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Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação”

Turma: 3ª Série A, Ensino Médio. Período: 1º bimestre


Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal
Tema redacional 05: Senectude populacional no Brasil de
hoje: de que modo deve-se lidar com o elevado crescimento
do número de brasileiros idosos?

Quem vai cuidar de você na velhice?

Mirian Goldenberg

Uma das perguntas mais frequentes feitas às mulhe-


res que não querem ter filhos é: “Quem vai cuidar de você
na velhice?”. Uma jornalista de 43 anos disse: “Já sofri mui-
to com as cobranças femininas. Acham que se eu não tiver
filhos serei infeliz. Quando digo que não quero ter filhos e
sou feliz assim, elas dizem: ‘Então por que você não adota?’
Quando respondo que não quero adotar, insistem: ‘E como
será sua velhice sem ninguém para cuidar de você?’. Muitas
mulheres mais velhas acreditam que a família é uma prisão
que impede que exerçam a própria vontade. Elas dizem que
os filhos não respeitam as vontades dos pais e querem con-
trolar suas vidas afetivas e sexuais, como se os velhos não
fossem pessoas responsáveis, lúcidas e autônomas. Elas a-
firmam que, apesar da ilusão de que os filhos são a garantia
de uma velhice menos solitária, em grande parte dos casos
essa expectativa não se confirma. Muitas alertam para os pe-
rigos de depositar nos filhos a esperança de uma velhice fe-
liz. Elas acham melhor investir nas amizades para garantir
companhia, amor e cuidado na velhice. Os vínculos gerados
pelo afeto, e não pela obrigação ou interesse, podem criar
relações de reciprocidade e de cumplicidade entre as mulhe-
res, que se divertem, se acompanham e cuidam umas das
outras, especialmente na velhice. Uma escritora de 75 anos
disse: “Aprendi a afastar as pessoas que chamo de vampiras:
aquelas que só sugam, reclamam, demandam, fazem mal,
botam para baixo. Só quero na minha vida quem me cuida
e me alimenta de coisas boas, quem me faz bem e me esti-
mula a ser cada vez melhor. As minhas amigas são o meu
maior patrimônio e a minha verdadeira família”. Nos últi-
mos dez anos, triplicou o número de pessoas de mais de 60
anos que vivem sozinhas, passando de 1,1 milhão para 3,7
milhões. Entre elas, 65% são mulheres, muitas das quais es-
colheram viver sozinhas para assegurar a autonomia. Mu-
lheres que tenho pesquisado aprenderam que, além de cui-
dar da saúde e garantir uma aposentadoria digna, existe ou-
tro importante investimento para experimentar uma velhice
mais feliz: cultivar, desde cedo, as verdadeiras amizades.

(Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 28.01.2014)

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Sem medo de envelhecer qualquer outro rótulo que sempre contestaram. São de uma
geração que transformou comportamentos e valores de ho-
Fernando Silva mens e mulheres, que tornou a sexualidade mais livre e pra-
zerosa, que inventou diferentes arranjos amorosos e conju-
A maior parte dos paulistanos (64%) não tem medo gais, que legitimou novas formas de família e que ampliou
da velhice e gostaria de viver ao menos 88 anos. É o que re- as possibilidades de ser mãe, pai, avô e avó. Tais “belos ve-
vela pesquisa Datafolha realizada na cidade de São Paulo lhos” inventaram um lugar especial no mundo e se reinven-
entre os dias 1 e 2 de dezembro de 2011. A vontade de esten- tam permanentemente. Continuam cantando, dançando, cri-
der a vida é tamanha que apenas um em cada dez entrevista- ando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus
dos afirma ter muito medo da velhice, enquanto 22% disse- etc. Não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras
ram ter um pouco de medo. Um dado interessante do estudo que os obrigariam a comportar-se qual velhos. Não se torna-
é o fato de que quanto mais velho o entrevistado, menor o ram invisíveis, apagados, infelizes, doentes, deprimidos. E-
temor de envelhecer. Entre os maiores de 56 anos, 75% não les, como tantos outros “belos velhos” que tenho pesquisa-
se importam com o assunto. Mas o receio aumenta em ou- do, estão rejeitando os estereótipos e criando novas possibi-
tras faixas etárias: de 41 a 55 anos, 69% não têm medo; de lidades e significados para o envelhecimento. Em 2011, a-
26 a 40, 63%; e de 16 a 25, 54% não mostram preocupação pós assistir quatro vezes ao mesmo show de Paul McCart-
com isso (dez pontos percentuais abaixo da média). Os pes- ney, perguntei a um amigo de 72 anos: “Por que ele, aos 69
quisadores perguntaram também quanto tempo as pessoas anos, faz um show de quase três horas, cantando, tocando e
gostariam de viver. O resultado aponta que boa parte dos dançando sem parar, se o público ficaria satisfeito se ele fi-
entrevistados, 26%, sonha prosseguir até os 80 anos. Porém, zesse show de uma hora?”. Ele respondeu sorrindo: “Porque
os números se equilibram no quesito viver mais. São 20% ele tem tesão no que faz”. O título do meu livro Coroas é u-
entre os que gostariam de chegar aos 90; a mesma porcenta- ma forma de militância lúdica na luta contra os preconceitos
gem que respondeu querer se tornar centenária um dia. Mes- que cercam o envelhecimento. Tenho investido em revelar
mo considerando avanços da medicina e aumento da expec- aspectos positivos e belos da velhice, sem deixar de discutir
tativa de vida, somente 4% dos paulistanos disseram prefe- os aspectos negativos. Como diz a música de Arnaldo Antu-
rir ultrapassar os cem anos. Ao se levar em conta a idade nes, “Que preto, que branco, que índio o quê? / Somos o que
dos participantes da pesquisa, também se nota em jovens um somos: inclassificáveis”. Acredito que possamos ousar um
equilíbrio nos números relacionados a prolongar o tempo de pouco mais e cantar: “Que jovem, que adulto, que velho o
vida. No grupo de entrevistados de 16 a 25 anos, 14% vive- quê? / Somos o que somos: inclassificáveis”.
riam até os 60 e 16% gostariam de chegar aos 70. Em geral,
os jovens demonstraram mais vontade de viver que a média (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 16.10.2012)
da população. Entre os que esperam chegar aos cem anos, o
resultado alcançou 17% – 13 pontos percentuais a mais que Envelhecimento da população aumentará
a média. Os mais experientes também jogam sua expectati- em 149% os gastos do SUS até 2013
va de vida para cima. Dos maiores de 56 anos, apenas 2%
disseram que gostariam de viver até os 60. Já os que opta- Bruno Bocchini
ram em responder 70 anos para os pesquisadores foram 8%.
Por outro lado, 26% dessa população gostaria de chegar aos Os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com as-
90 anos e 23% planejam atingir o centenário. Entre os cinco sistência ambulatorial – como consultas e exames diagnósti-
itens apresentados aos entrevistados para que apontassem o cos – e internação hospitalar podem atingir, em 2030, 63,5
mais importante para viver melhor na maturidade, a boa ali- bilhões de reais. Isso representa elevação de quase 149% em
mentação foi a mais citada (84%). Praticar exercícios físicos relação aos 25,5 bilhões reais gastos em 2010. A estimativa
também é bem avaliado pelos paulistanos: 77% apostam na foi divulgada nesta terça-feira, 27, pelo Instituto de Estudos
atividade física para estender a vida. Porém, poupar dinhei- de Saúde Suplementar (IESS). De acordo com o instituto, a
ro foi a menos lembrada (53%). O desapego venceu o temor projeção é baseada no aumento e envelhecimento da popu-
e as pessoas optaram por ficar próximo dos amigos e famili- lação brasileira, com o consequente crescimento na utiliza-
ares (74%) e ter atividades de lazer (67%). ção do sistema de saúde e nos gastos de atendimento. Se-
gundo o IESS, em 2010 o Brasil contava com 190,8 milhões
(Folha de S. Paulo, 24.04.2012) de habitantes, dos quais 11% de idosos (a partir de 60 anos
de idade). Para 2030, a estimativa é de que o total de idosos
A bela velhice atinja 40,5 milhões, 19% da população, prevista para 216,4
milhões. As despesas com internação de idosos, por exem-
Mirian Goldenberg plo, podem atingir R$ 14,3 bilhões em 2030, valor 4,7 vezes
superior ao registrado em 2010. “Apenas com o impacto do
No livro A velhice, Simone de Beauvoir, após des- aumento e envelhecimento da população, os gastos com ser-
crever o dramático quadro do processo de envelhecimento, viços ambulatoriais e hospitalares seriam de R$ 35,8 bilhões
aponta um possível caminho para a construção de uma “bela em 2030. Considerando, ainda, o crescimento das taxas de
velhice”: ter um projeto de vida. No Brasil, temos vários e- utilização do SUS e de gastos médios por atendimento, pro-
xemplos de “belos velhos”: Caetano Veloso, Gilberto Gil, jeta-se o cenário mais realista, no qual as despesas atingirão
Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marieta Severo, Rita Lee, R$63,5 bilhões” conforme trecho do relatório. O IESS ques-
entre outros. Duvido de que alguém consiga enxergar neles, tiona ainda se o país terá orçamento suficiente para arcar
que já chegaram ou estão chegando aos 70 anos, um retrato com as despesas da saúde. Com um crescimento de 2% ao
negativo do envelhecimento. São típicos exemplos de pes- ano, o orçamento do SUS, segundo o instituto, serão R$37,9
soas chamadas ageless, “sem idade”. Fazem parte de uma bilhões em 2030. “Em um cenário otimista, de crescimento
geração que não aceitará o imperativo: “Seja um velho!” ou do PIB de 4% ao ano, o orçamento do SUS ficaria em R$56

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bilhões”, inferior aos R$ 63,5 bilhões estimados para as des- po algum da história, houve tantos indivíduos atingindo u-
pesas hospitalares e ambulatoriais. A assistência ambulato- ma idade avançada.” Conforme descreve Marina, para fins
rial abrange procedimentos realizados por profissionais de de levantamentos demográficos, no Brasil considera-se ido-
saúde no âmbito do ambulatório, sem necessidade de inter- so o corte definido pela OMS (Organização Mundial da Sa-
nação hospitalar, como consultas, exames diagnósticos, te- úde), para os países subdesenvolvidos ou em via de desen-
rapias e procedimentos clínicos e cirúrgicos. volvimento, isto é, a partir de 60 anos. Assim, quando se re-
fere ao velho em solo brasileiro, incluem-se na contagem a-
(Carta Capital, “Saúde”, 27.11.2012) quelas pessoas que atingiram essa idade, porém não se pode
e nem se deve esquecer que a velhice possui diversas faces,
Como se morre de velhice sobretudo numa sociedade como a brasileira, marcada pela
desigualdade social, em que há exorbitante concentração de
Elma Eneida Bassan Mendes renda e, consequentemente, alto índice de pobreza.” Para a
autora, “[...] o jovem pobre de hoje, no Brasil, será também
O envelhecer é assunto que ronda meus dias. O enve- o idoso pobre de amanhã.” É certo que essa realidade brasi-
lhecer sonda meus pensamentos. O envelhecer é a vida que leira, ainda resistente e crônica, reduz a chance de um entar-
segue. Das horas, dias e anos que voam sem pestanejar, eis decer digno para nossa população grisalha. E é em meio aos
que se chega à idade adulta e se envereda à velhice. Penso meus próprios e insistentes cabelos brancos (horror dos hor-
que foi também sobre o entardecer da vida que Lenine, poe- rores para as mulheres, pois vencem os mais poderosos ex-
ta prime da nossa MPB, pensou ao compor a canção “Paci- perimentos de tinturas) que continuo pensando na penúria
ência”. Nela, a percepção: “[...] mesmo quando tudo pede que é, para milhões, ser velho no Brasil. E penso, de forma
um pouco mais de calma; até quando o corpo pede um pou- especial, no tocante ao que o ser humano tem de mais valio-
co mais de alma, a vida não para”. E, num assombro de estar so para si: a saúde. Um dos trabalhos que muito me honrou,
vivo, no transe desta roda viva, envelhecemos. Mas, longe ao longo da minha vida de jornalista, foi participar com a
de ser um espaço de regozijo, sábia contemplação e dignida- Braile Biomédica junto à Sociedade Brasileira de Hemodi-
de para o duo corpo e alma, o envelhecer no Brasil é uma a- nâmica e Cardiologia Intervencionista da luta pela inclusão
ventura ingrata, incerta e, para a maioria, injusta. A velhice do pagamento pelo SUS da Válvula Transcateter Inovare. O
brasileira ainda é doença irremediável, sentença perversa a produto significa, hoje, a chance de vida para milhares de i-
afligir milhões de homens e mulheres ditos “na reserva”. É dosos portadores de estenose valvar Aórtica Calcificada,
sobre o tempo de envelhecer, sem calma, aconchego e muito lesão valvar que atinge em torno de 2,5% de pessoas em tor-
menos alma e do “exército” de aposentados brasileiros a que no de 75 anos. A Transcateter Inovare foi desenvolvida com
se refere este ensaio. Alguns números são estarrecedores: de maestria pela indústria rio-pretense em colaboração com u-
24 milhões de aposentados e pensionistas no Brasil, apenas niversidades federais e estaduais e com apoio da FAPESP
1% é independente financeiramente. Outros 46% dependem (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) e
de parentes, 28% estão à beira da miséria e 25% têm que FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos). A implantação
continuar trabalhando, de acordo com levantamento do Ins- desse produto tem sido a única alternativa para em pacientes
tituto de Educação Financeira (Disop) baseado em dados do com estenose aórtica grave sem indicação da cirurgia con-
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas vencional, por conta do elevado risco de morte intraoperató-
as notícias ruins só aumentam pra quem pensa em viver aqui ria e pós-operatória. É a FINEP que também pode e deve es-
até envelhecer. Uma delas é que o Brasil foi para 61ª coloca- tar a serviço da dignidade e da qualidade de vida do idoso.
ção na lista dos melhores países para se aposentar, conforme Mas são tantas as necessidades, prioridades, acessos e direi-
mostrou o Índice Global de Aposentadoria do banco francês tos que não têm essa delicadeza e nem este requinte de exce-
Natixis. Atrás de países como Estados Unidos (19º), Japão lência, e que ainda estão longe de estar à disposição do ser
(27º) e Espanha (29º), o Brasil recuou vinte posições no ran- humano que envelhece em solo brasileiro. Uma aposentado-
king entre 2013 e 2014, prejudicado pela desaceleração do ria decente e merecida; um atendimento médico humano e
seu Produto Interno Bruto (PIB), aumento da inflação e pio- justo; calçadas em que se possa andar sem riscos ou sustos;
ra nas condições de saúde. Segundo a pesquisa o crescimen- um transporte público respeitoso e honesto; políticas públi-
to econômico nos últimos anos não representou avanço no cas sérias e responsáveis, incentivos ao lazer e ao entreteni-
sistema de aposentadoria. Mesmo com algumas melhoras mento e uma infinidade de situações e chances que hoje es-
no subíndice de qualidade de vida, o cenário geral é medío- tão relegadas ao desprezo, esquecimento e, pior de todos os
cre, apontou a pesquisa. Isso porque essa avaliação leva em males, a indiferença.
consideração fatores fundamentais de uma boa qualidade de
vida à população da terceira idade, qual acesso a saúde, ren- (Diário da Região, “Vida e arte”, 08.11.2014)
da, situação financeira do país, além de bem-estar, seguran-
ça e níveis de poluição do meio ambiente. E o quadro é preo- O preço da velhice no Brasil
cupante quando se sabe que, em 2025, os idosos no Brasil
atingirão uma cifra aproximada de 30 milhões de pessoas, o Léa Maria Aarão Reis
equivalente a 15% da população. Quedas de taxas de fecun-
didade a partir das décadas de 1970 e 1980 e a diminuição Nove milhões de idosos foram incluídos na sociedade
gradativa das taxas de mortalidade registradas nas últimas brasileira no espaço de tempo da última década. É muita coisa.
décadas sinalizam que o envelhecimento da população bra- Nesse período, inúmeras iniciativas foram tomadas pelo estado
sileira é irreversível. Segundo o estudo “O processo de en- e são bem-vindas. “Mas ainda há um descompasso entre elas e
velhecimento no Brasil: desafios e perspectivas”, de Marina a realidade”, diz, com razão, o médico Renato Veras, especialis-
da Cruz Silva para a revista da UNATI (Universidade Aber- ta em envelhecimento da população, idealizador e diretor-geral
ta para Terceira Idade), UERJ, “[...] não há como negar que da Universidade da Terceira Idade (UNATI), da UERJ, com
a sociedade brasileira está ficando grisalha, jamais em tem- mais de dois mil alunos maiores de 60 anos de idade e com cur-

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sos para cuidadores de idosos e outros profissionais da área. Pa- em 2013. O certo é que, a partir de algum ponto, na medida em
ra Veras, a situação de vulnerabilidade dos mais velhos, hoje, é que a idade avança, o indivíduo custa mais ao estado, lembra
até mais complexa do que antes, quando eles eram praticamente Veras. Já a pequena classe média que deseja usufruir de uma
invisíveis aos olhos do estado. Hoje, há menos nascimentos e as velhice confortável, um envelhecer com qualidade, equilibra-se
mortes são adiadas. O número de contribuintes diminui e o de com sérias restrições no orçamento por conta dos altos valores
beneficiários aumenta enquanto o país tem 24,8 milhões de bra- dos planos de saúde privada, uma área pouco regulada e com
sileiros com mais de 50 anos de idade. A história (real) da se- serviços que, com frequência, não correspondem aos preços es-
nhora dizendo para a filha que vai buscá-la no hospital, curada, tipulados. Mas o quadro geral permite esperanças renovadas.
é emblemática: “Agora está muito difícil morrer, minha filha”. Serve lembrar que saúde, bem-estar e autoestima constituem a
Na maioria dos países ocidentais a questão da aposentadoria é a base da vida do idoso e o leva mais confiante a consumir. O cha-
grande discussão. Os aposentados de hoje fizeram um acordo mado “mercado maduro” surge e traz público-alvo ideal (antes,
social lá atrás, em um mundo que passou, para usufruir a apo- ele era marginalizado) de menos inadimplência, em que o con-
sentadoria durante seis, sete anos. Agora vivem mais vinte, trin- sumo é reflexivo, a rede de contatos do cliente-comprador é po-
ta anos e o modelo antigo não cabe mais no corpo dessas pesso- derosa e há forte fidelização de marcas e serviços. Caso o indiví-
as – serviu para outro período no qual a expectativa de vida era duo aprecie o produto, o seu preço, o local e (ou) o atendimento
menor. Na França, há três anos, os aposentados foram para as do serviço, ele firmará o hábito e não mudará. Conservador no
ruas em massa exigindo o cumprimento de direitos que se en- que diz respeito ao consumo, raramente o idoso nutre o interesse
contravam ameaçados pelo governo neoliberal de Sarkozy. Eles pela novidade, o que é uma característica marcante do jovem.
invocavam as regras elaboradas quando começaram a trabalhar Por isso, neste “mercado maduro” que tende a crescer cada vez
– naquele mesmo ambiente do qual falávamos; que não existe mais e com uma rapidez, que vai atropelando todas as pesquisas
mais. Na Europa, os idosos, assim como os jovens, estão sendo e expectativas, farmácias criam cartões especiais com descontos
as primeiras vítimas do desmantelamento do sistema de bem- para os mais velhos; agências de viagens oferecem pacotes es-
-estar social operado com empenho pelas políticas de austerida- peciais na baixa temporada; profissões novas se expandem, co-
de dos governos conservadores, de direita. Na Argentina, um mo a de cuidadores e professores de Educação Física especialis-
dia a galinha dos ovos de ouro de alguns banqueiros deixou de tas em exercícios para os velhos. Faculdades abrem cursos com
botá-los para se dedicar aos idosos, como comentam, com hu- turmas especiais – nelas, o número de mulheres é esmagador.
mor, certos analistas portenhos. O governo estatizou os fundos Na internet, o contingente de indivíduos a partir de 50 anos é o
de pensão, a medida resultou em pouco tempo em um aumento que apresenta, segundo a Pnad/2012, o maior percentual de in-
em termos reais da renda média dos aposentados e incluiu no ternautas no país: 20,5%. O perfil de formadores de opinião dos
sistema todos os idosos maiores de 65 anos – os que contribuí- idosos também é uma força. Eles são influentes nos hábitos fa-
ram ou não para o sistema previdenciário. No Brasil, o descom- miliares e participam de decisões de compras importantes. Ter
passo nas aposentadorias é gritante. Acompanha a renitente de- um idoso na família, no passado, muitas vezes era um fardo.
sigualdade social. E se insere numa divisão anacrônica de cas- Hoje, pode até ser fonte de renda, porque, mesmo aposentados,
tas: por um lado, ao estado cabe pagar altos benefícios aos seus 35% dos homens continuam trabalhando. “Os idosos dependen-
funcionários diretos que se aposentam (como aos militares e se- tes da geração de baixo são em menor número do que o grupo
us descendentes mulheres solteiras, por exemplo). Por outro, daqueles que apoiam essa geração que vem atrás. Portanto, eles
para os que se valem do INSS, os valores são achatados. Estima- são menos apoiados do que apoiam os mais jovens”, registra a
-se que 10% do total de aposentados recebam valores milionári- demógrafa Ana Amélia Camarano, coordenadora de pesquisas
os. Quantos deles conseguiram chegar a teto de R$4159,00 não de População e Cidadania do Instituto de Pesquisa Econômica
se sabe. Sabe-se, sim, que entre 17 milhões de aposentados bra- Aplicada (IPEA). Segundo Camarano, há um ano, “nos 11% da
sileiros 220 mil pessoas recebem benefícios entre R$3000,00 e população brasileira idosa, 24% dela chefiam os domicílios bra-
o limite. O fator previdenciário criado durante o governo neoli- sileiros. Um quarto desses domicílios, portanto, são chefiados
beral do PSDB reduziu em cerca de 30% os valores do benefício por idosos. E mais: 56% da renda familiar vêm do idoso em na-
anteriormente calculado sobre dez salários mínimos – na época, da menos que 10 milhões de domicílios no país.” Dados surpre-
R$415,90. Hoje, sem o fator, o teto seria de R$7240,00. Naque- endentes. Para Camarano, a associação entre dependência e en-
le momento, a cantilena tinha vários tons. O primeiro: “O Brasil velhecimento é uma visão estática que “[...] ignora os avanços
envelhece e não tem como sustentar os velhinhos”, como dizi- tecnológicos, principalmente na Medicina, e a ampliação da co-
am ex-funcionários do IPEA na ocasião. O segundo: “É preciso bertura dos benefícios da seguridade social.” Quais as soluções
flexibilizar a Previdência.” O terceiro tom – mais desafinado – para assegurar uma velhice digna aos brasileiros? Investimento
se tornou célebre: “Há velhinhos que são vagabundos”. Alguns maciço na população idosa com parcelas significativas do orça-
mantras persistem até aqui com variáveis de falsas notas – ou mento destinadas a esse segmento? As entidades e associações
esperanças. Promessas alvissareiras não cumpridas foram en- de aposentados precisam pressionar. Nas manifestações de ju-
saiadas na primeira campanha para presidente de Luiz Inácio nho de 2013, na tarde para a qual foram convocadas a ir para o
Lula da Silva. O fator previdenciário, dizia-se, seria analisado e Centro do Rio de Janeiro, era ínfima a presença de indivíduos
mudado ou abolido. Até hoje ele vigora, impávido. Mesmo aos aposentados ou em vias de descansar ou, noutros casos, de se-
tropeços, o idoso brasileiro, assim como a população de baixa rem descartados. Entende-se que idosos, pelas limitações da i-
renda que não participava do mercado de consumo, começou a dade, tenham mais restrições para se fazerem presentes nas ruas.
se fazer presente. Hoje o idoso compra mais medicamentos (por Mas, nem por isso, novos velhos são invisíveis. Continuam vo-
força da longevidade esticada), viaja, alimenta-se melhor. No tando, por exemplo: constituem eleitorado de pelos menos dez
entanto, sua fragilidade foi ampliada. Há mais casos de diabetes, milhões de homens e mulheres. Mas não foram lembrados, no
hipertensão, disfunção cardiovascular, mal de Alzheimer, doen- discurso de fim de ano da presidenta Dilma Rousseff, ao lado
ças senis e crônicas ou degenerativas próprias da velhice, como das minorias: mulheres, jovens, negros, deficientes, indígenas e
as relacionadas às articulações – artrose, artrite, osteoporose – quilombolas.
que exigem novos gastos. No entanto, a parcela da população i-
dosa protegida socialmente passou de 74% em 1992 para 82% (Carta Maior, “Direitos humanos”, 06.01.2014)

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Aposentadoria não é uma conquista Me chamem de velha

Gustavo Petrasunas Cerbasi Eliane Brum

Se perguntarmos a dez trabalhadores o que eles espe- Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima
ram colher como resultado de décadas de trabalho, dez res- que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto.
ponderão que buscam uma aposentadoria segura. A resposta E fui informada de que era impossível, porque as pessoas
de muitos empresários e empreendedores será a mesma. Se sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de
perguntarmos a eles o que é “aposentadoria segura” e o que “velhas”: apenas aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram
fazem para alcançá-la, não há consenso nem objetividade a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que es-
nas respostas. Reconheçamos: aposentar-se é o resultado de capam – dizem muito, qual Freud já nos alertou há mais de
uma trajetória frustrante, em que nos esforçamos menos que um século. Se testemunhamos a epidemia de cirurgias plás-
precisamos e sofremos com a certeza de que alcançaremos ticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é
algo menor do que gostaríamos. Não há sentimento de reali- óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia.
zação ou felicidade – nem no plantio nem na colheita. Quem Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez
já passou por isso entende o que é deixar para trás perspecti- um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defe-
va de crescimento, estabilidade na rotina produtiva, o senso sa do “velho” – a palavra e o ser-estar de um tempo que, se
de construção e o exercício da vocação. Quem se dedicou à tivermos sorte, chegará para todos. Desde que a juventude
carreira pública ou militar em busca de estabilidade desco- virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, te-
bre, na aposentadoria, que avançar na idade exige uma renda mos convivido com essas tentativas de tungar a velhice tam-
sempre crescente, inviável para quem escolheu seguir o ro- bém no idioma. Vale tudo. “Asilo” virou “casa de repouso”,
teiro-padrão para se aposentar. Se a intenção é continuar tra- como se isso mudasse o significado do que é estar apartado
balhando, a aposentadoria limita as opções. Há quem defina do mundo. “Velhice” virou “terceira idade” e, a pior de to-
a aposentadoria como a “grande conquista após muitos anos das, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares
de trabalho”. Como chamar de “conquista” algo de que não que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante,
nos orgulhamos? Em vez de “conquista”, chamemos de “re- que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal
sultado”. Aposentadoria é o resultado insatisfatório de um de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar
projeto mal elaborado que seguimos simplesmente porque falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a
esse é o padrão vigente. Que tal tentar sair do padrão? Em ser criança. Insuportável. A velhice é o que é. É o que é para
vez de se preparar para parar de trabalhar, prepare-se para cada um, mas é o que é para todos também. Ser velho é estar
continuar trabalhando ou para assumir um trabalho mais perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima a-
gratificante na terceira idade. Quem não vê a hora de parar té, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma
é porque tem estilo de vida pouco estimulante. A mudança escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás,
começa pela adoção de uma rotina mais simples, mas com em um programa de televisão, o entrevistador me perguntou
mais gastos com lazer e cultura. Vivendo melhor, teremos sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte.
menos urgência pela aposentadoria. Tire o foco de parar de Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não
trabalhar e prepare-se para um trabalho novo, uma emprei- quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a mi-
tada investidora ou negócio próprio. Se planejado ao longo nha morte”. Na adolescência, eu acalentava a sincera espe-
de 30 anos de carreira, as chances de sucesso de um projeto rança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interes-
empreendedor são grandes. Se iniciado sob a pressão da ne- sante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas aca-
cessidade, as chances se invertem. Importante: poupar é pre- bei aceitando que vampiros não existem, embora circulem
ciso, mas não em excesso. A reserva financeira a consumir muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que
para manter a vida é bem maior do que a reserva financeira é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa
necessária para iniciar um negócio que nos sustente. Propor- é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que nin-
nho a quebra de paradigma: gaste melhor seu dinheiro, apro- guém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável
veite planos de previdência para acumular recursos previsí- serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprenda-
veis, estude para trabalhar para si. E não veja a aposentado- mos nada que valha a pena. A morte tem sido roubada de
ria como um fim, mas como o começo da fase mais impor- nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja
tante de sua riqueza. apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de
repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa
(Época, “Gustavo Cerbasi”, 14.09.2014) cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da Medicina é que
amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tra-
gédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de
que a minha escolha seja melhor do que a de outros. Mas eu
gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o
morrer será minha última experiência vivida. Acharia frus-
trante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existên-
cia humana. Minha última chance de ser curiosa. Há uma
bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não con-
segui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte
é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A
vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte neste
texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte
sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade
do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa socie-

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dade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não
valor, envelhecer é perder valor. Os eufemismos são expres- sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice, have-
são dessa desvalorização na linguagem. “Não, não sou ve- mos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez
lho. Sou idoso”. “Não, não moro num asilo. Mas numa casa mais superlativas do que desconhecemos e queremos bus-
de repouso”. “Não, não estou na velhice. Faço parte da me- car. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem. Acho
lhor idade”. Tenho muito medo dos eufemismos, porque e- que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem
les soam bem intencionados. São os “bonitinhos, mas ordi- nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a
nários” da língua. O que fazem é tirar o conteúdo das letras plavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir
que expressam a nossa vida. Justo quando pessoas têm mais que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida
experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná- que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma bestei-
-las e esvaziá-las também no idioma. Chamar de “idoso” a- ra, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escre-
quele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. vendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto,
“Velho” é uma palavra com caninos afiados – “idoso” é uma claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua in-
palavra banguela. “Velho” é letra forte. “Idoso”, fisicamen- digência. Quando chegar a minha hora, por favor, me cha-
te débil, palavra que diz dum corpo, não dum espírito. “Ido- mem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento
so” fala de uma condição efêmera, “velho” reivindica me- da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho es-
mória acumulada. “Idoso” pode ser só “ido”, aquele que já sa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar
foi. “Velho” é – e está. Quem vê Boris Schnaiderman, Fer- com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de
nanda Montenegro e até Fernando Henrique Cardoso como encerrar minha travessia com a graça de um espanto.
idosos? Ou Clint Eastwood? Não. Eles são velhos. “Idoso”
e palavras afins representam a domesticação da velhice pela (Época, “Eliane Brum”, 20.02.2012)
língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles
numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se ado- A memória da velhice
lescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos.
Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de Drauzio Varella
ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mes-
mo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acre- Preservar a vida é o mais arraigado dos instintos. Na
dita-se que idosos necessitem de recreacionistas. Acredito evolução das espécies, a seleção natural cuidou de eliminar
que velhos desejem as recreacionistas. Idosos morrem de os incapazes de defendê-la com unhas e dentes. Os seres hu-
desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver. manos não constituem exceção, mas, pelo fato de sermos a-
Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém nimais racionais, aceitamos determinados limites para a du-
leria um livro chamado O idoso e o mar? Não. Como idoso, ração da existência; mantê-la a qualquer custo não nos pare-
o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então esta ce sensato. A perda irreversível da memória configura uma
obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita verde no ca- dessas situações. Incapazes de lembrar quem somos e de en-
belo”, submetida a termo “idoso”: “Havia uma aldeia em al- tender o que se passa a nossa volta, de que vale a condição
gum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que humana? A perda progressiva de memória associada ao em-
velhavam [...]”. Velho é uma conquista. Idoso é uma rendi- velhecimento é característica comum a um conjunto de pa-
ção. Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que tologias que a Medicina classifica qual “demências” (termo
dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo que nada tem que ver com loucura), das quais a doença de
de bobagem. O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fá- Alzheimer é a mais prevalente. A incidência de quadros de-
cil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chama- menciais aumenta com a idade: aos 70 anos, já acometem
da de “senhora” sem olhar para os lados para descobrir com entre 10% e 15% da população; aos 90 anos, entre 50% e
quem estão falando. Mas se existe algo bom em envelhecer, 60%. As primeiras manifestações da doença de Alzheimer
como já disse em uma coluna anterior: é o “espírito velho”. são insidiosas, caracterizadas por pequenos lapsos de me-
Esse é grande. Vem com toda a trajetória e é cumulativo. mória que podem passar despercebidos durante anos, até a
Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei pessoa esquecer o endereço de casa ou estranhar a fissiono-
muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou mia de um filho. A revista Science acaba de publicar um ar-
consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me tigo que reúne a informação científica apresentada na “Con-
apavoro muito menos. Não embarco em qualquer “papinho ferência Internacional sobre Prevenção da Demência”, rea-
mole”. Me estatelei de cara no chão um número de vezes lizada há dois meses, em Washington. Ainda na década de
suficiente para saber que acabo me levantando. Tento con- 1970, foi aventada a hipótese de que atividades intelectuais,
viver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais ao aumentar o número e a versatilidade das conexões (sinap-
os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua ses) entre os neurônios, criariam espécie de “reserva cogni-
doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas tiva” passível de ser utilizada na velhice. Em 1977, um gru-
perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos po do St. Lukes Medical Center, de Chicago, estudando 642
comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me idosos, demonstrou que cada ano de escolaridade formal re-
importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas duziria o risco de desenvolver Alzheimer em 17%. O resul-
que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e tado levou o mesmo centro a acompanhar, a partir de 1995,
mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer um grupo de padres e freiras submetidos periodicamente a
muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho uma bateria de 19 testes de avaliação da capacidade intelec-
umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me li- tual. Em 2003, depois de analisar 130 cérebros de religiosos
vrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais falecidos, os autores concluíram que a presença das placas
interessante, intensa e engraçada do que sou hoje. Envelhe- no sistema nervoso, características da doença de Alzheimer,
cer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. não guardava relação com os níveis de escolaridade. Mas a
Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só bateria de testes aplicados em vida indicava que as habilida-

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des cognitivas eram preservadas por mais tempo nos religio- física, será possível preservar, na idade avançada, a experi-
sos mais instruídos. Neles, a doença só se manifestava quan- ência e as habilidades cognitivas acumuladas com tanto es-
do eram encontradas cinco vezes mais placas do que nos ou- forço no decorrer da vida.
tros. Com os mesmos objetivos, um grupo da Universidade
de Minnesota conduziu o célebre “Estudo das Freiras”, no (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 03.09.2005)
qual foram analisados ensaios biográficos que 678 freiras
nascidas antes de 1917 haviam escrito ao terem sido admiti- Estatuto do Idoso
das no convento, aos 20 anos. As irmãs com menor versatili-
dade linguística naquela época desenvolveram Alzheimer Capítulo VI
mais precocemente e, ao morrerem, seus cérebros exibiam Da profissionalização e do trabalho
as placas características da enfermidade. Inquéritos popula-
cionais conduzidos em São Paulo pela UNIFESP encontra- Art. 26. O idoso tem direito ao exercício de atividade
ram maior prevalência de demências entre os analfabetos e profissional, respeitadas suas condições físicas, intelectuais
os que não haviam concluído o primeiro grau. Da mesma e psíquicas. Art. 27. Na admissão do idoso em qualquer tra-
forma, em 109 pares de gêmeos idênticos matriculados no balho ou emprego, é vedada a discriminação e a fixação de
“Registro Sueco de Gêmeos”, em que só um dos irmãos de- limite de idade, inclusive para concursos, ressalvados os ca-
senvolveu demência, o gêmeo saudável – estatisticamente – sos em que a natureza do cargo o exigir. Parágrafo único. O
havia estudado mais tempo. Ao comentar essas pesquisas, o primeiro critério de desempate em concurso público será a
pesquisador Robert Friedland concluiu que não apenas a lei- idade, dando-se preferência ao de idade mais elevada. Art.
tura, mas simples passatempos como a montagem de que- 28. O Poder Público criará e estimulará programas de: pro-
bra-cabeças ou a prática de palavras cruzadas são atividades fissionalização especializada para os idosos, aproveitando
capazes de proteger o cérebro. No final, acrescentou que vá- seus potenciais e suas habilidades para atividades regulares
rios trabalhos demonstram que assistir à televisão está as- e remuneradas; preparação dos trabalhadores para a aposen-
sociado ao efeito contrário: aumenta a probabilidade de Al- tadoria, com antecedência mínima de 1 (um) ano, por meio
zheimer. Num inquérito conduzido entre 135 portadores da de estímulo a novos projetos sociais, conforme seus interes-
doença, comparados a 331 de seus familiares saudáveis, ca- ses, e de esclarecimento sobre os direitos sociais e de cida-
da hora diária adicional diante da televisão multiplicou o ris- dania; estímulo às empresas privadas para admissão de ido-
co de Alzheimer por 1,3. Vários estudos apresentados na sos ao trabalho.
conferência reforçam a idéia de que nem só do intelecto vive
o cérebro: o exercício físico também é capaz de tornar aque- Capítulo VII
le mais resistente. Anos atrás, uma avaliação dos resultados Da Previdência Social
obtidos em 18 pesquisas (metanálises) envolvendo mulhe-
res e homens de 55 a 80 anos demonstrou que a vida seden- Art. 29. Os benefícios de aposentadoria e pensão do
tária aumenta o risco de demência. Desde então, surgiram Regime Geral da Previdência Social observarão, na sua con-
vários estudos sobre o tema. Os mais importantes foram rea- cessão, critérios de cálculo que preservem o valor real dos
lizados na Universidade da Califórnia, com cerca de 6000 salários sobre os quais incidiram contribuição, nos termos
mulheres com mais de 65 anos, em Harvard, com mais de da legislação vigente. Parágrafo único. Os valores dos bene-
18 mil mulheres, e, na Universidade Johns Hopkins, com fícios em manutenção serão reajustados na mesma data de
mais de 3000 participantes de ambos os sexos. Os resultados reajuste do salário-mínimo, pro rata, de acordo com suas
são inequívocos: quanto maior o tempo gasto em atividades respectivas datas de início ou do seu último reajustamento,
físicas, como andar (principalmente), mais lento o declínio com base em percentual definido em regulamento, observa-
da capacidade cognitiva. Estudos experimentais confirmam dos os critérios estabelecidos pela Lei no 8213, de 24 de ju-
essa conclusão: o exercício físico melhora o fluxo sanguíne- lho de 1991. Art. 30. A perda da condição de segurado não
o cerebral através da formação de novos capilares no córtex será considerada para a concessão da aposentadoria por ida-
– área essencial para a cognição – e induz produção de pro- de, desde que a pessoa conte com, no mínimo, o tempo de
teínas que estimulam o crescimento e favorecem a formação contribuição correspondente ao exigido a efeito de carência
de novas conexões entre os neurônios. Essas pesquisas estão na data de requerimento do benefício. Parágrafo único. O
sujeitas a um viés metodológico: será que a menor versatili- cálculo do valor do benefício previsto no caput observará o
dade linguística demonstrada por aquelas freiras aos 20 a- disposto no caput e § 2o do art. 3o da Lei no 9876, de 26 de
nos, a menor dedicação à escolaridade formal e às ativida- novembro de 1999, ou, não havendo salários de contribui-
des intelectuais, o maior número de horas passivas na frente ção recolhidos a partir da competência de julho de 1994, o
do televisor e a pouca disposição para atividades físicas já disposto no art. 35 da Lei no 8.213, de 1991.
não fariam parte de um conjunto de manifestações extrema-
mente precoces das demências que irão se instalar na senec- (Casa Civil, Estatuto do Idoso, Lei 10741/2003)
tude? Impossível ter certeza, mas vale a pena acreditar na i-
deia de que, através de estímulos intelectuais e da atividade

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