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A Teoria de Erikson e a Compreensão da Terceira Idade

Hoje, durante uma aula para médicos clínicos da bela cidade de Campo Bom –
RS, recorri aos ensinamentos do psicanalista Erik Erikson. O assunto em questão
era o desespero dos idosos frente à finitude. Seria um sentimento normal ou
predominante? Todos idosos entram em “desespero” diante da proximidade da
morte?

Vamos a Erikson e à teoria.


Psicanalista de origem alemã, Erik Homburger Erikson nasceu a 15 de Junho de
1902, tendo falecido nos Estados Unidos em 1994. Ele iniciou sua vida como
artista plástico. Em 1927, depois de estudar arte e viajar pela Europa, passou a
lecionar em Viena a convite de Anna Freud. Sob orientação dela, submeteu-se à
psicanálise e tornou-se, ele próprio, psicanalista. Erikson contestava a psicanálise
por esta não considerar as interações entre o individuo e o meio, assim como por
privilegiar os aspectos patológicos e defensivos da personalidade. No início da
carreira, o interesse de Erikson esteve adolescência. Em 1933 emigrou para os
Estados Unidos e naturalizou-se americano. Lecionou nas universidades de
Harvard, Berkeley e Yale.
Erikson modificou e estendeu a teoria freudiana. Enfatizou a influência da
sociedade no desenvolvimento da personalidade. Recorro a ele neste estudo por
ser um modelo que integra o crescimento e desenvolvimento humano como um
processo que continua ao longo da vida, desde o nascimento até a velhice.
Segundo o autor, o crescimento psicológico do indivíduo ocorre de forma
semelhante ao do embrião – chamado de princípio epigenético. O termo
epigênese é vem da Embriologia. Sugere que cada elemento se desenvolve sobre
as outras partes. É estruturalmente semelhante ao do crescimento embrional no
sentido de que o aparecimento de cada estágio sucessivo baseia-se no
desenvolvimento do estágio anterior. Cada estágio representa uma luta entre duas
tendências conflitantes que precisa ser solucionada satisfatoriamente. Esse
desafio envolve processos internos (psicológicos) do indivíduo e processos
externos (sociais).
Erikson dividiu o desenvolvimento humano em oito estágios. Em cada um dos oito
estágios o ego passa por uma crise. O desfecho da crise pode ser positivo ou
negativo; onde o desfecho positivo de uma ajuda na superação da próxima e, o
desfecho negativo, além de enfraquecer o ego e rebaixá-lo a estágios anteriores
de desenvolvimento, prejudica a superação das crises seguintes.

No sétimo, chamado de idade Adulta, é onde se contrapõem a generatividade e a


estagnação. Nesse estágio, a virtude humana que emerge é o cuidado. Nele, o
indivíduo tem a preocupação com tudo o que pode ser gerado, desde os filhos até
idéias e produtos. Transparece uma necessidade de transmitir, de ensinar, como
forma de fazer-se sobreviver, de valer a pena todo o esforço de sua vida, de saber
que há um pouco de si nos outros. Isso impede a absorção do ser em si mesmo, a
estagnação, o tornar-se lamuriante. O foco da generatividade pode ser os filhos,
mas também criações diversas, no trabalho e na arte. Todas as forças surgidas em
estágios precedentes (esperança e vontade, propósito e competência, fidelidade e
amor) se mostram essenciais para a tarefa geracional de cuidar da geração
seguinte.
O oitavo estágio, chamado de velhice, apresenta como conflito a integridade e a
desesperança, quando o ser humano passa a refletir sobre sua vida. Nesse
estágio, sobressai-se a sabedoria, que remete ao saber acumulado ao longo dos
anos, a capacidade de julgamento maduro e justo, e a compreensão abrangente
dos significados, e a forma de ver, olhar e lembrar as experiências vividas.
Por integridade entende Erik Erikson a capacidade de aceitar os limites da vida,
isto é, o que a vida tem dado ou não; o ganho de um sentido de pertencer a uma
história mais ampla. Este crescimento permite ao indivíduo ser capaz de aceitar
seu ciclo vital e daqueles que se tornaram significantes ao longo desse mesmo
ciclo. Na integridade, a pessoa não receia encarar todo o caminho seu percorrido,
levando-o a compreender o percurso das pessoas que acompanharam o seu ciclo
de vida, “livre do desejo de que eles fossem diferentes, e uma aceitação do fato de
que a vida de cada um é de sua própria responsabilidade”, sendo que o possuidor
da integridade defende a dignidade do seu próprio estilo de vida contra todas as
ameaças físicas e econômicas.

A integridade é também um sentido de coerência e inteireza, como


capacidade potencial do ser humano de manter os acontecimentos e
sentimentos presentes e passados interligados. A consciência de possuir
sabedoria desenvolve-se a partir dos encontros tanto com a integridade quanto
com o desespero, à medida que o indivíduo é confrontado com preocupações
fundamentais. O fracasso no trabalho de construção da integridade, sucede o
desespero. Assim, o desespero manifesta o fato de o indivíduo sentir que o tempo
é demasiado curto para voltar a recomeçar a sua vida com o objetivo de encontrar
rumos alternativos para a integridade.
Não. Nem todos idosos se assustam com a proximidade da morte. Tenho visto que
aqueles que resolvem os conflitos das duas últimas fases de Erikson chegam aos
80, 90 anos tranquilos e com sabedoria para não se deixarem abater ou assustar
com o que virá pela frente.

Um abraço, Leandro