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Universidade Federal Fluminense

Instituto de História
Seminário em História, Poder e Política VII:
Ciência e Descobrimentos no Limiar da Modernidade
Professor Diego Dutra
André Henning

O Filósofo e o Mago
in O Homem Renascentista
Eugenio Garin (1909-2004)

Sobre o autor

Eugenio Garin (Rieti, 9 de maio de 1909 - Florença, 29 de


dezembro de 2004), falecido aos 95 anos, foi um historiador, filólogo e
filósofo italiano internacionalmente reconhecido por seus estudos sobre
a história cultural da Renascença. Aos 20 anos se formou em filosofia
na Universidade de Florença, graduando-se em 1929. Após ser
professor de filosofia no ​Licei Scientifici di Palermo e na Universidade de
Cagliari, Garin lecionou a partir de 1949 na Universidade de Florença,
onde, então, construiu a sua trajetória acadêmica voltada para a cultura
filosófica do medievo e da Renascença. Em 1984, aposentou-se como
professor, mas continuou a presidir ao Instituto Nacional dos Estudos do
Renascimento, cargo que manteve até 1988.

Sobre o livro

É uma obra coletiva, organizada por Eugenio Garin, no esteio


do livro O Homem Medieval, de LeGoff, onde se dá conta de diversas
facetas do homem do renascimento, através do enfoque nas diferentes
classes sociais do período. Cada capítulo aborda um dos tipos desta
sociedade.

O livro reúne textos de diversos autores: John Law, Michael


Mallett, Massimo Firpo, Peter Burke, Alberto Tenenti, André Chastel,
Margaret King, Tzvetan Todorov e o próprio Garin, que assina o capítulo
intitulado O Filósofo e o Mago.

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O autor apresenta a figura do filósofo do renascimento,


destacando suas peculiaridades, demonstrando que não corresponde à
concepção contemporânea de um filósofo. Tal filósofo é melhor definido
como um intelectual, e não apenas um erudito. Destaca que este
filósofo renascentista é “(...) um crítico por vocação, e muitas vezes
rebelde, investigador inquieto e experimentador de todos os domínios
da realidade (...)” (p. 123), enquanto faz referências aos diversos
grandes nomes do período, de Da Vinci a Giordano Bruno.

Há o reconhecimento de que, se por um lado, tais filósofos


constituem um pequeno número de indivíduos deste período, por outro
lado, representam o homem universal do Renascimento, de mestres da
vida, ao investigar e propor os temas mais relevantes do mundo social,
cultural, moral e político.

Para destacar esta influência sobre a sociedade, traz exemplos


tais como, o interesse despertado na tradução, e nas adaptações
populares, de Diógenes Laércio (1545), historiador e biógrafo dos
antigos filósofos e suas obras; ou em 1621, do pseudo Democritus

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Júnior (uma homenagem ao pré-socrático Demócrito de Abdera),
encarnado por Robert Burton, autor de uma reflexão filosófica acerca do
homem, naqueles últimos dois séculos, destacando a melancolia como
intrínseca à intelectualidade de então.

Burton reverencia Demócrito, e o tem como modelo filosófico,


mesmo reconhecendo não estar ao seu nível, por o entender como “o
ideal do cientista da natureza, interessado em captar as estruturas
profundas dos seres” (p. 124).

Este novo filósofo renascentista, curioso, investigador, crítico e


livre, se opõe a figura do filósofo dos séculos anteriores, que era um
erudito, fosse um mestre-escola ou professor universitário, apenas
ocupado na transmissão do que já estava dado. Tal novo filósofo se
inscrevia em diversos campos integradamente, como um sábio
respeitável no campo civil, filósofo natural que busca como agir sobre a
natureza, médico, mago e astrólogo. Este novo filósofo, inspirado nos
exemplos clássicos, funde as características de Sócrates e Demócrito,
do mestre da moral ao investigador da realidade.

Na obra os Três Filósofos, de Giorgione, acaba por delinear


três arquétipos, que mais tarde se associa aos reis magos. E nisto há a
discussão a respeito da astrologia judiciária, um tema que envolveu
outros grandes nomes, como Pico Della Mirandola e Marsilio Ficino. A
discussão ressalta que o novo filósofo é um investigador que se debruça
sobre os temas, sem censuras, na busca por respostas.

Também na publicação das obras de Petrarca, em 1554, se


ressalta este aspecto deste ser um filósofo dos novos tempos, um

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restaurador da língua e literatura latina, frente a quase destruição por
séculos de barbárie.

A evocação da figura de Petrarca é emblemática, dado seu


caráter precursor da discussão do papel do filósofo, nesta transição do
papel tradicional, de reprodutor do saber, para do investigador
intencional da realidade e da mente humana.

Petrarca reconhece o brilhantismo de Aristóteles, mas o põe


em conjunto com diversos outros autores, em uma busca de sentido.

“(...) para se restaurar a filosofia como interrogação


racional do homem acerca do homem, do mundo e
das coisas. Mas acima de tudo, acerca do homem,
acerca de sua ação no mundo. Acerca do seu
destino” p. 127

O autor traz o tema da discussão de tempos anteriores, sobre


a questão de considerar os humanistas, na literatura e arte, também
como este novo filósofo, dadas as discussões do papel da universidade
no epicentro da contradição entre o saber estatuído, na transição desse
saber medievo para as formas da modernidade, e o ideal do novo
filósofo. Neste âmbito, o autor usa os exemplos de Erasmo e Valla, e
ainda reconhecendo seu brilhantismo, e o papel preponderante de sua
atividade, rejeita os categorizar como filósofos novos.

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Outro papel que o autor destaca, é que este novo filósofo não
se prende a um determinismo de fonte, a partir do campo da teologia,
pode examinar as questões metafísicas, pouco importando se é
hebraica, cristã ou muçulmana, pois entende que a verdade não está
condicionada a conformidade exclusiva a uma destas tradições.

Ainda ressalta que, ao longo do XV, universidades como as de


Florença, experimentam a tensão entre as demandas intelectuais deste
público, já influenciado por esta discussão dos filósofos clássicos, e as
formas tradicionais do ensino dos textos clássicos a partir de
interpretações canônicas.

Retomando a questão da astrologia, remonta a Pico Della


Mirandola, com seu combate a astrologia como arte adivinhatória,
recusando a associação dos movimentos celestes às efemérides da
vida humana. Por outro lado, é defensor da astrologia matemática, do
estudo dos movimentos dos astros em si. Rejeita a magia necromante,
mas defende a natural, como fase operativa da ciência da natureza.

Notável é que, uma das características dos novos filósofos,


comunicam suas ideias em linguagem acessível, ou seja, na língua
vulgar, comum, em substituição ao latim escolástico. Divulgando ao
público de modo compreensível, ao contrário da verborragia hermética
das fórmulas tradicionais até então.

Um exemplo modelar deste conceito, é encontrado em


Paracelso, médico, alquimista, filósofo e mago. Segundo uma definição
de Ficino, “costumamos chamar mago ao filósofo perito nas coisas
naturais e celestes”. Este escreveu seus trabalhos em alemão dialetal,

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rejeitando o latim erudito, velho ou novo. Dizia “eu não provenho de
suas escolas, nem escrevo como eles - repetia - eu sou um filósofo que
não frequentou as suas escolas” (p.141).

Cita ainda Girolamo Gardan que se afirmava ​Magus,


incantator, religionis contemptor​, ou seja, cientista, mago, ocultista e
descrente.

Nesse panorama, é certo que tais figuras, apesar de não fazer


parte do mundo acadêmico formal, o que seria uma contradição com
seus pressupostos, influenciaram os modos de saber de tal modo, que
auxiliaram a surgir uma nova ciência e filosofia. Continuavam a ser
minoria, e eventualmente perseguidos, enquanto a academia
prosseguia com seus comentários, velhos ou renovados.

Se algo simboliza e encerra esse ciclo, é Descartes, que ao fim


destes dois séculos, funde toda uma série de fontes, das mais naturais
e matemáticas às místicas, se torna Rosa-Cruz, e dedica sua vida ao
saber, e gera uma nova filosofia, racionalista e metodológica.

“Ao longo de dois séculos foi este o esforço de um


número não muito grande de homens obrigados a
combater em muitas frentes, sem uma
caracterização precisa: sem saberem bem o que
eram ou o que procuravam. (...) Foram os ‘novos
filósofos’, inquietos e rebeldes, uma espécie de
cavaleiros andantes do saber...” p.144