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Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação”

Turma: 3ª. Série do Ensino Médio


Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal
Tema redacional 03: Escassez professoral no Brasil: é pos-
sível fazer-se que haja mais estudantes interessados em ade-
rir à carreira docente?
Estudante sente baixo prestígio do magistério
Não seja professor
O baixo prestígio do magistério na sociedade é senti-
Vladimir Safatle do pelos educadores antes mesmo de começarem o curso de
Pedagogia. Hoje, no quarto semestre do curso da Universi-
Quem escreve este artigo é alguém que é professor dade de Guarulhos, Jessyka Rocha Rodrigues, 26, afirma
universitário há quase 20 anos e que gostaria de estar, neste que seus amigos se surpreenderam quando ela contou a es-
momento, escrevendo o contrário do que se vê obrigado a- colha pela carreira. Principalmente, porque já era formada
gora a dizer. Pois, diante das circunstâncias, gostaria de a- em Direito. “Diziam que eu era louca, que deveria seguir no
proveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos Direito para ganhar mais”, afirma Jessyka. “Eles apontavam
e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse primeiro a questão dos salários; depois, o fato de haver que
equívoco. Esta “pátria educadora” não merece ter professo- aguentar um monte de criança. Mas trabalhar com educação
res. Um professor, principalmente aquele que se dedicou ao era o que eu sempre quis e não me arrependo”, diz a estu-
Ensino Fundamental e Médio, será cotidianamente despre- dante. Por situação parecida passou a aluna do quinto se-
zado. Seu salário será em torno de 51% do salário médio da- mestre de pedagogia da Unifai (Centro Universitário Assun-
queles que terão a mesma formação. Em um estudo publica- ção) Janaina Oliveira Leal, 23. “Quando você diz que quer
do há meses pela OCDE, o salário do professor brasileiro a- ser professora, até a família pergunta se não tinha outra pro-
parece em penúltimo lugar em uma lista de 35 países, atrás fissão. Muitos desistem por causa disso. Ficam só os sobre-
da Turquia, do Chile e do México, entre tantos outros. Mês- viventes. Mas gosto do desafio de educar as crianças”. Uma
mo assim, você ouvirá que ser professor é uma vocação, que pesquisa da Fundação Carlos Chagas, que acompanha 2700
seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gê- estudantes de cursos de formação de professores do país, dá
nero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquan- uma mostra do atual status social do magistério: 73% dos
to no Chile são 27 e Portugal, 8. Sua escola provavelmente participantes afirmam que seus amigos entendem que a car-
não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públi- reira não vale a pena. Professor da rede municipal de São
cas brasileiras. Se você tiver a péssima ideia de se manifes- Paulo, Silem Santos Silva, 45, discorda dos dados que indi-
tar contra o descalabro e a precarização, caso você more no cam uma falta de profissionais com boa qualificação na rede
Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimo- pública. “O que falta é projeto de curto, médio e longo prazo
gêneo, cachorro e bala de borracha. Noutros Estados, a pura para organizar a rede”, afirma o professor. O perfil socioe-
e simples indiferença. Imagens correrão o mundo, a Anistia conômico de Silem se encaixa no padrão estatístico daque-
Internacional irá emitir notas condenando, mas as principais les que buscam a carreira docente. Quando jovem, morava
revistas semanárias do país não darão nada a respeito nem em M'Boi Mirim (periferia da capital paulista) e sempre es-
do fato nem de sua situação. Para elas e para a “opinião pú- tudou em escolas públicas. A diferença é o seu desempenho
blica” que elas parecem representar, você não existe. Mais acadêmico, sempre entre melhores notas. Essa performance
importante para eles não é sua situação, base para os resulta- o ajudou a chegar à USP (Universidade de São Paulo), onde
dos medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe fez a Graduação e depois o curso de Mestrado. Nunca pôde,
canina contra o governo ou os emocionantes embates entre porém, parar de trabalhar. “No começo, meu pai queria me
os presidentes da Câmara e do Senado, a fim de saber quem convencer a fazer um curso de ferramentaria. Os meus ami-
espolia mais um Executivo nas cordas. No entanto, depois gos perguntavam por que eu não fazia Psicologia, que eles
de voltar para casa sangrando por haver levado uma bala de consideram mais nobre. Mas convenci a todos de que o que
borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer queria mesmo era estar na sala de aula”.
de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando
o fato de o país “ter pouca educação” ou algum candidato a (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 09.06.2008)
governador dizer que educação será sempre a prioridade das
prioridades. Diante de tamanho cinismo, você não terá nada
a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por
ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por
isso, o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de Ensino
Médio e Fundamental. Assim, acordaremos um dia num pa-
ís que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as esco-
las estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem
humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.

(Folha de S. Paulo, “Opinião”, 05.05.2015)

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Carreira de professor atrai menos preparados: prestigiada, a maioria daqueles que escolhem trabalhar co-
profissão perdeu status no século XX mo professores o fazem porque o Curso Superior na área é
mais fácil de entrar, barato e rápido", afirma o presidente da
Fábio Takahashi Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação,
Roberto Leão. “O pobre, que estuda no caos que é hoje a es-
No início do período da República, os professores cola pública, vê na Pedagogia uma das poucas opções possí-
adquiriram um status social elevado na sociedade, conta o veis de chegar ao Ensino Superior. Muitos não escolhem a
professor emérito da Unicamp Dermeval Saviani. “Princi- carreira por vocação, mas sim porque é a em que conseguem
palmente, nas cidades menores, até a década de 1960, eles entrar. É preciso tornar a carreira mais atrativa, para o pobre
eram vistos qual representantes do Estado. Tinham respeito e para o rico”, argumenta o dirigente da categoria. “Os estu-
de todos”. A mudança ocorreu no decorrer do século XX, dantes que chegam têm muitas dificuldades em conheci-
quando houve massificação do ensino – até então, era aten- mentos básicos”, diz Paulo de Assunção, pró-reitor acadê-
dida apenas parcela da população. Segundo Saviani, entre mico da Unifai (Centro Universitário Assunção), instituição
1933 e 1998, o número de alunos aumentou 20 vezes, em- de São Paulo com o maior número de matrículas em Peda-
quanto a população cresceu quatro vezes. “A opção dos go- gogia. Para atenuar o problema, a escola tem aulas de refor-
vernos foi atender mais gente com praticamente os mesmos ço em Língua Portuguesa, Matemática, entre outras.
recursos. Por isso, os salários foram reduzidos, e o prestígio
dos professores diminuiu muito. O docente virou um sim- (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 09.06.2008)
ples funcionário público”, afirma Saviani. Ao contrário dos
países com sucesso educacional, o Brasil atrai para o magis-
tério os profissionais que possuem mais dificuldades acadê-
micas e sociais, aponta um estudo inédito a ser apresentado
hoje, que utilizou bancos de dados oficiais. Uma das consta-
tações do levantamento, requerido pela Fundação Lemann e
pelo Instituto Futuro Brasil, é de que apenas 5% dos melho-
res alunos que se formam no Ensino Médio desejam traba-
lhar como docentes da Educação Básica, que abrange os an-
tigos primário, ginásio e colegial. Os pesquisadores delimi-
taram o patamar de estudantes top naqueles que ficaram en-
tre os 20% mais bem colocados no Enem 2005 (Exame Na-
cional do Ensino Médio, do Governo Federal). Dentro do
grupo dos melhores, 31% querem a área da Saúde, e 18%, a
da Engenharia. Com base nos questionários do Enade (o an-
tigo Provão), o estudo identificou que os alunos de Pedago-
gia (curso que forma professores para os primeiros anos do
Ensino Fundamental) vêm de famílias de baixa renda e têm
mães com subescolarização – condições que mostram maio-
res chances de dificuldades acadêmicas. “Para melhorar-se
a qualidade de ensino, o Brasil precisa criar uma nova estru- Seja professor!
tura para atrair outro perfil de pessoas para a Educação”, a-
firma a coordenadora do trabalho, Paula Louzano, doutora Everaldo Batista da Costa
em educação pela Universidade Harvard (Estados Unidos).
O estudo, ao qual a Folha teve acesso, será apresentado hoje Na manhã de 05.05.2015, um artigo publicado na pá-
em São Paulo, em seminário fechado promovido pela Fun- gina “Opinião”, da Folha de S. Paulo, deixou-me perplexo.
dação Lemann e pelo Instituto Futuro Brasil. Essa pesquisa O professor e filósofo Vladimir Safatle – da Universidade
compara a situação brasileira à dos melhores sistemas de e- de São Paulo – emitiu, de forma clara e direta, alguns breves
ducação do mundo, estudados pela consultoria McKinsey, apontamentos para que seus alunos não sejam professores
num trabalho do ano passado. Segundo a pesquisa, o primei- neste país. Ao ler seu texto, eu me vi na obrigação, enquanto
ro dos três pontos que se destacam nas redes de ponta é “es- professor e geógrafo formador de outros professores-cida-
colher as melhores pessoas para se tornarem professores”. dãos, de fazer alguns contrapontos diretos a suas ideias. Fa-
Um exemplo estudado foi a Coréia do Sul, primeira coloca- ço isso de forma respeitosa à opinião do aludido docente; a
da no ranking de leitura no Pisa 2006 (exame internacional). ideia aqui é a de uma franca reflexão conjunta ou de deixar
Lá, quem vai trabalhar no magistério, obrigatoriamente, de- outro viés para o pensamento coletivo. No contexto do atual
ve estar entre os 5% melhores em um exame nacional para descalabro de conflito e agressão do estado do Paraná para
o ingresso no Ensino Superior. Na Finlândia, segunda nesse com seus docentes, Safatle diz que “diante das circunstânci-
ranking, os professores são selecionados entre os 10% me- as, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamen-
lhores alunos. Os dois países buscaram medidas que elevas- te a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores,
sem o status dos professores – realidade diferente da brasi- não cometam tal equívoco. Esta ‘pátria educadora’ não me-
leira. “Nunca vi um aluno daqui dizer que quer cursar Peda- rece ter professores”. Pois bem, defendo que os alunos de
gogia”, afirma Andrea Godinho de Carvalho Lauro, profes- Safatle – que se formarão em Filosofia e professores pela
sora do colégio Vértice, o melhor de São Paulo no Enem. prestigiosa USP –, bem como meus alunos, que se formarão
“Os pais querem carreiras com mais retorno financeiro e so- geógrafos e também professores pela Universidade de Bra-
cial”, diz. O baixo retorno financeiro no magistério, citado sília, assumam a docência nas escolas, sim! Uma nação de-
por Andrea, causa divergência entre educadores. O reduzido mocrática ou um bairro digno não se fazem sem conheci-
status social, porém, é consensual. “Como a profissão é des- mentos da realidade. Não estaríamos em nossas universida-

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des a contribuir na formação de professores-cidadãos se não assegura Safatle que “diante de tamanho cinismo, você não
fosse pelos mestres que tivemos desde a pré-escola e, certa- terá nada a fazer a não ser alimentar incompreensão profun-
mente, não lecionaríamos nestas importantes instituições de da por ter sido professor, em vez de ter aberto um restauran-
Ensino Superior do Brasil não fosse o empenho e a qualida- te. Por isso, o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de
de desses mestres ou o esforço financeiro de cada contribu- Ensino Médio e Fundamental. Assim, acordaremos, um dia,
inte brasileiro em nos manter docentes, da forma que nos em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois
mantém e continuamos [alguns preferem ser tratados por as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a
“pesquisadores”; o serem considerados “professores” pare- serem humilhados como professores e a perpetuarem a far-
ce a eles minimizar o status do ofício]. A devolutiva deve sa”. Como sugerir a abertura de um restaurante ao invés de
ser dada nas escolas, aos filhos desses contribuintes – é nos- ser professor, após a finalização de um curso superior ban-
so dever moral e ético, mas não a qualquer preço, certamen- cado por indivíduos adultos que sonham em ter seus filhos
te. Safatle escreve que “um professor, principalmente aque- em boas escolas? A saída à nossa educação é indicar a recu-
le que se dedicou ao Ensino Fundamental e Médio, será coti- sa a ser professor do Ensino Médio e Fundamental? Sugere-
dianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do -se ser professor no Ensino Superior apenas, cuja realidade
salário médio dos que terão mesma formação”. O professor fora dos grandes centros não se diferencia das piores escolas
e filósofo com quem dialogo cordialmente está correto no nacionais? Como será acordar em um país sem escolas? Na
que afirma. Contudo, cabe ao próprio professor [a quem res- verdade, dormiremos em sono profundo, com poucos clien-
pondo, a mim e a todos os que lerem este artigo – ou não le- tes para muitos restaurantes. Penso que seja dever do profes-
rem] não desestimular, mas, ao contrário, apontar algum ca- sor de nossas universidades públicas estimular os jovens fu-
minho para a mudança do quadro atual de ensino no Brasil, turos docentes a assumirem o lugar de uma crítica propositi-
que realmente é trágico. Logo, afirmo que é o momento para va, de uma crítica emancipatória para a ação em prol de uma
uma efetiva prática de mobilização nacional dos professores real “pátria educadora”, na qual o ensino-aprendizagem se
em todos os níveis, em pressão aos governos de estados e à faça prioridade na vida de cada indivíduo. A ação em massa,
União, para a melhoria de um quadro que não se restringe junto aos sindicados dos professores, pais e alunos, com a
ao salarial, mas que atinge a dignidade física e psicológica tomada dos espaços públicos de nossas cidades, faz-se ur-
dos docentes, que encaram uma sociedade calamitosa face gente. Não há um único professor universitário, advogado,
a face, de violência material e simbólica no cotidiano esco- médico, engenheiro, geógrafo, historiador que não tenham
lar. Desestimular um futuro professor é remar contra a ideia passado por um engajado professor do pré-escolar, do Ensi-
da construção de um país menos desigual e potencializar os no Fundamental ou Médio. O momento não é de desencora-
problemas já existentes. Uma boa saída seria o fechamento jamento, mas de estímulo à mudança prática e ao embate de
dos cursos de Licenciatura ou uma mobilização nacional diálogo aberto com aqueles que deveriam nos representar.
consciente e articulada em prol de um ensino mais digno, Não há armamento que segure a coletividade [no caso, toda
em todos os níveis, em vez de envolver professores, pais e a classe professoral, sem elitismo] realmente unida e consci-
alunos? No contexto da indiferença com a qual são tratados ente de seus direitos e deveres. Nossas crianças, os adultos
nossos professores no país, Safatle considera que “depois de do futuro, merecem e precisam desse empenho de hoje. Por
voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borra- um lado, a sociedade espera empenho dos estudantes dos
cha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar cursos de Licenciatura e Bacharelado lotados nas universi-
a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de dades públicas brasileiras, após anos de tributação e investi-
o país ‘ter pouca educação’ ou algum candidato a governa- mento. Por outro, o Estado Absoluto parece esperar que a
dor dizer que educação será sempre a prioridade das priori- massa se revolte, mais tantas vezes quantas forem necessári-
dades”. Também não se equivoca Safatle. Entretanto, esses as, para respostas a demandas reais e urgentes nas instituiçõ-
fatos não justificam desencorajar os egressos de nossas uni- es de ensino. Sejamos todos professores engajados na busca
versidades à docência. O cenário da educação no país mu- de outra educação, para um novo país. O mundo em meta-
dou, em certo grau, nas últimas décadas [notadamente, na morfose se faz pela sociedade em trânsitos ininterruptos. O
última]; há dados sobre tais mudanças, que se fazem de ma- estímulo deve continuar a ser dado, pelas bases do ensino.
neira extremamente pontuais e ainda insuficientes, sobretu- Sejamos professores, neste país, pelo entendimento dessa
do quando vislumbramos o país em sua totalidade. Por mais metamorfose.
que os noticiários denunciem, diariamente, a precariedade
do ensino nas regiões mais pobres e a violência com a qual (Fórum, “Educação”, 14.05.2015)
a educação é tratada no país, os incontáveis problemas ainda
persistentes devem servir de estímulo para pensarmos no Ser professor: uma escolha de poucos
valor educativo, uma nova escola para um novo professor
mais propositivo, mais otimista e mais engajado na forma- Rodrigo Ratier; Fernanda Salla
ção de nossas crianças, para um real país “pátria educado-
ra”. Porém, a ação ou a mobilização coletiva se faz mais que Nos últimos anos, tornou-se comum a noção de que
urgente, para a alteração do quadro geral que criticamos, o cada vez menos jovens querem ser professores. Faltava di-
qual reflete o descaso efetivo com a educação brasileira em mensionar com mais clareza a extensão do problema. Um
todos os níveis, especialmente no Fundamental e no Médio. estudo encomendado pela Fundação Victor Civita (FVC) à
O professor universitário em geral não deve afugentar ou a- Fundação Carlos Chagas (FCC) traz dados concretos e preo-
partar as escolas ou os professores das escolas; seu papel é cupantes: apenas 2% dos estudantes do Ensino Médio têm
aproximá-los, potencializar o debate e as ações pela mudan- como primeira opção no vestibular graduações diretamente
ça educacional no país, trazer os professores e as escolas à relacionadas à atuação em sala de aula – Pedagogia ou algu-
universidade, sair de seu gabinete favorável à manutenção ma licenciatura. Só 2% dos entrevistados pretendem cursar
de bolsas individuais de pesquisas que o faz imóvel ou letár- Pedagogia ou alguma Licenciatura, carreiras pouco cobiça-
gico diante dos problemas concretos de nosso país. Por fim, das por alunos das redes pública e particular.

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Um terço dos jovens pensou em
ser professor, mas desistiu

O estudo indica ainda que a docência não é abando-


nada logo de início no processo de escolha profissional. No
total, 32% dos estudantes entrevistados cogitaram ser pro-
fessores em algum momento da decisão. Mas, afastados por
fatores como a baixa remuneração (citado nas respostas por
40% dos que consideraram a carreira), a desvalorização so-
cial da profissão e desinteresse e desrespeito de alunos (am-
bos mencionados por 17%), priorizaram outras graduações.
O resultado é que, enquanto Medicina e Engenharia lideram
as listas de cursos mais procurados, os relativos à Educação
aparecem bem abaixo. Um recorte pelo tipo de instituição
dá mais nitidez a outra face da questão: o tipo de aluno atraí-
do para a docência. Nas escolas públicas, a Pedagogia apa-
rece no 16º lugar das preferências. Nas particulares, apenas
A pesquisa, que ouviu 1501 alunos de 3º ano em 18 no 36º. A diferença também é grande quando se consideram
escolas públicas e privadas de oito cidades, tem patrocínio alguns cursos de disciplinas da Escola Básica. Educação Fí-
da Abril Educação, do Instituto Unibanco e do Itaú BBA, e sica, por exemplo, surge em 5º nas públicas e 17º nas parti-
contou ainda com grupos de discussão para entender as ra- culares. “Essas informações evidenciam que a profissão ten-
zões da baixa atratividade da carreira docente. Apesar de re- de a ser procurada por jovens da rede pública de ensino, que,
conhecerem a importância do professor, os jovens pesquisa- em geral, pertencem a nichos sociais menos favorecidos”,
dos afirmam que a profissão é desvalorizada socialmente, afirma Bernardete. De fato, entre os entrevistados que opta-
mal remunerada e com rotina. “Se, por acaso, você comenta ram pela docência, 87% são da escola pública. E a maioria
com alguém que vai ser professor, muitas vezes a pessoa diz (77%), mulheres. O perfil é bastante semelhante ao dos atu-
algo do tipo: ‘Que pena, meus pêsames!’” (Thaís, aluna de ais estudantes de Pedagogia. De acordo com o Exame Naci-
escola particular em Manaus, AM”. “Se eu quisesse ser pro- onal de Desempenho dos Estudantes (Enade) de Pedagogia,
fessor, minha família não ia aceitar, pois investiu em mim. 80% dos alunos cursaram o Ensino Médio em escola públi-
É uma profissão que não dá futuro” (André, aluno de escola ca e 92% são mulheres. Além disso, metade vem de famílias
particular em Campo Grande, MS). O Brasil já experimenta cujos pais têm no máximo a 4ª série, 75% trabalham durante
as consequências do baixo interesse pela docência. Segundo a faculdade e 45% declararam conhecimento praticamente
estimativa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas E- nulo de inglês. E o mais alarmante: segundo estudo da con-
ducacionais Anísio Teixeira (Inep), apenas no Ensino Médi- sultora Paula Louzano, 30% dos futuros professores são re-
o e nas séries finais do Ensino Fundamental o déficit de pro- crutados entre os alunos com piores notas no Ensino Médio.
fessores com formação adequada à área que lecionam chega O panorama desanimador é resumido por Cláudia, aluna de
a 710 mil. E não se trata de falta de vagas. “A queda de pro- escola pública em Feira de Santana, a 119 quilômetros de
cura tem sido imensa. Entre 2001 e 2006, houve o cresci- Salvador: “Hoje em dia, quase ninguém sonha em ser pro-
mento de 65% no número de cursos de Licenciatura. As ma- fessor. Nossos pais não querem que sejamos professores,
trículas, porém, se expandiram apenas 39%”, afirma Ber- mas querem que existam bons professores. Assim, é difícil”.
nardete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e
supervisora do estudo. De acordo com dados do Censo da
Educação Superior de 2009, o índice de vagas ociosas chega
a 55% do total oferecido em cursos de Pedagogia e de for-
mação de professores. A baixa procura contrasta com a falta
de docentes com formação adequada.

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Quem quer ser professor?

Tory Oliveira

“Você é louca! É tão inteligente, sempre gostou de


estudar, por que desperdiçar tudo com essa carreira?” Ligia
Reis, de 23 anos, ouviu essas e outras exclamações quando
decidiu prestar vestibular para Letras, alimentada pela ideia
de tornar-se professora na Educação Básica. Nas conversas
com colegas mais velhos de estágio, no curso de História, I-
saías de Carvalho, de 29 anos, também era recebido com co-
mentários jocosos. “Vai ser professor? Que coragem!” Estu-
dante de um colégio de classe média alta em São Paulo, Ana
Sordi, de 18 anos, foi a única estudante de seu ano a prestar
vestibular para Pedagogia. E também ouviu: “Você vai ser
pobre, não vai ter dinheiro”. Apesar das críticas, conselhos
e reclamações, Ligia, Isaías e Ana não desistiram. No quinto
ano de Letras na USP, Ligia hoje trabalha como professora
substituta numa escola pública de São Paulo. Formado em
História pela UNESP e no quarto ano de Pedagogia, Isaías
é professor na rede estadual na cidade de São Paulo. No se-
gundo ano de Pedagogia na USP, Ana acompanha, duas ve-
zes por semana, os alunos do segundo ano na Escola Viva.
Quando os três falam da profissão, é com entusiasmo. Pelo
que indicam as estatísticas, Ligia, Isaías e Ana fazem parte
de uma minoria. Historicamente pressionados por salários
baixos, condições adversas de trabalho e sem um plano de
carreira efetivo, cursos de Pedagogia e Licenciatura – como
Português ou Matemática – são cada vez menos procurados
por jovens recém-saídos do Ensino Médio. Em sete anos nos
cursos de formação em Educação Básica, o número de ma-
triculados caiu 58%, ao passar de 101276 para 42441. Atrair
novas gerações para a carreira de professor está se firmando
como um dos maiores desafios a ser enfrentado pela Educa-
ção no Brasil. Não por acaso, a valorização do educador é
uma das principais metas do novo Plano Nacional de Educa-
ção. Uma olhadela na História da Educação mostra que não
é de hoje que a figura do professor é institucionalmente des-
valorizada. “Há textos de governadores de província do sé-
culo XIX que já falavam que ia ser professor aquele que não
sabia ser outra coisa”, explica Bernardete Gatti, da Funda-
ção Carlos Chagas, coordenadora da pesquisa “Professores
do Brasil: impasses e desafios”. No entanto, entre as déca-
das de 1930 e 1950, a figura do professor passou a ter um
valor social maior. Essa perspectiva, porém, modificou-se
(Nova Escola, “Carreira”, 12.01.2010) de novo a partir da expansão do sistema de ensino no Brasil,
que deixou de atender apenas a elite e passou a buscar uma
universalização da educação. Desordenada, a expansão aca-
bou aligeirando a formação do professor, recrutando muitos
docentes leigos e achatando brutalmente os salários da cate-
goria como um todo. Encomendada pela Unesco, a pesquisa
“Professores do Brasil: impasses e desafios” revelou que em
geral o jovem que procura a carreira de professor, hoje, no
Brasil, é oriundo das classes mais baixas e fez sua formação
nas escolas públicas. Segundo dados do questionário socio-
econômico do Enade de 2005, 68,4% dos estudantes de Pe-
dagogia e de Licenciatura cursaram todo o Ensino Médio no
setor público. “De um lado, você tem uma implicação muito
boa. São jovens que estão procurando ascensão social num
projeto de vida e numa profissão que exige uma formação
superior. Então, eles vêm com uma motivação muito
grande”. É o caso de Fernando Cardoso, de 26 anos. Profes-
sor auxiliar do quinto ano do Ensino Fundamental da Escola
Viva, Fernando é a primeira pessoa de sua família a comple-
tar o Ensino Superior. Sua primeira graduação, em Educa-

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ção Física, foi bastante comemorada pela família de Mogi- tudou em escolas públicas. Adulto, trabalhou durante cinco
-Guaçu, interior de São Paulo. O mesmo aconteceu quando anos como designer gráfico antes de resolver voltar a estu-
ele resolveu cursar a segunda faculdade, de Pedagogia. En- dar. Bolsista do ProUni, que ajuda a financiar a mensalida-
tretanto, pondera Bernardete, grande parte desse contingen- de, Anderson é um dos poucos do curso de Letras que alme-
te também chega ao Ensino Superior com certa “defasa- jam a posição de professor de Literatura. “Eu tenho esse la-
gem” em sua formação. A pesquisadora cita os exemplos do do social da profissão. O ensino público está precisando de
Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que revela re- bons professores, de gente nova”, explica ele, que acaba de
sultados muito baixos, especialmente no que diz respeito ao conseguir o primeiro estágio em sala de aula, em uma escola
domínio de Língua Portuguesa. “Então, estamos recebendo no Campo Limpo, zona sul da capital. Ana, que hoje traba-
nas licenciaturas candidatos que podem ter dificuldades de lha em uma escola de elite, sonha em dar aula na rede públi-
linguagem e compreensão de leitura”. Segundo Bernardete, ca. “São os que mais precisam.” “Eu sempre quis ser profes-
esse é um efeito duradouro, uma vez que a universidade, de sora, desde criança”, arremata Ligia. A empolgação é atenu-
forma geral, não consegue suprir essas deficiências. Para I- ada pela realidade da escola – com as já conhecidas salas lo-
saías Carvalho, esta é uma visão elitista. “Muitos professo- tadas, falta de material e muita burocracia. Ligia Reis recla-
res capacitados ingressam nas escolas e estão mudando essa ma. “Cheguei, ganhei um apagador e só. Não existe nenhum
realidade. Esse discurso acaba jogando toda a culpa nos pro- roteiro, nenhum amparo”, conta. “Às vezes, você é um óti-
fessores”, reclama. Desde 2006, Isaías Carvalho trabalha mo professor, tem várias ideias, mas a escola não ajuda em
como professor do Ensino Fundamental II e Ensino Médio nada”, desabafa. Ligia também conta que, para grande parte
em uma escola estadual em São Paulo. Oriundo de formação de seus colegas de graduação, dar aula é a última opção. “A
em escolas públicas, Isaías também é formado pelo Senai e maioria quer ser tradutor, trabalhar em editoras. Um quadro
chegou a trabalhar como técnico em refrigeração. Só conse- muito triste.” Como constatou Ligia, de forma geral, jovens
guiu passar pelo “gargalo do vestibular” por causa do esfor- oriundos de classes mais favorecidas, teoricamente com u-
ço de alguns professores da escola em que estudava, na Vila ma formação mais sólida e maior bagagem cultural, acabam
Prudente, zona leste de São Paulo. Voluntariamente, os pro- procurando outros mercados na hora de escolher uma pro-
fessores davam aulas de reforço pré-vestibular de graça para fissão. “Eles procuram carreiras que oferecem perspectivas
os alunos, nos fins de semana. “Os alunos se organizavam de progresso mais visíveis, mais palpáveis”, explica Bernar-
para comprar as apostilas”, lembra. Foi durante uma partici- dete. Um dos motivos que os jovens dizem ter para não es-
pação como assistente de um professor na escola de japonês colher a profissão de professor é que eles não veem estímulo
em que estudava que Antônio Marcos Bueno, de 21 anos, no magistério, e os salários são muito baixos, em relação a
resolveu tornar-se professor. “Um sentimento único me to- outras carreiras possíveis. “Meu avô disse para eu prestar
cou”, exclama. Em busca do objetivo, saiu de Manaus, onde Farmácia, que estava na moda”, lembra Ana. A busca pela
morava, e mudou-se para São Paulo. Depois de quase dois valorização da carreira de professor passa também, mas não
anos de cursinho pré-vestibular, Antônio Marcos está pres- somente, por políticas de aumento salarial. Além de pagar
tes a se mudar para a cidade de Assis, no interior do Estado, mais, é preciso que o magistério tenha uma formação mais
onde vai cursar Letras, com habilitação em japonês. Entre- sólida e, principalmente, um plano de carreira efetivo. “Um
tanto, essa visão enraizada na cultura brasileira de que ser plano em que o professor sinta que pode progredir salarial-
professor é uma missão ou vocação – e não uma profissão – mente, a partir dalguns quesitos. Mas que ele, com essa de-
acaba contribuindo para a desvalorização do profissional. dicação, possa vir a ter uma recompensa salarial forte”, con-
“Socialmente, a representação do professor não é a de um clui a pesquisadora. Anderson, Ligia, Ana, Isaías, Antônio
profissional. É a de um cuidador, quase um sacerdote, que e Fernando torcem para que essa perspectiva se torne reali-
faz seu trabalho por amor. Claro que todo mundo tem de ter dade. “Eu acho que, felizmente, as pessoas estão começan-
amor, mas é preciso aliar isso a uma competência específica do a tomar consciência do papel do professor. É uma profis-
para a função, ou seja, uma profissionalização”, resume são que, no futuro, vai ser valorizada”, torce Anderson. “É
Bernardete. Ainda assim, o idealismo e a vontade de mudar uma profissão, pessoalmente, muito gratificante.” “Às ve-
o mundo permanecem como fortes componentes na hora de zes, eu chego à escola morta de cansaço, mas lá esqueço tu-
optar pelo magistério. Anderson Mizael, de 32 anos, teve u- do. É muito gostoso”, conta Ana.
ma trajetória diferente da maioria dos seus colegas da PUC-
-SP. Criado na periferia de São Paulo, Anderson sempre es- (Carta Capital, “Educação”, 26.04.2011)

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Pesquisa mostra que não falta professor, luno entre e conclua”. Dados recentes mostram que há um
mas interesse de seguir a carreira déficit nas escolas brasileiras de 170 mil professores apenas
nas áreas de Matemática, Física e Química. Só na rede esta-
Paulo Saldaña dual de São Paulo, 21% dos cargos necessários estavam va-
gos no ano passado, como revelou o estado na ocasião. Mai-
Apesar de haver escolas sem professores no Brasil, or lacuna era em Matemática e Português, estúltimo com a
o número de licenciados entre 1990 e 2010 seria suficiente falta de 7,1 mil docentes – o governo do Estado afirma que
para atender à demanda atual por docentes. É o que revela a os alunos não ficam sem aula, mesmo que acompanhados
pesquisa inédita do professor José Marcelino de Rezende por professores de outras formações. Em Língua Portugue-
Pinto, da Universidade de São Paulo (USP). Faltam, portan- sa, a pesquisa revela um dos maiores abismos. O número de
to, profissionais interessados em seguir essa carreira dentro concluintes entre 1990 e 2010, de 325 mil, é quase três vezes
da sala de aula. O estudo aponta para a necessidade de tornar maior do que a demanda calculada, em torno de 131 mil. Só
a profissão mais atrativa e de incentivar a permanência estu- três disciplinas aparecem com razão negativa entre conclu-
dantil na área. E isso porque o número total de vagas na Gra- intes e demanda: Ciências, Língua Estrangeira e a já citada
duação é três vezes maior que a demanda por professores Física. Nas duas primeiras, os dados não refletem algumas
estimada nas disciplinas da Educação Básica. Em todas as condições: a área de Língua Estrangeira é atendida por for-
áreas, só as vagas de Graduação nas universidades públicas mados em Letras, que tem alto índice de estudantes, e mui-
já seriam suficientes para atender à demanda. Para realizar tos professores de Ciências têm formação em Biologia – que
a pesquisa, o autor cruzou a demanda atual por profissionais tem a maior proporção de concluintes. O salário de um pro-
na Educação Básica com o número de formados nas diferen- fessor é, em média, 40% menor que o de um profissional de
tes disciplinas curriculares entre 1990 e 2010. Assim, ape- formação superior. Foi essa diferença de renda que fez Si-
nas em Física é possível afirmar, de fato, que o número de mone Ricobom, de 40 anos, deixar a docência em 1998 – a-
formandos não é suficiente para suprir a necessidade. Se- pós cinco anos na área – para trabalhar na Previdência Soci-
gundo Marcelino, os titulados preferem ir para outras áreas al. “Havia o pensamento de que o professor tinha de ser um
a seguir a docência. “A grande atratividade de uma carreira pouco mãe, mas eu queria ser profissional. Também percebi
é o salário. Mas, além da remuneração, o professor tem um que não havia projeção na carreira”. Ela voltou a atuar na
grau de desgaste no exercício profissional muito grande. E Educação Infantil entre 2008 e 2012, dessa vez na rede par-
isso espanta”, afirma o pesquisador, que é da Faculdade de ticular, mas se decepcionou novamente. O coordenador da
Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto. Os “Campanha Nacional pelo Direito à Educação”, Daniel Ca-
cursos de formação de professores têm a evasão maior que ra, diz que o resultado da pesquisa desconstrói um falso con-
30%, acima da média registrada por outras graduações. “Em senso sobre um “apagão”. “Os dados reforçam que a princi-
vez de financiar novas vagas, muitas vezes em modalidade pal agenda na questão docente é a da valorização”, diz. “Va-
a distância sem qualidade, precisamos investir para que o a- lorização é garantia de boa formação inicial e continuada,

7
salário inicial atraente, política de carreira motivadora e bo- a atividades práticas. O texto atual altera dispositivos de de-
as condições de trabalho.” Deliberação de 2014, do Conse- liberação similar redigida em 2012. As instituições teriam
lho Estadual de Educação de São Paulo, exige que as institu- até o ano passado para realizar as mudanças. Como cabe ao
ições de Ensino Superior sob sua responsabilidade, que in- conselho aprovar o reconhecimento dos cursos, as estaduais
cluem USP, UNICAMP e UNESP e fundações municipais, conseguiram renovação temporária de um ano e, depois, de-
deverão oferecer, nos cursos de formação de professores, o verão se adequar.
mínimo de 30% da carga horária de conteúdo didático-peda-
gógico. O documento ainda exige que cursos deem atenção (O Estado de S. Paulo, “Educação”, 31.08.2014)

Quem quer ser professor? baixos em vista da importância da profissão. Pretende-se e-


xigir dos professores que sejam conscientes de sua impor-
O Governo Federal alardeia que ser professor é exer- tância social, mas o magro contracheque diz outra coisa. A-
cer “a profissão que pode mudar o País", mas o que se com- lém disso, a precariedade das instalações da maioria das es-
prova é que se trata de uma carreira que vem perdendo pres- colas públicas evidencia o descaso do Estado com os profis-
tígio e pela qual há cada vez menos interessados. O proble- sionais de educação, obrigados a lidar com a crônica falta
ma é especialmente grave no ensino de Ciências Exatas, es- de material e de equipamentos para enfrentar o desafio diári-
sencial para o crescimento de qualquer país. Embora não se o de estimular seus alunos a aprender. Outro aspecto que foi
trate de algo novo, o fenômeno tem se acentuado nos últi- levantado pelos entrevistados na pesquisa diz respeito ao
mos tempos, e há novos levantamentos mensurando o gran- desprestígio da profissão de professor na Educação Básica.
de desinteresse dos jovens pelo desafio de ensinar e, dessa Estudantes de Medicina ouvidos pelos pesquisadores disse-
forma, “construir um Brasil mais desenvolvido”, como diz ram que não se tornariam professores porque, entre outros
a propaganda oficial destinada a atrair mão de obra para as motivos, a remuneração é baixa, a possibilidade de ascensão
salas de aula. Uma pesquisa recente feita com ingressantes profissional é mínima, e as condições das escolas são ruins.
nos cursos de Licenciatura em Matemática e Física na Uni- No entanto, esse mesmo grupo de entrevistados, assim co-
versidade de São Paulo (USP) mostra que cerca de 50% de- mo os demais, enfatizou que considera o professor muito re-
les não estão muito dispostos a dar aula nas respectivas áre- levante para o País, por ser o responsável pela transmissão
as. O resultado é particularmente importante quando se leva de valores e conhecimentos. Há, portanto, um abismo entre
em conta o fato óbvio de que os cursos de Licenciatura são o ideal de uma carreira e sua realidade, demonstrado, cabal-
justamente aqueles que formam professores para o Ensino mente, pelo desinteresse de estudantes de Licenciatura. As-
Fundamental e o Médio. A pesquisa constatou que a maioria sim, o déficit de professores de Matemática, Física e Quími-
dos ingressantes nesses cursos de Licenciatura optou por e- ca, que já é de 170 mil, tende a crescer. O resultado disso é
les porque a exigência do vestibular era bem menor, porque que o desempenho dos alunos da rede pública em Ciências
o curso é gratuito, porque têm afinidade com Matemática ou Exatas, que já é um dos mais fracos do mundo, tem tudo pa-
Física e porque abrem caminho para a Pós-graduação. O le- ra piorar – a não ser que o governo aja radicalmente e, sem
vantamento mostra ainda que os ingressantes em Licencia- mais delongas, restitua ao magistério o orgulho profissional.
tura se enquadram num perfil socioeconômico mais baixo
do que o dos demais cursos na USP, situação que, de acordo (O Estado de S. Paulo, “Opinião”, 08.05.2013)
com o estudo, se repete em cursos semelhantes em outras
partes do Brasil. É, portanto, uma porta de acesso ao Ensino
Superior para as faixas mais pobres da população. Os estu-
dantes que se disseram em dúvida sobre abraçar a carreira
de professor destacaram que podem se sentir estimulados se
a escola for “reconhecida por ter um bom trabalho educacio-
nal” ou se tiver “autonomia para elaborar projetos educati-
vos, ensinando com certa liberdade”. As respostas denotam
idealismo dos entrevistados, mas, na prática, impõem condi-
ções que hoje não são atendidas na rede pública de ensino,
mas apenas nas escolas particulares. O sistema educacional
público no Brasil padece dum erro de enfoque: privilegiam-
-se os controles de desempenho dos professores – inclusive
com a distribuição de prêmios em dinheiro – sem, no entan-
to, valorizar a carreira em si. Os salários são considerados

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Muita teoria e pouca prática formam os professores

Fábio Takahashi

“Não dá para formar um professor só lendo Piaget”.


A frase é do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, em
alusão à carga teórica dos cursos que formam docentes para
a escola básica, como a literatura de Jean Piaget, pensador
do século XX. Foi dita, recentemente, em encontro com mil
secretários municipais da área de ensino. Arrancou aplau-
sos. A declaração sintetiza a avaliação dos gestores de que
a formação universitária dos futuros professores da Educa-
ção Básica é um dos entraves para a melhoria da qualidade
do ensino no país. A reclamação é de que futuros docentes
têm muito contato com teóricos da educação, mas terminam
o curso despreparados para enfrentar salas de aulas. Um dos
mais amplos estudos no país sobre currículos das licenciatu-
ras foi feito, recentemente, pelas fundações Victor Civita e
Carlos Chagas. O trabalho apontou que nos cursos de Licen-
ciatura do país que formam professores de Português e Ci-
ências, a carga horária voltada à docência fica em 10%. Já
o tempo destinado aos conhecimentos específicos das áreas
passa de 50%. “Os professores chegam às escolas com bom
conhecimento da sua disciplina, mas não sabem como ensi-
nar”, disse à Folha o secretário estadual de Educação de São
Paulo, Herman Voorwald. Na opinião do secretário, cuja re-
de tem 200 mil professores, um docente de Matemática, por
exemplo, é muito mais um matemático do que um professor.
Para Voorwald, as licenciaturas deveriam ter menos conteú-
dos específicos das matérias e mais técnicas sobre como dar
aulas. Presidente da Comissão de Graduação da Faculdade
de Educação da USP, Manoel Oriosvaldo discorda de que a
formatação dos cursos de Pedagogia e de Licenciatura seja
responsável pela má qualidade do Ensino Básico. “Com o
salário que se paga ao professor, é difícil convencer um jo-
vem a assumir uma sala de aula”, afirma. “Se as condições
de trabalho melhoram, sobe o nível de quem seguirá na car-
reira”. Especificamente sobre os currículos, ele diz que di-
minuir a teoria dos cursos “simplifica o papel do professor”.
Para Oriosvaldo, a teoria permite que o professor consiga
refletir sobre a atividade constantemente e corrigi-la quando
necessário. Além disso, o docente deve ter condição de ensi-
nar aos alunos o histórico que levou à resolução duma equa-
ção, por exemplo. Assim, o jovem conseguirá também pro-
duzir conhecimento. A maioria dos alunos e dos coordena-
dores dos cursos de formação de professores tem avaliação
semelhante à do professor da USP, mostra estudo feito pela
Fundação Lemann, a pedido da Folha. O trabalho aponta
que há menos coordenadores de cursos de Pedagogia ávidos
por mudanças em seus currículos (38% das respostas) do
que em Engenharia Civil (50%), por exemplo. A Pedagogia
forma professores para atuar com os alunos de seis a dez a-
nos. A partir daí, os demais professores vêm das Licenciatu-
ras. A opinião sobre os cursos foi tabulada a partir das res-
postas dadas nos questionários do Enade 2011, exame fede-
ral de Ensino Superior. As respostas mostram também que
os formandos em Pedagogia se sentem mais bem preparados
para a profissão (68%) que os de Engenharia de Produção
(57%). Contraditoriamente, o Enade revela que os concluin-
tes dos cursos de formação de professores estão entre os que
possuem notas mais baixas em conhecimentos gerais. Peda-
gogia está na 46ª pior posição, entre 59 cursos.

(Folha de S. Paulo, Caderno Especial “Quem educa os edu-


cadores?”, 04.08.2013)

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Formação de professor fica longe mação em nível superior dos professores brasileiros. O do-
da realidade da escola cumento define diretrizes curriculares nacionais para os cur-
sos de Licenciatura, de formação pedagógica para gradua-
A educação no Brasil ainda é um ponto crítico para dos e segunda Licenciatura. Estabelece, por exemplo, que o
o desenvolvimento do país. A qualidade do que se ensina tempo mínimo de estudos para quem quiser seguir a carreira
nas escolas puxa o Índice de Desenvolvimento Humano bra- docente na Educação Básica será de 3200 horas, e não mais
sileiro para baixo e coloca o Brasil no fim da lista de países de 2800. Os cursos passarão dos atuais três anos para quatro,
em termos de qualidade de ensino de Ciências e Matemáti- com um aspecto alvissareiro: haverá um acréscimo de ativi-
ca. As causas disso dividem a opinião de educadores, gesto- dades destinadas a reforçar a experiência do futuro mestre.
res e especialistas. Muitos, no entanto, concordam que um Verdade que as novas orientações não se aplicarão a todos
dos gargalos da educação está na formação do professor. De os professores, já que basta o Ensino Médio para lecionar a-
acordo com especialistas ouvidos pela Folha, o que se ensi- té o 4º ano (antiga 3ª série). Ainda assim, dos 2,2 milhões
na nos cursos de Pedagogia (que formam quem dá aula para de docentes da Educação Básica, 76% têm formação superi-
as crianças de seis a dez anos, do Ensino Fundamental I), e or (cerca de 1,7 milhão); destes, 89% fizeram cursos de Li-
nas Licenciaturas (que graduam docentes dos jovens de 11 cenciatura (cerca de 1,5 milhão). Mantida essa proporção, a
a 17 anos, do Fundamental II e do Ensino Médio) está bem maioria dos novos docentes encontrará seus alunos com um
longe da realidade encontrada na escola. Isso porque os es- preparo mais adequado para a realidade das escolas – ao me-
tágios ocupam, em média, 10% da carga horária da Gradua- nos é o que se espera. Embora sobejem debates sobre educa-
ção para formar professores. Em países como os EUA, a re- ção, faltam discussões aprofundadas a respeito do que se
lação é oposta: a maioria das disciplinas é prática. Para dar passa dentro da sala de aula. Docentes, no Brasil, em geral
aula, no Brasil, é preciso, desde 2009, ser Graduado em uma descobrem apenas no exercício do magistério quão difícil é
Licenciatura. Isso significa que aqui um engenheiro não po- lidar com turmas grandes e heterogêneas, nas quais a indis-
de lecionar Matemática porque não é licenciado. Hoje, 24% ciplina grassa. Sem recursos técnicos, sofrem para conquis-
dos que estão na sala de aula não fizeram curso universitá- tar os alunos – o que talvez ajude a explicar por que se perde
rio. Há, inclusive, quem nem tenha concluído o Ensino Mé- tanto tempo para conseguir dar início à aprendizagem. A re-
dio (8,4 mil de 2,1 milhões docentes). A obrigatoriedade do solução do CNE também aponta caminho correto ao defen-
diploma de Licenciatura para dar aula fez ainda com que a der planos de carreira e condições que deem uma jornada de
Graduação de Pedagogia a distância ganhasse força. O nú- trabalho “com dedicação exclusiva ou tempo integral a ser
mero de cursos remotos de formação de professor aumentou cumprida em um único estabelecimento”, além de reservar
de 6077 para 273 mil de 2000 a 2010. Mesmo assim, ainda um terço da carga horária a atividades pedagógicas extra-
faltam docentes na sala de aula. O Ministério da Educação classe. Não se trata da primeira medida concebida com pro-
calcula que, pelo menos, 170 mil vagas para professores de pósito de conduzir o sistema de ensino do Brasil a um pata-
Matemática, Química e Biologia estejam sem dono. Os mo- mar mais elevado. O mínimo que se espera é que, ao implan-
tivos disso? Aqui também há divergências. Há quem diga tar essas novas diretrizes, o Ministério da Educação tenha a-
que o problema seja o salário. Para alguns, o piso nacional prendido com os erros anteriores.
para o professor, estipulado em R$ 1.567, não consegue a-
trair nem segurar grandes talentos da Educação. Por essas e (Folha de S. Paulo, “Opinião”, 20.07.2015)
outras, quem se forma em Matemática no Brasil, por exem-
plo, prefere não ir para a sala de aula. Hoje, o professor bra-
sileiro é, em geral, uma mulher que tem entre 30 e 50 anos,
que veio de uma família de baixa ou média renda. A maioria
(78%) trabalha em uma única escola. Boa parte dos docen-
tes reclama do salário e da condição das escolas, mas não de
sua própria formação. Apesar dos problemas, 68% dos pe-
dagogos se sentem bem preparados, de acordo com dados
do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes).

(Folha de S. Paulo, Carderno Especial “Quem educa os e- Professor precisa aprender a ensinar
ducadores?”, 04.08.2013)
Prevista no Pacto Nacional pelo Fortalecimento do
Ensino Médio, do Ministério da Educação (MEC), a tutoria
tem sido introduzida também em São Paulo, Ceará e Pará,
além de nalgumas redes municipais. Em Manaus, cerca de
cem novos professores – dum total de 2 mil –, que estão en-
trando na rede municipal neste ano, também terão supervi-
sores na sala de aula, durante seu estágio probatório, que du-
ra três anos. Tutoria pedagógica vem duma constatação sim-
ples: os formandos de Pedagogia saem com algum conheci-
mento teórico sobre Educação, e os dos cursos de Licencia-
tura, sobre o conteúdo das suas disciplinas, mas não sabem
ensinar. O mesmo há com gestores escolares – professores
Formação docente que sobem na carreira e assumem cargos de diretores e coor-
denadores sem experiência nem treinamento. Quando se fa-
Conselho Nacional de Educação (CNE) editou neste la de reciclagem ou em capacitação de professores e gesto-
mês uma bem-vinda resolução com vistas a aprimorar a for- res, no Brasil, pensa-se em cursos teóricos distantes da reali-

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dade da sala de aula. “Temos tradição muito grande de for- didatos suficientes a professor para cada sala de aula. Ao
mação continuada em cursos fora da escola, em reuniões e contrário, a profissão passou a ser socialmente mais valori-
oficinas, cursos online”, diz Patrícia Guedes, gerente de E- zada”. No Brasil também as universidades públicas resistem
ducação da Fundação Itaú Social. “O profissional pode até a mudanças na formação dos professores. “Para a universi-
ganhar informação, mas há dificuldade de como desdobrar dade, dá trabalho e não dá camisa”, explica Menezes, pro-
na prática”. Patrícia conta que, em pesquisa conduzida pelo fessor da Universidade de São Paulo (USP). “O que dá ca-
Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, os profes- misa é pesquisa e pós-graduação, é publicar em revistas re-
sores disseram coisas do tipo: “Passo por um curso fantásti- ferenciadas. Graduação pesa pouco e formação de professor
co sobre como estimular leitura. Depois, volto para minhas é subprioridade. O MEC precisaria pensar na universidade
turmas e tenho dificuldades ao planejar minhas aulas. Quem pública como espaço de formação de excelência de profes-
me ajuda a me olhar, a me dar feedback sobre como estou sor, mas ela não é avaliada por isso”. “As faculdades de for-
fazendo, a lidar com dificuldades?”. Segundo a especialista, mação inicial estão muito distantes da rede pública”, diz
isso vale também para o diretor da escola. “Se não tem ajuda Maria Helena Guimarães de Castro, diretora executiva da
para pôr em prática na escola, ele desiste”. “Professor é pro- Fundação Seade e ex-secretária executiva do MEC. “Meu
fissão, precisa de formação profissional”, diz o físico Luís sonho de consumo é o sistema canadense. Em algumas pro-
Carlos Menezes, consultor da Unesco e membro do Conse- víncias, é preciso ter ao menos cinco anos de experiência na
lho Estadual de Educação (CEE) e do Conselho Técnico Ci- rede pública para se candidatar a professor de universida-
entífico da Capes/MEC para Educação Básica. Outra analo- de”, afirma. As faculdades particulares também não têm li-
gia frequente é com a formação do médico, que coloca seus gação com as escolas – e a maioria sofre de má qualidade.
conhecimentos em prática, sob supervisão, nas residências “Não existe mecanismo que impossibilite uma faculdade
dos hospitais, antes de obter a licença para trabalhar. Guio- que está se saindo mal de formar professores”, critica Rose
mar Namo de Mello, também integrante do CEE e consulto- Neubauer, ex-secretária da Educação de São Paulo. “O País
ra da Fundação Lemann, observa que esse tipo de residênci- se denomina ‘Pátria educadora’ e não tem um projeto decen-
a, já adotado na Europa, está sendo introduzido também nos te realmente impactante de formação de professores. Não a-
Estados Unidos. Menezes propõe que, assim como os hospi- dianta deixar a criança na escola oito horas em vez de cinco,
tais universitários, ligados aos cursos de Medicina, sejam se não tem professor bem formado”.
credenciadas escolas de referência, onde estudantes de Pe-
dagogia e Licenciatura ensinem sob supervisão de professo- (O Estado de S. Paulo, “São Paulo”, 07.06.2015)
res experientes e reconhecidos por sua capacidade. Tanto os
supervisores quanto os estagiários seriam remunerados. “Os
formadores transmitiriam sua experiência e seriam multipli-
cadores. Isso criaria uma carreira, premiando os melhores”,
diz o especialista. “Melhorariam seu salário sem ter neces-
sariamente de se tornar gestores”. De acordo com Guiomar,
o CEE está impondo que os estágios dos professores na rede
estadual de São Paulo incluam a “regência”, ou seja, eles
devem dar aulas, em vez de ficar apenas assistindo. O MEC
criou, há dois anos, o Programa Institucional de Bolsa de I-
niciação à Docência (Pibid), que concede 70 mil bolsas no
valor de R$ 350 a alunos de Licenciatura. Os especialistas
elogiam a iniciativa, mas acham que a prática supervisiona-
da deveria ser obrigatória. “No concurso público, tampouco
há uma Prova Didática”, critica Claudia Costin, diretora de
Educação Global do Banco Mundial. “Para ser professor em
universidade, tem prova didática. Para dar aula para criança,
que é extremamente difícil, não tem. Fazem perguntas sobre
teóricos e sobre a Lei de Diretrizes e Bases”. “A Finlândia
enfrentou esse problema há cerca de 50 anos”, lembra Clau-
dia. “Um dos componentes importantes da reforma foi dar
um caráter mais profissionalizante à formação dos professo-
res na universidade. Tiveram de enfrentar briga feia na uni-
versidade, que se sentiu desqualificada, e aumentar o rigor
na seleção dos professores. Temia-se que não houvesse can-

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