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Feminismo, cidadania e política

democrática radical'

Chantal Mouffe
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'C'O ecentemente, dois temas têm sido o objeto de muitas discus-
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posto que os chamados "pós-modernistas" também se apresentam como
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os principais críticos do essencialismo; mas é preferível distingui-Ias,
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,- ultimamente têm defendido o essencialismo.' Considero que, para es-
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clarecer 05 temas que estão em jogo nesse debate é necessário reconh - r

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que o "pós-modernismo", entendido como uma interpretação t ri
coerente, não existe, e que a freqüente assimilação que se faz do põs-
só nos pode conduzir à níus: .
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racionalidade e das premissas dos modos de pensar caract rí Li o do
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racionalismo tem distintas procedências e está longe de ter s limlt Ido
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gger e a hermenêutica filosófica pós-heideggeriana de a . rr N, ()
LL. LL. •.. último Wittgenstein e a filosofia da linguagem inspirada em u Iru 111

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c: .•..... J. • Este ensaio foi publicado em Feminists Theorize ihe Political, ed. Judith Butl r and
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o 0[111 W. Scott, Routledge, 1992. Agradecemos à autora a licença para sua reprodução.

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. 1Vet o número 1 da revista Differences, (setembro de 1989), intitulado "The Essential
p. ~f( rence: Another Look at,Essentialism", assim como o recente livro de Diana Fuss,
.~sentially Speaking (Routledge, Nova Iorque, 1989).
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Chantal Mouffe
cidadania
-t ir a nova visão de cidadania necessária para a aplicação de tal
idéia de uma natureza humana universal ou de um cânon univ r 1 d cons rur
racionalidade através do qual a natureza humana poderia ser onh ccída, política.
assim como também a concepção tradicional de verdade. Portanto, o
termo "pós-modernismo" indica tal crítica do universalismo e do
racionalismo iluminista, deve-se reconhecer que está relacionado com
o problema da identidade e o feminismo
as principais correntes da filosofia do século xx e não há razão para Um problema comum da crítica ao ~ssencialismo tem sido o ~bandono
singularizar o pós-estruturalismo como um problema especial. Por outro da categoria de sujeito como a entidade transparente e racional que
lado, se por "pós-modernismo" se quer designar só a forma muito es- aderia outorgar um significado homogêneo ao campo total da conduta
pecífica que tal crítica assume em autores corno Lyotard e Baudrillard, ~or ser a fonte da ação. Por exemplo, a p~ic~álise mostrou que, ~onge
não há absolutamente nenhuma justificação para colocar nessa mesma de estar organizada ao redor da transparencia do ego, a personalidade
categoria gente como Derrida, Lacan ou Foucault, como geralmente se estrutura em certo número de níveis que se localizam fora da cons- .
tem acontecido. Muito freqüentemente, a crítica de uma tese específica ciência e da racionalidade dos sujeitos. Portanto, arruinou a idéia do
de Lyotard ou Baudrillard conduzia a conclusões devastadoras a pro- caráter unitário do sujeito. A asseveração central de Freud é que a men-
pósito dos "pós-modernistas", que então incluíam a todos os autores te humana está necessariamente sujeita a uma divisão entre dois siste-
ligados vagamente com o pós-estruturalismo. Este tipo de amálgama, mas, um dos quais não é nem pode ser consciente. Ampliando a visão
além de ser claramente falso, não serve para nada. de Freud, Lacan mostrou a pluralidade de registros - simbólico, real e
Uma vez que a identificação do pós-modernismo com o pós-es- imaginário -que penetra qualquer identidade, e o lugar do sujeito como
truturalismo foi refutada, o assunto do essencialismo aparece sob urna o lugar da carência, a qual- embora seja representada dentro de uma
ótica diversa. De fato, é com respeito à crítica do essencialismo que se estrutura - é o lugar vazio que ao mesmo tempo subverte e é a condição
pode estabelecer uma convergência entre muitas correntes diferentes da constituição de toda identidade. A história do sujeito é a história de
de pensamento, e se podem encontrar semelhanças no trabalho de au- suas identificações, e não há uma identidade oculta que deva ser
tores tão diferentes como Derrida, Wittgenstein, Heidegger, Dewey, resgatada além da última identificação. Existe portanto um duplo
Gadamer, Lacan, Foucault, Freud e outros. Isto é muito importante por- movimento: por um lado, um movimento de descentralização que evi-
que significa que tal crítica assume muitas formas distintas, e que se ta a fixação de um conjunto de posições ao redor de um ponto pré-
quisermos averiguar sua relevância para a política feminista, deveremos constituído. Por outro lado, e como resultado desta instabilidad
nos comprometer com todas suas modalidades e implicações, e não essencial, desenvolve-se o movimento contrário: a instituição de ponto
desautorizá-Ia rapidamente sobre a base de alguma de suas versões. nodais, fixações parciais que limitam o fluxo do significado p r b ix
Minha intenção neste artigo será mostrar as idéias decisivas que do significante. Mas esta dialética de instabilidade / fixa ão s6 p 59 vcl
uma interpretação antiessencialista pode dar para a elaboração de uma porque a estabilidade não dada de antemão, porque nenhum ntr
política feminista inspirada também em um projeto democrático radi- subjetividade precede às identificações do sujeito.
cal. Certamente não creio que o essencialismo implique necessariamente Na filosofia da linguagem da última etapa de Witt n t ln,
uma política conservadora e sou capaz de aceitar que pode ser formu- também encontramos uma crítica da concepção racionalista d suj i,t
lado de uma maneira progressista. O que desejo demonstrar é que que indica que este último não pode ser a fonte do significado 1In li -
apresenta algumas deficiências ineludíveis que interferem na construção tico posto que é mediante a participação em diferentes jogo d
de uma alternativa democrática cujo objetivo seja a articulação de dis- linguagem que o mundo se abre diante de cada um de nós. Encontr -
tintas lutas ligadas a diferentes formas de opressão. Considero que o mos a mesma idéia na hermenêutica filosófica de Gadamer, na tese d
essencialismo conduz a uma visão da identidade que não concorda com que há uma unidade fundamental entre pensamento, linguagem
uma concepção de democracia plural e radical e que não nos permite mundo, e que é dentro da linguagem onde se constitui o horizonte d

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Chantal Mouffe
cidadania

nosso presente. Uma crítica semelhante da centralidade do sujeito na r dissO, temos que nos ~p:oximar .d~le com~ uma pl~r~lidad~,
metafísica moderna e de seu caráter unitário pode ser encontrada sob /... endente das diversas pOSlÇoeSde sujeito atraves das quals e cons~-
diversas formas nos autores que mencionei acima. No entanto, meu cl.~ dentro de diferentes formações discursivas. E reconhecer que nao
propósito aqui não é examinar essas teorias em detalhe, mas indicar (tu! o a relação a priori, necessária, entre os discursos que constroem suas
simplesmente algumas de suas convergências básicas. Não estou i~:ntes posições de sujeito. Por~m~ pe~as razões indica das acima, esta
perdendo de vista o fato de que há importantes diferenças entre todos i luralidade não implica a coexistência, ponto por po~to, de uma
esses pensadores tão distintos. Contudo, desde o ponto de vista do ar- .......p I ralidade de posições de sujeito, mas a constante subversao e superde-
gumento que quero expor, é importante compreender as conseqüências p ~ação de uma pelas outras, o qual possibilita a geração de "efeitos
ter fr .
de sua crítica comum ao status tradicional do sujeito, assim como das totalizantes" dentro de um campo que se caracteriza por ter onteiras
implicações dessa crítica para o feminismo. abertas e indeterminadas.
Muitas vezes se diz que a desconstrução das identidades essenciais, Este tipo de interpretação é sumamente importante para entender
a qual é resultado do reconhecimento da contingência e ambigüidade de lutas feministas e também outras lutas contemporâneas. Sua carac-
as .
toda identidade, transforma a ação política feminista em algo impossível. terística central é que um conjunto de posições de sujeito vinculadas
Muitas feministas acham que, se não contemplarmos as mulheres como através de sua inscrição nas relações sociais, até agora considerad s
uma entidade coerente, não poderemos estabelecer as bases de um apolíticas, transformou-se em lugar de conflito e antagonismo d u
movimento político feminista no qual as mulheres poderiam se unir como lugar à mobilização política. A proliferação destas novas formas de luta
mulheres para formular e perseguir objetivos especificamente feminis- só pode ser assumida teoricamente quando se começa com a dialéti a '
tas. Em oposição a essa visão, argumentarei que, para as feministas com- a descentralização / recentralização descritos anteriormente.
prometidas com uma política democrática radical, a desconstrução das Em Hegemony and Socialist Strategy,z Ernesto Laclau e eu t ntam s
identidades essenciais teria que ser vista como a condição necessária para esboçar as conseqüências desta interpretação teórica para um projeto
uma compreensão adequada da variedade de relações sociais onde se de democracia plural e radical. Decidimo-nos pela necessidad de
teriam que aplicar os princípios de liberdade e igualdade. Só quando estabelecer uma cadeia de equivalências entre as diferent lu tas de-
descartarmos a visão do sujeito como um agente ao mesmo tempo racio- mocráticas, para criar uma articulação equivalente entre as reivindi-
nal e transparente para si mesmo, e descartarmos também a suposta cações das mulheres, dos negros, dos trabalhadores, dos homossexuais
unidade e homogeneidade do conjunto de suas posições, teremos possi- e outros. Neste ponto, nossa perspectiva difere da de outras visões não
bilidades de teorizar a multiplicidade das relações de subordinação. Um essencialistas, onde os aspectos de destotalização e descentralização
indivíduo isolado pode ser o portador desta multiplicidade: ser domi- prevalecem, e onde a dispersão das posições de sujeito se transforma
nante em uma relação e estar subordinado em outra. Poderemos então em uma separação efetiva, como nos textos de Lyotard e até certo pon-
conceber o agente social como uma entidade constituída por um conjun- to nos de Foucault. Para nós, o aspecto da articulação é decisivo. Negar
to de "posições do sujeito" que não podem tar nun a totalmente fixadas a existência de um vínculo a priori, necessário, entre as posições de
em um sistema fechado de diferenças; uma nridad 011 tituída por uma sujeito, não quer dizer que não existam constantes esforços para
diversidade de discursos entre os quai não t m qu hav r necessaria- estabelecer entre elas vínculos históricos, contingentes e variáveis. Este
mente relação, mas um movimento con tant d \ U rdet rminação e tipo de vínculo estabelecido por uma relação contingente, não prede-
deslocamento. A "identidade" de tal uj jt rnúltl I ntradit6rio é terminada, entre várias posições, é o que designamos como "articu-
portanto sempre contingente e precárl , flx tcmpor lm nte na
interseção das I?osições de sujeito e dep nd 'nt \ I \ F01'I11H RP (fica de
identificação. E, portanto, impossív I falar do 1\ '!ll fi) 'ilil orno se
estivéssemos lidando com uma entidad unlfl 1(1 , h(lmOI nua. Um lu- 2 Emesto Laclau e Chantal Mouffe, Hegemony and Socinlist Strategy. Towards a Ra-
dical DEmocratic Poliiics (Verso, Londres,1985).

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cidadarua Chantal Mouffe

lação". Embora não exista um vínculo necessãri entr as dif rent Cidadania e política feminista
posições de sujeito, no campo da política sempr há di U1" os que tratam
nto o miolo da formulação de uma política feminista tem que ser
de prom<;ver uma articulação entre elas, desde difer nt s pontos de por t a ,
tabelecido em termos completamente diferentes. Na grande maioria,
partida. E por isso que cada posição de sujeito se constitui dentro de
eS feministas, que estão preocupadas pela contribuição que o feminis-
uma estrutura discursiva essencialmente instável, posto qu se submete
aso poderia dar à política democrática, procuraram tanto as reivindi-
a uma variedade de práticas de articulação que constantemente a sub-
ca Õ€sespecíficas que poderiam expressar os interesses das mulheres,
vertem e transformam. Por isto não há nenhuma posição de sujeito cujos
co~o os valores especificamente femininos que deveriam se transfor-
vínculos com outras estejam assegurados de maneira definitiva e,
mar no modelo da política democrática. As feministas liberais lutaram
portanto, não há identidade social que possa ser completa e permanen-
por uma ampla gama de novos direito~ das mulheres,. cuja ~nalid~de é
temente adquirida. Isto não significa, no entanto, que não possamos
fazê-Ias cidadãs iguais, mas sem desafiar os modelos liberais dominan-
reter noções corno "classe trabalhadora", "homens", "mulheres", "ne-
tes de cidadania e política. Sua visão foi criticada por outras feminista
gros" ou outros significantes que se referem a sujeitos coletivos. Não
que argumentaram que semelhante concepção do político é mascu lina,
obstante, uma vez que tenha sido descartada a existência de uma
e que as preocupações femininas não podem ser acopladas a tal
essência comum, seu status deve ser concebido em termos do que
estrutura. Seguindo Carol Gilligan, opõem urna "ética do cuida do" f '-
Wittgenstein designa como "semelhanças familiares", e sua unidade
minista à "ética da justiça" masculina e liberal. Contra os val r
deve ser vista como o resultado de uma fixação parcial de identidades
individualistas liberais, defendem um conjunto de valores bas ad n I
mediante a criação de pontos nodais.
experiência das mulheres como mulheres, ou seja, a experiência da m t 'r-
Para as feministas, aceitar tal interpretação tem conseqüências
nídade e do cuidado que realizam no âmbito privado da família.
muito importantes no que se refere à maneira em que formulamos nossas
Denunciam o liberalismo por ter construído a cidadania moderna como
lutas políticas. Se a categoria "mulher" não corresponder a nenhuma
essência unitária e unificadora, o problema já não deverá seguir sendo o âmbito do público, identificado como os homens, e por ter excluído
tratar de descobri-Ia. As questões centrais serão: como se constrói a as mulheres ao relegá-Ias ao âmbito privado. De acordo com esta visão,
categoria "mulher" como tal, dentro de diferentes discursos?, como se as feministas deveriam lutar por um tipo de política guiada pelos valo-
transforma a diferença sexual em uma distinção pertinente dentro das resespecíficos do amor, do cuidado, do reconhecimento das necessida-
relações sociais?, e, como se constroem relações de subordinação através des e da amizade. Urna das tentativas mais claras de oferecer uma
desta distinção? Todo o falso dilema da igualdade versus a diferença alternativa à política liberal fundada em valores feministas se pode
cai, desde o momento em que já não temos uma entidade homogênea encontrar no "pensamento maternal" e no "feminismo social", princi-
"mulher" confrontada com outra entidade homogênea "homem", mas palmente representados por Sara Ruddick e Jean Bethke Elshtain." A
uma multiplicidade de relações sociais nas quais a diferença sexual está política feminista, dizem, deve privilegiar a identidade das "mulheres
construída sempre de diversos modos, e onde a luta contra a subordi-
nação ter que ser estabelecida de formas específicas e diferenciais. A
pergunta sobre se as mulheres têm que se tornar idênticas aos homens
para ser reconhecidas como iguais, ou se têm que afirmar sua diferença Gender and the Politics ofHistory (Columbia Univ.Press, Nova lorque,1988), parte IV. En-
tre as feministas, a critica ao essencialismo foi desenvolvida primeiro pela revista ml], a
a custo da igualdade, aparece corno pergunta sem sentido uma vez que qual, durante seus oito anos de existência (1978-1986), prestou uma contribuição inesti-
as identidades essenciais estão sendo questionadas." mável à teoria feminista. Considero que ainda não foi superada e que os editoriais e os
artigos de Parveen Adams ainda representam a exposição mais vigorosa da postura
antiessencialista. Urna seleção dos melhores artígos dos doze números de ml] foi
reimpressa em The vvomanín-Ouesdon, editado por Parveen Adams e Elizabeth Cowie
(MIT Press, Carnbridge, Mass., 1990, e Verso, Londres,1990).
. . 3 Para uma interessante crítica sobre o dilema da igualdade versus a diferença, 4 Sara Ruddick, Maternal Thinking (Verso, Londres, 1989); Jean Bethke Elshtain,
. inspirada por uma problemática similar à que estou defendendo aqui, ver Joan W.Scott, Public Man, Private Woman (Princeton University Press, Princeton, 1981).

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cidadania
.~d I 111'" I do 1\,,,, Ili mo radi c I, pois o acento não está colo-
como mães" e o âmbito privado da família, A farru1ia é vista como algo
p do na r Ia (ío 11\ \ I r lho, m lI-! no antagonismo homem/ mulher.
que tem superioridade moral sobre o domínio público da política, por- ca A cidadani .1 p teman, uma categona.' patnarca I : quem
,I 'Hul1uo
que constitui nossa humanidade comum. Para Elshtain, família con-
lia

é "cidadãO", \I ~ (~2: um idadão e qual é o terreno dentro do qual


tinua sendo o lugar dos laços humanos mais profundos e ressoantes, as
tua são fat on truídos a partir da imagem do homem. Apesar de
esperanças mais duradouras, os conflitos mais refratãrios"." Ela consi-
a ue as mulher s já são cidadãs nas democracias liberais, a cidadania
dera que é na família onde podemos procurar uma nova moralidade
{o.rroal f i obtida dentro de uma estrutura de poder patriarcal na qual
política que substitua o individualismo liberal. Na experiência das
as tarefas e as qualidades das mulheres ainda estão desvalorizadas. Além
mulheres como mães, dentro do âmbito privado, afirma, vamos encon-
dissO, o apelo para que as capacidades distintivas das mulheres se
trar um novo modelo para a atividade dos cidadãos. As maternalista integrem completamente dentro do mundo público da cidadania en-
querem que abandonemos a política liberal masculina do 'público' con- frenta-se com o que Pateman chama o "dilema Wollstonecraft": exigir
figurado desde o ponto de vista abstrato da justiça e do "outro em geral", igualdade é aceitar a concepção patriarcal de cidadania, a qual implica
para adotar em seu lugar uma política feminista do 'privado' inspirado que as mulheres devem ser parecidas com os homens, enquanto que
pelas virtudes específicas da família, ou seja, de amor, intimidade e insistir em que aos atributos, às capacidades e atividades distintivas
compromisso com o "outro em concreto". das mulheres seja dada expressão e sejam valorizados como forjadores
Mary Dietz fez uma excelente crítica desta interpretação." da cidadania é pedir o impossível, posto que tal diferença é exatamente
~emonstra que Elshtain não pode construir um argumento teórico que o que a cidadania patriarcal exclui.
vmcule o pensamento maternal e a prática social da maternidade com os Pateman acha que a solução deste dilema é a elaboração de uma
valores e a política democráticos. Dietz argumenta que as virtudes concepção "sexualmente diferenciada" da cidadania, que reconheceria
maternais não podem ser políticas posto que estão conectadas com, e as mulheres como mulheres, com seus corpos e tudo,o que eles simboli-
emergem de, uma atividade que é especial e distintiva. São a expressão zam. Para Pateman, isto implica dar significação política à capacidade
de urna relação desigual entre mãe e filho, a qual é também uma ativida- que os homens não possuem: a capacidade de criar vida, ou seja, a
de íntima, exclusiva e particular. A cidadania democrática, pelo contrário, maternidade. Declara que esta capacidade deveria ser usada para defi-
deve ser coletiva, abrangente e generalizada. Como a democracia é uma nir a cidadania com a mesma relevância política com a que normal-
condição na qual os indivíduos aspiram a ser iguais, a relação mãe-filho mente se reconhece a última prova da cidadania: a vontade de um
não pode proporcionar um modelo adequado de cidadania. homem de lutar e morrer por sua pátria. Considera que o modo pa-
Carole Pateman faz uma crítica feminista diferente da cidadania triarcal tradicional de estabelecer uma alternativa, onde são valoriza-
das tanto a separação como a igualdade dos sexos, tem que ser superado
liberal," Embora seja mais refinada, compartilha algumas das caracte-
por um novo modo de delinear o problema das mulheres. Isto pode ser
rísticas comuns com o "pensamento maternal". O tom de Pateman é
feito mediante uma concepção da cidadania que reconheça tanto a
especificidade da condição feminina corno a humanidade comum de
homens e mulheres. Esta visão" que dá o devido peso à diferença sexual
em um contexto de igualdade civil, requer o abandono de uma conce-
5 Jean Bethke Elshtain, "On "The Family Crisis'", em Democracf, 3,1 (inverno de
pção unitária (ou seja, masculina) do que é individual e considera de
1983), f'Mary
138. . ". .
G. Dietz, Citízenship
.. . .
with a Feminist Face. The Problem with Maternal modo abstrato nossa experiência corpórea, e da divisão patriarcal entre
Thinkifg", em PoliticaI Theorv, 13,1 (fevereiro de 1985). o que é privado e o que é público"." As feministas devem aspirar à
Carole Pateman, The Sexual Contract (Stanford University Press, Stanford,1988),
~ -:he DlsoTlier.of Women (Pohty ~ress, Cambridge, 1989), além de numerosos artigos
inéditos a partir dos qUaIS seguIrei especulando, especialmente os seguintes: "Removing
Obstacles to Democracy: The Case of Patriarchy": "Feminism and Participatory 8 Carole Pateman, "Ferninism and Participatory Dernocracy", artigo inédito apre-
D~~ocra~y: Som~ Reflections on Sexual Difference and Citizenship"; "Women's sentado no Encontro da Associação Filosófica Estadunidense, St. Louis, Missouri, maio
Citizenship: Equality, Difference, Subordination". de 1986, p. 24.
37
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cidadania
------=-: . ão desl'gualdade
diferenCJaça , "
emoção amor e laços d sal'\!lu l'" i'IIII"'lIlIo li.rll
I
elaboração de uma concepção sexualmente diferenciada da individua- • bíto público universal -e masculin da conv nç 11, fl\l Id III I' v 1
do am 1, 10
lidade e da cidadania, que inclua "as mulheres como mulheres em um liberdade, razão, acordo e contrato.

contexto de igualdade civil e cidadania ativa"." É or essa razão que o nascimento da criança • a rnot irnid id ' t rm
Pateman proporciona muitas idéias interessantes sobre a pro- .p sentados como a antítese da idadania e se tran f rm ramno
sldo apre d é" ibli
pensão patriarcal dos teóricos do contrato social, e da forma em que o , b I de tudo que é natural que não pode ser parte o que pu l-
sun o o ' fi
indivíduo liberal tem sido construído segundo a imagem masculina. " ue deve permanecer em uma esfera separada. Ao a irmar o
co ,mas q di . -
Considero que, no entanto, sua própria solução é insatisfatória. Apesar lítico da maternidade Pateman trata de superar essa istinçao
va 1orpo ' ..,
de suas reservas em relação aos aspectos historicamente construídos tribuir para a desconstrução da concepção patriarcal da cidadania
edecon . l'
da diferença sexual, sua visão ainda postula a existência de alguma e da vida privada e pública. Como resultado de seu essencia ismo, no
classe de essência que corresponde às mulheres como mulheres. Na to nunca desconstrói a mera oposição entre homens e mulheres.
enan, t
verdade, sua proposição de uma cidadania diferenciada que reconheça 'o motivo pelo qual termina, como as matenaialist s as, propon d o
E st e e 1" d .'
a especificidade da condição feminina está baseada na identificação das . concepção inadequada do que deveria ser uma po ítica emocra-
mulheres como mulheres com a maternidade. Para ela, existem dois uma . d firm" bl
ti inspirada no feminismo. E por isso que po e a ar: o pro ema
tipos básicos de individualidade que devem ser manifestados em duas maís profundo e complexo para a teoria e a prática ~o.lítica é com~ os
diferentes formas de cidadania: QS homens como homens e as mulheres dois corpos da humanidade, e a individua!id~de fe~,al~ masculina,
como mulheres. Segundo Pateman, o problema é que a categoria de "in- podem ser completamente incorporados a vl~a política .
divíduo" apareça como a forma universal da individualidade embora Meu ponto de vista é completamente dIfere~te. Qu.ero ~r~en-
esteja baseada no modelo masculino. As feministas devem denunciar tar que as limitações da concepção moderna de cidadania nao vao .ser
essa falsa universalidade ao afirmar a existência de duas formas superadas se em sua definição se tornar politicame~te rele:ante a .dIfe-
sexualmente diferenciadas de universalidade: esta é a única maneira rença sexual, mas ao construir uma nova concepçao de cidadania na
de resolvera "dilema Wollstonecraft", e de romper com as alternativas qual a diferença sexual se torne algo realmente não pertinente. Isto,
patriarcais do "outro" e do mesmo"./I naturalmente, requer urna concepção do agente social semelhante àquela
Concordo com Pateman em que a categoria moderna de indiví- que defendi acima: como a articulação de um conjunto d po j - d
duo foi construída de tal maneira que postula um "público" universa- sujeito, correspondentes à multiplicidade das relaçõ s i i m qu
lista, homogêneo, e que relega toda particularidade e diferença esfera à se inscreve. Esta multiplicidade se constrói dentro d dia ursn p\ -
"privada"; e também em que isto traz conseqüências muito negativas ficas que não estão necessariamente relacionados, ma qu t rn ormn
para as mulheres. No entanto, não acho que o remédio seja substituí-Ia de articulação contingentes e precárias. Não há razã 1'0 'lU I I "

por uma concepção sexualmente diferenciada, "bigenérica", do indiví- rença sexual tenha que ser pertinente em todas as r -} Õ \ c 1\ ,
duo, nem agregar as tarefas consideradas especificamente femininas à Certamente, hoje em dia existem muitas práticas, dis ur O I li li (,
mera definição de cidadania. Parece-me que semelhante solução per- diversas que constroem de maneira diferente os homens - 1'1 111li Ih \ r \ I
manece presa na mesma problemática que Pateman pretende contes- e a distinção masculino I feminino existe como uma di tin ã rtlncn-
tar. Afirma que a separação entre o que é público e o que é privado é o te em muitos campos. Mas isso não quer dizer que as im I nh qU(I
momento fundador do patriarcado moderno porque: seguir sendo, e podemos considerar perfeitamente a possibilld d
a separação entre o privado e o público é a separação do mundo da sujeição natu-
ral, ou seja, das mulheres, do mundo das relações convencionais e individuais, ou
seja, dos homens. O mundo feminino, privado, da natureza, particularidade,

10 Carole Pateman, "Feminisrn and Participatory Democracy". pp. 7-8.


11 Carole Pateman, The Disorder of Women, p. 53.
9 Ibid., p. 26.
39
38

1
cidadania Chantal Mouffe

que a diferença sexual se transforme em algo irrelevante, em muitas J ~ doméstico, desempenhou certamente um importante papel na
das relações sociais em que atualmente não é assim é concebida. De subordinação das mulheres. Recentemente, muitas feministas e outros
fato, este é o objetivo de muitas das lutas feministas. críticos do liberalismo procuraram na tradição cívica republicana uma
Não estou apoiando o total desaparecimento da diferença sexual concepção de cidadania diferente, mais ativa, que enfatize o valor da
como distinção pertinente; tampouco estou dizendo que a igualdade participação política e a noção do bem comum, antes e independente-
entre homens e mulheres exija relações sociais neutrais do ponto de mente dos desejos e interesses individuais.
vista genérico; e é claro que, em muitos casos, tratar os homens e as No entanto, as feministas devem estar conscientes das limitações
mulheres igualitariamente implica tratá-los diferencialmente. Minha de tal interpretação e dos perigos potenciais que certo tipo de política
tese é que, no domínio da esfera política e no que está relacionado com comunitária representa para a luta de muitos grupos oprimidos. A
a cidadania, a diferença sexual não deve ser uma distinção pertinente. insistência comunitária em uma noção substantiva do bem comum e
Concordo com Pateman em sua crítica da concepção liberal, masculi- de valores morais compartilhados é incompatível com o pluralismo
na, da cidadania moderna, mas acho que um projeto de democracia constitutivo da moderna democracia, dentro da qual considero
radical e plural não necessita um modelo de cidadania sexualmente necessário aprofundar a revolução democrática e dar espaço à multi-
diferenciado no qual as tarefas específicas de homens e mulheres sejam plicidade das exigências democráticas existentes. Os problemas com a
valorizadas com eqüidade, mas uma concepção verdadeiramente dife- construção liberal da distinção público / privado não se resolverão com
rente do que representa ser um cidadão e de como atuar como membro descartá-Ia, e sim quando ela for reformulada de uma maneira mais
de uma comunidade política democrática. adequada. Além do mais, deve ser reconhecida a importância da noção
de direitos na concepção moderna do cidadão, inclusive se estes devem
ser complementados por um sentido mais ativo da participação políti-
Uma concepção democrática radical de cidadania ca e por pertencer a uma comunidade política."
A visão de uma democracia radical e plural que quero propor
Os problemas com a concepção liberal da cidadania não são somente . entende a cidadania como urna forma de identidade política que con-
aqueles que têm que ver com as mulheres, e as feministas comprometi- siste na identificação com os princípios políticos da democracia mo-
das com um projeto de democracia radical e plural deveriam lidar com derna pluralísta, ou seja, na afirmação da liberdade e da igualdade para
todos eles. O liberalismo contribuiu à formulação da cidadania univer- todos. Teria que ser uma identidade política comum entre pessoas com-
sal, com base na afirmação de que todos os indivíduos nascem livres e prometidas em diferentes empresas e com diferentes concepções do bem,
iguais; mas também reduziu a cidadania a um status meramente legal, mas vinculadas umas com outras por sua comum identificação com
indicando os direitos que os indivíduos possuem em confronto com o uma interpretação dada de um conjunto de valores éticos e políticos. A
Estado. A maneira em que esses direitos sejam exercidos é irrelevante cidadania não é só uma identidade entre outras, como no liberalismo,
desde que aqueles que os exercem não desrespeitem a lei nem interfiram nem é a identidade dominante que anula a todas as outras, como no
nos direitos dos demais. Noções como as de responsabilidade pública, republicanismo cívico. É, ao invés, um princípio articulador que afeta
atividade cívica e participação política em uma comunidade de iguais as diferentes posições de sujeito do agente social, ao mesmo tempo que
são estranhas para a maioria dos pensadores liberais. Além disso, o permite uma pluralidade de lealdades específicas e o respeito da
âmbito público da cidadania moderna foi construído de uma maneira
universal e racionalista que impediu o reconhecimento da divisão e o
antagonismo, e que relegou ao âmbito privado toda particularidade e
diferença. A distinção público/privado, central como tem sido para a 12 Analiso mais detalhadamente o debate entre liberais e comunitários em meu
afirmação da liberdade individual, atuou por conseguinte como um artigo" American LiberaÚsm and Its Cri tics: Rawls, Tay lor, Sandel and Walzer", em Praxis
poderoso princípio de exclusão. Mediante a identificação entre o priva- Intemational, 8, 2 (julho de 1988).

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cidadania Chantal Mouffe

liberdade individual. Nesta visão, a distinção público I privado não é .':. delimitação de uma "fronteira" e a designação de um "eles".
. ·phca a
abandonada mas construída de uma maneira diferente. A distinção não pn fini ão de um "nós" sempre acontece, portanto, em um contexto
corresponde a esferas discretas, separadas; cada situação é um encontro W ssa. de .dÇadee conflito. Em oposição ao liberalismo, que evacua a idéia
de diversI .., . . . . _
entre o "privado" e o "público", pois cada empresa é privada embora ,.<. bemco mum e ao republicamsmo CIVICOque a reifica, uma mterpre
nunca seja imune às condições públicas prescritas pelos princípios da >...do.. ~ d mocrática radical vê o bem comum como um "ponto que se des-
cidadania. Os desejos, decisões e opções são privados porque são res- -'.taçao e d tu
••.•..
varrece", algo a que devemos nos referir co~t~temente quan o a ~~
ponsabilidade de cada indivíduo, mas as realizações de tais desejos, ....
:: 'dadãos mas que nunca pode ser atingido. O bem comum funcio
decisões e opções são públicas, porque têm que se restringir a condições . ..como o' rn lado como um "ímaginãrío
.:..... .' ,. social . ,ou seja, como aqu iloo cui
11'
cuja
.:·na,poru , - lh
especificadas por uma compreensão específica dos princípios éticos e <. impossibilidade de conseguir uma representaçao total e propor-
políticos do regime que proporciona a "gramática" da conduta dos ..•....•.
~era apel de um horizonte que é a condição de possibilidade de
: CIona o P , ..
cidadãos." .. 1 r representação dentro do espaço que delimita, Por outro lado,
É importante ressaltar aqui que, se afirmamos que o exercício da qua que .'" ' .
cifi'ca o que designo, seguindo a Wlttgenstern, como uma gramatí-
cidadania consiste em identificar-se com os princípios éticos e políticos espe . " -ti'
ca da conduta" que coincide com a fidelidade .aos prmC1~lOs e cos e po-
da moderna democracia, devemos reconhecer também que pode haver líticos constitutivos da democracia moderna: liberdade e 19ual~ade. para
tantas formas de cidadania quanto forem as interpretações destes prin- todos. No entanto, como esses princípios estão abert~s a mUlta,s. inter-
cípios, e que uma interpretação democrática radical enfatizará as nu- . etações rivais é preciso reconhecer que uma comurndade política 10-
merosas relações sociais nas quais existem situações de dominação que pr, h ' " .
talmente inclusiva nunca poderá existir. Sempre avera um extenor
devem ser questionadas se forem aplicados os princípios de liberdade titutivo" um exterior à comunidade que é a própria condição de
cons , ~I ""
e igualdade. Isto indica o reconhecimento comum, dos diferentes gru- sua existência. Uma vez que admitimos que não pode haver um nos
pos que lutam por uma extensão e radicalização da democracia, de que sem um "eles" e que todas as formas de consenso estão baseada~, n:ces-
possuem uma preocupação comum, e levará à articulação das exigências sariamente, em atos de exclusão, o problema já não pode ser a cnaçao de
democráticas reivindicadas por diferentes movimentos: as mulheres, uma comunidade completamente inclusiva onde o antagonismo, a divisão
os trabalhadores, os negros, os homossexuais, os ecologistas, assim como e o conflito desapareçam. Portanto, temos que aceitar a impo ibilidad
outros "movimentos sociais novos". O objetivo é construir um "nós" de uma realização total da democracia.
como cidadãos democráticos radicais, uma identidade política coletiva Esta cidadania democrática radical está obviam ntc )TI dlapnrldn-
articulada mediante o princípio de equivalência democrática. Deve-se de com a visão "diferenciada sexualment "d ar I 1< l 10 I , Ili
sublinhar que tal relação de equivalência não elimina as diferenças por- tambémcomoutratentativafeministadeof r rum all '('11 tlv I vi o
lll
que, caso contrário, seria simples identidade. Somente na medida em liberal do cidadão: a concepção do "grupo díferencíad "d' Tri Young.
que as diferenças democráticas se oponham às forças ou discursos que Como Pateman, Young argumenta que a cid d nia ITIOLkl'l1f1 I)
negam todas elas, essas diferenças serão substituíveis entre si. construída a partir de uma separação entre o "públi o" "prlv do"
A visão que estou propondo aqui é nitidamente diferente da visão que apresenta o que é público como o âmbito da homo encidad
liberal e da republicana civil. Não é uma concepção genérica da cidadania, universalidade, e relega a diferença ao que é privado. Porém in i t \ nn
mas também não é neutra. Reconhece que toda d finição de um "nós" que esta exclusão afeta não só às mulheres como também a muitos outro'

A concepção de cidadania que estou apr s nínndo (Iul ·~t mal bem desen-
13 14 Iris Marion Young, ';Impartiality and the Civic Public", em Fe1l1inismas Critique,
volvida no meu ensaio "Dernocratic Citizenship and Th PoliU 01 omrnunity", em editado por Seyla Benhabib e Crucilla Cornel (University of Minnesota Press,
Dimensions ofRadical Democracy, Pluralism, Ciiizenship, COIII/llfllllly, dito o por hantal Minneapolis, 1987) e "Polity and Group Difference: A Critique of the Ideal of Umversal
Mouffe, Verso, 1992. Citizenship", em Ethics, 99 (janeiro de 1989).

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._1
Chantal Mouffe

cidadania ,~ rn~tr ntidades já .co~tituídos; e.nquan~o


grupos, com base em diferenças étnicas, raciais, de idade, incapacidades u ,1'1. lnt rpI ta ão qu estou defenden~o, o obJetiv~ de ~ma cIdad~~a
e outras. Para Young, o problema decisivo é que o âmbito público da <I ática radical deve ser a construçao de uma Identidade política
cidadania tem sido apresentado como a expressão de uma vontade geral,
d mo r ue haveria de cnar .' as condiçoes
- para o estabelecimento
. de uma
ornl.lrn q . -, . . ti
um ponto de vista que os cidadãos sustentam em comum e que transcende h egernonia articulada mediante novas relaçoes, praticas e ms I-
nOva .' , . - 'd
suas diferenças. Argumenta a favor de uma repoiitização da vida pública . _es sociais Iguahtanas. Isto nao pode ser consegui o sem a
que não necessitasse a criação de um âmbito público no qual os cidadãos tUIÇO d .., ta el al
formação das posições e sujeito existentes: es a e a razao p a qu
é -

traOS , d . t
abrissem mão de suas necessidades e de sua afiliação a um grupo parti- odeIo da coalizão" arco-íris" que Young favorece so po e ser VISo
cular para discutir um suposto interesse geral ou bem comum. Em seu 'como a primeira etapa rumo à implantação de uma po Iíti
o rn tica d. emocra 'ti ca
lugar, propõe a criação de um "público heterogêneo" que proporcione "•••
~adical. Na verdade, poderia proporcionar muitas oporturudades par~
mecanismos para a representação e o reconhecimento efetivos das dis- > . diálogo entre diferentes grupos oprimidos, mas para que suas rei-
tintas vozes e perspectivas daqueles grupos constituintes que são opri- /:dicações fossem construídas ao redor de um princípio de equivalên-
midos ou estão em desvantagem. Para que tal projeto seja possível, cia democrática teriam que ser criadas novas identidades; assim como
procura uma concepção de razão normativa que não pretenda ser im- ~stão, muitas dessas reivindicações são antitéticas entre si, e só podem
parcial e universal e que não oponha razão a desejo e afetividade. Consi- (convergir se for realizado um processo político de articulação hegemônica,
dera que, apesar de suas lirnitaçôes,.a ética comunicativa de Habermas > e não simplesmente de comunicação livre e sem distorções.
pode contribuir em boa medida para sua formulação.
Embora simpatize com a tentativa de Young de incluir formas de
opressão distintas das sofridas pelas mulheres, no entanto, acho sua Política feminista e democracia radical
solução da "cidadania de grupo diferenciado" altamente problemática.
Conforme indiquei no princípio, as feministas têm demonstrado uma
Para começar, a noção de um grupo que ela identifica com identidades
inclusivas e com modos de vida, poderia fazer sentido para grupos como ;.grande preocupação a propósito da possibilidade de fundar uma polí-
··/tica feminista uma vez que a existência das mulheres como mulheres foi
os indígenas estadunidenses, mas é completamente inadequada, como
.•..
colocada em dúvida. Tem-se argumentado que abandonar a idéia d
descrição, para muitos outros grupos cujas reivindicações ela quer consi-
...
,....um sujeito feminino com uma identidade específica e interesses
derar, como as mulheres, os idosos, os diferentemente aptos" e outros.
. ..•.•
definíveis significa debilitar o feminismo como política. De acordo orn
Finalmente, tem uma noção essencialista de "grupo" e isto explica por-
que, em última instância, sua visão não seja tão diferente do pluralismo . Kate Soper:
de grupos de interesse por ela criticados: há grupos com interesses e iden- o feminismo, como outras políticas, sempre implicou que as mulher s unam;
trata-se de um movimento baseado na solidariedade e na fraternidad ntre as
tidades dadas, e a política não se dedica à construção de novas identida-
mulheres, que talvez não estejam vinculadas por quase nada que vá além de suo
des mas a encontrar caminhos para satisfazer as reivindicações das mesmice e de sua" causa comum" como mulheres. Se a mesmice por si mesma f r
diferentes partes de uma maneira aceitável para todas. De fato, é possível questionada sobre a base de que não existe uma "presença" da condição feminina,
alguém dizer que a sua é uma espécie de "versão habermasiana de plu- não há nada que o termo "mulher" expresse imediatamente, nem nada exemplifi-
cável concretamente exceto mulheres particulares em situações particulares, então
ralismo de grupos de interesses", de acordo com a qual, os grupos não desaba a idéia de urna comunidade política construída ao redor das mulheres - a
lutam por seus interesses egoístas e privados, mas por justiça, e onde a aspiração central do movimento feminista original.l''
ênfase é dada na necessidade de discussão e publicidade. De maneira
que, para Young, a política ainda é concebida como um processo de

16 Kate Soper, "Feminism, Humanism and Post-mcdernism", em Radical Philosophy,


55 (verão de 1990), pp. 11-17. .
Different1y abled (N.doT.).

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.. .
cidadania Chantal Mouffe

Acho que aqui Soper constrói uma oposição ilegítima entre duas alter- . "mulher" estivesse construída de maneira que implicasse
nativas extremas: ou há uma unidade já dada da condição feminina" t gOrla ..,. ld d d
li
di
bor Inaç a-o., Para mim o feminismo e a luta pela . igua a e as
sobre a base de algum a priori que lhe pertença, ou, se esta for negada, eu porém esta igualdade não deve ser entendida como uma luta
mulheres. . , ' .
não podem existir formas de unidade nem de política feminista. A 'zação da igualdade para um definível grupo empmco com
ela re al I
ausência de uma identidade essencial feminina e de uma unidade P ~ da e uma identidade comuns -as mulheres- mas como
prévia, no entanto, não impede a construção de múltiplas forma de uma essen ." lher"
ontra as múltiplas formas em que a categoria mu er e
UlIla Iu t a C .
unidade e de ação comum. Como resultado da criação de pontos nodai , i 'da como subordinação. Contudo, devemos estar conscientes
podem existir fixações parciais e podem ser estabelecidas formas constrUI . . 'd d .
'.. fato de que as metas femnustas podem ser construi as e maneiras
precárias de identificação ao redor da categoria "mulheres", que pro- ;~uito diferentes, de acordo com ~ mul~plicidade dos discursos n?s
porcionem a base para uma identidade feminista e uma luta feminista. '•".. . possam estar inseridas: marxista, liberal, conservador, separa tis-
qUéllS . . .
Encontramos em Soper o tipo de mal-entendido da posição antiessen- itáradícal, democrático radical, e aSSIm por diante, EXI~tem, portanto,
cialista que é freqüente nos escritos feministas, e que consiste na crença ··:.,.::i .. ·. saríamente muitos feminismos e qualquer tentativa por encon-

==
'neces '
de que a crítica à identidade essencial deve necessariamente conduzir : ' "verdadeira" forma da política feminista deve ser abandonada.
trar a fi -
à rejeição absoluta de qualquer conceito de identidade." Acho que as feministas podem contribuir na com uma re exao
Em Gender Trouble, 18 Judith Butler pergunta: "Qual a nova forma ;'bre as condições para criar uma igualdade efetiva para as mulheres.
de política que emerge quando' a identidade, como uma base comum, i>~l reflexão está sujeita à influência dos diferentes discursos políticos e
já não constrange o discurso da política feminista?" Minha resposta é ·'teóricos. Em lugar de tratar de demonstrar que uma determinada for-
que visualizar a política feminista dessa maneira abre uma oportunidade ,ima de discurso feminista é a que corresponde à essência "real" da fe-
muito maior para uma política democrática que aspire à articulação iminilidade, seria importante tratar de mostrar como essa forma abre
das diferentes lutas contra a opressão. O que emerge é a possibilidade :....
:.melhores possibilidades para uma compreensão das múltiplas formas
de um projeto de democracia radical e plural. i .de subordinação das mulheres.
Para ser formulado adequadamente, tal projeto requer descartar •••... Meu argumento principal é que, para as feministas comprometidas
tanto a idéia essencialista de uma identidade das mulheres como i com um projeto político cuja aspiração seja lutar contra as formas d
mulheres, como a tentativa de estabelecer as bases de uma política es- ···subordinação existentes em muitas relações sociais, e não só contra
pecífica e estritamente feminista. A política feminista deve ser entendi- .aquelas vinculadas ao gênero, uma interpretação que nos permite ent n-
da não como uma forma de política, projetada para a realização dos der como é construído o sujeito através de diferentes discursos e posíç - s
interesses das mulheres como mulheres, mas como a realização das metas de sujeito é certamente mais adequada que uma interpretação que reduz
e aspirações feministas dentro do contexto de uma mais ampla articu- nossa identidade a uma posição singular, seja de classe, raça ou gên r .
lação de reivindicações. Essas metas e aspirações poderiam consistir na Este tipo de projeto democrático é também melhor servido por uma p r -
transformação de todos os discursos, práticas e relações sociais onde a pectiva que nos permita compreender a diversidade de maneiras em qu
são construídas as relações de poder e que nos ajude a revelar as formas
de exclusão presentes em todas as pretensões de universalismo e na
asseverações de ter encontrado a verdadeira essência da racionalidade.
17 Encontramos uma confusão semelhante rn Dlana Pus, qu , como comenta É por isto que a crítica ao essencialismo e a todas suas diferentes formas:
Anna Marie Smith em sua resenha de Essentiatly Spenking, m Peminist Review, 38 (verão humanismo, racionalismo, universalismo, em lugar de ser um obstáculo
de 1991), não percebe que a repetição de um signo p d a ont r S rn uma bas
essencialista. É por esse motivo que pode afirmar qu O constru I nlamo 88 1\ lalista
para a formulação de um projeto democrático feminista, é, na realidade,
já que comporta a repetição dos mesmos signifi ant til dlf r ·,,1 .~ c(mt .xtos. sua verdadeira condição de possibilidade.
18 Judith Butler, Gender Trouble: Feminism and fite libvcr 1011O/Ic/clIlIl!} (Routl
Nova Iorque, 1990), p.xí. Tradução: Hortensia Moreno
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