempo mais tarde, vem outro e dá outra solução para o mesmo problema, e
assim sucede no tempo.
3. FILOSOFIA ANTIGA
3.1. PRÉ-SOCRÁTICOS
Essência: descobrir, com base na razão e não na mitologia, o princípio único (o arché,
grego) existente em todos os seres físicos.
Representantes: Tales de Mileto (623-546 a.C.), Anaximandro de Mileto (610-547
a.C.), Anaxímenes de Mileto (588-524 a.C.), Pitágoras de Samos (570-490 a.C.),
Heráclito de Éfeso (?), Parmênides de Eléia (510-470 a.C.), Zenão de Eléia (488-430
a.C.), Empédocles de Agrigento (490-430 a.C.) e Demócrito de Abdera (460-370 a.C.)
Anotações
Para Tales de Mileto, considerado o pai da filosofia, a substância primordial era a água;
para Anaximandro de Mileto, o apeíron, termo grego que significa o indeterminado, o
infinito; para Anaxímenes de Mileto, que tentou uma possível conciliação entre Tales e
Anaximandro, o ar; para Pitágoras de Samos, o número, e assim por diante.
3.2. PERÍODO CLÁSSICO OU GREGO ROMANO
Essência: interesse no homem e nas suas relações em sociedade, com predominância
das questões metafísicas e morais.
Representantes: Protágoras de Abdera (480-410 a.C.), Górgias de Leontini (487-380
a.C.), Sócrates de Atenas (469-399 a.C.) Platão de Atenas (427-347 a.C.), Aristóteles de
Estagira (384-322 a.C.), Zenão de Cítio (336-263 a.C.) e Epicuro (342-271 a.C.).
Anotações
Passada a fase cosmogônica, os filósofos deste período começaram a se interessar pelo
próprio ser humano e suas relações na sociedade. Essa nova fase denominou-se sofista.
Etimologicamente, o termo sofista significa sábio. Entretanto, com o decorrer do tempo,
ganhou o sentido de impostor, devido, sobretudo, às críticas de Platão.
Os sofistas eram professores ambulantes que, por determinado preço, vendiam
ensinamentos práticos de Filosofia. A função deles não era o estabelecimento de uma
verdade única, mas o poder da argumentação. Por isso, ensinavam aos seus alunos os
conhecimentos úteis para o sucesso dos negócios públicos e privados, utilizando o jogo
de raciocínios e arte de convencer os seus oponentes, driblando as teses dos adversários.
1) PROTÁGORAS DE ABDERA
É considerado o mais importantes dos sofistas, ensinava que o homem é "a medida de
todas as coisas".
2) SÓCRATES DE ATENAS
É considerado o marco divisório da história da Filosofia grega. Ele era também
considerado um sofista, pois o seu estilo de vida muito se assemelhava ao dos sofistas
profissionais. Saía de casa cedo e ia às praças públicas discutir com os jovens sobre toda
a gama de conhecimentos. A diferença entre ele e os sofistas é que não o fazia pelo
recebimento de dinheiro, mas pelo prazer de levar as pessoas a pensarem pela própria
cabeça.
Para atingir tal finalidade, criou o seu próprio método que, depois, foi denominado de
maiêutica e ironia. Na ironia, confundia o saber que as pessoas tinham sobre um
determinado assunto; na maiêutica, levava-os a uma nova visão do problema,
aprofundando-o sempre, sem, contudo, chegar a uma conclusão definitiva.
3) PLATÃO DE ATENAS
Discípulo de Sócrates, concebeu a teoria das idéias, em que procura explicar como se
desenvolve o conhecimento. Segundo ele, o conhecimento se desenvolve pela passagem
309

do mundo das sombras para o mundo verdadeiro, ou seja, o mundo das essências. Para
atingir tal conhecimento, Platão propõe o método da dialética, que consiste na
contraposição de uma opinião com a crítica que dela podemos fazer, no sentido de
aprimorar o conhecimento.
4) ARISTÓTELES DE ESTAGIRA
Discípulo de Platão, é considerado o pai da lógica, ferramenta básica do raciocínio.
Segundo ele, a finalidade primordial das ciências seria desvendar a constituição
essencial dos seres, procurando defini-la em termos reais. Conforme Aristóteles, o
movimento e a transitoriedade ou mudança das coisas se resume na passagem da
potência ao ato. Exemplo: uma semente é potencialmente uma árvore, pois a plantando,
podemos com o tempo vê-la crescer e frutificar.
4. FILOSOFIA MEDIEVAL
Essência: conciliar fé com razão.
Representantes: São Justino (165 d.C.), Tertuliano (nasc. 155 d.C.), Santo Agostinho
(354-430), Santo Anselmo (1033-1109), Pedro Abelardo (1079-1142), Santo Tomás de
Aquino (1221-1274), John Duns Scot (1270-1308) e Guilherme Ockham (1229-1350),
Anotações
Na Idade Média não existia uma Filosofia, mas correntes de opiniões, doutrinas e
teorias, denominadas de Escolástica. Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho são
seus principais representantes. Buscava-se conciliar fé com razão. O método utilizado é
o da disputa: baseando-se no silogismo aristotélico, partiam de uma intuição primária e,
através da controvérsia, caminhavam até às últimas conseqüências do tema proposto. A
finalidade era o desenvolvimento do raciocínio lógico.
1) SANTO AGOSTINHO
Santo Agostinho (354-430), influenciado por Platão, é o pensador que mais se destaca
nesse período.
Deixou formulado indicando o caminho para a sua solução - o problema das relações
entre a Razão e Fé, que será o problema fundamental da escolástica medieval. Ao
mesmo tempo demonstra claramente sua vocação filosófica na medida em que, ao lado
da fé na revelação, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo
da mesma. Entretanto, defronta-se com um primeiro obstáculo no caminho da verdade:
a dúvida cética, largamente explorada pelos acadêmicos. Como a superação dessa
dúvida é condição fundamental para o estabelecimento de bases sólidas para o
conhecimento racional, Santo Agostinho, antecipando o cogito cartesiano, apelará para
as evidências primeiras do sujeito que existe, vive, pensa e duvida.
Em relação ao platonismo, o posicionamento de Santo Agostinho não é meramente
passivo, pois o reinterpreta para conciliá-lo com os dogmas do cristianismo, convencido
de que a verdade entrevista por Platão é a mesma que se manifesta plenamente na
revelação cristã. Assim, apresenta uma nova versão da teoria das idéias, modificando-a
em sentido cristão, para explicar a criação do mundo.
Deus cria as coisas a partir de modelos imutáveis e eternos, que são as idéias divinas.
Essas idéias ou razões não existem em um mundo à parte, como afirmava Platão, mas
na própria mente ou sabedoria divina, conforme o testemunho da Bíblia. (Rezende,
1996, p. 77 e 78).
2) SANTO TOMÁS DE AQUINO
Santo Tomás de Aquino (1221-1274), influenciado por Aristóteles, é o pensador que
mais se destaca na Escolástica.
Santo Tomás representa o apogeu da escolástica medieval na medida em que conseguiu
estabelecer o perfeito equilíbrio nas relações entre a Fé e a Razão, a teologia e a
filosofia, distinguindo-as mas não as separando necessariamente. Ambas, com efeito,
310

podem tratar do mesmo objeto: Deus, por exemplo. Contudo, a filosofia utiliza as luzes
da razão natural, ao passo que a teologia se vale das luzes da razão divina manifestada
na revelação.
Há distinção, mas não oposição entre as verdades da razão e as da revelação, pois a
razão humana é uma expressão imperfeita da razão divina, estando-lhe subordinada. Por
isso o conteúdo das verdades reveladas pode estar acima da capacidade da razão natural,
mas nunca pode ser contrário a ela. (Rezende, 1996, p. 81).
5. FILOSOFIA MODERNA
Essência: desenvolvimento da mentalidade racionalista, cujos princípios opunham-se à
autoridade secular da Igreja.
Representantes: Giordano Bruno (1548-1600), Galileu Galilei (1564-1642), Francis
Bacon (1561-1626), René Descartes (1596-1650), John Locke (1632-1704),
Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784), d’Alembert
(1717-1783), Rousseau (1712-1778) e Adam Smith (1723-1790), George Berkeley
(1685-1753), David Hume (1711-1776), Immanuel Kant (1724-1804)
Anotações
A idade moderna é caracterizada pelo desenvolvimento do método científico. Até então,
o conhecimento era dogmático. A partir do século XVI, transforma-se em conhecimento
teórico-experimental, ou seja, toda a teoria deve passar pela experiência, no sentido de
se aceitar ou rejeitar a hipótese levantada. Tomemos como exemplo o metal.
Conhecimento dogmático: o calor dilata o metal; conhecimento teórico-experimental:
colocando-se o metal no fogo, ele se dilatará; contudo, somente a experiência
(observando o aumento de calor) é que poderemos dizer até que grau de temperatura ele
se dilata ou se derrete.
1) CARTESIANISMO
René Descartes (1596-1650) surge num período em que, devido à invenção da
imprensa, o volume de informações torna o mundo incerto e confuso. O termo
cartesianismo vem dele e significa não só o método pelo qual buscava os
conhecimentos, como também os seus seguidores. As soluções propostas pelos
pensadores da Escolástica, por Francis Bacon e por Montaigne não resolviam o
problema íntimo do indivíduo. Descartes rompe esse quadro, faz tábua rasa e propõe o
seu método.
As regras do seu método são publicadas no livro intitulado Discurso do Método, em
1637, considerado pelos críticos como uma autobiografia espiritual do autor.
Suas quatro célebres regras são:
1) Só admitir como verdadeiro o que parece evidente, evitar a precipitação assim como
a prevenção;
2) Dividir o problema em tantas partes quantas as possíveis (é o que se chama regra de
análise);
3) Recompor a totalidade subindo como que por degraus (regra da síntese);
4) Rever o todo para se Ter a certeza de que não se esqueceu de nada e que, portanto,
não há erro.
Essas regras auxiliam-nos a adquirir a certeza da verdade. Parte da dúvida metódica e
dos princípios incondicionais da matemática. Suas teses influenciaram a maioria dos
pensadores filosóficos posteriores.
2) ILUMINISMO
O iluminismo é também conhecido como a Filosofia das luzes – movimento filosófico
do séc. XIX que se caracterizava pela confiança no progresso e na razão, pelo desafio à
tradição e à autoridade e pelo incentivo à liberdade de pensamento.
Alguns pensadores iluministas:
311

Montesquieu (1689-1755) defendeu em sua obra, O Espírito das Leis, a


separação dos poderes do Estado em Legislativo, Executivo e Judiciário,
como forma de evitar abusos dos governantes e de proteger as liberdades
individuais.
Voltaire (1694-1778) destacou-se pelas críticas que fazia ao clero
católico, à intolerância religiosa e à prepotência dos poderosos. É famoso
pela seguinte frase: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que
você diz, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las".
Diderot (1713-1784) e d’Alembert (1717-1783) foram os principais
organizadores de uma enciclopédia de 33 volumes. Esta enciclopédia
exerceu grande influência sobre o pensamento político burguês, pois
defendia, em linhas gerais, o racionalismo, a independência do Estado
em relação à Igreja e a confiança no progresso humano através das
realizações científicas e tecnológicas.
Rousseau (1712-1778) em sua obra, O Contrato Social, defende a tese
de que o soberano deveria conduzir o Estado segundo a vontade geral de
seu povo, sempre tendo em vista o atendimento ao bem comum.
Adam Smith (1723-1790) é o principal representante do liberalismo
econômico. Em seu Ensaio sobre a Riqueza das Nações criticou a
política mercantilista, baseada na intervenção do Estado na vida
econômica. Segundo ele, tudo deveria ser feito sem a intervenção do
governo, guiado apenas pela "mão invisível", em que cada qual buscando
o seu interesse próprio propiciaria a sobrevivência de todos.
3) IMMANUEL KANT
O horizonte histórico vivenciado por Kant é marcado pela independência americana e a
Revolução Francesa. Sua filosofia está na confluência do racionalismo, do empirismo
inglês (Hume) e da ciência físico-matemática de Newton. À Hegel, acrescentam-se o
idealismo e criticismo kantiano.
A base da filosofia de Kant (1724-1804) está na teoria do conhecimento. Deseja saber,
mas sem erro. Para tanto, elabora-a na relação entre os juízos sintéticos "a priori" e os
juízos sintéticos "a posteriori". Aos primeiros, chama-os puros, que caberia à
matemática desvendá-los; aos segundos, de fenômenos, influenciados pela percepção
sensorial. Nesse sentido, o idealismo e o criticismo kantiano nada mais são do que seus
próprios esforços para aproximar o fenômeno à "coisa em si".
6. FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA
Essencial: agrupamento da influência do materialismo, da filosofia de vida, da
fenomenologia, do empirismo lógico e da filosofia da existência.
Representantes: Augusto Comte (1798-1857), Karl Marx (1818-1883), Soren Aabye
Kierkegaard (1813-1855), William James (1842-1910), Edmund Husserl (1859-1938),
Alfred Whitehead (1861-1947), Bertrand Russel (1872-1970), Martin Heidegger (1889-
1976) e Jean-Paul Sartre (1905-1980).
Anotações
1) O POSITIVISMO DE COMTE
A Sociologia é a ciência da sociedade. Vem de societas (sociedade) e logos (estudo,
ciência). É a ciência que estuda as estruturas sociais e as leis de seu desenvolvimento.
Implica na análise do "fato social". O fato social são todas as formas de associações e
as maneiras de agir, sentir e pensar, padronizadas e socialmente sancionadas.
Auguste Comte (1798-1857) criou, em 1839, o vocábulo "Sociologia". Seu objetivo era
emprestar ao conhecimento da sociedade um caráter "positivo", desviando-o das
concepções teológicas e metafísicas. Utiliza os métodos das ciências naturais e constrói
312

comparativamente os fundamentos da Sociologia. Estabelece, assim, as leis invariáveis


para a sociedade, da mesma forma que a física ou química. Mostra o que é a sociedade
(ciência) e não o que deve ser (filosofia).
2) O MATERIALISMO DIALÉTICO E HISTÓRICO
Materialismo - Em filosofia, é a concepção de mundo onde a matéria é o motor do
universo e a idéia sua conseqüência. Materialismo histórico - doutrina do marxismo,
que afirma que o modo de produção da vida material condiciona o conjunto de todos os
processos da vida social, política e espiritual.
O materialismo histórico pode ser resumido da seguinte forma: numa sociedade
escravagista, os escravos rebelando-se contra os senhores, convertê-la-ia em sociedade
feudalista; no Feudalismo, os vassalos insurgindo-se contra os senhores feudais, torná-
la-ia uma sociedade capitalista; no Capitalismo, os proletariados lutando contra os
empresários, tranformá-la-ia em sociedade comunista. O Comunismo seria uma
sociedade igualitária onde não haveria a exploração do homem pelo homem.
O comunismo, para Marx, seria a sociedade perfeita, a síntese final do processo de
evolução dialética dos povos. Mesmo imbuído de boas intenções cometeu vários
equívocos: não previu a divisão da propriedade corrigindo acumulação das riquezas, as
novas tecnologias que aumentam a produtividade da mão de obra e a força sindical que
melhora os salários. Em termos práticos, o comunismo foi implantado na Rússia e
China, países pré-capitalistas: fato histórico que nega a suplantação do capitalismo.
3) EXISTENCIALISMO
Existencialismo - Aplica-se esse nome às idéias filosóficas de Heidegger, Kierkegaard,
Sartre e outros. Caracteriza-se pela negação do abstracionismo racional de Hegel. Para
Kierkegaard, por exemplo, um sistema lógico de idéias não alcança a existência, o
individual. Faz abstração deste, tem por objetivo as essências, os possíveis, e não o
existente, o indivíduo, que não se explica, não se deduz, nem se demonstra.
A base do existencialismo está na discussão do possível. Para Sartre: "A existência
precede a essência". É a tese da impossibilidade do possível. Ele retoma a fórmula de
Lequier: "Fazer e, ao faze, fazer-se". É a expressão metafísica da crença na liberdade
absoluta segundo a qual o ser vivo e pensante faz a si mesmo tanto quanto lho permitem
certas determinações já tomadas. Além do exposto, Abbagnano acrescenta o grupo da
necessidade do possível e o grupo da possibilidade do possível.
4) FENOMENOLOGIA
Fenomenologia é definida como "um estado puramente descritivo dos fatos vividos de
pensamento e de conhecimento". Hegel, na sua obra Fenomenologia do Espírito (1807),
expõe que o progresso da consciência se realiza de forma dialética até atingir o saber
absoluto; Kant, por outro lado, separa os juízos "a priori" (essências) e os juízos "a
posteriori". Somente em Husserl, a fenomenologia toma o sentido corrente e
específico: "o fenômeno constitui, pois, a manifestação do que é, aparência real e não
aparência ilusória".
A fenomenologia, portanto, para Husserl e seus seguidores, significa uma redução do
"eu transcendental". Nela, supõe-se que os dados da consciência relativos aos
fenômenos, não podem estar separados da essência. O grande desafio do ser humano é
captar a essência que está embutida na existência. Neste mister, cabe-nos renunciar aos
dogmas a aos preconceitos, tala qual fizeram Descartes, Hume e outros.
7. CONCLUSÃO
Este olhar sintético sobre a história da filosofia possibilitou-nos a tomada de
consciência sobre a contribuição de cada um dos filósofos citados. Em cada época, a
contribuição é individual e pode entrar em contradição com a dos outros que o
precederam, mas a essência da filosofia continua sempre a mesma: na Antiguidade o
313

conhecimento de si mesmo; na Idade Média, a conversão agostiniana; na Idade


Moderna, o cogito cartesiano.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia para uma Geração Consciente. Elementos da
História do Pensamento Ocidental. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1990.
FROST JR., S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo: Cultrix,
____
REZENDE, A. (Org.). Curso de Filosofia: para Professores e Alunos dos Cursos de
Segundo Grau e de Graduação. 6. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
<< = = =

(1) BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo:


Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

Homem
Homem. Do latim homine significa qualquer indivíduo pertencente à espécie animal
que apresenta maior grau de complexidade na escala evolutiva. (1)

Antropologia física. Vertebrado, pertencente à classe dos Mamíferos, subclasse dos


Placentários, ordem dos Primatas, família dos Hominídeos, gênero Homo, que se
encontra representado na atualidade por uma única espécie, o Homo Sapiens Lin, com
vários grupos, raças, sub-raças e tipos ou fácies locais. Também se define como o único
animal mamífero de posição normal ou vertical, capaz de linguagem articulada,
constituindo entidade moral e social. (2)

Há no homem três coisas: 1.º – o corpo ou ser material análogo aos animais e animado
pelo mesmo princípio vital; 2.º – a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo;
3.º – o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o
espírito". (3)

Homem: concepção bíblica. Enquanto os filósofos definiam o homem como "animal


racional", a Bíblia o definia como imagem de Deus. A concepção bíblica coloca-nos
diante de uma imagem unitária do homem: alma, carne, coração e espírito são aspectos
diferentes de uma única realidade. Expressa a condição de toda a humanidade, unida em
um destino comum. Alma e corpo são dois elementos inseparáveis. Por isso, nessa linha
da antropologia bíblica, a sobrevivência da alma separada do corpo não coincide com a
concepção platônica e neoplatônica da imortalidade da alma, segundo a qual o homem é
um espírito (alma) que existia antes de entrar no corpo, que é como uma prisão, e
continua existindo ao libertar-se do corpo, o que acontece com a morte. Na concepção
bíblica e cristã, a alma humana começa a existir para unir-se ao corpo e sobrevive ao
corpo morto sem perder sua relação com ele. E sempre conserva uma exigência natural
para se "reincorporar" e recompor seu ser pessoal, o que ocorre na ressurreição. (4)

Homem: unidade e contradição. O homem unitário é composto de instâncias


antagônicas.
314

O homem é um ser social, que se realiza de certa forma em inúmeros indivíduos. Se


fosse como os animais, estaria submetido à espécie. O aspecto conflitivo do homem está
em que, superando a animalidade, tornou-se pessoa e, como tal, um fim em si mesmo,
que não pode subordinar-se à espécie. Mas, ao mesmo tempo, é um ser social que
precisa regular sua vida no meio de uma grande quantidade de pessoas, cada uma das
quais também é um fim em si mesma, exigindo respeito e veneração.

A preferência por um dos elementos dessa antítese leva a soluções unilaterais.


Observam-se, por exemplo, tendências do psicologismo, que procuram a causa de todos
os problemas humanos nas raízes internas da consciência e do inconsciente. Assim,
pretendendo-se salvar a pessoa afetada por problemas interiores, cai-se facilmente na
posição de antepô-la aos outros subordinando a ela os interesses dos demais, que, no
fundo, são iguais aos da pessoa que se torna centro da problemática psicológica. Na
verdade, os outros convertem-se em elementos que não devem impedir a solução dos
problemas particulares do sujeito principal.

As tendências do sociologismo, ao contrário, preocupam-se essencialmente com a


construção de uma sociedade justa e bem organizada, que supere o problema dos abusos
individuais e na qual os bens sejam distribuídos equitativamente e sem discriminações
entre todos os membros da sociedade. Tomando-se como preferencial o ponto de vista
comunitário e sociológico, cai-se facilmente na posição segundo a qual os interesses
pessoais deixam de ser um fim em si e se submetem aos interesses da sociedade. No
caso anterior, eram os outros que se convertiam em instrumentos; neste caso, é a pessoa
que passa a ser um instrumento a serviço da sociedade.

Todas as grandes concepções morais, políticas e religiosas sempre procuraram chegar a


uma síntese desse duplo aspecto do homem: o pessoal e o psicológico e o social e
comunitário. Alguns exemplos: a guerra, que exige a morte de pessoas pelo bem da
sociedade; a economia, que exige sacrifícios decisivos em determinada conjuntura em
nome de um futuro mais próspero, a ser usufruído pelas gerações vindouras; a repressão
da liberdade em benefício da ordem. Trata-se de todo um mundo de conflitos, que
limitam diariamente as opções concretas da pessoa, a ponto de obrigá-la a arriscar a sua
vida pessoal e única em favor da "sociedade", no fundo, uma multidão desconhecida.

Essa contradição se agrava historicamente nas lutas sociais e políticas, principalmente


em função das desigualdades sociais. E esses problemas agravaram-se tragicamente em
virtude do egoísmo e da ambição humana, que procuram açambarcar desmedidamente
os bens e privilégios: daí a guerra e outros desastres.

Há ainda outra divisão: trata-se do fato de que o ser humano se nos apresenta em duas
manifestações sexualmente diferentes: o homem e a mulher. Suas características
psicossomáticas são diferentes em virtude de suas missões na existência. Mas a
realidade é que a força converteu-se em lei e a mulher ficou secularmente reduzida à
condição de objeto de posse e satisfação do homem. A existência humana, que deveria
ser um encontro amoroso especialmente através dos sexos, converteu-se muitas vezes
em um conflito sexual escravizador da mulher, com as consequentes deformações
masculinas. E a própria condição humana continua pondo um desafio para o homem e a
mulher que queiram vivê-la autenticamente.
315

Mas as contradições não se apresentam somente entre uma pessoa e as outras. Dentro
da própria pessoa também se destacam tensões antagônicas que tornam a vida
problemática. Uma das mais importantes é a contradição que ocorre com os anseios
mais nobres do espírito. Trata-se de uma contradição dilacerante que converte a vida do
homem em uma constante luta consigo mesmo. A vida reclama a maior quantidade de
energia psíquica seus imperiosos impulsos. Mas, como o homem é um ser limitado, essa
satisfação só pode ser al