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DIREITO COMERCIAL II

DIREITO DAS SOCIEDADES COMERCIAIS

PROF. MENEZES CORDEIRO


Faculdade de Direito de Lisboa
INTRODUÇÃO

ESQUEMA LEGAL DO CSC. O CSC é composto por oito partes, das quais constam uma Parte
Geral e uma Parte Especial:

• 1. Parte Geral

• Parte Especial:

o 2. Sociedades em nome colectivo [SNC] o 3. Sociedades por


quotas [SPQ] o 4. Sociedades anónimas [SA] o 5. Sociedades em
comandita [SEC]:
Simples

Por acções o 6. Sociedades coligadas


• 7. Disposições penais e contra-ordenacionais

• 8. Disposições finais e transitórias

SOCIEDADES COMERCIAIS. As sociedades comerciais praticam maioritariamente actos


comerciais [art. 1º-3] e são comerciantes, ao invés das sociedades civis sob forma comercial [art.
1º-4], que têm exclusivamente por objecto a prática de actos não comerciais,
ainda que adoptem um dos tipos referidos no art. 1º-2.

RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS. O regime da responsabilidade constitui um importante


elemento de distinção entre os tipos de sociedades:

• Sociedades civis: arts. 980º ss CC o Pelas dívidas da sociedade respondem [art. 997º CC]:
1. O património social

2. O património dos sócios, solidariamente

Fala-se, a este propósito, de um benefício da excussão prévia: os sócios nada pagam

enquanto sobejar património social que responda pelas dívidas da sociedade.

• Sociedades comerciais: poderá haver responsabilidade limitada ou não, consoante o tipo


social em causa. o Nas SNC o sócio responde nos termos do art. 175º-1 – não há
responsabilidade limitada:
Individualmente pela sua entrada.

Subsidiariamente pelas obrigações sociais em relação à

sociedade.

Solidariamente com todos os outros sócios.

o Nas SPQ o sócio responde nos termos do art. 197º-1:

Pelas entradas:

• 1. O sócio responde somente pela sua entrada, já que a responsabilidade é limitada – nunca
responde com o
seu património pessoal.

• 2. Os outros sócios respondem solidariamente por

todas as entradas convencionadas no contrato social,

nos termos do art. 207º.

Perante os credores sociais:

• 1. Regra geral: só o património social responde para com os credores pelas dívidas da
sociedade [art. 197º3] – se, no património social, nada sobrar, os credores
sociais nada recebem [vs art. 997º CC].

• 2. Pode haver responsabilidade directa dos sócios

para com os credores sociais [art. 198º].

o Nas SA o sócio responde nos termos do art. 271º:

Pelo valor das acções que subscreveu.

Nunca responde perante os credores, face a dívidas da sociedade,


ao contrário das excepções que se verificam nas

SPQ [art. 198º], mas tão-só internamente, pela sua entrada

[vs art. 997º CC].

o Nas SEC os dois tipos de sócios respondem nos termos do art. 465º:

Sócios comanditários:
• Respondem apenas pelas suas entradas nos mesmos
termos que os sócios das SA. Nunca respondem pelas
dívidas sociais [vs art. 997º CC].

Sócios comanditados:

• Respondem pelas dívidas da sociedade nos mesmos termos que


os sócios da SNC [cfr. supra]. Não há
qualquer responsabilidade limitada.

§4: PARTICIPAÇÕES SOCIAIS, CAPITAL E TRANSMISSÃO DE PARTICIPAÇÕES. Ante o

conceito de participação social, cumpre tecer determinadas considerações preliminares.

Quanto à designação do capital social entre os sócios de cada sociedade:

• SNC: “partes do capital” [art. 176º-1c]

• SPQ: “quotas” [art. 197º]

• SA: “acções” [art. 271º]

O capital social não é um elemento essencial do contrato de sociedade [art. 9º-1f] uma
vez que não consta dos contratos das SNC em que todos os sócios apenas contribuam com a sua
indústria. Os sócios de indústria estão adstritos a prestações de facere e, como tal, não
vêem o valor das suas entradas computado no capital social [art. 178º].

Em termos materiais, o capital social equivale ao conjunto das entradas a que

diversos sócios se obrigam. Cumpre reter os seguintes termos:

• “Subscrição” de capital: vinculação às entradas

• “Realização” do capital: concretização/cumprimento das entregas

Em termos contabilísticos, o capital social exprime uma cifra ideal\ estável que
representa as entradas estatutárias. Poderá estar já dissociado com o património real da
sociedade ou com o valor de mercado da mesma.

O capital estatutário ou nominal consiste no valor que consta dos estatutos e que traduz
o conjunto das entradas dos sócios. O capital real ou financeiro, por seu lado, é
expressão dos capitais próprios ou dos valores de que a sociedade disponha, como seus.

No caso das SA, o valor nominal mínimo do capital é € 50.000 [art. 276º-3], dividido em
acções por vários sócios. Diferentemente, nas SPQ o valor nominal mínimo do capital é de
€ 5.000 [art. 201º e 202º-2], dividido em quotas.

Constituem sociedades de capitais:

• SPQ

• SA

• SEC por acções

Constituem sociedades de pessoas:

• SNC

• SEC simples

Quanto à transmissão das acções nas SA, cumpre reter a seguinte distinção:

• Acções ao portador [anónimas]: livremente transmissíveis, sem qualquer


consentimento da sociedade e de forma ilimitada [art. 328º-1].
• Acções nominativas [das quais consta o nome do sócio que as subscreve]: a sua
transmissão pode ser subordinada ao consentimento da sociedade [art. 328º-
2a].
Nas SPQ a cada sócio corresponde apenas uma quota, ainda que essa possa ser maior
ou menor. Essa quota não é livremente transmissível, já que depende de consentimento da
sociedade [art. 228º-2 e 229º].

Face à distinção supra, facilmente se compreende que nas SNC, tipicamente sociedades
de pessoas, as acções sejam transmissíveis apenas mediante consentimento
unânime de todos os sócios [art. 182º-1].

§5: ÓRGÃOS COMUNS ÀS SOCIEDADES COMERCIAIS. Constituem órgãos comuns aos

quatro tipos de sociedades comerciais:

• Administração:

o Gestão interna o
Representação
• Assembleia-geral

Eventualmente, constará dos estatutos um órgão de fiscalização, ainda que

prescindível, face à função do Revisor Oficial de Contas [doravante, ROC].


CAPACIDADE E OBJECTO

Capacidade e Objecto

§1: CAPACIDADE. Por capacidade jurídica entende-se a concreta medida dos direitos e
deveres de que as pessoas são susceptíveis. No âmbito comercial, essa capacidade reconduz-se
à concreta medida dos direitos e das obrigações necessárias ou convenientes à prossecução dos
fins da sociedade [art. 6º-1, 1ª parte], segundo o tradicional princípio da
especialidade [com as reservas infra].

Os fins da sociedade, conforme indiciados supra, podem ser:

• Mediatos: vg lucro

• Imediatos: objecto da sociedade [cfr. infra §2]

A capacidade encontra-se limitada pelos direitos e pelas obrigações necessários ou

convenientes à prossecução do seu fim mediato, o lucro, com a seguinte ressalva:

Tradicionalmente, o objecto [a actividade desenvolvida pela sociedade, cfr. infra §2]


delimitava a capacidade da sociedade, em virtude do princípio da especialidade: para as pessoas
singulares, a capacidade jurídica seria plena; quanto às pessoas colectivas, a sua capacidade
apenas abrangeria os direitos e obrigações necessários ou convenientes à prossecução dos seus
fins [art. 160º CC e 6º-1]. Hoje, esse princípio encontra-se superado, não tendo alcance
dogmático: a sua consagração legal no CC fora, todavia, tardia. A capacidade de gozo das pessoas
colectivas não é, ainda assim, idêntica à das pessoas singulares [capacidade plena], já que pode
sofrer limitações:

• Ditadas pela natureza das coisas [direitos e obrigações “inseparáveis da


personalidade singular”, art. 6º-1, 2ª parte] – vg casamento e perfilhação.
• Legais [direitos e obrigações “vedados por lei à sociedade”, art. 6º-1] – vg uso e
habitação.
• Estatutárias

• Deliberativas

As associações e fundações foram inicialmente concebidas com fins desinteressados,


versus o escopo lucrativo das sociedades: hoje, a contraposição não é clara, já que as pessoas
colectivas tendem para a “neutralidade”. Exige-se, tão-só, a transparência dos seus actos e a
prestação de contas devidamente publicitada.
Quanto aos actos gratuitos [exclusive donativos conformes com os usos sociais, que não
são havidos como doações - art. 940º-2 CC e, no mesmo sentido, art. 6º-2], a prática de doações
ou actuações non profit é, hoje, uma verdadeira “indústria”, por parte de instituições lucrativas.
Nenhuma razão se visualiza, por isso, para considerar as doações fora da capacidade de qualquer
pessoa coletiva, visto que o fim mediato pode ser o mesmo: o lucro. Quando se refere a
“circunstancias da época” falamos em algo externo á sociedade, normalmente a doutrina fala
no Natal, o segundo requisito “condições da própria sociedade”, já falamos em algo interno á
sociedade, como por exemplo a insolvência. O prof não concorda com a posição do MC, acredita
que estas normas seriam ainda restritivas, e a prática de atos gratuitos é perfeitamente
compatível com a logica societária na medida em que não ofenda o fim mediato da sociedade.
Como podemos determinar se determinada doação é possível ou não?
Se os membros de uma associação fazem uma doação, e apenas o donatário é que sabe quem
fez a doação, poderá ser beneficiário para o doador o donatário saber
Quanto à prestação de garantias a terceiros, essa prestação poderia surgir como um
“favor” e, portanto, como um acto gratuito. Pode, ainda assim, ser uma atividade lucrativa, como
àquela desenvolvida pelos bancos que prestam garantias a troco de comissões. O art. 6º-3
proíbe, pura e simplesmente, a sociedade de prestar garantias, salvo “justificado interesse
próprio” da sociedade garante e da sociedade em relação de domínio ou de grupo. Estas
“excepções” são tão abrangentes que acabam por consumir a regra, uma vez que o “justificado
interesse próprio” é definido pela própria sociedade, nos termos gerais do Direito privado.
MENEZES CORDEIRO conclui que esta proibição apenas funciona perante situações
escandalosas e havendo má fé dos terceiros beneficiários.

§2: OBJECTO. O objecto [art. 11º], por seu lado, designa as actividades exercidas pela
sociedade: sejam elas actividades principais, secundárias ou acessórias. Trata-se de um dos
elementos essenciais que devem constar do contrato de sociedade [art. 9º-1d].

Numa ilustração de dois círculos concêntricos, o objecto seria o círculo mais pequeno,
dentro de um círculo maior e mais abrangente: a capacidade. Por outras palavras, o objecto não
limita a capacidade [art. 6º-4], pelo que um acto praticado fora do âmbito das actividades a
desenvolver pela sociedade [fora do objecto, enfim] não viola a capacidade da mesma.
Retomando a conclusão supra §1, a capacidade encontra-se limitada pelo lucro, mas não pelo
objecto.
Uma violação do objecto da sociedade é, por exemplo, a sociedade de restauração que
arrenda um imóvel para aí instalar uma loja de desporto: o escopo é, ainda, lucrativo [está
dentro da capacidade, enfim, ou do seu fim mediato que é o lucro], embora viole
manifestamente o objecto da mesma – a actividade de restauração prosseguida.
§3: ACTOS E DELIBERAÇÕES FORA DA CAPACIDADE. Os actos [praticados por elementos
do órgão de administração, vg] não se confundem com as deliberações [necessariamente dos
sócios]. A distinção é pertinente, já que releva para os diferentes
regimes aplicáveis às duas realidades:

• Os actos praticados pelo órgão de administração fora da capacidade da


sociedade são nulos, nos termos do art. 280º CC, por impossibilidade, segundo
MENEZES CORDEIRO. Outros autores solucionam a questão com recurso ao art.
294º CC, por contrariedade à lei.
• As deliberações tomadas pelos sócios fora da capacidade da sociedade são
anuláveis, segundo MENEZES CORDEIRO, nos termos do art. 56º-1c) [veja-se a
querela doutrinária quanto à ratio legis do preceito, que estudaremos com mais
detalhe infra]. Outros autores também sustentam a anulabilidade das
deliberações sociais, embora o façam com recurso ao disposto no art. 56º-1d).

§4: ACTOS E DELIBERAÇÕES DENTRO DA CAPACIDADE, MAS FORA DO OBJECTO.


Questão diversa é aquela que se coloca quando o acto do órgão de administração ou a
deliberação dos sócios se encontra dentro da capacidade da sociedade, embora viole o objecto
[actividades prosseguidas] da mesma.

• Os actos praticados pelo órgão de administração dentro da capacidade, mas


fora do objecto, são válidos, já que o objecto não limita a capacidade [art. 6º-4].
Pergunta-se se são, todavia, eficazes: o SNC: ineficazes, salvo confirmação
unânime dos sócios [arts. 268º CC e 192º-2 e 3].
o SPQ: eficazes, salvo terceiro de má fé [desconhecimento com culpa da
violação do objecto da sociedade, pelo acto: art. 260º-2 e 3, com
exigências de publicidade face à necessidade de tutela do tráfego
jurídico]. o SA: eficazes, salvo terceiro de má fé [art.
409º-2].

• As deliberações tomadas pelos sócios dentro da capacidade, mas fora do


objecto, são anuláveis nos termos da cláusula geral do art. 58º-1a), já que se
trata de violação de disposições do contrato de sociedade – art. 9ºd). Para além
destas consequências, a violação do dever de não exceder o objecto social ou de não praticar
actos que excedam esse objecto, pelos órgãos da sociedade [art. 6º-4], acarreta
responsabilidade civil dos mesmos nos termos dos arts. 72º ss e justa causa de
destituição dos administradores.
exemplo:

A Sociedade X, Lda, tem como objecto social a produção e comercialização de pães.


Achando o negócio pouco lucrativo, a sociedade iniciou um negócio de tecnologias da
informação, adquirindo um site na Internet dedicado à compra e venda de roupa.

• A capacidade das sociedades comerciais corresponde ao seu fim mediato: o


lucro [art. 6º1].
• A aquisição de um site na Internet, pelos administradores, é um acto e não
uma deliberação dos sócios, e encontra-se dentro da capacidade da sociedade,
já que prossegue, também ele, o lucro. O acto não respeita, contudo, o objecto
da sociedade, mas é, ainda assim válido: art. 6º-4, o
objecto não limita a capacidade.

• Pergunta-se se o mesmo será, todavia, eficaz: face à firma “X, Lda”, tratase de
uma SPQ, cujo regime determina que o acto é ainda eficaz, salvo má fé de
terceiro [art. 260º-2 e 3]: desconhecimento sem culpa da violação
do objecto da sociedade, pelo acto.

• Tendo sido violado o dever de não exceder o objecto social [art. 6º-4], os
administradores são responsabilizados nos termos dos arts. 72º ss, por
responsabilidade civil, podendo eventualmente ser destituídos desse órgão
social.

exemplo:

A Sociedade X, SA, é titular de uma plataforma petrolífera há muito desactivada,

que pretende destruir e afundar. Associações ambientalistas manifestaram-se contra a


catástrofe ambiental, e iniciaram um movimento de boicote à Sociedade X, SA. A sociedade
decidiu cancelar o afundamento da plataforma e fazer uma grande doação à associação
ambientalista, que foi largamente publicitada nos jornais.

• A gratuidade de uma doação da Sociedade X a uma associação

ambientalista, poderia levar-nos a considerá-la um acto fora da capacidade


da sociedade, já que não prossegue, aparentemente, o “fim” por

excelência das sociedades comerciais: o lucro [art. 6º-1].

• Todavia, a avultada doação em causa fora celebrada, na verdade, com o fim


de repor a boa imagem da Sociedade X, trazendo-lhe benefícios a posteriori
com a divulgação do acto gratuito nos media. Trata-se de uma doação
interessada, necessária ou conveniente, direccionada para o lucro:
há identidade valorativa entre essa doação e qualquer outro acto

lucrativo, ainda que oneroso.

• Bastar-nos-ia o disposto no art. 6º-1 para concluirmos que o acto visa o lucro,
e se encontra dentro da capacidade da Sociedade X, embora o nº 2
concretizasse esse entendimento.

• O acto é válido e não houve qualquer violação de deveres por parte dos

administradores.

O CONTRATO DE SOCIEDADE

Celebração e Conteúdo

§1: CELEBRAÇÃO. O contrato de sociedade é um contrato nominado e típico, face à

previsão legal constante dos arts. 980º ss CC e das disposições do CSC.

Segundo o art. 7º-2, o número mínimo de partes para a celebração do contrato de


sociedade é duas partes: sublinhe-se que a contitularidade de acções ou quotas é considerada
uma única parte, e que podem ser parte quer as pessoas singulares, quer as pessoas
colectivas [maxime no caso das SGPS – Sociedades Gestoras de Participações Sociais].

Constituem excepções a esta regra geral as SA [numero mínimo de cinco accionistas, art.
273º] e as Sociedades Unipessoais [SU]. Pergunta-se, a este respeito, se uma SA poderá ser uma
SU: em teoria poderá sê-lo temporariamente, se todos os sócios falecerem e apenas
sobreviver um, vg.

O contrato de sociedade é um verdadeiro negócio jurídico, já que implica liberdade

de celebração e de estipulação [MENEZES CORDEIRO].


Os elementos voluntários necessários que devem constar do contrato de sociedade

são os seguintes:

• Denominação ou firma

• Sócios

• Capital social

• Partes sociais

• Sede

• Tipo [art. 1º-2]

O pacto social [estatutos ou disciplina da sociedade] é parte integrante do contrato

de sociedade proprio sensu.

A celebração de um contrato de sociedade pode também decorrer de uma oferta ao

público, vg se for constituída uma SA com apelo à subscrição pública [arts. 279º ss].

§2: CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADE ENTRE CÔNJUGES. Segundo o pensamento

tradicional, a constituição de uma sociedade entre cônjuges poderia pôr em causa o regime de
bens estipulado para o casamento e o regime geral de responsabilidade dos bens dos cônjuges
pelas dívidas de cada um ou de ambos, já que as regras desses regimes seriam substituídas pelas
regras constantes dos estatutos da sociedade. Para mais, e face à contextualização histórica da
discussão, o “poder marital”, conforme consagrado na versão originária do Código Civil de 1966,
poderia dar lugar a esquemas de formação da vontade
social, mais igualitários e, na época, inadmissíveis.

Nesse sentido, o art. 1714º CC prevê:

• #1: Princípio da imutabilidade das convenções antenupciais, não sendo


permitido alterar os regimes de bens convencionados.
• #2: Essa proibição abrange todos os contratos de compra e venda e de
sociedade celebrados entre os cônjuges, excepto quando separados
judicialmente o Esta proibição seria absoluta e acarretaria a nulidade dos
contratos de sociedade eventualmente celebrados entre os cônjuges.
• #3: É lícita a participação dos dois cônjuges na mesma sociedade de capitais,
bem como a dação em cumprimento.
o Face a esta norma, colocou-se o problema se as SPQ seriam sociedades
de capitais. ANTUNES VARELA considerou que as SPQ não se
encontravam abrangidas nem pela letra do nº 3, nem pelo espírito de
todo o art. 1714º CC.

Inversamente, o art. 8º do CSC [em vigor desde 1986] consagrou:

• #1: É permitida a constituição de sociedades entre cônjuges, bem como a


participação destes em sociedades, desde que apenas um deles assuma a
responsabilidade ilimitada [resíduo histórico do CSC]. o Esta
norma aplica-se também às sociedades civis puras.
Nestes termos, MENEZES CORDEIRO e PEREIRA COELHO consideram que a entrada em vigor do
art. 8º-1 fez com que o art. 1714º-2 e 3 CC fosse revogado. Mantém-se, contudo, o princípio da
imutabilidade das convenções antenupciais [art. 1714º-1 CC], cuja

compatibilidade com o art. 8º-1 deve ser verificada caso a caso, e contrato a contrato: será
inadmissível a entrada de ambos os cônjuges para uma sociedade com todos os seus bens, vg.
Já a subscrição de pequenas quotas e de algumas acções por ambos os cônjuges não parece
desrespeitar esse princípio.

Se uma participação social for comum a ambos os cônjuges, será considerado sócio

aquele que tenha celebrado o contrato de sociedade, nos termos do art. 8º-2.

§3: CAPACIDADE PARA CONSTITUIÇÃO DE UMA SOCIEDADE. Os menores podem ser


partes em contratos de sociedade, desde que o celebrem através dos pais, enquanto seus
representantes legais, e com autorização bastante do tribunal [no caso de constituição de uma
SNC ou SEC, simples ou por acções – art. 1889º-1d) CC]. Poderão fazê-lo, pessoal e livremente,
sempre que o objecto da sociedade esteja ao seu alcance [recorde-se o teor do art. 127º CC]: a
denominada “incapacidade” dos menores é aparente, segundo MENEZES CORDEIRO, face às
excepções legalmente previstas que consomem a regra.
O mesmo regime é aplicável, mutatis mutandis, ao interdito [arts. 139º ss CC]. Quanto
ao inabilitado, a capacidade para constituição de uma sociedade depende de
sentença [art. 153º-1 CC].

§4: FORMA. O contrato de sociedade é um contrato formal, nos termos do art. 7º-1:

tem que ser reduzido a escrito e as assinaturas dos subscritores carecem de reconhecimento
presencial, salvo se forma mais solene for exigida para a transmissão dos bens com que os sócios
entram para a sociedade. Assim, no caso de transmissão de bem imóvel, o contrato
deve ser celebrado mediante escritura pública.

O regime comercial é distinto do regime civil, já que a celebração do contrato de


sociedade civil obedece ao princípio de liberdade de forma, tratando-se de um contrato
consensual [arts. 981º-1 e 219º CC].

§5: NATUREZA. Para uns, o “contrato” de sociedade não seria um contrato proprio

sensu e teria uma natureza específica, não-contratual:

• As declarações de vontade são idênticas e confluentes, e não contrapostas.

• Os efeitos repercutem-se numa nova e terceira entidade, a sociedade, e não

nas esferas jurídicas dos intervenientes.

• Admite-se a constituição de sociedade por acto unilateral, com um único

declarante.

Todavia, o CSC refere, continuamente, a expressão “contrato”. Como já indiciámos


supra §1, a natureza negocial da constituição de uma sociedade comercial é demonstrada pela
existência das duas liberdades [celebração e estipulação]. Mas o contrato de sociedade
não pode ser considerado um contrato comum, já que tem especificidades de regime:

• É dispensável nas sociedades inicialmente unipessoais [art. 270ºA-4] – SU.

• O seu regime prevê invalidades sanáveis por [meras] deliberações maioritárias


[arts. 42º-2 e 43º-3] e invalidades que não são oponíveis erga omnes, mas
apenas aos demais sócios [art. 41º-2, 2ª parte].

Face ao que foi exposto conclui-se: trata-se de um contrato, embora não implique
quaisquer prestações recíprocas. Como tal, a doutrina sugere frequentemente os designativos
de “contrato de colaboração” ou de “contrato de organização”.

§6: CONTEÚDO. O conteúdo do contrato de sociedade é constituído pela regulação


jurídica conforme delimitada pelas partes e pelos elementos essenciais que depreendem o
regime fixado. São elementos do contrato [art. 9º]:

• Nomes ou firmas [tratando-se de pessoa colectiva] dos sócios fundadores

• Tipo

• Firma [*]
• Objecto

• Sede [*]

• Capital social

• Quota de capital e a natureza da entrada de cada sócio [*]

• Descrição dos bens e especificação dos valores

(…)

Quanto às sociedades em especial:

• SNC: art. 176º

• SPQ: art. 199º

• SA: art. 272º

• SEC: art. 446º

Os elementos do contrato podem constar implicita ou explicitamente, embora

MENEZES CORDEIRO sublinhe a necessidade de figurarem com suficiente clareza.

A ausência de algum dos elementos necessários supra implica a invalidade do contrato


[art. 42º-1], ainda que a mesma seja sanável por deliberação dos sócios, nos mesmos termos
prescritos para a alteração do contrato, nos casos de falta de menção de firma, sede e valor das
entradas e das prestações [art. 42º-2]. A contrario sensu, a falta de menção do objecto, capital
social e tipo de sociedade implica nulidade insusceptível de sanação. As nulidades
sanáveis encontram-se assinaladas supra - [*].

§7: EFEITOS. O contrato de sociedade origina, pelo registo, um ente colectivo

personalizado, pelo que produz efeitos erga omnes:

• Perante os novos sócios

• Perante terceiros estranhos

• Perante os credores da sociedade

§8: FIRMA. Face ao disposto no art. 10º, cumpre recordar os princípios gerais

constantes do RNPC:
• Autonomia privada [com os limites do art. 10º-5b]

• Obrigatoriedade e normalização [art. 9º-1c]

• Verdade e exclusividade [art. 10º-2 e 5a]

• Estabilidade

• Novidade [art. 10º-3]

A firma deve exprimir o tipo de sociedade em causa, nos termos seguintes:

• SNC: “e Cª” [art. 177º]

• SPQ: “Lda.” [art. 200º]

• SA: “SA” [art. 275º]

• SEC: “em/& comandita” [art. 467º]

§9: SEDE. A sede deve ser estabelecida em local concretamente definido [art. 12º],

por razões elementares de polícia, fiscais e comerciais.

Segundo o disposto no art. 13º constituem formas locais de representação:

• Sucursais

• Agências

• Delegações

§10: DURAÇÃO DA SOCIEDADE. A regra que o CSC fixa supletivamente para a duração
da sociedade, é a da sua duração por tempo indeterminado [art. 15º]. As partes podem
convencioná-lo por remissão para:

• Termo certo: 10 anos ou até 2018, vg.

• Termo incerto: até à conclusão de uma obra, ou até ao falecimento de um

dos sócios fundadores, vg.


SOCIEDADES EM FORMAÇÃO E SOCIEDADES IRREGULARES

Sociedades em Formação

§1: PROCESSO DE FORMAÇÃO DAS SOCIEDADES. O contrato de sociedade é sempre


precedido de um processo de formação tendencialmente moroso. Nestes termos, a expressão
“sociedade em formação” designa as situações prévias à conclusão do contrato.

§2: “EMPRESA NA HORA”. O DL 111/2005 consagrou o regime especial de

constituição imediata de sociedades. Essa constituição permite, através de atendimento


presencial único, um prazo de tramitação de cerca de 24h [art. 5º DL 111/2005], facto que
justifica a designação de processo de constituição de “empresa na hora”, como apelidado
pelo próprio preâmbulo do diploma.

Este regime especial só se aplica a SPQ ou a SA cujo capital seja realizado com

recurso a entradas em dinheiro [arts. 1º e 2º b DL111/2005].

A tramitação em 24h é possível graças à existência de uma bolsa de firmas [arts. 3ºa)

e 15º DL 111/2005] e de estatutos de modelo pré-aprovados [art. 3º b) DL 111/2005].

São aplicáveis a este regime as disposições gerais sobre o contrato de sociedade,

registo comercial e publicação, conforme estudaremos infra.

§3: FASES DO PROCESSO DE FORMAÇÃO. São geralmente apontadas três fases do


processo de formação das sociedades comerciais, eventualmente antecedidas por uma outra,
a que designaremos “fase zero”:

• [ Fase zero: registo prévio, se apresentado o devido requerimento, art. 18º ]

• 1ª Fase: celebração do contrato de sociedade com observância da forma


legalmente prescrita [art. 7º-1]
• 2ª Fase: registo, definitivo se verificada a “fase zero” [art. 5º]

• 3ª Fase: publicações obrigatórias [art. 167º]

§4: NEGÓCIOS EVENTUAIS. Acessoriamente às fases do processo de formação,


conforme indicadas supra §3, podem as partes celebrar negócios eventuais:

• Acordos de princípios [remete para a figura da contratação mitigada]

• Promessa de sociedade [as partes obrigam-se a celebrar o contrato de

sociedade]

• Negócios instrumentais preparatórios [vg promessas de subscrição, apoio

logístico, etc]

• Acordos de subscrição pública [art. 279º]

• Acordos de funcionamento da sociedade antes da celebração do registo


definitivo [figura que remete para o estudo das sociedades irregulares, infra].

§5: CULPA IN CONTRAHENDO. É pacífico que durante todo o processo de formação de


uma sociedade as partes devam observar as regras da boa fé, maxime quanto ao instituto da
culpa in contrahendo [art. 227º CC], por violação dos seguintes deveres:

• Deveres de segurança

• Deveres de lealdade

• Deveres de informação

A violação destes deveres acarreta responsabilidade obrigacional [arts. 798º ss CC],

por se tratarem de obrigações específicas e não de deveres genéricos.

Sociedades Irregulares por Incompleitude

§1: SITUAÇÕES PRÉ-SOCIETÁRIAS. Frequentes são as situações em que os sócios, antes


de completado o processo de constituição de uma sociedade, iniciam a actividade visada por
esta. Nestes casos, observa-se o funcionamento da realidade societária, antes de
plenamente constituída pelo registo [arts. 36º a 41º].

§2: SOCIEDADES IRREGULARES. Tradicionalmente, a terminologia “sociedades


irregulares” designava as sociedades “não-existentes” ou totalmente nulas. Mais tarde, o termo
passou a designar as sociedades sem personalidade jurídica [plena]. Essa realidade
abrangeria:
• Sociedades com vício de forma

• Sociedades de facto

• Sociedades com vícios constitutivos

• Sociedades irregulares por incompleitude

Constituem circunstâncias comuns às sociedades irregulares:

• Não-conclusão do processo formativo [pressupõe acordo solene e registo

definitivo].

• Efectiva presença de uma organização societária em funcionamento, com

relações actuantes entre os sócios interessados ou com terceiros.

Conclui-se: trata-se de realidades efectivamente existentes e operantes que não

devem ser tratadas com indiferença pelo Direito.

Em sede de Direito das Sociedades, estudaremos mais aprofundadamente as

sociedades irregulares por incompleitude, infra §3 ss.

§3: SOCIEDADES IRREGULARES POR INCOMPLEITUDE. As sociedades irregulares por


incompleitude consistem em sociedades cujo processo constitutivo não está ainda concluído,
designadamente por falta de matrícula ou de inscrição no registo. A noção “sociedade irregular”
só encontra eco no CSC através da conjugação de disposições legais como os arts. 172º, 173º-1
e 174º-1e) [“sociedade irregular por falta de forma ou de registo”]. A falta de
registo impede a personalização plena, enfim.

Neste seio, podemos distinguir:

• Relações anteriores à celebração do contrato de sociedade, art.


36º.

• Pré-sociedade depois do contrato e antes do registo, arts. 37º a


40º:

o Relações internas [entre sócios] – art. 37º o Relações externas [com


terceiros] – arts. 38º a 40º
§4: RELAÇÕES ANTERIORES AO CONTRATO. No âmbito das sociedades irregulares por
incompleitude que celebrem relações anteriores à celebração do contrato de sociedade [com
observância da forma legalmente prescrita, art. 7º], aplica-se o disposto no art. 36º.

Uma primeira leitura do art. 36º poderia levar-nos a concluir pela seguinte

delimitação radical:

• #1: aplicar-se-ia às situações de sociedades materiais


[aparência total de sociedade], nas quais não existe qualquer acordo entre os

participantes, nem intenção de celebrar o contrato de sociedade [vg

inexistência de património comum].

o Sociedades materiais: situações que, no campo da materialidade,


correspondem a contribuições de bens ou de serviços, feitas por duas
ou mais pessoas, para o exercício em comum de certa actividade
económica. Essas contribuições transcendem a mera fruição e estão
orientadas à repartição dos lucros daí resultantes [art. 980º CC]. Falta,
para tais situações, qualquer contrato ou outro título
legitimador.

o A solução das restituições em espécie ou in natura, pela


pseudosociedade a todos os terceiros contraentes, seria, por vezes,
impossível e manifestamente injusta. o Solução legal:
responsabilidade solidária e ilimitada.

• #2: aplicar-se-ia às situações que prefigurassem já um acordo


tendente à constituição de uma sociedade comercial, embora o
contrato não tenha sido ainda celebrado com observância da
forma legalmente prescrita [existiria já uma intenção de celebrar
o contrato – vg contrato-promessa de
constituição da sociedade].

o O tipo de acordo exigido pode ser simples e incipiente, já que a lei não
requer qualquer promessa de celebração do contrato de
sociedade definitivo. O essencial é que a actividade societária tenha

já iniciado. o Solução legal: aplicação das regras das


sociedades civis
• art. 997º CC - pelas dívidas sociais respondem:

• 1º: o património da sociedade;


• 2º: os sócios, pessoal e solidariamente, com benefício

de excussão [nº 2].

MENEZES CORDEIRO considera que a distinção legal supra é, do ponto de vista dos
terceiros contraentes, irrelevante: em qualquer caso, os terceiros apenas estão convictos da
existência da sociedade, sendo-lhes inacessível a intenção dos “sócios” em celebrar o contrato
em falta. Para mais, a remissão para o regime das sociedades civis, prevista para a segunda
situação [nº 2], é mais adequada a assegurar níveis superiores de tutela. Acrescem a esta
remissão, todavia, os elementos próprios da tutela da aparência ou da confiança, maxime
quanto à confiança objectivamente justificada e quanto à verificação da boa fé subjectiva ética
dos confiantes a tutelar [desconhecimento, sem culpa, da natureza
meramente aparente da sociedade, recorde-se].

Nota: os pressupostos investimento de confiança e de imputação dessa confiança podem


ser dispensados, já que nos encontramos perante uma previsão legal expressa de
tutela.

Face à solução legal prevista para o art. 36º-2, 2ª parte, a doutrina divide-se quanto à
qualificação da sociedade em causa: trata-se de uma sociedade civil [FERRER CORREIA] ou de
uma sociedade comercial [COUTINHO DE ABREU]? MENEZES CORDEIRO entende que essa
“sociedade” não pode ser comercial, face à tipicidade fechada constante do art. 1º-2. A haver
elementos suficientes para se falar em sociedade proprio sensu, ela será, quanto muito, civil. Tal
não impede que sejam comerciais os actos praticados pelos intervenientes, em nome e por
conta da “sociedade”.

exemplo:

I, J e L reúnem-se e combinam constituir uma SPQ que teria por objecto a compra e

venda de antiguidades. Acordaram que a sociedade se designaria “Antiguidades, Lda” e que a


escritura pública seria celebrada em Março, quando todos os pormenores tivessem sido
acordados.

Em Fevereiro, os sócios celebraram um contrato de arrendamento com M, em nome

da sociedade, para que no imóvel funcionasse a sede da mesma.


Compraram diversos equipamentos a N, também em nome da sociedade.
• Deparamo-nos com uma sociedade irregular por incompleitude, antes da
celebração do contrato de sociedade [por escritura pública, no caso, nos
termos do art. 7º-1, 2ª parte – indiciando ter havido contribuição de bens
imóveis por um dos sócios].

• Aplica-se, pois, o disposto no art. 36º, quanto às relações anteriores à

celebração do contrato de sociedade, observada a forma legal [art. 7º].

• Verificam-se os pressupostos de aplicação desse regime: dois ou mais


indivíduos, através do uso de uma firma comum [no caso], assumiram relações
contratuais antes da celebração do contrato de sociedade. MENEZES
CORDEIRO acrescenta a estes pressupostos de aplicação os elementos
próprios da tutela da aparência ou da confiança. Considera
irrelevante a distinção entre a falsa aparência total de sociedade [nº 1] e o
acordo tendente à constituição da sociedade [nº 2], já que os terceiros apenas
estão convictos da existência da sociedade, sendo-lhes inacessível a intenção
dos “sócios” em celebrar o contrato em falta. Por outro lado, a remissão para
o regime das sociedades civis, prevista para a segunda situação [nº 2], é mais
adequada a assegurar níveis superiores de tutela do
que a responsabilidade solidária e ilimitada prevista no nº 1.

• No caso, cremos estar subjacente um verdadeiro acordo de constituição de


uma SA, já que os sócios apenas iniciaram a sua actividade um mês antes da
celebração do contrato, altura em que a sociedade já tinha firma e sede. De
todo o modo, o regime deve ser o mesmo para os casos de “falsa aparência”
[nº 1] e de acordo de constituição de sociedade [nº 2], segundo propugna
MENEZES CORDEIRO, pelo que a distinção é, neste âmbito, irrelevante. O autor
propõe a harmonização das duas normas,
alargando a tutela do nº 1 a fim de responsabilizar:

o 1. O património da sociedade, em primeiro lugar [se já existir]


o 2. Os sócios, solidariamente

• Essa é, aliás, a solução consagrada no nº 2, ao remeter para as disposições


sobre sociedades civis [art. 997º CC: com benefício de excussão prévia].
• Se não existisse qualquer património comum, aplicar-se-ia o disposto no nº 1:
responsabilidade dos “sócios”, solidária e ilimitada. Existindo um património
comum, sejam as relações resultantes de falsa aparência ou de acordo de
constituição de sociedade, aplica-se o disposto no nº 2, nos
termos explicitados supra.
§5: PRÉ-SOCIEDADE DEPOIS DO CONTRATO E ANTES DO REGISTO. Havendo contrato
[celebrado com observância da forma legalmente prescrita, art. 7º-1], as relações entre os sócios
estão já precisadas. À sociedade falta apenas personalidade jurídica [plena] que, nos termos do
art. 5º, apenas surge com o registo definitivo [efeito constitutivo do registo, com ressalvas infra,
a que oportunamente aludiremos]. Antes do registo, não há qualquer
responsabilidade limitada. Cumpre reter a seguinte distinção, plasmada no texto legal:

• Relações internas [entre sócios] – art. 37º:

o #1: aplicam-se as regras previstas no contrato e as regras legais


correspondentes ao respectivo tipo de sociedade, mutatis mutandis,
salvo aquelas que pressuponham o contrato definitivamente

registado.

o #2: a transmissão das participações sociais por acto inter vivos e as


modificações do contrato requerem sempre o consentimento unânime
de todos os sócios.

Razões: a personalidade [plena] surge apenas com o registo e, até


lá, há um mero contrato que só por mútuo consentimento pode
ser modificado [art. 406º-1 CC] – admitir alterações por
maioria poderia:

• Prejudicar os sócios minoritários

• Tornar de difícil precisão o momento da eficácia das modificações


Este é, para mais, um esquema compulsório destinado a

efectivar a realização do registo.

• Relações externas [com terceiros] – arts. 38º a 40º: o CSC procede a um


tratamento diferenciado, consoante o tipo de sociedade em causa. o Sociedades
de pessoas:

art. 38º: SNC – pelos negócios respondem solidária e


ilimitadamente todos os sócios, presumindo-se o
consentimento. MENEZES CORDEIRO considera que o regime
deve ser o do art. 997º CC, aliado ao benefício da prévia
excussão do património social.

art. 39º: SEC simples – pelos negócios que tenham sido


autorizados pelos sócios comanditados, respondem pessoal e
solidariamente todos os sócios, presumindo-se o
consentimento dos sócios comanditados. Não havendo
autorização, respondem pessoal e solidariamente todos
aqueles que realizaram ou autorizaram esses negócios [nº3].
Uma vez mais, por razões de coerência valorativa, MENEZES
CORDEIRO considera que o regime deve ser o do art. 997º CC,
aliado ao benefício da prévia excussão do património social.

o Sociedades de capitais:

art. 40º: SA, SPQ e SEC por acções – pelos negócios celebrados
respondem ilimitada e solidariamente todos aqueles que
intervenham no negócio em representação da pré-sociedade,
bem como os sócios que o autorizem. Os restantes sócios
respondem apenas até às importâncias das entradas a que se
obrigaram. A responsabilidade não opera se os negócios forem
expressamente condicionados ao registo da sociedade e à
assunção por esta dos respectivos efeitos [nº2]. MENEZES
CORDEIRO, JOÃO LABAREDA e COUTINHO DE ABREU
consideram sistematicamente adequado fazer intervir, em
primeiro lugar, o fundo comum da sociedade, nos mesmos
termos do art. 36º-2, e com direito ao benefício da excussão
prévia. Em conclusão, deve ser a própria pré-sociedade a
responder pelas dívidas contraídas em seu nome, seguindo o
regime das sociedades civis puras. Por outro lado, seria
disfuncional interpretar literalmente o art. 19º no sentido de:

• A pré-sociedade, já formalizada em escritura mas ainda


não registada, não ficaria obrigada pelos negócios
celebrados em seu nome, durante esse
período.

•O registo definitivo não só atribuiria personalidade


jurídica [plena] à sociedade, como também permitiria
que os negócios celebrados em nome da pré-

sociedade fossem por si assumidos.

• Esses negócios apenas respeitariam a quem tivesse


agido em representação da sociedade, e não à pré-
sociedade em si.

Conclui-se: a responsabilidade dos representantes e dos sócios que tenham autorizado


os negócios [art. 40º-1] não isenta o património social da responsabilidade principal. Por outro
lado, os representantes e sócios demandados têm direito ao benefício da excussão prévia [art.
997º CC].
Nota: esta é a solução legal supletiva, a afastar se os negócios forem expressamente
condicionados ao registo da sociedade e à assunção por esta dos efeitos [art. 40º-2], ou por
convenção das partes [art. 602º CC]. Esse condicionamento do contrato ao registo opera como
uma condição, enquanto cláusula constante no próprio contrato celebrado com terceiro
[e não no contrato de sociedade]. Verificada essa condição, os sócios não respondem.

exemplo:

A, B e C celebraram um contrato de constituição de uma SPQ. A e B foram

designados gerentes. No dia seguinte, requereram a inscrição no registo comercial que, dois
meses mais tarde, veio a ser recusada. Durante esse período, A e B celebraram diversos
contratos, na qualidade de gerentes, com várias entidades.

• O caso ilustra a celebração de negócios em nome de uma SPQ no período


compreendido entre a celebração do contrato de sociedade e o seu registo
definitivo, no âmbito das relações externas dos sócios gerentes com terceiros
[art. 40º]. Nas relações externas, agem os representantes da sociedade, ou os
sócios que tenham poderes de representação [os
representantes das SPQ denominam-se gerentes].

• A solução legal pauta-se pela responsabilidade ilimitada e solidária de todos


aqueles que, no negócio, agiram em representação da sociedade [no caso, os
dois gerentes, A e B], bem como os sócios que tais negócios autorizaram. Os
restantes sócios respondem até às importâncias das
entradas a que se obrigaram [art. 40º-1] – seria o caso de C.

• Dir-se-ia que o património social não responderia a nenhum título. Todavia,


MENEZES CORDEIRO, COUTINHO DE ABREU e JOÃO LABAREDA,
servindo-se do argumento de maioria de razão, propõem a aplicação, uma vez
mais, do disposto no art. 36º-2, com remissão para o art. 997º CC: o
património social responde em primeiro lugar e, beneficiando de excussão
prévia, os sócios solidariamente [A, B e C]. Compreende-se esta solução: se
nas relações anteriores à celebração do contrato de sociedade deve ser essa a
solução [art. 36º], as relações posteriores à celebração do contrato, mas
anteriores ao registo devem, por identidade e maioria de razão, beneficiar do
mesmo regime. Não faria qualquer sentido se, quanto mais avançássemos no
processo de formação da sociedade, menor fosse a

responsabilidade da sociedade irregular.

• Assim, antes de responderem os sócios elencados no art. 40º-1, por essa


ordem, deve responder o património social.

exemplo:

A, B e C celebram um contrato de constituição de uma SPQ. B entra com um

estabelecimento comercial [trespasse], permanentemente em funcionamento, já que o

encerramento temporário do mesmo poderia resultar em perda de clientela.

Antes de inscrição no registo, os sócios celebram vários negócios com terceiros, e

inicia-se a actividade da sociedade no estabelecimento em causa.

D, credor, exige, após inscrição no registo, o pagamento de uma dívida contraída no

período compreendido entre a celebração do contrato e o registo do mesmo.

• Com o registo definitivo do contrato, a sociedade assume os negócios


celebrados no período compreendido entre o contrato e o registo, de forma
automática e por mero efeito da lei [ope legis, art. 19º-1]. No caso, a sociedade
assume de pleno direito os direitos e obrigações resultantes da exploração
normal de um estabelecimento que constitua objecto de uma entrada em
espécie [art. 19º-1b].
• Dir-se-ia aplicar-se o disposto no art. 40º, já que a dívida fora contraída antes
do registo. Todavia, como o credor só exige o pagamento da mesma depois do
registo definitivo, aplica-se o disposto no art. 19º-1b) nos termos automáticos
descritos, com eficácia retroactiva [nº 3]. Os sócios são liberados e apenas
responde o património social, com a nuance do art. 19º-3, 2ª parte, a respeito
das SPQ.
§6: CAPACIDADE DAS SOCIEDADES IRREGULARES. As pré-sociedades dispõem de uma
capacidade geral similar àquela que compete à própria sociedade definitiva, segundo MENEZES
CORDEIRO:
• A actividade social pode ser iniciada antes da celebração do contrato com
observância da forma prescrita [regime das sociedades civis, art. 997º CC e 36º-
2].
• Podem ser realizados “negócios” por conta das SNC e das SEC simples [arts. 38º-
1 e 39º-1 e 4, respectivamente]
•Podem ser realizados “negócios” em nome das sociedades de capitais [art. 40º-
1] que, antes do registo, podem distribuir lucros e reservas.
O mesmo sucede com as sociedades civis puras, que não dependem de forma especial

nem de registo.

§7: REPRESENTAÇÃO ORGÂNICA DA SOCIEDADE IRREGULAR. A sociedade irregular é

susceptível de representação orgânica nos seguintes termos:

• Pré-sociedade anterior à celebração do contrato com observância de forma: por


qualquer um dos seus promotores [art. 36º-2].
• Pré-sociedade posterior à celebração do contrato com observância de forma,
mas anterior ao registo: pelos órgãos competentes já previstos nos seus
estatutos [arts. 38º a 40º].

Face à ampla capacidade de que dispõem as sociedades irregulares, recomenda-se a


rápida conclusão do processo de registo, por razões fiscais, bancárias e de política notarial.

§8: NATUREZA JURÍDICA. Conceberam-se diversas teorias quanto à natureza jurídica

das sociedades irregulares:

• Teoria da sociedade de facto: a sociedade poderia ter, na sua origem, a simples


evidência do surgimento e do funcionamento do contrato, no campo
dos factos.

o Não procede: não explica a sua positividade jurídica, nem determina


quaisquer regras. Para mais, as próprias soluções legais afastam
qualquer pretensa “relação contratual de facto” [veja-se os arts. 36º
ss], segundo MENEZES CORDEIRO.

• Teoria dos limites da nulidade: as regras que determinam a invalidade de um


contrato de sociedade não seriam radicais [como se a sociedade não
existisse], mas antes permitiriam à sociedade irregular exercer determinada
actividade.

o Não procede: trata-se de um desvio às regras da nulidade e aos seus


efeitos, segundo MENEZES CORDEIRO.
• Teoria da organização: parte da apregoada dupla natureza do contrato de

sociedade o Relação interna: puramente obrigacional o Relação externa:


organizatória, que tende a transcender a relação obrigacional e dá azo a um
elemento de confiança que o Direito
tutela.

A solução proposta por MENEZES CORDEIRO parte da vontade das partes. A sociedade

irregular por incompleitude é uma sociedade assente na vontade das partes:

• O acordo informal do art. 36º-2 equipara-a à sociedade civil

• Com a celebração do contrato, o seu teor regula os direitos


das partes [art. 37º]

• Nas relações externas, tudo se passa consoante a figura

adoptada pelas partes [arts. 38º a 40º]

A falta de registo, por seu lado, apenas impede o privilégio da limitação da


responsabilidade. Nestes termos, conclui-se: a pré-sociedade é uma pessoa colectiva erigida
pela vontade das partes e assente na autonomia privada.

Repudia-se a remissão para a figura das pessoas rudimentares, já que, aqui, o acordo de
constituição possibilita uma personalidade mais ampla, aplicando-se mesmo o regime das
sociedades civis puras [art. 36º-2 e 997º CC].

Com a escritura, as sociedades assumem, de facto, personalidade colectiva. As


limitações que impendem sobre as pré-sociedades estão relacionadas com a responsabilidade
dos sócios perante terceiros, que não é efectivamente limitada. Quanto ao resto, as
présociedades têm órgãos, representantes e constituem um centro autónomo de imputação de
normas jurídicas. Assentam, por seu lado, em verdadeiros contratos de sociedade [art. 980º CC],
num esquema de tutela da aparência e de protecção da confiança que segue, por
analogia, o regime negocial.

São verdadeiras e próprias sociedades, enfim, ainda que diferentes dos tipos

elencados no art. 1º-2, escapando à tipicidade comercial.


Sociedades Irregulares por Invalidade

§1: DIRECTRIZ COMUNITÁRIA. A 1ª Directriz das Sociedades Comerciais, de 1968,


impulsionou o legislador nacional a legislar sobre os fundamentos da invalidade das sociedades.
O legislador transcendeu, contudo, as exigências comunitárias neste âmbito,
regulando minuciosamente o tema nos arts. 41º a 52º.

A 1ª Directriz não distinguia as invalidades antes ou depois do registo: o legislador


transpôs deficientemente a directriz, pelo que o Estado Português pode, por isso, ser
responsabilizado.

§2: PRINCÍPIOS GERAIS DA INEFICÁCIA DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS. Nos termos gerais,

o negócio jurídico que não produza [todos] os seus efeitos é ineficaz,


lato sensu:

• Seja por razões extrínsecas: o


Impossibilidade

o Indeterminabilidade o Ilicitude o Contrariedade à lei ou aos bons


costumes
• Seja por razões intrínsecas: o
Vício na formação o Vício
na exteriorização
Servindo-nos de um esquema de MENEZES CORDEIRO, ilustraríamos a matéria do
seguinte modo:
Nulidade

InvalidadeInvalidades mistas

Anulabilidade

Ineficácia lato sensu

Ineficácia stricto sensu

No Direito Civil, dentro da invalidade e quando a lei não disponha de outro modo, o

vício residual é o da nulidade [arts. 280º e 294º CC].

Diferentemente, no domínio do Direito das Sociedades Comerciais, a nulidade


comprometeria pura e simplesmente todos os actos já praticados pela sociedade em jogo,
desamparando os terceiros e pondo em risco a confiança da comunidade no fenómeno
societário. Todo o regime legal das sociedades irregulares por invalidade está marcado, por isso,
por regras que minimizam a invalidade dessas sociedades e as consequências dessa
invalidade [regras favor societatis, diz-se].

Constituem vectores do favor societatis:

• Limitação dos fundamentos de nulidade [enunciando-os de forma taxativa].

• Introdução de prazos para invocação dessa nulidade [vs regime geral: a todo o
tempo, art. 286º CC].
• Esquemas destinados a sanar as invalidades [vs regime geral].

• Delimitação da legitimidade para invocar a nulidade [e não “qualquer


interessado”, art. 286º CC].
• Limitação dos efeitos da anulabilidade, perante as partes.

• Inoponibilidade das invalidades a terceiros.

• Regime especial quanto à execução das consequências da nulidade.

O regime da acção de declaração de nulidade encontra-se regulado no art. 44º,

afastando-se a aplicação dos arts. 286º ss CC. Eis os traços gerais:

• A acção de declaração de nulidade pode ser interposta 90 dias após o ónus


processual de interpelação da sociedade para sanar o vício, quando sanável [art.
44º-1, 2ª parte].
• A acção deve ser interposta no prazo de três anos a contar do registo, sob

pena de caducidade, salvo intervenção do Ministério Público [art. 44º-1 e 2].

• A iniciativa cabe a qualquer membro da administração, do conselho fiscal ou do


conselho geral da sociedade, ou a qualquer terceiro que tenha um “interesse
relevante e sério na procedência da acção” [art. 44º-1].
Contrapõe-se à legitimidade prevista no CC: “qualquer interessado”, em geral
[art. 286º CC]. A ratio legis desta norma é a de prevenir a interposição gratuita
e selvagem de acções contra grandes sociedades, a fim de obter
compensações destinadas a evitar o escândalo.

• A propositura da acção de declaração da nulidade deve ser comunicada pelos


membros da administração aos sócios de responsabilidade ilimitada e aos
sócios das SPQ [art. 44º-3], independentemente de quem tenha proposto a
acção [acrescenta MENEZES CORDEIRO]. A omissão deste dever presume-se
culposa [art. 799º-1 CC] e dá azo a responsabilidade obrigacional [arts. 798º ss
CC].
• Finalmente, o art. 44º aplica-se a todos os tipos de sociedades, sejam elas

sociedades de capitais ou sociedades de pessoas.

§3: INVALIDADE DO CONTRATO DE SOCIEDADE ANTES DO REGISTO. Enquanto o

contrato de sociedade não estiver definitivamente registado, a invalidade do contrato ou de uma


das declarações negociais rege-se pelas disposições aplicáveis aos negócios nulos ou
anuláveis, nos termos gerais do CC [art. 41º-1].

Esta remissão abrange:

• Causas de invalidade: vg erro ou simulação, com a ressalva do art. 41º-2, 2ª


parte [a invalidade resultante de vício da vontade ou de usura só é oponível
aos demais sócios].

• Legitimidade [art. 286º CC]

• Tempo:

o Nulidade: art. 287º CC – invocável a todo o tempo o Anulabilidade: art.


286º CC – invocável no ano subsequente ao conhecimento da cessação do
vício. Equivale, para MENEZES CORDEIRO, a uma “impugnabilidade”,
conferindo ao interessado um
direito potestativo temporário de anular o negócio jurídico. A remissão
para as normas do CC não abrange, contudo, a matéria das consequências legais da invalidade
do contrato de sociedade antes do registo: o art. 52º é a base jurídica aplicável nesse caso, e não
o art. 289º CC [comum à nulidade e a anulabilidade: efeito retroactivo e restituição do que foi
prestado ou do valor correspondente], em face da ideia de favor societatis presente no regime
legal da invalidade no CSC. Eis os traços gerais do
regime do art. 52º:

• A liquidação da sociedade [art. 165º] permite o acertamento das posições


patrimoniais da sociedade, já que a restituição não é, na maior parte dos
casos, possível [arts. 41º-1, 2ª parte e 52º-1].

Nota: liquidação é o conjunto de operações que, dissolvida a sociedade, permitem o


pagamento aos credores sociais e a repartição do remanescente pelos sócios. Compreende-se
que a invalidação de uma sociedade não se salde pela restituição, nos termos gerais [art. 289º-
1 CC], já que pode haver relações com terceiros: vg credores sociais ou devedores à sociedade.
Assiste-se a um paralelismo entre o regime da liquidação e da dissolução, facto que justifica a
remissão legal [art. 141º ss]. A jurisprudência maioritária considera que perante a invalidade do
contrato de sociedade por vício de forma, ocorrida antes do registo definitivo, não podem ser
restituídas aos sócios o valor das prestações que fizeram a título de entrada [art. 289º-1 CC], mas
apenas têm direito a ver partilhado o activo resultante da
liquidação por todos.

• A invalidade afigura-se mista, já que a eficácia dos negócios jurídicos concluídos


anteriormente não é afectada pela declaração de nulidade ou anulação do
contrato social [art. 52º-2]. MENEZES CORDEIRO propõe uma
interpretação restritiva deste preceito, com duas ressalvas:

o O negócio anteriormente concluído não pode incorrer em nenhum fundamento


de invalidade.
o O terceiro protegido tem que estar de boa fé subjectiva ética

[desconhecimento, sem culpa, do vício que afecta a sociedade]. Uma


interpretação literal do art. 52º-3 levar-nos-ia a concluir,
erroneamente, que se a nulidade proviesse de outros vícios que não a
simulação, ilicitude do objecto, ou violação da ordem pública ou dos
bons costumes, a tutela referida no art. 52º-2 aproveitaria mesmo a
terceiros de má fé [vg em caso de dolo de terceiro, art. 254º-2 CC]. Este
entendimento é de afastar.
• As invalidades decorrentes de incapacidade são oponíveis também a terceiros

[art. 41º-2].
exemplo:

A, B e C celebraram, com observância da forma legalmente prescrita [art. 7º-1], um

contrato pelo o qual constituíam a Sociedade T, Lda. Antes de efectuado o registo, verificase que
o notário se esqueceu de incluir no contrato a sede da sociedade.

• A referência ao notário indicia a celebração de uma escritura pública: facto


que nos leva a concluir tratar-se de um contrato de sociedade
celebrado com a contribuição de um bem imóvel [art. 7º-1, 2ª parte].

• A sede é um elemento que deve constar do contrato [art. 9º-1 e) e 12º]. Na


omissão da mesma, o contrato é inválido.
• Tratando-se de invalidade do contrato antes do registo, aplicam-se as
disposições dos negócios jurídicos nulos ou anuláveis, nos termos gerais [art.
41º-1]. Encontramo-nos perante uma violação de uma norma
injuntiva [o art. 9º-1e], pelo que a nulidade daí resultante [art. 294º CC] segue as regras gerais
da legitimidade e prazos de arguição: a todo o

tempo, por qualquer interessado [art. 287º CC].

• Quanto às consequências, tem aplicação o art. 52º, a respeito da

liquidação da sociedade, e não o art. 289º CC.

§4: INVALIDADE DO CONTRATO DE SOCIEDADE DEPOIS DO REGISTO. Depois de

efectuado o registo definitivo do contrato de SPQ, SA ou SEC por acções [sociedades de capitais],
o contrato só pode ser declarado nulo por algum dos vícios taxativamente
enunciados na lei [art. 42º-1]:

Nota: patente está a regra geral da redução das invalidades – a invalidade de algumas
cláusulas societárias não conduz à invalidade de todo o contrato. A invalidade de
todo o contrato só sucederá se recair sobre alguma cláusula crucial, enunciadas infra.

• a) Falta, no mínimo, de dois sócios fundadores [com as ressalvas supra


mencionadas quanto às SU: art. 7º-2].
• b) Falta de menção: o Firma [*] o Sede [*] o Objecto
o Capital social o Valor da entrada de algum sócio [*]
o Prestações realizadas por conta da sociedade [*]
• c) Menção de um objecto ilícito ou contrário à ordem pública.
• d) Falta de cumprimento dos preceitos legais que exigem a liberação mínima do
capital social [uma quota pode ser liberada quando o montante já pago
seja suficiente para perfazer o capital social mínimo].

• e) Não observância da forma legalmente exigida para o contrato de

sociedade.

As nulidades assinaladas [*] são, todavia, sanáveis por deliberação dos sócios, tomada
nos termos estabelecidos para as deliberações sobre alteração do contrato [arts. 42º-2 e 44º1,
2ª parte]. Uma vez mais, a ideia que está subjacente a esta solução legal é o favor societatis e a
protecção do tráfego jurídico.

O regime da acção de declaração de nulidade é aquele que se encontra consagrado no

art. 44º, conforme já expusemos supra §2.

Quanto às consequências, uma vez mais não colhe a aplicação do art. 289º CC, mas

sim do art. 52º:

• A liquidação da sociedade permite o acertamento das posições patrimoniais da


sociedade, já que a restituição não é, na maior parte dos casos, possível [art.
52º-1].
• A invalidade afigura-se mista, já que a eficácia dos negócios jurídicos concluídos
anteriormente não é afectada pela declaração de nulidade ou
anulação do contrato social [art. 52º-2].

Em conclusão, seja ela detectada antes ou depois do registo [já que as consequências
são as mesmas: art. 52º], a sociedade irregular por invalidade não “desaparece”: sujeita-se,
“apenas”, à liquidação.

exemplo:

A, B e C celebraram, com observância da forma legalmente prescrita [art. 7º-1], um

contrato pelo o qual constituíam a Sociedade T, Lda. Depois de efectuado o registo, verificase que
o notário se esqueceu de incluir no contrato a sede da sociedade.

• A referência ao notário indicia a celebração de uma escritura pública: facto


que nos leva a concluir tratar-se de um contrato de sociedade com a
contribuição de um bem imóvel [art. 7º-1, 2ª parte].
• Tratando-se de invalidade do contrato depois do registo, aplica-se o disposto
no art. 42º: sociedades de capitais [no caso, uma SPQ].
• A sede é um elemento que deve constar do contrato [art. 42º-1b]. Na omissão
da mesma, o contrato é nulo, embora essa nulidade possa ser sanada nos
termos do nº 2 e com as consequências do art. 44º-1, 2ª parte. Se a nulidade
não for sanada, a acção de declaração de nulidade deve ser intentada nos
termos do art. 44º e, se procedente, atenta-se ao disposto
no art. 52º, quanto à liquidação da sociedade.

§5: VÍCIOS DA VONTADE. Padecendo de um vício da vontade [erro, dolo, coacção e


usura], o contrato de sociedade das sociedades de capitais [SPQ, SA e SEC por acções] é, ainda
assim, válido, embora o vício possa ser invocado como justa causa de exoneração pelo sócio
atingido ou prejudicado [art. 45º-1 e 49º-1] – ideia de favor societatis. Para tal, exige-se que se
verifiquem as circunstâncias enunciadas no art. 287º CC: prazo de um ano desde o conhecimento
da cessação do vício. O contrato de sociedade é válido, já que os vícios da vontade não constam
do elenco taxativo do art. 42º-1, que comina a nulidade. Não colhe,
aqui, a aplicação das consequências do art. 52º.

Nota: a aplicação analógica deste regime a outros vícios da vontade não elencados
[simulação parcial, simulação relativa, falta da consciência da declaração, coacção física e
incapacidade acidental] deve ser apreciada caso a caso, para que possam também constituir
justa causa de exoneração, segundo MENEZES CORDEIRO.

Cumpre reter aqui a seguinte nota terminológica:

• Sócios: exoneração [por iniciativa própria – art. 185º] ou exclusão [por

iniciativa dos outros sócios – art. 186º].

• Membros dos órgãos sociais: renúncia [por iniciativa própria] ou destituição


[por iniciativa dos sócios]. Mantêm o seu status de sócios.

exemplo:

D, E, F, G e H constituem, por escritura pública, uma SA. Três meses depois, a

sociedade é registada. Hoje, D revela que só se tornou sócio porque a tal fora coagido por A e B,
apenas agora tendo cessado a coacção. Pretende, por isso, invalidar o negócio.
• Estamos perante um contrato de sociedade com a contribuição de um bem
imóvel [art. 7º-1, 2ª parte], já que o mesmo foi celebrado mediante
escritura pública.

• A SA é uma sociedade de capitais, pelo que se aplica o disposto no art. 45º, a


respeito dos vícios da vontade de que padeça o contrato de
sociedade.

• Tendo sido realizado registo, o contrato é, ainda assim, válido: não consta do
elenco taxativo de nulidades do art. 42º-1. As normas do CC relativas à coacção
moral [anulável] e física [nula] não têm, aqui, aplicação: salvo o disposto no
art. 287º CC, quanto ao prazo de um ano para o exercício do
direito de exoneração do sócio, por iniciativa própria [art. 45º-1].

• Em suma, o contrato de sociedade é válido, embora haja justa causa de


exoneração daquele que foi coagido a celebrá-lo: D.

§6: INCAPACIDADE. Nas sociedades de capitais [SPQ, SA e SEC por acções], a


incapacidade de um dos contraentes torna o negócio jurídico anulável relativamente ao incapaz
[art. 45º-2, 47º e 49º-1] – ideia de favor societatis. Não colhe, aqui, a aplicação das
consequências do art. 52º. O sócio tem o direito de reaver o que prestou e não pode ser
obrigado a completar a sua entrada [art. 47º].

Recordemos as regras de capacidade para a constituição de uma sociedade comercial,

já supra mencionadas:

Os menores podem ser partes em contratos de sociedade, desde que o celebrem

através dos pais, enquanto seus representantes legais, e com autorização bastante do tribunal
[no caso de constituição de uma SNC ou SEC, simples ou por acções – art. 1889º-1d) CC]. Poderão
fazê-lo, pessoal e livremente, sempre que o objecto da sociedade esteja ao seu alcance [recorde-
se o teor do art. 127º CC]: a denominada “incapacidade” dos menores é aparente, segundo
MENEZES CORDEIRO, face às excepções legalmente previstas, que acabam por consumir a regra.

O mesmo regime é aplicável, mutatis mutandis, ao interdito [arts. 139º ss CC]. Quanto
ao inabilitado, a capacidade para constituição de uma sociedade depende de
sentença [art. 153º-1 CC].
O REGISTO E AS PUBLICAÇÕES

Registo das Sociedades Comerciais

§1: REGISTO COMERCIAL. O registo comercial assume uma função de publicidade dos

actos: dar a conhecer os actos comerciais ao público interessado.

Recordemos os princípios do registo comercial:

• Princípio da instância [art. 28º CRC]

• Princípio da obrigatoriedade [arts. 14º e 15º CRC]

• Princípio da competência [arts. 24º ss CRC]

• Princípio da legalidade [art. 47º CRC]

§2: EFEITOS DO REGISTO. Os efeitos do registo podem ser:

• Efeito presuntivo [art. 11º CRC]

• Efeito de prevalência do registo mais antigo [art. 12º CRC]

• Efeito constitutivo [vs art. 406º-1 CC]

• Efeito indutor de eficácia:

o Publicidade negativa o
Publicidade positiva
No Direito das Sociedades Comerciais o registo tem, à partida, um efeito constitutivo
[com as ressalvas infra, §3]: art. 5º. Esta norma não abrange as constituições de sociedades
comerciais que não operem por contrato [vg fusão, cisão ou transformação], mas que ainda
assim carecem de registo [arts. 112º e 120º]. Admitimos, porém, a seguinte ressalva: a pré-
sociedade já é uma sociedade, ainda que não registada.

Segundo o art. 3º CRC, os actos societários sujeitos a registo são os seguintes:

• Contrato de sociedade e respectivas modificações

• Transformação, cisão, fusão, dissolução e liquidação das sociedades

• Transmissões de partes sociais ou de quotas


• Designação e cessação de funções dos fiscalizadores e administradores

• Acções de declaração de nulidade ou de anulação dos contratos de sociedade

e de deliberações sociais [art. 9º c) e e) e art. 15º-4 CRC]

• […]

Esta disposição deve ser articulada com o disposto no art. 15º-1 CRC, acerca dos actos

sujeitos a registo obrigatório.

§3: EFEITO CONSTITUTIVO?

Para MENEZES CORDEIRO o sistema de registo de sociedades comerciais não pode ser

constitutivo, porque:

• Os actos supra §2 mencionados produzem importantes efeitos antes do


registo.

• Actos equivalentes àqueles [vg modificação ou transformação das

sociedades] não dependem formalmente de registo [arts. 88º e 135º].

• O contrato de sociedade produz a generalidade dos seus efeitos uma vez


celebrado, seja inter partes, seja perante terceiros [arts. 37º a 40º].
• A grande consequência da falta do registo está relacionada com a não

limitação da responsabilidade dos sócios, tão-só.

• O registo constitutivo contraria o princípio basilar da eficácia imediata dos

contratos, no domínio real [art. 408º-1 CC].

Com base nestes argumentos, MENEZES CORDEIRO conclui pelo efeito indutor de

eficácia do registo das sociedades comerciais, já que o registo:

• Não reconhece todos os efeitos a actos sujeitos a registo e não registados


[inoponibilidade a terceiros de boa fé].

• Atribui efeitos a actos não efectivos, mas indevidamente registados

[inoponibilidade da nulidade do registo a terceiros de boa fé].


• Os registos “constitutivos” previstos no CSC não são verdadeiras hipóteses de
registo constitutivo, já que os actos sujeitos a esse registo produzem alguns
efeitos antes e independentemente dele.

Em conclusão, o registo surge, assim, como uma condicionante da eficácia plena dos
actos praticados pelas sociedades comerciais, ligando-se ao efeito indutor de eficácia que
resulta da publicidade registal: seja essa eficácia negativa ou positiva.

§4: REGISTO DEFINITIVO. O art. 5º associa personalidade jurídica à sociedade comercial


registada. Para MENEZES CORDEIRO este preceito perde importância, uma vez que a sociedade
devidamente constituída com observância da forma legal [art. 7º-1] mas ainda não
definitivamente registada opera já como um centro próprio de imputação de regras,
dispondo de capacidade jurídica bastante.

Segundo o art. 19º-1, com o registo definitivo do contrato de sociedade, esta assume

de pleno direito:

• a) Direitos e obrigações decorrentes dos negócios jurídicos referidos no art. 16º-


1 [a inserir no contrato de sociedade, sob pena de se tornarem
ineficazes].

• b) Direitos e obrigações resultantes da exploração normal de um

estabelecimento que constitua objecto de uma entrada em espécie ou que

tenha sido adquirido por conta da sociedade.

• c) Direitos e obrigações emergentes de negócios concluídos antes do acto de


constituição.
• d) Direitos e obrigações decorrentes de negócios celebrados pelos gerentes,
administradores ou directores, com autorização de todos os sócios.
Esta assunção, pela sociedade, de negócios anteriores ao registo, com o registo
definitivo, tem eficácia retroactiva e liberatória [art. 19º-3] dos “responsáveis” segundo o
art. 40º.

Quanto aos direitos e obrigações decorrentes de outros negócios celebrados antes do


registo definitivo do contrato, esses podem ser assumidos pela sociedade mediante decisão da
administração, comunicada nos 90 dias subsequentes ao registo [art. 19º-2]. Essa assunção já
não é, neste caso, “de pleno direito” [automaticamente], embora também tenha eficácia

retroactiva, segundo MENEZES CORDEIRO.

O registo definitivo permite ainda operar os sistemas de responsabilidade limitada


[arts. 38º a 40º].

Publicações e outras Formalidades

§1: PUBLICAÇÕES OBRIGATÓRIAS. Segundo os arts. 166º e 167º, as publicações,

quando obrigatórias, devem ser feitas em site da Internet de acesso público [art. 70º CRC].

§2: OUTRAS FORMALIDADES. Para além da publicação dos actos praticados pelas
sociedades comerciais, outras formalidades poderão também ser requeridas [vg declarações
fiscais e autorizações prévias].

A SITUAÇÃO JURÍDICA DOS SÓCIOS

O Status de Sócio

§1: A SITUAÇÃO DOS SÓCIOS.


O primeiro objetivo de uma sociedade é o de servir os interesses das pessoas que nela,
se tenham organizado, ou que a ela tenha aderido, o que é dizer, os interesses dos diversos
sócios. Á partida os sócios correspondem a pessoas que celebraram o contrato de sociedade.
Essa titularidade pode ser:
Original – qd o próprio socio considerado tenha participação na celebração do contrato
constitutivo;
Adquirida – quando o interessado vem por alguma das vias em direito conhecidas, a
subingressar na posição considerada.
Nas sociedades de pessoas teríamos a qualidade de sócio, nas mistas a titularidade de
uma posição e nas de capitais a própria posição independentemente do seu titular.
A evolução progressiva da situação dos sócios, no sentido da abstração, partiu de uma
qualidade assumida, para a titularidade de uma posição
e, finalmente, para a própria posição ou participação social.

Neste âmbito compreende-se a delimitação entre sociedades de pessoas e sociedades


de capitais: nas primeiras o status de sócio é indissociável da qualidade do mesmo; nas
segundas, o status é independente do seu titular.
Recorre-se à técnica do “estado” do sócio, já que a posição jurídica do mesmo é
complexa: contém direitos e deveres, mutáveis pelo contrato de sociedade, acordos
parassociais e deliberações societárias. O estado de sócio, além de complexo, prolonga-se no
tempo e implica obrigações duradouras.

§2: DIREITOS E DEVERES DOS SÓCIOS. O conteúdo complexo do status de sócio pode ser
clarificado com recurso a algumas classificações:

• Direitos abstractos: posição favorável protegida pelo direito e que verificadas


determinadas ocorrencias permitirá ao sócio ver surgir um direito concreto
correspondente – vg direito aos lucros [art. 21º-1a], permitirá ao socio, após todo o
percurso, encabeçar uma pretensão efetiva a um concreto lucro que porventura lhe
caiba.
• Direitos concretos: produto da concretização de uma prévia posição

favorável, que assistia ao sócio.

• Direitos patrimoniais: os valores patrimoniais dão corpo aos correspondentes dts. Na


base encontramos o dt aos lucros ou a “quinhoar nos lucros”, ( art 21º\1\a) ). Este dt
pode no entanto implicar outros dts instrumentais, como:

 Art 24º\1;
 29º\1
 31º a 35º
 77º\1
 37º\2\2º parte
 94º\1 e 95º\4\d)
 105º\1
 112º\b)
 120º
 137º\1
 147º\1
 148º\1
 156º\1 e 164º\1

• Direitos participativos: tem a ver com a possibilidade, reconhecida aos sócios, de


ingressar no modo coletivo de gestão nos interesses, inserindo-se na organização social
e atuando nos esquemas de cooperação por ela previstos. Estes direitos correspondem
a concretizações dos direitos ao trebalho e á livre iniciativa, constitucionalmente
garantidos. Os dts participativos podem ser repartidos, de acordo com o art 21º\1\b),
c) e d), o dt a participar nas deliberações dos sócios, dt a obter informações sobre a vida
da sociedade e o dt a ser designado para os órgãos de administração e de fiscalização.
 Os dts parassociais, são aqueles previstos no art 17º. Tratam-se
de posições pessoais obtidas por força dos acordos em causa,
mas apenas devido á qualidade de socio e no âmbito do status
deste.
 Dt á lealdade tem a ver com as relações entre os sócios e para
com a sociedade. A proibição de concorrência equivale a uma
concretização deste vetor
 Estado de socio
• Direitos pessoais: valores pessoais do sócio.

As situações passivas dos sócios serão, à partida, apenas duas [art. 20º]:

• Obrigação de entrada [arts. 25º ss]

• Sujeição às perdas – duplo alcance:

o Representa a frustração de contrapartidas esperadas pelas entradas o


Traduz o funcionamento das regras de responsabilidade dos sócios:
SEC: responsabilidade ilimitada, solidária e subsidiária [art. 175º-1]
SPQ: responsabilidade limitada aos valores das entradas,

solidária e subsidiária [art. 192º-1]

SA: responsabilidade limitada apenas pelas entradas próprias

[art. 271º]

As SPQ e SA impõem aos sócios a obrigação de efectuar prestações acessórias, além das
entradas [arts. 209º e 287º], desde que o contrato fixe os elementos essenciais da obrigação e
especifique se as prestações devem ser efectuadas onerosa ou gratuitamente.

As prestações suplementares [art. 210º], no âmbito das SPQ, devem ser permitidas pelo
contrato de sociedade, dependendo de deliberação dos sócios [nº 1] e têm sempre por
objecto dinheiro [nº 2].

§3: DIREITOS ESPECIAIS. Os direitos especiais constam do art. 24º: são direitos de
“qualquer sócio”, inseridos no contrato de sociedade e que, salvo disposição legal ou
estipulação contratual expressa em contrário, não podem ser suprimidos ou

coarctados/limitados sem o consentimento do respectivo titular [nº 1 e nº 5].

O CSC não concretiza, todavia, que precisos tipos de direitos poderiam estar em

causa. Eis alguns exemplos jurisprudenciais:


• Direito de vincular uma sociedade de quotas, em juízo ou fora dele, apenas com
a assinatura do beneficiário;

• Direito a exercer atividade correspondente com a da sociedade;

• Direito de dividir ou de alienar a sua quota sem as autorizações exigidas aos


demais;

• Direito de alienar quotas sem possibilidade de exercícios da preferência pelos


demais;

• Direito á gerência, altura em que a destituição só poderia operar com base em


justa causa e por via judicial.

Os direitos especiais são intuitu personae, estabelecidos em função de um concreto titular. Não
são transmissíveis a terceiros, em conjunto com a respectiva quota. Quando os estatutos
atribuam certa posição a uma pessoa, nem sempre se tratará de um direito especial, podendo
verificar-se uma mera designação em pacto social. Não basta, por isso, a atribuição de um
direito, mas sim a atribuição especial de um direito: recomenda-se menção expressa de que o
mesmo só poderá ser suprimido com o consentimento do seu titular.
Segundo o art. 24º-2 a 4:

• SNC: os direitos especiais são intransmissíveis, salvo cláusula em contrário

[personalização máxima]

• SPQ: os direitos especiais patrimoniais são transmissíveis; os restantes são

intransmissíveis, salvo cláusula em contrário

• SA: os direitos especiais são atribuídos a categorias de acções, transmitindose


com estas [abstracção máxima]

Pergunta-se se os direitos especiais podem assistir a todos os sócios [com excepção das
SA, onde os direitos especiais são atribuídos a acções]. Os direitos especiais são-no não por
pertencerem apenas a um sócio, mas sim por pressuporem um regime especial, diferente do
comum. Nestes termos, todos os sócios podem ser titulares de direitos de que só possam
ser despojados com o seu próprio assentimento.

A Obrigação de Entrada

§1: ENTRADA. A obrigação de entrada é um dever essencial dos sócios, sem a qual a
sociedade não terá meios para poder desempenhar a sua actividade, nem os sócios
terão titulo de legitimidade para recolher lucros e para pretender intervir na vida da
sociedade.

O tipo de entrada é definido no contrato de sociedade, nos termos do art 9º \ g) e h)

A entrada pode consistir em diversas realidades patrimoniais:

• Entradas em dinheiro: corresponde á assunção de uma obrigação pecuniária.

• Entradas em espécie: corresponde a entregas de bens diferentes de dinheiro,


de acordo com o art.28º\1. A lei não opõe restrições, apenas se infere do art
20º\a), que tais bens devem ser suscetíveis de penhora.
• Entradas em indústria: Trata-se de serviços humanos não subordinados.

A entrada tem ainda uma dupla apresentação: o valor nominal e o valor real. O valor
nominal da entrada é o da participação social a que ela corresponda, pode ser:

• SNC: Parte social

• SPQ: quota

• SA: acção

O valor nominal não pode exceder o valor real da entrada [art. 25º-1]: a cifra, em
dinheiro, em que se traduza essa entrada, quando pecuniária, ou ao valor dos bens que implique,
quando em espécie.

Ao conjunto das entradas designa-se património social, e não participação social, já que
o aumento de capital social [cifra do conjunto das participações sociais, enfim] é uma
modalidade de alteração do próprio contrato [sujeita a deliberação dos sócios], não variando
por si nem sofrendo oscilações, enquanto que o património social é variável. O património social
tem consistência real e é, assim, o conjunto das situações jurídicas activas e passivas
patrimoniais da sociedade:
• Bruto: activo + passivo

• Líquido: activo – passivo [capital próprio]

Na obrigação de entrada o sócio surge como devedor e a sociedade como credora. Esta
obrigação pode ser cumprida de imediato, ou diferida para momento póstumo, consoante
o tipo de sociedade.

§2: REGIME GERAL.


Quanto ao seu montante
As entradas não podem ter um valor inferior ao da participação nominal [parte social,
quota ou acção] atribuída ao sócio. Poderá, eventualmente, ser superior [acima do par, diz-se],
caso em que nos deparamos com um “prémio de subscrição”
ou “prémio de emissão” [ágio].

A emissão acima do par justifica-se porque:

• Acrescenta uma mais-valia às participações dos sócios

• A sociedade gera expectativas de negócio que conduzem a uma sobrevalorização de


mercado

Momento do cumprimento

A obrigação de entrada deve ser realizada até ao momento da celebração do contrato, com
observância da forma legalmente prescrita [art. 7º-1], salvo quando o próprio contrato preveja
o diferimento das entradas em dinheiro e a lei o permita.

Garantias da obrigação de entradas

Cumpre salientar-se as seguintes preocupações, previstas no art 27º:

 São nulos os atos de administração e as deliberações dos sócios que liberem total ou
parcialmente, os sócios da obrigação de efetuarm entradas estipuladas, salvo redução
do capital nº1
 A dação em cumprimento exige deliberação como a alteração de contrato, seguindo-se
o preceituado quanto ás entradas em espécie, nº2;
 Podem ser estabelecidas no contrato, penalidades para a falta de cumprimento da
obrigação de entrada – nº3, podem ocorrer hipóteses de pagamento, juros ou de
clausulas penais.
 Os lucros correspondem a entradas, em mora não podem ser pagos mas podem ser
compensados com elas- nº4, fora isso a obrigação de entrada não pode extinguir-se por
compensação – nº5. Podem existir mais credores e este porque teria uma divida é pago
em primeiro lugar, o que não faria sentido. No entanto defende-se que a posição dos
credores não é afetada, só em situações de insolvência é que isto poderia ser um
problema, mas mesmo aqui já existe uma solução para tal.
 A falta de uma prestação de entrada “importa o vencimento de todas as demais
prestações em divida pelo mesmo socio, ainda que respeitem a outras partes, quotas
ou ações” nº6, trata-se de uma versão reforçada da perda do beneficio do prazo,
prescrita no art 781º cc.

§3: ENTRADAS EM DINHEIRO. As entradas em dinheiro podem ser diferidas, nas

seguintes situações:

SPQ: só pode ser diferida a efectivação de metade das entradas em dinheiro; o


quantitativo global dos pagamentos feitos por conta das entradas em dinheiro
e a soma dos valores nominais das quotas correspondentes às entradas em
espécie deve perfazer o capital mínimo fixado por lei – € 5.000 [arts. 201º e
202º-2].
o A expressão “metade das entradas em dinheiro” admite duas

interpretações:

1. Metade das entradas em dinheiro de cada sócio,

individualmente considerado? – COUTINHO DE ABREU: o que é


fundamental é a contribuição do sócio, já que se o mesmo se
obriga, deve, pelo menos, cumprir metade da sua obrigação
de entrada.

2. Metade das entradas do total de entradas em dinheiro? –


MENEZES CORDEIRO: o sócio pode não realizar
imediatamente qualquer entrada. O âmbito é o da autonomia
privada, devendo a lei ser interpretada no sentido mais amplo
possível.

o O termo é possível [diferimento para datas certas ou factos certos e


determinados], mas não a condição [art. 203º]. Se não for apontado
termo para o diferimento, ou se o mesmo for submetido a condição
[ilícita e, consequentemente, nula – art. 294º CC], admitem-se duas
soluções:

A obrigação de entrada torna-se pura, exigível a qualquer momento


[art. 777º CC] – RAUL VENTURA e COUTINHO DE ABREU.
O prazo máximo de cinco anos do art. 203º-1, 2ª parte funciona
como prazo supletivo, volvido o qual a obrigação de entrada pode
ser exigida – MENEZES CORDEIRO.
SA: pode ser diferida a realização de até 70% do valor nominal das acções, mas
não o pagamento do prémio de emissão, quando previsto [art. 277º-2].
Não há diferimento para as entradas em espécie, nem para as SNC.

Quanto à forma do cumprimento das obrigações de entrada em dinheiro, nas SPQ e SA,
a soma das entradas em dinheiro já realizadas deve ser depositada em instituição de crédito,
antes de celebrado o contrato, numa conta aberta em nome da futura sociedade [arts. 202º-3 e
277º-3].

exemplo:

A, B e C constituíram uma SPQ com o capital social de € 30.000. A e B realizaram

imediatamente as respectivas entradas, mas C diferiu a sua para quando a sociedade

necessitasse de fundos.

• C diferiu a sua obrigação de entrada numa SPQ.

• A obrigação de entrada encontra-se prevista em geral no art. 20 a). No caso,


presumimos terem sido realizadas em dinheiro, já que nada nos é
dito a esse respeito.

• A e B subscreveram e realizaram as respectivas entradas aquando da

celebração do contrato de sociedade. C apenas subscreveu, tendo diferido

a realização da mesma para momento póstumo [art. 26º].

• Tratando-se de SPQ, o diferimento das entradas é possível, quando as mesmas


sejam realizadas em dinheiro [art. 202º-2]. Requisitos legais: só pode ser
diferida a efectivação de metade das entradas em dinheiro; o quantitativo
deve perfazer o capital mínimo de € 5.000 [art. 201º]; o termo é possível
[diferimento para datas certas ou factos certos e determinados], mas não a
condição [art. 203º].
No caso, o diferimento da obrigação de entrada está sujeito à condição de
quando a sociedade necessitasse de fundos. Como tal, esse diferimento é
ilícito e, consequentemente, nulo [art. 294º CC]. Admitem-se duas
soluções:

o A obrigação de entrada torna-se pura, exigível a qualquer momento


[art. 777º CC] – COUTINHO DE ABREU.
o O prazo máximo de cinco anos do art. 203º-1, 2ª parte funciona como
prazo supletivo, volvido o qual a obrigação de entrada pode
ser exigida – MENEZES CORDEIRO.

§4: ENTRADAS EM ESPÉCIE. As entradas serão em espécie quando transfiram, para a


sociedade, direitos patrimoniais susceptíveis de penhora e que não se traduzam em dinheiro
[art. 28º-1].

Exemplos:

• Direito de propriedade

• Direito ao uso e fruição, sem propriedade

• Direitos sobre bens imateriais [patentes e know-how]

O dinheiro é de fácil avaliação, face ao princípio do nominalismo. Já as entradas em


espécie têm, necessariamente, valores subjectivos. Os bens ou direitos em causa devem,
todavia, ser objectivamente avaliados, para que o valor exacto dos mesmos seja do
conhecimento dos interessados. Por estes motivos, um Revisor Oficial de Contas [ROC]
devidamente distanciado e imparcial deve avaliar, objectivamente, os bens em causa,
explicitando os critérios utilizados nessa avaliação e declarando formalmente se o valor dos
mesmos atinge o valor nominal indicado pelos sócios [art. 28º-3]. O relatório do ROC está sujeito
a exigências de publicidade [nº 5 e 6], já que se pretende, tão-só, a defesa de terceiros [os
credores da sociedade, futuros adquirentes e público em geral]. Tratam-se de normas
imperativas, inderrogáveis, nem mesmo por comum acordo.
Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

§4: DIREITOS DOS CREDORES. O cumprimento da obrigação de entrada interessa à


sociedade, pelos motivos apontados, e aos credores, relevando para a cobertura patrimonial
dos seus direitos.

Por esta razão, aos credores assistem dois direitos [art. 30º-1], concretizadores da acção
sub-rogatória, nos termos do art. 606º CC. Na acção sub-rogatória, o credor substitui-se
ao devedor e tem a faculdade de exercer, contra terceiro, os direitos de conteúdo

patrimonial que competem àquele.

A sociedade pode satisfazer os créditos em causa com juros de mora [art. 30º-2] e o

pagamento pode ser feito por terceiro, nos termos gerais [art. 767º-1 CC].

exemplo:

D, E, F, G, H e I decidem constituir uma SA. Ficou acordado que:

D contribuía com € 10.000, em dinheiro, realizados integralmente no momento do

contrato. E contribuía com € 10.000, através de um cheque, cuja entrada seria diferida em 60%,
devendo ser realizada dois anos depois. F contribuía com o direito de arrendamento de uma
fracção autónoma em Lisboa, de que era titular por um período de dez anos – avaliada por um
ROC em € 20.000. G contribuía com cinco anos de trabalho gratuito para a sociedade – avaliada
por um ROC em € 20.000. H contribuía com um direito de crédito sobre J. I
contribuía com uma patente. Um ROC avaliou ambas as contribuições de H e I em € 10.000.

Logo após a constituição da sociedade, esta adquiriu a D um quadro no valor de €

10.000 que, no entanto, só valia € 7.000.

• Nos termos do art. 273º-1 uma SA deve ser constituída por, no mínimo, cinco
sócios.
• A obrigação de entrada [art. 20º a] deve ser realizada até ao momento da

celebração do contrato, salvo diferimento [art. 26º].

• A respeito do diferimento das entradas numa SA, cumpre atender ao disposto


nos arts. 277º-2 e 285º-1. Não são admitidas contribuições de indústria [277º-
1] e, nas entradas em dinheiro, só pode ser diferida a realização de até 70% do
valor nominal das acções [nº 2]. Uma vez mais, questiona-se se a “realização
de até 70% do valor nominal das acções” é relativamente a cada sócio,
individualmente considerado, ou ao total das entradas. Tal como nas SPQ,
também se proíbe o diferimento sujeito a

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condição.

• O valor nominal mínimo de uma SA é € 50.000 [art. 276º-3].

• D: a sua obrigação de entrada foi realizada aquando da celebração do


contrato, de imediato.
• E: o cheque é um título de crédito, que deve ser tratado como dinheiro. Trata-
se de uma dação em cumprimento que extingue a obrigação de entrada em
dinheiro, pelo cumprimento da mesma. Tendo sido diferida em 60% [art. 26º],
respeitou o disposto no art. 277º-2 [até 70%], embora deva observar o prazo
máximo de cinco anos para o cumprimento do restante [art. 285º-1].
• F: entrou com um direito temporário de arrendamento, entendido

enquanto contribuição em espécie. É, ainda assim, um bem susceptível de


avaliação económica, pelo que a avaliação do ROC deve obedecer ao
disposto nos arts. 25º-2 e 28º, sob pena de responsabilidade nos termos do

art. 82º.

• G: contribuiu com trabalho gratuito, entendido enquanto indústria [já que a


onerosidade/gratuidade dessa contribuição é irrelevante]. As entradas
em indústria não são admitidas pelo art. 277º-1, nas SA.

• H: o direito de crédito sobre J consiste numa contribuição em espécie, pelo


que o seu valor deve ser avaliado, pelo ROC, face ao valor do crédito
em si mesmo [art. 28º].

• I: a entrada com uma patente consiste numa contribuição em espécie, já

que a patente é susceptível de avaliação pecuniária.

• A aquisição do quadro pela sociedade a D consiste numa aquisição de bens a


accionistas, prevista enquanto tal no art. 29º: deveria ter sido previamente
aprovada por deliberação da assembleia-geral, sob pena de ineficácia [nº 1 e
nº 5], desde que verificados os requisitos legais. O contrato deveria ter sido
reduzido a escrito, sob pena de nulidade [nº 4 e 220º CC]. Observa-se um risco
de descapitalização da sociedade, já que D entrou com € 10.000 e a sociedade
“devolveu-lhe” essa quantia, quando lhe adquiriu o quadro. Considerando que
o quadro apenas valia € 7.000 [avaliação feita pelo ROC, nos termos do nº 3],
esta aquisição do bem corresponde a uma fraude à lei, já que tudo se passa
como se D tivesse entrado com € 7.000 apenas. O valor nominal excede o valor
real do bem [€ 10.000 > € 7.000].

Participação nos Lucros e nas Perdas

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§1: PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E NAS PERDAS. A sociedade visa o lucro económico,
repartindo-o pelos associados [art. 980º CC]. Nesse sentido, encontramos no topo dos direitos
dos sócios o direito a quinhorar nos lucros [art. 21º-1 a]. À sociedade é imposta a distribuição de
uma parcela dos seus lucros pelos sócios, com excepções quanto às SPQ e SA [arts. 217º e 294º].
Como contrapartida do lucro, temos o risco: os empreendimentos mais lucrativos

costumam ser, também, os mais arriscados.

Como regra supletiva, temos que os sócios participam nos lucros e nas perdas da
sociedade segundo a proporção dos valores nominais das suas participações no capital. Se o
contrato determinar somente a parte de cada sócio nos lucros, presumir-se-á ser a mesma a
sua parte nas perdas – vg 10% capital, 10% lucros [art. 22º-1 e 2].

exemplo:

A, B e C constituíram uma SPQ com o capital social de € 25.000.

A e B ficaram com uma quota de € 5.000 cada.

C ficou com uma quota de € 15.000, apesar de B também ter pago € 15.000 pela sua

quota.

Os sócios deliberaram distribuir os lucros entre si, na proporção das suas quotas.

B exige que lhe seja atribuído um valor proporcional idêntico ao de C.

• Nas SPQ o valor mínimo do capital social é de € 5.000 [art. 201º].

• Quota de A: valor nominal de € 5.000.

• Quota de B: valor nominal de € 5.000 [valor da participação], apesar do valor


real ser € 15.000 [valor de quanto pagou, efectivamente]. O valor nominal não
pode ser mais elevado do que o valor real [art. 25º-1]. No caso, o valor real é
superior ao valor nominal, pelo que a diferença
corresponde ao ágio [€ 10.000].

• Quota de C: valor nominal de € 15.000.

• A participação nos lucros e nas perdas é feita segundo a proporção dos valores
nominais das respectivas participações no capital [art. 22º]. Nada
nos é dito quanto a direitos especiais aos lucros. Conclusão: o A: 20% de
participações no capital, 20% dos lucros e das perdas o B: 20% de
participações no capital, 20% dos lucros e das perdas o C: 60% de
participações no capital, 60% dos lucros e das perdas

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exemplo:

E. F e G constituíram uma sociedade e acordaram, por exigência de G, que,

independentemente da sociedade ter lucros, este receberá mensalmente € 2.000.

• Proíbe-se toda a estipulação pela qual deva algum sócio receber juros ou outra
importância certa [no caso] em retribuição do seu capital ou
indústria, segundo o art. 21º-2.

• E, F e G violaram o princípio da conservação ou intangibilidade do capital social


das sociedades comerciais. O património social só pode ser inferior ao capital
social por força de distribuições a terceiros [vg credores], e
nunca por distribuições aos próprios sócios.

• Este princípio encontra eco noutras disposições do CSC: arts. 32º e 33º.

§2: PACTOS LEONINOS. Os pactos leoninos são proibidos pelo art. 22º-3: é nula a
cláusula que exclui o sócio da comunhão nos lucros ou que o isente de participar nas perdas da
sociedade, salvo o disposto quanto a sócios de indústria [arts. 992º-2 e 994º CC], esteja ela
incluída no contrato de sociedade ou em acordo parassocial.

A designação “pacto leonino” advém de uma fábula de ESOPO:

Um leão, um burro e uma raposa andaram à caça e capturaram uma quantidade

abundante de peças. O leão encarregou o burro de as dividir pelos três. O burro repartiu-as em
três partes iguais mas o leão, enfurecido com a divisão, devorou-o e impôs à raposa que
repartisse as peças. A raposa reuniu as três partes numa só e entregou tudo ao leão, sem deixar
nada de parte para si. O leão perguntou-lhe: “Quem te ensinou a fazer as divisões?”,
ao que a raposa respondeu: “Ensinou-me a experiência do burro!”.

MENEZES CORDEIRO justifica esta proibição com base nos seguintes argumentos:

• O sócio que abdique de lucros vai sujeitar-se a eventuais prejuízos. O sócio que
aceite todos os prejuízos vai submeter-se, eventualmente, aos que ocorram. Em
qualquer dos casos, o sócio está a dispor, para o futuro, das
vantagens que poderia obter e está a conceder vantagens a outros sócios.

• Esta proibição combate a tentação de se dar o que [ainda] não se tem e de


assumir, para um futuro indeterminado, obrigações. Coerentemente:
o É nula a renúncia antecipada aos direitos facultados ao credor nos casos
de incumprimento ou mora do devedor o A cláusula penal pode ser
reduzida equitativamente pelo tribunal

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o A doação não pode respeitar a bens futuros o A doação de móveis deve


ser celebrada por escrito ou mediante tradição
Em conclusão, a proibição dos pactos leoninos justifica-se já que envolve uma

renúncia antecipada aos direitos, aliada à doação do que [ainda] não se tem.

Verificada a nulidade do pacto, parte da doutrina reclama a aplicação do instituto da


redução: a sociedade vigoraria sem a parte viciada, salvo se se demonstrasse que, na sua falta,
as partes não teriam contratado [art. 292º CC]. Assim não entende MENEZES CORDEIRO: uma
sociedade leonina não é uma sociedade comum com uma cláusula leonina, mas sim todo um
negócio distorcido e cuja lógica de participação nos lucros e nas perdas fora
destruída. Apenas a conversão [ante a nulidade total do contrato] lhe pode valer,

convertendo-se o negócio nulo noutro de tipo ou conteúdo diferente, desde que verificados os

requisitos do art. 293º CC: vontade hipotética e ónus da prova.

exemplo:

Os sócios da Sociedade Z, Lda, combinaram que o sócio D, devido às suas fracas

possibilidades económicas, não participaria nas perdas da sociedade.

• A proibição dos pactos leoninos [art. 22º-3 e 994º CC] implica que seja nula a
cláusula que isente o sócio de participar nas perdas [e da comunhão
dos lucros]. A nulidade encontra-se prevista no art. 294º CC.

• MENEZES CORDEIRO propõe a aplicação das regras da conversão [art. 293º CC,
nulidade total], sendo que a cláusula acordada pode-se converter numa
cláusula de tipo ou conteúdo diferente, uma vez que todo o contrato de
sociedade é enformado pelo princípio da participação nos lucros e nas
perdas.

Constituição Financeira e Defesa do Capital


§1: CONSTITUIÇÃO FINANCEIRA. No domínio da constituição financeira das

sociedades, cumpre distinguir:

• Capitais próprios:

o Capital social [soma do valor nominal das acções subscritas] o Reservas de


ágio ou prémios de emissão [soma do sobrevalor por que, com referência
ao valor nominal, as acções tenham sido colocadas] o Montante de outras
prestações o Reservas livres [lucros não distribuídos] o Reserva legal
[imposta por lei]

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• Capitais alheios:

o Obrigações o Opções [convertible bonds] o Títulos de


participação nos lucros e outros empréstimos

§2: DISTRIBUIÇÃO DE BENS AOS SÓCIOS. Face à separação patrimonial, os bens da


sociedade não se confundem com os dos sócios. Mas são os sócios quem tem, afinal, o controlo
da sociedade, e poderão entender que a sociedade não necessita de determinados bens ou que
melhor ficariam na esfera dos sócios. Contrapõem-se o interesse dos credores da
sociedade e a própria confiança do público na estabilidade dos entes colectivos.

Nas sociedades de capitais, cuja responsabilidade é limitada, não é efectivamente


indiferente aos credores a consistência do património da sociedade e os bens de que disponha.
Por outro lado, cumpre acautelar a confiança generalizada da comunidade na estabilidade das
pessoas colectivas: não se compreenderia que os bens circulassem, sem
mais, entre a sociedade e os sócios.

O art. 32º tutela os credores, vedando a distribuição de bens aos sócios quando a
situação líquida desta for inferior à soma do capital e das reservas que a lei ou o contrato não
permitem distribuir aos sócios, ou quando a situação líquida se torna inferior a esta soma em
consequência da distribuição.

Conclui-se: apenas podem ser distribuídos aos sócios valores que, tecnicamente, se

consideram “lucros”.

Eis os traços fundamentais do regime da distribuição de bens:

• A distribuição de bens depende de deliberação dos sócios [art. 31º-1]

• Quando tomada, tal deliberação não deve ser executada pelos

administradores, requerendo inquérito judicial, quando suspeitem que [nº 2]:

o Alterações ocorridas no património social tornariam a distribuição ilícita


perante o art. 32º o Viola o art. 33º o Assenta em contas inadequadas

§3: LUCROS E RESERVAS NÃO DISTRIBUÍVEIS. Quanto aos lucros e reservas não

distribuíveis, dispõe o art. 33º:

• Não podem ser distribuídos aos sócios os lucros do exercício que sejam necessários
para cobrir prejuízos transitados [dívidas anteriores] ou para formar/reconstituir
reservas impostas por lei ou pelo contrato de sociedade [nº 1]. A contrario, cabe
distribuição de lucros quando os prejuízos transitados possam, legalmente, ser
cobertos de outra forma [vg a sociedade
constitui uma reserva facultativa destinada a enfrentar prejuízos

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

imprevisíveis].

• Proíbem-se as reservas ocultas [nº 3]: escapam ao conhecimento e controlo dos


sócios e credores e não constam da contabilidade, pelo que põem em causa o
balanço e as prestações de contas. A contrario, podem ser distribuídas as reservas
cuja existência e cujo montante figurem,
expressamente, no balanço.

A reserva imposta por lei é também denominada reserva legal: art. 295º-1. Segundo este
preceito, uma percentagem igual ou superior à 20ª parte [5%] dos lucros da sociedade é
destinada à constituição da reserva legal e à sua reintegração, até que aquela represente a 5ª
parte [20%] do capital social. Esta percentagem é supletiva. Taxativamente, impõe o art. 296º
que a reserva legal apenas pode ser utilizada:

• Para cobrir a parte do prejuízo que não possa ser coberto por outras reservas

• Para incorporação no capital

Por outras palavras:

• A reserva legal advém de, pelo menos, 5% dos lucros

• Até atingir 20% do capital social

• Para os fins elencados no art. 296º

Determinadas reservas livres [ágios, vg] estão sujeitas ao regime da reserva legal supra,
na sua totalidade [art. 295º-2]: apenas nos limites de 20% do capital social e apenas se
essa parcela não estiver já coberta pela reserva legal.

exemplo:

1. A Sociedade H, Lda., foi constituída com o capital social de € 30.000. Um ano mais

tarde, perante os lucros do exercício obtidos, os sócios deliberam distribuir integralmente

essa quantia entre eles.

2. E se os sócios deliberarem não distribuir quaisquer lucros?

3. Poderão ser distribuídos lucros durante o exercício?

1.

• A distribuição dos lucros tem que ter sido objecto de deliberação dos sócios
[art. 31º-1] na assembleia-geral anual, proposta pela administração [art. 65º-
1], quanto a reservas livres ou facultativas.
• Esta regra deve observar limites: quanto à distribuição de bens [art. 32º] e

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

quanto a lucros e reservas não distribuíveis [no caso, art. 33º].

• As reservas não distribuíveis podem ser legais [art. 218º, quanto às SPQ,

no caso] ou convencionais/estatutárias.

• No caso, houve uma distribuição integral dos lucros, inválida face aos arts. 33º-
1 e 218º, que remete para o regime das SA [arts. 295º e 296º]. A deliberação
é, por isso, nula, nos termos do art. 56º-1d [conteúdo ofensivo de preceito
legal imperativo], na medida em que os sócios não respeitaram o limite
máximo [art. 295º-1]. Está em causa o princípio de
conservação do capital social.

2.

• Quanto ao limite mínimo de distribuição dos lucros [arts. 217º-1 e 294º-1],


podem os sócios deliberar ou acordar, no contrato, a distribuição de mais de
metade do lucro do exercício que seja distribuível, mas nunca valor
inferior a metade desse lucro.

• No caso, os sócios deliberaram não distribuir quaisquer lucros, pelo que essa
deliberação é anulável nos termos do art. 58º-1 a), por violar
disposições legais para as quais não seja cominada a nulidade.

3.

• Há lugar a distribuição antecipada dos lucros nos termos do art. 297º, quanto
às SA, normalmente no final do exercício. Requisitos [nº 1]: adiantamento
previsto no contrato de sociedade, sob decisão do conselho de administração
[e não em assembleia-geral, art. 31º], precedida de um balanço intercalar e
desde que as importâncias a atribuir não excedam
metade das que sejam distribuíveis.

• Não existe base legal correspondente para as SPQ, nem por remissão. RAUL
VENTURA considera tratar-se de uma lacuna que pode ser integrada através
da aplicação analógica do disposto no art. 297º às SPQ, respeitados
os requisitos supra.

§4: PERDA DE METADE DO CAPITAL SOCIAL. O art. 35º dispõe sobre a hipóteses de

perda de metade do capital social das sociedades comerciais:

• #1: quando resultar das contas que metade do capital social se encontra
perdido, ou havendo fundada razão para admiti-lo, devem os gestores convocar

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

de imediato a assembleia-geral ou devem os administradores requerer


prontamente a convocação da mesma, a fim de informar os sócios da

situação, para que estes tomem as medidas julgadas convenientes.

o Incumprimento deste dever gera responsabilidade civil, nos termos do


art. 523º.
• #2: considera-se estar perdida metade do capital social quando o capital

próprio da sociedade for igual ou inferior a metade do capital social.

• #3: do aviso convocatório da assembleia-geral constarão os seguintes assuntos

para deliberação:

o a) Dissolução da sociedade

Pôr termo à sociedade antes que se agravem os perigos para

terceiros.

o b) Redução do capital social para montante não inferior ao capital


próprio da sociedade, com respeito do art. 96º-1
Corresponder a realidade nominal à verdadeira situação

patrimonial.

o c) A realização pelos sócios das entradas para reforço da cobertura do


capital
Reforçar os capitais da sociedade.

A entrada em vigor da versão originária do artigo ficou, durante muitos anos, suspensa.
O esquema previsto era mais severo, impondo prazos apertados para a realização das entradas,
pelo que não seria imediatamente exequível e a sua entrada em vigor dependeria de diploma
ulterior. Para mais, o seu teor transcende a própria 2ª Directriz
Comunitária.

exemplo:

A Sociedade A, SA, perante a difícil conjuntura do mercado, tem vindo a diminuir

consideravelmente as suas vendas. Perante as contas do exercício, os administradores


verificaram que o capital próprio da sociedade era inferior a metade do capital social.
Que atitude devem tomar?

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

• Entende-se estar perdido metade do capital social quando o capital próprio da


sociedade é igual [ou inferior – no caso] a metade do capital social,
segundo concretiza o art. 35º-2.

• No caso de perda de metade do capital social [art. 35º-1] devem os gerentes


convocar de imediato a assembleia-geral ou devem os administradores
requerer prontamente a convocação da mesma. Nessa assembleia-geral os
sócios serão informados da situação e convidados a
tomar as medidas julgadas convenientes.

• Havendo incumprimento deste dever, pode haver responsabilidade civil

nos termos do art. 523º.

• Se nenhuma proposta for aprovada em sede de assembleia-geral, o art. 35º


não prevê qualquer sanção, e sistematicamente apenas nos deparamos com
uma consequência formal, segundo o disposto nos arts. 171º-2 e 528º2:
pagamento de uma coima pela omissão de menção em actos externos. O
montante da coima deveria, de iure condendo, ser mais elevado.
A COMPARTICIPAÇÃO DOS SÓCIOS NA VIDA SOCIETÁRIA

Acordos Parassociais

§1: ACORDOS PARASSOCIAIS. A comparticipação dos sócios na vida societária

obedece à autonomia privada e à sua livre iniciativa, pelo que se processa no quadro da lei, dos
estatutos da sociedade e de acordos celebrados pelos sócios, nos quais se insere a
categoria de acordos parassociais.

Acordos parassociais são convénios celebrados por sócios de uma sociedade [podem
intervir terceiros], nessa qualidade, visando regular relações societárias. Distinguem-se do
próprio pacto social, uma vez que apenas respeitam a alguns sócios, aqueles que os celebrem, à
margem do contrato de sociedade e sem interferir no ente colectivo. Por outro lado, distinguem-
se de quaisquer outros acordos celebrados entre os sócios uma vez que, no seu objecto,
respeitam a verdadeiras relações societárias. Quanto à forma, a regra é o consensualismo [art.
219º CC]. Podem ser celebrados secretamente, salvo tratando-se de sociedades abertas, nos
termos do Código de Valores Mobiliários, com exigências de
transparência.

O estudo dos mesmos é pertinente, uma vez que através deste tipo de acordos podem
os sócios defraudar todas as regras societárias e os próprios estatutos. Estes acordos
traduzem, nos países latinos, esquemas de controlo de poder ou de take over.

São genericamente admitidos pelo art. 17º:

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• #1: Os acordos parassociais celebrados entre todos ou alguns sócios pelos quais
estes, nessa qualidade, se obriguem a uma conduta não proibida por lei têm
efeitos entre os intervenientes, mas não justificam a impugnação de
actos da sociedade ou dos sócios para com a sociedade.

o Devem obedecer às limitações gerais constantes do art. 280º CC: quanto à violação da
lei, ordem pública e bons costumes.
o A sua eficácia é meramente obrigacional, inter partes [entre os sócios intervenientes]:
relativização dos acordos. Têm aplicação as regras do
Direito das Obrigações.

o As partes, quando pretendam atribuir uma eficácia “absoluta” aos acordos parassociais,
estabelecem pesadas cláusulas penais, que podem ser reduzidas equitativamente pelo
tribunal, nos termos do art. 812º CC. Outras garantias são: depósito das acções em
contas de garantia [escrow accounts] e cláusulas de rescisão, com ou sem pré-
aviso.

o A execução específica de acordos parassociais não é possível [vg o tribunal substituir-


se-ia aos sócios emitindo a declaração de vontade/voto em falta], face à esfera de
liberdade que se requer no exercício do direito de voto. A favor da execução específica
dos
acordos parassociais, pronunciou-se MARIA DA GRAÇA TRIGO.

• #2: Podem respeitar ao exercício do direito de voto, mas não à conduta de


intervenientes ou de outras pessoas no exercício de funções de administração
ou de fiscalização.

o Tal equivaleria a alterações ao pacto social que, nos termos gerais,


obedecem a exigências de escritura e de registo, com diversas
instâncias de fiscalização. Admitir acordos neste âmbito equivaleria a
admitir, a latere, uma organização diferente daquela convencionada
no pacto social, pondo-se em causa a tipicidade societária.

o Um sócio gerente pode vincular-se a votar num ou noutro sentido, na


assembleia-geral, mas não no Conselho Fiscal, vg. Se for
administrador único, o acordo é inválido.

o MENEZES CORDEIRO propõe, assim, uma interpretação restritiva do


preceito, caso a caso.
• #3: São nulos os acordos pelos quais um sócio se obriga a votar:

o a) Seguindo sempre as instruções da sociedade ou de um dos seus


órgãos.
“Instruções da sociedade”: enquanto um todo.

“Um dos seus órgãos”: ou algum dos membros desse órgão.

Quanto à ratio legis deste preceito, cfr. infra al b).

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o b) Aprovando sempre as propostas feitas por estes.

Equivaleria a uma “delegação material” de votos nos órgãos


sociais, que seria equiparável à dissociação entre o capital e o
risco: tudo se passaria como se a sociedade detivesse acções
próprias e como se a sociedade fosse sócio.

Poria em causa, uma vez mais, o princípio de tipicidade


societária, e a “divisão de poderes” dentro da sociedade.
MENEZES CORDEIRO propõe a interpretação restritiva das
locuções “sempre” das alíneas a) e b), sob pena de tirar alcance
prático ao preceito. Essas locuções poderiam levarnos a crer
que a proibição apenas se cingiria a situações com carácter de
estabilidade [RAUL VENTURA]. Mas há situações que não têm
carácter de estabilidade mas que são de imensa importância
para a sociedade [vg situações que acontecem pontualmente],
e para as quais o âmbito da proibição deve ser estendido, com
base num argumento de identidade valorativa e teleológica
[MENEZES CORDEIRO]. A
interpretação restritiva das locuções “sempre” equivale a

alargar o âmbito da proibição. o c) Exercendo o direito de voto


ou abstendo-se de o exercer em contrapartida de vantagens especiais.
Proibição da chamada “compra” de votos: o sócio poderia ser
impelido a votar pela motivação da contrapartida, e não pela
deliberação em si.

Ratio legis do preceito: fazer corresponder o risco à detenção


do capital.

“Vantagens especiais” são, para RAUL VENTURA, vantagens


extra-sociais, sem qualquer conexão com a vida social [e não
vantagens de voto ou de nomeação].

Doutrinariamente, as classificações distinguem:

• Acordos relativos ao regime das participações sociais:

o Proibições de alienação o Direitos de preferência o


Direitos de opção, na compra e venda o Subscrição de
aumentos de capital
• Acordos relativos ao exercício do direito de voto:

o Determinação do sentido do voto o Concertação futura o


Reunião em separado, antes de qualquer assembleia-geral

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• Acordos relativos à organização da sociedade:

o Plano para a empresa o Repartição dos órgãos societários


[indicações e nomeações] o Obrigação de investimento do
capital o Confrontação com concorrente o Auditorias internas e
externas
As classificações não são rígidas uma vez que, ao abrigo da autonomia privada, podem

as partes celebrar acordos parassociais mistos.

Surgem por vezes acordos parassociais que protagonizam verdadeiros desvios ao art.

17º:

• Incluem cláusulas que nada têm a ver com a sociedade em causa

• Subscritos pela própria sociedade

Quanto à intervenção de não-sócios neste tipo de acordos, essa intervenção não põe
em causa a validade do acordo, uma vez que é possível a aplicação analógica do disposto no art.
17º a estas situações, caso a caso. Tratando-se de um potencial sócio da sociedade, vg,

há identidade valorativa entre os dois casos e justifica-se a aplicação analógica.

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exemplo:

1. A, B e C constituíram uma SPQ com um capital social de € 60.000, em que:

A e B detinham € 10.000 cada.

C detinha € 40.000.

Na data do contrato de sociedade celebraram verbalmente um acordo nos termos do

qual A e B votariam, nas assembleias-gerais, sempre de acordo com as instruções de C.

2. B zanga-se com C e vota diferentemente. Que pode fazer C?

3. E se as três tivessem combinado que, para aprovar assuntos estratégicos da

sociedade [orçamento, plano de negócios, nomeação dos membros da gerência], as

deliberações só pudessem ser tomadas por unanimidade?

4. No acordo fica estabelecido que B indica os gerentes, mas que estes devem votar

de acordo com a vontade de A, no seio da administração.

1.

• Estamos perante um acordo parassocial, celebrado verbalmente [liberdade

de forma - art. 219º CC], e conforme com o disposto no art. 280º CC.

• Nada nos é dito quanto a C ser um membro de um órgão da SPQ ou


administrador único da mesma sociedade. O acordo não é, literalmente,
nulo, na medida em que [art. 17º-3]:

o a) Não se trata de A e B seguirem sempre as instruções da sociedade


[enquanto um todo] ou de um dos seus órgãos [ou membro dos seus
órgãos].
o b) Não se aplica.

o c) Não está em causa.

• Nada obsta à validade do acordo.

2.

• Os acordos parassociais têm eficácia meramente obrigacional, inter partes,


pelo que a deliberação pelo exercício do voto diferentemente do acordado é
inatacável: o incumprimento do acordo não justifica a impugnação de
actos dos sócios para com a sociedade [art. 17º-1].

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• C não tem direito à execução específica, uma vez que o tribunal não se pode
substituir aos sócios na emissão do voto e da declaração de vontade
em causa. O incumprimento do acordo parassocial é inoponível à

sociedade.

• Se C não estabeleceu cláusulas penais [art. 812º CC] nem outras garantias, em
caso de incumprimento, há apenas responsabilidade obrigacional de B, nos
termos dos arts. 798º ss CC, desde que verificados os pressupostos da
responsabilidade civil [cuja prova é, na prática, de difícil demonstração].

3.

• Trata-se de um acordo parassocial relativo à organização da sociedade com


concertação futura por unanimidade, protegendo-se os sócios minoritários. É
válido, nos termos do art. 17º, e face à liberdade contratual de que
dispõem os sócios [art. 405º CC].

4.

• Quanto ao acordo parassocial de indicação e nomeação dos gerentes +


exercício do voto de acordo com a vontade de um dos sócios, no seio da
administração, cumpre estabelecer a seguinte divisão:

o Indicação e nomeação dos gerentes: os gerentes podem ser eleitos


posteriormente ao contrato de sociedade por deliberação dos sócios,
nas SPQ, nos termos do art. 252º-2. Trata-se de um acordo parassocial
relativo à organização da sociedade e à repartição dos órgãos
societários. Esta parte do acordo é válida, uma vez que nada tem a ver
com a conduta de sócios no exercício de funções de administração ou
de fiscalização [art. 17º-2] – não se reporta à
conduta do gerente da SPQ.

o Exercício do voto de acordo com a vontade de um dos sócios, no seio


da administração: acordo parassocial que respeita à conduta de
pessoas no exercício de funções de administração ou de
fiscalização, proibido pelo art. 17º-2, 2ª parte.

Direito à Informação

§1: DIREITO À INFORMAÇÃO. O direito à informação encontra-se genericamente


previsto no art. 21º-1 c): todo o sócio tem direito a obter informações sobre a vida da
sociedade, nos termos da lei [do Direito, no seu todo] e do contrato.

Quanto ao acesso, a informação pode ser:

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• Pública: disponibilizada a todos os interessados, sócios ou não-sócios [vg registo


comercial e publicações obrigatórias – art. 167º].
• Reservada: assiste aos sócios [art. 21º-1c) e 288º-1].

• Qualificada: assiste apenas aos sócios que detenham posições consideráveis no


capital da sociedade [art. 214º e 291º - sob pena de anulabilidade da
deliberação, art. 291º-3].

• Secreta: não pode ser disponibilizada aos sócios, já que se trata de informação
sujeita a sigilo profissional [art. 291º-4a), b) e c].
São anuláveis as deliberações que não tenham sido precedidas do fornecimento ao sócio
de elementos mínimos de informação: as menções exigidas pelo art. 377º-8 [aviso convocatório
de assembleia-geral] e a colocação de documentos para exame dos sócios no
local e durante o tempo prescritos pela lei ou pelo contrato – art. 58º-1c) e nº 4 a) e b).

Face ao teor dos arts. 288º [informação intercalar] e 289º [informação preparatória da
assembleia-geral], questionou-se se a enumeração legal seria taxativa ou não. Hoje considera-
se assente: os elementos indicados pela lei como objecto de informação são

taxativos.

Constituem limites à informação qualificada nas SPQ [art. 214º - “gestão qualificada”]
os que advenham do próprio contrato ou, propõe MENEZES CORDEIRO, da aplicação analógica
dos arts. 290º-2 e 291º-4 [o último a interpretar restritivamente]. No caso das SA [“assuntos
sociais”], exige-se uma participação de 10% do capital social, para a qual se admitem
agrupamentos de sócios [art. 291º].

Nas sociedades de capitais, poder-se-ia considerar que a informação aos sócios seria
dispensável, uma vez que a gestão deveria ser entregue a especialistas. Todavia, a
informação aos sócios opera:

• Como pressuposto do voto em assembleia-geral

• Como meio de legitimação dos investimentos e do mercado

• Como forma de fiscalização da administração

• Como tutela das minorias

Ainda assim, o âmbito do direito de informação é menor nas SA do que nas SNC [mais

amplo], sendo intermédio no caso das SPQ.

Conclui-se: o direito à informação é irrenunciável e inderrogável [art. 809º CC],

inserindo-se na realidade patrimonial das participações societárias.

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exemplo:

A, B, C, D e E constituíram uma SA, cujo objecto social era a comercialização de

tecidos, com o capital social de € 5.000. No contrato de sociedade, B é designado administrador


único. D e E desconfiam da actuação de B como administrador e pedem-lhe que preste
informações sobre a mesma. B, passados 20 dias, ainda não respondeu.

• O direito à informação encontra-se previsto em termos genéricos no art. 21º-


1c) e, quanto às SA, nos arts. 288º ss – previsto em termos mais
restritivos.
• Permite um controlo dos sócios sobre os administradores, face ao

distanciamento entre comitente e comissário.

• No caso, encontramo-nos perante o exercício do direito mínimo à informação,


nas SA: qualquer accionista que possua acções
correspondentes a, pelo menos, 1% do capital social [agrupando-se a outros
sócios, para o efeito] pode consultar, desde que alegue motivo justificado,
relatórios, convocatórias e montantes globais [art. 288º-1,
taxativamente].

• Para mais, os sócios podem averiguar responsabilidades de membros do


conselho de administração [no caso], nos termos do direito colectivo à
informação [art. 291º-2], sem caber recusa desses membros. No caso, não há
uma recusa, mas sim a inércia do administrador único, que nada faz: para
obstar a estas situações, o legislador ficciona uma recusa de informação no nº
5, volvidos 15 dias e valendo como tal [figura
semelhante ao indeferimento tácito].

• Pode ser requerido um inquérito judicial, nos termos do art. 292º e 1479º

ss CPC, perante o qual o juiz [art. 292º-2 a), b) e c]: o Pode determinar
que a informação seja prestada o Pode destituir o administrador,
nomeando outro em seu lugar o Pode ordenar a dissolução da
sociedade [arts. 141º ss]

Deliberações Sociais

§1: DELIBERAÇÕES SOCIAIS. A deliberação é, para o Direito, a decisão de um órgão


colectivo, sobre uma proposta, na qual cada participante nesse órgão tem um [ou mais]
votos. O voto é, neste sentido, a recusa ou aceitação de uma proposta de deliberação.

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A vontade é um fenómeno psicológico puramente humano e individual: ainda assim, a


deliberação surge assimilada a uma vontade colectiva, mediante esquemas abstractos que
ficcionam essa mesma vontade.

As deliberações dos sócios encontram-se reguladas nos arts. 53º a 63º, para alem dos

preceitos específicos de cada tipo social:

• SNC: arts. 189º ss

• SPQ: arts. 246º ss

• SA: arts. 373º ss

• SEC: arts. 472º ss

Segundo o disposto no art. 53º-1, os órgãos sociais estão sujeitos ao princípio da


tipicidade, uma vez que os sócios não podem “deliberar” foram dos figurinos orgânicos
previstos para cada tipo de sociedade.

Quanto à forma, no sentido técnico-jurídico a que nos habituámos, prevalece a


liberdade de forma [art. 219º CC]: os sócios podem deliberar como bem entenderem [de
braço levantado, de pé, por escrito, etc.].

Existem dois grandes tipos de procedimento de deliberação:

• Deliberação em assembleia: actualmente, inclui mesmo teleconferência, uma


vez que não há, entre as diversas manifestações de vontade, um lapso de
tempo juridicamente relevante [MENEZES CORDEIRO].

o Convocatória cabal: dirigida a todas as pessoas que tenham o direito de


participar na assembleia
Indicação do local, hora e ordem de trabalhos

Assinada pela pessoa com competência para a convocação

SA: publicação obrigatória da convocatória [arts. 167º-1 e

377º-2].

o Reunião em assembleia: presidência, secretariado, verificação de


presenças e acta [art. 63º]
o Debate

o Votação: escrutínio e proclamação do resultado

Normalmente, por maioria do capital representado

Eventualmente: maioria qualificada ou até unanimidade

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Voto: real e não pessoal – depende do capital detido ou

representado por cada votante.

o Elaboração da acta: proclamação do resultado [art. 63º]

• Deliberação por escrito [art. 54º]:

o Desde de haja aprovação por unanimidade [nº1]. o Os sócios


prescindem da troca de opiniões e de argumentos e da obtenção de
novas informações para emitirem as respectivas declarações de
vontade em separado, com a ocorrência de lapsos de
tempo relevantes entre elas. o MENEZES CORDEIRO propõe um
entendimento lato de “por escrito”: inclui gravação ou vídeo, mas não
“reunião”, ainda que virtual [vg
teleconferência, cfr. supra].

• Deliberação em assembleias universais totalitárias: art. 54º o Assembleias-


gerais que reúnam sem observância de formalidades prévias, desde que [nº1]:
Todos estejam presentes

Todos manifestem a vontade de que a assembleia se constitua


e delibere sobre determinado assunto
o Dispensa-se todo o esquema de convocatória supra: não tendo
qualquer ordem do dia, só pode deliberar sobre assuntos que todos os
sócios tenham concordado pôr à apreciação do colectivo societário.

Estas formas de deliberação são comuns a todos os tipos societários.

exemplo:

Sem qualquer convocação, encontram-se todos os sócios na sede social.

• Se manifestarem vontade de constituir uma assembleia, apesar da falta do


acto formal de convocação em causa, poderão deliberar nos termos do art.
54º-1 [assembleia universal ou totalitária, em que todos manifestam a
vontade de que a assembleia se constitua e delibere].

• Se na assembleia, apesar de não convocada [art. 56º-2, por

incompetência, vg], estivessem estado presentes ou representados todos os


sócios: não há qualquer vício, nem nulidade do art. 56º-1a) [será uma mera
irregularidade]. Distingue-se da assembleia universal ou totalitária, uma vez
que, aqui, não há qualquer intenção de que a mesma se constitua
e delibere.

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exemplo:

A, B e C constituíram uma SPQ com o capital social de € 60.000, na qual detêm

quotas, respectivamente, no valor de €30.000, €10.000 e €20.000, realizadas integralmente no


momento da escritura pública. Nos termos do contrato de sociedade, B detinha um direito
de voto superior ao de A e C: 2 votos por cada cêntimo do valor nominal da sua quota.

A gerência seria atribuída a um dos sócios por períodos de três anos: C foi designado

gerente para 2005/2007.

• O direito de voto encontra-se genericamente previsto no art. 21º-1 b): direito


à participação nas deliberações. Distribui-se da seguinte forma:
• SPQ: um voto por cada cêntimo do valor nominal da quota [art. 250º-1]:
princípio capitalístico. B detém um direito especial ao voto [2 votos por cada
cêntimo do valor nominal da quota] – possível nos casos em que os dois votos
por cada cêntimo não correspondam a mais de 20% do capital social [art. 250º-
2]. A quota de B é de € 10.000, 1/6 do capital social [€
60.000]. Se 1/5 = 20%, 1/6 é inferior a 20%, pelo que o direito especial foi

atribuído em conformidade com a lei.

• SA: a cada acção corresponde um voto [art. 384º-1].

• A transmissibilidade dos direitos especiais nas SPQ encontra-se prevista no


art. 24º-3.

§2: ACTA. A acta é o documento de onde consta o relato pormenorizado do decurso

de uma reunião.

o O seu conteúdo mínimo encontra-se regulado no art. 63º-2. o No interesse dos


participantes da deliberação, deve-se fixar em documento oficial o que se
discutiu e, sobretudo, o que se decidiu: a partir daí, só o que
constar da acta é que vale para efeitos de prova.

o Tutela-se os terceiros, que podem ter um interesse legítimo em conhecer o que


foi deliberado.
o Não havendo acta, a deliberação está incompleta [falta-lhe formalidade
essencial, ad probationem], uma vez que carece de formalização e de
exteriorização. A deliberação será, assim, ineficaz stricto sensu.

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§3: DELIBERAÇÕES INEFICAZES LATO SENSU. Com recurso ao esquema de MENEZES


CORDEIRO já apresentado supra, estudaremos as deliberações ineficazes lato sensu: inválidas
e ineficazes stricto sensu.

Eis o quadro de consequências dos vícios das deliberações:

• Deliberações aparentes: relevam para as regras registais da tutela da

aparência

• Deliberações ineficazes lato sensu:

o Deliberações nulas [art. 56º]: têm um vício em si, que as afecta o


Deliberações anuláveis [art. 58º]: conferem, a certos interessados, o
direito potestativo de as impugnar

o Deliberações ineficazes stricto sensu [art. 55º e 63º]: não produzem


efeitos até certa eventualidade

Nulidade [art. 56º - formais e subst.]

InvalidadeInvalidades mistas [art.


56º-1a) e b) 3]

Anulabilidade [art. 58º]

Ineficácia lato sensu

das deliberações

Ineficácia stricto sensu [art. 55º, 24º e 63º]

§4: DELIBERAÇÕES INEFICAZES STRICTO SENSU. As deliberações ineficazes em sentido


estrito são aquelas que, por razões extrínsecas, não produzem efeitos ou, pelo
menos, todos os efeitos que se destinariam a produzir.

A deliberação tomada sobre assunto para a qual a lei exige já o consentimento de


determinado sócio, é ineficaz para todos os sócios enquanto o interessado não der o seu acordo,
expressa ou tacitamente [art. 55º] – recorde-se o disposto no art. 24º, a respeito dos
direitos especiais dos sócios.

Outro exemplo de ineficácia em sentido estrito das deliberações, já referido [supra §2],
é o da deliberação não reduzida a acta [art. 63º]. O mesmo se diga das deliberações
sujeitas a registo comercial.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

§5: DELIBERAÇÕES NULAS. Uma vez que a regra, no campo do Direito das Sociedades
Comerciais, é a da anulabilidade [art. 58º-1 a], esta é de aplicação residual, para os casos em que
a lei não determine a nulidade como vício da deliberação. Nestes termos, os casos de nulidade
são taxativos, ainda que abranjam situações de grande amplitude e de importante
aplicação prática.

O vício de uma deliberação nula pode resultar de:

• Vícios formais, de processo ou de procedimento [art. 56º-1 a) e b]: a deliberação


é, em si, possível, embora não tenha sido respeitado o processo/procedimento
[cfr. supra §1] previsto para a sua emissão.

o Não convocação de assembleia-geral [salvo se tiverem estado presentes todos os sócios] –


alínea a).

E se, apesar de o sócio não ter sido convocado, estar seguro e


confirmado que a sua presença não alteraria o sentido da
deliberação? – Questão irrelevante. A deliberação é, ainda
assim, nula, uma vez que respeita um ritual legitimador: a
convocação.

Sanável nos termos do nº 3 – invalidade mista.

Pode ser renovada [art. 62º-1].

o Deliberações tomadas por voto escrito sem que todos os sócios com direito de voto tenham
sido convocados a exercê-lo [salvo se todos eles tenham dado por escrito o seu voto] – alínea
b).
Sanável nos termos do nº3 – invalidade mista.

Pode ser renovada [art. 62º-1].

• Vícios substanciais ou de conteúdo [art. 56º-c) e d]: o procedimento prescrito


foi seguido, mas a própria deliberação defronta a lei ou os estatutos.
o Deliberações cujo conteúdo não esteja, por natureza, sujeito a

deliberações dos sócios – alínea c).

Insanável: a deliberação deve ser repetida, para que se

expurgue o vício de conteúdo.

Nota: várias foram as teorias que tentaram explicar a ratio legis deste preceito:

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

• Teoria da incompetência: a alínea c) invalidaria actos estranhos à competência


da assembleia-geral [LOBO XAVIER, CARNEIRO DA FRADA e
RAUL VENTURA].
o Críticas: PINTO FURTADO entendeu que a mera inobservância de regras
internas de competência não poderia ser tão grave que justificasse a
nulidade. MENEZES CORDEIRO reconduz os vícios de incompetência à
cláusula geral de anulabilidade [art. 58º-1a], uma vez que os terceiros
não conhecem nem têm que conhecer a divisão interna das
competências de uma sociedade. A incompetência é um problema
puramente interno. Não pode ser reconduzida à alínea d) na medida em
que não respeita ao conteúdo da deliberação, mas sim
a uma questão de facto, a divisão de competências.

• Teoria da impossibilidade: a alínea c) consideraria nulas as deliberações


fisicamente impossíveis; as deliberações legalmente impossíveis cairiam na
alínea d) [PINTO FURTADO].

o Críticas: teoria que reconstruiu o art. 280º CC – porque haveria o


legislador de 1986 [CSC] contrariar o legislador de 1966 [CC],
abandonando conceitos consagrados e definindo novas fórmulas?
Cindiu as impossibilidades física e legal e rema contra a actual corrente
civil: a possibilidade deixou de ser requisito de validade da
obrigação, com a reforma do BGB de 2002.

• MENEZES CORDEIRO: deliberações que, pelo seu teor, não caibam na


capacidade da pessoa colectiva [teoria da capacidade]. Escassa importância
deste vício, face à perda de alcance dogmático do princípio da especialidade, e
pouco alcance prático do mesmo. Para outros autores, a incapacidade
reconduz-se à alínea d) [LOBO XAVIER].

o Deliberações cujo conteúdo seja ofensivo dos bons costumes ou de


preceitos legais inderrogáveis, nem sequer por vontade unânime dos
sócios – alínea d).

Insanável: a deliberação deve ser repetida, para que se

expurgue o vício de conteúdo.

Bons costumes: regras de conduta familiar e sexual e códigos


deontológicos próprios de certos sectores – deliberações que
assumam conteúdo sexual ou que atentem contra

deontologias profissionais.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

Preceitos legais inderrogáveis: deliberações contrárias a


normas legais imperativas. Uma norma legal será imperativa
quando:

• Integre a ordem pública [vectores constituintes do

sistema] – art. 260º-1, vg.

• Concretize princípios injuntivos [civis ou societários]

• Institua ou defenda posições de terceiros

Consequências da nulidade:

• Invocável a todo o tempo

• Por qualquer interessado [art. 286º CC]

• Deve ser dada a conhecer aos sócios pelo órgão de fiscalização, em

assembleia-geral [art. 57º-1]

§6: DELIBERAÇÕES ANULÁVEIS. A cláusula geral da invalidade das deliberações sociais


consta do art. 58º-1a): havendo violação da lei ou do contrato de sociedade, quando
não caiba nulidade, as deliberações em falta são anuláveis.

• Violações da lei [do Direito, em termos amplos] e do contrato para as quais não
esteja prevista a nulidade [alínea a]: este preceito move-se entre dois valores
em permanente contradita – a justiça [fazer valer as posições dos sócios vítimas
de ilegalidades] e a segurança jurídica [restrição das
invalidades das deliberações].

o Tratando-se de vícios de forma ou de omissão de formalidades, haverá


que procurar preencher o disposto no art. 56º [nulidade]: todas as
hipóteses que não estejam previstas nessa norma, geram

anulabilidade.

Nota: em termos práticos devemos primeiro procurar preencher todas as alíneas do

art. 56º, e só depois recorrer ao art. 58º.

o Violações do contrato: normas supletivas. Ao contratar, as partes


assentaram na aplicabilidade dos estatutos, pelo que se compreende
que não possam ser surpreendidas com deliberações maioritárias que

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

equivalham a alterações do contrato. Quando a norma possa ser


afastada pela unanimidade dos sócios [art. 56º-1d), 2ª parte], há
supletividade [art. 9º-3], pelo que a deliberação será

impugnável/anulável e não nula. Quando essa violação dos estatutos

seja decidida por unanimidade, nenhum dos sócios a poderá

impugnar, devendo entender-se que o órgão de fiscalização também


não o pode fazer [entendimento restritivo de MENEZES CORDEIRO, ao
contrário do disposto no art. 59º-1]. Deverá entender-se que os
estatutos foram modificados, de modo informal, pela unanimidade
dos sócios.

Nota: simples violações de acordos parassociais não são causas de anulabilidade, uma

vez que a sua eficácia é meramente obrigacional [cfr. supra].

• Vantagens especiais e votos abusivos [alínea b]: são anuláveis as deliberações


que satisfaçam o propósito de um dos sócios conseguir vantagens especiais para
si ou para terceiro, em prejuízo da sociedade ou de outros sócios [a menos que
se prove que as deliberações seriam tomadas mesmo sem os votos
abusivos].

o Historicamente, este preceito pretendia cobrir as hipóteses de


invalidade engendradas por elementos exteriores à própria
deliberação.

o Votos abusivos: aqueles que, objectiva e subjectivamente, acarretem


vantagens especiais para o próprio, em detrimento da sociedade ou

de terceiros ou que tenham natureza emulativa, visando prejudicar a

sociedade ou outros sócios.

o Vantagens especiais: vantagens que assistam particularmente a um


sócio ou a terceiros, e não a todos os sócios ou a uma generalidade de
terceiros.

o Acto emulativo: aquele que visa provocar danos gratuitos a outrem.

o MENEZES CORDEIRO: poder-se-ia reconduzir esta alínea ao abuso de


direito [exercício inadmissível de posições jurídicas contrárias à boa fé],
uma vez que os votos abusivos, na vertente “vantagens especiais”
traduzem uma actuação fora da permissão jurídica em jogo. Todavia, o
autor entende não se tratar de um verdadeiro abuso do direito mas sim

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

de falta de direito. Os votos emulativos serão abusivos, na versão


“desequilíbrio no exercício” [vg chaminé de Colmar]. Certos votos não
podem, enfim, prosseguir finalidades “extra-societárias”. As
deliberações verdadeiramente abusivas [que incorram em abuso do
direito, nos termos gerais], contrárias à boa fé, devem ser
reconduzidas à cláusula geral da alínea a).

• Deliberações que não tenham sido precedidas do fornecimento de elementos


mínimos de informação ao sócio [alínea c]: os “elementos mínimos de
informação” são concretizados pelo nº 4 [menções que devem constar do aviso
convocatório de assembleias em SA, e aplicável às SPQ – art. 377º-8 e 248º-1; e
a colocação de documentos para exame dos sócios no local e
durante o tempo prescritos pela lei ou pelo contrato].

o Face à necessidade de unificação sistemática da matéria, MENEZES

CORDEIRO propõe que outras situações de inobservância do direito à


informação [cfr. supra] que não se enquadrem nesta alínea, devam,
ainda assim, ser reconduzidas à mesma, e não à cláusula geral da
alínea a).

Disposições sobre a acção de anulação [art. 59º]:

• A legitimidade para a acção de anulação é conferida ao órgão de fiscalização ou


a qualquer sócio que não tenha votado no sentido que fez vencimento nem,
posteriormente, tenha aprovado a deliberação, expressa ou tacitamente [nº 1].
o MENEZES CORDEIRO propõe a interpretação restritiva do preceito: se
todos os sócios aprovarem uma deliberação anulável ou se o sócio
prejudicado vier confirmá-la, o órgão de fiscalização não pode impugná-
la. A actuação do órgão de fiscalização só se justifica quando a
deliberação não tenha sido integralmente adoptada ou
confirmada.

o A intervenção de qualquer sócio, desde que não tenha votado no


sentido que fez vencimento nem, posteriormente, tenha aprovado a
deliberação, expressa ou tacitamente, surge prevenindo o venire
contra factum proprium.

o Havendo voto secreto [nº 6], considera-se que não votaram no sentido
que fez vencimento apenas aqueles sócios que, na própria assembleia
ou perante notário, nos cinco dias seguintes à assembleia, tenham feito
consignar que votaram contra a deliberação tomada. Neste caso, a
deliberação tornar-se-á inimpugnável, uma vez que não foi, por
algum sócio, observado o procedimento supra.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

• Prazo: 30 dias, contados nos termos do nº 2 o Deliberação em assembleia: a


data em que foi encerrada a
assembleia-geral.

o Deliberação por voto escrito: do 3º dia subsequente à data do envio da


acta.
o Deliberação que incida sobre assunto que não constava da
convocatória: da data em que o sócio tenha tido conhecimento da
deliberação.

o O facto de ser intentado um procedimento cautelar de suspensão da


deliberação social não impede este decurso do prazo.

§7: DISPOSIÇÕES COMUNS À NULIDADE E À ANULABILIDADE.

Tanto a acção de nulidade como a acção de anulação devem ser propostas contra a
sociedade [art. 60º-1]: qualquer sociedade corre o risco de ser demandada por deliberações dos
seus próprios sócios. Por interpretação extensiva ou por aplicação analógica do preceito, o
mesmo se diga face às acções de ineficácia ou de inexistência da deliberação [embora a
última não deva ser considerada um vício autónomo, segundo MENEZES CORDEIRO].

Em qualquer dos casos, impugnam-se deliberações, no seu todo, e não simples


votações, uma vez que o voto não representa, por si só, uma posição da sociedade sobre
determinado assunto. Não tem qualquer relevância societária quando desinserido do todo que
é a deliberação social.

Quanto à eficácia do caso julgado, o art. 61º-1 dispõe que a sentença que declarar nula
ou anular uma deliberação é eficaz contra e a favor de todos os sócios e órgãos da sociedade,
mesmo que não tenham sido parte ou que não tenham intervindo na acção: o caso julgado não
opera, por isso, quando a causa de invalidação seja diversa, uma vez que o preceito é claro
quanto a esse sentido. O nº 2 visa tutelar a confiança e a boa fé ética de
terceiro, uma vez que este tipo de acções estão sujeitas a registo comercial [art. 9º e) CRC].

A renovação da deliberação inválida permite que, perante meras suspeitas de vício de


que a deliberação padeça, a mesma seja à partida retomada sem o ponto questionado, como
cautela [art. 62º]. Pode ser renovada quando nula por vício de procedimento grave [nº 1º e art.
56º-1 a) e b] – não se trata de qualquer convalidação, antes ocorrendo uma segunda e própria
deliberação, que visa produzir os mesmos efeitos jurídicos da anterior. A contrario sensu, não
são susceptíveis de renovação as deliberações que inquinem em vício substantivo [art. 56º-1 c)
e d], uma vez que a “nova” deliberação, válida, seria necessariamente
diferente da anterior.

A anulabilidade cessará se os sócios renovarem a deliberação anulável mediante outra


deliberação, desde que a “nova” não enferme do vício da precedente [nº 2]: não se distinguem
vícios formais ou vícios substantivos e a lógica é a de que uma verdadeira renovação pressupõe
que a segunda deliberação tenha um conteúdo idêntico ao da primeira,

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

sem o vício em causa.

exemplo:

Os cinco sócios da Sociedade X, Lda., encontram-se incidentalmente na sede da

mesma, decidindo, por comum acordo, deliberar sobre determinados assuntos. B, que votou
contra numa das deliberações em causa, invoca agora a nulidade da mesma, por falta de
convocação.

• Trata-se de uma assembleia-geral universal ou totalitária [art. 54º-1], a qual


só pode deliberar por unanimidade, uma vez que todos os sócios
manifestaram vontade em que a mesma se constituísse e deliberasse
[“decidindo, por comum acordo, deliberar”]. Aplicam-se as regras gerais
relativamente ao funcionamento da assembleia [nº 2].

• Mesmo se considerássemos tratar-se de assembleia não convocada, nos


termos gerais [art. 56º-1a], a mesma seria válida, uma vez que todos os
sócios estavam presentes.

• Não tendo havido unanimidade, B não pode, ainda assim, invocar a

nulidade por falta de convocação, uma vez em que deu o seu assentimento
em que a assembleia-geral universal deliberasse.

exemplo:

O gerente da Sociedade Y, Lda., não conseguia reunir todos os sócios, pelo que ficou

decidido que a deliberação seria por escrito: foram enviadas cartas com a proposta de

deliberação a todos os sócios menos a D, que, por isso, não votou.

D concordava inteiramente com a deliberação tomada e, por isso, deu o seu

consentimento à mesma por escrito, em momento posterior.

• Estamos perante um exemplo de deliberação por voto escrito numa SPQ


[deliberação essa que não se encontra prevista no âmbito das SA], possível
desde que verificados os requisitos do art. 247º. Este tipo de deliberação não
deve ser confundida com a deliberação unânime por voto escrito,

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

prevista no art. 54º.

• Não tendo um dos sócios sido convocado, ainda assim não colhe nulidade nos
termos do art. 56º-1b, uma vez que a mesma foi sanada através do
assentimento, por escrito, de D [nº 3].

• A nulidade não poderia ser invocada e a deliberação convalida-se.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

Os administradores da Sociedade Z, SA, cujas acções são todas nominativas, enviam

cartas registadas com aviso de recepção a todos os accionistas. E não compareceu e considera
que as deliberações tomadas são inválidas.

• Nas SA, as acções são geralmente ao portador [anónimas]. Quando todas


sejam nominativas [das quais conste o nome do sócio que as subscreve], a
convocatória por publicação [art. 167º e 377º-2] pode ser substituída por
cartas registadas [no caso] ou por correio electrónico com recibo de leitura
[art. 377º-3]. Esta forma de comunicação aos accionistas tem que constar do
contrato de sociedade, sob pena de se considerar que a assembleia não fora
convocada. Assim, se nada estiver previsto e se um sócio receber uma carta
registada com aviso de convocatória, a mesma não produzirá qualquer efeito,
pelo que o sócio poderá destruí-la, guardá-
la, não comparecendo a nenhum título.

• A convocação deve ser feita pelo presidente da mesa da assembleia-geral da


SA [nº 1], tendo-se por não convocada a assembleia cujo aviso de convocatória
tenha sido assinado por quem não tenha essa competência [art. 56º-2, em
concretização do art. 56º-1a]. Temos, face a este
problema, três cenários possíveis:

o A assembleia não foi convocada, mas todos estiveram presentes: não


há nulidade, nem sequer sanação da mesma [art. 56º-1 a].
o A assembleia não foi convocada, só alguns sócios estiveram presentes
mas os outros deram o seu assentimento por escrito: há
nulidade, mas sanável [art. 56º-1 a ) e nº 3].

o NO CASO - a assembleia não foi convocada, só alguns sócios estiveram


presentes e os outros não deram o seu assentimento por escrito: há
nulidade, pelo que pode haver renovação da

deliberação [art. 56º-1 a), nº 2 e art. 62º]. Legitimidade: art. 286º CC e


iniciativa: art. 57º.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

Os accionistas A e B pretendem, antes da realização da assembleia-geral da

Sociedade T, SA, já convocada, incluir outros assuntos na ordem do dia.

• A ordem do dia deve constar do aviso de convocatória [art.


377º-5 e] e outros assuntos poderão ser incluídos nos termos
do art. 378º, com
remissão para o art. 375º-2.

• Pressupostos: poderão fazê-lo se possuírem acções


correspondentes a, pelo menos, 5% do capital social. O
requerimento a apresentar deve ser dirigido por escrito ao
presidente de mesa e comunicado aos accionistas [arts. 378º-
2 e 3]. Os sócios que preencham estes requisitos poderão,
tãosó, “requerer” o aditamento de outros assuntos na ordem
do dia, e não enviar avisos de convocatória aos restantes
sócios. Se o fizerem, esses avisos não produzem qualquer
efeito e os sócios podem destruí-los,
guardá-los, não comparecendo a nenhum título.

Podem os accionistas E e F da Sociedade R, SA, promover a convocação de uma

assembleia-geral?

• Podem “requerer” que a assembleia seja convocada, se


possuírem acções correspondentes a, pelo menos, 5% do
capital social, mas não convocá-la proprio sensu, uma vez que
a convocatória cabe ao presidente de mesa [art. 375º-2].
• Se convocarem a assembleia, proprio sensu, a mesma tem-se
por não convocada, nos termos do art. 56º-2, por
incompetência de quem assinara
o aviso de convocatória.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

A nomeia B para o representar na assembleia-geral da SA de que ambos são

accionistas.

• A representação de accionistas é possível nos termos do art. 380º-2: basta

um documento escrito, com assinatura, dirigido ao presidente de mesa.

• O contrato de sociedade não pode proibir a representação de accionistas

[nº 1].

• Diferentemente, nas SPQ, não é permitida a representação voluntária nas

deliberações por voto escrito [art. 249º].

exemplo:

Na assembleia-geral da Sociedade X, Lda., convocada pelo gerente por carta

registada com aviso de recepção dirigida a todos os sócios, delibera-se sobre assuntos não
constantes do aviso convocatório, tendo todos os sócios votado por unanimidade aprovar tais
propostas.

• À assembleias-gerais das SPQ [art. 248º-1] aplica-se o disposto nos arts. 373º
ss, quanto às SA. A convocação pode ser feita por qualquer dos gerentes,
mediante carta registada [art. 248º-3].
• Aplica-se o disposto no art. 377º-5 e 8 quanto ao aviso de convocatória: se
deliberarem sobre assuntos não constantes do aviso convocatório, a
deliberação é anulável nos termos da cláusula geral do art. 58º-1 a) e c) –

art. 377º-8.

• A legitimidade para arguir a anulabilidade encontra-se prevista no art. 59º1.


Se todos os sócios votaram no sentido que fez vencimento, nenhum pode
arguir a anulabilidade, nem mesmo o órgão de fiscalização, segundo
o entendimento restritivo de MENEZES CORDEIRO.

exemplo:

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

Os sócios deliberaram retirar a C o direito especial aos lucros de que era titular.

C, que votou contra, entende que a deliberação é anulável.

• O direito especial aos lucros [art. 24º] não pode ser suprimido ou coarctado
sem o consentimento do seu titular [C] – nº 5. As deliberações tomadas sobre
assuntos para o qual a lei exija o consentimento de
determinado sócio são ineficazes stricto sensu para todos se o interessado [C]
não der o seu acordo, expressa ou tacitamente [art. 55º].
• Outro exemplo de ineficácia em sentido estrito é a deliberação não

reduzida a acta [art. 63º].

exemplo:

Os sócios da Sociedade Z, Lda., que se dedica à actividade de restauração, deliberam

abrir uma loja de desporto.

• Supra analisámos os actos que violassem esse objecto. Agora, cumpre


recordar os efeitos das deliberações que o façam:
• As deliberações tomadas pelos sócios fora da capacidade da sociedade são
anuláveis, segundo MENEZES CORDEIRO, nos termos do art. 56º-1c) [vejase a
teoria da incapacidade, do mesmo autor – cfr. supra]. Outros autores também
sustentam a anulabilidade das deliberações sociais, embora o
façam com recurso ao disposto no art. 56º-1d).

• As deliberações tomadas pelos sócios dentro da capacidade, mas fora do


objecto, são anuláveis nos termos da cláusula geral do art. 58º-1a), já que
se trata de violação de disposições do contrato de sociedade – art. 9ºd).

• No caso, estamos perante uma deliberação que se encontra dentro da


capacidade da sociedade [lucro] mas fora do objecto [actividade
desenvolvida] da mesma – art. 6º-1. Como tal, a mesma é anulável nos termos
do art. 58º-1a), relativamente a violações do contrato, na medida
em que o objecto está definido no contrato de sociedade [art. 9ºd].

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

A Sociedade Y, SA, delibera conceder, gratuitamente, uma fiança a G. Um dos sócios

pretende anular a deliberação, por esta violar a capacidade da sociedade.

• A fiança é uma garantia pessoal, e foi no caso concedida a título gratuito.


Segundo o art. 6º-3, considera-se contrária ao fim da sociedade a prestação de
garantias reais ou pessoais a dívidas de outras entidades, salvo se existir
“justificado interesse próprio” da sociedade garante ou se se trata de
sociedade em relação de domínio ou de grupo [arts. 486º e
488º].
• A deliberação é, por isso, nula, com base na alínea c) do art. 56º-1, seguindo a
teoria da incapacidade de MENEZES CORDEIRO. O “justificado interesse
próprio” é definido pela própria sociedade, pelo que a norma perde alcance
prático. Não havendo justificado interesse, a deliberação é
nula.

• Outros autores reconduzem o problema à nulidade pela alínea d).

• A competência para decidir da prestação de garantias cabe ao conselho de


administração [art. 406º f) e 373º-3]. A deliberação padece de incompetência
pelo que, segundo MENEZES CORDEIRO, a mesma é anulável [art. 58º-1 a], e
não nula [art. 56º-1c), teoria da incompetência].

exemplo:

Os accionistas da Sociedade X, SA, deliberam não distribuir quaisquer lucros. O sócio A,


titular de 0,5% do capital social, pretende impugnar a deliberação, invocando o seu
direito aos lucros.

• O direito aos lucros encontra-se genericamente previsto no art. 21º-1a) e, em


termos especiais, nos arts. 294º-1, quanto às SA, e art. 217º, quanto às SPQ.
• Numa SA, não pode deixar de ser distribuída metade dos lucros [art. 294º1],
apesar de esta disposição poder ser derrogada pelos sócios [pelo que a
deliberação em causa não é nula nos termos da alínea d].

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

Os accionistas da Sociedade Z, SA, deliberam, por unanimidade, distribuir a

totalidade dos lucros do exercício, não obstante os prejuízos transitados.

• A deliberação é nula [alínea d] por violar a reserva legal não distribuível

que consta do art. 33º. Pretende-se salvaguardar terceiros credores.

exemplo:

Os sócios de uma SA deliberaram atribuir ao administrador Z, irmão de A, accionista

detentor de 80% do capital social, uma remuneração superior à comum nesse sector, com voto a
favor de A e votos contra de todos os outros sócios.

• A deliberação é anulável por votos abusivos e actos emulativos [art. 58º1b]: é


o voto que é emulativo, e não a deliberação em si, ou cairia na nulidade da
alínea d) por abuso de direito.

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SOCIEDADES POR QUOTAS EM ESPECIAL

PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS E PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES

Prestações Acessórias

§1: OBRIGAÇÕES DE PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS. As obrigações de prestações

acessórias estão expressamente consagradas no art. 209º:

• Obrigações constantes do contrato de sociedade, que adstringem todos ou


alguns sócios a efectuar, a favor da SPQ, determinadas prestações, além das
entradas.

• O contrato que as insira deve definir os elementos essenciais da obrigação de


prestação acessória, bem como especificar se as prestações devem ser fixadas
onerosa ou gratuitamente.

• O conteúdo depende da autonomia das partes:

o Prestações pecuniárias [nº 2] – vg “suprimento” obrigatório, cfr. infra o


Prestações de dare o Prestações de facere
• Podem ser: o Instantâneas o Duradouras o Únicas o Fraccionadas o Periódicas o
Regulares

§2: REGIME LEGAL. As prestações acessórias são cláusulas acidentais facultativas e


típicas, que se pautam pelo seguinte regime supletivo:

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

As prestações acessórias não pecuniárias são intransmissíveis [art. 209º-2]:


interdição legal de cessão de créditos, art. 577º-1 CC.
• Quando se convencione a onerosidade das mesmas, a contraprestação pode

ser paga independentemente de haver lucro no exercício [nº 3].

• O incumprimento das prestações acessórias não afecta a posição do sócio

como tal [nº 4].

• As obrigações acessórias extinguem-se com a dissolução da sociedade [nº 5] –


se subsistisse, seria uma obrigação de natureza não-societária.
• Todas as restantes regras são supletivas.

exemplo:

1. Os estatutos da Sociedade F, Lda, determinavam que o sócio A, jurista, ficava

obrigado a prestar serviços jurídicos gratuitos à sociedade, e que o sócio B ficaria obrigado a
encerrar a sociedade de produção de fruta de que detinha. C, por seu lado, ficava obrigado a
pagar € 5.000 à sociedade, para além da sua entrada.

2. C não cumpre a sua obrigação.

1.

• O contrato de sociedade deve definir os elementos essenciais das

prestações acessórias.

• A: prestação acessória gratuita de facere.

• B: prestação acessória gratuita de non facere.

• C: prestação acessória pecuniária [art. 209º-2].

2.

• O incumprimento das prestações acessórias não afecta a posição do sócio


enquanto tal, salvo estipulação em contrário. C não pode ser excluído [art.
209º-4].

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

No momento da celebração do contrato da Sociedade C, Lda, todos os sócios acordam

verbalmente que a sociedade poderia, mais tarde, deliberar exigir o pagamento de € 5.000 a cada
um deles. O sócio X não cumpre.

• Trata-se de uma prestação acessória com acordo parassocial [art. 17º]. Se o


acordo for considerado válido mas não for cumprido, gera
responsabilidade obrigacional nos termos gerais [arts. 798º ss CC]. Se for

inválido e incumprido por um dos sócios, não produz quaisquer efeitos.

Prestações Suplementares

§1: PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES. As prestações suplementares consistem numa via


de financiamento complementar das SPQ, à disposição dos sócios. Distinguem-se das
prestações acessórias pela dupla base jurídico-normativa [art. 210º-1]:

• Devem estar previstas no pacto inicial [1.], seja desde o início, seja por

alteração.

• Devem ser deliberadas pelos sócios 2.].

Têm, necessariamente, natureza pecuniária [nº 2], devendo o próprio contrato [1.]

conter os seguintes elementos:

• Montante global

• Sócios que ficam obrigados – na sua falta, todos ficam adstritos a fazê-lo.

• Critério de repartição entre eles – na sua falta, deve a repartição ser

proporcional à quota de cada um [nº 4].

Para além de consagradas no pacto social [1.], devem as prestações suplementares ser
deliberadas [2.]:

A deliberação terá que fixar o montante tornado exigível e o prazo da

prestação, superior a 30 dias [art. 211º-1].

• A deliberação só é possível depois de interpelados todos os sócios para

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

liberação integral das suas quotas de capital.

• As prestações suplementares não podem ser exigidas depois de dissolvida a

sociedade.

§2: REGIME LEGAL. As prestações suplementares estão próximas do dever de entrada,

e é-lhes aplicável o disposto nos arts. 204º e 205º [art. 212º-1].

O sócio que não as acate pode ser excluído, já que se trata de obrigações assumidas no
pacto social: o incumprimento justifica, em relação ao faltoso, como que uma resolução
contratual.

O legislador reforça a sua natureza pessoal através das seguintes disposições:

• Ao crédito da sociedade por prestações suplementares não pode ser oposta

compensação [nº 2].

• A sociedade não pode exonerar os sócios da obrigação de as efectuar, estejam

ou não já exigidas [nº 3].

• O direito de as exigir é intransmissível e nele não podem sub-rogar-se os

credores da sociedade [nº 4].

§3: RESTITUIÇÃO DAS PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES. Ainda que não vencendo juros,

podem as prestações suplementares ser restituídas [art. 210º-5], verificados os requisitos do

art. 213º:

• A restituição depende de deliberação dos sócios [nº 2].

• A situação líquida não pode ficar inferior à soma do capital e da reserva legal

[nº 1, 1ª parte].

• O respectivo sócio já deve ter liberado a sua quota [nº 1, 2ª parte].

A restituição não é, contudo, possível depois de declarada a insolvência da sociedade


[art. 213º-3]. A restituição deve respeitar a igualdade dos sócios que as tenham efectuado, desde
que hajam liberado as quotas respectivas [nº 4].

Para o cálculo do montante da obrigação vigente de efectuar prestações

suplementares não são computadas as prestações restituídas.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

No contrato de constituição da Sociedade S, SA, prevê-se que esta sociedade pode,

mediante deliberação, exigir aos sócios o pagamento de um valor global de € 25.000.

• As prestações suplementares são permitidas pelo contrato de sociedade e


resultam de deliberação dos sócios, recaindo apenas sobre dinheiro [arts. 210º
ss].
• MENEZES CORDEIRO entende que nas SA não devem ser admitidas prestações
suplementares, uma vez que o sócio apenas responde pelas
acções que subscreve [art. 271º]. O enquadramento de novas

responsabilidades seria impossível, uma vez que a exigência de um novo


esforço financeiro a alguns, pela maioria dos sócios, iria desequilibrar o
funcionamento da SA.

• Conclui-se: a cláusula é nula, contrária aos arts. 271º e 294º.

exemplo:

Os sócios deliberam, pela maioria legal, alterar o contrato da Sociedade A, Lda., de

modo a prever que os sócios A, B e C fiquem obrigados a realizar prestações suplementares.

Tendo a sociedade deliberado, mais tarde, exigir-lhes o pagamento da prestação, os

sócios em causa recusam-se, argumentando que nunca nela consentiram.

• As alterações ao contrato das SPQ dependem de deliberação dos sócios

[art. 246º-1h].
Se essa alteração envolver o aumento das prestações impostas pelo contrato
aos sócios, esse aumento é ineficaz para os sócios que nele não tenham
consentido [art. 86º-2]: se A, B e C tivessem consentido na
alteração, essas prestações aplicavam-se em relação a eles.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

exemplo:

Nos termos dos estatutos da Sociedade B, Lda., D estava obrigado a realizar

prestações suplementares à sociedade. No entanto, após a deliberação que lhe exige o


cumprimento da obrigação, D recusa-se a cumprir.

• Ao regime das prestações suplementares nas SPQ é-lhes aplicável o disposto


nos arts. 204º e 205º, relativamente ao dever de entrada. O sócio não efectuar
a prestação em causa fica sujeito a exclusão [art. 204º-1],
uma vez que se trata de obrigações assumidas no pacto social. O
incumprimento justifica, em relação ao faltoso, como que uma resolução
contratual.
CONTRATO DE SUPRIMENTO

Contrato de Suprimento

§1: CONTRATO DE SUPRIMENTO. O contrato de suprimento é o contrato que admite

as seguintes modalidades:

• Contrato pelo qual o sócio empresta à SPQ dinheiro ou outra coisa fungível,
ficando esta obrigada a restituir outro tanto do mesmo género e qualidade [art.
243º-1, 1ª parte] – equivale a um mútuo.
• Contrato pelo qual o sócio convenciona com a SPQ o diferimento do

vencimento de créditos seus sobre ela desde que, em qualquer dos casos, o

crédito fique tendo carácter de permanência [nº 1, 2ª parte].

Quando uma SPQ tenha necessidade de financiamento, a solução mais fácil, mais

natural e mais flexível pauta-se pelo contrato de suprimento.

Constitui índice/presunção do carácter de permanência [nº 2 e 3]:

• Articulação de um prazo de reembolso superior a um ano

• Não exigência do reembolso devido pela sociedade durante um ano

Os credores sociais podem provar o carácter de permanência mesmo que o reembolso

tenha ocorrido antes de expirado um ano [nº 4, 1ª parte].

Os sócios podem ilidir a presunção de permanência demonstrando que o diferimento

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

corresponde a circunstâncias independentes da qualidade de sócio [nº 4, 2ª parte].

Fica ainda sujeito ao regime dos suprimentos o crédito de terceiro sobre a sociedade,
desde que o sócio o adquira por negócio entre vivos e no momento da aquisição se verifique
alguma das circunstâncias que constituem “índice de permanência” [nº 5].

§2: DELIMITAÇÃO. Os suprimentos não se confundem com as prestações acessórias ou

com as prestações suplementares, designadamente porque:

• As prestações acessórias resultam do pacto social e podem envolver dinheiro,


bens ou serviços.

As prestações suplementares são permitidas pelo pacto social e resultam de

deliberação dos sócios, recaindo apenas sobre dinheiro.

• Os suprimentos advêm de um contrato celebrado entre o sócio e a sociedade,


relativo a dinheiro ou a outra coisa fungível, equivalendo a um mútuo.
Distingue-se de um mútuo comum porque representa um contributo
permanente ou, pelo menos, prolongado, do sócio para com a sociedade em
que detenha uma posição. Representaria, quanto muito, um mútuo de
escopo.

§3: REGIME LEGAL. O suprimento corresponde a um especial envolvimento do sócio na


capitalização da sociedade. Não equivale a uma comum ajuda monetária, puramente transitória,
na medida em que o CSC optou pelo critério da permanência, de RAUL VENTURA. O art. 243º-2
e 3 fixa, nestes termos, índices de permanência que auxiliam o intérprete e aplicador do direito,
associando-o a presunções. Na falta de estabilidade não há, por isso,
qualquer suprimento.

O contrato de suprimento é um mútuo especial [art. 243º-1 e 1142º CC] – contrato

real quoad constitutionem que só produz efeitos com a efectiva entrega do dinheiro:

• Não está sujeito a qualquer forma especial [nº 6].

Caso o pacto social preveja a obrigação de efectuar um suprimento, estamos perante


prestações acessórias [cfr. supra e art. 209º] e não um contrato de suprimento. Se o suprimento
for adoptado por deliberação social, só ficam vinculados os sócios que votem
favoravelmente tal deliberação [art. 244º-2].

As partes podem estipular juros mas, se nada disserem, não se deve presumir a
onerosidade, uma vez que o suprimento é um negócio “interessado”. O crédito de
suprimentos é transmissível, nos termos gerais do art. 577º-1 CC.

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

Este regime, por não ser excepcional, pode ser analogicamente aplicado às SA.

exemplo:

1. A Sociedade B, Lda., vendo a sua situação agravar-se constantemente, celebrou

verbalmente com o sócio A um contrato nos termos do qual este emprestava à sociedade €
10.000, que esta reembolsaria no prazo de 18 meses.
B, por seu lado, acordou com a sociedade que não levantaria imediatamente o seu

quinhão nos lucros do exercício, apenas pretendendo o dinheiro dali a um ano.

2. Decorridos 18 meses, pode A exigir a restituição com juros do capital emprestado?

1.

• O contrato de suprimento encontra-se previsto no art. 243º-1 através de duas


modalidades legais:
• 1. Modalidade próxima do mútuo comum, com carácter de permanência

[nº 1, 1ª parte] – sócio A.

• 2. Modalidade de diferimento do crédito, com carácter de permanência [nº 1, 2ª


parte] – sócio B. O carácter de permanência deve ser superior a um ano. No caso, 18
meses. O crédito do sócio à sua parte dos lucros vence-se quando decorridos 30 dias
sobre a deliberação de atribuição de lucros [art. 217º-2], salvo diferimento consentido
pelo sócio. O suprimento opera como um diferimento: nesse caso, computa-se no
prazo de um ano o tempo decorrido desde a constituição do crédito até ao negócio de
diferimento [desde a deliberação, art. 243º-2, 2ª parte e nº 3, 2ªa parte]. Presume-se
suprimento se, volvido um ano, o sócio não
reclamar os lucros a que tem direito [art. 243º-2, 1ª parte].

• Em qualquer dos casos, difere do mútuo comum quanto à forma, ao

carácter de permanência, aos sujeitos e aos juros. Se for motivado pelos juros
apenas, não será um contrato de suprimento, mesmo que tenha

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

carácter de permanência – cumpre provar que não foi celebrado com base

nessa motivação.

• O regime do contrato de suprimento é mais favorável para a sociedade e


menos favorável ao sócio, face ao disposto nos arts. 245º-1 e 777º CC. A
sociedade tem, por isso, interesse que o contrato em causa seja qualificado
como suprimento, enquanto que o sócio procurará provar o carácter de
mútuo comum do mesmo: vg se tiver emprestado dinheiro à
sociedade não na qualidade de sócio.

• No caso, os contratos foram celebrados de forma autónoma entre os sócios e


a sociedade, e não constavam do contrato de sociedade nem foram
sujeito a deliberação dos sócios. Obedeceram à regra geral da liberdade de

forma, art. 219º CC.

2.

• O suprimento presume-se oneroso, mesmo que nada tenha sido

convencionado. No caso, há um pedido de restituição com juros não

convencionados expressamente: os juros não se presumem.

exemplo:

A Sociedade G, SA, celebrou com os accionistas C e D, detentores de participações de 2%


e de 12%, respectivamente, um contrato nos termos do qual estes emprestavam à
sociedade € 5.000, a restituir passado um ano.

• Convencionou-se um empréstimo a uma SA. Se se tratasse de uma SPQ, seria


um suprimento, uma vez que é um empréstimo do sócio à sociedade
que se caracteriza pelo carácter de permanência.

• Tratando-se de uma SA, questiona-se se o contrato de suprimento é

admissível nesse âmbito.


• Para RAUL VENTURA, a resposta seria afirmativa se se tratasse de um
“accionista empresário” [o autor contrapõe, com base na doutrina alemã,
accionistas empresários a accionistas investidores], efectivamente
embricado/envolvido na vida societária, de tal modo que os seus contributos
seriam tidos como uma justificação interessada. Apenas ao accionista

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Direito Comercial II: Direito das Sociedades Comerciais - Lara Geraldes @ FDL

empresário haveria que aplicar o regime dos suprimentos: aquele que


detivesse 10% do capital social [25%, na doutrina alemã], com
base nos arts. 392º e 418º-1, que mencionam essa cifra.

• MENEZES CORDEIRO considera que esse critério, apesar de apresentar


vantagens no plano da segurança, é demasiado rígido e fixo: e se o sócio
detivesse “apenas” 9% do capital social? Por isso, serve-se antes do
argumento do accionista médio: haverá suprimento quando a entrega do
dinheiro opere em situações nas quais o accionista ordenado, o bom
accionista, enfim, faria uma contribuição de capital [contribuindo para a
capitalização da sociedade], e não um mero mútuo civil. Só a partir da
verificação dessa analogia iuris será legítimo aplicar os arts. 243º-2 e 3 às
SA. No mesmo sentido, COUTINHO DE ABREU.

• Podemos, pois, encontrar suprimentos nas SA quando:

o As partes o estipulem ou quando o pacto social os preveja e regule.

o Se gere um empréstimo que, materialmente, exerça a função de


suprimento.
• Certo é que o regime do suprimento não pode, por si só, ser negado às SA. Não
é um regime excepcional e a sua aplicação analógica é possível, nas condições
supra.

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