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Centro Cultura e Progresso

Lilian Starobinas

Entre os espaços de vivência social, cultural e política de imigrantes judeus estava o


Yuguent Club, criado no final dos anos 20. Conhecido mais tarde como Centro Cultura e
Progresso, constituiu-se como território dos “roiters”, como eram denominados os
simpatizantes das causas socialistas. Vários de seus integrantes atuaram também no
Partido Comunista Brasileiro.
Sua sede ficava na rua José Paulino 64, mas o clube desenvolvia várias atividades
em espaços externos, como passeios e bailes. Em outro endereço no Bom Retiro, na rua
Bandeirantes 466, mantinha uma quadra para jogos de bola ao cesto e voleibol. Atividades
artísticas como coral e grupo de teatro infantil também tinham lugar na rua Bandeirantes. 1
A língua e a cultura ídiche constituíam um repertório comum aos imigrantes de
diferentes proveniências, e era esse o idioma de boa parte das palestras, dos círculos de
leitura e dramatização, do repertório de corais. Na biblioteca, encontravam-se, entre outros,
as obras clássicas de Scholem Aleichem e I.L. Peretz. Goethe, Dostoievski, Anatol France,
traduzidos para o ídiche. Havia também muita literatura política: o Manifesto do Partido
Comunista, Obras Completas de Lenin, Campos, Fábricas e Oficinas, de Kropotkin, são
alguns exemplos.

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Francisco Abramovitch cita uma primeira sede do Yuguent Club na rua Ribeiro de Lima, e
Jacob Guinsburg menciona uma sede do CCP na Prates, em abos os casos não há referência ao
número.
Palestras, debates, campeonatos de xadrez e tênis de mesa, encontros sociais,
compunham as atividades. Um juri simulado foi a forma encontrada para debater a obra “O
Nazareno”, de Scholem Asch, por exemplo. Meses mais tarde, noticia-se a apresentação do
coral infantil, regido pelo maestro Abraão Althausen, e a encenação de “Der shvues in
gueto”, a partir do conto de A. Sacks e poemas de Avraham Sutskever, dirigida por Jacob
Fridman.
A cultura brasileira também deixou suas marcas na programação. Eram famosas os
bailes de ano novo e de carnaval. A palestra de Jorge Amado, logo após seu retorno do
exílio, em 1945, lotou o salão. Procópio Ferreira e Di Cavalcanti também estiveram por lá. A
primeira exposição de Histórias em Quadrinhos da cidade de São Paulo foi sediada ali, em
1951.
Os temas políticos permeavam os encontros. Entre 1939 e 1945, a mobilização no
CCP era voltada a enviar dinheiro, roupas e remédios para as vítimas da 2ª Guerra. A
criação do Estado de Israel e a opção pelo sionismo eram temas de debates acalorados,
num espaço bastante identificado com os valores universalistas e posições próximas às da
União Soviética. As dissidências ao redor do tema foram frequentes, levando ao
afastamento de vários dos membros.
Anos mais tarde, em 1953, o CCP engajou-se numa campanha pelo perdão ao casal
Julius e Ethel Rosemberg nos Estados Unidos, acusados de espionagem pró-soviética e
condenados à cadeira elétrica. Sofreu, por esse motivo, uma invasão de sua sede pela
polícia, e ameaças que falavam em anulação do registro da entidade.
“O Reflexo” é o nome da revista produzida pelo CCP. Em seus 23 números, falava
sobre a produção cultural e questões políticas decisivas do momento. A publicação, em
português, aponta para uma integração cada vez mais presente das novas gerações com a
cultura local. O ídiche foi aos poucos assumindo um duplo valor: o da perpetuação de um
idioma de uma vasta produção cultural e uma identidade política, contrapondo-se à
campanha pela popularização do hebraico, associada à influência do sionismo após a
criação do Estado de Israel.
O Centro Cultura e Progresso foi um dos grupos que participou da criação da Casa
do Povo, em 1946, tendo seu acervo de biblioteca e suas atividades absorvidas pela nova
instituição. Entretanto, é possível encontrar referência ao CCP como grupo específico em
comunicados que listam a participação de entidades variadas em alguns eventos. É o caso
do ato público pela Fraternidade das Raças e contra o Antissemitismo, ocorrido em junho de
1955, no Cine Lux, na rua José Paulino.