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Sobre o Congresso de Mulheres Diante do Trono: questões de gênero,


preceitos religiosos e subalternidade feminina1

Juliana dos Santos Nascimento2

Resumo: Este artigo aborda o universo das religiões, analisando as relações de gênero
que a perpassam a partir de um levantamento bibliográfico, problematizando tais
questões através do evento Congresso de Mulheres Diante do Trono. Tem-se como
objetivo estudar a relação entre o discurso religioso baseado nas interpretações bíblicas
e o machismo na construção/reprodução de uma sociedade patriarcal, bem como o
posicionamento feminino dentro dessa relação.O principal resultado do trabalho foi a
constatação de que as mulheres religiosas que estão na direção do evento, ocupam,
segundo o seu próprio discurso, um lugar subalterno diante da suposta autoridade
masculina e parecem legitimar ensinamentos que reproduzem práticas machistas e
sexistas e que embora aparentemente as participantes expressem convergência com tal
pensamento, seria necessário ouví-las para de fato compreender até que ponto tal
subalternidade está presente em suas vidas.

Palavras-Chave: Religião. Questões de gênero. Subalternidade feminina

1. Introdução

As sociedades ocidentais no seu desenvolver criaram e ainda criam,


constantemente, associações entre o sexo biológico e o comportamento de gênero que
orientam o homem a agir no domínio público – como forte, viril e capaz – e a mulher
como uma pessoa frágil, delicada e que deve dedicar-se à esfera privada, ideias erguidas
na base do pensamento ocidental judaico-cristão e que se encontram historicamente
fincadas no tecido social e nas relações de gênero atuais e cotidianas.

Considerando que a mulher isoladamente não sofre nenhuma opressão


isoladamente pois estas só acontecem dentro das relações socais consolidadas, ou seja, é
sofrida pela mulher enquanto filha, esposa e etc. (RUBIN, 1973). Assim, tem-se como

1
Artigo elaborado como trabalho final da disciplina Gênero, Sexualidade e Diferença do curso de
mestrado em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
2
Assistente Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estudante de Graduação em
Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e mestranda em Antropologia
pela Universidade Federal da Paraíba.
2

objetivo, problematizar as relações de gênero vivenciadas por mulheres no âmbito


religioso cristão, o qual vem fomentando historicamente uma dicotomia entre o
feminino e o masculino, a qual se desdobra em amplas e sérias questões sexistas. Dessa
forma, é preciso problematizar e ampliar o debate levando-se em consideração que as
questões religiosas e seus preceitos podem ser considerados como opressoras e
hierarquizantes, influenciam diretamente na vida de seus fiéis seguidores e
consequentemente em suas condutas. Porém, entende-se também que além de atentar
para o discurso religioso e seu conteúdo, é fundamental compreender o entendimento
das fiéis sobre o mesmo.

É válido salientar, que o tema a ser abordado apresenta-se bastante relevante nos
dias atuais, pois problematizar a construção social das religiões atravessada por relações
de gênero mostra-se como fundamental para que se possa desnaturalizar muitos
posicionamentos religiosos que colocam a mulher hierarquicamente inferior aos homens
e compreender os possíveis rebatimentos de tal conduta na vida das mulheres e na
sociedade como um todo.

Assim, a intenção deste artigo é quebrar alguns silêncios criados em torno das
intersecções entre as questões religiosas e de gênero, possibilitando um debate científico
erguido a partir de uma análise feminista crítica dos discursos religiosos realizados pelo
Congresso de Mulheres Diante do Trono – evento anual organizado pelo Ministério de
Louvor Diante do Trono e ao mesmo tempo problematizar o discurso feminino das
lideranças do Congresso e a partir disso refletir em qual lugar as mulheres religiosas se
colocam, como subalternas ou como protagonistas?

Portanto, a presente discussão sobre o tema possibilita que o mesmo ganhe mais
visibilidade e, dessa forma, contribua para novos debates que sigam em busca da
construção de sociedades mais justas, igualitárias, não violentas e solidárias entre
homens e mulheres.

Por fim, esclarecemos que a pesquisa realizada para o referido artigo foi de
caráter bibliográfica e documental. Primeiramente, foi realizado um levantamento
bibliográfico de autores e autoras que abordam as questões relativos ao gênero e que
3

poderiam contribuir com as reflexões, depois buscou-se um resgate histórico através de


referências teóricas específicas sobre o desenvolvimento das religiões no mundo; em
seguida, feita a análise de material áudio visual que contém gravações do Congresso de
Mulheres Diante do Trono, referentes ao ano de 2012 e 2013 (disponíveis na internet3);
e, por último, foi realizado um estudo acerca de alguns trechos do livro da Bíblia
Sagrada que abordam a mulher em diversos aspectos de sua vida. Estes procedimentos
metodológicos tiveram como fim a realização de um levantamento de dados necessário
para uma problematização crítica do tema proposto: as intersecções entre as questões de
gênero, os preceitos religiosos e a suposta subalternidade feminina.

Fé cega, faca amolada: interfaces entre religiões, simbologias e discursos de gênero

Até onde se sabe e se tem pesquisado cientificamente, não há registros de


estudos que comprovem a existência de um grupo humano que não tenha professado
algum tipo de crença religiosa. Fato que leva a uma reflexão da religião como um
aspecto inerente à condição da cultura humana. A esse respeito, o filósofo e historiador
grego Irineu Wilges (1986), declara:

Podereis encontrar uma cidade sem muralhas, sem edifícios, sem


ginásios, sem leis, sem uso de moedas como dinheiro, sem cultura das
letras. Mas um povo sem Deus, sem oração, sem juramentos, sem ritos
religiosos, sem sacrifícios, tal nunca se viu (WILGES, 1986, p. 3).

Dessa forma, considerando o caráter universal do fenômeno religioso e sabendo


que ele continua presente entre todos os povos em todos os tempos, pretende-se
problematizar como a religião está profundamente arraigada na cultura humana. Sobre o
conceito de religião em si, não foi encontrada uma unicidade sobre o mesmo, o que
vemos é que há bastante diversidade entre os autores que discutem o tema.

Sobre religião Wilges afirma:

Em sentido real e objetivo, religião é o conjunto de crenças, leis e ritos


que visam um poder que o homem, atualmente, considera Supremo,
do qual se julga dependente, com o qual pode entrar em relação
pessoal e do qual pode obter favores. Em sentido real subjetivo,

3
Os vídeos das duas edições do Congresso podem ser encontrados no site www.youtube.com.br e/ou na Rede Super de Televisão:
http://redesuper.com.br/
4

religião é o conhecimento pelo homem de sua dependência de um Ser


Supremo pessoal, pela aceitação de várias crenças e observância de
várias leis e ritos atinentes a este Ser (WILGES, 1986, p. 5).

Em ambos os sentidos apontados por Wilges (objetivo e subjetivo) percebe-se


que o homem se relaciona com um ser dito “superior” de uma maneira hierárquica e
ocupa um lugar inferior em relação àquele que julga ser o seu Deus. Vale destacar que
em sua análise, tanto no sentido real e objetivo, quanto no subjetivo, se faz uma
referência à palavra dependência, que pode ser interpretada como sujeição e/ou
subordinação. Esta subordinação demonstra significar que a vontade do dito “Ser
Supremo” está acima da vontade dos homens.

Vale lembrar que os princípios religiosos se fazem presente na vida dos


indivíduos desde muito cedo, quando nasce uma criança, ela já encontra instituições e
relações sociais consolidadas na sociedade, e, com a religião acontece da mesma forma:
o novo ser já a recebe como se a mesma fosse algo natural, uma extensão de si próprio.
A partir daí, o indivíduo tenderá a naturalizar e a reproduzir, como tal, uma série de
aspectos que estão envolvidos em sua vida e, provavelmente, não irá perceber que tais
aspectos se caracterizam como construções culturais estabelecidas pelo próprio homem.
A esse respeito, Rubem Alves lembra criticamente:

Nenhum fato, coisa ou gesto, entretanto, é encontrado já com as


marcas do sagrado. O sagrado não é uma eficácia inerente as coisas.
Ao contrário, coisas e gestos se tornaram religiosos quando os homens
os batizam como tais (ALVES, 1981, p. 19).

Dessa forma, compreende-se que as representações e os significados religiosos


são determinados, cultuados e reproduzidos pelos homens que ainda atribuem a estes
aspectos um caráter divino e os situam em lugar superior em suas vidas. Isso aconteceu
e acontece em toda a história da humanidade.

Na Antiguidade, como por exemplo, entre os Persas, os sacerdotes eram


considerados deuses. Já na contemporaneidade, em diversas e expressivas
denominações religiosas cristãs observa-se que os seus representantes, embora não
sejam vistos como uma divindade, possuem segundo a crença dos fiéis, uma
5

capacidade\autoridade\poder de falar em nome desta. Se aquele pastor/padre por


exemplo, fala por aquela divindade, como os fiéis vão questionar a palavra deles? Para
os seguidores de uma determinada religião – absortos em uma doutrina e mergulhados
em rituais, cultos e testemunhos – não há necessidade de racionalizar os
ensinamentos/doutrina, pois, eles mesmos vivenciam essa verdade e a legitimam,
conferindo ao discurso dos sacerdotes um caráter dogmático e absoluto.

Assim, desde sua gênese, as religiões de um modo geral são importantes fatores
na formação de grupos e de seus valores sociais e entende-se consequentemente que
também as questões de gênero, tal qual diversas outras questões vivenciadas em nossa
sociedade, foram e continuam sendo influenciadas pelos conteúdos religiosos.

Embora alguns antropólogos deem relevância a alguns casos isolados que


demonstram uma superioridade feminina, entende-se que de uma maneira geral é a
subalternidade feminina que se expressa como uma realidade hegemônica no mundo e é
a partir dela que se deve tecer as reflexões acerca do tema. De acordo com Rosaldo
(1995):

(...) as formas culturais e sociais humanas sempre têm sido


subjugadas pela dominação masculina. Com isto não quero
dizer que o homem reine por direito, nem mesmo que ele reine,
nem que as mulheres em todos os lugares são vítimas passivas
de um mundo definido por homens. Mas, apontaria, isto sim,
para uma coleção de fatos relacionados que parecem
argumentar que, em todos os grupos humanos conhecidos – a
despeito das prerrogativas que a mulher pode gozar – a vasta
maioria de oportunidades para o prestígio e influência pública, a
capacidade para forjar relações, determinar inimizades, falar em
púbico, usar ou renunciar ao uso da força, são todas
reconhecidas como um privilégio e direito masculino (p. 16).

Portanto, compreendendo que a subalternidade feminina é um fato hegemônico,


tem-se como objetivo refletir sobre a contribuição das religiões para a construção dessa
realidade. E a partir daí é possível refletir sobre alguns questionamentos: como as
Igrejas trataram e ainda tratam as mulheres? Quais espaços estas vem ocupando dentro
de tais instituições? O que dizer do tabu sobre o sacerdócio feminino e da quase que
exclusividade masculina nos ordenamentos? Assim, fica evidente que a realidade
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contemporânea da mulher, seja lá entendida como positiva ou não, carrega também a


carga transmita pelos ditames religiosos.

Michelle Rosaldo contribui ainda mais para a discussão quando afirma que para
cada situação da dominação masculina, existe uma outra que a contrarie. Dessa forma, a
hegemonia dos homens na maioria dos aspectos da vida social não é uma realidade
absoluta e isolada, pois, tal situação deve ser compreendida como “um aspecto da
organização da vida coletiva, uma padronização das expectativas e crenças que produz
um desequilíbrio na forma em que as pessoas interpretam, avaliam e respondem às
formas particulares de ações femininas e masculinas” (ROSALDO, 1995, p. 17). Assim,
fica evidente que a desigualdade sexual existente em todo mundo não é algo natural,
que sempre esteve posto, ela foi edificada e legitimada socialmente pelos atores sociais
inseridos na dinâmica e conjuntura das sociedades, dentre estes, os atores religiosos.

Dentre as idéias disseminadas pelas religiões que interferem diferentemente nas


relações de gênero e até na sexualidade das pessoas encontra-se o conceito de “ordem
compulsória” estabelecido pela filósofa e feminista Judith Butler (2003), o qual exige
das pessoas uma coerência rígida pré-determinada em relação ao sexo biológico, ao
gênero e à orientação sexual. Assim, uma criança, ao nascer, se tiver pênis, é um
menino que fatalmente deverá sentir-se afetiva e sexualmente atraído por uma pessoa do
sexo oposto (feminino). Butler defende e reforça a necessidade de se desconstruir, dia a
dia, essa ordem compulsória que é obrigatoriamente heterossexual e que colabora com a
reprodução das desigualdades e preconceitos de gênero, pois representa uma visão
engessada do que é ser homem e do que é ser mulher. Vale salientar que o meio cristão
protestante prega tal ordem compulsória através da interpretação bíblica, ponto que será
discutido mais adiante. O antropólogo Miguel Almeida, colabora com tal reflexão
quando afirma que:

Masculinidade e feminilidade não são sobreponíveis,


respectivamente, a homens e mulheres: são metáforas de poder
e de capacidade de acção, como tal acessíveis a homens e
mulheres. Se assim não fosse, não se poderia falar nem de
várias masculinidades nem de transformações nas relações de
gênero (ALMEIDA, 1996, p. 1).
7

Assim, entende-se que tal ordem compulsória é de fato bastante questionável,


pois há inúmeras exceções de pessoas que não se identificam com o gênero que é
socialmente atribuído ao sexo biológico que possui, por exemplo. A partir da citação
supracitada também pode-se problematizar que mesmo diante de uma realidade
hegemônica que precisa ser considerada (superioridade masculina) a mulher também
exerce o poder, não estando esta sempre abaixo das determinações masculinas. Vale
salientar também que no CMDT, objeto de estudo deste artigo é absolutamente possível
encontrar mulheres que legitimam e reproduzem o discurso do domínio dos homens,
mas, porém, em seu cotidiano esta não seria a realidade que se estabelece. Dessa
maneira, entende-se que diante da diversidade humana, na qual coexistem vários
aspectos sociais, culturais, econômicos e etc, é de fato inviável expandir e aprofundar os
conhecimentos sobre as questões que envolvem o gênero partindo de um conceito rígido
que não permite variações e nega a dinâmica existente na vida das pessoas.

Ana Paula Valadão, pastora líder do CMDT, fala com frequência e através de
exemplos um modelo de masculinidade que representa algumas características tidas
como naturais aos homens como por exemplo liderança, coragem, autoridade para
tomar as decisões familiares, principal provedor da casa etc. Tais particularidades são
demonstradas pela pastora com o seu próprio exemplo de vida. Ela argumenta várias
vezes que jamais envergonhou seu marido pelo fato de receber um salário maior que o
dele, pois quando planejava gastar o seu dinheiro, pedia permissão ao mesmo. Segundo
ela, essa é uma maneira para que o homem não se sinta humilhado. Valadão também
pontuou outros exemplos, como no caso de uma reforma em sua casa, nesta ocasião, seu
marido, o pastor Gustavo Valadão, determina a necessidade de fazer alguma
modificação ou não, embora seja ela que administre a manutenção do lar. Registra-se
por fim, que a pastora também relatou que quando o esposo chega em casa do trabalho
todos da família param de fazer qualquer atividade para recebê-lo, a fim de que ele
sempre saiba que é uma pessoa importante para todos. 4

4
O conteúdo citado está presente em inúmeras pregações do Congresso de Mulheres Diante do Trono
(CMDT) dos anos 2012 e 2013, todas disponíveis no site <www.youtube.com.br >
8

Assim, parece evidente que dentro do Congresso de Mulheres Diante do Trono é


composta uma imagem masculina ideal a qual deve ser reconhecida pela sua família.
Refletindo sobre o fato do homem se sentir humilhado por receber menos dinheiro que
sua esposa: conclui-se que o mesmo não admite não ser o principal custeador da casa e
para que ele prossiga com seu status de administrador das questões financeiras, a mulher
coloca o seu próprio dinheiro a disposição dele. Dessa forma, considerando outros
exemplos apresentados no CMDT é notável que existe um modelo masculino ideal
dentro do cristianismo protestante. Sobre a hegemonia de uma masculinidade
hegemônica:

A masculinidade hegemônica é um modelo cultural ideal que,


não sendo atingível – na prática e de forma consistente e
inalterada – por nenhum homem, exerce sobre todos os homens
e sobre as mulheres um efeito controlador. Implica um discurso
sobre a dominação e ascendência social, atribuindo aos homens
este privilégio potencial. Um paradoxo deve, desde já, ser
elucidado: se masculinidade e feminilidade são, ao nível da
gramática dos símbolos, conceptualizadas como simétricas e
complementares, na arena do poder são discursadas como
assimétricas. Isto é patente na ideologia do parentesco e do
casamento, em que à ideologia da “complementaridade” de
homem e mulher se sobrepõe precedências de autoridade
masculina (ALMEIDA, 1996, p.2).

Pensando o exemplo dado através da colocação de Miguel, entende-se que o


“privilégio potencial” dos homens é concedido através da interpretação do livro Bíblia
Sagrada, pois é sabido que as instituições cristãs protestantes entendem que foi Deus
quem determinou a liderança masculina e deixou tal ideia registrada na Bíblia para que
todos possam saber da verdade e segui-la. Em relação ao paradoxo proposto pelo autor,
é bem visível a assimetria existente nas relações de poder entre homem e mulher no
discurso de Valadão, no qual a autoridade é uma característica inerente aos homens.
Também vale salientar que a categoria da masculinidade hegemônica, como alerta o
antropólogo Pedro Nascimento não deve ser utilizada como uma ideia rígida e/ou
engessada pois “é no fluxo da ação que essas relações se definem” (2007, p. 40).
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Indo um pouco mais além na questão do modelo de masculinidade pré


determinada, cabe refletir sobre como se dá as relações de poder quando os papeis
hegemônicos são invertidos, como também questiona Nascimento:

Eu queria naquele momento aprofundar a reflexão sobre as


relações entre homens e mulheres quando os homens não
trabalhavam nem participavam do sustento financeiro da casa
que era de responsabilidade das mulheres. Em que essa relação
implicava de potenciais mudanças para as relações de poder?
(...) Particularmente me seduzia pensar os casos em que se
evidenciava a distância entre aquilo que era apregoado como o
que era ou deveria ser um “homem de verdade” e as várias
experiências do dia a dia (NASCIMENTO, 2007, p. 4).

Diante do exposto, entende-se que o discurso que aponta o papel das mulheres
como submissas e dos homens como líderes em todas as situações pode cair em
contradição no cotidiano. Apenas na observação do dia a dia e na escuta dos atores
sociais envolvidos é que poderia se discutir e problematizar tais questões que
possivelmente seriam identificadas.

A socióloga Maria José Nunes (2005) afirma que o processo de construção


social das religiões é atravessado pelas relações de gênero. A autora disserta que as
religiões, em sua maioria, delimitam os papéis masculinos e femininos, tendo o campo
de atuação religioso como majoritariamente masculino, sendo, historicamente, os
homens aqueles que estão à frente da produção do que é estabelecido como sagrado nas
várias sociedades e na grande maioria das religiões.

Acompanhando essa mesma ordem masculina normativa, o Congresso de


Mulheres Diante do Trono, em suas diversas pregações, apresenta argumentos que
podem ser considerados, se analisados sob o ponto de vista feminista crítico, como
retrógrados, conservadores e de bases fundamentalistas que dão sustentação a preceitos
machistas e heteronormativos. Porém, através de um trabalho etnográfico seria viável
compreender tal conteúdo a partir das vivências, opiniões e raciocínio das mulheres que
dirigem e participam do evento, a fim de conseguir refletir as relações de gênero que
estão presentes em seus modos de vida, como tal metodologia não está presente neste
10

trabalho, seguem algumas análises realizadas através do material áudio visual que
contém algumas gravações do evento.

O Congresso de Mulheres Diante do Trono: pregações e o respaldo bíblico

O Ministério de Louvor Diante do Trono começou a ser idealizado no ano de


1997, e em 1998 já lançaram seu primeiro CD para sete mil pessoas na Igreja Batista de
Lagoinha, instituição cristã e protestante localizada no estado brasileiro de Minas
Gerais, espécie de sede do Ministério. No ano de 2001 o grupo se apresentou para
210.000 pessoas no estádio do Mineirão durante a gravação do seu 4º CD. Hoje, 18 anos
após sua fundação, o ministério já percorreu todos os estados brasileiros, tem 28 álbuns
lançados (7.000.000 de cópias de discos vendidas) e já visitou diversos países5. Diante
de tais informações, percebe-se que o ministério cresceu significativamente em poucos
anos e tem alcançado milhões de pessoas no Brasil e no mundo com seus valores e suas
pregações, influenciando a sociedade e sendo verdadeiros formadores de opinião para
seus seguidores e seguidoras.

No ano de 2011, a empresa iniciou um novo trabalho lançando o Congresso de


Mulheres Diante do Trono (CMDT), a fim de discutir diversos assuntos que acreditam
fazer parte do universo feminino cristão. O primeiro evento reuniu mais de seis mil
mulheres, que pagaram uma média de R$ 110,00 (cento e dez reais) para participarem
do evento. Durante as três primeiras edições o Congresso foi realizado anualmente na
sede do Ministério de Louvor Diante do Trono, na cidade de Lagoinha – MG, em 2014
o evento foi descentralizado para todas as regiões do país devido a grande demanda
significativa de participantes e para alcançar o público que geograficamente residiam
muito longe do estado de Minas Gerais.

A dinâmica do evento se apresenta da seguinte forma: sucessivas palestras com


louvores e testemunhos e roda de diálogos, intituladas de bate papo entre as
palestrantes, onde são expostas suas experiências de vida. Ressalta-se que em nenhum
momento é ouvida a opinião e/ou testemunhos das mulheres participantes, essas apenas
assistem e se manifestam nas suas cadeiras através de algumas palavras, frases e
5
Informações disponíveis no site oficial do Ministério: < http://www.diantedotrono.com/>
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louvores que em meio a tantas outras vozes, mal podem ser identificadas
individualmente.

Em uma das pregações da segunda edição do Congresso realizado no de 2012


intitulada “Mulher de Provérbios 31”, a pastora Ana Paula Valadão, principal líder do
grupo que ministra a maior parte das pregações, depois de relatar alguns pontos
negativos na sociedade como, por exemplo, o padrão estereotipado e de beleza imposto
às mulheres, instrui às mesmas sobre o que deve ser feito para modificar a realidade
adversa:

Mas nós, nós cremos numa nova revolução feminina, uma revolução
silenciosa que vai mudando o modo de pensar e de agir, mulheres que
são curadas na alma e que são instrumentos de cura para sua casa, para
a igreja e para a nação. Mulheres que não querem tomar e ocupar o
lugar dos homens, mas querem levantá-los para que ele assuma seu
próprio lugar. Mulheres cansadas dos fardos pesados que a revolução
feminista nos fez carregar, mulheres que não vão as ruas queimar seus
sutiãs exigindo liberdade, mas que vão conquistar o seu espaço através
de um espírito dócil, excelente, e de oração (2º Congresso de
Mulheres Diante do Trono, 2012).

No discurso acima citado, a ideia de igualdade entre mulheres e homens não


parece existir, pois, a mulher deve elevar seu marido, cumprindo seu papel de apoiadora
do homem. A fala de Valadão, dirigida a milhares de mulheres, não reconhece os
avanços conquistados pelas mesmas através das ações históricas do movimento
feminista e, para isso, se utiliza do respaldo bíblico.

Michele Rosaldo em sua obra A Mulher, A Cultura, A Sociedade, expõe uma


série de questionamentos baseados em materiais antropológicos, os quais podem ser
bastante úteis para fomentar a discussão que esse artigo se propõe:

Como poderíamos começar a assinalar a participação da mulher


num campo de longa tradição em descrever o lugar dos homens
na sociedade? E como avaliaríamos a grande diferença das
atividades, papéis e poderes femininos encontrados nos diversos
grupos humanos? O que poderíamos fazer em relação à noção
popular de que as mulheres são biologicamente, inferiores aos
homens? Se rejeitássemos essa noção, como poderíamos,
explicar e compreender o fato das mulheres serem tratadas,
12

tanto cultural como socialmente, de forma inferior, em todas as


sociedades do mundo? (ROSALDO, 1979, p. 14).

No CMDT alguns pontos tocados por Rosaldo aparecem de forma evidente. A


partir de uma análise do posicionamento do homem dentro do evento, por exemplo, já
se pode compreender muito do lugar ocupado pela mulher. Em uma das edições do
congresso, mais especificamente no ano de 2012, Ana Paula Valadão ao discursar sobre
a intervenção divina para que o congresso acontecesse, começa a relatar os inúmeros
milagres que Deus operou para que todas aquelas mulheres estivessem naquele local e
pudessem participar do evento. Entre os resultados das ações divinas encontra-se a
liberação no trabalho formal, conseguir alguma pessoa para deixar as crianças (neste
caso, entende-se que a maioria das mulheres participantes que são mães também são
casadas pois seguem uma doutrina que determina o sexo e a procriação apenas dentro
do matrimônio e mesmo assim o marido – pai dos filhos – não parece ser a pessoa
indicada para tal missão, pois, se assim o fosse, a mulher não teria que ir em busca
desse apoio), e por último pedir a permissão do marido para ir ao Congresso de
Mulheres. Nesta última situação, a frase dita pela pastora foi: “meu amorzinho, deixa eu
ir?” Assim, entende-se que segundo o discurso proferido, apesar de admitir e reconhecer
que a mulher não pertence apenas ao mundo privado, pois a mesma já ocupa o mercado
de trabalho, ela continua sendo a principal responsável pelos filhos enquanto que o seu
marido é desresponsabilizado de tal tarefa. E, ao mesmo tempo que esta mulher ativa,
responsável e também provedora do lar, necessita da autorização do seu esposo para se
ausentar da residência e dos afazeres a ela atribuídos por volta de três dias para
participar de um evento.

Considerando que os membros de uma família compartilham suas vidas,


pactuam suas dinâmicas, entende-se que a fala em questão não transmite a idéia de
acordo entre as partes envolvidas e sim dar a entender o estabelecimento de uma relação
hierárquica entre o casal, na qual a mulher é quem faz o pedido e o homem é quem
concede (ou não) tal solicitação, embora se deva considerar que esta relação pode ser
legitimada pela maioria (se não, todas) das mulheres participantes do congresso, que
podem não enxergar a situação como algo negativo para si mesmo.
13

Voltando as colocações de Michele Rosaldo, ela propõe que as mulheres que


tomam consciência das injustiças sofridas e possuem o desejo de modificar sua
realidade, o primeiro passo seria reconhecer que: “no aprendizado de ser mulher, em
nossa própria sociedade, aceitamos e interiorizamos uma imagem frequentemente
depreciativa e constrangedora de nós mesmas” (ROSALDO, 1979, p. 17). Assim, cabe a
seguinte reflexão: será que as mulheres participantes do CMDT poderiam vir a entender
a imagem da mulher subordinada como depreciativa e constrangedora?

Para compreender se esta subalternidade feminina é de fato aceita e vivenciada


pelas congressistas, seria necessário ouvi-las, porém, a atividade de campo não está
prevista nesta pesquisa. Dessa maneira, pode-se questionar se realmente essas mulheres
obedecem aos seus maridos em seu cotidiano ou se legitimam a autoridade deste,
burlando-a de alguma forma. Pode-se ir além e também refletir sobre a possibilidade das
pastoras e preletoras que estão à frente da apresentação do evento, como afirmar que de
fato essas mulheres que alcançaram posição de destaque dentro da Igreja e do meio
cristão como um todo, são de fato submissas as figuras masculinas que fazem parte do
seu ciclo de convivência? Será que essas mulheres em nenhum momento de suas vidas
exercem o poder? E quanto a vontade divina, será que elas obedecem de maneira
absoluta? Pode-se considerar a existência de alguma negociação ou exceção?

Ofir Grisales, professora da Universidade Metodista de São Paulo, ao pesquisar


a sexualidade das mulheres protestantes colombianas em 2012, abordou a questão do
divórcio, uma das entrevistadas declarou-se contra, porém afirmou estar divorciada. A
partir de tal declaração, segundo a autora, estabelece-se uma tensão, pois, é evidenciado
o poder que a doutrina religiosa tem no pensamento dessa mulher, e, ao mesmo tempo,
tal influência não consegue impedir que haja contradições em sua vida particular. O que
é mais importante para essa mulher é não questionar e contradizer o discurso religioso,
mesmo ela não o aplicando integralmente em sua vida, ela o legitima. Quando essa
mesma mulher foi interpelada sobre a questão do segundo casamento ela declarou ser a
favor e justificou que Deus dar oportunidades a seus filhos, pois, a partir dessa
justificativa ela continua merecendo o amor de Deus. Ela, “a partir de sua experiência
de vida fora da norma, reelabora a imagem de um Deus punitivo que, em sua
14

experiência particular, torna--se um Deus misericordioso porque não a castiga pelo


“desvio” cometido” (p. 38).

No ano de 2013, as vésperas da terceira edição do Congresso de Mulheres


Diante do Trono, Ana Paula Valadão, conclama:

É hora de serem levantados os referenciais cristãos do que é ser


mulher no plano do criador. Ele sabe o que funciona ou não em sua
criação, e nos deixou o manual de instruções: a Bíblia (CONGRESSO
DE MULHERES DIANTE DO TRONO, 2013).

Dessa forma, a pastora afirma que se deve seguir a Bíblia porque ela é a palavra
de Deus. Um outro exemplo bem repetido e pronunciado em várias edições do
Congresso é uma pregação utilizada antes de começar as atividades, na qual todas as
mulheres são convidadas a levantar-se, erguer suas mãos com a Bíblia, e dizer em voz
alta:

Esta é a minha Bíblia, eu sou o que ela diz que eu sou eu tenho o que
ela diz que eu tenho, eu posso fazer o que ela diz que eu posso fazer.
Hoje eu serei tocada pela palavra de Deus, eu audaciosamente
confesso, que a minha mente está alerta, meu coração está receptivo,
eu estou pronta para receber a incorruptível, a indestrutível, sempre
viva semente da palavra de Deus, e eu nunca mais serei a mesma,
nunca, nunca, nunca, no nome de Jesus, amém! (CONGRESSO DE
MULHERES DIANTE DO TRONO, 2012).

É fato que o livro da Bíblia desperta muita polêmica em diversas passagens.


Considerando que a sociedade e a época histórica na qual esse livro foi escrito agia de
acordo com o que hoje é considerado machismo e sexismo (pois tais categorias não
existiam naquele tempo) é de fácil compreensão que essas características se expresse
significativamente nas obras da época: a maioria dos personagens bíblicos são
masculinos e não há sequer um discípulo de Jesus que não seja homem. Como todo
livro, a Bíblia recebe inúmeras interpretações diferentes. Há quem acredite que suas
mensagens devem ser seguidas literalmente mesmo nos dias atuais. Mas também,
existem leituras e interpretações bíblicas que reconhecem que a conjuntura histórica e
cultural mudou e que é possível utilizar-se deste livrode forma diferente objetivando o
desenvolvimento e o progresso de comunidades e discursos populares.
15

A autora Isabel Félix faz parte do movimento feminista e é integrante da CEBI –


Centro de Estudos Bíblicos –, e relata que no ano de 1989 foi afastada da coordenação
de um grupo de jovens de uma paróquia da Igreja Católica porque militava no Partido
dos Trabalhadores (PT) e que, a partir daí, se aproximou de grupos que estudavam a
Bíblia através da perspectiva da leitura popular, que pode ser compreendida como uma
leitura e interpretação bíblica que tem como objetivo a transformação da realidade
(FÉLIX, 2010). Segundo ela, a CEBI diante de seus estudos bíblicos elaborou a
conclusão de que a Bíblia é muito utilizada para legitimar discursos e práticas de
dominação e que seus textos exercem muita influência na vida das pessoas, mas que,
dentro das práticas da leitura popular, a bíblia pode sim “animar e apoiar lutas
cotidianas e estruturais por uma vida mais digna” (FÉLIX, 2010, p. 10).

Destarte, entende-se aqui que as interpretações das escrituras bíblicas são


realizadas e reproduzidas de acordo com os interesses de um grupo dominante
específico e, mesmo que se utilize de técnicas e estratégias para se extrair de tal livro
posturas progressistas – tal como as práticas apresentadas pela Isabel Félix – a Bíblia
pode se apresentar como um livro conservador e sexista se analisado na conjuntura
atual, pois, suas histórias e regras, principalmente no que se trata da mulher, são
bastante questionáveis se colocadas em prática na contemporaneidade.

Considerando as análises acima e sabendo-se que as informações contidas na


Bíblia são repassadas e obedecidas por milhares de mulheres em todo Brasil, se faz
necessário recorrer a alguns trechos do referido livro, a fim de analisá-lo a partir de suas
próprias palavras. Abaixo seguem alguns de seus trechos que abordam a figura feminina
em aspectos específicos de sua vida.

No livro de Deuteronômio no capítulo 22, versículo do 13 ao 21 encontra-se um


trecho que tem como tema: “Respeitar a boa fama da mulher”:

Se um homem se casa com uma mulher e começa a detestá-la depois


de ter tido relações com ela, acusando-a de atos vergonhosos e
difamando-a publicamente, dizendo: „casei-me com esta mulher mas,
quando me aproximei dela, descobri que não era virgem‟, o pai e a
mãe da jovem pegarão a prova da virgindade dela e levarão a prova
aos anciãos da cidade para que julguem o caso. Então o pai da jovem
dirá aos anciãos: „Dei minha filha como esposa a este homem, mas ele
a detesta, e a está acusando de atos vergonhosos, dizendo que minha
16

filha não era virgem. Mas aqui está a prova da virgindade da minha
filha!‟ e estenderá o lençol diante dos anciãos da cidade. Os anciãos
da cidade pegarão o homem, mandarão castigá-lo e o multarão em
cem moedas de prata, que serão entregues ao pai da jovem por ter sido
difamada publicamente uma virgem de Israel. Além disso, ela
continuará sendo mulher dele, e o marido não poderá mandá-la
embora durante toda a sua vida. Se a denúncia for verdadeira, isto é,
se não acharem a prova da virgindade da moça, levarão a jovem até a
porta da casa de seu pai e os homens da cidade a apedrejarão até que
morra, pois ela cometeu uma infâmia em Israel, desonrando a casa do
seu pai. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio (BÍBLIA,
1991, p. 220 – 221).

É importante observarmos o fato de que se o veredito dos anciãos for contrário à


palavra do homem, ele será castigado apenas com uma multa, mas, se a decisão do caso
for contrária ao que se é esperado da mulher a mesma será punida com a morte. Assim,
fica claro a desigualdade entre ambos os sexos, o que é bastante compreensível se
pensada a época na qual estas palavras foram escritas, porém, é preciso questionar o
rebatimento dessas histórias na vida cotidiana das mulheres na contemporaneidade.
Sabe-se que nos dias atuais ainda há um forte apelo para que a mulher seja casta e
monogâmica enquanto ao homem é permitido se relacionar com diversas mulheres.

No capítulo 22, versículos 22 ao 29 é abordado o tema “Casos de adultério”:

Se um homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma


mulher casada, ambos serão mortos, tanto o homem como a mulher.
Desse modo, você eliminará o mal de Israel. Se houver uma jovem
prometida a um homem, e um outro tiver relações com ela na cidade,
vocês levarão os dois à porta da cidade e os apedrejarão até que
morra: a jovem por não ter gritado por socorro na cidade, e o homem
por ter violentado a mulher do seu próximo. Desse modo, você
eliminará o mal do seu meio. Contudo, se o homem encontrou a jovem
no campo, a violentou e teve relações com ela, morrerá somente o
homem que tiver relações com ela; não faça nada à jovem, porque ela
não tem pecado que mereça a morte. É como o caso do homem que
ataca o seu próximo e o mata: ele a encontrou no campo e a jovem
pode ter gritado, mas não havia quem a socorresse (BÍBLIA, 1991, p.
221).

De início, no trecho, é transmitida uma ideia de igualdade entre homens e


mulheres, pois, ambos ao cometerem o mesmo pecado (o adultério) receberiam a
mesma punição (a morte). Ao continuar a leitura, têm-se as seguintes informações: uma
mulher prometida a um homem (que certamente não foi ela quem o escolheu) é flagrada
17

tendo relações sexuais com outro homem. O fato da mulher não ter gritado por socorro
(supondo que ela estava sendo submetida obrigatoriamente àquela situação, o que
configuraria um estupro) já é motivo suficiente de decretar sua morte. Já ao homem a
justificativa para o castigo é o fato de ter se relacionado com a mulher do seu próximo.
Em nenhum momento a ideia da mulher estar sendo violentada é taxada como um erro
masculino. Caso a mulher tenha gritado e ninguém a socorresse, ela se livraria da morte,
pena esta que só nele seria executada.

Numa situação semelhante analisada acima, também do livro de Deuteronômio,


fica claro a diferença que faz se a mulher estiver prometida a um homem ou não, caso
explicitado no capítulo 22, versículos 28 e 29 que tem como título “Casos de violação”:

Se um homem encontra uma jovem que não está prometida em


casamento e a agarra e tem relações com ela e é pego em flagrante, o
homem que teve relações com ela dará ao pai da jovem cinqüenta
moedas de prata, e ela ficará sendo sua mulher. Uma vez que a
violentou, não poderá mandá-la embora durante toda a sua vida
(BÍBLIA, 1991, p. 221).

Aqui há a legitimação do estupro. Fica estabelecida uma relação de compra e


venda, na qual a mulher é uma mercadoria que está fadada a permanecer ao lado do seu
agressor durante toda a sua vida. Assim como em outros casos já relatados, percebe-se
que a Bíblia atribui uma grande importância ao matrimônio, pois, mesmo diante de
grandes conflitos familiares o casamento não é dissolvido.

Nas duas passagens bíblicas citadas acima fica evidente que as mesmas são
enunciadas para os homens e que em nenhuma delas a mulher se pronuncia. Vale
destacar que os argumentos utilizados para dar sustentação às declarações da Bíblia são
fundamentalistas, ou seja, baseados em dogmas: verdades absolutas que não se
permitem questionar e/ou desconstruir, restando apenas aceitá-las e segui-las.

A pregação do 2º Congresso de Mulheres Diante do Trono (ano de 2012) onde


houve um bate papo intitulado “A submissão a Deus, aos pais e ao esposo” e que
participaram as pastoras Márcia Rezende, Ângela Valadão, Iara Diniz e Helena Tanuri,
ao apresentar o tema que seria discutido, Ana Paula Valadão, pastora do Ministério em
18

tela, declarou a importância de se discutir a respeito da submissão “intrínseca ao ser


mulher”. A conversa se inicia com uma explicação etimológica da palavra submissão
que é interpretada da seguinte forma: “sub” significa abaixo e “missão” é algo a ser
realizado, um propósito. Valadão afirma ainda que na Bíblia Sagrada, no livro de
Efésios é dito que o papel do homem é amar a sua esposa. Então, as pastoras concluem
que “a submissão é a missão que as mulheres têm abaixo da missão do homem”, ou
seja, segundo elas, a missão da mulher é ajudar o homem a amá-las. (2º Congresso de
Mulheres Diante do Trono, 2012).

Nesse contexto, é crucial destacarmos primeiramente que foi repassado às


mulheres um significado romântico e mágico, da palavra submissão. A mesma significa,
segundo o dicionário Aurélio (2014)6: ato ou efeito de submeter, obediência voluntária,
sujeição, passividade, subserviência. Certamente há diversas realidades entre as
participantes do congresso, sendo muitas delas já casadas, noivas, etc. independente da
relação que estas estabeleçam com seus parceiros (o que é desconhecido entre as
palestrantes), elas aprendem nessa conversa que devem ser submissas aos seus
companheiros e obedecê-los. A mensagem é repassada mesmo sabendo que os homens
são educados numa sociedade na qual práticas machistas ainda são bastante evidentes e,
muitos deles, desenvolvem uma relação violenta e de posse para com as mulheres de um
modo geral, o que gera um número alarmante de violências domésticas sofridas pelas
mulheres em todo o país. Porém, é compreensível que do ponto de vista da mulher que
acredita necessitar de um homem ao seu lado para lhe orientar, tal submissão não lhe
traz nenhum constrangimento moral e sim um conforto e uma certeza de estar amparada
e vivendo dentro dos desígnios de Deus.

Por fim, no Congresso encontram-se relatos que orientam como as atuais e/ou
futuras mães devem educar suas filhas. A pastora Ângela Valadão declarou em uma das
edições:

Eu queria voltar um pouquinho a essa questão da criação dos


filhos, eu tenho visto hoje algo muito sério acontecendo nas
famílias, é que sem perceber as mães, os pais, estão criando as
suas filhas não para o lar, não para serem esposas, não para
serem mães, mas criando para sua carreira profissional. Então as
6
Disponível em: < http://www.dicionariodoaurelio.com/Submissao.html>
19

mães se alegram: “ah minha filha passou em primeiro lugar no


vestibular ela passou num concurso(...) eu já vi pais maduros e
irmãos nossos, líderes, dizendo assim: não, minha filha não vai
namorar até formar, até terminar a faculdade, aí o que é que
acontece? Passa a fase mais linda da menina. Passa o momento
mais bonito. A menina estuda, excelente, mas não sabe
cozinhar, não sabe pregar um botão numa camisa, não sabe
passar uma camisa, não sabe organizar nunca arrumou uma
cozinha, então, ela não está sendo preparada para o lar ela está
sendo preparada para competir com o homem no mercado. Aí
ela forma e o pai fala assim: “olha eu gastei muito pagando
faculdade agora você tem que trabalhar”, aí ela vai trabalhar e a
primeira coisa que ela faz é comprar um carro, ta feliz, pagou o
carro, aí agora ela vai comprar um apartamento, aí ela descobre
que está com seus 32/33 anos e está num sucesso total, ganha
um dinheirão, é formada e ela diz: eu quero casar! Eu quero ser
mãe, eu quero ter filhos, mas aí já não tem os rapazes solteiros
livres é muito difícil os que ganham o mesmo que ela e que
tenha o mesmo nível intelectual. Então ela vai atrás de qualquer
um, é um divorciado é um cara esperto que vê que a menina tem
um carro, tem um apartamento, tem um bom salário e ele casa
por conveniência. Mas lá trás quem provocou tudo isto? Uma
educação mal direcionada. Então eu vejo que a submissão é um
princípio que abrange algo muito mais profundo (...) então é
muito importante que as meninas que estão aqui sonhem em
serem esposas (...) sonhem em se realizarem como esposas
sonhem em serem mães e que nós possamos preparar as nossas
meninas para o casamento. A Hadassa a nossa netinha mais
velha ela já diz assim: olha vovó já estou orando pelo meu
futuro esposo vai ser um homem de Deus vai me amar muito eu
vou conhecê-lo com 18 anos com 20 vou casar porque com 21
eu quero que o vovô tenha o primeiro bisneto dele
(CONGRESSO DE MULHERES DIANTE DO TRONO,
2011). 7

A pastora descreve resumidamente sobre o decorrer da vida de uma jovem


mulher, considerada por ela um exemplo a não ser seguido pelas demais. Estudar,
formar-se profissionalmente e adquirir bens com seu próprio dinheiro são atitudes
apontadas como errôneas porque não corresponde com o futuro que uma mulher deve
buscar para si. Provavelmente se o personagem principal da história fosse um homem, a
aquisição do saber intelectual e dos bens materiais seria absolutamente aceito e louvado.

Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=aF_fARlWa6E> a partir dos 17: 50 min.


20

Ainda há uma considerável carga de culpa depositada nos pais da jovem acerca do seu
futuro, pois os mesmo não souberam orientá-la do como proceder na vida.

Ainda na fala mencionada, nota-se a forte presença do determinismo biológico ,


visto que no discurso o fato de ser mulher leva consigo uma série de obrigações e
saberes exclusivos da figura feminina e caso ela fuja de seu destino natural, certamente
será infeliz. Também é possível notar que o fato de ser mãe é considerado como algo
que dar completude às mulheres e consequentemente aquelas que não reproduziram
filhos não vivenciaram plenamente o que é ser uma mulher. Vale salientar que as
tecnologias de reprodução da contemporaneidade vem reafirmando essa lógica na
sociedade.

Por fim, considerando as análises e reflexões sobre o conteúdo do CMDT,


percebe-se que tal evento tem um alcance significativo entre as mulheres cristãs
protestantes e apresenta inúmeros exemplos que podem ser ricamente problematizados
tendo como referência as relações de gênero, porém, as idéias desenvolvidas aqui
podem ser classificadas como limitadas no que se refere a apreensão da realidade, pois,
o trabalho de campo não foi previsto e dessa maneira as mulheres não tiveram voz ativa
no processo de construção deste artigo.

Considerações Finais

Diante da demonstração de alguns trechos do conteúdo do CMDT o qual se


respalda no livro Bíblia Sagrada, é possível pontuar sob a perspectiva feminista crítica
uma série de questões e possíveis consequências negativas de tal conteúdo na sociedade.
Porém, é crucial ouvir essas mulheres para compreender como as mesmas se percebem
dentro das relações de gênero existentes no âmbito religioso a fim de que não se possa
concluir posicionamento sobre elas mas com elas, reais protagonistas desse contexto e
21

certamente as pessoas legítimas para afirmar qual lugar que elas ocupam nas instituições
familiares e religiosas, pois o discurso público do CMDT não é suficiente para revelar a
conduta e o posicionamento feminino frente a uma doutrina que coloca os homens como
dominadores absolutos em todos os aspectos da vida social e espiritual.

Embora seja direito da mulher de decidir sobre a sua própria vida e dentro deste
raciocínio cabe a escolha de optar por desenvolver atividades domésticas e cuidados
com os filhos, abrindo mão do vínculo formal trabalhista, a questão se torna
problemática (e não apenas no meio religioso) quando tal realidade é imposta às
mulheres, assim como a maternidade, como afirma Rosaldo: ” uma ênfase sobre o papel
maternal feminino leva a uma oposição universal entre os papéis “doméstico” e
“público” (...) a mulher confinada a esfera doméstica não tem acesso à espécie de
autoridade, prestígio” (1979, p.25). Dessa maneira, entende-se que aquilo que pode ser
apenas um projeto de vida que a própria mulher quis para si, pode ser também uma
expressão da opressão sofrida pelas mulheres no meio religioso. Vale salientar que nas
quatro edições do Congresso já realizadas (2011 a 2014), em nenhuma delas foi
discutido a presença das mulheres no mercado de trabalho, apesar do mesmo ser
brevemente citado algumas vezes.

As análises aqui apresentadas de algumas das pregações do Congresso de


Mulheres Diante do Trono e de certas passagens bíblicas serviu como base informativa
e analítica para demonstrar e exemplificar como as questões de gênero estão arraigadas
nos instrumentos e discursos religiosos, e também, como estas merecem ser revistas
com mais profundidade, a fim de fomentar o debate para que este seja conduzido com a
intenção de criar mecanismos que incentivem a superação de discursos e práticas
sexistas, sempre considerando e respeitando a autonomia feminina de viver da melhor
maneira que julga possível.
22

Referências

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sul de Portugal, Anuário Antropológico\95, RJ, Tempo Brasileiro,1996.

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Submissão a Deus, aos pais e ao esposo” – Disponível em
<http://www.youtube.com/watch?v=aF_fARlWa6E:> Acesso em: Março 2013.

CONGRESSO DE MULHERES DIANTE DO TRONO. Ministério de Louvor Diante


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