Вы находитесь на странице: 1из 10

SAM SPADE E SHERLOCK HOLMES: SEUS MÉTODOS E SEUS LEITORES1

Eduardo Elisalde Toledo


Fábio Aresi

INTRODUÇÃO

O objetivo deste artigo é analisar os tipos de estratégias cognitivas que são


acionados durante a leitura.
O nosso trabalho apresentará, em primeiro lugar, uma revisão dos dois principais
conceitos envolvidos em uma abordagem psicolingüística da leitura: o processamento
ascendente e o processamento descendente. E, em seguida, analisaremos as respostas
de leitores a questões de interpretação, que envolviam a leitura de dois excertos extraídos
de exemplares literários do gênero policial, O Falcão Maltês e As Cinco Sementes de
Laranja, respectivamente, uma novela do escritor norte-americano Dashiell Hammett e um
conto do escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle.
A opção por essa abordagem é justificada pelas características especiais do tipo
de leitor exigido pelo conto policial, que deve combinar, de maneira equilibrada, um
conhecimento prévio sobre as convenções literárias da forma em questão ( o mistério
envolvendo um crime, o fluir da estória que tenta reproduzir os passos de uma
investigação forense) a um "estado de vigília" intenso, no que se refere aos detalhes, às
"pistas" deixadas de forma sutil no texto, que induzem o leitor a participar de forma ativa
do desvelamento do mistério construindo hipóteses que serão ou não abandonadas no
decorrer da leitura.

REVISÃO TEÓRICA

A Psicolingüística prevê a existência de dois tipos de processamento de


informação acionados durante a leitura: ascendente (também conhecido como bottom-up)
e descendente (também conhecido como top-down). O processamento ascendente,
1
Trabalho apresentado à disciplina de Teoria e Prática de Leitura, do curso de Letras - Licenciatura,
ministrada pela profa. Solange Mittmann em 2007.

1
segundo Mary Kato, caracteriza-se pelo uso linear e indutivo dos estímulos visuais,
através de uma análise e síntese das partes que compõem o objeto em foco; já o
processamento descendente constitui uma estratégia dedutiva, a partir de informações
prévias do leitor.
Esse dois tipos de processamento implicam três tipos de leitores: o leitor
ascendente, que apreende detalhes do texto, mas não consegue construir uma imagem
totalizante para atribuição de um significado geral; o leitor descendente, que ao contrário
do primeiro, apreende facilmente as idéias principais do texto, mas que devido a um uso
excessivo de seu conhecimento prévio tende a adivinhações que o fazem extrapolar os
sentidos potenciais do texto; e, o tipo ideal, o leitor maduro, que se utiliza dos dois
processos de forma complementar, consciente de seu comportamento cognitivo durante o
ato de leitura (Kato, p. 40-41).
O processamento ascendente tende a ser privilegiado quando se procura
quantificar a eficiência do leitor em interpretar o sentido de um texto. De início, essa
abordagem já trai uma perspectiva obsoleta, por não prever o papel ativo do leitor na
construção do sentido, que não é somente extraído do texto mas corresponde a
expectativas e hipóteses que precedem o próprio ato da leitura e dizem respeito à soma
de todas as experiências de leitura de um indivíduo. Sabemos que se um autor produz em
seu texto uma sentença que se pretende irônica, ela poderá ser lida despida de tal sentido
se o leitor não estiver familiarizado com esse tipo de recurso retórico. O hábito constante
da leitura "naturaliza" o modo como lemos os diferentes gêneros de textos; por exemplo,
as instruções para a leitura de um romance policial não estão explícitas na obra, mas
esse fato não nos impede de nunca duvidarmos da capacidade do protagonista, na
maioria das vezes um detetive particular, em solucionar um crime, fazendo todas as
deduções corretas - mesmo que no decorrer da estória muitas de suas inferências iniciais
tenham que ser revistas - e, ao final do livro, sempre confiamos nas palavras do detetive e
de suas explicações racionais que revelam o verdadeiro culpado.
O conhecimento prévio que possibilita a naturalização das convenções, como
explicitado acima, é organizado através de esquemas, "pacotes de conhecimentos
estruturados, acompanhados de instruções para seu uso" (Kato, p. 41). Esses esquemas
representam objetos ou eventos em sua forma canônica, um tipo de protótipo acionado a
partir do reconhecimento de uma variação do mesmo. Daí o caráter de predição atribuído
ao processamento descendente. Um exemplo desse tipo de processamento, citado por
Mary Kato, é aquele do nível da palavra: quando expostos à representação gráfica de

2
uma palavra não a lemos letra por letra, mas, a partir de suas letras iniciais, sua extensão
e outras "pistas visuais", acionamos nossos conhecimentos já adquiridos sobre regras
fonotáticas e de composição grafêmica para adivinhar a forma da palavra. Mas, é óbvio,
que a utilização dessa estratégia de leitura está diretamente ligada à familiaridade da
forma, e isso vale para os outros níveis, como o sintagmático e o textual (p.42).
Para Mary Kato, o ato da leitura envolve a integração de informações velhas, o
conhecimento prévio do leitor, a informações novas, os dados obtidos do texto (p.50).
David Bordwell, ao analisar o papel do espectador na construção da estória
representada em um filme de ficção - papel semelhante ao do leitor de um romance,
mesmo que, neste caso, estejam envolvidas habilidades diferentes -, relaciona essa
perspectiva cognitivista à abordagem construtivista da atividade psicológica - que defende
o caráter ativo da percepção humana, que segundo essa teoria é um processo
direcionado para uma meta específica. Os estímulos sensoriais, devido às suas
características de indefinição e ambigüidade, não podem ser responsáveis pela
percepção de um indivíduo, cabe ao organismo humano construir, baseado em
inferências, a percepção2.
Na próxima seção, veremos como os dois tipos de processamento de
informação, ascendente e descendente, são utilizados por cinco indivíduos submetidos à
questões que exigiam o uso alternado e complementar desses processos.

ANÁLISE

Para examinar os processamentos de informação envolvidos na leitura,


selecionamos dois textos que têm em comum as características de um gênero muito
popular entre os leitores: o gênero policial. Não somente por sua popularidade, que já
garantiria a familiaridade de convenções literárias específicas; mas a escolha de textos
inseridos nesse filão literário é também justificada pela intensa carga dedutiva exigida por
esse tipo de leitura, que põe em evidência o próprio perfil "detetivesco" de seus leitores,

2
"Any theory of the spectators activity must rest upon a general theory of perception e cognition. I
assume here what is called a Constructivist theory of psycological activity; descended from
Helmholtz, it has been the dominant view in perceptual and cognitive psychology since the 1960s.
According to Construtivist theory, perceiving and thinking are active goal-oriented processes. (Karl
Popper calls this the "searchlight" of theory of mind) Sensory stimuli alone cannot determine a
percept, since they are incomplete and ambiguous. the organism constructs a perceptual
judgement on the basis of nonconscious inferences."(Bordwel, Narration in the Fiction Film, 1985,
p.30-31)

3
que são convidados a construir hipóteses a partir das pistas apresentadas pela narrativa e
testar sua veracidade no desenrolar da trama.
Os dois textos selecionados eram trechos de uma novela e um conto policiais,
respectivamente, O falcão maltês e As cinco sementes de laranja.
O falcão maltês apresenta a estória do detetive Sam Spade, um cínico
investigador particular, criado pelo escritor norte-americano Dashiell Hammett, que é
contratado por uma bela e misteriosa moça para descobrir o paradeiro de sua irmã
desaparecida, mas o serviço inicial prova ser uma farsa para ocultar a busca por uma
relíquia medieval, o falcão maltês do título, a estátua negra de uma ave avaliada em um
milhão de dólares. Essa obra apresenta todos os elementos do que a veio a ser
classificado como literatura noir pelos estudiosos: um investigador particular, o cenário de
um submundo noturno e "sujo", mulheres atraentes e perigosas etc. Essa novela foi
escrita durante o período da Lei Seca nos Estados Unidos, quando as ruas eram palco de
perseguições e execuções públicas providas por uma máfia em ascensão. Representa
uma ruptura em relação às clássicas estórias de detetive, em que toda as atividades do
protagonista se resumiam ao âmbito intelectual, não sendo exigida nenhuma "ação física".
O outro texto, As cinco sementes de laranja, narra as aventuras do famoso
detetive inglês Sherlock Holmes, criado por Sir Arthur Conan Doyle, que é sempre
acompanhado pelo fiel Dr. Watson, o narrador de suas brilhantes investigações. Situado
na sombria Londres do século XIX, o conto nos apresenta a estória de um jovem vítima
de uma maldição que persegue sua família há muitas gerações: o envio de um envelope
contendo cinco sementes de laranja sempre é sucedido pela abrupta e inexplicável morte
do destinatário. Todas as evidências que parecem exigir uma explicação sobrenatural
para o caso, serão desmascaradas pela perspicácia de Holmes. Fonte de todas as obras
sobre detetives que a sucederam, a criação literária de Conan Doyle atingiu um sucesso
de vendas na Inglaterra jamais antes visto, obrigando o escritor a, até mesmo, ressuscitá-
lo após a indignação dos leitores ao verem seu mais querido personagem ser morto
durante um combate com seu arquiinimigo, o Professor Moriarty.
Os dois trechos (em anexo) representam o clássico momento em que o cliente
apresenta ao detetive (e ao leitor) seu caso e são propositalmente interrompidos no
instante em seriam revelados detalhes do caso.
Foram elaboradas três questões de interpretação textual (em anexo) que
visavam acionar no leitor na primeira questão um processamento ascendente, na

4
segunda o uso complementar de processamento ascendente e descendente, e na terceira
questão o uso apenas do processamento descendente.
Para a primeira questão que exigia uma reflexão gramatical sobre o uso
alternado de tempos verbais (pretérito perfeito e pretérito imperfeito do modo indicativo)
num parágrafo extraído de O falcão maltês, obtivemos na maioria das respostas, a
percepção de que esse uso representava, no caso do pretérito imperfeito, uma descrição
da personagem e de seu estado emocional e, no caso do pretérito perfeito, uma descrição
das ações praticadas pela personagem. Ocorreu, aqui, o uso complementar dos dois tipos
de processamento. Os verbos de pretérito imperfeito estavam quase sempre relacionados
a uma descrição de características físicas da personagem, o que revela o uso de
processamento ascendente para se chegar a essa resposta, já que há informações
visuais, mas não podemos subestimar o ensino da gramática escolar, que classifica
semanticamente as formas verbais em categorias de descrição e de ação, sendo que a
primeira categoria é também associada aos adjetivos.
Abaixo, apresentamos o parágrafo em questão, com as formas do pretérito
imperfeito marcadas em negrito e as formas nominais com a função descritiva
sublinhadas.
Uma voz respondeu "Muito obrigada", tão suavemente que apenas a clara
pronúncia tornava as palavras inteligíveis, e uma jovem transpôs a porta. Caminhava
devagar, com passos hesitantes, fitando em Spade uns olhos azul-cobato, que se
mostravam ao mesmo tempo tímidos e investigadores. Era alta e de uma esbeltez flexível,
sem angulosidades. Tinha o talhe ereto e o colo alteado, pernas longas, mãos e pés
estreitos. Usava dois tons de azul, escolhidos de acordo com os olhos. O cabelo, caindo em
anéis sob o chapéu azul, era de um vermelho sombrio, e os lábios, cheios, de um vermelho
mais vivo. Dentes alvos brilhavam na meia-lua feita pelo seu sorriso tímido.

A segunda questão relacionava os dois textos comparando as diferentes


características dos detetives Sam Spade e Sherlock Holmes, e pedindo aos leitores que
apresentassem hipóteses sobre a continuidade da narrativa a partir do ponto de
interrupção do trecho lido. Nesse caso esperávamos o uso complementar dos
processamentos, pois haviam informações sobre os perfis dos dois detetives que
poderiam ser inferidas diretamente dos textos e outras provenientes de um conhecimento
prévio relacionado à familiaridade no caso do personagem de Sherlock Holmes, mesmo
entre aqueles que nunca tiveram contato com a obra de Conan Doyle. As respostas
apresentaram em sua maioria um processamento descendente para enumeração das
características de Holmes que levaram os leitores a construir suas hipóteses para o
desenlace da estória e um processamento ascendente para Sam Spade, que foram

5
justificadas por evidências extraídas literalmente do texto ou da própria formulação da
questão.
A terceira questão perguntava sobre as causas do sucesso ininterrupto por mais
de dois séculos do gênero policial e exigia um processamento exclusivamente
descendente convocando o leitor a opinar a partir de suas experiências anteriores nas
diversas mídias que veiculam esse formato (tv, cinema, literatura). Aqui obtivemos
respostas que revelam o acionamento de esquemas de conhecimento prévio comuns a
todos os leitores. O "mistério" foi a resposta mais recorrente, representado pela
expectativa do leitor em se chegar a "solução do mistério" através das graduais
descobertas do detetive, remetendo aos elementos mais convencionais do gênero (crime
> mistério > investigação > resolução do mistério). As respostas confirmam o caráter
genérico dos esquemas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORDWELL, David. Narration in the Fiction Film. Wisconsin: The University of Wisconsin
Press, 1985(p.29-47).
DOYLE, Sir Arthur Conan. Tradução de Carlos Chaves. As cinco sementes de laranja.. In:
Sherlock Holmes em: Um escândalo na Boêmia e outras histórias. Porto Alegre: L&PM ,
1998. p. 142-145.
HAMMETT, Dashiell. Tradução de Cândida Villalva. O falcão maltês. São Paulo: Abril
Cultural, 1984. p. 5-7.
KATO, Mary. Processos de Decodificação: a integração do velho com o novo em leitura.
In: O aprendizado da leitura. São Paulo: Martins Fontes,.

ANEXOS

1 Os dois textos selecionados para leitura

O FALCÃO MALTÊS

O maxilar de Samuel Spade era longo e ossudo, seu queixo um V proeminente


sob o V mais flexível da boca. As narinas curvavam-se para trás, fazendo um outro V

6
menor. Os olhos amarelo-pardos eram horizontais. O motivo V era retomado de novo por
espessas sobrancelhas saindo de duas rugas gêmeas sobre o nariz adunco e erguendo-
se na parte externa, e o cabelo castanho claro descia das têmporas altas e achatadas, em
ponta sobre a testa. Dava a impressão um tanto divertida de um louro satanás.
- Então, meu bem? - disse ele, dirigindo-se a Effie Perine.
Effie Perine era uma moça esbelta, morena de sol, cujo vestido de lã escura e
leve a envolvia produzindo um efeito melancólico. Tinha olhos castanhos e travessos,
num rosto vivo e juvenil.
Acabou de fechar a porta, encostou-se a ela, e disse:
- Está aí uma moça à sua procura. Chama-se Wonderly.
- Uma cliente?
- Acho que sim. De todo o jeito, terá que vê-la: ela é uma uva.
- Faça-a entrar, meu bem - disse Spade. - Faça-a entrar.
Effie Perine abriu de novo a porta, recuando para a sala externa sem tirar a mão
do trinco, enquanto dizia:
- Faça o favor de entrar, Miss Wonderly.
Uma voz respondeu "Muito obrigada", tão suavemente que apenas a clara
pronúncia tornava as palavras inteligíveis, e uma jovem transpôs a porta. Caminhava
devagar, com passos hesitantes, fitando em Spade uns olhos azul-cobato, que se
mostravam ao mesmo tempo tímidos e investigadores. Era alta e de uma esbeltez flexível,
sem angulosidades. Tinha o talhe ereto e o colo alteado, pernas longas, mãos e pés
estreitos. Usava dois tons de azul, escolhidos de acordo com os olhos. O cabelo, caindo
em anéis sob o chapéu azul, era de um vermelho sombrio, e os lábios, cheios, de um
vermelho mais vivo. Dentes alvos brilhavam na meia-lua feita pelo seu sorriso tímido.
Spade levantou-se cumprimentando e indicando com a mão de dedos grossos a
cadeira de braços feita de carvalho, ao lado da sua secretária. Ele tinha bem seis pés de
altura. A pronunciada curvatura dos ombros fazia seu corpo parecer quase cômico, de
uma espessura igual tanto na frente como dos lados, e impedia o paletó cinzento, bem
passado, de cair direito.
Miss Wonderly murmurou suavemente: - Muito obrigada - e sentou-se na beirada
do assento de madeira.
Spade afundou na cadeira giratória, deu um quarto de volta para colocar-se
frente á moça e sorriu com polidez. Fê-lo sem abrir os olhos . Todos os VV do seu rosto se
alongaram. Através da porta fechada veio o tip-tap das teclas e o leve som da campainha,
acompanhando o ruído abafado da máquina de Effie Perine. Num escritório próximo um
motor elétrico vibrou suavemente. Na secretária de Spade um cigarro amassado
fumegava num cinzeiro de latão, cheio de pontas de cigarros. Montículos de cinza
salpicavam a superfície amarela da secretária, o mata borrão verde e os papéis ali
existentes. Uma janela de cortinas amarelo-claras, aberta umas oito ou dez polegadas,
deixava penetrar, vinda do pátio, uma corrente de ar cheirando levemente a amoníaco.
Sobre a secretária as cinzas se agitaram e foram arrastadas na corrente.
Miss Wonderly observava os fragmentos de cinza se agitarem e serem levados
pelo vento. Seus olhos mostravam-se inquietos. Ela estava sentada bem na beiradinha da
cadeira, com os pés apoiados no chão, como prestes a se levantar. As mãos, calçadas
com luvas escuras, apertavam sobre o colo uma bolsa em formato de carteira, também
escura. Spade recostou-se na cadeira e perguntou:
- Em que posso ser-lhe útil, Miss Wonderly?
Ela reteve a respiração e dirigiu-lhe o olhar. Depois tomou fôlego e disse
precipitadamente: - Poderia o senhor...? Eu pensei... eu... isto é... - Mordeu então o lábio
inferior com os dentes brilhantes, e ficou calada. Apenas os olhos falavam agora,
suplicando.

7
Spade sorriu e fez um gesto de aquiescência com a cabeça, como se a tivesse
compreendido, mas com ar satisfeito, como se não fosse nada de importância, e disse:
- Suponhamos que a senhora me conte o que há, desde o começo, e então
saberemos o que é preciso fazer. É melhor começar do ponto mais afastado que puder.
- Foi em Nova York.
- Sim.
- Não sei onde ela o encontrou. Quero dizer, não sei em que lugar de Nova
York. Ela é cinco anos mais moça que eu - tem apenas dezessete anos - e nossas
amizades não eram as mesmas. Como irmãs acho que nunca fomos tão unidas como
devíamos ser. Mamãe e papai estão na Europa. Isso os mataria. É preciso que eu a faça
voltar, antes que eles venham.
- Sim - disse ele.
- Eles voltam no dia primeiro do próximo mês.
Os olhos de Spade brilharam. - Temos então duas semanas.
(...)

AS CINCO SEMENTES DE LARANJA


(...)
Em fins de setembro, as tempestades equinociais haviam começado com
violência excepcional. O vento zumbira o dia todo e a chuva tanto batera nas janelas, que
mesmo aqui, no coração desta grande cidade de Londres, éramos forçados a afastar
nossos pensamentos, por ora, da rotina quotidiana, e reconhecer a presença daquelas
grandes forças dos elementos da natureza que atemorizam os homens, apesar de toda a
sua civilização, como animais selvagens em uma jaula. Ao passo que chegava a tarde a
tempestade aumentava mais e mais, e o vento gritava como criança, na chaminé.
Sherlock Holmes achava-se sentado tristemente a um lado da lareira, assinalando suas
anotações de crimes enquanto eu, do outro lado, estava lendo com interesse uma das
velhas histórias marítimas de Clark Russel, a ponto de o grito da tempestade lá fora
parecer que se confundia com minha leitura e o barulho da chuva na janela se
assemelhar ao clamor das ondas do mar. Minha esposa fora visitar sua tia e por alguns
dias eu voltara para os meus cômodos em Baker Street.
- Ouça - disse eu olhando para o meu companheiro -, aquilo certamente foi a
campainha! Quem viria numa noite destas? Talvez algum amigo seu?
- Fora você não tenho nenhum - respondeu ele -, não gosto de visitas.
- Um cliente, então?
- Se for, é caso sério. Nada nos traria um homem para fora de casa numa noite
e hora destas. Acho mais provável que seja algum amigo da proprietária.
Sherlock Holmes estava enganado em sua conjetura, porque ouvimos passos no
corredor e uma pancada em nossa porta.
Estendeu seu comprido braço para virar o comutador da lâmpada que estava
junto à sua cadeira e fez refletir sua luz sobre a cadeira vazia, onde deveria sentar-se o
recém-chegado.
- Entre - disse ele.
O homem que entrou era jovem, de uns 22 anos no máximo, bem vestido, com
aspecto distinto e cavalheiresco. O guarda-chuva molhado que trazia na mão e a capa
impermeável, demonstravam quão forte era a chuva. Olhou em volta ansiosamente e,
pela luz da lâmpada, pude notar que seu rosto estava pálido, os olhos cansados como os
de um homem que está oprimido por grande preocupação.

8
- Devo pedir-lhe desculpas - disse ele, colocando o pincenez de ouro - espero
não o estar incomodando, temo haver trazido alguns sinais da tempestade e
da chuva para dentro de seu confortável quarto.
- Dê-me sua capa e guarda-chuva - disse Holmes -, podem ficar aqui no porta-
chapéus para irem secando. Vejo que veio do sudoeste.
- Sim, de Horsham.
- Aquela mistura de barro e gesso que vejo nas pontas de seu calçado é bem
característica.
- Vim pedir-lhe um conselho.
- É fácil obter.
- E auxílio.
- O que não é tão fácil.
- Já ouvi falar a seu respeito, Sr. Holmes. Ouvi do Major Prendergast, de como
o salvou do escândalo do Tankerville Clube.
- Ah! decerto. Fora acusado injustamente de haver feito trapaças no jogo.
- Disse-me que o senhor podia resolver qualquer problema.
- Falou demais.
- E que o senhor nunca foi vencido
- Fui vencido quatro vezes - três vezes por homens e uma por mulher.
- O que é isto em comparação com o número de seus sucessos?
- É verdade que, geralmente, tenho sido bem-sucedido.
- Então que seja assim comigo.
- Peço-lhe que puxe sua cadeira para mais perto da lareira e faça o favor de
dar alguns pormenores de seu caso.
- Que não é comum.
- Nenhum dos casos que vêm a mim o são. Sou sempre o último a que
recorrem.
- Todavia, duvido, senhor se em toda a sua experiência, jamais ouviu relatar
uma corrente de fatos mais misteriosos e inexplicáveis do que esses que têm
ocorrido em minha própria família.
- O senhor está me deixando curioso - disse Holmes. - Dê-nos os fatos
essenciais desde o princípio, para que depois possa perguntar-lhe sobre os
detalhes que a mim pareçam ser de maior importância.
(...)

2 As três questões de interpretação textual

1) "Assim como no teatro usa-se o recurso das luzes para salientar algum aspecto da
cena que se está desenrolando, a linguagem também conta com recursos para salientar
pessoas, ações e eventos."(Mary Kato)
A partir da afirmação acima, explique como se dá o contraste entre primeiro e segundo
plano em relação ao uso dos tempos verbais de pretérito perfeito (transpôs) e pretérito
imperfeito (caminhava) no parágrafo d' O Falcão Maltês, que começa com "Uma voz
respondeu 'Muito Obrigada'(...)".

2) O gênero policial tem como figura nuclear o detetive particular, que auxilia seus clientes
em casos que não podem tomar proporções públicas. Do cerebral Sherlock Holmes de
uma nevoenta Londres do século XIX ao brutal Sam Spade de uma caótica San Francisco
do século XX, percebemos mudanças no modo de representação desse personagem

9
(atitudes, ideais, etc.). Comente as diferenças entre os dois detetives e quais seriam, a
partir disso, suas expectativas em relação à continuidade das duas histórias.

3) O interesse por histórias de investigações criminais continua a render um imenso lucro


à indústria do entretenimento: séries de tv norte-americanas (CSI, Lei e Ordem, Monk);
cinema( Insônia, Seven, L.A. Cidade Proibida); e a literatura, "onde tudo começou",
apresenta todos os anos novos candidatos a superar a genialidade de Sherlock Holmes.
Na sua opinião, qual é a principal razão para o sucesso tão duradouro desse gênero na tv,
no cinema e na literatura?

3 As respostas dos cinco leitores

E.E.
18 anos
Segundo Grau Completo
Feminino

1) Esses verbos foram usados para salientar a hesitação e a timidez da jovem.


2) Na história do Sherlock Holmes espera-se um desfecho brilhante em que ele explica
como chegou a solução, por meio de pistas que só ele percebeu, no entanto, na
história do detetive Sam Spade espera-se apenas que ele investigue e encontre a
moça.
3) A principal razão para o sucesso tão duradouro desse gênero, na minha opinião, é que
esse tipo de história prende a atenção do leitor ou espectador, você quer saber como
vai terminar, como o detetive chegou à solução do mistério e principalmente se você
estava certo.

C. J.
18 anos
Superior Incompleto
Masculino

1) O que ocorre, a ação da narrativa, é colocado com o passado perfeito, o que é


descrição com o imperfeito.
2) Holmes é analítico, questiona o cliente até conseguir o máximo de informações que
puder, para poder dar início aos seus mirabolantes raciocínios; atenta a qualquer
mínimo detalhe e cria hipóteses que, na maioria das vezes, são o ocorrido. Não
conheço Sam Spade; mas, como se pergunta sobre as diferenças entre ambos,
imagino, também pelo pouco que li, que ele seja diferente de Holmes, ou seja,
impulsivo e não tão observador.
3) O mistério que é feito entre o que pode ser maravilhoso ou estranho é levado sempre
até o final da narrativa, quando é desfeito e explicado racionalmente. É isso que atrai
a atenção das pessoas, é fórmula certa pra qualquer coisa, pois todos são entretidos
com mistérios até o final, quando se destapa a verdade.

10