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das por medo do agressor e por vergonha pelo que passaram.

A marca que fica em suas memórias não se apaga. Espero,


já não mais dessa legislatura, que a Assembleia Legislativa,
composta majoritariamente por homens, mantenha em pau-
ta a questão da violência contra a mulher. Esse tema precisa
ser mais bem trabalhado para atender aos anseios não ape-
Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação” nas das mulheres, mas também da sociedade. Não queremos
Turma: 3ª. Série do Ensino Médio mais viver com essa mácula.
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal
Tema redacional 02: Vagão exclusivo a mulheres nos trens (Folha de S. Paulo, “Tendências e debates”, 17.07.2014)
e metrôs: proteção à integridade físico-moral feminil ou da-
no ao direito – constitucionalmente assegurado – de ir e vir? Projeto de Lei nº 175, de 2013

Vagão rosa não é solução Jorge Caruso (PMDB)

Rosana Chiavassa Dispõe sobre obrigatoriedade de manter-se, no míni-


mo, um vagão em cada composição de trem ou metrô para
Decisão da Assembleia Legislativa de São Paulo (A- uso exclusivo de mulheres, em todo o estado de São Paulo.
lesp) de aprovar o projeto de lei que institui o vagão exclusi- A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo decreta:
vo a mulheres nas composições do Metrô e da CPTM (Com- Artigo 1º. As empresas que administram o sistema
panhia Paulista de Trens Metropolitanos) – o chamado “Va- ferroviário e metroviário no estado de São Paulo ficam obri-
gão Rosa”– reforça a percepção de que existe um vácuo en- gadas a destinar no mínimo um vagão, em cada composição
tre esses nobres deputados e a realidade do nosso estado. Do de trem ou metrô, para o uso exclusivo de mulheres. § 1º. A
contrário, eles saberiam que tal pseudossolução não atende manutenção dos vagões com tal finalidade não será obriga-
a desejos das mulheres, fere a Constituição e é tecnicamente tória entre a primeira hora dos sábados, até a última hora
discutível. Está claro que os deputados não buscaram saber dos domingos, bem como nos feriados de natureza estadual
a opinião da população, nem ao menos conhecer o parecer ou federal, entre a primeira e última hora destes. § 2º. Crian-
do Metrô e da CPTM, ambos contrários ao projeto. Acredito ças menores, do sexo masculino, devidamente acompanha-
sinceramente, assim como tantas outras mulheres, que o go- das por mulheres, poderão utilizar vagões referidos no caput
vernador Geraldo Alckmin (PSDB) não sancionará o proje- deste artigo. Artigo 2º. As empresas citadas no artigo 1º te-
to de lei. O que a sociedade quer, de maneira efetiva, é o fim rão prazo de 90 (noventa) dias, a contar da publicação desta
da violência covarde que se pratica contra mulheres nas ru- lei, para se adequarem às normas aqui contidas. Parágrafo
as, no trabalho, nas escolas e, por incrível que o pareça, em único. Findo o prazo citado no artigo 2º, as empresas arcarão
suas próprias casas. Tal decisão da Assembleia Legislativa, com multa, a ser fixada por órgão competente e demais san-
além de absurda e sem sentido, é oportunista. O problema ções eventuais a serem definidas pelas autoridades compe-
do assédio sexual no transporte público de São Paulo não é tentes. Artigo 3º. Esta lei entra em vigor na data de sua pu-
recente. Porém, jamais teve a repercussão que agora se vê blicação. É comum constatarmos reclamações de mulheres,
na mídia e, consequentemente, junto da opinião pública. Es- que necessitam usar as linhas do metrô e da CPTM, acerca
sa pressão de fora para dentro e a proximidade das eleições, de abusos cometidos contra aquelas, nos trens, em horários
não tenho dúvidas, apressou a aprovação do projeto. Os de- de grande pico. Sabemos que, infelizmente, grande parte da
putados estaduais correram a responder à população mas es- população feminina é obrigada a conviver com abusos pela
colheram a resposta mais fácil. E eles também nem se deram falta de espaço nas composições. Tal situação é constrange-
conta, o que é extremamente grave, de que o projeto é segre- dora para quem é obrigada a utilizar esse meio de transporte
gacionista. Pois, todos sabem, a base da segregação é impor para ir e vir do trabalho, à escola, e outros, pois, na falta de
um grupo de pessoas como melhor e inferiorizar o outro. Tal espaço nos vagões, as mulheres não têm outra opção senão
segregação, sobretudo quando vinda do próprio Estado, é de “aguentar” esse constrangimento durante todo percurso, que
uma temeridade atroz: ao instituir leis que segregam, o Esta- – muitas vezes – é longo. Infelizmente, as mulheres não são
do coloca a mentalidade preconceituosa como correta. Não respeitadas nessas composições, nem mesmo quando acom-
bastasse a sucessão de equívocos, surpreende ainda a falta panhadas por filhos menores. Diante do exposto, tomo a li-
de originalidade dos deputados. Essa mesma proposta, num berdade de apresentar esta propositura, pois os problemas
passado não muito distante, já foi colocada em prática nos de assédio às mulheres são comuns e cabe a nós minimizar-
vagões da CPTM e saiu de uso por ferir a Constituição no mos, diante do possível, essa situação.
que diz respeito à discriminação de gênero e ao impedimen-
to do direito de ir e vir. O erro está sendo repetido. Todo o Sala das Sessões, em 26.03.2013.
trabalho dos senhores deputados poderia muito bem ter sido
evitado se eles tivessem a sensibilidade, por exemplo, de di- Vagão rosa para não ser encoxada
alogar com entidades que defendem os direitos das mulhe-
res e, ainda, com as próprias usuárias do transporte público. Eliane Brum
Tivessem feito isso, não tenho dúvidas de que uma proposta
útil teria sido lançada. Quando presidente da Associação das Alô, mulheres. Se pegarem trem ou metrô em São
Advogadas de São Paulo e executora de ações do movimen- Paulo, prestem atenção às orientações do sistema de som:
to “Não hesite, apite”, que entrega folhetos com orientações “Se você estiver com vontade de ser violentada, ou ao me-
legais e apitos às mulheres para que se defendam do assédio nos receber uns apertões na bunda e nos peitos, siga para o
sexual no transporte público, tive a oportunidade de ouvir vagão comum. Se estiver cansada, introspectiva, teve um di-
histórias realmente tocantes. Muitas mulheres sofrem cala- a difícil, está com TPM, vá para o rosa e viaje tranquila. Ex-

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celente semana a todas”. Poderia ser uma piada ou um filme ressante. As mulheres é que são a ameaça. (E não aqueles
de horror futurista. Mas é sério e não é ficção distópica. Na que abusam de seus corpos e de suas almas.) Confina-se, co-
prática, essa é a mensagem do projeto de lei aprovado em 4 bre-se, esconde-se aquilo que nos envergonha e aquilo que
de julho pela Assembleia Legislativa do Estado de São Pau- nos coloca em perigo. Quando se propõe – e se aprova – um
lo. De autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), cria-se o vagão especial para as mulheres, o que se está fazendo, de
vagão exclusivo para mulheres nos metrôs e nos trens. Algo fato, é isolar o elemento desestabilizador. Colocar em ambi-
similar já existe no Rio de Janeiro. A lei poderá ser vetada ente controlado quem teria o poder de revelar, expor algo
ou sancionada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), que deve continuar oculto. O segredo, nesse caso, está na-
candidato à reeleição, os próximos dias. Na sexta-feira (18), quele que esconde – e não naquela que é escondida. O “va-
feministas reuniram-se no centro da capital paulista para um gão rosa” é mais uma tentativa de sujeitar os corpos femini-
ato em protesto contra criação do “vagão rosa”. Não é mui- nos, ao determinar que só podem ser “transportados” em sis-
to estranho? Estamos em 2014, há uma mulher na presidên- tema de segregação, prova de que, ainda hoje, a imagem so-
cia do Brasil. Mas acredita-se necessário criar um vagão só cial das mulheres difere pouco da visão medieval em que e-
para mulheres em trens de transporte público da cidade mais ram compreendidas como “más e impuras”. Não custa lem-
cosmopolita do país. Por quê? Porque se ficarem misturadas brar o recente linchamento de uma mulher como “bruxa” no
aos homens as mulheres serão encoxadas, apalpadas, abusa- mesmo estado de São Paulo. O que há de tão ameaçador nas
das e até estupradas. E é verdade, tudo isso acontece. Tanto mulheres? A boceta, ainda ela. O desembargador Francisco
que um grupo feminista fez, recentemente, campanha distri- Batista de Abreu, da 16ª Câmara Cível do Tribunal de Justi-
buindo alfinetes para as moças enfiarem nos abusadores do ça de Minas Gerais, ajuda a explicar. Em acórdão publicado
metrô. É bizarro. Diante de uma mulher, num espaço aperta- no final de junho, ele expõe uma linha de raciocínio fasci-
do, atulhado de gente, alguns homens sentem-se autorizados nante ao justificar por que o valor de 100 mil reais de indeni-
a abusar dela. Isso diz de cada indivíduo e, claro, diz tam- zação, determinado pela justiça de primeira instância, deve-
bém desta sociedade. Seria importante escutar esses homens ria ser reduzido para 5 mil reais, como de fato aconteceu no
para entender qual é a questão de cada um com seu próprio julgamento em segundo grau. O caso refere-se ao que tem
pênis. Talvez vivam um sentimento de impotência avassala- sido chamado de “vingança pornô”. Um homem e uma mu-
dora, para muito além da ereção que conseguem, ou não, ter. lher namoraram, em cidades diferentes, por cerca de um a-
Mas é apenas uma hipótese a tantas que só podem ser com- no. Depois do término da relação, ainda conversavam e tro-
preendidas na história de cada um. Mais bizarro do que o a- cavam imagens íntimas pela internet. Na descrição do de-
to individual, porém, é o ato público. Mais perigosa é a “so- sembargador, as dela eram “ginecológicas”. O ex-namora-
lução” que o poder público, nesse caso o parlamento paulis- do, seguindo roteiro bocejante dos imbecis, quebrou a confi-
ta, deu para a violência. Comete-se violência sexual contra ança estabelecida entre eles e tornou público o que era pri-
as mulheres nos trens, segregam-se as vítimas. Seguindo es- vado. As imagens, que eram consensuais, foram expostas de
sa lógica, em breve, poder-se-ia propor que, nas ruas e nos forma não consensual. Um ato sujeito à punição legal, por-
espaços coletivos, as mulheres passassem a usar burca. As- tanto. O desembargador Abreu concluiu, todavia, que tal se-
sim, os homens não seriam “tentados” a cometer crimes se- ria uma oportunidade para fazer um julgamento moral da ví-
xuais. Se o “vagão rosa” (o apelido já é duro de aguentar!) tima, expondo a profundidade do entendimento sobre como
vingar, será um retrocesso muito maior do que pode parecer uma mulher deve lidar com sua vagina e com seu corpo. De-
a um primeiro olhar distraído. É alarmante que os protestos pois da divulgação do caso, o processo foi colocado em “se-
não sejam mais numerosos e barulhentos, dada a seriedade gredo de justiça”, limitando o acesso aos autos. Mas o segre-
do que está em jogo. Em nome das supostas boas intenções do de quem, àquela altura, deveria ser protegido? Da mu-
de “proteger as mulheres”, o que se faz, de fato, é reforçar lher, do homem ou do desembargador? A seguir, alguns ter-
duas ideias do senso comum, interligadas, que persistem há chos do voto do desembargador Francisco Batista de Abreu
séculos e estão na base da violência sexual. A primeira delas publicados na imprensa: “Quem ousa posar daquela forma
é que a culpada é a vítima. Seja porque usou “roupas sensu- e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenci-
ais”, seja porque “se expôs” a uma situação potencialmente ado, liberal. Dela não cuida. Irrelevantes para avaliação mo-
perigosa. Nesse caso, apenas por existir. Por ser mulher pre- ral as ofertas modernas, virtuais, de exibição do corpo nu. A
cisa ser colocada num “vagão especial”. Sua condição, em exposição do nu, frente a uma webcam, é o mesmo que estar
si, despertaria sentimentos incontroláveis nalguns homens. em público”. “As fotos em momento algum foram sensuais.
Então, nada de ficar perto desses espécimes, ou eles não po- As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais ab-
derão resistir e cometerão a violência. Como se tais homens soluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensu-
não fossem responsáveis por seus atos, como se fossem in- ais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensu-
capazes de se controlar, como se fossem animais, eliminan- ais são aquelas que provocam a imaginação de como são as
do a cultura da equação e deixando restar uma ideia tacanha formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais bran-
de natureza. No conceito do “vagão rosa”, as mulheres são da podem ser eróticas. São poses em que não se tiram fotos.
colocadas na posição de objetos de desejo ou objetos de pos- [...] São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que
se. E os homens são vistos como vítimas do próprio desejo, para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namo-
sem a necessidade de responsabilizar-se por ele. Acho curi- rado por um curto período de um ano. Não para ex-namora-
oso que homens não façam protestos contra o “vagão rosa”: do de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em mo-
a ideia nele embutida sobre o que é ser um homem é ofensi- mento íntimo de um casal, ainda que namorados. E não vale
va ao extremo. Se o “vagão rosa” virar lei, o próximo passo afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distân-
será: se uma mulher não quis ocupar o vagão especial e foi cia. Passageiro. Nada sério”. É possível desenvolver uma te-
sexualmente abusada no comum, concluir-se-á o de sempre: se de Doutorado na área de Psicanálise e Direito a partir do
“Ela pediu. Se não quisesse ser encoxada, apalpada, estu- voto desse desembargador mineiro. Mas, atendo-se a apenas
prada, teria entrado no vagão dela”. A outra ideia fincada no um ponto de seu raciocínio, percebe-se o que é assustador
imaginário de homens (e também de mulheres) é mais inte- para o magistrado: “As fotos em posições ginecológicas que

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exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensu- da justificativa contida no voto, em especial neste ponto:
ais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem, não assustam “Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos
[...]. São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na
para um namorado, mas verdadeiro”. Para esse desembarga- sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e
dor, vagina não é sensual. O que é sensual, segundo ele, não autoestima”. À vítima, que foi quem passou a ser julgada e
agride nem assusta. É coerente depreender dessa afirmação enquadrada como alguém que não se dá valor, é concedido
que a imagem da vagina não só agride o magistrado, como um valor aviltantemente mais baixo do que aquele determi-
também o assusta. Assim, só pode ser exibida “no escuro”, nado em primeira instância como indenização pelo ato do
de forma que não possa ser vista. E para um namorado “ver- réu. Mas qual o valor de uma mulher? Qual diz Renata Cor-
dadeiro”. Quando o voto se tornou público, lamentou-se em rêa, em um texto bonito no Biscate Social Club: “Por essa e
alguns espaços da internet a escuridão em que vive o desem- por outras que, para uma vida livre, todas as mocinhas, garo-
bargador Abreu. E até a suposta indigência de sua vida sexu- tas, meninas, mulheres, cidadãs do mundo não deveriam va-
al. Mas não se trata de julgá-lo. Como indivíduo, Abreu po- ler nada. Eu, particularmente, não valho um centavinho fu-
de até ter medo da vagina. Pode achá-la feia e assustadora. rado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me
Pode preferir só vê-la no escuro ou não a ver nunca. É possí- comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgu-
vel ter compaixão por Abreu, mas ninguém tem o direito de la. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E para
julgar como ele se relaciona com a sexualidade do outro e meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atri-
com a sua própria. Isso diz respeito só a ele. O problema é buo valor algum. Não estou à venda, mas estou vivendo sem
com o desembargador Abreu, servidor público, investido da conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno, sexual. E tam-
Lei. Com a sua pretensão de determinar, como verdade úni- bém não estou comprando. Mas isso é uma outra história”.
ca e universal, registrada nos autos, o que é sensual, o que é De volta ao “vagão rosa”, que leva as mulheres a uma via-
erótico, o que é amor “verdadeiro” e quando, como e onde gem sem movimento algum, na qual estão estacionadas no
uma vagina pode ser exibida. Assim como determinar que mesmo lugar, para que não exista deslocamento, nem nada
uma mulher que mostra a sua vagina não tem autoestima. O se altere. O “vagão rosa”, destinado ao transporte das mu-
problema é que, ao assim manifestar-se, o desembargador lheres para que não sejam encoxadas, bolinadas ou estupra-
Abreu está representando a Justiça. Seu ato tem efeito direto das, é o mesmo lugar simbólico dado à vagina em visões co-
sobre a vida da vítima – e também sobre as vidas na socieda- mo a do desembargador mineiro. O corpo feminino, a vagi-
de brasileira. A tal “vingança pornô”, em que imagens feitas na como sua máxima potência, deve ser oculto. Se for ex-
em âmbito privado são divulgadas contra a vontade de quem posto, estará subentendido que as mulheres assumirão o ris-
é retratado, num ato de quebra de confiança, já levou ao sui- co – e a responsabilidade – de serem violadas, de terem seus
cídio adolescentes brasileiras que não suportaram o julga- corpos (e suas almas) destruídos. Resta perguntar que vagão
mento moral da família, amigos e sociedade. Ao manifestar- é esse, o que exatamente ele transporta de um lado a outro e
-se nesses termos o desembargador está reeditando, para um qual é o seu destino.
fenômeno contemporâneo, liado às novas tecnologias, o ve-
lho “ela pediu”. E isso é inadmissível. O relator do caso, de- (El País, “Opinião”, 21.07.2014)
sembargador José Marcos Rodrigues Vieira, defendeu redu-
zir o valor da indenização de 100 mil reais determinados em
primeira instância para 75 mil reais. Afirmou em seu voto:
“Isentar o réu de responsabilidades pelo ato da autora signi-
ficaria, neste contexto, punir a vítima”. Seu colega, o de-
sembargador Abreu, porém, preferiu julgar a “moral” da ví-
tima, acompanhado pelo terceiro desembargador, Otávio de
Abreu Portes. Ao final, determinou-se que 5 mil reais seria
um valor suficiente. É possível concluir que, simbolicamen-
te, essa já não é mais uma indenização, mas um pagamento.
O “doutor” enxergaria a vítima como uma “puta”. No senti-
do de que a prostituta, na sociedade brasileira – e esta é outra
enorme violência – é vista como aquela que não tem direito
nem ao próprio corpo, nem à Lei. Isso ficou de novo muito
claro em junho, quando o Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo inocentou um fazendeiro preso em flagrante ao Vagão para mulheres: segregar não é proteger
estuprar uma menina de 13 anos. A justificativa: ela seria
prostituta, o que teria levado o criminoso a errar sobre a sua Clara Averbuck
idade. Em resumo: com prostituta, “pode-se tudo”. O que as
coloca fora do corpo e fora da Lei, de várias e complexas Os deputados estaduais de São Paulo aprovaram o
maneiras, com consequências sempre aterradoras. Qual afir- projeto de lei que prevê a criação de um vagão exclusivo pa-
mam organizações de prostitutas, infelizmente bem pouco ra mulheres. O deputado Jorge Caruso, do PMDB, acredita
escutadas, não existe prostituição envolvendo menores de i- que esses vagões ajudarão a evitar-se o assédio sexual que
dade. Com crianças e adolescentes só existe estupro e abuso ocorre nos horários de pico. O Metrô e a CPTM, assim
sexual. Mas esse não foi o entendimento dos desembargado- como nós, não aprovam a ideia e, procurados pelo jornal
res paulistas. Assim como, ao reduzir em 95 mil reais a inde- Folha de S. Paulo, declararam considerar que a criação
nização devida à mulher que teve imagens do seu corpo di- desses vagões “infringe o direito de igualdade entre gêneros
vulgadas contra a sua vontade, o que o tribunal mineiro fez à livre mobili-dade”. Resta, agora, esperar que o governador
foi: não mais determinar ao réu uma indenização pelo dano Geraldo Al-ckmin vete esse projeto. Comprar a ideia do
causado, mas dar um valor à mulher. É o que se compreende vagão separado é partir do pressuposto de que o problema é

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a mulher e que ela é quem deve ser segregada, enquanto os O vagão para mulheres só anda para trás
assediadores fi-cam soltos por aí. É legitimar que ela é quem
provoca o as-sédio. É dizer que os homens são animais Marília Moschkovich
incapazes de civi-lidade, incapazes de respeito, incapazes
de controle. Esses assédios não têm nada a ver com desejo; No Rio de Janeiro, já funciona, faz 7 anos, no metrô,
tem a ver, sim, com poder e com cultura machista. Assédio um vagão exclusivo para mulheres. Desde o meio deste ano,
e estupro não fazem parte de conduta sexual, e isso tem de o metrô do Distrito Federal (DF) adotou a mesma medida, e
ficar claro de uma vez por todas. Se não há consentimento, um projeto de lei tramita no estado de São Paulo para que o
não é sexo, é abuso. A-lém do mais, devo frisar: os mesmo seja feito. O “vagão rosa”, como é conhecido em al-
assediadores do transporte pú-blico não são doentes. Eles guns lugares, já foi implementado em Japão, Egito, Índia, I-
fazem parte dos homens que a-prenderam, ao longo de sua rã, Indonésia, Filipinas, México, Malásia e Dubai. De modo
vida, que podem tocar o corpo duma mulher sem geral, funcionam assim: em horários de pico, apenas (ou pri-
consentimento, e que continuarão fazen-do isso fora dos oritariamente) mulheres podem ocupar o espaço do vagão.
vagões, na rua, em todos os lugares, inclusi-ve em lugares Isso garantiria, a princípio, que não fossem assediadas nos
considerados seguros – 77% dos estupros são cometidos por trens. O fato de apenas países de cultura sabidamente ma-
conhecidos da vítima. O vagão não resolve sequer parte do chista terem implementado esse tipo de política pública não
problema. E se a mulher estiver no vagão “dos homens” e é uma coincidência. Observando-se um pouco mais de perto
for assediada, então a culpa será dela? E se ela estiver noutro a questão, fica claro que, além de não resolver nada e refor-
lugar, a culpa será da roupa? E se ela esti-ver toda coberta, çar a heteronormatividade e o próprio machismo, os vagões
a culpa será do horário? Não. A culpa nun-ca é da vítima e exclusivos fomentam outra forma de opressão de gênero. A-
não é segregando que se protege. Seguindo essa lógica do companhem meu raciocínio. Quem nunca viveu ou viu uma
vagão, a culpa sempre será da mulher, pois já que homem é situação de assédio em transporte público lotado? Em geral,
homem e tem instintos, não é responsável por seus próprios os assediadores aproveitam-se da superlotação dos trens pa-
atos. É nisso que vocês acreditam? Que o ho-mem é um ra agir. Nas cabeças dessas criaturas bizarras, mulheres são
animal incapaz de controlar-se e que a mulher é culpada? E corpos disponíveis, que existem no mundo para agradá-los.
então, sendo o homem um animal incapaz, ele deve ficar Essa é a faceta mais perversa do machismo estrutural, repro-
livre para cometer atrocidades enquanto as suas vítimas são duzida e reforçada por homens que, muitas vezes, na melhor
isoladas dele? A culpa nunca é da vítima. Nun-ca. Nunca. das intenções, consideram-se feministas: a ideia de que eles
Sem esquecer o constrangimento que as mulhe-res podem pautar corpo e comportamento de mulheres de algu-
transexuais estariam sujeitas por esses vagões, correndo o ma forma. Tal princípio está por trás de textos machistas do
risco de alguém “decidir” que elas não são mulheres. Ou-tra escritor Xico Sá, de versos de Vinicius de Moraes, mas tam-
falha no discurso de quem acredita no vagão exclusivo é bém orienta ações como de estupradores e assediadores (fí-
dizer que a mulher deve preservar-se usando roupas “decen- sicos e verbais) todos os dias de nossas vidas. Recentemente
tes”, usando como exemplo que não se deve deixar um carro a força que esse princípio tem na cultura brasileira ficou evi-
aberto na rua ou um laptop largado por aí; pois bem, amigos, dente, quando resultados da campanha “Chega de Fiu-Fiu”,
nossos corpos não são posses. Mulheres não são coisas, são do blog ThinkOlga, foram divulgados. Houve alta resistên-
pessoas. Nossos corpos são nossos corpos e devem ser res- cia de diversos homens a aceitar que aquela cantadinha que
peitados sem exceção. E, só para finalizar: no Rio de Janeiro parece inofensiva acaba limitando a liberdade das mulheres
há essa política dos vagões e – adivinha? – não funciona. Os de andarem como quiserem, por onde quiserem, na hora que
homens utilizam o vagão destinados às mulheres, e as mu- quiserem. A maioria se recusa ainda a entender que nós, mu-
lheres, frequentemente, precisam usar os vagões “normais”, lheres, não queremos opinião sobre como nos vestimos, so-
porque afinal, somos muitas. Quantos vagões desses preten- bre nossa aparência física, exceto em alguns contextos mui-
dem fazer? Somos 51,5% da população brasileira; não cabe- to específicos. Quer dizer: novamente, as mulheres existem
mos num vagãozinho. Não queremos políticas públicas que para os homens, na cabeça de tais espíritos sem luz. O assé-
limitem nossos espaços. Punição para quem assedia e liber- dio é frequente, em diversos níveis. Qualquer mulher sabe
dade para as mulheres é o que queremos. Não é segregando disso na pele. Então, por que uma medida que (em tese) visa
que se protege. a combater assédios é malvista por bastantes feministas? As
feministas endoidaram de vez? Para azar de quem nos odeia,
(Carta Capital, “Sociedade”, 04.07.2014) nós, feministas, ainda não perdemos o bom senso. Vejam is-
to: ao propor a separação de homens e mulheres como solu-
ção para o assédio, a política dos vagões exclusivos pressu-
põe três coisas – e é nessas três coisas que reside a opressão
de gênero da questão. Em primeiro lugar, os vagões exclusi-
vos culpabilizam as mulheres pelo próprio assédio. A ques-
tão é abordada como se elas fossem o problema da coisa to-
da. Essa pressuposição fica clara na ideia de que as mulheres
devem separar-se da “população normal” (ou seja, homens;
vejam lá Simone de Beauvoir com seu Segundo sexo). Sepa-
rar as mulheres – que são em geral as vítimas da agressão –
significa dar liberdade aos algozes. Quer dizer, os homens
que assediam podem continuar assediando em outros espa-
ços, sem que isso receba punição. São comuns relatos de re-
cusa da segurança do metrô – e das polícias civil e militar –
em tomar providências em casos de assédio. Muito comuns.
Não é preciso ser nenhum gênio para encontrá-los no bom

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e velho Google (fica a dica). Ao mesmo tempo, as mulheres, portanto, dá acesso ao tal vagão exclusivo. A classificação
que sofrem as agressões, são confinadas a um espaço limita- acaba sendo feita arbitrariamente pela aparência, portanto.
do. Quer dizer: além dos assédios que limitam nossa liber- Mas é a aparência que define se alguém é ou não é mulher?
dade, as políticas públicas que deveriam combatê-los fazem Definitivamente, não. O que define o gênero das pessoas é
o mesmo. Não faz o menor sentido, não tem a menor lógica. a identidade que cada um constrói para si com o passar dos
Para sermos mais livres, precisamos ser menos livres; é isso anos. Dar aos seguranças do metrô o poder de definir quem
mesmo? Esse tipo de inversão cruel e bizarra acontece em é mulher é retirar de cada um a possibilidade de viver sua i-
várias outras situações de culpabilização das mulheres. Nas dentidade e sua expressão de gênero. É uma forma de domi-
sociedades de cultura machista, como a nossa, as mulheres nação das mais abusivas e cruéis. Sem nem entrar na discus-
são culpadas pela própria sexualidade – e pela sexualidade são de que identidade de gênero não precisa ser binária (ho-
dos homens também. Então, quando sofrem agressões, a so- mem ou mulher), e nem fixa para a vida toda, já temos bas-
lução é limitar, fiscalizar e controlar os corpos e as atitudes tante motivo para ver que os vagões exclusivos são uma vio-
delas. Jamais o comportamento dos homens. Daqui deriva- lência contra quaisquer pessoas que não sejam homens cis-
mos mais uma pressuposição problemática das políticas de sexuais, de aparência e comportamento tidos como suficien-
vagões exclusivos: a de que seria natural dos homens não se temente “masculinos”. O vagão exclusivo para mulheres é,
controlarem sexualmente. Essa pressuposição é problemáti- portanto, um retrocesso para as relações e opressões de gê-
ca em todos os níveis possíveis. Para o começo de conversa, nero de todos os tipos, já tão consolidadas na cultura brasi-
porque trata assédio e estupro como se fossem parte do sexo, leira. Tudo o que não precisamos, agora, enquanto tramitam
como estivessem relacionados a desejo sexual e não a opres- o Estatuto do nascituro e outros absurdos no Congresso, é
são e a questão de poder. Além disso, a proposta de segregar de retrocesso.
vagões diz que o fato de alguém “ser homem” – o que quer
que isso queira dizer (falarei brevemente disso em seguida) (Carta Capital, “Política”, 22.10.2013)
– faz que, necessariamente, vá assediar e estuprar mulheres.
Não preciso dizer o quão irreal é essa suposição. Há muitos Alckmin veta projeto de vagão exclusivo
homens que não estupram e outro tanto que não assediam, para mulheres no metrô de SP
nem o farão ao longo de sua vida. Só não arrisco dizer que
são maioria ou minoria porque, de fato, não há dados estatís- O governador Geraldo Alckmin (PSDB) vetou, nesta
tica e sociologicamente confiáveis acerca disso (lembrando terça-feira (12), o projeto que criava o vagão exclusivo para
que ser condenado criminalmente por algo não significa que mulheres no metrô e nos trens da CPTM. A Folha tinha an-
a pessoa realmente fez, nem que quem não foi condenado tecipado, segunda, a decisão do governo estadual. Em nota,
deixou de fazer). Ainda mais fora da realidade do que isso, o governo falou que “o embasamento para o veto, além de
é a terceira suposição implícita nas políticas de vagões ex- questões legais e técnicas, considerou o pleito das associa-
clusivos para mulheres: a de que homens, necessariamente, ções de defesa dos direitos das mulheres, que avaliavam que
têm desejo sexual por mulheres, e vice-versa. Chamamos tal a proposta representava um retrocesso na luta para ocupação
pressuposição de “heteronormatividade”, e ela aparece tam- de espaços públicos e estimulava a segregação”. Criado pe-
bém em vários outros contextos em nossa sociedade. Sepa- lo deputado Jorge Caruso (PMDB), o projeto foi aprovado
rar as mulheres dos homens no transporte público, além de na Assembleia mês passado, e tinha como objetivo proteger
tudo que já mencionei, reforça essa ideia retrógrada e surre- as mulheres de abusos sexuais no transporte superlotado. A
al de que heterossexualidade e heteroafetividade são o “nor- aprovação, porém, provocou protestos de grupos feministas,
mal”, o “natural”, e de que relacionamentos gays e lésbicos que alegavam que ele provocaria segregação e não ajudaria
são exceção, aberração etc. Ou seja, no fim das contas, polí- no combate ao assédio sexual. O governo estadual afirmou
ticas como essa do vagão exclusivo estão muito mais para que mantém uma série de ações para combater a violência
Marco Feliciano do que para Simone de Beauvoir. Ao criar- dentro dos vagões. Entre eles, estão monitoramento por câ-
-se esses vagões, assumimos que não haverá “desejo sexu- meras, campanha com cartazes e folhetos e telefones de de-
al” (ainda supondo que seja essa a questão do assédio – que, núncia: (11) 97150-4949 (torpedos à CPTM), 97333-2252
sabemos, não é) entre mulheres. Nem entre homens. Fingi- (torpedos ao Metrô) e 0800-550121 (denúncia telefônica à
mos que também não existem vários tipos de assédio contra CPTM).
outras minorias no transporte público e no resto da socieda-
de brasileira (quem lembra o adolescente que foi jogado de (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 12.08.2014)
um trem por skinheads que encasquetaram que ele era gay,
há uns anos em São Paulo?). Nem me atrevo a tocar na ques- A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou, na
tão dos “estupros corretivos” a gays e lésbicas. Nessas mi- quinta-feira (3), projeto de lei que prevê a criação de vagões
norias outras, quiçá a que mais se prejudique com essa sepa- exclusivos para mulheres nos sistemas metroviário e ferro-
ração dos vagões sejam os homens e as mulheres transexu- viário do estado. A proposta vai para o governador Geraldo
ais. Além dessas três suposições problemáticas das políticas Alckmin (PSDB), que poderá sancioná-la ou vetá-la. Pelo
de vagões exclusivos, há mais um problema grave que elas projeto, trens do Metrô e da CPTM (Companhia Paulista de
alimentam: como saber-se quem é mulher e quem não o é? Trens Metropolitanos) devem ter um vagão em cada compo-
Quem tem esse poder? Na semana passada, uma mulher foi sição só para uso das passageiras. A ideia é evitar casos de
expulsa do vagão exclusivo no metrô do DF porque os segu- abuso sexual, nos mesmos moldes do que acontece no Rio
ranças do metrô “decidiram” que ela não era mulher. A defi- de Janeiro. “Na falta de espaço nos vagões, as mulheres não
nição dessa categoria – “mulher” – não é nada simples, e fi- têm outra opção senão ‘aguentar’ esse constrangimento du-
lósofas, antropólogas e militantes feministas de diversas á- rante todo o percurso”, diz o texto, de autoria do deputado
reas e profissões debatem exaustivamente a questão há dé- estadual Jorge Caruso (PMDB). Procurados, Metrô e CPTM
cadas. Certamente na legislação dos vagões não há uma de- afirmaram apenas que o vagão exclusivo para mulheres “in-
finição sequer sobre o que qualifica alguém de “mulher” e, fringe o direito de igualdade entre gêneros à livre mobilida-

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de”. O chamado “vagão rosa” não funcionaria nos feriados foi aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp)
e fins de semana, quando há menor movimento. Mulheres a Lei que reserva vagões específicos para mulheres. Apesar de
acompanhadas de crianças, mesmo que do sexo masculino, um setor do movimento feminista compreender isso como vitó-
também poderiam usar o trem. Esse projeto prevê multa pa- ria, eu tenho lá meus questionamentos sobre a real eficácia da
ra as empresas que não fizerem vagões exclusivos, mas não medida para o combate à violência machista como um todo, seja
especifica se haverá algum tipo de fiscalização para que os no estado de São Paulo, seja em outros estados brasileiros. Um
passageiros respeitem a regra. Um projeto semelhante foi dado importante dessa votação é que apenas homens foram fa-
testado, em 1995, nos trens da CPTM. A ideia, no entanto, voráveis à medida. A primeira questão a ser considerada é o fato
foi logo abandonada, pois tinha pouca aceitação dos usuári- de que em São Paulo somos 58% das usuárias de transporte pú-
os. O metrô do Rio tem, desde 2006, vagões voltados para blico, ou seja, mais da metade da população que encaram as “la-
mulheres. Eles funcionam das 6h às 9h e das 17h às 20h, só tas de sardinha” diariamente. Aí está a primeira problemática:
em dias de semana. Devido à falta de fiscalização, porém, é como garantir uma política de cotas de vagão quando o sistema
comum que homens viajem no “vagão rosa”. Uma pesquisa metro-ferroviário do estado já está em total colapso? “Como sa-
do Datafolha, divulgada em abril, durante de denúncias de bemos, lei parecida (...) já está em vigor no Rio de Janeiro desde
abuso no metrô de São Paulo, mostrou que duas a cada três 2006. É a Lei 4.733/2006, que em nada resolveu no fato de que
paulistanas disseram já ter sido vítimas de assédio sexual. as mulheres são assediadas, abusadas e estupradas nesse espaço,
Na ocasião, 73% das mulheres afirmaram que aprovavam como demonstra a matéria do Portal R7: “Linha do medo: ho-
vagões exclusivos. mens invadem vagão exclusivo para mulheres”. Ao contrário,
sem qualquer mecanismo de regulação e fiscalização da imple-
(Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 05.07.2014) mentação da Lei, os homens passaram a ocupar os vagões desti-
nados somente por mulheres” (“Contra vagões femininos, pelo
direito a espaço público”). O processo de se segregar em vagões
distintos homens e mulheres não avança no combate ao machis-
mo estrutural que há no capitalismo; na verdade, apenas avança
no processo de culpabilização da vítima, ou seja, uma mulher
que não consiga entrar no vagão destinado a ela e usar qualquer
um dos outros vagões e sofrer algum tipo de abuso seria consi-
derada culpada pela violência sofrida por não estar onde a lei
manda: no vagão rosa. Defender o segregacionismo nunca foi
uma máxima feminista, muito menos uma máxima socialista.
Os setores que, na sociedade, normalmente defenderam formas
segregacionistas para resolver problemas que fossem, normal-
mente flertavam com a extrema direita e isso não se pode perder
do nosso horizonte. “Além do mais, devo frisar: os assediadores
do transporte público não são doentes. Eles fazem parte dos ho-
mens que aprenderam, ao longo de sua vida, que podem tocar o
Constituição da República Federativa do Brasil corpo de uma mulher sem consentimento, e que continuarão fa-
zendo isso fora dos vagões, na rua, em todos os lugares, inclusi-
Título II ve em lugares considerados seguros – 77% dos estupros são co-
Dos direitos e das garantias fundamentais metidos por conhecidos da vítima. O vagão não resolve sequer
Capítulo I uma parte do problema” (“Vagão para mulheres: segregar não
Dos direitos e deveres individuais e coletivos é proteger”). Em junho de 2013, jovens do Brasil todo se levan-
taram pedindo diminuição da tarifa dos transportes públicos e
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção melhoria nesses serviços. Óbvio que essas melhorias passam,
de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos es- necessariamente, pela garantia de que as mulheres cissexuais e
trangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à LGBT possam usar o transporte público sem o medo de sofrer
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, violência. Na proposta sancionada pelo governador Geraldo Al-
nos termos seguintes: ckmin, não se pensa em nenhum momento em como será garan-
I – homens e mulheres são iguais em direitos e obriga- tida a integridade física de mulheres e homens transexuais que
ções, nos termos desta Constituição. [...] XV – é livre a loco- forem vetados a entrar nos tais vagões rosa. Relegar a outro se-
moção no território nacional, em tempos de paz, podendo tor marginalizado o lugar da violência cotidiana que sofremos é
qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer justo? Avança para a luta por uma sociedade de mais igualdade?
ou dele sair com seus bens; [...]. A criação do vagão rosa não enfrenta problema da violência ma-
chista nos transportes públicos de forma contundente; apenas a-
(Casa Civil, Constituição Federal) juda a colocar o problema para debaixo do tapete. Não coloca
no centro do debate que a violência existente no metrô e no trem
Segregar é preciso? Uma reflexão sobre o vagão rosa é fruto da lotação enorme do transporte público, que é garantida
pela falta de investimentos nas ampliações das frotas e do pes-
Luka Franca soal com treinamento necessário para manter e fazer funcionar
metrô e trem. O sufoco sofrido por nós, mulheres, nos trens, me-
A existência de um vagão exclusivo para mulheres, no trôs e ônibus resolver-se-ia se não tivesse casos de corrupção no
transporte público, não é um debate de hoje no Brasil; desde que transporte público, como o revelado pelo Caso Alstom/Siemens
o primeiro foi implementado no Rio de Janeiro, a eficácia dessa no começo deste ano. Se o dinheiro destinado ao transporte pú-
medida ao combate e prevenção a violência machista dentro dos blico de qualidade fosse realmente usado para garantir transpor-
transportes de massa é problematizada. Na quinta-feira passada, te público de qualidade e não ajudar a financiar cartéis empresa-

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riais como aconteceu no metrô. Não, não precisamos de segre- que grassa entre os brasileiros, independentemente da classe
gação que amplie o processo de culpabilização da violência que social a que pertençam. Mas, certamente, serve como palia-
nós sofremos. Precisamos é que se encare o problema a fundo e tivo para aliviar as pressões contra as trabalhadoras e estu-
se garanta que não existam transportes públicos superlotados fa- dantes que não têm opção para ir e vir de casa para o traba-
cilitando ocorrência de crimes de oportunidade. Precisamos da lho ou à escola. O tempo médio gasto, nos deslocamentos
garantia do nosso direito a fruir o espaço público sem restrições em São Paulo, é de cerca de 2h49min – 19% do total da po-
e, sobretudo, não podemos nos valer de reformas que não avan- pulação consomem até quatro horas por dia. E, quanto mais
cem para a luta das mulheres e LGBT em nosso país; e o vagão longe do centro mora-se, mais saturadas e deficientes são as
rosa hoje só ajuda a aprofundar a culpa que a sociedade nos im- conduções públicas. O veto à existência de “vagões rosa”
põe pela violência que sofremos. cerceia o direito das mulheres, as principais interessadas, de
poder escolher como preferem se mover pela cidade, se em
(Carta Maior, “Política”, 11.07.2014) vagões exclusivos ou mistos. Nada mais ultrajante que, após
um dia exaustivo e tenso, entrar num trem ou metrô e ficar
O vagão cor-de-rosa exposta a homens de comportamento agressivo e predatório,
que acreditam, em sua maioria (59%), que “se as mulheres
Luiz Ruffato soubessem se comportar, haveria menos estupros” – estima-
-se que o número de casos alcance mais de 500.000 por ano,
O governo do estado de São Paulo vetou a criação de sendo que nem 10% do total são comunicados oficialmente.
chamados “vagões rosa”, destinados exclusivamente às mu- Quando a gripe nos atinge, a recomendação é para que alivi-
lheres nos sistemas de metrô e trens metropolitanos. O argu- emos seus desagradáveis sintomas – febre, dores generaliza-
mento é o de que, ao invés de alcançar o objetivo almejado, das e tosse – tomando antitérmicos, analgésicos e repousan-
combater o assédio sexual, a medida ampliaria ainda mais a do. O médico e nós sabemos que não estamos combatendo
segregação, punindo a vítima, não o agressor. Segundo esse a doença, mas que os remédios abrandam as consequências
raciocínio, ações como essa não ajudam em nada a luta con- do vírus para podermos enfrentar período agudo de sua ma-
tra o machismo, mas apenas perpetuam uma situação de vio- nifestação. No meu ponto de vista, é mais ou menos para is-
lência. Eu compreendo que a solução para esse problema so que servem os “vagões rosa”. Não combatem o machis-
não está na separação de homens e mulheres, mas sim na vi- mo, que é um problema mais amplo e complexo, mas dimi-
vência harmônica entre eles. Fato é, entretanto, que uma co- nuem a pressão sobre a vida já tão difícil das trabalhadoras
existência em igualdade de condições só ocorre quando, por e estudantes que usam o sistema público de transporte.
meio da educação, se transforma uma cultura. O machismo
é um comportamento derivado de uma visão de mundo de- (El País, “Opinião”, 18.08.2014)
formada, plantada pelos pais desde o berço, alimentada pela
escola e legitimada pela sociedade. Mudar essa mentalidade
implica empreendimento continuado envolvendo a família,
as instituições de ensino e as várias instâncias governamen-
tais. E isso demanda um esforço conjunto por algumas gera-
ções. Ao rejeitar a implantação dos “vagões rosa”, o gover-
no acenou, como alternativa, com o aumento no quadro de
seguranças femininas e a instalação de câmeras de vigilân-
cia nas estações. Ou seja, repressão, não educação. Quem u-
tiliza transporte público, não apenas em São Paulo, mas em
todo o país, conhece sua precariedade. Confinados em espa-
ços reduzidos, homens aproveitam-se da superlotação para
humilhar mulheres, encoxando-as, bolinando-as, beijando-
-as, encarando-as, sussurrando safadezas em seus ouvidos.
Apenas nos sete primeiros meses deste ano, a Delegacia de
Polícia do Metropolitano de São Paulo deteve 33 homens a-
cusados de abusar de passageiras. Mas sabe-se que o núme-
ro de episódios é muito maior, já que a maioria das mulheres
reluta em denunciar casos de assédio, por sentirem vergo-
nha, por desconhecerem seus direitos, por medo de serem
constrangidas em delegacias onde imperam homens ou sim-
plesmente, por não acreditarem na eficácia da polícia. A le-
gislação é quase omissa em relação a casos de abuso contra
mulheres em transportes coletivos. O ato de importunar al-
guém, publicamente, de modo ofensivo é tratado como mera
contravenção, cuja pena se limita ao pagamento de multa. E
é sempre bom lembrar que o Brasil registra uma das maiores
taxas mundiais de violência contra as mulheres, ocupando o
sétimo lugar no ranking de feminicídio. São 5600 assassina-
tos por ano; em média, um a cada hora e meia, sendo que
mais da metade das vítimas têm idade entre 20 e 39 anos e
contam com menos de oito anos de escolaridade. A criação
de “vagões rosa” no sistema de transporte coletivo não é a
maneira mais apropriada de lidar com mentalidade machista