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Mediação: esporte rendimento e

esporte da escola

Hugo Lovisolo

Ao longo de três números a revista Movimento ca realizar operações simbólicas para que conhe-
promoveu a discussão do tema Esporte na escola cimentos ou saberes de um campo se transfor-
e esporte de rendimento. Os colegas Bracht, Kunz mem em produtos ou processos inovadores de
(2000, 12,) Gaya, Taffarel (2000/2, 13), Stigger intervenção ou sejam levados como crenças ou
e Vaz (2001/1, 14) escreveram artigos cientes de orientações para a ação do não especialista. Por
estarem participando da discussão de um tema último, mediar significa tentar levar opositores
polêmico, embora sem uma estrutura que per- ou antagonistas a algum tipo de acordo, como na
mitisse a organização da polêmica. Como resul- mediação dos conflitos ou processos jurídicos.
tado, os artigos não possuem eixos ou questões Acredito que seja este último significado o que
comuns e, mesmo, alguns dos artigos apenas orientou o pedido dos editores da Revista
tangenciam o tema polêmico. Estaríamos, por- Movimento. Suponho que eles pretendem con-
tanto, diante de uma polêmica entre aspas, como tribuir com acordos para a ação e penso que esses
escreveu Vaz. O leitor tem a impressão de que acordos estão presentes nos autores do tema
cada autor desenvolveu seu tema independente- polêmico. Contudo, além ou aquém deles, apre-
mente. Creio que o texto de Bracht e o de Gaya, sentam variações significativas que, com
que assumiu um caráter aberto de debate com freqüência, os levam do tratamento do tema para
Bracht, juntamente com o de Taffarel, podem ser o confronto ou debate intelectual. E um lugar
considerados como dentro do tema.1 Os demais comum afirmar que os intelectuais tendem a dis-
textos, embora emitam sinalizações importantes tinguir-se e, eventualmente, a formar "igrejinhas"
sobre pontos específicos, podem se considerados lideradas por figuras que tenham carisma de idéias
como externos à polêmica. Deixarei por essa ra- e por vezes de personalidade. Clérigos e intelec-
zão para o final o comentário de alguns aspectos tuais, como foi repetidamente salientado, têm
desses textos. muito em comum. Diferem do experto ou do
especialista, pois este geralmente está preocupa-
Fui convidado pelos editores para "mediar" as
do por satisfazer a demanda sem interrogar-se
posições. Declaro que não sei muito bem o que
sobre a justiça, sobre o valor dos objetivos para
significa, neste caso, mediar e também, que reli-
os quais deve inventar os meios de realização.
dos os trabalhos a tarefa pareceu-me de fato bas-
tante difícil. Tive vontade de renunciar ao amá- Diante das semelhanças e das diferenças, eu, o
vel convite, mas fiquei empenhado pelo compro- comentarista, sou levado pela tentação de dois
misso com a palavra dada. erros opostos: remarcar as diferenças ou enfatizar
as semelhanças. Creio que os autores sentir-se-
Mediar significa estar no meio, com os artifícios
iam pouco confortáveis tanto num caso como no
técnicos que realizam a comunicação mediada.
outro. No primeiro caso me acusariam de
Conceitos e construções de pensamento funcio-
enfatizar a divergência dos argumentos, esque-
nam como mediadores entre teorizações ou des-
cendo seus pontos comuns; no segundo, diriam
crições de níveis do real. Mediar também signifi-

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que estou esquecendo as singularidades de seus aperfeiçoá-la, significaria que o debate foi estéril.
argumentos resgatando apenas os pressupostos Como orientador observo e até pergunto a meus
partilhados. Como minha tarefa é de mediação orientandos sobre suas mudanças no processo de
não realizarei citações de textos fora do debate, pesquisa. Considero que a mudança de orientador
nem dos meus próprios. Apenas conversarei com e orientando é um dos eixos no diálogo do proces-
os autores. so de pesquisa.

Uma mediação equânime significaria um distan- Creio que Bracht faz no seu texto dois movimen-
ciamento absoluto que permitisse mapear as se- tos: um de demarcação, e o segundo de aproxi-
melhanças conservando as diferenças. Não creio mação. Creio que o objetivo do primeiro movi-
ser capaz de manter distanciamento tão angélico. mento é o de conservar o público interno, as ade-
Pessoalmente, identifico-me com aqueles que pen- sões já conquistadas, para a sociologia crítica da
sam e sentem-se dentro da cidade e não com os educação e do esporte. Bracht produz sua demar-
que o fazem como se estivessem no topo da mon- cação a partir de três axiomas que podem ser con-
tanha que a domina. Nas ruas da cidade traditórios: o primeiro é o do abandono da escola
podemos conversar para entender o que pelo projeto neoliberal,2 o segundo é o do papel
acontece. No topo da conservador da escola e o terceiro a contribuição
Trata-se de montanha somos do- desse papel do esporte na escola. Creio que a
argumentar, de minados pela vontade de sociologia crítica de Bracht quando usada com
negociar, de conciliar fazermos as leis e temos função demarcatória parece remeter ao
para podermos viver boas possibilidades de essencialismo que ele tanto critica: escola e es-
juntos. Contudo, isto sofrer do complexo de porte seriam essencialmente conservadores.
não significa que a Moisés. Minha mediação Bracht deveria levar a sério as contribuições de
Stigger sobre a heterogeneidade das práticas es-
crítica desapareça. será portanto uma conver-
sa imaginária. Porém, portivas, as de Vaz sobre as interpretações do es-
Creio que ê nesse apenas poderei mediar a porte que não se situam na perspectiva da socio-
contexto que ela pode partir do endereço que logia crítica e as de Taffarel, no sentido de que o
ganhar seu ocupo na cidade e não de esporte não têm nada essencialmente bom ou
verdadeiro papel nenhum lugar especial mau. Em outros termos, para Bracht continuar
sendo, portanto, mais um validando a funcionalidade do esporte para a re-
dos tantos que contribuem para que a cidade produção deveria discutir com os autores que lhe
caminhe no sentido da ordenação. Então, falarei atribuem aspectos positivos nem sempre funcio-
das posições dos autores a partir de minha própria nais, no sentido da acomodação ou adequação
posição que é favorável ao esforço de estabelecer reprodutora. Creio que o texto de Taffarel é atra-
acordos no campo da intervenção. Sem acordos vessado pelo reconhecimento dos efeitos contrá-
não há eficácia simbólica e, sem ela, não há ação rios e contraditórios do esporte rendimento e sua
eficaz. Todavia, é importante que seja dito que impossibilidade, ética e prática, de ser posto no
minha posição foi (re) trabalhada a partir das contexto escolar, do modo que ele é.
posições dos participantes do tema polêmico. Sou
Contudo, depois de demarcar, Bracht assume a
dos que opinam que no debate ou na polêmica
vontade de aproximação mediante a eliminação
elaboramos permanentemente nossa posição a
de mal-entendidos. Incita-nos pelo bom caminho
partir do entendimento das dos outros. Se a
no sentido de estarmos cientes das finalidades ou
intenção fosse apenas conservar a própria posição
valores da intervenção no campo do esporte e da
sem, minimamente,
necessária subordinação dos processos técnicos aos
mesmos, mediante a crítica da suposta auto-evi-

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dência da razão instrumental, e continua nossas mudanças no tratamento do objeto. Con-
relativizando, com muito bom senso, as posições cordo, entretanto, sobre a possibilidade defendida
extremas. Creio que trabalha na direção da pru- por Gaya de que sob certas circunstâncias o esporte
dência, pelo caminho do meio, para escaparmos de excelência, possa ser educativo, mas essa não é
de erros inversos e, neste sentido, eu o acompa- sua essência! Creio que avançaremos se aceitamos
nho, embora a tarefa talvez seja mais difícil do que que o esporte rendimento é uma realidade
agir dogmaticamente. Creio que todos os partici- contraditória e que com ela devemos lidar educati-
pantes do debate estão em princípio de acordo: vamente. Prefiro adotar uma perspectiva pragmá-
devemos tratá-lo pedagógicamente, tanto quanto tica, entro no debate como creio que o fazem
devemos fazer isso com as matemáticas. Significa Stigger e Vaz, com a
que temos que dar ao esporte da escola um senti- intenção de construir e Creio que faz-se
do diferente daquele que possui o esporte rendi- valorizar acordos que necessário esclarecer
mento e que não devemos nem podemos subordi- orientem a ação Assim, que vejo o conjunto
narmos inconscientemente à técnica pelo seu valor. creio que o objetivo dos autores como
Entretanto, não podemos cometer o equívoco in- principal deva ser o de
progressistas, críticos,
verso de idealizar o lúdico nem abandonar o mo- estabelecer acordos para a
vimento pela reflexão.3 ação. Kunz, em par-
de esquerda, radicais
ticular, defende o valor da ou como queiram ser
Gaya vai contra a aceitação de um ponto de vista
sensibilidade, da percepção denominados
dominante, no caso a sociologia crítica de Bracht,
e da intuição no agir esportivo como componente
e reivindica a validade dos diferentes níveis de lei-
desse acordo.4 Procurarei manter-me dentro desta
tura e diferentes leituras do fenômeno esportivo.
possibilidade do debate. Entendo que estamos
Em segundo lugar, argumenta sobre o caráter
diante de problemas e que devemos estabelecer
formativo e educativo do esporte de excelência, tal
acordos para enfrentá-los. Trata-se de argumentar,
qual uma escola da vida. Gaya pretende conven-
de negociar, de conciliar para podermos viver
cer-nos sobre o valor formativo do esporte e isso o
juntos. Contudo, isto não significa que a crítica
leva à defesa de uma essência positiva. Em segun-
desapareça. Creio que é nesse contexto que ela
do lugar, creio que perde de vista que o esporte
pode ganhar seu verdadeiro papel.
rendimento se define na relação constitutiva entre
esportistas e público, por isso igualamos esporte Creio que faz-se necessário esclarecer que vejo o
rendimento com esporte espetáculo. A fisiología conjunto dos autores como progressistas, críticos,
do esporte não diz nada sobre o esporte rendimen- de esquerda, radicais ou como queiram ser deno-
to, enquanto relação entre atletas e público, ela minados. Compartilham a crítica do esporte e da
apenas nos fala do organismo submetido a esfor- sociedade, o que não significa que sejam contra o
ços, por isso é um capítulo da fisiología do esforço esporte e a sociedade, e todos pretendem gerar al-
e, mais para trás no tempo, da denominada fisio- gum tipo de mudança que aproxime o esporte real
logía do trabalho. A química das tintas usadas pelo do ideal e procuram o mesmo movimento, do real
pintor para fazer o quadro tem pouca ou nenhu- para o ideal, em suas considerações sobre a socie-
ma pertinência para falarmos da relação da obra dade. Contrapõem-se, em bloco, àqueles que ad-
com seu público. Creio que Gaya complica inutil- miram o esporte como ele é e gostariam que a es-
mente o debate quando introduz discussões de cola difundisse suas práticas tecnicamente orien-
essência, mais ainda, abandona seu próprio con- tadas para obtenção de resultados, despertasse vo-
selho para sermos prudentes. A essência é um con- cações e se possível detectasse e encaminhasse ta-
senso, propriedade específica do objeto porque
dizemos que ela assim é, que muda em função de

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lentos para o esporte rendimento ou espetáculo. sos simbólicos e práticos de cada campo de pro-
Rejeitam, portanto, trabalhar para promover o dução cultural.
horizonte do esporte negócio, do esporte espetáculo
ou rendimento. O fato de que não sejam contra, Há três pontos que devo considerar inicialmente
como afirma Bracht, e ao mesmo tempo que se- para eliminar malentendidos. Primeiro: conside-
jam críticos do esporte, provoca uma tensão em ro que a competição que se expressa em ganhar e
seus discursos que, às vezes, pode levar a posições perder é a alma do esporte. A competição, como
que outros decodificam como contra o esporte. alguma vez explicou Lévi-Straus, é o contrário
(Diria que grande parte das contraposições entre do ritual. A competição desiguala os iguais, o ri-
Bracht e Gaya são tual iguala os desiguais.5 A desigualação gerada
desse tipo). pela competição é sancionada pela distribuição
A competição, de bens simbólicos ou materiais (moeda ou espé-
segundo Lévi-Straus, Com diversos arranjos cie). Não consigo imaginar como realizar um es-
argumentativos porte que não seja competitivo e desigualador.
é o contrário do rejeitam as demandas do Podemos imaginar uma estrutura competitiva
ritual. A competição esporte rendimento e cuja desigualação seja sancionada apenas pela dis-
desiguala os iguais, o colocam outros objetivos tribuição de bens simbólicos. De fato, acredito
ritual iguala os para o esporte da escola. que essa seja a característica que define o esporte
desiguais.5 A A partir dessa rejeição amador. O menor bem simbólico é a satisfação
desigualação gerada podemos perfilar uma individual ou grupai em ter participado do jogo
pela competição é mesa de acordo. competitivo, o maior talvez seja a medalha Olím-
Basicamente, tratar-se-ia, pica. Participar do jogo é importante em si mes-
sancionada pela então, de situar o esporte mo, significa dizer, eu estive lá, fui parte da his-
distribuição de bens dentro do processo de for- tória. Creio que este é um tópico que gera
simbólicos ou mação educacional, malentendidos entre os educadores físicos. Te-
materiais (moeda ou do bildung ou pai-déia mos que reconhecer que olhamos com admira-
espécie) imaginada como ção para o atleta que participou de uma Olimpí-
necessária, justa, bela e/ou ada, embora tenha chegado por último. O pró-
verdadeira. Creio que deveríamos partir deste prio fato de estar lá faz uma tremenda diferença,
acordo, embora de alta formalidade. Neste senti- talvez não tenha sido o melhor, mas certamente
do, importa menos aquilo que o esporte rendi- era muito bom. Resumindo, proponho que fale-
mento é na sociedade e muito mais — como sa- mos de esportista para nos referirmos à figura
lientou Taffarel em seu artigo, seguindo a opi- que participa ou está motivada para participar do
nião de Parlebas — o que fazemos com ele no esporte competitivo. Segundo: considero im-
processo educacional. Sartre dizia alguma coisa portante não perder de vista as atitudes dos atores
semelhante: é menos importante aquilo que nos esportivos. E freqüente que os esportistas entrem
fizeram que aquilo que fazemos com o que fize- em competições sabendo que não poderão ga-
ram de nós. Caso contrário, se importasse mais o nhar. Podem participar para acumular experiên-
que fizeram estaríamos renunciando a nossa pró- cia, para superar seus próprios desempenhos an-
pria intervenção no mundo. Este critério geral se teriores ou para chegar a alguma etapa da seleção
aplica às ciências, à artes, às tecnologias, enfim, a ou desigualação competitiva entre outros moti-
tudo aquilo que por ser cultura a educação deve vos. Os esportistas re-significam sua própria par-
incorporar. Nenhuma dessas "incorporações" ticipação, estabelecendo objetivos e finalidades
deve ser realizada como mera cópia dos univer- próprias, sob o pano de fundo da regra da com-
petição. Os esportistas desenvolvem argumentos

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que os "protegem" da perda da competição, (en- torios com essas finalidades e c) como se articu-
quanto escrevo os flamenguistas celebram o jogo lam as ações do esporte da escola com o conjun-
que lhes permite continuar na Primeira Divisão, to de suas finalidades e meios. Importa destacar
embora entre os últimos classificados). Se não que, se um dos objetivos da educação é o desen-
estamos dispostos a desenvolver esses argumen- volvimento da "autonomia moral e cognitiva",
tos, e entre eles os que permitem derivar "gan- por exemplo, não poderíamos agir com proces-
hos" da derrota, não poderemos estar no esporte. sos de ensino-aprendizagem que reforcem a
Nesse caso, eu sugeriria que nos dedicássemos a "heteronomia". Creio que todos os participantes
desenvolver rituais ao invés de competições e, se concordam com essa posição que, em outra lin-
assim fosse, creio que a religião seria o campo guagem, é um dos eixos da intervenção de Kunz.
natural de igualação ritual e que fracassaríamos
É necessário ainda estabelecer outro tópico de
se tentássemos dar essa função ao esporte. Ter-
acordo. A educação tem uma semelhança pro-
ceiro: o fato de fazermos atividade física, de de-
funda com a história. Sabemos vivencialmente
senvolver nosso condicionamento físico não sig-
que a história é diferente, que muda, porém tam-
nifica que sejamos esportistas no sentido estrito.
bém que estamos na mesma história. A história é
Assim, posso imaginar atividade física escolar
tensão entre a continuidade e a mudança que
geradora de condicionamento sem competição.
formam seus fios entremeados, e cuja sua distin-
Durante meus anos da Escola Normal nas aulas
ção é uma tarefa complexa e difícil que persegue
de Educação Física fazíamos ginástica e danças
historiadores e analistas
folclóricas. Não tínhamos competição esportiva
sociais. Ambas, conti- O menor bem
nem iniciação esportiva, talvez por falta de con-
nuidade e mudança, simbólico é a
dições. Quarto: o fato que se trabalhe pela inclu-
resultam das lutas dos satisfação individual
são nas atividades físicas ou esportivas escolares
atores sociais (indivíduos, ou grupal em ter
não significa que todos queiram incluir-se da
classes, elites ou grupos
mesma maneira, participar com a mesma inten- participado do jogo
em função da teoria da
sidade e, mesmo, podem existir aqueles que não competitivo, o maior
história posta em
desejam ser incluídos. A possibilidade não pode
ação por quem construiu a talvez seja a medalha
ser confundida com sua realização.
narrativa) dependendo das Olímpica
Creio, portanto, que se há atividade esportiva na configurações, do estado e
escola algum grau de competição terá que estar dinâmica dos campos, das conjunturas ou da
presente. Contudo, a existência de algum grau de consciência possível. A educação será portanto
competição não implica que a mesma seja o um misto de conservação e transformação. Ela
objetivo principal da atividade esportiva na es- jamais poderá ser absolutamente nova ou
cola. Assim, o esporte deveria estar articulado, absolutamente conservadora. A ansiedade pelo
estruturado no projeto da escola. Não como "absoluto" forma parte da vontade totalitária.
atividade agregada, como elemento de uma soma, Não podemos compactuar com o totalitarismo
porém como dimensão e parte de um todo vivo e em nenhum campo, menos ainda com o
em movimento. absolutismo educacional, uma de suas variantes.

Emergem assim três questões que deveriam ter A proporção na formação do bolo educacional
sido eixos explícitos do debate para gerar as res- de conservação e mudança é um poderoso crité-
postas dos participantes: a) quais as finalidades rio para organizarmos o entendimento de seus
(valores e objetivos) dos esporte da escola, b) quais
os meios de ensino-aprendizagem não contradi-

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projetos ou propostas. Em sociedades plurais mo- gosto e emoção não teríamos um mundo de ne-
dernas, é mais ou menos evidente que os projetos gócios. Creio também que sem identidades não
educacionais devem apresentar diferenças de "per- teríamos os níveis de emoção que temos. De fato,
sonalidades" (identidades culturais e procuras de ter uma identidade é participar de um mundo
construção pessoais) para atender as demandas simbólico e social e, sobretudo, de afetos
diferenciadas, embora por vezes de perfis difusos identificadores. Duas observações apoiam essa
ou pouco explícitos. consideração: raramente torcemos sozinhos, pre-
Contudo, essas diferenças ferimos torcer juntos e desconfiamos daquele que
A educação tem uma de personalidades não gosta do esporte sem torcer por algum dos ad-
semelhança profunda podem renunciar à versários. Será que ele gosta mesmo? Por último,
com a história. personalidade comum ou o esporte tornou-se um mercado de emprego e
Sabemos à formação do cidadão. passou a ser visto como uma das escadas possí-
vivencialmente que a Surge nova complexidade, veis de mobilidade social.
porque o projeto de cada
história é diferente, escola deve tanto Crianças e jovens das camadas populares sonham
que muda, porém responder às exigências do em serem esportistas. Como outros sonham em
também que estamos ideal serem médicos, advogados, artistas ou, mesmo,
na mesma história da sociedade global, donos de supermercados, como Manolo, o fa-
moso "amiguito" da Mafalda. Sonham em fazer
expresso, por exemplo, na
o que gostam, em ganhar dinheiro ou em serem
formação do cidadão, como das particularidades
reconhecidos. Os adultos repetem em coro que
demandadas pelas diferenças que compõem a
realizar esses sonhos não é fácil e que ainda é
sociedade plural.
muito mais difícil sem escola. Assim, todos espe-
Creio que ao longo dos últimos cento e cinqüenta ramos que a educação faça alguma coisa pela re-
anos ocorreram várias coisas importantes com o alização dos sonhos. Admiramos as pessoas que
esporte de rendimento ou esporte espetáculo. A realizam seus sonhos, gostaríamos de ser como
primeira e fundamental é que o gosto pelo es- elas, gostaríamos de ocupar o lugar delas. Depois
porte rendimento se expandiu por diferentes clas- de tudo, Pelé é rico, reconhecido e fez aquilo que
ses e culturas. Algumas de suas variações, como gostou, jogar futebol, de forma impecável. (O
futebol, chegaram a contar com bilhões de apre- "sonhar" é uma figura fortemente presente em
ciadores. Houve um considerável investimento, Paulo Freire, não há mudança sem haver sonha-
material e simbólico, para construirmos o nosso do e criar sonhos em conjunto é tremendamente
gosto pelo esporte, e o jornalismo jogou um pa- importante).
pel de primordial importância nessa construção
Gosto, acumulação e reconhecimento são
que incidiu sobre o crescimento e importância
orientadores tremendamente forte da conduta.
do próprio jornalismo. Gostamos de esportes par-
Com ênfases variadas, entendemos que a realiza-
ticulares (prática ou espetáculo) porque que eles
ção passa por misturas dessas dimensões. O es-
nos divertem, nos emocionam, enfim, em mi-
porte espetáculo tornou-se um campo respeitado
nhas palavras, nos tiram do tédio muito mais do
e desejado de realização dos sonhos de cons-
que ajudam a evadir-nos da realidade.6 En-
trução dos "eus", ao lado dos negócios, da políti-
tremeada com a construção do gosto, formou-se
ca, das ciências e das artes, entre outros.7
um significativo campo de negócios esportivos e
um campo não menos significativo de constru- Eu diria, Bracht, que você pode propor o esporte
ções identitárias de distinção e participação (de da escola com os valores e modalidades que você
classe, de estamento, locais, nacionais, etc). Sem quiser, entretanto, se ele for chato, se não emoci-

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onar, se não for uma atividade antitédio e se não ta ternura para os que perderam o jogo. Gaya,
se situar no horizonte dos sonhos dos pratican- pela sua vez, poderia contar histórias de
tes, você terá pouquíssimos alunos em qualquer autosuperação, de solidariedade, de compa-
sistema que valorize a liberdade de escolha das nheirismo e de altruísmo no esporte. Ambos,
atividades escolares. Se a atividade proposta é um poderiam passar a vida colhendo exemplos a fa-
tédio e se não se cruza com os sonhos apenas a vor ou contra o esporte. Eu insisto juntamente
repressão fará que os estudantes participem. Se a com Taffarel, é o que fazemos com ele e não o
participação é determinada pela obrigação que ele é. Temos então que realizar nossos "pas-
normativa podemos obter como resposta a pre- ses" éticos; mas, isso, em toda a escola e de forma
sença ausente, participação muito pequena, com contextualizada em cada atividade ou disciplina.
"p" minúsculo. Estou dizendo então que o es- Sob o ponto de vista ético, esporte, matemáticas,
porte lida com o estético, com gostos e emoções, história ou português, entre outras disciplinas ou
do corpo e da performance esportiva, e que não atividades, não são diferentes. Devemos promo-
podemos esquecer essa dimensão, talvez hoje a ver na formação do
principal. professor a competência
filosófica e ética. Se Gostamos de
Concordo, no entanto, com Bracht nas rejeições
apenas uma minoria pode esportes particulares
éticas e parciais que realiza. Veja-se os exemplos
lidar com as
de seu artigo, da "malandragem" que burla ou (prática ou
considerações de Appel e
usa a regra a seu favor e das "crenças tontas" como
outros, será muito difícil
espetáculo) porque
transformar a reflexão que eles nos
pensar que Deus nos ajudou no jogo. Creio que a
educação deve ter um tom kantiano, presente nos
ética em componente do divertem, nos
autores que Bracht menciona no campo da ética.
processo educacional. emocionam, enfim,
E nossa obrigação salientar que a "malan-
Preocupa-me, em relação em minhas palavras,
dragem" é uma crença, de difícil justificação, e
ao contexto da formação nos tiram do tédio
que se empenha contra a qualidade do jogo. O
dos educadores físicos, o
malandro esquece que os outros também podem muito mais do que
peso desproporcional que
ser malandros. Num mundo de malandros não
assume o conhecimento
ajudam a evadir-nos
aplicado ou útil. Preocu- da realidade
poderíamos confiar em ninguém. Como viver
nesse mundo, sem confiança ontológica, como
pa-me que a notícia dominante seja a última
diria Giddens? Um mundo de malandros pare-
receita para desenvolver os músculos e o des-
ceria ser uma variante do mundo hobbesiano, da
prezo pelas aquisições do passado. Preocupa-me
guerra de todos contra todos. Esse mundo de-
a moda construída sem fundamentos teóricos
manda um poder de hetero-controle forte, quase
sólidos e empíricos válidos. Creio que todos os
absoluto. O mundo dos malandros solicita um
que participaram da "polêmica" partilham dessas
ditador. O que agradece a Deus por haver venci-
preocupações.
do (Marcelino no exemplo de Bracht), tem uma
ação bem diferente de agradecer a Deus porque Kunz concentra o olhar, a partir de seu referencial
ninguém se contundiu, tem uma idéia de Deus fenomenológico, para o valor da autonomia da
bem utilitarista e individualista. Não creio que aprendizagem dos esportes. O esporte é para Kunz
Deus concorde com ele. E se concorda, então, um bom lugar para os estudantes desenvolverem
nossos deuses são diferentes. O meu não é nem a sua capacidade de agir , de fazer, de sentir, de
favor nem contra o Flamengo ou o Palmeiras. praticar, de acertar e também, eu diria, de errar.
Pode até assistir e gostar do jogo, mas deixa que
nossa habilidade defina o placar e olha com mui-

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Valoriza os modos ativos e autônomos de apre- cindido, onde a sociologia crítica não apenas per-
ender em detrimento dos comandos externos e de espaço para outras visões, como a de DaMatta
das instruções detalhadas que poderiam reduzir e Elias, por exemplo, que reconhecem a
as capacidades de perceber e se movimentar. Par- positividade dos esportes (educação política e
tilho com Kunz a resistência à heteronomia no autocontrole, entre outros valores), como tam-
processo de ensino aprendizagem e sua valoriza- bém não consegue explicar o fato das técnicas de
ção do fazer, do sentir, do agir.8 Creio, também treinamento terem sido supervalorizadas no so-
que Kunz e eu concordamos num ponto: se cialismo real. Nos autores tratados por Vaz, a in-
estamos com um problema temos que conversar terpretação cai para o lado da "civilização" em
sobre ele. Creio que na polifonia das vozes pode- lugar da "repressão" ou "reprodução".
mos encontrar a inovação, ainda quando se trate
Ambos, Stigger e Vaz, procuram apresentar os
de coisas técnicas como o treinamento. Por essa
argumentos contrapostos e relacioná-los com
razão escrevi com Yara Lacerda sobre Phil Jackson,
descrições empíricas e narrativas sobre o esporte.
para chamarmos a atenção sobre o lugar que, em
Diria para Stigger que nos casos que ele analisa
um time várias vezes campeão de basquetebol,
sempre há a procura da diversão, da emoção, de
ocupavam valores como compaixão e meditação:
passar um bom momento, enfim, de situar-se no
o lugar da espiritualidade.9 Estamos de acordo, o
mundo oposto ao do tédio. Também é certo que
esporte não é, nem deveria ser, somente técnica e
quando os atores tomam uma decisão, tem uma
vontade de vencer. E também lugar de reconhe-
forte tendência a gerar argumentos que reforcem
cer que quando perdemos aprendemos e cresce-
a mesma. Assim, se comecei a jogar futebol por-
mos se conversarmos, se formos compassivos, se
que me diverte posso, sem muito esforço, encon-
tivermos piedade de nós e dos outros. Creio que
trar que ele promove a amizade, a sociabilidade,
neste ponto também concordam os outros auto-
a ajuda mútua, a saúde, o antiestresse e tantas
res e, especialmente, Gaya.
outras funcionalidades ou valores que, rapida-
A vontade de demarcação de Bracht fica mente, podem ser vistas como intencionalidade
clara em dois aspectos que aparecem com desta- ou finalidades.
que em outros dois autores da polêmica: Stigger
e Vaz. O primeiro, combate a sociologia crítica a Com Vaz caminhamos muito próximos, ambos
partir da homogeneidade que a mesma realiza do temos tentado conciliar. Isto significa que talvez
esporte. Para Stigger, o esporte seria um campo estejamos lutando pela prudência, pela tempe-
heterogêneo de finalidades ou intencionalidades rança dos extremos, pelo encontro de alternati-
e também de relações sociais. Propõe um olhar vas. Estamos lutando muito mais por acordos
mais antropológico que compreendendo a sobre a boa vida que por uma definição da ver-
especificidade de diversos casos leve para um dade. Concordamos, creio que todos, que a boa
enriquecimento conceituai que permita perceber vida não pode ser tal se a maioria está fora dela.
as diferenças das práticas. Contudo, Stigger A hiper valorização da técnica, contudo, não nos
pensa a partir de um material etnográfico muito pode levar a uma hiper valorização romântica da
rico de orientações de adultos, não de crianças e destecnificação; a hiper valorização da ciência não
jovens. Porém, creio que também no caso, agir, deve fazer que nossa reação seja uma hiper valo-
movimento, diversão, sociabilidade, prazer de rização do mito, pois, no fundo, a primeira hiper
estar juntos entre outras orientações têm sig- valorização significa o mito da ciência. Assim, a
nificativo peso. reação seria autocontraditória, ataca o mito com
outro mito. Pretendemos, mais modestamente,
Vaz, por seu lado, apresenta um campo teórico embora seja uma tarefa difícil, apenas colocar a

114
ciência no seu lugar.10 Temos que mediar e en- Notas
contrar algum equilíbrio. Creio que no fundo não
1
queremos ficar apontando com o dedo e dizen- Suponho que o leitor já leu os textos dos
do: vejam o que fizeram com o mundo, vejam o participantes do tema polêmico. Se não fez isso
com fizeram conosco, vejam o que me fizeram! seria bom que o fizesse antes de continuar. Eu
Creio que nos situamos como dançarinos a beira concordo com muitas das afirmações feitas por
do abismo e dizemos, talvez como Sartre, o que Taffarel. Sua intervenção, entretanto, é realizada
importa é aquilo que faremos com o que nos fi- dentro do modelo tradicional do intelectual
zeram! Penso tudo isso, insisto, andando pela ci- leninista do partido. Vai da estrutura para a
dade e não a partir da montanha! conjuntura, da luta de classes para a relação docente
aluno, do modo de produção para a situação
As ciências, as artes, os esportes não podem estar concreta, etc. Fiquei convencido da precariedade
fora da escola. Como não podem ficar fora da dessa forma de proceder há mais de 20 anos atrás.
escola tarefas importantes como cuidar da natu- Lembro do Rio Grande do Norte quando um
reza, da cidade, do lar, das crianças, dos fracos, técnico marxista explicava ao camponês como a
dos doentes e dos velhos. Defendo, por isso, que exploração imperialista, capitalista e a luta de classe
os bolsistas da pós-graduação tenham a obriga- tinham feito que perdesse sua colheita por falta de
ção de devolver à sociedade o que esta faz por chuva. Semanas mais tarde perguntei ao camponês
eles, cuidando dos aspectos acima mencionados, em quem tinha votado. Disse-me o nome e o
como prática de idéias. Concordo com Bracht no motivo: votou no candidato que tinha prometido
sentido de que devemos no esporte escolar fazer um açude na sua propriedade. Temos que
desenvolver a reflexão ética e com Sigger e Vaz enfrentar os problemas aqui e agora e, para isso as
em que podemos reforçar os valores positivos do análises tradicionais marxistas se revelaram muito
esporte ao mesmo tempo que criticamos os ne- pouco eficientes. Estamos falando das
gativos de forma prática, talvez como diria Gaya. possibilidades de ação, não necessariamente da
Se fizermos isso, não haverá problemas em orga- verdade. De fato, domina no marxismo pensar a
nizarmos torneios e mostrarmos com modesto ação a partir da representação ou da teoria
orgulho os nossos troféus. Concordo com Kunz, elaborada pela vanguarda intelectual, segundo o
quando afirma que trata-se de modificar as prá- modelo desenvolvido por Lenin no Que fazer.
ticas escolares e de treinamento e irmos na direção Taffarel pertence a essa tradição. Segundo Lenin,
da apropriação dos processos que reforçam a au- o proletariado apenas pode desenvolver "teorias
tonomia do fazer. Sua idéia é boa, temos que reformistas", e é tarefa dos intelectuais fazer a
ajudá-lo a aperfeiçoá-la. Este é um dos pontos de "teoria revolucionária". Creio que Taffarel continua
acordo possível se melhorarmos seus exemplos e pensando desse modo, então, apenas mencionarei
se formos cientes dos efeitos de suas propostas. alguns acordos que temos de "bom senso".
Estou tentando afirmar que temos que gerar a 2
O apelo a uma suposta posição liberal do governo
prática de idéias e formas de conversação que nos
nas políticas públicas, especialmente em campos
permitam agregar acordos para a ação.
como educação e saúde, é altamente discutível em
termos conceituais e práticos. Assim como há alguns
anos atrás se atribuía todos os males à ditadura,
atualmente o fantasma da vez é o neoliberalismo.
Um mecanismo desta natureza é muito cômodo,
contudo, fecha as possibilidades de pensar e agir.
Creio que isso leva a Bracht a beirar perigosamente

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a autocontradição: se a escola é estratégica para a pela percepção da eticidade no esporte. Se o que
reprodução, porque o projeto liberal a abandonaria? principalmente se admira é a performance
Bracht afirma essas duas proposições ao mesmo esportiva, o desempenho, o virtuosismo do gesto,
tempo sem maior elaboração. não estaríamos diante do esporte como
3 manifestação de arte popular do mundo "pós-
Não estou convencido, como Bracht parece estar,
moderno"? Se for assim, o domínio técnico e a
de que "pedagogizar o esporte tornou-se um
"genialidade do artista" não seriam elementos
problema para o sistema esportivo, porque coloca
constitutivos? Teríamos, então, que trabalhar as
nesta prática elementos que acabam entrando em
relações entre ética e estética nos esportes?
confronto com os princípios, com a lógica que
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orienta a ações no âmbito esportivo". Creio que Observo que o ato de gostar e a formação dos gostos
Bracht teria que desenvolver elementos teóricos e são temas básicos da estética.
empíricos mais finos para fundamentar essa 7
Creio que os participantes da polêmica escrevem para
afirmação. Há escola privadas que promovem as
serem reconhecidos e possivelmente porque gostam
escolinhas (pagas por fora) e mantém a educação
da atividade intelectual, de brincar com a
física (incluída na mensalidade) por uma razão
combinatoria que a fundamenta, como diria Pareto.
muito simples: nem todos os alunos querem
Talvez apresentem-se como não estando orientados
praticar esporte dentro da "técnica" nem aspiram
pela acumulação, contudo, por mais baixos que
tornar-se esportistas. Creio que Bracht sofre de
sejam os salários universitários estamos todos dentro
uma forte atração pela demarcação.
do 1 ou 2% da população economicamente ativa
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Creio que o trabalho de Kunz merece uma reflexão que tem maiores ganhos. Para os que estão dentro
detida que escapa ao escopo da mediação que estou do Brasil brasileiro não é pouca coisa.
realizando, tanto em relação aos fundamentos 8
Tenho algumas dúvidas sobre a possibilidade de
filosóficos quanto as suas conclusões. O título de
fundamentar via tradição fenomenológica as
seu trabalho Esporte: uma abordagem com a
propostas de Kunz e, em segundo lugar, creio que
fenomenología, implicaria que a fenomenologia é
suas conclusões não se derivam claramente de seus
uma técnica, um instrumento? Não haveria no caso
argumentos fenomenológicos. Contudo, não creio
uma "intelectualização" semelhante àquela que
que seja esta a oportunidade de discutir essas
crítica no treinamento. Contudo, considero que
questões pois provocaria um desvio de meus
Kunz está apontando perspectivas de trabalho que,
objetivos de "mediação".
em princípio, considero atraentes.
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Tenho a sensação de que Kunz para apresentar suas
Então, teríamos em termos de Kunz & sobrepujança
propostas homogeneiza e estereotipa tanto a técnica
e a comparação objetiva. Observo que o atleta pode
quanto a figura do técnico. Parece-me difícil
sobrepujar a seus concorrentes sem, no entanto,
encontrar técnicos que não valorizem a intuição, a
destacar-se na comparação objetiva. A comparação
sensibilidade e a percepção do atleta. Também me
objetiva parece apenas operar quando temos
parece difícil encontrar técnicos que não valorizem
relógios e fitas métricas, é de muito difícil realização
o fazer como meio de desenvolvimento do atleta.
nos esportes coletivos e artísticos, que exigem júris
Mais ainda, meu relacionamento com os técnicos
de especialistas. Há uma força estética no esporte,
me leva a pensar que eles são muito mais práticos
tanto nos corpos como nos movimentos, que
interessados em resultados que intelectuais
devemos pensar melhor pois se tornam ideais ou
preocupados pela racionalização e verdade. Eu os
fantasias de identificação. Creio que no campo do
vejo como membros de uma família dentro da qual
esporte passamos de valorizações éticas para
tentam inovar para ganhar.
estéticas. Bracht e Gaya ainda estão dominados

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Os colegas autores dos textos parecem partilhar
uma tremenda vontade de colocar a técnica no seu
lugar, não de eliminá-la. Não sei se para trabalhar
nessa direção Adorno, por exemplo, muito
utilizado por Vaz, seja um bom companheiro de
rota. Percebo uma quebra entre as opções teóricas
e as vontades do caminho da prudência, da boa
vida e de outras alternativas enunciadas pelos
autores. Contudo, o problema da técnica mereceria
um debate nele focado.

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