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TEORIAS CLÁSSICAS DO DESENVOLVIMENTO

REGIONAL E SUAS IMPLICAÇÕES DE POLÍTICA ECONÔMICA:


O CASO DO BRASIL

ANA CAROLINA DA CRUZ LIMA1


RODRIGO FERREIRA SIMÕES2

Resumo Abstract 1. Introdução


No período pós-II Guerra, a pro- Discussions about the regional O processo de desenvolvimento
blemática regional foi bastante dis- question gained new impetus in the econômico não ocorre de maneira
cutida por diversos teóricos, cujas post-war and its ideas influenced the igual e simultânea em toda a parte.
idéias influenciaram fortemente o regional economic planning in many Pelo contrário, é um processo bastan-
planejamento econômico nos países countries, especially in Latin te irregular e uma vez iniciado em
periféricos, especialmente na Amé- America. This paper describes the determinados pontos possui a carac-
rica Latina. Este trabalho descreve as main characteristics of four theories terística de fortalecer áreas mais di-
principais características de quatro developed in this period: The Theory nâmicas e que apresentam maior
teorias sobre a dinâmica regional of Growth Pole, the Theory of Cir- potencial de crescimento. Assim, a
desenvolvidas neste período: a Teo- cular Cumulative Causation, the dinâmica econômica regional torna-
ria dos Polos de Crescimento, da Theory of Unbalanced Growth and se objeto de estudo bastante comple-
the Export Base Theory. After that we xo, dadas as inter-relações existentes
Causação Circular Cumulativa, do
analyze how these theories influ- dentro e entre diferentes localidades
Desenvolvimento Desigual e da
enced the regional planning in Bra- e sua importância para a coesão da
Transmissão Inter-regional de Cres-
zil between 1950 and 1980. The economia nacional.
cimento e da Base de Exportações. A
analysis of the main national plans Diversos teóricos propuseram-se
partir destas considerações, procu-
of development shows that the policy a estudar a dinâmica regional, espe-
ra-se analisar como estas influencia- makers tried to follow these theoreti- cialmente no período iniciado após
ram o planejamento no Brasil entre cal recommendations. However, the a Segunda Guerra Mundial, com o
1950 e 1980. A análise dos principais results of these policies were limited intuito de esclarecer sua problemá-
planos de desenvolvimento nacio- by several misinterpretations, like tica, indicando, inclusive, as possí-
nais mostra que os policy makers pro- the exaggerate emphasis on the im- veis soluções para a superação do
curaram seguir estas recomendações port replacing without diversifica- subdesenvolvimento. Entre estes
de políticas, entretanto, vários erros tion of the exportations, and the na- pode-se destacar François Perroux,
de interpretação (por exemplo, a ên- tional development of long-term has cuja análise estimulou uma série de
fase exagerada na substituição de been compromised. After this period estudos convergentes como aqueles
importações), levaram a resultados of state intervention, there were desenvolvidos por Jacques-R
menos significativos que os espera- many changes in the economic envi- Boudeville, Gunnar Myrdal, Albert
dos e comprometeram o desenvolvi- ronment, including in the mainstream O. Hirschman e Douglass C. North.
mento de longo prazo. Após perío- about the regional development. Em torno do pensamento destes es-
do de forte intervenção estatal se- tudiosos foi estabelecido um consen-
guiu-se uma onda liberal, com vári- Keywords: Regional Development so que passou a influenciar signifi-
as mudanças, inclusive no Theories; Economic Planning; Regi- cativamente a condução da política
mainstream econômico sobre o desen- onal Development Policies. econômica nacional.
volvimento regional. O objetivo do trabalho não é rea-
JEL: R10; R58; O18. lizar uma avaliação crítica destas te-
Palavras chave: Teorias do Desen-
volvimento Regional; Planejamento 1
Doutoranda em Economia - CEDEPLAR/UFMG - ana_carolinacl@yahoo.com
Econômico; Políticas de Desenvolvi- 2
Professor FACE/CEDEPLAR – UFMG. Doutor em Economia – IE/UNICAMP -
mento Regional. limoes@cedeplar.ufmg.br

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preciso destacar que qualquer que dência entre espaços econômicos e

“ Várias são as
teorias que buscam
seja o critério adotado (homogenei-
dade, contiguidade, etc.), ele impli-
ca em um corte arbitrário, uma vez
humanos e, consequentemente, em
recomendações imprecisas de polí-
ticas econômicas. A noção de espa-
explicar a dinâmica que no sistema capitalista o espaço ço introduzida por este teórico des-
econômico é tendencialmente inte- carta o conceito de espaço euclidiano
regional, ou seja, o grado e articulado. e utiliza o conceito matemático de
processo de Realizadas estas considerações, espaço abstrato, mais adequado para
define-se que uma região, como uni- analisar as inter-relações econômi-
determinação da dade de análise, é representada por cas. Desta forma existiriam tantos
renda urbana um conjunto de pontos do espaço espaços econômicos quantos fossem
que tenham maior integração entre os fenômenos econômicos estuda-
que é a expressão si do que em relação ao resto do dos.
e a causa do mundo. Contextualizando esta defi-
nição com o conceito de urbano –
Neste sentido, a empresa, como
unidade de produção, ocupa um es-
movimento do capital locus da produção diversificada e in- paço vulgar, onde se situam seus
no espaço... tegrada do capitalismo –, pode-se meios materiais e pessoais e três es-

orias, nem buscar seus pontos em


comum. Diz respeito apenas a apre-
” definir uma região como um conjun-
to de centros urbanos dotados de um
determinado grau de integração em
oposição ao resto do mundo (LE-
paços econômicos: i) o espaço defi-
nido como conteúdo de um plano,
sendo este entendido como o conjun-
to das relações estabelecidas entre a
sentar suas principais idéias e iden- MOS, 1988). empresa, seus fornecedores de input
tificar suas implicações de políticas Várias são as teorias que buscam e seus compradores de output. É
econômicas, analisando como estas explicar a dinâmica regional, ou seja, mutável no tempo e independe de
influenciaram o planejamento regi- o processo de determinação da ren- seu espaço vulgar; ii) o espaço defi-
onal no Brasil entre 1950 e 1980, à da urbana que é a expressão e a cau- nido como campo de forças, consti-
medida que as mesmas se desenvol- sa do movimento do capital no es- tuído por centros de emanação de
viam e assumiam determinada po- paço, como aquelas desenvolvidas forças centrífugas e recepção de for-
sição no mainstream econômico. por Gunnar Myrdal, Albert ças centrípetas. Cada centro tem seu
Na segunda seção do trabalho Hirschman, François Perroux, próprio campo, que é invalidado
são discutidas as principais caracte- Jacques Boudeville e Douglass C. pelos campos de outros centros. A
rísticas dos estudos realizados pelos North. Estes teóricos procuraram zona de influência econômica da
teóricos acima relacionados e suas demonstrar que uma vez estabele- empresa é determinada por sua ca-
recomendações de política econômi- cidas as vantagens ou desvantagens pacidade de atrair elementos econô-
ca. Na terceira seção é realizada uma comparativas dos espaços econômi- micos e pode ou não estar relaciona-
breve análise sobre a atuação do Es- cos, iniciam-se movimentos migra- da à sua zona de influência topográ-
tado no processo de desenvolvimen- tórios do capital, cujos resultados fica; e iii) o espaço definido como
to recente da economia brasileira e expressar-se-ão em determinada di- conjunto homogêneo. As relações de
como esta foi influenciada pelas teo- nâmica regional, isto é, em relativo homogeneidade dizem respeito às
rias analisadas. Em seguida são rea- vigor ou estagnação do processo de unidades ou às relações entre estas
lizadas as considerações finais. acumulação em uma região. A seguir unidades (quaisquer que sejam as
serão expostas as principais idéias coordenadas no espaço vulgar, o es-
2. Teorias sobre a Dinâmica defendidas por estes teóricos, iden- paço econômico ocupado por estas
Regional e Implicações de tificando suas principais implicações empresas é o mesmo). A determina-
Políticas Econômicas de políticas econômicas. ção destes espaços econômicos é bas-
O estudo sobre a dinâmica regi- tante complexa, pois “o espaço da
onal supõe a definição preliminar do 2.1 Teoria dos polos de Cresci- economia nacional não é o território
conceito de região para evitar impre- mento: F. Perroux e Jacques da nação, mas o domínio abrangido
cisões sobre o próprio objeto de es- R. Boudeville pelos planos econômicos do gover-
tudo. A utilização do conceito de François Perroux foi um dos pri- no e dos indivíduos” (PERROUX,
uma região é justificada pela hipóte- meiros teóricos a contestar, em uma 1967, p.158).
se de que a mesma cresce ou declina série de trabalhos desenvolvidos na Para Perroux (1967, p. 164) o pro-
como um todo, ao invés de ter suas década de 1950, a noção vulgar e ine- cesso de crescimento é irregular, pois
variações de renda como a soma ale- xata de espaço utilizada nas análises “o crescimento não surge em toda
atória de variações independentes econômicas realizadas até então, parte ao mesmo tempo; manifesta-
nas atividades nela localizadas. É pois a mesma resultava na coinci- se com intensidades variáveis, em

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pontos ou polos de crescimento; pro- grandes polos e os espaços politica-
Vale salientar
paga-se, segundo vias diferentes e
com efeitos finais variáveis, no con-
junto da economia”. Seus principais
“ que para Perroux a
mente organizados dos Estados Na-
cionais; e 2) políticas nacionais ultra-
passadas podem gerar desperdícios
aspectos estão relacionados às vari- noção de polo só tem que prejudicam o desenvolvimento.
ações da estrutura econômica naci-
onal, que consiste no aparecimento
valor a partir do Também é preciso destacar que
a implantação de um polo de desen-
e desaparecimento de indústrias e momento em que se volvimento provoca uma série de
em taxas de crescimento diferencia- desequilíbrios econômicos e sociais,
das para as indústrias no decorrer do
torna instrumento de pois distribui salários e rendimentos
tempo. O aparecimento de uma in- análise e meio de adicionais sem aumentar necessari-
dústria nova (ou grupo de indústri- amente a produção local de bens de
as) ou o crescimento de uma indús- ação de política, ou consumo, concentra o investimento
tria existente possui efeitos de pro- seja, o mesmo e a inovação sem necessariamente
pagação na economia através de pre- aumentar a vantagem de outros lo-
ços, fluxos e antecipações. Assim, só pode ser cais, nos quais o desenvolvimento
para analisar essa modalidade de entendido como uma pode ser retardado. Por este motivo,
crescimento é preciso considerar o o desenvolvimento territorial só
papel desempenhado pela indústria visão abstrata de pode ser alcançado através da orga-
motriz, pelo complexo de indústri- espaço... nização dos meios de propagação
as e pelo crescimento dos polos de
desenvolvimento.
As indústrias motrizes seriam

perior àquela que resultaria de uma
indústria sujeita a um regime maior
dos efeitos dos polos de desenvolvi-
mento e da realização de transforma-
ções de ordem mental e social na
aquelas que “mais cedo do que as de concorrência; e c) a concentração população, o que possibilitaria o
outras, desenvolvem-se segundo for- territorial do complexo: em um com- aumento cumulativo e duradouro do
mas que são as da grande indústria plexo industrial em expansão e geo- produto real (PERROUX, 1967). Nos
moderna” (PERROUX, 1967, p. 166), graficamente concentrado, regis- países subdesenvolvidos, que se ca-
cujas taxas de crescimento são mais tram-se efeitos de intensificação das racterizam por serem economias de-
elevadas do que a taxa média de cres- atividades devido à proximidade e sarticuladas, duais e nas quais gran-
cimento do produto industrial e do à concentração urbana. de parte da população não tem aces-
produto da economia nacional du- O polo de desenvolvimento seria so às condições mínimas de conhe-
rante determinados períodos. Estas uma unidade econômica motriz ou cimento, saúde, etc., é essencial rea-
indústrias exercem ações específicas um conjunto formado por várias des- lizar estas transformações para esti-
sobre as demais e sobre a economia sas unidades que exercem efeitos de mular a propensão a poupar, o in-
como um todo, pois seu lucro tam- expansão sobre outras unidades com vestimento, a inovação, etc. Neste
bém é influenciado pelo volume de as quais se relaciona. Vale salientar sentido, o papel das instituições é
produção e compra de serviços de que para Perroux a noção de polo só fundamental para a elaboração e a
outras empresas, o que caracteriza tem valor a partir do momento em aplicação de políticas econômicas,
economias externas e evidencia a que se torna instrumento de análise cujo objetivo deve ser o desenvolvi-
importância das inter-relações in- e meio de ação de política, ou seja, o mento técnico e humano e a coope-
dustriais. mesmo só pode ser entendido como ração entre regiões ricas e pobres
O complexo de indústrias seria uma visão abstrata de espaço. (desenvolvimento recíproco).
composto por três elementos princi- Assim, uma economia nacional Segundo Perroux (1967, p. 204),
pais: a) a indústria-chave ou motriz, apresenta-se como uma combinação os polos de desenvolvimento cons-
que tem a propriedade de, mediante de conjuntos relativamente ativos tituem peça fundamental neste pro-
o aumento do seu volume de produ- (indústrias motrizes, polos de indús- cesso, pois “a nação do século XX
ção e de compra de serviços produ- tria e de atividades geograficamente encontra nos mesmos a sua força e o
tivos, aumentar o volume de produ- concentradas) e de conjuntos relati- seu meio vital”. É preciso conceber
ção e compra de serviços de outra(s) vamente passivos (indústrias movi- eixos de desenvolvimento entre os
indústria(s), chamada(s) movida(s); das, regiões dependentes dos polos polos situados em pontos diferentes
b) o regime não concorrencial do geograficamente concentrados). Os do território, o que implica em ori-
complexo, que é instável por ser uma primeiros induzem nos segundos entações determinadas e duradouras
combinação de forças oligopolís- fenômenos de crescimento. Isto gera de desenvolvimento espacial. A aná-
ticas, responsáveis por elevar a pro- duas consequências para a análise do lise de Perroux não leva a uma con-
dutividade da indústria e pela reali- crescimento: 1) possibilidade de con- clusão imediata e simples de políti-
zação de acumulação de capital su- flito entre espaços econômicos de ca econômica, mas orienta algumas

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belecido o espaço é um programa/ de política e reflete a compatibilida-
Coesão,

complementaridade e
plano.
Porém, ao contrário de Perroux,
Boudeville conceitua região, que di-
de de planos dos diferentes centros
de decisão do espaço econômico con-
siderado. Coesão, complementarida-
cooperação são fere do espaço devido à contiguidade de e cooperação são fundamentais
fundamentais para o da superfície, o que facilita a ação
coletiva e o estabelecimento de um
para o crescimento harmonizado, o
que evidencia a necessidade de polí-
crescimento plano de ação para alcançar objeti- ticas de colaboração entre as regiões.
vos comuns. A região é homogênea Estas não devem ser consideradas
harmonizado, o que quando corresponde a um espaço entidades independentes no territó-
evidencia a contínuo onde cada uma de suas par- rio nacional, mas partes do todo, li-
tes apresenta características seme- gadas às demais unidades regionais
necessidade de lhantes. A região é polarizada quan- e subordinadas a concepção nacio-
políticas de do se considera a interdependência nal do bem comum. Segundo
das aglomerações urbanas, onde Boudeville (1970, p. 71): La
colaboração entre as suas diversas partes são complemen- coopération régionale se justifie
regiões... tares, em um sistema hierarquizado essentiellement par l’interdépen-dance

decisões práticas e evidencia a im-


portância não apenas dos grandes
” de acordo com os bens produzidos3.
A região é uma região-plano quan-
do considerada como um espaço
des problèmes qui lient des régions
contigúes, qu’il s’agisse de l’activité
courant ou du développe-ment à long
contínuo onde as diversas partes es- terme.
empresários privados neste proces- tão sob uma mesma decisão. A re- Como exemplo de política,
so, mas também dos poderes públi- gião-plano funciona como um ins- Boudeville evidencia a importância
cos e suas iniciativas, bem como das trumento de ação de políticas, sua dos centros urbanos e das bacias flu-
pequenas inovações. definição deve maximizar os efeitos viais para integrar a economia naci-
Cabe salientar, como destacado de um programa de desenvolvimen- onal, dada a posição estratégica das
por Rolim (1982, p. 582), que Perroux to do território (localização de uma mesmas (exemplos: Vale do
nunca se referiu a uma região no sen- indústria motriz, novos meios de Tennessee, Vale do São Francisco e
tido econômico: “O conceito de região comunicação, rodovias, novas fontes Vale de Moselle-Saône-Rhône). Vá-
econômica nunca foi relevante para de energia, etc.) e, por este motivo, rias são as medidas de intervenção:
ele, que as encarava como um fato”. devem existir tantas regiões-plano coordenação de transportes, energia,
Seguindo os passos de Perroux, quantos problemas nacionais. irrigação, educação, saúde, serviços
Jacques-R Boudeville trabalhou as Estas noções de espaço e de re- públicos, incentivos fiscais, infra-
noções de espaço, com o intuito de gião são distintas, complementares estrutura, etc., cujo impacto regional
conceder-lhes um caráter mais e passíveis de observação estatística, depende da estrutura de mercado, da
operacional e uma ênfase territorial. o que é essencial para a concepção matriz técnica e dos coeficientes de
O espaço seria uma realidade con- de uma política regional. Entretan- polarização, considerando também
creta, ao mesmo tempo, material e to, apesar destes conceitos serem as particularidades das economias
humana. Seria o espaço das relações mais concretos do que aqueles defi- subdesenvolvidas, as trocas inter-
existentes entre dois conjuntos, das nidos por Perroux, o estabelecimen- regionais e a tendência irregular do
atividades econômicas e dos lugares to de suas fronteiras continua com- processo de crescimento.
geográficos, e uma maneira de ana- plexo, pois nem sempre as mesmas Assim, Boudeville refere-se à ne-
lisar todas as localizações possíveis coincidem com suas unidades admi- cessidade de políticas econômicas
das atividades. Este espaço apresen- nistrativas (e as próprias regiões pro- para harmonizar o crescimento, en-
ta características dinâmicas e, por gramas não necessariamente coinci- quanto Perroux considerava o plano
isso, é mutável. Assim como dem com as regiões polarizadas ou de ação como sendo de unidades
Perroux, Boudeville distingue três homogêneas). produtoras, apenas referindo-se a
noções de espaço: i) do ponto de vis- Boudeville destaca então a im- possibilidade dessa unidade ser es-
ta econômico o espaço pode se ca- portância dos instrumentos de polí- tatal. Boudeville esforça-se em con-
racterizar de acordo com sua maior tica regional como meio de orienta- ceder caráter pragmático à análise
ou menor uniformidade, ou seja, o ção dos polos de desenvolvimento espacial, enfatizando os aspectos
espaço é homogêneo; ii) do ponto de urbano. A integração do território passíveis de utilização em planeja-
vista das interdependências e hierar- nacional é um objetivo indiscutível mento (ROLIM, 1982).
quias de suas partes o espaço é po-
larizado; e iii) do ponto de vista do
centro de decisão e do objetivo esta- 3
Similar a rede de cidades desenvolvida por Walter Christaller (1966).

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2.2 Desenvolvimento Econômico movimenta sobre a influência de
Se não
e o Processo de Causação Cir-
cular Cumulativa: a lógica de
Gunnar Myrdal

ocorrerem mudanças
questões exógenas. Deve-se identifi-
car os fatores que influenciam o pro-
cesso, quantificar como os mesmos
Os aspectos mais relevantes so- exógenas nesta interagem e influenciam uns aos ou-
bre a dinâmica regional são analisa-
dos de forma bastante intuitiva por
localidade a mesma tros e como são influenciados por fa-
tores exógenos, pois são justamente
Myrdal (1957). O autor evidencia as se tornará cada vez estes últimos que movem o sistema
disparidades econômicas existentes continuadamente, ao mesmo tempo
entre países, classificados em dois
menos atrativa, de tal em que mudam a estrutura das for-
grupos: os países “desenvolvidos”, forma que seus ças dentro do próprio sistema, o que
caracterizados por altos níveis de justifica a intervenção pública. Quan-
renda per capita e integração nacio- fatores de produção, to mais se conhece sobre a forma de
nal, como, por exemplo, os países capital e trabalho, interação dos diferentes fatores ana-
pertencentes à Europa Ocidental, e lisados, mais adequados serão os es-
os países “subdesenvolvidos”, carac- migrarão em busca de forços de políticas adotados e maior
terizados por baixos níveis de renda novas oportunidades, será a probabilidade de maximizar os
per capita e de crescimento, como, por efeitos da mesma.
exemplo, os países da África e da provocando uma Assim, um processo de C.C. C é
América Latina. Além disso, o autor nova diminuição da válido para explicar uma infinidade
destaca que também há disparidades de relações sociais, como, por exem-
de crescimento dentro dos próprios renda e da demanda plo, a perda de uma indústria em
países. A partir destas constatações locais... determinada região. Os efeitos ime-
ele realiza as seguintes generaliza-
ções: i) há um pequeno grupo de
países em uma situação econômica mica regional, baseada em um pro-
” diatos desta perda são o desempre-
go e a diminuição da renda e da de-
manda locais. Estes por sua vez pro-
bastante favorável e um grupo mui- cesso de causação circular cumula- vocam uma queda da renda e da de-
to maior de países em uma situação tiva (C.C. C), na qual o sistema eco- manda nas demais atividades da re-
desfavorável; ii) os países do primei- nômico é algo eminentemente instá- gião, o que já configura um proces-
ro grupo apresentam um padrão de vel e desequilibrado. so de C.C. C em um ciclo vicioso. Se
desenvolvimento econômico contí- O autor recorre à noção de ciclo não ocorrerem mudanças exógenas
nuo e o oposto ocorre no segundo vicioso para explicar como um pro- nesta localidade a mesma se tornará
grupo; e iii) nas últimas décadas au- cesso se torna circular e cumulativo, cada vez menos atrativa, de tal for-
mentaram as disparidades econômi- no qual um fator negativo é ao mes- ma que seus fatores de produção, ca-
cas entre os dois grupos de países. mo tempo causa e efeito de outros pital e trabalho, migrarão em busca
Esta tendência mundial vai de encon- fatores negativos: The concept implies, de novas oportunidades, provocan-
tro ao que tem ocorrido dentro das of course, a circular constellation of for- do uma nova diminuição da renda e
fronteiras dos países desenvolvidos ces tending to act and react upon one da demanda locais. Este argumento
e ao encontro do que tem ocorrido another in such a way as to keep a poor também é válido para mudanças ini-
nas fronteiras dos países subdesen- country in a state of poverty (MYRDAL, ciais positivas, como a implantação
volvidos, que ainda possuem gran- 1957, p.11). O processo cumulativo de uma nova indústria ou a dimi-
des disparidades internas entre in- pode ocorrer nas duas direções, po- nuição de impostos, que geram
divíduos, classes e regiões. sitiva e negativa, e o mesmo, se não oportunidades de emprego, renda e
Segundo Myrdal, a teoria econô- regulado tende a aumentar as demanda por bens e serviços, au-
mica não possuía instrumentos ade- dispari-dades entre regiões. Myrdal mentando a atratividade local, a
quados para lidar com os problemas (1957) defende a idéia de que o pro- possibilidade de explorar novas ati-
das disparidades regionais, pois a cesso de C.C. C reflete de maneira vidades, a poupança e o investimen-
hipótese do equilíbrio estável era in- mais realista as mudanças ocorridas to (economias externas). Por este
suficiente para explicar a complexi- na sociedade, pois não há uma ten- motivo, Myrdal destaca a importân-
dade do sistema econômico. A sepa- dência automática das forças econô- cia de Estados Nacionais integrados
ração entre fatores econômicos e não- micas em direção a um ponto de e da organização social, visto que in-
econômicos limitava a análise, pois equilíbrio social. tervenções públicas podem contra-
estes últimos podem ser relevantes O objetivo da Teoria da Causação balançar/neutralizar a lei de funci-
para a explicação do processo. As- Circular Cumulativa seria então ana- onamento do sistema de C.C.C,
sim, o autor desenvolveu uma teo- lisar as inter-relações causais de um minimizando as disparidades entre
ria para explicar a dinâmica econô- sistema social enquanto o mesmo se as regiões.

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Myrdal possui uma visão nega- novas tecnologias. Se a expansão for vidos deve ser o entendimento co-
tiva sobre a tendência à concentra- forte o suficiente para cobrir os efei- mum que os mesmos necessitam de
ção espacial das atividades econômi- tos de polarização dos centros mais um plano de desenvolvimento e
cas, pois se as forças de mercado não antigos, novos centros econômicos integração nacional. Este plano deve
forem controladas por uma política autossustentáveis surgirão. Contu- ser concebido como um programa
intervencionista, a produção indus- do, para Myrdal, estes efeitos se estratégico para intervir nas forças
trial e as demais atividades econô- contrabalancearão de tal forma que de mercado e desse modo condicio-
micas e culturais, tendem a se con- as demais regiões continuarão rela- ná-las a impulsionar o progresso so-
centrar em determinadas localida- tivamente estagnadas. O problema cial. Devido às muitas deficiências
des, deixando o resto do país relati- das disparidades torna-se então um existentes nos países subdesenvolvi-
vamente estagnado. A origem de problema de diferentes taxas de dos é aceitável que o Estado assuma
todo este processo estaria no fato de progresso entre regiões em um mes- várias funções, intervindo no siste-
o poder atual de atração de um cen- mo país. ma de C.C.C, estimulando o desen-
tro econômico residir em um fato Para explicar o porquê da dimi- volvimento e aumentando o padrão
histórico fortuito, ou seja, ter se ini- nuição das disparidades regionais de vida da população. São necessá-
ciado com êxito ali e não em outros nos países desenvolvidos e o aumen- rias medidas para compensar os efei-
lugares, onde poderia do mesmo to da mesma nos países subdesenvol- tos de polarização do comércio inter-
modo ter começado com igual ou vidos, Myrdal evidencia que os pró- regional, para incentivar o investi-
maior êxito. Assim, os movimentos prios efeitos gerados pela expansão mento, influenciar a alocação do ca-
do capital, do trabalho e dos bens e funcionam como fatores do proces- pital em diferentes regiões, melho-
serviços não neutralizam por si só a so cumulativo: quanto maior o nível rar a infraestrutura de transportes,
tendência de concentração regional. de desenvolvimento econômico de estimular a instalação de novas plan-
Na realidade eles constituem os um país, maiores os spread effects e tas industriais, gerar capacidade de
meios pelos quais o processo cumu- mais facilmente os backwash effects importação para adquirir máquinas
lativo evolui entre as regiões desen- são neutralizados. Em compensação, e equipamentos, aumentar a produ-
volvidas e as estagnadas. Nas pala- nas regiões pobres ocorre o contrá- tividade da agricultura, bem como
vras do autor (1957, p.27): In gene- rio, o baixo nível de desenvolvimen- investir em saúde e educação, esti-
ral, if they have positive results for the to minimiza os spread effects justa- mulando o crescimento equitativo. O
former, their effects on the latter are mente pela existência de grandes planejamento deve ser cuidadoso e
negative. Ou seja, a expansão de uma disparidades, ou seja, estas represen- englobar diferentes setores, econô-
localidade gera backwash effects (efei- tam um dos maiores impedimentos micos e sociais. O propósito princi-
tos de polarização) nas demais, au- para o progresso. pal da política governamental deve
mentando as disparidades regionais Além disto, nos países subdesen- ser o estímulo dos spread effects entre
por meio da migração seletiva, dos volvidos a adoção de medidas de regiões e ocupações.
fluxos de capitais e do livre comér- redução das disparidades regionais Assim, o processo de C.C.C pode
cio em prol das regiões ricas e avan- para compensar os backwash effects e deve ser afetado por políticas. O
çadas. Além disso, o processo de gerados pelo mercado foi bem mais plano nacional representa o compro-
C.C.C pode ser desencadeado por tímida, o que pode ser explicado pelo misso do governo com o desenvol-
vários fatores que não são conside- caráter cumulativo das mesmas (de- vimento. Este planejamento deve ser
rados na análise das forças de mer- pendem do próprio nível de desen- realizado em termos reais e não em
cado, como o sistema de transpor- volvimento). Isto não significa que termos dos custos e dos lucros das
tes, a qualidade do ensino e da saú- nada foi feito, mas é preciso ir além, empresas individuais, porque mui-
de pública, etc. Assim, todas as como fizeram os países desenvolvi- tos dos investimentos necessários
mudanças adversas originadas fora dos (via welfare state), incluindo em não são lucrativos do ponto de vista
da região, sejam elas econômicas ou suas ações reformas da seguridade do mercado e têm o propósito de cri-
não, são consideradas backwash social e taxação progressiva, para ar economias externas, aumentando
effects pelo autor. inter-relacionar progressos econômi- a competitividade futura da econo-
Simultaneamente são gerados co e social cumulativos e buscar a mia. O resultado final deve ser o au-
spread effects (efeitos propulsores) igualdade de oportunidades entre mento da renda e da produção em
que agem em direção contrária aos regiões. Em outras palavras, a ação um processo de C.C.C, superior aos
backwash effects. Representam gan- estatal é fundamental e indispensá- gastos iniciais das políticas adotadas.
hos obtidos pelas regiões estagna- vel para controlar as forças de mer- Contudo, é preciso salientar que
das por meio do fornecimento de cado e evitar a ação concentradora apesar da intervenção ser indispen-
bens de consumo e/ou matérias- das mesmas. sável seu resultado é incerto devido
primas para a região em expansão, A principal mudança nas políti- à própria dinâmica do processo de
bem como os transbordamentos de cas adotadas em países subdesenvol- C.C.C. Deve-se aproveitar o que há

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toda parte e que tende a se concen- so investigar como o investimento
A dinâmica do
“ desenvolvimento é
trar espacialmente em torno do pon-
to onde se inicia, o que é fundamen-
tal para uma análise estratégica do
é determinado e cresce em países
subdesenvolvidos (não começar
com idéias preconcebidas).
ainda mais mesmo. O planejamento do desen- A questão crucial para o desen-
complexa nos países volvimento deve consistir no estabe-
lecimento de estratégias sequenciais,
volvimento é dada pela capacidade
de investir (the ability to invest), que
subdesenvolvidos, considerando que a utilização dos depende dos setores mais modernos
recursos tem impactos diferenciados da economia e do empreended-
pois seus obstáculos sobre os estoques disponíveis, con- orismo local. Quanto mais baixo o
são bem mais duzindo a formação de capital com- nível de desenvolvimento do país,
plementar em outras atividades de menor será esta capacidade, não por-
estruturais do que acordo com a capacidade de apren- que ela é baixa em si, mas devido à
cíclicos... dizado local. sua relação com a renda nacional


de melhor na experiência internaci-
A dinâmica do desenvolvimento
é ainda mais complexa nos países
subdesenvolvidos, pois seus obstá-
(círculo vicioso). Assim, basear o
desenvolvimento apenas em setores
modernos é mais difícil e custoso nos
onal. As técnicas utilizadas nos paí- culos são bem mais estruturais do países subdesenvolvidos, pois estas
ses desenvolvidos devem ser anali- que cíclicos. Nestes países, poupan- iniciativas são escassas nos mesmos.
sadas de forma crítica e aplicadas à ça e investimento são relativamente Por este motivo Hirschman realiza
realidade dos países subdesenvolvi- interdependentes, e, por esse moti- a seguinte indagação (1958, p. 41): “is
dos, ao mesmo tempo em que são vo, o desenvolvimento é menos es- there not some way in which the
indispensáveis investimentos em pontâneo e depende em maior grau energies of the rest of the economy
pesquisa e extensão. Assim, Myrdal de medidas deliberativas. Além dis- can be utilized so as to produce
expõe de forma simples os elemen- so, há duas imagens que inviabili- growth in addition to the trickle that,
tos essenciais de qualquer plano na- zam o processo de desenvolvimento in the first stages of development,
cional necessário para o desenvolvi- nestes países: the group-focused e the results from the ability to invest?”
mento de um país e suas regiões, ego-focused image of change. No pri- Ou seja, para o autor, dada a insufi-
enfatizando a necessidade de com- meiro caso os indivíduos pensam na ciência de cooperação e empreen-
preender quais medidas são mudança econômica como algo que dedorismo nestes países, é preciso
factíveis. deve afetar igualmente todos os estimular atividades rotineiras (easy-
membros do grupo a que pertencem, to-exploit), cujo sucesso depende
2.3 Desenvolvimento Desigual e o que leva a dispersão dos fundos muito menos de fatores incertos do
Transmissão Inter-regional governamentais em diversas locali- que a inovação, tornando os investi-
do Crescimento sob a ótica de dades, impedindo padrões mais di- mentos uma força capaz de compen-
Albert O. Hirschman nâmicos de mudança. No segundo sar estas dificuldades, por meio de
O objetivo do estudo elaborado caso, o progresso econômico é alcan- seus efeitos de complementaridade,
por Hirschman (1958) é analisar o çado a partir da mudança concebida inclusive intertemporais.
processo de desenvolvimento econô- pelo indivíduo não visualizado den- A idéia de que o desenvolvimen-
mico e como o mesmo pode ser tro do grupo, o que diminui a coo- to deve ocorrer simultaneamente em
transmitido de uma região (ou país) peração e a capacidade empreende- muitas atividades é criticada por
para outra. Para o autor, as teorias dora. Hirschman, pois isto gera expectati-
sobre o crescimento econômico ela- Nestes países a desvantagem vas irreais e enclaves na economia.
boradas até então (por exemplo, the oriunda da escassez de recursos re- Na realidade, o desenvolvimento
balanced growth theory), apesar de se- duz-se a escassez de decisões de in- ocorre como uma cadeia de desequi-
rem extremamente úteis na análise vestimento e a inadequação das me- líbrios durante longo período de
de problemas específicos, não foram didas adotadas. Para Hirschman tempo (unbalanced growth), cuja si-
capazes de explicar as várias inter- (1958, p. 25): the fundamental problem multaneidade é apenas parcial. O
relações deste processo, cuja dinâmi- of development consists in generating crescimento inicia-se nos setores lí-
ca pode ser retratada por ciclos vici- and energizing human action in a deres e transfere-se para os seguin-
osos de extrema complexidade. Nes- certain direction. Dada esta necessi- tes (satélites) de forma irregular/
te sentido, Hirschman desenvolve dade, o autor justifica a utilização desequilibrada. Os desequilíbrios
uma teoria focada na dinâmica es- de mecanismos de intervenção, cujo são fundamentais para a dinâmica
sencial do processo de desenvolvi- principal objetivo deve ser a do crescimento, pois cada movimen-
mento econômico, considerando que efetivação das oportunidades de to da sequência é induzido por um
este não ocorre simultaneamente em investimento locais. Logo, é preci- desequilíbrio anterior e em conse-

RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano XII Nº 21 Julho de 2010 Salvador, BA 11


quência cria um novo desequilíbrio maximizar o retorno das atividades
Para
que requer um novo movimento
(novo conceito de investimento in-
duzido). Em cada um destes estági-

maximizar os linkage
produtivas e minimizar os custos
envolvidos nos dois tipos de inves-
timento, já que os recursos são escas-
os uma indústria usufrui de econo- effects é preciso sos nos países subdesenvolvidos.
mias externas criadas pela expansão
anterior e ao mesmo tempo cria no-
avaliar o grau de Hirschman conclui que não é dese-
jável o equilíbrio entre SOC e DPA,
vas economias externas que serão interdependência pois neste caso não seriam criados
exploradas por outras, dada a incentivos e pressões que induzam
complementaridade existente entre
entre setores e as decisões de investimento, então
as mesmas. A forma como um inves- construir um ranking deve-se optar por um desenvolvi-
timento leva a outro através da mento via escassez de SOC, mas sem
complementaridade e das economi- setorial destes efeitos negligenciá-lo por completo.
as externas é de inestimável ajuda que será útil para o Consideradas as contribuições
para o desenvolvimento e deve ser das atividades SOC, Hirschman dis-
utilizada no processo. planejamento corre sobre dois mecanismos de
Todavia, não se pode esquecer os econômico... indução do investimento que ope-
obstáculos ao desenvolvimento (in-
suficiência de serviços públicos,
infraestrutura logística, etc.) e como

jeto deve ser implantado primeiro,
ram ao longo do próprio setor pro-
dutivo (DPA), quais sejam os
backward linkage effects, relacionados
os mesmos se acentuam depois de uma vez que a sua realização facili- à compra de inputs de outras ativi-
iniciado o processo. Há muitos ta a implantação e a consolidação do dades, e os forward linkage effects, re-
exemplos, especialmente na Améri- projeto posterior). A determinação lacionados ao fornecimento de inputs
ca Latina, de países cujo processo de desta sequência é um importante as- para outras atividades. Através des-
desenvolvimento foi interrompido, pecto do processo de desenvolvi- tes efeitos, a implantação de uma
dando origem a enclaves, o que de- mento e evidencia que investimen- indústria (mestre) pode induzir o
monstra a dificuldade em manter a tos isolados obtêm sucesso apenas surgimento de várias outras, chama-
regularidade do processo. Se o cres- durante determinado período. Por das indústrias satélites, cujas princi-
cimento começa em alguns pontos e este motivo a mesma não é algo pais características são: i) forte van-
não em todos os lugares ao mesmo crucial e varia de região para região tagem locacional devido à proximi-
tempo, então tensões surgirão natu- de acordo com as especificidades lo- dade da indústria mestre; ii) seu
ralmente entre setores modernos e cais. principal input é um output da indús-
tradicionais da economia, por isso Para determinar esta sequência tria mestre ou seu principal output é
justifica-se a intervenção nestas ati- ótima é preciso diferenciar projetos um input da indústria mestre; e iii)
vidades e a importância de se ter baseados em atividades Social sua escala mínima de produção é
uma estratégia de desenvolvimento. Overhead Capital (SOC) e Directly menor do que a escala da indústria
Assim, as decisões de investi- Productive Activities (DPA). No pri- mestre. O estabelecimento destas in-
mento tornam-se a principal questão meiro caso são considerados os ser- dústrias é praticamente certo uma
da teoria sobre o desenvolvimento viços básicos, como saúde, educação, vez que a indústria mestre foi im-
elaborada por Hirschman e princi- transportes, energia, saneamento, plantada, devido à existência de eco-
pal objeto de política econômica. instalações portuárias, rodovias, hi- nomias externas e complemen-
Para alcançar o desenvolvimento é drelétricas, etc., sem os quais as ati- taridade. Para maximizar os linkage
essencial comprometer-se com uma vidades produtivas não podem fun- effects é preciso avaliar o grau de
série de projetos que produzam efei- cionar, ou seja, são praticamente pré- interdependência entre setores e
tos favoráveis sobre o fluxo de ren- requisitos do desenvolvimento eco- construir um ranking setorial destes
da e em uma variedade de áreas (ad- nômico e estimulam o investimento efeitos que será útil para o planeja-
ministração pública, educação, saú- em DPA. No segundo caso são con- mento econômico.
de, transportes, urbanização, agri- sideradas as atividades produtivas A falta de interdependência
cultura, indústria, etc.), cuja realiza- primárias, secundárias e terciárias. setorial e, consequentemente, os bai-
ção é limitada pela capacidade de Realizada esta classificação, deve-se xos linkage effects, constituem as prin-
investimento local. Esta, por sua vez, determinar a sequência ideal entre cipais características das economias
conduzirá ao estabelecimento de um projetos SOC e DPA, de tal forma subdesenvolvidas. Além disso, as
ranking de preferências de projetos que as decisões de investimento atividades industriais nelas localiza-
de acordo com o retorno social dos induzidas sejam maximizadas, o que das, em geral intensivas em trabalho,
mesmos, bem como a sequência ideal não é simples. A combinação entre funcionam em alguns casos como
de sua realização (escolher qual pro- estes tipos de investimento deve enclaves de exportação e importa-

12 Ano XII Nº 21 Julho de 2010 Salvador, BA RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO


ção, cuja natureza é enfatizada pela senvolvida. O crescimento do Norte
O Governo
localização da planta em um ponto
relativamente isolado do mercado
nacional. Hirschman destaca que a
tem uma série de implicações sobre
o Sul, algumas favoráveis outras des-
favoráveis. As favoráveis, represen-
“ deve prover a
industrialização voltada para a pro- tadas pelos trickling-down effects, po- infraestrutura social
dução de bens intermediários e/ou
de consumo final pode estimular os
dem ser exemplificadas pelo aumen-
to das compras e dos investimentos
necessária para
linkage effects nestes países, especial- do Norte no Sul, principalmente se impulsionar a
mente os backward effects, sendo es- estas duas economias são comple-
tes fundamentais para o processo de mentares. Por outro lado, os efeitos
atividade produtiva
desenvolvimento (HIRSCHMAN, desfavoráveis (polarization effects) es- (serviços públicos,
1958, p. 112): backward linkages effects tão relacionados ao aumento da
are important not only from secondary competitividade do Norte e ao seu infraestrutura logística,
back to primary production, but also poder de barganha, além da migra- legislação, etc.) e
from tertiary back to both secondary and ção seletiva. Ao contrário de Myrdal
primary production. Assim, ele elabo- (1957), Hirschman possui uma visão elaborar uma
ra um modelo de formação de capi- otimista sobre este processo, pois estratégia de
tal baseado principalmente nos para ele os trickling-down effects serão
backward linkage effects, visto que they superiores aos polarization effects, o desenvolvimento...
que permitirá ao Sul crescer a partir
are much neater than forward linkage
effects” (HIRSCHMAN, 1958, p.116),
dada a necessidade de inovação e
antecipação da demanda neste últi-
da expansão do Norte. Fator funda-
mental para assegurar este resulta-
do positivo é a ação dos policy makers soberania” (equivalents of sovereignty),

mo caso, o que é muito mais compli- (contrabalançar os efeitos de polari- que seriam instituições e/ou progra-
cado. A adoção de políticas zação desde o princípio e investir em mas regionais, destinados a impul-
intervencionistas (tarifas, subsídios, utilidades públicas, essenciais para sionar o desenvolvimento, como, por
etc.) para estimular o desenvolvi- despertar a capacidade empreende- exemplo, as Superintendências de
mento de indústrias mestres nos pa- dora da região estagnada). Desenvolvimento Regional no Bra-
íses subdesenvolvidos e maximizar Comparando a transmissão do sil. Uma política para diminuir o gap
os linkage effects é, assim, justificada. crescimento entre países e entre re- entre Norte e Sul requer o uso deste
Para completar sua análise, giões, Hirschman destaca que no tipo de instrumento, mesmo que ele
Hirschman discute como o cresci- âmbito internacional a transmissão pareça ir de encontro à integração
mento é transmitido de uma região é muito mais suave devido aos pró- nacional.
para outra, evidenciando que, dada prios obstáculos existentes entre Es- Concluindo seu trabalho,
sua irregularidade, o processo de tados Nacionais (legislação, cultura, Hirschman realiza algumas conside-
desenvolvimento implica inevitavel- língua, religião, etc.). A partir desta rações sobre o papel do governo e
mente em diferenças nos níveis de constatação ele discute arranjos do capital estrangeiro no processo de
crescimento regionais e internacio- institucionais ótimos: para uma re- desenvolvimento econômico. O Go-
nais. O desenvolvimento de uma lo- gião estagnada e subdesenvolvida é verno deve prover a infraestrutura
calidade gera pressões e tensões em melhor ser um país ou uma região? social necessária para impulsionar a
direção às localidades subseqüentes, Os trickling-down effects são mais for- atividade produtiva (serviços públi-
o que resulta em áreas desenvolvi- tes entre regiões do que entre países, cos, infraestrutura logística, legisla-
das e subdesenvolvidas (sejam paí- o que pode trazer maiores benefíci- ção, etc.) e elaborar uma estratégia
ses, regiões, estados, etc.). Para os para estas. Entretanto, a sobera- de desenvolvimento, induzida e
Hirschman é fundamental que os nia nacional é capaz de minimizar os indutora, com a determinação das
investimentos sejam concentrados efeitos de polarização, o que funcio- áreas prioritárias para o desenvolvi-
no ponto de crescimento inicial du- na como uma medida de proteção. mento. Já o capital externo deve ser-
rante determinado período, o que O ideal seria poder funcionar como vir como força de equilíbrio quando
auxilia a consolidação do crescimen- cada um destes arranjos quando ne- o governo não tem a capacidade de
to econômico. A partir deste ponto cessário, minimizando os efeitos de agir e permitir a continuidade do
de expansão inicial surgirão dois ti- polarização e maximizando os efei- processo de crescimento sob a con-
pos de efeitos: trickling-down e tos de dispersão. Uma medida que corrência externa. Estes são dois fa-
polarization effects. Para explicar como um país pode adotar para avançar tores que permitirão lidar com pres-
estes efeitos funcionam, Hirschman neste sentido é conceder autonomia sões inflacionárias, desequilíbrios do
divide um país em duas regiões: relativa para sua região mais estag- balanço de pagamentos e o cresci-
Norte, desenvolvida, e Sul, subde- nada por meio de “equivalentes de mento populacional.

RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano XII Nº 21 Julho de 2010 Salvador, BA 13


2.4 A Teoria da Base de Exporta- signar coletivamente os produtos tituir por trabalho local atividades
ção de Douglass C. North exportáveis de uma região. O desen- antes importadas) continuadamen-
A Teoria da Base de Exportação volvimento de um artigo de exporta- te, pois once a serious pratictal problem
foi elaborada por North na década ção refletia uma vantagem compara- has appeared in an economy, it can only
de 1950 devido às inadequações, se- tiva nos custos relativos da produção, be eliminated by adding new goods and
gundo o mesmo, das teorias da loca- incluindo custos de transferência e, à services into economic life (JACOBS,
lização e do crescimento regional medida que as regiões cresciam em 1969, p. 104). Neste sentido, duas va-
para explicar a dinâmica da econo- torno desta base eram geradas econo- riáveis trabalham em conjunto para
mia norte-americana, que não mias externas, que, por sua vez, esti- formar um sistema recíproco de
correspondia à sequência de estági- mulavam a competitividade dos ar- crescimento (reciprocating system):
os de desenvolvimento descrita pe- tigos exportáveis. A base de exporta- exportações e importações. Se uma
las mesmas (economia de subsistên- ção desempenhava assim papel fun- delas falhar, toda dinâmica do sis-
cia, desenvolvimento do comércio e damental na conformação da econo- tema é comprometida. Há dois efei-
da especialização local, comerciali- mia de uma região e em seus níveis tos multiplica-dores em ação neste
zação inter-regional e diversificação de renda absoluta e per capita e, sistema:
das atividades agropecuárias, indus- consequentemente, sobre a dinâmica i) O efeito multiplicador das ex-
trialização e especialização em ativi- das atividades locais que se desenvol- portações: a especialização da pro-
dades terciárias para exportação). veriam, a distribuição da população, dução interna de determinados bens
Esta falta de correspondência é o padrão de urbanização, etc. e serviços de consumo local permite
justificada pelo fato deste país ter Estes conceitos de base de expor- que os mesmos passem a ser expor-
sido colonizado como um empreen- tação, de economias externas e suas tados, o que gera renda, estimula o
dimento capitalista. O crescimento e implicações estão intimamente rela- emprego local e viabiliza o aumento
o povoamento de suas regiões foram cionados com as idéias desenvolvi- das importações. Uma parte destas
determinados pela dinâmica do mer- das por Jane Jacobs. Num esforço importações atende diretamente a
cado mundial, o que resultou em para elaborar uma teoria sobre o demanda do trabalho exportador; a
algo muito distinto do que o descri- crescimento econômico das cidades, outra parte (extra) é incorporada à
to pela teoria do desenvolvimento esta autora lança em 1969 o livro The parcela de bens e serviços consumida
regional (não foi um aumento gra- Economy of Cities, no qual ela descre- pela crescente população trabalha-
dual dos mercados). Isto não quer ve como as próprias cidades possi- dora ou à demanda dos produtores
dizer que não havia atividades de bilitam o avanço das mais variadas de atividades voltadas para o mer-
subsistência nestas regiões, apenas atividades, inclusive agrícolas, devi- cado interno. Estas importações ex-
demonstra que estas não tinham im- do às facilidades, inovações e espe- tras possibilitam o aumento e a di-
portância na configuração do desen- cializações existentes nas mesmas. versificação da produção local. Este
volvimento econômico regional. De Segundo Jacobs (1969), para crescer movimento interno permite que as
acordo com North, a história econô- é essencial exportar e produzir inter- exportações aumentem novamente
mica do Pacifico Noroeste, cujo de- namente bens e serviços. Uma cida- de tal forma que o processo continua
senvolvimento foi baseado na pro- de (região ou país) cresce através de em um círculo virtuoso. Quanto
dução e exportação de três produtos um processo de diversificação e di- maior o número de atividades locais
principais (trigo, farinha e madeira), ferenciação gradual de sua econo- que ofertam bens e serviços para as
é ideal para demonstrar sua mia, estimulado por um trabalho atividades exportadoras, maior será
constatação. Os mercados extrarre- exportador (inicialmente recursos o multiplicador oriundo do trabalho
gionais sempre foram alvo da pro- naturais, artesanato, etc.) e uma pro- exportável. O efeito líquido é um
dução regional e sua taxa de cresci- dução voltada para o mercado inter- crescimento consistente no volume
mento esteve diretamente relaciona- no. No decorrer do processo de cres- e na variedade das exportações e da
da às exportações básicas (entre 1860 cimento econômico é essencial que produção destinada ao mercado lo-
e 1920, 40% a 60% da renda regional os produtos internos passem a ser cal, se o processo continua de forma
tinham origem no setor exportador). exportados e que novos produtos vigorosa. A capacidade de desenvol-
As demais atividades do setor secun- sejam criados para o mercado inter- ver novos bens e serviços para expor-
dário e do terciário destinavam-se a no. Ou seja, adicionar novo trabalho tação é essencial neste processo de
atender às necessidades de consumo é fundamental para criar e recriar crescimento, pois segundo Jacobs
local. Todo o desenvolvimento da economias. Então, para se desenvol- (1969, p. 135): The generation of new
região dependeu desde o início de ver é essencial o crescimento do pro- exports provides this room for local
sua capacidade de produzir artigos duto e a adição de trabalho em dife- expansion of work, owing to the export-
exportáveis. rentes períodos de tempo, ou seja, multiplier effect. That effect is thus of the
North desenvolveu então o con- para prosperar é preciso inovar (adi- essence in the reciprocating system of city
ceito de base de exportação para de- cionar trabalho) e diversificar (subs- growth.

14 Ano XII Nº 21 Julho de 2010 Salvador, BA RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO


ii) O efeito multiplicador das para o desenvolvimento local, North
Na segunda
importações: à medida que as cida-
des crescem e apreendem o modo de
produção de determinados produ-

metade do século XX,
não elabora recomendações explíci-
tas de políticas econômicas.

tos, elas substituem importações, observam-se 3 O Estado e o Planejamento


desde que economicamente viáveis,
com novo trabalho local, estimulan-
profundas alterações Regional no Brasil no Pós-
Guerra
do o emprego; há então uma sobra nos modelos de O papel desempenhado pelo Es-
de recursos que é utilizada para im- tado como organizador e ator social
portar novos bens, ou seja, há varia-
atuação do Estado e, obteve importante destaque no pe-
ção na pauta sem redução do volu- consequentemente, ríodo compreendido entre o pós-Se-
me de importações. Uma parte des- gunda Guerra Mundial e a década de
tas importações pode estimular o na formulação e na 1970. A intervenção governamental
emprego local e a outra (extra) pode aplicação de políticas na economia passou a ser vista como
incentivar as exportações. A versati- indispensável em diversas áreas,
lidade em gerar exportações é públicas voltadas para pois Estados ativos constituiriam ele-
viabilizada em grande medida por o desenvolvimento mentos-chave em qualquer esforço
este processo, logo, a substituição de bem-sucedido para construir moder-
importações é a chave para o proces- regional... nas economias de mercado, contri-
so de crescimento da cidade, pois
segundo Jacobs (1969, p. 143) This
process of replacing present imports, and
” buindo para um rápido crescimento
industrial. Evans (1998) destaca que
a natureza do papel do Estado era
buying others instead, is probably the quer que seja o nível de desenvolvi- considerada essencial para o desen-
chief means by which economic life mento local. volvimento econômico, pois sua
expands, and by which national Assim, como o sucesso da base efetividade seria um pré-requisito
economies increase their total volumes of de exportações constitui o fator para a formação das relações de mer-
goods and services. determinante da taxa de crescimen- cado e para as operações das gran-
Todavia, este último multiplica- to das regiões, é preciso ressaltar as des empresas capitalistas, que de-
dor só funciona de forma plena se principais razões de seu crescimen- pendem da disponibilidade de um
não há redução das exportações e da to, declínio e mudanças, quais sejam: tipo de ordem que somente um Es-
capacidade de gerar novos bens ex- alterações na demanda externa à re- tado burocrático moderno pode ofe-
portáveis. Ou seja, localidades que gião, nos custos dos fatores de pro- recer.
não geram novas exportações atra- dução, na disponibilidade de recur- Na segunda metade do século
vés da substituição de importações sos naturais e/ou matérias-primas, XX, observam-se profundas altera-
têm perdas econômicas. As expor- no sistema de transportes, na ções nos modelos de atuação do Es-
tações contínuas permitem impor- tecnologia, na ação governamental e tado e, consequentemente, na formu-
tar em grande volume e diversida- na origem do capital. Dada a irregu- lação e na aplicação de políticas pú-
de até o ponto em que a produção laridade destes fatores e considera- blicas voltadas para o desenvolvi-
interna destes produtos torna-se vi- da a evolução da renda e da popula- mento regional. Mais especificamen-
ável. Ao mesmo tempo, novas ex- ção local, o crescimento de uma re- te, entre 1950 e os anos 70, diversos
portações dependem intimamente gião tende a ser desigual. Contudo, teóricos procuraram explicar as cau-
da diversidade local, bem como da no longo prazo, à medida que as re- sas e os principais meios para desen-
consolidação do produto no merca- giões amadurecem, North (1977) es- cadear o processo de desenvolvi-
do local para depois adicionar novo pera que suas diferenças sejam me- mento econômico, como os já citados
trabalho e exportar. Estas observa- nos marcantes. Perroux, Boudeville, Myrdal,
ções demonstram quão interligados Cabe aqui salientar a importân- Hirschman e North. Seus estudos
são os efeitos multiplicadores e cia das instituições econômicas e basearam-se na polarização da pro-
como uma economia não pode pros- políticas neste processo. Para melho- dução econômica no espaço e nas
perar sem exportações e sem um rar a competitividade dos produtos economias externas e de aglomera-
mercado interno consolidado. As de exportação deve haver um esfor- ção, evidenciando a irregularidade
exportações são, portanto, uma va- ço combinado, entre sociedade, se- do processo de desenvolvimento
riável-chave para o crescimento do tor privado e setor público, ou seja, econômico, o que justificaria a inter-
país, sendo este reforçado por uma é preciso unificar esforços políticos venção estatal em prol do desenvol-
economia local criativa e em desen- visando ajuda governamental. Toda- vimento regional. Houve relativo
volvimento que possibilite a expan- via, apesar de evidenciar a importân- consenso por parte dos policy makers
são de produtos exportáveis, qual- cia da participação governamental em torno destas idéias, de tal forma

RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano XII Nº 21 Julho de 2010 Salvador, BA 15


cujas diretrizes foram estabelecidas ticas econômicas nacionais); ii) o Es-

“ A intervenção
era justificada pela
pela Comissão Econômica para a
América Latina e o Caribe (CEPAL),
a industrialização era vista como a
tado como regulador das relações
entre as classes operária e patronal e
dos conflitos intra-capitalistas (para
necessidade de única forma de superar a pobreza e permitir o bom andamento do pro-
o subdesenvolvimento e, como as cesso de industrialização); iii) o Es-
prover os forças do livre mercado não traba- tado como produtor: grande parte
pré-requisitos lhavam em prol da mesma, era pre- dos serviços públicos, relativos in-
ciso que o Estado assumisse o papel clusive às atividades de infraestru-
necessários para de planejador, tanto em áreas produ- tura, foi estatizada ou já nasceu sob
viabilizar o tivas como em áreas complementa- a forma estatal, bem como ativida-
res (saúde, educação, moradia, etc.), des voltadas para a produção de
investimento em bem como na captação e orientação bens intermediários (petróleo, side-
áreas deprimidas, do uso dos recursos financeiros e na
realização de investimentos diretos
rurgia, mineração, química, etc.); e
iv) o Estado como financiador do
ou seja, a intervenção em setores nos quais a iniciativa pri- desenvolvimento: ampliação do pa-
auxiliaria a romper o vada fosse insuficiente (infraestru-
tura, matérias-primas, etc.) – a ela-
pel de captador de recursos e de seu
direcionamento para os setores de
ciclo vicioso das boração de planos e estratégias de interesse, de tal forma que o sistema
desenvolvimento seria essencial no público de crédito conduzia a evo-
economias...
que as políticas de desenvolvimento
elaboradas a partir de então se base-
” processo de indução do desenvolvi-
mento econômico, consolidando, in-
clusive, a forma de intervenção esta-
tal e seu desenho institucional. A raiz
lução da industrialização brasileira.
Assim, percebe-se que no caso
brasileiro o Estado assumiu a res-
ponsabilidade pela provisão e pro-
aram no conceito de polo de cresci- das políticas econômicas adotadas dução de determinados bens e ser-
mento e na dinâmica de atração de nestes países é encontrada nas teori- viços, fato que estava ligado, entre
investimentos supostamente dota- as desenvolvidas ao longo dos anos outros fatores4, às questões ideoló-
dos de grande poder de irradiação. 50 cujas principais características fo- gicas pró-estatização estando estas
Em várias partes do mundo fo- ram descritas na seção 2 deste traba- intimamente relacionadas ao
ram elaboradas políticas baseadas na lho. O Brasil não foi exceção. mainstream econômico sobre a ques-
aplicação da teoria dos polos de cres- tão regional. Como já ressaltado, é
cimento para solucionar os proble- 3.1 O Caso do Brasil justamente neste período de expan-
mas relacionados às disparidades A ação do Estado foi fundamen- são da economia brasileira que es-
intra e inter-regionais, dada sua re- tal no processo de desenvolvimento tão em evidência as teorias desenvol-
percussão no espaço geográfico e sua econômico brasileiro. Grande parte vidas por Perroux, Boudeville,
idéia abrangente de desenvolvimen- das atividades desenvolvidas entre Myrdal, Hirschman e North, o que
to. As propostas elaboradas conta- 1950 e 1980 teve forte intervenção tem grandes impactos sobre o pla-
vam com o apoio estatal e reforça- estatal. O objetivo de tal intervenção nejamento regional e as políticas eco-
vam estruturas públicas de planeja- era conceder à economia brasileira nômicas adotadas no país.
mento, dando origem a um modelo mecanismos mais eficazes de defesa Os principais planos de dinami-
particular de atuação do Estado – frente aos problemas econômicos zação da economia nacional elabo-
desenvolvimentista –, cujo objetivo internacionais, particularmente sen- rados no período em análise, o Pla-
principal era a superação do subde- tidos em uma economia dependente no de Metas (1956-60), o Plano de
senvolvimento através da industria- da exportação de produtos primári- Ação Econômica do Governo –
lização. Este modelo tornou-se os. Neste sentido podem-se destacar PAEG – (1964) e o II Plano Nacional
hegemônico nos países periféricos, quatro formas de atuação do Estado de Desenvolvimento – II PND –
inclusive no Brasil. A intervenção era nacional: (1974-79), possuem claros indícios da
justificada pela necessidade de pro- i) o Estado como principal con- influência destas teorias sobre o pla-
ver os pré-requisitos necessários dutor do crescimento (as metas do nejamento regional. Neste período
para viabilizar o investimento em programa de industrialização torna- observa-se uma escolha clara pelo
áreas deprimidas, ou seja, a interven- ram-se o principal objetivo das polí- desenvolvimento nacional, ainda
ção auxiliaria a romper o ciclo vicio-
so das economias periféricas ao esti-
mular economias externas em diver- 4
Este trabalho não tem por objetivo analisar os fatores que levaram o Estado
sos espaços nacionais e subnacio- brasileiro a assumir tal papel no processo de desenvolvimento econômico.
nais. Neste modelo de ação estatal, Maiores detalhes podem ser encontrados em Carneiro (2002).

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que não completamente articulado, vidades com limitados efeitos de
É apenas a
ignorando por vezes os desequilí-
brios gerados pelos próprios planos.
As recomendações de políticas
“ partir do II PND que
encadeamento.
O agravamento dos desequilí-bri-
os gerados pelo próprio processo de
do Plano de Metas evidenciavam as há maior preocupação industrialização (inflação, concentra-
necessidades de implantação de no-
vas plantas industriais para dinami-
com o ajuste dos ção de rendas, etc.) trouxe à tona a
necessidade de atenuar as disparida-
zar o território nacional, seguindo as desequilíbrios des setoriais e regionais. Na elabo-
bases teóricas desenvolvidas por ração do plano seguinte, o PAEG,
Perroux e Boudeville. Foram realiza-
gerados pelo período percebe-se esta preocupação, mas
dos investimentos consideráveis nas de expansão anterior seu principal foco ainda residia no
indústrias de bens de consumo du- controle da inflação e na realização
ráveis, especialmente na indústria (Milagre econômico, de reformas institucionais – tributá-
automobilística, cujo potencial de 1968-73), mas sem ria, monetário-financeira e de políti-
geração de efeitos de encadeamento ca externa. É apenas a partir do II
à la Hirschman era bastante elevado, desistir da PND que há maior preocupação com
apesar de não haver maiores preo- continuidade do o ajuste dos desequilíbrios gerados
cupações com a dispersão da mes- pelo período de expansão anterior
ma no território nacional. Além dis- crescimento... (Milagre econômico, 1968-73), mas
so, grande ênfase foi concedida à
importância dos investimentos em
infraestrutura, considerados essenci-

sos teóricos analisados para o plane-
jamento econômico nacional. Criou-
sem desistir da continuidade do cres-
cimento. Adota-se então uma estra-
tégia de financiamento, ao mesmo
ais para a continuidade do processo se um falso dilema no país entre tempo em que se promove um ajus-
de crescimento econômico, como substituir exportações ou importa- te na estrutura de oferta. O objetivo
destacado por todos os teóricos ana- ções, cuja escolha foi favorável à se- era manter as taxas de crescimento
lisados. A meta mais ousada do pla- gunda opção, indo de encontro às elevadas e descentralizar espacial-
no foi a criação de Brasília, com o idéias desenvolvidas especialmente mente os projetos de investimento
intuito de aumentar a ocupação nas por North e Jacobs. A mera substi- utilizando principalmente incenti-
regiões Centro-Oeste e Norte do país, tuição de importações, como ocor- vos fiscais e creditícios. O Estado
auxiliando a integração do território reu no Brasil, sem o acompanha- procurou estimular os efeitos para
e a dinamização destes espaços. Ape- mento da diversificação das expor- frente e para trás na cadeia produti-
sar das questões relacionadas às tações foi incapaz de estimular um va (linkage effects), bem como entre
disparidades setoriais e regionais processo de crescimento sustentá- regiões (trickling-down effects), por
não estarem relacionadas entre os vel. A incapacidade de desenvolver meio de vários projetos de investi-
principais objetivos das políticas eco- novos produtos e serviços, especial- mento, especialmente em bens de
nômicas, observa-se ainda na déca- mente para exportações, dificultou a produção intermediários na região
da de 1950 a criação de importantes superação dos problemas que surgi- mais atrasada do país – Nordeste –.
instituições de apoio ao desenvolvi- riam no país no decorrer do próprio Porém, como o processo de desen-
mento regional como o Banco Naci- processo de desenvolvimento. A in- volvimento era liderado por sua re-
onal de Desenvolvimento Econômi- dustrialização nacional baseou-se gião mais dinâmica – Sudeste – es-
co (BNDE) e do Banco do Nordeste apenas no mercado interno, esque- tes efeitos não foram tão grandes
do Brasil (BNB) em 1952 e da Supe- cendo-se que o desenvolvimento quanto o esperado (a estrutura in-
rintendência do Desenvolvimento implica necessariamente em uma dustrial da região Nordeste desen-
do Nordeste (SUDENE) em 1959. questão de inserção na economia volveu-se de forma complementar e
Esta última representa o esforço de mundial. Assim, ao mesmo tempo dependente do centro econômico
conceder os chamados equivalentes que a industrialização tardia possi- nacional, o que aumentava os vaza-
de soberania elaborados por bilitava aos países subdesenvolvidos mentos em prol da região Sudeste).
Hirschman a determinada região do pular etapas (cathing up), ela impli- Como a diversificação das exporta-
país. cava em uma série de restrições, pois ções, o estímulo às atividades roti-
O principal instrumento que para um país se tornar um inovador neiras e o processo de adição de novo
viabilizou este processo de cresci- vigoroso era preciso desenvolver trabalho na economia local continu-
mento foi a industrialização por seus próprios bens e serviços, o que avam em segundo plano, todo o pro-
substituição de importações (ISI). É foi limitado no Brasil já que as ex- cesso de crescimento da economia
justamente este ponto que evidencia portações não eram estimuladas e brasileira manteve-se limitado.
uma falha no entendimento das re- em alguns casos o capital, que era Apesar da grande participação
comendações de políticas dos diver- bastante escasso, foi aplicado em ati- direta do Estado na economia nacio-

RDE - REVISTA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Ano XII Nº 21 Julho de 2010 Salvador, BA 17


regional, o estabelecimento de uma teórico, pois as mudanças no cená-
Difundia-se
“então a idéia de que
sequência ótima para a implantação
de novas indústrias, o grau de
complementaridade dos investimen-
rio econômico mundial exigiam o
desenvolvimento de novas teorias
capazes de explicar a dinâmica dos
as estratégias de tos realizados, o estímulo às ativida- mercados e como esta é afetada pela
des cotidianas e às oportunidades de ação estatal. Como a atual conjuntu-
crescimento investimento local, a importância de ra era atribuída à forte ação estatal,
deveriam abandonar contrabalançar os efeitos concentra- as novas teorias recomendavam a
dores que surgem com o processo de ausência do Estado na economia, es-
a ênfase na forte desenvolvimento, etc. Assim, as pecialmente nos setores produtivos,
mudanças exógenas provocadas para evitar distorções na alocação de
participação estatal pelo governo não foram capazes de recursos. Em relação às políticas de
no setor produtivo alterar a estrutura das forças do sis- desenvolvimento regional, o consen-
tema de causação circular cumulati- so em torno das idéias de Perroux foi
(materializadas va e, por vezes, intensificava-as, pois desfeito e o foco da análise regional
nos programas de não havia maiores preocupações
com a equidade espacial e setorial do
foi alterado: os problemas regionais,
antes analisados em escala nacional,
privatizações... processo em expansão, criando ver- passaram a ser discutidos em escala

nal e da tentativa de alinhar seus


” dadeiros enclaves para a continuida-
de do crescimento nacional.
Este modelo de ação estatal en-
local, privilegiando políticas que
procurassem desenvolver potenciali-
dades locais sem necessariamente
objetivos de políticas com as reco- controu seus limites em meados da integrar o território nacional É jus-
mendações dos principais teóricos década de 1970 e início dos anos 80, tamente isto que ocorre na economia
regionais, pouca importância foi bem como suas recomendações de brasileira a partir da década de 1980,
dada, no período como um todo, políticas, devido à reversão das con- pois diminui a participação do Esta-
para a redução das disparidades re- dições internacionais (choques do do no setor produtivo, seus objetivos
gionais. Havia uma grande busca petróleo, aumento dos juros, restri- de política direcionam-se quase que
por altas taxas de crescimento da ções de financiamento, etc.) e aos exclusivamente para a estabilidade
economia nacional, mas a distribui- desequilíbrios internos (inflação, de preços e as políticas regionais
ção das mesmas entre setores e regi- endividamento, crise fiscal, etc.), que passaram a apoiar ações localizadas,
ões era secundária. Isto tornou pra- levaram à estagnação econômica dos prejudicando a integração nacional
ticamente impossível superar as di- países periféricos. Estes fatos leva- e a superação do subdesenvolvimen-
ficuldades de crescimento e seu ci- ram ao abandono do Estado como to do país, especialmente de suas re-
clo vicioso, especialmente nas regi- possível agente do desenvolvimen- giões menos dinâmicas.
ões menos dinâmicas do país. Além to e expandiram o discurso neoli-
disso, a implantação de diversos beral nos anos 80 de que a excessiva 4 Considerações Finais
polos de crescimento no território intervenção estatal distorcia o pro- O movimento do capital não
nacional levou em consideração ape- cesso de alocação de recursos, eleva- ocorre simultaneamente no espaço.
nas o espaço geográfico das respec- va a concentração de renda e contri- Pelo contrário, este movimento é
tivas regiões. buía para a pobreza e a exclusão. bastante irregular e uma vez inicia-
Apesar do governo defender a Difundia-se então a idéia de que as do em determinados pontos tende a
adoção de uma política ativa, como estratégias de crescimento deveriam torná-los cada vez mais dinâmicos e
indicado por Perroux e North e re- abandonar a ênfase na forte partici- concentrados. Diversos autores de-
comendado explicitamente por pação estatal no setor produtivo (ma- senvolveram estudos, especialmen-
Boudeville, Myrdal e Hirschman, terializadas nos programas de te na segunda metade do século XX,
sua postura não foi crítica e limitou- privatizações, abertura comercial e cujo objetivo principal era analisar a
se a copiar estratégias internacionais financeira da década de 1990), incor- dinâmica regional. Entre estes des-
sem considerar a realidade local e as porando diretrizes de disciplina tacam-se Perroux e North, cujo tra-
repercussões nos espaços econômi- macroeconômica. As ações de desen- balho foi fortalecido pelos estudos de
cos nacional e regional. Aspectos volvimento regional perderam for- Boudeville, Myrdal e Hirschman.
fundamentais destas recomendações ça, assim como as instituições desti- Estes teóricos, baseados em con-
foram desconsiderados, entre os nadas à formulação e execução de ceitos de polarização da produção e
quais se destacam: a diversificação políticas públicas dirigidas às regi- em economias externas, evidencia-
da pauta de exportações, a necessi- ões menos favorecidas. vam a irregularidade do processo de
dade de estimular o empreende- Este movimento foi acompanha- crescimento e, portanto, a necessida-
dorismo e a cooperação intra e inter- do por alterações também no campo de de intervenção estatal. Seus tra-

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balhos demonstram que uma vez pois os investimentos foram realiza- co que passa a ter uma visão liberal,
estabelecidas vantagens ou desvan- dos de forma bastante dispersa e em focada na esfera local. Apenas em
tagens comparativas em determina- regiões pouco integradas com seu meados da década de 1990 há uma
dos espaços econômicos, iniciam-se próprio entorno, o que miminizava nova discussão sobre este tema de-
movimentos migratórios dos fatores os efeitos de encadeamento e de vido à ineficiência do mercado em
de produção, que são expressos na transbordamento. Além disso, as ati- superar o subdesenvolvimento, o
expansão ou na estagnação destes vidades incentivadas, em geral, per- que abre espaço para discussões so-
espaços. A partir destas constatações tenciam a gêneros dinâmicos da in- bre qual papel o Estado deve desem-
são realizadas algumas recomenda- dústria, o que dificultava a sustenta- penhar na economia, visto que sua
ções de políticas econômicas que ção do processo de desenvolvimen- iniciativa é essencial para alterar o
constituem as bases teóricas para o to, pois exigia da população local comportamento dos agentes, desde
surgimento de atividades industriais maiores níveis de inovação e que suas políticas sejam factíveis e
e urbanas nos países periféricos, cujo empreendedorismo, que dificilmen- racionais.
principal objetivo deve ser a te são gerados em regiões estagna-
integração da economia nacional. O das. Ou seja, ao deixar em segundo
desenho institucional necessário plano as atividades cotidianas e a Referências
para a consecução deste objetivo ne- necessidade de realizar investimen-
cessita de grande participação do tos básicos para contrapor os BOUDEVILLE, J.R. Les spaces
Estado nacional, visto que este é ca- desequilíbrios gerados pela concen- économiques. Press Universitaires de
paz de articular diferentes atores e tração dos investimentos em deter- France, Paris, 1970.
realizar investimentos nos mais va- minadas regiões, o governo acabou
riados setores e regiões, ampliando contribuindo para a consolidação EVANS, P. B. Análise do Estado no
os efeitos de encadeamento do setor das disparidades regionais no país. mundo neoliberal: uma abordagem
produtivo e os efeitos de transbor- Além disso, o crescimento foi lide- institucional comparativa. Revista de
damento entre regiões. rado por um processo de substitui- Economia Contemporânea, n. 4, jul-
Estas recomendações de políticas ção de importações que não foi dez, 1998.
econômicas foram sintetizadas em acompanhado da diversificação das
um modelo de intervenção estatal – exportações nacionais, o que com- HIRSCHMAN, A. O. The strategy of
Desenvolvimentista –, no qual a in- prometeu significativamente sua economic development. New Haven:
dustrialização era vista como a for- sustentabilidade, visto que inovar Yale University Press, 1958.
ma de superar o subdesenvolvimen- continuadamente é fundamental
to e, por este motivo, a mesma deve- para o desenvolvimento econômico. JACOBS, J. The Economy of Cities.
ria ser planejada, e conduzida pelo Este modelo de intervenção esta- New York: Random House, 1969.
Estado. Assim, entre as décadas de tal encontrou seu desgaste teórico e
1950 e 1970 este modelo se tornou prático em meados da década de LEMOS, M. B. Espaço e capital: um es-
predominante nos países periféricos, 1970 devido às alterações nas condi- tudo sobre a dinâmica centro x perife-
inclusive no Brasil, que procurou se- ções econômicas, externas e internas, ria. Campinas, 1988. (Tese de doutora-
guir suas diretrizes. e à insuficiência dos resultados obti- do, IE/UNICAMP).
Este foi um período de grande dos pelas políticas adotadas até en-
participação estatal na economia, tão (expectativa equivocada dos re- MYRDAL, G. Economic theory and
quer investindo diretamente em se- sultados de curto prazo para o de- under-developed regions. Gerald
tores produtivos ou em infraestru- senvolvimento regional). Os anos 70 Duckworth & CO. LTD: London, 1957.
tura e serviços públicos, quer finan- marcam o bojo da crise do pensa-
ciando o setor privado. Várias das mento regional e a necessidade de NORTH, D. C. Teoria da localização e
implicações de políticas econômicas sua reconstrução teórica, para expli- crescimento econômico regional. In:
sugeridas pelos teóricos analisados car inclusive as novas questões que Schwartzman, J. Economia regional:
neste trabalho foram adotadas em surgiam sobre a dinâmica regional, textos escolhidos. Cedeplar, Belo Ho-
seus principais planos de desenvol- como a importância das escalas rizonte, 1977.
vimento (Plano de Metas, PAEG e II territoriais e da inovação.
PND), como a implantação de polos O período que se segue é de in- PERROUX, F. A Economia do século
de desenvolvimento e de indústrias tensa diminuição da participação do XX. Porto: Herder, 1967.
com potenciais efeitos de encadea- Estado na economia, cujos objetivos
mento (bens de consumo duráveis e de políticas deveriam se limitar a al- ROLIM, C. F. C. Espaço e região: retor-
bens intermediários). Entretanto, es- cançar/manter a estabilidade macro- no aos conceitos originais. In: ANPEC
tas medidas não foram aplicadas de econômica, reflexo das mudanças no – X Encontro Nacional de Economia.
forma crítica como recomendado, paradigma do mainstream econômi- Águas de São Pedro, 1982.

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