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Superior Tribunal de Justiça

AÇÃO PENAL Nº 888 - DF (2015/0238241-3)


RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
AUTOR : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
RÉU : ANTONIO JOAQUIM MORAES RODRIGUES NETO
ADVOGADOS : KÉZIA GONÇALVES S.SARAGIOTTO - MT008370
JOSÉ ANTONIO ROSA - MT005493
DECIO JOSE TESSARO - MT003162O
LUCIANO ROSA DA SILVA - MT007860
SOC. de ADV. : TESSARO & THE ADVOGADOS ASSOCIADOS - EPP

RELATÓRIO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI:

Cuida-se de denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal na


qual é imputada a ANTÔNIO JOAQUIM MORAES RODRIGUES NETO,
Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Mato Grosso (TCE/MT), a
suposta prática, em concurso formal (art. 70 do CP), dos crimes de dano em
floresta em área considerada de preservação permanente ou sua utilização com
infringência às normas de proteção; de dano direto ou indireto a Unidades de
Conservação; e de impedir ou dificultar a regeneração natural de florestas e
demais formas de vegetação (arts. 38, 40 e 48 da Lei 9.605/98).
Fatos: narra-se na denúncia que o acusado, através de seus prepostos
e em área de sua propriedade, denominada Fazenda Rancho T, inserida na Área de
Proteção Ambiental da Serra das Araras, teria suprimido vegetação por meio de
corte de espécies lenhosas não identificadas, ao longo da margem esquerda de
córrego existente na área, com largura variável entre um e três metros, em
aproximadamente 700m (setecentos metros) de extensão, para a instalação de uma
tubulação hidráulica, destinada a atender sua propriedade.
Segundo a peça vestibular, as testemunhas confirmaram que a
instalação de canos azuis foi realizada em meados de 2013 por funcionários do
acusado, em procedimento no qual foi cortada a vegetação com o auxílio de trator
“bico de pato” e motosserra.
Documento: 82949433 - RELATÓRIO E VOTO - Site certificado Página 1 de 18
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Aduz-se que a perícia realizada pelo órgão ambiental na área em
questão constatou a ocorrência de dano ambiental pela supressão de vegetação em
APA.
Afirma-se que, além da instalação do equipamento hidráulico, o
acusado também teria praticado intervenções na estrada entre a encosta do morro
e a margem esquerda do Córrego Sucuri, no ano de 2013, ocasião na qual
“tombaram várias árvores ” e “despencaram várias pedras do morro ”.
Declara-se que essa intervenção seria compatível com o uso de
equipamento do tipo pá carregadeira e com a retirada de material terroso da
encosta, o que teria gerado “processo erosivo com carregamento do solo em
direção à margem esquerda do referido curso d'água ” (fl. 2.601, e-STJ).
Assevera-se que essas circunstâncias caracterizariam o dano
ambiental pela supressão de vegetação de encosta e a diminuição da qualidade das
águas, o que ensejou, inclusive, o lavramento de auto de inspeção, de auto de
infração e de termo de embargo.
Argumenta-se que exames periciais e provas documentais
demonstrariam a ocorrência dos seguintes danos ambientais causados por
condutas do denunciado, na qualidade de proprietário da Fazenda Racho T: a)
supressão de 0,144 hectares de vegetação nativa em área de preservação
ambiental; b) impedimento da regeneração da vegetação natural; c) erosões e
desmoronamentos em alguns pontos da estrada e encostas da serra, d) deposição
irregular de resíduos sólidos (mangueiras) diretamente no leito do Córrego Suciri;
e) assoreamento de cursos d'água; e f) danos em Unidade de Conservação de Uso
Sustentável denominada APA Municipal Serra das Araras, sem licença do órgão
ambiental.
Resposta à acusação: apresentada em 01/02/2018 (e-STJ, fls.
2.667-2.681), na qual o acusado aponta as preliminares de inépcia da petição
inicial e de ausência de justa causa para a ação penal.
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Argumenta que exordial é inepta por não haver a descrição da
conduta que teria sido por si praticada.
Quanto à justa causa, assevera que a estrada que liga suas duas
propriedades, uma na parte de cima da Serra das Araras e outra na parte de baixo,
é objeto de servidão de passagem na propriedade de terceiros que existe há mais
de 40 anos, sendo essencial para o deslocamento entre os dois referidos imóveis e
ao exercício da função social da propriedade.
Afirma, ademais, não haver justa causa para a ação penal em razão
de: a) o laudo que a subsidia a inicial ser vago e inconclusivo, não especificando
o tipo de vegetação que foi suprimido, a qualidade ou quantidade de dano que
teria sido causado e a ocorrência de efetiva remoção de terras; b) apenas ter feito a
limpeza e a manutenção da estrada, sem realizar o corte de árvores ou
desmatamentos, suprimindo apenas vegetação rasteira; c) a utilização das águas
do córrego ter sido autorizada pelo órgão ambiental, d) a estrada existir há mais de
40 anos, e) após a verificação procedida pelos órgãos ambientais, ter sido
assinado Programa de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) em 14/12/2016,
cujas determinações vêm sendo atendidas a contento.
Assevera que não foi comprovado que: i) construiu nova estrada; ii)
teria desrespeitado a legislação ambiental ao captar água para seu rebanho; e iii)
que teria causado dano ambiental, haja vista que a limpeza e manutenção da
estrada teria beneficiado o meio ambiente.
Quanto ao mérito da acusação, defende que a falta de licença
ambiental deveria ser considerada uma mera irregularidade formal e
administrativa, e não um crime de ordem material. Requer, ainda, ao final, a
aplicação do princípio da insignificância, ante a ausência de dano efetivo, a fim de
que seja absolvido sumariamente das acusações.
É o relatório.

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AÇÃO PENAL Nº 888 - DF (2015/0238241-3)
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VOTO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):

O propósito da presente fase procedimental é verificar a aptidão da


denúncia e a possibilidade de absolvição sumária do acusado, a quem é imputada
a suposta prática, em concurso formal (art. 70 do CP), de crimes de dano em
floresta em área considerada de preservação permanente ou sua utilização com
infringência às normas de proteção; de dano direto ou indireto a Unidades de
Conservação; e de impedir ou dificultar a regeneração natural de florestas e
demais formas de vegetação (arts. 38, 40 e 48 da Lei 9.605/98).

I – Do recebimento e da rejeição da denúncia e da improcedência


da acusação
Segundo o art. 6º da Lei 8.038/90, oferecida a denúncia e após a
resposta do acusado, o Tribunal deliberará acerca de sua rejeição, recebimento ou
improcedência da acusação.
Ao rito especial da Lei 8.038/90 aplicam-se, de forma subsidiária, as
regras do procedimento ordinário (art. 394, § 5º, CPP), razão pela qual eventual
rejeição da denúncia é balizada pelo art. 395 do CPP, ao passo que a
improcedência da acusação (absolvição sumária) é pautada pelo disposto no art.
397 do CPP.
Com efeito, oferecida a denúncia, o Tribunal poderá rejeitá-la: a)
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quando for manifestamente inepta; b) quando faltar pressuposto processual ou
condição para o exercício da pretensão punitiva; ou c) faltar justa causa para o
exercício da ação penal, nos termos do art. 395 do CPP.
Caso não estejam presentes esses elementos enumerados no art. 395
do CPP, a denúncia deve ser recebida e, assim, em consequência, verificada a
possibilidade de exame imediato do mérito da pretensão punitiva penal.
A improcedência liminar da acusação é, de fato, hipótese de
verdadeiro julgamento antecipado de mérito, que sempre existiu no procedimento
originário dos Tribunais e que é hoje, no procedimento comum, após a Lei
11.719/2008, tratada como absolvição sumária.
Desse modo, se para a rejeição da denúncia são examinados aspectos
preponderantemente processuais, para a improcedência da acusação, com a
absolvição, é examinado o mérito da pretensão punitiva penal.

II – Da aptidão da denúncia

II.1 – Dos requisitos de validade da denúncia (art. 41 do CPP)


São requisitos de validade da denúncia, nos termos do art. 41 do
CPP: a) a exposição do fato criminoso, com todas suas circunstâncias; b) a
qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa identificá-lo; c) a
classificação do crime; e d), quando necessário, o rol de testemunhas.
Conforme destaca a doutrina, os requisitos enunciados no art. 41 do
CPP têm o objetivo de permitir, desde logo, o exercício da ampla defesa pelo
denunciado. Com efeito, “conhecendo com precisão todos os limites da
imputação, poderá o acusado a ela se contrapor o mais amplamente possível,
desde, então, a delimitação temática da peça acusatória, em que se irá fixar o
conteúdo da questão penal ” (Curso de Processo Penal, 13ª ed. 2ª tiragem, Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2010, pág. 189).
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A jurisprudência desta Corte corrobora o entendimento de que a
aptidão da denúncia está relacionada ao exercício da ampla defesa, ao enunciar
que “a denúncia é uma proposta da demonstração de prática de um fato típico e
antijurídico imputado a determinada pessoa, sujeita à efetiva comprovação e à
contradita; assim, denúncias que não descrevem os fatos na sua devida
conformação, não se coadunam com os postulados básicos do Estado de Direito ”
(APn 561/MS, Corte Especial, DJe 22/04/2010).
A denúncia ou queixa serão, portanto, ineptas quando sua deficiência
resultar em prejuízo ao exercício da ampla defesa do acusado, o que decorre da
falta de descrição do fato criminoso, da imputação de fatos indeterminados ou da
circunstância de da exposição não resultar logicamente a conclusão.
Todavia, somente a “inequívoca deficiência, impedindo a
compreensão da acusação a ponto de comprometer o direito de defesa leva à
eventual inépcia da denúncia ” (APn 644/BA, Corte Especial, DJe 15/02/2012).
Assim, não haverá ofensa à ampla defesa e ao contraditório se a denúncia
descrever adequadamente “a prática delitiva imputada à acusada, demostrando
indícios suficientes de autoria, prova da materialidade e a existência de nexo
causal entre a conduta apontada e o tipo penal imputado, exatamente nos termos
do que dispõe o art. 41 do CPP” (HC 375.723/RN, Quinta Turma, DJe
17/03/2017).

II.2 – Da narrativa contida na presente inicial acusatória


Na presente hipótese, a narrativa contida na exordial demonstra de
forma satisfatória os fatos e a conduta do acusado, que foram delimitados com
clareza, consoante se infere da seguinte passagem de referida peça inaugural (fls.
2.600-2.603):

2. No dia 04/06/2013, vistoria realizada pela equipe da Polícia Técnica


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do Estado do Mato Grosso (POLITEC/MT) constatou que o denunciado
Antônio Joaquim Moraes Rodrigues Neto, através de seus prepostos, em área
de sua propriedade, denominada Fazenda Rancho T, inserida na Área de
Proteção Ambiental da Serra das Araras, suprimiu vegetação por meio do corte
de espécies lenhosas não identificadas, cujas secções foram produzidas por
instrumento cortante compatível com ferramentas manuais (Laudo Pericial n.
02-08-1251/2013 -fls. 2395/2405)
3. De acordo com o Laudo Pericial n.º 02-08-1251/2013, “ao longo da
margem esquerda do córrego a vegetação foi suprimida em uma faixa com
largura variável entre 1m (um metro) e 3m (três metros) em aproximadamente
700m (setecentos metros) de extensão ”. E mais, “ao longo de toda a faixa de
supressão de vegetação havia uma tubulação nova de cor azul instalada, que
estava parcialmente enterrada na porção inicial do trajeto e seguia a céu
aberto. Ainda, foram encontrados dispersos na mata ciliar fragmentos da
tubulação e frasco de adesivo plástico vazio”, tendo a perícia concluído que
houve dano ambiental em razão da supressão de vegetação em Área de
Preservação Permanente (APP), para a instalação de uma tubulação na margem
esquerda do Córrego Sucuri, Município de Nossa Senhora do Livramento/MT,
destinada a atender a propriedade do denunciado.
4. Em seguida, em 17/10/2013, novos exames periciais realizados pela
POLITEC/MT constataram que o Conselheiro ora denunciado praticou
intervenções na estrada entre a encosta do morro e a margem esquerda do
Córrego Sucuri compatível com aquelas feitas com equipamento do tipo pá
carregadeira, bem como retirou material terroso da encosta, o que gerou
processo erosivo com carreamento do solo em direção à margem esquerda do
referido curso d´água (Laudo Pericial n. 02-08- 002434/2013- fls. 2407/2428),
ficando constatado o dano ambiental, em especial, a supressão de vegetação de
encosta e diminuição da qualidade das águas.
5. Ocorre que, em 25/08/2014, equipe técnica da Secretaria do Meio
Ambiente do Estado do Mato realizou fiscalização na mesma propriedade e,
por encontrar a situação descrita no Laudo Pericial n. 02-08- 1251/2013
inalterada, lavrou o Auto de Inspeção nº 420, o Auto de Infração nº 138540 e o
Termo de Embargo nº 123109 (fls. 1440, 1451 e 1453).
6. De fato, acompanhada do Sr. Gilmar Pereira dos Anjos, funcionário do
denunciado, a equipe da SEMA percorreu o local e verificou que, por ordem
do Conselheiro proprietário da fazenda, ocorreu (a) a supressão de 0.144
hectares de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente, sem
autorização do órgão competente, bem como, em razão de um mecanismo que
serve de suspiro ou retorno da água diretamente ao Córrego Sucuri, iniciou-se
um processo erosivo através do carregamento de sedimentos para o leito do
curso d'água, o que (b) impediu a regeneração da vegetação natural no local e
(c) causou danos ambientais em Unidade de Conservação de Uso Sustentável
denominada APA Municipal Serra das Araras.
7. Diante disso, o ora denunciado foi notificado a “providenciar a
readequação do sistema de suspiro/retorno de água localizado junto a Fazenda
Rancho T, na coordenada 57º 01'22,5”W e 15º41' 14,8”S”, tendo permanecido
inerte, conforme comprovado (Notificação n. 1020, datada de 23/09/2014 – fl.
1454).
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8. Com efeito, em 09/07/2015, novo exame pericial concluiu pelos
seguintes danos ambientais causados pelas condutas do Conselheiro Antônio
Joaquim Moraes Rodrigues Neto, na qualidade de proprietário da Fazenda
Rancho T (Laudo Pericial n. 2-8-2015/18794-01):
a) supressão de vegetação em área de preservação permanente do
Córrego Sucuri, pela implantação de estrada;
b) erosões em alguns pontos da estrada e das encostas da Serra, causadas
pela intervenção atrópica desordenada;
c) assoreamento de alguns canos instalados, causando erosão em APP;
d) prática de atividades impactantes dentro de Unidade de Conservação
de uso sustentável (Lei 9.985/2000), sem licença de órgão ambiental
competente (APA Serra das Araras Lei Municipal n. 447/2001);
e) deposição irregular de resíduos sólidos (mangueiras) diretamente no
leito do Córrego Sucuri.
9. No dia 05/05/2016, em razão de notícia veiculada no Boletim de
Ocorrência n. 2016.150296, a POLITEC/MT realizou novos exames periciais
que concluíram pela existência de atividades lesivas ao meio ambiente, sendo,
em resumo, (a) a supressão de vegetação em área de preservação permanente;
(b) atividades que dificultam a regeneração da vegetação natural; (c) erosões e
desmoronamentos em alguns pontos da estrada e encostas da serra; (d)
assoreamento de cursos d´água (Laudo Pericial n. 2-08.2016/006330-01).
10. Cumpre consignar que todas as testemunhas confirmaram que, em
meados de 2013, foram instalados “canos azuis” por funcionários de Antônio
Joaquim Moraes Rodrigues Neto e que, para a instalação dessas tubulações, foi
cortada a vegetação com o auxílio de trator “bico de pato” e motosserra
(depoimentos de fls. 2025/2026, 2027/2029 e 2031/2033). Afirmaram, ainda,
que, no mesmo ano, o denunciado foi responsável pela abertura de uma estrada
na Fazenda Rancho T, no “pé da serra”, e que, na ocasião “tombaram várias
árvores” e “despencaram várias pedras do morro”.

Conforme se observa dos excertos transcritos, a conduta atribuída ao


denunciado foi corretamente demarcada na denúncia, consistindo nas condutas de,
no ano de 2013, com repercussões que duraram até 2016, por meio de seus
prepostos:

a) ter suprimido vegetação em Área de Proteção Ambiental por meio


do corte de espécies lenhosas não identificadas, para a instalação de
uma tubulação na margem esquerda do Córrego Sucuri, Município de
Nossa Senhora do Livramento/MT, destinada a atender sua
propriedade;
b) ter praticado intervenções na estrada entre a encosta do morro e a
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margem esquerda do Córrego Sucuri, com a retirada de material
terroso da encosta, o que gerou processo erosivo com carreamento do
solo em direção à margem esquerda do referido curso d´água,
causando dano ambiental; e
c) ter impedido a regeneração da vegetação natural no local.

Foram, assim, descritas as circunstâncias e colhidos elementos


suficientes da materialidade do suposto dano em floresta em área considerada de
preservação permanente ou sua utilização com infringência às normas de
proteção, do dano direto ou indireto a unidades de conservação e da suposta
obstrução da regeneração natural de floresta e demais formas de vegetação.
Foi, igualmente, delimitada a alegada responsabilidade do acusado
pelo ocorrido, decorrente da circunstância, de, supostamente, ter ordenado a seus
prepostos a prática das condutas enunciadas na inicial, e o nexo causal de sua
suposta conduta com os crimes que lhe são imputados.
Verifica-se, portanto, que a denúncia contém uma adequada proposta
da demonstração de prática de um fato típico e antijurídico imputado ao acusado,
sujeita a efetiva comprovação e a contradita, haja vista descrever os fatos na sua
devida conformação, permitindo o exercício de sua ampla defesa e do
contraditório.
Assim, a denúncia atende aos requisitos dos arts. 41 do CPP, não
estando presente a hipótese do art. 395, I, do CPP, razão pela qual REJEITO a
preliminar de inépcia da peça inicial acusatória.

III – Da justa causa para a ação penal


Sob a justificativa de que o ajuizamento da ação penal é, por si só,
capaz de atingir o estado de dignidade do acusado, a Lei 11.719/2008 incluiu no
art. 395 do CPP uma nova condição da ação, que – ao lado da legitimidade, do
interesse processual e da possibilidade jurídica do pedido – regulamenta o
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exercício da pretensão penal punitiva em juízo e condiciona o julgamento de seu
mérito.
A justa causa, requisito para que o mérito da pretensão punitiva seja
examinado pelo juiz, corresponde à presença de um lastro mínimo de prova, a
qual deve ser capaz de demonstrar, de plano, “a pertinência do pedido, aferível
pela correspondência e adequação entre os fatos narrados e a respectiva
justificativa indiciária (prova mínima, colhida ou declinada) ” (PACELLI,
Eugênio. Curso de Processo Penal, 21ª edição. São Paulo: Atlas, 2017, pág.
122).
Em última análise, a justa causa é um critério utilizado para aferir se
o desenvolvimento da ação penal será útil, evitando-se a movimentação indevida
da máquina judicial penal e a perpetuação da lesão causada à personalidade do
suposto autor do fato.
Contudo, nos termos da jurisprudência desta Corte, “embora não se
admita a instauração de processos temerários e levianos ou despidos de qualquer
sustentáculo probatório, nessa fase processual deve ser privilegiado o princípio
do in dubio pro societate”, razão pela qual, “não se pode admitir que o Julgador,
em juízo de admissibilidade da acusação, termine por cercear o jus accusationis
do Estado, salvo se manifestamente demonstrada a carência de justa causa para
o exercício da ação penal ” (RHC 76.832/AM, Quinta Turma, DJe 01/08/2017,
sem destaque no original).
Assim, “a peça acusatória deve vir acompanhada com o mínimo
embasamento probatório apto a demonstrar, ainda que de modo indiciário, a
efetiva realização do ilícito penal por parte do denunciado ” (APn 815/DF, Corte
Especial, DJe 20/06/2017).

III.1. Do exame da justa causa na hipótese em apreço


A denúncia formulada pelo MPF contém satisfatório embasamento
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indiciário da suposta ocorrência dos delitos imputados ao acusado, haja vista estar
pautada em laudos periciais, autos de infração, boletins de ocorrência e termos de
embargo formulados pelo órgão ambiental (Secretaria do Meio Ambiente do
Estado do Mato Grosso – SEMA) e pela Polícia Técnica do Estado entre os anos
de 2013 a 2016, além de depoimentos de ao menos três testemunhas.
Referidos elementos de convicção configuram prova mínima apta ao
recebimento da denúncia, por sugerirem que as condutas supostamente criminosas
teriam sido praticadas pelos prepostos do acusado, sob sua direção, e que a prática
das atividades mencionadas na inicial acusatória teria dado causa à ocorrência de
dano ambiental e ao corte de árvores, ainda que de espécie lenhosa não
identificada, com resultado de dano a floresta, o que é suficiente para a adequação
típica, em tese, dos fatos aos crimes dos arts. 38, 40 e 48 da Lei 9.605/98.
Além disso, a necessidade de instalação de tubulação hidráulica ou de
manutenção de estrada de acesso para a melhor utilização do imóvel não justifica
a prática de atos que acarretem degradação ambiental, pois, conforme a
jurisprudência do STF, “a utilização apropriada dos recursos naturais
disponíveis e a preservação do meio ambiente constituem elementos de
realização da função social da propriedade ” (STF, ADI 2213 MC, Tribunal
Pleno, DJ 23/04/2004).
Não obstante, ao alegar, em sua resposta à acusação, que a captação
de água teria sido autorizada pelo órgão ambiental, o denunciado somente trouxe
aos autos certidão que atesta que está cadastrado como usuário de recursos
hídricos (fl. 2.693, e-STJ), o que, todavia, não comprova que a instalação de
tubulação teria observado as normas de proteção, tampouco que a obra teria sido
supervisionada e homologada pela Administração e que não teria causado dano
ambiental.
A inicial não se mostra, portanto, leviana e o processo não se
apresenta temerário, pois estão sustentados em elementos de convicção suficientes
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a sugerir a efetiva prática dos crimes imputados ao acusado, havendo
embasamento probatório apto a demonstrar, ainda que de modo indiciário, sua
responsabilidade pela efetiva realização do ilícito penal citado na denúncia.
Forte nessas razões, REJEITO a preliminar de ausência de justa
causa, ante a satisfação do requisito do art. 395, III, do CPP.

IV – Da absolvição sumária e da improcedência da acusação


Na hipótese de a denúncia ser apta para ensejar a instauração do
processo penal, o exame do mérito da pretensão punitiva nesse momento
processual depende da demonstração indiscutível, inquestionável, dos
pressupostos que autorizariam a absolvição do acusado.
De fato, como se trata de exame antecipado do mérito da acusação,
exige-se a evidência, estreme de dúvidas, da viabilidade do julgamento imediato
de absolvição, pois as hipóteses legais de absolvição sumária no processo penal,
consoante o disposto no art. 397, CPP, independem de instrução criminal.
Assim, nos termos do art. 397 do CPP, o Tribunal somente absolverá
sumariamente o acusado se verificar: a) a existência manifesta de causa
excludente da ilicitude do fato; b) a existência manifesta de causa excludente da
culpabilidade do agente, salvo inimputabilidade (que é caso de absolvição
imprópria); c) que o fato narrado evidentemente não constitui crime; ou d) a
extinção da punibilidade.
A doutrina corrobora essa afirmativa, ao asseverar que “em tais
situações, ocorre verdadeiro julgamento antecipado do processo, sem a
necessidade de instrução, circunscrito, portanto, à definição exclusivamente de
direito dada aos fatos e às circunstâncias especificamente descritas na denúncia
ou queixa ” (PACELLI, Eugênio. Curso de Processo Penal, 13ª edição. Rio de
Janeiro: Lumen Iuris, 2010.pág. 123).
A Corte Especial já se pronunciou sobre o tema, asseverando que “a
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absolvição sumária deve ser reconhecida apenas na existência inequívoca dos
requisitos inscritos na lei adjetiva penal, sob pena de impedir o Estado de buscar
a demonstração dos fatos descritos na peça inicial ” (APn 805/DF, Corte
Especial, DJe 21/06/2016).

IV.1 – Da alegação de atipicidade formal pela não ocorrência de


supressão de vegetação e de dano ambiental
As tipicidade formal das definições exclusivamente de direito dadas
aos fatos encontra respaldo na jurisprudência desta Corte de que “o art. 38 da
supramencionada Lei visa a punir tanto aquele que causa o dano ambiental
(destruir ou danificar floresta considerada de preservação permanente, mesmo
que em formação, ou vegetação primária ou secundária em estágio avançado ou
médio de regeneração), quanto quem utiliza tal bioma com infringência das
normas de proteção ” (RHC 64.124/MS, Quinta Turma, DJe 30/03/2016) e de que
“o crime previsto no art. 48 da Lei de Crimes Ambientais é delito permanente,
cuja potencialidade lesiva se protrai no tempo, não se esgotando na construção
de edificação ” (RMS 49.909/SC, Rel. Quinta Turma, DJe 21/06/2017).
Além disso, as circunstâncias fáticas especificamente descritas na
denúncia encontram embasamento probatório indiciário mínimo que demonstra a
possibilidade da ocorrência dos crimes imputados ao acusado.
Desse modo, as alegações do acusado de que: a) somente foi
realizada a limpeza de vegetação rasteira; b) não foi realizada a supressão de
vegetação; c) não houve qualquer tipo de remoção de terras; e d) não houve dano
à floresta, não são matérias que possam ensejar a absolvição sumária, haja vista a
verificação de sua efetiva ocorrência depender da regular instrução processual e
da produção de provas em contraditório, pois não há demonstração indiscutível,
inquestionável, que o fato narrado evidentemente não constitui crime.
Assim, o exame do mérito da acusação relacionado a essas alegações
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não pode ser realizado no atual momento processual, ante a impossibilidade de
seu julgamento imediato, independentemente da instrução criminal.

IV. 2 – Termo de ajustamento de conduta


As Turmas especializadas em matéria penal desta Corte adotam a
orientação de que, em razão da independência das instâncias penal e
administrativa, a celebração de termo de ajustamento de conduta é incapaz de
impedir a persecução penal, repercutindo apenas, em hipótese de condenação, na
dosimetria da pena. Nesse sentido, AgRg no AREsp 984.920/BA, Sexta Turma,
DJe 31/08/2017; e HC 160.525/RJ, Quinta Turma, DJe 14/03/2013.
Assim, “mostra-se irrelevante o fato de o recorrente haver celebrado
termo de ajustamento de conduta, [...] razão pela qual o Parquet, dispondo de
elementos mínimos para oferecer a denúncia, pode fazê-lo, ainda que as condutas
tenham sido objeto de acordo extrajudicial ” (RHC 41.003/PI, Quinta Turma, DJe
03/02/2014).
Desse modo, a assinatura do termo de ajustamento de conduta,
firmado entre o denunciado e o Estado do Mato Grosso, representado pela
Secretaria de Estado do Meio Ambiente, informada na resposta à acusação,
também não impede a instauração da ação penal, pois não elide a tipicidade
formal das condutas imputadas ao acusado.

IV.3 – Do princípio da insignificância e a tipicidade material


O Direito Penal – animado pelas teorias do funcionalismo, que
inseriu a política criminal no âmbito do sistema jurídico-penal, e
constitucionalista do delito – é hoje compreendido como um ramo do Direito
voltado à tutela apenas das condutas mais graves que lesem os bens jurídicos mais
relevantes.
O Direito Penal está, portanto, sob esta ótica, norteado pelos
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princípios da exclusiva proteção de bens jurídicos, da intervenção mínima, da
fragmentariedade e da subsidiariedade.
Esses princípios se justificam pelo fato de ser “imperativa uma
efetiva proporcionalidade entre a gravidade da conduta que se pretende punir e a
drasticidade da intervenção estatal ” (BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de
Direito Penal, Parte Geral 1, 13ª ed., São Paulo: Saraiva, 2008), pág. 21).
De fato, consoante pontua a jurisprudência, “o sistema jurídico há de
considerar a relevantíssima circunstância de que a privação da liberdade e a
restrição de direitos do indivíduo somente se justificam quando estritamente
necessárias à própria proteção das pessoas, da sociedade e de outros bens
jurídicos que lhes sejam essenciais, notadamente naqueles casos em que os
valores penalmente tutelados se exponham a dano, efetivo ou potencial,
impregnado de significativa lesividade ” (STF, RHC 122464 AgR, Segunda
Turma, DJe 08/08/2014).
Assim, para a caracterização de uma conduta como crime, à
tipicidade formal, correspondente à adequação do fato aos elementos objetivos,
subjetivos e normativos contidos na norma penal incriminatória, deve-se somar a
tipicidade material, relacionada às condutas que tenham grande potencial lesivo e
que sejam causadoras de dano, efetivo ou potencial, ao bem jurídico tutelado pela
norma penal.
A concomitante presença da mínima ofensividade da conduta, da
ausência de periculosidade social ação, do reduzidíssimo grau de reprovabilidade
do comportamento e da inexpressividade da lesão jurídica provocada afasta,
portanto, a tipicidade material de determinada conduta formalmente típica, por
aplicação do princípio da insignificância ou da bagatela.

IV.3.1 – Da insignificância aplicada aos crimes ambientais


A jurisprudência desta Corte ressalta que o que o bem jurídico
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tutelado pelos crimes ambientais é o direito fundamental ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, que deve ser garantido às presentes e futuras
gerações, consoante princípio da equidade intergeracional.
Desse modo, o STJ admite a aplicação do princípio da insignificância
aos crimes ambientais, desde que, “analisadas as circunstâncias específicas do
caso concreto para aferir, com cautela, o grau de reprovabilidade, a relevância
da periculosidade social, bem como a ofensividade da conduta ” (RHC
64.039/RS, Quinta Turma, DJe 03/06/2016), se verifique a manutenção “do
equilíbrio ecológico que faz possíveis as condições de vida no planeta ” (RHC
41.172/SC, Sexta Turma, DJe 10/04/2015).
Por essa razão, o princípio da insignificância não é aplicado e, por
consequência, é reconhecida a tipicidade material de crime ambiental das
condutas que “causam efetivo comprometimento da biota, da qualidade ambiental
e da estabilidade dos ecossistemas ” (AgRg no REsp 1624787/SC, Sexta Turma,
DJe 30/05/2017).

IV.3.2 – Da hipótese concreta


Na presente hipótese, como informado na denúncia, ao menos três
laudos periciais foram produzidos pelo órgão estadual de proteção ao meio
ambiente (Laudo Pericial n. 02-08-1251/2013; Laudo Pericial n.
2-8-2015/18794-01; Laudo Pericial n. 2-8-2015/18794-01), nos quais teria sido
constatado: a) o uso de ferramentas manuais para o corte de espécies lenhosas não
identificadas; b) a retirada de material terroso com o uso de equipamento do tipo
pá carregadeira; c) a geração de processo erosivo com carregamento do solo
(assoreamento) em direção à margem esquerda do Córrego Sucuri; e d) o
impedimento da regeneração da vegetação natural no local.
Referidas constatações, embasadas em laudos periciais, impedem, no
atual momento processual, a aplicação do princípio da insignificância, porquanto
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não há demonstração, de plano, da inexpressividade da lesão jurídica e da mínima
ofensividade da conduta atribuída ao denunciado.
Trata-se, portanto, de questão que também deve ser submetida à
regular instrução processual, haja vista não estar presente, de forma indubitável, a
atipicidade material, que autorizaria o julgamento de mérito no presente momento
processual.

V - Do afastamento cautelar do denunciado do cargo público


Os conselheiros de Tribunais de Contas são equiparados aos
magistrados, por força do princípio da simetria em relação à disposição contida no
art. 73, § 3º, da CF/88, sendo-lhes aplicada, por analogia, a Lei Orgânica da
Magistratura Nacional (LC nº 35/79). Nesse sentido: APn 686/AP, Corte Especial,
DJe 29/10/2015 e APn 702/AP, Corte Especial, DJe 01/07/2015.
Diante dessa circunstância, nos termos do art. 29 da Loman, a
natureza ou a gravidade do fato imputado ao magistrado e, por analogia, ao
conselheiro de Tribunal de Contas, pode ensejar o afastamento do denunciado do
cargo público por ele ocupado.
Na hipótese em exame, contudo, não vislumbro, por ora, que a
natureza da infração penal ou sua gravidade justifiquem o afastamento do
denunciado do cargo ocupado, haja vista os fatos em apuração não terem ligação
com suas atribuições funcionais e não prejudicarem o exercício da função pública
a ele atribuída.
De fato, a suposta prática de crimes ambientais não interfere na
função inerente ao cargo ocupado pelo denunciado, de verificar a regularidade das
contas e dos gastos públicos, motivo pelo qual não há falar no afastamento do
denunciado de seu cargo.

VI - Conclusão
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Forte nessas razões, REJEITO as preliminares de inépcia da petição
inicial e de ausência de justa causa para a persecução penal e RECEBO a presente
denúncia em todos os seus termos em relação a ANTONIO JOAQUIM MORAES
RODRIGUES NETO.

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