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O Rorschach

O Rorschach

1. O Rorschach

As técnicas projectivas procuram essencialmente aceder por aproximação


à realidade psicológica dum sujeito, realidade essa que é imutável, e cuja
essência é inatingível. Usam-se principalmente no contexto clínico mas
também podem ser utilizadas em situações de recrutamento de pessoal ou na
educação

Técnicas Projectivas

Técnicas de Manchas Técnicas Temáticas

 Rorschach
TAT – foi o 1º a aparecer, serve
Técnica paradigmática, pois é a 1ª para crianças e para adultos (é
a aparecer; é objecto de muitos a base de todas as outras
estudos e é a técnica mais técnicas que lhe sucederam)
utilizada na investigação
CAT – para crianças com 4
anos

Pata Negra - crianças

Era uma vez - crianças

No contexto clínico podem ser utilizadas técnicas psicométricas e/ ou


técnicas projectivas (técnicas de Manchas ou Técnicas Temáticas). Neste
contexto parte-se de um problema, formula-se uma hipótese, e escolhe-se o
instrumento a utilizar, seguindo-se a metodologia e a conclusão (a qual
permite aceder ao sentido do problema e necessita de referenciais teóricos).

▪ Problema
Escolha do instrumento a utilizar
▪ Hipótese
▪ Metodologia
▪ Conclusão

O trabalho do psicólogo nestas técnicas é fundamentalmente o da


atribuição de sentido.
As técnicas projectivas de manchas e as temáticas são complementares,
pois têm sensibilidades diferentes, a escolha entre uma e outras é feita em
função do problema e das hipóteses.
No contexto clínico pergunta-se ao sujeito “O que poderia ver aqui?”. Na
resposta do sujeito é por vezes difícil aceder-se ao mundo interno, o que
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acontece quando a percepção prevalece sobre a projecção. A apreensão


da realidade e a transformação entre a realidade e o mundo interno sujeito é
o chamado processo de construção (o qual é diferente para cada indivíduo),
que é transmitido ao clínico em forma de produto.
A análise do Rorschach tem o objectivo de conhecer o funcionamento
mental do sujeito, o que é possível sabendo o funcionamento do teste, o qual
é possível saber pelo processo de resposta Rorschach (o qual consiste na
elaboração, construção e elaboração da imagem).

Funcionamento mental Funcionamento do teste

Processo Resposta – Rorschach

▪ Modo de apreensão
Objecto de cotação ▪ Determinante
▪ Conteúdo

- Durante a aplicação do Rorschach:


• Devem utilizar-se fontes de luz unidireccionais e devem ser evitadas as
passagens da luz do dia para a luz artificial.
• O material necessário deve estar colocado em cima da mesa: o
Rorschach com os dez cartões virados para baixo, na ordem de
apresentação e em posição direita; papel e lápis/ caneta; um
cronómetro discreto e de fácil acesso.
• O sujeito deve estar colocado do lado esquerdo, sensivelmente à frente
(ou à direita caso seja esquerdino).

Deve manter-se o controlo da situação - é o psicólogo que entrega o


cartão e o recebe, estando sempre atento ao comportamento, continuando
sempre a entregar todos os cartões, que é a forma de regular o ritmo de
progressão (há cartões angustiantes que caso o psicólogo não controle o
tempo, podem não ser bem explorados).
- Instrução:
A instrução deve ser adequada ao sujeito e deve ser introduzida na
relação. Rorschach considera que as instruções devem ser curtas, o que vai
cumprir o objectivo das técnicas projectivas, ou seja, estimula o sujeito de
forma adequada – cria um espaço de liberdade no sujeito, onde estão
presentes os dois objectivos principais das técnicas projectivas; a instrução
será: “O que é que se poderia ver aqui?” ou “O que e que isto poderia ser?”.
Outros psicólogos, como por exemplo Chebert, consideram que a instrução a
dar deverá ser diferente, contendo objectivos mais explícitos: “Vou mostrar-lhe
10 cartões e peço-lhe que me diga tudo o que eles lhe fazem pensar e tudo o
que se pode imaginar a partir de cada um deles”.
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É importante reter que todas as indicações devem ser formuladas como um


pedido, assim abre-se um espaço de liberdade que é a base das técnicas
projectivas.
- 1ª Fase da Aplicação do Rorschach:
• Dar a instrução ao sujeito
• Entregar o cartão I na posição direita (pode entregar-se na mão ou
colocá-lo em cima da mesa)
• Accionar o cronómetro
• O psicólogo deve escrever tudo o que o sujeito diz na folha de
anotações
• Devolução dos cartões

Apesar de a regra ser a da não intervenção, por vezes, podem fazer-se


intervenções durante a passagem dos cartões, quando o sujeito fala de algo
paralelo na passagem dos cartões pode-se intervir; na fase inicial (1º, 2º e no
máximo 3º cartão), quando o sujeito está a ter dificuldades, é útil e desejável
que se faça um intervenção do tipo “Se pensar um pouco talvez consiga ver
outras coisas”, isto, por exemplo, no caso de usar uma única imagem, ou de
não nos dar imagem nenhuma, “Porque temos tempo...”. Se o sujeito falar
muito rápido pode pedir-se para que repita a última palavra, ou fale mais
lentamente.
NOTA: O uso do talvez permite que o sujeito veja, ou não veja, o que
mantém a liberdade.
O trabalho do psicólogo é um trabalho de atribuição de sentido, pelo que a
sua atitude deve ser uma atitude de neutralidade: de acolhimento e de
aceitação das imagens e da resposta do sujeito.
A primeira fase termina com a Prova Complementar de Escolha:
É pedido ao sujeito que dos 10 cartões escolha os 2 dos quais gostou menos,
e os dois dos quais gostou mais, e indique os motivos que o levaram a escolher
os cartões, devemos tentar que os motivos apresentados sejam de ordem
estética ou afectiva. É de notar a ordem pela qual o sujeito nos diz os cartões
apesar de não ser muito relevante.
Se os motivos de preferência forem iguais “Gostei mais dos cartões IX e X
porque são coloridos”, há que aceitar, pois isso implica conceder o espaço de
liberdade ao sujeito. Há sujeitos que escolhem apenas um cartão de cada, ou
outros que escolhem 3 cartões, devemos aceitar esta escolha, tal como
devemos aceitar se o sujeito insistir que são todos os cartões, pois cada
escolha é objecto de atribuição de sentido.

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- 2ª Fase – Inquérito (s):


Explorar modalidades perceptivas
O inquérito tem o essencial do processo de resposta do Rorschach,
processo este que vai ser cotado através do inquérito para que consigamos
aceder ao funcionamento mental.
Os inquéritos são feitos no final para não perturbar o processo associativo,
isto no caso dos adultos. No caso das crianças muito novas o inquérito faz-se
no final de cada cartão ou de cada elaboração, porque neste caso está a
favorecer-se o processo associativo (as crianças não têm tantas defesas como
os adultos).
O objectivo do inquérito é aceder ao processo de resposta Rorschach, o
qual é reflectido na cotação (e sem inquérito não é possível cotar).
No inquérito procura-se informação complementar à informação
espontânea, ou seja, retomam-se todos os cartões, um a um, e relemos as
elaborações espontâneas de cada um e pedimos para que o sujeito as
explique: “ No cartão I o que é que o fez pensar numa borboleta?”,
normalmente isto é suficiente para que o sujeito diga tudo aquilo com que
relaciona a imagem:
• Localização da imagem (modo de apreensão)
• Determinante da imagem (forma/ cor movimento)
• Conteúdo

Nos cartões em que há participação da cor não temos a certeza se este


elemento participa ou não na resposta do sujeito. Para isso devemos ter uma
folha A4 com os cartões diminuídos a preto e branco para mostrar ao sujeito
durante o inquérito. Exemplo: “Ainda vê aqui a borboleta?” “Sim, sim. Veja
aqui as asas recortadinhas.” Neste caso o que predomina é a forma e não a
cor.
Se o sujeito refere algo como «estranho» ou «esquisito» o psicólogo não deve
deixar escapar estes elementos, pois por aqui pode revelar-se algo mais
importante do que a imagem em si, deve saber-se porque é que há a
introdução de algo desta forma. Exemplo “A borboleta está voar mas vai
perdendo bocados do corpo”.
Se o sujeito durante o inquérito diz algo diferente daquilo que disse na
elaboração espontânea, ou altera o que viu, trata-se de uma resposta
adicional (R. A.), e o inquérito deve ser feito em relação à segunda imagem.

Inquérito de Limites
Foi um inquérito introduzido por Klopper, tem uma presença mais activa por
parte do psicólogo com o objectivo de explorar modalidades perceptivas, ou
conteúdos evitados pelo sujeito.
Conduzir o sujeito para os encarnados presentes nos cartões bicolor, e
perguntar se há algo que se possa dizer sobre o vermelho. Isto só é feito

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quando o sujeito não interpreta o vermelho, e só se faz no final para se poder


esperar a resposta adicional.

Conteúdos mais frequentes


Normalmente estes conteúdos são chamados de banalidades pois são tão
frequentes que o seu não aparecimento leva a que nos interroguemos quanto
à causa e sejamos levados a fazer um inquérito de limites relativo a estes
cartões.
Figuras humanas presentes no cartão III, onde se aplica o inquérito de limites
“Será que se podia ver aqui uma figura humana?”. Este cartão é um cartão
bissexual que favorece a representação de si.
Cartão V: borboleta, pássaro e morcego, “Será que aqui se pode ver uma
borboleta?”

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2. Conteúdo Manifesto
- Dimensão Estrutural:

Os cartões diferenciam-se pelo seu carácter unitário, inteiro e maciço


ou pela sua obediência a uma configuração bilateral.

• Cartões unitários (I, IV, V, VI e IX) – reflectem a imagem do corpo


humano organizado simetricamente em torno de um eixo.

• Cartões com configuração bilateral (II, III, VII e VIII) – reflectem as


representações de relações.

• Cartões fechados (I, IV, V e VI)

• Cartões abertos (II, III, VII, VIII, IX e X)

- Dimensão Sensorial:

Os cartões diferenciam-se pelas cores e tonalidades.

• Cartões cinzento-escuros ou com contraste negro-branco – quando


atingem a sensibilidade do sujeito dão origem a manifestações da
ordem da inquietude, ansiedade e angústia mais ou menos intensas.
▪ A sensibilidade ao negro remete para a ansiedade,
tristeza e depressão (cartões compactos, excepto cartão I
(fechado/aberto)).

• Cartões vermelhos (II e III) – a presença do vermelho solicita «afectos


brutos», na reactivação de movimentos pulsionais (emoções violentas,
sexualidade, agressividade). Estes cartões, pela sua configuração
bilateral, são indutores de representações de relações.

• Cartão VIII – configuração bilateral e uma construção oca e aberta;


presença de cinzento-claro esbatido e grande participação do branco.

• Cartões pastel – tintas pálidas e filtradas – indutores de afectos.


▪ Cartão VIII – estrutura clara, sendo as diferentes partes
delimitadas umas relativamente às outras, sem invasão das
cores.
▪ Cartão IX – mistura de tintas, dando uma impressão de
interpenetração, acentuada pela presença de um branco
azulado, ao centro. Situa-se simultaneamente no registo
fechado (facilitando a abordagem global), aberto (tendo
em conta o branco central) e bilateral (na parte superior).
▪ Cartão X – multiplicidade de cores e dispersão das
manchas.

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3. Conteúdo Latente
Cartão I – cartão compacto, negro, que
facilita uma apreensão global (G), baseando-
se na forma (F). O estímulo tripartido remete
para a relação e interacção. Este cartão
reflecte um sentimento de identidade
(quando a linha média não é vivida como
eixo do corpo mas como linha de separação
entre duas entidades, dá conta de
dificuldades de diferenciação entre o sujeito e
o outro) (Chabert). A um nível menos evoluído, o cartão reactiva a relação
com a mãe pré-genital nos seus aspectos positivos e/ou negativos, nas
imagens de segurança ou ameaça.

Cartão II – a parte central vazia reenvia para o


regressivo e o luto; o vermelho reenvia para o
sangue e as pulsões. Este cartão reaviva as
pulsões libidinais e agressivas do sujeito. Se o
sujeito lida mal com as pulsões agressivas,
evita o vermelho interpretando só o preto. A
problemática da castração é claramente
visível, bem como a angústia que lhe está directamente ligada e os processos
defensivos que o sujeito utiliza face a essa angústia. Quando as personagens
se apresentam em duplo pode dar conta de problemas ao nível da
identidade. Este cartão permite ao sujeito reviver alguns dos conflitos da sua
infância, revelando uma relação simbiótica ou destruidora com a mãe.

Cartão III - Este cartão permite uma


identificação (uma identidade sexual) quer
masculina (através do pénis) quer feminina
(através dos seios). O resultado simbólico resulta
da disposição destas silhuetas que estão muito
próximas da realidade e o sujeito vai poder
exprimir a necessidade de representação de si
por um lado, e a representação de si face ao
outro, e ainda a descoberta desse outro e o tipo
de relação que é procurada com esse outro, uma relação de apoio
(representação de si e representação da relação). O clima emocional é
positivo e este cartão agrada normalmente aos sujeitos. É frequentemente
escolhida como o cartão preferido. O próprio estímulo, por estar próximo da
realidade objectiva, isto é, por evocar facilmente as silhuetas humanas,
também pode levantar problemas por isso, podendo rapidamente adquirir
uma tonalidade negativa se o sujeito se vê confrontado com um outro e esse
outro tem dificuldades relacionais.

Cartão IV – Este cartão está ligado à força, ao


poder, à autoridade. Alguns autores também
lhe chamam o cartão do superego. Um

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superego que tanto pode ser materno como paterno. Sendo simbolicamente
representativa dessa autoridade, podem haver reacções quer positivas quer
negativas, na forma como os sujeitos se vão posicionar face a essa
autoridade: sujeitos que ou se identificam com essa autoridade ou a ela se
submetem. Os sujeitos vão exteriorizar representações de autoridade paterna,
angústia infantil e sentimentos de culpa diante do superego, complexo de
castração, transformação da agressão em depressão e eventualmente ideias
de suicídio. Há sujeitos que dão respostas que valorizam o aspecto da força e
outros que se refugiam numa atitude contrária à da força, dando respostas
que dão conta dessa inconsistência, dessa passividade e do receio à figura de
autoridade Há sujeitos que, devido ao impacto fantasmático e doloroso que a
cartão lhes provoca, põem em funcionamento o mecanismo de defesa –
isolamento. Este é um mecanismo da série neurótica e mais especificamente
das personalidades obsessivas. Isola para não ter de se confrontar com a
angústia provocada pelo aspecto fantasmático do estímulo, que reenvia, do
ponto de vista simbólico, para a força, para o poder.

Cartão V - Este não é um estímulo que levante


grandes questões, pois está muito próximo da
realidade objectiva (tal como na cartão 3),
surgindo com frequência respostas banais de
animais voadores.

Quanto ao valor simbólico, pelas


características maciças e unitárias deste
estímulo, este cartão apela sobretudo ao
sentimento de integridade física e psicológica. É chamado o cartão da
identidade, a representação de si (ego ideal), onde o sujeito expressa a ideia
que faz de si próprio, o que nos remete para uma integridade ao mesmo
tempo psíquica e somática.

Este sentimento de integridade ao mesmo tempo física e psíquica, tem a ver


com a representação de si e, se houver uma recusa, isso é um alerta para uma
eventual luta do sujeito contra a desorganização de si, contra o caos interno.
Também pode acontecer que o sujeito fuja da representação através de
respostas impessoais ou a manifeste através de uma resposta simbólica.

Cartão VI - Do ponto de vista simbólico, é uma


cartão muita saturada em factores com
implicações sexuais e/ou enérgicas-
dinâmicas. Mas nesta cartão, tal como na 4, o
que está mais facilmente implicado na análise
do estímulo é muito mais a dimensão fálica,
do que a representação do corpo feminino.
Este cartão reenvia o sujeito para a
problemática sexual: angústia predominante
na neurose: angústia de castração; estados
limite: angústia de perda do objecto; psicose: angústia de fragmentação. A
recusa da interpretação dos cortes é sinal de problemas sexuais.

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A reacção emocional é frequentemente negativa, ao ponto de não ser


invulgar que este cartão seja recusado. Isto acontece devido ao significado
simbólico deste cartão. Face ao impacto provocado por esta mancha, pode
haver respostas adaptativas, sendo a mais comum “pele de animal”.

Cartão VII - As reacções a este estímulo são


variadas, podendo o sujeito percepcionar a
figura, o fundo, ou os dois.

Quanto ao valor simbólico, trata-se de


uma cartão feminina, materna, onde o
sujeito é confrontado com a sua primeira
relação; o vazio central é vivenciado como
colo materno. Pode encontrar-se dois tipos
de resposta: Securizantes – encontram-se
sentimentos de vivência, de segurança, com cinestesias femininas. O não
aparecimento destas cinestesias, supõe uma perturbação das relações
mãe/filho. A, H e obj. Ameaçadoras ou abandónicas – quando estas imagens
são percepcionadas de uma forma negativa, surge a vivência de abandono,
reflectindo a patologia da vinculação.

Cartão VIII - Os D rosas laterais são as partes


da cartão mais interpretadas e é aqui que
aparecem as respostas banais “mamíferos”,
que são determinadas quase sempre pela
forma. Estes detalhes estão muito próximo da
realidade e isso permite ao sujeito evitar a
integração da cor, ou seja, evitar lidar com
os afectos.

A reacção emocional é geralmente positiva,


mas a introdução da cor pode ser perturbadora para o sujeito, daí que, a
tonalidade emocional também possa ser negativa. Neste caso as cores
remetem para imagens do interior do corpo através de anatomias, mesmo
que sejam intelectualizadas; se não for esse o caso temos imagens de corpos
devorados, danificados, destruídos. As cores também podem ser utilizadas
com o branco no seu carácter esbatido. Uma resposta típica é “mármore” ou
“pôr-do-sol no gelo”.

Quando não é vista a resposta animal, vulgar, tem-se um problema análogo


ao do cartão V (sinal de debilidade patológica da ligação do sujeito à
realidade). Também são significativos os graus de agressividade atribuídos aos
animais, ou à sua desvitalização sob a forma de emblema.

Cartão IX - Este cartão apela à regressão e


nem todos os indivíduos se podem permitir
tal coisa. Tem um grande impacto
emocional no sujeito e não há resposta
banal para este cartão. A solicitação para
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esta regressão traduz-se numa sequência de imagens de conteúdos naturais,


frequentemente ligadas ao meio aquático, que tem a ver com a imagem
materna. Este cartão remete para uma simbologia pré-genital, ou seja, uma
temática ligada ao nascimento e nem todos os indivíduos têm muita
facilidade em lidar com esta simbólica, pelo que muitas vezes o que
aparecem são fantasias pré-genitais ligadas à gravidez/parto.

É um cartão frequentemente recusado, e, certamente, a mais difícil. Os sujeitos


têm dificuldade em interpretá-la. Os sujeitos que gostam deste cartão
apresentam respostas de cor elaboradas, isto porque vêem, na relação
afectiva com o ambiente social, uma estimulação fecunda e propícia.

Cartão X -Dadas as suas características de


dispersão, remete o sujeito para fantasmas
de fragmentação. Solicita o indivíduo para
essa angústia de fragmentação, testa os
limites. Se o sujeito é sensível a esta
problemática, tem dificuldade em unir,
tornando-se mais fácil detalhar a mancha
sem sentir incómodo com isso. Através do
mecanismo de isolamento, o sujeito pode
apreender e interpretar imagens numa
perspectiva mais agressiva, entre animais, ou entre animais e pessoas.

Estimula quase sempre respostas em D. Uma resposta G revela uma


capacidade intelectual organizadora de alto nível (G secundária)

Há sujeitos que se perturbam com o cartão, devido à cor (reagindo, nesse


caso, como aos cartões já interpretadas), ou devido à extrema dispersão das
manchas (sentindo verdadeiro choque ao despedaçamento).

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4. A cotação
4.1. – Princípios Elementares de Cotação dos protocolos de Rorschach

Cotar um protocolo é reduzir as respostas a sinais convencionais, isto é,


codificá-las.

A cotação não é mais do que um esboço cómodo que serve de


quadro e de ponto de partida para a reflexão e que facilita a comparação
dos protocolos:

• Pelo seu carácter objectivante a cotação fornece um quadro às


impressões e à intuição do psicólogo;

• A cotação é o ponto de partida da reflexão, na medida em que ela é


a resultante da dinâmica instaurada entre a actividade perceptiva e a
vivencia emocional e que ela reflecte também a integração da
dimensão afectiva na organização mental.

A cotação realiza-se após uma leitura atenta do conjunto do texto e


depois de terem sido anotadas as impressões que dele se destacam
(tonalidade emocional, verbalização, atitude, etc.)

A leitura do texto, a cotação e o estabelecimento do psicograma


constituem um preliminar da análise propriamente dita.

É necessário cotar todas as respostas, isto é, cada imagem ou


associação ou transformação de nova imagem, quer seja dada de forma
afirmativa, negativa ou interrogativa. É também necessário anotar os
elementos qualitativos (referências pessoais, observações de simetria,
observações críticas, reacções choque, etc.) e os comentários pessoais.

A cotação tenta dar conta de todos os aspectos “objectivos” de uma


resposta. Esta decompõe-se em vários elementos que se podem evidenciar
com a ajuda de quatro tipos de questões que s colocam para cada uma das
respostas:

• Qual a parte da mancha que é interpretada? Onde se situa a imagem


dada?

• O que é que determinou a resposta ou qual (is) a (s) particularidade (s)


objectiva (s) ou subjectiva (s) do estimulo que provocou a
interpretação? Porquê e Como?

• Qual o conteúdo da resposta? O quê?

• A resposta é frequente numa determinada população, isto é, banal?

Cada uma destas questões corresponde a uma série de símbolos


convencionais, entre os quais é preciso escolher aquele (s) que podem dar

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conta, o mais fielmente possível, da resposta do sujeito tal como ele a viu e
enunciou, sem que a subjectividade do próprio psicólogo interfira.

É evidente que não se poderá elucidar os mecanismos em jogo, nem


responder às três primeiras questões sem se interrogar o próprio sujeito: é este o
objectivo do inquérito.

Todavia, é necessário ter presente que a cotação propriamente dita se


refere às respostas dadas espontaneamente e que no inquérito é preciso
distinguir entre o que corresponde a uma simples explicitação da resposta
espontânea (que serve de base à cotação) e o que constitui uma nova
abordagem ou uma reelaboração, que não deverá ser cotada, ou então só
deverá ser considerada em tendência, embora entre na análise propriamente
dita.

O tempo de latência corresponde ao tempo a partir do momento que se


dá o cartão ao sujeito e ele dá uma resposta cotável.

A folha de Protocolo

Discurso
Espontâneo

Cotação

Respostas RCH (como,


Símbolos porquê, etc…

^ - Direito

ν – Inverteu

<- Rodou para a direita

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> - Rodou para a esquerda

- Quando o sujeito rodou muito o cartão

Como se escreve a cotação?

G F+ A Ban

M.A. Det. Cont. Banalidade

4.2. Modos de Apreensão

O verdadeiro sentido dos modos de apreensão só se encontra se


soubermos qual o determinante e o conteúdo a eles associado.

Os modos de apreensão estão relacionados com a estratégia perceptiva


que o sujeito utiliza ao abordar a mancha, a qual se traduz na forma de como
o sujeito situa ou localiza as interpretações.

Estratégia Perceptiva Funcionamento do Teste

dão conta das relações que


o sujeito estabelece
com a realidade e com os
objectos de realidade, ou seja,
como o sujeito se situa na
realidade.

Cinco Símbolos representam os diversos modos de apreensão:


1. G - resposta global, a qual se subdivide em G primário (que se
divide ainda em G simples e G simples adaptativo) e G
secundário
2. D – resposta de detalhe frequentemente interpretada
3. DD – resposta de detalhe raramente interpretada
4. DBL – interpretação de detalhe branco
5. DO – detalhe oligofrénico

- Resposta global:
As respostas globais são respostas que compreendem a totalidade da
mancha. São respostas como: “borboleta”; “uma mancha negra de tinta-da-

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china”; “bailarino a rodopiar sobre si mesmo, com duas bailarinas a apoiarem-


se sobre ele, com as suas capas a esvoaçar; “caranguejo com duas pinças”,
“uma aranha com uma mosca na barriga”; etc. Os produtos finais são
semelhantes apesar do processo de resposta ser diferente.
Para uma resposta ser considerada global é necessário que o sujeito
interprete a totalidade da mancha, excepto no cartão III, onde se considera
resposta global, se o sujeito considera dois negros laterais como duas figuras
humanas.
- G primário:
G simples
Um exemplo de um G simples será a resposta “borboleta” (é a imagem mais
neutra), ou o morcego, aqui existe uma clara diferenciação entre sujeito e
objecto, há uma identidade definida, o sujeito vê-se como inteiro e repara no
meio envolvente. A estratégia perceptiva utilizada é a abordagem directa e
imediata da mancha, sem elaboração, destacando a figura do fundo. Pelo
facto da figura ser fechada este cartão () e outros (I, IV, V) favorecem o
aparecimento de imagens G simples.
Os G simples do ponto de vista do funcionamento mental dão conta de
uma adaptação perceptiva de base que faz pensar se o sujeito se encontra
minimamente inserido na realidade – G simples adaptativo.

G simples Adaptativo

Exemplos: Esta imagem não


-Lata de sardinhas bom petisco tem carácter
adaptativo
-Maxilar com dois caninos, um deles cariado
-Borboleta no chão espalmada e morta à qual falta um bocado das asas –
Aqui não há diferenciação, o que pode fazer pensar nas dificuldades ao nível
da identidade, ou da imagem corporal.

-Resposta de detalhe frequentemente Interpretada:


Estas respostas usam partes da mancha que do ponto de vista estritamente
perceptivo se impõem, são frequentemente isoladas e frequentemente
interpretadas.
Estas imagens são favorecidas ao aparecerem nos cartões bicoloridos e nos
cartões pastel.
Nestas interpretações está implícita a atitude de querer explorar os objectos
da realidade interna e/ ou externa. Subjacente às respostas de detalhe existe
uma função socializadora (querer conhecer o outro).

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-Resposta de detalhe raramente Interpretada:


Nestas respostas são usadas partes da mancha que do ponto de vista
perceptivo não se impõem, assim sendo são raramente isoladas e raramente
interpretadas.
Não existe nenhum cartão que favoreça o aparecimento dos DD, podendo
aparecer em qualquer um.
Os DDs podem dar conta de uma determinada problemática, porque
normalmente há um conteúdo que se repete ao longo de um protocolo em
DDs, o qual é algo que angustia o sujeito. São característicos de um
pensamento minucioso e exaustivo. Quando estes se repetem ao logo dos
cartões podem demonstrar um funcionamento mental obsessivo.
Relativamente aos DDs interpretativos delirantes o critério que os analisa é o
critério estatístico.

-Interpretação de detalhe branco:


Estas são respostas em que o sujeito usa o espaço branco, situado no interior
ou no exterior da mancha, que do ponto de vista estritamente perceptivo se
impõem com inversão figura fundo.
Os cartões que favorecem o seu aparecimento são os cartões II e VII,
dependendo do cartão e conteúdo os valores interpretativos também
mudam: no cartão II terá um valor claramente defensivo, e no cartão VII
considera-se o sujeito capturado pelo vazio – o que remete para vivências de
falta, ou seja, carências afectivas.

- Detalhe Oligofrénico:
Foi constatado que estas imagens surgiam em sujeitos com défices
cognitivos, apesar deste tipo de respostas não serem específicas deste tipo de
sujeitos. Essencialmente Rorschach constatou que onde sujeitos normais viam
figuras inteiras, outras pessoas viam apenas partes dessas figuras, o que atribuiu
a restrições do campo perceptivo e do conteúdo – é esperado que não
ocorram estas restrições (d e db). Os conteúdos mais frequentemente
interpretados são animais (A), ou partes de animais (Ad), figuras humanas (H)
ou partes de figuras humanas (Hd), bot (botânica), obj (algo fabricado pelo
homem). Os Do’s estão sempre associados a Ad e Hd.
Exemplo: no cartão III, se mencionar a cabeça como parte de um todo será
um Do.

-Modos de Apreensão Associados:


Estes modos de apreensão são o resultado de diversos momentos
perceptivos. Assim podemos referir-nos a:
-G Primário:
G barrado

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Escomotizado técnico: o sujeito interpreta o todo, mas retira uma


pequena parte (parte que, do ponto de vista estritamente perceptivo não
se impõe – Dd). Ao nível interpretativo, este modo de apreensão dá-nos
conta de que o sujeito evita essas partes por terem, grande parte das vezes,
um valor sexual ou agressivo. (G)

G sincréticos
Existem três tipos de G sincréticos e todos eles nos remetem para problemas
de separação e individualização:
• G confabulados: são resultado de uma generalização abusiva a partir
de um detalhe da mancha. Podem remeter para dificuldades claras ao
nível da diferenciação. Isto porque a generalização começa a partir de
uma parte da mancha que do ponto de vista estritamente perceptivo
se impõe. (DG; DdG; DblG)
• G contaminados: são o resultado de uma fusão ou sobreposição de
imagens ou associações distintas, sendo que o resultado final vai ser
uma combinação perfeitamente absurda. (D/G; Dd/G; Dbl/G)
• G informulados: são o resultado de uma enunciação dos diversos
elementos constitutivos de um todo sem, no entanto, se lhe referir (ao
todo). Como se o todo fosse constituído por partes que se colam, o que
denuncia uma fragilidade muito grande ao nível da identidade. (D(G);
Dd(G))

G imprecisos
Estas são respostas associadas a formas que o sujeito não precisa e dividem-
se em dois tipos:
• G vago: o sujeito introduz o vago para não ver coisas significativas e
para não ter que se revelar, ou seja, este tipo de respostas aparece
associado ao recalcamento. (F+/-) G
• G impressionistas: o sujeito deixa impressionar-se pela cor. (C; C, E) G

-G Secundário:
Estas respostas são o resultado de uma articulação/combinação dos
diversos elementos da mancha até que o sujeito tem em conta a totalidade
da mesma através de um processo de elaboração.
Este tipo de imagem remete-nos para um pensamento rico (creativo, com
capacidade de ligar) e reflexão do sujeito. ((D)G; (Dd)G; (Dbl)G; (Do)G; G bl)

4.3. Determinantes

Determinantes são as características do estímulo responsáveis por


determinadas elaborações, e para as quais consideramos dois eixos:
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O Rorschach

• Eixo mais preceptivo onde incluímos: forma (F), Cor (C), e esbatimento
específico, textura (E)
• Eixo mais projectivo onde se incluem (K), claro ou escuro (Clob) e
esbatimento tridimensional (E)

- Forma F:
As respostas formais são determinadas pela configuração da mancha
(exemplo: borboleta é uma resposta que é determinada pela configuração
da mancha).
F+ é uma forma boa ou adequada
F- é uma má forma ou forma inadequada
F+-, neste caso, o sujeito é incapaz de precisar a forma/ imagem o que
origina uma resposta indeterminada ou imprecisa (exemplo: cartão VII,
resposta de detalhe em que isola uma parte e diz que é uma ilha).
As respostas formais relacionam-se com a leitura que o sujeito faz da
realidade, por isso, a percentagem das boas formas de Rorschach dá-nos
conta da adaptação/ inserção do sujeito na realidade.

- Cor C:
• Cromática - (C) vermelho pastel
• Acromática – (C’) negro, branco e cinzento

A sensibilidade à cor ou às cores dá conta da sensibilidade ao mundo


interno e externo, às cores ligam-se afectos, emoções... (exemplos: cartão II –
“este vermelho parece-me sangue” DC; cartão IX – “pôr-do-sol” DC)
Podem integrar um F, o qual pode ser secundário à cor (exemplos: cartão II
– “mancha de sangue” C’F ou CF; cartão VII – “nuvens cinzentas”), ou então
pode a cor ser secundária à forma, o que determina a imagem é a forma,
mas a cor também contribui (exemplo: cartão V – “morcego negro” FC’;
cartão VII – “nuvem com a forma da cabeça duma mulher”).
NOTA: Quando o sujeito refere a cor apenas para a localização, a cor não
entra na determinação da resposta.
O estilo cromático vai-se modificando ao longo do Rorschach, o sujeito
pode ser mais, ou menos sensível à modificação do estímulo. Quando o sujeito
não é sensível a essa mudança, mostra que o sujeito não tem sensibilidade
interna ao mundo externo (é como se os afectos e as emoções não
circulassem, o que traduz uma dificuldade em relacionar-se com os afectos);
se a cor entra como determinante da resposta está demonstrada a
sensibilidade do sujeito relativamente aos afectos. O facto de a cor estar
integrada numa forma demonstra maturidade afectiva.
• Vermelho – pulsões sexuais ou agressivas, as quais podem surgir em
contextos de castração ou separação (exemplos: cartão 2: animais que

18
O Rorschach

estão a brigar em com o outro e salta sangue por todo o lado, ou dois
cachorros que se lamentam porque lhes cortaram o rabo).
• Pastel – sensibilidade ao meio, tendências ligadas à ternura, etc.
• Negro - está relacionado com afectos mais depressivos (luto, morte)
• Cinzento – está relacionado com afectos depressivos (mais ou menos
negro)
• Branco – relaciona-se com afectos que dão conta da inexistência
(interpretação do branco como cor associada a temas de frio DBL), às
vezes a pureza é de tal forma pura e imaculada que no limite toca no
nada e não é nada; o branco remete para vazio

-Esbatimento:
São respostas determinadas pelas diferentes tonalidades – exemplo: cartões
VII, algo de nebuloso, nevoeiro (GE), ou cartão VI, estas mudanças lembram-
me lama, lodo (GE).
As respostas de esbatimento podem ser EF, quando a forma é imprecisa e
secundária, ou FE, quando o esbatimento é secundário.
Exemplos:
Cartão VII:
- “Nevoeiro” (GE)
- “Farrapos de nuvens pela diferença de tonalidades” (EF, há
uma não definição dos limites)
- “Cabeça duma mulher desenhada numa nuvem” (FE, o
sujeito precisou a imagem)
- “Cão fofinho de peluche” (GFE)

Respostas que incluem tecido, veludo, peluche, são imagens que remetem
para o toque e para o tacto – são respostas de esbatimento.
Pele de animal pode ser Fe ou EF, há que fazer o inquérito para perceber se
o esbatimento participa ou não na resposta (exemplos cartão VI – pele de
animal, vê-se muito bem a cabeça e as quatro patas, está estendida no chão
GF+; pele de animal, vê-se muito bem a cabeça, as quatro patas e o pelo
GFE, pois demonstra sensibilidade à nuance, às diferentes tonalidades e ao
esbatimento; ao longe parece uma pele de animal, é fofinha GEF)
No esbatimento estão presentes diferentes cores e tonalidades, as cores
ligam-se aos afectos, à sensibilidade ao mundo interno (pastel); por isso as
respostas de tonalidade também se referem a afectos porém não a uma
afectividade franca, mas a uma subtileza, perspicácia, a presença deste tipo
de resposta (na ausência de resposta de cor) pode mostrar uma afectividade
abafada, reprimida.
Respostas de Esbatimento
1. Textura - A textura remete para uma dimensão táctil muito importante,
os afectos. Exemplo: cartão VI “O cãozinho de peluche é tão fofinho,
19
O Rorschach

apetece tocar!”. Afectos: nos primeiros objectos e nas primeiras relações


muitas mensagens passam pelo tacto (o qual tem um papel
fundamental). A presença deste tipo de resposta (em detrimento de
outros) dá conta da imaturidade e carências afectivas.
2. Tridimensional ou perspectiva
3. Difusão – refere-se a imagens nas quais o grau de organização é muito
ténue. Estas imagens indicam recalcamentos: o sujeito introduz algo
vago para não ver coisas mais significativas.
Exemplos: “Algo nebulosos”, “Farrapos de nuvens a dispersarem-
se”, “Fumo”, “Espirais de fumaça”

-Clob:
Para ser cotado com clob é necessário que a imagem se situe em D ou em
G, é obrigatório que haja um sentimento de perigo, ameaça ou destruição
(não se pode cotar Clob sem que exista um destes sentimentos). O que está
subjacente são os medos, estes demonstram a presença duma angústia muito
intensa, há que entender a dimensão projectiva é uma dimensão muito
importante a qual se encontra aqui.
Exemplos:
Cartão IV - “Algo demoníaco, um pesadelo terrível!”
Cartão I – “Uma impressão de terror, de fim de mundo.”
Existem respostas que integram também um F, uma resposta do tipo F clob
demonstra uma angústia contida e controlada (cartão IV: “É um homem
terrível!”; “O abominável homem das neves”; “Um gigante”; cartão I “Parece
uma bruxa”). Quando se verificam muitas respostas do tipo ClobF está
demonstrada uma fragilidade e que as dificuldades de contenção e de
controlo são muito maiores (exemplo: “Ih! Qualquer coisa terrível! Pegajoso,
repelente, nojento! Parece uma aranha!”. Este exemplo é claramente um
ClobF porque foram os diversos sentimentos do sujeito que o levaram a
associar a uma aranha, e não houve sensibilidade relativamente à
configuração da mancha).

- Respostas Cinestésicas:

São respostas em que há atribuição de movimento a uma forma específica.

- Conteúdo humano K K menores


ou
- Conteúdo animal Kan
pequenas
- Objecto ou fenómenos naturais Kob K
cinestesias
- Partes do corpo humano (Hd) ou corpo inteiro em Dd (Kp)
maiores

- K:
Cota-se K quando houver atribuição de movimento a uma forma humana
(uma figura humana inteira em movimento), também se cota K se uma figura
20
O Rorschach

humana se uma figura humana se encontrar com uma atitude de intenção


duma relação.
Exemplos:
Cartão VII: Duas mulheres que se olham; Uma mulher a ver-se ao espelho
Cartão I: Um homem a orar aos céus K (sonhar, dormir, pensar... são
cotados com K)
Um palhaço também se cota como K porque está sempre a rir, assim
como uma bailarina (está sempre associada a movimento).
EXCEPÇÂO: cartão III, os negros laterais cotam-se sempre como K sem ser
necessário que estejam associados a movimento ou a relação.
- Kan:
Cota-se Kan no caso de haver atribuição a movimento a um animal inteiro
ou quando o animal inteiro se encontra numa atitude humana.
Cartão I: uma borboleta a voar
Cartão IV: (as partes mais claras dos detalhes laterais inferiores) “Parece
um cão que está sentado a pensar na vida.”
Excepção: No cartão VIII, dois animais a subir ou a andar nas partes
laterais não são cotados como kan, mas como F+; mas se o cartão se
encontrar na posição lateral cota-se Kan.

- Kob:
A cotação Kob refere-se a objectos vistos em movimento ou a fenómenos
naturais em movimento, sendo que a força impulsionadora do movimento tem
de se encontrar no interior do objecto.
Exemplos:
Cartão II: Um foguetão a subir, vê-se o fogo da propulsão (KobC)
Cartão X: Fogo-de-artifício (KobC)
Cartão VI: (posição invertida) explosão duma bomba atómica (é sensível
às diferentes tonalidades e ao fumo - KobE)
Cartão IX: (posição invertida) erupção vulcânica, vê-se muito bem a lava
incandescente.

- Kp:
Refere-se a partes do corpo humano vistas em movimento ou o corpo
humano em movimento visto em DD
Exemplos:
Cartão VII: Um homem que balança, hesita em atirar-se ou não.
Cartão IV: dois olhos que me perseguem
Cartão IX: Uma cabeça está escondida por trás duma moita a espreitar.
21
O Rorschach

4.4. Conteúdos

Resposta à questão o quê?

A categoria de conteúdos a que pertence a resposta é indicada por


uma abreviatura.

As 15 categorias geralmente admitidas não esgotam a riqueza das


respostas, apenas constituem um inventário de imagens correntes. É possível
um reagrupamento posterior por grandes temas. Sendo artificial querer fazer
entrar algumas respostas num grupo, é melhor deixá-las tal como aparecem,
por exemplo, “máscara”, “explosão”.

Entre as respostas humanas ou animais, cota-se (H) ou (Hd) e (A) ou (Ad)


aquelas que pertencem ao domínio do irreal, do sobrenatural ou da lenda
(mas não as da História). Por exemplo: “ogre”, “dragão”, “duende”.

“Palhaços” são cotados H e as respostas “pele de animal” são cotadas


A por convenção.

- Conteúdos mais frequentes que surgem na aplicação do Rorschach:

H - Figura humana inteira, personagens históricas, palhaço

Hd - Partes de figura humana

(H) - Figuras humanas irreais, sobrenaturais, de lendas

A - Figuras animais inteiras, peles de animais

Ad - Partes de figuras animais

(A) - Figuras animais irreais

Obj - Objecto

Art - Arte (pinturas abstractas, desenhos)

Elem - Elementos fundamentais (ar, água, fogo...)

Anat - Interior do corpo (tripas, rins)

Alim - Alimentos

Sg - Sangue

Sx - Referências sexuais explícitas

Nat -Fenómenos da natureza (nuvens…)

Frag - Bocados de qualquer coisa inumana

Geo - Geografia (ilha, mar)

Bot - Botânica

22
O Rorschach

Másc - Máscara

Geol - Geologia (gruta, buraco na terra)

Abs - Abstracto (Primavera...)

Arq - Arquitectura (Torre Eiffel)

Emb - Emblema (águia do Benfica)

4.5. Banalidades

São os conteúdos que aparecem 1 em cada 6 numa determinada


população, numa mesma localização.

A banalidade refere-se, assim, à frequência de uma certa localização


com um determinado conteúdo, isto é, ao reconhecimento perceptivo de
uma certa realidade, qualquer que seja a eventual elaboração do próprio
conteúdo.

Estas respostas são designadas pela menção Ban após o conteúdo.

O determinante formal é, por definição, dominante e em F+ (FC+, K+,


etc.), releva de uma confrontação de resultados que não foram verificados
estatisticamente e de uma geração a outra verificam-se alterações, pelo que
se justificaria a realização de trabalhos estatísticos sobre esses dados.

- Lista Francesa de Banalidades ao Rorschach:

Cartão Modo de Apreensão Banalidade

I- G - Pássaro, morcego, borboleta

II - D negros - Duas cabeças de animais ou 2 animais

III - G - Homens, personagens

D. verm. médio - Borboleta, laço

IV - G - Pele de animal

V- G - Pássaro, morcego, borboleta

VI - G ou D inf. - Pele de animal

VII - Não há

VIII - D. rosa lat. - 2 animais (excepto peixes ou pássaros)

IX - D. rosa - Cabeça de homem, de bebé

X- D. azul lateral - Caranguejo, polvo, aranha

D. verde médio - Cabeça de Coelho

D. cinzento sup. - 2 animais

23
O Rorschach

4.6. Outros Factores

Recusa – Há recusa sempre que o sujeito devolve o cartão sem ter dado uma
resposta cotável. Não há assim nem tempo de latência nem tempo total.

Tempo de Latência – tempo que decorre entre a apresentação do cartão ao


sujeito e a primeira resposta cotável.

Tempo total por cartão – tempo que decorre entre a apresentação do cartão
ao sujeito a fim das associações dadas nesse cartão.

Elementos Qualitativos

Choque ou Equivalente de Choque – Trata-se de perturbações do processo


associativo que se referem a diferentes elementos e mais especificamente a
factores temporais, à sequência dos modos de apreensão e à qualidade
formal dos determinantes.

Segundo a intensidade da perturbação e a maneira de dela se defender,


distingue-se:

• Choque Manifesto – que se exprime verbalmente de uma forma directa


(“Oh! Que horror!”, “É horroroso!”), ou através do silêncio ou da recusa.

• Equivalente de choque – que são objectivava de diferentes maneiras:


numerosas manipulações, alongamento do tempo de latência (o
tempo mais longo ou claramente superior ao tempo médio),
comentários verbais, críticas objectivas e subjectivas, redução ou
aumento espectacular do número de respostas, brusco
empobrecimento da qualidade das respostas, em síntese, qualquer
modificação importante na reactividade.

• Os fenómenos de choque mais correntemente descritos são:

▪ Choque Cor (cores pastel e vermelho)

▪ Choque Clob, também designado por choque negro

Há outras características do material que podem provocar reacções de


choque.

Preservação – quando uma resposta formalmente adequada num cartão se


repete duas vezes de forma arbitrária (F-) nos cartões seguintes.

Observação Cor – observação subjectiva de prazer ou de desprazer sobre as


cores.

Observações de Simetria – presença de observações sobre a simetria das


manchas. A indicar como Sim.

Crítica Subjectiva – crítica de si, da sua eficácia ou dificuldade.

Crítica de Objecto – crítica às características do estímulo.

24
O Rorschach

É obvio que a cotação é redutora e não consegue dar conta de toda a


riqueza e complexidade dos protocolos.

Nem a cotação, nem o psicograma têm sentido tomados


isoladamente, é indispensável proceder a uma análise qualitativa que integre
todos os dados com o objectivo de uma síntese clínica.

4.7. O Psicograma

A análise quantitativa é realizada pela elaboração do Psicograma. O


psicograma é a recapitulação dos dados obtidos. Uma vez terminada a
cotação, agrupam-se todas as categorias de respostas numa folha de modo
a que se possam comparar com os valores normativos, tornando-se evidentes
os traços salientes (tudo o que se afasta da norma). A interpretação do
protocolo do sujeito irá incidir sobre esses traços salientes.

Na primeira coluna anota-se o número de respostas, as recusas e os


diferentes tempos observados.

R - número de respostas total (cerca de 20 a 30).

Recusa - número de recusas e quais os cartões recusados.

TT - soma dos tempos totais em cada cartão. È exprimido em minutos e


segundos (20 a 30 minutos).

T/R - é dada pela soma do tempo total a dividir pelo número de respostas (40
a 60 segundos).

T/Lm - é dado pela soma dos tempos de latência a dividir pelo número de
cartões interpretados. É exprimido em segundos.

Localizações = N x 100

R
Na segunda coluna faz-se a reorganização dos modos de apreensão.

G 20% a 30%

D 60% a 80%

Dd 6% a 10%

Dbl 3%

Do

25
O Rorschach

Na terceira coluna anota-se o número total de cada determinante. No


caso de os determinantes serem duplos, cada determinante é recenseado na
sua categoria, por exemplo, um KC é, em geral, decomposto em K e FC,
enquanto um kobC é, em geral, decomposto em kob e C ou CF.

Na quarta coluna anota-se o número total de conteúdos do protocolo.


Os H e os A devem ser destacados.

Os conteúdos não previstos na folha do psicograma devem ser


acrescentados. É evidente que a soma de cada coluna deve ser igual ao
número de respostas (excepto nos determinantes quando há determinantes
duplos, pelo que se deve proceder a essa verificação.

Na quinta coluna anota-se as percentagens dos vários tipos de F, A e H


e o número de banalidades.

A percentagem de F está relacionada com o recurso ao formal, ao


intelectual ou ao socializado. Em princípio menos afectivo, a-conflitual. Se os
valores dos F se situarem abaixo da norma há uma perturbação do
funcionamento cognitivo. Se, pelo contrário, se situarem acima da norma há
facilidade do funcionamento cognitivo.

A normalidade da percentagem de A revela uma boa participação no


pensamento colectivo.

O número de banalidades de um protocolo não se expressa em termos


de percentagem, uma vez que o seu número varia em função de R. As
banalidades são 12 e só devem aparecer uma vez numa localização. Se o
sujeito só expressa banalidades dá conta duma socialização de superfície, o
que significa que o sujeito dá pouco de si. Regra geral, a normalidade é de 5 a
7 banalidades. Contudo, é variável consoante o número total de respostas do
sujeito.

F% = Número total dos F x 100  (50% a 70%, mas situa-se a 60%)


R

F+% = Número de (F+) + ½ (F±) x 100  (80% a 85%; não é muito válido
quando o número total de F é
Número total de F
baixo)

A% = A+ Ad x 100  (35% a 50%)


R

H% = H+ Hd x 100  (12% a 18% ≈ 16% )


R

-Sucessão:
- rígida – ordenada – relaxada – incoerente

26
O Rorschach

Refere-se à ordem perceptiva das respostas num cartão, a qual deverá ir


sempre do geral para o particular. Se esta ordem for igual em todos os cartões
trata-se duma sucessão rígida; se for sistemática ao longo de 7/ 8 cartões, é
uma sucessão ordenada; se a ordem for sistemática ao longo de 3/ 4 cartões,
estamos perante uma sucessão relaxada ou frouxa; se esta ordem variar
sistematicamente designa-se por incoerente. Nos dois primeiros casos existe
controlo sobre os processos cognitivos.

-Tipo de Apreensão:

Anotam-se as localizações apresentadas no protocolo segundo a ordem


convencional (G-D-Dd-Dbl-Do); sublinham-se aquelas cujas percentagens são
superiores à norma e sobrelinham-se as que são inferiores à norma.

G D Dd Dbl

20 a 23%  G 60 a 68%  D 6 a 10%  Dd 3%  Dbl

30 a 45%  G 68 a 80%  D 10 a 15%  Dd 3 a 6%  Dbl

45 a 60%  G 86 a 90%  D 15 a 25%  Dd 6 a 12%  Dbl

+ de 60%  G + de 90%  D + de 25%  Dd + de 12%  Dbl

- Tipo de Ressonância Íntima (T.R.I.):

É a comparação entre o número de cinestesias maiores (K) e a soma


ponderada das respostas cor (C)

As respostas são ponderadas da seguinte forma:


T.R.I. = K / ΣC
1 Ponto – cada cinestesia

0,5 Pontos – cada FC ou FC’


Será o sujeito orientado para a
estimulação exterior (extratensivo), 1 Ponto – cada CF ou CF’
interior (intratensivo) ou misto?
1,5 Pontos – cada C ou C’

Do ponto de vista patológico, a perturbação histérica domina para os


estímulos externos e o autismo é a patologia máxima associada à introversão.

O T.R.I. permite aceder ao mundo interno/externo, ou seja, da atitude que


o sujeito tem para consigo próprio e para com o mundo. O mundo (externo ou
interno) é enriquecido pelo outro, e o T.R.I. vai permitir perceber se o sujeito
investe mais no externo ou no interno. Dependendo desta relação, Rorschach
27
O Rorschach

distingue 4 tipos de ressonância íntima, distinguindo-os segundo a sua


frequência de aparecimento entre indivíduos normais e, sobretudo, em
doentes mentais, e apresenta as variáveis psicológicas do teste que
acompanham esses tipos. É, portanto, em termos de dados do teste que o TRI
é definido, e não em função do processo psicológico.

- Tipo Extratensivo:

É puro ou misto, conforme o pólo K seja nulo ou não.

Os tipos extratensivos são dominados por cargas afectivas ou uma


excitabilidade cuja utilização é frequentemente inadequada. Falta-lhes
perspectiva na apreciação da realidade objectiva, mas podem ser
espontâneos nas suas reacções. Sendo impulsivos, podem, no limite, ser
instáveis. Estas respostas mais emotivas do que pensadas aparecem
atenuadas no tipo extratensivo misto.
A instabilidade torna-os muito maleáveis; o objecto, a realidade exterior,
domina-os com facilidade, mas o relaxamento das funções cognitivas e do
controle produz efeitos de regressão, uma regressão salutar ao serviço do Ego.

- Tipo Introversivo:

Também pode ser puro e misto, conforme as reacções cor C estejam ou


não expressas nele.
No caso do tipo puro a adaptação feita mais pelo pensamento do que
pelo afecto. São sujeitos bastante virados para si próprios. Preocupam-se com
a sua própria personalidade. Os indivíduos observam o objecto, reflectem, são
capazes de protelar a acção e a gratificação, e parecem ter um carácter
reservado. Neste sentido, podem ter um bom conhecimento de si mesmos,
talvez estejam conscientes das suas dificuldades, mas podem absorver-se na
sua contemplação imaginária e o seu mundo interior prevalece sobre a
realidade exterior.
A reacção do tipo misto é mais impulsiva, sendo os indivíduos muito
centrados em si mesmo mas capazes de incidentes explosivos.
A sintomatologia dos tipos introversivos será, sobretudo, ideacional e só
ocasionalmente comportará descargas afectivas. Encontram-se, portanto, os
introversivos nas neuroses obsessivas e fóbicas, nos estados esquizóides e certas
esquizofrenias paranóides.

- Fórmula Complementar (F.C.):

É a comparação entre o número de cinestesias menores (kan, kob e kp) e


a soma ponderada das respostas esbatimento (E)

As respostas são ponderadas da seguinte forma:


F.C. = (kan+kob+kp) / ΣE
0,5 pontos – cada FE

1 ponto – cada EF 28
1,5 pontos – cada E
O Rorschach

Ao calcular a FC, vamos verificar se ela Consciente


confirma ou informa o TRI. Quando o TRI é
contraditório com a FC, isso indica que há uma K TRI C
parte inconsciente (recalcada) do sujeito que K FC C
tende a ir contra o consciente.

Inconsciente

- Reactividade Cor (R.C.%):

Percentagem das respostas dadas nos três últimos cartões em relação


com o número total de respostas.

Dá-nos conta do potencial afectivo do sujeito. É importante que


algumas destas respostas integrem a cor como determinante, pois são elas
que dão conta da mobilização dos afectos. Há outros cartões que também
nos dão conta dos afectos (II, III), pelo que se deve fazer a ligação disto com
aqueles cartões e perceber se houve respostas determinantes com a cor
vermelha ou não.

R.C.% = Número de respostas ao VIII, IX e X x 100  (30 a 40%)


R

- Índice de Angústia (I.A.%):

Há autores que usam o IA; normalmente é igual a 16%.

I.A.% = Anat + Sg + Sexo + Hd x 100


R

29
O Rorschach

5. O Rorschach na prática Clínica


O objectivo do Rorschach é apreender a realidade psicológica do sujeito,
isto é, a sua subjectividade (o que é, como se vê a si próprio na relação
consigo e com o mundo, a natureza dos conflitos) e tentar descobrir as
modalidades de funcionamento mental dominantes.
• Os mecanismos de defesa;
• A angústia presente;
• Identidade (o que sou eu? – a nível da consciência como humano);
• Identificação (ao nível do género);
• Limites do corpo;
• Relação de objecto.

Identificar o tipo de estrutura mental (diagnóstico psicológico):


• Psicótica
• Neurótica
• Estados-limite

Podemos admitir a situação de teste Rorschach como um triângulo, onde


vão aparecer vários aspectos. Por um lado, num dos vértices, teremos a
problemática do testador. Esta não é anódina, há sempre algo de
intrusividade; pode ser um estilo mais directo ou autoritário, mas há sempre um
estilo. No outro vértice poderemos pôr a comunicação da dinâmica
interpessoal na interpretação, isto é, os aspectos transferenciais e contra-
transferenciais. Há um interpenetração de dinâmicas de uma parte e de
outra: o que o sujeito vê em mim e que se repercute na forma como se
relaciona com o teste e, por outro lado, a forma como eu o vejo a ele e que
se repercute na forma de eu interpretar os protocolos. Finalmente, num
terceiro vértice temos a dinâmica do teste, isto é, o regressivo e progressivo no
próprio teste.
Quer isto dizer que o Teste Rorschach é feito de movimentos progredientes,
ou regras. O que nós assistimos às vezes é a melhores níveis de funcionamento
nuns cartões do que noutros. Por exemplo, um sujeito pode dar 3 ou 4
respostas perante um mesmo estímulo, começando por uma resposta de boa
qualidade que se vai degradando. Por outro lado, pode suceder o inverso.
Portanto, pode haver uma degradação da resposta ou um melhoramento da
resposta inicial.
Quando há uma degradação da resposta, o sujeito tentou fazer face
àquele estímulo, mas os mecanismos de defesa que utilizou não foram
suficientemente sólidos para que ele se aguentasse e daí surgir a queda na
qualidade da resposta. São movimentos regredientes.

Há indivíduos que ficam perturbados inicialmente, e depois são capazes de


mobilizar mecanismos de defesa adequados para aguentar e melhorar o nível
da resposta. São movimentos progredientes. Em termos de prognóstico e
diagnóstico, é muito melhor um indivíduo que é capaz de encontrar recursos
em si, do que um indivíduo que acaba por mergulhar pela fantasmática que
está em jogo e que não tem capacidade de distinguir o fantasma da
realidade.

30
O Rorschach

São, pois, três vértices de uma mesma questão que estão sempre em jogo
nesta questão da avaliação psíquica através do uso das técnicas projectivas.
Produz-se, antes de mais, num contexto, segundo numa interacção e
finalmente numa intersubjectividade.
É redutor pensarmos que as respostas produzidas pelo sujeito são produto
unicamente do confronto entre o sujeito e a mancha, de onde estaria
evacuado todo o olhar e a presença do próprio examinador. Esta interacção,
esta intersubjectividade, tem expressão no próprio comportamento e na
própria forma do indivíduo se expressar.

- A análise do protocolo tem duas vertentes:

Modelos quantitativos e explicativos

Medida psicológica e demonstração a partir de certos princípios


psicométricos e estatísticos. É uma medida objectiva e é expressa no
psicograma.

Modelos Interpretativos Hermenêuticos

Análise subjectiva das respostas, expressa em três eixos:

• Expressão dos aspectos intelectuais;


• Dinâmica afectiva;
• Socialização.

Estão ligados à significação, relação entre teoria, teste e psicopatologia.

O conhecimento objectivo é fundado no real e nos sinais exteriores


(atribuição de nota); o conhecimento intersubjectivo tenta perceber o
processo que levou à resposta, em vez de a avaliar. A objectividade pura
esconde os fenómenos - os instrumentos de medida não devem passar de
auxiliares de observação que revelam dados cujo valor se apura na análise e
interpretação, que têm de estar submetidos a uma teoria, modelos e métodos,
para os descodificar.

- Processo-resposta Rorschach:

O Rorschach é um instrumento para conhecer o que o seu uso provoca;


permite revelar os processos mentais que fundam a relação de objecto e do
sujeito com ele próprio, a representação do objecto e a representação da
relação. Permite conhecer as suas capacidades criativas e de recriação (liga
interno e externo e vai criar um novo objecto, uma criação sua).

A realidade interna é única em cada sujeito, não é partilhável; a


realidade externa é partilhável, mas é interpretada pela realidade interna. É

31
O Rorschach

na interacção e inter-relação destas duas realidades que reside o ponto fulcral


do Rorschach.
A partir desta conceptualização, o sujeito formulará o processo-resposta
Rorschach – ligação, transformação e criação entre o mundo interno e o
externo (subordinado pela intersubjectividade). A reposta é um novo objecto
resultante desta confrontação, tentando dar sentido ao que não tem sentido –
revela a natureza dos objectos internos (foram mobilizados pelos objectos
externos porquê?).

Chegamos assim à natureza do Eu → mais importante que prestar


atenção à resposta do sujeito é tentar perceber esse processo associativo, que
vai desde a percepção do estímulo até à resposta final.

A partir de um protocolo de Rorschach bem sucedido, podemos saber


qual o modo de funcionamento mental dominante (e conflitos dominantes)
do sujeito noutras situações.

É através da simbolização que podemos explicitar o processo-resposta


Rorschach. A simbolização é fundamental dado que lidamos com material
verbal, que veicula uma imagem, um conceito e um símbolo (susceptível de
interpretação).
A resposta Rorschach (símbolo) é permitida por:

• Contexto;
• Relação interpessoal;
• Características do próprio estímulo;
• Instrução dada ao sujeito.

Revela a forma do sujeito pensar, como articula as ideias entre si. Esta
actividade de pensar faz-se através do processo de ligação e transformação
de diversos universos psíquicos, recriação e criação. A resposta final é a
recriação do objecto (produto entre o interno e o externo). Tem um conteúdo
explícito e um conteúdo latente.

- Projecção:

A projecção é utilizada para apreender o real, e pode ser de natureza:


• Avaliativa – atribuição de significados e valores.
Ou

• Evacuativa – mecanismo patológico (pertence à serie psicótica, em


particular à paranóia) - é um mecanismo de defesa psicótico que
consiste na atribuição ao exterior das coisas que o sujeito rejeita em si
próprio.

32
O Rorschach

A percepção e a projecção estreitamente relacionadas, sendo que uma


não existe sem a outra, permitem a delimitação entre mundo interno e mundo
externo e também a representação do mundo interno e externo.

No Rorschach, o estímulo é a mancha, o qual tem características


perceptivas bem precisas, apesar de ambíguas. A ambiguidade e as
características da mancha vão levar o sujeito a usar a projecção, para lhe dar
um sentido:

• Atribuindo a imagens ambíguas o estatuto de imagens bem definidas;


• Articulando o imaginário com a realidade ambígua que lhe é próxima e
transformando essa realidade;

Está presente quando os sujeitos utilizam estratégias defensivas e pode ser


associada a uma situação de conflito. A ambiguidade do estímulo leva à
mobilização da imaginação por parte do sujeito de uma forma activa, o que
provoca, numa mesma resposta, a conciliação entre forças inconscientes e
conscientes, tendo em conta a realidade interna e externa; O sujeito articula o
imaginário com a realidade ambígua que lhe é próxima e transforma a
realidade noutra realidade. A resposta global vai ter de levar em conta a
fantasia.
O processo projectivo leva a que só sejam acolhidas e investidas pelo
sujeito as percepções e as representações que reactivam traços mnésicos
individuais ou que integram essas reacções num sistema prévio.

Na situação projectiva o sujeito tem de se mobilizar para ordenar as


percepções internas e externas, ver o estímulo, sentir e pensar o estímulo, e
conciliar estas duas coisas numa só resposta; por isso se vão operar oscilações
entre a realidade interna e a externa.

Real Externo ↔ Pressão Interna

A resposta final desejada deverá conter as duas realidades, conciliando


as duas pressões; deve mostrar que o sujeito tem a capacidade de regredir,
dando uma resposta secundarizada, perceptível e inteligente (deve conter
elementos reais propostos pela situação, que sejam coloridos pelos afectos) - a
situação projectiva pode ser assimilada a uma situação de conflito, porque as
características ambíguas dos estímulos levam o sujeito a ter de mobilizar
activamente a imaginação e o sujeito vai ter de, num mesmo movimento,
numa mesma resposta, conciliar imperativos inconscientes e imperativos
conscientes; vai ter de ter em atenção a sua realidade interna e a realidade
externa, desta forma a resposta final vai ter de ter em conta a realidade e a
fantasia. A boa distância permite que a resposta, mantendo presente a
realidade, mostre igualmente as ressonâncias fantasmáticas, ou seja as
produções do sujeito deverão conter os elementos reais que são propostos,
mas coloridos pelo afecto, isto é, com ressonância afectiva e fantasmática e
sendo os afectos emoções, há-os mais emotivos ou menos emotivos (Se o
sujeito diz “Estão aqui dois homens (ou duas mulheres) a dançar numa festa
com borboletas a esvoaçar à volta”, a imagem “Seres humanos” proposta
pela pessoa, coaduna-se com a realidade mas está colorida pelo afecto; as

33
O Rorschach

percepções estão sempre ligadas a representações. Há um encadeamento


de percepção, representação e afecto e o sujeito durante o encadeamento
associa sempre um afecto a essa representação que lhe surge no espírito).

Percepção Representação Afecto

(Retroacção)

Cada cartão tem características precisas (embora ambíguas) que se


centram em dois eixos:

1. Eixo da Representação de Si

2. Eixo da Representação da Relação

O conteúdo latente dos cartões pode perturbar o sujeito de tal forma


(pressões fantasmáticas) que ele se refugia no imaginário e perde o contacto
com o princípio da realidade (quase delirante); o contrário também acontece
– agarra-se à realidade e revela um funcionamento mental muito
empobrecido.

Os cartões II e III (com vermelhos) e VIII, IX e X (cores pastel), têm


características que permitem ao sujeito situar-se diferentemente e são
susceptíveis de permitir ao sujeito uma compreensão simbólica sentida em dois
eixos: o eixo da representação de si e o eixo da representação da relação.
Basicamente, quando o indivíduo se revê, se projecta nestas manchas de
tinta, é natural que se reveja como ser humano e possa ver essas figuras
humanas em relação. É da maneira como o sujeito vai jogar com estes
elementos projectivos, que nós percebemos quais são os seus estilos
relacionais.
A realidade objectiva entra em confronto com a realidade interna, sendo
uma projecção. No limite, o real não existe, apenas a realidade individual -
produto da projecção do eu sobre o exterior.
Percepção e projecção participam ambas na delimitação entre o mundo
interno e o mundo externo. Quando dizem que as figuras humanas estão a
sangrar, o envelope físico não está constituído, o processo projectivo leva
também a que só sejam acolhidas, investidas pelo sujeito as percepções, as
excitações que reactivam traços mnésicos individuais.
O material que interessa ao psicólogo é o que reactivar no sujeito traços
mnésicos, lembranças que são importantes para o sujeito - em todos os sujeitos
há estímulos que irão ser integrados num sistema pessoal.
Ainda na situação projectiva, o sujeito vai ter de se mobilizar para ordenar
as percepções interna e externa, aquilo que ele observa e aquilo que ele
pensa sobre o que observa. Assim, vai oscilar entre a realidade e a fantasia,
entre a realidade objectiva e subjectiva. É por isso que vamos observar
34
O Rorschach

oscilações no discurso do sujeito, movimentos mais ou menos subtis entre a


realidade interna e a realidade externa, de modo a dar uma resposta que
contenha essa realidade externa e, ao mesmo tempo, a sua realidade interna.
De um lado temos o percepto, do outro a pressão interna - a boa distância
será aquilo que permite que a resposta, mantendo presente a realidade,
mostre igualmente a ressonância fantasmática do sujeito.
Podemos ter duas situações extremadas: uma pressão fantasmática pode
ser de tal forma que o sujeito deixe de poder contar com a realidade externa,
por outro lado, há indivíduos que são incapazes de se alimentarem dessa
ressonância fantasmática e então só existe realidade externa. Nesses casos,
pode acontecer que só dêem uma resposta por cartão sem interjeições nem
adjectivações.

Uns deixam-se ultrapassar pela ressonância fantasmática ao ponto de ser


quase delirante, outros não conseguem sair da realidade externa, não há
nada de si, só o real. A capacidade de ler os fenómenos é mais protectora
para as pessoas.

Cartão I

Mancha cinzenta escura centrada, onde existem 4 lacunas com grandes


aberturas de bordos muito irregulares. Normalmente os modos de apreensão
são G, baseando-se na forma (determinante F). O sujeito é sensível à condição
tripartida do estímulo (1 central, 2 laterais). Esta composição tripartida vai
permitir pôr esses diferentes elementos que compõem o estímulo em relação,
seja essa relação entre seres humanos ou entre animais.
Exemplo: “Dois anjos a elevarem uma mulher”. Pode ser uma relação
com seres humanos ou animados, ou então uma resposta securizante ou de
perigo.
Neste cartão não há grande reacção à textura (determinante sensorial), e
quando isso acontece são respostas vagas F e sem grande rigor intelectual
ou estrutura definida (ex. “Rochedos”, “Nuvens”). A partir do momento em que
o sujeito precisa a sua resposta quanto à forma, só se pode cotar F+ ou F-

As lacunas centrais são pouco interpretadas, embora haja 4 buracos ou


espaços brancos, e que ora passam despercebidas, ora acabam por ser
integradas na própria imagem, podendo trazer consigo elementos de
inquietude, desagradáveis, persecutórios (ex. “Uns olhos de um lobo”).

A tonalidade emocional é quase sempre mais disfórica que eufórica (há


pouco entusiasmo), visto apresentar uma tonalidade depressiva, no entanto, a
partir dos buracos brancos podem também aparecer respostas securizantes,
como por exemplo “as janelas da minha casa”. Quando o sujeito refere que “É
uma máscara” remete para o voyeurismo, porque permite ver sem ser visto.

Este cartão está ligado ao desconhecido, o sujeito não sabe o que vai
acontecer a seguir, é o primeiro contacto com o psicólogo, daí que possa
gerar uma certa inquietude. O sujeito pode tomar uma atitude passiva,
35
O Rorschach

socializada, e como tal, dar respostas banais (G F+ ban), ou então mobilizar


as suas forças face ao desconhecido, traduzindo-se em respostas K. A
cinestesia é projectiva e como esta é criativa, há mobilização de recursos. Este
cartão reenvia para a relação com o imago (representação inconsciente)
materno todo-poderoso, podendo ter respostas a um nível mais evoluído, mais
relacional, mais lúdico, ou menos evoluído, mais perturbado, mais ameaçador.
De acordo com o que o sujeito disser podem-se levantar hipóteses quanto à
relação com esse imago interiorizado. Essas hipóteses, essas pistas, têm que ser
trabalhadas e têm que encontrar sentido na relação com o sujeito.

As duas respostas mais comuns são “animal alado” G e “personagem


feminino” D central. A ausência das mesmas levanta um problema, cuja
solução só será possível considerando-se o restante do protocolo.

O “Animal alado” ilustra como o sujeito reage de imediato às situações


novas. Neste sentido, foi possível situar um choque inicial e uma dificuldade de
dar início. Uma resposta banal é a defesa mais comum contra este tipo de
choque.

Algumas respostas possuem um significado especial, a ser confirmado pelo


resto do protocolo:

G (cabeça de gato ou de outro animal)  medo do mundo exterior;

G (pássaro batendo as asas)  tendências paranóides;


D lat (perfis)  atitudes de críticas sistemáticas;

D lat (feiticeiras)  imagem materna ameaçadora;


D centr· (vestes transparentes)  tendência a adivinhar o que está por trás do
personagem vivido pelas pessoas;

(monges, figuras religiosas)  recusa a diferenciar os sexos;

(órgão feminino), visto por uma mulher  fixação incestuosa;

D sup (mãos)  ou pedido de socorro ou ameaça;

D sup (boca aberta)  agressividade oral;

Dbl centr (fantasma andando, homem invisível)  tendências paranóicas;

Dd cinza claro central (tomahawk, machado)  psicopata agressivo;

Quanto à significação global do cartão, foram feitas as seguintes hipóteses:

• Situação do primeiro confronto: “quem és?”


• Autoridade paterna: o choque indicaria, se confirmado no cartão IV,
uma perturbação no relacionamento com a figura paterna;
• Distúrbio nas relações pré-genitais com a mãe (confirmar nas cartões VII
e X) se o D central for visto como “vestimenta, esqueleto, vaso,
arquitectura”, A ou Pl (substituto desvitalizado da mulher); “barco” G:
36
O Rorschach

símbolo da vida intra-uterina, dependência total da mãe; “montanha”


G: símbolo dos seios, desvalorização da imagem materna, busca do
apoio fundamental.

A diversidade de tais hipóteses é explicada por um fenómeno mais básico:


o sujeito entra em contacto com o examinador, começando a desenvolver,
em relação ao mesmo e à prova, um processo dinâmico de transferência, no
sentido psicanalítico do termo.

Cartão II

Este cartão é composto por uma mancha que inclui a cor negra e
vermelha, de estrutura simétrica, que engloba um grande espaço vazio – o
branco. A resposta global G, quando é dada, é sempre como resultado da
mistura das cores (ex. pintura rupestre  G impreciso). É raramente adequada
se o determinante for formal, sendo assim, será um F-. Há uma estrutura
bilateral em volta da parte central vazia, onde se insere o vermelho. Este é
importante na medida em que reaviva as pulsões libidinais e agressivas do
sujeito. Exemplo da boa integração destas pulsões através de dois elementos
que lutam: “São dois palhaços que lutam”; ou “Dois elefantes jogando à
bola”. Se o sujeito lida mal com as pulsões agressivas, evita o vermelho
interpretando só o preto.
Do ponto de vista emocional, os sujeitos reagem a esta cartão porque é a
primeira a incluir a cor vermelha. A resposta global G mais frequente é: “Dois
homens” ou “Dois animais” em interacção, no entanto, a cinestesia pode ser
bloqueada pela perturbação devida à cor. O branco pode ser interpretado
como um buraco, uma falha (ex. entrada para uma gruta). Também pode ser
vista como um objecto, sendo muitas vezes visto como “Um foguetão a
levantar voo num céu cheio de nuvens”. A um nível mais evoluído de
respostas estas remetem para situações de luta, de competição, e a um nível
mais primário, menos evoluído, estas remetem para situações com temáticas
destrutivas, ligadas por exemplo, a explosões e rebentamentos. A
problemática da castração é claramente visível, bem como a angústia que
lhe está directamente ligada e os processos defensivos que o sujeito utiliza
para fazer face a essa angústia.

Neste cartão, assiste-se à emergência duma temática obstétrica, pré-


genital (nascimento), o sujeito revive alguns dos conflitos da sua infância,
revelando uma relação simbiótica ou destruidora com a mãe (ex. “Um feto
que quer sair do corpo da sua mãe mas não consegue”; “Um útero
esvaziado”). Se mobilizado pela cor (choque cor), reage quer através da
passividade ansiosa, quer através duma explosão de agressividade (fogo,
sangue), ocorrendo tais reacções tanto em pessoas normais, como em
neuróticos. O centro evoca representações sexuais, com bastante
naturalidade.

Quando o sujeito em D cinza centr sup indica “Falo” ou em D vermelho inf


indica “Vagina”, o grau de perturbação do sujeito por problemas sexuais vai
ser determinado pelo conteúdo e pelo estilo destas respostas; a perturbação é
37
O Rorschach

nítida, se a resposta sexual for deslocada para o Dbl central, ou se a cartão lhe
parecer suja (lama, sangue, menstruação).

Cartão III

Este cartão tem os mesmos componentes do cartão II, nomeadamente a


cor vermelha, no entanto, difere desta numa maior abertura ao branco. O
modo de apreensão em G refere-se normalmente à relação que o sujeito
estabelece entre as partes negras. A resposta global neste cartão é tida em
reacção aos negros, e ainda que o sujeito não interprete os vermelhos cota-se
G; há uma articulação das duas partes. Trata-se de uma excepção. Não só é
raro surgir uma resposta G que englobe os vermelhos, como também costuma
ser desadequada. Quando o sujeito força a resposta, o estímulo vermelho
provoca muitas vezes respostas delirantes, principalmente com o cartão
invertida (ex. “É um monstro de braços levantados, vê-se o coração”.  O
sujeito reduz os personagens a imagens internas do interior do corpo, em vez
de projectar uma vivência relacional. Isto significa que a barreira entre o que é
externo e interno não está claramente estabelecida.)
O clima emocional é positivo e este cartão agrada normalmente aos
sujeitos. É frequentemente escolhida como a cartão preferida. O próprio
estímulo, por estar próximo da realidade objectiva, isto é, por evocar
facilmente as silhuetas humanas, também pode levantar problemas por isso,
podendo rapidamente adquirir uma tonalidade negativa se o sujeito se vê
confrontado com um outro e esse outro tem dificuldades relacionais. O
indivíduo pode arranjar uma série de estratégias para evitar esse mal-estar,
podendo passar pela encenação de génios, de duplos, de imagens
especulares, um eu e um duplo (“Está a ver-se ao espelho”), podendo ainda
passar pela coisificação, numa encenação de figuras humanas (bonecos,
manequins). Os personagens são desvitalizados, o que representa uma
relação complicada com o outro.

Este cartão permite uma identificação (uma identidade sexual) quer


masculina (através do pénis) quer feminina (através dos seios). O resultado
simbólico resulta da disposição destas silhuetas que estão muito próximas da
realidade e o sujeito vai poder exprimir a necessidade de representação de si
por um lado, e a representação de si face ao outro, e ainda a descoberta
desse outro e o tipo de relação que é procurada com esse outro, uma relação
de apoio (representação de si e representação da relação).

Normalmente, se falarmos de representação de si, os sujeitos homens e


mulheres vêem-se espelhados. O sujeito encerra-se na sua identidade de
género e também na relação com os outros.

Este cartão testa muito bem as dificuldades identificatórias (registo do ser –


que sou eu? a que comunidade pertenço? animal, vegetal?) e as dificuldades
mais primárias (registo do ter – quem sou eu?). A ausência da percepção de
seres humanos, confirmada pelo inquérito de limites, faz supor uma
incapacidade de identificação com outros seres humanos, que muito
provavelmente é psicótica.
38
O Rorschach

A figura humana percebida sem cinestesia, a incerteza quanto ao sexo, ou


o choque a este cartão, denotam inibição referente à virilidade: o homem
teme a sua virilidade, a mulher teme o contacto com o parceiro sexual.

Os dois personagens são muitas vezes vividos inconscientemente como o


par parental e, nesse caso, o sujeito revela nas suas respostas a sua relação
edipiana com os pais.

G (marionetes, bonecos mecânicos)  esquizofrénicos com ideias de


influência.

Dd centr inf (maxilares que se fecham, draga mecânica)  tendências


paranóides, fobia de lugares fechados.

Cartão IV

Este cartão é composto por uma mancha escura e densa, mais compacta,
que se espalha bastante no cartão. Este cartão é mais próximo do cartão I e é
mais sombrio.
O modo de apreensão habitual é global G.

Exemplos:

“Monstro sentado num tronco de uma árvore”

“Monstro em cima de uma mota”

“Pele de animal (de urso) ” (neste caso não tem esbatimento/textura, pelo
que não é E)

No entanto, há sujeitos que, devido ao impacto fantasmático e doloroso


que o cartão lhes provoca, põem em funcionamento o mecanismo de defesa
– isolamento. Este é um mecanismo da série neurótica e mais especificamente
das personalidades obsessivas. Ex. o sujeito em vez de dizer que é um gigante
ou um urso, diz que é um pé ou um sapato. Isola para não ter de se confrontar
com a angústia provocada pelo aspecto fantasmático do estímulo, que
reenvia, do ponto de vista simbólico, para a força, para o poder.

O esbatimento remete para a necessidade de um contacto mais próximo,


mais íntimo, e nem todos os indivíduos têm necessidades dessa natureza, o
que quer dizer que, sendo assim, poderá haver aqueles que são mais sensíveis
à forma. Outras vezes, os sujeitos são sensíveis às qualidades sensoriais do
estímulo e, nesse caso, praticamente não há forma. Exemplo de uma resposta
G determinante sensorial: um pesadelo - informe, absolutamente subjectivo
que parte das qualidades sombrias da mancha.

A ausência de respostas banais (ser humano ou animal para-humano - G) e


os D laterais (as botas) colocam um problema. A reacção do sujeito ao

39
O Rorschach

esbatimento merece ser observada, devendo seguir-se a evolução dessa


reacção nos cartões V, VI e VII.
O conjunto dos 4 cartões cinzentos constitui material reactivo à angústia
(choque ao negro), daí que a tonalidade emocional seja quase sempre
disfórica, isto é, frequentemente desagradável para o sujeito. Provoca
desconforto e angústia, havendo alguns indivíduos que ficam completamente
siderados, podendo isto traduzir-se numa não resposta.
Quanto ao valor simbólico, contrariamente ao que vem escrito nalguns
livros, este cartão não é a do papá, a não ser que se defenda que o superego
não é apenas paterno, havendo portanto superego materno. Este cartão está
ligado à força, ao poder, à autoridade. Alguns autores também lhe chamam
o cartão do superego. Um superego que tanto pode ser materno como
paterno.

Sendo este cartão simbolicamente representativo dessa autoridade, vamos


ter reacções quer positivas quer negativas, na forma como os sujeitos se vão
posicionar face a essa autoridade. Vão haver sujeitos que ou se identificam
com essa autoridade ou a ela se submetem.

Os sujeitos vão exteriorizar representações de autoridade paterna, angústia


infantil e sentimentos de culpa diante do superego, complexo de castração,
transformação da agressão em depressão e eventualmente ideias de suicídio.
Ex. ”Dente caindo de uma árvore podre”; “Pedaço de madeira queimado e
carbonizado”; “Massa de fumaça negra”.

Perante este simbolismo, os sujeitos vão dar basicamente dois tipos de


resposta:

1. Os que se identificam com esta denominação (posição activa)


2. Os que se submetem à denominação (posição passiva)

Isto significa que há sujeitos que dão respostas que valorizam o aspecto da
força e outros que se refugiam numa atitude contrária à da força, dando
respostas que dão conta dessa inconsistência, dessa passividade e do receio
à figura de autoridade (ex. resposta “pele” é uma imagem adaptativa).
Há também um carácter de bipolaridade sexual, mas a dimensão mais
explorada é a fálica (ex. cartão virado ao contrário, D médio central  “Um
castelo”; “A coroa de um rei” – retrata a autoridade, a força, o prestígio). Nas
respostas a este cartão espera-se esta identificação com esse símbolo fálico,
duma forma valorizada. Uma criança pode identificar-se com o pai e sentir-se
penetrado pela força paterna.

Pénis estruturante do pai: é a força transmitida através da identificação do


filho. É obvio que é simbólico. As crianças com pais sádicos, só têm duas
escolhas possíveis: ou se submetem e são masoquistas, ou se identificam com
eles (com o agressor), e tornam-se eles próprios agressores, quer seja na
escola, com a mulher, filhos, etc.

Quando existe um pai violento, o filho ou se submete masoquistamente


(porque não tem autonomia psicológica ou de outra natureza), ou se
identifica com ele e vai ser um adulto sádico, quer com os amigos, quer com
40
O Rorschach

as mulheres, os filhos, etc. A crueldade de muitas crianças que se identificam


com o agressor é quase psicótica. Normalmente os violadores foram muitas
vezes maltratados e até violados.

Respostas com simbolismo sexual:

- Fálico - no D central inferior (geralmente visto como “cabeça de animal”


ou “tronco de árvore”), e no D mais externo (“serpentes; dançarinas; alface
murcha”);
- Feminino – no D central superior (Pl ou cabeça).

Existe perturbação psicossexual no caso do sujeito inverter os simbolismos


masculino e feminino. Uma resposta sexual associada ao esfumaçado
indicaria que o sujeito vivencia as relações sexuais como uma troca recíproca
(Klopfer).

G: “Gorila”  obsessivos, depressivos, que projectam a parte viril da sua


personalidade;

D central superior: “Barco que fende a água, bomba caindo”  medo à


penetração; tendências homossexuais;

“Explosão”  psicopatas, epilépticos, alcoólatras, que procuram voltar ao


equilíbrio através de uma descarga brusca.

Cartão V

Este cartão é composto por uma mancha compacta negra, relativamente


pequena, com mais unilateralidade. A regra quase sempre é um modo de
apreensão global G, por causa do carácter maciço e unitário deste estímulo
(ex. “Animal alado”, “Morcego”, “Borboleta”, “Uma dama com uma grande
capa aberta”).
No entanto, ainda que não seja muito frequente, existem excepções que
podem ser por exemplo o indivíduo dividir a cartão em duas metades, direita e
esquerda (muitas vezes vistas em oposição), e uma terceira, destacando o D
central (um animal, um coelho ou lebre, ou uma pessoa). É muito raro quando
existe inversão da relação figura-fundo (“Isto é um buraco negro”; “A mancha
tem um buraco!”).

A tonalidade emotiva é neutra, adaptativa. Este não é um estímulo que


levante grandes questões, pois está muito próximo da realidade objectiva (tal
como no cartão III), surgindo com frequência respostas banais de animais
voadores. Algumas vezes este estímulo mostra-se disfórico, mas só se apresenta
como tal, quando a representação de si é difícil.

Devido ao seu carácter unitário, apela também à unidade do sujeito, pelo


que quando a unidade está posta em causa, o estímulo torna-se difícil. Há

41
O Rorschach

casos em que isto acontece quando há um arrastamento da ansiedade que


foi gerada pela mancha anterior.

Sempre que se verificam dificuldades no cartão V é preciso ver o que se


passou no cartão anterior.

Na euforia própria dos adolescentes e em personalidades de natureza


histérica, tem-se muitas imagens de grande valorização narcísica (“Uma
borboleta cheia de colares, ela vai a uma festa e vai divertir-se imenso”; “É
uma jovem, vestida com uma capa muito elegante, que vai à festa”  nota-
se um grande investimento narcísico).

Quanto ao valor simbólico, pelas características maciças e unitárias deste


estímulo, este cartão apela sobretudo ao sentimento de integridade física e
psicológica. É chamada a cartão da identidade, a representação de si (ego
ideal), onde o sujeito expressa a ideia que faz de si próprio, o que nos remete
para uma integridade ao mesmo tempo psíquica e somática.

Testa muito bem a presença de envelope corporal e psíquico no sujeito, de


películas contentoras da psique, do pensamento, mas também do interior do
corpo. Todas as respostas que demonstram fragilidades desse envelope
devem deixar-nos alerta para questões como a psicose. Este sentimento de
integridade ao mesmo tempo física e psíquica, tem a ver com a
representação de si e, se houver uma recusa, isso é um alerta para uma
eventual luta do sujeito contra a desorganização de si, contra o caos interno.
Também pode acontecer que o sujeito fuja da representação através de
respostas impessoais ou a manifeste através de numa resposta simbólica.
Em casos mais extremos, como é o de doentes esquizofrénicos, a sua
incapacidade reside no não aprofundamento da realidade externa, uma vez
que este cartão está ligado ao exterior. Há casos em que o sujeito interpreta
separadamente a partir de um eixo central, as duas partes do estímulo.
Quando o sujeito em vez de dar uma resposta G, dá a resposta baseada em
duas metades (D), em que essas metades estão em rivalidade, remete para a
vivência de ambivalência por parte do sujeito e para o conflito intra-psíquico.

A ausência de respostas banais (“morcego; borboleta”) confirmadas pelo


inquérito dos limites, é sinal de debilidade patológica da ligação do sujeito à
realidade. Este cartão é vista, assim, como a da adaptação do sujeito à
realidade. A cinestesia animal, mostra como o sujeito sente o mundo exterior
(planar, ameaçar, etc.).

Os depressivos quase não suportam o efeito da mancha negra (choque


clob).

A percepção de “Uma borboleta muito colorida” representa uma


projecção ao nível patológico grave. Os obsessivos transpõem a sua luta pelo
equilíbrio entre forças repressoras e forças reprimidas, pela percepção de
“Uma luta entre dois homens ou dois animais que se enfrentam, que estão
adormecidos ou encostados um ao outro”.

42
O Rorschach

Perfis humanos são frequentemente interpretados nas margens deste


cartão.

G (reduzida ao contorno): “Boca desencarnada, nada mais do que uma


boca”  signo capital de esquizofrenia.

D lateral: “montanhas, vales, seios”  alcoólatras neuróticos.

D extremidade lateral: “goela de crocodilo”  agressividade oral.

Cartão VI

Este cartão é composto por uma mancha cinzenta onde predomina o


esbatimento (textura); atravessada por um eixo vertical, que se destaca
facilmente do resto daquela massa inferior compacta, vêem-se duas partes
distintas: uma massa compacta em baixo, atravessada por uma parte saliente.
É uma mancha que pode ser percepcionada quer na sua totalidade
(respostas G  “pele de animal”), quer na relação entre o D superior e o D
inferior.

Predominam as respostas F e E (mais do que em qualquer outra cartão),


favorecendo respostas cinestésicas. Pelo que a ausência das mesmas
representa um problema.
A reacção emocional é frequentemente negativa, ao ponto de não ser
invulgar que este cartão seja recusado. Isto acontece devido ao significado
simbólico deste cartão. Face ao impacto provocado por esta mancha, pode
haver respostas adaptativas, sendo a mais comum “Pele de animal”.
Os Dd neste estímulo quando aparecem são sempre muito significativos, isto
é, com valor agressivo (“unhas”; “garras”, etc.).

D e Dd sempre acompanhados de F+ são típicos dos protocolos obsessivos.

Por vezes o eixo central que trespassa a massa compacta é interpretado de


acordo com uma resposta que é mobilizadora de energia natural (“uma
erupção vulcânica”  kob).

Do ponto de vista simbólico, é uma cartão muita saturada em factores com


implicações sexuais e/ou enérgicas-dinâmicas. Mas nesta cartão, tal como na
4, o que está mais facilmente implicado na análise do estímulo é muito mais a
dimensão fálica, do que a representação do corpo feminino (o D superior
evoca um símbolo fálico, e o Dd central inferior, um símbolo vaginal).

Dada ser esta dimensão fálica a mais interpretada, pode surgir uma
temática ligada a essa questão, por exemplo “um totem”, que é uma
temática mística, ligada ao poder e de característica paterna. Há também a
resposta “foguetão”.

Apesar de serem respostas dinâmicas, estes kob podem também ter um


valor agressivo e destrutivo, pois por vezes os indivíduos defendem-se dessa
agressividade através de respostas que têm o determinante sensorial E, isto é
textura. Outras vezes ainda, essa agressividade manifesta-se com piores
43
O Rorschach

características e o sujeito dá respostas residuais (“lama”; “pano sujo”), de


conotação passiva.

A interpretação fácil destes cortes denota uma sexualidade


respectivamente masculina e feminina. Ex. D metade inferior: “um vale lindo e
rico, rodeado de colinas arredondadas”.

Este cartão reenvia o sujeito para a problemática sexual:


• Angústia predominante na neurose: angústia de castração
• Estados- limite: angústia de perda do objecto
• Psicose: angústia de fragmentação
A recusa da interpretação dos cortes é sinal de problemas sexuais.

Este cartão pode testar a angústia de castração, devido a esta conotação


masculina e feminina. Podemos aperceber-nos disto:

• Através desta dimensão actividade/passividade;


• Através desta alternância na sequência de respostas, entre respostas
de cariz mais activo e respostas de cariz mais passivo.
• Objectos activos que se tornam objectos passivos no momento
seguinte (“foguetão; pele de animal; totem; pedra”).

Esta alternância constante de movimentos pulsionais que são recusados


logo a seguir e substituídos por outros que os desclassificam, dá-nos conta da
problemática da castração.

No que diz respeito à questão da dimensão actividade/passividade, este


conflito está ligado à castração: ter ou não ter. Verifica-se através da sucessão
de respostas e da associação que o sujeito faz, quer intra-cartão, quer inter-
cartão. Devemos analisar qual foi o encadeamento das respostas dadas, ou
seja, como é que o sujeito associa uma resposta a outra. E como é que se vê
esta sucessão? O sujeito pode dar uma resposta mais activa e logo a seguir
uma resposta passiva. Assim, face ao estímulo, o conflito joga-se entre
actividade e passividade.

D lat inf: “Cabeça de rei”  problemas com a autoridade; nível de aspiração


elevado
Linha central: “Projéctil (ou navio) cortando a terra, a água ou o ar” 
tendências paranóides ou homossexuais
Dd cinza claro: “Ninho, ovo” ou regressão a nível infantil  problemas
referentes à procriação.

Para facilitar a análise deve fazer-se a comparação da produtividade dos


cartões IV e VI, II e III, VIII, IX e X com as restantes, e ainda as cartãos bilaterais
(onde mais facilmente um sujeito pode encenar uma relação) com as outras.

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O Rorschach

Cartão VII

Este cartão é completamente diferente dos anteriores, na medida em que


predomina o espaço branco, ou seja, o fundo. O seu contorno é irregular.
Forma de colar em tons de cinzento claro.
A mancha permite a desagregação em 3 partes distintas. Nos inquéritos
chamam-se de: terço superior, terço médio e terço inferior.
As reacções a este estímulo são variadas, podendo o sujeito percepcionar a
figura, o fundo, ou os dois.
A reacção no que respeita à figura pode ser:
• Em relação às partes isoladas do estímulo (o sujeito tira partido da forma e
da textura: “um conjunto de ilhas” F+)
• Ou pode percepcioná-lo numa combinação bilateral (“Duas meninas a
andar de baloiço” K)
O fundo também pode ser abordado de diversas maneiras, por exemplo
como um objecto (o sujeito inverte a cartão e diz: “É o chapéu do Napoleão”)
ou como cor (“Um bloco de gelo”) ou outro caso de figura, com figura e
fundo ao mesmo nível, “A entrada de um porto”. Quando há uma grande
sensibilidade ao branco, o sujeito pode dar respostas muito distorcidas da
realidade que têm a ver com o corpo humano, e que reenviam para o vazio
(“Um ventre de mulher esvaziado”).

A tonalidade emocional reflecte o carácter frágil, ou não, do estímulo, pelo


que pode ser sentido como alguma coisa inacabada, instável (“A entrada de
uma gruta em ruínas”), ou, num sentido positivo, a reacção ao estímulo é de
figuras que estão em relação, imagens lúdicas, de pessoas que gostam de
competir (forma saudável de agressividade, que tem a ver com o prazer dessa
relação).

Quanto ao valor simbólico, trata-se de uma cartão feminina, materna, onde


o sujeito é confrontado com a sua primeira relação; o vazio central é
vivenciado como colo materno.

Pode encontrar-se dois tipos de resposta:


1. Securizantes – encontram-se sentimentos de vivência, de segurança, com
cinestesias femininas. O não aparecimento destas cinestesias, supõe uma
perturbação das relações mãe/filho. A, H e obj.
2. Ameaçadoras ou abandónicas – quando estas imagens são
percepcionadas de uma forma negativa, surge a vivência de abandono,
reflectindo a patologia da vinculação, por exemplo respostas como “Bloco
de gelo”, “Um arco em ruínas”, “Entrada para uma gruta em ruínas”, dão
conta dessa precariedade do continente materno.

Abordar as figuras em relação é funcionar num modo mais secundarizado,


enquanto se o sujeito se deixar fascinar pelo branco, pelo vazio, está a um
nível muito mais primário. Podem aparecer alguns border line, com polaridade
psicótica muito activa, onde projectam respostas de sofrimento. Devem
comparar-se sistematicamente as respostas dadas neste cartão com as do
cartão II, uma vez que ambas têm caracteres semelhantes.

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O Rorschach

Um grande número de respostas brinquedos ou animais, significa


desenvolvimento social imaturo ou dificuldade de abordar as relações
heterossexuais.

Simbolismo vaginal no D central inferior:


Dd cinza claro centr inf: “casa pequena”  necessidade infantil de segurança;
G: “Nuvens”  angústia flutuante, insegurança;
G: “Neve, bloco de gelo”  falta de contacto íntimo com a mãe, vivenciada
com indiferença; frigidez;
Dbl centr: “Iceberg, açude gelado”  falta de contacto com o outro, recurso
ao álcool ou aos tóxicos para obter tal contacto;
G: “Elefantes equilibrando-se sobre uma caixa”; “Rochas empilhadas sem
estabilidade”  sensação de desequilíbrio e medo de desabamento;
O D superior é frequentemente interpretado como uma cena de disputa e
informa sobre a manipulação da agressividade por parte do sujeito.

Cartão VIII

Cartão em cor pastel que se desenha em torno de um eixo médio, com muito
branco. Não são vulgares as respostas em G, e, quando aparecem, integram
todas as cores (“Brasão” ou “Pintura impressionista” F+).

Os D rosas laterais são as partes do cartão mais interpretadas e é aqui que


aparecem as respostas banais “mamíferos”, que são determinadas quase
sempre pela forma. Estes detalhes estão muito próximo da realidade e isso
permite ao sujeito evitar a integração da cor, ou seja, evitar lidar com os
afectos. Excepção de cotação: ainda que o sujeito diga que os animais que
vê nestes rosas laterais estão em movimento não se cota kan, e sim DF+ uma
vez que o estímulo já induz resposta movimento. Só se cota kan quando a
cartão não está direita.
A reacção emocional é geralmente positiva, mas a introdução da cor pode
ser perturbadora para o sujeito, daí que, a tonalidade emocional também
possa ser negativa. Neste caso as cores remetem para imagens do interior do
corpo através de anatomias, mesmo que sejam intelectualizadas; se não for
esse o caso temos imagens de corpos devorados, danificados, destruídos. As
cores também podem ser utilizadas com o branco no seu carácter esbatido.
Uma resposta típica é “Mármore” ou “Pôr-do-sol no gelo”.
Quando não é vista a resposta animal, vulgar, tem-se um problema
análogo ao do cartão V (sinal de debilidade patológica da ligação do sujeito
à realidade).
Também são significativos os graus de agressividade atribuídos aos animais,
ou à sua desvitalização sob a forma de emblema.
Merece ser analisada (com cuidado), a reacção do sujeito à cor,
independentemente do facto de ter ou não sofrido um Choque Cor:
• Mudança de tonalidade afectiva (em comparação com os cartões
anteriores);
• Respostas anatómicas ou de geografia: atitude estereotipada e artificial
frente aos estímulos afectivos; se as primeiras respostas de Anat do

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O Rorschach

sujeito aparecerem neste cartão, configura-se uma tendência e


preocupações somáticas em situações de mobilização emocional
intensa. Localizadas no D ou no Dbl central, as Anat são normais;
• Emprego arbitrário ou “forçado” das cores no conteúdo das respostas,
em especial na percepção de animais coloridos.
• Respostas de Pl; passividade diante da cor, sobretudo se se tratar de um
CF na localização de cor pastel;
• Fuga das cores vivas, procurando refúgio no cinza ou azul;
• Fuga da cor, interpretando-se o branco (é rara em pessoas normais);
aparece em casos de neurose de angústia, de histeria e de
esquizofrenia (nesta última ligando-se a C’ ou a K: “Morcego branco”,
“Fantasma voando”);

Cartão IX

A estrutura deste cartão faz lembrar os cartões II e VII. É constituída por 3 terços
de cores largamente repartidas sobre um fundo esverdeado.
É um cartão considerado dos mais difíceis e a tonalidade emocional é
variável, dependendo da capacidade do sujeito aceitar ou não a regressão.
Este cartão apela à regressão e nem todos os indivíduos se podem permitir tal
coisa. Tem um grande impacto emocional no sujeito e não há resposta banal
para este cartão. A solicitação para esta regressão traduz-se numa sequência
de imagens de conteúdos naturais, frequentemente ligadas ao meio
aquático, que tem a ver com a imagem materna (“Um repuxo de água” kob
 resposta muito positiva; “Um vulcão a explodir”  resposta sem contornos,
mais pulsional, mais vigorosa e regressiva).

Este cartão remete para uma simbologia pré-genital, ou seja, uma temática
ligada ao nascimento e nem todos os indivíduos têm muita facilidade em lidar
com esta simbólica, pelo que muitas vezes o que aparecem são fantasias pré
genitais ligadas à gravidez/parto (“São dois gémeos a nascerem, a sair do
ventre materno”  esta é uma resposta muito funcional).

É um cartão frequentemente recusado, e, certamente, a mais difícil. Os


sujeitos têm dificuldade em a interpretar (o impacto emocional é muito
intenso), e a prova disso é que não há respostas banais.
As formas são vagas, há grandes cortes dispersos e as cores são vivas e
distintas. O esbatimento encontra-se presente, tornando os buracos centrais
por vezes fascinantes.

Para chegar a organizá-la como G, é necessário integrar a maior parte dos


dados, supondo-se, (segundo a Psicanálise, estádio genital) uma inteligência
superior à média e maturidade afectiva.
A resposta explosão passou a ser comum neste cartão.
As respostas de cor não ocorrem em grande número, ou são fortemente
carregadas de emoções em geral desagradáveis. Os sujeitos que gostam
deste cartão apresentam respostas de cor elaboradas, isto porque vêem, na
relação afectiva com o ambiente social, uma estimulação fecunda e
propícia.

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O Rorschach

Ao interpretar esta mancha, fica-se frente a frente consigo mesmo, na


medida em que a personalidade esteja mais ou menos bem integrada.
As respostas mais comuns são acompanhadas com frequência por
esclarecimentos pessoais significativos:
D laranja: “feiticeiras, palhaços”, porém “ameaçadores, bizarros, intoleráveis”.
D rosa: “cabeça”, mas também “cabeça de criança ou de feto”  apego a
objectos de amor infantil.
D verde: “cabeça estúpida”.

R. Schaffer mostrou que a relação transferencial do sujeito para com o


examinador atinge o seu máximo no cartão IX e que as recusas da mesma,
muitas vezes, representam uma reacção à atitude interior hostil do
examinador.

Cartão X

Neste cartão predomina, para além da cor, a dispersão. Dadas estas


características de dispersão, remete o sujeito para fantasmas de
fragmentação. Solicita o indivíduo para essa angústia de fragmentação, testa
os limites. Se o sujeito é sensível a esta problemática, tem dificuldade em unir,
tornando-se mais fácil detalhar a mancha sem sentir incómodo com isso.
Podem aparecer imagens mórbidas (representações de vísceras;
fragmentação ao nível do corpo).
Através do mecanismo de isolamento, o sujeito pode apreender e
interpretar imagens numa perspectiva mais agressiva, entre animais, ou entre
animais e pessoas. Constitui-se a ruptura da transferência com o examinador:
alívio por ter terminado a prova e alegria infantil, manifesta numa
multiplicidade de respostas animais, ou então, cansaço neurótico e reacção
depressiva frente à perda de objecto.
Estimula quase sempre respostas em D.

Uma resposta G revela uma capacidade intelectual organizadora de alto


nível (G secundária), por exemplo, “a Torre Eiffel, ao fundo os Campos Elísios”,
ou “é um castelo ao fundo de uma avenida” (são respostas tridimensionais
onde o G é altamente elaborado), sem fuga à cor (G primária primitiva).

Este cartão favorece o maior número de respostas vulgares, por exemplo:


“A paleta de um pintor”, “Uma festa”, “Foguetes de Carnaval”, ou “Mancha
de óleo que brilha ao sol”. A sua ausência representa, por isso, um problema.
Limitados até ao momento quanto ao emprego de seus recursos, pela
complexidade e variedade do material, a maioria dos sujeitos pode então
mostrar aquilo de que é capaz, revelarem-se mais espontâneos e adaptados
nas suas respostas. Interpretam os cortes uns após outros, seja integrando bem
a cor (lagarta verde, pássaro azul, veado castanho, cachorros amarelos), seja
com cinestesias adequadas (touro avançando, insectos lutando, aranha
correndo sobre a teia, etc.).

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O Rorschach

Outros, no entanto, perturbam-se com o cartão, devido à cor (reagindo,


nesse caso, como aos cartões já interpretadas), ou devido à extrema
dispersão das manchas (sentindo verdadeiro choque ao despedaçamento).
Tal é a reacção dos sujeitos de nível intelectual baixo, ou daqueles cuja
inteligência sofre um sério bloqueio emocional, ou de esquizóides, mal
adaptados em termos profissionais e sociais, vagabundos, afectivamente
indiferentes.

Quando se trata de epilépticos ou de quadros orgânicos, a tudo isto se


acrescenta o cansaço decorrente dos nove cartões precedentes, levando às
vezes a uma recusa. Myriam Orr relaciona o choque ao despedaçamento, ao
choque do nascimento ou ao do desmame.

O Cartão X seria ainda uma imagem difusa materna (é interpretada muitas


vezes como “paisagem submarina”. Outros, consideram-na como o cartão do
simbolismo familiar, devido ao grande número de pequenos animais. Merei vê
nela a cartão do espaço.
Os sujeitos com uma polaridade histérica tendem a achar este cartão muito
bonito, muito bela, onde tudo é inofensivo, onde só há coisas boas. Dominam
os afectos para evitar a representação e os afectos.

Os sujeitos com uma polaridade obsessiva fazem uma exploração


minuciosa, têm tendência a delimitar, a isolar os perceptos, interpretando com
frequência os detalhes. Privilegiam sempre o modo de apreensão em D ou Dd
e até mesmo Do. Está presente uma temática agressiva que faz com que os
sujeitos privilegiem o mecanismo de defesa isolamento.
Os sujeitos com uma polaridade psicótica têm grandes dificuldades em a
interpretar. Dão respostas muito primárias e mórbidas, dado que a cartão
remete para a falta de unidade. Fragmentação da unidade do Eu, projecção
de um Self fragmentado, que não tem unidade entre as diferentes partes: Self
“ilhificado”.

Os sujeitos com uma polaridade fóbica vão invocar (à semelhança das


organizações obsessivas), uma multiplicidade de detalhes animais (D e Dd:
insectos, animais, flores, etc.), um bestiário que provoca a repulsa do sujeito.
Nos sujeitos psicossomáticos, as respostas são dadas através de substantivos
(e não de adjectivos), dado que não têm capacidade de embelezar as
coisas.

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