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OS GREGOS E A

CULTURA
BRASILEIRA
O EXEMPLO DE XENOFONTE

Aluno
André Martins Costa Aranha
Orientadora
Maria das Graças de Moraes Augusto
Introdução

A coleção Clássicos de "Cultura",


publicada na primeira metade do século XX,
em São Paulo, sob a direção de José Pérez,
trouxe ao público brasileiro acesso em
vernáculo às obras clássicas das literaturas
grega e latina. O projeto gráfico desta coleção
contou com a participação especial de Tarsila
do Amaral, responsável pela criação do retrato
em bico de pena de cada um dos autores
clássicos.
O objetivo de nosso trabalho é fazer uma
análise da inserção da cultura clássica na
cultura brasileira, tendo como base a edição
de 1941 da Ciropédia de Xenofonte, como
parte da coleção referida.
Para tanto, será necessário compreender
a importância desta obra no pensamento de
Xenofonte e na tradição dos estudos clássicos.
A seguir procuraremos abordar as
particularidades desta edição específica,
levantando os dados e as questões
relacionadas. Por fim, tentaremos de forma
sucinta contextualizá-la, situando-a na
conjuntura de recepção da tradição clássica no
Brasil nos anos 40.

Xenofonte

Xenofonte (430-355 a.C.) é conhecido


como um dos mais distintos discípulos de
Sócrates e, junto a Tucídides e Heródoto, um
dos três grandes historiadores gregos.
Romanos e gregos o viam como um guerreiro
exemplar, modelo de líder político, grande
orador e autor inspirado. Xenofonte foi um
exemplo por gerações, e literatura
amplamente obrigatória até inícios do século
XX.
Seus trabalhos mais reconhecidos são
relatos da história de seu tempo, registrando o
discurso de Sócrates e descrições da vida na
Grécia antiga e no império persa. Ainda jovem,
conheceu Sócrates e foi aprender com ele, o
que o marcou profundamente. Apenas três
anos depois ele deixaria a Grécia e nunca mais
tornaria a ver o mestre.
Xenofonte foi soldado sob Ciro, o jovem,
que liderou um exército de persas e dez mil
gregos contra seu irmão. Morrendo Ciro no
meio da campanha, o exército grego
encontrou-se ilhado e sem líderes no meio de
terreno inimigo, no que Xenofonte assumiu um
dos cargos de liderança e guiou os seus para a
segurança. Narrou então a história destes
feitos em sua Anábase. Diz-se que, sem o
exemplo bem-sucedido desta retirada,
Alexandre jamais teria entrado em campanha
pela Ásia.
Maquiavel via Xenofonte como talvez o
mais sábio dentre os antigos, e o cita com
mais freqüência que a Platão, Aristóteles e
Cícero, juntos. Se, na posteridade, ele foi
rebaixado como historiador menor que
Tucídides e filósofo menor que Platão,
recentemente seu valor vem sendo resgatado.
Muitos esquecerem da importância de sua
obra como evidência do método socrático,
denegrindo-a por preferência ao Sócrates
platônico.

A Ciropédia
À primeira leitura a Ciropédia aparece
como uma espécie de biografia romanceada de
um grande rei persa, Ciro, narrando sobre
suas muitas campanhas militares e a
construção de um império glorioso. O proêmio
do livro discute as dificuldades em se
conseguir o governo estável e seguro dos
homens, apontando a história de Ciro como
exemplo a inspirar-nos.
Xenofonte, ao contrário de em sua
Anábase, não se preocupa aqui com o que
chamaríamos de rigor historiográfico,
acomodando e inventando fatos conforme as
necessidades de seu argumento. A Ciropédia,
por seu recurso ficcional, aproxima-se mais
dos diálogos platônicos do que das obras de
Tucídides ou Heródoto.
Poderíamos vê-la, assim, como a
exposição da educação que um governante
deve receber, e das maneiras pelas quais deve
governar em vista de estabelecer o império
mais feliz possível.
O curto epílogo do livro traz uma
reviravolta a tal interpretação1: após a
honrada morte de Ciro, já velho, no auge da
glória de um império magnífico; quando então
esperaríamos que sua posteridade inda
guardasse algo daquela prosperidade
abundante; Xenofonte nos acusa, em poucas
páginas, uma decadência completa e imediata,
indo dos mínimos vícios à fragmentação de
todo o reino. A brutalidade deste desfecho nos
permite reinterpretar o governo de Ciro não
mais como ideal, mas como um exemplo de
que tirar lições.
Ciro nasce na Pérsia, que aparece aqui
como um modelo espartano melhorado, onde
passa sua infância e aprende a justiça como
idêntica à legalidade e o amor às honras
enquanto fim em si. A Pérsia é uma
aristocracia dedicada ao cultivo das virtudes,
em especial a moderação e a obediência às
leis. Mas Ciro é tão exímio e sedento por
1
Alguns autores questionam se tal epílogo não seria apócrifo. Aqui, nos
atemos à tradição, considerando-o legítimo, tanto pela sua
concordância com o que sabemos do pensamento de Xenofonte, quanto
por parecer ser esta a postura adotada quando da publicação da edição
aqui estudada.
desafios que supera em sua virtude a todos, e
por isso aos doze anos vai morar com o avô,
rei da Média. A Média é, então, uma próspera
tirania, na qual os cidadãos abdicam de sua
liberdade para dedicar-se aos interesses
privados. Os medos não são afeitos à
moderação, vivendo na opulência, dando-se a
luxos e prazeres carnais; muito ao contrário
dos persas que, em seu comedimento, vivem
em condições mínimas de conforto,
aparentando miséria.
Destas duas influências, Ciro cria uma
ambição sem limites, regrada a um auto-
controle espartano. São os ingredientes para o
maior soberano de todos, pondo sua razão e
virtudes a serviço de seu amor às honrarias.
É marcante seu discurso na primeira vez
em que chefia um exército persa para a
guerra. Neste infla a ambição nos seus,
incitando-os a colher os frutos de seu
treinamento virtuoso. A Ciro, cito: “parece que
não se pratica a virtude senão para ter melhor
sorte do que aqueles que a desprezam”. O
amor à virtude corrompe-se, então, de um fim
em si para um meio de conseguir vantagens;
ao mesmo tempo em que torna-se mais
importante do que a obediência ao nomos.
Conforme a história prossegue, sob o comando
de Ciro são dissolvidas as hierarquias sociais
convencionais persas que garantiam a este
sóbrio povo a estabilidade duradoura.
Em outro episódio, com a derrota rei dos
armênios, Ciro é dissuadido de executá-lo.
Através do terror inspirado pela morte
iminente, aquele torna-se o mais dócil dos
servos. O império de Ciro fundar-se-á nesta
mistura de medo e generosidade, garantindo a
obediência através do eros e não do nomos.
Ciro nunca vai diretamente contra as
leis, mas deixa-as em segundo plano. Assim é
com o exército medo, que Ciro atrai para seu
comando aproveitando a indolência de seu tio
Ciaxares, então rei da Média. Quando este se
revolta, Ciro o dissuade com mulheres,
cozinheiros e muitas honrarias.
O manejo de Ciro das leis é sempre feito
com delicadeza: em vez de outorgar as
mudanças que almeja, o persa chama questões
à votação, discursando em sua defesa e
conseguindo seus objetivos com o
consentimento dos súditos. Sempre guiado
pela fé de que os laços de amizade são mais
fortes do que os legais.
Enquanto isso, a moderação de Ciro não
se funda num real controle de seu eros, mas
na abstenção. Ciro e seus persas têm de
afastar-se do desfrute dos prazeres carnais
para garantir o prazer das honrarias. Não
refletem então o mesmo autocontrole exibido
por Sócrates, mas apenas uma administração
de sua ambição. Assim, a guarda que Ciro
escolhe para si será composta de eunucos,
acreditando que estes têm menor propensão
aos prazeres carnais.
Dessa forma, a exposição de Xenofonte
explora as possibilidades de um governo
baseado no eros em vez da lei. O epílogo do
livro, com a total decadência, acusaria a
falácia do projeto.

O Contexto da Publicação

Utilizarei a leitura de “A Cultura


Brasileira” de Fernando Azevedo como base
para situar a edição aqui estudada no contexto
cultural de recepção dos clássicos no Brasil.
Durante três séculos, o ensino no Brasil
ficara a cargo da Companhia de Jesus.
Consistia basicamente de estudos de francês e
latim, da leitura dos clássicos nestas línguas,
da escolástica, da gramática e da retórica. A
formação intelectual era fundamentalmente
literária, focando-se na erudição sobre autores
latinos sem atentar para o desenvolvimento de
capacidades críticas ou do espírito
investigador científico.

“As humanidades clássicas, quase


exclusivamente latinas – pois o grego não foi
incluído entre as disciplinas do ensino superior
senão mais tarde pelos frades de São Francisco
–, constituíam, de fato, a base sobre que
repousava toda a instrução ministrada nos
colégios de jesuítas e nos seminários”

Tal ensino resultava numa


intelectualidade marcadamente conservadora,
preservando inalterados um corpus de
conhecimento de geração para geração.
“Até [a segunda década do século XVIII], o
ensino dos colégios de padres, escreve Gilberto
Freyre, devastando a paisagem intelectual em
torno dos homens, para só deixar crescer no
indivíduo idéias ortodoxamente católicas,
quebrara no braseiro, principalmente no da
classe educada, não só as relações líricas entre o
homem e a natureza... como a curiosidade do
saber, a ânsia e o gosto de conhecer, a alegria
das aventuras de inteligência, de sensibilidade e
de exploração científica; aventuras do
descobrimento das coisas do mundo”

Esta intelectualidade homogênea ocupou


um papel-chave na unificação nacional,
“utilíssimo à integração social do Brasil”,
garantindo uma classe de funcionários
públicos com uniformidade por todo o país. Ao
mesmo tempo, esta concepção de intelectual
encaixava-se perfeitamente na sociedade
escravocrata rural, que via o trabalho manual
como sinal de pobreza. Não sujar as mãos
significava distinção, acentuando assim a
“distância entre a elite intelectual e a massa”.
Tínhamos então uma “aristocracia de
bacharéis e doutores” que iam estudar na
Europa e voltavam para ocupar cargos na
administração do país todo. Quando, em 1759,
ocorreu a expulsão dos jesuítas, o sistema de
ensino foi obrigado a modificar-se, ocorrendo,
no século XIX, o surgimento das faculdade de
profissões liberais – direito, medicina,
marinha. Destas, as faculdades de direito
passariam a ocupar a função que as escolas
religiosas de antes, tendo em vista seu ensino
fundado na retórica, na erudição literária e na
pouca aplicação utilitária.
No século XX, com os processos de
urbanização e industrialização mais vigorosos,
a proliferação de cidades populosas e o
advento de meios de comunicação mais
eficientes, a necessidade de mão-de-obra
tecnicamente qualificada aumentou
desproporcionalmente. Daí a origem de novas
faculdades de ciências práticas e a superação
do modelo passado.

“a cultura filosófica e científica, até essa época,


não se fazia entre nós senão por grandes
esforços e com todas as desvantagens do
autodidatismo”
Podemos ver como, no Brasil, o estudo
dos clássicos associava-se a um histórico de
conservadorismo e eruditismo elitista,
alienado da realidade social circundante. As
primeiras faculdades oficiais de filosofia,
ciências e letras surgem nos anos 30 (São
Paulo em 34, Distrito Federal em 35 e
Universidade do Brasil em 39). Pelo déficit de
professores qualificados, foi necessário
recorrer a missões de estrangeiros para
preencher os quadros.
Se estas faculdades começariam a
reverter, lentamente, a imagem do clássico
como conservador, na época da publicação
desta Ciropédia a questão ainda era difícil,
esbarrando no preconceito de diversos artistas
e intelectuais. Cabe lembrar que, no
movimento modernista, muito houve de
ruptura com a tradição e destruição de valores
antigos. A superação destas concepções seria
crucial para a recepção dos clássicos no
Brasil.

A Edição
A partir de 1940 a Edições Cultura, de
São Paulo, inicia a publicação de diversos
clássicos da literatura mundial traduzidos
para o português. Sob a direção de José Perez,
esta “Série Clássica de ‘Cultura’” “Os Mestres
do Pensamento” terá obras desde Defoe e La
Fontaine a César e Cícero. A edição de
Xenofonte, aqui estudada, é o décimo volume
da coleção, publicado em 1941.
A tradução utilizada é de João Felix
Pereira, apontado no prefácio como “médico e
cirurgião pela escola de Lisboa, professor de
geografia, cronologia e história no Liceu
Nacional”. Esta tradução foi aproveitada da
edição portuguesa de 1854.

O projeto gráfico desta coleção contou


com a participação de Tarsila do Amaral
(1886-1973), responsável pela criação do
retrato em bico de pena de 29 dos autores
clássicos. Biografias da pintora consultadas
indicam que esta produção ocorreu de 1939 a
1944, já numa fase de menos proeminência de
sua produção.
Nesta época, a participação do artista na
problemática social tornara-se o principal foco
de debate entre os modernistas brasileiros,
seja para defendê-la ou recusá-la. Tarsila, de
sua parte, flerta com a questão mas nunca
adere por completo.
Tarsila viajara à União Soviética, em
1931, e ficara muito impressionada com a
miséria do povo russo. Ao voltar, envolvera-se
na Revolução Constitucionalista de 32 e
chegara a ser presa por um mês, acusada de
subversão e de simpatizar com o comunismo.
Tais experiências a marcaram profundamente,
mas se ela pintaria em 1933 a “primeira tela
de teor social no Brasil”, a década de 30 se
caracterizaria por uma produção irregular,
“um tempo de diversificação de técnica,
estudo, ausência total de firmeza sobre o
caminho a seguir”.

Precede o texto de Xenofonte um


prefácio de José Perez em estilo muito pessoal,
fazendo comparações com outros clássicos e
citando eventos recentes. Cito:
“[Xenofonte] foi, como esses seus grandes
compatriotas, um comparticipe dos
acontecimentos sobre os quais veio, depois, a
escrever e relatar. Como, também, César, ou em
nossos dias Leon Trotski; e refiro-me à sua desta
animada REVOLUÇÃO DE OUTUBRO.”

Estamos aqui no contexto do Estado


Novo: em 1937 o Congresso fora fechado e o
executivo ganhara total poder. A constituição
outorgada jamais foi legitimada por plebiscito.
O autoritário regime getulista persegue a
esquerda, tendo simpatia pelos regimes
fascistas contemporâneos.
Este prefácio do editor, assim como
outros que escreveu ao longo da série, impõe-
nos ver como a edição da Ciropédia se insere
em seu contexto político. Poderíamos supor
que a escolha da publicação desta obra
específica carrega uma intenção de crítica ao
regime vigente. Soma-se a isto a colaboração
de Tarsila, artista modernista, envolvida com a
crítica social, simpatizante da esquerda e nada
afeita ao governo de Getúlio Vargas que lhe
prendera em 1932.
Ora, diversos paralelos podem ser
traçados entre o regime de Ciro e o governo
de Getúlio Vargas, ambos governos
centralizadores e militarizados. Se Ciro
nomeava governadores para os reinos que
conquistara, ao lado destes punha quiliarcas
fiéis para supervisionar-lhes as ações. Da
mesma forma, era Getúlio Vargas quem
nomeava as autoridades estaduais, submetidas
diretamente a ele.
Ciro governava com grande liberalidade,
dando muitos presentes e honrarias, de forma
a ser amado pelos homens de valor. Mesmo
aos servos conduzia com bondade, “como
rebanhos”. “Esta bondade, que evidentemente
não tendia senão a perpetuar sua escravidão,
fez com que eles, do mesmo modo que os
grandes, lhe dessem o nome de pai”. Getúlio
Vargas, o “pai dos pobres”, é conhecido por
seu populismo, pelo culto a sua personalidade.
Neste sentido, ao leitor dos anos 30-40,
o epílogo da Ciropédia, ao apontar o desastre
subseqüente a um regime cuja existência se
fundava no amor ao soberano poderia ser lido
como uma advertência quanto ao futuro do
regime getulista. Se estivermos corretos,
identificaríamos aqui o resgate de um autor
clássico como relevante aos problemas
políticos contemporâneos. Não mais uma
erudição conservadora, mas um uso ativo pelo
discurso oposicionista da esquerda.

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