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DOI: 10.5102/uri.v12i2.

2585
A economia mundial no século XXI*

The world economy in the xxi century1

Gustavo Arce2 Resumo


Pretende-se neste artigo realizar um balanço da história da economia
mundial a partir do século XVII até o século XXI, compreendendo suas estru-
turas, fases e desdobramentos. Trata-se de período histórico essencial, no qual
o capitalismo se desenvolve. As linhas de análise enfatizam o país ou países he-
gemônicos de cada época, mostrando suas implicações nas correntes teóricas e
na prática, que foram se desenvolvendo ao longo do processo histórico. Apre-
sentam-se primeiramente os atores, fluxos e fases históricas da evolução da eco-
nomia mundial. A primeira fase trata da formação do mercado mundial e do
estabelecimento das bases econômicas e políticas da « ordem » europeia (1600-
1750/70); a segunda fase refere-se à ordem europeia (1750/70-1870); e a terceira
fase é a ordem anglo-russo-soviético-estadunidense (1870-1980/99). Por fim, a
quarta fase ou período na evolução da economia mundial, a partir de 1970, abre-
-se então período de crise e de mutações para os sistemas econômicos e para a hu-
manidade: do capitalismo industrial ao da informação e do conhecimento; da era
da propriedade à do acesso, Economia da Informação e a Sociedade do Conhe-
cimento. Vê-se, então, como se situa a simbiose entre produção de mercadorias e
produção do saber, a Economia da Informação e o comércio do conhecimento - a
propriedade intelectual e por fim as negociações sobre as reconfigurações dos
centros de poder da contemporaneidade.
Palavras-chave: História da economia mundial. Capitalismo. Relações Interna-
cionais. Ordem Europeia. Ordem anglo-russo-soviético-estadunidense. Econo-
mia da Informação. Sociedade do Conhecimento. Reconfigurações dos Centros
de Poder.

Abstract
This article aims to establish a balance of the world economy’s history
from XVII century to the XXI century, going through its structure, phases and
deployment. It is an essential historic period, in which capitalism is developed.
The methods of analysis emphasize the hegemonic country or countries of each
moment, presenting its implications in the theoretic currents and in the factual
pragmatism, which have been developed along the historic process. Firstly, the
actors, the flows and the historic phases of the world economy evolution are pre-
sented. The first phase is about the constitution of the world market as well as the
establishment of the economic and politic bases of the European “order” (1600-
1750/70); the second phase refers to the European order (1750/70-1870); and the
third phase is the Anglo-Russian-Soviet-American order (1870-1980/99). Finally,
the fourth phase or period in the world economy evolution starts in 1970, when
a period of crises and mutations appears in the economics systems and in huma-
* Recebido em: 10/09/2013 nity: from industrial capitalism to information and knowledge capitalism; from
Aprovado em 15/02/20104 Property Era to the Access/Inclusion Era, Information Economy and Knowledge
1
Traduzido do espanhol para o portu- Society. It is possible to see, then, how stands the symbiosis between merchandise
guês pelo autor. Originalmente publi- and know-how production, the Information Economy and the Knowledge Trade
cado pela Fundación De Cultura Uni- – The Intellectual Property. Lastly, the negotiations about the reconfigurations of
versitaria, Montevideo, Uruguai.
the Centers of Power of contemporaneity are analyzed. The text is intended pri-
2
Doutor em Economia Internacional
pela Université de Paris. Coordenador marily for students of world economy and international relations.
do curso de Relações Internacionais Keywords: History of the world economy. Capitalism. International Relations.
da UDELAR – Universidad de la Re- European order. Anglo-Russian-Soviet-American order. Information Economy.
pública – Uruguai. E-mail: gustavoar- Knowledge Society. Centers of Power reconfigurations.
cerivera@gmail.com
Gustavo Arce

1 Introdução conformam a chamada economia e sociedade delitiva.


Os fluxos são a produção e o comércio mundiais,
Nos últimos trinta anos do século XX, os núcleos a população e seu deslocamento por meio de diversas
mais poderosos do capitalismo, tanto do Norte “rico” e fronteiras, o investimento direto estrangeiro, os fluxos
desenvolvido como do Sul “pobre” e subdesenvolvido, monetários e financeiros. Da ação combinada dos
lançaram-se a superar os limites econômicos, sociais, atores e dos fluxos, surgem e estruturam-se as relações
técnicos e políticos da matriz taylor-fordista, mediante a internacionais que decorrem em espaço hierarquizado,
transformação das condições nas quais se produzem as diversificado, que atravessa aos povos, as nações e aos
mercadorias ou os bens econômicos. Estados, e que constitui a economia mundial.
O processo de transformação ocorreu devido à Podemos definir a economia mundial como
possibilidade de algumas grandes empresas e Estados o conjunto de atividades econômicas (materiais e
que possuíam meios de associar a produção dos bens à imateriais, lícitas e ilícitas, produtivas, comerciais,
produção de conhecimento. O desenvolvimento desigual financeiras, tecnológicas) que se desenvolvem em escala
e conflitivo de uma economia capitalista da informação mundial, tanto a escala local, como regional, nacional e
começou por volta dos anos 80 e prossegue, atualmente, internacional e que são unificadas e governadas pela lógica
provocando modificações consideráveis na divisão social de produção e reprodução capitalista. Desde os séculos
e técnica do trabalho, na organização da oferta e da XV e XVI, as formações capitalistas dominantes, por meio
demanda, nas formas e modalidades da concorrência e de suas relações internacionais, da ação de suas empresas
na relação do Estado com o mercado e a sociedade civil. e Estados, têm construído espaços multinacionais em que
Por essas razões, entre outras, o capitalismo decorrem os densos fluxos da economia do Mundo.
e a humanidade estão em fase de evolução histórica Nos últimos 50 anos, a economia mundial e as
notoriamente diferente às conhecidas desde 1600. Na relações internacionais – econômicas, jurídicas e políticas
primeira parte desse artigo, serão apresentados e analisados - voltaram-se mais densas e complexas do que foram no
o objeto de estudo da Economia Mundial, seus Atores, seus período denominado período da ordem europeia (1780-
fluxos e as três primeiras fases de sua evolução histórica. 1870) e do mais recente chamado período anglo-russo/
Na segunda parte serão examinadas as transformações da soviético-estadunidense (1870-1917/ 1918-1989).
economia mundial e das relações internacionais nos últimos Efetivamente, alguns poucos Estados que
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cinquenta anos. fundaram a Organização das Nações Unidas (ONU), ao


finalizar a Segunda Guerra Mundial, hoje já são ao redor
2 Os atores, os fluxos e as fases da economia de 200 Estados que são membros da ONU. As relações
mundial interestaduais foram, são e seguirão sendo essenciais
à existência de relações internacionais e à economia
O objeto de estudo da Economia Mundial consiste mundial.
em identificar e explicar as relações entre a economia
dos povos e das Nações - economia nacional ou interna Quadro 1

-, a economia entre as Nações e os Estados - economia OS DEZ ESTADOS MAIS IMPORTANTES


SEGUNDO SEU PIB – 2011
internacional -, e a economia no Mundo.
Em bilhões de dólares
A análise da Economia Mundial implica e exige Países %
em PPC Base 2005
que ela se realize mediante a abordagem de atores Total mundial: 70.370
1. EUA 13.340 18,96
e de fluxos. Os atores são: os Estados; os atores não
2. China 9.945 14,13
estatais que intervêm em atividades ditas lícitas (as 3. Índia 4.035 5,73
empresas multinacionais globais (EMGs), os atores que 4. Japão 3.917 5,57
representam a sociedade civil mundial - as Organizações 5. Alemanha 2.814 4,00
6. Rússia 2.095 2,98
Não Governamentais (ONGs) - e outras organizações 7. Reino Unido 2.034 2,89
privadas que representam o mundo associativo); e 8. Brasil 2.014 2,86
finalmente os atores privados que desenvolvem ampla 9. França 1.956 2,78
10. Itália 1.646 2,34
2 e poderosa faixa de atividades econômicas ilícitas que
A economia mundial no século XXI

Total 43.796 62,24 Desde 1950 começam a se elaborar novos


Fonte: elaborado com dados do CEPII: L’économie mondiale 2013. Ed. La “indicadores de riqueza”(GADREY; JANY-CATRICE,
Découverte, Collection REPÈRES, Paris, França, 2012, p. 119 e seguintes.
2005). Ao pioneiro trabalho de Bertrand de Jouvenal,
Como veremos posteriormente, o conceito e na França, seguiu lhe o de Nordhaus e Tobín
agregado econômico que é o PIB, utilizado também como (SAMUELSON; NORDHAUS, 1996, p. 427), e o
indicador estatístico para quantificar e medir o poder e a índice que elaboraram chamado índice de bem-estar
riqueza de um Estado, exclusivamente em função do valor neto - IBN -; desde a década dos anos 90, o Programa
e do volume dos bens de uso final produzidos licitamente de Nações Unidas para o desenvolvimento humano
pelos residentes em um território será ampliado desde começou a publicar anualmente relatório com esse título
o último terço do século XX, pois o poder e a riqueza e classificou os Estados e Sociedades em função de seu
compreendem também os recursos produtivos e as cifras já célebre e reconhecido internacionalmente Índice de
de vendas das EMGs, as produções e os valores monetários Desenvolvimento Humano - IDH -.
dos múltiplos e diferenciados empreendimentos que No ano 2001, a Organização de Cooperação e
realizam as organizações civis não governamentais, os Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou um
volumosos recursos que mobilizam as organizações com relatório sobre o capital humano e o capital social
atividades ilícitas, além das importantes produções e realizado sobre seis estados membros da OCDE com
atividades não remuneradas, e finalmente, os impactos maior desenvolvimento econômico em termos de PIB.
que as diversas atividades humanas exercem sobre o
Quadro 2

TENDÊNCIAS DO ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO - 1980-2011


Classificação Classificação Taxa média de crescimento anual
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
segundo o IDH segundo o IDH do IDH
Valor Variação (%)
DESENVOLVIMENTO HUMANO MUITO ALTO
1980 1990 2000 2005 2009 2010 2011 2006-2011 2010-2011 1980-2011 1990-2011 2000-2011
1. Noruega 0,796 0,844 0,913 0,938 0,941 0,941 0,943 0 0 0,55 0,53 0,29
2. Austrália 0,850 0,873 0,906 0,918 0,926 0,927 0,929 0 0 0,29 0,30 0,23
3. Países Baixos 0,792 0,835 0,882 0,890 0,905 0,909 0,910 5 0 0,45 0,41 0,29
4. Estados Unidos 0,837 0,870 0,897 0,902 0,906 0,908 0,910 -1 0 0,27 0,21 0,13
5. Nova Zelândia 0,800 0,828 0,878 0,899 0,906 0,908 0,908 0 0 0,41 0,44 0,31

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6. Canadá 0,817 0,857 0,879 0,892 0,903 0,907 0,908 3 0 0,34 0,28 0,30
7. Irlanda 0,735 0,782 0,869 0,898 0,905 0,907 0,908 -3 0 0,68 0,71 0,40
8. Liechtenstein -- -- -- -- -- 0,904 0,905 -- 0 -- -- --
9. Alemanha 0,730 0,795 0,864 0,895 0,900 0,903 0,905 -2 0 0,69 0,62 0,43
10. Suécia 0,785 0,816 0,894 0,896 0,898 0,901 0,904 -2 0 0,45 0,49 0,09
Fonte: Relatório do desenvolvimento humano 2011. Sostenibilidad y equidad: un mejor futuro para todos. Cuadro 2, p. 149. http://hdr.undp.org. Acesso em 30/09/2013

meio ambiente, isso é, o que se conhece como a impressão Dito relatório, reconhecia assim o trabalho de Lars Osberg
ecológica que significa e se mede em hectares globais1. ”(GADREY; JANY-CATRICE, 2005) sobre o bem-estar
econômico no Canadá. Em seu trabalho, Lars Osberg e
Andreu Sharp analisaram as séries estatísticas do bem-
1
Entende-se por impressão ecológica ou sobregiro ecológico
o processo que sucede quando a demanda de uma população
sobre um ecossistema excede a própria capacidade biológica.
Isso implica que o ecossistema não pode regenerar os recur- Raisson, Virginie: 2033. Atlas des Futurs du Monde. Ed. Ro-
sos que consome a população, nem também não absorver bert Laffont, Paris, Francia, 2010; também: Rapport Planète
os desfeitos derivados do consumo humano. A impressão Vivante 2010. Biodiversité, biocapacité et développement.
ecológica representa fração da biosfera produtiva (um hecta- Ver WWF: http://www.wwf.fr/
re), necessária à manutenção dos fluxos indispensáveis para
a produção e, portanto, à economia do homem no planeta
Terra. Expressada em hectares globais, a impressão ecológi-
ca pode ser medido em termos equivalentes à superfície do
Planeta. Por definição, então, o aumento da impressão eco-
lógica implica e indica o esgotamento do capital biológico
3
que permite e reproduz a vida no Planeta. Véase al respecto:
Gustavo Arce

estar econômico nos Estados Unidos e compararam-nas não só econômicas, senão também das que surgem de
com as do Canadá. As diferenças entre medir a riqueza atividades não necessariamente mercantis.
e o poder em termos exclusivamente de PIB, e medi-las Tal como o assinalam Jean Gadrey e Florence
segundo o indice de bien-être économique (IBEE), ou Jany-Catrice (2005) 2, o índice elaborado por Osberg
seja, índice de bem-estar econômico são evidentes, como e Sharp conquanto têm em conta os recursos e os bens
o prova a dita investigação. que fluem em um mercado, esse se complementa porque
trata de medir a sensação de bem-estar que determinada
Gráfico 1 população tem quando tomada em consideração
CANADÁ: PIB / HABITANTE E IBEE, elementos que não são estritamente fluxíveis num
1971-1999 (1971=1) mercado. Segundo esses autores, o índice de Osberg e
Sharp tende a ter em conta os elementos que resumem o
Artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos,
das Nações Unidas, número 1, segundo o qual:
Toda pessoa tem direito a um nível de vida
adequado que lhe assegure, bem como a sua
família, a saúde e o bem-estar, e em especial a
alimentação, o vestido, a moradia, a assistência
médica e os serviços sociais necessários; tem
assim mesmo direito aos seguros em caso de
Fonte: Gadrey, Jean e Jany-Catrice, Florence: Les nouveaux indicateurs de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice
richesse. Ed. La Découverte, Collection REPÈRES, Paris, França, 2005, p. 89 ou outros casos de perda de seus meios de sub-
sistência por circunstâncias independentes de
sua vontade. (ONU)
A originalidade e a contribuição do índice de bem-
estar econômico de Osberg e Sharp consistem em reunir e Recentemente tem sido publicado outro relatório
medir quatro dimensões do bem-estar econômico, a saber: que tenta completar e expandir a noção da riqueza e
a) Em primeiro lugar tomam-se em conta os fluxos o poder de um Estado não só em termos de PIB. É o
do consumo corrente, logo os fluxos reais da p r o d u ç ã o relatório da Comissão sobre as Atuações Econômicas
doméstica (trabalho não remunerado), os “bens” culturais e Sociais elaborado sob a responsabilidade de Joseph
e outro tipo de consumo de bens não mercantis; Stiglitz, Amartya Sen e Jean-Paul Fitoussi. 3
A sua vez, no que diz respeito aos atores não es-
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b) Depois se toma em consideração o agregado


neto do estoque de recursos produtivos (toda a faixa dos tatais que realizam atividades lícitas (EMGs), no último
recursos que constituem o capital físico de uma socieda- meio século, seu peso e sua importância se incrementa-
de), os bens de consumo duradouro, o investimento em ram consideravelmente no funcionamento da economia
investigação e desenvolvimento, os custos meio ambien- mundial e nas relações internacionais.
tais e o endividamento externo; Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre
c) Em terceiro lugar o índice faz referência à o Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED), em
distribuição do rendimento, a pobreza e as desigualdades seu Relatório Anual World Investiment Report (apud
que, em geral, conhece uma população determinada; ANDREFF, 2003) do ano 2001, o novo milênio iniciou-se
d) Finalmente, considera-se a dimensão da contando com 65.000 EMGs que proviam de 67 países e
segurança ou da insegurança econômica (o temor de que possuíam e/ou controlavam 850.000 filiais presentes
perder um trabalho, as possibilidades de padecer uma em 175 Estados. As cifras de vendas dessas filiais
doença, ou quebra dos laços familiares, a velhice, etc.). equivaliam, nesse ano:
Como pode ser apreciado, a proposta de Osberg Aos 11% do Produto Interno Bruto Mundial -
e Sharp demonstra a dimensão econômica herdada da PIBM -, isso é, um pouco mais do que representava o
macroeconomia keynesiana representada nas contas Chinês no PIBM;
nacionais - bens de uso intermediário e finais, os
componentes da demanda interna, o PIB, a análise da 2
Especialmente o capítulo 6.
distribuição do rendimento -, com as percepções que os 3
 Rapport de la Commission sur la mesure des performances
indivíduos se forjam da segurança ou da insegurança, économiques et du progrès social. Difundido publicamente
4
o 14/09/2009. www.stiglitz-sen-fitoussi.fr
A economia mundial no século XXI

A duas vezes e meio o valor das exportações Elaboração das medidas de política econômica
mundiais (em 2001, o valor das exportações mundiais foi dos Estados e dos Governos, nos organismos internacio-
de 5.984 mil de milhões de dólares americanos)4. nais surgidos dos acordos pactuados em Yalta e em Bret-
Nesse mesmo ano na carteira de New York, a ton Woods, atualmente em pleno processo de reformu-
capitalização bursátil dessas mesmas EMGs atingiu quase lação, tanto em seus objetivos como na redistribuição do
o 10% do PIBM 5, o que equivale a um pouco mais de poder que os estados possuem em ditas instituições.
duas vezes o valor da parte que representa o Mercosul Nos últimos 50 anos, com o notável processo de
(4,1%) e o Asean (4,1%), no Produto Mundial. internacionalização do capital e da produção e com o au-
Em 1984, as 200 multinacionais privadas mais mento constante dos intercâmbios comerciais mundiais,
poderosas representavam um quarto do Produto o decisivo peso das EMGs também tem provocado mu-
Mundial e quase um terço em 1997 (CLAIRMONTE, danças profundas nos alicerces sobre os quais se edificou
CAVANAGH, 1985, 1997)6. Entre 1990 e 2000, o grande parte do edifício teórico e prático do comércio
PIBM multiplicou-se por 1,2; mas as vendas das 500 internacional e das relações econômicas internacionais.
EMGs multiplicaram-se por 3,27. Com estas ordens Efetivamente, com a multinacionalização da produção e o
de magnitude que indicam, parcialmente, o poder que comércio que impõem as EMGs, desenvolveu-se e conso-
ostentam as EMGs, compreendem-se rapidamente os lidou-se o comércio intrafirma, isso é, aquele que circula
fundamentos econômicos e políticos que justificam a entre as filiais e a casa matriz das EMGs. Esses fluxos intra-
importância decisiva que as EMGs tiveram, têm e terão multinacionais representam ao princípio do presente sécu-
no funcionamento e na estrutura das relações econômicas lo, segundo as fontes e os cálculos8, entre os 30 e os 60%
internacionais. do comércio total mundial. Este tipo de comércio interno
No ano 2009, segundo a revista norte-americana ao espaço que criam as EMGs altera a concepção clássica e
Fortune (apud BEAUD, 2011, p. 76), as primeiras 500 convencional da economia e da contabilidade que prende
empresas globais realizam uma cifra de vendas que os intercâmbios entre empresas ontologicamente diferen-
equivale: às 2/5 partes do valor do PIB Mundial do dito tes, e residentes em Estados diferentes (CHAPONNIÈRE;
ano e às 3/5 partes do valor do comércio mundial, desse LAUTIER, 2012, p. 91-103).
mesmo ano. Isso é, esses números são similares aos que os
EUA, junto à UE, representam respectivamente no PIBM Quadro 3

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e no Comércio Mundial. AS DEZ MAIORES EMPRESAS MULTINACIONAIS MUNDIAIS
Em virtude dos recursos que controlam similares, SEGUNDO ATIVOS NO ESTRANGEIRO - 2010
Ativos no
e ainda superiores aos de muitos Estados-Nações, as Empresa Sector País de origem Ativos totais* estrangeiro*

EMGs influem de maneira decisiva na: General Electric Material eléctrico EUA 751.216 551.585
Organização que vai assumindo a divisão Reino Unido/
Royal Dutch Shell Petróleo 322.560 271.672
Holanda
internacional do trabalho e, portanto, nas especializações
BP Petróleo Reino Unido 272.262 243.950
das regiões e em suas produções;
Vodafone Group Telecomunicações Reino Unido 242.417 224.449
Matriz e a estrutura sobre a qual se assenta o sistema
Toyota Motores e automóveis Japão 359.862 211.153
produtivo mundial (que, como, quanto e para quem produ-
Exxon Mobil Petróleo EUA 302.510 193.743
zir? que métodos utilizar na organização da produção? Tay-
Total S.A. Petróleo França 192.034 175.001
lorismo, fordismo, neotaylorismo/ohnismo, ou toda outra Wolkswagen Motores e automóveis Alemanha 266.426 167.773
combinação possível na organização do trabalho etc.); EDF France Energia França 321.431 165.413
GDF France Energia França 246.736 151.984
* milhões de dólares americanos.
4
Veja-se O.M.C: Estadísticas del comercio internacional. In- Fonte: elaborado com dados do UNCTAD, Web table 29, 2010.
forme Anual 2002, Genebra, Suíça.
5
Multinationales: secousses dans la mondialisation. Em: Al-
ternatives Économiques, Hors série, 4è trimestre 2001, Ed.
SCOP-SA, Paris, França, p. 52 e ss. 8
Ver por exemplo, Andreff, , 2003 e OMC: Estadísticas del
6
Ver Também, Beaud, 1989, p. 60; e ARCE; FERRO, 2000. Comercio Mundial. Informe 2003, Genebra, Suíça; em 2003
7
Em World Investment Report. Transnational Corporations o comércio total mundial atingiu o valor de 12.254 bilhões
5
and Export Competitiveness. UNCTAD, 2002, Box IV.1, p. 90. de dólares (5.984 para as X; 6270 para as M).
Gustavo Arce

Quanto aos atores não estatais que intervêm de fato pelos recursos que controlam10 como pela concorrência
nas relações internacionais e na economia mundial, em ati- e solvência de suas análises técnicas, os temas de algumas
vidades lícitas, é necessário destacar especialmente todas grandes ONGs ingressam à agenda da política internacio-
aquelas organizações não governamentais e do movimento nal e obrigam os Estados e os governos a tomar posição
associativo e cooperativo. Entre 1900 e 1970, as associações (Greenpeace, Amnesty International, Amigos da Terra,
civis sem fins lucrativos denominadas ONGs não atingiam Attac, Oxafam, etc.).
a cifra de 5.000; nos últimos trinta anos constituíram-se No mesmo sentido, a realização de grandes Fóruns
quase 25.000, segundo o relatório dos pesquisadores da Mundiais (como o de Porto Alegre) e o estabelecimento de
London School Economics, autores da Global Civil Societ redes mundiais sobre os mais variados temas aumentam
(KALDOR; ANHEIER; GLASIUS, 2003; HALL; HOD- então a lista desses novos atores não estatais nas relações
NEY BRUCE; BIERSTEKER; THOMAS, 2003) M y. A internacionais.
fulgurante ascensão do mundo associativo das ONGs in- Finalmente, é necessário incorporar na análise dos
ternacionais, núcleo da emergente sociedade civil mundial, atores e dos fluxos da economia mundial e das relações
mostra que junto ao acionar do Estado e do sistema po- internacionais os atores não estatais que desenvolvem
lítico, as pessoas se agrupam e se associam, seja para de- atividades ilícitas.
senvolver ações junto ao Estado, seja para substituí-lo em A economia e a sociedade delitiva
funções que genuinamente lhe corresponderiam assumir e Em 1990, o juiz francês Jean de Maillard publicou
que por múltiplas razões já não as cumpre. Un Monde sans Loi11. O livro é um relatório sobre as
Na Europa Ocidental, onde se localizam maiorita- atividades das grandes máfias internacionais, realizado
riamente as sedes das principais ONGs9, o esforço ao qual em colaboração com outros quatro magistrados
se viram submetidos os Estados e os governos ao fim da europeus12. Nesse livro documenta-se e analisa-se o que
Segunda Guerra Mundial foi o de reconstruir a economia os autores chamam de Produto Criminoso Bruto (PCB),
capitalista e a Nação. Ao impulso de alguns setores prove- cujo valor oscilaria, para 1986, em uns 800 bilhões de
nientes do cristianismo humanista desenvolveram-se as dólares americanos, isso é, um montante superior ao PIB
ONGs com o objetivo de colaborar em atividades desti- da Espanha e equivalente ao PIB do Canadá. Em outros
nadas a cobrir as necessidades básicas de um importante termos: a economia delitiva cria uma riqueza que a
setor da população submergida na pobreza e no desam- localizaria no quarto ou quinto lugar entre os 10 Estados
Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014

paro. Nesse mesmo movimento governado pela solidarie- mais poderosos segundo o valor da totalidade dos bens
dade, o voluntariado e o humanismo, outras organizações finais que podem ser criado, licitamente, durante um ano
ocuparam-se ativamente dos problemas do crescimento de atividade econômica registrada numa clássica Matriz
econômico, o subdesenvolvimento e as lutas anticolonia- de Transações das Contas Nacionais.
listas que começavam então a aparecer ou se desenvolver Segundo o relatório citado, o desmembre por
na África e na Ásia. grandes “rubros” de atividade do PCB mostra que a
Nas décadas de 70 e 80, novos empreendimentos metade da economia criminosa se concentra na droga
solidários e humanitários vão de encontro aos grandes (produção e comércio para uma demanda que oscila
valores da Humanidade: a defesa dos Direitos Huma- entre 4% e 6% da população mundial) e no tráfico de
nos, a Justiça, a Liberdade, a Democracia; nos anos 90
os temas referidos à proteção do meio ambiente e ao
desenvolvimento sustentável explicam que a presença 10
Segundo algumas estimativas, as cifras são da ordem de 900
das ONGs seja visível em quase todos os continentes e milhões dólares para a poderosa World Vision; de 600 mi-
opinando em quase todos os grandes temas que dizem lhões para o grupo Care, de 500 milhões para Oxafam. Ver
Altrernatives Économiques. Nº 59 Hors Série, 1er trimestre
respeito aos cidadãos do mundo. Cada vez mais, tanto 2004, Paris, França, p. 19.
11
Editado por Stock, Paris, França, 1999, 140 pp. Ver também
Revista Noticias. Nº 1181 do 4 de Agosto de 1989, República
Argentina.
12
A saber: Bertossa, Bernard (Fiscal Geral de Genebra), De-
9
Das ONGs analisadas pelo censo da Global Civil Society, jemmeppe, Benoit (Procurador do Rei da Bélgica), Gia-
mais da metade tem sua sede em Paris e em Londres; seguido nanella, Antonio (Juiz em Nápoles) e Van Ruymbeke, Re-
6
de Genebra e Bruxelas; e nos EUA, Nova York e Washington. naud (Juiz na França).
A economia mundial no século XXI

armas. Os restantes 400 bilhões de dólares destinam-se valor seria maior ao valor do PIB do capitalismo dos
a remunerar os “serviços”, fundamentalmente aqueles Estados Unidos em 2011 (ver quadro 1).
relacionados à “segurança” (guardas e exércitos privados), Nos últimos 50 anos, a economia mundial e as
encarregados de proteger os circuitos delitivos, e em relações internacionais não só conhecem mais atores e
“serviços profissionais” (experientes financeiros, juristas, novos temas, senão que ademais estão processando uma
assessores contáveis, etc.) especializados em legalizar o mutação e uma mudança civilizacional com o rendimento
dinheiro proveniente da economia delitiva mediante sua desigual e conflitivo, mas irreversível à economia da
“camuflagem” e reintrodução na economia legal. informação e à sociedade do conhecimento, tal como
Após detalhar o modus operandi das grandes veremos mais adiante.
máfias internacionais, o juiz de Maillard e seus O atual processo de transição ao capitalismo da
colaboradores sustentam que o principal problema da informação e à sociedade do conhecimento encontra
economia do crime não é o enriquecimento ilícito, senão uma de suas mais importantes causas no esgotamento
seu poder de corrupção e ameaça que a ela representa técnico e social da divisão do trabalho taylor-fordista,
para a democracia. Para poder realizar suas operações que desde o último terço do século XX afetou tanto aos
sem maiores dificuldades, os empresários do crime devem capitalismos dominantes de então (EUA, Japão, UE.)
“comprar” políticos e servidores públicos do Estado. Os como à economia e sociedade soviéticas.
quatro anos do governo do presidente Ernesto Sampers Entre 1980 e 2000, enquanto a economia e a
da Colômbia ilustram irrefutavelmente a capacidade de sociedade soviéticas permaneciam no estancamento
penetração que as máfias têm nos aparelhos dos partidos econômico e social, processo que culminou finalmente
políticos e nos serviços do Estado. na autodissolução da URSS (1999-2000), os capitalismos
Em Un Monde sans Loi infere-se o desenvolvi- ocidentais iniciaram um processo constante, complexo,
mento do mesmo fenômeno na Argentina. Na ex-URSS, desigual e conflitivo de revolução científico-técnica que
a restauração da economia capitalista implicou, entre consistiu em aumentar a simbiose entre a produção de
outras medidas, a intensa privatização das empresas es- mercadorias e a produção do conhecimento. O bilhete
tatais, processo que permitiu à máfia russa “mascarar” a uma economia da informação significou que a lógica
suas suntuosas fortunas engendradas na economia deli- do capital e a economia mundial ingressassem em uma
tiva: mais de 40 % da economia atual da CEI está sob o quarta fase, bem como a humanidade iniciasse uma nova

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controle da máfia, segundo relatórios da Interpol aos que era na sua já milenária existência.
acederam os juízes da União Europeia. Compreendem-se Nessa quarta fase, a produção e a economia pró-
sem dificuldade os temores e a advertência que nas con- prias do capitalismo da informação e a sociedade do co-
clusões o juiz de Maillard expressa: nhecimento organizam os recursos por meio de uma nova
“[...] nem a saúde das democracias, nem a políti- matriz produtiva chamada Relação Social de Serviço, a
ca dos Estados, nem os equilíbrios financeiros podem ser qual é uma das mais simbólicas manifestações da mutação
considerado ao abrigo das múltiplas ameaças que repre- econômica e giro civilizacional que se inicia no último ter-
senta a criminalidade sem fronteiras [...]”13(DE MAIL- ço do século XX. A outra, em paralelo e sobrepondo à an-
LARD, 1999). terior, é o notável processo de reconfiguração dos centros
Em 2010, segundo Jacques Attali em seu trabalho: de poder da economia mundial.
Demain qui gouvernera le monde? (ATTALI, 2011), Depois de quatro séculos de liderança e de domí-
a economia criminosa representa, de acordo com as nio das Regiões, dos Estados e do capital ocidental sobre
diferentes fontes e as formas de seu cálculo, entre o a maior parte dos recursos constitutivos do espaço eco-
5 e o 20% da economia mundial. Na hipótese de 5% a nômico do mundo, desde os anos 1970-1980, a economia
economia criminosa atingiria uma cifra de 1.800 bilhões mundial e as relações internacionais (ARCE, 2011, p. 193-
de dólares, isso é, um valor quase equivalente ao valor do 209) estão começando a ser organizadas de acordo a uma
PIB da França no ano 2011, e na hipótese de 20%, esse bipolaridade compartilhada e competitiva entre os Estados
Unidos/ a União Europeia, o polo ocidental, e Chinesa/ Ín-
dia, o polo oriental, que reaparece na cena internacional de
onde o Ocidente o expulsou por volta de 1600. 7
13
Ver também Revista Noticias, Nº 1181.
Gustavo Arce

Quadro 4 da primeira divisão mundial do trabalho na medida em


A DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DO PRODUTO EM GRANDES que Ásia, África, as Américas e Europa ficam integradas
REGIÕES (em %) por relações fundamentalmente comerciais (especiarias,
ZONA/PAÍSES 2004 2025 2050 ouro, prata e outros metais, escravos, valiosas obras de
União Europeia 34 25 15
arte, etc.).
EUA 28 27 26
Japão 12 7 4 Esquema 1
China 4 15 28
COMÉRCIO MUNDIAL E PILHAGEM
Índia 2 6 17
DA AMÉRICA NO SÉCULO XVI
Outros 20 20 10
Fonte: «Bilan du Monde 2007». L’Atlas de 174 pays. Ed. Le Monde S.A, Paris,
França, 2007, p. 12

A mudança das Regiões e dos Estados líderes,


na cúspide da hierarquia da economia mundial,
vai acompanhando também de uma ascensão dos
capitalismos intermediários ou “emergentes”, como é
o caso de Brasil, Rússia, Índia, África do Sul e México,
movimento que vai desenhando o novo mapa e ordem
geopolíticos do século XXI. Fonte: Beaud, Michel: Historia del Capitalismo. Editorial Ariel, Barcelona,
Espanha, 1ª edição em espanhol, 1984, p. 30
Então, nos últimos 50 anos a economia mundial,
as relações internacionais e a humanidade assistem a
Nessa fase, a riqueza materializa-se não só na
uma mutação e a um giro civilizacional, que justificam
apropriação direta e violenta de produtos elaborados por
que estejamos em frente a uma nova fase do “capitalismo
lógicas de produção tributária, senão, principalmente,
histórico” (WALLERSTEIN, 1987) diferente das
pelos ganhos que gera o comércio. A relação privilegiada
conhecidas nos últimos quatro séculos. Repassemos
dos Estados reais com as grandes companhias de
brevemente as anteriores, pois isso permite captar e
comércio (quem possuem o monopólio do comércio
prender mais claramente essa quarta fase da economia
exterior) faz deles os principais atores da emergente
Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014

mundial no século XXI.


economia mundial. A economia política é a que fundam
e teorizam os mercantilistas. As regiões e as economias
As fases históricas da evolução da Economia Mundial
dominantes são Holanda, França e Inglaterra; Espanha e
Considerando-se as formas de manifestação da
Portugal serão cada vez mais economias intermediárias,
concorrência intercapitalista, as fontes de energia utili-
em declive relativo, mas irreversível. As relações
zadas, as inovações científicas e técnicas, as moedas, que
econômicas e políticas são as de dominação-exploração
circunstancialmente impuseram sua hegemonia no âm-
que os Impérios exercem sobre suas colônias.
bito financeiro e monetário, pode-se apresentar - grosso
modo - as fases históricas da Economia Mundial que pre-
Segunda fase: a ordem Européia (1750/70-1870)
cederam à atual fase.
Esse segundo período é o que se caracteriza
Primeira fase: formação do mercado mundial e
por ser o da consolidação do mercado mundial e o do
do estabelecimento das bases econômicas e políticas da
rendimento da lógica capitalista à manufatura e, com
“ordem” europeia (1600-1750/70)
a Primeira Revolução Industrial (simbolizada em a
Mediante a conquista colonial, desde Holanda
máquina de vapor de Watts), à era industrial. É a fase da
primeiramente, Inglaterra e França depois, o capitalismo
“ocidentalização” do mundo, da “ordem européia” e da
mercantil começa lenta, mas inexoravelmente, a
“pax britânica”.
emancipar-se das lógicas de produção não capitalistas
A região epicentro da economia mundial é Europa
e, simultaneamente de iniciar o longo e lento processo
Ocidental; no seu interior Inglaterra e França prosseguem
de forjar as economias nacionais dominantes, conquista
o esforço de suas classes - as burguesias financeiras
8 outros territórios, povos e recursos, assim tecendo as bases
A economia mundial no século XXI

e industriais, os noviços proletários e outros setores dos progressivamente ao mercantilismo, que consolidará, de
estourados -, tanto por proteger sua “economia nacional” maneira disciplinar, a economia política com objeto e mé-
como por controlar e modelar a economia mundial. todo de estudo próprios, e que a emancipará, parcialmente
Nela, a atividade comercial segue liderando o da Ética, do Direito e da Religião. A visão clássica fundada
crescimento e o desenvolvimento do capitalismo: entre pelos fisiocratas aprofunda-se com os trabalhos de A. Smith,
1730 e 1830 o valor do comércio mundial multiplicou- D. Ricardo, T. Malthus e de J.B. Say.
se por três, mas fazer por vinte entre 1830 e 1913. O Na “ordem européia”, dois princípios de autoridade
comércio, que representava o 3% do Produto Mundial no enfrentam-se: o dos “príncipes” e das dinastias baseadas na
final de 1700, passa aos 33% em 1913 (MUCCHIELLI, ordem e o direito natural e divino14, esses, seduzidos pela fi-
1994, p. 11). Em 1850, a Europa Ocidental é a região losofia das Luzes e o despotismo ilustrado, tratam de fundir
hegemônica - produtiva, comercial, militar, tecnológica a ordem providencial com a “modernidade econômica”, e,
e financeira - da economia mundial: controla 70% dos de conseguir a transformação das sociedades onde o capi-
intercâmbios comerciais mundiais e lidera a produção talismo é, ainda, de escasso desenvolvimento. Mas, com a
mundial total como a industrial. Inglaterra, França e Revolução das Treze Colônias americanas (4 de julho de
Alemanha são as economias nacionais capitalistas que 1776), e, com a Revolução Francesa, na que se proclamam
ordenam e estruturam as regras de jogo da economia- os Direitos do Homem e do Cidadão (26 de agosto de 1789),
mundo. se afirma o Princípio da Autodeterminação dos povos, isso
é, o segundo princípio de autoridade. Assim os fundamen-
Quadro 5 tos liberais, republicanos e democráticos ganham terreno
TAXA DE CRESCIMENTO DA na Europa. Em frente ao avanço do liberalismo, o “concerto
INDÚSTRIA E DO COMÉRCIO MUNDIAIS europeu”15 do chanceler austríaco, Metternich, e da Santa
INDÚSTRIA COMERCIO
Aliança16 (Áustria, Prússia e Rússia) não poderá impedir
SÉCULO XVIII 1,5 1,1
1780-1830 2,6 1,4 nem o desenvolvimento das novas ideias, nem a presença de
1830-1840 2,9 2,8 novos atores na cena internacional.
1840-1860 3,5 4,8
Na América Latina, na primeira metade do século
1860-1870 2,9 5,5
Fonte: W.W. Rostow. The World Economy. Citado em Beaud, Michel: Historia XIX, as colônias espanholas e portuguesas insurgem-se
del Capitalismo. Editorial Ariel, Barcelona, Espanha, 1ª edição em espanhol,
1984, p. 116 e o processo de independência engendra novos Estados

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e economias que ingressam ao sistema internacional.
Quadro 6 Simultaneamente na Europa, as aspirações de alguns povos
DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (poloneses, tchecos, eslavos, etc.) a viver na “sua nação”
POR PAÍSES E REGIÕES (em %) espionam os movimentos revolucionários; na Alemanha
Grã- Resto da Estados Resto do e na Itália, os processos de unificação transformarão esses
França Alemanha
Bretanha Europa Unidos Mundo
1780 12 12 11 39 2 24 povos-nações em Estados-Nações, e esses últimos junto à
1800 33 9 10 25 5 17 Inglaterra, à França, e aos impérios austro-húngaro, russo
1820 27 9 11 29 6 19
e otomano, fazem que, ao finalizar este período, a “ordem
1840 25 11 8 30 7 20
1860 25 11 9 24 9 21 europeia” se veja em plena transformação (política,
Fonte: W.W. Rostow. The World Economy. Citado por Beaud, Michel: Historia
del Capitalismo. Editorial Ariel, Barcelona, Espanha, 1ª edição em espanhol, econômica, tecnológica) que desembocará em uma nova
1984, p. 134
e traumática fase na evolução e na estrutura da economia
mundial e do sistema internacional.
Nessa fase, e até o presente, a energia fundamental
Terceira fase: a ordem anglo-russo-soviético-
será o petróleo. Os progressos na química e na física
estadunidense (1870-1980/99)
definirão o desenvolvimento econômico-político que
Nesse terceiro período decorre uma série de
fará da indústria e da industrialização o paradigma do
Progresso e do Desenvolvimento durante todo esse
século e grande parte do século XX. 14
Na Prússia, Federico II (1740-1786); María Teresa (1740-
No âmbito das ideias, ao racionalismo e ao positivis- 1780) e José II (1780-1790), na Áustria; Catarina II (1762-
1796), na Rússia.
mo somam-se o liberalismo econômico e político, desloca- 15
Criado no Congresso de Viena (1815). 9
16
Fundada em 26.9.1816.
Gustavo Arce

acontecimentos conflitivos que modificará, profundamente, Quadro 9


a estrutura e o funcionamento da economia mundial. Este
INVESTIMENTOS NO ESTRANGEIRO DOS
século é o da grande fratura das relações internacionais; nele PRINCIPAIS PAÍSES CAPITALISTAS (em %)
se processam convulsões políticas, ideológicas, econômicas e 1914 1930 1960
geopolíticas, entre as que convêm - grosso modo - recordar: Gran Bretaña 50,4 43,8 24,5
Mudança nas regiões e nos Estados-Nações líderes França 22,2 8,4 4,7
e dominantes. Alemanha 17,3 2,6 1,1
Efetivamente, é desde Europa Ocidental, Países Baixos 3,1 5,5 4,2
particularmente desde Inglaterra, e para América Estados Unidos 6,3 35,3 59,1
do Norte, especialmente aos Estados Unidos, que se Canadá 0,5 3,1 5,5

transladará o epicentro da lógica capitalista que governa Suécia 0,3 1,3 0,9

e reproduz a economia mundial. 100,0 100,0 100,0

O declive da hegemonia inglesa inicia-se Fonte: Magdoff, H.: L’âge de L’Impérialisme. Citado por Beaud, Michel: Historia
del Capitalismo. Editorial Ariel, Barcelona, Espanha, 1ª edição em espanhol,
1984, p. 233
claramente a partir de 1913. Grã-Bretanha cede
permanentemente posições na produção industrial O relevo britânico a favor dos Estados Unidos na
mundial, no comércio mundial e no investimento direto cúspide das economias nacionais dominantes e a configu-
estrangeiro. ração de uma nova carta geopolítica mundial, já em mea-
dos desse período, foram possíveis por meio da “Guerra
Quadro 7 dos 30 anos”17 que se desenvolveu em dois momentos:
1914-1918 e 1939-1945.
PARTICIPAÇÃO DOS PRINCIPAIS PAÍSES
INDUSTRIALIZADOS NA PRODUÇÃO INDUSTRIAL O aumento das tensões internacionais ao interior do
MUNDIAL (em %)
sistema europeu desenhado por Bismark (entre 1871-1890)
Grã- Alemanha Rússia Estados Japão Resto do
Bretanha França RFA URSS Unidos Mundo e a bipolaridade entre a Tríplice Aliança (Alemanha, Impé-
1870 32 10 13 4 23 ----- 18 rio Austro-Húngaro, e Itália) e a Tríplice Entente (Inglater-
1881- ra, França e Rússia) desencadearão uma crise do equilíbrio
27 9 14 3 29 ----- 18
1885
1896- de poderes interestatais, o que desembocará justamente na
20 7 17 5 30 1 20
1900 “Guerra dos 30 anos”, a qual, a sua vez, reconfigurará o es-
1906- 15 6 16 5 35 1 22
Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014

1910 paço (e o poder) econômico mundial, pois para a década


1913... 14 6 16 6 38 1 19 1940-1950 se esboçam e se consolidam duas grandes ten-
1926-
1929 9 7 12 (4) 42 3 23 dências na economia mundial: a) o desmembramento dos
1936- Impérios18; b) a constituição do estatismo como lógica de
9 5 11 (19) 32 4 20
1938
1963... 5 4 (6) (19) 32 4 30
Advertência: Durante este período, a parte correspondente a Bélgica cai
de 3 ao 1%; a de Itália sobre de 2 aos 3% para cair de novo aos 2%; a da 17
A expressão de ”Guerra dos 30 anos” é de François Fourquet
Escandinávia sobe de 1 aos 2% como a do Canadá.
(FOURQUET, 2000, p. 83).
Fonte: W.W. Rostow. 1984. Citado por Beaud, Michel: Historia del Capitalismo. 18
Só para recordar: o Grande Império Britânico (Canadá, Aus-
Editorial Ariel, Barcelona, Espanha, 1ª edição em espanhol, 1984.
trália, Nova Zelândia, União Sul-africana, Índia) conhece os
primeiros embates nacionalistas e independentistas desde
Quadro 8 1920. Na Índia, a longa luta anticolonialista simbolizada na
figura de Gandhi desemboca na Independência da Índia e
DISTRIBUIÇÃO DO COMÉRCIO MUNDIAL POR PAÍSES (em
a criação do Paquistão em 1947; mas já em 11/12/1931
%)
os britânicos tinham estabelecido o Commonwealth; em
Grã- Alemanha Resto da Estados Resto do
Bretanha França (RFA) Europa Unidos Mundo 20/08/1932, tinham criado o sistema de Preferência Impe-
1880 23 11 10 27 10 19
rial (Acordo de Ottawa); questão de dotar de maior auto-
nomia a seus súditos e evitar assim a propagação das ideias
1913 16 7 12 29 11 25
independentistas. O Império Otomano, que já tinha perdido
1928 14 6 9 22 14 35 Belgrado, Albânia, Dalmácia e Herzegovina (Tratado de Pas-
1938 14 4 9 20 10 43 sarowitz, 1778) e cedido a Prússia seu domínio sobre o Mar
1948 12 5 (2) 22 16 43 Negro (1774), reconheceu em 1828 a independência da Gré-
1958 9 5 (8) 26 14 38 cia, a de Romênia em 1856, a de Sérvia e Bulgária em 1878
Fonte: W.W. Rostow, 1984. Cuadro II-8, p. 71-73. Citado por Beaud, Michel:
pelo Tratado de Berlim, o qual dispôs o estatuto de Turquia
Historia del Capitalismo. Editorial Ariel, Barcelona, Espanha, 1ª edição em baixo garantia dos “grandes” (Alemanha, França, Inglaterra).
10 espanhol, 1984, p.174. Em 1808, o Império Otomano perdeu Tripolitânia na Guerra
A economia mundial no século XXI

produção e de organização sociopolítica alternativa e em industrial taylor-fordista.


concorrência com a capitalista: primeiro na URSS (1917), No terreno econômico, é nessa fase que se
depois na China (1949) e em Cuba (1960-61). inicia e se generaliza a Segunda Revolução Industrial: a
Os acordos entre os soviéticos, os estadunidenses eletricidade, o motor a combustão, a química, a eletro
e os ingleses19 instituíram uma ordem mundial governado metalurgia sentam as bases para uma transformação das
pela bipolaridade e a guerra fria entre a URSS e os EUA. formas de produção da mercadoria capitalista.
Assim, o que começou com e na “Guerra dos 30 anos” As mudanças operam-se fundamentalmente pelo
terminou numa grande fratura do sistema produtivo lado da oferta. A eletricidade permitirá o desenvolvimento,
mundial, dos fluxos internacionais (econômicos, progressivo e ininterrupto, dos princípios organizacionais
financeiros, populacionais) e do sistema internacional. do processo de trabalho proposto por Taylor e Fayol. Com
A segunda descolonização acontecida, a “organização científica” do trabalho, o capital investido na
fundamentalmente na África e no Sudeste asiático, e produção poderá gerar novos e consideráveis aumentos na
a formação do “Terceiro Mundo” (grupo de países e produtividade dos recursos utilizados. Em consequência,
de Estados reunidos na cidade de Bandung em 1955, desde esse fim de século, e em plena crise e recessão, é que
representando a mais da metade da população do mundo, começam a se engendrar as estruturas do capitalismo mono-
que proclamam e aspiram à autodeterminação de seus pólico e da concorrência imperfeita, com produções gover-
povos, ao crescimento econômico e ao desenvolvimento nadas pelas economias de escala em série e massificadas. O
social) constituem um colossal desafio em frente a uma progressivo e incessante aumento da oferta capitalista, sem
ordem internacional bipolar, pois os novos Estados- a consequente redistribuição dos rendimentos sobretudo os
Nações deverão tomar suas grandes decisões em matéria salariais, e portanto, a reduzida demanda efetiva explicam os
de desenvolvimento econômico e de relacionamento fundamentos econômicos, tecnológicos e sociais da grande
internacional, sempre obrigados a eleger entre capitalismo crise de sobre produção de 1930.
ou estatismo, entre Democracia ou Totalitarismo, entre
o Mercado ou o Planejamento, entre o Ocidente ou o Quadro 10

Oriente, entre o Oeste ou o Leste… INDÚSTRIAS MOTRIZES DA SEGUNDA GERAÇÃO


EM CINCO PAÍSES CAPITALISTAS
Crescimento econômico baseado na matriz
Veículos a
Eletricidade Ácido Sulfúrico
Motor

Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014


Grã-
Bretanha
contra Itália (1911-1912) e as guerras Balcânicas 1912-1913, (A) 1870-1879 1900-1910 1900-1910 1870-1879
privaram-no da maior parte de seus territórios. Por sua (B) 1870-1929 1900-1959 1920-1969 (C)
vez, o Império Francês manteve-se unido durante a Grande Estados
Guerra, mas já finalizada a Segunda Guerra Mundial, per- Unidos
deu a Guerra de Indochina (1946-1954) e depois a de Argélia (A) 1870-1879 1880-1889 1900-1910 1870-1879
(1954-1961). A descolonização pôs-se em marcha.
(B) 1820-1929 1900-1959 1910-1959 (C)
19
Primeiro foi a assinatura da “Carta do Atlântico” (Churchill-
-Roosevelt, de 9 a 12/08/1941), depois o Pacto Britânico- Alemanha
-Soviético (26/05/1942), logo a Conferência de Casablanca
(janeiro de 1943) e em Teerã (28/11 ao 1º/12/1943) os três (A) 1870-1879 1900-1910 1900-1910 1870-1879
grandes confirmam o desembarco na Normandia e esboçam (B) 1870-1959 1900-1969 1920-1969 (C)
as futuras Nações Unidas, e em Malta (do 4 ao 11/02/1945)
França
pactuam construir uma ordem mundial inspirado nos ideais
da paz e governado pelos princípios do direito internacional. (A) 1870-1879 1920-1929 1900-1910 1945-1950
Aceitam o princípio do direito dos povos a eleger a forma
(B) 1870-1959 1900-1969 1920-1979 (C)
de governo que desejam adotar e confirmam a criação das
Nações Unidas e, repartem e transformam os territórios, os Japão
povos, as Nações que ficaram sob a influência da URSS e dos (A) 1900-1910 1920-1929 1930-1939 1930-1939
EUA. Último encontro: a Conferência de Potsdam (de 17/07 (B) 1900-1969 1920-1959 1930-1979 (C)
a 2/08/1945), ali decide-se o desarmamento e a “desnazifi-
(A) Período no que a magnitude da taxa de expansão é máxima.
cação” de Alemanha. Em 5/03/1946, Sir Winston Churchill, (B) Período durante o qual o setor é considerado líder para a indústria
em frente à presença irreversível da URSS na Tchecoslová- nacional.
(C) O setor não tem conseguido peso suficiente para desempenhar um papel
quia, declarou: “[...] Uma cortina de ferro instalou-se na Eu- de líder.
ropa [...]”; foi o começo da “Guerra Fria”, em: Histoire du Fonte: segundo W. W. Rostow. Citado por Beaud, Michel: Historia del
XXe siécle. 1900-1945. Tome 1, Ed. Haitier, Paris, França, Capitalismo. Editorial Ariel, Barcelona, Espanha, 1ª edição em espanhol, 1984,
p. 187 11
1996, pp. 465-469.
Gustavo Arce

A organização dos processos econômicos, Lênin denúncia no diário Pravda ao taylorismo como “[...]
principalmente os industriais, sobre a base da matriz um sistema científico destinado a submeter ao operário às
“tayloriana” de divisão do trabalho se “internacionalizará” piores condições de trabalho [...]”22 (BEAUD, 1982, p. 106-
de maneira desigual por todas as estruturas da economia 107); mas já no poder, em 1918, em frente à contrarrevolução
mundial, a qual conhecerá desde então uma segunda prozarista, ao assédio dos imperialismos ocidentais e às
matriz produtiva, essa última funcionará simultânea necessidades de implementar a economia socialista, seu
e paradoxalmente entre 1920 e 1990, em espaços julgamento sobre o taylorismo muda; e em seu trabalho:
territoriais e sistemas político-ideológicos rivais e em “As tarefas imediatas do poder”, Lênin sustenta que “[...]
pugna, no âmbito das relações internacionais e do sistema a tarefa que incumbe à república socialista soviética pode
internacional. ser resumido assim: devemos introduzir na Rússia, o
Efetivamente, nos EUA, desde 1900 nos frigoríficos sistema Taylor, à americana, da produtividade do trabalho,
de Chicago e depois nos anos 20, e, sobretudo com o acompanhando da redução da jornada de trabalho [...]”23
“New Deal” da administração do Presidente Franklin D. (LINHART, 1976; BEAUD, 1982, p. 107-108).
Roosevelt, o capitalismo estadunidense recuperará vigor e Desde 1930, em frente aos magros resultados da
crescimento institucionalizando o método Taylor, que teve Nova Política Econômica (NEP) e da aliança entre o partido
um enorme sucesso na indústria do aço, fundamentalmente Bolchevique com os pequenos proprietários agrícolas, a URSS
a automobilística, em que o empresário Henry Ford aplica de Stalin lança-se na grande industrialização, base do notável
dito método e implanta na “semana dos cinco dólares”20. crescimento econômico da economia soviética nessa fase.
Assim nascerá o que se denomina o método “taylor- Na América Latina, a crise dos anos 30 foi
fordista” ou círculo virtuoso do crescimento (do produto enfrentada pelos governos e as elites de então mediante a
e do consumo) e distribuição (do rendimento), ou mais industrialização substitutiva de importações. A criação de
precisamente, um crescimento econômico baseado na uma oferta interna (industrial e agrícola) foi possível graças
expansão simultânea e paralela dos setores produtores ao protecionismo alfandegário, ao intervencionismo estatal e
dos bens de produção e aqueles que produzem os bens de ao desenvolvimento do taylorismo na produção da incipiente
consumo. industrialização.
Uma das mais importantes razões do Como consequência da “grande fratura”, o sistema
desenvolvimento da economia do capitalismo produtivo mundial se deslocou e, os circuitos comerciais e
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estadunidense e de sua ascensão na hierarquia da economia financeiros tecidos nas fases anteriores se desarticularam:
mundial foi, desde 1920, a implantação e extensão do entre 1913 e 1945, o produto mundial só cresceu 1,8% e
modelo taylor-fordista em praticamente todos os setores o comércio internacional 1% (contra 2,2% e 4,2% entre
de seu sistema produtivo. 1870 e 1913, respectivamente).
Na Europa Ocidental, Inglaterra, França, mas Desde 1945, sob as condições e o equilíbrio
sobretudo, na vencida Alemanha (depois da guerra de 1914- geopolítico pactuados entre a URSS e os EUA, inicia-se
18), é que o taylorismo em comunhão com o totalitarismo um excepcional período de expansão econômica que
hitleriano e nazista poderá sustentar e impulsionar o notável beneficia, fundamentalmente, as economias capitalistas,
crescimento e o armamentismo da economia do Terceiro em menor medidas às estatais e ao emergente “Terceiro
Reich21. Mundo”.
Na Rússia, nos albores da Revolução bolchevique,
em 1913, depois de assistir a um seminário em um
instituto de engenheiros na cidade de San Petersburgo,

20
Com ela se aplicava um velho princípio teorizado já desde
Malthus, retomado por Keynes nesses anos: as crises de re-
alização só podem ser superadas se, ao mesmo tempo em
que se incrementa a oferta, cria-se um poder de compra que
permita um consumo relativamente proporcional ao do pro-
duto realizado. 22
12 21
Ler BETTELHEIM, 1971. 23
A economia mundial no século XXI

Quadro 11 1974; na América Latina, através dos mísseis de Cuba,


enfrentam-se com a URSS25; sustentam o golpe militar:
PESOS RESPECTIVOS DOS “TRÊS MUNDOS” NA PRODUÇÃO
INDUSTRIAL E O COMÉRCIO MUNDIAIS (em %) no Brasil (1964), Uruguai e Chile (1973), e na Argentina
Mundo Mundo (1976); esses acontecimentos políticos não puderam
Capitalista Coletivista Terceiro
EUA Total URSS Mundo
ser evitados apesar do o esforço que os EUA tentaram
Total (Solo) (Solo) na região por meio da “Aliança para o Progresso” que o
Parte na Produção Industrial
1936-1938 76 (32) 19 (19) 5
presidente John F. Kennedy lançou na década de 6026.
1963 62 (32) 29 (19) 9 Enquanto as superpotências competem e
1971 61 (33) 26 (16) 13 enfrentam-se, mal decorridos nuns anos após ter
Parte no Comércio Mundial
finalizado a Segunda Guerra Mundial, mediante o
1938 64 (10) 1 (1) 35 Tratado de Paris de 18/04/1951: Bélgica, França, Itália,
1948 59 (16) 5 (2) 36 Luxemburgo, Holanda e a República Federal da Alemanha
1963 63 (11) 12 (5) 25
criam a Comunidade Européia do Carvão e do Aço; em
1971 68 (13) 10 (5) 22
Fonte: W.W. Rostow. Citado por Beaud, Michel: Historia del Capitalismo. Editorial 1957, com o Tratado de Roma, constituem a Comunidade
Ariel, Barcelona, Espanha, 1ª edição em espanhol, 1984, p. 26
Econômica Européia (CEE), e em 1962, põem em marcha
A prosperidade (o crescimento de pós-guerra) foi
a Política Agrícola Comum.
a mais forte que se tenha registrado historicamente no
Envolvidos numa guerra econômica, geopolítica
espaço econômico do mundo: o produto mundial cresceu
e ideológica sem quartel, em todos os confines do
a uma taxa de 5% e o comércio de quase 10% entre 1945
e 1975. O crescimento baseou-se fundamentalmente
no aumento da produtividade do trabalho vivo e, em 25
Ao fim do período de governo do Presidente Eisenhower,
menor escala, na dos bens do capital fixo a disposição da cubanos residentes nos Estados Unidos, apoiados pelo go-
verno e a Agência de Inteligência (CIA) decidiram invadir
cada trabalhador. Nos EUA, Europa Ocidental e Japão - e derrocar o novo governo revolucionário encabeçado por
ambos em plena reconstrução -, na URSS e seus aliados Fidel Castro. A invasão na Baía dos Porcos (04/1961) foi um
processo militar e político, a tensão russo-norte-americana
do Leste europeu e na vasta faixa de países do “Terceiro
voltou a exacerbar-se, seu auge foi quando, em represália
Mundo”, o taylor-fordismo ou taylorismo “sanguinário”, dessa operação, Fidel Castro se declarou: “[...] Marxista-Le-
ou “taylor-fordismo periférico”24, mostrou sua eficácia ninista até o fim de meus dias [...]”. A guerra fria localizou-
-se definitivamente no nosso continente, quando no final do
para organizar os recursos, animar o agregado e sustentar

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verão de 1962, os estadunidenses tomaram conhecimento
o crescimento econômico de pós-guerra. e consciência, que em Cuba, os russos estavam instalando
plataformas para operar e lançar mísseis de alcance inter-
Em um contexto de crescimento econômico nos
mediário. Depois de um bloqueio (a quarentena) a Cuba, e
“três mundos” nasce a “Economia do Desenvolvimento”. de intensas negociações, a crise desativou-se, quando os so-
No âmbito das ideias econômicas, o pensamento viéticos aceitaram desmontar ditas instalações e os Estados
Unidos deixaram de invadir Cuba. Tomado de: Documentos
keynesiano impõe-se claramente sobre o neoclássico e de la Historia. Ed. El País, Tomo II (1958-1998), Montevideo,
difunde-se triunfalmente na academia, impregnando o Uruguai, p. 36.
discurso das elites políticas e sociais de então.
26
Em 13/03/1961, o Presidente dos EUA anunciou ante a So-
ciedade Interamericana da Imprensa uma série de propos-
Na ordem bipolar, outra grande crise e transtorno tas de seu governo para América Latina, que chamou: “A
não parecem ter probabilidades de acontecer. Aqui Aliança para o Progresso”. Seus principais compromissos
eram: a) canalizar durante uma década 20.000 milhões de
na Terra, as superpotências vigiam ferreamente seus dólares para ajudar ao desenvolvimento da região; b) apoio à
territórios e zonas de influência. A URSS invade Hungria industrialização e diversificação de suas explorações; c) mo-
(1954), Tchecoslováquia (1968), Afeganistão (1980) para dernização do setor agrícola e realização de reformas agrá-
rias; d) expansão da infraestrutura física: energia, transporte
controlar e frear os movimentos libertários e anti estatais. e comunicações; e) promoção do desenvolvimento social:
Os EUA, desde fins dos anos 60, deslizam-se na longa e moradia, saúde e educação; f) a modernização das universi-
dades; g) criação de sistemas nacionais de desenvolvimento
cara guerra do Vietnã que perderão definitivamente em
científico e tecnológico; h) estabelecimento de Escritórios
Nacionais de Planejamento; i) apoio à integração regional;
j) estudo caso por caso de medidas para estabilizar os preços
das exportações primárias na América Latina. Tomado de:
24
Sobre as diversas modalidades que assumiu, e/ou assume, a Enrique Iglesias: Reflexiones sobre el Desarrollo Económico.
“mundialização do taylorismo e do fordismo”, pode ser visto Hacia un nuevo Consenso Latinoamericano. Ed. BID, New
13
em LIPIETZ, 1985. York, 1992, p. 8.
Gustavo Arce

planeta, os “grandes” reafirmam a bipolaridade e a de limitação de armas estratégicas e a criação de um


ordem pactuada nas Conferências de Casablanca, Teerã programa espacial comum (o Apolo-Soyuz). Em 1972, o
e Malta, o que ficou demonstrado quando a URSS, presidente Nixon viaja à China e entrevista-se com o líder
para impedir o bilhete dos alemães do Leste ao Oeste, Mao Tse-Tung. Nesse mesmo ano, em frente ao déficit da
edificou o muro de Berlim em 1962 (12-13 de agosto), balança comercial americana - que se iniciou nos anos 60
cobrando total vigência a frase que em 1946 pronunciou -, à existência de uma soma considerável de dólares fora
Winston Churchill: “[...] uma cortina de ferro instalou-se dos EUA e ao aumento do preço do petróleo, o governo
na Europa [...]” (CHURCHILL, 1962, p. 489) A guerra de Richard Nixon decreta a inconversibilidade do dólar e
fria intensificou-se. Ela se desenvolve não só na Terra, sua desvalorização.
mas também no Espaço: em 1º/10/1957, a URSS põe O rompimento de um dos mecanismos finque
em órbita o primeiro satélite artificial (o Sputnik) com da ordem bipolar e da estabilidade do crescimento
um ser não humano (a cadela Laika); o 12/04/1960, o econômico de pós-guerra (os Acordos de Bretton Woods)
astronauta Yuri Gagarin é o primeiro ser humano a dar deu sinais claros de que outra vez a crise (econômica,
uma volta à Terra em 180 minutos. Os EUA replicam política, ideológica) se instalava na agenda dos Estados
rapidamente: depois de fracassado a viagem suborbital e dos organismos internacionais. Mas nos EUA e nas
de Alain Sheppard (12/05/1960), os estadunidenses principais capitais do capitalismo desenvolvido, as
organizam sua estratégia tecnológica e espacial por meio novas gerações, que cresceram baixo a paz bipolar
das missões Mercúrio e Apolo; em 1962, John Glenn e na prosperidade econômica, manifestaram seu
consegue dar três voltas ao redor da Terra; e em 1969, descontentamento e sua aspiração a “uma nova e melhor
Neil Armstrong e Edwin Aldrin calcam a Lua. Em 2012, vida”, pretensões simbolizadas nas 34 jornadas do maio
o Robô Curiosity conseguiu descer no Planeta Marte para francês (1968), e nos 3 dias e 2 noites que, numa granja
iniciar investigações a respeito da existência de Vida no próxima à localidade de Bethel ao norte de Nova York, a
mesmo. geração “hippy” realizou o que se chamou o Festival de
Para 1970 nas “grandes economias”27(BAROU; Woodstock (1969).
KEIZEN, 1984), depois de trinta anos de crescimento Do outro lado da “cortina de ferro”, depois de
sustentado do produto, do emprego e do investimento, reprimir e controlar a “Primavera de Praga”- que aspirava
inicia-se a “estanflação” (estancamento com inflação); conciliar socialismo e liberdade na Tchecoslováquia -
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o governo dos Estados Unidos dirigido pelo então (1968), em 1974 o governo da URRSS expulsa a Alexander
Presidente, Richard Nixon, envolvido no escândalo do Solzhenitsyne, Prêmio Nobel de Literatura (1970) e um
caso Watergate28, pactua com os russos dois tratados dos poucos sobreviventes dos trabalhos forçados e dos
campos de concentração (o Gulag), em que os críticos e
opositores ao regime soviético exaltavam sua condenação.
27
No final do século XIX no último terço do século
28
Em 17/06/1972 em Washington, a polícia descobriu que na
sede do Partido Democrata se tinham instalado microfones.
XX, o capitalismo e agora também o estatismo mostram
Dois jornalistas, Bob Woodward e Carl Bernstein, do diário signos evidentes de bloqueio em sua reprodução social.
Washington Pós, iniciaram uma longa, tenaz e eficaz inves- Nos capitalismos ocidentais inicia-se um período de crise
tigação jornalística que pôs ao descoberto uma operação
política dirigida desde a Presidência destinada a violar as li- caracterizado pela queda importante do nível de atividade,
berdades fundamentais dos cidadãos: redigidas as “listas dos o aumento do desemprego e, o desenvolvimento da
inimigos” intervinham-se seus telefones sem ordem judicial,
inflação e do endividamento - público e privado -. Assim
grupos clandestinos de segurança violavam a liberdade in-
dividual ou a privacidade da informação, etc. Em frente ao e desde então, o capitalismo ocidental começa a ceder
aumento das denúncias, a Casa Branca organizou um grupo posições no produto e o comércio mundiais.
de assessores jurídicos e ordenou que algumas supostas tes-
temunhas confundissem e/ou ocultassem informação à jus-
tiça. A criação de uma Comissão Investigadora senatorial e a
nomeação de um Promotor Especial para esse caso culmina-
riam num julgamento político e à destituição do presidente;
para evitá-lo, o 8/08/1974, Richard Nixon converteu-se no
primeiro presidente a renunciar a seu cargo. Sucedeu-lhe seu
vice-presidente Gerald Ford. Tomado de: Documento de la
14
Historia. Ed. El País, Tomo II (1958-1998).
A economia mundial no século XXI

Esquema 2 PARTE II

DISTRIBUIÇÃO DA PRODUÇÃO MUNDIAL (em % do Total)


ENTRE “PAÍSES INDUSTRIAIS” e “PAÍSES DO TERCEIRO O capitalismo da informação, a economia
MUNDO” - (1750-1990) - e PROJEÇÕES PARA O 2000 e 2010 mundial e as relações internacionais no sé-
culo XXI

I. A grande mutação e o giro civilizacional


Quando pouco dantes de finalizar a Segunda
Guerra Mundial os engenheiros da empresa Bell
Corporation conseguiram transmitir sinais para Europa,
imperceptíveis para os corpos de inteligência do Eixo,
denominaram ao novo sistema Informação e a sua
unidade de medida Bite. Rapidamente, o professor
Fonte: Bairoch, Paul. 1994, p. 134; para 2000 e 2010, projeções segundo Global C. Shannon elabora sua teoria (SHANNON, 1948;
Economic Prospects del Banco Mundial. Citados por Beaud, Michel: Le
Basculement du Monde. Ed. La Découverte, Paris, França, 1997, p. 18 SHANNON; WEAWER, 1949 apud ROBIN, 1993, p.
12); Norbert Wiener, um dos fundadores da cibernética,
Na economia soviética também na mesma época, declara que a “informação não é nem a massa nem a
a crise econômica se manifestou por meio de uma queda energia”, e na Academia de Ciências de Estados Unidos,
de por volta de 40% da produção industrial, descensos Boulding afirma que “a informação é a terceira dimensão
notórios na produtividade do trabalho e no rendimento da matéria” (ROBIN, 1993, p. 12).
do capital investido. A crise econômica desembocará Assim se puseram as bases e as técnicas da
numa crise política e social, e na autodissolução da URSS atual fonte de Riqueza das sociedades humanas: o
(1990-2000) apesar de as tentativas de reforma econômica conhecimento, sua produção e vertiginosa incorporação
e política que foram a Glasnost e a Perestroika. nos mais diversos e inimagináveis processos produtivos.
Assim nasce, então, a economia da informação e a
Gráfico 2 sociedade do conhecimento.
VARIAÇÃO DO RENDIMENTO NACIONAL Tendo a possibilidade de prender a Matéria

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(taxa de variação, médias quinquenais) graças à informação que ela contém, é possível recolher
e fazer o censo de dados utilizando o mínimo de energia.
A informação pode ser armazenada em máquinas
(computadores), transformada em programas, os quais
funcionam em um computador como um comando
automático, isso é, os robôs.
Dispondo do controle da nova fonte de energia, a
tecnociência dedica-se, desde fins dos anos 50, a produzir
de maneira crescente as tecnologias que vão, uma vez
mais, revolucionar o capitalismo: a informática, os robôs,
Fonte: Aganbeguian, Abel G.: PERESTROÏKA, LE DOUBLE DÉFI as telecomunicações, a biotecnologia que, utilizando os
SOVIÉTIQUE. Ed. ECONOMICA, Paris, França, 1987.
progressos na biologia molecular e na genética, penetra
e muda diversos setores da produção, como é o caso
A partir de 1970, abre-se então um período de
da agroalimentação e os telefonemas “bioindustriais”
crise e de mutações para os sistemas econômicos e para a
que produzem ou copiam a própria vida (clonagem).
Humanidade: do capitalismo industrial ao da informação
Do controle dessas quatro tecnologias fundamentais,
e do conhecimento; da era da Propriedade à do Acesso: é a
conectáveis entre si e com o setor energético tradicional,
quarta fase ou período na evolução da economia mundial,
depende agora, nessa quarta fase, o grau de riqueza e de
como o veremos na segunda parte deste trabalho.
poder de uma economia, de um Estado, de uma empresa,
no capitalismo da informação. 15
Gustavo Arce

Com a revolução informática amplia-se, quase fundamentos filosóficos e políticos do Século das Luzes
ilimitadamente, a capacidade do sistema para produzir que cimentaram a Era Moderna. Sem dúvida, uma
mercadorias, materiais e imateriais, para poder satisfazer mudança qualitativa na história do capitalismo; uma
praticamente qualquer necessidade humana, e processa- mutação civilizacional na história da humanidade... Um
se novamente uma mutação espetacular na divisão social Novo Mundo, como no século XV.
e técnica do trabalho, nos processos produtivos, na Como naquele, nesse também se produz Riqueza,
organização do próprio trabalho e no conhecimento que mas ela assume formas a cada vez mais imateriais. Quase
da nova realidade pode ser produzido. todo ato humano faz parte do reino da mercadoria e
Os antecedentes sobre as transformações do da lógica do benefício. Os monopólios, públicos e/ou
capitalismo na sua fase industrial encontram-se nos privados, nacionais e/ou multinacionais, como seus
trabalhos de Colin Clark (CLARCK, 1940), quem nos ancestrais dos séculos XIV, XV e XVI, competem à escala
anos 1930-1940 já observava como em pleno auge do mundial, na qual se vive uma feroz guerra comercial, para
capitalismo industrial, as atividades imateriais (o setor preservar ou conquistar seu lugar na “nova economia”.
terciário) cobravam um lugar destacado numa lógica de
produção de mercadorias, fundamentalmente tangíveis. II. Oikonomos da Informação e a Sociedade do Co-
Nas décadas seguintes, em pleno apogeu do método de nhecimento: a simbiose entre produção de mer-
produção taylor-fordista (BOYER; DURAND, 1993; cadorias e produção do Saber
ARCE; FERRO, 2000), os trabalhos e as investigações A possibilidade de prender a Matéria graças
sobre o irresistível aumento de bens econômicos à informação que ela contém permite decifrar dados
intangíveis forjaram a ideia segundo a qual o capitalismo utilizando um mínimo de Energia. A informatização dos
ingressava numa era “pós-industrial” (TOURAINE, processos produtivos (materiais e imateriais) revoluciona
1969), numa “economia invisível” (LISTON; REEVES, a oferta e modifica os alicerces da divisão social e técnica
1988), “imaterial” (GOLDFINGER, 1994), de “serviços” do trabalho, teorizada desde Aristóteles até Emilio
(GADREY, 1996), da “informação” (RADOVAN, 1972) Durkheim. A diferença do modelo taylor-fordista,
e “do conhecimento” (PORAT, 1976; DRUCKER, 1993). pensado e estruturado desde a produção (a oferta) para o
Em 1993, Peter Drucker escrevia em seu célebre mercado, no método inventado pelo engenheiro japonês
trabalho Post-Capitalist Society (DRUCKER, 1993), que Taiichi Ohno, a produção organiza-se desde o mercado (a
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o Conhecimento substituía progressivamente o capital; demanda) para a produção e isso simboliza, nitidamente,
a humanidade assistia, então, ao fim do capitalismo e a nova arquitetura dos processos produtivos que engendra
estava-se edificando uma nova sociedade. Quase vinte e possibilita o manejo do conhecimento e a informação.
anos após as afirmações de P. Drucker, é inegável que a Efetivamente, a capacidade de possuir o conheci-
introdução de inovações científicas e técnicas nos anos mento e o saber ante da produção das mercadorias está
70 têm induzido a reordenação completa das condições revolucionando o processo produtivo capitalista, já que
de produção da mercadoria capitalista, das regras de agora se produzirá o que o consumidor “queira” e “pos-
concorrência intercapitalista, da relação do Estado com o sa” comprar. Na economia da informação e na sociedade
mercado e com a sociedade civil. Resulta mais opinável, do conhecimento, o capitalismo tende, de mais em mais,
em mudança, que a nova sociedade em processo de a produzir (em tempo real e “on-line”) o que previamente
construção seja o fim do capitalismo. vendeu. O método Ohno - a diferença do taylorista -, ao
Ninguém duvida também não que a mutação organizar o trabalho desde a demanda para a oferta, per-
capitalista em curso está na origem de um “giro mite que possa ser conseguido novos aumentos de produ-
civilizacional” (ARCE; FERRO, 2000) no qual emergem a tividade (do trabalho vivo e do capital), por procedimen-
Cibereconomia e o Ciberespaço, se instaura a Sociedade tos que eliminam tanto os tempos mortos como os gestos
da Informação e se forja a do Conhecimento. Alterações inúteis dos trabalhadores. Isso se conhece popularmente
profundas e revolucionárias da relação do homem com como o método dos cinco zeros: a empresa reduz ou elimi-
a natureza e a vida; novas teorias e explicações sobre na o estoque (primeiro zero); reduz ou elimina os defeitos
a natureza da matéria e da energia; aprofundamento na produção dos bens (segundo zero); reduz ou elimina as
16 e crítica das leis de Newton; questionamento dos prováveis avarias dos bens (terceiro zero); reduz ou elimi-
A economia mundial no século XXI

na a burocracia própria ao sistema compartimentado entre na metalúrgica); na indústria química, farmacêutica,


os diferentes serviços de uma empresa taylorista (quarto eletrônica, na biologia, na medicina, a “ciência
zero); finalmente a entrega do produto ao consumidor em orientada para o mercado” é o verdadeiro motor do
tempo real (quinto zero). O método Ohno materializa-se desenvolvimento industrial e do sucesso das empresas.
nos chamados círculos de qualidade dos trabalhadores, o A ciência e a produção do conhecimento são ao mesmo
que implica a polivalência e a flexibilidade dos mesmos, tempo bem de uso intermediário e bem de uso final em
no processo de trabalho. Em consequência, a diferença do praticamente todos os processos produtivos.
taylorismo, o ohnismo reintroduz a inteligência e a criati- A simbiose entre Ciência e Produção funda o que
vidade do operário na produção dos bens. Karpik denominou o “capitalismo tecnológico”. Nele,
A progressiva e exitosa introdução do ohnismo a renovação rápida e permanente dos produtos exigem
nos mais variados processos produtivos (desde o fast que a investigação científica esteja integrada aos sistemas
food, Mc Donald’s, à produção do conhecimento e do produtivos; a produção do saber é parte constitutiva
saber) não implicou o desaparecimento do método tay- da estratégia industrial. Nela prevalecem os novos
lorista de produção. A generalização do método Ohno produtos sobre os processos e métodos de produção; e a
exige um aprofundamento do método taylorista da divi- concorrência oligopólica se centra na produção de novos
são do trabalho. Este método se aplicará não só nos pro- conhecimentos, isso é, na inovação tecnológica (KARPIK,
cessos industriais, senão agora, sócio ao método Ohno, o 1996). Em consequência, “o capitalismo tecnológico”
taylorismo ingressará na esfera imaterial da produção - o define-se por sua capacidade de transformar as invenções
escritório administrativo, o laboratório de investigação em bens econômicos, capacidade aplicável à conquista
científica, nos sistemas de saúde, o ensino, os meios de do espaço, ao armamento, à construção de cidades, à
comunicação, a produção de conteúdos audiovisuais e de biologia, etc. A inovação transforma e renova ao capital e
multimídia -29. Essa transformação na matriz produtiva é à força de trabalho para a imaterialidade e a mobilidade;
um dos principais indicadores da mutação do capitalismo o capital, como o conhecimento e a produção, já não tem
e da mudança de civilização próprio da economia mun- expressão tangível e estável. É por isso, que para Karpik:
dial e do sistema internacional do Século XXI. “o capitalismo tecnológico é, ao mesmo tempo, um
Em 1972, o sociólogo e físico Lucien Karpik modo de produção de bens econômicos e uma forma de
publicou em Sociologie du Travail (KARPIK, 1996) organização da produção científica” (KARPIK, 1996).

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um trabalho intitulado “o capitalismo tecnológico”. Karpik traçou as grandes tendências que o capitalis-
Segundo Karpik, nas primeiras fases do desenvolvimento mo cumpriu nos últimos 50 anos: notável avanço científico
capitalista (mercantilismo, manufaturas) há um e técnico conduzido pelas macrocorporações, sua introdu-
dualismo, um divórcio, entre produção de mercadorias ção e utilização em todos os domínios da vida individual e
e produção do conhecimento. Nesse dualismo, o gênio, o coletiva, modernização de produtos “antigos” e criação de
criador, o pesquisador, o artista considera que sua missão novas mercadorias; presença e concorrência mundial dos
é a de desentranhar as leis da natureza e da matéria; grandes monopólios. Em soma, o capitalismo tecnológico
Karpik chama essa instância de “ciência da descoberta”. nos termos de Karpik ou o capitalismo da informação se-
Na segunda metade do século XIX, ao impulso do gundo Manuel Castells (CASTELLS, 1996) produz o que
desenvolvimento industrial, esse dualismo tende a Michel Beaud chama “a Mercadoria Complexa”: nem so-
desaparecer. A Produção do saber começa a associar à zinho produto material (como um martelo, uma máquina
Indústria, e nasce o que ele chama a “ciência produtora de escrever, um auto ou um PC) útil per se, nem simples
do conhecimento orientada para o mercado”. “serviço” (uma consulta a um médico, a um arquiteto, ou
Por volta de 1970, uma parte importante da a um eletricista); a mercadoria complexa é, portanto, uma
produção industrial segue dominada pela “ciência da combinação de produtos materiais e imateriais, sócios e
descoberta” (no setor energético, no automobilístico, incorporados em um sistema técnico que lhe impõe sua
estrutura, sua lógica e suas normas (BEAUD, 1997, p.196).
A produção do conhecimento e seu controle têm dado
29
Sobre estas transformações pode ser lido, entre outros auto- lugar à emergência de um grupo social denominado “tec-
res, a RIFKIN, 2000 (versão em espanhol, editorial Paidós).
nociência”. O termo quer expressar a ideia segundo a qual 17
DUVAL, 1998.
Gustavo Arce

as múltiplas formas dos diversos trabalhos científicos são É por meio das redes que se expandem
concebidas e desenvolvidas sob o impulso de poderosas vertiginosamente o comércio e os negócios eletrônicos,
empresas oligopólicas, quem dispõe, em exclusividade, de sendo esses últimos o segmento mais visível da
produtos ou de métodos e/ou técnicas de produção. cibereconomia.
A produção em fluxos revoluciona a organização
III. A Economia da Informação. da oferta e da empresa. Permite produzir em tempo real
A. A produção em fluxos. para uma demanda extremamente volátil e personalizada;
O ato de produzir uma mercadoria é pensado aumenta a produtividade, sobretudo a do trabalho vivo,
e organizado como um rio, ao qual se somam em um por uma redução quase absoluta de seu desperdício.
determinado momento os diferentes serviços de uma Ademais, a produção em fluxos está na origem da
empresa, ou as diferentes empresas que coparticipam eliminação ou redução dos estoques (o que implica ipso
numa corrente de Empresas. Os tempos mortos inerentes facto aumento ou melhoria da rentabilidade financeira de
ao taylorismo, primeira versão (DUVAL, 1998), reduzem- uma empresa), e sobretudo, também reduz ou elimina o
se ou eliminam-se pela posta em marcha de uma unidade consumo de capital fixo, o que faz que a empresa utilize só
polivalente e flexível que produz e vende “just in time”, os variáveis. Analisando o comportamento dos grandes
por meio das redes interativas (Internet-Intranet) e “on- oligopólios da tríade nos últimos vinte anos, G. Duval
line” (e-commerce, e-business). A clássica corrente linear conseguiu demonstrar que mediante o investimento
de produção substitui-se por uma circular, que conectada imaterial essas macrocorporações conseguiram e
a outras, juntas tecem uma densa rede de operadores conseguem aumentar a produtividade e desenvolver
econômicos que funcionam no ciberespaço. procedimentos de produção em fluxos simultaneamente
Esquema 3 de diminuir a intensidade capitalística de suas empresas.
CORRENTE LINEAR No mesmo sentido, J. Rifkin observa que o capitalismo
estadunidense já se encontra em forte processo de
desmaterialização, de eliminação dos estoques e do capital
fixo: “[...] O mundo das empresas está já envolvido nessa
transição da era da propriedade à idade do acesso. As
Fonte: Sun Netscape Alliance. Citado por LYNCH, Horacio e DEVOTO,
Mauricio: Argentina Digital: Informe CENIT, Novembro 1999, Argentina, p. empresas vendem seu patrimônio imobiliário, reduzem
4-5, Esquema # 4.4.
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seus estoques, alugam suas equipes, numa carreira para


Esquema 4 sobreviver que passa pela eliminação de seu patrimônio
material” (RIFKIN, 2000, p. 11).
A EMPRESA EM REDE
A mudança na estrutura dos custos e ademais a
importância crescente e decisiva dos ativos imateriais,
o saber (como variável chave do sucesso produtivo-
empresarial), estão deslocando paulatinamente a
essencialidade de dispor em propriedade os recursos
físicos de uma empresa para poder produzir uma
mercadoria na Cibereconomia. A transformação do
conhecimento em mercadoria, o saber integrado e parte
constitutiva da produção, e a independência crescente
dos direitos de propriedade física sobre os bens que
se trocam no mercado são alguns dos fundamentos
que diferenciam a Cibereconomia, a “nova” da “velha”
economia que caracterizou as anteriores fases do
capitalismo manufatureiro e industrial.
Fonte: Sun Netscape Alliance. Citado por LYNCH, Horacio e DEVOTO,
Mauricio: Argentina Digital: Informe CENIT, Novembro 1999, Argentina, p.
4-5, Esquema # 4.5. B. O controle e a circulação da Informação.
18 O controle e a circulação da informação são
A economia mundial no século XXI

variáveis chaves da Cibereconomia e são também finais agrupam-se em rede e ligam-se ao “Novo Mundo”.
indicador relevante do salto qualitativo e da expansão
física e temporária do capitalismo. C. O investimento imaterial e os ativos imateriais.
Nas suas fases anteriores de agregado, sobretudo Na Cibereconomia, a produção continua exigindo
desde a primeira revolução industrial, o capitalismo e combinando capital e trabalho. Mas de mais em mais,
funcionou de acordo com os princípios da divisão do sob diferentes modalidades precisa-se incorporar
trabalho descrita por Turgot (ARCE, 1999) e por A. conhecimento e saber.
Smith no seu famoso exemplo da fábrica de alferes. Ali, o Na Cibereconomia, a concorrência guiada
agrupamento dos recursos - capital, trabalho, terra - em pela constante inovação se expressa pela renovação
um lugar geográfico preciso e restringido era a conditio permanente e diferenciada de produtos, pela qualidade da
sine qua non, para que a Informação circulasse entre os mensagem publicitária, pelo prestígio ou pela reputação
trabalhadores, os capatazes, os engenheiros, etc. do produto que se oferece, pelo grau de participação do
Na Cibereconomia, o capitalismo processa nova mesmo numa determinada corrente de valor agregado,
divisão do trabalho. O processo de produção pode pela antecipação das preferências do consumidor, etc. Se
fracionar-se e desligar-se geograficamente à escala a empresa não sabe como acessar a uma rede, não possui
mundial. Graças à Informática e às telecomunicações, departamento jurídico e contável, não conhece o marco
os fluxos de Informação que circulam nos diferentes regulamentar e as normas técnicas de comercialização
territórios (que fazem parte da economia mundial), de seu produto, não conhece com precisão as tendências
alimentando um ou vários processos produtivos, de seu mercado, não tem departamento de publicidade,
são controlados univocamente por um produtor ou não sabe organizar e aperfeiçoar sua produção, a empresa
mutuário. Na Cibereconomia o espaço não tem um deverá pagar a outra empresa que lhe venda o acesso a
equivalente físico, a informação circula nas e pelas redes uma rede; a outra, o devido assessoramento jurídico e
eletronicamente conectadas. contável; a outra, a informação e o assessoramento das
Em “O ciberespaço”, em que decorre a normas técnicas; a outra, o marketing; a outra, o serviço
Cibereconomia, Manuel Castells identificou 5 tipos de publicitário; e...; a outra, o saber de como produzir.
redes: A compra de todos esses conhecimentos e ideias
1. As redes de cooperação tecnológica: algumas faz parte do investimento imaterial. Na Cibereconomia,

Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014


grandes empresas compartilham recursos para produzir o patrimônio material de uma empresa será,
conhecimento e técnicas no campo da investigação e o paulatinamente, anotado na coluna de sua passiva como
desenvolvimento para novos produtos; um custo mais de funcionamento, enquanto as formas
2. As redes de coalizão: construídas por um grupo imateriais do capital - o saber - se registram no seu ativo.
de empresas de um mesmo ramo de atividade que se
associam para unificar as novas técnicas definidas por IV. A Matriz produtiva do capitalismo da informa-
uma empresa líder; ção: a relação social de serviço
3. As redes de produtores: constituídas por aquelas No capitalismo da informação e na sociedade
empresas que compartilham seus lugares de produção, do conhecimento, as mutações na estrutura produtiva
seus recursos financeiros e humanos para conservar e/ou herdada da primeira e segunda revolução industrial
conquistar mercados e impor seus produtos, abaratando (taylorismo e suas diferentes versões) se plasmam em
seus respectivos custos; uma nova matriz (Ohno-taylorista) que, por sua vez,
4. As redes de mutuários: as empresas tecem uma cobra realidade técnica, econômica e social, em uma nova
densa rede na qual, por meio da subcontratação, leasing, relação social de produção: a relação social de serviço.
franchising, descentraliza e mudam atividades do ciclo É uma relação social de produção que vincula
produtivo, desde a concepção de um produto, passando três atores: um demandante/consumidor/usuário (B)
por sua fabricação e finalmente sua venda; contrata os serviços de um ofertante (oferente)/mutuário
5. As redes de clientes: os revendedores, os (prestatario) (A), para realizar a transformação de uma
concessionários, os publicitários, as agências e consultores realidade/objeto (C), em seu benefício.
de análises de mercado e as associações de consumidores 19
Gustavo Arce

Esquema 5 Efetivamente, desde Aristóteles e Platão, o funda-


RELAÇÃO SOCIAL DE SERVIÇO
mento do oikonomos é explicar o intercâmbio dos direitos
de propriedade que sobre os bens detém as pessoas que
coincidem ao mercado para satisfazer assim suas neces-
sidades (do ut dês). Sobre esse princípio do intercâmbio
no mercado dos direitos de propriedade, o capitalismo
edificou a economia e a política do mundo moderno. O
rendimento do saber ao reino da mercadoria e ao mercado
é uma primeira manifestação da mudança qualitativa e do
Fonte: Gadrey, Jean: L’économie des services. Ed. La Découverte, Collection giro civilizacional que implica o surgimento da Sociedade
REPÈRES, Paris, França, 1996, p. 19
da Informação. Para os Enciclopedistas, o ato de saber e de
conhecer era um direito inerente à condição humana, ina-
Independentemente da escala que se analise - lienável e imprescritível, como a vida e a liberdade. Thomas
micro/ macro, local/ nacional/ internacional -, ou do setor Jefferson definiu com precisão: “[...] Se na natureza existe
de atividade estudado - material (agrícola, industrial), algo menos susceptível que qualquer outra coisa de ser ob-
imaterial (segurança, defesa, limpeza, justiça, ensino, jeto de propriedade exclusiva, é a ação do poder pensante
saúde, multimídia, etc.) -, a relação social de serviço chamado ideia [...]. Ninguém tem menos que os demais,
reorganiza a clássica relação bilateral e contratual de porque os demais têm todo Quem recebe uma ideia prove-
intercâmbio no mercado, forjada pelos pensadores gregos niente de mim, se instrui sem diminuir minha ideia, igual
e retomada pelos clássicos da economia política dos que quem acende sua a vai da minha recebe luz sem deixar
séculos XVIII e XIX. A trilateralidade, própria da relação em as trevas [...]” (THE ECONOMIST, 2000, p. 7).
social de serviço, volta a dividir e a modificar as bases No capitalismo da informação e na sociedade do
organizacionais dos processos de produção, afetando tanto conhecimento, o saber continua sendo um direito ine-
às relações entre empresas: subcontratação/terceirização/ rente às pessoas, mas também é um bem econômico ou
flexibilização, como entre empresas com trabalhadores: mercadoria e, contrariamente ao assinalado por Thomas
subcontratação/terceirização/flexibilização30. Jefferson e os enciclopedistas, o saber não é um bem co-
A instauração de uma nova matriz produtiva e/ou letivo puro: o conhecimento só se aluga e seu uso se cede
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estabelecimento da relação social de serviço expressam por um período de tempo preciso e em condições severa-
claramente o rendimento e a reprodução do capitalismo, mente regulamentadas pelo Instituto da propriedade in-
sob as regras próprias do oikonomos da informação. telectual. Mediante o pagamento de preço, um produtor/
A mutação na forma mesma de produzir a mutuário de um saber, ou informação qualquer, permite
mercadoria complexa (BEAUD, 1997, p. 196) manifesta- a um demandante/usuário o rendimento a uma rede (ci-
se claramente (ao menos) por quatro razões: a) a produção berespaço), e, portanto, acessar ao usufruto desse saber
em fluxos; b) a produção/ controle da informação ou informação.
(produzir o conhecimento); c) o investimento imaterial e Continuando os esforços de F. Braudel e I.
os ativos imateriais (I+D); d) a constituição de densas redes Wallerstein, F. Perroux, K. Polanyi, M. Beaud, R. Bonnaud,
eletrônicas (ciberespaço), em que circula a informação e Thurrow, entre outros, J. Rifkin em seu trabalho L’ÂGE
nas quais os usuários acedem em tempo determinado e DE L’ACCÈS. La révolution de la nouvelle économie.
mediante o pagamento de preço, fundamentalmente, por Ed. La Découverte. Paris. França. 2000 (do qual há uma
meio de contratos de adesão. versão em espanhol, editorial Paidós) busca compreender
e explicar o que o capitalismo da informação tem de
V. O comércio do conhecimento: a propriedade in- “novo” e diferente com o “velho” e industrial. A grande
telectual diferença consiste em que a categoria de mercado está
sendo progressivamente substituída pela de rede, e a
categoria de intercâmbio (dos direitos de propriedade
30
Exemplo das mutações próprias à relação social de serviço e física sobre os bens) pela de poder ou não acessar ao
seu impacto sobre as relações trabalhistas, para o caso uru-
20 usufruto temporário da mercadoria complexa aos bens
guaio ver ROSEMBAUM e CASTELLO, 2007.
A economia mundial no século XXI

“Por um estranho paradoxo da história, o distribuição, circulação e consumo do saber e do


sistema capitalista que funcionava sobre a expansão dos conhecimento. Num primeiro esforço analítico, o objeto
mercados e o intercâmbio dos direitos de propriedade de estudo da economia do conhecimento é a análise do
entre compradores e vendedores, está atualmente em processo pelo qual, transformam-se em mercadorias
processo de desconstrução sistemática de seus princípios as invenções, as inovações, a criação intelectual, o
e de suas instituições fundamentais. O capitalismo conhecer e o saber. Nos novos manuais em que se
está reinventando-se e abandona progressivamente ensinam administração e gerenciamento de empresas,
a tradicional economia de mercado em benefício da já se substituiu a clássica definição de empresa enquanto
economia em rede. [...] Não esqueçamos que numa instituição em que combinando recursos escassos se
economia em rede, a propriedade continua existindo, produzem bens econômicos (também úteis e escassos),
mas se troca a cada vez menos. Aos compradores e pela de: “[...] centro de inovação, entendendo por
vendedores substituem-lhes os mutuários e os usuários. inovação o processo de transformação do conhecimento
[...] Numa economia em rede a substituição da lógica em riqueza [...]”.
do acesso à da aquisição concerna todas as formas da Ab initio, convém recordar que a economia do
propriedade. No entanto, insistimos sobre o fato de conhecimento e do saber se referem ao imaterial. Desde
que o patrimônio material tangível é a cada vez menos a Antiguidade, na Idade Média, e fundamentalmente
importante para o exercício efetivo do poder, enquanto as com os pais fundadores da economia (De Montchrestien,
propriedades imateriais são o coração da idade do acesso. Quesnay, Turgot, Smith, Ricardo, Malthus, Stuart Mill,
São as ideias, sob forma de brevês, marcas registradas, Say, Marx), o imaterial definiu-se como atividade nobre
direitos de reprodução, segredos de fabricação e redes e necessária, mas oposta ao “material” e ao “produtivo”,
de relações que permitem de definir uma nova forma de isso é àquelas coisas úteis e necessárias para a vida, fonte e
poder econômico, o dos super mutuários que controlam símbolo da riqueza. O estudo dessas riquezas era objeto de
vastas redes de usuários. Essas redes de mutuários estudo da Economia. Exceto para De Boisguilbert, Saint-
usuários favorecem a concentração de poder nas mãos Simon, Bastiat, Colson, Walras, o imaterial é sinónimo de
de um reduzido número de organizações. [...] Desde o improdutivo e impossível de tomar quantitativamente.
momento em que eles controlam as ideias finques que Dito de outro modo, para a teoria econômica e os
regulam a atividade econômica [...], estes super mutuários partidários dos enfoques quantitativos o imaterial era (e

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beneficiam-se de uma vantagem sem precedente na é?) um “problema”.
história da economia. As empresas que conseguem se É a partir dos anos 1930, quando o imaterial
assegurar o monopólio das ideias em algum setor de se associa às atividades do setor “terciário”, que seu
atividade [...] obrigarão a seus clientes a depender de seus estudo acede às preocupações teóricas e analíticas dos
estoques de ideias para poder sobreviver” (RIFKIN, 2000, pesquisadores e de outros profissionais da Economia
p. 78-79) na Cibereconomia. e da Política. A fulgurante ascensão das produções
Na nova economia, o intercâmbio de bens en- imateriais e dos bens intangíveis a partir dos anos
tre vendedores e compradores é substituído por 50, em todas as sociedades e economias do planeta,
um sistema de acesso em curto prazo que ope-
ra entre mutuários e usuários organizados em começou a ser analisado sob o ângulo dos “serviços”
redes. Na nova economia em rede, ao invés de (do Latim, Servitium: escravatura, servidão); esse termo
trocar bens, as empresas controlam e regulam o
compreende atividades tão diversas como é o caso
acesso (RIFKIN, 2000, p. 11).
dos serviços pessoais, financeiros, culturais, turísticos,
O bilhete à economia da informação e à sociedade comerciais, transporte, sistemas de saúde, segurança
do conhecimento engendra também desafios teóricos e pública e nacional, a educação, etc. Com os trabalhos de
práticos sobre os fundamentos da riqueza, a natureza dos Colin Clark (1941), J. Forestier (1949), V. Fuchus (1968),
preços e o próprio objeto de estudo da economia política. D. Bell (1974), J, Singelman (1974), A. Tofler (1990),
Efetivamente, como para outras disciplinas A. De Toledo (1993 e 2000), A. Goldfinger (1994), J.
(o direito, a engenharia, a biologia, a matemática, a Gadrey (1994, 1996 e 2000), L. Bensahel (1997) e J. Rifkin
estatística, etc.) o “oikonomos” deverá explicar agora as (2000) é que o imaterial se volta produtivo e gerador de
leis da casa que governam o funcionamento da produção, 21
Gustavo Arce

riqueza. Um novo campo de análise para a economia31. como no âmbito das capacidades científicas (pesquisadores
Uma nova oportunidade para renovar e/ou criar novas a tempo completo, quantidade de estudantes de nível
categorias e instrumentos analíticos que permitam superior, quantidade de doutores, a produção tecnológica
sondar as leis do Oikonomos da sociedade da informação. medida em quantidade de patentes e de publicações
Quanto aos profissionais aplicados a tomar a realidade científicas)32.
quantitativamente, alguns já se lançaram à difícil tarefa Em 2010, no que diz respeito à criação do conhe-
de tomar e medir o invisível e intangível. cimento, o 95% da despesa mundial em I+D concentra-se
em três grandes regiões: América do Norte (36,2%), Ásia
VI. A Divisão Internacional do trabalho do capitalis- (31,2%) e Europa (27,3%). O restante 5% distribui-se pe-
mo da informação: a vantagem do conhecimen- las outras regiões, o que confirma que na economia da
to e a ordem tecnológica mundial no século XXI informação a produção do conhecimento é altamente
No capitalismo da informação, a Riqueza - seja ela concentrada e oligopólica, mais ainda que qualquer outra
considerada a nível micro ou macro - consiste na trans- magnitude socioeconômica que se desprende dos clássi-
formação de toda ideia, saber, ou conhecimento - indus- cos indicadores herdados da economia keynesiana pre-
trial ou artístico - num bem econômico ou numa merca- sentes nas contas nacionais.
doria intercambiável no mercado ou com possibilidades Por sua vez, no nível dos Estados, o 56% da des-
de acessar a ela no ciberespaço. pesa mundial em I+D concentra-se em três deles: Os Es-
Os indicadores mais comumente utilizados para tados Unidos (33,5%), Japão (13,3) e China (9,2%). Os
medir a capacidade criativa das energias do pensamento Estados com maior intensidade em I+D são aqueles que
humano são: atingem e superam o 3% de seu PIB.
Para a criação de conhecimento, as despesas em
investigação e desenvolvimento (I+D) como parte da
totalidade dos bens de uso final produzidos em setor
de atividade específico, ou na totalidade de um sistema
econômico (PIB); e/ou a quantidade de pesquisadores
em I+D para cada milhão de pessoas, e/ou a quantidade 32
Uma das fontes mais exaustivas do ponto de vista estatísti-
de patentes outorgadas a residentes sobre cada milhão de co, sobre o tema que nos ocupa, é a que produz e publica a
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pessoas, e/ou a arrecadação por conceito de royalties e Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE), consagrada à apresentação e a análise dos Princi-
direitos de exploração por habitante. pais Indicadores da Ciência e da Tecnologia. Para o presente
Para a difusão de conhecimento, os indicadores trabalho, temos utilizado o Relatório do Observatoire des
mais frequentemente utilizados são aqueles que medem Sciences et des Techniques (OST). O mesmo, não só recolhe
os dados da OCDE, senão também os dos outros 16 mem-
o uso e o usufruto de um bem econômico ou de uma bros do observatório, ministérios, institutos de investigação,
mercadoria, fruto da inovação científica e técnica por universidades, grandes escolas, tanto franceses como euro-
peus.
um número a cada vez maior de usuários (pessoas físicas A amostra do Relatório OST compreende 30 Estados mem-
ou jurídicas, públicas ou privadas, mistas, etc.) como, bros da OCDE mais a chamada OCDE “plus”, isso é, aqueles
por exemplo, a quantidade de telefones celulares, ou de Estados que no campo do I+D têm sido associados aos 30
membros da OCDE. Portanto, a análise sobre o poder tec-
produtos informáticos, ou de usuários de internet pela nológico atual realiza-se a partir desse grupo de Estados
cada mil pessoas. que representam 14% da população mundial, mas que con-
centram quase ¾ do rendimento bruto mundial, o 84% do
A principal característica da produção da ciência
comércio mundial e o 60% do consumo mundial de ener-
e da tecnologia é sua alta concentração oligopólica, que é gia. Não se deve esquecer de que a economia do saber com-
verificável tanto por região geográfica, grandes setores da preende também as produções do espírito humano, ou seja,
todas aquelas que são do domínio do direito de autor, re-
atividade econômica, seu financiamento (principalmente cursos e rendimentos que não são contabilizados nas contas
privado e com fins civis, na União Europeia e Japão, da OCDE, nem no relatório do OST. Por outra parte, ambas
as fontes de dados se concentram nas chamadas disciplinas
enquanto o destino militar prima nos Estados Unidos),
duras: biologia, investigação médica fundamental, biologia
aplicada, química, física, ciências do universo, ciência para a
engenharia e matemáticas. Os dados mencionados nesse tra-
balho são tomados do relatório do Observatoire des Sciences
22 31
Ver bibliografia. et des Techniques. Ed. ECONOMICA, Paris, França, 2010.
A economia mundial no século XXI

Quadro 12 capitalismo da informação, Brasil, Rússia, Índia, China,


DESPESAS EM I+D: DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL E África do Sul e México – BRICSAM - constituem um
INTENSIDADE – 2007
grupo de economias e sociedades extremamente visíveis
Distribuição Intensidade em I+D
mundial (em %) (% em seu PIB) desde todo ponto de vista. Suas elites governamentais
1. EUA 33,5 1. Israel 4,76 aspiram a que seus Estados e economias ingressem ao
2. Japão 13,3 2. Suécia 3,61 privilegiado e oligopólico grupo de regiões e estados
3. China 9,3 3. Finlândia 3,47
4. Alemanha 6,4 4. Japão 3,44 dominantes nessa fase da economia mundial.
5. França 3,8 5. Coreia do Sul 3,21 Nesse grupo heterogêneo, o capitalismo chinês
6. Coreia do Sul 3,7 6. EUA 2,66 sobressai-se nitidamente em termos de indicadores
7. Reino Unido 3,5 7. Taiwan 2,62
8. Índia 2,2 8. Dinamarca 2,55
da economia da informação. É o único dos BRICSAM
9. Rússia 2,1 9. Áustria 2,54 que tem progredido notavelmente nas últimas décadas
10. Itália 1,9 10. Alemanha 2,53 e se acerca aos Estados Unidos e à Europa em todos os
Fonte: com dados de OST 2010. Tableau 3-2-1-1, Ed. ECONOMICA, Paris,
França, 2010, p. 385 indicadores que medem a criação do conhecimento:
É o terceiro estado, depois dos Estados Unidos
O financiamento do I+D a nível mundial é (34%) e do Japão (13,3%), em investimento em I+D sobre
fundamentalmente realizado pelo setor privado (63%), o total mundial;
setor que é também quem executa 69% da I+D. No Possui uma quantidade de pesquisadores similar à
relativo às concorrências científicas e técnicas - os dos Estados Unidos, e ademais, detém 43% dos estudantes
recursos humanos -, em 2007 tinha 151 milhões de sobre o total mundial;
estudantes no mundo: 42,9% na Ásia, 24,3% na Europa, Entre 2003 e 2008, a participação de suas
9,9% na América do Norte e 4,6% na América Central publicações científicas aumentou em 93%;
e do Sul, e África. Se considerar-se a quantidade de Em 2008, o escritório de patentes dos Estados
estudantes em relação à População Economicamente Unidos outorgou mais duas vezes patentes a inventos de
Ativa (PEA), os Estados Unidos possuem razão quase pesquisadores chineses (31%) que aos de pesquisadores
três vezes maior que a China e a Índia (11,5 contra 3,3 e europeus (16%)33.
3,2 respectivamente).
Assim mesmo em 2007, os pesquisadores a Quadro 13

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tempo completo eram 6,6 milhões no mundo: 40,6% na OS BRICSAM
Ásia, 30,4% na Europa e 24,3% na América do Norte. % nas Despesas % nas
internas em Publicações
Relacionados com a PEA a razão é mais alta na América I+D totais Científicas totais
do Norte (7,42 por mil ativos) do que na Europa (5,86 por 1. China 9,35 1. China 8,78
mil ativos) e do que na Ásia (1,89 por mil ativos). 2. Índia 2,26 2. Índia 2,85
3. Rússia 2,15 3. Rússia 2,02
Nesse mesmo ano, em relação à produção 4. Brasil 1,58 4. Brasil 1,92
tecnológica medida por patentes de invenção, 98% 5. México 0,51 5. México 0,61
das registradas no sistema americano de patentes 6. África 6. África do
0,37 0,36
do Sul Sul
repartem-se em três regiões: América do Norte Fonte: Relatório OST 2010, Ed. ECONOMICA, Paris, França, 2010, p. 369
(52,4%), Ásia (30,7%) e Europa (15,1%). Por sua vez,
o 97% das patentes registradas no sistema europeu A ascensão do capitalismo chinês na economia
de patentes repartem-se em: Europa (45,6%), Estados da informação deve seguir sendo analisada com atenção.
Unidos (28,4%) e Ásia (23%). Em primeiro lugar, como assinalam Michel Aglietta e
Finalmente, também em 2007, quanto à produção Françoise Lemoine (AGLIETTA; LEMOINE, 2010, p.
científica e técnica medida pelas publicações científicas, 32), a vertiginosa inserção internacional da China, nas
90% das publicações mundiais têm seus principais três últimas décadas, se baseou fundamentalmente em
mercados na: Europa (38,6%), América do Norte (28,4%) abertura aos investimentos estrangeiros “para prender”
e Ásia (24,3%).
No que se refere aos capitalismos que ascendem
na hierarquia da economia mundial, nessa fase do 23
33
Segundo relatório do OST 2010. p. 7
Gustavo Arce

a tecnologia ínsita nelas, e em custo salarial próximo à e parte de Ásia). No polo periférico e com escasso desenvol-
noção da vantagem absoluta de Adam Smith. No entanto, vimento tecnológico, coabitam e competem América Lati-
Aglietta e Lemoine, realizando uma análise mais fina dos na, Oriente Médio, Austrália/Nova Zelândia e África.
componentes do valor agregado das exportações chinesas, Enquanto o capitalismo estadunidense aparece es-
põem em evidência a reduzida inovação contribuída pecializado liderando os domínios tecnológicos referidos
pelos pesquisadores chineses, quem ademais trabalham ao complexo biotecnológico-fármaco, à eletrônica e à ele-
e produzem em laboratórios das EMGs ocidentais, tricidade; o europeu o é na produção e comércio dos bens
relocadas e organizadas segundo a lógica da relação social finais de consumo, na construção e nas obras públicas; o
de serviço. Em segundo lugar, e na mesma ordem de capitalismo asiáticos aparece em todos os domínios tec-
ideias, o trabalho de Jean-Raphaël Chaponnière e Marc nológicos, em terceira posição.
Lautier demonstra que no circuito integrado de produção Nessa interpretação sobre a divisão internacional do
industrial na Ásia, a produção não só se organiza de trabalho própria do capitalismo da informação, os capitalis-
acordo com a lógica de relação social de serviço, senão mos do Norte têm ainda vantagens consideráveis sobre o polo
também a parte do valor agregado, fruto da inovação asiático e o resto do mundo em termos de produção de co-
produzida pelos pesquisadores chineses, é relativamente nhecimento. Em consequência, assentam sua especialização
fraca. Finalmente, os relatórios do Observatoire des internacional em dita vantagem dinâmica e têm deslocado ao
Sciences et des Techniques (OST) relativizam a ascensão Sul as produções da primeira e segunda revolução industrial
do capitalismo chinês na economia da informação, que têm nos recursos naturais, nas produções primárias e em
quando se observam o índice de densidade tecnológica34, algumas manufaturas que exigem escassos insumos tecnoló-
o índice de especialização35 e o índice de impacto36. gicos suas vantagens comparativas segundo a clássica teoria
Em conclusão, a produção genuína de conhecimento ricardiana simbolizada no paradigmático exemplo do inter-
produzido pelo capitalismo chinês é ainda débil em frente câmbio de Portugal e Inglaterra.
ao estadunidense e ao de alguns europeus. Dita interpretação sobre essa divisão internacional do
Como surge claramente desses indicadores, na trabalho e especialização produtiva comercial encontra-se,
economia da informação, as desigualdades de todo tipo também, no trabalho de Chaponnière e Lautier quem, ana-
e natureza seguem caracterizando as relações entre as lisando a evolução do comércio mundial entre 1967 e 2010,
regiões, os estados, as nações e outros atores das relações observam que o Sul aumentou sua participação de 10% no
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econômicas internacionais. comércio mundial em 1967, a 30% em 2010. Desagregando


Na economia da informação e na sociedade do co- os fluxos comerciais segundo a natureza dos produtos, o co-
nhecimento, o saber aparece altamente oligopolizado pela mércio Sul-Sul é fundamentalmente de produtos primários,
tétrade dominante (Estados Unidos, Japão, União Europeia agrícolas e minerais, isso é, aqueles que consomem pouca
I+D, enquanto o comércio Norte-Norte, e em menor medida
o Norte-Sul, realiza-se sobre produtos “sofisticados”, ou seja,
34
O índice de densidade tecnológica mede a relação entre a
aqueles que consomem mais I+D como fruto da inovação e
quantidade de patentes registradas em um estado e sua po- da produção do saber científico e técnico.
pulação economicamente ativa. Ver Annexe B. Notes mé-
thodologiques. Relatório do Observatoire des Sciences et des Gráfico 3
Techniques (OST). Ed. por Ed. Económica, Paris, França.
2008, p. 514-538; também, Annexe méthodologique. Relató- NORTE E SUL NO COMÉRCIO
MUNDIAL DE BENS, 1967-2010 (em %)
rio do OST 2010, op. cit. pp. 489-588.
35
O índice de especialização mede a participação de um país
e domínio tecnológico específico dividida pela participação
desse mesmo país em todos os domínios tecnológicos. Ver
Annexe B. Notes méthodologiques. Relatório do OST 2008,
op. cit. pp. 514-538; também, Annexe méthodologique. Re-
latório do OST 2010, op. cit. pp. 489-588.
36
O índice de impacto define-se como a quantidade de cita-
ções bibliográficas de um texto em determinado domínio
tecnológico sobre a quantidade total de publicações desse
domínio. Ver Annexe B. Notes méthodologiques. Relatório
do OST 2008. op. cit. pp. 514-538; também, Annexe métho-
24
dologique. Relatório do OST 2010, op. cit. pp. 489-588.
A economia mundial no século XXI

Fonte: L’économie Mondiale 2013. Ed. La Découverte Collection REPÈRES, Fonte: World Economic Database. 2010. Em: Raisson, Virginie: Atlas des Futurs
Paris, França, 2012, p. 93 du Monde. Ed. Robert LAFFONT, Paris, França, 2010, p. 22- 23

VII. As negociações sobre as reconfigurações dos O atual processo de transferência de poder desde
centros de poder: para a pax senão-estaduni- o Ocidente para Ásia consolida uma nova bipolaridade
dense? geoeconômica na cúspide do novo epicentro da economia
Nessa quarta fase de sua evolução histórica, mundial, o que deve ser analisado tendo em conta ao
a economia mundial e as relações internacionais menos três grandes temas, de cuja negociação e resolução
expressarão o equilíbrio de poder e a ordem mundial que dependerão não só a divisão de papéis entre os dois
consigam negociar e estabelecer nas próximas décadas o polos, senão também a morfologia do mapa geopolítico
polo ocidental - liderado por Estados Unidos e a União próprio da economia da informação e da sociedade do
Europeia - e o oriental -, representado fundamentalmente conhecimento.
pela China e em menor medida pela Índia -. Esses temas são: a) a consolidação ou não da divisão
Para a metade do presente século, esses dois internacional tecnológica que forjam os Estados e as
grandes polos se repartirão quase por metades o PIB EMGs líderes na produção e comércio do conhecimento;
mundial, e os capitalismos asiáticos concentrarão um b) a negociação sobre o volumoso endividamento
pouco mais das 2/3 partes da população mundial. mundial e soberano que afeta desigualmente a quase
todos os Estados do planeta; c) os termos e as condições
Quadro 14 que os Estados líderes e as poderosas EMGs conseguem
PROJEÇÕES DO PRODUTO BRUTO MUNDIAL (2025-2050) em % ou não lembrar em protocolo internacional, que os
2025 2050 vincule a um sistema de regras e normas sobre suas
EUA 27 China 28 desiguais responsabilidades no aquecimento global e
52% 45%
União Europeia 25 Índia 17
na mudança climática do planeta. Vejamos brevemente
China 15 EUA 26
20% 41%
Índia 5 União Europeia 15 cada um deles no jogo que implica a busca de um novo
Fonte: “Bilan du Monde 2007”. L’Atlas de 174 pays. Ed. Le Monde. SA, Paris,
França, 2007, p. 12
equilíbrio e ordem mundial para o século XXI.
Quadro 15 Sobre o primeiro tema, a especulação teórica e a
PROJEÇÕES DA POPULAÇÃO MUNDIAL (2050) em %
importância política e macroeconômica são de observar
e avaliar se nas próximas décadas a divisão tecnológica

Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014


América do Norte 4,9 Ásia do Sul 24,8
União Europeia 7,0 África 19,0 internacional do conhecimento, que analisamos no
Ásia do Leste 18,4
ponto anterior, consolida-se. Nesse sentido, os velhos
Total 11,9 Total 62,2
Fonte: Raisson, Virginie: 2033. Atlas des Futurs du Monde. Ed. Robert Laffont, capitalismos ocidentais do Norte possuem vantagens
Paris, França, 2010, p. 18-19
consideráveis na economia da informação e continuarão
sendo o centro do capitalismo da informação. Conquanto
Por sua vez, em 2050, é possível que os capitalismos
os capitalismos do Norte tenham renunciado a posições no
emergentes dupliquem em termos de PIB, aos ocidentais.
âmbito produtivo, no comercial, no monetário-financeiro
Quadro 16
e têm um descenso notório no seu poder demográfico, no
entanto, seguem ainda representando 48,4% do produto
O PRODUTO DAS 10 ECONOMIAS MAIS PODEROSAS
(em bilhões, PPC) mundial, e entre seus Estados todos possuem bom
2006 2050 desempenho na economia do conhecimento, tal como
1) EUA 13.245 1) China 70.710
o indicam Chaponnière et Lautier (CHAPONNIÈRE;
2) União Europeia) 9.164 2) EUA 38.514
3) Japão 4.336 3) Índia 37.668 LAUTIER, 2012, p. 92).
4) China 2.682 4) União Europeia) 17.699
5) Canadá 1.260 5) Brasil 11.366 Quadro 17
6) Brasil 1.064 6) México 9.340
7) Rússia 982 7) Rússia 8.580 O NORTE NO PIB MUNDIAL - 2011 (em %)
8) Índia 909 8) Japão 6.677 União Europeia 20,0
9) Coreia do Sul 887 9) Coreia do Sul 4.083 EUA 19,0
10) México 851 10) Canadá 3.149 Japão 5,5
a) Somente Alemanha, França, Itália e Reino Unido. Canadá 1,7 25
Gustavo Arce

Austrália 1,2 relocar produtivamente, fundamentalmente na Ásia - na


Suíça 0,4 China e nos Estados Membros da ASEAN -.
Noruega 0,3
O magro crescimento econômico, nas últimas
Israel 0,2
Nova Zelândia 0,1 duas décadas, ocorreu devido ao aumento constante do
Total 48,4 consumo privado - via o endividamento das famílias
Fonte: elaborado com dados de L’économie Mondiale 2013. CEPII, Ed. La
Découverte, Paris, França, 2012, p. 119-122 -, mais que ao investimento em capital fixo e a um
incremento do PIB.
No que diz respeito ao segundo tema, o capitalismo
do polo ocidental aparece, desde 1990, endividado com Quadro 18

o resto do mundo, enquanto os emergentes surgem VARIAÇÕES DO PIB (MÉDIAS ANUAIS)


como credores. É o caso, sobretudo, da China, que é um AMÉRICA DO NORTE ÁSIA
1990-2000 2000-2010 1990-2000 2000-2010
dos principais credores da dívida pública dos Estados EUA 2,9 1,7 China 9,7 10,5
Unidos37. Canadá 2,8 1,9 Índia 5,4 7,8
México 2,9 1,8
Fonte: L’économie mondiale 2004 e L’économie mondiale 2012. CEPII, Ed. La
Découverte, Paris, França, 2003 e 2011, p. 107 e 120 respectivamente.

Gráfico 4
A partir de 1980, as políticas inspiradas nos
DÍVIDA PÚBLICA MUNDIAL
postulados neoclássicos que impôs a “revolução
conservadora” liderada por Margaret Thatcher, na
Inglaterra, e por Ronald Reagan, nos Estados Unidos,
não conseguiram recuperar o crescimento econômico
nem evitar a transferência de poder para o polo oriental.
Em mudança, a ampla desregulamentação de todos os
mercados favoreceu, espetacularmente, à especulação
- na acepção mais ampla do termo - monetária e
Fonte: Fonds Monétaire Internacional, rapport de stabilité 2009. Citado por financeira, a qual teve no ano 2008 seu ponto culminante,
Attali, Jacques: Tous ruinés dans dix ans? Dette publique: la dernière chance.
Ed. fayard, Paris, França, 2010, p. 234 pois em frente à impossibilidade dos bancos e instituições
Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014

financeiras de cobrar seus créditos, esses passaram a


Com consideráveis vantagens na produção e engrossar as contas públicas, e, portanto, explicam o
comércio do conhecimento, os velhos capitalismos aumento notável da dívida soberana38.
ocidentais não só estão endividados, senão têm cedido Desde meados dos anos 80, as transações com a
posições no produto e no comércio mundiais. Nos moeda - em valor e volume - foram e são superiores ao
últimos vinte anos, nos Estados Unidos e na zona euro, valor do produto e ao do comércio mundiais. A brecha
os governos de turno desmontaram todos os mecanismos entre a clássica “esfera real e a esfera financeira” não
reguladores que fundaram o crescimento e o estado só reabriu o debate teórico e prático caro à economia
de bem-estar do modelo taylor-fordista, de inspiração política (entre os partidários de um enfoque de economia
keynesiana. Simultaneamente a isso, se promoveu a monetária e aqueles que são partidários de uma análise
dicotômico da moeda), senão pôs em evidência a
necessidade de negociar novamente sistema de normas
37
O endividamento soberano do capitalismo ocidental finan- e regras que ponham de acordo as questões monetárias
ciado por não residentes permitiu que algumas grandes em- e financeiras com a nova configuração geoeconômica e
presas emblemáticas do poderio estadunidense e europeu
sejam agora propriedade de capitais estrangeiros. Como
política da economia mundial, instaurando então um
exemplo recorde-se: em 27/11/07 o Citigroup foi compra- novo sistema monetário e financeiro pós Bretton Woods.
do em 7,5 bilhões, pelos fundos soberanos de Abu-Dabi; o
10/12/07 a União de Bancos Suíços foi comprada em 6,5 bi-
lhões, pelos fundos soberanos de Singapura; e em 20/12/07 a
Wall Street foi comprada em 5 bilhões, pela Chinesa Invest-
ment Corporation. Ver sobre o tema: Les Fonds Souverains.
26
Em:L’économie mondiale 2010. CEPII, pp. 77-92, op cit. 38
Ver: ROSA e ÁVILA, 2011.
A economia mundial no século XXI

Gráfico 5 que o crescimento da riqueza no espaço econômico do


EVOLUÇÃO DAS TRANSAÇÕES NO MERCADO DE
mundo conhecido até esse momento41 se caracterizou
MUDANÇAS, DO PRODUTO E DO COMÉRCIO MUNDIAIS por produções que consomem altos volumes de recursos
(em bilhões de dólares)
naturais não renováveis e matérias primas, com efeitos
negativos sobre o médio ambiente (poluição do ar, chuvas
ácidas, desfeitos industriais e outros tóxicos), e, portanto,
com impactos que podem explicar as alterações dos
ecossistemas.
Nesse mesmo ano, a problemática meio ambiental
começou a ser reconhecida como verdadeiro desafio
econômico e político internacional pelos principais
atores (estatais e não estatais) das relações internacionais
Fontes: L’Économie Mondiale 2013. CEPII, Ed. La Découverte, Paris, França, que debateram sobre o tema na Conferência das Nações
2012, p. 74
Unidas sobre o Meio Ambiente, na cidade de Estocolmo.
Ela desembocou a criação do Programa das Nações
Finalmente, em relação ao terceiro tema, no
Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e, desde esse
que se refere à negociação sobre a mudança climática
ano, uma série de tratados, protocolos e conferências sobre
do aquecimento global, convêm recordar, brevemente,
diversos temas relativos à crise ambiental (ver cronologia
alguns antecedentes sobre o que se negocia, como se
em anexo) assinalaram a tomada de consciência por parte
negocia e quem negocia o aquecimento global e questões
das elites (políticas, econômicas, científicas, militares) da
relativas à mudança climática.
necessidade de pensar e atuar sobre o futuro do Planeta,
Desde 1987, a Humanidade vive em crise
redefinindo o conteúdo do crescimento econômico e
ecológica39. A partir desse ano, o consumo da Humanidade
assegurar assim a durabilidade da vida na Terra.
excede, amplamente, as capacidades biológicas do
Em 1983, as Nações Unidas criaram a Comissão
Planeta de regenerar e reproduzir os ecossistemas que
Mundial em Meio Ambiente e Desenvolvimento, presidida
permitem, justamente, a vida no Planeta. Esse saldo é
pelo Premiê Norueguês Gro Harlem Brundtland. Em
ainda mais deficitário, porque ao se somar a quantidade
1987, a Comissão publica “Our Common Future”, mais
de desfeitos à poluição que eles geram, ultrapassa,

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conhecido pelo Relatório “Brundtland”. Assim é definido
também, as capacidades do ecossistema do planeta Terra
o desenvolvimento sustentável ou duradouro, como
para absorvê-los.
aquele no qual o crescimento econômico privilegia: a) a
Esse fenômeno, à base dos problemas ou questões
durabilidade dos produtos; b) a satisfação das necessidades
meio ambientais, é conhecido e tratado como a “impressão
sociais básicas; c) a equidade entre os indivíduos da presente
ecológica” e sua magnitude se mede em hectares globais.
geração e os da futura; d) e, a proteção do meio ambiente
Estima-se que ao finalizar a primeira década do século
mediante gerenciamento ótimo do capital natural.
XXI, o Homem consumiu quase o equivalente a um
O relatório considera que o crescimento
planeta e meio em termos biológicos.
econômico é condição sine qua non da riqueza de
A existência de limites naturais à manutenção e à
qualquer sociedade, mas ele deve necessariamente mudar
reprodução das lógicas que asseguravam o crescimento
em sua qualidade, processo que deve ser realizado sem
econômico da economia mundial (a capitalista e a
questionar a lógica do sistema capitalista.
estatal)40 foi advertida em decorrência do ano 1972,
É assim então que propõe, para as economias
quando o Clube de Roma apresentou o Relatório
ricas e desenvolvidas, um capitalismo que assegure
MEADOWS, titulado em inglês de “The Limits to Growth”
crescimento econômico centrado na qualidade de seus
(Os Limites do Crescimento). Nele, os autores concluem
produtos, o qual será possível mediante a introdução de

39
Ler a nota 1, na primeira parte deste texto. 41
Entre 1420 e 1989, o PIB per capita de Europa Ocidental, em
40
Ver na primeira parte deste trabalho as fases históricas da dólares de 1985, variou de 430 a 14.413 dólares americanos.
27
evolução da economia mundial. Ver MADDISON, 1991, p. 10.
Gustavo Arce

novas tecnologias que serão, ademais, protetoras do meio eficaz do capital natural. Os recursos não renováveis,
ambiente. Efetivamente, os progressos tecnológicos fruto em processo de esgotamento e de extinção, são também
da revolução científica que simbolizavam, já nos anos perfeitamente substituíveis pelos artificiais que são
80, o bilhete do capitalismo industrial ao da informação fruto da inovação científica própria ao capitalismo da
e do conhecimento, permitirão resolver dois dos maiores informação e do conhecimento.
impactos negativos da ação do homem sobre o meio Quanto à contaminação, ela é assumida e definida
ambiente, a saber, o uso destrutivo dos recursos naturais como externalidade negativa no cálculo econômico;
e a redução da enorme quantidade dos desfeitos, abrindo por isso seus custos, a cargo dos agentes contaminantes,
dessa maneira uma fase na qual o crescimento econômico e darão lugar a imposto ou taxa a cargo desse ou mediante
a lógica do mercado seriam compatíveis com a preservação os direitos de propriedade que distribuem os custos entre
dos equilíbrios biológicos necessários à reprodução da vida o contaminante e o contaminado.
no Planeta. Em sentido contrário, para a concepção que
Por sua vez, para as economias menos avança- considera o desenvolvimento sustentável de “alta
das, subdesenvolvidas, em via de desenvolvimento ou intensidade”, o capital natural ou biológico possui um
“emergentes”, o relatório propõe crescimento econômico valor intrínseco e independente de sua utilidade e de seu
intenso e rápido que permita o aumento do rendimento uso econômico na produção da riqueza. Esses autores
médio das famílias, fenômeno que freará o incremento pensam que os recursos naturais, renováveis ou não, e
demográfico e eliminará a pobreza e as injustiças que são os ecossistemas não são substituíveis; sua conservação e
depredadoras do meio ambiente e que afetam principal- regeneração não são possíveis com uma política impositiva
mente às populações pobres. ou com uma regulação dos direitos de propriedade. Nessa
O relatório Brundtland propõe, finalmente, concepção, a preservação dos recursos que dão lugar à
coordenação das políticas públicas e dessas com os atores vida no Planeta deve ser regida sobre critérios físicos e
privados, o que redundará em melhor funcionamento humanitários, descartando os monetários, porque os
dos mercados, que por sua vez, mediante a cooperação mecanismos biológicos não podem ser regulados pelas
internacional e bom gerenciamento do governo mundial, leis do mercado. A lógica da vida deve subordinar os
evitarão o aumento da impressão ecológica. imperativos econômicos à sobrevivência da espécie
O relatório não se expede sobre as duas concepções humana.
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que existiam já então, sobre como enfrentar a crise Na Conferência de Rio de Janeiro de 1992
ambiental: por uma parte, os partidários do paradigma de adotou-se a “Agenda 21”, em que se apresentou uma
um desenvolvimento sustentável de “baixa intensidade”; estratégia mundial para modelar desenvolvimento
e por outra parte os de “alta intensidade”42. Os partidários sustentável, o qual foi definido, de acordo com o
do paradigma de “baixa intensidade” consideram que paradigma do desenvolvimento sustentável, como de
a impressão ecológica e a crise ambiental podem ser “baixa intensidade”. Em consequência, desde então
resolvidas pelos mecanismos do mercado capitalista. a ideia de crescimento econômico é compatível com
Longamente tributários do neoclassicismo walrasiano43, a durabilidade dos recursos, dos produtos e as leis do
sustentam que os recursos naturais são os determinantes mercado capitalista. Ademais, desde a Conferência de
do crescimento econômico e da Riqueza nacional; o Rio, a agenda do desenvolvimento sustentável incorporou
capital natural ou biológico, é considerado, como o outros temas na análise da economia mundial e das
físico ou o humano, perfeitamente, substituível graças relações internacionais, como o são as relações entre
ao progresso técnico. Os mecanismos intrínsecos a um o Norte e o Sul, o combate à pobreza, os direitos do
mercado puro e perfeito asseguram uma administração homem e a justiça social. A presença ativa do Estado
e o planejamento nas políticas públicas reduziram-
se em benefício de atores não estatais (ONGs e outras
42
Ver Kousnetzoff, Nina: Le développement durable: quelles
associações humanitárias) e as empresas. Esta definição
limites à quelle croissance? Em: L’économie mondiale 2004.
CEPII, Ed. La Découverte, Collection REPÈRES, Paris, Fran- do desenvolvimento durável e esses atores ganharam
ça, 2003, p. 93-106. terreno na Organização Mundial do Comércio (OMC) e
43
Ao respeito, pode ser lido HARRIBEY, 1998, especialmente o
28 em outros organismos internacionais. Sua preeminência
Capítulo 2: L’économie de l’environnement. p. 31-48.
A economia mundial no século XXI

teórica e política confirmou-se plenamente na endividamento: para 2007-2020, o Estado com maior
Conferência Mundial de Johannesburgo em 2002, cujos responsabilidade no aquecimento global e a mudança
resultados se difundiram amplamente no relatório “Os climática do Planeta seria China (27%), e lhe seguiriam
Objetivos do Milênio”. Estados Unidos (16%), União Europeia (11%), Índia (6%)
As negociações iniciaram-se então, e realizam- e Rússia (5%)45.
se atualmente, sob o predomínio teórico e político Em outros termos: China cresceu produtivamente
do paradigma de “baixa intensidade”. Elas decorrem muito e rapidamente nos últimos trinta anos; mas
no marco da Convenção das Nações Unidas sobre transformou-se no primeiro Estado contaminante do
Mudança Climática aprovada em 9/05/1992 que entrou Planeta e, em consequência, é a cada vez mais difícil que
em vigência no ano 1994. Ao dito acordo anexou- seus dirigentes continuem reivindicando e negociando
se o Protocolo de Kyoto, cuja negociação começou como se China fosse ainda um país do Anexo II, e,
em 1997 e culminou em 16/02/2005, quando Rússia portanto, não submetido às exigências que sim têm os
ratificou esse tratado. Sendo o Estado nº55 que aderiu capitalistas ocidentais46.
a dito protocolo, que representava ao menos o 55% das O presidente dos Estados Unidos e boa parte de
emissões mundiais do CO2. O Protocolo de Kyoto não seus principais assessores em matéria de economia e de
foi ratificado por Estados Unidos, China, Austrália e política internacional são plenamente conscientes do
outros Estados com responsabilidade importante, ainda interesse e desafio que contêm e implicam as negociações
que diferenciada, na emissão dos gases CO2. pós-kyoto: estabelecer, em definitivo, normas e princípios
O Protocolo de Kyoto obrigou e definiu o mar- que reflitam o novo equilíbrio de poder no mundo e
co jurídico e institucional no qual as negociações em si que substitua, definitivamente, aos que pactuaram na
mesmas, a ação e os interesses dos Estados continuam Conferência de Casablanca, na de Malta e na de Potsdam,
respondendo a uma matriz geopolítica e econômica na os vencedores da Segunda Guerra Mundial. Nas palavras
qual a ordem pós-anglo-russo-estadunidense - em plena do Presidente Obama:
transformação - concebia a divisão “ambiental” interna- “[...] O país que possa conduzir ao mundo para
cional do trabalho, que hierarquizava e relacionava três a criação de uma nova economia baseada nas energias
categorias de sociedades e de Estados, a saber: a) os in- limpas, será o país que vai dirigir a economia mundial no
dustrializados, obrigados a uma redução absoluta de século XXI”47.

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emissão de gases - Estados Unidos e a União Europeia, Agora, a capacidade de um capitalismo organizando
fundamentalmente -; b) os chamados emergentes, que em uma “economia baseada nas energias limpas” está no
pretendem continuar negociando sobre o critério de ob- epicentro das negociações sobre a nova ordem mundial
jetivos de redução segundo a intensidade da emissão em senão-estadunidense. Nesse sentido, a posição dos atores
proporção ao seu PIB, é o caso dos chamados BASIC44; nas negociações meio ambientais e globais apresenta-
c) e os restantes são obrigados, na medida de suas capa-
cidades, a mitigar os efeitos nocivos da emissão de gases
contaminantes. 45
Segundo IEA, World Energy Outlook 2008, Citado em Au-
É sobre essa concepção das responsabilidades verlot, Denis: Les négociations sur le changement clima-
tique: vers une nouvelle donnée internationale. Citado en,
diferenciadas dos Estados quanto à mudança climática Criqui, Patrick e Ilasca, Constantin: Après Copenhague: le
que o Protocolo de Kyoto vincula aos Estados que o climat dans le nouvel équilibre du monde. Em: L’économie
mondiale 2011. CEPII, Ed. La Découverte, Paris, França,
ratificou cobrindo o período 2008-2012, período durante
2010, pp. 89-102; e pode ser consultado sobre o tema: Tirole,
o qual se pensava reduzir em 5,5% as emissões mundiais Jean: Politique climatique: une nouvelle architecture inter-
de CO2. nationale, http://www.ladocumentationfrancaise.fr/rapport-
s-publics/094000513/index.shtml
Mas, desde 2008 em adiante, as responsabilidades 46
Sobre este tema e problemática, ver a nota 1, na primeira pá-
dos principais Estados e economias nas emissões de gases gina, e o glossário em anexo. Também Beaud, Michel: FACE
AU PIRE DES MONDES.
CO2 modificaram-se notavelmente, como no caso do 47
Escritório de imprensa da Casa Branca, 29 de junho de 2009.
Citado, em Auverlot, Denis: Les négociations sur le change-
ment climatique: vers une nouvelle donnée internationale.
Rapport et document, Centre d’analyse stratégique, Premier
29
44
BASIC, isto é: Brasil, África do Sul, Índia e China. Ministre, République Française, Janvier 2010.
Gustavo Arce

se, grosso modo, da seguinte maneira: o polo ocidental no sistema monetário internacional.
negocia o novo equilíbrio mundial, consciente de que Forte no produtivo em frente aos ocidentais, mas
conservará importantes quotas do poder em termos de não tanto no monetário e financeiro, o capitalismo chinês
produto, o comércio e o investimento direto mundiais, não está em condições de negociar em posição de líder, o
ainda que todas as previsões para as próximas décadas estabelecimento de um sistema normativo internacional
considerem que os ritmos de crescimento dessas variáveis que regule e sancione a responsabilidade dos Estados
sejam menores que as que deveriam registrar as economias na mudança climática, como hoje o Estado chinês é o
asiáticas48 (ARCE, ?), as quais, em consequência, poderão primeiro emissor de gases contaminantes e destruidor do
aumentar sua participação em ditos fluxos, sobretudo no bem público comum da Humanidade: a atmosfera.
demográfico, pelo menos até 2030/2040. Para desenvolver sistemas econômicos que pro-
No que diz respeito à concorrência no avanço duzam Riqueza baseados nas energias limpas, isso é,
para a Economia da Informação e à Sociedade do crescimento econômico duradouro ou sustentável como
Conhecimento, a atual ordem tecnológica mundial o definiu o Relatório Brundtland49, mais precisamente,
mostra que a tétrade (EUA, Japão, UE e China) domina e sem esgotar os ecossistemas50 nem aumentar a já enorme
“oligopoliza” a produção e o comércio do conhecimento. impressão ecológica51, as elites da nova bipolaridade não
Ao interior dos quatro grandes, tecnologicamente, os poderão subtrair as negociações sobre a mudança climá-
Estados Unidos, a União Europeia e o Japão impõem as tica daquelas que regulam, por uma parte, o comércio
especializações nos domínios industriais reconvertidos mundial na OMC, organização da qual China é membro
ou desenvolvidos pela inovação científica e técnica. Os desde 2001 e, por outra parte, as que fazem funcionar, de
Estados Unidos lideram amplamente nos ramos referentes fato, o sistema monetário internacional desde 1971 .
ao complexo fármaco e às biotecnologias, na eletrônica e Na OMC, as negociações sobre os direitos de
na eletricidade; os capitais da União Europeia são líderes propriedade intelectual serão objeto de particular atenção,
na produção dos bens finais próprios ao consumo dos visto que o comércio do saber começa a conhecer novas
lares, na produção de bens de equipe, a construção e as formas de ser administrado52 tanto pelos atores do Norte
obras públicas, a química e os procedimentos industriais. “rico”, como pelos emergentes do Sul “pobre”.
Os capitais asiáticos (Japão, China e os membros da No referente ao monetário e financeiro
ASEAN) aparecem longe dos ocidentais em todos os como assinalam Bénassy-Quéré e Pisani-Ferry53, o
Universitas Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 2, p. 1-35, jul./dez. 2014

domínios, como já o vimos no ponto anterior. oligopólio de Estados que hoje governam juntos a
Por sua vez, o polo asiático, liderado por China, economia mundial deveria poder criar consenso sobre
continua ganhando posições nos fluxos clássicos da
economia mundial, com taxas de variação positivas
e líquidas claramente superiores às que registram os 49
Em 1983, as Nações Unidas criaram a Comissão Mundial em
capitalismos ocidentais. Meio Ambiente e Desenvolvimento, presidida pelo Premiê
Norueguês Gro Harlem Brundtland. Em 1987, a Comissão
Apesar de que a China aparece sendo credora publica “Our Common Future”, mais conhecido pelo Rela-
dos capitalismos ocidentais; sua moeda (Renminbi ou tório “Brundtland”. Nele se define o desenvolvimento sus-
Yuan) apreciou-se nos últimos cinco anos de maneira tentável ou duradouro como aquele no qual o crescimento
econômico privilegia: a) a durabilidade dos produtos; b) a
considerável em relação à moeda de seus competidores satisfação das necessidades sociais básicas; c) a equidade
ocidentais; inclusive, o governo chinês tem estimulado entre os indivíduos da presente geração e os da futura; d)
a proteção do meio ambiente realizando um gerenciamento
sua internacionalização e emite sua moeda desde Hong-
ótimo do capital natural.
Kong. No entanto, o renminbi não está em condições 50
Ver nota 1 na primeira parte.
ainda de substituir ao cabisbaixo dólar estadunidense e de
51
Idem à 91.
52
É o caso das licenças não voluntárias, a comunidade “patent
assumir a função de uma moeda internacional, e menos pools”, as plataformas comuns de tecnologias limpas, etc. Ver
ainda de poder assegurar a liquidez e a convertibilidade a respeito: Propriété intellectuelle et changement climatique:
combiner incitation à l’innovation et logique de partage. Em
Auverlot, Denis: Les négociations sur le changement clima-
tique: vers une nouvelle donnée internationale. Rapport et
48
Sobre a dependência tecnológica de China em relação aos document. Centre d’analyse stratégique, op. cit., Capítulo 5.
capitais ocidentais, ver AGLIETTA e LEMOINE, 2010, p. 32- 53
Le retour des controverses monétaires internationales. Em:
30
49) L’économie mondiale 2011. CEPII. p. 74-87.
A economia mundial no século XXI

administração cooperativa das moedas aos efeitos de a chegada de novos temas na agenda internacional,
pôr em correspondência os atores e fluxos monetários e caracterizam esses últimos cinquenta anos como aqueles
financeiros com a atividade real da economia mundial, que definem uma realidade econômica e geopolítica
e com a atual distribuição do poder entre os Estados própria do século XXI.
Unidos, a União Europeia e China na cúspide da A grande mutação e o giro civilizacional que
economia mundial, tal como se esboça para o presente implica a Economia da Informação e a Sociedade do
século. Conhecimento explicam as novas teorias sobre a natureza
Na linha de análise e de proposição de Barry da matéria e da energia, bem como as alterações profundas
Eichengreen, e das que surgem do Relatório Global dos alicerces econômicos e políticos que herdamos da
Currencies for Tomorrow: a European Perspective54, Idade Moderna.
o dólar estadunidense, o euro e o renminbi poderiam O bilhete a uma economia e sociedade organizadas
compartilhar o estatuto de moeda nacional/internacional de acordo com a lógica capitalista que conseguiu
assegurando a necessária liquidez e convertibilidade associar a produção de mercadorias à produção do
em suas respectivas zonas de influência nas relações conhecimento não só está modificando as condições
econômicas internacionais. clássicas da produção das mercadorias, senão também
Em consequência, a constituição de um sistema os fundamentos da riqueza e do poder, seja em nível dos
monetário internacional multipolar implicaria, ou seria, indivíduos, das famílias, das empresas e dos Estados.
o resultado de compromisso entre os Estados líderes É sobre essa realidade que impõe o capitalismo da
pelo qual os Estados Unidos deveriam conceder e aceitar informação, que devem ser presas, nessa quarta fase de
compartilhar o monopólio da emissão da moeda mundial sua evolução histórica da economia mundial, as relações
e, em contrapartida, a China deveria aceitar flexibilizar dos povos e das nações - economia interna ou nacional -
sua política cambial e, junto aos demais emergentes, como aquelas que se tecem entre as nações e os Estados
acumular menos reservas a mudança de um maior acesso - economia internacional - e que formam a economia no
aos créditos internacionais do Fundo Monetário; por e do Mundo.
sua vez, a União Europeia deve continuar estimulando a O rendimento à economia da informação está-se
reforma das instituições de Bretton Woods, aumentando processando de maneira extremamente desigual porque a
a presença dos Estados emergentes, processo atualmente produção do saber é um processo fortemente concentrado

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em curso no seio do G20. e oligopolizado, características verificadas tanto a nível
Sem dúvidas, deverá ser continuado observando geográfico - segundo as Regiões e os Estados - como nos
se o oligopólio dos Estados líderes continua e consolida domínios tecnológicos ou no âmbito das capacidades
o novo equilíbrio mundial, que ponha de acordo a científicas e técnicas que possuem as economias e os
economia da informação e a divisão tecnológica/ Estados na economia mundial.
ambiental do trabalho com o poder dos atores (estatais e A tétrade dominante e líder no capitalismo da
não estatais) próprios do século XXI. informação (EUA, UE e parte de Ásia) parece constituir
o centro o qual se forja a divisão mundial tecnológica/
Conclusão ambiental do trabalho, própria do capitalismo da
informação e do qual as novas e antigas periferias
No último meio século, a economia mundial e dependem científica e tecnicamente, seja para continuar
as relações internacionais tornaram-se mais densas e produzindo manufaturas com escassa incorporação de
complexas do que o tinham sido nas fases anteriores. conhecimento, seja para tentar novas produções que
Um número maior de atores, estatais e não estatais, consumam energias limpas”.
desenvolvendo atividades lícitas e ilícitas, bem como Nesse palco, os velhos capitalismos ocidentais
possuem vantagens dinâmicas consideráveis, fruto da
liderança que ostentam na economia do Saber, vantagens
54
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economia do saber, das quais são tributários tanto os 1989:
Convênio de Basileia sobre os movimentos transfrontei-
capitalismos emergentes como as formações sociais
riços dos resíduos perigosos.
dominadas. 1990:
Em contrapartida deverão ceder aos capitalismos Criação GIEC: estabelece-se o Grupo Intergovernamen-
emergentes lugar importante em novo sistema monetário tal de Especialistas sobre Mudanças Climáticas
- Primeiro Relatório GIEC
e financeiro, bem como o governo e a administração
1992:
em alguns organismos internacionais criando, de fato A Cúpula para a Terra. Rio de Janeiro.
quiçá, um sistema pós Bretton Wood. Esses acordos e Assina-se a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre
compromissos podem engendrar ordem geopolítica que Mudança Climática (CCNUCC)
Convênio sobre a Diversidade Biológica.
consiga verdadeira correspondência entre os atores e os
1993:
fluxos da economia da informação, a divisão tecnológica Convênio sobre Armas Químicas
ambiental do trabalho com os novos centros de poder Conferência Mundial de Direitos Humanos
próprios da realidade do século XXI. 1994:
Conferência Internacional sobre a População e o Desen-
volvimento.
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Assina-se: - o Convênio UNESCO para a Prote- Conferência Mundial sobre Alimentação.
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